Halloween in New Orleans

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Última atualização: 23/12/2020

Parte I

Nova Orleans, 2019.

Uma das vantagens de morar na cidade mais assombrada dos Estados Unidos é o fato de ser sempre Halloween. crescera em Nova Orleans, cidade que se localiza no estado de Luisiana, muito conhecida pelo seu sincretismo religioso em um país de maioria protestante. Sua cidade era o lar de uma grande herança cultural africana, que além de influenciar a culinária e a música, também introduziu o misticismo e o vodu nas práticas espirituais locais. A maioria dos pais leem contos de fada para seus filhos antes de dormir, , no entanto, dormira ouvindo histórias sobre vampiros, espíritos e bruxas. (Sincretismo é fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos)
Seu interesse por essa narrativa era tão grande, que a garota tinha se formado em História com ênfase em Sincretismo Religioso e fora aceita para um programa de Mestrado na Universidade de Nova Orleans. Sua cidade natal era sua favorita no mundo e seu objetivo era se tornar professora para manter viva a cultura de sua cidade e de seus ancestrais.
Era quase dia das Bruxas e o local já estava decorado há pelo menos um mês, caminhava tranquilamente, se equilibrando em suas botas pretas de salto alto, deslizava como se a rua fosse sua passarela particular. As folhas secas farfalhavam à medida que ela percorria seu trajeto, Nova Orleans no outono se transformava em um cenário digno de filme. Naquela época do ano, o local estava cheio de turistas de todas as partes do mundo, todos queriam visitar os famosos cemitérios, as lojas temáticas e a arquitetura gótica da cidade.
Mas conhecia Nova Orleans lugar como a palma de sua mão e seu local favorito para passar o Halloween era o Vampire Ball (Baile dos Vampiros), uma das melhores festas da semana. Ela sorriu consigo mesma, pensando que tinha uma forte atração por essa temática. No entanto, escolhera uma fantasia de feiticeira para aquela ocasião, um vestido de cetim com estampa de estrelas e um decote profundo nas costas. Sem dúvida, utilizaria seu colar de turmalina negra para proteção. Ela fora criada em um lar supersticioso o suficiente para saber que o véu que separa o mundo real e o espiritual estaria mais fino naquela noite.
morava em um quartinho pequeno nos dormitórios da Universidade de Nova Orleans, os pais tinham se mudado recentemente para outro estado. O quarto seria o seu lar pelo menos até terminar o seu Mestrado. Ela tinha adotado um estilo minimalista, preferia dessa forma já que não teria muita ajuda em sua próxima mudança. Seus amigos tinham se formado e se mudado de cidade. Apesar de se sentir só, ela jamais se arrependera de sua decisão de ficar. Nova Orleans era sua casa e sua história era o seu propósito de sua vida.
A jovem retirou suas botas assim que chegou e as arrumou milimetricamente na sapateira. Depois, totalmente despida, ela se dirigiu ao banheiro, onde preparou um banho com suas ervas favoritas. Enquanto a banheira começara a encher, preparou alguns incensos e colocou um de seus vinis de jazz para tocar. Ela observou seu corpo nu, curvilíneo em frente ao espelho e passou sua mão na curva entre seus seios, descendo para o seu ventre e suas coxas. Tornara-se uma mulher atraente, os homens dificilmente resistiam ao seu charme e naquela noite mágica não seria diferente. Há um tempo não se interessava por alguém, mas ela tinha um pressentimento de que isso logo mudaria.
entrou na água quente, sentindo seu corpo relaxar completamente, a jovem ainda tinha algumas horas antes de seguir para as festividades, mas considerava seguir esses rituais de autocuidado de extrema importância. estava vivendo o seu auge, tinha conseguido passar em um mestrado de renome e uma carreira brilhante estava a sua espera. O que lhe faltava era mero detalhe, sentia-se completa.

***

costumava gostar de viagens longas, de dirigir de madrugada em uma estrada deserta, sem se preocupar com o destino. Ele gostava de como os faróis do veículo projetavam as mais diversas sombras e que um caminho tão conhecido à luz do dia, se transformava em outro completamente diferente ao anoitecer. costumava gostar do sentimento de estar envolto na escuridão e imerso no desconhecido. Talvez, porque isso lhe trouxesse uma sensação estranhamente familiar.
No centro cirúrgico não tinha espaço para qualquer outro sentimento ou qualquer outra necessidade biológica como a de beber água. Não quando suas mãos habilidosas seguravam um bisturi e exploravam com extrema concentração e rigidez a força e a fragilidade de um cérebro humano. Ser um neurocirurgião era quase sempre percorrer por caminhos desconhecidos, mesmo depois de tantos anos de estudo e dedicação, era capaz de prever, apenas em partes, o resultado de uma cirurgia.
As estradas também guardavam esse mistério, como se existisse algo de poético neste percurso, um portal que permeia o que de fato se move. E como tudo se move de fato. O sistema solar em uma galáxia, a terra ao redor do sol, os carros nas estradas, as mãos que se movem ao trocar de marcha, o sangue que corre nas veias, as sinapses transmitindo os impulsos nervosos, pelos quais é possível perceber todo o resto. Estar em movimento é basicamente estar vivo.
Apesar de todas as evidências científicas, das quais conhecia de cor, ele se sentia em um limbo do qual era incapaz de sair. Seu coração, no entanto, batia descontrolado no peito, como se desafiasse o seu dono, indicando que o tempo biológico progredia com ou sem o consentimento dele. O homem olhou seu reflexo pelo retrovisor, mas deteve-se em seus traços por apenas um segundo. Não conseguia reconhecer o espectro que o encarava de volta. Um vislumbre do homem que costumava ser. Não lhe restara nada, exceto sua profissão.
Um sorriso irônico se formou em seus lábios, quando pensou em sua ingenuidade, um garoto do interior realizando seu grande sonho de residência médica em um dos maiores hospitais de Chicago. Ingenuidade ou arrogância, fato é, que ele foi levado a crer, que por ser um cirurgião renomado, estava acima do bem e do mal, imune a todo e qualquer tipo de tragédia.
Não poderia estar mais errado. Por um breve momento, ele desejou sua inocência de volta, aquela que nos faz pensar de que tudo o que é bom dura para sempre e que as pessoas que amamos são eternas. Logo ele, um cirurgião acostumado com a iminência da morte, anestesiado pelos inúmeros casos de pessoas que não pode salvar, sentia-se recolhido e amedrontado em sua pequenez e vulnerabilidade humana.
O homem observou seu amigo conduzir o veículo pela estrada deserta. Não teve coragem de voltar a dirigir e dependera de metrô nos últimos meses. Tinha sido convencido a participar dessa viagem por causa de seu amigo de infância, na verdade, fora forçado a se afastar do hospital onde trabalhava, o qual demonstrara extrema preocupação em relação à saúde mental de seu colaborador. É claro que isso deveria ter haver com a sua habilidade de neurocirurgião avaliada em alguns milhões de dólares. Sua saúde mental só era importante para o capital, porque ela rege suas outras habilidades. Se fosse ele estivesse no começo de sua carreira, não teria tido tanta sorte.
Seu terapeuta tinha o incentivado a participar da viagem como uma forma de processar o luto, no entanto, não conseguiu conter um arrepio que lhe percorreu a espinha assim que o veículo ultrapassou a placa de boas vindas à Nova Orleans. As ruas estavam movimentadas devido a todas as festas que aconteceriam simultaneamente na cidade. Todos já estavam trajando as mais diversas fantasias, as casas ostentando suas decorações características, uma porção de esqueletos, abóboras, aranhas e chapéus de bruxas.
Uma onda de lembranças o invadiu, imagens desconexas de seu passado, dos dias ensolarados, do cheiro do café coado e da gargalhada que ele conhecia tão bem. Doía-lhe saber que mesmo que se esforçasse não conseguia lembrar com exatidão o som de sua voz ou de todos os traços de seu rosto. Tanto tempo de convivência que agora se resume em representações de uma realidade que não existia mais neste mundo. fechou os olhos com toda a força que tinha e sacudiu a cabeça na esperança de afastar todos aqueles maus pensamentos. Se ele pudesse apenas parar de sentir
O loiro tirou do bolso da jaqueta, um fraco de metal e desrosqueou a tampa com as mãos trêmulas, tomando um grande gole. o fitou pelo canto do olho, permanecendo em silêncio. sentiu o gosto ardido de uma cachaça artesanal queimar-lhe a garganta. Seu súbito ataque de ansiedade normalizando aos poucos. A bebida quente pesou em seu estômago vazio e o homem engoliu em seco, guardando o cantil nas vestes.
— Você mais do que ninguém, deve saber que a interação entre remédios e bebida é uma mistura perigosa – disse sem tirar os olhos da estrada.
— Ingerida em uma dose mínima não há de me fazer mal estar aqui pelo contrário ... — apontou para as pessoas fantasiadas – Não acredito que depois de tudo sou obrigado a participar de uma comemoração tão juvenil.
— Você só irá para comemorações juvenis se não souber aonde ir – piscou em tom de brincadeira e se permitiu um breve sorriso — Vamos lá , vai ser divertido.
dobrou a língua para não dar-lhe uma resposta atravessada. Os dois eram amigos de infância e foi um dos poucos, senão o único, que realmente esteve ao seu lado nos últimos anos. Os dois chegaram no D’armes Hotel localizado bairro French Quarter, no coração da cidade de Nova Orleans. O fluxo de pessoas àquela hora da noite era tão grande que eles tiveram um pouco de dificuldade de encontrar um lugar para estacionar. se alongou e sentiu seus ossos estralando depois de tantas horas de viagem. O homem ergueu uma das sobrancelhas ao seu deparar com o casarão de dois andares, provavelmente uma construção restaurada do século dezoito ou dezenove. É claro que tinha escolhido o lugar mais caricato possível. suspirou tentando controlar a sua raiva, passando a mão freneticamente por seus cabelos.
— Que raio de lugar é esse? – disse sem se conter – Quem você espera encontrar aqui? O Drácula?
— Eu não faço ideia – respondeu tranquilamente tentando esconder um sorriso – eu paguei os quartos com o seu cartão de crédito.
soltou uma risada incrédula como se estivesse segurando o ímpeto de não arrebentar a cara do melhor amigo.
— Preciso aproveitar o privilégio de ser seu amigo e aguentar o seu mau humor – disse em tom debochado. lhe deu um tapa na nuca.
— Você é um grande imbecil retribuiu o tom, entrando pelas portas do local. A recepção era ampla, tinha grandes candelabros enfeitando a sua extensão, uma escada em forma de espiral adornada com enfeites de Halloween seguia para o segundo piso. Os dois foram recebidos por uma mulher miúda, vestida de branco, seu pescoço estava rodeado de cristais. Antes mesmo que pudesse dizer alguma coisa, a recepcionista disse:
— Wow, você carrega uma energia pesada demais – ela apontou com as mãos em direção a sua aura. fechou a cara, fulminando com o olhar.
— Você pode fazer alguns banhos de ervas enquanto estiver aqui querido – disse ela o observando atrás das grossas lentes de seus óculos.
— Não será necessário – disse ele sorrindo entredentes, encarando a mulher e seu também chapéu de bruxa com um pouco de desdém.
— Um cético em Nova Orleans – a mulher riu-se mencionando para seu outro colega de recepção.
— Eu sou uma pessoa a quem aconteceu algo de ruim demais para acreditar em algum tipo de magia – replicou ele entediado. A mulher miúda em sua frente estreitou os olhos.
— Isso não se refere a nenhum tipo de magia. Ah, vocês homens da ciência, nem que a resposta estivesse a um palmo, vocês seriam capazes de perceber todas as nuances desse mundo. – ela sacudiu a cabeça em tom de desaprovação.
— Nos temos duas reservas, nos nomes de e interferiu na conversa antes que virasse as costas e decidisse ir embora.
— Ah, é claro, meu querido. Bem-vindo à cidade mais assombrada dos Estados Unidos – disse ela em um largo sorriso.

***
observou o cair da noite sentada no parapeito da janela, seu lugar favorito no pequeno dormitório. A mulher serviu-se de uma grande xícara de chá verde, as pontas de seus dedos gelados chegando a esquentar com o líquido fumegante da bebida. Sentiu um conforto que beirou a nostalgia. Lembrou-se de um tempo que lhe pareceu tão distante. O tempo, senhor das coisas, tinha mudado tanto a sua vida e tudo fora tão rápido, que às vezes ela se perguntava se de fato aproveitou todos os momentos como deveria.
A jovem deixou a xícara de lado e vestiu sua lingerie preta, depois colocou o vestido preto com estrelas douradas. Arrumou os cabelos longos e densos prendendo apenas a metade e finalizou sua preparação com um batom forte nos lábios, sua marca registrada. Deu um sorrisinho contemplando o resultado final e apertou o colar de turmalina no pescoço. Antes de sair, pediu a proteção de todos os seus guias espirituais, calçou as botas pretas de salto alto e deu uma última olhada no espelho. Sorriu maliciosamente ao analisar sua aparência e saiu com passos confiantes.
caminhou alguns blocos até chegar a Boubon Street para dar uma espiada no desfile de Halloween daquele ano. Mesmo há alguns blocos de distância, a mulher pode ouvir o clamar dos tambores, um som que se alinhou com a frequência do seu coração, que começou a bater no mesmo ritmo. O seu corpo se arrepiou ao entrar em contato com aquela frequência e ela sorriu. A música aumentava à medida que se aproximava da rua principal, blindando todo e qualquer tipo de outro som. O tempo os presenteou com o céu tão estrelado, que quando ela parou para observar, involuntariamente, esticou a mão para o céu como se as estrelas estivessem tão próximas, a ponto de tocá-las.
A rua estava cheia de cantos e risos, uma mistura de cores, cheiros e sons, mas uma mulher como ela não passou despercebida. Seu caminho se abria involuntariamente mesmo em meio a tantas pessoas, sua presença altiva e confiante atraía os mais diversos olhares seja de cobiça, inveja ou assombro. Sua energia era nutrida pela força e luta de seus ancestrais. estava em seu elemento.
O desfile com carros alegóricos de caveiras, bruxas e vampiros estava quase no fim. adorava ver os rostinhos das crianças que observavam o desfile, maravilhados e petrificados com o esplendor dos carros, suas mãozinhas agarradas às grades que separavam a multidão da rua principal, seus olhinhos grudados na avenida, brilhando de encantamento. Esse era de fato um de seus hobbies favoritos.
O ato de observar os outros enquanto estavam imersos demais em seus próprios mundos ou preocupados demasiadamente com seus aparelhos celulares e o número de likes em suas redes sociais. passou os olhos pela multidão gravando stories e tirando várias selfies com os amigos, sem realmente curtir o momento de verdade. Todos inconscientes demais para aproveitar o tempo do aqui e agora.
continuou a andar, seu corpo e sua mente entrando em um estado de transe. Soltou o quadril e jogou os cabelos enquanto se entregava a um som melódico de jazz no meio de uma rua qualquer, perto de um bar qualquer. O corpo gritava por expressão, a convidava para se entregar a aquela melodia que conhecia tão bem. Isso a fez se questionar: quantas vezes ficara confortável em sua próprio pele? Quantas vezes olhara para suas imperfeições, suas coxas grossas ou aquelas gordurinhas indesejadas e se amara por completo? Quantas vezes buscara uma perfeição inalcançável?
Quando seu corpo lhe permitia tanto: o sentir, o dançar, o caminhar. Sentiu-se apaixonada por quem era e se tocaria com paixão se não estivesse em público. Totalmente envolta pela sua redoma de amor próprio, ela de repente travou os olhos com um desconhecido, que a observava atentamente do outro lado da rua.

***
tomou um banho quente, depois vestiu um jeans, uma camiseta de algodão preta simples e uma jaqueta preta. Suspirou fundo e desceu para a recepção encontrar , o qual estava vestido a caráter para o Vampire Ball, o homem conversava animadamente com a recepcionista lunática do hotel. O loiro revirou os olhos colocando as mãos nos bolsos, desconfortável por estar em um lugar que não queria estar. Ele observou as pessoas saindo em grupos de amigos ou família para as festividades e lembrou-se que costumava gostar dessas datas especiais, mas isso fora há um tempo.
— Meu querido – exclamou a recepcionista, que veio ao seu encontro com algumas pedras em suas mãos – leve esses cristais para sua proteção. Sua energia está baixa demais.
— Eu não quero ser rude, mas isso realmente não será necessário – disse recusando a oferta e dando as costas para a mulher. Ele resolveu esperar por no lado de fora do hotel, geralmente tinha um bom temperamento com os outros, mas ao contrário do que pensara, visitar a cidade depois de tanto tempo, estava deixando seus nervos à flor da pele, quis tomar um gole de bebida, mas por pura preguiça resolveu não buscar o cantil que esquecera no quarto.
— Você está ridículo – comentou assim que se aproximou dele, o moreno vestia uma espécie de fantasia de vampiro do século dezoito.
— E você está absolutamente certo – disse indignado, sentindo-se agoniado com todas as camadas de babados de sua fantasia – ninguém mencionou que precisava se vestir igual a um perdedor na entrevista de emprego.
riu e deu uns tapas de consolo no ombro do amigo.
— É por isso que eu fui para Escola de Medicina – disse.
— Eu preferiria operar em um cérebro a vestir essa merda – disse frustrado – vamos acabar logo com esse maldito trabalho e depois poderemos curtir de verdade.
— É, mal posso esperar... — suspirou enquanto caminhavam em direção a Bourbon Street. Os dois percorreram um curto trajeto, passaram por várias pessoas, que ocupavam as ruas aquele horário. parou para pedir algumas informações em um bar para a reportagem que estava produzindo, enquanto esperou do lado de fora, olhando a multidão com cara de tédio e em meio a tantos rostos, ele a viu.
Uma mulher desenvolta com um vestido de estrela e botas de salto alto. a observou dançar como se ninguém estivesse olhando, totalmente absorta em seu próprio mundo. Ele se sentiu curiosamente atraído por ela, como se a mulher emanasse uma força gravitacional que o atraía cada vez mais para perto.
Ele estava desperto e totalmente consciente de seus atos, porém hipnotizado por sua performance. Talvez fosse a forma com que ela dançava com o ar, suas mãos acompanhando seus quadris em um movimento lindo. Seu coração bateu forte no peito, como se tivesse recebido uma forte injeção de adrenalina, liberando impulsos que o fizeram sentir vivo novamente.
Ela encontrou seu olhar e abriu um sorriso leve e encantador, o qual fez ter vontade de sorrir junto. Ele piscou os olhos várias vezes, perguntando-se, se a interação da bebida com os seus remédios, fizera efeito e estava agora confundindo de fato seus instintos. De alguma forma, ela aparentava ser espectral demais para pertencer a esse mundo. Verificou seus sinais vitais como um bom médico que era e constatou que não estava tendo nenhuma reação de sua irresponsabilidade cometida algumas horas atrás. Ela era absurdamente real.
se deu conta de que estaria agindo estranho demais e resolveu se aproximar da jovem, que caminhou também em sua direção.
— Você veio me tirar para dançar? – perguntou ela, abrindo um sorriso brincalhão.
— Não era muito bem o que eu tinha eu mente, mas acho que não poderia negar um pedido seu, se é isso o que realmente quer. – ele fez a menção de colocar as mãos em sua cintura – eu posso?
— Qual é o seu nome? – ela respondeu com outra pergunta, no entanto, juntou o espaço entre eles, colocando suas mãos, um pouco frias, ao redor de seu pescoço.
. — respondeu ele a conduzindo ao som da banda de jazz.
— Você não é daqui, não é? – ela continuou a conversa, sem nem ao menos quebrar o contato visual.
— Acho que sou previsível demais. — disse um pouco constrangido ao olhar que não pode sustentar. Sentiu-se um idiota por isso.
— Ou os outros que são observadores de menos... – ela sorriu continuando a acompanhar os movimentos de .
— Você gosta de falar em metáforas? – ele se permitiu um sorriso.
— Apenas com aqueles que conseguem acompanhar...
— Devo me sentir honrado? – ele ergueu uma das sobrancelhas e ela riu baixinho.
— Você me responde....
— Qual é o seu nome? – perguntou ele.
— Eu não revelo meu verdadeiro nome para estranhos — foi a vez de erguer uma das sobrancelhas.
— E eu achando que era previsível demais – ela gargalhou, jogando a cabeça para trás.
e é um prazer conhecê-lo .
— O que te traz a Nova Orleans? – foi mais objetivo dessa vez
— Esta é uma pergunta retórica. É óbvio que eu moro aqui. – os dois riram – O que TE traz a Nova Orleans?
— O destino, eu acho. – ele ergueu as sobrancelhas e estreitou os olhos.
— Você não acredita nisso.
— Tem razão – ele admitiu envergonhado por ter sido pego em sua mentira — eu vim acompanhar o meu amigo em uma viagem de trabalho.
— Eu sinto que você não queria estar aqui – ela o olhou com desconfiança e suspirou fundo.
— Você é um deles não é?
— Um deles?
— Sim, dessas pessoas que acreditam em magia...
— Você é uma pessoa interessante o observou com extrema curiosidade – você julga tudo tão impossível, quando seu trabalho consiste em abrir a cabeça das pessoas e curar suas doenças.
congelou, não tinha mencionado que era um neurocirurgião.
— Isso é algum tipo de pegadinha? – ele parou de dançar, se arrependendo por soar tão rude.
— Pareço estar brincando?
— Como sabe que sou médico? – ele perguntou controlando o próprio tom de voz.
— Um palpite...você é cético demais para seu próprio bem – o puxou novamente para dançar.
a olhou desnorteado. Logo ele, quem sempre tinha as soluções para todos os problemas possíveis. Ele quem tomava decisões importantes no meio de cirurgias, quem determinava tratamentos, quem operara tumores inoperáveis, se vira totalmente desarmado frente a tanta simplicidade e sabedoria.
— Como sabe de todas essas respostas?
— Eu as procurei dentro de mim – deu de ombros.
— Gostaria de encontrá-las também. – ele disse sem se conter as palavras brotando na sua boca, como se pudesse confiar em uma estranha que acabara de conhecer.
— Posso te ajudar nisso – ela estendeu a mão para ele.
não soube dizer o que o convenceu e duvidou que ela pudesse realmente resolver o terrível vazio que tinha dentro do peito. Mas não conseguiu dizer não. Ele apertou a sua mão e deixou-se conduzir por ela. Se ela o levasse para o inferno, a seguiria sem nenhum questionamento. segurou firme a sua mão e andou por apenas dois blocos da rua, até chegar a grande casarão. Na entrada do local, uma faixa anunciava o grande evento da noite: ‘’The Vampire Ball 2019’’.
A casa deveria ser um das construções mais antigas da cidade, tinha pelo menos três andares e todas as janelas estavam abertas, inclusive as dos andares superiores. Mesmo do lado de fora era possível perceber que os organizadores montaram uma grande estrutura para a apresentação do evento. Cortinas vermelhas emolduravam o espaço, junto com os candelabros de led, que emanavam uma luz quente e dourada, conferindo ao local uma leve penumbra e ao mesmo tempo fantasmagórica.
O cheiro de incenso preencheu os sentidos de e ele relaxou os ombros, se permitindo a curtir o ambiente pela primeira vez. O fato de todos estarem comemorando uma data que ele desprezava não parecia o incomodar mais, nem seu grande receio de pisar em uma cidade que mudara sua vida por completo. Entrara em um portal onde não tinha mais dor, onde as feridas do passado não podiam tocá-lo.
olhou para ele com um sorriso engraçado e o levou mais a fundo no salão, o que para , se parecia com uma área vip. O local era repleto de sofás em formato de meia lua, e cada um deles estava coberto por vários lenços caindo do teto com o objetivo de dar aos seus convidados alguma privacidade.
— Eu sempre ando com as minhas cartas de tarô – quebrou o silêncio sentando-se confortavelmente no sofá.
a olhou com descrença, mas não fez perguntas, sentando-se de frente para ela.
— O processo é bem simples – explicou ela – eu vou embaralhar as cartas e as colocar em sua frente. Tente... por mais que seja difícil – riu baixinho – confiar em sua intuição e escolha três cartas que parecem conversar com você.
O homem olhou com desconfiança para o baralho exposto a sua frente. Ele franziu o nariz com desdém, tentando não ser tomado pelo seu lado racional e acabar com aquela bobagem. O que seus colegas pensariam se soubessem que um homem da ciência estava envolvido com esse tipo de prática?
— Você está em conflito com o que quer e com o que o que os outros esperam de você – comentou quebrando a tensão que se instalará no ambiente – Não se preocupe , estamos sozinhos aqui.
O loiro suspirou fundo, fechou os olhos e escolheu três cartas do montante.
— A primeira se refere ao seu passado, a segunda ao seu presente e a terceira ao seu futuro, respectivamente – ela explicou antes de virar a primeira carta – Você tirou a carta do Julgamento. Sua vida foi tocada pela morte várias vezes, mas uma delas em particular, você não consegue superar – disse olhando profundamente nos olhos do homem a sua frente – Isso pode dizer simplesmente que você é um coveiro – riu fraco – mas como eu disse antes, eu tenho um palpite de que você é um médico. Primeiro, porque você é um pouco arrogante e a forma que você move os olhos em descrença, quer dizer que você não acredita e não concorda com isso que estamos fazendo.
— Você não faz ideia – suspirou desejando que aquilo terminasse logo.
— A segunda carta é Nove de Espadas, a qual indica um grande sofrimento. – começou sua segunda interpretação – Eu vejo você atormentado pelos fantasmas do seu passado, incapaz de prosseguir ou de superar a morte de quem você acredita ter sido o algoz.
— Isso não é engraçado – disse enrijecendo sua postura em sinal de questionamento – Você andou me stalkeando?
— Eu não acho engraçado. – falou com seriedade, sem quebrar por um minuto o contato visual, ela continuou – As coisas são como são, mas essa culpa não é sua para carregar. Ela está te impedindo de seguir em frente.
— Não há como eu seguir em frente – o homem falou amargurado, sua garganta se fechando, e engoliu em seco aquele choro desesperado que lhe subiu de uma vez pela garganta.
— Sim, existe... mesmo em meio a tanta dor, é possível continuar – exclamou tocando levemente a mão de , que começara a tremer. – É possível conviver com a saudade.
A jovem continuou e ao se deparar com a última carta, suas sobrancelhas se franziram em confusão.
— A carta do Mundo – ela mostrou a cara de uma mulher envolta a um círculo – ela mostra que o universo irá lhe ajudar de alguma forma, se você abrir o seu coração para receber. A cura que você tanto busca está dentro de você. Você já salvou a de tantas pessoas, chegou a hora de salvar a sua.
— Não tem como eu ser salvo – ele levantou em um supetão, sentindo uma raiva borbulhar de dentro de seu peito – Eu poderia tê-lo salvado. Eu poderia ter estado lá quando ele deu seu último suspirou. Eu nem ao menos segurei a sua mão...
se levantou, as cartas de tarô caindo aos seus pés e jogou seus braços ao redor dele, se sentindo completamente conectada pela dor, a qual ela também já experienciara. Mesmo depois de estudar tanto e acreditar em todas as energias do universo. A mulher não conseguiu explicar o ardor e a compaixão por aquele homem que acabara de cruzar o seu caminho. Sua intuição lhe dizia que os dois estavam destinados, as linhas de seus caminhos se cruzando por alguma razão muito forte. E isso lhe deu um pouco de medo, porque por mais que acreditasse, nunca sentira em tão pouco tempo essa necessidade latente de estar perto de alguém.
selou a distância entre eles com um beijo. correspondeu avidamente. Seu corpo possuído pelos mais diversos sentimentos: raiva, dor, tristeza, desejo. O loiro segurou seu rosto com firmeza, enquanto aprofundou o beijo. não conseguiu conter o choque que percorreu o seu corpo quando suas línguas se encontraram. Seus lábios quentes e macios contra o dela, a forma confiante com a qual ele conduziu o beijo. Não houve um traço de hesitação em sua atitude. Sua língua quente explorava com habilidade todos os cantos de sua boca. Um beijo que demonstrava uma fome que só seria saciada pela necessidade física de estarem juntos.
As mãos firmes de desceram para a sua cintura onde ele segurou com vontade, pressionou o seu corpo com mais força contra o dele. Naquele momento, tudo deixou de importar, o mundo, suas dores, o barulho das pessoas na festa, os dois estavam absortos em seu universo particular. quebrou o beijo, sem mover um músculo de distância entre eles. o encarou com confusão, no entanto, ela sentiu os dedos do loiro descerem lentamente pela lateral do seu corpo, brincando com a barra do seu vestido. Os olhos claros de estavam turvos de tanto desejo, sua boca marcada pelo batom escuro de . Ele aproximou seu rosto do dela e sussurrou em seu ouvido:
— Eu posso?
abriu levemente as pernas em resposta. voltou a beijá-la, sua mão percorrendo suas coxas, levantando seu vestido de forma que ele pode tocar a sua intimidade. O homem massageou o local ainda por cima da peça de lingerie de e sentiu a mulher suspirar em meio ao beijo. Seus dedos afastaram a peça e tocaram o local quente. rebolou levemente pedindo que ele aprofundasse o contato. continuou o carinho friccionando seus dedos contra a intimidade de com leveza e velocidade. A mulher jogou a cabeça para trás e ele a segurou firme em seus braços, a tocando com destreza, mas sem deixar de se ater ao seu rosto que se contorcia de prazer. gemeu sem pudor, agarrando-se aos braços fortes de , que sorriu ao vê-la tão entregue as sensações que ele a proporcionava. Ele interrompeu o contato de repente para frustração de , mas para sua surpresa, ele a levantou em seu colo e a levou para o sofá, onde há minutos atrás estavam apenas conversando.
Gentilmente, ele abriu o zíper do vestido da jovem e o jogou em algum canto do espaço onde estavam. esperou o que viria a seguir, sentindo-se extremamente confiante com a peça de lingerie que vestia e ao analisar a expressão de , pode constatar que ele pensara o mesmo. O loiro desceu uma trilha de beijos pelo abdômen da jovem e arfou com o contato dos lábios dele contra seu corpo desnudo. a tocou com os lábios, aumentando a velocidade à medida que pedia por mais.
, mais, por favor – pediu ela em meio aos gemidos que escapavam sem controle de sua boca. O loiro sorriu aumentando os movimentos com a língua, suas mão passeavam sem pudor pelo corpo da mulher em sua frente. Ele mesmo não pode conter um gemido gutural ao apenas presenciar sentindo prazer em suas mãos. Ela gemeu alto e sentiu sua ereção apertar dentro de sua calça jeans.
— Eu quero você, – exclamou ela interrompendo o contato com dificuldade, puxou o homem para o sofá e inverteu as posições ficando em cima dele. Ela rebolou com vontade em cima do membro do rapaz e ele arfou de desejo. tirou a camisa e abriu a sua calça com rapidez e habilidade. Ambos estavam nus, encobertos pelos lenços e a penumbra do local, escondidos de todos os outros participantes da festa.
não continha suas mãos, elas passeavam livremente pelo corpo da mulher. Ele as direcionou para seus seios fartos, a trazendo para perto, enquanto passeava a língua por sua extensão. A mulher se encaixou com seu corpo e arfou quando ele a preencheu. conduziu os movimentos, rebolando com vontade e agilidade. sentindo-se totalmente descontrolado a segurou pelos cabelos, unindo suas bocas, enquanto friccionava o seu quadril contra o dela em uma disputa de força e constância.
— Gostosa do caralho – murmurou ele sem controlar os gemidos que brotavam no fundo da sua garganta – Eu quero foder você até o mundo acabar.
— Então eu quero que o mundo dure pra sempre – respondeu ela em um suspiro, continuando a rebolar em cima dele. A mulher gemeu alto jogando a cabeça para trás quando chegou ao seu ápice. E teve que se conter para não se juntar a ela ao presenciar tal cena erótica. era a mulher mais sensual que já conhecera.
Dado um momento para se recuperar, a jovem saiu de cima do homem e se abaixou em sua frente tomando seu membro na mão e o colocando na boca. achou que pudesse explodir quando a língua e a mão de o tocaram. Ela a encarou com a expressão mais lasciva do mundo e aumentou os movimentos sem quebrar o contato visual. se derramou em seus lábios carnudos no melhor orgasmo que já tivera em sua vida. O homem a puxou para os seus braços e os dois ficaram nessa posição por longos minutos. passou a mão pela extensão do corpo de , pensando em como ele era bonito. Ele segurou a mão dela e ambos se encararam, ainda tentando entender o que acabara de acontecer. não costumava se entregar tão rapidamente, mas tudo em era extremamente convidativo. No entanto, o momento não pode se estender como gostariam.
— Se veste, depressa, tem alguém vindo! – disse e os dois pegaram todas as peças de roupas, as vestindo com a maior velocidade que puderam. O casal se esgueirou por trás de outros lenços, o que impediu que fossem pegos em flagrante. soltou uma gargalhada, o segurando pela mão e os direcionando para o centro da festa, onde todos dançavam animadamente. fez uma espécie de reverência, a convidando para dançar, sem se sentir ridículo e se permitindo a tentar ressignificar aquela noite da melhor forma.
— Obrigado – ele sussurrou no ouvido da jovem.
— Ao seu dispor.
— Por que você não me conta mais sobre você? – ele perguntou curioso.
— Você acabou de me ver totalmente nua! – brincou e os dois caíram na gargalhada.
— Confesso que gostaria de conhecer as outras partes de você – ela sorriu em resposta.
— Minha cor favorita é azul. Eu sou formada em História com ênfase em Sincretismo Religioso. Meu sonho é me tornar docente na Universidade de Nova Orleans e eu amo jujubas. Eu sou bem comum – explicou rindo de si mesma.
— Não há nada de comum sobre você disse a beijando mais uma vez. A mulher suspirou mais uma vez, aproveitando o momento, pensando que poderia ficar ali até o dia amanhecer.
— Que horas são? – ela perguntou quebrando o beijo. buscou o celular no bolso e se surpreendeu com o horário que beirava às três horas da manhã.
— Eu preciso ir – a mulher disse em tom de desculpas – eu tenho uma reunião importante com o meu orientador bem cedo.
— Eu posso te acompanhar – disse ele pegando na mão da garota, que sorriu levemente.
— Eu moro bem pertinho daqui – conteve um arrepio de frio.
— Você pode ficar com a minha jaqueta – colocou a peça nos ombros da garota que agradeceu.
— Tem certeza?
— Tenho várias dessas – ele piscou e a mulher riu.
Quando estavam saindo da festa, avistou , que acenou de longe ao perceber que estava acompanhado. e caminharam pela rua escura em direção aos dormitórios da Universidade de Nova Orleans. A temperatura tinha caído drasticamente e a maioria das pessoas tinha se recolhido. O loiro apertou com força a mão da garota e ela apertou de volta. Os dois percorreram o caminho em silêncio, ambos tentando entender a intensidade do momento que vivenciaram juntos.
— Eu fico por aqui disse quando chegaram ao portão que dava acesso aos dormitórios.
— Eu vou te ver de novo? – ele perguntou antes que ela pudesse ir.
— Você sabe onde me achar – ela piscou para ele.
— Você não vai perguntar onde eu estou hospedado? – ele perguntou como se fosse óbvio.
— Se o universo quiser, nós nos encontraremos novamente – brincou com ele.
— Eu estou no D’armes Hotel. Não vou arriscar minhas chances – ele disse prontamente e a jovem riu. lhe deu um leve beijo de despedida e entrou no prédio sem dizer mais nada.

***

levantou cedo naquela manhã só para descobrir que seu orientador tinha bebido demais na noite anterior e cancelado a orientação de sua tese de mestrado. Contudo, não teve coragem de levantar de sua cama, ficou relembrando os acontecimentos da noite anterior com um grande sorriso no rosto. Ela passou a mão pelos seus lábios e depois por seu corpo onde o toque de continuava latente. riu baixinho, pensando que os dois quase foram pegos no ato. Suspirou como uma adolescente apaixonada. era um homem marcante em todos os sentidos.
Não iria deixar o destino agir daquela vez, decidiu visitá-lo em sua pousada e quem sabe convidá-lo para um café. Ela xingou mentalmente seu orientador por ter perdido a chance de ter dormido com . Mas levantou-se decidida a consertar isso.

***

levantou cedo naquela manhã, acordara disposto pela primeira vez em anos. O primeiro pensamento que lhe ocorreu assim que abriu seus olhos azuis tinha nome e sobrenome: . ainda tentava absorver tudo o que acontecera na noite anterior, nunca achou ser possível viver tal conexão.
Levantou-se num ímpeto e correu para o chuveiro. O relógio marcava quase 7h30 da manhã. Se corresse ainda teria tempo para surpreendê-la com um convite para o café. O médico se achou o ser humano mais burro do universo por não ter pedido o telefone da garota. Notou um pequeno ferimento em seu pulso, o qual não deu muita atenção, considerando os fatos da noite anterior. Assim que deixou o seu quarto encontrou no corredor.
— Está chegando agora? – perguntou analisando o estado deplorável do amigo.
— Bebi demais – exclamou ele, seu rosto se contorcendo em uma careta — mas não o suficiente para esquecer a mulher com vestido de estrela com quem você estava no Vampire Ball.
riu balançando a cabeça.
— Vou encontrá-la nesse instante – disse indo em direção as escadas.
— E eu vou tomar três caixas de aspirina, isso é recomendado? – gritou sem obter uma resposta do amigo que já tinha se lançado escada a baixo.
estava prestes a sair do hotel quando encontrou com a recepcionista vindo em sua direção. Ele baixou a cabeça com a intenção de não ser reconhecido, mas ela o notou mesmo assim. E para seu estranhamento, sua expressão era de puro terror.
— Eu vejo morte – exclamou ela com olhos arregalados, agarrando o pulso de com firmeza.
— Eu já ouvi isso antes – ele disse tentando confortar a senhora — Eu sou um médico.
— VOCÊ A TOCOU – gritou a mulher passando a mão pelo seu braço – SEU CORPO ESTÁ COM CHEIRO DE MORTE! – se desvencilhou da mulher, tentando não parecer chocado com suas palavras.
— Eu te avisei para se proteger do que estava lá fora! – a senhora disse com raiva, sacudindo com violência.
— Eu acho que a senhora precisa de umas boas horas de sono – disse ele com juntando toda a educação que recebera e soltando-se de seu embraço, caminhando a passos largos para a fora do hotel. Não olhou para trás e tentou não se abater por suas palavras.

***

apressara o passo com a intenção de chegar ao D’armes Hotel o mais rápido possível. Sua sorte era morar tão perto do coração da cidade de Nova Orleans, dessa forma raramente precisava usar meios de transporte. Ela riu quando avistou o hotel todo decorado e imaginou que deve ter ‘’adorado’’ sua hospedagem. Quando chegou e entrou pelas grandes portas do hotel, a mulher da recepção estava tão perturbada que mal notou quando se aproximou da bancada do check-in.
— Com licença, eu gostaria de falar com perguntou simpaticamente.
Quando a recepcionista notou sua presença, soltou um grito tão horripilante, que os pelos da nuca de ficaram de pé. A jovem deu um passo para trás com o susto que levara. engolira em seco, tentando encontrar a razão de tanto assombro.
— Senhora? – perguntou incerta, se aproximando da mulher.
— A MORTE CHEGOU PARA HUNTER EVANS – gritou ela com os olhos de esbugalhados. Outro grito de terror saindo pela sua garganta. se afastou, totalmente chocada com suas palavras, suas mãos ficando levemente trêmulas, um calafrio percorrendo a sua espinha. Logo ela, que nunca temera nada na vida, ficara assustadíssima com a reação da mulher, que permanecia paralisada, olhando para ela.
não insistiu, sua intuição lhe disse que algo muito ruim acontecera a e ela não conseguiria nenhuma informação decente desta mulher, dessa forma, virou as costas e saiu do hotel indo em direção à biblioteca da universidade. A jovem correu o mais rápido que pode, tentando se equilibrar em suas botas. O som dos saltos batendo com força contra o asfalto.
Quando chegou, diminuiu o passo e logo sentou em um dos computadores, que já estavam ligados àquela hora da manhã, para realizar uma pequena pesquisa. abriu o Google e procurou pelo nome de junto com a palavra neurocirurgião. No primeiro resultado da página, a manchete com data de dois anos atrás, continha o seguinte título: ‘’Jovem cirurgião morre em trágico acidente de carro’’.


Parte II

percorreu o curto trajeto do hotel para os dormitórios da universidade com o passo apressado. O loiro colocou as mãos nos bolsos de sua jaqueta jeans, tentando se proteger do orvalho daquela manhã tão gélida. As ruas estavam pouco movimentadas e ele não teve problema em encontrar o caminho que fizera na noite anterior.
Seu coração batia acelerado, ansioso por aquele reencontro. Ele não conseguiu achar uma razão plausível para explicar a conexão que experimentara ao lado de , e talvez não precisasse. Não dessa vez. Dessa vez, ele desejou se permitir a ouvir sua intuição. parou na frente dos dormitórios se lembrando de que não dissera o número de seu apartamento. se deu conta que um porteiro guardava a entrada do prédio, logo seguiu em sua direção para tentar obter alguma informação.
— Com licença senhor – disse chamando a atenção do porteiro que o atendeu de prontidão – o Senhor poderia me informar o número do apartamento de ?
O rosto do senhor congelou em uma expressão que não pode decifrar. Ele pareceu perder a fala, como quem precisa explicar algo muito difícil, sem saber exatamente quais palavras usar. franziu a testa em confusão.
— O Senhor não ficou sabendo? – perguntou o porteiro com certa estranheza.
— Fiquei sabendo do que? – devolveu a pergunta sem entender, encarando o homem a sua frente com preocupação.
— A Srta. faleceu! – o homem respondeu em um misto de assombro e genuína tristeza – Tão jovem! Muito educadinha, sabe? Uma tragédia – ainda o encarava com total incredulidade, piscando seus olhos várias vezes, numa tentativa de entender o absurdo que acabara de ouvir.
— Isso é impossível! Eu a trouxe para casa ontem a noite! Como isso aconteceu? – argumentou com grande indignação.
O porteiro arregalou os olhos de alguém que acabara de levar um susto e com a voz trêmula, replicou:
— Senhor, a Srta faleceu há dois anos.
segurou o ímpeto de tentar argumentar. O porteiro estava brincando com a cara dele. O neurocirurgião balançou a cabeça em sinal de negação.
— Creio que me enganei – disse sem acreditar nas palavras do homem e lhe dando as costas antes que perdesse a compostura e o mandasse para o quinto dos infernos pela brincadeira de mau gosto. O loiro andou alguns metros à frente, sua linguagem corporal denunciando o quanto estava indignado com a situação.
Ele tirou o celular do bolso e resolveu procurar o nome de em sua página do Instagram. Não foi difícil encontrá-la. sorriu observando algumas das fotos da mulher sorridente, viajante, rodeada de amigos e realizada profissionalmente. Em sua última postagem, usava seu vestido preto com estrelas douradas. Ela estava exatamente como se lembrava. Os cabelos volumosos e compridos meio presos, o batom vermelho cor de carmim, o qual marcara seu corpo na noite anterior. Seu sorriso se estendeu um pouco mais ao se lembrar de seus corpos suados e ofegantes. No entanto, esta expressão se desfez assim que ele percebeu que a foto datava de dois anos atrás.
— Não pode ser – murmurou ele.
A foto continha uma enxurrada de comentários de amigos, parentes e colegas desejando condolências à família de , centenas deles falando sobre o quanto sentiriam a sua falta. deixou-se cair no meio fio, suas pernas trêmulas demais e seu coração disparado, indicavam que ele estava prestes a ter mais uma de suas crises de ansiedade. O homem respirou fundo, tentando manter a calma, o ar lhe faltando os pulmões, sua visão se tornando cada vez mais turva. Ele puxou o ar com força na tentativa de estabilizar a arritmia de seu coração e o suor frio que começara a escorrer por sua coluna.
Seus dedos ainda grudados no celular digitaram involuntariamente o nome de no Google. Talvez aquilo fosse só uma brincadeira macabra de Halloween — convencia-se. Seu pensamento percorrendo a mil numa tentativa de achar uma explicação lógica para o que estava acontecendo. Afinal, ele a tocara ontem à noite, suas mãos passearam por seu corpo voluptuoso, dedilharam sua intimidade, experimentaram o seu gozo e o sabor de sua pele, sua respiração ofegante parecendo ainda cantar em seus ouvidos. Ele tinha certeza de que não alucinara. Suspirou fundo apertando o botão de ‘’pesquisar’’. E recebeu a única confirmação que não esperava.
‘’Jovem universitária morre em trágico acidente de carro’’.

***


olhava a tela do computador com total perplexidade, checou a notícia duas vezes, percorreu as páginas de jornais e todas continham a mesma informação. Ela se levantou meio extasiada, sem saber como agir. Sempre acreditara em todas essas histórias sobrenaturais, por vezes desejara ter a mediunidade de sua família, mas agora que o fato acontecera, ela sentiu-se perdida e impotente.
Ficou brava num primeiro momento, de todos os homens do mundo que poderia se interessar, gostou logo de um espírito? Lembrou-se da conversa dos dois, dos conselhos que dera, chegando à conclusão de que era uma alma que ficara presa e veio buscar o seu auxílio para conseguir passar para o outro lado.
É claro que ela se questionou, perguntou a si mesma se não estava delirando, mas a prova de que estiveram juntos era incontestável. Só de pensar em seus beijos enlouquecedores e em suas mãos firmes, a mulher se viu experimentando outro orgasmo. Ela balançou a cabeça com o objetivo de focar no real problema. Sua mente perspicaz passou por cada detalhe da noite anterior, buscando um resquício que passara despercebido e foi assim que ela se lembrou:
— A JAQUETA! A jaqueta é a prova de que tudo era real! – falou em voz alta, voltando-se em direção ao seu dormitório. lhe dera uma jaqueta preta na noite anterior, provavelmente estaria em algum lugar de seu quarto, chegara tão exausta que se esquecera desse acontecimento.
Isso só é um terrível engano – pensou ela correndo em direção ao seu prédio, o porteiro distraído, nem percebeu quando ela passou pela portaria tão veloz feito um furacão. A mulher subiu as escadas de dois em dois degraus. Suas mãos estavam tão geladas a ponto de congelarem. Nunca se sentiu tão assustada. E quando chegou vasculhou o pequeno cômodo sem nada encontrar.
se apoiou no beiral da janela, o frescor da manhã, acalmando seus pensamentos. A mulher pensou racionalmente, confiante de que era uma pessoa estudada e preparada para lidar com este tipo de situação. Na verdade, isso elevaria muito os seus conhecimentos na área, sem falar que poderia ajudar a seguir com sua jornada.
ficou triste por um instante. Gostaria de tê-lo conhecido antes. Ele era o tipo de cara por quem tinha esperado sua vida toda. No entanto, mantê-lo no mundo dos vivos era simplesmente crueldade demais. precisava seguir e o deixaria ir. Ela se debruçou na janela, observando o movimento e de longe, ela avistou um caminhar sem igual entrar no cemitério da cidade, o qual se localizava a alguns blocos de sua moradia. Não confundiria aquele homem com ninguém. saiu em um pulo correndo para o cemitério, esperando ver uma última vez.

***


saiu em disparada em direção ao hotel onde estava hospedado. Seus pulmões ardiam pela falta de ar, mas ele continuou a correr como se sua vida dependesse disso. Assim que chegou, subiu para o primeiro andar e bateu violentamente na porta do quarto do amigo . enfiou um Clonazepam embaixo da língua, o medo de enlouquecer e perder os sentidos tomou posse de quem ele era.
! – gritou ele batendo na porta mais uma vez com toda a força que conseguiu.
— Você sabe que horas sã...? – entrou no quarto sem deixa-lo terminar sua sentença.
— Você a viu, não a viu? – perguntou com os olhos suplicantes, gotas de suor escorrendo pela sua têmpora.
— Quem? – respondeu sem entender, ainda meio sonolento.
— A garota com vestido de estrela! – disse como se fosse óbvio, frustrado porque o amigo não estava acompanhando seu fluxo rápido de pensamento.
— Sim...aquela que você estava ontem...— disse confuso.
— Foi essa garota que você viu? – mostrou a tela do celular, suas mãos trêmulas, mal conseguiam segurar o aparelho.
— Sim...ela é alguém difícil de esquecer – comentou um pouco confuso.
— Eu fui procura-la esta manhã – explicou ofegante – e o porteiro me disse que ela morreu há dois anos!
externou toda a sua preocupação.
, você andou misturando remédio com álcool novamente? Quer que eu te leve a um hospital?
— OLHE A PORRA DA DATA! – sacudia o celular na cara do amigo – LEIA OS COMENTÁRIOS.
franziu a testa, pegando o aparelho das mãos de e verificando a foto, a mesma datava de dois anos atrás e os comentários confirmavam o que o amigo acabara de falar.
— Não é possível – disse em tom de estranheza — Você está me dizendo, que a garota que você saiu ontem está morta?
— Eu não sei o que pensar...
estava tão abalado quanto ele.
— Escute, às vezes é só uma brincadeira de mau gosto — argumentou tentando manter a calma — É Halloween, a garota parece gostar dessas coisas...
— Busque o nome no google – disse aflito coçando o ferimento em seu pulso.
— Tenho certeza que é só uma brincadeira — falou em vão.
— BUSQUE. . . NO. GOOGLE – gritou perdendo toda a calma que restara em seu corpo.
suspirou fundo, seus dedos percorrendo os teclados do celular. O jornalista se deparou com dezenas de notícias sobre o acontecimento. falecera em um acidente de carro na noite de Halloween há dois anos. Nas fotos dos jornais, a garota ostentava o vestido de estrela. O homem sentiu os pelos de sua nuca ficarem arrepiados. Nunca em sua vida de repórter se deparara com tal acontecimento. Notou que as matérias foram escritas por um conhecido seu, colega da faculdade jornalismo e resolveu confirmar a informação, na intenção de tranquilizar , e também a si mesmo.
— Escute, eu conheço o jornalista que escreveu essas matérias – ponderou – eu vou ligar para ele, ok? Fique calmo.
abriu o seu frasco de bebida e enxugou o liquido restante do cantil. O que aconteceu não tinha explicação, a única plausível era a de que ficara louco e que jamais se recuperaria. Questionou a realidade que o rodeava, tocou em suas mãos e suas pernas como forma de se certificar que estava vivo. De repente, se viu preso entre as ferragens do acidente, do caco estilhaçado no chão da estrada e do corpo do motorista inerte ao seu lado. Lembrou-se de gritar o seu nome a pleno pulmões, de tentar se libertar dos pedaços de metal que o prendiam em seu assento, do desespero e da dor que o encobriu de escuridão.
— Eu estou morto? – perguntou .
— Você está vivo – o sacudiu e repentinamente, ele estava de volta ao quarto de hotel.
o olhava com preocupação.
está morta – ele confirmou com sua voz repleta de assombro – Ela está enterrada no cemitério central da igreja.
reuniu toda a coragem que lhe restara, virou as costas e saiu do quarto a passos largos.
— Aonde você vai? – perguntou sem tentar impedi-lo.
— Eu preciso ver a lápide pessoalmente – disse sem olhar para trás.
O médico pediu um táxi ao perceber que suas pernas hesitantes não o levariam a lugar algum. O motorista não fez perguntas devido ao trajeto curto e agradeceu mentalmente por isso, não conseguiria formular uma frase sequer, mesmo se quisesse, ele estava atormentado demais.
No fundo do seu coração, esperava que tudo fosse um grande mal entendido. iria aparecer cedo ou mais tarde explicando o terrível engano, mas sua intuição, a qual ele nunca dera muita atenção, lhe dizia exatamente o contrário.
O cemitério não era um lugar fantasmagórico tal qual estava esperando. Sem túmulos, apenas várias lápides em um grande jardim. Assim que entrou pelas portas do local, perguntou a um dos cuidadores do cemitério onde estava a lápide de . O funcionário apontou o local e caminhou cuidadosamente em direção á lapide.
O médico suspirou fundo, mas seu coração o traía a todo o momento, completamente descontrolado dentro de seu peito. O suor frio tomando conta novamente de suas têmporas, escorrendo por suas costas contrastando com sua pele que queimava em uma temperatura febril. Seus olhos se arregalaram e um grito de pavor subiu pela sua garganta, no entanto, seu pânico era tão intenso que ele não conseguiu emitir nenhum som. A sua frente jazia a lápide de e em cima dela, a jaqueta preta com a qual cobrira a garota na noite anterior.
? – uma voz doce perguntou e sentiu como se pudesse desfalecer naquele momento. E assim que ele se virou. estava lá.

***


, está tudo bem – disse ela tentando se aproximar do loiro que se afastou no mesmo instante — Sei que você está assustado...
— O que você está dizendo? – disse recuperando a voz por um instante. ainda estava com o vestido de estrela, exatamente como na noite anterior. Como poderia estar morta?
— Sei que isso pode ser um pouco difícil de ouvir... – começou a argumentar, mas o loiro a interrompeu:
— Isso não é possível... ISSO NÃO É POSSIVEL – gritou ele colocando as mãos na cabeça, perdendo o resto de sanidade que possuía – VOCÊ NÃO É REAL! VOCÊ... — o homem sentiu a frase morrer em seus lábios.
— Eu sei ! Isso não é sua culpa, você teve uma morte violenta... – conduzia o caso pacientemente – Isso vai ser meio difícil de ouvir, mas você morreu naquela noite do acidente...
O rosto de se contorceu em desentendimento.
...?
— Fique calmo, eu vou te ajudar... — ela abriu aquele sorriso lindo tentando se aproximar dele, mas ele se desvencilhou novamente.
, eu estou vivo... — argumentou tentando não duvidar das próprias palavras.
— Eu sei que você está nervoso...
— Você é quem está morta, – ele disse se afastando o suficiente para perceber que estava em frente a sua própria lápide.
— Eu estou morta? – ela se perguntou e seu rosto se contorceu em realização da verdade.
se lembrou de caminhar de volta para casa, dos preparativos da noite de Halloween, do seu vestido de estrela. Ela se lembrou de dançar e rir com seus amigos. Flashes de memorias passadas inundaram sua mente, das suas mãos atrás do volante e de uma luz que ela não conseguiu identificar. Depois, se viu em pé ao lado de seu caixão, se lembrou dos rostos de desespero de seus pais, parentes e amigos. Tudo fez sentido. Seu apartamento vazio, o fato de nunca conversar com ninguém e não se lembrar do dia anterior ao Halloween.
Ela franziu as sobrancelhas, seu rosto se entristecendo. Lágrimas se formaram na beira de seus olhos, umedecendo seus cílios compridos até que começaram a escorrer livremente pela sua pele aveludada. recordou de quando todos foram embora, seus pais, amigos e como gradualmente ficou cada vez mais sozinha e sozinha, a ponto de se esquecer. ainda a observava apavorado, mas por alguma razão a expressão no rosto da mulher o fez sentir tanta compaixão que ele desejou tocá-la, consolá-la e salvá-la de seu terrível destino.
Antes que pudesse dar um passo em sua direção e a tomar nos braços como fizera na noite anterior, o rosto de se abriu em um sorriso macabro, seus olhos quentes e gentis se tornaram turvos e gelados. Ela pareceu não pertencer mais a esse mundo.
— Eu me acostumei com a morte – disse ela em um tom fantasmagórico, lançando um olhar gélido em direção ao loiro, antes de desaparecer diante de seus olhos. . sentiu uma fisgada no seu braço, o ferimento avermelhado de outrora tinha sido substituído por um nome encravado em sua pele para sempre: ‘’’’.



Fim!



Nota da autora: Esta é a minha primeira obra original, nela, trabalhei o pior momento de minha vida: a morte do meu pai. Hunter e Eleanor surgiram como forma de encarar essa ferida da dor e do luto. De aceitar a dualidade da vida e de como transformar a minha dor em arte. Meu agradecimento especial a você leitor, que deu uma chance para essa história e ao meu marido Fernando por sempre acreditar em mim.
Para mais histórias, me siga no instagram @contautora!
Até breve!




Outras Fanfics:
The Death of Me


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