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Última atualização: 12/06/2017

Prefácio


Parecia uma fresta entre os armários do vestiário masculino. As duas estavam lá, dando risada, uma delas imprensada contra a parede, suas mãos deslizando da cintura para os ombros da outra garota até que pudesse puxar as alças do vestido dela para baixo, expondo suas costas antes que o cabelo longo tornasse a cobri–las. Nunca soube quem foi que tomou a iniciativa para que o beijo acontecesse, mas enquanto elas se esfregavam naquela tela, meu coração recuava, a dor da imagem empurrando o órgão tão fundo que era como se ele logo fosse atravessar minhas costas. Eu estava chorando e elas se divertindo, o beijo pausado para que gargalhassem, o rosto de uma enfiado no pescoço da outra enquanto seus vestidos eram afastados do corpo para que as peles delas entrassem num contato tão íntimo que, se o vídeo não tivesse parado de repente, era certo que ambas as garotas teriam protagonizado uma sex tape lésbica.
Eu não acreditava que tinham feito aquilo comigo.
Não as duas.
Não daquele jeito.
Quando um riso masculino soou às minhas costas, joguei a cabeça para trás, acompanhando–o de maneira incrédula e dececionada.
– Agora acredita em mim?


Capítulo 1


Por Espinoza
– Uau, eu quero mesmo conhecer todas as suas amigas líderes de torcida, !
!
– O que foi?
– O que conversamos sobre ser gentil com o seu irmão?
Pisquei os olhos forçadamente, um sorriso irônico prestes a se erguer num canto de meus lábios. Mas Violeta Espinoza – ou , de acordo com os papéis que oficializavam seu recente casamento – não parecia estar brincando. Suas sobrancelhas se posicionaram em um modo severo, e ela tinha uma faca firme aos dedos.
– Mãe, larga isso, pelo amor de Satã! – implorei, meus ombros caindo num suspiro. – Eu sou mais do que gentil com o encosto do ! Ir a uma festa com ele seria exagerar, não acha?
– Você? – se meteu, rindo de boca aberta. Alguns pedaços de maçã voaram e eu estremeci. – Gentil comigo, corvo?
Semicerrei os olhos na direção dele.
– Tá achando ruim?
!
– O que foi?
Minha mãe largou a faca e secou as mãos numa toalha. Quando gritara meu nome, ainda parecia irritada, mas então seus olhos se ergueram e estavam murchos de cansaço.
– Eu só quero ajudar. – começou em sua voz esganiçada. – Quero que conheça as pessoas e faça alguns amigos antes de começar na escola. Até porque, como você pretende atrair vítimas para os seus rituais?
... – o nome dele mamãe chamou num tom mais baixo, meneando a cabeça devagar.
– O que foi?
Meus olhos vagaram pela cozinha, olhando de minha mãe para e enfim se perdendo.
Violeta Espinoza e Luís Fernando haviam juntado os trapos há mais ou menos um mês. Ela, uma sagitariana tatuadora e ele, um taurino engravatado. Antes, mamãe e eu morávamos em outra parte do estado, e Luís a conheceu tipo um ano atrás, numa viagem de negócios. Tudo o que eu sabia era que ele estava farto do trabalho e da vida; tinha perdido sua esposa há anos e construiu uma carreira digna para e enquanto criava seu único filho, o insuportável do . Dona Violeta tinha essa fama de ser um portal aberto para o céu, mesmo que vez ou outra se mostrasse o próprio inferno. Em algum ponto desta loucura, eles encontraram um tom em que podiam vibrar juntos. E que modo melhor de oficializar essa união que um casamento?
Luís até que havia se mostrado um cara legal. Não perturbava meu silêncio. Não tentava me convencer a participar de longos almoços familiares aos domingos. Liberava uma graninha legal para me agradar.
O único problema foi a mudança.
Quero dizer, Luís já era um Espinoza, para mim. Até o abracei no Natal! Mas morar com ? E em outra cidade? No último ano do colegial?
Foi muito brusco para mim. Eu ainda tinha vontade de afogar o Encosto na privada toda vez que via seu sorriso aparelhado me desejando “bom dia”.
Mas então havia minha mãe e seu olhar triste.
Eu não era boa com mentiras.
Nunca fui.
Precisava reagir natural e imediatamente por qualquer coisa, ou explodiria por dentro. Isso, porém, quebrava um pouco da bolha de felicidade onde Violeta parecia estar flutuando desde que se firmara com Luís. E eu não queria ser a filha vaca que preocupa e puxa as rédeas toda vez que a coroa consegue viver uma coisa boa.
Se havia alguém merecedor da paz, esse alguém era minha mãe.
Com um suspiro e os dentes custando a destrincarem, olhei para o Encosto.
– Me diz, ... – meus lábios tremeram no que achei ser um sorriso. – Onde é essa festa?
Pelo canto dos olhos, vi mamãe sorrir.
Quando ela sorria, eu tinha coragem para fazer qualquer coisa.
Até mesmo me vestir toda de branco como uma pomba da paz e calçar chinelas rasteiras. Posar para fotos com segurando a minha cintura.
O idiota estava sorrindo, como sempre, naquela exagerada expressão de “todo dia é o melhor dia da minha vida”. Tirou fotos apoiado no aparador, no sofá, descendo as escadas. E eu só querendo que tudo aquilo acabasse, meus lábios, olhos e unhas pintados de preto enquanto eu fazia minha melhor expressão de rainha das trevas.
– Você vai adorar as meninas! – Encosto se apoiou entre os bancos da frente do carro, o rosto próximo ao meu de um modo perigoso, se fôssemos considerar o meu humor. Era a décima vez que ele fazia a mesma droga de discurso desde que eu concordara em ir àquela maldita festa de ano novo.
Luís deu uma olhadela para o lado, passando por mim e por , mas nada que tirasse seu foco do trânsito. Meu padrasto deu risada, e com certeza foi da minha cara.
– Se eu pular do carro, você diz a minha mãe que eu a amo? – pedi.
– Eu travei as portas justamente para que você não tenha essa oportunidade, – proferiu sorrindo.
– A é quem está dando a festa, eu acho que já disse isso. – continuou, tão eufórico que talvez sequer tivesse percebido a curta troca de palavras entre seu pai e eu. – Ela dá as melhores festas! Por isso todo mundo vai estar lá! Inclusive a . Você precisa conhecer a !
– Não vejo a hora. – murmurei com o ânimo de um defunto.
– Ela é a pessoa mais carismática que existe! – ele deu um tapa no meu banco e fui obrigada a trincar os dentes para impedir a mim mesma de cometer um assassinato. – Além de engraçada! Você vai rir a noite toda!
– Estou pulando de alegria por dentro, juro...
– E, bem, tem a ...
se acalmou, o sorriso diminuindo nos lábios para tornar-se idiota.
– Ela...ela é incrível, você vai ver. A garota mais bonita e inteligente que eu já conheci na minha vida inteira.
Luís e eu nos entreolhamos, meu padrasto apertando os lábios para não rir.
– Deixa eu adivinhar! – Virei o rosto para encará–lo, meus lábios preenchidos por um sorriso psicótico. – Elas todas são líderes de torcida?
sorriu de volta, sequer notando meu sarcasmo.
– Não, a não é da equipe. Mas e são, por isso as outras quatro meninas devem estar na festa, também. Vou te apresentar pra todo mundo!
Discretamente, meus dedos tentaram abrir a porta do carro, mas ela estava firme. Afundei–me no banco.
continuou falando sobre qualquer coisa que não me importava. Luís respondia o filho para que o encosto não se sentisse sozinho, e eles quase fizeram com que eu batesse a cabeça na janela até o vidro perfurar meu crânio.
Felizmente ou não, chegamos à festa antes que eu começasse a tentar.
Era um clube localizado ao fim de uma longa rua cheia de luzes de Natal. Luís nos deu algum dinheiro para o táxi, beijou a testa de cada um e sumiu com o carro depressa o bastante para que eu não o alcançasse correndo. também foi rápido – enlaçou nossos braços e me arrastou para a festa. Alguma música tipicamente latina reverberava de um jeito que com certeza me deixaria surda. Encosto já começou a dançar, sua mão livre para o alto e o corpo desengonçado dando algumas reboladinhas que me envergonharam só por estar ao lado dele.
Lá se ia meu desejo de causar uma boa impressão aos colegas.
Ah, espera. Esse desejo nunca existiu.
Tentei puxar meu braço de volta, mas somente olhou para trás e ofereceu–me um sorriso tranquilo, como se dissesse que “está tudo bem”. Naquele instante eu quis morrer mais que em qualquer momento dos que estive na presença do Encosto, mas se me soltasse dele e de repente sumisse, a notícia chegaria aos ouvidos da minha mãe. Violeta ficaria dececionada por eu sequer me atrever a socializar, promessa que lhe havia feito.
No fim das contas, foi quem se desfez de mim, e bruscamente.
Suas mãos agarraram um garoto pela camisa, puxando–o para trás num ímpeto único e com força surpreendente para alguém com braços tão finos.
, que merda é essa? – berrou Encosto para o menino puxado.
Era uma pseudo briga.
O tal do respirava de uma maneira raivosa, seu rosto vermelho e as mãos em punhos. Havia um outro cara, mais à frente, rindo com ares de superioridade enquanto enganchava uma garota com o braço enorme ao redor da cintura dela.
! – gritou. – Faz alguma coisa!
E era deslumbrante.
Ela tinha cabelos lisos e longos, a pele era num tom latino que combinava com suas curvas, ambos os detalhes expostos pela enorme fenda na parte de trás do vestido branco. esboçou um sorriso nos grandes lábios, mas parecia meio fora de si.
– O que você tá pensando, babaca? – o outro garoto falou por ela, que deitou em seu peito. ameaçou avançar, mas ainda o segurava pela camisa, e pelos vistos de maneira bem firme, pois o manteve longe do casal. – Garotas como ela não se misturam com gentinha como você.
riu alto, sua cabeça girando quando tentou se afastar do imbecil que a segurava. Tive a impressão de que teria caído se ele não a tivesse firmado melhor pela cintura.
, você realmente não vai dizer a ele que estamos juntos? – fazia um escândalo, e acredito que por isso tenha chamado a atenção de alguns curiosos, todos sedentos pela briga que ainda evitava.
– O que? – ela balbuciou, ainda rindo.
O garoto em quem estava agarrada a beijou, e simplesmente o envolveu pelos ombros e abocanhou sua língua.
! !
– Me solta, porra!
Segurei um braço do esquentadinho quando percebi que não conseguiria contê–lo por muito mais tempo. Os dois se assustaram com minha intervenção, e o instante em que decidiram olhar-me foi o mesmo e crucial – quando voltaram a atenção para e o babaca, eles já haviam desaparecido.
se recompôs e e eu o soltamos.
– Cara, o que foi que aconteceu? – Encosto perguntou em nítida preocupação.
– Isso não vai ficar assim! Quem ela pensa que é? – recebeu outra pergunta em resposta, além de punhos se erguendo em ódio. – Quem ela pensa que é para fazer isso comigo, ?
– A ?
Meu Deus, como era burro.
, provavelmente concluindo o mesmo que eu, ajustou os óculos no rosto, empurrou Encosto pelo peito e abriu caminho pela multidão.
– É esse o tipo de amizade que você pretende que eu faça?
me olhou indignado.
– A , ela...
– Eu não estava falando da garota.
– Não é isso! – ele passou uma mão pelos cabelos, o lábio inferior preso entre os dentes. – Ela saiu com aquele cara e talvez tenha bebido demais...
Algo em meu estômago se agitou com o que aquela informação sugeria, mas quando abri a boca para responder...
! – algumas vozes femininas gritaram por cima da música e engoliram meu “irmãozinho” numa bolha de amor.
– Que saudade!
– Por que você demorou tanto?
– Parece que a gente não se vê há séculos!
Fui andando para trás devagar, aproveitando minha oportunidade de fugir enquanto as garotas entretinham Encosto. Meus pensamentos estavam em , a menina bonita e aparentemente anfitriã da festa. Ela não parecia muito consciente de seus atos. E, se não estava consciente, talvez aquele imbecil...
Eu sequer conseguia completar a sentença mentalmente.
Não a conhecia, mas precisava me certificar de que estava bem.
De que estava segura.
Gosto de pensar que o que ocorreu a seguir foi um reflexo de minha angústia. Puro susto. Instintivo. Mas eu teria reagido do mesmo modo em qualquer outro contexto.
Duas fortes mãos agarraram minha bunda, e a próxima coisa de que me lembro são olhares da festa inteira sobre mim porque eu havia socado a cara de alguém.
Eu devia era ter enfiado o joelho nas bolas do babaca!
Era uma ótima ideia para a próxima.
– Sua piranha!
– Você quer outro soco, seu imbecil? – gritei mesmo que fosse soar esganiçada. Meu punho engrossaria o que minhas cordas vocais não tinham a capacidade para fazer. – Experimenta tocar em mim de novo!
! – colou em mim, seus olhos mais esbugalhados que o normal, um braço ao redor dos meus ombros.
– Desculpa! – um terceiro cara se meteu, tentando arrastar o assediador para longe antes que eu tivesse a oportunidade de chutá–lo por estar me xingando. – Ele bebeu demais!
– Isso não é justificativa para um assédio! – gritei a plenos pulmões.
– Essa é a sua irmã? – uma das meninas se aproximou de nós, rindo. – Aquela que se mudou por causa do casamento?
– Isso é o que dizemos às pessoas. – olhei de relance para quem havia feito a pergunta. – mas na verdade minha mãe e eu estamos num programa de proteção à testemunha PORQUE MEU PAI ERA UM TRAFICANTE! – berrei em tom de ameaça ao nojento que era escoltado para longe de mim.
– Meu Deus! – uma outra garota tinha a boca aberta, sorrindo incrédula.
– Dá pra alguém me buscar uma bebida?
Ela ergueu uma mão, embasbacada.
– Sim, senhora.
– Você tá legal? – enquanto a outra saía, a menorzinha tocou meu cabelo e eu apenas assenti, sem paciência.
, eu posso me virar sozinha daqui, não acha?
– Eu vou matar aquele cara. – ele apontou para qualquer lugar insignificante.
– Aceito sua ajuda. – garanti, meus olhos nos seus. – Mas primeiro você precisa encontrar a .
Ele arregalou os olhos, como se tivesse esquecido daquele detalhe porque era um energúmeno.
, é realmente importante. – virou-se delicado para a menina connosco. – Você fica com ela?
acariciou o braço o e beijou seu ombro, lugar mais alto que parecia alcançar.
– Faça o que tiver de fazer.
Encosto se derreteu num sorriso antes de beijar a testa dela e sumir de vista. Eu ainda estava tonta quando a outra menina chegou com minha bebida.
– Eu sou a . – ela disse, e me puxou para que sentássemos as três num vaso de planta enorme. – Às suas ordens deste dia até meu último dia.
– Você viu que a boca dele estava sangrando? – a menor deu um pulo eufórico que me assustou, mas ocupei-me virando meu copo de qualquer coisa cheia de álcool. – Você luta?
– Seu pai é mesmo um traficante?
! – a beliscou. – Não seja indiscreta.
– Foi ela quem disse!
– Eu não luto. – respondi à primeira pergunta para fugir do riso que me veio diante da confusão das duas. – Meu pai me ensinou autodefesa... – Dei de ombros.
– O traficante? – Disparou .
Aquilo não foi autodefesa! – tinha o indicador no ar, dando ênfase exagerada à negação.
Talvez eu tenha rido porque o álcool fez efeito.
Só talvez.
No entanto, minha mente ainda estava em , e logo em seguida liberei um suspiro. As duas garotas se cutucaram e se levantou, parando à minha frente enquanto se arrastava para ficar mais próxima.
– Está tudo bem. – a menor disse, empurrando meu ombro de leve com o seu. – O babaca do Jonathan merecia até mais que a sua porrada. Aliás, você poderia nos ensinar autodefesa – fez aspas com os dedos – e íamos as três acabar com ele, não é, ?
É nós! girou as mãos ao erguê-las, um gesto engraçado.
– Não é por causa dele. – balancei um dedo ao meu redor, indicando meu humor. – Vocês conhecem uma tal de , não é?
chacoalhou as mãos num gesto exagerado, seus lábios repetidamente desenhando “nãos” em súplica para que eu parasse de falar, mas já era tarde demais. deu um passo à frente, decidida, seus olhos firmes aos meus.
– O que tem a ?
se virou para frente, expirando com força sua derrota.
– Eu acho que ela estava bêbada e a vimos sair com um cara...
– Bêbada? – gritou.
– Ei, calma! – estava ao lado da amiga prontamente, acariciando seu cabelo loiro. – O foi atrás dela, não é, ?
– De novo, ...
De novo.
– Não chora, vai borrar sua maquiagem... – tentava consolar.
– Por isso eu não queria vir pra essa merda de festa!
Seria muita falta de sensibilidade fugir das duas?
Não que eu me importasse.
– O que você quer fazer? – a menor perguntou.
– Pode ser perigoso pra . – respondi por , que não parecia muito em condições. – Por que não vamos todas procurá–la e depois ficamos bêbadas pra virar essa merda de ano? – sugeri. – E aí eu ensino a vocês autodefesa. Parece que vão precisar.
E nós fomos.
Reviramos cada banheiro. Cada cantinho escuro.
Sempre que passávamos pelo bar eram três shots de tequila, um para cada. Até que, finalmente, quando eu já trocava meus pés, a voz insuportável de chamou firme o meu nome e os de suas amigas.
Ele estava com à beira da piscina e sob uma poça de vômito. Ela ainda estava linda, e quando fomos oficialmente apresentadas, sorriu–me de um jeito engraçado que enrugava seu nariz.
Sentamo-nos os quatro para ver a queima de fogos à meia-noite, e um cara de óculos se encaixou atrás de , deitando-a em seu colo e beijando sua boca.
Ouvi-a chamá-lo de .
como o imbecil que arrumara briga mais cedo.
Brilhos dourados rasgaram o céu e eu fechei os olhos com força, desejando enfim que nenhuma mulher no mundo precisasse de um para defendê–la.
Pertencíamo–nos umas às outras.



Capítulo 2


Por Gonzalez


Fui ensinada a gostar de meninos.
Seus ombros largos, timbre firme e monstruoso, de preferência os mais altos do que eu e definitivamente os que roçassem a braguilha na minha.
No entanto, em algum ponto anterior à puberdade, meu livre arbítrio começou a inconscientemente contestar esse repasse de regras que constituíam a tal da heteronormatividade.
Eu não tinha nada contra homens – contanto que não fossem babacas abusivos e opressores –, mas tampouco me sentia atraída por eles.
Não me leve a mal, mas desde o começo de minha vida todo esse lance foi puramente instintivo. E, se eu tivesse podido escolher, ia preferir as meninas, de todo jeito.
Éramos maravilhosas.
Cada traço feminino, ainda que os distantes do que nos era imposto socialmente, aquecia algo dentro de mim. Mulheres eram obras de arte de dentro para fora, desabrochando a partir de sua própria essência e nada mais. Havia um poder descomunal em ser uma de nós, e me ajudou a acreditar que somente pessoas especiais nasciam com o dom de amar-nos.
...
Ela foi a primeira pessoa a quem confessei ser lésbica e, como uma boa melhor amiga e ocasionalmente bichinho de estimação, sempre empoderou minha sexualidade. Era esse o seu dom, afinal. Mostrar as coisas boas onde eu e todo os outros só víamos defeitos. Mas só quando estava de bom humor.
Hoje era um desses dias.
Castillo fez um coração no ar com seus pompons. Ela vestia sainha e blusa amarela, esta amarrada sob os seios e deixando à mostra um piercing no umbigo. tinha a pele negra, um tom bem escuro com fundo avermelhado de sol que esperava o ano inteiro para se fortalecer no verão. Seus cabelos eram longos, fios trançados até o topo de sua bunda e moldando perfeitamente os traços simétricos de seu rosto.
Olhando-a eu só conseguia pensar em como cada um de seus aspetos, físicos ou não, tornavam-na uma mulher maravilhosa.
Mas Rivera conseguia ser ainda mais.
Elas andaram na direção uma da outra, devagar, um sorriso tímido enrugando de leve seu nariz na expressão mais bonita do mundo. Não que eu já tivesse visto todas, mas ficava até difícil comparar.
Alguma música da Shakira berrou no rádio que tinham levado para a quadra. , e mais quatro garotas engataram uma coreografia quase sexy demais para líderes de torcida escolares, mas eu não teria coragem de reclamar, porque dançando Rivera ficava sensacional.
Ela simplesmente sabia o que fazer. Seus quadris tinham vida própria e, olha, eu já havia passado da fase de me culpar por ficar alegrinha, então não deixei de reparar no jeito como a bunda dela ficava delirante naquela saia. Jesus, que bunda.
tinha um tom de pele latino e cabelos castanho escuros que iam lisos até o meio de suas costas. Seus lábios eram grossos e seus olhos meio puxados conferiam vida a toda postura do amor da minha vida.
Só que ela...
Bem, era heterossexual.
Rivera não usava camisa polo ou sapatênis. Da boca carnuda jamais ouvi as palavras "top" ou "sextou" – graças a Deus, ou teria arremessado minha cabeça contra o chão repetidas vezes até perder os sentidos e, com sorte, a memória –, mas ela gostava de meninos. Estava sempre atracada a um deles. Não que isso fosse um problema – era muito bem resolvida, obrigada, e eu a admirava um tantão a mais por isso. Acontece que excluía todas as minhas já tão mínimas chances de algum dia provar a ela que poderia trata-la melhor que todos eles.
Eu não escolhi ser lésbica e tampouco havia escolhido ser hétero. Embora isso ocasionasse um pequeno conflito de interesses, ainda podíamos ser amigas, e eu estava satisfeita com isso.
Estar perto dela era surreal! Havia calmaria e doçura; carinho que tínhamos uma pela outra. Seu jeitinho único de rir, engelhando aquele nariz arrebitado e fechando os já pequenos olhinhos. A fala arrastada que sempre me fazia perguntar mentalmente se ela tinha bebido vodca no café da manhã. O coração enorme que colocava, caso preciso, todas as suas aspirações em segundo plano para fazer o próximo feliz.
Talvez este seu nível de humanidade fosse o meu maior impedimento.
sempre me encorajou a tentar, mas eu nunca pude.
Tinha para mim a impressão de que se abriria à possibilidade. E eu... bem, eu tentaria de tudo para fazê-la feliz como ela nunca antes pôde ser.
Mas talvez não fosse o bastante.
Talvez não lhe fosse confortável.
Da mesma maneira que eu não conseguia me imaginar com um cara, mesmo que conhecesse alguns com quem estaria muito feliz ao lado, também não ia querer ficar com uma garota. E minha autoestima já era ruim demais para eu ainda precisar conviver com o fato de que jamais seria o ideal para Rivera.
Então, o que eu estava fazendo ali, naquela merda de quadra?
Pois bem.
Minhas convicções eram umas.
Meu coração era outro.
Eu assistia a quase todos os ensaios da torcida, e certamente não era para apoiá-las. Depois, ainda que eu gostasse mesmo de futebol e de gritar incentivos para , o artilheiro do time e meu melhor amigo, era pela presença de que ficava para assistir aos treinos. Ela se sentava ao meu lado e podíamos conversar sobre qualquer coisa. Calcinhas. Menstruação. Geografia. Música.
Cada uma de suas palavras era encantadora.
me fazia feliz só pelo fato de sermos próximas.
— Pelo sangue de Drácula!
O susto me provocou um mini grito.
Espinoza jogou a mochila bruscamente no banco ao meu lado e começou a rir da minha cara.
— Você tá com algum defeito nas glândulas salivares, ? – A demônia deslizou os dedos pelo topo de minha garganta, subindo com eles até o meu queixo. – Quer um babador?
— Quer um soco? – ofereci-lhe um punho.
riu de novo, o que era bem incomum, considerando que ela ou estava mal-humorada, ou batendo em alguém.
Geralmente as duas coisas.
— O que foi? – analisei-a de cima a baixo, desconfiada. – Viu um pentagrama?
deu um tapa em meu quadril.
Apesar de durona demais para a massinha de modelar que era o meu coração, Espinoza e eu nos entendemos de um jeito legal durante o fim das férias. Acho que não podia ser diferente, certo? , e eu éramos quase um só, e vinha a ser a nova irmã de . Depois que nos conhecemos na fatídica noite de ano novo, ela jamais teria a chance de se livrar de mim ou de . Invadimos sua casa algumas vezes, arrastamos a garota para algumas maratonas na Netflix e ela já estava apta para andarmos as três de braços dados no intervalo entre as aulas.
— Como foi o seu primeiro dia na escola? – Perguntei sorrindo à morena.
revirou seus grandes olhos verdes.
— Uma merda. – ela se sentou no chão entre minhas pernas, atirando a cabeça para trás de modo a apoiá-la numa de minhas coxas. – Tentei fugir do Encosto o dia inteiro, mas aparentemente ele sabia todos os meus horários e falou para todos os professores que somos irmãozinhos. Na frente da merda da turma! – trincou os dentes. – Agora eu tenho que aguentar uns imbecis forçando intimidade como se eu fosse uma extensão do . – a voz dela se arrastava em puro nojo, e agora sim parecia a amargurada e resmungona que eu conhecia.
Passei uma mão por seus cabelos e ela me deu um tapa.
— Relaxa. – sorri, meus olhos oscilando entre sua face e a de Rivera, que remexia a pélvis, ao longe. – Daqui a pouco eles descobrem que você trafica almas pro seu pai e vão começar a temer sua presença.
— Falando nisso... – sorriu de novo, os dedos brincando com o pingente da gargantilha.
— O que? – semicerrei os olhos para ela, que apenas abanou o ar e mudou de assunto.
— Vai me dizer por quem estava babando feito uma idiota?
— Eu só estava vendo a nova coreografia! – defendi-me fingindo indignação.
— Qual das seis, ? – enfiou os cotovelos nas minhas coxas e forçou o corpo para cima, querendo checar as garotas da torcida. – É a ?
Minha mão foi firme num tapa atrás de sua cabeça.
— Claro que não! Você acha que eu seria estúpida o bastante pra me apaixonar pela minha melhor amiga?
deu uma olhadela por cima do ombro.
— Acho.
Ela se afastou antes que eu batesse em sua cabeça de novo.
No meio da quadra, a torcida começava a se desmembrar para que o time iniciasse o aquecimento. As seis meninas seguiam conversando, algumas de braços dados, quando invadiu a bolha e agarrou por trás, erguendo-a no ar e enchendo de beijos sua nuca e pescoço. Ela deu um gritinho que se transformou em gargalhadas.
— Héteros... – resmungou.
Castillo e eram um caso interessante. Algum deus menor entre céu e inferno atingiu aquele garoto no verão passado, e então ele voltou à escola de ombros largos, um corte de cabelo decente, sem espinhas no rosto e uma lábia que envolveu minha amiga num chove-mas-não-molha durante os dois semestres. Ela estava completamente apaixonada, mas fez a egípcia até de súbito sugerir que oficializassem as coisas, e isso tinha algumas semanas, apenas – foi no ano novo. Desde então ele insistia nas demonstrações públicas de afeto e tentava convencê-la a fazer sexo sem camisinha, mas era um cara legal.
— Hey, !
Prendi a respiração enquanto agarrava meu pescoço num abraço.
— Oi! – meu nariz se afundou em seu cabelo, e inconscientemente cerrei os olhos para apreciá-la melhor.
! – deu tchauzinho e retribuiu de um jeito meio irônico, erguendo os dedos e movendo-os com a mão parada. Franzi o cenho numa repreensão silenciosa, mas a demônia fingiu não ver. – Como foi o primeiro dia?
— Seria melhor se você tivesse passado ele comigo. – flertou numa voz mais baixa, um de seus olhos piscando.
Engasguei com minha própria saliva.
ainda tinha um dos braços ao redor dos meus ombros, e registrei quando sorriu, sem graça, meneando a cabeça e levando aquilo na brincadeira.
sorria na plenitude de sua filha da putisse, os olhos fixos em mim.
Ela estava me provocando e meu rosto esquentou.
— E aí, gente? – cortou o clima com seu berro, correndo para nos alcançar. Tascou um beijo forçado na bochecha da irmã e arrancou de mim para abraçá-la. – , está tudo bem? – ele arregalou os olhos enquanto vinha me cumprimentar. – Você tá vermelha!
Ah, .
Às vezes eu só queria matá-lo com minhas próprias mãos.
riu alto, e segui-a num modo mais contido e sem graça.
— Já sei! – o jogador beijou a ponta de meu nariz, apertando minhas bochechas. – Finalmente decidiu fazer o teste!
Arregalei os olhos, minha fala se perdendo, meu rosto provavelmente ficando roxo e minha mão ganhando vida própria para estalar um tapa no ombro de .
— Ai!
— Que teste? – semicerrou os olhos, os lábios se erguendo num sorriso desconfiado.
Bati em de novo.
— É por isso que eu não gosto dele – comentou num riso amargo.
— Teste? – e pareciam um só de tão agarrados um ao outro, mas tenho certeza de que foi ela quem repetiu a maldita palavra, pois saltitou para mais perto de nós em seguida. – Ela decidiu fazer o teste?
— Tenta respirar um pouco, . – sugeriu, uma mão se esfregando num de meus ombros para áspera e sarcasticamente incentivar-me. – Pode parecer meio difícil, mas começa inalando e depois só exala.
? – insistiu.
Eu queria poder me enfiar num buraco.
Eu queria poder enfiar num buraco.
— É que... – levantei o rosto para fitar o de , e seus olhos sorriam tranquilamente. Aquilo me trouxe certa paz. – É quem tem uma audição no teatro...
— Nessa merda tem teatro? – disparou .
— No teatro? – abriu um sorriso enorme, sentando-se à beira do meu colo. – Para o musical?
— Você canta? – afastou a boca da pele de por alguns segundos para perguntar-me, surpreso.
é a maior cantora que você respeita! – minha amiga fez biquinho, ergueu um dedo e moveu o pescoço, tudo ao mesmo tempo. Meneei a cabeça, rindo.
Acontece que eu amava cantar há quase tanto tempo quanto amava garotas.
E até que eu me saía bem (não disse no que).
Um pouco antes das férias, quando houve a confirmação de que haveria um musical de outono, começou a jogar no ar que esta poderia ser a minha última oportunidade de conseguir um papel, visto que era nosso último ano de colegial. Coincidentemente, Tiago Moreno – um esquisitão que havia participado de todas as peças desde o primário – me ouviu cantar de brincadeira num dos ensaios da torcida e aí...
E aí ele encheu meu facebook de súplicas para que fizéssemos a audição em par.
Pelos papéis principais da peça.
Ok, eu podia até ter uma voz boa. Aprimorava-a todos os dias no chuveiro.
Talvez eu também pudesse atuar num nível razoável para uma peça de escola.
Mas querer o papel principal?
Era preciso uma autoestima que eu nunca possuí.
Havia presunção em aspirar o que Tiago Moreno desejava para nós, e por isso eu negaria seu pedido antes que a fofoca se espalhasse.
“Olhem, a lésbica gorda vai tentar entrar para a peça”.
Não, obrigada. Eu não precisava ouvir essas pérolas. Ou vaias.
Antes que eu estragasse tudo para Tiago e me afundasse ainda mais dentro de mim mesma, desistiria daquele teste.
Mesmo que tivesse cantado o dueto a plenos pulmões durante cada mísero dia de férias e sonhasse todas as noites com a plateia ovacionando de pé.
Eu não era o bastante para o teatro.
Eu não era o bastante para .
Eu sequer era o bastante para mim mesma.
— Eu não vou participar da audição, gente... – sorri fraco, meu lábio inferior tremendo.
— Como não? – franziu o cenho, sua voz perdendo o ânimo.
, nós conversamos tanto sobre isso! – os ombros de caíram.
— Qual é, olhem só para mim! – rolei os olhos. – Não é essa a imagem que eles querem para o papel principal.
— É essa a imagem que eu gostaria de ver no papel principal – me disse com firmeza. – Você é perfeita para isso, . Eu já te ouvi cantar! – Os dedos dela brincaram com minha trança e eu segurei a respiração para não chorar.
Merda de água no mapa astral.
, pelo amor de Satã! – se exaltou, seus dedos empurrando para que ele saísse da minha frente e ela tomasse seu lugar. – Se você não está na merda do padrão, destrua o padrão. Não acredito que está pensando em desistir só porque não é uma modelo de calcinhas!
— É isso o que eu digo para ela o tempo todo – mordeu o lábio. – , elas podem ser lindas, mas você também pode.
— Você é. – concluiu .
Meus olhos estavam marejados e precisei virar o rosto para longe das meninas, ou teria desabado.
— Eu confio e acredito em cada palavra de vocês. – murmurei a elas. – Muito obrigada pela força. Mesmo. – meu rosto se virou devagar enquanto eu umedecia os lábios. – Mas...
! – suspirou.
— Por mais que eu queira, não posso apagar uma vida inteira de opressão. – as lágrimas estavam quase vindo de novo. – Eu quero muito acreditar que posso fazer isso, mas durante toda a minha vida me ensinaram a aceitar que eu não sou capaz.
— Também te ensinaram a gostar de meninos – cutucou meu ponto fraco, as sobrancelhas erguidas em desafio. – Você aceitou que te impusessem isso, ?
coçou a cabeça, os lábios formando um grande “o”.
— Mandou bem. – elogiou enquanto apenas sorria de lado, parabenizando com um movimento de cabeça.
— Você ainda pode falhar no teste, não estamos dizendo que só porque é talentosa e linda o papel já é seu... – prosseguiu, suas mãos para trás, ao redor do pescoço de . – Mas você vai morrer com a dúvida? É só um teste...
— Lúcifer não tolera covardes, só pra você saber... – ergueu as mãos.
Abaixei o rosto, minha cabeça chacoalhando.
Não gostava de pensar naquelas coisas. De cruzar a fronteira entre minha zona de conforto e o mundo que, cheio de riscos, esperava por mim.
Mas as vadias sabiam mesmo como argumentar.
— É só um teste... – repeti baixinho, dando-me por vencida.
olhou para , que olhou para , que olhou para mim.
Gargalhamos as quatro, e os meninos apenas riram baixo, como bons figurantes.
Era só um teste.



Capítulo 3


Por Castillo

Às vezes, em dias frios, eu só queria deitar as costas na cama e fazer sexo com o corpo inteiro. Sabe, sentir o peso de um cara sobre mim. Agarrá-lo e confiar a ele minha vida. Absorver todo o calor emanado por sua pele e entregar por completo o meu. Entregar por completo tudo o que eu era.
Foi assim com .
Eu confiava nele.
Nada fazia mais sentido que nossos corpos transformados num só. E eu não dizia isso só porque me fazia gozar todas as vezes (mesmo que este detalhe ajudasse bastante). Dizia porque tudo sobre ele me passava segurança, e sua presença ampliava meu campo sensorial de modo que sempre me fizesse crer estar vivenciando o melhor momento da minha vida.

— Você tira o meu foco, sabia? – sussurrou, a boca pressionada num de meus ombros. Meus lábios se ergueram instantaneamente.
— Está reclamando?
Puxei-o pela cintura, minhas unhas subindo por seu tórax. jogou a cabeça para trás e riu gostosamente enquanto gemia.
— Não faz isso comigo. – foi quase uma súplica. – Eu preciso ir embora.
Mas eu não conseguia evitar.
Nunca estava satisfeita.
O beijo dele se moldou ao meu nas últimas semanas. enfiou uma das mãos em meus cabelos e afundamo-nos um no outro. Foi longo e intenso o bastante para que eu o empurrasse na cama e subisse em seu colo, meus dedos arranhando seu pescoço e ombros.
Uma única batida na porta e ergui-me em desespero.
, chega de passar reboco nessa cara! – berrou meu irmão, Gael, esmurrando a porta do quarto. – Você tem dez minutos ou perde a carona de hoje!
— Já vou! – Gritei de volta para acalmá-lo. – Para de ser chato!
Quando meus olhos se voltaram para , ele já segurava o casaco por sobre um ombro e passava as alças da mochila por outro. Suspirei.
entrou no colégio no primeiro ano. Era só um garoto magrelo com óculos enormes – não chamava muita atenção. Conversamos algumas vezes e ele até que conseguia ser legal. Tinha um olhar atento e intimidador, pois produzia a impressão de que o tempo inteiro estava um passo à frente. Até que, no semestre passado, ele voltou à escola com um ar tão...másculo. Eu nunca soube explicar, mas desde então, todas as vezes em que conversávamos eu sentia a necessidade de prender o fôlego e torcer a calcinha. Era algo em seus ombros, em sua postura, no modo como falava e se fingia de bobo mesmo após já termos trocado saliva algumas vezes. Construímos um cenário sobre nossa tensão sexual até torná—la palpável, meu orgulho mantendo a situação lenta, porém vigorosa o bastante para que nunca mais nos largássemos desde que experimentamos um ao outro de verdade pela primeira vez.
Desde a noite de ano novo, entrava pela porta dos fundos de minha casa, subíamos silenciosamente para o quarto e ele só ia embora ou no meio da madrugada, ou pela manhã, seu corpo atravessando minha janela já com habilidade e fugindo às pressas pelo quintal.
— Nos vemos na escola? – sussurrei em seu ouvido, meus braços ao redor de seu pescoço, os dele em minha cintura nua.
— Eu ainda preciso assistir às aulas – confirmou, os lábios se contorcendo em desgosto. – Tenho que manter minhas notas porque sou um bolsista, lembra?
— Claro. – eu ainda estava sussurrando, e dei pouca importância ao que dizia pois precisava experimentar sua boca de novo. – Então até mais tarde, hum?
— Te amo.
Quando ele se foi, pela janela, me joguei para trás até cair na cama, meus olhos cerrados para sentir melhor o suspiro.
Sentia-me exausta, e por isso peguei meu telefone para enrolar mais um pouco entre os lençóis antes de sair. Cliquei no aplicativo do Facebook e o rosto de Rivera preencheu o visor do celular, uma atualização na foto de perfil.
Seu sorriso era único.
aparecia na imagem com um copo de bebida na mão esquerda, os olhos fechados, um boné para trás e o sorriso. Um gesto espontâneo e tão vivo, enrugando seu nariz e dando um ar inocente à toda sua expressão, uma aura de pureza sem igual que tornava Rivera fascinante.
Chacoalhei a cabeça.
Não que eu fosse lésbica. só tinha uma beleza admirável.
Dei um coração na foto e ergui—me da cama para colocar a camisa do uniforme e ir encontrar minha família lá em baixo.
— Até que enfim! – Gael berrou de boca cheia quando dei as caras.
Mostrei a língua para ele e abracei nosso pai por trás, pelos ombros, antes de sentar-me entre os dois.
— Bom dia, princesa! – papai estava rindo por trás de seus óculos redondos, e colocou o jornal de lado para me passar o leite. – Dormiu bem?
Eu mal dormi porque estava ocupada demais tendo por todo o meu corpo, mas eles não precisavam saber disso.
— Maravilhosamente. – respondi sorrindo. – Cadê a mamãe?
— Bem aqui, meu amor! – ela apareceu, suas mãos ocupadas atarraxando brincos, mas o rosto se inclinou para beijar minha testa. – Por favor, nos conte alguma novidade sobre o colégio – pediu com os olhos colados aos meus. – Seu irmão não para de falar sobre Economia e, você sabe, eu sou uma pessoa de humanas.
— Me desculpe se eu estou preocupado em me formar para garantir o futuro dessa família! – Gael dramatizou com as costas de uma mão na testa. – É isso o que eu mereço por me esforçar!
Enfiei uma uva na boca e taquei outra na direção dele.
Gael Castillo era o típico mauricinho de exatas. Estudava numa das faculdades mais caras do país, e apesar de depender de nossos pais em quase todos os aspetos de sua vida, meu irmão tinha seu mérito. É claro que desde o começo de sua existência sofreu a influência de nosso pai, mas sua vocação para ser um economista sempre foi inegável. E apenas por isso, por realmente dar tudo de si pela sua carreira, assim que se formasse Gael já tinha um cargo garantido na empresa onde papai trabalhava.
É claro que o Sr. Otávio Castillo ser o sócio majoritário ajudou a conseguir esta oportunidade, mas...Gael realmente era esforçado e, o mais importante, fazia tudo com paixão.
Ele me inspirava.
— Não tenho nada de mais para contar – suguei meu achocolatado pelo canudinho. – Mas hoje é um dia muito importante para a .
Arrependi-me no instante em que concluí a frase.
Pelo canto dos olhos fui capaz de registrar Laura Castillo, minha ilustre e muito querida mãe, torcendo o nariz e indo fazer qualquer outra coisa.
Cerrei os punhos e respirei fundo para me acalmar.
Não importava para mamãe o quanto e eu fôssemos próximas desde sempre e nos amássemos como irmãs. Aliás, nada sobre para Laura importava além do fato de que minha amiga era lésbica.
O velho e insuportável preconceito.
O medo de que eu pudesse ser “influenciada”.
Deus, não consigo sequer pensar no escândalo que minha mãe faria se eu gostasse de meninas.
Ainda bem que eu não gosto...
Papai pigarreou para cortar o clima.
— O que tem para a hoje, filha?
Afastei meu prato, suspirando.
— Ela tem uma audição... – murmurei, o ânimo se esvaindo de minhas palavras, mas não o bastante para que elas perdessem o valor. – É para uma peça. Ela vai tentar entrar para o teatro da escola...
Do outro lado da cozinha, minha mãe liberou um riso debochado. Fechei ainda mais a expressão, e meu pai até chegou a dizer alguma coisa, mas a raiva não me permitiu ouvir.
As mãos de Gael apertaram meus ombros, e somente este contato me trouxe algum conforto.
Ao menos o bastante para que eu não instaurasse o caos naquela casa.
— Vamos indo, irmãzinha? – indagou quase em meu ouvido. – Ou ainda precisa fazer algo por aqui?
— Não. – disse firme, arrastando a cadeira para trás sem o mínimo de delicadeza. – A escola me espera, não é? Preciso garantir o futuro dessa família. – Repeti suas palavras.
E então eu estava agarrada a Gael, nós dois sobre sua moto enquanto ele corria e gritava pelas ruas da cidade como se nada no mundo – além de um radar – pudesse freá-lo. Por ser um bom idiota, caminhou comigo até a entrada do colégio só porque seu ego adorava ser manjado pelas adolescentes, ainda que seus princípios evitassem que o desejo fosse mútuo.
— Você está legal? – fez questão de conferir, suas palmas em minhas bochechas num gesto que me obrigava a fazer um estúpido biquinho de peixe.
— Tira as mãos de mim – ordenei, minhas palavras saindo num chiado.
Gael apertou os lábios para evitar o riso. Suas mãos desceram para os meus ombros, puxando—me para um abraço.
— Não liga pra mamãe, . – suspirou o conselho. – Você sabe como ela é cabeça dura.
— E o que eu deveria fazer, Gael? – bufei em seu peito. – Ceder às vontades dela e me afastar da como se homossexualidade fosse uma doença contagiosa?
— Só... – ele estalou a língua. – Tenha calma. Vou tentar conversar de novo com a Dona Laura e aos poucos vamos resolvendo essa situação, tudo bem? Não fique emburrada por isso.
— Eu não tô emburrada. – resmunguei.
Gael afastou nossos corpos, suas sobrancelhas erguidas em descrença.
— Nós vamos resolver isso. – assegurou-me, e apenas beijou minha testa antes de ir embora.
Lá dentro, num dos corredores, já me esperava. Mesmo o fato de alguns de nossos amigos estarem ao redor não o intimidava – buscou minha língua com a sua, os dedos se apertando em meus quadris num carinho que precisei recusar por conta de meu mau-humor.
e eu mal nos vimos durante todo o dia, mas combinamos de nos encontrar mais tarde, antes de seu teste.
Confiei que as horas de aula fossem acalmar meus nervos o bastante para que eu ao menos tentasse esquecer as atitudes medíocres de minha mãe, mas flashes invadiam minha cabeça a todo instante, piorando meu estado.
— Se você continuar gorda, nenhum homem vai te querer. – ela havia dito a alguns anos atrás, em tom de conselho, os lábios cheios de veneno sequer medindo as palavras e o modo como soariam opressivas.
— Ótimo!
Não culpo por ter gritado – ela estava tendo um péssimo dia e não era obrigada a aturar preconceitos tão estúpidos sendo arremessados em sua direção.
— Eu não gosto de homens! – riu, um som corrompido por toda dor e ódio que havia em seus olhos tristes.
Desde aquele dia, Laura Castillo havia feito mais que o possível para que eu me afastasse de , porém todas as suas tentativas terminavam em fracasso. Nada no mundo poderia me tirar de Gonzalez, e certamente o contrário também não era uma possibilidade. Ela era uma das pessoas mais importantes da minha vida, e doía muito saber que um pequeno detalhe seu causava tanta revolta na minha mãe. Era um ódio tão infundado, tão patético, que fazia com que eu sentisse raiva.
E não parava por aí: o preconceito de Laura impedia de assumir-se para a própria família por medo que agissem do mesmo modo.
Minha amiga tinha de lidar com tanto...
Ela era forte para caralho, e eu admirava cada minúcia de sua personalidade. se mantinha firme diante de todas as merdas pelas quais era obrigada a passar no dia-a-dia, e, olha não eram poucas. Tanta coisa havia sufocada em seu interior, mas ela não sucumbia. Estava sempre oferecendo a outra face. Gonzalez era divertida, positiva e se doava ao ponto de fazer qualquer coisa como se tivesse nascido para isso.
E talvez ela realmente tivesse.
era perfeita em tantas maneiras impressionantes. Sempre foi corajosa e superior às adversidades. Era incontestável que toda a recriminação que sofria, seja por seu peso ou sua sexualidade, causava estragos enormes em seu psicológico e emocional, mas as maiores perdas sofriam os que não tinham a oportunidade de amar o ser humano incrível que vinha a ser Gonzalez.
Quando ela me contou sobre a proposta de Tiago para que fizessem a audição juntos, eu quase pulei de alegria. Tudo bem, o garoto era um lunático que a arrastava para ensaios em todo ínfimo instante que tínhamos entre as aulas, além de prendê-la na escola depois do horário, mas... estava confiando em alguém para cantar! Soltar a voz poderosa que traduzia sua belíssima alma. Aprimorá-la para que estivesse devidamente polida até a apresentação. Até sua vitória.
Não havia nada que eu desejasse tanto quanto a felicidade de .
Cantar elevava sua autoestima e colaborava para uma aceitação interna. E sempre foi isso o que realmente precisou para sentir-se plena: aceitar a si mesma.
— Cadê a ? – me perguntou em sua usual voz de bêbada (ainda que só tivesse ingerido Toddynho durante toda a manhã).
Estávamos no vestiário feminino após o ensaio da torcida. Rivera arrumava o cabelo no espelho, e virei-me para olhá-la através do objeto. Ela tinha um corpo lindo, marcas claras de biquíni contrastando com sua pele oliva e descendo um caminho por dentro do top, este de um tecido preto e tão fino que deixava sobressaltar os piercings nos mamilos de . Meu olhar ficou preso no local por alguns segundos, o que me fez chacoalhar a cabeça e perceber que havia segurado o fôlego.
Mas eu não era lésbica. O detalhe é que foi provocativo.
— Tiago raptou a . – respondi, um sorriso de lado se erguendo por educação. – Você sabe, o teste é mais tarde e ele...
— Quer que tudo esteja perfeito. – completou minha frase fazendo uma imitação cômica de Tiago Moreno. – Tadinha da quando eles conseguirem esse papel. – Ela enrugou o nariz, olhando—me de relance para registar meu riso conjunto.
esperava por nós quando saímos do vestiário. Ele tinha o péssimo costume de não tomar banho após os treinos porque sempre ficava na escola até depois do horário para jogar bola com o pessoal da tarde (ou qualquer um que tivesse pelo menos duas patas, inclusive pombos). se despediu quando viu o carro da irmã, seus braços envolvendo meu corpo de um jeito delicado e fugaz.
Assim que e eu ficamos sozinhos, ele abriu a boca de um jeito que me preocupou, mas antes que tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa, se juntou a nós.
— Não acredito que você sempre fica assim na frente da ! – jogou a mochila aos pés do irmão, bruta e barulhenta de modo que todas as suas entradas fossem triunfais. arregalou os olhos. – Achei que o pôster no seu quarto fosse pra se acostumar com tudo isso. – indicou meu corpo com uma reverência, seus olhos seguindo o movimento, os dentes mordendo o lábio inferior – E não agir como um fanático, mas subestimei você, Encosto.
— Vai pro inferno! – desejou .
— Sou a rainha dele, querido. – lembrou piscando os olhos verdes.
— Aproveita e queima, hm? – sugeriu seu irmãozinho.
— Você não sabia? – ela o ignorou e sorriu largo, virando-se para mim. Seus olhos estavam comprimidos para escapar do sol, que abria devagar. – Ele tem um pôster seu.
— É só uma foto... – tentou se defender, a voz um resmungo baixinho.
— Daquele tamanho? – Virou-se num ímpeto.
Ela conseguiu me fazer rir com gosto, e foi a primeira vez que me senti bem desde o incidente com Laura, mais cedo naquele dia. nunca tinha a intenção, mas sempre melhorava o meu humor. Aproveitei que estava de costas para mim e passei as mãos pela sua cintura, apoiando o queixo num de seus ombros. Ela deu dois tapinhas na minha cabeça e riu pelo nariz.
, querida, quantas vezes eu vou precisar dizer? – afastou minhas mãos de sua cintura como se tivesse aversão ao contato. – Meu velcro não encaixa no seu.
Ri mais alto, meneando a cabeça. piscou um olho, exibindo aquele seu sorriso misterioso, mas continuou quieto. Seus dedos arranhavam uma falha na pintura da parede, e o sorriso mal conseguia erguer por completo um dos cantos de seus lábios.
? – chamei a atenção dele. – O que houve?
Ele ergueu os olhos até os meus.
Foi pesado.
Foi negativo.
O calor geralmente transmitido por seu olhar não existia, e logo eu percebi que havia algo de errado.
estalou a língua.
— Então... – juntou a mochila, passando-a por um dos ombros e começando a andar para trás. – Preciso dar banho no meu cachorro...
Ela não tinha um cachorro.
umedeceu os lábios, observando a irmã se distanciar e consequentemente tardando a responder minha pergunta.
O gosto amargo em minha boca voltou, e a aura pesada em torno de somente conseguiu intensificar o modo horrível como eu estava me sentindo desde o café-da-manhã.
— Dá pra me dizer logo o que aconteceu? – pdi sem paciência.
mirou meus olhos com espanto em sua expressão.
— Está irritada?
Era tão a cara dele perguntar o óbvio que sequer me dei o trabalho de responder.
chacoalhou a cabeça, o olhar amaciando.
— Estou preocupado com você. – finalmente disse.
— Você sempre está preocupado com alguém. – fui rude ao afirmar.
tinha aquele complexo de Príncipe Encantado. Quando eu estava de bom humor, até apertava suas bochechas por achar fofo o modo como se sentia responsável por nós, mulheres de sua vida, mas eu não estava de bom humor hoje.
E não era bonitinho pensar em garotas como seres humanos incapazes de cuidarem de si mesmas sem um homem.
— Eu estou falando sério, . – ele engrossou a voz. – Você precisa ter mais cuidado!
— Em relação a que, ? – perguntei, exausta, a cabeça meio que jogada para trás enquanto eu revirava os olhos.
— A que? – ele repetiu. – Ao , que tal?
Recuperei a postura.
Ele não podia estar falando sério.
— Você não acha que estão indo rápido demais? Você nem sabe quem ele é!
— Não sei quem ele é? – meu riso foi presunçoso. – Eu e você nos conhecemos há tanto tempo quanto eu o conheço, . Ou esta informação te escapou?
— É diferente! – ele ergueu um dedo. – Você está se jogando de cabeça sem ao menos questionar as intenções dele! Sem se perguntar o porquê, depois de tanto tempo...
! – cortei-o com a voz firme. – Será que você pode parar? Qual é o seu problema, porra?
— O meu problema é não querer te ver machucada, !
— Então por que você está tentando arruinar isso? – quase gritei. – Sabe que eu gosto dele. Que gosto de verdade!
— E ele sempre esteve por perto! – gesticulou, uma tentativa de se expressar melhor que me pareceu patética. – Sem foder, mas sem sair de cima. Por que isso mudou agora, ? De repente?
— Porque a gente se gosta, ! – joguei as mãos para o alto, na altura do peito dele, e minha voz se descontrolou por completo. – Para de ser desconfiado! Tá tudo certo entre a gente, então não precisa se preocupar por mim, ok? Não precisa tentar arruinar o meu relacionamento só porque você é tão paranoico que não consegue ter nada com ninguém. Eu sei que você tem muito tempo livre e adora bancar o herói, mas deixa eu te contar uma coisa: não é seu dever salvar o dia! Eu posso salvar o meu sozinha, mas dessa vez não tem nem o que salvar. Está tudo seguindo perfeitamente bem, e eu não preciso de você.
respirava pela boca, mas eu não me importei com o que aquilo poderia significar e apenas lhe dei as costas.
esperava por mim em algum outro lugar.



Capítulo 4


Por Soto

Eu tinha uma filosofia de vida.
Pianos eram melhores que pessoas.
Em pianos meus pequenos dedos podiam flutuar e reproduzir Tocata e Fuga em ré menor. Pessoas podiam julgar–me satânica por isso.
Tudo bem, não era por isso. Talvez meu vício em literatura trevosa ajudasse.
E minhas roupas.
E minha aversão a contato social.
E...Bem, tanto faz. Quero dizer que pessoas podem prejulgar cada pormenor, e isso machuca profundamente (pelo menos no meu caso). Mas o ponto é que ninguém parece se importar. Como se não fizesse diferença refletir um “hey, será que aquele ser humano precisa de ajuda?” quando você simplesmente pode rechaçá–lo por não ser adepto ao senso comum.
Por isso eu preferia os pianos.
Música não podia me machucar porque eu era música. E não podemos machucar a nós mesmos, certo?
Ou será que podemos?
Meneei a cabeça e continuei tocando.
O teatro começava a encher, e o piano me acalmava muito mais que a perspetiva de estar na presença de todos aqueles juízes medíocres.
Quem dera eles apenas me julgassem satanista, porque com isso eu poderia lidar. A merda do Estado era laico, não?
! – Clara Xavier acenou enquanto se aproximava. Ela tinha um jeito engraçado de andar, como se não quisesse ser notada em toda sua majestade, então abraçava alguma coisa sobre o peito e olhava para baixo. – Tem tanta gente aqui!
Retribuí seu sorriso porque Clarinha era uma exceção à minha regra sobre os pianos e pessoas.
– Acho que este ano a Rosa enlouquece. – comentei. Rosa era nossa professora de inglês, mas também comandava o teatro do colégio. Fazia as duas coisas com bastante competência, e era um amor de pessoa – outro desvio à norma.
Clara escondeu o riso com a mão, um detalhe adoravelmente charmoso, como tudo o que ela fazia.
– Quer ver a lista de inscritos? – Ofereceu–me um papel.
Clarinha era a assistente da professora. Ajudava com detalhes da direção, com o roteiro, a selecionar os mais indicados para cada papel e mais um monte de tarefas que concluía eficientemente.
Sem parar de tocar, inclinei o rosto para dar uma olhada na lista. Era bem óbvio que eu não conhecia quase nenhum dos nomes ali impressos, mas não quis ser mal–educada com Clara. Ela sempre se esforçava para ser gentil comigo, e éramos boas amigas além de “colegas de trabalho”.
Meus olhos registraram o nome de – estrela do futebol do colégio e o desastrado que sentava à minha frente nas aulas de química – quase no mesmo instante em que ouvi sua voz atrapalhar o som de meu piano. Ele se aproximava com um grupo de amigas – , uma das líderes de torcida, , sua fiel escudeira, e uma morena que eu não fazia ideia da existência até aquele instante –, todas com caras fechadas.
– Eu também vou fazer o teste! – agitava os ombros de , tentando contagiá–la com seu enorme sorriso aparelhado. – Tenta não ficar nervosa!
– Acho que agora ela consegue, hein?! – A morena desconhecida ironizou num tom bem alto, e assim mostrou os polegares. – Caramba, , se você não falasse, acho que a nunca pensaria nisso!
– Engraçadinha. – O jogador fez uma careta erguendo apenas os lábios superiores, mas eu realmente ri da piada feita pela morena, e talvez isto tenha chamado alguma atenção, já que os olhos misteriosos não muito discretamente começaram a secar o local onde eu estava.
Virei-me de volta para o papel de Clarinha, mas sem deixar de observar o grupo pelo canto dos olhos.
A estranha deu algumas cotoveladas em .
– Quem é o gatinho no piano?
Meus dedos escaparam das teclas.
Quem é o gatinho?
, meu Deus... – olhou em minha direção. – É uma garota!
Gatinho.
Ela me chamou de gatinho.
No masculino.
Eu já estava acostumada a confundir as pessoas. Quer dizer, os padrões sempre disseram que meninas deveriam usar cabelos longos e roupas que realçassem seus atributos físicos, e então eu aparecia com meu corte “de homenzinho” e peças largas preenchendo todo o vestuário.
O problema era quando usavam estas informações contra mim. Como se fosse problema meu pessoas resumirem todo um gênero no modo como se vestia, sentia ou portava.
De novo, por que razão eu as escolheria em vez de pianos?
? – Clarinha chamou minha atenção.
Ela sabia.
Nunca havíamos sequer conversado sobre isso, mas Clara Xavier era boa em pegar a minúcia. Por isso inclusive era a favorita da professora Rosa.
O modo como sorriu para mim foi acolhedor. Seus olhos brilhavam em ternura, e por um momento eu pensei se a abraçar ajudaria na absorção de tudo o que carinhosamente tentavam transmitir a mim.
Clarinha era minha fé na humanidade.
Seu sorriso apenas ficou ali por um tempo, e eu meneei a cabeça como se as palavras da tal não tivessem me afetado.
– Você não sabe! – Clara mudou de assunto, distraindo–me. – Tiago Moreno vai tentar o papel principal. De novo.
– O que? – Arregalei meus olhos. – Ele vai ter coragem?
– Ah, tadinho! – Ela riu daquele jeito de novo, cobrindo a boca. – Eu espero que ele consiga!
– Clarinha! – Repreendi-a. – Tiago está em todas as peças mesmo que não consiga um papel. Ele é um desequilibrado!
– Não exagera... – escorou-se um pouco no piano. – Ele só é meio agitado...
– Meio?
Eu ainda estava rindo quando Rosa anunciou o começo dos testes. Clara foi para perto da professora e eu mergulhei na solidão de novo, entregando–me completamente ao piano e às diferentes melodias que me foram listadas.
Havia vozes muito boas concorrendo aos papéis para o musical. Bem, exceto pela de . Mas como cantava mal, a criatura! Seu timbre era tão estável quanto o de um ganso. Mas, no fim das contas, acho que teríamos espaço até para ele.
Quando a vez de Tiago e seu par chegou, houve um pequeno rebuliço porque a menina que cantaria com ele era . Por isso havia tanta gente com ela – eles precisaram por longos minutos tentar convencê–la a subir ao palco, e Rosa quase perdeu a paciência. Para disfarçar – ou talvez só porque fosse um cara antipático – Tiago veio a mim fazer algumas ressalvas sobre o fim do dueto que cantariam. Era uma música romântica de Michael Jackson e Siedah Garrett chamada I Just Can’t Stop Loving You.
ficou mais atrás, de cabeça baixa, enquanto Tiago e sua pronúncia perfeita começavam a performance. Ele estava usando terno, detalhe um tanto quanto patético para uma simples audição de Ensino Médio, mas se o ajudava a sentir–se seguro, quem era eu para dizer algo sobre isso? Seu cabelo cuidadosamente penteado e atrás das orelhas era outra particularidade intacta do visual. Mas, para nós, do teatro, não era a aparência o que contava – Tiago havia ganhado pontos pelo modo impecável como interpretara suas estrofes, além da paixão com que o fez.
E então veio .
A voz dela me surpreendeu de um jeito muito positivo.
Começou baixa, tímida, mas enquanto ela andava para frente, os olhos fixos em Tiago, seu tom foi ganhando mais força até erguer–se poderoso para o refrão. tinha um agudo tão estável, um jeito tão tranquilo de mostrar a potência de sua voz. O modo como conectou-se com Tiago também foi muito bonito – elas cantavam um para o outro, e o palco os acolheu como se estivessem em casa. A música seguiu com cada vez mais intensidade, brasa corrompendo todo aquele dia frio, e quando eles terminaram a apresentação eu só tentava responder a mim mesma por onde andara em todos esses anos.
Ergui-me com vigor e iniciei a salva de palmas.
gritava elogios a . A professora Rosa olhou feio para ele, mas estava batendo palmas também, parte de si claramente em deleite com uma apresentação tão calorosa.
Tiago Moreno sorria com certo orgulho quando se dirigiu à professora:
– Aonde pegamos o texto?
Meus olhos buscaram Clarinha e ela cobria a boca, rindo junto a mim.
– Menos, Tiago. – Rosa sabia quem ele era. Qualquer um no teatro poderia dizer seu nome. – Vamos fazer uma pausa de quinze minutos antes dos próximos – anunciou a professora para os que restavam na fila. Depois voltou–se para Clarinha, apontando para seu colo, onde havia alguns papéis, e então para Tiago. – Entregue o texto a eles – exigiu. – O teste final é na semana que vem, no sábado de manhã. Boa sorte.
Estiquei as mãos para estalar os dedos.
Atrás das cortinas, abraçava com carinho e, estranhamente, eu gostaria de fazer o mesmo – com , não . Não que tivesse algo de errado com a líder de torcida, mas eu tinha uma cota para contatos físicos e havia me tocado de uma maneira surreal com sua voz e força para subir ao palco. Ela brilhou e eu sentia a necessidade de parabenizá–la.
Foi por isso que deixei o piano.
Eu só havia me esquecido de que não eram apenas e .
Tiago, e também estavam presentes, apesar de não muito próximos.
Tiago no auge de sua hiperatividade.
comemorando a perspetiva de uma estreia no teatro.
e o olhar indiscreto devorando cada porção visualmente oferecida do gatinho.
Nossos olhares se cruzaram por um pequeno instante, o dela e o meu. tinha o cabelo muito escuro e os olhos muito claros, causando um contraste interessantemente belo. A pele era pálida e o pescoço apertado por uma gargantilha que desejei ter sido o bastante para sufocá–la e não permitir que sorrisse para mim, porque, merda...que sorriso mais lindo a garota tinha. Iluminava seus traços até torná–los estonteantes. parecia uma pintura, Vênus nascendo por si mesma de um modo mais nítido e obscuro, rasgando a realidade em todo seu cinismo.
Mas beleza não era tudo.
Aliás, beleza era nada além de uma casca. E cascas não me interessavam.
? – Cutuquei de leve seu ombro mais próximo. Gonzalez ergueu o rosto, algumas lágrimas ao redor de seus olhos confusos. – Eu sou Soto, a pianista... – apontei para trás com o polegar, indicando meu instrumento. – Você foi ótima!
O sorriso que ela me ofereceu foi tímido, surpreso e puro.
– Muito obrigada... – balançava a cabeça, desconcertada, as costas das mãos limpando os olhos. me piscou um olho e deixou–nos a sós. – Muito obrigada mesmo, .
E foi aquilo.
Eu lhe sorri de leve, sem saber o que mais poderia fazer.
Sempre fui péssima para lidar com pessoas.
– Bem, eu... – voltei a indicar meu piano, usando–o como desculpa para fugir dali, mas duas mãos firmes apertaram meus ombros.
Era Clarinha.
veio te dar os parabéns? – Perguntou a enquanto passeava os olhos por nós duas. A cantora assentiu, uma das mãos massageando a própria nuca. – Você também me impressionou! – Clara tinha um sorriso pequeno, meio tímido por também não ser muito boa com desconhecidos. – Olha, aqui está o texto – estendeu a algumas folhas grampeadas. – É uma cena do começo da peça, nada demais. – Propôs-se a muito rapidamente explicar. – Você e Tiago...
– Com licença. – Moreno subitamente surgiu para arrancar os papéis das mãos de Clara. Ela ergueu as sobrancelhas ao encará–lo, mas o garoto não parecia ter feito por mal. Seus olhos arregalados corriam pelas páginas e ele apontava com frenesi para as folhas de , pedindo a ela que também começasse a ler, bem ali. – Nós precisamos começar os ensaios agora!
Clarinha e eu nos entreolhamos, certamente a mesma dúvida em nossas mentes: aquele lunático estava sendo literal?
– Olha, essa é a música – Tiago enfiou o ofício no rosto de apenas para num gesto rápido o levar de volta ao seu próprio. – Que bom que eu já tinha pensado em tudo! – Percebeu, orgulhoso. – Eu tenho curso de inglês segunda, quarta e sexta, incluindo hoje, isso depois do almoço. E toda noite tem culto na igreja. Então vamos precisar ensaiar entre esses dos horários, na minha casa porque temos alguns instrumentos, meu pai toca na igreja e...
– Tiago...Calma. – Sussurrou , preguiçosamente tentando acompanhá–lo. – Não vamos atrapalhar?
Ele abaixou as folhas por um instante, sorrindo.
– Não se preocupe. Já esquematizei tudo.
Sem o consentimento dela.
Vindo de um homem, por que isso não me surpreendia?
Se se sentiu incomodada, não demonstrou. Mas Clarinha cotovelou minha barriga, dirigindo–me um olhar de ultraje.
– Durante o intervalo entre as aulas nós vamos intercalar entre a música e o texto – prosseguiu Moreno. – Precisamos arrumar um local fixo onde ninguém possa interromper.
– Não é muito pouco tempo? – Indagou .
– Uma semana? Eu também acho!
– Eu digo entre as aulas, Tiago... – Ela mordeu um lábio, seus olhos começando a buscar algum tipo de ajuda nos amigos.
– Bem, é verdade – seu parceiro refletiu. – Você não quer ir comigo à igreja e ensaiamos depois do culto, também? Até a hora que eu preciso dormir...
– A é ateia.
Finalmente alguém o fez parar.
Mas parar de verdade, sua atenção inteira voltada para algo além de si mesmo.
E foi a voz dela.
.
Chegou apoiando–se num dos ombros de e sorriu largamente para Tiago. Parecia ter sido sua intenção o chocar para que ele calasse a boca.
– Você é louco? – Perguntou o que provavelmente todas nós queríamos ter dito. – Vai sobrecarregar vocês dois.
– E você entende o que sobre teatro, mesmo? – Tiago forçou um sorriso.
– Eu entendo sobre saúde humana – ergueu a voz, seu peito estufando. – E sobre trabalho em equipe. Em momento algum você pediu a opinião da .
– Você acha que ela está cantando comigo por quê? – Tiago rolou os olhos.
– Essa não é a questão, seu idiota...
– Você não consegue ser um pouco menos agressiva? – Ele avançou um passo.
– Não, não consigo – aproximou–se dois. – Mas eu tenho um limite que você talvez queira conhecer.
Clarinha riu baixo.
puxou pelos ombros.
, calma aí – pediu num suspiro. – Por favor, não me deixa mais nervosa.
– Então diz alguma coisa, ! – Agitou os braços. – Você pode cantar com ele mas pode muito mais exercer seu livre arbítrio!
Acho que sequer perceberia se eu fugisse daquela confusão.
Aposto que Clarinha estava louca para retornar às suas atividades, também.
Mas nós trocamos um longo olhar e por alguma razão desconhecida permanecemos ali.
Tiago passava uma mão na testa.
– Olha... – , com calma, se dirigiu a ele. – Não acho que sua rotina vai funcionar pra mim. Eu também tenho coisas para fazer essa semana... – Tentou explicar. – E, mesmo que seja por uma boa causa, minha mãe não gosta que eu fique fora até de noite. Você sabe como a cidade anda perigosa...
Moreno assentiu, apesar de visivelmente chateado.
– Então o que sugere?
abriu um sorriso grato.
– Podemos ensaiar na sua casa na terça e na quinta, quando você não tem curso. Isso nos dá umas boas horas, certo? Podemos ver algo para fazer nesse fim de semana, também, eu estou livre. Já nos outros dias...eu não sei...
Tiago soltou o ar com força, preparando–se para se opor.
E foi aí que eu percebi que podia fazer alguma coisa por .
Livrá–la do que poderia tornar–se um fardo e assegurá–la quanto ao sucesso.
– Você pode ensaiar comigo nos outros dias – sugeri, a mão direita erguida.
Foi muito rápido.
Tudo no que pensei foi em ajudá–la.
Em dar apoio.
Resolver o conflito com Tiago.
– Eu tenho um piano em casa e fico livre a tarde inteira, depois das nossas aulas.
Merda.
Sequer nos conhecíamos.
Como eu tive coragem de oferecer minha casa? Sem nem consultar a minha mãe!
Travei os dentes para me impedir de falar mais alguma coisa, os olhos fechados para pedir a Satanás que me ajudasse a desfazer aquele acerto para com a humanidade. De prontidão foi–me mandada a ideia de acrescentar algo que colocasse minha anterior proposta em dúvida, mas cometi o erro de abrir a boca no mesmo instante em que erguia os olhos para .
A expressão dela era totalmente desacreditada, mas, de algum modo, feliz.
Como se estivesse reafirmando o agradecimento que me oferecera quando a parabenizei.
Como se enfim tivesse a certeza de que eu confiava no potencial dela.
Suguei o ar pela boca aberta, meu rosto e ombros se movendo.
– Podemos começar hoje – foi o que eu disse, em vez de qualquer outra coisa ruim que possa em algum momento ter cogitado.
– Você tem certeza? Quer dizer... – riu, se aproximando um pouco mais. – Tem certeza de que...
– Tenho certeza – menti com um sorriso. – Talvez até a Clarinha possa dar uma mão, não é? – Tentei enfiá–la na merda.
– Na verdade, eu...
– Então vocês começam hoje? – Intrometeu–se Tiago, fitando alguma coisa na tela do celular. – Eu preciso ir ou vou me atrasar pro curso – explicou.
– O que tem hoje? – Chegou , um braço enlaçado na cintura de , ele com o maior sorriso do universo.
– Ensaio na casa da pianista – apontou para mim.
– Hoje? – O jogador quase berrou. – Mas já?
– Eu te ligo à noite, – prometeu Tiago. – Decidimos sobre o fim de semana.
– Por mim está ótimo! – Ela parecia mais segura e animada. – , você está livre hoje, não é? E você, ?
Como assim?
Eu só tinha convidado a .
Eu só queria ajudar a .
Fazer uma boa ação para salvar minha alma.
Direcionei um olhar arregalado a Clarinha.
– Ah, , eu não sei... – brincou com a trança da amiga.
– Você sabe como eu preciso de você – confidenciou. – Ajuda a me soltar. E sua aprovação é importante.
– Não faz essa carinha! – A líder de torcida apontou um dedo à cantora. – Você não precisou de mim lá em cima, precisou? Quando fez o queixo de todo mundo cair com todo esse talento!
Elas riram uma para a outra, se abraçando com um carinho quase fraternal.
– Vocês só esqueceram de que a casa é dela – apontou para mim mais uma vez. Para o gatinho. Sorriu de lado ao perceber que havia atraído minha atenção, mas mantive–me indiferente aos seus encantos. – , tenha um pouco de bom senso. Não fomos convidadas.
Mas que língua descontrolada!
Instaurou–se um silêncio constrangedor e pela segunda vez eu quis que perdesse a vida.
Qual era o problema dela?
Mesmo que eu não estivesse confortável por todos terem se sentido convidados...quer dizer...o mínimo de educação me faria segurar tais pensamentos.
Mas já havia demonstrado fazer o tipo que expõe.
Ou o tipo que não tem noção.
Inferno.
– A casa é minha, mas o show é da – dirigi–me à novata, tentando não soar muito rude. – Acho que ela ficaria mais à vontade na presença das amigas, não é?
– Não, , você não precisa fazer isso... – rapidamente interveio.
– Vai ser divertido! – Esforcei-me para sorrir.
– Você tem certeza?
– Você diz muito isso, não é, ? – Sem saber direito o que fazer com as mãos, dei um soquinho no ombro dela. – Cabem cinco no meu carro. Se importa, ? – Excluí o único menino, que deu de ombros.
Iupi! – Gritou , dando um pulo.
deu uma risada gostosa que me contagiou.
Talvez ela também fosse uma exceção à regra sobre a supremacia dos pianos. Especialmente porque, até agora, elas só haviam sido mulheres, mesmo.



Capítulo 4.1


Ai, meu Deus! Eu amo essa música!
Apertei os dedos no volante.
Eu sequer me lembrava de ter permitido que ligassem o rádio e Castillo já empurrava as outras meninas, esticando o braço para aumentar o volume.
– Eu também! – Clarinha se virou para o banco de trás, uma merda de gritinho surpreso e cúmplice ao passo em que começava a bater palmas no ritmo da canção.
Havia um poste a alguns metros e meu pé formigou no acelerador.
Tu que passa um batom, ó mestiça, pra se dissolver num baile – cantou a líder de torcida aos berros. Pelo retrovisor, notei que revirava os olhos para a animação, mas o detalhe não impediu que lhe fizesse uma reverência ao cantar: – E a magrela branquela esculpida em cálcio desfila nas ruas.
A novata sorriu de lado, descruzando os braços.
– Vai, !
A gordinha delícia do corpo perfeito encarando o traje – atendendo ao pedido, cantou entre risadas, passando as mãos pelas laterais do corpo.
Meus olhos focaram no poste.
Bastava guiar o volante um pouquinho para a esquerda e afundar meu pé no acelerador para que eu enfim matasse aquelas criaturas berrando nos meus ouvidos. Mas jogar o carro no poste só faria com que elas gritassem mais, então segui no limite de velocidade da via.
e tremeram os ombros em algum tipo de dança bizarra. As duas interagiam para interpretar a canção, suas vozes carregadas com um sotaque divertido, a mão de uma deslizando pelo queixo da outra a cada mísera chance, e eu não descobri o porquê deste detalhe. Mas era bonita de assistir, a conexão entre elas. Tanto que conseguiram me arrancar um sorriso ou dois e, à altura do refrão, até mesmo Clarinha cantarolava, batucando na janela e vez ou outra cobrindo o riso com as mãos.
Crioula! – Gritou . – O QUÊ?
Negona! balançava os seios para . – VAI!
Ó deusa! – Arriscou Clarinha.
Crioula! Melanina, mel, amor!
Umedeci meus lábios com a língua, a cabeça meneando enquanto tentava vislumbrar a bagunça no meu banco de trás. Mas, em vez disso, olhos verdes e um meio sorriso invadiram meu campo visual.
Devia ser a quarta ou quinta vez que eu pegava encarando a mim. Ela fazia questão de deixar aquilo claro, sustentando meu olhar e sorrindo de um jeito audacioso até que eu me voltasse para o trânsito à nossa frente.
Por alguma razão sua insistência me incomodava. Afinal, por que a peste ria tanto? Era engraçado, para ela, eu me parecer com um moleque? Havia alguma piada em decidir, com base no senso comum, que eu era uma aberração mal inserida no gênero feminino?
Mas não me deixaria nervosa. Nem com raiva. Eu não estragaria a tarde de .
Bem, eu.
Quando estacionei na frente de casa, as meninas ainda conversando aos gritos, minha mãe esperava junto à porta, seus braços cruzados sobre o peito. Saí do carro com certa pressa, querendo correr para dar à senhora Soto uma boa explicação por estar promovendo um mini evento em nossa casa sem que ela consentisse, mas mamãe apenas recuperou a postura e me deu as costas, entrando em casa.
Satanás.
– Gente... – chamei, meio sem jeito, mas e faziam barulho até para sair do carro. Insisti, mais alto: – Gente!
, está tudo bem? – Clarinha me abraçou de lado, pelos ombros, envolvendo–me com o cheiro de maçã em seu cabelo. Ela me transmitia paz.
Suspirei profundamente.
Meu plano era deixar as meninas na sala, bem-comportadas, enquanto minha mãe arrancava o meu coro na cozinha. Expliquei isso a elas – omitindo a parte sobre Amélia Soto provavelmente já querer expulsá–las antes mesmo de saber seus nomes – e com calma fomos caminhando até a entrada de casa, minha respiração mantendo um ritmo satisfatório.
Eu só havia me esquecido de um pequeno detalhe: meus pensamentos haviam feito uma invocação do mal.
Eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas de vez em quando aparecem umas crianças que me fazem acreditar em Satã.
Lúcio era uma delas.
Quando entramos, as cinco, o garotinho estava sentado num dos degraus da escada. Seu tom de pele era tão assustadoramente branco que pendia para o amarelo; toda vez que o olhava eu podia jurar que o menino ia padecer de anemia. Não fossem pelas sardas caminhando entre seu nariz e bochecha, ele facilmente poderia ser confundido com uma aparição fantasmagórica. No entanto, pequeno, gordinho, barulhento e nada mítico, Lúcio conseguia ser apenas uma criança endemoniada que me chamava de irmã.
– Ai, meu Deus, quanta gente! – Ele arregalou os olhos, seu rosto espremido entre duas das barras de apoio na escada. – Eu quero ser amigo de todas vocês!
O riso grave às minhas costas pertencia à .
Lúcio correu degraus a baixo antes que eu pudesse notar que ele estava só de cueca, as tetas balançando no ar.
– Lúcifer! – Repreendi–o, mas ele já agarrava , a cara enfiada no osso do quadril dela. – Garoto, eu vou te matar!
– O meu nome é Lúcio, mas a me chama de Lúcifer.
ria tanto que dava tapas na própria coxa. Clarinha cobria os lábios.
– É por que você é branco como uma estrela da manhã? – A líder de torcida acariciou os cabelos dele.
– Não, é porque eu sou o Diabo – respondeu o menino com a maior naturalidade.
Escondi o rosto entre as mãos.
– Então eu sou sua devota por todos esses anos? – se fez de espantada. – Hail, Satan! – Ainda dramatizou, avançando para segurar o rostinho redondo.
As meninas quase gritaram de rir, Lúcio sorrindo meio banguela por ser a atração principal. Seria um perigo deixá–lo sozinho com todas elas, mas eu não tinha escolha. Amélia Soto e seu olhar severo estavam à porta da cozinha, acenando para solicitar minha presença. Avisei às garotas que logo voltava, mas acho que, desta vez, nem mesmo prestava atenção em mim.
Lúcifer as entretinha.
E foi graças a ele que ninguém notou quando a senhora Soto agarrou meu braço, arrastando–me até o próximo cômodo para encurralar meu corpo no balcão.
– Por que você trouxe tudo isso de garotas para dentro da minha casa? – Seu tom firme alongava algumas sílabas entredentes. – O que você pensa que está fazendo, ? Perdeu a cabeça? Perdeu a porra do respeito?
Meu coração batia forte.
Abri a boca por conta da indignação, mas também na tentativa de formular algum tipo de resposta para aquela loucura, o que não pude fazer tão depressa quanto gostaria.
Eu acho que o grande problema entre minha mãe e eu sempre foi a falta de diálogo. Ela tinha a mesma visão infundada e preconceituosa da maioria das pessoas, mas nunca se importou em conversar comigo sobre isso.
Nunca.
– Mãe, – sussurrei contendo o embargo na garganta, meus ombros escolhidos graças à hostilidade da mulher à minha frente – elas são do teatro. Não têm onde ensaiar e eu pensei que seria uma boa ideia usar o nosso piano. Mas eu posso dizer para todas irem embora, se você preferir. Não achei que ia ser um problema tão grande.
Amélia Soto expirou pesadamente. Afastou–se de mim alguns passos, as sobrancelhas suavizando.
Se antes fora vinho, era agora a mais pura das águas.
– E quanto ao seu irmão?
– Eu conheço as minhas responsabilidades. – havia certa raiva em minha voz. – Pode ir trabalhar tranquila. Eu posso fazer as duas coisas: ensaiar com as meninas e olhar o Lúcio.
Ela assentiu.
Virei o rosto quando percebi que seus lábios viriam de encontro à minha testa, porém Amélia segurou meu queixo com força, trazendo–me de volta e despedindo–se com um beijo carinhoso. Ouvi quando ela chegou à sala, cumprimentando cada uma das garotas como se nada tivesse acontecido.
Meus olhos arderam.
Meu coração ardia.
Tranquei–me no banheiro dos fundos e enfiei o rosto na pia, sob o jato de água, mas a raiva era tanta que comecei a soluçar baixinho.
No espelho, meu reflexo era tudo o que temiam: um garoto maltrapilho, seu cabelo amontoado como um ninho, fios curtos que se uniam às sobrancelhas espessas. As sombras dos olhos escuros se traduziam em severas olheiras que arroxeavam parte do que só era palidez. O corpo, muitos quilos acima do que era considerado esbelto, escondia seios fartos dentro de um moletom alguns números maiores, adquirido na seção masculina porque era onde havia um design ao seu gosto.
Por que a imagem era tão importante para a maioria das pessoas?
O que se levava em conta para decidir se uma figura era adequada?
Eu nunca soube.
Críticas sempre foram somente o que se dispunham a fazer em relação a mim.
Não havia um porquê racional. Eu só não devia ser aquilo. Não tinha o direito de rejeitar o que a sociedade considerava feminino sem que isso me transformasse numa sapata caminhoneira – título que, para minha mãe, soava quase tão pavoroso quanto uma Guerra Nuclear. A única explicação que ousavam me oferecer – quando decidiam se esforçar para isso – era uma espécie esquisita de silogismo.
cisma em praticamente raspar a cabeça. Garotos raspam a cabeça. é um garoto.
Não obstante, mamãe era capaz de transcender o estereótipo de gênero e adentrar o campo da minha sexualidade, unindo uma coisa à outra. Porque se você é um garoto, supostamente deve gostar de garotas. E isso era o que mais preocupava Amélia. Que, além de ser um menino, sua filha a envergonhasse admitindo que curtia vaginas.
Passei as costas das mãos com força pelos meus olhos, limpando as lágrimas como se novas não estivessem prontas para cair no mesmo instante.
Eu precisava tanto de apoio.
De uma direção.
Tudo o que minha mãe fazia era impor. Amélia sequer se esforçava para entender quem eu era, e por isso nunca me havia aceitado, de fato. Passava muito mais tempo preocupada em me obrigar a agir de uma maneira que ela pudesse se orgulhar, ainda que isso significasse a opressão de todos os meus ideais.
Minha mãe me destruía.
Eu a amava o bastante para tentar agradá–la em tantos modos, mas bastava eu edificar algum plano, erguer–me e aceitar–me de um modo distante do que ela gostaria, e era destruída.
E tudo por não usar vestidos floridos e pranchar um longo cabelo.
Garotas não podiam ser definidas por detalhes superficiais!
Éramos tão mais complexas que isso.
Tão mais fascinantes.
Mas, ainda assim, foi por não possuir a imagem de uma que me desqualificaram para o gênero.
Me desqualificaram para a vida.
Sentada ao chão do banheiro, controlei o choro e aguardei por alguns momentos até que meu rosto abandonasse a vermelhidão. Pode ter demorado dez minutos ou uma hora inteira, mas ninguém parecia ter notado minha ausência quando retornei à sala. As garotas estavam em perfeita ordem – e ensinando alguma coreografia de girlband para o meu irmão, Clarinha com os dedos sobre a boca e ao fundo, sorrindo em silêncio.
– O que você faz no teatro? – Ela perguntou à Clarinha, mas seus olhos acompanhavam meu movimento até o piano.
– Ah, um monte de coisas para ajudar a professora! – Clara cruzou as pernas em cima do sofá. – Mas desde o ano passado eu estou ajudando a escrever esta peça pra qual a fez o teste. – admitiu.
– Jura? – sugou o ar audivelmente, surpresa. – Então você escreve?
Clarinha abaixou a cabeça, suas mãos sinalizando um humilde “mais ou menos”.
– A professora Rosa ama a maneira como a Clarinha pensa – fiz–me ouvir, o sorriso orgulhoso se erguendo num dos cantos de meus lábios. – Aliás, qualquer um que a escuta, ama.
– Você é tão boa assim? – se sentou ao lado dela. – Ai, vai, conta um pouquinho da história!
– É, conta! – Incentivei. Gostava de vê–la brilhar.
! – Fui repreendida.
– Talvez anime a conhecer melhor o papel. – defendi–me.
Clarinha estreitou os olhos em minha direção, censurando–me uma vez mais. Quando focalizou meu rosto, porém, sua expressão se desfez no mesmo instante, e ou eu era fácil demais de se ler, ou ela me conhecia melhor do que eu suspeitava.
Não era para animar .
Era para me animar.
– Luci, você me ajuda? – Clarinha perguntou ao meu irmão.
Ele ofereceu a ela um sorriso radiante.
– Claro! – E balançou as tetas em sua direção numa corrida desengonçada.
– Senta do meu lado. – sugeriu Clara. – Você conhece a história da Comadre Fulozinha?
– Sim! – Ele berrou, animado. – Ela mora floresta e protege os animaizinhos e as plantas, não é?
– É! – Clarinha apertou as bochechas dele. – Você é muito esperto, sabia?
– Vai ser um musical folclórico? – franziu o cenho.
– Adaptamos a história da Comadre Fulozinha. – Clara assentiu. – Ela protege a mata de quem vai até lá destruir. Então...eu pensei em contar essa história que faz parte da nossa cultura e pegar o gancho para falar sobre preservação da natureza.
– Genial, não é? – Meus lábios se repuxaram sozinhos para sorrir.
– Eu posso ir ver? – Lúcifer berrou. – Por favor, , me leva!
Rolei os olhos, rindo.
– Só se você merecer, moleque.
Ele projetou o lábio inferior para frente.
– Eu levo você. – Clarinha sussurrou a promessa, dando risada do olhar psicótico que recebeu em resposta, mas logo tornando a explicar: – Se e Tiago ganharem os papéis de destaque, ela vai ser a Comadre e ele um caçador pego por ela. Na lenda, a Fulozinha até pode ser uma entidade meio ruim, mas o musical vai girar em torno da conscientização. O caçador não vai simplesmente ser punido por ela, sabe? Ele vai entender o porquê de estar errado, e o que pode fazer, tanto em atos simples como em grandiosos, para mudar e conviver em harmonia com a natureza.
– Fantástico! – bateu uma palma na outra, as pernas se movendo quase que num pulo. Ela fazia muito aquilo. – Você sabe, não é um tema muito atrativo, as pessoas preferem negligenciar tudo sobre a natureza...
– Seres humanos... – estalou a língua.
– Mas ao mesmo tempo eu consigo imaginar um puta espetáculo! – retomou a fala de , suspirando. – Se conseguirmos atrair gente o bastante, não vai ser um musical. Vai ser uma campanha em prol da natureza!
– Exatamente! – Os olhos de Clarinha brilhavam. – É o que queremos passar. Uma mensagem bonita e divertida que realmente mude a visão dos nossos colegas. Pra mim, uma história só vale a pena ser contada se, no fim, o tema te faça refletir, te acrescente algo ou abra seus olhos para algum problema.
– O que é refletir? – Perguntou Lúcio, concentrado em brincar com uma de suas banhas.
Bati em minha própria testa, mas as meninas estavam rindo.
– Lúcifer, por que você não sobe e vai, sei lá, brincar de dominar o mundo?
– Sozinho? – Ele me olhou indignado.
– É, moleque, sozinho! Anda! – Bati palmas algumas vezes. – Nós temos que ensaiar para o musical. Você não quer que eu te leve? Como vou te levar se você não deixar a gente ensaiar?
Lúcio fez bico.
– Por que você não me empresta uma delas, pelo menos?
– Pelo amor...
– Ah, tadinho, ! – Clara passou uma mão pelos cabelos dele, rindo.
– Me diz uma coisa, Lúcifer. – descruzou os braços, sorrindo para o menino. – Você quer mesmo aprender a dominar o mundo?
– Quero. – ele choramingou. – Mas não tem graça sozinho!
– E o que você me diz de dominarmos juntos? – Ela estendeu as mãos para ele, um sorriso misterioso em seus lábios quando deu uma olhadela em minha direção.
– Jura? – Lúcio arregalou os olhos. – Você pode usar a coroa da !
– Ah, ela tem uma coroa? – riu, puxando o menino para que ele se levantasse. Luci a agarrou pela cintura e a novata deu batidinhas na cabeça dele. – Vamos lá, elas precisam ensaiar e nós precisamos reger um império!
. – eu chamei.
Foi esquisito me dirigir a ela.
Quando olhava em seu rosto, tudo o que podia enxergar era seu riso acusatório e os lábios perguntando a quem era o gatinho.
girou o pescoço imediatamente em minha direção, os olhos fixos nos meus.
– Não...não precisa fazer isso. – apontei para Lúcio. – Ele só tá fazendo manha.
Ela mordeu o lábio inferior, avermelhando–o. Jogou os cabelos para trás, a mão livre juntando–se aos ombros de meu irmão.
O sorriso dela era uma obra de arte.
– É claro que eu preciso fazer isso, – respondeu–me em seu tom grave. – Eu nasci pra servir ao Diabo.
– Cruz credo, garota! – se benzeu e eu não pude evitar uma risada. – Tá repreendido!
Lúcio saltitou escada acima, ao seu encalço.
Clarinha e ficaram de joelhos no sofá, de modo que pudessem ter uma visão completa do piano, onde e eu estávamos – eu tocando, ela de pé, pedindo ao instrumento muito mais que apoio físico.
Começamos ajudando–a a definir como sua voz se encaixaria à canção do segundo teste, Clara dando dicas sobre como se portar no papel da Comadre Fulozinha, fazendo palhaçadas que ajudaram a se soltar significativamente.
Mais cedo, no teatro, eu me lembro de quase ter ficado em estado de choque pelo tanto que a voz de me tocou. Ali, na minha sala, ela fez com que a sensação fosse ainda mais poderosa. Não demorou para que incorporasse as orientações de Clarinha à sua performance. Sentiu–se à vontade não apenas para isso, mas para soltar sua voz e dançar com ao redor do piano, enfiando–se sob as tranças da amiga e ajustando o próprio timbre para dar mais vida à personagem.
Não levar as coisas muito a sério parecia ajudar a oferecer–se plenamente. Ela era tão encantadora que eu me pegava sorrindo até mesmo de suas tolices, e unir–me às meninas foi divertido o bastante para que perdêssemos a noção da hora e nos tornássemos uma só música, ondas simétricas serpenteando para que nos propagássemos e envolvêssemos o ambiente. Nossa bolha só era cortada pelos risos de e seu senhor Lúcifer, que reinaram no andar de cima até ele descer correndo e gritando que estava com fome.
Foi a deixa para que as meninas partissem – Clarinha e seu cabelo de maçã, e suas tranças afro, e suas ondas loiras, e seus fios negros como doces corvos. Fui abraçada por cada uma delas à porta de casa, e o mesmo fizeram com meu irmãozinho (a não ser por , que lhe fez uma mesura para que em seguida ele beijasse sua mão).
Lúcio continuou enérgico por horas depois que elas se foram. Ele praticamente quicava em sua cadeira enquanto eu lhe fazia a janta, falando sem parar sobre como era sua melhor amiga e se tornariam Imperador e Imperatriz do Universo para que ele pudesse presenteá–la com o Canadá.
– E aí vocês duas podem namorar, e ela vai ficar perto de mim para sempre! – Concluiu seu plano perfeito e eu engasguei com saliva.
– Como é que é?
– Vocês duas – ele simulou quatro perninhas, duas em cada mão, e fez com que caminhassem sobre a mesa até se encontrarem – podiam ser namoradas. Aí você seria a Primeira Dama do Canadá.
Primeira Dama.
Minha mãe teria um infarto se ouvisse aquilo.
– Não fala besteira, Lúcifer! – Repreendi–o apontando um dedo na direção de seu rosto. – Você também acha que eu sou um garoto? – Explodi. – Acha que eu devo namorar uma menina porque sou um maldito homem?
Eu só percebi que estava gritando quando meu irmão se encolheu.
Lúcio cruzou os braços sobre a mesa e deitou neles a cabeça.
– Me desculpe. – sussurrou.
Satanás.
Que merda deu em mim?
Eu praticamente ofegava.
Lúcio não merecia gritos. Não merecia que eu descontasse nele minhas frustrações e destruísse seus tão inocentes sonhos.
Ele não merecia que eu fosse a mamãe.
Mas, quando lhe servi a comida, sentando–me ao seu lado para que começasse um longo discurso apologético, foi meu irmão quem falou, seus olhos semicerrados:
– Nem só garotos gostam de garotas.



Capítulo 5


Por

Eu pretendia seguir dois planos quando iniciei o Ensino Médio.
O primeiro era trivial: estudar o bastante para que conseguisse vaga numa universidade pública.
O segundo era jogar bola como nunca antes havia feito. Tanto em termos de quantidade, como de qualidade. Eu ainda precisava aprender e aprimorar muito. Especialmente porque meu pai, Luís Fernando , conseguira inscrições para alguns testes e, quem sabe, se eu fosse capaz de impressionar alguns olheiros...então estaria dentro de algum clube regional.
Teria sido um sonho se meus planos tivessem ido bem.
Se eu tivesse mantido o foco.
Mas havia algo sobre mim que jamais pude evitar: estava sempre preocupado demais.
Gastava horas e energia mentalmente antecipando desastres para que tivesse a oportunidade de freá–los, e muito mais tempo era jogado fora por quem tentasse impedir–me de agourar.
Nos últimos meses eram as meninas que absorviam todo o meu eixo.
Havia , que tanto havia suportado com a mãe antes de finalmente virem morar conosco na cidade. Mesmo que o Corvo relutasse em me aceitar e agisse na defensiva quase que integralmente, eu sentia que precisava mostrar a ela alguma dedicação, além de ajudá–la, aos poucos, a encaixar–se no colégio.
Havia , sempre se metendo em confusões por conta do exagero na bebida. Eu tinha de estar lá para ela, caso precisasse de alguém para salvá-la. E também tinha de estar lá por mim – nunca poderia viver em paz se soubesse tê–la deixado à deriva.
Havia também , que se mantinha relutante quanto ao dever de acreditar em si mesma, e agora estava prestes a ganhar um papel de destaque no musical. Apoiá–la e assistir ao seu progresso me enchia se orgulho.
E então havia .
Com .
Juntos por meses inteiros até que neste último ele a tivesse assumido.
E talvez seus sentimentos não fossem o porquê.
Pensar nisso aniquilava meu humor, e Violeta o percebeu.
Estávamos no meio do caminho para a escola. Minha madrasta dirigia e eu estava no banco do passageiro enquanto saboreava sangue humano na parte de trás do carro, sugando forte pelo canudinho de uma garrafa escura. Violeta falava sobre seus planos de trabalhar num estúdio de tatuagem até conseguir uma clientela maior e fiel para montar seu próprio cantinho, em nossa casa. Era horrível para ela ter deixado tudo para trás e agora depender financeiramente do marido, mas pretendia se reerguer aos poucos – talento não lhe faltava.
Ela e a filha interagiam com certo vigor durante a conversa, mas não eu.
Desde que Castillo e eu brigamos, na semana passada, sentia-me incapaz de dar 100% de mim a qualquer situação. Desde simples conversas a partidas de futebol, eu estava sempre aéreo, os pensamentos presos na arquitetura de um plano.
Foi na última sexta.
A líder de torcida estava estressada e eu acabei empurrando-a até seu limite.
Ela foi rude comigo. Diria até que suas palavras beiraram a crueldade. Mas, antes que o sol se pusesse, lhe ofereci um pedido de desculpas e estava tudo bem. recuperou o bom–humor com o sucesso de na audição para o teatro, e foi a deixa para que eu me aproximasse e nos resolvêssemos. Também recebi um pedido de desculpas, e quando sorriu, os braços ao meu redor, seu queixo apoiado em meu tronco e os olhos fundo aos meus, eu já havia me esquecido de tudo.
Menos de .
? – Violeta se inclinou para o lado, cotovelando meu braço mais próximo. Girei o rosto para olha–la, tatuagens coloridas se agarrando a cada pedaço de sua pele a não ser por seu rosto.
Ofereci-lhe um sorriso sem mostrar os dentes.
– Seu pai estava me contando que você foi confirmado para mais um teste. Está se preparando direitinho?
Ela se utilizava de jeito doce para dirigir–se a mim. Um ar tranquilo e...maternal.
– Estou – assenti devagar, meu corpo afundado no banco, sem ânimo algum. – Obrigada por se preocupar.
vai fazer um teste para entrar num clube de futebol profissional – Violeta disse mais alto, olhando para pelo retrovisor. – Isso não é o máximo?
Senti os olhos sombrios do corvo sobre mim. Eu esperava que ela fizesse alguma piada estúpida sobre eu não ser um bom jogador, mas simplesmente gargalhou.
– O que, você pretende largar a escola e ir jogar na liga europeia? – Ela limpou a boca com a costas de uma mão. – Acha que seu black power vai ser viral como o corte de cabelo do Neymar?
Abaixei a cabeça, um canto de meus lábios se erguendo brevemente.
Colocando daquela maneira, parecia tão estúpido.
Mas eu achava.
Era o meu desejo mais profundo, aliás. Ouvir um estádio vibrar porque num jogo decisivo eu enfiara a bola na rede. Levar glória e inspiração para os garotos com pouca perspectiva de vida. Tornar–me o próximo Messi para que todos os outros se tornassem o próximo eu.
Violeta parou o carro.
– Desça.
Seu afeto havia desparecido. Ela fuzilava a filha com os olhos, apontando para fora do veículo enquanto alguns carros buzinavam atrás de nós.
– Espera aí, você tá falando sério? – tocou meu banco, o mais próximo de mim que se atrevia a chegar. – Realmente sonha com isso?
Se eu a tivesse olhado, talvez chorasse. Por isso continuei com a cabeça baixa e apenas movi–a de um lado para o outro – pouco importava se o corvo entenderia meu gesto como nãos para suas perguntas ou apenas um pedido para que parasse de faze–las.
– Desça do carro, . – Violeta insistiu.
– Encosto... – Corvo disse baixinho, mordendo o canto do lábio. – Me desculpa. Sério, eu...eu não sabia.
Troquei o movimento de cabeça para agora assentir. Talvez a estivesse desculpando, talvez apenas compartilhasse de sua ideia sobre eu ter sonhos estúpidos.
desceu do carro e Violeta arrancou com ele, respirando pesadamente. Eu achava que ela ia se desculpar pela filha e fazer um longo discurso que me incentivasse a ter esperanças quanto ao futebol. Mas, em vez disso, vi afrouxou o pé no acelerador e perguntou–me, delicada:
– Meu amor, tem alguma coisa te incomodando?
Arrumei a coluna no banco, erguendo–me um pouco.
– Não se preocupe com isso – dei de ombros, apresentando–lhe um sorriso fraco. – Já tô me acostumando com o jeitinho da .
– Não, ... – Minha madrasta soltou o ar num riso pelo nariz. – Estou falando sobre todo o resto da sua vida.
Virei o rosto para ela.
Seu cabelo tingido de vermelho. Uma rosa de mesmo tom subindo por seu ombro. Espinhos à beira de seu pescoço. Olhos profundamente azuis.
Violeta me conhecia tão bem quanto minha própria mãe um dia o fizera. Ela lembrava muito a minha mãe, mesmo com as tatuagens. Porque ainda que tudo sobre si acabasse parecendo uma completa loucura, Vi era tão presente e atenta às minúcias.
– Sabe que pode confiar em mim. – Ela deu uma olhadela para o lado, sorrindo.
Eu sabia.
Ela havia conquistado minha confiança e meu carinho.
Forcei a cabeça para trás, no banco, tornando a afundar-me no estofado.
– É que eu vou fazer uma coisa muito ruim hoje, Vi. – Imediatamente após sussurrar a confissão fui atingido por uma onda de alívio. Precisava muito falar sobre aquilo com alguém. – E vai machucar uma pessoa que eu amo – prossegui, decidido a despejar tudo de uma só vez, embora minha voz tremesse. – Eu tenho certeza de que se eu não fizer nada, agora, o estrago vai ser muito pior, mais tarde. Então preciso ser o desconfiado, o paranoico, e agir como se precisasse salvar o dia. Mas na verdade eu só preciso impedir que o arruínem, entende?
Minha garganta travou assim que proferi a última palavra.
Eu não queria ser um problema para .
Não queria ser o responsável por estragar tudo para ela.
Mas se Castillo era segura demais para dar o braço a torcer, eu não tinha outra escolha além de intervir. Precisava salvá-la desta situação mesmo que isto significasse bancar o herói.

– Eu estou curiosa... – Soto lentamente ergueu os olhos de suas partituras, mirando–os em . – Você realmente festeja o carnaval?
Rivera estava deitada em minha barriga, e por isso sua cabeça chacoalhou quando ri.
– Eu festejo tudo – a líder de torcida ergueu um ombro, seu sorriso denunciado pelo tique de enrugar o nariz. – Não me olha assim, , faz bem pro meu espírito.
sorria de lado.
– Não estou julgando.
– Sabe o que faria bem para o seu espírito? – Corvo rolou na grama até ficar de barriga para baixo, suas mãos apoiando o queixo, o rosto próximo ao de .
– Eu não vou vender minha alma pra Satã, – Rivera rolou os olhos de brincadeira. – Quantas vezes preciso dizer isso?
– Ela também fica tentando me convencer. – Clarinha cobriu os lábios.
Era curiosa a dinâmica entre as meninas. Digo, até a última sexta, e Clara pertenciam à outra “vertente”, mas se entenderam com as outras quatro em prol de um bem maior: .
Funcionava bem, mesmo que algumas conversas fossem bizarras pelo fato de eu ser o único menino.
Quer dizer...
Quase o único, se formos considerar as vezes em que surgia para fazer aquilo.
Ele e estavam mais afastados e, entre uma mordida e outra, trocavam sussurros. Eu queria poder dizer que não agia de propósito; que a paixão o cegava a ponto de ignorar toda a plateia como se não houvesse um pingo de vergonha na cara.
Mas ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Seus lábios pertenciam a , mas não seus olhos.
Seus olhos o tempo inteiro se perdiam noutra direção.
Nossa direção.
– Nunca viu dois héteros se pegando, Encosto? – sorriu maldita. – Eu sei que é nojento, mas ajuda um pouco parar de olhar, hein?!
Eu queria ter rebatido com força o suficiente para começarmos uma guerra, mas... já havia ido longe demais por um único dia. Eu ainda estava um pouco magoado com ela.
– Vocês acham que a vai ficar muito chateada se eu não for à festa do pijama hoje? – , alheia a qualquer provocação, girou o rosto para direcionar sua pergunta a todas as meninas. – É que planejamos a festa da escola por meses...
e Clarinha se entreolharam.
Elas faziam muito isso.
Clara estendeu sua mão para , acariciando brevemente os dedos da líder de torcida. As duas trocaram sorrisos.
– Ela vai entender.
E ela ia, mesmo que a machucasse.
– Não se preocupe – girou de volta, colocando no rosto seus óculos escuros assim que os olhos atingiram o céu amanhecido. – Ainda seremos cinco garotas. Dá pra fazer uma boa orgia.
– Filmem isso, por favor!
.
Aproximou–se de nós sem que eu notasse, seus dedos juntos aos de .
– Por que faríamos isso? – resmungou sequer se dando o trabalho de erguer os olhos.
– A orgia? – Inocentemente indaguei.
– Filma–la – a pianista explicou.
– Para usarem contra mim, depois – respirou no pescoço da namorada.
– Já pensou na ideia de que transaríamos para o nosso prazer, não para o seu? – o olhou por cima dos óculos. – Homens não são o centro do universo.
– Eu só estava brincando! – O idiota ergueu as mãos em sinal de defesa.
– Não liga, amor – riu, jogando a cabeça para trás até encaixá–la na curva entre um ombro e o pescoço dele. – Humor para é só tortura e sangue.
– De homens imbecis – acrescentou o Corvo, apontando para com um sorriso amável.
– Você vai deixar de ir à festa comigo para transar com todas elas? – Ele se fez de indignado, afastando pelos ombros.
Revirei os olhos movendo junto a cabeça e sem querer percebi que Clarinha escondia o rosto com as mãos, balançando–o.
– É só um pré-carnaval – retomou a proximidade, girando para que pudesse enlaçar com os braços ao redor de seu pescoço. – Você sabe que o teste da é amanhã bem cedo.
só precisa desestressar – murmurou com descaso. – Por que outro motivo você acha que eu iria a uma festa do pijama?
– Para coletar a minha alma, talvez – sugeriu, o nariz engelhado.
precisa do nosso apoio – voltou a falar com o namorado, esfregando suas bocas. – Então se comporte na minha ausência, ok?
riu pelo nariz.
– Você vem hoje à noite, não vem, ? – Foi o que ele disse, caçando–a com os olhos. – Pode ficar de olho em mim.
Cerrei os punhos.
Desgraçado.
– Você é livre – foi o que proferiu , no entanto. – Só não beije muitas bocas se pretende voltar para a minha, amanhã.
– Eu não preciso de muitas bocas – se voltou para ela fazendo careta – justamente porque já tenho a sua.
Desviei os olhos quando eles começaram a se engolir.
forçou uma tosse, o que fez com que risse. e Clarinha continuaram discutindo sobre os papéis que moviam para lá e para cá, algo sobre o teatro.
e ainda se beijavam quando ousei conferir.
Senti uma fisgada no peito, mas quase que imediatamente o sinal soou, enviando–nos de volta para as classes.
Subimos todos juntos, e encontramos uma suada e exausta fugindo dos ensaios de Tiago lá pelo terceiro andar. Ela e ficaram para trás, rindo de alguma bobagem, mas desacelerei para que pudesse puxar o braço da líder de torcida quando ela passou por mim.
O corredor da nossa sala ia esvaziando aos poucos.
ergueu seus pequenos e puxados olhos até os meus. Seus lábios eram grossos e entreabriram–se com o susto antes de serem pintados por um sorriso.
Ela era linda de uma maneira que eu dificilmente poderia explicar.
Algo incomum em seus traços.
Tons exóticos colorindo sua pele.
O modo como transferia altivez quando séria.
Como derretia meu mundo inteiro ao sorrir.
– Aconteceu alguma coisa? – tocou meu rosto com dedos leves, uma das unhas raspando em meu pescoço.
Como alguém poderia não se apaixonar por ela?
Chacoalhei a cabeça para cortar o efeito da hipnose, mas minha mão cobriu a de , buscando o calor de sua pele e sorrindo com o feito.
– Preciso te mostrar uma coisa importante – murmurei.
– É? – Ela tentou engolir o sorriso, mas ele se manteve ao menos num dos cantos de seus lábios. cobriu o outro lado de meu rosto com sua mão livre, os polegares em atrito onde algum dia deveria nascer meu bigode. – Esperou até a hora da aula pra se lembrar disso, ?
Cerrei os olhos, rindo fraco.
Você estava meio ocupada durante o intervalo.
Engoli minhas palavras para não começar uma discussão.
Teríamos tempo.
– Me encontra na monitoria antes do treino? – Era o único lugar vazio àquela hora, ou ao menos eu poderia fazer ficar.
pressionou os lábios numa de minhas bochechas.
– Claro. – Assegurou-me.

Quando você traça um plano, cada detalhe em sua mente segue um roteiro meticuloso para que haja êxito no final. Cada ângulo, cada objeto, cada molécula presente no ar que inspira é teorizada. Mas, se um único detalhe desviar de seu caminho, todo o resto é perdido. Como num jogo de futebol.
Quando me passavam a bola, eu sabia exatamente os movimentos necessários para chutá–la na rede e triunfar.
E então pés vinham roubá–la dos meus.
Olhares desatentos perdiam a oportunidade de fazer um bom trabalho em equipe.
Cinco graus mal calculados e a tentativa parava na trave.
A experiência ajudava a lidar cada vez melhor com infortúnios, pois trabalhava minha energia, estratégias, velocidade. Mas eu também precisava de sorte.
entrou na monitoria adiantado. Ele digitava alguma coisa no celular, rindo, e eu só queria enfiar tanto sua cabeça como a do objeto numa parede.
– E aí? – Me cumprimentou. – O que você queria falar?
Estalei alguns dedos das mãos.
deveria estar ali. Era ela a quem devia respostas, não a mim, apesar de eu sentir como se assim o fosse.
Respirei fundo.
Estando presente ou não, se sentia segura demais para sequer formular as perguntas necessárias. Talvez por isso eu o tenha feito tão rapidamente.
– Você tá brincando com ela?
– O que? – franziu o cenho, guardando o celular no bolso.
Em meus planos, eu não deveria sentir tanta raiva de .
– Por que você está com a ? – Reformulei, devagar.
– Qual o seu problema, cara? – Recebi um riso sem graça. – É uma daquelas conversas sobre “quais suas intenções com ela”? – Indagou desacreditado.
– Eu sei sobre a – recomecei, minha respiração tentando seguir de acordo com o plano. – Realmente quero acreditar que você não está sendo um filho da puta, mas fica cada vez mais difícil.
– O que tem a , cara? – rolou os olhos. – A gente ficou uma vez. E daí? Com quem da escola aquela piranha nunca ficou?
Meus pés avançaram sozinhos, movendo–se de acordo com a adrenalina. Eu poderia ultrapassar qualquer obstáculo, mas segurei meu corpo quando o senti colidir com o de , peito com peito. Olhei–o de cima.
– Engraçado ela se tornar uma piranha no momento em que decidiu não te dar mais condição.
Ele estava rindo.
Ergueu o rosto, sua boca aberta e a língua umedecendo um canto dos lábios.
– É isso o que você é, agora? Um defensor de honras? – Ironizou. – Ah, melhor! Um feministo!
Forcei meu corpo para frente, e como consequência empurrei o de para trás.
– Ninguém nunca te avisou que as mulheres podem se defender sozinhas?
– Eu não estou aqui para defender ninguém – rosnei. – Estou para decidir se acabo ou não com você.
– E o que você vai fazer? – Ele tentou ir para frente, ganhar algum espaço, mas eu era maior e mais forte. O impedia, mas não intimidava o bastante para fazê–lo parar de tentar. – Socar a minha cara porque comi suas duas garotas de ouro?
Segurei–o pela camisa, conseguindo sacudi–lo com certa violência por tê–lo pego de surpresa. agarrou meus pulsos, forçando–me para o lado contrário.
– É esse realmente o tipo de pessoa que você é? – Eu estava quase gritando. – Recebe um não e usa outra garota para mostrar que consegue melhor?
– Eu também uso a pelo sexo – ele gritou de volta, me empurrando – já que isso a estava bêbada demais para aguentar.
Quando tornei a avançar na direção dele, meu punho direito estava no ar, pegando velocidade para um soco que apagaria aquele babaca.
Talvez eu continuasse batendo até mesmo em seu corpo inerte – e em qualquer um que ousasse me parar.
teve sorte por eu não ter começado.
Minha mão declinou alguns centímetros e o soco passou direito, atingindo a pilastra no mesmo instante em que Castillo pôs–se de volta atrás dela, terminando o soluço que anteriormente chamou minha atenção.
Meu corpo cambaleou e quase caí sobre , mas ele fez o favor de me empurrar antes, seus dedos se chocando em meu peito até que eu perdesse o equilíbrio e escorregasse para o chão.
– Sabe, , você deveria arrumar amigas melhores se realmente quer brigar por elas. e não merecem qualquer respeito... – Ele deu de ombros, o polegar limpando o lábio inferior. – E você não consegue defender nem a si mesmo, cara.
Mas eu não me importava mais com .
Minha raiva pertencia a outro plano.
fugiu quando, às pressas, ergui–me da ruína.
Procurei por atrás da pilastra, mas ela já havia fugido também.



Capítulo 6


Por Castillo

– Ah, você chegou cedo!
Meus olhos em fendas miraram Gael por um mísero instante. Decidi ignorá-lo pelo nosso próprio bem, meus pés marchando escada a cima.
Eu podia sentir cada parte do meu corpo vibrar. Sequer tinha certeza de como havia feito o caminho até em casa.
Bati a porta do quarto e minhas mãos trêmulas ficaram travadas na chave por algum tempo. Consegui me trancar, mas não antes que meus lábios expelissem um grunhido e meus punhos descontassem a frustração nas paredes, socando-as até que eu perdesse as forças.
? – Gael sussurrou do outro lado.
– Vai embora! – Berrei em total descontrole.
– O que aconteceu? – Ele insistiu. – Abre pra mim, por favor! – O tom desesperado na voz de meu irmão fez com que eu considerasse seu pedido, mas meus pensamentos estavam turvos demais para que eu fizesse qualquer coisa além de sucumbir ao choro.
Eu também uso a pelo sexo.
Pelo sexo.
Sentei-me na porta, joelhos junto ao peito e mãos cobrindo o rosto.
Eu não podia acreditar que era tão babaca.
Não podia acreditar que eu havia deixado ele me fazer de trouxa. Que tipo de idiota eu havia me tornado para fazer papel de cega?
Senti vergonha de mim mesma.
Vergonha da situação.
Quando grunhi pela segunda vez, Gael testou a maçaneta da porta, tentando intervir. Dei um soco para trás, irritada.
– Já falei pra ir embora!
Tudo tinha acontecido rápido demais.
e discutindo. Todas aquelas palavras sujas e desnecessárias.
Por que ele tinha feito aquilo? Para se vingar da ? Ela não estava nem aí!
Já eu...
Eu confiei nele.
Nos conhecíamos há anos e se eu dei uma chance pra gente foi porque confiava nele. Era o mínimo e indispensável a se fazer.
E então desviou minha atenção com sexo e palavras bonitas porque precisava me usar contra uma garota que o rejeitou.
, por favor...
Ergui-me do chão para não descontar minha raiva em Gael.
Eu não queria falar com ninguém.
Ninguém que não fosse .
Peguei meu celular, os olhos nebulosos procurando pelo número da minha melhor amiga, mas eu sequer saberia o que dizer a ela. Estava doendo tanto e eu sentia tanta vergonha que só queria ficar em silêncio e sumir.
Larguei o celular e segui em direção ao banheiro. Minhas roupas ficaram pelo caminho, e apenas sentei-me no chão do box para chorar, a água quente do chuveiro massageando minhas costas enquanto eu destrançava meus cabelos.
Não era culpa minha, era? Ter sido usada?
Eu não deveria me culpar por ter acreditado em alguém e aceitado seu afeto. Era quem estava errado por se aproveitar de meus sentimentos e minha boa vontade. O tempo inteiro eu só o queria bem. Já em relação a mim, ele não teve um pingo de consideração. Mesmo que nos conhecêssemos há anos e ele soubesse exatamente quem eu era. Mesmo que tivéssemos compartilhado tantos momentos íntimos. Para ele tudo o que importava era si mesmo. Seu prazer. Seu ego. Sua permanência num topo que sequer existia, porque nada daquilo era uma competição.
Os minutos foram se passando e lentamente meu choro diminuiu, mas não aquela sensação. Era como se eu tivesse sido violada. Acho que por isso a raiva conseguiu tomar espaço.
Eu deveria ter confrontado , e não me escondido de suas palavras medíocres. Afinal, eu não era o tipo de pessoa que prefere fugir a lutar.
Por outro lado, eu jamais teria esperado aquilo. Fiquei atordoada e não tive reação, o que era perfeitamente compreensível. Como alguém poderia estar preparada para ouvir aquele tipo de coisa? Para ouvir que tudo num relacionamento foi falso, e só o que importava para a outra parte era usar sua imagem e seu corpo?
Aquilo era tão desrespeitoso e nojento.
merecia queimar no inferno.
Eu merecia o prazer de queimá-lo.
E foi por isso que decidi ir atrás dele.
Alguma coisa precisava ser feita. Qualquer coisa.
Sequei meu cabelo e assumi meus cachos longos e cheios. Maquiei meu rosto para esconder a tarde inteira na miséria. Vesti meu corpo de diversos modos até me decidir pelo que soava mais seguro e poderoso.
Quando peguei o celular, no quarto, já era noite, e havia me enchido de mensagens preocupadas sobre meu desaparecimento. A festa do pijama estava quase começando.
Suspirei pesado, ponderando sobre o que deveria dizer a ela.
“Me desculpa por ter sumido. Não vou poder ir hoje, depois te explico melhor. Prometo ir ao teste amanhã. Te amo.”
Joguei o celular sobre o travesseiro e enfim destranquei o quarto. Com o barulho, Gael correu para o corredor em timing perfeito, seus olhos se arregalando para minha produção.
– Se ainda quiser me ajudar, uma carona para o colégio serviria.

Era um caos de luzes coloridas e fantasias ridículas. Pareciam todos animados demais para um lugar onde haviam proibido o álcool, já que se tratava de uma festa para menores de idade, e eu me perguntei se ao fim da noite teria conseguido ficar bêbada também.
Não seria má ideia.
Gael segurou meu cotovelo até a entrada da escola, seus lábios murmurando qualquer coisa preocupada que contornei com um “está tudo bem, só suma daqui”. Também devo ter prometido ligar para que ele me buscasse ao fim da festa, mas não pretendia cumprir minha palavra.
Eu ia ficar bem.
foi o primeiro que encontrei na festa. Ele e todo o time estavam fantasiados de jogadores de futebol, como faziam todo ano por falta de dinheiro e criatividade. parecia distraído demais para notar minha presença, e talvez tenha sido melhor assim. Não o queria atrapalhando meus planos ou reagrupando os sentimentos que alegaria conhecer melhor que eu. Acabaríamos brigando outra vez pela minha falta de paciência para lidar com aquilo.
Circulei pela festa, os olhos estreitos e atentos a cada rosto buscando neles traços de , ainda que eu não estivesse preparada para reagir quando de fato o encontrasse.
Virei um copo de suco desejando mentalmente que fosse uma caipirinha, mas entre açúcar e álcool meu organismo notou uma grande diferença.
– Eu preferiria beber do meu suco, se fosse você.
Retesei as costas.
O corpo de se colou a mim, por trás, para que ela falasse em meu ouvido, rindo da própria piada. Rivera girou até estar em minha frente, a merda do nariz enrugado e um copo vermelho estendido em minha direção.
Prendi a respiração.
Tinha me esquecido completamente de que ela estaria na festa, e agora, olhando em seus olhos apertados e sorriso doce, eu só queria odiá-la; culpar por tudo ter dado errado. Pela escolha dela de numa festa se divertir com tê-lo feito decidir brincar com meus sentimentos e fingir que eles também eram os seus.
Mas não era culpada e seria injusto imaginar que sim.
Eu não podia odiá-la só para ter a quem direcionar minha fúria e despeito. não merecia aquilo.
Ninguém que não fosse merecia.
Virei o copo que ela me ofereceu, sentindo o álcool finalmente.
– Você não deveria estar na ? – Indagou.
.
Se eu tivesse escutado sua voz, ainda estaria chorando, porém em seus braços.
Eu não queria mais chorar.
– Você também – acusei com um sorriso fraco. Ela riu mais do que uma pessoa cem por centro sã faria.
– Culpada! – Ergueu as mãos. – Vamos dançar?
– Eu... – expirei pela boca, apontando para trás. – Eu preciso encontrar o .
– Não se preocupe – tirou o copo de minha mão, jogando-o em qualquer canto antes de entrelaçar nossos dedos. – Ele não precisa de muitas bocas porque já tem a sua – repetiu as falsas palavras que proferira mais cedo.
Sorri amargamente, mas aceitei seu convite e nos enroscamos na pista de dança.
Sempre dançávamos juntas, ela e eu. Nossos corpos eram bons em se acompanhar. Precisávamos entender como a outra funcionava, afinal éramos uma equipe. Então, quando estávamos dançando, eu quase sentia como se o corpo de fosse uma extensão do meu.
Podíamos nos mover juntas para sempre. Mas, já que minha mente estava longe, não pude me entregar por completo, como geralmente fazíamos.
Não até virar mais alguns copos vermelhos.
– Você e o – eu disse a em algum momento, meu corpo atrás do seu para lhe seguir o ritmo. – O que houve entre vocês?
Ela virou o rosto para o lado, olhando-me por cima do ombro.
– O que? Ele é seu namorado, !
Meu namorado.
A raiva que eu sentia era grande demais para que ouvisse aquela palavra sem pirar. Precisei de alguns momentos e mais um gole de bebida para voltar ao eixo.
– Então vocês nunca ficaram?
virou para que pudesse alinhar nossos rostos.
– Por que isso, agora? Já faz algum tempo...
Soltei o ar devagar.
...
– O que houve entre vocês? – Repeti.
– Foi no Natal, eu acho – Rivera fez minha vontade, os olhos estreitos e os ombros se movendo em descaso. – Não me lembro do que disse para ele, mas acabou levando a ficada a sério demais. Chamei ele para a festa de Ano Novo por educação, mas ele entendeu errado e me disse que arrumou briga com outro cara com quem eu estava ficando...
Será que dela ele gostava?
– Você não se lembra? – Foi o que perguntei, no entanto.
– Eu estava bêbada – riu, dando de ombros de novo. – Sempre me esqueço do que faço quando estou bêbada.
Assenti devagar, mas afastei-me um pouco, caminhando até algum espaço mais vazio, onde eu pudesse respirar melhor. Rivera me seguiu de perto.
– Isso causou algum problema entre vocês dois? – Soou preocupada ao questionar.
Se ela soubesse...
Se soubesse o escroto que havia sido.
– Não acho que ainda estamos juntos, . – Apesar de tudo, havia um sorriso completando minha confissão. Ele era um misto de tristeza, acidez e alguma sensação de liberdade.
Senti os braços de ao meu redor de um jeito meio desajeitado. Foi estranho porque eu não me lembrava de tê-la abraçado muitas vezes, mas puxei seu corpo para mais perto porque necessitava de conforto.
– Você não precisa ficar triste por causa disso. Não precisa ficar triste por qualquer outra coisa. – Acariciou minha cintura, seus lábios frios sussurrando em meu ouvido e roçando em minha pele por tempo demais para que eu acreditasse ser um acidente. – Sabe qual segredo da felicidade, ?
– Você? – Sugeri, rindo, enquanto minhas mãos se entrelaçavam na nuca dela.
afastou-se para olhar em meu rosto, o nariz já engelhado em seu modo adorável de dar risada.
– O segredo é esquecer tudo e viver assim... – Ergueu os ombros, a cabeça meio que se jogando para trás. – Como se o amanhã não importasse. E, quando chegar o amanhã junto com todas as consequências do que fez hoje, ... – Ela mordeu o lábio inferior, atraindo meu olhar antes tão vidrado no seu. – Você toma uma bela de uma cachaça e esquece tudo de novo. Lembrar faz a gente infeliz. Viver esperando que algo além de nós mesmos nos faça feliz...nos faz infeliz.
Eu estava sorrindo, as pontas dos dedos se embrenhando lentamente no cabelo dela. apoiou nossas testas por um rápido momento, então apertou as mãos em minha cintura – local que nunca haviam deixado – e guiou-me de volta à dança que interrompi minutos antes, nossos corpos se encaixando como se nada além daquilo importasse.
Nunca foi difícil entender a paixão de por aquela garota.
Ela parecia perfeita.
Não precisava se adaptar a qualquer lugar porque eram todos feitos para ela.
era doce de uma maneira que todo o peso ao redor fosse amenizado. Poderosa o bastante para que sua presença emanasse força a todos que o necessitavam. Linda como mil flores desabrochando no meio de um deserto hostil.
Eu me sentia mais leve.
Ela uniu nossas costas e juntas deslizamos os quadris de um lado para o outro, em sintonia, as pernas se movendo para baixo de modo que lentamente fôssemos ao chão. De algum modo se virou para mim, suas mãos em meus ombros para apoiar-se enquanto rebolava, os quadris girando de um jeito puramente erótico. Segui-a, meus dedos acima de seus joelhos, os olhos semicerrados até o momento em que enfim o vi.
.
Ele estava de pé alguns metros atrás de , os óculos bem posicionados para que pudesse enxergar e absorver cada detalhe do nosso momento. O desgraçado sorria, em êxtase, como se tivesse vencido na loteria e não judiado de cada átomo do meu coração até destruir o órgão por inteiro. Tinha algo na postura de , um toque de desejo e algum ar de triunfo que fizeram toda a minha recém conquistada alegria sucumbir.
Apertei meus olhos com força, as mãos subindo e segurando com mais firmeza as pernas de Rivera. Eu queria senti-la, pensar como ela, deixar sua áurea me invadir e evitar que eu cometesse uma loucura.
Os olhos de eram um peso insuportável sobre nós.
Talvez por causa disso eu a tenha beijado.
Inspirei em sua pele e juntei nossas bocas com força.
Rivera cambaleou, mas seus quadris não pararam de dançar. Ela entreabriu os lábios, uma das mãos acariciando minha nuca, e foi a deixa para que eu unisse também nossas línguas. Começou lento o suficiente para eu testar seu gosto de vodca se mesclando à brandura dos lábios gelados. Nossas mãos, também buscando um compasso, apertaram uma a pele da outra ao mesmo tempo, e automaticamente aprofundamos o beijo, nos afundando, os quadris em febre, a música e meus batimentos gritando em conjunto, ávidos.
foi quem afastou nossos rostos, e somente quando já ofegava. Mas ela ainda estava perto o bastante para que seu hálito batesse em minha boca, se misturando ao meu até que novamente fossem um só, unidos num novo beijo.
E a partir dele nada mais importava.
Toda a festa parecia a mesma ao nosso redor, como se não fôssemos mais que um detalhe no caótico cenário. Apesar disso, um olhar profundo queimou por completo minha pele, obrigando-me a quebrar o segundo beijo e abrir meus olhos para o mundo.
E para .
Atrás de nós, além da conexão que havíamos e eu tão profundamente estabelecido, tinha os punhos cerrados, e para isso precisou antes atirar fora seu copo de bebida. O infeliz parecia prestes a explodir, seu olhar um misto de grande nojo e igual fúria, mas aquilo parte alguma de mim afetou.
era tudo o que havia.
Tudo o que eu precisava.
Minha cabeça girou, meus dedos buscando os dela para entrelaçá-los.
– Vamos sair daqui – eu lhe disse no ouvido. engelhou o nariz, seus quadris abandonando a dança e seu corpo tomando impulso para erguer-se junto ao meu. Ela tomou a frente, puxando-me para que eu seguisse.
E eu segui.
Cada passo trôpego, cada virada súbita e degrau descido.
Mas antes precisei virar o rosto para olhá-lo uma última vez.
apenas encarava nossa movimentação, em choque.
Havia tantas coisas que eu queria dizer a ele. Umas civilizadamente, outras aos prantos, berrando e me atirando com violência contra cada centímetro de seu corpo até apaga-lo da existência.
Mas eu não disse nada.
Tudo o que ganhou de meus lábios foi um amplo e cínico sorriso enquanto e eu atravessávamos a quadra.
Nós duas descemos um caminho infinito que ela parecia conhecer perfeitamente. Segurava minha mão com firmeza, e virou-se sorrindo pelo menos duas vezes, o que me deu muito mais segurança. O som da festa começou a diminuir à medida que nos afastávamos, mas não fomos muito longe.
Rivera soltou minha mão assim que atingimos o andar dos vestiários. Ela se virou, os lábios tomados por um sorriso adorável, e apoiou-se na primeira porta do corredor.
– Você me beijou – disse como se tivesse acabado de descobrir. E adorar.
Coloquei as mãos atrás do corpo, me balançando para frente e para trás. Aventurei-me a tentar não sorrir, mas foi de uma falha miserável.
– E vou beijar de novo.
Ela abriu os braços, chamando-me com os dedos, e foi inevitável não apertar meu corpo contra o seu. Suguei cada pedacinho de seu lábio inferior, ocupada em jogar a cabeça para trás e subir as unhas pelas minhas costas. Rimos as duas quando a porta atrás de nós se abriu e caímos dentro de um vestiário qualquer, o equilíbrio de fracassando e ela aproveitando a oportunidade para me levar junto ao cair no chão. Minhas mãos se apoiaram aos lados de sua cabeça e, ainda rindo, me ergui apenas o suficiente para que pudesse unir nossos lábios de novo.
tinha gosto de nirvana temperado com embriaguez. Seus lábios se moviam devagar, mas exercendo a pressão necessária para que o beijo fosse intenso e eu tivesse vontade de tomar todo o seu corpo em minhas mãos. Quando ela girou para assumir a posição de domínio, suas penas estavam firmes ao redor de minha cintura, e roçaram no ponto exato para que eu instantaneamente gemesse. Rivera jogou os cabelos para trás num ato majestoso, e deixou-me segurá-los quando tornou a me beijar, sua bunda rebolando em meu colo.
Meu coração batia num ritmo insano, como se estivéssemos no auge de minha existência, e eu realmente sentia que estávamos. Era como se toda a energia canalizada durante a minha vida pertencesse àquele momento. À . Todo o resto havia acontecido para que eu a alcançasse.
E agora eu não queria parar.
Não fazia sentido parar.
As mãos dela estavam em meus seios, as minhas guiando os movimentos de seus quadris. Até nossos gemidos estavam sintonizados.
Rivera foi quem se separou de mim, erguendo os joelhos e ficando agachada ainda sobre meu colo. Deslizei para trás e ergui o tronco, minhas mãos se apoiando em suas coxas e usando as unhas para provocar e trazê-la de volta ao meu beijo, mas ela apenas segurou minhas mãos, puxando-as para sinalizar que queria me ver de pé.
Nós não dissemos uma só palavra.
Não foi preciso.
me levou para trás dos armários e empurrou minhas costas numa das paredes. Suas mãos estavam em baixo do meu vestido, e apertaram minha bunda ao passo em que nossas bocas se uniam uma vez mais. Meus dedos buscaram sua cintura, subindo e descendo num caminho que ameaçava chegar-lhe aos ombros. Rivera partiu o beijo, seus olhos sorrindo em desafio para os meus, e foi quando finalmente segurei as alças de seu vestido, testando a resistência antes de puxá-las para baixo sem qualquer delicadeza. Os lábios de sugaram os meus, ela gemendo em minha boca quando enchi as mãos com ambos os seus seios. Beijamo-nos com volúpia, e mesmo que todo o contato entre nossas peles não fosse o bastante, afastamo-nos em busca de ar. começou a rir com vontade, bêbada de satisfação. Eu a segui, mas enquanto girava seu corpo para imprensa-lo na parede. Abaixei então meu rosto, esfregando-o no vão entre os seios de Rivera, meus dedos apertando seus mamilos endurecidos e nem ao menos me prestei a ter cuidado com os piercings. Ela gemeu alto, puxando meus cabelos para afundar o rosto em meu pescoço, seus dentes roçando em minha pele, a língua sugando meu suor, as mãos abrindo meu vestido à medida que eu já me livrava por completo do seu, deixando-a só de calcinha.
Foi diferente de todas as vezes que trocamos de roupa juntas após algum treino ou aula.
Meu olhar sobre o corpo dela era diferente.
Eu apenas a queria, agora, como talvez jamais tivesse entendido ser possível antes.
Eu a queria de todo jeito.
Por todo o canto.
Minhas mãos se ondularam em suas curvas, subindo e descendo sem pudor por sua pele enquanto chamava meu nome. Minha língua raspou um caminho descoordenado desde sua barriga até algo metálico me invadir o paladar. Não fui intimidada pelo piercing e suguei os dois – o metal e o mamilo esquerdo, provando que se mesclavam muito bem quanto ao sabor.
... – a voz dela falhou, ronronando abaixo da música. – , não me deixa esquecer de você...
Eu sorri, expirando em sua pele, e se jogou para trás, arrepiada, mas de repente estava me puxando pela calcinha. Nossas línguas só haviam acabado de se unir quando ouvimos o baque.
Um dos armários despencou à nossa frente.



Capítulo 7


Por Espinoza

– Filha?
Fechei a case do violão com certa brutalidade, causando assim um efeito sonoro desagradável. Minha mochila já estava nas costas, então por um breve momento acreditei que seria fácil escapar de Violeta.
– Volto amanhã da – despedi-me com o aviso.
Mamãe não moveu um músculo. Seu corpo bloqueava a saída do quarto.
– Está tudo bem entre nós? – Indagou preocupada.
– Claro! – Bati continência sem qualquer ânimo além do sorriso sarcástico em meu rosto. – Não foi tão ruim fazer a pé o caminho até a escola. Satã estava comigo. – Ergui o mindinho e o indicador simultaneamente.
...
– Não precisa me dizer nada. – Interrompi sua fala, minha cabeça meneando. – Eu sei que fui uma escrota com o seu filho . Já me desculpei por isso.
– Não use esse tom para dizer que ele é meu filho, – mesmo que soasse repreensiva, Violeta expirou profundamente, mostrando certa exaustão.
Ao retrair–me, perdi um pouco da postura impenetrável. Minha mãe descruzou os braços para fechar a porta atrás de nós, buscando alguma privacidade. Seus dedos se entrelaçaram aos meus e juntas sentamos à beira da cama.
– Filha, isso é tão mais complicado do que parece... – Começou.
Eu sabia daquilo.
Meu intuito sempre foi descomplexificar as partes que diziam respeito a mim, e deste modo Violeta não seria sobrecarregada. Mas de boas intenções o inferno está cheio, não é?
– Me desculpe por agir assim – balancei a cabeça devagar, meu rosto contorcido por enjoo de meu próprio comportamento. – Mas, mãe, você me expulsou do carro por causa do ! Como queria que eu me sentisse?
– Me desculpe – ela sussurrou, seu polegar acariciando minha bochecha. – Eu exagerei. Mas é que o futebol é tão importante para o e você sabe o quanto ele é sensível...
– Eu não sabia que era realmente o sonho dele, mãe. – Expliquei. – Não teria feito a piada se soubesse! Mesmo que eu não suporte o Encosto, não queria magoá-lo ou desprezar o sonho dele. Não sou esse tipo de escrota. Eu acho.
– Eu sei que não é, meu amor... – Ela pousou uma mão no meu ombro e aproveitei a deixa para chegar mais perto, deitando em seu peito. Mamãe beijou meus cabelos. – Por isso preciso pedir desculpas por ter exagerado com você. É só que... – Violeta inspirou com força. – Eu explodi porque você nunca parece feliz aqui, . Todos nós estamos sempre tentando deixar você feliz, de algum jeito. Mas às vezes você age como se nosso esforço não tivesse valor.
Minha garganta ardeu.
Eu estava falhando miseravelmente se minha mãe esteve todo o tempo tão preocupada comigo.
– Sempre nos viramos bem sozinhas, não é? – Ela sorriu fraco e eu assenti. Éramos uma dupla imbatível. – Mas agora temos Luís e – emendou, obrigando-me a segurar a respiração. – Há tanto a ser feito por aqui, . O precisa tanto de mim. Ele tem estado perdido desde que a mãe faleceu. Luís faz tudo o que pode, mas se perdeu também. E ao mesmo tempo tenho você – tocou meu rosto, sua voz decaindo até tornar-se apenas um sussurro embargado. – Eu só queria que você tivesse uma vida normal, filha. Que fosse à escola e fizesse amigos e se desse bem com seu irmão. Sabe, para que uma só vez eu pudesse sentir que te dei uma família de verdade, . Uma de que gostasse.
Violeta estava chorando.
Apertei meus dedos entre os seus, puxando sua mão para nela apoiar minha cabeça. Foi uma estratégia para não precisar ver minha mãe em lágrimas, porque isso acabaria comigo.
Era horrível vê-la preocupada e impotente. Sua força sempre foi o que me manteve viva. Aliás, a própria Violeta sempre havia sido minha âncora. Seu sofrimento me provocava o mesmo efeito que mil estacas de prata atacando um ninho de vampiros – pedaços meus morriam, e trazê-los de volta à vida não era a mais fácil das tarefas.
– Você e eu sempre fomos uma família de verdade, mãe – disse com segurança. – Eu amei cada momento desta família, por mais difícil que muitos deles possam ter sido. E amei porque o seu esforço para me ver feliz sempre invalidou todo o resto lá fora.
Violeta afundou o rosto em meus cabelos, chorando um pouco mais audivelmente.
– Estou me encaixando aqui aos poucos. Não posso mentir dizendo que amo toda essa mudança, você sabe que eu detestei quase todos os segundos. – Admiti quase que entredentes. – Mas a cada dia mais tenho tentado dar uma chance às coisas por aqui, mãe. Faço isso por você. Então não quero que perca seu tempo se preocupando comigo, ok?
Mamãe apertou meus dedos com mais força, fungando e assentindo.
– Então está tudo bem entre nós? – Tornou a perguntar.
Eu sorri, meus lábios se entreabrindo para respondê-la. Ocorreu que as únicas palavras disponíveis em minha mente eram sobre eu amar Violeta mais que qualquer coisa no mundo.
Mais que o próprio Diabo, Lúcio que me perdoe.
Aguardei até que as lágrimas fossem sugadas de volta para o meu organismo. Enquanto isso, liberei uma risada que distraiu minha mãe.
– Chega de conversa fiada, meu cheiro. Tenho uma festa do pijama hoje à noite.

– Ei, perdedora! – Saudei.
Sempre pus a culpa em meus olhos claros por sofrer de fotofobia. Mas, sério, por que seres humanos precisavam de tanta luz? O tal do Criador com certeza não fez a porcaria da noite para que a iluminassem.
Apertei os olhos enquanto atravessava o caminho até a piscina, e embora a luz tivesse prejudicado minha visão, ainda fui capaz de registrar sentada à beira da água.
– Obrigada pela força, ! – Ela ironizou, polegar e indicador da mão direita erguidos e se agitando. – Com certeza suas palavras de apoio vão estar na minha mente enquanto faço o teste, amanhã.
Meu sorriso foi cínico.
– Disponha.
Deitei meu violão na espreguiçadeira enquanto chutava os sapatos dos pés. Pretendia me juntar à , mas antes me dei conta de que só havia ela ali, na piscina, seus olhos com reflexos do LED púrpura que era a cascata.
– Onde estão as outras? – Indaguei.
ergueu os ombros.
O que? Elas iam todas furar? Até a líder de torcida?
me mandou uma mensagem avisando que não vem – explicou-me, murcha.
– Por quê?
– Eu não sei – admitiu enquanto eu me sentava. – Ela desapareceu o dia inteiro e o irmão dela mandou mensagem perguntando se eu sabia o que tinha acontecido, mas ele desconversou quando viu que não entendi nada. Tem só uns minutos que ela surgiu, mas não disse o que houve. Só avisou que não pode vir.
As mãos de faziam movimentos perdidos em seu colo e seus olhos brilhavam como se estivessem prestes a transbordar de angústia.
– Acha que está tudo bem com ela?
Não estava nada bem com , disso eu sabia. Ele era insignificante, mas talvez o modo como os dois se comportaram ao longo do dia pudesse estar relacionado.
Uma pena só eu ter cogitado a possibilidade, pois não tinha paciência o bastante para buscar coesão em seus dramas e traduzi-los em voz alta. O que eu não podia evitar era o pensamento de que e sempre pareceram muito conectadas. Quer dizer, o que poderia ser mais necessário para a líder de torcida que ajudar sua melhor amiga a estar preparada para o dia mais importante da vida dela?
Eu não podia imaginar muitas coisas.
Ou algo grave estava acontecendo, ou só pensava no próprio umbigo furado.
Satã queira que a opção número um.
Ao meu lado, deixou que seus olhos novamente migrassem para a cascata. Ela fazia aquilo de modo meio vidrado, como se enxergasse as cores de maneira sobre-humana ou tivesse nascido sob o signo de Peixes.
– Notícias ruins correm rápido – respondi alto para tirá-la do transe. – só deve ter quebrado uma unha. Amanhã aparece usando luvas.
socou meu ombro, mas arranquei-lhe um sorriso de lado. Ela ficava bonita sorrindo. Sempre identificava sinceridade e inocência no modo como o fazia, além de um tom sublime incapaz de indicar qualquer arrogância porque era apenas natural. Majestoso.
Retribuí o soco com certa violência, mas apenas porque nunca tive muita noção de força. O corpo de tombou para o lado, e ela abriu a boca, chocada, antes de me socar de volta.
Péssima ideia.
Meu braço de apoio tremeu e por pouco não caí na piscina.
Acho que depois disso meu olhar transmitiu alguma raiva, pois arregalou o seu, como se tivesse ido longe demais. Ela só teve tempo de se encolher antes que eu enfiasse a mão na água para lhe presentear.
– Porra, !
encheu as mãos de água e jogou em cima dos meus peitos.
– Para com essa merda! – Ordenei, meus dedos revidando.
– Eu vou te empurrar nessa piscina muito sério!
– Eu vou te mandar pro inferno!
– Eu te disse que devíamos ter ligado antes.
Minha mão congelou dentro da piscina enquanto eu inconscientemente segurava o fôlego.
Merda.
se moveu em direção ao som, sorrindo radiante porque o resto das convidadas avançavam até nós.
e Clara.
Discutindo como um casal.
– Você estava ocupada dirigindo, . – Ela cobriu os lábios para rir.
– É por isso que eu te trouxe de carona.
– Eu não tenho créditos!
– Você sabe a senha do meu celular, por favor...
Um casal.
Senti vontade de revirar os olhos, mas fez isso por mim. Depois de sorrir para Clara, a pianista avançou pela beirada oposta da piscina em seu jeito engraçado de andar, já que usava calças muito largas.
– Não seria melhor se vocês fossem nadar? – Ela apontou para nossa bagunça.
Tentei secar meu rosto com a blusa, mas a peça estava encharcada. Puxei-a para cima, torcendo suas pontas, mas senti-me ridícula ao fazê-lo.
Qual era o meu problema?
– Eu não sei nadar – foi minha resposta para , que sorria.
Por que ela tinha que sorrir?
– Achei que nadasse no sangue de virgens – Clarinha se agachou atrás de , abraçando-a ao passo em que me cumprimentava sorrindo.
– Eu não nado – meneei a cabeça, rendendo-me ao riso. – Ando sobre ele.
– E aí, ? – acariciou o ombro da nossa anfitriã, seus olhos finalmente desviando-se de mim. – Preparada para a melhor noite da sua vida?
– Eu não confiaria na irmã de Satanás – apontei para o contato entre elas.
estava rindo, mas seu rosto se curvou para baixo, os ombros meio encolhidos.
– Vocês querem ir para o quarto? – Murmurou.
– Mas já? – Clara fez a piada baixinho.
– O que acham de ficarmos aqui? – Joguei a sugestão. – Parece bem tranquilo.
– E a noite está linda – concordou.
Sentei-me numa das espreguiçadeiras. e Clarinha dividiram a da frente, mas preferiu ajeitar-se no chão entre nós. Ela ainda estava viajando em modo silencioso, e deduzi que era algum estado de tormento, apesar de não saber exatamente qual.
– Eu aprendi umas músicas que você gosta de cantar – tentei trazê-la de volta à Terra.
– Tá falando comigo? – franziu o cenho.
– Não, com a sua mãe.
As meninas começaram a rir e empurrou meu joelho.
– Aprendeu a música de amanhã? – Clarinha tinha um jeito engraçado de ficar animada. Que ela era meio retraída todos sabíamos, mas dava uns pequenos surtos ao mesmo tempo em que tentava se conter.
Era adorável. E eu nunca acho alguma coisa adorável.
Como resposta, meus dedos se viram livres pelo violão, traçando ali a melodia citada.
Lembro de ter sido apresentada à musicalidade porque uma professora disse a mamãe que eu era uma criança muito agressiva. Então, em vez de deixar que eu fizesse algum tipo de luta, Violeta tentou me transformar numa bailarina até enfim decidir que tocar algum instrumento poderia ser um hobbie melhor que espancar meus colegas do primário.
Bem, eu consegui fazer os dois.
– Canta pra gente, ! – Induziu .
Achei que ela ia recusar.
Ela sempre recusava por conta da timidez.
No entanto, naquela noite, ergueu o rosto, cerrou os olhos e fez com que sua voz poderosa jorrasse, tomando toda a nossa atenção e fôlego.
sentia a música. Não houve vontade alguma de se impressionar ou nos impressionar – eram apenas ela e o canto na mais profunda conexão. Foi gostoso de se ouvir. Ainda que não tivesse experiência alguma além das cantorias no banho, seu timbre maduro parecia acostumado a performar para multidões. Ela só precisava que sua postura dissesse o mesmo e estaria pronta. Todo o resto estava completo.
A música atingiu seu primeiro refrão e foi descendo em murmúrios lânguidos que deveriam ser tomados por Tiago, mas quem o fez foi .
Com um gutural.
Estávamos todas rindo antes de sequer entender o que havia sido aquilo.
! – Clarinha repreendeu. – Ela estava tão linda!
– Alguém tinha que cantar a parte do Tiago, ué!
– Mulher, como você tem garganta pra isso? – resfolegou.
– É como a disse – fui indicada com um aceno de cabeça. – Eu sou irmã do capeta, não sou?
estava sorrindo, um olho piscando para mim.
Eu adorava aquela garota.
– Deus me livre – se benzeu, mas não havia parado de rir. – Para de falar isso dentro de casa!
– O que? – Cruzei os braços, meus lábios se apertando para controlar o riso. – Capeta?
Quando se virou para descer a mão na minha perna, de relance percebi que Clarinha erguia os polegares para sua amiga do piano.
Então era mesmo sua intenção distrair . Colocar um sorriso no rosto dela e fazer daquilo sua realidade.
O mais estranho era que eu me sentia do mesmo jeito.
Havia algo bom na aura de . Mas um bom diferente.
Não era como...como o , por exemplo. era irritante porque forçava sua bondade. Ele não simplesmente era – precisava agir o tempo inteiro até que se provasse bom, porém na maioria das vezes estava apenas confuso ou paranoico demais para perceber que não precisávamos que intervisse.
se distanciava dele neste aspecto.
Talvez ela nem soubesse o tipo de energia que passava. Sempre pintou sua imagem com unicórnios, jujubas e arco-íris, mas estes não de fato a traduziam porque era real. Era possível senti-la a todo instante passado ao seu lado. Seu calor, sua pureza – e não os físicos. Havia verdade em . Uma verdade que eu precisava manter, ainda que o fizesse em meu modo estranho.
Talvez as meninas também precisassem. Fazia sentido tratar-se de algo universal. Mas, ao mesmo tempo, se realmente o fosse, por que apenas nós três estávamos ali? A qual outro lugar podiam e pertencer se não aquele, ao lado de , empenhando-se por ela e seu sucesso?
Em meio a algumas piadas que sem querer perdi, um coroa de cabelos cinzas avançou pela beira da piscina. Seu riso atrapalhou meus devaneios, trazendo-me de volta ao mundo para que checasse se o velho estava morrendo, pois parecia exalar o último suspiro.

Qual é, meninas?
Quantos anos ele tinha se aquilo era sua voz?
bateu na própria testa quando o velho fez um sinal de paz e amor.
– Pai! – Miou.
Se ele fosse um pouco mais alto e o alimentassem direito, podíamos tranquilamente vesti-lo de Drácula para entreter o irmão mais novo da pianista. Porém agora, com aquele claro problema de coluna e o jeito fraco com que se movia, me admirava não tê-lo confundido com uma gárgula.
O coroa parou na minha frente, já que eu estava na ponta da cadeira, a mais próxima de seu cumprimento. Por dentro me senti uma pessoa horrível, mas não me lembro de já ter identificado o contrário, então sorri para o velho.
– Senhor Gonzalez! – Apertei sua mão. – Bom finalmente conhecê-lo! O senhor é mais jovem do que eu pensava!
Chutei quando ela beliscou minha panturrilha. Seu pai, alheio, tossiu as palavras como se fosse a última coisa que diria em vida:
– Você é a irmã do ?
Depois daqueles primeiros dias na escola, eu sequer me importava em negar a informação.
– A gente não escolhe os laços fraternos, né?
– Pai... – meneava a cabeça, mas logo recompôs–se para apresenta-lo às outras meninas. – Essas são a e a Clarinha, do teatro.
Ele beijou a mão de Clarinha e bagunçou os cabelos de .
– E você, quem é? – Perguntou à filha.
Por Lúcifer.
O velho tinha alzheimer.
– Pai! – Ela riu, levantando-se. – Eu sou a .
! – Ele sorriu para sumir no abraço dela. – Minha .
Era um pouco desconfortável estar no meio de um momento em família, considerando que eu era quase uma desconhecida. Abaixei o rosto.
– Já está pronta para ganhar aquele papel amanhã? – Tossiu Sr. Gonzalez.
– Pronta para tentar – declarou modestamente.
– Aquele palco vai ser seu, princesa. Ou aquela professora...
– Pai! – Repreendeu entredentes. – Já deu a sua hora!
Ele girou a cabeça, olhando para mim e apontando para .
– Ela tem medo que eu a envergonhe – acusou sua filha. – Vocês estão em casa, meninas.
apontou para longe, enxotando o coroa.
– Ele é tão fofo! – Clarinha balançou as pernas. – Viram o cabelo?
– Mais jovem do que você pensava, hein, ? – me bateu de novo, dessa vez um soco no ombro.
– Ei, eu queria que meu pai fosse assim! – Defendi-me.
– Eu também! – Clarinha estava realmente animada. – Ele é divertido!
– E apoia você – observou com um sorriso misterioso. – Bom, pelo menos foi o que pareceu.
– Ele não é ruim – sorriu de lado, sentando–se comigo na espreguiçadeira. – Acho que é o único feliz por mim nessa família. Se minha mãe apenas me ouvir dizendo que quero viver de música... – meneou a cabeça, espantando a frase que se concluía no ar.
– Alguns de nós encarnam para a arte. – Dei de ombros. – Não entendo por que é tão difícil a aceitação.
– É a mente capitalista – criticou Clara. – As pessoas sempre acham que arte é sorte. Que você só vai ser bem sucedido financeiramente por um milagre. Só esquecem de se lembrar que nem tudo é pelo dinheiro.
– Ai, menina, até me arrepiei – deslizou o indicador pelo braço.
– Ela é boa com as palavras – encostou o ombro no de Clarinha, sorrindo para ela. – Por isso é a maior escritora que você respeita.
– Para com isso! – Clara cobriu os lábios, envergonhada. Ela sempre escondia o sorriso.
– Você já soube que ela tem uma coluna no jornal da escola? – A pianista perguntou para mim, exaltando sua amiga. – E ainda ajuda a escrever para o teatro!
– Por que eu sirvo ao Diabo e não a você? – Simulei uma reverência.
– A tá exagerando... – Clarinha se encolheu. – Eu só tenho uma mente fértil. Me inspiro nos crimes que minha mãe resolve e aí saem umas crônicas para o...
Crimes?
– Sua mãe é policial? – Interrompi depressa.
Clara e se entreolharam. engastou um riso, e acompanhei-a para disfarçar.
– Isso é engraçado, não é? Porque eu ouvi que seu pai é um traficante.
– Quem te disse isso? – A pergunta escapou esganiçada.
Clarinha fitou meus olhos arregalados e arqueou suas sobrancelhas.
Pelo sangue de Drácula.
A escritora manteve o contato pelo que me pareceu uma eternidade. Ela colocou o cabelo escuro para trás das orelhas, seus lábios um pouco projetados para frente no que identifiquei como uma espécie de bitch face
. Se Clara estava tentando me intimidar, talvez devesse ser menos fofinha. Ela semicerrou os olhos para uma provável tentativa, mas começou a rir. Aproveitei a deixa para forçar-me a segui-la.
– Menina, que loucura! – Abanei o ar.
– Eu contei que você ameaçou aquele idiota na festa – confessou, obrigando-me a fitá-la com ódio.
– Eu não acredito que ele te assediou! – moveu a cabeça. – Isso é tão nojento!
– Sim! – fingiu que ia vomitar. – Foi tão rápido que eu e só vimos a boca dele sangrando. é foda demais!
– Você luta ou foi só algum tipo de reflexo insano? – estava olhando para mim outra vez, uma espécie de sorriso orgulhoso num canto dos lábios.
– Meu pai me ensinou autodefesa... O resto vem do espírito. – Meus olhos se estreitaram, o tom de voz baixando um pouco. – Eu diria que é algo meio selvagem, se é que me entende.
– Eu queria saber lutar – ela mordeu o lábio, assentindo. – Mas na maioria das vezes prefiro estar atrás, sem me expor.
– Observando o momento em vez de vivê-lo? – Provoquei.
Ficamos em silêncio por um momento, meu olhar perdido no dela.
ficava linda, assim. Alguns fios de cabelo sobre a testa, o modo como a pele alva tinha pontos escurecidos até atingir tons próximos ao vermelho. Era simples mas não de um modo comum, que facilmente se dissipa nos pensamentos. era única e se encrustava na mente até que nos agoniasse, impulsionando-nos para a descoberta de seus mistérios.
forçou a tosse, ajeitando os joelhos e esticando os braços.
arqueou as sobrancelhas de um jeito sugestivo, e eu poderia continuar aquilo por toda a noite, mas decidi virar-me para Clarinha.
– Falando sobre a sua mãe de novo, eu particularmente acho que mulheres ficam poderosíssimas com armas.
– Eu sei, né? – Ela concordou, animada.
– Além de dar um ar mais sexy – completei.
– Eu só tenho medo, mesmo. – juntou as palmas, sorrindo.
– Porque é ameaçador – se meteu. – Talvez você deva usar uma no teste. Sabe, só para o caso...
Clarinha e eu rimos, mas nossa cantora olhou para baixo com um pequeno sorriso.
– De eu não conseguir?
A voz dela saiu fraca.
Na verdade, eu só a tinha ouvido neste tom desde que cheguei, exceto quando cantou. Foi diferente, já que em tal momento o mundano não existia – eram apenas presa em outra realidade com sua música.
– Gente, foi uma piada!
... – Clarinha murmurou, ainda assim. – Você vai conseguir.
– Eu posso conseguir – corrigiu, tranquila.
– Isso não te assusta? – umedeceu os lábios. – Estar a um passo de estrear a maior peça que aquele colégio vai ver um dia?
– Eu não sei o que me assusta mais – assumiu ainda com o sorriso perdido como o de um pisciano. – Não conseguir esse papel...ou ouvir a Rosa dizendo que me escolheu.
– O que você faz quando está assustada? – Arqueei uma sobrancelha.
apertou os lábios para não rir.
– Eu como...
– Então o que está esperando? – Estapeei sua coxa mais próxima. – Vai fazer alguma coisa pra gente comer, mulher!
– Vamos todas ficar assustadas! – Clarinha aprovou, esticando-se para usar os joelhos de como apoio. – Vamos todas morrer de medo com você!
Foi engraçado o grito que a escritora deu quando a puxou para um abraço. Eu me assustei também. apertou Clara com força e escondeu o rosto em seu peito. Ouvi quando a cantora soluçou um "obrigada", e queria ter pensado em algo para reverter seu choro, mas paralisei.
Tinha me esquecido do quanto piscianos são sensíveis.
– Ah, demônio! – resmungou, levantando-se da espreguiçadeira. Ela parecia meio relutante, mas enfiou-se no meio do abraço, pequenina como era, e acabou sentada no colo de .
Eu não ia me render àquilo.
Qual é?
Já tinha vindo à merda da festa do pijama. Era demonstração de afeto o suficiente!
virou o pescoço até seu olhar encontrar o meu.
Ela realmente estava chorando.
Filha da puta.
Ajoelhei-me na espreguiçadeira e passei os braços por cima de e Clarinha, envolvendo as duas fisicamente, mas também , que estava no meio. Larguei-me sobre elas e tombamos as quatro com o peso inesperado. bateu os dentes no queixo de alguém, Clara comeu cabelos de e o modo como os cuspiu fez com que a cantora risse, apertando o abraço um pouco mais até enfim nos deixar livres.
– Eu vou fazer lanches para todas! – Decidiu. – Alguma preferência?
– Sangue de virgem – rosnei. – Purifica depois de tanto calor humano.
Recebi uma língua em resposta.
– Quem vai me ajudar?
– Eu! – Clarinha levantou um dedo. – Vamos logo!
enganchou seus braços. Valia mesmo a pena renovar as energias dessa garota com carinho?
– Sabe a música do Nós Andamos Iguais?
Clarinha escondeu o riso.
Nós andamos igua-ais, nós andamos igua-ais.
– Elas estão mesmo fazendo isso? – checou por cima do ombro.
Ela estava na mesma espreguiçadeira que eu, agora. Segui seu olhar até as outras meninas, deixando que uma risada me escapasse.
– Acho que é esse o tipo de coisa que e fazem sozinhas – comentei. – Elas são meio felizes.
– Isso é estranho pra você?
– O que? – Virei-me para ela, os olhos indo tão fundo que foi quase como se eu a tivesse obrigado a abaixar a cabeça. – Ser feliz?
meneou a cabeça, rindo.
– Não tenho energia pra esse tipo de coisa – indiquei as meninas que já entravam em casa. – Nem muita vontade, pra ser sincera.
– Eu sei. – Ela ergeu o rosto de volta, mas já não olhava diretamente para mim. – Quer dizer, imagino. Já ouvi falar sobre você, .
– Já? – Abri a boca num "o", fingindo espanto. – Eu tô na cidade há menos de dois meses!
– Pra você ver, né, menina – olhou para cima, também brincando.
– Todos têm boatos ao próprio respeito. – Murmurei, dando de ombros. – Nem tudo é verdade, Soto.
Ela sorriu de lado, olhando em meus olhos por um breve segundo.
– Não foram coisas ruins.
– Então não eram sobre mim.
Fiz com que risse. Havia aquele rosado em suas bochechas, e passou os cabelos entre os dedos, jogando-os para trás.
– Era sobre você o boato do pai traficante?
Segurei o fôlego para apenas liberá-lo numa risada. Foi a primeira vez que desviei os olhos de seu rosto, formulando em minha mente alguma coisa que nada lhe dissesse, mas ainda assim alimentasse sua curiosidade.
– Não ouvi você falando sobre o seu pai – frisei o pronome possessivo para que entendesse aquilo como uma espécie de acusação, também. – Por que eu deveria te contar sobre o meu?
Ela sorriu de lado, assentindo.
– Justo.
Havia um modo no jeito como fugia do meu olhar. Eu não encontrava um sentido para que o fizesse, considerando que, antes, quando estávamos as quatro juntas, sempre o buscava.
se esquivou e sorriu. Será que era por se sentir vitoriosa? Se sim, que vitória havia em me evitar, se eu não era tentação?
– Isso é estranho. Eu... – passou a língua pelo lábio inferior, procurando a fala. – Eu não penso sobre o meu pai há muito, muito tempo.
Franzi o cenho.
Pela maneira como respondi, achei que ficaria clara a morte do assunto. Mas lá estava ela falando sobre o progenitor.
– Então talvez ele não seja o seu pai – refleti, desconfortável. – Talvez seja só mais homem que é capaz de reproduzir, mas não o suficiente para cuidar do que vem depois.
– Isso é bem típico, hã? – ergueu os olhos até os meus, um sorriso triste no canto de seus lábios. – Minha mãe era jovem quando o conheceu. Eles decidiram se casar quando ela engravidou de mim, mas obviamente não deu certo.
– E ele foi embora? – Sussurrei.
– Não, meu pai sempre foi bem teimoso. – riu, e agora encarava alguma coisa acima de nós, os cílios piscando vezes demais para que eu não notasse que seguravam o choro enquanto ela vomitava as confissões. – Minha mãe diz que ele não passa de um mimado egoísta e eu não duvido. Ele nos deixou durante a gravidez do meu irmão, e acho que depois disso só nos falamos no funeral da tia Iúna. Lúcio insiste o tempo inteiro para que eu dê uma chance ao nosso pai. Mas, sabe, Lúcio insiste. Não ele.
Segurei o fôlego durante todo o tempo em que ela falava. Depois, quando acabou, entreabri meus lábios diversas vezes para dizer o que quer que fosse, mas me deixou muda.
– Desculpa – ela sussurrou, sua mão tocando meu joelho numa espécie de carícia que durou poucos segundos. – Não sei por que disse tudo isso. – Coçou a nuca, em seu rosto uma careta de desconforto. – Me desculpa.
– Talvez eu te inspire confiança.
Havia alguma coisa em .
Alguma energia que me chamou a atenção desde o primeiro momento em que a vi, no piano do teatro.
Talvez houvesse alguma coisa em mim também. Através dos olhos dela.
Seus lábios tremeram.
– Sabe... – murmurei, a seriedade enrouquecendo meu tom de voz. – Apesar de tudo o que houve entre meu pai e eu, ele me deixou algo de bom. É isso o que fica na minha mente, sabe? Ajuda a bloquear qualquer tipo de decepção ou raiva que possa haver em relação a ele. Eu só preciso focar na herança, na parte boa que ficou para mim.
A pianista respirava pela boca. Havia sangue demais concentrado em suas bochechas e lábios, por isso minha atenção se prendeu ali. Eu podia imaginar tantas coisas...
– E o que ficou para você? – perguntou.
– A luta – murmurei. – A capacidade que eu tenho de me defender. Seja do que for. Ou pelo menos de escapar.
assentiu lentamente, sinalizando que compreendia.
– Você me ensina?
Eu não estava mais pensando.
Levantei-me da espreguiçadeira e fiz um gesto com a mão, indicando que a pianista me espelhasse.
– Agora? – Ela quis ter certeza, rindo mais uma vez.
– Vou te mostrar o que eu fiz com o cara da festa – expliquei.
– Vai socar a minha cara? – Ela abraçou a si mesma, fingindo se proteger.
Insisti com a mão erguida e se levantou, os olhos revirando de leve.
– De costas para mim.
Ela obedeceu.
Eu ouvi seu riso se transformar numa respiração mais ruidosa quando encaixei nossos corpos. era menor que eu, o bastante para que minha voz se despejasse diretamente em sua orelha.
– Ele agarrou a minha bunda, mas eu não vou te desrespeitar assim – prometi. – Vou te ensinar como escapar de algo parecido, tudo bem?
apenas assentiu, e o movimento fez com que meus lábios roçassem em sua têmpora.
Envolvi o corpo dela. Meus braços se prenderam na altura de seus seios, mas não de um modo afrontoso. Eu sequer fiz muita força.
– Quando seu oponente tenta essa abordagem, você precisa se abaixar – expliquei, a respiração caindo no ombro dela. moveu as costas de leve, jogando o pescoço um pouco para trás, mas depressa voltou ao lugar de início. – Fica mais difícil de te derrubarem.
Ela começou o movimento explicado, e por isso precisei prendê-la, esmagando seu seios em meu antebraço.
– Eu ainda não terminei – repreendi. se recompôs sem dizer uma palavra. – Enquanto abaixar, tem que virar o corpo para o lado. Os pés precisam estar um pouco abertos. – Ela os moveu, entendendo. – Então você precisa enfiar as mãos nas bolas de quem for. Com força.
– Por que assume que será um homem? – Sussurrou.
– Não sou eu, – abaixei meu rosto, bem como o tom de voz, curvando-me quase sobre sua pele. – São as estatísticas.
Eu podia sentir o coração dela em meus antebraços. Havia calor ali. Corpóreo, mas também o seu contrário. soltava o ar pela boca, seu peito exercendo pressão contra minha pele até que eu finalmente desfizesse o aperto e me afastasse dela.
Não tenho certeza se o fiz, porque continuou ali.
Eu a sentia em meu corpo.
Sentia em partes que sequer a haviam tocado.
– Vai precisar de prática – eu lhe disse.
continuava de costas para mim, respirando profundamente.
– Vou tentar com a Clarinha...
– Porque ela é sua namorada?
O ruído de sua respiração parou.
girou o rosto devagar, quase encaixando-o por sobre um ombro, o olhar apertado. Talvez ela esperasse que eu dissesse mais alguma coisa, porque ficou um tempo apenas encarando.
Então a fiz rir de novo. Dessa vez um riso breve e amargo.
– Não, – pronunciou meu nome com ironia, o semblante endurecendo. – Eu não sou o gatinho dela. Não sou o gatinho de ninguém.



Continua...



Nota da autora: (12/06/2017) Oi, gente! High School Lesbians é uma história de nós para nós, meninas e mulheres desse mundão. Está sendo uma delícia escrevê-la e espero que curtam acompanhá-la comigo!
Clique aqui caso queira ouvir a playlist de HSL no Spotify e aqui para conhecer a coleção da história no we heart it. Quanto a mim, posso ser encontrada no twitter.
Outras histórias:
02. Problem
5. Knockin’ On Heaven’s Door
11. Got Me Going Crazy
Amplexo Mortífero




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