Última atualização: 20/02/2018

Prefácio

Serendipity significa uma feliz descoberta ao acaso, ou encontrar algo precioso onde não estávamos procurando. Às vezes, basta uma escolha corajosa, que nos tire da zona de conforto, para que possamos dar de cara com maravilhas as quais nem sabíamos estar buscando. Seguir nossos sonhos geralmente não é o caminho mais fácil a se tomar, mas, com certeza, é o mais recompensador.


Capítulo 1 - Despedidas

olhava pela pequena janela do avião com nostalgia... Deixara sua família, amigos e seu namorado no único lugar onde já ousara chamar de lar. Ex-namorado, na verdade. Sua vida virara de cabeça para baixo de um jeito surpreendente desde que tirara a sorte grande de ter sido aceita em Berkeley, a faculdade de seus sonhos, após vencer um concurso de talentos em sua cidade natal, servindo como uma espécie de audição a qual ela nem estava consciente de estar participando.
Dallas era uma boa cidade para morar, exceto pelo fato de ser pequena. O estereótipo de que cidades pequenas eram tranquilas é ridículo... Tudo bem, nada de mais acontecia em lugares assim, contudo, todos sabiam da vida de cada um e uma atmosfera conservadora, com regras de como as pessoas deviam se comportar nela, tomava o ambiente. Realmente havia tudo isso, o que ironicamente a lembrava de Stars Hollow, da série Gilmore Girls, ou Mystic Falls de The Vampire Diaries, porém em uma versão campestre. Era seu lar, apesar dos pesares, e sempre consideraria seus conterrâneos como parte de uma grande e maluca família...
Ela parecia bem, até entrar no avião e olhar para sua casa lá de cima. Tudo parecia tão tranquilo dessa perspectiva. Não tinha por que se questionar se isso era um erro, já que ela estava indo pelo grande chance de viver seu maior sonho, certo?!
Apesar dessa fraca certeza de que estava fazendo a escolha certa, em busca de sua felicidade pessoal, até agora tudo parecia mais um pesadelo do que um sonho. Recapitulando como sua semana tinha sido:

1) Despedir de sua melhor amiga, , com muito choro e promessas de escrever todos os dias...
2) Empacotar suas roupas e tralhas de modo a caber tudo em apenas uma mala que parecia prestes a explodir...
3) Terminar com seu namorado para não ter que sofrer com uma espécie de tentativa de namoro a distância que nunca realmente da certo...

Só de pensar em seu coração se contorcia. Ele era uma das pessoas mais doces que já havia conhecido. Lembrava-se muito bem da primeira vez que o vira, no primeiro ano do ensino médio. Eles haviam sido sorteados para dançar juntos na festa junina e se conheceram nos ensaios, já que ele era de outra turma, e a amizade logo evoluiu para algo mais.
Seu namoro era bem visto na sociedade, ela era uma boa menina, com notas aceitáveis, muito talento musical e grandes aspirações artísticas, e ele era o cara que tinha planos mais locais. Para o rapaz, abrir uma companhia para vender alimentos orgânicos, produzidos em sua própria fazenda, e morar em Dallas até o fim de seus dias era um sonho se tornando realidade, o que para não era o suficiente.
Talvez tenha sido por isso que tiveram de se separar. Alguma hora, os sonhos dela seriam sufocados pelos limites de Dallas e o quanto antes ocorresse a separação, melhor. Ou, pelo menos, é o que ela repetia insistentemente para si, enquanto tentava engolir sua tristeza.
Recostou sua cabeça no encosto de seu assento e suspirou exasperada após suas divagações sobre seu cavalheiro loiro de olhos verdes. Sentiu-se sendo embalada pela doce voz de Adele, em Someone Like You, tão logo plugou seus fones em seu Ipod. A letra até que, ironicamente, se comparava um pouco com a situação amorosa que se encontrava. Porém, já exausta, a loira não estava mais com capacidade de perceber a ironia, muito menos se encontrava no plano terrestre, e sim já vagando pelo mundo dos sonhos.
O poderoso barulho do desligamento das turbinas a acordou subitamente. Ajeitou-se em seu assento, alisou suas roupas amarrotadas e estalou seu pescoço dolorido, depois de pender em uma posição nada natural durante seu sono. Finalmente havia chegado ao seu novo lar, a ensolarada Califórnia...

Capítulo betado por: Adriele Cavalcante

Capítulo 2 - Novata

Os portões de ferro do Campus Universitário se abriram para o táxi em que Ann se encontrava olhando pela janela, babando devido a cada novidade da charmosa Califórnia. Buscou sua pesada mala, a qual tivera que ter uma ajuda muito necessária para fechar, no bagageiro do automóvel, agradecendo ao simpático motorista que já havia inteirado a menina de diversos pontos turísticos interessantes na jornada do aeroporto para Berkeley.
Acenou para Collum, o habilidoso taxista, e dirigiu-se para seu dormitório com a ajuda de um pequeno e confuso mapa que pegara na entrada. Após finalmente localizar-se no dormitório feminino, parou em frente do que seria sua porta pelos próximos anos. O sinal 336 inscrito em vermelho combinava com a simples maçaneta da mesma cor. Tomando coragem, girou-a, ingressando no cômodo pequeno, mas aparentemente confortável, e encontrou uma jovem, evidentemente sua colega de quarto, olhando para o único armário preenchido do recinto comum, com claro desespero em suas feições, provavelmente procurando algo pra vestir.
Entrando o mais silenciosamente possível, dirigiu-se para seu lado do cubículo, distinguível pelo contraste vazio e sem vida, ao contrário da bagunça e explosão de fotografias e artefatos presentes no espaço restante, e colocou sua mala na cama vaga. Para sua surpresa, esta não rangeu como a cama de sua casa a qual já tinha se acostumado. Seria estranho dormir sem o rangido familiar sempre que se remexia em seu sono ou quando a visitava em segredo e ambos tinham que se deitar no chão para que a cama não denunciasse a simples presença dele ali ao seu lado, não que ambos fizessem muito mais do que dormir ou conversar até o amanhecer e o cacarejar das galinhas em seu quintal.
Balançando a cabeça com descontentamento, espantou os pensamentos sobre seu lar. Mal chegara, então seria melhor deixar-se pensar no que deixara para trás em outra hora.
Lembrando de que não estava sozinha, virou-se para cumprimentar a menina ruiva, que já a olhava com olhos brilhando de empolgação, entretanto, esperando um primeiro passo da recém chegada.
— Prazer, eu sou , ou , se preferir... — Mal acabara de estender sua mão para sua colega de quarto e esta já lhe dera um abraço, enquanto guinchava suavemente de animação.
— Oi, , sou Poppy! Isso tudo não é emocionante? Quero dizer, estudar aqui vai ser MA-RA-VI-LHO-SO! De onde você é? Amei seu cabelo! Caramba, que roupa fashion! Onde você comprou? Nossa, você PRE-CI-SA conhecer Laurel e Becky, elas são tão divertidas! OH, CÉUS, VAMOS NOS ATRASAR! O professor Stein odeia quando os calouros se atrasam, vamos, amiga, rápido, se prepare para sair. — Poppy colocou um vestido simples azul, finalmente escolhido, e, às pressas, ajeitou seu cabelo rubro em um coque rebuscado com fios soltos.
Olhando-se no espelho, estreitou seus os olhos e suspirou, claramente incomodada com suas sardas, encarando-as como se seu olhar pudesse fazê-las desaparecerem, passou gloss e puxou para ir a aula, tudo isso em exatos dez segundos.
A novata não conseguia fazer muito mais que sorrir e acenar para sua enérgica companheira de quarto que, embora fosse muito simpática, era um pouco (muito) tagarela.

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Na hora do almoço, já havia se acostumado com o ritmo de Poppy e a acompanhou para a cafeteria após duas longas e massacrantes horas de teoria musical. No caminho para a classe fora inteirada de metade das fofocas do campus.
Aparentemente havia sido uma semana agitada, já que uma tal de Paula fora flagrada por um inspetor entrando na sala de música no meio da noite para sabotar uma rival. Tratava-se de uma disputa pela conquista de um solo no concerto do solstício de inverno. Além disso, um fulano de tal adormecera em uma aula de história da arte e começara a falar dormindo, fazendo uma embaraçosa confissão do quanto estimava uma amiga, levando a turma a rir ao ponto do choro quando ele acordou, vermelho de vergonha. Fora inteirada de muitos outros desastres do tipo.
O professor Stein havia deixado bem claro desde o começo que era muito exigente e que não tolerava atrasos, o que rendeu pontos para Poppy, já que esta havia evitado por pouco que a loira ficasse enrascada em seu primeiro dia, o que não causaria uma primeira impressão nada animadora. Uma pena que um garoto chamado Patrick não houvesse ouvido sobre a implicância do tal professor com atrasos e teve que aguentar um sermão de vinte minutos durante a aula e continuar após ela, fazendo com que perdesse quase que por completo o horário de almoço.
No refeitório, as meninas caminharam com suas bandejas preenchidas da comida, até que respeitavelmente não-nojenta, do refeitório. Agradecendo mentalmente por esse fato, sentaram-se na longa mesa de madeira, conversando animadamente até que outras duas garotas se aproximaram, apresentando-se como Laurel e Rebecca.
Em aproximadamente dez minutos, elas já compartilhavam suas histórias de guerra e riam como se se conhecessem há anos. Laurel era mais quieta e doce, tinha olhos azuis e cabelo preto curto em um Channel tão bem cortado que chegara a perguntar-lhe o nome de seu cabelereiro e descobrira, supreendentemente, que era Laurel mesmo que tinha tal talento impressionante com cortes e todo o tipo de penteado imaginável.
Já Becky era uma latina voluptuosa, com um cabelo longo castanho escuro e estava vestida com um conjunto desenhado por ela mesma, de dar inveja! Todavia, a garota conseguira, para a surpresa de , demonstrar o quanto era inteligente e geek em cinco minutos de conversa. Falara de como amava ir aos eventos de ComicCon e Cosplay, em que ela mesma desenvolvia complexas fantasias, na sua cidade natal, a glamorosa Nova York.
Resumindo, talvez por serem tão diferentes: uma garota de cidade pequena como , uma de cidade grande como Becky, uma Country Girl do Kansas como Poppy e, finalmente, uma inglesa como Laurel; era quase como se complementassem uma a outra, se dando bem de cara.
! — Becky lhe chamou, atirando uma batata na amiga. — Acorda! Estamos falando dos gatinhos do campus... Você já conheceu o ? Ele é uma belezura de cabelos negros, olhos azuis como o céu, um corpo de matar e ele surfa! Soube que será tutor de algum calouro sortudo esse semestre.
Todas começaram a dar risadinhas rindo da cara de Becca, que suspirava sem parar só de pensar no tal garoto e ao falar de outros crushs no seu radar. Após gargalhar por um bom tempo, mesmo não conhecendo os boys mencionados como Tommy Lyons, Lucas Beckham ou Felipe Armstrong, levantou-se, acenando para suas novas amigas, pois planejava passar no quarto antes de ir para a aula seguinte, e lançando-lhes um sorriso grande de felicidade por ter tido a sorte de conhecê-las.
Seu celular vibrou no bolso com uma mensagem. Assim que viu que era de ficou com um misto de saudade, nostalgia e felicidade por falar com a amiga novamente.

"Oi, ! não se esqueceu de mim, certo? Estou com saudades, amiga, e cuidando do como você me pediu. Ele está triste, mas acho que vai ficar bem... E vc, miga? Como vc tá? Quero todos os detalhes sobre as aulas, as pessoas, a cidade e os gatos que eu SEI que tem aí! Bem... Comecei minha facul hj tb, acho que vou me acostumar rapidinho com o ritmo de estudo, sem vc aqui para me levar para o mau caminho das festas e sociais até o sol raiar rsrsrsrs. Enfim, estou com saudades já, minha gêmea, espero que vc esteja brilhando por aí. bjsbjsbjsbjs ;)
"

apressou-se em responder sua amiga enquanto caminhava na área mista dos dormitórios. Digitou apressadamente até ficar satisfeita com o tamanho de sua mensagem, mas, quando havia acabado de apertar o botão de enviar... Sentiu-se chocar com um peito largo que mais parecia um muro, sendo derrubada no chão instantaneamente.
Olhos azuis intensos a encararam meio irritados por uns segundos, logo depois relaxando ao perceber o acidente e o estado da pobre menina, já estatelada no chão.
— Para onde vai com tanta pressa, caloura?!
ainda no chão, literal e infelizmente, encarou o bonito garoto por mais alguns instantes, murmurando um oi, lhe dizendo seu nome e pedindo desculpas, já com a voz mais firme após pigarrear, se recompondo e recolhendo o celular que, aparentemente, não havia sido danificado, só mesmo sua dignidade.
— Meu nome é . Ei, você está bem? — perguntou ele, ajudando-a a se levantar.
— Sim, tudo certo aqui. Obrigada... — A garota enviou-lhe um sorriso tímido e continuou se encaminhando para o quarto, pelo simples motivo de querer enterrar sua cabeça em um buraco para se esconder dos olhos de ressaca inquisidores do homem ao qual se chocara. Lembrando-se do objetivo original de ter que voltar ao quarto, que havia sido momentaneamente esquecido, apressou-se, enviando uma mensagem para o grupo recém criado no WhatsApp com suas novas amigas, o apelidado "Quarteto Fantástico", por mais clichê que fosse.

"Pessoal, esbarrei agora com esse tal de ! Realmente é gato! Até perdoo Becca por ficar suspirando por ele de 5 em 5 min ahhahahah, vejo vcs no ultimo tempo".

Guardou o celular, rindo com os bips insistentes que passaram a soar devido as mensagens de suas amigas, provavelmente dizendo “Elabore”, “Detalhes”, “UKEEEE?MIGA SUA LOUCAAAA! , CADÊ VOCÊ?”, “Como foi, conta, contaaaa”...
Resolveu colocá-lo no silencioso e torturar as meninas um pouco mais, com um sorrisinho diabólico estampado no rosto, mas sabendo que teria retorno. Deitou-se em sua cama, em seu cubículo, já apelidado carinhosamente por ela de Box, a caixa, e fez uma longa ligação, tranquilizando seus pais acerca de sua chegada.
Após encerrar a chamada, suspirou pesadamente com o peso de todas as despedidas e acontecimentos do primeiro dia, além do jetlag a alcançando, recusou-se a chorar, secando uma lágrima solitária. Tentou animar-se ao perceber o que realmente estava acontecendo. Seu sonho de sair de Dallas, entrar nessa faculdade e conhecer o mundo finalmente começara a se realizar! Todas as noites passadas querendo estar onde agora se encontrava agora lhe pareciam a uma vida de distância.
Decidiu, nesse momento, não passar mais nenhum segundo se lamentando pelo que teve que deixar para trás. Não que fosse esquecer tão cedo, ou parar de sentir saudade de e de sua família, contudo, as novas amizades e certo portador de olhos da cor do oceano prometiam suprir um espaço em seu coração, anestesiando as perdas.

Capítulo betado por: Adriele Cavalcante

Capítulo 3 - O Luau


Semanas se passaram rapidamente, e a novata foi se acostumando com os costumes e a rotina da faculdade de seus sonhos. Realmente era tudo o que ela esperava e muito mais. Entre o quarteto de amigas, as aulas com prodígios musicais e os luaus organizados pelos veteranos, nada podia estar melhor, e era fácil manter sua promessa de não ficar se lamentando por ter saudades de casa.
O Natal se aproximava, fazendo com que o campus ficasse todo iluminado com luzes pisca-pisca, inclusive nos grandes Cedros e Pinheiros vermelhos que preenchiam os arredores. Miniaturas de Papai Noel e renas preenchiam cada sala comum ou de entretenimento do campus, além das músicas natalinas de fundo que deixavam todos de bom humor.
Em Dallas, e seu irmão Ian tinham o costume de decorar tudo na semana anterior ao natal. Sendo o feriado preferido de ambos, sempre adoravam elaborar os preparativos juntos e convidavam , a prima Callie, e Jenny, sua amiga e vizinha para cozinharem delícias de doces e salgados natalinos. Só de pensar nos cookies da receita da avó de Jenny, já começava a salivar.
Ian era o único que a vencia na fixação por aqueles docinhos maravilhosos. Sendo três anos mais velho do que ela, ele tinha o famoso complexo de irmão mais velho, mas ao mesmo tempo, compartilhava do mesmo grupo de amigos que a irmã, o que os tornava quase inseparáveis. Pensar em seu irmão trouxe um sorriso no rosto da loira, mas infelizmente, atrapalhou e muito sua concentração na tarefa que deveria concluir.
Sentada ao pé de sua janela, observava o céu nublado tirando sua mente por alguns instantes da tarefa de teoria musical. Estudava fazia pouco tempo, mas o cansaço a abatia de tal forma que as notas começavam a flutuar da página e se tornavam um vulto incompreensível.
Assustou-se com o quarto suspiro de Poppy e se virou para a amiga que tentava ler o roteiro a decorar para sua peça e pintar suas unhas do pé ao mesmo tempo em sua cama. Porém parecia que em um malabarismo para pintar o dedinho ela havia derramado um pouco de esmalte vermelho nas folhas que deveria estar decorando.
— Você levou ao pé da letra a tarefa de decorar esse roteiro, hein, Poppy girl? Quer um pouco de esmalte azul e verde também?! Assim você pode terminar a decoração natalina das suas falas.
Poppy lhe mostrou a língua fingindo-se de ofendida fazendo-a rir. Algo que a ruiva realmente era incapaz de fazer era parecer brava. Não devia haver nada no mundo que pudesse transformar suas feições que sempre transmitiam um ar de simpatia, menos quando estava atuando, claro. Exprimia uma versão hiperativa, muito falante e animada de simpatia.
— Bem, não pode me acusar de não ter um espírito natalino, não é?
Poppy sorriu como resposta e levantou-se exasperada começando a caminhar de um lado para o outro do quarto. Isso era tão comum que já havia chegado a cogitar se algum dia sua amiga chegaria a cavar um buraco no chão até o andar inferior. A frustração da ruiva parecia só aumentar o nível de sua hiperatividade.
— Chega, , nós vamos ao luau de hoje à noite sem discussão! Faltamos os dois últimos com a loucura das provas, mas agora que já está quase na pausa para o natal, acho que deveríamos estar tendo ao menos um pouco de diversão!
A loira ergueu uma sobrancelha com uma expressão de dúvida já que mal havia começado a tarefa do professor Stein, quem dirá terminar o exercício que tinha em mãos e o prazo de entrega estava se esgotando.
— Por favorzinho? — perguntou a ruiva fazendo um biquinho que claramente entregava suas próximas palavras: — Nunca te pedi nada...
— Ok, ok. Vamos nos arrumar, não quero perder quando eles acenderem a fogueira! — cedendo ao apelo da amiga, levantou-se e começou a escanear o seu armário por algo bonito. Claro que a menina sabia que estaria lá, ele nunca perdia uma festa.
Acabou que o doce menino dos olhos azuis e ela foram fortalecendo seu afeto com o passar do semestre. Afinal, passavam um bom tempo juntos treinando canções. Já que havia se destacado em suas aulas práticas, a Professora Martha Vivaldi havia decidido lhe arranjar uma espécie de tutor que já estaria em classes mais avançadas e por sorte, ou destino, esse cara havia sido .
No começo foi esquisito. Momentos de silêncio constrangedor, timidez e olhares furtivos. Porém, foram se acostumando com o ritmo um do outro até que em uma tarde resolveram almoçar juntos em seu refúgio recém-descoberto: a sala de música do segundo andar que apesar de não ser tão grande quanto a sala principal no primeiro andar, a menor contava com elenco reduzido de visitantes que raramente divergiam dos dois e da equipe de limpeza.
Neste dia, porém, haviam se passado três semanas que treinavam no refúgio musical e haviam combinado de adiantar o ensaio para pouco antes do almoço já que o menino teria provas no turno da tarde que impossibilitariam seu encontro usual.
Após uma lição, , ou Hazel como ele a apelidara já que seus olhos tinham uma coloração avelã, buscou a comida rapidamente no refeitório e enquanto se aproximava da porta da sala admirava o talento puro da voz e musicalidade de .
Entrou silenciosamente enquanto ele terminava de tocar a bela canção do DeathCab for Cutie, Transatlanticism*. Ele virou-se para ela sorrindo e flexionando os braços malhados - provavelmente do surfe - juntou-se a ela no pequeno sofá da sala. Conversaram por um tempo de amenidades rindo compulsivamente.

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*Ouça Transatlanticism aqui, e tente imaginar ele tocando assim e cantando a letra junto, ok? ;)
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— Sério, eu juro que eu fiz isso, realmente pus fogo sem querer em um armazém da fazenda dos meus tios!
— Hazel, não posso acreditar em você! — fez uma pausa para rir e continuou. — E eu pensando que ter posto fogo na cozinha de minha casa em Nova York tentando cozinhar um bolo de aniversário para minha mãe tinha sido assustador.
— Poxa, , mas pensando bem, ela realmente deve ter tido uma surpresa!!! — gargalharam juntos dessa vez tendo uma manhã muito agradável e até produtiva.
Voltando para o momento presente, a loira encontrou a roupa perfeita para impressionar o garoto dos olhos índigo. Terminou de se aprontar uns vinte minutos antes de Poppy e já em seu jeans claro e blusa preta solta com jaqueta de couro complementado por sandálias abertas de tiras, esperou ao lado de Rebecca e Laurel na sala comum do dormitório feminino.
Finalmente pegaram o jipe de Elle, como chamavam Laurel, e se dirigiram à praia da vez: Ocean Beach, uma das três praias mais próximas de Berkley, muito popular para festas com fogueira, já que em dezembro o clima já começara a ficar frio com a chegada do inverno.
Muitos alunos já se encontravam por lá quando chegaram e ao avistarem Liam, melhor amigo de e companheiro de teatro de Poppy e Becky, conversando com um grupo, o quarteto foi cumprimentá-lo.
— E aí, doce Hazel, como está hoje? — perguntou Liam com um olhar malicioso após um abraço caloroso. Ele havia achado hilário que seu melhor amigo havia criado um apelido para baseado na cor dos olhos dela, então vivia irritando a ambos sempre fazendo menção ao apelido.
— Ah, você também não, Liam! Estou há semanas tentando convencer a parar de usar esse apelido idiota! — exclamou com um sorriso sem jeito, mas afetivo. Apesar de muito implicante, o menino era como um urso carinhoso e não machucaria uma mosca intencionalmente.
Liam riu um pouco, passou suas mãos pelo seu bonito cabelo castanho dourado e focou-se em cumprimentar Becky, sua próxima vítima e parceira de nerdice. Se havia alguém mais ligado no mundo dos games, séries e afins, esse alguém era Liam.
— Hey, geek, você sumiu! Amarelou de tentar uma revanche no play station, Becky? Faz tempo que não aparece por lá depois da derrota abrasadora — riu.
— Não enche, Liam! — fazendo cara feia e biquinho, Rebecca soltou-se do seu abraço, que Laurel, a mais distante, mais tarde notou ser o abraço mais longo do grupo.
— Nem começa, camarada. — disse a ruiva, a próxima a cumprimentá-lo, já tentando proteger dos ataques do irritante homem, Poppy também notou como os olhos de Liam brilhavam com mais fervor ao olhar para Becky.
Laurel lhe deu um aceno tímido já que não o conhecia e se apresentou, mas já não prestava mais atenção neles, tendo avistado sentado em um tronco de árvore um pouco afastado do grupo observando as ondas em frente a uma pequena fogueira.
Parando somente para pegar duas Ices no cooler e para mostrar o dedo do meio para seus amigos que faziam comentários maldosos como “Pega leve com ele!”, seguido de risadinhas cúmplices, se sentou ao lado do moreno estendendo-lhe uma bebida, já na metade da sua própria.
— Oi, . — disse sorrindo. O menino aceitou a bebida com um aceno.
— Obrigado, Hazel. Não sabia que você viria hoje.
— Nem eu. — disse estendendo as mãos ao fogo já com frio do anoitecer e do vento insistente.
— Aqui, vista meu casaco. — replicou-lhe já começando a desabotoar sua jaqueta no estilo CollegeVarsity, parecida com aquela de jogadores de futebol de faculdades com programas esportivos, revelando uma camisa branca por baixo que se grudava a seu peito musculoso.
— Não, seu louco! Sem ele você vai congelar! Não vou ser responsável por você virar picolé e acabar hibernando que nem o Capitão América! — disse a menina com um olhar brincalhão. –Apesar de que você estar me oferecendo seu agasalho preferido me deixa lisonjeada.
— Ok, minha nerd/geek, pelo menos vamos caminhar um pouco, ficar parado não ajuda muito a esquentar o corpo e esse pequeno fogo não parece estar ajudando em nada...
— Poxa, acho que tenho passado tempo demais com a Becky, a nerdice dela parece que é contagiosa... Mas eu aceito me movimentar, vamos, duvido que você me alcance! — começou a correr pela orla na direção contrária à da festa gargalhando até ser alcançada rapidamente por que a agarrou e girou no ar também rindo.
Caminharam por mais um tempo até que uma chuva que havia começado fina e nada preocupante se tornou uma tempestade molhando-os e quase congelando-os. Correram da areia para a calçada encontrando um quiosque fechado, mas com umas cadeiras ainda montadas em uma parte coberta.
Sorrindo entreolharam-se encharcados e retirou uma folha de árvore que havia caído no cabelo loiro da menina enquanto buscavam abrigo. Ela olhou para seus olhos se perdendo na imensidão de informações que eles lhe tentavam transmitir e tomou consciência de sua proximidade. Ele deslizou suas mãos de seu cabelo para sua face e aproximou-se mais até seus narizes se tocarem. A menina suspirando cedeu ao impulso e terminou o espaço restante. Beijaram-se intensamente por um tempo sob a proteção do quiosque diante do céu já em um tom mágico de lusco-fusco.
Depois de a chuva ceder, voltaram de mãos dadas para a praia, já deserta, provavelmente devido à chuva que dispersara os participantes do luau, e procuraram o Land Rover de para voltar ao campus.
Ligando o aquecedor e o rádio, e se entreolharam sorrindo assim que começaram a tocar os primeiros acordes de Here Comes The Sun. Cantarolaram o caminho inteiro da volta, felizes beijando-se a cada sinal vermelho e apreciando a bela paisagem da sua amada Califórnia, mas ao mesmo tempo desfrutando estar em sua pequena bolha de felicidade, onde nada poderia perturbá-los.

Capítulo betado por: Adriele Cavalcante



Capítulo 4 - Esperança

Cantarolando Jingle Bell Rock, acordou no dia seguinte com a cabeça nas nuvens, feliz como não havia sido há muito tempo. Todavia, também estava um pouco nervosa, sem saber o que a noite anterior significara para . Como será que ele agiria perto dela?!
Escondeu de sua companheira de quarto o acontecido, enquanto tomavam café feito em sua Nespresso. Deixou-se levar pela insegurança, não querendo encher a amiga também de falsas esperanças, podendo depois se mostrar injustificadas. Já bastaria sua própria decepção, que se fosse à mesma proporção de sua expectativa no momento, ficaria arrasada.
Seus pensamentos foram subitamente interrompidos por uma batida na porta. Assustada, checou-se no espelho e foi abri-la, sorrindo. Tentou esconder seu desapontamento quando percebeu que eram Becca e Laurel. Conversaram sobre como, aparentemente, Liam e Rebecca haviam finalmente se tornado namorados no luau, após várias ficadas casuais no passado.
Falar sobre outro casal formado na noite anterior não serviu de nada para acalmar os ânimos de , chegando ao ponto de várias vezes ficar se perdendo em pensamentos, tendo que ser chamada atenção por suas companheiras por chacoalhadas e bolinhas de papel arremessadas em sua cara. Sua respiração parou quando Poppy especulou que ela devia estar pensando no crush, o que não podia ser mais verdade.
Ouviram mais uma batida à porta, mas, dessa vez, Becky atendeu e vendo que era Liam, sorriu e despediu-se das meninas, mantendo a porta aberta. Estranhando a porta deixada escancarada, levantou-se para fechá-la. Ao ver com um sorriso tímido e prestes a entrar, ela não pode evitar um olhar bobo de felicidade e corar.
— Bom dia, Hazel — disse ele, com um ar completamente casual, como se eles estivessem juntos há anos. — Eu poderia te acompanhar para suas aulas hoje?
— Claro... Por que não, , deixa só eu pegar minha mochila! — Antes que ela pudesse se virar ele puxou-lhe para dar um selinho e disse que esperaria na sala comum.
A loira entrou no quarto, novamente, vermelha que nem um pimentão e encarou os olhares acusatórios e esbugalhados de suas amigas, implorando por uma explicação lhes dizendo que contaria tudo depois. Fugiu do quarto para encontrar seu gato dos olhos azuis índigo.
Ele estava recostado confortavelmente no braço do sofá, onde conversava com Felipe, outro garoto da lista dos mais gatos da faculdade, feito pelo quarteto de meninas, e com mais um casal que não conhecia. Ela observou-o um pouco de longe com toda a fala mansa, jeito tranquilo e simpático. Era muito sortuda de ficar com alguém tão boyfriend material*, mas, ao mesmo tempo, estava encrencada por ele ser alguém tão apaixonante.
Felipe lhe lançou uma cantada assim que ela aproximou, o que era completamente do seu feitio, com seu jeito sedutor cem por cento do tempo. “Olha quem chegou, se não é a cachinhos dourados... Em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha, hein, !”.
fechou a cara, pegou a mão de com cuidado, ajoelhou-se e beijou-a, dizendo “Pena pra você que essa Rainha já tem um súdito número um.
Os olhos do Montgomery se arregalaram instantaneamente, enquanto ele balbuciava, “Mas.. Você... Ela... Quando?!... Ok, eu lhe concedo vitória nessa batalha, ”. Todos começaram a rir do Lipe, o casal fez breves apresentações e, por fim, e seguiram para suas respectivas classes, separando-se somente no momento estritamente necessário, em que a campainha de início da aula soou insistentemente.
A despedida deles foi simples e com uma troca de olhares significativa. Queriam dizer muito um ao outro, porém, no momento, ficaram com um mero aceno e entoar de seus apelidos de forma carinhosa.
...
— HAZEL...

*Garoto bom para namorar.

Capítulo betado por: Adriele Cavalcante



Capítulo 5 - Enfim, Natal...

e observavam, calados, a lenta partida de seus colegas de faculdade para suas respectivas cidades natal para comemorar o período festivo. Sentados em um banco na entrada da faculdade, já com as malas arrumadas, abraçavam-se, tristes por ter de se separar, mesmo que só por alguns dias.
Nas preciosas semanas que aprofundaram seu relacionamento, haviam decido que o período de recesso podia ser mais bem aproveitado se estivessem juntos durante ao menos uma parte dele. Assim, iria para sua casa em Dallas para passar o natal, e para Nova Iorque. Depois, ele a visitaria até o ano novo e conheceria os pais dela, mas passariam a mudança de ano juntos, na cidade dele, o que supriria o sonho dela de ver a bola cair à meia noite, como no filme que a menina tanto amava “Véspera de Ano Novo”.
Algo sobre a reunião de várias pessoas que não se conheciam, com uma mesma energia positiva, a encantava. sempre havia passado a virada do ano com sua família e seus amigos em Dallas, então nunca havia realmente vivenciado a sensação de fazer parte de uma multidão, algo muito maior do que ela.
Arregalando os olhos ao checar seu relógio e perceber seu atraso, ela sorriu para o menino e murmurou um melancólico “Está na hora”. Os dois se levantaram e, antes que ela pudesse direcionar-se a um dos taxis parados na entrada, com a grande demanda naquela época do ano, ele puxou-a para um beijo, mais casto que o comum, contudo, que prometia uma continuidade.
— Tem certeza que não quer vir logo comigo, ? — perguntou-lhe, com olhos suplicantes de cachorrinho no caminhão de mudança. — Você poderia conhecer minha mãe e também “turistar” um pouco por Nova York antes do dia primeiro, o que acha?
— Nem começa, espertinho! — disse a menina, balançando a cabeça em um forte negativo. — Já discutimos isso mil vezes, amor. Eu preciso ver meus pais e eles querem muito te conhecer... Além da ! Ela me mataria se eu não passasse pelo menos o natal em casa. Sabe como tem sido um inferno só de estudar quilômetros de distância de uma pessoa que costumava fazer tudo juntas? Imagina como seria se meus pais soubessem que você pretende levar a menina deles para passar o ano novo em outra cidade?! Eles já estão muito irritados com...
— Tudo bem... – cedeu, após perceber que havia iniciado um longo monólogo no qual a menina já insistira em recitar repetidamente sempre que ele tentava convencer-lhe. Parecia que, naquele relacionamento, não era ele que teria muito poder de decisão, o que era muito frustrante, mas ao mesmo tempo algo positivamente inovador no seu repertório de namoros. — Te vejo daqui a poucos dias, Hazel... – replicou ele, com um olhar pensativo. — Feliz natal. — continuou ele, sorrindo com um novo brilho nos olhos, como se estivesse guardando um segredo.
— Até mais, gatinho — brincou, dando-lhe uma tapinha na bunda, o que o deixou corado e fazendo uma expressão escandalizada de falso recato. Não tinha ninguém mais confortável com o próprio corpo do que aquele homem. Ela poderia abaixar a calça dele que a maior reação que receberia seria um meio sorriso malicioso. Talvez isso fosse uma das características que o faziam tão hipnotizante quando este tocava com sua mais nova banda, The Waves. sempre havia sido talentoso, porém, agora que decidira arriscar formar um conjunto com alguns colegas de surfe, seu dom havia sido elevado a outro nível. Eles estavam ganhando público rapidamente, tocando em diversos bares da região. ficava um pouco irritada com a composição dos fãs, que era, basicamente, feminina, entretanto, isso era compreensível, já que todos os integrantes da banda eram amigos atraentes de .
Travis e Malcom eram os habilidosos guitarristas. Sendo irmãos, davam a maior dor de cabeça para o resto da banda com suas constantes implicâncias e ocasionais crises de estrelismo ou vaidade. Mesmo assim, eram uns amores assim que o conhecessem. O primeiro era um negro alto e atlético, surfista profissional e lutador de boxe. Já Malcom era uma cópia exata do irmão, se não fosse o corpo magrelo e mais desajeitado. Além disso, havia Chris, o baixista introspectivo e alheio a qualquer tipo de agitação. Era quase cômico observar seu ar inexpressivo em qualquer que fosse o ritmo da música que estivessem tocando, contudo, seus talentos no baixo suplantavam quaisquer defeitos de performance. Por fim, o baterista era dos mais animados e aclamados entre os meninos, só não mais que o vocalista. Gale era uma das pessoas mais extrovertidas e interessantes que , já havia conhecido e uma conversa com ele valia como um aprendizado para a vida.
O show inicial da banda havia se dado devido a um projeto para a feira de exposição cultural da universidade, mas o extremo sucesso fez com que alguns comerciantes locais, como um pub chamado The Cave, com ampla frequentação do público de estudantes, chamasse a banda para fazer uma apresentação-teste. Apesar de serem novos no ramo, o profissionalismo surpreendente dos meninos acabou conquistando a todos, assim quanto ao dono do estabelecimento, que tornou os shows algo constante. Essa era uma das razões de para não acompanhá-la direto até Dallas e acabar por vê-la somente no Natal. Um último show havia sido marcado, além disso, precisava fazer uma rápida visita à sua mãe em NY, para acertar os detalhes da festa que anualmente promoviam na Véspera do novo ano.
Após horas divagando sobre o futuro brilhante de seu novo namorado, super talentoso, não só com o piano, mas também com o violão e voz e seu papel na nova banda, finalmente pousou, literalmente e metaforicamente, em Dallas.
Assim que chegou ao Aeroporto de Fort Worth, também conhecido como Aeroporto Internacional de Dallas, surpreendeu-se ao ver e toda sua família esperando-a na área de desembarque, com a tradicional faixa de “Bem-Vinda ao Lar”. Segundos depois, percebeu que não era uma surpresa tão grande, já que seus pais realmente tendiam a fazer um alvoroço de tudo que fosse relacionado à sua filha.
— Olá, minha menina! — saudou a mãe, pegando seu rosto para dar-lhe um beijo na testa ternamente. — Como foi o voo? Você levou um casaco extra que te pedi? E trouxe o guarda-chuva? Tem chovido muito e...
— Dê a menina um pouco de espaço para respirar, Magnolia — interrompeu Jedediah, seu pai, já a meio caminho de abraçá-la.
Depois de terminar de cumprimentar seu irmão Ian, sua tia Betty e sua prima Callie, deu o braço a , e o grupo caminhou para casa. Sua melhor amiga, extremamente animada, inteirava-lhe de todas as fofocas e tretas ocorridas na cidade durante aquele semestre, lembrando-lhe um pouco de Poppy.
O quarteto fantástico havia decidido fazer uma espécie de festa do pijama em sua última noite em Berkeley e ficaram conversando, além de pintarem as unhas uma das outras, assistirem filmes bobos e como não podia faltar: comerem muita besteira. Haviam se divertido muito, principalmente quando resolveram jogar um jogo de bebidas assistindo à série Gossip Girl. A todo o momento que o nome da garota do blog fosse mencionado, teriam de virar um shot. Digamos que fora uma noite muito louca e de muitas revelações chocantes.
Nostálgica, sorriu para sua amiga mais antiga, dizendo baixinho, porém de forma audível “Como é bom estar de volta” e deu-lhe um abraço apertado, sorrindo. Ambas juntaram-se a prima, Callie, e foram ao point da cidade para que pudesse rever seus outros amigos. Primeiro, tiveram de contornar os protestos de seus saudosos pais que demoraram, entretanto não resistiram a ceder ao apelo das garotas.
O tal Point, era um lugar que não passava de um celeiro abandonado na propriedade dos Wickham, que o cediam também para o baile semestral da vila regional. Tratava-se de uma ampla fazenda que fora herdada por um casal de idosos que não podiam ter filhos e não tinham condições de administrar todo aquele território. Dessa forma, fizeram um combinado de que, periodicamente, os adolescentes realizariam uma manutenção na área que utilizassem, localizada no outro extremo da pequena casa que o simpático casal ocupava. Ao chegarem ao celeiro, cumprimentou Pepper, seu namorado Anthony, e o resto de seu antigo grupo. Conversaram durante horas, sentados em troncos de madeira, comendo M&Ms e bebendo, como costumavam fazer nos velhos tempos. O tempo passou de forma tranquila, e estava completamente relaxada, até que ela avistou na porta do celeiro, de costas para o grupo, olhando distraidamente para o céu.
O coração da menina acelerou-se com a visão e, de certa forma nervosa, ela tomou coragem para levantar-se e falar com ele, avisando antes à , com uma mera troca de olhares. Tinham o costume e a facilidade, após tantos anos de amizade, de travar conversas mentais a partir da expressão corporal e de um simples olhar. Isso era uma das coisas que mais sentia falta. Era raro encontrar alguém que pudesse identificar-se a um nível tão profundo, e não havia ninguém como no resto do mundo. Sua amiga a entendeu imediatamente e chamou o grupo para ir para a parte mais interior do celeiro, que era fechada, para lhes dar privacidade, sob a desculpa de estar com frio.
— Ainda com o sonho de voar, ? — Aproximando-se cautelosamente, chamou a atenção do garoto, sorrindo de forma genuína. Lembrou-se de como quando eram crianças, o garoto tinha uma fascinação pelo super-homem, correndo de um lado para o outro com sua fantasia. Porém, quando ele se virou, foi como se ambos tivessem levado um choque. Seus olhares transmitiam saudade avassaladora, que ultrapassava a luxúria, mas incluía um peso que pareciam não ter percebido carregar até o momento. Era simplesmente o mais puro medo de perder a amizade um do outro.
havia quase esquecido dos ombros largos que tinham o poder de fazê-la sentir-se em segurança, sob a proteção do casulo de seus braços. Avaliou o cabelo loiro escuro, agora mais comprido, que ela tanto zombava dele quando crianças dizendo se tratar de um loiro sujo, cor que secretamente sempre admirou. Por fim, encontrou os olhos verdes brilhantes de seu antigo namorado que a tornavam cativa tentando desvendar o que quer que estejam tentando esconder. O que sentia naquele momento, não era nada como sua experiência com em que tudo era novo e surpreendente, mas sim um aperto familiar em seu coração que fez com que ela prendesse a respiração.
O problema é que não tivera tempo de realmente pensar se superara sua paixão por . Somente partira esperando que a distância cuidasse disso, mas percebia agora que estar longe dele só havia congelado por um tempo o que sentia. Não que ainda estivesse apaixonada pelo garoto a sua frente, isso percebera quase que instantaneamente, mas ainda o amava, pois ele era como sua família e isso nunca poderia ser mudado.
Com essa constatação, jogou seus braços ao redor de rapidamente percebendo o quanto havia sentido saudades dele. Afinal, ele também era e havia sido seu melhor amigo desde que podia se lembrar. Seu primeiro beijo, quem havia lhe introduzido no grupo deles no colegial, quem havia ouvido seus sonhos e sempre a incentivara a correr atrás do que desejava. Sem ele, ela nunca teria tido a coragem de se apresentar no concurso da cidade que por uma graça do destino, uma real benção oculta, acabou trazendo sua aprovação para Berkeley e junto a ela, a separação do casal, o que era quase cômico.
— Annie... — Suspirou , quase sussurrando o apelido que só ele destinava a ela, criado a partir de seu segundo nome. – Como senti sua falta...
— Também senti, ... E acho que só agora percebi o quanto... — disse Ann, com os olhos brilhando. — Mas eu preciso te dizer uma coisa import... — Foi interrompida quando começara a tentar formular um aviso acerca de seu novo namorado, que estava para chegar à cidade e que não seria justo ser uma surpresa para seu ex.
Ao ouvir o som de seus amigos lhes chamando para cantar uma música em dueto, como sempre costumavam fazer, não pode dizer não aos olhos carentes, quentes e familiares de seu antigo par.
Cantaram a música I hate U I love U de Gnash e muitas outras canções até o amanhecer, com Anthony no violão na maioria delas, Peppere no backing, e os demais: Louise, Jennifer, Marcus, Adam e Daniel batendo palmas. Todos acabaram por adormecer, como muitas vezes no passado, juntos no celeiro em seus sacos de dormir. Mesmo após seis meses sem contato pessoal, foi como se o tempo houvesse congelado e estivesse novamente em casa, no seu lar. Por um minuto, talvez até a noite inteira — mas não queria admitir isso para si mesma —, conseguiu não pensar em e fingir que tudo estava como antes e que não havia se tornado tão complicado.

Capítulo betado por: Adriele Cavalcante



Capítulo 6 - 3... 2... 1... Serendipity


A semana passou como um flash, e os sentimentos despertados no primeiro dia de volta a princípio mantiveram-se intactos. A cada lugar da cidade que Ann revisitava, uma onda de nostalgia intensa lhe atingia.
A Sorveteria do Jerry, onde dera seu primeiro beijo, o Cinema Odin, onde tivera seu primeiro encontro; tudo parecia estar do mesmo jeito. Passara a maior parte do tempo com seus dois melhores amigos, sua prima e seu irmão. Por mais que a cidade tivesse essa aparência de continuidade, foi aos poucos percebendo que era como se não se encaixasse mais ali. Observava seus amigos conversando e não conseguia evitar sentir-se um pouco deslocada com seus assuntos e experiências que haviam passado sem ela.
— Uma pizza calabresa com catupiry, por favor, Ben! — disse Callie, sorrindo para o senhor, não só atendente, mas também dono da pizzaria preferida do grupo.
— Tem certeza sobre o catupiry? — perguntou Ian com um olhar malicioso, arrancando uma risada de do outro lado da mesa, que começou a acudir uma engasgada com sua bebida ao lado do loiro.
Observando confusa que até mesmo Ben abrira um sorriso disfarçadamente, lançou um olhar indagador para os amigos em torno dela. Callie começou a ficar vermelha como um pimentão, na mais pura vergonha.
— AQUILO FOI SÓ UMA VEZ! — berrou a garota, tentando parecer indignada, entretanto, falhando em conter um sorriso. — Não vamos falar disso! Sem catupiry, Ben. — Suspirou derrotada.
pegou seu celular na bolsa para desviar da tristeza de sua mais nova constatação. Não. Nada era nem voltaria a ser como antes. Quisera conhecer o mundo, mas, para isso, tivera que abandonar tudo o que lhe era familiar. Buscar seus sonhos viera com um preço inesperado. Se só se passara um semestre, imagina quanto ela perderia nos próximos anos.
— Com licença... — disse ela, levantando-se em direção à entrada do estabelecimento.
Discou o número da única voz que acalentaria seu coração naquele momento.
— Celular do . Quem fala? — perguntou uma voz feminina grave.
— O está? — perguntou a loira, meio desconcertada.
— Ocupado... Quem quer saber? — demandou a desconhecida.
ficou em silêncio, sem reação. Desligou a ligação, com lágrimas começando a acumular-se em seus olhos.
— Tudo bem, mana? — indagou Ian, preocupado, fazendo com que a garota se sobressaltasse e virasse o rosto, limpando discretamente as gotas salgadas que insistiram em escorrer.
— Estou sim, Ian. — Sorriu para seu irmão, abraçando-lhe apertado.
Ficaram nessa posição por alguns segundos, até que a menina lembrasse de uma estória contada por Callie naquele dia mais cedo.
— O que foi aquilo tudo sobre a Jenny?
— O que tem ela? — perguntou seu irmão, corando, sem conseguir esconder nada da mulher que era sangue do seu sangue.
olhou para ele de forma incisiva e cruzou seus braços, esperando com um biquinho impaciente. Só faltava bater o pé no chão para completar a fachada de criança emburrada que sempre funcionava para fazer o irmão desembuchar.
— OK, ok. — disse ele, com as mãos estendidas em rendição. — Tivemos algo no verão, mas não contamos para ninguém, porque não sabemos o que significa e...
— E não querem botar pressão na relação... Eu entendo. Isso é ótimo, vocês fariam um casal muito fofo, eu amo a Jenny. Seria perfeito.
Ian sorriu para ela, assentindo, e voltaram para a Pizzaria do Ben abraçando-se de lado matando a saudade que sentiram por todo o tempo que passaram separados.

***

Tão rápido quanto o amanhecer, logo chegou o dia do natal, com as decorações verdes, vermelhas e brancas por toda a cidade. e voltaram a sair juntos desde o dia da pizzaria, mas mantendo o limite de amizade e, até o momento, tudo estava sendo dolorosamente fácil. Era como se o loiro fosse parte dela, e mesmo que amasse com todo o coração, sabia que esse sentimento familiar, como se o antigo namorado fosse seu lar, nunca poderia ser apagado, o que a assustava. Além disso, até aquele dia, não tivera coragem de contar a ninguém, exceto seus pais e , sobre seu novo namorado.
, que realmente deveria saber do relacionamento, ainda estava ignorantemente cego quanto a isso e possivelmente esperançoso, o que mais tarde poderia provar ser um enorme problema. Ao contar sobre sua nova relação, sua família e sua melhor amiga haviam tido a mesma reação. Encheram-na de perguntas. Porém, enquanto queria saber coisas como sentimentos e aparência física; seus pais estavam preocupados com o futuro, suas profissões, e que , sendo da grande e “assustadora” NY, levasse sua menina para mais longe de casa ainda.
Mas e o ?! Aquele é um bom garoto! ”, e “Por que tão cedo?”. Tivera de enfrentar calada todos os sermões e indagações como essas. Conseguira aguentar firme nas explicações, conseguindo convencê-los de que tudo estava bem. Não podia deixar de notar, contudo, a dúvida que ainda pairava no olhar de seus pais quando a menina mencionava o garoto, até mesmo na véspera de natal. Nesta mesma noite, como planejado, foram ao baile de natal no celeiro dos Wickham. Como sempre, a decoração, com milhares de pisca-pisca pendurados por todos os lados, deixou a menina sem fôlego.
— Não tem coisas assim na Califórnia, tem, filha? — perguntou Jedediah, com um olhar pomposo.
— Com certeza que não, papai.
— Estamos no Texas, Baby — disse, com seu sotaque sulista na mais plena força. gargalhou do bobo do seu pai, abraçando-lhe com ternura.
— Concede essa dança a seu velho, minha pequena? — indagou ele, já a puxando pela mão para a pista improvisada, com vários rodopios e passos engraçados.
— Como poderia recusar? — brincou ela, rindo e juntando-se a ele na valsa.
— Quando você cresceu tanto, filhinha?
— Acho que foi o peso dos últimos vinte anos.
, minha querida, assim eu vou me sentir um velho.
Após o término da música, Jed sorriu para sua filha e a rodopiou uma última vez, entregando-lhe para ninguém mais, ninguém menos que . Ele estava impecavelmente bem vestido em um terno preto e seus cabelos descontrolados eram como um único sinal de rebeldia.
... — Suspirou.
— Annie... — respondeu ele, com um sorriso divertido. — Podemos?
— Por que não... — respondeu-lhe sorrindo, algo que se arrependeria mais tarde.
Descansou sua cabeça no ombro do garoto, suspirando como uma boba pelas tentativas fracassadas dele de elaborar uma boa piada. Balançavam-se desajeitadamente, enquanto ela pisava no pé dele — que já estava acostumado com os dois pés esquerdos da menina após tantos anos juntos. Foi no momento que levantou sua cabeça, gargalhando com uma brincadeira do menino, que avistou de pé na porta do celeiro, a encarando.
Assustou-se com o aparecimento repentino, sentindo uma mistura de emoções passarem por seu peito. Estava feliz, com raiva e sentindo-se culpada ao mesmo tempo. Por que será que o namorado chegara a Dallas antes do combinado?
Ele deveria chegar para visitá-la e conhecer o seu lar somente no dia seguinte ao natal. Todavia, após chegar à Nova York e matar a saudade de sua família, o rapaz só podia pensar na sua amada namorada e em como queria passar cada segundo com ela. Ao chegar ao tal Celeiro Wickham, onde fora informado que toda a cidade ia para celebrar as festividades, levou um choque. Viu sua garota dançando com um menino loiro engomadinho. Pior, ambos pareciam nutrir de uma ligação profunda, sorrindo um ao outro de forma calorosa.
De repente, os olhos dele encontraram o de , o que claramente deixou-a tensa. Isso foi dolorosamente perceptível ao recém-chegado, mesmo passando em um flash segundos, antes desta lhe oferecer um sorriso de felicidade genuína superada a surpresa. O engomadinho finalmente desvencilhou-se da namorada de e começaram a andar em sua direção. O tal menino audaciosamente seguiu , parecendo curioso quanto ao moreno à porta.
! Estou tão feliz pela surpresa. Não acredito que poderemos passar o natal juntos. Mas como... Por quê?
— Hazel, eu não conseguiria ficar tantos dias longe de você — declarou, engolindo-a em um abraço apertado. — Além disso, tinha que retificar a pequena confusão da irmã chata do meu melhor amigo atendendo meu celular enquanto eu havia saído com ele! — Repousou seu queixo no topo da cabeça de , que agora corava envergonhada por seu ciúme injustificado. não deixou escapar o olhar horrorizado do outro rapaz, atento a conversa do casal.
— Annie?! — chamou , com um tom confuso de quebrar o coração. Ele observava a cena sentindo-se, pela primeira vez, deslocado perto da antiga namorada. — Quem é seu ... amigo?!
congelou em pânico, saindo do abraço de seu atual namorado para voltar-se a seu antigo amor, medindo suas próximas palavras cautelosamente para não criar nenhuma confusão. Percebendo um olhar curioso dos passantes, puxou ambos para uma área mais reservada fora do recinto, sob o céu da noite estrelada. Enquanto passavam, focou seus pensamentos em descobrir o que exatamente faria para sair dessa bagunça que ela mesma criara. Pararam assim que estavam longe o suficiente da festividade. A garota arrepiou-se ao sentir o ar frio noturno percorrer seus braços e colo descobertos devido ao decote e as pequenas alças do vestido que usava. Ambos os garotos ofereceram seus paletós, porém ela recusou enquanto suspirava, perdida demais em seus pensamentos para incomodar-se com algo tão banal como o clima.
...
O menino levantou o olhar para ela, aguardando uma explicação plausível.
— Esse é ... Meu namorado. — Apresentou, vacilando com um tom de voz baixo. — Começamos não faz muito tempo, porém estamos muito próximos e ele veio passar o natal comigo.
— Por que você não me avisou Annie?!
— Quem é Annie? — perguntou um confuso, sendo ignorado pelos ex-amantes.
— Eu ia te contar, só que por alguma razão de força maior, acabei não contando... — E, virando-se para , continuou seu discurso. — , esse é , meu antigo namorado. Mesmo que eu tenha mencionado ele, nunca te contei que namoramos durante toda minha adolescência e que somos, antes de qualquer coisa, melhores amigos.
— O-ok... — Gaguejou , com um olhar pensativo.
— Desculpem-me por ter criado essa confusão, mas é que ambos são muito importantes para mim e eu não conseguiria suportar que se odiassem...
Criando coragem, a menina finalmente se permitiu parar de encarar a grama, para enfrentar a expressão dos dois homens de sua vida. Para sua surpresa, ambos a olhavam como se a compreendessem em certa medida. O namorado até tomou a iniciativa de estender a mão para o loiro, contudo, este observou o “adversário” duramente, simplesmente lançando um olhar de desculpas a ela e saindo andando. Para o alívio de , apareceu nesse exato momento.
— Deixa que eu falo com ele, Blondie! — sorriu diante de seu velho apelido. — E você deve ser o famoso ... falou muito bem de você.
Com um humor um pouco mais leve e tentando acalmar a namorada, deu uma risada presunçosa e agarrou-a, dizendo:
— Ah é mesmo, Hazel?! Eu sei que sou irresistível — murmurou, piscando para ela que já estava vermelha como beterraba de vergonha. Virando-se para a morena, continuou. —Muito prazer, . Eu até sinto que já te conheço de tanto que essa aqui fala sobre você.
A amiga sorriu, já aprovando de cara o simpático e belo garoto que fazia sua amiga ficar sorrindo que nem uma idiota e corando a cada cinco minutos, até mais do que quando estava com . Lembrando-se do problemático menino em questão, decidiu se apressar.
— Vou lá falar com o enfezadinho, então... — avisou, estremecendo em preocupação. — E , eu já ia esquecendo, seus pais estão te chamando...
Após dar três passos se afastando, voltou-se novamente para eles sorrindo e berrando:
— Ah, traga o bonitão aí para nossa social amanhã.
nem esperou uma resposta e continuou correndo atrás de . Percebendo para onde ele havia ido, passou a caminhar mais calmamente. Aproximou-se de sua figura sentada em um dos balanços do parquinho do terreno dos Wickham e acomodou-se a seu lado.
— Olá, bobinho, o que faz sozinho aqui?
— Vai embora, pequena... Você sabia o tempo todo sobre isso e nunca se dignou a me contar...
— Você sabe muito bem que essa não é minha função. Não é justo me culpar pela bagunça que vocês mesmos criaram... Você também sabe, ou deveria saber que a culpa é, em grande parte, sua. Vocês deixaram tudo indefinido quando a foi embora, só esperando que tudo se resolvesse magicamente. Mas as coisas não funcionam assim. Nada se resolveria sem o esforço de uma conversa, acabou que não ficaram na mesma página sobre o que a separação significava.
— Eu sei... Desculpe, é só que eu esperava que ela voltasse da faculdade realizada. Não esperava que se envolvesse com alguém, pelo menos nada sério... Sei que é idiota ter sonhado isso, entretanto, pensei que talvez depois de passar alguns meses separados ou ao fim da faculdade, ela pensasse em aceitar ficar comigo aqui, permanentemente. — explicou, somente agora percebendo o quão fora cego. — Mas parece que nada satisfaz o espírito livre da nossa Annie.
— Sinto muito, , porém ela agora é somente sua amiga. — Começou , com cautela. — parece ser um cara muito legal. Está na hora de encarar a realidade.
— E qual é essa? — perguntou ele, cansado, com a face repousando nas mãos.
— É possível que ela nunca se acomode. Você tem que começar a pensar mais em si e no seu futuro... Deixá-la decidir pelo dela. Ainda tem a mim e a seus outros amigos e família. Além disso, ela sempre será sua amiga, isso nunca iria mudar.
— Será que não? — indagou esperançoso.
— Tenho certeza — afirmou, com um ar definitivo.
— Obrigada pelo apoio, ... Eu sei que você tem razão, contudo, temos tanta história que não sei se conseguirei desapegar...
— Não se preocupe bobão, estarei aqui para isso sempre que precisar. — disse ela, sem graça.
— Eu também tenho que me desculpar por...
Não. Não se atreva a fazer isso agora. — Ela levantou do balanço, tentando se recuperar da emoção que começara a se formar em seu peito.
, eu...
— Vamos só voltar para a festa... — pediu, cortando completamente o assunto. — Você tem que corrigir a atitude de bebêzão que teve com o pobre menino. Vai apertar a mão dele como deve, não vai dar um pio na festa amanhã quando ele for e também nunca mais vai puxar o assunto que tanto quer puxar, está me entendendo?!
— Tudo bem... Mais alguma coisa? — ironizou, teimosamente.
A menina bufou, praguejando.
— Até parece que foi você que chegou para fazer uma surpresa para sua namorada e a viu dançando com o ex dela. Não quero que vocês dois continuem se estranhando como estão. E, quando falo vocês dois, quero dizer você, seu cabeça dura. — sorriu para a linda menina negra, com a pele brilhante da cor do café a sua frente. Não conseguia evitar notar como ela ficava radiante sob a luz da lua, ainda mais toda irritada daquele jeito.
— Logo me juntarei a vocês no celeiro. — avisou ele, balançando a cabeça para clarear seus pensamentos. Satisfeita, resolveu retirar-se e ver que outra crise poderia ter sua amiga se metido enquanto estava longe.

Enquanto isso, na festa...

— Mãe, pai, esse aqui é o . Ele chegou mais cedo para... Me fazer uma surpresa.
Seus pais olharam o namorado, de cima a baixo, a princípio impressionados com a aparência do menino. Contudo, os instintos paternais levaram a melhor, se alojando tal qual uma erva daninha, persistentes e desnecessários. Seu pai passou a encarar o menino com desconfiança e sua mãe estranhamente simpática. Provavelmente estavam fazendo a estratégia policial bom/policial mau, pensou , desconfiada.
— Muito prazer, Senhor e Senhora Fraser — cumprimentou , estendendo a mão, temeroso com a reação dos pais de sua amada. Tentou manter uma fachada confiante que, apesar de ser transparentemente falha para , que o conhecia, pareceu colar com seus pais.
Jed e Maggie apertaram a mão do menino e iniciaram uma conversa amistosa que, na verdade, estava mais para um interrogatório, desde coisas mais simples às mais pessoais. Foram tantas perguntas que acabou descobrindo coisas sobre ele que já deveria saber. O pai dela havia acabado de perguntar a o porquê de ele ter se interessado por música em primeiro lugar. Isso despertou a atenção de , já que nunca haviam conversado sobre o assunto.
— Bem senhor... Sempre gostei de música como forma de me expressar, mas o maior motivo foi que isso me pareceu a melhor e, por muito tempo, a única forma de alegrar meus pais...
— O que quer dizer?
— Bem, Senhor Fraser... É que após a morte de Eloise, minha irmã mais nova... Eles ficaram em um estado tão ruim que, futuramente, acabou por destruir seu casamento. Minha irmãzinha tinha um talento natural e quase que sobrenatural com a música. Isso desde pequena. Mesmo que minha habilidade mal se compare à dela, acredito que de alguma forma estou honrando sua memória perseguindo este sonho, que era algo que compartilhávamos.
— Sinto muito pela sua perda... — apertou em um abraço lateral, tentando mostrar-lhe que estava ali por ele.
Esta confissão tão puramente sincera de pareceu mudar completamente o comportamento de seus pais. O respeito que começaram a endereçar ao menino era um contraste enorme com o modo que agiam antes. Isso permitiu que os deixasse para ir ao toalete, sem precisar ter medo que fossem matar o pobrezinho com a espingarda de Jedediah.
Observando-os conversar da porta do celeiro, um tempo depois, ficou satisfeita em perceber certo conforto entre o grupo. Alguns de seus amigos que paravam para conhecê-lo ao passarem, também pareciam aprovar o menino. estava divertindo-se ao constatar que o encanto do garoto era algo sem limites.
— O que foi que seu namorado fez com os Frasers? — Perguntou , aproximando-se com os olhos arregalados.
conseguiria convencer até uma poça d’água a não molhá-lo. Esse menino realmente não tem limites na arte da conquista — replicou , gargalhando.
— Não se preocupe com ... O idiota vai voltar com o rabo entre as pernas, já que, aparentemente, ele deixa de ter cérebro perto de você!
— Obrigada novamente, . — agradeceu , estranhando o olhar distante da amiga. — Ei, está tudo bem?
— Sim... Desculpe, estou só cansada de toda a agitação de hoje.
— Tudo bem, amiga. Vamos lá! Não quero perder a cara de quando ele souber da tradição da ceia de natal.
A expressão da outra garota transformou-se imediatamente.
— Tem razão. Isso vai ser épico. — A morena arrastou na direção do menino, parando somente para falar com Anthony.
— Tony, levanta essa bunda daí e vai buscar a câmera! Você e a Pepper tem a vida toda para engolir a cara um do outro.
— Não enche, — murmurou Anthony, continuando a dar atenção à sua namorada até levar um tapa na cabeça e resolver obedecer sua amiga mandona.
— OK, ok. O que você quer?
— Você é surdo, menino?! Câmera! Encontre agente no palco em cinco minutos! — Com isso, a morena saiu andando decidida na direção do DJ, que fez uma careta ao perceber a sua aproximação.
Anthony olhou para em confusão, enquanto pegava a câmera em sua bolsa.
— Para que precisamos da câmera? — Perguntou ele em uníssono com Pepper, o que levou a um olhar apaixonado entre os pombinhos, e a um revirar de olhos de .
— Tradição do jantar de natal... ... Vocês sabem...
— Meu Deus! Isso vai ser épico. — Os três riram de forma conspiratória.
Ouvindo os primeiros acordes da música que já estavam cansados de escutar, foram para onde as pessoas já se aglomeravam, ao redor de um tremendamente envergonhado. Ian foi até o menino com um microfone e disse algo em seu ouvido.
Anthony começou a tirar fotos do olhar incrédulo do menino ao perceber o que precisaria fazer. Era tradição da cidade que alguém cantasse o karaokê da música Jingle Bell Rock antes do começo da ceia. Como era de fora da cidade, automaticamente o dever passava para ele. Corajosamente agarrando o microfone, o menino vasculhou a multidão em busca da namorada.
— Essa eu dedico para a bela Senhorita Ann Fraser. Feliz natal e obrigado a todos vocês por me receberem tão bem em sua cidade.
Orgulhosa e um pouco surpresa com a desenvoltura de seu namorado, foi até ele, com Anthony a reboque. Pegou o microfone das mãos de , beijando sua bochecha antes de se direcionar ao público.
— Na verdade, esse ano faremos algo um pouco diferente. Teremos um dueto de Angels We Have Heard On High e Tony irá tocar no violão em vez do Karaokê. Quer dizer, isso se todos concordarem.
A multidão aplaudiu e assobiou aprovando a mudança. Nos poucos minutos antes do começo da música, a menina olhou para e disse:
— Estamos juntos nessa. — Ele sorriu, acariciando o rosto dela gentilmente.
— Sim Hazel. Meu par sempre foi e sempre será você. Só você. — A menina suspirou apaixonada.
— Preparado, dupla sertaneja?
— Para pagar micão? — disse ele, com um sorriso convencido. — Sempre.



Capítulo 7

Obviamente, tivera que dormir, ou ao menos fingir dormir, no quarto de hóspedes. pensou em chamá-lo para ficar parte da noite em seu quarto, mas preferiu não fazê-lo. De certa forma, deitar no chão perto de sua cama — já que esta rangia como nunca, impossibilitando a discrição necessária — fora o jeito que encontrara de ficar com no passado. Para ela, trazer seu namorado atual e fazer algo que há pouco tempo fazia com seu ex seria, no mínimo, estranho. Mal sabia que Dallas estava repleta de armadilhas e gatilhos emocionais, tornando inevitável que seu antigo companheiro fosse trazido à tona de qualquer forma.
Foi por esse motivo que, constatando que seus pais já deviam estar desacordados, ela entrou de fininho no quarto onde ficara hospedado. Estava escuro e mal dava para distinguir a forma do corpo de seu namorado. Ele olhava pela janela, parecendo pensativo enquanto escaneava o enorme quintal da casa com o galinheiro, uma árvore com balanço de pneu e um jardim coberto por azaleias, orquídeas e cíclames, típicas do inverno natalino.
Tentando não fazer barulho, andou na ponta dos pés até ele e o abraçou de lado, encarando seus grandes olhos azuis que brilhavam ao olhá-la com carinho e admiração. Ele sempre a fazia sentir bonita e desejada, como se fosse tudo o que poderia pedir na vida.
Ela o encarava com a mesma intensidade, porém, nesta parca luz amarelada vinda do quintal unida à iluminação do luar, seus olhos normalmente castanhos pareciam mais esmeraldas. Era óbvio o quanto o menino a afetava. Podia sentir seu coração batendo mais rapidamente e as maçãs de seu rosto se esquentando.
Não precisaram trocar palavras. Mesmo que ambos soubessem que eventualmente precisariam conversar sobre , parecia haver um acordo tácito que aproveitariam esta noite juntos, para reconectar-se depois do tempo que passaram separados. Para a garota era especialmente necessário. Todos os sentimentos que percebera ainda nutrir por pelo antigo namorado eram diferentes do que sentia por . Com o primeiro, era um amor profundo, ainda que platônico e familiar, mas nada complicado. Já com o segundo, tudo era mais intenso, pois eles compartilhavam a mesma paixão pela música, seus sonhos se entrelaçavam e era como se sua paixão os consumisse.
Voltando sua mente para o momento presente, inclinou-se para beijar os lábios alheios, que já se encaminhavam em sua direção. Foi quando suas bocas se encostaram que ela soube, não havia dúvidas. Estar com era como encontrar um oásis em meio ao deserto. Ele preenchia seu coração de amor, dava o que ela precisava e ela retribuía com entusiasmo. Ficaram junto à janela por um longo tempo, até terem que parar para respirar. Ele já estava sem camisa a essa altura, expondo a tatuagem em seu braço com uma data estampada.
— Nunca te perguntei... Ao que se refere isso?
— Eloise... Ela nasceu nesse dia. Quando ela morreu, eu... Simplesmente queria fazer algo para me certificar de nunca esquecer o quanto ela foi e é importante para mim.
— Isso é lindo, ... Você é...
— Shhh. Não precisamos falar. Eu sinto e você sente. É algo tão intenso que eu nunca conseguiria descrever. Não sei mais como...
— Como...
— Como ficar sem você.
Com isso, eles não aguentaram mais manter a distância um do outro, que já era mínima, mas insatisfatória. Em poucos minutos, os lábios da menina já se encontravam vermelhos, inchados e esta estava ofegante. Beijaram-se uma última vez ternamente e ele deitou-a na cama com cuidado. Ao perceberem que, diferentemente da cama de , a do quarto de hóspedes não produzia rangidos, sorriram e se enroscaram, fazendo amor, unindo-se até adormecerem. Em certo ponto, já não dava mais para distinguir onde um começava e o outro terminava.


***


Ao primeiro carcarejar do Galo ambos acordaram, porém, enquanto pulou da cama assustado, somente abriu os olhos e se espreguiçou, para então lançar lhe um olhar divertido. Isso de vida campestre era novo para ele, porém, para ela — que teve que lidar com o maldito Galo Alfredo durante toda a sua adolescência, quando dormir era mais precioso —, Alfie se tratava somente de seu velho despertador natural.
Despediram-se rapidamente quando ela se esgueirou de volta para o quarto, entrando e ficando mais calma ao fechar a porta. Expirou aliviada por não ter chamado atenção de ninguém da casa. Contudo, quando se virou para escolher uma roupa em seu armário, quase teve um ataque do coração. Sua mãe estava sentada em sua cama, olhando-a com uma expressão estoica.
— Acredito que nem preciso perguntar onde estava, mocinha.
— Ma-nhêee, que surpresa, quase morri de susto! — exclamou a filha, com a mão no peito que batia acelerado. — Bom dia, eu estava só...
— Nem tente filha, eu já tive sua idade lembra?
— Mas, mãe...
— Imagina se fosse seu pai ou seu irmão que te pegasse? Esqueceu que Jed tem uma espingarda?!
— O papai nunca...
— Seu pai caçaria sim o seu namorado para fora daqui atirando. No que você estava pensando?!
— É que eu...
— Mal o conhecemos, filha... Não ajuda em nada saber que, na primeira oportunidade que tiveram, quebraram uma regra que estipulamos, sendo indecentes debaixo do nosso teto! Não acredito que você pôde deixar isso acontecer.
Duas horas de sermão depois, Magnolia saiu do quarto de sua filha com a sensação de dever cumprido. Descendo para a sala de estar, viu que já se encontrava sentado no sofá, discutindo com Jedediah sobre os campeonatos de surfe da costa leste que haviam acabado de começar na televisão, em uma edição que, para a surpresa e admiração de Jed, o garoto havia participado ficando em segundo lugar.
Maggie podia ver o marido tentando segurar seu entusiasmo, entretanto, falhando miseravelmente em ser sério com o jovem. Sorrindo com a habilidade do rapaz de conquistar o sogro, se dirigiu para cozinha, terminando de preparar o café e pondo a mesa, enquanto ouvia e assobiava a música Payphone que era transmitida de seu pequeno rádio, encostado na janela acima da pia. Ao avistar sua filha descendo as escadas e se encaminhando para a sala, impediu-a.
— Filha... Venha aqui.
— Bom dia mãe. Deixe-me ir...
— Querida, eu sei que quer vê-lo, mas dê um tempo aos dois... Parece que estão se dando bem, não vamos interromper esse momento ainda.
Suspirando, porém feliz pelo pequeno avanço, concordou.
— Tem razão, mamãe. — Olhando desconfiada para Magnolia, a garota soube imediatamente o que fazer para apaziguar o coração de sua mãe após o choque de mais cedo. — Você quer que eu vá buscar os ovos para nosso café da manhã?
A mulher abriu um sorriso largo que mostrava seus dentes incrivelmente alinhados e brancos, um traço impressionante de família, considerando a quantidade enorme de café que consumiam.
— Faria isso, filhinha? — assentiu. — Ia me ajudar muito sim, obrigada!
— Tudo bem... só vou vestir meu antigo macacão para não sujar minhas roupas novas e volto em uns cinco minutos.
Vinte minutos depois e após alguns ovos quebrados com a perda do hábito, voltou, orgulhosamente com 5 ovos caipira, para o casarão. Seu irmão, Ian, dormia até tarde na sua própria casa um pouco mais afastada da principal, mas ainda na propriedade dos Frasers, e era o único que ainda não se encontrava sentado à grande mesa integrada da cozinha à sala de estar. Assim que entrou no cômodo, todos se voltaram para ela com olhares engraçados; começou a rir, tentando disfarçar com uma tosse, entretanto, falhou nessa tarefa.
— Eu estou cheia de pena de galinha não estou? — perguntou envergonhada.
Os três assentiram simultaneamente, com sorrisos contidos. Ela entregou os ovos para a mãe e disse que subiria para retomar um banho. Ela subir o primeiro degrau foi o suficiente para que eles começassem a gargalhar descontroladamente. Revirando os olhos, a menina tornou-se para eles tentando fingir um olhar de ódio para seu namorado.
— É só falta de prática, ok?! — Isso foi a última coisa que disse a eles antes da chegada de Ian, que nem ao menos tentou conter suas risadas quanto ao estado da irmã.


***


Mais tarde, após passar o dia passeando pela pequena cidade, e foram ao point, para a pequena social pós-natalina.
— Boa tarde, senhor Wickham!
O homem simplesmente grunhiu em resposta, enquanto continuava a capinar o jardim da frente da construção que habitava com sua esposa. O casal recém-chegado riu com o mau-humor do idoso, dando de ombros e afastando-se em direção ao celeiro.
ia absorvendo cada aspecto da paisagem, admirado com o terreno bem cuidado. Os jovens do grupo de levavam muito à sério o trato que tinham com os Wicham e cuidavam de sua parte do terreno impecavelmente, não querendo correr o risco de perder o direito de circular no lugar onde criaram tantas memórias juntos. O menino arregalou os olhos ao ver que haviam construído uma grande fogueira perante o celeiro, onde já havia algumas das pessoas que ele havia conhecido no dia anterior.
— Olá, estranhos! Qual será o Jogo de hoje? — perguntou a garota, animada.
— Eu nunca — respondeu Adam rindo, claramente bêbado e oferecendo dois copos de cerveja ao casal. — Só faltavam vocês! Vamos começar essa festa!
A música alta começou a tocar com “I Gotta Feeling” do Black Eyed Peas, fazendo com que todos fizessem um coral de UUUUUHHHUUUUU extremamente desafinado. Começaram a cantar juntos e ir pra pista de dança improvisada dentro do celeiro. Haviam aproveitado a decoração da celebração do dia anterior, só a adaptando à demanda deles.
Louise, Jenny, Pepper, e Callie puxaram para dançar, sendo seguidas pelos meninos Adam, Marc, Danny, Tony, e . Beberam e dançaram até anoitecer. Quando deu meia noite, resolveram que estavam altinhos o suficiente para o jogo sorteado da vez. Afinal, “eu nunca” sempre dava as maiores tretas. Sentaram em volta da fogueira, comendo doces e rindo a cada vez em que viam alguém admitir algo que ainda não sabiam.
— Eu nunca peguei meu melhor amigo enquanto eu estava bêbada. — Começou Jenny.
Louie, Pepper, Tony, , e beberam. Vários olhares questionadores e especulativos foram trocados acerca dos referidos melhores amigos. Somente foram salvos por Marcus, que continuou o jogo com:
— Eu nunca fiz merda bêbado.
Todos beberam, inclusive Marcus, após seus amigos jogarem marshmallows nele pela tão grande e óbvia mentira. Ele realmente era um rei quando se tratava de perder a linha ou acabar fazendo algo doido bebendo. Como todos adoraram lembrar-lhe, por exemplo, da tatuagem de borboleta que fizera na bunda após sair de uma das sociais natalinas. E olha que não foi a coisa mais extrema que ele já fez. Após esse incidente, decidiram que era melhor transformar a festa em uma espécie de sleep over. Mesmo que a dureza do chão acabasse com as costas de todos, apesar dos sacos de dormir, ainda era melhor do que ter que se preocupar com o paradeiro dos amigos no dia seguinte, quando estavam de ressaca.
— Eu nunca nadei nua no lago Lynn — Callie afirmou, já prevendo confusão.
grunhiu com um meio sorriso e bebeu com Louise e Pepper. Havia sido um dia hilário quando elas decidiram dar esse mergulho, contudo, Callie sempre às atormentava por não ter sido convidada. Porém, o que não era esperado era que e também bebessem, claramente se referindo a outra ocasião, ambos corando instantaneamente. Falharam na tentativa de serem discretos, já que Marcus começou a zoar o ex-casal, idiotamente esquecendo-se do término no seu cérebro que parecia encolher quando alcoolizado. Os outros olharam para , que parecia estar lutando contra o ciúme com as mãos em punho e lançando um olhar assassino a .
Tentando desviar de assunto, Danny continuou o jogo e tudo ia bem, o desastre parecendo ter sido esquecido após mais algumas rodadas, até que foi a vez de falar.
— Eu nunca beijei o ex-namorado da minha amiga — disse ela, lembrando-se da vez que jogaram verdade ou consequência. Era uma das ocasiões de término entre Pepper e Anthony, e acabara que Callie havia tido a experiência esquisita de beijá-lo. Ambos ainda se referiam ao fatídico beijo como a “pegação de irmãos”, já que fora muito esquisito que eles ficassem juntos. Algo que juraram que nunca ocorreria novamente. A tentativa de aliviar o clima, contudo, saíra pela culatra...
Todos pareceram surpresos quando também bebeu um gole da cerveja. Um segundo depois, percebeu que, na realidade, nem todos estavam surpresos. A olhadela furtiva que lançara, claramente envergonhada, para entregara o jogo.
encarou ambos, muito irritada. O maior problema não era o que quer que tenha acontecido, mas sim que nenhum dos dois havia se dignado a contar para ela.
olhou para sua amiga com tristeza e levantou-se correndo em direção aos estábulos. Isso era algo que faziam desde pequenas. Quando tinham uma briga em público sempre iam para um ambiente afastado e, se a ofendida tivesse a intenção de perdoar ou ao menos conversar, ela iria atrás das desculpas.
Olhou para , que parecia avaliar cada reação que ela tinha, buscando por qualquer traço de ciúmes. Porém, ao encontrar somente irritação, ele pareceu ficar satisfeito e abraçou-a dizendo:
— Vai atrás de sua amiga
— Eu não estou...
— Eu sei, Hazel. Não precisa se preocupar comigo.
— Tem certeza, ? Eu juro que eu não...
Ele cortou suas explicações com um beijo tenro e disse a ela as palavras mais bonitas que escutaria.
— Eu te amo, Ann Mackenzie Fraser. Conheço você e sei o porquê de estar chateada. Agora para de perder tempo e vai tranquilizar sua melhor amiga.
Ela sorriu e com emoção disse pausadamente:
— Eu. — Beijou a testa dele.
— Também. — Beijou o nariz levemente arrebitado do menino.
— Te. — Beijou uma de suas bochechas
— Amo. — Finalizou encostando sua testa na dele.
Com isso, saiu correndo para os estábulos, já sabendo onde sua amiga estaria. amava escovar Perséphone, sua égua favorita, principalmente quando estava nervosa. Assim, não fora nenhuma surpresa que a encontrasse na baia dela naquele momento. Em silêncio, pegou uma escova e aguardou a amiga começar sua explicação.
Esperou pacientemente enquanto a ajudava. Porém, a morena demorou tanto que, quando finalmente rompeu o silêncio, chegou a assustar a loira.
— Minha intenção nunca foi te machucar — exclamou com a voz trêmula. — Só não queria te contar, porque sabia que você levaria isso a um nível diferente do que realmente foi...
— O que houve, ?
— Fazia seis meses que você tinha ido. Eu havia voltado da minha faculdade de Enfermagem que, como você sabe, fica a poucos quilômetros de Dallas. A viagem dura duas horas mais ou menos, então não é todo dia que venho dormir em casa, geralmente prefiro ficar no dormitório. Dessa forma, dá para gastar meu tempo estudando. Contudo, como era quinta feira e minha aula do dia seguinte havia sido cancelada, resolvi vir para cá e ficar durante todo o final de semana. Nos primeiros dias estudei e saí com as meninas, foi aí que ocorreu o incidente que nadamos no Lago Lynn.
A garota fez uma pausa, retomando o fôlego e, junto a ele, sua coragem para o que estava prestes a revelar.
— Não chamamos a Callie. E não foi porque achávamos que ela ainda não havia voltado da viagem dela ao Texas, como dissemos para ela não se sentir mal. Na verdade, foi porque ela lembra tanto você em tantos aspectos... Sei que foi egoísta, mas realmente sentíamos muito sua falta.
— Continue — disse , largando a escova para recostar-se no cercado.
— No sábado, fui visitar o . Eu não te contei para que não se preocupasse, mas ele estava pior do que fiz parecer em minhas mensagens.
Ambas engoliram em seco com arrependimento.
— Você parecia tão feliz me contando de seus novos amigos e seu namorado... Eu tinha que ficar vendo sofrendo... Isso me matava. Sempre é pior para quem fica. É como se você houvesse deixado ele e não a cidade em si. Não saía de casa e se enterrou no trabalho da fazenda. Grace chegou a me ligar preocupada com seu filho e pedindo para que eu fosse fazê-lo enxergar a razão. Ele precisava ouvir que a vida continua.
— Eu não fazia ideia, amiga...
— Eu sei que não. Sempre fomos tão amigos, eu também senti a dor de não poder mais fazer parte do trio que sempre me deu força para tudo. Enfim, eu fui visitá-lo, como ela pedira. Quando cheguei, ele estava cortando madeira para fazer lenha, preparando-se para o inverno. Amiga, você tinha que estar lá para ver... As mãos dele estavam cheias de cortes, porém parecia que ele nem percebia. Era como um robô, sem vida. — fechou os olhos em recordação.

“ — , me escuta! Fala comigo!
— Eu não tenho nada a dizer.
— Não pode me deixar também!
— Quem ela deixou foi a mim. Não percebe?! ”


— Eu fiz com que parasse e me ouvisse. Ele ficou parado, sem dizer nada, enquanto eu despejava minhas opiniões para ele. Fiquei tão assustada, amiga... Ele parecia uma casca do garoto brilhante, cheio de vida, sorrisos e irritante que costumava ser. Não esperava que ele realmente fosse ouvir todo o meu sermão, contudo, que fosse pará-lo no meio, tentando me irritar de alguma forma, até nós gargalharmos eu lhe dar um tapinha na cabeça. Sempre faço algo do tipo até ele ouvir meu conselho e voltar a usar os neurônios. Entretanto, ao contrário de tantas vezes passadas, quando ele havia sido idiota com você ou se metido em alguma confusão como só ele sabe se meter, ele não reagiu. O idiota só ficou parado durante horas me ouvindo falar.
— Não consigo imaginar como foi, . Eu deveria estar aqui por vocês, mas...
... Vê-lo daquele jeito despertou algo em mim. Eu comecei a bater em seu peito e a face dele continuava inexpressiva, como se nada que eu fizesse fosse lhe causar alguma reação. Comecei a chorar e continuei empurrando-lhe. Foi aí que pensei e fiz a única coisa que tinha certeza de que poderia despertá-lo. Beijei ele.
— Essa parte eu imaginei... — afirmou , olhando para o céu sem entender muito bem o que estava sentindo.
— Não foi nada calculado ou premeditado e eu esperava que ele simplesmente fosse me afastar ou ficar com raiva. Talvez até rir ou qualquer outra coisa menos o que ele fez... — parou seu relato, olhando para amiga com os olhos cheios de lágrimas de culpa e mordendo seu lábio inferior.
— Mas ele correspondeu o beijo... — completou , finalmente compreendendo.
A amiga desviou o olhar e encarou o chão, enxugando rapidamente as lágrimas que haviam escapado. Respirou fundo e continuou a história:
— Não foi nenhum daqueles beijos longos, porém não foi pequeno. Ambos nos surpreendemos que não tenha sido nojento. Afinal, eu o considerava como um irmão, assim como ele a mim. Entretanto... Não foi nada como Callie e Tony descreveram na sua experiência. Mesmo assim, nos afastamos. Mesmo que você estivesse feliz e bem, parecia como se estivéssemos enfiando uma faca em suas costas. E então concordamos em nunca mencionar isso de novo.
— Vocês... E depois?
— Eu voltei para casa e sempre que eu ia checá-lo depois disso eu levava algum dos meninos junto. Ele ainda te ama e eu nunca ficaria com ele em outras condições, , por favor, acredite em mim!
A loira ficou emocionada quando sua amiga se ajoelhou a seus pés, pedindo perdão. — , você deveria ter me contado! Não quero segredos entre nós. Nunca mais deixe de me dizer algo assim.
— Eu prometo... Só, por favor, me perdoa.
— Eu entendo o que aconteceu. Mesmo que não saiba o que pensar disso ainda... Te perdoo por não ter me contado, mas não deve se desculpar pelo que aconteceu. Eu não estou mais com ele e se o que sente é verdadeiro, por mais esquisito que pareça pra mim... Vocês talvez devessem...
— Não, amiga, não quero que pensemos nisso agora. Minha maior preocupação é você.
, nós somos amigas de alma e não será garoto nenhum, nem mesmo , que irá nos separar! — tranquilizou, recebendo um abraço apertado de sua amiga aliviada. Era como se uma carga houvesse sido tirada de seus ombros. Recuperando-se da emoção, ambas voltaram de braços dados para a festa.
O resto da noite foi extremamente calmo, em compensação. Olharam para as estrelas deitados em seus sacos de dormir. percebera, admirado, como o céu de uma cidade no campo como Dallas ficava iluminado, diferente de Nova York ou mesmo a Califórnia. No Texas dava para distinguir os milhares de pontinhos brilhantes como diamantes no céu. , no saco de dormir a seu lado, admirava o rosto iluminado em admiração do rapaz. A menina estava divertindo-se muito com cada aspecto que ele passava a amar de sua cidade natal. A cada nova surpresa que ele gostava, ela sentia como se ele estivesse penetrando mais fundo em sua vida e em seu coração. Afinal, sua cidade natal era parte dela. Sempre seria seu lar.
havia sido um perfeito cavalheiro e, apesar de umas expressões óbvias de ciúmes de tempos em tempos, havia dado espaço ao casal e ficado próximo de Adam e Danny, que lhe contavam mais uma de suas histórias malucas e engraçadas.
— Então... Aí pegamos o extintor de incêndio, a boneca Barbie e tiramos a Francisca... — disse Danny, empolgado.
— A matriarca de 93 anos da família Mcdonald! — completou Adam, com um tom explicativo.
— E, finalmente, conseguimos a garrafa original de absinto.
O foco do garoto foi desviado da história para seu celular, quando este vibrou em seu bolso. De onde estava perto das meninas, havia sacado seu telefone e mandado uma mensagem para o rapaz, sem querer chamar atenção indo até ele.
“Orgulhosa de vc, nem parece q está com ciúmes deles! Fora as ocasionais caretas que você PENSA que ninguém está percebendo hahaahhah”
“Não enche sua chata :P ... Você estava certa, eu estava sendo um idiota, me perdoa?”
“Claro q sim, bobão. Ela também nos perdoou pelo incidente. Vamos fingir que isso nunca aconteceu, por favor. Boa noite :))”
“Concordo. Que bom que ela não ficou chateada... Eu acho. Boa noite, babona! Tenta não afogar a gente com sua saliva enquanto dormimos, ok?! ;))”

Após minutos sem resposta, levantou o olhar para . Esta o observava, só esperando para que ele reparasse quando ela lhe desse o dedo do meio e revirasse os olhos. Ele riu, dando de ombros e virou-se para dormir, ignorando os meninos que o olhavam como se ele fosse um louco por estar gargalhando sozinho, sem motivo aparente.



Capítulo 8 - Expresso para Nova York

Após uma melosa despedida de seus pais e de — que já havia voltado ao seu estado normal de melhor amiga mandona —, se questionava se estaria pronta para finalmente conhecer a mãe de . Só se estar pronta significa estar morrendo de ansiedade e nervosismo, pensou a menina após seu namorado lhe fazer tal pergunta.
Olhou para a linda pulseira de prata com um símbolo do infinito e um berloque com uma clave de sol que ganhara do garoto, onde também havia espaço para colocar outros pingentes, caso ela quisesse, no futuro. Na troca de presentes na casa dos Mackenzie, todos ficaram impressionados com o presente que ele lhe dera. Porém, mais tarde, revelara que por trás deste havia um significado mais profundo.

— O infinito simboliza o amor que sinto por você — admitiu ele, enquanto a empurrava levemente no balanço de pneu do quintal.
— Isso é lindo, — disse ela, com seus olhos brilhando, emocionada.
Ele sorriu e foi beijá-la, interrompendo o movimento da menina e parando entre as pernas dela. aprofundou o beijo por alguns minutos, porém logo depois a curiosidade levou a melhor e não pôde deixar de perguntar a ele.
— Por que um pingente de clave de sol?
— Eu queria que houvesse algo que a fizesse lembrar-se de mim — respondeu de forma simples. — A música me trouxe até você. Pensei que não há nada que pudesse nos representar melhor do que isso. Afinal, era mais discreto e mais original do que o pingente de coração. É único como nós dois.



De sua mãe e seu pai ganhara um novo notebook da Apple, que viria muito a calhar na hora de fazer seus trabalhos da faculdade. Suas costas não aguentariam mais um semestre se voltasse a se enfurnar por horas na abarrotada sala de informática; as cadeiras de lá eram tão desconfortáveis que deveria ter um aviso de efeitos colaterais ao sentar nelas. A garota tinha quase certeza que estava desenvolvendo uma escoliose. Assim, o presente mais do que veio a calhar. Parece que os pais de realmente estavam ouvindo suas reclamações quando ela ligava para eles daquele pequeno inferno de sala.
lhe presenteara com um novo romance e uma fotografia evolutiva delas duas, uma em que ambas tinham 3 anos, com a Blondie dando um sorriso faltando um dente, e com chupando o dedo de uma das mãos e com a outra dada para a melhor amiga. A outra foto retratava a mesma cena recriada, com a diferença de que nesta já tinham 19 anos, e estava com os dentes intactos, obviamente. O porta retratos vinha com uma inscrição de certa forma irônica, mas a cara de sua amiga “nunca se esqueça de seu lar”.
Sentada no avião para NY com , ela refletiu se o Texas ainda era seu verdadeiro lar. Sim e não, concluiu após algum tempo. Na realidade, já não pensava mais no Texas como seu único lar. É claro que muitas pessoas que amava estavam lá, o que fazia impossível de não estar ancorada à Dallas, porém, agora já não conseguiria mais pensar em morar para sempre em sua cidade natal. A Califórnia lhe trouxera mais presentes e felicidades do que poderia esperar. Se pensasse bem, na verdade, mesmo antes não conseguiria morar para sempre em um lugar só.
Seu coração estava ancorado também em Berkeley, onde estava suas amigas, e onde quer que fosse, pois ele agora carregava uma fração de seu coração. Passou o dedo em seu pingente de clave de sol com carinho, a representação de que ela também roubara parte do dele. Essa noção de ter vários e nenhum lar a prendendo em vez de entristecê-la, deixou-a simplesmente feliz; não deixara de ter algo, seu lar virara o mundo. Todo e nenhum lugar, como sempre quis, se expandindo além das fronteiras de sua pequena cidade.
Sentiu-se imbatível naquele momento. Estava indo tão bem na faculdade, com novas amigas incríveis e estando ao lado de um homem como Montgomery... Aproveitaria essa oportunidade única de só enxergar coisas boas em seu futuro, não a desperdiçaria. Momentos assim são preciosos e devem ser agarrados enquanto se pode, porque não tendem a durar muito.
O casal foi recebido por uma Nova York iluminada com diversos outdoors e rodeada pelos característicos prédios altos e imponentes. sugava cada detalhe novo e parecia uma criança na Disney ao ver todas as lojas e tantas pessoas se movimentando nas ruas largas de Manhattan. Acostumada com o ovo que era Dallas, em que predominavam fazendas e com as tranquilas praias californianas, NY era uma bomba de informações e movimentos explodindo na cara da menina.
Em um borrão, chegaram ao prédio de , que ficava em uma das partes mais nobres do bairro. Ao entrarem, seu namorado acenou para o porteiro, um senhor de meia idade.
— Como vão as crianças, Linus?
— Bem, senhor Montgomery, muito bem, obrigado! Estão ansiosas para abrir os presentes que deu para elas. Agradeço novamente por isso.
— Por nada, Linus. Não as deixe abrir antes da meia noite! É tradição! — olhou para o garoto, admirada com o gesto.
Por dentro, o prédio era ainda mais bonito, com um enorme candelabro pendente do teto, cintilando o que pareciam cristais que reluziam as luzes em diversas facetas hipnotizantes. só pareceu dar por si ao pararem na frente da porta de , já na cobertura; parecia que a fortuna desse menino não tinha limites e era muito maior do que ele deixava transparecer a qualquer um que lhe conhecesse.
Abrindo a porta e entrando com a reboque, foi em direção à cozinha do apartamento. O rapaz pensava que provavelmente sua mãe estaria preparando sua deliciosa comida, devendo estar apreensiva com a visita. Quando ele lhe contara que conhecera uma menina, finalmente estando em um relacionamento sério e apaixonado, sua mãe exigira conhecer a nora. Sendo cozinhar o que fazia melhor, mesmo que não tão frequentemente, a mulher mais velha devia estar tentando agradá-la.
Ironicamente, podia sentir a mesma tensão vinda de Hazel, que se preocupava em causar a melhor das impressões. A garota estava ignorante do fato de que a mãe dele provavelmente a amaria de qualquer forma por ser tão diferente da maioria de suas namoradas, que não costumavam durar dois meses. Bem, isso sem contar uma exceção que ocorrera quando ele ainda morava em NY, dois anos antes de ele passar para Berkeley.
Amelia, uma bela mulher que não aparentava passar dos 35 anos, realmente estava na cozinha, com milhares de panelas empilhadas no fogão, e com o forno ligado, preparando sua especialidade: biscoitos de gengibre.
— Vocês chegaram! — disse, ajeitando seus cabelos após secar sua mão em um pano de prato. A mais velha tinha esse costume de se ajeitar mesmo quando estava impecável, era impressionante como conseguia não sujar nada de sua roupa ou fazer que seu cabelo ficasse desgrenhado enquanto cozinhava. — Prazer, , sou Amelia Montgomery, a mãe desse rapazinho aqui. Pode me chamar de Amy se quiser — continuou, se jogando em um abraço caloroso com a jovem que, a principio, sorria timidamente com toda a hospitalidade, mas passou a se sentir muito mais confiante quanto a conhecer a mulher que criara o homem em que estava apaixonada.
Era perceptível de cara que, apesar da opulência, a mãe de era uma mulher simples: não era dada a formalidades ou impunha etiqueta. Ela tinha um talento de deixar as pessoas confortáveis a seu redor, seja lá quem fossem.
O dia passou rapidamente, enquanto elas se conheciam e o menino olhava, admirado, as duas mulheres que mais amava no mundo se entrosando tanto. Aproveitou para ligar para seus amigos confirmando sua presença na festa de ano novo na cobertura. Naquele ano, também iriam ver a bola cair, assim como Hazel tanto sonhara.
Finalmente, três horas antes do início da festa, as mulheres resolveram que estava na hora de se arrumar, o que rendeu muitas risadas a , que em vinte minutos já estava pronto. Aproveitando-se do tempo de sobra, fora combinar os toques finais com os organizadores do evento, que haviam chegado mais cedo naquele dia, com vários cozinheiros e empregados para diversos serviços que tornariam a festividade o hit que sempre fora.
Geralmente, o garoto se envolvia profundamente nos preparativos, porém esse ano, devido a viagem à Dallas, acabara deixando para sua mãe e seu melhor amigo, Mark, cuidarem da lista de convidados e do que seria servido. Apenas certificou-se que ambos não fizeram nenhuma besteira que saltasse aos olhos, ficando satisfeito ao ver que tudo estava no lugar que deveria.
Sete horas em ponto, saiu do quarto de hóspedes com um vestido azul marinho tomara que caia e uma sandália preta com um salto baixo. Como nunca percebi essas longas pernas?, pensou , após olhar a namorada de cima a baixo repetidamente, Ela está maravilhosa. Este também não estava de se jogar fora em um terno preto, blusa social branca e gravata da cor de seus olhos, realçando o azul turquesa como nunca havia percebido.
— Meu deus, , você penteou o cabelo! Onde está o roqueiro que anda com aquele despenteado visual de “acabei de acordar” e blusas pretas ou de alguma banda de rock? — Ele abriu um sorriso que reservava só para ela com esse comentário claramente sarcástico.
— SSHHSHSHSH! Está maluca, Hazel? Não deixe minha mãe saber disso, senão ela me deserda, e nossa lua de mel terá que ser em uma barraca na praia de Ocean Beach! — replicou divertido, sorrindo ainda mais quando os olhos dela se arregalaram com a menção de algo relacionado a casamento.
Antes que pudesse falar algo a campainha tocou, então ele lhe ofereceu o braço e ambos foram cumprimentar os convidados que já começavam a chegar. Rebecca havia sido convidada, já que também morava em NY e passaria o ano novo na cidade, porém tinha a tradição de ver a bola cair com seus pais do alto de seu prédio, evitando a multidão da rua, e participava de sua própria celebração bem mais intimista. Para ser sincera, preferia desta forma, algo mais simples onde pudesse se divertir, porém sabia que com as coisas costumavam ser mais espalhafatosas. Assim, ela ficaria feliz se o menino estivesse a seu lado — e ele realmente não saíra de lá desde a chegada do primeiro convidado, um antigo amigo seu chamado Kevin com sua namorada.
Dessa forma, a menina estava satisfeita só de estar com ele, insegura quanto à multidão que agora povoava a cobertura da casa. Algo nele tinha o poder de acalmá-la e deixa-la confortável seja qual fosse o contexto, devia ter herdado isso de sua mãe. Tinha a elegância de falar com cada um dos convidados, movimentando-se pela sala com naturalidade.
Mark, e ela conversavam animadamente no sofá perto da entrada do apartamento quando, de repente, seu namorado levantou o olhar, ficando tenso e pálido como se estivesse vendo um fantasma. O amigo e a garota seguiram em direção ao que o assustava, fitando uma menina que o olhava igualmente pálida da soleira da porta. Ela vestia um lindo vestido vermelho e estava com uma barriga claramente indicando uma gravidez já em seus últimos estágios.
A gestante se virou e começou a se afastar. , que até o momento estava calma, virou-se para seu namorado com um olhar questionador. Porém, ele nem olhou para ela e começou a andar atrás da ruiva, chamando por seu nome. Rachel.
se sentiu machucada com a atitude dele e, começando a ligar alguns pontos, levantou-se, determinada a segui-lo. Qquando Mark fez menção de impedi-la, o afastou com um olhar claramente assassino; essa atitude do garoto só a fez ter mais certeza de que havia algo muito errado ali.

Enquanto isso, no corredor...

— Rachel! Você está bem?
, sinto muito... Eu não sabia que você viria...
— Em uma festa na minha casa? Por que não?
— Sua mãe, ela estava dando a entender que você passaria as férias todas com sua namorada na cidade dela...
— Olha, eu realmente não estou entendendo, como..?
— Eu sinceramente não sei se é seu, Montgomery... Mas é possível sim, se é o que você está me perguntando.
O rapaz a olhou assustado e desnorteado. Não, isso não podia estar acontecendo agora que encontrara a garota perfeita. Ele e Rach eram passado, a única namorada dele que havia durado. Mas eles eram passado. Isso fora anos antes de entrar para Berkeley. Fazia dois anos que haviam terminado, porém, pouco tempo após Hazel entrar na faculdade no meio do ano, ele havia visitado NY e, em uma coincidência, acabaram tendo um encontro casual, o que tornava possível que fosse pai.
— Não vou exigir nada de você, . Contudo, se tiver algum interesse em descobrir se é o pai, aqui está o número de meu médico, pode tirar qualquer dúvida com ele quanto ao que esperar.
Rachel entregou-lhe um cartão e foi embora, deixando o garoto digerir a bomba que deixara. ficou mais uns minutos atônito, recostando-se na parede do corredor com a cabeça nas mãos, até que passou por ele, arrastando sua mala na direção do elevador.
— Hazel, espere, eu posso concertar isso, só me deixe explicar... — suplicou com os olhos brilhando de frustração.
— NÃO! Eu ouvi tudo. Como pôde ser tão irresponsável?!
Ele recuou surpreso com os berros da menina que normalmente era muito calma e controlada, entretanto, parecia fora de si, com seu rosto vermelho de fúria.
— Isso não é algo que possa concertar, . Eu vou embora, mas já está na hora de você assumir alguma responsabilidade e ir descobrir se realmente engravidou aquela menina. Sou tão burra por ter confiado que você pelo menos teria o cuidado de usar uma SIMPLES camisinha! — falou, enquanto lutava com o fecho da pulseira que ganhara de presente. — Eu não quero suas explicações, nem ver seu rosto mais do que o necessário. Só preciso saber se quando você ficou com ela, eu e você já havíamos começado a ficar juntos.
O olhar triste que ele lhe lançou respondeu tudo. Jogando a pulseira no peito de , virou-se e foi embora, deixando parte de seu coração e seu lar com ele, chorando por todas as lembranças que haviam passado nos meses que namoraram. Ele soltou um fraco “por favor, não me abandone como ela...” porém, a essa altura as portas do elevador já eram seladas com o adeus de sua amada. O garoto não correu atrás dela. Tudo o que havia dito era verdade, fora um idiota e cometera um erro que lhe custaria tudo, inclusive sua felicidade.
Chegando à portaria, ela fez uma ligação de emergência. Encerrou, falhando em esconder seu choro.
— Está tudo bem, querida? — perguntou Linus, estendendo-lhe um lenço.
— Obrigada... — disse a menina, assoando o nariz.
— Não sei que problema te aflige, querida. Mas se me permite lhe dar um conselho...
— Tudo bem, senhor Linus, não me importo.
— Já ouviu falar de Serendipity? — O olhar confuso da menina serviu de resposta o suficiente, e o homem continuou. — Serendipity é uma palavra que significa uma feliz descoberta ao acaso. A sorte de encontrar algo precioso onde não estávamos procurando.
— O que isso quer dizer? — indagou , curiosa com o ponto em que o homem pretendia chegar com aquele papo sobre destino. Mesmo sendo uma crédula em assuntos relacionados a isso, o estado em que se encontrava emocionalmente não a fazia ficar muito otimista quanto ao seu próprio destino.
— O ponto, querida, é que quando menos esperamos, nos lugares mais improváveis, acabamos nos deparando com a felicidade. Pode não parecer agora, mas as coisas acontecem de certa forma por um motivo. Confie em sua jornada.
Ele olhou-a misteriosamente uma última vez, a deixando do lado de fora do edifício, pensativa. Rebecca, sua salvadora, parou seu carro na porta do prédio, trajando um lindo vestido com paetê dourado que realçava suas curvas. O cabelo longo da latina descia em ondas até a altura de seus cotovelos. Para , a amiga parecia um anjo que viera em seu auxílio.
Entrou no carro e, após um abraço, Becca dirigia ouvindo a amiga explicar tudo o que havia acontecido e, ao chegarem no prédio bem menos luxuoso, mas muito mais aconchegante dos pais da menina, já havia terminado seu desabafo.
Foram direto para o último andar, já que faltavam somente 10 minutos para meia noite. Lá se encontravam uns poucos vizinhos de Becky, seus pais, sua avó, seus tios e seus milhares de primos das mais variadas idades. Todos acolheram de forma muito simpática e a fizeram sentir em casa, oferecendo-lhe deliciosos hambúrgueres que preparavam na churrasqueira e a sobremesa de pavê milenar da família da Vó Graham.
Seu humor melhorou exponencialmente ao finalmente ver a bola cair ao dar meia noite — mesmo que da pequena televisão no terraço da amiga. A ligação de seus pais e amigos do Texas desejando feliz ano novo também fora muito animadora, exceto quando mandaram um beijo para . A menina simplesmente foi com a maré e omitiu seu término pelo menos por aquela noite. Ter Becca do seu lado também foi um elemento decisivo para que adiasse a tristeza que estava sentindo para quando voltasse para casa. Fez segredo da separação mesmo de , tratando somente de amenidades e fazendo resoluções ridículas de ano novo que ambas sabiam que nunca cumpririam — uma tradição para as duas, porém dessa vez, no viva voz do celular, incluindo Becca na conversa, e a milhas de distância uma da outra.
Após várias promessas como “parar de comer muita besteira”, “passar menos tempo assistindo séries e mais tempo estudando” e outras tão absurdas quanto, encerrou a ligação e se encantou ao saber que dormiria em um colchão no quarto de sua amiga, não tendo que passar a noite sozinha pensando sobre . A verdade é que tinha medo da depressão que cairia se parasse para pensar em tudo que acontecera.
Elas aproveitaram para ligar para Poppy e Laurel, que haviam resolvido passar o ano novo juntas na casa de desta no Kansas, já que L. não tinha condições de se deslocar para a Inglaterra para passar a virada do ano com sua irmã, como costumava fazer.
— Mal posso esperar para voltarmos para Berkley para eu poder dizer: Sinto que não estamos mais no Kansas — brincou Laurel, tentando imitar o sotaque da família da ruiva, o que rendeu muitas risadas ao quarteto.
— A gente não fala assim! — retrucou Poppy, fingindo uma indignação, mas com um sotaque carregado devido ao contato com suas raízes nos últimos dias.
— Meninas, vocês tinham que ver a roupa que Becca está vestindo, está parecendo a J-Lo!
— Como se você não estivesse um encanto nesse vestido, ! — disse Becca, corando timidamente.
— Quero só ver quando o Liam vir as fotos que eu tirei e mandei para ele enquanto você não estava olhando — falou , não segurando o riso.
— Espera...Você não... Você não fez isso, né? — questionou a outra, com a boca escancarada. Ao perceber a confirmação no olhar da amiga, ela fez um biquinho indignado. —Sua vaca!
Pode-se ouvir Poppy e Laurel gargalhando do outro lado da linha. As meninas conversaram por horas até adormecerem, encerrando o último dia do ano com chave de ouro, ou talvez começando o dia primeiro, já que passara da madrugada. não conseguia tirar a conversa que tivera com Linus de sua cabeça. Uma palavra martelava em sua cabeça sem parar e foi a primeira que pensou ao acordar: Serendipity.



Continua...



Nota da autora: Oi, pessoal! Esse foi um capítulo atípico. Costumo tentar fazer essa fic o mais amorzinho possível, mas algumas tretas não dão para evitar. Amarei saber o que acharam com elogios, sugestões, pedidos ou reclamações (porque sei que tem muito espaço pra melhora aí rs) nos comentários. Seus feedbacks farão essa autora aqui muito feliz! Obrigada novamente por estarem lendo e acompanhando essa jornada comigo <3. Beijinhos de luz e até a próxima att. Para mais informações, notícias de atts ou de outras fics minhas, entre para a nossa família no facebook, serão muito bem-vindas!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
OBS: Essa fic é maravilhosa e a beta está apaixonada.


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