Última atualização: 19/06/2018

"inefável

adjetivo de dois gêneros

1.
que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza; indizível, indescritível.
2.
por extensão

que causa imenso prazer; inebriante, delicioso, encantador."

Prólogo

A grande largada da sua vida iniciava-se naquele ano.
Embora soubesse que enfrentaria monstros escondidos nos confins de si mesma - os quais temia como uma criança teme à escuridão -, tinha fé. Por isso, todas as noites mentalizava uma prece.
Não ajoelhando-se ao pé da cama e clamando por um Deus em questão, ou por Jesus Cristo, quiçá Buda, Shiva, Ganesha... Ela entoava os seus desejos mais profundos acreditando que o poder da força do seu pensamento lhe bastava, e seria correspondido. Pois em seu interior, tinha a crença de que absorvíamos tudo aquilo o que emanávamos.
Bom, em realce, ela emanava o amor. Costumava na maior parte do tempo ao menos... Amava coisas e costumes, animais, aromas, a vida e a arte. Amava cada pedacinho de singularidade do mundo, as poesias recitadas em canções. Amava os astros e os mistérios e os seres mais incompreendidos.
Doava-se sem nada pedir em troca.
Era bem verdade que, ainda que no seu coração abrigasse um oceano profundo deste poderoso sentimento, jamais havia se permitido ser amada por alguém. Sabotava-se, pensando ser complicado se sentir desejada por quem quer que fosse.
Aquilo era um reflexo do que havia presenciado durante toda sua vida. Duras palavras lhe estapeavam os ouvidos e esmagavam o seu coração, bem mais do que um par de vezes, onde testemunhara ainda na infância, momentos de profundo terror entre pessoas que muito diziam se amar. Ela crescera assistindo à relacionamentos morrendo numa rapidez mais veloz do que a vida de abelhas operárias, e ali, crescera também a intensidade da sua insegurança.
Por isso, passara grande parte da vida planejando os seus afazeres para uma carreira de sucesso. Fechara-se em uma bolha onde não existia tempo para sentimentos carnais, pois imaginava se tratar de algo que apenas viria para ludibriar o seu foco no que realmente importava: Se tornar uma profissional de renome.
"Apaixonar-se é perda de tempo. Vem com uma bagagem de alegria passageira e de mágoa duradoura" era o que dizia-se internamente nos momentos em que a solidão pesava como uma nuvem negra sobre sua cabeça.
Naquele dia, entretanto, descobrira que algo estava errado perante a normalidade cotidiana. Não se tratava do seu vizinho sempre amargurado desejando-lhe bom dia com um ensaio de sorriso. Ou do sino da catedral da rua detrás, que tocava todas as manhãs e as tardes no horário das seis com suas três conhecidas badaladas, badalando-se atipicamente sete vezes também, às oito da noite.
Enfim, não tratava-se da ligação que recebera mais cedo de , sua irmã mais nova, informando-lhe que fora pedida em casamento um dia antes por Wayne - cujo namoro iniciara ainda no colegial -, durante suas férias de verão nas ilhas Maldivas debaixo de um céu tão estrelado, que o deserto do Saara poderia facilmente invejá-los, segundo os relatos de uma sonhadora.
Seu olhar perdido fixamente em um canto qualquer da sala de estar, alheia à noite que caía através das vidraças das janelas, não retratava de fato o pânico que se alojava no seu interior.
Fechou os olhos com força, encolhendo as pernas vestidas com meias estampadas nas cores do seu time favorito de hockey por cima do sofá, enquanto apertava com ambas as mãos uma caneca fumegante, vaporizando o aroma de café fresco pelo ambiente. As lembranças de mais cedo embaralhavam-se na sua mente.
Sacudiu a cabeça em descrença, memorizando mais uma vez cenas de horas antes. Havia relembrado aquilo vezes demais, e em todas elas, desejou voltar atrás e apagar qualquer rastro das reações que o seu coração estúpido havia produzido em suas entranhas:

caminhava rapidamente através das faixas de pedestres, atravessando os semáforos do catastrófico trânsito da cidade de Chicago em seu horário de rush, que sonorizava altas buzinas pelas avenidas numa confusão de barulhos e fluxo desenfreado. Sustentava a alça de uma bolsa na dobradura do braço, enquanto equilibrava-se em saltos bastante altos, que lhe competiam um aspecto sofisticado, quase requintado.
Estava atrasada. Sabia que teria pouco mais do que trinta minutos para conversar com o seu amigo mais leal, e talvez o único, num ritual que pertencia a ambos, onde aproveitavam os seus curtos tempos de intervalo dos devidos trabalhos sucubindo da companhia um do outro.
Adentrou os portões do Lincoln Park apressando o passo, calculando que daquela vez havia quebrado o próprio recorde de demora. Ainda de longe avistou a figura que procurava.
Sentado no banco que lhes era típico estava , com uma das pernas despreocupadamente cruzadas por cima da outra, numa pose bastante casual. Ele arregaçou a manga do casaco esquerdo consultando o relógio rapidamente, virando então o rosto para o lado, para enfim vislumbrar uma esbaforida.
Sorriu para ela daquela distância, tamborilando o dedo indicador contra o dorso da mão, num sinal claro de que ela estava realmente fora do horário combinado.
– Não quero imaginar a espera por você no dia do seu casamento, feiosa. – Ele dissera com diversão num tom alto, atraindo a atenção de algumas pessoas que passavam achando graça, enquanto ela ainda aproximava-se do banco.
– EU SEI! – respondeu fazendo um muxoxo em lamento, enquanto inclinava-se para lhe beijar o rosto – Estou quase surtando com a correria da empresa, essas questões de contratos editoriais? – Bufou atirando a bolsa no banco, enquanto a entregava um saco de papel. – Eu, simplesmente, não tenho estrutura! É tão vergonhoso ter que admitir isso em voz alta, mas ainda hoje mais cedo, tive que me trancar no banheiro do trabalho e respirar profundamente apertando a minha bolinha anti estresse... – Abriu um sorriso satisfatório ao conferir o conteúdo de dentro da sacola: uma bomba de chocolate. Então apanhou-a com um suspiro. – Parece que você sempre sabe do que estou precisando nos momentos certos.
– O que eu sei, com toda a certeza, é que você se cobra demais, . – Ela rolou os olhos, lambendo o canto do dedo melado de cobertura. Não pelo que ele dissera em conselho, mas pelo fato de insistir em chamá-la pelo seu apelido de infância, mesmo após tantos anos. – Não quero saber dessa história de você se desgastando emocionalmente por conta de qualquer coisa que seja. O que já te disse sobre preservar a sua sanidade?
– Tenho a memória fresca quanto a isso, obrigada. – Virou-se de lado de modo a encará-lo diretamente, enquanto apoiava o cotovelo no encosto do banco com um olhar acusatório. – Em minha defesa, é muito fácil você vir com todo o seu discurso maravilhoso de "você sabe que tem potencial para dirigir a sua própria equipe editorial", mas no mundo real não é assim tão fácil, . Não é tão simples quanto estar a um passo de ser o dono dos próprios negócios. – Ele virou-se no banco, apoiando igualmente o seu cotovelo no encosto, inclinando o tronco levemente para baixo de forma a olhá-la com a sobrancelha arqueada.
– Então você acha que é moleza para mim, feiosa. – Era uma afirmação, da qual ele sorriu encarando-a com carinho. – Você acha que não tenho que lidar com clientes enfurecidos, pessoas insatisfeitas o tempo inteiro, contratos a serem analisados, telefonemas em horários importunos, questões judiciais? – Sem resposta para aquilo, mantinha a mandíbula mastigando, desviando os olhos constrangidos do seu. – Na maior parte do tempo, desejo jogar tudo pro alto e tentar a vida como alpinista em algum lugar como a Cordilheira dos Andes, bem longe da civilização. – falou com diversão enquanto soltava uma risadinha descrente. – Estou sempre canalizando o meu estresse, . Dando alguns socos nos meus sacos de areia, treinando no rinque de gelo quando me sobra algum tempo, passando um momento nos estábulos, estando aqui com você... – passou o dedo no canto dos lábios dela, limpando um rastro de chocolate e chupando a ponta do polegar em seguida. – São como o meu ar puro nesse mar de exaustão que parecem querer me afogar. Mas essa é a rotina, e isso aqui... – Apontou em volta, fazendo-a seguir sua mão com o olhar, avistando os arredores do parque – É o mundo real, também conhecido como "vida adulta". – desabou a cabeça no seu ombro soltando uma lufada de ar pesarosa.
– Repete? Sou masoquista, gosto de ouvir frases que me soam como um pesadelo.
– Vida adulta. – Ele repetiu, sussurrando ao pé do seu ouvido.
– Puta merda, deu até calafrios, olha. – Ergueu o braço teatralmente, fingindo apontar os pelos arrepiados. riu, acentuando suas pequenas covinhas.
– Sabe o que acho de verdade? Que você é só uma medrosa, bastante acovardada, aliás. - Ele disse com um ensaio de sorriso, largando-se no banco despreocupadamente enquanto lançava-lhe um olhar cínico. Adorava atiçá-la com pirraças. Era comum que a desafiasse em situações onde conseguia enxergar o seu temor, pois sabia que ela não suportava tal afronta. Era bastante visível que era capaz de conquistar o mundo inteiro, se assim fosse a sua vontade. sabia daquilo como ninguém. Sabia tanto, que a fazia encarar suas questões mais aterrorizantes de forma quase valente. – Como quando éramos crianças, e passávamos as férias na fazenda do meu pai em Lawrenceville. Você nos observava pulando do píer no lago enquanto molhava apenas os pés na beirada, mas tinha medo de fazer o mesmo porque achava que iria se afogar. Você passou três verões acreditando que as águas eram fundas, quando na verdade não atingiam nem a altura do busto.
– Isso foi bem perverso da parte de vocês. – Por "vocês", se referia à e , seu irmão mais velho e também melhor amigo de . Com a memória, ela lhe dirigiu um olhar falsamente rancoroso. – Se encolhiam na água para me fazer acreditar naquela farsa, e ainda se divertiam às minhas custas por trás.
– O que quero que entenda, Maisie, é que você perde as oportunidades por receio do desconhecido. Você perdeu três preciosos verões se perguntando se poderia se afogar naquele lago, e depois, quando encarou de frente e descobriu a verdade, nadava incansavelmente como um peixinho, até o sol se esconder. Ninguém te tirava daquela água. - Ela sorriu, depositando uma das mãos geladas no bolso do casaco dele, num ato bastante comum. – Agora você está perdendo a oportunidade de conquistar o que você tanto quer. Acho que dois anos e meio colaborando diretamente para as pautas da empresa são tempos suficientes para uma promoção digna. E aliás, tenho convicção de não estar bêbado quando "alguém" me afirmou que esse seria o grande ano de sua vida.
– Às vezes você é um pé no saco por ter tanta coerência no que fala. – Ele enfiou a mão dentro do mesmo bolso em que ela tentava aquecer a sua. Abriu os dedos, buscando o encaixe da mão dela, então as entrelaçaram.
– É o que dizem por aí. – Deu de ombros levemente. – Fui agraciado com esse dom...
Conversaram pelo que pareceu horas a fio sobre assuntos confortáveis, como já lhes era rotineiro.
Não haviam preocupações quando estavam juntos. O passar dos anos só amadurecia a relação de confiança que sentiam um pelo outro. Conheciam cada parte de si. Cada feição, cada humor mais alterado (fossem eles para o bem ou para o mau). Sabiam quando precisavam de palavras de apoio, e também de longos silêncios. Se entendiam como apenas duas almas que caminham juntas há muito tempo o fazem. Se cuidavam como se cuida de um lar reconfortante, onde podemos repousar nos momentos mais pesarosos.
Eles se faziam casa um do outro. Sobre quantas pessoas você poderia dizer o mesmo?
Um alarme soou alto chamando suas atenções de repente.
Era o despertador, indicando que era hora de encarar as responsabilidades outra vez.
Ergueram-se do banco, e aninharam-se num abraço preguiçoso, perdidos em braços e cheiros. E principalmente naquele aquecer que sempre sentiam, tão familiar.
– Sexta feira é o meu aniversário. Já me comprou um presente? – perguntou enquanto caminhavam em direção à saída. Sexta feira era dali a quatro dias, e já era bastante óbvio que tinha tudo planejado para a data.
– É provável que eu tenha pensado em algo. – Ela disse sorrindo de forma furtiva. Quando enfim aproximaram-se dos portões do parque, ela pausou o passo de repente, procurando por um conteúdo dentro da sua bolsa. Vasculhou entre os muitos objetos de forma desastrada, fazendo-o tentar espiar sobre seus ombros.
– O que está procurando? – Não tivera tempo de respondê-lo, no entanto. Naquele momento alguém aproximou-se de ambos por trás, tapando os olhos de com as mãos:
– Ei querido, adivinha quem é? – Uma mulher ruiva perguntou arrastadamente, soprando o ouvido dele. , ao ouvir, ergueu o olhar observando a cena, enquanto nos dedos ainda acomodados dentro da bolsa ela sentia a textura aveludada do envelope que pretendia o entregar. Manteve no entanto o objeto oculto, assistindo-o tatear como um cego, as mãos que tapavam sua visão.
– Lorraine, que... Surpresa. – Disse pausadamente perdendo o ar de graça ao distinguir a voz então conhecida, enquanto a ruiva o rodeava laçando o seu pescoço com os braços finos, ficando na ponta dos pés e depositando um longo e íntimo beijo nos seus lábios.
Um 'boom' explodiu alto em algum lugar daquele cenário. Era bastante cômico que ninguém, além de , conseguira perceber o gritante som que apenas retumbava mais forte a cada segundo. Porque, se dera conta com uma angústia mordaz, o som partira do seu coração, onde a cada compasso descontrolado fazia o sangue correr pelo seu corpo despertando algo afiado na boca do estômago. E outras coisas involuntariamente vieram em consequência daquilo:
Não conseguia manter as mãos paradas, pressionando as unhas contra a palma com uma força que não podia perceber naquele momento.
A respiração se tornara irregular, quase como se, de repente, esquecesse como executar uma função tão vital.
E então sentira aquele incômodo na garganta, que a engasgava e fazia arder sua epiglote.
Por isso girou o corpo rapidamente caminhando para longe do casal.
, espera. – se desvencilhou dos braços que o agarravam como tentáculos, correndo até sua amiga. Essa mantinha o rosto abaixado.
– Estou atrasada, . Tenho que ir. – Ela deu um ensaio de sorriso, que acreditava ser convincente. , porém, pensou ter avistado algo de errado no seu olhar. Tão rapidamente, que no segundo seguinte já havia passado. Então tomou o rosto dela entre as mãos averiguando cada pedaço da sua expressão, como se a mapeasse. Por fim, acomodou um beijo carinhoso em sua bochecha, deslizando o polegar pelo local vezes seguidas, depositando um segundo beijo em sua testa antes de soltá-la. O local formigou e irradiou por toda a face como se queimasse, mas apenas ela notara.
– Me liga quando chegar em casa. – Ele disse, recebendo um assentir como resposta. No momento seguinte ela afastava-se sem olhar para trás.
Porque sabia ali, que apenas um girar de cabeça para a cena do casal que se estendia as suas costas lhe confirmaria o maior dos seus temores. Aquele do qual ela fugia como um covarde foge de batalhas:

estava indubitavelmente apaixonada.



Capítulo 1

Na sala se encontrava o caos. O cômodo pequeno estava preenchido por dezenas de quinquilharias por todos os cantos. A modesta mesinha de mogno que antes se postava ao centro, agora via-se empurrada para a extremidade à direita, deixando um espaço no chão por onde se espalhavam fotografias.
Uma infinidade delas, todas lado a lado.
Nos retratos era possível ver paisagens de grandes terrenos férteis, enormes plantações, cabeças de gado, máquinas agrícolas, sistemas de irrigações e mais materiais com conteúdos campestres. observava as infinidades de imagens que haviam sido entregues num portfólio por sua chefa, apoiando as mãos na cintura enquanto tentava trabalhar a mente.
O material fora enviado apenas para os três maiores diagramadores da empresa, cada qual com uma dica chave das próximas possíveis propostas a serem fechadas como revistas temas.
Os diagramadores teriam como tarefa estudar as imagens para pesquisarem a fundo a melhor montagem e organização, baseado nas amostras entregues. Ali ela sabia que a editora fecharia um contrato com o ramo rural, além de outros dois, os quais seriam apresentados na comemoração de um grande evento que aconteceria na sexta feira daquela mesma semana, no estado de Vermont.
Cada funcionário recebera como cortesia um convite pessoal e um extra, para acompanhantes, com todas as despesas pagas pela companhia. Era um bônus à equipe da editora Redaer, pelo início das comemorações de fim de ano que já começavam a se aproximar.
nunca havia saído do seu país, malmente conhecera de fato outros estados, além daqueles em que, de passagem, percorria ligeiramente acomodada ao carro nas suas viagens à Lawrenceville - Geórgia. Por isso, enxergava ali um enorme passo na sua independência e crescimento profissional.
Em dois dias tomaria um voo ao norte do mapa, numa viagem onde poderia fazer boas conexões com outros profissionais da área. Ficaria satisfeita com um bom network. Desejava fazer pontes para o seu sucesso, mas ainda era bastante ingênua, pois acreditava que atrairia atenção positiva apenas com a sua personalidade honesta.
Suspirou encolhendo os ombros, prendendo os cabelos no topo da cabeça com um elástico. Fazia aquilo quando tentava se concentrar. Sua mente trabalhava agressivamente com pensamentos aleatórios, que a levavam para além dos limites do seu apartamento. Nenhum deles, entretanto, direcionados ao que realmente deveria lhe importar naquele instante.
De repente, soltou um pequeno grunhido de insatisfação, arrumando a postura e adquirindo no rosto uma expressão de determinação voltada para o desempenho do seu trabalho. Era a sua grande chance de mostrar competência.
Na sua curta caminhada já havia impressionado figuras de grande importância no mercado editorial. Colecionava elogios e era sempre cogitada para dar as mais criativas opiniões nas pautas de publicações.
Agachou-se, sentando sobre os joelhos, e correu os olhos por uma das fotografias. Apanhou-a entre os dedos observando a imagem com interesse. Se tratava de um campo por onde se estendiam vinhedos tão grandes em expansão, que se perdiam no horizonte além das colinas. Na imagem, o pôr do sol ricocheteava seus últimos raios no pasto de cor tão esverdeada, que lhe davam a impressão de luzir como esmeraldas.
Exatamente como uma imagem de um local que fizera parte da sua vida num passado distante. Mas não poderia ser possível! Aproximou tanto a imagem das vistas, que por pouco não tocara o nariz, enquanto os olhos moviam-se numa análise rápida, correndo de um canto ao outro daquele pedaço de cast coated.
Despertou dos seus devaneios ao ouvir o som alto do telefone tocando, mais uma vez, dentre milhares de outras vezes apenas naquela noite. Mordiscou a parte interna da bochecha e então esperou que a pessoa pudesse desistir, como já havia começado a se tornar rotineiro nos últimos dois dias. Por isso não fora novidade quando a secretária eletrônica entoara a sua própria voz do outro lado do cômodo:
“Oi, aqui é a . Talvez exista a possibilidade deu estar bem aqui, ouvindo o telefone tocar e evitando alguém. Bem, se não o atendi, então essa pessoa provavelmente seja você, haha. Você sabe o que fazer.”
Quando o bip agudo indicando que uma nova mensagem deixada iniciaria, ela fixou o olhar no aparelho contra a própria vontade, que lhe dizia para se preocupar com algo verdadeiramente útil. Apurou os ouvidos e resolveu prestar atenção à voz que soava do outro lado do ambiente.
, sou eu, a . Mas é claro que você já sabe disso... – era a sua única irmã mulher, e também a mais nova dentre os três. Entre outras coisas, ela era o que poderia chamar de melhor amiga. Ouviu quando estalou a língua desdenhosamente, e então deu uma pausa prolongada, que quase fizera acreditar que a mensagem havia chegado ao fim. – Escute, cheguei a Phuket nessa madrugada, temos doze horas de fuso, portanto aqui, agora são nove da manhã. Estou tentando te situar quanto ao horário, porque nesta madrugada e na noite passada, recebi milhares de ligações enquanto tentava dormir e repousar um pouco o meu corpo depois de noites exaustivas de sexo com o meu noivo. Eu tenho certeza que você está bem aí, nessa sala atulhada de papel, escutando essa mensagem com bastante atenção. Tive bastante tempo na vida pra conhecer os seus costumes estranhos. Então não vou esperar você me atender para perguntar: que merda está acontecendo? O está cada dia mais paranoico com essa fixação em querer saber os seus passos, o que aliás preciso repetir, é uma palhaçada. – Ela dissera a última palavra soletrando cada sílaba, utilizando um tom bastante sarcástico. – Ele me ligou pelo menos quinze vezes num intervalo de dois dias, em horários completamente imorais só para saber por onde você anda. O que me soaria bastante cômico já que vocês estão na mesma cidade, e eu do outro lado do planeta, mas aqui vai uma realidade : Eu não estou rindo! – sorriu de lado, pressionando os dedos contra as têmporas e pedindo misericórdia aos céus. Ele era impossível! – Acredita que ele ainda encheu a caixa de mensagens do Wayne? O faça parar agora mesmo! Ou apenas o atenda e acabe logo com isso. Olha, você sabe que não costumo alisar quando algo não me agrada, e eu realmente odiei ter sido incomodada tão tarde, mas logo esqueci, porque o ... Ele se IMPORTA! Quero dizer, ele REALMENTE se importa com você. Está me entendendo bem? E usando de toda a minha verdade nesse instante, tenho que te dizer que ele me soou sinceramente preocupado. Pense nisso e resolva essa situação, está bem? Até porque, se ele me ligar mais uma vez, terei que antecipar o meu regresso pra cometer um homicídio. Você sabe que não estou brincando, não é? Passe o recado. Amo você!
A chamada fora finalizada deixando no ambiente um silêncio sepulcral. E era bem ali que começava a se preocupar, porque o silêncio trazia a ela pensamentos que faziam os seus pelos se erguerem por toda a extensão dos braços como se coreografassem a ola. E então tinha aquele costume de conversar em voz alta consigo mesma, com as suas incertezas internas que lutavam entre si, torturando-a em pensamentos.
– Isso não está certo. Ela só o beijou, . Você não tem o direito de se sentir desse jeito. Não é justo consigo mesma ter esses tipos de pensamentos. Não com o ! Ele nunca vai te enxergar dessa maneira. – Fechou seus olhos com força respirando fundo, abrindo-os em seguida e lançando o rosto para cima, como se procurasse obter a resposta que procurava vinda de alguma força maior, que viesse a suprir sua alma com todos os antídotos que problemas como aquele poderiam trazer. – Mais de quinze anos convivendo quase diariamente, brigando em excesso e me estressando com sua falta de tato, dividindo todos os meus maiores segredos, os quais jamais contaria para quem eu estivesse afim um dia, porque com certeza ajudaria a afastar o cara para o mais longe possível... E eu estou apaixonada exatamente por quem foge totalmente às minhas próprias regras. Aliás, eu acabei MESMO de citar a palavra apaixonada? Não acredito que eu disse isso em voz alta. , VOCÊ É PATÉTICA!

entrara na sua vida ainda na infância, aos oito anos de idade. Naquela época ele tinha onze, assim como , que o conhecera na escola ao dividirem o mesmo esporte na atividade extracurricular exigida. Participavam juntos do time junior de hockey. A afinidade não fora imediata, já que ambos tinham personalidades fortes e viviam competindo entre si para provar quem mais se sobressaia em talento. Mas logo perceberam que, além dos dois, nenhum outro jogador parecia mostrar grandes habilidades no rinque. Por isso decidiram unir seus conhecimentos para melhorar o time, fazendo-os se inserirem no campeonato regional. Ali desconstruíram seus muros e descobriram um oceano de afinidades que jamais imaginariam. Ali também se iniciou uma longa e verdadeira amizade, o que fizera com que suas famílias acabassem por se conectar.
A primeira vez que ele a vira fora numa tarde ensolarada de Junho, no ápice do verão, enquanto fazia uma visita a . Ela usava gastos macacões jeans e tinha as bochechas sujas de terra, pois uma das suas paixões era criar lírios, ainda que eles se encontrassem em número tão grande em todo um canto do jardim da sua casa, que parecia para ele impossível ainda haver algum espaço para o plantio. Quando seus olhos infantis se encontraram, a menina o observou com desconfiança por longos minutos. Desviando olhos grandes como pratos, para então encará-lo outra vez. Agiu daquela forma vezes seguidas, até encontrar coragem para falar:

– Sabia que Hércules uma vez disse que o lírio era uma gota da lua que caiu sobre a terra?
Ali fora a primeira vez que ele sorrira para ela, afundando suas bochechas rosadas em duas pequenas covinhas.
– É mesmo? Me pergunto de quais tipos de gotas são feitos os girassóis, então... – Ele respondeu arrumando a alça da enorme mochila em um só ombro.
– Essa é bem fácil, o próprio nome já diz. – Ela adquiriu uma expressão astuta, fazendo-o sorrir ainda mais daquela garota tão peculiar.

Ao longo dos anos, os contatos se tornaram cada vez mais cotidianos. Um laço seguro fora se firmando, e quando menos se deram conta, aquele elo invisível os uniu como se uni a uma família. Era como se nunca houvesse existido um passado onde não se conheciam.
aprendera a passar horas em silêncio, apenas apreciando a quantidade de informações que um corpo tão miúdo quanto o dela poderia armazenar. Ela era um pequeno arquivo ambulante que tinha paixão em ensinar, ainda que meras trivialidades, as quais pudessem servir de curiosidade para quem quer que fosse.
Aquilo o fascinava.
Com a chegada de de repente, e a intimidade que tão logo se fez, ela se descobriu crescendo sobre três duras vigilâncias masculinas, que pareciam a colocar numa redoma de vidro constantemente. Não bastassem o pai e o irmão, encontrara em uma personalidade superprotetora que por vezes a frustrava. Com , o contexto era diferente, já que, desde muito cedo ela mostrava que sempre fora bastante autônoma nas decisões da sua vida, não permitindo que a tratassem como uma boneca. gostaria de ter a mesma firmeza, e por vezes batia os pés. Mas sofria com um defeito que a abatia desde a infância: Ela não sabia dizer não para ninguém.
No seu íntimo acreditava que aquilo poderia magoar as pessoas que amava. Não sabia lidar com os olhares tão carregados que a mágoa trazia consigo. Internamente repetia para si mesma o quanto ela, quanto adulta, poderia ser extremamente boba em preservar tantas atitudes do passado. Mas sabia que, ainda com as mudanças que a vida nos causava, no final a essência permanecia. Por isso se considerava uma boba, sim. Porém muito bem conformada em se intitular de tal coisa.
ergueu o tronco arrumando a postura e aproveitando para alongar o corpo, fazendo os ossos, há muito parados, estalarem em alto som. Ergueu-se do chão pisando nos pequenos espaços vagos nas pontas dos pés, para que não danificasse os materiais do seu trabalho inacabado. A verdade era que sua cabeça, nos últimos dois dias, estava provavelmente tão longe quanto sua irmã, .
Por isso caminhou em direção ao banheiro, decidida a tomar uma chuveirada fria – ainda que a estação já se mostrasse com temperaturas tão baixas, que condensassem o ar de branco apenas com o sopro de uma respiração – pois sabia que aquilo poria sua cabeça no lugar.
No final das contas, descobriu estar certa.

➳ I N E F Á V E L ♡


No alto da cobertura de um imponente edifício na Magnificent Mile, rua no coração de Chicago, encontrava o que poderia chamar de lar. Talvez o apartamento de três quartos fosse deveras exagerado para um cara solteiro no auge dos seus vinte e nove anos. Por vezes considerava o patamar daquelas paredes sólidas um ambiente solitário. Embora em outras ocasiões, achasse ali o seu verdadeiro refúgio.
Tornara-se um dos queridinhos da América, e consagrara o seu nome ao estrelato por ter se tornado há cinco anos o capitão do Black Hawks Chicago, time que vinha sendo invicto nas três últimas temporadas da liga de hockey.
Chegara de mais um treino do seu time com o corpo ainda fervendo, embora tivesse deixado o rinque de gelo há pouco mais de uma hora. Com o início da temporada se aproximando, os treinos terminavam cada dia mais tardes. Sentia essa pressão nos próprios músculos, em principal nas panturrilhas que pareciam queimar cada segundo mais, por debaixo da sua pele. Preparava-se para levantar do sofá e apanhar uma cerveja gelada, quando a campainha da sua casa tocou. Por isso adiantou os passos até a porta a abrindo em seguida.
Não fora surpresa ver a figura do seu melhor amigo de cabeça baixa, apoiando um dos braços no vão da parede.
avançou, adentrando o ambiente da casa do amigo sem pedir licença. Já haviam ultrapassado a barreira dos bons modos exigidos há muito tempo. Não precisavam desses tipos de gracejos. Aquele, de certa forma, também era o seu lar, para onde poderia correr quando precisasse de um porto para ancorar.
Atirou-se no sofá sem dizer uma palavra, enquanto fazia o caminho contrário em direção à cozinha.
Retornou algum tempo depois com duas garrafas de cerveja na mão, entregando uma ao amigo, então sentou-se ao chão, aos pés do sofá, no confortável tapete de pelo sintético.
– Sua cara está uma merda. – começou, com o esboço de um sorriso sacana. Em resposta ergueu a garrafa numa insinuação bastante irônica de brinde.
– Se eu não saísse de casa, provavelmente estouraria minhas mãos no saco de areia. – correu os olhos em direção às mãos do amigo, onde grandes marcas arroxeadas pintavam a sua pele sobre os tendões. Soltou um assovio baixo franzindo a boca.
– Está feio. Sofri uma contusão na bochecha hoje por culpa de um puck por negligência minha em não usar o capacete, mas os seus hematomas... Esses estão um horror. – riu baixo, se divertindo às custas do outro de um jeito que só ele sabia fazer. Então cerrou os dentes, porque o sorriso dele era terrivelmente familiar. O remetia a pessoa que mais tinha o poder de frustrá-lo em toda a face terrestre. atenuou a expressão aos poucos, adquirindo um olhar preocupado – Eu admiro a sua dedicação aos negócios que você vai herdar. – Falou de repente, com um semblante severo. – Você abdicou de todos os seus sonhos. Poderíamos estar juntos nessa, na liga, representando o Illinois como planejámos desde moleques. Mas a vida quis que fosse diferente, irmão, você é agora um cara de negócios. – Tomou um gole da cerveja, parecendo brevemente perdido em pensamentos. – Consigo imaginar o quanto é estressante ficar dentro de um escritório durante toda semana, não acho que eu conseguiria. Percebo o quanto é exaustivo para você.
– Os problemas do escritório não são nada, acredite, se comparados a ter que lidar com o fato da sua irmã estar me ignorando. E dessa vez eu nem sei o que fiz. – franziu o cenho enquanto a mente começava a processar o que ele dissera. Sabia que quando se referia a ela – e aqui só podia se tratar de – como “a sua irmã” ao invés de utilizar do seu nome, as coisas não estavam nada bem. virou a garrafa, dando violentas goladas que terminaram por secar a bebida em poucos segundos. Respirou profundamente, então continuou: – E sabe o pior? Acho que a sabe o que está havendo, e está encobrindo ela.
– Como a pode estar envolvida no que quer que seja, ? Ela está nas Ilhas Maldivas...
– Em Phuket, na verdade... – murmurou, mais para si mesmo. Porém não baixo o bastante para que o amigo não escutasse.
– O que? – franziu a testa, achando que o outro, de repente, poderia estar fora das suas faculdades mentais. – Não está, falei com ela há três dias...
– Liguei para ela ontem à noite. Ela está em Phuket, confie em mim. – Falou assentindo lentamente, para enfatizar sua certeza. – Ela ficou furiosa. Não me toquei da diferença de horários entre nós, nem irei repetir as palavras que ela utilizou, mas “idiota desocupado” foi a mais gentil dentre elas. – Soltou uma pequena risada massageando as têmporas, sendo acompanhado por . – Eu queria saber da , irmão. Ela está realmente me ignorando. Sabia que com a correria dos seus treinos, você malmente teria a chance de saber dela, por isso não o liguei. Ela não atende ao telefone, não responde as minhas mensagens, apesar de estar online o tempo inteiro. Você mesmo pode conferir, bem aqui – Ergueu o aparelho celular com a conversa em questão aberta, para que o amigo concluísse por si só que ele de fato, estava certo, apontando o status de “online” que se fazia presente na parte superior da tela. - O porteiro diz que ela nunca está em casa. Ela não está aparecendo no Lincoln Park no horário de almoço. Fazem três dias, eu me certifiquei se ela iria até lá em todos eles.
, nós já conversamos sobre os seus cuidados excessivos em relação a ... Já brigamos por conta deles. A não é uma boneca, ela sabe se cuidar sozinha. Talvez melhor do que você ou eu. – fechou os olhos suspirando profundamente. Em tantos anos daquele mesmo diálogo com o amigo, ele não sabia mais como pôr em palavras o quanto o bem estar dela era importante para ele.
– Eu quase a perdi uma vez. Pensei que nunca voltaria a vê-la sorrir de novo. Preciso saber se ela está bem. Minha paz pessoal depende disso. Você não vai entender , porque eu mesmo não posso. – Sentiu-se deprimido por um instante, contraindo o corpo contra o sofá. soltou uma pequena risada abafada atraindo a sua atenção. – Muito engraçado, seu sacana!
– Não... – respondeu arrastadamente com diversão - Não estou rindo de você, otário. Estou me lembrando do que a mãe sempre dizia quando estávamos reunidos:

“Um dia você será o meu genro, então estará oficialmente integrado a está família. Mas só daqui há duas décadas, quando a trocar os tênis por sandálias de salto.”

sorriu levemente, soltando um suspiro profundo em seguida, enquanto recordava aquelas palavras com carinho e uma fisgada no coração.
Emma havia sido uma mulher espetacular. Costumava chamá-la de Senhora E., e fora, talvez, o mais próximo que tivera de uma figura materna em toda a sua vida, pois desde o dia em que pisara na sua casa pela primeira vez, soubera que ela não fazia distinção entre ele e os seus filhos de sangue em nenhuma circunstância.
Precocemente demais, Emma havia descoberto um tumor no seio direito. Lutara contra aquela doença cruel com uma determinação incrível, e a força que apenas uma mãe que desejava possuir mais tempo para aproveitar as suas crias, poderia ter. Naquele período, o tumor evoluíra para um câncer, que se espalhara lentamente pelos seus órgãos, um a um. Sua batalha durou oito anos, até, finalmente, a enfermidade silenciá-la eternamente.
Na época, havia recém feito dezoito anos.
Fora uma fase complicada, tão difícil que quase achou poder perdê-la para sempre. Nunca tinha vivido algo tão assustador quanto aquilo.
Não suportaria perder aquela a quem costumava relacionar à sua alegria de viver.
Entretanto, a alegria que sustinha sua alma dera lugar a uma aura sombria que a acompanhava por todos os lados para onde fosse, não que ela costumasse sair para muito além da proteção do seu quarto.
Foram dois anos em quase absoluto silêncio. Ela empurrara para longe todos aqueles que tentavam adentrar sua concha de proteção. Afundara numa depressão que trouxera como consequência muitos quilos a mais, e que retirara o brilho que costumava cintilar seu olhar.
passou por duros meses de provação, tentando resgatar sua essência. Às vezes sentia tanto medo, que chorava na solidão do seu quarto, sentindo-se sozinho e abatido. Temia que a que um dia conhecera morresse em vida, tendo o mesmo desfecho que a mãe tivera. Porém de forma ainda mais triste. Por isso, mesmo que por vezes achasse que desistiria dela e tocaria a vida afrente, no fundo ele sabia que sua vida não teria calor, sem ela, para trazer aqueles grandes olhos expressivos que o incendiavam.
Ele a amava genuinamente, com todo o seu coração.
A amava tanto que sentia um comichão no estômago. Um incômodo, onde por vezes quis fazer algo para que aquilo pudesse parar.
E era por tanto amá-la que, certa noite, saturado de toda aquela situação, ele irrompera no seu quarto como um trovão, levando consigo uma enorme e pesada sacola de nylon:
o observou assustada sob a proteção da sua coberta, com o tecido a cobrindo até a altura dos lábios e os olhos arregalados a espreitar. Ele tinha a expressão irada, enquanto lançava a sacola no chão, fazendo com que um baque surdo fosse ouvido, sendo abafado por seu carpete azul céu que, ao ver dele, precisava ser aspirado urgentemente. Em seguida, fechou a porta às suas costas, então apontou o dedo na sua direção com um olhar grave.
– Já chega! Está bem? CHEGA, ! – Sua voz falhou naquela curta frase, fazendo-o engolir em seco e respirar fundo. – Nós já entendemos que é isso o que você quer. Todos nós entendemos. Você quer ficar aqui, presa a esse quarto cheirando a mofo, se sufocando na sua dor. Se apiedando de si mesma. Você quer isso, não é, droga? – Ele perguntou num tom mais alto, erguendo as duas mãos para cima como se apenas se expressar por palavras não fosse o bastante. – Quer viver presa a esse lugar, e continuar se maltratando da forma que está? Pois bem, decidi que então farei o mesmo. – Disse empurrando o bico da bota contra o objeto no chão, fazendo com que os utensílios guardados se sacudissem levemente. – Vamos passar o resto dos nossos dias trancafiados aqui. JUNTOS! – disse agachando-se em frente à sacola, e lançando-a um sorriso enviesado, com um olhar carregado de desgosto. – Na terceira noite você vai estar tão desesperada para se livrar de mim, que gritará por socorro, e ninguém vai te tirar daqui, pode apostar nisso! Eu me assegurei com o seu pai e o que nenhum deles virão ao seu resgate. E nem tente com a , cinquenta dólares foram o bastante para mantê-la longe dos nossos assuntos. – desatou o nó da corda que laçava a sacola com certa dificuldade, retirando de dentro alguns pedaços de madeira plana, que esparramaram-se uma sobre a outra, espalhando serragem pela superfície do carpete já sujo. Em seguida retirou um pequeno saquinho transparente, contendo o que, ela pôde enxergar, pareciam se tratar de pregos de ferro. Por último, ele puxara um enorme martelo, que, percebera, se tratava do martelo que o pai costumava guardar na sua maleta de ferramentas.
Rasgou o pacotinho plástico de pregos com os dentes, expelindo o pedaço que cortara ao chão como num cuspe, erguendo-se já carregando uma das tábuas em uma mão, e o martelo na outro. Logo, postou-se em frente à porta, apoiando a madeira entre a guarnição e a parede, pegando o prego que segurava entre os lábios, firmando-o sobre o local que desejava com os olhos cerrados de atenção, e começando então a martelar.
desenrolou-se da colcha, sentando-se ereta na sua cama, enquanto finalmente percebia sua intenção com tudo aquilo. Ele iria prendê-los ali. LITERALMENTE!
Como ela poderia ter achado que ele não falava a sério? Quando pensava em , sabia que ele iria longe para conseguir o que quisesse no mundo. E fora diante disso, ao analisar que ele já agachava-se para apanhar a segunda tábua para lacrar ainda mais o quarto que os dois se encontravam, que ela começara a rir após um longo período de luto.
Não, ela na verdade gargalhara.
Tão alto, que o som retumbara através dos corredores dos quartos, e no saguão da sala além das escadas, e na cozinha com o balcão de ladrilhos... Ecoara por todas as paredes, trazendo um sorriso aos lábios de e , e lágrimas de felicidade aos olhos do seu pai. Todos em cômodos diferentes. Ela, entretanto, jamais soubera desses fatos.
girou nos calcanhares assombrado. Quase se esquecera daquele som que tanto amava. Por um segundo pensou estar apenas delirando.
Mas ali, vislumbrando-a dar gritinhos bobos às gargalhadas enquanto se dobrava segurando o estômago, ele só respirou profundamente relaxando os ombros aliviado, como se estivesse se libertando de uma pressão invisível que o tornara tenso durante muito tempo.
Então avançara em sua direção, sentando-se ao seu lado na cama e a puxando contra si. aceitou o contato de bom grado, apreciando o cheiro do seu perfume que ela realmente adorava. Quando falara, sua voz era rouca e tímida, em iguais intensidades, por conta do longo intervalo que permanecera em silêncio.
– Você é louco! – Ele a observava calado. Nos olhos um brilho que ela não se lembrava de já ter visto, formando um degradê na coloração azul das suas pupilas, onde um tom mais acinzentado pintava as bordas das íris. tomou o seu rosto entre as mãos, a analisando minuciosamente, enquanto deslizava os polegares sobre as suas bochechas, parecendo desenhar círculos.
– Não, eu ficaria louco se você continuasse a me manter no escuro. Não me empurra pra longe de você, . Não faz isso! – Ele encostou a testa contra a dela, fechando as pálpebras com força. Então ergueu os lábios, depositando um pequeno beijo no local, como já era costumeiro fazer. – Nós precisamos de você, . Da sua visão apurada sobre tudo, dos seus conhecimentos e cuidados, precisamos do seu sorriso. Eu preciso de você! – Encararam-se por um momento, que enchera os olhos dela com lágrimas pesadas. – Preciso de você pra acalmar os ânimos do quando ele se irritar depois de um treino, e querer sair socando todo mundo com quem se esbarrar pela frente. – Ela deu uma risada fungada, apoiando as mãos sobre as dele que mantinham o rosto dela afagado. – Ou para ensinar pro senhor as diferenças entre iscas. Ele anda bastante frustrado porque suas temporadas de pesca estão sendo um fiasco, sabia disso? – Ele perguntara com os olhos saltados, e um pequeno sorriso debochado, fazendo-a dar uma risada profunda, que encolhera os cantos dos seus olhos, e enchera o coração dele de calma. – Nem preciso falar sobre a , ela não ouve a mais ninguém. E aliás, eu ando tentando com muito esforça, mas está sendo realmente difícil manter os lírios sem os seus conhecimentos. Parece que mesmo eles sentem a sua falta. Eu até mesmo ando copiando aquela sua mania estranha de tentar conversar com eles, mas as minhas histórias parecem não ser tão interessantes assim. – Ela sorriu largamente, sentindo uma lágrima rolar, molhando os dedos dele que postavam-se na sua face. – Volta pra gente , já está sendo bastante difícil, mas sem você... É quase impossível de suportar. Juntos podemos ser fortes. Não desfalque o nosso time. – Ela sorriu, dando um largo suspiro e assentindo lentamente. – Vai sair desse quarto? Ainda terei que nos prender aqui pelo resto dos nossos dias?
– Não, idiota! – ela rolou os olhos, divertida.
– Ora, ora... Alguém mal foi liberta e já está colocando as manguinhas de fora?
– Cala a boca!
– Eu até te pediria para você vir aqui calar. Mas só depois da senhorita tomar um banho, porque estou quase certo de que o seu desodorante já venceu. – Ela levantou-se da cama, lançando o travesseiro contra ele. Ele riu, agarrando facilmente o objeto no ar, e apoiando-o sob a cabeça enquanto a assistia escolher algumas roupas que não fossem itens para dormir. – Ei... – Ele a chamou com um timbre baixinho, e o olhar cheio de adoração, quebrando sua distração nas roupas penduradas nos cabideiros, a fazendo girar o rosto ao observá-lo. – Nada poderia me fazer mais feliz do isso, . É muito bom te ter de volta.
Ali ela sorriu, sentindo o seu coração bater em ritmo acelerado.
Porque, jamais em toda sua vida havia se sentido tão importante para alguém. , após infindáveis tentativas, a tinha salvado de si mesma. E ela descobrira naquele instante, que aquilo era amor.
O amor dele a salvara. E ela jamais teria palavras suficientes para agradecê-lo por isso.



Capítulo 2

O som incessante da noite de celebração que ocorria no glorioso salão do outro lado dos gramados, bem além da área de chill out, era alto o bastante para continuar penetrando na sua cabeça, embora dificilmente pudesse distinguir os diversos ruídos que chegavam através das portas de correr na sacada do seu quarto de hóspedes.
encontrava-se deitada a uma cama que não lhe pertencia, cuja seu corpo não conseguira se adaptar, ainda que fosse da mais ostensiva e elevada qualidade.
Ela agradeceria em voz alta por, naquela noite, ter-se trajado com um vestido de chiffon o qual não a faria se preocupar com o fato do tecido se encontrar amarrotado embaixo dos seus quadris naquele instante, por medo de amassá-lo. Mas a verdade é que ela pouco se importava com aquilo.
Sua mente girava numa velocidade alarmante de imagens recentes que chegavam rapidamente, deixando o seu cérebro logo em seguida numa agilidade ainda maior para dar lugar a reflexões mais profundas.
Ainda tentava processar todos os episódios assustadores que sucederam ao longo daquele dia incomum, enquanto esfregada entre os dedos o pingente de lírio do seu colar da sorte, perdida em pensamentos.
Horas mais cedo, enquanto escancarava a boca embasbacada acomodada ao avião que, prestes a pousar, planava já em baixa altitude sobre a cidade de Montpelier, ela assistia a natureza lhe saudando com árvores em tons de cobre, que pareciam chamas inflamando tudo ao redor, num claro sinal de que a estação das frutas começava a se despedir lentamente.
Vermont tinha um cenário natural de tirar o fôlego até do mais herético entre os homens, ela tinha que admitir. E bem ali, durante os últimos minutos de voo, pensou consigo mesma o quanto aquela viagem chegaria para lhe clarear as ideias e fazê-la ter uma percepção mais crítica sobre o seu equívoco.
Não estava apaixonada, afinal!
Ao menos era o que repetia intimamente como num mantra, tentando fixar a ideia que lhe soava mais racional.

Naquela manhã, pouco antes de tomar o seu voo, circulou através da Michigan Avenue, que exibia o seu ímpar exagero de lojas já despondo um cenário de cores natalinas por onde se avistavam guirlandas e pinhas decoradas, que haviam sido erguidas em fios postados acima das calçadas, onde muitos pedestres já passavam. Colgados por todo o perímetro em contraste com vitrines chamativas, que encarreiravam-se até o final do quarteirão, os ornamentos sacudiam-se com as fortes rajadas de vento num espetáculo visual magnífico.
Apesar da variedade de produtos em destaque, nada nos mostruários parecia a agradar. Ela se encontrava a procura do que pudesse transpor o óbvio, pois aquela data tinha bastante significado. E isso nada tinha a ver com as festividades da empresa, que traria grande peso na sua bagagem profissional.
Calculava em sua mente que aquele se tratava do presente número dezoito. A cada ano aquela função parecia avançar para níveis de dificuldades ainda maiores, quase como se sua criatividade estivesse parca.
Quando abrira os olhos no alvorecer daquele dia de baixas temperaturas, ela sabia que se tratava de uma data mais do que especial.
Pois, bem, ficava mais velho naquela sexta-feira em questão.
Fato é que achava ter tudo sob controle há cinco dias. Poderia sorrir com amargura da sua fantasia.
Em seus planos, lhe entregaria o envelope contendo a passagem com todas as despesas pagas, onde poderiam aproveitar Vermont por dois dias. Não seria nada esplendoroso, nem ficariam dias suficientes para um verdadeiro tour, sequer iriam para um local de extrema distância de Chicago, ela sabia de tudo aquilo. Porém, pretendia dá-lo aquele presente de todo o seu coração, e com o orgulho massageando sua competência, porque, embora fosse uma bonificação da editora, era reflexo de todo o seu esforço naquele trabalho que lhe exigia, ao qual se doava com anseio por querer ser uma exímia profissional.
No final das contas, o seu script minimamente montado para comemorar aquela data ao lado de havia caído por terra. E com surpresa percebera, que se sentia em frangalhos por dentro.
Depois de vê-lo sendo beijado por outra mulher, não teve mais coragem de convidá-lo para o que quer que a tenha feito criar pensamentos tão utópicos.
Mais uma vez se sentiu boba e pequena, a insegurança tratando de fazê-la diminuir a si mesma com bastante eficácia.
Não que se iludisse ou algo parecido, sabia que ele se relacionava com mulheres das mais diversas, ainda que o fizesse com excessiva discrição. Por vezes, na época da puberdade, ouvira partes de conversas ousadas entre ele e , às risadas, através da pequena fresta da porta no quarto do seu irmão, enquanto afastava-se rapidamente com medo de ser pega, exteriorizando uma careta de nojo com as coisas que escutara.
Mas além de tudo, ela já o tinha visto ficando com alguém no passado. Também era bem real que, tamanho era o seu decoro, que isso acontecera há mais de dez anos, ainda no colegial.
Faziam parte da mesma instituição de ensino, e já naquele tempo, qualificava-se como alguém apagada. Rondava os corredores com os olhos direcionados para os pés, e a cortina de cabelos encobrindo o rosto pálido. Constantemente em silêncio, sem querer ser alvo de muita atenção, costurava através do mar de pessoas que circulavam em nichos diversos, esquivando o corpo esguio de possíveis esbarrões.
Algo, no entanto, sempre tratava de interceptar os seus passos. Poderia dizer “alguéns”. Certas vezes sendo uma son) esbaforida, empolgada em espalhar alguma novidade acadêmica aos sussurros, ou um esfomeado, que sempre lhe surrupiava cinco dólares alegando se tratar de um empréstimo - que jamais fora pago -, para mais uma vez visitar o refeitório atrás de algo para forrar o estômago.
, entretanto... Aquele ultrapassava todos os limites:

Seus pés marchavam rapidamente esmagando os cascalhos sob os tênis surrados, seguindo por um caminho nos limites das faixas de atletismo que circundavam o campo. Embrulhava o seu diário contra si, como em um abraço seguro, enquanto atravessava o local sem olhar para os lados.
Em um dos extremos do campo, o treino das cheerleaders ocorria com gritos de guerras entoados por vozes agudas, e músicas em sincronia a corpos que se moviam com precisão. Um passo fora do tempo, e repetiam todo o processo outra vez.
Do outro lado, jogadores de baseball treinavam rebatidas e arremessos, fazendo a bola viajar com fluidez de um lado ao outro dos gramados, que aos olhos de quem assistia, voava veloz como um borrão.
rotineiramente utilizava daquele atalho para cortar todo um percurso que a forçaria a contornar o terreno de blocos até o laboratório de biologia, um prédio isolado ao norte das construções do colégio onde tinha aulas às quintas feiras.
Estava quase alcançando à calçada que se interligava aos arredores do campo, por onde um caminho de asfalto a levaria até o edifício em questão, quando sentiu um sopro no pé do ouvido. No ato, pulara de susto, sentindo o coração ir de zero a mil em menos de um segundo, enquanto gritava um xingamento bastante expressivo em resposta:
– “Caralho”, ? – repetiu a palavra que ela usara, com um olhar cheio de diversão. – Adoraria ver a cara da senhora E. se soubesse desse seu vocabulário tão refinado.
– Olhem para o , pessoal, um humorista... – Falou de forma a parecer que existia uma plateia os assistindo, girando o corpo para encará-lo com os olhos cerrados. – Você precisa PARAR com isso, tá legal? – virando de costas, ela continuou a seguir pelo passeio, fazendo-o correr para acompanhá-la.
– Parar com o que? – Ele perguntou com o cenho franzido, claramente com a feição de alguém que não tinha entendido o que fora dito, fazendo-a interromper os passos, frustrada, para fuzilá-lo.
... – Fez uma pequena pausa, respirando fundo. – Eu não vou ser raptada por um maníaco qualquer por andar sozinha até o laboratório. Você sempre quer me acompanhar, e não me leve a mal, eu fico honrada por tanta preocupação, ainda que o diga que não precisa. Também não preciso repetir que eu mesma posso carregar a minha pilha de livros, ou que por mais que eu ame, é um desserviço pro seu bolso me comprar uma bomba de chocolate quase todos os dias. As pessoas acham que estou te usando, sabia disso? – O observou com um semblante derrotado, enquanto ele inclinava o tronco para baixo, de forma a olhá-la diretamente. Tinha a testa vincada de desgosto, ela pôde notar.
– Estou cagando para o que falam, . Não importa o que você diga pra me fazer mudar de ideia. Porque fora os seus irmãos e alguns caras do time, não dou a mínima para ninguém mais num raio de três quilômetros. Você pode até andar por ai tentando ser invisível para todo o resto do planeta, e eu sinto muito se você acha que as pessoas são tão estúpidas que só te notam quanto um bosta como eu estou ao seu lado, o que aliás, é uma mentira... Mas você não vai se esconder de mim. Não de mim!
Sentenciou, não dando a chance de fazê-la dizer mais coisa alguma para contra argumentar. Encararam-se por longos minutos, sustentando os olhares carregados de significados, enquanto uma conversa não verbalizada se desprendia entre os dois:

“Não estou me escondendo.” – rolou os olhos com impaciência, sacudindo a cabeça em negativa levemente.
“Sim, você está!” – Ergueu uma das sobrancelhas, assentindo de forma perspicaz.
“E você está sendo insuportável, como sempre...” – Cerrou os olhos, quase os fechando no processo.
“Covarde!” – Sorriu de canto curvando levemente o pescoço, com humor.
“Vai à merda, !”

Ela fora a primeira a quebrar o contato visual, girando nos calcanhares para retomar o caminho que seguia antes, fazendo-o estampar um sorriso vitorioso, que tomava de um lado ao outro da sua face.
– Como eu ia dizendo... – falou relaxadamente ainda a acompanhando – Hoje à noite temos uma festa para ir. – Ela o olhou de soslaio, lançando-o uma carranca.
– Temos é? Para começo de conversa, o seu “como eu ia dizendo” nem entra em contexto aqui, jogador. Só estou tendo conhecimento disso agora, e a resposta você já sabe.
– Claro que eu já sei, e é por isso que passarei na sua casa às oito.
, eu não vou.
– Sim, você vai! Todo mundo vai estar lá.
– Minha mãe sempre me disse que eu não sou todo mundo. – Riu consigo mesma daquela frase que, provavelmente, pertencia a todas as mães do universo. – E honestamente? Não haveria em toda a galáxia algo que me fizesse sair de casa hoje à noite...
Bom, exceto talvez o fato de que poderia ser considerado pós-graduado em persuasão. Sobretudo quando não haveria a companhia do seu fiel escudeiro, , que havia arranjado um encontro. Ou de son), que participava de uma reunião estudantil acerca do debate sobre redução de danos no corpo discente.
E era por aquilo, que horas depois daquele diálogo, se via em frente à uma enorme casa em tons de bege, com carros diversos estacionados pelos gramados de entrada, onde suas paredes pareciam tremer com a vibração dos graves de músicas dançantes, ressoando oscilações sonoras distintas. Só quando adentrou o ambiente pôde realmente ter ideia do quão alto aquilo estava.
Lá dentro o espaço parecia ínfimo para a quantidade de pessoas que estavam presentes no local. Por isso agarrou sua mão, passando na frente e abrindo caminho entre os jovens que tentavam conversar num tom onde suas vozes pudessem ser ouvidas acima do som, formando grupos em pequenos círculos encostados aos corredores. Alguns já alterados gesticulavam expressivamente com copos plásticos vermelhos em mãos, que ameaçavam a todo o tempo derramar os conteúdos alcoólicos pelas suas bordas.
Com os olhos um tanto quanto saltados, ela observava de um canto ao outro daquele lugar, esquisitamente desambientada. Reconhecia diversos rostos enquanto avançava casa adentro, sentindo a sonoridade se intensificando enquanto prosseguiam em direção a uma enorme sala improvisada como pista de dança, onde muitas pessoas já moviam seus corpos de forma visceral.
Pararam em um canto da parede que tinha por ali, fazendo-a reparar com clareza tudo o que acontecia ao redor. Sentiu-se estranha, dessa vez com bastante ênfase. Por isso tratou de agarrar os dois lados da lapela do seu casaco, fechando-os sem realmente abotoá-los, de forma a parecer que seus braços estavam cruzados. Observando melhor, não estava vestida de acordo com o que parecia comum ali. A grande maioria das garotas utilizava de vestimentas sensuais, com rostos pintados por maquiagens fortes que marcavam bastante suas feições. Realmente bonito, na opinião de . Entretanto ela não tinha vocação para delinear seus olhos sem tremular as mãos, ou segurar um pincel corretamente. E a ideia de usar aquelas sandálias de salto já poderia fazer as batatas das suas pernas sofrerem por antecipação.
virou-se para ela, aproximando o rosto do seu ouvido e falando o mais alto que podia com toda aquela cacofonia:
– Vou procurar algo para a gente beber, quer vir comigo? – Perguntou sinalizando com o polegar o caminho às suas costas, que levava até a cozinha.
– Não me aventuro a passar por toda essa gente de novo, te espero aqui. – Sorriu, fazendo-o sorrir de volta. Ele então mergulhou outra vez por entre as pessoas, sumindo aos poucos de suas vistas.
recostou-se na parede se perguntando interiormente o que estava fazendo ali.
Talvez pertencesse a outro lugar no final das contas. Não era o tipo de garota que frequentava ambientes como aquele, e não por falta de oportunidades.
Com e aficionados pelo hockey e atuando com destaque no time juvenil, festas como aquela eram pontos de parada comuns para ambos. Mas não para ela.
Observou suas botas de coturno com um interesse incomum, não sabendo ao certo como agir estando ali, sozinha, e obviamente amuada.
De repente sentiu um cheiro peculiar, como se estivessem queimando algum tipo de erva no espaço. Por conta disso ergueu o rosto, avistando a figura de um jovem ao seu lado que, de certa forma, ela achava se tratar de alguém familiar, embora não conseguisse recordar de onde poderia o conhecer. Ele escorava uma das pernas na parede de modo a dobrar o joelho, parecendo confortável naquela posição. Camadas de fumaça serpenteavam através do ar ao seu redor.
Encarou-a sem qualquer recato, enquanto nos lábios tragava o cigarro com tanto empenho, que a brasa permaneceu acesa num alaranjado brilhante durante longos segundos.
Fez um som de deglutição, e então falou com a voz estranhamente para dentro:
– Quer dar um tapa?
– O que? – Ela arregalou os olhos, fazendo-o curvar o pescoço para trás, para despejar uma quantidade vasta de fumaça, que parecia dar aos seus pulmões expansibilidade em relaxamento ao expirar. Em seguida, a surpreendeu com uma risada ordenada por dentes perfeitos. Ao encarar os seus olhos, pôde identificar um traço de vermelhidão, que não se lembrava de ter visto momentos antes.
– Um trago no baseado? – Perguntou com uma feição jovial. Os cantos das pálpebras mais repuxados, fazendo com que seus olhos parecessem baixos. Ergueu a mão contendo o objeto de cheiro forte firmado entre o polegar e o indicador, incitando-a com um breve movimento de cabeça.
olhou ao redor em alerta, temendo que alguém estivesse presenciando aquela conversa. Mas, pôde perceber pouco tempo depois, as pessoas estavam bastante ocupadas tratando elas mesmas de entrarem num estado de frenesi. A verdade é que sempre fora curiosa, ainda que por vezes o medo a desencorajasse de fazer várias coisas que sentia vontade.
Malmente cruzava a linha que delimita o seguro do perigoso em algum momento da vida. Não tinha realmente grandes histórias para contar sobre si mesma. Não pertencia a nenhuma panelinha, ou cultivava um amplo círculo de amizades. Não era frequentadora de festas como aquela, e em verdade, não se encaixava naquele grupo. Porém, agindo de forma que surpreendeu a si mesma, se vira falando em resposta:
– Eu não sei como fazer isso. – Deu de ombros, fazendo-o sorrir em compreensão. – Mas fico interessada em saber o que as pessoas sentem.
– É como quando chupamos um canudo. Você traga, ingerindo diretamente a fumaça. “Engolindo ela”, – Fez o sinal de aspas com uma das mãos. – ...E a prendendo por quanto tempo suportar. Entendeu?
– Acho que sim. Posso tentar? – Apanhou desajeitadamente o cigarro que o rapaz tratou de entregá-la, malmente sabendo a maneira certa de segurá-lo. Comprimindo-o entre os lábios rosados, sentiu a textura seca do papel contra a boca. son) provavelmente a mataria se visse o que estava fazendo ali. Solveu uma grande quantidade de fumo, da forma como ele dissera para fazer, prendendo o trago nos pulmões pelo tempo que aguentara. Então assoprou uma nuvem de fumaça. Um gosto incomum marcou o seu paladar, que jamais havia experimentado nada parecido. Passou o baseado de volta para o desconhecido, refletindo sobre a reação que a droga deveria lhe causar – E então, é isso? – perguntou para o rapaz que a observava atentamente. – Acho que devo ter feito errado, porque eu não estou sentindo nada. E pra falar a verdade, o gosto é bastante ruim.
– Bom, não funciona assim. O efeito não é instantâneo, e não vem com apenas um trago. Experimenta tentar mais uma vez.
E ela o fizera, repetindo o mesmo procedimento de momentos antes.
Percebera, desta vez, que talvez não servisse para aquilo, quando a primeira crise de tosses subiu pela sua garganta minutos depois, eliminando um rompante de fumaça e queimando tudo no processo. Seus olhos lagrimejaram de imediato em consequência.
– Respira fundo. – O rapaz a aconselhou, quando finalmente pôde se recuperar da tosse. - É normal que isso aconteça com qualquer pessoa, principalmente quando não se está acostumada. A propósito, me chamo Wayne Griffin.
. – Respondeu, ainda sentindo certo desconforto na região do pescoço.
Dessa vez fora ele que, em meio a uma tragada, começara a tossir ao escutar o que ela dissera. Pressionou a mão contra o estômago, dobrando o corpo para frente enquanto os ombros sacudiam com o esforço que fazia.
– Puta merda! Você é... – Engoliu em seco, olhando-a espantado. – Irmã da son) ?
– É a minha irmã mais nova. – Disse estranhando aquela pergunta. Qual seria a probabilidade dele ter relacionado as duas? – Você a conhece?
– Mas... Ela é a líder do grêmio que deu voz àquela campanha de redução de danos. – Disse sem realmente escutar o que ela perguntara. Então tratou de lançar a ponta do cigarro no chão, o apagando com a sola do tênis agilmente. A observou alarmado, com a aparência de alguém arrependido. – Não conta pra ela sobre mim, por favor. Finge que eu nunca te dei maconha, está bem? – Falou tomando uma de suas mãos, apertando-a brevemente como num comprimento. não conseguiu entender coisa alguma sobre a forma como ele, de repente, começara a reagir. – Eu devo ser o idiota mais azarado em toda Chicago. – Lamentou massageando a testa. – Olha, foi um prazer te conhecer, , mas eu tenho que ir nessa. – Fez um breve aceno com a cabeça, distanciando-se dela o mais rapidamente que conseguia naquele mar de gente.
então se viu sozinha novamente.
Não conseguia compreender o motivo que levava Wayne Griffin a fugir com tanto desespero, mas naquele momento ela não estava realmente com os pensamentos voltados para aquilo.
Sua mente começou a divagar sobre múltiplos assuntos, enquanto o olhar se perdia no enorme pendente de cristal erguido no centro do cômodo, acima das suas cabeças, deixando o ambiente com uma iluminação opaca.
Uma nova música se iniciara fazendo-a prestar atenção em cada um dos elementos que a compunham. Jamais havia escutado algo tão claro. Quase como se o seu cérebro pudesse processar toda variável que a formava. Cada nota atingindo seus tímpanos como pequenas setas invisíveis, que chegavam continuamente embaralhando suas percepções. Os graves da música parecendo acompanhar o compasso do seu coração.
Desencostou-se da parede começando a caminhar no meio das pessoas. A música parecia guiá-la contra a sua própria vontade. Sequer deu-se conta realmente de que deixara o local onde esperava pouco tempo atrás. Nem notara que as pernas moviam-se com autonomia.
Começou a sentir os reflexos mais lentos, tendo a impressão de que existia algum tipo de névoa sobre os olhos, por isso os coçou delicadamente enquanto os pés a levavam em direção a porta de entrada. De frente para a porta, uma escada forrada por um carpete vermelho de poliéster levava até o segundo andar da casa, onde a movimentação não parecia tão intensa.
Por isso olhou por sobre os ombros desconfiadamente, antes de girar o corpo com a mão apoiada no corrimão, subindo os degraus sem qualquer esforço. Uma sensação de leveza lhe dava a impressão de que o seu corpo flutuava.
Quando atingiu o topo da escada, ainda conseguia escutar o som da música ao fundo, dessa vez parecendo mais distante, quase como se viesse diretamente do seu subconsciente. Olhou de um lado ao outro daquele corredor decidindo por onde direcionar-se.
Em um dos lados, um casal encontrava-se sentado com as costas apoiadas a parede e as cabeças próximas, enquanto pareciam conversar aos sussurros. Por isso ela resolvera seguir na direção contrária.
Conseguia ouvir um ou outro gemido vindo por detrás de algumas portas daquele lado do corredor. Riu sozinha imaginando que, se tivesse a sorte de comparecer em outra festa como aquela numa próxima, levaria alguns preservativos consigo para o caso de ter a chance de transar também, embora na verdade nunca tivesse feito aquilo.
A medida que os seus pés a levavam até a última das portas na extremidade do corredor, percebia que um feixe de luz provinha dela, pois encontrava-se entreaberta.
Estava quase retornando pelo caminho que a levara até ali, quando escutara alguém chamando por um nome bastante conhecido de dentro do local, fazendo-a parar de imediato:
, por favor... – A voz feminina disse manhosamente. Em seguida um estalo preencheu o silêncio com um tipo de respiração arquejante, fazendo dar um passo afrente para espiar.
Aproximou-se mais da porta, tendo em foco ao alcance das suas vistas a cena de um encostado à pia do banheiro, enquanto uma garota de longos cabelos loiros encaracolados sustentava-se nas pontas dos pés para ficar na sua altura. Os braços apoiavam-se sobre os ombros dele, entrelaçados detrás da sua nuca. Os lábios da garota moviam-se com ferocidade contra os de , que não parecia fazer mais do que mínimos deslocamentos. A garota deslizou a língua por toda a extensão dos seus lábios com luxúria, embora nenhum sinal parecesse ter sido obtido em troca. sentiu uma inquietude no seu interior, ainda que achasse ter alguma associação com o fato de que se drogara minutos antes. Malmente se dera conta de que prendia a respiração a todo o momento. O peito queimava com um tipo de angústia desconhecida. Por vezes pensou em se afastar e fingir que nada presenciara. No entanto, dessa vez os mesmos pés que antes pareciam dominar suas vontades, acomodaram-se no local, como se tivessem criado raízes. Os olhos sequer piscavam para o episódio que ocorria como um espetáculo particular.
Interromperam o beijo com um estalido alto, fazendo com que a loira se curvasse ligeiramente para trás, de modo a lança-lo um olhar de revolta:
– O que está acontecendo? Não foi bom da última vez? – Ela perguntou traçando um caminho de beijos pela extensão do seu pescoço, enquanto arrastava uma das mãos para baixo com intimidade, fazendo-a percorrer ousadamente todo o caminho do seu peitoral sobre a camisa, até as fronteiras da braguilha de sua calça. Ele tratou de pará-lo no meio daquela ação atrevida, afastando-a com delicadeza.
– Jessie, para! – Sacudiu a cabeça negativamente. – Eu já te falei, não vai mais rolar! Foi muito bom enquanto nos curtimos, mas você está começando a me cobrar coisas que jamais te prometi, e não vou alimentar suas expectativas em algo que não há futuro. Não quero me envolver sério com ninguém, você estava ciente disso desde o primeiro momento. – A olhou longamente, tentando escolher as palavras com cuidado. – Você é linda, tem uma conversa envolvendo, e seu sexo é muito bom. Você tem atrativos incríveis a seu favor. Mas eles não mudam o fato de que eu não quero um relacionamento, e nem ter que viver justificando o que faço ou como vivo. – Ela o olhava com a expressão indignada.
– Eu apenas perguntei o motivo para você ter trazido a muda à tira colo, e o porquê de viver correndo atrás dela. Ela nem pertence ao nosso universo, . – Falou com repulsa, fazendo morder o lábio inferior, sentindo-se abalada com palavras tão maldosas.
– O nome dela é ! – Ele respondeu. O timbre denunciava que seu tom brando havia ido embora, deixando em troca um agora ríspido. – Ela não é muda. Apenas se abstém de abrir a boca quando não há nada de interessante para acrescentar. Apesar de que, não existe em toda a terra algo que ela diga que não me cative. Você teria muito a aprender com ela, desse jeito me pouparia de ouvir tanta bosta. – Jessie escancarou a boca embasbacada, enquanto soltava um pequeno bufo deixando uma risadinha orgulhosa escapar.
Embora tentasse tapar a boca com uma das mãos para abafar a risada, o som chamara a atenção do casal, fazendo-os abrirem a porta, surpresos, sobressaltando-a por ter sido pega no flagra.
Deu um passo para trás rapidamente, ainda com uma das mãos tapando os lábios. Dessa vez de descrença e constrangimento, porque ali, ficava bastante claro que ela os estava espionando.
– Me desculpa... – Começou, sem conseguir de fato encará-lo. – Eu estava procurando o banheiro. Achei que poderia ser por aqui. – Mentiu, desacreditando que sua mente naquele momento conseguisse formular algo tão crível.
nada dissera. A analisou longamente daquela distância, os olhos movendo-se com bastante interesse. Então aproximou-se dela com o cenho enrugado, tomando o seu rosto entre as mãos, e inclinando o tronco para baixo de forma a estudá-la cautelosamente. Jessie grunhiu alto com a cena, marchando irada para longe de ambos. Não sem antes trombar o ombro violentamente contra o de . Mas, o seu corpo se encontrava tão adormecido que malmente sentira o impacto.
correu os olhos por toda a sua face, demorou-se mais ao examinar a cor rubra que pintava suas escleras. Então fungou o ar algumas vezes, próximo aos seus lábios entreabertos, antes de arregalar os olhos de maneira cômica soltando seu rosto:
, você fumou maconha? – Ela o olhou piscando os olhos vagamente, como se estivesse processando o que ele havia dito. Em seguida, explodiu em uma gargalhada tão histérica, que a fazia contrair o abdômen, precisando apoiar uma das mãos no ombro dele para não cair.
Ali ele sabia que suas dúvidas estavam sanadas. Não necessitava de respostas, afinal. tinha tido a sua primeira lombra.

Riu consigo mesma ao se recordar daquele episódio.
Tanto havia mudado ao decorrer dos anos que se seguiram...
Jamais teria imaginado naquela época que Wayne fosse secretamente apaixonado por son), e que inclusive se inscrevera em seu projeto de militância ante entorpecentes, quando ironicamente, fora ele o primeiro a apresentá-la à algum tipo de droga.
Obviamente mais tarde aquele fato havia sido descoberto por son), desencadeando uma discussão sem precedentes, que quase arruinara o relacionamento de ambos em consequência.
Após isso, Wayne com sincero comprometimento se encarregou de, ele mesmo, dar início a um novo tipo de ação social, que tinha como ponto principal resgatar pessoas que haviam destruído suas vidas por conta da dependência química, tentando reinseri-las em sociedade. No final das contas, descobriu uma verdadeira vocação naquilo, atuando na área de assistência social. son) seguira a carreira de nutrição.
Hoje estavam noivos.
E hoje via-se apaixonada por seu melhor amigo.
A vida podia ser mesmo bastante engraçada, ou perversa, talvez.
Deu um suspiro direcionando-se até o final da avenida, onde lojinhas de souvenirs postavam-se lado a lado.
Adentrou em uma delas anunciando a sua chegada com o tilintar de um pequeno sino pendurado à porta. Logo uma vendedora se aproximou numa abordagem.
– Bom dia! Estou apenas dando uma olhada. – Tratou de explicar, fazendo a vendedora assentir sorrindo, afastando-se para deixá-la a vontade com a escolha sobre o que levar.
Caminhou por entre os corredores, vendo fileiras intermináveis de pequenos objetos para decoração, que em sua maioria levavam o nome da cidade de Chicago em destaque.
Dentre globos de neve com os mais diferentes temas, até chaveiros, bonecos de gesso, canecas personalizadas, miniaturas de monumentos e reproduções do Cloud Gate, incrivelmente, o que de fato havia chamado sua atenção era um porta retrato.
De moldura em ferro com desenhos de prédios incrustrados no canto esquerdo, dando a peça um visual sofisticado. Apanho-o entre as mãos, girando-o do lado contrário para verificar se não havia nenhuma parte danificada, então decidiu rapidamente por levá-lo.
Procurou pela mesma atendente que a recepcionara, sorrindo com simpatia:
– Vou levar este. – disse mostrando-lhe o objeto. – Será que vocês não teriam por aqui cartões de felicitações?
– Claro, senhora! Temos uma variedade. – Respondeu guiando-a para os fundos da loja. Ali encontrou uma estante recheada deles, separados por temas específicos. De cartões de ação de graças até os em comemoração ao natal.
Correu os olhos pela seção dos de aniversários, apanhando um que, no instante em que pusera suas mãos sabia que haveria de escolher, pois em tudo recordava ele. Na capa de tom dourado se faziam presentes a gravura de uma taça vagamente inclinada, contendo em seu recipiente um conteúdo escarlate, e coloridos balões flutuando, sendo acompanhados da seguinte frase:

“As pessoas são como os vinhos, a idade azeda os maus, e apura os bons.
Feliz aniversário!”

Achou que ele iria gostar da referência.
Se havia no mundo alguém que entendesse sobre vinhos, aquela pessoa com certeza era .
Então também tratou de apanhar o cartão, o levando até o caixa para fazer o pagamento dos presentes escolhidos.
Após ter resolvido tudo o que precisava, retornou para casa apressadamente para terminar de arrumar sua pequena mala de mão. Em algumas horas teria uma importante viagem a fazer.
Mas sabia que antes de organizar os preparativos para sua curta estadia em Vermont, precisava de algo para aquietar o seu coração.
Pensando nisso, apanhou uma caneta e um caderno, sentando-se na escrivaninha do seu quarto para tentar transmitir o que intrigava o seu interior.
Percebeu que aquele caos que a dominara era mais sério do que havia imaginado, quando malmente conseguia expressar o que sentia em forma de escrita, que era algo tão natural para ela. Decidiu, entretanto, que apenas levantaria da cadeira quando manifestasse em palavras algo que soasse ao menos descente, e que reverberasse tudo o que estava deixando-a desorientada:


Chicago, IL
18/11/2014

Um dia você me disse a seguinte citação de Horácio: “Um vinho revela os sentimentos.”
Eu jamais pude esquecer essas palavras.
Ainda é cedo, mas decidi levar a frase ao pé da letra. Talvez o vinho me ajude, afinal.
Foi por isso que abri uma garrafa de Kallena da safra que você me trouxe de presente. Estou apreciando cada gole numa caneca dos Black Hawks cheia até a boca. Você ficaria tão decepcionado se visse essa blasfêmia... Acho que cumpro direito o papel de te chocar, embora na maior parte do tempo isso nem seja proposital.
Iniciei esta carta por diversas vezes. Tantas, que nesse momento mal posso contar. Nenhuma delas pareceu suficientemente boa. Não acredito que esta venha a ser, tampouco... Parando para observar o chão do quarto, eu vejo que deixei um bom estrago com a quantidade de descartes em bolinhas de papeis. São pequenos fragmentos dessa desordem que está aqui no meu íntimo, mas não acho que tenha conseguido as formular corretamente. Você pode entender? É claro que não pode! É difícil para mim pôr em palavras, também.
Estou fugindo, !
Não consigo lidar com isso, sinto que se não manifestar essas emoções neste instante, irei me afogar dentro de mim mesma.
Não sei como será a próxima vez que olharei nos seus olhos. Mas, apenas em imaginar isso, já sinto a adrenalina começando a agir palpitante através do meu corpo. Como o calafrio que traz cócegas ao meu pulso.
Tive quatro dias para ponderar sobre toda essa confusão, e como pensei, ... Quase enlouqueci com os pensamentos que rondaram minha mente, e que me roubaram algumas noites de sono. Em uma delas, até cheguei a sonhar com esses olhos que conheço de cor.
Nunca imaginaria que pudesse ser assim.
Um sentimento invasivo, que sequer pede licença para se fazer presente em cada minuto do nosso cotidiano.
Durante anos você vem utilizando psicologia reversa, me chamando de covarde, só para despertar em mim algum tipo de bravura ainda que o faça com diversão.
Ironicamente, você não poderia estar mais do que certo.
Sou mesmo uma covarde! Tão covarde, que esconderei esta carta para que você só a encontre se assim for da vontade dos céus. Tão covarde, que não consigo encarar o fato de que em algum momento, que nem mesmo me dei conta, eu me apaixonei.
Por você, !
Por quem você sempre foi, e por tudo o que significa para mim. Por ser paciente e generoso, e totalmente leal. Por cada plano mirabolante que já me incluiu, pelas confissões sussurradas em cumplicidade, por me roubar risadas sinceras, por tanto cuidado e pela dedicação em arrancar um mero sorriso dos meus lábios, mesmo nos dias mais cinzentos. Por nunca, em nenhuma circunstância, me deixar.
... Poderia continuar citando infinitos motivos para ter me apaixonado por você. Mas sei que no final das contas, me apaixonei por você, pois não existe a possibilidade de não te amar.
Indo contra tudo o que eu já achava saber, a vida vem e me mostra que ela pode surpreender ainda mais.
Acho que afinal, eu conheço tão pouco sobre as coisas...
Se apaixonar é assim, tão angustiante? Dessa maneira que me faz sentir vontade de rasgar o peito ao meio com as mãos e arrancar o meu coração? Engraçado, provavelmente você saberia responder a essas perguntas tanto quanto eu...
Sinto tanto medo do que está florescendo no meu âmago, que neste momento, desejei jamais ter te conhecido. Mas logo em seguida me censurei por isso. Me perdoa, não foi uma vontade sincera.
Viveria esse sentimento por mil vidas, se soubesse que em todas elas, ele nasceria para ser seu.
Com toda a minha estima,

.

Finalizou a carta sentindo-se mais leve com o desabafo íntimo, destacando o papel do espiral, e relendo-a com muita atenção para ter a certeza sobre fazer o que intencionava desde o instante em que sentou-se a escrever.
Determinada, suspirou profundamente dobrando a carta em várias partes.
Abrindo a gaveta da cômoda, retirou dali um retrato de anos atrás, de uma das férias de verão que costumava passar na fazendo da família de em Lawrenceville.
Na foto, retirada de costas, via-se parte da sua silhueta pendurada nos ombros de , com as pernas cruzadas sobre sua barriga, enquanto ele parecia correr através de um caminho de terra batida cercado por antigas árvores. Ao fundo, padronizava-se uma imensa planície verdejante por onde hectares de vinhedos rumavam até onde as vistas se perdiam, em contraste com o sol que se punha no horizonte.
Apanhou o porta retrato que comprara, abrindo a tampa de fundo e depositando a foto na moldura, que se ajustara perfeitamente enquadrando-se contra o vidro. Por último, acomodou a carta dobrada no canto inferior do quadro, na parte em que os detalhes dos prédios esculpidos pudessem camuflar o objeto que pretendia esconder. Então, fechou a tampa do porta retrato, virando o objeto para frente, de modo a observar a imagem que escolhera para dá-lo de presente.
Escreveu uma breve felicitação no cartão que enviaria em conjunto, e os guardou numa sacola de alça, que ela deixaria na recepção da Enterprise, para que fosse entregue a ele por terceiros. Intimidava-se tanto com a ideia de vê-lo, que sequer teria a honra de dá-lo em mãos.
Sentiu-se péssima ao constatar o quanto isso seria de uma falta de consideração tremenda da sua parte, mas decidiu que lidaria com aqueles julgamentos depois.
Do contrário censuraria todas as suas ações. Desde a forma como agia até os presentes escolhidos:
Um cartão comum, uma foto intimamente conhecida, um porta retratos banal. Nada parecia fora de contexto.
Exceto que, dentre eles, havia um importante segredo oculto.


➳ I N E F Á V E L♡

A Enterprise exibia orgulhosamente fixada as suas paredes, poderosas molduras com certificados de top of mind provindos das análises categóricas de enófilos em todo o mundo.
O boom da empresa eclodira-se em consequência da popularidade que uma das suas marcas de vinho de mesa havia atingido, cinquenta anos antes, de forma sutil e despretensiosa.
O vinho Kallena abarrotara prateleiras de mercados em todo o território nacional, ganhando enorme enfoque, que atribuía-se ao cruzamento entre duas espécies de uvas, sendo elas tinta e branca, formando uma bebida rosé de coloração rubra e sabor cálido.
Mais do que isso, o Kallena ganhara o título de vinho dos apaixonados.
Associava-se a história que girava em torno da criação do vinho, com aqueles que se encontravam enamorados. Era ainda regularmente utilizado em festas de noivados e celebrações de casamentos.
Cinquenta anos após ter-se originado, no entanto, e os tempos agora eram outros.
O mercado de vinhos vinha se expandindo mais e mais a cada ano. A concorrência era ampla, embora a Enterprise ainda estivesse em boa colocação no ranking das mais populares empresas possuidoras de vinícolas com grande número de exportação mundo afora.
Ainda assim, com os altos índices de divórcios arrastando-se num crescimento descomunal, o matrimônio começara a se tornar uma pauta longínqua. Em conjunto a este fator, havia o exorbitante valor aplicado em cima de cada garrafa do produto, fazendo os números de vendas obterem uma queda considerável. Além do que, o preço encarecia absurdamente quando se tratando das safras mais antigas.
E era por conta disso que se encontrava em seu escritório, estudando os relatórios de vendas abertos sobre a sua mesa de trabalho, e examinando a melhor forma de reverter aquele quadro que refletira diretamente no rendimento econômico da empresa.
– Pai, estamos sofrendo uma queda de aproximadamente 4% ao mês, há quase um semestre. Os números são bastante expressivos. A Kallena precisa ter um reajuste de valores. – Apontou com clara preocupação, enquanto o seu genitor parecia distraído observando com interesse a selva de pedra que era Chicago, com sua poderosa arquitetura disposta em todo o horizonte, através das janelas em vidro laminado que erguiam-se do piso ao teto. Na mão esquerda sustentava um copo térmico de café.
– Convocarei uma reunião com a equipe de gestão financeira para a próxima semana. – Respondeu virando-se de lado, de forma a encarar o filho. – Por enquanto, não quero que esquente a cabeça com isso. Daremos um jeito. – Sorriu afetuoso antes de tomar um gole da bebida pura, aproximando-se da poltrona onde o filho se sentava. – Quando você retornar, discutiremos meios de solucionar esta situação. Hoje quero apenas que você vá até lá, e faça um bom discurso para atrair mais publicidade positiva. Depois disso você pode tirar três dias de folga. Considere isso como o seu presente de aniversário. – desferiu alguns tapinhas sobre o seu ombro, fazendo-o assentir satisfatoriamente. Uma folga de alguns dias seria muito bem vinda, e definitivamente não seria ele a contestar.
– Obrigado, pai!
Batidas na porta chamaram a atenção de ambos, enquanto a figura de Brad Adams, o mais recente estagiário da empresa, projetava-se parcialmente, com apenas a cabeça se fazendo notável no espaço da porta entreaberta.
– Com licença, senhor ... – Correu os olhos de pai para filho, percebendo que ali se faziam presentes dois dos . Por isso tratou de rapidamente esclarecer a quem se dirigia, com a testa franzida: – O senhor , quero dizer.
– Entre, Brad. – Respondeu achando graça na expressão do jovem, com quem tinha se identificado ainda nos seus primeiros dias de trabalho. O rapaz empurrou a porta, adentrando o escritório suntuoso a passos largos, carregando consigo uma sacola de alça estampada.
– Não queria os incomodar, mas acabaram de deixar isto aqui na recepção para o senhor. – Depositou a sacola em sua frente, empurrando-a em direção a o outro. – Por sinal, feliz aniversário, senhor. – Falou inclinando-se sobre a mesa, para dar-lhe um breve aperto de mão. com gratidão lhe sorriu de volta.
– Muito obrigado, Brad. – O outro meneou a cabeça, girando nos calcanhares e retirando-se da sala rapidamente.
– Veja só se não é a melhor parte em ficar mais perto da morte, meu filho. Presentes! – Bennet falou com diversão, fazendo-o soltar uma risada.
Com a curiosidade o aguçando, puxou o presente contra si enrijecendo o tronco antes de abri-lo.
Afastou as alças, analisando os conteúdos que existiam ali.
Primeiro retirou de dentro do recipiente um porta-retratos que claramente representava as construções arquitetônicas de Chicago. Correu as vistas pela imagem de uma foto que ele sequer lembrava-se que um dia havia sido tirada, embora pudesse reconhecer a si mesmo, o local onde aquilo se ambientava, e em principal e sem qualquer dúvida, ele reconhecia . Poderia interpretar apenas com aquele retrato de perfil, que ela sorria de forma a transformar os olhos em duas pequenas fendas, como lhe era típico quando ficava muito feliz, e que trazia para ele como reação o seu próprio sorriso involuntário.
Depositou a moldura sobre a mesa, averiguando o que mais a sacola guardava. Seu pai curvou-se para observar a foto sobre seus ombros, enquanto lia o cartão que fora entregue em conjunto.
A gravura que o decorava e a citação impressa poderia deixá-lo satisfeito com a alusão ao seu trabalho. Algo que tanto amava.
Mas, lendo vezes seguidas a pequena frase que ela havia escrito com uma caligrafia caprichada, ele não conseguia pensar em outro sentimento além de decepção:

“Não duvide quando eu disser que nos próximos cinquenta anos te darei como presentes de aniversário garrafas de vinho dos mais vagabundos que possam existir em todo o mundo.
Assim talvez você venha a provar o real elixir da simplicidade da vida.
Feliz velhice, jogador.

Com meu carinho,

.”

– Foi da . – Disse em voz alta, lançando o cartão contra a superfície da mesa tentando soar desinteressado. Recostou-se à poltrona fazendo-a envergar para trás, deslizando a mão sobre os pelos da barba com uma feição de poucos amigos.
– Percebi ao ver a foto. Por sua cara, as coisas não parecem andar muito bem. – Seu pai sentenciou, contornando o lugar onde sentava para ocupar o lado contrário da mesa. – Vocês brigaram? – soltou um pequeno riso sem qualquer traço de humor diante daquela pergunta.
– Se brigamos? Ela brigou comigo! – Massageou as têmporas, sentindo-se abatido de repente. – Pra falar a verdade, nem mesmo isso aconteceu. Eu preferiria que tivéssemos brigado, dessa forma receberia alguma reação dela. Mas a simplesmente vem me ignorando durante toda a semana. Então hoje, após dias em silêncio, me deixa presentes na portaria, e não faz o mínimo esforço de vir até aqui olhar nos meus olhos?! Pelo amor de Deus, ela só pode estar de brincadeira! – Exclamou ultrajado.
Seu pai o analisou em silêncio por longos minutos desviando o olhar em direção aos presentes, para então respirar fundo sacudindo a cabeça negativamente. Em meio a quase duas décadas de convívio, o mais velho já conseguia compreender o que acontecia naquela ligação tão sublime entre eles. Estranhava o fato de que , embora um rapaz esclarecido, não pudesse se dar conta dos sentimentos que o rodeavam, e não conseguisse enxergar o que estava notavelmente embaixo do seu próprio nariz.
Bennet tinha grande apreço por e toda sua família. Por isso, ansiava pelo dia em que ambos deixassem de ser tão tolos. Afligia-se com a ideia de que o tempo passasse sem qualquer atitude tomada, e acabasse sendo tarde demais para os dois.
– É realmente preocupante, meu filho. Para alguém que irá assumir o cargo de um cara genial como eu, você é muito cego. Ou poderia dizer, muito burro. – olhou para o pai com uma careta de desgosto sem compreender aquela fala repentina. – Mas não serei eu a desanuviar suas vistas. Um dia fui assim, estúpido como você. Então conheci a sua mãe, que me lapidou e me ensinou como ser alguém extraordinário. Ainda tenho esperanças de que o seu caso seja solucionável. – Piscou em deboche, virando as costas e encaminhando-se em direção a porta. – Não se esqueça de que o seu voo parte às 17:15, e a festa começará às 21:00. Irei me retirar agora, porque preciso fazer uma ligação para o . Quero saber se fui contemplado com os ingressos do jogo dos Black Hawks num lugarzinho privilegiado. Feliz aniversário, bundão. – Ainda de costas, sinalizou com o dedo indicador e médio voltados para cima num claro gesto de paz.
– Fico agradecido, matusalém. – Respondeu em meio a uma gargalhada, assistindo ao seu genitor retirando-se da sala com gracejo. Uma gargalhada que fora morrendo aos poucos, quando seu olhar dirigiu-se aos presentes ali deixados. Por isso acessou as suas mensagens de texto no celular, achando com prontidão o número que desejava contatar:

“Recebi os seus presentes, muito obrigado! Da próxima vez, eu aceito apenas a presença física acompanhada de um abraço e um cafuné, e vai ser o suficiente pra fazer o meu dia mais feliz. Estava me perguntando se sou assim tão insignificante, a ponto de você passar pelo saguão da empresa, mas não subir para me dar um oi. Acho que mereço uma explicação, . Eu te fiz algo?
Por favor, você precisa me dizer se fiz alguma merda, pra que eu possa honestamente me desculpar. Já vasculhei toda a minha memória, e não consigo pensar em nenhum motivo para você de repente me evitar. Te conheço bem demais, sei que alguma coisa está acontecendo. Não me coloca de escanteio, ! Já passamos dessa fase há eras milenares. Não adianta agir desta forma. Talvez, depois de tanto tempo, você ainda não tenha aprendido nada ou entendido bem o recado. Por isso mais uma vez irei frisar, só para o caso de você ter se esquecido durante o percurso: eu não irei a lugar nenhum!”

Apertou o botão de enviar sem pensar duas vezes, enquanto o ícone do SMS informava que a mensagem havia sido encaminhada.
Respirando fundo ele resolvera levar seus pensamentos para assuntos mais brandos, pensando nos arranjos da viagem que faria ainda naquela tarde.
O seu dia mal começara, e já se achava tumultuado de emoções.

(...)

Já era noite quando fora transladado ao seu destino, o Capitol Plaza Hotel em Montpelier. Local este, que havia sido escolhido para sediar o evento que aconteceria em poucas horas. Carregava consigo apenas uma simples mochila e uma capa protetora para smoking em TNT para que a roupa não amarrotasse no percurso, rejeitando com cordialidade o eficiente funcionário que se oferecera a transportar os seus pertences.
Passou pelo saguão fazendo um breve check-in, e seguiu com rapidez em direção ao quarto que havia sido reservado em seu nome, para que tivesse tempo de sobra de se arrumar adequadamente.
Tinha como encargo a função de representar a Enterprise na celebração da editora Redaer, a mesma cujo trabalhava, e a qual um mês antes, concedera uma entrevista na fazenda da sua família em Lawrenceville para que a montagem de uma matéria sobre o majestoso vinhedo fosse preparada. Com isso, o vinho Kallena e todo o criterioso processo da sua criação, tinha sido eleito para estampar a capa da primeira edição de um gênero de revista agrícola, que seria lançada naquela mesma noite.
Como reflexo daquilo, teria de discursar para pessoas de grande importância no mercado editorial, e nos mais variados tipos de mídias e setores publicitários. Quando se inteirara sobre o evento, informaram-lhe que estava previsto para ser um tanto quanto privado, limitando-se a um único representante por empresa, fazendo da celebração uma reunião mais reservada.
Não fora isso o que presenciara ao adentrar o recinto apinhado de pessoas vestidas com requinte para a festa, entretanto.
O lugar era decorado com modernos candelabros dispostos através de suas paredes em ambos os lados, que ambientavam uma aparência rusticamente sofisticada.
O teto abria-se num côncavo ao centro do salão, com vitrais transparentes que permitiam ao visitante uma esplendida visão do céu noturno.
Num ato de nervosismo ao ver a quantidade de gente que preenchia o espaço, ajeitou a gravata borboleta do seu black tie, o qual não precisava daquela ação, já que se achava perfeitamente ordenada desde o momento em que pisara os pés ali. A verdade é que jamais havia gostado de falar para um público grande. Funcionava melhor trabalhando nos bastidores dos negócios.
Já havia passado por inúmeras situações como aquela antes, e a habitual ansiedade continuava se fazendo presente em todas elas. Chegara a conclusão de que talvez aquela sensação nunca viesse a se tornasse mais simples.
Pensando em algo que pudesse acalmar os seus sentidos, apanhou da bandeja de um garçom que passava o copo de uma bebida cor de âmbar, que logo comprovou se tratar de whisky, quando virou todo o conteúdo num só gole. Em seguida pegou outro copo da mesma bebida, dessa vez degustando-a comedidamente.
Percebeu por sua visão periférica a proximidade de alguém do local onde se acomodava de pé, por isso voltou sua cabeça para o lado, encontrando Maggie Foster, diretora chefe da editora Redaer, caminhando ao seu encontro com um chamativo vestido vermelho vivo, que arrastava uma exagerada quantidade de pano pelo caminho. internamente se perguntou como ela conseguia andar com tanta simplicidade, sem emaranhar os pés calçados em saltos agulha no excesso de vestido que varria o piso do salão.
– Meu querido ! – Deu-lhe um aperto de mão firme com um sorriso moderado. – Espero que tenha feito uma boa viagem. – assentiu para a mais velha com educação.
Maggie Foster era uma mulher coroa que já se encontrava na casa dos cinquenta anos. Possuía uma postura eloquente e intimidadora, além de uma inteligência que conseguiria acanhar até o mais poderoso dentro os homens. Embora já em idade mais madura e com bastante experiência, exibia uma aparência jovem, e uma beleza sensual.
– Foi um voo curto. Acho que não tive tempo de preparar um discurso bem elaborado.
– Não precisa se preocupar quanto a isso ou ficar se prolongando muito no que vai dizer. Apenas o sucesso da sua empresa já é um diferencial para chamar atenção de muitas pessoas nesta sala. E quem quiser conhecer mais afundo sobre o mercado de vinhos e entender como funciona o sucesso do Kallena, terá que comprar um exemplar da nossa revista para se inteirar mais profundamente no assunto. – Cochichou como num segredo, fazendo-o dar risada. – É tudo sobre dinheiro, docinho. É como dizem por aí, uma mão lava a outra, não é mesmo? – Piscou com esperteza, sorrindo de lado. – Mas falando com seriedade, a matéria ficou maravilhosa. Foi de muito bom gosto vocês terem aberto as portas da propriedade para nos receber, e em troca posso garantir que acompanhei de perto toda a montagem feita, dando a minha aprovação em cada etapa. Confie em mim quando afirmo que foi um dos mais impecáveis e completos trabalhos já produzidos nos últimos anos. A minha equipe me encheu de orgulho. – Falou, apontando para um grupo de pessoas que conversavam alegremente do outro lado do salão. girou o pescoço, acompanhando com o olhar o local que Maggie apontara para apresentar as pessoas das quais falava com tanta honra.
Subitamente, os murmurinhos a sua volta foram ganhando o silêncio pouco a pouco, à medida que seus olhos analíticos paralisavam sobre a figura tão familiar que projetou-se diante de suas vistas.
estava estonteante. Tão encantadoramente bonita, que ele precisou tomar um longo gole da sua bebida alcoólica para hidratar a secura que preenchera sua boca em surpresa. Aquele ato, de alguma forma, pareceu magnetizar a atenção dela, fazendo seus grandes olhos expressivos caírem contra os dele numa fração de segundos.
O sorriso que ela desenhava nos seus lábios pintados numa cor rubra, fora murchando até que havia se tornado plástico, em falsa imagem de contentamento. pôde perceber o detalhe desta mudança súbita, no momento em que sustentou o seu olhar. Incomodou-se com aquela atitude ficando furioso instantaneamente. Por isso, com a irritação dominando cada um dos seus sentidos, adotou uma expressão cínica, elevando o copo de bebida em direção a ela, como num brinde, entornando em seguida todo o resto do conteúdo que restava ali.
A examinou profundamente com os olhos presos feito os de um falcão. O semblante de repente era bastante duro.
Levou o dedo indicador contra a gola da camisa social, correndo-o de um lado ao outro da extensão do pescoço, como se a peça de repente estivesse o sufocando. Jamais deixando por um instante, de observá-la com um olhar grave.
– Ah, aquela é a . – Maggie tratou de ir falando, ao captar a oscilação de humor que ele adquirira ao acompanhar seus olhos paralisados sobre a figura da outra, que agora abaixava o rosto constrangido, mexendo com inquietação no pingente do seu colar. – Venha, irei apresenta-lo para a minha equipe. Você precisa conhecer os desenvolvedores por trás de toda a produção da matéria. – Disse envolvendo uma das mãos na dobra interna do seu cotovelo, arrastando-o consigo para perto do grupo que conversava animadamente, totalmente alheios ao que acontecia em segredo. – Boa noite, pessoal... – Chamou a atenção das pessoas, que em conjunto voltaram os rostos em direção a eles. – Quero que conheçam , representante e futuro herdeiro da Enterprise, que veio aqui hoje para prestigiar o lançamento das mais novas revistas da nossa editora. – Falou com entusiasmo, enquanto lançava um sorriso reservado para a equipe, postando-se ao lado de , que enrijecera o corpo totalmente sem graça.
O grupo engatou uma conversa amigável, rapidamente o incluindo, onde sanavam suas curiosidades enchendo-o de perguntas acerca de como administrar uma empresa de tamanho prestígio, com tantos status positivos, e tendo tão pouca idade. respondeu a todos com muita gentileza, sendo cortês e polido, mesmo que internamente não fosse aquilo o que sentisse. Em principal, quando o perfume adocicado que ela usava, e que apreciava com devoção, impregnava suas narinas quase o deixando com vontade de enterrar o rosto no seu pescoço só para senti-lo mais de perto. Apertou as mãos em punho, com aquela ideia que transcorrera em sua mente sem permissão.
permanecia calada, como se não estivesse ali de fato, ainda que, a sua presença fosse a única que acionava um alerta em todos os instintos de .
Uma salva de palmas começou a fluir através de todos os lados do salão, quando a figura de um homem grisalho trajado num paletó azul marinho, se fez presente no meio de um palco que havia na parte da frente daquele cômodo.
aproveitou a distração de todos para aproximar os lábios da orelha de por trás, sussurrando o que estava morrendo por dizê-la desde o momento em que pousara os olhos sobre ela:
– Covarde! – Deu uma risada rouca ao notar que ela se empertigara de susto, respirando fundo enquanto inebriava-se do seu cheiro. – Chega de se esquivar de mim, . Você não tem mais para onde fugir.
Afastou-se endireitando a postura, e batendo palmas em conjunto com os outros convidados, com um sorriso sarcástico fixado ao rosto.
Ele jamais se dera conta daquilo, mas em consequência ao seu aviso, deixava nela um rastro de arrepio que correra por toda a extensão do seu corpo. E um acelerar de coração, que nem as batidas mais entusiasmadas de aplausos puderam silenciar.

➳ I N E F Á V E L♡

Ponderando sobre cada momento daquele dia repleto de emoções, jamais imaginaria que todos os seus passos para tardar o enfrentamento de ter que cruzar com o caminho do seu melhor amigo, culminasse exatamente no que ela tentava evitar. Descobrira ali, que o que o acaso tinha reservado para sua vida estava além do alcance da sua intercessão.
Continuava repousada sobre a cama do hotel tentando refrear o nervosismo que a fazia sacudir uma das pernas em consequência, sentindo em pequenos intervalos calafrios que subiam através da sua espinha, despertando uma enxurrada de borboletas batendo asas pelo seu estômago.
Tateou às cegas no emaranhado de cobertores em busca do seu celular, desbloqueando-o com agilidade quando o encontrou sob sua cintura, para reler mais uma vez a mensagem de texto que havia recebido dele horas antes. Mordiscava a parte interna da bochecha a medida que finalizava a leitura para, a seguir, inicia-la novamente. Fizera aquilo numerosas vezes, como se a cada recomeço, tentasse adivinhar as reações que expurgaram-se dele enquanto escrevia aquele recado.
Sentou-se na cama com um suspiro se preparando para retirar o vestido branco de gala que vestira na celebração, e desejando um bom banho quente, que pudesse relaxar os seus músculos tensos, proporcionando, se tivesse sorte, uma provável noite de sono. Mas é claro que estava fadada ao infortúnio naquele dia. Teve convicção disso, quando escutara batidas vindas da porta.
Seu coração pulou na caixa torácica, fazendo-a prender o ar nos pulmões em receio. Ela não precisava possuir visão de raio-X para saber de quem se tratava aquela visita.
Então, quando apoiou os pés descalços no chão gelado, caminhando lentamente em direção a porta com uma das mãos pressionados sobre os lábios que se encontravam comprimidos pelos dentes, ela sabia o que a aguardava do outro lado. Os sentimentos conflitavam-se no mais profundo do seu espírito, hesitando sobre enfrentar o confronto que a aguardava naquele momento, ou se o deixaria para depois.
Decidiu que não mais tardaria aquilo, porque conhecendo a como ela conhecia, sabia que ele não desistiria tão facilmente.
Por isso depositou uma das mãos na maçaneta, sentindo mais batidas serem desferidas contra a superfície maciça da porta. Fechando os olhos vagamente com um arquejo, determinou-se a abri-la de uma vez, se deparando com a imagem de um plantado em sua frente, com uma das mãos acomodadas no bolso da calça social, e uma fisionomia rígida, que fazia seus lábios apertarem numa linha reta, nada amigável. Sustentou seu olhar tenso por segundos incontáveis, que pareceram toda uma vida, antes de ouvi-lo dizer num tom revoltado:
– Presentes entregues pela mão dos outros, ? Sério? Você já foi melhor do que isso! – Iniciou , cheio de um rancor mal contido.
Soube então, que o momento da conversa definitivamente havia chegado. E como ele mesmo garantira com convicção, ela não teria mais como fugir.



Capítulo 3

Na manhã ensolarada de um escaldante dia de verão, o calor que abrangia sobre o condado de Gwinnett – Geórgia, trazia consigo à tiracolo um ar seco e abafado, fazendo com que a população se encorajasse a deixar suas casas em busca de atividades que pudessem desfrutar ao ar livre. O sol brilhava forte no alto, impossibilitando que as pessoas voltassem o rosto para cima, ainda que tentassem bloquear as vistas da intensa luz incandescente, utilizando inutilmente de uma das mãos sobre a testa para criar algum tipo de sombra, como um escudo. Lawrenceville já havia se tornado o costumeiro destino ao qual sempre impeliam para gozar dos seus momentos de descanso. Encontravam naquele lugar uma real fortaleza que os transmitia uma energia pungente de forma revigorante.
Para , felizmente, eram as primeiras férias que aproveitaria longe dos arredores acadêmicos da Universidade de Chicago após o seu primeiro semestre do curso de Design Gráfico, que já se iniciara penoso.
Ela sabia intimamente, que nem em um milhão de anos desejaria que a sua rota fosse outra. Amava os momentos passados ali, mesmo aqueles que realmente pudessem desnorteá-la, porque compreendera que conseguia tirar sempre uma nova lição a cada retorno.
Caminhava com intimidade por aquele solo que parecia ter sido mapeado em detalhes através da sua memória, após tantos anos de convívio. Seus pés a levavam até o anexo mais ao fundo da casa, onde se projetava um grande estábulo. A estrutura erguia-se amplamente em vigas de madeira, com o caixilho em chapas de metal forrando todo o telhado.
Dirigiu-se à porteira de acesso do local com um sorriso verdadeiro moldado aos lábios trazendo ao peito um martelar de saudade, ansiosa com a expectativa em rever o seu fiel companheiro, e também, presente mais gratificante que já havia recebido de alguém na vida. Sonhava em ter um cavalo ainda na infância, mas somente aos dezesseis ganhara um. E tão rapidamente se apaixonara pelo animal, bastando apenas que as suas vistas caíssem sobre o Alazão branco, carinhosamente batizado de Sugarfoot, como o mascote do pica pau.
Percebeu que ali existia um silêncio incomum, porque o farfalhar dos cascos sobre a ceifa ou o grunhir que eles soltavam em reconhecimento à visitantes íntimos, não se fizera presente.
Somente quando cruzou o depósito de fenos atravessando as ordenadas cocheiras carentes de animais, adivinhou que algo estava realmente fora do normal.
Avançando, pudera ouvir vozes distintas em tons de lamúrias, fazendo-a aproximar-se mais do espaço de onde a conversa partia. Mas, assim que tomara conhecimento das pautas discutidas entre os três homens que tanto conhecia, juntamente ao veterinário da fazenda que guardava um semblante grave, ela desejou jamais ter sido desperta da sua ignorância sobre a situação, enquanto paralisava em inércia diante daquele diálogo:
– Já tentamos de tudo, ... – O veterinário garantiu com uma postura profissional, ainda que entoasse um profundo pesar em seu timbre. – O Sugarfoot não está mais apto a viver aqui. Poderia afetar outros cavalos, mas principalmente, colocaria a saúde de todos vocês em risco. – sentiu quando o seu caprichado desjejum recém tomado, engalfinhou-se em meio ao estômago, de repente, parecendo querer fazer o caminho inverso em direção a garganta. Notou quando suas mãos gelaram de imediato com a pressão que pareceu despencar em queda livre, fazendo-a respirar fundo para não desabar. Não saberia dizer naquele instante, se o suor que se formara na região da sua nuca se dava pelas condições repentinas de mal estar, ou pelo sufocante clima que predominava com a estação.
– Fico desolado que isso tenha acontecido, mas não podemos dizer que não tentamos de tudo. – Bennett disse, pressionando os dedos no ombro de para transmiti-lo algum tipo de conforto, enquanto o filho mantinha um olhar perdido, fixo num ponto qualquer do chão. – Fizemos o isolamento, desinfetamos toda a área... Infelizmente isso está além do nosso poder, .
– O Joel e o senhor têm razão. – sentenciou, apoiando ambas as mãos na parte de trás da cabeça, enquanto, inquieto, abria e fechava a fivela de ajuste do boné que usava, com um olhar carregado de preocupação. – A vai entender. Não era o que nenhum de nós desejávamos, e eu me sinto horrível em ter que pensar tão friamente. Mas a essa altura, já não existe nenhuma alternativa além de ter que sacrificar o animal.
– Você não vai permitir que façam isso... – Nem se dera conta de que se fizera audível com a voz claramente trêmula, pegando, de repente, os quatro homens de surpresa, que se entreolharam com receio. – Vai? – Perguntou num murmúrio suplicante. Seus olhos voltados para apenas um deles, implorando para que ele pudesse responder à sua pergunta com uma negativa. , entretanto, abrira e fechara a boca vezes seguidas, sem saber como verbalizar àquilo com honestidade, pois odiava tanto mentir para ela, quanto feri-la. – Ele é o meu presente, ! – Ela declarou com uma tristeza não contida, sentindo a primeira lágrima correr pesada sobre a maçã do rosto. A dor disseminada através de suas palavras trouxera como consequência a ele, um contorcer de cenho que lhe moldava uma expressão miserável. – Você o deu para mim! E agora, sem mais nem menos vão matá-lo e eu sou a última a saber disso? – Franziu a testa, sentindo a mandíbula tremular sem controle.
, me escuta primeiro... – Fez menção de ir em direção a ela, sentindo-se agoniado por vê-la daquela maneira tão infeliz. Porém interrompeu seus passos no meio do caminho preferindo respeitar o seu tempo de privacidade, quando o rejeitou com um gesto de cabeça e um simples, porém firme, erguer de mão:
– Não quero que me siga! Eu quero ficar sozinha, respeita isso! – Esfregou o dorso contra o rosto com rapidez, tentando inutilmente limpar as lágrimas teimosas que desciam numa torrente. – Não quero falar com você agora. Na verdade, nem sei se consigo olhar pra você...
Foi a última coisa que dissera cheia de amargura, deixando um silêncio nas instalações que era preenchido apenas pelo som discreto dos seus soluços. Retirando-se dali em passos rápidos, quase corridos, pôde enfim liberar em conjunto à sua agilidade, um choro tão doloroso e intensamente fluído, quanto um dilúvio.
Seguiram sem se ver durante o resto do dia, pois decidira acatar aos conselhos que foram passados por , acerca de dá-la o espaço necessário até que ela pudesse processar as desagradáveis novidades. Primordialmente, é claro, atendia ao próprio pedido dela.

“Respeita isso.”

Aquilo não tratava de tranquiliza-lo em nenhuma hipótese, uma vez que, o ressentimento dirigido a ele, ainda transcorria nitidamente através da sua memória a cada segundo, acompanhado das palavras que o atingiram em cheio a ponto de mexer com todo o andamento do seu dia. Este, ele poderia jurar, pareceu avançar numa sucessão de vontades que quase o fizera correr ao seu encontro, para que se fizesse ser ouvido, quisesse ela ou não.
Mas compreendia que não tinha este direito. Odiaria ser invasivo, apenas porque o seu egoísmo o impelia a não afastá-la de si.
Sabia o quanto por vezes poderia ser irritantemente inoportuno, mas jamais atropelaria a vontade que ela tinha, unicamente porque não podia lidar com o vazio que corroía cada um dos seus órgãos todas as vezes em que brigavam. E aquele havia sido de longe, um conflito num elevado grau de seriedade, uma vez que nunca antes ela dissera algo tão atroz quanto a frase que ecoava como um gravador manipulado pelo botão repeat em sua cabeça:

“Nem sei se consigo olhar pra você...”

As brigas que costumavam acontecer entre os dois jamais haviam sido fáceis. Nos momentos exatos em que suas personalidades batiam de frente e acabavam por se estranhar, eles se conheciam o suficiente para saberem que, ainda que se amassem com todo o filtro da alma, se tratariam com ironia, destilando palavras afiadas como farpas. E só mediante muitas provocações, um dos dois poria o ego de lado para acanhadamente pedir colo ao outro em busca de carinho.
Por isso, naquela madrugada em que a insônia parecia ser predominante para a mente de um pensativo, imerso nas situações conflituosas que sucederam, ele decidiu deixar a cama em direção a cozinha localizada no andar inferior para espairecer um pouco.
Mantinha os pés descalços, trajado apenas de uma calça de moletom, pois, embora mais fresca que as manhãs, as noites ainda guardavam uma temperatura um pouco elevada, mas suficientemente agradável para um sono bem dormido. Não para ele, entretanto.
Abriu a porta da geladeira iluminando o breu do cômodo, e prendeu as vistas nas prateleiras parecendo absorto em ideias que o levavam para longe dali. Divagou arrastadamente por minutos incessantes, encarando a luz que irradiava no interior do eletrodoméstico, não parecendo fazer menção alguma de que apanharia qualquer coisa.
– Sabe o que é legal? Poupar energia elétrica! – Uma voz soou as suas costas, fazendo-o se chocar contra a geladeira em sobressalto. No ato, alguns recipientes depositados ali fizeram um barulho alto, como se estivessem se colidindo uns contra os outros, enquanto a porta corria a fechar-se, deixando no ambiente a escuridão.
– Porra, ! – Ela riu nasaladamente, contra sua própria vontade. Encontrava-se sentada no chão com as pernas estiradas afrente, uma sobre a outra, equilibrando um pote de Nutella em cima da coxa, enquanto apoiava as costas no armário do balcão central. Seu olhar em nenhum momento indo de encontro ao dele. Mantinha o rosto abaixado, muito interessada em limpar o doce da colher que segurava em uma das mãos.
Ele conseguia estudar cada detalhe dela naquela distância, traçando sua postura com cautela, mesmo com a pouca luz lunar que adentrava o ambiente através das portas de vidro. Sabia que ela estava o ignorando, e sabia ainda mais o quanto poderia fazer isso com bastante eficiência, quando assim era da sua vontade.
Aproximou-se lentamente, curvando-se para se sentar ao seu lado até que as costas estivessem escoradas contra a superfície do armário. Esticou as pernas da mesma forma que ela fizera, deitando a cabeça na porta envernizada enquanto encarava o teto escuro.
Ficou em silêncio por longos segundos escutando apenas o arfar das suas respirações, até juntar a coragem necessária para se pronunciar:
– Ele estava com Mormo. – Começou, sem qualquer traço de drama na voz, enquanto parecia não esboçar nenhuma reação onde indicasse que pretendia respondê-lo. Contudo, tinha a certeza de que ela estava o escutando atentamente. – Achamos que ele pode ter pego em alguma das exposições que aconteceram. A doença é crônica, irreversível... E uma ameaça pra quem tem contato com o animal. Eu sei que deveria ter te contado, ...
– Sim, você deveria! – Ela disse numa vozinha baixa, largando o pote de Nutella de canto.
– Me perdoa, eu errei! – Passou as mãos pelo rosto respirando fundo. - Não queria que suas férias fossem arruinadas por algo assim.
– E no final das contas não adiantou de muita coisa. – Ele assentiu, sentindo-se derrotado. – Só precisava que você me dissesse a verdade. Apenas isso! Eu iria sofrer de qualquer maneira, exatamente da mesma forma que estou sofrendo aqui, agora. Mas me dói muito mais perceber que não pude vê-lo uma última vez, nem sequer de longe, porque vocês consideraram que tomar a decisão de me esconder algo deste tipo, sem ao menos me consultar, era o melhor para mim. – Fungou levemente, coçando a ponta do nariz. - Você precisa entender que eu vou ter dores ao longo do meu percurso e provações todos os dias, , e está tudo bem. Eu consigo! – O encarou pela primeira vez, com a voz levemente embargada. engoliu em seco ao penetrar as vistas em suas órbitas inundadas de lágrimas não derramadas. Sentiu um desconforto mordaz se difundindo através das suas células, como se todo o seu corpo conseguisse sorver a dor que ela emitia naquele momento.
– A verdade às vezes machuca demais, . – ele disse, a encarando com sinceridade. – Você não faz ideia do inferno aqui dentro, toda vez que penso na possibilidade de te magoar. – Apontou para o peito desnudo, fazendo-a seguir seu gesto com o olhar. suspirou, tomando a mão dele na sua, entrelaçando-as com delicadeza.
Ambos voltaram os rostos para baixo, observando por um momento o contraste singular na diferença entre os tamanhos, embora fosse uma visão tão certa quanto o dançar calmo de uma maré mansa na lua cheia. A dela pequena e delicada, com dedos finos e unhas num comprimento mediano sem qualquer tipo de cor para esmaltá-las dando-as um pouco de vida. A dele forte e máscula, com pontos onde as veias marcavam sua pele posterior em alto relevo. De dedos calejados e unhas bem aparadas.
Os dedos inquietos dos dois travavam uma luta particular, brincando com teimosia em carícias íntimas que jamais cansariam de conceder ao outro.
– Ouvi por aí, em alguma esquina perdida da cidade dos ventos, Chicago, uma estória curiosa sobre um rapaz admirável, que resgatou uma moça de um buraco tão fundo quanto o que Alice despencou para chegar ao país das maravilhas. – Ela iniciou a narrar, como se contasse uma fábula. - O que distinguia suas tramas, era que no mundo onde a moça se perdeu não havia cor, ou esperança, ou luz, ou norte... Não havia nada! Nem um futuro... Só havia a esfera negra que a encobria como uma redoma, dia e noite. Esse era o tipo de dor que ela enfrentava. - Num ato repentino, ajoelhou-se em sua frente, levando uma das mãos ao calor do seu pescoço num afago, para passeá-la vagarosamente em direção ao rosto, contornando a face de textura áspera por conta dos enegrecidos pelos da barba que brotavam por todo seu maxilar. Ele esfregou a face contra os seus dedos feito um felino, com os olhos fechados e a respiração profunda de prazer. Quase poderia ronronar. Invés disso, um pequeno balbucio ininteligível escapou dos seus lábios semicerrados. – Após incontáveis tentativas, e decidido a enfrentar qualquer sacrifício para protegê-la, o rapaz lançou uma corda que resplandeceu em meio à escuridão, e ela se agarrou firmemente àquilo, conseguindo se içar daquele buraco, lutando durante todo o trajeto de volta para tentar retomar as coisas que havia deixado para trás. A corda se chamava amor. Isso te soa familiar? – sorriu, segurando a mão que afagava seu rosto entre as suas. Volveu a cabeça para o lado, dispondo um beijo na palma. - Eu sou mais forte do que você imagina, jogador. – Ela disse num sussurro, fazendo-o abrir os olhos para encará-la diretamente. Suas pupilas brilharam em conjunto, parecendo refletir como num espelho, o lampejo de energia que sempre transcorria entre seus corpos quando estavam juntos.
– Você é mais forte do que jamais serei algum dia em vida, . – Respondeu, puxando ligeiramente a ponta de uma mecha do seu cabelo, que havia se desprendido do rabo de cavalo. – Mais forte do que me senti quando você disse que não queria olhar na minha cara. – Deu um sorriso de lado que não atingira os seus olhos no processo. Ela mordeu o lábio inferior o observando por certo período. – Nunca mais repete isso, ! Você deve estar muito louca se acha que irei permitir que nós venhamos a passar mais um dia ao menos brigados, sem que no final da noite, a gente tente resolver nossas pendências. Você vale a pena demais pra que uma briga, seja ela pelo motivo que for, te faça ficar distante de mim, feiosa. Isso está fora de cogitação! – Sentenciou com veemência, fazendo-a reclinar a cabeça sobre o seu ombro, suspirando profundamente ao sentir um pinicar na testa, onde ele plantou um longo beijo no local.
Ava não imaginava naquele momento, mas ele levaria aquela promessa implícita totalmente a sério daquele dia em diante.

Quando abriu a porta não havia como voltar atrás. Já não existia qualquer barreira que servisse de amparo para protegê-la do medo de enfrentar os seus temores.
se pegou apreensiva, imaginando que ele pudesse escutar o bombear hiperativo do seu coração, quando o momento de silêncio que se instalou através do ambiente logo após ter lançado verdades num tom hostil perdurou por tempo demais. Pensou na carta, sentindo em decorrência um tremor que despertou cada poro da sua epiderme. Por isso esfregou uma das mãos pelo braço descoberto, abraçando a si mesma em seguida.
Encararam-se confinados entre olhares carregados de enérgicos sentimentos que se mesclavam pairando em torno deles, fazendo-a sentir-se nauseada numa agitação tão grande, que se prestasse maior atenção à sua linguagem corporal, provavelmente enxergaria as ondulações da sua pele sobre o peito célere.
Ele cruzou o quarto em passos largos, parando em frente a cama de casal onde permaneceu de costas por algum tempo, com o rosto direcionado pro chão, enquanto se mantinha estagnada no mesmo lugar o observando receosa, encostada contra a porta já fechada.
Quando enfim virou-se em sua direção, tinha as mãos apoiadas na cintura numa posição que fazia com que as abas do terno do seu smoking se abrissem afastadas, expondo uma camisa social branca que delineava bem o seu corpo forte. A atenção ainda estacionada em alguma parte do piso, que só fazia com que se sentisse mais atormentada.
– Eu poderia dizer que estou surpreso, mas nem essa palavra seria suficientemente certa para descrever o que senti ao te ver naquele salão. Acho que uma parte de mim pediu tanto por este encontro, que ele chegou antes mesmo do que eu havia cogitado. – Ele começou com o timbre estranhamente sereno. – Montpelier, huh? Suponho que você sabia que eu iria está aqui. – a encarou vendo-a fazer um sinal negativo com a cabeça. Diante daquilo, encrespou a boca, coçando o pescoço nervosamente enquanto acenava como se concordasse com o que ela dissera, ainda que, de fato, não fosse o que sentia. – Então você se manteve em silêncio durante esses dias, me evitando, me ignorando... E tudo isso propositalmente, mesmo! - Fixou os olhos nos dela com intensidade. desejou vacilar um passo com a força que a atingira naquele instante, entretanto, suas costas prensadas contra a dimensão metálica a mostravam que ela não tinha o poder de se fundir à superfície. – Veja só que ironia. Viemos para Vermont e nos encontramos bem aqui! Indo contra o que você mais desejava, e que aliás, conseguiu com muita destreza por vários dias, ao se esquivar. Devo te parabenizar por isso? Ou você se sentiria estranha por, bem, você sabe... Ser o dia em que sou eu quem devo receber estes tipos de felicitações!? – Ele cerrou os olhos lançando-a um olhar repleto de cinismo, aguardando por uma resposta que não obtivera. mordiscou a parte interna da bochecha embaraçada, tentando controlar a respiração que tencionava acelerar. – Você já teve tempo de sobra para si mesma e eu, indo contra as minhas próprias promessas, aceitei isso, agora está na hora de ser sincera comigo. O que está acontecendo?
– Nada! – Respondeu de imediato. Por certo com pressa demais, na visão de , que erguera a sobrancelha com uma expressão insolente. Ele rolou os olhos com impaciência, pendendo a cabeça de modo a mirar o teto, como se pedisse paciência aos céus com aquela mulher tão fascinantemente cabeça dura.
– Que desastre, . – Estalou a língua em desdém. - Você nunca teve o menor talento para mentiras. Mas tentar mentir para mim? Só pode estar de brincadeira!
– Não estou mentindo! – Exclamou com a voz num tom alguns terços mais altos do que o pretendido. Ali riu debochado, conduzindo-se vagarosamente ao seu encontro, para diminuir o espaço que existia entre eles. – Nós nem brigamos.
– Nisso estamos de acordo! Mas sei que algo aconteceu. O seu corpo fala por você, Rudolph. Está nervosa, por que? – cruzou os braços, frustrada por ter sido desmascarada por suas próprias reações físicas. Cerrou os olhos com a referência que ele usara à rena do papai Noel, sentindo-se irritada ao vê-lo se divertir às suas custas. – Mesmo que esse narizinho vermelho delator a deixe adorável de um jeito que quase me faça querer esquecer tudo isso e te apertar num abraço, eu pretendo entender o que está havendo aqui. Se honestamente não foi nada, me sinto ainda mais ultrajado porque só irá me provar que você me colocou numa posição insignificante, especialmente em se tratando da data de hoje. Ainda não possuo o dom da adivinhação, então, por favor, me esclareça. O que te fiz? – sorveu uma pequena lufada de ar quase imperceptível, desejando desesperadamente poder fugir daquele local. Ao contrário disso, ajeitou a postura voltando os ombros para trás, e levantando o queixo o mais alto que podia, para passar um falso aspecto de ousadia. Em conjunto àquilo, ergueu também uma barreira defensiva.
– Nada. Você não fez nada, tá legal? Me desculpe se não pretendo vincular todo o contexto da minha vida a você, ou se preciso cumprir com as minhas próprias responsabilidades que me impossibilitam de compartilhar o meu GPS pessoal, para que você monitore todas as coordenadas dos meus passos. – Ela disparou num impulso infeliz e grosseiro, sem considerar realmente as coisas que deixavam os seus lábios, contrariada com a correnteza de emoções que chegavam continuamente, e as quais não conseguia lidar. Desejou voltar atrás assim que as palavras se fizeram audíveis, trazendo à atmosfera uma mortificação silenciosa que transcorreu em meio ao quarto, dando-se perturbadoramente conta do quanto aquilo o havia afetado.
apertou a mandíbula numa linha severa, com um aspecto rígido e um olhar glacial, assentindo bem devagar.
– Entendi... Sinto não poder dizer o mesmo, já que você está inclusa em cada detalhe dos estágios da minha, em principal no meu cotidiano. Porque eu faço questão de desmarcar qualquer compromisso, ainda que para apenas desfrutar de cinco minutos da sua companhia. Desde o passado até, ironicamente, na incerteza do futuro, você vai estar inserida! – Ele respondeu seco. - Você pode aceitar isso amigavelmente, ou nós podemos viver em pé de guerra todos os dias até que você absorva bem essa ideia. Fica ao seu critério! – Avançou mais, fechando o resto de espaço que os distanciava, vendo-a hiperventilar quando sua respiração se tornou desequilibrada, juntamente com sua frequência cardíaca. Nisso eles estavam em sincronia total, uma vez que, a própria respiração de saía em sopros fortes e rápidos por conta da cólera que o atingia. – Pode continuar a manter essa postura passivo agressiva totalmente indevida e irracional. Só tenha em mente que passei dezoito anos da minha vida te enchendo o saco, e posso facilmente passar mais dezoito ou oitenta. Será uma honra, mal posso esperar por isso! Essa babaquice de tentar me manter no escuro não dará em merda alguma, porque nossa relação não é negociável aqui ou em qualquer outra conversa. Jamais será! Está me ouvindo?!
Ava engoliu em seco, encarando o par de olhos que tinham a capacidade de embaraça-la, e que estavam em extrema proximidade, sem saber o que responder, enquanto sentia sua pulsação retumbar nitidamente nos ouvidos. Daquela distância conseguia reparar em detalhe o quanto a coloração dos seus olhos se tornava mais amena quando a raiva o dominava. As íris ganhavam um tom singularmente claro, e, no entanto, de uma vivacidade que quase podia torna-la suscetível somente por fita-lo. Era lindo de se ver. Em verdade, era lindo num conjunto completo. Por fora, sua embalagem era impecável. Do tipo que gerava disputas e chamava a atenção onde quer que passasse. Por dentro, contudo, era de uma beleza ainda mais admirável. Com tantas camadas de surpreendentes atitudes honráveis, que era até difícil mensurar. Apenas se sentia abençoada por tê-lo em sua vida. O estimava imensamente. Tanto o garoto que costumava ser, até o homem que se tornara com o tempo e a bagagem. Apreciava sua lealdade e como era sincero, tão quanto era transparente. Jamais deixava de dizer o que queria por medo de ser mal interpretado. Acreditava em suas próprias ideias, e defendia que pessoas precisavam expressar quem elas eram, ou, um dia, acordariam e já não saberiam mais onde haviam deixado suas essências. era a imagem da coragem, enquanto ela era frouxa demais para se permitir expor sentimentos tão secretos e importantes.
Percebendo que não arrancaria muito mais dela, desceu as vistas, contemplando-a meticulosamente, com o cuidado de apreciar bem o quanto ela estava mais deslumbrante do que o habitual naquela noite. Dos pés descalços com as unhas esmaltadas em preto, subindo em inspeção pelo vestido leve que ainda usava, delineando seus quadris, até o decote da peça de roupa, onde o seu pingente familiar pendia acomodado entre os vales dos seios, no corte côncavo do busto.
Ava riu ao constatar que ele paralisara os olhos por tempo demais naquela área, por isso levou o dedo indicador até o seu queixo revestido pela barba escura, puxando-o para cima, de modo que voltasse a encará-la nos olhos.
– Perdeu alguma coisa ai, engraçadinho?
– Eu achei, na verdade. O motivo de eu não ter conseguido tirar os olhos de você durante toda a noite. – Com aquilo, o colo de pareceu inflamar, enquanto ela não conseguia conter um riso fácil.
– Idiota!
– Um idiota com olhos que enxergam muito bem. E você, , está uma miragem e tanta! – Ela tapou o rosto com ambas as mãos sentindo-o esquentar enquanto continuava a rir.
– Cala a boca! - a conhecia bem o suficiente para saber que ela nunca aprendera como reagir a elogios, e ele, decerto, adorava vê-la desconfortável. Era evidente, no entanto, que em cada um dos momentos que tratava de enaltecê-la, ele o fazia com toda a sua verdade.
– Vai me dizer agora que a maioria dos caras naquele salão admiravam a minha gostosura enquanto eu estava ao seu lado? – Ele sorriu de canto, com o seu jeito zombador. – Eu sempre soube que sou a própria personificação de um Deus grego esculpido em carne... – gargalhou diante da chacota, fazendo os olhos encolherem numa pequena ranhura, quase os fechando. Ele a mirou absorto com os lábios levemente separados, atento a cada movimento que ela fazia. Porque prestar atenção às suas reações o enchia de prazer, jamais parecendo ter visto o suficiente dela, para cansar-se daquilo. – Você só precisou ser você mesma para atrair olhares como um imã. Para maravilhar as pessoas que estavam ali, e para quase me fazer esquecer tudo o que eu precisava dizer no discurso, porque a única coisa que me vinha a mente era o motivo de você não ter me procurado, nem mesmo por ser o meu aniversário. – O riso desaparecera de imediato, fazendo soltar uma profunda golfada de ar, enchendo os pulmões logo em seguida, como se aquilo pudesse manter o seu equilíbrio.
, você precisa entender que eu necessito do meu próprio espaço...
– Bastava me dizer isso, então!
– É sério? – entortou o pescoço, lançando-o um olhar repleto de doçura. – Nossa, acho que eu devo ter me enganado durante anos, por ter pensado que existia a possibilidade de você emendar algo como “quem necessita de espaço é astronauta.” – Fez aspas com os dedos, engrossando a voz numa tentativa de imitá-lo. Dessa vez foi quem sorriu, porque ele sabia que ela sem dúvidas, tinha razão. Não se culpava, porém, por tentar resolver as coisas à base de diálogos.
– Não quero te sufocar, . Se você não quer falar sobre isso agora, está tudo bem para mim. Não vou tentar te coagir a me contar a real, porque sei que fará isso quando se sentir confortável no seu próprio tempo. – Reparou quando os ombros dela pareceram relaxar visivelmente, sentindo-se, contrário ao que as palavras que deixavam seus lábios emitiam, mais ansioso ainda para saber o que estava rolando ali. Especialmente quando ela pareceu tão aliviada em não ter que compartilhar aquele tipo de informação. - Mas você estará sendo muito ingênua se espera que eu aceite que você fuja de mim, ou que te permita sequer intencionar negligenciar a nossa ligação. Você não entende que eu preciso de você? – Ela escutou àquela frase percebendo que o momento de descontração havia passando, sobretudo quando outra agitação lancinante rimbombou dentro de si. Dessa vez, trouxe em conjunto com ela, lágrimas que queimavam protestando para serem libertas. Mas ela não se permitiria chorar. Por isso, rapidamente olhou para os pés, fazendo com que a cascata de cabelos escuros caísse sobre seu rosto como um véu. – O meu pai costuma dizer que você é o meu norte. Acha que ele diz isso à toa? – corcovou-se para baixo, mirando-a de perto. Então ergueu uma das mãos em sua direção, acomodando as madeixas que encobriam o rosto bonito atrás da orelha. Em seguida, vagueou a sua pele, contornando desde a curva do pescoço até a borda do queixo com o polegar, numa carícia suave.
– Para, ! – Falou numa vozinha mínima, se afastando com rapidez da mão que lhe acariciava a face, sentindo falta do contato no exato momento em que ele se quebrara. Percorreu quase todo o quarto, até que achou estar a uma distância que imaginava ser segura, de modo a conseguir respirar com normalidade. Encontrou conforto no limite entre a porta de correr aberta, que levava até a varanda onde a sonoridade distante da festa ainda se evidenciava. A rajada de vento adentrando o ambiente agitava o pano do vestido, levando em conjunto o emaranhado de fios dos seus cabelos em direção ao rosto. volveu os braços para trás, segurando um dos seus pulsos com a outra mão, na altura da lombar, numa tentativa de controlar a vontade insensata que tinha de sacar o celular para guardar uma imagem dela naquele momento. Exatamente do jeito que estava ali. Era sempre tão linda, que, ainda nos dias de hoje conseguia a façanha de surpreendê-lo. – Eu só... Estou um pouco emocional.
– TPM? – Perguntou sem arrodeio, fazendo-a rolar os olhos achando graça. Começava a se questionar se poderia existir em toda a terra alguma pessoa que tivesse a capacidade de alterar o humor de outrem numa velocidade tão grande quanto às mudanças constantes que ele lhe estava causando naquela noite. No final das contas, ainda que se amparasse numa mentira, apenas concordou com a cabeça desejando não prolongar muito mais o assunto que tanto a amedrontava. – Conheço algo que irá te fazer bem. Me espere no saguão amanhã às 08:00, e leve a mala com você. Posso não ter nada que estimule serotonina aqui comigo, mas você tem que admitir que tenho muita experiência em te distrair nesses seus momentos de oscilações hormonais. – Sorriu astuto, do jeito que fazia sempre que maquinava uma ideia mirabolante. E , cumprindo bem o seu papel de parceira de crime, aceitou os termos de bom grado, sem nada questionar em objeção. Porque, por mais que sua razão lhe gritasse que precisava manter distância dele por um tempo até que processasse todo o alvoroço daquela história, o seu cerne ansiava em tê-lo por perto.
havia criado ninho em seu coração, e nele fez morada. Pouco a pouco ela entendia que lutar contra aquilo seria inútil.

➳ I N E F Á V E L♡

Era razoável o fluxo de pessoas que circulavam pelo saguão do hotel àquela hora do dia. Cada qual com seus espíritos matinais podados na raiz, sem forças para iniciar qualquer contato mais caloroso. Para aquilo se assemelhava a uma tortura. Encontrava-se tão exausta, que a imagem de uma cama surgia na sua mente a cada nano segundo, como numa apresentação de slides ininterrupta chegando com agilidade e quase a fazendo lamuriar baixinho em desânimo, com uma expressão semelhante a alguém que sucumbiria ao pranto. Bem, de fato era o que ela desejava fazer, consternada, e com a mente ainda desconexa em divergência ao mundo ao seu redor.
Os óculos escuros que tomavam parte do seu rosto, não cobriam a expressão de poucos amigos que evidenciavam o quanto estava desgostosa. Aquilo era decorrente da noite anterior mal dormida, onde recordava-se da conversa que tiveram, e dos sentimentos produzidos em consequência durante longas horas, até que o corpo finalmente cedesse ao cansaço.
Deu um breve menear com a cabeça para o recepcionista que lhe desejara bom dia com um sorriso mecânico, enquanto rondava o ambiente, arrastando consigo uma mala de mão e uma bolsa a tira colo.
Girou os olhos ao redor, numa inspeção rápida pela figura de que já deveria estar por ali. Quando intencionou sacar o celular para liga-lo, viu-o atravessar as portas giratórias de entrada.
caminhou em sua direção com um sorriso enorme, tão radiante que por um momento ela soltou um riso descrente por ele ser tão espantosamente animado àquela hora da manhã. Não achava que aquilo fosse humanamente possível para qualquer outra pessoa no planeta.
– Bom dia, Lily. – Falou, chamando-a pelo apelido que a remetia à flor de lírio, estalando um beijo na sua bochecha. Com aquilo não pudera resistir, abrindo o seu primeiro sorriso sincero. – Bem melhor! Se continuasse com aquela cara fechada, iria assustar a senhorinha sentada bem ali, no lobby. – sussurrou como num segredo, inclinando a cabeça para o lado, de forma a mostra-la a mulher idosa tão pequena, que os pés não alcançavam o chão. riu o empurrando pelo ombro, apesar de não ter conseguido movê-lo minimamente.
– Não seja modesto. Você sabe que na realidade ela estava olhando nessa direção, porque estava admirando você. O seu fã clube abraça a todos, e não distingue idade ou sexo, . – Retirou os óculos para piscá-lo com graça, recolocando-os em seguida enquanto ria. – Vou começar a cobrar por informações extraoficiais sobre você. A moeda de troca pode ser posteriormente conversada, pensando nos benefícios voltados para a minha pessoa, é claro...
– Olha só, como está engraçadinha hoje.
– Acha que só você fez curso no circo?
– No circo, é?! – Perguntou com um grande sorriso, afundando o dedo indicador na cintura de para causar-lhe cócegas. Ela se contorceu afastando-se com rapidez, soltando uma gargalhada sonora com naturalidade. Desviou-se dele, de modo a colocar a mala de mão entre os dois, enquanto o encarava com diversão e um sorriso nos olhos, que os faziam brilhar. Nem de longe lembrava o espírito da pessoa mal humorada que havia despertado naquela mesma manhã.
– Fique bem ai, com seus dedos longes de mim. – O avisou encenando uma cara de aborrecimento, fazendo-o lamber a extensão da boca lentamente, pressionando, ao final, os dentes no lábio inferior para conter um sorriso. acompanhou cada detalhe daquela ação, sentindo as reações chegando ao seu corpo quase que de imediato. Um gesto tão comum, e, no entanto, tão sexy e delicioso que ela desejou percorrer com a própria língua sobre o mesmo ponto que a dele passara, através dos seus lábios convidativos. Com a ideia, os pelos da nuca ergueram-se em alerta.
Fechou os olhos firmemente, tentando evaporar aqueles tipos de pensamentos descabidos. Quando os abriu, forçou um sorriso na direção dele, levando os assuntos para campos mais brandos, porque entendia que estava caminhando em direção a uma via bastante arriscada para si. – Então... Não vai me contar para onde iremos?
– Não. A vítima nunca sabe a localização do cativeiro quando está sendo raptada. – Disse com um ar de malícia, puxando a pequena mala de rodinhas em direção à saída. franziu o cenho, andando ao seu encalço. Estranhou quando se deparou com um guardador de carros abrindo o porta malas de um modelo evidentemente antigo. O rapaz apanhou a bagagem das mãos de as acomodando no compartimento, fazendo-o compensá-lo com uma boa gorjeta. Em seguida, o agradeceu dando-o um aperto de mão simpático. aproximou-se admirada, percorrendo com os dedos sobre o capô azul metálico do automóvel como se o alisasse.
– Fala sério! – disse arregalando os olhos, embasbacada, voltando-os para a figura de um perspicaz.
– Acha que eu iria perder a oportunidade de dirigir um Camaro 1969, quando estava disponível?
– Você vai ter que me deixar dirigir, por favor! – Arrastou a voz, numa súplica.
– Ah, ! O que você não me pede chorando, que eu não lhe faço sorrindo mais que o Mickey Mouse? Na volta o comando é seu. Tudo bem? – Ela concordou, saudando-o com um olhar repleto de empolgação. Abriu a porta para ela com um gracejo, segurando sua mão para beijar-lhe o dorso. Reconheceu com familiaridade o aroma do perfume que tanto amava, e que havia sido salpicado na região do pulso. Por isso sorveu uma respiração profunda, fazendo-o inebriar como sempre acontecia. Sua porção diária de e sua essência de cheiro único, tão pertencente a ela, que ele poderia discernir num campo dentro cem mil pessoas de fragrâncias distintas. Finalmente, contornou o veículo sentando-se no banco do motorista.
“- Aluguei este carro por três diárias com a empresa que o funcionário do hotel indicou. Sei que você tem apenas dois dias, mas achei que seria melhor prevenir caso aconteça algo. – Deu de ombros, apoiando um dos braços no encosto de cabeça do banco do carona, dando a ré no carro enquanto observava a manobra pelo vidro traseiro. Ganhou a rua, levando-os através da avenida que se distanciava do hotel pouco a pouco em direção à rodovia. - Um amigo meu, Timótheo Stuartt, tem um chalé ao norte numa cidade a cerca de meia hora daqui, chamada Warren. Ontem o telefonei perguntando se poderia fazer uma visita ao local, e ele me disse que não só poderia, mas que também me sentisse convidado para a estadia, ficando por quantos dias eu quisesse. Me falou que pegasse as chaves com o caseiro que toma conta do terreno. Ele mora numa construção aos fundos da propriedade, e já está avisado, esperando por nós. Timótheo explicou que a casa vive fechada porque quase ninguém tem tempo de ir aproveitar as montanhas do norte de Vermont, então que nós façamos isso! Vamos nos isolar um pouco da sociedade. Apenas nós dois.”
– Devo me preocupar?
– Comigo? Você sempre deve se preocupar, . Sabe que eu não tenho as melhores ideias quando estou ao seu lado.
– Talvez seja melhor eu deixar o número do senhor na discagem rápida, só por precaução?! – Ela perguntou brincalhona, abrindo a janela e escorando o braço sobre ela, sentindo o vento matinal chicoteando os fios do seu cabelo. Virou-se para observá-lo com um sorriso maroto, afastando as mechas que corriam de encontro ao seu rosto. – Sabemos onde suas ideias já nos levaram. Até consigo entender o porquê do vô Kalel, daquela vez, ter ficado tão cismado em deixar o Kenny chegar perto de você de novo... – riu, avançando estrada adentro, mergulhando numa lembrança de quando estava às vésperas do limite da maioridade penal, perante às leis norte americanas:

não parecia conseguir se conter, contorcendo-se em soluços graves em total desequilibro com as risadas que tentou prender por tempo demais. O seu rosto adquiriu um tom vermelho pimenta, com veias estufadas visivelmente através do pescoço. Ele encontrava-se sentado no sofá, ao lado do progenitor . tinham os olhos arregalados num cinismo tão grande, que vinha acompanhado por um sorrisinho, denunciando-a completamente.
Do outro lado estavam e . A primeira comprimia os lábios, disparando um olhar inocente em direção ao senhor, que os observava numa inspeção, com uma perna cruzada sobre a outra. A testa encrespada enquanto mordia os nós dos dedos os analisando, um a um.
– Eu juro que não fui eu, vô. – dizia com um olhar de ingenuidade tão grande, que a academia do Oscar poderia prestigia-lo a cada edição com tamanho talento em atuar. No entanto, com as palmas das mãos voltadas para cima como alguém que se rende, ficava em evidência as pontas dos dedos borradas de tinta azul. – Mas promessa é promessa, e o senhor avisou que só nos deixaria usar aquela área da fazenda pro meu aniversário, no dia que o Kenny criasse pelos azuis. – Dessa vez apertou a barriga sacudindo todo o corpo enquanto a gargalhada ecoava pela sala. O cachorro, um Teacup Pomeranian, de nome Kennedy, era xodó do mais velho e extremamente mimado pelo mesmo. O cachorrinho sacudiu o rabo, apoiando as duas patas dianteiras na perna de , enquanto o olhava ansioso para brincar. Todo o seu pelo estava tonalizado num azul Smurf, que seria impossível não notá-lo num raio de 30 quilômetros. – Acho que nunca o vi tão feliz.
– Você irá pagar pelo banho e tosa, e pôr um fim de semana no spa para pets. – O avô garantiu, lançando uma almofadada no rosto do neto, que riu abertamente. – Palhaço! , ... Minhas princesas. Porque insistem em escutar este paspalho?
– Porque o paspalho aqui tem ótimas ideias, o senhor precisa admitir. – Kalel rolou os olhos, desgostoso, pois sabia que nada poderia contradizer àquilo, já que o neto tinha herdado todo o seu poder de persuasão. E ele poderia admitir para si mesmo, aquilo era quase insuportável. - Pago até duas idas ao pet se me autorizar dar a festa lá. Prometo que não destruirei o canteiro da vó.
– Vô Kal, - aproximou-se, se sentando na beirada do sofá ao seu lado, virando-se de forma a encará-lo com seriedade enquanto tomava uma das mãos, já nitidamente enrugada, entre as suas. – O senhor tem a nossa palavra de que iremos cuidar da área. Será apenas uma noite. Sei que a vó Helena amava aquele cantinho. Mas ela também amava as celebrações e reuniões entre família e amigos que costumavam ser feitas lá. – Sorriu, afagando sua mão, recebendo um leve aperto em resposta. Kalel suspirou, sentindo o coração se encher de calor. – Acho que ela ficaria contente em nos ver utilizando daquele espaço mais uma vez, e numa data tão importante... O senhor não concorda? – Ela perguntou o olhando profundamente. O mais velho sustentou aquele olhar, ponderando sobre toda a situação.
– E afinal de contas, o Kenny por um grandíssimo acaso da vida, está mesmo azul. – completou, com uma expressão sonsa, entortando os lábios. – Não sei se o senhor está em posição de desonrar uma promessa, vô.
– Ah, está bem! – Esbravejou a contragosto, erguendo-se do sofá e caminhando o mais rápido que conseguia com os problemas articulares adquiridos naquela idade. Parou no meio do percurso, aplicando um peteleco na testa de que não parava de rir até então, e pegando o pequeno cachorro azul entre os braços, que o presenteou com lambidas amorosas na orelha. – Maldito seja! Não existe mais paz nesta casa? Não posso mais ler o meu jornal em silêncio? – Resmungou atravessando o cômodo.
– Obrigado, vô. Sabe que te amo demais, não é? – perguntou num tom alto, vendo-o se afastar com lentidão. - Marque a data no seu calendário para não se esquecer, porque a idade não favorece. E eu tenho testemunhas que o senhor concordou.
– Vá carpir um lote! – Falou sumindo através do corredor. – Te amo! – Disse num tom mais alto quando já não era mais visto por nenhum deles.
olhou para com um enorme sorriso, caminhando ao seu encontro para abraça-la, enchendo-a de beijos na face. Virou-se para o restante dos amigos fitando-os com sagacidade, ao dizer a seguinte frase:
– Acho que temos uma festa para organizar, pessoal.

(...)

Luzes de fadas em led, engarrafadas, formavam uma trilha iluminada que levava os convidados num percurso se iniciando na casa principal, até o local da festa, à oeste do terreno. Aquela área ficara em completo isolamento após a morte de Helena , a matriarca da família. Por anos, fora um ambiente transbordado de vivacidade. Transmitia serenidade e deleite a quem ali pisasse os pés. Era onde aconteciam todas as comemorações e encontros casuais.
Tratava-se de uma enorme clareira funda, aureolada por ipês que, até onde sabiam, floresciam ali há mais de um século. Suas tonalidades eram vermelhas, e deixavam no chão um tapete natural de folhas, parecendo brasas.
Pouco antes do seu repouso para a eternidade, Helena havia conversado francamente com o neto, fazendo-o prometer jamais permitir que o seu ambiente favorito em todo o mundo, se tornasse inóspito e hostil. E que estivesse sempre se certificando de fazer Kalel ter motivos para sorrir.
Por isso, não sossegou até que pudesse acatar a ambos os pedidos.
Naquela noite, a lua começava a subir preguiçosamente, surgindo com maestria detrás dos longos vales verdejantes, espelhando sua luz cinzenta por todos os cantos. O céu era límpido, numa tonalidade escura de azul, quase como se os mares houvessem virado de ponta cabeça, vindicando por lugares mais altos. Entretanto uma infinidade de constelações bruxuleava em conjunto, diferentemente dos oceanos.
Os convidados que apareciam em numerosas quantidades a cada instante, eram íntimos amigos e familiares mais chegados. Todos penetrando o ambiente arborizado, aquecidos por uma fogueira disposta ao centro, onde formava-se uma roda de papos descontraídos e canções.
não poderia escolher melhor maneira de festejar o seu vigésimo primeiro aniversário como aquela, estando com aquelas pessoas.
Mas a melhor parte ocorrera quando agarrara o braço de Kalel com tapando-lhe os olhos às costas. O senhor andava dando passos vacilantes, desconfiado com a atitude dos jovens. Receoso com a possibilidade de cair tentava tatear afrente, procurando por qualquer superfície que pudesse alcançar.
– Já estamos chegando. – anunciou, interrompendo os passos que os conduziam até uma abertura vergada num espaço entre os galhos torcidos de uma árvore e outra, como uma passagem selada.
– Espero que goste, vô. – afastou as mãos, enquanto o senhor piscava lentamente, tentando fazer as vistas ganharem foco. Quando enfim os olhos caíram sobre àquilo, soltara uma pequena expressão de surpresa.
Em seguida, outra expressão indecifrável escapou dos lábios. Apertou a mão de com força, enquanto o corpo demonstrava estremecer por inteiro, quase levando as penas exaustas ao fraquejo.
– Por favor, me deixem só... – Disse numa vozinha, erguendo a idosa mão trêmula para apontar em direção ao objeto. segurou-o pelo outro braço, aproximando-o do busto em bronze que havia sido esculpido em homenagem a falecida avó. Embaixo uma placa de metal marcava a frase que ela mais amava repetir:

“É nas experiências, nas lembranças, na grande e triunfante alegria de viver, na mais ampla plenitude que o verdadeiro sentido é encontrado.

Christopher McCandless”

Em memória de Helena Sophie Rizzo
*1934 - +2009
Kalel deu um suspiro entrecortado, levando as mãos até a face da escultura, deslizando os dedos com todo cuidado, através de cada contorno que existia naquela feição intimamente conhecida por ele. As lágrimas formaram uma trilha através do rosto envelhecido, despencando num silêncio onde ele pareceu transitar por lembranças pessoais, marcadas pela saudade que ele, mais do que qualquer um ali, conhecia dolorosamente, havia pouco mais de um ano.
Deu um longo suspiro, soltando um sorriso calmo ao final. Virou-se em direção ao neto, tomando seu rosto entre as mãos, e depositando um beijo demorado em seu rosto.
– Obrigado, ! – Observou o neto com amor, vendo-o fechar os olhos com força, se esforçando para não chorar, muito embora o momento trouxesse um ar de emoção junto com uma energia diferenciada ao local. Quase celestial. – Eu era quem deveria te dar um presente, meu neto.
– O meu presente é ver o senhor sorrindo. E vai ser ainda melhor, se eu souber que a partir de hoje não iremos mais abandonar isto aqui. – disse girando as vistas ao redor, onde os convidados indiferentes ao que acontecia, entrosavam entre risos e brincadeiras. – O senhor não consegue sentir a presença dela em cada canto daqui?
– Em cada canto aonde quer que eu vá, . – O mais velho respondeu, puxando de dentro da camisa um relicário redondo, talhado com floreios na superfície prateada. Ao abrir, via-se duas fotos de Helena, em duas fases diferentes da vida. Kalel fechou o pingente com um pequeno tinir, reacomodando-o na segurança em que se encontrava antes. – Mas aqui, é quase como se ela pudesse se materializar a qualquer momento, me chamando para lermos algum capítulo de um romance juntos. Ela amava fazer isso. Eu, no entanto, não ligava muito. Gostava mesmo de me aproveitar enquanto ela me fazia um cafuné, e contava as histórias com aquela voz que tinha o dom de me trazer paz. É claro que eu adormecia sempre. – riu, enquanto o avô dava um sorriso nostálgico. – Acho que ela ficaria realmente brava se soubesse que eu vinha me opondo a deixar qualquer um que fosse utilizar da clareira que ela tanto se orgulhava, e que era como o seu mundo particular. Fui egoísta, eu sei. Este foi o melhor presente que você poderia ter me dado. Eu te amo muito, .
– Eu te amo, vô. – O abraçou apertado, beijando-lhe a bochecha.
Quando afastaram-se, Kalel pôde então direcionar-se à garota que se mantinha em silêncio no canto, apenas os observando. Fitou-a com carinho, entortando o pescoço levemente ao encará-la.
– Ficaria surpreso se não tivesse dedo seu nisso. – Disse, puxando-a ao seu encontro para abraçá-la também. – A flor mais linda em toda esta fazenda. Juntamente com a , é claro. Obrigado! – afagou-lhe a face sorrindo com ternura.
– Sou eu quem sou grata, por terem me integrado como alguém da família. – O mais velho a analisou por alguns minutos, então aproximou-se mais uma vez, fazendo menção de que iria abraça-la. Contudo, dirigiu os lábios ao pé do seu ouvido, falando num sussurro tão baixo, que por pouco ela não escutara:
– Ah querida, vocês são minha família tanto quanto os de sangue. Mas eventualmente você precisa saber que é isso o que acontecerá, legitimamente falando, digo. Quando você e o descobrirem que sempre estiveram apaixonados, um pelo outro.
Ali apenas arregalou os olhos, tão abertos quanto os glóbulos de uma lêmure. Então o senhor lançou-a uma discreta piscadela, afastando-se para espalhar a novidade do presente que recebera para todos os convidados.

– Estava pensando aqui... – começou, avançando com o carro através da estrada deserta, que era margeada por árvores outonais em todo o perímetro. - O que o vovô te disse naquele aniversário que te deixou tão chocada?
– O que? – Por pouco não se engasgara com a própria saliva, engolindo em seco, e então repetindo a mesma frase com a voz menos estridente: - "O que? Como vou me lembrar de algo que aconteceu há quase cinco anos, ? – Mentiu sentindo-se péssima, pois começava a perceber que mentira para ele nos últimos dias mais do que já havia feito em tantos anos de amizade. Ele deu de ombros." – Se eu te contasse as coisas que me lembro, , você ficaria surpreendida. – contorceu-se no banco de modo que pudesse apanhar o celular guardado no bolso da bermuda jeans, passando o aparelho para que o segurasse em seguida. – Liga no Zach para mim, por favor. – Pediu dedicando sua atenção à condução do veículo. discou o número que já se encontrava nas ultimas chamadas efetuadas, acomodando-o no suporte de celular instalado próximo ao freio de mão, enquanto o toque ecoava através do viva voz. Antes mesmo de a chamada ter sido atendida, já sabia a reação que os saudaria em poucos segundos:

– Você não tem mais o que fazer, não? São 07:30 da manhã de um sábado, porra! – atendeu com o timbre tão rouco que denunciava que ele havia sido desperto no auge do seu melhor estágio de sono.
– Pois por aqui são 08:30. E bom dia pra você também, princeso. – Disse com um sorriso na voz. – Preparado para mais tarde?
– Ele eu não sei, mas eu certamente não estou. Fico com os nervos à flor da pele quando começam os jogos da liga nacional. – falou, tirando os tênis e apoiando os pés descalços sobre o painel, relaxadamente. – Oi maninho. – Ouviram quando ele soltou uma risada grave, por conta da sonolência excessiva ainda presente, marcada na voz.
– Você não deveria estar na Geórgia? O que perdi?
– Perdeu que Bennett decidiu me lançar aos tubarões, e me incumbiu o dever de representar a empresa na festa da editora que a trabalha, onde tive ainda que discursar. Tudo de última hora. Então sim, estamos juntos em Vermont. Acredite quando digo que fiquei mais surpreso do que você, quando a vi lá. – O amigo riu um pouco mais desperto, processando aquelas informações. Contudo seu corpo continuava sem reagir, debruçado sobre o emaranhado de cobertores que se emolduravam em torno do abdômen torneado, por onde desenhava-se nas ancas uma entrada em formato de V.
– Vocês não se largam nem quando a finalmente tem a chance de viajar por aí... Mas respondendo a sua pergunta inicial, estou preparado tanto quanto sempre fico. O estágio do intestino solto geralmente começa quando estou para embarcar. Espero que o voo para Washington seja tranquilo, não quero ter que suar frio até o ponto onde não posso mais suportar. – Grunhiu em frustração, infeliz com a própria desgraça. – Os caras do time me declararam rei do trono de porcelanato. – e gargalharam juntos com aquilo.
– Faz um chá de casca de romã, é tiro e queda. – Instruiu a irmã com graça. – Umas duas horas antes, pinga na água uma gota do floral de Bach, e uma do floral de alecrim que te dei. Ajuda com a ansiedade e com a concentração.
– Obrigada mana, vou fazer isso. Te amo!
– Te amo de volta. Quero assistir você acabando com eles hoje.
– Ei – apertou-lhe os extremos do joelho para chamar a atenção da mulher ao seu lado. – E eu?
– Que manezão! – Foi o que Zach disse aos risos.
– Às vezes eu te amo, jogador. – ela confidenciou com um olhar terno, voltando a mão à altura do seu rosto, onde coçou com a pontinha das unhas a curva da sua orelha direita, fazendo-o se arrepiar notoriamente. – E às vezes, eu sinto vontade de te cortar com uma faca de serra, e separar os restos mortais em sacos plásticos pretos para dificultar na identificação do corpo.
– Ah, como somos intensos! – Ele sorriu abertamente, agarrando os óculos de sol apoiado na gola da camisa, para cobrir os olhos. - De vez em quando, também sinto uma vontade extrema de te amarrar e prender numa sala comigo por longas horas, para te torturar tendo que me ouvir falar sem pausa. Principalmente nos momentos em que você deixa toda a sua teimosia chegar à superfície e não quer ouvir a mais ninguém... Exceto a , talvez.
– Vocês são dois patetas, não sei como aguento isso há tantos anos... – declarou alegre. – Estão precisando tomar um rumo, ao invés de só tomarem vinho. Agora se me dão licença, voltarei para o meu descanso. Tenho que poupar minhas energias para mais tarde. Me desejem sorte.
– Vai dar tudo certo, cacique. – Assim chamou-o, referindo-se ao mascote dos Black Hawks, que duelariam o primeiro jogo da liga nacional, naquela mesma noite, contra o Washington Capitals.
– Estaremos te assistindo. Bom jogo, irmão. – o desejou.
– Amo vocês. Nos vemos em duas semanas.

Quando finalizaram a ligação, eles já se localizavam a poucos minutos de distância do chalé. A paisagem que envolvia todo o ambiente era de natureza estonteante, fazendo quase pressionar o nariz contra o vidro da janela, maravilhada com a vegetação que se estendia em amplitude, como um enorme tapete de relva alta.
Por toda a volta, extensos campos permeavam o horizonte com folhas que se sacudiam com maestria, guiadas pela força do vento frio que soprava incessantemente.
Dobraram à esquerda numa estrada irregular de terra, fazendo o carro oscilar com violência, ainda que fosse equipado com um sistema de suspenção de última linha. Por fim, estacionaram em frente a um curioso chalé rústico, onde as paredes eram revestidas em pedra de arrimo desde a base, até cerca de um metro do chão. A partir daquele ponto, vidraças erguiam-se em toda a volta, até as ripas do telhado, envolvidas por madeiras de eucaliptos.
Curiosamente, a propriedade havia sido construída de modo que poderiam assistir desde o sopé de uma montanha, até o seu cume pintado em branco, onde a neve já se mostrava presente. Em contrasta àquilo, havia um enorme lago tonalizado num verde esmeralda que banhava a vastidão do solo, com suas águas cristalinas como um enorme espelho, refletindo os elementos naturais com graciosidade.
saltou do veículo dando um longo suspiro satisfeito, enquanto fazia o mesmo do outro lado, sentindo o frio volvendo os pés despidos de imediato. Ela inclinou a cabeça para trás, enchendo os pulmões com o ar purificado daquele lugar, diferentemente ao que estava acostumada, vivendo na metrópole que era Chicago.
– Uau! – Fora o que conseguira dizer simplesmente, admirada com a beleza em fartura existente ali, num panorama que facilmente poderia ser confundido com alguma imagem da tela de descanso de um desktop.
– Incrível, não é? – Ele perguntou, a observando do lado oposto, através do teto do carro. – E sabe a melhor parte nisso tudo? Nos próximos dois dias, eu sou tudo o que você terá de suportar, Maisie. – Disse, lançou-a, ao final da frase, um beijo ordinário, enquanto contornava o carro para apanhar suas malas na parte de trás. paralisou onde estava, parecendo processar o que lhe fora dito.
Dois dias em completo isolamento com e ela já conseguia prever os fatos que a assolariam, apavorantemente, em cada instante daquela viagem que apenas acabara de começar. Seriam dois dias em que trabalharia num exercício de autocontrole. Dois dias em que poria uma fachada nos seus próprios sentimentos, tão fortes e explosivos, que ansiavam por serem libertos a cada minuto dos instantes em que passavam juntos.




Continua...



Nota da autora: Oi lindezas, tudo certinho com cada uma de vocês?
Demorou, mas finalmente saiu esse terceiro capítulo, né? A correria da rotina anda grande, mas felizmente consigo conciliar a responsabilidade do dia a dia, com dar vida a essa estória que tanto amo, e a qual muito me orgulha. Sou meio lerdinha pra escrever, e o atraso na saída do capítulo se deu muito por isso também. Por favor, tenham paciência, me perdoem, e não desistam de mim! <33
Aliás, que retorno maravilhoso vocês andam me dando!!! É lindo, gratificante, e enche o meu coração daquele calorzinho tão gostoso que sentimos quando sabemos que estamos caminhando num rumo certo, com algo que nós realmente nos dedicamos e temos apreço. Vocês já me fizeram chorar com comentários delicados, inspiradores e cheios de detalhes acerca da trama. Já me fizeram sorrir bobamente, com o olhar brilhando como alguém apaixonada, e ainda ser indagada do motivo de estar sorrindo daquele jeito hahahahaha. Até mesmo já usaram frases da estória como status do Whatsapp <3. E a cada pequeno feedback desses que recebo, eu me sinto mais abençoada por pessoas tão incríveis estarem dedicando um espacinho do tempo para acompanhar esta fic.
Com apenas dois capítulos, a Inefável já atingiu altos patamares, coisas que eu sequer pude acreditar, mas que a cada conquista, me fez surtar loucamente, gritar aos pulos dentro de casa, e ao mesmo tempo sentir o meu coração quase sair pela boca de tão nervosa e desacreditada que fiquei... Duas vezes no Top Fictions, e ainda ganhou estrela de bronze do Fanfic Awards na categoria melhor romance. Tantas meninas lindas votando, gente que jamais imaginei que liam a estória. Sem palavras, eu malmente consigo me expressar. Então só quero agradecer, porque devo isso demais a vocês.
Muito obrigada, por estarem dando espaço pra uma fic que, de certa forma, ainda é bastante recente e nova. Obrigada por me darem esta chance de compartilhar com vocês algo que vinha deixando no escuro por tempo demais, que é a minha paixão por escrever. Escrevo há anos, iniciei ainda em 2006, escrevendo o que chamávamos de web novelas, e tendo sempre a Anahí e o Poncho como os meus OTP’s. De lá pra cá, escrevi trocentas outras estórias, porém poucas foram as que realmente postei (e apenas utilizando o Orkut como plataforma).
Eu tinha muito medo de explanar os horizontes, de tentar migrar para outros lugares, outros sites... Conheço o Obsession desde quando foi inaugurado, e já acompanhava parte da equipe num outro site (não citarei nomes aqui, vocês sabem...), e no entanto nunca antes havia me encorajado a mostrar os meus trabalhos quanto autora, porque acreditava que ninguém iria gostar, e que a minha estória atingiria um flop tão grande, que ficaria numa posição muito abaixo do que a linha do pré sal hahahahahaha.
Hoje, o meu único arrependimento sobre isso, foi de não ter compartilhado as minhas estórias no Obsession antes.
OBRIGADAAAAAA! Jamais cansarei de agradecer. Vocês são sensacionais!!!

P.S.: Meninas que ainda não tive a chance de responder, por favor, me perdoem. Estou em falta com vocês, porém farei isso está semana, vocês tem minha palavra.
P.S.2.: Como muitas pediram, deixo aqui com essa nova atualização o link para que vocês possam entrar no meu grupo no face. Dessa forma vai ser muito mais fácil para nos entrosarmos, nos conhecermos, falarmos sobre a fic. Também farei jogos, sorteios de capítulos adiantados, darei spoilers, e poderei mostrar os meus outros projetos para vocês. Sintam-se convidadas a entrar, e desde já, sejam todas muito bem vindas.

Muitos beijos recheados de amor, e espero por vocês aqui no próximo capítulo. ^^

MaReiss <3




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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