Guilty conscience

Finalizada em: 2 de maio de 2025

Capítulo 1


O relógio marcava duas da manhã quando atravessou a porta. sabia que ele viria tarde. Sabia que, naquela noite, ele havia assistido impassível a mais um espetáculo de sangue na arena, sem demonstrar o menor vestígio de hesitação ou remorso.
Mas dessa vez, algo em seu olhar estava diferente.
Ele não parecia mais o jovem tutor dos Jogos. Nem o estudante ambicioso que um dia ela conhecera. Agora, era o presidente . Um homem esculpido pelo poder, refinado pela brutalidade e endurecido por cada morte que permitira — ou causara.
E, mesmo assim, o achava irresistível.
Ele tirou o casaco e o jogou sobre uma poltrona de veludo escuro. O cheiro de rosas se misturava ao aroma amadeirado de seu perfume, um contraste perfeito com o rastro de morte que ele carregava consigo. O paletó impecável escondia a rigidez de seus ombros, mas não podia ocultar a tensão em seu rosto. Seu olhar encontrou o dela, frio como gelo recém-quebrado.
— Ainda acordada? — A voz dele era grave, sem emoção.
estava sentada em uma chaise longue de seda vermelha, os dedos apertando a borda de sua taça de vinho. Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, observou cada detalhe dele: o maxilar definido, os cabelos loiros sempre perfeitamente alinhados, o azul pálido dos olhos que um dia haviam fingido compaixão e agora sequer se davam ao trabalho de esconder sua indiferença.
Ele não se importava mais. Não fingia.
E talvez fosse isso que a fascinava tanto.
Ela se levantou devagar, cruzando a sala com passos silenciosos. O salto de seus sapatos ecoou levemente pelo piso de mármore. Quando parou diante dele, o cheiro de rosas e poder a envolveu.
— Você está diferente. — Sua voz era um sussurro.
arqueou uma sobrancelha, um resquício de diversão brilhando em seus olhos antes de desaparecer.
— E você ainda se surpreende?
passou os dedos pelo colarinho dele, sentindo a pulsação firme sob a pele quente. Ele não recuou. Nunca recuava.
— Não — murmurou. — Eu sempre soube quem você era.
Então o beijou.
Com força. Com desespero. Com a raiva de quem queria odiá-lo, mas não conseguia. Os dedos se enroscaram nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se precisasse prová-lo, como se quisesse se afogar naquele gosto amargo de vinho e poder absoluto.
sorriu contra os lábios dela. Sempre tão seguro, sempre no controle. Mas dessa vez, ele a puxou com mais força, as mãos apertando sua cintura, afundando os dedos como se quisesse marcá-la, como se quisesse lembrá-la de que não havia escapatória.
Ela sentia o peso de cada vida perdida. Cada tributo morto. Cada grito que ecoava pela arena enquanto ele assistia, impassível, tomando uma taça de vinho em seu escritório.
E ainda assim, não parava.
Porque, no fundo, sabia que já estava tão envenenada quanto ele.
E quando, mais tarde, deitou-se ao seu lado no lençol macio, olhando para o teto enquanto dormia tranquilo, entendeu que viveria para sempre com uma consciência pesada.
Mas também sabia que nunca faria nada para mudar isso.

Capítulo 2


A chuva batia contra as janelas do palácio, arrastando consigo o cheiro úmido da noite. estava parada diante da lareira do escritório presidencial, os punhos cerrados, os dentes trincados.
estava atrás dela, encostado casualmente em sua mesa de mogno, os braços cruzados, o meio sorriso irritante brincando em seus lábios.
— Vamos lá, . Diga. — A voz dele era um desafio velado. — Me diga como eu sou desprezível. Como sou um monstro. Como você me odeia.
Ela não respondeu. Apenas encarava as chamas dançantes, tentando controlar a respiração, tentando conter a raiva, o desprezo—e o desejo insuportável que a corroía por dentro.
— Não vai dizer nada? — Ele inclinou a cabeça. — Que decepção. Gosto quando finge que tem o controle da situação.
fechou os olhos por um instante. Ele sabia exatamente como provocá-la, como fazê-la explodir.
— Você matou aquele garoto. — A voz dela saiu firme, mas baixa. — Como se fosse um inseto. Nem sequer piscou.
riu. Um riso baixo e preguiçoso, como se a acusação fosse apenas um capricho infantil.
— E ainda assim... — Ele se afastou da mesa, caminhando lentamente até ela. — Está aqui.
Ela sentiu sua presença se aproximar. O calor dele queimava suas costas antes mesmo que ele a tocasse.
— Você sempre volta, . Sempre cede. Sempre acaba na minha cama, por mais que tente parecer superior.
Os dedos dele roçaram a pele nua de seu braço, um toque suave, quase casual. Ela prendeu a respiração.
— Você gosta de fingir que tem escolha — ele continuou, baixinho, perto do ouvido dela. — Mas nós dois sabemos que isso não é verdade.
Ela se virou num movimento brusco, os olhos faiscando de raiva.
— Você acha que me tem nas mãos, não é?
sorriu. Um sorriso lento, calculado.
— Acho? Não, . Eu sei.
Ela odiava a forma como ele dizia aquilo. Odiava porque, no fundo, ele estava certo.
Seus olhos desceram para os lábios dele, e percebeu. Sempre percebia.
— Vamos lá… — Ele deu mais um passo, reduzindo a distância entre os dois. — Prove que estou errado.
A respiração dela estava pesada, o coração martelando contra as costelas. Ela poderia ir embora. Poderia cuspir na cara dele, poderia lhe dar as costas e nunca mais voltar.
Mas em vez disso, o puxou pela camisa e o beijou com brutalidade.
Ele riu contra os lábios dela, os dedos afundando em sua cintura como um lembrete de que tinha razão.
E ela odiava isso.
Mas odiava ainda mais o fato de que não queria parar.

Capítulo 3


O silêncio no palácio era espesso como veludo, preenchido apenas pelo estalar discreto da panela sobre o fogão. estava sozinha na cozinha, algo raro naquela casa onde os empregados se moviam como sombras. Mas naquela noite, ela quis cozinhar.
Não sabia bem por quê. Talvez fosse para sentir que ainda tinha controle sobre algo. Talvez fosse para fingir que havia normalidade ali.
Mas normalidade era um conceito inexistente ao lado de .
Ela deslizou a faca sobre a cebola, a mente absorta em pensamentos.
Foi rápido.
O deslize. O corte fino e ardente na ponta do dedo. O sangue escorrendo em um filete vermelho contra sua pele pálida.
Ela soltou um suspiro, franzindo a testa, já levando o dedo à boca por reflexo—mas antes que pudesse, ouviu passos firmes atrás de si.
— O que aconteceu?
A voz dele não era a do ditador implacável. Não era fria, nem calculista. Era urgente.
Antes que pudesse responder, já segurava sua mão, virando seu pulso para inspecionar o corte. Os olhos azuis estavam fixos nela, sérios, concentrados, como se aquilo fosse uma ferida fatal.
— Não é nada — ela murmurou, constrangida.
Mas ele ignorou, soltando sua mão apenas para atravessar a cozinha em passos longos e decididos.
Quando voltou, segurava uma caixa de primeiros socorros.
Ela quis rir. O grande , o homem que não piscava ao ordenar mortes, que assistia ao sofrimento alheio sem remorso… estava ali, ajoelhado diante dela, tirando um pequeno curativo da embalagem com uma delicadeza quase absurda.
— Você age como se eu tivesse perdido um braço — ela provocou.
Ele nem piscou. Apenas segurou seu dedo com cuidado e pressionou o band-aid sobre o corte.
— Não quero você ferida — disse simplesmente, os olhos encontrando os dela.
E ali estava.
Aquela coisa que a consumia, que a prendia naquele abismo que era ele.
Ele era um assassino. Um monstro.
Mas com ela?
Com ela, era diferente.
Ela não era um peão no jogo.
Ela era a peça mais valiosa do tabuleiro.
Seu troféu. Sua estrela.
O homem que ditava sentenças de morte e esmagava revoluções agora estava diante dela, preocupado com um corte insignificante em seu dedo.
— Você está exagerando — ela disse, tentando soar leve, mas a voz falhou um pouco.
Ele apenas fechou a caixa de curativos e se levantou, tomando a faca de sua mão.
— Eu termino — disse, voltando-se para a panela no fogão.
Ela cruzou os braços, encostando-se ao balcão e observando enquanto ele cozinhava. Ele fazia tudo com a mesma precisão meticulosa com que planejava as arenas dos Jogos, como se até o ato de picar legumes devesse ser feito com perfeição.
Por um momento, se permitiu esquecer quem ele era do lado de fora daquele palácio.
Porque ali, com ela, era apenas um homem.
E ela era sua única fraqueza.

Capítulo 4


A luz dourada dos lustres projetava sombras suaves pelas paredes do palácio. A noite estava silenciosa, interrompida apenas pelo farfalhar do vento do lado de fora. estava sentada em um dos sofás do grande salão, uma taça de vinho entre os dedos, observando com aquele olhar curioso que às vezes o incomodava.
Ele lia um relatório, as sobrancelhas franzidas em concentração, uma das mãos segurando o papel enquanto a outra girava distraidamente sua própria taça sobre a mesa.
Ela não sabia por que quebrou o silêncio. Talvez porque aquele momento parecia calmo demais para a casa de um tirano.
— Você exagerou.
Ele ergueu os olhos do papel, como se tivesse sido arrancado de pensamentos importantes.
— O quê?
Ela inclinou a cabeça para o lado, observando-o.
— Na cozinha. Quando eu me cortei.
não demonstrou surpresa pela lembrança, apenas pousou os papéis sobre a mesa, focando-se inteiramente nela.
— E o que exatamente eu exagerei?
— A forma como você agiu. Como se eu tivesse sofrido um atentado.
Ele sorriu, mas foi um sorriso diferente. Um que não carregava frieza nem superioridade, mas algo mais fundo, algo que a fazia estremecer.
— Você não entendeu ainda?
Ela arqueou a sobrancelha.
— O quê?
Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, a expressão serena, mas os olhos brilhando como um céu prestes a desabar.
— Você é minha. Seu nome é . — Sua voz era baixa, mas cheia de certeza. — E isso significa que você não deve ser tocada. Nem ferida.
sentiu o ar escapar de seus pulmões em um fluxo lento.
Seu nome era .
Ele nunca a pediu em casamento. Nunca houve cerimônia. Nunca houve nada oficial.
Mas, no mundo de , ela pertencia a ele.
Ele entrelaçou os dedos, a observando como se esperasse que as palavras se infiltrassem na sua pele, no seu sangue.
— Você entende agora?
Ela entendia.
E não era apenas isso.
Agora, tudo fazia sentido.
Os gestos, a devoção estranha que ele tinha apenas por ela, a forma como seu tom mudava quando falava seu nome. não amava da forma como os outros homens amavam. Seu amor era um contrato invisível, um laço forjado não pelo sentimento, mas pelo poder.
Ele a elevava acima de todos os outros porque era isso que fazia sentido para ele. Ela era sua rainha, sua peça mais valiosa.
Era um jogo.
E ela adorava jogar.
Porque no fundo, não ficava apenas por ele.
Ficava pela mentira. Pela casa perfeita, pelo teatro impecável que representavam quando estavam juntos. Pelo palácio brilhante onde tudo parecia estar sob controle, como uma cena milimetricamente coreografada.
Ela amava o poder.
Amava ser a boneca de porcelana que ele exibia com orgulho.
Amava a mentira.
Amava .

Capítulo 5


A seda fria do vestido deslizou contra sua pele enquanto caminhava pelo longo corredor do palácio. O brilho das luminárias douradas refletia no piso impecável, e o cheiro de rosas frescas—sempre presente na casa—preenchia o ar.
Ela parou diante do grande espelho no fim do corredor, observando sua própria imagem. O reflexo que a encarava não era de uma mulher comum. Era de alguém que tinha tudo.
Poder.
Luxo.
E o homem mais temido de Panem ao seu lado.
não era apenas um ditador. Ele era o rei absoluto, e ela, sua rainha.
Ela se lembrava de como tudo começou—como ele a envolveu em suas palavras macias, suas promessas silenciosas, sua presença avassaladora. Como ele a fez sentir especial, como se fosse o único tesouro digno de ser protegido em meio ao caos do mundo.
E então, o tempo passou.
Ela viu a forma como ele comandava a Capital, com mãos de ferro e um olhar frio, implacável. Viu sua indiferença diante da morte, sua satisfação ao assistir os Jogos.
Mas dentro daquela casa, dentro daquela bolha onde só existiam os dois, ele era diferente.
Com ela, não era um monstro.
Ele era um homem apaixonado.
Fiel.
Dedicado.
Ele não olhava para mais ninguém. Não desejava mais ninguém.
Seu amor era intenso, inegociável. E tudo o que ele possuía era dela também.
O luxo, os vestidos caros, as joias que brilhavam sob a luz do salão de festas.
As noites em que ele a segurava contra o peito e prometia que nada jamais a tocaria.
A certeza de que, enquanto estivesse ao lado dele, seria intocável.
Ela amava aquilo.
Amava o poder, amava o dinheiro, amava o homem lindo e perigoso que, de todas as pessoas do mundo, escolheu amá-la com obsessão.
E no fim, o que importava?
Ele lhe deu um trono, e ela aceitou como uma dádiva.



Fim.



Nota da autora: Sem nota.



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