Última atualização: 15/05/2020
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Capítulo nove

A MIRACLE WOULD HAPPEN


Everyone tells you that
The minute you get married
Every other woman in the world
Suddenly finds you attractive
Well, that's not true
It only affects the kind of women
You always wanted to sleep with
But they wouldn't give you the time of day before
And now they're banging down your door



- Casado? – Minha agente falou – Sério, ? Eu tenho cinquenta e sete anos. Eu posso infartar.
- Jimmie, meu anjo, eu sei que deveria ter te chamado… - Falei, Escondido no banheiro da suite nupcial – Mas foi tudo muito rápido e…
- Eu já sabia, seu idiota. Sua ex mulher me ligou. Eu já vendi os direitos das fotos pra People. Você já é 23% mais desejado pelas mulheres britânicas entre 18 e 25 anos agora.
- Mas eu me casei tem… doze horas?
- , anjo, entenda. Mulheres gostam disso. Já recebi duas ofertas para filmes. E um seriado. Você está bombando, querido. Foi eu quem te deu a ideia de casar?
- Não, esse mérito é meu.
- Pois eu devia ter sugerido. Principalmente com uma desconhecida. Todo mundo ama esse tipo de fanfic.

Eu estava casado. Ainda era surreal para mim que ela tivesse aceitado. Eu achei que fosse demorar um pouco mais. Talvez uns seis meses. Que ela fosse querer algo grande. Mas foi perfeito do jeito que foi. Rápido e indolor. Era tudo muito recente, e nem sabia que já tinha tomado aquela proporção toda.
E estar casado era ótimo! Logo nos voltamos para nosso apartamento na 73rd. Colocamos fotos do casamento pela casa, começamos a sair com casais mais velhos e a apreciar queijos e vinhos. Estávamos felizes, realmente felizes. Claro, podia ser um pouco exaustivo. Mas era ótimo. Porque eu a amava e ela me fazia absurdamente feliz.
Mas era um pouco cansativo sim. Era exaustivo chegar em qualquer festa e ficar lá, basicamente berrando: “HEY, EU SOU CASADO E NÃO PRETENDO TRAIR DE NOVO”.
E, apesar de estarmos casados, eu me sentia sozinho. Ela estava em Ohio e ficaria para o verão, depois da nossa lua de mel de quase um mês, e eu estava filmando no Canadá. Eu tentava manter nossa relação a melhor possível, com telefonemas e chamadas ao vivo, mas era difícil. Era solitário.

And nothing else would matter
But it's fine, it's fine, it's fine
I mean, I'm happy
And I'm fine, I'm fine, I'm fine
It's not a problem
It's just a challenge
It's a challenge to resist
Temptation


Metade de mim desejava que ela largasse Ohio e ficasse comigo. Seria tão mais fácil para nós dois. Menos ligações, mais tempo juntos. E Ohio era tão longe e ela estava lá há tanto tempo.
Eu só queria que as coisas dessem realmente certo. Ou que eu visse as coisas de uma forma melhor e menos pessimista. Porque, no momento, eu me via casado, sozinho, com 23% a mais de aprovação feminina e sem poder fazer nada. Então, sei lá, seria tão bom se ela pudesse simplesmente vir até mim.
Ou eu ir até ela. Também podia ser. Ohio é complicado, mas seria bom. Pelo menos por uns dias. Eu não queria me sentir assim tão rápido, mas lá estava eu, tendo dúvidas idiotas se eu tomei a decisão certa.
Era só a distância. A maldita distância. Ia melhorar logo. Eu iria até ela, se minha agente deixasse, e ficaria tudo bem.
Tudo ficaria bem, porque eu estou bem. Eu estou feliz, e eu quero isso mais do que tudo. Sim, eu quero.
Mas quando chegava à noite e eu entrava no quarto do hotel sozinho, pedindo serviço de quarto, eu pensava o como seria bom ter companhia. Qualquer companhia. E então eu tinha que tomar alguns banhos gelados e comer um pouco mais. Mas era o que eu queria, e ela estava realizando o sonho dela. E eu o meu. Um perfeito casal moderno.

And in a perfect world
A miracle would happen
And that day would finally be here
And it'd be me and you
Riding it together
And the things we do
Goin' like we planned
We're gonna make it through
And nothing else will matter
We'll be fine, we're fine
We're fine, we're fine, we're fine




Capítulo dez

CLIMBING UPHILL
I'm climbing uphill, Daddy
Climbing uphill
I'm up every morning at six
And standing in line
With two hundred girls
Who are younger and thinner than me
Who have already been to the gym
I'm waiting five hours in line
And watching the girls
Just coming and going
In dresses that look just like this
Till my number is finally called


Às vezes tudo que eu queria era bater a cabeça na parede ou me jogar de frente com um trem. Sem brincadeira. Eu realmente queria isso, todos os dias. Esse era o nível de raiva e frustração que eu sentia.
Minha psicóloga às vezes dizia que toda essa raiva redirecionada ao meu trabalho poderia ser excelente. Mas como eu não conseguia trabalho nenhum, era impossível usar minha raiva. A não ser nas mil audições que eu fazia por dia.
me incentivava diariamente a ir e lutar. E eu ia e lutava, mas falhava todos os dias. Nenhum call-back. Eu nunca passava da segunda fase. Em cada teste, eu me sentia mais frustrada e agoniada. Parecia que algo em mim simplesmente não era bom o suficiente. Não importava o quanto eu tentasse melhorar, ou quantas horas por dia eu passasse ensaiando – eu nunca ia bem.
Todos os dias eu chegava em casa, um sorriso forçado no rosto e , quando estava presente, ficava empolgadíssimo ao me ouvir falar sobre meu dia.
- Mas é claro que vão te ligar. Seriam loucos de não te ligar. Olha a descrição dessa personagem! É você cuspida – Ele dizia, sentado ao sofá tomando cerveja – Você nasceu para esse papel!
- Você acha? – Eu perguntava, minha esperança subindo levemente. Afinal, ele nem fazia mais audições. Só ligavam para ele e diziam “Ei, cara, você topa fazer esse filme? Escrevi pensando em você”. Comigo era bem diferente.
- Sério, . Eu não mentiria para você – E então desviava os olhos para a TV, onde alguma série policial ou algo assim passava. Aí eu ia ensaiar. Ficava em frente ao espelho recitando monólogos, pegando um repertório novo. Dormíamos juntos e cedo eu ia embora, para tentar ser a primeira da fila. Nunca era. Às vezes algumas garotas chegavam lá tão cedo que o sol nem tinha acordado.
Mas eu estava tentando. Lutando com todas as forças para conseguir um papel, um mísero papel que fosse, não importava onde. Eu só queria estar no palco, fazendo o que nasci para fazer.
Algumas pessoas simplesmente tinham isso tudo tão fácil e eu me sentia uma pessoa amarga por não suportar mais tanta gente que antes eu admirava. Às vezes eu me pegava com raiva de , que só precisou de uma peça para chegar ao estrelato. Meu coração doía com isso, afinal, eu o amo. Muito. E ele está me apoiando demais. Principalmente na parte financeira – ele paga o aluguel e as contas. Desde que eu parei de cantar em bares, as coisas ficaram feias. Tony me mandava uma mesada as vezes, o que eu morria de vergonha de pedir e receber, mas não queria depender de assim. Na verdade, tudo que eu menos queria era depender de qualquer pessoa, não importava o nível do meu amor por ela. Eu só queria ter controle da minha vida e poder, sei lá, surtar e comprar coisas caras para me sentir melhor, ou comer um absurdo de comida, ou até mesmo raspar metade da minha cabeça. Mas eu não podia. Tipo, nem um pouco.
Eu tinha que ser a mulher perfeita. A Barbie Humana. Com voz de anjo, cabelos sempre bem arrumados e nenhum fio a mais na sobrancelha. Eu não podia me dar o luxo de me descuidar, porque eu já devia pelo menos sete mil dólares a Tony e só Deus sabe quanto a . Eu tenho que arranjar um papel e, para isso, eu tenho que ser bonita. Mesmo eu me sinta tudo menos bonita. Uma belíssima surtada, desempregada, mas com a sobrancelha no lugar.
I am a good person
I'm an attractive person
I am a talented person
Grant me Grace!

And once again...
Why am I working so hard?
These are the people who cast Linda Blair in a musical
Jesus Christ, I suck, I suck, I suck



- Eu não aguento mais fazer isso – Disse a . Era de tarde, mas parecia de madrugada. Ele estava tomando cerveja e vendo algum filme de Natal na TV.
- Fazer o que, babe?
- As audições, eu sinto que… - Eu não ia dizer que sentia como se quisesse arrancar toda a minha pele, tirar tudinho e tacar num lixo que tinha o meu próprio nome. Não disse que às vezes tinha vontade de arrancar todo o meu cabelo, de me jogar pela janela, de tomar seis remédios para dormir na intenção de não acordar. Eu não disse nada disso.
- Eu sei que é difícil, . Eu sei como é horrível ter que passar por tudo isso, todo dia…
- Não. Você não sabe – Falei, minha voz um tanto grossa – Você fez sei lá, três audições e ganhou um Tony. Você ganha papéis como bebe água!
- Você sabe que não é verdade – Ele falou, desviando o olhar. Porque ele sabia que era.
- Eu não aguento mais isso. Chegar em casa depois de um dia inteiro falhando e ter que fingir que está tudo bem. Eu não aguento mais, .
- Você não falha nunca, . Você ainda não encontrou o papel certo, e quando encontrar…
- Isso! – Gritei, sem perceber. Meu Deus como era bom gritar – Eu não aguento a sua sabedoria divina. Eu não aguento você como todo poderoso!
Ele ficou em choque, porque provavelmente achava que estava me ajudando super divinamente, guiando-me no caminho da luz artística. Mas, por mais que ele me colocasse para cima, que ele me elevasse, eu não aguentava mais. Eu precisava ficar sozinha.
- Meu Deus, . Eu sinto muito…. Eu só queria ajudar. Eu sei como é tudo isso então…
- Eu acho que preciso ficar sozinha por um tempo – Suspirei, sentindo um alívio enorme dentro de mim. A respiração dele ficou mais baixa – Eu não sei o que está acontecendo comigo, eu só não quero me tornar amarga e acabar com você.
- Então você está terminando comigo?
- Pedindo um tempo – Olhei para a parede. Procurei um ponto fixo. Respirei fundo, porque doía demais.
- Isso é ridiculo – Ele se limitou a dizer – Nós não precisamos de um tempo.
- Eu acho que precisamos sim – Levantei-me – Eu vou pegar minhas coisas…
- Não, não precisa. Eu pego – falou – Eu vou. Aqui é mais perto pra você.
- Ok. Mas eu pago o aluguel.
- Esse é o menor dos meus problemas agora – Ele saiu da sala, seu corpo meio frouxo, sua voz meio rouca. Talvez ele me amasse mesmo. Talvez ele se importasse comigo. E eu estava sendo uma vadia ingrata com ele, depois de tudo que ele fez por mim.
Mas eu precisava disso. Eu precisava saber que meu futuro seria por mim mesma. Que se a fama chegasse, não seria porque eu era a namorada dele. Eu queria meu nome escrito nos lugares, não ser o acompanhamento dele. Eu queria as coisas por meu próprio mérito. E não era pedir demais.
ficou uns quinze minutos no quarto, arrumou duas malas e foi embora. Não nos despedimos. Não falei com ele, não corri para abraçá-lo. Eu queria, mas não podia.
Podia ser egoísta da minha parte, eu sei. Mas às vezes eu sinto que podia ter o direito de ser egoísta para realizar o meu sonho. Ele já tinha realizado todos os dele.
Então ele fechou a porta e meu celular tocou. Era um número privado e meu coração deu um pulo. Era impossivel ser ele, porque tinha acabado de ouvir o elevador chegar.
- Sturgess? – O homem do outro lado da linha falou – Aqui é Howard Feinsten, produtor do Verão de Sondheim. Você teria um minutinho para conversar ou estou ligando num momento ruim?
Eu só pude me jogar no sofá e chorar. Chorar por algumas horas depois de aceitar. Era em Ohio, mas era algo.

I will not be the girl stuck at home in the 'burbs
With the baby, the dog, and the garden of herbs
I will not be the girl in the sensible shoes
Pushing burgers and beer nuts and missing the clues
I will not be the girl who gets asked how it feels
To be trotting along at the genius's heels
I will not be the girl who requires a man to get by




Capítulo onze

IF I DIDN’T BELIEVE IN YOU
Can we please for a minute
Stop blaming and say what you feel?
Is it just that you're disappointed
To be touring again for the summer
Did you think this would all be much easier
Than it's turned out to be?
Well, then talk to me, Cathy
Talk to me


Ela estava em silêncio, seus olhos vidrados fora da janela, procurando alguma coisa que eu não sabia. Ela estava linda, com seus cabelos soltos e maquiagem meio borrada depois de sei lá quantas entrevistas e um after party. Ela podia estar em qualquer lugar, mas estava comigo. Ainda me apoiando. E eu a amava ainda mais por isso.
- Ei, Hop, para o carro – Ela pediu ao motorista – Aqui mesmo, oh, tem vaga – Qualquer pessoa que já passou por Nova Iorque sabe que não existe vaga. Mas havia visto um buraquinho e Hop se jogou nele – Um food truck de tacos!
- Mas ! – Eu disse, enquanto ela saía do carro, o vestido rosa claro indo ao chão sujo.
- Eu estou morrendo de fome. São só uns tacos, pelo amor de Deus – Ela comentou naturalmente, indo em direção ao food truck relativamente vazio. Fui até ela, ficando na fila em silêncio, até que ela pediu uns tacos e pagou. Pegou a comida e me entregou um, rindo da minha cara de espanto – Tacos.
- Eu preferia batatas, mas não tem nenhum lugar aberto – Ela reclamou – A cidade que nunca dorme para de funcionar muito cedo durante a semana.
- Eu não devia comer isso – Falei, olhando para ela.
- Um taco não vai te engordar quinze quilos e fazer você perder o papel de Super Herói do Milênio – Ela revirou os olhos e voltou a comer.
Era sempre assim. Nós estavamos conversando, normalmente, como um casal. Aí de repente eu falava alguma coisa que a deixava meio amarga. Ou ela dizia algo que iniciava uma discussão. Tudo, tudo, porque eu tinha trabalho e ela não.
Eu podia fazer tudo. Levantar o mundo por ela, incentivá-la e todo o resto, e mesmo assim continuava falhando. Eu sentia pena, porque apesar de todo o talento, ela parecia estar presa num ciclo vicioso de fracasso e falta de sorte.
- São bons – Eu falei, tentando quebrar o clima – Você tem um bom olho para food trucks.
- Eu só parei no primeiro que vi – Ela falou, terminando de comer e jogando no lixo o embrulho. Fiz o mesmo com o meu, que estava horrível.
- … - Falei, parado em sua frente – Eu já disse que te amo hoje? – Um sorriso fraco apareceu em seu rosto.
- Vamos voltar para o carro.

If I didn't believe in you
We'd never have gotten this far
If I didn't believe in you
And all of the ten thousand women you are
If I didn't think you could do
Anything you ever wanted to
If I wasn't certain that you'd come through somehow
The fact of the matter is, Cathy
I wouldn't be standing here now


Então chegamos em casa. A decoração havia mudado um pouco. Fotos novas estavam penduradas. Eu tinha comprado um tapete novo e o sofá era novo também. Mas era a mesma casa, apenas decorada de forma diferente. E assim que éramos, e eu. As mesmas pessoas, numa casca diferente, numa situação que eu não imaginava estar nunca.
- O que você está olhando? – perguntou, do canto da sala, enquanto tirava seu vestido.
- Só a mulher mais linda do mundo – Falei, depois de perceber que estava paralisado olhando para ela, com aquele sentimento de confusão que pairava minha cabeça. Aquele sentimento de medo que constantemente me mantinha acordado.
- Ajuda aqui – Ela pediu e eu me aproximei, ajudando-a a tirar o vestido. Senti a pele dela arrepiar e um sorriso brotou em meu rosto. Talvez ela ainda me amasse. Talvez tudo fosse ficar bem e tudo daria certo entre nós – Sua mão está gelada! – Ela se afastou e senti um peso conhecido chegar em mim.
Meu amor por continuava o mesmo, talvez até maior. Eu continuava a me preocupar com ela. Me mantinha fiel. Eu só queria que ela fosse feliz. E isso era o mais estranho para mim – eu estava feliz. Eu tinha a carreira dos meus sonhos e uma mulher para amar. A minha vida era completa. E ainda assim, toda vez que olhava para ela, eu sabia que a vida dela estava longe de estar completa.
Num impulso, segurei sua mão. Ela estava andando para longe de mim e eu apenas não queria que isso acontecesse. A olhei, meio sem respirar. Ela também estava assim.

Don't we get to be happy, Cathy?
At some point down the line
Don't we get to relax
Without some new tsuris
To push me yet further from you?
If I'm cheering on your side, Cathy
Why can't you support mine?
Why do I have to feel
I committed some felony
Doing what I always swore I would do?


- O que foi? – Ela perguntou – Você está estranho.
- Eu só estou… olhando você – Falei, tirando um sorriso dela – Caso eu fique cego nesse exato momento, pelo menos eu vou ter te olhado direito uma última vez.
- Ah, – Ela gargalhou antes de me dar um rápido beijo – Você é incrível.
- Você acha? – Perguntei e ela assentiu – Você acha que eu fui bem hoje?
- Claro. Todos te amaram – Ela respondeu e se afastou de mim novamente.
- Ei, volta aqui – Pedi, mas ela continuou andando até nosso quarto – , vem cá.
- Eu estou exausta – disse – Amanhã tem ensaio e está tão tarde.
- Tudo bem. É só nossa última noite juntos, mas ok – Falei, tirando os sapatos – Eu achei que pudéssemos…
- Eu passei a noite inteira do seu lado, . Não sei se você reparou, mas eu estava lá. E agora eu estou aqui. Indo para a cama. Eu preciso descansar e…
- Eu vou ficar meses sem te ver.
- Eu sei. E odeio isso. Mas você aceitou o papel, foi sua escolha – Seu tom ressentido me deixou furioso.
- Bem, alguém aqui tem que trabalhar.
- Eu trabalho, . Mais do que você poderia sonhar – Sua voz se elevou – Mas meus parabéns.
- Isso é enlouquecedor - Falei, meio baixo, meio que só pra mim – Por que nada que eu faço te deixa satisfeita?
- Tem muitas coisas que você faz que me deixam satisfeitas. Mas nem tudo é sobre você – Ela disse, sentada na cama, as mãos no rosto – Eu estou exausta, . Por favor.
- Eu também estou exausto – Fui até ela, meus pés parecendo pesados – Eu não queria que fosse assim.
- O quê? – falou, olhando-me diretamente nos olhos, como se pudesse ver minha alma.
- Nós dois. Parece um fardo para você estar comigo.
- Eu acho que você não entende o que eu estou passando agora – Ela disse, se levantando bruscamente – Eu tento e tento e só falho, . Eu vou para a porra de Ohio de novo. Nada é como eu imaginava.
- Você tem todo o tempo do mundo para conseguir, . Ninguém está te pressionando para isso.
- Eu não tenho! – Ela berrou, dando-me um puta susto – Eu não tenho todo o tempo do mundo. Eu já passei do tempo.
- , meu amor… - Aproximei-me, puxando-a para um abraço cheio de lágrimas – Você é incrível. Fenomenal. Você só tem que acreditar nisso.

I don't want you to hurt
I don't want you to sink
But you know what I think?
I think you'll be fine!
Just hang on and you'll see –
But don't make me wait 'til you do
To be happy with you –
Will you listen to me?
No one can give you courage
No one can thicken your skin
I will not fail so you can be comfortable, Cathy
I will not lose because you can't win


- Não é bem assim que as coisas funcionam – Ela se limitou a dizer.
- Mas poderia ser. Você pode ser tão feliz se você relaxar um pouco. Sei lá, talvez realmente não seja pra ser. Você encontra algo novo que te faça feliz.
- Você… Você está sugerindo que eu desista? – sussurou e até eu fiquei meio incredúlo com o que disse.
- Não… Eu… Acho que você devia relaxar. Talvez umas férias, sei lá.
- Eu vou dormir no quarto de visitas – Ela falou e antes que eu pudesse protestar, ela me calou – Eu te amo muito, . E eu penso em desistir a cada segundo do dia. Se eu pudesse, eu não tinha nem começado. Mas o teatro é o que eu mais amo na vida. E eu vou sentir muito a sua falta nesses meses. Mas eu não vou sentir falta desse cara aqui. Nem um pouco.
- Você não entendeu…
- Eu posso não ter entendido, mas doeu mesmo assim – Ela murmurou.
- Eu sinto tanto, eu nunca…
- Quando você for a Ohio me visitar a gente resolve isso, tá bem? Eu não quero dormir sabendo que o meu marido não acredita em mim.
- Mas eu acredito! Todo o ponto é que eu acredito. E eu acho que você é incrível e seria incrível no que você quisesse… - Tentei melhorar a situação, mas era tarde demais.
- Você pode acreditar nisso o quanto quiser, . Mas não é assim que me sinto.

Eu não lembro direito quando meu casamento com Clover acabou. Eu lembro que simplesmente havia acabado e não tinha salvação. Dessa vez, porém, eu podia ver meu casamento acabando bem na minha frente e eu não sabia o que fazer para resgatar e eu.

If I didn't believe in you
Then here's where the travelogue ends
If I didn't believe in you
I couldn't have stood before all of our friends
And said, "This is the life I choose –
This is the thing I can't bear to lose
Trip us or trap us, but we refuse to fall."
That's what I thought we agreed on, Cathy
If I hadn't believed in you
I wouldn't have loved you at all



Capítulo doze

I CAN DO BETTER THAN THAT

You don't have to get a haircut
You don't have to change your shoes
You don't have to like Duran Duran
Just love me
You don't have to put the seat down
You don't have to watch the news
You don't have to learn to tango
You don't have to eat prosciutto
You don't have to change a thing
Just stay with me
I want you and you
And nothing but you
Miles and piles of you
Finally I'll have something worthwhile
To think of each morning
You and you
And nothing but you
No substitution will do
Nothing but fresh, undiluted and pure
Top of the line
And totally mine


Era isso e era oficial. Eu estou completamente apaixonada por esse cara. E acredite, eu não me entrego tão rápido. Tudo que eu tive antes, todos os poucos relacionamentos que tive, eu mantinha barreiras. Barreiras enormes. Eu me protegia demais.
Mas não dessa vez. Dessa vez eu me entreguei com tudo. Joguei-me de cabeça. E era tão fácil me entregar – ele me recebia de braços abertos, como se eu fosse um refresco num verão absurdo. Tudo que eu fazia ou pensava era importante para ele. O que eu sentia era importante. E isso me assustava. Homens não eram normalmente tão bons. Eu sei porque tenho um irmão, e tive ex-namorados. Homens não se importam tanto. Eles desistem fácilmente.
Porém, não era assim. Se nós estávamos distantes por causa de algum filme que ele fazia, ele dava um jeito de me fazer sentir especial. Mandava flores ou cartões. Ligava para mim quando chegava do trabalho. Contava-me cada detalhe do seu dia, de sua rotina, de seu trabalho. Do que gostava ou desgostava da fama. Ele me contava tudo e eu queria saber mais e mais. Estava incançável de amores por ele.
Pela primeira vez na vida alguém me entendia. Entendia minha paixão pela arte, por música. Ele podia passar horas me ouvindo ensaiar, sentado no sofá com um sorriso no rosto. Meu coração se enxia com o mais puro amor.
Eu era sua musa. Ele me dizia isso todo dia. “, você é minha musa. Se eu tenho uma cena de romance para gravar, é em você que estou pensando. Não sei como, , mas é verdade. Você me inspira”.
Nesse ponto eu estava morando com uma amiga no Brooklyn. Um apartamento pequeno e nada estiloso, de frente para um metrô barulhento. E tudo que eu queria era sair dali e morar com em tempo integral. Quando ele estava na cidade passava o tempo inteiro na minha casa – incomodando a querida amiga. Mas não era só pelo incômodo a ela que eu queria morar com ele.
Nós já ficávamos tão pouco tempo juntos. Entre um filme e outro, promover, ser pai e todo o resto, eu e ele tínhamos pouco tempo sozinhos. E nós tínhamos que ser muito cuidadosos.

I don't need any lifetime commitments
I don't need to get hitched tonight
I don't want you to throw up all your walls and defenses
I don't mean to put on any pressure
But I know when a thing is right
And I spend every day re-configuring my senses


Como ele estava no auge, jornais e revistas viviam tentando uma fotinha qualquer dele. Ele levando os filhos ao colégio? Aparecia no canto direito da capa de uma revista de celebridades. Ele tomando sorvete com a ex? Definitivamente uma matéria sensacionalista.
Mas nós eramos muito cuidadosos. Ninguém sabia que éramos um casal. Na verdade, nem nós dois sabíamos exatamente o que éramos. Exclusivos, definitivamente. Mas eu não havia mudado meu status para “namorando” e ele não havia divulgado uma carta contando que estávamos juntos.
Nós estávamos levando as coisas com calma.

E parecia tão certo. Eu e as crianças viramos amigos rapidamente. Eles eram adoráveis e educados, verdadeiros amores. Era impossível não me apaixonar por sabendo o quanto ele era incrível como pai. E claro, isso me fazia querer mais. Fazia-me imaginar nós dois, num futuro próximo, morando na Inglaterra com dois filhos nossos e os três dele – cinco crianças adoráveis correndo no jardim no único dia de sol do ano. Eu com a minha carreira estabelecida, alguns CDs gravados, um one woman show que havia virado DVD, uma peça esgotada com o meu nome entre os principais. Era isso que eu imaginava para o futuro.
Mas, para agora, eu imaginava nós dois. Um apartamento em Nova Iorque. As crianças vindo nos visitar. Eu em uma peça na 47th st. Nós dois sendo felizes juntos, alcançando nossos objetivos juntos. Era isso que eu queria.
E tudo que pensava era nele voltando para Nova Iorque, abraçando-me e curando a minha ansiedade doentia. Eu queria entrar em seus braços e esquecer de todo o mundo, só existir eu e ele. Era isso que mais queria.
Assim que ele voltou, apesar de, por voltar, na verdade, eu estivesse falando ficar na cidade por três dias para um ensaio fotográfico, eu e ele não conseguíamos nos desgrudar.
- Eu realmente estou feliz – Falei, olhando para ele, nós dois deitados na cama apertada – Isso tem me feito muito feliz.
- Digo o mesmo – Ele me beijou, seus olhos arredondados me fitando. Meu corpo estremeceu – Eu não estava esperando isso.
- O quê?
- Sentir isso. E me sentir vivo de novo.
- Acredite, nem eu – Nós dois rimos – Eu achei que meu destino fosse a total infelicidade e solidão.
- Olha só! Eu também – Rimos um pouco mais e ele me puxou mais para perto de si. Deitei em seu peitoral, sentindo seu coração batendo, meu próprio peito batendo mais forte.
Talvez eu estivesse infartando aos vinte e tantos anos. Mas eu realmente, totalmente acho, que estou apenas muito apaixonada por ele. E extremamente feliz. E a felicidade faz coisas estranhas comigo.

And it feels like my life led right to your side
And will keep me there from now on
Think about what you wanted
Think about what could be
Think about how I love you
Say you'll move in with me
Think of what's great about me and you
Think of the bullshit we've both been through
Think of what's past
Because we can do -
Better



Capítulo treze

Nobody needs to know
Hey, kid– good morning–
You look like an angel
I don't remember when we fell asleep
We should get up, kid–
Cathy is waiting…

Look at us, lying here
Dreaming, pretending
I made a promise and I took a vow
I wrote a story
And we changed the ending


Meus olhos não saíam da cama. Em certa incredulidade, um misto de pavor, de pânico, de medo e todos os sentimentos do mundo. Meus cabelos podiam cair a qualquer minuto.
Eu tinha feito aquilo. Eu tinha causado aquilo e era minha responsabilidade. Nunca, nem em um bilhão de anos, eu podia pensar que estaria ali. Olhando para aquela cama. Tentando conter o choro. Tentando entender como eu havia feito aquilo. Culpando a mim mesma e me odiando. Tentando prever a reação de .
Mas eu sabia que ela não me perdoaria. Seu coração era enorme e ela me amava tanto – e Deus, eu a amava mais do que podia suportar. O peso do que sentia por ela caía em mim agora, enquanto eu segurava o choro para não acordar ninguém.
Porém, apesar de amá-la intensamente, eu sabia que nosso casamento não suportaria isso. Nós mal estavamos segurando as barras. As brigas tinham dimunuído depois que nos distanciamos. Ela estava tão otimista que nós finalmente ficaríamos bem. Que nosso futuro seria bom. Toda vez que nos falávamos, ela parecia tão otimista. Tão encantada. Como a que conheci anos atrás, a por quem eu havia me apaixonado.
E então todo o universo caiu.
Foi uma ligação. Eu estava no estúdio quando uma mulher me ligou. Eu nem sabia como ela havia conseguido meu celular, mas a coisa é que eu havia dado o número para ela. E eu nem me lembrava disso.
Ela queria me encontrar. Pessoalmente. Ela disse que era importante e que precisava me encontrar o mais rápido possivel enquanto eu estava na cidade. Era estranho, mas eu concordei. Um jantar. Afinal, não havia nada de errado sair para jantar com uma mulher.
Claro que não contei para . Eu sabia que ela ficaria chateada, mas esqueceria rapidamente. Não nos afetaria.
Mas então cheguei ao jantar e foi ai que tudo virou de cabeça para baixo e eu soube, de uma vez por todas, que era o fim.

Hold on, facts are facts –
Just relax, lay low
All right, the panic recedes:
Nobody needs to know

We build a treehouse
I keep it from shaking –
Little more glue ev'ry time that it breaks
Perfectly balanced
And then I start making
Conscious, deliberate mistakes


Eu já mal lembrava das feições dela. Não lembrava dos seus cabelos escuros e olhos verdes. Não lembrava da cicatriz em forma de estrela que ela tinha. Eu não lembrava que ela existia. E ela não se importava com isso. Ela parecia “ok” com o fato que eu a havia apagado de minha mente e de minha vida.
Nunca a procurei nesses anos que passaram. Ela também não me procurou e assim seguimos com nossas vidas totalmente separadas, apesar de interligadas.
O nome dela era Renee. Ela tinha quase dois anos. Eu podia negar e fugir, como fazia com muita coisa na minha vida. Mas eu não podia fugir dela, de seus olhos grandes e seus cabelos escuros. De seu queixo que lembrava o meu. Eu não podia fugir da minha filha.
Minha filha. Eu tinha uma filha. Duas, no caso. Mas eu tinha uma nova filha de quem eu nem sabia a existência. A culpa me consumia – eu não fiz parte da vida dela, de seus primeiros anos. Ela não sabia quem eu era. Mas ela me recebeu de braços abertos. Chamou-me de pai. Amou-me.
Ela era minha. Eu podia pedir testes e tudo mais, mas não precisava. Só de olhar para Renee eu sabia que ela era minha filha. Ela parecia comigo e com meus filhos com Clover. Ela tinha aquele sorriso com dentes pequenos e falava de forma desengonçada, cantando pela casa enquanto nos conhecíamos. E então ela dormiu, sua pequena boquinha aberta, seus olhinhos fechados, agarrada a um boneco. Renee era minha filha e eu simplesmente sabia disso na minha alma.
a amaria, como ama meus três outros filhos. Ela ama crianças. Ela adoraria Renee como se fosse sua. Porém, aí vinha o grande problema. Renee não era dela. Era minha, sozinho. De uma vez só, dois dias antes de nos casarmos.
Mas como ela poderia acreditar? Eu não acreditaria se fosse ao contrário. Então eu não podia julgar ninguém além de mim mesmo.
A mãe de Renee, Sherie, me explicou que não quis contar quando soube porque eu tinha acabado de me casar e isso complicaria as coisas – como se agora as coisas não fossem ficar supercomplicadas. Mas eu não a culpava, e também nem podia imaginar o que ela passou sozinha. Tudo aquilo era uma bagunça que nem ela nem Renee mereciam ter passado sozinhas. E a culpa era toda minha.
Se eu tivesse sido menos impulsivo, bebido um pouco menos, eu estaria numa situação bem melhor. Mas Renee não existiria. E ela era especial demais para não existir.
I grip and she grips
And faster we're sliding
Sliding and spilling, and what can I do?
Come back to bed, kid –
Take me inside you –
I promise I won't lie to you


Eu tinha que ser adulto e tomar responsabilidade por meus atos. Apesar de saber que aquilo acabaria comigo, eu precisava. Eu precisava contar para e agir da melhor forma possível. Torcer, orar ou qualquer coisa para que ela me perdoasse. Que ela aceitasse tudo.
Mas não tinha coragem. Eu não tinha coragem de chegar perto dela e falar isso, principalmente no aniversário dela. Eu não conseguiria, não agora. Eu só precisava de mais tempo.
Quando ela voltasse para Nova Iorque, quando voltássemos para casa. Era perfeito. Eu teria tempo para pensar num discurso, de me preparar. Ninguém além de Sherie e eu sabíamos. Era o nosso segredo.
E nós iríamos manter assim até que eu conseguisse contar a . Fizemos um acordo e tudo ficaria bem. Tudo ia ficar bem.
Então me despedi de Renee, prometendo voltar o mais rápido possivel. Prometi trazer presentes também. Assim que saí da casa de Sherie, liguei para Clover. Contei tudo, chorei de soluçar no meio do set. E tudo que ela pode dizer é:
- Eu mandei você ir com calma e manter seu pinto dentro da calça pelo menos uma vez na vida.
E ela estava completamente certa, como sempre.

I won't let you go
All right – the panic recedes;
All right – everyone bleeds;
All right – I get what I need
And nobody needs
To know
Nobody needs to know…
And since I have to be in love with someone
Since I need to be in love with someone
Maybe I could be in love with someone
Like you…




Capítulo quatorze

GOODBYE UNTIL TOMORROW

Don't kiss me goodbye again
Leave this night clean and quiet
You want the last word
You want me to laugh
But leave it for now

All you can say
All you can feel
Was wrapped up inside that one perfect kiss
Leave it at that:
I'll watch you turn the corner and go...


Eu fechei a porta e tudo que eu pude fazer foi sorrir. Sorrir muito, tanto que minhas bochechas começaram a arder. Corri para a janela e fiquei observando um do lado de fora, com um sorriso nos lábios, as mãos no bolso. Eu apenas podia sorrir também, enquanto ele começava a andar até sumir de minha visão.
Em toda a minha vida, eu nunca tive um primeiro encontro tão bom. Nós fomos a um restaurante yuppie em Bushwick. Ele veio me buscar em casa trazendo apenas uma rosa, porque segundo ele, seria muito difícil carregar flores pelo caminho todo.
Quando ele chegou para me buscar, eu me tremia toda. Parecia que nunca tinha visto um homem na vida. Mas bem, eu nunca tinha saído com um ator de Hollywood, então, claro, eu estava nervosa.
Mas ele estava lá, sorrindo, com uma flor.
- Você está... absurdamente linda hoje – Ele disse, meio tímido, enquanto caminhávamos – Não que você não seja linda, é que...
- Fala sério. Ninguém fica linda com um suéter daqueles – Brinquei e ele riu.
- Ah, você fica.
- Ok, eu vou acreditar – Rimos mais um pouco até chegarmos ao restaurante yuppie. Era moderno, com garçons elegantes e um cardápio bem fora do meu orçamento. Sentamos, ele de frente para mim.
- Eu acho que me sentiria mais confortável numa food truck de cachorro quente – Ele disse, me olhando de canto. Eu sorri.
- Eu achei que aqui fosse... sabe, no seu nível.
- Meu nível? – Ele riu – Querida, o que é nível?
Então largamos nossa mesa depois de pegarmos uma garrafa de champanhe, que fomos bebendo de dentro de um saco marrom por todo o caminho, até um food truck de cachorro quente.
Sentamos na bancada, ele logo me passou o champanhe e rimos daquilo tudo.
- Então, o que a da Irlanda tem feito nesses doze dias desde que nós conhecemos?
- Você andou contando?
- Eu? Imagina! Eu sou ator, não contabilista – Ele brincou mais uma vez – Tá, eu andei contando. Já tinha até desistido.
- Pobrezinho, desculpe – Falei – Eu estava ocupada – Era mentira, mais ou menos. Eu estava ensaiando e tudo mais, mas também estava morrendo de medo de ligar.
- Ah é? Algum projeto novo? – Engasguei no champanhe.
-Sim! Claro. Um show aqui em Bushwick. Vai ser ótimo. Você devia vir.
- Eu devia mesmo.
Surtei por dentro porque ele queria me ver de novo e meu Deus eu não achei que isso fosse acontecer. Achei que seria apenas mais um caso de uma noite só. Eu não esperava que talvez ele quissesse me ver. Isso me deixou meio louca.
I stand on a precipice
I struggle to keep my balance
I open myself
I open myself one stitch at a time
Finally yes!
Finally now!
Finally something takes me away
Finally free!
Finally he can cut through these strings
And open my wings!


Nosso primeiro encontro foi tão confortável. Parecia que nos conhecíamos há tanto tempo. Não havia aquele silêncio constrangedor ou qualquer coisa assim. Havia apenas risadas e um clima tão delicioso.
- Eu acho que a gente devia sair mais vezes – Ele falou, assim que saímos do food truck – As crianças vêm essa semana, e depois eu começo a filmar na Inglaterra. Mas a gente arranja um tempo, se você quiser.
- Pode ser. Eu prometo não usar saltos dessa vez – Disse, dando de ombros, como se eu não estivesse completamente surtada.
- Ou eu posso usar os saltos da próxima vez. Eu não me importo – Uma risada alta escapou de mim e logo estava gargalhando também. Foi rápido e logo estávamos à porta da minha casa.
Ficamos parados, um de frente para o outro. Os dois sorrindo. Minha mente estava em meio a bolhas de champanhe, então, quando percebi, já o estava beijando.
A melhor decisão da minha vida, posso garantir.
Parecia certo. Seus lábios eram macios, eram suaves contra os meus. Fazia tanto sentido e parecia que aquele beijo era a melhor coisa que já havia acontecido na minha vida.
Eu me sentia nervosa, ansiosa e ao mesmo tempo me sentia flutuando de alegria. Borboletas no estômago? Ah, elas estavam em festa.
- Tchau. Até amanhã – Eu disse, cheia de coragem, tomada por uma força extra corpórea que me fez querer voar.
- Amanhã?
- Ou até a próxima vez que você me ligar.
- Eu nem tenho seu número!
- Mas sabe onde eu moro.
Então eu fechei a porta, rindo, maravilhada. Eu nunca estive tão feliz na minha vida.
Goodbye until I'm done thanking God
For I have been waiting!
I have been waiting for you!
Just close the gate;
I'll stand and wait
Goodbye




Capítulo quinze

I Could Never Rescue You
It's not about another compromise
I'm not the only one who's hurting here
I don't know what the Hell is left to do
You never saw how far the crack had opened
You never knew I had run out of rope and
I could never rescue you
All you ever wanted
But I could never rescue you
No matter how I tried
All I could do was love you hard
And let you go


Eu passei o dia inteiro no avião. Voltando para casa, voltando para nossa vida. Mesmo sabendo que eu tinha muitas chances de receber um enorme tapa na cara extremamente merecido, eu ainda tinha esperanças.
Claro, as esperanças acabaram quando sai do avião. Repórteres me perguntavam sobre Renee e logo vi minha cara junto a Renee em capas de jornais e revistas. Alguém tinha espalhado a notícia e eu estava completamente fodido.
Não importava quem era. Quem tinha feito isso. O que importava é que eu estava chegando tarde demais para contar para pessoalmente. Ela ia saber pela mídia e isso destruiria tudo. Toda a confiança que eu lutei tanto para atingir ia por água abaixo, assim como nossos últimos anos juntos.
Como um flash em minha mente, eu via tudo. Desde o dia que a vi de suéter estranho até seu aniversário, quando eu a deixei sozinha. Todos os meus erros, todas as minhas falhas. Eu podia ter evitado tudo isso, mas eu não soube como. Eu deixei nosso casamento deslizar pelas minhas próprias mãos. E doía demais.
Quando me separei de Clover, eu jurei que não deixaria minhas fraquezas tirarem o melhor de mim. Mas elas tinham tirado e mais uma vez eu havia jogado fora e perdido única coisa que realmente importava para mim.
Eu ainda lembro do olhar desolado de Clover quando nos separamos. Meu coração já estava partido adiantadamente. Eu não imaginava o quando estava sofrendo, mas apenas essa ideia me deixava enjoado de dor.
Então eu torci. Torci o caminho inteiro para chegar em casa e ainda estar lá. Com raiva, furiosa, mas lá. Porém ela não estava. O jornal com a minha cara estava. Ainda fechado. Ela não se deu o trabalho de ler.
- ? – A chamei, torcendo com tudo que tinha para que ela ainda estivesse em casa – Babe, a gente pode resolver isso, não é o que você está pensando…
Mas não tinha ninguém em casa além de mim e dos meus próprios demônios. Fui até o quarto e vi os armários revirados. Ela tinha ido embora.

All I could do was love you
God, I loved you so
So we could fight
Or we could wait
Or I could go...


Eu gritei. Quebrei uma cadeira, taquei meu celular no chão e o quebrei todo. Eu não conseguia raciocinar, então eu berrava. Até me dar conta das coisas ao lado do jornal.
Primeiro, havia um roteiro. Enorme, pesado. Por algum motivo eu comecei a ler, minhas mãos trêmulas. Era a minha vida ali. A peça de - a peça que eu não quis ver por que não ia aguentar ficar muito tempo olhando para ela sem desmoronar, era a nossa vida. Eu estava vivendo aquelas palavras, eu estava dentro daquele conto. Minha mente girava. Parecia que estava escrito que e eu não poderíamos ficar juntos. Que eu nunca conseguiria resgatar nós dois. Que estavamos fadados à separação antes mesmo de nos conhecermos.
E então eu olhei para os lados, vendo um bolo, taças de champanhe, um banner. Me aproximei para ler e tudo que eu pude fazer foi cair aos prantos, desesperado.
Eu havia arruinado tudo. Como um garoto medroso, eu havia arruinado tudo. Eu havia matado minha família com as próprias mãos. Era isso que ela queria me contar. E eu, com medo, fugi.
Tentei recuperar meu celular – eu precisava falar com . Era maior que nós dois. Se era verdade, se ela realmente estava grávida, eu precisava dar um jeito nas coisas mais do que nunca. O celular estava morto então corri para meu telefone fixo. Antes, por algum motivo, acabei ouvindo uma mensagem de voz.
- , querida, como vai? Chegou bem de Ohio? Estou ligando com ótimas nóticias! A peça foi escolhida, querida! Conseguimos um teatro na 47 para vinte semanas na próxima temporada e se der certo, podem prolongar! Você acredita? Ligue para mim, querida! Temos que comemorar!

Joguei-me no sofa, respirando fundo. Um sorriso brotou no meu rosto, enquanto eu tentava assimilar tudo. Ela não precisava de mim, ela nunca precisou. Quem precisava dela era eu e sempre foi assim.
Talvez tudo realmente estivesse acabado entre nós. Talvez ela nunca mais conseguisse olhar na minha cara. Mas ela tinha conseguido. E ela merecia. Eu não merecia fazer parte da vida dela, e isso me doía.
Levantei-me, secando as lágrimas que teimavam em cair de meus olhos. Dei uma boa olhada naquele apartamento, sabendo que eu não voltaria mais ali. E, apesar de nada estar bem, eu tinha uma ligeira impressão que as coisas dariam certo. Pelo menos para ela.
Goodbye






Fim.



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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