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Finalizada em: 31/01/2022

Capítulo 21 — O bem antes do mal

À primeira vista, não havia grandes diferenças das prisões de New York para as prisões de São Francisco.
O mesmo odor de urina fresca e gritaria constante e suja das celas vizinhas parecia exatamente a mesma. Eu não conseguia acompanhar todos os pronomes que usaram desde que passei por eles. Fora a soma de horas em que não se importaram com alimentação ou água, e a extrema negligência com meus ferimentos e de , descobri então que sim, New York tinha uma diferença com meu então chamado lar, bem distante dali.
Aqui eles estavam pouco se fodendo se eu usava um casaco de couro de marca. Pela postura deles, eu poderia muito bem ter roubado tal coisa.
Isso tornava tudo muito mais engraçado.
Era isso que a situação parecia: cômica. E eu sabia que agir assim não era o certo, principalmente depois dos olhares furiosos de (ou o tanto de fúria que ele conseguia emitir com apenas um olho bom, já que o outro estava completamente fechado e já começando a ganhar a cor verde de vômito), mas eu não conseguia me controlar. A cela suja e empoeirada, por enquanto afastada dos demais bandidos que realmente deviam ter matado pessoas, era ruim, era desconfortável, estar atrás das grades fugia de todas as pretensões que eu sequer pensei em passar antes do natal, mas pensar no dente de escapando com seu sangue e seu pulso quebrando com o mínimo de força era melhor, muito melhor.
Eu ainda estava rindo quando me lembrava.
trincou os dentes, o que deve ter doído considerando que sua bochecha esquerda era uma bola. Tentei mover os dedos da mão direita, provavelmente quebrada de novo, e senti a dor aguda atravessar todo o meu braço. Foi engraçado. Eu, no final de tudo, realmente teria que voltar para casa com uma história.
— Seu infeliz desgraçado — murmurou, retornando ao estado de indignação pela minha falta de desespero, o que ele tinha de sobra — Será que dá pra você ser menos esquisito e parar de dar risada, pelo amor de deus? Dá pra entender onde a gente se enfiou? Isso aqui é a cadeia, . Ca-de-ia! Por que não deixa seu lado sociopata um pouco de lado e começa a pensar em alguma maldita solução pra tirar a gente daqui?
Ri de novo. Não era por mal. Mas eu estava seriamente irritando , então me controlei. Não queria realmente que ele me odiasse.
— Já disse, estou esperando eles virem perguntar o que houve — falei, sem pressa. pareceu soltar o ar com repugnância. Aquela resposta não bastava porque não era aquilo que aconteceria. Era óbvio. Não tinha explicações para um bando de moleques aos socos em um beco em plena luz do dia. A polícia não se importava com isso — eles só tinham seguido o protocolo, que no momento parecia bem mais um "prender e esperar os nervos se acalmarem."
— Você só pode estar brincando — ele grunhiu, pegando a cabeça com as duas mãos — Olha em volta, , já esteve em um lugar desses? Não, quer saber, não responde! — o dedo dele espalmou no ar, me impedindo antes que falasse — Não quero saber porque pelo menos nisso eu sinto que estamos iguais: aposto que nunca ficou tanto tempo atrás das grades, e é compreensível porque o Ryan jamais te deixaria passar mais do que umas horas em uma. Mas e aí, o seu pai não está aqui agora, e eles nem se preocuparam em pegar nossos nomes pra pelo menos perguntarem se queremos um advogado, então estamos aqui fadados a esperar a boa vontade de policiais carrancudos que já devem estar com raiva suficiente do governo por terem que trabalhar nos feriados de fim de ano. Pois então, , me diz o que é tão engraçado nessa porra toda?
— Eles pegaram nossas identidades — falei depois de um tempo, como uma questão óbvia. Pela cara dele, consegui irritá-lo ainda mais — Digo, não somos indigentes. Temos direito a sopa de legumes na ceia de natal.
Tudo bem, eu realmente precisava parar.
O rosto de ficou vermelho e suas costas se afastaram da parede com brutalidade. De início, pensei que ele fosse se levantar e chutar o meu rosto, o que só me daria o nariz quebrado para combinar com o seu.
— Vá se foder, ! — ele não se importou em gritar — Sou uma piada por querer sair desse lixo e ir passar o Natal do outro lado do país como um filho normal? O plano era chegar lá sem estar com a cara toda fodida, mas infelizmente tenho um senso de lealdade de merda que não me deixa ficar parado vendo meu melhor amigo imbecil partir pra cima de lobos famintos porque de repente se esqueceu de toda a maldita diplomacia que aprendeu em casa! Seu merda! — "uau, ela tá estressadinha! Vem cá que eu te acalmo, neném, vem cá", o coro de risadas encheu as celas vizinhas, e os barulhos desconexos de beijos e tapas veio de forma vulgar dos outros detentos. bufou com força — Calem a boca, seus idiotas! Eu tô tentando falar sério aqui...
Sufoquei mais uma gargalhada. As vaias eram maiores do que as tentativas de explicações de , e os adjetivos engraçados que saíam da boca deles tornava tudo muito mais hilariante.
Esse era o comportamento de um homem satisfeito? Ou pelo menos parte disso. Estar com o resto do meu pulso quebrado, a boca seriamente afetada por todo o sangue que escorreu pra fora e ferimentos que se transformariam em enormes hematomas nas costelas depois não me causavam a menor preocupação. Eu conseguia entender a indignação de , mas não conseguia deixar de me sentir como estava.
Só mais alguns minutos. Só mais um pouco... e então eu começaria a pensar em uma forma de sair daqui.
desistiu de falar e houve um momento de silêncio, onde eu considerava qual seria a melhor coisa pra se dizer que não o deixasse mais puto, enquanto ele desfrutava do efeito que aquele silêncio tinha sobre mim: ver minha mente trabalhando. Ele olhava pra mim como se me desafiasse a dizer mais alguma besteira.
Brigávamos menos do que a maioria dos melhores amigos, e eu atribuía a responsabilidade disso aos dois. Eu, por ser evasivo demais, e ele, por perguntar de menos. Desde que o conheci, tivera muitos motivos para ficar nervoso com a minha indiferença, mas daquela vez ele me olhava diferente, então a situação certamente era diferente.
Diferentemente da maioria do mundo, eu parecia estar mais confortável sentado em uma cela de New York na véspera de natal do que ao redor de uma árvore em uma espaçosa sala de estar, mas não era exatamente isso. As linhas ainda estavam se traçando na minha cabeça, comunicando-se entre si para tentar me explicar o que de fato havia acontecido. Mas era inútil; as coisas eram muito claras, como jamais haviam sido. estava de volta, ou se preparando para isso. Minha avó continuava desaparecida e eu não via Margot desde a noite no cemitério. Todas essas coisas me sobrecarregaram com tanta força que fazer o que fiz com pareceu ser o desconto perfeito a partir do momento em que ele disse aquelas palavras, por pior que tenha acabado — por mais que ele também tenha se tornado uma vítima de , não que eu realmente me importasse com isso. E antes de enfrentar a realidade lá fora, eu queria poder passar umas horas sendo visto como um completo delinquente, mas um completo delinquente normal, porque sentia que as coisas estavam caminhando para o completo antônimo disso.
E, bem, para isso não era normal. Muito menos compreensível. Porém, de novo, ele já estava franzindo os lábios e revirando os olhos, e eu sabia que ele não falaria mais nada. Suspeitava que a preferência de em relação em mim se devia ao fato de que, mesmo com toda a estranheza, eu era sincero de alguma forma maluca, mesmo que para isso precisasse ser detestável.
Bem, se fizesse tanta questão de honestidade pura e imaculada, nem seríamos amigos, pra início de conversa.
Esperei um segundo longo demais para falar, vendo-o cruzar os braços sobre o peito. Planejava pedir desculpas mais uma vez, mas não consegui dizer nada porque os passos pesados de um policial entraram pelo corredor estreito, parando em frente à nossa cela.
— Vocês são os caras? — perguntou ele. — e… O outro? — franziu as sobrancelhas.
ficou de pé num salto.
— Isso mesmo, Newman, o outro! Eles viram o vídeo? — perguntou ansioso. Me levantei também, um pouco mais devagar pela dor quase esquecida no braço.
— Vídeo? — quis saber. Ele não me respondeu.
O policial assentiu, cauteloso. Com certeza ele era novo e não sabia se deveria engrossar a voz antes ou depois de destrancar um cárcere.
— Deram sorte. Não vai ser hoje que vão passar uma noite fantástica por aqui — disse ele, remexendo o bolo complexo de chaves de metal e torcendo-as nas velhas fechaduras — Mas com certeza alguém vai ter a chance de fazer isso antes do papai noel chegar.
Lamentações dos outros detentos zumbiram bem ao lado dos meus ouvidos, mas nada que prendesse minha atenção mais do que o Policial Novato entrando dentro da caixa empoeirada da cela e abrindo espaço para que eu e saíssemos.
— Isso não foi sorte, foi inteligência — ergueu as sobrancelhas e saiu com a cabeça erguida para o corredor, encarando o Novato vitorioso. Ele não estava tão surpreso quanto eu com a liberação; na verdade, parecia ser algo que ele já esperava, mas que ainda não tivesse certeza.
Se já existia um plano pré estabelecido que nos tiraria daqui sem precisar da intervenção do meu pai ou da limpeza total da minha conta bancária, eu preferia que ele, pelo menos, tivesse reclamado menos.
— Pode me explicar como estamos saindo daqui? — murmurei para ele enquanto seguíamos pelo corredor.
Atrás de nós, o Policial Novato limpou a garganta.
— Pagaram sua fiança. E… — ele encarou — Tinha um vídeo bem esclarecedor no celular desse garoto.
Olhei pra , que apenas levantou os ombros e andou mais rápido para fora. A hora que o infeliz me impediu de dar um passo à frente da primeira vez quando estávamos no beco era por isso. Ele já imaginava toda a merda que iria acontecer.
O que claramente não tirou nossa culpa do cartório, mas diminuiu bastante a gravidade da situação.
Mas então me lembrei do outro fato.
Quem pagou a fiança?
O Policial Novato inclinou o queixo para a frente assim que curvamos na saleta da recepção.
— A garota sentada ali.
Prendi a respiração. se levantou imediatamente quando nos viu entrando, usando a mesma roupa do café da manhã, como se não tivesse ido embora. Ela veio direto para mim, me encarando com o semblante assustado, atestando pela primeira vez o meu estado, que nem eu mesmo fazia ideia de como estava.
— Você está bem? — perguntou, apressada. Estendeu as mãos pra tocar meu braço, mas recuou na mesma hora — Eles te machucaram? Não te ofereceram nenhuma refeição? Nenhum medicamento? — seus dentes trincaram de forma raivosa, e ela encarou os demais policiais ao redor sem qualquer discrição — E você? — virou-se para — Como está se sentindo?
Ele deu de ombros, tentando esboçar um sorriso sacana.
— Seria melhor ter recebido uma multa por excesso de velocidade, mas isso também serve — respondeu.
mordeu o lábio inferior, segurando um sorriso cúmplice, e se conteve em apenas assentir e responder:
— O seu vídeo foi importante. Fez muito bem em me entregar aquele telefone antes da polícia chegar — afirmou. — Parecia até que já sabia o que ia acontecer.
— Eu conheço esse idiota — balbuciou , olhando pra mim de relance — Sabia que ele acabaria perdendo a cabeça mais cedo ou mais tarde. Tem certas coisas em que ele não consegue se controlar.
Um segundo depois que entendi, soquei o seu braço, o que foi uma péssima ideia: tanto para ele quanto pra mim.
— Ai, seu canalha! — ele grunhiu, e cerrei os dentes de forma nada convencional para abafar o gemido de dor nos dedos. Ainda devia ter muita adrenalina remanescente no meu corpo pra que eu não estivesse sentindo a tortura dos ossos quebrados de forma completa.
— Vou pedir desculpas por isso — falei para , que agora abria um sorriso automático — Por tudo.
A boca dela foi se fechando lentamente. Ela piscou os olhos algumas vezes para mim, hesitante na próxima resposta.
— Eu que deveria pedir desculpas. Por tudo que disse sobre… — a lamentação fez os olhos baixarem até o piso, mas ela logo os levantou de novo — Enfim. Ele é um cretino. O pior deles.
Balancei a cabeça, olhando fixamente pra ela. Reuni toda a firmeza restante na minha voz para que as próximas palavras fossem muito bem cravadas:
— Não precisa pedir desculpas. Nada disso é culpa sua — falei, e o que estava estampado em seus olhos finalmente se tornou explícito: culpa. O sentimento que era como uma maldição. Ela pareceu relaxar um pouco mais os ombros, e acrescentei: — Nunca foi. E, se não se importar com a honestidade, não estou nada arrependido de ter revidado.
soltou uma risada.
— E ele usa a sua melhor arma novamente: a verdade sem a bondade.
pareceu mais satisfeita, o que queria dizer que eu claramente havia tirado as palavras da boca dela.
— Ei, vocês! Querem descansar de volta na cela? — um outro policial mal-humorado resmungou por trás de uma mesa, nos encarando com o olhar enojado — Saiam logo daqui antes que eu mude de ideia e os deixe fazer companhia para os outros.
Quem retribuiu seu olhar com a mesma intensidade foi , o que adiantava o acontecimento de uma conversa prévia nada agradável entre os dois.
— Experimente prendê-los mais uma vez que volto aqui com uma câmera, senhor de Boston — disse ela, ríspida e cortante, e se virou para a porta — Vem, vamos sair daqui. Suas coisas estão comigo.
Olhei para , que apenas respirou fundo e saiu atrás dela. Comecei a andar, olhando para trás, diretamente pro policial asqueroso, cravando os olhos na fita metálica presa em seu uniforme. Eddie Simpson. O nome me soava estranhamente familiar, mesmo que eu tivesse certeza de que nunca havia visto aqueles olhos hediondos na vida.
Lá fora, o fim de tarde era seco e gelado. À medida que andei mais rápido para alcançar e , pude sentir cada vez mais a dor nos dedos e uma maior dificuldade em fazer o ar sair de meus pulmões, resultado das costelas espremidas em um inchaço doloroso. De repente me preocupei com o real estado das lesões.
— Esse lugar é… — dizia quando me aproximei, parecendo desconcertada. — Sei que a polícia civil faz seu trabalho recolhendo os participantes de uma briga daquelas, mas os maus tratos foram descarados. Eu vi como os trouxeram pra cá. Foi a mesma negligência que usaram na hora de investigarem a morte da Margot — ela bufou e eu virei o rosto na mesma hora.
— Foram eles que cuidaram de Margot? — perguntei automaticamente.
— Antes da perícia chegar, sim. E aquele que fez questão de nos dar um último adeus agora há pouco era o chefe da operação, e também quem arquivou o caso em menos de uma semana. Edd…
— Eddie Simpson. Eu vi — completei, juntando as sobrancelhas. A lembrança se revelou rapidamente à medida que seu nome ganhava um contexto. Estalei a língua e acrescentei: — O nome dele estava naquele arquivo, é claro. Foi ele que falou com a Naomi.
— Exatam…
— De que raios vocês estão falando?! — a voz de pareceu brotar do concreto. Com pavor, percebi que tinha deixado minha cabeça viajar e falado mais do que devia. Olhei para , que me olhava sem expressão aparente, como se me perguntasse como deveria agir, ou do quanto estava envolvido no assunto. Fiz um sinal ínfimo de negação, gaguejando ao virar para ele.
— Nada, não é nada — limpei a garganta, tentando sorrir — É só uma curiosidade que a gente compartilha.
— É. Uma curiosidade — um hobby, uma estranheza ou atividade extracurricular, tanto faz. não pareceu engolir nenhum desses argumentos imediatamente, ainda mais quando ele via claramente o quanto eu e desviamos o olhar para a frente.
— Ah, sei. — ele só disse isso, e começou a remexer na bolsa grande de forma agitada — Falar sobre garotas mortas deve ter lá o seu charme.
Tentei sorrir e rebater, mas eu já tinha usado todo o estoque de desculpas por hoje, assim como os palavrões. Ela puxou dois sacos plásticos e os espremeu em meu peito e no de , dando o assunto por encerrado.
— O que aconteceu com e os outros? — perguntei para ninguém em específico, verificando o conteúdo do plástico. Esperava muito que a polícia pelo menos tivesse deixado o Jeep em paz e que não me fizesse cruzar a cidade para buscá-lo em algum ferro velho.
— O que mais? Chegaram e pagaram, é claro — respondeu na frente, colocando-se ao meu lado enquanto caminhávamos pela calçada até a avenida. Uma mulher nos encarou do outro lado da rua, um pouco assustada. Os machucados deviam estar medonhos.
fechou as mãos na alça da bolsa, balançando a cabeça fracamente. Era o melhor jeito que ela tinha de confirmar sem falar. com certeza não deve ter durado meros 10 minutos naquela recepção.
E, pelo olhar entupido de ódio de lá dentro, a transferência bancária tinha como titular Eddie Simpson.
— Nós vamos pro hospital agora. Acho que vocês dois precisam estar minimamente apresentáveis para andarem pelo aeroporto amanhã — seguiu um pouco mais rápido na frente, olhando para os lados em busca de um carro amarelo. Falar implicitamente da minha aparência me fez lembrar da dor nos dedos, que estavam terrivelmente roxos, assim como o olho machucado de . Se não tivéssemos acabado de sair de uma delegacia, as pessoas certamente dariam um jeito de nos levar para uma. Ou para um reformatório.
Quando o táxi encostou no meio-fio, deu espaço para que nos acomodássemos no banco de trás. Me abaixar e sentar, assim como mexer o braço fazendo tudo isso doeu mais do que imaginei, mas eu estava disfarçando melhor do que , que começava e perdia as palavras de seu monólogo reclamão antes de terminar a frase. Todas as suas de efeito já haviam sido ditas na cela.
se instalou no banco do carona, bem na minha frente. No meio do caminho para o Presbyterian, entre as queixas infindáveis de e o saxofone de Dizzy Gillespie no rádio ultrapassado do motorista, vi seus dedos despencarem no espaço apertado entre a porta e o banco, estendidos na direção do meu joelho. Pareceu ter sido uma ação precipitada, mesmo que proposital, pois ela já os retirava de volta, mas puxei-os por um segundo, discretamente, apertando-os com o braço bom e soltando-os logo em seguida.
Senti um arrepio pelo meu braço e o coração entrar em choque. Sacudi a atenção para longe desse pensamento e na direção da imagem dela no retrovisor interno.
estava sorrindo.

x


O Presbyterian tinha cheiro de plástico e álcool em gel.
Não era um aroma tão estranho pra mim, mas parecia estar detestando. Mesmo na sala de consultas separada do corredor extenso do pronto-socorro, o cheiro era forte e as janelas permaneciam fechadas em preparo para qualquer neve brusca que decidisse cair. Não demorou muito para que um novo gesso enfeitasse meu braço — desta vez era um que eu certamente não poderia arrancar pela minha própria vontade, e desconfio que o raio-x dos meus ossos ainda não totalmente recuperados de antes me traíram —, um curativo retangular no local do impacto no capô do Volvo e minhas costelas… Bem, eu precisava apenas de repouso absoluto, mesmo que isso parecesse uma completa piada diante do meu estilo de vida recente.
teve o rosto limpo, o que deixou o hematoma facial em um roxo gritante. Não havia muita coisa a ser feita sobre isso; nem todas as compressas de gelo do mundo fariam a cor violeta sumir de hoje para amanhã. Ele também teria que estar pronto para inventar desculpas.
… — comecei.
— Não tente consertar a situação — avisou ele. Uma careta se formou diante do pequeno espelhinho que ele tinha em mãos, mas que logo se mostrou uma atitude terrível; brincar com expressões faziam cada músculo facial doer e seus dentes trincarem. A luz fluorescente acima de nossas cabeças não tornou a imagem nada bonita — Eu sei que minha mãe vai me matar, ou chegar muito perto disso.
Suspirei, sem nada significativo para dizer. Enquanto deslocava o pequeno espelho por todo o rosto em busca da tentativa de ver a extensão dos estragos, tentei me colocar de pé. A maca era mais alta do que eu me lembrava. Meus pés bateram no chão, e tudo doeu novamente a partir do momento em que tentei me mexer. Eu já podia ouvir a voz de Bertha assim que eu abrisse a porta de casa: “arrumar problemas antes de vir pra cá? Quer garantir mais dor de cabeça à sua mãe? Deus do céu, seus pais vão ficar loucos! Logo antes do natal? Que coisa…”, e talvez o médico não tenha ficado nada feliz quando fez a piada — mais do que verdadeira — da onde acabávamos de sair.
Naquela situação, onde eu já mergulhava de novo em analgésicos, não tive a menor vontade de me opor à suas inconveniências. Pelo contrário, prometi que lhe pagaria frutos do mar quando chegássemos à Califórnia.
No entanto, mais do que isso, depois de todos os cuidados e medicamentos, eu estava focado apenas em esperar que aparecesse.
Em algum momento, depois que entramos no Presbyterian e antes que uma enfermeira entrasse no aposento particular e examinasse cada canto meu e de , pediu as chaves do Jeep.
— Claro, mas… — comecei e parei. Ela ergueu as sobrancelhas, esperando. A imagem dela dirigindo me causou um arrepio frenético — Não.
— Não?
— Não.
— Por que não? Vou adiantar a viagem.
— Porque não — respondi, firme, fechando a chave no punho. Precisava de um argumento lógico para apresentar, algo plausível, nada que revelasse a verdade que eu conhecia — Por que tá pedindo isso? Você não po...
Travei. Ela endureceu um pouco os músculos, mas juntou as sobrancelhas em uma fisionomia confusa. Ela não sabia que eu sabia — do terrível acidente que tinha matado — então limpei a garganta e recompus a postura.
— Lembra do que me disse na enfermaria? — tornei o assunto em comum dos dois. Ela engoliu em seco.
— Nunca disse que não sabia dirigir. E posso fazer esse favor.
— Você já fez favores o bastante por hoje.
— Quer ir pegar um táxi só pra buscar o seu carro?
— Tenho uns dólares na carteira.
— Você nem pode dirigir!
dirige — rebati, apontando para meu amigo encostado no canto da sala, nos olhando com puro tédio.
— Ele está pior do que você!
— Um dos olhos dele ainda funciona, é o suficiente.

— Ah, pelo amor de deus, deixa ela ir! — guinchou, o que trouxe a careta de dor novamente.
Senti as chaves escaparem de meus dedos nesse meio tempo. As mãos dela eram ligeiras e focadas quando queriam.
— Eu volto rápido. Não sai daqui e deixa o doutor Kennedy cuidar de você. De vocês. — ela se corrigiu, caminhando até a porta.
! — chamei automaticamente. Ela se virou, já preparada para contestar qualquer argumento — Toma cuidado.
Ela deu um último sorriso e saiu para fora.
E até agora não estava de volta.
— Porra. — a voz de tirou meus olhos da porta, me trazendo novamente pra realidade.
A expressão dele era incendiária, mas seu tom de voz era de indignação. Agora ele encarava o celular com as sobrancelhas juntas, e pude ver um certo brilho desesperador naqueles olhos.
Sentei-me novamente depois de verificar que minhas pernas não estavam lidando tão bem com a dor nas costelas e o encarei em espera.
— A Mandy Cruz, cara — ele bufou — Pediu uma foto minha. De agora.
Eu não fazia ideia de quem era Mandy Cruz, mas abafei uma risada mesmo assim. inclinou a cabeça para trás, encostando-a na parede em um gesto derrotado. A relação dele com mulheres era simples, até que se tornasse complexa: ele atiraria para todos os lados até que uma fosse atingida. Essa, por sua vez, se durasse o tempo equivalente a dois encontros seria o motivo de reflexões e um pouco de angústia da parte dele, que não sabia lidar com possíveis relacionamentos sérios por valorizar demais tal coisa. Portanto, a reação imediata mais provável era de que ele simplesmente desaparecesse para ela.
Por incrível que pareça, tinha um código de honra que não abria espaço para infidelidade, nem para relacionamentos casuais, o que era muito diferente de mim, mesmo que eu não fosse nenhum especialista em relacionamentos de nenhum tipo e nem tivesse muita experiência. Não era que ele não os tolerasse; ele só não conseguia compreender. E, quando eu era o envolvido em alguma dessas banalidades de relações escorregadias, se via no direito de se meter, assim como fez comigo e com várias vezes. Ainda hoje eu conseguia pescar uns olhares dele para nós dois, como se estivesse se segurando para perguntar algo que soaria como: o que vocês dois estão fazendo, afinal? Vai chamá-la de namorada antes do ano novo ou não?
Olhei para o relógio na parede e, em seguida, para o celular. Se ela estivesse dirigindo, não atenderia. Se estivesse passando por uma crise de choro ao pegar em um volante, também não.
— Ei, — disse depois de um tempo. Apenas murmurei em resposta — A quebrou o maior galho hoje. Deve ter desembolsado a maior grana naquela merda.
Dei de ombros, ainda encarando o celular.
— Não é como se fosse fazer muita falta pra ela.
— Mas… Aquilo que disse lá no beco. Sobre ela estar quase falida. — Virei o rosto, lembrando-me do momento imediatamente — Acha que é verdade?
Franzi os lábios, olhando para o nada, tecendo teorias em um lugar que não deveriam ser feitas. Em termos de lógica, se a família estivesse passando por um problema financeiro tão grande, e por acaso Morgana fosse tudo que ouvi falar, ela aprontaria algo que resolvesse a situação.
E essa situação poderia envolver .
E talvez a história de Maverick daquela noite fosse mais verdadeira do que parece.
— Não sei — respondi, com a voz tão distante que eu parecia ouvir a mim mesmo de Long Island — Não é algo que ela me falaria. Não ainda.
Ele balançou a cabeça para a frente, puxando uma das pernas para cima da poltrona.
— Então, se for verdade, o que aconteceu ontem também é? — ele estreitou os olhos — A foto e tudo mais.
Sacudi um dos pés, erguendo os olhos pra ele.
— Sim, é verdade.
Ele inclinou os lábios para baixo e desviou os olhos para o piso. Tinha algo distante naquela expressão, algo pensativo, e não era muito de pensar para responder.
— Isso tem algum problema pra você? — perguntei com sinceridade. Ele suspirou e batucou os dedos no joelho.
— Você gosta dela?
Assenti com a cabeça devagar. Ele apenas levantou os ombros.
— Não é como se eu não soubesse — respondeu — Acho que só você não sabia. E talvez por isso eu não esteja tão maluco por toda a confusão em que você se meteu. Com certeza nunca te vi daquele jeito, então alguma coisa diferente estava acontecendo. Alguma coisa que não é apenas , mas eu aguento uma informação de cada vez.
Assenti de novo, dando uma risada fraca. Ele tentou sorrir, mas saiu meio torto pelo inchaço na bochecha.
Depois de alguns minutos de silêncio, ele voltou a dizer:
— E a Jane, cara?
Franzi o cenho.
— O que tem a Jane?
— Como assim o que tem a Jane? Ela já sabe disso? — questionou. Não respondi de imediato — Você e a , o , tudo isso…
— Ela vai saber — afirmei, despreocupado. juntou as sobrancelhas, como se aquela não fosse a resposta certa — Ela vai saber de tudo. Só que não vai ser por uma ligação ou uma mensagem de texto — expliquei, como se estivesse cedendo o óbvio. Era lógico que Jane saberia de tudo, e tudo mesmo, contando com questões muito mais sérias e importantes do que a minha aventura romântica jovem.
— Vai esperar que ela chegue e veja vocês dois juntos? Qual é, , não sabe que ela gosta… — ele travou, respirando fundo e encostando-se novamente na parede — Quer saber, e daí que você é lerdo? Não é da minha conta.
Revirei os olhos de forma sarcástica. Eu e Jane também não éramos da conta de , na minha opinião, mas eu já tinha tido aquela discussão com ele antes.
— Eu e Jane somos amigos, — argumentei, de forma simples, ainda me mantendo no tom óbvio — Ela me diria qualquer coisa que sentisse, e também qualquer coisa que a incomodasse.
levantou uma das sobrancelhas, afiada como uma lâmina.
— Acha que falar dessas coisas é assim tão fácil? — disse ele — Essa coisa de sentimentos. Não vem com essa, . Vocês dois são mais parecidos do que pensam. Ou por acaso já contou tudo pra ?
— Você tá viajando…
Fechei a boca com o barulho da porta. estava entrando devagar, e suas mãos esfregaram-se uma na outra ao nos encarar, pousando um pouco mais de tempo em mim.
Ali, eu tive certeza de que ela ouviu a conversa. Eu só não sabia dizer o quanto.
— Bom, acho que ter um carro não cola pra mim — disse ela, como quem pedia desculpas — Você deve ter ficado preocupado, mas não aconteceu nada com ele, eu juro. Eu só não tenho nada a ver com tantos comandos e marchas — ela mordeu os lábios e sorriu, me fazendo balançar a cabeça e retribuir. Quis dizer que não era com o Jeep que estava preocupado, mas não quis fazer isso em voz alta. Levantei devagar, começando a sentir, finalmente, os efeitos dos analgésicos.
— Vou encontrar algum animal morto se olhar embaixo dele? — perguntei ao mesmo tempo em que reparava em cada detalhe seu, para verificar se ela estava realmente bem. Outra coisa que preferi não perguntar no momento.
Tirando a palidez, ela parecia bem. Quando soltou uma risada com a minha pergunta, me senti gradativamente relaxado.
— Isso pegaria muito mal pra mim — ela deu de ombros e olhou para os dois — Como vocês estão?
— Muito melhor — respondi.
— Pleníssimos — gemeu ao tentar se levantar rápido demais.
Pelas reclamações, poderia parecer arrependido de ter entrado na briga, mas eu o conhecia. Ele não lamentava o próprio comportamento; lamentava apenas a minha atitude impulsiva e que estivesse lá pra ver isso. Lamentava não ter nada além de um vídeo borrado no celular pra ajudar melhor. Lamentava as palavras duras de sobre meus pais, mesmo que ele dificilmente fosse admitir isso. E eu não deixaria claro que sabia disso porque ainda não estava preparado para contar a ele a verdade sobre meus pais biológicos. Seria bom dizer para alguém que poderiam respirar aliviados porque, afinal, eu não fui jogado no batente do Melbourne com meses de vida em uma atitude clara de rejeição dos meus progenitores, mas eu ainda não podia. Não quando a história não estivesse clara, não antes de eu descobri-la por completo dali há alguns dias.
Porque era exatamente o que eu estava esperando ver quando entrasse no pequeno orfanato que tinha sido meu lar depois de tanto tempo: uma história assustadora e sombria o suficiente que me arrancaria sentimentos ocultos ou terminaria de enterrá-los de vez.
— Então, hora de ir — disse , balançando a chave do carro — Vou te levar pra casa.
— Acabou de dizer que não se deu bem com as marchas — pontuei. Ela deu de ombros.
— Dessa vez você vai estar lá — ela respondeu, virando-se para a porta — Vou seguir as suas ordens.
Uma risada escapou do meu nariz, e olhei para antes de seguir as costas dela para fora. Ele sabia tão bem quanto eu que poderíamos garantir alguma diversão com o episódio de dirigindo.
Quando chegamos à frente do hospital, o frio era absurdo. Meu casaco simples do café da manhã não era especial para a noite, e tentei esconder o quanto tremia. Coloquei os pés na escada, tomando o cuidado para não escorregar pela neve, e senti a mão de atrás das minhas costas.
— Tá tudo bem? — perguntou.
— Sim, eu…
— Ah, fala sério! — resmungou às nossas costas, e quando me virei, vi seus olhos arregalados de choque — O que ela tá fazendo aqui?
Segui seu olhar e me deparei com uma garota morena de saltos, envolvida por um sobretudo até os calcanhares e encostada na porta do carona de uma grande Land Rover. Antes de se virar, ela olhava de forma perdida para o chão, passando o polegar de um lado a outro no lábio inferior, repetidas vezes.
— Aquela é… — comecei, mas o grito dela veio antes, finalmente percebendo as três pessoas saindo.
! — os saltos bateram com tudo no concreto, e fiquei horrorizado por ela não ter vacilado nenhuma vez até subir as escadas e se juntar a nós — Meu deus, ! O que é isso seu olho? E o seu nariz, eu estou tão… Ah! — ela fez uma careta de choro. E eu fiz uma careta de horror.
Olhei para e para , que também piscava os olhos em total incompreensão.
Passada a surpresa inicial, coçou a garganta e conseguiu dizer:
— Calma, Mandy, minha nossa. Está fazendo eu me sentir culpado — ele deu uma risada nasalada, me olhando com certo desespero — Eu disse que estava no hospital, não em um necrotério.
— Disse que veio ao hospital acompanhar um amigo! E olha só pra você! — ela guinchou, erguendo os dedos pra tocar em seu rosto, mas se esquivou gentilmente — Isso está tão feio, por deus, ! O que aconteceu? — ele abriu a boca, mas não conseguiu responder. A garota, Mandy, olhou para o lado, visualizando eu e , ainda petrificados — O que aconteceu?
Nossas vozes saíram ao mesmo tempo:
— Não é nada dis…
— É difícil expli…
— Não aconteceu nada, Mandy! — interrompeu , puxando seus ombros para que ela o olhasse — Podemos conversar depois? Aqui não é o melhor lugar pra isso.
A garota fungou em silêncio, assentindo logo em seguida.
— Você está com fome? — ela perguntou em voz aguda e forçada, o que me fez abafar uma risada — Posso te levar pra jantar. Agora.
— Eu não acho…
— Vem, vamos ao Nino’s e vamos pedir uma pizza. Vou ligar para Pam e dizer que você vai dormir lá em casa, e todo o maldito mundo vai entrar nos eixos. Você precisa comer! — ela segurou na curva do cotovelo dele, que disfarçou a careta de dor — Vocês dois querem nos acompanhar?
— Não! — eu e respondemos juntos imediatamente. Mandy apenas assentiu e arrastou para o carro chique, e ele se virou em completo desespero para nós, murmurando um “me salva!” e eu não consegui mais segurar a risada. “Vai me contar tudo isso amanhã”, gesticulei, esperando que ele entendesse e vi os ombros de tremerem de rir ao meu lado.
— Não se esqueça do nosso voo amanhã! — acenei com a mão boa e ele me mandou o dedo do meio antes de entrar no carro.
— Quem é ela? — perguntou , ainda rindo.
— Provavelmente alguém que ele não ligou no dia seguinte, o que é tremendamente surpreendente — respondi e a encarei. Nós rimos juntos. Essa era a razão do porquê eu poderia perdoar a versão galinha e desenfreada de : alguma hora, ele encontraria alguém igual ou pior.
— Então… — coçou a garganta e inclinou a cabeça para o lado. Uma neve fina começava a cair — Acho que somos só nós dois.
— É. — concordei, sentindo o coração dar uma cambalhota sem jeito. Vi seu rosto corar minimamente e ela descer o restante das escadas, destravando o Jeep logo em seguida.

x


Eu sabia que deveria ter limpado o apartamento.
Não que ele estivesse uma zona completa, mas quando se recebe alguém novo na sua casa, as coisas parecem indigestamente fora do lugar. não pareceu reparar em nada. Apenas olhou em volta, parecendo procurar alguma coisa.
— Você tem um aquecedor? — perguntou, direta.
— Bem ali — apontei para o canto da sala. Ela se abaixou e ligou o aparelho. O ar quente foi tomando o ambiente pouco a pouco, o que foi um alívio pro meu braço.
— Acho que você precisa de um banho — ela disse, torcendo os dedos das mãos. De repente me perguntei qual era o meu estado pra que ela sugerisse aquilo imediatamente, e quase ia me esquecendo do episódio de cair em um asfalto de gelo e lama, e que isso não devia ter trazido resultados nada agradáveis — Vou pedir alguma coisa pra você comer. Pode ir.
, não pre…
— Para de dizer que eu não preciso ajudar. Eu quero — ela pontuou, me encarando fixamente — A não ser que você não queira.
Não soube o que dizer. Eu estava longe de não querer a companhia dela, mas não queria que fizesse isso por sentir culpa. Que ela pensasse que externar suas frustrações para o cara que tornava-as pior fosse o motivo do porquê disse ou fez qualquer coisa odiosa contra mim. Eu não queria que ela pensasse que as ações dela justificavam as dele.
Apesar disso, não discuti. Apenas levantei os ombros, o tanto que deu, e passei uma língua nos lábios.
— Fica à vontade — falei, caminhando em direção ao banheiro.
O banho foi mais difícil do que pensei. Tirando a parte chata do gesso, a água quente não melhorou nada nos hematomas da costela e lavar o rosto foi uma atitude de pura coragem. Os resíduos de lama e fuligem se misturavam no ralo, e eu tenho certeza de que desejaria jogar aquelas roupas no lixo. Se minha avó me visse agora, gritaria o bastante para me fazer substituir as vidrarias depois.
Apesar disso, era bom estar em casa. Era bom não estar sozinho.
Era uma sensação incrivelmente tranquila pensar que estava na minha cozinha.
Meu reflexo no espelho estava melhor do que eu esperava. Sem nariz quebrado, tudo poderia ser facilmente mascarado. O cabelo tinha crescido assustadoramente desde os últimos meses, e só agora eu percebia. A palidez estranha ainda estava ali, doentia, trazendo o olhar abatido e a postura cansada. Eu não escaparia de jeito nenhum do senso observador de Meredith ; ela teria um troço e eu não podia fazer nada pra impedir isso.
Liguei a água gelada, causando um choque térmico nos meus dedos, aproveitando o embalo para me abaixar e jogá-la no rosto. Foi como se eu tivesse levado mais um soco. Suspirei e continuei, até que me sentisse muito mais desperto, e levantei o tronco, ainda com as gotas pingando do queixo para o peito.
Ao abrir os olhos para o espelho de novo, um outro rosto me fazia companhia ao lado dos meus ombros. Passou rápido, em um piscar de olhos. Senti o coração dar um salto e parar, no mesmo ritmo em que eu me virava instantaneamente para trás, os lábios entreabertos de susto. Agarrei os dedos na pia, encarando cada canto do banheiro, mas nada parecia fora do normal. Alguma coisa esteve ali, e alguma coisa já havia ido embora.
Respirei fundo três vezes, relaxando o aperto no mármore. O vulto não estava mais ali, mas a imagem estava, a lembrança do reflexo, e a voz.
“Escolha”.
“Abismo”.
“Corra!” — esta veio em forma de um berro em meus ouvidos, me fazendo cambalear para o lado ao mesmo tempo em que ouvi o ruído ínfimo da lâmpada estourando e me afundando na escuridão do quadrado.
Me preparei para sentir alguma coisa. Um toque, um cheiro, ouvir outra voz, mas tudo tinha desaparecido. E só existia as pernas trêmulas e a respiração brutalmente pesada de um garoto petrificado, de costas para o espelho largo.
— Merda… — murmurei pra mim mesmo, afogando todo o pavor momentâneo, me mexendo novamente. Tateei a parede em busca do interruptor, mas achá-lo só me deu a confirmação exata do que tinha acontecido: a luz já era.
Saí para o quarto, respirando fundo e pondo as mãos no pescoço em sinal de defesa involuntária. Não era uma atitude que eu realmente precisava tomar; aquilo não era . Eu tinha certeza… E pavor. Porque eu não fazia ideia de quem era aquele rosto.
Mas tinha certeza de já o ter visto antes. Nos primeiros sonhos, quando toda essa merda tinha começado. Quando eu estava parado no cenário úmido e uma pessoa corria em minha direção, apavorada, fugindo… E então se transformava em mim mesmo. Um homem desconhecido, que fugia do mesmo espírito maligno que me atacava logo depois.
Corra, a palavra continuava zunindo em meus ouvidos. Um alerta real, desesperado. Um aviso.
Estava chegando a minha vez.

x


Voltei para a sala — tentando não parecer tão atordoado — a tempo de ver abaixada logo à frente do sofá, mexendo em uma caixa de papelão meio aberta enquanto retirava algumas bolas douradas para fora.
Ah, não. Aquilo era…
— Ah, você voltou — ela sorriu, se levantando — Aconteceu alguma coisa lá dentro? Parece que ouvi um estouro.
— Não foi nada — respondi rapidamente. Talvez não devesse confiar tanto na acústica dessas paredes da próxima vez.
— Como está se sentindo? — perguntou.
— Melhor — respondi, engolindo em seco. me encarou desconfiada, as sobrancelhas se juntando em uma análise do meu rosto. Ela largou o resto dos adornos da caixa e se aproximou.
— Ei, você molhou esse curativo — seus pés se levantaram até alcançarem meu queixo — Vem aqui, deixa eu ajeitar isso. Você tem uma caixa de primeiros-socorros no banheiro?
Ela pegou na minha mão e me fez sentar no sofá. Olhei-a de cima enquanto ela se inclinava sobre a minha testa, ouvindo a palavra “banheiro” e puxei seu pulso de volta, em completo estado de alerta.
— Não precisa, eu estou bem — falei com firmeza, demonstrando a urgência na palma de minhas mãos. A sensação maluca do espelho voltou com tudo à memória, e sumiu quando ela afastou o aperto.
— Vai ficar nessa até quando? — ela suspirou. — Não é como se eu nunca tivesse feito um curativo pra você…
— Na gaveta da cozinha — interrompi antes que ela continuasse — Tem algumas gazes e clorexidina em um pacote lá dentro. Pode pegar ali.
Ela assentiu e caminhou pro lugar indicado. Soltei uma respiração entranhada na garganta, a terrível possibilidade que poderia se tornar real caso ela entrasse no banheiro e sentisse coisas desagradáveis, como só fantasmas conseguiam fazer.
Ao contrário do que as pessoas imaginam, ver uma aparição não chegava nem perto do terror de sentir.
Ela voltou com o embrulho, tirando as gazes e inclinando-se para mim, ficando perto de uma maneira perigosa que mexia com meu estômago. Sendo franco, eu não tinha mais como não demonstrar que a presença dela mexia comigo de forma avassaladora, mas esperava que ela me mostrasse alguma resposta sobre como eu deveria agir. Porque eu não sabia o que fazer — arrisco a dizer que nunca soube, e isso fazia com que eu entregasse facilmente minha adolescência anormal quando eu tinha uma garota bonita na minha casa e mal conseguia oferecer um café.
Ela me fitou seriamente nos olhos quando terminou, e esperei que entendesse essa questão. Ela apenas limpou a garganta e se afastou.
— Pedi uma pizza pra gente — disse ela, sem qualquer receio em dizer “para a gente”. Assenti em resposta e encarei o chão.
— O que está mexendo aí?
— Isso? Não sei, você tinha aqui — ela deu de ombros — Não quis ser enxerida, mas percebi que estava escrito natal na frente e imaginei que fossem as decorações. Não acredito que ainda não as pendurou — ela se ajoelhou de novo, retirando o resto das coisas.
— Não pretendia fazer isso — soltei uma risada sarcástica — Mas o sim. Ele que deixou aí.
Ela riu, puxando uma corda de pisca-pisca que não parava de sair.
— Então o mínimo que podemos fazer é montar isso — ela deu de ombros — Vem, me ajuda.
— Eu não acho…
— Ah, vá, você ainda tem um braço bom. Vem.
Revirei os olhos e me sentei na sua frente, vendo que era um mentiroso mais descarado do que eu pensava. A Macy’s não era tão generosa em doar enfeites tão elaborados pela sobrecarga do estoque. A Macy’s nem deveria ter sobrecarga de estoque.
— O é um cara muito legal — disse ela, depois de um tempo, separando as peças da pequena árvore — Fico pensando como duas pessoas tão diferentes podem ser tão amigas.
Soltei uma risada fraca, tendo certeza de que já tinha ouvido algo parecido em algum outro lugar.
— É fácil gostar do — admiti, juntando pedaços duros e perigosamente cortantes dos galhos da árvore — Ele não precisa de dinheiro, ou um bom nome de família pra arrancar uma risada de alguém. Acho que o segredo é gostar das pessoas — dei de ombros, descontraído — Dizem que assim elas gostam de você também, e ele se importa de verdade com isso. Acho que é aí que mora a maior diferença. Ele pode ter todos os amigos que quiser.
Em vez disso, tinha me escolhido para ser seu amigo. Eu. Um cara que, por dezenas de razões diferentes, deveria ser destituído de ter amigos.
— Eu não vou cair nessa — ela encaixou mais uma peça, e agora o esqueleto principal da árvore já estava de pé — Pessoas rodeadas de muita gente não tem um acervo muito grande de amigos verdadeiros. Você, por exemplo. Tenho certeza que tem seus próprios amigos de longa data e dorme muito bem com isso.
Assenti, comprimindo os lábios.
— Você tem razão — afirmei — Mas, ainda, preciso dar um tempo sozinho. Várias vezes.
Eu parecia estar dizendo algo como: caso você esteja interessada, eu posso ser um pouco maluco e anti-social, mas não significa que não gosto de você.
Ela sorriu minimamente com a resposta, desviando os olhos da árvore.
— Eu sei — respondeu. — Você prefere guardar algumas coisas pra si. Essas coisas não devem ser forçadas. Mas… — ela mordeu o lábio inferior — Você contou para o ? Sobre o que estamos fazendo?
Ergui o olhar, distraído.
O que estamos fazendo?
Ela cerrou os olhos, encaixando mais um galho pontudo no tronco.
— Sobre Margot.
— Ah. Com certeza não — respondi incisivo, e minha mente vagou até as frases que saíram rápidas e mal calculadas na saída da delegacia, e de como poderia pensar demais com aquelas simples alegações, mas eu torcia muito para que sua memória despreocupada o fizesse se esquecer depois, assim como aparentemente esqueceu minha ligação com revelada por Maverick na festa de ontem.
Percebi que ainda me encarava com certa dúvida, então tratei de acrescentar:
— Não entenda mal. Ele não contaria pra ninguém — afirmei com confiança — tem uma curiosidade comum sobre muita coisa na vida, mas não quer dizer que ele vá se aprofundar em nenhuma delas. E eu não quero envolvê-lo nisso. É bem mais complicado encarar coisas desse tipo na vida real do que nos jogos on-line.
— Acha que ele não daria conta? — ela ergueu uma sobrancelha, puxando os joelhos para mais perto — Não acha que ele seria útil pra conseguir algumas informações? Foi ele que retirou o vídeo do seu acidente, não foi?
— Foi, mas isso…
— Não é nada a se desprezar. E ele parece ser corajoso, tenho certeza que vai saber lidar com um assassinato, até mesmo se empolgar com isso. Como você consegue esconder isso dele?
Eu consigo esconder várias coisas dele, pensei, mas não disse.
Pisquei os olhos pra ela, estupefato de alguma maneira com o entusiasmo em colocar na jogada. Queria dizer que, no começo, não pretendia envolver nem ela, uma pessoa que mal conhecia, quanto mais colocar meu melhor amigo em um jogo macabro de fantasmas.
Bem, considerando o fato que nem mesmo sabia onde estava metida, eu precisava pensar pra onde correr.
, não estamos falando sério aqui… Não é? — tentei dar uma risada seca, demonstrando indiferença pelo assunto — Não vamos envolver o nisso, tá ok? Não vamos envolver mais ninguém. Já tem gente demais incluída…
— Apenas eu e você! — ela cortou, e eu agradeci por isso, porque meu filtro estava completamente quebrado e percebi que estava prestes a insinuar uma terceira participação que ela também não sabia — Só nós dois parecemos acreditar que Margot Abbott não se matou com drogas pesadas naquele dia. E sim, talvez fosse legal ter outra pessoa no meio pra que… Bem, pra que…
— Pra que você sinta que é verdade, não é? — completei, e ela se calou — Você acredita no assassinato de Margot e tenta fazer os outros acreditarem também, mas se frustra. Isso te dá medo de não acreditar mais… Certo? Porque as pessoas já aceitaram.
Ela engoliu em seco, olhando para as peças novamente. Talvez me achasse desconfiado demais, desnecessariamente possessivo em relação a uma busca que a própria estava mais do que disposta a compartilhar com as pessoas. Mas havia elementos no caso de Margot que não podiam receber a vista de muitas pessoas, começando pelo fato de que ela continua a vagar por aí em busca de vingança.
Seu rosto demonstrava as várias noites que deve ter passado em uma corda bamba de um dilema crucial, um que gritava em seu interior, a tirando o sono: Margot realmente foi capaz disso? Ela fez isso e eu estou correndo em círculos? O assassino existe mesmo?
— Eu só queria que… — ela começou e respirou fundo — Eu só queria uma pista concreta. Uma confirmação. Pra que eu não comece a dar pra trás.
Ela fez uma expressão desolada, e de repente desviei os olhos e trinquei os dentes. Morderia minha língua, se precisasse, porque em hipótese alguma poderia estar pensando aquilo, pensando em contar pra ela.
Eu e buscávamos o assassino por razões diferentes. desejava o Pulitzer como Arthur desejava o Santo Graal, mas era mais do que aquilo. O prestígio ascenderia a família novamente na sociedade, mas a captura de um ser inescrupuloso a atraía com uma necessidade desesperada mas nebulosa de ser útil para o mundo, para ter certeza de que sua vida significava algo, sua vida doada por seu pai e, posteriormente, por seu irmão, além de festas com champanhe e colarinhos brancos, por algum desejo complicado que habitava em seu íntimo, um que eu ainda não tinha conseguido desvendar.
Eu, em contrapartida, precisava que Margot partisse. Pelo menos esse era o único motivo no começo. Agora eu precisava que Margot se retirasse e que permanecesse viva e, de quebra, também mandar seu irmão pra longe. E jamais deixá-la saber.
E isso significava que nós dois precisávamos ser as pessoas que achariam o assassino. Esse caso não era de mais ninguém, não tinha que envolver mais ninguém. Nós tínhamos que ser os primeiros a encontrá-lo e não podia se meter nessa loucura.
— chamei, cauteloso, acrescentando com o tom mais firme que consegui reunir: — Margot não fez aquilo. Essa é a mais pura verdade. Ela não mereceu o final que teve, e por isso merece justiça — umedeci os lábios, e os olhos de brilharam por um momento — Ela merece saber quem a matou. E nós vamos contar isso a ela.
ficou imóvel por um momento até fazer uma careta. Ela riu logo em seguida, voltando-se à árvore, agora prendendo bolas coloridas nos tufos de galhos.
— Você fala como ele — murmurou ela, suspirando. Fiz uma expressão de interrogação — . Meu irmão.
Dei uma risada forçada e comecei a desembolar o pisca-pisca. Esperei que ela contasse uma história. Eu necessitava muito de uma pizza para enfrentar uma história sobre o caráter de .
— Me pareço com ele? — perguntei, nervoso com a resposta. Ela mordeu os lábios antes de responder.
— Muito. Mais do que imagina — riu, puxando mais uma bola azul — Ele tentava me animar desse mesmo jeito, principalmente quando papai morreu. Vivia dizendo que contaria a ele que estávamos bem. Que papai estava sempre nos observando, por isso eu precisava continuar. Que tinha mandado um anjo da guarda pra cuidar de mim… — ela parou, mexendo na árvore com uma maior lentidão.
Ela não disse mais nada por um tempo. O único som que se ouvia era o do plástico das bolas e os fios do pisca-pisca se desenrolando.
? — chamou , com a voz distante. Parecia pensativa. Murmurei em resposta — Você acredita em fantasmas?
Minhas mãos pararam no ato. Ergui a cabeça devagar, rindo fracamente.
— Que tipo de pergunta é essa? — foi a única coisa em que consegui pensar. Geralmente, eu era ótimo em mentir quando se tratava do absurdo que era o assunto fantasmas, mas no momento eu não me via nada convincente.
— Acredita ou não? — perguntou novamente, hesitante. Ela parecia saber que era besteira o que perguntava, mas que queria saber a resposta mesmo assim. Como se fosse algo importante, de alguma forma.
E sabendo disso, não consegui mais rir. Não consegui abrir meu típico sorriso de deboche. Só consegui responder:
— Acho que sim?
baixou os ombros em um pequeno alívio, e eu ergui as costas devagar.
— Por que? — perguntei.
Ela acariciou algumas folhas de plástico da árvore antes de responder:
— Porque acho que podia vê-los. E falar com eles também.
Nesse momento, o interfone tocou como o som do apocalipse. deu um salto de susto, levantando-se rapidamente e murmurando a palavra “pizza”, pegando as chaves e dando a volta sobre a árvore anã, mas eu continuei imóvel no mesmo lugar, segurando o pequeno foco de luz apagado, olhando para o completo nada.
Ainda que eu tivesse certeza do que tinha ouvido, minha mente parecia estar pregando peças em mim e me fazendo pensar mais do que o normal. era um cara vivo e gentil. via fantasmas. estava morto. E era um fantasma maligno que queria matar a própria irmã.
Como essas coisas poderiam fazer sentido? O que mais eu não estava vendo?
Nunca quis tanto que estivesse completamente louca.
Devo ter rosnado, suspirado e hesitado com a informação, mas tratei logo de recuperar a postura. Ouvi os passos dela se aproximando e não me virei, apenas engoli em seco e a vi colocar a caixa de pizza em nosso meio, inundando a sala com o cheiro maravilhoso de pepperoni.
Bom, pelo menos a metade era pepperoni.
— Repensou seus ideais, ? — perguntei, limpando a garganta. Ela cerrou os olhos.
— Marguerita vegana — ela apontou para a outra metade da pizza, cheia de folhas de manjericão — Pode experimentar, se quiser.
Soltei uma risada divertida, dando de ombros. Queria me distrair com o fato de que havia levado dias, semanas ou meses antes para que, quando chegasse a hora, me fizesse experimentar uma pizza vegana.
E então, ela se virou para a grande janela do chão ao teto da sala, com a vista para a New York iluminada e salpicada de neve, mordiscando a pizza nas mãos sem dizer uma palavra. Eu fiz o mesmo, me aproximando de seu corpo e comendo no seu ritmo, encarando a imensidão com certo pesar.
Era bom encarar o vácuo negro com . E algo me dizia que aquela não seria a última vez.

x


Fiquei menos animado à medida que a caixa ia ficando mais vazia, demonstrando o fim da comida e consequentemente a presença de .
Não me atrevi a perguntar que horas ela iria embora, ou como iria, ou nada que tivesse a ver com ela saindo pela porta. Mas também não admitiria o quanto eu queria que ela ficasse. Eu não era uma pessoa de pressentimentos, mas algo em todo o redor anunciava um grande balão de “momento certo” escrito em letras garrafais. E queria ser menos tonto para saber como agir.
A corrente do pisca-pisca já brilhava em dourado vivo, dando voltas e voltas pela árvore que batia até meu joelho, derramando uma luz forte e cintilante nas janelas altas da sala. sorriu quando colocou a última estrela na ponta.
— Agora sim, bem-vindo ao Natal, — disse ela, contente — Talvez você até tenha direito a um pedido esse ano.
— Ah, tenho? — ergui as sobrancelhas, caminhando para a cozinha e abrindo a geladeira — O que acha que eu posso pedir?
— Se meter em menos confusões seria uma boa.
— Sem chance. O papai noel já tem uma pilha dessas, são coisas que ele não pode resolver. Ele é muito materialista — falei e riu. Voltei à sala com uma cerveja e uma garrafa de suco comprimida entre minha costela e o cotovelo — Mas a companhia pros desejos imaginários também serve.
Ela sorriu e pegou a garrafa. Nós nos sentamos no mesmo lugar, virados para os prédios, que pareciam museus macabros sob a neblina.
— Nessa luz, você parece doente — disparou, olhando pra mim de relance — Sempre foi assim? — juntei as sobrancelhas, confuso — Ossos quebrados, socos e brigas atrás de restaurantes?
Não formulei imediatamente uma resposta. Para todos os fins e propósitos, eu só era um garoto problemático sem motivação alguma pra isso, uma versão distorcida e razoavelmente mais tranquila de Alex DeLarge em Laranja Mecânica.
— Creio que sim — respondi — E eu sei que você provavelmente vai pensar que não faz nenhum sentido porque minha família se parece mais com o tipo de criar um almofadinha qualquer que jogue golfe aos sábados, e não um adolescente que visitou a cadeia pelo menos cinco vezes entre o primeiro e o terceiro ano, mas eu realmente não tenho argumentos para explicar esse fenômeno — dei de ombros, dando um gole na cerveja. não pareceu se importar com o fato de eu estar quebrando totalmente as regras do tratamento médico e de dar respostas evasivas quando claramente existia uma certa, mas dizer que fantasmas ferravam a minha vida desde que me entendo por gente não era uma resposta.
— Essa coisa de famílias é a maior baboseira que existe — disse, por fim — Almofadinhas que jogam golfe são insuportáveis, assim como aqueles que usam calça de veludo e ternos em xadrez. Nenhum dos que conheci me deixou com vontade de fazer questão de uma discussão — ela suspirou, olhando pra mim — Mas existem almofadinhas legais. Ou existiram. Como . — limpou a garganta — Ele se envolvia nos projetos da família, mas não era esnobe. Pelo contrário. Era a última coisa que queria estar fazendo, mas fazia pra deixar mamãe feliz. Aprendi essa mesma técnica um tempo depois. Os pais parecem adorar.
Assenti com a cabeça, tendo consciência da expressão consternada que ela fazia naquele momento, mas que mesmo assim deixava um sorriso escapar. Retribuir era a única coisa que eu poderia fazer.
E então, tinha várias histórias sobre as tradições de véspera de Natal, e todas elas contendo , como se os últimos 7 anos sem ele não tivessem existido ou apenas passado diante de seus olhos. Não foram significativos o bastante para que ganhassem uma narrativa. Antes deles, as histórias eram recheadas por um irmão mais velho que sabia muito bem abafar climas tensos e pesados à mesa da ceia de natal fazendo brincadeiras que entretiam a irmã, montavam a árvore de natal — que naquele caso era bem maior do que o presente de — e se vestia como o bom velhinho para dar os presentes que já sabia que iria receber — a maior parte deles sendo lembranças simples, mas cheias de significado trazidas das várias viagens de pelos países de terceiro mundo, onde ia com sua frota de voluntários e outras pessoas que eram taxadas como boas demais para esse mundo. Eram histórias comuns, engraçadas, de um cara que até eu ficaria com vontade de conhecer, e automaticamente o respeitaria sem hesitar. Os natais de sua infância pareceram ser os mais alegres, muito diferente do Melbourne, onde a sra. Dundy separava a ocasião para passar a maior parte da noite enchendo a cara antes de cair no sono no chão da sala um pouco antes do amanhecer. No outro dia restava a eu e Jane ajudarmos as outras crianças mais velhas a preparar o café-da-manhã, servindo belos waffles com chantilly e cereja. Era a única vez no ano que comíamos aquilo.
Era muito difícil pensar em daquela maneira. Era difícil pensar nele de qualquer forma.
Mas tomei a precaução de não dar tanto na cara de que ele não era um total estranho. Eu precisava insanamente saber o que tinha acontecido para ter se transformado em um monstro.
— Como ele morreu? — continuei olhando fixamente para as luzes lá fora. Vi a cabeça dela se erguer devagar.
Ela pareceu pensar profundamente na resposta, ou se daria alguma, no fim das contas. Mas não levou muito tempo. Ela abraçou os joelhos, apoiando o queixo neles em direção à janela.
— Ele morreu em um acidente de carro. Perto do Natal — contou ela. — Eu tinha tirado a minha primeira nota vermelha no ensino médio e ele brincou, disse que me daria uma bela punição, e me fez dirigir seu carro. Eu tinha acabado de tirar a carteira, ele era louco — ela soltou uma risada seca, mais triste do que feliz — Ele estava com uma ressaca terrível do jantar que tínhamos ido na casa dos , e ele e extrapolaram, mas aquele idiota disse que me levaria para dirigir, por mais que fosse torturante. E eu aceitei — ela baixou o tom de voz, agora pousando os olhos na neblina — Eu estava dirigindo.
A voz dela estava saindo mais firme do que esperei, e não parecia prever nenhum acesso de choro. Por fim, ela parecia apenas triste, alguém que já tinha chorado demais.
— Não foi culpa sua — disparei antes que a razão me fizesse desistir. A razão que dizia que eu deveria perguntar mais e consolar de menos.
Ela deu um sorriso fraco, mas sincero.
— No fundo, eu sei que não, mas no começo foi difícil não pensar que eu deveria ter ficado no meu quarto e focar na pilha de lição de casa em vez de aceitar o convite dele — ela suspirou — Mas bem, era Natal… E eu não o via há dois meses. E não dá para imaginar que uma coisa dessas vai acontecer. Então, eu simplesmente entrei no banco do motorista e comecei a dirigir. Até aquilo…
Eu ouvia com atenção, mesmo que minha cabeça estivesse distante. Nada até agora tinha sido diferente do relato de Maverick, nada que de novo que ligasse as duas personalidades, mas a última frase de se perdeu e uma sombra estacou acima de seu rosto.
— Aquilo o que? — perguntei, apreensivo. Ela engoliu em seco e me encarou.
— Nada, é só… É uma coisa boba — ela tentou sorrir, mas seus olhos estavam pesados demais — Uma coisa que contei naquela época e ninguém acreditou em mim. Depois de um tempo, a terapeuta disse que minha mente estava lutando contra a culpa e colocou imagens que não eram reais.
— O que era? — perguntei apressado — O que você viu?
Percebi que meus olhos estavam arregalados e eu sentia algo apertar meu peito. Os olhos dela estavam cheios de receio, de medo, e talvez ela estivesse no dilema sobre ter que enfrentar um certo assunto de novo ou não, mas não podia me importar agora.
— Pode me dizer — pedi novamente, tentando ser o mais franco possível. Coisas estranhas, que apenas uma pessoa enxergava, eram minha especialidade, e esperava que ela entendesse isso.
umedeceu os lábios. Ela encarou a janela antes de se voltar pra mim de novo.
— Antes de bater… Quero dizer, nós estávamos seguindo ao redor de Manhattan e voltaríamos para casa pela ponte do Queensboro, e estava tudo bem. estava rindo, o que me fazia rir, e ele tinha colocado aquelas músicas barulhentas do Iron Maiden que amava ficar cantando, e fazia muito frio naquele dia, mas de repente ele simplesmente… Parou — ela respirou fundo, pensando em como contaria o resto, percebendo talvez que as lembranças estavam mais vivas do que nunca — Ele virou a cabeça para trás e parou feito uma estátua, e eu não entendi nada, até que o som também parou e ficou cada vez mais frio, o que era estranho porque todas as janelas estavam fechadas e o aquecedor estava no máximo, fora que tínhamos feito aquele mesmo caminho há menos de uma hora e a pista se encheu de uma neblina louca… Foi bizarro — as sobrancelhas franziram, como se lembrassem da cena em total perspectiva — Eu não entendi e comecei a chamá-lo, mas o rosto dele estava tão sério, tão petrificado, e ele olhava para trás como se estivesse vendo… Alguém. Ah, Deus, eu não sei como dizer isso, mas ele realmente parecia estar olhando pra alguém, mesmo que quando eu mesma olhei, não tinha nada além do banco vazio.
‘Acelera, !’, ele mandou e eu fiquei ainda mais confusa, mas fiz o que ele disse mesmo assim. Eu não parava de perguntar o que estava acontecendo e ele de repente estava agitado, me mandando ficar quieta, e então ele estava vasculhando o porta-luvas enquanto entrávamos na ponte e puxou de lá um caderno velho que ele tinha como um diário, o tipo de coisa que ele não me deixava chegar perto. Foi desesperador não ter respostas, até que entrei em pânico quando ele virou para trás e gritou ‘Saia daqui agora!’ e simplesmente lançou o caderno para o banco de trás. Não sei o que aconteceu com ele depois. Ele simplesmente foi destruído.”
Ela tremeu um pouco as mãos e eu prendi o fôlego. As imagens eram tão vívidas em minha mente que eu me senti na própria lembrança.
— Foi tão horrível e bizarro quanto parece ser — continuou, dando uma risada fraca — Tentei perguntar com quem ele estava falando, tentei ver alguma coisa, mas só via a imagem desesperada do meu irmão. Comecei a pensar que estava sendo seguido, que tinha entrado em alguma confusão pesada, mas ele parecia… Louco. Eu não sei. Ele não era nada como o de sempre, estava enlouquecendo na minha frente e eu não sabia como agir.
“Tudo começou a ser arruinado quando ele simplesmente caiu pra cima de mim e me fez soltar os braços do volante. Aconteceu em um piscar de olhos. A imagem da rua sumiu da minha frente, mas logo se recompôs e voltou pro seu próprio banco, se debatendo, se esgoelando como se tivesse uma mão na garganta. Eu não sabia o que fazer, só gritar. Ele olhou pra mim, com aqueles olhos de agonia e eu não sei dizer por quanto tempo tive pesadelos com aquela cena. Aquilo tudo era um pesadelo. Aquele olhar era um olhar de adeus.”
“Depois disso, tudo foi muito rápido. simplesmente se jogou para cima do volante e em cima de mim, e de repente o estrondo do carro veio. Eu desmaiei. Quando acordei, estava no hospital, com a perna e o braço quebrado e com a notícia de que ele tinha morrido.”
Senti o coração apertar. A forma como ela encarava o nada me deixava aflito.
, eu sinto muito… — tentei dizer, mas parecia pouco em relação a tudo. Ela apenas balançou a cabeça, os olhos brilhando em uma dor explícita, mas que já se recuperava.
— Está tudo bem. Já dei um jeito de aceitar — ela riu com desânimo, fungando levemente — Acho que o que mais dói é a incerteza. Não saber o que realmente aconteceu. Até hoje, essa dúvida fica na minha cabeça, nos meus pesadelos, que nunca acham uma resposta. Não saber também não me deixou ajudar, não me deixou fazer nada. Meu irmão estava bem e de repente não estava mais, ele estava… Diferente. Os olhos dele, eles… Meu deus, como vou dizer isso? — ela limpou a garganta e eu prestei mais atenção — Os olhos dele ficaram negros de repente e depois voltaram ao normal. Ele parecia estar com raiva e assustado, como se os movimentos não partissem dele. E então, antes da batida e de todo o estrondo, quando ele se jogou pra cima do volante, eu olhei claramente perto, olhei pelo espelho retrovisor e então… Eu vi algo…
Ela travou, assustada demais para repetir. Mantive a expressão ansiosa.
— O que você viu? — perguntei em voz baixa.
— Uma mão estava segurando a garganta do meu irmão. Uma mão estava tentando matá-lo. E então tudo desapareceu.
Virei a cabeça para a caixa quase vazia de pizza, sentindo um frio tenebroso tomar conta de mim. Era como ser empurrado direto para o chão e não conseguir se levantar nos primeiros minutos. A questão era muito sinistra para que eu a enfrentasse de cara.
Provavelmente, não me dei conta de que estava sendo desrespeitoso ao ficar em silêncio e levar minha mente para outro lugar. Não conseguia evitar de repassar a simulação da morte de um jovem na minha cabeça, e de como Maverick certamente não saberia o que realmente tinha acontecido. Apenas sabia, e era algo dramaticamente horripilante para se contar aos outros. Ninguém acreditava em coisas dramaticamente horripilantes vindas de mentes apavoradas. Os terapeutas adoram chamar isso de defesa.
— Você também não acredita em mim, não é? — ela perguntou depois de um tempo, inquieta. Parecia não querer fazer a pergunta — Acha que eu vi algo que não existe, ou que confundi com uma sombra ou qualquer outra coisa.
Me livrei dos pensamentos.
— Acredito bem mais do que imagina — afirmei, me aproximando minimamente dela — Como você se livrou disso? Dessa lembrança? Da morte do
A mera menção do nome dele mexia em algum ponto sensível dentro de mim e, vendo agora, de também. Naquela hora, ele não era apenas o espírito macabro que havia se livrado da minha avó e ameaçado toda a minha família e amigos. Ele também era um cara jovem e alegre, que também era um mediador e provavelmente tinha sido vítima de um espírito.
Um outro fantasma maligno?
— Eu nunca me livrei, . Nunca me livrei de muitas coisas do passado — ela suspirou, abraçando ainda mais os joelhos e olhando para mim mais de perto — E não me livrar de coisas do passado significa pensar em muitas pessoas além de , porque nunca era ele sozinho. Ele era parte da dupla inseparável com , e de vez em quando formávamos um trio, mas só porque era um tanto superprotetor. Quando ele morreu, tudo desapareceu. O elo se quebrou, as pessoas se dispersaram e nada nunca mais foi o mesmo. A partir dali, tudo virou uma enorme tentativa de viver, de sorrir, de fazer dar certo, em todas as partes da casa e fora dela — ela depositou a lateral do rosto no joelho, ainda me encarando — Frequentar os jantares executivos da Ivy League também se tornou uma tarefa automática, mas era irônico como me distraía. Os eventos eram recheados de garotos da faculdade, a maioria sendo os mesmos do colegial de . Eram os mesmos garotos ricos, confiantes e arrogantes que agora dirigiam carros esporte e tinham um cargo no gabinete do governador, mas … Mais do que ninguém, me fazia lembrar do que eu perdi. Do que todos nós perdemos.
Fiz um esforço para me lembrar se estava muito bem guardado em minha memória mas, se não estivesse, agora deveria estar. O olhar de ao falar dele era tão seco, e sua voz era tão densa, como se doesse. Alguma coisa estava faltando dentro de todo aquele monólogo, mas perguntar não pareceu ser a melhor opção.
Nada que a fizesse mal faria com que eu me sentisse melhor, mesmo que saciasse minhas perguntas.
— Odeio esse braço — murmurei, fazendo-a juntar as sobrancelhas — Ele não me permite pegar a porcaria do meu carro e te levar pra bem longe daqui.
O sorriso foi nascendo pouco a pouco em seus lábios, e o calor voltou a envolver o planeta Terra. Agora eu deveria estar parecendo um cabeça oca com um olhar vazio, mas eu não a veria até o ano novo e por isso não me importava nem um pouco em dar um tempo na vida real e perigosa lá fora.
me fazia sentir, como nunca na vida, como um cara normal. Não apenas um garoto que era, por pura decisão do destino, sozinho e assombrado. Agora eu poderia ser assombrado, mas também ser parte da população que sente o coração bater mais rápido e a respiração sair entrecortada por causa de uma paixão. E estava tudo bem. Eu poderia conviver com isso.
Quando isso se tornou uma verdade absoluta? Quando tinha revirado o diagrama muito bem organizado da minha vida e me trazer o sentimento de familiaridade que eu só sentia com Jane… Jane, a pessoa que eu não mentia, que sabia tudo sobre mim, bem diferente de .
Mesmo que, ultimamente, tenha mentido até mesmo para Jane.
estendeu as mãos para o meu rosto, e desta vez ergui o braço bom para envolvê-la. Ela levantou os ombros, aproximando-se do meu rosto.
— Acho que essa frase precisa de uma correção — ela disse com a voz abafada, os lábios perto do meu queixo — Não quero ir pra longe. Quero ficar bem aqui.
Abri um sorriso.
— Eu também quero — desci os olhos por toda extensão de seu rosto, e a palma de sua mão começou a andar até minha nuca.
— Vai doer? — perguntou ela, inclinando os olhos para um dos machucados no canto da boca — Se eu te beijar agora?
Soltei uma risada nasalada, passando uma língua no lábio inferior.
— Que se dane.
E então, nos beijamos ao mesmo tempo.

x


A porta do quarto rangeu quando ela entrou. Seus pés quase não fizeram barulho, e me virei para a entrada, deixando o ajuste de luz do abajur para outra hora.
— Ficou bom, não é? Diz que sim — mordeu o lábio inferior, com incerteza. A camisa do AC/DC batia na parte mediana de suas coxas, e as mangas chegavam bem abaixo dos ombros.
Um estado de transe era minha única reação possível. Aquela camisa e seu cabelo solto eram o combo que eu não sabia que precisava ver até hoje.
— F-ficou — foi o que consegui responder, abafando todos os pensamentos interiores que não condiziam com o momento — Ficou ótima em você.
Ela sorriu, passando o cabelo para trás dos ombros.
— Fico aliviada, — ela sorriu e caminhou até a cama, onde eu estava sentado com as costas apoiadas na cabeceira. Sentou-se perto do meu peito, aproximando-se de mim para mexer nos travesseiros atrás, parecendo contrada na tarefa.
— Precisa de mais alguma coisa? — perguntou, se referindo ao meu estado, mas eu tinha a resposta na ponta da língua.
— Preciso — olhei diretamente para sua boca. Ela percebeu mais tarde, quando se sentou de novo, abrindo um sorriso sarcástico.
— Não isso, . Fiquei pra cuidar de você, lembra?
— Achei que tinha ficado porque táxis de madrugada são perigosos, mas fico feliz com esse motivo também — cerrei os olhos e ela revirou os dela, segurando uma risada.
— Você precisa dormir — disparou ela, levando as mãos até o abajur e regulando a luz por si só.
— Quer que eu durma no sofá? — perguntei, erguendo uma sobrancelha, mas não fui sério o suficiente. Aquela era uma expressão estranha e antiga, uma expressão que eu costumava ver em filmes e ouvir dos meus colegas da escola, mas que nunca tinha usado com ninguém. Ela desviou o rosto para esconder a risada, e vi a lateral de sua bochecha ficar vermelha.
— Não, você não vai dormir no sofá — reiterou ela, voltando a me olhar — E nem eu.
Senti uma queimação dentro de mim, como se tivessem acendido fogos de quatro de julho no meu estômago, e depois apagado tudo com um sopro frio, para então acendê-los novamente um segundo depois. A voz dela saindo com firmeza me fez sentir um miserável, um cara perdido que não sabia o que fazer em seguida. A única atitude plausível era erguer minhas mãos até seu rosto, engolindo em seco por ele estar tão próximo e tão exuberante sob aquela luz amarelada, e beijá-la mais uma vez. Beijá-la por simplesmente poder beijar. Beijá-la o tanto que me fizesse recuperar o tempo perdido.
Derivei pelo presente, sentindo cada toque dela aquecendo minha pele. retribuiu na mesma intensidade, e movimentou o corpo até que passasse a outra perna pelo meu quadril, me fazendo erguer as costas e aprofundar ainda mais o beijo. Os dedos dela se perderam no meu cabelo e eu, em contrapartida, perdia cada vez mais o controle. Senti o abdômen formigar, o sangue pulsando como louco, o corpo se movendo involuntariamente, e não existia mais nenhuma dor a ser contada a partir do momento em que eu estivesse preso ali.
Usei o braço bom — nunca fiquei tão puto por ter apenas um deles funcionando — para cravar os dedos em sua perna, na barra da camiseta, e ela me beijou com mais afinco. Um fogo de outro mundo se apoderou de mim e eu sabia que precisava respirar, precisava dar um tempo antes que entrasse em combustão, mas puxei a blusa até sua cintura. Ela se mexeu por cima de mim e minha mente entrou em pane. Senti a renda do que ela usava por debaixo da blusa, senti a curva de seu quadril, e queria me afogar ali imediatamente, um desejo voraz que estava me devorando por dentro.
… — tentei dizer, mas não sabia se minha voz ofegante e falha tinha sido clara o suficiente. Passei os beijos para seu pescoço em desespero, e meus dedos agarraram na barra da renda com fervor, o que a fez soltar um pequeno gemido.
Nesta altura, eu já a puxava para mais perto e voltava a beijar sua boca, agarrando o resto da camisa e puxando-a mais pra cima, ao mesmo tempo em que passava os beijos para baixo.
Foi quando eu vi.
pareceu ter notado quase ao mesmo tempo, e afastou minhas mãos na mesma hora, puxando a blusa de volta para baixo, mas sem sair da onde estava. Olhei um pouco zonzo, não pela cicatriz, mas por sua atitude rápida. Aquela palidez de antes havia voltado. Ela me encarava como um pedido de desculpas, mas também com repreensão.
— Me desculpa… — ela disse, a voz abafada e soterrada pela onda de tesão, mas também hesitante como quem tinha sido pega em flagrante — Eu não…
Ela parou, agora parecendo constrangida. Sua perna se mexeu em uma tentativa de sair do lugar, mas agarrei sua cintura de novo, olhando-a fixamente.
— Não precisa se esconder, — afirmei de forma prática, firme. Esperava desesperadamente que ela entendesse — Não na minha frente.
Ela engoliu em seco, movendo os olhos pelo meu rosto.
— Você sabe, não é? — sussurrou.
Balancei a cabeça que sim, e ela ficou parada, sem perguntar mais nada. Não contaria que eu soube da história através de um papo com Maverick, mas ela não parecia se importar realmente com a origem da informação. Seus rosto baixou mais uma vez, a sombra do constrangimento tomando-o de novo, e trinquei os dentes com raiva e frustração por todas as pessoas que tiveram qualquer contribuição ao longo dos anos para que ela se sentisse daquela forma no final.
Coloquei um dedo em seu queixo, puxando-o para mim.
— Eu sei de tudo — falei, em voz baixa — E é exatamente por isso que você não deve se envergonhar. Você pode ter orgulho da sua cicatriz. Ela demonstra o quanto o seu pai te amava — respirei fundo, passando o dedo pelo seu maxilar — E isso é o que mais importa.
me encarou com ternura, e algum tipo de carinho misturado com compaixão. Aquilo chamou sua atenção. Como se soubesse que o assunto pais fosse importante pra mim de alguma maneira, ou que, em algum momento, tivesse sido. Estava sendo. E ela deixou que um sorriso pequeno escapasse.
— Você é linda, — a frase saiu antes que eu percebesse. Eu estava absorto demais para tentar pará-la — Por dentro e por fora. Com todas as suas cicatrizes e defeitos. É a garota mais linda que já conheci.
Eu não sabia que aquele era O Dia.
Quando disse tudo isso, eu não sabia de nada.
As batidas do meu coração não me deixavam pensar direito. O passado ficou no passado e o futuro ficou no futuro. Ali, no presente, eu só tinha aquilo: a certeza. E a imensidão dos olhos dela, a mesma imensidão que observamos da janela da sala.
Vi seu peito descer e subir com rapidez, como se ela mesma tivesse perdido o fôlego por alguns segundos. Em seguida, ela se inclinou e me beijou de novo, e eu sabia que tudo iria recomeçar. Tudo recomeçaria, com certeza, se meu telefone não tivesse tocado em um estrondo explosivo e fizesse se afastar devagar.
— O seu telefone…
— Não importa — protestei, puxando seu rosto de novo, mas ela riu e começou a se levantar.
— Você precisa atender — ela disse, pegando o telefone em cima da mesinha ao lado da cama e olhando o nome de quem, hoje, tinha ganhado o meu ódio — É o . Pode ser importante.
Revirei os olhos, pegando o telefone sem qualquer empolgação.
— Se você soubesse o que ele acha importante, não falaria isso — falei. soltou uma gargalhada, ajeitando o cabelo.
— Vou apagar as luzes da cozinha. Fala com ele. Sem pressa — ela deu uma piscadela e saiu pela porta. Atendi o telefone com um grunhido:
— Eu juro que se você não estiver em uma cadeira de tortura nesse exato momento, eu mesmo vou te colocar em uma.
— Meus pais vão me colocar em uma assim que me virem, parceiro. Esqueceu o estado do meu lindo rosto? — disse irônico, bufando — E por que está assim? Atrapalhei alguma coisa? Você está com… AH! — ele soltou o ar, e pelo barulho no fundo, percebi que parou de andar — A ainda está aí? Porra,
— O que você acha? — perguntei, em um sussurro furioso e impaciente.
— Era só pra dizer que estou voltando ao dormitório. E que talvez eu mude de nome a partir do ano-novo — ele limpou a garganta — E de cabelo também. O que você acha de platinado? Ah, e você precisa me buscar aqui amanhã para irmos ao aeroporto. Deus do céu, ainda bem que não resolvi aparecer aí…
— É, pensar te livrou de uma encrenca — suspirei, ajeitando as costas e fechando os olhos pela pontada de dor na costela — Tudo bem, eu vou. Não se atrasa.
— E os caçadores de tesouros de São Francisco atacarão novamente! — ele riu, e sufoquei uma risada — Uma bela noite pra você, caro amigo. Usa camisinha! — e desligou.
voltou alguns segundos depois, fechando a porta e dizendo:
— Ele já desligou?
Assenti.
— Como sempre, não era nada importante.
— Você sabe tudo sobre ele para dizer algo assim — respondeu . Ela andou até o outro lado da cama e se deitou de lado, virada pra mim — Tudo bem se eu pedir pra dormimos agora? — perguntou em um sussurro, como se estivesse se sentindo culpada por não querer ir em frente. Mordi os lábios e concordei com a cabeça, me inclinando para dar mais um beijo nela e depois me deitando da mesma forma, reto por causa do braço. Virei a cabeça para seu lado e estendi o braço bom pelo travesseiro, como um convite. Ela sorriu e aconchegou a cabeça no meu ombro, perto do peito.
Existem coisas novas que te fazem pensar que elas sempre estiveram ali, esperando por você.
E então você se sente estranhamente em casa.
Aquela era uma das certezas que O Dia me trouxe. Que nada apagaria a sensação de felicidade que atravessava meu coração naquele momento. Se alguém tentasse, eu o agarraria e o jogaria nas maiores profundezas do Tártaro. Descobri que era preciso um esforço para proteger as coisas que se amava, e eu poderia aprender a fazer isso melhor a partir do momento em que identificasse essas coisas.
E, bem, esta era a outra certeza. Uma certeza que me atingia com veemência enquanto eu ainda olhava seu rosto imerso num sono pacífico.
Eu estava completamente apaixonado por . E isso me apavorava tanto quanto me impulsionava.

x


E então, O Dia acabou.
E a manhã seguinte foi apenas um prelúdio de todo o turbilhão de eventos que se seguiriam até o ano-novo.
Começando pelo som da porta da frente sendo aberta, a qual não percebi ou ouvi um mísero ruído, mergulhado demais no sono profundo e sem sonhos ao lado de , um que eu já não tinha há muito tempo.
Quando a porta do quarto se abriu, eu também não ouvi nada. Só ouvi quando a voz estridente gritou meu nome, tomada de algum tipo de espanto que me fez abrir os olhos devagar, franzindo as sobrancelhas pela luz repentina, sentindo se mexer do meu lado e fazer o mesmo.
Quando finalmente cocei os olhos e olhei para frente, revelei a mesma surpresa que ela.
— Jane?


Capítulo 22 — Família e outros conceitos arcaicos

Jane me encarou como se eu tivesse aparecido na sua porta da frente com uma cabeça ensanguentada no braço.
Depois de um tempo, percebi que nem isso a deixaria daquele jeito que estava agora. As sobrancelhas erguidas em choque e a boca entreaberta indicavam que ela estava prestes a soltar um berro.
Enquanto eu estava na linha tênue entre terminar de despertar e compreender a situação.
— Jane, o que você…
— O que é isso? — disse ela, a voz saindo em um rosnado. Ninguém conhecia aquela voz de Jane. Era algo separado para ocasiões especiais, do tipo quando fantasmas verdadeiramente a irritavam. Certamente existiram poucos a conseguir esse feito, pelo menos nessa parte do país, porque rapidamente ergui as costas e comecei a me levantar, sabendo que algo estava errado. — Que porra é essa, ?
— Não sabia que chegava hoje — caminhei até ela, tentando fazer com que seu rosto se virasse para mim e não para a cama. Falei com toda sinceridade que consegui reunir, porque eu certamente ainda pensava que ela estava trabalhando com um dos pupilos mais ricos de Iowa. Definitivamente, já tinha desistido de vê-la antes do Natal e, por mais absurdo que isso possa soar, mal me lembrei que tínhamos combinado algo. — Eu vou te explicar…
— Quem é essa? — ela perguntou e não gostei nada do seu tom. Olhei para trás e vi sentada, olhando a cena com total confusão, focando em um ponto à frente que parecia lhe chamar mais a atenção: as chaves nas mãos de Jane.
Esse era o tipo de situação que eu com certeza deveria ter buscado resolver antes. Agora como eu poderia explicar à que Jane, na verdade, significava muito para mim em vários aspectos, sendo um tesouro de infância e o resquício dos meus anos adolescentes, e que por isso — e apenas por isso — confiava nela o bastante para que abrisse minha casa como se fosse dela?
Do que eu estava falando? Nada disso convenceria uma pessoa que já me viu claramente numa cena esclarecedora com Jane há algumas semanas atrás, e melhores amigos aparentemente não transam sempre que se encontram.
Senti que o mundo desabaria logo mais e não sabia como sair dessa.
Com a pergunta dela feita em voz alta, se levantou da cama antes que eu pudesse responder.
Essa é — respondeu, frisando o próprio nome, evocando a personalidade profissional de : firme e gentilmente ácida — Você é a Jane. Já nos vimos antes.
— Claro. A garotinha da porta — Jane destilou a ironia em seu melhor tom de deboche.
— Jane… — encarei-a com os olhos cerrados, demonstrando minha total repreensão naquela atitude.
Amiga?! — ela trincou os dentes e vi seus olhos vagarem para o meu tronco nu e a camisa de — Quando esse status evoluiu? Achei que eu fosse a única amiga com quem você dormia.
Olhei para ela com raiva, e tenho certeza de que nunca devo ter sentido algo perto disso quando se tratava de Jane. Me senti em uma mata densa, fechada ao redor de nós dois, com um suor começando a brotar nas palmas da minha mão.
Trinquei o maxilar e olhei para de novo. Ela estava parada, mas vi uma de suas mãos tremerem. Ela continuava olhando para a chave, mas desta vez, parecia um pouco mais absorta nas palavras de Jane. Quando ergueu a cabeça em minha direção, senti um aperto de outro mundo no peito e voltei a ter dezessete anos de novo. Um garoto de dezessete anos que não saberia resolver a situação de forma madura.
, não é isso… — a cada respiração, meu coração batia mais rápido em aviso. Ele sabia o que era aquela expressão no rosto dela. E estava desesperado com o resultado — Não é exatamente isso, tá legal? Eu e Jane somos amigos…
— Eu sei — respondeu, bruscamente. Ela não parecia estar com raiva, mas estava claramente traçando uma linha vermelha entre nós, em um pedido silencioso para que eu não me aproximasse — Você precisa pegar um voo. Eu vou pegar minhas coisas.
Senti toda a mente escurecer quando ela passou por mim e caminhou para fora do quarto. Vi Jane se aproximando pelo canto do olho, e tive certeza que minha pulsação aumentou de forma astronômica. Eu me sentia um tremendo idiota.
— Esqueceu de tocar no assunto comigo, ? — ela disse entredentes, e não me virei de imediato. Parecia que todo o quarto estava se movendo enquanto eu tentava desesperadamente achar uma solução, mesmo que todas as explicações que eu tentasse dar a naquele momento fossem palavras ao vento. Eu não tinha mentiras ou desculpas, e a verdade era um prato cheio de puro mal entendido — O que você me diz quando eu chego na sua casa e te pego na cama com uma garota qualquer…
— Jane, agora não! — respondi rispidamente e caminhei para fora do quarto, chegando a tempo de ver sair do banheiro já vestida com as suas roupas e mantendo os olhos no chão — , espera. Me deixa te levar para casa.
— Você não pode me levar pra casa — seu tom era óbvio, e frio — Fica tranquilo, vou pegar um táxi — ela começou a andar até a porta da frente, mas parou e se virou. Tinha alguma coisa naquela troca de olhares, alguma pergunta que ela queria fazer, mas sentia que não era a hora certa. Então, desistindo disso, ela apenas abriu a porta e começou a sair.
Uma fagulha de agonia me fez andar até ela antes que a porta se fechasse. Não estava morto. Tudo que aconteceu ontem não foi uma mera representação de desejo momentâneo. Os sentimentos estavam ali, mas alguma coisa estava morrendo, morrendo instantaneamente, e eu precisava salvá-lo de qualquer jeito.
Ela já estava do lado de fora no corredor quando saí e fechei a porta, pegando em seu pulso e trazendo seu olhar até mim. Minhas pernas pesavam como se eu tivesse pedalado por quilômetros em uma superfície irregular, e o frio cortante fora do apartamento tinha deixado suas bochechas vermelhas. Segurei uma delas contra minha mão.
— Olha pra mim — pedi, puxando-a para mais perto — Sei o que pode parecer e não vou tentar te dar nenhuma desculpa, mas não é isso que está acontecendo. Não hoje, não agora. Eu e Jane somos uma história complicada que nunca achei necessário explicar, mas eu vou, eu juro. Ontem, , as coisas que eu disse…
, para. Tá tudo bem — ela interrompeu, e sua expressão pareceu mais solene do que antes. Isso não melhorou meu humor, que já havia caído bruscamente com a cena do quarto atrás de mim — Eu ouvi a sua conversa com o no hospital. Não devia ter feito isso, mas ouvi. E sei o que você sente. Também sinto o mesmo — sussurrou, acariciando meus dedos em seu rosto — Mas acho que não é pra mim que você deve explicar alguma coisa agora.
Meu rosto ficou simplesmente… entregue. Na minha cabeça, vozes espectrais sibilavam risadas e outras palavras que explicavam bem como eu estava sendo um imbecil, de ambos os lados. Todos os sentimentos novos e indistintos que explodiram em mim há não muito tempo estavam me dando uma surra; medo, raiva, ciúmes, felicidade, entre outros que apareciam ao mesmo tempo e me deixavam confuso. O olhar de me dizia claramente para resolver essa tempestade, e só então desencadear minhas explicações.
E foi, então, pela primeira vez, que vi que ela confiava em mim. E não esperava que fosse me sentir um cretino com isso. Porque ela estava confiando em um mentiroso.
Senti seus lábios sobre os meus em um beijo rápido, mas enérgico. Eu não tinha mais o que dizer. Uma espécie de vazio voltou a tomar meu estômago, mas não sabia se era porque ela estava finalmente indo embora ou por outra coisa.
— Guarda suas energias pra desembrulhar os presentes, tá bom? — ela riu sem ânimo, mas parecia sincera. Então, voltou a se afastar em direção ao elevador — Boa viagem, .
Seu sorriso de despedida tinha um teor verdadeiro de felicidade, mas o vazio voltou com tudo dentro de mim, um pressentimento insano demais para quem nem acreditava nesse tipo de coisa. Fiquei subitamente com medo de vê-la partir e tudo não ter passado de uma mera memória.
! — arfei, e ela voltou-se para mim logo após apertar os botões do elevador — Te vejo no ano-novo?
Ela sorriu, e as vozes da minha cabeça se calaram por um momento.
— Claro, . Temos uma festa para ir.
O elevador chegou ao andar e ela entrou. E fitei seu rosto com atenção, para gravar cada mísero detalhe dele porque, incompreensivelmente, sentia que O Dia estava acabando. Quando as portas se fecharam entre nós, ele enfim acabou.
E algo me dizia que da próxima vez que eu visse , as condições seriam diferentes. Fatídicas e perversas.

x


Entrei de volta no apartamento, tentando compor minhas feições, apesar de estar pensando: são só alguns dias, ele não vai fazer nada em tão pouco tempo, está segura, ela está segura, ela está segura…
— Ela deve ser ótima, não é? — a voz de Jane entrou na sala, ou ela já estava ali, com certeza ouvindo minha conversa com atrás da porta. Seu rosto tinha raiva, repulsa ou qualquer outro sentimento incômodo que a fazia andar de um lado para o outro — Pra mantê-la escondida desse jeito. Há quanto tempo estão fazendo isso? Aposto que acontecia o tempo todo bem debaixo do meu nariz...
— Do que você tá falando? — perguntei, reunindo toda a minha calma estudada. Agora que havia ido, eu me sentia mais propenso a prestar atenção nas coisas ao redor, inclusive nas palavras de Jane — Não estávamos fazendo alguma coisa, Jane, ela só passou a noite aqui. E porra, se tivesse acontecido, qual é o problema?! — grunhi, me aproximando dela e de seus braços cruzados. Ficar irritado não era a melhor solução, então abaixei o tom de voz e acrescentei: — Sei que você está confusa e nunca me importei com sua personalidade e nada que fizesse você ser você, mas não te dá o direito de adiantar as coisas e falar daquele jeito que falou com . Ainda mais fazer isso na minha casa.
— Agora preciso me comportar na sua casa? Mesmo depois de uma cena ridícula daquelas? O que você acha que eu sou…
— Uma amiga, Jane! — disparei, soltando a respiração pesada enquanto via ela se calar — Você é minha melhor amiga, e é exatamente por isso que vou te explicar tudo, mas não sem antes você se acalmar — me afastei. Ela tinha desprezo salpicado nos olhos — Por que não estava respondendo minhas mensagens?
— Não sei. Pergunte ao meu chefe. Tenho certeza de que ele vai adorar encher os seus ouvidos com a história de novos ricos em ascensão dos Estados Unidos que adoram o Fuego Puro mais do que ele mesmo — ela olhou para o lado, escarrando o nome do clube como algo desagradável, mesmo que isso não fosse realmente verdade. Jane estava brava com outra coisa, brava com o que tinha visto, e tudo que saísse de sua boca a partir de então soaria daquele jeito — O que diabos aconteceu com o seu braço? E o seu rosto... — ela olhou para o meu ombro enquanto se juntava a mim, tirando finalmente a bolsa que eu só reparava agora e a jaqueta jeans.
O delineador dela estava borrado, o que mostrava que o tempo que a deixei esperando enquanto levava para fora foi o equivalente a um dia inteiro.
— É uma longa história — respondi, agora calmo o suficiente — Temos muita coisa para conversar.
— Estamos falando sobre , sua nova namoradinha? — perguntou ela com seu tom detestável de novo e a olhei com repreensão. Ela não se importou nem um centímetro.
— Ela é grande parte da história, sim.
Jane me fitou com tanta amargura que eu juro que se ela estivesse com aqueles lápis que costuma usar para prender o cabelo, ela o enfiaria em mim sem hesitar.
— Vocês transaram? — disse entredentes.
— Quê? Não...
— Então se beijaram? — perguntou em um tom baixo, como se estivesse relutante em fazê-la. Franzi o cenho, olhando-a com confusão.
— De que isso importa, Jane? Estou falando sobre…
— Se beijaram ou não? — ela interrompeu. Estava claro, pela postura dela, que eu não conseguiria seguir em frente sem responder.
— Sim, nos beijamos — dei de ombros, e fingi não ver a reação totalmente estupefata dela, misturada com ainda mais raiva do que antes, o que me deixava, secretamente, pensando em possibilidades que não faziam sentido nenhum (como Jane estar incomodada por eu beijar outras garotas, e isso era absurdo demais para ser levado em consideração) — É uma história bem complexa, eu ia te contar na hora certa, não era pra você ter visto desse jeito…
— Corta essa, ! — ela trincou os dentes mais uma vez, e senti seu punho fechado no meu peito, me afastando — Por que não me contou toda essa merda antes? Por que escondeu isso?!
— Porque não importava! Aconteceu por acaso, eu não precisava te contar uma coisa dessas. — insisti, ainda não entendendo porque ainda estávamos naquele assunto de beijo. A ideia de estar perdendo tempo não me era nada atraente, e eu precisava estar atento nas horas — Por que você está desse jeito por causa de um beijo?
— Não foi só um beijo, não é?
Passei a mão pelos cabelos, sentindo as paredes do dilema apertarem meu cérebro mais uma vez. Me sentia o maior idiota do mundo. Jane era minha melhor amiga e a única pessoa com quem eu podia compartilhar absolutamente tudo, e sentir o que eu estava sentindo — uma estranha sensação de receio, como se ela não estivesse mais apta a receber toda a minha bagagem — me paralisava. O ‘sim’ não era a resposta certa para a sua pergunta, mas temia a enxurrada de perguntas que viriam pela resposta contrária.
De repente, ponderei sobre sua reação desde que chegou e fiquei ainda mais confuso, porém com uma pontada de compreensão.
— Você está com ciúmes? — perguntei em um tom descontraído. Estava preparado para ouvir suas risadas.
— E se eu estiver?
— Vou dizer que não faz o menor sentido — dei de ombros — Achei que essa palavra também não existisse no seu vocabulário.
— Nunca achei que precisaria usá-la. Afinal, você era só meu…
Jane travou na última frase, e a sombra das palavras de no hospital berraram em meus ouvidos como se aquele infeliz estivesse realmente ali: você não sabia? É sério que você não sabia?
Apesar de eu ter ficado em completo silêncio, Jane limpou a garganta e alisou a blusa de veludo, tentando voltar ao normal, mas sem perder o olhar afiado, pronto para arrancar mais verdades de mim.
— Você gosta dela?
— Ela tá em perigo, Jane — interrompi instantaneamente, louco para fugir daquele assunto, louco para tirar aquela possibilidade da minha cabeça o mais rápido possível — é a garota que Margot queria emboscar naquele dia que jantamos juntos. Ela também é alvo dele… Daquele fantasma.
Jane franziu o cenho, tentando se lembrar do que eu falava. Quando aconteceu, ela abriu e fechou os olhos várias vezes antes de dizer, com a voz fraca:
— Você está dizendo… Do espírito maligno? É isso que tá me dizendo?
Fiz que sim com a cabeça.
— Ele é o irmão dela.
Vi o rosto de Jane se transmutar em puro pânico. Os olhos se arregalaram de um jeito anormal e senti um empurrão violento no peito, enquanto suas mãos agarraram meu braço bom.
— Você ficou maluco? — ela perguntou, branca como papel, a voz saindo do fundo de um poço — VOCÊ. FICOU. MALUCO? Como pode fazer uma coisa dessas? Como pode se atrever a ficar perto dela, seu desgraçado de merda! Ele vai te matar! , ele vai… — ela parou, contendo um choro preso na garganta, mas com os braços ainda em movimento enquanto me estapeava em desespero.
— Jane, calma…
— NÃO! Você sabe o tamanho disso, ? Sabe do que eles são capazes? Não lembra o que ele já fez com você? Eu não acredito… — agora um soluço veio, e ela gradativamente perdia as forças nos braços — Não posso acreditar que você tenha ficado perto dela todo esse tempo, que se envolveu nessa confusão que não tem nada a ver com você! Não posso acreditar que você mentiu pra mim! Mentiu pra mim, , bem na minha cara, enquanto corria para salvar aquele peso morto! Seu imbecil! — um grunhido a fez afastar os cabelos do rosto — Isso não é por acaso, essa garota vai morrer, ! Ela vai morrer e você insiste… Minha nossa, me pergunto se sua avó tem ideia de como o querido neto dela está passando o tempo!
Franzi os lábios, me sentindo nauseado por um tempo. Algo no meu rosto deve ter indicado a Jane que alguma coisa estava errada: tanto no que ela disse, quanto no algo que deveria ter acontecido.
— Minha avó… — comecei, mas não consegui terminar. Dizer em voz alta estando totalmente sóbrio era terrível a um ponto doloroso. Eu não conseguia pronunciar o fato. Senti um nó na garganta e a queimação no nariz, mas não faria isso agora. Mesmo que os olhos de Jane já tivessem entendido totalmente, e se enchiam das lágrimas que eu não conseguia soltar.
— Não… — ela balançou a cabeça em negação, afastando-se com choque vívido — Não, , não me diga que ele...
Encarei-a com um olhar firme, sem desviar uma única pupila. No momento, era o único jeito que eu conseguia confirmar a dura verdade sem desabar.
Ela, pelo contrário, fungava incessantemente com os olhos arregalados, jogando os braços para a cabeça e prendendo os cabelos nas mãos, parecendo tão sem rumo quanto eu fiquei naquele fatídico dia. Não pretendia dar esse choque de imediato em Jane, mas não podia deixá-la no escuro. A morte — ou desaparecimento, eu ainda não sabia nomear — de minha avó era um dos maiores sinais do perigo que espreitava não só a mim, mas de todos que ele já havia ameaçado.
— Jane… — tentei novamente, percebendo que minha voz saía igualmente embargada.
— Não! — ela se virou novamente pra mim, se aproximando com o rosto molhado, mas estático, frio — Será que você não tá vendo? Ele vai matar todo mundo. Todos ao seu redor, , antes de matar você! Ele vai matar você! — disse alarmada. Percebi que o corpo inteiro dela tremia.
— Ele não vai matar mais ninguém, Jane! Eu não vou deixar — falei, colocando uma mão em seu ombro — Você não entende, é importante que eu saiba mais coisas sobre ele, que eu compreenda melhor o que ele quer. Ele sabe tudo sobre mim, sabe sobre os meus pais biológicos, eu não posso ficar para trás…
Pais? Quem liga para pais, ? — ela se irritou, afastando minhas mãos bruscamente — Que caralho de pais biológicos?! Você estava em um orfanato! Dundy te achou naquela escadaria de merda com menos de 6 meses de vida, não se lembra mais disso? Foi quando as pessoas que te conceberam renunciaram ao direito de serem chamados assim. Seus pais são Meredith e Ryan e ninguém além deles, consegue entender isso?
— Meus pais estão mortos, Jane! — aumentei o tom de voz, e senti a voz pesar de novo. Quis colocar tudo para fora de uma forma que ela jamais viu, mas não sabia se conseguiria despejar tudo igual naquele dia. Não sabia se tinha restado alguma coisa. Jane parou e ficou imóvel, a informação atingindo-a com tanta força que paralisou até mesmo as suas lágrimas — Minha avó me contou antes de… Antes de ir. E eu nem sei o nome deles… — cocei o nariz e acrescentei: — Também não sei quem me colocou naquela escadaria do Melbourne. Eu não sei de nada — sussurrei, inesperadamente furioso com o fato — E por mais absurdo que pareça, pela primeira vez, eu quero saber. Sinto que as respostas estão aparecendo. Respostas sobre mim. E que tudo está interligado, até mesmo … — suspirei, piscando os olhos para afastar a queimação na garganta — Então, sei o que pode parecer, mas não é sobre ela. No começo pode ter sido, mas agora… É sobre mim também. É sobre a minha história. E não posso mais correr disso.
— E daí? — ela retrucou, ríspida, cerrando os punhos — E daí que seus pais estão mortos? E daí que eles não te abandonaram? Quem se importa com a sua origem? — ela me empurrou novamente, e as lágrimas agora brotavam com força — E daí pra essa merda toda?! Você vai se matar por causa disso? Vai se meter com demônios para descobrir algo que você não pode mudar? Você não pode salvar essa garota e não pode trazer seus pais de volta, seu idiota! Você é um imprestável! Eu te odei… — ela travou, agora chorando abertamente, com raiva, com ódio — Você teve uma família, ! Independente de como nasceu, você ganhou um sobrenome e uma boa vida em São Francisco, foi amado por pessoas que mal te conheciam e desejado por uma mulher que nunca te viu! Você, , você teve sorte! Eu não tive nada disso! — ela gritou, colocando uma palma na testa vermelha — Eu nunca tive alguém que me amasse como seus pais te amam, nunca tive uma casa além do Melbourne, nunca tive alguém pra ligar e desejar um feliz natal! E nós dois sabemos que família é um conceito tão amplo, tão anti-tradicional, tão independente de sangue que também somos a nossa própria família! Não posso aceitar que você esteja disposto a se matar pra buscar informações de uma coisa tão banal, tão insignificante, não posso, não posso… — ela soluçou e eu puxei seus braços para abraçá-la.
Ela ainda lutou contra o meu peito, soluçando como nunca vi antes, e afaguei seu cabelo, mantendo-a perto de mim em um gesto de conforto. Meu coração doía como se Jane tivesse atravessado todos aqueles punhos em mim. Naquele momento, eu me sentia tão próximo e empático dela que me vi como um idiota por ter mentido por tanto tempo. Era o mínimo que ela merecia: a verdade sincera e imediata.
— Eu só tenho você, … — ela disse em meios aos soluços. Fechei os olhos com força — Você é tudo que me resta. Não posso te perder, por favor, por favor… — ela se apertou ainda mais contra o meu corpo — Por favor, fica longe dela, fica longe de todos eles. Por favor…
Segurei a respiração, não me importando com a dor nas costelas com o aperto desesperado de Jane. Todos aqueles sentimentos faziam sentido o bastante para que eu permanecesse calado, mesmo que, intrinsecamente, eu já tenha feito uma escolha. E nem mesmo Jane mudaria isso.
— Vai ficar tudo bem, Jane — falei em voz baixa, repentinamente cansado. Não havia mais nada a ser dito, ou contado. Só existiria sobrecarga desnecessária — Eu não vou a lugar nenhum. Fica tranquila…
Ela chorou por mais alguns minutos até que eu a afastasse levemente, usando meu dedão para secar suas lágrimas, que borraram sua maquiagem quase por completo.
— Podemos conversar mais sobre isso em uma outra hora? — pedi, com delicadeza. A conversa não tinha nem começado direito. Queria fazer questão que Jane soubesse de tudo, mesmo que eu agora não soubesse mais como ela reagiria — está me esperando.
— Eu sei — ela fungou, passando as mãos por debaixo do nariz e agora também dos olhos — Já comprei minha passagem.
Assenti, não perguntando nada. Eu geralmente me encontrava com Jane depois da ceia de natal da grande família em algum ponto do Porto de São Francisco e nossa comemoração particular envolvia muita tequila e uma grande amnésia no dia seguinte.
— Vou trocar de roupa e pegar minhas coisas — avisei, começando a caminhar para o quarto, quando ela me chamou:
— ouvi e me virei. Ela suspirou e disse: — Eu te amo.
Parei por um momento, sem saber como responder. Jane sempre dizia que me amava. E sempre retribuí.
E percebi que sempre entendi errado.
— Eu sei. — dei um sorriso fraco e entrei para dentro do quarto.

x


São Francisco estava mais cinza do que o normal.
Tirando todo o papo de sobre eu ser “um filhinho de papai que o dava vontade de cortar os pulsos” porque cheguei mais do que atrasado para buscá-lo e, logo em seguida, ele me convidar para acompanhá-lo em um intervalo para fumar um cigarro na zona separada da área de desembarque porque não poderia nem pensar em fazer isso em casa, todo o resto da viagem tinha sido tranquila. Talvez ele tenha percebido que Jane, uma presença que também o deixou chocado, estava mais calada do que o normal, sem sequer perguntar de seu rosto deformado, mas eu tentaria explicá-lo depois. Tentaria.
A primeira pessoa a me ver foi Bertha, e nem preciso dizer o quanto ela estava prestes a ter uma síncope com o meu estado. A primeira coisa que me fez fazer foi sentar em frente a um espelho e cortar o meu cabelo, deixando-o baixo de um jeito que me fez estranhar, como se eu parecesse outra pessoa. A segunda parte do dia foi recheada inteiramente de desculpas, para todos os casos: eu posso ter tido uma batida de leve com o carro; eu posso ter passado um diazinho no hospital; comecei no boxe e não deu muito certo, viu meus dedos?; não, eu não estou sabendo de nenhuma estadia no hospital de três dias em um sono estranho e profundo; não, a minha concentração estava excelente, da onde você tirou isso?; claro, o estágio com o doutor Gregory, vou começar assim que voltar! Oncologia, lembra, mãe?; sim, eu estava me exercitando sempre que podia; eu já disse que não fiquei no hospital por mais de 3 dias.
E sim, eu teria companhia para a festa beneficente do reitor assim que voltasse.
Meu pai me jogou a informação do convite feito a toda família ao mesmo tempo em que lançava a bola de basquete no ar, que acertou a cesta em cheio enquanto eu soltava a respiração pesada com as mãos nos joelhos e sentia o suor escorrer pela minha testa. Estava prestes a chamá-lo de louco por fazer um cara com apenas um braço funcionando jogar uma partida, mas lembrei que já havia feito isso a partir do momento em que ele me acordou de manhã.
— Acha mesmo necessário? — falei ofegante, esmagando as palavras pelo cansaço — Essas coisas são chatas e você já tem bastante trabalho por aqui. Assina um cheque e manda um cartão de agradecimento, vai ser o bastante.
— Acha que eu nasci ontem, ? — ele jogou a bola de encontro ao meu peito, e não pensei rápido o bastante para pegá-la com mais dignidade. Gemi quando passei o braço por ela, dando um passo para trás antes que eu despencasse no gramado no limite da quadra — Se não formos, você não teria ninguém para fazê-lo ir. E não é sempre que pedimos uma coisa dessas, então fica tranquilo e deixa sua mãe te levar no alfaiate, tudo bem? Arremesso!
Respirei fundo e corri um pouco para driblar com uma única mão. A fina camada de sol do inverno parecia o bastante para queimar minhas costas desnudas. Era um alívio estar em um lugar sem neve, para variar. As partidas de basquete no quintal eram o maior passatempo de pai e filho que Ryan apreciava, mesmo que para mim, elas servissem como algum tipo de castigo ou chance para conversas.
Corri mais um pouco e as pernas mais rápidas dele me fecharam. Girei o corpo imediatamente, jogando a bola ao chão e pegando-a mais uma vez até me virar de novo e arremessar. Ela bateu na tabela, bem ao lado da cesta. Bufei, sentindo o peito subir e descer pelo esforço, e tirei alguns fios grudados da testa.
— Se sua mãe te visse agora, ela entenderia tudo bem rápido — murmurou ele, resgatando a bola sem pontos — Você não parou de fumar?
Revirei os olhos e bufei.
— Parei… — e lancei um olhar rápido e apreensivo para ele — Há três dias.
Ele riu, e eu sabia que ele só era capaz de fazer isso porque minha mãe não estava presente. Meu pai era o tipo de cara que não media o tamanho das coisas como as outras pessoas, ou então como os outros pais abastados e severos pensavam, então quando estávamos sozinhos, eu sabia que podia rir e contar de todas as besteiras que fiz ou que fizeram comigo — e que revidei, o que era, de fato, a maioria das vezes.
Isso era perfeito para o que eu pretendia contar à ele. Pelo menos, para ser a primeira pessoa a saber.
Ergui o corpo, gemendo pela dor remanescente na costela que havia melhorado muito de ontem para hoje e fiz um sinal para que ele passasse a bola. Em outra época, ele a lançaria com velocidade e sem delicadeza alguma, mas deveria estar finalmente ficando com pena do meu braço. Em um movimento fraco, ele a lançou mais uma vez para mim, que peguei-a no ar com mais destreza desta vez, e o vi erguer o dedão para cima e lançar o sorriso de lado que era sua marca registrada de advogado perfeito, o famoso sorriso de fim de causas ganhas que, de vez em quando, aparecia nas capas dos jornais.
— Agora vamos lá — disse ele, flexionando os joelhos enquanto acompanhava o movimento da bola que eu batia no chão — A diferença de rixa simples para rixa qualificada.
— Ah, qual é, pai…
— A diferença, — ergueu uma sobrancelha, irredutível — Ou vai conseguir passar por mim para não responder?
Mordi o lábio inferior, o encarando de olhos cerrados.
— Na rixa simples, ninguém sai gravemente ferido — manipulei a bola para mais perto de seu corpo, encarando os espaços em aberto — Na rixa qualificada, existe não só a lesão grave como também a morte. Pena de 6 meses a 2 anos — ergui o joelho para a esquerda, correndo com a bola até chegar a centímetros da cesta e me preparei para lançá-la, mas o braço pesado e mais rápido do meu pai veio por minhas costas, agarrando a mesma e levando-a para o outro lado.
— Isso mesmo — ele ofegou, girando-a rapidamente nos dedos — Morte, .
Revirei os olhos de novo, e soltei um arquejo pesado, sentindo o suor descer pelas minhas costas. Todas as minhas maneiras de fugir dos questionários do meu pai odiavam Ryan , o advogado, e acho que por isso eu nunca quis ir pra Harvard.
— Eu já disse que acabou tudo bem — bufei, em uma eterna repetição. É claro que meu pai sabia bem identificar as marcas de uma briga, e que dele eu não conseguiria fugir de dar uma explicação verdadeira. Mas tentei esclarecer que os participantes da rixa simples eram o que havia de pior na Columbia, senão em toda New York, e eu não fazia parte deles.
No fundo eu sabia que, para Ryan, era um alívio que eu tivesse sido rebaixado no confronto. Pelo menos foi isso que eu contei.
— E quem se meteu nessa com você? — perguntou. Então, ele respondeu à sua própria pergunta: — Não, não o , esse eu sabia que estava no meio desde que olhei pra você ontem. Digo quem foi o adversário.
Franzi os lábios, coçando a nuca. Eu não conseguia imaginar qual seria a reação do meu pai caso soubesse de . Também nunca me interessei pelos detalhes da relação da minha família com a dele porque já estava acostumado com minha mãe tomando à frente nas boas relações com qualquer pessoa que estivesse minimamente envolvida comigo e com meu pai, propagando assim a boa e velha reputação da família , que importava menos do que parecia. Caso eu dissesse que a briga em questão foi com o filho do reitor e que talvez, bem talvez, por mais que eu duvidasse disso, eles poderiam receber uma ligação sobre o ocorrido, minha mãe surtaria e me pediria explicações que eu não poderia dar. Então, já que eu iria acompanhado para a festa de Patrick, decidi manter as coisas como estavam.
— Foram uns caras aleatórios. Gente que não suporta uma piada, sabe? — respondi, vago, e sabia que aquilo não era convincente o suficiente.
Ele assentiu, colocando a bola embaixo do braço.
— Teve a ver com alguma garota?
Me virei pra ele, incerto.
— Não exatamente — respondi em um sussurro. Ele ergueu as sobrancelhas, sinceramente surpreso, e seu sorriso sacana apareceu. Olhou para trás rapidamente, verificando que mamãe não estivesse com os olhos sorrateiros por alguma janela e disse:
— Isso melhora tudo — e foi gentil. Eu ri, embora não soubesse como aquilo tornava tudo melhor.
Mas sorri junto com ele, vendo o sol já começar a chegar ao pino, indicando o meio dia. Não sei se lembrei das vozes ou se foram elas que me lembraram, rugindo em minha cabeça: não vai contar pra ele? Anda logo, o tempo está passando.
Não vai voltar para casa?
Abafei os pensamentos e cocei a garganta antes de começar.
— É… Pai… — comecei, e ele desatou novamente a bater a bola no chão. Murmurou um “hm” como resposta — Preciso dar uma saída amanhã.
Ele passou a bola por entre as pernas, em um movimento bem amador de Michael Jordan.
— Acha que está melhor pra dirigir? — disse ele, sem me olhar.
— Acho que estou sim, mas não vou. Jane vai me buscar.
Ele parou e me lançou um olhar rápido. Os movimentos na bola ficaram mais lentos, mas ele logo se recuperou para que eu não percebesse tanto.
Jane era um assunto complicado. Era um nome autoexplicativo, que também significava outro: Melbourne.
— Jane, é? — disse ele, aparentemente descontraído — E aonde vão?
Meu pai deu de ombros e assentiu, concentrando-se nos passes. Coloquei a mão na cintura, respirando fundo antes de responder:
— Você sabe pra onde vamos — sussurrei, e ele cessou os passos — Vamos visitar a Dundy.
Aquele era um dos poucos assuntos onde a reação dos meus pais era exatamente a mesma quando tocado.
Visitar o Melbourne era equivalente a dizer que eu visitaria o túmulo dos meus pais biológicos. Ou que eu simplesmente visitaria o túmulo da minha antiga vida, que para eles era um horror sem tamanho, mesmo que eu explicasse milhares de vezes que fui tão bem cuidado quanto podia para uma criança que não tinha nada. Mesmo assim, ano após ano, era o assunto mais difícil de ser tocado em casa, e já precisava me preparar para o choro incessante da minha mãe, que insistiria com todas as letras que não gostava da ideia.
Meu pai, no entanto, ergueu o corpo e me encarou com firmeza, mas sem felicidade. Talvez eu também tivesse demonstrado claramente que, de alguma forma, eu já tinha decidido ir e não voltaria atrás.
— Comprou algum presente pra ela? — perguntou ele.
Balancei a cabeça em negação.
— Pensei em pegar um Macallan da sua adega.
Ele deu uma risada seca.
— Sabe que eu guardo o Macallan pra caso entremos em falência. Pode levar o Dalmore 50 anos, ela nem vai notar a diferença.
Soltei uma gargalhada, e senti o peito ir se aquecendo aos poucos pela boa e inesperada recepção da proposta. Ryan não gostava da ideia, mas claramente também não gostava de autoritarismo, nunca gostou. Nosso riso foi morrendo aos poucos, dando espaço para um silêncio confortável.
Em um movimento, passei meu braço pelo seu pescoço e o abracei. O vazio desapareceu. Ele me abraçou de volta, ainda mais forte. Senti a queimação no nariz junto com um sentimento gritante de algo que me remetia à palavra saudade. E casa.
— Obrigado — sussurrei, inaudível. Ele soltou a bola e acariciou meu cabelo.
— Não precisa agradecer — ele disse em meu ouvido, sem me soltar — Você já é adulto. Tem marcas na sua vida que eu nunca vou conseguir arrancar, por mais que quisesse. E acho que tá tudo bem — ele afastou meu rosto e acariciou minha bochecha — Mas você é meu filho. Sabe disso, não sabe?
Funguei e assenti. Ele aproximou nossas testas, me dando um tapinha nos ombros.
— Aqui é sua casa. Entendeu? — afirmou com mais afinco, soltando o sorriso confiante de novo, mas daquela vez era um sorriso de pai. Eu ri, baixando os olhos, sentindo uma felicidade imediata.
— Te amo — sussurrei em seu ouvido, piscando os olhos várias vezes — Obrigado.
— Senti sua falta — ele me apertou — E estou feliz que você esteja bem. Ou quase isso.
Ri e me afastei, passando o ombro na bochecha. Funguei mais uma vez, e vi mamãe aparecer pela porta dos fundos, usando seu avental florido de sempre.
— Vocês ainda estão aí? — ela gritou — Vão tomar banho! O almoço já tá quase pronto.
— Sim, senhora — gritamos ao mesmo tempo. Ela cerrou os olhos para os dois, tentando adivinhar o que acontecia ali antes, mas desistiu rápido e voltou. Respirei fundo e olhei para meu pai.
— Acha que a mamãe vai chorar? — perguntei.
— Acho — disse ele, passando a mão pelos meus ombros — Mas podemos dar um jeito nisso.
E então, andamos assim até dentro da casa, já sentindo o cheiro da comida maravilhosa que invadia minhas narinas e que logo mais seria apreciada por todos os parentes que estavam enfrentando um terrível trânsito naquele momento para chegarem para a grande ceia de natal.
No fim das contas, ali, naquele momento, abraçado com meu pai, senti uma alegria interminável tomar conta de mim, mesmo que o sentimento de pressentimento e todo o sentimento sombrio não me abandonasse. Mesmo assim, vê-los ali, me dava ainda mais vontade de lutar por eles, e de viver por eles. Sobreviver pela minha família. Pelas duas.

x


O Melbourne não se descrevia exatamente como uma casa.
A estrutura antiga e decaída, que havia passado por mãos de pintura uma ou duas vezes num intervalo de 30 anos, exibia uma fachada de tijolos avermelhados e um telhado com buracos de goteira que já tinha sido azul berrante, mas que hoje se assemelhava a um amarelo barato, encardido. O quintal da frente tinha a grama alta até os tornozelos e uma bicicleta infantil sem o pneu da frente ficava eternamente curvada para os visitantes logo ao lado do caminho de pedras.
Jane estacionou do outro lado da rua, encarando a casa através dos óculos escuros com apreensão. Nós dois olhamos o lugar em completo silêncio, como algum tipo de reverência silenciosa, antes de abrirmos as portas e sairmos.
— Lar, doce lar — ela resmungou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta. Naquele ano, não consegui repetir a premissa. Aquela não parecia ser a mesma casa em que cresci. Ela agora era um recipiente de segredos obscuros que eu estava prestes a desvendar.
— Vamos. — falei, começando a caminhar para o outro lado.
Por mais que eu mal tenha pregado os olhos na noite anterior pensando em como seria chegar até ali, minha ansiedade pareceu ter se esvaído ao vento a partir do momento em que passei pelo portão de ferro batido. Meus passos eram lentos à medida que avançava até a escadaria da entrada. Tudo parecia ganhar um novo significado, e ao mesmo tempo eu era açoitado por lembranças do passado. Lembranças vivas, tão ou mais vivas do que o meu próprio eu, me mostrando que, afinal, as coisas não haviam mudado tanto assim.
— Ei, — a voz de Jane soou há alguns metros, perto da árvore grossa que adornava o antigo balanço feito com um velho pneu e cordas de aço — Olha quem ainda está aqui.
Ela inclinou a cabeça para um dos galhos densos acima de sua cabeça. Uma pessoa estava deitada em cima dele, aparentemente tirando uma soneca, com as costas tortas no tronco e a boina marrom na frente dos olhos.
Pareceria uma cena comum, se o homem em questão não usasse vestes militares da primeira guerra mundial e não estivesse morto há pelo menos 60 anos.
“Stanley” não nos notou, mas já era esperado. Estar vagando há tanto tempo o fez se esquecer do próprio nome e, com isso, permitiu indiretamente que eu e Jane o nomeássemos como bem quiséssemos. Esse fato também significava que ele não sabia porque ainda estava aqui. E, antigamente, eu poderia achar isso engraçado, mas na verdade, se tornava mais triste a cada vez que me dava conta.
— Ele parece triste — comentei, observando seus pés se mexerem ao ritmo de alguma melodia mental e interna, mas o corpo totalmente imóvel, como um perfeito cadáver.
— Não tem crianças aqui — ela deu de ombros, olhando os brinquedos velhos espalhados ao redor — Se tivesse, ele estaria se divertindo mais.
— Talvez estejam prontas para nos atacar lá dentro — dei de ombros, encarando-a de relance. Jane riu, balançando a cabeça e andando até a porta dupla de madeira. Andei um pouco mais devagar atrás dela, sentindo a madeira velha da escada ranger sob meus pés.
Antes que eu chegasse ao topo, a porta se abriu repentinamente antes mesmo que Jane erguesse o punho.
Parei onde estava. Dolores Dundy estava de pé no batente da porta, vestindo pijamas amarelos e uma pantufa cinzenta que deveria ter pertencido aos pais de seus pais. Eram exatamente as mesmas. Ela tinha os olhos arregalados de surpresa e eles olhavam diretamente para mim.
— Devo estar ficando maluca… — murmurou, soltando-se da quina e correndo para segurar em meus ombros. Tinha algo intensamente diferente nela; não era pelos cabelos inevitavelmente ficando grisalhos ou as rugas ainda mais evidentes pelo tempo. Mas aquele olhar insano de quem não me vê há anos era estranho, era bizarro. Mal fazia dois anos desde que a visitara pela última vez. Eu e Jane sempre tentávamos fugir para cá na menor das oportunidades —
— É, sou eu — soltei uma risada engasgada, tentando entender aquela expressão.
— Eu sabia que você viria — ela sussurrou, cravando as unhas em mim com mais força — Eu sabia… Ela disse que viria. Eu estava esperando.
Olhei para Jane imediatamente. Ela permanecia no mesmo lugar, encarando a cena com a mesma apreensão. Dundy tinha o rosto pálido, focado, olhando para mim como se eu fosse uma aparição. Ou alguém que ela conhecesse o rosto, mas não a pessoa, como o resultado de uma profecia maluca.
— E aí, Dundy! — Jane disse repentinamente, tirando a atenção da mulher sobre mim. Ela pareceu ter “acordado” de um transe, me soltando devagar e virando-se pra Jane sorridente ao lado, que puxava um de seus ombros enquanto dizia: — Quanto tempo! Não sentiu nossa falta? Trouxemos um presente de Natal!
Dolores encarou-a de cima a baixo antes de arfar dramaticamente e puxá-la para um abraço desajeitado, sendo vários centímetros mais baixa do que Jane.
— Minha nossa, Jane Sullivan! — ela se afastou, olhando para Jane com surpresa — Sua garota dissimulada, por onde andou? Você e o … — e nesse momento ela notou minha presença, e desta vez parecia surpresa, porém com reconhecimento! Você também veio!
Ela me abraçou com afinco, e olhei para Jane com expressão séria por cima de seu ombro. Jane apenas balançou a cabeça em negação, me aconselhando silenciosamente a deixar o assunto para lá.
— Como você está, Dolores? — perguntei quando ela me soltou, afagando meu pescoço com o par de olhos marejados.
— Como uma velha sozinha como eu poderia estar? Com saudades, claro — ela soltou uma risada — E você, garoto. Ficou tão bonito. Continua se metendo em brigas, pelo visto — ela revirou os olhos — E seus pais? Como vão? E como anda New York? Minha nossa, como você cresceu… — suas mãos se juntaram na frente do peito enquanto ela começava a se afastar para dentro da casa — Entrem, entrem! O que ainda estão fazendo aqui fora nesse frio?
Olhei para Jane e dei de ombros. E então, nós dois seguimos para dentro de nossa antiga casa.
Dolores Dundy também não podia ser descrita apenas como uma governanta de orfanato.
Afinal, ela também ensinava caligrafia para as crianças, fazia coroas e outros trabalhos manuais para a igreja católica do centro de Sacramento, levava os cães da vizinhança para passear nos arredores do Melbourne e plantava flores de canteiro no quintal dos fundos. Realmente, ser cuidadora de crianças era a menor de suas atividades, mesmo que, no momento, ela parecesse estar cansada demais para fazer qualquer outra dessas coisas.
Os horários de tarefas no Melbourne eram bastante flexíveis antigamente: às 7, o café da manhã já estava pronto e servido e, tendo menos opções do que se espera de uma refeição reforçada, sobrava alguns minutos livres antes de começar as obrigações escolares, que consistiam na mesma Dolores Dundy ensinando crianças as coisas básicas de quem ainda não ia a uma escola decente: ler, escrever e contar. Aquele era o registro mais legítimo em seu já bizarro currículo, e certamente era o serviço que não consistia em um cachê. Aliás, a Igreja de Sacramento era nossa maior fonte de doações, e era fácil deixar crianças abandonadas em último lugar da lista quando os fiéis tinham suas próprias contas a pagar.
O piso ainda rangia quando entrei por completo. Olhei em volta, um pouco absorto pelo ambiente imutável, pela mesmice do cheiro e dos móveis. Era uma loucura que eu ainda sentisse a constatação de casa, mesmo que não morasse mais ali há pelo menos 15 anos, e ao mesmo tempo, que agora a visse como uma peça fora do padrão. Como uma lembrança disforme. Como se tivesse perdido algo aqui.
A casa podia parecer a mesma, mas havia um problema: para todos os fins práticos, ela pertencia à crianças. E não havia sequer uma.
— Onde estão os pequenos? — perguntou Jane enquanto caminhávamos para a cozinha apertada no fim do hall. Dundy já começava a separar chaleiras e canecas em cima da bancada.
— O centro social decidiu levá-las em um passeio de natal até o parque de Salinas. Saíram no primeiro ônibus do dia — respondeu ela, acendendo o fogo — Disse que visitariam o centro histórico também, alguma conversa dessas. Não sei porquê decidiram nos dar atenção esse ano…
Engoli em seco, olhando para a janela de relance. Stanley agora caminhava lentamente pelo gramado, chutando areia pela ponta dos sapatos, olhando fixamente para a esquina, à espera do ônibus que havia partido. Uma partida inesperada, incomum. O orfanato Melbourne não costumava receber tanta regalia dos mais chiques de Sacramento.
— Existem outros orfanatos com televisões maiores, pinturas renovadas e que até fazem eventos musicais. Realmente não sei o que aconteceu para nos convidarem. Podiam aproveitar e aparar a grama também, mas só se interessaram em tirar as crianças daqui… — Dundy ainda resmungava, externando meus próprios pensamentos. Alguma coisa inimaginável estava acontecendo com o Melbourne e, de acordo com o senso comum, eu deveria estar feliz e animado com a atenção e valorização, mas havia algo estranho. Algo me dizia que foi proposital. Que a casa deveria estar vazia hoje.
O jeito inquieto de Jane ao se sentar na mesa demonstrava a mesma coisa.
— Talvez seja um rito de passagem. Sabe? É ano de eleição, o prefeito vai querer mostrar serviço — disse ela, torcendo os dedos sobre o tampo enquanto começamos a ver a fumaça da água fervida.
Dolores soltou uma risada de escárnio.
— O prefeito é seduzido pelo Country Club da Rua Três há anos, e eles são loucos para se apossar desse terreno. Não acho que ele mereça esse voto de confiança — falou ranzinza, depositando duas canecas na mesa. — Bebam.
Bebi o café.
A tosse violenta veio um segundo depois, lançando para fora o líquido de volta para a caneca. Coloquei as mãos sobre a boca, encarando o fluido escuro com uma careta.
Jane fez a mesma coisa, olhando o mesmo ponto com choque vívido.
Aquilo não era café. Ou não parecia ser café. No Melbourne, nunca tínhamos realmente um café de qualidade, mas os amontoados de massa terrível que flutuavam na água suja eram claramente poeira. Escura, podre e fedida. Uma mistura de todas essas características com terra em decomposição.
Dundy se virou para nós imediatamente, carregando um semblante confuso.
— O que houve? — perguntou ela, em inocência.
— Dolores, o que você…
— Jane, vai na dispensa — interrompi, me levantando e puxando as duas canecas — Vai e vê se consegue achar um outro café. Se não tiver, pode sair e comprar mais?
Ela virou-se, sem entender. Olhou para Dundy logo sem seguida, que ainda seguia estática no mesmo lugar, e esperava muito que ela entendesse parte da situação bem rápido.
Quando me encarou novamente, pensei que iria protestar, mas esperava que meu raro olhar firme e autoritário mostrasse urgência o suficiente.
— Tudo bem — assentiu, por fim, saindo pelo outro corredor, o barulho das botas ficando mais distante a cada passo.
Quando ela estava longe, suspirei e olhei para Dolores, que agora tinha o olhar perdido, encarando o conteúdo no coador, como se estivesse se perguntando: o que há de errado comigo?
— Tá tudo bem, Dolores — falei de forma gentil, virando-me para a pia, entornando o conteúdo das canecas ali. E então, arriscando ser julgado como um barulhento e arrogante filhinho de papai, acrescentei: — Essas coisas acontecem. Quando foi a última vez que você foi ao médico? Se quiser, posso marcar um neurologista pra você, que tal-
Me virei em sua direção, mas ela não estava mais ali.
Um fio de vento gélido e anormal agitou os pelos em minha nuca, e me virei para trás em sobressalto quando senti os dedos frios em minhas costas, me fazendo soltar uma das canecas no chão, que se espatifou como uma explosão.
Dundy estava parada como uma estátua, olhando para mim com olhos arregalados de terror, mas ao mesmo tempo, imóveis e precisos. Como uma expressão robótica, controlada. Ela se moveu sem fazer um mísero barulho.
Engoli em seco, apertando os dedos na pia atrás de mim. Não queria entender o que estava acontecendo, mas estava. Já tinha visto uma infinidade de pessoas assombradas, para uma vida inteira.
Talvez Dundy não estivesse precisando de um médico, afinal.
— Lá em cima — disse ela, mas não parecia ela. Era um sussurro apressado, urgente — Está lá em cima. No sótão. Em uma caixa preta — suas unhas cravaram-se novamente em meu antebraço, com maior força do que na entrada. Maior força do que uma senhora de 65 anos poderia ter. Ela se aproximou de meu nariz e aquelas pupilas dilatadas me fizeram gelar o corpo — Caixa preta. De papelão. 25 centímetros. No sótão. Sótão… — Seu rosto se deformou em uma careta, como se estivesse se segurando para não soltar uma gargalhada. O sussurro era tenebroso, a risadinha fina me causando ainda mais apreensão, mas não desviei o olhar — Seu amigo também veio aqui. Ele queria ver a caixa. Ela não deixou… E ele disse que faria uma brincadeira com você — ela arregalou ainda mais os olhos e as unhas afundariam na minha pele se não fosse pelo casaco. Seus olhos ganharam um círculo negro abaixo da íris — E ela foi atrás dele! Você viu tudo? Como foi? — uma outra deformação e ela balançou a cabeça, como se tentasse se livrar de um mosquito — No sótão… caixa preta, papelão, 25 centímetros…
Guiei meus dedos até a cuba da pia, sem deixar de olhá-la, agarrando a outra caneca pelas minhas costas à medida que via a risada crescendo, aumentando de volume e se tornando uma gargalhada. Agarrei a borda da porcelana, jogando-a no chão logo ao lado de meus pés, causando outra explosão de cacos, segurando minha respiração.
O barulho alto foi o suficiente para paralisar as partes mais sutis da minha educação. Dundy parou, uma sombra escura passando por seus olhos, fazendo-a paralisar com a boca meio aberta em uma postura enrijecida e medonha, estática de susto. Trinquei os dentes, ainda esperando.
— Dolores. — chamei, em uma impaciência nervosa, como se tivesse que pensar em algo terrível caso ela resolvesse fazer algum movimento brusco — Dolores, você está aí?
O barulho da porta foi o catalisador para que os ombros de Dolores dessem mais uma sacudida de súbito, deixando seus olhos focados de vez. Ela me encarou, parecendo assustada por alguns segundos, mas abriu um pequeno sorriso constrangido.
— Ah, Deus, , o que você dizia mesmo? — disse ela, amarrando o avental novamente — Perdão, eu ando tão distraída, como estava o café? Minha nossa, você está tremendo…
Balancei a cabeça em negação, vendo-a pegar em minhas mãos, que estavam quentes de novo. O batucar das botas de Jane voltaram a invadir a cozinha, agora trazendo um pacote marrom nas mãos, e parou perto da mesa, olhando ao redor com as sobrancelhas juntas.
— O que aconteceu aqui? — ela perguntou, olhando a confusão de cacos quebrados no chão. Dundy seguiu seu olhar e abriu a boca em surpresa. Eu ainda parecia sem fala.
Quando Dundy estava prestes a falar, se é que conseguisse, eu interrompi, armando meu melhor sorriso que parecesse convincente:
— Fui eu. Acho que me desequilibrei quando tentava limpá-las, me desculpa, Dolores — murmurei, coçando a nuca rapidamente — Jane trouxe outro café, pode começar a fazê-lo? Eu prometo que limpo isso em um instante, vou buscar as coisas lá em cima. Vocês duas ficam aqui.
Comecei a sair, um pouco desnorteado. Tive o braço agarrado ao passar próximo a Jane. Ela me olhava duramente, sabendo que havia algo estranho. Trinquei o maxilar e inclinei a cabeça levemente para Dundy, que murmurava lamentações sobre estar ficando velha e esquecida enquanto juntava os cacos do chão.
— Te explico depois, não sai de perto dela. Eu volto logo — falei em voz baixa, e ela se preparou para protestar — Por favor.
Ela entendeu. Tinha que entender. Assentiu com a cabeça, e finalmente curvei para o outro corredor.

x


A escadaria para o sótão era um amontoado de madeira velha e remendada, parada ao fundo do corredor de quartos.
Este tinha todas as portas fechadas, o que era uma visão incomum. A nova geração de crianças poderiam ser muito alegres para não ajudarem na limpeza ou muito diligentes para fecharem as portas na hora certa. A pintura dos números estava apagada, mas reconheci o de número 7 que costumava ser o meu e de mais outros 5 garotos.
Continuei em direção à corda do alçapão e a puxei para baixo. A escada me jogou uma chuva de poeira que me fizeram tossir um pouco até terminar de puxá-la.
Me preocupei de verdade que ela não fosse aguentar meu peso. Tudo estava em absoluto silêncio mortal, e era de se esperar que estivesse mais quente do que o lado de fora, mas a brisa gelada serpenteava por entre meus pés e mãos. Eu imaginava o motivo, mas era tenebroso demais para que eu o deixasse me consumir.
Passei o corpo pelo quadrado, enxergando a completa escuridão. Um silvo de ar frio no aposento cheirava a orégano e cerveja, e a quantidade de caixotes havia aumentado com o passar dos anos, guardando todo e qualquer tipo de coisas que Dundy achava necessário para manter a memória viva. Fora as bebidas, que precisava esconder das crianças.
Na janela ao lado de uma pilha de garrafas velhas de coca cola, tinha uma velha placa neon escrita “Desde 1965”, apagada e defeituosa, afogada em poeira. Eu não via um centímetro sequer a minha frente. A fina camada de luz do lado de fora não passava o bastante pela janela, ornamentada em rosácea, o que me fez ligar a lanterna do celular. O feixe de poeira dançou na boca do brilho. Há quanto tempo ela não limpava aqui em cima?
Procurei o interruptor na parede ao lado da entrada, achando-o escondido atrás de uma velha gaiola de pássaros e finalmente jorrando a iluminação amarelada por todo o cômodo. Bati a mão na calça jeans, limpando o resquício de teias de aranha. Guardei o celular e comecei a observar ao redor..
Havia poucas prateleiras. A primeira parecia conter apenas caixas velhas com coisas ainda mais velhas, como roupas, brinquedos quebrados e bonecas estranhas que pareciam me seguir com os olhos. A segunda guardava eletrodomésticos de pequeno porte, trocados ao longo dos anos, igualmente defeituosos e empoeirados. Tudo era um imenso depósito cumulativo de defeitos. Onde estaria o meu?
Olhei para a terceira prateleira, preparando-me para me frustrar mais uma vez quando vi uma pequena cômoda bem atrás dela, mais escondida do que os outros móveis, pacífica e limpa.
Foi a primeira característica estranha. Puxei o pouco que consegui para fora, forçando alguns dedos a saírem do gesso para ajudarem. Estar sem tipoia não era tão útil quanto parecia. Bufei, atestando o tamanho do móvel, vendo que existia apenas uma única abertura.
Eu geralmente era bom em desempenhar múltiplas tarefas, ainda mais se todas elas beneficiassem exclusivamente a mim e minha paz. Porém, no momento, eu me via hipnotizado por aquela pequena porta e, a partir do momento que me deixasse entrar por ela, eu dificilmente me lembraria de prestar atenção ao redor, que já parecia estranho o suficiente. Portanto, apenas torci que nada de errado acontecesse e puxei a abertura, enxergando o único objeto parado em meio ao escuro.
A caixa preta era puída e velha, porém mais conservada do que era de esperar com a passagem dos anos e, ainda, presa num ambiente como aqueles. Respirei fundo e puxei-a para fora, que era mais leve do que parecia. Ignorei toda a sujeira e me sentei no chão, abrindo-a, vendo o conteúdo com certa confusão: um caderno encouraçado com um nó ao redor. E um ponto colorido e brilhante bem ao lado dele.
Puxei a cordinha. Era uma pulseira, feita de macramê, contendo uma pequena pedrinha verde de plástico e logo ao lado, o nome gravado em uma costura mínima e rasgada nas laterais, em letras caídas e desengonçadas.
A memória brilhou a todo vapor. Fechei os olhos com força, tentando não pensar nos sentimentos que me consumiam, como a grande tristeza por aquela ser a última informação que recebi da minha avó e a grande alegria por estar segurando um símbolo de meus pais. Olhei a pulseirinha por mais um tempo antes de guardá-la no bolso da jaqueta e seguir em frente.
Desatei o nó do caderno, abrindo a primeira página. Reconheci a caligrafia imediatamente: era a mesma letra achatada no meu calendário. O lembrete da volta para casa.
Bem, eu estava aqui.
Engoli em seco e deixei que minha mente fosse absorvida pelas folhas velhas do papel.


Capítulo 23 — A verdade vai à festa

Boas histórias, geralmente, terminam em tragédias.
A minha história começou em uma.
Talvez, por isso, desfrutei de uma vida boa até agora. Todo o caminho sanguinário de vidas perdidas injustamente é o pagamento suficiente para pavimentar um futuro sem dor e pesadelos.
E sem a verdade.
Descobri-la foi tão ruim quanto imaginei. Em algumas páginas, foi pior. Mais do que qualquer outra coisa, aquele diário desejava. Parecia vivo. Desejava mais do que podia conter, mais do que palavras poderiam descrever, mais do que diagramas podiam ilustrar — desejava estender as mãos e me puxar da ignorância. Eu sentia as palavras de Jiyeon. O anseio e o medo transbordavam das páginas, em cada linha frenética, em cada palavra destacada. Havia algo de doloroso e melancólico a respeito dele. Tudo era recheado de morte; tanto mental, quanto física.
As palavras me puxavam para o redemoinho de informações, materializaram-se em imagens na minha cabeça de forma precisa e real, transformando-me em um espectador dos acontecimentos. E presenciar aquilo, mesmo que de forma superficial, massacrou todo o resto da minha sanidade.
Fechei o caderno ao terminar, tremendo da cabeça aos pés, sentindo uma intensa necessidade de gritar, transbordar, ou qualquer forma de extravasar que não fosse familiar a mim. No entanto, como esperado, só consegui me manter parado, imóvel, com os olhos perdidos pela poeira e ardendo por dentro. A manifestação dos meus sentimentos saiu pelos olhos, extravagantes. O mundo parecia estar ruindo. O inverno duraria para sempre. A felicidade não passava de uma utopia.
Deixei que ele despencasse de minhas mãos, sem dar importância imediata ao seu estado. Fechei os olhos com força, tentando segurar os soluços, apertando uma palma da mão na testa, driblando minha mente para que ela não cruzasse as três linhas em uma: minha mãe, Mary Finch; meu pai, Kang Jooheon; e minha avó, Kang Jiyeon. Todos, agora, possuindo um nome, uma história, uma vida. Era mais do que esperei, mais do que esperava suportar.
Eu não conseguia me levantar.
Puxei o diário de novo, com a intenção de devolvê-lo à caixa e tirá-la da minha frente em uma tentativa de fuga da nova verdade tenebrosa. Foi quando um recorte escapou da lateral, algo que estava preso no emaranhado de folhas velhas.
Puxei a ponta dele. Sua superfície era de papel fotográfico. Ainda cheirava ao filme vermelho. Observando-a, paralisei por alguns instantes.
Uma mulher de cabelos castanhos claros estava abraçada com um homem, descalços sob o gramado em frente ao adro de uma igreja. O conjunto de características do cenário remetia aos anos 90. Os dois sorriam alegremente. Não demorei a entender. E não demorei para começar a chorar de novo.
Mas outra coisa me chamou a atenção de forma muito mais urgente. Algo que cessou as minhas lágrimas antes que elas ficassem descontroladas, algo que teve um efeito medonho em mim, mais do que todas as histórias de terror daquele caderno. Essa coisa era a imagem do homem na foto.
Meu pai. O cara desconhecido dos meus sonhos.
Quando percebi que era ele, o mesmo rosto, a mesma forma da pessoa que corria até mim sobre a água, o rosto apavorado que se transformava em um reflexo meu, não consegui mais me manter sentado.
Aplanei a foto para examiná-la melhor. Um amontoado de incertezas começam, lentamente e escandalosamente, a se tornarem certezas de repente, constatações assustadoras. Sonhei com aquela imagem por mais vezes do que posso sonhar. Ouvi sua voz um dia antes de entrar naquele avião. O aviso que me dizia “Corra”, a presença estranha que eu não conseguia ver. Senti como se tivesse trilhado um caminho de energia mística, perfeitamente conectado e preparado para que eu estivesse parado, bem aqui, descobrindo todas essas coisas de uma só vez.
Destino. Ele estava mesmo por trás de tudo isso?
Tomei o caderno com firmeza, agora andando em círculos enquanto procurava outros possíveis elementos que deixei passar. Ao longo do diário, minha avó havia rabiscado várias palavras repetidas vezes, ocultado frases de forma débil e caracteres coreanos alongados. Achei novamente a parte final, o relato pós-morte onde contava seu encontro com a entidade superior que falava sobre Jooheon. Lembrei-me da parte em que correu comigo nos braços e mal chegou a alcançar a porta. Lembrei-me de como correu no meu sonho, assustado, de como me encarou em aviso, de como se transformou em mim.
Por muito tempo, achei que não houvesse explicação. Porém, olhando agora, a semelhança absurda parecia explicar tudo.
Ele estava me observando. Estava tentando falar comigo, me avisar.
Não podia ser coincidência. E jamais pensei nessa possibilidade.
Desabei no chão novamente, imerso nas revelações a que me submeti, sentindo-me pequeno, um figurante, e não o personagem principal, como insistia minha avó.
Não tinha como aquele diário ter pertencido a esse sótão por tantos anos, bem ao meu lado. Alguém devia tê-lo achado, eu devia tê-lo achado, e todo o tempo em que passei — que permiti — odiando-me por sentir curiosidade sobre minha origem teriam sido bastante reduzidos.
Talvez tenha sido melhor assim, pensei comigo mesmo, em uma tentativa desesperada de não sentir raiva, ou arrependimento, ou todas as coisas que ainda queriam sair, mas eu não as permitiria causar esse estrago. Não aqui, não agora. Mesmo assim, senti os olhos ficando molhados de novo, o luto por todas as coisas juntas se aglomerando no meu peito. Era como se meus pais não parassem de morrer. Era como se morreriam todos os dias a partir deste dia; todos os dias compensariam os anos em que passei sem saber daquilo, sem lembrar.
O sangue dele agora parecia tão evidente na minha pele. Os olhos se fechando em despedida pareciam vívidos demais, mesmo que fosse impossível. A memória não fazia parte do meu cérebro, mas estava marcada de um jeito muito mais forte em algum lugar dentro de mim.
Inesperadamente, o toque do meu celular pareceu abalar todas as paredes fracas de concreto. Meu coração deu um salto pelo susto. Puxei-o do bolso e olhei o nome no visor. O coração acelerou ainda mais, e olhei a tela piscar por um minuto inteiro antes de atender.
— Alô — minha voz saiu grogue e embargada. Me senti um idiota por não ter me recuperado antes. Se ela prestasse bastante atenção, perceberia minha condição muito rápido.
? — ela perguntou, apreensiva — Está tudo bem?
Fechei os olhos por um instante, absorvendo sua voz. Era algo extremamente anestesiante. Senti falta daquela voz. Senti falta dela. Senti…
— Sim, está sim — suspirei, aéreo, recostando a cabeça no móvel antigo — Sinto sua falta.
As palavras saíram antes que eu percebesse. Estava tão imerso com as sensações que sua pseudo presença me trazia que minha sensatez não achava espaço para se sobressair. A sopa de emoções me pegou em um estado já abundante: o sentimento de algo mágico, de possibilidade, de perigo ansioso. Era como aquilo tudo soava.
Aquele mesmo sentimento que eu experimentei quando subi ao seu quarto pela primeira vez.
ficou em silêncio e, ela sim, limpou a garganta antes de responder.
— Também sinto saudades — a declaração saiu em voz baixa e acanhada. Deixei que um pequeno sorriso destravasse meus lábios — Como foi seu natal?
Abri os olhos e levei um tempo para responder. Com a mente mais em foco, tentei entender o que estava acontecendo. Percebi que estava querendo conversar — e não me falar alguma coisa, alguma nova informação. E parecia estar se esforçando para não parecer tão nervosa.
Tudo gritava como: Eu gostaria que você colaborasse com minha tentativa de me aproximar de você.
— Se eu te dissesse que todos os natais por aqui são completamente normais e sem nenhuma confusão familiar, você diria que não é verdade?
Ela riu e meus ouvidos receberam mais uma dose de calmante. A risada dela era algo mágico; tão mágico quanto aquele diário, tão mágico quanto a minha vida. No fundo, eu também queria que ela não fosse tão mágica. Queria que ela não estivesse envolvida em nada disso. Porque, se eu fosse acreditar fielmente nas palavras do Destino, não tinha muita vida pela frente.
— Isso é uma pena, eu gosto de confusões. Percebi isso depois de te conhecer. A vida pacata me envelhece — ela suspirou teatralmente — O Natal só serve para me fazer acordar no meio da noite para olhar a lua cheia e verificar o telefone.
— Quer dizer que esperou uma ligação minha? — debochei.
— Posso ter escondido o celular no meio dos cobertores para não ter que fazer isso primeiro — tinha certeza de que ela estava cerrando os olhos, e sorrindo — Mas só porque pensei que atrapalharia uma grande festa. Não imaginei que vocês fossem inimigos do caos.
— Minha tia Guida me oferece erva depois do jantar, isso conta? — ela riu em descrença — E minha avó chegou a perguntar seis vezes se eu precisava de óculos ou lentes de contato, porque as letras no meu celular estavam muito pequenas. Ela teve que se aproximar muito pra ler as mensagens de .
— Espero que ela não tenha achado nada de bizarro — disse ela, em um tom divertido ao voltar à lembrança de quando passou a noite na minha casa e fez sua participação. Outra das coisas que sentia falta, e só havia provado uma vez.
— Desta vez eu não o culpei, ele tem uma tia que mora em Sussex que sempre cozinha alguma gororoba mediterrânea para o jantar e é obrigado a comer sem reclamar. Claro que a reclamação cai para os meus ouvidos depois, mas acredito que é pra isso que servem os amigos.
— Claro, claro. Não há nada que bagunce mais o sistema nervoso de uma pessoa do que o fuso horário. A diferença de meia noite para cinco da manhã é muito grande.
— A tia Poppy não é tão madrugadora assim.
— Exatamente, a mente dela deve estar um caos. Se lhe perguntar a diferença entre uma cereja e um tomate, ela vai dizer que é o tamanho.
Ri de novo, desta vez mais do que pensei, porque fazia sentido.
— Ela é uma das principais autoridades britânicas em gestão de vinícolas, então entende como isso soa um pouco irônico? — puxei os joelhos para cima.
— Não brinca.
— É, meu pai deve colecionar alguns vinhos na adega com a cara da rainha Elizabeth estampada por causa dos presentes dela. Sabia que ele é um animador de Enoturismo? Tem um amigo dele que já nos visitou, deve ter uns oitenta, cem ou duzentos anos, que já escreveu dois ou três livros sobre o assunto, todos clássicos nesse limitado campo.
Ouvi a risada de e recostei ainda mais. Não sabia que horas eram, ou se eu deveria me levantar e finalmente ir embora, voltando para a realidade. Mas não queria fazer isso naquele momento. Só queria contá-la como meu pai conheceu Theodoro Clark em um verão em que nós dividimos nosso tempo entre o País de Gales e Londres.
— Bem, é sempre bom quando encontramos pessoas que levam nossas particularidades a sério. Então seu pai é muito grato… — ela riu mais uma vez, e senti a voz se perder em minha cabeça — Mas vem cá, como são os vinhos da rainha Elizabeth? Eles têm gosto de…
Parei de ouvir por um instante. Senti o sorriso ir diminuindo aos poucos. Olhei na direção do diário de novo, agora jogado aos meus pés, e me senti sufocado de novo.
, eu… — interrompi suas palavras, que perdi totalmente. Estava pronto para encerrar a ligação, para descer novamente, para ir embora dali e me preparar para uma bela noite de insônia, mas saber disso me fez agir completamente ao contrário. Fiquei estático e em silêncio por um tempo até soltar: — Eu conheci meus pais biológicos.
O silêncio dela durou o tempo suficiente para que meu nariz recomeçasse a queimar. Que droga. Eu não podia chorar agora, especificamente não agora…
… — disse ela, carinhosamente, em um sussurro, como se soubesse que era o momento de me chamar assim, e não no tom irônico que levava “”.
— Não foi bem um conhecer, sabe… Nada presencial. Na verdade, eles morreram há muito tempo. Quando eu tinha três meses — afirmei e senti a voz falhar. Percebi como era difícil colocar essas coisas para fora. As coisas se tornavam mais físicas, mais dolorosas — Mas agora sei o nome deles. Sei quem foram. Coisas que eu nunca imaginei que saberia um dia.
continuou em silêncio por um minuto inteiro. De repente, a ideia de ter lhe contado me pareceu precipitada demais. Digo, o que ela pensaria? Não era estranho que eu dissesse abertamente que sentia sua falta, mas poderia ser estranho se eu começasse a me abrir sobre aquele tipo de coisa de repente? Coisas pessoais, coisas que se compartilhavam com pessoas especiais. Era outra declaração? Eu devia ter começado um monólogo sobre o tempo, sobre os encontros da sociedade histórica que minha mãe frequentava e como era frustrante as brincadeiras destrutivas do collie do nosso vizinho. Ela compreenderia apenas três quartos do monólogo, porque ele serviria apenas para que eu me desviasse daquela informação.
No entanto, só consegui me manter também em silêncio, fungando silenciosamente, me sentindo meio terço mais leve. Eu queria contar a , queria contar para alguém que tivesse uma reação normal, que não fosse Jane e sua raiva ou e seu constrangimento.
— E aí? — ela apareceu repentinamente, e juntei as sobrancelhas — Eles eram pessoas legais?
Seu tom soava divertido, como se estivesse sorrindo. Como se visse o fato como algo feliz. E percebi que nunca tinha parado para pensar sobre estar feliz com a informação.
— Sim, eles eram — falei e o sorriso me escapou. O nariz ardeu novamente e funguei, mas sem me importar. Não havia mais como fugir da face que estava apresentado a nesse exato momento — Eram muito legais. Meu pai, ele… Estudou engenharia, minha mãe estudou várias coisas. Eles se mudaram para a Coreia depois de se casarem.
— Interessante. Imagine como seria conversar com você com um sotaque.
— Precisaria ter ficado lá por mais um tempo — ri, mas a frase era extremamente melancólica. Lembrei do sotaque de minha avó, algo a que havia me acostumado tanto que passava despercebido, e de como a única explicação que recebi era “morei em um lugar muito distante, agora pare de fazer perguntas.” Era uma combinação de fala arrastada, ruminação, idade extrema e todas essas coisas que pareciam, muitas vezes, uma conexão telefônica ruim. Depois de um tempo longe da pessoa, começamos a reparar em detalhes que nos escapam no cotidiano. E era aí que morava a merda da perda.
Seu silêncio novamente era a atitude previsível de quem compreendia o que eu dizia sem palavras.
— E… Como eles morreram?
Engoli em seco, encarando um ponto fixo na madeira.
— Foram assassinados. Em uma cidade perto de Seul.
Ouvi sua expiração. Outra escapou de mim, e mordi os lábios antes que ela ouvisse mais do que deveria. Porque uma lágrima já escapou, traiçoeira, sem aviso, logo que visualizei a cena novamente.
— Deus, … — ela exasperou e de repente me apavorei com a possibilidade de ela perguntar mais coisas, mais detalhes que eu mesmo ainda não me sentia pronto para absorver, quanto mais falar em voz alta, ou melhor, inventar algo em voz alta. Porque era totalmente impossível que revelasse aquela insanidade na íntegra para .
No entanto, depois de algumas tentativas e o barulho de sua respiração forte do outro lado da linha, ela apenas disse:
— Eu sinto muito, .
E percebi que era tudo que eu precisava ouvir.
Devo ter chorado um pouco mais alto, aéreo, internalizando seus pêsames como algo inédito. Notei que precisava daquilo. Precisava contar a alguém que tinha perdido meus pais e precisava de algum consolo banal. Na minha vida inteira, nunca existiram perdas como essa. Não existiu o vazio sufocante que me entristecia. Consequentemente, a barreira que ergui para pessoas não me permitiu pensar que um “sinto muito” poderia ser tão significativo. Que se abrir, mesmo que minimamente, tivesse um peso importante para que tudo não passasse de um negro mórbido.
Entramos em um silêncio confortável. Prestei pouca atenção a tudo ao redor por educados 5 minutos antes de me interromper polidamente.
— Que bom que você ligou.
— Que bom que me contou — ela devolveu, rindo fracamente — Queria te dar um abraço agora. E dizer que sempre vou estar aqui quando quiser conversar.
— Mesmo? Posso não ter muitas coisas interessantes pra contar — zombei, focando em sua voz, tentando despistar qualquer primórdio de tristeza que quisesse voltar a me afundar.
— Duvido, acho que suas histórias dariam uma fonte textual muito interessante — dei uma risada fraca com sua resposta. Funguei pela última vez antes de começar a ouvir um barulho.
Ele se aproximava rápido, e se assemelhava com um ruído, como se alguém estivesse mastigando ou embrulhando algo em celofane.
Eu conhecia bem o espaço para captar que ele vinha do quadrado do sótão por onde entrei. Pigarreei e comecei a me levantar, limpando o rosto o máximo que podia.
— Preciso desligar — falei enquanto pegava o diário e tentava colocar a caixa no mesmo lugar.
— Ah, tudo bem…
— Vou estar em NY no primeiro dia de janeiro — cedi a informação mesmo que ela não tenha me perguntado. Mas não importava, não estava totalmente por fora sobre o quanto eu queria vê-la — Talvez não tenhamos tempo por causa da festa, mas se quiser...
— Claro. Eu aceito.
Sorri. O barulho ia se aproximando mais rápido.
— Tudo bem. Te ligo depois.
— Não se apresse para voltar, . Temos o ano todo pela frente.
Ela disse e joguei a sentença ao universo. Um pedido que jamais fiz, o primeiro de toda uma vida. Por favor. Por favor, que seja verdade.
— Espero que sim. Até mais, .
Desliguei o telefone, meio dormente, ao mesmo tempo em que a cabeça de Jane apontou na entrada, com as sobrancelhas arqueadas e um tanto ofegante.
— Ah! Você está acordado, então — ela bufou e terminou de subir, limpando a poeira nas coxas — Achei que estivesse dormindo. Sabe? Isso te lembra alguma coisa? — ela vasculhou o lugar com os olhos e soltei uma risada quando entendi. Nós sempre dizíamos que passar a noite no sótão seria uma ótima oportunidade para achar mais fantasmas; o pior deles, se possível.
Mas na verdade, aquele sótão guardava outros tipos de fantasmas.
— Eu não esperaria o espírito de um rei falecido aqui sem você — dei uma risada — E então, o que quer dizer?
— Como o que quero dizer? Já olhou lá fora? Anoiteceu, ! Você está aqui em cima há horas. E também… — ela olhou para os lados apreensiva, como se as paredes pudessem ouvi-la — Tem alguma coisa aqui. Alguma coisa estranha.
— Como assim?
— A Dolores, ela… Eu não sei. Ela fica calada por 10 minutos inteiros e depois desata a falar das crianças sem parar, ri escandalosamente em um minuto e em seguida chora como se tivesse perdido um parente, dizendo que estava sozinha e terminaria assim. Mas isso não é o mais estranho de tudo. A coisa é que as crianças não voltaram ainda.
Olhei para fora por um momento. O sol já havia ido e o céu era um breu intenso de inverno. Quando éramos crianças, Dundy sempre exigia com punhos de ferro que voltássemos para dentro bem antes de o céu atingir aquele pico de cor ou nos buscaria com uma varinha de radiestesia.
— Talvez estejam atrasadas. Talvez o ônibus tenha…
— Qual é, , acorda! Estou dizendo que elas não vão voltar. Não tem criança nenhuma aqui. Ela está sozinha, o Melbourne não é mais um orfanato.
Parei por um momento, encarando-a como se estivesse louca. As crianças só não estavam presentes, e pareciam ser menos ativas nas atividades pela bagunça generalizada da casa, mas isso não queria dizer nada.
Não podia.
— Mas…
— Ela está senil e o café foi prova suficiente disso. Deus do céu, como ninguém nos avisou? — Jane soltou uma respiração fraca e irregular — Precisamos dar um jeito de cuidar dela, precisamos marcar um médico, não sei…
As linhas do meu raciocínio se transviaram das palavras de Jane. Imaginar Dolores daquele jeito, zanzando por essa enorme propriedade sozinha, dia após dia, fazia algo doer em meu peito.
No entanto, talvez, sua condição tenha sido exatamente a isca perfeita.
— A cabeça dela está fraca, por isso foi fácil controlá-la — falei para mim mesmo, com os olhos longe, bem longe. Dundy tinha quase 70 anos, mas eu tinha certeza absoluta de que as várias lavagens cerebrais impostas por minha avó ao longo dos anos foram uma perfeita influência para que tudo se tornasse precoce.
— Do que está falando? — perguntou ela, com o cenho franzido.
Olhei para fora de novo. Ainda tínhamos mais de 22 km pra dirigir e o tempo estava se tornando horroroso de repente, com gotas de chuva que mais pareciam nabos. Eram piores do que a neve interminável de NY.
— Minha avó veio aqui, Jane. Antes de desaparecer. Ela falou com Dolores ao longo dos anos, deu comandos sobre algumas coisas e limpou sua mente, mas fez só isso. Mas também veio e ele fez pior, muito pior: ele mexeu com a cabeça dela, se aproveitou de sua fragilidade.
, o fantasma maluco que você insiste em se envolver?
— Ele veio aqui para buscar isso — ergui o diário encouraçado — Ainda não sei o porquê, mas nenhum motivo dele é boa coisa.
— O que é isso, ? — ela pegou o caderno em mãos, analisando-o com cuidado — Achei que aqui em cima só tinha tubos de cola e telhas de papelão. Foi isso que você veio procurar tão de repente?
Assenti em resposta.
— Eu não tinha certeza do que iria encontrar, então preferi não te contar. Mas isso aqui é alucinante, Jane. É melhor do que todos os livros que você leu naquela época.
Jane me encarou com uma forte expressão de confusão. Agora, ela avaliava as janelas e a chuva forte que caía no telhado. Um clarão inundou o lado de dentro sem barulho. Então ela perguntou:
— A sua fonte tem alguma coisa a ver com os seus olhos inchados?
Desviei o rosto, passando uma mão pelo cabelo.
— Era da minha avó — respondi em voz baixa — Ela escreveu nesse diário por anos, me contou sobre meus pais, sobre como morreram. Foi como imaginei, mas não queria acreditar. Foram mortos por um deles, Jane — minha voz falhou, mas tão logo se recuperou. Já bastava chorar na frente de . Algo me dizia que Jane não teria a mesma reação solidária — Foram assassinados enquanto tentavam matar a minha mãe. E eu estava lá…
— Meu deus, — ela gemeu, virando-se para uma das paredes e prendendo a respiração. Não era minha ideia recomeçar uma sessão de lamentos, ou contar-lhe o relato completo agora, então apenas balancei a cabeça e voltei a falar.
— Isso não importa agora. Tem coisas aqui que ele quer. Ou não queria que eu descobrisse. Ele foi atrás de mim logo depois de não conseguir, fez eu bater o carro daquele jeito, estava apavorado porque agora eu sabia seu nome. Isso os enfraquece, mas não é o suficiente. Mas Jane, eu sei, eu sinto… existe algo a ser feito. Talvez ele só não quisesse que eu visse outra coisa. Os endereços, as marcações em coreano, os códigos… Tem alguma resposta no fim de tudo isso, alguma resolução. Precisamos ir atrás disso.
Jane olhou de mim para o diário como se as duas coisas não se relacionassem. Seu caminhar era lento e incerto. Não como se estivesse pensando sobre o assunto, mas sim pensando em como me convencer a cair fora daquilo de vez.
— Ah, não, sr. , é aí que está o erro. Isso tudo não tem um fim, é um poço subterrâneo espiritual. Mesmo que existam livros antigos e pessoas que dedicam sua patética vida em buscar respostas, esse caminho está coberto por metros de terra acumulada através dos séculos que ninguém toca há centenas de anos. Você e eu, nós não precisamos nos meter nessas coisas, me entendeu? Nós simplesmente ajudamos os ecos dessa bagunça, as assombrações que vagam por aí. Eles mataram seus pais, será que você não entende isso?! — a última frase soou em aflição.
Lembrei de como a presença de ia e vinha depois que vi o vulto negro pela primeira vez, em como seu rastro permanecia gravado em mim mesmo em intervalos longos e a familiariadade surgia antes de seu aparecimento sem nenhuma razão. À medida que eu procurava a verdade, ele aparecia mais vezes. Tudo soava, novamente, como um jogo, e algo de importante estava guardado para o final.
— É exatamente por terem matado meus pais, Jane! Tudo que minha avó disse nesse caderno tem um mínimo de plausibilidade, e isso é tudo que eu preciso. Não quero que esse horror se repita, ainda mais com , ainda mais que… — travei, desviando os olhos, pressionando os dedos dentro de um dos bolsos. Não queria deixar os motivos claros de uma forma arrogante, então apenas respirei fundo quando ouvi a risada sarcástica de Jane.
Queria explicar que não era apenas por . Suspeito que nunca tenha sido. Desde o começo, algo me puxava para ela, algo fora do comum, que me fez conhecê-la e, de bônus, deixar que meu coração fosse tocado de outro jeito. Mas havia algo com , eu sempre soube, e se o diário estivesse correto, se meu pai estivesse…
Era nisso que eu pensava. Eu não desejava mais nada a não ser começar a explorar novos caminhos para fundamentar ainda mais essa nova ideia, e toda a Columbia que se danasse.
— Essa garota… — ouvi seus dentes trincarem de nervosismo — Será que você não entende uma vingança? Ela é uma compensação, . Nada é por acaso! Os fantasmas não estão preocupados em erros intencionais ou não. Aquela garota fez alguma coisa naquela patética inocência dela contra o próprio irmão e agora está sofrendo as consequências, é a lógica! Cadê aquele seu senso preguiçoso de não se meter em confusões desnecessárias? Céus, o que aconteceu com você?
Olhei para ela duramente. Senti uma pontada rara de ressentimento pela minha infância e adolescência apegada a Jane; por estar amarrado a ela e ao Melbourne pelas raizes mais profundas. Por ela ser a representação de tudo que busquei em boa parte da minha vida. Agora eu me sentia extremamente frustrado por não conseguir tê-la do meu lado no momento de maior tensão da minha vida, e temia que fosse me sentir assim o tempo inteiro daqui para frente.
— Não! Jane, você não entende, o lance não é ter feito ou não alguma coisa, o fato é que ela é um alvo injusto. Que a mira real e o início de toda essa merda pode estar no próprio .
Jane parou e revirou os olhos.
— Ok, do que você está falando agora?
— Não tenho muita certeza sobre essa informação. Só estou acessando essas linhas subterrâneas que você diz, mas… — falei hesitante, sem imaginar nenhum resquício sobre sua próxima reação — Acho que também era um mediador. E estava sendo perseguido por um espírito maligno.
Jane me olhou como se fosse atirar aquele diário em mim e sair correndo para alguma caverna. Ou que simplesmente gritaria comigo. De raiva, decepção ou qualquer outro sentimento que estivesse entulhado desde que tudo isso começou.
— Da onde você tirou essa conclusão pavorosa? — perguntou em descrença.
— Eu sei que parece loucura, mas me contou do acidente, ela disse…
— Sabe quantas pessoas devem morrer por causa de espíritos malignos? Isso não tem lógica, . Ele não era igual a nós, não é… — ela bufou, repetindo insistentemente a palavra “não”.
— Milhares — assegurei, à sua pergunta anterior — O mundo é um grande cemitério a céu aberto pra essas criaturas. Por isso devemos estar acima deles, pelo menos em alguma coisa. Mesmo que toda essa viagem de ocultismo seja mais perigosa que corrida de motocicleta.
— Mas… Não, você disse que ele morreu no acidente, morreu como qualquer outra pessoa morre por aí. Se essa sua fonte quer te fazer enxergar alguma maneira ritual de se livrar de espíritos na superfície, deixando que eles saibam da sua presença, é suicídio, entendeu? De que adianta salvar a vida dela perdendo a sua?
— Não é tão simples assim, ele morreu pela criatura, Jane. Ela estava naquele carro, ela o fez perder o controle, ela...
— Ele morreu, ! Não importa como tenha sido!
— Claro que importa. Alguma coisa aconteceu. Ele não apenas morreu, como foi possuído por ele. — ela me encarou em um pavor incompreensível. Como se eu tivesse feito alguma imposição de mãos que havia tirado toda a sua energia. Eu suspirei e me aproximei dela, pegando o diário de volta — Mediadores não podem ser possuídos em vida. Algo sobre limbo e corpos que pertencem às duas dimensões. Mas quando nossos corpos morrem, eles se estagnam em uma só e… Bem, é como se fosse um sinal verde para que aconteça. E se torna algo mais forte e poderoso.
Jane me encarou em desalento. Tal expressão consistia em seu corpo paralisado e os olhos escurecidos. Me lembrava de ter visto aquela reação apenas uma vez, há muitos anos atrás, quando Dundy dissera que meus novos pais me levariam embora para Henrietta ou qualquer outro lugar esquecido do Texas. Bem, quando éramos crianças, qualquer lugar longe do jardim do Melbourne parecia ser o Texas ou a Europa.
Queria me corrigir de uma forma apropriada, mas aquele era o único raciocínio que eu tinha na cabeça.
— Certo — concordou Jane em ironia. — Isso não faz o menor sentido. O mundo espiritual não é regido por regras tão simples, ou tão complexas… Digo, para nós, os fantasmas gritam ao invés de sussurrar, estão um milhão de vezes mais presentes do que para as pessoas comuns, mas isso não quer dizer que possam se apossar de nós depois da morte, isso não… — Jane balançou as mãos e umedeceu os lábios, deixando para trás uma respiração pesada, os pensamentos embaralhados — Quer dizer que aquilo lá que você quer encontrar é um fantasma desconhecido? Um outro cara que fez algum ritual macabro e seguiu caminho até o corpo de ? E que além de matá-lo, agora quer matar sua irmã por algum tipo de vingança estendida? Por que isso, ? Não faz sentido. E se fizer, ela vai morrer de qualquer jeito.
Nas palavras de Jane, isso parecia inevitável.
— Eu não sei, é exatamente por isso que preciso dar um jeito de encontrá-lo. Seguir o caminho até a voz por trás daquele rosto. Mas pra isso… — parei e engoli em seco. Encarei o caderno e senti uma agitação desigual pairar no meu peito. Fechei os olhos para me acalmar. O que sairia da minha boca seria exatamente algo como: mas pra isso, preciso contar à sobre isso tudo e facilitar meu acesso à seu irmão, mas queria encerrar aquele assunto com Jane o mais rápido possível — Ainda preciso pensar.
Pensar — ela repetiu a palavra com sarcasmo, colocou as duas mãos na cintura e recomeçou a andar — Acho que, se chegou a todas essas conclusões, você já pensou. E só pode estar maluco. O que você quer com isso, afinal?
Respirei fundo enquanto a vi se aproximando com seu olhar cravado no meu rosto. Tive uma breve visão do acidente que eu ouvira, e imaginei o que teria acontecido se , ao menos, tivesse uma morte pacífica. Uma imagem vagamente cinza me mostrou que, certamente, sua alma estaria em repouso absoluto, sem mágoas restantes. Eu, destinado a isso, conheceria e talvez as coisas fossem mais fáceis sem para influenciar Margot e torná-la alguém difícil de ser despachada. Parecia algo bom, desejável. Me dava um certo tipo de esperança.
— Só quero que tudo termine bem — respondi, em um tom abafado, cansado. A figura adormecida desse futuro idealizado era tão estonteantemente importante pra mim que eu não conseguia começar a compreender ou lhe dar forma, mas ele estava ali, vivo e pronto. Era algo mais, algo maior, alto que importava. Algo sem etiqueta de preço. Algo conquistado. Eu só queria que Jane o visse da mesma maneira. — Talvez possamos libertar . Talvez essa seja a forma de acabar com tudo isso, e não apenas dispersar e ganhar tempo.
Talvez seja isso que o Destino não queria que Jiyeon soubesse. Talvez essa seja a quebra proibida das leis naturais. O desequilíbrio de um universo inteiro.
Bem, eu era egoísta o bastante para querer que o universo inteiro se fodesse.



Quando chegamos ao andar debaixo, Dolores dormia profundamente na velha cadeira de balanço da sala.
Estava tarde para ir embora. A chuva descia violentamente no jardim e entrava sorrateira pelo rodapé da porta de entrada. As luzes fluorescentes piscavam em ameaça, e não sei como consegui mandar uma mensagem para minha mãe, avisando que eu não dormiria em casa naquela noite.
Dormir novamente no Melbourne se tornou uma sucessão de momentos nostálgicos e estranhos.
Primeiro, eu e Jane guiamos Dolores até seu quarto no andar de cima, onde tudo parecia no mesmo lugar, incluindo o cheiro de tabaco e whisky barato. Aproveitei para depositar o Dalmare de presente na sua mesinha-de-cabeceira.
Em seguida, nós dois limpamos a cozinha e os demais corredores em um silêncio absoluto. Um silêncio no Melbourne era assustador; ensurdecedor. Contudo, serviu para confirmar a hipótese de Jane: estava vazio. Mesmo com todas as camas no mesmo lugar, e os brinquedos espalhados pela casa, não havia nenhum rastro infantil sequer.
A situação não era muito clara no início, mas se as reclamações de Dundy sobre o novo prefeito estavam corretas, ele havia desempenhado um grande esforço para pressioná-la a vender aquela propriedade da pior forma possível: tirando as crianças. Imaginá-la sofrendo, perdendo seus bens preciosos e começando a divagar por aqui sobre esquisitices de documentos históricos, doeu em meu coração de novo.
Na hora do jantar, Jane conseguiu achar alguns pacotes de macarrão com queijo e usar o resto de gás que ainda tinha disponível. Comi sem prestar muita atenção, limitando minhas palavras em uma atitude clara de não querer muita conversa. Se começássemos, ela certamente concluiria seus pensamentos sobre o assunto do sótão e eu estava exausto demais para isso.
Antes que minha bateria acabasse, fiz uma lista de números dos melhores neurologistas e outros centros clínicos que conhecia, graças aos simpósios e seminários organizados pela Columbia. Infelizmente, algo que me dizia que nem com todas as notas perfeitas do mundo faria com que um deles me atendesse, o que me fez cogitar uma conversa com meus pais. Eu não fazia ideia de como seria isso.
Por um instante, pensei neles com tamanha saudade que me era um tanto estranha. Desde que me mudei, era normal ficar sem vê-los por 2 meses ou mais. Hoje, em especial, tudo que eu queria era abraçá-los e passar uma noite inteira em frente à lareira da sala de estar enquanto assistíamos a qualquer coisa tosca na TV. Hoje, eu os amava de uma forma pura e especial. Estava vendo neles o que sempre soube que eram, mas agora sem as amarras de um passado mal resolvido: meus pais. Meredith e Ryan, assim como Jooheon e Mary, nasceram para serem exatamente o que eram. Aquela casa grande, que tanto me assustara no início, parecia o lugar certo para se estar. Hoje, eu queria agradecê-los por tudo, mesmo que palavras nunca fossem o suficiente.
Mais tarde, eu e Jane conseguimos garimpar algumas roupas velhas e surpreendentemente bem passadas nos velhos armários dos garotos que chegavam aos 17 anos. Coloquei uma calça de moletom e uma camisa larga demais para um adolescente. Separei as minhas em uma cômoda perto de uma das camas, onde me sentei enquanto desligava meu telefone e poupava o quanto pudesse de bateria. Jane entrou logo depois, usando apenas uma camiseta grande, mas que não chegava nem à metade das coxas.
— Mandou lembranças minhas à sua mãe? — a pergunta era debochada. Ela retirou os brincos e os colocou na mesa ao lado. Eu suspirei e balancei a cabeça.
— Ela sabe que estou com você, é informação o suficiente.
— Temos sorte por ter o Ryan. Ou vamos esquecer que Meredith tem um pavor terrível que eu te leve embora daqui? Ela não nos acha compatíveis porque não temos a mesma idade — ela se aproximou até se sentar ao meu lado, pegando em um dos meus dedos — Mas no fundo, ela não está errada. Eu te levaria embora comigo, sem pestanejar. Antigamente, não tínhamos nada e provavelmente seríamos assassinados pelo sistema de saúde britânico, mas hoje eu com certeza faria isso. Podíamos ir embora. Cuidaríamos um do outro, como sempre fizemos. Bem aqui, na nossa casa.
Jane se aproximou ainda mais e, desconcertado, me afastei. Engoli em seco, sabendo que não estava me sentindo perfeitamente bem, sabendo que aquelas ideias já não batiam tanto comigo, e me odiei por não saber expressar de outra forma.
— Acho que é melhor dormirmos. Temos que sair cedo amanhã.
Ela me encarou em confusão. Não fiquei muito tempo preso nisso. Apenas puxei os pés para cima e me preparei para me deitar, quando ela fez a mesma coisa e grudou seu corpo no meu, deitando-se ao meu lado.
— Jane… — comecei a falar, pronto para protestar pela aproximação repentina e argumentar o pouco espaço da pequena cama de solteiro, mas ela falou primeiro.
— Não é como se nunca tivéssemos dormido assim.
Suspirei, pensando com frustração em todas as vezes em que não me importei em refutar todas as insinuações repetitivas sobre eu e Jane. Realmente, em toda a minha vida, não fazia a menor diferença. Eu era um fracasso para organizar os blocos referente à minha vida amorosa, mas sabia que amava Jane. Amava nossa infância, nossa relação, tudo que representava nossa amizade e nosso segredo conjunto, uma vida anormal compartilhada. Eu a amava. Mas quando conheci , descobri que o amor tinha mais vertentes do que eu sequer imaginava.
Isso me deixava estranho e confuso perto de Jane, como nunca imaginei estar. Parecia mais fácil descobrir a cura do câncer do que enfrentar aquele dilema de vez.
— sua voz ecoou pelo quarto escuro e silencioso. Ela contrastou pela chuva, e murmurei apenas um “hum” em resposta, distraído demais com a visão do teto — Se tudo der certo no final, ainda podemos pegar aquele barco e ir embora para o Caribe, como dizíamos antigamente?
Ela soava animada quando mais um clarão invadiu as janelas e mergulhou o quarto em sombras grotescas. Permaneci imóvel. Não era hora de ser um mentiroso. Não com ela.
— Acho que não quero mais ir embora, Jane.
Senti ela se mexer ao meu lado. Mais um momento de silêncio.
— Você vai me abandonar? — perguntou em um fio de voz.
— Eu não disse isso.
— Mas também não vai ficar comigo.
Respirei fundo, pensando, pensando, pensando.
— Jane…
— Você me ama? — ela se virou repentinamente para mim, agora deitada sobre os ombros, me encarando do escuro.
Mantive os lábios traçados em uma linha fina, encarando-a sem mudança de expressão.
— Sim. Eu amo.
Jane não se mexeu diante da resposta. Em vez disso, fez outra pergunta, em um sussurro quase inaudível, os lábios trêmulos de hesitação:
— Você é apaixonado por mim?
Eu não enxergava o fundo de seus olhos, mas disse a resposta mesmo assim.
— Não.
Se antes estava apenas silencioso, agora parecia que o mundo havia parado de respirar. A morte de todas as coisas vivas deixava rastros naquela quietude. De início, achei ter soltado apenas uma resposta, mas agora, parecia ter sido mais do que isso. Era um anúncio, um recado, uma advertência. Meu inconsciente trabalhando automaticamente.
Eu sempre fui um mentiroso. Até mesmo quando dizia a verdade, sempre dava um jeito de não a deixar escapar 100%; retia uma grande porcentagem dentro de mim, porque era assim que eu sabia funcionar — era mais seguro não se entregar por completo. Mas aquele “não” tinha saído sem nenhum atrito. Não era um não disfarçado de eu acho que não, ou talvez não, ou qualquer coisa que remetesse a uma incerteza do que está sendo dito. Era totalmente e genuinamente verdadeiro, mais sincero do que eu havia sido durante a vida inteira.
E, como sempre pensei, a verdade sempre era o caminho mais difícil.
Ela ergueu o tronco devagar, e fiquei apreensivo. Imaginei uma gritaria, ou diversas perguntas, mas ela apenas respirou fundo e baixou os ombros.
— Você sabe como eu me sinto?
— Jane…
— Não, a culpa é toda minha — ouvi sua voz falhar ao mesmo tempo em que ela se levantou rapidamente. Ergui as costas para me sentar, jogando as pernas para fora da cama — Fui muito estúpida de pensar que era só uma questão de tempo. Que você algum dia perceberia que eu era a pessoa certa, ou a mulher da sua vida e toda essa baboseira brega que eu só quis ter com você. Quando eu iria imaginar que apareceria uma garota qualquer que… Argh! — seu rosto estava vidrado em uma careta de choro. Os passos eram pesados, indo de um lado para outro — Como ela fez isso, ? Como fez você se apaixonar por ela? Você sabia desde o início que ela iria morrer, pelo amor de Deus! Como se apaixonou por uma garota que não sabe nada sobre você? Não sabe da coisa mais importante…
— Jane, não é assim que as coisas funcionam…
— Eu sempre estive aqui! Eu! Eu te amei, te esperei, tive certeza de que com você as coisas precisavam de tempo e não tive pressa porque éramos um do outro e nada abalaria isso…
— Para com isso… — levantei, falando calmamente.
— … mas então você começou a ficar estranho, a mentir para mim, e Deus, , mentir logo para mim! Mentir por causa dela… Por que, ? Por que tem que ser ela? Por que não eu, que sempre estive do seu lado? Eu não entendo...
— Jane, para com isso — trinquei o maxilar, afastando-a pelos ombros. Agora suas lágrimas eram visíveis, assim como os soluços. Eu me sentia frustrado, cansado e perdido. Odiava me sentir um canalha por estar sendo honesto — Para de atribuir culpa a uma coisa que não temos controle.
Era inacreditável até mesmo para mim: se despir do controle. Da lógica que regiam meus passos. Amor era só uma pequena porção da infinidade de coisas que estavam suscetíveis às mudanças aleatórias a seu bel-prazer. Eu não tinha como prever os infortúnios bizarros que o Destino queria me propor. Não controlava o jeito que meu coração se comportava quando via , mesmo que tenha achado que controlasse, por muito tempo.
O choro de Jane se tornou mais alto. Parecia derrotado e esmorecido. O tipo de sofrimento que eu sentia fisicamente em mim, e parecia me dilacerar em mil pedaços. Um dos dedos se esticou em minha direção.
— Não me venha com esse papo de controle, . Mais cedo ou mais tarde, você se tornaria um e então, finalmente, se envolveria com uma garota rica e fina o bastante para a sua familiazinha feliz…
— Não, Jane…
— Eu acreditei que não, mas olha só pra você! O que diabos tem a ver com você?! Sempre rimos de garotas certinhas e fofas, controladas pelos pais e batalhando entre si para verem quem seria a próxima socialite da jogada! Sempre tive certeza que você não acabaria com nada desse tipo, e agora…
— Não era para as coisas acontecerem dessa forma, Jane — interrompi, com os nervos se chocando em pré-combustão. Odiava ser levado para uma discussão daquelas naquele momento, mas sentia que se não fosse agora, não existiria outra oportunidade e eu estaria estendendo algo que já estava estendendo sem saber: a ilusão de Jane. Molhei os lábios e continuei: — Eu devia ter deixado as coisas às claras há muito, muito tempo. Me desculpa se não fui capaz disso, mas agora preciso que você me escute… Ei, olha pra mim — puxei seu pulso quando ela desviou os olhos — Você é e sempre foi minha melhor amiga e salvadora. Sem você aqui, eu teria enlouquecido de vez com as aparições, e isso sempre ficou marcado em mim. É injusto você questionar sua importância na minha vida, é totalmente sem nexo. Nos tornamos amigos e parceiros, e nunca me importei em ficarmos desse jeito porque toda a minha verdade estava ligada em você. Não havia por que esconder meus medos, minhas alegrias e meus desejos. Todo esse segredo louco que me afastou das pessoas não tinha nenhuma relevância com você. Isso é de um puta mérito, você entende? Sempre valorizei muito isso entre a gente — reiteirei, me aproximando dela, tentando tirar uma mecha de seu olho, que foi negada quando ela se afastou de meus dedos. Suspirei e levei uma mão ao cabelo — Mas… Era isso. Você, pra mim, é uma grande amiga, mais especial do que qualquer outra, mas não consigo ir além disso. Quando ficamos juntos, pensei que seria um problema no começo, mas você fez as coisas se tornarem naturais e despojadas, o que me deu segurança pra me envolver sem preocupações porque era você. Mas, de novo, não consegui ir além disso. Por favor, Jane…
— Para. Eu não quero mais ouvir… — suas mãos se desvencilharam das minhas novamente, enquanto seus soluços se tornaram mais constantes.
— Você precisa me ouvir, Jane; eu não planejava me apaixonar pela . Não planejava me apaixonar por ninguém. Te disse e repeti várias vezes que eu não sabia o que era isso, ou a importância disso tudo, mas aconteceu. O que é louco, porque já cheguei a pensar que jamais ficaria com alguém que não compartilhasse da minha realidade. E se pudesse, eu juro, você teria sido essa pessoa, porque nunca imaginei um futuro onde você não estivesse, Jane, mas acontece que descobri que esse tipo de coisa foge totalmente das nossas mãos. Não quero te fazer chorar, nunca quis, e também não posso permitir uma chance entre nós porque isso te magoaria, Jane, eu te magoaria…
— Não! Você não tem como saber…
— Sim, eu tenho, porque agora eu sei como é estar apaixonado e é uma confusão caótica onde a razão não existe. Sei que entende do que estou falando, e não posso mais mentir pra você. Não pra você.
Ela parou por um segundo e fixou os olhos no chão. O lábio inferior tremia com o choro, e o maxilar trincado forçava o soluço goela abaixo. Jane era a própria imagem da mágoa e da decepção; eu podia ver todas as palavras odiosas que queria me dizer, que queria soltar pela boca entreaberta, mas todas elas se amontoavam na garganta e a sufocavam. Eu me sentia miserável quando olhava no fundo daqueles olhos.
— Prefiro morrer a ter que ver você com aquela morta viva — ela apressou os passos até a porta, batendo nos meus ombros no meio do caminho e virando-se quando pegou na maçaneta — Prefiro me enforcar a ter que ver você morrer por causa dela! — e bateu à porta com força quando saiu.
Desabei no colchão, apertando o travesseiro para não gritar, desejando que tudo aquilo fosse um pesadelo.



Aquele smoking não serviria de nada contra aquele frio.
Sem contar a gravata ridícula que apertava minha garganta como um torniquete. Preferia pensar que a sensação de sufocamento vinha exclusivamente dela, e não por causa da minha cabeça em uma confusão de chamas.
O homem de meia-idade finalmente tirou as mãos das barras do meu paletó e se afastou para uma olhada panorâmica, adquirindo um brilho estonteante no olhar, e um suspiro alto escapando pela boca. Minha mãe, sentada logo ao lado, levantou-se imediatamente, levando as mãos aos olhos quando eles ficaram um pouco mais brilhantes com a imagem.
Ah, pelo amor de deus.
— Ah, Deus! , você está tão bonito! — choramingou, se aproximando de mim enquanto alisava o tecido — Tão lindo, céus, há quanto tempo não te vejo assim?
— Qual é, mãe… — sussurrei, constrangido e a contragosto. Mesmo que só estivéssemos eu, ela, meu pai ao telefone no canto do cômodo e o alfaiate com sotaque italiano, ainda era um exagero.
— Não reclame, quando eu vou te ver assim de novo? No seu casamento, quem sabe, caso você decida me fazer esse agrado — disse ela, me encarando de soslaio enquanto vasculhava falhas na roupa que enxergaria melhor e mais rápido que o italiano — Ryan, venha ver seu filho! Você não bagunçou seu cabelo, não é? E esses brincos, não pedi pra você colocar só um deles?
— As garotas gostam de vários. Não quer que eu arrume um casamento? — dei de ombros, segurando uma risada. Ela estreitou os olhos.
— Se isso garantir alguma coisa, filho, eu juro que até permito que você levante as mangas e mostre essas tatuagens. Agora deixa eu ajeitar essa gravata — ela balançou a cabeça e arrumou o que eu havia desarrumado. Me senti menos sufocado, mas a sensação não passou. Duvidei que a culpada fosse a pobre gravata. Ignorei que o motivo fosse toda a energia estranha daquela noite que se iniciava em New York, me trazendo outro daqueles sentimentos ruins.
O homem a mais na sala me encarou novamente de cima a baixo, com uma fita métrica atravessada nos ombros e os lábios entre os dentes. Um outro sorriso pintou seus lábios depois de eu ser delicadamente corrigido pela minha mãe. Ele bateu uma mão na outra, satisfeito, apontando para a cortina atrás de mim.
— Você está espetacular, meu jovem! Se não fosse tão novo, já estaria nas minhas mãos. De outro jeito, é claro — ele me deu uma piscadinha e minha mãe soltou uma gargalhada. Em um movimento, ele puxou a cortina e revelou um espelho imenso, cravejado de luzes nas laterais e que faziam eu me sentir em um holofote no centro do Super Bowl.
No reflexo, estava um cara que, sinceramente, eu nunca havia visto na vida. O cabelo estava perfeitamente alinhado, o smoking impecável, um relógio que custava uma Ferrari e a quebra do visual que se dava pelos brincos e pelos piercings que, facilmente, surpreenderiam multidões de granfinos que nos esperavam do outro lado da cidade. Fiquei imóvel por um momento, não pela transformação quase brusca pelas mãos de minha mãe, mas sim, também, pela percepção de parecer outra pessoa. Era meio louco pensar como algumas roupas e um corte de cabelo faziam isso com você. E tremi um pouco quando percebi que, pelo menos por uma noite, eu queria sim ser outra pessoa.
Queria ser um cara que não se chamasse e não visse fantasmas para poder dançar em paz com a garota dos sonhos sem se preocupar em contá-la no fim da noite que precisávamos invocar o espírito de seu irmão para que eu pudesse fazer umas perguntinhas.
Porra, eu queria mesmo isso.
No entanto, eu seria movido pela caçada. E precisava falar com ela antes que o sentimento inconcluso da busca me devorasse.
Seria melhor que ela me chamasse de maluco ou saísse correndo, mas as circunstâncias me diziam que as chances de , uma garota com experiências válidas nesse departamento, e que variava loucamente entre a credulidade da insônia e o ceticismo social por muitas vezes, dar um passo para trás eram quase nulas.
Enquanto minha mãe continuava murmurando elogios sobre o trabalho do — agora eu ouvi — senhor Tamazzo, meu pai se aproximou enquanto guardava o celular. No meio do caminho até mim, lhe ocorreu que todas as taças estavam vazias. Com um assobio, uma quinta pessoa saiu do vão claro da porta, obedecendo aos sussurros de Tomazzo, enchendo as taças com silêncio e eficiência. Minha mãe mal percebeu as trocas de olhares. Apenas se sentou com o homem mais à frente enquanto conversavam sobre tecidos e botões.
— E então, posso saber quem é você e o que faz no corpo do meu filho? — Ryan debochou, posicionando-se ao meu lado enquanto nos encarávamos pelo espelho. Eu era um pouco mais alto do que os seus 1,78, mas, naquela noite, estava mais parecido com ele do que jamais fui.
— Corta essa, — resmunguei, fazendo-o rir baixo — Eu precisava mesmo de tudo isso? É só uma noite.
— Mas é uma noite especial, se esqueceu? Ela tem a ver com o seu futuro, e você sabe que o seu futuro é importante pra nós — ele passou uma das mãos em meus ombros, alisando o tecido — Mas a elegância é importante pra sua mãe, então não discuta, não temos o que fazer.
Soltei uma risada, assentindo de leve com a cabeça enquanto ele apertava meus ombros mais uma vez.
— Tive uma resposta do dr. Buschnem — sussurrou logo depois, dando uma rápida olhada para o lado, verificando que mamãe continuava rindo — Ele disse que podemos internar a Dundy o quanto antes e que vai examiná-la minuciosamente. Nada vai escapar dele, eu te garanto. E aí poderemos ajudá-la.
Virei a cabeça para ele rápido demais. Queria abrir um grande sorriso, um que não devesse ser aberto aqui, agora, porque seria atípico demais e chamaria a atenção da minha mãe de uma forma desnecessária. Mas uma alegria imensa surgiu de qualquer maneira.
— Muito obrigado, pai — em meu ombro, coloquei minha mão sobre a dele. As palavras pareciam poucas e pobres em relação a tudo que eu sentia.
— Para com isso, garoto. Até parece que eu não ajudaria — ele revirou os olhos, encenando uma frieza — Quanto ao Melbourne, entrei em contato com a prefeitura de Sacramento e fui informado da situação da Dolores e a propriedade. As crianças foram realocadas para outro orfanato em Newcastle depois de uma inspeção surpresa em que várias inadimplências foram encontradas, o que não agradou em nada à assistência social. Isso aconteceu há pouco mais de 6 meses.
— Entendo. Mas, pai…
— Relaxa, já me coloquei à disposição como advogado da propriedade para reaver, pelo menos, o nome limpo e a integridade do Melbourne. Mas, serei bem sincero, — ele jogou os braços para o lado, virando-se para mim, averiguando mais uma vez os ouvidos de minha mãe — Não posso garantir que Dolores volte a fazer, bem… O que fazia antes, entende? Se descobrirmos o que ela tem a tempo de tratá-la e garantir sua lucidez para ser responsável por novas crianças, tudo bem. Agora, se ela se mostrar totalmente incapaz…
— Tudo bem, pai, fica tranquilo. Não é como se eu não estivesse pronto pra essa possibilidade.
Ele apertou os meus ombros em solidariedade e dei um sorrisinho contido. Não era como se eu fosse surtar; eu já estava agradecido demais. Só me restava ter pensamentos positivos de que Dundy melhoraria e reaveria todas as suas crianças para que pudesse, pelo menos, morrer em paz.
— E a Jane? Não te vi falar nela desde que chegou.
Observei seus gestos precisos na organização da gravata. Desviei os olhos dos seus para que o amargo em minha boca não ficasse tão evidente pelas palavras.
— Ela está bem. Tivemos uma pequena discussão.
— Mesmo? Por isso não a convidou pra hoje à noite?
— Consegue imaginar Jane Sullivan num evento desses?
— Consigo imaginar Jane Sullivan em qualquer lugar que você estiver.
Não era intencional, mas o jeito como o encarei depois das palavras soaram um tanto grosseiras. Ryan franziu o cenho diante da minha expressão e soltei um suspiro pesado, cansado. Era literalmente como ser o último a saber de uma grande fofoca.
— Depois da nossa conversa, isso talvez não seja mais tão verdade assim. E — interrompi-o antes que perguntasse — eu não quero falar sobre isso agora. Tudo bem?
— Como quiser — assentiu, voltando a se concentrar no espelho.
Os saltos de Meredith faziam barulho sobre toda a sala de mármore. Quando se levantou e largou a taça de vinho, entendi que dali há pouco estaríamos a caminho da mansão no Queens. Em um movimento rápido, peguei o telefone no bolso e chequei as mensagens ou ligações. Nada.
Esse nada estava seriamente me matando.
Não tinha falado com desde a nossa conversa no sótão e era terrível imaginar que ela possa ter mudado de ideia depois da minha cena emotiva e quase sem contexto. Essa desculpa parecia ridícula quando eu me lembrava que a conhecia e que nada disso a abalaria a ponto de me dar um gelo. No entanto, bem, era exatamente o que ela estava fazendo.
Insistir por si só já não combinava muito comigo, mas alguma ansiedade de outro mundo me desestabilizava a ponto de mandar uma mensagem curta todos os dias no mesmo horário, mesmo que a anterior não tenha tido resposta. Isso também era o que estava acontecendo.
O pigarro de Ryan me trouxe de volta para a realidade e guardei o celular de volta.
— Acho que entendi por que Jane pode estar chateada — sua voz continuou baixa, e agora vinha carregada de deboche. Revirei os olhos, balançando a cabeça em negação.
— De onde surgiu isso?
— Não sei, da sua cara de idiota olhando esse telefone? — ele levantou uma sobrancelha, em um tom óbvio — Vá, quem é ela?
— Não é ninguém.
— É a responsável pelos seus últimos curativos?
— Ela não é responsável de nada, os caras são uns imbecis — respondi rápido. Ryan sorriu. Droga — Olha, não é… — suspirei, aproximando-me dele, agora eu mesmo fazendo o trabalho de vasculhar a presença próxima de minha mãe — É uma garota legal, tá bom? Não é nada oficial. Só é uma coisa que está acontecendo agora e quero aproveitar.
O jeito como ele sorria era um aviso. Eu sabia que estava fodido assim que ficássemos sozinhos porque as perguntas viriam em um tsunami. Ouvi os saltos se aproximarem e tentei balbuciar sem barulho: não conte pra ela.
Ele riu, o que era péssimo, porque mamãe estava cada vez mais perto e ela não suportava risadinhas e piadas internas.
— Ah, como é bom estar vivo neste Natal — disse em voz alta e franzi os lábios para sua falta de habilidade em disfarçar.
Senti um cutucão da minha mãe em minhas costas enquanto digitava apressadamente no celular com a outra mão. Mal havia percebido que a sessão de risadas dela com o italiano tinha recomeçado virtualmente.
— Agora vamos porque todos já devem ter chegado. , não mexa mais nessa gravata e Ryan, sem whiskey — ela disse, sem nos olhar, enquanto colocava o celular no viva-voz. A chamada tocou duas vezes antes de o correio de voz dizer simplesmente: “Meredith ?”.
A voz foi cortada no meio quando ela seguiu rapidamente para fora. Meu pai arriscou um italiano com o alfaiate, agradecendo-o por todo o serviço enquanto encarei a neve caindo fina do lado de fora, que não permaneceria assim durante toda a noite, segundo os meteorologistas. Meu coração disparou novamente.
New York estava estranha. Estava me deixando ansioso sem igual.
Comecei a sair do estabelecimento, pegando meu celular entre os dedos novamente, encarando o nome da minha última mensagem. Por um longo momento considerei a questão de discar aqueles números. De perguntar se ela estava bem. Ou apenas para avisar que eu estava indo, e que isso soasse como um pedido: quero te ver. Senti sua falta.
Desta vez, a voz de meu pai me tirou do eixo, pegando em meus ombros de novo e me conduzindo para fora em definitivo. A noite era uma colônia de luzes e brilho. Quando o carro chegou, percebi como era grande e exagerado, mas tinha decidido encerrar as reclamações por algumas horas. Entramos no banco de trás e cumprimentei o motorista, que me respondeu em um tom baixo de sono e precaução.
Olhei para os números uma última vez antes do carro arrancar.


Capítulo 24 — Magia nos pontos de agulha

A festa beneficente era um espetáculo de ostentação sem fim.
Eu não entendia porque era preciso tantas decorações, faixas e vidrarias para angariar fundos para laboratórios novos e equipamentos científicos de última geração. Digo, os ricos precisavam apenas assinar um cheque. Mas preferiam fazer isso vestidos em roupas de gala, bebendo Dom Perignon White Gold e encarando uma escultura de gelo imensa da Alma Máter.
Sem contar a fonte de chocolate, aquilo beirou ao ridículo.
Tudo era realmente excessivo. A casa em si era a verdadeira atração principal. Em algumas conversas, onde estiquei os ouvidos com mais empenho para escutar enquanto mais executivos faziam uma roda em torno do meu pai, descobri que Patrick não era apenas o reitor da Columbia; o cara vinha de uma longa linhagem de pessoas, bem… muito ricas.
Não conseguia imaginar ele e nem mesmo se encontrando aleatoriamente nesse castelo. Como se Patrick estivesse sempre em uma viagem de longo prazo, ou repensando sua disposição em ter que cruzar 2km apenas pra chegar no quarto do filho. Eu não conseguia ver nenhuma sala de jantar; nenhum cômodo feito para reunir três pessoas ou menos. Algo familiar. Eu sabia vagamente da viuvez do sr. e de como o assunto exigia uma delicadeza um pouco mais formal, mas pai e filho ainda podiam se virar bem no status de família, não? Entretanto, para todos os lados que eu olhava, ainda estávamos no hall de entrada — um imenso salão com o maior pé direito que eu já vi, invadido por uma enorme escada bem no centro, que levava aos andares acima, repletos de quadros de artistas europeus clássicos nas paredes e adornos dourados horrorosos.
Foram nesses degraus, lotados de papel prateado em cima do tapete vermelho, que eu a vi.
Antes que isso acontecesse, peguei mais uma taça e me afastei ligeiramente para respirar um ar longe de todas as pessoas com quem eu deveria sorrir e acenar de forma plácida. Percebi que, para essas coisas, é possível perder o jeito e soar como um robô, mas também é possível fingir que não percebeu nada e seguir o fluxo. A relevância também fazia parte da etiqueta. Minha mãe se despediu de outras mulheres entulhadas de brilho e jóias e se aproximou de mim na mesa de bebidas, passando um dos braços pelos meus cotovelos.
— Eu conheço essa cara — disse enquanto se curvava para trocar as taças; uma vazia por uma cheia. — Está se perguntando porque não tem cerveja.
Meu sorriso veio acompanhado da ironia.
— Existe alguma coisa que você não saiba?
— Você viu que tocaram Lester Young? — sussurrou em meu ouvido, animada. Assenti, dando um gole no líquido e olhando para a aglomeração pacífica de conversas.
— O jazz combina com toda essa claridade, como num pub dos anos 20. Achei que você iria preferir Duke Ellington, sra. — zombei, terminando minha taça e puxando algo de comer da mesa que se parecia com uma torrada enfeitada com algo colorido, como vômito de universidade. Minha mãe revirou os olhos, mas sorriu do mesmo jeito.
— Duke Ellington é enérgico, pra cima, estourado. E eu amo esse vigor, mas isso aqui é um projeto beneficente, não uma matinê de carnaval. Duke se mandou daqui, ele não tem espaço.
Levantei os ombros e fiquei em silêncio. Provavelmente, não deveria beber tanto, mas puxei mais uma bebida da mesa — agora vinho, encorpado, forte como um Merlot — enquanto minha mãe cumprimentava alguma mulher de vestido vermelho que passava entusiasmada. Pelo canto do olho, pude observar Patrick em imponência marcante, trajado de um terno branco que particularmente achei horrendo, combinado com uma lapela preta no bolso da frente em uma sessão interminável de cumprimentos vibrantes, porém contidos ao mesmo tempo com toda a alta sociedade que fazia fila para falar com ele.
Para conseguir que os outros reitores das outras universidades renomadas da Ivy League e fora dela dessem dinheiro em seu próprio projeto, ele devia ser um cara com uma lábia incrível. E com um grande poder de persuasão.
Ao redor, captei alguns olhares disfarçados em minha direção. A esse ponto do ano, esses olhares poderiam significar muitas coisas. Reconheci Beverly do hospital, que acenou alegremente para mim, sem saber se deveria se aproximar ou não. Alguns professores com quem eu tinha mais contato, como Andrew Miller do Citizen e o cientista louco Dr. Dalton, bebiam e conversavam alto em um debate sobre a teoria da evolução, então me contive apenas em cumprimentá-los andando antes que tivessem a chance de me alugar.
Todos os movimentos das pessoas eram devagar, reprimidos, seguindo o ridículo protocolo de formalidade exigido entre as classes, pelo menos até que o álcool batesse em todos eles. Reconheci mais algumas pessoas do meu departamento, e outras pessoas da Columbia que, pela forma que me olhavam, só conseguiam abrir um sorriso amarelo diante do cara maluco daquele acidente maluco, lembram?
Uma insígnia que eu carregaria pelo resto da graduação, como pude ver.
Depois de alguns minutos, meu pai foi uma das pessoas a interagir com o reitor. Não demorou para que ele virasse e procurasse eu e mamãe, ainda perto da mesa, e apontasse o dedo alegremente quando nos achasse. Patrick virou o rosto e nos encarou com um sorriso acentuado. Um sorriso muito parecido com . Um sorriso que gritava causa ganha, independente de qual fosse. Um que me enojava.
Foi impossível não relacionar a imagem de pai e filho. E, talvez por isso, meu sorriso não foi tão simpático.
Curiosamente, pensei em , e de como recebeu aquele sorriso mesmo nos piores momentos. Também pensei em como meu contato com ele tinha sido reduzido a quase zero desde o natal. Também pensei se, provavelmente, Margot tivesse me destituído como ponte de comunicação e ido direto atrás dele por seus próprios meios.
Mas não. Se estivesse morto, eu saberia. Tenho certeza de que seu espectro surgiria na minha mente, pedindo para terminar o que começamos. Ou apenas me passando o cajado de seus negócios ilícitos, o que eu negaria muito rápido.
O fato não era somente que havia desaparecido, era que ele havia desaparecido após uma possível briga com . Tenho absoluta certeza de que ele não teve nenhuma participação na divulgação do que acontecera comigo e naquela festa tenebrosa, mesmo que tenha pensado nisso de imediato, e nunca desejei tanto o número de Maverick para que ela me colocasse à par da situação: onde diabos ele estava?
Meu pai e o reitor se aproximaram com grandes risadas e bastante camaradagem. Se eu não soubesse que ele era assim com todo mundo, não teria feito questão de encenar um agradável aperto de mãos e um sorriso complacente.
! É um prazer vê-lo esta noite. Por um momento, pensei que isso não aconteceria. Mas algo me dizia que o encontraria totalmente recuperado — sua voz era aveludada e alegre. O sorriso era congelado. Ele me avaliou de cima a baixo em um movimento discreto, tão discreto que, quando notei, sua mão escapava para longe e agora pegava delicadamente a da minha mãe, onde ele depositou um beijo singelo e cortês. — Sra. . Parece mais jovem a cada ano que passa. Não canso de repetir o quanto cuida bem da sua família.
As palavras soavam sinceras, o que ajudou a distrair meus pais da última frase lançada para mim, mas eu estava atento. O “totalmente recuperado” demonstrava que ele sabia, mas dizer isso aqui não fazia sentido. Ele achou mesmo que eu contaria para os meus pais que fui parar na cadeia depois de cair aos socos com seu filho atrás de um restaurante?!
Depois de fazer Meredith e Ryan rirem pela décima vez com uma piada péssima sobre promotores públicos, Patrick voltou a me fitar rapidamente e limpou a garganta, emendando sua próxima fala da forma mais natural possível.
— Bem, o seu filho é um grande achado, não só no nosso espaço mas, vou arriscar dizer, para a ciência. Tenho certeza de que fará grandes descobertas no futuro. Com isso, preciso pedir desculpas por qualquer situação embaraçosa em que você possa ter se envolvido nesse meio tempo devido a estresse, pressões, formulários e todas essas coisas que deixam um estudante agitado. Imagino que tenha passado por algumas confusões, mas somos uma instituição muito tolerante, apesar de dizerem o contrário — ele riu, erguendo a taça em minha direção — Não deve ser fácil deixar o lar dos no meio da juventude, mas você têm se saído muito bem. Espero que continue assim.
Soou como uma provocação. Aliás, foi uma provocação. Uma promessa de exposição. Dei um sorriso amarelo, conferindo o brinde que ele tanto queria e encarei meu pai rapidamente. Ele também não tinha mais o sorriso profissional, mas disfarçava melhor do que eu. Se percebeu alguma coisa, não falaria agora. A maior preocupação era Meredith captar as entrelinhas e então, lá se foi a minha paz.
— Tim-tim — agora ele sorria em escárnio, bebendo o champanhe contente, e vi o rosto de minha mãe virar-se para mim de relance. Me voltei para Patrick, com desprezo nos meus olhos, mas claramente com um sorriso no rosto.
— Não se preocupe com isso, sr. . Estou acostumado a qualquer tipo de situação embaraçosa. Só é ruim no verão, quando está quente demais para usar mangas longas e esconder as marcas, mas pelo menos consigo executar minhas tarefas como gente. Dos males, o menor — e virei a taça para mais um gole.
O sorriso dele teve uma quebra que durou poucos segundos. Meu pai abriu um pouco mais os olhos e gargalhou alto, mecânico, trazendo a atenção para si. Minha mãe enrugou a testa para mim, sem entender minha indelicadeza.
Ryan, então, começou um papo acalorado sobre qualquer coisa empresarial para disfarçar o constrangimento que eu possa ter causado. Sinceramente, não dei a mínima. Era óbvio que Patrick sabia quem tinha deixado a evidência física no pulso de seu filho, que deve ter chegado chorando para contar o caso e explicar o porquê tinha desembolsado tanto dinheiro para não ficar preso.
Patrick ainda mantinha os olhos estreitados em minha direção, mas o sorriso aberto para o que quer que meu pai falava quando virei o rosto na direção de minha mãe, ao meu lado, que apertava meu antebraço em busca de explicações. Não havia nada que eu pudesse respondê-la naquele momento e balancei a cabeça em negação. Desviei os olhos para a frente, na direção da escadaria, e fui atraído por outro grande acontecimento que me desarmou completamente.
Meus olhos não foram os únicos a se virarem.
Primeiro, meu coração disparou como um louco no peito quando finalmente notei ser mesmo ela. usava um vestido longo e prateado, cravejado de pedras mais brilhantes do que todas as luzes do salão. Seu cabelo era preso por duas mechas atrás, o batom vermelho combinava com os brincos cintilantes e os sapatos transparentes tirados de algum filme da Disney. Se usasse uma tiara, bastaria que o estúdio a desse um nome de efeito. E nunca imaginei que um visual desse tipo pudesse me deixar tão estúpido.
Jane estava certa: o que tinha acontecido comigo?
Minha mãe arfou ao lado, igualmente impressionada. Não houve holofotes, mudança de música ou flashes inconvenientes. Pela expressão de , não era para ser uma grande entrada, mas acabou sendo porque ela estava realmente estonteante. Estava maravilhosa nos mínimos detalhes.
Mas os burburinhos ao redor não se davam exclusivamente por ela. Era também para quem a acompanhava. O combo terrível que descia as escadas, juntos como um par.
segurava na curva do cotovelo de , vestido com o mesmo figurino do pai, em uma versão mais jovem e mais odiosa. Com a atenção geral, ela levantou a mão livre e acenou para conhecidos e quem mais estivesse encantado o bastante para se aproximar. Ela sorria enquanto distribuía cumprimentos ao pé da escada, como uma atitude habitual. Era um lado que eu ainda não tinha visto.
E me senti um miserável por isso. Porque, claramente, aquele sorriso não era verdadeiro e torci para que tudo não passasse de uma cena. Que aquele não fosse o motivo do seu gelo.
Tudo ficou mil vezes pior quando Patrick levantou as mãos para chamar a atenção do filho e os dois começaram a caminhar em nossa direção. Quando cravou os olhos em mim, qualquer resquício de sorriso desapareceu.
Senti que deveria começar a caminhar para a rua nesse exato momento.
Assim que se aproximaram, Patrick não perdeu tempo em começar as apresentações que — ele sabia — eram desnecessárias, mas eu já tinha notado que a atuação era parte do pacote da personalidade de anfitrião.
— Ryan! Creio que já conhece meu primogênito, — a questão de dizer o nome cheio de orgulho me entojou. Meu pai apertou a mão de , a mão boa pelo menos, já que uma pequena tala escura escapava da outra manga.
— É um prazer vê-lo de novo, . Direito, não é? Não há melhor e pior profissão pra vida, eu te garanto. Mas espero que esteja gostando. conseguiu se livrar dessa — Ryan riu enquanto apertava meus ombros. Meus lábios só emitiram uma linha fina, impossibilitados de fingir simpatia. Só conseguia encarar aquela dupla com perturbação.
— Mas garanto que será um bom exemplo na outra grande melhor e pior profissão, sr. . Salvando vidas e curando feridas. — Patrick continuou, rindo tremendamente como o som de um pássaro noturno. Sua ironia era algo extremamente sutil. — E bom, esta é , nossa melhor estudante de Jornalismo, funcionária do Citizen Co e, se Deus existe, minha futura nora — ele a puxou para mais perto e me encarou imediatamente.
Distraído, soltei um silvo alto e penetrante. me olhou com uma pitada de júbilo. Era engraçado ver como nossos rostos pareciam ligeiramente iguais: pele artificialmente maquiada, escondendo resquícios de hematomas em roxo e amarelo no queixo e nos olhos. Apertei os dedos ao redor da taça da forma menos grotesca que consegui. limpou a garganta, falando em voz baixa:
— Senhor , não…
— Ah, então já estão nesse patamar? Pode me mostrar como conseguiu convencer o seu filho, Patrick? — agora foi a vez da minha mãe interagir, fazendo uma de suas piadas preferidas sobre minha vida amorosa, mas que sempre arrancava risadas do público. Pelo menos dos adultos. Ela soltou a mão de meu antebraço e estendeu-a para , com seu belo sorriso refinado — Olá, eu sou Meredith , esposa do Ryan e mãe desse belo rapaz.
parou por um momento, pegando em sua mão com certo receio e olhando para mim de relance, como se se perguntasse se deveria fazer aquilo, mas o sorriso cativante de Meredith era capaz de quebrar qualquer temor.
— Muito prazer em te conhecer, sra. — vi seu primeiro sorriso sincero da noite. Esse era um dos poderes de Meredith.
— O prazer é meu. Você está simplesmente magnífica! É a garota mais bonita da festa — continuou minha mãe, gentilmente. corou vagamente, baixando os olhos — Você conhece o meu filho? Este é…
— Nós nos conhecemos — falei na frente, não desviando o olhar. me encarou firmemente pela primeira vez. Vi aproximar-se ainda mais dela. Aquela réplica mal feita de Patrick parecia sinistra debaixo daquela luz e daquele olhar raivoso.
— É natural que se conheçam, a Columbia não é tão grande quanto pensamos — Ryan riu, fazendo minha mãe sorrir enquanto encarava eu e ao mesmo tempo. Eu devia parar de olhá-la tanto ou ativaria o senso observador de Meredith, e isso me renderia perguntas pelo resto da noite.
Tomei mais um gole do que quer que eu bebia agora e me concentrei em olhar para os lados em busca de mais um garçom.
— Sim, nos conhecemos — disse , ainda em voz baixa, retraída, assustada; a que era a perto de — Já publiquei vários artigos dele no Citizen. é um nome bastante conhecido.
Aquilo foi dito com ternura. Com carinho. Não pude deixar de observá-la de novo. Eu tinha certeza que tinha algo acontecendo ali no meio, alguma conversa silenciosa, onde eu perguntava claramente: o que está acontecendo aqui? E ela respondia: é complicado.
No entanto, havia algo estacionado naquelas pupilas, algo mais profundo do que um “fui obrigada a estar ao lado de essa noite”. Havia algo a ver comigo, uma dificuldade em me encarar, uma apreensão de falar o meu nome. Suspeitava que algo tinha acontecido, e me arrependi por não ter ligado pra ela desde que saí do Melbourne, ou por ter trocado tão poucas mensagens porque, caramba, eu absolutamente não funciono na sociedade moderna onde as relações são pautadas em mensagens de texto, mas ainda assim, algo havia acontecido.
E isso me preocupou.
Minha mãe começou a tagarelar animada sobre o fato banal de eu conhecer uma garota. Não tinha nada mais satisfatório para Meredith do que falar sobre mim ou, melhor ainda, escutar as outras pessoas falarem. Ela estava se preparando para alugar pelo tempo que lhe fosse necessário. Com um pigarro, encarei pelo canto do olho e me voltei para o meu pai.
— Onde fica o banheiro mesmo? — perguntei em um tom normal, alto o bastante para que todos da roda escutassem. Ou para que ela escutasse.
— No andar de cima, . Terceira porta à direita.
Assenti, larguei a taça em cima da mesa ao lado e olhei para antes de seguir pelo caminho indicado.



Sempre pensei que, à noite, qualquer coisa podia acontecer.
Agora mesmo, a noite de New York era como magia, e a magia parecia ser algo terrível.
Aquele mesmo sentimento estranho que tive sobre em nosso último encontro apareceu de novo. Como se ela estivesse prestes a se esvair, levada por um sopro que destruiria tudo. Por um momento, me achei um tolo por ter me afastado dela, mesmo não estivéssemos necessariamente juntos e mesmo que misturados com dezenas de pessoas. Fora isso, também tinha a incompreensão de encontrá-la com ele. Era o tipo de coisa que eu queria uma explicação, mesmo sem saber se merecia.
Andei pouco até a seção onde indicava o toalete masculino, destacado abaixo de ripas de madeira com luzes de natal ainda enroladas sobre elas. Uma decoração em boho que eu não esperava encontrar aqui, nesse palácio de mármore branco. Ao lado dela, uma porta de vidro se abria para um espaço aberto, perfeitamente ilustrado com um pequeno adesivo de cigarro, explicando que o vapor do lado de fora não era apenas da neblina.
Apoiei as costas ao lado da porta, esperando. Não havia ninguém nos corredores àquela hora e esperava que assim se mantivesse pelos próximos cinco minutos. Deveriam existir um milhão de banheiros nessa casa, e, pelo meu conhecimento do protocolo de formalidade, era um tanto indelicado ficar pisando em um mais do que duas vezes durante uma festa daquelas.
Ouvi os saltos batendo no piso liso há alguns metros atrás. Mais dois minutos. Pensei em dar uma olhada, mas isso certamente a faria mudar de ideia. Quando finalmente ela estava tão perto que podia ouvir seu suspiro, me apoiei nos ombros e esperei.
No momento em que curvou para as luzes da madeira, peguei em seu pulso com firmeza, sem sair do lugar. Ela arfou com surpresa, virando-se em minha direção com os olhos bem abertos.
— Vem comigo — murmurei, olhando para a área dos fumantes e para os corredores. Fora as conversas altas ao longe, misturadas com o jazz, não havia mais nada. Puxei-a para dentro do banheiro, ouvindo seus resmungos que soavam como um “tá maluco?”, mas ignorei até que enfim trancasse a porta atrás de mim.
Não dava tempo de admirar a arquitetura fantástica do cômodo, mas era mesmo necessário ter uma banheira em um toalete social?
— Como você está? — foi minha pergunta imediata.
— O que quer dizer? — ela não olhava para mim. Seus olhos vasculhavam cada parte do porcelanato e, principalmente, a porta.
— Quero dizer seu sumiço — respondi prontamente, adquirindo um tom mais pesado inconscientemente. Não era exatamente o que eu pretendia — E agora, você e . E, hum… Tudo, eu acho.
— Não é o que está pensando — respondeu depois de alguns segundos. Agora soava com mais firmeza, mais confiante. desligou aquela personalidade adquirida no andar debaixo tão suavemente que levei um momento para perceber que havia terminado.
Apesar disso, ela parecia nervosa. Pressionou a ponta dos dedos nos olhos, virando o rosto para o lado como se quisesse fugir do assunto ou encurtá-lo o máximo possível.
Ergui uma sobrancelha, levando uma mão à terrível gravata enquanto tentava afrouxar-lá mais uma vez.
O que eu estou pensando?
— Eu não voltei com .
— Teria sido uma escolha péssima, se me permite dizer.
— É sério, . Eu não tive… — ela parou, agarrando seus quadris enquanto olhava o piso novamente. Depois, respirou fundo uma vez e ergueu-se novamente para mim — Esquece. Não quero falar disso agora, não tem importância.
— Você veio até aqui. Vai procurar alguma desculpa pra não falar comigo? — indaguei, dando um passo à frente. Pareceu deixá-la desconcertada. Olhando de perto, ela parecia pálida e frágil na luz amarela que vinha das luminárias atrás dela, a pele embaixo dos olhos mais escura que qualquer coisa. Ela parecia menos do que a sugestão de . Sua feição gritava por problemas e eu não estava disposto a desistir antes de descobri-los.
— Não é nada disso.
— Então o que é? — insisti, já que cada nervo do meu corpo começava a pirar com o seu silêncio. Ela virou-se para a parede, expirando densamente, como um autocontrole. — Qual é, , olha pra mim…
— Você quer saber o que está acontecendo? — com um passo rápido, agora ela se aproximava de mim, fixando os olhos nos meus de um jeito muito sério. O lábio tremia levemente quando sua voz saiu cortando o ar: — Aconteceu que tive um… Sonho, ou seja lá o que seja aquilo de novo, algo estranho que é real demais para ser chamado de sonho. Algo que se parece com uma memória — a voz tremeu no final. Suas pupilas seguiam cada movimento da minha, inquietos de novo, assustados com as próprias palavras.
Não manifestei um único som em resposta. Algo dentro de mim sabia, mas não compreendia. Eu precisava de mais informações.
— Do que exatamente você está falando?
— Não sei se eu deveria…
— Já é muito tarde pra você começar um assunto e não terminá-lo, . Do que você se lembrou?
A boca dela se abriu em um curto choque. Não percebi exatamente as palavras saindo, até que saíssem. No fim, não me importei. Eu estava tão sério quanto ela e ainda mais ansioso pelo relato.
As lembranças finalmente estavam voltando, o que significava que eu estava nelas, e talvez esse seja o motivo de sua raiva implícita.
Engolindo em seco, ela começou:
— Há algumas semanas, avisei a Tony que iria visitar . Ele não disse que iria junto e também não pedi que fosse, sempre tratei como um hábito reservado. Você ainda estava se recuperando do acidente com as vigas e tínhamos aquele assunto pendente sobre Margot. Na verdade, eu estava repensando sobre aquela proposta maluca de exumação porque menos de seis semanas antes, ela foi encontrada em uma poça de vômito, e assim me considerei dispensada de ter de ver aquilo de novo, só que com insetos decompositores. O que importa é que fui à Woodlawn naquele dia e acabei demorando demais, e quando me preparei para voltar, eu ouvi… Ouvi a voz dela.
Engoli em seco.
Era tarde demais para implorar que não fosse aquilo que eu estava pensando. Eu sabia que era.
Abri a boca para falar.
— Não — ela ergueu os dedos para que eu me calasse — Eu sei o que parece. Sei que parece no mínimo loucura porque antes eu tinha plena certeza de não ter ido a cemitério nenhum naquele dia e de me desequilibrar nas escadas de casa enquanto ia até o meu quarto terminar qualquer trabalho pendente. Eu tinha certeza. Mas então, essas imagens vieram… Reais. Tão real quanto você na minha frente agora. Eu ouvi. Não consigo me lembrar do que ela dizia, mas ouvi alguma coisa naquele cemitério. E isso não é o mais estranho. Eu vi você lá, — seu tom era levemente acusador. Ela me olhava com embaraço, e frustração por sentir exatamente isso; dúvida. A incerteza que pairava agora sobre mim — Você estava em Woodlawn naquele dia. Você estava procurando por mim, apareceu na hora certa, quando… Quando aquelas coisas… — as palavras perderam o foco, assim como os olhos. Ela voltou a encarar o chão, entrando em conflito sobre continuar ou não.
… — tentei, mas eu mesmo estava sem repertório. O que estava acontecendo ali não existia em nenhuma lista preparatória. Eu não sabia o que responder.
— Não! Não mente pra mim — sua cabeça se ergueu rápido, e ela diminuiu o espaço entre nós, depositando a história como um segredo proibido — Você sabe do que estou falando, você também se lembra! As coisas estavam nebulosas, mas agora eu me lembro, tenho certeza. Meus machucados daquele dia não foram por causa das escadas, foi porque alguma coisa me atingiu diretamente na estátua. Eu bati a cabeça, ou algo bateu a minha cabeça, eu não sei, eu não estava vendo nada… Mas você estava — o tom diminuiu. Parei de respirar — E meus curativos não foram porque andei até o hospital depois, mas sim você que fez. Depois de quase termos sido apanhados tentando escapar daquilo, quando você me acompanhou até o muro e não fez eu precisar de pontos, e você, você… Você me beijou.
Levei a palma da mão à testa. Meus músculos faciais estavam mais do que trincados, eles pareciam ter virado pedra. Me senti em um beco sem saída, sem esperanças de achar uma rota de fuga pelo vento. Tudo me dizia que não era a hora certa, ainda não, agora não…
, escuta… — minha voz era seca e sem vida. Uma voz que carregava o completo nada. Ela balançou a cabeça e gesticulou para que eu parasse, e vi a raiva voltar a incendiar os seus olhos.
— Não, eu não quero escutar se você for mentir pra mim! Mentir de novo! — ela desferiu as duas palmas no meu peito — Eu só preciso saber que não é um sonho. Que eu não sou maluca e que coisas assim realmente aconteceram. Isso foi há algum tempo, mas não parece tempo algum. Preciso saber de você, é verdade, não é?
, eu não posso-
— Foi você que fez isso comigo, não foi? — ela se afastou bruscamente, falando entredentes, a paciência se esvaindo com a gentileza. Seu olhar tinha tanta dor, revolta e agitação que as palavras saíam em tumulto — Roubar minhas memórias, fazer tudo ser um sonho… — seus olhos se estreitaram, e o peito descia e subia pela respiração cortante — Quem é você? O que é você?
Eu deveria ir embora. Deveria me afastar por tempo suficiente até que pensasse na melhor forma de esclarecer as coisas, e revelar que sim, ela não estava maluca e que as coisas estranhas daquele dia foram arrancadas de sua mente por uma terceira pessoa que não estava mais aqui. E que só por esse motivo que suas lembranças estavam sendo devolvidas.
Mas seu olhar carregado de medo e dor não deixaram que eu fosse. Em vez disso, me aproximei ainda mais dela, que olhava como se não me reconhecesse e afrouxei ainda mais a gravata.
— Acha que eu faria uma coisa dessas com você?
— Não quero achar nada, só quero a verdade.
— Você já sabe a verdade! Não está repetindo ela agora mesmo?
abriu a boca para responder, mas seu lábio inferior tremeu por quase um minuto antes que conseguisse dizer.
— E-então… Tudo aconteceu de verdade… — as palavras eram ditas para si mesma, atestando o fato. Minha expressão era mais severa do que jamais foi. Assim como com Jane, não era hora de mentir. Não mais — Você… Você estava vendo alguma coisa aquele dia, não estava? Estava vendo Margot. — Vi um leve arrepio passar por seus braços. Era como se seu desconforto fosse palpável. O medo rodeava cada palavra sua, como se ainda temesse que eu cortasse a conversa com uma risada de zombaria.
Não respondi. Não me movi. Apenas continuei olhando em seus olhos.
Às vezes, eu sentia como se minha vida fosse feita de uma dúzia de horas que eu nunca esqueceria. O semblante estático de , somado ao terrível sentimento de pavor que eu experimentava ao confirmar as coisas para ela sem fazer absolutamente nada, era um desses momentos que me marcariam por uma geração. Esperei que ela simplesmente saísse daquele banheiro e fosse para as luzes esverdeadas do estacionamento gelado e, dali, seguisse caminho para bem longe de mim. Para sempre.
O esvair melancólico de que senti desde a nossa despedida.
De qualquer forma, nenhum dos dois se mexeu. O silêncio brutal foi cortado com a vibração alta e tenebrosa de um celular. Respirei fundo antes de tatear os bolsos e puxar o meu.
O nome de piscou em alerta. Era bom que estivesse vivo, mas o momento era drasticamente inoportuno. Revirei os olhos e deslizei o dedo para recusar a chamada.
Olhei para e tentei falar com o tom mais frio que pude.
, eu juro que posso exp-
Antes que eu continuasse, uma batida brusca veio do lado de fora da porta. Eu e nos viramos ao mesmo tempo. O barulho era alto e violento, o que me fez trincar os dentes. Não estava na hora de lidar com os organismos fracos para o champanhe.
— Tá ocupado! — gritei, voltando-me pra , que ainda parecia ter sido ligada em um choque recente, mas agora conseguia me encarar com mais calma. O barulho cessou e eu respirei fundo antes de continuar: — Acho que aqui não é lugar certo pra conversarmos sobre isso. Será que…
E então, a porta se abriu em um pequeno estouro.
Para onde quer que a maçaneta tenha ido, existia apenas um buraco onde antes era o trinco. Um arfar pesado escapou inconscientemente de mim assim que me virei. estava parado do outro lado com uma expressão zangada. Uma agulha esquisita estava pousada em uma de suas mãos, iluminada por uma das luzes amarelas e sombrias que ficavam próximas à área dos fumantes. Ele estava perfeitamente de pé sem muletas, assim como naquela noite na Gibbon’s.
— Sabia que aquele rastreador de Maverick funcionava bem — ele disse casualmente enquanto guardava a agulha nos bolsos.
— Mas que porra você está fazendo? — gesticulei para a velha porta agora escancarada para o lado. Ele levantou uma sobrancelha — Ou melhor: o que faz aqui? Onde você estava?
— Duas respostas de uma vez não fazem o meu estilo, — ele começou a caminhar para dentro.
— Ash? — falou ao meu lado, com os olhos tão ou mais sobressaltados do que estavam antes — O que está fazendo aqui?
Virei rápido para ela, percebendo o que estava prestes a acontecer. Aquilo não podia ser visto, em hipótese alguma, não ainda, e sabia bem disso e ainda assim, vi quando ele não respondeu e puxou a porta para fechá-la, encostando-se na mesma. Sabia que, provavelmente, deveria estar começando a abrir a boca ou encará-lo daquela forma que gritava claramente para não dizer qualquer coisa que entregasse nosso conluio, mas era um pouco tarde para isso. Minha mente era lógica na maioria das vezes, mas meu coração traiçoeiro gaguejava entre uma batida e outra, fervendo de curiosidade com o fato de ele ter aparecido ali da forma como apareceu.
olhou de mim para e soltou um suspiro.
— Bem, detesto interromper os pombinhos, mas eu e você — apontou pra mim — precisamos conversar. Agora.
Trinquei o maxilar e o encarei com uma feição que gritava: Acorda! Já olhou em volta?
pode ficar. É até melhor que ela saiba de tudo e finalmente acabamos com essa palhaçada de trabalhar separados — ele bufou, puxando o telefone sem encará-la.
— Do que ele está falando? — a voz dela estava mais firme, mas ainda perdida. Bufei, colocando uma das mãos nos bolsos. Eu não era ingênuo; não tinha ilusões que não descobriria tudo um dia. Mas descobrir tudo fora dos meus meios de planejamento era intensamente pior.
— Como você entrou aqui, ? — perguntei com os ombros baixos e derrotados. Ele já tinha começado; eu só precisava seguir seu fluxo — E que história é essa de rastreador…
? — falou um pouco mais alto. Fez com que a encarasse por mais tempo e, em seguida, esticasse os ouvidos para a porta.
Ele suspirou e virou-se para mim.
— Fui convidado. Não sabia, ? Melhores alunos e toda essa baboseira elitista desse lugar maluco — e então, virou-se para , estendendo uma mão — Prazer, número 3. É sempre adorável presenciar o choque na cara dos jornalistas que acham que sabem de tudo.
continuou parada. Suas mãos não se mexeram para segurar a de . Ele esperou dois segundos antes de levantar os ombros e virar-se para mim de novo.
— Bem, a reação foi melhor do que eu esperava — ouvi sua língua estalar na boca enquanto me passava o celular — Precisamos falar sobre o que interessa: Margot. Os números que ela te deu naquela conversa bizarra do cemitério, lembra? Adivinha só, é a placa de um carro.
Olhei para o celular. Tinha um arquivo aberto mostrando informações detalhadas sobre um automóvel de placa KLD896, muito parecidos com os números desconexos que Margot havia dito naquela noite. A informação foi surpreendente, mas logo se tornou tenebrosa. Principalmente pelo fato de que parecia que eu já o tinha visto em algum lugar.
— Meu Deus — exclamei, tentando entender o que eu sentia, a familiaridade que colocava as respostas na ponta da língua — Isso é uma SUV? Eu conheço…
— É exatamente isso que você pensou. Esse é o carro de . Ou, pelo menos, era. E é onde entra a palavra “acidente”.
Parei por um tempo inimaginável. A imagem daquele carro agora era muito nítida em minha cabeça, uma grande SUV preta estacionada no meio da rua na festa da Gibbon’s, aquela em que vi e em momentos ridiculamente íntimos, um carro tão grande e grotesco que o fazia parecer maior do que era.
Encostei lentamente na pia, ainda segurando o telefone. O registro não era algo tirado publicamente do site da Associação de Trânsito, mas sim, dois documentos comparativos que mostravam a mesma placa em dois carros diferentes. Antes destacada em uma grande SUV, agora KLD896 pertencia a um Ford 1970 jogado em um ferro velho nos limites de New Jersey.
O celular escapou da minha mão e foi parar nas de , que estava mais agitada que o normal enquanto lia a mesma informação. Ajeitei a postura novamente, esperando seus pedidos de esclarecimento em forma de gritos raivosos, mas ela apenas lia e relia o documento nos mínimos detalhes. Olhei para , que apenas deu de ombros e expirou uma lufada de ar cheirando a álcool que veio diretamente em minha direção. Ou ele tinha passado por dias difíceis ou estava aproveitando bem a festa antes de resolver dar as caras.
— Como conseguiu isso? — perguntei, ainda tentando ligar os pontos.
— Um corvo me contou — respondeu, incisivo. Não levei muito tempo para entender; Maverick. É claro.
— Esse carro…
— Era tipo o carro mais simples daquele babaca. Qualquer americano tem uma lataria daquelas hoje em dia. Era muito fácil trocar a maldita placa e, depois de um tempo, se livrar do próprio carro.
Houve uma longa pausa enquanto observei e seu silêncio. Ela se virava lentamente para nós dois, agora despida de qualquer expressão de choque anterior ao quase saber 100% que eu era um lunático.
— O que significa isso? — perguntou para ninguém em específico.
— A resposta pro nosso mistério. Ou o começo delas — respondeu com naturalidade, com uma risada curta como uma gralha. Algo me dizia que estar bêbado ou quase isso era a única forma sã de se lidar quando se descobre que um de seus amigos é um baita filho da puta.
— Mistério? Você está investigando a morte de Margot? — ela se aproximou há alguns passos em sua direção, mas parou e encarou a nós dois — Aliás, vocês estão. Esqueceu de me contar alguma coisa, ?
, espera...
— E o papo de não metermos uma terceira pessoa na jogada? Todo aquele discurso que nós dois descobriríamos a verdade! E pelo amor de Deus, logo com Ash?! Ou , seja lá qual for o seu nome, duvido que importe — o nome saiu com escárnio de sua boca. permaneceu sem expressão grosseira. Eu sentia como se aquele banheiro imenso tivesse ficado menor, muito menor — Me diz, qual a lógica de se juntar com o cara que era seu primeiro suspeito?
— Eu duvido muito que você vá compreender tudo agora — respondeu na frente, com a voz mansa e arrastada — E sinceramente, creio que não temos tempo pra isso. O que você precisa saber agora, , de uma forma bem resumida é que embosquei esse cara pra trabalhar comigo porque há muito mais em jogo do que uma simples desconfiança sem provas de uma estudante, e eu estou falando de morte, entendeu? É muito mais do que a Columbia vai te ensinar um dia, mas acho que esse cara pode te explicar melhor em um momento mais propício. E, claro, nosso querido homem alugou um triplex na minha cabeça que me tirou toda a paz dos últimos dias quando eu não conseguia acreditar que aquele cretino tinha algo a ver com toda essa merda, mas vejamos bem… — ele estalou a língua, abrindo os braços em um grande gesto de “pois é” — Acho que fui totalmente enganado. E, como parte desse time sinistro, acho melhor começar a ponderar a mesma coisa.
Mesmo bêbado — ou perto disso —, parecia que sabia ser coerente de uma forma insanamente ácida e comum. Mesmo dizendo tudo de uma maneira que eu não diria, ainda era melhor do que se eu tentasse explicar as coisas aos tropeços como estava acontecendo antes.
segurou o celular com mais força, olhando para nós dois com surpresa e — ainda — negação. Era péssimo ver isso. No fundo, eu queria expulsar daquele banheiro por dois minutos só pra que eu tivesse a oportunidade de pedir desculpas apropriadas, e explicar a situação de um jeito menos frio e prepotente, mas algo de urgente emanava de e das informações de seu corvo. E percebi que algo estranho estava prestes a acontecer.
— Mas… O que isso explica? — ela perguntou com a voz fraca, balançando o telefone — O que tem a ver a placa antiga de ? Margot não morreu atropelada.
— Não, mas outra pessoa morreu — disse , e e eu franzimos as sobrancelhas ao mesmo tempo — Você deve se recordar disso, . Um pequeno órfão, com ainda muitos dias e noites distantes da puberdade, morto por um motorista inconsequente no meio da noite e enterrado como um indigente. Sem família, sem um nome, sem julgamento e sem mídia. Tudo acabou praticamente no dia seguinte. Não se lembra de nada?
Não existia mais cor no rosto de . A boca se abriu em um círculo infinito. A mão que segurava o telefone tremeu de tal forma que corri para salvá-lo antes que despencasse no chão. Agora quem olhava em busca de explicações era eu, que me senti totalmente confuso com o relato estranho.
— Do que você está falando? — perguntei à . Ele nem sequer se mexeu, ainda encarando como se esperasse a resposta dela. Algo me dizia que ela não viria de forma tão simples.
— Não pode ser — disse ela depois de um tempo, trincando o maxilar com precisão, mas ainda assim, parecendo mais frágil do que nunca — Como? Eu não entendo…
— A resposta está mais na cara do que parece, — ele ergueu uma sobrancelha. levou uma mão para atrás da nuca, encarando o chão como se ele derretesse aos seus pés.
Ela parecia insanamente vulnerável. Tão desnorteada que duvidei que seria capaz de responder a qualquer coisa. Eu não tinha certeza se gostaria de falar com alguém que, no momento, parecia tão facilmente exterminável.
… — recomecei, me irritando com toda a atmosfera decodificada do ambiente. Se recebeu informações privilegiadas de seu corvo, eu o atormentaria até saber.
— Sua namorada e a minha vêm de uma longa linhagem dessas pessoas que adoram falar sobre crimes e bizarrices reais. Sabe essa coisa de nerd que te contei naquele dia? Pois então. Acontece que uma vez estávamos falando sobre um crime de verdade encarou novamente, que levantou os olhos lentamente para cima — Margot tinha um estágio mal pago no New York PD e era responsável por despachar e arquivar os novos arquivos. Basicamente, ela se metia com os documentos que iriam pro lixo. Era cada coisa que rendia boas histórias depois, porque a maioria das denúncias eram ridículas ou comuns demais para se preocupar. Mas então, uma delas não era tão comum assim.
Ele trocou o peso de uma perna para outra.
— Quer contar o resto, ?
engoliu em seco, parecendo se recuperar aos poucos do estado atônito que demonstrou.
— Era… — ela limpou a garganta e olhou para mim — Uma vez, ela viu o caso de um atropelamento onde o motorista fugiu sem prestar socorro. Matou um garoto de 12 anos — sua voz tremeu. Ela respirou e continuou — Ele não tinha família ou uma residência fixa, pelo menos era o que pareceu, mas mesmo coisas assim exigem um reconhecimento do corpo. Não havia nada disso na pasta, ninguém que o identificaria, foi quase como um documento em branco. Mas a denúncia estava lá, feita por uma testemunha, e foi completamente ignorada.
— Infelizmente, Margot não conseguiu manter a curiosidade sossegada sobre isso — grunhiu. Franzi o cenho — Quer dizer, ela se sentia atraída pelo mistério, mesmo que ele parecesse totalmente falido no começo. Foi por isso que ela decidiu olhar as câmeras de segurança da rua.
— Mas ela não achou nada — disse , como se adiantasse mais uma defesa — Disse que foi até os investigadores e saiu de lá completamente ignorada. Falaram que as câmeras não funcionavam há meses, que o estoque das imagens estava zerado, mesmo que um funcionário da prefeitura tivesse garantido que os materiais tinham sido trocados recentemente. Foi uma completa frustração.
— Então você não se lembra de tudo — deu um sorriso venenoso, colocando-se em vantagem. comprimiu os lábios com surpresa desagradável. O assunto a deixava com a típica expressão de náuseas — Reza a lenda que o dinheiro comunica histórias e pessoas, e vice-versa. Margot falava muito sobre isso, sobre prestígio e poder aquisitivo dos mais ricos e como certas coisas pendiam mais leves aos sobrenomes famosos da cidade quando surgiam na delegacia. Era apenas uma das razões do porquê ela ainda estava lá; Margot queria tudo isso. Queria uma promoção, reconhecimento ou toda essa coisa que estagiários não deveriam se preocupar tão cedo. Resolver um caso arquivado era uma dessas oportunidades, uma das coisas que ela tagarelava vez ou outra comigo. Foi quando disse uma coisa que, agora, faz todo o sentido — ele limpou a garganta e me olhou de relance. Aquelas pupilas me fitaram de forma tão intensa que senti alfinetadas na pele — Ela mencionou sobre ter encontrado, repentinamente, o conteúdo da caixa preta mais escondida do mundo. Uma van parada no bar à esquerda, algo que não aparecia nas câmeras, um objeto fantasma imóvel no ambiente. Tão escondido que passou batido pela pessoa que saiu apagando os rastros. Era nesse vídeo que ela veria o carro passar. E a bendita placa.
ainda se mantinha com uma fisionomia turbulenta, agindo como se cada palavra de saísse de seus poros e a deixasse ainda mais assustada.
— D-de onde ele veio? — conseguiu perguntar, aproximando-se dele.
— Não sei, mas creio que não é difícil descobrir. Afinal, foi na mesma noite em que estava se divertindo em uma festinha particular no iate cinco estrelas em Coney Island. Uma celebração que só eu sabia, claro, mas que não me interessava no quesito clientela. Tenho certeza de que você ficou sabendo de outra versão quando ele anunciou aquela viagem de duas semanas no outro dia, não é? — virou-se para mim — Lembra quando toquei no assunto de que nos encontrávamos casualmente em 4? Pois bem, Margot usou um desses momentos para falar sobre essa parte de seu plano. Disse que estava atrás do vídeo, que extrairiam mais rápido em alguma loja duvidosa do Brooklyn e todos esses métodos sonhadores que iria tentar. E isso, de repente, fez levantar a bandeira anti-Abbott e, duas semanas depois, ela estava morta.
Perdi o fôlego por um momento. Era absurdo o quanto tudo fazia sentido. Era terrível ter de concordar com toda aquela história. Olhei para . Seus dedos eram uma gaiola compassível em torno de seu peito. Ela sentia a mesma onda de compreensão do que eu, mas de um jeito muito pior. Ela não parecia real, com aquelas sobrancelhas duramente arqueadas e a boca entreaberta.
— Isso explica muita coisa — falei, deixando que minha raiva saísse livremente na voz. Era impossível não sentir ainda mais nojo com aquela explicação, somada com o restante das coisas que tinha visto dele em carne e osso — Filho da puta infeliz.
— Não, não… — balançou a cabeça, inspirando uma ou duas vezes antes de conseguir nos encarar de novo — não. Sei que ele é um cretino, mas ele não tem essa coragem, Ash. Ele não tem coragem de sujar as próprias mãos, você sabe bem disso.
— Eu sei. É aí que a Naomi entra na jogada.
Me virei rápido em sua direção, o coração de repente martelando como louco. Encontrei seus olhos fixados nos de , que baixou os ombros ao som do nome, mas não recuou como das outras vezes. Não era necessário que ele explicasse como sabia do assunto; as diversas teorias sobre o que foi ou não compartilhado entre mim e já deviam estar sendo listadas na mente de desde que Ash entrou no banheiro.
— Tá dizendo que foi ela…
— Dirigi até aquele famigerado pub cheio de usuários de heroína pra ter uma conversa decente. Não somos desconhecidos e nem nada do tipo. Sei que lá as pessoas costumam encontrar moedas, pó, chaves de carros ou trevo de quatro folhas, mas eu encontrei uma Naomi Bailey magoada e revoltada. Adivinhe só o principal motivo disso — seu sorriso forçado brilhou na direção de , que prestava atenção com a mesma apreensão de antes.
chutou ela? — perguntei, vendo que não pretendia fazê-lo.
— Não só chutou como fez isso alegando que voltaria pra pessoa certa — ele continuava olhando , como um desafio; não é isso mesmo, ? — Ou para a pessoa que seu pai achava certa.
engoliu em seco e olhou pra mim. Olhou de verdade pra mim, profundamente. Repentinamente, era como se sumisse do lugar por dois segundos. Tempo suficiente para que eu sentisse uma pressão no espaço que nos separava, algo que se assemelhava a um desconforto, algo que exigiria uma conversa depois. Algo tão sólido que até um corvo poderia se acomodar em cima.
Então, ela limpou a garganta e endireitou a postura.
veio falar comigo há alguns dias. Eu sabia do que se tratava, então já recusei imediatamente, mas ele não estava sozinho. Patrick veio junto, falando sobre a festa e sobre como seria importante que eu estivesse lá. Eu devia saber que falaria alguma coisa sobre nós, mesmo que não dissesse tudo, mas então minha mãe também se meteu na conversa, e… — nesse ponto ela teve de parar para concatenar os pensamentos, que pareciam se arrastar de forma horripilante — Eu não tive escolha. Não esperei que terminar com repentinamente fosse ser fácil, já que nossos pais estavam por trás todo esse tempo, mas fui levada a estar aqui de uma maneira tão, tão…
— Ameaçadora? — não encontrei outra palavra melhor. Os olhos dela confirmavam tudo.
estalou a língua, nem um pouco surpreso com qualquer atitude abusiva que ou seu pai distribuíam por aí.
— Bom, seja como foi, ele não deixou Naomi nada feliz, e nada saudável, se posso dizer assim. Os pontos de agulha no braço mostram que ela simplesmente defecou pra própria vida e agora prepara drinks no bar totalmente desorientada — ele revirou os olhos, mostrando que o estado de Naomi Bailey não lhe interessava nem um pouco — A questão não é essa. Naomi continua sendo um saco, drogada ou não. O que importa é que, antes que eu fosse embora de puro tédio, ela disse algo que me chamou a atenção. E esse algo soa como “eu fiz tudo que ele pediu”.
Parei.
— Ele?
, aquele sacana — trincou os dentes, deixando um pouco da raiva contida escapar, o que queria fazer desde o início — A partir daí foi ladeira abaixo. Ela contou algumas coisas pesadas, coisas irrelevantes e detalhes que não preciso mencionar sobre a relação deles. Quando falou que sabia dos meus remédios e que Margot não ingeriu apenas aquilo naquele dia, foi como se ela tivesse enfiado aquelas botas na minha cara — seu tom baixou. Eu ainda continuava imóvel, como se essas mesmas botas estivessem sendo afundadas no meu crânio.
— Ela deu algo pra Margot? Alguma coisa que se misturou com o Lorazepam?
não respondeu. E talvez essa fosse a resposta.
Eu sabia que Naomi provavelmente estava metida na sujeira. Mas isso…
— Tive que me segurar muito pra não ir direto atrás de . Se ele ofereceu esse papel sujo para Naomi, eu não tinha motivos para manter a compostura. Mas decidi respirar e só ligar para Maverick, mesmo que não conseguisse duvidar das palavras de Naomi, ainda que duvidasse de sua sanidade. Depois, apenas me livrei do meu celular por um tempo — ele virou-se para mim — Por isso os pedidos de rezas semanais de clientes e suas ligações foram ignorados. Inclusive, bela foto a de vocês dois. Já não era sem tempo.
Olhei para de relance e desviei logo em seguida. Ela ainda parecia atônita e agitada demais para notar a zombaria de .
— Ela disse… remédios? — sussurrou, presa na palavra — Ela sabia quais eram? Como ela sabia?
— Acredito que Margot não se importou em comentar sobre o assunto com a colega de quarto, mas ela não sabia quais eram. Naomi sabia porque sabia, . Sou um idiota que costumava compartilhar bastante coisa com aquele filho da puta. Veja só no que deu…
estava constantemente jogando a relação — ou a parceria — dele com no lixo, e devia estar fazendo isso desde a conversa com Naomi. Sua fala trazia tanto desgosto que era impossível não pensar por esse caminho.
— O que Naomi deu a Margot? — perguntei depois do momento de silêncio mútuo, onde todas as reflexões estavam sendo feitas — Digo, não tivemos uma autópsia. Foi algo fulminante, mas sutil, mascarado pelo antidepressivo. Serviu de base pra história da overdose. O que pode ter sido isso?
— Eu não sei — respondeu ele. — Confesso que não consegui escutar mais nada. Ela me perturbou de uma maneira totalmente inédita, e sempre implementei a política de não me deixar ser perturbado pelos meus consumidores.
— E foi isso? Deixou ela lá trabalhando enquanto podíamos levá-la à polícia? — falou, gesticulando com as mãos — Precisamos que ela deponha, que ela fale a verdade…
— Acho que é um pouco tarde pra isso, . — respondeu , com outro sorriso forçado, mais selvagem dessa vez — Nossa bartender gata se mandou de New York no dia seguinte. E ainda não consegui encontrá-la.
— Como assim? — Ela se aproximou, com os olhos mais abertos e a expressão mais desolada — Como ela se mandou do nada? Precisamos dela! E o seu corvo? Os seus subordinados que estão em todos os lugares? Não podemos perdê-la…
— Acha que eu não sei disso? Ela praticamente confessou que matou a Margot! — interrompeu , aumentando o tom de voz, trazendo a irritação novamente. se encolheu. Eu sentia aquela raiva tomando as paredes. Não era como se ele pudesse expulsá-la em definitivo; já estava se controlando o bastante — Pelo menos as mãos dela fizeram isso! E se tudo isso foi mesmo , se ele se atreveu…
— Não. Ainda acho que não.
Olhei para ela, confuso. Esperei que fosse uma piada e que era tarde demais para começar a rir, mas ela continuava séria como uma pedra. Eu não queria acreditar que seu estado de negação era tão persistente.
, qual é! — suspirei, chamando sua atenção para mim — As coisas estão finalmente começando a se encaixar. Acho que, de qualquer maneira, Naomi quis dizer tudo isso porque era possessiva demais em relação a e estava com raiva. É uma forma de se vingar por ter sido descartada.
— Não importa o quanto Naomi era obediente ou dependente de . Estamos esquecendo de um detalhe importante. Um detalhe que talvez só eu conheça — ela olhou de mim para . Parou nele por mais alguns segundos, esperando, refletindo se poderia mesmo confiar em suas intenções. Ela cedeu logo depois, continuando: — é covarde demais para sujar as mãos e nunca teve que enfrentar nenhum obstáculo na vida porque sempre podia contar com o dinheiro e o nome do pai. Todas as ações de são controladas por Patrick , desde seu modo de andar até com quem ele se relaciona. Claro que isso não foi seguido à risca, caso contrário eu não precisaria encontrá-lo aos beijos com Naomi naquele dia — ela levantou os ombros, falando do assunto com mais repulsa e menos rancor — Não existe uma única opinião própria vinda daquele infeliz. Ele é protegido e intocável. Até que fez uma burrice que não conseguiu consertar.
— Você está dizendo que… — comecei, franzindo o cenho — Patrick apagou os rastros do acidente.
— Isso não é nada difícil pra ele, muito pelo contrário. Pagar seguranças, apagar vídeos, se livrar de testemunhas, trocar placas e carros são feitos em um único dia. Mandar para uma viagem secreta de duas semanas também — ela se locomoveu desequilibradamente para o outro lado do banheiro, como se quisesse se encolher ali mesmo e lamentar por toda a verdade. Era algo lógico sem necessidade de falar: atropelou aquele garoto e, em seguida, foi mandado para mini férias no exterior para deixar que Patrick resolvesse tudo por aqui. Eu odiava como tudo se adequava perfeitamente agora — Essa história é uma turbulência sem fim. E Naomi foi embora porque agora está no meio do fogo cruzado: nós a queremos, e Patrick logo vai querer também.
— Mas… Margot…
— Margot estava se metendo onde não devia — disse, afiado — Ela era a única pessoa interessada em um caso claramente descartado. Ela morreu por buscar a verdade, ou sei lá que nome posso dar pra isso.
— O nome é homicídio culposo, e seria um grande massacre a toda a história da reputação dos se descobrissem sobre isso — respondi, sem olhar para ninguém. Então: — . Acha que quis mantê-la ainda mais perto depois disso?
parecia um pouco sinistra parada do outro lado, encarando o piso enquanto arrastava os saltos para frente e trás, sem atenção.
— Ele sempre foi um tanto… Obsessivo. Pareceu controlar mais os meus passos depois disso. E, não sei… Fugia do assunto com raiva. Até que parei de falar sobre isso. Sempre soube que ele não era a pessoa certa para compartilhar sobre minhas ideias, mas estava mil vezes pior.
— Então não faz sentido que, na verdade, Patrick tenha mandado envenená-la? — falei, e minha voz pareceu encher todo o cômodo em uma nuvem obscurecida e profunda. Os dois pares de olhos me encararam sem grande surpresa, mas sem nenhuma vida. Suas respirações eram silenciosas demais — Quer dizer… Ah, Deus, isso é tão revoltante e absurdo…
Por um segundo, tive consciência de que meu rosto estava pálido, assim como o de , demonstrando o estado da minha mente completamente revirada com a chegada de .
— Isso é horrível. Mas… — ela sussurrou, encarando algum ponto distinto à frente. Seu vestido prateado não brilhava mais tanto assim e seus olhos eram abismos cujo fundo havia algo incompreensível — Estou prestes a dizer que faz sentido. Que existe a possibilidade… — ela fez uma careta de choro. deu um passo à frente, limpando a garganta.
— Confesso que eu não tinha pensado em Patrick — admitiu — Pelo visto você sabe de muitas coisas, .
— Eu não sei de nada. Tenho uma teoria e estou morrendo de medo dela, se quer saber. Pensar que minha vida e família giraram em torno deles nos últimos 6 anos, que insistiu tanto para que eu não continuasse com esse assunto por outro motivo que não seja puro controle… É terrível. Não consigo explicar como é aterrorizante.
— Imagino que dormir com o inimigo seja extremamente desagradável — os olhos cerrados de apareceram sob a luz, escurecidos como ficavam debaixo de seu típico boné, agora ausente. Era uma expressão que beirava ao tédio e à arrogância; percebi que esse semblante já se tornou familiar para mim — Mas isso não importa agora. O lance é que o assassino está na porra dessa festa! E ele, na verdade, pode ser duas pessoas.
Esperei a próxima sentença sair da boca de alguém, mas nada veio. Nenhum par de olhos sequer se mexeu. Eu ouvia a música alta no andar debaixo, o resquício de conversas ficando mais altas. O olhar de passou por nós dois na direção da banheira desnecessária, então para o teto escuro. Então, disse, despido de sua bravura típica:
— O que faremos agora?
— Primeiro, vamos sair desse lugar sinistro — respondeu , endireitando a postura, olhando para os lados como se estivesse sendo observada por algum buraco na parede — E então vamos à polícia…
— Não! — eu e falamos juntos. Ela paralisou, sem entender.
— Ainda não temos provas o suficiente pra uma denúncia decente — comecei, não dando oportunidade para destilar ainda mais sua insolência disfarçada — E perdemos Naomi, nossa maior cúmplice e testemunha, que sabe demais. Se tentarmos fazer uma acusação, vamos perder tempo e perder qualquer outra chance. Se Patrick é tudo que estamos pensando, vai fazer o pouco que temos desaparecer. Precisamos fazer as coisas com cuidado.
— Mas temos a placa do carro não é? — ela saiu de perto da parede, se aproximando novamente com os olhos cravados nos meus — Temos alguma coisa, algum material. Não posso ficar parada enquanto
, se acalma — instintivamente, peguei em sua mão, sem me importar se a atitude pudesse ser vista como esquisita ou não — Tem muita coisa em jogo agora e aqui não é o melhor lugar pra isso. Temos a placa, mas precisamos de Naomi, ou pelo menos de uma confissão dela, algo sólido para uma queixa, entende? E que seja inquestionável o bastante para que eles não tenham nenhuma chance de suborno.
Ela me encarou por alguns momentos antes de assentir devagar e relaxar os ombros, sem soltar as mãos. Não era um costume meu imaginar como as outras pessoas se sentiam diante de algumas infelicidades, mas com eu não apenas fazia isso, como queria sugar toda aquela raiva e frustração para mim, se pudesse. Era algo que ela certamente não merecia sentir, mas o discurso de a verdade dói, mas liberta a ajudaria mais do que eu no momento.
O barulho alto de um telefone quebrou o silêncio tranquilo que tinha recém instalado ali. suspirou até pegar o aparelho nos bolsos do smoking e apenas olhou o visor antes de desligá-lo.
— Maverick está aqui — avisou, caminhando até a porta.
— É a Sarah, não é? — se virou para a entrada. parou, encarando-a sem nenhum sinal de que pretendia responder — Tudo bem, não importa, já basta revelar só o seu nome hoje. Ela pode nos ajudar?
— Ela disse que tem novas informações, então sim, podemos levar um grande prêmio hoje — sorriu, ou aquilo era o início de um sorriso — E Maverick não costuma dar falsos alarmes.
— Minha mãe não gostará de vê-la aqui — disse, pensativa. Era um comentário de alguém que se preocupava mais com a integridade da mãe do que com Sarah — E isso também não é um falso alarme.
soltou uma risada sarcástica. Claramente, algo tinha acontecido, mesmo que eu ainda não soubesse o quê.
— Claro que não, sua mãe sabe o quanto ela é poderosa — ele anuiu com a cabeça — Mas não se preocupe, ela está muito bem escondida nesse palácio. Agora, se me permitem…
— Eu vou com você! — falou na frente. parou de sorrir — Ela é o seu corvo, não é? Ou qualquer pássaro que você queira chamá-la. Não sei como te meteu nessa, mas agora quero estar por dentro de tudo que não me deixaram.
— Melhor não, respondeu, duro e firme — Estou aqui há trinta minutos com essa merda de música na cabeça e já percebi que você é uma das estrelas principais desse circo, que inclusive, já ficou ausente demais. Volte pra perto daqueles imbecis e tente manter a classe que te ensinaram desde criança enquanto nós resolvemos isso.
olhou para mim em busca de uma segunda opinião — ou de apoio. Não a concedi nenhum dos dois.
— Isso não é justo, Ash. … Eu quero…
— Relaxa, . E pode me chamar de . Agora que te revelei meu nome, acredite, não há quase nada que eu tenha a esconder de você. Quer dizer — ele me fitou, seu riso se assemelhando a voz aguda de um chacal — Estou falando de mim. Acho que vocês dois tem mais a conversar. Mas não agora, estamos em um lugar perigoso. Você — Seu dedo se ergueu em minha direção — Volte pros seus pais, soube que as garras da sua mãe são bem afiadas.
— Não vá pensando em resolver tudo sozinho.
— Não pretendo, . Me encontre no pátio do térreo em vinte minutos. Não se atrase.
tropeçou até o batente, com o corpo ainda embotado pelo álcool e abriu a porta ainda frágil pela explosão, desaparecendo rápido de nossas vistas.
Levei um tempo até olhar para . Ela já estava olhando para mim. Agora sozinhos, era como se aquele mesmo mundo desaparecesse novamente, mesmo que o espaço entre nós estivesse recheado de tensão.
— Desculpe — falei em um sussurro, um ruído débil mas intenso, como se o pedido de desculpas fosse para tudo — Eu devia ter te contado.
Ela piscou os olhos, sem desviá-los, e não vi raiva ou mágoa neles. Não por mim. Não pelas minhas mentiras insistentes.
— Você precisa me contar muitas coisas — afirmou, assentindo devagar — Não para , sua parceira no crime ou colega da faculdade. Mas pra uma pessoa que gosta muito de você. Uma amiga, e…
Olhei para baixo. Nossas mãos continuavam juntas. A insegurança dela em dizer a palavra me tirou um pequeno sorriso sem graça, e vi suas bochechas corarem com isso. Eu assenti e acariciei seus dedos em compreensão.
— Claro. Eu vou te contar tudo. Mesmo — confirmei, sendo totalmente sincero — Eu prometo.
E então, ela levantou um pouco os pés em minha direção e senti seu beijo rápido, porém expressivo. Foi o bastante para sentir cada poro se arrepiar. Ela se afastou devagar e soltou minhas mãos com cuidado enquanto saía na minha frente, dando uma última olhada para trás.
Ali, tive certeza absoluta de que seria minha namorada oficial assim que todo esse pesadelo acabasse.



De volta à multidão, que dançava naquele espaço quente enquanto o inverno despencava lá fora, inclinei a cabeça para trás. Agora que eu sabia que estava bem, que coisas estavam sendo esclarecidas — mesmo que isso não as tornasse mais fáceis — e que estava agindo conforme os planos, pude ver que o jardim da mansão dos era um belo lugar à noite, como uma colcha de retalhos bordada com galhos de árvores escuras. Entre elas, há alguns metros à esquerda ou à direita, e Maverick decidiam nossos próximos passos para Naomi e, então, os passos depois desse. Tive que juntar toda a minha força de vontade para tacar o foda-se para o tempo e ir até lá participar dessa conversa antes do tempo combinado.
Porém, eu desviava os olhos e os esticava pela multidão em busca de meus pais. Por um grande milagre, meu celular não havia tocado pelo menos dez vezes com as ligações de minha mãe. Em um impulso, peguei-o no meu bolso e verifiquei que ele estava desligado; quando eu tinha desligado esse telefone?
Pelo que me lembrava, meu celular desligou justo quando invadiu o banheiro daquela forma. Eu esperava sinceramente que qualquer programa que ele tenha dado um jeito de colocar no meu sistema sem autorização não tenha consumido toda sua vida útil.
Quando consegui ligá-lo novamente, o aparelho tocou imediatamente. Mas não era Meredith em sua vigésima tentativa.
O nome de piscou em urgência. Revirei os olhos enquanto buscava um lugar mais calmo para atender. Coincidentemente, um pequeno corredor ao lado de uma grande escultura de Osíris estava praticamente vazio, quase convidativo para que eu entrasse e desse início à ligação.
Mas eu esqueci que não acreditava em coincidências.
— Fala — atendi, andando até encostar os ombros na parede coberta de tapeçaria brega em boho — Não estava dormindo?
, onde você está? — ele falou e, ao mesmo tempo, gritou. Franzi o cenho — Onde você está?!
— Você sabe onde eu estou — respondi, confuso. Sua voz era mais alta do que o normal. E ele me chamou pelo nome inteiro — O que aconteceu?
Ouvi um grunhido. Um ruído de raiva. Agora eu ouvia a respiração acelerada dele.
— Eu sei onde você está, . Quero saber onde está dentro dessa massa humana de granfinos — quando ele falou, ouvi uma risada ao fundo. A música, que eu pensava estar vindo do meu próprio ambiente, na verdade soava alta pelo outro lado da linha.
— Você está aqui?! — perguntei com espanto genuíno.
Não podia ser. Não tinha porquê ser. havia dito claramente que ficaria no dormitório e jogaria até dormir, o que fazia muitas horas e muitas partidas atrás.
— É, o sono não veio fácil. E por que viria? Depois do que eu ouvi… — ele comentou mais baixo, consigo mesmo. Antes que eu perguntasse, ele já recomeçava a falar: — Enfim! A segurança disso aqui é uma porcaria. Onde você está?
, eu não estou entendendo…
— Eu também não, , mas eu preciso… Deus, preciso falar com você ou vou enlouquecer! E se essa festa está tão chata quanto parece daqui de fora, não vai ser nenhum sacrifício.
Pisquei os olhos, ainda confuso com o anúncio repentino, mas sabendo que não adiantaria em nada lutar contra. estava agitado de um jeito minimamente anormal, o que automaticamente me preocupava, mesmo que uma das explicações previsíveis fosse a de que ele apenas tomou bastante café.
, assim como seus outros colegas de departamento, dormiam duas, quatro ou seis horas em dias da semana, viviam acordados até tarde e levantavam cedo, e então realizavam maratonas de sono no fim de semana. E, quando meu amigo dormia, eram horas de sono fácil, sem sonhos. Bem, pelo menos era o que eu imaginava, mesmo que, no fundo, achasse que isso fosse falso. Todo mundo sonhava, só que alguns esqueciam.
poderia estar sonhando agora mesmo. Ou prestes a isso. Toda explicação não era plausível e ao mesmo tempo era.
Por fim, suspirei e respondi:
— Tudo bem. Tem uma estátua horrorosa de Osíris perto da entrada, um corredor ao lado e…
— Ok, já achei — a voz dele se duplicou em minhas costas e me virei imediatamente.
marchou em minha direção com os tênis lotados de lama e o habitual jeans e camiseta que usava para andar por aí em dias de primavera. Até mesmo seu casaco era o mais puído e ridículo de todos. Eu tinha consciência que, ultimamente, eu raramente fechava os olhos por mais que algumas horas seguidas, mas a fisionomia carrancuda e pesada de era algo real e imaginário na mesma proporção. Algo que eu nunca tinha visto.
— Como você entrou aqui? — rolei os olhos pela sua roupa. Era impossível que ninguém tenha notado sua explícita ignorância ao código de vestimenta.
— Eu já disse que a segurança daqui é ridícula, igual o sistema deles, mas isso não vem ao caso — cuspiu, olhando de relance para os lados. Ele parecia desconfortável. Extremamente desconfortável — Precisamos… Acho que precisamos conversar.
— Não dava pra ser amanhã? — falei enquanto encarava além de seu ombro. estava de costas para a grande porta de entrada, onde a neve agora era uma garoa fina. Um casal passava na abertura do corredor à riso solto. Eu não confiava totalmente que estivesse seguro aqui dentro, sem qualquer chance de ser posto para fora assim que fosse visto, independente se seu nome estivesse misteriosamente incluso na lista de convidados — Acho que aqui não é um bom lugar. Vamos em… — pousei as mãos em seu ombro para afastá-lo de vista, mas, surpreendente, se afastou do meu toque.
De uma hora para outra, ele ficou ereto, afastando-se há dois passos. Juntei as sobrancelhas, sem entender, ainda com a mão no ar. tinha os olhos bem abertos, como se eu tivesse erguido uma granada junto com meu braço.
? — perguntei cauteloso. Dei um passo para frente e ele voltou a chegar para trás. Continuei sem entender. Sua respiração saía em silvo, presa, como se estivesse se segurando para não ofegar. Não era pela corrida para chegar até aqui. Ele parecia…
Parecia estar com medo de mim.
Tentei de novo.
, o que foi...
— Jane foi no meu quarto — respondeu rápido, deixando que a expiração escapasse alta — Eu estava quase cochilando naquela cadeira de couro, e sei que estava com a mente embaralhada de sono, mas ela… Ela apareceu de repente, me puxou pra fora e começou a falar.
Gelei. Absolutamente tudo no meu corpo trincou. O olhar de era o mesmo que aqueles olhares eram; os olhares das pessoas que descobriam a verdade sobre mim.
Eu não queria acreditar que isso estava acontecendo.
— O-o que ela disse? — perguntei, sem nenhuma esperança de estar errado. era meu melhor amigo, o único amigo que o segredo não havia me tomado.
Ele ficou parado por um tempo, fechando os dedos em um punho, como se convocasse algo muito maior e poderoso do que ele mesmo para que não surtasse e saísse correndo.
— Ela disse que… — ele parou e respirou mais uma vez — Contou uma história bizarra sobre vocês dois verem fantasmas ou alguma maluquice dessas. Achei engraçado no começo, confesso, mas ela não estava rindo e estava séria, e caralho, você sabe como a Jane só fica séria quando o assunto é realmente sério. Mas mesmo assim, eu não… Cacete, eu não sei — suas mãos gesticulavam com vigor enquanto ele, automaticamente, chegava mais perto — Ela falou do orfanato, da missão, de mortos vagando por restaurantes e lugares abandonados, falou da sua avó, e… Céus, eu não sabia o que fazer — ele ergueu os olhos para mim, tão sérios e amedrontados que parecia outra pessoa — I-isso é verdade? D-digo, todas essas coisas, elas… Eu sei que você nunca foi um cara normal e nem nada perto disso, e já cansei de ouvir os boatos sobre você falar sozinho e todas as confusões bizarras em que se meteu, como aquele acidente, como no ginásio, mas… Isso é louco demais, essas coisas não existem, elas… Não podem ser verdade — sussurrou.
Minhas respostas iam e vinham como uma maré incerta. Alguns pensamentos absurdos pareceram surgir do vazio enquanto eu me mantinha parado e sentia a onda de queimação no estômago subir até meu peito; lembrei da primeira vez que conheci na escola. De como sempre me considerei muito bem sendo solitário por livre escolha e massacrava qualquer vontade de ter amigos. De como ele se aproximou sem defesas, ignorando todas as minhas tentativas de fuga e, mesmo assim, me via tentado a aceitar seus convites pra jogar basquete depois da aula. Às vezes, eu esperava o pior. Minhas tentativas de mapeá-lo quase sempre acabavam em frustração: ele parecia mais acordado em dias ensolarados e gostava da lua cheia e tempestade. Ou seja, era um ser humano totalmente fácil de prever. Eu sabia, na maioria das vezes, exatamente o que faria ou pensaria sobre qualquer assunto.
De certa maneira, em minha mente, sempre imaginei que alguma linha magnética me convidava a estar perto de e me esforçar minimamente para que, se algo desse errado entre nós, meu segredo não teria nada a ver com isso. Não com ele. Se se afastasse, era porque não era um bom amigo, e não porque era um lunático que falava com os mortos.
No entanto, aqui estava eu, parado em frente ao meu melhor amigo, que trazia a expressão que tanto evitei na vida, sem ter respostas convincentes o bastante para ceder. Na verdade, eu não tinha nenhuma. Eu não tinha ânimo nem para ficar com raiva de Jane.
… — falei depois de muito tempo em silêncio. Eu me sentia no pico da carência de sono: quando a vida se torna algo imaginário, e seus dias, uma fita flutuando sem destino na água — Não era pra você saber desse jeito.
Ele não se mexeu por algum tempo. Por um momento, acho que ele enganaria a melhor das estátuas humanas. Mas a lua estava quase cheia e ainda nevava do lado de fora, então estava acordado, desperto. Tinha certeza que estava. E que ouviu o que eu disse, por mais baixa e absorta que tenha sido minha voz.
— Então é verdade — pontuou. Me preparei para vê-lo sair. Me preparei para vê-lo sair e desaparecer da minha vida para sempre. Sentir essa sensação duas vezes no mesmo dia era desgastante. Ele me encarava como se estivesse sentado em frente ao computador, pensando em sua próxima estratégia, operando o mouse com a produtividade desorganizada e incerta dos fatigados.
— Olha, , eu…
— Se isso é verdade, então… A outra coisa também é? — ele se aproximou mais um pouco, menos pálido do que antes. Continuei olhando sem entender — A parte em que você vai morrer.
Subitamente, vozes incontáveis invadiram minha mente, sussurrando e sibilando. Soavam como a estática que zunia sobre as linhas telefônicas nas proximidades de lugares assombrados. Pareceram revelar todo o motivo por trás daquele golpe baixo. O motivo que levou Jane a fazer o que sempre exigi que nunca devesse ser feito.
Ela estava com raiva. Desesperada. E desceu mais baixo do que jamais imaginei.
De repente, fiquei com medo daquela conversa.
O que Jane te contou? — perguntei sem cerimônia. engoliu em seco, olhando de lá para cá antes de passar as mãos nos cabelos em agitação e tentar responder de forma branda.
— Ela disse sobre toda essa… Coisa de vocês. E que tem um desses… Fantasmas querendo te matar — ele parou, pensando, e ouvi os zumbidos de novo. Como o vento antes de uma tempestade, como as próprias árvores conspirando. Um brilho cintilou no canto do meu olho, fazendo-me olhar para a entrada. Um conjunto de lantejoulas passou de relance, como as que estavam grudadas no vestido de — Mas disse que isso só está acontecendo porque esse cara quer matar a . Que é o irmão dela! Que ele também pegou a Margot, e que você falou com ela, Jesus Cristo, a Margot Abbott que morreu há menos de três meses! Um espírito sinistro que pode te matar em um piscar de olhos. Porra, , eu não sei, é tudo muito louco, é uma bagunça assustadora do caralho!
Rangi os dentes, olhando para ele de novo. Uma parte de mim estava chocada pelo ponto em que Jane havia chegado ao contar toda a história sem poupar de absolutamente nenhum detalhe. Ele me fitava agora com certa descrença, um pedido genuíno de explicação, ou uma confirmação, qualquer coisa que o deixasse menos perturbado com as revelações, mas essas respostas não existiam.
Eu estava ouvindo vozes. Tinha certeza disso.
As mesmas vozes que me perseguiram por semanas depois que encontrei pela primeira vez.
, não é exatamente assim…
— Então ela não mentiu?! — agora ele segurava na curva de meu cotovelo, os olhos ainda mais abertos — Você está mesmo sendo assombrado? E a também? Vocês dois vão morrer?!
Ele falava, mas sua voz era abafada pelas outras. Como sempre, eu não conseguia distinguir nenhuma palavra e não conseguia entender a conversa.
— Por isso você se aproximou dela todo esse tempo? Aqueles encontros secretos, essa parceria do nada… É isso, você sabia que ela ia morrer? Essa assombração vai matá-la de verdade? — ele continuou, e o brilho veio de novo da entrada. Olhei de novo. Dessa vez, vi claramente e… .
As vozes faziam a festa em meus ouvidos. segurava no braço de enquanto a arrastava para fora. Os vinte minutos de iriam se completar. continuava balbuciando à minha frente. Muitas coisas estavam testando meus estímulos ao mesmo tempo e eu precisava urgentemente me concentrar em uma só.
, isso não pode ser possível, você não pode simplesmente morrer, pelo amor de deus…
, por favor, olha pra mim — segurei-o perto, olhando-o fixamente — Sei que não é o melhor momento pra fugir, mas tem coisas acontecendo nesse exato momento, coisas graves e medonhas que me impossibilitam de te explicar tudo agora. Mas por enquanto, posso te dizer que sim, tudo que Jane te contou é verdade, apesar de que nunca planejei fazer isso e sim, posso ser tudo e mais um pouco de todas as histórias que você escutou na escola e espero que você não me odeie por ter escondido isso.
amoleceu os braços devagar. Arfei, procurando afastar o zumbido nos ouvidos. Uma coisa eu tinha compreendido: algo estranho estava acontecendo agora mesmo nessa festa, e as vozes não conseguiam parar de falar no assunto.
— Eu jamais odiaria você — respondeu ele, com a voz ligeiramente falha — Eu só estou… Só…
— Você está assustado, eu sei, e entendo perfeitamente! Mas… — olhei para o lado de novo. e saíam para fora. A boca dela se mexia de forma rápida e a careta de raiva entregava a briga que existia ali. Ele a estava levando à força. E meu tempo dentro dessa casa tinha acabado — Eu preciso que você me faça um favor.
engoliu em seco e olhou para o lado repentinamente em pânico, seguindo meu olhar. Vi seus ombros tremerem ligeiramente e sua palidez retornando gradativamente.
— P-por que? T-tem algum deles aqui? Você está vendo agora? — disse ele, sem respirar.
— Não é nada disso. , me escuta — tentei falar de forma mais gentil, ignorando as vozes que massacravam minha cabeça — Sei que menti pra você a vida toda e provavelmente vou te traumatizar pelo resto dela quando te contar tudo direito, mas eu jamais conseguiria fazer isso agora. Preciso resolver uma coisa urgente e preciso da sua ajuda pra isso. Quando tudo acabar, se ainda quiser ser meu amigo, vou te levar numa viagem pelo condado e te contar toda essa história de terror e fantasia, tudo bem?
Ele não tinha expressão facial a não ser os olhos imóveis e a boca entreaberta, e suas olheiras estavam pedindo socorro por uma noite de sono bem dormida, mas ainda assim ele abriu as mãos em cima do meu ombro, de maneira amigável.
— Claro… Claro, o que eu puder fazer pra ajudar.
— Certo. Primeiro, preciso que você procure meus pais nessa bagunça e distraia eles o máximo possível. Pode fazer a alegria da minha mãe e dizer que estou com uma garota, não vai ser exatamente uma mentira — falei enquanto pegava meu celular distraidamente. A superfície escurecida mostrava minha próxima surpresa. Desligado de novo. Assombrosa e estranhamente desligado. Olhei para fora de novo e tinha sumido — Não se preocupe com assuntos pertinentes, os dois devem ter bebido champanhe o bastante para rir das suas piadas.
— Mas, … Você vai estar com a ?
— Vou — respondi sem hesitar, porque a ideia de que eu não a achasse era impensável — Jane estava certa, ela está em perigo, . E não apenas por causa de fantasmas.
Falei com os olhos virados para o lado de fora. com certeza estava tentando entrar em contato e com certeza devia estar em um lugar melhor do que eu, mas meu pressentimento tinha mais a ver com aquela interação estranha de do que com as informações que ele tinha.
— Puta merda — ele ofegou, perplexo. Todos os detalhes indicavam que ele sairia correndo na primeira oportunidade que eu me afastasse, mas eu não acreditava realmente nisso — Por Deus, , você vai ficar bem mesmo? Eu posso fazer alguma coisa…
— Eu vou ficar bem, é sério! Só preciso que você faça o que eu pedi agora. Não vou levar nem 20 minutos — falei, mas era claramente uma mentira. Se esses arrepios e vozes grotescas estavam vindo de quem eu pensava, as coisas só tendiam a se complicar, mesmo que eu não fizesse ideia do que tinha acontecido com a alma e o espírito de , ou como quer que queira chamar o atual estado dele. Sua situação de ir e voltar estava se tornando cada vez mais violenta.
O que não era nada bom, porque se eu, a pessoa intrometida da história estava sendo amaldiçoada com vozes sussurrantes, o destino de soava pior.
Comecei a me afastar, cruzando os braços, tentando parecer despreocupado enquanto me preparava para estudar as dezenas de marcas e pontos no jardim para onde poderia ter levado .
Porém, retornei para rapidamente, gesticulando para seu moletom vermelho.
— Acho que você precisa se livrar disso.
Tirei meu casaco curto e a gravata, entregando-os em sua mão.
— Aqui. Usa isso. Lembre-se dos nossos jogos de caça ao tesouro e tente não ser pego, tudo bem? Eu vou nessa.
Desfiz os botões da manga e ergui-as até o cotovelo. engoliu em seco e assentiu em obediência. Era a única coisa que ele poderia fazer no momento. Lancei-lhe um sorriso fino e parti, desejando que eu também me lembrasse dos antigos jogos e lutasse para vencer, independente do que iria enfrentar.
Um jogo pela glória, pela vida.


Capítulo 25 — Trevas submersas

“O inferno vale a pena, habitat natural
Apenas uma rima sem razão
Labirinto sem fim, derivando por vários dias
Agora sua vida está fora de estação
Eu o manterei ocupado
Eu o ajudarei a morrer
Eu correrei até você
Agora eu te controlo também.”

MASTER OF PUPPETS — METALLICA


Com alguns minutos de busca, comecei a pensar se a imagem de e tinha sido mesmo verdade ou fruto de minha imaginação.
Eles não pareciam estar em parte alguma. Pelo menos não na parte central do jardim, onde fazia um frio tenebroso, com a companhia de casais que não se importavam com isso passeando de lá a cá. Bufei, cruzando a metade da área à esquerda daquele lugar imenso, lembrando-me do estacionamento, apurando os olhos e ouvidos para qualquer movimento brusco ou não que surgisse por entre as árvores. Era um exercício de estratégia, de observação, com o jardim da mansão dos como o campo de jogo. Procurei por padrões — conversas altas, indícios do brilho de seu vestido, já que meu celular tinha sido oficialmente inutilizado —, qualquer lugar que um doente arruinado como poderia ter trago à força, mas aqui não era exatamente um mapa topográfico. Traçar círculos em cima de um lugar que eu desconhecia era mais difícil do que esperei.
Por um momento, me preocupei com a possibilidade de encontrar . Eu estava exatamente no lugar onde ele me esperava — e não estava, bem, procurando por ele. Eu só precisava, de forma estranhamente urgente, achar , porque as vozes estavam cada vez piores e eu sentia que elas se calariam assim que pousasse os olhos nela.
Um grunhido ao longe me fez parar assim que pousei os pés na zona amontoada de carros meticulosamente separados na parte mediana dos fundos.
Era um cenário claro. Eu vi o vestido brilhante de , o terno branco e ridículo de e a mesma mão segurando em seu braço com brutalidade. Senti meus níveis de energia aumentarem perigosamente. Tudo ali era silencioso e vazio. Como se aquele ponto exato do lugar fosse um círculo arruinado que a vida selvagem parecia evitar. Não existia consentimento no que quer que estivesse acontecendo ali. a estava levando em direção ao Volvo, parado mais à frente, totalmente reformado depois da briga, e não demorei a sentir o sangue ferver e as pernas começarem a se movimentar por vontade própria em direção a eles.
No entanto, não avancei muito mais. Meu braço foi puxado para trás, um puxão tão forte que quase me fez escorregar na neve derretida. As mãos quentes tocaram a minha pele exposta, cravando-se em torno do meu pulso, e meus nervos deveriam estar inflando loucamente para que eu não estivesse sentindo tanto frio após dar o casaco para .
— Para onde pensa que vai, ?
Quando meu corpo torceu para trás, virei-me com a expressão de desgosto já pronta, junto com os dentes cerrados. Nenhuma pessoa em específico foi desenhada pela minha cabeça como capaz de fazer aquilo, mas com certeza aquela pessoa era a última de uma lista infinita.
— Patrick? — não me importei com o tom informal e a ausência de pronomes. Minhas sobrancelhas se juntaram no meio da testa, confusas.
Puxei meu braço de volta, mas fui tomado novamente pelos seus com violência. A fumaça do frio que escapou de meus lábios embaçou sua imagem por um momento. Ele tinha os olhos enterrados nos meus, brilhando diabolicamente, acompanhados de um sorriso sinistro.
— O que está fazendo? — tentei sair de novo. Ele tinha uma força ridiculamente superior — Me solta.
— Ah-ah. Malum idea — disparou algo que pareceu uma risada jovial. Enruguei a testa com a frase. Era latim. Eu odiava línguas mortas, mas aquela não estava incompleta e nem difícil de traduzir, sem eu precisar quebrar a cabeça para dar o palpite de “má ideia” — Vamos com calma, rapaz. Você quer se meter em algo que não tem nada a ver com você.
— Estamos falando da merda do seu filho? — disse, furiosamente em um sussurro. Seu sorriso não diminuiu. Antes, eu me sentia energicamente promissor, muito bem capaz de quebrar o nariz de pelo menos cinco vezes, mas agora esses níveis estavam inconsistentes com essa interrupção inesperada. O que ele estava fazendo aqui? — Seja lá o que você ou ele estejam pensando em fazer que envolva a , sinto dizer que tenho muito a ver com isso.
Certamente, aquilo soou menos ameaçador do que eu esperava, já que sua fisionomia permaneceu a mesma.
— É mesmo? Você e ? — ele passou a mão delicadamente do meu braço para meu colarinho — Sei que já deve ter ouvido isso uma meia dúzia de vezes, mas não existe você e e nunca vai existir. Estamos falando de acordos bilionários planejados antes mesmo que você aprendesse a ler. Acha que pode mudar tudo agora, por causa de desejos adolescentes?
Instintivamente, soltei uma risada sarcástica, pasma. Como se, de todas as listas diferentes de absurdos que existiam no mundo, aquele era o maior de todos.
— Então você é realmente esse tipo de cara! — cerrei os olhos, provocativo — ‘Tô pouco me lixando pro que quer que você tenha combinado pra aumentar sua riqueza. Você e a mãe dela, que se fodam! Não vou mais deixar ser submetida a ordens abusivas por caprichos de gente mesquinha como você. Isso já acabou — puxei meu braço com mais força, finalmente conseguindo me soltar de suas garras. A raiva borbulhava dentro de mim, a mesma raiva enterrada sob vigília por anos, sendo libertada apenas em casos de atividades sobrenaturais, mas agora ela saía por conta própria e já tinha cansado de me importar. O frio oscilava ao redor e se tornava praticamente nada diante do ódio que se construía dentro de mim.
Ele me encarava com a expressão mais dura, porém com o mesmo sorriso. Em uma olhada rápida ao seu redor, reparei que ele não poderia ter saído de lugar nenhum. O estacionamento era escuro e banhado por luz verde, que brilhava de maneira irregular, acendendo e piscando de forma débil. Nada parecia claramente visível. Ele estava me esperando, totalmente desperto, com a atenção aprimorada desde que eu pisei nessa casa. Patrick soube o que eu faria desde o começo..
Ignorei tudo isso e voltei a dar as costas.
Ao longe, ainda podia ver carregando , os dois se aproximando cada vez mais do Volvo e do bosque de carvalhos.
Perto, dois caras enormes vestidos com a mesma roupa que todo mundo se esgueiraram da escuridão, tomando o caminho à minha frente. Dois caras que, por Deus, poderiam facilmente pisar em mim e me transformarem em tampa de lata de lixo.
Não dava pra acreditar.
— Sabe, tenho observado você, — ele começou a dizer à minhas costas, enquanto os outros dois se aproximavam devagar — De uma forma boa, tenho que admitir. Aluno de ouro, o orgulho dessa geração da Columbia, um desempenho fascinante mantido pelos últimos dois anos. Sempre invisível, inalcançável. Até que me fez o incrível favor de começar a desandar nesse processo — sua voz estava em meus ouvidos. Me senti incapaz de me mexer e correr o risco de ter o outro braço quebrado — Não me leve a mal, não tenho nada contra você. Como poderia? Seus pais acreditam no papel da universidade no seu sucesso e assim, o dinheiro continua entrando com louvor. É uma linha adorável de reciprocidade e sacrifício, por mais que isso soe frustrantemente vago. Você é uma peça da economia do meu trabalho e por isso sempre tive o cuidado de tratá-lo muito bem no meu espaço. Até mesmo depois de se meter com e seus negócios — me mantive em silêncio, pensando, pensando, pensando. Como não apresentei indícios de que responderia, ele seguiu o discurso — Não me leve a mal, não dou a mínima para os socos que trocaram, as férias de inverno serviram para apagar os rastros. Não me importo até mesmo na paixonite que tem pela e todas as fantasias primaveris que nutre por ela, mas negócios são negócios. Sei que sua família também é bem abastada, mas de que isso me beneficiaria caso ela o escolhesse? Em nada. Talvez goste mesmo de , ou talvez pense que goste porque eu o mandei gostar, mas não importa. O que importa é que você precisa se livrar disso, de preferência até o fim do ano letivo, e por ora, voltar lá para dentro, dançar com sua mãe e voltar a sua vida normal, sem mais confusões, o que acha?
Olhei além dos ombros montanhosos que me cercaram, vendo agora se desvencilhar dos braços de , que a empurravam para dentro do carro. Um ódio sem tamanho urrava dentro do meu peito. Algo perigoso, algo histérico. Algo que se descontrolaria, como naquela briga atrás do beco. tinha um rosto derrotado, mas consciente. Eu estava pouco me fodendo se ele agia em cumprimento de ordens do pai — um pai que poderia ser preso por práticas ilegais nos negócios e sonegação de impostos, e isso seria só o começo —, foda-se. Eu quebraria mais do que o pulso se ele ousasse encostar em .
Mais urgente do que isso, eu precisava dar um jeito de sair daqui.
E nunca quis tanto que ficasse maluco e decidisse me procurar pela demora. Ele poderia presumir que eu estivesse fodido na mão de um criminoso sádico, mas eu não acreditava em telepatia. Não com os vivos.
— Acho que você não me conhece o suficiente para me pedir uma coisa dessas.
— Tem razão, não conheço. Mas depois de tudo que presenciei, sei que você significa problema. Pra mim, para os meus negócios e também, minha família. Ou minha futura família… — o sarcasmo enfeitava suas palavras de novo. Patrick exalava tanta confiança que não tinha medo de demonstrar seu maior medo, sua maior fraqueza: perder tudo, do dia para a noite. Estampar os jornais do país com a história de uma quebra catastrófica da fortuna da família . , o playboy de NYC, herdeiro da fortuna , subitamente expulso da universidade, excluído da vida social, liberto de qualquer esperança de futuro em uma universidade tradicional, observando seu carro ser guinchado e seu quarto ser esvaziado das caixas de som, dos móveis e das drogas. E com a prova de todo o esquema.
Ok, isso realmente soava como uma merda.
— Não é como se eu fosse cego e não percebesse a inclinação que tem com você. Talvez por isso fingi que não sabia das duas namoradas de . Ou três, o número exato não conta. Não é como se eu não soubesse que ela está extremamente curiosa sobre a morte daquela Abbott, que me esforcei bastante para não tornar o caso absolutamente público. E não é como se eu não soubesse que foi isso que os uniu — agora ele perdia a simpatia venenosa aos poucos. Aquilo me revelava o motivo de sua raiva, o que era uma estupidez. Ele estava fazendo uma confissão e fazia isso seguramente porque acreditava ser a última vez que precisaria intimidar um garoto que só tinha dez dólares no bolso — Não sou idiota, . está na minha mão. Ela é uma grande aquisição, mas se se atrever a chegar perto demais de certas coisas… Bem, faço questão de sempre ter aquisições substituíveis para aquelas que não servem mais para nada. sabe bem disso, mas acho que não ficou de olho nela o suficiente.
O ódio se agitou novamente. Um ódio vermelho, forte, quase físico.
— Você não se atreveria…
— Ah, eu não diria isso, se fosse você. Eu me atreveria a muitas coisas. Pelo bem de gerações, que lutaram para erguer a reputação dos , eu faria muitas coisas, . Nada sairia dos meus planos.
— Tudo isso por que você morre de medo de ser um pobretão? — perguntei, deixando mais uma risada perplexa sair. Eu não tinha realmente senso de humor. Às vezes, eu simplesmente dizia coisas que por acaso eram afiadas e cômicas. Patrick, parado em meio às possibilidades de ruínas de sua vida, não riu. Eu não precisava realmente que ele risse. Precisava que ele se distraísse.
Quando ouvi o som do motor como um mero ruído ao longe, isso aqui não era mais um jogo.
— Se você tocar nela…
— O que você faria?
Abra a porta!”, ouvi em alto e bom som. Virei novamente na direção do carro e captei outros grunhidos de . Porém, também captei algo bem pior do que isso.
Se eu já evitava fazer qualquer movimento brusco, agora mesmo que todos os meus órgãos tinham parado de vez. Era como se meus ossos se transformassem em estalactites de gelo. Como se eu fosse a peça principal de um ritual xamânico onde me transformaram em pedra. O mais puro desespero correu pelas minhas veias como zilhões de balas.
A luz verde iluminava parte do vidro traseiro do pára-brisa, onde acabava de se acomodar no banco do motorista enquanto ignorava todas as lamúrias de . Era como se os dois fossem o conteúdo de um caldeirão negro, os únicos pontos de luz rodeados pela escuridão.
E nessa escuridão estava , sentado no banco de trás, ereto como um humanoide, erguendo a mão esquelética para o vidro.
Foi como se uma hora inteira tivesse se passado antes que eu acordasse por mais um ronco do motor. Não, não, não, não. Eu já tinha visto essa cena antes. Eu lembrava da situação, mas agora era outra coisa, era pior, muito pior, agora era definitivo!
Não percebi em que momento exato minhas pernas se mexeram cegamente atrás daquele carro, e nem quando elas foram freadas pelos braços dos capangas de Patrick. Eu não via nada, não sentia nada. Minha língua tremia muito para conseguir proferir um grito, e tive certeza que o resto do corpo deveria estar na mesma situação.
A cada minuto que passava, a luz verde era filtrada pela janela do carro, formando sombras difusas e revelando a verdadeira sombra sentada sobre o banco. Ele me olhou e sorriu. E eu sabia que aquele era o seu dia de agir.
— Eu não faria isso se fosse você.
A maldita voz de Patrick me relembrou do obstáculo principal que me impedia de correr até . Tentei não me ressentir pelo tempo que ele havia me feito perder com toda aquela ladainha, mas agora eu era totalmente desespero e agonia, além da raiva.
— Me solta agora, Patrick! — tentei gritar, e não me importaria se algum indivíduo coincidentemente me ouvisse enquanto subisse as escadas e se aproximasse para dar uma olhadinha. Seria o tempo suficiente para que as duas montanhas afrouxassem o aperto e eu escapasse o mais rápido que podia — Você precisa me ouvir. Tem coisas mais sérias acontecendo aqui do que suas ambições infantis em conquistar o mundo.
— Tem, é? Esperar para vê-lo roubar a namorada do meu filho é uma dessas coisas?
Olhei-o com raiva. Não pela dedução do que eu faria, mas sim, pelo momento em que o estava fazendo. Eu claramente roubaria de , o que estava mais para resgatar, mas eu acreditava que estava pálido e louco o bastante para demonstrar que se tratava de mais, muito mais do que isso. Se finalmente tentar matar , ele não se importaria de levar junto. Algumas coisas são mais bem feitas na ausência de testemunhas.
Me solta! — mais uma tentativa. Aqueles eram subordinados de ferro. Meus braços pareciam ficar cada vez mais atados. Patrick ficava parado com as sobrancelhas arqueadas, divertindo-se com a situação. Apesar de ser mais baixo do que eu, sua própria postura era mais clara, de certa maneira, e se projetava bem. Os trogloditas sabiam o que fazer sem precisar de comandos. — Estou falando sério, se não me soltar agora, alguém vai morrer! pode morrer! Você não entende?
Olhei para trás de novo. A cena continuava a mesma, agora com que tentava, de forma cansativa, não deixar que apertasse a embreagem. Um suor frio começava a tomar minhas costas. O tempo se extinguia junto da neblina que se acumulava atrás do carro.
— Você é um garoto e tanto, não é? — Patrick cruzou os braços, olhando igualmente na direção do carro prestes a partir. Ele claramente não estava vendo a mesma coisa que eu — Acha que está em posição de fazer alguma ameaça?
— Se toca, não estou falando de mim! Tem mais alguém naquele carro, e alguém que pode matá-lo em um piscar de olhos! — grunhi — Você não vai conseguir ver, mas eu te garanto, os dois estão em perigo, você precisa me soltar agora — falei em um sussurro exagerado enfurecido, tão sério como jamais fui. Era totalmente improvável que Patrick acreditasse em mim, mas por Deus, eu estava ficando sem opções.
A largura de seu sorriso desprezível começou a diminuir.
— Qual é o problema dele? — agora ele parecia preocupado. Sua pergunta foi direcionada aos outros, a quem quisesse ouvir. De repente, parecia difícil olhar para mim e todo aquele papo louco.
Era exatamente isso que ele estava pensando: que eu era doido de pedra. Que meu comportamento clamava por uma ambulância direto para um hospício.
— Não importa, levem-no de volta pra dentro…
Suas palavras seguintes ficaram perdidas em meio a um ruído oco que fez os braços em torno de mim se afrouxarem e cederem, enquanto a mesma montanha de músculos cambaleava para trás e eu, sem entender, me afastava o máximo que podia.
Ouvi uma corrente ranger e minha resposta ficou obscurecida à medida que reparei no que tinha acabado de acontecer: Maverick estava parada atrás do cara que, guiado pela gravidade, batia no chão sem nenhum ferimento. O barulho metálico vinha da corrente que rodeava sua cintura, como parte de um outfit excêntrico. Um terceiro brutamontes estava ao lado dela, um bem familiar, alguém que certamente já havia quebrado o meu nariz há algumas semanas atrás.
Soltei o ar, surpreso e chocado, sem saber como agir em seguida. Ela balançou os dedos, fazendo careta, e disse algo entredentes que soou como:
— Eu preferia que você me deixasse de fora da pancadaria.
Fiquei imóvel.
— O que pensam que estão fazendo?! — a voz de Patrick era como um rugido.
Tudo foi muito rápido.
Um par de braços imensos se abriram em minha direção, prontos para me agarrarem de novo, desta vez pelo outro empregado. Não importava muito, já que cada um deles valia por dois. Desta vez eu estava mais acordado, desviando rapidamente e correndo para o outro lado, onde Maverick estava em prontidão, apesar de estar acompanhada por um cara equivalente ao nosso adversário.
— O que faz aqui? — perguntei, ofegante, mantendo os olhos atentos enquanto o monstro avançava de novo, mas desta vez o parceiro de Maverick pegou o serviço. Não era uma ideia tão ruim que brigassem entre dois iguais.
— Descobrindo a sua enrascada! — o Khal Drogo ao quadrado conseguiu se soltar das garras do amigo de Maverick graças a um Patrick que, eu ainda não entendia onde estava armazenada toda aquela força, puxou-o para trás com uma fisionomia de ódio, típica de quem vê seu controle absoluto descendo pelo ralo. Ele avançou contra nós dois de um jeito tão rápido que não tive tempo de pensar, apenas em desviar para qualquer lado. Fazer isso rápido em cima de uma superfície molhada por gelo derretido fez meus sapatos me trapacearem e eu despencar no chão, ao mesmo tempo em que o barulho alto de pele sobre pele veio às minhas costas, junto com um grunhido de Maverick.
Antes que eu agisse, senti meu corpo ser erguido para cima, direto da gola da camisa. Era , com o maxilar cerrado e os olhos para a frente, na direção de um Patrick, que agora largava o nosso aliado com repulsa. Maverick balançava as mãos com outra careta, enquanto o outro cara estava zonzo e de joelhos.
— Ai, que droga, quebrei minha unha.
Um bramido de outro mundo surgiu em nossas costas. O Volvo estava finalmente arrancando. A neblina havia aumentado bruscamente, e os dois desapareceriam. As vozes retornavam, me chamando, criando a conexão que eu precisava seguir.
— Ora, ora, , não sabia que planejava começar a diversão sem mim — grunhiu ao mesmo tempo em que o primeiro guarda-costas se levantava do chão, e mais rápido do que o outro.
— Já não era sem tempo — falei distraído. Eu prestava atenção no barulho. Meus olhos pertenciam a todos os lugares até que eu tivesse certeza que se corresse, não sofreria outro bloqueio — Desde quando ela luta desse jeito?
— Quando se escolhe uma única pessoa pro trabalho, ela precisa ser no mínimo multitarefas — ele colocou as mãos nos bolsos de forma veloz e puxou um… Aquilo era um pager? Enquanto Maverick suspirava e se preparava para o outro cara que se colocava de pé — Mas você não quer saber disso. Qual foi a conversa que rolou aqui?
Mais um ronco do motor.
— Você vai adorar saber dele — apontei para Patrick, que olhava para trás enquanto eu via claramente mais black-ties surgindo da escuridão. Porra… — Mas não posso ficar. , ela…
— Eu vi. Que porra foi aquela?
— Talvez o pior. Eles não estão sozinhos — olhei em seus olhos no meio do caos. Seu lábio tremeu, compreendendo. O barulho aumentou estrondosamente e o pneu cantou no asfalto, misturando fumaça e neblina. Meu coração parou. O motim ao redor era atrapalhado, desconexo. Mais pessoas se aproximavam. Por que eles não conseguem brigar em silêncio? Meus pais estão aqui! — Preciso do seu carro.
— E quem disse que eu tenho um carro?
— Eu preciso de algum carro. Agora.
me encarou por um milésimo de segundo e disparou:
— Maverick!
Um bolo de chaves voou em minha direção. Peguei o objeto no ato, vendo-a se virar por um minuto para dizer:
— Chave verde para Mustang verde. Não vejo como ele pode correr mais do que um Volvo, então é melhor se apressar.
Murmurei uma resposta e comecei a me afastar, vasculhando o estacionamento em busca de um carro berrante que, pensando bem, era muito a cara de Sarah.
Ouvi mais um soco. E solas de sapatos sociais batendo no concreto.
! — ouvi a voz de , há muitos metros atrás de mim, e me virei rapidamente — Vai voltar vivo?
— Não faço a mínima ideia.
E não sabia. Voltei a correr, agora a plenos pulmões, ainda sentindo a fumaça do escapamento do Volvo inebriando a escuridão.
Eu só esperava que, por todas as coisas sagradas existentes no mundo, essa noite não entrasse no controle do Destino.




As ruas estavam assombrosamente vazias.
As avenidas que cruzavam o Queens deveriam estar abarrotadas àquela altura, entulhadas de mais papel prateado, que se misturaria com a neve até que se tornasse parte dela. Em um instante que desviei os olhos para olhar em volta, constatei de novo que não havia viva alma que presenciava meus pés soterrando o acelerador e ultrapassando os 120km/h de um jeito que acarretaria pelo menos seis multas no nome de Maverick. Não, existiam apenas eu, o Volvo acelerando à frente e a neblina pairando entre nós.
Minha busca por uma experiência de quase morte estava indo muito bem, a começar pelo sério risco de um acidente de trânsito.
Forcei os olhos e os ouvidos. O Volvo corria, curvando em ruas que eu não via e passando por pontos escuros onde as luzes dos postes estranhamente paravam de funcionar ao nos receber. Tinha a impressão de que já fazia um bom tempo que não sentia aquilo que estava sentindo — a redoma negra causada por , o bater descompassado e aflito do coração, a dificuldade em respirar como se tivesse sido erguido ao topo do Everest. A sensação habitual e sufocante que embaralhava meu cérebro e tentava me tirar da realidade.
Era possível que , nesse exato momento, estivesse tendo problemas para distrair meus pais. Era possível que eles tivessem percebido meu sumiço definitivo. E era possível que Patrick tenha tentado dar um jeito em Maverick e envolvendo a polícia, mas duvido muito que ele tenha conseguido. Bem, pelo menos agora podia correr.
Eu só enxergava o Volvo e seu farol alto tentando me cegar. Além da luz forte, eu via , ainda parado no mesmo lugar, olhando para trás em minha direção, se deliciando com meu desespero em me achegar porque, por mais que fosse exatamente o que ele quisesse, não havia outra escolha. Eu sentia, sentia no fundo da minha alma, que era agora. Era ali. O fim da linha definitivo.
Eu sentia a morte como nunca antes. E precisava alcançar aquele carro de qualquer jeito.
Apertei ainda mais o acelerador, fazendo o Mustang gemer de angústia, mas agora me encontrava há pouquíssimos metros do para-choque. Nenhuma das tentativas de ligar para deram algum resultado, e eu não esperava que dessem. Só estava me certificando de tentar tudo. Ainda assim, não era o suficiente. O carro mudava de direção toda vez que a chamada não se completava, acelerando e diminuindo, como se acontecesse algum movimento fugaz lá dentro que eu não conseguia enxergar.
Não sei quando aconteceu, quando exatamente percebeu que estava sendo seguido de perto, mas abruptamente jogou o Volvo para a outra pista, deixando-me à mercê da rua escura, um caminho que eu não fazia a menor ideia da onde daria. Arfei em surpresa, vendo-o diminuir à minha velocidade, aproximando-se ao lado, fazendo as manobras perigosas com maestria. Na cabeça de , ele deveria se ver como uma figura heróica, independente se tiver de desaparecer vez ou outra por causa de erros trágicos.
Prendi a respiração quando ele chegou mais perto. O Volvo agora se encontrava em paralelo com o Mustang, e vi a fisionomia furiosa de na janela do motorista. Seus olhos eram assassinos; lotados de ódio. Muito diferente da expressão desprezível, porém insegura das outras vezes. Ele parecia estar… Parecia estar sob alguma influência. Manipulado pelo espírito maligno sentado no banco de trás.
Ele era observado furtivamente por , bem atrás de sua nuca, apreciando orgulhosamente o figurante estranho sonhando acordado naquele volante.
— O que pensa que está fazendo, ? — ele gritou através da janela, sua voz atravessando o vento forte e a noite macabra. Seu sorriso era destruidor — Não te convidei para essa festa!
Ignorei suas palavras e olhei além de seus ombros. tinha os olhos sobressaltados, o choque vívido lhe conferindo uma palidez amedrontada. Eu via seus braços tremerem, a maquiagem borrada pelo choro, os lábios esbranquiçados. Ainda assim, ela reuniu toda força de vontade para balançar a cabeça em negação com força, como se implorasse para que não; o que quer que eu estivesse pensando: não. O risco não valia a pena.
Isso estava fora de cogitação, levando em consideração que eu não estava nervoso por causa de . Mesmo que ele não estivesse sob seu juízo normal.
— Para esse carro agora, ! — gritei com o máximo de urgência que minha voz permitiu. O escuro impenetrável se estendia à minha frente. Em algum lugar das profundezas da noite, as árvores fecharam a visão lateral, e então eu tive certeza que pegava um caminho dominado por . Eu não fazia ideia para onde estava indo, e não podia me perturbar pelo medo do desconhecido.
gargalhou após um longo momento. Estendendo o braço para fora, era como se estivesse tão perto do Mustang que tocaria sua outra janela. Ele não olhava para a frente, para a estrada, em momento nenhum. Eu revezava as duas panorâmicas, tentando não pensar na existência de uma rocha gigante que me transformaria em entulho. Ele descansou sua palma sobre a lataria fria, relaxado como se estivesse de pé em um restaurante. De pé e não em um carro em movimento.
— Você está brincando?! — A superfície fria de sua voz me lembrou de , mesmo que seu sorriso de escárnio à lá Patrick não sumisse de forma nenhuma. — Estamos apenas começando!
— Você vai começar a desacelerar, caralho! Se quer tanto agir como um boçal, faça isso na minha frente!
— Por quê acha que eu faria isso? — seus dentes rangeram mais alto quando ele jogou o Volvo para mais perto. — Acha que me dá ordens, porra?!
Ridiculamente, soltei uma risada. Olhei para a frente, odiando o escuro, odiando o tempo, odiando a conversa.
— Se liga, seu imbecil: todo mundo te dá ordens! Inclusive agora mesmo!
Era previsível que não sorrisse mais. Mas eu não esperava que, com a raiva adquirida, ele levasse uma das mãos na nuca de , que soltou um gemido enquanto tinha a cabeça puxada para a frente.
Desloquei a direção para o lado de forma automática. Agora as duas portas batiam uma na outra, e devo ter deixado de olhar a estrada sem fim por pelo menos um minuto inteiro.
Se ele a tocasse, eu não saberia medir o quanto ficaria louco.
— Acho que isso não vai rolar, — disse, enquanto murmurava algo que eu não entendia, mas certamente eram pedidos ignorados. — Eu não dou a mínima pro que você quer. é minha, entendeu? Minha! Sempre foi! E se alguém se atrever a pegar o que é meu…
Suas próximas palavras foram interrompidas pelo seu nariz sendo soterrado no volante em um golpe barulhento e violento.
Tive certeza de ouvir o “crac” do osso se quebrando. Não tive tempo de avaliar a situação, de pensar. O grito de se misturou com o estampido do pneu deslizando no asfalto, fazendo o Volvo rodopiar em um semicírculo até o meio fio. Não vi que horas girei o volante para o curso contrário, fugindo da batida. Pisei no freio com toda a força que pude, parando um pouco mais à frente em um chacoalhar brusco.
O silêncio foi nefasto. Só existia escuridão e a neblina dançante na luz dos faróis. Meu coração castigava meu peito, gritando de ansiedade, de medo. Me virei para o Volvo, parado em diagonal. O motor ainda rugia, os arranhões eram visíveis no flanco e seu motorista estava desacordado sobre o volante.
Isso não era nem de perto a parte mais aterrorizante de tudo.
Minha boca deve ter se aberto à medida que sentia meus músculos paralisarem novamente. ainda segurava pelos cabelos na parte de trás da cabeça de , e sangue pingava para o colo, o nariz curvado sobre o acolchoado da direção. Ele sorriu como de praxe; vitorioso. Brincalhão. Demoníaco.
Por favor, não me diga que matou ele, por favor, por favor…
Ah, para com isso, você tem que concordar que ele é um saco. Dizer que é dele? Intolerável.
A voz falou como se estivesse ao meu lado. Eu precisava urgentemente parar de observar e agir. Coloquei as mãos no trinco e joguei a porta para fora, saindo para o vento gelado e o escuro, correndo para o Volvo, sem ter certeza do que deveria fazer primeiro.
Eu estava cansado de contingências, mas era exatamente isso que acontecia quando se envolvia. Assim que cheguei ao limiar da porta do motorista do Volvo, olhei para imediatamente. Ela não estava olhando para mim. Em vez disso, suas pupilas estavam tenebrosamente dilatadas, revestidas de choque puro, viradas para o banco de trás. Olhando para o rosto responsável pelo ataque ao garoto desacordado.
Soltei o ar com força, enquanto ela não parecia estar respirando.
! , olha pra mim! — gritei, desesperado para tirar sua atenção do vulto. Ele não podia estar fazendo isso, não devia estar fazendo isso, não com ela, não agora! — , não olha pra ele! Olha pra mim! ! — puxei a maçaneta, mas o carro estava trancado. continuava sorrindo em minha direção. Tentei de novo, e de novo, batendo no vidro, mas ela parecia estar dormindo, estática, a boca aberta em um “o” perfeito e apavorante.
— Desgraçado de merda! — grunhi, desferindo outro soco no vidro, sentindo o sangue escapar por entre meus dedos, mesmo que não sentisse nenhuma dor — Para já com isso, , não faz isso com ela, não com ela!
Não foi nenhum despertador que acordou da estranha paralisação do abalo emocional. Foi um único instante em que seu irmão moveu os dedos e tudo à minha frente virou um grande borrão.
Em um segundo, eu esperneava em socos no vidro totalmente blindado do Volvo de , e no outro meu corpo rolava pelo chão molhado para o outro lado da estrada. A tontura e a visão embaçada indicavam um impacto na cabeça, e tudo ficou lento, muito lento, muito débil para quem estava fervendo de raiva, medo e ansiedade segundos atrás. Tentei piscar os olhos para voltar à realidade, mas um zumbido nos ouvidos fazia parecer que meu cérebro estava se afogando em geleia. Tentei mover os braços, mas eles também estavam lerdos, tocando em grama. Fiz força com os cotovelos, balancei a cabeça a uma velocidade que expulsasse a zonzeira de mim, pouco me importando se estivesse com uma concussão ou não.
A luz dos faróis voltava aos poucos à minha visão, junto com o cheiro de gasolina e o som dos gritos de , que novamente se transformaram em gemidos. Meu coração voltou a bater depressa. O mundo retornou ao meu campo de visão. Aos poucos, observei o Volvo no mesmo lugar, mas minhas pernas não me obedeciam. Com a visão sobrepujada, haviam cinco Volvos, com as janelas do motorista quebradas como vítimas de uma explosão e duas cópias de segurando duas cópias de pelo pescoço.
Não. Não, não, não.
Segurei o corpo pelos cotovelos, sentindo a testa latejar, arrastando os joelhos pelo asfalto e manchando-o de sangue, constatando a poeira na boca e a certeza de que algo estava fincado em algum lugar da coxa. Por um instante debilóide, senti raiva. Eu estava sangrando de novo. Sangrando por causa de .
— Não! — gritei, ainda não enxergando, ainda tentando me levantar — Não, por favor! , me escuta… Você não precisa fazer isso…
Hoje é o dia em que tudo acaba, .”
— Não, não é! — agora consegui erguer o tronco, sentindo uma dor excruciante acima do joelho, onde um pedaço do vidro quebrado entrara com força. — Se você… Se você está mesmo aí, se tem alguém por trás disso, você precisa lutar, tá legal? Ela é sua irmã, pelo amor de Deus…
A porta do carro se abriu repentinamente. tinha os olhos esbugalhados e as mãos apoiadas em volta do aperto que a estava matando. Seu corpo se movia freneticamente, perdendo a força a cada segundo que passava. Forcei todo meu torso a se levantar, trincando os dentes pela dor, segurando-me pra não cambalear quando , agora sem o sorriso habitual, se detinha em jogar o corpo de para fora e tomar seu lugar na direção, sem soltar as mãos de por um instante sequer. Foi tudo tão rápido que não consegui me lembrar em que momento exato tudo foi feito.
Adeus, garoto. Espero que retorne à sua rotina diária e viva uma boa vida até que outro te ache. Você fede mais do que os outros da sua laia. E com certeza vai morrer por isso.
Então, sem outras palavras ou nenhum minuto para que eu tivesse chance de avançar, ele fechou a porta de forma igualmente mágica e arrancou com o carro, mais rápido do que da outra vez.
— NÃO! — gritei a plenos pulmões, tentando correr inutilmente, cambaleando com a perna defeituosa — , NÃO! — agora eu via apenas os faróis traseiros mergulhando na escuridão. Um outro tipo de desespero me tomou. O desespero que vinha da impotência. A sentença automática que vinha em situações como essa: Desiste, cara. Não há mais nada que você possa fazer.
Não. Não, isso não era possível.
Virei para o lado, abafando meus pensamentos, abafando qualquer coisa que me impediria de agir, forçando as pernas a correrem para o Mustang e seguir a rota atrás do Volvo quando enxerguei o corpo mole e esparramado de no meio da rua.
Naquela posição, ele não tinha nada da aura de um rei que dormia sob a montanha, muito menos parecia ter todos os guerreiros e riquezas as quais se gabava. Uma parte de mim, a parte egoísta e rancorosa, quis gritar com todas as forças: não se importe com ele! Tá maluco!? está lá na frente, ela está com e vai morrer em breve se você não se apressar! Ei, o que está fazendo…
Maldito altruísmo de merda.
Puxei seus ombros para o lado, colocando os dedos em seu pescoço. Ele latejava fraco, mas ainda estava ali. Uma onda de alívio me tomou, e percebi que estava com mais medo do que imaginei da possibilidade de sua morte. Seu nariz torto ainda sangrava, e fora isso, ele não corria nenhum perigo de vida. E eu não tinha tempo para servir de babá.
Sentindo minha ferida palpitar, puxei seu braço direito até o acostamento da estrada, perto de uma das árvores que serviam de cerca e o acomodei em cima da grama. Seu terno branco era um ponto visível e chamativo naquela escuridão. Desfiz o nó de sua gravata, arranquei e me arrastei de volta para o Mustang, gemendo pelo machucado, desejando poder retirar logo aquela coisa tortuosa, mesmo que as possibilidades de se ter uma hemorragia fossem enormes e eu não fazia ideia da direção do hospital mais próximo. E muito menos tinha tempo para uma sutura.
Entrei no banco do motorista, puxando o telefone largado ao lado do porta luvas com rapidez e discando o número da emergência. Sequei o suor da testa, puxando a gravata que tirei de para dar um jeito na minha perna, próxima ao corte. Coloquei no viva-voz e respirei fundo, fechando os olhos com força enquanto removia o caco de uma só vez.
O berro saiu mais alto do que imaginei. O sangue escapou para fora, e mordi os lábios até amarrar a gravata no ferimento. Isso serviria pelas próximas horas. Próximas horas totalmente imprevisíveis. Eu poderia precisar de outra gambiarra até lá.
Finalmente, uma voz atendeu do outro lado.
— Boa noite, em que pos…
— Preciso de uma ambulância com urgência na estrada rente à Northern Boulevard, no Queens, e… — um branco. Eu não conseguia conectar a lembrança das curvas. Não havia placas — Acredito que há alguns metros em linha reta e na direção de Long Island. E não tenho mais informações sobre isso. Caucasiano, 23 anos, 1,76 de altura, está usando um terno branco. Nariz fraturado, perda de sangue, possível concussão. Está deitado no gramado com o pulso fraco.
— Espera, quem é…
— Venham depressa, a rua está vazia! — desliguei e joguei o telefone para o lado, enterrando meus pés no acelerador novamente.
O Mustang rugiu para a vida, arrancando com louvor após o tempo de descanso. Agora, eu estava mais do que disposto a extrair dele até o último fio de velocidade, implorando, rezando para que eu ainda alcançasse , seja lá para onde tenha ido. Seja lá o que pretendesse, ele teria que fazer na minha frente.
No entanto, depois de alguns minutos em rapidez absoluta, eu não via nada. Absolutamente nada. Nenhuma luz, nenhum estrépito de outro motor longínquo; apenas a escuridão, o infinito breu daquela noite, e as árvores que me fechavam como em um próprio caixão.
Comecei a sentir um aperto no peito. Uma desesperança, asquerosa e intrometida. Algo ruim o bastante para que eu fungasse e quisesse parar o carro e começar a chorar. Começar a chorar pela perda. Uma desmotivação sussurrava para mim que não daria certo. Que eu chegaria apenas para resgatar o corpo de de alguma encosta, ou que eu acharia parte dele, ou que eu simplesmente não acharia nada. Não, eu não ia conseguir… Ele a mataria, assim como planejou há 7 anos, assim como era decidido pelo Destino. Se estava sob efeito de algum demônio assassino, ele tinha perdido, e não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Senti os olhos molhados. Senti o pé afrouxando do acelerador. Senti os ombros despencarem. Eu não sabia mais… Eu não tinha mais direção… Eu nem sabia para onde estava indo.
Por favor. — Pedi mentalmente, ou talvez estivesse tão absorto pela angústia que as palavras saíram vívidas da minha boca — Por favor. A quem estiver ouvindo. Eu preciso de uma orientação. Eu preciso de uma luz. Preciso encontrá-los.
Ah, como isso era idiota. Como o desespero nos tornava idiotas.
Foi então que ouvi. E, de alguma forma, senti.
“Continue em frente, .”
A voz me pegou em um susto. Olhei para os lados, buscando algum rosto, alguma presença, mas nada veio. Ela era distante, como se estivesse me gritando da Manhattan.
“Continue em frente. Você vai saber.”
Senti um arrepio na base da nuca. Não era gelado, mas sim quente. Delgado e cálido, como um suspiro fresco, algo que me trazia um tipo de conforto. Não era frio e mórbido como o toque dos mortos. Era outra coisa, outra presença.
Uma que me era familiar. Que eu só tinha sentido em um lugar.
No quarto de . A presença amiga que não estava ali para matar. A materialização colocada ali para proteger.
Em outro instante debilóide, lembrando do conteúdo do diário, vi as palavras saírem de mim inconscientemente, tão baixas e distantes, atrapalhadas e infantis:
— Pai?
Não obtive resposta, mas não precisava. Eu sentia. Sentia pela primeira vez, desde o desaparecimento de minha avó, que não estava sozinho.
Não queria pensar sobre isso agora, não queria me distrair com possibilidades. Eu só precisava acelerar. Com o coração agradecido, foi o que fiz. Segui em linha reta, motivado a encarar a tragédia que fosse até que tudo isso acabasse.
Desse modo, finalmente vi. Pontos brancos, enfileirados, ao longe, ficando maiores a cada pedaço de asfalto percorrido. E então, de repente, um par de faróis distantes estava à frente, se afastando com rapidez, indo em direção aos outros pontos de luz.
O cheiro da maresia invadiu minhas narinas. Os círculos brilhantes iam se juntando até se alinharem em uma curva gaussiano. Aos poucos, o reconhecimento me tomava. As luzes entravam na panorâmica, junto com os arcos e a arquitetura oriental, e agora eu realmente via.
A ponte. A ponte de Queensboro. O mesmo lugar onde morreu.
Entrei em pânico.
“Agora, !”.
Olhei prontamente para o lado. Girei o volante na mesma direção, entrando em uma rua menor, estreita, agora iluminada por postes com luzes amareladas, correndo contra o tempo para alcançar o Volvo que se aproximava da ponte. A cada segundo, eu chegava mais perto, o coração martelando com aflição, olhando para o carro vizinho na avenida principal enquanto me aventurava com o Mustang na pequena rua logo abaixo. Uma pequena elevação mais à frente serviria de ponto de encontro entre os dois automóveis. Não existia trânsito em lugar nenhum. De novo, só existiam os dois carros, correndo para driblar a morte e a vida.
— Vamos… — grunhi sozinho, enterrando os pés no acelerador, visando a elevação e o Volvo acima, chegando cada vez mais perto, mais perto, mais perto…
O Mustang pareceu ascender aos céus quando passou pela pequena subida e então, de repente, como um passe de mágica, o carro tremeu ao cantar pneus pela pista principal, pondo-se há poucos metros atrás do Volvo, que continuava correndo a todo vapor, abafando um grito na direção da janela.
Acelerei até alinhar os dois carros. Olhei para o lado, agora enxergando no banco do carona, a face desbotada enquanto ainda tinha as mãos de em seu pescoço, apavorada em todos os detalhes do rosto. O choro era preso, febril. Ela se assustou com a minha presença, e ouvi meu nome sair mudo de sua boca, sem qualquer força de se mexer com mais eficiência. Senti o maxilar cerrar e uma pequena brecha para sentir alívio por ainda vê-la viva. Ela está viva, ainda há tempo, ainda há tempo, ainda há tempo…
era um ponto furioso do outro lado. Furioso e frustrado, era o que mostrava seu sorriso. Eu sentia a raiva emanando de si, aumentando a pressão do ar, fazendo-me redobrar a atenção na estrada. Logo à frente existia a entrada da ponte. Precisava que ele parasse antes, precisava que parasse agora.
— Veio assistir ao show?! — agora sua voz saía abertamente, o que causava arrepios reais e estarrecidos em . Não dava tempo de imaginar como ela deveria estar se sentindo. Aumentei a velocidade do carro, pedindo mais ajuda para o Mustang, implorando para que ele aguentasse mais um pouco.
— Não vou deixar que faça isso… — uma batida me interrompeu. Agora a outra porta do Volvo arranhava sem dó a lataria do Mustang. Senti um empurrão e um tremor intenso do carro antes que me afastasse e voltasse novamente. Se sua tentativa fosse me tirar da estrada, eu precisava estar mais atento do que isso — ! Me escuta!
— Cala essa boca! — mais uma batida. Ouvi gritar no meio do sufoco. Os dedos de a apertaram com mais força. A voz do fantasma saiu diferente; era uma voz provinda do mais profundo canto do inferno. Algo nocivo, morto. Algo totalmente do mal. O mal que morava naquele corpo e abominava interrupções.
Sua próxima investida foi de uma forma tão violenta que bati com a cabeça no painel e desacelerei por um minuto inteiro. Com os olhos fechados, continuei, sentindo o sangue pingar da mesma ferida na cabeça de antes, seu lugar preferido para me fazer apagar. Minha vertigem o deu alguma vantagem, e o motor zuniu ao passar por mim, correndo para a entrada, colocando os pneus nos primórdios do concreto da estrutura.
O pânico era real. Parecia estar genuinamente sentado ao meu lado, segurando em meu pescoço como fazia com . Algo totalmente perigoso que travava minhas pernas, algo que me fazia ficar cego de medo e cólera. Agora as luzes da cidade e da ponte iluminavam tudo e mais um pouco, mas o Volvo continuava rápido, tão rápido, tão rápido… ele avançava e o Mustang parecia berrar em um pedido de misericórdia, vacilando na última hora.
Por favor, não faça o que eu estou pensando, por favor…
“Por que não? Seria histórico! Irônico! Afinal, era pra ela ter morrido naquele dia também…”
— NÃO! — berrei em voz alta. Eu não respirava. O frio invadia todos os órgãos do meu corpo.
“Essa família estava fadada ao fracasso, garoto. Ela, o pai devasso, a mãe narcisista e o pobre irmãozinho que se meteu com quem não deveria e me roubou uma presa. Prometi que me vingaria. Prometi que levaria sua joia mais amada.”
— Por favor, por favor… — murmurei, o vento gelado secando meu rosto, secando minha alma — Você não poderia… Você não pode! Não faça…
“Ah, eu poderia! Como se atreve a dizer que não posso, fedelho insolente?”
— … Isso, não faça isso, não…
“Ela vai experimentar algo novo, a morte em suas nuances sombrias…”
— NÃO! Me escuta, eu estou bem aqui, me escolha, é a mim que você quer, a minha alma incomum, não ela…
Uma gargalhada grotesca invadiu o mundo. Pareceu balançar as paredes dos meus ouvidos. Aquela voz soou como um sopro gelado bem dentro da minha cabeça:
— Quer me dar a sua alma? Então venha e me traga!
E então, tudo aconteceu em uma sequência assombrosa de terror em câmera lenta.
O Volvo virou com tudo para o lado na estrutura estreita e simplesmente bateu de encontro à grade da ponte, quebrando-a em um estouro e abrindo espaço para que o carro voasse para a escuridão.
A imagem parecia irreal, ativando algo em meu cérebro que eu nem sabia existir.
“NÃO!” foi o que minha garganta quis pronunciar, o que acho que pronunciei, mas eu não sabia. Eu não sabia de nada. O Mustang parou. As portas estavam abertas. Minhas pernas corriam em direção aos destroços. A cada passo, uma nova voz invadia meus sentidos, enigmática, suave e longínqua.
“Afortunada é a alma que encontrar o bem e for bravo o suficiente para libertá-lo…”
Corri. Corri. Cheguei à beira destruída do concreto.
“[...]pois o bem conceder-lhe-á um favor…”
Eu não pensava. Nada funcionava. Eu não passava de um espectador da realidade.
“[...] tão maravilhoso quanto possa ser imaginado por um mortal… ou mediador.”
… e então, impulsionei meu corpo para o abismo, mergulhando na imensidão de trevas sem fim.




Havia algo de estranho no ar.
Abri e fechei os olhos várias vezes, sentindo-os leves e relaxados, os cílios balançando contra a brisa vinda de lugar nenhum. Uma brisa salgada, gelada, como a beira do rio. Como a margem do Pacífico. Como os resíduos do Queensboro.
Tudo era negro, opaco. Eu não sabia se estava de pé ou deitado. Eu não sentia mais dor, ou medo, ou qualquer um dos sentimentos desesperadores que habitavam em minha memória, algo que senti anteriormente, algo que, agora, estava muito distante do que acontecia aqui.
E o que estava acontecendo aqui?
Eu não sabia se estava girando o pescoço para olhar em volta. Não sabia se isso era possível, já que eu não sabia se tinha um corpo. Ou se minha consciência tinha braços e pernas. Eu parecia estar em um universo dentro de mim, e dentro de mim habitava um menor, terrivelmente curioso, afoito, emotivo, morando dentro do maior, aquele mais sensato e lógico, que o continha. E agora, despido de algumas máscaras e armaduras da razão, cá estava a materialização de uma consciência leve em um ambiente sombrio e silencioso.
Isso era estar morto? Flutuar sozinho em uma caixa escura e patética?
— Você não devia ter feito isso.
A voz era baixa, porém, mesmo assim, pareceu passear por todas as paredes, enchendo o ambiente sem forma de algum tipo de vida. Me virei rapidamente para trás, ou pensei que me virei, até topar com alguém de pé, trajado de roupas brancas, os pés descalços e a feição lívida e tranquila, como se eu tivesse aparecido em sua casa sem avisar.
Olhei para ele por um longo momento. Eu o conhecia. Tinha algo familiar naqueles olhos pequenos, o cabelo negro e bem penteado, o formato do nariz…
Oh meu Deus.
? — perguntei em um sussurro falho, genuinamente surpreso. — Você é ?
— Por enquanto, sim — respondeu, dando um singelo passo à frente. Ele tinha os braços repousados ao lado do corpo, apreensivos — E você é o tolo que quer salvar a minha irmã.
Engoli em seco. Não sabia como responder. Sim, eu sou o tolo que pulou atrás daquele carro, sou o tolo que é apaixonado por ela e de alguma forma a meteu nessa enrascada, então pode me fazer um favor e me dizer se deu tudo certo?
— Pelo visto, sim — falei, erguendo o queixo, olhando mais uma vez ao redor. — Olha, eu não sei o que está acontecendo, ou que lugar é esse, mas preciso saber se ela está bem, preciso…
O que eu precisava pedir se perdeu. Mãos frias agarraram meus ombros, e tive certeza sobre serem ombros. Olhei na direção de seu toque automaticamente, atestando minhas mãos, braços e pernas — sem dor ou ferimentos. Meus pés estavam igualmente descalços, minhas roupas eram identicamente brancas. Ergui os olhos para seu rosto, em um tremor defensivo que sua imagem me causava, mas vi que não era necessário me preocupar. Aquele não era envolto em aura negra. Aquele não queria me matar. Caso eu ainda não estivesse morto.
— Muito obrigado. Por tudo que fez por ela. E pelo que está fazendo agora.
Mantive a expressão encabulada, mas uma inquietação queimava meus nervos.
O que eu estou fazendo agora? — perguntei, ambicioso em saber o que era tudo aquilo — Onde eu estou?
— Você ainda não morreu, mas não sei por quanto tempo vai aguentar — sua voz pareceu viajar pela caixa novamente. Ele estava bem na minha frente e, ao mesmo tempo, parecia não estar. Sua imagem vagava nebulosa diante de mim — Nós, mediadores, vemos o que as pessoas comuns não vêem. É uma bagagem que nos acompanha até depois da morte. Podemos escolher um terceiro caminho quando nossa hora chega. Ir para a luz, vagar por Tellūs ou ser designado para proteção. Era isso que sua avó fazia e o que seu pai esteve fazendo até agora. Com — ele pontuou e gelei novamente. O pensamento correu por meu cérebro um zilhão de vezes por segundo — Não tive chance de nada disso porque aquela coisa me pegou primeiro, e é exatamente por isso que temos tão pouco tempo. Preciso que me escute com atenção, — ele chegou mais perto, ou parecia estar mais próximo. Senti mais um toque e um pequeno puxão, enquanto minha cabeça permanecia estagnada: como será ele? Como será meu pai? — Nesse momento, ainda está presa dentro daquele carro, e ele te pegou de repente e está te levando até o fundo das águas, o mais fundo que conseguir alcançar, profundezas que você precisará lutar muito pra sair. Agora você está lutando com ele, e não comigo, entendeu? Não sei como está acontecendo, mas a casca do meu espírito foi deixada de lado enquanto ele se aproveita para te matar. Eu te trouxe para cá pra fazer um pedido: Não desista e sobreviva! ainda está desacordada, ela precisa da sua ajuda, e só você pode fazer isso.
Parei com a respiração entrecortada. O frio agora parecia real, nascido do meu inconsciente. Eu estava diante do verdadeiro , a vítima, não o genocida, que me pedia para salvar a vida de sua irmã com um depósito de confiança pré-estabelecido.
A constatação de suas palavras me acordou dos devaneios.
— Espera, espera… Como assim lutar? Por que não estou sentindo nada disso? Por que não estou lá?
— Você recebe mais ajuda do que pensa, cara — disse casualmente. Tive uma forte impressão, novamente, de que mais alguém sabia mais da minha vida do que eu mesmo — Quando morri no acidente, eu sabia que precisava sair dali logo se quisesse afastar aquela coisa de perto de a tempo. Mas ele me pegou primeiro naquele limbo, e com o passar do tempo, eu tive acesso a um pouco das suas memórias, mesmo que muito pouco, e assim assisti a uma série imensa de lembranças compartilhadas e desconfortáveis entre essas criaturas sobre mediadores que morreram em suas mãos. Acredite, não são muitos, e Kang Jooheon é um nome conhecido, um exemplo tosco de valentia ou seja lá o que essas criaturas chamam pra zombar da coragem. Seu pai esteve com durante todos esses anos, e é exatamente por isso que aquela coisa não conseguiu agir até então. A conexão entre vocês é real, mas também é perigosa. Se eu conseguisse driblar essa força antes, teria pedido para que nunca se encontrassem.
Devo dizer que é uma pena que eu tenha falhado em absolutamente todos os meus planos de me afastar dela?
— Você está dizendo… Meu pai…
— Ele também está tentando te salvar, mas essas coisas de proteção tem data de validade, tudo bem? Sua avó ficava mais fraca a cada ano, com seu pai não foi diferente. Tudo piora quando ele tenta fazer contato, como fez com seus sonhos, como usou as vozes, quando se afasta um pouco de ; é por isso que o caminho para aquela criatura foi se abrindo cada vez mais quando vocês se aproximaram; Jooheon ficava fraco, e você o deixava assim — falava firmemente, sem qualquer tom prepotente. Era um esclarecimento. Não que eu temesse alguma acusação. Ele estava apenas seguindo um padrão de palavras que soavam imprescindíveis — Esse tipo de espectro é diferente, você não vai conseguir enxergá-lo, muito menos , mas ele está ali. Mas não vai aguentar por muito tempo! Por isso preciso que você faça uma coisa urgente antes que ele se veja livre de novo, que você ganhe tempo pra chegar na superfície.
— Mas… E-espera, , eu não tô entendendo, como você sabe…
— Olha só, você teve muita sorte em ter a sua avó em vida, mas eu não tive nada disso, ok? Ver fantasmas quando criança pode ser adorável ou engraçado, mas quando adolescentes e adultos tocam no assunto, são levados por homens de branco, tenho certeza que pode imaginar. Não levei muito tempo pra descobrir que gente esquisita por fora na elite pode trazer uma estigmatização letal pra uma família inteira, então preferi continuar diferente apenas por dentro. era a única a quem eu pensava em contar, mas aquela coisa me pegou antes que eu tivesse a chance.
Repuxei os lábios, concordando empaticamente com suas palavras em meu íntimo. O grande fato era que, ao chegar no ensino médio, ser estranho e ter orgulho disso não era uma vantagem. Diferente do que pensam, aquilo não o tornava subitamente descolado e apto a ter quantos amigos quisesse. Mesmo se tentasse. O problema não estava em ser estranho em si. O problema era que o exótico tinha suas vertentes, e falar com fantasmas não era muito bem aceito.
— Espera. não sabia de você, mas… O seu pai…
Vi quando ele engoliu em seco e o silêncio tórrido voltou a assolar o ambiente. Se ele era mesmo uma aparição, eu não veria sua respiração. Mesmo assim, era como se ele fosse um outro igual, como se fôssemos duas pessoas conversando no mundo real, em carne e osso, independente do assunto sério que era tratado. Percebi que, no fundo, eu gostaria de ter conhecido em algum outro momento.
A vida inteira, eu quis fazer parte do bloco de pessoas normais do mundo. Mas então, o normal não era atraído por mim. Meus amigos mais próximos eram Jane e , a escola nunca passou de um dever e, ainda assim, conseguia me sobressair e, no fundo, muito no fundo, eu seguia secretamente esperançoso de que, em algum lugar no cosmos, houvesse outras pessoas esquisitas como eu. Mais pessoas, além de Jane. Mesmo que não estivessem na Califórnia.
Era possível que pensasse o mesmo que eu. Um cara esquisito em busca de outros esquisitos.
— Não sou exatamente filho de George , mas você não precisa saber disso. E muito menos — era como se tivesse berrado a informação. Devo ter feito uma cara de paspalho chocado. Sua sobrancelha erguida comunicava: somos mais parecidos do que pensa. E então, se aproximou novamente, falando mais de perto: — Agora presta atenção: em poucos minutos, você vai voltar à consciência no seu corpo submerso e preciso que você junte toda a força que tem pra agarrar e subir à superfície. O sangue da sua perna está jorrando na água, e por isso ele vai ficar preso por um tempo, mas isso não é uma garantia, nada disso é. Então volte pra lá e salve a vida da minha irmã. Você é o único que pode fazer isso agora.
Provavelmente, era nessa hora que eu deveria assentir e agir prontamente, sem olhar para trás, seja lá de qual lado nesse lugar ficava a porta de volta para a realidade. Mas era como na escola; eu não conseguia me mexer enquanto não compreendia todo o conteúdo, do início ao fim. E sentia que, se não perguntasse agora, jamais teria outra oportunidade de novo.
, mas… Como tudo isso acaba? — perguntei, sentindo mais uma vez o aperto no peito. Sussurrei com mais firmeza: — Como faço isso parar?
parou por um momento, pensativo. Seus olhos agora não tinham mais a pressa, o frenesi do curto tempo, mas sim, a bondade genuína que o colocou na mesma batalha que eu.
— Eu juro que estive nessa busca exatamente do mesmo jeito que você — ele juntou as duas mãos, suspirando antes de continuar: — E a verdade é que nadar contra a corrente pode muitas vezes nos vencer pelo cansaço, mas eu continuei. Tive o destino que se espera para quem se mete com essas coisas, mas você não precisa terminar igual a mim. Existe um jeito, . Existe. Essa criatura só sobrevive por aí porque está presa ao meu corpo, à minha casca, e a única forma de destruí-lo é separando os dois. Ou destruindo a mim — o tom de sua voz desceu oitavas abaixo. — O que, na verdade, não seria ruim porque significaria liberdade. Me faria finalmente descansar. E é isso que você precisa fazer. Separar duas almas. Destruir o receptáculo. Ser mais esperto e mais forte do que o maligno — ele falou como um mantra, como se, de agora em diante, eu pertencesse a algum tipo de time onde todos falharam e eu fosse a cartada final — Você precisa, enfim, acreditar na magia e principalmente passar a acreditar no inferno.
Por incrível que pareça, senti o peito ficar suave, e a respiração retornando à leveza da chegada. Acreditar era um dos maiores passos que eu havia dado desde que tudo começou. Driblar crenças e costumes era um resultado normal quando se lida com monstros e magia de verdade.
— E se quiser mesmo ficar com a , não pense que vai esconder tudo pra sempre. Experimentei na pele como as mentiras estragam relações de um jeito irreversível.
Os cantos de meus lábios subiram em um sorriso fraco. Tenho certeza que meus gritos e chutes daquela noite foram a garantia de que ela teve todas as desconfianças respondidas.
— Acho que acabei de contá-la.
— Ela vai precisar de você. — sua imagem tremulou. A voz ficou falhada, mais longe, como a falha de um rádio — Seja corajoso, . Sei que tem as informações no diário da sua avó, sei que sabe onde tem que ir, e sei que vai achar um jeito de quebrar esse ciclo vicioso. O Destino não precisa ganhar dessa vez!
, espera… — arfei. Eu tinha mais perguntas. Tinha mais um monte de conselhos a pedir.
— Corre! Seu sangue está derramando! A vida dela está por um fio!
— Mas como…
Fui atingido com violência por uma onda surgida do escuro. Ela me arrastou até que eu não sentisse mais o chão sob meus pés. Entrou em meu nariz até que eu a forçasse para fora. Me fez abrir os olhos até o negro começar a se transformar lentamente em pontos esbranquiçados no teto. Acima. As luzes da superfície. E as luzes do vestido de .
Isso significava que eu estava de volta.




As horas eram um sopro quando emergi para cima, puxando uma grande quantidade de ar para os pulmões, ofegando em cansaço e tossindo várias vezes até me livrar de toda a água do peito. O corpo de estava inconsciente quando o pousei na margem, sem nenhum sinal de vigor. Ergui o corpo para cima com mais força, apoiando os antebraços para ganhar impulso e subir para o concreto. Um cinturão de grades demarcavam o caminho da calçada, e o frio era cortante, ruidoso, machucava todos os meus ossos. Não havia uma única viva alma por perto, mas eu não tinha tempo para pedir ajuda.
Ajoelhei-me ao lado de , ignorando minha dor, apoiando os dedos para sentir seu pulso, juntando as mãos e iniciando o RCP mais profissional que já fiz, suspirando para manter a calma, controlando qualquer faísca de desespero que atrapalharia todos os processos lógicos que salvariam a situação.
Nada.
A cabeça dela estava tombada para o lado, os lábios e as articulações estavam roxas, junto com os dedos enrugados e o cabelo espalhado pelo chão. Sua pele era pálida, embotada, doente. Limpei a garganta, continuando o RCP, pensando insanamente: não entre em pânico, ela está viva, não entre em pânico, não entre em pânico…
Desisti a meio caminho, puxando seu rosto e colocando minha boca sobre a sua, forçando os pulmões a sugarem mais ar, exigindo que desse certo, ordenando que salvassem sua vida antes que eu enlouquecesse de vez.
Senti o tremor de seus braços antes que a água me atingisse. Uma tosse violenta expulsou toda a água de seus pulmões, e me certifiquei de virar sua cabeça, aliviado até a raiz dos cabelos. desabou novamente depois das tossidas, abrindo os olhos vagamente.
! Ei, pode me ouvir? — falei, puxando seu rosto para o meu, mantendo-a deitada. Ela estava fraca demais para abri-los por inteiro. Seu corpo inteiro começou a tremer assim que o frio chegava até sua percepção.
? — sua voz era um sussurro ínfimo no ar. Ela estava prestes a apagar de novo.
— Sou eu, eu estou aqui. Sou eu — falei, pegando em seus dedos, que se moviam lentamente em busca de algo. Ela tentava manter os olhos abertos, sem sucesso. Um outro tipo de frio começou a me tomar.
, eu não… — ela tossiu mais uma vez, fraca. Sua aspiração era um apito. Os órgãos estavam falhando de forma gradativa — Vi…
A voz se perdeu pelo vento quando sua cabeça voltou a tombar para o lado, mole e debilitada. Vasculhei seu rosto, aguardando dois segundos para que ela voltasse a abrir os olhos, mas não existiam indícios de que isso aconteceria.
, acorda — chamei, pegando em seu rosto novamente, sentindo seu pulso novamente. Estava ainda mais fraco que o de , fala comigo! Ei! Você precisa acordar, precisamos voltar pra casa, precisamos ir a um hosp… Hospi…
O ar me faltou. De repente, eu não estava mais ajoelhado e sim sentado. A visão embaçou de tal forma como se eu ainda estivesse submerso na água gelada. O frio balançou todo o meu corpo. Agora quem não aguentava o torso erguido no concreto era eu. Subitamente, era como se eu fosse possuído por uma exaustão gigantesca.
Caí para o lado, sentindo-me como uma carcaça virada para a água, virado para as sombras da ponte logo acima. Os estragos da batida estavam ali, prontas para servirem de manchete no próximo dia, assim como um estranho Mustang verde e deflorado que guardava a identidade de Maverick e meu celular, e sabe-se lá o que mais que teria de ser ensacado no departamento de polícia na manhã seguinte. Se eu estivesse vivo, também teria de comparecer como mais uma gafe captada pelas câmeras de segurança de um maluco se jogando no rio a mais de 10 metros de altura.
Ao serem questionadas, as pessoas se lembrariam desse episódio sobre . Era assim que normalmente se referiam aos caras malucos. Se conseguissem passar disso, talvez comentassem de que fui um ótimo aluno e colocassem minha foto em algum armário de vidro ao lado da sala de auditório, como fizeram com meu pai, Kang Jooheon. Mesmo que eu não tenha alcançado a metade do que ele alcançou, em nenhuma área da vida; e nem da morte.
Eu iria apagar a qualquer momento. Na verdade, sentia como se já estivesse acontecendo há um tempo. Mas antes que tudo sumisse de uma vez só, as imagens turvas ganharam ondas. E as ondas se aproximaram, junto com um ruído, e a junção das duas coisas pareciam formar um rosto.
— Ei… — o sonido dizia acima de meu nariz, mas eu não enxergava — Você… Me… Ouvir?
Tentei balançar a cabeça para não apagar. Uma pessoa. Tinha uma pessoa desconhecida presente e, mesmo que eu odiasse admitir, precisava de uma mãozinha. Meu peito ainda parecia afogado em água, a garganta queimando pelos múltiplos caldos e os olhos demorando a se acostumar em estar abertos no vento trovejante da beira do rio.
, você me ouve? — a mesma voz pareceu mais nítida, e não falava comigo. Meus olhos piscavam devagar, mas meu corpo não se mexia. Nenhuma das partes me obedeciam. — Meu Deus, , como isso foi acontecer…
Eu não conhecia aquela voz. E uma voz estranha estava falando com . Senti o corpo dela se afastar do meu. Movi meus dedos em prontidão para agarrá-la de volta, mesmo que fosse impossível. O movimento foi notado pelo cara de costas. Ele virou-se em minha direção, colocando o rosto acima do meu novamente, ofuscado, misterioso. Somente os olhos estavam nítidos, e me senti perturbado por eles, verdadeiros espelhos negros, as pupilas escondidas na escuridão.
— Ei, você está bem? Consegue falar? — ele desceu o olhar por todo meu corpo, apertando minha perna perto da ferida de um jeito infantil. Não tinha forças nem para gritar com a dor, saindo apenas alguns gemidos ridículos. Ele fez uma careta de apreensão.
— Quem é… Você? — consegui falar, fechando os olhos novamente pela dor na garganta, franzindo o cenho de maneira questionadora.
Vi seu rosto virar para o lado, vigiando o corpo imóvel de . E então, com uma expressão estranhamente obscura, ele respondeu antes que eu apagasse de vez:
— Meu nome é . E eu vi o que você fez.


Epílogo



Se precisasse escolher uma noite apavorante, dentre as dez mais estranhas da minha lista já existente, aquela estaria no topo de todas as outras.
Porque naquela noite, tenho certeza que vi meu irmão.
E ele está morto há 7 anos.
Quando se foi, me deixou convicta de que estava indo sem nenhum arrependimento. Não havia nada no mundo que ele não tivesse experimentado. Não havia sonhos que não foram realizados — e Deus sabe como ele era sonhador. Quando partiu, levou toda a sua bondade dentro de seu coração, tirando também uma boa parte da luz do mundo e a luz que cedia para mim mesma. iluminava os quatros cantos do planeta, e já cheguei a crer religiosamente que coisas boas só aconteciam porque ele estava vivo.
Até que não estava mais.
Fiz o meu melhor para seguir em frente, com meu coração ficando ligeiramente mais inteiro à medida que o tempo avançava — passei a blindá-lo e trocar seus curativos alguns anos atrás depois de um incidente infeliz que o quebrou mais um pouco enquanto ainda se recuperava, me fazendo perder o gosto por todo amor e bondade sem amarras que aprendi de meu irmão. Existiam coisas que funcionavam melhor em outras pessoas do que em nós mesmos. O altruísmo genuíno era um dom natural de , não meu.
No entanto, ao ver seu rosto na escuridão agitada daquela noite, a indulgência e mansidão que sempre lhe foram características, haviam evaporado diante das chamas daqueles olhos negros.
A sensação era de ser lançada ao espaço e orbitar eternamente em pane. Onde seu cérebro entrava em um delay permanente e a última imagem captada por seus olhos congelasse e, assim, permanece, até uma nova colisão te trazer de volta para a realidade.
A colisão veio. E o real se concretizou em morte, chegando subitamente, na forma de mãos pesadas e dedos longos, idênticos aos dele, agarradas em minha garganta sem demonstrar nenhuma hesitação para me matar.
Meu irmão estava tentando me matar. Ou algo que muito se parecia com ele.
Os movimentos bruscos deixavam meu cérebro em vertigem. Haviam vozes, gritos, rosnados, rugidos automobilísticos e uma briga intensa entre quente e frio no ar. Fogo e gelo; com resquício de enxofre que eram sugados por minhas narinas. Eu era um ponto trêmulo na confusão, que chacoalhou e gritou, que enxergou um terceiro elemento no meio do pesadelo e suplicou para que a tirasse dele — parecia tão fantasioso quanto meu irmão morto ao meu lado, mas não parecia mau. Muito pelo contrário. Seu rosto era a intervenção quente do tormento, o bem contra o mal, e parecia já estar bastante familiarizado com esse mal em específico.
E então, veio o silêncio. E ele durava até o momento. Durava enquanto eu tentava mover meus braços, minhas pernas ou qualquer articulação. Estava perdurando de forma ridícula enquanto eu tentava abrir os olhos. Tudo ao redor estava quieto o suficiente para se ouvir o ruído das folhas e das cartas de baralho contra a superfície desigual de uma mesa há centenas de quilômetros.
Não havia visão. Os outros sentidos estouravam em potência máxima, surgindo com novos elementos e sensações que nada condiziam com o vazio em que minha consciência estava. Se minhas mãos estavam presentes, seguravam algo úmido e gelado, condensado em um bastão longo. Uma lâmina de água, que me olhava de maneira sugestiva. O vento forte raspava em meus ouvidos, mas não se parecia com vento. Ele também era úmido, espesso, frio. Soava como água, e então, soava como uma explosão surda. O tato, agora funcionando, trouxe a sensação de pele cortada e ossos quebrados. A dor parecia uma pessoa física. Ela me golpeava como uma sequência interminável de ondas fortes. Colocava meu corpo em movimento, mesmo que ainda me sentisse parada. Flutuando. Afundando.
Foi quando entendi que a escuridão em questão era resultado da ausência da luz. Um pequeno e ínfimo ponto brilhante que piscava ao longe, muito longe. Eu não sabia se me chamava para a superfície, ou se me assegurava de descer ainda mais fundo.
Por fim, o silêncio contribuiu com apenas duas cartadas: uma no começo, quando o arrebatamento de meus sentidos foi pego pela mão dominante e perversa de meu amado irmão. E no fim, quando encontramos as trevas submersas em um golpe, onde seu corpo tinha morrido primeiro.
E onde o meu morreria agora.

Eu adorava observar Madolyn abrindo as persianas do meu quarto pela manhã. O giro límpido de seu punho no ajustador e o estalo que o tecido duro dava ao chocar-se entre si sempre faziam com que o gesto parecesse um movimento de prestidigitação — ou profissional, cuidadoso. Fazia eu me sentir amada e cuidada. Crer que ainda existia alguém que nutria interesse em me ver abrindo os olhos para mais um dia, além de mim mesma.
Não era Madolyn quem estava abrindo as cortinas desta vez.
Esperei que a luz cinza da manhã entrasse como de praxe, mas o brilho esquálido e forte me alcançou como um soco. Ouvi um grunhido escapar da minha garganta, enquanto tentava mover os braços ou gritar para que Maddy interrompesse isso, mas nenhuma voz saiu de mim. Tateei a cama para os lados e a encontrei menor do que era. Abri os olhos novamente e o branco ainda estava ali, agora adornado de lâmpadas grandes e fluorescentes, que duplicavam e triplicavam até que voltassem ao mesmo lugar. Tentei me sentar e puxar o ar, mas algo congestionava meu nariz, minha boca, passando atrás de minha cabeça. Ouvi barulhos desconexos, vozes, que balançavam em zumbidos, às vezes longe, às vezes perto. Até o toque em meus ombros pareciam de outro mundo, como dedos fantasmas.
! Estou aqui! — o mundo balançou novamente quando tive os ombros estremecidos. Uma imagem entrava em foco. Um rosto que, assim que reconheci, tive certeza de que só podia estar dentro de um sonho.
Um sonho de muito mau gosto.
Quando seus dedos puxaram a coisa que não me permitia respirar, senti cheiro de álcool. Álcool e látex, juntos no mesmo lugar. Antes que tentasse olhar ao redor, aquele rosto pairou novamente no caminho, me impedindo de me mexer. Sua boca falava, mas foquei nos olhos. Os olhos dele eram ligeiramente maiores do que os de , e a arte neles era curiosa. Linhas compridas e finas marcando expressão, e suas pupilas fundas e difusas que sempre sugeriam, mas nunca diziam. Eu nunca vi outros olhos como aquele.
Jurei que nunca mais os veria.
. — A voz era minha e parecia genuinamente arruinada. A dor na garganta era pior — O que faz aqui? Onde…
Virei a cabeça para mais uma tentativa de verificação, mas meu rosto foi impedido de novo. Eu sabia pelo cheiro. Sabia pela ausência de Maddy. E sabia pela presença dele.
Antes que ele falasse, eu já estava sabendo.
— Se acalma, você precisa se deitar… — suas mãos escorregaram pelos meus ombros novamente, que repeli em um impulso. O suporte de metal da infusão balançou até quase cair.
Ele pareceu surpreso. Eu também estava. Sinto que deveria pedir desculpas, mas não sei se quero mesmo fazer isso. A reação foi involuntária, toda a adrenalina voltando com as lembranças, embrulhando meu estômago e me dando a certeza de que, mesmo que não o visse há mais de 7 anos, não era aquele rosto que eu queria ver agora.
— Onde ele está? — perguntei ao mesmo tempo em que tentei me mover. Senti a perna pesada e, então, notei a grande bota preta envolvida em uma delas, uma grande tala que guardava meu pé enfaixado.
— Você precisa se deitar. — Repetiu, com sua voz branda e confiante.
havia me dito uma vez que era difícil fazer perguntas a cuja resposta você não precisasse absolutamente, de maneira que nunca fiquei sabendo da onde viera aquele tom. Tinha se aprimorado, polido, passado por correções até que soasse como um perfeito CEO autoritário. Com a roupa que estava, não duvidei nada de que era realmente o que tinha se tornado.
Eu estava genuinamente cansada de receber ordens.
— Eu não vou me deitar. Onde ele está? — cerrei os dentes em contrapartida. Agora que as cartas estavam dispostas, eu poderia estudar o seu jogo. E eu esperava que sua expectativa não fosse de retornar e se reencontrar com a mesma garotinha de 16 anos que deixou para trás.
Vi quando engoliu em seco e girou o corpo para fora.
— Vou chamar uma enfermeira pra você.
— Cadê o ? — puxei pela barra de sua camisa social e cara, encontrando força nos braços o bastante para que ele curvasse o corpo — Eu não sei porque você está aqui, e nem como nos achou, e sinceramente isso pouco me importa, mas eu não estava sozinha, ! Então me diga o número do quarto dele ou…
— Não acha que está indo longe demais? — afastou as mãos em um puxão, com desprezo pela própria atitude. Podia ver os lábios crispados de nervoso, algo muito parecido com sua antiga expressão de raiva — Já viu o seu estado? Já parou para avaliar todos os seus curativos? Claro que não, como poderia?! Você está desacordada há pelo menos quatro dias! E quando abre os olhos, a primeira coisa que pergunta é sobre aquele moleque irresponsável? Pelo amor de deus, ! — bufou, passando a língua afetada nos lábios, mexendo os pés para o outro lado da maca. Eu lutava para enxergar a direção da porta, imaginando em quanto tempo levaria para retirar todas as infusões e correr. Ou me mover o mais rápido possível.
Ouvi o número. Ouvi de novo, para ter certeza. E nada disso impediu que o pânico me tomasse.
Quatro dias que pareceram horas. Terríveis e torturantes horas.
— Como sabia onde eu estava? — a boca falou primeiro do que minha mente, presa no torpor da confusão, tentando revivê-la a todo custo — Como você me achou?
Quando viu que era seguro, ele se aproximou novamente, sentando-se na beirada da cama.
— Falei com Morgana naquela festa beneficente. Entrei como um dos maiores doadores para o projeto, e posso dizer que quase a matei do coração. Sei como ela não esperava me ver tão cedo de volta — tentei ignorar que, muito perto, tinha o aroma químico opressivo de um gel de banho bastante masculino. Do tipo que costuma vir em frascos pretos e com nomes como Shock e Hit. O mesmo cheiro de anos atrás, o mesmo cheiro que traziam minha adolescência e de volta — Mas eu queria principalmente ver você. Era pra isso que eu estava lá. E quando aconteceu, foi em um desfile escada abaixo com o filho do Patrick.
Sua cara revelava desgosto. Eu não seria a primeira a falar sobre isso. Lembrar de açoitava meu estômago, me dando calafrios.
— Não consegui acreditar que você tinha acabado com aquele pentelho que não sabia a diferença de um cateto e uma hipotenusa. Mas achei Morgana, e ela não teve escolha a não ser me contar. — ele soltou o ar pesadamente. Era como se estivesse me mostrando suas próprias cartas, um três de espadas, declarando que não estava assim tão perdido quanto sugeria seu aparente status de forasteiro — Eu sabia que sua mãe não estava bem, , mas não esperava que ela fosse descer tão baixo. Firmar um acordo com Patrick é ridículo, agora te envolver nisso beira a uma insanidade.
— Sabe alguma coisa sobre Patrick ? — levantei uma sobrancelha, soando desinteressada. Não queria verdadeiramente informações que não esperava que tivesse, mas precisava que ele visse que eu não queria falar sobre assunto nenhum. Não agora.
O jeito como me olhou foi de confusão inesperada. Eu não estava dando absolutamente nada do que ele queria.
— A questão não é essa, . Sua mãe usou você pra um acordo milionário entre os e os , e não diz apenas sobre futuros bens e casamento, mas obrigações internas dentro de um relacionamento forjado. Isso é abuso, é crime! Você era uma criança.
— Por favor — não consegui segurar a risada falsa, enquanto me olhava alarmado — Você estava comigo antes que ela fizesse tudo isso. Acha mesmo que eu era uma criança?
Ele pareceu engolir em seco e desviou os olhos. Covarde.
— Sei que todos nós passamos por muitas coisas, mas isso não devia servir de motivo pra esse tipo de ação impensada. Você poderia ter me falado, você…
— Acha que eu fiquei sabendo? — esperava que ele notasse meu tom raivoso, meus dentes trincando e minha clara impaciência com o assunto — Acha mesmo que Morgana faria questão de me contar o que faz ou deixa de fazer? E acha que eu poderia impedir alguma coisa se soubesse? Não, . Eu não poderia fazer nada, mesmo antes de morrer. Não tenho qualquer utilidade desde que meu pai se foi daquele jeito estúpido por minha causa. O acordo foi a única chance que Morgana viu de me dar um selo de , mesmo que eu continuasse sendo a pessoa que levou seu marido e seu filho favorito — despejei, tentando mover a perna para o lado — E falar com você? Não seja ridículo.
— Você não teve culpa de nada, , por favor — suspirou, também cansado daquele tópico, ou simplesmente fugindo para não ter que terminá-lo — Sei o que pensa sobre esse assunto, sei que jamais vai me perdoar por ter ido embora naquela época, mas você não pode…
— Preferia que ela tivesse assinado um acordo desses com a sua família?
Aquela era a minha cartada: um três de espadas que perfuravam um coração. Vi seu olhar magoado e soube que acertei em cheio. Mas estava tudo bem, já que o meu já tinha sangrado o suficiente por ele.
— Eu nunca ficaria com você sob um pretexto tão ridículo.
— Também não ficou sob um pretexto válido, então talvez suas palavras não signifiquem muita coisa — puxei os lábios, irredutível — Vou perguntar uma última vez, : onde está o ?
Seus olhos se desviaram novamente, encarando o chão. Eu não queria e nem pretendia saber suas respostas, ou porque ainda estava ali; era uma pessoa próxima, tão próxima quanto meu irmão antigamente, mas eu o tinha perdido. Um outro ente querido, levado por aquele pesadelo.
Mas antes disso, chorei e me entreguei ao seu consolo, sendo ingênua demais para perceber que ele não lidava bem com obstáculos. E isso corroeu qualquer sentimento bom que eu pudesse ter sobre ele.
— Morgana me disse que a estava levando. Que ninguém deveria interferir. Mas eu jamais deixaria isso acontecer, ainda mais quando vi o estado em que ele ficava a cada minuto daquela noite — olhei para minhas próprias mãos. Ser machucada pelos fatos fazia parte de uma época antiga. As ações de minha própria mãe agora eram parte de um cotidiano que eu deveria aceitar. Naquela noite em específico, estava especialmente violento e transtornado por outras forças adjacentes além do álcool, forças obscuras que me raptaram e quase me mataram, mas isso não exclui seu histórico de dias ruins em que me envolveram — Eu corri atrás de você. Dirigi como um maluco, mas um outro carro já estava na minha frente. O carro daquele… — começou, mas considerou antes de terminar — … daquele cara. Vi o corpo de jogado no meio do caminho, quase ao mesmo tempo em que a ambulância o levou. As piores pessoas sempre parecem se safar — quis concordar com ele, mas não queria abrir qualquer brecha para conversas longas — Vi o momento em que você se atirou no rio, quando ele fez a mesma coisa logo atrás de você. Eu vi tudo,
Viu o que queriam que visse, pensei. Apertei os lábios, sem intenção de dá-lo alguma resposta enquanto não me desse as minhas. Não me importava se estivesse sendo julgada por ser uma maluca suicida; em alguns momentos, já tive vontade de ser essa pessoa. Eu só precisava saber da história correta junto com a pessoa que também estava lá de verdade e viu exatamente tudo que aconteceu, da forma como aconteceu.
— Não soube o que fazer. Eu não sei porque você fez isso, mas sei que é culpa da Morgana, é tudo culpa dessas retaliações imprudentes e todo esse abuso psicológico que continua até...
… — murmurei, exaurida. Eu não era boa em mentiras, então até quando teria de ficar me esquivando dessa conversa sem grosserias?
— Tudo bem, não precisamos falar sobre isso agora — limpou a garganta, enfiando uma das mãos nos bolsos — Aquele garoto, . Estava tão péssimo quanto você, mas pelo menos não quebrou nada. Parece ter passado por maus bocados até chegar na ponte, mas está vivo e acordou no dia seguinte. Acho que a mãe dele surtaria se não o dessem alta. Antes disso, Morgana fez questão de transferi-la para outro hospital e aqui estamos nós, bem na divisa de Long Island.
— É o quê?! — uma de minhas sobrancelhas se aproximou do cabelo. A boca se escancaria mais, se não fosse minha garganta seca pedindo socorro — Minha mãe me tirou de perto dele de propósito?
— E ainda disse que ele sofreria consequências caso tentasse se aproximar de você de novo. Ele bem que tentou vir te ver aqui, mas o aconselhei sinceramente que isso não era uma boa ideia. Um tal de também veio, mas Morgana não é tão idiota. Nenhum desconhecido entra nesse quarto sem seu consentimento. Diz que está te protegendo, mas ela nem ao menos está aqui.
Lançamos olhares um ao outro. Se pudesse lê-los com precisão, diria que concorda em parte com as atitudes de minha mãe, ao mesmo tempo em que repudia a outra. O timbre de sua voz carregava desprezo e desgosto. Sinceramente, não me importava. Já estava sendo insuportável vê-lo naquele quarto, me olhando com tanta disposição em ajudar uma pobre garota, que estava tão mal quanto da última vez que a viu. Desta vez, havia um denominador comum para que eu estivesse singelamente quebrada, mas ele não reagiria bem caso eu contasse sobre ver o meu irmão.
No fim, ele não me conhecia mais tão bem para interpretar minhas expressões.
— Quem é ele, ?
Retirei a infusão e joguei os pés para fora da cama. Eu estava perdendo tempo. As paredes giraram e duplicaram até que eu me estabilizasse, mas virei para ele com o olhar que dizia: não é da sua conta.
, por favor, não me faça te impedir.
— Não me faça te mostrar como isso vai ser ruim, — grunhi, sentindo a voz ainda mais fraca pelo esforço, arrancando a roupa cirúrgica e deixando-a cair aos meus pés. não se virou e não disse uma palavra ao ver as roupas íntimas, a cicatriz no corpo semi-nu e tudo o mais que não era estranho para ele.
Talvez tenha sido a primeira vez que ele não estava enxergando a de 16 anos, a irmã frágil de seu melhor amigo que precisava ser protegida — e sim, a garota por quem se apaixonou e por quem nutria um desejo profundo e escondido.
Toquei a ponta da sacola plástica em cima de uma poltrona ao canto que guardava uma muda de roupas que Madolyn deve ter colocado ali, ou talvez . O jeans era mais apertado, tornando a tarefa de passá-lo pela bota um pouco difícil, e o casaco era grande e quente, o que mostrou ainda mais que e sua expectativa velada de voltar e ver tudo como era antes era real.
— Merda… — ouvi seus dentes trincarem, mas não me virei em sua direção — Qual é, , quem é esse cara?! Por que precisa ir falar com ele agora? Você acabou de acordar!
— Exatamente por isso: porque acabei de acordar — murmurei, procurando meu celular em outras bolsas e ao redor, mas aparentemente, se a história de fosse verdadeira, Morgana não me deixaria com um único fio de oportunidade de me comunicar com .
— Quem te garante que ele já não desistiu?
Virei para ele, reduzindo a respiração em um silvo, piscando os olhos para alertá-los de se manterem abertos.
— Só você acha tão simples desistir pelos obstáculos, . Não vá pensando que as pessoas não lutam pelas outras — respondi, e vi seu rosto murchar. Joguei mais um dos casacos pelos braços e calcei um dos tênis no pé livre — E prefiro saber esse tipo de resposta por ele mesmo. Não mereço que você fique adiantando as coisas para mim.
Tateei um pouco mais os plásticos e puxei um cartão. Se tudo estava como eu pensava, minha mãe ainda não sabia que eu tinha acordado e então, consequentemente, não tinha feito nada aos meus cartões de crédito. Mesmo assim, o dinheiro era uma preocupação a menos, então puxei minha carteira, ainda com alguns dólares soltos e limpei-a das notas, jogando o pedaço de couro para o lado e começando a mancar para a porta.
! — ele rugiu novamente, ansioso — Me deixa pelo menos te levar.
— Não! — respondi, sem espaço para negociações — Você não vai me levar e, se tiver guardado qualquer mísero sentimento bom de tudo que tivemos, , também não vai contar para minha mãe ou para nenhuma enfermeira paga por ela. Desculpe, mas não tenho mais 16 anos e não confio mais cegamente em tudo que você faz ou diz, então, por favor… Só me deixa ir.
Essa era minha outra cartada: capengar pela neve como um homem de muletas sob o fim da tarde, tremendo até os queixos até achar um táxi que me levasse para Manhattan em vez de aceitar a carona de , que eu não acreditava realmente que fosse me levar aonde eu queria.
Era exatamente no que eu pensava até, finalmente, conseguir achar um na avenida, olhando para trás constantemente, torcendo para que não brotassem seguranças, enfermeiras ou um , que ainda insistiria que precisava me proteger.
Eu não queria ser protegida. Especialmente, não queria ser protegida por ele.
Um táxi parou no meio fio. Andei o mais rápido que minhas pernas permitiram e me enfiei no banco de trás, dando o endereço com a voz ainda fraca e falha, mas compreensível. O motorista arrancou na mesma hora em que vi o indício do cabelo negro de correndo para fora do hospital, balbuciando meu nome de um jeito mudo e perturbado.
Olhar para ele naquele momento específico doeu em um ponto profundo e certeiro. Lembrar-me do passado que ele trazia foi bárbaro em facetas que nunca imaginei — como se eu encarasse os anos passados diretamente pela primeira vez, e tudo que vivi nesse tempo tinha sido apenas uma sucessão de dias e mais dias sem sentido. Em uma única noite, tudo tinha voltado. E se tudo aquilo tinha mesmo acontecido, aquele passado poderia ser uma mentira.
E o presente e o futuro guardavam verdades monstruosas e difíceis de digerir.



— Ele não está? — Minha voz despencou em várias oitavas.
A perna doía. O frio piorava o movimento de minhas articulações. E o senhor da recepção do edifício claramente me encarava com preocupação e pena, ou como se eu fosse uma louca que literalmente havia deixado o hospital, pálida e doente, com um curativo grande na testa e uma perna quebrada.
— Não, senhorita. Ele saiu muito cedo e ainda não voltou.
— Você tem alguma ideia de pra onde ele foi? — perguntei rapidamente, sentindo o vapor de ar escapar de minha boca. O homem balançou a cabeça negativamente devagar, querendo acrescentar algo, mas não dizendo nada. Talvez dissesse que nenhuma outra mulher foi procurar em sua casa a não ser Jane, e que isso poderia implicar em várias teorias que explicassem seu sumiço, o que não me interessava agora.
Mas meu olhar era resoluto e eu não podia desperdiçar o tempo.
— Tudo bem, muito obrigada.
Comecei a caminhar para fora novamente, ouvindo sua voz atrás de mim:
— Senhorita, está fazendo 8 abaixo de zero, não quer esperar até que ele volte?
— Não posso, obrigada pela consideração — respondi enquanto andava, arrastando a perna pela calçada, pensando em minha última tentativa, a última antes que eu desabasse pela tontura.
Eu não tinha outra opção considerável além daquela.
Consegui chamar outro táxi, torcendo para que as notas remanescentes dessem para a Columbia, e que minha condição física desse para chegar aos dormitórios. Imagine só a notícia: tendo que contar míseras cédulas para pagar um trajeto de menos de oito minutos. Um verdadeiro escândalo financeiro, outro na lista da família .
Pela visão de Morgana, desde a morte de meu pai, não havia mais dinheiro. Havia apenas incerteza e angústia, e novos planos para obter mais uma vez a ideia dela de riqueza: Uma garantia de se apropriar da fortuna dos outros.
Às vezes, era impossível acreditar que ela era minha mãe. E que, mesmo com tudo isso, eu a amava. Um amor que não era bom para ninguém, muito menos para mim.
— Senhorita! — ouvi o grito, e arqueei as costas com o susto. Percebi, com espanto, que meus olhos tinham se fechado — Chegamos! A senhorita está bem?
Limpei a garganta e olhei no taxímetro. Entreguei todas as notas, nervosa, e o vi me devolver o troco. Dei um sorrisinho e agradeci, suspirando serenamente e com gratidão por ele ter passado dos portões e eu estar há poucos metros do John Jay. Poucos metros que ainda pareciam uma eternidade quando se mancava devagar, agarrando em corrimões e paredes a todo custo, tentando se manter de pé.
Não me deixe apagar, Deus, por favor, faça com ele esteja lá, algum deles esteja lá, alguém que não vá me chamar de louca…
Escorreguei os ombros para dentro do elevador, apertando o número que me lembrava ser dos dormitórios masculinos e encostei a testa na parede metálica gelada, respirando fundo, sentindo o rosto quente, o corpo ainda mais gelado, os números saltando e voltando ao mesmo tempo.
Era um jeito estranhamente desagradável de se mover. De um jeito factual.
Quando ouvi o barulho da porta dupla, abri os olhos e sequei as mãos no casaco, sentindo a boca seca e com certeza pálida, cheia de rachaduras. Andei até encontrar alguém, qualquer pessoa. Vi um garoto com fones de ouvido gigantes comendo um salgadinho barulhento enquanto estava encostado na parede, assistindo algo ainda mais alto no celular. Arfei, tocando em seu braço sem qualquer cerimônia e vendo-o se virar em sobressalto, arrancando os fones.
— Jesus Cristo! Você me assustou! — ele arfou, e apoiei uma das mãos na parede — Ei, ei, você está bem? Cara, você não pode entrar aqui, é o dormitório masculino…
Newman — interrompi, gesticulando pelo grande corredor cheio de portas — Preciso saber qual desses é o quarto do Newman. Por favor.
— O cara da computação? — perguntou e eu assenti, débil.
— Aquela porta à esquerda no fim do corredor. Acredito que seja o número 2101. Tem uma frase de Ghandi escrita em binário.
— Obrigada — agradeci, desviando o rosto assim que as pálpebras pesaram. Era apenas mais alguns passos. Ajeitei a postura e comecei a caminhar, reunindo todo o foco que eu precisava no trajeto pelo piso de madeira.
— Tem certeza que não precisa de ajuda? — perguntou em meu encalço, mas fiz um sinal para que ele permanecesse onde estava. O garoto não precisava do trabalho tedioso de me carregar por alguns metros, porque eu com certeza não duraria muito de pé no quarto de , independente se ele estivesse lá ou não.
Quando me amparei ao lado da porta, todo o corredor estava em silêncio. Bati, mais fraco do que imaginei, me sentindo odiosamente debilitada. Nada aconteceu durante um minuto. Levantei as mãos para bater com mais força quando ela repentinamente se abriu e olhei para cima.
estava parado, interrompendo alguma frase no meio, e quando percebeu que era eu — algo que demorou alguns segundos a mais pela minha fisionomia totalmente abatida — soltou uma expiração pesada de choque e arregalou os olhos.
— Santo Deus…
— Onde ele está? — foi minha primeira pergunta, antes que minhas pernas cedessem, antes que meu corpo me boicotasse e apagasse de vez.
, meu deus…
?!
Outra voz veio de dentro do quarto. se afastou da porta, me dando a visão do interior. estava sentado na cama, com os cotovelos nos joelhos, parecendo estar com a cabeça enterrada nelas há pouco, com o olhar tão ou mais surpreso que .
O alívio me invadiu. Ele se levantou e eu não pensei. Entrei no quarto, correndo para ele, abrindo os braços e afundando meu rosto em seu pescoço. Eu era boa em cumprimentos básicos, mas estava cansada disso, cansada de formalidades. Meu inconsciente dizia abertamente que eu só precisava daquele abraço. Senti seus braços rodearem meu corpo instantaneamente, e uma de suas mãos passaram pra minha cabeça, em seguida para o meu rosto e então ele o afastou para vê-lo.
, por Deus… — grunhiu, ainda perplexo e assustado, mas incapaz de nos separar. — Como chegou aqui? Você tá gelada… E queimando! — pousou a mão na minha testa, e vi sua aflição salpicada nos olhos. Balancei a cabeça, como se não fosse relevante.
— Isso não importa, eu precisava te ver. Fui até a sua casa, mas…
— Ainda foi na minha casa?
— Eu me lembro de tudo, . Me lembro de absolutamente tudo, então me escuta — tirei suas mãos de meu rosto, tentando me manter de pé sem apoio para que minha voz saísse mais firme — Precisamos conversar. Eu sei que precisamos. Sei que caímos juntos daquela ponte e sei que você é mais do que diz que é.
Ele apertou os lábios com a verdade que falei. Revirou os olhos para , ainda parado atrás de nós e mais quieto do que nunca. Rapidamente, enfiou a mão em um dos bolsos e puxou de lá uma chave, jogando-a no ar para que pegasse.
— Trás antibiótico, gaze, fitas, aspirina e uma sopa. De legumes, sem caldo de carne, leite ou manteiga. Aquela sua vodka escondida no guarda roupa deve servir como álcool — disse tudo muito rápido para que meu cérebro lento acompanhasse. concordou na retaguarda, virando-se para mim com certo pesar, mas abrindo um pequeno sorriso suave, igualmente otimista por me ver.
— Ninguém vai entrar aqui, pode ficar tranquila — assegurou, o que me deu a impressão de que já estava sendo observada antes mesmo que ponderasse isso. Observada de um jeito protetor. Em um segundo, ele se retirou e fiquei sozinha com .
Ele tocou o curativo em minha testa, e pela forma como doeu, talvez não estivesse totalmente cicatrizado ou eu tinha dado um jeito de arrancá-lo no meio da jornada até aqui. Seu toque era delicado, quase cavalheiresco, como quando olhou meus ferimentos no carro depois de Woodlawn. Como sempre fazia questão de parecer quando me tocava de qualquer outra forma.
— Não acredito que saiu nesse tempo — sua voz era um sussurro, querendo soar como uma bronca, mas sendo brando e irritadiço. Ele tinha a postura fria, armada, como se estivesse unicamente servindo de apoio para que eu não caísse, mas o aperto de suas mãos em minhas costas me diziam a verdade de sua agitação interior — Eu daria um jeito de te buscar. Daria um jeito de te ver, depois que você melhorasse, depois...
— Eu precisava falar com você — interrompi, antes que ele começasse um monólogo irascível, fugindo do conteúdo principal. A visão dele ficava mais enevoada a cada minuto. Olhando de longe, ele parecia apenas uma forma. Eu não esperaria chegar — Eu sei de tudo.
Fui encarada de uma forma muito séria. Suas sobrancelhas se curvaram até amassarem sua testa, tentando avaliar se eu hesitaria, mas ficando frustradas logo em seguida. abriu um meio sorriso ácido, desacreditado.
— Você não sabe de tudo, . — sua resposta foi pontiaguda. Eu não dei para trás.
— Sei que meu irmão está por aí. Sei que ele quer me matar. E sei o que você é. — declarei, a voz límpida e sem qualquer dúvida. Seus braços se afrouxaram e nos afastamos a centímetros. Lembrei-me da noite na Gibbons, sobre como ele parecia conhecer Margot. Lembrei de Woodlawn, da saída repentina do pub de madrugada, sua reação à foto de , seus acidentes estranhos e de como sempre parecia saber informações secretas demais, despretensiosas demais. — Você sabe sobre também. Arrisco a dizer que sabe há bastante tempo.
Talvez estivesse se sentindo intimidado. E, pelo tempo que o conhecia, sei que isso o deixava irado, ligeiramente perdido. O ultimato não seria um grande problema para ele se quisesse continuar me enganando. Mas não — ele queria ser honesto, e estava odiando isso.
Nervoso, ele passou as mãos pelo cabelo, bagunçando-os. Olhando com mais atenção, uma pequena estrela de cinco pontas escapava de seu pulso, perdida em meio a tantos outros desenhos marcados em sua pele, um sinal de sua verdadeira identidade misturada e disfarçada, assim como ele em meio a multidão.
— E como você ainda está aqui? — disse, exasperado. — Como não pensou em ficar bem longe de mim e de toda essa bagunça que pode te matar? Você tem ideia do perigo disso tudo? Vou atrair todas as desgraças para sua vida e um pouco mais, , porque eu sou um verdadeiro pentáculo ambulante. Por que levantou daquela cama nesse estado e veio aqui, sabendo disso?
— Porque quero ficar com você. Porque vou ficar com você. — finalmente falei, aproximando-me a dois passos — E também quero ajudar.
Claramente, não soube o que dizer. Arrisco a dizer que não sabia nem o que sentir — se era descrença, raiva ou apenas uma intensa sensação entorpecida. Sua boca abriu e fechou várias vezes, e ele começou, com uma voz baixa e precisa:
, não…
Estrangulei o espaço entre nós, puxando seu rosto para o meu e dizendo com gestos o que realmente queria. Eu não sabia quais os medos e preocupações que tinha em relação a nós dois, ou a si mesmo, mas queria deixar claro que ele era o que eu estava procurando, mesmo que demorei a perceber, mesmo que ainda estivesse tentando assimilar.
Sua resposta foi corporal e imediata. Eu estava pronta para receber um não, ou um pedido para continuarmos sendo amigos, mas não deixaria que as coisas terminassem no “e se” que resumia minha relação com . Uma amizade perdida pelo desejo, um amor perdido por medo de tentativas.
Sua cabeça virou quando me apertou com mais força. Pela necessidade de respirar, me distanciei de sua boca, tentando sorrir com os olhos fechados, sentindo o chão virar uma geleia e a pressão ruindo cada vez mais.
— Você não devia ter feito isso — disse, bem perto do meu nariz.
— Tem razão. Devia ter feito há muito tempo.
— Falei pra mim mesmo que você seria minha namorada depois que esse pesadelo acabasse, , não antes...
— Você sempre fala besteira, até com você mesmo — beijei-o de novo, recebendo um aperto ainda mais forte e envolvente, sendo a resposta que precisava para matar os meus anseios e incertezas em relação a ele, nós dois.
Minhas pernas decidiram não se manter firmes por mais tempo e segurei em seus ombros para me apoiar, franzina. Ele rapidamente me ergueu para cima, andando comigo até a cama no canto do quarto, me deitando nela enquanto puxava um cobertor e o passava por minhas pernas.
— Você é maluca — resmungou, mas sem esconder o sorriso involuntário de seus lábios. De uma forma novamente cavalheiresca, ele se colocou ao meu lado, apoiando o tronco no cotovelo.
— Você é ainda mais, . Correndo pra proteger uma garota que mal conhecia. — minha voz era desvigorosa, mas ri de como era incomum que nós dois concordássemos exatamente em algo.
— Não me arrependo de nada disso.
— Também não me arrependo de todas as loucuras que cometi depois que você apareceu. As conscientes e as inconscientes. — Um sono estranho começava a estacionar em cima de mim, e vinha rápido. — Não me arrependo de deixar o passado pra trás.
— No futuro, vão existir coisas muito mais perigosas do que você imagina. Coisas como céu e inferno, Destino e mortos que estão além de lápides.
está no meio disso? — ele assentiu, com o olhar frio — Você também vai estar? — concordou novamente. — Então eu posso aguentar. Se disser que podemos solucionar alguma coisa, estou disposta a fazer o que for preciso.
pareceu se remexer, inseguro. Devia estar pensando se ainda era cedo demais para abrir o jogo completamente, e esperava que ele pensasse que sim, poderia me ver como uma parceira oficial de seus negócios extracurriculares, mesmo que estivesse sozinho nesse ramo por muitos anos.
— Podemos tentar alguma coisa. Algo nada seguro e recomendável.
— Sim — retruquei, com ânimo, surpreendendo a mim mesma com a ferocidade da resposta. Imediatamente, aquele foi meu último fôlego de energia. Deixei o corpo amolecer ainda mais no colchão, fechando os olhos novamente — Pode me contar quando eu acordar?
Sua pequena risada reverberou pelo tempo. Virei para o lado, agarrando em seu suéter e me achegando em seu peito. Se existia um lugar onde eu pudesse encontrar a paz e o sossego por algumas míseras horas, seria ali, aninhada com ele.
— Obrigada — sussurrei. — Por ter salvado a minha vida. Algumas vezes.
Ele ficou em silêncio, levando os dedos pelo meu cabelo, parecendo examinar o agradecimento e procurar por uma resposta.
— Não fiz isso sozinho.
— Quando o encontrarmos de novo, farei questão de agradecer. Pessoalmente. — olhei como a frase pareceu mórbida e quis rir, mas eu não enxergava mais nada. Algumas horas de sono, era tudo que eu precisava, antes de sair lá pra fora de novo e enfrentar a realidade. Algumas horas com ele e meu novo sentimento descoberto — … Eu t…
Mas não consegui terminar a frase.
No barco da insconciência, eu repetia que o amava, e que não me importasse a caligem e o horror penetrantes na minha vida e na dele desde o nascimento; eu teria forças para correr e lutar se estivesse comigo.
Eu, uma garota normal, que talvez não tivesse a visão especial, mas sabia o que aquela jornada significava. Desbravar a escuridão macabra com ele, que era a luz contrastante do sobrenatural. Duas pessoas com dores e indecisões, marcadas por algo muito maior, muito além do que se vê.
Um laço assombrado que se esticaria até o objetivo final, partindo do ponto onde minha vida mudaria drasticamente: o hoje.
O passado assombra meu presente de novo, desta vez em forma física. E eu estava pronta para encará-lo.


FIM

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Nota da autora: E o fim veio. E agora se foi.
Não sei como expressar tudo que eu tô sentindo, mas sei que vocês imaginam. Foi uma vitória, foi maravilhoso, foi INSANO escrever Ghost Feelings, e espero que vocês sintam daí toda a felicidade que tô sentindo daqui. Só de pensar que fiz amigas por essa histórias, que me redescobri em todos os aspectos da vida e que me conectei com personagens especiais, me faz ver que tudo valeu a pena. Valeu a pena todas as minhas crises existenciais, o ódio que eu pegava esporadicamente do rumo que as coisas tomavam, de todos os anseios em desistir porque pensava que não era boa o suficiente. Besteira. Eu não tô aqui pra agradar massas de leitoras, muito menos pra permitir que tentem desvalorizar um universo inteiro que saiu da minha cabeça porque ACREDITEI que poderia criar. E criei. E lancei pro mundo, sem expectativa, sem coragem, e hoje oficialmente coloco um ponto final no maior orgulho da minha vida.
Não é sobre ser perfeito. Não é sobre colocar no top do Mais Lidas, enviar pra uma editora, encadernar e monetizar. É sobre ser perfeito pra você. É sobre uma linha de chegada que demorou, deu trabalho, mas que mostra pra você mesma o quanto você PODE.
Eu posso. Todos nós podemos. E eu acreditei nisso.
Muito obrigada por acreditar também. Nos vemos mais adiante, em outra linha de partida!



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Nota da scripter: O tanto que eu estou orgulhosa por ver essa história finalizada não está escrito!
Foi simplesmente maravilhoso acompanhar todo o processo de criação dessa preciosidade e ver o quanto você foi evoluindo ao decorrer disso, Laís. Você é incrível, essa história é incrível.
Obrigada pela confiança em cuidar dela e parabéns! ♥

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