Última atualização: 08/04/2018
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Prólogo

A grande largada da sua vida iniciava-se naquele ano.
Embora soubesse que enfrentaria monstros escondidos nos confins de si mesma - os quais temia como uma criança teme à escuridão -, tinha fé. Por isso, todas as noites mentalizava uma prece.
Não ajoelhando-se ao pé da cama e clamando por um Deus em questão, ou por Jesus Cristo, quiçá Buda, Shiva, Ganesha... Ela entoava os seus desejos mais profundos acreditando que o poder da força do seu pensamento lhe bastava, e seria correspondido. Pois em seu interior, tinha a crença de que absorvíamos tudo aquilo o que emanávamos.
Bom, em realce, ela emanava o amor. Costumava na maior parte do tempo ao menos... Amava coisas e costumes, animais, aromas, a vida e a arte. Amava cada pedacinho de singularidade do mundo, as poesias recitadas em canções. Amava os astros e os mistérios e os seres mais incompreendidos.
Doava-se sem nada pedir em troca.
Era bem verdade que, ainda que no seu coração abrigasse um oceano profundo deste poderoso sentimento, jamais havia se permitido ser amada por alguém. Sabotava-se, pensando ser complicado se sentir desejada por quem quer que fosse.
Aquilo era um reflexo do que havia presenciado durante toda sua vida. Duras palavras lhe estapeavam os ouvidos e esmagavam o seu coração, bem mais do que um par de vezes, onde testemunhara ainda na infância, momentos de profundo terror entre pessoas que muito diziam se amar. Ela crescera assistindo à relacionamentos morrendo numa rapidez mais veloz do que a vida de abelhas operárias, e ali, crescera também a intensidade da sua insegurança.
Por isso, passara grande parte da vida planejando os seus afazeres para uma carreira de sucesso. Fechara-se em uma bolha onde não existia tempo para sentimentos carnais, pois imaginava se tratar de algo que apenas viria para ludibriar o seu foco no que realmente importava: Se tornar uma profissional de renome.
"Apaixonar-se é perda de tempo. Vem com uma bagagem de alegria passageira e de mágoa duradoura" era o que dizia-se internamente nos momentos em que a solidão pesava como uma nuvem negra sobre sua cabeça.
Naquele dia, entretanto, descobrira que algo estava errado perante a normalidade cotidiana. Não se tratava do seu vizinho sempre amargurado desejando-lhe bom dia com um ensaio de sorriso. Ou do sino da catedral da rua detrás, que tocava todas as manhãs e as tardes no horário das seis com suas três conhecidas badaladas, badalando-se atipicamente sete vezes também, às oito da noite.
Enfim, não tratava-se da ligação que recebera mais cedo de , sua irmã mais nova, informando-lhe que fora pedida em casamento um dia antes por Wayne - cujo namoro iniciara ainda no colegial -, durante suas férias de verão nas ilhas Maldivas debaixo de um céu tão estrelado, que o deserto do Saara poderia facilmente invejá-los, segundo os relatos de uma sonhadora.
Seu olhar perdido fixamente em um canto qualquer da sala de estar, alheia à noite que caía através das vidraças das janelas, não retratava de fato o pânico que se alojava no seu interior.
Fechou os olhos com força, encolhendo as pernas vestidas com meias estampadas nas cores do seu time favorito de hockey por cima do sofá, enquanto apertava com ambas as mãos uma caneca fumegante, vaporizando o aroma de café fresco pelo ambiente. As lembranças de mais cedo embaralhavam-se na sua mente.
Sacudiu a cabeça em descrença, memorizando mais uma vez cenas de horas antes. Havia relembrado aquilo vezes demais, e em todas elas, desejou voltar atrás e apagar qualquer rastro das reações que o seu coração estúpido havia produzido em suas entranhas:

caminhava rapidamente através das faixas de pedestres, atravessando os semáforos do catastrófico trânsito da cidade de Chicago em seu horário de rush, que sonorizava altas buzinas pelas avenidas numa confusão de barulhos e fluxo desenfreado. Sustentava a alça de uma bolsa na dobradura do braço, enquanto equilibrava-se em saltos bastante altos, que lhe competiam um aspecto sofisticado, quase requintado.
Estava atrasada. Sabia que teria pouco mais do que trinta minutos para conversar com o seu amigo mais leal, e talvez o único, num ritual que pertencia a ambos, onde aproveitavam os seus curtos tempos de intervalo dos devidos trabalhos sucubindo da companhia um do outro.
Adentrou os portões do Lincoln Park apressando o passo, calculando que daquela vez havia quebrado o próprio recorde de demora. Ainda de longe avistou a figura que procurava.
Sentado no banco que lhes era típico estava , com uma das pernas despreocupadamente cruzadas por cima da outra, numa pose bastante casual. Ele arregaçou a manga do casaco esquerdo consultando o relógio rapidamente, virando então o rosto para o lado, para enfim vislumbrar uma esbaforida.
Sorriu para ela daquela distância, tamborilando o dedo indicador contra o dorso da mão, num sinal claro de que ela estava realmente fora do horário combinado.
– Não quero imaginar a espera por você no dia do seu casamento, feiosa. – Ele dissera com diversão num tom alto, atraindo a atenção de algumas pessoas que passavam achando graça, enquanto ela ainda aproximava-se do banco.
– EU SEI! – respondeu fazendo um muxoxo em lamento, enquanto inclinava-se para lhe beijar o rosto – Estou quase surtando com a correria da empresa, essas questões de contratos editoriais? – Bufou atirando a bolsa no banco, enquanto a entregava um saco de papel. – Eu, simplesmente, não tenho estrutura! É tão vergonhoso ter que admitir isso em voz alta, mas ainda hoje mais cedo, tive que me trancar no banheiro do trabalho e respirar profundamente apertando a minha bolinha anti estresse... – Abriu um sorriso satisfatório ao conferir o conteúdo de dentro da sacola: uma bomba de chocolate. Então apanhou-a com um suspiro. – Parece que você sempre sabe do que estou precisando nos momentos certos.
– O que eu sei, com toda a certeza, é que você se cobra demais, . – Ela rolou os olhos, lambendo o canto do dedo melado de cobertura. Não pelo que ele dissera em conselho, mas pelo fato de insistir em chamá-la pelo seu apelido de infância, mesmo após tantos anos. – Não quero saber dessa história de você se desgastando emocionalmente por conta de qualquer coisa que seja. O que já te disse sobre preservar a sua sanidade?
– Tenho a memória fresca quanto a isso, obrigada. – Virou-se de lado de modo a encará-lo diretamente, enquanto apoiava o cotovelo no encosto do banco com um olhar acusatório. – Em minha defesa, é muito fácil você vir com todo o seu discurso maravilhoso de "você sabe que tem potencial para dirigir a sua própria equipe editorial", mas no mundo real não é assim tão fácil, . Não é tão simples quanto estar a um passo de ser o dono dos próprios negócios. – Ele virou-se no banco, apoiando igualmente o seu cotovelo no encosto, inclinando o tronco levemente para baixo de forma a olhá-la com a sobrancelha arqueada.
– Então você acha que é moleza para mim, feiosa. – Era uma afirmação, da qual ele sorriu encarando-a com carinho. – Você acha que não tenho que lidar com clientes enfurecidos, pessoas insatisfeitas o tempo inteiro, contratos a serem analisados, telefonemas em horários importunos, questões judiciais? – Sem resposta para aquilo, mantinha a mandíbula mastigando, desviando os olhos constrangidos do seu. – Na maior parte do tempo, desejo jogar tudo pro alto e tentar a vida como alpinista em algum lugar como a Cordilheira dos Andes, bem longe da civilização. – falou com diversão enquanto soltava uma risadinha descrente. – Estou sempre canalizando o meu estresse, . Dando alguns socos nos meus sacos de areia, treinando no rinque de gelo quando me sobra algum tempo, passando um momento nos estábulos, estando aqui com você... – passou o dedo no canto dos lábios dela, limpando um rastro de chocolate e chupando a ponta do polegar em seguida. – São como o meu ar puro nesse mar de exaustão que parecem querer me afogar. Mas essa é a rotina, e isso aqui... – Apontou em volta, fazendo-a seguir sua mão com o olhar, avistando os arredores do parque – É o mundo real, também conhecido como "vida adulta". – desabou a cabeça no seu ombro soltando uma lufada de ar pesarosa.
– Repete? Sou masoquista, gosto de ouvir frases que me soam como um pesadelo.
– Vida adulta. – Ele repetiu, sussurrando ao pé do seu ouvido.
– Puta merda, deu até calafrios, olha. – Ergueu o braço teatralmente, fingindo apontar os pelos arrepiados. riu, acentuando suas pequenas covinhas.
– Sabe o que acho de verdade? Que você é só uma medrosa, bastante acovardada, aliás. - Ele disse com um ensaio de sorriso, largando-se no banco despreocupadamente enquanto lançava-lhe um olhar cínico. Adorava atiçá-la com pirraças. Era comum que a desafiasse em situações onde conseguia enxergar o seu temor, pois sabia que ela não suportava tal afronta. Era bastante visível que era capaz de conquistar o mundo inteiro, se assim fosse a sua vontade. sabia daquilo como ninguém. Sabia tanto, que a fazia encarar suas questões mais aterrorizantes de forma quase valente. – Como quando éramos crianças, e passávamos as férias na fazenda do meu pai em Lawrenceville. Você nos observava pulando do píer no lago enquanto molhava apenas os pés na beirada, mas tinha medo de fazer o mesmo porque achava que iria se afogar. Você passou três verões acreditando que as águas eram fundas, quando na verdade não atingiam nem a altura do busto.
– Isso foi bem perverso da parte de vocês. – Por "vocês", se referia à e , seu irmão mais velho e também melhor amigo de . Com a memória, ela lhe dirigiu um olhar falsamente rancoroso. – Se encolhiam na água para me fazer acreditar naquela farsa, e ainda se divertiam às minhas custas por trás.
– O que quero que entenda, Maisie, é que você perde as oportunidades por receio do desconhecido. Você perdeu três preciosos verões se perguntando se poderia se afogar naquele lago, e depois, quando encarou de frente e descobriu a verdade, nadava incansavelmente como um peixinho, até o sol se esconder. Ninguém te tirava daquela água. - Ela sorriu, depositando uma das mãos geladas no bolso do casaco dele, num ato bastante comum. – Agora você está perdendo a oportunidade de conquistar o que você tanto quer. Acho que dois anos e meio colaborando diretamente para as pautas da empresa são tempos suficientes para uma promoção digna. E aliás, tenho convicção de não estar bêbado quando "alguém" me afirmou que esse seria o grande ano de sua vida.
– Às vezes você é um pé no saco por ter tanta coerência no que fala. – Ele enfiou a mão dentro do mesmo bolso em que ela tentava aquecer a sua. Abriu os dedos, buscando o encaixe da mão dela, então as entrelaçaram.
– É o que dizem por aí. – Deu de ombros levemente. – Fui agraciado com esse dom...
Conversaram pelo que pareceu horas a fio sobre assuntos confortáveis, como já lhes era rotineiro.
Não haviam preocupações quando estavam juntos. O passar dos anos só amadurecia a relação de confiança que sentiam um pelo outro. Conheciam cada parte de si. Cada feição, cada humor mais alterado (fossem eles para o bem ou para o mau). Sabiam quando precisavam de palavras de apoio, e também de longos silêncios. Se entendiam como apenas duas almas que caminham juntas há muito tempo o fazem. Se cuidavam como se cuida de um lar reconfortante, onde podemos repousar nos momentos mais pesarosos.
Eles se faziam casa um do outro. Sobre quantas pessoas você poderia dizer o mesmo?
Um alarme soou alto chamando suas atenções de repente.
Era o despertador, indicando que era hora de encarar as responsabilidades outra vez.
Ergueram-se do banco, e aninharam-se num abraço preguiçoso, perdidos em braços e cheiros. E principalmente naquele aquecer que sempre sentiam, tão familiar.
– Sexta feira é o meu aniversário. Já me comprou um presente? – perguntou enquanto caminhavam em direção à saída. Sexta feira era dali a quatro dias, e já era bastante óbvio que tinha tudo planejado para a data.
– É provável que eu tenha pensado em algo. – Ela disse sorrindo de forma furtiva. Quando enfim aproximaram-se dos portões do parque, ela pausou o passo de repente, procurando por um conteúdo dentro da sua bolsa. Vasculhou entre os muitos objetos de forma desastrada, fazendo-o tentar espiar sobre seus ombros.
– O que está procurando? – Não tivera tempo de respondê-lo, no entanto. Naquele momento alguém aproximou-se de ambos por trás, tapando os olhos de com as mãos:
– Ei querido, adivinha quem é? – Uma mulher ruiva perguntou arrastadamente, soprando o ouvido dele. , ao ouvir, ergueu o olhar observando a cena, enquanto nos dedos ainda acomodados dentro da bolsa ela sentia a textura aveludada do envelope que pretendia o entregar. Manteve no entanto o objeto oculto, assistindo-o tatear como um cego, as mãos que tapavam sua visão.
– Lorraine, que... Surpresa. – Disse pausadamente perdendo o ar de graça ao distinguir a voz então conhecida, enquanto a ruiva o rodeava laçando o seu pescoço com os braços finos, ficando na ponta dos pés e depositando um longo e íntimo beijo nos seus lábios.
Um 'boom' explodiu alto em algum lugar daquele cenário. Era bastante cômico que ninguém, além de , conseguira perceber o gritante som que apenas retumbava mais forte a cada segundo. Porque, se dera conta com uma angústia mordaz, o som partira do seu coração, onde a cada compasso descontrolado fazia o sangue correr pelo seu corpo despertando algo afiado na boca do estômago. E outras coisas involuntariamente vieram em consequência daquilo:
Não conseguia manter as mãos paradas, pressionando as unhas contra a palma com uma força que não podia perceber naquele momento.
A respiração se tornara irregular, quase como se, de repente, esquecesse como executar uma função tão vital.
E então sentira aquele incômodo na garganta, que a engasgava e fazia arder sua epiglote.
Por isso girou o corpo rapidamente caminhando para longe do casal.
, espera. – se desvencilhou dos braços que o agarravam como tentáculos, correndo até sua amiga. Essa mantinha o rosto abaixado.
– Estou atrasada, . Tenho que ir. – Ela deu um ensaio de sorriso, que acreditava ser convincente. , porém, pensou ter avistado algo de errado no seu olhar. Tão rapidamente, que no segundo seguinte já havia passado. Então tomou o rosto dela entre as mãos averiguando cada pedaço da sua expressão, como se a mapeasse. Por fim, acomodou um beijo carinhoso em sua bochecha, deslizando o polegar pelo local vezes seguidas, depositando um segundo beijo em sua testa antes de soltá-la. O local formigou e irradiou por toda a face como se queimasse, mas apenas ela notara.
– Me liga quando chegar em casa. – Ele disse, recebendo um assentir como resposta. No momento seguinte ela afastava-se sem olhar para trás.
Porque sabia ali, que apenas um girar de cabeça para a cena do casal que se estendia as suas costas lhe confirmaria o maior dos seus temores. Aquele do qual ela fugia como um covarde foge de batalhas:

estava indubitavelmente apaixonada.



Capítulo 1

Na sala se encontrava o caos. O cômodo pequeno estava preenchido por dezenas de quinquilharias por todos os cantos. A modesta mesinha de mogno que antes se postava ao centro, agora via-se empurrada para a extremidade à direita, deixando um espaço no chão por onde se espalhavam fotografias.
Uma infinidade delas, todas lado a lado.
Nos retratos era possível ver paisagens de grandes terrenos férteis, enormes plantações, cabeças de gado, máquinas agrícolas, sistemas de irrigações e mais materiais com conteúdos campestres. observava as infinidades de imagens que haviam sido entregues num portfólio por sua chefa, apoiando as mãos na cintura enquanto tentava trabalhar a mente.
O material fora enviado apenas para os três maiores diagramadores da empresa, cada qual com uma dica chave das próximas possíveis propostas a serem fechadas como revistas temas.
Os diagramadores teriam como tarefa estudar as imagens para pesquisarem a fundo a melhor montagem e organização, baseado nas amostras entregues. Ali ela sabia que a editora fecharia um contrato com o ramo rural, além de outros dois, os quais seriam apresentados na comemoração de um grande evento que aconteceria na sexta feira daquela mesma semana, no estado de Vermont.
Cada funcionário recebera como cortesia um convite pessoal e um extra, para acompanhantes, com todas as despesas pagas pela companhia. Era um bônus à equipe da editora Redaer, pelo início das comemorações de fim de ano que já começavam a se aproximar.
nunca havia saído do seu país, tampouco cruzara o estado. Por isso, enxergava ali um enorme passo na sua independência e crescimento profissional.
Em dois dias tomaria um voo ao norte do mapa, numa viagem onde poderia fazer boas conexões com outros profissionais da área. Ficaria satisfeita com um bom network. Desejava fazer pontes para o seu sucesso, mas ainda era bastante ingênua, pois acreditava que atrairia atenção positiva apenas com a sua personalidade honesta.
Suspirou encolhendo os ombros, prendendo os cabelos no topo da cabeça com um elástico. Fazia aquilo quando tentava se concentrar. Sua mente trabalhava agressivamente com pensamentos aleatórios, que a levavam para além dos limites do seu apartamento. Nenhum deles, entretanto, direcionados ao que realmente deveria lhe importar naquele instante.
De repente, soltou um pequeno grunhido de insatisfação, arrumando a postura e adquirindo no rosto uma expressão de determinação voltada para o desempenho do seu trabalho. Era a sua grande chance de mostrar competência.
Na sua curta caminhada já havia impressionado figuras de grande importância no mercado editorial. Colecionava elogios e era sempre cogitada para dar as mais criativas opiniões nas pautas de publicações.
Agachou-se, sentando sobre os joelhos, e correu os olhos por uma das fotografias. Apanhou-a entre os dedos observando a imagem com interesse. Se tratava de um campo por onde se estendiam vinhedos tão grandes em expansão, que se perdiam no horizonte além das colinas. Na imagem, o pôr do sol ricocheteava seus últimos raios no pasto de cor tão esverdeada, que lhe davam a impressão de luzir como esmeraldas.
Exatamente como uma imagem de um local que fizera parte da sua vida num passado distante. Mas não poderia ser possível! Aproximou tanto a imagem das vistas, que por pouco não tocara o nariz, enquanto os olhos moviam-se numa análise rápida, correndo de um canto ao outro daquele pedaço de cast coated.
Despertou dos seus devaneios ao ouvir o som alto do telefone tocando, mais uma vez, dentre milhares de outras vezes apenas naquela noite. Mordiscou a parte interna da bochecha e então esperou que a pessoa pudesse desistir, como já havia começado a se tornar rotineiro nos últimos dois dias. Por isso não fora novidade quando a secretária eletrônica entoara a sua própria voz do outro lado do cômodo:
“Oi, aqui é a . Talvez exista a possibilidade deu estar bem aqui, ouvindo o telefone tocar e evitando alguém. Bem, se não o atendi, então essa pessoa provavelmente seja você, haha. Você sabe o que fazer.”
Quando o bip agudo indicando que uma nova mensagem deixada iniciaria, ela fixou o olhar no aparelho contra a própria vontade, que lhe dizia para se preocupar com algo verdadeiramente útil. Apurou os ouvidos e resolveu prestar atenção à voz que soava do outro lado do ambiente.
, sou eu, a . Mas é claro que você já sabe disso... – era a sua única irmã mulher, e também a mais nova dentre os três. Entre outras coisas, ela era o que poderia chamar de melhor amiga. Ouviu quando estalou a língua desdenhosamente, e então deu uma pausa prolongada, que quase fizera acreditar que a mensagem havia chegado ao fim. – Escute, cheguei a Phuket nessa madrugada, temos doze horas de fuso, portanto aqui, agora são nove da manhã. Estou tentando te situar quanto ao horário, porque nesta madrugada e na noite passada, recebi milhares de ligações enquanto tentava dormir e repousar um pouco o meu corpo depois de noites exaustivas de sexo com o meu noivo. Eu tenho certeza que você está bem aí, nessa sala atulhada de papel, escutando essa mensagem com bastante atenção. Tive bastante tempo na vida pra conhecer os seus costumes estranhos. Então não vou esperar você me atender para perguntar: que merda está acontecendo? O está cada dia mais paranoico com essa fixação em querer saber os seus passos, o que aliás preciso repetir, é uma palhaçada. – Ela dissera a última palavra soletrando cada sílaba, utilizando um tom bastante sarcástico. – Ele me ligou pelo menos quinze vezes num intervalo de dois dias, em horários completamente imorais só para saber por onde você anda. O que me soaria bastante cômico já que vocês estão na mesma cidade, e eu do outro lado do planeta, mas aqui vai uma realidade : Eu não estou rindo! – sorriu de lado, pressionando os dedos contra as têmporas e pedindo misericórdia aos céus. Ele era impossível! – Acredita que ele ainda encheu a caixa de mensagens do Wayne? O faça parar agora mesmo! Ou apenas o atenda e acabe logo com isso. Olha, você sabe que não costumo alisar quando algo não me agrada, e eu realmente odiei ter sido incomodada tão tarde, mas logo esqueci, porque o ... Ele se IMPORTA! Quero dizer, ele REALMENTE se importa com você. Está me entendendo bem? E usando de toda a minha verdade nesse instante, tenho que te dizer que ele me soou sinceramente preocupado. Pense nisso e resolva essa situação, está bem? Até porque, se ele me ligar mais uma vez, terei que antecipar o meu regresso pra cometer um homicídio. Você sabe que não estou brincando, não é? Passe o recado. Amo você!
A chamada fora finalizada deixando no ambiente um silêncio sepulcral. E era bem ali que começava a se preocupar, porque o silêncio trazia a ela pensamentos que faziam os seus pelos se erguerem por toda a extensão dos braços como se coreografassem a ola. E então tinha aquele costume de conversar em voz alta consigo mesma, com as suas incertezas internas que lutavam entre si, torturando-a em pensamentos.
– Isso não está certo. Ela só o beijou, . Você não tem o direito de se sentir desse jeito. Não é justo consigo mesma ter esses tipos de pensamentos. Não com o ! Ele nunca vai te enxergar dessa maneira. – Fechou seus olhos com força respirando fundo, abrindo-os em seguida e lançando o rosto para cima, como se procurasse obter a resposta que procurava vinda de alguma força maior, que viesse a suprir sua alma com todos os antídotos que problemas como aquele poderiam trazer. – Mais de quinze anos convivendo quase diariamente, brigando em excesso e me estressando com sua falta de tato, dividindo todos os meus maiores segredos, os quais jamais contaria para quem eu estivesse afim um dia, porque com certeza ajudaria a afastar o cara para o mais longe possível... E eu estou apaixonada exatamente por quem foge totalmente às minhas próprias regras. Aliás, eu acabei MESMO de citar a palavra apaixonada? Não acredito que eu disse isso em voz alta. , VOCÊ É PATÉTICA!

entrara na sua vida ainda na infância, aos oito anos de idade. Naquela época ele tinha onze, assim como , que o conhecera na escola ao dividirem o mesmo esporte na atividade extracurricular exigida. Participavam juntos do time junior de hockey. A afinidade não fora imediata, já que ambos tinham personalidades fortes e viviam competindo entre si para provar quem mais se sobressaia em talento. Mas logo perceberam que, além dos dois, nenhum outro jogador parecia mostrar grandes habilidades no rinque. Por isso decidiram unir seus conhecimentos para melhorar o time, fazendo-os se inserirem no campeonato regional. Ali desconstruíram seus muros e descobriram um oceano de afinidades que jamais imaginariam. Ali também se iniciou uma longa e verdadeira amizade, o que fizera com que suas famílias acabassem por se conectar.
A primeira vez que ele a vira fora numa tarde ensolarada de Junho, no ápice do verão, enquanto fazia uma visita a . Ela usava gastos macacões jeans e tinha as bochechas sujas de terra, pois uma das suas paixões era criar lírios, ainda que eles se encontrassem em número tão grande em todo um canto do jardim da sua casa, que parecia para ele impossível ainda haver algum espaço para o plantio. Quando seus olhos infantis se encontraram, a menina o observou com desconfiança por longos minutos. Desviando olhos grandes como pratos, para então encará-lo outra vez. Agiu daquela forma vezes seguidas, até encontrar coragem para falar:

– Sabia que Hércules uma vez disse que o lírio era uma gota da lua que caiu sobre a terra?
Ali fora a primeira vez que ele sorrira para ela, afundando suas bochechas rosadas em duas pequenas covinhas.
– É mesmo? Me pergunto de quais tipos de gotas são feitos os girassóis, então... – Ele respondeu arrumando a alça da enorme mochila em um só ombro.
– Essa é bem fácil, o próprio nome já diz. – Ela adquiriu uma expressão astuta, fazendo-o sorrir ainda mais daquela garota tão peculiar.

Ao longo dos anos, os contatos se tornaram cada vez mais cotidianos. Um laço seguro fora se firmando, e quando menos se deram conta, aquele elo invisível os uniu como se uni a uma família. Era como se nunca houvesse existido um passado onde não se conheciam.
aprendera a passar horas em silêncio, apenas apreciando a quantidade de informações que um corpo tão miúdo quanto o dela poderia armazenar. Ela era um pequeno arquivo ambulante que tinha paixão em ensinar, ainda que meras trivialidades, as quais pudessem servir de curiosidade para quem quer que fosse.
Aquilo o fascinava.
Com a chegada de de repente, e a intimidade que tão logo se fez, ela se descobriu crescendo sobre três duras vigilâncias masculinas, que pareciam a colocar numa redoma de vidro constantemente. Não bastassem o pai e o irmão, encontrara em uma personalidade superprotetora que por vezes a frustrava. Com , o contexto era diferente, já que, desde muito cedo ela mostrava que sempre fora bastante autônoma nas decisões da sua vida, não permitindo que a tratassem como uma boneca. gostaria de ter a mesma firmeza, e por vezes batia os pés. Mas sofria com um defeito que a abatia desde a infância: Ela não sabia dizer não para ninguém.
No seu íntimo acreditava que aquilo poderia magoar as pessoas que amava. Não sabia lidar com os olhares tão carregados que a mágoa trazia consigo. Internamente repetia para si mesma o quanto ela, quanto adulta, poderia ser extremamente boba em preservar tantas atitudes do passado. Mas sabia que, ainda com as mudanças que a vida nos causava, no final a essência permanecia. Por isso se considerava uma boba, sim. Porém muito bem conformada em se intitular de tal coisa.
ergueu o tronco arrumando a postura e aproveitando para alongar o corpo, fazendo os ossos, há muito parados, estalarem em alto som. Ergueu-se do chão pisando nos pequenos espaços vagos nas pontas dos pés, para que não danificasse os materiais do seu trabalho inacabado. A verdade era que sua cabeça, nos últimos dois dias, estava provavelmente tão longe quanto sua irmã, .
Por isso caminhou em direção ao banheiro, decidida a tomar uma chuveirada fria – ainda que a estação já se mostrasse com temperaturas tão baixas, que condensassem o ar de branco apenas com o sopro de uma respiração – pois sabia que aquilo poria sua cabeça no lugar.
No final das contas, descobriu estar certa.

➳ I N E F Á V E L ♡


No alto da cobertura de um imponente edifício na Magnificent Mile, rua no coração de Chicago, encontrava o que poderia chamar de lar. Talvez o apartamento de três quartos fosse deveras exagerado para um cara solteiro no auge dos seus vinte e nove anos. Por vezes considerava o patamar daquelas paredes sólidas um ambiente solitário. Embora em outras ocasiões, achasse ali o seu verdadeiro refúgio.
Tornara-se um dos queridinhos da América, e consagrara o seu nome ao estrelato por ter se tornado há cinco anos o capitão do Black Hawks Chicago, time que vinha sendo invicto nas três últimas temporadas da liga de hockey.
Chegara de mais um treino do seu time com o corpo ainda fervendo, embora tivesse deixado o rinque de gelo há pouco mais de uma hora. Com o início da temporada se aproximando, os treinos terminavam cada dia mais tardes. Sentia essa pressão nos próprios músculos, em principal nas panturrilhas que pareciam queimar cada segundo mais, por debaixo da sua pele. Preparava-se para levantar do sofá e apanhar uma cerveja gelada, quando a campainha da sua casa tocou. Por isso adiantou os passos até a porta a abrindo em seguida.
Não fora surpresa ver a figura do seu melhor amigo de cabeça baixa, apoiando um dos braços no vão da parede.
avançou, adentrando o ambiente da casa do amigo sem pedir licença. Já haviam ultrapassado a barreira dos bons modos exigidos há muito tempo. Não precisavam desses tipos de gracejos. Aquele, de certa forma, também era o seu lar, para onde poderia correr quando precisasse de um porto para ancorar.
Atirou-se no sofá sem dizer uma palavra, enquanto fazia o caminho contrário em direção à cozinha.
Retornou algum tempo depois com duas garrafas de cerveja na mão, entregando uma ao amigo, então sentou-se ao chão, aos pés do sofá, no confortável tapete de pelo sintético.
– Sua cara está uma merda. – começou, com o esboço de um sorriso sacana. Em resposta ergueu a garrafa numa insinuação bastante irônica de brinde.
– Se eu não saísse de casa, provavelmente estouraria minhas mãos no saco de areia. – correu os olhos em direção às mãos do amigo, onde grandes marcas arroxeadas pintavam a sua pele sobre os tendões. Soltou um assovio baixo franzindo a boca.
– Está feio. Sofri uma contusão na bochecha hoje por culpa de um puck por negligência minha em não usar o capacete, mas os seus hematomas... Esses estão um horror. – riu baixo, se divertindo às custas do outro de um jeito que só ele sabia fazer. Então cerrou os dentes, porque o sorriso dele era terrivelmente familiar. O remetia a pessoa que mais tinha o poder de frustrá-lo em toda a face terrestre. atenuou a expressão aos poucos, adquirindo um olhar preocupado – Eu admiro a sua dedicação aos negócios que você vai herdar. – Falou de repente, com um semblante severo. – Você abdicou de todos os seus sonhos. Poderíamos estar juntos nessa, na liga, representando o Illinois como planejámos desde moleques. Mas a vida quis que fosse diferente, irmão, você é agora um cara de negócios. – Tomou um gole da cerveja, parecendo brevemente perdido em pensamentos. – Consigo imaginar o quanto é estressante ficar dentro de um escritório durante toda semana, não acho que eu conseguiria. Percebo o quanto é exaustivo para você.
– Os problemas do escritório não são nada, acredite, se comparados a ter que lidar com o fato da sua irmã estar me ignorando. E dessa vez eu nem sei o que fiz. – franziu o cenho enquanto a mente começava a processar o que ele dissera. Sabia que quando se referia a ela – e aqui só podia se tratar de – como “a sua irmã” ao invés de utilizar do seu nome, as coisas não estavam nada bem. virou a garrafa, dando violentas goladas que terminaram por secar a bebida em poucos segundos. Respirou profundamente, então continuou: – E sabe o pior? Acho que a sabe o que está havendo, e está encobrindo ela.
– Como a pode estar envolvida no que quer que seja, ? Ela está nas Ilhas Maldivas...
– Em Phuket, na verdade... – murmurou, mais para si mesmo. Porém não baixo o bastante para que o amigo não escutasse.
– O que? – franziu a testa, achando que o outro, de repente, poderia estar fora das suas faculdades mentais. – Não está, falei com ela há três dias...
– Liguei para ela ontem à noite. Ela está em Phuket, confie em mim. – Falou assentindo lentamente, para enfatizar sua certeza. – Ela ficou furiosa. Não me toquei da diferença de horários entre nós, nem irei repetir as palavras que ela utilizou, mas “idiota desocupado” foi a mais gentil dentre elas. – Soltou uma pequena risada massageando as têmporas, sendo acompanhado por . – Eu queria saber da , irmão. Ela está realmente me ignorando. Sabia que com a correria dos seus treinos, você malmente teria a chance de saber dela, por isso não o liguei. Ela não atende ao telefone, não responde as minhas mensagens, apesar de estar online o tempo inteiro. Você mesmo pode conferir, bem aqui – Ergueu o aparelho celular com a conversa em questão aberta, para que o amigo concluísse por si só que ele de fato, estava certo, apontando o status de “online” que se fazia presente na parte superior da tela. - O porteiro diz que ela nunca está em casa. Ela não está aparecendo no Lincoln Park no horário de almoço. Fazem três dias, eu me certifiquei se ela iria até lá em todos eles.
, nós já conversamos sobre os seus cuidados excessivos em relação a ... Já brigamos por conta deles. A não é uma boneca, ela sabe se cuidar sozinha. Talvez melhor do que você ou eu. – fechou os olhos suspirando profundamente. Em tantos anos daquele mesmo diálogo com o amigo, ele não sabia mais como pôr em palavras o quanto o bem estar dela era importante para ele.
– Eu quase a perdi uma vez. Pensei que nunca voltaria a vê-la sorrir de novo. Preciso saber se ela está bem. Minha paz pessoal depende disso. Você não vai entender , porque eu mesmo não posso. – Sentiu-se deprimido por um instante, contraindo o corpo contra o sofá. soltou uma pequena risada abafada atraindo a sua atenção. – Muito engraçado, seu sacana!
– Não... – respondeu arrastadamente com diversão - Não estou rindo de você, otário. Estou me lembrando do que a mãe sempre dizia quando estávamos reunidos:

“Um dia você será o meu genro, então estará oficialmente integrado a está família. Mas só daqui há duas décadas, quando a Maisie trocar os tênis por sandálias de salto.”

sorriu levemente, soltando um suspiro profundo em seguida, enquanto recordava aquelas palavras com carinho e uma fisgada no coração.
Emma havia sido uma mulher espetacular. Costumava chamá-la de Senhora E., e fora, talvez, o mais próximo que tivera de uma figura materna em toda a sua vida, pois desde o dia em que pisara na sua casa pela primeira vez, soubera que ela não fazia distinção entre ele e os seus filhos de sangue em nenhuma circunstância.
Precocemente demais, Emma havia descoberto um tumor no seio direito. Lutara contra aquela doença cruel com uma determinação incrível, e a força que apenas uma mãe que desejava possuir mais tempo para aproveitar as suas crias, poderia ter. Naquele período, o tumor evoluíra para um câncer, que se espalhara lentamente pelos seus órgãos, um a um. Sua batalha durou oito anos, até, finalmente, a enfermidade silenciá-la eternamente.
Na época, havia recém feito dezoito anos.
Fora uma fase complicada, tão difícil que quase achou poder perdê-la para sempre. Nunca tinha vivido algo tão assustador quanto aquilo.
Não suportaria perder aquela a quem costumava relacionar à sua alegria de viver.
Entretanto, a alegria que sustinha sua alma dera lugar a uma aura sombria que a acompanhava por todos os lados para onde fosse, não que ela costumasse sair para muito além da proteção do seu quarto.
Foram dois anos em quase absoluto silêncio. Ela empurrara para longe todos aqueles que tentavam adentrar sua concha de proteção. Afundara numa depressão que trouxera como consequência muitos quilos a mais, e que retirara o brilho que costumava cintilar seu olhar.
passou por duros meses de provação, tentando resgatar sua essência. Às vezes sentia tanto medo, que chorava na solidão do seu quarto, sentindo-se sozinho e abatido. Temia que a que um dia conhecera morresse em vida, tendo o mesmo desfecho que a mãe tivera. Porém de forma ainda mais triste. Por isso, mesmo que por vezes achasse que desistiria dela e tocaria a vida afrente, no fundo ele sabia que sua vida não teria calor, sem ela, para trazer aqueles grandes olhos expressivos que o incendiavam.
Ele a amava genuinamente, com todo o seu coração.
A amava tanto que sentia um comichão no estômago. Um incômodo, onde por vezes quis fazer algo para que aquilo pudesse parar.
E era por tanto amá-la que, certa noite, saturado de toda aquela situação, ele irrompera no seu quarto como um trovão, levando consigo uma enorme e pesada sacola de nylon:
o observou assustada sob a proteção da sua coberta, com o tecido a cobrindo até a altura dos lábios e os olhos arregalados a espreitar. Ele tinha a expressão irada, enquanto lançava a sacola no chão, fazendo com que um baque surdo fosse ouvido, sendo abafado por seu carpete azul céu que, ao ver dele, precisava ser aspirado urgentemente. Em seguida, fechou a porta às suas costas, então apontou o dedo na sua direção com um olhar grave.
– Já chega! Está bem? CHEGA, ! – Sua voz falhou naquela curta frase, fazendo-o engolir em seco e respirar fundo. – Nós já entendemos que é isso o que você quer. Todos nós entendemos. Você quer ficar aqui, presa a esse quarto cheirando a mofo, se sufocando na sua dor. Se apiedando de si mesma. Você quer isso, não é, droga? – Ele perguntou num tom mais alto, erguendo as duas mãos para cima como se apenas se expressar por palavras não fosse o bastante. – Quer viver presa a esse lugar, e continuar se maltratando da forma que está? Pois bem, decidi que então farei o mesmo. – Disse empurrando o bico da bota contra o objeto no chão, fazendo com que os utensílios guardados se sacudissem levemente. – Vamos passar o resto dos nossos dias trancafiados aqui. JUNTOS! – disse agachando-se em frente à sacola, e lançando-a um sorriso enviesado, com um olhar carregado de desgosto. – Na terceira noite você vai estar tão desesperada para se livrar de mim, que gritará por socorro, e ninguém vai te tirar daqui, pode apostar nisso! Eu me assegurei com o seu pai e o que nenhum deles virão ao seu resgate. E nem tente com a , cinquenta dólares foram o bastante para mantê-la longe dos nossos assuntos. – desatou o nó da corda que laçava a sacola com certa dificuldade, retirando de dentro alguns pedaços de madeira plana, que esparramaram-se uma sobre a outra, espalhando serragem pela superfície do carpete já sujo. Em seguida retirou um pequeno saquinho transparente, contendo o que, ela pôde enxergar, pareciam se tratar de pregos de ferro. Por último, ele puxara um enorme martelo, que, percebera, se tratava do martelo que o pai costumava guardar na sua maleta de ferramentas.
Rasgou o pacotinho plástico de pregos com os dentes, expelindo o pedaço que cortara ao chão como num cuspe, erguendo-se já carregando uma das tábuas em uma mão, e o martelo na outro. Logo, postou-se em frente à porta, apoiando a madeira entre a guarnição e a parede, pegando o prego que segurava entre os lábios, firmando-o sobre o local que desejava com os olhos cerrados de atenção, e começando então a martelar.
desenrolou-se da colcha, sentando-se ereta na sua cama, enquanto finalmente percebia sua intenção com tudo aquilo. Ele iria prendê-los ali. LITERALMENTE!
Como ela poderia ter achado que ele não falava a sério? Quando pensava em , sabia que ele iria longe para conseguir o que quisesse no mundo. E fora diante disso, ao analisar que ele já agachava-se para apanhar a segunda tábua para lacrar ainda mais o quarto que os dois se encontravam, que ela começara a rir após um longo período de luto.
Não, ela na verdade gargalhara.
Tão alto, que o som retumbara através dos corredores dos quartos, e no saguão da sala além das escadas, e na cozinha com o balcão de ladrilhos... Ecoara por todas as paredes, trazendo um sorriso aos lábios de e , e lágrimas de felicidade aos olhos do seu pai. Todos em cômodos diferentes. Ela, entretanto, jamais soubera desses fatos.
girou nos calcanhares assombrado. Quase se esquecera daquele som que tanto amava. Por um segundo pensou estar apenas delirando.
Mas ali, vislumbrando-a dar gritinhos bobos às gargalhadas enquanto se dobrava segurando o estômago, ele só respirou profundamente relaxando os ombros aliviado, como se estivesse se libertando de uma pressão invisível que o tornara tenso durante muito tempo.
Então avançara em sua direção, sentando-se ao seu lado na cama e a puxando contra si. aceitou o contato de bom grado, apreciando o cheiro do seu perfume que ela realmente adorava. Quando falara, sua voz era rouca e tímida, em iguais intensidades, por conta do longo intervalo que permanecera em silêncio.
– Você é louco! – Ele a observava calado. Nos olhos um brilho que ela não se lembrava de já ter visto, formando um degradê na coloração azul das suas pupilas, onde um tom mais acinzentado pintava as bordas das íris. tomou o seu rosto entre as mãos, a analisando minuciosamente, enquanto deslizava os polegares sobre as suas bochechas, parecendo desenhar círculos.
– Não, eu ficaria louco se você continuasse a me manter no escuro. Não me empurra pra longe de você, . Não faz isso! – Ele encostou a testa contra a dela, fechando as pálpebras com força. Então ergueu os lábios, depositando um pequeno beijo no local, como já era costumeiro fazer. – Nós precisamos de você, . Da sua visão apurada sobre tudo, dos seus conhecimentos e cuidados, precisamos do seu sorriso. Eu preciso de você! – Encararam-se por um momento, que enchera os olhos dela com lágrimas pesadas. – Preciso de você pra acalmar os ânimos do quando ele se irritar depois de um treino, e querer sair socando todo mundo com quem se esbarrar pela frente. – Ela deu uma risada fungada, apoiando as mãos sobre as dele que mantinham o rosto dela afagado. – Ou para ensinar pro senhor as diferenças entre iscas. Ele anda bastante frustrado porque suas temporadas de pesca estão sendo um fiasco, sabia disso? – Ele perguntara com os olhos saltados, e um pequeno sorriso debochado, fazendo-a dar uma risada profunda, que encolhera os cantos dos seus olhos, e enchera o coração dele de calma. – Nem preciso falar sobre a , ela não ouve a mais ninguém. E aliás, eu ando tentando com muito esforça, mas está sendo realmente difícil manter os lírios sem os seus conhecimentos. Parece que mesmo eles sentem a sua falta. Eu até mesmo ando copiando aquela sua mania estranha de tentar conversar com eles, mas as minhas histórias parecem não ser tão interessantes assim. – Ela sorriu largamente, sentindo uma lágrima rolar, molhando os dedos dele que postavam-se na sua face. – Volta pra gente , já está sendo bastante difícil, mas sem você... É quase impossível de suportar. Juntos podemos ser fortes. Não desfalque o nosso time. – Ela sorriu, dando um largo suspiro e assentindo lentamente. – Vai sair desse quarto? Ainda terei que nos prender aqui pelo resto dos nossos dias?
– Não, idiota! – ela rolou os olhos, divertida.
– Ora, ora... Alguém mal foi liberta e já está colocando as manguinhas de fora?
– Cala a boca!
– Eu até te pediria para você vir aqui calar. Mas só depois da senhorita tomar um banho, porque estou quase certo de que o seu desodorante já venceu. – Ela levantou-se da cama, lançando o travesseiro contra ele. Ele riu, agarrando facilmente o objeto no ar, e apoiando-o sob a cabeça enquanto a assistia escolher algumas roupas que não fossem itens para dormir. – Ei... – Ele a chamou com um timbre baixinho, e o olhar cheio de adoração, quebrando sua distração nas roupas penduradas nos cabideiros, a fazendo girar o rosto ao observá-lo. – Nada poderia me fazer mais feliz do isso, . É muito bom te ter de volta.
Ali ela sorriu, sentindo o seu coração bater em ritmo acelerado.
Porque, jamais em toda sua vida havia se sentido tão importante para alguém. , após infindáveis tentativas, a tinha salvado de si mesma. E ela descobrira naquele instante, que aquilo era amor.
O amor dele a salvara. E ela jamais teria palavras suficientes para agradecê-lo por isso.



Capítulo 2

O som incessante da noite de celebração que ocorria no glorioso salão do outro lado dos gramados, bem além da área de chill out, era alto o bastante para continuar penetrando na sua cabeça, embora dificilmente pudesse distinguir os diversos ruídos que chegavam através das portas de correr na sacada do seu quarto de hóspedes.
encontrava-se deitada a uma cama que não lhe pertencia, cuja seu corpo não conseguira se adaptar, ainda que fosse da mais ostensiva e elevada qualidade.
Ela agradeceria em voz alta por, naquela noite, ter-se trajado com um vestido de chiffon o qual não a faria se preocupar com o fato do tecido se encontrar amarrotado embaixo dos seus quadris naquele instante, por medo de amassá-lo. Mas a verdade é que ela pouco se importava com aquilo.
Sua mente girava numa velocidade alarmante de imagens recentes que chegavam rapidamente, deixando o seu cérebro logo em seguida numa agilidade ainda maior para dar lugar a reflexões mais profundas.
Ainda tentava processar todos os episódios assustadores que sucederam ao longo daquele dia incomum, enquanto esfregada entre os dedos o pingente de lírio do seu colar da sorte, perdida em pensamentos.
Horas mais cedo, enquanto escancarava a boca embasbacada acomodada ao avião que, prestes a pousar, planava já em baixa altitude sobre a cidade de Montpelier, ela assistia a natureza lhe saudando com árvores em tons de cobre, que pareciam chamas inflamando tudo ao redor, num claro sinal de que a estação das frutas começava a se despedir lentamente.
Vermont tinha um cenário natural de tirar o fôlego até do mais herético entre os homens, ela tinha que admitir. E bem ali, durante os últimos minutos de voo, pensou consigo mesma o quanto aquela viagem chegaria para lhe clarear as ideias e fazê-la ter uma percepção mais crítica sobre o seu equívoco.
Não estava apaixonada, afinal!
Ao menos era o que repetia intimamente como num mantra, tentando fixar a ideia que lhe soava mais racional.

Naquela manhã, pouco antes de tomar o seu voo, circulou através da Michigan Avenue, que exibia o seu ímpar exagero de lojas já despondo um cenário de cores natalinas por onde se avistavam guirlandas e pinhas decoradas, que haviam sido erguidas em fios postados acima das calçadas, onde muitos pedestres já passavam. Colgados por todo o perímetro em contraste com vitrines chamativas, que encarreiravam-se até o final do quarteirão, os ornamentos sacudiam-se com as fortes rajadas de vento num espetáculo visual magnífico.
Apesar da variedade de produtos em destaque, nada nos mostruários parecia a agradar. Ela se encontrava a procura do que pudesse transpor o óbvio, pois aquela data tinha bastante significado. E isso nada tinha a ver com as festividades da empresa, que traria grande peso na sua bagagem profissional.
Calculava em sua mente que aquele se tratava do presente número dezoito. A cada ano aquela função parecia avançar para níveis de dificuldades ainda maiores, quase como se sua criatividade estivesse parca.
Quando abrira os olhos no alvorecer daquele dia de baixas temperaturas, ela sabia que se tratava de uma data mais do que especial.
Pois, bem, ficava mais velho naquela sexta-feira em questão.
Fato é que achava ter tudo sob controle há cinco dias. Poderia sorrir com amargura da sua fantasia.
Em seus planos, lhe entregaria o envelope contendo a passagem com todas as despesas pagas, onde poderiam aproveitar Vermont por dois dias. Não seria nada esplendoroso, nem ficariam dias suficientes para um verdadeiro tour, sequer iriam para um local de extrema distância de Chicago, ela sabia de tudo aquilo. Porém, pretendia dá-lo aquele presente de todo o seu coração, e com o orgulho massageando sua competência, porque, embora fosse uma bonificação da editora, era reflexo de todo o seu esforço naquele trabalho que lhe exigia, ao qual se doava com anseio por querer ser uma exímia profissional.
No final das contas, o seu script minimamente montado para comemorar aquela data ao lado de havia caído por terra. E com surpresa percebera, que se sentia em frangalhos por dentro.
Depois de vê-lo sendo beijado por outra mulher, não teve mais coragem de convidá-lo para o que quer que a tenha feito criar pensamentos tão utópicos.
Mais uma vez se sentiu boba e pequena, a insegurança tratando de fazê-la diminuir a si mesma com bastante eficácia.
Não que se iludisse ou algo parecido, sabia que ele se relacionava com mulheres das mais diversas, ainda que o fizesse com excessiva discrição. Por vezes, na época da puberdade, ouvira partes de conversas ousadas entre ele e , às risadas, através da pequena fresta da porta no quarto do seu irmão, enquanto afastava-se rapidamente com medo de ser pega, exteriorizando uma careta de nojo com as coisas que escutara.
Mas além de tudo, ela já o tinha visto ficando com alguém no passado. Também era bem real que, tamanho era o seu decoro, que isso acontecera há mais de dez anos, ainda no colegial.
Faziam parte da mesma instituição de ensino, e já naquele tempo, qualificava-se como alguém apagada. Rondava os corredores com os olhos direcionados para os pés, e a cortina de cabelos encobrindo o rosto pálido. Constantemente em silêncio, sem querer ser alvo de muita atenção, costurava através do mar de pessoas que circulavam em nichos diversos, esquivando o corpo esguio de possíveis esbarrões.
Algo, no entanto, sempre tratava de interceptar os seus passos. Poderia dizer “alguéns”. Certas vezes sendo uma son) esbaforida, empolgada em espalhar alguma novidade acadêmica aos sussurros, ou um esfomeado, que sempre lhe surrupiava cinco dólares alegando se tratar de um empréstimo - que jamais fora pago -, para mais uma vez visitar o refeitório atrás de algo para forrar o estômago.
, entretanto... Aquele ultrapassava todos os limites:

Seus pés marchavam rapidamente esmagando os cascalhos sob os tênis surrados, seguindo por um caminho nos limites das faixas de atletismo que circundavam o campo. Embrulhava o seu diário contra si, como em um abraço seguro, enquanto atravessava o local sem olhar para os lados.
Em um dos extremos do campo, o treino das cheerleaders ocorria com gritos de guerras entoados por vozes agudas, e músicas em sincronia a corpos que se moviam com precisão. Um passo fora do tempo, e repetiam todo o processo outra vez.
Do outro lado, jogadores de baseball treinavam rebatidas e arremessos, fazendo a bola viajar com fluidez de um lado ao outro dos gramados, que aos olhos de quem assistia, voava veloz como um borrão.
rotineiramente utilizava daquele atalho para cortar todo um percurso que a forçaria a contornar o terreno de blocos até o laboratório de biologia, um prédio isolado ao norte das construções do colégio onde tinha aulas às quintas feiras.
Estava quase alcançando à calçada que se interligava aos arredores do campo, por onde um caminho de asfalto a levaria até o edifício em questão, quando sentiu um sopro no pé do ouvido. No ato, pulara de susto, sentindo o coração ir de zero a mil em menos de um segundo, enquanto gritava um xingamento bastante expressivo em resposta:
– “Caralho”, ? – repetiu a palavra que ela usara, com um olhar cheio de diversão. – Adoraria ver a cara da senhora E. se soubesse desse seu vocabulário tão refinado.
– Olhem para o , pessoal, um humorista... – Falou de forma a parecer que existia uma plateia os assistindo, girando o corpo para encará-lo com os olhos cerrados. – Você precisa PARAR com isso, tá legal? – virando de costas, ela continuou a seguir pelo passeio, fazendo-o correr para acompanhá-la.
– Parar com o que? – Ele perguntou com o cenho franzido, claramente com a feição de alguém que não tinha entendido o que fora dito, fazendo-a interromper os passos, frustrada, para fuzilá-lo.
... – Fez uma pequena pausa, respirando fundo. – Eu não vou ser raptada por um maníaco qualquer por andar sozinha até o laboratório. Você sempre quer me acompanhar, e não me leve a mal, eu fico honrada por tanta preocupação, ainda que o diga que não precisa. Também não preciso repetir que eu mesma posso carregar a minha pilha de livros, ou que por mais que eu ame, é um desserviço pro seu bolso me comprar uma bomba de chocolate quase todos os dias. As pessoas acham que estou te usando, sabia disso? – O observou com um semblante derrotado, enquanto ele inclinava o tronco para baixo, de forma a olhá-la diretamente. Tinha a testa vincada de desgosto, ela pôde notar.
– Estou cagando para o que falam, . Não importa o que você diga pra me fazer mudar de ideia. Porque fora os seus irmãos e alguns caras do time, não dou a mínima para ninguém mais num raio de três quilômetros. Você pode até andar por ai tentando ser invisível para todo o resto do planeta, e eu sinto muito se você acha que as pessoas são tão estúpidas que só te notam quanto um bosta como eu estou ao seu lado, o que aliás, é uma mentira... Mas você não vai se esconder de mim. Não de mim!
Sentenciou, não dando a chance de fazê-la dizer mais coisa alguma para contra argumentar. Encararam-se por longos minutos, sustentando os olhares carregados de significados, enquanto uma conversa não verbalizada se desprendia entre os dois:

“Não estou me escondendo.” – rolou os olhos com impaciência, sacudindo a cabeça em negativa levemente.
“Sim, você está!” – Ergueu uma das sobrancelhas, assentindo de forma perspicaz.
“E você está sendo insuportável, como sempre...” – Cerrou os olhos, quase os fechando no processo.
“Covarde!” – Sorriu de canto curvando levemente o pescoço, com humor.
“Vai à merda, !”

Ela fora a primeira a quebrar o contato visual, girando nos calcanhares para retomar o caminho que seguia antes, fazendo-o estampar um sorriso vitorioso, que tomava de um lado ao outro da sua face.
– Como eu ia dizendo... – falou relaxadamente ainda a acompanhando – Hoje à noite temos uma festa para ir. – Ela o olhou de soslaio, lançando-o uma carranca.
– Temos é? Para começo de conversa, o seu “como eu ia dizendo” nem entra em contexto aqui, jogador. Só estou tendo conhecimento disso agora, e a resposta você já sabe.
– Claro que eu já sei, e é por isso que passarei na sua casa às oito.
, eu não vou.
– Sim, você vai! Todo mundo vai estar lá.
– Minha mãe sempre me disse que eu não sou todo mundo. – Riu consigo mesma daquela frase que, provavelmente, pertencia a todas as mães do universo. – E honestamente? Não haveria em toda a galáxia algo que me fizesse sair de casa hoje à noite...
Bom, exceto talvez o fato de que poderia ser considerado pós-graduado em persuasão. Sobretudo quando não haveria a companhia do seu fiel escudeiro, , que havia arranjado um encontro. Ou de son), que participava de uma reunião estudantil acerca do debate sobre redução de danos no corpo discente.
E era por aquilo, que horas depois daquele diálogo, se via em frente à uma enorme casa em tons de bege, com carros diversos estacionados pelos gramados de entrada, onde suas paredes pareciam tremer com a vibração dos graves de músicas dançantes, ressoando oscilações sonoras distintas. Só quando adentrou o ambiente pôde realmente ter ideia do quão alto aquilo estava.
Lá dentro o espaço parecia ínfimo para a quantidade de pessoas que estavam presentes no local. Por isso agarrou sua mão, passando na frente e abrindo caminho entre os jovens que tentavam conversar num tom onde suas vozes pudessem ser ouvidas acima do som, formando grupos em pequenos círculos encostados aos corredores. Alguns já alterados gesticulavam expressivamente com copos plásticos vermelhos em mãos, que ameaçavam a todo o tempo derramar os conteúdos alcoólicos pelas suas bordas.
Com os olhos um tanto quanto saltados, ela observava de um canto ao outro daquele lugar, esquisitamente desambientada. Reconhecia diversos rostos enquanto avançava casa adentro, sentindo a sonoridade se intensificando enquanto prosseguiam em direção a uma enorme sala improvisada como pista de dança, onde muitas pessoas já moviam seus corpos de forma visceral.
Pararam em um canto da parede que tinha por ali, fazendo-a reparar com clareza tudo o que acontecia ao redor. Sentiu-se estranha, dessa vez com bastante ênfase. Por isso tratou de agarrar os dois lados da lapela do seu casaco, fechando-os sem realmente abotoá-los, de forma a parecer que seus braços estavam cruzados. Observando melhor, não estava vestida de acordo com o que parecia comum ali. A grande maioria das garotas utilizava de vestimentas sensuais, com rostos pintados por maquiagens fortes que marcavam bastante suas feições. Realmente bonito, na opinião de . Entretanto ela não tinha vocação para delinear seus olhos sem tremular as mãos, ou segurar um pincel corretamente. E a ideia de usar aquelas sandálias de salto já poderia fazer as batatas das suas pernas sofrerem por antecipação.
virou-se para ela, aproximando o rosto do seu ouvido e falando o mais alto que podia com toda aquela cacofonia:
– Vou procurar algo para a gente beber, quer vir comigo? – Perguntou sinalizando com o polegar o caminho às suas costas, que levava até a cozinha.
– Não me aventuro a passar por toda essa gente de novo, te espero aqui. – Sorriu, fazendo-o sorrir de volta. Ele então mergulhou outra vez por entre as pessoas, sumindo aos poucos de suas vistas.
recostou-se na parede se perguntando interiormente o que estava fazendo ali.
Talvez pertencesse a outro lugar no final das contas. Não era o tipo de garota que frequentava ambientes como aquele, e não por falta de oportunidades.
Com e aficionados pelo hockey e atuando com destaque no time juvenil, festas como aquela eram pontos de parada comuns para ambos. Mas não para ela.
Observou suas botas de coturno com um interesse incomum, não sabendo ao certo como agir estando ali, sozinha, e obviamente amuada.
De repente sentiu um cheiro peculiar, como se estivessem queimando algum tipo de erva no espaço. Por conta disso ergueu o rosto, avistando a figura de um jovem ao seu lado que, de certa forma, ela achava se tratar de alguém familiar, embora não conseguisse recordar de onde poderia o conhecer. Ele escorava uma das pernas na parede de modo a dobrar o joelho, parecendo confortável naquela posição. Camadas de fumaça serpenteavam através do ar ao seu redor.
Encarou-a sem qualquer recato, enquanto nos lábios tragava o cigarro com tanto empenho, que a brasa permaneceu acesa num alaranjado brilhante durante longos segundos.
Fez um som de deglutição, e então falou com a voz estranhamente para dentro:
– Quer dar um tapa?
– O que? – Ela arregalou os olhos, fazendo-o curvar o pescoço para trás, para despejar uma quantidade vasta de fumaça, que parecia dar aos seus pulmões expansibilidade em relaxamento ao expirar. Em seguida, a surpreendeu com uma risada ordenada por dentes perfeitos. Ao encarar os seus olhos, pôde identificar um traço de vermelhidão, que não se lembrava de ter visto momentos antes.
– Um trago no baseado? – Perguntou com uma feição jovial. Os cantos das pálpebras mais repuxados, fazendo com que seus olhos parecessem baixos. Ergueu a mão contendo o objeto de cheiro forte firmado entre o polegar e o indicador, incitando-a com um breve movimento de cabeça.
olhou ao redor em alerta, temendo que alguém estivesse presenciando aquela conversa. Mas, pôde perceber pouco tempo depois, as pessoas estavam bastante ocupadas tratando elas mesmas de entrarem num estado de frenesi. A verdade é que sempre fora curiosa, ainda que por vezes o medo a desencorajasse de fazer várias coisas que sentia vontade.
Malmente cruzava a linha que delimita o seguro do perigoso em algum momento da vida. Não tinha realmente grandes histórias para contar sobre si mesma. Não pertencia a nenhuma panelinha, ou cultivava um amplo círculo de amizades. Não era frequentadora de festas como aquela, e em verdade, não se encaixava naquele grupo. Porém, agindo de forma que surpreendeu a si mesma, se vira falando em resposta:
– Eu não sei como fazer isso. – Deu de ombros, fazendo-o sorrir em compreensão. – Mas fico interessada em saber o que as pessoas sentem.
– É como quando chupamos um canudo. Você traga, ingerindo diretamente a fumaça. “Engolindo ela”, – Fez o sinal de aspas com uma das mãos. – ...E a prendendo por quanto tempo suportar. Entendeu?
– Acho que sim. Posso tentar? – Apanhou desajeitadamente o cigarro que o rapaz tratou de entregá-la, malmente sabendo a maneira certa de segurá-lo. Comprimindo-o entre os lábios rosados, sentiu a textura seca do papel contra a boca. son) provavelmente a mataria se visse o que estava fazendo ali. Solveu uma grande quantidade de fumo, da forma como ele dissera para fazer, prendendo o trago nos pulmões pelo tempo que aguentara. Então assoprou uma nuvem de fumaça. Um gosto incomum marcou o seu paladar, que jamais havia experimentado nada parecido. Passou o baseado de volta para o desconhecido, refletindo sobre a reação que a droga deveria lhe causar – E então, é isso? – perguntou para o rapaz que a observava atentamente. – Acho que devo ter feito errado, porque eu não estou sentindo nada. E pra falar a verdade, o gosto é bastante ruim.
– Bom, não funciona assim. O efeito não é instantâneo, e não vem com apenas um trago. Experimenta tentar mais uma vez.
E ela o fizera, repetindo o mesmo procedimento de momentos antes.
Percebera, desta vez, que talvez não servisse para aquilo, quando a primeira crise de tosses subiu pela sua garganta minutos depois, eliminando um rompante de fumaça e queimando tudo no processo. Seus olhos lagrimejaram de imediato em consequência.
– Respira fundo. – O rapaz a aconselhou, quando finalmente pôde se recuperar da tosse. - É normal que isso aconteça com qualquer pessoa, principalmente quando não se está acostumada. A propósito, me chamo Wayne Griffin.
. – Respondeu, ainda sentindo certo desconforto na região do pescoço.
Dessa vez fora ele que, em meio a uma tragada, começara a tossir ao escutar o que ela dissera. Pressionou a mão contra o estômago, dobrando o corpo para frente enquanto os ombros sacudiam com o esforço que fazia.
– Puta merda! Você é... – Engoliu em seco, olhando-a espantado. – Irmã da son) ?
– É a minha irmã mais nova. – Disse estranhando aquela pergunta. Qual seria a probabilidade dele ter relacionado as duas? – Você a conhece?
– Mas... Ela é a líder do grêmio que deu voz àquela campanha de redução de danos. – Disse sem realmente escutar o que ela perguntara. Então tratou de lançar a ponta do cigarro no chão, o apagando com a sola do tênis agilmente. A observou alarmado, com a aparência de alguém arrependido. – Não conta pra ela sobre mim, por favor. Finge que eu nunca te dei maconha, está bem? – Falou tomando uma de suas mãos, apertando-a brevemente como num comprimento. não conseguiu entender coisa alguma sobre a forma como ele, de repente, começara a reagir. – Eu devo ser o idiota mais azarado em toda Chicago. – Lamentou massageando a testa. – Olha, foi um prazer te conhecer, , mas eu tenho que ir nessa. – Fez um breve aceno com a cabeça, distanciando-se dela o mais rapidamente que conseguia naquele mar de gente.
então se viu sozinha novamente.
Não conseguia compreender o motivo que levava Wayne Griffin a fugir com tanto desespero, mas naquele momento ela não estava realmente com os pensamentos voltados para aquilo.
Sua mente começou a divagar sobre múltiplos assuntos, enquanto o olhar se perdia no enorme pendente de cristal erguido no centro do cômodo, acima das suas cabeças, deixando o ambiente com uma iluminação opaca.
Uma nova música se iniciara fazendo-a prestar atenção em cada um dos elementos que a compunham. Jamais havia escutado algo tão claro. Quase como se o seu cérebro pudesse processar toda variável que a formava. Cada nota atingindo seus tímpanos como pequenas setas invisíveis, que chegavam continuamente embaralhando suas percepções. Os graves da música parecendo acompanhar o compasso do seu coração.
Desencostou-se da parede começando a caminhar no meio das pessoas. A música parecia guiá-la contra a sua própria vontade. Sequer deu-se conta realmente de que deixara o local onde esperava pouco tempo atrás. Nem notara que as pernas moviam-se com autonomia.
Começou a sentir os reflexos mais lentos, tendo a impressão de que existia algum tipo de névoa sobre os olhos, por isso os coçou delicadamente enquanto os pés a levavam em direção a porta de entrada. De frente para a porta, uma escada forrada por um carpete vermelho de poliéster levava até o segundo andar da casa, onde a movimentação não parecia tão intensa.
Por isso olhou por sobre os ombros desconfiadamente, antes de girar o corpo com a mão apoiada no corrimão, subindo os degraus sem qualquer esforço. Uma sensação de leveza lhe dava a impressão de que o seu corpo flutuava.
Quando atingiu o topo da escada, ainda conseguia escutar o som da música ao fundo, dessa vez parecendo mais distante, quase como se viesse diretamente do seu subconsciente. Olhou de um lado ao outro daquele corredor decidindo por onde direcionar-se.
Em um dos lados, um casal encontrava-se sentado com as costas apoiadas a parede e as cabeças próximas, enquanto pareciam conversar aos sussurros. Por isso ela resolvera seguir na direção contrária.
Conseguia ouvir um ou outro gemido vindo por detrás de algumas portas daquele lado do corredor. Riu sozinha imaginando que, se tivesse a sorte de comparecer em outra festa como aquela numa próxima, levaria alguns preservativos consigo para o caso de ter a chance de transar também, embora na verdade nunca tivesse feito aquilo.
A medida que os seus pés a levavam até a última das portas na extremidade do corredor, percebia que um feixe de luz provinha dela, pois encontrava-se entreaberta.
Estava quase retornando pelo caminho que a levara até ali, quando escutara alguém chamando por um nome bastante conhecido de dentro do local, fazendo-a parar de imediato:
, por favor... – A voz feminina disse manhosamente. Em seguida um estalo preencheu o silêncio com um tipo de respiração arquejante, fazendo dar um passo afrente para espiar.
Aproximou-se mais da porta, tendo em foco ao alcance das suas vistas a cena de um encostado à pia do banheiro, enquanto uma garota de longos cabelos loiros encaracolados sustentava-se nas pontas dos pés para ficar na sua altura. Os braços apoiavam-se sobre os ombros dele, entrelaçados detrás da sua nuca. Os lábios da garota moviam-se com ferocidade contra os de , que não parecia fazer mais do que mínimos deslocamentos. A garota deslizou a língua por toda a extensão dos seus lábios com luxúria, embora nenhum sinal parecesse ter sido obtido em troca. sentiu uma inquietude no seu interior, ainda que achasse ter alguma associação com o fato de que se drogara minutos antes. Malmente se dera conta de que prendia a respiração a todo o momento. O peito queimava com um tipo de angústia desconhecida. Por vezes pensou em se afastar e fingir que nada presenciara. No entanto, dessa vez os mesmos pés que antes pareciam dominar suas vontades, acomodaram-se no local, como se tivessem criado raízes. Os olhos sequer piscavam para o episódio que ocorria como um espetáculo particular.
Interromperam o beijo com um estalido alto, fazendo com que a loira se curvasse ligeiramente para trás, de modo a lança-lo um olhar de revolta:
– O que está acontecendo? Não foi bom da última vez? – Ela perguntou traçando um caminho de beijos pela extensão do seu pescoço, enquanto arrastava uma das mãos para baixo com intimidade, fazendo-a percorrer ousadamente todo o caminho do seu peitoral sobre a camisa, até as fronteiras da braguilha de sua calça. Ele tratou de pará-lo no meio daquela ação atrevida, afastando-a com delicadeza.
– Jessie, para! – Sacudiu a cabeça negativamente. – Eu já te falei, não vai mais rolar! Foi muito bom enquanto nos curtimos, mas você está começando a me cobrar coisas que jamais te prometi, e não vou alimentar suas expectativas em algo que não há futuro. Não quero me envolver sério com ninguém, você estava ciente disso desde o primeiro momento. – A olhou longamente, tentando escolher as palavras com cuidado. – Você é linda, tem uma conversa envolvendo, e seu sexo é muito bom. Você tem atrativos incríveis a seu favor. Mas eles não mudam o fato de que eu não quero um relacionamento, e nem ter que viver justificando o que faço ou como vivo. – Ela o olhava com a expressão indignada.
– Eu apenas perguntei o motivo para você ter trazido a muda à tira colo, e o porquê de viver correndo atrás dela. Ela nem pertence ao nosso universo, . – Falou com repulsa, fazendo morder o lábio inferior, sentindo-se abalada com palavras tão maldosas.
– O nome dela é ! – Ele respondeu. O timbre denunciava que seu tom brando havia ido embora, deixando em troca um agora ríspido. – Ela não é muda. Apenas se abstém de abrir a boca quando não há nada de interessante para acrescentar. Apesar de que, não existe em toda a terra algo que ela diga que não me cative. Você teria muito a aprender com ela, desse jeito me pouparia de ouvir tanta bosta. – Jessie escancarou a boca embasbacada, enquanto soltava um pequeno bufo deixando uma risadinha orgulhosa escapar.
Embora tentasse tapar a boca com uma das mãos para abafar a risada, o som chamara a atenção do casal, fazendo-os abrirem a porta, surpresos, sobressaltando-a por ter sido pega no flagra.
Deu um passo para trás rapidamente, ainda com uma das mãos tapando os lábios. Dessa vez de descrença e constrangimento, porque ali, ficava bastante claro que ela os estava espionando.
– Me desculpa... – Começou, sem conseguir de fato encará-lo. – Eu estava procurando o banheiro. Achei que poderia ser por aqui. – Mentiu, desacreditando que sua mente naquele momento conseguisse formular algo tão crível.
nada dissera. A analisou longamente daquela distância, os olhos movendo-se com bastante interesse. Então aproximou-se dela com o cenho enrugado, tomando o seu rosto entre as mãos, e inclinando o tronco para baixo de forma a estudá-la cautelosamente. Jessie grunhiu alto com a cena, marchando irada para longe de ambos. Não sem antes trombar o ombro violentamente contra o de . Mas, o seu corpo se encontrava tão adormecido que malmente sentira o impacto.
correu os olhos por toda a sua face, demorou-se mais ao examinar a cor rubra que pintava suas escleras. Então fungou o ar algumas vezes, próximo aos seus lábios entreabertos, antes de arregalar os olhos de maneira cômica soltando seu rosto:
, você fumou maconha? – Ela o olhou piscando os olhos vagamente, como se estivesse processando o que ele havia dito. Em seguida, explodiu em uma gargalhada tão histérica, que a fazia contrair o abdômen, precisando apoiar uma das mãos no ombro dele para não cair.
Ali ele sabia que suas dúvidas estavam sanadas. Não necessitava de respostas, afinal. tinha tido a sua primeira lombra.

Riu consigo mesma ao se recordar daquele episódio.
Tanto havia mudado ao decorrer dos anos que se seguiram...
Jamais teria imaginado naquela época que Wayne fosse secretamente apaixonado por son), e que inclusive se inscrevera em seu projeto de militância ante entorpecentes, quando ironicamente, fora ele o primeiro a apresentá-la à algum tipo de droga.
Obviamente mais tarde aquele fato havia sido descoberto por son), desencadeando uma discussão sem precedentes, que quase arruinara o relacionamento de ambos em consequência.
Após isso, Wayne com sincero comprometimento se encarregou de, ele mesmo, dar início a um novo tipo de ação social, que tinha como ponto principal resgatar pessoas que haviam destruído suas vidas por conta da dependência química, tentando reinseri-las em sociedade. No final das contas, descobriu uma verdadeira vocação naquilo, atuando na área de assistência social. son) seguira a carreira de nutrição.
Hoje estavam noivos.
E hoje via-se apaixonada por seu melhor amigo.
A vida podia ser mesmo bastante engraçada, ou perversa, talvez.
Deu um suspiro direcionando-se até o final da avenida, onde lojinhas de souvenirs postavam-se lado a lado.
Adentrou em uma delas anunciando a sua chegada com o tilintar de um pequeno sino pendurado à porta. Logo uma vendedora se aproximou numa abordagem.
– Bom dia! Estou apenas dando uma olhada. – Tratou de explicar, fazendo a vendedora assentir sorrindo, afastando-se para deixá-la a vontade com a escolha sobre o que levar.
Caminhou por entre os corredores, vendo fileiras intermináveis de pequenos objetos para decoração, que em sua maioria levavam o nome da cidade de Chicago em destaque.
Dentre globos de neve com os mais diferentes temas, até chaveiros, bonecos de gesso, canecas personalizadas, miniaturas de monumentos e reproduções do Cloud Gate, incrivelmente, o que de fato havia chamado sua atenção era um porta retrato.
De moldura em ferro com desenhos de prédios incrustrados no canto esquerdo, dando a peça um visual sofisticado. Apanho-o entre as mãos, girando-o do lado contrário para verificar se não havia nenhuma parte danificada, então decidiu rapidamente por levá-lo.
Procurou pela mesma atendente que a recepcionara, sorrindo com simpatia:
– Vou levar este. – disse mostrando-lhe o objeto. – Será que vocês não teriam por aqui cartões de felicitações?
– Claro, senhora! Temos uma variedade. – Respondeu guiando-a para os fundos da loja. Ali encontrou uma estante recheada deles, separados por temas específicos. De cartões de ação de graças até os em comemoração ao natal.
Correu os olhos pela seção dos de aniversários, apanhando um que, no instante em que pusera suas mãos sabia que haveria de escolher, pois em tudo recordava ele. Na capa de tom dourado se faziam presentes a gravura de uma taça vagamente inclinada, contendo em seu recipiente um conteúdo escarlate, e coloridos balões flutuando, sendo acompanhados da seguinte frase:

“As pessoas são como os vinhos, a idade azeda os maus, e apura os bons.
Feliz aniversário!”

Achou que ele iria gostar da referência.
Se havia no mundo alguém que entendesse sobre vinhos, aquela pessoa com certeza era .
Então também tratou de apanhar o cartão, o levando até o caixa para fazer o pagamento dos presentes escolhidos.
Após ter resolvido tudo o que precisava, retornou para casa apressadamente para terminar de arrumar sua pequena mala de mão. Em algumas horas teria uma importante viagem a fazer.
Mas sabia que antes de organizar os preparativos para sua curta estadia em Vermont, precisava de algo para aquietar o seu coração.
Pensando nisso, apanhou uma caneta e um caderno, sentando-se na escrivaninha do seu quarto para tentar transmitir o que intrigava o seu interior.
Percebeu que aquele caos que a dominara era mais sério do que havia imaginado, quando malmente conseguia expressar o que sentia em forma de escrita, que era algo tão natural para ela. Decidiu, entretanto, que apenas levantaria da cadeira quando manifestasse em palavras algo que soasse ao menos descente, e que reverberasse tudo o que estava deixando-a desorientada:


Chicago, IL
18/11/2014

Um dia você me disse a seguinte citação de Horácio: “Um vinho revela os sentimentos.”
Eu jamais pude esquecer essas palavras.
Ainda é cedo, mas decidi levar a frase ao pé da letra. Talvez o vinho me ajude, afinal.
Foi por isso que abri uma garrafa de Kallena da safra que você me trouxe de presente. Estou apreciando cada gole numa caneca dos Black Hawks cheia até a boca. Você ficaria tão decepcionado se visse essa blasfêmia... Acho que cumpro direito o papel de te chocar, embora na maior parte do tempo isso nem seja proposital.
Iniciei esta carta por diversas vezes. Tantas, que nesse momento mal posso contar. Nenhuma delas pareceu suficientemente boa. Não acredito que esta venha a ser, tampouco... Parando para observar o chão do quarto, eu vejo que deixei um bom estrago com a quantidade de descartes em bolinhas de papeis. São pequenos fragmentos dessa desordem que está aqui no meu íntimo, mas não acho que tenha conseguido as formular corretamente. Você pode entender? É claro que não pode! É difícil para mim pôr em palavras, também.
Estou fugindo, !
Não consigo lidar com isso, sinto que se não manifestar essas emoções neste instante, irei me afogar dentro de mim mesma.
Não sei como será a próxima vez que olharei nos seus olhos. Mas, apenas em imaginar isso, já sinto a adrenalina começando a agir palpitante através do meu corpo. Como o calafrio que traz cócegas ao meu pulso.
Tive quatro dias para ponderar sobre toda essa confusão, e como pensei, ... Quase enlouqueci com os pensamentos que rondaram minha mente, e que me roubaram algumas noites de sono. Em uma delas, até cheguei a sonhar com esses olhos que conheço de cor.
Nunca imaginaria que pudesse ser assim.
Um sentimento invasivo, que sequer pede licença para se fazer presente em cada minuto do nosso cotidiano.
Durante anos você vem utilizando psicologia reversa, me chamando de covarde, só para despertar em mim algum tipo de bravura ainda que o faça com diversão.
Ironicamente, você não poderia estar mais do que certo.
Sou mesmo uma covarde! Tão covarde, que esconderei esta carta para que você só a encontre se assim for da vontade dos céus. Tão covarde, que não consigo encarar o fato de que em algum momento, que nem mesmo me dei conta, eu me apaixonei.
Por você, !
Por quem você sempre foi, e por tudo o que significa para mim. Por ser paciente e generoso, e totalmente leal. Por cada plano mirabolante que já me incluiu, pelas confissões sussurradas em cumplicidade, por me roubar risadas sinceras, por tanto cuidado e pela dedicação em arrancar um mero sorriso dos meus lábios, mesmo nos dias mais cinzentos. Por nunca, em nenhuma circunstância, me deixar.
... Poderia continuar citando infinitos motivos para ter me apaixonado por você. Mas sei que no final das contas, me apaixonei por você, pois não existe a possibilidade de não te amar.
Indo contra tudo o que eu já achava saber, a vida vem e me mostra que ela pode surpreender ainda mais.
Acho que afinal, eu conheço tão pouco sobre as coisas...
Se apaixonar é assim, tão angustiante? Dessa maneira que me faz sentir vontade de rasgar o peito ao meio com as mãos e arrancar o meu coração? Engraçado, provavelmente você saberia responder a essas perguntas tanto quanto eu...
Sinto tanto medo do que está florescendo no meu âmago, que neste momento, desejei jamais ter te conhecido. Mas logo em seguida me censurei por isso. Me perdoa, não foi uma vontade sincera.
Viveria esse sentimento por mil vidas, se soubesse que em todas elas, ele nasceria para ser seu.
Com toda a minha estima,

.

Finalizou a carta sentindo-se mais leve com o desabafo íntimo, destacando o papel do espiral, e relendo-a com muita atenção para ter a certeza sobre fazer o que intencionava desde o instante em que sentou-se a escrever.
Determinada, suspirou profundamente dobrando a carta em várias partes.
Abrindo a gaveta da cômoda, retirou dali um retrato de anos atrás, de uma das férias de verão que costumava passar na fazendo da família de em Lawrenceville.
Na foto, retirada de costas, via-se parte da sua silhueta pendurada nos ombros de , com as pernas cruzadas sobre sua barriga, enquanto ele parecia correr através de um caminho de terra batida cercado por antigas árvores. Ao fundo, padronizava-se uma imensa planície verdejante por onde hectares de vinhedos rumavam até onde as vistas se perdiam, em contraste com o sol que se punha no horizonte.
Apanhou o porta retrato que comprara, abrindo a tampa de fundo e depositando a foto na moldura, que se ajustara perfeitamente enquadrando-se contra o vidro. Por último, acomodou a carta dobrada no canto inferior do quadro, na parte em que os detalhes dos prédios esculpidos pudessem camuflar o objeto que pretendia esconder. Então, fechou a tampa do porta retrato, virando o objeto para frente, de modo a observar a imagem que escolhera para dá-lo de presente.
Escreveu uma breve felicitação no cartão que enviaria em conjunto, e os guardou numa sacola de alça, que ela deixaria na recepção da Enterprise, para que fosse entregue a ele por terceiros. Intimidava-se tanto com a ideia de vê-lo, que sequer teria a honra de dá-lo em mãos.
Sentiu-se péssima ao constatar o quanto isso seria de uma falta de consideração tremenda da sua parte, mas decidiu que lidaria com aqueles julgamentos depois.
Do contrário censuraria todas as suas ações. Desde a forma como agia até os presentes escolhidos:
Um cartão comum, uma foto intimamente conhecida, um porta retratos banal. Nada parecia fora de contexto.
Exceto que, dentre eles, havia um importante segredo oculto.


➳ I N E F Á V E L♡

A Enterprise top of mind provindos das análises categóricas de enófilos em todo o mundo.
O boom da empresa eclodira-se em consequência da popularidade que uma das suas marcas de vinho de mesa havia atingido, cinquenta anos antes, de forma sutil e despretensiosa.
O vinho Kallena abarrotara prateleiras de mercados em todo o território nacional, ganhando enorme enfoque, que atribuía-se ao cruzamento entre duas espécies de uvas, sendo elas tinta e branca, formando uma bebida rosé de coloração rubra e sabor cálido.
Mais do que isso, o Kallena ganhara o título de vinho dos apaixonados.
Associava-se a história que girava em torno da criação do vinho, com aqueles que se encontravam enamorados. Era ainda regularmente utilizado em festas de noivados e celebrações de casamentos.
Cinquenta anos após ter-se originado, no entanto, e os tempos agora eram outros.
O mercado de vinhos vinha se expandindo mais e mais a cada ano. A concorrência era ampla, embora a Enterprise ainda estivesse em boa colocação no ranking das mais populares empresas possuidoras de vinícolas com grande número de exportação mundo afora.
Ainda assim, com os altos índices de divórcios arrastando-se num crescimento descomunal, o matrimônio começara a se tornar uma pauta longínqua. Em conjunto a este fator, havia o exorbitante valor aplicado em cima de cada garrafa do produto, fazendo os números de vendas obterem uma queda considerável. Além do que, o preço encarecia absurdamente quando se tratando das safras mais antigas.
E era por conta disso que se encontrava em seu escritório, estudando os relatórios de vendas abertos sobre a sua mesa de trabalho, e examinando a melhor forma de reverter aquele quadro que refletira diretamente no rendimento econômico da empresa.
– Pai, estamos sofrendo uma queda de aproximadamente 4% ao mês, há quase um semestre. Os números são bastante expressivos. A Kallena precisa ter um reajuste de valores. – Apontou com clara preocupação, enquanto o seu genitor parecia distraído observando com interesse a selva de pedra que era Chicago, com sua poderosa arquitetura disposta em todo o horizonte, através das janelas em vidro laminado que erguiam-se do piso ao teto. Na mão esquerda sustentava um copo térmico de café.
– Convocarei uma reunião com a equipe de gestão financeira para a próxima semana. – Respondeu virando-se de lado, de forma a encarar o filho. – Por enquanto, não quero que esquente a cabeça com isso. Daremos um jeito. – Sorriu afetuoso antes de tomar um gole da bebida pura, aproximando-se da poltrona onde o filho se sentava. – Quando você retornar, discutiremos meios de solucionar esta situação. Hoje quero apenas que você vá até lá, e faça um bom discurso para atrair mais publicidade positiva. Depois disso você pode tirar três dias de folga. Considere isso como o seu presente de aniversário. – desferiu alguns tapinhas sobre o seu ombro, fazendo-o assentir satisfatoriamente. Uma folga de alguns dias seria muito bem vinda, e definitivamente não seria ele a contestar.
– Obrigado, pai!
Batidas na porta chamaram a atenção de ambos, enquanto a figura de Brad Adams, o mais recente estagiário da empresa, projetava-se parcialmente, com apenas a cabeça se fazendo notável no espaço da porta entreaberta.
– Com licença, senhor ... – Correu os olhos de pai para filho, percebendo que ali se faziam presentes dois dos . Por isso tratou de rapidamente esclarecer a quem se dirigia, com a testa franzida: – O senhor , quero dizer.
– Entre, Brad. – Respondeu achando graça na expressão do jovem, com quem tinha se identificado ainda nos seus primeiros dias de trabalho. O rapaz empurrou a porta, adentrando o escritório suntuoso a passos largos, carregando consigo uma sacola de alça estampada.
– Não queria os incomodar, mas acabaram de deixar isto aqui na recepção para o senhor. – Depositou a sacola em sua frente, empurrando-a em direção a o outro. – Por sinal, feliz aniversário, senhor. – Falou inclinando-se sobre a mesa, para dar-lhe um breve aperto de mão. com gratidão lhe sorriu de volta.
– Muito obrigado, Brad. – O outro meneou a cabeça, girando nos calcanhares e retirando-se da sala rapidamente.
– Veja só se não é a melhor parte em ficar mais perto da morte, meu filho. Presentes! – Bennet falou com diversão, fazendo-o soltar uma risada.
Com a curiosidade o aguçando, puxou o presente contra si enrijecendo o tronco antes de abri-lo.
Afastou as alças, analisando os conteúdos que existiam ali.
Primeiro retirou de dentro do recipiente um porta-retratos que claramente representava as construções arquitetônicas de Chicago. Correu as vistas pela imagem de uma foto que ele sequer lembrava-se que um dia havia sido tirada, embora pudesse reconhecer a si mesmo, o local onde aquilo se ambientava, e em principal e sem qualquer dúvida, ele reconhecia . Poderia interpretar apenas com aquele retrato de perfil, que ela sorria de forma a transformar os olhos em duas pequenas fendas, como lhe era típico quando ficava muito feliz, e que trazia para ele como reação o seu próprio sorriso involuntário.
Depositou a moldura sobre a mesa, averiguando o que mais a sacola guardava. Seu pai curvou-se para observar a foto sobre seus ombros, enquanto lia o cartão que fora entregue em conjunto.
A gravura que o decorava e a citação impressa poderia deixá-lo satisfeito com a alusão ao seu trabalho. Algo que tanto amava.
Mas, lendo vezes seguidas a pequena frase que ela havia escrito com uma caligrafia caprichada, ele não conseguia pensar em outro sentimento além de decepção:

“Não duvide quando eu disser que nos próximos cinquenta anos te darei como presentes de aniversário garrafas de vinho dos mais vagabundos que possam existir em todo o mundo.
Assim talvez você venha a provar o real elixir da simplicidade da vida.
Feliz velhice, jogador.

Com meu carinho,

.”

– Foi da . – Disse em voz alta, lançando o cartão contra a superfície da mesa tentando soar desinteressado. Recostou-se à poltrona fazendo-a envergar para trás, deslizando a mão sobre os pelos da barba com uma feição de poucos amigos.
– Percebi ao ver a foto. Por sua cara, as coisas não parecem andar muito bem. – Seu pai sentenciou, contornando o lugar onde sentava para ocupar o lado contrário da mesa. – Vocês brigaram? – soltou um pequeno riso sem qualquer traço de humor diante daquela pergunta.
– Se brigamos? Ela brigou comigo! – Massageou as têmporas, sentindo-se abatido de repente. – Pra falar a verdade, nem mesmo isso aconteceu. Eu preferiria que tivéssemos brigado, dessa forma receberia alguma reação dela. Mas a simplesmente vem me ignorando durante toda a semana. Então hoje, após dias em silêncio, me deixa presentes na portaria, e não faz o mínimo esforço de vir até aqui olhar nos meus olhos?! Pelo amor de Deus, ela só pode estar de brincadeira! – Exclamou ultrajado.
Seu pai o analisou em silêncio por longos minutos desviando o olhar em direção aos presentes, para então respirar fundo sacudindo a cabeça negativamente. Em meio a quase duas décadas de convívio, o mais velho já conseguia compreender o que acontecia naquela ligação tão sublime entre eles. Estranhava o fato de que , embora um rapaz esclarecido, não pudesse se dar conta dos sentimentos que o rodeavam, e não conseguisse enxergar o que estava notavelmente embaixo do seu próprio nariz.
Bennet tinha grande apreço por e toda sua família. Por isso, ansiava pelo dia em que ambos deixassem de ser tão tolos. Afligia-se com a ideia de que o tempo passasse sem qualquer atitude tomada, e acabasse sendo tarde demais para os dois.
– É realmente preocupante, meu filho. Para alguém que irá assumir o cargo de um cara genial como eu, você é muito cego. Ou poderia dizer, muito burro. – olhou para o pai com uma careta de desgosto sem compreender aquela fala repentina. – Mas não serei eu a desanuviar suas vistas. Um dia fui assim, estúpido como você. Então conheci a sua mãe, que me lapidou e me ensinou como ser alguém extraordinário. Ainda tenho esperanças de que o seu caso seja solucionável. – Piscou em deboche, virando as costas e encaminhando-se em direção a porta. – Não se esqueça de que o seu voo parte às 17:15, e a festa começará às 21:00. Irei me retirar agora, porque preciso fazer uma ligação para o . Quero saber se fui contemplado com os ingressos do jogo dos Black Hawks num lugarzinho privilegiado. Feliz aniversário, bundão. – Ainda de costas, sinalizou com o dedo indicador e médio voltados para cima num claro gesto de paz.
– Fico agradecido, matusalém. – Respondeu em meio a uma gargalhada, assistindo ao seu genitor retirando-se da sala com gracejo. Uma gargalhada que fora morrendo aos poucos, quando seu olhar dirigiu-se aos presentes ali deixados. Por isso acessou as suas mensagens de texto no celular, achando com prontidão o número que desejava contatar:

“Recebi os seus presentes, muito obrigado! Da próxima vez, eu aceito apenas a presença física acompanhada de um abraço e um cafuné, e vai ser o suficiente pra fazer o meu dia mais feliz. Estava me perguntando se sou assim tão insignificante, a ponto de você passar pelo saguão da empresa, mas não subir para me dar um oi. Acho que mereço uma explicação, . Eu te fiz algo?
Por favor, você precisa me dizer se fiz alguma merda, pra que eu possa honestamente me desculpar. Já vasculhei toda a minha memória, e não consigo pensar em nenhum motivo para você de repente me evitar. Te conheço bem demais, sei que alguma coisa está acontecendo. Não me coloca de escanteio, ! Já passamos dessa fase há eras milenares. Não adianta agir desta forma. Talvez, depois de tanto tempo, você ainda não tenha aprendido nada ou entendido bem o recado. Por isso mais uma vez irei frisar, só para o caso de você ter se esquecido durante o percurso: eu não irei a lugar nenhum!”

Apertou o botão de enviar sem pensar duas vezes, enquanto o ícone do SMS informava que a mensagem havia sido encaminhada.
Respirando fundo ele resolvera levar seus pensamentos para assuntos mais brandos, pensando nos arranjos da viagem que faria ainda naquela tarde.
O seu dia mal começara, e já se achava tumultuado de emoções.

(...)

Já era noite quando fora transladado ao seu destino, o Capitol Plaza Hotel em Montpelier. Local este, que havia sido escolhido para sediar o evento que aconteceria em poucas horas. Carregava consigo apenas uma simples mochila e uma capa protetora para smoking em TNT para que a roupa não amarrotasse no percurso, rejeitando com cordialidade o eficiente funcionário que se oferecera a transportar os seus pertences.
Passou pelo saguão fazendo um breve check-in, e seguiu com rapidez em direção ao quarto que havia sido reservado em seu nome, para que tivesse tempo de sobra de se arrumar adequadamente.
Tinha como encargo a função de representar a Enterprise na celebração da editora Redaer, a mesma cujo trabalhava, e a qual um mês antes, concedera uma entrevista na fazenda da sua família em Lawrenceville para que a montagem de uma matéria sobre o majestoso vinhedo fosse preparada. Com isso, o vinho Kallena e todo o criterioso processo da sua criação, tinha sido eleito para estampar a capa da primeira edição de um gênero de revista agrícola, que seria lançada naquela mesma noite.
Como reflexo daquilo, teria de discursar para pessoas de grande importância no mercado editorial, e nos mais variados tipos de mídias e setores publicitários. Quando se inteirara sobre o evento, informaram-lhe que estava previsto para ser um tanto quanto privado, limitando-se a um único representante por empresa, fazendo da celebração uma reunião mais reservada.
Não fora isso o que presenciara ao adentrar o recinto apinhado de pessoas vestidas com requinte para a festa, entretanto.
O lugar era decorado com modernos candelabros dispostos através de suas paredes em ambos os lados, que ambientavam uma aparência rusticamente sofisticada.
O teto abria-se num côncavo ao centro do salão, com vitrais transparentes que permitiam ao visitante uma esplendida visão do céu noturno.
Num ato de nervosismo ao ver a quantidade de gente que preenchia o espaço, ajeitou a gravata borboleta do seu black tie, o qual não precisava daquela ação, já que se achava perfeitamente ordenada desde o momento em que pisara os pés ali. A verdade é que jamais havia gostado de falar para um público grande. Funcionava melhor trabalhando nos bastidores dos negócios.
Já havia passado por inúmeras situações como aquela antes, e a habitual ansiedade continuava se fazendo presente em todas elas. Chegara a conclusão de que talvez aquela sensação nunca viesse a se tornasse mais simples.
Pensando em algo que pudesse acalmar os seus sentidos, apanhou da bandeja de um garçom que passava o copo de uma bebida cor de âmbar, que logo comprovou se tratar de whisky, quando virou todo o conteúdo num só gole. Em seguida pegou outro copo da mesma bebida, dessa vez degustando-a comedidamente.
Percebeu por sua visão periférica a proximidade de alguém do local onde se acomodava de pé, por isso voltou sua cabeça para o lado, encontrando Maggie Foster, diretora chefe da editora Redaer, caminhando ao seu encontro com um chamativo vestido vermelho vivo, que arrastava uma exagerada quantidade de pano pelo caminho. internamente se perguntou como ela conseguia andar com tanta simplicidade, sem emaranhar os pés calçados em saltos agulha no excesso de vestido que varria o piso do salão.
– Meu querido ! – Deu-lhe um aperto de mão firme com um sorriso moderado. – Espero que tenha feito uma boa viagem. – assentiu para a mais velha com educação.
Maggie Foster era uma mulher coroa que já se encontrava na casa dos cinquenta anos. Possuía uma postura eloquente e intimidadora, além de uma inteligência que conseguiria acanhar até o mais poderoso dentro os homens. Embora já em idade mais madura e com bastante experiência, exibia uma aparência jovem, e uma beleza sensual.
– Foi um voo curto. Acho que não tive tempo de preparar um discurso bem elaborado.
– Não precisa se preocupar quanto a isso ou ficar se prolongando muito no que vai dizer. Apenas o sucesso da sua empresa já é um diferencial para chamar atenção de muitas pessoas nesta sala. E quem quiser conhecer mais afundo sobre o mercado de vinhos e entender como funciona o sucesso do Kallena, terá que comprar um exemplar da nossa revista para se inteirar mais profundamente no assunto. – Cochichou como num segredo, fazendo-o dar risada. – É tudo sobre dinheiro, docinho. É como dizem por aí, uma mão lava a outra, não é mesmo? – Piscou com esperteza, sorrindo de lado. – Mas falando com seriedade, a matéria ficou maravilhosa. Foi de muito bom gosto vocês terem aberto as portas da propriedade para nos receber, e em troca posso garantir que acompanhei de perto toda a montagem feita, dando a minha aprovação em cada etapa. Confie em mim quando afirmo que foi um dos mais impecáveis e completos trabalhos já produzidos nos últimos anos. A minha equipe me encheu de orgulho. – Falou, apontando para um grupo de pessoas que conversavam alegremente do outro lado do salão. girou o pescoço, acompanhando com o olhar o local que Maggie apontara para apresentar as pessoas das quais falava com tanta honra.
Subitamente, os murmurinhos a sua volta foram ganhando o silêncio pouco a pouco, à medida que seus olhos analíticos paralisavam sobre a figura tão familiar que projetou-se diante de suas vistas.
estava estonteante. Tão encantadoramente bonita, que ele precisou tomar um longo gole da sua bebida alcoólica para hidratar a secura que preenchera sua boca em surpresa. Aquele ato, de alguma forma, pareceu magnetizar a atenção dela, fazendo seus grandes olhos expressivos caírem contra os dele numa fração de segundos.
O sorriso que ela desenhava nos seus lábios pintados numa cor rubra, fora murchando até que havia se tornado plástico, em falsa imagem de contentamento. pôde perceber o detalhe desta mudança súbita, no momento em que sustentou o seu olhar. Incomodou-se com aquela atitude ficando furioso instantaneamente. Por isso, com a irritação dominando cada um dos seus sentidos, adotou uma expressão cínica, elevando o copo de bebida em direção a ela, como num brinde, entornando em seguida todo o resto do conteúdo que restava ali.
A examinou profundamente com os olhos presos feito os de um falcão. O semblante de repente era bastante duro.
Levou o dedo indicador contra a gola da camisa social, correndo-o de um lado ao outro da extensão do pescoço, como se a peça de repente estivesse o sufocando. Jamais deixando por um instante, de observá-la com um olhar grave.
– Ah, aquela é a . – Maggie tratou de ir falando, ao captar a oscilação de humor que ele adquirira ao acompanhar seus olhos paralisados sobre a figura da outra, que agora abaixava o rosto constrangido, mexendo com inquietação no pingente do seu colar. – Venha, irei apresenta-lo para a minha equipe. Você precisa conhecer os desenvolvedores por trás de toda a produção da matéria. – Disse envolvendo uma das mãos na dobra interna do seu cotovelo, arrastando-o consigo para perto do grupo que conversava animadamente, totalmente alheios ao que acontecia em segredo. – Boa noite, pessoal... – Chamou a atenção das pessoas, que em conjunto voltaram os rostos em direção a eles. – Quero que conheçam , representante e futuro herdeiro da Enterprise, que veio aqui hoje para prestigiar o lançamento das mais novas revistas da nossa editora. – Falou com entusiasmo, enquanto lançava um sorriso reservado para a equipe, postando-se ao lado de , que enrijecera o corpo totalmente sem graça.
O grupo engatou uma conversa amigável, rapidamente o incluindo, onde sanavam suas curiosidades enchendo-o de perguntas acerca de como administrar uma empresa de tamanho prestígio, com tantos status positivos, e tendo tão pouca idade. respondeu a todos com muita gentileza, sendo cortês e polido, mesmo que internamente não fosse aquilo o que sentisse. Em principal, quando o perfume adocicado que ela usava, e que apreciava com devoção, impregnava suas narinas quase o deixando com vontade de enterrar o rosto no seu pescoço só para senti-lo mais de perto. Apertou as mãos em punho, com aquela ideia que transcorrera em sua mente sem permissão.
permanecia calada, como se não estivesse ali de fato, ainda que, a sua presença fosse a única que acionava um alerta em todos os instintos de .
Uma salva de palmas começou a fluir através de todos os lados do salão, quando a figura de um homem grisalho trajado num paletó azul marinho, se fez presente no meio de um palco que havia na parte da frente daquele cômodo.
aproveitou a distração de todos para aproximar os lábios da orelha de por trás, sussurrando o que estava morrendo por dizê-la desde o momento em que pousara os olhos sobre ela:
– Covarde! – Deu uma risada rouca ao notar que ela se empertigara de susto, respirando fundo enquanto inebriava-se do seu cheiro. – Chega de se esquivar de mim, . Você não tem mais para onde fugir.
Afastou-se endireitando a postura, e batendo palmas em conjunto com os outros convidados, com um sorriso sarcástico fixado ao rosto.
Ele jamais se dera conta daquilo, mas em consequência ao seu aviso, deixava nela um rastro de arrepio que correra por toda a extensão do seu corpo. E um acelerar de coração, que nem as batidas mais entusiasmadas de aplausos puderam silenciar.

➳ I N E F Á V E L♡

Ponderando sobre cada momento daquele dia repleto de emoções, jamais imaginaria que todos os seus passos para tardar o enfrentamento de ter que cruzar com o caminho do seu melhor amigo, culminasse exatamente no que ela tentava evitar. Descobrira ali, que o que o acaso tinha reservado para sua vida estava além do alcance da sua intercessão.
Continuava repousada sobre a cama do hotel tentando refrear o nervosismo que a fazia sacudir uma das pernas em consequência, sentindo em pequenos intervalos calafrios que subiam através da sua espinha, despertando uma enxurrada de borboletas batendo asas pelo seu estômago.
Tateou às cegas no emaranhado de cobertores em busca do seu celular, desbloqueando-o com agilidade quando o encontrou sob sua cintura, para reler mais uma vez a mensagem de texto que havia recebido dele horas antes. Mordiscava a parte interna da bochecha a medida que finalizava a leitura para, a seguir, inicia-la novamente. Fizera aquilo numerosas vezes, como se a cada recomeço, tentasse adivinhar as reações que expurgaram-se dele enquanto escrevia aquele recado.
Sentou-se na cama com um suspiro se preparando para retirar o vestido branco de gala que vestira na celebração, e desejando um bom banho quente, que pudesse relaxar os seus músculos tensos, proporcionando, se tivesse sorte, uma provável noite de sono. Mas é claro que estava fadada ao infortúnio naquele dia. Teve convicção disso, quando escutara batidas vindas da porta.
Seu coração pulou na caixa torácica, fazendo-a prender o ar nos pulmões em receio. Ela não precisava possuir visão de raio-X para saber de quem se tratava aquela visita.
Então, quando apoiou os pés descalços no chão gelado, caminhando lentamente em direção a porta com uma das mãos pressionados sobre os lábios que se encontravam comprimidos pelos dentes, ela sabia o que a aguardava do outro lado. Os sentimentos conflitavam-se no mais profundo do seu espírito, hesitando sobre enfrentar o confronto que a aguardava naquele momento, ou se o deixaria para depois.
Decidiu que não mais tardaria aquilo, porque conhecendo a como ela conhecia, sabia que ele não desistiria tão facilmente.
Por isso depositou uma das mãos na maçaneta, sentindo mais batidas serem desferidas contra a superfície maciça da porta. Fechando os olhos vagamente com um arquejo, determinou-se a abri-la de uma vez, se deparando com a imagem de um plantado em sua frente, com uma das mãos acomodadas no bolso da calça social, e uma fisionomia rígida, que fazia seus lábios apertarem numa linha reta, nada amigável. Sustentou seu olhar tenso por segundos incontáveis, que pareceram toda uma vida, antes de ouvi-lo dizer num tom revoltado:
– Presentes entregues pela mão dos outros, ? Sério? Você já foi melhor do que isso! – Iniciou , cheio de um rancor mal contido.
Soube então, que o momento da conversa definitivamente havia chegado. E como ele mesmo garantira com convicção, ela não teria mais como fugir.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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