FFOBS - I'll Always Come Back To You, por Arabella Satri



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Última atualização: 15/03/2020

Capítulo 1


Dezembro de 2003
Uma vez senti a dor de ralar os joelhos ao cair de bicicleta, outra vez eu soube como era ter uma farpa no dedo indicador. Já tinham me informado das dores da vida, mas nunca me prepararam para a dor que seria ter que deixar minha melhor amiga para trás.
e eu nos conhecemos no exato dia no qual sua família se mudou para a casa amarela que ficava ao outro lado da rua. Tínhamos quatro anos de idade, e dessa época não tenho muitas lembranças, mas sei que fazíamos tudo juntas.
Com sete anos, perto de um lago, assim que saímos da escola, prometemos que nunca iríamos nosso afastar. Fizemos um pacto de sangue que me rendeu uma cicatriz pequena no topo da mão esquerda.
Com oito anos eu colei cópias de seus desenhos por toda escola para que soubessem o quão talentosa era a garota. Levei um dia de suspensão, mas valeu a pena, porque logo depois disso sua mãe a colocou em um curso de artes.
Com nove anos fizemos nossa primeira viagem juntas. Foi um sacrifício para meus pais deixarem eu ir para outra cidade com a família de , mas no fim de tudo foi ótimo. Creio que ainda exista a foto da nossa falha tentativa de pescar.
Agora tínhamos dez anos, era noite de Natal, e eu estava no aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Minha família estava rumando para um novo país: Inglaterra.
Éramos novas, sem telefones ou qualquer tipo de meio de comunicação, por isso sabíamos que naquele dia vinte e quatro era nosso último adeus. Eu não veria tão cedo, desde então.


Setembro de 2014
O início do ano letivo era algo desanimador. Depois de três longos meses de férias, tudo o que eu desejava era poder continuar nelas. Mas, um velho sábio uma vez disse: “querer não é poder.” E ele estava certo.
Levantei da cama com todo esforço do mundo, era como se a força da gravidade quisesse sempre agir um pouco mais sobre mim pelas manhãs. Minha roupa já estava preparada e meus materiais também, quem não estava era eu. Tomei um banho rápido e coloquei qualquer jeans e moletom que estivesse em meu armário.
Desde que comecei a morar em meu próprio apartamento, não me importo mais com qual roupa usar, principalmente para ir à faculdade.
Desci as escadas do prédio lentamente com minha mochila em uma mão e uma pera na outra. Devidamente alimentada para o resto da manhã!
Chegar no campus não era tão complicado, já que eu só precisava andar por dois quarteirões – que mais pareciam virar quatro em manhãs de segunda feira – e já estava lá.
Era um lugar arborizado e com um clima vitoriano, coisa que toda Inglaterra possuía e as vezes me deixava aterrorizada. Porém, o interior dos prédios era sempre muito bem decorado e repleto de equipamentos tecnológicos. O meu prédio era o que mais possuía esses equipamentos, já que eu cursava Astrofísica e no curso precisamos de muitos computadores e coisas relacionadas.
A caminho da minha primeira aula pude notar que um dos alunos responsáveis pelas boas vindas, fazia um tour com alguns calouros. Muitos rostos novos e cheios de curiosidade, sei exatamente como é estar naquele lado, ano passado estive ali.
Um vulto loiro passou rapidamente por mim, parando meio metro depois.
- Graças a tudo que é mais sagrado te encontrei. – Felícia era a única pessoa que eu conhecia capaz de estar animada todas as horas do dia, sem exceção.
- O que aconteceu? Backstreet Boys voltou e eu não estou sabendo? – perguntei com um teor de ironia.
- Você tem que parar de zoar minha fascinação por boybands. – seus olhos reviraram, mostrando descontentamento.
- Ao ponto, Lícia. – disse, olhando para o relógio.
- Ah, claro. – ela sorriu. – Repeti em cálculo, poderia me ajudar?
- Só isso? – semicerrei os olhos e a menina sorriu, concordando. – Tudo bem. Depois combinamos o horário, só me mandar uma mensagem. Mas, realmente preciso ir para aula.
- Nos vemos no almoço, . – a garota sorriu, como todas as vezes. Nada conseguia apagar aquela alegria de Felícia, e isso era algo que me impressionava.
Astronomia de posição e suas peculiaridades: um professor coreano e um trabalho gigantesco para entregar na terceira semana de aulas. Não tinha como o dia começar melhor.
A Inglaterra é um país incrível onde há diversas possibilidades, principalmente para realização de sonhos. E por esses motivos me sinto privilegiada por fazer faculdade na terra da rainha, mas meu objetivo é: finalizar meu curso e tentar uma pós-graduação na Alemanha, o país que mais cresce em relação à Astrofísica mundial, além do Estados Unidos.
Minha mente viajava pelas pequenas rachaduras das paredes brancas da sala de aula enquanto o professor falava alguma coisa sobre as galáxias e as distâncias entre as estrelas. Eu, verdadeiramente, não estava me preocupando muito em saber sobre tal assunto, já que era algo que seria falado novamente daqui algumas aulas.
Depois de alguns minutos fui, literalmente, salva pelo gongo. O sino soou avisando a troca de aulas e início do primeiro intervalo do dia.
O caminho até o refeitório foi movimentado, e logo que cheguei pude ver Felícia sentada em uma das mesas com seu Macbook aberto e um olhar desesperado.
- Não me diga que está vendo a matéria de cálculo? – perguntei, me sentando em frente a ela.
- >, eu estou fodida. Por que fui escolher Contabilidade como curso? – ela levou as mãos à cabeça. – Mas, agora não é momento para isso. – levantou seu olhar para mim e abriu um sorriso. – Theodore vai fazer uma festa para receber os calouros. Acho que você deveria ir. – havia malícia em sua fala.
- Felícia Marthens, você sabe que meu caso com o Theo acabou há séculos. – rolei os olhos. – Mas, eu irei apenas porque gosto de bebida gratuita. – concluí e ela riu.

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Era tão difícil escolher uma roupa para sair à noite?
Passei por vários vestidos, saias e shorts, e nessa brincadeira gastei quarenta minutos do meu precioso tempo. Até que decidi usar uma calça de couro sintético com um coturno vinho e um cropped da mesma cor. Uma vez minha mãe disse para eu apostar em peças escuras, porque elas contrastavam com os meus olhos azuis, e desde que recebi esse conselho eu virei o que Felícia chama de “gótica suave".
Olhei para o relógio que praticamente gritava: “você está atrasada” e pedi um táxi em um desses aplicativos. Ah, como a tecnologia era incrível.
Eu nunca fui o tipo de pessoa festeira. Na verdade, meu ensino médio se resumiu a estudos e visitas ao hospital, já que minha mãe ficou internada devido à uma pneumonia durante grande parte do tempo. Se ela está bem? Como nunca. Provavelmente ela e meu pai devem estar em algum lugar da Suíça, talvez escalando os alpes.
Mas, eu realmente gostava de beber, e quando surgia a oportunidade de beber de graça, eu não recusava.
A festa era a típica houseparty que conhecemos dos filmes, só um pouco menos ilegal. Theodore era veterano de Medicina e fazia parte de uma família conceituada, e com apenas essas informações já chegamos à conclusão de que ele é podre de rico.
Haviam pessoas espalhadas pela casa, alguns sentados no sofá, outros perto da cozinha, que servia como um bar. Encontrei Felícia ao lado de Theo perto da bancada de mármore no qual estavam servindo as bebidas, me aproximei devagar para não invadir a privacidade da conversa que estavam tendo, seja ela qual fosse.
- Ei, Lícia. - falei baixo ao seu lado.
- está na casa, pessoal. - ela já estava claramente bêbada. - Você demorou.
- Me enrolei um pouco, e ainda peguei um trânsito. - sorri. - Bom, não quero atrapalhar vocês. - olhei para Theo, que parecia observar cada detalhe do meu corpo com atenção. - Vou me sentar mais pra lá e beber alguma coisa. - apontei para um dos bancos que ficavam ao lado da cozinha.
Não fiz cerimônia e saí de uma vez da armadilha que seria ficar com Licia e Theo no mesmo ambiente.
Eu e Theo tivemos um caso de verão, muito intenso para os poucos meses que ficamos juntos, mas Marthens criou a convicção de que casaríamos e teríamos uma família. Coisa que, para mim, seria impossível de acontecer.
Peguei uma longneck qualquer no barril de bebidas e me sentei no banco para o qual havia apontado antes de sair em disparada. Como uma boa cientista, observar era o que eu fazia de melhor. Então, decidi focar em marcar o rosto dos novos alunos para mais tarde tentar aproximação com algum deles.
Uma pessoa em especial chamou minha atenção. Era uma garota. Seus cabelos eram longos e castanhos, seus olhos eram da mesma cor e seu sorriso era largo e frouxo. Assim que meus olhos a encontraram, um misto de sentimentos tomou conta de mim, era como se eu estivesse em casa, no Brasil. Eu não sei exatamente o que era aquilo, mas algum tipo de nostalgia tomou conta de mim.

Fevereiro de 2000
corria pelo gramado enquanto eu tentava encontrar um trevo de quatro folhas no meio de todos aqueles que estavam espalhados pelo campo.
O lago era o local onde sempre ficávamos juntas após as aulas, já que voltávamos caminhando para casa. Ele era rodeado por uma grama verde, onde muitos casais costumavam fazer piqueniques e passear. Mas, para nós duas, era onde separávamos o tempo para ser criança.
No meio das folhas encontrei uma pedra pequena e um tanto afiada, que segurei com calma para não me machucar.
- , venha aqui. - gritei para minha amiga, que repentinamente parou de correr e se aproximou com curiosidade em seu cenho. - Uma vez eu vi num filme dois amigos fazendo um pacto de sangue. Você quer fazer um?
- O que é isso, ? - ela perguntou com um sorriso engraçado no rosto.
- Uma promessa de que para sempre seremos amigas, não importa o que aconteça. Mas, vamos selar com nosso sangue, pra ser mais real ainda. - disse e ela franziu a testa.
- Tudo bem, você sabe que eu gosto das suas ideias loucas. - ela se colocou em minha frente e estendeu a mão esquerda. - Vai, faz logo.
O vento batia em seus cabelos castanhos e os deixava bagunçados de uma maneira leve, como se a menina voasse.
Segurei sua mão com calma e com a ponta da pedra que peguei, fiz um corte no topo de sua mão esquerda. No momento do corte pude ver a garota morder o lábio inferior, demonstrando a dor. Com sua mão livre, ela pegou a pedra e fez o mesmo em minha mão esquerda. Naquele momento, nossas peles sangravam.
- Eu prometo ser sua melhor amiga para todo sempre. - falei e estendi a mão.
- Eu prometo ser sua melhor amiga e nunca te esquecer. - falou com um sorriso.
Unimos nossas mãos, fazendo com que nosso sangue se transformasse em um.


Setembro de 2014
- Ei, menina. - uma voz masculina me tirou do transe. - Você está bem?
E quando voltei meu olhar em direção à voz, percebi que a garota que me trouxe o sentimento de nostalgia estava ao lado do rapaz que falou.
- Está tudo bem. - eu disse com a voz fraca.
Percebi que a menina me encarava com a mesma curiosidade que eu havia a encarado antes.
- Por que não dá uma cerveja a ela? - o rapaz disse para a garota em questão, que abriu um sorriso e estendeu uma garrafa de cerveja para mim.
Assim que peguei a bebida de sua mão esquerda pude ver sobre ela uma cicatriz de um corte curto e profundo. Nossos olhares se cruzaram e eu pude sentir as lágrimas se formarem no canto do meu olho.
- >? - ela disse, quase como um sussurro.
- ? - minha voz estava trêmula, assim como eu.
Não teve uma resposta concreta, apenas senti os braços de minha melhor amiga de infância me envolvendo em um abraço cheio de saudades e sentimentos. Esses, os mesmos que senti ao vê-la na sala de Theodore, e os quais eu sabia que não me enganavam. Era mesmo , eu estava em casa novamente.


Dezembro de 2003
Dizer adeus é algo que nem notamos quando aprendemos. Parece como uma configuração natural. Dizemos tchau e vamos embora, mesmo sem saber o porquê de aquela palavra de cinco letras ser dita. Mas a real dor de uma despedida é algo que fica marcado em nós, e essa foi uma dor que eu descobri muito cedo ao dar o último abraço em na noite do dia vinte e quatro de dezembro.
foi o primeiro rosto - de alguém da minha idade pelo menos - que conheci ao me mudar de São Paulo para o Rio. A terra desconhecida e assustadora para onde eu rumava deixou de ter tonalidades cinza quando descobri que do outro lado da rua morava uma garotinha de sorriso gentil e que assim como eu, estava disposta a compartilhar alguns brinquedos.
Aos sete anos, perto de um lago, prometemos que nunca deixaríamos de ser amigas. foi quem sugeriu o pacto que me rendeu uma cicatriz na mão esquerda. Marcamos em nós, algo que em nossos corações já era certo.
Aos oito eu estava saltando o muro da escola e correndo até a casa de > para buscar a pequena esfera de isopor pintada de azul que representava o planeta terra em sua maquete do sistema solar. Naquele ano recebi a minha primeira suspensão - assim como , que recebeu a sua meses antes ao colar cópias dos meus desenhos por toda a escola - mas pelo menos o projeto havia ganhado o tão esperado dez.
Aos nove fizemos nossa primeira viagem juntas. Eu estava decidida a não ir mais se > não fosse, me recusava a passar aquele feriado prolongado longe dela e depois de muito sacrifício finalmente tivemos a permissão dos pais dela. Ainda consigo me lembrar do meu avô e meu pai nos fazendo prometer que não contaríamos a ninguém que os peixes eram da peixaria do centro e não do rio onde havíamos ido pescar - o que havia sido desastroso, diga-se de passagem.
Se lembra do último abraço em > do qual comentei? Pois bem. Ele foi dado aos nossos dez anos. Ela estava indo para a Inglaterra com seus pais e eu não poderia ir com ela - por mais que tivéssemos tentado me esconder em sua mala.
Naquela época os aplicativos de mensagens não existiam e uma ligação internacional custava uma fortuna, então quando nos abraçamos pela última vez na noite do Natal, eu descobri o porquê de as despedidas doerem. Elas eram incertas e sem garantia de reencontro. E não havia nada que pudéssemos fazer em relação a aquilo.


Setembro – 2014
Sorvete de pistache. Estranhamente era naquilo que eu pensava enquanto estava parada em frente à entrada dos dormitórios da universidade onde passaria os próximos quatro anos da minha vida. Eu não queria um sorvete de pistache, odiava aquele sabor de sorvete. Mas me lembrar de como havia descoberto aquele fato foi a primeira coisa que me veio à mente.
Eu nunca saberia se gostava do sorvete se não experimentasse o sabor antes de tirar minhas conclusões e poderia viver com a dúvida do que ele seria se escolhesse não comer.
Uma analogia boba, mas que me trouxe coragem para dar mais passos do dormitório até o local onde deveria encontrar um dos veteranos que me levaria, junto aos outros calouros, para um breve tour pela universidade.
Logo havia encontrado um grupo de pessoas que parecia tão perdida e ansiosa quanto eu e após perguntar para uma garota de cabelos cor de rosa, confirmei que aquele era o grupo de calouros. Todos pareciam extremamente imersos em seus próprios mundos e bolhas de ansiedade, então não tentei a comunicação, mas após alguns minutos olhando pela milésima vez a grade curricular que havia me sido enviada percebi um corpo de aproximar, o que me fez levantar os olhos e dar de cara com um garoto. Devia ter a minha idade, mas era bem mais alto, os cabelos eram lisos e grossos, os olhos castanhos e a barba estava aparada. Era bonito e tinha um sorriso fraco amistoso.
- Oi – a voz era grossa de um modo que eu não esperava.
- Oi – respondi em mesmo tom, lhe entregando um sorriso leve.
- Eu sou o Tyler – ele estendeu a mão a encarei. Percebi a ponta de um de seus dedos sujo de grafite, o que me entregava que deveria estar desenhando em algum momento.
- Cecilia – apertei sua mão e ele voltou a sorrir, dessa vez com seus olhos ficando menores.
- Espero não estar atrapalhando, mas você me pareceu a única aqui que estaria disposta a conversar – confessou me fazendo rir fraco.
- Nervosa como estou? Claro que estou disposta a conversar – o garoto soltou um riso pelo nariz – Ou conversamos ou eu vou olhar o e-mail que me enviaram de novo e sinceramente eu acho que já sei cada palavra de cor – bloqueei o celular em minha mão e o guardei em meu bolso.
Eu e Tyler engatamos em uma conversa breve, apenas para nos apresentarmos. Ele era de Nova York, e assim como eu havia saído de seu país após fazer sua application e ser aprovado. Tinha realmente a minha idade, vinte e um anos e estávamos no mesmo curso, o que eu já suspeitava pelo dedo sujo de grafite.
Após apenas alguns minutos o veterano responsável pelo nosso grupo – que logo descobri ser formado completamente por intercambistas - apareceu, estava animado e extremamente disposto a nos receber. Logo estávamos caminhando pela universidade enquanto ele explicava sobre a história, dependências e dando dicas sobre lugares para visitar na cidade, o que aparentemente não fazia parte do pacote “guia indicado pela faculdade”, mas ainda assim ele fazia.
Depois de mais alguns minutos estávamos liberados. Minha primeira aula seria de Introdução aos multimeios e a de Tyler seria Fundamentos da linguagem visual, por isso combinamos de nos encontrar no almoço para compartilharmos o que havíamos achado das aulas e mais importante: comermos.
As aulas do primeiro período passaram relativamente rápido. Poucas apresentações e algumas dinâmicas rápidas para nos familiarizarmos. O almoço chegou mais rápido que o esperado e logo eu estava sentada no gramado esperando por Tyler com um suco gelado.
- Novidades – anunciou assim que se sentou repentinamente ao meu lado e puxando meu fone, o que me causou um susto.
- Desde que não seja me matar – soltei de maneira divertida e ele riu.
- Desculpe, tenho essa péssima mania de assustar as pessoas – ele deu de ombros – Mas a novidade é: vamos a uma festa essa noite – torci os lábios.
- Não sei Ty, quero dizer eu nem conheço as pessoas aqui ainda – ele cruzou os braços parecendo indignado.
- Primeiro: obrigado pela consideração – me chamou pelo sobrenome e eu revirei os olhos – e segundo: é pra isso que servem essas festas, para conhecer o pessoal e socializar e nós vamos, nem que eu tenha que te carregar, não duvide de mim, você é pequena, com certeza eu conseguiria – lhe empurrei de leve pelo ombro o fazendo rir.
- Eu não sou baixa, você que é alto demais – retruquei fazendo o garoto rir.
- Tudo bem, hobbit – o encarei com os olhos estreitos.
- Espero que saiba que esse é o máximo de referência que consigo pegar de Senhor dos Anéis – confessei o fazendo parecer indignado.
- Como é? Você não conhece Senhor dos Anéis? – eu neguei com a cabeça de maneira despreocupada.
- Não, mas se usar referencias de Harry Potter te garanto que não deixo uma passar – ele continuava com a expressão indignada.
- Morcego velho.
- Olha a boca, sangue ruim – ele gargalhou e eu me levantei limpando a calça – Vem, vamos andar por aí, de preferência na sombra, esse sol está me matando. Me prometeram frio em Londres e até agora nenhum – estiquei a mão e ele a segurou se levantando também.

[...]


Estou aqui em baixo

Foi a mensagem que recebi de Tyler, meia hora depois do horário combinado. Soltei o cabelo do coque que havia feito e me encarei uma última vez no espelho. Usava uma saia jeans escura, uma blusa branca por dentro da saia e All Star também brancos. Não havia passado muita maquiagem, apenas rímel e um balm com cor nos lábios já me pareceram o suficiente. Deixei o quarto trancando a porta, já que minha colega não se encontrava ali e segui até o térreo, logo encontrando Tyler olhando o celular.
- Acho que encontrei alguém tão atrasado quanto eu – murmurei assim que parei ao seu lado o fazendo levantar o olhar rindo. Por um momento ele me encarou de cima abaixo.
- Pode apostar que sim – garantiu – e você está muito bonita, a propósito – senti minhas bochechas esquentarem um pouco. Tinha zero costume a elogios e recebe-los sempre me causava a mesma coisa, apesar de me sentir lisonjeada.
- Obrigada, você também – ele se encarou e deu de ombros – agora vamos – apontei com a cabeça e começamos a caminhar até a rua onde encontraríamos um uber.
O caminho até o local da festa – a casa de Theodore, o veterano anfitrião – demorou menos de vinte minutos e logo estávamos em frente a grande casa. Já havia muita gente apesar de ser relativamente cedo e a música tocava alta. Logo na entrada passamos por dois garotos que gritaram um “bem-vindos” assim que passamos por eles claramente muito bêbados. Adentramos o local e eu já mexia meu corpo no ritmo da música até então desconhecida por mim. Tyler comentou algo sobre ir falar com uma garota da sua aula e eu apenas assenti, decidida a andar pelo local e conhecer gente nova.
A vida no Brasil havia ficado para trás por algum tempo e eu devia me permitir viver aquela experiencia, não? Eu tinha certeza que sim e respirando fundo, colocando a timidez de lado e decidindo por ter coragem eu caminhei em direção a cozinha atrás de algo para beber.
Encontrei cervejas em um barril e peguei uma, abrindo na barra da saia e dando um longo gole naquilo. Era péssima, eu devia dizer, mas naquele momento eu não me importava tanto assim. Quando me virei para seguir para outro cômodo encontrei um corpo impedindo que eu passasse.
- Desculpa, eu estava esperando você sair para eu poder pegar uma também – o garoto a minha frente sorria fraco.
- Tudo bem, sem problemas – passei por ele deixando o caminho livre e ele agradeceu.
- Ei – a voz dele me chamou antes que eu pudesse seguir para o cômodo onde outras pessoas dançavam.
- Sim? – o encarei com um pouco mais de atenção. Tinha cabelos loiros escuros, olhos azuis e as bochechas coradas, talvez pelo álcool.
- Eu sou Matthews – ele estendeu a mão e eu a apertei.
- Cecilia – sacudimos as mãos juntas por alguns segundos e depois apenas as soltamos.
- É nova aqui? – ele se apoiou na pia e eu fiz o mesmo, porém na ilha d outro lado.
- Sim, caloura – ele assentiu tomando um gole de sua cerveja.
- Imaginei que não fosse daqui, não tem o sotaque – ele fez um movimento confuso em frente a própria boca.
- É, infelizmente não tenho – fiz um bico de maneira involuntária, bebendo da minha cerveja depois.
A conversa se enrolou por mais alguns minutos até finalmente nos beijarmos, mas honestamente havia sido o beijo mais decepcionante da minha vida. Apesar de Matthews ser um gato e ter um papo legal, o beijo propriamente dito era inacreditavelmente sem graça. Não havia química, nem desejo, nem me trazia aquela sensação de querer continuar o beijando. Por essa razão eu tive que pedir licença a Matthews e informar que precisava encontrar meu amigo. Não dando a ele tempo de dizer nada e saindo dali.
Algum tempo se passou, entre conversar com algumas garotas de medicina e acabar minha cerveja sentindo a necessidade de outra bebida. Antes que pudesse chegar efetivamente a cozinha encontrei Tyler com outra garrafa em mãos estendida para mim, como quem adivinha que eu precisava daquilo. Antes de abri-la lhe contei a história de Matthews o fazendo gargalhar e consequentemente eu o acompanhei. Por um momento tirei meus olhos de Ty e os corri pelo local de maneira despreocupada.
Percebi uma garota que me encarava fixamente, quase como se estivesse paralisada. Eu não conseguia ver seu rosto com clareza – ótimo dia para esquecer os óculos, Cecilia -, mas notei algo de familiar nela.
- Ty, eu acho que aquela garota está passando mal – apontei com a cabeça sobre o ombro do garoto e ele a encarou com o cenho franzido. Ele não disse nada, apenas começou uma caminhada até ela e eu o acompanhei.
- Ei, menina. – foi Tyler quem chamou sua atenção - Você está bem? – ela piscou algumas vezes.
- Está tudo bem. – a voz dela era fraca e seus olhos estavam sobre mim novamente. Dessa vez eu pude notá-los.
Eram azuis. Azuis como o mar. Olhos azuis que eu tinha quase cem por cento de certeza de conhecer, mas não fazia sentido, não podia ser. Quais eram as chances afinal? Eram muito parecidas, de fato, mas não poderia ser ela.
- Por que não dá uma cerveja a ela? – Ty me tirou de meus pensamentos e eu encarei a bebida que ainda se encontrava fechada. A estendi para a menina lhe entregando junto um sorriso amistoso.
Quando sua mão esquerda chegou à garrafa eu vi. Pequena e esbranquiçada, ali estava uma cicatriz, muito parecida com a minha. Meus olhos se cruzaram com os dela novamente e por um momento eu fui levada a anos antes.

Agosto de 2005
- , vamos experimente – incentivou enquanto estávamos paradas em frente ao vidro da sorveteria.
- Mas é pistache, não tem cara de ser bom – murmurei fazendo uma careta para a massa verde.
- Como sabe? Você acabou de me dizer que nunca experimentou – retrucou com uma risada presa por saber que havia me pego em flagrante.
- E nunca experimentei, mas é verde – soltei como se fosse a constatação mais óbvia da face da terra e gargalhou alto.
- Minha mãe diz que se você não experimentar, nunca vai saber e ainda vai viver com a dúvida do que poderia ser – eu a encarei. Ela havia vencido. O argumento de sua mãe era bom e eu não tinha como refutar.
- Ta bom, ta bom – soltei arrastada e me virei para o homem que nos encarava em nossa pequena discussão – Seu Zé, uma bola do de pistache, com cobertura de chocolate, por favor – o senhor sorriu assentindo e se preparando para me servir. me sacudiu pelos ombros em apoio e eu apenas suspirei.


Setembro de 2014
Não era uma grande decisão aquela, mas depois que se mudou, sempre que eu tinha um pé atrás com qualquer uma das minhas decisões e pensava em não fazer algo por medo, eu me lembrava do dia do sorvete de pistache.
- >? – meus olhos já estavam marejados, assim como os dela, e minha voz era um sussurro.
- Cecilia? – a voz dela já estava embargada pelo choro e apenas meu nome saindo de sua boca foi o suficiente para que eu terminasse com a distância e a abraçasse.
Nunca em toda minha vida eu havia me sentido transbordar sentimentos como me sentia ali. Toda a saudade e carinho que eu tinha por estava presente ali, assim como a que ela sentia me era entregue por seus braços ao meu redor me segurando. Era >. Definitivamente era >.
Quando tomei a decisão da application eu me lembrei daquele dia do tal sorvete. Era um novo país, com novas pessoas e parecia assustador, mas uma pequena > repetia para mim que eu nunca saberia se não tentasse e viveria na constante dúvida do que aquilo poderia ser.
de certo modo havia me levado a Londres, me levado de volta a ela e ali, abraçada com minha melhor amiga de infância na cozinha de um desconhecido eu tinha uma única certeza: Não importava quanto tempo passasse, aonde fossemos, ou o que acontecesse sempre que nos encontrássemos aquela seria a sensação. Casa.


Capítulo 2


Setembro de 2014
- Então você está me dizendo que sua melhor amiga de infância, que você não via há onze anos, simplesmente reapareceu? - Felícia tinha um grande balde de pipoca em mãos e estava sentada em meu sofá, com seus pés apoiados em minha mesa de centro, algo que eu insistia para que ela não fizesse, mas ela sempre fazia.
- Sim, isso é incrível. Não? - me sentei ao seu lado e a entreguei um copo de refrigerante.
- Com certeza, agora você não vai ter só a mim para irritar. Então poderei dar umas fugas por aí. - a britânica soltou um riso anasalado e em resposta eu dei um tapa em seu braço.
- Ela vem pra cá hoje, então tente não ser você. - disse e a loira me deu língua. - Agora fica quieta porque vai começar o filme.
Desde que cheguei em Londres, Felícia Marthens tem sido minha fiel escudeira. Ela vinha de uma família de classe média alta que residia na cidade de Bradford. Normalmente ela passava os fins de semana na casa de seus pais. Porém eu decidi que iria alugá-la por esses dias.
Logo depois que eu e nos reencontramos, trocamos telefones e horários, sempre que possível nos encontrávamos entre uma aula e outra para bater um papo rápido e tentar colocar o assunto em dia - o que era impossível se formos contar os anos que estamos separadas.
Tudo que eu mais desejava era que Felícia e pudessem se tornar amigas, porque assim tudo seria melhor e mais fácil. Então, convidei para passar o fim de semana conosco em meu apartamento.
Enquanto um filme de comédia, daquelas bem ruins, passava na TV, a campainha soou. Dei um pulo do sofá e corri para a porta, e assim que a abri, dei de cara com minha melhor amiga de infância usando um vestido florido e com um sorriso gigante no rosto. Sempre da mesma forma.
- Cheguei. - ela me deu um beijo na bochecha e entrou na casa, indo direto para sala.
- E quais são essas novidades? - Lícia perguntou, estendendo o balde de pipoca para a garota se servir.
- Apenas uma. - ela riu. - Conhecem One Direction?
- Quem no mundo não conhece é a pergunta exata, . - Marthens riu.
- Eu não faço a mínima de como eles sejam, só sei que eles lançam uma música nova semana que vem. Só estão falando disso na rádio. - rolou os olhos e se sentou ao meu lado.
- Então, a me disse que essa marca em cima de suas mãos são o resultado de um pacto de sangue. Sério? - Felícia perguntou com um semblante engraçado no rosto.
- Exatamente, minha cara. - riu e eu as acompanhei.
Era uma sexta-feira acompanhada de day-off na faculdade, o que significava ficar em casa sem nada para fazer.
- Amanhã é meu aniversário, como a senhorita deveria saber. - Lícia apontou para mim. - Mais conhecido como:
- O dia mundial das pessoas incríveis. - dissemos em uníssono, ela um pouco mais animada que eu.
- Exato. - a loira continuou. - Pois eu e Niall Horan fazemos aniversário no mesmo dia. Isso já basta.
- Começou ela com as boybands, de novo. - sussurrei para , que soltou uma risada baixa.
- Podem falar o que quiserem. Um dia eu ainda vou conhecer a One Direction. - Felícia colocou as mãos na cintura. - Pois, voltando ao assunto. - ela se jogou entre eu e , que soltou um gemido engraçado. - Quero ir para a MYNK HSE, e vocês são minhas convidadas.
- Convidadas a vender um rim para pagar a entrada? - perguntou com incredulidade na voz. - Aquilo é uma fortuna.
- Está por minha conta. - Marthens disse como se fosse algo óbvio. O que não sabia era que a família de Felícia era rica o suficiente para fechar o restaurante, caso ela quisesse. Mas, foi exatamente o jeito descontraído dela que fez com que eu a quisesse como minha amiga.
Lícia nunca se importou muito com o que o dinheiro traria de benefício para ela, ela só queria curtir a vida e ficar independente de seus pais. Mas, enquanto pudesse usufruir, ela faria. Afinal, ela não era boba.
Concordamos que iríamos ao tal restaurante que a inglesa sugeriu, depois de muita insistência. Já que eu e nem sabíamos se tínhamos roupa para tal ocasião.
- Eu preciso fazer a sobrancelha. - foi o que a paulista disse enquanto colocava um monte de pipoca na boca.

[...]

O local estava animado, mesmo que com pouca movimentação. A iluminação era escura e tudo parecia bem rústico. Eu realmente tinha gostado do ambiente. A música estava ótima e a climatização também. Tudo colaborando para uma noite perfeita.
Depois de uns shots de tequila com as garotas, eu tinha prometido buscar outras bebidas para todas nós. Fui até o bar, que mais me pareceu uma adega pela quantidade de barris que tinha, pedi três cervejas e fiquei esperando enquanto alguma música eletrônica tocava. Quando as Heinekens chegaram, me virei para ir embora, mas acabei me distraindo quando um rapaz abordou o barman pedindo um Whisky puro.
- Parece que temos um cowboy por aqui. - brinquei, enquanto encostava no balcão.
- Só assim para afastar os problemas, não? - seus olhos cor de mel percorreram por todo meu corpo, fazendo uma análise estreita.
- Touché. - eu ri e ele me acompanhou. Segundos depois o atendente voltou com nossas bebidas.
- Já está de saída? - ele perguntou.
- Quer que eu fique? - ri fraco e ele assentiu.
- Tente conviver com quatro homens por grande parte da sua vida. Um dia você vai precisar de uma amizade feminina. - tomou um gole de seu Jack Daniels e deu um sorriso tímido.
- Eu sou do tipo que não tem tantos amigos assim. - seu semblante sereno rapidamente tomou uma forma de surpresa. - Tente ser a garota estrangeira que faz astrofísica e você me entenderá.
- Estrangeira? - ele me analisou novamente. - Pela pele e sotaque eu diria que é britânica.
- Estou em Londres há onze anos. - decidi que me sentar em um daqueles bancos seria o ideal, já que tínhamos realmente engatado uma conversa. - Mas sou do Brasil. Rio de Janeiro.
- Inglaterra. Bradford. - ele disse, levantando o copo, como uma saudação. O que me fez rir mais uma vez. - E o que te traz aqui hoje?
- Minha amiga está fazendo aniversário. - ele sorriu e entregou o copo vazio ao rapaz do bar, que logo o completou com mais uma dose.
- Que engraçado, o meu também. - pegou o celular, olhou as notificações e o guardou novamente. Então, quando levantou o rosto eu realmente percebi quem ele era. Fui levada ao quarto de Felícia em 2011, onde pôsteres de suas boybands favoritas estavam, incluindo One Direction; a sensação britânica. O cara do bar era um dos rapazes dessa banda, mas qual era seu nome mesmo? Ken, Brian, Zion, não me lembrava no momento.
- Acho melhor eu voltar logo, se não elas comem meu fígado. - brinquei, e levantei da cadeira, segurando as cervejas em minha mão.
- Acho que deveríamos trocar nossos números, apenas para caso eu precise da tal amizade feminina que lhe falei. - semicerrei os olhos, desconfiada, e ele riu. - Isso não é um flerte, eu realmente quero novos amigos.
- Justo. - peguei meu celular e o entreguei para que gravasse seu número na agenda. - Aliás, pode guardar apenas como "Zayn". - o estalo veio e eu havia lembrado seu nome. Seu olhar levantou surpreso e eu o retribui com um sorriso sacana. - Sei quem você é, só não me importo com isso. Pra mim você é apenas um cara que eu conheci no bar, e meu mais novo amigo inglês.
- Touché. - estendeu meu telefone e deu um sorriso. Terminei de digitar meu número e o entreguei. - . - ele leu o nome do contato e sorriu. - Belo nome para uma nova melhor amiga.
Pisquei marota e ele gargalhou. Nos despedimos com um abraço rápido seguido de um aperto de mão. Britânicos e suas manias nem um pouco calorosas. Se fosse no Rio já teríamos nos dado dois beijos no rosto e um abraço forte.
- Nos vemos por aí. - ele disse e eu apenas concordei enquanto saia de perto do bar.


Capítulo 3



Setembro de 2014
Eu olhava meu armário em busca de algo para vestir aquela noite. A balada que Felícia havia proposto era um lugar diferente do que eu já havia ido antes – que se resumia a cerveja barata e talvez algum funk que eu dançaria quando estivesse um pouco alterada. Acabei por escolher uma calça preta, uma blusa de alça de cetim em um tom claro de rosa e saltos finos pretos. Eu não era o tipo de salto, mas aquela noite era uma comemoração e achei merecido.
Enrolei os cabelos deixando-os em ondas não muito arrumadas, fiz um delineado nos olhos, junto a máscara de cílios e optei apenas por um lip tint nos lábios junto a um balm. Completei a roupa com um colar simples e decidi que estava de bom tamanho. Peguei uma bolsa preta pequena onde cabia meu celular, documentos e cartão, peguei a sacola com o presente da aniversariante e sai. Respondi a mensagem de dizendo que já estava a caminho da casa dela, recebendo uma mensagem de que ela e Lícia estariam me esperando no térreo e que iríamos no mesmo uber em que eu estava. Sem muita demora eu cheguei ao prédio onde as duas saltaram para dentro do carro.
- Festa! – Felícia soltou animada assim que fechou a porta do veículo fazendo com que eu e a outra brasileira soltássemos uma risada conjunta.
- Feliz aniversário, Licia. – a abracei e ela retribuiu o gesto – Te comprei algo que achei que fosse sua cara. – lhe estendi a sacola e os olhos dela brilharam.
- Ah , obrigada. – ela me lançou um largo sorriso e abriu a sacola. Eu havia lhe comprado um colar fino de ouro e uma pedra de quartzo rosa pendurada. Tudo muito delicado – Saiba que você é muito amada. – ela leu o cartão da loja que vinha junto a peça – O quartzo rosa te capacita a canalizar sua paixão, força, positividade e a transmitir amor ao mundo ao seu redor. – ela encarou sorrindo radiante – Tudo bem, eu já amo sua melhor amiga de infância. – sua fala arrancou risadas de mim e de – Obrigada , é muito fofo. – ela me abraçou novamente e eu retribui o ato me sentindo aliviada por ela ter gostado.
Eu não conhecia Felícia muito bem e não sabia tanto sobre seus gosto – exceto o amor por boybands que era algo claro -, mas eu havia gostado dela desde o primeiro momento e algo em mim fazia com que eu quisesse sua aprovação, já que era alguém tão importante para .
- Tudo bem, já chega, vocês são minhas melhores amigas, não uma da outra. – usou um falso tom de ciúmes que fez com que eu e Lícia a encarássemos rindo.
- Quer um abraço também? – a britânica questionou a abraçando antes da resposta e revirou os olhos, mas de todo modo retribuiu o ato.
Felícia colocou o colar e jogou a embalagem na bolsa minutos antes de chegarmos ao local. A música que podia ser escutada da rua era algo latino e que te convidava a dançar. Felícia parecia animada e deu os ombros ao mesmo tempo que eu, começando a caminhar a entrada do lugar, logo atrás de Lícia que deu seu nome ao segurança e logo o mesmo a deixou passar.
Havia um restaurante na porta à direita, seguindo pelo corredor iluminado por luzes neon e subindo as escadas chegamos ao lugar responsável pela música. Havia um bar em um canto e o resto do local era iluminado por luzes neon iguais às do corredor de baixo e a música era tocada por um DJ animado.
- Não está meio vazio? – foi quem perguntou mais alto para mim.
- Sim, eu consigo me mover sem empurra ninguém. – soltei a fazendo rir. Realmente era mais vazio que os lugares que eu costumava frequentar, mas ainda assim havia bastante gente.
Eu fui a primeira a trilhar o caminho do bar sendo seguida pelas outras duas e assim que cheguei ao mesmo havia um barman sorridente me aguardando.
- Três doses de tequila pra começar. – pedi e percebi o olhar de e Lícia sobre mim – O que? Nós temos que começar isso direito. – soltei fazendo ambas rirem.
- A razão é toda sua. – Lícia declarou jogando as mãos ao alto em rendição. Logo nossos shots acompanhado de sal e limão estavam sendo postos em nossa frente.
- Como diriam os mexicanos... – começou e eu ri fraco.
- Arriba, abajo, al centro y adentro! – dissemos juntas em um espanhol bem arranhado, fazendo os movimentos e terminando com um brinde. Com sal na boca bebi o liquido que ao ser engolido queimou minha garganta e me fez fechar os olhos enquanto consumia o limão. e Felícia tinham a mesma feição que eu e rimos uma das outras.
- Hora de dançar. – nos puxou pelas mãos para a pista de dança logo depois de deixarmos nossos copos sobre a bancada.
Honestamente eu era bem tímida para dançar, mas o pouco de álcool ingerido foi suficiente para me fazer sentir um pouco mais desinibida e dançar de maneira divertida com as outras garotas. e Felícia claramente sabiam o que faziam ao som do reggaeton que eu não sabia qual era, mas a voz de quem cantava não me era estranha. Eu percebi os olhares de um grupo de caras sobre nós, mas não dei muita bola, apenas ri enquanto Felícia girava com e parecia tonta com o movimento inesperado que a carioca a guiou a fazer.
Depois de minutos de dança nos questionou se iríamos querer algo para beber, recebendo um não como resposta antes de sair para buscar algo para ela mesma. Perdemos nossa amiga do campo de visão enquanto dançávamos. Minutos mais tarde Felícia informou que precisa ir ao banheiro e eu apenas disse que procuraria por que já estava demorando para alguém que havia ido apenas buscar uma bebida.
A encontrei no bar, ela conversava animadamente com um cara. Deveria ter mais ou menos a mesma idade que nós a barba estava por fazer e tinha cabelos relativamente longos para os caras dali. Ele ria de algo que havia dito e eu apenas sorri fraco. Voltei para onde estava antes e encontrei Lícia voltando de sua ida ao banheiro.
- Encontrou ? – ela questionou perto da minha orelha.
- Sim, ela está com um cara. – ao ouvir minhas palavras ela gargalhou.
- Essa é a que eu conheço. – ela soltou rindo e me encarou em seguida parecendo se arrepender das palavras – Sinto muito, . Quero dizer, você não a vê a anos e...
- Lícia, está tudo bem. – soltei em meio a risada pelo desespero da britânica – Você conhece mais a adulta e está tudo bem, eu não ligo, quero dizer somos amigas de diferentes fases e eu não vou me incomodar com isso. Só estou feliz por ter encontrado ela de novo e vou ter a chance de conhecer essa . – soltei simples e vi um breve sorriso surgir em seus lábios – E também estou feliz por ela ter você – dessa vez o sorriso da garota foi largo.
- Preciso confessar que quando ela me contou que havia te encontrado eu me senti meio intimidada, vocês têm história e essa coisa do pacto... – ela apontou minha mão – E eu fiquei com medo de você querer pegar minha amiga para você. – confessou de maneira manhosa, quase infantil e eu gargalhei.
- E eu me senti meio intimidada por você já que é a melhor amiga dela e fiquei morrendo de medo de você me odiar. – foi a vez de Felícia rir.
- Ok, vamos fazer um acordo, aqui ninguém intimida ninguém e vamos ser amigas. Se não rolar a amizade, vamos respeitar a relação individual com a , certo? – ela estendeu a mão e eu a apertei.
- Certo. – ambas rimos. Era meio que claro que eu e Felícia seriamos boas amigas, não só por , mas por nós também e era bom me sentir acolhida daquele modo.
- Veja só quem largou o boy. – Felícia soltou alto acima da música como estávamos fazendo e eu olhei sobre o ombro, vendo se aproximar com um copo em mãos.
- Ei! – ela gritou e tomou um gole da bebida que eu logo reconheci como caipirinha.
- Finalmente se lembrou das amigas? – questionei brincando e roubando o copo de sua mão e recebendo um olhar estreito em resposta.
- Não sei do que está falando. – ela murmurou enquanto eu bebida um pouco do líquido.
- Não minta para mim . – alertei e ela revirou os olhos.
- Não enche. – ela pegou seu copo de volta e já começou a se mexer no ritmo da música – Vamos dançar – dito isso ela adentrou a pista enquanto eu e Lícia trocamos um olhar cúmplice rindo.

[...]

O sol entrava pela janela e batia em meus olhos me fazendo xingar mentalmente a mim mesma por não ter fechado o blackout na noite anterior. Abri os olhos de uma vez e minha cabeça doeu um pouco. Olhei o quarto e demorei alguns segundo para assimilar que lugar era aquele, me lembrando que havíamos ido para a casa de Felícia e eu estava no quarto dela. Havíamos todas caído na cama incapazes de organizarmos os lugares para dormirmos e não era realmente necessário já que a cama de Lícia era do maior tamanho que eu já havia visto.
Levantei da cama e percebi que as outras duas garotas ainda dormiam. Segui até a cortina e a fechei, mesmo que eu não fosse voltar a dormir achei que as duas iriam querer continuar em seu sono visto que haviam bebido mais que eu.
Peguei um chinelo que estava ao lado da cama, segui para fora do quarto fechando a porta atrás de mim e fui para o banheiro que havia ali. Lavei meu rosto tirando toda a maquiagem que não havia tirado na noite anterior – alô dermatologistas, não me matem –, prendi meu cabelo em um coque mal feito e decidi por sair para comprar um café. Passei pela sala pegando meu cartão na bolsa que havia deixado ao lado da porta na madrugada e peguei a chave que estava jogada em um tipo de prato estranhamente bem decorado na mesinha ao lado da porta.
Procurei no Google uma cafeteria ali perto e encontrei uma a alguns metros seguindo até lá. A fachada do lugar era clara e tinha grandes janelas de vidro, alguns banquinhos e mesinhas estavam dispostos do lado de fora e cada janela tinha um pequeno jardim com algumas plantas e flores. Olhei por uma das janelas e parecia vazio, o que me pareceu estranho e me fez pegar o celular no bolso para checar as horas.
- 08:06? Ótimo , acorde cedo no domingo mesmo. – murmurei para mim mesma ao mesmo tempo que abria a porta do local.
Meu corpo trombou com o corpo de alguém muito mais alto que eu e só tive tempo de me encolher. Logo vi uma rosquinha açucarada cair no chão e abri a boca pronta para dizer algo. O homem à minha frente tinha os braços encolhidos assim como eu, enquanto sua boca se encontrava aberta em um “o” perfeito. Provavelmente parecíamos pessoas se espelhando já que estávamos paralisados de modos idênticos.
- Me desculpe, eu não te vi. – foi a primeira coisa que eu disse – Se bem que é bem difícil não te ver já que você é bem alto. – soltei antes que pudesse conter meu pensamento e o homem me encarou com o cenho franzido – Ai, me desculpa, não foi isso que eu... – antes que pudesse concluir a frase ele gargalhou e eu me senti confusa.
- Você fala muito rápido para alguém tão pequena. – eu estalei os lábios.
- Tá legal, eu mereci essa. – apontei rindo também e ele assentiu – Mas sério, me desculpa. – me abaixei e peguei a rosquinha jogando-a no lixo – Vem, eu te compro outra. – ele negou com a cabeça.
- Não precisa...
- Me deixa te comprar outra, sério. Se eu não te comprar outra rosquinha vou ser assombrada pelo fantasma dessa aí. – soltei brincando e o cara riu.
- Tudo bem, mas só por que seu argumento do fantasma da rosquinha é convincente. – ele murmurou colocando as mãos nos bolsos e seguindo de volta para dentro da cafeteria.
- Bom dia. – cumprimentei a atendente que tinha um largo sorriso – Moça eu quero uma daquelas rosquinhas açucaradas, uma fatia de bolo de laranja, um café preto e... – me virei para o estranho – Quer algo além da rosquinha? – ele me encarou com um olhar estranho e negou com a cabeça – Certeza disso? – ele assentiu e eu dei de ombros – É só isso por enquanto então. – a mulher assentiu e deu uma olhada na vitrine voltando para nós.
- A rosquinha acabou, mas o padeiro já está preparando a próxima fornada. Quer esperar? – ela questionou e eu me virei para o homem.
- Tudo bem, eu espero. – ele deu de ombros – Pode me ver um chá então enquanto espero? – pediu e a mulher assentiu.
Preparou tudo e logo deixou a nossa frente. Eu peguei minhas coisas e o homem pegou sua xícara de chá e me encarou.
- Quer sentar? – ele indicou uma das mesas e eu apenas segui para a mais próxima. Eu tomei um gole de meu café e ele de seu chá. Estranhamente ingleses pareciam não ter problema com silêncios, mas eu tinha, então precisava puxar assunto.
- Aliás, meu nome é . – estendi a mão para ele que a apertou.
- É um prazer, . – foi tudo que ele respondeu e eu arqueei a sobrancelha para ele.
- Sabe, quando alguém se apresenta, você se apresenta de volta. – gesticulei com a mão livre e ele estreitou os olhos como se estivesse cogitando se eu falava sério.
- Claro, hum... Meu nome é Edward.
- É um prazer, Edward. – ele riu fraco quando soltamos as mãos – Vocês britânicos são engraçados. – murmurei e ele deu de ombros.
- Me dizem isso o tempo todo. – ri fraco negando com a cabeça – Mas de onde você é, fantasma da rosquinha e não britânica? – o apelido me fez rir.
- Ah, certo, agora você vai zombar de mim. – o garoto riu tomando um gole de seu chá em seguida – Brasil. – respondi simples e ele arregalou os olhos claramente surpreso.
- Sério? – assenti tomando o meu café. Obrigada pelo bom café Londres. Foi o que pensei – Eu já fui lá. – comentou.
- Sério? Turismo? – questionei e ele negou com a cabeça se ajeitando na cadeira e cruzando as pernas.
- Não, trabalho na verdade. – assenti – E você? por que está um oceano longe de casa? – pela primeira vez parei para notar o homem realmente. Não parecia um homem na verdade, acho que estava mais para um garoto da minha idade. Tinha cabelos longos que iam até a curva do pescoço com alguns cachos nas pontas, enquanto um chapéu ocupava sua cabeça. Os olhos eram de um verde bem claro e os pelos no queixo estavam começando a dar sinais de que iriam crescer. O sotaque era carregado e a voz grave. Era um cara bonito no fim das contas.
- Faculdade, vim estudar na universidade de Londres. – ele fez uma expressão engraçada com um bico nos lábios.
- Ouvi dizer que precisam de boas notas para entrar lá. – comentou de maneira aleatória – E o que você estuda?
- Artes plásticas. – a informação pareceu lhe causar interesse.
- Você pinta então?
- Sim, esculpo também, mas meu forte é a pintura.
- Isso é incrível, de verdade. – eu sorri pela sinceridade de suas palavras e ele fez o mesmo.
- Aqui está. – a garçonete trouxe a rosquinha embalada em um saco de papel e deixou sobre a mesa sorrindo para nós e se retirando.
- Obrigada. – agradeci um pouco mais alto e ela acenou.
- Bom, eu tenho que ir por que preciso encontrar umas pessoas. – Edward informou e eu o encarei assentindo e levando a mão ao bolso.
- Se ousar pegar essa carteira eu juro que te bato, mesmo que você seja um estranho. – o comentário o fez parar e rir levantando as mãos em rendição.
- Tudo bem, tudo bem! – ele pegou a rosquinha e então tirou os celular do bolso e mexeu no aparelho por um momento – Vamos fazer o seguinte, me deixe seu telefone e podemos sair para tomar outro café em um dia mais tranquilo e você me fala sobre o que pinta, realmente sou um entusiasta da arte e gostaria de saber mais sobre seu trabalho. – eu lhe estreitei os olhos o fazendo rir enquanto pensava sobre o real motivo de ele ter pedido o telefone – Estou falando sério, é pela arte e por que você parece uma garota legal, se fosse interesse romântico você já saberia. – sua resposta veio como se ele tivesse lido minha mente. Eu peguei o aparelho e digitei meu número escrevendo “ fantasma da rosquinha” no nome do contato e devolvendo o aparelho. O vi rir do nome e guardar seu celular no bolso. – Tchau e obrigado pela rosquinha. – ele acenou e começou a caminhar para a porta.
- Ei! – chamei e ele me encarou – Seu nome não é Edward, é? – ele sorriu de canto.
- Tecnicamente sim. – ele deu de ombros e saiu da cafeteria acenando assim que passou pela janela onde eu me encontrava.
Terminei meu café em silêncio e paguei por ele pegando mais algumas coisas para levar para e Felícia. O caminho até o apartamento foi tranquilo e quando entrei no local percebi que ambas ainda dormiam, então apenas deixei o café da manhã sob a bancada e me sentei no tapete da sala pegando meu celular e notando uma novamente de um número desconhecido.

Hey 08:36a.m
É o Edward, aliás 08:36a.m

Salvei o número como “Edward da cafeteria” e apenas lhe respondi com um “Hey”. Não tinha muito o que fazer até que minhas amigas acordassem então me levantei e fui ver o que Felícia tinha em sua estante de discos. Boybands realmente eram suas favoritas. Backstreet boys, ‘N Sync, McFly, New Kids On The Block. Vários discos das bandas estavam dispostos por ali, mas o último CD que peguei chamou minha atenção. One Direction era o que estava escrito em preto na capa onde cinco integrantes da banda apareciam sorridentes. Um deles me chamou atenção. Tinha os cabelos maiores e cacheados, os olhos eram verdes claros e naquele momento eu notei de onde conhecia Edward. Seu nome não era aquele, disso eu tinha quase total certeza. Peguei meu celular, abri o navegador buscando por “membros One Direction” e logo encontrei seu nome. Harry Styles. Ali eu descobri que Edward era seu nome do meio.
- Não é possível! – sussurrei desacreditada que havia acabado de conhecer um dos membros da banda mais conhecida dos últimos tempos, por mais que eu mesma não fosse muito ligada a música deles – Da próxima vez rola de conhecer o Mick Jagger? – questionei olhando para o teto rindo em seguida da minha ação.
Tudo bem. Estava tudo bem. Quero dizer, ele provavelmente nem me mandaria outra mensagem. Ele já tinha amigos famosos o suficiente, não é? Mas como que pra comprovar que eu estava engana meu celular apitou.

Valeu pela rosquinha e pelo chá 08:42a.m
Vamos marcar aquele café 08:42a.m

Eu estava enganada.


Capítulo 4


Abril de 2013
O livro disposto sobre a mesa de madeira era repleto de números e cálculos que sem a devida atenção não seriam resolvidos. Astrofísica era realmente minha vocação, mas ver Theodore Cooler em um mesmo ambiente que você, tira suas totais concentrações.
O rapaz pegou um livro na sessão de anatomia e se sentou em minha frente. Com tantas cadeiras e mesas naquela biblioteca, ele se sentou na minha frente.
- , não? - ele sussurrou, enquanto olhava em meus olhos. Eu apenas sorri e o encarei de volta. - Amiga de Felícia. - ele afirmou, e eu assenti.
- Cooler, estou tentando me concentrar. - falei em tom quase inaudível, apontando para o livro que lia.
- Gostaria de tomar um café depois de sairmos daqui? - o ruivo sugeriu.
- Pode ser. - disse, um tanto seca. Mas, o que eu não queria era mostrar a animação que existia dentro de mim pelo simples fato de Theo Cooler ter me notado. Me sentia como aquelas protagonistas de comédias adolescentes. Só faltava o extreme makeover da minha vida para tudo estar completo. - Apenas me deixe terminar, então. - sorri fraco e ele fez o mesmo.

Setembro de 2014
O aniversário de Felícia foi um dos melhores que já fui. Não tinha tanto luxo, muito menos uma grande cerimônia, mas éramos três melhores amigas se divertindo da melhor forma possível. A ressaca ainda tomava conta do meu corpo, mas eu não iria ficar deitada o dia todo vivendo em função disso.
Caminhar por Londres era um de meus passatempos favoritos. Depois de anos na cidade, aprendi a reconhecer e me apaixonar por sua beleza e individualidade. Por isso, sempre tirava um tempo para visitar meus lugares favoritos e desfrutar de minha própria companhia. Aproveitei que Felícia estava passando o dia com Theodore e outros amigos, e que estaria em algum tipo de exposição, para tirar esse tempo hoje.
Passei primeiro em minha cafeteria favorita, onde comi alguma coisa que pudesse me sustentar até o almoço e peguei um ônibus até meu local favorito em toda Londres: a Rough Trade. Conhecida por muitos como a melhor loja de discos do mundo.
Sua fachada era branca com as letras clássicas da marca gravadas em preto. A vitrine de vidro possibilitava a visualização do interior da loja.
Além de números, eu amava música e tudo relacionado a ela. Uma das minhas maiores influências para gostos musicais fora meu pai. Lembro-me que ele sempre colocava seus discos no último volume e nós usávamos as vassouras da mamãe para fingir que estávamos fazendo um show. Nossa plateia era invisível, mas nossa imaginação ia longe.
Entrei na loja e mandei uma foto dos discos para papai, que provavelmente demoraria para me responder, mas apenas queria mostrá-lo onde estava. Acenei com a cabeça para Travis, o vendedor que já havia virado um colega, de tanto que eu visitava o local, e fui direto para a sessão que me importava: Rock Clássico.
Passei a mão pelos discos e CDs que haviam ali, o cheiro de coisas novas e antigas se misturavam no ar de uma forma que me deixava extasiada. Eu amava aquilo.
Pink Floyd era, com certeza, uma de minhas bandas favoritas. E poder ver que um exemplar de Wish You Were Here estava à venda deixou meu coração aquecido. Porém, o preço era salgado demais para meu bolso. Talvez eu desse a sorte de comprá-lo numa próxima.

Julho de 2013
- O que acha desse, ? - Theo puxou um dos CDs da estante, revelando o meu favorito do Pink Floyd.
- Meu sonho é poder achar um exemplar em LP desses. - disse e passei para o lado do corredor onde ele estava. - Veja, tem muitos LPs da banda por aqui, mas todos do WYWH já foram vendidos. Eles esgotam muito rápido. - fiz um semblante triste.
- Prometo que comprarei para você assim que voltarem a vender. - Cooler disse e me abraçou, depositando um beijo em minha testa. - Tudo por esse sorriso.

- Eu ainda prefiro o Dark Side Of The Moon. - um rapaz com um sotaque carregado e uma voz doce falou ao meu lado. Virei meu olhar e encontrei um grande par de olhos azuis, daqueles que te deixam desconcertada por alguns instantes. Dei um sorriso e ele fez o mesmo. - Sou Louis. - estendeu sua mão para um cumprimento. - E você é a menina que estava conversando com o Zayn ontem no bar. - ele apontou para mim e eu me senti como se estivesse sendo fichada pela polícia.
- Wish You Were Here sempre será o meu favorito, mas meu coração tem espaço para o Dark Side também. - eu ri fraco, envergonhada. Quais eram as probabilidades de eu conhecer dois integrantes da maior boyband do mundo num intervalo de menos de vinte e quatro horas. E nem fã deles eu era. - Bom, você me colocou contra parede. - apertei sua mão e sorri. - Sim, era eu mesma. , muito prazer. - ele retribuiu o sorriso.
- Veio comprar discos, ? - ele perguntou em tom animado. - Posso chamá-la assim? - semicerrou os olhos e eu apenas assenti, ainda com um sorriso no rosto.
- Bom, eu sempre venho nessa loja. É um dos meus lugares favoritos na cidade. - eu disse. - E você?
- Eu vim com dois amigos. Um deles está ali no outro corredor. - ele apontou para o rapaz de estatura alta e cabelo castanho bem curto. - Liam, chega aqui. - gritou para o garoto que olhou em nossa direção e se aproximou lentamente. Ok, agora eu conhecia três deles. E todos eram incrivelmente lindos. E eu estava apenas de calça jeans, all star, moletom cinza e sem maquiagem. - Essa é , a menina do bar. - ele disse e eu corei. Pelo visto estava sendo falada entre os membros da banda.
- Muito prazer conhecê-la. - ele falou e pude notar que o tom grosso de sua voz era praticamente ocultado por seu carisma. Ele se vestia como um cantor de rap, com calças largas e uma camiseta regata. Tinha várias tatuagens no braço e um sorriso incrivelmente branco. - Só não ligue para os seguranças. - ele apontou para três caras grandes que estavam caminhando pela loja. Verdadeiramente pensei que eram apenas homens comuns comprando discos, mas eram os seguranças da One Direction tomando conta dos integrantes. Quando eu achei que eles iriam conseguir sair sozinhos por aí sem eles?
- Tudo bem, sem problemas. - comentei. Olhei para o relógio e percebi que fazia meia hora que eu estava na loja. Se quisesse visitar outros locais precisaria ir embora. - Gente, foi um prazer, mas não posso ficar por muito tempo. Peguem meu número com o Zayn e me mandem uma mensagem, que tal? - sugeri e eles sorriram, parecendo animados.
- Com certeza farei isso. - Louis disse. - Ainda irei te convencer que Dark Side é o melhor álbum do Pink Floyd. - ele riu e eu o acompanhei.
- Tente a sorte. Esse álbum fez parte da minha história - ri, apontando para o Wish You Where Here.
- Nossa, você soou exatamente como… - Liam disse e eu o interrompi.
- Um homem de quarenta e cinco anos, eu sei. - joguei as mãos para cima. - Sem julgamentos, por favor.
- Não. - ele riu. - Eu ia dizer que soou exatamente como um de nossos amigos. E ele tem vinte, caso queira saber.
- Bom, fico menos preocupada então. - brinquei. - Realmente preciso ir. Foi ótimo conhecer vocês. Não esqueçam de entrar em contato. - disse, me despedindo e eles concordaram.
Fui me afastando aos poucos dos rapazes, que continuaram conversando sobre algo que eu não sabia o que era, mas pareciam animados. Decidi que passaria no banheiro antes de ir, apenas por precaução, já que ficaria bastante tempo no ônibus até chegar no próximo local de visita, que seria a London Eye.
O corredor era o mesmo para o masculino e feminino, os sanitários eram apenas em portas diferentes. Caminhei despreocupada e com a cabeça baixa, mexendo no celular, mandando uma mensagem para me encontrar para a janta, se fosse possível. A distração acabou fazendo com que eu trombasse em alguém muitos centímetros mais alto que eu.
Seu perfume era indescritível, mas tinha um cheiro único. Daqueles que você reconhece a metros de distância. Não consegui ver seu rosto de uma maneira clara, já que o corredor era escuro. Apenas ouvi sua rouca voz sussurrar “desculpas” e continuar seu caminho.
Que tipo de pessoa em pleno 2014 usava sobretudos? Foi a única coisa que me questionei ao vê-lo indo embora após o incidente. Realmente a moda era algo que não fazia sentido para mim.
Entrei no banheiro, me desfiz de todas as vontades que tinha naquele momento e fui embora. Quando saí não tinham mais sinais de Louis ou Liam no local, o que me indicava que eles provavelmente teriam feito o mesmo.
Fico imaginando como Lícia reagiria ao saber que conheci três de cinco integrantes de sua banda favorita.


Capítulo 5


Setembro de 2014
- Bom dia flor do dia – a voz de Felícia ecoou pela sala enquanto eu estava sentada no sofá, digerindo a informação de ter conhecido um membro da One Direction.
- Bom dia, dormiu bem? – questionei tentando parecer o mais normal possível. Felícia era fãs dos caras, como eu contaria aquilo pra ela?
- Sim, mas estou com um ressaca ferrada – murmurou indo para a cozinha e se atentando as embalagens – Você comprou café da manhã? – eu a encarei e ela me olhava com uma sobrancelha arqueada – nunca faz isso, obrigada Deus por nos mandar a Cecilia – ela juntou as mãos e apontou para o céu me fazendo rir.
- Eu sai pra tomar e achei justo trazer para vocês – comentei me aproximando e me sentando em uma das banquetas da ilha – falando em , cadê ela? Ainda dormindo? – questionei pegando um tipo de bolinho que eu desconhecia e provando.
- Algumas horas longe e já está com saudades, ? – a voz da brasileira veio do corredor e seu comentário me fez rir enquanto me virava para encara-la.
- Convencida, não? – brinquei e logo ela estava se juntando a nós me dando um abraço e beijos no rosto como era costumeiro no nosso país.
- Mas que mania é essa de beijar o rosto? – Felícia questionou curiosa e nós rimos.
- Costumes brasileiros de cumprimento – informou puxando a sacola – Café da manhã? Tenho certeza que foi a , por que a Felícia nunca faz isso – a britânica encarou de maneira perplexa que me fez rir enquanto ela empurrava a outra pelo braço.
- Nem você – ela retrucou enquanto revirava os olhos.
- Ok, antes de vocês começarem a discussão – iniciei acenando de maneira geral com a mão – preciso saber se alguma das duas conhece alguém que esteja alugando um apartamento. Estou no dormitório da faculdade e preciso muito sair de lá. Minha colega de quarto é bem legal, mas honestamente acho que podemos nos matar a qualquer momento – o comentário fez Felícia rir enquanto sorria largo como quem acaba de ter uma ideia – , matar a Claire não é uma opção – comentei fazendo referência a minha colega e ela revirou os olhos.
- Não idiota, essa não era a minha ideia – ela pegou um bolinho como o meu quando seu estomago roncou – por acaso eu conheço alguém que está afim de dividir o apartamento, já que o custo aqui em Londres é bem alto – ela deu de ombros e mordeu seu bolinho, parecendo se deliciar com o sabor daquilo.
- E quem seria? Se for a Jenna de arquitetura eu passo, já falei com ela e é sem condições – comentei mordendo o meu bolinho também. Britânicos sabia fazer comida, eu tinha que admitir.
- Estou falando de mim, Cecilia – ela revirou os olhos e eu quase engasguei.
- Não brinca comigo – soltei com a mão em frente a boca tentando engolir o tal bolinho que já nem parecia ter tanta graça assim. Eu estava sonhando ou o que? Havia reencontrado minha melhor amiga e iriamos morar juntas em Londres. Só podia ser sonho.
- É sério, se quiser a gente pode pegar as suas coisas amanhã e... – antes que ela pudesse continuar a falar eu saltei em seu pescoço a puxando para o abraço mais apertado que eu conseguia dar em alguém.
- , eu te amo e apenas isso importa – gritei e ouvi a garota gargalhar junto a Felícia. Me afastei e beijei sua bochecha a fazendo rir mais ainda.
- Ta bem, ta bem, já chega do mela mela – ela murmurou fingindo insatisfação.

Julho de 2012
- Quem é Banksy? – Bruno questionou olhando a tela do computador onde uma conversa com o tal cara estava aberta.
- Um artista de rua de Londres – comentei simples procurando por meu tênis. Péssima mania de perder minhas coisas dentro de casa.
- E você não acha estranho ficar conversando com outro cara mesmo sendo comprometida? – levantei meus olhos para encara-lo e ele tinha uma expressão nada satisfeita no rosto.
- Não, por que só estamos falando de arte – soltei revirando os olhos e voltando meus olhos para debaixo da cama encontrando ali os calçados.
- E quem me garante isso? – ele voltou a questionar. Me sentei na cama começando a calçar os sapatos.
- Eu não tenho que te garantir nada, você não é meu dono e não tem nada a ver com minhas amizades – respondi de forma ríspida que claramente não havia agradado o garoto.
- Eu não quero você falando com ele – o garoto murmurou e eu revirei os olhos.
- Ótimo, então pare de falar com a Camile e estamos de acordo – ele revirou os olhos e se levantou da cadeira.
- Já te disse que não tem nada demais entre mim e ela – murmurou respirando fundo e massageando as têmporas.
- Exatamente, assim como eu e Banksy – retruquei e ele urrou bravo.
- Ótimo, você já foi avisada que não deve falar com ele – seu tom era autoritário e aquilo me subiu o sangue.
- Avisada que não devo falar com ele? – meu tom era de puro deboche e eu não estava ligando para o fato de ele estar se irritando – escute aqui, você não está em posição de “avisar” nada, então fique na sua – vi o garoto rir desacreditado.
- Bom, então fique com seu amigo, nós terminamos – ele se virou e seguiu pelo corredor me fazendo revirar os olhos.

Setembro de 2014
Cheguei ao museu e logo eu estava entregando meu convite para o segurança. Era uma exposição exclusiva e eu apenas tinha acesso a aquele local por conhecer Banksy a alguns poucos anos.
Eu havia dado um reply em um tweet dele e então começamos a conversar por dm. Desde então estávamos sempre conversando sobre arte, principalmente a de rua. Quando cheguei a Londres ele automaticamente me pediu o endereço para onde mandaria os dois convites de sua exposição. Eu não tinha acompanhante naquela tarde já que todos que eu conhecia estavam ocupados em suas próprias atividades, então decidi por ir sozinha de todo modo.
Quando adentrei o local era um ambiente claro. Todas as paredes eram brancas, assim como piso e teto. Os quadros chamavam atenção por suas cores de destaque – geralmente o vermelho – e pelo fato alguns não terem moldura. Caminhei lentamente por alguns quadros parando em frente a um em que alguém limpava a palavra Eternit. Como um grafite sendo apagado de uma parede.
- Por que será que eu sabia que te encontraria aqui? – a voz, até então desconhecida pessoalmente questionou e eu me virei, encontrando um Banksy sorridente.
- Por que sabemos que eu adoro esse quadro – informei rindo e Banksy se aproximou abrindo os braços e me recebendo em um abraço despreocupado.
- É muito bom te conhecer pessoalmente, – ele confessou e eu sorri fraco.
- Devo dizer o mesmo, Ban – nos afastamos e percebi que ele sorria, mas diferente de mim seu sorriso era largo.
- Eu achei que não viria – cruzei os braços e lhe arqueei uma sobrancelha.
- Acha que eu perderia um evento tão exclusivo? Jamais – neguei e ele assentiu. Me voltei ao quadro e ele fez o mesmo me acompanhando.
- Vamos, me dê sua opinião agora que está aqui – pediu e indicou a obra.
- Não sei muito bem o que pensar, você tem motivos peculiares para a sua arte, mas para mim isso significa o quanto o eterno está se tornando banal. O quanto não vale mais como um dia valeu. Promessas de eternidade e para sempre já não tem uma garantia, são apenas palavras que podem ser limpas de um muro e desvalorizadas – dei de ombros e o encarei. Ele sorria largo o que me fez fazer o mesmo.
- Gosto como você vê nas entrelinhas do que faço, sem grandes críticas com fundamentos em estudos, apenas sentimento, você capta eles da maneira mais crua possível – eu sorri fraco.
- Tenho que compensar o pouco conhecimento teórico e aplicar na capacidade de captação, não? – brinquei e ele gargalhou.
- Não quero nem ver quando você tiver muito conhecimento – ele retrucou.
- Vou fingir que não sei sobre o que se trata o quadro – soltei e ele riu.
- Ninguém precisa saber – ele disse simples.
- Acho que essa é a vantagem das artes plásticas em relação a música, sabe? As pessoas sempre querem saber sobre quem os cantores e compositores escrevem e cantam, mas raramente perguntam isso a um pintor. Por que acho que tem a impressão que aquilo no quadro é apenas a materialização do sentimento, mas nunca se tocam que existe alguém por trás daquele sentimento – eu sentia os olhos de Ban sobre mim, mas continuava focada nos traços da tela.
- Sorte a nossa que não precisamos dar essas explicações – Ban comentou e eu ri.
- Sim, se eu tivesse que explicar para alguém os motivos das minhas pinturas isso seria vergonhoso – soltei o fazendo rir e o acompanhando enquanto me virava para olha-lo.
- Algum dia eu vou saber? – ele questionou me encarando e eu neguei com a cabeça.
- Nem pensar – soltei rindo e ele sorriu de canto.
- B – alguém chamou atrás de nós fazendo com que nos virássemos. Eu o conhecia, era Jay, o assistente de Banksy – Alguém quer falar com você – ele informou e Banksy assentiu parecendo animado.
- Claro – afirmou, ele parou em minha frente me encarando com um sorriso nos lábios – , fique à vontade, eu realmente preciso ver esse cara, mas logo te encontro de novo para conversarmos mais – ele garantiu e eu apenas assenti o deixando ir.
Fiquei ali por alguns minutos até voltar a andar pela exposição. Entre paradas e caminhadas para ver outro quadro eu me virei com a intenção de seguir para o outro lado do local percebendo uma pequena multidão se formando ao redor de uma pessoa que eu tinha certeza não ser Ban.
Mais alguns passos foram dados e logo cheguei ao quadro de uma flor nascendo no meio de um prédio.
- Eu nunca entendo esse tipo de coisa – o sotaque carregado de uma voz masculina ecoou do meu lado e eu me virei para encara-lo. Era um garoto de olhos azuis e cabelos claramente pintados de um loiro platinado.
- Acho que não é necessário entender, apenas olhe e se permita sentir – dei de ombros e o vi sorrir fraco. A impressão de o conhece-lo me incomodou um pouco e demorou apenas mais dois segundo para que eu me lembrasse onde havia o visto.
- Funciona pra você? – as mãos do garoto estavam atrás do corpo enquanto ele me encarava.
- Eu espero que sim – fiz uma careta e ele gargalhou de maneira escandalosa.
- Você é engraçada – ele estendeu a mão – Niall, a propósito – eu apertei a mão dele e percebi alguns calos. Com certeza ele tocava algum instrumento.
- Cecilia – disse de maneira simples e ele franziu o cenho.
- É um prazer, Cecilia – sacudimos as mãos por um momento e logo as soltamos.
- Todo meu.
Engatamos em uma conversa sobre arte e música onde Niall revelou realmente fazer parte da banda da qual eu suspeitava que o conhecia. Ficamos longos minutos conversando até ele informar que teria que procurar o amigo que o acompanhava. Após ele ir eu segui meu caminho por entre quadros e pessoas completamente imersa em tudo que aquilo me trazia.
Minutos mais tarde meu celular vibrou com uma mensagem de me convidando para jantar e eu senti meu estomago concordar com aquilo.
Procurei por Ban me despedindo e com a promessa de uma visita a seu estúdio em breve. Segui para a saída esperando pelo carro que estava indo me buscar. Quando avistei o carro no começo da rua senti um corpo bater no meu e me virei, mas ele já caminhava acenando com o braço direito - onde uma tatuagem grande era vista com a onomatopeia “Zap!” - e proferindo em tom alto um pedido de desculpas enquanto entrava em um carro preto. Deixei para lá e apenas segui para entrar no carro que agora me aguardava. Meu estomago voltou a protestar e eu torci para que já tivesse algo pronto.


Capítulo 6


Novembro de 2002
- Parabéns para você, nessa data querida. - pulava em minha cama. - Vamos, . Acorde! É seu aniversário. - ele balançava meu corpo.
- Já acordei. - me espreguicei lentamente e abri um sorriso para minha amiga. - Bom dia.
- Feliz aniversário de nove anos, . - ela puxou de seu bolso uma pequena caixa. - Fui ao shopping com minha mãe ontem para comprar isso. - me entregou a caixa, que era aveludada em preto por fora. Assim que abri, vi um pequeno colar com um pingente de trevo. Retribuí com um sorriso largo e um abraço que pegou de surpresa. - Você sempre quis achar um trevo de quatro folhas, mas nunca conseguiu. Achei que se eu comprasse você pudesse guardá-lo para sempre. - saiu de meus braços e abriu um sorriso para mim.
- Obrigada, . - suspirei. - Agradeça sua mãe também. - eu disse e ela assentiu. - Sabe, até que foi legal ser acordada por você. - eu ri e minha amiga me acompanhou. - Quando ficarmos adultas vamos morar juntas. - eu disse com convicção.
- Promete? - a morena levantou a mão, erguendo o dedo mindinho para mim.
- Prometo! - uni nossos dedos, selando mais uma promessa entre nós duas.

Setembro de 2014
No meio da arrumação que fazia no quarto onde ficaria, encontrei em uma caixa de pertences do Brasil, o pingente que minha melhor amiga havia comprado para mim em meu aniversário de nove anos, no mesmo dia que prometemos que moraríamos juntas.
O mais engraçado de toda a situação é que nós estávamos realmente nos preparando para morar juntas depois de doze anos.
O cordão que vinha junto com o trevo não cabia mais em meu pescoço, então decidi pegar um colar de ouro que eu tinha e encaixar o pingente ali.
Fui até a sala, onde desempacotava suas coisas e a encontrei dobrando suas roupas e as colocando em cima do sofá, para depois separá-las no guarda-roupas.
- Oi . - ela virou em minha direção abrindo um sorriso longo. - Terminou lá? - perguntou e eu assenti. Ela continuou sorrindo até que seus olhos pararam sobre meu colo, onde estava disposto o pingente. - Isso não é…
- É sim. - coloquei a mão no trevo e pude ver que ela tinha lágrimas nos olhos.
- Você guardou durante todo esse tempo? - ela parecia desacreditada.
- Eu nunca jogaria fora algo que me foi dado por minha melhor amiga. - assim que eu disse, pude ver levantando rapidamente e vindo me dar um abraço.
- Eu te odeio por ter me abandonado. - ela disse séria. - Mas te amo por nunca ter me esquecido. - sorriu logo depois.
- Agora, acabando com essa lenga-lenga. - gargalhei e a garota me acompanhou. - Vamos terminar de arrumar as coisas, pois quero fazer um jantar de boas-vindas para você. - ela disse, sorrindo. - E quando eu digo jantar, eu quero dizer pizza. - ela balançou a cabeça em negação com um sorriso no rosto e voltou a dobrar algumas blusas. - Pode chamar o Tyler ou algum outro amigo se quiser, vou falar com Felícia e alguns amigos meus.
- Combinado. - ela disse. - Assim que eu terminar aqui passarei as mensagens.
Voltei para o quarto, pegando as caixas vazias e levando-as para os fundos, onde tínhamos grandes latas de lixo.
Peguei meu celular e abri na conversa com Zayn.

Pizza hoje à noite aqui em casa, fale com Louis e Liam. 11:32am


Claro que iremos. Comer sempre é uma boa pedida. 11:36am
Inclusive, essa semana estaremos indo para os Estados Unidos, já que estamos finalizando as coisas da divulgação do álbum. 11:40am

Uma pena, ficarei sem vê-lo por quanto tempo? 11:42am


Vamos no final da semana e voltamos quinze dias depois, já em outubro. Vamos pegar umas férias antes do lançamento oficial, em novembro. 11:43am

Combinado, então. Segue o endereço abaixo. Espero que vocês passem a noite conosco jogando e conversando apenas para redimir esse tempo todo que ficarão longe. 11:43am


Fechado! 11:44am

Depois de marcar com os rapazes, era a hora de preparar Felícia psicologicamente para o encontro. Então liguei para a garota e pedi para que ela viesse o mais cedo que conseguisse. A mesma disse que chegaria logo após o almoço, e que nos ajudaria com a compra das pizzas.
e eu demoramos cerca de três horas para deixar tudo devidamente organizado, da maneira que queríamos. Como a menina não tinha trazido tantas coisas do Brasil, foi fácil para guardar tudo em apenas um dia.
Decidimos por pedir comida mexicana para o almoço. E depois de alguns tacos e carnes bem apimentadas, ficamos na sala apenas esperando Felícia chegar.
Por volta de duas da tarde o porteiro anunciou que a britânica estava a caminho de meu apartamento.
A campainha tocou e correu para abrir a porta.
- Oi, gatinha. - Lícia deu um beijo no rosto de . - Cadê aquela cachorra que chamamos de ?
- Eu tenho sentimentos, Felícia. - olhei para a porta e ela mostrou o dedo. - Vão ficar igual dois de pau paradas na porta ou vão entrar?
A loira entrou no apartamento e jogou sua bolsa na mesinha que ficava próxima à porta, como de praxe. Veio caminhando até meu lado e se jogou no sofá. entrou na cozinha, provavelmente para pegar um copo d’água.
- Por que pediu minha presença tão cedo? - perguntou, esticando as pernas e as colocando no meu colo.
- Bom, eu terei uns convidados e espero que você não me faça passar vergonha, Lícia. - falei com um semblante sério, porém tentei colocar o máximo de descontração em minha voz.
- Por que acha que eu vou te fazer passar vergonha? - ela me olhou curiosa e eu sorri fraco.
- Apenas espere chegar à noite. - eu disse, gargalhando.
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Uma maquiagem básica cobria meu rosto, apenas para tirar a feição cansada. Afinal, menos é mais, sempre! Como iríamos receber pessoas consideradas importantes eu decidi que colocaria uma roupa um pouco mais apresentável, que se resumiu em um short de linho preto, um cropped branco de alça e um oxford da mesma cor do short.
e Felícia também estavam bem arrumadas, já que a brasileira também havia convidado seus amigos e eu pedi para a britânica se comportar um pouco mais, por conta dos tais convidados que eu havia falado para ela.
Solicitamos as pizzas uma hora antes do que foi passado para todos que chamamos, assim quando chegassem, já haveria o que comer.
Quarenta minutos após a solicitação as massas chegaram, e vinte minutos após elas, sem um segundo sequer a mais, a campainha tocou.
- Eu atendo. - eu disse, deixando minha garrafa de cerveja na mesa de centro e me levantando.
Assim que abri a porta, dei de cara com Zayn, Liam e Louis, todos usavam calças jeans escuras e camisas de uma só cor, com exceção de Malik, que tinha uma estampa indefinida em sua camisa de fundo preto.
Encarei os três britânicos e dei um sorriso, tentando não transmitir o nervosismo. Felícia surtaria.
- Boa noite, . - Louis foi quem disse, animado, me puxando para um abraço.
- Ei, Lou. - retribui o abraço e sorri. - Antes de vocês entrarem eu devo dizer que uma das minhas amigas que está aí é superfã de vocês. Então, caso ela surte, não liguem, logo passa. - alertei os rapazes que riram. Mas, não entendi o porquê.
- Imagina quando ela souber que Niall e Harry estão no carro pegando as bebidas e já vão subir. - Zayn foi quem disse, com um tom calmo. - Inclusive vou descer para ajudá-los, nos vemos daqui dois minutos. - concordei e o moreno saiu de cena.
- Vocês trouxeram o resto da banda? - perguntei, um pouco mais atônita que o esperado.
- Na verdade eles foram convidados também, . - o sotaque de Liam tomou conta do corredor. - Se eu não me engano sua amiga os convidou. , eu acho. - se meu queixo não fosse preso à mandíbula, provavelmente ele estaria no chão naquele momento.
- Um segundo. - coloquei apenas o rosto na fresta da porta e gritei por , que veio rapidamente até mim. Quando ela saiu da casa e deu de cara com meus amigos no corredor, abriu um sorriso.
- Vocês não são da One Direction? - ela disse animada e eles concordaram. Depois de alguns segundos fechou o sorriso e me encarou cheia de dúvidas. - Espera aí. Eles são da One Direction. - apontou para eles.
- E seus convidados também são, não é? - ela assentiu e eu levei a mão a testa.
- O que a gente faz, prende Felícia no quarto e passa a pizza por baixo da porta? - ela perguntou em português, creio que para não assustar os rapazes e eu ri.
- A gente pensa em algo. Vamos entrar, temos dois aqui, e três subindo. Mandem uma mensagem e digam que eles podem entrar direto. Acho que já podemos ir preparando Lícia com Liam e Louis. - disse e todos concordaram.
Abri a porta devagar e percebi que Lícia não estava na sala, então disse para os garotos ficarem à vontade enquanto eu descobria onde a garota se meteu. ficou fazendo sala com os meninos e eu fui até a porta do principal banheiro da casa, onde pude ouvir a descarga sendo dada.
Felícia assobiava alguma música animada enquanto lavava as mãos, e logo em seguida, ainda assobiando abriu a porta.
- Caralho, . - colocou a mão sobre o peito após dar de cara comigo. - Sou nova demais para um ataque cardíaco.
- Então já se prepara, por favor. E não grite ou faça escândalo. Eles são meus amigos e de , então são seus amigos também. Os trate como pessoas normais. - eu disse, séria.
- Você está me assustando, . Quem são “eles”? - ela fez o sinal de aspas com as mãos e eu apenas a puxei para sala.
Os três conversavam animadamente sobre algo que eu não sabia, mas pareciam ter se dado muito bem.
Quando cheguei na sala, Felícia, que estava ao meu lado, paralisou. Eu segurava sua mão e pude sentir que a mesma estava gelada e tremendo. Seus olhos tinham dobrado o tamanho e suas pupilas dilatado rapidamente.
- Apenas aja com naturalidade. - sussurrei em seu ouvido. - Meninos essa é a Felícia.
- Hey, estávamos esperando por vocês. - Louis se levantou para dar um abraço na garota, que por um momento quase desmaiou. - É um prazer conhecer você, Lícia. - a garota não pronunciava uma palavra sequer, apenas sorria e meneava a cabeça. - Harry, Zayn e Niall já estão no elevador.
Minha mão que ainda estava unida a de Marthens por um momento quase deixou de existir, já que foi praticamente esmagada pela britânica.
Deixei Felícia com e os garotos na sala e fui até a cozinha para pegar as pizzas e começar a colocar as caixas em cima da mesa, onde nos serviríamos e ficaríamos conversando.
Enquanto eu as organizava em uma pilha pude ouvir o barulho da porta abrindo e passos indo em direção à sala. Nessa hora, provavelmente os rapazes haviam chegado.
Continuei empilhando as caixas e ouvi uma batida na porta da cozinha.
- me disse para guardar as cervejas no congelador. - aquela voz rouca não me era estranha.
- Fique à vontade. - eu ainda estava de costas para a garoto que falou e pude ouvi-lo abrir a porta da geladeira.
Terminei de empilhar as caixas em duas pilhas de cinco, já que havíamos pedido dez sabores diferentes. E me preparei para pegar a primeira para levar.
- Me deixe te ajudar com isso. - o garoto chegou mais perto e depois de alguns minutos no mesmo ambiente eu pude reconhecer o cheiro do perfume. O mesmo perfume do rapaz que esbarrou comigo na Rough Trade. Respirei fundo e virei para, finalmente, encará-lo.
Ele tinha mais de 1,80 de altura, seus cabelos eram longos e ondulados. Seus olhos tinham um profundo verde, que era mesclado com alguns tons de azul e cinza, o sorriso que ele dava revelou pequenas covinhas em suas bochechas. Ele usava uma camisa azul escura de botões que revelavam duas andorinhas tatuadas acima de seu peito. Assim como os meninos vestia uma calça jeans escura, e em seus pés estava uma bota de camurça marrom. Ele ajeitou o cabelo e estendeu a mão para pegar as caixas em meu lugar. - Harry, aliás. - mais uma vez ele sorriu, e eu não sei exatamente o porquê, mas minhas pernas falharam.
- . - foi apenas o que conseguir dizer. Aquele homem era bonito demais para ser verdade.
- A menina do bar e da Rough Trade? - ele colocou as caixas novamente em cima da bancada e me encarou, eu apenas assenti. - Não ligue para o que o Louis falou. Ele é louco por achar Dark Side melhor que Wish You Were Here. - disse e eu fiquei envergonhada. Então ele era o amigo de vinte anos que Liam comentou. - Se for por gosto musical, parece que nos daremos bem. - eu ri fraco, concordando.
- Vai demorar muito aí, Harry? - Um rapaz loiro e com o sotaque mais forte entrou pela cozinha. - Ah, olá. Sou o Niall. - se apresentou rapidamente, me cumprimentando com um aperto de mãos. - Não queria atrapalhar a conversa, mas estão todos esperando pelas pizzas. - ele riu, fazendo uma cara culpada.
- Estamos levando. - eu sorri e ele retribuiu.
Eu e Harry pegamos as caixas sobre a bancada e levamos até a sala, colocando em cima da mesa de jantar, que ficava próxima à uma parede.
Felícia já parecia menos nervosa, pois conversava com Louis sobre algo que estava o fazendo rir. Liam e Niall, o loirinho simpático da cozinha, se levantaram para pegar suas primeiras fatias de pizza.
e Zayn estavam um ao lado do outro no sofá, vendo algo que a garota mostrava em seu celular, provavelmente fotos do Brasil.
Me joguei no sofá que estava vazio, e alguns minutos depois o garoto lindo do perfume inesquecível e dos olhos verdes brilhantes se sentou ao meu lado.
Não seria fácil ficar a noite toda o encarando sem perder o ar toda vez que fizesse isso. Ele era convidado de , e creio que provavelmente eles estivessem se conhecendo melhor. Eu teria que ser forte, eu precisaria ser.


Setembro de 2014
Eu estava organizando as roupas na sala enquanto mexia no quarto em que eu ficaria. Enquanto eu dobrava minhas roupas me lembrei de quando éramos crianças e me prometeu que moraríamos juntas algum dia. Eu já deveria saber que minha amiga era boa em cumprir promessas, mas eu continuava me impressionando. Morar com seria com certeza uma das coisas mais incríveis que eu faria na vida, afinal, sempre fomos como irmãs e agora teríamos a experiência completa. Ri fraco sozinha e ouvi os passos vindos do corredor encontrando ali.
- Oi – cumprimentei minha amiga – Terminou lá? – questionei e ela apenas assentiu. Havia algo de diferente nela de quando se retirou da sala para agora e eu logo notei que era o colar em seu pescoço. Demorei menos de um segundo para reconhecer o pingente – Isso não é...
- É sim – ela respondeu já sabendo a minha pergunta a tocando o trevo com a mão enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.
- Você guardou durante todo esse tempo? – eu tinha certeza que minha expressão era meio abobalhada, mas não podia evitar.
- Eu nunca jogaria fora algo que me foi dado por minha melhor amiga – ao fim de sua frase eu me levantei e a envolvi em um abraço quando a alcancei. era inacreditável.
- Eu te odeio por ter me abandonado – meu tom era sério, apesar de não a odiar realmente - Mas te amo por nunca ter me esquecido – lhe entreguei um largo sorriso.
- Agora, acabando com essa lenga-lenga – ambas gargalhamos com seu comentário – Vamos terminar de arrumar as coisas, pois quero fazer um jantar de boas-vindas para você – a garota disse com um sorriso nos lábios - E quando eu digo jantar, eu quero dizer pizza – completou e eu sorri negando com a cabeça e voltando ao que fazia – Pode chamar o Tyler ou algum outro amigo se quiser, vou falar com a Felícia e alguns amigos meus.
- Combinado, assim que eu terminar aqui passo as mensagens.
Ela não disse mais nada apenas se encaminhou para o quarto enquanto eu terminei meu trabalho com minhas coisas. Resolvi enviar uma mensagem para Harry e convida-lo junto a Niall, já que Ty estava ocupado com estudos.

Pizza, aqui em casa com uma galera hoje, topa? 11:50am


Você disse pizza? Claro que sim. Todo mundo aí é a favor de cerveja? 11:52am
Aliás, aquele nosso café vai ter que esperar um pouco. Essa semana vou para os EUA para a divulgação do novo álbum 11:53am

Claro. Cerveja é ótimo 11:56am
Eu queria ver como você me explicaria isso se eu não tivesse descoberto sobre a banda haha 11:56am


Eu te contaria otaria. Não era exatamente um segredo 11:59am
Era mais um teste 11:59am

Sei, sei, vou fingir que acredito 12:01pm
Preciso voltar a organização, te vejo mais tarde 12:01pm
Aliás, avise ao Niall se puder 12:02pm


Pode deixar, até mais 12:03pm

Demoramos algumas horas para deixar tudo apresentável e organizado, mas ao fim da organização eu e estávamos satisfeitas e famintas.
Pedimos por comida mexicana e quando os pratos chegaram ambas devoramos o quanto conseguimos e a preguiça pós almoço bateu, fazendo com que ficássemos deitadas no sofá até Felícia - que havia pedido para chegar mais cedo - chegasse sendo anunciada pelo porteiro do prédio.
Eu ainda não havia pensado sobre como contar a elas sobre Harry e Niall, mas sabia que seria naquela noite, obviamente.
Felícia chegou e começou um assunto sobre Felícia se comportar naquela noite por conta dos convidados dela, mas honestamente eu tinha a impressão de que ela surtaria com os meus.
Pensei em contar ali, mas apenas deixei que acontecesse, não faria ninguém sofrer por antecipação.
[...]
Quando terminei de me vestir percebi que eu tinha zero noção de quem iria a minha casa naquela noite. Eu usava uma blusa branca de ombro caído, um short jeans com a barra desfiada e tênis também branco - que foi provavelmente meu momento de noção, já que eu me lembro bem de pensar em usar chinelos - e tinha um colar no pescoço. A maquiagem era a mesma de sempre: rímel, lip tint na boca e bochechas e um balm para hidratar os lábios. Apenas tirei a blusa e coloquei uma regata preta de gola alta e tecido mais grosso que com o colar dava um ar mais arrumado a roupa.
Fui para a sala e apenas Felícia estava ali, mas não demorou muito para que aparecesse sendo eleita a mais arrumada de nós.
Pedimos pizzas suficientes para um batalhão e as mesmas chegaram quarenta minutos após a ligação. Vinte minutos mais tarde, quando eu já estava cansada de esperar a ponto de já ter aberto três cervejas para nós a campainha tocou e foi quem saltou do sofá para atender. Eu e Felícia trocamos um olhar curioso quando ela fechou a porta atrás de si.
-Eu não aguento esse mistério todo, minha bexiga pede por banheiro quando fico ansiosa assim - a declaração de Felícia me fez gargalhar enquanto ela deixava sua cerveja sobre a mesa e seguia para o banheiro.
Ao mesmo tempo o rosto de surgiu na fresta da porta me chamando e eu apenas dei outro gole em minha cerveja seguindo até lá. Ao colocar meus olhos sobre as pessoas a minha frente, logo depois de fechar a porta, eu sorri largo. Eu conhecia aqueles rostos.
-Vocês não são da One Direction? - eles acenaram positivamente sorrindo simpáticos e no segundo seguinte meu sorriso se desmanchou enquanto a ficha caia - Espera aí. Eles são da One Direction - apontei para eles e percebi que falava como se eles não pudessem me ouvir.
- E seus convidados também são, não é? - questionou e eu assenti vendo a garota bater na própria testa em seguida. Eu pretendia apresentar dois membros da banda para ela, agora quatro? Era demais.
- O que a gente faz, prende Felícia no quarto e passa a pizza por baixo da porta? - soltei em português, por que apesar de ser uma brincadeira sabia que os garotos podiam não entender e levar a sério.
- A gente pensa em algo. Vamos entrar, temos dois aqui, e três subindo. Mandem uma mensagem e digam que eles podem entrar direto. Acho que já podemos ir preparando Lícia com Liam e Louis. - cinco? Então agora era a banda completa. Apenas assenti assim como os outros dois e abriu a porta.
Lícia ainda não havia voltado do banheiro então liberamos os garotos para entrarem. informou que iria atrás da loira e eu fiquei responsável por fazer companhia, para os até então desconhecidos membros da banda.
-Podem ficar à vontade, aceitam cerveja? - questionei apontando a cozinha e ambos negaram.
- Acho melhor esperarmos pelas duas - o garoto de olhos azuis comentou - sou o Louis, a propósito - ele me estendeu a mão e eu a apertei.
- Liam - o outro comentou já com a mão estendida.
- Prazer eu sou a…
- - eles comentaram juntos me fazendo rir assustada.
- Harry não para de falar de você desde que se encontraram na cafeteria - Liam começou.
- Ele só sabe dizer como você é engraçada, ou descontraída, sobre como não sabia quem ele era e que você é uma artista - Louis completou me fazendo corar bruscamente.
- Ok, bizarro saber que sou assunto em boyband famosa - comentei e os fiz rir consequentemente rindo junto.
- Ei Niall comentou que você estava na exposição do Banksy - Liam começou apontando para mim de maneira engraçada.
- Sim, eu conheço o Ban a algum tempo e ele me convidou - dei de ombros e vi Louis abrir a boca parecendo surpreso.
- Banksy o cara do grafite do cara pulando a janela? - eu ri com sua recordação.
- Isso, esse mesmo - Liam bateu na própria testa como se estivesse decepcionado com o amigo e aquilo me fez rir mais ainda.
Não houve tempo de dizer mais nada. Vi chegar com Felícia e a britânica paralisar no lugar fazendo sussurrar algo para ela e em seguida se virar para nós.
-Meninos essa é a Felícia - anunciou e eu vi Felícia continuar paralisada.
- Hey, estávamos esperando por vocês. - Louis tinha um tom simpático e logo estava de pé indo até a loira para um abraço - É um prazer conhecer você, Lícia. - eu tinha certeza que a garota estava à beira de um colapso, já que não dizia um "a" apenas acenava e sorria - Harry, Zayn e Niall já estão no elevador.
Eu vi o exato momento em que a mão de foi esmagada for Lícia, ato que proporcional risadas contidas a mim e a Liam que assistíamos de longe a cena.
Libertei da mão de Felícia e guiei a britânica ao sofá onde Liam e Louis sentaram ao seu lado fazendo-a me encarar respirando ofegante e vi sumir para a cozinha.
-Amiga, respira, ainda tem mais três - comentei e no timing certo alguém bateu a porta.
Ao abrir a mesma dei de cara com um Harry sorridente.
-Ei, vocês chegaram - me aproximei o recendo em um abraço que ele retribuiu meio sem jeito por conta das bebidas em suas mãos.
- Onde posso deixar isso? - ele mostrou as cervejas enquanto entrava.
- Pode colocar no congelador, está na cozinha e te ajuda com isso - ele assentiu e antes de seguir para a cozinha parou para dizer um Olá aos amigos e Felícia que parecia se segurar para não gritar - Nialler! - soltei animada para o loiro que me abraçou me tirando brevemente do chão.
- , obrigado pelo convite - ele agradeceu ao me colocar de volta no chão.
- Eu que agradeço por vir - soltei sorrindo e notando pelo canto do olho mais alguém a porta - entregue a bebida pro Harry e vá falar com a Felícia, tenho certeza que você é quem ela está mais empolgada para conhecer - ele riu assentindo e seguindo para lá.
Eu voltei meu olhar a porta e tive certeza que meu coração havia errado uma batida. O garoto a minha frente era com certeza uma das pessoas mais bonitas que eu havia conhecido. Tinha olhos cor de mel, a barba por fazer, os cabelos de tamanho mediano e um sorriso de canto nos lábios. Demorou alguns segundos para eu o reconhecer do bar, era o cara que falava com .
- Cecilia, certo? - ele questionou estendendo a mão e eu a apertei.
- Isso - foi tudo que eu disse percebendo que parecia uma tapada.
- Você é uma celebridade, sabe disso, não é? - ele questionou e eu franzi o cenho.
- Sou? - eu ainda segurava sua mão e a encarei. Vi sua tatuagem do braço direito. "Zap!". A onomatopeia era bem aparente ali. Eu a reconheceria em qualquer lugar.
- Sim, Harry não para de falar de você, Niall ficou comentando que você estava na mesma exposição do Banksy que nós - era realmente ele. Por Deus, como era bonito.
Se controle , ele provavelmente é o cara que sua amiga está saindo.
-Ah, você era o amigo que ele foi procurar? - questionei e ele assentiu. As mãos ainda se segurando começavam a suar e ambos as encaramos rindo - Desculpa, eu… sei lá que merda eu estava fazendo, só esqueci de soltar sua mão - comentei de maneira direta que o fez rir.
- É, o Harry estava certo, você é engraçada - eu sorri fraco e senti minhas bochechas corarem por saber novamente que pessoas falavam de mim por aí - então ele disse que você é do Brasil - ele comentou de forma solta enquanto fechava a porta. Por que eu estava tão lerda que nem havia o chamado para sentar?
- Sou sim - comecei a indicar o caminho do sofá e ele me seguiu. Parou para cumprimentar Felícia que parecia mais calma e acostumada a presença dos garotos, enquanto Niall corria para a cozinha.
- Então, ouvi algo sobre Rio de Janeiro - seu sotaque enrolado ao dizer o nome da cidade me fez rir.
- Morei lá muito anos - comentei de forma solta.
- Fomos lá uma vez - ele comentou aleatoriamente.
- Sério? E foram ao Corcovado? - a pronúncia despertou uma careta nele.
- Não me lembro, é um nome complicado - ri fraco pegando o celular e procurando pela foto que havia tirado lá na minha última ida ao local.
- Não, com certeza não fui - ele comentou e logo eu estava lhe mostrando todas as fotos que havia tirado no local.
e Harry haviam voltado, ambos se sentaram no sofá vago e tinha uma expressão estranha no rosto. Assim que voltei a encarar Zayn, enquanto o garoto prestava atenção na foto que eu lhe mostrava eu me senti a pior pessoa do mundo por estar achando o cara tão bonito. Mas eu precisava me controlar. era minha amiga e amigas vem antes dos caras. Sempre.


Capítulo 7


Setembro de 2014
- Se vivêssemos em um universo infinito e imutável, todo o céu seria brilhante como o sol. Mas o céu é escuro à noite, tanto porque o universo teve um começo de modo que não haja estrelas em todas as direções e, mais importante, porque a luz de estrelas super distantes (e da, ainda mais distante, radiação cósmica de fundo) é deslocada do espectro visível para o infravermelho pela expansão do universo, então não podemos vê-la completamente. - a professora resumia o paradoxo de Olbers enquanto apontava para alguns desenhos no quadro. Eu escrevia tudo que conseguia e aproveitava para fazer minhas próprias anotações. Era a última quarta feira de setembro, na outra já estaríamos no próximo mês, nos preparando para confeccionar nossas piores fantasias e comemorarmos o Halloween. - Finalizamos nossa aula com essa síntese. Vejo vocês na próxima quarta-feira.
Os alunos começaram a se levantar e arrumar seus pertences, já que essa seria a última aula do dia. Esperei grande parte deles sair para fazer o mesmo, se não o tumulto seria grande nos corredores.
Quando já estava indo embora, senti que meu celular vibrava sem parar em meu bolso. O tirei dali, vendo o nome de Zayn acompanhado de uma foto engraçada do mesmo dando língua, que ele tinha insistido que eu colocasse no contato.
- Oi. - parei perto da fonte que ficava perto do prédio de exatas.
- Já saiu da aula? - sua voz estava embargada. Ele estava chorando?
- Está tudo bem, Zayn? - perguntei preocupada.
- Perrie e eu terminamos ontem à noite. Preciso me distrair, topa ir para algum lugar hoje? - me assustei com a informação recebida. Não que eu tivesse conhecido Perrie, mas pelas fotos eles pareciam ser um casal bem feliz.
- Tudo bem. Amanhã não tenho aula. O que quer fazer? - vi que vinha de longe com dois copos de milkshake em mãos.
- Talvez sair para comer algo. - suspirou. - Te busco às oito.
- Tudo bem. está chegando aqui, preciso desligar. Até mais. - desliguei o telefone e o guardei na mochila.
O sorriso de ao me entregar o milkshake de morango me lembrou quando éramos crianças e íamos à sorveteria do Seu Zé. Era o mesmo sorriso.
- Você ainda odeia pistache? - perguntei tomando um gole da bebida.
- Não fale sobre isso. - ela apontou para mim rindo. - Quem era no telefone?
- Ah, era Zayn. - falei e ela fez um semblante de quem não estava surpresa. - Ele está mal por conta de um término e queria companhia para se distrair essa noite. Acho que vamos sair pra comer, ou algo assim.
- Entendo. - continuou tomando seu milkshake. - Você vai?
- Vou. Não se abandona um amigo numa situação dessas. - conclui e ela sorriu.
- Você está certa. - finalizou o milkshake. - Vamos para casa? - perguntou e eu assenti.

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“Paradoxo temporal é quando alguém viaja no tempo para o passado, altera uma ação e com isso muda os acontecimentos futuros, fazendo com que a ação que motivou a viagem no tempo não exista mais, e com isto, a própria viagem não existiria.
Esta relação de causa e efeito no tempo é a base do paradoxo temporal, muito utilizada pela ficção científica na produção de filmes, séries, livros, histórias em quadrinhos, entre outros.
O paradoxo temporal é uma contestação filosófica sobre a possibilidade de viagens no tempo, desfazendo através do raciocínio lógico o motivo da própria viagem."
Fechei o caderno de anotações quando percebi que o relógio já marcava sete horas. estava na casa de Tyler finalizando um projeto para sua próxima aula e eu tinha ficado sozinha, aproveitando o tempo ocioso para estudar os assuntos da aula do dia. Então, de certa forma acabei me esquecendo do compromisso que teria com Zayn daqui uma hora.
Corri para o banheiro e tomei um banho rápido, porém eficiente. Coloquei uma calça de couro preta com uma bota da mesma cor e uma blusa de seda laranja, estava perfeito. Penteei meu cabelo e passei apenas uma máscara de cílios e um batom claro, como sempre usando a menor quantidade de maquiagem possível.
Sete e meia.
Arrumei minha bolsa colocando o que seria de extrema importância e escrevi um bilhete para , avisando-a que havia levado minha cópia da chave e que estaria de volta logo.
Sete e quarenta e cinco.
Uma mensagem chega em meu telefone, finalmente era meu pai respondendo a foto da Rough Trade, depois de quase três semanas.

Amei, filha. Compre um do Bon Jovi para mim. Beijos. 7:50pm

Oito horas, e a pontualidade britânica nunca falhava. Zayn tocava o interfone avisando que já estava me aguardando.
Desci o elevador com calma e pude ver seu carro parado em frente ao prédio.
Abri a porta do Mustang preto e me acomodei.
Ele parecia triste, muito triste. Tinha uma aparência fraca e indefesa. O que, de verdade, estava acontecendo com ele?
Fomos o caminho todo ouvindo a rádio local, que tocava alguns rocks antigos, me fazendo ficar animada por alguns instantes.
Paramos em frente ao Nobu, restaurante bem famoso em todo mundo, possuindo mesmo até uma filial no Brasil, no bairro de Jardins em São Paulo.
Nunca havia experimentado a comida de lá, mas sempre disseram que era gostosa e muito cara.
- Espero que não se incomode com o segurança que vai ficar por perto. - ele apontou para o carro de trás e eu meneei em negação.
- Fique tranquilo quanto a isso. - sorri. - Vamos entrar.
Para adentrar no local foi tranquilo, apenas demos nossos nomes e o garçom nos levou à mesa. Não tinham muitas pessoas ali além de nós, e os outros clientes não pareciam se importar tanto com a presença de Zayn no restaurante.
Fomos atendidos cordialmente por um homem que nos entregou o cardápio e logo se retirou, nos dando um tempo para escolhermos o que comer.
Zayn fez o pedido por nós dois, já que eu não me importaria tanto com o que comeríamos, e sim com a conversa. Ver uma pessoa com a qual me importo daquela forma estava me fazendo mal.
Depois que Felícia os conheceu, ela tratou de ensinar a mim e à sobre One Direction. E pelas fotos que ela me mostrou, percebi que Zayn havia mudado muito. Atualmente ele não tinha uma aparência saudável como tinha antes. Falava menos em entrevistas e parecia cansado o tempo todo.
- Quer começar? - perguntei.
- Eu não queria conversar sobre o término ou nada parecido. Preciso me distrair. - ele disse. - Me conte mais sobre você, seus pais, sua infância.
- Não tem muito o que dizer. Você sabe o essencial. Minha idade, meu curso, onde moro. - sorri. - Meus pais estão fazendo uma viagem pela Europa já faz um tempo. Minha mãe ficou doente e depois que melhorou, eles decidiram viver a vida como se não houvesse amanhã. Pediram demissão de seus empregos e pegaram as economias para fazer a viagem de seus sonhos. Provavelmente estão na Bósnia neste momento.
- Seus pais parecem ser bem loucos. - ele gargalhou. Finalmente ele estava sorrindo.
- E são. Meu pai uma vez inventou que queria levar eu e para saltar de paraquedas aos oito anos de idade. - ri sozinha ao lembrar da cena de minha mãe dando uma bronca em meu pai por isso. - Mas graças ao instrutor fomos proibidas. Acho que morreria.
- Mas por quê? - perguntou.
- Aprenda algo sobre ela, Zayn. Só tem duas coisas no mundo que a odeia: sorvete de pistache e altura. - falei em tom sério e ele gargalhou, dessa vez alto demais, o que ocasionou uns olhares malcriados para nós.
- Sorvete de pistache? Sério? - ele perguntou, ainda rindo e eu concordei. - Ok, é compreensível.
Minutos depois nossa comida chegou. Zayn havia pedido um macarrão diferente de tudo que eu já tinha visto antes, mas estava delicioso.
No meio de uma garfada senti uma luz branca ofuscar meus olhos e abaixei a cabeça rapidamente.
- Merda. - o rapaz sussurrou. - Precisamos ir embora, .
- O que? Mas nem terminamos! - falei, um pouco triste, já que eu queria terminar a comida.
- Tem paparazzis chegando. Se não sairmos agora, para sairmos depois será pior. - ele disse, um tanto nervoso com a situação. - Vamos, prometo que te trago de novo outro dia. - concordei e nós saímos do restaurante sem pagar e com um homem de quase dois metros praticamente em nosso cangote.
O rapaz nos colocou dentro do carro, mas em todo esse tempo, os flashes não paravam.
Em que merda fui me meter?
Liguei para , mas ela não estava atendendo. Como tinha aula no dia seguinte, deduzi que já estaria dormindo. Joguei minha cabeça no banco. Eu tinha uma pequena ideia de onde isso poderia parar.
Liguei para Felícia e felizmente ela atendeu.
- . Está tudo bem? - perguntou preocupada, devido a hora. Quase meia noite.
- Mais ou menos. - disse. - Preciso que cheque todas as redes sociais possíveis agora, veja se estão falando algo sobre mim.
- Você está com algum dos meninos? - ela continuou falando, e eu podia ouvir o barulho de seus dedos tocando o teclado do notebook.
- Sim, com o Zayn. - suspirei. - Saímos para distrair a mente e esquecer dos problemas, mas alguns paparazzi nos encontraram.
- Fica calma e vai pra casa, eu te encontro lá. - ela disse. - Estou saindo daqui agora.
A ligação foi finalizada e meu nervosismo aumentou. Eu não queria meu rosto numa capa de revista, muito menos em um site de fofoca. Eu só queria continuar minha vida como uma pessoa normal e ser reconhecida pelo meu trabalho. Será que isso poderia implicar em algum processo seletivo para a Pós-Graduação?
Minha cabeça parecia que iria explodir. Mas, eu sabia que não era culpa de Zayn. E talvez, fosse até pelo mesmo motivo que ele estivesse tão mal.
O carro parou em frente ao meu prédio. Me despedi de Zayn que me pediu desculpas incontáveis vezes, e me fez jurar de que eu nunca odiaria ele.
Eu não era capaz de fazer isso. Como alguém odiaria um ser humano de coração tão bom quanto o Zayn.
O conheço a pouquíssimo tempo, mas sinto uma energia tão boa quando ele está por perto. Algumas pessoas não conseguem reconhecer isso.
- Fique tranquilo, Zayn. - sorri fraco. - Foi uma ótima noite, e você é um ótimo amigo. - ele sorriu de volta na mesma intensidade. - Nos veremos quando voltar de Los Angeles. Uma boa viagem para vocês. - fechei a porta do carro com calma e passei pelo porteiro como se nada tivesse acontecido. Porém, ao chegar em frente à porta da minha casa, meu coração começou a errar as batidas.
Destranquei a mesma e logo que abri, vi que e Lícia estavam sentadas em frente ao computador com semblantes chateados.
- Falaram merda, não foi? - perguntei e as duas viraram em minha direção sem mudar o rosto.
Já havia saído a notícia no TMZ, e manchete era a seguinte.

“Conheça , a possível pivô do término de Zayn Malik e Perrie Edwards.”


Capítulo 8


Setembro de 2014
- Ao norte da Mesopotâmia tem início a dominação assíria, cujo período de apogeu ocorre entre 1.000 e 612 antes de Cristo e atinge grandes resultados artísticos com o desenvolvimento da estruturação da superfície. O baixo-relevo em calcário Assurnasirpal na caça ao leão, que não tem sua data exata, mas julgasse ser de algum período entre 880 a 860 antes de Cristo, está exposta no Museu Britânico de Londres, e é uma obra dotada de enorme poder de síntese e dinâmica - a professora de arte na antiguidade explicava a matéria, porém minha cabeça não conseguia focar em suas palavras, então apenas coloquei meu celular para gravar o que ela dizia. Mais tarde eu escutaria tudo e faria minhas anotações.
Minutos se passaram sem que minha cabeça saísse do que estava acontecendo na internet. Como as pessoas podiam ter tanto ódio dentro de si? não havia feito nada a não ser sair com um amigo e agora estava sendo julgada por separar um casal? Eu conhecia bem o suficiente para saber que ela jamais faria isso. Ela jamais se envolveria com Zayn sabendo que ele era noivo e jamais o faria terminar um noivado para ficar com ela. Ninguém havia perguntado nada, nem dado a ela a chance de explicar o que aconteceu.
Apesar de tudo, parecia bem e quando a encontrei naquela manhã a resposta dela quando perguntei se estava tudo bem foi "é só a internet, pessoas falando o que não sabem, logo passa" de forma completamente despreocupada e eu sabia que ela não estava mentindo, realmente estava tranquila em relação a aquilo. Mas o que tomava minha paz naquele dia era a estranha sensação de que algo aconteceria. E com essa sensação, eu segui com Tyler até uma mesa embaixo de uma árvore onde estava sentada lendo algum livro, provavelmente de sua aula.
- Ei astronauta - foi Tyler quem cumprimentou fazendo o encarar como quem estava prestes a lhe dar uma bronca.
- Sabe que o fato de estudar astrofísica, não faz de mim uma astronauta, não sabe? - sua pergunta fez Tyler rir enquanto ambos jogávamos nossas bolsas em um canto vago da mesa.
- Claro que sei, , mas gosto de te chamar de astronauta - explicou e revirou os olhos rindo um pouco.
- Como você está? - questionei apoiando os braços sobre a mesa de madeira.
- , eu estou bem, sério, já te disse, é só a internet. O que eles podem fazer? Me mandar muitos emojis de carinha de ódio? - seu comentário me fez rir e fui acompanhada por eles - Notícias dos meninos? - ela questionou tomando um gole de seu suco e parecendo não satisfeita com o sabor.
- Harry avisou que chegaram todos bem a Los Angeles, mas que o Zayn está mais quieto que o normal - ela assentiu.
- Ele está se sentindo culpado por toda essa merda. Me mandou um monte de mensagens com pedidos de desculpas e agora está me respondendo de um jeito estranho - respirei fundo.
- Eu imagino, mas dê um tempo a ele, logo ele vai perceber que ele não tem culpa de nada - comentei e ela assentiu.
- Eu não acredito que vocês estão aqui falando da One Direction como se não fosse nada - Ty comentou em um tom indignado - Os caras são a maior boyband dos últimos tempos e vocês falam deles como se fosse eu - ele jogou os braços fazendo com que eu e gargalhássemos.
- Eles são caras relativamente normais para nós - começou - Acho que o fato de não sermos fãs ajuda - assenti em concordância.
- Ainda assim é…
- Falta de vergonha na cara - uma quarta voz soou um pouco longe e todos nos viramos em direção a ela. Era Jenna a garota de arquitetura e parecia furiosa.
- Eu não ia dizer isso - Tyler sussurrou fazendo eu e rirmos fraco.
- Você não tem vergonha, ? - ela questionou e eu franzi o cenho sem entender.
- Do que você está falando? - questionou parecendo irritada pelo tom que Jenna usava.
- Não se faça de desentendida - a esse ponto algumas pessoas já nos olhavam - Eles estavam noivos, iam se casar. Sua consciência não pesa em saber que isso acabou por sua causa? - naquele momento eu entendi e olhei que não parecia mais irritada e sim acuada.
- Eu não…
- Não venha se defender - o tom de Jenna era alto - Você acabou com o noivado dele e merece todo o ódio que está recebendo, por mim receberia até mais, sua piranha - o xingamento foi o estopim de tudo. se levantou juntando suas coisas e apressou o passo, fazendo com que eu me levantasse ainda meio atordoada com o acontecimento. Vi Felícia chamar e ela apenas começar a correr, deixando a britânica confusa. Me virei para Jenna e em meio ao ódio em seu rosto eu podia ver satisfação em seu sorriso. Ela estava satisfeita por ter machucado ?
- Qual é a porra do seu problema? - eu bati com as mãos na mesa e o ato lhe fez pular em um susto.
- O meu problema? Isso é sério? - ela soltou um riso debochado - Ela acaba com um relacionamento e eu é que tenho um problema? - ela parecia indignada, mas eu honestamente não me importava. Meu sangue estava fervendo.
- Garota, é sério, acho que você precisa de uma tomografia para checar se seu cérebro está ai, por que eu acho que ele talhou aí dentro dessa coisa que você chama de cabeça - o comentário a fez arquear a sobrancelha - Você chegou acusando alguém de algo que ela não fez e ainda está feliz em machucar os sentimentos dessa pessoa. Eu sabia que você era sem noção Jenna, mas isso aqui ultrapassa todos os limites possíveis - ela riu em deboche.
- O que ultrapassa todos os limites é a falta de vergonha da de ir atrás do Zayn assim. Mas é compreensível, é isso que vagabundas fazem para aparecer - aquilo foi a gota d'água. Completamente ciente do que estava prestes a fazer eu me retirei da mesa e me aproximei de Jenna lhe acertado um tapa forte e bem estalado no meio da cara que foi algo completamente inesperado para todos.
- NUNCA MAIS OUSE ABRIR A PORRA DA BOCA PARA FALAR DA , ESTÁ ENTENDENDO? - eu sentia todo o meu corpo tremer pela adrenalina - SE EXISTE ALGUMA VAGABUNDA AQUI ELA É VOCÊ. VALE MAIS QUE VOCÊ VALERIA EM UM MILHÃO DE ANOS E SE ACHA QUE SEU ÓDIO É ALGO BONITO, NÃO É, É APENAS RIDÍCULO E MOSTRA O QUANTO VOCÊ ESTÁ CAGANDO PARA A VERDADE POR TRÁS DESSA PORRA DE HISTÓRIA - eu sentia os olhares ali sobre nós e honestamente estava disposta a mandar todos para o inferno naquele momento - NÃO OUSE NEM SEQUER OLHAR TORTO PARA A , POR QUE EU JURO POR DEUS QUE NÃO RESPONDO POR MIM SE ALGO DESSE TIPO VOLTAR A ACONTECER - eu respirava pesado e Jenna me encarava com a mão no rosto e olhos arregalados, como se não acreditasse que aquilo havia acontecido.
- Senhorita - uma voz feminina meio assustada soou atrás de mim e eu me virei para encara-la. Era a minha professora de arte antiga a qual eu havia visto algum tempo atrás, ela encarava a cena com os olhos arregalados - Preciso que venha comigo a sala do diretor. Você também senhorita Smith - ela apontou Jenna e eu apenas assenti, ainda brava.
Peguei minha bolsa e vi Tyler me encarando desacreditado, assim como Felícia que havia se aproximado. Joguei a bolsa no ombro e segui o caminho até a sala do diretor sem esperar pela senhora Jones ou por Jenna. As pessoas me olhavam e abriam caminho enquanto eu passava. Uma garota sussurrou um "eu teria feito o mesmo" quando passei por ela, mas eu apenas segui meu caminho.
Ao chegar na recepção antes da sala do diretor eu me sentei em uma cadeira e fiquei ali enquanto minha professora entrava na sala dele acompanhada de uma Jenna pasma.
Eu não sabia o que aconteceria, mas honestamente eu não me arrependia, nem por um minuto.

[...]

Entrei em casa e joguei a bolsa e as chaves em seus devidos cantos. Segui direto para o quarto de , mas ela não estava ali, peguei meu celular ligando para minha amiga, mas o mesmo dava desligado. Enviei uma mensagem para Tyler e Felícia informando que não estava em casa e ambos me responderam que assim que saíssem da universidade a procurariam juntos.
Antes que eu pudesse ligar para ela de novo meu celular tocou, com o nome de Harry piscando na tela junto a uma foto que tínhamos juntos do dia da pizza em casa.
- Ei, H - respondi sem ânimo e massageando as têmporas. A enxaqueca dava sinais de que iria aparecer.
- Ei, - seu tom era gentil e cauteloso - Como você está? - não havia chances de ele saber o que havia acontecido, mas estranhamente Harry tinha esse sentido aranha que o informava quando algo estava errado.
- Bem na medida do possível - me joguei no sofá agora que estava de volta a sala - Acabei de levar uma suspensão por acertar um tapa em uma garota.
- Como é? - ele pareceu surpreso e aquilo me fez rir fraco.
- Longa história - foi tudo que respondi sem vontade de explicar aquilo.
- Ok, já entendi que não quer falar agora, mas depois quero que me explique isso - agradeci por ele apenas entender aquilo - Como a está? Quero dizer, com toda essa merda acontecendo - eu respirei fundo.
- Até hoje cedo bem, mas agora algo aconteceu e ela não está em casa, então não sei.
- Ta legal, tenho a impressão que isso tem ligação com o fato de você ter uma suspensão - ele comentou simples.
- É, tem sim - respirei fundo frustrada por não conseguir descobrir onde poderia estar.
- Calma, . Ela está bem - o tom de Styles era tranquilo e eu me perguntava se em algum momento ele se estressava - Pense bem, você a conhece. Para onde ela iria que não fosse a casa de vocês? Talvez um lugar que ela goste - coloquei minha cabeça para funcionar e nada me surgiu até que eu encarei a estante da sala. É óbvio. Como você não pensou nisso, ? Me questionei mentalmente.
- Ei, onde fica aquela loja de discos onde ela conheceu o Lou?

[...]

As pessoas precisam aprender que as histórias que saem na mídia nem sempre são verdade. Na maior parte das vezes são apenas textos sensacionalistas para ganhar algum ibope. O que honestamente é algo podre.”
“Espero que vocês estejam se sentindo envergonhados pelo ódio que estão distribuindo contra uma pessoa que não fez absolutamente nada para merecê-lo.#NoOneDeservesYourHate”
“E para quem interessar saber: é uma das melhores pessoas que eu conheço. Ela jamais faria algo que pudesse machucar alguém. Não mesmo. Ela é alguém por quem eu colocaria minha mão no fogo. Facilmente"

Era o que dizia a série de tweets que eu publiquei no caminho para Notting Hill, onde um táxi me deixou em frente a Rough Trade. Pela vidraça eu via parada em frente a uma fileira de discos, os passando lentamente. Entrei na loja e o barulho do sino não a tirou de seus pensamentos, então apenas me aproximei olhando sobre seu ombro. Pink Floyd. Claro que era Pink Floyd.
- Se quer uma dica pro meu aniversário, eu ia adorar The Queen Is Dead do The Smiths - comentei me encostando na estante e ela me encarou com um sorriso forçado.
- Coisas que eu não imaginaria sobre - eu ri fraco - Você não deveria estar na faculdade? - ela arqueou uma sobrancelha.
- Bom, eu tenho alguns dias para ficar em casa e atualizar minhas séries já que ganhei uma suspensão - o cenho da garota se franziu.
- Suspensão? O que você fez, ? - ela cruzou os braços e me lembrou minha mãe prestes a me dar uma bronca.
- Talvez eu tenha batido na Jenna Smith, mas só talvez - usei o tom mais inocente que consegui, mas isso não impediu de arregalar os olhos.
- Você fez o que? - em seguida recebi um tapa no braço - Você tem sorte de não ter sido expulsa, sua maluca - massageie o braço contendo a risada pelo fato de soar exatamente como a minha mãe.
- Ah, ela mereceu, ninguém fala daquele jeito com você e sai na boa. Se eu fosse expulsa iria embora com orgulho - declarei e vi me encarar com uma expressão de curiosidade. Em seguida seus braços estavam me puxando e me envolvendo em um abraço que eu retribuí.
- Eu não acredito que bateu nela por minha causa - ela sussurrou e percebi que talvez pudesse estar prendendo um choro.
- , eu bateria até na Ronda Rousey por você. Provavelmente eu apanharia bastante, mas… - ela gargalhou e aquilo aliviou meu coração. Nos afastamos e ela rapidamente esfregou os olhos.
- Você é doida, - ela declarou e eu sorri.
- Eu sei - dei de ombros - Agora vem, vamos pra casa, eu tenho tempo livre e estou muito afim de um bolo de cenoura com uma cobertura bem gostosa de chocolate por cima - a abracei pelo ombro a guiando para a saída.
- Espero que seja a receita da sua mãe.


Capítulo 9


Setembro de 2014
Claramente era impossível dormir com o pensamento de que você estava sendo vista pelo mundo como a piranha responsável pelo término de um noivado.
Tudo que eu menos queria era ficar mal com Zayn ou ter meu nome falado nos sites de fofoca.
A rapidez que eles tiveram para encontrar minhas informações foi surreal, nunca tinha visto algo desse tipo acontecer.
Por causa de toda essa confusão estava suspensa de algumas aulas, por isso não estava indo para a faculdade. Eu estava tentando, ao máximo, não me importar com os faladores. Então, eu estava a caminho de mais uma aula, onde eu sabia que seria olhada de maneira estranha e talvez ofendida, mas aquilo não deveria me abalar, e se abalasse, não podia transparecer.

Julho de 2009
- Já experimentou fazer diferente? - Lícia segurou minha mão e contornou o desenho junto comigo. - Viu? Bem melhor agora. - ela sorriu. - Não é como se você fosse algum Van Gogh, mas está ótimo.
Certamente as aulas de artes não eram para mim. Aquilo era algo que tiraria de letra, caso ela estivesse por ali.
Deixei o lápis descansar sobre o papel e soltei um suspiro.
- Você pode se achar péssima, . Mas você não é. - Felícia sentou ao meu lado. - Pode não ser um talento em desenho, mas eu nunca vi alguém resolver equações tão rápido quanto você.
- Mas, quando exporem o desenho, vão falar mal dele pela escola. - fechei os olhos. - Está péssimo, Lícia.
- As pessoas não te conhecem o suficiente para dizer no que você é boa ou não. - deu de ombros. - Apenas se lembre que você é você, não importa quando ou onde. Você sempre vai ter essa coisa dentro de ti, que te faz recordar do seu potencial, fazendo com que tudo que falem de você, seja jogado por água abaixo.

Setembro de 2014
As palavras de Felícia para mim durante o Ensino Médio soavam como um mantra em minha mente naquela manhã. Eu precisava me recordar de quem eu era, e fazer com que esses comentários maldosos não me atingissem da forma que começaram a atingir.
Desci do transporte e caminhei pelo campus com o fone de ouvido tocando Scorpions no último volume. Eu só queria me manter alheia a todos acontecimentos, assistir minhas aulas e ir para casa.
Tyler e Felícia passaram por mim com pressa, mas pararam para me cumprimentar e perguntar como eu estava em comparação ao dia anterior. Respondi que estava bem o suficiente para não me manter trancada dentro do quarto chorando por algo que não fiz.
Caminhei para a aula de Álgebra Linear tentando manter meu pensamento em outras coisas. Como por exemplo; o fato de que daqui um ano e meio eu estaria me formando e precisava começar a fazer projetos para apresentar na feira científica, onde os melhores recebiam bolsas para Pós-Graduação em vários lugares diferentes da Europa.
Entrei na sala e não tive muitos olhares, já que a maioria dos alunos do meu curso não se importa muito com One Direction, assim como eu não me importava antes. Assisti a aula tentando manter toda minha concentração, e quando ela foi finalizada, decidi que ir pra casa seria o melhor. Matar mais dois tempos não seria tão ruim assim, eu precisava descansar minha mente.
Chamei um táxi para me levar até o apartamento. Enquanto estava parada no clássico trânsito londrino de uma quarta-feira à tarde, eu checava minhas redes sociais. Era como se eu gostasse do sentimento masoquista de ver o que estavam comentando sobre mim.

@1dforever_pride: "Deve ser por causa dessa garota que o Zayn não está mais o mesmo. Quando ele estava bem com a Perrie, ele parecia muito mais alegre."

@zaynxxmalikxx: "Zayn, meu filho, você está fora de si trocando a Perrie por essa aí."

@tommomalikhoran: "Astrofísica? Aposto que é virgem."

Bufei, como aquelas meninas eram infantis.
Mas, porque eu estava me importando tanto com o que estava acontecendo?
Bloqueei meu celular e o coloquei em cima da perna, porém em menos de um minuto o mesmo vibrou.
- Sim? - falei, um tanto formal.
- . - a voz rouca de Harry Styles soou ao outro lado da linha.
- Oi, Harry. - sorri, mesmo que ele não pudesse ver. - está em casa, talvez consiga falar com ela pelo número residencial. Ainda estou voltando da faculdade. - disparei. O que ele iria querer comigo, afinal?
- Eu quero saber de você, . - ele falou com um tom preocupado. - Me preocupa ver as coisas ruins que estão falando sobre você. Só queria fazer algo. Odeio injustiças.
- Fique tranquilo, Hazz. - suspirei. - Daqui a pouco isso passa. Outra polêmica vai surgir e será melhor que isso. - dei de ombros. - Nada dura para sempre no show business.
- Por favor. Nos mantenha informados em relação a você. Ficamos nervosos. - completou e eu sorri fraco.
- Pelo amor, Styles. Vocês estão em Los Angeles. Aproveitem a cidade. - gargalhei e ele me acompanhou. - Eu estou bem, juro. - ele suspirou e sussurrou um 'ok'. - Obrigada por ligar. Nos vemos quando voltarem. - sorri. - Não vou desistir da amizade de vocês por causa da infantilidade alheia. - olhei para janela e vi que já estávamos entrando na minha rua. - Preciso ir.
- Não hesite em me ligar quando precisar. - ele intimou e eu assenti com um murmúrio. - Tchau, .
A ligação foi finalizada, assim como a corrida do táxi. Paguei o motorista, o agradeci por ter sido atencioso e o desejei um bom trabalho.
Passei pelo porteiro, que me desejou uma boa tarde. Decidi que subiria os cinco lances de escada até o andar do apê, pelo simples fato de que eu não queria ter contato com outras pessoas naquele momento. Principalmente os jovens que moravam por ali.
Quando cheguei na porta de minha casa, pude perceber que Foo Fighters tocava no último volume e uma voz aguda acompanhava as letras de Dave Grohl. Quando abri a porta, vi que cantava Learn To Fly alto o suficiente para não ter percebido minha chegada. Ela tinha uma vassoura em mãos e a passava no chão da sala. Sorri fraco ao ver a cena.
- Querida, cheguei. - falei, na nossa língua mãe. O que me deixava mais confortável com o fato de ter por perto era que além de toda saudade que eu matava da nossa infância, eu também podia matar as saudades do meu país de origem. Mesmo que meu português já estivesse estritamente carregado de sotaque.
-Babaca, já sei. - cantarolou, indo até a caixinha de som para abaixar o volume. - Voltou mais cedo por quê?
- Não estava afim de assistir as outras aulas. - ri sendo acompanhada por .
- Então vai tomar um banho e se preparar. - ela falava com a autoridade de uma mãe, o que me fez gargalhar.
- Para? - questionei.
- Vou te levar para melhor programação da sua vida. - ela disse animada, dando pulinhos engraçados. Fiz uma cara de dúvida e ela abriu um sorriso gigante. - Vamos àquele cinema local assistir a maratona do Keanu Reeves.
Ok. estava longe de mim há 11 anos e me conhecia tão bem mesmo assim. Eu amava os filmes do ator e, sim, talvez esse tempo assistindo Matrix, Constantine, Advogado do Diabo e outras obras ao lado de minha melhor amiga seria o que faltava para um sorriso sincero em meu rosto.
Fui até o banheiro, tomei um banho relaxante e caminhei até o quarto para trocar de roupa.
Enquanto eu vestia um short jeans, meu celular vibrou recebendo uma notificação.
Era uma publicação no Twitter, e era de Harry.
Uma foto nossa no dia da pizza. Nela estávamos eu, Harry, Liam e Niall, um ao lado do outro, de pé e no meio da sala. Harry tinha uma das mãos na cintura, Liam falava comigo e Niall fazia biquinho para a câmera.
Lembro que aquele tinha sido o momento no qual decidimos que brincaríamos de mímica, e aquela era parte do meu time. Discutíamos sobre qual animal faríamos Felícia imitar, já que ela era a outra integrante.
Na legenda estava escrito: "Uma noite incrível com amigos incríveis. Tudo bem que foi nesse dia que descobrimos o quão péssimos somos em mímica. Graças aos céus somos cantores, então."
Tinha achado legal a atitude de Harry. Mas ele não percebeu o erro que cometeu ao ter marcado meu @ na publicação. Até agora essa tinha sido a única informação sobre mim não revelada.
Eu não teria sossego até que algo fizesse mais alvoroço que essa situação.


Capítulo 10


Maio de 2003
-Chega dessa gritaria, Alice - meu pai pediu no andar de baixo onde ele e minha mãe discutiam outra vez, talvez a quinta naquela semana.
- Por que? Por que o que você fez é vergonhoso, Carlos?
- Não, por que nossa filha está dormindo no andar de cima e não precisa da mãe gritando como uma maluca - ele retrucou claramente sem paciência.
- O que nossa filha não precisa é do pai se esfregando por aí com uma qualquer como se não tivesse uma família bem aqui debaixo desse teto - minha mãe retrucou e eu senti como uma soco no meu estômago, mesmo que não fosse a primeira vez que eu escutava aquelas palavras.
- De novo essa história? Se está tão insatisfeita com nosso casamento peça o divórcio, mas não fique inventando histórias que só existem na sua cabeça - ouvi o barulho de chaves, provavelmente as do carro.
- Aonde acha que vai a essa hora? - ouvi os passos dele chegando próximos a escada e subi alguns degraus sabendo que não seria vista no escuro.
- Eu vou para a casa do meu irmão. Você vai esfriar a sua cabeça antes que façamos coisas das quais podemos nos arrepender - ele chegou a porta da frente e se virou para minha mãe - e pelo amor de Deus, Alice, não vá acordar a e colocar minhocas na cabeça da menina - dito isso ele fechou a porta e se foi. Minha mãe ficou parada ali e então começou a chorar enquanto eu continuei no escuro.

Setembro de 2014
Eu estava jogada no carpete. Estranhamente eu preferia o carpete ao sofá para me deitar no meio da tarde.
havia ido para a faculdade com Lícia e Tyler pessoas que eu havia deixado responsáveis por vigiar e me avisar se algo ruim acontecesse em meu período de afastamento. Até o momento, tudo estava normal. Jenna havia recebido uma suspensão também, então não a veria por lá até que eu voltasse.
Peguei o celular e decidi por checar as mensagens que se acumulavam ali, enquanto esperava a tv voltar de seu comercial. Minha mãe, meu pai, Maria minha amiga do Brasil, Harry e Niall. Respondi a todos que tinham coisas aleatórias a perguntar e deixei o aparelho decidida a trocar de canal. Passei por alguns canais em busca de algo que pudesse assistir quando a imagem de Zayn em um deles me fez retornar depois de passar direto.
-E o integrante Zayn Malik foi visto hoje caminhando por Los Angeles logo após a entrevista para a Disney Radio. Entrevista na qual, quando perguntado sobre o fim do noivado e o affair com a estudante , Malik apenas disse " não foi a razão do fim, somos amigos, eu precisava conversar e ela se dispôs a ir, não esperava que desse tanto problema" - respirei fundo por que naquele momento um trecho de áudio da resposta de Zayn foi colocado e seu tom parecia exausto - durante seu passeio Malik foi visto sozinho e não parecia nada bem. Problemas no paraíso? - o tom da repórter foi debochado e eu apenas bufei desligando a tv.
Pensei por alguns momentos em Zayn. disse que o garoto se sentia culpado pelo ocorrido e honestamente nas fotos da tv eu tinha a impressão de que ele carregava o mundo em suas costas naquele momento. Harry havia me dito que ele não dizia nada e se isolava, sempre que não eram obrigados a estar juntos para entrevistas ou coletivas.
Peguei o meu celular novamente e pedi a Niall o número de Zayn, e o irlandês prontamente me passou. No mesmo instante que o número foi salvo eu liguei para ele e esperei por alguns minutos até que o mesmo atendesse.
-Alô? - a voz do garoto ecoou, estava baixa e rouca.
- Oi Zayn, é a - informei sabendo que ele não faria ideia de quem era.
- Oi - ele parecia surpreso - aconteceu algo com a ? - ouvi o barulho de cobertores se mexendo o que me indicava que ele provavelmente havia levantado em um salto.
- Calma, não aconteceu nada - soltei de maneira exasperada e ouvi ele soltar o ar pela boca - eu só liguei para saber como você está - ele suspirou do outro lado - por favor, não minta pra mim, eu vou saber se o fizer - ouvi sua risada fraca.
- Eu não sei na verdade - murmurou - eu não queria que essa merda toda acontecesse com a , eu sei que deveria ter pensado direito, em tudo que poderia acontecer, mas eu só queria poder conversar com ela em paz, distrair a minha cabeça, sabe? - ele suspirou e parecia conter um choro.
- Ei, sabe que ninguém te culpa pelo que aconteceu, não sabe? - questionei - quero dizer, aconteceu e é uma merda, mas sinceramente Zayn o problema não está em você e saindo, está apenas nas pessoas que agem como se você fosse propriedade delas e como se não tivesse direito a uma vida pessoal particular - me sentei por que apenas de falar sobre aquele tipo de invasão de privacidade eu já sentia os nervos começarem a ferver.
- Eu acho que sei disso, mas ao mesmo tempo é complicado - ele respirou fundo.
- Zayn - chamei e ele resmungou para que soubesse que me ouvia - espero que saiba que a não te culpa por nada disso. Então se ela não te culpa, acho que você também não deveria, não é? - houve alguns segundos de silêncio.
- Talvez - foi tudo que ele disse.
- Tudo bem, já é um começo - declarei começando a mexer em uma linha que estava solta na barra do meu short.
- Ei, fiquei sabendo que ganhou uma suspensão - ele soltou rindo e eu fiz o mesmo.
- O Styles é muito fofoqueiro - murmurei e ele gargalhou.
- Na verdade foi a que me contou - ele começou - eu perguntei se estava tudo bem e ela me contou o que houve e terminou dizendo "mas está tudo bem, por que a deu na cara dela" - eu gargalhei com o comentário e com a voz que Zayn forçou - fico feliz que ela tenha você para protegê-la, por mais que eu jamais esperasse algo assim de você - Qual é? Por que todo mundo duvida de mim? Eu sou durona - o comentário o fez rir e então veio o silêncio. Era desconfortável e parecia ter a necessidade de ser preenchido - eu acho que já vou indo, você deve ter coisas para fazer - comentei me levantando do chão e sentindo necessidade de caminhar.
- Obrigado por ligar, - a voz do garoto era tranquila e eu sorri fraco.
- Não tem o que agradecer, se precisar é só chamar - aquilo parecia uma frase de filme de super-herói dos anos oitenta.
- Digo o mesmo. Tchau .
- Tchau Zayn - dito isso encerrei a ligação.
Eu esperava honestamente que ele não decidisse enfrentar esse momento sozinho e se afundasse em culpa. Eu sabia bem como aquilo era e para onde a culpa podia te levar. E acredite quando digo que não é um lugar agradável.

Janeiro de 2004

-Cecilia o almoço está pronto - meu avô gritou do outro lado da porta do quarto que eu ocupava na casa dele nos últimos três dias.
- Não estou com fome - gritei sem fazer o mínimo esforço para me levantar da cama. A porta se abriu e logo meu avô estava sentado na cama perto de mim.
- , você não saiu daqui para tomar café e nem para jantar ontem à noite. Você precisa comer pirralhinha - ele deixou um carinho em minha cabeça.
- Eu não quero comer - ele me encarou preocupado.
- , eu sei como está sendo difícil, mas você não pode deixar de se cuidar por conta disso - sua mão não parava de acariciar minha cabeça.
- Eu só quero dormir vovô - meu tom era manhoso e eu esperava ganhar mais algumas horas trancada no quarto com aquilo.
- Tudo bem, mas mais tarde você vai se levantar daí vai almoçar e nós vamos ao centro da cidade - ele se levantou e quando eu resmunguei preparada para protestar ele me encarou sério - sem discussões, eu sou seu avô e você vai me obedecer - eu sabia que ele não queria ser rude nem autoritário, só queria o meu bem. Mesmo quando eu não queria tanto assim.

Setembro de 2014

Já início da noite quando o interfone tocou anunciando que nossas pizzas haviam chegado. Eu, Felícia e havíamos decidido por fazer um tipo de noite das garotas com máscaras faciais, hidratação de cabelo, cremes, comida e filmes.
Felícia se responsabilizou por ir pegar as pizzas na porta, já que era a única de nós que ainda não estava com o rosto coberto por argila. Eu e estávamos jogadas no chão do quarto dela esperando por Felícia enquanto tirávamos o esmalte das unhas.
-Mas e os seus pais? Cadê eles agora? - questionei encarando minha unha.
- Ainda na Bósnia a caminho da Croácia provavelmente - o comentário me fez imaginar os dois em alguma montanha com sua barraca de acampamento.
- Eu sempre imaginei seus pais fazendo algo assim - comentei rindo fraco e me acompanhou - se lembra quando fomos lanchar no shopping e no fim das contas eles acabaram naquele estúdio de tatuagem? - vi rir enquanto negava com a cabeça.
- Sim, eles fizeram aquela tatuagem no ombro com a data do meu nascimento em números romanos - eu assenti.
- Isso, nós ficamos por horas na sala de espera e fizemos nossas próprias tatuagens de caneta.
- Eu consigo me lembrar perfeitamente da cara que sua mãe fez quando chegamos e seus braços estavam todo rabiscados. Seu pai fez o que sempre fazia quando aprontávamos…
- Riu e disse "elas são crianças, deixe elas" - completei a frase rindo junto a ela.
- É, e ele sempre acalmava sua mãe no fim das contas - eu apenas assenti ainda rindo - E eles? Como estão? Você não falou deles desde que chegou - eu evitei encarar , ainda não havia lhe contado do divórcio deles e honestamente não queria entrar naquele assunto. Não naquela noite pelo menos.
- Pizza! - Felícia entrou no quarto gritando e eu me senti aliviada por poder contornar o assunto.
- Graças a deus - pegou uma das caixas da mão da garota já a abrindo - Achei que estava fazendo a pizza - a brasileira soltou de maneira exagerada fazendo com que eu risse.
- Fazendo a pizza não, mas estava conversando com o entregador - Felícia deu de ombros enquanto eu e trocamos olhares surpresos.
- Felícia, mas nem o entregador se salva? - questionou fazendo a britânica rir.
- Para, ele era gatinho - aquilo pareceu o suficiente para ela se explicar e eu apenas peguei a outra caixa encontrando uma pizza de chocolate ali.
Passamos a noite entre conversas aleatórias, filmes e Felícia nos lembrando de tirar a máscara do rosto ou os cremes dos cabelos. parecia mais tranquila e aliviada do que no começo daquele dia. Havíamos proibido os celulares então ela não havia visto nada na internet, o que pareceu ser um peso tirado de suas costas.
A realidade é que o fato de toda coisa ter saído do virtual e vindo para o mundo real havia mudado algo em . A garota que era sempre espontânea, agora parecia mais cautelosa com o que fazia ou dizia e eu odiava o fato de vê-la daquele modo. Mas esperava honestamente que tudo ficasse bem e que ela voltasse ao normal. Pelo menos o mais normal possível.
- - a voz de Felícia ecoou pela cozinha e eu percebi que estava a tempo demais parada em frente a pia pensando.
- Sim? - questionei me virando para ela.
- Está tudo bem? - ela se aproximou parando na minha frente parecendo preocupada.
- Está, só estava pensando sobre a - ela assentiu.
- Eu também tenho pensado muito sobre ela - Lícia suspirou como se estivesse aliviada por poder falar - ela está diferente. Quando andamos por aí ela parece sempre estar procurando por alguém que possa fazer mal a ela - a garota mordeu o lábio em uma expressão preocupada.
- Eu entendo, ela está com medo de que isso possa voltar a acontecer. Não foi físico, mas de todo modo ela foi agredida - Lícia assentiu - nunca passei por isso, mas imagino como deve ser assustador ter um desconhecido vindo te dizer coisas assim de forma tão agressiva - respirei fundo prendendo os cabelos.
- Eu queria ter um jeito de fazer toda essa merda sumir - Felícia parecia tão frustrada quanto eu e era péssimo. A sensação de estar de mãos atadas diante de algo era sufocante.
- Não se cobrem tanto - nos viramos para a porta encontrando parada ali - eu vou ficar bem e vocês tem feito o melhor que podem, isso já é o suficiente - ela deu de ombros - quero dizer, a One Direction tem o time de seguranças deles, eu tenho vocês duas e o Tyler - ela se aproximou fazendo um bico engraçado - aposto que estou muito melhor protegida que aqueles cinco - ela voltou a dar de ombros fazendo com que eu e Lícia rissemos.
- Pode apostar que está - Felícia a abraçou e fez uma careta.
- Ta legal, chega de doce - o comentário me fez rir. Aquilo ali ainda era a - vamos tomar sorvete enquanto vemos algum daqueles filmes que você escolheram - ela seguiu para o congelador pegando o porte, mais três colheres na gaveta do armário e em seguida começando sua caminhada para fora dali - se vocês ficarem ai de drama eu vou tomar tudo sozinha - o tom de fingida impaciência fez com que balançasse a cabeça em negação. Definitivamente nossa ainda estava ali e ela estava certa. Independentemente do que acontecesse eu, Felícia e Tyler estávamos ali para protegê-la. E isso com certeza era melhor que qualquer time de seguranças do mundo.


Capítulo 11


Outubro de 2014
Mais uma noite sem dormir e mais uma falta marcada em minhas aulas do dia. Eu não estava afim de levantar da cama ou fazer qualquer outra coisa. Minha cabeça latejava de uma forma horrível.
estava em aula, já que sua suspensão havia acabado e isso fazia com que eu estivesse sozinha em casa durante a parte da manhã.
Fiquei no escuro de meu quarto, pensando.

Junho de 2013
- Theo, me diz que isso não é o que estou pensando. - encarei o ruivo com raiva.
Cooler talvez fosse a pessoa mais centrada que havia na faculdade. Isso era o que os professores e alunos achavam, porque ninguém realmente o conhecia como eu.
Eu tinha um pequeno saco plástico em mãos, nele havia alguns tipos de comprimido que Theo conseguia facilmente por ser estudante de medicina.
- Isso é ilegal, Theodore. E faz mal para você. - suspirei. - Deveria saber disso. - coloquei as mãos na cabeça. A que ponto aquilo estava chegando? - Eu sinto muito, mas não posso continuar me relacionando com alguém viciado em anfetaminas.
- Eu não sou viciado, . - ele gritou.
- Eu estou gritando com você? - perguntei de maneira calma. - Por favor, não se altere.
Eu sentia que poderia explodir a qualquer momento, mas aquela não era minha forma de ser. Eu não me rebaixaria à Theodore daquela forma.
- Quando você estiver sóbrio, conversamos. - declarei finalizada a discussão.
- Você é fraca, . Você não tem culhões para resolver suas coisas. - ele apontou com o indicador para meu rosto. - Você é covarde.
Apenas me afastei e sai pela porta com os olhos repletos de lágrimas.

Outubro de 2014
Meu celular vibrava incessantemente e eu não queria pegá-lo, pois sabia que eu seria influenciada a procurar meu nome em sites de pesquisa para saber o que falavam de mim no momento.
Assim que o telefone deu descanso, a porta da sala foi aberta e o som de risadas tomou conta do ambiente.
Três batidas, apenas três batidas foram dadas em meu quarto antes de revelar os rostos de Felícia, e Tyler.
- Virou morcego agora? - a britânica entrou no cômodo e acendeu todas as luzes, incomodando meus olhos. - Vamos levantar. Você vai conosco ao aeroporto encontrar os garotos.
- Você sabe que isso é assinar minha sentença. Por que eu iria? - sentei na cama, ajeitando meu corpo.
- Porque eles são seus amigos. - disse com obviedade. - E eu sou muito fã da banda, . Você sabe. - Lícia tinha manha na voz. - Por favor, faça isso por mim.
Jogar sujo era a especialidade da loira. Ela era minha melhor amiga e sabia que faria qualquer coisa por ela, assim como ela faria - e já fez - muito por mim.
Respirei fundo o suficiente para oxigenar meu cérebro.
- Eu vou ficar no carro. - disse.
- Tudo bem. Pelo menos você vai. - deu palminhas da forma que sempre fazia quando estava animada com algo. - Vai se arrumar. Vamos te esperar na sala. - falou pelos outros dois, que apenas sorriram e a seguiram até o outro cômodo.
O banho foi rápido e a roupa foi qualquer moletom que havia no armário. É claro que eu estava animada para a chegada dos rapazes, só não queria estar lá no momento que acontecesse.
Zayn me ligou no outro dia e, finalmente, entendeu que eu não estava chateada com ele. Expliquei que se um dia eu ficar, ele saberá.
Eu sabia que muitas das notificações do meu celular eram dele, de Louis e provavelmente algumas de Liam. Mas, eu não queria vê-las, eu não queria pegar o aparelho.
Toque de notificação.
Tudo bem, uma vez não me mataria.
Como pensado: Zayn, Louis e Liam dizendo que estavam à caminho de Londres para umas semanas de folga. Algumas fotos dos garotos dentro da van e do avião, e alguns áudios de Harry perguntando se eu gostava de muffin.
Ri fraco. Eles eram realmente pessoas muito especiais.
Tentei me conter para não abrir o twitter, mas a curiosidade foi maior que eu.
Abri a hashtag #WelcomeHome1D e fiquei rolando por alguns tweets. Nada maldoso ou rude até o momento. A maioria deles se resumia em fotos das garotas no chão do aeroporto, cartazes ou vídeos. Eram apenas fãs sendo fãs.
A não ser por um único tweet, que me fez sentir vontade de jogar o celular pela janela.

“@jocelin_1d1d: Eles estão voltando!!! EBA!! Só espero que a tal da não vá os encontrar no aeroporto. Por favor, se alguém a vir por lá, tirem fotos. Vamos acabar com essa garota.”

Sinceramente, tudo que senti foi nojo.
Coloquei um óculos escuro e fui até a sala, onde todos estavam sentados.
- Sem mais perguntas, apenas vamos. - cuspi as palavras e todos concordaram.
Descemos até a garagem, onde pegamos o carro de Tyler. Eu me responsabilizei por dirigir até o aeroporto. Estranhamente, todos foram calados até o destino. Ninguém proferiu uma palavra sequer, ao menos uma música tocava na rádio. Absolutamente nada.
- Vai nos esperar aqui? - foi quem falou ao descer do carro, já no estacionamento do aeroporto. Meneei em concordância. - Ok, voltamos em alguns minutos.
“Você é covarde.”
Aquela frase soava como uma maldição que afetava minha mente. A voz de Theodore era clara em meus ouvidos.
Eu realmente era? Era covarde por ter medo de estar com meus amigos, apenas por conta de umas mensagens de ódio? Era covarde por ter escolhido ficar no carro ao invés de ir com eles até o salão de desembarque.
Será que eu realmente era covarde como Cooler disse?
Minhas mãos começaram a suar e tremer, meus olhos estavam cheios d’água e um turbilhão de pensamentos ruins passavam por minha mente.
Auto sabotagem, a pior inimiga de qualquer ser humano.
Três da tarde. De acordo com as informações de Felícia por mensagem, eles já estavam em solo Inglês. Talvez apenas esperando autorização para o desembarque.
Apoiei a testa no volante e soltei um grito abafado, eu precisava fazer alguma coisa para deixar de me sentir assim. Eu precisava provar a eles.
Mas, o que exatamente eu precisava provar? Que eu era suficiente? Que eu não tinha terminado o relacionamento de Zayn? Que eu não era quem eles pensam que sou?
Lágrimas começaram a escorrer por minha bochecha, umedecendo-a. Merda! Lá estavam meus pensamentos me levando longe demais.
Talvez eu fosse fraca, talvez eu fosse covarde, talvez Theodore estivesse certo e eu não conseguia resolver meus problemas. Talvez.
Peguei o telefone e abri a agenda, e por impulso fiz a ligação.
- ? - a voz do outro lado da linha era clara e calma.
- Pai, eu preciso conversar. - foi apenas o que eu disse antes de começar a desabar em mais lágrimas. Essas que não poderiam ser recolhidas por meu pai, mas que poderiam ser compreendidas sem julgamentos. Apenas ele seria capaz de amenizar minha dor.


Capítulo 12


Outubro de 2014
Harry e haviam saído mais cedo naquele dia. Harry havia tido a ideia de sair com ela para que as pessoas pudessem ver que ela era não só amiga de Zayn, mas também de todos os outros garotos da banda. A ideia me pareceu boa e parecia algo que aliviaria o lado de por um tempo e também a faria sair de casa, já que passava os últimos dias trancafiada dentro do apartamento e eu havia notado que a garota estava a alguns dias faltando aulas.
Eu entendia suas razões para aquilo, mas também entendia que se ela continuasse naquele ritmo perderia facilmente o ano por excesso de faltas e falta de conteúdo. Estava respeitando seu espaço e tempo por enquanto já que tudo estava realmente complicado – visto que no dia que buscamos os garotos no aeroporto eu pude perceber seus olhos levemente vermelhos assim como a ponta do nariz, indicando que havia chorado, mas não comentei nada -, mas em algum tempo se ela não saísse daquele lugar onde estava eu precisaria fazer algo. Odiava ver daquele modo. Odiava não poder tomar aquilo para mim. Odiava a impotência de não poder fazer nada significativo por ela.
Enquanto eu cozinhava o almoço daquele dia – já que havia sido liberada mais cedo da faculdade - o interfone tocou e fui informada pelo porteiro que havia uma encomenda no andar de baixo para mim. Eu apenas desliguei o fogo das panelas e desci como estava, de shorts jeans velho e uma grande camiseta branca de ombros caídos. Segui para o elevador e quando as portas se abriram, havia vizinhos lá que me olharam como se eu fosse maluca, provavelmente pelas roupas e falta de chinelos, aquilo me incomodava um pouco, mas não havia o que fazer.
Quando as portas se abriram eu desejei um bom dia a todos que aparentemente seguiriam para a garagem e caminhei até o balcão da recepção.
- Oi senhor Adams – soltei com um largo sorriso que o senhor retribuiu, apesar de seu olhar para as minhas roupas.
- Bom dia senhorita – cumprimentou de volta e se inclinou pegando um embrulho pardo e retangular que tinham alguns fios de barbante os amarrando. Não precisei de muito para saber que era o quadro que Ban havia dito que me mandaria. Ele havia dito que aquele ele mesmo havia comprado de um artista novo que ele havia conhecido a pouco e jurou que a obra era a minha cara.
- Obrigada, senhor Adams – agradeci pegando o embrulho e quando ia me virar para o elevador a figura conhecida de Zayn adentrou o hall do prédio – Ei estranho – soltei em tom normal, mas não pude negar que seus olhos cor de mel haviam me de deixado desconcertada.
- Ei – ele acenou e se aproximou me encarando com uma sobrancelha arqueada, mas pareceu decidir por não dizer nada – a está por aí? – ele questionou se virando para o porteiro e acenando de modo simpático e recebeu o mesmo gesto em resposta.
- Na verdade ela saiu com Harry. – informei e ele torceu os lábios assentindo.
- Ah tudo bem, eu ia sei lá, ver se ela queria pedir algo para comer e ficarmos papeando atoa, mas eu volto outra hora. – deu de ombros.
- Você pode subir e esperar, ela não deve demorar a chegar e também estou terminando o almoço lá em cima, pode se juntar a mim se quiser. – sugeri dando de ombros e um sorriso quase imperceptível se formou no canto dos lábios dele.
- Certeza? Não quero incomodar...
- Malik, eu já estou fazendo o almoço, vai incomodar com o que pelo amor de Deus? Sendo um... – parei a frase no meio e me lembrei por um momento de quem Zayn era. Se controle , péssima amiga você. Pensei e apenas balancei a cabeça – enfim, não vai incomodar, vamos – acenei com a cabeça e o vi me olhar com curiosidade, mas ainda assim começar a caminhar e me alcançar segurando o quadro.
- Deixa que eu levo – soltou de maneira simpática e eu sorri.
- Obrigada – caminhei até o elevador e apertei o botão para subir. As portas se abriram e haviam mais vizinhos lá dentro. Afinal, todos eles haviam decidido passear de elevador naquele dia?
Entramos e eu apertei o meu andar, sentindo os olhares sobre mim. Precisava me lembrar de pelo menos calçar os chinelos da próxima vez. O elevador estranhamente parecia mais lento. Eu odiava aquela sensação de pessoa me olhando como se me julgassem e aquilo fez com que eu colocasse as mãos nos bolsos de trás.
- Sabe, , por que seus vizinhos estão te encarando tanto? – Zayn soltou em tom alto para que todos ouvissem e eu arregalei os olhos para o garoto que olhava de maneira repreensiva para os demais ali. Eu tive que conter a risada que subitamente informou que queria aparecer – Parem de encarar, ela não estava fazendo nada demais, só está confortável – ele voltou a olhar para frente e quando seus olhos passaram por mim um sorriso surgiu em seus lábios. Eu apenas me virei para frente encarando a porta de metal. Depois de alguns andares a mesma se abriu e eu sai junto com Zayn, seguindo para o apartamento e gargalhando assim que fechei a porta atrás de mim.
- Você é doido – murmurei pegando o quadro e o deixando em um canto enquanto seguia para a cozinha com Malik logo atrás de mim.
- Um pouco as vezes – se defendeu e eu apenas neguei com a cabeça voltando a ligar o fogo e checando a lasanha no forno. Quase pronta.
- Quer algo para beber? Tenho cerveja, refrigerante e um suco de laranja que acabei de fazer – ele arqueou uma sobrancelha para mim.
- Suco de laranja que você acabou de fazer? – questionou e eu assenti – o máximo que eu faço em casa é gelo – ele murmurou e eu ri fraco.
- Você é uma negação então – soltei o fazendo me olhar indignado.
- Tudo bem senhorita mestre da cozinha – ele revirou os olhos e aquilo me lembrou , que constantemente repetia aquele ato.
- É o que a gente se torna quando vai morar sozinha e não tem um chef particular a todo momento – soltei em tom de brincadeira e Zayn fez um bico como se cogitasse – Aposto que todos vocês tem um – neguei com a cabeça em falso tom de indignação e Zayn deu de ombros.
- O Harry não tem, ele sabe cozinhar – por um momento pareceu haver algo nas entrelinhas daquela frase, mas logo depois eu percebi que não fazia sentido.
- Eu sei disso – foi tudo que disse e vi o garoto assentindo mordendo o lábio superior – Ainda não disse se quer algo para beber – lembrei e ele sorriu fraco.
- Não, depois do almoço talvez – foi tudo que ele disse e eu desliguei a panela do arroz que já estava pronto. Aquele era um costume brasileiro que eu não perderia de jeito nenhum e tinha certeza. Observei a lasanha e ainda levaria alguns poucos minutos.
- Ei, pode me ajudar com uma coisa? – questionei e Zayn pareceu sair de uma linha de pensamentos muito importante.
- Posso tentar – eu passei por ele e segui para a sala, abrindo o embrulho do quadro enquanto o garoto me observava.
- Eu preciso pendurar esse quadro, aceitou que fosse aqui na sala, naquela parede, mas eu não tenho altura suficiente para alcançar o parafuso que já temos ali – indiquei a parede e ele assentiu com um sorriso divertido nos lábios.
- Tudo bem, eu te ajudo anã – seu comentário me fez abrir a boca meio rindo completamente surpresa pelo apelido.
- Me respeita, Malik – me levantei com o quadro em mãos e passei para ele que observou a pintura franzindo o cenho.
- Espera, isso é seu? Quero dizer, você comprou? – ele indagou.
- Na verdade eu ganhei do Banksy – dei de ombros encarando o quadro assim como Zayn.
O desenho se tratava de uma garota. Um lado dos cabelos era colorido de tons vivos e o lado oposto do rosto tinha os mesmos tons, com alguns desenhos e escritas em preto no meio das cores. Os lados não coloridos tinham poucos detalhes trabalhados em preto e branco. Haviam respingos de tinta no canto superior do quadro e eu adoraria saber se eram propositais ou apenas um momento de distração do artista. “Be kind” estava escrita acima da cabeça da garota em letras desleixadas e pretas. Havia algo ali que me fazia sentir o peito reconfortado de algum modo.
- E você gosta? – ele indicou o desenho com o queixo. Encarei por um momento seu rosto. O maxilar bem desenho, a barba crescendo, a forma como seu nariz era harmonioso com o resto de seu rosto, os cabelos bagunçados de maneira despretensiosa. Tudo em Zayn parecia estranha e perfeitamente bem desenhado. Tirei meus olhos do garoto assim que me lembrei de e automaticamente me senti uma péssima amiga de novo.
- Na verdade sim, não só desse, que na verdade preciso ligar para Ban e agradecer, por que é realmente muito bonito e tocante – comentei mais como uma nota para mim mesma – Mas sim, eu gosto de arte urbana, apesar de ela estar em um quadro dentro da minha casa e não em uma parede por ai para ser mostrada ao mundo, por que isso aqui – apontei para o quadro – é algo que o mundo tem de ver – soltei tudo de uma vez sem notar o quanto poderia estar sendo inconveniente – Me desculpa, estou sendo a pintora chata que fica falando de arte – comentei rindo fraco e Zayn sorriu de canto.
- Está tudo bem, eu gosto de ouvir e aliás, também curto isso aqui – ele apontou o quadro – só estou surpreso que você goste – eu ia questionar o que ele queria dizer, mas me lembrei da lasanha e corri para a cozinha olhando o forno e percebendo que estava pronta. A tirei dali e coloquei sobre o mármore da bancada. Zayn estava subindo em um banco para que conseguisse ver direito aonde penduraria o quadro e eu resolvi por pegar a louça. Arrumei a mesa, por mais que não usasse ela normalmente. Colocando a lasanha, a salada e o arroz ali.
- Suco, refrigerante ou cerveja? – questionei voltando a cozinha.
- Suco – ele respondeu – quem bebe cerveja no almoço? – questionou rindo e eu dei de ombros pegando a jarra com o conteúdo alaranjado.
- Acredite quando digo que o Brasil tem de tudo – informei colocando a jarra sobre a mesa e encarando o quadro na parede. Conseguia ser ainda mais bonito naquela luz – obrigada, eu adorei – soltei sorrindo largo e Zayn encarou o trabalho com um sorriso satisfeito.
- Por nada, agora vamos comer por que quero ver se você realmente é melhor que meu chef particular – ele se sentou e eu o encarei.
- Você realmente tem um chef? – ele gargalhou jogando a cabeça para trás.
- Claro que não, – ele soltou secando o canto dos olhos – existe uma coisa chamada delivery ou restaurantes, sabia? – eu revirei os olhos e me sentei.
- Você é ridículo – murmurei fazendo o garoto rir mais um pouco.
Durante o almoço expliquei para Zayn do costume da minha família e de muitas outras de comer lasanha acompanhada do grão e ele apenas disse que éramos estranhos. Passamos todo aquele período jogando conversas aleatórias fora, nada de muito relevante. Ao fim ele agradeceu e elogiou a comida dizendo que iria almoçar conosco mais vezes. não havia chego e as ligações de Zayn fora todas para a caixa postal o que o fez franzir o cenho. Talvez ciúme de com Harry, mas não era da minha conta então não perguntaria. Por fim ele decidiu ir para casa ao mesmo tempo que Tyler me chamou para ir até sua casa jogar vídeo game. Ofereci carona a Zayn que informou que estava com seu carro lá embaixo. Seguimos juntos para o elevador e esperamos que o mesmo chegasse ao térreo. Estava vazio naquele momento. Encarei o indicador de andares que me informava que logo estaríamos no térreo, onde Zayn desceria quando me virei e percebi que o garoto me encarava.
- O que foi? – questionei com uma sobrancelha arqueada e me sentindo corar.
- Nada – ele deu de ombros com um sorriso divertido nos lábios. Eu posso começar a fugir dele. Foi o que pensei, mas não podia, porque tínhamos muitos amigos em comum. Feliz ou infelizmente, isso eu não sabia – Tchau . obrigado pelo almoço estava realmente muito bom, anã – ele se despediu assim que o elevador começou a parar.
- Tchau filhote de gigante – murmurei fazendo o garoto rir e começar a caminhar para fora do elevador assim que as portas se abriram.
- A gente se vê – ele piscou e se foi.
- , você vai para o inferno se continuar pensando assim sobre ele – sussurrei para mim quando as portas tornaram a se fechar.
Respirei fundo, completamente decidida a parar de dar bola para a beleza de Zayn. Haviam coisas mais importantes a se pensar. com certeza era uma delas e eu precisa pensar bem em como conversaria com ela sobre as suas faltas na faculdade. E com esse pensamento eu preenchi toda a minha mente por todo o caminho até a casa de Tyler.


Capítulo 13


Outubro de 2014
Nada no mundo era mais difícil que tentar superar um problema que sua própria cabeça criou. Mas, de alguma maneira, eu não sabia se realmente queria superar ou não. Era como se eu já estivesse gostando de ficar triste todos os dias. Estava me acostumando à isso.
Eu me importava com o que diziam, óbvio que me importava. Mas, minha vida não seria movida através daqueles comentários maldosos.
Os livros da faculdade estavam espalhados pela mesa, pois mais uma vez eu tinha faltado aula.
“Supernovas são explosões de estrelas de grande massa que exauriram suas fontes convencionais de energia.”
Será que eu estaria vivendo um período de supernova? Todas minhas fontes de energia foram exauridas, eu só precisava explodir.
Respirei fundo e tentei me concentrar ao máximo. Onde tinham ido parar meus sonhos e desejos de me tornar uma grande Astrofísica? Tudo que me preocupava atualmente era se meu nome estava ou não circulando em alguma hashtag no twitter.
Tentei voltar minha concentração para a matéria, mas a campainha tocou. Será que tinha esquecido a chave de casa? Provavelmente sim, ninguém além dela e Felícia podiam subir sem interfonar.
Levantei num pulo, apenas de regata e calcinha, do jeito que sempre ficava quando estava só em casa. já tinha se acostumado, não se importaria.
Destranquei a porta e voltei para o sofá.
- Pode entrar. - gritei e a porta se abriu. E logo que foi feito, senti um cheiro já conhecido no ar. Aquele perfume não era estranho para minha memória olfativa.
Harry.
Virei-me rapidamente para a porta e pude ver o rapaz com seus longos cabelos presos por um lenço, blusa e calças pretas.
- , eu… - ele disse e com rapidez colocou a mão sobre os olhos. - Me perdoa, não achei que você estaria assim. - ainda com os olhos fechados ele apontou para meu corpo. - Pedi para me liberar por telefone.
Eu ria, mas não sabia se era nervosismo ou o fato de Harry ficar uma gracinha envergonhado.
- Fica dois minutinhos aí. Vou trocar de roupa. - eu disse e o garoto assentiu, ainda com a mão nos olhos. A cena mais fofa que tive até então durante meu dia.
Caminhei até o quarto e coloquei um short jeans claro, mantive a regata branca. Eu já tinha tomado banho um pouco antes de Harry chegar, então não seria necessário fazer isso só porque o garoto estava aqui. Voltei para sala e encontrei com o garoto mexendo em seu celular.
- À que devo a visita? - me joguei na outra ponta do sofá onde estava sentado.
- Você vai sair comigo para tomar um café, depois vamos à Rough Trade comprar uns discos. Quando voltarmos para casa, vamos colocar alguns filmes ridículos para assistir e você vai se distrair, nem que eu precise ficar aqui até amanhã. - me intimou.
- Tem certeza que não é arriscado fazer isso? - perguntei.
- Liam sugeriu. E se ele sugeriu, creio que não é arriscado. - comentou e eu assenti. Liam era bem responsável, acho que poderia confiar na sugestão.
- Ok, deixe eu colocar um tênis. - ele sorriu concordando. Corri até meu quarto e calcei meu all star branco, peguei um óculos escuro e fui ao encontro do garoto.
- , não importa o que digam se nos virem hoje. Você é nossa amiga e é uma mulher incrível, ok? - ele disse, se levantando e eu concordei, por mais que não acreditasse muito no quão incrível era.
Pegamos o carro de Harry na garagem do prédio e fomos em direção à cafeteria onde eu costumava ir nos meus dias de passeio por Londres. Era como se ele soubesse exatamente onde me levar. Talvez tivesse comentado com ele.
Pedimos nossos expressos para viagem e voltamos para o carro. Até o momento ninguém tinha o parado para falar algo ou tirar foto, pela primeira vez eu vi um dos garotos andar tranquilamente e sem um segurança.
Styles entrou por um caminho diferente dos quais eu conhecia. Algumas placas azuis começaram a aparecer.
- Harry, o que estamos fazendo na rodovia? - perguntei rindo, um tanto nervosa.
- Te disse que iríamos na Rough Trade, só não te disse qual. - ele comentou. - Vou te levar na minha favorita. A de Bristol.
Ok. Eu estava indo para o extremo de Londres com Harry Styles apenas para comprar disco. Se alguém, há alguns anos, me dissesse que isso aconteceria, eu provavelmente não iria acreditar.
Não demoramos muito para chegar ao local.
A arquitetura era como a de todas as outras lojas, e seu design também. Porém, essa era bem maior que a outra na qual costumava ir.
Eu estava me sentindo como criança em loja de doce. Meus olhos estavam arregalados e meu sorriso ia de uma orelha a outra.
- Quer ir pra qual corredor? - Harry me tirou do transe.
- Rock. - olhei para ele com o mesmo sorriso que tinha antes, e pude ver que seus olhos brilharam com minha resposta.
Caminhamos até o corredor sinalizado em letras pretas, e começamos a nos divertir vendo a infinidade de discos que existiam ali.
Harry parecia concentrado em uma pilha do The Strokes. Ele mexia nos discos como se fossem as mais preciosas jóias do mundo, e de alguma forma eram. Eu o observava, e percebi que ele mordia os lábios enquanto estava distraído.
Era lindo como ele observava os discos e os analisava com calma.
Num dado momento, ele se virou e percebeu que meus olhos estavam sobre ele. A vergonha tomou conta de mim.
- Liam me disse que tinha um amigo de vinte anos que defenderia Wish You Were Here em uma discussão. - comentei. - Seria você?
Ele riu fraco e assentiu.
- Sim, sou eu. - ele disse. - Qual sua música favorita dele?
- Shine On You Crazy Diamond. - falei sem pensar duas vezes.
O garoto sorriu como se estivesse surpreso.
- A minha também. - ele disse. - Waters é um gênio.
- Tenho que concordar. - sorri envergonhada. Pois, pela primeira vez Harry me encarava como se estivesse analisando cada parte de mim.
- Falando em gênios. - ele deu a volta pelos discos e ficou ao meu lado. - me disse que você está querendo ir para Alemanha.
- Sim. Em último caso irei para Bélgica. - sorri.
- Para conseguir isso deveria estar indo à faculdade, não? - ri fraco, Harry estava soando como um pai naquele momento. - Nos preocupamos com você, . - ele colocou a mão em meu ombro. - Eu me preocupo com você. - olhou em meus olhos. Pela primeira vez eu estava reparando os traços de Harry tão perto. Ele tinha alguns pelos nascendo no rosto, onde talvez se formaria uma barba, mas não eram pelos suficiente para isso. Seus olhos verdes se mesclavam entre outras cores, seus lábios eram tão rosados que eu suspeitaria de que estivesse usando batom, e tinha poucas marcas de expressão no rosto. Ele estava bem diferente das fotos do quarto de Felícia. Ele estava mais maduro, mais bonito.
- Vou voltar logo. - fechei meus olhos e balancei a cabeça para espantar aqueles pensamentos. Harry estava com , em hipótese alguma eu poderia o achar interessante daquela maneira.
- É o que esperamos. - ele piscou maroto e puxou um disco do Foo Fighters. - Vou levar esse. O que acha?
- Ótimo. Amo Foo Fighters. - sorri e ele me acompanhou. Percebi que encarei seus lábios por mais tempo que o esperado. - também é uma grande fã. - cortei as possíveis ideias que surgiam em minha mente.
Ele apenas sorriu e fomos até o caixa.
Logo depois de sairmos da loja, e de Bristol, Harry me deixou em casa, e por incrível que pareça, não estava e não havia deixado um bilhete. Mas, estava tudo bem. Se ela não aparecesse até às oito da noite eu me preocuparia.
- Obrigada pelo dia. - Harry estava parado na porta do apartamento quando eu disse.
- Espero que possamos fazer isso mais vezes. - ele sorriu e eu concordei. - Nos vemos logo, . - se aproximou e depositou um beijo em minha testa. - Fique bem.
Ele saiu de cena, indo até o elevador e logo sumindo de vista.
Decidi colocar um filme para rodar na TV enquanto eu conversava com meu pai por mensagem.
Uma notificação do grupo “Fantastic Four” composto por: eu, Lícia, Ty e Cecí chegou e era apenas um link acompanhado de uns emojis representando raiva. Ambos enviados por Tyler.
Eu sabia que aquela era uma das notícias que falavam sobre mim, eu sabia que talvez eu me magoasse, mas eu queria abrir, eu queria me fazer sofrer de alguma forma.

TMZ: Em família? Harry Styles é visto em passeio por Londres ao lado da suposta namorada de Zayn Malik, .

Respirei fundo. Eu poderia não me sentir incrível, como Harry disse. Mas, eu o prometi que não daria atenção para o que falassem depois do dia de hoje.
Respondi a mensagem com “Vamos exterminar os fofoqueiros desta revista, por favor.” e os mesmos emojis recebidos anteriormente. Bloqueei o celular e o joguei no outro sofá. Passava As Branquelas na TV e eu não queria perder uma parte sequer.
Aumentei o volume e tentei esquecer ao máximo tudo que me incomodava. Até que estava dando certo.


Capítulo 14


Outubro de 2014
-A arte está na sua sensibilidade ao momento. Não é apenas sobre coisas grandiosas, é sobre cada pequena coisa que você tem a capacidade de notar e fazer dela algo a mais - minha professora explicava de maneira apaixonada enquanto eu deslizava o pincel sobre a tela algumas últimas vezes. Senti mãos sob meus ombros e quando me virei encontrei senhorita Anderson encarando minha pintura com um sorriso nos lábios - É exatamente disso que eu estou falando, - ela apertou um pouco meus ombros e se retirou a passos lentos. Minutos mais tarde o sinal que indicava o fim do dia de aula soou e todos se agitaram juntando suas coisas e se preparando para se retirar da sala – Não esqueçam que na semana que vem preciso que me tragam o relatório da visita à National Gallery – informou a professora enquanto todos saiam.
Caminhei pela universidade disposta a conversa com Felícia e Tyler antes de ir para casa. Precisava pedir a opinião dos dois e havia combinado de encontrá-los na frente da universidade.
- – uma voz desconhecida chamou meu nome e eu me virei. Uma mulher baixa, de cabelos médios e castanhos vinha em minha direção. Ela tinha um sorriso simpático e deveria estar na casa dos quarenta.
- Sim? – questionei ainda sem entender quem ela era ou o que queria comigo.
- Me desculpe, eu sou a senhora Bergmann – ela estendeu a mão assim que parou a minha frente – sou professora da e sei que vocês são amigas, gostaria de saber se você pode dar um recado a ela – ela parecia apreensiva, como se não fosse comum aquilo – Diga a ela que preciso que ela venha a aula amanhã e me procure, tenho um assunto urgente a tratar com ela e estou perdendo o prazo para isso – ela soltou de forma simpática e eu assenti.
- Claro, estou indo pra casa agora e assim que chegar eu aviso a ela – a mulher sorriu de forma agradecida.
- Ah, obrigada, é realmente muito importante e eu já enviei por e-mail, mas ela aparentemente não está vendo os e-mails – ela soltou de uma vez como que para se explicar e eu sorri.
- Não, sem problemas, eu posso avisar – ela assentiu.
- Obrigada, vou deixar você ir agora, bom descanso – ela acenou voltando pelo caminho que havia vindo.
Comecei a caminhar para a saída e logo vi Felícia e Tyler parados me esperando. A garota começou a acenar assim que me viu e eu fiz o mesmo, de modo exagerado fazendo ambos rirem.
- Ei – ela me beijou o rosto assim que estava próxima o suficiente - vamos tomar sorvete? – chamou com um riso nos lábios.
- Eu só aceito se for de pistache – Tyler completou rindo e eu revirei os olhos.
- Eu juro que mato a por ter contado isso a vocês – murmurei e ambos me empurraram fraco pelo ombro.
- Fala aí o que você queria – Tyler incentivou se apoiando na pilastra.
- Hoje eu vou ter uma conversa com e espero convencê-la de voltar para as aulas – comecei e ambos assentiram – Se der certo eu preciso muito da ajuda de vocês para fazermos desse lugar aqui um lugar onde ela se sinta segura de novo. A maioria das pessoas aqui não é a favor do que Jenna fez e isso já é um ponto a favor, mas no começo vai ser difícil. Ela vai precisar sentir que estamos aqui para ela e que os sentimentos dela são válidos, sejam eles quais forem – Lícia sorria ao me encarar.
- Pode deixar com a gente – ela estendeu a mão em punho para que eu tocasse.
- Isso, somos o dream team da – Tyler tocou a mão de Felícia que agora estava estendida para ele.
- Obrigada, sei que ela é amiga de vocês também, mas de todo modo obrigada – agradeci sorrindo para eles.
- Obrigada a você também por se importar tanto com nossa – Felícia agradeceu fazendo uma careta fofa que me fez rir. Éramos melosas no mesmo grau e isso era um fato.
- Eu vou morrer de diabetes se continuar com vocês duas – Tyler murmurou nos fazendo rir, mas ainda assim nos puxou para um abraço meio desajeitado.
Falamos mais alguns poucos minutos e então eu decidi por caminhar até em casa para conseguir pensar antes de falar com . Parei em um restaurante de comida mexicana e pedi por enchiladas, nachos e guacamole extra, apesar de não eu gostar do abacate, adorava. Alguns minutos mais tarde estava entrando no apartamento. A sala estava deserta então passei pela cozinha deixando a comida ali e segui pelo corredor até o quarto de . Bati na porta e ouvi um “entra” em resposta.
- Ei astronauta – soltei o apelido que Tyler havia dado a ela e ouvi a garota rir. Diferente do dia anterior as cortinas do quarto estavam abertas – Trouxe comida mexicana – informei me aproximando da cama e notando que ela segurava o celular com força – Se estiver vendo o twitter de novo eu juro que jogo teu celular e tudo que te dê acesso à internet pela janela – informei e ela mordeu o lábio culpada. Me sentei na cama ao seu lado e ela suspirou.
- Eu não consigo evitar por muito tempo – confessou jogando o celular em cima da mesa de cabeceira. Eu não iria julgá-la por aquilo, não ia a fazer se sentir culpada, então apenas fiquei em silêncio e ele se manteve por alguns minutos. Era confortável, não havia necessidade de ser preenchido, mas eu sabia que precisava conversar com naquele momento.
- A senhora Bergmann me disse que precisa que você vá a faculdade amanhã, ela tem algo urgente para tratar com você e disse que o prazo dela está acabando – soltei e ela suspirou.
- Eu já sei, já vi os e-mails – eu a encarei e ela deu de ombros.
- ...
- Não , eu já sei que vai dizer que eu preciso parar de ligar, que preciso seguir em frente, que preciso voltar a ser eu, mas eu não consigo. – a voz dela começava a embargar e eu podia apostar que estava lutando contra aquilo. – Tudo é complicado demais pra que eu consiga explicar pra alguém, mas eu não consigo. – ela soltou todo o ar dos pulmões e apertou os olhos evitando que seu choro saísse. Eu queria lhe dar um abraço, mas sabia que ainda não era o momento.
- Eu sei – foi o que comecei dizendo – e não foi nada disso que eu vim te dizer, não assim pelo menos – ela me encarou como quem quer escutar as palavras seguintes – , eu não vou te dizer pra parar de chorar e ir viver como se nada tivesse acontecido, porque aconteceu, e se foi apavorante pra mim, eu não consigo mensurar o quanto foi assustador pra você. Eu não quero que você finja que tudo está bem e depois vá sofrer sozinha em algum canto, acredite em mim eu já fiz isso e não quero o mesmo pra você. – por um momento ela pareceu surpresa, mas ficou em silêncio. Ela abaixou a cabeça e eu me virei na direção dela segurando seu rosto entre minhas mãos – Eu sei o quanto você está machucada, eu sei o quanto sua cabeça cria mil suposições sobre o que pode ou não acontecer. – ela mordeu o lábio – Eu sei o quanto o mundo lá fora parece assustador agora, mas você não está sozinha. – os olhos azuis da garota agora estavam brilhando com as lágrimas que se juntavam ali – Você tem muitas pessoas que te amam e se importam com você. E todas essas pessoas estão do seu lado prontas para enfrentarem o mundo contigo se for isso que você quiser fazer. Mas se por acaso você decidir que não quer enfrentar o mundo e sim ficar trancada em casa, essas pessoas também vão estar contigo, porque seja como for, seja onde for, você não está sozinha . – uma lágrima teimosa rolou por seu rosto e eu a sequei sabendo que era o que ela faria e ela sorriu fraco. – Mas, honestamente, eu não acho que você deva desistir do que te faz feliz, do que te faz completa, do que te faz a . Por que eu acredito que um dia eu ainda vou te aplaudir depois de alguma grande descoberta científica que você fizer, e você vai ser conhecida não por uma polêmica mal esclarecida, mas pela astrofísica fodona que eu tenho certeza que você vai ser. – ela riu negando com a cabeça e automaticamente eu sorri. – Então , o que eu quero te dizer é: você pode ir lá fora e viver, ir atrás dos teus sonhos e tudo que quiser, e se o mundo voltar a te machucar e você precisar de um lugar seguro para ir deitar a sua cabeça e chorar, quero que saiba que eu sempre vou estar aqui por você. - nesse momento os braços da garota me envolveram em um abraço e ouvi seu choro iniciar. A envolvi em meus braços e apenas deixei que chorasse, não havia mais o que dizer.
Minutos se passaram até que parasse de chorar, e mais alguns se passaram até que ela se soltasse do abraço e me encarasse. O nariz estava vermelho, assim como os olhos, mas um sorriso aparecia, ainda que um pouco tímido. Houve um silêncio onde percebi que talvez ela procurasse algo para dizer, mas não era necessário. Eu sabia.
- Vem, vamos comer, te trouxe aquela coisa verde nojenta que você gosta. – murmurei com uma careta a fazendo rir.
- Qual o seu problema com comida verde? – ela provocou descendo da cama e se juntando a mim.
- Não comece. – apontei para ela que gargalhou – Você já está merecendo uns tapas por ter contado isso pra todo mundo. – ameacei enquanto ela continuava a rir.
- Não foi pra todo mundo. – se defendeu enquanto seguíamos pelo corredor – Foi só para os amigos. – eu revirei os olhos a ouvindo rir.
Era bom ter a risada de de volta. E por mais que eu soubesse que haveria dias em que aquela risada não estaria ali, naquele momento era bom saber que os motivos dela pra rir superavam os para não o fazer.


Capítulo 15


Novembro de 2012
Mais uma vez meus pais não estavam em casa e eu estudava a matéria do meu primeiro ano de faculdade. Tinha acabado de completar dezenove e não poderia estar mais contente.
Batidas fortes e desesperadas soaram pelos corredores da casa. Era Felícia, só podia ser.
Corri até a entrada e puxei a porta para a garota, que entrou como um furacão.
- eu preciso de internet. Agora! - ela subiu desesperada para o meu quarto na casa de meus pais.
Eu não entendi o que estava acontecendo e preferia me manter dessa maneira. Lícia era o tipo de pessoa com a qual você não discutia.
Subi as escadas logo depois da loira, que já estava com meu computador em mãos e procurando algo que eu ainda não sabia o que era.
- Posso saber o que está acontecendo? - sentei ao seu lado na cama e ela sorriu animada.
- One Direction lançou um novo álbum. - ela praticamente gritou e eu suspirei.
- Fala sério que esse desespero todo é só pra isso? - rolei os olhos, como tinha mania de fazer. - Você não veio aqui para me fazer ouvir contigo, não? - perguntei e ela me olhou com as intenções claras.
- Você tem que compartilhar dos meus momentos felizes. Senta aí e aprecie a obra de arte chamada Take Me Home.

Outubro de 2014
Louis Tomlinson é, definitivamente, o tipo de pessoa que todos gostariam de ter como amigo. Ele é o tipo de cara que faz de tudo para que você não fique se sentindo mal, e que faz o impossível apenas para te arrancar um sorriso.
Em mais um dia em casa, sem fazer absolutamente nada, Louis me ligou dizendo que ele e Liam estava indo para uma partida de LaserTag e perguntou se eu gostaria de acompanhá-los.
Normalmente, eu e meus pais tínhamos o costume de fazer competições mensais de Paintball, e eu já achava super divertido. O quão interessante seria atirar com armas de laser em alguns integrantes da One Direction? Claramente MUITO interessante. Então, eu aceitei.
Estávamos nós três em um shopping local onde a atração do LaserTag era instalada, Liam e eu já estávamos prontos, com nossos coletes super estilosos que mudariam de cor quando recebessemos um “tiro”. Mas, esse não era nosso objetivo.
Louis apareceu vestido como nós e com uma arma em mãos.
- Eu vou acabar com vocês. - ele ameaçou com um sorriso infantil nos lábios.
- Alguém avisa que ele está passando vergonha. - disse em tom baixo, porém audível para Liam, que gargalhou alto.
- Esperem e verão. - Tommo apontou para nós e o garoto responsável pelo local disse que o jogo iria começar.
Era tudo muito escuro e parecia um labirinto.
Rapidamente me perdi dos meninos e levei um laser nas costas de um completo desconhecido. Esperei meu colete recarregar e fui atrás de minha vingança.
Encontrei Louis e Liam correndo atrás de um menino que aparentava ter doze anos e me desatei a rir. Definitivamente aqueles eram os tipos de amigos que eu precisava para esquecer dos problemas e rir um pouco mais.
Quando o jogo foi finalizado, decidimos parar na casa de Louis e pedir algo para almoçar.
O local era grande e aconchegante, o tipo de casa que eu moraria - se tivesse todo o dinheiro que eles têm, claro. -.
Peguei umas roupas da ex-namorada de Louis que ainda estavam por lá e as usei depois de um banho relaxante. O garoto me disse que ela não voltaria para buscar as peças, então eu não precisaria me preocupar com devolvê-las rapidamente.
Desci as escadas depois de já estar devidamente vestida e encontrei os rapazes sentados no sofá e jogando uma partida de FIFA.
- Você tem que aprender que é bom só na vida real. No FIFA eu acabo contigo. - Liam jogou o controle no sofá e começou uma dança estranha de comemoração, onde ele jogava os braços para cima e os balançava sem parar. Eu não aguentei me segurar e comecei a rir alto. Eles viraram para mim e então todos começamos a rir juntos.
Começamos rindo de Liam e terminamos sem saber os motivos das risadas.
- É assim que eu gosto. - o mais velho levantou do sofá e veio até mim, cutucando minha cintura. - Esse sorriso é lindo, mantenha ele no rosto sempre.
Sorrir como resposta à fala do garoto foi automático.
A única coisa difícil era manter esse sorriso estando sozinha em casa e deixando seus pensamentos brincarem com você.
Uma música alta começou a tocar e Liam deu um grito chamando eu e Louis.
- Ele sempre fica animado quando vê nossos clipes na TV. - Tommo disse e eu ri, o acompanhando até perto de onde Liam estava.
Aquela música eu reconhecia, era daquele álbum que a Felícia me mostrou uma vez, o nome dela era Kiss You e o clipe era bem divertido.
Eu e os garotos começamos a pular pela sala enquanto eles dublavam a canção e imitavam a voz dos outros garotos nas partes que não pertenciam aos dois que estavam comigo.
Estava me sentindo verdadeiramente bem depois de todas aquelas notícias nos dias passados. Talvez eu estivesse apenas precisando de um tempo conhecendo a parte da One Direction fora dos holofotes e dos paparazzi. Que ninguém conhecia, apenas eles, e agora eu, e Lícia.
A parte da 1D que dança loucamente à suas próprias músicas e pede frango frito para o almoço.
Aquela era a melhor parte de One Direction, definitivamente.


Capítulo 16

Cecilia
Outubro de 2014
- Nialler! – atendi ao telefone assim que a foto do loirinho apareceu na tela do meu celular.
- ! – ele respondeu com a mesma animação o que me fez rir. A aula tinha acabado e eu estava fazendo meu caminho para casa. Era um dia ensolarado em Londres, porém não quente o que me agradava, já que apesar de adorar ir a praia, eu estava afim de dar um tempo do calor que havia no Rio.
- O que manda meu irlandês favorito? – ouvi sua risada do outro lado alta e escandalosa.
- Sou o único Irlandês de que você conhece, . – murmurou.
- E exatamente por isso que é meu favorito. – retruquei fazendo o garoto rir mais ainda.
- Tudo bem, vou aceitar o título, mas enfim... – fez uma pausa como se voltasse ao foco da ligação – Queria saber se está afim de ir jogar golf comigo. – convidou e eu fiz uma careta.
- Golf? Niall isso é jogo de burguês, eu nunca joguei isso. – soltei em um tom divertido e novamente o ouvi rir. Definitivamente, Niall era uma máquina de risadas.
- Não é um jogo de burguês, pelo menos não de onde eu venho e eu sei que não sabe jogar, mas eu posso te ensinar. – sua resposta foi simples. Seria bom passar um tempo com ele. Eu havia gostado de Niall desde o primeiro momento e adorava com o loiro era completamente espontâneo e autêntico.
- Tudo bem, onde te encontro? – questionei e o ouvi comemorar do outro lado.
- Está indo para casa já? Eu passo lá e te pego.
- Tudo bem, pode passar para me pegar em meia hora, vou estar esperando.
- Certo, até mais então.
- Até, Horan – desliguei o celular e segui pela rua olhando algumas coisas aleatórias.
Recebi uma mensagem de Felícia no Fantastic Four que era o grupo que eu, Lícia, Ty e tínhamos juntos. Era um link e eu esperava por tudo que fosse mais sagrado que não fosse outra matéria sobre . O link vinha acompanhado de um “virou bagunça agora, eita” e era do TMZ. Sério, nós precisávamos nos juntar para colocar aquele prédio à baixo. Abri o link e estranhamente não era sobre . Uma foto de meu passeio com Harry naquela manhã antes da minha aula ilustrava a matéria.

TMZ: “Mais um integrante da One Direction acertado pela flecha do cupido?
Nesta manhã Harry Styles, integrante da boyband mais famosa do momento, foi visto em um breve passeio por Londres. O cantor foi a uma cafeteria e caminhou pela cidade logo cedo. Mas o detalhe interessante é: Styles não estava sozinho. Acompanhado de uma garota misteriosa o cantor distribuiu sorrisos e risadas pelas ruas de Londres.
Essa semana Harry foi visto com , suposta namorada de seu colega de banda Zayn Malik e causou alvoroço nas redes sociais sobre o que a moça poderia estar fazendo junto ao rapaz, mas ao que tudo indica era apenas um passeio amigável.
Fato é que o cupido está realmente trabalhando duro a favor dos garotos da One Direction. Quem será o próximo? Ficamos no aguardo.

Respirei fundo fechando a tal matéria e apenas enviando emojis de olhos revirados. Pelo menos não havia citado nada ruim sobre . Eu lidaria com as consequências daquilo depois, naquele momento eu estava apenas interessada no jogo com Niall.
Cheguei em casa e não estava, então apenas lhe mandei uma mensagem me certificando de que estava bem e informando aonde iria. Tomei um banho rápido, vesti um short jeans e uma camiseta fina de mangas longas, tênis de exercícios e me joguei no sofá da sala pronta para esperar por Niall, mas assim que me sentei uma mensagem chegou informando que ele havia chego. Peguei o que precisava e guardei no bolso do short seguindo para encontrá-lo. Adentrei a range rover preta e logo fui recebida em um abraço do irlandês.
- Preparada para o jogo de burguês? – ele repetiu minha fala de mais cedo me fazendo rir.
- Vamos lá! – dei de ombros enquanto ele ligava o veículo e o colocava pelas ruas.
[...]
- Eu vou gravar esse momento – Niall informou assim que peguei o taco. Cerca de duas horas haviam se passado e ele havia me explicado todo o possível sobre o jogo. Naquele momento estávamos iniciando o nono buraco e incrivelmente, no oitavo eu havia começado a pegar o jeito da coisa.
- Se publicar isso em algum lugar eu te mato. – brinquei apontando o taco para ele o fazendo rir.
Me posicionei e me ajeitei para dar a tacada. O segredo da primeira era conseguir jogá-la o mais longe possível, o que também significava mais perto do buraco que teríamos que acertar. Não havia conseguido primeiras jogadas muito distantes, mas estava otimista quanto a aquela. Tomei impulso e logo acertei a bola que fez um barulho com o golpe e a vi disparar longe pelo ar ficando surpresa com meu desempenho. Niall gritou animado e eu automaticamente fiz uma dança desajeitada, completamente envergonhada por estar sendo gravada. O garoto guardou seu celular e me acompanhou em uma dança ainda mais estranha onde ele mexia os quadris. Segundos depois ele me abraçou carinhosamente enquanto eu ainda ria de sua dança.
- Você com certeza é meu orgulho do golf. – ele me encarou enquanto desfazíamos o abraço e eu sorri me sentindo orgulhosa de mim mesma – Os caras são um desastre, mas você? Não precisou nem de uma partida inteira. Eu acho que vou chorar. – ele fez uma careta e colocou os dedos embaixo dos olhos como se secasse uma lágrima e eu, novamente, desatei a rir. Aquele era o efeito Niall horan. Risadas a todo momento.
- Idiota! – o empurrei pelo ombro – Vá, é sua vez. – indiquei o local e me afastei. Niall se posicionou e parecia um profissional. – Desde quando você joga? – questionei e esperei um momento por sua resposta. Quando ele acertou a tacada encaramos a bola e comemoramos o quão longe a mesma havia ido.
- Comecei logo depois da banda fazer sucesso. – começou enquanto pegava a bolsa com os tacos e eu fazia o mesmo com a minha – Eu voltava para casa e não havia muito que pudesse fazer com meu pai, sabe? – começamos a caminhar pelo extenso campo verde – Quero dizer, íamos a jogos de futebol sempre, mas eu sentia a necessidade de me reconectar com ele de algum modo. Ter algo nosso, sabe? Então um dia ele me chamou para jogar e desde então eu jogo. Sempre que volto para casa nós vamos e é bem divertido na verdade. Acho que isso, ter algo com ele, me fez voltar a ser só o garoto que ele criou e não uma superestrela ou algo assim. – ele deu de ombros.
- Isso é bem legal. Meu pai e meu avô tinham algo assim. Eles pescavam juntos sempre que visitávamos o vovô e quando eu já tinha idade o suficiente eles começaram e me levar junto. Até a já nos acompanhou uma vez. – comentei e Niall me encarou com um sorriso acolhedor.
- E vocês pegavam muitos peixes?
- Ah não, todos os peixes que levávamos para casa eram comprados em alguma peixaria ou em pesqueiros de beira da estrada. – ao ouvir o comentário Niall gargalhou sendo acompanhado comigo – Eles eram péssimos! – completei ainda rindo.

Julho de 2002
- Cuidado pai, cuidado! – meu pai gritava com meu avô logo após conseguir pegar um peixe depois de longas horas sentados a beira do rio.
- Eu sei, Carlos – meu avô retrucou enquanto ajudava meu pai a soltar o bicho do anzol. Eu e observávamos a cena em pé, a uma distância segura, mas extremamente curiosas enquanto os adultos se desdobravam para tirar o bicho dali.
Dado momento ouvimos o grito do meu avô junto com o peixe sendo tirado do anzol, meu pai o encarou assustado assim como e eu.
- Ele está mordendo o meu dedo, me ajude, me ajude – a cena seguinte foi uma das mais engraçadas que eu poderia presenciar.
Meu pai segurou o peixe e o apertou o fazendo soltar o dedo do meu avô, mas o bicho começou a se mexer nas mãos de papai e ele o abraçou para que não fugisse. Quando meu avô tentou pegá-lo, ele acabou lhe escapando pelas mãos e como estavam ainda a beira do rio o bicho caiu na água e fugiu deixando os dois adultos com cara de tacho. Eu e nos encaramos e desatamos a rir chamando a atenção dos dois homens que logo estavam fazendo o mesmo que nós.
- Poxa pai, você deveria saber que não era seguro manter o dedo dentro da boca de uma traíra. – meu pai comentou ainda em meio a risadas.
- Bom, pelo menos agora sabemos que ela faz jus ao nome. – o comentário nos causou ainda mais risadas.

Outubro de 2014
O jogo havia acabado com Niall vencedor apenas por duas tacadas a menos que eu e por conta daquilo eu devia uma panela de brigadeiro ao garoto. Havíamos passado em casa para que eu tomasse um banho, depois em um supermercado e logo depois seguimos para a casa de Niall onde não demoramos muito a chegar. Niall não demorou tanto em seu banho e logo eu estava ensinando a ele como fazer o doce.
- Eu achava que era tão difícil, mas é tão fácil que talvez até eu consiga fazer – ele soltou enquanto se certificava de tirar tudo que podia da colher que eu havia lhe dado.
- Da próxima vez você é quem vai fazer .– o intimei e ele assentiu.
- Já podemos comer? – ele questionou lambendo os lábios e eu gargalhei.
- Não Niall, acabei de colocar no freezer. – expliquei e ele fez um bico frustrado. Me sentei ao seu lado na ilha da cozinha.
- Qual sua banda favorita? – ele questionou de modo aleatório deixando a colher de lado.
- Amber Run, provavelmente – ele franziu o cenho.
- Quem? – eu revirei os olhos.
- É uma banda meio indie. – declarei – E a sua? One Direction não vale, Horan – lhe encarei com os olhos estreitos e ele gargalhou.
- The Script provavelmente – ele deu de ombros.
- Eu gosto deles. – declarei.
- Você reconhece os bons irlandeses. – ele murmurou e eu gargalhei o empurrando pelo braço. Eu estava para conhecer alguém mais apaixonado por seu país do que Niall, sempre que podia ele comentava sobre a Irlanda e principalmente sobre Mullingar. Era uma característica dele, como se não quisesse que ninguém esquecesse de onde ele vinha.
- Qual sua música favorita da One Direction? – questionei e ele tomou um tempo pensando.
- Eu tenho algumas favoritas, mas a minha favorita do momento é do novo álbum. – um brilho diferente surgiu em seus olhos. Outra das paixões de Niall era a banda. Sempre parecia orgulhoso e apaixonado ao falar dela.
- E eu posso saber o nome para escutar quando lançar? – ele me encarou curioso.
- Achei que não fosse fã da banda. – murmurou com os olhos estreitos para mim.
- E não sou, mas eu tenho certeza que Licia vai me fazer escutar. No dia que lançaram Steal My Girl ela me mandou o link da música o dia inteiro e até me ligou na hora em que lançou. Inclusive, quer um conselho? Lancem as músicas as nove da manhã, eu fui acordada para escutar ela. – o garoto negou com a cabeça enquanto ria fraco.
- Isso aí não é com a gente, sinto muito – ele ergueu as mãos como se estivesse se rendendo – Felícia é realmente muito fã da banda, não? – ele começou a batucar no mármore.
- diz que mais do que eu já vi até o momento, então acho que sim, muito. – comentei e ele assentiu sorrindo – Nome da música, Horan. – o lembrei e ele torceu os lábios.
- Vamos fazer um acordo, você escuta o álbum e tenta descobrir qual é. Vai ter três chances. Se acertar eu te faço aquele brigadeiro, mas se errar eu é quem ganho. – ele me estendeu a mão – Fechado? – eu encarei sua mão e depois ele, segurando a mesma de maneira firme.
- Fechado – ambos sorrimos.
- Ótimo, agora vamos comer por que eu não aguento mais esperar – ele saltou da banqueta e seguiu para o freezer como uma criança e eu ri.
Eu previa muitos quilos sendo ganhos por conta da minha amizade com Niall, mas estava feliz e não me importava.


Capítulo 17


Outubro de 2014
Um alienígena. Era assim que me sentia ao andar nos corredores da faculdade depois de me afastar por alguns dias.
e Harry tentaram me ajudar de todas as formas possíveis, assim como Louis e Liam. Todos conseguiram me distrair de alguma maneira. Mas, ainda me preocupava o fato de meu nome estar em cada site ou revista quando o assunto é One Direction.
Zayn não podia ser encontrado na rua sem ser perguntado sobre o nosso “relacionamento”.
Muitas coisas passavam pela minha cabeça e me assombravam. Porém, eu precisava viver.
- Mas não é que quem é vivo sempre aparece? - Tyler apareceu no corredor ao lado de Felícia.
- nos disse que você voltaria, mas não estávamos esperando que fosse tão cedo. - Lícia sorriu para mim. - Bem vinda de volta, .
- Ainda me sinto um pouco desconfortável, mas preciso viver. - dei de ombros. - Bom, eu tenho Física Experimental III agora. - olhei para o relógio em meu pulso. - Vejo vocês lá em casa mais tarde? - sorri e vi ambos concordando. - Ótimo. Peçam para chamar Zayn e os meninos. - dei um beijo rápido da bochecha de cada um e corri para a sala de aula.
Finalmente estava em um local no qual me sentia extremamente confortável. Ninguém me olhava torto ou faziam fofocas enquanto eu passava pelo corredor. Pela primeira vez estava feliz por estar em uma aula de experimental. Normalmente, elas não eram minhas favoritas.
Quando o tempo de experimental acabou, alguns alunos da turma, isso me incluía, foram para aula de Astrofísica Geral, mestrada pela professora Mirna Bergmann, uma das mulheres mais incríveis que a ciência já teve.
Eu sabia que uma hora ou outra, teria de responder sobre o e-mail que recebi do Encontro Internacional de Astrônomos e Astrofísicos, só não esperava que fosse logo após a aula.
- Senhorita . - Sra. Bergmann me chamou assim que todos os alunos saíram da sala. - Posso dar uma palavrinha com você? - concordei com um aceno de cabeça e ela me convidou para se sentar em frente sua mesa, e assim fiz. - Deve saber que há interesse da União Astronômica Internacional em seu projeto, não? - meneei, assentindo. - Bom, eu preciso de uma resposta, . O congresso vai acontecer em Manchester e eles querem uma apresentação sua. - suspirei.
- Eu não tenho certeza se esse projeto é bom o suficiente para um evento de tanta importância, Mirna. - levei a mão a testa.
- Você sabe que se não fosse bom, você não teria sido convidada para tal. - ela disse.
Sim, era verdade. Eu sabia que o projeto ao menos seria indicado caso não fosse interessante ou condescente. Eu estava mentindo para mim, essa era a verdade.
- Preencha essa ficha, por favor. Ao fim desse mês eles estarão enviando passagens e hospedagem. - Mirna arrastou a folha sobre a mesa de madeira, deixando-a em minha frente.
Encarei o papel por alguns instantes, antes de decidir se assinaria.

Dezembro de 2002
e eu estávamos no telhado de sua casa. Nossos pais jogavam algo com cartas no andar de baixo, enquanto comiam o que restou da ceia de natal.
O céu estava sem nenhuma nuvem, o que o deixava repleto de estrelas.
Um ponto brilhante passou rapidamente pelo céu, se movimentando de um extremo à outro numa fração de segundos.
- Você viu, ? - se sentou animada. - Uma estrela cadente.
Sorri e concordei com a garota.
- O que você acha que são as estrelas cadentes? - ela me perguntou, ainda olhando para o céu. - Será que são mesmo estrelas que caem do céu?
- Na verdade são partes pequenas que restam de meteoros ou asteróides, . - eu disse, lembrando do documentário que meu pai tinha me feito assistir com ele. - E quando entram na nossa atmosfera, pegam fogo. Basicamente isso. - olhei para a garota e vi que ela tinha um sorriso enorme no rosto.
- Eu ainda acredito que sejam objetos capazes de realizar todos nossos sonhos. - olhou para mim. - Qual seu maior sonho, ?
- Me tornar uma grande cientista.

Outubro de 2014
Segurei a caneta com toda a força que tinha, mantendo-a firme em minhas mãos. Agora não era a hora de errar.
Preenchi meu nome, idade, faculdade, endereço e todo o resto.
- Espero que você se saia bem, . - a professora sorriu.
- Eu também espero. - me levantei da cadeira, ajeitando minha mochila sobre os ombros. - Obrigada, Mirna.
Os corredores da faculdade se tornavam cada vez mais assustadores, os cochichos e fofocas eram constantes. Principalmente entre as mulheres.
Meu telefone vibrou no bolso da calça e eu o peguei, havia uma mensagem.

Gostaria de saber se aceitaria ir à um show comigo. 11:20am

E de quem seria? Se for de uns tais One Direction eu tô fora. haha 11:20am



Fique tranquila. É apenas um show do Roger Waters. 11:21am
Meu coração parou por alguns segundos. Não acredito que eu estava sendo convidada para um show do meu maior ídolo da música.
Não aceito um ‘não’ como resposta, . 11:23am
>

Como eu diria ‘não’, Harry? Pode confirmar a data e minha presença. Roger Waters que nos espere. 11:25am


Talvez as coisas não estivessem tão ruins como pareciam estar. Pelo menos por enquanto.


Capítulo 18


Outubro de 2014
Até poucos minutos antes estávamos jogados no sofá de casa sem fazer nada, apenas enrolando para finalmente começar o sábado, mesmo que ele já estivesse em seu fim.
Então quando Felícia surgiu com a ideia de irmos para a casa de Ty jogarmos videogame prontamente aceitamos. e Harry iriam a um show naquela tarde, então não nos acompanhavam, mas assim que chegamos ao prédio de Tyler encontramos com Louis, Niall e Zayn parados aguardando o elevador. Liam, que estava conosco em casa antes, carregava as sacolas do mercado aonde havíamos passado para comprar besteiras, mas logo notamos que os outros três tiveram a mesma ideia.
Nos cumprimentamos rapidamente e logo estávamos subindo para o andar de Ty. O garoto já nos esperava com o videogame ligado e o Mario Kart esperando. Todos nos juntamos perto da tv enquanto Liam e Tyler pegavam os controles para começarem a partida.
Minutos mais tarde senti meu celular vibrar no bolso enquanto agora, Louis e Niall disputavam a corrida enquanto o restante gritava em apoio de ambos.
- Niall, tu é meu amigo, mas dessa vez estou torcendo pelo Tommo. – declarei antes de desviar a atenção para o celular.
- HA! As garotas M&R estão comigo, Nialler. – Louis gritou ainda concentrado no videogame.
Coloquei minha atenção no celular enquanto Niall retrucava que eu estava apenas apoiando Louis por que estava com pena. Estranhamente eu recebia diversas notificações do twitter informando que pessoas me seguiam e me mencionavam em tweets. Abri o aplicativo para checar do que se tratava e quando percebi meu estômago revirou.
As fãs dos meninos haviam descoberto meu twitter de alguma forma que eu desconhecia e agora estavam me seguindo e mencionando em tantos tweets que eu mal podia acompanhar. Me levantei do sofá distraída no celular e segui para a cozinha longe da gritaria de todos eles. Ao começar a ler o que dizia eu levei meu dedão a boca mordendo sua ponta, completamente aflita.
@1dforever_pride: “Olha o sorriso do Hazza com ela <3 Amoo esse casal já. @martince.ci faça o nosso menino feliz”
@StylesAllForMe: “@martince.ci nem te conheço, mas já te amo, só por você fazer meu Harry rir assim, ele parece tão feliz com ela”
@jocelin_1d1d: “Eles são tão lindos juntos. Adeus Taylor, olá @martin.ceci”
@LarryStylison_Forever: “Aposto que é um contrato. Harry é apaixonado pelo Louis e sabemos disso. @martince.ci deixe meu casal em paz”
@HNLZL_1d: “Ela é tão lindaaaa. Já precisamos criar um shipp para esse casal. Quero essa foto tatuada na minha testa pra ontem @martince.ci”

- Merda – sussurrei ao ler a sequência de tweets e sentir o coração pesando no peito. Qual era afinal a diferença entre e eu? O fato de estarem me elogiando e apoiando aquele relacionamento nas redes sociais me causou culpa, apesar de saber que eu não tinha culpa de nada. Eu deveria me sentir aliviada por não me odiarem, mas eu só conseguia sentir medo. Medo de me odiar. Eu preferia ser odiada pelo mundo a ser odiada por .
Os pensamentos me causaram certo desespero e eu estava prestes a arrancar a ponta de meu polegar.
- O que está fazendo? – a voz de Zayn saiu sussurrada próxima a minha orelha me causando um susto. O garoto havia se aproximando o suficiente para que sua boca estivesse a poucos centímetros de minha orelha e não fosse o susto eu tinha certeza que teria ficado arrepiada.
- Garoto, qual o seu problema? – soltei enquanto ele ria da minha reação – Quer me matar do coração, desgraça? – o comentário o fez rir mais ainda enquanto caminhava para o outro lado da janela onde eu estava parada. Não era um grande espaço, então quando ele se encostou na pia eu me encostei no armário do lado oposto.
- As respostas são: nenhum e não estou pretendendo. – ele soltou quando conseguiu parar de rir – E então o que fazia de tão importante que teve que nos privar de sua ilustre presença? – seu tom era divertido, mas assim que ele percebeu que eu não ria, ele se conteve.
- Essas fãs de vocês deveriam trabalhar para o FBI ou Interpol. – soltei pegando o celular e desligando as notificações do twitter ou o celular nunca pararia de vibrar.
- Elas já descobriram suas redes? – ele questionou cruzando os braços e me olhando com atenção, eu assenti e ele soltou o ar parecendo frustrado – E como está? Muito mensagens maldosas? – foi minha vez de soltar o ar.
- Na verdade não – ele franziu o cenho confuso – Elas estão apoiando esse “relacionamento”. – fiz aspas com o dedo e soltei a palavra de modo debochado.
- E qual o problema então? – ele questionou parecendo incomodado com o assunto.
- Por que elas gostam de mim e odeiam a ? Que droga, me odeiem também. – soltei jogando os braços e ele riu fraco.
- Entendi, você está com medo da ficar brava ou chateada por isso. – não era uma pergunta – Olha , eu entendo seu medo, mas é a . Vocês são amigas de infância e assim como ela não me culpou por nada, ela também não vai te culpar. – seu tom era calmo, mas não evitou que eu jogasse a cabeça para trás e depois para baixo e resmungasse.
- Se a me odiar eu juro por deus que aprendo a fabricar uma bomba e coloco no prédio do TMZ quando estiver vazio. – soltei em um tom quase infantil e Zayn riu. Antes que levantasse a cabeça senti os braços do garoto ao meu redor e prendi a respiração por um momento. Eu senti minhas mãos começarem a tremer e me odiei por não controlar o nervosismo naquele momento.
- Eu te ajudo. – ele soltou ainda rindo e nem pareceu perceber que eu estava tensa em seus braços.
Respirei fundo e seu perfume invadiu minhas narinas e naquele momento me toquei que era de Zayn o cheiro que eu tanto gostava nas almofadas de casa. Passei alguns segundos sentindo o cheiro do garoto até que os olhos azuis de me surgiram na mente.
QUAL O SEU PROBLEMA, CECÍLIA? Gritei internamente comigo mesma.
Gentilmente me afastei de Zayn sorrindo fraco para que ele não notasse meu conflito mental.
- Obrigada – agradeci recebendo um sorriso de volta e ele voltou ao seu lugar apoiado na pia. Sentindo minhas pernas bambas eu me apoiei no armário e sentei ali. Tyler não brigaria, já que ele fazia aquilo todas as vezes que eu o visitava. Prendi os cabelos em um coque mal feito e percebi os olhos de Malik sobre mim. Parecia prestar atenção em cada parte de mim e eu senti minhas bochechas corarem automaticamente o fazendo sorrir de canto – é engraçado como você é tão tímida quando o assunto é você mesma – ele murmurou e eu torci os lábios.
- Eu não estou acostumada com pessoas me olhando. – murmurei e ele cruzou os braços.
- Duvido muito, mas tudo bem. – ele deu de ombros e eu ri fraco negando com a cabeça.
Começamos uma conversa sobre Harry Potter depois que descobri que Zayn gostava – fato que me causou muita surpresa. O garoto estava com a cabeça apoiada no braço que por sua vez estava na moldura da janela e defendia com unhas e dentes a Sonserina – apesar de seu tom calmo – enquanto eu apenas ria fraco de seus comentários que pareciam propositalmente exagerados.
- Acho que Harry deveria ter escolhido a Sonserina e posto um fim a esse estigma de que sonserinos são todos ruins. – seu tom foi quase emburrado e eu gargalhei – O que foi? Estou falando sério. – ele soltou tentando segurar sua risada.
- Nada, é só que eu não tenho nada contra os sonserinos, não acho que todos sejam ruins e você está aí agindo como se eu fosse iniciar uma briga. – ele riu ao notar que era exatamente o que fazia – Mas, pode continuar, estou achando bonitinho até. – soltei sem pensar, mas ele não pareceu levar por nenhum lado de segundas intenções então apenas deixei que prosseguisse.
- Ah, vocês fariam um casal tão fofo. – a voz de Lícia ecoou pela cozinha antes que Zayn abrisse a boca e eu a encarei com os olhos arregalados.
- Marthens! – a repreendi e vi Zayn rir assim como ela.
- O que foi? Só estou sendo sincera – ela deu de ombros pegando uma lata de refrigerante na geladeira.
- Você é ridícula – murmurei e ela saiu do cômodo rindo. Minhas bochechas queimavam e eu já não conseguia olhar para Zayn – Vamos, estou afim de jogar alguma coisa – declarei descendo do armário. Percebi Zayn rir e apenas respirei fundo enquanto caminhava para a sala.
- , eu ganhei. – Louis gritou assim que colocou os olhos em mim e veio em minha direção me levantando e me girando enquanto eu ria. Ele me colocou de volta ao chão e vi Niall caminhar até mim com uma expressão emburrada.
- Você deveria ter torcido para mim. – ele resmungou e eu ri lhe fazendo cócegas que fizeram com que ele desse pulinhos e risse.
- Da próxima prometo que torço. – ele me abraçou pelos ombros e fomos para o sofá.
Passamos o restante do sábado juntos. Jogando, comendo e nos divertindo de modo que eu só voltei a me lembrar do que estava acontecendo na internet quando paramos para assistir filme.
Que a não me odeie. Que a não me odeie.
Aquilo era como uma prece e eu esperava honestamente que alguém no universo estivesse escutando.


Capítulo 19


Outubro de 2014
Sábados eram os melhores dias da semana. De fato.
Podíamos acordar tarde e dormir mais tarde ainda. Normalmente, esses eram os dias de furar a dieta e comer besteiras, não havia nada de errado com os sábados.
E hoje era um daqueles no qual ficávamos em casa sem fazer absolutamente nada.
- Eu acho que deveríamos ir para algum lugar. - o sotaque carregado de Liam soou.
- Estamos realmente procrastinando. Nem a TV ligamos. - foi quem continuou. - Estamos só olhando um para cara do outro.
O barulho da porta de entrada sendo aberta fez com que todos nós olhássemos em direção à ela simultaneamente. Felícia, quem entrava no apartamento, nos olhou com uma feição assustada.
- Está tendo algum tipo de reunião de esquisitões por aqui? - ela colocou umas sacolas em cima da bancada da cozinha e tirou seu casaco.
- Claro, estávamos apenas te esperando para iniciar. - Payne falou. Eu e desatamos a rir.
- Ótimo, sendo zuada pelo próprio ídolo. - Lícia se aproximou, sentando-se ao lado de no sofá. - Vamos fazer alguma coisa, talvez ligar para Tyler e ir jogar videogames.
- Ótima ideia. - disse. - Mas, já são quatro da tarde, Harry disse que buscaria às seis para o show. - apontou para mim.
- Vão vocês. - eu já estava esparramada pelo sofá, quase me tornando parte dele. - Vou começar a me arrumar logo.
Depois de muitas ligações feitas e um pouco de conversa jogada fora, os três foram para casa de Tyler e levaram o resto do batalhão, mais conhecidos como Niall, Louis e Zayn.
Fiquei mais um pouco no sofá, até que o relógio marcasse dez minutos para as cinco. Logo que aconteceu, me levantei e fui começar a me arrumar para o show.
Um banho bem tomado e uma calça jeans acompanhada de regata, jaqueta e tênis estavam de bom tamanho para um evento como aquele, não?
Passei uma maquiagem leve, pois alguma coisa em minha mente dizia para eu ficar o mais bonita possível para assistir Roger Waters.
O bom de morar há onze anos na Inglaterra, é que a pontualidade britânica acabou virando parte de mim. Vinte minutos antes das seis eu já estava completamente pronta, sem nada para tirar ou pôr.
No horário exato combinado, Harry mandou uma mensagem avisando que já estava me esperando. Desci rapidamente com o auxílio do elevador, e vi que ele estava parado em seu Audi preto. Aquilo sim era um carro!
- Está pronta para o melhor dia da sua vida? - ele perguntou assim que entrei no veículo.
- Prepotente. - disse e ele riu. - Estou aqui pelo Waters. - pisquei brincalhona.
- Sabemos disso, . - ele entrou em minha brincadeira e deu partida no carro.
Harry estava se mostrando ser uma pessoa incrível a cada dia. Ele tinha a educação de um lorde combinada com o senso de humor de um adolescente de quatorze anos, e isso o deixava ainda mais interessante, pois ele sabia exatamente como, e quando, mudar de um para o outro, e isso me fazia crer no quão sortuda era por tê-lo em sua vida.
O caminho até a O2 Arena foi rápido, o mais difícil foi para entrar no estacionamento, já que havia uma fila de carros. Porém, quando conseguimos, Harry parou o carro e abriu o porta-luvas, tirando dali duas credenciais e me entregando uma delas.
- Você só pode estar brincando, Harry. - segurei o crachá e o olhei, incrédula.
- Você acha mesmo que eu iria te trazer para assistir Roger Waters da platéia. - ele fechou o porta-luvas e abriu a porta do carro para sair. - Ele é seu ídolo, . Vamos assistir do backstage.
Eu queria chorar.
- Mas por que isso tudo? - saí do carro, assim como ele. - Por que pra mim? - o questionei.
- Você é uma garota legal, . - ele sorriu. Eu nunca tinha percebido o quão lindo era seu sorriso. - Vamos. - começou a caminhar e eu o segui.

Abril de 2000
Eu estava no banco traseiro do carro de meu pai. A rádio estava ligada e tocando alguma coisa que, na época, era desconhecida por mim.
Meu pai batia com os dedos no volante acompanhando o ritmo da canção. Tentava ao máximo cantar, mesmo não tendo talento para isso. Era divertido e torturante ouvi-lo soltar a voz.
Eu ria de sua performance.
- Essa música é incrível, . Você vai aprender para cantarmos juntos. - foi o que ele disse.
- Aumenta o som, papai. - pedi, batendo palmas e ele fez.
Eu amava o relacionamento com meus pais, mas principalmente com meu pai. Ele me entendia e pensava loucuras assim como eu.
O sinal estava fechado e o violão era o único som que ouvíamos.
Naquele dia eu descobri a letra de minha música favorita.

Outubro de 2014
Quando os primeiros acordes foram tocados eu já sabia o que estava por vir. Não tinha nenhum instrumento se sobressaindo além do violão.
Os quase dois minutos de introdução já estavam trazendo lágrimas aos meus olhos.
Harry estava ao meu lado com os olhos fechados e as mãos nas costas, ele balançava seu corpo como quem apreciava a canção.
- So, so you think you can tell heaven from hell, blue skies from pain.- Roger não proferiu uma palavra, quem puxou o coro foi a plateia. - Can you tell a green field from a cold steel rail? A smile from a veil? Do you think you can tell?não me lembrei de pegar celular, câmera, ou qualquer coisa relacionada. Eu queria guardar aquele momento em minha memória para sempre. Aquilo bastaria. - Did they get you to trade your heroes for ghosts? Hot ashes for trees? Hot air for a cool breeze? Cold comfort for change?eu cantava junto com as milhares de vozes presentes na arena. - Did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?- olhei para o lado de relance e vi que Harry me observava com um sorriso no rosto.
Sorri de volta, com uma pontada de vergonha tomando conta do meu interior. Como eu não tinha percebido o quão lindo ele era?
Merda, . É o rolo da sua amiga, sai dessa!
- Seria pedir muito para você dançar comigo durante o refrão? – sua voz era baixa e fraca.
- Não parece que você é do tipo que dança, Harry. – eu ri, ainda envergonhada.
- Mas podemos tentar. – ele estendeu a mão para mim, como em uma reverência. Eu ri do ato e aceitei. O britânico me puxou e segurou minha cintura, mantendo a proximidade entre nossos corpos.
- How I wish, how I wish you were here. We're just two lost souls swimming in a fish bowl. Year after year. finalmente a voz de Roger soava pelo local. Eu e Harry continuávamos abraçados, bem ali no backstage. Eu evitava qualquer contato visual com ele, então meu rosto estava enterrado em seu tronco, enquanto ele fazia carinho em minhas costas com uma das mãos que acabou deixando livre depois de um tempo segurando minha cintura. Movimentávamos nosso corpo de um lado para o outro, não era uma dança, mas estávamos nos mexendo. - Running over the same old ground what have we found? The same old fears. Wish you were here. e mais uma vez os instrumentos tomaram conta da arena. Eu podia sentir as lágrimas descendo por minha bochecha de maneira teimosa.
Aquela música me lembrava de minha infância, meus pais e principalmente como eu queria que eles estivessem por perto.
Levantei meu olhar e vi que Harry encarava o palco de forma apaixonada.
- Isso aqui é tudo para você, não? – perguntei o fazendo olhar para mim.
- Você não faz ideia. – mais uma vez aquele sorriso.
. Foi o que lembrei quando percebi que nossos corpos ainda estavam unidos.
- Me desculpe por isso. – falei, insinuando nosso contato. Ele apenas meneou em concordância.
Se eu fizesse uma lista dos melhores momentos da minha vida, claramente aquele seria um deles.


Capítulo 20


Outubro de 2014
Dormir era com certeza uma das coisas que eu mais gostava de fazer. Sair com meus amigos era ótimo e eu jamais me negaria a aquilo, mas eu adorava quando podia deitar minha cabeça no travesseiro e dormir até que meu sono acabasse. Dito isso, acho que é facilmente concluído que odiava ser acordada em finais de semana, certo? Aparentemente não para pessoa que fazia o porteiro ligar no apartamento as oito da manhã. O sono de era mais pesado que o meu então não havia nem sinal dela quando segui pelo corredor até o interfone.
- Oi senhor Adams – a voz ainda sonolenta e o bocejo entregaram para o porteiro que ele havia me acordado.
- Senhorita , desculpe acordar – como ele já sabia diferenciar a minha voz da de ? – o senhor Harry está aqui – Harry não gritou um “Ei ” como sempre fazia e aquele fato me causou estranheza.
- Peça a ele que suba senhor Adams. Avise que porta vai estar aberta e que ele pode entrar – o porteiro me respondeu com um ok e desligou.
Eu segui para o quarto e tirei a camisola vestindo um short, camiseta, chinelo e prendendo o cabelo em um coque mal feito. Lavei o rosto e escovei os dentes no banheiro e quando voltei a sala Harry abria a porta e me encarou com um sorriso tímido.
- Desculpa te acordar – começou em tom baixo e culpado e olhou a sala.
- está dormindo ainda. O que aconteceu? – perguntei sabendo que seu olhar pela sala era pra procurar a outra moradora do apartamento.
- Podemos ir a aquela cafeteria? Preciso conversar – ele pediu receoso e eu assenti.
- Ta, espera só um minuto – levantei o indicador para ele e segui até a bancada onde um maço de post its e uma caneta repousavam.

, fui tomar café com Harry. Volto logo.
Com amor, .
ps: te trago café e um bolinho.”

Segui até a porta e peguei minha bolsa que eu havia deixado ali quando cheguei na noite anterior. Puxei meu cartão o colocando no bolso de trás do short assim e sai do apartamento com Harry chegando em poucos minutos a rua. Eu sabia que ele não falaria nada sobre o que queria até chegarmos lá então resolvi ficar em silêncio. Harry estava ansioso, então o garoto que sempre gostava de caminhar até a cafeteria pediu por um táxi, que fez o percurso em menos de dez minutos. Harry estava estranhamente nervoso. Batia os pés a todo instante e estava constantemente mexendo no único anel que usava naquele dia.
Ao chegarmos lá ele abriu a porta da cafeteria para que eu entrasse e assim que ela se fechou ele pareceu se acalmar um pouco. Fizemos nossos pedidos e quando Harry pediu por um café eu lhe sugeri um chá já que a cafeína não o ajudaria naquele momento e ele apenas assentiu. Pegamos a mesa de sempre, afastada e perto de uma das grandes janelas do local e ao nos sentarmos Harry já estava bebericando o chá.
- Desembucha Styles, eu estou nervosa – soltei em tom baixo. Apesar de relativamente vazio, eu não queria ninguém ouvindo nossa conversa, ainda mais agora que achavam que éramos namorados e qualquer pessoa podia contar a uma revista sobre o assunto.
- Sabe que é uma amiga em quem confio não sabe? – ele questionou e eu sorri fraco. Apesar o pouco tempo, eu e Harry já havíamos desenvolvido uma relação especial. Talvez por sermos muito parecidos havíamos nos tornados próximos e consequentemente estabelecido uma relação onde, apesar da não tão frequente proximidade física, sabíamos que sempre podíamos contar um com o outro. Quase como irmãos.
- Sim – respondi simples dando a ele toda a minha atenção.
- Preciso que me prometa uma coisa então – pediu mordendo a parte interna da bochecha apenas maneei para que ele prosseguisse – Precisa me prometer que o que eu te contar agora não vai mudar nossa relação e principalmente vai ficar apenas entre nós – eu me senti ainda mais nervosa.
- Prometo – levantei a mão e ele assentiu respirando fundo algumas vezes. Parecia pensar me quais palavras usar exatamente e eu estava ficando mais nervosa ainda – Harry, você vai me matar do coração assim – soltei o fazendo rir negando com a cabeça.
- É difícil, droga – ele soltou ainda rindo e eu revirei os olhos – ... – ele me encarou fundo nos olhos e por um momento uma ideia do que ele diria me surgiu e me causou pânico, sumindo logo depois, por que era impossível. Não era? Claro que era – eu acho que estou afim... – droga, droga, droga – da .
- Graças a Deus – joguei os braços para cima e ele me encarou confuso enquanto eu me recompunha – desculpa, reação involuntária – respondi negando com as mãos e ele riu fraco - Mas enfim... Interessante, você está afim da... – naquele momento a ficha caiu. Ele havia dito . – espera, a nossa ? – eu apontei para nós dois.
- Que outra seria, ? – ele questionou como se minha pergunta fosse um absurdo e talvez você mesmo, mas eu precisava ter certeza.
- Ah vai saber – soltei e então digerindo toda a frase. Ele achava que estava afim da . Aquela constatação fez um sorriso largo surgir em meu rosto – Você está afim da ? – questionei e o vi conter um sorriso.
- Acho que sim – ele deu de ombros, mas a sua fingida incerteza não me enganava. O fato de Harry e eu sermos parecidos o fazia ter reações semelhantes as minhas então eu sabia o que um “acho que sim” significava.
- Você está afim da – soltei baixo, mas queria gritar, tamanha era a felicidade que sentia. Harry era um cara ótimo. Gentil, bem-humorado, extremamente educado, bonito e sempre estava disposto a apoiar a quem ele amava. E era igualmente incrível. Inteligente, educada, tinha um humor diferente do de Harry, mas ainda assim me causava boas risadas e muito carinhosa a seu modo.
- Ta, já chega de tirar uma com a minha cara – ele revirou os olhos rindo e eu o acompanhei, me sentindo finalmente confortável para começar a comer.
- Ta, vamos por partes aqui – soltei após um gole no meu café – Primeiro: por que você me contar isso mudaria nossa relação – questionei me lembrando que ele havia feito com que eu prometesse.
- Por que estar afim dela me faz um amigo horrível já que ela e Zayn aparentemente estão em algum rolo que eu não entendo – mordi o lábio inferior. Eu te entendo Harry. Pensei.
- Ta, em relação a isso, ok. Eu te conheço e sei que não faria nada para prejudicá-los – maneei com a cabeça e ele pareceu aliviado por eu não ter um julgamento para ele – vamos as partes importantes agora: o que te fez chegar à conclusão – perguntei empolgada e Harry pensou por um momento sorrindo fraco, meio sem jeito.
- Eu... senti algo desde a primeira vez que a vi na casa de vocês – começou e eu queria gritar. Culpa das comédias românticas – quero dizer ela é bonita, mas achei que fosse só isso, como na primeira vez que te vi – ele soltou meio envergonhado – achei que fosse ser só como é com você entende? Uma amiga que no primeiro momento eu achei bonita, mas quando os dias passassem ia ser apenas como... uma irmã – conexão mental. Era disso que eu estava falando – Mas conforme os dias foram passando e eu fui a conhecendo, essa sensação não mudava. Eu sempre estava a olhando. Fosse olhando um vinil na Rough Trade, ou conversando com alguém, ou rindo de Louis naquele jogo de mímica, ou a qualquer momento que eu dava um tempo para minha mente ficar vazia. Eu sempre acabava com os olhos nela e ontem, no show enquanto ela cantava Wish you were here eu quis muito beijá-la. Você sabe como sua amiga fica linda olhando o Rogers Waters e cantando Wish you were here? Sabe o quanto eu precisei me conter para não beijar a garota do meu amigo? – o garoto jogou a cabeça para trás mexendo nos cabelos e eu sentia minhas bochechas começarem a doer de tanto que sorria – É covardia, . Pura covardia – ele soltou frustrado, mas ainda assim tinha um sorriso que insista em não sair de seus lábios.
- Harry, nesse momento tudo que quero é te dar um soco por que você está sendo o ser humano mais fofo da face da terra - soltei fazendo meu amigo gargalhar e negar com a cabeça - mas não existe nada com que eu possa ajudar no momento. Quero dizer, ela e o Zayn estão de rolo e eu não vou te dizer para beijar ela, por que enfim, ele é seu amigo e ela provavelmente deve estar afim dele, afinal - Harry torceu os lábios e me encarou.
- Aí é que tá - começou - ao mesmo tempo que eu penso nisso, eu penso em como às vezes a pego me olhando e como ela fica toda sem jeito depois que é descoberta - franzi o cenho - ou como ela sempre parece interessada e do nada ela se afasta, ou muda de assunto e sempre acaba falando de você - naquele momento me lembrei do dia em que chamei Harry para ir lá em casa pela primeira vez, no meu jantar de boas-vindas. Vi olha-lo como se admirasse as estrelas e de repente simplesmente o olhar mudou de pura serenidade para susto, talvez.
- Faça o seguinte - comecei - de um tempo. Ela e Zayn não assumiram nada, nem pra nós que somos amigos então talvez estejam apenas se conhecendo ainda. Talvez dê em alguma coisa e logo eles dirão ou talvez não dê em nada e nós ficaremos sabendo de algum modo - soltei da maneira mais otimista que conseguia. Eu queria apoiar Harry por que ele e eram pessoas que eu amava muito, mas eu também queria o que fosse melhor pra minha amiga e se fosse Zayn, eu iria apoiá-la e sabia que Harry faria o mesmo - de todo modo, eu tenho uma boa sensação sobre essa história toda - dei de ombros e vi Harry segurar o sorriso.
- Ei - ele chamou e eu o encarei - eu só te contei por que precisava falar com alguém. Não aguentava mais guardar isso só pra mim. Espero que saiba que não espero que faça nada - ele soltou cauteloso. Como se medisse as palavras.
- Eu sei, H - lhe lancei um sorriso e ele pareceu mais aliviado - mas espero que saiba, que se as coisas não derem certo com Zayn, vocês tem meu total apoio. Inclusive sou a primeira shipper de Hamy - soltei fazendo o garoto gargalhar.
- Garota, você assiste muita comédia romântica - ele acusou e eu arqueei uma sobrancelha para ele jogando um guardanapo de papel amassado em sua direção.
- Certo e vamos fingir que você não assiste, senhor meu filme favorito é Love Actually - soltei em tom irônico e ele me estreitou os olhos me fazendo rir.
- Certo, você ganhou dessa vez - ele murmurou e eu lhe lancei um beijo de maneira debochada. Ele passou alguns segundos encarando a xícara de chá até bufar e jogar a cabeça para trás - Eu estou ferrado, - ele murmurou colocando a mão no rosto e eu peguei minha xícara de café.
- Está mesmo. Vai comer esse pretzel? - beberiquei o café enquanto apontava o pretzel com a mão livre ele me encarou parecendo incrédulo para em seguida gargalhar.
- Você não presta - ele negou com a cabeça e eu o acompanhei na risada.
- Sabemos que às vezes não mesmo - declarei dando de ombros - mas agora sério, vai comer o pretzel?


Continua...



Nota da autora: Nota: Estou completamente rendida à esse casal!!!
Não esqueça de seguir as personagens no instagram para acompanhar mais de perto a vida delas <3





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