Finalizada.

Ignite the Love

É tarde e todos no prédio dormem tranquilos em suas camas quentinhas. As crianças agarradas a seus bichos de pelúcia molengas e puídos. Os adultos, aqueles agraciados com a sorte de encontrarem um amor que descanse ao seu lado em noites frias, têm seus corpos aquecidos por braços e pernas. As cabeças resplandecem em seus travesseiros, aguardando a oportunidade de um novo dia.
No oitavo andar, no único apartamento com as luzes acessas em um estranho misto de luzes brancas, azuis e roxas, uma sombra feminina agita a cortina fechada.
Ela ajeita os cabelos bem feitos em cachos perfeitos nas pontas e termina a maquiagem que é pesada mesmo que a intenção seja mostrar uma pele luminosa, saudável. Diante dela, as luzes fortes e rebatedores evidenciam a falha mínima no batom vermelho. Insatisfeita também com o teste de luz, a mulher devolve a câmera para o tripé e corre para retocar o batom rubro nos lábios, usando a câmera do celular como espelho. Ela não tem tempo de voltar até o banheiro para usar o espelho de lá.
A mulher esfrega um lábio no outro, espalhando o batom. Ajeita o cabelo de novo, em pura ansiedade. Ela está cansada, porém, se mantém firme na expectativa de terminar a última tarefa do dia em poucas horas e finalmente estar livre para fazer o que quiser. E só há uma coisa pairando sua mente exausta: uma boa madrugada de sono.
Ele está atrasado.
A mulher encara de volta a câmera bem posicionada no tripé, se certificando de que tudo esteja pronto e que a única coisa a separando de seu descanso, seja o atraso do namorado para a gravação.
Ela se distrai com o pensamento longínquo de quando o objeto inanimado e poderoso a intimidava. Agora, depois de seis anos na carreira de criadora de conteúdo no Youtube, a câmera se parecia mais como uma amiga.
— Desculpe, estava ocupado com... — Ele se movimenta com cuidado por trás do equipamento montado no pequeno cenário na ampla sala. Se senta no banco ao lado do dela e percebe seu olhar julgador sobre ele.
— Tanto atraso e não teve tempo de bolar uma desculpa? O que foi, perdeu a hora? — Diz ácida, a sobrancelha erguida em desafio. É claro que ele não se atrasou de propósito, mas a essa altura, tudo é um ataque direto.
— Estava procurando esse moletom... — diz sem jeito, ajeitando melhor os ombros da peça e esticando a estampa de seu super-herói preferido e assunto do vídeo que estão prestes a gravar.
Ela não diz, mas acha impressionante — no pior sentido da palavra — que alguém possa se atrasar trabalhando em casa por ter dificuldades em escolher uma roupa apropriada, já que seu look é pontualmente o mesmo desde sempre: short jeans e moletom.
— Não importa. Vamos começar? — Ela é prática, ágil. A rotina encrostada no fundo de sua mente a faz caminhar, respirar, comer e dormir em horários específicos. Ela só consegue pensar que, por causa dele, sua rotina de skin care perdeu dois passos importantes. Logo agora, que todo o estresse está fazendo as espinhas voltarem ao seu queixo para ficar.
— Ok.
Ela passa a pontinha do dedo indicador embaixo de cada olho, se certificando de que a maquiagem não se acumule ali devido ao calor produzido por tantas luzes.
— Maquiagem bonita — diz o rapaz, tentando puxar assunto. — Faz tempo que não te vejo sem maquiagem, mas mesmo assim, continua bonita. — Ele repassa a frase várias vezes em sua mente, com dúvidas sobre ter se expressado direito. Ele queria ter dito que sente falta de vê-la sem que seja somente para gravarem juntos. Queria dizer muito mais, mas, os lábios trêmulos selam quando ele nota os olhos impacientes da namorada viajarem dele para a câmera sugestivamente. — Em três, dois...
Mesmo depois da contagem, eles têm um tempo para se ajeitarem no cenário e se prepararem para a introdução de mais um vídeo.
Com um passe de mágica, os personagens são incorporados e tudo parece suspenso no ar por um longo instante.
— Oi, pessoal. Eu sou a null.
— E eu sou o null. Esse é o No Escurinho do Cinema. Sejam muito bem-vindos. — A energia é mudada instantaneamente. Há química, cumplicidade, luzes e um trabalho a ser feito.
— Como vocês já sabem, toda terça-feira nós reagimos a algo que rolou durante a semana no mundo do cinema e enquanto nós estávamos fazendo este roteiro, nós nos deparamos com algo simplesmente maravilhoso, então decidimos parar tudo para falarmos sobre:
— “Homem—Aranha: Através do Aranhaverso”! — null completa, os dois se olham animados. — Nós vamos reagir ao trailer agora, com vocês. Eu estou animado, null. Estou esperando por esse trailer desde que soube da produção dessa continuação. É uma animação incrível! — null escapa do roteiro. null não sabe reagir quando ele fala com ela fora do script.
— Eu... também! Aperta o play aí... — O casal depende da edição para inserir a miniatura do vídeo que eles assistem em um computador posicionado exatamente para a gravação do vídeo daquela madrugada. A câmera capta as reações reais de null, null já assistiu ao trailer mais cedo.
— Eu estou arrepiado. Não dá pra ver por que estou de moletom, mas aqui dentro... Está tudo arrepiado — diz null, vendo as primeiras imagens do trailer dublado. No cenário atrás deles, grande parte das decorações em miniatura são do super-herói mais carismático da Marvel. null é mesmo fã dos quadrinhos, das animações, dos filmes. Sua reação é genuína ao ver o encontro de mais de uma versão de seu super-herói preferido em uma só produção. Seus olhos brilham, seu sorriso é quase infantil e sua empolgação é definitivamente contagiante.
Como um adulto de quase trinta anos, recluso em seu apartamento por tempo demais com uma namorada que mal vê e dois gatos de personalidades complexas que o odeiam, null reage com um palavrão atrás do outro, o que foge do roteiro amigável para a família que null havia preparado sozinha naquela tarde.
— É claro que estamos assistindo sem som, porque né... Monetização. — Ela olha diretamente para null, que discretamente assente em entendimento. Ele está empolgado, ela vê. Mas isso não significa ter de regravar algo que pode ser muito bem aproveitado só porque ele não consegue se controlar. — Mas a dublagem está fantástica, como sempre, nossos amigos da Delart Rio arrasam! — null risca mentalmente os DOs e os DON’Ts da publicidade sutil que estão fazendo para a estreia do filme.
Apesar do cansaço, ela fica aliviada por conseguirem gravar quase tudo de uma só vez, imaginando as partes que cortaria junto ao editor e o que poderia ser ou não um meme na versão final do vídeo. No fundo, ela não queria podar as reações de null.
null quis acreditar que era somente uma estratégia, que usar a imagem dele animado como uma criança faria com que o engajamento fosse maior. Ela se certificou de posar de forma quase que caricata, olhando para ele vez ou outra como quem realmente está se deleitando com a fofura genuína do namorado. Ela não dirá a ninguém, mas teve momentos em que não estava posando, nem encenando nada. Mas relembrando momentos de anos antes, quando o namoro não era um negócio para os dois e o que mais importava era que eles tinham um ao outro. Quando esse tipo de felicidade cotidiana era algo que somente os dois dividiam entre si. Agora tudo o que compartilham é publicamente discutido, pensado em níveis onde a espontaneidade não chega.
Lembrando disso, null se ajeita melhor no banco, adota uma postura mais profissional e dá continuidade ao trabalho.

— Certo, eu envio esse e os outros vídeos da semana pro Rômulo amanhã de manhã. Quer pedir algo para comer? — Ela pergunta, atarefada.
null está sentada sobre os tornozelos na cadeira da mesa de jantar. Ela arranca os cílios postiços e null evita olhar diretamente para a cena. Ele sente um incômodo nos próprios olhos ao vê-la puxar a pálpebra e o homem não consegue conceber por que em sã consciência alguém colaria qualquer coisa nos cílios.
— São três da manhã, null — diz receoso, voltando a olhar para ela na esperança de poder vê-la sem maquiagem. Em algum ponto seu pensamento se evolui e ele se anima com a possibilidade de vê-la sem roupa.
— Droga! Estou com fome. Temos algo pra comer? — Ela se levanta da cadeira retirando a camiseta de um anime que ela nem chegou a assistir, mas achou o personagem bonitinho. Ela joga a peça sobre o sofá e caminha só com o short curto para a bagunça que é a cozinha.
— Temos cereais... Frutas. — Ele hesita, cansado da rejeição. Mas seu pau lateja com a ideia de poder sequer abraçá-la sem que ela esteja vestindo nada na parte de cima. Ele a segue.
— Eu quero algo gorduroso... temos pão? Queijo? — Ela abre a geladeira e a luz amarelada deixa a pele nua de sua barriga tão atraente para ele.
null tem mil e quarenta e quatro preocupações na cabeça, segundo a conta que ela fez em mente enquanto buscava por combustível. “Não tenho tempo pra transar” ela pensa, tentando a todo custo ignorar o olhar desejoso do namorado plantado na porta da cozinha.
— Sinto que estou esquecendo alguma coisa. Nós dissemos a data de estreia do filme? — null se vira para o namorado. Ela equilibra nas mãos um pote quase vazio de maionese, um pacote de queijo que pode ou não estar vencido e busca com os olhos pelo recipiente de pães que a mãe de null trouxe para o apartamento em uma bela tarde de quarta-feira.
— Eu não consigo prestar atenção em nada do que você diz quando seus peitos estão de fora — diz o rapaz, olhando de um para o outro com saudade fisgando em seu peito. E em suas bolas.
— Que coisa horrível de se dizer. São só peitos! Eu não fico te secando quando está sem camiseta. — null se irrita e despeja seu lanche da madrugada ainda por fazer sobre o balcão. Ela cobre os seios com as mãos e ele sorri enviesado.
— Agora você só está me provocando gratuitamente — diz malicioso e ela rola os olhos. — Desde quando banalizamos a nudez nesta casa?
— Não é banalização. Está calor e eu começo a suar só de olhar para você com esse moletom grosso. — Ele se ilumina em um sorriso infantil, mas null está cansada e são três da manhã. — Não seja idiota, null. Até parece que você não ficou a tarde inteira batendo uma no escritório. — Acusa magoada, mas está aliviada por não soar triste.
— Isso não é verdade. — Ele se defende, ultrajado e constrangido com a ideia de ela tê-lo espiado não durante a tarde, mas pela manhã, quando seu corpo e sua mente se unem contra ele e a saudade é demais para suportar.
— Eu não sou um objeto. Para de me olhar assim — diz séria e ele suspira, desistente.
— Se eu não posso olhar para minha própria namorada, vou olhar pra quem? — null pergunta irritado, passando por ela em busca de distração.
— Por que você precisa olhar pra alguém? — Ela devolve, sarcástica.
— Porque é só o que eu posso fazer, null. Te olhar de longe. Muito longe. — null desabafa chateado e desiste de pegar qualquer coisa que tenha passado por sua cabeça no armário. Ele fecha a porta com força bruta, desnecessária. null se assusta e antes de sair da cozinha, ele se desculpa com a voz baixa.
Ao passar pela sala, ele pega uma das almofadas coloridas do sofá e puxa a manta coral do encosto do estofado. Ele entra no escritório e decide passar mais uma de suas noites lá.
Mais tarde, depois de comer metade de um queijo quente e beber um energético, null para receosa na frente da porta do escritório. É tarde e agora que o sangue esfriou nas veias pelo banho relaxante, null sente frio e está disposta a esticar a noite um pouco mais em troca de calor humano. Em troca do calor de null.
Mas ao abrir uma fresta na porta, afim de surpreendê-lo sem assustá-lo, quem se surpreende é ela.
Na tela grande do celular, uma conversa de respostas rápidas e emojis carinhosos faz com que seu estômago embrulhe e assim como abriu, ela fecha a porta sorrateiramente.
Silêncio. O mais profundo, gélido e cortante silêncio.
Na manhã seguinte, null acorda de um sono pesado com o despertador do celular. De repente, ela se enoja com a lembrança da noite passada e toda tela de celular parece culpada por sua falta de ânimo. Mas ao olhar para o cronograma colado na parede ao lado, o lado vazio do colchão não importa. Ela tem coisas a fazer.
Após lavar o rosto e aplicar uma fina camada de máscara de cílios e protetor solar, null vai até a cozinha e separa a xícara cor-de-rosa com a frase motivadora clichê que ela odeia, mas usa mesmo assim. É presente de um patrocinador. Faz café e bebe tudo quase na mesma hora. A sensação da garganta queimando não parece nada quando se está cuspindo fogo.
Ela prende os cabelos em um rabo de cavalo, veste um top de academia e saca o celular do bolso da calça de moletom.
— Bom dia, pessoal. Bora correr? — null revê o vídeo, corta na edição a parte que mostra um pequeno acúmulo de copos na pia e decide refazer o vídeo. — Bom dia, pessoal. Boa correr? — Dessa vez, ela sorri mais no fim do vídeo. Lembrando dos emojis na conversa, null solta a xícara já vazia, o celular e ajeita os seios no top, deixando-os mais vistosos no decote. Satisfeita, ela refaz o vídeo por uma terceira vez.
Contente com o que vê na tela, ela edita o vídeo e posta no Instagram como primeira tarefa de trabalho do dia. Depois, ela tira o top e o substitui por uma camiseta mais velha e confortável e a calça de moletom pelo short da noite passada. null não vai correr, longe disso.
Sua agenda inclui reuniões, roteiros a serem feitos, pesquisas para esses roteiros. Se vendo ainda irritada com a memória da conversa e nem um pouco satisfeita com sua pequena vingança, null se afunda em trabalho.
O canal de null e null é focado em avaliações de filmes e foi criado na intenção de compartilhar a paixão dos dois por cinema. Eles são famosos por suas reações impagáveis de trailers e estreias de filmes e séries, além do modo cômico e leve como pensam sobre o assunto.
null é o ponto forte do canal, pelo menos diante das câmeras e no manuseio delas. Seu conhecimento em cinema vai além de um espectador apaixonado. Ele é formado em fotografia e tem uma visão mais técnica da coisa, enquanto null traz seu conhecimento sobre produção e curiosidades sobres os atores.
A química dentro dos focos das câmeras é inegável, invejado pelos inscritos fiéis que nem imaginam que, na maioria dos dias, mesmo morando juntos, seu casal ideal só se encontra para gravar e simular o que um dia já foi genuíno.
— Bom dia — diz null, rouco pelo sono. Os cabelos bagunçados e a cara amassada costumavam ser a visão preferida de null pela manhã. Agora, ela os ignora deliberadamente. — Por que estão me marcando nos seus stories? — Pergunta confuso, ainda sem perceber que está na zona gelada. — Nossa! — Ela ouve a própria voz sair do celular dele. null odeia o jeito como ele olha para a tela agora. Ele está vendo seu vídeo, mas será que olha desse mesmo jeito para as fotos de quem ele estava conversando ontem? — Estão dizendo que tenho sorte... — Ele ri nasalado, se jogando no sofá, aos seus pés. — Se eles soubessem... — null recolhe os pés, apoiando o notebook sobre as coxas. — null... — null chama, notando que há algo errado.
Não demora até ele perceber que null usa a expressão de quem não está falando com ele: sobrancelhas tensas e arqueadas, mordida intensa no interior da bochecha, olhos estreitos e dedos batucando o teclado macio com força desnecessária.
Ele suspira pesado e desvia o olhar, reparando no gato cinza que o encara como o pequeno julgador peludo que ele é.
— Então, ela não está falando comigo de novo, Boris? — O gato lambe a pata e o ignora também. null balança a cabeça e se levanta do sofá, se recompondo.
Ele tenta se manter no ambiente, buscando se misturar na nevasca que tomou sua sala de estar. É quando Minguante, o segundo gato esnobe do casal, sobe no braço do sofá. O gato fica encarando profundamente com seus olhos amarelados curiosos, até que o homem se sinta incomodado. null sente a culpa pesar, tendo de recorrer ao seu abrigo.
Ele não resiste ao clima siberiano.
null sabe o que fez de errado, só não sabe como null e os gatos sabem também.
Entediado, ele pega o celular do bolso e abre a conversa com uma antiga colega de faculdade. Rola a conversa e a relê, sentindo culpa por ter dito coisas que deveriam terem sido ditas à sua namorada, não para sua amiga, que mora no exterior com o marido e não pode ajudá-lo com nada.
O rapaz relê uma mensagem de semanas atrás, reparando que o sentimento só ficou maior desde então. null se sente estagnado na vida. Sem desafios, sem uma nova perspectiva.
Não que não goste de fazer o trabalho na internet, é uma das ideias mais malucas na qual embarcou e ele é grato pelas experiências que teve por causa desse trabalho. Ele viu tudo como uma grande aventura desde o início e sente que, de alguma forma, algo se perdeu entre a diversão e a vida adulta.
null coça a barba por fazer, sentindo dentro de si uma agonia emergente que só cresce. Um desespero latente com a sensação que engatinha, mas se aproxima e está a cada dia mais perto. O homem se levanta, chacoalha os braços, olha em volta e sente o corpo enérgico.
Ele faz algumas flexões, tentando se desafiar e fazendo mais do que fizera no dia anterior. Ao terminar, ele nem descansa e encara o teto, fazendo abdominais até que não aguente e seu corpo desabe no chão macio de carpete escuro.
Dolorido e ainda entediado, null ouve a voz de null. Soa brincalhona, amável. Como era com ele antes de tudo.
Com o passar dos anos, as mágoas que um dia foram passageiras e muito bem escondidas, encontraram seu caminho para a superfície na epiderme de null. O homem teve de assistir enquanto as mudanças da vida iam partindo a namorada ao meio, reabrindo velhas cicatrizes. O que a mantinha inteira era o trabalho, os gatos e com alguma chance de adivinhar o que a mulher quer no momento, null.
null foi estreitando o espaço em seu mundo, mas ela continua aberta para Minguante e Boris. null se sente patético por desejar, só por um segundo, que fosse um gato de rua daqueles arrebentados pela maldade alheia. Talvez assim, null pudesse ter misericórdia dele e aconchegasse sua cabeça turbulenta entre seus seios em um carinho gostoso que só ela sabe fazer. Um capaz de espantar qualquer temor do peito, qualquer problema difícil de resolver da mente.
Frustrado, o rapaz se levanta do chão e sente o suor escorrer por seu peito. Ele hesita, mas se livra do moletom pesado que veste e sai do escritório afim de clareza para a mente.
null é organizado, nenhum maníaco por limpeza, afinal, não estaria ao lado de null se fosse. A mulher é um pequeno furacão, bagunçando tudo por onde passa. O único lugar que lhe é sagrado e deve ser mantido intacto é o cenário, fora isso, todo o apartamento está uma verdadeira zona de guerra.
Incomodado com o ambiente poluído, ele começa a organizar as coisas. Uma por uma.
null tenta, mas é distraída pela imagem do namorado andando de um lado para outro mostrando os braços fortes. Seus olhos são capturados pela figura suada de null, que ostenta um físico mais enxuto e é difícil não perceber as mudanças evidentes.
Ele caminha de um lado carregando roupas sujas, voltando com a vassoura e a pá e agindo rapidamente enquanto deixa a sala de estar com um aspecto mais convidativo. null não sabe se ele está apelando para o seu ponto fraco: proatividade. De todas as qualidades que um homem pode ter que o tornam atraente, para null, um homem saber o que precisa ser feito e simplesmente fazê-lo é extremamente sensual.
Ela tenta assistir a um documentário sobre a gravação de um de seus filmes preferidos, “Coraline e o Mundo Secreto”, de Henry Selick, para a pauta do vídeo sobre as melhores animações em stop motion. null não quer parecer parcial acerca de seus preferidos, mas se for citá-los, ela quer ser perfeita.
A distração intrigante se torna irritante quando os sons de pratos e talheres se batendo uns contra os outros na cozinha a tiram do sério e null se vê obrigada a se manifestar.
— Se você não quiser lavar a louça, não lave. Mas quebrar os pratos não vai diminuir a bagunça, só criar outra! — Diz irritada, urgente. Ela encara a meia bagunça na cozinha e imediatamente se arrepia em agonia.
— Não tem mais espaço! — Ele se defende, perdido com o escorredor entulhado com a louça lavada.
— Então... sei lá, seca a que você já lavou. Só para de fazer esse barulho, é irritante! — Ela cruza os braços, reparando só agora no avental preto que ele usa.
null nunca foi muito de ligar para músculos masculinos, mas ali, há poucos metros de distância, ela via mais um motivo para odiar tanto os moletons do namorado. Eles escondem o peito definido e o abdômen travado do rapaz. Além dos ombros e braços fortes, adornados por veias saltadas.
Ela não consegue evitar demorar os olhos por cada parte exposta do corpo do namorado, se arrependendo momentaneamente de não ter invadido o escritório na noite anterior e fazê-lo deslizar os dedos que digitavam as mensagens secretas por todo o seu corpo.
null tem vontade de retomar a conversa da noite passada. Tem vontade de acusar a namorada de estar quase babando, mas não o faz. Ele aprecia que ela o perceba finalmente e se sente bem ao ver que os exercícios lhe trouxeram algum resultado visível, enfim.
— É muito fácil só delegar e não fazer nada. Se eu soltar essa panela, tudo vai desmoronar. — O rapaz se desespera, tentando evitar que um copo caia de seu encaixe.
— O que seria de você sem mim, hein?! — null se desfaz da pose irritadiça e vai até ele com um pano seco. Ela pega o copo, um escorredor de macarrão e uma pequena porção de talheres para secar sobre a mesa, onde nada cairá no chão enlameado.
— Provavelmente alguém com menos louça para lavar. Por que você usa três colheres para fazer duas xícaras de café? — null volta a lavar a louça enquanto o escorredor vai esvaziando gradativamente com a ajuda dela.
— Porque eu nunca sei quanto de açúcar colocar. Então, eu acabo tendo que pegar outra para adoçar mais. — Dá de ombros. null sabe bem que esse é o comportamento de alguém que simplesmente odeia lavar a louça, mesmo que seja somente uma colher.
— Achei que você não comesse mais açúcar... — Ele brinca e a desestabiliza. null não é boa em receber críticas. Um dos aspectos mais complexos da personalidade da mulher é justamente viver sob uma autocritica constante. No início de sua carreira, foi difícil não responder cada um dos comentários maldosos com um longo texto tão maldoso quanto.
Em seu trabalho, sua filosofia é a de que todos erram e devem estar abertos a sempre aprender e melhorar como ser humano. Em sua vida pessoal, olhando nos olhos de quem a julga e sem saber bem como lidar com o constrangimento de sua já autocriticada hipocrisia, null perde a linha.
— E eu, achei que você tivesse namorada e não ficava de conversinha no celular! — null fala tudo de uma vez, se arrependendo logo depois.
A torneira aberta, a louça pingando no escorredor, uma bolha de detergente estoura na bucha amarela que null segura estático enquanto pisca para compreender a expressão assustada e surpresa da namorada.
— Que absur.... Eu nun... O quê?! — As reações de null se amontoam, fazendo sons estranhos saírem de sua garganta. Ele está encurralado.
— Pois é, meu querido. Estou sabendo das suas palhaçadas! Você fica enviando nudes para alguma vagabunda na internet, é isso?! Você não pensou em como isso afetaria o canal caso vazasse? — null assume uma postura superior, cruzando os braços e o encarando com queixo erguido e olhos coléricos. A mulher não admitiria, nem sob tortura, mas só pensou na possibilidade agora que precisava de uma boa distância da situação. null quer confrontar null como a parceira de trabalho competente que é, não como a namorada magoada com ele.
— Eu nunca faria nada para prejudicar o canal — diz o rapaz, na defensiva. Ele pode não se dedicar tanto quanto ela, mas o canal é importante para null também.
Ele reconhece que sem essa via de comunicação, não teria tido todas as oportunidades que teve nos últimos seis anos. Todas as pessoas legais que conheceu, lugares que pode visitar e cada experiência maluca e divertida na qual ele acabou se metendo por causa disso.
null ficaria feliz com essas lembranças, mas não sente que pode. Não quando null o encara como se pudesse arrancar sua cabeça com as próprias mãos.
— Certo, então, pelo menos, você tem sido discreto. — null bate uma palma solitária e barulhenta, nem um pouco satisfeita.
— Você pegou meu celular, por acaso? — Ele pergunta, desconfiado.
— Não me venha com o papinho furado de privacidade. Eu não precisei! — null se defende. Ela sabe que está sendo irracional, que essa não é a melhor aproximação para lidar com o assunto. Mas, agora que se dane.
— Caso você tivesse visto as conversas, veria que estou sim falando com alguém, é a Morgana. Lembra dela? — null se arrepende do conjunto de palavras que escolheu ao se encolher para se proteger dos cacos de vidro de um prato que null joga no chão com força. — Que porra! Qual é o seu problema?
— Você! Não acredito que está de conversinha com aquela piranha! — null se sente mal por ter soltado a mão de suas irmãs feministas duas vezes em um só dia. Mas não tão mal a ponto retirar os xingamentos endereçados à ruiva gostosa que arrastava montanhas por seu namorado na época da faculdade.
— Que absurdo, a Morgana é uma mulher muito bem casada. Sou amigo do marido dela! — Ele solta a esponja e fecha o registro da torneira. A presunção de null o ofende, magoa. Mas dentro dele algo se acende, pois, pelo menos, ela o notou.
— Então, você é tipo a marmitinha de casal deles? — Algo na voz de null faz o lado infantil de null rir. Não é a melhor resposta para o momento, pois, null o encara uma última vez com fogo saindo pelos ouvidos e narinas, o deixando sozinho na cozinha.

Quem ouve dos corredores pensa que no apartamento bem decorado, que exala cheiros cítricos e música ambiente mora um casal bem aperfeiçoado e bem-sucedido, um casal jovem e apaixonado vivendo um sonho. Do lado de dentro, a música só é usada para preencher os espaços silenciosos entre eles.
null ouve o alarme do celular e antes mesmo de esticar o braço para desligá-lo, ela sente o peso de Minguante sobre suas coxas.
— Eu sei. Está na hora — diz doce, com uma calma que somente a pequena bola de pelos pode proporcionar. No caminho até a cozinha, Boris se junta a eles e ela serve um sachê para cada um em seus devidos potinhos.
Com os gatos já se alimentando, null decide servir aos seus fãs o sagrado post da tarde, mostrando esse momento de amor da pequena família. null ajeita um resquício de bagunça sobre a mesa e saca o celular do bolso do short. Ela faz um vídeo curto, assistindo logo depois.
null ainda está magoada com a reação petulante do namorado quando ela o confrontou. Sem pensar, null apoia o celular sobre a mesa e arranca o próprio short do corpo, o jogando em qualquer lugar na sala. Movida somente pela raiva e a sede de irritar null tanto quanto estava irritada com ele, ela refaz o vídeo. Tudo parece casual e até inocente. Minguante, como sempre, deixa um restinho de seu sachê para mais tarde e como agradecimento, ele se joga aos pés de null, exibindo a barriga peluda para um carinho.
Ela captura o momento com a câmera do celular, editando e postando no Instagram logo depois.
O que null sente está longe de sequer se parecer com um alívio ou alguma mísera satisfação. Uma angústia desconhecida se instala em seu peito e a sensação de que algo esteja muito errado a deixa distraída, sem foco para as tarefas que ainda precisam ser feitas.
Não demora até null perceber a agitação de comentários em seu post. A parcela de fãs que se identificam com null por conta de seu amor pelos animais é voraz e engajam tudo o que ela posta sobre o assunto. Em contrapartida, null sente que esse é o conteúdo que ela mais gosta de produzir, por ser fácil como respirar.
Minguante e Boris são gatos resgatados, mas se comportam como se fossem treinados por anos profissionalmente. Minguante, o mais calmo e fotogênico dos dois felinos, solta o conhecido miado que mais se parece com um resmungo e null se abaixa, acariciando sua barriga.
Este é o ponto alto de seu dia, null sabe que isso é triste.
Os comentários mais enigmáticos e cheios de más intenções começam a aparecer também, fazendo com que null tenha sentimentos conflitantes sobre suas decisões mal pensadas.
Mas agora ela já fez, setecentas mil pessoas já foram alcançadas pela imagem sorrateira e vingativa, que deveria afetar somente uma pessoa.
No celular, ela abre as conversas e a primeira delas está fixada. A última mensagem não está lida e é a única notificação da qual null não tem a vontade eminente de se livrar.
“Se mudar de ideia, me liga”
null nunca mudou de ideia. Ela também nunca ligou.
Em momentos como esse, ela o culpa por não conseguir seguir adiante e enfrentar seus problemas como a adulta inteligente e destemida que se tornou.
Em momentos como esse, null se sente vazia e pequena. Um sentimento conhecido, antigo como o tempo, mas que ainda a deixa apavorada. E tudo por causa dele e de sua covardia.
null jurou que quebraria o ciclo e que viveria sua vida diferente. Só que a vida, às vezes, a vida te sacaneia e te faz viver a mesma situação várias vezes, só para ver como você se sai.
A memória dos emojis lhe embrulha o estômago. Olhar para null parado no final do corredor pisando em ovos também.
— Eu pedi... marmita. — Ele se constrange com a palavra. Não ri dessa vez. null bloqueia a tela do celular rapidamente, desviando os olhos dos do namorado. — Vai querer almoçar?
— Não estou com fome — diz monótona, sem vontade de falar com ele.
— Vou deixar para você no microondas. O Boris voltou a querer comer comida de humanos e... — null percebe a falta de interesse dela e para de falar. Ele olha para o celular e não sabe se avisa que vai buscar a comida na portaria e volta já ou se nem faz diferença.
null desce até a portaria e ao sair pelo elevador, veste um sorriso social para cumprimentar o porteiro na pequena guarita. Ele nunca sabe se tem alguém ali de fato, mas por via das dúvidas, é sempre bom acenar.
Ele sorri também para o entregador, que o reconhece e pede por uma foto. Como a pessoa sem limites que null é, ele abre o portão automático e salta para fora, posando ao lado do entregador.
— Valeu, irmão — diz o rapaz, cheio de sotaque. — Com todo o respeito, manda um beijo para a null. Ela ‘tá postando umas paradas sedentas hoje, só queria agradecer! — null muda de expressão de uma amigável para outra, completamente contrariada.
— O..bri..ga...do — diz pausadamente, chocado. null estreita os olhos para o entregador, que se afasta sorridente e satisfeito. O rapaz sobe na moto e buzina para null, que deixa o pensamento de avaliar mal o serviço do entregador marinar mais tempo do que o saudável em sua cabeça.
De volta ao elevador, ele equilibra o pacote com a comida em uma mão e na outra, ele vasculha o perfil da namorada no celular, buscando pelas postagens do dia.
Há pouco, ela postou um vídeo curto dos gatos comendo em seus potinhos personalizados, marcando a loja que os enviou o par com os nomes dos gatos cravejados de bolinhas coloridas no exato tom de seus olhos. Em seguida, um vídeo de continuação mostra Minguante sendo adoravelmente grudento com ela. No reflexo do espelho que aparece no vídeo, null sorri para o gato vestindo somente uma camiseta de tecido fino. A luz do abajur que vem de trás dela, faz com que a camiseta fique transparente, dando um vislumbre de suas curvas. Na pose despretensiosa, as pernas meio abertas chamam atenção para suas coxas e virilha, a calcinha preta de renda faz null prender a respiração.
— Filha da puta! — Ele xinga baixo, com o vídeo pausado nos últimos dois segundos.
Com alguns andares para subir antes de encará-la nos olhos, null faz a varredura completa das postagens da namorada. Notando que null agarrou toda e cada oportunidade de mostrar um pouco mais do que o de costume. Um decote sutil aqui, um ângulo mais presunçoso acolá.
null não é bobo. Ele sabe bem que tem ao seu lado uma mulher muito interessante, inteligente, batalhadora e gata para caralho. No fundo, ele sente um certo orgulho quando passam juntos em algum lugar e null recebe olhares bastante atenciosos.
Quanto as redes sociais, null entende que ela tem uma maneira menos direta de propor a beleza aos seus seguidores. null tem lá suas inseguranças inevitáveis, mas vez ou outra, como em ocasiões especiais e eventos onde sua roupa faz parte da atmosfera proposta, ela aposta nos posts mais amplos, mostrando mais de si. Como no último carnaval, quando foram convidados a participar de um dos bloquinhos famosos de São Paulo. null vestiu uma fantasia de fada que deixava pouco para a imaginação, apostou em lentes de contato roxas com íris triplas e uma peruca maluca de um verde fluorescente, que a deixaram na mesma medida assustadoramente bizarra e irresistivelmente sensual.
São os detalhes que o incomodam.
A camiseta que null está vestindo no último post é dele. Um presente que ela lhe deu nos primeiros anos de namoro. É uma camiseta puída de uma banda que ele nem ouve mais, mas é importante porque foi ela quem escolheu em uma saída com a grana curta que eles fizeram anos atrás.
Em um dos stories que null postou só por “biscoitagem” é possível ouvir uma versão instrumental de “Do I Wanna Know?” do Arctic Monkeys, que um null mais novo e mais inseguro dedicou à null em uma briga que ele nem se lembrava mais do motivo.
Surpreendentemente, null não está bravo por ela estar tentando magoá-lo. Está bravo por ela ter conseguido.
— O que você acha que está fazendo? — Ele nem fecha a porta atrás de si quando puxa mais uma briga.
— A pauta pro vídeo de segunda? — null devolve, cínica.
— Não se faça de desentendida. Por que está postando essas coisas? — null quer soar bravo, mas sua voz o trai, o fazendo parecer só incomodado e com ciúmes.
— Não sei do que está falando. Postei as coisas que estão programadas no cronograma. — null percebe a agitação do namorado e resolve brincar com fogo. Ela fecha a tela do notebook e decide dar toda sua atenção a ele.
— Eu olhei o cronograma ontem, não dizia nada sobre transformar as suas redes em um feed do OnlyFans. — null ri perigosamente devagar. Avaliando a ideia.
— Pelo jeito, eu me daria bem no OnlyFans. — Ela dá de ombros só para ver a reação do namorado. Parece faltar ar nos pulmões dele. null a olha indignado e sobressaltado. Ele sabe que a mulher tem uma beleza avassaladora e que sim, null migraria seus milhares de fãs para a rede social mais liberal em um piscar de olhos.
— Eu não posso olhar, mas um milhão de punheteiros podem? — Ele se exalta, fazendo null prender um riso inapropriado.
— Quase dois e meio — corrige casualmente e o namorado a encara de olhos estreitos, perdendo a paciência. — Milhões. Quase dois milhões e meio, sabe, contando tudo.
— Você só pode estar brincando comigo... — null remexe o pacote de comida, mas percebe que perdeu a fome.
— São só relances... ninguém viu nada. — A risada irônica do rapaz preenche o ambiente.
— O entregador te mandou um beijo, me pediu pra te agradecer pelos posts “sedentos”. — Ele usa as aspas e grunhe nervoso. null não admite, mas adora deixá-lo nesse estado. O vinco no meio testa e os olhos cor de mel decididos a não olharem para ela.
— Não são sedentos! — null rola os olhos, buscando pelo celular na mesa de centro. Ela revê os próprios posts e depois levanta os olhos para o namorado, que a encara convencido.
— São sim. Seus peitos estão quase saltando da blusa nesse. — null grunhe de novo, mas dessa vez null percebe no meio de sua frustração há um desespero contido de quem gosta do que vê.
— Daqui há meia hora alguma dessas musas fitness postam algo e todos eles esquecerão de mim. — A mulher se sente culpada. Não é de seu feitio apelar desse jeito, mas estava brava e sem saber como lidar com suas próprias frustrações.
Ela precisava que null sentisse o mesmo que ela, mas agora tudo parece um pouco desproporcional.
— É muito óbvio, vai acabar passando batido. Esse tipo de coisa marca por causa dos detalhes. O mistério deixa os caras pirando e agora eles querem saber o que aquela maldita calcinha de renda esconde. — null se joga no sofá, fechando os olhos com força. Ele bufa irritado e bate o pé no chão freneticamente.
null odeia sentir o baixo ventre arder em chamas e se contorce ao se livrar do notebook.
No aparelho de som, alguma lista de reprodução suave dita a leveza do silêncio, recusando as leis da gravidade da tensão entre eles.
— Você sabe o que a calcinha esconde. — null se arrepia com a profundidade da própria voz. Encara null com um misto de curiosidade e desprezo que a deixa confusa, porque ela quer que ele saia do cômodo e a deixe sozinha, mas ao mesmo tempo, quer que ele a tome em seus braços e mostre o que todos aqueles exercícios podem fazer.
— Esse é meu problema... eu lembro — diz virando os olhos pra ela, numa última tentativa de fazê-la compreender que ele precisa dela. Tanto que está disposto a esquecer o quão bravo está.
— Não entendo você. Se quer transar, por que tem dormido no escritório? — null precisa ser prática, não conhece nada além da vida vivendo com praticidade para não cair na ansiedade do desconhecido e complicado.
— Porque não quero só transar, null... — null responde cansado. Já tiveram essa briga antes, ele não consegue mais esperar que ela seja a responsável pela mudança de que eles tanto precisam.
— E o que é que você quer? — Ela pergunta também cansada de fazer de tudo e não saber mais como se aproximar dele.
— Eu queria você — diz simplesmente e se afasta, levando o almoço consigo para o escritório. null não é escritora, longe disso, mas para ela, as palavras levam um peso imenso e depois de ditas, não podem mais ser retiradas. null dizer que a queria, no passado, a faz tremelicar de dentro para fora.
Pensando em retrocesso, null percebe que não tem feito de tudo realmente. Sua vida profissional e pessoal vão de vento e poupa, mas o que antes era seu motivo para tudo, acabou desaparecendo na pilha de obrigações e tarefas diárias.
A ideia do canal era dividir com os outros aquilo que os unia e rendia assunto por horas após cada ida ao cinema do casal. As teorias e os detalhes que eles traziam para a discussão enriquecia e transformava completamente a experiência simples de assistir a um filme em algo pelo o que se esperar. Agora ela se senta no próprio sofá para assistir (sozinha) às produções em velocidade adiantada, para dar tempo de consumir o máximo que puder de conteúdo e transmiti-lo de forma original e bem-humorada em texto no mesmo dia.
null tenta, mas não consegue se lembrar do título do último filme em que assistiu e não pensou em uma pauta ou roteiro de vídeo. Vasculhou em sua memória e não encontrou nenhuma estando nos braços de null enquanto assistia a algo só os dois, sem o peso do canal interferindo.
Não é comum, mas null se sente culpada por negligenciar a pilastra principal que segura tudo o que sua vida se tornou. Essa culpa não é suficiente para fazê-la se levantar do sofá e ir atrás de todos os seus sonhos, literalmente. Em vez disso, null decide se arrumar para a próxima reunião de trabalho que acontecerá em menos de meia hora.
null queria estar com raiva. Queria poder ter a maldade de se vingar, mas, não acha que uma foto sem camiseta causaria a mesma comoção de um decote farto e pernas torneadas contra a luz.
Precisando de distração, null vai até o computador de mesa e volta ao longo e tortuoso trabalho de catalogar suas fotos. Migrando de uma pasta a outra, null sorri se lembrando dos momentos em que as fotos foram tiradas. Se relembrando de encontros e desencontros da vida.
Com o entra e sai de fotos diante de seus olhos, ele percebe que a maioria delas tem null no centro. Tudo de bonito que null já viu na vida tem a ver com ela e a possibilidade de isso morrer o machuca profundamente.
null sorri distraída com um pombo voando sobre ela, parada diante da Torre Eiffel, com casaco pesado e os cabelos esvoaçantes. null se lembra da piada idiota sobre baguetes e pombos franceses e ri baixinho se lembrando de que essa foi a última viagem que fizeram juntos sem a obrigação de registrar tudo de forma profissional e com intuito de publicar.
Ele se lembra também, com muito entusiasmo, que essa viagem fez maravilhas com a libido de null e que ele, a pedido dela, tinha um registro bastante sedento deles dois no quarto de hotel naquela mesma noite de céu estrelado parisiense.
Sem mais delongas, null sabe exatamente onde encontrar o vídeo curto, gravado com o celular que faz seu pau endurecer só de lembrar. Ele diminui o volume das caixas de som do computador, se sua mente não o engana, o vídeo já começa na parte boa e null não faz exatamente o tipo quietinha.
A parte infantil de null sente a empolgação por fazer algo escondido, é ela quem o faz olhar em volta, encontrando Boris ao lado da porta com seu costumeiro olhar julgador.
— Se você perdeu as suas bolas, não julgue a necessidade das minhas! — Ele ameaça o gato, que sacode o bigode contrariado.
null vira um pouco a cadeira, evitando que o gato veja seus atos.
Os gemidos de null são ouvidos baixinho, mas é o suficiente para fazerem os pelos de seus braços arrepiarem, chegando até a nuca.
null toma um momento para apreciar a própria gravação, agradecendo mentalmente a si mesmo por se dedicar aos detalhes que fazem a diferença visualmente falando. A barriga de linhas delicadas, se movendo para cima e para baixo com a respiração urgente. O balanço suave dos seios conforme as pélvis se chocam, os nós dos dedos dela brancos enquanto suas mãos puxam os lençóis chiques em puro deleite. A boca entreaberta, pedindo por mais.
null assiste uma versão antiga e mais feliz de si mesmo gozar sobre a barriga de null, forçando a glande lambuzada por sua entrada só para provocá-la.
Ele suspira excitado e frustrado, pois, a ereção incomodando em seu short o deixa irritado. null não quer se masturbar para um mero vídeo quando a musa dele está na sala ao lado.
Ele quer foder essa mulher como se não houvesse amanhã.
Irritado, ele fecha o vídeo e desliga o computador. Ruma direto para a sala e sente o coração pular uma batida quando não vê null no cômodo.
— Amor? — Chama baixo, se certificando de que a porta está fechada e as chaves dela ainda estejam no recipiente longo de vidro, no aparador.
null dá passos receosos de volta no corredor, hesitante em entrar no quarto do casal. Ele se aproxima da porta e não acredita no que ouve.
Ele poderia estar surdo dos dois ouvidos, mas reconheceria a vibração deste som em qualquer lugar. O gemido rouco e lânguido de null é um de seus sons favoritos na face da Terra e sem pensar duas vezes, ele irrompe o quarto.
A visão da mulher nua de pernas abertas, acariciando os próprios seios deixam o rapaz tonto por um segundo. null morde o lábio inferior, olhando para ele como se o desafiasse.
Ela escorrega uma das mãos devagar pelo próprio corpo, tocando sua intimidade só o suficiente para provar de sua própria excitação.
null assiste a tudo sentindo que todo seu sangue corre para só um lugar. Ele não pensa em mais nada além de substituir os dedos dela, penetrando em sua boceta molhada.
— O que você... O que... — Ele respira pesado, os olhos cravados no corpo dela.
null, cala essa boca e vem me foder! — null diz falsamente irritada, se recusando a admitir que só olhar o pau dele pulsando no short foi capaz de deixá-la escorrendo.
Sem pensar, ele arranca a própria camiseta do corpo, se deitando sobre ela em dúvida sobre o que tocar primeiro. Apaixonado, ele devora seu pescoço em um beijo intenso que se reveza com mordiscadas no lóbulo da orelha.
O cheiro dela é intoxicante, sua pele a mais macia na qual ele já tocou.
null suspira extasiada, sente seu corpo inteiro ser explorado com urgência e se sente a mulher mais gostosa do planeta. null levanta sua perna, a encaixando em sua cintura e a faz sentir que ele não pode mais esperar.
null empurra seu short com o pé, buscando com a mão que não está emaranhada nos cabelos de null para agarrar seu pau e mover o pulso de um jeito que o faz fechar os olhos e suspirar pesado bem perto de sua orelha. Ela se arrepia e arqueia as costas, lhe oferecendo os seios, que null não recusa nem por um segundo.
Tentando se concentrar para não perder para a própria empolgação, null foca toda sua atenção no que fazer para mexer com os pensamentos mais obscuros da namorada. Sem pestanejar, null abocanha um dos mamilos enquanto massageia o outro. Ele brinca com a língua no mamilo intumescido da mulher, mordiscando e chupando um, depois o outro.
Devoto de suas curvas, ele se afasta só para olhá-la de perto, ao vivo. Nada nunca irá se comparar ao calor do corpo de uma mulher de carne e osso.
O cheiro, a textura da pele, o gosto.
Só de pensar no gosto de null, null poderia gozar em deleite.
Ensandecido, null pega a namorada pelos quadris, levantando um pouco seu corpo na cama. Ele aperta suas coxas com a palma das mãos sentindo bem o calor do local. Ele se abaixa e mordisca a parte interna, se aproximando cada vez mais de seu ponto mais sensível.
Com a ponta da língua e nenhuma resistência, null saboreia o sabor do sexo de null. A invadindo com a língua, lambe seu gosto direto da fonte e com a ajuda dos dedos, abre mais os grandes lábios para chupar os menores e o clitóris, se deliciando com o urro erótico que irrompe a boca escancarada de null.
— Caralho, que saudade de ouvir isso — diz embriagado pelo desejo, excitado à ponto de explodir.
null arqueia as costas com os olhos fechados e palavras desconexas saindo por sua boca quando ele coloca dois dedos dentro dela, chupando e lambendo seu clitóris tão devagar que a mulher precisa embrenhar os dedos nos cabelos dele, buscando mais contato. Arfando, ela chama o nome dele como uma sereia.
Dividido entre levá-la aos céus com a boca ou acompanhá-la na viagem para as profundezas de seu mar, null sobe os olhos flamejantes pelo corpo de null. Os pelos invisíveis da barriga tão arrepiados que convidam suas mãos. null toca sua cintura, gostando de como o corpo dela reage a tudo o que ele faz. null abre mais as pernas, enxergando nublado de tesão.
null se deita atrás dela, erguendo sua perna e a olhando tão apaixonado que faz as bochechas de null esquentarem. Com uma das mãos, ela o abraça pelo pescoço, arranhando sua nuca e beijando sua boca lentamente, com a outra, ela o masturba satisfeita por sentir seu pau pulsar de volta em sua mão.
null sabe que null tem seus defeitos, aceita alguns deles e lentamente tenta modificar os outros com os quais não pode conviver. Mas diga o que quiserem sobre null, para null, seu pau é perfeito. Longo na medida certa, grosso, rosado: perfeito.
As primeiras estocadas são fundas, lentas e acompanhadas de um beijo desesperado, absolutamente erótico. null se perde na sensação de tê-lo dentro de si, ela para de beijar sua boca e morde os próprios lábios, prendendo os sons que deixam null maluco.
Irritado com seu egoísmo, ele se afasta somente para meter mais rápido, mais fundo, obrigando-a a gemer apropriadamente. E ela geme conforme o sente deslizar para dentro de si. Excitada com os próprios sons, ela solta a própria perna, deixando-a a encargo do namorado, desliza os dedos sobre o ponto frágil e pulsante de seu sexo. Sem estimular em si, somente espalhando toda sua excitação pelo lugar, molhando os dedos que ela chupa sem cerimônia, se certificando de que ele a veja fazer isso.
— Caralho, null... — diz louco de prazer, excitado por vê-la tão safada. Ela lhe oferece os dedos e ele passa a língua em cada um deles, sem tirar os olhos dos dela.
— Eu quero sentar — diz manhosa, fazendo o namorado quase chorar de emoção.
— Seu pedido é uma ordem.
null beija seu pescoço, a puxando pela cintura e a colocando sobre ele. null está surpresa com toda a força física do namorado, precisa encontrar a forma mais safada para dizer a ele que adora ser jogada de um lado para o outro e que todos esses exercícios fizeram milagres.
— Gostoso — diz entre um beijo sem vergonha, ajeitando as pernas uma de cada lado de seu corpo. Ela se afasta só o suficiente para beijar seu peito definido e acariciar seu abdômen, se demorando nos músculos novinhos em folha. — Muito gostoso. — Repete o olhando pronto para ela.
— Era o que eu estava tentando te dizer! — Ele tem um lampejo de lucidez, só o suficiente para fazer a piada e se desmontar inteiro quando ouve null rindo daquele jeito fofo que ele gosta de dizer que é só dele. Os ombros dela tremem e ele sabe que ela não estava esperando porque se inclina sobre ele, cobrindo o rosto e deixando que seus cabelos encostem em seu peito, de leve.
— Eu preciso ficar séria agora — diz null, rouca e desejosa. Beijando os lábios dele mais devagar. null espalma as mãos em sua bunda, massageando as nádegas e querendo logo estar dentro dela de novo. Desinibido, ele dá um tapa estalado em sua bunda e morde seu lábio inferior, levantando um pouco o quadril para lhe apressar sutilmente.
— Eu tenho pensado nisso há dias. — Ele beira a loucura com a maciez de sua pele, tocando tudo o que pode.
Então, null tem uma ideia.
Já sentindo falta de tê-lo dentro de si, ela rebola sobre o pau de null, buscando seus pulsos e os segurando ao lado de seu corpo, impedindo que ele a toque.
— Não! — Ele reclama desesperado.
— Shh. — Faz sinuosa contra seus lábios, se encaixando e sentando devagar. Gemendo baixinho, olhando em seus olhos.
Ela se move devagar, cavalgando enquanto mantém as mãos dele imóveis.
— Eu posso me soltar a qualquer momento — diz null, de olhos fechados e respirando pesado quando null força a musculatura das paredes internas, sentindo o pau dele pulsando sem parar.
— Ah é? — Ela provoca, sem vontade nenhuma de resistir caso ele tente se soltar para tocar seu corpo. — Duvido.
null diz a única coisa que sabe que pode motivar null a fazer qualquer loucura.
Ele não só se solta, como se levanta e, ainda com ela no colo, toma o controle da situação. null apoia os dois pés no colchão, as unhas cravadas nos ombros de null dão o apoio perfeito para que ela possa se movimentar com mais velocidade e precisão. null beija o pescoço da namorada, levantando seu quadril para estocar mais fundo. Os gemidos másculos e esporádicos de null arrepiam a nuca dela. Pequenos choques correm pelo corpo de null e é difícil lembrar por que ela está sempre tão brava com ele. Próximos assim, não há espaço para enxergar os defeitos e os erros do outro.
Ensandecida, null pega o rosto de null com as mãos. Olha fundo em seus olhos escuros de excitação e decreta:
— Você é meu! — null quica mais forte, só para salientar seu ponto. null sorri satisfeito, prestes a agradecê-la por reclamá-lo.
Ele a abraça pela cintura, limitando seus movimentos, mas a recompensa com beijos pelo colo. null vai se deitando na cama, null permite, mas logo está sobre ela. As pernas da mulher estão em volta de seu pescoço, os olhos dela fechados e a boca aberta em um gemido mudo que o faz sorrir, convencido.
Ele abre mais as pernas dela, massageando as coxas e tomando um tempo para apreciar o próprio desempenho. Orgulhoso, null decide que null gozará antes dele.
É como uma corrida contra si mesmo em que ele não vê problema algum em chegar em segundo.
— Que delícia de boceta — diz metendo mais forte, ouvindo a mulher gemer. Decidido, ele aproxima seu polegar do clitóris, a masturbando enquanto a fode como nunca achou que poderia.
Completamente fora de si, ela arranha seu abdômen com as unhas longas, deixando um rastro vermelho por onde passam. null nunca achou que gostaria de algo mais violento na cama, mas quando percebeu de onde vem uma atitude assim, ele mudou de ideia, abrindo seus horizontes.
null está concentrado agora, coordenando os movimentos de seu pulso e da pélvis em velocidades diferentes. Ele segura a namorada pela cintura, decidido a não deixar que os gritos da mulher o distraiam de seu propósito. Ele observa os movimentos intensos de suas costelas ao respirar, o balanço dos seios unidos sob o corpo dele e as mãos dela, cujas unhas continuam arranhando seu torso, o deixando completamente insano.
null tem os olhos virados, os gemidos agora são roucos e mais espaçados. Ela está perto, ele pode sentir.
Ela o aperta com os músculos internos, enlaça o corpo forte do homem com as pernas e sente o corpo ser incendiado.
Com a garganta seca, a testa ensopada de suor e o corpo produzindo ondas de prazer, null abre os olhos, encontrando os de null de prontidão.
null vê os olhos de null escurecerem com o orgasmo intenso. Hipnotizado, ele continua os movimentos mesmo que seus pulmões estejam falhando e o corpo prestes a ceder. Os espasmos do corpo dela fazem com que o quadril de null vá mais para frente, aprofundando o contato.
Em cima da hora, null sai de null e goza ainda na entrada de sua vagina, proporcionando mais um visual quente para aquele dia que começou tão frio.
As respirações estão ofegantes, a condensação nas janelas reflete em seus corpos suados. null cede sobre o corpo de null, que o abraça pelos ombros, tentando normalizar a respiração.
Ninguém diz nada por enquanto, as mãos fazem todo o trabalho, encontrando um lugar para pousar. As de null se embrenham nos lençóis, abraçando null pela cintura. As dela estão trêmulas sobre as costas dele.
— Caralho, que foda! — Ele arfa entre a risada e não percebe que null rola os olhos. — Sempre esqueço como é gostoso transar depois de brigar. — null respira fundo, movendo as pernas devagar.
Grande parte dela quer passar o resto do dia na cama com ele, mas uma partezinha teimosa e possessa de raiva simplesmente se recusa.
— Preciso tomar um banho — diz baixo, tendo dificuldade em restaurar a normalidade da voz, da respiração. Seu coração continua batendo acelerado, mas não é mais sobre toda a ação de antes.
null demora a juntar as palavras dela a uma ação que poderia ter, quando percebe que ela quer que ele saia de cima de seu corpo o quanto antes. Ele o faz, a encarando sem entender.
— Isso é algum tipo de jogo pra rolar de novo ou...? — null se levanta, indo atrás dela ainda enfeitiçado pelo balançar dos quadris de sua sereia.
— Estou brava com você, quero tomar banho sozinha. — Ela força a porta, ameaçando fechá-la sem se importar que ele esteja meio dentro do banheiro, meio fora dele.
— Brava!? — Esbraveja o rapaz, indignado. — Gente brava não fode desse jeito.
— Vê se cresce, null. É transar! — Ela corrige, petulante.
— Ah, me perdoem ouvintes! Eu esqueci que somos parte de um esquete educacional do governo. Me permita reformular: pessoas contrariadas não costumam interagir daquela forma durante a cópula. — null reconhece que está sendo ridículo, mas está inconsolável por null priorizar qualquer momento senão o agora que ele simplesmente não se importa em ser um pouco ridículo para combinar com toda a situação.
— De qualquer jeito, eu só queria transar. Não pode ser maduro sobre isso? Estamos todos satisfeitos — null diz cansada, sentindo o corpo suado e ainda meio molenga por ter chegado onde queria.
— Ser maduro sobre o fato de você ter me usado para foder? — null enche a boca, fazendo a namorada revirar os olhos e suspirar.
— É, tanto faz. Dá pra ser? — null o encara sentindo o corpo formigando pelo orgasmo e, principalmente, porque parece que seu corpo e sua mente não estão alinhados com relação ao desejo crescente em null. Sua mente quer que ele desapareça, mas seu corpo quer se fundir ao dele.
Magoado, null deixa que ela feche a porta e fica na espera de que ela a abra de novo, arrependida. Mas o som do chuveiro se faz ser ouvido e ele encara a madeira pintada de branco como se pudesse transformá-la em pó.
Ele bufa frustrado. Seu coração pode estar em frangalhos e sua mente uma bagunça, mas seu pau continua meia bomba, na esperança de um segundo round.
— Eu odeio ficar puto de pau duro. Que desgraçada! — null apanha seu short e camiseta e a veste se sentindo patético.
Ele volta ao escritório e arquiva a maioria de suas fotografias, esperando um dia poder arquivar suas memórias e sentimentos em um lugar nunca visitado, que fossem esquecidos para sempre.
Naquela tarde, null toma a decisão de decidir o que fará de sua vida. Não é um plano, ele sabe. É um plano para se ver capaz de planejar, um dia.

Mais tarde naquela semana, null e null saíram do apartamento pela primeira vez naquele mês. Um casal de amigos, também influenciadores, os chamaram para uma tarde agradável para pôr o papo em dia e aproveitar para gravar o papo.
No canal deles, Natália e Gustavo, falam sobre História de um modo simplificado e bem-humorado, exemplificando todo e cada evento histórico com situações cotidianas de um casal moderno, trazendo sua própria história e acabando por informar de um jeito irreverente.
Gustavo e null são amigos desde antes de terem seus respectivos canais, então o encontro é deles, basicamente. null e Natália também são amigas, mas Natália faz o tipo erudita e reclusa, ficando com fones enormes nos ouvidos durante quase toda a recepção.
— E como ficou a questão da troca de agência? Você conseguiu falar com o advogado? — null tenta puxar assunto. Natália sorri comedida e afasta um dos lados do fone somente o suficiente para que ela ouça a própria voz.
— Eu tive uma semana agitada e preciso recuperar minha bateria social. Você pode esperar meia horinha para que eu consiga ser capaz de ter uma conversa amigável com você? — Natália ajeita os fones nos ouvidos e suspira audivelmente. Não fica exatamente claro para null se Natália foi atenciosa ou completamente grosseira, por via das dúvidas, null decide ficar calada e suportar o passeio.
Entediada, null começa a ficar sem alternativas e tudo o que consegue pensar é em como odeia a calça de couro que está vestindo. O tecido rígido belisca suas coxas, fazendo com que elas raspem uma na outra e não importa se esteja completamente imóvel, parece que há pequenas lâminas na parte de dentro do tecido lustroso, causando uma dor aguda e persistente.
null gostaria de reclamar. Desabafar de verdade, colocar para fora tudo o que a incomoda, inclusive a maldita calça. Entretanto, null sabe que terá de carregar por mais algumas horas o look que escolheu: camiseta trabalhada no upcycling, cheia de tarraxas e estamparias de outras camisetas, coturnos pesados e vermelhos combinando com a jaqueta, e, a calça de couro. "Só mais algumas horas", repetiu para si mesma, acreditando no valor da dor pela beleza.
Ela encara null fixamente, telepaticamente lhe enviando a mensagem de acelerar a conversa e iniciar logo a gravação. Ele está distraído com a revelação exclusiva da recente obra do banheiro no apartamento do casal. Gustavo não podia esperar que o amigo visse junto como o resto do mundo em um mero vídeo, então eles conversam enquanto Gustavo faz o tour para null.
A mulher começa a bater o pé no carpete marrom do apartamento, mas o roçar nas pernas é dolorido demais e ela reprime um gemido. null está convencida de que foi agraciada às avessas com este momento longo e ocioso para refletir na vida.
Em sua mente autocrítica, ela busca a razão pela qual o universo iria querer puni-la tão severamente com o combo dos infernos: silêncio constrangedor, tédio, ansiedade e um machucado auto infligido pela sua própria pele. Como se fosse demais para sua epiderme ter um encontro consigo mesma, rejeitando violentamente o contato.
Ela só consegue pensar em uma coisa que tem feito todos os dias nos últimos dias desta semana. Além de ter começado a se alimentar melhor e retomar os exercícios guiados de pilates, null tem se comportado como uma verdadeira megera.
Ela continua encarando null e o inveja por ele estar distraído, mais ainda porque ele não está a ignorando de propósito como ela deliberadamente tem feito.
— E então, nós queríamos nos mudar, na verdade. Mas o divórcio de um vizinho, é o sucesso imobiliário de outro. — Gustavo chega a corar tímido, dizendo uma frase que não combina muito com ele.
— Falando assim, até parece um mercenário! — null o empurra de leve, rindo junto com o amigo.
É bom vê-lo feliz assim, null pensa e sente no coração uma falta imensa de vê-lo sorrindo desse jeito mais vezes. De vê-lo mais vezes.
Ela se lembra de estar com ele e se sentir a garota mais engraçada e inteligente, porque ele fazia as perguntas mais difíceis, reagindo sempre tão encantado ao ouvir qualquer coisa nova que ela lhe dissesse. Era possível ver as faíscas de novos pensamentos e pontos de vista surgindo em seus olhos e a conversa durava horas, acabando sempre com um bom amasso, comendo pizza na cama até de madrugada.
null queria mais que sexo também.
null queria null.

Na volta para casa, o silêncio de null vem de muita dor no alto das coxas e de uma pontadinha no peito que a faz decidir que tudo o que ela disser pode acabar em briga e que deve encontrar um jeito melhor para lidar com a única parte que parece fora do lugar. E a que importa mais.
null dirige cuidadoso, não que já tenha sido imprudente atrás do volante alguma vez na vida. Se existe algo sobre a qual o rapaz sente a mais sólida repulsa, é por dirigir. Mesmo o fazendo muito bem e, segundo null, ser uma verdadeira visão para olhos doloridos enquanto o faz, null se desafia toda vez que precisam se deslocar para algum lugar e como sendo o único com carteira de motorista, ele faz seu melhor para os levarem de volta sempre em segurança para o número 1200, na rua Girassol.
Só que está chovendo como se o céu fosse desabar e null precisa manter os olhos na estrada por mais que queira agarrar toda a oportunidade de tentar descobrir o que pode ter deixado sua namorada tão quieta. Até na gravação dos vídeos, Natália falou mais que null e isso parece ser fisicamente impossível. Para as duas.
Ela se mexe desconfortável e as sobrancelhas franzidas significam que algo não está certo. null remove o cinto, abre o botão e puxa o zíper da calça, enfiando a mão lá dentro, arrancando uma risada de null.
— Acho que vamos chegar em sete minutos, você não prefere esperar? — Pergunta o rapaz, bem-humorado. Resquício de uma tarde comemorando o sucesso de um amigo querido.
Através de horas de uma conversa profunda, null pode ver com clareza qual é o caminho que se deve caminhar para alcançar certas coisas. Associações e contratos com pessoas influentes e uma inteligência regada à disciplina, mas essa parte, Gustavo foi sincero, só serve para te manter quem você é. Esse caminho te leva a lugares onde te dão coisas, mas, em algum ponto, algo é perdido.
— E esse algo é você, cara! — Gustavo disse mais cedo, assombrado e exausto.
Depois de se certificar de que o amigo sabia exatamente o que estava fazendo e, principalmente, se estava feliz, null conseguiu enfim enxergar ao longe o surgimento do que ele poderia chamar de um plano.
— Não é isso, é que está doendo. Essa calça idiota não foi feita para qualquer uma — diz chateada de verdade, os olhos nublados com as lágrimas se formando nos cantos deles.
É difícil vê-la chorar. null engole em seco e aperta os dedos no volante.
Ele gostaria de poder esticar o braço e apoiar a palma da mão em seu joelho, afirmando que agora só faltam mais quatro minutos e que ao chegarem em casa, ele fará com o que o que quer que esteja a incomodando desapareça.
— Ela fica perfeita em você — diz distraído da briga, mas gosta da mudança de clima no carro. — É uma pena que te machuque se te serve tão bem, talvez essa calça machuque todo mundo que a usar. — Divaga aliviado por estarem na rua onde moram.
É uma verdadeira sorte poder chamar este endereço de seu. null sorri ao se lembrar do verdadeiro perrengue que foi conseguir o apartamento. Mesmo que alugado, o endereço é concorrido e fica muito bem localizado. A agência, os amigos mais próximos e tudo o que mais possam precisar, dia ou noite, no mesmo bairro. Mas a facilidade não é o fator principal pelo apartamento ser tão importante para o casal, girassóis são as flores preferidas de null e algo com o fato de o número do edifício ser redondo fez com que a mulher tivesse uma experiência orgástica com a ideia de morar ali.
null soube na hora que se fosse capaz de lhe fazer sentir daquele jeito de novo, ele não se importaria se tivesse de passar pelo inferno para trazer para null o coração do mais feroz demônio se assim ela o pedisse. Então, numa tarde quente de setembro, no dia de seu aniversário, ele lhe deu uma pequena caixa com uma única chave dentro. A chave tinha um padrão desenhado por null, que colou exatamente a imagem de 1200 girassóis no molde de uma chave personalizada. Com a ajuda de um amigo dono de uma gráfica, null escolheu o acabamento em adesivo, transformando uma simples chave personalizada em um dos presentes mais elaborados que null já pensara para null.
Junto a somente um girassol, pois era o que podia pagar na época, pois acabara de se tornar um orgulhoso locatário de um apartamento imenso em um bairro nobre em São Paulo, null a abraçou e disse baixinho, para evitar que o pai rígido de null escutasse: “E aí, vamos pra casa?”.
Em casa, os dois voltam à nova rotina silenciosa e cada um vai para um canto no apartamento espaçoso.
Do corredor, null ouve os resmungos sofridos de null e suspira, dando batidas leves na porta.
— Quer ajuda aí?
— Não precisa, é só uma assadura. — Ela devolve, sisuda. Como um animal ferido (literalmente), null se fecha e ataca qualquer um que ousar a se aproximar.
— Quer alguma coisa? — Insiste o desbravador, curioso e tentado a saber mais sobre o que sente a espécie acuada.
— Só quero ficar sozinha para sofrer a humilhação de tirar essa calça para sempre — diz irritada e ele assente, um pé já fora do quarto.
— Tem uma pomada na pia do banheiro, acho que pode ajudar. — Ele não espera a resposta, segue para o escritório e começa a ler os e—mails que ignorou por três dias. Nada disso era importante três dias atrás, pensou null.
— Mas agora é... — diz mordiscando a própria língua, um costume que só tem quando está sozinho por saber exatamente a expressão patética que mantém enquanto, de alguma forma, usa a pressão na língua para pensar melhor.
null tem a conta de duas situações com o controle retomado quando ouve a pancadaria no banheiro da suíte, do outro lado do corredor. Se pudesse apostar, null apostaria na namorada, pois, o ranger sofrido do armário sob a pia denuncia que ele está perdendo feio.
— Por que eu nunca encontro o que estou procurando?! — null diz manhosa, a voz beirando um choro cansado e acumulado, descabido para a situação, mas, null não a julgaria por isso. null aguenta qualquer coisa, mas ninguém é de ferro quando o assunto é dor física.
null se levanta, atravessa o corredor e a sala, sobre a pia do banheiro social pousa o tubo de pomada para assaduras em bebês, mas cuida muito bem da pele adulta em níveis milagrosos. Ele pega o tubo e a passa de uma mão para outra, ponderando se deve ou não arriscar sair com alguns arranhões e mordidas após tentar cuidar de tal espécime, agora fragilizada por sua própria condição.
Ele guarda a pomada no bolso do moletom junto com as mãos quando passa pela porta sem bater e sente o conflito por se tratar de seu quarto também.
Qualquer ressalva, senso de autopreservação ou resguardo pode ser deixado de lado por null quando, pela segunda vez na semana, ele encontra null de pernas abertas em sua cama. Desta vez, em vez de duro, null sente o corpo inteiro amolecer.
O nariz vermelho, os cílios úmidos, os lábios comprimidos em uma expressão tão desolada que só não tendo alma para manter qualquer coisa que vá aliviá-la de seu alcance.
Sem dizer nada, sem esperar nada em troca, null se põe de joelhos sobre o colchão. null o olha desconfiada, ameaçando fechar as pernas, pensando que ele tem outras intenções.
— Shh... — Ele faz, afastando os joelhos da namorada com delicadeza, mas firme como alguém que sabe bem o que está fazendo.
— Eu sou um bicho por acaso? — Devolve debochada, grunhindo ao leve toque da ponta dos dedos dele.
null continua em silêncio, espalhando uma leve camada de pomada em cada coxa da namorada visando somente seu bem-estar. Ele não vai admitir, mas a calcinha de algodão com estampa de coelhinhos saltitantes lhe salta aos olhos, mas ele ignora como um verdadeiro cavalheiro.
Ele espalha o restante da pomada nas mãos, levantando os olhos para ela com receio de que ela grite ou lhe mande embora. Já aconteceu antes e ele ainda sente a dor da rejeição e as memórias ainda estavam frescas da primeira noite fria em que dormiu sozinho desde o dia em que null usou a chave personalizada para entrarem no apartamento.
— Está ocupado? — Pergunta null, ainda sentindo os olhos coçarem e a vontade de chorar entalada na garganta.
— Sempre tem alguma coisa pra fazer. Eu estou sempre procrastinando. — Ele devolve, um meio sorriso aparece e ela tenta imitar.
— Estou com sono. — null puxa o cobertor verde escuro e se ajeita na cama, hesitante, null se levanta e está pronto para sair do quarto e retornar ao sofá duro do escritório quando ela espera que as luzes estejam apagadas para ter coragem de dizer que não quer dormir sozinha.
— Tem certeza? — null pergunta, as mãos começam a suar e ele se odeia por soar tão desesperado.
— Deita aqui, null — diz mandona, mas na ausência da luz, ela sorri satisfeita ao sentir suas mãos a abraçarem pela cintura por baixo da camiseta do pijama.
null também sorri. No fim, só lhe custaram algumas escoriações internas e danos reversíveis, à luz do luar, o desbravador enfim dormiu com a fera.

Na manhã seguinte, null estranha acordar sozinha, mas não acha de todo ruim. Com calma, ela prepara um chá de ervas para si. Quando pronto, ela o leva para a sala de janelas amplas e se senta no tapete mesmo, encarando o céu acinzentado com empolgação. Fechada em seu mundo, esse é o tipo de dia preferido de null: nuvens carregadas, ameaça iminente de muita chuva e um friozinho que possibilita usar meias fofas e moletons como peça única para andar pela casa.
Por estar ferida, null decide se abster de shorts e calças, buscando no pequeno — mas abarrotado —, closet, pelo moletom de null que ela menos odeia: um preto que é grande até para ele, cuja estampa em alto relevo se desfez com o tempo; junto de suas meias pretas com a estampa de um gato muito sério, vestido de terno. null prende os cabelos no alto e ajeita os óculos no rosto, lendo o briefing de uma publi que ela aceitou dias antes, na reunião por videochamada.
Na reunião, a intermediadora da marca famosa de perfumes mencionou a ideia inicial da campanha voltada para casais de longa data: o tempo. null achou interessante que sempre que se falam de casais de longa data, as pessoas miram em bodas de ouro ou diamante, mas esquecem de uma parcela de relacionamentos que se iniciam em uma época turva da vida, como os vinte anos, e perdura pelo tempo que continuar divertido.
É claro que é necessário representar casais mais maduros, null acredita que uma história deve ser contada e só por isso topou entrar na campanha junto com a marca. Eles se lembraram de que para haver bodas de rubi, os casais devem passar pelas bodas de estanho. E pensando nisso, ao ler o briefing, null teve diversas ideias de qual poderia ser o roteiro do vídeo da divulgação do novo perfume da marca.
— Oi! — null diz arfando, a testa suada se parece com uma cachoeira, molhando seu rosto, até o peito. Ele se aproxima para um beijo, mas null o encara como se ele tivesse cinco cabeças tão suadas quanto a única que ele apresenta.
— De jeito nenhum! Você está todo suado — Ela se esquiva e ele não se incomoda, a puxando pelos braços e a obrigando a tocar em seu torso úmido coberto pela camiseta.
— Eu sei que você gosta! — Ele ri da própria voz lasciva e null se rende, acabando por rir também.
— Para com isso, amor. Eu vou derrubar o computador! — Ouvir o apelido carinhoso lhe dá a coragem que faltava e ele aproveita de sua distração com o eletrônico para lhe roubar um beijo estalado.
— Ei! — Ela se surpreende, decidindo entre se chatear ou aproveitar a sensação de nostalgia que lhe atingiu quando seus lábios tocaram os seus tão depressa e cheio de hesitação.
O primeiro beijo deles foi assim. Não que null conte sua tentativa frustrada como sendo o primeiro beijo oficial do casal.
No que parece ter acontecido há uma era atrás, um null indeciso escreveu uma declaração de amor que foi completamente destruída pelo suor das mãos do rapaz. Na falta de palavras pré-selecionadas, o desespero o fez se inclinar e encostar os lábios nos da então colega de faculdade, a fazendo sorrir aliviada e o puxar pela nuca para um beijo apropriado.
Para ele, quem beijou primeiro foi ela.
Para ela, aquele selinho desajeitado salvou sua vida.
— O que é isso? — Pergunta ele, desviando os olhos das bochechas coradas de null para a tela do computador.
— É o briefing da campanha da Natura. ‘Tô pensando no roteiro. — Responde ela, tentando voltar à concentração total, mas é difícil com sua visão periférica sendo atacada pela visão poderosa de null sem camiseta, suado e com o pump fresco da academia.
— Mas já? Aqui diz Dia dos Namorados e nós mal saímos da Páscoa! — Ele percebe o olhar da namorada e comprime os músculos da barriga, os evidenciando ainda mais.
— É... pois é — diz perdida, ajeitando os óculos para ver se talvez não sejam as lentes precisando serem trocadas. Não é possível que fique melhor a cada nova vez que ela dedica algum tempo para apreciar a evolução física do namorado. — Nós temos de nos preparar. Tive algumas ideias, mas pensei em dividirmos algumas histórias com os inscritos que remontem a nossa trajetória até aqui, mas deixando espaço para dividirmos alguma esperança para o futuro.
— Não é parecido com a tag “50 coisas que não sabem sobre nós”? — null busca por uma toalha limpa na cômoda no canto do quarto. null nega com um aceno.
— Acho que eles não “sabem” sabem como nós nos conhecemos. Ou quando começamos a namorar. — Dá de ombros, pensativa. — Eu pensei em fugir do óbvio, remontar a nossa história pelo ponto de vista de cada um, em situações menos decisivas, mas importantes.
— Tipo? — Ele se apoia na parede, ao lado dela.
— Ah... — null cora de novo, odiando ter prendido o cabelo e perdido seu escudo para momentos assim. — Tipo quando as coisas ficaram bem ruins e nós viemos morar juntos, mas não o fato da mudança em si, e sim, na noite da mudança, quando pedimos uma pizza de comemoração e eu perdi o cartão de crédito e você o encontrou entre duas caixas pesadas. Bom, foi ali que eu sabia que você iria me completar toda vez que algo faltasse em mim. Tipo, minha cabeça. Sei lá... — null admite rindo com a memória, olhando fundo nos olhos espertos e bondosos do namorado.
— Entendi — diz ele, sentindo o peito apertar e expandir com uma lufada de ar fresco que é ser observado desse jeito por ela.
— A Gi falou alguma coisa sobre representatividade, ela pediu que eu não alisasse o meu cabelo no vídeo. A marca quer que tenha esse “tom étnico”. — null morde o interior da boca, sem saber o que pensar sobre isso. Ela ainda tem o pé atrás em relação às intenções da agente, mas null acredita que pode ser mais esperta que seus contratantes, se mantendo na estratégia de usar seu oportunismo contra eles.
null arqueia uma sobrancelha, ele está intrigado e null sabe que lá vem mais uma pergunta da qual ela talvez não saiba a resposta.
— Isso não soa meio preconceituoso? — Ele pergunta para si mesmo, mas em voz alta.
— Não sei. — null sorri, sem jeito. — Nós queríamos mais diversidade, acho que um dos caminhos para conteúdo de marketing mais diversos é esse mesmo. — Ela volta a encarar o e-mail aberto no computador.
— Sermos escolhidos pelo mesmo fator de termos sido excluídos antes? — Ele volta a perguntar. null dá de ombros e ele assente. — Bom, eu sou suspeito para falar. Acho que seu cabelo fica bonito de qualquer jeito, mas pensando bem, acho que é só porque ele está na sua cabeça.
— Eu não tenho um problema com isso. Não exatamente. — null diz pensativa.
No começo de sua inusitada carreira, null não imaginou que dividir suas opiniões na internet a tornaria um modelo aspiracional. Em certo ponto, a transição entre ser uma pessoa comum e, de repente, ser reconhecida até vestindo roupas simples e sem maquiagem a deixou incomodada, perdida. Mas alguma coisa entre aquele momento de insegurança e agora mudou, fazendo null acreditar que mesmo com as dificuldades de estar tão exposta, ela havia nascido para isso.
No começo, null só queria se divertir passando adiante fofocas de famosos nos bastidores, comentando filmes indicados ao Oscar e dividir tempo de tela com null, que sempre foi a melhor parte de fazer o que estavam fazendo.
Agora, null quer tudo.
No ano passado, ela foi escolhida por uma revista virtual para entrevistar um de seus atores preferidos, Jim Carrey, na estreia do segundo filme da adaptação do jogo “Sonic the Hedgehog”. null viajou sozinha para o México e durante a rápida, mas edificante entrevista, ela sentiu que fez um bom trabalho e que esse poderia ser seu próximo desafio.
Ela conseguia se imaginar viajando o mundo, cobrindo tapetes vermelhos e fazendo entrevistas engraçadas e inteligentes que a deixariam finalmente orgulhosa pelo diploma de jornalismo.
null se pegou encarando suas prioridades, seus desejos e aspirações e sentiu um pouco de vergonha por ter investido tanto na própria imagem, sempre se adequando às modas passageiras e experimentando diferentes estilos de roupas e cabelos sem pensar de forma mais profunda e consciente sobre o assunto. null focou em visualizar quem queria ser, mas esqueceu de se encontrar com quem ela já era.
A mulher não sabe dizer se é preta ou branca. De pele mais clara e sem o hábito de tomar sol, ela é muito clara para se parecer com os pais e a irmã mais velha, entre os amigos — em sua maioria do sul do país, por causa de null —, não ter os cabelos lisos e loiros naturais, junto à olhos claros a confunde e na correria do dia a dia, null não achou importante dedicar algum tempo debatendo isso consigo mesma.
— Então, tudo bem pra você fazer essa publi de cabelo cacheado por uma exigência da marca e não por vontade própria? — null pergunta genuinamente preocupado. null sorri e assente.
— Acho que sim. A ideia é mostrar cada vez mais pluralidade e com o crescimento do mercado de produtos para cabelo cacheado, acho que faz sentido, talvez até uma brecha pata uma outra publi. — null suspira, empolgada. — Até que seja uma escolha natural, eu topo ser uma ratinha de laboratório para essas redes capitalistas de cosméticos e entretenimento — diz divertida e null sorri, admirando a namorada pela visão corajosa e focada no futuro.
null acha que entregar um conteúdo de qualidade, fazendo valer a escolha de seus contratantes, talvez mostre a eles um caminho para abrir espaço para a tão sonhada inclusão em projetos de publicidade e em toda a cultura atual de forma orgânica. Independentemente de onde venha a motivação para terem escolhido alguém como null para falar sobre seu produto, ela transformaria essa oportunidade em ouro.
— Uma ratinha linda de cabelo volumoso e encorpado! — null sorri, embrenhando os dedos nos cabelos de null, soltando os fios do coque. Com esse estilo mais despojado e sem a pretensão de impressionar, null fica simplesmente divina.
Mas null é suspeito para falar.
— Estou me lembrando aqui... uma memória muito específica daquele dia da mudança. — null toca o pulso da namorada, a levantando do colchão gentilmente. — Lembro de como nós estreamos a banheira e nunca mais usamos porque demora demais para encher e nunca encontramos uma temperatura ideal para a água. — Ele ergue as sobrancelhas, vendo a memória acertar a mulher em cheio em seus braços.
— Eu me lembro disso também! — null entra na brincadeira, se deixando ser levada para o banheiro da suíte.
Na ocasião, o casal até tentou esperar que a banheira enchesse por completo para aproveitarem um longo e relaxante banho juntos. Mas era tarde, eles haviam passado o dia desencaixotando a mudança e após o susto com o sumiço do único cartão de crédito com saldo disponível para gastos supérfluos, null queria agradecer a calmaria do namorado e simplesmente não podia esperar a água subir muito mais do que batendo no meio das canelas.
Dentro da banheira, null abre o chuveiro e sem esperar que ela encha, eles fazem amor de pé contra a parede gelada, com água se acumulando entre os dedos.
Como se fosse a primeira vez. Outra vez.

Naquela semana, o jazz suave escapando pelos alto-falantes do sistema de som no apartamento combinava perfeitamente com a sintonia do casal que morava nele.
Durante todos os dias daquela semana, null e null se exercitaram juntos na academia do prédio, dividiram as tarefas de organização do apartamento e do trabalho, e, com um tempinho livre no final de todas as noites, eles colocaram sua série preferida como casal em dia: Sherlock, com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman.
Ao final do terceiro episódio da segunda temporada, null e null estão em choque com a queda de Sherlock e Moriarty da ponte nas Cataratas de Reichenbach.
Eles se entreolham animados, por conhecerem a história e saberem que, na verdade, Sherlock ainda está vivo e há um certo mistério sobre a suposta sobrevivência do professor maligno. O que se torna o assunto de sua pequena sessão de teorias enquanto levam o cobertor e os travesseiros de volta para o quarto.
— A atuação de Andrew Scott como o Professor Moriarty é insana. Tem um quê de Coringa, mas um muito elegante. — null comenta sonolenta, mas empolgada.
— Isso não faz do Sherlock um Batman, por exemplo. Esse Sherlock é mais sensível. Não sei explicar, acho que é culpa do Benedict e daqueles olhos doces. — null ouve a risada da namorada e sorri também.
— O meu crush supremo não pode ser comparado com o Batman, sabe o que penso dele. — null já está deitada e coberta, só esperando que null venha se aconchegar em seu corpo.
— Ele não é o maior vilão de Gotham! — null defende o herói abastado, de motivações duvidosas. — Ao contrário do Sherlock, que faz um esforço imenso para demonstrar não se importar com o Watson, por exemplo, o Batman se importa demais e isso pode sim ser perigoso, chega a ser um problema em alguns momentos dos quadrinhos. Mas ainda não consigo vê-lo como um cara mau. — null ri, balançando a cabeça. null ergue uma sobrancelha, a desafiando a debater sobre o assunto.
— Não vamos brigar por causa do Batman de novo, vem dormir... — A mulher alcança o celular sobre a mesa de cabeceira e desativa as notificações, visando uma noite de sono sem interrupções mundanas.
null ainda está de pé e isso incomoda null de forma irracional, algo que ela tem conversado com sua terapeuta.
Mesmo quando tudo parece estar bem, algumas coisas minúsculas que null faz a deixa profundamente irritada. É inexplicável como algo tão bobo quanto demorar para deitar à noite pode ser tão frustrante.
Decidida a lutar contra seus instintos raivosos, ela se vira devagar, respirando profundamente.
— Você não vem? — Olha para o namorado, que está distraído com algo no celular que o faz sorrir de um jeito que null não reconhece de primeira, por fazer algum tempo. Mas logo ela se lembra da conversa que viu no celular do namorado há duas semanas e a pequena irritação cresce um pouquinho mais bem no centro de seu corpo. null sabe que está por ali em algum lugar porque ela não consegue respirar. — null! — Chama mais alto e ele estende o dedo indicador, pedindo mais um segundo. Mais um segundo de agonia. — O que está fazendo?
— Nada. — Antes de se deitar, null deixa o celular com a tela virada para baixo na mesa de cabeceira de seu lado da cama. null detesta prestar atenção nesses detalhes. Detesta porque sabe que está memorizando a localização do aparelho para buscar por uma oportunidade de vasculhar entre os aplicativos depois.
null beija a namorada na bochecha e deita a cabeça no travesseiro ainda distraído com o que diziam, comentando mais alguma coisa sobre o universo de quadrinhos da DC. null ignorou, assentindo para qualquer coisa que se parecesse como uma pergunta e rezou mentalmente para que ele dormisse logo.
Dentro de si, um formigamento se estende do peito do pé até o peito propriamente dito. Seu coração bate forte, acelerado. Por mais que tente, não consegue respirar fundo e a ideia fixa na mente simplesmente não vai embora.
É torturante.
As vontades conflitantes gritando em seus ouvidos como um zumbido insistente reverberando por seu corpo inteiro a deixam tensa, rígida. As mãos suam frio. Os olhos abertos e nem um pouco sonolentos viajam por todo o teto, esperando pelo momento em que ouvirá a respiração mais profunda do namorado, já contemplado com um sono pesado.
null detesta ultrapassar limites. Ela acredita que uma boa relação é fruto de uma boa comunicação e isso se aplica a todos. Ela acredita que é necessário ter confiança e que privacidade é um valor e um direito que todos deveriam ter garantido.
Mas ela precisa saber.
Quando a respiração de null fica pesada a ponto de começar a se parecer com um ronco, ela sente os músculos do corpo se movimentarem sem sua completa permissão. Devagar, ela levanta da cama e vai na ponta dos pés até o celular, na mesa de cabeceira.
Ela encara o aparelho, depois o namorado e tenta dissuadir a si mesma de prosseguir.
Os corações em bando na conversa e o sorriso abobalhado de null dividem espaço em tudo o que ela pode ver e sem pensar, ela agarra o celular do namorado e corre para o banheiro, fechando a porta com cuidado e se encostando nela quando o brilho da tela ilumina seu rosto.
null gosta de tecnologia, de jogos, de ler notícias das atualidades e tem seus próprios influenciadores preferidos mundo à fora. Gosta de manter suas redes sociais com o intuito informativo e quase nunca posta nada sobre si, ainda assim, mantém certa frequência de postagens porque faz parte do trabalho. null não é aficionado pelo próprio celular, limita o uso em algumas horas por dia quando está em seu momento de lazer, mas sem exageros.
null não sabe bem o que procura no celular do namorado. Ela vasculha entre suas conversas nas redes sociais e nada que já esteja aberto parece suspeito. É claro que, como figura pública, null recebe todo tipo de mensagem. Desde propostas de emprego, sugestões sem noção de vídeo, a propostas sexuais absurdas. Introvertido, o homem tem o mecanismo imediato de bloquear tais usuários. Então, null segue para o WhatsApp do namorado. Nervosa, ela procura pela foto de Morgana, a tal amiga de null.
Ao abrir a conversa, ela tem a frieza de rolar a tela por muito tempo sem parar para ler. Até encontrar uma foto nublada pelo tempo de envio. Ela para de rolar a tela e percebe que a imagem não vai carregar, o que significa que ela foi apagada da galeria.
null decide então começar a ler a conversa a partir daquele ponto. Abaixo da foto, um elogio tímido do namorado ao conteúdo dela.
“Que linda. Vestido novo? “
Seu estômago dá três voltas inteiras.
Após uma breve história sobre como Morgana conseguiu um desconto grande no vestido por simplesmente ter ficado deslumbrante nele, null percebe que Morgana não mudou nada desde o tempo da faculdade. null entende que algumas pessoas precisam de afirmações verbais de gentileza para manterem sua autoestima, ela não julga as pessoas por isso, ainda mais no meio em que está inserida. Mas a insistência da mulher, provocando os próprios elogios é desanimador de ler.
Uma faísca se acende em null e ela considera parar de procurar pelo o que não deve e tentar dormir para continuar sua jornada física ao lado de null, literalmente. Mas sua teimosia e curiosidade são suas inimigas e null continua a ler as conversas de null com Morgana.
“Se você acha que exausto e frustrado sexualmente é estar bem, então, estou bem”
“Vocês bem que poderiam se mudar pra cá. Sendo sua vizinha, pelo menos um dos seus problemas eu poderia solucionar”
“Eu odeio passar frio”
— Que cretino, filho da puta! — null dobra as pernas, ficando mais confortável para ter seu coração arrancado do peito.
null se atenta aos detalhes. Toda vez que Morgana dá a entender que tem algum interesse nele, null não a interrompe. Ele não confirma suas investidas, mas também não as rejeita firmemente como null achou que ele faria. Ele responde sempre com algum comentário engraçadinho e pertinente que o faz parecer um cara interessante para continuar se insinuando.
null se atenta aos detalhes. Ela percebe que null está sempre se queixando de cansaço embora tenha uma energia invejável. Ela compreende que esse cansaço é mental, psicológico. null tem percebido que null tem ficado mais quieto e mais aéreo do que o de costume. Sempre pensativo, hesitante. Ele também se queixa de se sentir sozinho e é nesse momento em que null se sente mal de verdade. Eles estão juntos.
Ela está lá com ele.
“Não sei como você suporta toda essa fachada. Assisti ao último vídeo e aquele comentário que ela fez sobre transar loucamente me deu vontade de expô ela!”
“Eu pensei a mesma coisa. Mas achei que pegaria mal dar a entender que estou sendo traído”
“Eu poderia te ajudar com a sex tape de vingança kkkk”
“kkkkk”
null se atenta aos detalhes. null não só se opõe a defendê-la, como incentiva o escrutínio. Depois de todo o esforço para manter o canal crescendo e se atualizando às mudanças rápidas de demanda de conteúdo por parte do público, null se sente traída por ser criticada por simplesmente fazer seu trabalho.
É humilhante ser exposta desta maneira, ainda mais com alguém com quem null fica tão declaradamente desconfortável.
As conversas se estendem e logo null percebe o padrão delas: null desabafa sobre sua vida miserável em um relacionamento em ruínas e um trabalho que tira sua alegria a cada dia, enquanto Morgana encaixa investidas de forma perspicaz e bem-humorada, inflando o ego ferido do namorado a cada chance que tem. E ele permite, porque no fim, null entende, null precisa disso.
Encarando a foto da — ainda gostosa — ruiva no aplicativo, null toma um susto quando aparece o “online” embaixo de sua foto. Ela sai da conversa antes que um acidente aconteça e bloqueia a tela do celular, mas se lembra de ter deixado algumas de suas redes sociais abertas e teve de desbloquear o celular para fechá-los.
null se atenta aos detalhes. Morgana respondeu a mensagem que null enviou antes de dormir. Ela não precisa ler, não importa mais.
A mulher devolve o aparelho para o lugar de onde o tirou e engatinha no colchão até o seu lado.
O nó em sua garganta machuca e ela sabe o que pode aliviar, mas não consegue. null adormece relendo as mensagens em sua mente. Odiando como a ideia se acomoda cada vez mais em sua cabeça.
null assistiu filmes por toda a vida. Desde pequena, passar horas diante da TV aprendendo outro idioma e absorvendo as aventuras proporcionadas pela sétima arte foi seu passatempo preferido. Com o passar dos anos, null conseguiu compreender e sentir quando o final de um filme se aproxima. É uma sensação profunda que vai crescendo e se amarrando por dentro, como um laço que reúne toda a montanha-russa de sentimentos proporcionados pelo filme.
O filme de null e null está terminando, ela pode sentir.

Na manhã seguinte, null não sente vontade de levantar da cama para nada. Nem o cheiro de café fresquinho vindo da cozinha a faz ter o ímpeto de se sentar. Ela encara a parede oposta à cama como se fosse abrir um portal com sua mente. Fazer o bonito papel de parede de formas geométricas amolecer e abrir passagem para outro lugar onde tudo não fosse tão desencorajante.
— Bom dia — diz null, animado, após mais um treino. Acostumado com as coisas de volta no lugar, ele se inclina para beijar a namorada, ignorando sua aparência abatida no intuito de incentivá-la a se levantar. null sabe que se estiver doente, null odeia ser tratada como tal e prefere que as coisas continuem como são normalmente. “Nada pior do que estar doente e ainda ter de me preocupar com a sua preocupação”, se lembra como um religioso se agarra à um mantra, foram muitas as vezes em que se importar acabou sendo a pior coisa que ele poderia ter feito.
— É bom que você finalmente tenha tido um — diz baixo, sem esperar que ele ouça.
— Como assim? — null tira a camiseta, o short e estala o pescoço, disposto a conversar depois do banho.
— Nada — diz sem vontade, cobrindo a cabeça com o cobertor.
null tomou banho, comeu alguma coisa rapidamente na cozinha e deu continuidade às tarefas que tinham sido delegadas por null na tarde anterior.
Ele desmontou o cenário, desligando as luzes e rebatedores e levando tudo para o escritório, onde gravam quando vão receber convidados ou fazer alguma produção mais elaborada. Com o cômodo pronto para receber os equipamentos de captação de áudio e imagem, ele volta para a sala, aproveitando a oportunidade para limpar o local e organizar algumas coisas por ali.
null sabe que sua ajuda é muito mais bem recebida se ela consistir em manter o entorno de null funcionando e é isso o que ele faz mesmo que seu coração e sua mente estejam no quarto, com ela.
Ao longo dos quase oito anos juntos, null aprendeu a decifrar quando null estava indisposta e quando ficava abalada com algo dentro de sua mente. Quando machucada, null se irrita com facilidade e é bastante verbal sobre o que a incomoda. Quando completamente destruída, ela não diz nada.
O silêncio parece se infiltrar na corrente sanguínea de null, agitando o rapaz que procura a todo custo por alguma distração.
São quase cinco da tarde e ela não comeu, não bebeu nada e ele não ouviu barulho algum indicando que ela tenha se levantado em algum momento.
Preocupado, null decide intervir. Munido de somente uma oferta de paz em forma de cookies caseiros com gotas de chocolate e leite morno, ele entra no quarto escuro e caminha devagar até a cama, apoiando a bandeja com cuidado sobre o colchão.
null, quer conversar sobre alguma coisa? — Pergunta ainda na penumbra do cômodo fechado.
— Não.
— Foi o seu pai? Ele ligou de novo? — Pergunta devagar, demonstrando que está lá para ela e que tem todo o tempo do mundo para que eles voltem ao assunto que a faz ficar tão magoada.
— Não.
— Eu trouxe biscoitos — diz baixinho, melodioso.
null se mexe na cama, ele avisa que vai acender a luz e ela concorda com um murmúrio, se sentando no colchão e cobrindo o rosto com uma das mãos. Por mais que não tivesse pregado os olhos, eles ainda estão sensíveis à claridade.
null bebe o leite e solta um pigarro, testando a voz.
— Não, meu pai não ligou de novo — diz monótona. Quando consegue, ela o encara inexpressiva, quase serena, ele poderia dizer.
— O que foi, amor? — Ele inclina a cabeça para o lado, tenta esticar o braço e alcançar seu rosto com a ponta dos dedos, mas ela esquiva.
— Está com o seu celular? — Ele assente, o tirando do bolso do moletom. null estende a mão e ele entrega o aparelho, a olhando desconfiado.
— Eu deixei algum despertador ativo de madrugada? — Ele volta a perguntar, considerando o fato de ela só estar cansada.
— Não. Você fez isso... — Ela abre a conversa com Morgana. Ignora o fato de ele ter respondido a mensagem da madrugada e terem dado continuidade ao assunto durante o dia todo. null suspira, clica em uma mensagem em específico dentro de todas as conversas, a fixando aos olhos e devolve o celular ao namorado.
“Às vezes sinto que tomei decisões grandes cedo demais. Gostaria de voltar no tempo e mudar algumas delas”
— Você pegou meu celular. — Ele constata, magoado.
— O outro jeito de saber era perguntando pra Morgana e eu prefiro morrer à falar com ela. — null está decidida. Passou o dia inteiro decidindo.
— E a terceira, mais provável de ser bem-sucedida e menos invasiva, seria falar comigo. — null solta o celular na cama, indignado.
— Pra você mentir de novo e de novo? — Ela rebate, apoiando o copo na bandeja. — Você me diria as coisas que disse pra ela, se eu perguntasse?
— Não, porque ela não sabe nem metade! — null ri com escárnio.
— Claro, porque eu sou um monstro terrível na sua vida. Você nem consegue descrever os seus pesadelos. — Acusa, mas acaba por se magoar mais com a imagem que ela imagina que null tenha dela.
— Não acredito que vasculhou meu celular e agora está irritada comigo. Eu devia estar irritado com você! Você não confia em mim agora, é isso? — null se levanta, andando de um lado para o outro no quarto. A energia que se acumula dentro dele é imensa e tão negativa que ele sente o peito pesar.
— É sério que esse é o problema pra você nessa situação toda? Você me traiu! — Ela grita, null é quem ri agora.
— Eu quero saber como foi que eu te traí com alguém morando em outro país — diz brincalhão, apesar de estar cansado de ter de se defender enquanto um namorado fiel.
— Você disse coisas pra ela que não disse pra mim. Dividiu com uma mulher que tem um interesse duradouro por você, coisas que você deveria ter discutido comigo. Eu entendo que me distanciei, mas você sequer tentou diminuir a distância? — null soa magoada, triste. Ela não chora, mas seu nariz e bochechas estão tão vermelhos que null acha que pode acontecer a qualquer momento.
Ele odeia vê-la chorar. Ser o motivo pelo qual ela está chorando faz com que ele se odeie também.
— Você se distanciou, não me deixou chance de me abrir com você. — Ele se defende, encurralado.
— Eu estava ocupada pensando no nosso futuro e achei que você pudesse cuidar do nosso presente. Aparentemente, você gosta de fazer mulheres perderem seu tempo — diz amarga, sarcástica.
— Do que está falando? — Ele está exausto. A vida de null tem passado diante de seus olhos nos últimos dias e ele sente que não tem mais tempo a perder discutindo os mesmos assuntos sem aprender nada com isso.
— Você pretende se encontrar com ela, eventualmente? — null cruza os braços, interessada pela resposta.
— O quê?! Não! Eu já disse que ela é minha amiga, é casada e eu nunca destruiria algo assim. — Ele se defende, feroz. null acredita mesmo na santidade do casamento. Ele ignora os flertes de Morgana por saber que ela nunca daria o passo adiante e desde que ele não a encorajasse, estaria seguro.
— Ela não parece tão comprometida com essa ideia quanto você. — null recupera o celular sobre o cobertor e volta a conversa até um ponto onde Morgana é explicita sobre seus desejos.
— Eu não digo nada!
— Esse é o problema!
— Não existe problema, null! Eu não te traí. Nunca sequer toquei em mulher nenhuma desde que estamos juntos, nem tenho vontade. Eu precisava desabafar com alguém porque você não me deixa pensar direito com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Você lida tão bem com tudo, eu me sinto um otário com tanta dúvida e insegurança. — null tenta explicar, esperando que a namorada se relacione com sua situação e seja flexível sobre o assunto.
Ele não fez nada errado.
— É pra isso que serve a terapia, não correr pros braços da piranha fácil dos tempos da faculdade para fazer chacota da idiota que trabalha dia e noite para realizar os seus sonhos também! — null acusa, irritada.
— Meus sonhos não têm nada a ver com tudo isso! — null confessa, tomando null de assalto.
— Então... quais são os seus sonhos agora? — null se encolhe na cama. Não há preparação suficiente que torne mais fácil assistir seu futuro implodindo diante de seus olhos.
— Eu não quero mais fazer isso. — null sente seu coração ficar mais leve ao dizer as palavras. A expressão de null é o que põe freio na sensação de alívio, a impedindo ser completa.
— Do que você está falando? — null pergunta, tentando ter certeza.
— Tudo isso. Estou cansado das brigas, da pressão. Não quero mais fazer parte do canal. — Ele encara a namorada processando as informações e null espera que ela entenda.
Nos últimos meses, null entendeu que queria testar novos horizontes, focar em sua verdadeira paixão. Estar atrás das câmeras o anima muito mais do que estar diante delas. Ele cansou da vida que escolheu aos vinte, agora, quase chegando aos trinta anos, null gostaria de dirigir um filme. Sem pretensão de receber um Marighella, nem sequer a presunção de ser bem-sucedido em uma mostra underground de cinema. Ele só quer seguir um novo caminho, fazendo algo que ele realmente ama.
— Eu vou ficar na casa da Olívia por alguns dias. — null decide, se levantando pela primeira vez no dia e buscando no closet, uma mochila e tudo o que via pelas gavetas.
— Nós temos que conversar sobre isso, null. — null avisa, sabendo que não pode dissuadir a namorada. Uma vez que ela decidiu, ele não poderia mais intervir.
— Eu sei — diz com a voz embargada. — Mas se eu disser o que estou sentindo agora, posso me arrepender depois. — null se distrai com o enrolar do cabo do carregador do celular. null se senta na cama e suspira pesado.
— Nós estamos aqui justamente por não termos sido honestos antes. Por favor, não vai embora. Conversa comigo? — null sente o corpo pressionado, rígido. Num lapso de responsabilidade, ela deixa um carinho entre as orelhas de Boris, que bebe o restante do leite no copo.
— Não posso. Desculpa. — A mulher se afasta, andando a passos largos pelo corredor. Ela precisa sair dali antes que comece a implorar e null não implora nada a ninguém.
null acompanha null, parando no fim do corredor. Ele encosta o ombro na parede e espera que ela ao menos o olhe uma última vez antes de sair, mas ela não o faz. Com a respiração entrecortada, rosto vermelho e os olhos marejados, null sai do apartamento esperando que isso amenize a dor de estar perdendo absolutamente tudo.
Quando ela fecha a porta, null sente um vazio imenso no peito.
Tão vazio que nem a vontade de ir atrás dela aparece. Chateado, ele se vira para a sala afim de encontrar conforto em alguma coisa, mas ao invés disso, encontra os dois gatos o encarando como quem sabe que ele fez besteira.
Ele fez sim algo errado.

— Quando eu vi os comentários no Twitter, eu corri pro Instagram e menina... Não falavam tanto assim de uma virilha desde que a Sabrina Sato normalizou a virilha sarada. — Olívia, irmã de null, diz divertida.
O pai delas gostava de enrolar a língua ao falar o nome das filhas e desenrolá-la na garganta da vizinha quando a mãe saía para o trabalho.
— Eu juro que ainda não entendi o motivo da comoção — diz monótona, rolando a tela do celular sem muita vontade.
— Você é gostosa e famosa, basicamente tudo o que você fizer vai chamar atenção. — A mulher diz prática, se virando minimamente para gritar com o filho mais velho, Alex. O menino tem cinco anos e uma energia caótica bem estabelecida que faz com que ele seja, secretamente, o sobrinho favorito de null.
— Gostosa! Gostosa! Gostosa! — Alex sai gritando pela sala, sacodindo um pandeiro e fazendo um som estridente.
— Não repete isso! — Olívia briga com o filho, mas ri de sua ingenuidade.
— Eu não estava pensando direito naquele dia. Isso porque eu nem sabia do conteúdo da conversa ainda. Só senti que deveria chamar a atenção do null de alguma forma. — null refaz a última briga na cabeça. Com um desespero soturno crescente no peito, tentou ignorar o fato de que havia algo de muito errado para o namorado tão devoto ao relacionamento ter de recorrer à outra pessoa.
Seja lá qual fosse sua carência, null queria ter sido a primeira opção de null a quem recorrer se as coisas estão tão ruins.
— Você conhece o null melhor que qualquer um, até ele mesmo. Deve ter alguma explicação pra ele ir atrás daquela...
— Não... Não xinga ela. Não vale a pena. Eu fico pensando no que ela deve sofrer no casamento com o gringo para ter de recorrer à um antigo amigo de faculdade para se frustrar um pouco mais e parecer bem com isso. — null passou a última noite pensando por todos os lados da situação. Se imaginando na posição da mulher, null entende que não estar fácil para ninguém nunca foi tão cruelmente verdade. Deitada em um colchão fino entre as camas dos sobrinhos, null decidiu que a mulher, vivendo na fria e mais bem desenvolvida Suíça, não passava de mais um efeito colateral do verdadeiro problema: null cresceu e de repente, não parecia mais haver espaço para sua antiga vida, para null.
— Eu ia dizer “desesperada”, mas pensei em nomes piores. Obrigada por me manter zen e não lançar esse ódio para o universo. — Olívia junta as palmas da mão, fecha os olhos e suspira devagar. Olívia está em uma jornada espiritual. Com três filhos e um marido que trabalha demais e mal para em casa, a mulher não pode ir à Índia, mas trouxe a Índia para sua sala de estar.
Os cheiros dos incensos acesos dia e noite deixam null enjoada, sem vontade de comer nada e por isso, com uma dor de cabeça fina, mas potente.
— Você já buscou conforto com alguém do passado alguma das vezes que o André vacilou? — null pergunta, vendo a irmã olhar por cima dos ombros e arrastar a cadeira pesada em sua direção.
— Toda vez que o André vacila, eu troco nudes com meu primeiro namorado. Lembra do Marcos? — Olívia passa a língua nos dentes, um sorriso malicioso e quase desonesto no rosto da irmã assusta null e ela rola os olhos.
— Você é impossível...
— Não significa nada. Ele tem a vida dele, eu tenho a minha. Quando as coisas começam a ficar melosas e nostálgicas de mais, eu bloqueio o número dele e só voltamos a nos falar quando estou com vontade. — Explica sem culpa, prática. null evita olhar diretamente para a irmã, tentando não a julgar demais.
O marido de Olívia, André, é do tipo workaholic assumido. Dorme pensando no trabalho, acorda pensando em trabalhar. No meio tempo ele, bem, trabalha. É diretor de uma empresa de comunicação que beira à falência e sofre demissões em massa todo início de mês.
O homem sofre de complicações cardíacas e vive sob extremo estresse diariamente. null sente um pouco de pena do cunhado. Ela reconhece seus esforços para manter os três filhos e a esposa confortáveis. Toda conversa que null tivera com André acabou se tornando em um desabafo dele em relação ao futuro das crianças e a preocupação constante com o fim abrupto de tudo o que ele construiu através de trabalho árduo.
— Eu lembro que o Marcos te tratava como lixo e te traía loucamente com qualquer coisa que estivesse viva. — null comenta, mal-humorada. A irmã rola os olhos.
— Exatamente, por isso é um fracassado de merda até hoje. Mas tem um pau grande, grosso e ligeiramente inclinado para a esquerda que é uma delícia. — Olívia sorri mostrando os dentes enquanto a irmã não consegue decidir se joga água quente nos ouvidos ou se bate a cabeça na mesa grossa de vidro até que não reste resquício da imagem que Olívia pintou do ex-namorado.
— Acho que já fiquei tempo demais longe de casa — diz se levantando. Pega o casaco apoiado no encosto da cadeira e a irmã começa a rir em um nervosismo engraçado.
— Mas você é a única outra adulta aqui... — Olívia diz magoada.
— Eu sou a única adulta aqui. — null beija a testa da irmã. — Eu tenho que falar com o null. Não é justo, se ele quer seguir a vida, não posso ficar adiando essa conversa. — Olívia dá de ombros.
— Alex! O que eu falei sobre tela depois das oito? — A irmã mais velha se distrai e sai correndo atrás do filho risonho com um IPad em mãos.
— Não sei que horas são — diz Alex, fazendo null sorrir discretamente para não incentivar o sobrinho a continuar com o comportamento rebelde.
null junta as coisas na mochila e se despede dos sobrinhos menores, Bernardo e Clara, de três e dois anos. Mais calmos, eles brincam no tapete de atividades do quarto e cada um recebe um beijo na testa da tia. Alex escapa dos braços da mãe e se embrenha entre as pernas de null, que se inclina para olhá-lo nos olhos à sua altura.
— Eu quero ir com você. Quero jogar meu boneco da sacada e aqui não dá por causa da tela. — Alex explica seus motivos com uma expressão dolorida, null repreende uma vontade súbita de experimentar a jornada familiar, mas ao avaliar melhor o pedido do sobrinho, null sabe que não saberia lidar com uma criança sua.
— Você sabe o que é reputação, Alex? — O mais novo balança a cabeça de um lado para o outro. — Reputação é uma coisa importante. Por exemplo, se você jogar o seu boneco da sacada, ele vai contar aos seus brinquedos novos que você não é cuidadoso. Você quer ter a reputação de alguém que é malvado com os brinquedos? — Pergunta com calma, vendo o sobrinho pensar bem na resposta.
— Não. Eles vão ficar com medo de mim. — Alex se compadece pelos brinquedos, atingido pela tristeza do arrependimento.
— Seus bonecos são seus amigos. Se você cuidar bem deles, eles sempre estarão com você quando precisar. — null pisca um dos olhos, o sobrinho sorri ainda assimilando a nova informação.
— Acho melhor eu pegar ele de volta, então... — Alex se desfaz do abraço desajeitado e corre para o banheiro social, puxando um cordão e espalhando água da privada por todo o corredor ao salvar o boneco de um afogamento não tão acidental.
— ALEX!
Depois de assistir Olívia ter um surto nervoso enquanto ajeitava a pequena bagunça do filho, null vai até a cozinha e encosta o quadril no da irmã, a olhando meio torto.
Está brava com Olívia, com null. Não entende como é simples para eles entregar uma parte de si tão íntima para outro alguém enquanto há outra pessoa dando tudo por eles.
— Você é a pessoa mais inteligente e pé no chão que conheço, null. Não tem nada que você não consiga resolver, ainda mais se o assunto for o bobão do null. Garanto que se você estalar os dedos, ele esquece tudo e faz o que você quiser. — Olívia sorri de boca fechada, um pouco envergonhada pela confissão de antes.
— Eu não quero isso. Não quero um lacaio, quero um homem de verdade ao meu lado. Se ele não quer mais que fiquemos juntos, não tem muito o que ser resolvido. — null suspira, apoiando a cabeça no ombro da irmã.
— Eu queria um lacaio. — Olívia comenta baixinho, fazendo a irmã rir desconcertada.
— O André é um homem maravilhoso, Olívia. Ele está tentando, pelo menos.
— E o null não? Não acha que ele está investido, disposto a resolver essa situação? — A irmã desvia o assunto de si. É claro que as coisas são mais complicadas do que isso e null não poderia compreender a solidão de levar a vida com somente parte de seu parceiro.
— Disposto a resolver com outra pessoa... — null soa magoada, mas chacoalha a cabeça, forçando um sorriso.
— Você pode ser rígida às vezes, null. Não é nem um bicho de sete cabeças, mas ainda é complicada e tem essa carinha debochada e julgadora que nos faz sentir mal em sermos falhos. Vai com calma. Vocês se conhecem desde sempre, quem sabe mudar um pouco as coisas não seja uma boa. — null tenta engolir a crítica da irmã e a digerir como uma construtiva.
— Não entendo como, de repente, ele não sabe mais como lidar comigo. Não sei como me tornei alguém com quem ele não pode mais conversar. — null suspira cansada, o nó em sua garganta parece aumentar a cada hora que passa, ela ainda não consegue se livrar dele.
— Você cresceu, null. Se tornou uma mulher focada, dedicada e muito boa no que faz. Talvez, você tenha deixado tudo muito prático e praticidade mata o romance. — Olívia franze o nariz, reconhecendo na própria fala o próprio erro. — Eu não acho que vocês devam terminar o que têm. Mas talvez ajude que as suas carreiras se separem um pouco, sabe? Novidades no final do dia, conversas longas sobre odiar o patrão e os funcionários que trabalham com você.... — Olívia suspira profundamente, se lembrando de quando o marido não era o chefe odiado e eles tinham mais tempo para ficarem juntos.
— Não achei que crescer significasse me distanciar dele. — null suspira também.
— Não precisa significar. Não se você não quiser. — As mulheres compartilham de um silêncio profundo, cada uma marinando seus próprios pensamentos sobre os relacionamentos e a vida como um todo.
Mais tarde, null pede um Uber e volta para o número 1200, na rua Girassol.
Antes de entrar no apartamento, ela respira fundo e tenta controlar, mesmo que minimamente, os sentimentos borbulhando com a possibilidade de ouvir as palavras saindo da boca de null.
null não está pronta, mas mesmo com medo, ela abre a porta do apartamento, encontrando tudo apagado.
— Olá, meninos... — Ela se abaixa, deixando a mochila no chão e cumprimentando os gatos que a cercaram com miados cheios de saudade e à sua maneira felina, a enchendo a perguntas sobre seu paradeiro nos últimos dois dias. — Cadê aquele humano que vocês odeiam? — null devolve a pergunta para os gatos, que se enjoam dela e logo decidem que a saudade já foi mais que sanada. Eles se espalham pelo cômodo, deixando null entrar em casa completamente.
null não está no apartamento.
É sexta à noite e null odeia o pensamento de que null possa estar por aí, curtindo sua nova solteirice. A ideia de que ele possa se envolver com alguém, mesmo que de forma casual para substituir a dor do fim de relacionamento a enlouquece aos poucos. Ela não consegue dar continuidade a nada que começa a fazer, com as possibilidades lhe atacando.
Um pensamento cruel e desenfreado a faz sentir um medo maciço de null voltar para o apartamento acompanhado, por acreditar que ela ainda estaria na casa da irmã. É difícil deixar tantas expectativas negativas de lado, afinal, null conhece o caráter de null. Ela sabe que ele não faria tal coisa, simplesmente não faz parte dele ser o tipo de cara que se rebela e se vinga. Os pensamentos se acumulam não por null pensar mal de null, mas por achar que ela merecia que ele o fizesse. null acredita que nunca mereceu um amor tão devoto e tranquilo e que faria sentido que null a deixasse desta maneira.
Após um banho longo demais, null desiste de se distrair. Ela se senta na ponta do sofá, esperando por ele e encarando a porta como se pudesse materializá-lo ali.
Com o coração apertado, null decide que não é assim que as coisas vão terminar. Ela sente que deve à garota de dezenove anos que se apaixonou perdidamente pelo melhor amigo uma nova chance. Ela está disposta a convencer null a fazer o mesmo e ela sabe exatamente como.
Ela pega o notebook sobre a mesa de jantar e procura pelo roteiro do vídeo da publicidade entre os arquivos. Está cru e urgentemente precisando de uma edição eficaz, mas serve exatamente para o que ela precisa agora. Agoniada, null imprime as três páginas de roteiro, relendo tudo e editando minimamente com a ajuda de uma caneta cor-de-rosa que encontrou perdida na sala.
null relê os perrengues e todas as formas mirabolantes de null resolver sua vida com sua leveza única. Relembra as vezes em que achou que tinha arruinado tudo, mas, com a ajuda de seu melhor amigo, foi capaz de compreender e carregar alguma lição de seus erros. null ensinou a null a como se tratar com alguma compaixão, a encontrar um caminho de se aceitar e se respeitar como a mulher incrível que ela sempre fora. null ensinou null que mesmo que não haja nenhum exemplo, nenhuma fonte de amor, que ela deve ser o centro disso. Ele a ensinou que sim, há o que amar nela e com certeza esse algo, é grande o suficiente para ela continuar lutando contra todas as razões que ousam dizer a ela o contrário.
Distraída com o roteiro, null não percebe a porta sendo aberta e fechada por null, que respira aliviado ao ver a namorada sentada no sofá com sua energia atarefada de sempre.
Ele repele a vontade de ir até ela, abraçá-la e se mostrar absolutamente arrependido de qualquer decisão que a faça se afastar novamente. Ele fica parado, encarando-a até que ela perceba sua presença.
Não demora muito até null levantar os olhos das páginas que segura com força, determinada a entregar um texto impecável que deixe claro sua intenção de ser melhor para ele com base no quanto ele foi bom pra ela através dos anos.
— Você viu meu bilhete? — Pergunta com a voz um pouco rouca, ele parece cansado e ela morde o lábio inferior, notando a leve frieza em sua voz.
— Que bilhete? — null observa o namorado entrar no corredor, depois no escritório e sair de lá com um post-it roxo escrito de caneta cor-de-rosa que ele estava na casa da mãe. null pega o bilhete entre os dedos e relê as poucas palavras escritas com sua letra com um alívio enorme que ela não consegue disfarçar.
— Você procurou por algum bilhete? — null se senta no sofá, mais afastado dela. Ele olha os papéis rabiscados em sua mão e percebe que null está hesitante, sobressaltada.
— Não. — Ele ri nasalado, nem um pouco surpreso. O som a faz se envergonhar por se deixar ser levada por sua mente altamente criativa para o mal.
— Claro... — Diz convencido, frio.
— Como ela está? — null olha desconfiado, sem saber a quem null se refere. — A sua mãe... — Ela corrige, magoada por ele pensar em Morgana logo agora.
— Bem. Te mandou um abraço. — Ele suspira de novo, recebendo Minguante em seu colo.
— Que bom. — null sorri polida, sem jeito. Ela detesta essa distância mais que física. Ela sabe que toda essa formalidade só esconde os verdadeiros sentimentos dos dois. null está magoado e null desesperada. — Quando isso aconteceu? — Ela se aproxima um pouco, ouvindo o gato ronronar no colo do namorado, recebendo um carinho dele entre as orelhas.
— Não sei. — null dá de ombros, os olhos fixos no gato em seu colo. — Acho que ele finalmente cedeu para o meu charme. Ou sentiu minha alma miserável chorar de solidão. — null brinca com o gato, mas não parece divertido e leve como sempre.
— Acha que podemos conversar agora? — null pede hesitante, odiando o confronto intenso que a espera.
— Você acha que podemos? — Ele devolve a pergunta, olhando pra ela de um jeito exausto. Ela assente devagar, engolindo em seco e buscando pela introdução de seu texto.
null busca ar para os pulmões, pronta para começar sua muito bem construída moção para convencê-lo de que os dois juntos valem mais a pena do que separados. Até se isso significar o fim do canal.
— Posso começar? — null volta a falar, ele umedece os lábios com a ponta da língua. null fica com a introdução entalada na garganta, mas permite que ele fale primeiro. — Tem algum tempo que não sinto que estou fazendo algo significativo pra mim. Eu adoro o canal e gravar vídeos com você é a melhor coisa que já me aconteceu, mas não é só isso. Se tornou algo maior e de repente, eu não sinto mais que consigo fazer isso com o mesmo tesão de antes. Eu sei que as coisas melhoraram estratosfericamente para nós por causa disso, mas eu não quero mais fazer isso por dinheiro. Você é perfeita pra esse trabalho, uma verdadeira força da natureza que faz tudo girar e acontecer brilhantemente, eu não podia simplesmente dizer que não quero mais. Eu aprecio tudo o que você faz por nós dentro e fora do canal, por isso achei que iria passar e que eu conseguiria encontrar um jeito de trabalhar mais feliz, por você. Mas eu não consigo mais, amor. Eu não quero decepcionar você, mas não sei mais como continuar.
null esconde o rosto entre as mãos, esgotado e se sentindo mais leve ao mesmo tempo.
— Espera... Você só quer sair do canal? — null olha do namorado para o texto emocionado em suas mãos e sente a incompreensão tomar seu rosto.
— É. — null confirma desconfiado. — O que achou que fosse?
— Achei que estivesse terminando comigo. — null franze a testa, o corpo todo se desata dos nós que seus músculos haviam formado. Aliviada, null chega a rir do mal-entendido.
— O quê?! Não! Você ‘tá louca? — null se agita, quase ofendido pela suposição da namorada. — Você é a protagonista da minha história, o núcleo da minha galáxia. O meu começo, meio e fim. Eu até posso, mas não quero nunca viver sem você, null. Isso é loucura, acho que estou tendo um ataque cardíaco só de pensar na ideia... — null apoia a mão no peito, respirando profundamente. A ideia parece ridícula pra ele, completamente impensável.
— Então, eu não preciso desse discurso? — Ela encara os papéis se sentindo uma verdadeira idiota por ter se precipitado tanto.
— Tem um discurso? — null assente e ele se ilumina em um sorriso. — Eu quero ouvir, então.
— Não. Você já disse basicamente tudo o que eu iria dizer. Vai achar que eu te copiei. — null tenta amassar as páginas, mas null é mais rápido que ela e os pega já começando a ler.
— Querido null... — Ele lê com a voz engraçada, tentando manter a namorada distante das folhas, a empurrando pela testa. — Eu poderia contratar a melhor poetiza que conheço para eternizar o que sinto em um belo poema. Poderia pedir que o seu irmão compusesse uma música e mataria a todos nós de vergonha ao apresentar essa canção pra você em forma de serenata para fazer com que sejamos despejados. — Ele ri, enquanto lê em voz alta, afim de deixa-la ligeiramente constrangida com o gesto fofo de lhe escrever uma carta. Mas em algum ponto, null deixa null se aproximar e ela para de tentar impedir que ele leia o conteúdo das páginas. Ela o abraça pela cintura, deitando a cabeça em seu peito e ignorando suas tentativas infantis de fazê-la corar.
null procura dentro de si uma maneira sucinta de demonstrar o quanto está aliviada por tudo não ter passado de um mal-entendido. Ela decide que a comunicação entre eles tem de ser mais aberta a partir de agora. Não consegue esquecer que tudo poderia ter sido resolvido de forma menos complexa se eles tivessem simplesmente sentado para conversar.
— Que lindo, amor. Acho que você nunca foi romântica assim... — null passa os olhos pelas folhas amassadas, impressionado com a desenvoltura da namorada para dizer algo tão simples. Boa vendedora, null ressalta os motivos pelos quais eles devem ficar juntos de um jeito bem-humorado e preciso. Seu maior argumento é um fato intransponível: eles se amam, e, por conta disso, devem fazer o que for preciso para ficarem juntos.
— Eu sou romântica o tempo todo. — null cruza os braços, incomodada.
— Você é maravilhosa, meu amor. Mas romântica, não. — null balança a cabeça firmemente. null estreita os olhos, silenciosamente discordando.
— Eu tento... — null não gosta de saber disso, quer deixar de lado o orgulho que a impede de ser completa com seu amado e demonstrar esse amor da forma que lhe vier à telha.
— Não precisa. — null deixa a carta de lado, concentrando as mãos na cintura da namorada com propriedade. — Eu estive lendo sobre tipos de amor ao redor do mundo e me deparei com algo chamado linguagem do amor. É uma teoria que existe há uns trinta anos, mas ainda ressoa nas terapias de casal mundo a fora. Consiste em cinco linguagens primárias que imprimem a forma de amar de cada pessoa. Assim como dois estrangeiros, deveríamos aprender a linguagem um do outro. O seu é chamado de Ato de Serviço, você sente que demonstra melhor seu amor através de tudo o que você faz por mim, desde um copo d’água a uma consulta médica marcada. O meu, bem, acho que é bem óbvio, mas é Toque Físico. Eu me sinto mais amado e completo quando você está perto de mim, literalmente tocando em mim. — null sorri constrangido com null, espalmando urgentemente as mãos em seu peito. — Pode ser difícil nos adequarmos, mas, acho que vale a pena tentar.
— Está me dizendo que depois desses anos todos, ainda tinha algo que não sabíamos um sobre o outro? — null assente e a mulher ri de leve, se aproximando mais dele.
null quer deixar tudo para depois, resolver o que tiver de ser resolvido pela manhã e usar o que os resta de noite para mostrar a null que ela o ama com as palmas das mãos, com os braços, pernas. Com o corpo inteiro.
null também está se segurando para não a agarrar ali mesmo, tirar suas roupas e beijar todo seu corpo. Tocar sua pele macia somente com as pontas dos dedos não é suficiente e o peito do homem se enche e transborda de alegria quando null fica na ponta dos dedos dos pés e o beija devagar, sem pressa. Profunda e intimamente.
null sentiu falta desse tipo de beijo e aproveita cada segundo dele como se fosse o último.
Ele se lembra do conceito da técnica japonesa para conserto de porcelanas e cerâmicas, o Kintsugi. A técnica consiste em remendar a peça com cola e pó de ouro, evidenciando as rachaduras e ao mesmo tempo, dando novos significados à peça, a tornando única e ainda mais valiosa ao agregar personalidade. null se sente aceitando o desgaste de seu relacionamento, as cicatrizes foram expostas e agora, devidamente cuidadas, existe uma beleza diferente na união do casal. Eles são como um antigo vaso novo em folha, com seus pequenos cacos unidos por ouro.
Extasiado pelo beijo de null, null sente necessidade de tê-la. Ele se abaixa um pouco, beijando seu pescoço e apertando sua bunda no caminho para as coxas, onde ele apoia bem as mãos fortes, a levantando sem esforço.
null suspira surpresa, o olhando nos olhos, embriagada de paixão. Ela embrenha os dedos nos cabelos dele, os bagunçando um pouco. Volta a beijá-lo com mais vontade, com mais tesão.
null a deita no sofá e toda pele exposta é beijada por seus lábios, dedicada e languidamente. Ele a despe devagar, apreciando a pele arrepiada de null sob seus lábios, dando curtas lambidas entre suas costelas, soltando um gemido sôfrego quando os vê os seios completamente à sua mercê, esperando para serem tocados e chupados. null fecha os olhos com força quando acontece, a cabeça se inclina para trás e sem nem perceber, ela abre mais as pernas, buscando por mais contato.
Desesperada, ela arranha seu pescoço e costas ao tirar a camiseta dele, que a impede de sentir seu calor diretamente. Eles se abraçam e null sorri enquanto beija a namorada sob ele. É como no início, cheio de curiosidade e queimando de paixão, mas ainda assim, a experiência que null adquiriu através dos anos com o corpo daquela mulher proporciona uma nova aventura toda vez que ele a toca.
Sentindo que não pode mais esperar, null tira o short de null, levando junto a calcinha minúscula. É simplesmente deslumbrante vê-la ali, com os olhos negros de desejo e o corpo exalando a vontade de tê-lo dentro dela.
De repente, null se levanta e o empurra para o estofado, onde estava deitada antes. Ela sorri lasciva, quase assustadora e ele adora esse sorriso. Decidida, ela se ajoelha diante do namorado e inclina o corpo sobre o dele, beijando seu peito e abdômen enquanto abre o botão da calça jeans, esbarrando as mãos de propósito em seu pau no percurso com o zíper.
null mal cabe dentro de si com tamanha empolgação. Na tela grande da TV na parede oposta, ele pode ter um vislumbre de null completamente empinada, apoiada nos joelhos enquanto o masturba dolorosamente devagar. Ele arfa, se contorce sob seu toque e se controla para não implorar por mais, ele quer aproveitar um pouco mais o olhar satisfeito de null para seu pau duro em sua mão.
Ela joga os cabelos para trás e o olha com a expressão mais erótica que sabe fazer, se inclina para frente e sem cerimônia, abocanha até a base, molhando bem com sua saliva e sugando tudo de volta, até a glande, onde passa a língua devagar, firme e se deliciando com a expressão de completo choque de null.
Ele respira rápido, sente seu coração bater nos ouvidos e até tenta, mas não consegue manter os olhos abertos por muito tempo. O calor da boca de null é bom demais para ignorar e pensar em outra coisa além da loucura que é ser chupado por ela.
null estica a mão e acaricia o rosto da namorada, que volta a olhá-lo com os olhos divertidos.
null se encontra fora de si, em um estado tão safado que mal percebe o que faz. Obstinada a deixar null completamente louco por ela, a mulher segura a base do pênis e após chupar a glande e dar uma boa lambida na extensão, ela usa o pau de null para bater de leve no próprio rosto, tirando uma risada dele.
— Não aguento você safada desse jeito — diz embriagado, com a respiração mais forte quando ela volta a chupar profundamente. Ele xinga baixo, agarrando uma porção de seus cabelos e sentindo null se arrepiar na nuca. — Retiro o que eu disse, aguento sim.
O rapaz se levanta do estofado, levantando null junto consigo. Ele a coloca de quatro no sofá, desferindo um bom tapa em uma de suas nádegas. null ri baixinho, apoiando o peito no encosto do sofá e se preparando para o que quer que ele fosse fazer em seguida.
Surpreendendo a si mesmo e à namorada, null também se põe de joelhos, adorando a vista da bunda empinada de null. Ela joga os longos cabelos para trás, ajeitando os joelhos e abrindo mais as pernas. null se põe entre elas, se deliciando com o quanto null está molhada e pronta, mas ele tinha planos que não poderiam ser adiados e sem demora, ele passa a língua por toda a extensão da vagina e períneo, se demorando mais em sua bunda, apertando as nádegas entre as mãos. Os gemidos de null são delirantes e ele continua, a penetrando com a língua de vez em quando e adorando a forma desejosa como ela reage.
null começa a sentir a respiração mais pesada, os pensamentos embaralhados e uma confusão que só tem uma certeza que vai crescendo conforme ela geme e arqueia as costas, dando a null acesso total a ela. O fogo concentrado em seu baixo ventre se intensifica a cada estocada da língua ágil e gentil de null. null sente o corpo fervendo de excitação.
Ela fecha os olhos com força e morde o lábio inferior para não gritar quando ele enfia dois de seus dedos em sua entrada, fodendo rapidamente enquanto morde a nádega que não está vermelha pelos tapas de antes. Ela está tão molhada e entregue, porém, null quer mais daquilo. Mais de sentir seu corpo se retesando e soltando sob seu toque.
— Mais, mais, mais, mais... — null pede manhosa e null sorri com os pensamentos se encontrando.
— Quer mais? — Pergunta ele, com a voz rouca e a respiração entrecortada pela excitação. null joga os cabelos para trás, buscando seus olhos. Ela assente rapidamente, os lábios vermelhos e entreabertos são demais para null e ele se levanta, já pronto para ela.
Mantendo os olhos nos da namorada, null ajeita melhor seu corpo pela cintura e a penetra devagar, mas fundo. Os dois gemem baixo, acostumando os corpos primeiro. Depois, null desliza seu pau com mais força e mais velocidade para dentro de null, mantendo seu corpo parado pela cintura.
null tenta, mas não consegue manter o olhar safado para o namorado, os olhos se reviram sem que ela queira e os gemidos escapam junto com sua respiração. Um gemido fino, delicioso, completamente alucinógeno para null.
Querendo ver mais de sua namorada, null desliza para fora, rindo quando null protesta.
— Onde você vai? — Pergunta arfando, quase com lágrimas nos olhos.
— Pra lugar nenhum... Vem cá.
— Já cansou? — null ri, se sentando em seu colo, de frente para ele.
— Não, trouxa. Eu só quero ver sua cara de safada quando eu voltar a te foder com força. — Ele a abraça pela cintura. null se ajeita melhor, encaixando suas pélvis e gemendo contra os lábios dele quando começa a rebolar em seu pau. null apoia a base das costas dela e se deleita com o lado selvagem e incontrolável de null.
— Eu quero mais — diz arfando, olhando fundo nos olhos do namorado.
— Então, eu te dou. — null se levanta novamente, mantendo o encaixe entre eles. Eles nunca haviam transado de pé sem que null estivesse apoiada contra uma parede e mesmo segurando firme nos ombros do namorado para não cair, parte do entusiasmo de null vem da nova posição e do frio na barriga que a acompanha. Em contrapartida, null está tão fundo nela que tantas novidades ao mesmo tempo está deixando a mulher zonza. — Assim? — Ele pergunta, extasiado de prazer, sentindo que o ápice se aproxima só de ver na expressão da namorada o prazer absoluto que está dando a ela.
— É. Assim! — null responde devagar, pausando no meio da palavra. Ela geme alto, sentindo o corpo se arrepiando e as sensações se misturando e iniciando um pequeno processo de blackout.
Sem saber como ou quando, eles foram para o quarto. O ritmo frenético do sexo selvagem diminuiu um pouco, dando espaço para estocadas lentas e profundas.
Eles se beijam sobre a cama, os corpos encaixados um sobre o outro. O quarto iluminado pela luz da sala está quente, o ar parece circular de forma suave. O suor molha seus cabelos, suas testas unidas e as costas de null que se movem devagar conforme ele penetra null, segurando firme em sua coxa erguida contra seu torso. null ainda arranha as costas dele, talvez com mais força que antes e temendo deixar algumas marcas doloridas por ali. É tudo tão bom que ela não consegue expressar de outra forma. As pontas dos dedos dela percorrem por seu pescoço, costas, os músculos laterais de seu corpo, é inevitável que as unhas grandes marquem esse percurso. null parece apreciar, de qualquer forma. É como uma conversa inteira sem ter que dizer uma palavra. Um diálogo intenso, profundo, significativo, revolucionário. E claro, ambas as partes concordam.
null afasta um pouco o corpo, dando espaço para deslizar sua mão pelo de null, alcançando seu clitóris com os dedos. Ele beija seu pescoço lentamente, mordiscando o lóbulo de sua orelha enquanto a penetra e a masturba em velocidades diferentes, deixando null completamente extasiada.
Ele sente as paredes dela apertarem seu pau e sabe que ela está perto. null não geme mais, só sua respiração entrecortada pode ser ouvida e os leves espasmos nas pernas dão indício de que um orgasmo poderoso se aproxima. null não se segura mais, ele se certifica de manter a coordenação de todos os movimentos que faz, mesmo que seu cérebro pareça estar derretendo no processo. Ele mete mais rápido, acelerando o próprio ápice só um pouco.
O gemido rouco, longo e sugestivo de null logo escala para um grito curto. O corpo inteiro dela se comprime e amolece sob o dele. null sorri convencido e satisfeito, fodendo aquela boceta encharcada por mais alguns segundos antes de se derramar dentro dela. null tentou sair antes, mas null prendeu as pernas em sua cintura, o encarando como um desafio. Ele simplesmente não poderia recusar um pedido daqueles.
Teimoso e sempre se desafiando, null tenta ir além do ápice, só porque null é gostosa demais para se dar por satisfeito. Mas acaba por deitar sobre ela, exausto.
As respirações descompassadas se unem e tentam se guiar uma na outra para o caminho da normalização. null escuta o coração de null batendo depressa e sorri abertamente, a abraçando meio desajeitado pela cintura, enfiando as mãos em baixo dela só para sentir a pressão de sua pele contra a dele. Ignorando a tal da repulsão elétrica e provando que seu desejo é maior que a própria física e toda sua lógica.
null sente aquele sorriso e começa a ajeitar seus cabelos devagar, sentindo-os oleosos e cheios de nós por causa de todo o sexo.
— O que acha de dar uma chance para a banheira? — null sugere, a voz cansada e ainda fora de tom por que a mulher sempre acha que gemeu alto demais e que falar baixo depois da foda a faz apagar todo o registro sonoro anterior.
— Me dá só cinco minutos... — null acaricia a coxa da namorada e ela ri.
— Não, não isso. Para tomar banho mesmo. Assim a gente pode conversar sobre o futuro. — null levanta a cabeça, apoiando o queixo sobre as mãos e as mãos sobre um dos seios dela.
— Se você acha que um assunto sério assim deve ser tratado com um completo tarado pelado junto com você, por mim tudo bem. — null ri baixinho, tomando null de assalto. Ele não achou que tudo voltaria tão depressa, inclusive o senso de humor frouxo de null.
— Estou falando sério, null. — null toca seu rosto com as duas mãos, apalpando as bochechas do namorado enquanto o olha curiosa. — Eu quero saber tudo. Você tem um plano? Precisa de ajuda com um? Eu quero estar presente pra você.
— Eu sei. Acho que sua ajuda é sempre bem-vinda. Nunca conheci alguém que planejasse tão bem em longos períodos. — null sente as bochechas corarem. Elogiar seu trabalho árduo é outro caminho para seu coração.
— Eu quero fazer parte disso tanto quanto você precisar de mim. Quer dizer, essa é a sua vida e você tem o direito de escolher fazer aquilo que ama. É sua escolha, mas quero fazer parte disso. — null engole em seco, sentindo as estruturas mais fortes de seu coração se abalarem um pouco. É uma necessidade ser necessária, ainda mais para null. Sentir que é capaz de ajudá-lo a alcançar qualquer coisa enche o peito da mulher de vida.
— Você já fez tudo só por tornar possível que eu possa sonhar com qualquer coisa. Por trabalhar dobrado para garantir que nenhum de nós precise de nada. — Ele a olha agradecido. — Talvez você ache loucura, mas quero dirigir um filme. — null confessa e espera pelo escrutínio imediato.
— Não é exatamente loucura, você fala disso desde que te conheço. — null ri um pouco aliviada. Não é como se fosse uma tarefa fácil, mas por onde ela vê, é algo possível. Isso a anima ainda mais.
— E como fica o canal? — Ele pergunta, preocupado.
— Não sei. — null ri travessa.
— Bem, não é como se você não pudesse carregar sozinha. Você é toda blogueirinha. — null balança um pouco o corpo da namorada, para o próprio deleite.
— Por acaso isso tem a ver com o fim do contrato com a agência no meio do ano? — null pergunta, curiosa.
— Eu não sabia disso. ‘Tá vendo? Você é muito melhor nisso que eu. — null se sente mal momentaneamente por deixar tantas responsabilidades nas mãos dela, não que null tenha reclamado, mas ainda assim. Não parece certo simplesmente deixá-la na mão.
— É verdade. — null toca a ponta do nariz de null como consolo. — Eu posso negociar um contrato novo, talvez eu tenha algumas ideias para um canal solo. — null sorri ao ver a cabecinha de sua namorada maquinando planos para conquistar o mundo.
— Eu quero ajudar nessa transição, deixar o mais simples possível pra você. — null beija o meio entre os seios da namorada, cuidadoso.
— Nunca vai ser simples, mas com você do meu lado fica mais divertido, pelo menos. — Ela sorri também, aliviada por poder contar com a companhia dele. — Então... E se o vídeo de Dia dos Namorados fosse o seu último? Essa pode ser a nossa mensagem de esperança para o futuro. O que acha? — null ergue um pouco mais o corpo, detestando se afastar dela. Já de pé e a caminho do banheiro, ele puxa null pelo pulso, a abraçando pela cintura, guiando-a até a banheira.
— Acho que você é brilhante e que podemos desperdiçar... — Ele faz uma pausa para buscar algum indício das horas em algum lugar, encontrando um relógio de mesa de cabeceira que nunca ousou soar o alarme. — Dez horas de nosso precioso tempo para não pensar nisso.
null enrola a língua dentro da boca, ponderando sobre a sugestão do namorado.
— Acho bom você me deixar entretida durante essas dez horas — diz com uma sobrancelha erguida, recebendo um olhar ligeiramente ofendido de null, que faz seu estômago congelar momentaneamente, a deixando com vontade de rir e correr.
— “Acho bom”. Que folgada. — null morde o lábio inferior, pensando em formas de puni—la por toda sua petulância.
— Não tem nada folgado em mim, querido. Você sabe muito bem que tudo é bem apertadinho por aqui. — null se afasta, entrando para o banheiro ainda de costas.
— Sua provocadorazinha deliciosa. Você ‘tá fodida agora. — null entra no banheiro também, energizado pelo desafio, movido pela paixão.


Epílogo

null ajeita os cabelos com os cachos bem acentuados, a nova franja comprida e o batom rubro nos lábios. Enquanto null se certifica de que tudo está certo no teste de luz, aproveitando para tirar algumas fotos descontraídas da namorada, ele se sente nervoso.
O vídeo será gravado muito antes de ser postado e divulgado pelas redes, mas de alguma forma, é como iniciar o processo de transição de uma vida na qual ele já está bastante confortável para uma nova cheia de desafios e aventuras que ele ainda não conhece.
null também está nervosa. Ela não dirá, mas não vai ser a mesma coisa continuar sem ele. Nos últimos dias, null passou toda a sua expertise sobre as câmeras e outros equipamentos que null terá de manusear sozinha nas ocasiões em que ele não puder fazê-lo por ela, mesmo estando muito bem informada e estando a um grito de distância para tirar suas dúvidas, ela se sente um pouco insegura sobre tomar a frente da coisa toda. Era mais fácil quando o peso de tudo era dividido com ele.
— Você está bem? — null pergunta, um sorriso meio incomodado é compartilhado entre eles e ele logo entende do que se trata. — É estranho pra mim também. Vou sentir falta disso aqui. — null se senta no banco ao seu lado. Pela última vez, ele se ajeita diante da câmera e se enquadra no cenário.
— Nós conseguimos fazer isso, certo? — null meio que pergunta para si mesma também.
— Com certeza. — null assente, com toda a certeza.
Let’s fucking do it!null se anima de repente, batendo palmas e respirando fundo de um jeito engraçado.
— Em três, dois... — null inicia a gravação, se sentando no banco e ainda rindo da animação da namorada. — “Let’s fucking do it”. — Ele balança a cabeça, rindo de leve.
null também começa a rir e eles perdem o tempo do início do vídeo.
— Você fica me fazendo rir! — null acusa, rindo.
Você fica me fazendo rir, cacete! — null falta mastigar os lábios, prestes a explodir numa risada inapropriada. — Agora vai, sério... — Eles se olham e começam a rir de novo.
null, minha maquiagem! — null avisa, secando os cantos dos olhos úmidos com as pontas dos dedos.
— Certo. Vamos fodendo fazer isso. — A mulher cobre o rosto com as mãos, sem conseguir parar de rir.
null!
Devidamente controlados, eles se posicionam e após uma nova contagem, eles estão prontos para mais um vídeo.

— Oi, pessoal. Eu sou a null — diz rapidinho, olhando para o namorado para vê-lo dizendo seu bordão por uma última vez.
— E eu sou o null. Esse é o No Escurinho do Cinema. Sejam muito bem-vindos. — Ninguém mais vai notar, mas o sorriso esperançoso de null quando diz as palavras acerta em cheio o coração de null. Substitui toda dúvida, algumas das maiores inseguranças e lhe dá a certeza de que pode sim dar tudo certo, mesmo ligeiramente separados.
— Hoje nós trouxemos uma lista com os três filmes românticos que, embora bastante diferentes, eles tratam do mesmo assunto. Amor e... — null franze a testa, a palavra lhe foge a cabeça e ela olha para null, encontrando no momento uma saída para a deixar a situação menos constrangedora na edição.
— Memória, null? — null pergunta e eles voltam a rir. — Estamos falando de memória, não o que falta na null. Mas de lembranças. As lembranças de um certo período de tempo daquele casal que compõem as histórias dos filmes. — null contorna bem, fugindo do roteiro, mas fazendo de forma leve e sutil.
— Em minha defesa, as palavras se embaralham e somem justo quando preciso delas. — null tenta explicar.
— Sei, sei... — null provoca, sendo empurrado de leve pela namorada. — Pra começar essa lista, temos que falar de um dos meus romances preferidos: “Como Se Fosse a Primeira Vez”, com Drew Barrymore e Adam Sandler, direção de Peter Segal. Eu trouxe esse filme para essa lista porque, por se tratar de uma comédia romântica, tudo é transmitido de forma bem simples e leve. Apesar da Lucy, personagem interpretada pela Drew Barrymore, ter uma condição médica, que é a perda de memória de curto prazo, o que impossibilitaria a relação prosseguir e amadurecer na teoria, Henry, personagem do Adam Sandler, depende somente das memórias que eles vão criando através do relacionamento para que isso aconteça. Fotos, vídeos, cartas, diários, tudo o que for capaz de conter a história deles se construindo é utilizado para contar essa história e situar Lucy na própria vida dia após dia. O que mais me prende nesses personagens é o comprometimento deles, não só para que Lucy consiga se sentir à vontade com a própria vida que passa sem que ela perceba ou se lembre, mas do esforço coletivo que é feito de muito bom grado para que o casal permaneça juntos.
— Acho importante ressaltar que um dos Easter Eggs no filme é o livro que a Lucy lê na lanchonete, um romance que se passa no Havaí. É o “Still Life with Woodpecker” de Tom Robbins. Uma das minhas passagens românticas preferidas do livro é: “People are never perfect, but love can be”, que ilustra bem esses personagens que se encontram de forma inesperada e apesar de todas as dificuldades e limitações, de algum jeito, encontram o caminho para continuarem se amando. Vários caminhos, no caso. — null sorri, contente pela alegoria se encaixar tão bem em sua própria situação. O amor pode sim ser perfeito, mesmo que nutrido por pessoas imperfeitas. Com um pouquinho de esforço, é possível chegar bem perto disso.
null alcança a cópia do roteiro, se certificando de que tudo está correndo bem. Ele olha de soslaio para null e ela sorri de leve.
O clima de cumplicidade vem se intensificando conforme os dias passam. Eles têm passado mais tempo juntos, planejando o futuro juntos. Reforçando a base sólida do relacionamento para as aventuras que virão, mas, acima de tudo, aproveitando cada segundo do agora.
— Agora, mulheres, segurem o grito nostálgico e desesperado por “Diário de uma Paixão”. Com a adorável Rachel McAdams como Allie, e Ryan Gosling como o intempestivo Noah Calhoun. — null apresenta, empolgada. — O diretor é Nick Cassavetes, que também dirigiu “Uma Prova de Amor” e “Mulheres ao Ataque”, que eu também amo. Mas eu escolhi esse filme por que, se ultrapassarmos o clichê de jovens amantes de classes sociais diferentes, cujas famílias não aprovam o romance, vemos na construção da produção que se altera cronologicamente entre passado e presente, a importância das lembranças nessa história, que é inteira narrada a partir da leitura de diários. Neste caso, eles tiraram de uma doença degenerativa como o Alzheimer, um filete de doçura, já que a doença atua em todo o cérebro, mas um dos primeiros campos que começam a falhar são aqueles que retém novas experiências, deixando os pacientes presos em memórias antigas. Acessar essas memórias ao longo do filme vai nos deixando mais próximos de como tudo aconteceu. — null suspira, se lembrando do filme.
— Eu gosto que mesmo sendo óbvio que o casal na casa geriátrica sejam Noah e Allie, o diretor consegue desenrolar essa trama devagarinho, nos permitindo digerir junto com ela sua própria história. É um romance corajoso, sem remorso por ser clichê e é um muito bem feito. Não é à toa que é um dos clássicos do gênero. — null e null assistiram novamente a cada um dos filmes dos quais iriam falar no vídeo. Bem, eles assistiram o suficiente para deixar fresco na cabeça para escreverem o roteiro. No restante do tempo, se perderam nas distrações um com o outro.
— Gena Rowlands faz o papel de Allie já idosa, entregando uma interpretação muito pessoal para a personagem. Trabalhando com o filho, Nick Cassavetes, eles puderam dividir e expressar uma dor muito íntima que foi a perda do pai do Nick, John Cassavetes em 1989. Então, o filme foi baseado no livro de Nicholas Sparks, que baseou o livro na história de seus avós e toda a direção teve um toque muito pessoal do diretor, tornando tudo muito íntimo e delicado. — null pontua, concisa. — Só reforçando o fato de que dentro e fora da arte, reviver memórias boas ou dolorosas podem desbloquear novos espaços no nosso armazenamento emocional. Como relembrar alguém importante, até recorrer à antigos registros em busca de compreensão para o presente.
— Eu ainda acho que o mistério sobre a leitura dos diários deveria ser guardado para o final. — null comenta, contrariado.
— Você não tem coração? Com aquele final, não acho que caberia uma grande revelação surpresa como essa. — Ele dá de ombros.
— Um filme feito de lembranças boas, ruins, péssimas, maravilhosas. Como um relacionamento é de verdade. — null assiste divertida enquanto o namorado retoma o roteiro. — Se você não pudesse se lembrar de mais nada, qual seria a sua forma de tentar se lembrar de mim? — null pergunta, dando a deixa para começarem a falar do produto da publi.
— Provavelmente do seu cheiro. Algumas pessoas têm a memória aguçada por música ou sons melódicos que as lembram da infância ou algum momento específico da vida, mas o cheiro é inconfundível pra mim. É algo que penetra a pele e mexe com os sentidos de forma muito única para cada um. — null assente devagar, tentando controlar a expressão maliciosa ao pensar no cheiro da pele de null e de como ele seria capaz de ressuscitar para aspirar o cheiro dela mais uma vez.
— Quer dizer que eu sou cheiroso, null? — Ele brinca e ela franze o nariz, sem jeito.
— Vamos falar do próximo filme! — Exclama, sentindo as bochechas esquentarem.
— Por último, mas não menos importante, acho que nós não poderíamos estar falando sobre memórias, relacionamentos e amor se não citássemos “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”. Com meu crush supremo, Kate Winslet e o genial Jim Carrey, direção de Michel Gondry. — null se sente livre para tocar a coxa da namorada, lembrando que na edição sua imagem será trocada por trechos do filme, ilustrando o roteiro escrito por eles.
null se sente otimista. Com o vídeo quase chegando ao final, ele sabe que anunciar sua saída do canal não será exatamente fácil, mas é algo que ele tem que fazer. Desde que null continue ao seu lado, não há barreira que ele não possa superar.
— Esse filme é o nosso favorito de todos os tempos. Joel e Clementine são o casal mais cru e intensos dessa lista. — null comenta, juntando os dedos nos dele.
— Neste clássico, a existência de uma tecnologia supostamente indolor permite que as pessoas apaguem eventos e ocasiões vividos com alguém. Apagando completamente a existência daquela pessoa no seu dia a dia. Ao descobrir que a namorada, Clementine, cedeu aos encantos da nova tecnologia após uma briga horrível, Joel tenta fazer o mesmo, mas no processo, acaba mudando de ideia. Sabe qual o motivo, null? — Ele joga pra ela, divertido.
— Hmm.... as memórias? Eu quero abrir um parêntese aqui e defender minha maravilhosa de cabelos coloridos, Clementine, ela só fez aquilo por impulso. — null compreende as nuances urgentes e imediatas de ações descabidas quando o assunto é estar com raiva de quem se ama. Mesmo não sendo capaz de sequer imaginar realizar qualquer coisa que apagasse a existência de null de sua vida, null não culpa inteiramente a personagem fictícia por seus atos.
— E aí, o Joel tem que lidar com a bagunça? — null se vira um pouco, encarando a namorada de forma divertida e despreocupada.
— Não vejo por que não. Alguém tem que fazer isso — diz convencida de que seu argumento é válido. null balança a cabeça de um lado para o outro, ainda rindo. — E você, null. Qual seria sua maneira de puxar lembranças minhas e me encontrar na Montauk da sua mente? — null pergunta, pronta para a próxima parte do vídeo. null a olha malicioso novamente e ela sabe que parte de sua motivação é somente o engajamento no vídeo, mas não consegue ignorar os sinais que ele passa.
— Vou copiar a sua resposta e dizer que seu cheiro é a melhor parte da minha existência. — Ele sorri casual, sabendo bem que por trás do gemido derretido por todo o romance envolta dos dois há uma mulher selvagem, sedenta por ele.
— Sabe o que isso me lembra? — null puxa o frasco do perfume em forma de coração. — Que o Dia dos Namorados está chegando e nada melhor do que comemorar presenteando seu amor com uma forma única de marcar essa presença na sua vida. O Memories, da Natura, é a medida perfeita entre os cheiros amadeirados e picantes, com notas de topo de menta picante e mandarina, notas de corpo de rosa e canela e fundo de couro aveludado, madeira branca e âmbar. É o perfume perfeito para evocar lembranças do verdadeiro homão que você é. — null olha para null de novo, o olhar sedutor é a deixa para ele continuar a publicidade.
— Com o Memories, na versão feminina, as notas de topo de amêndoa e café, corpo de jasmim-árabe e tuberosa, fundo de cacau e fava-tonca; me fazem recordar de como você é obstinada, doce e irresistivelmente poderosa. É assim que vou me lembrar de você quando estiver bem velhinho. — null abre a embalagem, separando o coração em duas partes. Ele borrifa um pouco do perfume no ar e reage sinceramente ao punch em seu olfato. — Nossa! — Ele morde o lábio inferior discreta e ligeiramente excitado com o cheiro delicioso que, sim, remete muito o lado mais promíscuo e sensual de null. Ele não dirá, afinal, a marca não o pagou tão bem assim para fazer uma publicidade absolutamente verídica. Mas se alguém próximo perguntasse, null diria com toda segurança que a nova fragrância feminina da Natura o fez ficar de pau duro e totalmente afim de null.
— É um perfume muito gostoso e marcante. O null experimentou mais cedo pra gente fazer o teste de duração e... — null se inclina, aspirando o cheiro do pescoço do namorado. — Ainda está delicioso. Ele está exalando um cheiro sexy de canela, então, está evaporando bem devagar, garantindo essa áurea sensual o dia inteiro. Gostei. — Ela olha de relance pro namorado, que ainda está sem jeito desde que ela se aproximou e sorri nervosa.
— E aí, já tem o date pro Dia dos Namorados? E o presente? Se você esqueceu que a data estava chegando, ainda dá tempo de contornar a situação e não passar perrengue com a morena, hein?! — null avisa.
— Aqui não tem tempo ruim. Se você ainda não tem ideia de date perfeito, um filminho vai bem. Vocês podem maratonar os filmes da nossa lista e mais, com o cupom NoEscurinho, todo seguidor apaixonado aqui do canal tem até 15% de desconto em todo site da Natura. Corre lá que ‘tá bom demais! — Com os DO’s e os DONT’s todos muito bem verificados e entregues de forma bem-humorada, null sente o clima travar um pouco. Não chega a pesar, mas é um momento importante e ela não consegue evitar ficar nervosa.
— Estamos falando tanto de lembranças neste vídeo de hoje. Na verdade, escrevendo esse roteiro nós tivemos várias lembranças de como tudo começou, tanto aqui no canal quanto no nosso relacionamento mesmo. — null começa seguindo o roteiro à risca. Seu estômago congela, suas palmas suam.
— Diante de tantas histórias, conquistas e aventuras que nós compartilhamos com vocês, o que nós sempre nos lembramos e gostamos de enfatizar é que além do apoio entre nós, nós tivemos vocês torcendo por tudo o que tentamos fazer e se alguma coisa deu certo até hoje, é graças a vocês...— null sorri para a câmera, verdadeiramente agradecido.
— E a null, que faz tudo girar nesse mundinho só nosso. — Ele foge do roteiro só para enfatizar o trabalho árduo da namorada e deixar claro que seu esforço continuará mesmo sem ele no canal. — Por isso, acessando memórias e lembranças de toda essa jornada juntos e endossando essa nova empreitada da Natura, que é promover o amor de todas as formas e idades, reconhecendo e aceitando as mudanças que acontecem ao longo de todo relacionamento, eu quero anunciar minha saída do canal Escurinho do Cinema. — null engole em seco, emocionado e um pouco desestabilizado. null estica o braço e entrelaça os dedos nos dele, lhe dando força. — Tudo o que eu vivi aqui junto com vocês foi surreal e a minha gratidão é imensa a cada um de vocês que me aguentaram por todos esses anos. — null fica com a voz embargada, triste.
— Isso inclui a mim? — null pergunta engraçadinha, mas seu intuito é quebrar um pouco a tensão do namorado. Ele ri de leve, assentindo com a cabeça.
— Principalmente você. — Ela ri sem jeito, dando continuidade ao vídeo de despedida de null.
— Mas assim como os personagens dos filmes que citamos na lista de hoje, e, como tudo na vida, nós ainda temos algumas histórias para contar. Eu continuo com o canal, algumas novidades estão sendo cozidas na minha cabeça agora mesmo e eu conto com a ajuda de vocês nessa nova empreitada. — Ela sorri, também muito agradecida por tudo o que foi proporcionado a ela até então.
— Eu também! — null exclama, fazendo null rir. — Fiquem de olho nas minhas redes sociais para saberem o que eu estou aprontando. — Ele sorri divertido, travesso.
— Só coisa boa à vista. — null esfrega as mãos uma na outra, misteriosa.
Eles encerram o vídeo após longos agradecimentos em uma despedida calorosa. Quando terminam de gravar, null se encolhe um pouco, fecha os olhos e respira fundo repetidas vezes.
— Tudo bem? — null pergunta, se abaixando diante dele, com cuidado para não derrubar o equipamento montado atrás dela.
— Acho que sim. — null murmura abafado, sendo abraçado pela namorada.
— Você faz seu melhor, sempre. Vai dar tudo certo. — Ela beija sua nuca, acariciando seus cabelos afim de fazê-lo olhar para ela.
— E se não der? — Ele pergunta, os olhos perdidos e inseguros.
— Eu faço dar certo à força. — null chega a dar de ombros, tamanha segurança.
— Você não existe, null... — Ele se derrete em um sorriso, recebendo vários beijinhos pelo rosto.
null toma a frente da situação, encaminhando os arquivos em um longo e-mail para o editor. Eles tiveram longas e exaustivas reuniões para acertarem todos os detalhes da saída de null do canal e a contratação de null como uma influenciadora solo.
Com o roteiro aprovado pelo contratante, não resta muita coisa a se fazer, além de manter a frequência de vídeos no canal até a data de fechamento deste ciclo, além de se preparar para o próximo.
Parado no batente da porta do escritório, um pensativo null observa uma atarefada null com um meio sorriso nos lábios.
— O que foi? — Ela pergunta risonha.
— Eu amo você — diz simplesmente.
— ‘Tá dizendo isso porque quer financiamento para o seu filme? — null encerra suas atividades do dia mesmo que ainda haja uma coisa ou outra a serem feitas. Ela quer descansar se cansando com null.
— Também. — Ele suspira, rindo da própria honestidade. — Estou desempregado agora. — Ele coloca as mãos nos bolsos, assistindo à namorada se aproximar sinuosamente.
— E o que você acha de ser sustentado pela sua namorada? — Ela pergunta brincalhona, o abraçando pelos ombros. null sabe bem o que significa o olhar no rosto de null e gosta muito da ideia.
— Um sonho sendo realizado — diz rapidamente.
— Que sem vergonha! — null ri, ficando na ponta dos pés para beijá-lo.
— Eu sou mesmo. — Ele se ilumina com a gargalhada dela, beijando seu pescoço, a abraçando forte contra seu corpo.
— Vamos ver, você tem uma proposta? — null beija de leve seus lábios, sua bochecha.
— Eu tenho uma proposta, sim... — diz malicioso, a levando para o quarto no lado oposto do corredor.
null a joga na cama, retirando a própria camiseta. Ele a joga sobre as pernas de null, que solta um gritinho animado.
— Seja o lá o que vai me pedir, a resposta é sim! — Ela amassa o tecido entre as mãos. Morde o lábio inferior ao ver o rosto de null se iluminar em lasciva.
— Que perigo, hein?! — Ele ergue uma sobrancelha, se deitando sobre ela. — Eu ‘tô com umas ideias aí...
— Isso não — diz null, ágil como a luz da ideia suja que se acendeu na mente de null.
— Chata.
null ri e null toma seus lábios em um beijo ardente.
É tarde e todos estão dormindo em suas camas no prédio da rua Girassol, número 1200. Mas no oitavo andar, um casal empenhado em exterminar a nevasca que assombrava o apartamento, acende seu amor. Esquentando um ao outro.
Eles fodem com as luzes acesas e música ambiente tocando ao fundo. Eles aguardam a oportunidade de viver a vida inteira juntos.


FIM


Nota da autora: A gente até tenta sair do drama, mas o drama não sai da gente.

Feliz Dia dos Namorados! Acho esse dia tão legal, porque, se ultrapassarmos o óbvio e ampliarmos a visão de que somente pessoas comprometidas podem espalhar amor por esse dia, podemos nos surpreender com a positividade dessa experiência. E vamo lá, com a opção de ter mais um dia para transmitir boas energias pro mundo, por que não o fazer?

Agora, como sempre, quero muito agradecer a você que embarcou nesse surto sedento junto comigo. Confesso que enquanto pesquisava os elementos dessa história, acabei tropeçando e caindo em um abismo que me levou à Camila e Shawn no Coachella e o mérito desse fogo todo é deles (o que foi aquilo?!?!). De repente, tudo foi se encaixando e esse revival deles acabou combinando tão bem com a dinâmica dos personagens da história que eu não resisti.

Enfim, qualquer puxão de orelha, sugestão e os surtos (claro, os surtos), te espero no Instagram que não tem posts sedentos, mas tem spoilers de outras histórias e textos que me ocorrem no dia a dia e eu vou adorar te ver por lá. O link está aqui embaixo.

Um beijo,

Tear.


OLÁ! DEIXE O SEU MELHOR COMENTÁRIO BEM AQUI.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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