Finalizada em: 19/08/2016

Un

- Chegamos!
A loira sorria conforme estacionava o carro em frente à casa que, assim como todas as outras da rua, estava toda decorada com luzes pisca-pisca e enfeites natalinos. Era a casa de Nicolas, seu namorado. Apesar de se conhecerem há mais de uma década, pois foram colegas de turma desde o primário, não fazia mais de três meses que haviam se reencontrado na festa de aniversário de Yana, uma amiga que tinham em comum, dia em que ficaram pela primeira vez. Para a surpresa de toda a galera que se conhecia desde a época de escola, em poucas semanas apareceu no Facebook que eles estavam em um relacionamento sério. Tudo bem, os dois nunca haviam acreditado em amor à primeira vista, de qualquer forma...
- Não acredito que você realmente me arrastou até aqui, Florence. - a morena resmungou, sem deixar de bufar para demonstrar todo seu descontentamento.
- , para de reclamar. Você parece uma velha. - Florence repreendeu a amiga, desaprovando todo aquele mau humor, enquanto se libertava do cinto de segurança. - É só uma reuniãozinha com os mais chegados. Vai ser legal, você vai ver. Afinal, você mal tem saído para se divertir desde que...
- Tá bom, tá bom! - a outra exclamou, interrompendo a amiga. - Já disse que não quero falar sobre isso.
- Então bota um sorriso nesse rosto, vai. - disse Florence, cutucando a cintura de , que acabou por esboçar um pequeno sorriso mesmo que tenha rolado os olhos. - Bem melhor.
As duas mulheres saíram do automóvel, batendo as portas, e caminharam lado a lado por entre os arbustos repletos de luzinhas douradas do quintal de Nicolas. Antes que tivessem tempo de tocar a campainha, a porta de entrada se escancarou e o dono da casa surgiu em suas visões.
- Até que enfim as senhoritas resolveram dar as caras. - Nicolas falou, sorrindo.
Pelo brilho em seus olhos, soube que não era pela chegada dela que ele estava tão ansioso.
- Tivemos alguns contratempos. - disse Florence, fazendo uma careta ao lembrar-se da discussão de meia hora que precisou ter com a melhor amiga até convencê-la a sair de casa.
Nicolas, então, puxou a namorada pela cintura e grudou seus lábios aos dela. Por mais que tentasse, não conseguia tirar os olhos da cena. De seu ângulo, ela podia ver as línguas dos dois se embolando com vontade, enquanto proferiam aqueles sons que apenas não incomoda a quem está participando da troca de salivas. Estava contente por ver a amiga feliz, claro que estava; mas não conseguia evitar o enjoo que sentia ao ver um casal tão... apaixonado.
pigarreou, fazendo com que o casal caísse na real e, enfim, rompesse o beijo. Os dois a encararam um pouco sem graça, mas Nicolas logo tratou de quebrar o gelo.
- Olá, . Seja bem-vinda! - ele exclamou, contente, e a puxou para um abraço apertado. - Fico feliz que finalmente tenha tido um tempinho para vir em uma das nossas reuniões.
Sem ter por onde escapar, deu alguns tapinhas nas costas do rapaz. Ainda não havia se acostumado a lidar com toda aquela intimidade que Nicolas pensava ter com ela. Apesar de terem estudado juntos durante muitos anos, ela não se lembrava de sequer ter conversado com Nicolas até ele se tornar o namorado de sua melhor amiga.
- Também estou feliz por ter vindo. - ela falou, tentando soar o mais natural e simpática possível, o que fez Florence se controlar para não soltar uma gargalhada.
- Venham, vamos entrar. - disse Nicolas, dando espaço para que as duas adentrassem a casa.
Mais à vontade, Florence foi a primeira a passar pela porta e seguir direto para a sala de estar, onde encontrou dois rostos familiares e se surpreendeu ao deparar-se com um terceiro rosto que, apesar de também conhecido, não esperava ver naquela noite.
Era .
- Que bom que chegaram, meninas. - a ruiva levantou-se do sofá em que estava sentada entre os dois homens e caminhou até as recém-chegadas. - Já estava de saco cheio de ficar aqui sozinha com esses marmanjos.
- Coitada de você, Yana. Deixa eu adivinhar... - Florence disse em um tom divertido, colocando uma das mãos no queixo para fingir que estava pensando. - Eles não largaram o Xbox até agora, né?
- Como você sabe, amiga? - Yana rebateu com uma surpresa exageradamente falsa.
- Talvez eu tenha uma bola de cristal, talvez esses homens só sejam previsíveis demais. - a outra disse, rindo. - Olha quem eu trouxe comigo.
deu um meio sorriso quando o quadril de sua amiga bateu no seu próprio quadril de leve.
- Quanto tempo, ! - exclamou uma Yana muito simpática, como sempre, aproximando-se de para cumprimentá-la com dois beijos nas bochechas, e acrescentou com um ar travesso em seguida: - Espero que não se assuste com os rapazes. Eles parecem meio retardados à primeira vista, mas prometo que são legais.
- Imagina. Já estou acostumada com a Florence, e ela não é bem o que podemos chamar de normal. - brincou, piscando um olho para a loira, que apenas mostrou o dedo do meio.
- Ei, vocês dois. Não sejam mal educados. - Yana virou-se para os dois rapazes sentados no sofá, que estavam concentrados demais no videogame para dar atenção aos outros presentes, e deu um chute leve na perna de um deles. - Vincent, larga esse jogo e vem falar com as garotas.
- Oi, garotas. Sintam-se beijadas e abraçadas. Vencer o é questão de honra, não tem como pausar agora. - ele disse com os olhos pousados na televisão, sem piscar sequer uma vez. Entretanto, o menu principal do jogo surgiu na tela. - Ei, seu trapaceiro! Eu estava ganhando!
Uma gargalhada escandalosa preencheu o ambiente, fazendo com que levantasse os olhos com curiosidade na direção do homem que ria com vontade por ter encerrado o jogo antes do fim só para implicar com o amigo. Ela se surpreendeu ao reconhecer , não imaginava que voltasse a ver pessoalmente o garoto bagunceiro que atrapalhava as aulas e havia se tornado um jogador de futebol mundialmente famoso. Agora que ele era rico e podia ir para qualquer lugar do mundo, não esperava que ele voltasse a pisar em , mesmo que apenas para visitar os conhecidos.
- Como eu não sou mal educado, não vou deixar de cumprimentar essas belas moças por causa de um joguinho. - falou debochadamente, levantando-se do sofá.
- Educado uma ova! Você só fez isso porque estava perdendo! - Vincent acusou, indignado.
- Amor, , vocês devem se lembrar do , né? - Nicolas se intrometeu, pronto para introduzir o amigo. - Ele era da nossa turma na escola.
- Claro que lembramos. - Florence prontamente falou, sorridente. - Quem não conhece o camisa 10 da Seleção, não é mesmo?
- Também me lembro de você, Florence. Só não esperava que tivesse tanto mau gosto. - falou, aproximando-se da mulher para cumprimentá-la com um rápido abraço. - Quando o Nico falou que vocês estavam namorando, nem acreditei. Esse danadinho.
Nicolas deu um empurrão no amigo, que acabou por soltar mais uma de suas gargalhadas.
- Também lembro de você. - disse, encarando a morena, que sentiu um leve arrepio quando os olhos do jogador a analisaram de cima a baixo. Com o tom de voz baixo e calmo que ele sabia que enlouquecia as mulheres, acrescentou: - ...

😜💙⚽

O tédio era grande, tão grande que bocejava a cada dois minutos. Os outros cinco presentes estavam espalhados pelos sofás jogando videogame e relembrando os tempos de escola, falando e rindo alto, enquanto comiam e bebiam. Não que estivesse sendo excluída, pois, mesmo que tivessem pouca intimidade com ela, todos faziam questão de sempre colocá-la na conversa, mas preferia ficar quieta em seu canto, com o copo na boca para evitar ter que falar qualquer coisa. Ela não era anti-social ou algo do gênero, só havia desaprendido a estar em um ambiente descontraído, entre amigos, já que muito nova precisou assumir responsabilidades que a impediam de viver momentos como aquele.
Para completar, além de Florence e Nicolas, Yana e Vincent também estavam em clima de romance. sabia, graças à sua melhor amiga, que os dois não eram namorados, apenas se pegavam de vez em quando. E claro que aquele dia era justamente dia de se pegarem, o que tornava a situação ainda mais constrangedora para , que estava na companhia de dois casais grudentos e um homem com quem não tinha assunto algum.
Entediada e incomodada com a bagunça que começava a se formar com tantos pratos e copos sujos espalhados pela mesinha de centro, levantou-se e recolheu o máximo da louça que conseguiria carregar até a cozinha.
- Deixa isso aí, . Eu arrumo depois, você é visita. - Nicolas falou quando desgrudou seus lábios dos da namorada e reparou no que a morena fazia.
- Não tem problema, eu gosto de lavar a louça. - retrucou, sorrindo de leve.
Quatro pares de olhos a encararam como se ela fosse um extraterrestre; Florence, entretanto, ria disfarçadamente. Havia percebido quão deslocada a amiga parecia estar ali, mas, se não havia ido embora ainda, talvez nem tudo estivesse perdido. Quem sabe lavar a louça não a fizesse recarregar as energias para continuar ali jogando conversa fora?
Por fim, todos deram de ombros e continuaram o assunto anterior, que não fazia a mínima questão de saber qual era. Ela equilibrou os pratos e copos nas duas mãos e seguiu para a cozinha. Largou a louça suja na pia e colocou um pouco de detergente na esponja, logo começando a ensaboar um prato. A mulher não se permitiu ser engolida pelos seus próprios pensamentos. Apesar de não parecer, ela estava dando o melhor de si para se distrair naquela noite, mesmo que não estivesse sendo uma tarefa muito fácil.
Enquanto lavava a louça, estava tão atenta a tudo que acontecia à sua volta que escutou perfeitamente quando alguns passos adentraram a cozinha. Não virou sequer a cabeça para espiar quem estava ali, o perfume masculino cítrico que adentrou suas narinas dedurou quem era o recém-chegado.
- Vim te fazer companhia, os quatro estão se engolindo lá na sala. - falou, indiferente. Ele não se importava nem um pouco de estar entre dois casais que estivessem se atracando quando tinha um Xbox pronto para distraí-lo, mas algo em o estava atraindo como um imã. Acrescentou, sem saber ao certo como puxar assunto: - Quer ajuda aí?
- Não precisa, já estou acabando. - respondeu, virando o pescoço apenas o suficiente para sorrir na direção do jogador.
- Não é possível que você realmente goste de lavar a louça. De que planeta você é? - o homem zombou, rindo.
- Do planeta em que as pessoas não são jogadores de futebol milionários e não têm condições financeiras de pagar alguém para fazer os serviços domésticos por elas. - ela rebateu, cheia de ironia.
- Ai, essa doeu! - exclamou com diversão e gargalhou. - Vejo que sua língua continua afiadíssima, . Se você quer saber, a vida de um jogador de futebol não é tão glamourosa assim.
- Fora os carrões, mansões, roupas de marca e relógios que valem mais do que a minha casa, imagino que não seja tão glamourosa mesmo. - falou, pondo o último prato no escorredor de louças, e, em seguida, virou-se na direção de . Não conseguiu controlar a risada ao ver a ofensa estampada em seu rosto. - E nem vamos falar das modelos que comem na mão de vocês, certo?
- Você está certa, existe uma infinidade de jogadores assim. Muitos dos meus companheiros de time são exatamente esse perfil de jogador que você citou, inclusive. - ele falou, cruzando os braços enquanto acenava positivamente com a cabeça. - Mas ser jogador de futebol não é tão fácil quanto parece. É muito dinheiro e empresários poderosos envolvidos, sem contar a torcida, a gente precisa abrir mão de muita coisa. É cobrança que vem de toda parte, controlam até o que a gente come. Quem não se dedica e perde tempo com essas futilidades, não vai muito longe.
- Tudo bem, . Você me convenceu. - disse com um sorriso nos lábios.
Claro que ela sabia que a vida de um jogador de futebol não era fácil e que, os que levavam tudo na brincadeira, acabavam no banco e, eventualmente, eram descartados do time, já que “insubstituível” não era uma palavra que parecia existir no meio futebolístico. Estava apenas implicando com e sentiu-se satisfeita por vê-lo argumentar. Achou até bonitinho.
- E modelos que basta a gente estalar os dedos e estão aos nossos pés não são tão atrativas assim, sabe? Elas são todas iguais. Homens de verdade procuram mais do que isso, eles querem mulheres mais interessantes. - falou despretensiosamente. Colocou as mãos nos bolsos do casaco antes de continuar: - Mulheres que gostem de lavar a louça, talvez? Isso me parece bem interessante.
Se, algumas horas antes, alguém dissesse para que naquele mesmo dia ela encontraria , ela não acreditaria; se dissessem que daria em cima dela, ela provavelmente rolaria no chão, rindo da cara da pessoa. Porém, ali, diante do jogador, que dava de ombros enquanto sorria de canto, ela só conseguia pensar em quão descarado ele era.
E em como ela queria mostrá-lo quão mais interessante do que aquilo ela poderia ser.
encarou por alguns segundos e acabou por, como resposta, rir baixo. Em seguida, saiu pela porta que ligava a cozinha ao quintal dos fundos. Não se importou em chamar o jogador, sabia que seu silêncio seria um convite mudo para ele segui-la. Se encolhendo dentro da jaqueta que vestia, a mulher sentou-se em um dos degraus que levavam até a grama verdinha, nitidamente tão bem cuidada por Nicolas, e, em seguida, sentou-se ao seu lado.
- Quando estudávamos juntos você me odiava, né? - ele questionou, espirituoso, sendo o primeiro a quebrar o silêncio. - Quer dizer, pela sua cara desde que me cumprimentou, ainda odeia.
- Nunca te odiei, só não tínhamos muito em comum. - respondeu , dando de ombros.
Achou melhor não dizer que, enquanto ela estava muito preocupada em estudar e ser alguém na vida, o achava idiota por não fazer a mínima questão de fazer o mesmo, contando que conseguiria realizar o sonho de ser um jogador de futebol. Para ela, estava bem claro qual dos dois, no final das contas, havia sonhado em vão. E, definitivamente, não havia sido .
- E meu mau humor não é por sua causa, não. Pode ficar tranquilo. - ela continuou. - É que estou passando por alguns problemas.
- Se quiser falar sobre isso, posso tentar ajudar de alguma forma. - falou, solícito.
- Não, está tudo bem. - disse tão rápido que o homem a analisou, se dando conta de que o que a afligia deveria ser algo realmente sério.
- Beleza. Pode ficar à vontade, caso mude de idéia. - ele disse, tentando soar o mais atencioso possível. - Vamos mudar de assunto, então. Me fale sobre você, . O que faz da vida hoje em dia? Você era a melhor aluna da turma, me lembro bem. Deve ter conseguido vaga em inúmeras universidades.
- Algumas. - ela respondeu, rindo levemente.
- Você tem cara de que estudou Medicina. Acertei? - questionou e fez uma careta de decepção quando balançou a cabeça negativamente. - O que estudou, então?
- Psicologia. - respondeu a morena.
- Então se tornou uma psicóloga, é? Nada mal. - o jogador disse, assobiando.
riu sem graça. A verdade é que ela fora obrigada a abandonar o curso pela metade, mas não teve coragem de adicionar essa informação. Ela não achava que acharia tão legal assim saber que ela, mesmo tendo sido a melhor aluna da turma e, quiçá, do colégio, trabalhava como balconista em uma pequena livraria do bairro.
O assunto acabou por morrer, já que não encontrou nenhum comentário que pudesse acrescentar. Ela pegou o celular no bolso da jaqueta para olhar as horas, constatando que mal passava das 22h, e levou um susto quando puxou o aparelho de sua mão.
- Quem é essa garotinha? - ele questionou, encarando a tela do celular.
ficou curioso ao se deparar, na tela de bloqueio, com uma foto de segurando no colo uma garotinha que parecia ter em torno de 5 anos de idade. Ele não pôde deixar de reparar que ambas tinham o mesmo sorriso.
- Minha irmã. - respondeu após alguns segundos de silêncio.
- Ela é a sua cara. - ele retrucou, sorrindo, e devolveu o aparelho à dona. - Como ela se chama?
- Jade. - disse a mulher, guardando o aparelho no bolso da jaqueta novamente.
- Esse nome é bem bonito. - disse, sorrindo.
sorriu de volta e, mais uma vez, não soube o que dizer. O silêncio acabou por se instalar entre os dois, que ficaram por alguns minutos apenas sentindo a presença um do outro, enquanto observavam a decoração de Natal que se estendia até o quintal dos fundos.
- Me dá uma ajudinha aí, . - falou, de repente, fazendo encará-lo, confusa. - Quando você vai dar uma brecha para eu te beijar?



Deux

A mulher gargalhou. Diante de tanta espontaneidade, ela não poderia ter outra reação.
- É sério. Você também quer me beijar, não quer? Por que a gente não facilita as coisas? - ele questionou cinicamente, esforçando-se para se manter sério enquanto ria ainda mais.
- E por que eu facilitaria? - perguntou ela ao conseguir controlar o riso, franzindo o cenho. - Só porque você é ?
- Me parece um bom motivo, já que eu, de fato, sou e quero te beijar. - respondeu, dando de ombros.
se levantou da escada em um pulo, ficando em pé sobre a grama.
- O fato de você ser não muda nada, vai ter que suar a camisa de qualquer forma. - ela disse, se inclinando para cutucar com o dedo indicador o peito do jogador, que permanecia sentado, olhando-a com curiosidade.
observou a mulher sair andando pelo quintal e, em seguida, sumir pela lateral da casa. Confuso, ele não soube se deveria segui-la ou esperá-la por ali; porém, quando decidiu se levantar e fazer o mesmo caminho, ressurgiu. E tinha uma bola de futebol nas mãos.
- Sabia que encontraria uma bola na garagem do Nicolas. - ela disse, sorrindo e jogando a bola de uma mão para a outra. - Vamos fazer uma aposta?
O jogador mordeu um sorriso divertido, começando a entender que , quando disse que ele teria que suar a camisa, estava se utilizando do sentido literal da expressão.
- O que você sugere? - ele questionou com interesse.
- Já que você é - fez questão de frisar o nome com um pouco de ironia -, terá que fazer trinta embaixadinhas sem deixar a bola cair.
- , para um jogador profissional, fazer embaixadinhas é ridiculamente fácil. - disse , rindo.
- Cinquenta embaixadinhas - falou e piscou um olho, recebendo uma careta em resposta. - Se achar ruim, a gente pode dobrar para cem.
agarrou a bola que foi arremessada em sua direção e questionou:
- Tudo bem, mas o que ganho com isso?
- Aí é com você. - a morena respondeu, sugestiva, e acabou por arrancar um sorriso malicioso de .
voltou a se sentar na escadinha que dava para a cozinha e pousou os olhos no jogador, que já fazia algumas brincadeirinhas com a bola, a jogando de um pé para o outro.
- Quantas chances eu tenho?
- Você está com pressa de ir embora? Porque eu não estou.
A gargalhada de se sobressaiu em meio ao silêncio que fazia na vizinhança de Nicolas, e acabou por sorrir, apreciando a cena.
Mesmo sem ser uma grande espectadora de futebol, ela sabia que a seleção de seu país vinha se destacando nos últimos tempos, tendo como um dos principais jogadores do elenco, aquele que era titular absoluto e incontestável. Já havia o visto jogar nos tempos da escola e na televisão, sabia como era um jogador talentoso; mas ali, o assistindo fazer embaixadinhas, ela sentia-se hipnotizada. fazia parecer que levantar a bola com os pés e jogá-la de um para o outro, alternando com as coxas e a cabeça, era a tarefa mais simples do mundo, graças à naturalidade com que fazia todo aquele malabarismo. Na primeira tentativa, acabou por deixar a bola cair na vigésima sétima embaixadinha, mas, na segunda, não teve muita dificuldade para chegar à quinquagésima.
bateu palmas, enquanto fez algumas reverências.
- Moleza, não falei? - ele falou, largando a bola na grama e se aproximando de . - Agora eu quero meu prêmio, .
- E qual será o seu prêmio, ? - ela questionou, fazendo-se de desentendida.
Com um sorriso travesso nos lábios, ofereceu suas mãos para , que aceitou o convite e deixou que ele a ajudasse a se levantar. Sem soltar as mãos dela, o jogador a puxou até que eles estivessem tão próximos que conseguiam sentir as respirações um do outro.
- Faz alguma diferença se eu disser que tinha uma quedinha por você antigamente? - questionou, levando uma mão até o rosto de para afastar uma mecha de cabelo.
- Acho que não. O que importa é ter uma quedinha por mim nesse momento. - ela respondeu em um tom esperto.
Com um quase imperceptível sorriso, o jogador aproximou os lábios do ouvido da mulher e sussurrou:
- Nesse momento eu tenho muito mais do que uma quedinha por você.
mordeu o lábio inferior ao sentir um arrepio subir dos pés à cabeça.
- É recíproco. - soprou contra os lábios de , que agora estavam a centímetros dos seus.
Ela sentia algo diferente dentro de si ao percorrer os olhos pelo rosto de . Os lábios rosados dele eram tão convidativos, estava louca para beijá-los até ficar sem ar. A situação era tão surreal que ela sabia que, caso parasse dois segundos para pensar sobre o que estava acontecendo, provavelmente sairia dali correndo. Sem dar a chance de que algo pudesse a fazer mudar de ideia, beijou . O beijo era tão gostoso quanto imaginou que seria. Ela amoleceu nos braços do jogador, sentia-se uma menina beijando um desconhecido gostoso. E era basicamente isso que significava para ela: um desconhecido gostoso.
Desde a pré-adolescência, os dois frequentavam diariamente a mesma sala de aula, mas sentavam-se em cantos opostos. nunca havia o olhado com segundas intenções antes e, até ele mencionar que havia tido uma quedinha por ela no passado, imaginava que, da parte dele, nunca tivesse existido tal interesse também, mas ela não se importava nem um pouco com isso. Só queria aproveitar o beijo, sentir aquelas mãos apertarem sua cintura com força e se aquecer com o calor que emanava do corpo dele, que estava cada vez mais colado ao seu.
Queria se sentir desejada como há muito tempo não se sentia.
- Será que eles vão sentir nossa falta? - sussurrou quando, após incontáveis minutos, partiu o beijo.
- Duvido. - respondeu a mulher, sorrindo de canto.
- Vem comigo.
E ela foi.
Naquela noite, ela surpreendeu-se ao reencontrar uma que acreditava estar morta e enterrada. Uma que só queria se divertir, que não se preocupava com as responsabilidades ou com o que aconteceria no dia seguinte. Ela viveu o presente com tanta paixão que mal se deu conta de que em seu peito nascia um novo sentimento por . Afinal, fora ele quem despertou a que ela mais gostava de ser.

😜💙⚽

Como de costume, o vestiário estava uma grande confusão após o fim de mais um jogo. Via-se por todos os cantos jogadores suados se despindo e conversando alto. Eles estavam contentes, haviam acabado de conseguir uma vitória importante.
- Pronto, . - falou após assinar a bola e devolvê-la para o artilheiro da partida. - Três gols… Hoje estava inspirado, uh? Será que a teve alguma coisa a ver com isso?
- Sai, tira a mão de mim. - disse , esquivando-se da mão enorme do goleiro que dava cascudos em sua cabeça. Desviando os olhos do amigo, ele continuou com a voz um volume mais baixo: - Não, ela não deu sinal de vida ainda.
- Sério? - o outro questionou em um tom preocupado, secando o suor do rosto com a toalha que estava pendurada em seu ombro. - Será que aconteceu alguma coisa com ela?
- Sei lá, cara. Faz mais de duas semanas que ela não responde minhas mensagens e, quando tento ligar, a ligação cai na caixa postal. - respondeu e soltou um longo suspiro. - Não é como se isso nunca tivesse acontecido, né? Desde que ficamos pela primeira vez lá na casa do meu amigo Nicolas, tem sido assim. Mas, na última vez que ela sumiu, a gente teve uma discussão séria e falei para ela não me procurar mais, só que dois dias depois ela me ligou, pediu desculpas e voltamos. Ela prometeu que não ia mais fazer isso.
- Qual é a desses sumiços aí? - perguntou, curioso.
Tinha ciência de que volta e meia desaparecia sem dar explicações, e não era muito difícil saber quando isso acontecia, pois bastava ver calado, o que de forma alguma era seu normal. Porém, o amigo evitava falar sobre o assunto e ele ou qualquer outro companheiro do time jamais soube o que acontecia de fato.
- Eu não sei. - falou, dando de ombros. - Tudo o que sei é que tem a ver com a família dela, mais especificamente com a irmãzinha dela, a Jade. Já perguntei um milhão de vezes, mas ela diz que prefere não tocar no assunto, e o que posso fazer? Sequer somos namorados, além de que moro em outro país. É tão difícil arranjar um tempinho para viajar para que prefiro não desperdiçar o pouco tempo que temos juntos com isso.
abriu a boca para dizer que estava errado e devia sim insistir para saber mais sobre aquilo, pois, se eles estavam realmente construindo um relacionamento, precisavam ser honestos um com o outro, mas foi interrompido antes de proferir a primeira palavra.
- Vão ficar aí fofocando em vez de tomar banho mesmo? - questionou em tom de gozação ao chegar com uma toalha em volta da cintura e outra na cabeça, cheirando ao novo sabonete caríssimo que vinha usando nos últimos tempos. - Qual é o assunto?
- Você precisa pressionar ela, . - falou, ignorando o recém-chegado. - Sei que você não quer brigar, mas você não pode ficar no escuro para sempre. Vocês estão há tanto tempo juntos e ela ainda continua com todos esses mistérios.
- A sumiu de novo? Eu não acredito! - exclamou, encarando um que suspirava, cabisbaixo, após o conselho do amigo. - Sai dessa, cara. Você merece alguém que confie em você e, principalmente, em quem possa confiar. Sabe-se lá o que ela faz quando desaparece, né?
olhou torto para o amigo, mas não teve argumentos para retrucar. Ele não acreditava que pudesse estar o traindo, como deixou subentendido, mas, diante de sua atual situação, ele não tinha como negar aquilo.
- Fala aí. Há quanto tempo vocês estão juntos? - questionou distraidamente, desenrolando a toalha da cintura e deixando sua nudez à mostra apenas pelo tempo necessário para vestir uma cueca.
- Um ano e dois meses.
- E três dias e duas horas. - acrescentou debochadamente e não foi capaz de segurar a risada. - Porra, cara. Desde que você começou a sair com essa mulher, virou um viadinho, hein? Não te reconheço mais.
- Não fode, . - murmurou, mal-humorado.
- Não liga para esse bobão, cara. - disse, pondo uma das mãos no ombro de . - Se você gosta dela, corre atrás. Tenta descobrir o que está acontecendo, seja compreensivo. Ela parece gostar de você, senão não teria pedido desculpas na última vez que vocês brigaram.
- Vou fazer isso. - o camisa 10 falou, sorrindo fraco em seguida. - Vou para nessa próxima folga que vamos ter e tirar essa história a limpo.
- É isso aí. - disse, piscando um olho, e se afastou para tomar banho.
, mais aliviado e até um pouco mais otimista, sentou-se no banco debaixo do pôster que tinha seu nome estampado e tirou as chuteiras.
- Faça o favor de nunca tirar as chuteiras depois de um jogo perto dela. - falou, atraindo sua atenção. - Se ela sentir esse chulé, aí que some de vez.
Rindo, tacou um dos meiões suados na cara de .

😜💙⚽

O GPS mostrou que deveria virar à esquerda e ele assim o fez, descobrindo que, apesar de ser uma cidade pequena, ele nunca estivera naquela rua antes. Escutando o aparelho indicar que ele havia chegado ao local de destino, o jogador estacionou o carro em frente a um prédio antigo de três andares. Era onde morava. Ele nunca havia estado ali, já que os dois, quando ele viajava para , ficavam na casa que ele tinha na cidade. A mulher dizia que o apartamento dela era velho e apertado, que eles não teriam conforto algum, e , depois de muito debater sobre o assunto, acabou por achar a desculpa um pouco plausível. Entretanto, havia lhe dado o endereço, caso ele quisesse ou precisasse visitá-la algum dia. E aquele dia havia chegado.
Antes de sair do carro, cobriu a cabeça com o capuz do casaco, pois não queria correr o risco de ser reconhecido, e, em seguida, bateu a porta do automóvel e caminhou até o prédio. Fitou os botões do interfone por um instante, cogitando a possibilidade de apertar o botão referente ao apartamento 201, no qual ele sabia que morava, mas e se… E se ela inventasse uma desculpa qualquer ou, simplesmente, fingisse não estar em casa? sentia-se mal por estar duvidando da quase namorada, mas ele não conseguia evitar. Tinha tantas perguntas sem resposta que era impossível não pensar daquela forma. , então, tirou um chaveiro da Torre Eiffel do bolso, o mesmo chaveiro que deixara com ele após uma discussão em que ele contestou o fato de ela nunca tê-lo levado em sua casa e, como prova de que não tinha nada a temer, ela entregara as cópias das chaves do apartamento para ele.
enfiou a chave correspondente à porta de entrada do prédio na fechadura e a girou, destrancando a porta. Adentrou o hall de entrada com calma, analisando o ambiente com curiosidade, enquanto se livrava do capuz. Era um prédio pequeno e simples, de apenas seis apartamentos, dois por andar, mas muito bem cuidado. Ele subiu as escadas, rumo ao segundo andar, logo se deparando com a porta do apartamento 201. Olhou em volta, decidindo se realmente faria aquilo, e concluiu que, agora que estava ali, deixaria a covardia que tanto o perseguia de lado. Encaixou a chave do apartamento na fechadura, mas, para sua surpresa, não conseguiu destrancar a porta. Pelo visto, aquela chave não pertencia àquela porta.
não soube o que pensar. Ficou encarando a porta sem saber qual seria seu próximo passo, buscando uma explicação para aquilo. havia dado uma chave qualquer para despistá-lo? Ou será que havia trocado a fechadura? Mas por que ela faria isso? Se havia ido até ali para acabar com suas dúvidas, o jogador sairia dali com mais outras tantas.
Antes que ele decidisse entre tocar a campainha ou dar meia volta para descer as escadas, a porta do apartamento se abriu e uma idosa surgiu. Pela expressão em seu rosto, não estava muito contente.



Trois

- Quem é você, posso saber? Estava tentando invadir meu apartamento? - a idosa questionou, com as mãos na cintura.
- O quê? - perguntou, confuso, mas arregalou os olhos ao se dar conta da situação em que havia se metido. Aquele apartamento não era de , ele estava tentando entrar na casa de uma desconhecida. - Não, não! Me desculpe, senhora. Eu não tinha a intenção de invadir seu apartamento, pensei que outra pessoa morasse aqui - ele logo tratou de se explicar.
- Ei, espera aí - a idosa ignorou o pedido de desculpas e falou, analisando o rosto do rapaz. - Você não é aquele jogador? ?
riu, aliviado por ver que a senhora já não estava tão irritada com aquela suposta invasão. Se ela resolvesse chamar a polícia, ele estaria ferrado.
- Sim, sou . Muito prazer. - ele disse, estendendo a mão.
- Me chamo Mathilde. - a outra rebateu, aceitando o cumprimento. O olhou com curiosidade antes de perguntar: - Desculpa me intrometer, mas o que você está fazendo aqui?
- Não é intromissão alguma, Sra. Mathilde, você tem o direito de saber, já que era na sua casa que eu estava tentando entrar. - falou, rindo de leve. Ao pensar em como explicaria o que estava acontecendo, decidiu que jogaria verde para colher maduro. - Uma amiga minha morava aqui, se chama . A senhora, por acaso, a conhece?
- Ah, ? - Mathilde questionou ao compreender o mal-entendido e assentiu com a cabeça, curioso. - Ela realmente morava aqui, era minha inquilina, mas se mudou faz algumas semanas.
- Para onde ela se mudou? A senhora tem alguma ideia? - ele questionou, ansioso.
- Não sei, meu jovem. O único contato que eu tinha com ela era para pegar o aluguel do mês. - ela respondeu com uma expressão de pesar ao ver a decepção no rosto do jogador. - Me desculpe por não poder ajudar.
- Tudo bem, vou dar um jeito de encontrá-la. - disse, sorrindo fraco. - Obrigado, de qualquer forma. Me desculpe pelo incômodo, Sra. Mathilde. Até mais.
- Não se preocupe, querido. Vá com Deus.
retribuiu ao sorriso simpático da senhora e deixou o prédio. Antes ele estava no escuro, agora estava no escuro e em meio a um tiroteio. Só o que ele conseguia naquele momento era imaginar mil e uma hipóteses para não morar mais naquele apartamento. Será que estava passando por dificuldades financeiras? Será que algo realmente grave havia acontecido? Mas, se fosse esse o caso, Nicolas ou Florence o avisariam, certo?
“Muito bem lembrado”, pensou. Nicolas e Florence eram os únicos que poderiam o ajudar. Normalmente, os dois se esquivavam de se meter naquela história, se recusavam a falar sobre qualquer coisa relacionada à . Entretanto, dessa vez eles não teriam escapatória. precisava acabar com aquela angustia que sentia no peito.

😜💙⚽

Quando Nicolas abriu a porta, adentrou a casa de imediato. Estava ansioso demais para formalidades.
- Opa, cara. Não sabia que você estava na cidade. - o dono da casa falou, surpreendido pela presença do jogador.
- Cheguei hoje. - se justificou. Tentando soar o menos desesperado possível, ele continuou: - Nico, preciso que me diga o que rola com a .
- Ah, … - o outro disse em meio a um suspiro. - Você sabe que eu sei tanto quanto você, já tentei arrancar alguma coisa da Florence, mas ela se recusa a falar sobre o assunto. Ela diz que não quer se envolver, que vocês precisam resolver isso entre vocês.
- Eu gostaria muito de fazer exatamente isso, só que tem quase um mês que eu não consigo falar com a . Ela evaporou e não sei mais o que fazer - explicou exasperadamente. Sua lucidez estava quase indo por água abaixo. - Ela se mudou do apartamento onde morava, estive lá hoje e a proprietária do apartamento atendeu a porta e me disse isso.
Os olhos de Nicolas se arregalaram quase imperceptivelmente, mas , que conhecia muito bem seu amigo, percebeu.
- Você sabia - ele acusou e encurralou o outro contra a parede. - Onde que ela está morando, Nicolas? Me diz.
Nicolas soltou um longo suspiro. A verdade era que ele sabia sim o que estava se passando na vida de , sempre soube. Tanto sabia que fora ele quem, na noite em que e ficaram pela primeira vez, insistiu para que Florence a levasse para a reunião ali em sua casa. Ele queria que a mulher se distraísse dos problemas que estava enfrentando, só não imaginou que , justo ele que nunca se apegava a ninguém, se apaixonaria por . E pior, o sentimento era recíproco. Agora ele estava entre a cruz e a espada, vendo o quanto seu amigo estava sofrendo e sentindo-se incapaz de abrir o jogo. Não era pela boca dele que deveria saber sobre aquele enorme obstáculo que o impedia de ter um relacionamento normal com .
- Ela voltou para a casa antiga dela, . Vou te passar o endereço - ele disse, decidido a ajudar a dar um desfecho para aquela história, fosse ele bom ou ruim. - Mas você precisa me prometer que, seja lá o que você encontre nessa casa, você não vai fazer escândalo e vai deixar ela se explicar.
- Sobre o que mais você sabe, cara? Você está me assustando - falou e, em seguida, passou as mãos pelo rosto. Sentia sua cabeça latejar, não aguentava mais aquela situação.
- Me promete, - foi tudo o que Nicolas disse em resposta.
- Não tenho como prometer isso, sei lá do que você está falando, porra - disse estupidamente. - Não tenho sangue frio.
- Você vai deixar ela se explicar, não vai?
- É claro que vou. Se eu não estivesse disposto a escutar uma boa explicação sobre essa merda toda, não estaria que nem um retardado atrás dela - o jogador disse e respirou fundo. - Me passa logo esse endereço.
- Se acalma, cara. Desse jeito você não vai resolver nada - Nicolas falou apreensivamente.
- Como você quer que eu fique calmo? - questionou, bufando. - A mulher que eu gosto aparentemente está me escondendo algo grande e, para completar, meu amigo sabe de tudo e não me conta. Vocês devem achar que eu tenho cara de idiota.
- Me desculpa, não achei que você fosse acabar tão apaixonado assim por ela - o outro falou com um sorriso culpado nos lábios. - E, assim como a Florence, eu não quis me meter.
- Tanto faz. Agora que estou fodido, não importa mais - disse, nitidamente ressentido. - O mínimo que você pode fazer é me dizer o endereço da casa dela de uma vez.
Nicolas assentiu e foi até seu quarto pegar papel e caneta. Quando estava com o endereço de em mãos, deixou a casa do amigo sem dizer mais nenhuma palavra.

😜💙⚽

Era uma casa comum, semelhante às outras da rua, toda pintada com uma tinta creme. O jardim não era tão bem cuidado assim, e imaginou que o motivo disso deveria ser por ter ficado desabitada durante todo o tempo que morou no apartamento que alugara da Sra. Mathilde. Era apenas uma suposição, claro, ele nem ao menos sabia se aquela casa era de ou se ela morava ali de favor.
O jogador observava a movimentação de dentro de seu carro, que estacionara do outro lado da rua. Sabia que, se visse o automóvel, provavelmente o reconheceria, mas ele já não se importava. Só queria juntar um pouco de coragem para andar até a casa e tocar a campainha, mas, depois do que Nicolas havia lhe falado, ele sentia-se amedrontado de imaginar o que aconteceria depois disso. Não estava preparado para se decepcionar com , talvez nunca estivesse.
Nesse meio tempo, a porta da casa se abriu e, de lá de dentro, saiu . Ela sequer notou o carro de do outro lado da rua, estava ocupada demais falando com a pessoa que saía da casa atrás dela. Era um homem alto, loiro e que, certamente, já estava na casa dos 30 anos de idade. De mãos dadas com ele, vinha uma garotinha que, mesmo nunca tendo visto pessoalmente, logo reconheceu como sendo Jade, a irmã caçula de . A menina parecia ter bastante intimidade com o homem, o que deixou o jogador ainda mais intrigado sobre quem, afinal, era aquele cara.
Entretanto, antes que pudesse pensar em alguma hipótese plausível, uma ação que partiu do tal homem o chocou. Ele puxou pela cintura e, simplesmente, a beijou.
sentiu um enjoo misturado a uma vontade de chorar, um sentimento que ele jamais sentira antes. Ele não sabia se estava mais incomodado pelo fato de aquele desconhecido estar beijando ou por ela estar correspondendo quase tão apaixonadamente quanto costumava beijá-lo.
O beijo, depois do que pareceu ser uma eternidade, finalmente foi finalizado e o homem, então, puxou Jade pela mão e os dois adentraram o carro que estava estacionado em frente à casa sob olhar de . não pôde deixar de perguntar a si mesmo se eles estariam indo embora ou se só estavam indo dar um passeio, enquanto observava o carro partir, mas não se prendeu a tais pensamentos. Antes que a mulher tivesse a chance de voltar para dentro da casa, ele saiu rapidamente de seu carro e, com a movimentação, , finalmente, notou sua presença. O jogador pôde ver o pavor em seu rosto conforme se aproximava dela.
- ? O que… - começou, mas sua voz morreu e seus olhos marejaram quando ela se deu conta de que havia presenciado a cena que acabara de acontecer naquela calçada.
- Espero que você tenha uma ótima explicação para isso tudo - ele disse com um sorriso irônico. - Pode escolher se vai começar explicando quem era aquele cara ou por que tem fugido de mim.
respirou fundo e, encarando o jogador nos olhos, ela disse com todas as forças que encontrou dentro de si:
- Não fala assim comigo, . Nunca firmei qualquer compromisso com você, eu não te devo nada.
- É sério que você vai me colocar como o errado da história? - o jogador questionou, soltando uma gargalhada sarcástica. - O fato de não termos um relacionamento sério é o de menos, nós estivemos juntos durante um ano inteiro, . Você não pode simplesmente sumir e achar que não deve, pelo menos, me mandar uma porra de uma mensagem dizendo que está tudo acabado.
Enquanto se sentia um pouco aliviado por despejar parte do que estava preso em sua garganta, sentiu um nó se apertar ainda mais na sua. Respirou fundo, contendo as lágrimas, e disse:
- Vamos entrar.
Seguida pelo homem, adentrou a casa e bateu a porta. Caminhou até a sala de estar, onde sentou-se no sofá e convidou para sentar-se ao seu lado. Mesmo que relutante e com raiva, o jogador se sentou ao lado da mulher e a encarou, esperando que ela começasse imediatamente a esclarecer toda aquela confusão.
- A Jade é minha filha e aquele cara que saiu daqui com ela é o Lukas, pai dela e meu marido - soltou a bomba de uma vez e, não conseguindo manter o olhar na expressão de espanto no rosto de , o desviou para o tapete que cobria o chão. - Antes que você pense que estava sendo feito de amante, eu e Lukas não estávamos juntos durante todo esse tempo. Mas, como você viu, a gente voltou. Temos uma história juntos, decidimos tentar recomeçar…
A voz de , que soava calma, embargou-se durante a última frase. Um soluço escapou por seus lábios antes de lágrimas grossas escorrerem por suas bochechas. não estava em uma situação muito diferente. Lágrimas de decepção escorriam por seu rosto, as quais ele secava com as costas das mãos inutilmente.
Quando conseguiu se acalmar, voltou a falar:
- Lukas era meu professor na faculdade de Psicologia, fui monitora da disciplina que ele ministrava e acabei caindo nas graças dele. Quando vi, estava apaixonada. Engravidei e tive que abandonar a faculdade para cuidar da minha filha, nunca cheguei a me formar, não sou psicóloga como você pensava. Trabalho em uma livraria a dois quarteirões daqui - ela confessou e, mais uma vez, foi pego de surpresa com a revelação. - A gente se casou depois que a Jade nasceu e os primeiros anos de casamento foram bons. Ótimos, na verdade. Éramos uma família feliz até eu descobrir que ele me traía com uma aluna.
A mulher riu amargurada e o jogador sentiu pena dela. Apesar da raiva que sentia por toda aquela história ter sido escondida dele durante tanto tempo, ele amava demais aquela mulher para não se comover. Doía vê-la naquele estado.
- Nos separamos e eu caí em uma depressão - voltou a contar em um fio de voz. - Chegou ao ponto de afetar a Jade. Doía vê-la tão abatida, chorando todas as noites e deixando de brincar como qualquer criança da idade dela. Ela não entendia por que os pais dela estavam morando em casas diferentes, por que precisava passar cada semana com um deles. Em toda essa confusão, Jade foi quem mais saiu machucada. É só uma garotinha. Foi por isso que eu e Lukas decidimos reatar nosso casamento, é por isso que eu tenho te evitado durante as últimas semanas.
finalizou o pequeno resumo sobre os últimos anos de sua vida e encarou , esperando por uma reação vinda dele. Qualquer uma, fosse ela boa ou péssima. Ela só queria que ele dissesse alguma coisa, aquele silêncio doía mais do que qualquer xingamento.
- Você está dizendo que tudo o que eu sabia sobre você era… - disse em um tom de voz baixo e profundo. - Mentira?
- Algumas mentiras, algumas meias verdades - retrucou e, em seguida, suspirou longamente. - Me desculpa, . Lá no início eu estava desconfortável demais para expor minha vida. Nem cogitei a possibilidade de que o nosso caso durasse mais do que uma noite, mas acabamos nos envolvendo e, quando eu vi, essa história já tinha virado uma bola de neve.
- Você achou que estava tudo bem se envolver comigo sendo uma mulher casada? - o homem questionou cheio de ironia.
- Eu já falei que tinha terminado com o Lukas - ela se defendeu. - Era casada só no papel desde muito antes de te reencontrar na casa do Nicolas naquele dia.
- Ok, mas isso não alivia tanto assim o seu lado. Você mentiu sobre um monte de coisa, escondeu outras tantas - acusou. - Nunca sequer cogitou a possibilidade de me contar a verdade?
- Claro que cogitei! - exclamou. - Mas eu não tive coragem, . Não sabia como você reagiria e tinha medo de te perder. Todas as vezes que eu sumi misteriosamente, foi porque eu decidia que ia dar um ponto final nessa sacanagem que estava fazendo. Tentava me afastar de você, mas nunca conseguia.
- Por fim, acabou me descartando como se eu não valesse nada - o jogador falou, magoado, levantando os ombros.
- Achei que te deixar com raiva de mim fosse tornar as coisas mais fáceis, só não contava que você, mesmo sendo ignorado, fosse me procurar - ela disse, mordendo o lábio inferior para controlar mais uma onda de choro. - Eu te amo, . Muito mais do que eu gostaria. O problema é que temos vidas muito diferentes; você é um jogador de futebol famoso que mora em outro país, enquanto eu sou apenas uma balconista de uma livraria chinfrim e tenho uma filha para criar. A Jade é o que tenho de mais importante nessa vida, faço tudo o que for preciso para vê-la feliz, nem que seja voltar com meu ex-marido que me traiu por sabe-se lá quanto tempo e que, provavelmente, continuará traindo. Não peço que me compreenda e muito menos que me perdoe, só estou te situando e dizendo que sinto muito. Queria muito que pudesse ser diferente, mas, infelizmente, não é.
sentia seu coração doer. Ele jamais imaginara que seria capaz de quebrar seu coração. Mas quebrou e ele sabia que, por muito tempo, não conseguiria reparar aquele estrago. Após respirar fundo, ele disse:
- Eu também te amo, mas, depois disso tudo, não sei se conseguiria voltar com você, de qualquer forma. Para mim, desonestidade é algo imperdoável.
- … - começou, no intuito de tentar amenizar o ódio que o jogador deveria estar sentindo, mas o barulho da porta sendo destrancada a interrompeu.
- Mamãe, voltamos! - uma voz fininha exclamou e, em menos de um segundo, Jade entrou como um furacão na sala de estar. Porém, ao notar o desconhecido sentado no sofá, parou bruscamente antes de dizer: - Oi.
sorriu fraco para a garota e desviou seus olhos dos dela. De perto, Jade era ainda mais parecida com . Mesmo que soubesse que aquela criança não tinha culpa de nada e, ainda por cima, nascera muito antes de ele e se envolverem amorosamente, o jogador sentia seu orgulho ferido.
- Amor, deixei as compras em cima da mesa da cozinha - Lukas avisou, adentrando o cômodo. Surpreendeu-se ao ver quem estava sentado no sofá de sua casa. - , você nunca falou que ainda tinha contato com o .
Lukas sempre soube que estudara com e Florence, as duas haviam comentado sobre aquilo no passado. Porém, até onde ele sabia, nenhuma das duas fora sequer amiga dele na época da escola, e muito menos eram depois de cada um tomar um rumo na vida.
Um silêncio desconfortável se instalou no ambiente, mas, depois de alguns segundos, foi quebrado por Lukas.
- Cara, você manda muito bem. Vou ser obrigado a dar uma de tiete e pedir um autógrafo seu - ele disse em meio a risos que não foram retribuídos.
- Não, você definitivamente não quer um autógrafo meu - disse com sarcasmo cobrindo cada uma das sílabas que proferiu, levantando-se do sofá.
Lukas o encarou com as sobrancelhas arqueadas, confuso. Seu olhar revezou-se entre sua esposa e o jogador e, quando notou os resquícios de lágrimas nos rostos de ambos, ele entendeu o que estava acontecendo. Ele sabia que vinha saindo com alguém durante o tempo em que estiveram separados, não era idiota. A conhecia suficientemente bem para saber que ela estava apaixonada por alguém que, definitivamente, não era ele. Talvez tivesse sido um dia, mas Lukas sabia que aquele dia havia ficado no passado e eles jamais seriam novamente o casal apaixonado que formavam quando se casaram.
Durante aquele ano, estivera com . Aquilo era tão óbvio.
Lukas sentiu o sangue ferver e, antes que pudesse pensar sobre suas atitudes, estava exclamando com raiva:
- Sai da minha casa! - as palavras pegaram a todos desprevenidos, especialmente a Jade, que saiu correndo para perto da mãe, amedrontada. - Agora!
trocou um olhar com , que naquela altura estava de pé, alarmada, e voltou a encarar Lukas.
- Já estou indo - disse calmamente, dando alguns passos em direção ao hall de entrada.
- Se você pisar nessa casa de novo, vai se arrepender amargamente - ele ameaçou, fazendo dar meia volta para encará-lo. Virando-se na direção de , Lukas continuou: - Não acredito que, durante todo esse tempo, você estava dando para esse jogadorzinho de merda. Espero que as fodas de vocês tenham valido todo o dinheiro que você arrancou dele.
As palavras adentraram os ouvidos de e fizeram a pouca paciência que ele ainda tinha evaporar como em um passe de mágica. Ele não escutou mais nada, não soube se se defendeu ou se Lukas continuou a denegri-la. Nem ao menos notou Jade passar entre ele e o outro homem e correr escada acima. estava possesso, tinha sangue nos olhos. Se jogou na direção de Lukas e acertou um soco em seu nariz.
- Não, ! Pelo amor de Deus! - berrou, se pondo entre os dois homens, temendo que o marido revidasse a agressão ou apanhasse ainda mais.
Lukas encarava o jogador com raiva, com as mãos no nariz ensanguentado.
- Se você quer saber, nunca dei um centavo para ela. E não foi porque não ofereci, foi porque ela não quis! Você deveria dar mais valor à mulher incrível que tem em casa, que, por causa da filha, aceita reatar um casamento falido com um babaca que ela nem gosta mais - cuspiu as palavras e respirou fundo. Encarou e, em um tom de voz mais calmo, acrescentou: - E não foi apenas cada foda que valeu a pena. Foi cada beijo, cada sorriso…
Por alguns segundos, quis impedir que vivesse aquela vida horrível ao lado de um cara que não a valorizava, que não a amava. Ele sabia que poderia ser o homem que daria tudo o que ela precisava, até mesmo tudo o que Jade precisava, e não era sobre dinheiro que ele pensava. Porém, ele conseguia ver nos olhos de como ela estava decidida a seguir em frente com aquilo para proteger a filha e, no fundo, não a condenava por aquilo.
tivera uma quedinha por quando ambos estudaram juntos, mas, por ela ser uma das garotas mais inteligentes da escola, ele a considerava areia demais para o caminhãozinho dele. Agora que ele era um jogador de futebol famoso, milionário e poderia ter a mulher que quisesse, acabou por ter a pretensão de achar que, finalmente, estava no nível daquela mulher. Mas, naquele momento, só conseguia pensar em como estava enganado.
ainda era areia demais para o caminhãozinho dele. Sempre seria.
Aproximou-se da mulher, depositou um beijo rápido nos lábios dela e, então, deu as costas para e para o homem raivoso, que tentava estancar o sangue que escorria de seu nariz, e se retirou da casa. Conforme caminhava até seu carro, só esperava estar fazendo o certo.





Fim.



Nota da autora: Oi, oi! Espero que tenham gostado de Honesty! A história foi inspirada pela música de mesmo nome do Danny Jones com a Vicky Jones. Tenho um carinho enorme por essa fic porque escrevi com o Eden Hazard, uma das minhas paixões futebolísticas, e foi bem divertido retratar a personalidade dele nesse personagem. Antes que vocês queiram me matar por esse final, aviso que terá uma continuação! Se chamará Tous en France e é só ficar de olho no site que ela logo estará por aqui, já está prontinha para ser postada. :)
Se quiser bater um papo, só dar um pulinho no grupo do Facebook.
Beijos e até Tous en France! <3





Continuações dessa história:

Tous en France
Tous Ensemble


Nota da Beta: Mas o quê????? Babi, Babi... se eu não te adorasse tanto estaria te odiando agora mesmo. Pelo amor de Deus, mulher, me mande a continuação agora!!! Espero não ser a única a surtar aqui, até Tous en France, meninas! Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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