Hard To Do

Última atualização: 21/10/2018

Capítulo 1



A Comic Con de San Diego é uma das maiores feiras de cultura nerd do mundo. É um evento de grande porte que reúne nomes da indústria de entretenimento, sendo artistas no geral, como quadrinistas, atores e produtores. Porém, podemos encontrar diversas Comic Cons em diversas partes do mundo, no Brasil mesmo tem uma.
A Comic Con de San Diego é o sonho de toda pessoa que segue a cultura geral e nerd no geral, e para isso não é diferente, mas infelizmente a condição financeira da sua família não permite isso.
era visitante de carteirinha da Comic Con do Brasil – a famosa CCXP – mas a de San Diego era um sonho, um patamar elevado da vida de nerd que ela levava.
— Mãe!? É pra jogar essa caixa no lixo? — perguntava a sua mãe, carregando uma enorme caixa em seus braços, a qual tampava sua visão enquanto a menina andava.
, cuidado com as caixas, querida. Você pode cair assim, deixa essa comigo. — Sua mãe, Amélia, tirou a caixa da mão da garota e a colocou no chão perto da porta.
As duas eram muito parecidas, havia completado seus 18 anos recentemente, e a quase um ano estava trabalhando como atendente em um dos postos do Subway, sim, aquele mesmo, o de sanduíches. Ganhava um pouco menos de um salário mínimo, mas conseguia ajudar sua mãe em casa enquanto guardava o resto para a faculdade.
Amélia, sua mãe, estava no auge dos 38 anos, tivera sua filha um pouco cedo, mas nunca deixou de cuidar dela, mesmo sendo mãe solteira. Amélia batalhou para conseguir uma bolsa para a garota em uma das maiores escolas particulares de São Paulo, mesmo sendo bolsista, nunca sofreu qualquer tipo de bullyng em sua escola, muito pelo contrário, arrumou ótimos amigos.
— Termine de limpar seu quarto, filha. Preciso terminar ainda hoje isso. — Amélia bagunçou o cabelo da garota, que voltou a subir as escadas em direção ao seu quarto.
parou na porta com as mãos na cintura e observou seu quarto, a bagunça ainda era grande. Ela odiava faxinas mensais e sempre jurava se manter organizada para não sofrer no mês seguinte, mas como ela mesmo podia ver, não cumpria sua palavra.
Estava vestindo um avental sujo de poeira por cima de uma calça amarela e uma camiseta cinza, seus cabelos castanhos de um tom claríssimo estava preso para trás por uma faixa. Ela passou a mão no rosto para limpar o suor e acabou deixando um resquício de poeira perto do nariz. bufou de cansaço e se jogou na cama, pegou o celular e se direcionou para a câmera para tirar uma foto com uma falsa cara triste na qual ela postou em seu status.
"Faxinas mensais. Odeio."
Apagou a tela e largou o celular em cima da mesa de canto, onde estava a principal bagunça do quarto. Pegou a vassoura e se posicionou em frente a cama, se abaixou e analisou a bagunça no chão, acabou deixando a vassoura de lado e se enfiou embaixo da cama para puxar algumas caixas de lá. Estava tentando pegar uma das caixas do fundo quando seu celular tocou alto, a assustando fazendo-a bater a cabeça na cama ainda debaixo dela.
Saiu do chão coçando a cabeça pela batida e foi em direção ao celular, e viu que se tratava de uma chamada de vídeo pelo Whatsapp. Lucas estava ligando para ela.
— Alô, terra chamando . — ele disse assim que ela atendeu. Pôde ver que seu grupo de amigos estavam todos na grande sala de Lucas.
— Ah, Lucas, oi. Por que está todo mundo ai? Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou confusa.
— Queríamos dizer uma coisa... — ele começou dizendo em tom baixo, como se fosse algo ruim, mas logo um sorriso se formou em seus lábios. — Adivinha quem vai pra Comic Con de San Diego?
— NÃO! Não acredito que vocês vão, Lucas! Você nem gosta dessas coisas.
— Nós acabamos de comprar os ingressos e as passagens, foi o presente dos nossos pais por termos nos formado na escola!
sorriu receptiva, mas seu coração se apertava um pouco ao lembrar que todos seus amigos tinham uma ótima condição de vida, diferente dela, que tinha que trabalhar duro para conseguir um salário mínimo para sustentar a casa, agora que sua mãe havia sido despedida do emprego.
Ela demorou para responder, então Rebeca, uma de suas amigas, tomou o celular da mão de Lucas e assumiu a tela.
, isso vai ser incrível! Esse ano vai ter o painel da Marvel sobre Guerra Infinita, e meu Deus eu vou ver o Chris Evans. do céu!
— Rebeca, calma! Se você tiver um infarto antes do evento não vai ver ninguém, é melhor se controlar ai. — A garota dizia com um sorriso no rosto.
— Só precisamos de você agora pra fechar a reserva do hotel, quando vai comprar os ingressos e a passagem? — ela perguntou entusiasmada, enquanto ficava com um olhar apreensivo.
— Sobre isso...
— Não. Não, ! Você vai com a gente! — Rebeca dizia quando percebeu que a garota não iria com o grupo de amigos.
— Rebeca... Minha mãe acabou de ser despedida do emprego, só temos o dinheiro do meu trabalho para pagar as contas agora, não vou conseguir ir. Quem sabe ano que vem. — ela falou e sorriu triste.
— Não acredito nisso. Poxa . — Rebeca respondeu, também triste.
Não era culpa deles por terem boa condição financeira, eles eram as melhores pessoas e tinha certeza que se eles tivessem o próprio dinheiro também pagariam para ela, mas estavam as custas dos pais, não tinha nada o que fazer.
— Bom, preciso ir agora, tenho muito trabalho pra fazer aqui em casa ainda. — e com isso ela encerrou a ligação e voltou a bagunça do quarto.
Demorou algumas boas horas para ela terminar tudo e assim que o fez, se jogou em sua cama e se deixou fechar os olhos por longos minutos, despertando ao ouvir sua mãe chamar seu nome.
— Já tomou banho, ? O jantar está quase pronto. — Amélia gritava do andar de baixo.
— Já vou, mãe.
se levantou e foi em direção ao banheiro quase se arrastando, lavou bem seus cabelos sujos de poeira e tirou todo o suor do corpo em um longo banho quente. Se trocou rapidamente colocando um pijama bem infantil de ursinhos e começou a arrumar o cabelo. Pegou um de seus cremes e passou nos cabelos, fazendo uma fitagem rápida em seu cabelo meio ondulado, meio cacheado. Resolveu deixar secar naturalmente e rapidamente desceu as escadas ao sentir o cheiro da comida recém cozida.
— O cheiro está ótimo, mãe! — ela exclamou entrando na cozinha. — Não acredito que a senhora fez lasanha, ah.
— O prato favorito para minha filha favorita. — Amélia respondeu brincando.
riu antes de perceber que alguma coisa estava errada.
— Ei, eu sou sua única filha... Tem algo errado na sua frase. — Ambas riram.
O jantar foi praticamente em silêncio, já que tentava pensar em algum jeito de ir com seus amigos viajar país a fora para o evento que tanta almejava ir. Sua mãe tinha que ser despedida logo agora?
— Tudo bem, filha? — Amélia perguntou ao notar o silêncio da garota.
— Tudo sim, só estava lembrando que meus amigos vão viajar pra San Diego, lembra daquele evento que eu vivia dizendo pra você? Eles vão ir, não é o máximo? — disse com entusiasmo, mas logo esse entusiasmo foi sumindo.
— Ah, querida, eu gostaria que você fosse também. Você é uma ótima filha, merece tanto uma semana de férias no exterior, mas agora eu não posso te ajudar, acabaram de me mandar embora...
— Tudo bem mãe, eu já sei disso, foi o que eu disse para eles. Ano que vem eu tento ir. — a garota respondeu com um sorriso no rosto e voltou a comer, mas sua mãe sabia o quanto a garota queria ir para o tal evento.

— A louça é sua hoje, ontem foi eu quem lavou. — gritou, correndo escada a cima em direção ao seu quarto deixando sua mãe na cozinha rindo da atitude de sua filha.
arrumou a cama e verificou o relógio, eram quase 22h e amanhã ela iria trabalhar, então era melhor dormir. Se deitou e colocou o celular para carregar na tomada ao lado de sua cama, e antes de desligar decidiu verificar as redes sociais, principalmente o Twitter, que era o lugar que ela mais ficava.
Viu os tuítes recentes e procurou um usuário em especial. O seu ator favorito do momento, o queridinho Peter Parker no universo Marvel. Tom Holland. Ele havia tuitado pela última vez a uma semana atrás, quando a presença do ator havia sido confirmada na Comic Con San Diego, e tinha sido nesse dia que havia tido um pequeno infarto no coração só de pensar em conhecer ele pessoalmente. Mas agora, ela não iria e seus amigos realizariam o seu sonho por ela. Ela desligou o celular e se virou para o lado, caindo em um sono profundo.
Acordou com o celular despertando as 5:30 da manhã, o desligou e esfregou os olhos.
— Mais um dia de luta. — resmungou, enquanto levantava e ligava a luz
Se levantou e caminhou para o banheiro para tomar um banho e escovar os dentes. Se arrumou rapidamente e saiu de casa, trancando a porta atrás de si. Pegou o ônibus lotado como sempre e depois de 40 minutos chegou ao shopping do centro de São Paulo. Caminhou fazendo o mesmo caminho de sempre para a ala de funcionários e colocou seu uniforme.
Deu uma última olhada no celular e guardou no bolso, estava 20 minutos adiantada. Foi para o local do trabalho e ficou esperando Marcela chegar para abrir o lugar. A garota chegou às 7:00 em ponto, ofegando.
— Desculpe o atraso, o ônibus quebrou no caminho, foi uma confusão que só. — ela dizia com as mãos no joelho.
Marcela e não eram amigas, elas apenas trabalhavam no mesmo lugar e se falavam somente quando necessário. sentia que a garota não ia muito com a cara dela portanto, resolveu não forçar uma aproximação, mas hoje Marcela estava bem comunicativa.
— Sem problemas, são sete em ponto ainda, você não se atrasou. — respondeu, tentando sorrir amigavelmente.
— Ai, graças a Deus. Não sei o que faria se fosse mandada embora daqui, preciso muito desse dinheiro.
"É, eu também", pensou consigo ao lembrar da situação apertada a qual estava passando atualmente, só de pensar em ficar desempregada agora já lhe dava calafrios.
Marcela abriu todo o local e elas começaram a arrumar as coisas, limpando as mesas, descendo as cadeiras e preparando os pães, pois em uma hora o shopping abriria e os clientes começariam a chegar. Elas terminaram rapidamente e ficaram sentadas esperando o horário do shopping abrir, sem se comunicar como sempre.
Marcela conversava com alguém ao celular e continuava em seu Twitter, quando recebeu uma mensagem de Rebeca.

", urgente. Você ainda tem aquele seu cosplay de Merida? Aquele que você usou na CCXP do ano passado?"

Na hora ela achou a pergunta estranha, mas respondeu mesmo assim.

"Sim, tenho tudo ainda, por que? Quer usar em San Diego? Esse é um cosplay MUITO BOOOOM, você vai arrasar com ele. Não vai nem precisar de peruca, só fazer alguns cachos é passar muito laquê pra ficar no lugar que vai ser um arraso :)"

Ela não teve tempo de esperar a resposta da amiga pois cinco minutos mais tarde o primeiro cliente do dia chegou e ela foi atendê-lo.
— Bom dia, senhor. — ela cumprimentou com um sorriso receptivo o moço bem vestido em um terno e anotou seu pedido.
Sentiu, alguns minutos mais tarde o celular vibrar incansavelmente, mas não podia ver as mensagens no momento, já que estava em horário de trabalho, mas algo dizia que eram de Rebeca. Depois de muitos clientes atendidos, finalmente havia chego a hora do almoço, enquanto ela preparava um lanche para si e sentava em uma das mesas vazias. Alguns segundos mais tarde Marcela sentou ao seu lado e ficou observando-a.
— Tá tudo bem contigo? — ela perguntou, suspeita. estranhou a pergunta e só levantou a sobrancelha. — Porque tipo, você passou o dia todo meio pra baixo, até atendendo os clientes. Tá sentindo alguma dor? Não tá se sentindo bem? Pode falar, se quiser uma horinha pra descansar sem problemas.
— Eu... Tô bem, acho. Nada de importante. — respondeu, sem muita convicção na fala.
— Sério, eu sei que tem alguma coisa te incomodando. O que é?
— É bobagem... — a garota respondeu, na esperança de encerrar o assunto por ali, afinal de contas era realmente uma bobagem ficar triste por um evento como esse. Mas Marcela parecia realmente querer saber, bufou e resolveu falar, afinal, guardar para si não adiantaria nada. — É realmente uma bobagem, tipo, alguns amigos meus vão ir em um evento que eu gostaria muito de ir também. Mas é em outro país e eu não tenho muito dinheiro, sabe?
— Ah, entendi. É muito caro? Você não tem dinheiro no banco?
— Tenho, mas estava guardando para a faculdade e minha mãe está desempregada agora, a única rende que temos é a minha trabalhando aqui.
— Ah, droga, eu gostaria de poder ajudar... — Marcela disse, abaixando a cabeça.
— Espera, você gostaria? — perguntou arqueando a sobrancelha.
— Bom, sim. — Marcela respondeu sorrindo — pode não parecer, mas eu sempre quis me aproximar de você, sempre via você sorridente por aí, com essas camisetas legais de heróis e uns penteados legais no cabelo, você sempre foi muito descolada.
começou a rir do comentário da garota.
— Descolada, Marcela? Quem usa essa palavra no século vinte e um? — elas riram um pouco e parou para pensar porque nunca se deixou aproximar da garota, ela parecia ser muito gente boa e se vestia bem também. — Também sempre notei suas roupas, uns modelos de vestido que eu nunca tinha visto por ai.
— Ah, isso é porque eu mesma faço minhas roupas. — Marcela disse meio sem graça.
— Tá brincando! Cara, isso é demais. Suas roupas são lindas, eu quero que você faça algumas pra mim, eu pago, juro. — disse e Marcela sorriu, antes que a garota pudesse responder e prosseguir a conversa, um cliente chegou e Marcela foi atender.
sentiu o celular vibrar novamente e se rendeu a curiosidade e verificou as mensagens, como pensava, praticamente todas eram de Rebeca. Ela apenas abaixou a barra de notificações e viu que havia 27 mensagens da amiga, abriu a conversa e leu as mensagens do início.

"O Cosplay não é pra mim, bocó, é pra você!
Arrumei um jeito de fazer você vir com a gente pra Comic Con San Diego, PRESTA ATENÇÃO."

A próxima mensagem era uma imagem que ela havia mandado, um print da tela de celular dela na conta oficial da Comic Con no Twitter, a qual dizia sobre um concurso que ela não entendeu direito o porquê, pois as letras estavam pequenas demais. Ela fechou a imagem e voltou as mensagens.

"Ali tá dizendo que vai ter um concurso de Cosplay, o primeiro lugar ganha ingressos e passagem para os 4 dias de Comic Con.

, você tem que participar. Seus cosplays são fodas demais, sério.

, você tá aí?

Garota pelo amor de Deus me responde eu preciso saber se você vai participar ou não.

CALÍOPE POR FAVOR VOLTA AQUIIIII.

eu vou matar você, pelo amor de Deus essa é sua chance porra.

AMIGA NAO ME DECEPCIONA VOLTA AQUI PLLDDS.

ME AJUDA A TE AJUDAR GAROTA, ME DIZ QUE VAI PARTICIPAR."

não havia digerido direito a informação, mas sabia que uma chance dessas – possivelmente a última – não podia ser desperdiçada, ela lembrava quando ganhou o concurso nos últimos dois anos de CCXP, com a Merida no ano passado, e com Alice In Madness Returns no ano retrasado. Modéstia parte, seus cosplays eram profissionais.

"Tô aqui, mas tô em choque. Como faz pra participar?"

Rebeca não respondeu nada além de um link, abriu e leu os termos do concurso, precisava enviar uma algumas fotos e um vídeo do cosplay para o e-mail do evento, e esperar até que eles selecionem os escolhidos. Ela tinha exatos 31 dias para preparar um cosplay a altura e mandar para o concurso. Dava pra fazer.

"Estou dentro!"

"É assim que eu gosto, qualquer coisa me manda mensagem que eu ajudo a comprar material ou outras coisas, beijo preciso ir agora."

A partir dessa mensagem, a garota temeu que não conseguiria, roupas para cosplay eram caras e ela não tinha dinheiro, e ficar nas costas de Rebeca era ruim. Viu Marcela voltando para a mesa após atender o cliente e se levantou bruscamente, derrubando o refrigerante em seu uniforme.
— Preciso de sua ajuda. — ela disse seria, temendo a resposta da mais nova amiga.
— Diga. — ela respondeu, serena.
— Você costura suas próprias roupas, certo? — ela esperou a garota concordar com a cabeça. — Ok, você toparia fazer um trabalho meio diferente do que está acostumada?
— Pra sua sorte, eu gosto de desafios.
— Certo, então você me ajudaria a montar um cosplay em 30 dias? — enfrentou um longo tempo de silêncio, provavelmente de Marcela pensando nos prós e contras de fazer algo desse tipo, temendo a resposta ser negativa, já avaliou a cabeça e se deixou levar pela última chance de ir ao evento.
— Estou dentro. — Marcela respondeu de repente, levantou a cabeça e abriu o maior sorriso que a garota já vira.
"É isso, eu vou ganhar esse concurso".


Capítulo 2

abraçou a garota de repente e se separou logo em seguida, temendo estar forçando uma intimidade que elas ainda não tinham, mas Marcela a abraçou de volta.
— Nós vamos conseguir! — Marcela disse se separando do abraço então. — Mas antes, precisamos trabalhar, vamos voltar. Os clientes estão chegando.
voltou a trabalhar com o sorriso no rosto, estava muito diferente do começo do dia para agora.
— Como nós vamos fazer? Nós sempre trabalhamos até às dez da noite, Marcela. — perguntou enquanto fazia um sanduíche de uma garota novinha.
— Estava pensando nisso também, se quisermos terminar a tempo, vamos ter que sacrificar algumas horas de sono. Posso ir dormir na sua casa amanhã? Precisamos nos programar, eu preciso saber sobre o personagem e tudo mais.
esqueceu que ainda não tinha nenhum personagem em mente, não iria usar os cosplays antigos e ainda não havia pensado em nada, pensou em todas as séries e jogos que estava gostando muito no momento, vasculhou cada espaço de sua mente e ao mesmo tempo entregava o sanduíche pronto para a garotinha.
— Um refrigerante também, por favor. — a garotinha pediu, ela se virou para a máquina e pegou uma Pepsi, voltou para a garota que pagou o lanche e foi se sentar.
acompanhou a garota com o olhar e viu que foi se sentar perto da loja de jogos do outro lado do piso. observou bem a loja e se direcionou para as estátuas que estavam do lado de fora, todo mês eles trocavam colocavam estátuas de personagens do jogo do momento. E o jogo do momento de agora era Overwatch. E era viciada nesse jogo.
Os olhos da garota se acenderam e ela abriu um sorriso, puxou Marcela pela manga do uniforme e apontou para as estátuas ao lado da loja.
— Mercy. Já sei o personagem, quero a Mercy!
Mercy era um dos heróis usados para o suporte do jogo, por mais que jogasse mais com Reaper ou Tracer, seu verdadeiro talento era com a Mercy, dando cura e dano para os parceiros de time.
Marcela observava a estátua, analisando a roupa e os detalhes da personagem.
— É, vai ser trabalhoso. — Ela disse com as mãos em sua cintura. — mas nada que eu não possa fazer.
— Ok, senhorita faz tudo, temos mais... — checou o relógio na tela do celular. — duas horas e meia de trabalho, e eu preciso te falar sobre a personagem e tudo mais.
— Tem razão, vamos voltar. — Ela continuou, agora cabisbaixa.
Realmente esse não era o emprego dos sonhos, elas trabalhavam das oitos da manhã às dez da noite de segunda a sexta para ganhar um pouco mais de um salário mínimo, sofriam alguns assédios ridiculamente babacas de caras babacas, isso porque estavam com um boné maior que a cabeça e um uniforme maior que o corpo também.
No resto do expediente, se empenhou em tentar explicar Mercy para Marcela, até baixou algumas imagens pelo Google para a garota pode ver melhor. Marcela tentou explicar para coisas que ela faria, mas era uma linguagem de moda que a garota não entendia, ambas estavam falando linguagens totalmente diferentes uma da outra.
O dia chegou ao fim, finalmente e ambas estavam bem cansadas, Marcela se despediu de e cada uma seguiu seu caminho. No ônibus para o caminho de casa acabou pegando no sono, acordando batendo a cabeça fortemente contra o vidro, a essa altura o ônibus já estava bem vazio, apenas mais 3 pessoas sentadas mais a sua frente. Ninguém a viu batendo a cabeça, apenas o cobrador que ria de sua cara disfarçadamente, o ignorou e tentou se localizar e viu que já estava na avenida de casa, se levantou e arrumou o vestido de cor vinho que estava abarrotado, deu o sinal e esperou a porta abrir e desceu.
Tinha que caminhar mais consideráveis cinco minutos antes de chegar em sua casa, no caminho a pé teve que se abraçar por conta do vento gelado a essa hora da noite, checou o relógio e viu que eram 22:43, ainda dava tempo de conversar um pouco com Marcela antes de dormir.
estava muito animada com a ideia do concurso, ela sempre dava tudo de si nos projetos que fazia, foi sempre assim desde a escola. Todos os anos sempre ficava em primeiro lugar nos projetos de ciências, sempre era responsável pela peça anual da escola, organizava eventos beneficentes. Ela era muito esforçada, por isso se sentia confiante em relação a esse concurso, mas algo dentro de si não estava certo disso. Finalmente alcançou sua casa, destrancou com a chave e entrou vendo algumas luzes acesas, sua mãe ainda estava acordada.
— Oi querida, chegou cedo hoje. — disse Amélia, que estava sentava em uma poltrona lendo um livro antigo e tomando café. Ela reconheceu o livro na hora.
— Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne. — Ela disse, chegando perto da mãe e se sentando no sofá em sua frente. — O livro favorito do papai. sentia o coração se apertar sempre que ouvia ou via algo relacionado ao seu pai. Ele era um homem incrível que basicamente moldou a pessoa que era hoje. Fora ele que ensinou a garota a gostar de super-heróis e princesas ao mesmo tempo, fora ele quem ensinou ela matar alguns zumbis quando estava jogando Resident Evil, fora ele quem fez o primeiro cosplay dela, o qual ela guarda até hoje. Foi ele quem ensinou ela a correr atrás das coisas que deseja, não deixar nada estragar seus sonhos. Foi ele quem fez tudo.
não era de chorar, nem no enterro de seu pai quando tinha 11 anos ela chorou, algumas pessoas implicavam com a garota pelo fato de supostamente não ter demonstrado tristeza pela morte do pai, mas o mesmo dizia que chorar não iria fazer as coisas serem diferentes, chorar não adianta muita coisa. E ela levava isso bem a sério.
Ela analisou a capa do livro, sendo ele de capa grossa e sorriu ao lembrar do pai lendo para a garota um capítulo por noite, a deixando curiosa para o capítulo do dia seguinte e dormia rapidinho. Eram tantas lembranças boas.
— Ainda tem café? — ela acaba por sair só transe das boas lembranças de seu pai é pergunta enquanto se levanta e caminha para a cozinha.
— Sim, está do jeito que você gosta, bem forte. — Amélia falou alto para que a garota ouvisse.
encheu um copo médio de café e virou tudo em praticamente um gole, lavou o copo que sujou e caminhou para o quarto. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Marcela pelo whatsapp, as duas haviam trocado os números de telefone antes de ir embora para manter contato tanto para a amizade quanto para o projeto de cosplay.

"Vou tirar a sujeira desse corpo podre de cansaço e já volto para falar contigo. Vai instalando o Skype já, temos muito que conversar xD"

Dizem que a hora do banho nunca é apenas um banho normal, e sim a hora de pensar tudo sobre a vida, é, pra não estava sendo diferente. Ela pensava cada vez mais no Cosplay.
E se ficasse feio?
E se ficasse ruim?
E se ela não conseguisse terminar a tempo?
E se ela não ganhasse o concurso?
O medo começava a se alastrar pela garota e o projeto não tinha nem sido passado para o papel. Ela afastou esses pensamentos e desligou o chuveiro, colocando o mesmo pijama da noite passada e indo para a mesa do computador, ligando-o rapidamente e abrindo o Skype. Verificou o celular e viu que Marcela havia respondido com o ID dela no aplicativo, mandou solicitação e poucos segundos depois as duas estavam se falando por webcam.
— Eu cheguei a... Meu Deus, que pijama é esse? — Marcela arqueou uma das sobrancelhas ao olhar os desenhos da roupa de .
— Ei! Ele é confortável demais, tá? — a garota tentou se defender, tapando a roupa com mão.
— De qualquer maneira, eu cheguei a pesquisar sobre o personagem e a roupa não vai ser a parte moleza, o problema são as asas. Você já pensou em como vai fazer? — Marcela disparou com as perguntas.
Realmente já sabia o que faria, mas queria algo diferente, em todos cosplays de Mercy que já havia visto as asas eram iguais, ela queria algo diferente. Algo mecânico.
— Ter a ideia eu tenho, só não sei se sou capaz de conseguir achar.
— Como assim? No que você pensou?
— Não queria apenas asas, sabe? Tipo "ah bacana, asas", queria que as asas se movimentassem. Algo que as fizesse se movimentar, nem que seja para cima e pra baixo só.
— Isso vai ser mais difícil, e... Caro. Mas se você quer tanto isso eu posso te ajudar.
— O que? Não. Sério não precisa, você deve estar guardando esse dinheiro a muito tempo pra faculdade e...
— Calma , eu estou estudando para conseguir uma bolsa, o curso de moda não é muito concorrido aqui no Brasil, eu consigo entrar em uma faculdade de graça, eu posso ajudar você com isso.
— Mas e se você não conseguir entrar? Tem que ter um plano B.
— Não é porque eu gosto de moda que eu sou burra, . Confia em mim, eu vou conseguir.
não sabia se era uma boa ideia aceitar a ajuda de Marcela, mas a garota não a deixava negar, por fim ela cedeu e voltaram a falar do personagem.
— Ok, precisamos ir comprar tecidos bons, só isso mesmo, o resto eu tenho em casa.
— Vamos ter que esperar o fim de semana para isso, iremos perder uma semana inteira por causa do trabalho. — acrescentou, Marcela também pareceu preocupada com o tempo.
— Já disse que vamos conseguir, relaxa. Ok , preciso ir dormir agora, amanhã temos mais um dia cheio naquela droga de lugar.
— Nem me fale, estou cansada também. — As duas riram um pouco antes de encerrar a vídeo chamada, desligou o computador e foi dar um rápido boa noite para sua mãe, e logo em seguida caiu na cama.
— Bom dia, o que você vai quer... — interrompeu a frase na metade quando viu quem estava parado em sua frente. — Ah, oi Jonas. — Ela disse sem empolgação.
— Quanto tempo, . — O estômago da garota se revirou ao ouvi-lo dizendo seu apelido. — Fiquei com saudades.
— Que bom né, já me viu. Agora pode sair da fila por favor, está atrapalhando.
— Não tem ninguém atrás de mim. Você tem um minuto para conversar?
— Não posso, estou trabalhando.
— Seu horário de almoço é daqui a cinco minutos.
— Vou ajudar Marcela com algumas coisas. — o que não era mentira, na verdade quem iria ajudar ela era a amiga.
— Tudo bem, entendi que não quer falar comigo no momento. Mas eu não vou deisstir de você, nunca desisti.
— Tudo bem, Jonas. Pode ir andando agora que eu estou ocupada. — fingiu estar fazendo alguns pães, mas obviamente Jonas via que não era bem-vindo no local.
Assim que o garoto saiu da visão de , ela soltou um suspiro enorme e se jogou no banquinho do lado da caixa registradora.
— Quem era aquele? — Marcela perguntou aparecendo de repente.
— Meu ex namorado. — respondeu, sem animação nenhuma.
— O que ele fazia aqui?
— Queria conversar. Provavelmente me pedir para voltar para ele pela décima terceira vez, ele não me deixa em paz.
— Ele parece ser tão de boa, porque vocês terminaram?
— Só parece mesmo, ele é um inferno na terra. Um ciúme fora do normal, possessivo que só, eu vivia em um relacionamento abusivo demais. Meus amigos me ajudaram a largar ele, mas ele sempre volta me pedindo pra voltar, não me deixa em paz.
— Isso é perigoso, . Você deveria ir na polícia.
— E polícia adianta nesse Brasil velho sem porteira, Marcela? De qualquer jeito, ele nunca me tocou de forma agressiva, nem antes e nem depois. Só enche o saco querendo voltar mesmo.
— E esse é o problema, quando ele perceber que você não quer mesmo, pode dar uma merda gigante...
refletiu e percebeu que a amiga estava certa, enquanto ele estava conservando como gente não estava fazendo nada, e quando ele perceber que a garota estava em outra? O que seria capaz de fazer?
A garota aprontou o almoço e se sentou na mesa, pensando ora em Jonas, ora no cosplay, e acabou tendo uma ideia, mas não disse nada, esperaria Marcela chegar em sua casa para lhe contar alguma coisa.
— Chegamos, essa é minha casa. — disse abrindo a porta e a trancando logo em seguida. — Mãe, aquela minha amiga que eu comentei mais cedo chegou.
Amélia veio receber as duas na porta, as guiando diretamente para a cozinha, alegando que as duas deveriam estar com fome, e realmente estavam. Foram lavar as mãos e atacaram o jantar.
— Da onde vocês se conhecem? — Amélia perguntou para Marcela.
— É meio engraçada essa história... — ela começou a explicar que as duas não se falavam durante o trabalho, só quando necessário, mas ambas tinham o desejo de serem amigas. Até que finalmente aconteceu.
— Puxa, vocês demoraram tudo isso para se conhecerem de verdade? Que desperdício de tempo. Podem deixar que eu lavo a louça hoje, podem ir para o quarto.
As duas foram rapidamente para o aposento e arrumou o colchão no chão para deitar enquanto Marcela Iria dormir em sua cama.
— Ok, se prepare. — dizia enquanto ligava seu computador.
— Se preparar? Para que?
apenas lançou um olhar travesso sorrindo de lado.
você está me assustando com essa cara.
— Calma, você vai ver.
Marcela viu a garota abrindo um jogo que ela realmente não conhecia, mas que fez seus olhos brilharem ao ver o logótipo do jogo em grandes letras no grande monitor. Era Overwatch.
— Nada melhor do que aprender sobre o jogo realmente jogando ele. — disse puxando Marcela para a cadeira em frente à mesa que se encontrava o computador. — Você vai aprender tudo ainda hoje.


Capítulo 3

Tom

Tom Holland, o mais novo Peter Parker no UCM. Tudo que o garoto queria.
Desde pequeno, Tom sempre foi nerd, passava horas lendo quadrinhos e às vezes jogando algum RPG de mesa. Começou em sua carreira desde cedo, e nunca esqueceu que em uma entrevista dissera que seria muito legal interpretar o Homem-Aranha nos cinemas, e olhe só onde ele está hoje.
Jogado em sua cama no conforto de seu quarto, estava com uma mala a desfazer já que ele havia voltado de viagem recentemente, uma viagem para divulgação do novo filme. Guerra Infinita.
Não que qualquer filme da Marvel precisasse de alguma divulgação, mas o elenco sempre ia em shows de variedade e essas coisas para chamar ainda mais atenção para os novos filmes. Aquela parte era a mais cansativa para Tom, ele gostava de dar entrevistas e atender o público, mas chegava uma hora que toda essa rotina se tornava maçante e cansativa.
Tom teria bastante tempo até a próxima turnê de divulgação, cujo era um evento de grande porte e o ápice da nerdisse. Comic Con San Diego.
Tom sempre visitava o evento, mas antigamente apenas como visitante, dessa vez, ele iria ser uma das atrações. Pessoas pagariam para ver ele e o resto do elenco do filme. Isso era loucura, o rumo que as coisas tomaram. Mas Tom gostava disso.
Tom pegou seu celular e procurou o nome do amigo Jacob na sua lista de contatos e digitou uma mensagem.

"Tá aí cara? Vamos jogar um pouco? Finalmente voltei para casa, tenho um mês de férias até o próximo evento xD"

Não demorou muito para chegar a resposta.

"Fala aí, Holland, tô em casa sim. Já estou ligando o PC, já aviso que eu vou de Hanzo."

Tom rolou os olhos em desaprovação.

"Você é tóxico, Jacob. Estou te esperando já."

Com isso, Tom desligou seu celular e foi em direção ao computador, esperando que ele ligasse. Fazia um tempo que não conseguia jogar, devia estar meio enferrujado, resolveu jogar uma partida para aquecer.
A partida era de segurar o ponto, Tom escolheu seu main, Genji, e logo se familiarizou novamente com o jogo e seus comandos. Ele perdeu essa partida, mas se botou para dizendo que estava apenas aquecendo.
— Ei, cheguei. Me chama pro time. — Jacob disse no canal de voz.
Tom o fez, e agora eles estavam esperando a partida. Essa partida de agora era de carregar a carga, em Illinois. No time estava uma Tracer, um McCree, um Genji — que era tom —, um Hanzo — Jacob —, uma Widowmaker e uma D.va. Tom fez cara de desgosto e abriu seu microfone.
— Estamos sem suporte, alguém poderia trocar para ajudar o time? — ele perguntou.
Ninguém o respondeu, mas viu que a pessoa que estava com a Tracer logo mudou para Mercy, ele achou estranho os dois extremos de ofensivo e suporte, mas não reclamou, essa Mercy teria que dar pro gasto.
A partida então começou, o seu time teria que escoltar a carga e estavam indo bem, no meio da partida o time ficou com dois ofensivos, dois tanques, um defensivo e um suporte. O time estava indo bem.
Tom pôde ouvir alguém abrir o microfone e esperou a pessoa dizer algo.
— Genji, se ficar me pedindo cura desnecessária, eu deixo você morrer. E time, não precisa pedir cura, eu vejo quem está precisando, é só me protegerem que eu curo vocês. — a voz suave de uma garota disse de forma imperativa, Tom não pôde deixar de dar uma risada e voltou a prestar atenção no jogo.
Eles ganharam a partida facilmente, e impressionantemente, ele e a Mercy formaram uma ótima dupla. Tom passou grande parte do jogo protegendo-a e ela fez um trabalho impecável jogando, tanto que ganhou a jogada da partida quando estavam todos mortos em seu time, prontos para perder a carga, e ela reviveu seu time e assim, eles ganharam a partida.
Tom coçou seus dedos e mandou um pedido de amizade para a garota que aceitou rapidamente. Ele abriu o chat da garota e ficou olhando, pensando se deveria mandar mensagem ou não.

Tommy1996
"Fez um ótimo trabalho com a Mercy."

MercyNeverDie
"E você fez um ótimo trabalho Genji."

Tommy1996
"Eu ri quando você disse que me deixaria morrer.

MercyNeverDie
"Me desculpe por isso, sempre que ouço um 'eu preciso de cura' meu sangue ferve"

Tommy1996
"Tudo bem, eu entendo xD é realmente chato mesmo. Você é de onde?"

MercyNeverDie
"Do Brasil, e você?"

Tommy1996
"Sério? Eu adoro o Brasil, queria visitar ai novamente. Sou dos Estados Unidos."

MercyNeverDie
"Que bacana, você já esteve no Brasil? Quando?
Estados Unidos, queria muito poder visitar ai um dia..."

Tom quase digitou que fora ao país para eventos de divulgação do seu filme solo como Homem-Aranha, quase. Mas rapidamente apagou e digitou outra coisa.

Tommy1996
"Fui visitar um amigo. Você tá afim de jogar comigo depois? Gostei do seu modo de jogo, é bem parecido com o meu, acho que vamos formar um time bacana :D"

MercyNeverDie
"Claro, Tommy. Mas preciso ir dormir agora, aqui já passa da meia noite, boa noite :)"

Depois disso, a Mercy — resolveu chamá-la assim por enquanto — se desconectou, deixando Tom a sós com Jacob o chamando.
— Tá aí, cara? Você parou de falar do nada. Já vai sair? — Jacob perguntou.
— Vou nada, vamos jogar.

Cinco dias. Era o tempo que estava falando com a garota do Overwatch, a cada partida que passava Tom sentia a necessidade de jogar mais com aquela garota, pois a sintonia dos dois era inquestionável, de fato.
Tom ainda não havia falado seu nome para a garota, nem ela para ele. Eles estavam bem assim, passavam a maioria do tempo conversando sobre o jogo, e quando não estavam falando sobre isso, era sobre aleatoriedades da vida dos dois. Tom até chegou a reclamar um pouco da vida de ator de maneira sútil para que a garota não percebesse. Mas Tom sentia que devia levar essa relação de amizade dos dois para fora do chat do jogo, para o Twitter quem sabe, até mesmo mensagens pelo celular.
Não, definitivamente não. E se ela fosse uma fã? E se fosse uma fã louca?
Se bem que ela lhe pareceu ser uma pessoa calma, Tom não achava que a garota iria enlouquecer, pelo menos não absurdamente. Iria tentar uma coisa hoje à noite, quando jogaria com a garota novamente. Estava nervoso, claramente, não sabia que rumo a conversa levaria e não sabia se poderia controlar se saísse de seu controle.
Mas valia a pena arriscar, não?
Tom não sabia, só sabia que faltava cinco minutos para o horário marcado com a garota para jogar algumas partidas.
— Ei, está ai? — Tom ouviu a suave voz da garota o chamando no chat por voz.
— Oi, estou sim. Estava te esperando. — ele respondeu, e percebeu que talvez não devesse ter dito aquilo, pois ouviu uma risada abafada vindo de sua companheira.
— Sabe, eu estava pensando. — ela fez uma pausa e Tom esperou a conversa continuar. — eu acho que já ouvi sua voz em algum lugar...
Tom gelou, será que ela havia o descoberto? Se sim, o que faria? Negaria? Contaria a verdade? Ele não sabia o que falar, então esperou que ela continuasse.
— Tipo, você canta? — ela perguntou casualmente e ele respirou fundo.
— Não, eu não canto. — ele respondeu e riu de nervoso.
— Ah, que pena, sua voz é bem bonita. Pelo menos pelo microfone do headset. — Ela prosseguiu e riu.
Um tempo de silêncio se alastrou antes de Tom começar a colocar seu plano em prática.
— Você... Você gosta de super heróis também? — ele perguntou, com medo da resposta da garota.
— Sim, meu pai me ensinou a gostar deles. Era engraçado nas festas a fantasia da escola, eu me vestia de princesa com uma máscara do Homem de Ferro. — ela disse e Tom não pôde deixar de sorrir imaginando a cena. — Meus heróis favoritos são o Capitão América e o Homem-Aranha, e os seus?
— Gosto do Homem-Aranha também, aliás, qual dos atores do Homem-Aranha você gostou mais? — essa era uma pergunta arriscada, que Tom só percebeu depois que havia falado.
— Ah, eu não sei dizer bem. Tipo, o Tobey Maguire foi um ótimo Peter Parker, mas nem tão bom como Homem-Aranha. O Andrew Garfield foi um ótimo Homem-Aranha, mas nem tão bom como Peter Parker e... — Tom estava ansioso por essa parte, não sabia o que esperar da resposta da garota, e se ela achasse sua atuação ruim? — Tom Holland... Eu acho que ele soube equilibrar os dois perfeitamente, foi um ótimo Peter Parker e um ótimo Homem-Aranha, gostei bastante da atuação dele.
Tom se sentia mais leve com a resposta positiva da garota, não que se ela não gostasse dele mudasse algo em sua vida, mas receber feedback positivo o fazia sentir-se bem.
— E você, tipo... Gosta de algum ator... Tipo, Tom Holland? — ele estava piorando a situação, fez uma careta que chegou a doer sua face. Novamente ouviu a risada da garota, dessa vez ela parecia mais nervosa.
— É estranho dizer que você gosta demais de uma pessoa que nem conhece? — ela perguntou, Tom pensou antes de responder. Ele achava que não, né? Ele mesmo gostava demais de atores antes de se tornar um, e gostava da garota do Overwatch mesmo que não conhecesse ela também. — Eu admiro ele demais, estava até planejando ir para a Comic Con de San Diego esse ano, mas a situação apertou aqui em casa e vou ter que deixar para outro ano, quem sabe esse ano ele não vem para a Comic Con do Brasil?
Tom sentiu vontade de dizer ali mesmo que ele era o ator que ela admirava e que faria o possível sim para ir para o Brasil esse ano, o tom de voz da garota deixou Tom com vontade de consola-la.
— Se eu pudesse ajudar você nesse quesito, eu ajudaria. — ele disse meio sem jeito.
— Mas você nem me conhece para me ajudar, e se eu tivesse me passando por uma garota indefesa e te atacasse enquanto dormia mais tarde do mesmo dia? — ela disse mudando a voz para algo que devia ser macabro, mas acabou ficando um pouco fofo. Ambos riram bastante.
— O que você faria? — Tom perguntou assim que parou de rir.
— Faria onde? — ela devolveu.
— Se me... Se encontrasse com o Tom? Tom Holland.
O chat ficou em silêncio novamente, provavelmente ela estava pensando.
— Acho que ia verificar se ele não estava com alguém antes de chegar para pedir por uma foto, acho bem desrespeitoso estar conversando com alguém e outra pessoa chegar gritando e fazendo escândalo, né? É claro que é loucura essas fãs que veem os ídolos e começam a gritar e chorar, tipo, o que custa você se comportar? Vai ser melhor para você e para ele já que ele vai te notar por não ser uma louca e talvez você ainda consiga bater um papo amigável com ele. Por exemplo, esse ano que passou o Will Smith veio para o Brasil, ele foi super atencioso com os fãs, consegui uma foto com ele porque estava perto do Stand da Netflix, mas eu não fiz escândalo nem nada, cheguei na maior simpatia pedindo uma foto, nós até conversamos um pouco. Foi demais. — ela respondeu calmamente.
Tom analisou sua resposta, aliviado por ela não ser as fãs que ele mais temia. Queria contar para ela a vez que algumas invadiram sua casa pedindo fotos e ameaçando se matarem se ele não saísse para atendê-las, tinha certeza que a garota iria rir da situação com ele.
— Ele teria sorte de se encontrar com você. — Tom dissera aquilo mais para ele do que para ela.
— Quem sabe alguma coisa impossível aconteça na minha vida e eu consiga vê-lo? Se eu conseguir, você vai ser o primeiro a saber.
"Até porque, eu sou ele", Tom queria dizer, mas não podia. Não ainda.
— Ok, Senhor Investigador, vamos jogar porque aqui no Brasil já são dez horas da noite e eu trabalho amanhã cedo. — ela mudou o tom de voz ficando mais animada, Tom sorriu e eles entraram em uma partida.

Tom rolava e rolava na cama, mas era incapaz de dormir. Verificou as horas em seu celular e viu que eram 1:54 da manhã, se sentou na cama e calçou os tênis, abriu a porta de sua casa e saiu pela rua a procura de algum lugar onde pudesse comer ou beber alguma coisa a essa hora da madrugada.
Estava vestindo um moletom com capuz para cobrir o rosto e não correr o risco de ser conhecido, ele gostava da atenção das fãs mas aquele não era o momento. Andou por algumas quadras sem se preocupar se estava longe de casa ou não, só queria pensar um pouco. Acabou encontrando um lugar parecido com o Starbucks, onde se servia cafés artesanais que ficavam bem bonitos, Tom já tinha visitado o lugar antes e fora bem atendido, não porque era famoso, porque os donos do alojamento já tinham certa idade e provavelmente não assistiam mais café. Ele gostava do local pois podia ser apenas uma pessoa normal.
Ao entrar no café, o sininho em cima da porta tocou anunciando sua chegada, o senhor com barba e cabelos brancos no caixa sorriu simpaticamente para ele e Tom escolheu uma das mesas perto da janela para se sentar.
Uma moça mais nova veio lhe atender perguntando o que ele gostaria, Tom pediu um café mocha e alguns cookies, a moça saiu, trazendo depois de alguns breves minutos seu pedido. Tom mordiscava os cookies e bebericava o café enquanto média em seu celular, ora no Twitter ora no Instagram, sentia uma vontade de se comunicar com os fãs e talvez responder algumas mentions.
Tom olhou para a janela do café e viu que havia um parquinho vazio do outro lado da rua, observou aquelas barras de metal de fazer exercício e teve uma ideia.
— Com licença, sei que isso vai ser meio estranho, mas o senhor pode tirar uma foto para mim? — Tom perguntou para o senhor no caixa.
— Sem problemas, filho. Candice, fique de olho nas coisas para mim por enquanto.
Tom mordeu o último pedaço de cookie e pegou o copo de café nas mãos e saiu do estabelecimento, com o velho senhor atrás de si.
— É um desafio para um amigo meu, preciso ficar de cabeça para baixo segurando esse copo de café.
— O seu amigo tem um parafuso a menos na cabeça, meu filho — o senhor disser fazendo Tom rir.
— Vai ser rápido, só preciso de ajuda para a foto e o café mesmo. — Tom disse enquanto explicava para o senhor como iria fazer.
Tom se preparou as mãos assim como fazia quando praticava ginástica, se pendurou nas barras e em segundos estava de cabeça para baixo, pediu o copo de café para o senhor e fez a pose, viu o flash saindo do celular e desceu das barras, vendo como havia ficado a foto.
— Ficou muito boa, obrigada. — de fato, a foto havia ficado muito engraçada, daria boas conversas com os fãs. Tom voltou rapidamente ao estabelecimento e pagou a conta, saindo rapidamente para voltar para sua casa.
Chegando em casa, conectou-se rapidamente a internet e postou a foto em seu Twitter, com a legenda "O que vocês estão fazendo agora? Eu estou tomando café de um jeito estranho" seguido de alguns emojis.
Rapidamente sentiu seu celular vibrar, as diversas respostas estavam chegando de diversas partes do mundo, ele lia e respondia como conseguia, algumas seguiam fotos no mesmo estilo da que ele tirou e eram bem engraçadas. Rolando as mensagens ele viu uma que chamou sua atenção.

@
"Não é possível, a Marvel cria seus atores em uma plantação de heróis? Todos são os próprios personagens XD"

Ele achou o comentário hilários que teve que dar um retweet e favoritar, até mesmo o respondeu.

" @ Eles nos botam em máquinas e nos alimentam até estarmos fortes o bastante para fazermos o filme, você não sabia?"

Ele esperou uma resposta do usuário mas não obteve, continuou respondendo alguns outros até cair no sono, finalmente.


Capítulo 4

estava jogada na cama enquanto Marcela tirava as dezenas de tecidos de uma bolsa. Elas haviam acordado cedo no dia anterior para irem comprar tecidos e outras coisas para o Cosplay, e agora, no domingo a noite elas estavam se preparando para começar finalmente.
A garota verificou o celular e viu que estava quase na hora de jogar com Tommy – o garoto do Overwatch, Como Marcela o chamava. Ligou o computador, mas não conectou no jogo, apenas ligou o chat de voz e disse que não poderia jogar hoje.
— Mentira que você vai me deixar jogando sozinho. — ele disse em tom de indignação exagerada fazendo a garota dar risada.
— Preciso fazer algumas coisas com a Marcela, é para um projeto meu.
— Estou esperando o dia em que você vai me dizer finalmente o que está planejando, você me deixa curioso assim.
— Prometo que quando estiver pronto eu falo e mando fotos também.
— Vai sair do anonimato finalmente? — ele perguntou.
— Como assim? — ela riu.
— Nós não sabemos muita coisa um sobre o outro, aliás, não sabemos nada além do jogo. — ele disse um pouco sério. demorou para responder pois não sabia direito o que dizer.
Ele tinha razão, ela sequer sabia seu nome verdadeiro, além do nickname do jogo, e nem ele o dela, quando pensou em alguma resposta, sentiu a mão de Marcela sobre os ombros dizendo que estava tudo pronto para começar.
— Eu... Eu tenho que ir agora, amanhã, se eu não estiver ocupada, nos falamos.
— Tudo bem, boa sorte com seu projeto. — ele disse e ambos desligaram o chat de voz.
ficou um tempo sentada em sua cadeira pensando no quanto aquela conversa a fazia se sentir estranha. Ela gostava de jogar com Tommy, gostava de falar com ele, mas em momentos quase nulos eles conversaram sobre algo que não se relacione com o jogo, era quase como se ele fosse um amigo que existisse apenas para jogar com ela, como se fosse um computador. acabou dando risada pensando que estivesse conversando com um robô.
— O que foi? Seu namoradinho virtual está fazendo piadas? — Marcela perguntou, tirando de seus pensamentos.
— O que? Não, estava pensando sozinha e... Ei! Ele não é meu namoradinho virtual, garota. Nós só jogamos no mesmo time. — A garota disse, se levantando e ficando de pé para que Marcela tirasse suas medidas.
— Você passa quase a madrugada toda falando com ele tem umas três semanas, óbvio que tem alguma coisa ai.
— Uma semana e meia... — corrigiu e Marcela olhou para ela arqueando as sobrancelhas. — Mas isso não importa, ele joga bem e eu também é isso!
— Sei.
— É sério, Marcela! Além do mais, nós nunca nos vimos, não sei nem quantos anos ele tem! Ele pode ser um velho de com voz jovem e você falando essas coisas. Além do mais estamos mais longe um do outro que qualquer outra coisa.
ficou pensando sobre o que Marcela havia dito e afastou os pensamentos aleatórios e focou no cosplay. Na verdade ela só ficava parada enquanto Marcela tirava medidas e costurava tecidos e mais tecidos, era um trabalho grande mas a garota não parecia se importar.
— Ei, você está trabalhando a tarde toda nisso, já são 20h e minha mãe está nos chamando para jantar, vamos. — apareceu na porta do quarto chamando Marcela.
As garotas desceram as escadas e comeram em silêncio, ambas pensando demais na roupa e em quanto tempo faltava ainda. Três semanas.
Rapidamente arrumaram toda a cozinha e Marcela se aprontou para ir embora, se despediram e rumou para tomar um longo e relaxante banho, colocou seu pijama e ligou seu computador sem saber ao certo o que iria fazer. Abriu o Overwatch na esperança de ver seu amigo online, e felizmente ele estava.
— Ei, eu estava pensando na nossa conversa de mais cedo... Vamos nos conhecer melhor, tipo, falar nossos nomes, idade, essas coisas? Temos que prosseguir no nosso "relationship"
— Ah, nossa. Você me pegou de surpresa, eu estava pensando nisso também, você começa, vai.
— Por que eu? Eu que dei a ideia, você começa.
— Nada disso, me recuso. E se você usar meus dados para me rastrear e assassinar? — O garoto respondeu com um tom ofendido.
— Meu Deus, você é muito idiota. — respondeu, rindo. — ok, eu começo. , 18 anos, trabalho no subway do shopping, moro com a minha mãe e estou a uma semana falando com alguém que eu não tenho a mínima ideia de quem seja.
— Olha só, que nome diferente para uma brasileira. — seu amigo ria abafado pelo microfone do headset.
— Eu vivo dizendo isso pra minha mãe, mas ela disse que meu pai que me deu esse nome.
—Você não mencionou seu pai, onde ele está? — ele perguntou.
Um silêncio reinou entre os dois antes da garota responder meio receosa.
— Ele morreu tem 7 anos já, ele que me guiou por esse caminho geek, nerd, gamer que você conheceu nesse tempo que conversamos.
— Ah, me desculpa por isso...
— Não se preocupe, eu amo falar sobre ele, porque assim ele fica eternizado na minha vida, não que eu esqueceria dele até porque é o meu pai, mas... Acho que você entendeu. Ok, sua vez!
percebeu hesitação da parte do garoto, um calafrio correu por sua espinha e a não sabia o porquê, mas mesmo assim esperou a resposta.
— Me chamo Tom, já deve ter percebido pelo meu nickname, tenho 21 anos e acho que é isso. — ele disse, rapidamente.
— Não! Não pode ser só isso, pode ir falando mais aí, meu anjo.
— Eu não faço nada de interessante da vida, ! Não vale, eu não tenho mais nada para contar.
— Mas será possível isso... Ok, novo passo, passa teu Twitter ai, conversar por discord é bom mas às vezes seria mais rápido o Twitter.
Novamente percebeu Tom hesitante, e novamente esperou a resposta do garoto.
—Tommy1996, segue ai. — ele disse de repente.
— Isso teria sido mais fácil se eu soubesse que era o mesmo nick do jogo, ou você estava me enrolando ou é lerdo. — ouviu Tom rir do outro lado e não recebeu uma resposta.
Enquanto isso, pegou o celular e foi até o Twitter para seguir o garoto e lá encontrou uns tuites antigos bem engraçados, começou a favoritar e dar diversos retuites.
— Cara, seu senso de humor é ótimo. — ela disse enquanto ria de uma das bobagens daquele Twitter.
Quase instantaneamente o garoto seguiu-a de volta e também começou a retuitar e favoritar as coisas que ela postava, alguns tuites sobre a vida da garota, reclamando do emprego, do ex namorado, alguns falando de Tom Holland.
— Ah, nossa, esse aqui que você acabou de curtir, tive um ataque esse dia. — ela se referia ao tuite que mandou ao Holland quando postou aquela foto engraçada de ponta cabeça segurando um café. — fiquei tão nervosa que nem mandei nada em resposta, provavelmente ele não iria ler mesmo.
— Eu lembro quando ele postou essa foto, eu ri bastante. — sentiu a voz do garoto vacilar, mas não ligou para isso e prosseguiu a conversa.
Eles passaram mais alguns minutos se falando tanto pelo discord, quanto pelo Twitter quando se despediu.
— Infelizmente eu ainda sou uma sementinha desse mundo capitalista e tenho que acordar cedo para ganhar minha comida do dia a dia. — disse mais dramática que o comum, fazendo Tom rir.
— Vá, madame. Realize seus sonhos através do sistema capitalista. — ambos riram e desligaram logo em seguida.
deitou na cama e fuçou seu Twitter mais um pouco, com algumas interações com o Tom e dormiu rapidamente.

Acordou na manhã seguinte com o despertador como de costume, fez tudo o que tinha pra fazer antes de sair de casa, e ao fechar a porta viu uma carta sobre o carpete.
Curiosa, a garota abriu rapidamente o envelope e sentiu o coração apertar. Era uma ordem de despejo, o aluguel da casa estava atrasado alguns meses e agora, ela e sua mãe seriam despejadas sem ter onde morar.
guardou o envelope consigo, não queria preocupar sua mãe, guardaria até o último segundo esse segredo, ela podia conseguir o dinheiro de alguma forma... Alguma forma.
Chegou ao trabalho e foi recebida aos sorrisos por Marcela, que estava animada pois a roupa da fantasia da amiga estava saindo muito bem, bem demais até, mas infelizmente não estava respondendo o entusiasmo a altura.
— O que aconteceu com você? — Marcela perguntou depois de atender um cliente.
— Nada, sério. Não é nada demais, demorei pra dormir ontem e estou morrendo de sono. — deu uma desculpa esfarrapada que ou funcionou muito bem, ou Marcela percebeu que aquela não era uma boa hora.
No horário de almoço, sentada em uma das mesas do local de trabalho, sentiu uma mão em seu ombro, se virou para ver e reconheceu o rosto de Jonas.
— Ah, é você. Oi. — disse seca.
— Não me trate assim, eu vim aqui lhe dar apoio. — ele respondeu, não parecendo ligar tanto para o jeito como a garota lhe tratava.
— Apoio ao quê?
— A ordem de despejo... — Jonas começou a falar e o interrompeu rapidamente.
— Então foi você? Meu Deus, você não consegue aceitar um não sem foder o resto da minha vida? Me deixe em paz, caralho. — gritou com Jonas no meio do shopping enquanto se levantava, mas a mão de Jonas em seu braço a impediu de ir.
— Escuta, .
— Não! Eu não quero ouvir nada que venha de você! Nunca mais.
— É sério, isso não foi culpa minha! Foi o meu pai, ele fechou acordo com alguns empresários que pretendem fazer um novo condomínio onde está sua casa e a casa de algumas outras pessoas, eu juro que não tem dedo meu nisso, juro! — parou e ouviu Jonas, ele parecia tão surpreso quanto ela.
— E o que você eu deveria fazer agora? Não tenho dinheiro para pagar o aluguel, e nem tenho para onde ir se sair daquela casa. Eu me recuso a deixarem destruir a única coisa que mantém meu pai vivo em mim. Você pode tirar tudo de mim, Jonas, menos essa casa. — a garota dizia, séria.
— Eu posso ajudar você. — ele disse sem rodeios. ficou confusa e arqueou as sobrancelhas antes de lhe questionar. — se você aceitar voltar comigo, eu pago tudo para você. Desde os alugueis atrasados até os que ainda virão, só basta você me aceitar de volta.
olhou para o chão, pensando. Aquilo seria muita humilhação, voltar para seu ex louco para salvar sua casa... Ela não tinha outra opção, certo?
—Tudo bem, Jonas. Eu te aceito de volta.



Capítulo 5

Já fazia exatas 3 semanas que e Tom estavam se falando, e ela estava gostando cada vez mais daquilo. Eles já trocavam fotos, mas Tom nunca mostrava seu rosto, a foto que mais chegou perto disso foi uma contra o sol, que mostrava sua silhueta esbelta.
também não chegou a mostrar o rosto, e achou melhor continuar assim, algo dentro de si dizia que ela não estava pronta para isso. Em seu Twitter também não havia fotos mostrando o rosto.
Enquanto estava deitada em sua cama, pensando no que deveria fazer a seguir, seu celular apitou e ela abriu um sorriso ao ver o user de Tom na tela.

"Esta ai? Que horas são no Brasil? Tá afim de jogar um pouco?"

A garota queria dizer sim, que queria jogar, e realmente queria, mas os acontecimentos recentes estavam fazendo sua cabeça explodir. Ela tinha voltado com Jonas. Não porque quis, mas porque era necessário. Não queria ver sua mãe morando na rua e sua casa sendo destruída.
Jonas estava tentando reconquista-la, levava para comer em restaurantes caros, dava presentes mais caros ainda, mas mesmo assim não sentia firmeza nisso tudo. Ela sabia que o Jonas de sempre estava ali, e ela só estava esperando o primeiro surto de ciúmes que ele teria.
Mas diferente da última vez, ela teria que aguentar tudo isso.
Pegou o celular, agora sem o sorriso no rosto e respondeu o amigo.

"Não posso agora, Tom :( me desculpe, estou com alguns problemas que preciso resolver. Quem sabe na próxima :D"

Ela desligou a tela e se virou, ouvindo o barulho de notificação, porém apenas fechou os olhos, angustiada, adormeceu ali mesmo.

— Filha? Você está atrasada, levante. — sentiu as mãos de sua mãe lhe balançando devagar. Espera, ela havia dito que estava atrasada?
levantou em um pulo que assustou sua mãe, correu para o banheiro para tomar banho e se arrumar enquanto gritava pra sua mãe preparar o café.
— Ah, não acredito, não acredito, não acredito... — ela xingava enquanto ligava para Marcela, para avisar de seu atraso.
— Olha, ... Não queria te deixar assustada, mas... — Marcela parecia procurar as palavras certas para não deixar a amiga nervosa.
— Anda, fala logo. Pior do que está não pode ficar.
— Então, acho que pode. O patrão vai estar aqui às sete em ponto pra vistoria mensal, vou tentar enrolar ele, é melhor você correr.
sentiu o corpo congelar e quase na mesma hora saiu correndo de casa sem nem tomar o café que sua mãe havia preparado.
No meio do caminho a garota finalmente viu as notificações da noite passada, e como pensava, se tratava de Tom.

"Poxa , você vem me deixando muito de lado ultimamente, o que está acontecendo?"

"Estou preocupado com você, tem alguma coisa que eu possa fazer?"

"Não me deixe falando sozinho, me deixa mais preocupado assim >:("

sentiu o coração apertar por não dizer ao amigo o que lhe afligia, mas... Droga, nem ela sabia por que não dizia.
Alguma coisa em relação a própria relação deles, era uma coisa estranha. Eles se falavam todo dia por horas a fio, aparentemente gostavam da presença um do outro, mas nunca se aprofundaram nisso. O que tinha de errado com eles dois?

entrava no trabalho às sete horas da manhã, mas assim que pisou no shopping e verificou o celular, sentiu um calafrio na espinha. Eram sete e trinta e sete. Quase quarenta minutos de atraso, ela estava muito encrencada.
Pegou o elevador e foi direto para a área de funcionários para se trocar, enquanto tentava desesperadamente pensar em alguma coisa, alguma desculpa para dar ao seu superior.
Chegou no local e Marcela já estava lá, juntamente de Carlos, o chefe. E ele não estava com uma cara boa.
Conforme foi andando, sentia as pernas mais bambas, não podia perder esse emprego por nada. O que ia fazer?
— Cai, que bom que você parece melhor. — Marcela disse antes que a garota pudesse falar qualquer coisa.
— O que... — tentou perguntar, mas Marcela interveio novamente.
— Desculpa por aquele pedaço de bolo, eu não sabia que você era intolerante a lactose, seu estômago já está melhor? — Marcela perguntou enquanto apertava o braço da amiga.
percebeu o plano de Marcela e tentou dar vida ao seu lado atriz.
— Eu devia ter perguntado antes de comer, a culpa foi minha. Eu estou um pouco melhor, mas o banheiro não está tão bem assim. — deu um sorriso forçado e se voltou ao superior.
— Desculpe por isso, Carlos, eu estava passando um pouco mal no banheiro, mas agora estou aqui. — ela tentou parecer doente e confiante ao mesmo tempo.
— Tudo bem, já está melhor? Eu tenho remédio comigo, também tenho intolerância a lactose. — ao invés de receber uma bronca, recebeu uma certa preocupação vinda do chefe, ela suspirou fundo e agradeceu o comprido que ele lhe oferecera. — Muito bem meninas, já vou indo. Bom trabalho para vocês.
Assim que as duas viram Carlos saindo do shopping e indo em direção ao seu carro, começaram a rir descontroladamente.
— Intolerante a lactose, Marcela? Sério? — sentia a barriga doer.
— Olha, pelo menos deu certo, ok? Isso que importa.
— Vem cá, você acha que eu estou fazendo o certo? Em voltar com o Jonas? — perguntou enquanto Marcela fazia uma lanche para comer.
— Ah, cara, não sei. Você parecia não estar afim, acho que no fundo você não queria.
— Realmente, mas eu fui obrigada...
— Como assim "obrigada"? O que ele fez dessa vez? — Marcela perguntou e viu o rosto da amiga começar a ficar vermelho.
— Não, calma! É que essa parte eu não te contei porque é meio embaraçosa para mim. O aluguel da minha casa está atrasado alguns meses e agora o pai do Jonas está com um projeto de derrubar as casas Daniele quarteirão para construir um condomínio, Jonas veio até mim dizendo que se oferecia a quitar a minha dívida se eu voltasse com ele. Eu fiz pois não tinha o que fazer! Agora me sinto estranha em relação a tudo, a você, a minha mãe, a minha casa... — parou por um momento, pensando se devia continuar ou não. — em relação a Tom.
— O que o seu amigo tem a ver com a situação?
— Eu não... Não sei bem. Tá tudo muito estranho, todas as vezes que eu saia com Jonas — nas vezes que ele tentava me reconquistar — eu não prestava muita atenção no que acontecia, eu ficava pensando mais em chegar em casa, ligar meu computador e ir jogar com ele. Quando não nos falamos eu sinto que meu dia não está completo, e quando ele me mandou mensagem ontem a noite dizendo que eu estava estranha, eu realmente me senti estranha. Ah, o que está acontecendo?
— Ai meu Deus, ... — assim que a garota acabou a fala, Marcela levou as mãos a boca e fez cara de surpresa.
— O que? O que foi? — também se assustara com a reação da amiga.
— Não acredito... Você está apaixonada por Tom! — Marcela terminou a frase e abriu um largo sorriso, enquanto permanecia intacta.
— O que? Não! Isso é impossível... — ou não?
, eu sempre te disse que você estava afim dele, você nunca botou fé em mim!
— Isso é ridículo, Marcela! Eu não posso me apaixonar por alguém que eu sequer vi o rosto. Sequer sei algo da vida a não ser que ele se chama Tom e tem 21 anos. Eu nem sei o sobrenome dele!
— É por isso que você tem que conversar mais com ele, porque pelo que me disse, é meio tarde para reverter a sua situação. O mais recomendado a fazer é tentar se aprofundar, quem sabe ele também não sente o mesmo por você?
— Amiga, você está se ouvindo? Isso é impossível, ele mora lá do outro lado do mundo. Não tem um resquício de realidade nessa ideia toda. — disse se levantando e voltando ao trabalho.
Marcela bufou e se levantou logo em seguida, o expediente estava quase acabando e elas já estavam limpando todo o local.
— Ok, chega desse semblante preocupado. Vou te levar para beber hoje, avise sua mãe que você só vai voltar pra casa amanhã! — Marcela disse pegando a amiga pelos ombros.
— Mas...
— Nada “demais". Você vai e ponto. Toda essa história de Jonas, de Tom, da sua casa está deixando você uma pilha de nervos. Amanhã é sábado, já terminamos a roupa do cosplay e só falta as asas, não tem nada tirar um dia de folga pra você, poxa. Vamos, eu pago!
suspirou um "ok" baixo e se deixou levar pela ideia da amiga. O que poderia dar errado?
ligou para sua mãe e avisou que iria dormir na casa da amiga, sua mãe compreendeu e a liberou, assim as duas amigas teriam uma bela de uma noitada.
— Só temos um problema, eu não trouxe nenhuma roupa comigo. — pestanejou.
— Isso é o de menos, esqueceu que sua amiga aqui faz roupas? Tem um modelos lá em casa, e servem perfeitamente em você porque eu usei suas medidas como base. Inclusive tem um vestido vermelho e preto maravilhoso, modéstia parte.
sorriu e terminou de arrumar a última mesa, as duas fecharam o estabelecimento e seguiram para a casa de Marcela para se arrumarem.
— Marcela pelo amor de Deus em que mundo você acha que eu iria sair com isso? — erguia o vertido aparentemente colado e relativamente curto.
— Vai ficar perfeito em você, para de drama. Você tem pernas bonitas e precisa mostrá-las, seus ombros também dão um charme pra você, seu cabelo castanho escuro vai dar um contraste bem bonito e seu olhar é profundo e intimidador. — Marcela disse parecendo que estava recitando algo de importância extremamente relevante.
estava parada com as sobrancelhas arqueadas olhando para a amiga, obviamente segurando a risada pelo jeito diplomático que Marcela havia dito tudo aquilo.
— E isso você tirou das minhas medidas? — comentou, fazendo ambas rirem
Apesar do olhar de desaprovação para com o vestido, não podia fazer desfeita do presente da amiga, tratou de ir ao banheiro para se trocar e ao sair de lá e ir de encontro com o espelho sua estima se elevou um pouco, ela gostou do que viu.
— Ok, talvez não seja tão horrível assim usar esse tipo de roupa. — disse, dando voltas no espelho para se ver melhor.
— Eu avisei. — disse Marcela, que apareceu com um vestido colado vinho e uma jaqueta jeans amarrada em sua cintura. Ela se sentou na cama e colocou seu salto alto.
— Você vai ter que me ajudar na parte da maquiagem, eu só entendo de maquiagem de Cosplay. — indagou olhando a super produção da amiga. Sem demorar muito, ambas estavam prontas para sair.
Marcela se despediu rapidamente da mãe, verificou a carteira e os documentos na bolsa e as garotas saíram a procura de algum bar que ficasse aberto a noite toda.
— Na Avenida Paulista eu tenho certeza que deve ter algum. Para a Paulista, por favor. — Marcela disse assim que entrou dentro do táxi que haviam chamado.
Pouco tempo depois elas já estavam no destino, Marcela pagou o táxi e as duas saíram do carro, a procura do tão desejado bar. Caliope sacou o celular e procurou na internet alguns destinos legais, e assim que encontrou puxou a amiga em direção. Elas estavam praticamente do lado do bar Tôa Tôa.
— Credo menina, esse bar tem nome de "hétero top passa o zap" — Marcela comentou fazendo ambas rirem ao passarem pela entrada do tal bar.
Se alojaram em uma mesa perto do palco onde tinha um cara cantando com um violão, a voz dele era muito bonita, o que levou a garota a pensar que a voz de Tom também era bonita.
"Para de ser louca, você só ouviu a voz dele pelo discord." Ela pensou consigo afastando os pensamentos assim que o garçom chegou para atendê-las.
— Me vê a coisa mais forte que tiver aí, hoje nós vamos perder as rédeas. — Marcela disse em alegria enquanto levantava os braços, rapidamente bateu um dos braços para que a garota se controlasse e para pedir algo mais leve para o garçom, mas ele já havia as deixado sozinhas.
— Você é louca, menina? Eu não tenho o costume de beber, eu fico bêbada muito rápido. — disse com uma das mãos na cabeça, já imaginando o estado que ficaria no dia seguinte.
— Por isso mesmo que vai ser melhor e mais engraçado. Já disse, hoje nós vamos curtir.
O garçom voltou com duas bebidas em um copo de tamanho médio, tentou cheirar para identificar o que provavelmente teria ali dentro, mas não conseguiu, só viu que tinha alguns morangos ali dentro. Se tem morangos não pode ser tão ruim, né?
Pouquíssimo tempo depois, o primeiro copo das duas já estava vazio e como era de se esperar já estava ligeiramente tonta, enquanto sua amiga aparentava estar perfeitamente bem.
— Mais uma rodada, por favor. — disse ao garçom que rapidamente tratou de atendê-las.
— Ora pra, não era você que dizia que nao podia beber? — a amiga lhe disse.
— Eu já não quero mais saber, vou é botar tudo pra dentro.
Depois de muitos copos, subir no palco bêbadas para cantar uma música em inglês totalmente errada, dar em cima do garçom que estavam as atendendo, bater boca com um cara do lado de fora do bar, sentia que era a hora de parar. Estava completamente bêbada e fora de si, via tudo em borrões e suas palavras saiam nada com nada, tentou alertar a amiga que ela queria ir embora, mas não conseguiu, apenas esconsou a cabeça na mesa e fechou os olhos.
Não sabe se desmaiou ou se dormiu, só se deu conta de que estava na casa de Marcela no dia seguinte quando acordou com uma dor de cabeça infernal e os cabelos muito desgrenhados.




Capítulo 6

Tom

Já tinha alguns dias que estava estranha com Tom, e ela nunca dizia o porquê. Tom até tentou fazê-la falar, mas ou ela afastava o amigo ou ela cortava o assunto, e a primeira opção era a pior, pois Tom Holland sentia a falta da garota, sentia falta de falar com ela, jogar com ela, falar da vida, mandar fotos — mesmo sem se identificar —. Tom até chegou a achar que era esse o motivo de estarem tão distantes, será que ela havia se cansado desse menino misterioso que Tom mostrava? Ah droga, devia ser isso mesmo.
Holland estava deitado em seu quarto com a televisão ligada passando algum programa chato, afinal já era quase onze da noite, no Brasil deveria ser... Sei lá, quase quatro da manhã? Ela já deveria estar dormindo.
— Ora, Holland, o que há com você? — o garoto balançou os braços e se levantou, indo em direção ao banheiro. Talvez um banho quente o relaxasse mais.
Se aprontou e levou o celular consigo, para ouvir música durante o banho longo que estava planejando tomar. Botou a sua playlist compartilhada com , uma playlist no YouTube mesmo onde ambos colocavam músicas que gostavam para conhecer melhor o gosto musical um do outro. Começou a tocar logo de cara Whatever It Takes do Imagine Dragons, uma das músicas favoritas da .
Tom sorriu levemente e adentrou no chuveiro já ligado, ouvindo a música e tentando cantar junto. Seu celular então começou a oscilar o volume, ora baixo, ora alto novamente, então Holland percebeu que eram notificações que estava chegando. E eram muitas. Muitas mesmo.
Ele tentou não se importar com o volume aumentando e abaixando toda hora e terminou seu banho tranquilo, foi pegar o celular para saber qual boato sobre ele havia se espalhado dessa vez, ou qual foto de Vingadores Guerra Infinita tinha sido exposta, mas o que encontrou foi apenas o user de sua amiga, e umas 50 mensagens.
Tom sentiu um aperto dentro de si, será que algo tinha acontecido com ela? Não pode ser. Tom desbloqueou o celular e clicou nas notificações, mas assim que as mensagens abriram, seu telefone desligou sem bateria.
— Ah, merda! — ele exclamou alto, indo em direção a tomada para colocar o celular para carregar.
Ele se trocou e tentou esperar o celular dar carga o suficiente para ver do que se tratava as milhares de mensagens de , mas acabou pegando no sono.
— Acorda, Idiota. — Tom sentia alguém cutucar seu braço.
Abriu os olhos lentamente e viu a pessoa abrindo as cortinas, deixando a luz do sol entrar e machucando os olhos do garoto.
— Mas o que...
— Vai, você tem uma sessão de fotos pra daqui a... — Jacob verificou o relógio rapidamente — trinta minutos.
— O QUE? — Tom levantou desesperado e correu para o banheiro para escovar os dentes. — eu não me lembrava dessa sessão, eu nunca esqueço um compromisso. — ele respondeu Jacob com a boca cheia de pasta de dente.
— É porque foi de última hora, você não atende o telefone não? Tiveram que me ligar para vir avisar você. — Jacob se sentou na cama do amigo e começou a passar os canais de TV.
— A bateria acabou ontem durante o banho, tentei ficar acordado pra ligar ele, mas acabei dormindo, merda.
Tom saiu correndo do banheiro só de cueca a procura de alguma roupa. Pegou qualquer uma, já que na tal sessão de fotos eles com certeza iriam pedir para que ele se trocasse.
— Ei, cara, avise da próxima vez que sair por aí pelado. — Jacob disse tapando os olhos.
— Eu não estou pelado, estou de cueca.
— Da na mesma.
Tom estava quase pronto, só faltava o cabelo. Pegou um pouco de gel e tentou arrumar, mas parecia que aquele dia todo ia dar errado.
Depois de algumas tentativas ele desistiu, lembrando que na sessão eles iriam arrumá-lo melhor.
— Vamos, cara, estamos atrasados! — Tom praticamente puxou Jacob pelo braço, o amigo verificava o relógio.
— E temos aqui um recorde de exatos 16 minutos para se arrumar, é o novo recorde pessoal de Tom Holland. — Jacob narrava como se fosse uma partida emocione de futebol, Tom riu mas continuou correndo em direção a porta.
— Você está tão apressado que nem deu tempo de te contar a novidade. — Jacob disse assim que saíram da casa do amigo.
— Que novidade? — Tom perguntou olhando para rua e percebendo que a surpresa estava ali na sua frente. — Harrison!
Tom caminhou rapidamente em direção ao amigo é o abraçou. Fazia tempo que não via seu melhor amigo, desde as promoções do seu filme solo.
— Estava com saudade também, mas vamos que você tem uma sessão de fotos para fazer. Eu te explico no caminho.
Os três entraram no carro, sendo Harrison o motorista.
— Então, era pra sua equipe estar fazendo esse trabalho, mas o bonitinho aqui não atende nem o celular, nem o telefone residencial. — Harrison falou olhando pelo espelho do carro.
— Desculpa, cara.
— Tudo bem, o que você precisa saber é que as fotos são para uma marca de tênis, a Nike, conhece?
— Ta brincado? Óbvio!
— Pois bem, o garoto propaganda da Nike não pôde comparecer, e como você tinha contrato para um comercial, eles decidiram chamar você, mas ao invés do comercial, serão algumas fotos, apenas.
— Menos mal, não estou em um bom dia para gravar qualquer coisa. Inclusive eu acho que... Merda! Eu esqueci meu celular em casa. — Holland se xingou muito mais em sua cabeça, agora passaria o dia inteiro sem saber o que queria. Isso era uma tortura, ela poderia estar precisando de ajuda. Tom Holland, por que tinha que ser tão burro?
Chegaram a sessão de fotos bem a tempo graças ao bom motorista que Harrison era. Tom rapidamente foi ao camarim para que pudesse fazer a maquiagem e o cabelo, como imaginou.
Eram muitas pessoas e muitas mãos em seu rosto e cabelo, o garoto já estava se sentindo sufocado quando todas aquelas mãos saíram de repente e ele estava pronto. A roupa estava pendurada bem a sua esquerda. Era uma roupa no estilo esportivo, uma calça preta, com uma blusa preta e o novo tênis que era o contraste de tudo aquilo, haviam muitas cores ali. Foi uma jogada inteligente pra atrair os olhares para o tênis, — e para ele, é claro —. Tom tentou fazer a menina ficar confortável, tentou se aproximar e puxar algumas conversas, mas a moça carracunda do estúdio sempre dizia com um sotaque francês "preste atenção em seu trabalho", ela parecia uma máquina programada pra dizer aquilo sempre que percebesse algum movimento estranho.
No fim, as fotos foram coisa rápida e ficaram realmente boas. Holland foi dispensado e estava voltando em encontro aos seus amigos.
— Nosso garoto propaganda da Nike voltou, vamos sair pra comer alguma coisa vai, eu pago. — Harrison disse, abrindo a porta de seu carro.
Mas espera, isso significava que ele demoraria mais para chegar em casa e responder .
— Mas... — ele começou dizendo, mas logo se calou, não via Harrison tinha muito tempo, não podia desperdiçar essa visita dele, mas por outro lado... ... — eu escolho o lugar então, certo?
Tom decidiu focar em seu amigo, por mais que sua consciência pesasse ao lembrar que deixaria esperando.
— Onde então? — Harrison perguntou.
— Vamos no Five Guys! — Holland respondeu animado.
Harrison podia parecer magro, podia parecer que não era de comer, mas ele havia detonado incríveis três lanches do Five Guys e dois copos de refrigerante.
— Haz, sério. Para onde vai essa comida toda? — Jacob perguntou enquanto dava a última mordida em seu primeiro e único lanche.
— Eu não tenho a mínima ideia, acho que é esse lugar que desperta a minha fome. — Harrison respondeu lambendo os dedos, tirando molho barbecue que tinha se espalhado. — inclusive acho que vou pedir mais um ou dois pra viagem.
— Haz! Meu santo Cristo. — Holland exclamou, surpreso. — você vai explodir assim.
— Ah, é que esses lanches são tão bons...
Harrison fez o pedido de mais um lanche pra viagem antes mesmo de Jacob ou Tom conseguirem pestanejar contra, assim que ele pagou a conta, eles foram para o carro, e como haviam combinado no Five Guys, hoje os garotos dormiriam na casa de Tom, assistir um filme, dormir tarde. Aproveitar a última semana de férias que o garoto Holland tinha antes de começar os eventos de divulgação de Guerra Infinita.
Holland havia esquecido por um breve momento das 50 mensagens de , mas assim que entrou no carro e percebeu que estavam finalmente indo para casa, a ansiedade bateu e ele ficou imaginando qual era o conteúdo delas.
A cada esquina virada, cada semáforo verde, cada lombada, ele chegava mais perto de casa, suas mãos soavam frio e ele nem sabia o porquê. Ela diria que era melhor eles se afastarem? Ela diria que sabia quem ele era de verdade? Ela faria... Tom pensava demais e não chegava a lugar algum.
Assim que Harrison estacionou na frente da casa do garoto, Tom saiu em disparada dizendo que estava apertado para usar o banheiro, subiu até seu quarto rapidamente, pegou o celular em cima da mesinha ao lado de sua cama e se trancou no banheiro.
Ligou rapidamente o celular e o Wi-Fi, ignorando todas as outras notificações e indo direto para o twitter, abriu a caixa de mensagens de e começou a ler as mensagens.

"oI TOM COMO VAI?"
"spero wue estej bem porqu eU To"
"Acho qu esrou meio bebada"
"Ok, muit bebada"
"Vo dizer agora entãp porqye sei que nqo tenhp coragemsobria."
"Cho que estou gostandi de voce."
"Cjega a set bizarro eu dizer isso porqie nunca nem vi sei rosto."
"Mas é isso, eu fosto ne vofe, beijo"

Tom sorria bobo lendo aquelas mensagens, não sabia exatamente o porquê, mas o jeito engraçado e sutil que a garota falou o fizera sorrir.
Tom rolou o dedo por mais algumas mensagens até que viu uma foto que ela havia mandado. Aliás, eram duas.
Uma ela estava sozinha, era uma selfie. Ela mostrava a língua e os dentes de uma forma bem fofa. E espera... Tom estava mesmo vendo seu rosto, pela primeira vez!
Ele analisou e chegou à conclusão que ela estava um pouco —muito— bêbada a essa altura do campeonato, deu uma risada e esperou a outra foto carregar.
Na segunda foto ela não estava sozinha, devia ser aquela amiga dela, Marcela se não lhe falhava a memória. As duas já estavam bêbadas e isso era perceptível. Marcela tinha cabelos loiros na altura do ombro e sua maquiagem estava bem marcada nos olhos, ela era bonita. Ao seu lado Holland viu novamente , ela usava um vestido vermelho com preto, seu cabelo solto castanho-escuro e meio cacheado. Se essa realmente era a , Tom era um menino de sorte.
Descendo ainda mais o dedo pela conversa, Tom viu mais uma foto, novamente as duas meninas juntas e aquela foto foi algo completamente espontâneo, Marcela estava com as mãos na boca, provavelmente rindo e parece ter tirado a foto, ela esbanjava um sorriso incrivelmente bonito e acolhedor. Tom estava nas nuvens vendo aquelas garotas. Aquela garota em especial.
— Ei, Zé Mané, o sanduíche te deu disenteria? — ouviu Jacob bater na porta no outro lado.
— Eu... Não cara, me distrai com um jogo. Já vou sair.
— Harrison já fez a pipoca, eu já escolhi o filé, só falta você.
— Já vou, já vou. — Tom disse, bloqueando a tela do celular.
E agora? Ele não sabia o que fazer, o que ele iria responder? O que ela queria ouvir dele? Ela gostava dele sem nem saber quem ele era de fato. Ai que mundo complicado.
Tom lavou as mãos e saiu do banheiro, indo em direção a sala, ele estava claramente nervoso, mas seus amigos não perguntaram, até porque ele não demoraria muito para abrir a matraca e começar a falar tudo. Holland sempre fazia isso.
No meio do filme — que Tom mal sabia o nome para ser sincero— Jacob parecia incomodado, até que ele finalmente falou.
— Tá legal, parceiro, o que está te incomodando? — ele perguntou, pausando o filme e se virando para o amigo, Harrison fez o mesmo.
— O que? Comigo? Nada! — Tom tentou desconversar, mas não adiantou muito.
— Não vem com essa, Holland, você sequer perguntou o nome do filme. Está parado olhando para a parede desde que o filme começou a exatos 43 minutos.
Tom não tinha escapatória a não ser finalmente falar para os amigos sobre a garota. A hora era agora, quem sabe eles até ajudariam ele.
— Ah, droga. É o seguinte, há umas semanas atrás eu conheci uma garota pelo Overwatch e ela é do Brasil! E.... — Tom explicou todo o trajeto de sua amizade com , com os dois amigos prestando atenção em sua conversa. Ele explicou do começo ao fim, até as mensagens dela bêbada.
— Cara, ela tá na sua. — Harrison disse.
— E você vai responder o quê pra ela? — Jacob perguntou.
— Eu... Eu não sei. O que eu deveria responder?
— Olha, primeiramente o que você sente por ela? — Haz perguntou, deixando Holland sem reação. — ah não, eu não acredito que você está gostando da menina brasileira!
— NÃO! Não é isso, é que...
— É o que, Holland? Fala aí. — Harrison parecia se divertir com a confusão do amigo.
— Ah, saco! Eu não sei explicar, ela me faz bem, conversar com ela é legal, jogar com ela é bacana. Só que ela não sabe que eu sou eu, tipo, eu.
— Você mentiu sua identidade, menino? — Jacob pareceu surpreso.
— Não, droga, não é isso. Eu nunca cheguei a falar quem eu era de fato, ela nunca perguntou e eu tive medo de falar e ela enlouquecer, você sabe bem do que eu estou falando, Jacob, você estava aqui da última vez que invadiram minha casa.
— Sim, mas ela se mostrou o contrário, né?
— Sim, pelo menos pelo que ela disse, sim.
— E você já não acha que está na hora de contar pra ela que, por um acaso da vida, ela está jogando, trocando mensagens e mandando foto bêbada para o maior ídolo da vida dela? — Haz perguntou, sério.
— Talvez...
— Quanto mais você adiar isso, pior vai ser quando ela descobrir. Se ela descobrir, pois pelo que estou vendo você não vai falar nunca.
— Como diabos eu vou chegar nela depois de um mês e simplesmente falar "oi. por favor, não se assuste, mas esse tempo todo você esteve falando comigo, Tom Holland, uhul", não dá pra fazer isso. E eu nem tinha visto seu rosto até hoje, até ela mandar essas fotos.
— Cara, se a menina lembra de você enquanto ela está bêbada, com certeza ela sente algo a mais por você. Sério. — Haz tentava abrir a mente do amigo.
— E nem tenta esconder que você também está sentindo alguma coisa, nem que seja uma amizade muito forte ou talvez quem sabe outro tipo de sentimento... — Jacob disse fazendo uma careta maliciosa para Tom, que abaixou a cabeça pensando no que deveria fazer.
Ele iria dizer que também gosta dela assim como ela gosta dele? O que ela faria depois de descobrir que ele era Tom Holland? Ela iria continuar a mesma pessoa ou iria mudar completamente? Tom tinha medo disso.
— E se ela mudar comigo? Digo, depois de descobrir quem eu sou?
— Você é muito cabeça de vento mesmo, ela começou a gostar de você enquanto você era um cara normal, quando ela descobrir que você é quem você é, é muito provável que isso só fortalece. Ou ela entre em choque e te afaste totalmente, não é todo dia que se apaixona pelo ídolo sem saber quem ele é. São riscos ocupacionais. — Harrison disse por fim.
Holland pensou durante um bom tempo.
— Me passa o meu celular, vou dizer tudo agora mesmo. — ele pediu e Jacob lhe entregou o aparelho.
Harrison e Jacob espiavam por cima do ombro de Tom para ver o que o garoto estava escrevendo.

"Oi , preciso te contar duas coisas muito importantes...
Sei que você estava bêbada, não sei se o que disse era verdade, mas já passou da hora de eu contar a verdade.
Primeiro, eu não sei bem o que sentir, mas é algo próximo do que você disse que sentia. É estranho eu admitir isso, até porque só te vi uma vez e foi por que você acidentalmente mandou algumas fotos, mas é estranho... Eu só... Gosto de você.
Segundo, por favor não se assuste, não se afaste, não surte, eu te imploro. Mas já passou da hora de falar também que... Eu sou Tom Holland."




Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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