Hazel

Última atualização: 03/11/2019
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Capítulo 1

- Siri, cante parabéns pra você.
- Ahm, claro – O aplicativo começou a responder – Vamos lá. É. Cantar é mais difícil do que eu imaginava – E então parou de falar, abrindo um link da Wikipedia com a história da canção. Acho que por direitos autorais ela não podia cantar para mim. O que era triste.
- Então me deseje feliz aniversário – Pedi novamente ao aplicativo.
- Eu não sei se entendi.
Joguei o telefone na cama e fiquei olhando para o bendito cupcake de chocolate que havia comprado mais cedo no Walmart. Acredita que é mais caro comprar um cupcake do que quatro? Às vezes o capitalismo me assusta.
A vela estava acesa, o que era um erro, porque a Siri não cantou parabéns para mim e certamente eu não ia cantar. Então eu apenas apaguei a vela e comi o maldito cupcake com gosto de tristeza e gordura vegetal.
A coisa é que tudo deu errado hoje. Eu iria sair com Jimbo, meu irmão, seu filho, minha ex melhor amiga e Zane, meu namorado e chefe. Mas aí ele me demitiu porque descobriu que eu sabia que ele estava tendo um caso com Svetlana, a representante de vodka. Nenhum problema com ela. Eu até a chamaria para jantar, mas o clima estava meio pesado e não queria colocá-la nessa situação meio chata.
Até porquê Zane e eu tínhamos um relacionamento muito bom. Ele era dono de um cabaret em Echo Park, um daqueles jovens que tem talento e um bocado de dinheiro. Todas as bandas descoladas começavam por lá. Tinha uma pegada meio Broadway, meio jazz, ao mesmo tempo que meio punk rock. Comecei a trabalhar lá pouco tempo depois que o cabaret abriu como engenheira de som, e logo comecei a sair com Zane. Rapidamente nós montamos uma banda, Spring and Summer, e vivíamos agradavelmente em nossa rotina. Eu realmente pensei que ele ia me pedir em casamento hoje.
Afinal, era meu aniversário. E ia ser romântico. Ele estava tão carinhoso nos últimos meses, tão prestativo, que eu devia ter desconfiado. Mas aí descobri sobre Svetlana e ele decidiu terminar as coisas. Achou também que ia ser estranho me ter trabalhando lá, porquê ele “ainda me amava muito”.
Então desmarquei o jantar com a galera, comprei um cupcake, assisti meu filme favorito e passei uma máscara na cara de uns quinze dólares que prometia me deixar nova e reluzente. Esperava realmente que resolvesse, porque olha só...
Eu realmente podia estar chateada por ficar solteira e desempregada no meu aniversário, mas eu estou fazendo trinta anos então realmente, o que pode ficar pior? Minha juventude oficialmente acabou, junto com todos os meus planos pro futuro e minha vontade de viver. Uma nova era, realmente. “Yay” para o criador de De Repente 30. Ele não sabia o que estava falando mesmo.
- Siri, quem criou De Repente 30?
- Josh Goldsmith e Cathy Yuspa.
- Me lembre de mandar um tweet bem irritado para eles amanhã.
- Claro! Mandar um tweet do bem para eles.
- Não, Siri. Um tweet irritado.
- A definição de tweet irritado é...
Me joguei na cama. Siri havia calado a boca. Tomei um ou dois calmantes e os deixei me levar para meu lugar feliz. Eu só tinha esquecido de tirar a merda do despertador.
Abri os olhos e dei um berro, porque tinha um gato na minha cara. E eu não tenho um gato.
Fabala? – O animal miou. Fiquei um pouco confusa porque Fabala morreu no verão de 2008. E então fiquei mais confusa porque estava no meu quarto de adolescente. Toquei meu rosto e senti minha pele sem marcas de expressão, mas com algumas belas espinhas – Puta que pariu, Josh Goldsmith e Cathy Yuspa. E que máscara de merda.


Capítulo 2

Eu estava acordada e devia ser, sei lá, 2004? 2003? Dava para sentir aquela vibe meio fim dos anos 90, parecia que estava usando uma lente de contato que transformava tudo em um filtro do VSCO premium para fotos do Instagram que eu sempre quis comprar, mas tinha preguiça de pagar 1,99 dólares por ela . Que viagem.
Procurei meu celular e BINGO! Ele não estava lá. Queria pedir para a Siri me lembrar de marcar um oftalmologista e um psiquiatra urgentemente enquanto ainda faço parte do seguro saúde da empresa. Que viagem louca. E eu nem tinha misturado álcool com remédios controlados, devido a minha absurda neurose com overdoses acidentais desde a morte do Heath Ledger.
Caralho, se eu estiver mesmo em 2003 ou 2004 o Heath ainda está vivo. Meu Deus do céu eu posso IMPEDIR a morte dele! De repente, me senti muito empolgada com o sonho – como se eu pudesse mudar o mundo enquanto dormia calmamente em minha cama. Quer dizer, eu não sei muito sobre o efeito de viagem no tempo via sonhos alucinados graças a De Repente 30.
- ! – Ouvi a voz nada doce de Jimbo e acordei daquela viagem de salvar o Heath Ledger e inventar o Instagram.
Levantei da cama, logo após dar um abraço apertado em Fabala que miou e reclamou. Meu Deus, eu amo muito gatos. E cachorros. Zane tem alergia ao pêlo deles, então eu me tornei obcecada por Hedgehogs. Procurei meu celular de novo porque precisava postar uma foto de Fabala para mostrar o quanto eu havia superado Zane e claro, não achei um iPhone. Mal achei um tijolo que mandava SMS. Eu poderia matar alguém com aquela coisa. Pensei em mandar um SMS para o telefone de Zane, mas seria estranho. O que eu ia falar? “Hey, estou tendo um sonho muito louco graças a rejeição e estou te mandando uma mensagem de texto de um celular que tem o jogo da cobrinha.”. Pare de pensar nele, . Calma. Isso é só um sonho.
- , eu não vou te chamar de novo – Meu Deus, isso é muito louco. Tipo, eu estou surtando real, mas não vou negar que estou curtindo ter alguém fazendo meu café da manhã. Mesmo em um sonho. E também estar no meu quarto. Eu sentia falta do meu quarto. Das paredes rosas com coelhinhos, dos posters do My Chemical Romance e The Used, das fotos tiradas no shopping e de todos os meus bichos de pelúcia com cheiro de algum perfume de uva da Hot Topic – É sério, , eu não posso me atrasar.
- Trocando de roupa – Gritei, procurando minhas roupas no armário. Fabala estava em cima de uma pilha de roupas pretas que pareciam sujas de tinta. E sério, quantas saias de pregas, blusas de seda, calça boca de sino com cintura baixa e vestidos estranhos uma garota precisa ter? Os anos 2000 foram bizarros para a moda. Peguei um casaco jeans, mas eu não ia usar casaco jeans com uma saia jeans porque eu não sou a Britney Spears e não estou indo para a porra de um VMA. Então acabei pegando uma calça flanela que eu provavelmente usava pra dormir e uma regata preta que em 2018 eu não usaria nem por um decreto. Me olhei no espelho, a mecha loira quase branca que cobria minha franja era um pouco bizarra demais e eu odiava a Avril Lavigne mais do que nunca, porque fui procurar uma touca e só estava achando gravatas roubadas de Jimbo. Acabei achando uma, que também era dele, e estava meio aceitável para um míope. Me sentia a Vampira dos X-men na versão do desenho Evolution misturada com a Avril sem o pacto. Tomei coragem e saí do quarto.
E meu Deus, como Jimbo estava novo. Tipo, muito novo. Ele tinha acabado de fazer quarenta anos em 2018 e estava em sua melhor fase, sem monocelha e todo o resto, mas aqui... Meu Deus, ele estava muito feio e parecia ter saído daquela banda Oasis.
- Aleluia – Ele disse, o café da manhã na mesa – Come rápido.
- Claro – Falei, olhando para a cara dele incredulamente – Tudo bem?
- Tudo, . Vamos logo – Disse, se olhando no espelho e tentando ajeitar a gravata. Ele estava trabalhando numa loja de ternos. Manter uma casa, a faculdade e uma irmã emo excêntrica era um pouco pesado e o bichinho trabalhava muito, além de estar estudando para ser advogado. Ele nunca se tornou advogado e acabou virando um chef, junto a sua esposa, e os dois vivem muito bem. Queria dizer isso para ele, mas fiquei quieta. Vai que eu mudo totalmente o rumo do universo?
- Oreo O’s? – Quase berrei e Jimbo se virou para mim.
- Você os come todo santo dia. Qual a surpresa?
-Ah, é que... – Eles tinham sido descontinuados em 2007 e eu os amava tanto. Queria levá-los paro futuro, sei lá como isso funcionava – Eu realmente amo Oreo O’s.
- Tá – Ele me olhou meio confuso. Anjo, se você está confuso, imagina euzinha?
Terminei de comer, escovei os dentes, fiz questão que minha mecha Avril Lavigne Vampira do Inferno estivesse bem escondida. Como um impulso, passei meu lápis preto jumbo de farmácia e, meu Deus, como eu era uma adolescente esquisita. E como era estranhamente bom ser esquisita.
Entramos no carro de Jimbo, um PT Cruiser preto que todo mundo tinha igual em cores diferentes, e fomos nessa. Inclusive, Jimbo me deu esse mesmo carro quando tirei a carteira de motorista temporária. My Chemical Romance começou a tocar e meu coração doeu de uma forma intensa. Meus olhos se encheram de lágrimas – talvez por irritação da maquiagem ruim, talvez pela dor do fim da banda. Veremos quando eu acordar.
- Eu os amo tanto – Falei, suspirando, e Jimbo riu – Faz tanto tempo que não escuto...
- Que? , você tá muito estranha. Se for porque você quer ir ao show, eu já disse que te levo, fica calma. Não precisa chorar.
- Se você soubesse... – Limpei as lágrimas, abaixei a janela e deixei minhas mãos tocarem o vento quente do verão californiano. A temperatura em Chico realmente é melhor do que a de Los Angeles. O ar parece melhor. Menos poluição, 2003, o sticker de apoio a Al Gore da eleição de 2000 ainda no carro.... Acho que é por isso.
- Boa aula, não faça nenhuma merda, não brigue com ninguém e não me espere para jantar – Jimbo disse ao me deixar na escola – E não traga nenhum garoto pra casa. Eu vou descobrir, e aí eu vou matar o cara e depois tirar seu iPod.
Caralho um iPod.
Pode deixar, Jimbo. Bom trabalho – Saí do carro, me virando para o incrível e nada majestoso Chico High na Esplanade.
Eu provavelmente não tinha pisado lá desde minha formatura. E era estranho, porque olhando assim de longe, eu até que sentia falta. A cada segundo eu estava curtindo mais e mais esse sonho/viagem no tempo/sei lá o quê. Eu só queria ter minhas roupas de 2018, meu cabelo de 2018 e meu celular de 2018. Aí eu seria a garota mais popular. Seria tipo a vingança perfeita para as Paris Hilton de classe média.
-Porquê você está usando calça de pijama? – perguntou. E aí eu lembrei de .
Eu não pensava, ou via, há muitos anos. Mas o garoto que chegou ao meu lado era exatamente como minha memória guardava: Seus cabelos ralos, aquele estilo wannabe Kurt Cobain, usando uma blusa do Blink 182 diretamente da Hot Topic, calças rasgadas e all star. Seus olhos continuavam lindos e ele podia muito bem ser considerado o príncipe esquisitão do colégio.
- É um protesto – Inventei, tirando risadas dele. Que sorriso lindo ele tinha. Logo se juntou a nós. Se Jimbo achava estranho, ele achava o ser humano mais esquisito do planeta. Sem mentir, realmente era um esquisitão.
Grunge até dizer chega, com cabelos sempre sujos jogados na cara, um rosto muito mais velho do que ele realmente era – talvez porque ele fumasse que nem um policial dos anos 80, ele parecesse tão mais velho, não sei. Hoje em dia ele devia parecer ter uns cinquenta anos. Mas era bonito, do seu jeito único. Seu rosto era bruto, forte e seus olhos pequenos combinavam com seus lábios delicados. Diferentemente de , que nunca conseguia deixar a barba crescer, já tinha o talento de conseguir manter seu rosto todo peludo. Ele era mais velho que eu por quase uns dois anos, enquanto era um ano mais velho que eu. tinha repetido o freshman year duas vezes e estudava comigo e com , enquanto era apenas disléxico e tinha muita dificuldade em aprender, sempre ficando para trás.
Éramos amigos incomuns, mas éramos inseparáveis. Tínhamos uma banda juntos, os Holy Guacamole. Éramos péssimos. Mas éramos incríveis como amigos – assistíamos mil filmes terríveis na casa de , fazíamos competição de quem comia mais panquecas, todas essas coisas. Adorávamos ir ao Madison Beer Garden na Main Street. trabalhava no Mom’s, que era logo na frente, e sempre conseguia panquecas de graça para nós. Era uma época muito boa e eu não lembro de ter amigos tão bons assim além deles. Claro que tudo acabou meio merda, mas de qualquer jeito...
- Pijama legal – implicou e eu fiquei um pouco vermelha – Acho que tenho um igual.
- Ok, podemos falar sobre hoje? – interrompeu, claramente nervoso. Ele parecia um pinscher todo tremendo.
- O que tem hoje? – Perguntei, meio despercebida.
- Bem, foi seu aniversário ontem, aliás, parabéns de novo – Ele gaguejou, mas não parou por um segundo de falar – Então, é hoje que nós temos que matar a Melina.
- Shiu, cara. Vão achar que somos assassinos reais e não só matamos bruxas e tal.
Foi aí que eu lembrei de tudo e tive que parar e respirar. Caralho. Tudo voltou. Eu sabia que isso tudo tinha acontecido, mas não pensava muito no ocorrido. Agora, quatorze anos depois, eu vou e sonho com essa merda. Nunca tive um pingo de remorso. Porque raios eu estou sonhando com isso então? Será que ler IT foi uma boa ideia mesmo? Eu sou facilmente impressionada pelas coisas. Deve ser isso. Ou não. Eu sei lá o que está acontecendo.
Pelo menos o Heath Ledger ainda está vivo. Respire fundo, Jean Sturgess. É só um sonho.


Capítulo 3

Eu devia ter estudado psicologia ou alguma merda assim para conseguir decifrar minha mente num momento desses. Mas não, a bonita aqui quis ser engenheira de som e não sabia bosta nenhuma sobre a mente humana. Acho que vou desmaiar. Ou vomitar.
- O que houve?- Foi quem perguntou. Ele sempre foi muito preocupado, quase num ponto extremo de preocupação, o que fazia parecer um pai às vezes.
- Não me diz que vai amarelar – resmungou, olhando para mim por dentre seus cabelos sujos – Foi sua ideia e você ficou enchendo o nosso saco por meses.
- Eu sei – Respondi, meio num sussurro. Minha noite estava tão boa. Eu estava tão feliz sonhando com Oreo O’s e My Chemical Romance – É que... eu não pensei que esse dia fosse chegar.
- Nem eu – murmurou – Mas é hoje – Ele me mostrou seu braço, levantando a blusa de manga comprida do blink 182. Eu nunca fui muito fã do Blink – Ou eu vou ficar com isso pra sempre.
Era podre. Parecia queimado e tinha um cheiro meio estranho. O antebraço inteiro de tinha um tom de cinza queimado, como se estivesse realmente virando carvão. E era por minha culpa. Tudo isso era por minha culpa, de certa forma. Talvez depois de quatorze anos eu finalmente consegui assumir que eu tinha entrado numa furada e metido meus melhores amigos naquilo, e as marcas do passado tivessem finalmente me alcançando. Yay, Karma!
- Doí? – Me limitei a perguntar e cobriu o braço de novo, com medo que alguém visse. Ele assentiu e uma martelada de culpa me atingiu – Nós vamos resolver isso.
- Eu espero mesmo.
- Temos que resolver. O já é fodido demais pra ficar com um braço ferrado assim – descontraiu - Parece aquele bicho do Piratas do Caribe.
- Qual? Eu não lembro – Falei, porque a última vez que vi Piratas do Caribe devia ter sido em 2006.
- Como? Nós vimos semana passada no cinema – reclamou - Pela terceira vez porque você ama esse Johnny Depp.
- Ugh, não – Revirei o rosto em um ânsia de vômito forçada – Deus me livre.
- , você está muito estranha hoje – Foi a vez de falar – E não é pelo meu braço fodido.
- Você não entenderia – Saí andando na frente, tentando conter toda a informação que podia do meu passado para falar com minha psicóloga.
- Deve ser aqueles dias – mencionou nem um pouco discretamente para , que assentiu. Se a de 2018 estivesse presente, ela daria uma lição neles. Mas como a de 2003 estava meio absurdamente nervosa, acabei ficando calada.
Seguimos para as aulas. Primeiro química, depois literatura, depois geometria e por fim educação física – que escapou. Nós não tínhamos todas as aulas juntos, na verdade as aulas mais difíceis fazia separado. Foi bom lembrar como o ensino médio era insuportável para toda vez que eu pensasse em reclamar do trabalho – ou falta de – me recordasse que poderia estar na aula de Geometria.
Nos encontramos na saída da escola, todos meio nervosos. Meio não, absurdamente nervosos.
- O que temos que fazer agora? – Perguntei, entrando no carro de . O carro mais fedorento da história dos carros.
- Segundo o röd bok– se propôs a explicar. Eu lembrava que o röd bok era um livro que Khai havia nos dado e que depois eu enterrei em algum lugar no parque, num momento fofo de amizade baseado no filme da Britney Spears – Nós temos que estar às três da tarde na casa da Hazel Street. Eu já consegui o pó de rosas e fez a estaca de gelo.
- Está no cooler – comentou normalmente – E não derreteu, eu chequei.
- Ok. E o que mais?
- Nós vamos entrar na casa e invocar a maldita – continuou – , você bebeu ontem? Eu não vou te julgar, inclusive eu queria.
- Eu só estou nervosa, entende? – Menti, porque era um sonho e eu sabia que dava tudo certo no final.
- Claro. Todos estamos – falou – Vamos logo antes que a gente se atrase.
- Porquê o Khai não pode fazer isso?
- Ela está meio doentinha – disse para .
- Eu não estou doentinha! Eu só quero confirmar todas as minhas opções antes de matar uma bruxa.
- Melina fez um feitiço para manter Khai longe da casa. Mais perguntas?
- Não, senhor.

Quando chegamos à casa, ela era exatamente como eu me lembrava: Extremamente linda, com a arquitetura clássica, uma obra prima vintage. Seu tom rosado envelhecido, que agora parecia marrom, com as rosas murchas e árvores grandes dando forma ao terreno. Era a casa mais bonita da Hazel. E a Hazel é uma rua muito estranha. Essa casa, bem, eu nunca tinha visto essa casa antes de tudo acontecer.
A Hazel era cortada pelo Little Chico Creek, que era um pequeno riacho cheio de mato e árvores. Ninguém cruzava por ali, e se você quisesse chegar do começo ao fim da Hazel, tinha que pegar outra rua. Era uma área abandonada. E ali existia essa casa monumental, no mesmo estilo das casas vintage e lindas do começo da rua.
E lá estávamos nós. Três adolescentes esquisitos, com uma estaca de gelo num cooler de cerveja, três sacos de pó de rosas e spray de pimenta. Andamos rápido até a casa, com medo da estaca derreter, quando algo estranho aconteceu. Algo que eu não me recordava.
Eu caí. Simplesmente eu caí. Eu podia ouvir e gritando por mim, podia sentir o toque deles, mas não conseguia vê-los.
Minha respiração ficou ofegante e meu peito começou a doer, principalmente quando vi uma ruiva ficar na minha frente. Sua pele parecia vidro ou gelo, ela reluzia contra a luz do sol. Suas feições eram finas e delicadas, quase como uma boneca de porcelana adulta. Seus cabelos caíram em mim.

- Você está prestes a cometer um grande erro – Ela disse, sua voz suave ecoando em meus ouvidos – Eu preciso que você me escute bem, . Khai está enganando vocês. Ele não pode entrar e atingir minha irmã e por isso pegou vocês para fazer o trabalho dele.
- O quê?
- Khai precisa eliminar Melina – Ela falou – Para poder ter controle da cidade.
- Eu sei, por isso nós vamos matá-la – Falei, meio tonta, tentando me levantar. A garota me prensou contra o chão.
- A história que ele te contou não é verdade – Ela gritou - Ele não é o bruxo bonzinho da história. Melina mantém a cidade protegida e Khai vem tentando tirar isso dela desde o início dos tempos. Eu preciso que você não deixe isso acontecer.
- Mas eu já fiz. Isso é o passado.
- Não. Eu te trouxe aqui pra isso. Você vai ver quando acordar. Eu vou te guiar, . Você tem que voltar e fazer a coisa certa dessa vez.
- Isso tudo…
- Você foi influenciada por Khai. Você era nova e idiota. Agora você vai ver tudo com mais clareza e quando voltar, vocês vão fazer a coisa certa.
- Voltar?
- Isso não é um sonho, . Você precisa resolver a merda que você e seus amigos fizeram. Quando você voltar para 2018, vai entender tudo. Procure eles. Procure por mim. Você vai achar o que precisa.
Caralho eu vou ser morta e minha última foto no Instagram foi uma selfie minha chorando. Que excelente jeito de ser lembrada pelas gerações futuras.
- Tudo que você ama vai virar pó novamente – Ela tocou em meu braço. E, como se fosse normal, eu acordei. Trêmula, suada, morrendo de frio e precisando de alguma bebida forte porque alguma merda tinha acontecido na minha cabeça, porque meu braço tinha uma queimadura em forma de uma mão. Ainda saía fumaça.
Não tinha sido um sonho. Eu só não sabia o que fazer ou o que entender de tudo isso. Mas que caralho, eu não tenho paz.


Capítulo 4

- Sua cabeça é tão grande que quando você nasceu, sua mãe não teve cesária ou normal, ela fez autópsia – Ouvi alguém falando enquanto esperava na fila do Dunkin’ Donuts, algumas boas horas depois que acordei com o chupão ardente em forma de mão no meu braço. Mas lá estava eu, pronta para afundar meus problemas em doces. Eu precisava de doces para enfrentar essa merda de dia. E como era um dos poucos DD’s de Los Angeles, as filas normalmente eram muito grandes e sabe, não havia lugar melhor para estar do que uma fila.
Afinal, preciso de tempo. Tempo suficiente para postar uma foto do meu pedido no Instagram. Tempo suficiente para comer a rosquinha com calma. Tempo suficiente para tomar um frappuccino descafeinado de chocolate. Afinal, eu estava a treze minutos de e não sabia o que falar, já que eu não havia falado com ele desde a maravilhosa noite de formatura em 2008. Então, tomar meu frap com toda a calma do mundo é a melhor coisa no momento. Seria melhor sem meu braço? Definitivamente. Mas trabalhamos com o que temos.
Meu Deus, que vontade de gritar e ligar para Zane. Sabe, nós não tínhamos segredos. Quer dizer, ele tinha, obviamente. Mas eu não guardava segredos e tinha uma absurda necessidade de compartilhar minha vida em redes sociais. Então eu precisava contar para alguém. E por isso decidi contar para . Porque eu não sabia quem nesse mundo iria me entender, nem que um pouco. E eu não sabia onde morava.
A coisa é que e eu tínhamos um status de relacionamento complicado. Eu era apegada demais para falar qualquer coisa e era descolado demais para assumir alguma coisa. vivia falando que nós dois éramos o pior casal da Chico High e nós respondíamos em uníssono que não éramos um casal. Adolescentes são tão chatos, meu Deus.
Tudo começou no junior year. Eu tinha algo como 16 anos e tinha quase 18. Ele era o mais velho da nossa turma – e era o mais velho do que os formandos do ano seguinte. Ele não realmente ligava, e eu gostava de caras mais velhos – eu juro que não tenho daddy issues, mas realmente gosto de uns caras bem mais velhos. Zane era quase 10 anos mais velho que eu e nós demos super bem, até ele me trair e tudo mais.
Mas era um doce. Carinhoso. Ele me respeitava. Era algo fofo da parte dele – hoje não vejo como mais do que obrigação de um ser humano decente de segurar a coisa nas calças quando outra pessoa não quer fazer sexo. Enfim. Comigo ele era muito adorável e simpático, sempre me levando para o cinema ou para comer no In’n’Out na Forest Ave. Sempre que ia com a gente, mudava um pouco. Ficava mais durão. Menos carinhoso. E ok, era normal, porque não éramos um casal.
Enfim, o que eu quero dizer é que estou nervosa. Nervosa porque não saberia o que dizer numa situação normal. Não saberia chegar e falar com ele sem ficar vermelha. “Hey, lembra de mim? Sua namorada-não-namorada? Que você abandonou antes da festa de formatura e que...? Euzinha!” Puxar assunto e tudo mais. Mas ele ia me entender, e juntos nós colocaríamos as peças no quebra cabeça. Isso. Vai dar tudo certo. Zero motivos para dar errado. Coloquei meu fone de ouvido e liguei na playlist de músicas não tão tristes assim. I’m still standing, do Elton John, começou a tocar. Senti-me um pouco mais leve, como sempre me sentia quando ouvia suas canções. Puta que pariu, eu amo muito o Elton John. Comecei a andar pelas ruas sempre cheias e quentes de Los Angeles rumo a , pelo menos cinquenta por cento mais relaxada. Até porque, lembrei-me aliviada de uma coisa....
No meu aniversário de dezesseis anos, Jimbo e eu fizemos um pacto meio bizarro que só ia perder a virgindade depois de me formar na escola. “Pode ser no mesmo minuto que você se formar, eu não ligo. Só segura”. Então, pelo menos, eu não olharia para pensando que já fiz sexo com ele. O que era um puta bônus na situação atual.
13 minutos andando e pensando em como eu não havia transado com . 13 minutos pensando em como ele estaria hoje em dia e o que teria sido de nós dois se ele não tivesse sido um idiota. Eu sabia que ele não tinha ido para a faculdade e ele sempre trabalhou na loja de carros do pai, pelo menos quando eu saí de Chico, era o que ele estava fazendo. Acho que em algum momento ele simplesmente resolveu virar tatuador e aqui estava, três ruas abaixo da Hollywood Blvd, num estúdio com letras em neon e desenhos de dragões.
Era muito difícil saber como puxar assunto, como chegar naquele ponto específico da nossa história bizarra. E ainda assim, eu sabia que precisava fazer isso se quisesse não enlouquecer.
O estranho foi que, quando entrei no estúdio vazio, meu machucado-cicatriz-chupão assassino pareceu arder mais. Pareceu ficar mais vermelho. Meu peito acelerou quando ouvi, na típica voz de , que ele logo iria me atender.
E quando ele apareceu, a coisa ardeu ainda mais. Fiquei olhando para ele, ele olhando para mim, seus pequenos olhos cobertos por mais cabelo do que eu lembrava. Ele tinha rugas agora e parecia... O que eu amei na adolescência, mas com tatuagens extremamente duvidosas. Quem tatua o próprio nome no peito? Eu nunca deixaria ele me tatuar. Tipo, nunca.
- Jean Sturgess? – Ele exclamou, me olhando em surpresa.
- Em carne e osso, meu querido – De repente senti que nunca havíamos nos separado. me abraçou, aquele abraço apertado e cheio de saudades. Ele cheirava bem melhor agora do que no ensino médio, com a graça de Deus. E eu me senti tão bem, tão segura naquele abraço, que poderia ficar lá pra sempre. Era como voltar para casa depois de muitos anos.
Nos separamos brevemente e ele rapidamente beijou meus lábios, como se o tempo não tivesse passado entre a gente, como se não fosse nada demais. Segurou-me pelos pulsos, como sempre fez, sem falar nada, apenas olhando para mim. A dor me fez dar uma resmungada.
O que foi um saco. Fazia tanto tempo que eu não me sentia bem, tipo uns dois ou três dias. E eu estava tão angustiada. Eu precisava de um pouco de carinho.
- Eu vou matar aquele filho da puta – murmurou, se afastando e puxando para ver onde eu estava machucada. Puxei meu braço de volta – Deixa eu ver.
- Primeiro, não tem filho da puta nenhum pra matar. Se tivesse, ele já estaria morto – me olhou meio aliviado e apenas riu com o meu comentário – Mas eu realmente preciso te mostrar uma coisa.
- Essa é a que eu conheço – Ele se limitou a dizer – E também seria estranho o te machucar.
- ? Eu não vejo o desde, sei lá, a formatura – Comentei e ergueu o cenho - E você me beijou achando que eu estava com o ?
- Assunto para depois. Vai, me mostra – E então levantei meu casaco, mostrando a marca ainda mais estranha do que me lembrava.
ficou meio sem palavras. Ele me olhou e olhou para a marca em meu braço. Tocou nela. Ficou quieto.
- A Flynn foi te visitar também?
Caralho eu preciso de férias, dois litros de sorvete e um bolo inteiro pra conseguir entender que merda está acontecendo. Isso não pode ser real. Provavelmente estou tendo um surto psicótico causado por todo o estresse pós traumático reprimido.
- Eu pensei que estivesse ficando doido – falou – O que é esperado, com o tanto de merda que eu fumo – Ele riu de si mesmo, sentando num puff vermelho típico de tatuador. O estúdio era pequeno, mas era limpo e bem iluminado, cheio de imagens na parede. Fotos de com ícones da tatuagem, fotos de celebridades que foram tatuadas por ele, etc. Um típico estúdio em Hollywood – Mas a coisa é que eu vi algo sobre… Aquilo. Essa semana eu acho. Achei que estivesse alucinando, mas parecia muito real. Essa Flynn, eu não lembro dela, mas ela veio aqui no estúdio. Ela me disse das merdas que a gente fez. Pediu que eu reunisse nós três, que ela guiaria a gente e tudo ficaria bem. Senão, algo muito ruim ia acontecer. Mas eu achei que estivesse doido.
Sentei ao lado dele e fiquei esperando por mais, mas ele não disse nada, então eu tive que abrir a boca.
- Sei bem como é. Foi como se eu tivesse voltado em 2003 – Falei e ele me olhou – Eu achei que estivesse sonhando, mas aí tenho isso de recordação. Ela me disse…
- Que matamos a bruxa errada. Que Khai enganou a gente – Ele contou – Que na verdade, Khai não era protetor e…
- E que ele queria o controle de Chico –Falei e assentiu – Que viagem.
- Nem me fale. Achei que aquilo já tinha passado, mas olha só a merda. Essa Flynn, eu não lembro dela.
- Nem eu! Eu nunca a vi – Comentei – E nem entendo o que está acontecendo.
- Ela me deixou algumas coisas anotadas antes de ir embora – se levantou, indo até um armário e pegando uma folha de papel meio velha – É um mapa, eu acho – Ele cheirou o papel amarelado antes de me entregar – Eu quase usei como incenso esses dias. Tem cheiro de rosas.
Puxei o mapa com cheiro de rosas da mão dele, lendo as palavras escritas num vermelho torto. “Encontre eles”, não parecia ter sido escrito de caneta. Era um mapa de Los Angeles e havia três pontos marcados com a mesma cor de vermelho sangue.
- Ei, esse é o meu endereço – Falei, meio confusa, pronta para analisar o outro mapa – Procura no…
- Já achei – respondeu prontamente – É um endereço residencial em Brentwood.
- Você acha que pode ser…
- Do ? Só pode. Ou pode ser uma pista escondida numa casa branca com o nome de Talent Management.
Ele fechou a loja, colocou uma placa de emergências familiares e fomos juntos até o endereço de no carro vermelho típico de tatuador de .
Sabe aquela parte em que falei que pelo menos com o não ia ficar tão nervosa por que não tinha transado com ele? Pois é, com o não seria a mesma coisa. Yay, !


Capítulo 5

O vento fresco de Los Angeles batia em meu rosto calmamente enquanto dirigia seu carro vintage vermelho de tatuador clichê. Eu tentava não pensar muito nas coisas, nem sentir muito. Mas era difícil para caramba quando estava ao meu lado, usando um presente que eu havia lhe dado uns 13 anos atrás.
Quando ele me deixou, eu passei pelo período de limpeza – peguei todos os presentes dele, boa parte das fotos, os CDs que ele havia gravado para mim, enfim, eu queimei tudo. O que era ridículo, eu sei, principalmente para uma garota que absolutamente odeia fogo como moi.
Mas eu queimei nossas coisas e ele ainda as tinha, aparentemente. E isso me deixou um tanto louca. Será que ele ainda tinha as cartas românticas e pseudo góticas que eu havia lhe dado anos atrás? Cartas com trechos de todas as canções que eu achava que definiam nós dois. Meu Deus, como eu era cafona.
- Tem algo na minha cara? – ousou perguntar, olhando para mim de canto de olho, um pequeno sorriso em sua face. Era quase um deboche. Meu Deus, eu sentia falta da cara dele.
- Não – Limitei-me, virando o rosto para a paisagem. Meu celular vibrava que nem doido. Talvez avisar que não havia mais banda via Instagram tivesse sido uma péssima ideia? Talvez. Mas já estava feito. E eu nem fiz um textão absurdo dizendo que havia ganhado um belo par de chifres no meio da testa no dia do meu aniversário. Jimbo estava me ligando como um louco, mas nem tive coragem de atender. Ele me mandou um mensagem, por fim, pedindo que eu fosse jantar em sua casa e, apesar de não querer, acabei cedendo. Precisava de um pouco de carinho familiar neste momento tão bizarro da minha vida. Talvez eu pudesse levar e . Seria engraçado.
- Então, o que foi?
- Nada, oras.
- Okay, – Ele disse, tocando no cordão estilo militar que estava pendurado no retrovisor. As palavras cravadas nele me fizeram tremer – Não tem nada a ver com isso?
- Nope.
- Tá bem, então.
Eu me lembrava perfeitamente de quando comprei aquilo para . Me lembrava do dia, da hora, do lugar. Me lembrava de como me senti naquele momento.
Era quase Natal. Minha família era metade judia, metade cristã, então meu cérebro era bem confuso em feriados pagãos. Eu comemorava, mas ao mesmo tempo, não comemorava. Quando era mais nova, meus pais faziam um tipo de Hannukah Natalino que tinha todos os presentes do Hannukah e boa parte das comidas, mas contava com Papai Noel e uma árvore iluminada. E comida chinesa, obviamente.
Então , e eu fomos a uma feira de Natal comprar presentes de última hora no dia 22 de dezembro. O céu estava azul, mas tudo pareceu girar quando parou em uma tenda, vendo o cordão militar. Uma placa dizia que por dois dólares, qualquer frase ou nome poderia ser cravado.
- Meu irmão tinha um igual – Ele disse, olhando para o cordão, seus dedos passando levemente por eles – O exército nos deu uma cópia, porque não acharam o original. Eu sempre quis um igual. Morria de inveja dele quando era mais novo – riu de si mesmo – Mas acho que as coisas mudaram um pouco agora.
Seu irmão havia falecido alguns anos atrás, antes de nos conhecermos, numa batalha no Iraque. Eu não sabia muito dos detalhes além do que li no jornal, e nunca tinha sequer tocado no assunto, até aquele momento. Lembro que meu coração partiu-se em mil pedaços e pareceu encher-se ainda mais de amor por ele. Eu sabia como era perder alguém. Eu sabia da dor. Então nós entendíamos, mesmo em silêncio.
- Ele me fazia sentir seguro – voltou a falar. Sempre que ele me mostrava isso, ele me dizia que enquanto estivesse usando aquilo, ele estava seguro, então eu estaria também. É uma merda. O abracei apertado e ele retribuiu por um segundo, antes de se soltar e seguir em frente. Ele estava chorando.
Pedi a senhora da tenda que me desse um, cravando as palavras “never be afraid again” . Depois de uns cinco minutos, com tudo pago, fui até – ele estava sentado num banco meio afastado de toda a galera. Não tinha achado até então – só mais tarde fui descobrir que ele estava fazendo meu presente numa tenda mais afastada.
- Hey – Limitei-me a falar. levantou o olhar para mim e eu sorri. Seus olhos estavam vermelhos, assim como seu nariz. E não era de frio. Eu nunca havia o visto assim, tão vulnerável, nunca. Nem quando eu quase morri. Nem em momento algum. Mas lá estava ele, segurando o choro. Então, entreguei a embalagem pequena a ele – Eu sei que isso não vai substituir a do Norbert, mas…
- Eu amo você – Ele me cortou, olhando o presente e deixando algumas lágrimas caírem. Meu coração transbordou – Obrigada, Jeannie.
O abracei, incapaz de dizer nada, nervosa demais até para pensar. Ficamos ali até nos encontrar. foi comprar algo para comermos depois, e me entregou um pequeno quadro, com um bordado meio torto, mas bem bonito. Dizia…
Never be afraid again.
- Eu sei que essa é sua música favorita do My Chem e pensei “Bem, a precisa disso”. Então, sei lá, se você tiver pesadelos de novo, você pode olhar para o quadro e lembrar que você nunca vai estar sozinha e que não precisa sentir medo.
Abracei o mais forte que pude. Quando cheguei em casa, coloquei o quadro em frente a minha cama e incrivelmente, não tive pesadelos de novo.
- Chegamos – me acordou do transe. O carro já estava estacionado na frente de uma casa branca de um andar – Pronta?
- Pior não poderia ficar, não é mesmo? – Claro que eu sabia que podia, mas fé no Pai.
- Uhm, ... Eu… – tentou começar, mas não conseguiu formar uma frase direito, apenas finalizando com um “sinto muito” e seguiu até a porta de .
Respirei fundo, sabendo que provavelmente estaria morta até o fim do dia. Não estou exagerando. Lembra que falei sobre não ia ser tão ruim encontrar por que não tínhamos transado? Então, dessa vez não posso falar a mesma coisa. Yay, !
Andamos até a casa e tocamos a campainha. Em menos de um segundo, apareceu com uma feição absurdamente assustada.
- Puta que pariu – sussurrou. Seus olhos azuis se arregalaram. Ele passou as mãos em seu cabelo um pouco maior do que eu lembrava. Ele não tinha mudado nada, só parecia mais cansado, um pouco mais velho talvez, com um pouco de entradas no cabelo, que estava mais ralinho. Mas era o mesmo , com os mesmos olhos, com o mesmo sorriso. Eu o amava tanto e a saudade pareceu me abater por um minuto.
- Ela mesma – disse, fazendo um sorriso aparecer em meu rosto. logo puxou para um abraço apertado e em seguida veio até mim.
- Eu não acredito no que meus olhos estão vendo – Ele murmurou ao me abraçar. Encostei meu rosto em seu ombro, sentindo sua respiração contra minha pele e aquela sensação de estar em casa, protegida, me levou para um lugar feliz, mesmo que por pouco tempo.
- Anderson tem barba – Ri ao me separar dele, não sem antes tocar em seu rosto – Você não mudou nada.
- Muito menos você. Parece que estou vendo uma foto sua no anuário da escola – Ele disse, um sorriso brotando em seu rosto. Seus olhos brilharam.
- É, só eu que envelheci que nem uma laranja podre – se meteu, nos fazendo rir - Podemos entrar?
- Claro! – se afastou, dando espaço para nós dois – Eu não estava esperando visitas, desculpe a bagunça. Eu normalmente não atendo clientes no sábado.
- Excelente jeito de economizar dinheiro – falou, observando a casa extremamente limpa, iluminada e bem decorada. Tudo era branco e muito moderno. – Se eu pudesse, faria meu studio em casa também. Você não faz ideia de quanto pago de aluguel.
- É mais prático assim. E mais barato – disse – Mas então, ao que devo a visita ilustre do meu casal favorito?
- Casal? – Ergui o cenho e olhei pra , que estranhou também – Eu não via o há uns treze anos – Falei e olhou para mim meio assustado – Vocês dois marcaram de me sacanear?
- Não! – Eles responderam juntos.
- Nós viemos aqui por isso – Levantei a manga da minha blusa e deixei a mostra meu adorável churrasco de carne humana, que estava ainda mais feio do que eu lembrava. Excelente, eu vou perder o braço.
- Puta que pariu! – gritou, todo assustado. Logo ouvimos passos rápidos e apressados, levando meus olhos para o corredor. Uma menina de no máximo cinco anos estava lá, com a feição revoltada e suas bochechas vermelhas.
- Papai! Não pode falar palavra feia! – A menina disse com um tom de voz adorável. Cobri meu braço enquanto ia até ela.
- Jean, quantas vezes o papai já falou para você que não pode vir na sala quando o papai tem clientes?
- Hoje é sábado e o papai não tem clientes. Papai não pode falar palavra feia!
- Ele colocou seu nome do meio na filha? – sussurrou em meu ouvido, tentando disfarçar o máximo possível.
se virou para nós, segurando a criança mandona no colo. Eu, na verdade, nem conseguia respirar de nervoso e vergonha.
- , – Ele disse com um sorriso nervoso – Essa é a Jean, minha filha.
- Wow. Tá aí algo que eu nunca imaginei – falou – E aí, Jeannie? Tudo bem? Nome legal o seu.
- É, o papai disse que meu nome é o mesmo nome da garota que salvou a vida dele.
Eu juro que pude sentir querer morrer bem a minha frente. Seus olhos ficaram arregalados e ele colocou Jean no chão, logo bagunçando seus cabelos.
Mas eu não me mexia. Estava paralisada total. Acho que naquele momento eu morri num misto de vergonha e nervoso. Só me lembro que tudo girou e girou, e então caí.


Capítulo 6

- Um dia eu vou ter tatuagens também – Ouvi a voz de Jeannie ecoando pela minha cabeça – Um unicórnio... Não! Dois unicórnios! E várias estrelinhas. Uma vai ser a mamãe, outra a vovó... E vou fazer uma borboleta também!
- Que legal, Jean – disse, seu tom de voz meio preocupado – Aposto que sua mãe vai gostar e seu pai vai adorar ouvir isso.
- Será que ela morreu? – Jeannie perguntou – Quando a mamãe desmaiou, ela virou borboleta.
- Borboleta?
- Você é burro e não sabe? – A garotinha riu – Quando as pessoas vão pro céu, Deus manda elas de volta como borboletas. A minha mamãe é azul.
- Eita – apenas falou. Ele já tinha escutado isso antes. Continuei de olhos fechados, pensando como seria difícil para Jean encontrar uma borboleta azul. Tão difícil quanto era para mim encontrar borboletas vermelhas. Se eu pudesse voltar no tempo, teria deixado a cor de lado. Ou teria dito que eles eram amarelos, como eu fiz com o Heath Ledger. Eu sempre via borboletas amarelas por aí e vivia dizendo que o Heath estava me protegendo, mas borboletas não protegem ninguém e aposto que se ele pudesse voltar para a terra, seria para ver sua filha, não uma fã descompensada.
- Ela já acordou? – pareceu correr até a onde eu estava – Eu não achei nada sobre o seguro saúde dela – Ele disse, todo esbaforido – Talvez na emergência eles resolvam o problema?
- Eu estou bem – Abri os olhos e me sentei rapidamente. Me sentia tonta, meus braços latejavam – E eu…
- Não gosta de hospitais – e falaram em uníssono. Jean riu.

Passei o resto do dia enjoada, como se algo estivesse muito errado comigo. Quer dizer, com certeza estava. ficou andando de um lado para outro enquanto lhe contava sobre a visita ilustre de Flynn. Eu não queria mais falar nisso. nunca tinha ouvido falar em Flynn, muito menos recebido qualquer mensagem do passado. Para ele tudo estava bem. Tirando o fato que eu estava ali e sua filha tinha meu nome do meio como seu nome, o que era bizarro. Pelo menos não era o primeiro nome, isso seria absurdamente estranho.

não sabia muito como me curar, mas fez um curativo incrível que melhorou em muitos porcento a minha dor, e tinha cheiro de menta. Sim, eu tinha me reunido com as únicas pessoas no mundo que podiam me ajudar e ainda assim não parecia haver jeito. Talvez em dois dias meu braço, que agora tinha um tom de verde, cheio de veias verdes que pareciam raízes, caísse e tudo ia ficar bem. A coisa é que eu conhecia aquela cor e estava ficando mais assustada ainda.
Era a cor de Melinda quando a matamos.
Mas não quero pensar nisso.
também mostrou várias fotos nossas que ainda tinha guardado. Mostrou mil fotos de Jean crescendo e a menina fez questão de narrar cada imagem. Ela era adorável. Uma verdadeira mini , com olhos que mais pareciam diamantes e um sorriso brilhante. Ela era linda e fazia meu útero coçar.
A coisa é que ter tido uma filha antes de mim era meio... Dolorosa. Acredite, não tenho inveja. E até agradeço porque imagine só, ter um bebê agora? Ia ser péssimo. Mas ao mesmo tempo, desde antes de Jimbo ter seu filho, eu meio que queria muito ser mãe. E Zane dizia estar pronto. Então nós tentamos – e muito. Quando eu fui a seu escritório e descobri que ele estava com Svletana, eu ia contar que achava estar grávida. Quando descobri ser mais um alarme falso, ele logo terminou comigo. Foi um alívio pra ele. Pra mim foi tipo um puta soco no estômago. Eu não estava grávida, eu não tinha mais um namorado e nem um emprego – sem falar na minha banda. E era meu aniversário. Ainda era estranho. Até porque tudo aconteceu ontem, então… Acho que eu tinha direito de desmaiar na casa de colegas da escola e tudo mais.
Ficamos em até umas cinco da tarde, quando fomos para a casa de Jimbo jantar. Jimbo havia feito um bolo maravilhoso com uma vela de 29 anos, já que eu tinha dito que nunca passaria dos 29. Foi adorável da parte dele. Jeannie me fez um desenho e Mi-Sun me deu uma pulseira linda. Ninguém mencionou Zane e tudo parecia lindo, tirando meu braço.
Jimbo, e estavam tão felizes em se reencontrarem. Pareciam um trio desajustado. Apesar de Jimbo não gostar muito de porque bem, ele me deixou sozinha na noite da formatura e tudo mais, mas os três por um breve período, entre 2005 e 2006, viraram grandes amigos. E agora estavam cantando Honky Cat, uma das minhas músicas favoritas do Elton John, em alto em bom som. Era horripilante e o papa John provavelmente estaria coçando sua orelha.

Lookin' for an answer
Trying' to find a sign
Until I saw your city lights
Honey, I was blind

Os meninos, bem, eles estavam tão felizes. Era como voltar no tempo, tirando o fato que eu não estava bebendo escondido das autoridades numa cidade universitária do Norte da Califórnia. Mas, verdade seja dita, eu me sentia tão perdida quanto me sentia naqueles tempos em Chico. Talvez um pouquinho mais. Minha cabeça latejava quando o primeiro refrão começou a tocar.

They said, get back, honky cat
Better get back to the woods
Well, I quit those days and my redneck ways
And, oh oh oh oh, oh, change is gonna do me good

E então, com a graça de Deus e do meu pai Elton John, algo me ocorreu. Eu estava desesperadamente tentando buscar as respostas no lugar errado.
Quando fui a casa de , eu esperava que ele soubesse bem o que fazer. Afinal, ele havia passado pelo mesmo problema que eu quinze anos atrás. Eu achei que talvez pudesse me ajudar, afinal, ele estava lá quando tudo aconteceu. Apesar de ter recebido uma visita de Flynn, a justiceira californiana, ele não sabia de mais nada. E , bem, nem visita ele recebeu. Para ele o mundo continuava no mesmo lugar e o passado era o passado.
E foi aí que me atingiu. Eu precisava voltar para Chico se quisesse ter alguma resposta, por menor que fosse.
Quando a música acabou, os últimos versos continuam a ecoar em minha cabeça. Levantei, indo até os três rapazes que estavam jogados no sofá depois de uma noite de cantoria. Tirei uma foto deles e me abaixei.
- Eu vou a Chico amanhã. Quem vai me dar carona? – Jimbo deu uma risada e se ergueu meio tensamente, seu corpo enrijecendo e sua feição mudando. me olhou com um pequeno sorriso no rosto.
- Amanhã? – Jimbo falou – Primeiro, por que raios você iria àquela roça? Você nem gosta de lá.
- Eu preciso ir – Falei bem baixinho.
- Bem, eu preciso trabalhar amanhã. Se algum dos garanhões emos quiser te levar, boa sorte. Se não pega um amtrek.
- Eu tenho que levar a Jean pra ver as avós – falou, ficando meio cabisbaixo – Mas se puder ser outro dia, eu vou ter o maior prazer e…
- Quer ir de moto ou de carro? – Abri um sorriso para e ele me correspondeu.
Por algum motivo me senti tão leve e feliz que tudo que pude fazer foi pular e dançar. Dancei até na rua, parecendo uma lunática, com pulando ao meu lado. morria de rir ao tirar umas fotos.
Mas tudo que eu podia pensar, tudo que minha mente podia repetir, é que eu ia para casa. Não com três batidas de pé como em Mágico de Oz, mas de moto. Eu odeio motos.


Capítulo 7

- ?
Meu corpo pegava fogo. Não literalmente dessa vez. Pelo menos não ainda. Eu sabia do que Melina- Melinda era capaz.
Eu a conhecia há muito tempo, por mais que boa parte dos tempos, eu preferisse esquecê-la. A primeira vez que a vi, no pior dia da minha vida, eu tentei ignorar sua presença. Toda noite quando ela me visitava, eu a ignorava. Ela não era minha amiga. Ela havia tirado de mim tudo que me importava. Era meu dever acabar com ela, tirar de Chico seu monstro mais antigo.

- ?
Chico era uma cidade fundada em 1860. Uma das mais antigas dos Estados Unidos da América. Sua beleza e riqueza natural atraíram John Bidwell – um pioneiro proibicionista que dizia ter sido o primeiro homem a chegar na cidade.
Mas não era a verdade. A história contada por americanos nunca realmente é verdade. A realidade é que uma família nasceu em Chico quando a Terra se tornou Terra. Geração por geração, eles cuidaram da cidade, até o maldito proibicionista chegar. Eles eram responsáveis pelo equilíbrio e tudo pareceu bem por séculos e séculos. A família de Khai protegeu, amou e cuidou das terras até tudo ser limitado pelos Bidwell. E claro, Melinda Bidwell, a filha mais nova de John, veio junto.
Você pode procurar no Google ou nos livros de história sobre ela, mas nunca vai achar. Também nunca vai achar sobre Khai, afinal, quem liga para seres que cuidam de uma cidade na Califórnia com nome esquisito? E quem realmente acredita nesse tipo de história?
Bem, eu acredito. Eu vi com meus próprios olhos.
Em 1872, o primeiro grande incêndio da Califórnia – também não documentado – destruiu os ancestrais de Khai. Melinda começou seu reinado de terror e desde então os dois vivem em uma briga de mais de 147 anos pela cidade. Khai me disse que ele teria acabado com Melinda com suas próprias mãos, mas ela era mais forte que ele e havia colocado um feitiço na casa da rua Hazel, seu esconderijo de Khai. Por mais que saísse de lá, Khai nunca conseguiu vencer.
E foi aí que eu entrei.

- ?
E agora eu estou aqui. Frente a frente com a casa da rua Hazel. Tem um cheiro peculiar, quase como um perfume ruim. Meu nariz coça. Talvez seja o nervoso. Minhas mãos estão grudadas em e em . Meu peito palpita no ritmo de Our Lady of Sorrows. Stand up fucking tall.
- Vocês estão prontos? – Perguntei, quase sussurrando. Senti tremer.
- Todo mundo já acha que eu tenho cara de assassino mesmo – tentou descontrair, um sorriso nervoso em seu rosto.
- Nós estamos juntos nessa merda – murmurou – Nós vamos nos livrar de Melina juntos.
- Melinda – corrigiu.
- Qual é o nome dessa nojenta mesmo? – Ele deu de ombros – Eu estou com dor, vamos logo nessa.
E nós fomos. Morrendo de medo, mas fomos.
segurava a estaca de gelo, que já começava a derreter com o calor absurdo, enquanto segurava o röd bok na página certa para mim. As palavras eram confusas e eu juro que já as havia ouvido em alguma música em algum momento da vida, mas as entoei mesmo assim.

“Ambulahn Dare Pahto Pahpoot
Ambulahn Dasca Caldapess Lahfenahto
Lahfenahtum Pede Pede Caldapess”


Parada ao pé da porta de Melinda, fiquei esperando algo acontecer, mas nada aconteceu. Ela não apareceu, ela não gritou, nada aconteceu. Então abriu a porta lentamente, com todo o cuidado e nervoso, e logo vimos a mulher de cabelos negros e olhos escuros parada como uma assombração no meio de sua sala. Nervoso, deu um berro e eu tomei a estaca de gelo de sua mão. Meu corpo inteiro congelou. Corri até Melinda num surto de medo e fúria. Pensei em gritar alguma frase efeito, mas não falei nada. Apenas enfiei a estaca em seu coração, como se fosse uma caça vampiros dos filmes. Mas não. Eu só era uma adolescente que sabia de coisas esquisitas demais.
Eu não senti nenhum tipo de paz ou calmaria, ou matar Melinda fez meus pais voltarem. Nada disso. Melinda foi diminuindo e diminuindo, se tornando verde até sumir, até que então saímos de lá. Ela parecia ter morrido o suficiente para nós e Khai estava nos esperando.
Com seus olhos castanhos e amendoados, alto e grande como uma árvore que faria uma bela sombra no verão, ele estava lá, sorrindo.
- Eu sempre soube que vocês iam conseguir por mim – Ele disse, com sua voz grossa e ao mesmo tempo acolhedora – Finalmente a cidade vai ficar bem. Finalmente aquela…
- Ei, meu braço – já estendeu seu braço esverdeado que parecia gangrenado para Khai e em um piscar de olhos, tudo ficou bem.
- Como era o nome dela mesmo? Melinda ou Melina?
- Tanto faz. Ela é passado agora.

- Khai? – Falei, meio chocada, ao olhar para ele em frente a casa da rua Hazel. havia acabado de estacionar a moto e eu me sentia queimando. Era como voltar quinze anos atrás. Era como matar Melinda de novo.
- Ouvi dizer que alguém andou te perturbando – Ele disse e sua voz continuava a mesma. Ele era... Lindo. Meu Deus do Céu ele parecia o Jeffrey Dean Morgan. Eu totalmente faria. O que é errado. Ele tem milhões de anos. Ele é tipo um Harry Potter velho – Não se preocupe. Eu posso resolver tudo.
- Ei, cara – se aproximou e por algum motivo, Khai olhou feio e não respondeu.
- Posso? – Khai se aproximou e eu estendi o braço.
- Você disse que ela estava morta – Falei – Melinda, eu digo.
- Ela está – Ele disse – Você se lembra como conseguiu um desses? – Acenei positivamente – Ele tentou entrar na casa sem ser convidado e Melinda não gostou. Você tentou entrar em algum lugar sem ser chamada? – Se for o escritório do meu ex quando ele está transando com a amante, talvez? Mas não, ele não deixaria a porta destrancada... – Talvez em outro plano?
- Ou talvez você tenha esquecido de avisar sobre a irmã da bruxa? – reclamou.
- Eu realmente sempre preferi – Khai rolou os olhos charmosamente.
- HAha. Olha o braço dela, cara.
- Eu não sou um “cara”. Eu sou o…
- Grande e poderoso Khai – e eu falamos juntos, trocando um olhar cúmplice.
- Flynn pode até invadir sonhos e pregar peças como essas – Ele disse, tocando em meu braço – , é só algo que aquela infeliz colocou na sua cabeça. Ela não aceita o fim do reinado da família. Mas ela não tem poder algum se você não permitir. Só feche os olhos. Eu te garanto que não vai ter mais nada aí quando você abrir os olhos.
E não tinha. Realmente não tinha. ficou quieto.
- Não precisa ter medo, . Eu cumpri a minha promessa – Khai sorriu para mim, um sorriso acolhedor que me fez sorrir aliviada. Um sorriso que, principalmente, me fez acreditar. Aquela volta ao passado, tudo aquilo, era apenas um sonho. Um devaneio. Eu não estava louca.
- Então porquê ela foi até o meu studio?
- Foi uma visão, . Ela não teria poder para ir até Los Angeles e... Deixar um mapa – Khai se limitou a contar – Confiem em mim. Eu tenho tudo sobre controle. Nada de ruim vai acontecer com Chico ou com vocês.
Nos despedimos de Khai e eu me sentia infinitamente mais leve e calma. Tudo parecia bem melhor e bem mais seguro. Meu braço parecia bem e eu me sentia ótima.
Aquela sensação ruim de estar em casa havia passado. Era meio melancólico, é claro, mas era bom. Eu percebi como sentia falta de tudo – até mesmo de Khai. Eu normalmente não pensava muito nele.
ficou quieto por boa parte do dia, enquanto eu tagarelava. Fomos juntos almoçar no Mom’s, o melhor restaurante da cidade – junto com o Madson Beer Garden – e nos entupimos de panquecas e waffles. Por volta das quatro da tarde, me levou a Mangrove Ave.
Eu fui visitar meus pais.

- ? – Ouvi a voz grossa de um homem me chamar em meio ao barulho de chuva típico de funerais. Eu estava embaixo do meu guarda chuva, perto das covas recém cavadas. Muita gente já tinha ido embora. e estavam sentados perto de Jimbo, me dando o espaço que eu havia pedido, o que era legal da parte deles – Posso?
- O serviço acabou tem meia hora – Falei meio grosseiramente – Você chegou atrasado. E eu não te conheço.
- Khai – Ele estendeu a mão – O grande e poderoso – Comecei a rir – E eu posso te ajudar a resolver isso.
- Ata. Você pode me ajudar a voltar no tempo e impedir meus pais de morrerem queimados no meio do Bidwell Park? – Falei, as lágrimas subindo, minha garganta fechando – Saí daqui, babaca.
- Não posso. Mas posso te ajudar a fazer com que isso nunca mais aconteça com ninguém – Então ele estendeu sua mão, sua palma branca se tornando vermelha e mostrando o que eu mais temia.
Era como ver uma filmagem em baixíssima definição. Tudo era vermelho, como se fosse fogo. Eu podia ver claramente o desespero e eu sabia quem estava ali. Eu reconhecia as pessoas. Meu coração se apertou quando ele fechou sua mão.
- Quem é você e que porra de bruxaria é essa?
- Eu sou Khai. E com tempo eu vou te contar tudo que você precisa saber. Eu só preciso que você me prometa uma coisa, .
- O quê?
- Que você vai me ajudar a deter aquela mulher – ele apontou, nada discretamente, para a mulher do outro lado do cemitério na Mangrove Ave. Seus cabelos negros caíam em seus olhos e ela usava um vestido bem antiquado preto.
- Eu tenho quatorze anos. Por que eu?
- Você é especial, . Muito especial.
E por algum motivo, eu acreditei nele.

- Você tem certeza que vai ficar tudo bem? – me perguntou enquanto andávamos abraçados pelo Bidwell Park, nossa última parada do dia. Naquele momento, meu coração estava cheio de tantas coisas que eu sentia que podia pirar. Havia sido um final de semana e tanto. Em menos de três dias eu havia reencontrado as duas pessoas que eu mais havia amado na vida e havia lembrado como era bom ser amada pelo o que eu realmente era. Era bom demais me sentir em casa.
- Pela primeira vez em muito tempo, sim – Falei e sorriu. Um senhorzinho passou por nós e pedi que ele tirasse uma foto nossa. Sem perceber, roubei um beijo na hora que a fotografia foi tirada.
Eu não me sentia tão bem assim há muito tempo. E provavelmente não me sentiria bem assim novamente tão cedo.


Capítulo 8

As coisas estavam indo bem – ou quase – para mim. Nós chegamos de Chico e eu estava literalmente exausta. Se você procurar a palavra exausta no dicionário, uma foto linda minha vai aparecer. Mas eu estava, pela primeira vez em muito tempo, feliz. Realmente meio feliz.
Eu havia esquecido a falta que e faziam em minha vida. Eles eram incríveis e a presença deles me deixava muito mais leve, mesmo em dias mais complicados – como no quinto dia sem a marca de mão no meu braço.
Nós saímos quase todo dia. estava me ajudando a arranjar um emprego e havia me prometido uma tatuagem. Conversávamos o dia todo em um grupo de mensagens, saíamos para jantar e Jean já era a membra honorária do grupo. Era tudo muito bom entre a gente, tudo muito gostoso, quase como uma música do Elton John.
Quando eu cheguei em casa depois de correr por quinze minutos – afinal, trinta anos na cara, meu coração precisava de um empurrãozinho para se manter lindo e saudável – e Zane estava lá. Com papéis. E papéis sempre indicam coisas ruins. Tipo divórcios ou algo tipo acordos funerários.
Meu coração se apertou. Ele continuava lindo. Eu o odiava tanto. Meu corpo inteiro tremeu em puro choque porque para mim eu havia superado tudo em três ou quatro dias. havia sido tão incrível comigo, havia aberto uma nova parte em mim que eu havia esquecido que poderia existir, mas... Deus do céu. Zane. Eu lembrava do efeito dele em mim. E era péssimo, mas tão bom. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas ele não me veria assim. Ele não me venceria, nunquinha.
- Nós precisamos conversar – Disse ele, encostado em minha porta – Posso entrar? – Seus olhos negros me fitaram e quis dar um soco na cara dele, mas me contive. Afinal, como ele pode trair um mulherão como eu? Ainda bem que não morávamos juntos. Ter que procurar um emprego já era ruim o suficiente.
- Precisamos mesmo. Quando entra meu auxílio desemprego? – Pedi, calmamente, já abrindo a porta. Ele ia me seguindo – Nope. Fica aqui fora. Tudo que temos para conversar pode ser feito aqui no corredor, principalmente agora que a Sra. Salonga conseguiu o aparelho auditivo dela.
- Não seja infantil. E como ela está?
- Ótima. – Falei – O que você tem para mim?
- É sobre o CD. Preciso que você me venda as composições- Disse, calmamente. Fiquei furiosa e acho que demonstrei – Eu vou te pagar, calma.
- Você sabe quantos anos eu demorei pra compor essas coisas? E aliás, quem vai cantar? A…
- Svetlana – Ele disse, meio sem graça – Olha, eu sinto muito – Se limitou – Mas as coisas são como são.
- Sai daqui, Zane.
- Mas ...
Você dedica sua vida a uma pessoa, a uma banda, e depois ela quer que você venda suas canções e que elas se tornem um produto comercial para a amante dele cantar. Assim que fechei a porta alguém bateu e era a Sra. Salonga, que classificou Zane como um filho da puta.
Tinham canções sobre meus pais ali. Eu não podia simplesmente vender.
Mas provavelmente venderia porque eu era péssima com dinheiro e precisava pagar o aluguel. E bem, ele era o único cara comprando minhas composições – acredite, eu tentei vender algumas melodias e talvez você conheça alguma coisa minha por causa de alguns realities bem ruins da VH1 que eu não posso legalmente falar. Mesmo sendo uma engenheira, eu ainda tinha muito dinheiro para pagar a faculdade, a Jimbo e até mesmo a esposa de Jimbo. Provavelmente eu tenho débito até com meu sobrinho recém nascido.
Mas enfim. O que eu quero dizer é que apesar de não ter um emprego e do meu ex namorado ser um embuste, eu vivo um bom momento da minha vida. Eu tenho bons amigos e isso é tudo que eu poderia pedir. Além de um emprego. Deus, eu preciso de um emprego.
Meu Deus, quem eu queria enganar? Eu estava uma bagunça auto medicada. Com o tempo passando, , e eu fomos ficando mais próximos – às vezes, mais do que eu gostaria. Eu usava isso para fugir de uma eventual queda e retomada com Zane? Mas é claro.
Apesar de tudo, dele ser um grande embuste, eu ainda sentia sua falta. Sentia falta de seus olhos, do seu sorriso, do jeito como ele dizia que minha voz tinha ficado particularmente boa naquela música. Eu sentia falta daqueles pequenos detalhes que depois de tanto tempo você começa a se acostumar e amar. Sentia falta de ser um casal. Você se acostuma com uma rotina, se apaixona por pequenos detalhes, se encanta ou passa a odiar coisas que nunca fizeram a menor diferença. E era assim com Zane.
Mas isso não importava mais. Ele tinha provado não ser quem eu pensava que era, logo, ele não merecia minhas lágrimas ou o meu coração. Ou as noites de sono que ele havia tomado.
- Tudo é temporário – falou, enquanto me tatuava no mesmo dia. olhava de canto, um sorriso meio assustado invadindo seu rosto. A tatuagem significava muito para nós três. E ele era o próximo. – Até a dor. Menos tatuagens. Por isso eu trabalho com elas. Eu não gosto de coisas temporárias. Eu gosto do eterno, eu quero saber que eu vou acordar hoje e que posso morrer em 50 anos com essa mesma marca.
- Isso foi profundo, no mínimo – disse ao me olhar, ainda sorrindo – Está ficando ótimo – Sussurrou para mim.
- Obrigada – Disse de volta.
- Ei, eu que estou fazendo! – reclamou, parando de me tatuar por um segundo – , diz pra ela.
- Tudo realmente é temporário – Ele se limitou a dizer – Mesmo as coisas que achamos que nunca vão acabar.
Olhei para ele, segurando sua mão, nós dois sorrimos.
me olhou meio seriamente. Eu estava com meus melhores amigos e tudo estava tranquilo no mundo. Zane podia esperar.


Capítulo 9

Esse capítulo é um crossover com The Last Song I’ll Write For You.
Acordei mais cedo do que o normal para uma desempregada e me arrumei o melhor que pude. Nada de jeans e converse que eu usava desde a quinta série – eu queria parecer ao mínimo mais arrumada para conhecer Anna Schulte. Era meio surreal que eu pudesse falar assim dela, que ela é minha amiga, porque bem... ela meio que namora Harry Styles? E está produzindo o CD novo do Shawn Mendes – que é uma gracinha e tinha idade pra ser meu filho, mas vamos pular essa parte. Eu nunca fui de ter muitas amigas mulheres por algum motivo, principalmente no ensino médio – talvez fosse minha culpa, eu era uma esquisitona, mas era uma mudança bem legal e interessante ter amigas mulheres e estar com Anna. Principalmente porque eu precisava me liberar de todos os homens, pelo menos um cadinho.
Fiz um trabalho decente me arrumando – prendi a parte de cima do meu cabelo num coque, deixando o resto solto e pela primeira vez tentei fazer algo no meu rosto que não fosse muito adolescente fã de My Chemical Romance. Eu estava usando preto, mas de uma forma bem sexy. Quando mandei uma foto para e em nosso grupo de mensagens, eles foram bem fofos ao me elogiar. Eu tinha os melhores amigos do mundo.
Cheguei um pouco mais cedo e já fui pedindo as comidas e aproveitando o brunch como a loba solitária que eu era – afinal, eu já havia ido há muitos brunchs sozinha nessa vida. Brunch, inclusive, era minha refeição de rica preferida do mundo. Estava tomando minha mimosa quando avistei Anna e dei um berro. As outras mesas de rico me deram um olhar estranho, mas nem me importei.
Nos abraçamos bem apertado e foi tão bom. Ela era mais bonita ainda do que nas fotos e eu me senti bem pequena por não estar usando saltos altos. Depois de um abraço longo, nos sentamos e a comida logo fez o favor de chegar, o que foi ótimo.
Primeiro conversamos sobre religião. Ela me questionou pelo Natal – expliquei prontamente que meu pai era judeu e minha mãe cristã, logo comemorávamos todos os feriados quando criança. Depois que eles morreram, eu não comemorava mais nada e o ano novo era só para chorar e beber.
Por algum tempo conversamos sobre nosso trabalho. Nós duas somos engenheiras de som, só que eu costumava trabalhar em casas de show. Desde que me formei há um bocado de anos atrás comecei a trabalhar em festas e eventos, depois, uns quatro ou cinco anos atrás, consegui um emprego no cabaret de Zane e o resto é resto. Passei a me dedicar mais a banda e aos outros artistas que tocavam em nosso... quer dizer, no cabaret dele.
Foi um tempo muito. O espaço era descolado e tinha aquela vibe anos 20, ligada a Broadway, com jazz e rock’n’roll. Todo dia eu acordava me sentindo uma própria diva, com a maquiagem deslumbrante do dia anterior, os cachos se desfazendo, o glitter caído por todo lado... E então eu limpava minha cara e virava , a engenheira, que tinha que resolver todos os problemas do cabaret. Isso durava até trocar o turno e ligar a cantora, com cabelos loucos e roupas que voavam. E quando eu dormia, acordava para repetir a rotina. Era... um sonho.
- Você realmente acha que a banda e seu emprego tomavam seu completo potencial?- Anna perguntou antes de tomar um gole de sua mimosa – Pelo que me parece, você era uma faz tudo que recebia mais ou menos e vivia exclusivamente para esse cara – Ela disse e eu fitei minha mimosa amarela e pela metade – ...
- Eu sei, não era o ideal... Mas era o mais próximo que tive de trabalhar com o que eu amo, entende? - Claro que eu entendo. Acho que se não renovarem meu contrato eu vou pirar... Mas a gente dá um jeito, ! Há quanto tempo que você parou de trabalhar?
- Tem quase um mês.
- E nada ainda?
Contei- lhe sobre Zane e sua aparição querendo comprar os direitos das minhas pouquíssimas músicas, o que a deixou louca. Ela me contou sobre seus problemas em dividir suas canções e sobre como aquilo a fazia ficar fora de si.
Depois, finalmente, chegamos no assunto homens. Ela me contou sobre Harry e tudo que aquilo lhe causava: Toda a confusão que lhe trazia e os sentimentos novos que ela não esperava sentir tão cedo. Eu lhe contei, então, sobre o que estava sentindo, e sobre como estava confusa.
- tem sido um grande apoio para mim. Ele tem segurado minhas pontas todos os dias. Ele tem procurado empregos para mim, tadinho, mas nada ainda... Mas ... É diferente. Parece que eu estou no ensino médio de novo. Achei que fosse ser besteira. Mas eu sei que não é. E eu sei que não sou eu querendo superar o Zane.
- Então...
- Parece mais fácil falando, Anna!- Rimos um pouco – Você precisa saber de absolutamente tudo nessa vida? Porquê eu não sei de nada.
- Acho que tudo bem não saber de nada às vezes – Ela concluiu, sorrindo, transmitindo uma paz que apenas Anna Schulte sabia transmitir – Mas você sabe das coisas, – E piscou para mim, me fazendo gargalhar.
Parecia que eu já a conhecia por anos, o que era fantástico, e foi uma conversa maravilhosa. Nos despedimos com promessas de nos vermos em breve e que eu a visitaria em breve.
Assim que ela saiu e meu filho imaginário estava devidamente alimentado, liguei para . Tomei coragem, respirei fundo, apenas foi. Eu o chamei para sair – E não paramos pelas próximas duas semanas.


Capítulo 10

O restaurante era chique, mas nem tanto. Era bonito, na verdade. As luzes eram meio fracas, dando um tom romântico ao local. Não era muito chique, mas era elegante o suficiente para o meu vestido preto. estava todo formal, algo que eu só tinha visto por alguns breves segundos na nossa formatura, antes dele me dar aquele pé na bunda.
Mas isso era passado e agora estávamos no presente.
Depois de quase duas semanas do beijo em Chico, havia me chamado para sair. Nesse tempo todo ele esteve presente – com mensagens, abraços, toques inesperados que me faziam arrepiar e olhares que me faziam corar. , ele e eu estávamos sempre juntos e eu sempre sentia sorrindo ao ver nós dois em algum canto. Jean morria de rir nos chamando de namoradinhos e nós, como sempre, negávamos.
Mas, hoje, as luzes estavam fracas e eu estava me sentindo particularmente nervosa. Particularmente empolgada em estar perto dele.
Tudo me lembrava a noite na qual eu percebi que podia estar gostando dele. Foi numa festa da escola e as luzes estavam assim, fracas. Na verdade eu havia ido com , que ficou doente no dia e acabou desistindo de última hora. Para não ir desacompanhada na primeira dos meus quinze anos, se ofereceu para ir comigo.
O tema era anos sessenta, se eu não me engano, e ele foi vestido completamente fora de época. Foi adorável e foi a primeira vez que pensei “meu Deus, ele é tão bonito. Talvez eu possa gostar dele”. E foi assim que aconteceu no passado e se repetiu hoje em dia. Quando eu o olhei, meu coração se encheu de um sentimento bom. Um sentimento que me fez esquecer de tudo que estava acontecendo, que me encheu de algo quentinho.
Talvez fosse pisar em Chico anos depois. Talvez fosse voltar ao parque onde tivemos nosso primeiro pseudo encontro, onde fizemos umas fotos muito estranhas para meus dezesseis anos, bebemos nossa primeira cerveja, fumamos nosso primeiro cigarro escondidos e fomos ao show grátis em homenagem ao Elton John em 2005. Eram mil e uma memórias e obviamente, elas voltaram a tona quando passeamos por lá e não tinha mais nada me preocupando – além de todo o peso do futuro, mas tudo bem.
Ia passar quando chegássemos em Los Angeles, pensei. Mas não passou. Ia passar se Zane me procurasse. Não passou, na verdade, apenas aumentou.
Isso tudo era muito estranho.
-Eu não sei o que falar – Ele disse, tentando não rir – Eu nunca pensei te ver de novo.
- Muito menos eu! – Falei e rimos juntos – Mas aqui estamos.
- Sim. Aqui estamos.
- Procurando assuntos em um restaurante que serve sushi e pizza – Ele apenas assentiu, seus olhos me fitando – Como foi sua vida até aqui?
- Estranha?
- Bem, meus melhores anos foram no ensino médio e o resto foi meio bosta, sabe? Eu... Eu não sabia o que queria. Eu acabei virando um tatuador porque não sabia o que fazer. Era isso ou ficar na oficina do meu pai o resto da vida, e ia ser uma vida miserável. Eu não me imaginava morando em Chico enquanto todo mundo ia embora. Você e o tinham ido embora, ficar lá era muito merda. Então eu comecei a estudar e fiquei no automático. Não foi muito legal, mas... Bem, eu estou aqui agora. Com você – Ele segurou minha mão – Ninguém mais morreu. Então foi ok. Foi uma merda, mas foi uma merda decente.
“Depois da escola eu fui para a oficina do meu pai. Eu era muito ruim lá e acabei ficando muito ruim com bebida. Você tinha acabado de se mudar e o não falava mais comigo por algum motivo, então eu estava no fundo do poço. Então, meu pai me demitiu e eu fui para San Francisco estudar com um amigo do meu tio. Eu ia ser mecânico a princípio, mas eu sempre gostei de desenhar. Era legal. Eu reparei que minhas mãos eram boas logo e encontrei um estúdio. Depois vim pra cá e não fui mais embora. Passou rápido demais e agora você está aqui e eu estou... Feliz. Eu acho. Eu não lembrava como era.
- Eu realmente acho que sei como é – Falei, dando um sorriso para ele.
Depois disso continuamos juntos. Com almoços, beijos apaixonados e ligações até tarde. Ainda não tínhamos dormido juntos porque queríamos ir com calma, o que era bom. Eu ainda não estava pronta e bem, sexo sempre é bastante pressão. Era bom – eu me sentia bem como nunca. continuava conosco e tudo parecia como no ensino médio, mas com Jean. E era bom.

Quando finalmente chegou a hora, eu estava finalmente pronta, havia sido um dia bem comum – estávamos jantando e eu perguntei se poderia ir a casa dele. Ele nunca nem havia pisado na minha e nem eu na dele.
- Eu não esperava visitas hoje – Ele disse, rindo um pouco de si mesmo, bagunçando seus cabelos. Seu flat era pequeno, no centro de Los Angeles, mas devia custar uma fortuna. Era bem espaçoso, com uma cama gigantesca de homem solteiro bem bagunçada e janelas que corriam de um canto a outro. A cozinha era um tanto vergonhosa mas dava para o gasto e a sala, que se juntava com o quarto, tinha uma TV gigante e um sofá vermelho que parecia ter saído de seu estúdio – Se eu soubesse tinha arrumado a cama.
- Tudo bem... – Caminhei dois pequenos passos até o sofá e me sentei nele, enquanto jogou suas coisas na bancada da cozinha.
- Quer alguma coisa? Água? Vodka? Chá? Acho que tem chá. Eu lembro que você gostava de chá.
- Eu gosto de chá, mas não precisa, de verdade – Sorri para ele, que assentiu, meio sem saber o que fazer ou o que falar. Ficamos em um longo silêncio.
- É estranho isso – falou, se aproximando meio sem graça – Posso? – Ele apontou para o sofá vermelho – Eu nunca pensei que ia te ver de novo, muito menos que ia te ver na minha casa. - Somos dois – desviei o olhar – Tirando que minha casa tem uma sala separada e um altar pro Heath Ledger e um Elton John em tamanho quase real – Rimos juntos por alguns segundos, nossas bochechas ficando rosadas – Zane odiava isso. Ele dizia que eu nunca tinha saído do ensino médio... – Senti os olhos de fitarem os meus, seus lábios entreabertos, suas mãos perto das minhas. Meu peito acelerou em batidas descompassadas.
- Ele era um idiota por querer tirar qualquer parte de você – Falou e a distância entre nós parecendo diminuir. Talvez fosse minha cabeça crescendo, porque eu não conseguia respirar.
Se, por algum motivo, aquela fosse minha última memória da vida, seria uma excelente memória. Uma memória muito linda. Os olhos que pareciam bolas de gude, que brilhavam e reluziam pequenas pedras preciosas. Seus lábios avermelhados. Sua respiração doce da sobremesa. Era uma boa visão a se ter.
Ele me beijou dessa vez. Eu aceitei o beijo como se fosse o que eu mais desejava na vida – talvez fosse? Naquele momento, definitivamente, era.
me fazia sentir completa e amada de novo, como eu era quando era adolescente emo e cheia de sonhos. Parecia que o futuro aterrorizador não era tão aterrorizante assim. Ele me fazia me sentir segura e protegida de tudo que era ruim.
Só tinha um porém. Um porém que por tempo demais me deixou insegura. Enquanto nossos beijos cresciam em velocidade e, que termo cafona , paixão, mais insegura eu me sentia. Então uma voz me fez parar.




Continua...



Nota da autora: Queria mandar um beijo pra Ana, autora e amiga maravilhosa que a vida deu. Apenas leiam TLS e se apaixonem! Sigam a PP no instagram @hellosturgess e qualquer dúvida falem comigo @bruni.ta . É isto, xoxo



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.




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