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Capítulo 12

"Eu não quero ser seu amigo, eu quero beijar o seu pescoço." – Falling for you - The 1975.

’s POV

Ai, meu Deus.
Essa foi a primeira frase que me veio à cabeça no exato momento em que eu abri os olhos.
Estar de ressaca por si só já era horrível, agora, estar com a ressaca puramente dita, em conjunto com ressaca moral, era de querer sumir do mapa.
Eu possuía flashes de diversas cenas da noite anterior, entretanto, a cena que eu mais desejava apagar da memória estava lá, intacta, detalhada e vivaz. Como eu pude ter falado tudo aquilo para o ? Merda, merda, merda.
Sentei-me na cama e levei minhas mãos à cabeça, enjoada e sentindo o mundo girando ao meu redor enquanto toda bebida que eu havia consumido remexia-se em meu estômago, ocasionando uma vontade descomunal de colocar tudo para fora. Expirei profundamente e a realidade bateu na minha cara quando o aroma do perfume de invadiu o meu olfato, despertando-me em um choque imediato. Alarmada, olhei em volta e observei minuciosamente o imenso e organizado cômodo, logo percebendo que o lugar gritava o nome dele, tamanha a afinidade com a sua identidade contida em seu aspecto exterior. A vergonha tomou conta de mim e a ideia de pular da janela não me pareceu tão absurda ao constatar que eu teria que olhar para o após o meu pequeno show, além do fato de que ele também havia falado muita coisa.
E as coisas ditas não poderiam ser ignoradas.

“Você está fodendo com a minha cabeça...”


Ele realmente falou isso. Ele definitivamente falou isso. O rum não deturpou a maneira da qual eu experienciei toda a situação. Não aquela.
Levantei-me calmamente e, zonza, procurei pelos meus sapatos. Cambaleante e com a cabeça a ponto de explodir, os peguei e decidi que carregá-los por aí seria mais seguro do que calçá-los e levar um tombo vexatório. Eu já teria que lidar com vergonha o suficiente. Passei minha mão livre em meu rosto, tentando melhorar a minha aparência que certamente deveria estar terrível e fiz o mesmo com o meu cabelo, desistindo de fazer milagre à medida que o meu dedo se enroscava pelos fios revoltos. Suspirei uma, duas, três vezes durante o tempo em que fazia um mantra com a finalidade de me acalmar e agir normalmente.
Foco, . Enfrente o acontecimento como a mulher sensata que você é.
É, eu bebi além da conta, sim. E falei demais, também. E daí? Quem nunca, não é mesmo?
Encarei a porta moderna e a dúvida surgiu. Eu puxava, empurrava ou arrastava? Rico tinha uma mania de dificultar até o processo de abrir e fechar. Como era mesmo o nome daquilo? Porta pivolante, pirolante... Pivotante! Não podia negar que era maravilhosa. Movi o puxador prateado para frente e a porta se abriu, revelando um extenso corredor adiante. Incerta, segui a minha intuição e caminhei por sua dimensão, torcendo para que eu não me perdesse devido à amplitude do apartamento, atravessando alguns cômodos até me defrontar com a escada que levava até o andar debaixo.
E nenhum sinal de .
Desci as escadas e a cada degrau superado, a minha hesitação aumentava. Meus olhos alcançaram a mesinha de centro da sala e eu sorri ao ver as revistas das quais emprestei a ele em cima da mesma; Saber que ele realmente estava as lendo me deixou feliz. Vi a minha bolsa no mesmo local e fui até lá, retirando o meu celular de dentro dela. Sem bateria. Droga. Verifiquei ao redor e nenhum sinal do homem. Reparei que uma janela ampla encontrava-se aberta e andei em sua direção, vislumbrando no que eu notei ser uma espécie de cobertura, onde a vista abrangente e deslumbrante do horizonte tornava-se um quadro perfeito a quem a contemplava. Bem como , que estava sentado numa poltrona, focado no jornal em suas mãos. E, para o meu completo desespero, sem camisa; A sua vestimenta se resumia meramente a uma calça de moletom cinza chumbo e eu, que pensei que o cenário da paisagem era incrível a ponto de observá-la por horas, me peguei perdida na figura de tirar o fôlego e muito mais interessante do que a vista à minha frente.
Talvez eu tenha o observado além da conta, pois ele retirou os olhos do papel e os direcionou a mim de forma certeira, onde eu obtive a visão de sua face moderadamente amassada pelo sono, acompanhada dos cabelos desalinhados, o que o deixava adorável. Senti o meu rosto esquentar e a vontade de regurgitar todo álcool consumido voltou com força total, contudo, eu já não sabia se tal sensação se dava pela ressaca maldita ou pela troca de olhares com o homem que me estudava com uma cautela agonizante. Respirei fundo, rezando para que eu não passasse mal e pagasse mico na presença de , porque, aí sim, eu iria querer desaparecer da face da terra.
- Boa tarde. – Disse ele, deixando o jornal de lado. “Boa tarde?” Céus, que horas eram?
- Boa tarde. – Respondi totalmente sem graça, parada igual uma múmia.
- Está se sentindo bem? – Perguntou. Torci o nariz e me mexi incômoda, assentindo mesmo tendo plena certeza de que a minha fisionomia denunciava o meu estado deplorável. Como eu esperava, fez uma expressão de quem não acreditava em nenhuma palavra proferida por mim. – Você está mais verde do que essa planta, . – Afirmou, referindo-se à samambaia localizada perto da churrasqueira. Ele se levantou e eu impedi uma mordida no lábio por ver tudo aquilo revelado assim, logo após acordar. A calça estava poucos dedos abaixo da cintura, deixando a barra da cueca preta à mostra como se fosse um comercial de roupa íntima ou aquelas propagandas sem pé nem cabeça de perfumes importados, nas quais as pessoas bonitas faziam somente o papel de embelezar a cena que, a meu ver, não obtinha sentido algum.
- Eu estou bem. – Lembrei de dizer ao vê-lo a alguns passos de distância.
- Quer comer algo? Ou um remédio?
- Vou aceitar o remédio. – Fiz uma careta e riu fraco.
- Sente-se aqui que eu irei buscá-lo. – Pediu, já se colocando para fora da área e eu precisei visualizar a sua imagem de costas. Seu dorso largo com limites bem determinados pareciam combinar bastante com as minhas unhas e, ainda que eu estivesse com a cabeça pesada, mal estar, enjoada e com todos os – desagradáveis – efeitos fisiológicos que seguem depois de um episódio de bebedeira, eu ainda sabia apreciar algo bom quando via. Sentei-me em um sofá macio, apoiei os cotovelos na minha perna e a o rosto nas mãos, tão tonta como eu acordei. Respirei fundo mais uma vez e fechei os olhos, desejando um banho e a minha cama. Senti uma mão tocar os meus ombros e levantei o olhar, encarando que carregava consigo um copo d’água e um comprimido. Peguei ambos e engoli a cápsula amarga, tomando o líquido gelado em questão de segundos. A minha boca seca agradeceu veemente por aquilo.
- Obrigada. – Falei a ele, que balançou a cabeça.
- Talvez fosse bom que você tentasse comer algo. – Presumiu, me estudando cuidadoso. Contorci a minha feição em desgosto só de imaginar alguma coisa que não fosse líquida entrando no meu estômago, o que foi o suficiente para que assentisse em compreensão.
- Ahn... Desculpe-me se eu fiz algo ridículo ontem. Não sei ao certo o que houve. – Comecei, constrangida. Eu não iria tocar na última – e única parte da noite – da qual eu me recordava nitidamente, pois, como sempre, fingir que nada havia acontecido sempre me parecia uma saída mais praticável, levando em conta também que eu não estava disposta o suficiente para tocar no assunto. cravejou o semblante atento em mim, mas não disse nada. – Obrigada por ter me ajudado, eu realmente não me recordo de muita coisa. – Terminei, vendo-o permanecer na mesma pose, inexpressivo além do que eu considerava normal. Fitamo-nos durante incontáveis minutos e a impressão que eu possuía era que, no fundo, ambos sabíamos que não perduraríamos na atitude blasé mediante aquele tópico em questão.
Contudo, por hora, aconteceria exatamente isso.
- Não se desculpe e nem agradeça. – Ele se manifestou. – Você não fez nada demais. – Assenti embaraçada e o silêncio não demorou a se fazer presente. Um trovão ecoou imponente e eu me dei conta de que o céu carregado anunciava um temporal se armando em meio à escuridão. - Vai chover. – Constatei. O brando aroma antecedente à chuva penetrou o meu olfato e eu senti a costumeira calmaria que ele me proporcionava. Sentado ao meu lado e encarando a paisagem assim como eu, concordou. Juntei as pernas e as abracei, apreciando a vastidão cinzenta que, por vezes, iluminava-se em virtude de um relâmpago.
- Se importa? – O homem questionou prestes a acender um cigarro. Dei de ombros e neguei.
- Eu, não. Mas os seus pulmões certamente sim. – Gracejei e ele arqueou uma sobrancelha, zombeteiro.
- Você não tem hábitos ruins, ? – Instigou interessado e eu o fitei. Os lábios repuxados em um sorriso sucinto salientaram a sátira velada na pergunta recém feita.
Ah, eu com certeza tinha.
E possuir sentimentos por você é um deles, querido.
- Beber demais e acordar em um quarto que não é o meu. – Não consegui segurar e falei de uma só vez, atraindo a atenção de . Sustentando o sorriso conciso e o cenho arqueado, o homem me encarou com o cigarro na boca de um jeito que me obrigou a prender o ar. Ele ainda estava sem camisa e, Deus, os arrepios que deram sinal de vida por todo o meu corpo não escondiam o que se passava na minha mente naquele momento. tragou o tabaco e, calmamente, soltou a fumaça para frente com o risinho ladino e teimoso perdurando em sua face.
- Dependendo do contexto, não sei se isso pode ser encarado como um mau hábito. – Avaliou despretensioso e o rubor fez-se presente em minha face.
Mas que diabos...?
Ele estava começando a brincar com fogo e eu não negaria a me queimar.
A chuva havia chegado de maneira sutil e, sem demora, intensificou-se gradualmente. Os raios e trovões ressoavam estrondosos e, embora boa parte da cobertura possuísse uma marquise da qual impedia que a água chegasse até nós, a ventania excessiva permitia que algumas gotas nos molhasse vez ou outra. Aquele era o menor dos problemas, afinal. De fato, eu precisava daquilo para me esfriar um pouco.
- E qual seria esse contexto, ? – Questionei, forçando ingenuidade. Ele finalizou o cigarro e o deixou em um cinzeiro ali perto, tudo na maior tranquilidade. Voltou os olhos despudorados até a minha figura sinicamente inocente e os percorreu pelos meus a ponto de soltar faísca. Uma forte rajada de vento nos acertou e eu me encolhi, apesar de sentir calor em meu interior. levantou-se sem proferir palavra nenhuma e fez um sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse; Assim o fiz. Ele deu espaço a fim de que eu passasse primeiro e, após isso, adentrou a sala, fechando a janela em seguida. Eu já estava me sentindo uma completa babaca por ter entrado em seu jogo, no entanto, quando a sua presença foi sentida logo atrás de mim, um sinal de alerta soou como se me avisasse que aquilo não seria deixado ao relento como as situações entre mim e costumavam ficar.
- Não sei se eu sou bom para explicar. – A voz grave soou perto demais. Seu hálito quente bateu contra o meu ouvido e eu estremeci. Virei-me e fiquei de frente para ele, que me observava preciso.
- Eu sou boa para entender. – Rebati firme. Todos os efeitos da minha embriaguez dissiparam-se em uma rapidez surpreendente; Tudo o que eu sentia era excitação. E expectativa. deu um passo para frente e eu, em provocação, recuei, sentindo as minhas costas escorarem na pilastra atrás de mim. Engoli a seco no momento em que ele se aproximou totalmente, encostando o seu tórax desnudo em meu corpo sem cortar o nosso intenso contato visual. Percebi um cílio em seu rosto e, delicadamente, toquei nele, onde respirou pesadamente por efeito do meu toque. Retirei-o de lá e sorri. – Faça um pedido. – Mostrei o pêlo. Ele sorriu ardiloso com o canto dos lábios e soprou suavemente o meu dedo, fazendo a pestana voar. Reclinou-se e levou a boca de forma libidinosa até a minha orelha, deixando-me em estado de urgência e o meu corpo febril; Seus braços pararam rente a minha cintura, um de cada lado, aprisionando-me entre ele. O barulho da chuva não impedia que o som de nossas respirações densas fossem ouvidas; Na verdade, parecia instigar as nossas ações.
- O que eu desejei chegou mais rápido do que eu esperava. – Sussurrou, acumulando uma sensação de prazer em meu baixo ventre. Arfei e grudou os nossos corpos de súbito; A sensação de sua pele quente em contato com a minha me levou a um frenesi inexplicável enquanto o meu peito subia e descia rapidamente. O meu decote permitia que uma parte dos meus seios roçasse demasiadamente em seu tronco rijo, o que o agradou, visto que ele levou uma de suas mãos até a minha nuca, enchendo a palma com os fios do meu cabelo, onde deu um leve puxão que me fez gemer baixinho em aprovação. Contornei toda a extensão de suas costas com as minhas mãos, passando levemente as unhas por ela de cima para baixo até chegar a sua lombar, região na qual intensifiquei tanto a pressão do meu toque, quanto das minhas unhas. Pousei os dedos na barra de sua calça, deixando-os raspar levemente em suas entradas, instantaneamente ouvindo ofegar e se contrair. – ... – Começou suplicante, a voz rouca ainda direcionada ao meu ouvido sensível incendiou partes das quais eu nem sabia que poderiam ser estimuladas. – Não provoca. – Rosnou. Apertou a minha cintura em um toque grosso e, com a mão embrenhada em meus fios emaranhados, coordenou o movimento para que eu ficasse face a face com ele. Era óbvio que ele desejava sim que eu o fizesse. Mordi o lábio e encobri um sorriso de satisfação ao notá-lo responder às minhas ações. A sua íris transbordava luxúria e a minha não devia estar diferente. conduziu a minha cabeça ligeiramente para o lado e roçou o nariz em meu pescoço intercalando o ato com o lábio; A sua língua percorreu a pele exposta de modo lânguido e vagaroso demais para alguém tão em chamas como eu, que possuía convicção de que iria explodir, aproveitando para descontar tudo no dorso dele. aumentou a agilidade dos movimentos beijando o meu pescoço e se locomovendo em direção ao colo sem pudor algum. Eu não conseguia controlar os murmúrios que escapavam da minha boca e levei as minhas mãos até o seu cabelo, passei meus dedos entre os seus fios e os puxei com gosto, me deliciando com a sensação de sua língua passeando próxima aos meus seios desprotegidos pela brecha da blusa.
Mais contato. Eu necessitava de mais.
Coloquei as minhas mãos em seus ombros e imediatamente entendeu o que eu queria. Dei um impulso e ele me imprensou – ainda mais – de encontro ao pilar durante o tempo em que segurou ambas as minhas coxas com firmeza, sustentando o meu peso quando eu contornei o seu quadril com as minhas pernas e entrelacei os braços em seu pescoço. Encaramo-nos atentamente, estudando e analisando as reações um do outro minuciosamente, os dois respirando acelerado e com dificuldade.
- O que nós estamos fazendo? – Indaguei com a voz baixa e vacilante, atônita devido ao que ocorria. Eu não desejava pensar ou refletir a respeito da loucura que tudo aquilo significava, os meus sentimentos encontravam-se alvoroçados e os batimentos do meu coração causavam a impressão de que ele sairia pela minha boca a qualquer instante, porém, não dava para ignorar o fato de que tudo era muito estranho. negou com a cabeça aparentando estar perdido, assim como eu.
- Nós estamos ultrapassando alguns limites aqui. – Respondeu enrouquecido, muito perto da minha boca.
Um trovão ensurdecedor reverberou o ambiente.
- Estamos. – Limitei-me a dizer, descendo a minha atenção até os seus lábios convidativos.
- Você liga?
- Não.
- Nem eu. – Falou sem refutar. Afixou a pressão em minhas coxas e eu pulsei em estado ebulição quando senti o contato mais abundante entre nós junto a um volume já significativamente perceptível no meio de suas pernas, que foi de encontro à minha parte já suplicante por atenção. Arfei e esfregou nossos lábios de maneira suave com os olhos fixos nos meus, usando sua língua para massagear a minha boca e abri-la. Capturei o seu lábio inferior e ele fechou os olhos, respirando pesado. No instante em que íamos aprofundar a conexão de nossas bocas, o som irritante da campainha ecoou pelo cômodo me fazendo praguejar e amaldiçoar mentalmente quem quer que fosse. e eu nos encaramos perdidos e ofegantes por termos sido despertos de todo aquele clima único do qual nos encontrávamos, absortos além da conta para dar importância ao ruído provindo do outro lado da porta.
A sineta soou mais uma vez.
- Eu acho melhor você... – Comecei, desnorteada.
- É. Eu vou atender. – Ele completou visivelmente atordoado, soltando as minhas coxas e me ajudando a descer de seu colo. A sensação de incompletude me atingiu em cheio e eu agradeci por ainda estar me amparando, pois as minhas pernas bambas não eram o suficiente para sustentar o meu corpo trêmulo e extremamente vulnerável ao toque do homem, que me fitava sério. Retirei as minhas mãos de sua nuca e ele se afastou, caminhando até a porta.
Passei as mãos estremecidas pelo rosto com o coração acelerado a ponto de me obrigar a respirar e inspirar diversas vezes a fim de acalmá-lo ao menos um pouco, sem acreditar no que estava acontecendo. No que estava prestes a acontecer. puxou a maçaneta e bagunçou os cabelos, cumprimentando a pessoa à sua frente e eu imediatamente cerrei os olhos e desejei não escutar o que eu escutei naquele minuto.
Não podia ser verdade.
A voz de repercutiu e adentrou os meus tímpanos me fazendo querer arrancá-los só para não ouvi-lo.
- Você está acompanhado, cara? – O ouvi perguntar, zombeteiro. – Está esquisito. – permaneceu inexpressivo e eu não soube como agir nem o que pensar. Continuei ali parada com cara de nada, torcendo para que fosse embora. Era azar demais vê-lo duas vezes em menos de vinte e quatro horas.
- Eu me esqueci que você viria, foi mal. Vou pegar o aparelho e já volto. – Avisou já fazendo menção de sair, entretanto, parou quando se expressou novamente.
- Qual é, . Não vai me convidar para entrar? Nem vai me apresentar à bonitinha que está aqui? – Seu tom de voz me enojou. Não obstante, ele prosseguiu a falar desembestado. – É a Betsy? Ou rolou um remember com a Cassie? – Meu estômago revirou e, em um movimento rápido demais tanto para mim, quando para , adentrou a sala. – Eu prometo que só irei falar oi e vou embora assim que você trouxer o... – Ele deixou a fala morrer assim que me enxergou parada ali. Voltei a respirar rápido tamanho o nervosismo e os seus olhos cerraram-se no que eu reconheci como incredulidade. emitiu uma risada dotada de escárnio e o raio do qual clareou o apartamento só tornou toda a cena ainda mais teatral. – Uau, por essa eu não esperava! – Exclamou chocado. Eu mantive a posição inabalável e suspirou, fechando os olhos e tocando a própria testa por breves segundos. – Sempre inovando, hein, ? – Zombou sem tirar os olhos coléricos de mim e eu franzi o cenho, sem paciência para lidar com ele.
- Não começa, . – repreendeu ríspido. Eu havia ido do céu ao inferno.
- Seria uma falta de educação imperdoável da minha parte não cumprimentá-la. – Sua fala saía saturada de deboche, o que era até engraçado. Eu revirei as órbitas, demonstrando indiferença.
- Não se incomode em falar comigo, eu posso viver sem isso. – Proferi com um sorriso mais do que falso.
- Eu realmente atrapalhei algo? Sinto muito, amigo. – Ignorou a minha frase e virou-se para , que arqueou a sobrancelha com a feição carrancuda.
- Não lhe devo satisfação de nada.
- Ouch. Desculpe. – Ergueu as mãos em rendição. – Bom, você pode pegar o bridge?* Tenho uma reunião amanhã e já vi que me intrometi demais por aqui. – disse a , que trocou um breve olhar ressabiado comigo. Sustentei-o com o propósito de demonstrar que estava tudo bem e ele retirou-se do cômodo, subindo as escadas para o segundo andar.
- Parece que você finalmente conseguiu, meus parabéns. – A voz cínica fez-se audível novamente. Cruzei os braços e lancei-lhe um olhar gélido.
- Comporte-se como o adulto que você é e saiba se colocar em seu lugar. – Ralhei seca.
- Você sabe que ele acabou um namoro recentemente, não é, ? Seja esperta e não se deixe encantar por pouca coisa. – pronunciou arrogante.
- Nada disso é da sua conta. Não sei o que se passa pela sua cabeça para você achar que pode me dizer como viver a minha vida, sinceramente.
- Sou amigo dele e passei um bom tempo com você, ou já se esqueceu? – Indagou petulante e eu perdi a paciência.
- E a última parte significa que você sabe muito bem como fazer os outros de idiota, não é? Sua experiência neste quesito é bem vasta, mas não se preocupe, porque eu já não sou mais a mesma. Não se intrometa. – Bronqueei irritada e ele riu sem humor. retornou ao recinto com uma caixinha em mãos e a entregou para .
- Valeu, cara. Agora irei me retirar para não atrapalhar ainda mais. – Avisou satírico. – Tchau, . Pense bem no que eu lhe disse. – Aconselhou irônico e franziu o cenho, movendo os olhos de mim para o amigo, que agora já se localizava fora do apartamento. O meu interior se revirou em inquietude e, quando a porta foi fechada, passei a ser observada pelo homem a minha frente com uma atenção desmedida.
- “Pense bem no que eu lhe disse?” – Ele reproduziu a frase de . Engoli a seco e neguei com a cabeça.
- Bobagem, como sempre. Nada que valha à pena ser comentado. – Cortei o assunto e ele assentiu intrigado.
Silêncio.
- Vou tomar um banho rápido e vamos para casa, tudo bem?
- Claro. – Sorri. sumiu do meu campo de visão e eu me sentei no sofá, observando a chuva torrencial pela extensa janela de vidro com cada centímetro do meu corpo ainda em ebulição, resquícios do acontecimento de minutos atrás. O céu começava a dar espaço para o crepúsculo, indicando que o período de transição do dia para a noite se iniciava. Peguei a minha bolsa e tentei, mais uma vez, ligar o meu celular, não obtendo êxito algum. Bufei e me apoiei no encosto do sofá, permitindo que o barulho dos trovões trouxesse consigo a serenidade que eu necessitava após as eventualidades que andavam sucedendo a minha vida.
Era tudo tão inacreditável, eu nunca sequer cogitei a hipótese de um dia estar na situação da qual eu me encontrava: Confusa por ter me envolvido com além do que poderia ser considerado normal, se for ter em mente o fato de que ele sempre aparentou ser inalcançável para mim. Eu não sabia se desfrutava do momento, ou se racionalizava sobre os problemas que esse envolvimento inusitado acarretaria. Eu mal sabia se eu poderia arriscar a chamar...Isso de envolvimento.
Por mais que doesse admitir, estava certo. acabara de sair de um longo relacionamento, e, embora eu não soubesse o que havia ocorrido para que o rompimento se procedesse, sabia que desfazer-se dos fragmentos de uma relação não costumava ser tão fácil assim. Alguns minutos depois, reapareceu na sala com os cabelos úmidos e o aroma inconfundível de seu perfume alastrou-se pelo ambiente antes mesmo dele terminar de descer as escadarias, ao passo que sacudia os fios recém molhados. Ele ergueu os olhos e deu de cara comigo o olhando tal qual uma perfeita pateta, e eu, envergonhada por ter sido pega no ato, virei o rosto em seguida com o rubor tomando conta da minha face.
- Podemos ir? – Questionou ele, pegando algumas coisas de cima da mesinha. Levantei-me e assenti, calçando meus sapatos e recolhendo a minha bolsa. abriu a porta e esperou que eu passasse para fazer o mesmo, trancando-a e caminhando comigo ao seu lado até o elevador em meio a um silêncio cômodo.
- Você pretende se mudar pra cá? – Perguntei, quebrando a ausência de som.
- Sim. Não sei ao certo quando, mas estou me programando para isso. – Respondeu enquanto seguíamos até o seu carro. Sibilei um “hm” e agradeci quando abriu a porta do veículo para mim, logo sentando-se no banco do motorista e dando partida. O pára-brisas iniciou o seu trabalho no momento em que a ininterrupta chuva bateu contra o vidro, produzindo um forte barulho. Por mais que eu estivesse feliz por sair daquela atmosfera nociva da qual a mansão possuía, não pude negar que senti um pequeno aperto no peito por saber que, indubitavelmente, Bento estaria incluso na mudança. Eu sentiria falta dele.
Eu sentiria falta deles.
A melodia de uma música aleatória tocava suave e eu focalizei a minha atenção nos borrões da paisagem, desligada e absorta nas gotas que formavam vários contornos indefinidos. Certa vez, eu li em uma revista que os seres humanos detinham uma rede de neurônios especializada em reconhecer olhares, sendo, substancialmente, um detector do qual dispara um alarme cerebral no instante em que você percebe que está sendo observado. Naquele minuto, o meu “radar” foi ativado, com isso, mudei a direção da minha visão e vi que me fitava de soslaio, retomando o foco para a pista molhada rapidamente.
O programa da rádio entrou no comercial e o minuto de notícias deu início às informações a respeito da bolsa de valores, acontecimentos recentes e importantes em alguma parte do mundo e, por último, na morte do empresário que outrora ouvi junto à .

“Ainda sobre o assassinato de Sandro Averbuck: Há uma série de investigações acontecendo e nenhuma pista está excluída, além de operações policiais...”


Notei a postura de enrijecer e ele imediatamente desligou o aparelho.
Franzi minimamente o cenho e, um tanto quanto cismada, tornei a apreciar a carga d’água vinda do dilúvio incessante.
- Talvez seja melhor que eu não entre com você. – Proferi hesitante quando nos aproximamos do condomínio, acarretando uma feição de confusão no homem ao meu lado. – Sabe... Alguém pode ver e isso não seria bom. – Completei e não mudou sua fisionomia cética.
- Você está com medo que interpretem mal e isso caia sobre a sua mãe, é isso? – Perguntou direto e eu assenti. – Não se preocupe, tudo bem? Não precisa sair por isso, . – Consolidou. Suspirei e, a contragosto, concordei. Adentramos a mansão e saímos do automóvel, e eu, claro, olhei para todos os lados à procura da presença de seja lá quem fosse. Um alívio descomunal me acertou ao constatar que o carro usado por Barret não se encontrava ali, o que significava que, pelo menos a Senhora , não estava em casa.
Sorri largo no instante em que Bento surgiu eufórico, embolando-se nas minhas pernas e nas de em uma felicidade contagiante.
- E aí, carinha?! – Ele saudou o cão, abaixando-se com a finalidade de acariciá-lo. Fiz o mesmo, recebendo uma lambida certeira bem no meio da minha bochecha, o que fez rir. Não tive tempo de exprimir reação alguma, haja vista que Bento apoiou as patas dianteiras em meus ombros, ocasionando um impulso que me fez cair de bunda no chão; riu mais, jogando a cabeça para trás pela gargalhada. Cerrei os olhos em sua direção mesmo estando nítido que eu segurava o riso.
- Você está achando engraçado? – Questionei em tom de ameaça e ele assentiu zombeteiro. Engatinhei até um brinquedo jogado por ali e me aproximei de . – Bento! – Chamei-o. – Pega! – Ordenei e arremessei o objeto de plástico no colo de , que mal conseguiu reagir. O Pastor Alemão pegou o dono de surpresa e se lançou de encontro ao seu corpo, que desequilibrou-se e também caiu. Foi a minha vez de gargalhar e receber um olhar incrédulo enquanto o homem era atacado com lambidas frenéticas.
- Não sabia que você era vingativa, . – Falou satírico tentando controlar o cão e eu dei de ombros, sorrindo travessa.
- Ele realmente sabe dar boas vindas. – Comentei, rindo da indecisão de Bento que olhava para mim e para , não sabendo com quem brincar. – A pata dele já está boa.
- Sim. Vou levá-lo ao veterinário antes que ele arranque a faixa sozinho.
- Estou surpresa que isso ainda não tenha acontecido. – Disse risonha.
- Ainda bem que ele gasta parte da energia com você. – Falou com o sorriso sereno que permaneceu após a sua sucessão de risadas.
- E eu sempre acabo no chão. – Avaliei divertida. ergueu-se e pegou em minhas mãos, ajudando-me a me levantar. Encaramo-nos por breves segundos e eu decidi que era hora de ir pra casa. – Obrigada novamente por ontem. – Sorri torto e ele negou com a cabeça.
- Por nada. – Acariciei a pelagem de Bento uma última vez e acenei, enxergando o cão e seu dono lado a lado a me olhar. Dei às costas e saí da garagem às pressas, correndo em meio ao temporal que não cessava um momento sequer.
Os poucos minutos percorridos por mim foram o suficiente para que eu me molhasse significavelmente, praguejando ao sentir a ventania gelada entrar em contato com a minha pele molhada. Entrei em casa e, seguidamente, encontrei minha mãe sentada na sala enquanto lia. Ela levantou os olhos do livro e a sua expressão externou alívio ao me ver.
- , que demora! – Queixou-se. – Eu estava começando a ficar preocupada! – Torci o nariz, não sabendo por onde começar.
- Desculpe, fiquei sem bateria. – Lamentei, pegando a toalha da qual ela me estendera.
- Eu sei, liguei para a e ela me avisou que vocês estavam juntas. – Falou e eu quase franzi o cenho pela informação recebida, entretanto, teria que sustentar o que lhe fora dito pela minha amiga. – Preste mais atenção da próxima vez, por favor.
- Ah... C-claro... Eu me distraí com a festa. – Menti e a sensação ruim por estar encobertando os verdadeiros fatos me acertou como um soco no estômago.
- Tudo bem, filha. Como foi o aniversário? – Perguntou voltando a se sentar.
- Foi ótimo, o lugar era lindo. E a palestra?
- Ah, eu adorei! A senhora quer que nós façamos um cardápio especial para o seu aniversário, então aprendemos todos os macetes dos pratos. Foi bem interessante. – Explicou satisfeita e eu assenti.
- Que bom! Vocês irão arrasar, como sempre. – Pisquei. – Tudo bem se eu não ficar aqui com você? Preciso de um banho. – Falei demonstrando o meu estado para a mulher à minha frente, que sorriu e concordou.
- É um favor que você me faz, está molhando todo o chão. – Proferiu com uma careta e eu ri, sibilando um “desculpe” e me dirigindo ao meu quarto a fim de colocar o celular no carregador.
Deixei-o tomando carga e corri para o banheiro, despindo-me com certa dificuldade devido à roupa molhada grudada em meu corpo, dando pulinhos atrapalhados durante o tempo em que lutava para me livrar da minha calça. Feito isso, enfiei-me debaixo da água quente e relaxei, ao passo que todo ligeiro traço da não tão presente ressaca fosse por ralo abaixo; E, claro, revivi mentalmente todos os momentos com , mesmo lutando para impedir que isso acontecesse. Minutos depois, finalizei meu banho e enrolei-me no roupão, retornando ao quarto e pegando meu aparelho já ligado.
Sentei-me na cama e me assustei com as notificações contidas nele.
Dez ligações da minha mãe.
Quinze mensagens de texto e sete ligações perdidas da . Meu Deus. Ela vai me matar.
Mensagens no grupo da faculdade;
Mais algumas da minha mãe;
Grupo da família do meu pai;
Mais mensagens da ;
E uma foto enviada pelo Vicenzo;
A abri e gargalhei ao ver uma imagem sua na frente de um espelho com um treco verde no rosto inteiro.
Deixei para responder tudo depois e respirei fundo, preparando os meus ouvidos que, certamente, ouviriam uma baita bronca da minha amiga. Disquei o seu número e, após poucos toques, sua voz exasperada bradou sem pestanejar.
- Graças a Deus, ! Onde você se enfiou?! – Questionou sem respirar e eu ligeiramente afastei o celular do meu ouvido.
- Desculpe, desculpe, desculpe. – Pedi, antes mesmo de começar a me explicar. – A minha bateria acabou, não consegui falar com ninguém.
- Eu percebi! Você sumiu da festa, onde esteve?! São muitas coisas a serem esclarecidas, espero que você saiba. Eu quase morri de preocupação! – Tornou a falar, indignada. Fechei os olhos e apoiei as minhas mãos na testa.
- Eu sei... Eu fiquei no último andar e acabei bebendo demais, não me lembro muito bem. – Soltei num muxoxo. – Perdi as minhas chaves e foi uma confusão! Eu não quis te atrapalhar e resolvi ir embora de metrô. – reclamou e eu ignorei. – aí o apareceu e...
– Espera. – Ela me interrompeu. – Até onde eu vi, ele saiu com uma mulher. – Discorreu e eu concordei meio a contragosto, mesmo que a minha amiga não pudesse visualizar tal ação.
- Sim, mas ele achou que não seria uma boa ideia eu voltar sozinha, não sei ao certo o que houve, mas aceitei ir para o seu apartamento porque eu estava sem a minha chave e não conseguiria entrar em casa. – Terminei hesitante, percebendo um silêncio profundo do outro lado da linha.
- , por que você não falou comigo? Não atrapalharia em nada! Como assim “aceitei ir para o seu apartamento?” – Imitou a minha fala de um jeito engraçado, ainda que eu soubesse que nada ali era dito em tom de brincadeira. – Eu fiquei louca de preocupação e menti para a sua mãe enquanto você se atracava com o ?! Eu espero que não, porque você estava bêbada e eu o mataria. – Ameaçou aborrecida e eu logo tratei de clarear as informações.
- NÃO! – Exaltei-me. Constatando o meu tom de voz alto, controlei-me e continuei. – Óbvio que não, ! Pelo contrário, ele não encostou em mim. Não aconteceu nada, ele ficou em outro lugar e deixou o próprio quarto para que eu dormisse, inclusive. – Elucidei, ouvindo-a resmungar um “Ah”. – Porém...
- Porém...? – Encorajou-me impaciente.
- Porém, eu meio que falei o que não devia e talvez tenha revelado coisas demais. – Mordi o lábio e a vergonha me assolou mais uma vez. – , o também disse tanta coisa, eu estou confusa demais! – Confessei aflita.
- Calma, amiga. O que ele disse?
- Disse que eu estou fodendo com a cabeça dele! – Exclamei vacilante. A frase em questão fazia a minha mente dar voltas infinitas em direção a lugar algum.
- Uau...
- E tem mais! Nós quase... Bem, nós demos uns amassos hoje. – Falei tentando parecer o mais desafetada possível, contudo, terminei por soar balbuciante.
- COMO É? – Minha amiga praticamente gritou e eu, novamente, precisei afastar o celular do ouvido com uma careta em meu rosto. - Tudo o que nós falamos se torna ambíguo, é como se não conseguíssemos permanecer perto um do outro sem que um clima esquisito surja, sabe?
- Eu costumo chamar isso de tensão sexual. deduziu e eu ri, achando o termo muito cabível à circunstância.
- Seja lá o que for, está nos enlouquecendo. Só não fomos até o fim porque, adivinha... O apareceu. – Falei, permitindo que o tédio tomasse a frase.
- Eu não acredito! O que aquele babaca foi fazer lá?
- Ele foi pegar alguma coisa, não entendi direito.
- Imagino o climão que deve ter ficado... – Presumiu e eu concordei. – ... Eu juro que não quero te desanimar, mas como amiga, acho importante te recordar de que o recém rompeu com a Cassie. Tome cuidado, tudo bem? Não vá muito ao céu, seja racional. – Aconselhou e eu suspirei, afinal, já havia ouvido algo semelhante.
- Eu sei, tenho consciência disso. Não estou sonhando acordada ou coisa do tipo.
- Fico aliviada. Você já pensou na hipótese de contar para ele a respeito dos seus sentimentos?
- Às vezes dá vontade, sabe? Ao menos acabaria com essa situação e eu seguiria em frente. – Revelei cansada. Eu não me permitia sentir plenamente a felicidade de possuir perto de mim, pois havia coisas demais implicadas neste tema.
- Também não precisa ser pessimista, . Só perguntei porque sei que você guarda isso há bastante tempo, entende? enunciou compreensiva como sempre.
- Sabe o que eu acho? – Ela murmurou para que eu prosseguisse. – Alguém deveria fazer uma série da minha vida! Alô, Netflix, está perdendo a chance! – Dramatizei me jogando de costas em minha cama e a minha amiga gargalhou do outro lado da ligação. – Eu preciso desligar, ainda estou de roupão e toalha na cabeça. – Informei com o pano enrolado nos meus cabelos.
- Certo, senhorita novela mexicana. Até, sweetie.
- Até, mi amor. – Terminei a chamada e expirei o ar pesadamente, tão perdida como jamais estive.

**

Duas bolsas pesadas em meus ombros e dois cadernos grossos em minhas mãos não me impediram de perambular pelo campus da faculdade atrás de um livro sobre desenvolvimento infantil, o que seria de grande ajuda para o meu trabalho recém iniciado. Aproveitaria o fato de não possuir pacientes naquela segunda-feira úmida para desenvolver a observação e coleta de dados da semana na instituição, haja vista que tempo não era algo do qual eu poderia desperdiçar. Com o material já sob minha posse, caminhei com a finalidade de me retirar das dependências da faculdade, entretanto, a figura visivelmente atrapalhada da senhora que outrora falara comigo na porta da secretaria captou a minha atenção. Ela aparentava estar mais sobrecarregada do que eu, pois equilibrava – com dificuldade – diversas pastas, folhas e cadernos em suas mãos ocupadas, juntamente com uma bolsa normal e outra, de rodinhas, da qual arrastava com resistência. Fui até a mulher e abaixei-me a fim de pegar um papel que ela deixara cair, recebendo um sorriso grato pelo meu ato.
- Eu tenho um anjo nessa faculdade! – Falou agradecida e eu ri.
- A senhora quer ajuda? Tem espaço para mais um livro aqui. – Disse, exibindo meu braço ocupado pelos meus materiais.
- Tem certeza, querida? Você não me parece diferente de mim. – Proferiu, me analisando hesitante.
- Claro, não tem problema senhora...? – Deixei a pergunta no ar, pegando um livro quase caído entre os outros sustentados por ela.
- Yvonne. Desculpe-me, não me apresentei! Como você se chama, querida? – Questionou amável enquanto andávamos até a saída.
- . – Sorri. – A senhora veio lecionar aqui?
- Sim, meu filho me recomendou esta universidade e coincidiu de haver uma vaga aberta para professor. Dou aula de pedagogia.
- Que legal, é uma área maravilhosa!
- É sim! E você cursa o que, ? – Perguntou atenciosa.
- Psicologia! – Respondi animada, vendo um sorriso amigável brotar em seu rosto.
- Você realmente tem um jeitinho de psicóloga! – Declarou vivaz. Senti-me feliz em ouvir aquilo, pois passava segurança a respeito do tipo de profissional que eu seria. – Meu filho veio me buscar, já o vejo ali parado! – Comunicou e eu segui o seu olhar até um homem de meia idade – entre os quarenta e cinco ou cinquenta anos –, vestido formalmente e com aparência séria. Aproximamo-nos do veículo prateado e elegante e o homem recobrou a postura assim que nos viu, indo até nós duas e ajudando a mãe, retirando os objetos acadêmicos de suas mãos.
- Obrigada, filho. – Disse ela, pegando o seu livro que se encontrava comigo para entregar a ele, que os colocou no porta-malas. – E obrigada para você também, querida. – Disse gentil e eu sorri, negando com a cabeça.
- Não precisa agradecer! – Expressei sorridente. O homem fechou o compartimento do carro e voltou-se a nós, finalmente esboçando uma expressão. Ele sorriu polido e dirigiu-se a mim.
- Desculpe a falta de educação. Sou Carl, obrigado por ajudar a minha mãe. – Proferiu educado.
- Por nada. Bem, preciso ir... Dia cheio... – Proferi divertida. – Tenham uma boa tarde!
- Pra você também, . Até mais! – A senhora Yvonne pronunciou acenando. Retribuí o gesto e dei-lhes às costas, iniciando o caminho da instituição.

- Seja bem-vinda novamente, . Como foi a sua primeira experiência aqui? Não conseguimos conversar na semana passada, sinto muito. Tive uma reunião e bagunçou o meu horário. – Magnólia, diretora do abrigo, explicou-se, sentando-se na cadeira atrás da mesa localizada em sua singela sala.
- Eu imagino, não se preocupe. Eu adorei, as crianças são uns amores! – Comuniquei entusiasmada.
- Fico feliz. Elas saíram da aula e estão finalizando o almoço, logo em seguida terão uma atividade lúdica*. Trish, a nossa instrutora, esclarecerá melhor todo processo. Você a conheceu no seu primeiro dia, não é? – Assenti – Maravilha! Alguma pergunta?
- Não, está tudo esclarecido. Obrigada pela disposição, Magnólia. – Falei me levantando e apertando-lhe a mão em um cumprimento.
- Qualquer coisa, pode me procurar. – A mulher sorriu e eu correspondi. Pedi licença e me retirei do recinto, caminhando até o pátio atenta em todos os detalhes rústicos do orfanato. Avistei um grupo de crianças correndo no extenso espaço de concreto e Trish surgiu logo atrás delas, gargalhando. Trish era uma mulher em torno de seus trinta e poucos anos trazia que consigo uma aura leve como eu nunca havia visto antes, o que tornava a sua companhia algo extremamente agradável, mesmo tendo a conhecido somente há poucos dias. Assim que me viu, ela acenou animada e fez um sinal para que eu me aproximasse.
- Ei, como vai, ? – Indagou enquanto andávamos atrás dos pequenos eufóricos.
- Muito bem! E você?
- Estou ótima! A Magnólia já te falou sobre a atividade de hoje? – Indagou quando paramos no local repleto de cartolinas, giz de cera, lápis de cor, massinhas, canetinhas e todo tipo de material usado para colorir.
- Comentou por cima, mas sei que elas farão uma atividade lúdica e parecem bastante contentes por isso. – Mencionei rindo da alegria em que as crianças se encontravam ao se darem conta de que brincariam com tudo aquilo.
- Você ainda não as viu no auge da felicidade. – Trish riu comigo. – A atividade se chama “espaço para criar” e ela consiste basicamente em despertar a criatividade e a expressão de ideias. É uma boa forma de ampliar os conhecimentos da criança sobre si e sobre o outro. – Ela explicava com calma e eu a ouvia, atenta. – Eu vou apresentar os materiais à turma, pode ficar à vontade para fazer a sua observação. – Informou simpática e eu sorri agradecida, vendo-a se afastar e um serzinho em especial se aproximar.
- Você voltou! – Archie, um garotinho de cinco anos e simplesmente a coisa mais fofa do mundo - que grudou em mim na visita da semana anterior - exclamou, entre surpresa e euforia.
- Mas é claro que eu voltei! Eu disse que voltaria. – Sorri para o pequeno que me encarava festivo.
- Nós vamos desenhar e brincar de massinha! Vem também! – Disse ele, já me puxando pela mão. – Ela vai me ver desenhando! – Saiu gritando para os coleguinhas, que apenas me fitaram curiosos.
Eu tinha consciência de que uma pessoa estranha ao ambiente despertaria hesitação nas crianças, o que acarretaria em uma aproximação não tão rápida vinda delas, porém, Archie fora o oposto e agiu como se a minha presença ali fosse algo corriqueiro. O pequeno parou e sentou-se no chão onde os outros estavam posicionados em um círculo, dando batidinhas ao seu lado para que eu o acompanhasse. Troquei um ligeiro olhar com Trish, que sorriu consentindo a minha participação na atividade. Sentei-me onde ele marcava com a sua mãozinha, recebendo outro sorriso de derreter o coração em resposta. Trish começou a explicar o que eles fariam, com isso, Archie me olhou e eu fiz um sinal de “shhh”, do qual foi imitado por ele durante o tempo em que nos entreolhamos cúmplices. Antes mesmo de iniciar a observação na instituição, eu havia decidido por não anotar nada enquanto estivesse nos domínios do abrigo, haja vista que tal ação poderia afastar e ocasionar estranhamento por parte das crianças, algo que naturalmente já aconteceria.
Após as orientações dadas por Trish, a turma deu início às suas criações, e eu, passei a olhar atentamente tudo o que elas faziam, suas atitudes e formas de lidar com os colegas e a tarefa imposta. Um tempo depois, as crianças começaram a entregar e mostrar a própria arte. Umas, feitas de massinha; Outras, feitas à tela com tintas; E a maioria, executada nas cartolinas. Olhei para o lado e notei que Archie finalizava o acabamento de seu segundo desenho. Ao concluir o seu trabalho, ele me fitou orgulhoso.
- Que lindo, Archie! Você é muito talentoso. Pode explicar os seus desenhos para mim? – Perguntei e o garotinho assentiu veemente.
- Espera aí que eu vou chamar a Trish! – Levantou-se rapidamente e correu até a mulher, que fora puxada pelas mãos até onde eu estava. – Olha o meu! – Ele falou animado, apontando para as duas cartolinas recém pintadas.
- Uau, acho que temos um grande artista por aqui! Fale sobre elas para nós. – Trish pediu amável.
- O primeiro é um dragão e um cavaleiro! – Explicou ele, apontando para cada traço feito. Percebi linhas pesadas e mais alguns detalhes que chamaram a minha atenção. Eu estudei aquilo e reconheci indicadores emocionais em toda a figura. – O segundo eu fiz pra ela! – Apontou para mim e eu sorri, surpreendida pelo seu gesto. – É um barco no mar com veleiro e um monte de flores! E tem um arco-íris! – Demonstrou empolgado.
- Muito obrigada, Archie! Eu amei o presente, vou guardá-lo em um lugar muito especial no meu quarto. – Anunciei com o coração quentinho e o rosto do pequeno se iluminou.
- Jura?!
- Juro! Está lindo. – Afirmei, pegando a cartolina e olhando a ilustração mais de perto.
- Parabéns, você fez um belo trabalho! – Trish pronunciou de modo doce. – Agora vá ajudar os seus colegas a guardar tudo nas caixas, está bem? – Pediu e ele assentiu, correndo para se juntar ao resto do grupo.
- Ele é adorável! É costumeiro de sua personalidade ser tão receptivo assim? – Perguntei à mulher posta ao meu lado, que concordou.
- Sim, Archie destoa um pouco dos outros. Geralmente crianças institucionalizadas apresentam relutância em qualquer tipo de aproximação, pois existe o medo da decepção, entretanto, Archie age ao contrário com a finalidade de tentar atrair a companhia de alguém que lhe passa segurança. A mãe dele o deixou aqui há dois anos e falou diretamente com a Magnólia. Pediu para que cuidássemos dele e assegurou que voltaria. – Atenta, eu prestava atenção em Trish, que prosseguiu. – Foi extremamente complicado. Ele tinha três aninhos na época e nessa idade a criança acorda choramingando e pedindo a mãe. Nada o acalmava. Ele demorava a dormir e despertava em diversos momentos durante a noite. Archie é carinhoso com todos, mas devo dizer que com você é um pouco mais intenso. – Falou e eu a encarei sem entender. – Quando a mãe dele o deixou aqui, ela aparentava ter mais ou menos a sua idade. Vocês até se assemelham um pouco fisicamente. Talvez Archie sinta tanta falta dela, que a vê em você. – Terminou com um sorriso fraco e eu paralisei. Um buraco havia se aberto em meu peito e a sensação de tristeza foi sufocante. Inexpressiva, encarei o garotinho de longe. Percebendo o meu abatimento, a mulher se pronunciou mais uma vez. – Desculpe, não quis te deixar impressionada. – Emitiu pesarosa e eu neguei.
- Não se preocupe. – Tentei sorrir. – Fico feliz em saber que ele se sente seguro quando eu estou perto, mesmo sendo por esse motivo.
- Sim. E não se sinta mal por se compadecer com as crianças. Pode acreditar, estar aqui é um exercício diário de fortalecimento mental. – Revelou afagando os meus ombros e eu concordei, murcha. Olhei em meu relógio e constatei que o meu horário havia acabado.
- Obrigada por hoje, Trish. Foi muito divertido. – Declarei satisfeita, recebendo um sorriso afetuoso em resposta.
- Que bom que gostou! Te espero na semana que vem. – Expôs gentil. Archie nos fitou e correu até mim.
- Você vai embora? – Questionou tristonho com o rostinho contorcido em angústia. Agachei-me a fim de ficar da sua altura.
- Eu preciso ir. – Lamentei. – Mas eu voltarei! Eu voltei hoje, não voltei? – Perguntei e ele assentiu desanimado. – Então! Trate de colocar um sorriso nesse rostinho fofo. – Cutuquei a sua barriga e ele riu. – Dê-me o seu dedinho. – Pedi, fechando as mãos e só deixando o meu dedo mínimo à mostra. Archie observou a minha ação por alguns segundos e imitou meio torto. Entrelacei-os e olhei para o pequeno melancólico à minha frente. – Este é o nosso sinal da promessa, tudo bem? Se eu fiz isso, terei que retornar. – Ele pareceu gostar da ideia, visto que o seu semblante melhorou.
- Então ‘tá! Vou aprender uma brincadeira nova pra quando você voltar! – Disse com o seu ânimo habitual e eu concordei com a cabeça.
- Aprenda direitinho para me ensinar na próxima! – Descruzamos os dedos e eu me levantei. – Até mais, Archie. Lembre-se do nosso trato, ouviu?
- Sim, eu vou lembrar! – Exclamou eufórico. Sorri e acenei, tanto para ele, quanto para Trish, seguindo para a saída do orfanato. Expirei ainda mexida com a história de Archie e senti os olhos arderem. Droga, eu sabia que teria que ser forte para frequentar um abrigo, entretanto, não esperava ficar tão próxima de uma criança em tão pouco tempo como fiquei de Archie. Segurando o choro, caminhei para casa com um nó na garganta do qual me incomodou durante o caminho inteiro.

**

Cheguei à mansão e não me senti apta a conversar com ninguém. Dei um oi rápido para minha mãe, que, como de costume, trabalhava na cozinha dos , e rumei até a nossa casa absorta em pensamentos. Tomei um banho e coloquei uma roupa confortável, afinal, ainda teria que fazer o relatório da visitação do dia e desenvolver alguns tópicos do trabalho. Peguei meus materiais e sentei-me na área de casa, focada em fazer ao menos metade do que eu havia planejado.
Mal escrevi um parágrafo e a frase de Trish ecoou em minha mente mais uma vez.

“Talvez Archie sinta tanta falta dela, que a vê em você.”

Retirei o seu desenho da minha bolsa e as lágrimas das quais eu segurei no decorrer do dia caíram teimosas pelo meu rosto. Eu não fiz questão de reprimi-las. Elas escorriam ininterruptamente tendo a minha total permissão, como se o fato de tê-las omitido piorasse a intensidade do pranto silencioso. Analisei a ilustração, recordando-me de sua face orgulhosa ao terminar a sua arte. Bento brotou à minha frente e eu dei um sobressalto, levando a minha atenção ao Pastor Alemão sentado com o rabo balançando freneticamente. Vi que a faixa não se encontrava mais em sua pata e sorri para ele.
- Bom menino, recuperou-se direitinho! – Acariciei atrás de suas orelhas arqueadas. Um perfume extremamente conhecido invadiu o meu olfato e eu subi o olhar apenas para confirmar a veracidade de tal aroma característico. parou diante de mim e eu rapidamente procurei secar os resquícios de choro de minha feição que certamente entregava o meu pranto. Ele se aproximou e eu cortei o contato visual, focando no cão enrolado em minhas pernas. – O curativo foi retirado, que ótimo! Ele está bem? – Desembestei a falar, sem olhá-lo.
- Sim, tudo certo. E você, como está? – Devolveu a pergunta e eu suspirei, não sabendo se o fitava ou não. Resolvi fazê-lo, vendo o seu semblante sério me estudar curioso.
- Bem. – Falei e continuou a me estudar. Ele desviou o foco até o desenho de Archie e eu sorri. – Estou fazendo um trabalho num orfanato e ganhei de um garotinho. – Expliquei.
- Posso ver? – Pediu. Assenti e entreguei-lhe a cartolina.
- Hoje foi a minha segunda visita ao lugar, mas já fiquei muito próxima dele, que me deu esse presente. Ele só tem cinco anos, mas é tão esperto! Uma criança adorável. – Disparei sem me dar conta. devolveu-me o papel e eu mordi o lábio sem graça. – Desculpe, eu não tenho parada. – Ri e o homem negou com a cabeça, sorrindo fraco.
- É bacana te ver falando sobre algo que gosta. A cara de choro melhorou, inclusive. – Meu rosto esquentou e um lado da minha cabeça repetiu, de forma constante, um: “Levante-se daí e agarre este homem”. Não era o lado mais esperto da minha mente e muito provavelmente se tratava da parte do meu cérebro que me fez colocar rum no meu organismo até despejar tudo que eu havia dito para em seu apartamento. Acordei pra vida e concordei, embaraçada.
- Fiquei um pouco sensibilizada com a situação. O nome dele é Archie. – Comecei. – A instrutora me contou um pouco de sua história... Ele foi deixado no orfanato há dois anos e, de acordo com ela, a mãe dele possuía mais ou menos a minha idade quando o levou até lá.
- Como ela sabe? – questionou interessado e aquilo me fez sorrir por dentro. Era bom sentir que ele se importava com o que eu dizia.
- A mãe de Archie falou diretamente com a diretora. Ela prometeu que voltaria. – O homem assentiu em compreensão.
- Deve ser mais difícil dessa forma... Conviver com a mãe e de repente não tê-la mais por perto. – Comentou e eu concordei.
- Ela deve ter tido os próprios motivos, não cabe a mim julgá-la. Nem a ninguém, na verdade. Mas dá um aperto no peito, sabe? É um assunto tão delicado... – Expus, controlando as minhas emoções a fim de não deixar com que as lágrimas presas em meus olhos rolassem. agachou-se em minha frente e me fitou atento. Pisquei e uma gota teimosa rolou pela minha bochecha, sendo impedida de chegar até o fim do meu rosto no instante em que ele posicionou sua mão quente em minha face, limpando-a delicadamente com o seu polegar. Estarrecida, me mantive em meio ao nosso contato visual tomado pela ternura inigualável que nos cercava. Meu corpo todo tremeu em expectativa, enquanto o meu estômago parecia estar em festa tamanho o nervosismo a respeito da conduta de .
- Tenho certeza de que você fará um trabalho incrível. – Afirmou e os seus lábios curvaram-se minimamente em um sorriso terno, o que me fez sorrir também. Ele levantou-se e eu murchei.
Droga.
De longe, avistei minha mãe locomovendo-se em nossa direção. Ela franziu o cenho ao notar que eu não estava sozinha e eu me remexi, incomodada.
- Boa noite, . – Cumprimentou, me lançando um rápido olhar inquisitivo.
- Boa noite, . – Respondeu ele, sereno.
- Aconteceu algo? – Minha mãe indagou a nós dois. Neguei veemente, pretendendo não demonstrar o meu nervosismo.
- Não! Só estamos conversando. – Pronunciei e ela assentiu ressabiada. continuou em sua pose tranquila com as mãos nos bolsos da calça social.
- Certo... Vou entrar. Até amanhã, . – Disse para o homem, que acenou com a cabeça.
- Até, . Bom descanso. – Minha mãe sorriu e agradeceu, seguindo porta adentro. Um silêncio esquisito instalou-se e se virou para mim.
- Também já vou... – Anunciou e eu assenti. Ele tornou a chegar perto e eu prendi a respiração quando sua mão foi levada até a minha nuca e os seus lábios encostaram-se levemente em minha testa, permanecendo ali por alguns segundos. Fechei os olhos durante o feito e, mesmo não desejando, os abri ao senti-lo se distanciar. – Durma bem e boa aula amanhã. – Desejou, dando alguns passos para trás ainda me fitando.
- Obrigada... – Agradeci atônita. – Bom trabalho... Amanhã. – Ele lançou um sorriso ladino e fez sinal para que Bento o seguisse. O cão levantou-se e eu o acariciei antes de vê-lo andar pomposo até o dono, que virou-se, caminhando lado a lado com o Pastor Alemão.
Apanhei o meu material e entrei em casa, deixando tudo em cima da mesa.
Talvez ali eu conseguisse me concentrar melhor.
Minha mãe apareceu com uma toalha na cabeça e pegou um copo d’água, fixando os olhos avaliativos nos meus.
- Você e o conversam, filha? – Perguntou despretensiosa e a sua questão provocou uma expressão de dúvida em meu rosto.
- Sim... Digo, de vez em quando. Por que, dona ? – Indaguei. Ela levantou as mãos, fazendo graça.
- Por nada... Só achei estranho. – Comentou. Resolvi ficar calada. – Bom, vou me deitar.
- Tudo bem. A minha noite será um pouco atarefada. – Indiquei o meu caderno com o dedo e ela riu.
- Descanse, . Não adianta nada virar a noite estudando e estar morta no dia seguinte. – Advertiu afagando os meus cabelos. – Boa noite.
- Boa noite, mãe. Prometo que irei dormir! – Comuniquei, recebendo um olhar divertido ao passo em que ela sumia entre o corredor. Meu celular apitou e eu o apanhei, desconhecendo o número contido na tela. Abri a mensagem e franzi o cenho ao ver que se tratava de um número desconhecido e, principalmente, pelo conteúdo na mensagem.

“Só pra você saber: Eu ainda tenho o seu número.”

Desconfiada, respondi.

“Quem é?”

“Pelo jeito eu sou o único.”

“Quem é?” – Insisti já impaciente.

“Faça um esforço, gracinha.” – Revirei os olhos ao perceber que se tratava de .

Recoloquei o aparelho em cima da mesa e abri meu caderno, ignorando a mensagem. Minutos depois, ele apitou de novo.

“Suponho que você tenha adivinhado. Aparentemente eu estou por fora das novidades, devo dizer que fiquei mais do que surpreso em te ver no apartamento do .”

Bufei e a minha vontade foi de entrar pelo celular e esganá-lo, tamanha sua petulância. Respirei fundo e respondi.

“Felizmente o que eu faço não é da sua conta. Apague o meu número, você já deveria ter feito isso.”

Em questão de segundos veio a sua resposta.

“Não é da minha conta, mas já foi um dia. Boa noite, .”

Expirei aborrecida e deixei o aparelho de lado, recordando-me que, mesmo sendo indiferente para mim no momento atual, já me havia me feito feliz de alguma forma antes de se mostrar uma pessoa da qual eu possuía repulsa.

FLASHBACK.
Confortável, eu admirava a paisagem das ruas naquela noite amena. Desviei a atenção da janela e me fitou impassível, esticando um de seus braços livres para que ficássemos abraçados enquanto ele dirigia. Sorri e ajeitei-me ao seu lado, encostando minha cabeça em seu peitoral. depositou um beijo no topo da mesma e uma onda de serenidade fez com que o meu coração aquecesse diante daquele gesto, desse modo, permanecemos unidos e em silêncio pelo resto do caminho até o seu flat. Chegamos ao nosso destino e adentramos o local, onde eu imediatamente avistei o sofá do jeito que eu gostava, com travesseiros e cobertas em cima dele. Corri até lá e me joguei no estofado do móvel aconchegante com uma feição satisfeita, fazendo rir.
- O que você quer fazer hoje? – Indaguei a ele, que se deitou junto a mim, trazendo-me para o seu corpo.
- Quero ficar com você. – Respondeu olhando dentro dos meus olhos e eu enrubesci. Acariciei o seu rosto e sorri.
- Uau, como você está carinhoso hoje. – Brinquei. Ele rolou as órbitas mesmo com o sorriso perdurando em sua feição divertida.
- Eu sou carinhoso, gracinha. Apenas tenho os meus momentos. – Comentou e eu concordei irônica. – Eu quero ficar com você. – Reafirmou e eu parei de rir aos poucos, estudando a sua expressão séria. Tomei-o para mim com as duas mãos em cada lado de sua face e me aproximei totalmente, sentindo-o colar nossos corpos no ato. Encostei meu lábio no seu e ele o abriu vagarosamente, tocando a sua língua calmamente na minha em um breve beijo calmo, que foi transformado em um longo selinho. Abri meus olhos e a mesma serenidade me atingiu ao ver ainda com os olhos fechados e um singelo sorriso na boca antes ocupada pela minha. Ele me fitou e foi a minha vez de sorrir.
- Acho que eu também quero ficar com você. – Zombei e mordi o lábio ao senti-lo apertar a minha cintura e passar o nariz suavemente em meu pescoço.
- Acha? – Provocou mordiscando o lóbulo da minha orelha e eu tentei não vacilar.
- A-acho. – Falhei. Suspirando pesado quando ele colocou a mão por dentro da minha blusa.
- Hm... E o que eu faço para que você tenha certeza? – Perguntou em meu ouvido e o calor do qual me invadiu fez com que as minhas roupas me incomodassem. Passei uma perna por cima de seu corpo e fiquei em cima dele, que aprovou a minha ação com um sorriso malicioso.
- Tire essa camisa. – Praticamente ordenei, e a sua feição maliciosa intensificou-se.
- Ajude-me a tirar. – Pediu com uma seriedade hipnotizante. Mordi o lábio mais uma vez e toquei a barra de sua blusa, provocando-o durante o tempo em que subia a vestimenta e deixava com que os meus dedos percorressem a sua pele junto ao pedaço de pano, que rapidamente parou no chão, deixando a mostra toda a sua estrutura corporal. Sorri satisfeita ao vê-lo arrepiado. - Espera! – Falou sentando-se comigo ainda em seu colo e eu franzi o cenho, vendo-o se esticar até uma mesinha ao lado do sofá.
- Está um pouquinho cedo pra que você pegue a camisinha, não? – Questionei achando aquilo muito estranho e ele riu.
- Não é isso, engraçadinha. – Retornou à postura anterior e entregou-me uma chave. Encarei-o sem entender.
- É pra eu guardar em algum lugar? – Perguntei, fitando o objeto dourado em minhas mãos.
- Sim, com você. – Respondeu e eu o olhei confusa. – Estou te dando essa chave, . – Afirmou. Pisquei algumas vezes, estupefata em ouvir o que eu estava ouvindo.
- O quê... Por quê?! – Voltei a indagar, extremamente atônita.
- Caso você queira vir antes pra cá e eu esteja em alguma reunião. – Explicou, porém, eu não consegui esboçar reação alguma. Surpresa, somente continuei ali, quieta e com cara de idiota.
- , eu... É sério? – Pronunciei boquiaberta.
- Sim. – Respondeu ele, simplesmente. Finalmente me deixei sorrir de maneira genuína e o abracei pelo pescoço, depositando vários selinhos em seus lábios.
- Eu quero ficar com você. – Confessei o observando concisa. Ele me puxou pela nuca e chocou sua boca na minha comigo ainda em seu colo.
FIM DE FLASHBACK.

Ri sem humor pela lembrança indevida.
definitivamente sabia fingir muito bem.
Passei a observar as folhas em cima da mesa, pedindo aos deuses da concentração para me ajudarem a direcionar o meu foco às tarefas.

’s POV

Eu costumava pensar que possuía respostas para tudo. E, se não possuía, era questão de tempo até que eu as conseguisse.
Alguma vez você já olhou para os olhos de alguém e sentiu-se atordoado? Como se só a presença da pessoa fizesse com que tudo ao seu redor se tornasse mais leve? Embora tivesse passado um bom tempo com Cassie, nunca havia experienciado algo semelhante, e isso estava me deixando louco. Como racionalizar uma coisa que você sequer compreende? Como entender essa coisa se você ao menos sabe o que se passa consigo?
Ter em meu apartamento e ouvir o que ela me dissera, foi como uma enxurrada de incógnitas implantadas em minha mente, e, por mais que eu me esforçasse para simplesmente deixá-las de lado, estava mais do que nítido para mim quão mexido eu me encontrava a respeito da garota que bagunçou totalmente a minha cabeça como eu nunca imaginei que aconteceria. Senti-la tão perto naquela tarde posterior à festa só ressaltou o que eu já presumia: Algo nela me deixava em meio a um forte sentimento de plenitude e sair da inércia da qual a sua presença me colocava parecia impossível. Sua pele contra a minha fora capaz de transmitir tamanho calor que eu já não conseguia raciocinar, somente desejava tê-la mais perto e descobrir mais a respeito daquela sensação tão nova e ao mesmo tempo tão completa. Aquela mesma sensação de prazer gritante a cada centímetro do meu corpo que reagia ao seu toque, que não apresentava restrições diante da atmosfera abrasadora da qual nos encontrávamos.
Eu estava fodido.
Tão fodido e imerso naquele momento, que me esqueci completamente do combinado feito com . Se ele não tivesse aparecido a fim de buscar o equipamento emprestado por mim, e eu teríamos ido bem longe. Merda, como eu amaldiçoei o meu amigo por nos ter interrompido. E me amaldiçoei por ter liberado a sua entrada antes mesmo que ele chegasse.
Era mais do que óbvio que após o beijo tudo mudou entre nós. Eu, que cometi o engano de pensar que tal situação não significaria nada para mim, agora me pegava com a incessante necessidade de estar cada vez mais próximo de .
Ela, que sempre esteve ali, porém nunca se fez presente;
Ela, que sempre passou despercebida diante dos meus olhos;
A garota da qual eu não fazia questão de parar para observar com calma;
me encantou aos poucos e eu nem mesmo me dei conta disso.
Expirei transtornado e buzinei pela milésima vez, estressado com o trânsito infernal naquela manhã. A época de chuva havia chegado e trouxe com ela a maior necessidade das pessoas em retirar os automóveis da garagem, afinal, o conforto do próprio carro era melhor do que se aventurar no aguaceiro que caía na rua. Aproveitando a falta de movimento, apanhei meu celular e disquei os números do encarregado por cuidar dos seguranças dos quais contratei sem que absolutamente ninguém – exceto Otto – soubesse.
- Raziel Shafer? – Indaguei ao ouvir o ruído da ligação sendo atendida.
- Sim. Estava esperando a sua ligação, . Já selecionei os meus melhores homens e dei-lhes as instruções passadas por você.
- Ótimo. Sigilo total é prioridade para mim, então, por favor, que nada saia daqui, entendido? – Pedi firme.
- Sigilo é o que prevalece em meu trabalho. – Rebateu determinado. – Já mandei três seguranças à paisana até a rua onde Otto Zucker mora, dois estarão próximos ao escritório e mais dois ficarão junto aos seus pais. Mando mais alguém até você?
- Não. Por ora, é somente o que eu preciso. Obrigado, Raziel. – Falei, aliviado por constatar que os veículos começavam a andar.
- Precisando de algo, é só me contatar. – A chamada foi finalizada e eu segui até a casa de Otto, onde averiguaríamos algumas fotografias da noite do crime.

Estacionei o carro na esquina da casa de Otto e toquei a sineta, aguardando-o surgir por entre as grades de entrada. Ele olhou curioso para a avenida e subimos até o seu apartamento em silêncio, adentrando o local sem proferirmos uma palavra sequer por questão de prevenção.
- Bom dia, . Obrigado por vir. – Cumprimentamo-nos com um aperto de mãos e ele apontou para o sofá. Sentei-me ali e avistei o seu notebook aberto em cima de uma pequena mesinha de centro, junto a uma câmera e alguns materiais fotográficos.
- Bom dia. Desculpe-me pelo atraso, o trânsito estava um caos. – Disse e ele negou com a cabeça, sentando-se ao meu lado.
- Época de chuva é complicada. Antes de começarmos, me sane uma dúvida... – Começou e eu o encarei, esperando-o prosseguir. – Os seguranças já estão cientes do que terão que fazer? Já foram comunicados?
- Sim, eles estarão pela sua rua e sabem o que é preciso saber para executar o trabalho requerido. – Falei e Otto assentiu. – Mas isso não muda o fato de que você precisa se cuidar. O alerta continua: Evite sair de casa em horários onde o movimento de pessoas seja fraco.
- Certo... Recebeu mais alguma ligação? – Questionou cismado e eu neguei.
- Vamos ao que interessa. O que temos aqui? – Perguntei, fitando a imagem a minha frente.
- Bom, por algum motivo, estão faltando algumas fotos em meu cartão de memória. Levará um tempo até que eu as recupere, portanto, não teremos muita coisa por agora. – Explicou. Suspirei e o ouvi continuar. – Separei as fotografias em que o seu cliente aparece, e são muitas.
- Ótimo. Podemos ligar o horário das fotos tiradas com a hora em que o assassinato ocorreu. – Averiguei atento a todos os detalhes do retrato. – Se conseguirmos uma imagem que comprove a presença de Lee Feldmann no momento em que o crime foi cometido, ele terá um álibi. – Refleti disposto.
- E será um suspeito a menos. – Otto completou.
- O juiz ainda não recebeu o laudo pericial, então terei que entrar em contato com o instituto responsável e cobrar um posicionamento. – Manifestei, iniciando a anotação das horas em que o meu cliente encontrava-se nas fotos a fim de comparar posteriormente.
- Tendo o laudo em mãos, várias questões podem ser esclarecida, certo? – O homem perguntou esperançoso e eu assenti.
- Sem ele eu não posso fazer muita coisa, mas creio que demos um grande passo, ainda que essas imagens não mostrem nada demais, apenas várias pessoas em uma festa. – Concluí analisando cada convidado. – Carl Deiner nutria laços com o seu padrinho? – Questionei ao ver uma foto em que Mason Zumack, Lee Feldmann e Carl Deiner posavam juntos. Carl era um grande e respeitado empresário do setor de tecnologia, tendo inclusive participado de algumas festas em minha casa.
- Sim. Os três costumavam ser bem próximos, na realidade. – Otto explicou e eu assenti vagarosamente. Teria que confrontar o meu cliente a respeito da informação recém adquirida e que me fora ocultada. – Ele é uma ótima pessoa, certamente deseja tanto a resolução deste caso quanto eu. – Consolidou com apreço e eu nada disse, embora possuísse uma boa impressão de Carl, que sempre fora um homem íntegro.
- Bom, já acabamos por hoje. – Aleguei, guardando as anotações em minha pasta. – Caso os dados de seu cartão de memória fiquem disponíveis, me ligue.
- Com certeza o farei. Obrigado novamente, Doutor . – Falou, apertando as minhas mãos em despedida.
- Não agradeça. Qualquer eventualidade, falo com você. Até mais, Otto. – Despedi-me, indo em direção às escadas.
Saí de seu apartamento e, mesmo não desejando, uma onda de receio me atingiu enquanto adentrava o meu carro. Não dava para saber a que momento a próxima ligação viria, e eu detinha consciência de que ela viria, cedo ou tarde. Retirei o meu celular do bolso com o intuito de marcar um encontro com o senhor Feldmann, que não demorou em atender a minha chamada.
- Bom dia, . Como vai? – Saudou ao aceitar a ligação.
- Bom dia. Vou bem, obrigado. E o senhor? – Devolvi a pergunta, ajeitando o espelho a fim de que eu pudesse ter uma boa visão da parte traseira do meu automóvel.
- Tudo certo, na medida do possível. Alguma novidade?
- Na verdade, eu gostaria de marcar um encontro para manhã. Apareceram alguns tópicos a serem discutidos.
- Oh, claro. Estou disponível agora, caso queira. – Consentiu solícito.
- Seria perfeito. Chego aí em meia hora, tudo bem?
- Sim, está marcado. Deixarei os seguranças avisados.
- Certo. Obrigado, senhor Feldmann. Nos vemos daqui a pouco. – Expus e o homem despediu-se, terminando o telefonema. Dirigi-me em direção a sua casa com a cabeça repleta de pensamentos e questionamentos, enquanto tentava achar uma relação entre as fotos e os horários em que elas foram tiradas.
Identifiquei-me na portaria do condomínio e estacionei na garagem da casa do meu cliente, cumprimentando os seguranças com um aceno de cabeça. Adentrei o mesmo escritório do qual ele sempre me recebia e o avistei ali sentado, já me aguardando.
- Bom dia, doutor . Sente-se, por favor. Gostaria de alguma coisa para beber? – Perguntou atencioso e eu recusei, educado. – Algo sério aconteceu? – Questionou sentando-se à minha frente.
- Não, está tudo encaminhando. Eu gostaria de tirar algumas dúvidas com o senhor, na verdade. – Expus impassível.
- Sem problemas, pode dizer. – Incentivou-me e eu prossegui.
- O senhor conhece Otto Zucker? – Indaguei direto.
- Conheço, claro! Mason era padrinho dele, um ótimo rapaz. Por que a pergunta?
- Bom, ele me procurou e pediu para que eu o permitisse me ajudar com possíveis evidências do caso. O senhor provavelmente sabe que Otto era o fotógrafo da festa, desse modo, ele possuía algumas fotos da noite do homicídio e eu as vi hoje mais cedo, inclusive vi uma imagem da qual Mason, você e Carl Deiner posavam juntos. Otto me contou que vocês eram muito próximos, eu deveria saber dessa informação. – Disse e a feição do homem se contorceu em culpa.
- Eu não fazia ideia de que isso era relevante, doutor . Mil perdões! – Desculpou-se aturdido e eu neguei, pedindo-lhe calma.
- Não se preocupe. O senhor precisa falar absolutamente tudo para mim, tudo bem? – É de extrema importância que eu esteja ciente até do que lhe parece insignificante. – Falei e ele assentiu.
- Nós três éramos bem próximos, Carl está arrasado com isso. Perdeu um amigo e o outro, por acaso, foi acusado de matá-lo. – Alegou cheio de pesar. – Eu encontrei o corpo do Mason, tem noção?! – Perguntou lastimoso e eu permaneci o encarando com seriedade.
- Eu imagino que seja difícil, e é por isso que estou aqui. Assim que o laudo ficar pronto, o analisarei e irei comparar o horário das fotografias com a hora do assassinato. Caso houver uma imagem em que o senhor esteja presente no instante em que o crime ocorreu, terá um álibi e será absolvido. – Informei e o meu cliente, por fim, demonstrou um sinal de alívio.
- Espero que dê tudo certo. – Senhor Feldmann expressou notavelmente cansado.
- Eu também. – Manifestei. – Estou trabalhando em sua tese de negativa de autoria*, não hesite em me comunicar caso disponha de alguma informação, certo? – Indaguei e o homem balançou a cabeça, de acordo.
- Seja sincero... Levando em conta o que temos até agora, quais são as minhas chances de absolvição?
- Não posso lhe afirmar, não gosto de trabalhar com hipóteses. Apenas saiba que eu estou cem por cento neste caso e estou fazendo tudo o que é do meu alcance para que o senhor seja absolvido. Nenhum cliente meu foi ou será acusado injustamente. – Declamei convicto. – Era somente isso que eu gostaria de esclarecer. Obrigado por me receber. – Levantei-me e apertei a sua mão em despedida.
- Eu que agradeço, doutor . Você é um pouco mais velho do que o meu neto e já me passa tamanha confiança, é admirável. – Mencionou carismático e eu sorri em agradecimento.
- Fico feliz que tenha essa impressão sobre mim, é uma honra. Até mais, senhor Feldmann. – Despedi-me, rumando até a saída de sua casa. Entrei em meu carro e respirei fundo. O dia mal havia começado e a minha mente já trabalhava em alto grau. Passei as mãos no rosto e dei partida no veículo, dirigindo até o escritório durante o tempo em que eu produzia um lembrete cerebral sobre as tarefas e casos a serem cuidados assim que eu chegasse ao meu destino.

**

Exausto não caberia para explicar quão cansado eu me encontrava.
Encostado na parede do elevador, eu afrouxei a minha gravata que parecia me enforcar àquela altura da noite. Senti meu celular vibrar e o retirei do meu bolso com a merda da sensação de receio que sempre me rodeava ao ouvir o aparelho tocar, contudo, respirei despreocupado ao ver uma nova mensagem de .

“E ai, grande ?! Passa aqui em casa para buscar o bridge e tomar um whisky.”

Eu definitivamente estava precisando de um happy hour.

“Beleza, cara. Estou a caminho.”

Guardei-o de volta em minha calça e me direcionei até a casa do meu amigo, desejando somente relaxar um pouco.

- E não é que ele veio mesmo?! – zombou assim que abriu a porta de seu loft e deu passagem para que eu entrasse. Entregou-me um copo com o líquido já inserido nele e nos cumprimentamos com um meio abraço.
- Gostei da recepção. – Rebati erguendo o objeto de vidro.
- Eu não brinco em serviço, meu caro. – Respondeu rindo. – Saiu do escritório agora?
- Sim. Estou morto. – Falei, sentando-me em uma poltrona localizada em sua sala. – O bridge funcionou na reunião?
- Funcionou, ajudou bastante. Valeu. – Agradeceu e eu neguei com a cabeça. – Um acionista do exterior vendeu um lote de ações e a empresa comprou.
- Bacana, cara. Deve ter sido um puta negócio. – Disse, sentindo o corpo relaxar ao engolir o álcool, que desceu abrasando a minha garganta.
- Foi. A minha conta bancária agradeceu veemente. – Gracejou envaidecido e eu ri fraco.
- Quem diria que aquele pirralho irritante seria um homem de negócios... – Brinquei e recebi um dedo do meio do meu amigo.
- Nós sempre possuímos uma boa lábia. Você foi para o Direito, e eu, para as transações comerciais. – pontuou imodesto e eu tive que compactuar com a sua fala. – Cara, a toda hora passa na TV sobre aquele caso pesado no qual você está trabalhando... Como andam as coisas? – perguntou meticuloso. Passei a mão pelos cabelos e suspirei, sem a mínima vontade de tocar nessa questão.

- Ah, aquilo que você viu... Nada resolvido. É bem complexo.
- Caso o seu cliente seja absolvido, a sua carreira vai decolar. O nome da sua família irá aos céus, vocês serão os deuses da advocacia! – Afirmou empolgado e eu me limitei a assentir.
- Vai começar o jogo dos Knicks*, liga aí. – Mudei o rumo do diálogo para o jogo de basquete que estava prestes a se iniciar. colocou no canal de esportes e demos princípio aos comentários a respeito do sistema tático de ambos os times, bem como fazíamos desde adolescentes.

**

- (...) O Irving* pode até ir para o Knicks, mas só pelo Melo* não rola. Vão ter que achar outro time ou envolver o Porzingis*. – Comentei no final do jogo.
- O Knicks não está disposto a vender o Porzingis, mas a troca pode implicar um terceiro time. – argumentou e eu concordei. – O Warriors consegue parar o Knicks nessa temporada?
- Eu acho que não.
- É, estou com você, amigo. – falou, desligando a televisão. – Então... Eu achei que você estava com a Betsy no aniversário do Adrian. – Avaliou indiferente.
- Sim, estava. Mas a estava meio mal e eu...
– E você resolveu levá-la para o seu apartamento? – Meu amigo me interrompeu debochado e eu arqueei uma sobrancelha, desaprovando totalmente a sua intromissão.
- Não com essa intenção. A garota estava bêbada, . Não viaja. – Ralhei e ele riu sarcástico.
- E no dia seguinte ela também estava? – Tornou a questionar. Respirei fundo e neguei, não gostando de sua intervenção no que não lhe dizia respeito.
- Cara, na boa, esquece isso. – Pedi, tentando me manter paciente. Ainda assim, perseverou.
- Esquecer? Ora, o todo poderoso está pegando a filha da cozinheira e não vai contar para o melhor amigo? – Queixou-se sarcástico e a minha boa vontade em continuar calmo se dissipou. O encarei mal-humorado, não gostando nem um pouco do jeito como ele se referiu à .
- Eu já disse que não lhe devo satisfações e ela tem nome, assim como a mãe. – Repreendi irritado e isso pareceu estimular mais o meu amigo, que riu desdenhoso.
- Uau, já está defendendo a sua protegida? Parece que eu perdi muita coisa... – Zombou e eu senti o meu maxilar enrijecer através da cólera da qual começava a me deixar mais enraivecido.
- , qual é a porra do seu problema com a ? – Indaguei entredentes. Ele estendeu as mãos, eximindo-se da culpa.
- Problema algum, apenas estou chateado por você me esconder uma coisa tão surpreendente como essa. Você tem a mulher que quiser, vai mesmo perder tempo com uma ninguém? – E aquela foi a gota d’água. Cheguei perto de e o encarei furioso, cravando a minha expressão imutável na sua.
- Eu vou deixar uma coisa bem clara... Não é porque somos amigos, que você pode falar e fazer o que quiser, ouviu? Controle o seu temperamento e não ouse desprezá-la. – Adverti, ouvindo-o assoviar surpreso.
- Se eu fosse você, não colocaria a mão fogo... – Informou e eu franzi o cenho.
- Sobre o que está falando especificamente?
- Como você disse... Não é da minha conta. Estou apenas te dando um toque, é o meu papel de amigo. – Deu de ombros desinteressado, contudo, eu prossegui querendo compreender.
- , por que você muda completamente quando o assunto é a ? Cara, de verdade, que implicância é essa? – Perguntei e o notei rir cínico.
- Fala sério, . Você acha que eu vou me preocupar com o que aquela garota faz? Leve-a para o seu apartamento e fodam à vontade. – Terminou e deu às costas, guardando a garrafa de whisky junto às outras bebidas.
- Ei, vai com calma aí. Não sei a razão da sua atitude, mas pega leve. – Recriminei. virou-se e eu estranhei a feição mal humorada em seu rosto.
- Perdão por mencionar a sua queridinha, . – Disse em um tom extremamente ácido. – Divirta-se, eu não tenho nada com isso. – Expirei sem paciência alguma e assenti.
- Exatamente. E você não deve se meter ou ironizar nada, muito menos dar permissão. Estou indo nessa, valeu pelo convite. – Avisei, saindo porta afora. respondeu um “até” e eu caminhei até o elevador ainda não entendendo o comportamento anormal dele. Comportamento esse do qual eu desconhecia a origem.
Eu não me recordava ao certo quando ele passou a se portar tal como um adolescente arrogante, entretanto, sabia que a sua postura irritante diante de já perdurava há algum tempo, mesmo não sendo sempre assim até uns anos atrás. O meu sangue simplesmente subia ao vê-lo referir-se a ela com tamanho menosprezo, e eu torcia para que a minha benevolência não desaparecesse, pois, caso isso ocorresse, as coisas não ficariam boas entre mim e o meu amigo.
Já a caminho de casa, deixei com que o meu foco se direcionasse plenamente nas ruas desprovidas de pessoas, ligando o meu sinal de alerta para qualquer movimento suspeito que pudesse se suceder por ali.
O que, felizmente, não houve.
Cheguei ao meu destino e tomei um banho revigorante, me jogando em minha cama sem demora.

**

Aquela quarta-feira estava tranquila comparada aos dias cheios dos quais eu geralmente possuía. Respondi alguns e-mails – entre eles, um convite para dar uma palestra em minha antiga faculdade na semana seguinte – e havia passado o resto da manhã elaborando relatórios após uma breve conversa com o juiz responsável pelo caso Zummack, onde pedi um parecer a respeito do laudo pericial. Lamentavelmente, o prazo fixado por ele ainda demoraria a chegar, o que significava que, por ora, eu me manteria sem muito que analisar.
Naquele momento, me encontrava no final de uma audiência de conciliação* em consequência de um acidente de trânsito, ouvindo atentamente as palavras proferidas pelo conciliador depois da assinatura dos papeis, afirmando o acordo entre Lexie – minha cliente – e o homem envolvido na causa.
- A vigência* dessa conciliação começa a partir de quando? – Fui questionado por Lexie.
- A partir do momento em que o juiz homologar*. – Expliquei e ela assentiu.
- Os senhores estão em plena concordância em razão das decisões tomadas neste acordo? – O conciliador indagou para ambos, que afirmaram. – Agradeço por terem participado da audiência, dou este caso como finalizado. – Ele encerrou e concluímos o feito com um aperto de mãos, retirando-nos da sala localizada no fórum.
- Muito obrigada pelo serviço prestado, Doutor . – Lexie pronunciou.
- Não tem o que agradecer, é o meu trabalho. Qualquer dúvida me contate. – Respondi solícito e ela sorriu, concordando. Despedi-me e deixei o local, logo sendo impactado pelo vento gélido do fim da tarde.
Afrouxei a gravata ao adentrar o meu carro e permiti que o meu corpo e mente descansasse por alguns minutos no âmbito de paz do veículo, agradecendo pelo fim do expediente. Dirigi o caminho inteiro no mais profundo silêncio, desejando somente aproveitá-lo sem que nada me atrapalhasse até chegar em casa. Estacionei na garagem e saí dali, caminhando despreocupadamente até o jardim enquanto retirava um maço de cigarros do bolso da calça.
- ! – Ouvi a voz de Cícero soar atrás de mim e me virei.
- Oi, Cícero. Precisa de algo? – Perguntei ao senhor, que sorriu e negou.
- Não, está tudo bem. A sua mãe pediu para que você fosse até a área externa. – Informou e eu assenti.
- Obrigado por me avisar. Mais alguma coisa?
- Somente isso. – Falou simpático. Acenei com a cabeça e me direcionei até o lugar que me fora dito, encontrando a minha mãe saindo de lá.
- Ah, que bom que você chegou, filho. Já estava com a pretensão de te procurar, mas vejo que Cícero lhe passou o meu recado. – Disse, aproximando-se de mim.
- Sim, acabei de me encontrar com ele. O que houve? – Questionei, notando o seu bom humor.
- Você tem uma visita. – Anunciou e eu franzi o cenho, afinal, não estava esperando ninguém.
- Visita? De quem se trata?
- Acho melhor que você mesmo veja. Estarei no meu escritório. – Depositou um afago em meus ombros e se retirou. Caminhei até a área e imediatamente compreendi a felicidade da mulher que acabara de afastar-se. Cassie encontrava-se sentada ali, observando tranquilamente a extensão do quintal. Percebendo a minha presença, ela se levantou, me encarando com um sorriso pacato enquanto eu andava até ela, não compreendendo a sua motivação em vir até a minha moradia.
- Oi. – Cassie imitiu, quebrando o silêncio entre nós.
- Oi. Como vai, Cass? – Indaguei, parando ao seu lado.
- Bem... Ando um pouco ocupada na redação. E você, como está?
- Um pouco ocupado no escritório, mas bem. – Proferi, assemelhando às respostas. – Qual o motivo da visita?
- A sua mãe me ligou e pediu para que eu viesse até aqui a fim de buscar um presente que ela comprou para mim. – Comunicou e eu balancei a cabeça vagarosamente, murmurando um “hm”. – Aproveitei e fiquei mais um pouco para te ver. – A olhei e passei a mão nos cabelos, não obtendo uma argumentação imediata para formular diante do que me fora dito. Percebendo a minha falta de palavras, ela mudou de assunto. – Estou produzindo uma matéria sobre orfanatos na cidade, perdi as contas de quantas vezes quis te ligar para contar... No começo eu odiei, mas estou levando como crescimento pessoal, sabe? – Eu apenas a observava durante o seu discurso, ouvindo-a prosseguir. – Confesso que é um choque de realidade. – Declarou e eu, no mesmo instante, me lembrei de , que estava executando um trabalho com o mesmo tema.
- Fico feliz, de verdade. Você é uma ótima jornalista e tem uma bela carreira pela frente. – Expressei, realmente contente por Cassie entrar em contato com uma realidade diferente da dela.
- Não nos vemos desde o dia em que eu fui ao seu apartamento... É como se fizesse anos. – Comentou, me fitando intensamente.
- Não temos motivo para nos vermos sempre, não é? – Tentei soar agradável, visto que não possuía intenção em ser seco, porém, precisava deixar claro de que não tínhamos mais nada um com o outro, tampouco a possibilidade de reatar. Cassie chegou mais perto e eu arqueei uma sobrancelha pela sua ação.
- Você não sente a minha falta? – Indagou concisa e eu suspirei, negando.
- O nosso relacionamento se desgastou, não era certo insistir em algo fadado ao fracasso. – Expliquei, vendo-a permanecer me encarando inexpressiva.
- Você sente a minha falta ou não, ? – Tornou a perguntar. Esfreguei a têmpora e, mais uma vez, fiz um sinal de negativo com a cabeça.
- Não dessa forma.
- Quando foi que ficar comigo se tornou tão ruim? – Interrogou sentida. Expirei e fixei minha atenção em seu rosto magoado.
- A questão não é essa. Você sabe que a nossa convivência já não era mais a mesma há um bom tempo e o nosso namoro virou um relacionamento de aparências. – Expus com a calma que a situação pedia, a fim de evitar que a conversa seguisse um rumo hostil.
- Eu posso não te amar, mas isso não impede de querer ficar com você. Pelo jeito as nossas vontades não coincidem, não é mesmo? – Cassie rebateu ressentida.
- Elas não coincidiam há um tempo, Cass. – Acariciei o seu cabelo e ela assentiu.
- Só mais uma coisa... – Ela disse, e, sem que eu pudesse raciocinar, a senti acabar com o espaço entre nós, levando a sua mão até o meu rosto e colando os seus lábios nos meus em um selinho demorado, que viria a se tornar um beijo, caso eu não tivesse a afastado delicadamente, deixando-a notavelmente frustrada. Sem pretensão alguma, olhei para o lado e me surpreendi ao ver parada mais à frente, com as mãos lotadas de livros e a habitual bolsa grande em seus ombros, olhando diretamente para mim. Percebendo que eu havia reparado que ela se encontrava ali, ela desviou a atenção rapidamente e locomoveu-se em passos ágeis até a sua casa, entrando sem demora e me deixando com uma inusitada sensação ruim. Retomei o meu foco à Cassie, que me fitava desconcertada. Respirei fundo e iniciei o meu diálogo.
- Cass... Eu tenho um carinho enorme por você e grande consideração pelo que já passamos juntos, mas apenas isso. Não dá mais, tudo bem? Acabou. – Frisei convicto e ela finalmente se afastou, ainda que contrariada.
- Certo... Eu entendi, . Foi a minha última tentativa, você me conhece e sabe que eu não sou de insistir.
- Sim, e estou de acordo com isso. – Aprovei a sua frase e Cassie assentiu, virando-se para pegar uma caixa mediana de cima da pequena mesa localizada atrás dela.
- Até mais e boa noite. – Despediu-se forçando um sorriso e saiu da área externa, sumindo do meu campo de visão.
Passei as mãos no rosto e bufei, cansado. Sentei-me em uma das poltronas que ali ficavam e eu acendi um cigarro, tragando-o como se o ato tivesse a capacidade de fazer sumir a tal sensação esquisita.
Permaneci mirando o nada por não sei quanto tempo, contudo, despertei ao ver sair com um saco preto em mãos, o deixando dentro do compartimento fixado à parte mais afastada da casa. De longe, enxerguei Bento correr até ela, que se abaixou para brincar com o cão saltitante. O Pastor Alemão ergueu a cabeça e detectou a minha presença mais afastada, iniciando uma onda de latidos enérgicos que obrigou a seguir o som agudo à procura do que o deixava tão agitado, logo me alcançando com o seu olhar.
Ao contrário do que lhe era usual, a garota não sorriu ou acenou. Ela simplesmente voltou a prestar atenção no Bento como se nem houvesse me visto, me ignorando prontamente. Tal atitude não era normal, o que me motivou a levantar-me e rumar ao lugar em que e o meu cachorro se encontravam. Agachei-me ao me aproximar de ambos e o Pastor Alemão deitou-se de barriga para cima, pedindo carinho naquela região. Ouvi um risinho provindo da garota ao meu lado, contudo, ela não falou comigo ou sequer me olhou.
- Tudo bem? – Perguntei a ela, que estava focada na barriga de um Bento esticado no gramado.
- Tudo. – Restringiu a sua fala àquela palavra, proferida de forma seca. Ergui uma sobrancelha, fitando-a mesmo que não fosse correspondido, afinal, o seu cabelo cobria a lateral de seu rosto, impossibilitando que eu vislumbrasse uma possível feição de mal humor. ergueu-se e fez menção de deslocar-se dali, porém, levantei-me de imediato e a alcancei antes que ela se afastasse. Toquei suavemente em seu pulso e ela se virou inexpressiva. Aqueles olhos gélidos que transpassaram das minhas mãos até a minha face não lhe eram característicos. – O que você tem? – Interroguei sem rodeios. A garota afastou a mão que era levemente tocada pelos meus dedos e eu tive certeza de que algo não estava certo.
- Nada. Estou apenas indo pra casa. – Respondeu como se fosse algo banal e eu neguei.
- Acho que eu já vi o bastante de você e posso me dar ao luxo de dizer que esse não é o seu normal. – Rebati sério e sustentou a minha expressão.
- Talvez você não tenha visto o suficiente, . As pessoas têm dias em que não desejam falar com ninguém, sabia? – Falou ácida e eu cerrei os olhos.
- Mas isso não significa que você precisa me tratar como se não me conhecesse. – Declarei injuriado. – Qual é o problema?
Silêncio.
pareceu ponderar por alguns instantes, então, sua feição fria converteu-se em algo bem próximo ao pesar.
- Nós ultrapassamos drasticamente alguns limites, não é? Eu não acho que isso seja certo. Devíamos manter distância. – Revelou impremeditável, me pegando de surpresa. Uma merda de pressão estranha assolou o meu peito.
Eu definitivamente possuía consciência sobre o que ela se referia.
Fixei os meus olhos analíticos nos seus, procurando algum vestígio de hesitação em sua decisão repentina, todavia, só me deparei com o vazio.
- Como assim, ? – Questionei atordoado. Ela desviou os olhos para baixo e por milésimos de segundos notei a sua postura defensiva vacilar, retornando velozmente em seguida. Tornou a me encarar e riu sem humor.
- Você é filho dos patrões da minha mãe e tem uma relação estranha com a... – Fez uma pausa, averiguando o que ia falar – Sua ex namorada, ou sei lá o que vocês são. – Franzi o cenho devido às suas palavras, entretanto, sabia que o que dissera era fruto do que ela certamente havia visto mais cedo. – Nós sempre fomos distantes, mas eu gost... – Ela pareceu refrear o que ia dizer. Balançou a cabeça em negação e deixou a frase morrer.
- Mas você...? – Encorajei confuso e o seu rosto ruborizou. – ... – Tentei esclarecer o acontecimento com Cassie, no entanto, fui interrompido.
- Olha... Entrar em um relacionamento não foi algo que aconteceu da noite para o dia, e sair dele dará trabalho, pode acreditar que eu compreendo. Eu só não vou ficar no meio disso, tudo bem? Sempre que nós estamos perto um do outro, eu sinto como se... Como se uma coisa fora do comum não nos permitisse agir apenas como amigos. – Confessou relutante. Eu concordava com ela nesse aspecto. – Todo mundo precisa de um tempo para processar os fatos e entender direito o que aconteceu pelo término do namoro, com você não é diferente. – Ela disparava quase sem respirar, gesticulando energicamente. Eu somente a ouvia querendo lhe dizer mil coisas, porém, não conseguia proferir uma palavra sequer. – Nós confundimos as coisas. – Concluiu me observando intensamente. Assenti devagar, sentindo uma porra de solavanco estranho no estômago.
- Você formulou uma justificativa bem rápida, não é? Nós fizemos paredes de vidro e aparentemente elas estão sendo quebradas. – Articulei cínico.
- Somos de mundos diferentes, . – alegou sentida e eu ri nervoso. Nervoso por não compreender o motivo de me importar com o a garota falava; nervoso por não saber quando foi que nos colocamos naquela situação; nervoso por estar nervoso.
- Porra, ! – Bradei e passei as mãos nos cabelos. – E daí?! As nossas diferenças comandam as nossas vidas? Não podemos ser próximos por causa delas? Aliás... Não faça parecer que eu tenho culpa por isso!
- NÃO QUERO FAZER COM QUE VOCÊ SE SINTA CULPADO! – Ela alterou o tom de voz e eu me surpreendi ao vê-la assim pela primeira vez. – Mas... Não é assim que as coisas funcionam. – Proferiu com a entoação normal em meio a um riso bucólico e eu concordei, já sem paciência.
- É isso que você acha? – Indaguei, estudando todo o seu rosto tomado por uma tristeza que me fazia querer mandar para o inferno tudo o que fora dito e confrontá-la a respeito de sua conduta inesperada. – também me avaliava, aparentando considerar, contudo, assentiu. – Ótimo. Acho que estamos entendidos. – Afastei-me um pouco, notando as orbes da garota ganharem uma coloração avermelhada.
Caralho, o que diabos estava acontecendo comigo? Conosco?
Continuei sem me mover, assistindo a garota dar às costas e marchar sentido à sua casa. A ventania violenta indicava que um temporal se aproximava, trazendo consigo a queda da temperatura da qual mal havia subido. Olhei para baixo e Bento encontrava-se sentado com as orelhas baixas, de maneira que parecia compreender o que havia se sucedido.
- Vem, garoto. Vamos entrar. – Chamei o cão, que me seguiu.
Se achava que seria melhor que nos afastássemos, assim o faríamos.

**

’s POV

Decepção: s.f. Sentimento de desgosto, de mágoa ou de desalento; sensação de tristeza; circunstância emocional de melancolia; ausência de alegria.

Arrependimento: s.m. Lamentar-se por comportamentos, atitudes ou decisões já tomadas.

Eu era uma mistura de ambos.
Não era justo que eu me sentisse desse jeito, certo? Eu fiz o melhor para mim, não fiz? No momento em que vi junto à Cassie naquela noite, o meu coração pareceu diminuir progressivamente a cada bombeada que ele exercia, onde o aperto no peito só não foi maior do que a sensação horrível de decepção. Decepção comigo por ter sido avisada e, mesmo assim, ter acreditado que, talvez, existia uma possibilidade de ser correspondida de alguma forma; Decepção em sentir que eu fui somente uma distração para nos momentos em que o nosso contato se intensificou e, a pior decepção de todas: A que gritava na minha cara que esse meu surto não tinha fundamento nenhum, afinal de contas, nós não éramos nada. Nunca fomos. Por essa razão, decidi que ficar longe seria o melhor a ser feito. É o que eu costumo achar de “revés temporário para uma melhoria a longo prazo”. Afastar-se dele será doloroso e uma tarefa árdua, porém, consistirá em um ato de cuidado pelo meu bem-estar. Dizem que afeição é presença na ausência, e eu era a prova viva de que tal frase era verídica, pois nenhuma pessoa experimentava isso mais do que eu.
O meu arrependimento se dava pelo fato de não ter conseguido me abrir com relação aos meus sentimentos na hora em que eu obtive a chance. E, droga, eu cheguei perto de deixar escapar. Guardar aquilo comigo estava me sufocando e eu já não sabia até quando eu seria capaz de deixar tudo armazenado dentro de mim.
Os dias que se seguiram se resumiram à rotina de sempre, exceto pelo estágio da grade curricular, do qual só voltaríamos a ter na quinta-feira. Com isso, o que me restou foi a faculdade e o trabalho na Retrô Record’s, onde eu passei a ir durante o tempo em que teria às tardes “livres”. Vicenzo havia conseguido me animar e arrancar várias risadas durante o dia, o que foi ótimo. A visita no orfanato fora remarcada para a semana seguinte e Magnólia não entrou em detalhes, o que me deixou em uma agonia tremenda pela saudade de Archie, haja vista que eu prometi que não demoraria a voltar.
Devo salientar que sim, topei com algumas vezes, e eu preferia ficar sem vê-lo a captar a tensão e a indiferença que permearam o ambiente, uma vez que fora como na época em que o nosso convívio era inexistente. “Bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e “oi”, todos regados de apatia acompanhados de trocas de olhares discretas e frias.
Queria dizer que a minha segunda-feira estava excepcional e que o sol raiava no céu límpido, entretanto, nada disso seria verdade. A escuridão impedia que qualquer resquício de claridade surgisse em meio às nuvens carregadas, onde o vendaval impetuoso produzia estrondos amedrontadores unidos ao uivo da brava ventania. Ao que tudo indicava, a época de chuva seria intensa. Na sala de aula, eu me dedicava em responder o questionário preparatório para a prova de segunda-feira seguinte, invejando , que não deu o ar da graça na faculdade. Decerto a minha amiga encontrava-se em sua cama quentinha aproveitando a temperatura por um triz de tornar-se negativa.
Tudo bem, . Foco na prova de ética.

Leia as afirmativas e assinale a sequência correta.

Art. 7° - O psicólogo poderá intervir na prestação de serviços psicológicos que estejam sendo efetuados por outro profissional, nas seguintes situações:

A-) A pedido do profissional responsável pelo serviço; X
Hm... Não.

B-) Em caso de emergência ou risco ao beneficiário ou usuário do serviço, quando dará imediata ciência profissional; V
Corretíssimo.

C-) Quando informado por qualquer das partes, da interrupção voluntária e definitiva do serviço; X
Não...

D-) Quando se tratar de um trabalho multiprofissional e a intervenção fizer parte da metodologia adotada. X

É mais do que óbvio que a alternativa correta é a B, eu só preciso escrever a...
– Senhorita ? – Meu professor me chamou e, sobressaltada, levantei o olhar da folha até ele, que me encarava divertido. – A aula acabou. – Informou. Pisquei algumas vezes e varri o recinto com os olhos, comprovando o seu aviso ao constatar que somente eu permanecia na sala.
- Ah. – Soei, sem graça. – Não percebi. – Ri fraco e guardei o meu material, dando um pequeno pulinho de susto ao ouvir o estrondo do trovão ecoar e estremecer o chão. Despedi-me do homem e saí, recebendo uma lufada de ar gelado ao chegar à parte aberta do campus, vendo diversos alunos correndo até o estacionamento. O temporal me obrigou a ficar escondida nas dependências cobertas do prédio contemplando o aguaceiro tenebroso, dei um passo para trás quando a fonte luminosa da descarga elétrica provinda de um raio abrangeu o céu, mesclando-se junto à caligem da ausência de luz. Encolhi-me e ajeitei a minha touca, sem saber o que fazer.
Como eu conseguiria chegar até o ponto de ônibus? O meu guarda-chuva não duraria cinco minutos! Enxerguei um conjunto de pessoas saindo do auditório e um conglomerado de calouros vibrantes em volta de alguém, que eu não pude identificar graças aos indivíduos em torno do elemento desconhecido. Forcei a visão e o meu coração acelerou instantaneamente ao distinguir quem era o causador de tanto furor.
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Sua vestimenta se resumia ao preto. O sapato, o terno e o sobretudo, todos fornidos da ausência de cor, deixava-o com um ar de advogado sério que levava a minha libido às alturas, sem contar os cabelos arrumados em um penteado mesclado entre o formal e o rebelde, com o qual o seu traje finalizava com louvor.
- Você viu quem está aqui? – Uma colega de sala brotou do meu lado. – . – Falou sem esperar que eu lhe respondesse.
- É, eu vi... Meio difícil não notar. – Disse, me referindo à multidão diante de nós duas.
- Literalmente. – Sua fala saiu com duplo sentido e eu ri. – Me disseram que ele veio dar uma palestra para os alunos de Direito. – Explicou. – O é um gentleman* assim mesmo ou é só fachada? – Perguntou admirada. Suspirei sem perceber e assenti.
- Sim, ele é a personificação de gentleman. – Falei alheia, apreciando a visão de exercendo a sua conduta aplicada enquanto buscava atender a todos que requisitavam a sua atenção.
- Gostaria de ficar aqui cultuando esse Deus Grego, mas tenho que verificar se o meu carro não saiu boiando. Tchau, .
- Tchau, acho que você terá que ir nadando até o estacionamento. – Brinquei, ouvindo-a rir durante o tempo em que se afastava.
Outro trovão repercutiu dessa vez mais forte, fazendo com que todos olhassem alarmados para o céu, do qual passava a impressão de que eram seis horas da tarde, e não uma. Maneei a cabeça em direção ao meu ponto de foco anterior e dei encontro com os olhos de apontados em minha direção. Prendi a respiração, mantendo aquele contato visual inexpressivo enquanto sentia as minhas mãos suarem em nervosismo por tê-lo me analisando furtivamente. Ele pareceu despertar e quebrou a nossa conexão ocular, virando-se para frente a fim de falar com um dos professores. Suspirei em um muxoxo e sentei-me em um banco encostado na parede, pegando o meu celular com a finalidade de avisar a Vicenzo que eu demoraria. Aos poucos as pessoas iam dispersando do campus mesmo que o temporal não tivesse cessado, e eu já imaginava quão divertida a minha tarde seria estando presa na faculdade. Bufei e abracei as minhas pernas, apoiando o queixo no joelho em uma clara pose de tédio, congelando nas dependências vazias da universidade.
- ? – Eu poderia ouvir aquela voz grave a quilômetros de distância, que ainda assim reconheceria. Ergui a cabeça e o vi diante de mim com a sua pose impassível e as mãos nos bolsos laterais do sobretudo de bom gosto.
- Oi. – Sorri fraco. Ele não expressou nada.
- Vai ficar por aqui?
- Sim. Pelo menos até esse vendaval cessar um pouco. – Falei, me assustando pela milésima vez com a claridade dos raios. – Tenho que ir trabalhar.
- Talvez demore pra que isso aconteça, venha comigo. – Era um pedido simples, porém, a minha libido muito vívida me fez entender que se tratava de uma ordem. A sua voz rouca fazia tudo parecer uma ordem, até se falasse “me passe o sal” soaria dessa forma. Olhei o tempo ruim e refleti por poucos segundos. Não havia por que não aceitar, era apenas uma carona, no fim das contas, e eu realmente precisava dela. Expirei fundo e assenti sem pensar demais.
- Obrigada, irá me ajudar bastante. – Agradeci com um ligeiro sorriso e ele, como sempre, negou com a cabeça, apontando para que eu o acompanhasse.
Um segurança surgiu repentinamente antes que chegássemos até a parte descoberta do recinto e posicionou um guarda-chuva que mais parecia um guarda-sol sobre nós. Estranhei aquilo e sorri para o homem enquanto proferiu um “obrigado”, apoiando sua mão na base das minhas costas à medida que caminhávamos lado a lado com o propósito de não nos molharmos. Não muito. A porta do carro foi aberta e eu entrei rapidamente, notando entrar no lado oposto. Sem falar uma palavra sequer, ele deu partida. A única coisa ouvida era o ruído proveniente do pára-brisa do veículo, que trabalhava sem parar. As folhas das árvores balançavam drasticamente e por um momento eu tive medo de que uma delas caísse, fechando os olhos e me encolhendo toda vez que os lampejos dos relâmpagos apareciam entre o céu tomado pela escuridão absoluta. Eu gostava muito de trovões, mas odiava raios, contudo, o clima esquisito que assolava aquele automóvel me fazia questionar se andar no meio do temporal horrendo era menos pior do que estar ali, imersa a energia pesada e à atmosfera formal, onde fazia parecer que e eu havíamos voltado aos tempos em que não possuíamos nenhum contato ou proximidade.
- Vou por outro caminho, está bem? A via principal está interditada. – Avisou robótico sem desviar os olhos atentos da estrada.
- Tudo bem. – Respondi simplesmente.
Eu olhava pela janela e não conseguia ver nada que não fosse o branco denso das gotas d’água violentas que caíam no vidro, mal conseguindo distinguir onde nós estávamos.
Após bons minutos parados no trânsito, desviamos do engarrafamento e voltamos a prosseguir pela rodovia agora vazia, até que um barulho atípico e um tranco fizeram com que girasse o volante a fim de manter o carro em linha reta enquanto tirava o pé do acelerador. Ele parou o veículo no acostamento e eu franzi o cenho sem compreender o que tinha ocorrido.
- Caralho! – Praguejou mal humorado, olhando através do retrovisor externo à procura do que havia feito aquele estrondo. Fiz a mesma coisa e cerrei os olhos ao avistar uma enorme abertura na superfície um pouco mais atrás de nós.
- Acho que você passou por cima de um buraco. – Comuniquei e ele endireitou o retrovisor interno, confirmando o que eu lhe dissera. apoiou os cotovelos no volante e passou as mãos pelos cabelos, bufando em aborrecimento. Eu poderia estar diferente dele, entretanto, a ausência de movimentação na via me deixou levemente preocupada.
O que acentuou quando eu apanhei o meu celular e notei que estava sem sinal.
O homem irritadiço ao meu lado retirou o seu aparelho do bolso e a expressão carrancuda que tomou conta de seu rosto deixou claro que, assim como o meu celular, o seu também estava fora de área.
- Não é possível! – bateu as mãos no volante, nervoso. Eu não sabia o que dizer ou o que fazer, visto que a camada de água na pista era consideravelmente abundante e tornava inviável a possibilidade de sair do automóvel para verificar o estrago.
- Com certeza alguém vai passar por aqui em algum momento. – Afirmei tentando ser positiva, atraindo a atenção de para mim pela primeira vez durante o período em que nos encontrávamos no carro.
O som da trovoada poderia ser comparado ao impacto de seu olhar.
- Infelizmente a minha reunião não esperará que alguém apareça. – Ralhou impaciente e eu me segurei para não rolar os olhos.
- Você tem outra opção senão aguardar? Eu também tenho os meus compromissos, mas ficar com raiva não irá adiantar. – Pronunciei tranquila. Ele me encarou por pouco tempo e assentiu devagar com o maxilar travado. Ligou o pisca alerta, encostou um cotovelo na porta e apoiou a cabeça nas mãos, usando a outra palma livre para mexer em seu aparelho.
Mais silêncio.
Recostei-me no banco e deixei que o som da chuva me distraísse, olhando de soslaio em meus inúmeros momentos de fraqueza. Tudo naquele carro cheirava a ele e o seu perfume não permitia com que eu pensasse direito. Fitei-o de esguelha novamente e fui pega no ato no instante em que o homem pareceu notar que era observado e virou a cabeça, encontrando os nossos olhares. Diferente de todo aquele tempo, a sua pose indiferente não estava mais lá. Agora, eu era encarada pelo sem armaduras. O sem defensivas. A sua feição serena, ainda que habitualmente séria, demonstrava que, nem se quiséssemos, poderíamos agir como se a conexão que nos unia fosse inexistente. Ela definitivamente não era. Respirando pesado e absorta na forma em que era estudada minuciosamente por ele, eu me peguei considerando a hipótese de ignorar todos os sinais que avisavam em letras garrafais e neon para não insistir nesse sentimento a respeito de e somente continuar com o plano de me manter afastada, todavia, era impossível. Parecia ser impossível.

(Escute After All da Nikki Flores a partir daqui).

- Estranho como nós sempre acabamos nos encontrando de alguma forma. – Interrompi a ausência de som, notando a minha voz soar baixa e um tanto quanto rouca.
- Costumo pensar que o corpo atrai o que a mente censura. – A sua frase mordaz me acertou como um golpe seco e direto. Engoli a seco e abaixei o olhar por poucos segundos, retornando a fazer contato visual em seguida. – Por que você não consegue ficar perto de mim sem desviar o olhar, ? – Questionou fixando a íris na minha. Ele seria capaz de me desvendar somente com tal gesto, se quisesse.
- Não faça perguntas que não podem ser respondidas. – Rebati quase em tom de súplica. Mais um pouco e eu jogaria tudo na cara dele.
- Toda pergunta pode ser respondida, basta que você queira. – Disse, obstinado. Expirei fundo e neguei.
- Por que você se importa?! – Minha pergunta saiu repleta de cansaço. – , nós passamos boa parte de nossas vidas sem olharmos um para o outro, como é possível que de repente você ligue se está perto de mim ou não? Se eu desvio o olhar ou não? – Interroguei de uma vez. Eu queria respostas, queria que ele sanasse as minhas inúmeras dúvidas. O seu olhar se intensificou e eu me arrepiei.
- Não foi de repente e você sabe disso, .
- Me responda. – Pedi. Foi a vez de negar.
- Por que você quis se afastar de mim? – Indagou firme. – O que eu te fiz? – Eu precisava falar. Eu tinha que falar. Petrificada com as inquisições, permaneci calada e julgando o que deveria ser feito.
Era agora. Inspirei boa quantidade de ar com a intenção de tomar coragem e acabar logo com aquilo.
- Porque... Porque eu não aguento mais fingir que não sinto nada quando estou perto de você! – Soltei de uma vez e franziu o cenho. – Porque é difícil saber que eu não me encaixo na sua vida; Porque eu passei tanto tempo imaginando como seria estar perto de você, que quando finalmente estive, entrei em pânico! – Senti os meus olhos arderem, porém, não parei. – Porque a convivência com você me faz... fazia bem, e imaginar que a sensação é unilateral me fez desejar que nós nunca tivéssemos nos aproximado! Porque eu me recordo de tudo o que você e eu dissemos no seu apartamento; Porque eu me sinto uma idiota por sentir isso tudo; Porque eu estou exausta de tentar compreender e decifrar todas as suas frases enigmáticas! – Fiz uma pausa com a respiração rápida e o coração acelerado a ponto de sair pela boca. Eu sabia que os meus olhos encontravam-se marejados e eu não me importava nem um pouco. estava perplexo, me observando com a feição estarrecida contorcida em confusão. Engoli a seco e senti uma lágrima de alívio descer pela minha bochecha.
- , eu... – Ele tentou falar, mas o impedi.
- Eu não acabei. Você não queria ouvir? Então ouça. – O homem se calou. – Porque existe alguém que se encaixa e que é perfeita para você; Porque eu... Eu procurei porquês, mas nem todos os motivos do mundo vão me fazer entender o que está acontecendo. – Concluí. – Pronto. Está feliz? – Perguntei abalada. Pasmo, continuou a me fitar.
Cortei o contato visual e me ajeitei no banco, passando as mãos pelo rosto, sentindo que ele me estudava.
- Olhe pra mim, . – Gelei ao ser chamada pelo meu apelido. Fiz o que me foi pedido, sentindo as minhas mãos suarem de nervoso.
- Eu sinto muito por não ter percebido, causar-lhe essa agonia era a última coisa que eu queria, mas saiba que você tirou conclusões precipitadas a respeito de diversos pontos. De fato, eu costumava não ligar muito pra você, e porra, eu gostaria demais de ter continuado dessa forma, porque você bagunçou tudo! – Bradou e eu permaneci o encarando, surpresa. – Me aproximar de você foi uma das, senão a única coisa boa que aconteceu comigo! Foda-se de quem eu sou filho, foda-se as leis sociais! Eu não sei como, mas eu quero você perto de mim, . – A sensação era de choque. Ouvir o que acabara de sair da boca de não era, nem de longe, o que eu esperava. O meu interior se agitou mais do que a chuva que caía lá fora e eu ri fraco, aturdida.
- Mas e a... – Parei no começo da frase no momento em que levou uma mão até o meu rosto e se inclinou na minha direção, chegando perto o suficiente para que os nossos rostos ficassem no mesmo nível.
- Esquece isso. O que você viu foi um mal entendido do qual eu já resolvi. – Explicou determinado. – Eu quero que você apague todos esses receios que desenvolveram os seus porquês. – Firmou com a voz baixa e rouca contra o meu rosto. A atmosfera que nos ligava transmitia uma calmaria e uma química quase palpável. – Lembra quando eu me desculpei pelo beijo? Esquece aquela merda. Eu não senti muito. Na verdade, eu não sinto muito e não queria realmente me desculpar porque não havia nada para ser desculpado. Porra, , a minha vontade era ter te beijado de novo, mas a minha mente confusa pra cacete fodeu com tudo! – despejou e eu pisquei algumas vezes, abismada demais para assimilar tudo aquilo. Sem raciocinar além do que me era possível, falei a única coisa que devia ser falada.
- Então beije agora. – Soprei contra os seus lábios, que arquearam-se em um sorriso satisfeito. fez um carinho gostoso na minha nuca e eu imediatamente fechei os olhos, sentindo o seu nariz tocar delicadamente o meu em um gesto que me derreteu por completo. Peguei o seu rosto com as duas mãos e guiei os meus polegares em movimentos delicados pela sua pele, exprimindo, naquele ato, um pouco da feição que eu sentia por ele. Seus lábios entreabertos tocaram os meus e prorrogamos tal ação por alguns segundos, apenas usufruindo da sensação de termos um ao outro tão perto. Notei-o sorrir e foi o bastante para que a atitude de enfim avivá-los partisse de mim. Inclinei-me minimamente para senti-lo junto do meu corpo e movi o meu lábio superior em seu inferior apenas o necessário para sentir uma breve tensão entre eles em uma provocação que não durou. - Sem provocar, . – repreendeu com os orbes faiscantes cravados nos meus, grudando nossas bocas com urgência. Ri e pendi a cabeça moderadamente para o lado, abri ligeiramente a boca e soltei um suspiro de aprovação ao sentir a sua língua quente enrolar-se na minha com uma profundidade que expressava quão desejado aquele instante era.
Diferente do primeiro beijo, esse continha avidez. Nós não explorávamos ambos os lábios, nós desfrutávamos deles. Deslizei os meus dedos até o seu cabelo e soltei um murmúrio de volúpia quando ele embrenhou os próprios em meus fios, conduzindo as nossas ações e fazendo com que a minha touca caísse por ali. A mão livre que anteriormente segurava a minha face desceu firmemente até a minha cintura, onde passou o braço de modo vigoroso, fincando o meu corpo no seu enquanto o frio era substituído pelo calor que emanava de nós dois e de nossos lábios sedentos por mais.
Ele prendeu a minha língua com os dentes superficialmente e eu deixei com que um gemido escapasse, arranhei a sua nuca e escorreguei a mão que encontrava-se em seu rosto até o peitoral coberto pelo pano grosso do sobretudo, agarrando o tecido com vontade. Saber o que havia por debaixo daquelas roupas só me irritou mais por elas estarem ali. As nossas respirações densas e ruidosas faziam os vidros do carro embaçar gradativamente, e, mesmo necessitando de ar, eu não queria parar. A luxúria dos lábios de percorrendo os meus ora lenta, ora rapidamente, era demais para sequer cogitar em interromper o movimento torturante de sua língua deslizando provocativa pela minha, e eu aumentei a pressão dos meus dedos em seu pescoço que, a essa altura, já devia ter ganhado uma coloração avermelhada.
grunhiu e, lentamente, desceu a mão antes colocada na minha cintura e a levou até a minha coxa, logo resolvi erguê-la, posicionando-a rente ao seu quadril. O homem acariciou a sua parte interna e ambos ofegamos com as bocas coladas.
Inesperadamente, ele as descolou e me puxou contra si, me conduzindo consigo para o banco do motorista, ato que permitiu com que eu sentasse em seu colo e sentisse a sua excitação proeminente desenhada através do pano fino de sua calça social. Sua mão estava posicionada na minha nuca e os dedos entre os meus cabelos. Fui tomada por um frenesi e a excitação me fez descontar o tesão em seus ombros, onde eu segurei com força, escondendo a cabeça na curvatura de seu pescoço. Notei que ele se arrepiou no momento em que o meu hálito bateu contra a sua derme e, antes de tomar qualquer atitude que nos levasse ao êxtase total, o encarei.
Nossas respirações descompassadas se misturaram e, ao ser fitada seriamente por enquanto sentia o seu afago em meus fios bagunçados, eu tive certeza:
Ali era o meu lugar.


Bridge: Meio tecnológico que permite a comunicação e a interação de pessoas; faz o trabalho de mixar o som dos participantes de uma conferência.
Uma atividade lúdica: É uma atividade de entretenimento, que dá prazer e diverte as pessoas envolvidas. O conceito de atividades lúdicas está relacionado com o ludismo, ou seja, atividade relacionadas com jogos e com o ato de brincar.
Tese de negativa de autoria: Faz parte da defesa do réu ao alegar inocência.
Knicks: O New York Knicks é um time de basquete da National Basketball Association.
Irving: Kyrie Andrew Irving é um jogador profissional de basquete que atua pelo Cleveland.
Melo: Carmelo Kyam Anthony, apelidado de "Melo", é um jogador norte-americano de basquete profissional que atua pelo New York Knicks da NBA.
Porzingis: Kristaps Porzingis é um basquetebolista profissional letão que atualmente defende o New York Knicks na NBA.
Audiência de conciliação: Nesta audiência, as partes envolvidas vão conversar e tentar fechar acordo, sob orientação do conciliador. Caso cheguem a um acordo, o caso é resolvido de forma mais rápida e amigável.
Vigência: Tempo durante o qual o acordo tem validade.
Homologar: Confirmar, legitimar ou aprovar por uma autoridade judicial.
Gentleman: Homem de fino trato, de boa educação.


Capítulo 13

“Fingir não é o suficiente, eu quero nos sentir juntos.” Trouble I'm In – Twinbed.


’s POV

Eu sentia como se a minha vida houvesse dado um nó, bem como os meus sentimentos naquele exato momento. Desde que passei a conviver mais com , uma leveza imensurável se fez presente em meus dias, e, dessa maneira, formar uma amizade com ela consequentemente tornou-se natural. Tão natural que eu não sei dizer quando as coisas começaram a mudar, porém, elas mudaram e nos levaram a diversas ações que, certamente, amigos não praticavam um com o outro, considerando não só a parte física, como também a sentimental. Era mais do que óbvio que as palavras de ainda vagueavam pela minha mente desordenada, e eu sabia que demoraria até que eu organizasse os meus pensamentos a respeito de tudo, no entanto, existia algo mais do que definido para mim: Eu realmente a queria por perto. Os dias dos quais passamos afastados foram de uma agonia sem fim e eu não gostaria de me sentir daquela forma novamente, afinal, a sua presença era como a calma envolta do caos; Ter a sua pele arrepiando-se a cada toque meu me causava sensações desconhecidas que só aumentavam a minha sede em desvendá-las, da mesma maneira que o meu corpo reagia ao mínimo contato de nossas dermes, onde a atração entre nós ficava evidente. Igualmente evidente encontrava-se o desejo que nos permeava, e possuir em meu colo só contribuía para que ele aumentasse de um jeito surreal enquanto a garota me abraçava pela nuca, local em que ela deixava carícias sutis durante o nosso contato visual no qual explorávamos as expressões um do outro somente através do olhar.
- Fico curioso sobre você. – Falei de súbito contra o seu rosto, que se moldou em dúvida.
- Curioso? – Pendeu ligeiramente a cabeça para o lado, gesto que a deixou adorável. – Em que sentido?
- Todos os sentidos possíveis. – Confessei fincando as minhas órbitas nas suas. prendeu o lábio inferior ainda avermelhado entre os seus dentes e eu desci a minha atenção até ele, já pensando em mil maneiras de deixá-lo ocupado com os meus.
- Algum em específico? – Sibilou, dirigindo a sua mão até o meu rosto. A apoiou ali e fez movimentos leves com o polegar, escorrendo-o em minha bochecha em meio a um carinho acolhedor. Firmei um braço em volta de sua cintura e a notei arfar.
- Vários. Mas tem um em especial... – Iniciei e me observou atenta, aguardando até que eu lhe dissesse o que pretendia. – Agora que estamos perto um do outro, você vai entrar em pânico mais uma vez? – Interroguei, fitando dentro de seus olhos meticulosos. Um sorriso fraco brincou no canto de sua boca antes que ela negasse moderadamente com a cabeça, e eu não pude deixar de notar o brando rubor em sua fisionomia serena.
- Tem algum motivo para que isso aconteça? – Devolveu a pergunta. Igualmente ao seu ato, neguei e parei para estudá-la por um curto período de tempo. Vaguei os olhos por todo seu rosto que permanecia sem movimento, somente respeitando a minha análise repentina e calma. As minhas vontades eram conflitantes e brigavam entre si a fim de controlar as minhas ações seguintes, onde eu já não sabia se focava em descobrir cada detalhe da garota em meu colo ou se permitia que o lado carnal da situação tomasse conta de nossos corpos juntos. Como eu nunca havia reparado nela? As particularidades de chamavam a minha atenção e era nítido que possuíamos uma conexão singular, e, após tudo o que foi dito, fingir que ela não se fazia presente estava plenamente fora de cogitação. Ela afundou os dedos dentro dos meus fios e intensificou a carícia neles, o que me fez fechar os olhos e suspirar enquanto a minha musculatura relaxava como há eras não o fazia. O barulho da chuva – agora mais branda – ressoava quase como uma trilha sonora tranquilizante, despertando uma percepção de espanto em mim ao tomar conhecimento de que era possível experimentar um sentimento tão pacífico e pouco usual nos meus dias, estando apenas num automóvel no meio da estrada. – Posso te perguntar uma coisa? – pronunciou e eu voltei a contemplá-la. Assenti, aguardando-a prosseguir. – Como você é... Assim? – Questionou retirando as mãos da minha nuca e gesticulou de um jeito atrapalhado. Arqueei uma sobrancelha, sem entender.
- Assim? – Retruquei confuso.
- É! Como não se deslumbrou com a sua vida, ? Não me interprete mal, mas os seus pais não são as pessoas mais humildes que eu já conheci – revelou sem graça – e você é o oposto deles. – Concluiu carinhosa, parecendo um tanto quanto apreensiva em razão de sua declaração. Sorri fraco diante do que me fora dito, mesmo que não possuísse uma resposta concreta.
- Eu só ajo da forma que acho correta e de acordo com o que eu quero. Os meus pais visam preservar o status da família e acabam por ter atitudes que passam longe do que é admirável – ri sem humor, vendo a garota me encarar atenciosa – não tenho paciência para arrogância.
- Costumava achar que crescer assim pode dar uma perspectiva distorcida de que sempre conseguirá tudo o que quiser, não é raro ver casos do tipo. – Comentou analítica – Teve uma época em que eu pensei isso de você, não vou mentir. – Falou embaraçada, se encolhendo um pouco. Ri e arqueei o cenho, encarando-a de maneira divertida.
- O que você pensou de mim, ? – Indaguei gracejando e ela também riu, dando de ombros.
- Pensei que você era um convencido mimado com traços narcisistas. – Articulou de uma só vez com a fisionomia marota, me arrancando uma gargalhada.
- Wow, admiro a sua sinceridade. Uma opinião bem precisa, devo dizer. – Avaliei zombeteiro – E agora? O que você pensa? – A fitei curioso, prendendo o meu olhar no seu. parou de rir e umedeceu os lábios, prendendo-os mais uma vez entre os seus dentes. Acompanhei o seu movimento, esforçando-me a manter o meu foco em seu rosto após voltar a observá-la.
- Se eu contar, vai perder a graça. – Brincou instigante, num tom de mistério teatral que quase me provocou outro riso, contudo, mantive a expressão fixa incisivamente na sua face.
- E o que seria “perder a graça?”. – Interroguei e ela cerrou os olhos.
- São muitas perguntas, . Você costuma sempre questionar o ponto de vista das pessoas a seu respeito? – Inquiriu risonha e eu neguei.
- Não costumo me afetar com nada relacionado a isso, mas a sua opinião me interessa, sim. – Respondi e percebi a fisionomia esperta ser substituída por uma desconcertada.
refletiu ao longo de poucos segundos, me olhando daquela forma doce da qual eu aprendi a apreciar.
- Opiniões são mutáveis, mas no momento... Eu penso que gosto muito do que vejo em você. – Finalizou enrubescida e a última frase saíra um tom mais baixo do que o normal, enquanto olhávamos profundamente um ao outro. Lancei-lhe um meio sorriso carinhoso, admirado sobre quão fácil era estar perto de dela, ainda que toda aquela situação fosse nova demais para mim. E acredito que para ela também.
Um apito provindo do celular em meu bolso fez com que ambos saíssemos da inércia do momento e eu quase reclamei em protesto pela garota ter se afastado do meu colo, me obrigando a retirar os braços envoltos em sua cintura. Ela sorriu embaraçada e voltou para o banco do passageiro, inclinando-se a fim de pegar sua touca caída no chão. Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo com a pretensão de me situar, estranhando a falta do seu corpo sentado sobre o meu. Peguei o meu aparelho, percebendo que o sinal havia reaparecido, e com ele, inúmeras ligações perdidas do meu pai. Expirei e retornei a chamada, pronto para enfrentar a possível fúria do senhor Henrico.
- Espero que você tenha uma boa explicação por ter sumido durante horas, . – Falou do outro lado com o tom de voz baixo que remetia a sua irritação. Toquei as têmporas e o ouvi continuar. – Tínhamos uma reunião marcada para as três e quarenta da tarde e já são quase cinco! O que pensa que está fazendo?! – Bradou irritado, como já era de se esperar. Antes de respondê-lo, reuni toda a paciência que era necessária para que eu lhe explicasse o óbvio.
- Eu sei disso, desculpe. O meu carro quebrou, fiquei preso na estrada e o sinal do celular só voltou agora. – Esclareci entediado, escutando-o bufar.
- Nem que você tenha que carregar esse carro nas costas, te quero aqui até às cinco e meia no máximo, entendeu? – A pergunta saiu ríspida e eu concordei, ainda que ele não visse o ato.
- Certo. Vou ligar para o seguro e estarei aí o mais rápido que eu puder.
- Que seja além do que você puder, . – O barulho feito apontou o fim do telefonema e eu expirei novamente. Olhei para a garota ao meu lado antes de acionar o seguro e notei que ela também se comunicava com alguém.
- (...) Tem certeza? (...) Mas está tudo bem? (...) Certo, amanhã nós organizamos isso, sem problemas. (...) Até! – Riu e negou com a cabeça. (...) – Tchau, Vicenzo. – guardou o aparelho dentro da bolsa e eu foquei no celular em minhas mãos.
Disquei os números da seguradora e falei com a atendente brevemente, indicando o local do qual estávamos.
- O mecânico está à caminho. – Informei – Você ainda vai trabalhar?
- Não... A rua da loja está interditada e o horário do meu expediente está quase acabando, de qualquer forma. – Sorriu dando de ombros e eu assenti. O temporal converteu-se em uma chuva mais moderada, retirando o aspecto carregado do céu. e eu ficamos em silêncio, até que um relâmpago repentino clareou o veículo, fazendo-a fechar os olhos e apertá-los em agonia. A encarei curioso por sua reação, sendo fitado de volta pela garota recém assustada.
- Qual é a história por trás desse aparente medo de raios? – Questionei e ela balançou a cabeça.
- Não sei, eu só não sou muito fã. Amo trovões, mas os raios são dispensáveis. – Alegou com uma pequena careta no rosto. Dei um sorriso fraco perante a sua fisionomia carrancuda, o que fez me olhar ressabiada.
- Você não tem medo de algo relativamente estúpido? – Indagou e eu levantei uma sobrancelha em dúvida, afinal, não me recordava de nada semelhante.
- Não. – Respondi e me encarou como se eu houvesse falado algo absurdo.
- Impossível. Todo mundo teme alguma coisa! – Exclamou inconformada. – Um inseto, talvez palhaços? – Tentou adivinhar e eu ri, negando. – Você está com vergonha de admitir? – Pendeu a cabeça para o lado e cerrou os olhos de forma engraçada. Continuei a fitando com o cenho arqueado, mesmo achando graça em como ela se interessou por um assunto tão trivial. Nunca fui questionado sobre isso.
- Não, . Não que eu me lembre. – Falei. Ela torceu o nariz, parecendo se conformar.
- Tudo bem... Me fale quando souber. – Disse simplesmente, cortando o nosso contato visual para admirar a chuva que cessava aos poucos. Permaneci fitando a sua face parcialmente, devaneando com relação à personalidade peculiar e agradável da garota ao meu lado, que me obrigava a racionalizar acerca de tudo que ela me fazia sentir. Passei as mãos pelos cabelos e olhei para frente, acordando para a vida ao me dar conta de que a encarava além do que era considerado normal.
O silêncio prosseguiu pelos minutos seguintes e por mais clichê que isso soasse, ele transmitia uma calmaria impressionante. Encostei-me melhor no banco e seguiu o meu movimento, virando apenas a cabeça a fim de me observar. Sem que eu me desse conta, fiz o mesmo, estudando-a de volta seriamente.
Som algum era preciso.
Enquanto suas órbitas escorriam pelo meu rosto de um jeito zeloso, eu me limitei a acompanhar a sua ação, haja vista que a curiosidade de ambos a respeito do que nos rodeava era eminente; E toda atitude que contribuísse para que descobríssemos um ao outro seria válida. Os lábios de moldaram-se em um meio sorriso doce e ela logo em seguida endireitou a cabeça, contudo, o sorriso ainda estava lá. Olhei pelo espelho e percebi que o veículo do seguro havia chegado, ouvindo toques no vidro do passageiro após o homem descer da caminhonete. Fiz um sinal para que abrisse a janela, enxergando-a fitar a porta e mover os olhos até mim com uma expressão de pesar, fazendo-me franzir o cenho.
- Tem muitos botões. – Reclamou em um muxoxo e eu ri. Estiquei-me por cima de seu corpo e apertei o comando responsável por descer a vidraça, não sem antes sentir um arrepio surgir em consequência de sua respiração na lateral do meu pescoço. Retornei ao meu lugar, cumprimentando o mecânico com um aceno de cabeça, pedindo-lhe que me aguardasse sair do automóvel.
- Só um minuto. – Falei a , que assentiu.
Dei a volta no carro e apertei as mãos do homem responsável pelo conserto, verificando o estrago no pneu. A troca seria inevitável.
- Em vinte minutos eu substituo isso aí, sem problemas. – O mecânico pronunciou, atraindo a minha atenção até ele.
Ótimo, pois era o tempo que eu possuía.

(...)

- Foi bem rápido, né? – comentou na medida em que eu dirigia a caminho de casa após o reparo do pneu. Concordei, agradecendo mentalmente pela troca realmente não ter sido demorada.
- Aquele buraco maldito acabou com o pneu. – Resmunguei verdadeiramente puto pelo dano ocorrido.
- Pelo barulho que fez, muito me admirou que ele não tenha saído do lugar. – Ela salientou e eu assenti.
Instantes depois, estacionei na garagem assim que chegamos ao nosso destino e ambos descemos do automóvel. Reparei se enrolar com a bolsa e os livros e fui até a sua figura atrapalhada, ajudando-a com um deles. Ela sorriu sem graça e agradeceu.
- Eu posso levá-los, mas obrigada. E obrigada pela carona, ainda que tenhamos ficado ilhados. – Proferiu divertida, pegando os objetos das minhas mãos depois de arrumar a bolsa em seu ombro. Neguei com a cabeça, demonstrando-lhe que não precisava agradecer. – Só vou falar com a minha mãe antes. – Apontou para a extensão do quintal. A parte dos fundos onde a cozinha localizava-se era afastada e andar ao redor da casa até o lugar dito poderia facilmente ser substituído por simplesmente atravessar a sala de estar e de jantar.
- Tudo bem, entre comigo. – Expressei, vendo-a me olhar em interrogação.
- Ahn... O quê? – Indagou incerta.
- Entre comigo. – Repeti singelo e ela varreu os olhos de mim até a porta de entrada, tornando a me encarar logo depois.
- Acho melhor não, . – Disse hesitante. Aquela merda de protocolo hierárquico era algo incontestavelmente supérfluo.
- Não tem problema nenhum nisso. Sou eu quem está pedindo, a casa é minha também. – Avisei e ponderou durante algum tempo, assentindo após o breve ato de reflexão. Pousei uma mão em suas costas na tentativa de passar segurança e seguimos cômodo adentro, rindo de uma gracinha da qual ela falara enquanto andávamos em direção à sala. Notei o seu sorriso morrer e o seu passo ser diminuído. Franzi o cenho, dirigindo o meu olhar até o ponto do qual ela fitava.
Meus pais, Thompson e mais alguns sócios do escritório encontravam-se reunidos na sala de estar, provavelmente aguardando a minha chegada. Em um gesto automático, todos desviaram o foco da conversa até nós dois, e o silêncio que se fez presente foi o suficiente para remexer-se desconfortável ao meu lado, onde, através do toque em seu dorso – do qual eu firmei –, pude senti-la tensa. Os olhos gélidos e aturdidos da minha mãe pairaram sobre nós em um claro sinal de descontentamento; Meu pai somente sustentou o seu semblante inexpressivo.
- Estávamos te esperando, . – Ele soou seco. – Acho que já podemos ir para a sala de reuniões. – Informou, levantando-se. Os demais presentes fizeram o mesmo, já se deslocando rumo ao local anteriormente combinado. A mulher aborrecida parou em nossa frente e estreitou o olhar frio para , que me fitou de esguelha com a expressão carregada de nervosismo. Percorri o polegar em um ponto de suas costas fazendo uma leve carícia naquela região, procurando acalmá-la. Se eu bem conhecia a dona Kyara, ela não faria uma cena, levando em conta que tínhamos convidados e seria um ultraje sair de sua pose sempre imponente na presença deles.
- Nós conversaremos depois. – Disse, ignorando totalmente a existência de . Balancei a cabeça em concordância e a acompanhei com o olhar até que ela sumisse do meu campo de visão. Voltei à atenção para , que me lançou um sorriso acanhado, dando de ombros.
- Talvez eu prefira raios à enfrentar o temperamento da sua mãe, desculpe. – Brincou torcendo o nariz e eu ri. – De qualquer forma... Agradeço por hoje. Boa sorte na reunião. – Sorriu terna. Retirei as mãos de seu dorso, fitando-a sério.
- Por nada. E obrigado. – Ela se aproximou e parou muito perto de mim. Como se avaliasse o seu próximo passo, não exprimiu reação nenhuma, até que levou a sua mão até a lateral do meu maxilar e descansou os lábios quentes em minha bochecha por poucos segundos. Reprimi a vontade repentina de mudar a direção de sua boca e apreciei aquele momento não muito duradouro, haja vista que se afastou em seguida. Acenou e me deu as costas, andando até a saída do cômodo.
Baguncei os cabelos e me virei com a intenção de seguir ao lugar do qual a reunião ocorreria, cerrando os olhos assim que vi Thompson ali.
- Não quis atrapalhar. Só vim buscar a minha maleta, a esqueci aqui. – Mostrou o objeto preto em suas mãos e eu nada disse. Apenas assenti, passando por ele e entrando na sala.
- Podemos começar. – Falei, sentando-me à mesa.
A reunião iniciou-se e eu assumi a minha postura profissional, lendo os papeis colocados à minha frente.

(...)

- Por hoje é só. Amanhã darei segmento a este processo, obrigado por virem. – Meu pai concluiu, dando a reunião por finalizada. Recolhi as folhas das quais eu lia e as guardei em minha pasta, despedindo-me das pessoas que estavam no local. Sentei-me na poltrona da sala e retirei meu terno junto com a gravata, experimentando um alívio instantâneo ao me livrar de ambos. Apoiei a cabeça no encosto confortável do estofado e respirei fundo, sentindo algo peludo circular entre as minhas pernas. Direcionei os meus olhos para baixo e Bento me admirou animado com as orelhas arqueadas, arrancando-me um ligeiro riso por estar com a boca ocupada pelo brinquedo do Scooby Doo que lhe dera.
- Oi, bobão. – Acariciei o seu pêlo, transcorrendo os dedos por seu rosto. – Espero que você esteja segurando esse negócio sem a pretensão de que eu vá brincar com você. Não vai rolar. – Alertei a ele, que inclinou a cabeça para o lado parecendo saber o significado preciso das minhas palavras. – Mas eu libero um travesseiro pra você, que tal? – Dessa vez sua cabeça foi movida para o outro lado acompanhada de uma mexida frenética de seu rabo. – Certo. Combinado. – Proferi, mantendo o diálogo com o cão que brincava sozinho junto do Scooby.
- Creio que agora possamos nos falar. – Minha mãe surgiu naquele compartimento da casa e eu expirei em cansaço, encarando-a sem dizer absolutamente nada. – , o que a filha da estava fazendo com você? E dentro da nossa casa? – Massageei as têmporas, sem paciência para o seu monólogo repetitivo.
- Mãe, eu não acho que eu deva lhe passar uma ficha sobre o que eu faço ou deixo de fazer. Muito menos com quem. – Soltei e, claro, a mulher estreitou os olhos em irritação. – Essa sua maneira de referir-se à – frisei – é pejorativa e você sabe.
- Eu espero ter ouvido errado, . Fiz uma pergunta e quero a resposta. – Insistiu firme. Respirei fundo mais uma vez e me ergui da poltrona com a finalidade de ir para o meu quarto. A figura do meu pai manifestou-se através do acesso de entrada da sala e eu tive certeza de que a merda estava feita.
- Eu lhe dei uma carona. – Delimitei a minha explicação apenas àquela frase.
- Você conhece o significado da palavra desnecessário? – Questionou ela, exasperada. – Nós tínhamos convidados e de repente o meu filho, um homem sofisticado e bem sucedido, chega com a filha da cozinheira! Isso é inadmissível! – Bradou e foi a minha vez de cerrar os olhos.
- Sabe o que é inadmissível, mãe? O modo como você enxerga as pessoas. Você as limita a status social, as segrega... Consegue enxergar quão errado isso é? Eu não farei a mesma coisa. – Declarei convicto. Meu pai prosseguia em silêncio.
- Não acredito que o meu próprio filho está me desafiando! – Exclamou risonha, porém, o seu riso era ácido. – Ouviu isso, Henrico?
- Não quero o nome da nossa família na lama, . – O homem decretou. Ri irônico e ele continuou. – De resto, acho que você está enfatizando algo irrelevante, Kyara. – Franzi o cenho e a minha mãe o fuzilou com o olhar. – Acho de extremo exagero deixar com que serviçais desordenem a nossa relação familiar. – Passei as mãos pelo meu cabelo, exausto, e neguei com a cabeça.
- Boa noite pra vocês dois. Torço para que um dia a ficha de ambos caia e que percebam a insensatez de suas próprias palavras. – Bati na perna chamando Bento, que se levantou e me seguiu escada acima. Tomei um banho, vesti uma calça de moletom qualquer e me deitei ao lado do Pastor Alemão espaçoso.
- Torço para que você saiba se comportar em um apartamento, carinha. – Falei para ele, que abriu os olhos e mexeu as orelhas, abaixando-as e tornando a fechá-los logo após o ato de curta duração.
De longe, constatei que a luz do quarto de encontrava-se acesa. Espontaneamente fui levado a tudo que a incluía, e, com a garota em meus pensamentos, adormeci.

Narração em terceira pessoa.


23hrs15min.
– Sítio localizado no extremo sul da cidade;

Os dois homens aprumados em seus respectivos assentos deleitavam-se de um cálice abundante de Perrier-Jouët Belle Epoque Rosé* nas taças minuciosamente escolhidas com o propósito de complementar a bebida de tom rosa pálido, borbulhante e refinada feita para um bom paladar requintado. A lareira luxuosa dava um ar moderno ao recinto iluminado à meia luz, tornando o ambiente mais acolhedor do que ele realmente era. O tilintar das duas peças de cristal ecoou, produzindo uma onda sonora que parecia dançar e se misturar com a risada mordaz do indivíduo jubiloso ali sentado.
- Ele ainda está no caso. – O primeiro – o mais quieto entre eles – avaliou, admirando a labareda resplandecida em fulgor. Ah! Como ele desejava atear fogo naquela figura polida e politicamente correta; Herdar um império do qual o sujeito não saberia administrar era demais para aceitar sem ser tomado por uma onda de indignação, afinal de contas, aquele cargo poderia facilmente lhe pertencer. Ora, ele estava neste ramo há muito mais tempo! Nada mais justo. – Era o que ecoava repetidamente em sua cabeça –.
- Eu sei. Talvez tenhamos subestimado a coragem dele. – Pontuou observador. – O relatório da perícia já ficou pronto?
- Não. Estamos com vantagem neste aspecto, no entanto, ela não irá durar caso ele junte 2+2. As informações contidas no relatório podem esclarecer diversos fatos, já temos conhecimento de sua competência impertinente. – Vociferou irritadiço. O outro homem riu, abanando com as mãos em desinteresse.
- Não se exceda, meu caro. Para ser sincero, deixar com que um documento tão importante chegue até o herdeiro de ouro me parece... Interessante. – O sorriso aberto explodia em um sadismo esplendoroso. Era como se o veneno escorresse por meio dos lábios satisfeitos com a sensação de controle da situação.
- Ficou maluco?! Tem muita coisa envolvida nisso, não vou permitir que o seu fascínio doentio por domínio estrague tudo! – Bradou alterado. Os olhos estavam a ponto de sair das órbitas, tamanha a incredulidade do comparsa geralmente comedido. O mais soberano, entretanto, lançou todo o seu descontentamento em uma carranca autoritária. Foi o que bastou para que a tranquilidade pairasse novamente no ar.
- Coloque-se em seu lugar e siga as minhas ordens. Eu só quero brincar um pouco. – Relatou a última frase de maneira infantil, deixando-o ainda mais degenerado.
- Estou com suspeitas de que ele está sendo ajudado. – Mencionou, sentindo um arrepio de pavor eriçar cada pelo de seu braço ao notar a fisionomia nociva daquele que teoricamente era o seu parceiro.
- Ah, é? Fico feliz! Gosto quando entram novos personagens no jogo. Isso me deu uma ideia genial, aliás. – Comemorou pensativo.
- Ideia referente a quê?
- Se ele pode inserir mais alguém na nossa brincadeira, eu também posso, não é? – Perguntou ao comparsa, que assentiu achando o homem mais estranho do que jamais esteve. – Quero ideias sobre quem utilizar.
- Bem... Os pais, talvez? – Sugeriu, vendo-o fazer uma careta.
- Nah... Eles podem muito bem se defender. Sem graça demais para o meu gosto. Próximo! – Exigiu com as mãos no queixo, explorando todas as opções.
- Talvez tenha alguém. – Deduziu – Mas eu preciso sondar antes.
- Então o faça e me deixe informado. – Bebericou o líquido rosado, sorrindo novamente. – Ser o culpado por um crime nunca foi tão divertido.

Fim de narração em terceira pessoa.


’s POV

Eu não era a pessoa mais corajosa do mundo, tampouco tomava atitudes baseadas em minhas emoções do momento. Sempre fui adepta ao “refletir antes de falar” e o meu maior costume se resumia a fazer fluxogramas mentais para tentar organizar os meus sentimentos e pensamentos, tudo com a finalidade de não meter os pés pelas mãos, porém, a onda de determinação que fez com que eu despejasse as coisas das quais eu guardava comigo sobre me deixou bastante orgulhosa, devo dizer. E mais do que orgulhosa, eu estava feliz. Eu era a personificação daqueles desenhos onde os personagens andavam por aí com corações nos olhos e, independentemente do que acontecesse dali pra frente, ter ouvido da boca dele tudo o que me fora dito, já era motivo suficiente para ficar satisfeita com a minha perseverança.
Naquele instante, e eu esperávamos Adrian chegar ao mesmo tempo em que finalizávamos o nosso almoço, e a minha amiga me encarava boquiaberta após estar devidamente atualizada a respeito dos acontecimentos surpreendentes que circundavam a minha vida. Bebi um gole do meu suco e, com toda paciência do mundo, aguardei até que ela exprimisse alguma reação que não fosse a representação de uma estátua.
- Sinceramente? Não sei o que dizer. – Confessou retirando os óculos de sol de seu rosto. – Aparentemente eu acertei em cheio quando nomeei essa situação toda como tensão sexual, dado que até no carro vocês estão se atracando. – Lançou-me um olhar malicioso e eu ri. – , o que eu tinha para te falar, já falei. Aproveite, mas com cuidado.
- Sim, sei bem com o que estou lidando. Carpe diem, não é? Irei aproveitar o momento. – Sorri e dei de ombros. – Está nervosa para a entrevista? – Questionei me referindo ao seu compromisso posterior. havia passado na primeira fase do processo seletivo para uma prestigiada clínica de Psicologia e hoje seria a fase final. Ela fez um sinal de “mais ou menos” com as mãos, demonstrando certa estabilidade.
- Estou mais tranquila do que imaginei. Tentar não pensar a respeito ajuda bastante. – Articulou e eu assenti, contendo uma risada ao constatar Adrian entrando no restaurante com o indicador em seus lábios, pedindo para que eu não aviasse sobre a sua chegada. Ele colocou-se atrás dela e beijou-lhe o rosto, assustando a minha amiga que deu um pulinho em razão do assombro pelo gesto do homem, que ria divertido diante da atitude dela.
- Por Deus, quer me causar um ataque do coração? – Perguntou exasperada, cravando o olhar em mim. – Muito bonito, . Me apunhalando pelas costas, literalmente. – Dramatizou e eu revirei as órbitas enquanto ria.
- Me abstenho. Não vi nada, não digo nada. – Falei, finalizando a minha bebida e cumprimentando Adrian, que se sentou ao lado de .
- Desculpe, amor. Quis fazer uma surpresa. – Lamentou, ainda que estivesse óbvio que ele se divertia. Minha amiga resmungou e eu conferi as horas no relógio em meu pulso, levantando-me em um sobressalto. O casal me estudou, ambos ressabiados, e eu ri sem graça por ter derrubado o compartimento com guardanapos e canudos de cima da mesa.
- Preciso ir para o abrigo. – Notifiquei atrapalhada enquanto recolhia os objetos caídos no chão.
- Tudo bem, . Vai lá, nós arrumamos a sua bagunça. – Adrian gracejou, agachando-se junto à , que gargalhava pelo meu embaraço.
- Muito obrigada, vocês são o meu casal preferido! – Exclamei já me afastando. – Não se esqueça de me contar como foi, tudo bem? – Lembrei , vendo-a balançar a cabeça positivamente, mandando-me um beijo depois. Acenei e zarpei porta afora rumo à instituição, praticamente tropeçando em meus pés.

- Hey! Boa tarde, Trish. – Cumprimentei a mulher sorridente, recebendo o seu habitual abraço simpático.
- Boa tarde, ! Como está? – Interrogou agradável, observando o conjunto de crianças que brincavam animadamente no pátio.
- Ótima, e você? Ao que tudo indica o tempo aberto de hoje está sendo muito bem aproveitado por eles. – Comentei, também admirando os pequenos eufóricos que disparavam a correr por ali.
- Estou bem! Eles andavam desanimados por obra da chuva forte, fico feliz que estejam gastando energia. – Emitiu risonha e eu a acompanhei. – A Magnólia pediu para que eu me desculpasse em seu nome, ela infelizmente precisou se ausentar. – Esclareceu meio abatida. Captei uma atmosfera estranha no ar, da qual me foi comprovada tendo em consideração que a mulher diante de mim carregava uma fisionomia murcha.
- Aconteceu algo? Posso ajudar? – Prontifiquei solícita. Trish suspirou em pesar.
- Esse período de chuva está nos trazendo alguns problemas... A infraestrutura do orfanato já é antiga e alguns quartos estão com vazamento no teto. – Explicou tristonha. Continuei calada até que ela prosseguisse. – Tivemos que passar as camas para locais estratégicos e mudar algumas de cômodo, inclusive. Perdemos alguns colchões e a situação financeira não está favorável para que façamos reformas e compremos camas novas. Faz muito frio aqui e é difícil mantê-los aquecidos. – Concluiu desolada e eu imediatamente fui afetada diante da notícia. Um desespero descomunal me assolou só de imaginar as crianças passando por dificuldades com aquelas roupinhas finas. – A Magnólia está tentando um empréstimo, mas o histórico de pagamento não é positivo.
- E o que acontece se eles não liberarem? – Perguntei apreensiva.
- Talvez tenhamos que fechar. É arriscado permanecer aqui.
- E as crianças? – Aflita não chegava perto de como eu me encontrava.
- Teríamos que separá-las, distribuindo-as em outros abrigos. – Trish definitivamente aparentava relutar para proferir as explicações, e era mais do que concebível dada à situação.
- Isso seria outra quebra de vínculo que os deixaria ainda mais frágeis. Precisa existir outro método! – Exclamei preocupada.
- Estamos buscando outras opções. Não quero imaginar ter que chegar ao extremo e deixá-los. – Lamuriou. – Uma moça está produzindo uma matéria a respeito daqui, pode ser que seja algo positivo. Queria muito que vocês se conhecessem.
- Seria um prazer! Torço para que ela esteja presente quando eu também estiver. E as coisas irão se ajeitar, tudo bem? Coloco-me à disposição para ajudar. Vou pensar em algo. – Empenhada em lhe transmitir força, afaguei os seus ombros e sorri. Eu imaginava quão terrível seria para a mulher precisar se desligar do abrigo e dos pequenos. Se, para mim, a situação já era mais do que lamentável, para Trish, devia ser um pesadelo inúmeras vezes maior.
- Não quero que se preocupe com isso, Aly. Você não tem obrigação com a instituição, está aqui apenas desenvolvendo um trabalho. – Declarou amável e eu neguei com a cabeça.
- Eu me sinto bem aqui, Trish. Essas crianças não podem ser tratadas como marionetes, alguém precisa olhar por elas. Você, a Magnólia e os demais funcionários fazem isso de uma forma linda, creio que todo o auxílio seja bem vindo. – Expus o meu ponto de vista, admirando Archie de longe e recebendo um sorriso reconfortante da mulher.
- Obrigada, . Agora vamos animar e espantar esse clima pesado, por favor. – Recuperou a sua alegria, pedindo para que eu a seguisse através de um sinal com as mãos. – Hoje eles terão uma atividade livre, ou seja, poderão brincar do que desejarem. – Relatou ao passo em que nos aproximávamos dos pequenos. A figura de Archie entrou em foco e ele correu até mim tropeçando em seus próprios pés.
- Você demorou pra voltar! – Reclamou com um bico no rostinho emburrado.
- Eu sei, desculpe. – Abaixei-me, ficando frente a ele. – Aconteceu um problema e eu não pude vir. Sabe quando você combina de brincar aqui fora com os seus coleguinhas, mas chove, por exemplo? – Ele assentiu atento. – Foi algo parecido, então eu precisei esperar até que o problema fosse resolvido, mas hoje eu vim! – Falei me empenhando em animá-lo.
- Tudo bem, chuva é chata mesmo. – Queixou-se de uma maneira fofa, desfazendo o bico chateado. – Eu aprendi uma brincadeira nova, só que ela já ficou um tédio – Maneou a cabeça de modo teatral e eu gargalhei. – Ainda bem que eu tenho outra pra te mostrar! – Celebrou entrelaçando as mãozinhas entre as minhas, fazendo-me levantar.
- Oba! Estou curiosa para que você me ensine. – Festejei junto a ele, acompanhando os seus passos velozes pela extensão de concreto.
Não demorou para que outras crianças se juntassem a nós e até Trish participou da diversão. A minha experiência no orfanato estava cada vez mais enriquecedora, e, agora, não se tratava apenas de desenvolver um bom trabalho acadêmico. Tratava-se de conceder àquelas crianças um pouco de conforto em meio aos momentos difíceis.
Eu não sentia as minhas pernas, a minha barriga doía em consequência das risadas e eu tinha convicção de que nunca havia corrido tanto.
Depois da brincadeira ser finalizada, me mantive junto de Archie montando bonecos de massinha de modelar, e devo dizer que eu estava levando aquilo mais a sério do que gostaria.
Juro.
Tinha esquecido completamente sobre quão difícil pode ser construir um rosto sem que a boca do bicho grude no nariz; Ou sem que os olhos caiam.
- Você tem mamãe? – Archie indagou de súbito. Tirei a concentração do meu negócio não identificado e fitei o garotinho, que me encarava de volta serenamente. Ai, meu Deus. Eu simplesmente petrifiquei com a sua pergunta. Com isso, ele seguiu. – Eu tenho, mas não me lembro muito bem dela. – Meu coração diminuiu devido a sua fala. – Será que ela não gostava mais de mim? – A pergunta não saiu em tom de tristeza ou derivados, porém, mesmo assim, a sensação de ter levado um soco não me abandonou. Eu quis abraçá-lo de imediato.
- Mas que conversa é essa, mocinho? Quem é que não gosta de você? – Cutuquei a sua barriguinha, ouvindo-o rir.
- Eu queria fazer um desenho pra ela. – Murmurou e eu acariciei a sua mãozinha, completamente despedaçada por dentro.
- Tive uma ideia. – Comecei e Archie me observou aplicado.
- Que ideia?
- Faça os desenhos para a sua mamãe, certo? Da próxima vez que eu voltar, trarei algo para você. – Comuniquei e rosto do pequeno se iluminou.
- O que você vai trazer? Me conta! – Pediu eufórico, dando pequenos pulinhos.
- É uma surpresa. Nós vamos construir algo juntos e você tem uma missão: Desenhar tudo o que sentir a respeito da sua mamãe, tudo bem? E guardar. – Ele concordou sorridente. – Certo. Temos um combinado. – Mostrei-lhe o dedinho e Archie os cruzou usando o seu dedo mínimo.
- Eu gosto de combinados. – Mencionou distraído fitando os nossos dedos cruzados, gesto do qual me provocou uma risada.
- Eu preciso ir. – Noticiei e Archie suspirou resignado. – Lembre-se do que acabamos de falar, está bem?
- ‘Ta... Vou fazer um monte de desenhos bonitos! Mas você não pode se esquecer da surpresa. – Expôs com a feição sapeca, extremamente fofo.
- Sim senhor. – Bati continência – Não esquecerei! – Ele imitou o meu ato e eu ri mais uma vez, cutucando-lhe a barriguinha. – Até a próxima, capitão.
- Até! – Acenou para mim e eu acenei de volta, indo até Trish, que supervisionava as demais crianças.
- Já vai, ? – Assenti, desviando de alguns pequenos dos quais transpassavam entre as nossas pernas em meio à correria usual.
- Sim, mas antes, gostaria de conversar com você. – Iniciei e ela concordou, incentivando-me a prosseguir. – O Archie falou da mãe. – Expus, induzindo Trisha a me olhar abalada.
- Como foi?
- Ele disse que não se lembra da mãe e acha que ela não gosta dele por tê-lo deixado aqui, basicamente. Fiquei muito comovida com o que ouvi e achei que seria legal propor que Archie faça um desenho sempre que se recordasse dela de alguma forma. – Expliquei inquieta por sua resposta. Trish afirmou lentamente ao passo que refletia a respeito da minha sugestão.
- E como isso funcionaria?
- Bem... Ele guardaria tudo em uma caixinha que eu me responsabilizei em trazer. – Esclareci sua dúvida, torcendo para que não houvesse problema. – Sei que eu devia ter falado com você antes, mas você precisava ter visto a carinha dele e... – Tudo bem, . – Trish me interrompeu, rindo de meu desespero. – Acho que pode fazer bem a ele. Tem a minha permissão. – Terminou sorrindo amistosa e eu não consegui conter meus pulinhos de alegria, abraçando-a em seguida enquanto ela gargalhava.
- Muito obrigada, tenho certeza de que Archie ficará feliz! – Soltei a mulher, que assentiu. – Até semana que vem, Trish. – Nos despedimos e, então, deixei o abrigo e segui rumo a agência do meu banco com a finalidade de retirar o meu extrato bancário.
Desde o momento em que comecei a guardar dinheiro, fazia comparação da quantia de três em três meses a fim de acompanhar a mudança durante o período de tempo do qual não mexia na conta. Eu verificava lançamento por lançamento e anotava um sinal após cada verificação para marcar o valor conferido, assim como quanto havia conseguido juntar. Era uma forma de me manter organizada e ciente de que os meus esforços geravam frutos, mesmo que não exorbitantes.
Fiz todo o procedimento e peguei o papel, suspirando em um misto de orgulho e desânimo. Infelizmente o processo de ter uma casa implicava não somente no aluguel em si, mas, também, em despesas secundárias das quais o salário da minha mãe e o meu – ainda mais por se tratar de um emprego de meio período e fora da minha área – não cobririam. Retirei-me da agência e segui para casa, sentindo o ânimo me atingir com a lembrança da alegria de Archie a respeito da pequena surpresa da qual eu lhe daria na próxima semana.

**

Perdi as contas de quantas vezes despertei assustada no decorrer do caminho, achando que havia passado do ponto por ter cochilado o trajeto inteiro até o condomínio. Eu tinha certeza de que o meu rosto estava marcado pelo pano da blusa da qual usei para apoiar a cabeça, porém, pouco me importei. Foi o melhor sono no transporte público que eu já tirei em anos, devo acrescentar. Digamos que as minhas horas de sono mais se assemelhavam a breves sonecas noturnas, reduzindo a sua qualidade à zero. Meio atordoada, rumei em direção à mansão bocejando minuto a minuto, quase chorando ao me recordar de que possuía um relatório para desenvolver e matéria para estudar.
- Olá, garoto! – Cumprimentei Bento, que me saudou com um latido animado e o rabo balançando energicamente. Ele se jogou no chão de barriga pra cima e eu ri rolando os olhos enquanto me abaixava para acariciar a região. – Estou tão cansada que vou me deitar de barriga pra cima também até que alguém me faça um carinho. – Brinquei e o cão mexeu as orelhas atento. – Olha a cor dessas patas, o vai ter um treco quando vir! – Ri ao enxergar a parte referida totalmente suja. – Espero que você não tenha mexido no jardim, porque aí, meu caro, quem vai enlouquecer é a dona Kyara. – Fiz uma careta, vendo o Pastor Alemão mudar a direção da cabeça para o outro lado. – É, acho bom que você prepare a sua cara mais fofa para enfrentar isso. – Ergui-me e Bento fez o mesmo, andando ao meu lado até que eu chegasse em casa.
Toquei o interruptor da sala e franzi o cenho ao perceber que a luz não acendeu.
Tentei novamente; Sem sucesso.
Percorri o restante do local e todos os cômodos encontravam-se igualmente sem energia.
Fui até a casa dos e cumprimentei a minha mãe com um beijo no rosto, colocando o meu material em cima de uma cadeira aleatória.
- Tudo bom, filha?
- Tudo sim. E por aqui, tudo tranquilo? – Indaguei a acompanhando com os olhos ao passo em que ela ia pra lá e pra cá, guardando a louça de cima da pia.
- Sim, nada muito diferente dos outros dias.
- Mãe, por que a nossa casa está num breu total? – Perguntei-lhe. Ela parou no meio da cozinha e deu uma leve batidinha na testa como se houvesse acabado de se lembrar de algo.
- Ah, é verdade! Deu um curto na instalação elétrica. – Torci o nariz em uma singela careta, haja vista que eu possuía muita coisa para fazer e logicamente necessitava de energia elétrica para tal. – Mas o eletricista já foi comunicado e está a caminho. – Complementou e eu assenti aliviada.
- Será que vai demorar muito?
- Não sei, . Depende do que tiver acontecido.
- Eu tenho bastante matéria para estudar e um relatório pra desenvolver. E agora? – Interroguei angustiada, imaginando uma catástrofe de tarefas se acumulando e passando do prazo de entrega.
- Faça aqui até que a energia seja restabelecida. – Minha mãe observou pela janela e retirou o avental. – O Cícero está vindo com o eletricista. Terei que ficar lá com ele, tudo bem, filha? Te chamo assim que a luz voltar. – Anunciou já se ausentando da cozinha. Concordei e me sentei atrás da mesa, retirando os meus materiais da bolsa com a finalidade de iniciar o relatório – não sem antes bocejar mais uma vez –.

Meus olhos pesados dificultavam cada vez mais a minha capacidade de concentração e quanto mais eu me empenhava em mantê-los abertos e focalizados no caderno diante de mim, mais o sono se apossava do meu corpo.
Morpheu*, por favor, dá um tempo. Eu preciso terminar isso.
Bufei e esfreguei o rosto pela milésima vez, tornando a escrever.
Após muita luta, o cansaço me venceu. Apoiei a cabeça nos braços e fechei os olhos, dormindo quase que imediatamente.

(...)

Uma sensação gostosa e reconfortante era transmitida através de um carinho terno em meus cabelos. Não conseguia discernir se se tratava de um sonho ou se alguém realmente os acariciava, com isso, demorei alguns instantes até estar parcialmente desperta, para que, então, pudesse distinguir o que se passava a minha volta.
O familiar aroma amadeirado e cítrico invadiu as minhas narinas e eu sorri. Abri os olhos vagarosamente e mexi brevemente a cabeça a fim de comprovar a veracidade da minha suspeita, confirmando-a no mesmo instante em que enxerguei ali. Ele me encarava de uma maneira terna da qual aqueceu o meu interior e eu entrei em um estado de torpor ao sentir os seus dedos adentrando os meus fios naquele cafuné que decerto era o melhor do mundo.
- Bom dia. – Falou com um sorriso ladino e eu me assustei, levantando a cabeça em um pulo para olhar pela janela, vendo que a escuridão da noite ainda estava ali. Voltei a fitar , sorrindo sem graça ao perceber que se tratava somente de uma brincadeira da parte dele.
- Oi. – Finalmente proferi algo, passando as mãos pelo cabelo na tentativa de ajeitá-lo. – Você me assustou. – Disse, notando que a minha voz saíra um tanto quanto rouca.
- Desculpe, não foi a intenção. Só achei que aqui não era o lugar mais confortável para adormecer. – Expôs me estudando de forma calma. Assenti e olhei para o meu material em cima da mesa, expirando fundo com as tarefas pendentes.
- Estão consertando o sistema elétrico lá de casa, tive que estudar aqui enquanto isso e acabei pegando no sono. – Expliquei meio perdida e maneou a cabeça em compreensão. Juntei os objetos e os guardei na minha bolsa, ficando de pé. O homem fixou a atenção em meu rosto e eu ruborizei automaticamente.
- , você está dormindo direito? – Interrogou cismado. Desviei o olhar e dei de ombros, afinal, os meus cochilos não poderiam ser nomeados de dormir. - Bom, os meus olhos fecham quando eu pisco. – Gracejei e arqueou uma sobrancelha, ainda que um mínimo riso teimoso quisesse surgir por entre os seus lábios.
- Acho que isso é um não. – Supôs atento.
- É muita coisa para fazer e pouco tempo para desenvolver. Infelizmente dormir anda em segundo plano. – Relatei exausta.
- Não é preciso que você se desgaste para conseguir dar conta de tudo. – Pontuou afetuoso e, embora estivesse meio boba com a sua preocupação a respeito do meu bem estar, sabia que ele não estava errado. A falta de uma noite de sono decente realmente começou a refletir no meu dia-a-dia, chegando a comprometer o meu desempenho em diversas tarefas.
Parei para observar e deixei que um sorriso comedido esgueirasse da minha boca por vê-lo com a camisa social aberta em quatro botões acompanhada da gravata frouxa e razoavelmente desleixada em seu pescoço. Era muito difícil exercer o autocontrole com um homem daqueles perto de você, principalmente vestido... Daquele jeito. Pendi a cabeça para o lado e o fitei divertida.
- Farei o possível para começar a descansar. – Incitei e pareceu entender a minha brincadeira, pois a sobrancelha erguida de forma capciosa surgiu em sua face igualmente mordaz.
- Você irá descansar. – Deu um passo para frente, me prendendo entre a mesa e o seu corpo, fazendo o meu reagir.
- Senão...? – Instiguei e ele aproximou o rosto do meu, deixando as nossas bocas encostadas. Seu hálito quente e inebriante me amoleceu por completo, fazendo com que a expectativa me causasse arrepios.
- É um desafio, ? – Perguntou conduzindo os lábios levemente sobre os meus em uma nítida provocação, considerando que afastou-se minimamente só para admirar a minha feição resignada com um sorrisinho zombeteiro, chegando perto novamente.
- E se fosse? – Devolvi o questionamento, sussurrando a frase contra a sua boca durante o tempo em que os nossos lábios se tocavam superficialmente.
Era visível que nós nos provocamos com o objetivo de ver quem resistiria por mais tempo, e juro por todos os deuses que eu estava a ponto de perder.
- Desafios me parecem interessantes. – Encarou o meu lábio e me fitou profundamente logo após, respirando contra o meu rosto. Tudo nele pedia para que eu o explorasse com todos os artifícios que me fossem possíveis, utilizando desde as unhas até os lábios. A atmosfera pesada gritava para que fizéssemos alguma coisa e pareceu captar o que o momento implicava, haja vista que colou – ainda mais – nós dois; Arfei e espalmei as mãos em seu tórax. – Foda-se. – Ele murmurou e me tomou pela nuca, finalmente juntando as nossas bocas quase que desesperadamente. Ambos soltamos um grunhido de satisfação e eu agarrei os seus cabelos no momento em que a sua língua quente enrolou-se com a minha sem delongas. As mãos fortes de apoderaram-se da minha cintura e eu quase podia sentir os seus dedos firmes contra a pele do meu quadril, trazendo-me para si em um ato que deixava explícito quão desejado era o nosso contato mais constante.
Movimentávamos os lábios vagarosamente ao mesmo tempo em que estimulávamos cada toque através do beijo cálido e repleto de energia, encaixando as bocas e desencaixando apenas para que as línguas experimentassem uma a outra, me deixando em fervorosa. Ambas as palmas de invadiram a minha blusa e percorreram da minha cintura até o meio das costas, retomando o caminho pelo quadril em seguida, provocando-me um gemido ao senti-lo passar as unhas curtas por ali. Prendi o seu lábio inferior com os meus dentes para, em seguida, acariciá-lo com certa avidez, e foi a vez dele gemer, subindo o meu corpo com o propósito de me sentar na mesa, colocando-se no meio das minhas pernas.
No instante em que me sentei, foi que eu me toquei.
Mesa; Cozinha; Pessoas.
Qualquer um podia aparecer.
A minha mãe, a mãe dele, enfim...
O medo de sermos pegos transformava tudo em uma situação ainda mais excitante, porém, isso não deveria acontecer de forma alguma.
Cem por cento contra a minha vontade, escorri as minhas mãos anteriormente cavadas em seus cabelos e as posicionei em seu peitoral afastando-o um pouco, tendo como consequência de minha ação, a interrupção do beijo.
- , alguém pode chegar. – Soprei ofegante com os nossos rostos ainda próximos. Ele se tocou no que estávamos fazendo e onde estávamos fazendo, entretanto, pareceu não dar muita importância. Lançou-me um sorriso sacana e foi por pouco, muito pouco, que eu não mandei tudo para o raio que o parta e voltei a colar a boca na dele, afinal, o meu íntimo pulsava para que fizéssemos o que ansiávamos fazer bem ali, em cima da mesa. Atônita e com o corpo pegando fogo, desci e senti o atrito de nossos corpos que ainda encontravam-se juntos. afastou-se, mas o risinho sórdido continuava nos lábios avermelhados. Ele escondeu as mãos no bolso e, enquanto eu pegava o meu material inteiramente desnorteada, senti uma atenção desmedida faiscar sobre mim. Virei-me para a sua figura analítica e o repreendi com o olhar buscando segurar o riso. – Pare de me observar dessa maneira! – Era um pedido, contudo, saiu mais como uma súplica. O homem gargalhou e, relaxado, ergueu os ombros, demonstrando – de forma falsa, devo salientar – que não havia feito nada demais.
- Qual é o jeito que eu posso te olhar, então? – Retrucou sarcástico carregando o sorrisinho esperto cujo me deixava perdida. Arrumei a bolsa em meus braços junto com os livros e sustentei o contato visual, pensando em mil formas das quais eu gostaria que ele me olhasse, contudo, que não cabiam naquele momento.
- Eu não tenho uma resposta para a sua pergunta agora, mas não teste o meu autocontrole. – Respondi em um tom de ameaça mesclado com a risada que eu reprimia, arrancando outra gargalhada sonora de . Ele encostou-se na pisa e cruzou os braços sem preocupação, me encarando divertido.
Às vezes eu achava que todo aquele charme era proposital.
- Perdão, irei me policiar a respeito disso. – Ri e neguei com a cabeça, passando por ele não sem antes trocarmos olhares zombeteiros. – Embora seja difícil ter algum tipo de controle quando estou perto de você. – Complementou quando eu já estava passando pela porta. Refreei os meus passos com o coração descompassado, no qual as suas batidas frenéticas quase me inviabilizaram de ouvir corretamente tal frase. Virei o meu tronco parcialmente e, inexpressiva, o fitei por cima dos meus ombros; possuía a expressão serena e apenas me estudava de volta. Sorri para ele e retomei a minha caminhada, convicta de que a minha feição boba poderia ser vista à kilômetros de distância.
- Ia te chamar agora, filha. – A voz da minha mãe me despertou de meus devaneios. Eu mal havia a visto ali na minha frente! Por Deus, acorda . Situei-me de sua presença e foquei em não agir feito uma pateta.
- É, eu imaginei que à essa altura já estaríamos iluminadas novamente. – Gracejei ao enxergar a varanda de casa já devidamente clara. – Tem mais alguma coisa para fazer hoje? – Questionei adentrando o imóvel com a mulher ao meu encalço.
- Não, ainda bem. Vou tomar um banho rápido e já volto para nós jantarmos, tudo bem? – Avisou e eu assenti, me jogando no sofá. Permiti com que os meus lábios se repuxassem em um sorriso idiota e passei as mãos no rosto sem me importar em parecer uma tonta completa.
Eu me encontrava feliz demais para sequer pensar em algo que estragasse o que eu sentia.

**

A minha noite de sono fora maravilhosa e o meu corpo descansado claramente sentiu as boas horas de sono, pois elas refletiam no meu bom humor quase palpável. Após as aulas do dia, segui tranquilamente rumo ao meu trabalho e entrei na loja, avistando Vicenzo olhando estranho para baixo como se refletisse a respeito de alguma coisa. Aproximei-me dele e dei duas batidinhas no balcão, assustando-o.
- Porra, lindinha. Parece assombração, credo. – Reclamou alerta e eu ri de sua fisionomia aterrorizada.
- Parece que você viu assombração. Nem ouviu o sininho da porta! O que aconteceu? – Interroguei, guardando as minhas coisas no fundo do estabelecimento.
- Hoje à noite a banda tem uma apresentação em um bar fodido no meio musical e eu não sei que roupa usar! – Queixou-se como se aquilo fosse o fim do mundo. Não resisti e ri desesperadamente, sendo observada por um Vicenzo com cara de taxo. – Qual é a graça? Tem noção de quão importante é o estilo do vocalista? Eu não posso chegar lá de qualquer jeito! – A sua angústia era perceptível e, por mais engraçada que fosse, me esforcei em parar de rir a fim de ouvir o meu amigo que estava praticamente tendo uma síncope de nervoso.
- Certo... As roupas estão nessa mochila que você está olhando como se a Stacy London* e o Clinton Kelly* fossem brotar de dentro dela? – Perguntei, tendo a afirmativa de Vicenzo por meio de um aceno de cabeça. Abri a bolsa e franzi o cenho ao pegar duas peças contidas nela. – Em que manguezal você pretende usar isso? – Indaguei analisando a calça curtíssima na canela. Vicenzo contorceu o rosto em incômodo e balançou os ombros tatuados.
- Eu vou precisar de uma calça que não molhe caso as minhas lágrimas de derrota inundem o bar. – Dramatizou e eu torci o nariz, olhando-o feio.
. - Não fale besteira! – Resmunguei e coloquei a outra vestimenta em evidência. – Vai parecer que uma floricultura vomitou em você. – Falei a respeito da blusa extremamente florida em minhas mãos. Dessa vez, Vicenzo concordou. – O seu estilo é ótimo, não vejo motivo algum para esse desespero todo. Fique calmo e não mude nada. Vocês são incríveis, vai dar tudo certo. – Afirmei, tentando acalmá-lo. – Deixe o encerramento do expediente por minha conta, saia mais cedo para levar essas roupas em casa e se prepare melhor. – Comuniquei e ele deu o seu sorriso de coringa, levantando num pulo. Vicenzo envolveu-me em seus braços e me balançou de um lado para o outro. - Você é maravilhosa demais para esse mundinho nefasto. – Comentou e eu ri, me debatendo contra o seu corpo.
- Se continuar me apertando desse jeito, nós vamos nos fundir. – Alertei, suspirando de alivio no instante em que o vocalista me soltou.
Iniciamos o nosso trabalho, a começar pela organização das encomendas que haviam chegado no período da manhã e outras na chuvosa tarde anterior.

O movimento da loja estava consideravelmente calmo, para não dizer parado. Vicenzo havia ido embora há alguns minutos e eu já havia limpado aquelas prateleiras incontáveis vezes, absorta no mais irritante tédio. Sentada atrás do balcão com a cabeça apoiada nas mãos, eu me esforçava para vencer o joguinho de paciência que era o único escape para o marasmo daquele entardecer. O sino da porta anunciou a chegada de um cliente e eu me endireitei no banco, sorrindo simpática na direção do homem de idade que acabara de entrar, varrendo o local atentamente até posicionar os olhos analíticos nos meus. Ele parou à minha frente, porém, nada disse.
- Boa tarde, senhor. Em que posso ajudá-lo? – Coloquei-me à disposição, aguardando a sua resposta. Silêncio. – Senhor? – Insisti e ele finalmente expressou uma reação, sorrindo amigável.
- Desculpe, estava admirando os detalhes do lugar. É realmente interessante. – Alegou passando as mãos nos frios brancos. Vislumbrou ao redor e eu concordei.
- Não se preocupe, é comum que os clientes façam isso. Eu também faço. – Sorri sendo acompanhada por ele. – Está em busca de algo em específico?
- Oh, sim. Vim procurar alguns discos, eu faço coleção deles. – Explicou. Assenti e dei a volta no balcão, pedindo para ele me seguisse.
- Nós possuímos muitos! O senhor tem uma banda em mente? Um gênero musical, talvez? – Questionei mexendo na fileira de vinis. – Fique à vontade para procurar, pode retirá-los do lugar sem problema nenhum. – Disse atenciosa, recebendo um sorriso afável em resposta.
- Por favor, me chame de Benitez. – Solicitou gentil.
- Certo. Senhor Benitez está bom? – Perguntei e ele concordou.
- O senhor é opcional, mas está bom, sim. – Ri, escutando-o prosseguir. – Vocês têm alguma coisa do Led Zeppelin?
- Claro! Só um minutinho... – Dedilhei os vinis e lp’s e puxei uma capa quadrada, entregando-a para o senhor Benitez. – Aqui está! – O disco de Stairway To Heaven foi analisado pelo homem e pareceu agradá-lo, já que ele movimentou a cabeça em satisfação, colocando-o na cesta de compras.
- Vou levar esse.
- Mais alguma coisa? – Guardei os vinis dos quais havia tirado do lugar e segui até o balcão assim que o senhor negou. Fiz o procedimento de pagamento e entreguei-lhe a sacola com a mercadoria, sorrindo agradecida. – Obrigada por comprar conosco e volte sempre.
- Eu que agradeço... – Forçou a visão com intenção de enxergar o que estava escrito no crachá dependurado em meu pescoço.
- . – Completei a sua sentença. Ele assentiu afetuoso e pegou um cartãozinho da loja, posto ali exatamente para aquela finalidade.
- Eu que agradeço, . – Corrigiu. – Com certeza voltarei. Tenha um bom trabalho.
- Obrigada, um ótimo fim de tarde para o senhor. – Desejei, assistindo-o sumir porta afora.
Meu celular apitou e eu o apanhei de cima da prateleira, notando uma nova mensagem enviada por .
“Acho que fui bem! Vão me dar a resposta final na quinta.
Te ligo mais tarde.”


Enviei-lhe um emoji qualquer e voltei a minha atenção ao joguinho inacabado, aguardando ansiosamente pelo meu horário de saída.

’s POV

A sensação de estar de mãos atadas era agoniante.
Mesmo tendo plena consciência de que eu havia feito tudo que, por hora, era cabível na situação do meu cliente, a impressão da qual insistia em me incomodar dizia insistentemente que algo muito importante estava sendo deixado de lado. Reli as anotações de Lee Feldmann e expirei fundo, procurando ligar os possíveis acontecimentos da noite do homicídio.
Tudo o que eu sabia era que o corpo de Mason Zummack fora encontrado na única sala revestida por proteção acústica, o que me levava a crer que, seja lá quem tivesse cometido o crime, possuía informações a respeito da estrutura do sítio e encontrou o local perfeito para alvejar o banqueiro.

”Todos conversavam e bebiam como habitualmente ocorria nas festas daquele feitio. Mason pediu para que aguardássemos, pois precisava cuidar de um assunto sério – palavras dele – e sumiu entre a multidão de convidados. Não nos preocupamos, sequer chegamos a presumir que o assunto em questão fosse sério o suficiente para ter em seu destino um assassinato. Como não estava apto a beber, descontei toda a minha vontade de consumir bebida alcoólica no cigarro. Saí quase que no mesmo instante que Zummack e, com o intuito de fumar, dirigi-me à parte desabitada do sítio, ficando ali por incontáveis minutos. Logo depois de finalizar o meu tabaco, resolvi andar pelo recinto a fim de esfriar a cabeça dos tópicos profissionais abordados na festa e caminhei pelos cômodos vazios, parando próximo à porta entreaberta de um em especial; Sempre me considerei uma pessoa curiosa, e naquele cenário, a minha curiosidade custou caro. Ao entrar na sala, o cheiro forte de sangue penetrou as minhas narinas tal como o perfume da morte. As gotículas escarlate pintavam a parede de maneira horrenda; O chão tomado pelo vermelho vívido denunciava a recente carnificina.
Mason Zummack encontrava-se ensanguentado e deitado sob alguns papeis, e marcas de tiro perfuravam o seu peito.


Li um dos relatos escrito pelo meu cliente e suspirei, massageando as têmporas num ato de reflexão. Eu necessitava do laudo da perícia para encontrar brechas no plano do assassino. Por que ele havia colocado a arma do crime no carro de Lee Feldmann? Teria sido uma motivação pessoal? Acreditar em sorte ou azar nunca me pareceu viável, contudo, precisava admitir que o meu cliente não foi a pessoa mais sortuda do mundo naquela noite, afinal, tudo levou a sua incriminação. Era fato que, em casos como esse, detalhes eram responsáveis por demonstrar a inocência do réu. Eu só precisava buscá-los com mais obstinação.
Armazenei os documentos em deu devido lugar e guardei o restante das coisas, recolhendo a minha maleta ao fim do expediente. Despedi-me das pessoas espalhadas pelo escritório e entrei em meu veículo, seguindo até o bar onde combinei de me encontrar com Paolo.

Cheguei ao meu destino sem demora e entreguei as chaves do carro para o manobrista, adentrando o estabelecimento pacato. O som ambiente repercutiu agradável através da voz harmoniosa de uma mulher que se apresentava como performance da noite, acompanhada por uma banda igualmente melodiosa. Paolo acenou para mim logo que eu entrei em seu campo de visão e eu fui até ele, cumprimentando-o com um meio abraço.
- Grande ! – Saudou e eu me sentei no banco ao seu lado.
- E ai, Herzog?!
- Finalmente saiu daquele escritório, hein? É bom ter contato com a civilização e experimentar ter um pouco de vida social. – Zombou, me arrancando um riso cansado.
- Eu sei, cara. Ando tão consumido pelo trabalho que me esqueço de desacelerar um pouco. – Reconheci, pedindo a minha bebida para o barman. Paolo deu um gole na sua, antes de se pronunciar novamente.
- Irmão, você está solteiro! Deveria aproveitar a sua emancipação e voltar a ser o meu companheiro de boemia, já falei. – Advertiu. – Achei que você convidaria o para vir, inclusive. – Mencionou em meio a uma feição minimamente desgostosa. Paolo e nunca foram próximos e o primeiro nunca fez muita questão. Eu preferi nunca intervir, tampouco forçar uma convivência entre ambos. Neguei a sua suposição, da qual me recordou que eu não falava com desde o nosso pequeno desentendimento em seu apartamento.
- Não falo com ele há alguns dias. – Expliquei e Paolo franziu o cenho.
- Por quê? – Passei a mão pela nuca e baguncei os cabelos em seguida, considerando se contava o real motivo da discussão, ou simplesmente não entrava em detalhes, haja vista que nunca gostei de falar sobre a minha vida pessoal, no entanto, optei pela primeira opção.
- Ele falou merda sobre a . – Disse e Paolo continuou com a expressão confusa, evidentemente aguardando que eu prosseguisse. – Nós nos aproximamos muito de uns tempos pra cá e ele implicou com isso, foi totalmente sem noção. – Herzog estreitou o olhar e o sorriso sórdido em sua feição foi o bastante para que eu compreendesse o que aquele semblante significava.
- Eu sabia! – Ele riu com disposição, jogando a cabeça para trás como se houvesse descoberto algo excepcionalmente cômico. Arqueei uma sobrancelha e esperei que o seu show acabasse, o que não demorou, tendo em vista que o meu amigo percebeu a minha face séria. Deixando a gargalhada cessar gradativamente, Paolo se recuperou e, reparando que eu não diria nada, retomou a sua fala. – , na festa do Adrian ficou bem perceptível. Eu captei a vibe na mesma hora, meu amigo. Então vocês dois estão mesmo se pegando? Caralho! – Exclamou risonho e eu o censurei com o olhar, ingerindo o líquido marrom do whisky. – Desculpe. – Se recompôs – Cara... Como isso aconteceu?
Era uma ótima pergunta.
Eu não possuía capacidade de respondê-la.
- Essa aproximação com a mexeu comigo mais do que eu esperava. – Confessei aturdido.
- Você sabe que isso pode dar um puta rolo, não sabe, Romeu*? – Meu amigo questionou e eu assenti. – Eu curto esse arrebatamento romântico ligado ao contexto imprevisível da coisa toda, até mesmo apoio, mas veja lá o que vocês estão fazendo. A garota pode ter muito a perder. – A recomendação de Paolo fazia sentido e eu sabia a que ela se referia, ainda que me incomodasse demasiadamente. Não sabia o parecer de sobre tal assunto, todavia, o meu, era claro: Afastar-me dela seria viável somente se ela o quisesse.
Seguimos ali falando trivialidades e, algumas horas depois, despedi-me do meu amigo que, com certeza, estenderia a sua noite com alguma mulher que se encontrava bar. Dirigi tranquilamente de volta para casa, sendo recebido por Bento e a sua usual alegria assim que estacionei na garagem.
- E aí, amigão?! – Acariciei o seu pêlo e franzi o cenho ao ver a sua pata suja de terra. – Puta merda, Bento. O que você fez? – O Pastor Alemão abaixou as orelhas e parou de pular, me encarando desconfiado. Suspirei e baguncei os cabelos, instantaneamente imaginando como ele se comportaria no meu apartamento. – Vem, vou lavar a sua pata no chuveiro e amanhã você vai tomar banho. – Passei pela entrada e fiz menção de subir as escadas, contudo, a voz do meu pai ressoou pelo ambiente, refreando os meus passos. Virei-me e o vi parado na entrada da sala de estar.
- Sábado teremos uma confraternização aqui. – Comunicou ele, aproximando-se.
- Por qual motivo?
- Os faturamentos do escritório alcançaram a meta antes do previsto. Trata-se de uma boa justificativa, penso eu. – Afirmei com a cabeça, sem muito ânimo.
- Definitivamente. É sempre sobre o dinheiro, de qualquer forma. – Ri irônico e o homem lançou-me um olhar frívolo.
- Sem hostilidade, . Os seus casos ganhos lhe colocaram em uma boa posição neste meio, se quer saber. Você faz parte dos lucros, não desdenhe as suas vitórias. – Repreendeu severo. Continuei fitando-o inexpressivo, num posicionamento do qual manifestava quão maçante aquele argumento havia se tornado. Era indiscutível que obom humor do senhor Henrico se resumia ao êxito nos negócios.
- Algo a acrescentar? – Inquiri sem argumentar contra ele, que negou. – Boa noite. – Chamei Bento através de um gesto com os dedos e subi os degraus, ouvindo-o retribuir a minha fala.
- Boa noite, filho. – A última palavra raramente saía de sua boca e soava estranho ouvi-la. Adentrei o meu quarto e levei Bento direto para o banheiro, onde o cão mais bagunçou do que permitiu com que eu lavasse as suas patas encardidas de terra.

**

Os dias corridos no escritório em conjunto às horas extras de trabalho acarretaram a rápida chegada do final de semana, trazendo com ele a confraternização que me faria ouvir acerca de conteúdos profissionais a porra da noite inteira. Vesti o blazer preto e saí do meu quarto, já identificando conversas paralelas dos convidados no andar debaixo e na extensão da área externa. Meus pais sustentavam a típica pose vaidosa cujo lhes era costumeira, ambos inflados em razão de suas próprias motivações, exibindo os frutos do império construído por nossa família. Cumprimentei alguns colegas de profissão e outras pessoas das quais trabalhavam comigo e peguei uma taça de champagne, caminhando rumo ao lado de fora e saudando o restante dos visitantes espalhados ao longo do recinto.
Encostei-me na parede com um dos braços cruzados e a bebida em mãos, varrendo a vastidão daquela área com o olhar, estagnando a minha observação na figura parada mais à frente, moderadamente distante. estava de costas ao meu campo de visão e parecia procurar algo na pequena bolsa dependurada em seus ombros; Eu a estudei de maneira minuciosa, começando pela calça de cintura alta com a boca larga e subindo pela extensão de suas pernas e coxas, parando no bumbum traçado pelo pano justo da vestimenta. A garota deixou algum objeto cair e abaixou-se com a finalidade de pegá-lo, propiciando uma vista mais salientada daquela parte de seu corpo. Ergui o cenho e tomei um gole considerável do líquido contido na taça, com pensamentos intrusos nada puros rodeando a minha mente diante de tal posição. Ela ergueu-se e eu finalizei a minha análise em sua blusa reduzida a uma espécie de top de alças finas.
Porra.
Minha boca se repuxou em um meio sorriso e eu deixei com que o meu corpo comandasse as minhas vontades. Encaminhei-me até ela e parei rente às suas costas, esperando-a guardar seus pertences na bolsa. girou o tronco para começar a caminhar e deu um sobressalto ao me ver, entreabrindo os lábios rubros por efeito do espanto.
- Céus, , qual é o problema em fazer sequer um barulhinho para evitar que eu enfarte? – Resmungou e eu ri de seu semblante assombrado.
- Está alarmada com algo? – Indaguei e ela cruzou os braços com a feição debochada.
- Você pergunta agora que já me assustou?
- Desculpe. – Pedi e a sua expressão suavizou. encarou por detrás dos meus ombros e retomou a sua atenção até mim.
- Noite agitada? – Perguntou sutilmente. Assenti e devo ter feito uma cara não muito agradável, visto que a garota riu.
- Lamentavelmente não posso fugir dessas obrigações sociais. – Proferi conformado. Ela mordeu os lábios de forma ligeira e encarou o chão durante poucos segundos, fixando os olhos vívidos nos meus após o ato.
- Te convidaria para fugir comigo, mas não seria adequado um anfitrião sumir da festa, seria? - Questionou ruborizada em meio a uma entonação meiga e eu me perguntei por que diabos não notei aquela garota antes. O meu desejo era mandar toda àquela merda de celebração e polidez para o inferno e simplesmente desaparecer dali acompanhado de , contudo, o peso do dever e da responsabilidade para com a situação me impedia de consolidar a minha vontade. Ri fraco e neguei.
- Não deixa de ser uma proposta tentadora. – Expus.
- Bom, o meu destino de fuga é a casa de uma amiga minha. Ela conseguiu um emprego maravilhoso e resolveu comemorar. – Mencionou enquanto andávamos lado a lado.
- Isso é ótimo. Emprego de quê?
- Estagiária em um consultório de psicologia bem famoso na área. – Explicou e eu assenti em compreensão. olhou para o lado e pareceu tentar identificar algo ou alguém próximo a nós dois. Segui o seu olhar e avistei Carl nos observando da mesma maneira que a garota. Eu nem mesmo havia o visto entre os convidados. Ele veio ao nosso encontro e ela sorriu como se um lampejo de alguma recordação a atingisse, ao mesmo tempo em que eu permaneci sem entender.
- ! Bom te ver, rapaz. – Cumprimentamo-nos com um aperto de mão firme.
- É recíproco, Carl. Não sabia que você viria. – Falei e o homem sorriu cortês.
- Recebi o convite hoje cedo. – Ele redirecionou a atenção à , que apenas assistia quieta.
- Perdão, deixe-me apresentá-los. Carl, essa é , uma amiga minha. – Pronunciei e eles se cumprimentaram com o mesmo gesto anterior.
- Já nos conhecemos. – Anunciou ela. – A mãe dele leciona na minha faculdade. – Explicou sorridente.
- É uma feliz coincidência. – Carl mencionou e eu somente afirmei com a cabeça.
- Bom, tenho que ir. Foi um prazer te ver, Carl. – pronunciou atenciosa.
- O prazer foi meu. Tenha uma noite formidável. – Ela agradeceu e me fitou.
- Tchau, . Boa festa. – Sorriu terna.
- Obrigado. Pra você também. – A garota acenou e nos deu às costas, rumando em direção à saída de casa. Carl e eu nos locomovemos de volta ao local onde a confraternização se sucedia, logo tendo a sua esposa e minha mãe junto a nós dois.
- Onde esteve, querido? – A mulher perguntou ao marido.
- Estava apenas cumprimentando . – Lancei um aceno de cabeça a ela e apertamos as mãos.
- Espero que esteja gostando da celebração, Carl. É sempre um prazer tê-los aqui. – Ostentosa e inflada em seu ego, minha mãe pronunciou. Coloquei a taça da qual eu outrora portava e apanhei uma nova, sentindo o líquido abrasar a minha garganta. Desliguei o meu sistema auditivo por alguns minutos e, alheio à conversa, focalizei a minha atividade mental em outras coisas, até ser desperto pela voz de Carl e notar que as duas mulheres haviam se afastado.
- Como o Feldmann tem passado? Não temos contato desde... Bem, você sabe. Desde que Mason fora morto. – Declarou com pesar.
- Presumo que você ainda esteja abalado e é indiscutível a gravidade da situação em virtude de sua proximidade com ambos, contudo, infelizmente não posso falar a respeito do meu cliente. Lamento. – Expliquei-lhe e o homem afirmou.
- Oh, claro! Não se preocupe, eu compreendo perfeitamente.
- Se quiser, você pode optar por ligar para ele. Tenho certeza de que uma palavra amiga o fará bem. – Acrescentei.
- Eu definitivamente o farei. Conte comigo caso precise de algo, . Nada irá trazer Mason de volta, entretanto, sei que Lee não fez isso. – Afirmou com convicção. Sem ter muito que dizer, agradeci e afirmei, iniciando um tópico diferente a ser conversado.

Deixei o blazer de lado e abri alguns botões de minha camisa, andando em direção à área da piscina após o fim da festa. Todos os convidados haviam partido e a casa encontrava-se vazia em meio ao silêncio que ficara com a ausência de movimento nos cômodos, considerando-se que meus pais já se encontravam recolhidos em seus aposentos.
O vapor da água aquecida produzia nuvens densas e esbranquiçadas na superfície daquela área, formando um mormaço aprazível à temperatura corporal. Suspendi a barra da minha calça e coloquei os pés no líquido quente, permitindo que o meu pensamento anuviasse naquele momento de sossego. Sempre preferi a madrugada e a calmaria da qual ela carregava consigo, pois o seu ritmo desacelerado possibilitava com que eu me ouvisse melhor e experimentasse a paz de estar sem o barulho do dia-a-dia.
Com a atenção em um ponto fixo e afastado, vislumbrei caminhar tranquilamente enquanto se dirigia à sua moradia, aproximando-se ao passo que andava distraída ali perto. A acompanhei com o olhar e ela pareceu notar a presença de mais alguém, uma vez que refreou os seus passos e virou a cabeça para o lado, deparando-se comigo a observando. A garota sorriu fraco e eu a chamei por meio de sinal com as mãos, vendo-a ponderar por poucos instantes durante o tempo em que, incerta, examinava ao redor à medida em que chegava perto do lugar onde eu me encontrava. retirou os sapatos bem como a bolsa e sentou-se ao meu lado, realizando o mesmo procedimento de puxar a barra da calça antes de colocar os pés na piscina.
- Como foi a sua noite? – Perguntou, admirando os tornozelos que balançavam e causavam elevações na água.
- Nada fora do que é usual. E a sua?
- Boa. Fiquei longe do rum dessa vez. – Brincou, me arrancando um ligeiro riso.
Ficamos calados ao longo de alguns minutos, simplesmente contemplando a serenidade da madrugada junto aos reflexos que as luzes inseridas nas laterais da piscina formavam, deixando o seu azul ainda mais cintilante. – Você já se pegou pensando em como as coisas seriam se a sua vida fosse diferente? – Indagou repentinamente. Arqueei uma sobrancelha e fitei a lateral de seu rosto, confuso por efeito de sua pergunta.
- Diferente de que maneira?
- Em relação a tudo. Ter outra vida inteiramente oposta a que você tem agora. – Elucidou compenetrada na própria sentença. Não, eu nunca havia considerado tal hipótese.
- Não. – Respondi, não conseguindo me imaginar em outra posição senão a qual eu pertencia atualmente. sorriu e balançou a cabeça.
- É óbvio que não. Nem todo mundo nasce , não é mesmo? – Inquiriu com o sorriso doce, finalmente me olhando.
- Não precisa me lembrar. – Ri sem humor. – Talvez sempre ter sido guiado pelo automático me impediu de tentar me colocar em uma realidade que não fosse a minha. E ela não é o que eu posso chamar de esplendorosa. – Disse, notando que a garota me ouvia atentamente.
- Sempre achei que ela era. – Comentou e eu neguei.
- Por trás dos bastidores as coisas vão além do que se vê, . Por que você me fez essa pergunta?
- Foi somente uma curiosidade. Às vezes eu penso que a verdade que cada pessoa carrega pesa de acordo com o que ela pode aguentar, e só, mas ainda assim, imaginar uma vida paralela onde esses pesos são mais leves pode atenuar a intensidade deles. – Observou e aquilo me fez refletir. De fato, cada um lida com a própria realidade conforme os instrumentos que tem e como lhe é cabível. voltou a me mirar com os olhos atentos e sorriu travessa, colocando as mãos na água e jogando várias gotas em mim. Arqueei uma sobrancelha diante do ato e ela pronunciou-se.
- Você está sério demais. – Averiguou me analisando – É muito tarde para falar sobre assuntos complexos, desculpe-me. Esse horário tende a nos deixar mais filosóficos. – Gracejou e eu afirmei. Ela se distraiu com a luminosidade da piscina e eu dei um sorriso discreto, reunindo uma considerável quantidade de água nas mãos e respingando-a em seus braços descobertos. deu um pulinho engraçado e me fitou boquiaberta enquanto eu ria enviesado.
- Apenas devolvendo a gentileza. – Pisquei sarcástico à garota que me estudava com os olhos cerrados e uma evidente vontade de rir.
- Ora, ora, o sempre carrancudo tem senso de humor! – Debochou me provocando. Permaneci com a sobrancelha arqueada e a fisionomia satírica, descendo o meu foco para os seus lábios presos entre os dentes durante o tempo em que era contemplado por uma risonha. Tornei a avaliá-la sem dizer palavra alguma. Ela fez menção de molhar as mãos mais uma vez e eu a repreendi com o olhar, embora desejasse rir de sua fisionomia divertida.
- ... – Comecei em tom de censura, o que só a incentivou mais. Juntou a água na palma virada em concha e ameaçou arremessá-la. Me mantive parado apenas aguardando o seu próximo passo. Assim que ela ergueu a mão, me aproximei e a peguei com destreza, ouvindo o som dos pingos caindo de volta na piscina. Fiz um “não” com a cabeça e me dirigi ao seu ouvido. – Olha lá o que você vai fazer. – Soprei e os meus lábios se repuxaram em satisfação ao vê-la se arrepiar. Senti a sua mão molhada em minhas costas por dentro da blusa e arqueei o tronco, ainda que a água aquecida não fizesse diferença. Na verdade, tal ação se deu pelo seu toque em minha pele. Outra risada saiu de sua boca e eu cravei os meus olhos em sua face, mais estimulado do que nunca a dar continuidade àquilo. Passei o meu braço entorno de sua cintura e a trouxe para mim. – Está com algo que não pode molhar? – Perguntei e a garota negou com o cenho franzido. Lancei-lhe um meio sorriso e, em um movimento rápido e impensado, apoiei a mão livre no chão onde estávamos sentados e dei um impulso, fazendo com que nós dois caíssemos juntos na piscina. Emergi sem soltá-la, sustentando o seu corpo em meus braços. Completamente aturdida, passou as mãos no rosto e retirou o excesso de água dali, encarando-me perplexa. Abriu e fechou a boca algumas vezes enquanto piscava tentando se situar.
- Eu não acredito, ! Você ficou maluco?! – Bradou em uma mistura de irritação com divertimento, levando em conta que ela ria.
- Foi você quem começou. – Rebati zombeteiro, carregando-a comigo até a extremidade da borda e encostando as suas costas nela.
- Tire esse sorrisinho atrevido do rosto, não tem graça! Eu estou brava! – Exclamou zangada e eu gargalhei.
- Jura? E por que você está rindo? – Questionei cínico, imediatamente recebendo um olhar fuzilante.
- Estou rindo de nervoso! A risada serve para mascarar a minha vontade de enfiar a sua cabeça debaixo d’água. – Falou em tom de ameaça e, mais uma vez, a gargalhada saiu sem que eu pudesse controlar. – Para de rir, ! – Suplicou, rindo também.
Os risos cessaram e trocamos olhares zelosos. passou os braços pela minha nuca e descansou a cabeça na curva do meu pescoço, provocando arrepios no segundo em que a sua respiração foi de encontro com a minha pele molhada. Acariciei a sua cintura e fechei os olhos momentaneamente. A sensação de que as minhas energias haviam sido recarregadas produziu uma mansidão em cada parte do meu corpo, relaxando os meus músculos instantaneamente. – Estou com sono. Se não estivéssemos na água, eu dormiria. – Alegou com a voz fraca.
- Então suponho que da próxima vez eu deva te puxar para a minha cama. – Expus satírico e ela ergueu a cabeça, sorrindo torto com a sobrancelha arqueada. A garota chegou perto do meu rosto em uma distância mínima para, sem delongas, colar os nossos lábios e me fazer sentir a textura macia dos seus. Eu voltei a fechar os olhos a fim de aproveitando o toque sutil de nossas bocas naquele selinho demorado, desfrutando da carícia prazerosa da qual eu recebia entre a nuca e os meus cabelos. se afastou e eu lhe devolvi o meio sorriso, andando com ela agarrada a mim até a entrada da piscina, onde nos separamos para sairmos de lá. Ela se abraçou e deu pulinhos engraçados devido ao frio, já com os seus pertences em mãos. Esfreguei os cabelos para tirar o excesso de água dos fios e peguei o meu sapato, sem conseguir conter o riso pela figura saltitante a minha frente enquanto caminhávamos lado a lado.
- Boa noite... – falou quando chegamos à área próxima de sua casa.
- Boa noite. – Acabei com o espaço que nos separava sem desconectar o nosso contato visual, pousando uma de minhas mãos em sua nuca por cima dos cabelos molhados. Encostei os meus lábios em sua testa e os deixei lá sem me demorar. – Durma bem. – Pisquei para ela e me distanciei, percorrendo o caminho de volta a seguir.
Nada do que estava acontecendo foi premeditado, o que talvez validasse o argumento banal de que as coisas boas vinham de repente. Algumas vezes, o acaso acerta.

’s POV

Eu, assim como a maioria das pessoas, não suportava domingo. A primeira coisa que geralmente penso quando ele chega, é: “amanhã começa tudo de novo” seguido de um suspiro desanimado junto à vontade de ficar deitada e inanimada tal qual um vegetal, porém, naquele em particular, a minha disposição estava nas alturas do mesmo modo que a minha felicidade pelas boas notícias vindas dos meus amigos. A banda de Vicenzo “acariciou os tímpanos da platéia e deu-lhes orgasmos auditivos” – como ele mesmo dissera –, o que significava que a apresentação rendeu bons elogios; conseguiu o emprego na clínica e o seu entusiasmo na noite de ontem fora contagiante, eu realmente estava contente por ela e por sua conquista. Claro que não era necessário que eu me enganasse, afinal, eu tinha plena consciência de que o último acontecimento da madrugada contribuiu – e muito – para a consolidação da minha absoluta condição de pessoa radiante em uma manhã de domingo, sendo o responsável pela feição abobada em meu rosto durante o tempo em que eu me encarava pelo reflexo do espelho embaçado pela fumaça pós banho. Troquei de roupa e segui até a cozinha, avistando a minha mãe envolta pelo roupão felpudo por cima de seu pijama, aparentando ter acordado recentemente.
- Bom dia! – Saudei animada, fazendo-a sobressaltar minimamente. Murmurei um “desculpe” ao passo em que ela se virou alarmada, sentando-se à mesa após colocar a garrafa de café ali.
- Bom dia, filha. Vejo que alguém está de bom humor... – Avaliou.
- É, eu dormi muito bem. – Respondi. Aquilo não deixava de ser verdade.
- Percebe-se. – Sorriu desconfiada e eu me concentrei em pegar o açúcar com o intuito de colocá-lo em meu café, escutando a risada baixa da minha mãe depois de poucos segundos. Levantei o olhar até a sua figura cômica e vi que o seu dedo indicador apontava para a minha xícara, portanto, direcionei a atenção até o objeto de vidro. A partir do momento em que enxerguei a quantidade de grãos brancos contidos ali, pisquei confusa. – Seu avô costumava dizer que adoçar alguma coisa além do normal significa paixão. – Examinou divertida e eu quase engasguei com a minha própria saliva. Ri e balancei a cabeça.
- Ao meu ver, isso se chama distração. – Assegurei, rolando as órbitas ainda rindo ao ouvi-la dizer “sei” em tom irônico.
- , por que as suas roupas estavam molhadas? – Ela perguntou e eu travei. Pensando em uma explicação rápida, disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
- Sem querer as deixei cair no balde com água. – Eu não me sentia bem em omitir a verdade à minha mãe, porém, sabia exatamente o que ela diria caso tomasse conhecimento do que andava acontecendo entre mim e .
Não era certo; Daria problema; Ameaçaria o emprego dela e, consequentemente, o lugar onde morávamos;
Existiam vários empecilhos e, com eles, vários motivos que demonstravam quão dificultoso seria permanecer perto de daquela maneira, entretanto, ficar longe dele não me parecia uma opção possível.
Eu já havia tentado, de qualquer forma.
Segui o resto do café da manhã imersa em meus devaneios, procurando um jeito de ignorar a sensação de culpa que me assolava.

**

- Por Deus, Bento, você não cansa? – Questionei ao Pastor Alemão animado em expectativa enquanto esperava que eu arremessasse o seu brinquedo. Joguei-o e ele correu enérgico pelo descampado, me arrancando uma risada ao ver a sua felicidade por achar o objeto de borracha.
- Bom dia, mocinha. Aproveitando o dia de sol? – Cícero parou ao meu lado carregando consigo o seu característico sorriso amigável.
- Bom dia! Estou colaborando para que ele aproveite, na realidade. – Apontei com a cabeça para o cão que corria sozinho e o senhor deu uma breve risada.
- , a senhora pediu para que eu lhe chamasse. – O fitei de súbito com a expressão misturada em surpresa e receio, visivelmente confusa diante de Cícero, que me estudava afetuoso.
- Onde ela está?
- No escritório, mocinha. É melhor que você vá logo. – Aconselhou e, tomada por um incômodo na boca do estômago, assenti. Agradeci a ele e me retirei, sentindo os meus passos vacilarem durante o caminho percorrido; Entrei pela cozinha aliviada por minha mãe ter saído e segui até o escritório da residência, parando em frente à ampla porta de madeira escura, na qual deixei leves batidas a fim de anunciar a minha chegada. Olhei para o lado e vislumbrei saindo de um dos cômodos daquele corredor, nitidamente estranhando a minha presença logo que os seus olhos deixaram os papeis em suas mãos e encontraram os meus. Ouvi a voz enfática da senhora e finalizei o contato visual com ele, respirando fundo antes de adentrar a sala e ser atingida pelas íris analíticas e firmes da mulher tão ostensiva, quanto majestosa, situada na pose sempre ereta. Fechei a porta atrás de mim e fiquei ali parada, recebendo um sinal vindo de dona Kyara para que eu me sentasse. Assim o fiz.
- Aconteceu algo, senhora? – Questionei insegura. A mulher sofisticada carregava um sorriso indecifrável, deixando a situação mais estranha.
- Sabe a coisa mais deselegante que alguém pode fazer? – Começou casualmente, passando levemente os dedos pelas pequenas esculturas de cristal espalhadas por uma prateleira. Eu a acompanhei com o olhar perdido por não entender a sua intenção em me chamar ali.
- Não senhora. – Disse cismada.
- Então eu vou lhe dizer... – A senhora me encarou com o sorriso perdurando em sua expressão ininteligível. – Não saber se recolher em sua insignificância é deselegante. Não há nada mais inoportuno do que a ausência de bom senso, você não acha? – Eu definitivamente não estava gostando do rumo daquela conversa e muito menos das coisas que a mulher falava.
- E o que seria ausência de bom senso, senhora? Creio que rótulos não cabem a ninguém, todos possuem significância. – Falei e entei não demonstrar o meu descontentamento. Dona Kyara cerrou os olhos felinos, ainda que não perdesse a pose por um segundo sequer.
- Você é uma garota inteligente, . Contudo, lamentavelmente, não é mais inteligente do que eu.
- Desculpe, mas acho que preciso entender o contexto dessa conversa para compreender exatamente o verdadeiro sentido do que a senhora está dizendo. – Eu a olhei com a expressão séria, incomodada ao extremo com a sua última constatação. Não perca a paciência, . Não perca.
- , ... Sempre encobertada pelos cantos de nossas festas contemplando a vida que não pode possuir... É um mundo esplêndido, se me permite dizer. Eu lhe entendo, meu bem. É absolutamente normal ser deslumbrada por algo fora de sua realidade. – Foi a minha vez de cerrar os olhos. Fechei minhas mãos em punhos e expirei fundo, esforçando-me a manter a calma.
- Estou muito confortável comigo mesma e com a minha vida, senhora. – Ela se encontrava irritada em razão da minha truculência e eu sabia disso. Ouvir barbaridades e ficar calada não fazia o meu tipo, pouco me importava quem as proferisse, sempre teria volta. Dona Kyara soltou um riso breve e prosseguiu.
- Como é carregar um sentimento não correspondido, meu bem? – Nesse instante, eu gelei. A encarei surpresa e todas as palavras simplesmente esvaíram-se da minha mente.
- O quê? – Segui a observando com o estômago embrulhado tamanha a sua arrogância ao se dirigir a mim.
- Isso torna tudo ainda mais árduo, eu suponho. E mais atrativo, se me permite dizer. Você acha que eu não noto a sua forma de olhar para o ? Não seja ingênua, . Seu modo de não deixar o sentimento transparecer é pífio, eu sugiro que você desenvolva melhor essa habilidade, afinal de contas, sinto lhe informar que todo esse amor, ou seja lá o que for, irá se manter platônico. – Eu quis rir. Deus, como eu quis. Mal sabia ela que até ontem e eu estávamos juntos. – Não me interprete mal, estou falando isso para o seu bem. Olhe pra si mesma, o que você pode oferecer ao meu filho? – Arqueei uma sobrancelha com mil respostas para a sua pergunta, mas preferi permanecer em minha pose indiferente, assistindo até onde ela chegaria. – Estou abrindo os seus olhos para o óbvio, o seu mundo não se encaixa ao de , você sabe disso. – Uma mistura de tristeza e raiva formou um nó em minha garganta. Se ela achava que eu agiria como uma pobre indefesa, estava muito enganada. Arqueei uma sobrancelha e deixei que um sorriso mordaz perdurasse em minha face, ato que fez com que a mulher adotasse uma expressão séria.
- Bom, Dona Kyara, admiro o seu discurso, mas a senhora está se desgastando sem motivo algum. Achar alguma coisa não significa que ela seja real, agradeço a preocupação, mas eu sei me cuidar. Eu posso não pertencer a uma família rica, no entanto, tenho os meus princípios. Sempre lhe respeitei e, portanto, peço que me respeite também. Ambas somos mulheres, não devemos colocar umas às outras para baixo. – Conclui firme, internamente sorrindo vitoriosa por constatar a feição desconcertada da senhora .
- Ouça bem, . Não se faça de ingênua pra cima de mim, ouviu? – Ela perdeu o controle enquanto eu persisti plena e inexpressiva, contendo todo o choro refreado. Nunca, em hipótese alguma, lhe daria o gosto de ver as minhas lágrimas. Aquela sala sufocante exalava a hostilidade.
- Longe de mim me fazer de algo que eu não sou, dona Kyara. – O seu olhar cortante e presunçoso fuzilou a minha figura – falsamente – calma.
- A gentileza do para com você é apenas um reflexo de boas maneiras, então não se engane. Ele é um homem educado e você é uma garotinha boba apaixonada – insistiu – use a sua obstinação com inteligência! Ajude a sua mãe, seja boazinha e não arrisque o emprego dela por uma bobagem. Seria péssimo ter que despedi-la, ela é uma serviçal exemplar. Sabe o que seria mais péssimo ainda? Ter que colocar vocês duas na rua. – A Senhora soou como se estivesse falando com uma criança. Eu transpassava serenidade, contudo, estava destruída por dentro. O meu choro contido cismava em querer se intensificar enquanto eu respirava fundo para que isso não ocorresse, e, como um clarão em meus pensamentos, me toquei de um fato.
Ela não estaria tão enraivecida se não estivesse se sentindo ameaçada.
Seu ataque era uma defesa.
As suas afirmações refletiam tudo aquilo que ela gostaria de acreditar.
Cada um dá exatamente o que possui, e eu possuía discernimento o bastante para sentir pena por ver uma pessoa tão bem sucedida e poderosa destilar tanto veneno.
- Dona Kyara, não compreendo tamanha raiva já que, como a senhora disse, tudo não passa de educação. Não vejo motivos para preocupação quanto esse assunto, mas se a senhora tem algum problema comigo, peço, por favor, que o resolva comigo. Levando em consideração a sua profissão, acredito que não goste de injustiça, nesse caso, não prejudique a minha mãe. – Concluí, percebendo dona Kyara completamente desconfortável. Sustentei a pose indecifrável desejando me retirar daquele cômodo sem demora, posto que já havia reprimido as lágrimas por tempo demais. – Mais alguma coisa?
- Na verdade, tenho mais uma observação. Desista de sequer cogitar se considerar amiga do meu filho. – Ordenou pretensiosa.
- Desculpe-me, dona Kyara, mas creio que o já está bem grandinho para selecionar suas amizades. Com licença. – Levantei de súbito a fim de sair da sala o mais rápido possível, interrompendo os meus passos ao escutar a voz da mulher ressoar mais uma vez.
- Não bata de frente comigo, .
- Bater de frente é um ato muito desrespeitoso, senhora . Eu diria que estou apenas exercendo o meu direito de resposta. Tenha um bom dia. – Por fim me retirei dali, sentindo o olhar cortante da senhora em minhas costas.
Uma sensação de alívio me apossou no instante em que eu me vi livre da presença da mulher, porém, o meu corpo tremia ligeiramente em consequência da raiva. Atordoada, marchei em direção à saída da mansão enquanto os meus olhos ardiam e o peito pesava, permitindo com que as lágrimas grossas e insistentes escapassem e escorressem entre as minhas bochechas.
- ? – Ouvi a voz de me chamar, alarmado. O ignorei e, enfim, saí da mansão, andando a passos ágeis em direção a minha casa. – , espera! – me chamou mais uma vez, porém, prossegui andando, limpando meus olhos no esforço de retirar as lágrimas de minha face. Ele me alcançou e se colocou em minha frente, interrompendo o meu caminho. Parei de caminhar e franziu o cenho no momento em que colocou os olhos em mim, me estudando com cuidado, provavelmente procurando compreender o que estava acontecendo. Eu não queria encará-lo. – O que aconteceu? – Questionou preocupado. Respirei fundo e o fitei sem expressão, me detestando por ter mirado em seus olhos aflitos. Ele os cerrou e desceu até uma lágrima solitária que escorria vagarosamente sobre a minha bochecha, acompanhando o seu caminho até que ela sumisse no chão. Somente o seu rastro molhado permaneceu em meu rosto. voltou a me fitar e eu quebrei o contato visual no mesmo instante. – , por favor. – pediu atencioso. Tocou delicadamente em minha face e a ergueu para que os nossos olhos se conectassem. Mordi o lábio, sentido a minha garganta fechar. Eu estava confusa, perdida. Mente e coração eram coisas distintas, e as duas, mais do que nunca, lutavam uma contra a outra. Olhei para trás, temendo que a Dona Kyara estivesse nos observando, e a feição de mudou como se um lampejo houvesse o atingido. Ele fechou a cara e cerrou os olhos. – Por acaso isso tem algo a ver com a minha mãe? – Engoli a ceco, não sabendo o que dizer.
- Não.
- Não minta. Vi você entrando no escritório dela.
Respirei fundo pela milésima vez no dia.
- Nós podemos conversar em outro lugar? – Sugeri apreensiva e concordou. Maneei a cabeça em um pedido mudo para que ele viesse comigo e, dispondo da casa vazia em virtude da ausência da minha mãe até o fim da tarde, resolvi que ali seria um ambiente mais sossegado para um diálogo. Em silêncio, adentramos a sala e nos dirigimos até o meu quarto, do qual fechei a porta logo que entrou. Ele colocou as mãos nos bolsos, varrendo o cômodo com os olhos por um breve momento antes de fixá-los em mim mais uma vez. Cruzei os braços e mordi o lábio, buscando um meio de abordar o assunto.
- Eu sei que a minha mãe fez alguma coisa. Tudo bem se você não quiser falar, mas seria preferível que você me contasse a verdade, . – Suspirei, tentando não me desestabilizar por sentir o olhar de me estudando meticulosamente.
- Ela mandou que eu ficasse longe de você, basicamente. De acordo com a percepção dela, eu deveria me recolher em minha insignificância – Parafraseei a frase da senhora e a minha voz embargou. A fisionomia de se transformou de modo nunca visto por mim até então, exteriorizando uma fúria indiscutível. Ele negou com a cabeça e, nervoso, passou as mãos pelos cabelos. – O problema maior nem foi esse, mas sim, a maneira como ela disse... – Novamente notei a minha garganta fechar e a ardência nos olhos e nariz. – Que tipo de pessoa precisa humilhar a outra para conseguir o que quer?! , a sua mãe ameaçou demitir a minha e nos expulsar daqui! – Em um gesto brusco, o homem marchou ferozmente em direção à saída do meu quarto. Fui até ele e me coloquei em sua frente, reparando na veia diminuta da qual surgiu em sua testa franzida pela raiva. – O que você vai fazer?! – Perguntei exasperada.
- O que eu vou fazer? Vou tirar essa porra a limpo! Ela passou de TODOS os limites, ! Isso é absurdo, puta que o pariu! – Bradou alterado e eu fiz um sinal para que ele se acalmasse.
- Não faça nada, tudo bem? – Pedi e me olhou como se a minha solicitação fosse incoerente demais para ser sequer considerada.
- Você só pode estar brincando. – Riu sarcástico – Tem noção da gravidade disso? Qual é a chance de saber o que ela fez com você... O que ela falou para você, e simplesmente ignorar? Me peça qualquer coisa, , menos para ser conivente com esse tipo de atitude repugnante. – Comunicou friamente. Expirei fundo e fechei os olhos durante o ato, cravando-os nos de após o gesto.
- Eu sei que o que eu estou pedindo é uma barbaridade, mas confrontá-la somente fará com que tudo se agrave. Se fosse apenas por mim, a sua decisão de tentar colocar um pouco de humanidade na cabeça da sua mãe estaria mais do que aprovada, só que não é desse jeito que a realidade funciona. Eu não preciso que ninguém me defenda, porém, eu preciso proteger a minha mãe e o emprego dela. – me fitava sério, ouvindo com atenção. – Eu necessito de um tempo, tudo bem? Enquanto isso, nada poderá ser feito em relação ao acontecimento de hoje. – O homem retirou a mão da maçaneta e esfregou o rosto, claramente descontente com a minha decisão.
- Eu estou esgotado de vê-la pensar que pode controlar a minha vida. O que a minha mãe fez foi baixo, muito baixo.
- E eu concordo! Mas a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, . – Contentei-me em falar somente essa frase, torcendo para que ele não insistisse em tirar satisfações.
- Ninguém é pago para aguentar desaforos! Mandar você ficar longe de mim? Usar a sua mãe para te atingir? A preço de quê? Essa merda toda é loucura. – Riu ácido, movimentando a cabeça em negação.
- É assim que funciona. – Ri sem humor – A minha mãe trabalha aqui! Ela é tudo o que eu tenho, eu irei ajudá-la sempre que puder. Tudo o que eu fizer pode prejudicá-la de alguma forma. Além do mais, a sua mãe nos deu um lugar para nós morarmos, querendo ou não, eu devo respeito a ela por isso. Você tem tudo, . Nunca vai saber como é temer perder o pouco que possui. – Finalizei sentindo o meu peito apertar e os olhos marejarem. O homem a minha frente me observava sério com o cenho minimamente franzido, transitando as íris gélidas por todo o meu rosto.
- ... – Por favor. – O interrompi suplicante. Ele suspirou e assentiu. – Eu só não quero abrir mão de estar perto de você. – Confessei em um murmúrio praticamente inaudível, olhando para baixo. Meu rosto foi erguido gentilmente pelos dedos de , que sorriu terno e tomou a minha cintura com um de seus braços firmes, me puxando de encontro ao seu corpo quente; Transpassou o outro pelas minhas costas e me apertou contra si em um abraço protetor, fazendo com que os sentimentos ruins se dissipassem no mesmo instante em que o seu perfume tomou conta do meu olfato e, certamente, de minhas roupas. – Você pode ficar só mais um pouquinho? – Indaguei meio sem jeito. – Vou ficar sozinha por mais um tempo. – nada disse. Separou-se de mim e entrelaçou os nossos dedos, guiando-me até a minha cama. Deitou-se nela e eu o acompanhei, descansando a cabeça em seu peitoral ao passo em que ele apoiou o seu queixo sob o topo dos meus cabelos, deixando um carinho gostoso nos meus ombros. O abracei pela cintura e me permiti fechar os olhos, gravando todas as sensações das quais o momento em questão me proporcionava.
- Não irei abrir mão de estar perto de você. – A voz rouca e grave de quebrou o silêncio. Abri os olhos mediante a sua frase – da qual eu definitivamente não esperava – e repuxei os lábios em um sorriso completamente bobo. Entrelaçamos as nossas penas e eu me aninhei ainda mais nele, permitindo com que o meu pensamento anuviasse e as preocupações cessassem.
Sentir o calor aconchegante cujo emanava de seu corpo seria o suficiente ao menos naquele instante.
O caminho me parece um tanto obscuro, mas eu não me importo.
Eu só quero ir, sobretudo, em frente.
A minha intuição me avisava que armaduras teriam de ser preparadas, e por mim, tudo bem. Eu nunca fui de fugir de uma guerra.


Perrier-Jouët Belle Epoque Rosé: Espumante originado na França, comercializado a R$ 2.200.00.
Morpheu: Deus do sono.
Stacy London e Clinton Kelly: Apresentadores do "Esquadrão da Moda."
Romeu: Personagem da obra literária Romeu e Julieta, escrita por Shakespeare. Paolo fez alusão ao romance proibido do casal, chamando o amigo pelo nome de Romeu.


Capítulo 14

"Toque-me, sim. Eu quero que você me toque lá. Faça-me sentir que estou respirando, sentir que sou humano." A Little Death - The Neighbourhood.


’s POV

O espaço ao meu lado aparentava estar estranhamente vazio.
Abri os olhos pouco a pouco, recuperando a consciência ao passo em que as imagens ficavam mais nítidas diante do meu olhar. Ergui o tronco e direcionei a atenção à superfície vaga na parte lateral da cama, constatando que, realmente, faltava algo – ou alguém – naquele lugar, e eu até poderia duvidar se a sua presença havia de fato sido real, não fosse o fato de que eu me encontrava coberta e o aroma de seu perfume alastrava-se por todo o meu quarto.
definitivamente estivera ali.
Sorri e coloquei o edredom de lado, caminhando moderadamente sonolenta pela casa à procura de minha mãe, que até então não estava presente. A minha cabeça girava levemente, como se o episódio de horas atrás ainda precisasse ser devidamente digerido por mim, que sentia o estômago revirar quando as palavras hostis proferidas por Dona Kyara me tomavam a memória. Vislumbrei a paisagem através da janela da cozinha, notando que o fim da tarde já se aproximava, uma vez que o sol já começava a esconder-se por entre as nuvens. Como era possível ter o coração tão cheio de alegria e ao mesmo tempo tão pesado de preocupação? Suspirei e peguei o meu material, abrindo o notebook com o propósito de estudar para a prova da manhã seguinte, tão feliz quanto amedrontada pela situação acerca de mim e .

**

- Acho que errei a última questão. – comentou ao sairmos da sala após a prova de ética. Fiz uma careta e concordei.
- Eu também. Escrevi muita coisa e acho que o professor não irá considerar nada. – Avaliei pensativa. – Não acredito que de agora em diante ficarei sem a minha companheira de supervisão. – Lamentei em um muxoxo, fazendo minha amiga rir.
- E eu não acredito que terei que fazer as supervisões aos sábados! – Reclamou. – Falei com a coordenadora do curso e ela liberou o período da manhã para mim.
- Isso é ótimo! Você terá as tardes livres. – Complementei. assentiu e checou as horas no celular em suas mãos.
- Preciso ir, não posso chegar atrasada no meu primeiro dia nem por um decreto. Tchau, sweetie. Nos falamos mais tarde.
- Tchau, mi amor. Bom trabalho. Vai dar tudo certo! – Sorri, dando-lhe um rápido abraço do qual foi prontamente retribuído por uma efusiva. Ela agradeceu e rumou apressada em direção ao estacionamento, sumindo do meu campo de visão.
Comprei o meu almoço e me sentei em uma das mesas do refeitório da faculdade, alheia a tudo enquanto lia distraidamente um livro aleatório sobre patologias. Levantei o olhar a fim de tomar um gole do meu suco e avistei a senhora Yvonne em uma mesa um pouco mais à frente da minha, parecendo ter acabado de colocar as suas coisas ali. Ela me fitou e eu sorri amigável, recebendo o mesmo gesto de sua figura terna que, antes de se organizar no lugar escolhido, aproximou-se de mim com aquele jeito completamente simpático.
- Boa tarde, querida. Como está?
- Boa tarde! Estou muito bem, e a senhora? – Devolvi-lhe a pergunta e apontei à cadeira diante de mim em um pedido implícito para que ela se sentasse.
- Estou ótima! Oh, não se preocupe com isso, não quero atrapalhar os seus estudos. Vim somente cumprimentá-la melhor. – Sorri e neguei com a cabeça, demonstrando que não havia problema.
- É bem melhor ter companhia enquanto almoça, a senhora não acha? – Indaguei divertida, vendo-a concordar.
- Confesso que não é do meu agrado comer sozinha, querida. Agradeço o convite. – Confessou sorridente, não se demorando em apanhar os seus materiais e colocá-los sobre a mesa junto aos meus, executando o mesmo ato com a bandeja de refeição. – O que faz no campus há essa hora?
- Tenho supervisão às duas e meia. São duas longas horas até que ele comece, então almoço por aqui e mato o tempo do jeito que dá. – Esclareci dando de ombros – A senhora leciona em todos os períodos? – Questionei interessada.
- Apenas nos turnos da manhã e tarde, mas nas terças-feiras cuido da escolinha da qual sou dona. – Explicou afetuosa e eu não consegui deixar de sorrir largo em razão da informação.
- Ah, que maravilhoso! Tenho convivido bastante com crianças ultimamente devido a um trabalho de psicologia infantil, estou amando. – Comuniquei alegre. Senhora Yvonne compartilhou de meu ânimo, parecendo entusiasmada a respeito do assunto.
- Jura? E o que você está fazendo?
- Trata-se basicamente de observar o comportamento das crianças institucionalizadas, visto que o conteúdo está relacionado com as variáveis da família e o impacto que elas têm sobre o desenvolvimento infantil. – Eu esclarecia ao passo em que a senhora ouvia atenta. – Peguei o tema de crianças residentes de abrigos, então a experiência é bem mais profunda, sabe? – Ela balançou a cabeça em afirmativa.
- É um tópico enriquecedor! Você crescerá muito, tanto profissionalmente, quanto pessoalmente. – Avaliou amistosa e eu confirmei bem-disposta através de um aceno de cabeça.
- No dia em que conheci a senhora, estava à caminho do abrigo, inclusive. – Acrescentei e percebi a expressão da mulher se acender, como se houvesse se recordado de algo.
- Por falar nisso, meu filho comentou que lhe viu no sábado, querida. – Proferiu. Afirmei sorridente, lembrando-me de que o havia encontrado naquela noite.
- Sim! Ele estava em uma festa dos patrões da minha mãe. Que mundo pequeno, não é? – Brinquei, tendo aprovação da senhora Yvonne. – A senhora conhece os ?
- Somente os vi poucas vezes, mas a Kyara é uma pessoa iluminada! – Quase cuspi o suco ao escutar tal frase. O engoli com muita dificuldade e segurei o riso, dando uma rápida tossida e concordando meio a contragosto com um sorriso amarelo. Iluminada pelos refletores de luz da mansão, só se for. – Sei que o filho deles está no caso da morte de um amigo do Carl. Como existem pessoas ruins, que tristeza! – Queixou-se lastimosa e eu fixei a atenção nela, curiosa em consequência da menção implícita a . – Ele está arrasado.
- Sinto muito. – Proferi exprimindo compaixão. – Espero que fique tudo bem.
- Obrigada, querida. Mas vamos falar de assuntos mais leves a fim de não termos indigestão. – Expressou divertida, provocando uma breve gargalhada em mim. – O que a sua mãe faz?
- Ela trabalha como cozinheira na casa dos . – Expus amigável e a adorável senhora sorriu.
- Oh, que interessante! Por essa razão Carl lhe encontrou na residência deles?
- Mais ou menos. Nós moramos lá há um bom tempo. – Clarifiquei. Um vinco surgiu em meio às sobrancelhas de dona Yvonne e eu ri fraco, dando início à explicação, absolutamente à vontade perante a senhora simpática e comunicativa a qual emendava uma conversa atrás da outra, o que colaborou para que o tempo voasse até o horário da supervisão.

O relógio dependurado na parede marcava 16hrs30.
Expeli o ar em um gesto cansado, contudo, acometida pela sensação de dever cumprido que sempre me atingia ao ver o paciente sair porta afora com a expressão um pouco mais leve. Recolhi os meus pertences e, com cuidado, peguei a sacola onde a caixinha da qual eu daria para Archie se encontrava. Apressada, deixei a sala e segui direto em direção ao ponto de ônibus, quase chorando de emoção no momento em que ele passou sem demora.
Minutos depois, adentrei o abrigo, logo ouvindo o alvoroço de risadas e ruídos das crianças animadas que ali estavam.
De longe, pude distinguir Trish conversando com uma mulher bem-posta em saltos altos lustrosos, vestida elegantemente em roupas alinhadas das quais caiam de maneira proporcional na pose refinada que sustentava. Trish gesticulou através de um aceno para que eu fosse até as duas e, na medida em que eu me aproximava, podia jurar que a figura ainda de costas para mim não me era estranha.
- Que bom que você chegou! Queria muito que vocês se conhecessem! – Exclamou radiante no instante em que eu finalmente me juntei a elas. A mulher de identidade até então misteriosa se virou e o meu sorriso não vacilou por um triz. Pisquei absolutamente chocada e surpresa ao dar de cara com Cassie, notando que a sua reação não se diferia da minha. Seu cenho franziu diminutamente, explicitando toda a sua confusão. – , essa é a Cassie. A jornalista que está produzindo a matéria sobre o orfanato. – Articulou contente, não tendo a mínima ideia de que apresentações não eram necessárias entre nós. Cassie me mediu com os olhos frívolos por um breve segundo e, ainda que visivelmente pasma, estendeu a mão para que nos cumprimentássemos. O fiz de imediato, sorrindo fraco. Não sabia se simplesmente agia como se fosse a primeira vez que nos víamos, se tentava um “como vai?” ou se me limitava unicamente a um “olá.” Sem delongas, ela supriu as minhas indagações ao somente arquear os lábios em um sorriso fechado.
Eu permaneceria quieta.
- Boa tarde. – Por fim me expressei, cumprimentando Trish. O “boa tarde” serviria para ambas, no fim das contas.
- A é aluna do curso de Psicologia e está produzindo um trabalho conosco. – Informou a Cassie, que assentiu. – Falávamos respeito da estrutura da instituição. Infelizmente a Magnólia não se encontra a fim de que discorramos sobre isso, entretanto, creio que em breve teremos uma brecha em sua agenda. – Trish anunciou, incluindo-me na conversa.
- A Magnólia é ótima. Com certeza encontrará um modo de te atender, eu fui muito bem recebida. – Manifestei à Cassie. Era completamente estranho dirigir a palavra a ela em meio a um diálogo saudável, uma vez que nada parecido jamais ocorreu.
- Espero que sim. A matéria ficaria completa e o conteúdo mais amplo. – Respondeu. Olhei mais adiante e Archie entrou em foco, vindo ao nosso encontro quase tropeçando em suas perninhas ao passo em que corria alegre.
- Oi! Dessa vez você voltou bem rápido! – Disse daquele jeitinho eufórico. Sorri e agachei-me frente à figura pequena.
- Nós fizemos um acordo de dedinhos, acordos de dedinhos não podem ser quebrados. – Archie maneou a cabeça em afirmações frenéticas, mostrando o próprio dedo mínimo. Gargalhei e ergui-me, voltando à atenção à Trish, que observava a cena junto à Cassie.
- Archie, leve a para a sala de brinquedos. Os seus desenhos estão lá. – Solicitou a ele, que imediatamente agarrou as minhas mãos e, sem demora, saiu me puxando rumo à entrada da instituição, enquanto eu só conseguia rir.
Aproveitei a oportunidade e varri o lugar com os olhos, percorrendo-os por cada canto que me era possível examinar. Rachaduras aleatórias espalhavam-se pelo teto e pela dimensão da parede, todas distribuídas em formatos rudimentares por todos os lados. De repente o meu peito apertou igualmente como aconteceu ao saber dos problemas estruturais do orfanato. A situação era mais séria do que eu poderia imaginar. Entrei no cômodo repleto de brinquedos acompanhada de um Archie saltitante, o qual me colocou sentada em uma mini-cadeira localizada ao lado de uma mesinha.
Eu esperava fervorosamente não ficar presa naquilo.
Ou quebrá-lo e cair de bunda no chão.
Posicionei a sacola no chão e retirei a caixa de dentro dela, contemplando o pequeno se aproximar com alguns papeis em suas mãozinhas. Os colocou em cima da mesinha e me olhou em expectativa, nitidamente impaciente para ver o que eu havia trazido. Mostrei-lhe a caixa e um sorriso largo quase rasgou as suas bochechas.
- Posso ver? – Praticamente suplicou, fitando o objeto em plena admiração. Ri e conduzi o material de madeira em sua direção.
- Claro que pode. Ela é sua!
- Minha? De verdade? – Questionou deslumbrado, averiguando o interior do objeto com uma atenção e cuidado imensuráveis.
- De verdade! Sabe o que você vai fazer com ela? – Ele negou atento. – Guardar todos os seus desenhos.
- Os desenhos da mamãe! – Comemorou abraçando a caixinha.
- Sim! Quer guardá-los agora? – Archie movimentou a cabeça em afirmação.
- Quero! Você me ajuda?
- Com certeza! Você dobra do jeitinho que quiser e eu os coloco dentro dela, o que acha? – Indaguei a ele, que não tirava o sorriso do rosto.
- Gostei, assim está bom. – Falou, logo pegando o primeiro papel. O garotinho me mostrava e descrevia cada desenho conforme o dobrava e entregava para mim, que armazenava a ilustração com cautela na caixa. Poucos minutos depois, terminamos a tarefa e fizemos um “high five”, contentes pela tarefa cumprida. Archie encarou a caixinha recém fechada e pareceu considerar algo a julgar por sua fisionomia reflexiva, demonstrando estar em uma batalha interna com os próprios pensamentos.
- O que houve? – Perguntei cismada. O pequeno desgrudou os olhos concentrados do objeto e me fitou.
- Você pode ficar com ela? – Questionou encabulado. Franzi o cenho sem compreender o seu pedido.
- Por quê? Algo errado? – Inquiri, estudando-o com zelo.
- Não. É que eu não quero que ela estrague. – Continuei a olhá-lo, ao passo em que ele prosseguiu. – Às vezes o nosso quarto molha e a gente tem que dormir em outro lugar, sabe? Se a caixinha encher de água, pode estragar, e aí eu vou ficar triste. – Finalizou e a estendeu com o propósito de que eu a pegasse. Com o coração em pedaços, aceitei e a segurei.
- Irei trazê-la sempre que eu voltar, tudo bem? Pode deixar que cuidarei dela direitinho. – Garanti sorrindo terna a ele, que fez o mesmo. Coloquei-a de volta na sacola e me levantei, aliviada por não ter ficado presa na cadeirinha. Peguei a mãozinha de Archie e retornamos até a parte externa do abrigo, onde Trish brincava com o resto dos pequenos. Reparei a ausência de Cassie, a qual possivelmente havia ido embora.
- Archie, você agradeceu à pelo presente? – Disse, juntando-se a nós dois. Eu não queria que as demais crianças ouvissem e se sentissem excluídas de alguma forma, portanto, descrição quanto à caixinha seria fundamental. A minha conexão com Archie não fora premeditada e a minha intenção era única e exclusivamente a de fazê-lo se sentir melhor. Bem como faria com os demais pequenos, apesar de ainda não saber como. O garotinho posicionou a mãozinha na testa e riu, manifestando o seu esquecimento.
- Obrigado! – Exclamou, envolvendo-me em um ligeiro abraço, o que foi o bastante para que eu sorrisse largo e o retribuísse com vigor.
- Não precisa agradecer. – Falei. Archie me fitou alegre e saiu correndo de encontro aos seus coleguinhas, deixando-me ali com Trish.
- Vejo que ele gostou muito da sua iniciativa. – Comentou, agora voltando a sua atenção a nossa conversa.
- Sim, ele ficou muito feliz! – Emiti satisfeita e a mulher sorriu. – Como andam as coisas a respeito do empréstimo, Trish? Alguma novidade? – Mudei de assunto, preocupada.
- Nada de novo, . Não quero ser pessimista, mas estou me preparando para o pior. – Proferiu desanimada e eu suspirei já sentindo a angústia se instalar em mim.
- Eles deram um prazo ou um parecer sobre como agir mediante a isso?
- A prioridade é reformar o lugar e torná-lo seguro. Caso não liberem o dinheiro, não há nada que possamos fazer. O prazo não foi estipulado, entretanto, creio que é questão de tempo até que o façam. – Assenti desolada. A minha mente trabalhava rápido em busca de uma solução para tal problema.
- Talvez eu possa ajudar arrecadando algumas cobertas e roupas. – Dispus e Trish sorriu agradecida.
- Não irei recusar. Ajudaria demais.
- Ótimo! Fique tranquila que eu cuidarei disso. Agora vamos nos distrair deste mal estar! – Disse, puxando a mulher pelas mãos para que fôssemos até os pequenos, que nos chamavam animados. Aquelas crianças eram a família uma das outras e pensar que havia uma grande possibilidade de que um vínculo tão bonito fosse quebrado, me deixava igualmente quebrada. Empenhei-me em me divertir naquele momento e usufruí-lo da melhor forma possível independentemente da preocupação que insistia em me incomodar vez ou outra, dado que de nada adiantaria ficar com a cabeça a mil. Eu sei que tudo se resolveria, eu precisava acreditar nisso.

’s POV

Aquela manhã de terça-feira estava calma, o que coincidiu com o momento em que recebi uma ligação de Otto, o qual demonstrava estar estranhamente agitado ao pedir de maneira nervosa para que eu comparecesse ao seu apartamento assim que possível. Seu estado de impaciência me deixou receoso de imediato e, dispondo da rara tranquilidade que permeava o escritório, dirigi rumo à sua casa com mil teorias do que poderia ser tão urgente assim. Ao finalmente chegar ao meu destino, cumprimentei Otto e sentei-me diante da mesa de centro como de costume, verificando que o seu notebook encontrava-se aberto em um aplicativo de edição de fotos junto a sua câmera posicionada na lateral do aparelho, indicando que ele me mostraria algo. Otto sentou-se ao meu lado e conectou ambos equipamentos.
- Pode me dizer exatamente o que está acontecendo? – Perguntei enquanto o via abrir uma foto específica.
- Você já vai entender, . – Disse, absorto na imagem refletida na tela. Arqueei uma sobrancelha já inquieto em consequência daquele suspense aborrecedor e concentrei-me no que ele fazia. – Está vendo algo aqui? – Indagou e eu franzi o cenho, esforçando-me a enxergar alguma coisa fora do comum ali.
- Deveria? – Devolvi-lhe o questionamento. Otto aumentou o brilho da fotografia e a saturação, deixando-a mais nítida.
- E agora? – Tornou a questionar. Cerrei os olhos e estudei cada detalhe da foto, parando em uma figura peculiar.
- Dê zoom no canto superior, por favor, Otto. – Solicitei e ele o fez.
- Acho que agora você encontrou. – Avaliou. – Resolvi fazer o tratamento de todas as fotografias e isso me chamou a atenção. Parece alguém de capuz, não parece? – Atentei-me em todas as particularidades da imagem, analisando calmamente o borrão escuro quase imperceptível refletido nela. O retrato mostrava o grupo de um dos empresários presentes na festa, onde eles formalmente pousavam próximos ao corredor do salão. Neste corredor, uma fisionomia corporal desfocada situava-se no fundo do recinto, e era mais do que óbvio de que se tratava de uma pessoa. Inteiramente vestida de preto, ela se encontrava com a cabeça baixa e o tronco razoavelmente inclinado para frente como se quisesse se esconder, e aparentemente a parte dos fundos da chácara era o seu destino. A julgar pelo braço encoberto pelo sobretudo, o indivíduo carregava algo consigo do qual não queria que ninguém visse.
Aquilo, sem dúvida alguma, era perfeito.
Mais uma evidência que, com as correlações exatas, poderia – e iria – servir a favor do meu cliente com a finalidade de provar a sua inocência, tendo em conta que a pessoa da fotografia de nada se assemelhava com o meu cliente.
- Essa foto é, sem dúvida, um dos, senão o indício mais importante que já foi encontrado. Otto, você poderia enviá-la para mim? – Pedi e ele concordou de prontidão.
- O que você vai fazer? – Indagou curioso.
- A princípio, irei mostrá-la ao senhor Feldmann. Com o surgimento dessa prova, diversas dúvidas precisam ser sanadas. Posteriormente, salvarei a imagem em um local seguro junto aos arquivos do caso. Tenho somente mais alguns meses até que a fase de colheita de provas se encerre.
- O lugar em que a festa aconteceu possuía sistema de vigilância? Talvez alguma câmera tenha captado algo. – Otto considerou e eu neguei.
- As câmeras estavam desligadas naquela noite. Eu compreendo a sua sede por justiça, Otto, inclusive aceitei que você me auxiliasse quanto ao que houve em relação ao crime, porém, temos que delimitar até onde esse auxílio vai. Sei que encontrar o assassino do seu padrinho é importante para você e pode acreditar que eu o ajudarei nisso, contudo, provar a inocência do meu cliente é o ponto principal aqui. Espero que estejamos claros no que se refere a isso. – Findei conciso e Otto concordou com a cabeça.
- Claro, não se preocupe. Sei que a sua carreira está em jogo. A propósito... As ligações realmente cessaram? – Questionou ressabiado.
- Por ora, sim. O que me deixa ainda mais em sinal de alerta, posto que não encaro esse silêncio como algo bom. Os seguranças continuam nos arredores e permanecerão até a segunda ordem.
- Eles querem que você desista do caso, . Você sequer cogitou a hipótese? – O encarei e arqueei a sobrancelha, incomodado com tal sugestão.
- Não. Não vou ficar na mão de pilantra. Seja lá quem estiver por trás disso, irá pagar. Eu mesmo me certificarei disso. – Afirmei colérico. Otto apenas assentiu. – Obrigado por me contatar acerca da foto. Me ligue caso precise de algo.
- Eu que agradeço. Até mais. – Apertamos as mãos e, em seguida, segui para fora de seu apartamento. Existia muita coisa fora de contexto, as falhas do crime começaram a aparecer e eu teria que ser cauteloso com tudo o que lhe dizia respeito.

Os ponteiros do relógio marcavam exatamente sete horas da noite, anunciando o fim do período de trabalho daquele dia. Recolhi os meus pertences e rumei em direção ao elevador, distraído com o celular em minhas mãos enquanto lia algumas mensagens e e-mails. Percebi uma movimentação e retirei os olhos do aparelho durante poucos segundos, imediatamente topando com Thompson ao meu lado. Acenei com a cabeça e voltei a minha atenção às notícias efêmeras das redes sociais, adentrando o elevador no instante em que ele parou no andar em questão.
- Dia longo, huh? – Começou ele, tentando iniciar um diálogo. Assenti e permaneci focado no celular. – Os noticiários andam falando bastante de você, está acompanhando? – Tentou mais uma vez. Tornei a fitá-lo com o cenho arqueado, não compreendendo a relevância de tal pergunta.
- Não costumo me atentar a esse tipo de coisa. – Limitei-me a responder, vendo-o manear a cabeça em entendimento.
- Estão dizendo que você fará jus ao sobrenome que possui, embora ninguém acredite que Lee Feldmann é inocente. – Não satisfeito, ele prosseguiu. O encarei sério, exprimindo que não era do meu agrado conversar sobre aquilo.
- Fofocas da mídia não são relevantes para mim. Boa noite, Thompson. – Desejei ao chegarmos ao piso do estacionamento. Andei até o meu carro e ajeitei o retrovisor como costumava a fazer, alerta ao que se passava ao meu redor.
Dirigi-me em direção à academia e entreguei o carro para o manobrista assim que cheguei ao meu destino, executando toda a rotina de mudar de roupa e depositar os meus objetos pessoais no armário. Iniciei a prática do treino, absorto na canção da qual tocava em meus fones de ouvido, até que fui desperto por alguém que retirou o isolador de som de um lado da minha orelha. Franzi o cenho e subi o olhar, defrontando-me com Paolo ali, me encarando divertido.
- E ai, cara?! Quer uma ajuda para descer da nuvem? – Brincou zombeteiro. Ri enviesado e retribuí o cumprimento com um aperto de mãos e breves tapas em seus ombros.
- Tranquilo, Herzog? – Inquiri enquanto dava uma pausa a fim de beber água.
- Tranquilo, irmão. Acabei de sair de uma reunião de três horas, estou esgotado. – Meu amigo reclamou, posicionando-se no aparelho de musculação.
- Fecharam algum negócio ou foi somente uma reunião de rotina?
- Consolidamos um tratado com uma grande corporação de comércio exterior, valeu a pena ter ficado preso no escritório por tanto tempo. O acordo irá difundir o nome da nossa empresa internacionalmente. – Paolo explicou e eu assenti em compreensão.
- Parabéns, cara. Puta negócio, sem dúvidas. – Felicitei o meu amigo, que agradeceu.
- Iremos findar a aliança com uma comemoração no sábado. Seria bacana se você fosse. – Proferiu casualmente e eu ponderei por alguns segundos, não vendo razão para não aceitar o convite.
- Claro, será um prazer.
- Esse é o que eu conheço! Não nega uma festa! – Celebrou animado e eu apenas ri, balançando a cabeça em negação. – Como eu sou um amigo do caralho, lhe darei a opção de levar uma acompanhante. E por acompanhante, me refiro à . – Concluiu divertido e eu arqueei uma sobrancelha em virtude de sua fala. Reparando a minha provável feição de confusão, ele não demorou a continuar. – Estou tentando ajudar os novos pombinhos, mas se não quiser, tudo bem. Leve outra, você quem sabe. Foi unicamente uma ideia. – Deu de ombros, aplicado em seu treino. Mantive a expressão de incerteza, não em consequência da opção que me fora dada, e sim, por não saber se aceitaria um convite do tipo.
- A questão não é essa, Herzog. Ela é excessivamente reservada, ser vista comigo em público assim, de repente, pode assustá-la de alguma forma.
- Convide-a e deixe a decisão com ela. Simples. – Pronunciou despreocupado. Refleti durante o tempo em que considerava a possibilidade de chamá-la para que me acompanhasse sem que soasse estranho.
Decidi fazê-lo, afinal, seria apenas um convite comum.
Paolo deu início a um diálogo distinto daquele em tese e, com isso, o tópico em questão se deu por encerrado, entretanto, a minha mente persistia tentando encontrar um modo sutil de fazer o convite à .

**

Diferente do que lhe era frequente, naquela manhã, o senhor Feldmann me receberia no gazebo* que se integrava ao jardim de sua residência. Sentado no longo sofá posicionado no cômodo muito bem decorado, ele encarava a paisagem proporcionada pela natureza com variadas plantas à sua volta. Notando a minha presença, o homem ergueu-se e, cordial, estendeu a mão com a finalidade de me cumprimentar. Apontou para a poltrona localizada diante dele e eu me acomodei no assento sem demora.
- Bom dia, doutor . – Saudou cortês.
- Bom dia, senhor Feldmann. Trago novidades e acredito que elas serão de seu agrado. – Os olhos cansados do homem se iluminaram, dando um sucinto aspecto de vivacidade em sua feição consumida pelo abatimento.
- Por favor, me diga! A minha vida anda escassa de notícias boas. – Pediu desassossegado, impaciente pelo que eu falaria a seguir.
- Peço para que o senhor observe atentamente o fundo desta foto. – Entreguei-lhe o meu celular com a fotografia à mostra na tela. O meu cliente apanhou o aparelho e o fitou concentrado; Em questão de segundos, a feição inexpressiva do homem se contorceu em espanto.
- Oh, meu Deus! – Exclamou assombrado. – É uma pessoa aqui?
- Sim. Otto entrou em contato comigo e me mostrou essa imagem. Ela foi tirada as onze e vinte e seis, portanto, é de extrema importância que você se lembre de onde estava nesse horário. – Solicitei. Senhor Feldmann devaneou enquanto se esforçava a fim de evocar a recordação de sua memória, tocando as têmporas durante os instantes em que pensava.
- Eu estava fumando. – Suspirou – Ninguém me viu durante esse tempo, assim sendo, a foto não será muito útil, não é? – Perguntou sem esperança.
- Não desanime, senhor Feldmann. Ela lhe ajudará muito, não duvide disso. Se analisarmos bem, perceberemos que a aparência deste indivíduo em nada se assemelha com a sua. Ele é baixo, presumo que a sua altura esteja entre um e setenta, um e setenta e cinco, no máximo. – Avaliei e o meu cliente assentiu. – A coloração de seu cabelo ficou indecifrável devido à falta de iluminação, porém, em nada atrapalha a dimensão do significado desta evidência.
- Quais as providências que você tomará quanto a isso? – Indagou cheio de expectativa.
- Armazenarei a fotografia junto às demais provas à seu favor e as entregarei assim que a fase da colheita de provas se encerrar. Posteriormente, irei incluir este fato na tese de defesa. – Expliquei.
- São papeis nas mãos dele? – Meu cliente questionou novamente, cerrando olhos no detalhe dito.
- São sim.
- Não havia ninguém vestido dessa forma na festa, eu com certeza notaria caso houvesse. – Examinou ainda estudando o retrato com minúcia.
- Neste caso, não devemos descartar a hipótese de que se trata de um não-convidado. Só resta saber como ele se infiltrou no ambiente sem que fosse visto. – Expus, ciente de que existiam mais indivíduos envolvidos no crime do que eu imaginei. Eu possuía noventa e nove por cento de certeza de que a pessoa retratada na foto cometera o assassinato; Tal indício eliminava inúmeras questões, ainda que implantasse muitas outras. Caso a minha suspeita se concretizasse, excluiria o pressuposto do qual apontava um dos convidados como executor do ato criminal. Senhor Feldmann situava-se ainda em estado um tanto quanto catatônico, digerindo o que acabara de ver.
- Isso é muito sério. Do que se tratam esses papeis dos quais ele está carregando? De onde eles saíram? – Disparou atônito.
- Não tenho como responder-lhe essas questões. Por ora, vamos focar somente em provar a sua inocência, tudo bem? O laudo da perícia ficará pronto em breve e teremos vários esclarecimentos com relação a diversos pontos.
- Certo. Devo continuar a escrever sobre tudo o que se engloba no caso? – Meu cliente inquiriu e eu assenti.
- Por favor. Não há necessidade de relatar apenas os eventos sucedidos no dia do homicídio, sinta-se livre para expor tudo o que lhe for conveniente e relevante.
- Compreendo. Carl me ligou no domingo, a propósito. Ele comentou que o viu e vocês conversaram. – Informou sereno. – Fiquei surpreso e feliz com a ligação, todos os meus amigos sumiram após me qualificarem como réu no assassinato.
- Ter apoio em um momento como esse é essencial, que bom que Carl se mostrou solícito. – Declarei satisfeito pelo homem ter acatado a dica da qual eu lhe propusera.
- Muito obrigado, doutor . Estou de fato imensamente satisfeito com os seus serviços. – Apreciou polido de sua corriqueira educação.
- Sinto-me lisonjeado com essa informação, senhor Feldmann. Anseio que eu permaneça lhe agradando e, ademais, que a sua absolvição ocorra da melhor forma possível. – Disse cordial. Levantei-me e apertei as mãos do mais velho com o intuito nos despedirmos. – Caso surja alguma eventualidade, entrarei em contato. Tenha um bom dia.
- Desejo o mesmo para você, meu jovem. – Com isso, dei-lhe as costas e caminhei rumo à saída de sua casa.
Eu precisava organizar todas as informações das quais eu obtinha até o atual momento e estudá-las com minúcia antes que as ligações retornassem, pois elas retornariam. Estar à frente do maldito responsável por essa merda toda se tornou indispensável para mim. Se ele achava que poderia brincar comigo, estava redondamente enganado.

Os meus olhos exaustos começavam a apresentar sinais claros de que já não aguentavam mais interpretar a escrita contida nos papeis diante de mim. As horas passaram a ser insignificantes e a última coisa da qual eu me importava era sair daquele escritório, visto que o meu raciocínio trabalhava com fervor enquanto eu anotava todos os detalhes do caso Zummack nas folhas anteriormente brancas, agora repletas de palavras redigidas de tinta preta.

Fato 1: O assassinato de Sandro Averbuck continuava sem solução. Queima de arquivo seria a única explicação para tal ocorrência.

Fato 2: Ninguém tiraria da minha cabeça que existia uma grande chance de informações terem sido vazadas do escritório.

Fato 3: Terceiros estariam envolvidos no homicídio. As câmeras desligadas e a presença de um indivíduo do qual destoava dos demais convidados explicitavam isso.

Expirei fundo e conduzi os meus dedos em direção às têmporas, me amaldiçoando por ter esquecido o remédio para enxaqueca em casa. Breves batidas na porta me chamaram a atenção e logo a figura vigorosa do meu pai fez-se presente na sala. Retirei as mãos das laterais da cabeça e o fitei.
- Já chega por hoje, . São mais de oito horas, vá embora. – Pronunciou impassível e eu franzi o cenho mediante ao seu pedido.
- Irei daqui a pouco, ainda tenho coisas a fazer por aqui.
- Faça amanhã. Não quero ninguém doente novamente. – Findou.
Mantive a fisionomia vaga, encarando-o sem expressão. Outra pontada incômoda surgiu e eu decidi que o melhor a se fazer era, realmente, finalizar o expediente de uma vez por todas. Não expressei reação alguma. Guardei os meus objetos de trabalho e o homem sumiu de vista. Tranquei o cômodo e me retirei do escritório, seguindo até o estacionamento devaneando a respeito das mudanças repentinas em minha vida, tanto no âmbito pessoal, quanto no profissional. Há alguns meses, eu me encontrava imerso numa rotina maçante em ambos os quesitos, contudo, atualmente, tudo estava virado de cabeça para baixo. O caso havia transformado os meus dias em um inferno, ao mesmo tempo em que trouxera uma paz imensa a eles. A sensação estranha que me acometia ao refletir a respeito de tal fato era frequente, posto que nunca imaginei que a garotinha da qual se escondia atrás da mãe sempre que me via, viraria uma mulher que me deixaria totalmente confuso. Adentrei o meu carro e dei partida, sentindo a tranquilidade da música soar através do rádio e deixar o trajeto mais agradável.
Desci do veículo e segui com destino à cozinha. Retirei um comprimido da cartela e o tomei sem demora, estranhando o sumiço de Bento, que não apareceu para fazer festa, como lhe era habitual. Desloquei-me dali e, de longe, vi que a janela do quarto de localizava-se aberta, o que indicava que ela já se encontrava em casa.
O que explicava a ausência do Pastor Alemão.
Tendo uma ideia do paradeiro dele, caminhei calmamente até o jardim enquanto acendia um cigarro. Ouvi murmúrios distantes e franzi o cenho na medida em que me aproximava daquela região na parte posterior da casa, assimilando ao que se atribuía o ruído no instante em que os meus olhos captaram a figura agitada de andando de um lado para o outro com várias folhas em suas mãos.

- Podemos dizer que, da Psicologia Clínica, sabemos muito sobre aquilo que ela não é, mas muito pouco sobre aquilo que é ou se torna... – Ela dizia, não refreando os passos nem por um minuto sequer. Bento, que estava deitado perto da garota, apenas a encarava atento, focado em suas ações. Achando graça naquilo, deixei que um ligeiro sorriso ladino pendesse em meus lábios e me escorei em um pilar posicionado ali, observando a cena de braços cruzados. – Uma vez que esta disciplina, apesar de seus cem anos de existência, é recente e... – Pausou a própria fala e levou a mão livre às têmporas, aparentando esforçar-se para se lembrar de algo. – Argh! – Bradou irritada e leu algo no papel, deixando os braços caírem nas laterais de seu corpo em nítida impaciência. Jogou a cabeça para trás e bufou zangada. Um diminuto beicinho formou-se em seus lábios e devo dizer que o gesto foi adorável. O som do meu riso contido chamou a atenção de , que se virou rapidamente a fim de detectar de onde ele vinha, cruzando os nossos olhares ao se deparar comigo a estudando. Sua face ganhou uma coloração avermelhada e ela sorriu sem graça.
- Não se incomode comigo, sinta-se à vontade para continuar. – Falei ainda com o sorriso enviesado nos lábios, soltando a fumaça lentamente entre eles.
- Está me espionando, ? – Questionou com os olhos cerrados, segurando a risada.
- Na verdade, sim. É interessante vê-la discursando acerca de algo que gosta. – Declarei simplesmente. A garota enrubesceu mais uma vez.
- Não estou gostando muito no momento. – Reclamou torcendo o nariz. – Tenho um seminário na semana que vem e não consigo reter o conteúdo na memória de jeito nenhum. – Sentou-se no banco e manuseou o papel.
- É realmente difícil expressar verbalmente tudo o que já absorveu. – Avaliei – Quanto mais aborrecida você ficar, pior será. – Indiquei e ela assentiu.
- Eu sei toda a matéria, mas na hora de falar, travo. Levar as anotações na hora da apresentação está fora de cogitação. – Gesticulou exasperada. – É como se você estivesse colando, mas na frente de todo mundo! Eu estou no final do curso, isso é inadmissível! – Disparou a dizer e a impressão que se tinha era que contra-argumentava consigo mesma. Dei outro riso anasalado durante o tempo em que a ouvia se queixar. A garota suspendeu a sua fala e me fitou desconcertada.
- Desculpe. Eu fico uma pilha de nervos quando preciso apresentar algum trabalho. – Passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo.
- Você é inteligente, . Acalme-se e raciocine bem que tudo dará certo. A pesquisa está feita e o tema preparado, fique tranquila. – Emiti, procurando atenuar a sua aflição. Ela deu um sorriso fraco e concordou. O silêncio instalado naquele momento era conveniente para que eu tocasse no assunto da festa, por isso, sem delongas, resolvi fazê-lo. – Se lembra de quando você disse que me convidaria para fugir com você? – Comecei despretensioso. Pega de surpresa, piscou algumas vezes e afirmou acanhada. – Estou retribuindo o convite. O que acha de me acompanhar em uma festa no sábado? – Perguntei sem paragens ou intermediários. Soprei a fumaça do cigarro sem pressa e a olhei, dando de cara com a sua fisionomia surpresa e desconcertada. Arqueei uma sobrancelha, esperando-a proferir alguma coisa.
- Eu... Ahn... O quê? – Devolveu a pergunta e maneou a cabeça para o lado com o cenho franzido.
- Estou te chamando para ir em uma festa comigo, . – Repeti em claro e bom tom.
- Festa de quem? – Indagou ainda desnorteada.
- A empresa da qual o Paolo trabalha fechou uma sociedade influente para os negócios e, parar celebrar, comemorarão nesse final de semana. – Expliquei-lhe. Ela balançou a cabeça em concordância, assimilando a informação.
- Não é que eu não queira ir, não me interprete mal, mas... Não seria esquisito? – Questionou e fui eu quem franziu o cenho.
- O que “seria esquisito?” – Reproduzi a sua fala sem entender.
- Aparecer com você no meio de tanta gente, entende? Não sei... – Encolheu os ombros, pensativa. Era irrefutável que ela teria essa reação e eu já havia previsto, de qualquer forma.
- Não quero que você se sinta desconfortável de modo algum. Estou te convidando como amigo e nós iríamos dessa maneira. – Esclareci. Ela desviou o olhar e passou a fitar o chão, raciocinando. – Não é necessário que você responda agora, aliás. – voltou a me observar e afirmou.
- Obrigada. – Lançou-me um sorriso doce. Tornou a mirar as folhas e a sua feição iluminou. Sorriu largo e se levantou abruptamente, andando até mim. Parou à minha frente e estendeu os papeis, dos quais eu analisei, não assimilando o que ela desejava. – Ouça o meu discurso. Quero praticar a minha dicção e aparentemente o Bento se cansou. – Admirou o cão por trás dos ombros, do qual adormecia sossegado. Apanhei os folhetos de suas mãos e quase ri da animação da garota, que expirou profundamente, preparando-se para começar o seu monólogo. Encostei-me melhor no pilar e cravei os olhos em , que fez menção de iniciar a sua fala, no entanto, não completou a sua ação.
- É muito difícil fingir que você é o senhor Gallant, sinceramente. Teria como, por obséquio, não ser tão... Assim? – Gesticulou transpassando as mãos no ar como se contornasse o meu rosto e eu ri alto.
- Só estou fazendo o que você me pediu. – Ergui a sobrancelha em divertimento, admirando o seu semblante ruborizado.
- Claro, claro. Eu dispersei, vamos lá. – Preparou-se outra vez e tomou fôlego, começando a dissertar. – Podemos dizer que da Psicologia Clínica, sabemos muito sobre aquilo que ela não é, mas muito pouco sobre aquilo que é ou se torna... – Ao passo em que falava, eu acompanhava detalhadamente – Uma vez que esta disciplina, apesar de seus cem anos de existência, é recente e... – Assim como ocorrera na anteriormente, ela estacou naquela frase. Contorceu a face em inquietação e mordeu o lábio, encarando-me aflita.
- Vamos, você está indo bem. – Encorajei-a. Respirou novamente e, segundos depois, retornou.
- (...) É recente e, como a própria Psicologia, está em construção. – Finalizou incerta. Assenti, demonstrando que a frase saíra corretamente, e ela sorriu, prosseguindo. – Parece, entretanto, que estar em construção significa estar em crise, estar inserido no caos que é característico da pós-modernidade em que vivemos. – De repente, pronunciar as sentenças já não era um problema para a garota desinibida diante de mim. – O caos, portanto, não é visto como negativo, mas sim como tendência a uma evolução contínua, que vai criando rupturas nas estruturas existentes e produzindo novas diferenciações e paradigmas, como resultado de uma sociedade complexa, rápida e ansiosa por mudanças. – Com naturalidade, articulava e exprimia a ideia contida no texto, tal como se estivesse conversando a respeito de qualquer coisa. Eu não possuía certeza de quando parei de conferir os trechos da matéria, somente me limitei a admirá-la, vislumbrando-a em silêncio e concentrado em sua figura delicada que disseminava conhecimento de um jeito sublime. – (...) Pensamos, portanto, que para resgatar a Psicologia Clínica do lugar em que ela se encontra, é necessário conhecermos a sua história, a fim de identificar quais razões levaram a clínica a se limitar a uma área de atuação, a uma técnica ou a um modelo teórico. – Concluiu e puxou o ar, expelindo-o logo em seguida. Direcionou o olhar até mim e eu despertei meio atordoado. Porra. Seu sorriso largo moldou-se em sua boca mais uma vez e ela pousou as mãos nas laterais do rosto, orgulhosa pelo seu feito. – Não travei! – Exclamou alegre e eu assenti.
- Como eu disse, você é inteligente. Óbvio que conseguiria. – Afirmei. Uma pontada fez-se presente e pulsou em minha cabeça, produzindo uma ligeira expressão de incômodo explicitada em meus olhos cerrados. deixou o sorriso oscilar e me estudou com cuidado.
- O que aconteceu?
- Nada, só um pouco de dor de cabeça. Logo passa. – Ela percorreu as órbitas desconfiadas por todo o meu rosto e levou uma mão até ele, pousando o polegar rente a lateral do local dolorido, onde fez movimentos lentos que quase me fizeram fechar os olhos.
- É a enxaqueca? – A entonação branda de sua indagação chegou aos meus ouvidos suavemente.
- Espero que não. – manteve as carícias naquela região e eu foquei a minha atenção nela. Segurei a sua cintura e descansei a palma ali, sutilmente trazendo-a de encontro ao meu corpo. Ela escorreu os dedos pela minha bochecha, maxilar e os fincou em minha nuca, agora efetuando o carinho na extensão do meu pescoço, me causando arrepios. Deu um meio sorriso e mordeu os lábios, deslocando a atenção para o chão para, a seguir, conectá-la em mim como antes. – Sabe... Eu irei à festa com você. – Relatou de forma inesperada. Lancei-lhe um breve sorriso, apesar de não entender a tomada de decisão abrupta. - Não é justo me privar de algo em razão de outras pessoas. – Reconheceu e eu mantive o contato visual, vislumbrando-a com precisão.
- É uma declaração válida. – Pronunciei e concordou. Retirei o celular do bolso e o indiquei para que ela o pegasse. – Coloque o seu número aqui. É mais fácil para que possamos nos comunicar. – Moderadamente hesitante, a garota o apanhou e fez o que pedi. Guardei o aparelho o qual me foi entregue após o ato e ela lançou-me um olhar afetuoso.
- Vou pra casa. Obrigada pela ajuda com o seminário.
- Não agradeça, eu não fiz nada. – Disse, entregando-lhe os papéis de seu trabalho. Os seus lábios repuxaram-se em um sorriso e foram de encontro a minha bochecha, permanecendo ali por alguns segundos junto às mãos em meu rosto.
- Boa noite, .
- Boa noite. – Desejei. Ela se afastou e acenou, sumindo do meu campo de visão enquanto eu fiquei ali, fitando o nada e refletindo sobre tudo.

Desde o dia em que tive conhecimento com relação a maneira da qual minha mãe tratou , a minha tolerância diminuiu consideravelmente. Eu não passava muito tempo em casa e, nos momentos que o fazia, evitava ao máximo conversar mais do que o necessário, a fim de não dar aberturas sobre o tema "minha vida." Naquela sexta feira, eu resolvi que não mais adiaria o início da minha mudança para o meu apartamento, à vista disso, ao chegar do trabalho, não foquei em outra coisa senão na mala posta em cima da cama. Eu levaria mais algumas semanas até conseguir retirar todos os meus pertences do meu quarto, entretanto, começar de algum modo já seria o suficiente por agora.
- O que está fazendo, ? – Virei o tronco e enxerguei minha mãe parada no batente da porta com os olhos curiosos postos sobre a mala.
- Vou levar algumas coisas para o meu apartamento. – Respondi e ela continuou com a expressão impassível de sempre.
- Pretende se mudar?
- Sim. Já está mais do que na hora. – Proferi, tirando uma muda de roupas do armário. - Se é da sua vontade, tem o meu apoio. – Desviei o foco das vestimentas e a fitei rapidamente, apenas para lhe mostrar que a escutava. Fechei o objeto abarrotado e caminhei até saída do cômodo, depositei um ligeiro beijo em sua cabeça e rumei em direção à garagem com Bento em meu encalço.
Abri a porta do assento de trás do carro e o Pastor Alemão se colocou para dentro do veículo velozmente. Pus a bolsa no porta-malas e me sentei no banco do motorista, dando partida logo depois.

- Você vai entrar com calma, ouviu? – Comuniquei ao cão, que aguardava cheio de expectativa em frente à porta do apartamento. Com as orelhas arqueadas e o rabo se movimentando energicamente, ele me encarou entusiasmado. Girei a chave e afastei a abertura de acesso à minha casa, assistindo Bento fazer menção de correr por todo o recinto. – Ei! – O Pastor refreou os passos e voltou a me mirar. – Eu disse com calma, carinha. Sem baderna. – Notando o meu tom repreensivo, ele se deslocou com devagar, indo de uma extremidade a outra ao passo em que farejava cada canto da sala, imerso em sua usual curiosidade. Subi às escadas com a mala nas mãos e Bento correu vibrante entre os degraus, pouco se importando com o meu aviso anterior. Ri fraco e neguei com a cabeça, arrumando as roupas das quais havia trazido, todas em seu devido lugar.

**


Narração em terceira pessoa.


Sábado; 19hrs13 min.
Rua Bay Suzette, altura no 215.

O arrependimento de ter se metido em tamanha sujeira ameaçava dar às caras.
Estava farto de ser incumbido a vigiá-lo e seguir os seus passos, sobretudo no final de semana que fora reservado para comparecer ao Due Golf Club, onde desfrutaria de um revigorante jogo de golfe projetado no magnífico alojamento do campo privado. Sacrificar os seus planos e a sua pouca paciência já não parecia tão benéfico assim, contudo, era tarde para voltar atrás.
Estava sujo da cabeça aos pés mediante àquela situação.
Ao longe, acompanhava atento o caminho que a Maserati preta seguia, os olhos de antipaia fulminavam o automóvel como se pudesse explodi-lo. Viu que o veículo parou próximo ao condomínio luxuoso que conhecia bem e franziu o cenho, não assimilando por que diabos ele saíra de seu apartamento para ir à casa que frequentemente lhe pertencia. Mantendo uma distância segura, deixou o próprio veículo em ponto morto e encostou-se a um lugar do qual pudesse examinar todos os passos daquele que lhe era superestimado demais e egocêntrico demais. Vislumbrou a figura descer do carro em vestes sociais e revirou os olhos. Metade das mulheres que conhecia veneravam o herdeiro e “dariam tudo para passar ao menos uma noite com ele” – como já ouvira – e aquela babação de ovo o fazia querer vomitar em aversão. Direcionou o foco para o lado e o que contemplou produziu um agito em seu interior sedento por novidades.
”Interessante...” Pensou ele, admirando a garota sair pelos portões extensos e caminhar em direção ao homem que a fitava concentrado, abrindo a porta para que ela entrasse.
”Muito interessante.
Apanhou a câmera que carregava no banco do passageiro e bateu algumas fotos, satisfeito com o que havia conseguido. A Maserati partiu dali e ele tornou a escoltá-la, sentindo a adrenalina aumentar conforme executava os mesmos caminhos que ele. Nada mais poderia ser feito para desfazer a sua parcela de culpa no que estava por vir, todavia, era a sua chance de alcançar o que sempre almejou.
Abaixou-se ligeiramente com a finalidade de reconhecer aonde estava e identificou a rua repleta de casas de alto nível, onde avistou o casal saindo do carro e o alvo de sua ira entregar a chave ao manobrista. As mãos dele foram de encontro às costas da garota e mais uma fotografia foi tirada.
Deixou o equipamento de lado e pegou o telefone celular, cobiçoso para revelar o tão ansiado comunicado que expressava a novidade.
- Espero que traga boas notícias para adocicar este sábado. – O comparsa não se demorou em dizer. A entonação desafiadora e corriqueira não propagava metade do que o homem era capaz. O parceiro encarregado de realizar o serviço riu áspero, trazendo não somente boas notícias, mas uma ótima deixa para que fizessem muito mais do que planejaram de início.
- As nossas suspeitas estavam certas. – Um sorriso sádico semelhante ao do homem do outro lado da linha surgiu entre os lábios impiedosos. – Temos algo essencial em mãos.
- Não vejo a hora de começar a diversão. – Ambos detinham os próprios motivos para apreciar o caos, entretanto, as razões que se diferiam, também se contrabalanceavam quando o caos os levava até o mesmo fim: Poder.

’s POV

Meu coração batia rápido, tão rápido que eu mal me sentia capaz de ouvir o som ambiente. As minhas mãos suadas comprovavam o meu nervosismo e, a cada passo que e eu dávamos a caminho do salão, a desinquietação aumentava gradualmente. O seu convite me pegou de surpresa e a vontade inicial de gritar um sonoro “sim” logo que ele o fez foi substituída pela minha parte racional – que andava muito presente, diga-se de passagem –, e essa parte em especial pedia para que eu acionasse os freios dos meus desejos, responsáveis pela impulsividade.
Eu estava decida a pensar muito bem sobre o assunto a fim de não meter os pés entre as mãos, porém, um impulso repentino jogou no lixo todos os “se” que rondavam a minha mente. Contempla-lo tão lindo ali, bem à minha frente, cooperou para que eu não me importasse com mais nada exceto passar aquele tempo com , visto que foram incontáveis as vezes das quais eu fantasiei tê-lo perto de mim. Agora que, enfim, as idealizações representadas mentalmente tornaram-se reais, eu não iria desperdiça-las por obra de pessoas desconhecidas.
Passei os olhos pelo amplo espaço ocupado por diversas figuras deslumbrantes e automaticamente me senti uma fuinha.
A área revestida de paredes de vidro unia o clássico e o moderno; As luzes baixas davam um ar convidativo ao espaço sofisticado e não menos iluminado mediante ao requinte daquela característica em si. O teto tomado por pendentes* brilhantes que mais pareciam pequenos lustres de decoração compunham toda a superfície e eu já me encontrava boquiaberta com cada detalhe do lugar. Mesas, puffs e poltronas brancas situavam-se aleatoriamente pela extensão da área, a qual diminutas mesas de madeira clara sustentavam velas que incrementavam os adereços fascinantes. Ao fundo, consegui distinguir uma porta que dava visão a um charmoso jardim que rodeava o recinto. Céus, eu ficava maravilhada só de pensar em como ele seria.
O contato da mão de em minhas costas me despertou do estado abobado que me envolvia e eu voltei ao mundo real ao ver Paolo vindo em nossa direção com um enorme sorriso no rosto. Ele lançou um olhar engraçado para e, embora eu não tenha compreendido tal ato, senti vontade de rir, levando em conta que a sua feição feliz era demasiada engraçada.
- Eu não acredito! Que bom vê-los aqui, estou contente que vocês vieram! – Soltou e realmente dava para perceber que a sua frase era verdadeira. Ele cumprimentou com um rápido abraço e tapinhas nas costas e fez o mesmo comigo. Sem os tapinhas, claro.
- Dá para notar que você está contente, Herzog. – zombou e Paolo riu, voltando-se a mim.
- Como vai, ? – Perguntou gentil.
- Bem, obrigada. comentou sobre a sociedade, parabéns. – Respondi em meio a um sorriso e ele agradeceu.
Em um gesto despretensioso olhei para a entrada e o meu sorriso murchou.
O que diabos estava fazendo ali? Mas será possível?
Acompanhado com uma mulher, ele iniciou a sessão de cumprimentos a todos, e pareceu desvendar os meus pensamentos ao manifestar a sua dúvida.
- A companhia de Comércio Exterior que fechou negócio com vocês é a que o trabalha? – Questionou a Paolo e ele assentiu.
- Estava tão ocupado durante essa semana que esqueci de comentar. – Explicou e maneou a cabeça em compreensão. Coincidência era uma maldição. Eu apenas me concentrei em tentar ignorar a sua presença ali, no entanto, direcionou os olhos até nós e pareceu em choque ao me avistar na companhia dos outros dois. Estreitou o cenho durante alguns segundos e me mediu de cima abaixo; Pegou na cintura de sua acompanhante depois da breve avaliação e sorriu, andando até nós. Eu tive vontade de revirar as órbitas por sua ingenuidade em sequer cogitar a possibilidade de que eu me incomodaria com aquilo.
- Grande , que surpresa! – Cumprimentou , que retribuiu o gesto.
- E aí, irmão?! Bom te ver. – Expôs, educado como era. trocou um aperto de mãos com Paolo e cravou a atenção em mim.
- ... Isso sim é surpresa. – Começou e eu torci para que ele não falasse mais nada. Os céus ouviram as minhas preces, pois nada mais saiu de sua boca.
- Boa noite. – Respondi indiferente e me dirigi à mulher da qual ele trouxera. era tão sem noção que nem mesmo a apresentou. Sorri e lhe estendi a mão, sorrindo amigável.
- Prazer, . – Falei, sendo correspondida da mesma maneira.
- Prazer, Molly. – Ela sorriu simpática. e Paolo também trataram de cumprimentá-la. falou algo que eu não fiz questão de ouvir e saiu logo após, levando Molly consigo. Lancei-lhe outro sorriso e eles se misturaram à multidão.
- Como essa parceria irá funcionar, cara? – indagou ao amigo.
- Eles ficarão responsáveis pelo gerenciamento e cuidado dos processos de embarque e despacho das nossas mercadorias para exportação e também vão cuidar do processo de desembarque no caso de importação. – Paolo elucidou. Centralizou o foco em um singelo grupo mais a diante e fitou . – O Huertas quer falar com você, . – Proferiu ao amigo.
- Depois, Herzog. Estou com ela. – Referiu-se a mim, mantendo o carinho na base das minhas costas. Aquela mínima atitude me convertia em uma boba total.
- Não tem problema, pode ir. – fez menção de discordar, entretanto, levantei uma mão, pedindo-lhe que não dissesse nada. – É sério, . Não somos siameses. – Ri e ele arqueou uma sobrancelha, moldando os lábios de maneira singela em um meio sorriso imperceptível, enquanto Paolo riu com vontade. – Vou dar uma volta pelo jardim, estava curiosa para ir até lá. – O homem assentiu, ainda que fosse aparente o seu desconforto em sair e me deixar ali.
- Não irei demorar. – Avisou. Fiz um “joínha” com as mãos, observando-o andar até o grupo formado mais à frente acompanhado de Paolo, que murmurou um “já o devolvo”. Ri novamente e fitei a vasta porta que levava à saída do salão, caminhando em direção ao local que me era interessante entre a multidão de pessoas espalhadas pelo recinto.
Senti a brisa gelada da noite e não consegui deixar de sorrir ao notar o aroma floral invadir o meu olfato anteriormente saturado pela mistura de fragrâncias caras. Eu nunca havia visto jardim mais lindo e bem estruturado em toda a minha vida, o que instantaneamente me deixou boquiaberta ao passo em que eu me aproximava dos arbustos esverdeados repletos de flores de todos os tipos. Céus, eu amava tulipas e rosas!
Avistei várias margaridas espalhadas junto às outras flores e, eufórica, corri saltitante até elas, tocando-as com cuidado para não machucá-las. O sorriso largo estampado em meu rosto expressava genuinamente a minha felicidade e encanto com relação a tudo. Estar em um lugar lindo como aquele acompanhada de era a definição perfeita da palavra sonho, porém, ao contrário de tantas outras vezes, eu estava vivendo a realidade. Ouvi um ruído próximo de mim e me virei por impulso, imediatamente abandonando o sorriso que até então perdurava em minha face deslumbrada.
encontrava-se parado a alguns passos de distância e me encarava concentrado. Expirei fundo e tentei não revirar os olhos, embora desejasse.
- Não precisa fazer essa cara, eu vim em paz. – Debochou exatamente do jeito que lhe era característico e o seu ato me permitiu executar a minha ação inicialmente desejada.
- O que você quer aqui? Observar a paisagem não me parece uma opção. – Eu estava feliz e não queria de forma alguma que arruinasse o meu humor.
- Só quero conversar, gracinha. Não há necessidade de ser arredia. – Proferiu calmo e eu ri irônica.
- Conversar sobre o quê, ? – Perguntei cansada.
- Não sabia que encontraria o aqui, principalmente com você. – Confessou e eu percebi que a frase saíra hostil. Neguei com a cabeça, sem a mínima vontade de falar sobre tal questão com ele. – Então é sério mesmo? Quem diria... – Pontuou cínico.
- Não é da sua conta. – Encerrei – ou tentei – encerrar o assunto, mas é claro que insistiria. Aquele seria o tema de sua conversa, afinal.
- Ouch, acalme-se. Apenas perguntei, apesar de que foi uma pergunta idiota, não foi? É mais do que óbvio que algo está acontecendo entre vocês. – Eu detestava aquele sorriso debochado que se fazia presente em sua fisionomia petulante sem sequer oscilar. Decidi não respondê-lo e somente voltar para o salão, no entanto, impediu. – É só responder sim ou não, gracinha. Não é difícil.
- Difícil é você se tocar que eu não quero conversar, aparentemente. Por que você quer saber, aliás? – Indaguei impaciente.
- Eu acho que é do meu interesse estar informado se a minha ex-namorada e o meu melhor amigo estão fodendo, você não acha? – Cerrei os olhos, descrente no que acabara de ouvir. O meu sangue subiu e eu certamente poderia esfregar a cara de no concreto, tamanha era a minha incredulidade.
- Como é que é? – Inquiri entredentes – Lave a boca antes de se referir a mim dessa forma, ouviu bem? E ex-namorada? – frisei, rindo ácida – Você me disse que nós nunca tivemos nada sério, esqueceu? – Ele ficou calado. – Todas as vezes em que eu perguntava o que nós éramos, você simplesmente desconversava. O que você dizia, mesmo? “Não vamos nos rotular” – Gesticulei o imitando. – Como que, repentinamente, eu virei a sua ex-namorada, sendo que nós nunca namoramos, de acordo com você? – Disparei diante de sua figura desconcertada, encarando-o intensamente. Recordar-me do que eu havia passado com ele doía, principalmente quando as lembranças de nosso término acometiam os meus pensamentos. – O que eu faço da minha vida é só da minha conta, . Não gostou? Paga terapia e não me enche o saco. – Mais uma vez fiz menção de sair, todavia, mal sai do lugar. tocou em minha mão, fazendo-me parar.
- Você sempre vai me tratar dessa forma, ? – A pergunta saiu de maneira melancólica. Ele me estudou pesaroso e eu me esforcei para ver um sucinto sinal de remorso em seu olhar comumente insolente.
- Como você acha que merece ser tratado depois de tudo que me fez? Quando nós estávamos juntos eu te falei que, uma vez que alguém me machuca, não consigo mais agir com simpatia diante da pessoa responsável pela minha mágoa. – permaneceu quieto. Perguntei-me se ele se recordava da frase referida. Recordando-se ou não, aquilo já não importava. – Você me machucou e sabe disso. Age como se não soubesse, mas sabe. – Fiz uma pausa para respirar e fixei os meus olhos na sua íris vazia. – Eu não quero mais brigar com você, . – Suspirei – Preciso te lembrar de suas atitudes? Como você se auto-intitula o meu ex-namorado sendo que sempre saiu com outras pessoas? Como você acha que eu me senti ao ver as suas fotos junto com outras mulheres em viagens, bares aleatórios e festas no seu apartamento, dias depois de terminarmos?
Eu queria chorar.
Droga.
Meus olhos e meu nariz começaram a arder e a minha garganta fechou. Respirei fundo e desviou o olhar por poucos segundos. Fitou o chão, em seguida, retomou o nosso contato visual.
- Se você ainda se sente magoada, é porque não me esqueceu. – Disse, me arrancando uma risada anasalada. Senti o gosto salgado de uma lágrima e me amaldiçoei por tê-la deixado cair.
- Eu me sinto magoada porque não merecia ser tratada do modo como você me tratou, não se dê tanta importância.
- Nós tivemos bons momentos, não aja como se eu fosse um monstro. – alegou. Levantou a mão para refrear mais uma lágrima da qual escorria pela minha bochecha, mas o impedi.
- Do que eles adiantaram, se no fim, você fez o que fez? Você acha que merece um pingo de polidez da minha parte?
Silêncio.
Fui analisada pelo homem que, com a fisionomia reflexiva, persistiu sem proferir uma resposta à minha pergunta. Ele comprimiu os lábios e assentiu derrotado.
- Me tratar mal não apaga o que nós tivemos. – Rebateu conciso. – Não apaga o fato de que, antes do querer brincar de conto de fadas com você, eu quem estive lá. Fui eu quem arrancou gemidos da sua boca quando, minutos antes, tudo o que você conseguia fazer era chorar por tê-lo visto com a Cassie; Fui eu quem passou tardes a fio deitado no sofá com você assistindo aquela série ridícula que você gosta; Fui eu quem te ajudou a deixar o de lado e era comigo que você costumava passar as noites. – Concluiu e eu ergui uma sobrancelha em pura descrença.
- Sim, e se você não percebeu, tudo foi dito no passado. E sabe por quê? Porque você estragou tudo. Nós passamos por isso e eu sei que não posso apagar o nosso pseudo-relacionamento, mas posso levar o que aprendi com ele. Eu aprendi a distinguir entre alguém que me quer somente para suprir os próprios caprichos, a alguém que realmente me deseja por perto independente da minha posição social. Sabe por que eu estou aqui? – não esboçou reação. – Porque o não liga de ser visto comigo. Porque, ao contrário de você, que nunca me apresentou para ninguém, ele demonstrou que se importa. – franziu o cenho e riu irônico.
- Se importa? Ele pode estar brincando de passar o tempo com você, . – Foi a minha hora de rir.
- Que moral você tem para me aconselhar? Se ele estiver, o problema é dele. É elequem irá perder. Nós corremos riscos ao nos envolvermos com outra pessoa, não é? Ninguém está livre de se machucar, entretanto, eu não quero ouvir tais avisos vindos de você.
- Eu duvido que você tenha me esquecido. – Rolei as órbitas e neguei com a cabeça.
- Não pague pra ver. Obrigada por se importar, felizmente é bem tarde agora. – Movimentei-me a fim de sair, contudo, colocou-se a minha frente. Bufei, encarando-o tediosa.
- Nós éramos algo. Lembre-se disso quando se deitar com o meu melhor amigo. – Sussurrou em meu ouvido e eu o afastei de leve, tirando-o de perto de mim.
- Seu melhor amigo é o cara que fez o que você não teve coragem. – Retruquei ácida e dei-lhe as costas. Interrompi os meus passos e o olhei por cima dos ombros. – Dê atenção à Molly. Não faça com ela o que você fez comigo. – Por fim, retomei a minha caminhada, sabendo que ele me assistia durante o tempo em que eu me distanciava.
Parei perto da porta de acesso ao salão e respirei fundo na tentativa de amenizar o peso em meu peito. Eu não aguentava mais discutir com , era sempre desgastante demais e irrelevante na mesma proporção, pois de nada adiantaria estender os argumentos a respeito do que o nosso relacionamento fora, haja vista que já não fazia diferença para mim. Ele não somente brincou comigo por dois longos anos, como também teve vergonha e nunca nos assumiu publicamente; Mentiu, foi infantil e nunca me pediu perdão.
Passar por tudo aquilo arruinou o meu psicológico. Ninguém, absolutamente ninguém merece colocar a cabeça no travesseiro e se perguntar por qual razão não foi o suficiente para alguém, mesmo que tenha sido; Mesmo que você não precise ser o suficiente para qualquer outra pessoa, senão a si mesma.

FLASHBACK.

Luzes multicoloridas reluziam entre a escuridão do recinto repleto de pessoas animadas, das quais dançavam, bebiam e desfrutavam do ambiente descontraído do bar. O som alto produzia uma pressão engraçada em meus ouvidos, entretanto, eu não me importava. Aquela era uma das raras vezes em que e eu saíamos de nossa rotina a fim de fazer algo diferente do que nos era usual, e, embora os meus pés já clamassem por descanso, os movimentos das mãos de transpassando pela minha cintura junto a sua respiração em meu pescoço enquanto acompanhávamos a batida da música, era um ótimo motivo para permanecer na pista de dança. Virei de frente para ele e trocamos sorrisos divertidos ao passo em que eu me afastei um pouco de sua figura risonha que, unicamente, me admirava de modo esperto. Comecei a me mover longe dele, que em um gesto surpreendentemente rápido, apoderou-se da minha cintura e chocou os nossos corpos, fazendo-nos rir. Tomei o seu rosto com as minhas mãos e juntei os nossos lábios lentamente, sentindo sorrir diante do meu ato. Sua língua deslizou sob a minha e ele fortaleceu os braços a minha volta, respirando pesado cada vez em que as nossas bocas intensificavam o contato. Finalizamos o beijo com um selinho e eu fiz uma breve careta no instante em que os meus pés reclamaram mais uma vez.
- O que houve? – Perguntou ele, analisando-me com cautela. Ri fraco e me mexi desconfortável, ansiando por um banco.
- Meus pés estão doendo. Vou me sentar, está bem? – Falei, indicando a parte superior do local onde alguns sofás e puffs encontravam-se espalhados aleatoriamente.
- Quer algo para beber?
- Sim. Escolha para mim. – Lancei-lhe uma piscadela marota e riu assentindo.
- Como quiser. – Disse, imitando o meu gesto. Retirei-me da pista e abri caminho pelo furor de indivíduos eufóricos, mostrando para o segurança a pulseirinha dourada que permitia a entrada à área VIP.
Sentei-me no estofado macio e sorri aliviada, desejando não somente permanecer sentada, mas também retirar os sapatos que me importunavam. Obviamente não o fiz, levando em conta que o lugar era sofisticado demais para que eu ficasse descalça. Varri a área com os olhos e avistei conversando com um grupo de pessoas. Ele ria e gesticulava focado no que era dito por ali, em seguida, aproximou-se de uma garota da qual fazia parte da roda e cochichou algo em seu ouvido. Franzi o cenho de imediato, não compreendendo o que se passava, mas também não gostando nada do que via ao reparar que anotava algo no celular dela. Os amigos dele dispersaram juntamente com a garota e ele veio até mim como se nada houvesse acontecido, o que só fez com que eu duvidasse da veracidade da minha percepção a respeito do que se passou. Entregou-me a bebida e se sentou ao meu lado.
- Assim que você acabar, nós iremos embora, certo? – Informou observando ao redor e eu o encarei sem entender.
Ou fingindo que não entendia.
Embora desejasse questionar a sua decisão, concordei. De repente, todo o meu ânimo se dissipou e a minha única vontade era a de ir para casa.
- Vamos agora, então. – Levantei-me de súbito e foi a vez de me fitar confuso.
- Pode terminar a sua bebida, . – Não o respondi. Saí daquela parte do espaço e rumei porta afora acompanhada de um visivelmente desorientado. Entramos em seu carro e, no momento em que eu constatei que ele dirigia em direção ao seu flat, resolvi quebrar o silêncio.
- Me deixe em casa. – fixou a expressão atônita em mim e franziu o cenho em dúvida.
- O quê? – Rebateu desorientado. – Você não ia para o meu apartamento?
- Não mais. Só me leve para casa. – Pedi sem olhá-lo, embora soubesse que ele me estudava.
- ... Qual é o problema? – Insistiu.
Silêncio.
Escutei-o bufar impaciente enquanto fazia o caminho do qual me fora solicitado, sem proferir mais nenhum contra-argumento.

FIM DE FLASHBACK.


Já me sentindo melhor, adentrei as dependências do ambiente requintado, logo vislumbrando conversando com Paolo exatamente onde estávamos anteriormente. Assim que percebeu a minha aproximação, Paolo falou algo para o amigo e dirigiu-se à outra parte o cômodo, não sem antes me direcionar um sorriso amigável, do qual retribuí sem pensar duas vezes. pousou os olhos em mim e, sempre alinhado em sua pose séria e viril, me examinou atento durante o tempo em que eu chegava perto, causando uma briga de borboletas clichês no meu estômago revirado em entusiasmo em consequência de ser admirada daquela forma por ele. Todas as sensações ruins se dissiparam no minuto em que o seu perfume entrou em destaque e o habitual quentinho no peito surgiu, como geralmente ocorria sempre que escorria as órbitas atenciosas pelo meu rosto.
Sem raciocinar demais, fiz a primeira coisa da qual tive vontade: Dei mais um passo e fiquei rente ao seu tronco, transpassei os meus braços pelo seu corpo e nos juntei em um abraço aconchegante, apoiando a cabeça em seu peitoral robusto.
Ele emanava calor; Um calor que me aquecia completamente; Um calor que irradiava paz.
Eu certamente o peguei de surpresa, visto que demorou alguns segundos até reagir. Parecendo se dar conta do que eu fiz, finalmente correspondeu a minha ação. Com um braço, se apossou da minha cintura com uma firmeza que só ele possuía, e o destino do outro foi às minhas costas, apertando-me contra si através do costumeiro gesto protetor.
Eu me sentia protegida, no fim das contas.
Tornei o nosso contato mais vigoroso ao intensificar os meus braços envolta dele, quase nos juntando em um só. Notei-o abaixar ligeiramente a cabeça e posicionar os lábios perto da minha orelha; Sua respiração quente bateu ali e eu me arrepiei no mesmo instante.
- Tudo bem? – Indagou. Limitei-me a assentir, enfiada entre os seus braços e concentrada nas batidas de seu coração. – O que tinha no jardim? – Voltou a questionar, porém, em tom de brincadeira. Eu até poderia rir, contudo, lembrei o que tinha lá.
O melhor amigo dele;
Neguei com a cabeça com a finalidade de deixar aquilo pra lá e sorri, dando de ombros.
- Fiquei com frio. – Inventei uma desculpa ridícula apesar de saber que ele não cairia nela, o que me foi confirmado ao ouvi-lo rir fraco.
- Por um momento eu pensei que você queria me abraçar, . – Proferiu, entrando na brincadeira. Dessa vez, fui eu quem ri.
- E por que eu iria querer te abraçar, ? – Inquiri divertida e um suspiro de satisfação soprou através dos meus lábios ao sentir a carícia que ele executava em minha pele descoberta.
- Porque o arrepio na sua pele diz mais coisas do que você pode imaginar. – Rebateu breve e claro em meio a um sussurro em meu ouvido. Eu poderia derreter ali mesmo.
- E o que você imagina que eles significam? – Respondi-lhe com mais uma pergunta.
- Que eu causo em você as mesmas reações que você causa em mim. – O meu coração acelerou e parou, tudo no mesmo momento. Decerto que conseguia ouvir as suas batidas frenéticas, entretanto, eu não ligava nem um pouco. Desencostei a cabeça de seu peito e o fitei sem partir o abraço.
Céus, como eu gostaria de beijá-lo naquele instante.
Era incrível como a sua fisionomia dotada de seriedade não se alterava, e mais incrível ainda era o fato de que os seus olhos transmitiam diversos sentimentos. Havia afeto na maneira com a qual ele me contemplava. Desfiz uma parte do abraço e levei uma de minhas mãos até o seu rosto, inicialmente acariciando a sua bochecha com o polegar sem quebrar o profundo contato visual; Deslizei o dedo pelo seu maxilar, queixo e subi até contornar levemente os seus lábios. depositou um breve beijo em meu dedo e foi aí que eu desmanchei por completo. Eu senti que estávamos sendo observados e não precisei sequer olhar para saber quem era o expectador.
Nós estávamos em público ao mesmo tempo em que o mundo exterior parecia insignificante, tornando fácil simplesmente continuarmos em nossa bolha.

(...)

- Aquele cara tem tanto botox no rosto que quando morrer nunca irá se decompor. – Analisei de maneira despretensiosa e escutei gargalhar. Nós estávamos sentados em uma das mesas postas na dimensão do salão e a minha cabeça encontrava-se deitada no peitoral de ; Os seus braços rodeavam a minha cintura com propriedade e eu poderia ficar daquele jeito a noite inteira, embora estivesse ligeiramente entediada em meio àquela formalidade toda.
- Tudo bem se formos embora? – Perguntou ele com o queixo suavemente encostado no topo da minha cabeça. Afirmei, pois era exatamente isso o que eu queria. Levantamo-nos e Paolo veio em nossa direção. – Nós já vamos, irmão. Obrigado pelo convite. – Falou ao amigo, que negou.
- Beleza, . Eu quem agradeço pela presença. – Fez o mesmo ato do início da festa e eu também o abracei, igualmente agradecendo. – Vão com cuidado. – Alertou.
- Cuidado digo eu. Tenha cautela nas taças de champagne, Herzog. – proferiu ao amigo, que riu.
Retirou o seu paletó e o jogou sobre os meus ombros, intensificando o meu estado de bobeira perante tal conduta. Sorri e agradeci, ajeitando-o em mim. Como de costume, a sua mão pousou na base da minha coluna durante o tempo em que caminhávamos até a saída. A noite caminhou da melhor forma possível e eu me encontrava feliz por não ter cometido nenhum ato vergonhoso, mas é claro que a gravidade teria que se mostrar presente. O salto do meu sapato prendeu em uma pequena fissura do concreto e eu cambaleei, ficando descalça de um pé e quase machucada, não fosse me segurar com firmeza rente ao seu corpo.
- Bem, senhoras e senhores, o que vemos aqui é uma criatura da qual possui a habilidade de tropeçar em todo lugar existente. – Não existia um modo mais eficaz de sair de uma situação constrangedora do que através do humor. gargalhou mais uma vez comigo ainda colada nele.
- Nota-se que essa criatura também tem humor autodepreciativo. – Debochou e eu ri, me soltando dele. Andei meio mancando em razão da diferença de altura de um pé para o outro e busquei o sapato, calçando-o mais uma vez. observava a cena com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada, evidentemente se divertindo com o episódio.
- Está tudo no meu código genético, nasci assim. – Lancei-lhe uma piscadela. – Me senti a cinderela perdendo o sapatinho. – Brinquei e me coloquei ao seu lado enquanto aguardávamos o manobrista trazer o carro. - A diferença é que você não precisa ir embora à meia noite. – Considerou natural. O encarei e uma expectativa momentânea transpassou pelo meu corpo. O significado da frase realmente foi aquele que eu entendi?
- Meu raciocínio está um pouquinho lento para decifrar referências. – Expressei. me fitou e as minhas pernas bambearam em consequência da forma cujo fui admirada por ele. Tal postura era uma resposta ao que eu lhe dissera, e ela era tão evidente que quase saltara à vista.
- E o que você sugere? – Rebateu. Eu dispunha de um argumento na ponta da língua, contudo, o homem chegou com o automóvel, entregando as chaves para . Ele agradeceu e abriu a porta do passageiro a fim de que eu entrasse. Parei diante dele e sorri.
- Eu sugiro que não deixemos a noite acabar agora. – A sua face instigante não se alterou, porém, os seus lábios formaram um efêmero sorriso enviesado no canto de sua boca. Finalmente adentrei o veículo, logo tendo a companhia de ao meu lado. Meus olhos captaram uma capa de cd bastante conhecida em cima do painel do carro e, de imediato, o peguei, sorrindo largo ao ver que se tratava de um disco do The Calling.
- Eu não acredito que você ouve The Calling! – Exclamei mais eufórica do gostaria. O homem desviou a atenção da rua brevemente e me fitou de soslaio, rindo fraco.
- Camino Palmero é o melhor álbum deles.
- Meu Deus, sim! Eu amo demais! – Eu não conseguia conter a animação e notou. Mesmo centrado na estrada, sustentava o sorriso suave que pendia em seus lábios.
- Pode colocar se quiser. – Autorizou e foi aí que eu explodi de felicidade. Tirei o disco compacto do compartimento e o posicionei na entrada do toca cd. Ele foi puxado para dentro e os acordes de Unstoppable se iniciaram.
- Posso mudar para a minha predileta? – Questionei e assentiu. Apertei o botão que indicava duas setinhas para a direita e pulei música por música até chegar a Stigmatized.

(Escute Stigmatized do The Calling a partir daqui).

If I give up on you I give up on me
(Se eu desistir de você, eu desisto de mim)
If we fight what's true, will we ever be
(Se lutarmos pela verdade, ficaremos juntos)
Even if God himself and the faith I knew
(Mesmo Deus e a fé que eu conheço)
Shouldn't hold me back, shouldn't keep me from you
(Não deveriam me prender aqui, não deveriam me manter longe de você)


Desliguei-me de tudo e foquei em cada palavra cantada pelo Alex Band. Aquela música me acalmava e me transmitia uma paz imensurável, como se me levasse para outra dimensão.

Tease me, by holding out your hand
(Provoque-me, estendendo a sua mão)
Then leave me, or take me as I am
(Então me deixe, ou me aceite como eu sou)
And live our lives, stigmatized
(E viveremos a nossa vida, estigmatizados)
I can feel the blood rushing through my veins
(Eu posso sentir o sangue correndo em minhas veias)
When I hear your voice driving me insane
(Quando ouço a sua voz me enlouquecendo)
Hour after hour day after day
(Hora após hora, dia após dia)
Every lonely night that I sit and pray
(Toda noite solitária que eu sento e rezo)


Eu cantava mentalmente e, aos poucos, fui prestando atenção no significado da letra, que me parecia muito semelhante com uma situação em especial.

We live our lives on different sides
(Nós vivemos nossas vidas em lados diferentes)
But we keep together you and I
(Mas continuamos juntos, você e eu)
Just live our lives, stigmatized
(Apenas vivemos as nossas vidas, estigmatizados)


Fitei as minhas mãos repousadas em minhas pernas e refleti em relação ao momento atual. Em como tudo mudou; Em como coisas das quais eu jamais imaginei que aconteceriam, estavam acontecendo; Em como eu sentia uma explosão de energia a todo instante em que olhava para mim.

We'll live our lives, we'll take the punches every day
(Nós viveremos nossas vidas, nós levaremos socos todos os dias)
We'll live our lives I know we're gonna find our way
(Nós viveremos nossas vidas, eu que sei que nós vamos encontrar um jeito)

Encarei pelo canto do olho e ele aparentava ter feito a mesma interpretação com relação ao conteúdo da canção, visto que, agora, encontrava-se sério e ainda mais compenetrado.

I believe in you
(Eu acredito em você)
Even if no one understands
(Mesmo que ninguém entenda)
I believe in you, and I don't really give a damn
(Eu acredito em você, e simplesmente não dou a mínima)
If we're stigmatized
(Se nós estamos estigmatizados)
We live our lives on different sides
(Nós vivemos nossas vidas em lados diferentes
But we keep together you and I
(Mas continuamos juntos,você e eu
We live our lives on different sides
(Nós vivemos nossas vidas em lados diferentes)

Passei a estudar mais profundamente e ele reparou, pois, ao parar o carro no sinal vermelho, virou a cabeça e as nossas íris se conectaram.

We're gonna live our lives
(Nós vamos viver nossas vidas)
Gotta live our lives
(Nós temos que viver nossas vidas)
We're gonna live our lives
Nós vamos viver nossas vidas
We're gonna live our lives, gonna live our lives, stigmatized
(Nós vamos viver nossas vidas, vamos viver nossas vidas, estigmatizados)

Trocamos olhares cheios de cumplicidade e eu fui examinada com sobriedade por . Independentemente de estar sério, o seu semblante me dava a habitual sensação de segurança. O farol não demorou a abrir e ele voltou a focar unicamente na rua. A música terminou no tempo equivalente em que chegamos ao prédio do qual morava; Ele manobrou o veículo e, em silêncio, saímos imersos no que a canção fez conosco. Adentramos o elevador, mas eu não fiz nada que não fosse observar a porta de aço diante de mim.
- ? – rompeu o meu devaneio, me chamando num tom preocupado. Subi o meu olhar até ele e sorri.
- Sim?
- Está tudo bem? – Indagou e eu assenti. Aquele era o problema. As coisas estavam mais do que boas e, de repente, o medo de deixar tudo escorrer por entre os meus dedos abateu uma pequena parte do meu ânimo. – Você poderia olhar para mim? – Pediu calmo. Antes que eu o fitasse, sua mão quente entrou em contato com a pele do meu rosto, virando-o em sua direção delicadamente. – Eu posso te levar para casa, não tem problema. – Proferiu, me estudando com cautela. Eu neguei veemente com a cabeça.
- Não, não é o que eu quero.
- Então o que aconteceu? – Perguntou mais uma vez, buscando o meu olhar. Mordi o lábio e suspirei.
- “Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade*.” – Citei e franziu o cenho. – É uma frase de um livro que eu gosto muito. Temo que ela se encaixe nisso – apontei para mim e para ele – um dia. – Ele intensificou o jeito que me analisava e tateou cegamente o quadro de botões do elevador, o estagnando ali.
- Eu não sei pelo que você já passou, não sei ao certo o que nós estamos fazendo, mas sei de uma coisa: Não brinquei quando disse que não abriria mão de estar perto de você, . – Acariciou a minha bochecha, transmitindo afeto. – Se for da sua vontade, nós voltamos para o carro e eu te deixo em casa, mas se você realmente quiser ficar, não fique estando com receio de mim. Se for ficar, fique por inteira. – Concluiu preciso.
Eu não precisei proferir palavra alguma.
O que eu desejava ouvir havia acabado de ser dito.
Sorri e agarrei a sua blusa com as mãos, dando um ligeiro impulso para fazer o que eu mais ansiava. Tomei os seus lábios quentes com os meus sem pensar duas vezes e soltou um suspiro ávido, transpassando os dedos do meu rosto até a minha nuca. Encheu a palma com os meus cabelos exatamente como me agradava e, devagar, colocou a língua cálida em jogo, escorregando-a pela minha boca e pela minha própria língua quase me torturando. Pendi a cabeça para o lado a fim de senti-lo mais profundamente e encaixamos os lábios como nunca feito antes, com uma gana que era explicitada cada vez em que meus fios eram massageados por sua mão firme, enquanto a outra rodeava a minha cintura com tanta precisão que causava uma pressão deliciosa. Aquele beijo possuía desejo. Ele era claro e puro, não permitindo com que fôssemos corteses ou tranquilos. Sua boca deslizava e experimentava a minha quase desesperadamente e eu não diferia. Fui prensada contra a parede do elevador e arfei, subindo um pouco a minha coxa com a finalidade de aumentar a fricção de nossos corpos. grunhiu e eu sorri internamente pelo ato ter surtido efeito. Ele prendeu meu lábio inferior sutilmente com os dentes e deu uma leve puxada, interrompendo o beijo de súbito. Atônita, abri os olhos e o encarei ofegante. pousou a boca próxima ao meu ouvido e eu arrepiei.
- Vamos sair daqui antes eu não consiga mais me separar de você. – Sua voz rouca sussurrou naquela região. A respiração incitou a área sensível da parte referida e eu tive certeza de que fora um ato proposital. nos desapoiou da parede sem desgrudar os nossos corpos e saímos do recinto, parando em frente a sua porta comigo de costas para ela e os braços em volta de sua nuca. Durante o tempo em que ele tentava girar a chave, resolvi dificultar a sua tarefa ao depositar os lábios na pele de seu pescoço, mordendo-o de leve. xingou e eu soltei um risinho. – ... – Repreendeu. Ouvi um “clic” e não obtive tempo para raciocinar. O meu corpo foi colocado para dentro do apartamento e o baque da porta sendo fechada ressoou através do ambiente quieto.
Não voltamos a nos beijar.
Sustentamos o profundo contato visual e, ainda que não pudesse enxergar para onde estava indo, me permiti ser guiada por , que em momento algum abandonou a minha cintura da qual era envolvida por seus braços vigorosos. Senti o estofado macio atrás de mim e constatei que encontrávamos em seu sofá. Ele se colocou por cima de mim e equilibrou o peso, me estudando com cuidado. O meu peito subia e descia tomado pela expectativa e, dessa forma, conduzi a minha mão até o seu rosto, contornando-o com os dedos, focada em cada traço seu.
- Eu estou aqui por inteira. – Findei precisa, vendo-o sorrir brevemente. Peguei em sua nuca com as duas mãos e o trouxe para mim, sentindo a sensação maravilhosa do leve pressionar de nossos lábios. Ajeitamos-nos no sofá e se acomodou entre as minhas pernas, soltando um pouco mais de seu corpo sobre o meu. O impacto era tão bom que poderia me enlouquecer. Abrimos a boca sem pressa e novamente as línguas tornaram a se explorar, tão inebriante quanto a minutos atrás. Tão fervorosas quanto nas outras vezes. A suas mãos firmes e grandes apertaram a lateral do meu corpo com posse e desceram até as coxas descobertas pelo vestido que, àquela altura, já estava içado até a minha cintura, facilitando o nosso contato intenso. colocou a mão por trás do meu joelho e levantou mais a minha perna esquerda, deixando-a rente à sua cintura.
Escorri as mãos pelo seu tórax coberto pela blusa e peguei na barra da vestimenta, levantando-a. Aproveitei o ato para tocar a sua pele de leve ao passo em que revelava toda a extensão maravilhosa de sua fisionomia corporal, provocando inúmeros arrepios em , que ergueu brevemente o tronco com a intenção de terminar de se livrar do tecido. Todos os seus músculos se locomoveram com o movimento e a visão aqueceu o meu baixo ventre. Vê-lo tão másculo e viril por cima de mim era demais para aguentar sem perder a cabeça. Notando que eu o avaliava lascivamente, ele sorriu torto e ardiloso, aproximando-se do meu pescoço. Lentamente passou a usar a língua e os lábios no ato, beijando cada parte de minha derme quente em razão da situação; Investiu o quadril contra o meu e eu gemi baixinho, já percebendo o calor entre as minhas pernas aumentar gradativamente por notá-lo rijo no meio das minhas coxas. Espalmei as mãos em suas costas nuas e o arranhei, explodindo de tesão com o som rouco de seu gemido. Ele intercalou os beijos em meu pescoço com pequenas mordidas e lambidas na área que conecta o ombro e a clavícula, usando a língua sem pressa alguma. Friccionei as nossas intimidades odiavelmente cobertas e ele arfou, subindo os beijos até a minha boca, tomando-a com vontade. A cada tocar de lábios ele fazia questão de parar os movimentos e me encarar sério, posicionando o indicador no pano do meu decote e o puxando para baixo devagar, levando as alças finas consigo. Os meus seios ainda cobertos pelo sutiã foram expostos devido ao ato e, conforme deslizava o vestido pelo meu corpo, meu estomago dava giros e mais giros de nervoso. Sem cortar a nossa conexão visual, ele finalizou a ação assim que o tecido fino chegou até a altura da minha panturrilha. Usei os pés para, enfim tirá-lo, e o peso de seu corpo novamente fez pressão contra o meu já em chamas. As nossas peles se atritaram e me fitou atento. Passou os olhos pelos meus seios, desceu pela barriga e chegou até a calcinha fina, para retornar ao meu rosto logo depois.
- Vermelho lhe cai bem. – Sorriu sacana e eu não aguentei. Inverti as posições e fiquei por cima dele, inteiramente febril.
- Uma pena que você ainda esteja de calça. – Rebati, sentando-me bem em cima de seu membro. Ele fechou os olhos e respirou fundo, jogando superficialmente a cabeça para trás na medida em que prensava com força as laterais do meu corpo e a minha cintura, percorrendo as unhas curtas por ali com vigor. Curvei o tronco e passei a língua no lóbulo de sua orelha, abaixando até chegar a seu pescoço, onde coloquei um pouco de sua pele entre os meus dentes e gentilmente a levantei, mordendo-a de leve. Outro urro fez-se audível.
- Porra... – Xingou e me apertou mais uma vez, descontando o desejo. Distribui beijos por todo o seu peitoral robusto enquanto abria o zíper de sua calça, me remexendo em cima dele propositalmente. Ele xigou outra vez. Ri baixinho e me surpreendi no momento em que ergueu o corpo, sustentando as minhas coxas e sentando-se comigo em seu colo. Fiz menção de levar as mãos novamente em direção ao cós e ele segurou os meus pulsos somente com uma de suas palmas. Fez um “não” com a cabeça e posicionou um polegar de cada lado do elástico da minha calcinha, subindo e descendo, empenhado em me deixar louca. Apoiei a cabeça em seu ombro e, ofegante, protestei em um grunhido desconexo. A excitação já me deixava completamente molhada e senti-lo rígido embaixo do meu sexo não ajudava. Ouvi um ruído estranho e, ao passo em que beijava os meus ombros, abri os olhos, quase morrendo de susto e vergonha.
Bento estava parado no pé da escada e nos encarava inocente. Afastei-me e fitei , que franziu o cenho não entendendo nada.
- O Bento está olhando. – Sussurrei e ele deslocou a cabeça para o lado, contemplando o Pastor Alemão ingênuo. deu um riso anasalado e voltou a me encarar com a sobrancelha erguida. – Sem chance de continuar com ele presente. Parece que é um filho observando. – Murmurei. gargalhou e concordou, se levantando abruptamente. Automaticamente envolvi a sua cintura com as pernas ele as amparou com os braços, andando comigo a caminho da escada. – Tem alguma chance de nós subirmos isso aí sem que quebremos um braço? – Perguntei em seu colo. Ele me apoiou no corrimão e fixou mais as minhas coxas em volta dele.
- Não conteste, . – Falou em meu ouvido e raspou os dentes em minha orelha. Meu corpo foi içado de novo e, com uma habilidade indescritível, subiu os degraus. Desfrutei da situação para passar a língua em seu pescoço, beijando-o com vontade. Segundos depois, entramos em seu quarto. Ele se sentou em sua cama e voltamos à posição anterior. Dei uma breve rebolada em seu colo com a intenção de instigá-lo e sentir o seu membro, e ambos surtiram efeito. As mãos de passearam pela minha coxa, movendo-se em sua parte interna e transitando até a minha virilha, que foi massageada pelos polegares ágeis do homem sob mim. Voltei a apoiar a cabeça na curva de seu pescoço e levantei quase que minimamente o quadril, dando livre passagem para que ele fizesse o que desejasse fazer.
O seu dedo fez contato com o meu sexo por cima da renda da minha calcinha, ocasionando um contraste de sensações que me fizeram ofegar. Enquanto distribuía beijos lânguidos e calmos pelo meu pescoço, repetiu o ato e transpassou o dedo pela minha virilha com lentidão, escorrendo de modo torturante para dentro do pano. Ele subiu os beijos progressivamente e chegou até o meu ouvido, soltando um riso cafajeste que só colaborou para que eu me sentisse em ponto de ebulição. Acariciou os grandes lábios e desceu as carícias torturantes até a minha cavidade ardente, lugar onde deixou explícito que desejava conhecer mais a fundo através de toques sensuais e calmos na entrada, como se quisesse me descobrir pouco a pouco.
- Fique mais do que à vontade para rebolar. – Proferiu sereno. Eu estava me sentindo absurdamente imersa ao prazer que me era atribuído pelo movimento vagaroso dos dedos de . O fitei meio perdida e débil em consequência de seus gestos e quis soca-lo ao vê-lo transpassar tamanho relaxamento. Sua expressão era de satisfação. Era de seu interesse estudar todas as minhas reações enquanto eu me encontrava entregue a todos os seus toques.
- Assim? – A pergunta era retórica. Me mexi e um gemido mais audível saiu da minha boca. Seu polegar acariciou o meu clitóris inchado, enquanto o dedo indicador e médio locomoveram-se na entrada lubrificada.
- Quero te sentir ao redor dos meus dedos, . – Ordenou fez movimentos circulares mais intensos na carne molhada. Eu estava ardendo, meu corpo era brasa e a excitação me fazia querer explodir. Arrumei o meu quadril e, trêmula de prazer por ser estimulada daquela forma, rebolei com mais fervor, não sabendo se mordia os lábios ou se expressava o tesão que se apoderou do meu corpo no segundo em que os seus dedos me invadiram. Joguei a cabeça para trás e, não tenho certeza de quando ocorreu, entretanto, notei os meus seios serem expostos sem a proteção do sutiã, que certamente fora jogado em algum canto do quarto. lambeu um mamilo e a saliva cálida produziu um choque em meu corpo. Eu movia os quadris de todas as formas possíveis, sentindo os seus dedos me explorarem com dedicação. A fisionomia de era algo inexplicável. Ele me vislumbrava compenetrado, tendo apenas o usual meio sorriso sacana nos lábios. – Gostosa. – Rugiu em meu ouvido e mordeu o lóbulo da minha orelha, tirando os dedos de dentro de mim. Gemer já não explicitava o que eu sentia. Eu necessitava dele mais do que qualquer coisa. se levantou e eu permaneci de joelhos na cama.
- Tire a sua calça. – Mandei. Ele passou a língua pelos lábios e me fitou desafiador. Devagar, ele levou as mãos até o cós dela, não desconectando o olhar faiscante do meu. Eu almejava possuir autocontrole para não retirá-la eu mesma. Sem pressa, desceu o zíper; Abaixou de modo arrastado e eu poderia xingá-lo ou ficar irritada, no entanto, a cena era demasiada sexy e hipnotizante. Notei que ele também levava a boxer junto com a calça e eu somente o admirava durante o tempo em que ele se despia. E se despia para mim. Seu membro ereto pulou no momento em que o pano chegou até as suas coxas e o resto de sanidade que me habitava, foi embora. agilizou o processo e, em seguida, chutou a peça de roupa. Sem dar tempo para que eu sequer pensasse em fazer algo, senti o colchão bater contra as minhas costas. Ele se situou no meio das minhas pernas e eu contraí a barriga pelo que viria a seguir.
- Eu preciso te sentir agora. – Rugiu em tom grave. Ao passo em que puxava a minha calcinha entre as minhas pernas, distribuía beijos ligeiros na parte interna da minha coxa, o que involuntariamente me fez abrir as pernas. O pano teve o mesmo destino do meu sutiã e, efetuando carícias no local do qual ele beijara, levou a boca até a minha intimidade lustrada de lubrificação. Eu queria olhá-lo, mas tudo o que eu conseguia fazer, era arquear as costas e deleitar da sensação de sentir a boca de no meu sexo. Movimentou a língua no meu clitóris, fissurado na carne excitada e depois, se abaixou. Realizou o mesmo ato em minha entrada, executando uma lambida lenta. E outra. E mais uma. desejava que eu sentisse prazer de forma torturante. Sem força, tampouco sem pressa. Meus soluços sôfregos ecoaram pelo quarto e eu me contorci conforme ele lustrava o meu sexo com a própria língua, ativando as terminações nervosas dos grandes lábios no instante em que os chupou.
- ... – Gemi o seu nome em uma entonação praticamente inaudível e me contorci. Ele refreou as incitações e eu expirei fundo.
- Não se preocupe. Você só irá gozar quando eu estiver devidamente dentro de você. – girou o meu corpo com as mãos fortes e, num gesto abrupto e inesperado, apossou a minha cintura em um toque repleto de propriedade, colocando-me de bruços. – Eu tenho algumas coisas em mente... – Apoiei-me no colchão macio e espalmei as minhas mãos ali, ofegante e trêmula em expectativa. – E assumir o seu corpo exatamente assim, é uma delas. – Ele afastou as minhas pernas com determinação e eu gemi em pura excitação ao notar a minha intimidade totalmente exposta com aquele ato. Posicionou-se por trás de mim e transpassou a ponta de seus dedos em toda a extensão do meu sexo, deslocando-os pela carne molhada com uma lentidão torturante, explorando e se deliciando com a sua ação, para, em seguida, aumentar a intensidade dos movimentos na minha entrada, me levando à loucura durante o tempo em que eu sentia a textura e pressão de seu dedo indicador e médio circulando por ali outra vez.
Com destreza, os introduziu lentamente em meu canal cálido e lubrificado, mal chegando a explorar o meu interior da maneira que eu ansiava, retirando-os sem demora, como se quisesse unicamente comprovar que eu necessitava tê-lo dentro de mim o mais rápido possível. Mil palavras vinham à minha mente, contudo, somente conseguia soltar murmúrios e frases desconexas.
- Porra... Você está muito molhada. – Disse com a voz rouca e baixa e a respiração pesada. Entrei em estado de ebulição e me contorci no momento em que voltou a introduzir os dedos no meu íntimo, porém, dessa vez, dois deles faziam o trabalho de me sentir com voracidade.
Ele os mexia com gana, aparentando querer descobrir cada extremidade minha.
Eu desejava muito mais do que aquilo.
Apenas os seus dedos não eram o suficiente para saciar a minha vontade dele.
encostou a boca na minha orelha, gemendo em um ato de tesão mesclado com provocação enquanto os seus lábios tocavam o meu ouvido, empenhado em me fazer perder a cabeça a cada estímulo seu.
- Eu disse que você fica bem de vermelho, babe, mas devo salientar que a visão proporcionada pela sua falta de roupa é muito melhor. – O seu tom de voz era enlouquecedor. A entonação grave e rouca ganhou uma modulação carregada de lasciva. Um soluço de prazer escapou mais alto do que eu esperava, tanto pela sua frase, quanto pela sensação deliciosa de seus movimentos variados e vigorosos agora na parte esponjosa entre as minhas cochas. Ele circulava, acariciava e executava gestos de vai e vem, ora com os dedos, ora esfregando parte de sua mão em meu órgão pulsante. Eu queria gritar, queria tomar o controle da situação, entretanto, encontrava-me à mercê de cada toque do homem tomado pela luxúria, descontando a excitação nos lençóis ao passo em que eu fincava as unhas neles, agarrando-os com precisão.
- Então faça algo sobre isso. Está com pena de quem, ? – Finalmente atingi o meu objetivo e tive capacidade de proferir algo. De súbito, parou o ato em minha intimidade. Virei a cabeça moderadamente e o fitei, presenciando a imagem mais excitante que eu já vira, também percebendo que o meu questionamento o pegou em cheio, como se o desafiasse.
O suor iluminava a sua testa e fazia com que alguns fios de seus cabelos grudassem nela, e igualmente úmido estava o seu tórax desnudo, que subia e descia arfante. Todo o seu corpo viril resplandecia devido à transpiração intensa, assim como o meu. A sua fisionomia séria junto ao cenho minimamente franzido e os olhos um tanto semicerrados era quase pornográfica, e eu certamente poderia gozar apenas olhando para ele, principalmente no instante em que um sorriso sujo repleto de malícia repuxou os lábios ainda rubros pelo nosso beijo de minutos atrás.
esticou-se em direção ao criado-mudo e retirou um pacote de preservativos de sua carteira. O abriu com maestria, usando os dentes e tornando sexy até mesmo aquele feito. Dotado de destreza, colocou-o em seu sexo ereto e subiu as suas mãos à minha lombar, me ajudando a empinar a bunda com voracidade; Em seguida, com a outra mão livre, encheu a sua palma com os meus cabelos, prendendo os fios firmemente entre os seus dedos.
- Não queira brincar de joguinhos de provocação, . – Ele os puxou com vigor e, num ímpeto, a minha cabeça ergueu-se ligeiramente. Um gemido agudo de prazer ecoou pela minha garganta diante de sua ação e, sem me dar tempo para raciocinar, se aproximou ainda mais do meu corpo. – Eu estou com a vantagem no momento. – Grunhi ao sentir o seu membro rijo roçar no local que mais ansiava por ele. Esfregou-o na entrada da minha intimidade – que pulsava em expectativa –, entretanto, desviou o caminho e passou a cabeça de seu pênis pelo meu clitóris inchado de desejo, me torturando por segundos. Abri a perna e me empinei ainda mais, aumentando a fricção de nossos sexos e colando nossos corpos suados, sentindo-o duro e quente. Fui rebolando para tentar encaixá-lo em mim e ele, impiedoso, esfregou e roçou mais e mais, respirando pesado e rápido em meu ouvido em meio a urros e gemidos.
- ... Por favor... – Supliquei com a voz falha e riu ele perverso. Soltou os meus cabelos e delicadamente pegou em meu queixo, virando o meu rosto para si. Depositou um beijo breve em meus lábios e me fitou atento, cravando as órbitas nas minhas a ponto de sentir a conexão e cumplicidade entre nós.
- Deixe-me te olhar. – Pediu com um carinho que contrastava com o momento. Fechei os olhos e mordi os lábios ao senti-lo deslizar a ponta de seu sexo lentamente pela minha cavidade acalorada em desejo. – Eu quero ver a sua expressão enquanto geme o meu nome. – Sorri maliciosa e mordi o lábio, tornando a fitá-lo.
- Então me faça gemê-lo. – Aquilo fora o suficiente. Ele sorriu sacana e me invadiu fundo e abrupto, fazendo-me resfolegar em deleite ao, finalmente, ter o que eu tanto ansiava. Ambos suspiramos de prazer, manifestando a satisfação entre os gemidos embaralhados.
Durante todo o tempo em que os meus sentimentos a respeito de permaneceram guardados, eu me peguei refletindo e imaginando sobre como seria a sensação de me sentir entregue a ele. Sobre como seria tê-lo só para mim e ser só dele, sem nada para atrapalhar. No instante em que, finalmente, o senti rígido e voluptuoso dentro de mim, tudo o que eu havia imaginado se dissipou.
Aquela sensação era única;
Eu nunca imaginaria que experimentaria tamanha completude;
Nossos corpos transmitiam um calor ardente e eu queria mais. O suor escorria e viajava entre a divisão dos meus seios, perdendo-se no caminho enquanto o meu corpo balançava em consequência de suas investidas fortes e enérgicas, preenchendo o meu interior com o seu membro pulsante entrando e saindo de modo delicioso demais para que eu não estivesse apta a fazer qualquer outra coisa, senão murmurar e gemer, inebriada com a sensação da pressão em meu interior ocasionada pelos seus movimentos. gemia e urrava enrouquecido, transformando tal sonoridade em algo que eu ouviria pelo resto da vida, caso fosse possível. A maneira com a qual ele apertava a lateral da minha cintura certamente deixaria hematomas, porém, aquilo sequer me incomodava; Meus cabelos eram puxados com volúpia a cada estocada realizada pelo homem tão delirante e imerso no momento quanto eu.
penetrava com fervor e eficiência, forte, profundo e totalmente latejante e quente em meu sexo besuntado de lubrificação, entretanto, a sua determinação em me torturar o fez diminuir a velocidade dos movimentos, passando a deslizar devagar e lentamente em meu canal enquanto levou a mão anteriormente posicionada em minha cintura até o meu clitóris ensopado e dilatado de tesão, acariciando-o e me estimulando como se me fazer suplicar fosse a sua intenção impiedosa. Grunhi em repreensão, fazendo-o rir.
Céus, eu iria enlouquecer.
- Sem pressa, . – O seu dedo indicador fazia movimentos circulares pelo botão, provocando choques de prazer em todo o meu corpo úmido. Eu me contorcia, puxava o lençol, murmurava impaciente, entretanto, de nada adiantava. – Senti-la ao meu redor é delicioso demais para que acabemos rápido com isso. – Proferiu com a voz arrastada num erotismo gritante. Investiu desejoso e esfomeado pelo meu interior, não deixando de me tocar nem por um minuto.
Forte.
Rápido.
Quente.
Ele me invadia fundo e intenso.
Trazia-me para si através das mãos em meus cabelos, puxando-os durante o tempo em que urrava obscenidades em meu ouvido; Um calor mais intenso se apossou de meu baixo ventre e uma nova onda de prazer provocou outro choque em meu corpo; Com isso, me retorci, latejante e gradativamente mais sensível.
A musculatura da minha intimidade se contraiu e aumentou as carícias e estocadas, movimentando-se num ritmo sedento e insaciável.
- ... – Comecei em um sussurro, contudo, minha voz vacilou ao ser invadida por mais uma contração de maior intensidade.
Outra estocada forte.
Seus dedos famintos exploraram meu clitóris com movimentos circulares e rápidos. Eu não iria aguentar.
- Goze para mim, babe. – Pediu determinado. Sua voz rouca clamava desejo e aquilo foi como um ato de liberdade para mim. A grande sensação de prazer físico se apoderou do meu corpo de maneira arrebatadora e as contrações espontâneas na musculatura da minha intimidade eram um reflexo da chegada extasiante do meu orgasmo. Os espasmos rítmicos produziram tremores em minhas pernas e não diminuía o próprio ritmo. Um gemido urgente escapou da minha garganta e meu corpo tremeu, contraindo-se violentamente; A minha abertura se alongou e logo o esguicho quente do meu líquido escorreu, molhando o seu membro pulsante, tão sedento por aquele momento quanto eu.
passou a deslizar com mais zelo, resvalando devagar até quase parar totalmente.
Eu nunca havia sentido tanto prazer em toda minha vida.
Ele sustentou o meu corpo estremecido e eu me permiti relaxar, respirando fundo ainda sentindo o meu interior dar singelos espasmos involuntários. Notei o seu membro ser retirado de dentro de mim e fitei , constatando que era a minha vez de fazê-lo chegar ao ápice. Ele segurou-se e adiou o próprio prazer até que eu estivesse saciada, nada mais justo do que retribuir o gesto.
Troquei as posições e o coloquei sentado na cama. Passei as pernas por cima dele, de modo a ficar com uma de cada lado de seu corpo viril e suado e sentei em seu colo, sentindo-o duro no meio das minhas pernas, atritando com o meu sexo ainda mais sensível. O sorriso cafajeste estava ali, me provocando. Beijei-lhe os lábios de modo voluptuoso e devolvi-lhe o sorriso enviesado. Remexi o quadril em sua ereção e ele respirou fundo. Repeti o movimento algumas vezes mais, enlouquecendo , que também me deixava descontrolada por estar provocando os seus gemidos.
- Já chega, . – Pediu sôfrego. Pousei a boca em seu ouvido e friccionei os nossos sexos, grunhindo.
– Chumbo trocado não dói, não é mesmo? – Retruquei. Ele efetuava carícias em meus mamilos túrgidos e algumas vezes o chupava, enquanto eu acariciava os seus cabelos ao passo em que aproveitava da sensação. Peguei na base de seu membro quente e, por fim, decidi acabar com o seu sofrimento. Bem lentamente desci sobre ele e suspirei, sentindo-o me invadir por inteiro devido à posição. Abracei pela nuca e comecei a me mover com calma, indo para cima e para baixo devagar, não demorando a aumentar o vigor do rebolado. estocava rápido fazendo meus seios se movimentarem em seu torax, esfregando os bicos nele ao passo em que as nossas respirações arfantes se confundiam e o suor escorria pelos nossos corpos, misturando as nossas transpirações. pousou as mãos em meus quadris e estimulou os movimentos. Olhamos dentro dos olhos um do outro e a conexão era aparente. Nós estávamos desfrutando da companhia um do outro. Gotas de suor surgiam em sua testa e grudavam alguns fios de cabelo no local. Colei a boca na sua, mesmo não permanecendo de tal modo por muito tempo, visto que estava perto do próprio clímax.
- Você é incrível. – Sussurrou em meu ouvido e eu sorri, extasiada. Seu membro pulsou dentro de mim e eu fiz movimentos de vai e vem, ouvindo-o rugir sôfrego, externalizando o próprio prazer. Seu corpo deu um espasmo mais forte e eu o senti latejar energicamente, aumentando o nível das vibrações no meu canal, indicando ele havia ejaculado.
pendeu a cabeça para trás e a, cansado, a apoiou na cabeceira da cama. Ver a satisfação estampada em sua fisionomia e saber que eu o fiz sentir-se de tal maneira era a representação certeira do prazer. Pousei a cabeça na curva de seu pescoço e foquei em normalizar a respiração. Ambos estávamos esgotados e ofegantes. Minha cintura foi envolvida com um de seus braços e o outro transpassou as minhas costas apenas até alcançar os meus cabelos emaranhados, onde ele iniciou um carinho aconchegante, tão fatigado e sem ar quanto eu. Permanecemos naquela posição durante incontáveis minutos, unicamente desfrutando do estado de nirvana inalcançável. Meus batimentos cardíacos acelerados de felicidade e satisfação denunciavam quão mágico aquele acontecimento fora para mim. Saí de cima de e, num reflexo, o vi se desfazer da camisinha em um lixinho do lado da cama. Deitei-me ao seu lado e ele me puxou para si, fazendo com que eu descansasse a cabeça em seu peitoral ainda arfante. Abracei o seu tronco e me aninhei nele, sorrindo abobalhada pela milésima vez na noite ao senti-lo depositar um beijo no topo da minha cabeça.
Eu fui dele;
Ele foi meu;
Nada, nem ninguém, poderia mudar isso.

Gazebo: O gazebo é uma construção que se integra ao jardim de uma residência, da cidade, do campo, da praia, dos sítios etc. Normalmente um gazebo tem uma cobertura mas as partes laterais são abertas.
Pendentes: Espécie de lâmpada para decoração.
"Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade." Frase retirada do livro "A Menina Que Roubava Livros" de Markus Zusak.


Capítulo 15

"Talvez sejamos amigos, talvez sejamos mais, talvez seja apenas minha imaginação." Next To You - Jordin Sparks.


’s POV
Um aroma doce e suave de baunilha penetrou as minhas narinas; A medida em que gradualmente recuperava a consciência, também me dava conta da procedência de tal fragrância: . Encolhida em meu corpo, a garota dormia tranquilamente com a expressão serena e branda, descansando a sua cabeça sobre o meu peitoral. Moderadamente sonolento, fitei a figura imóvel em estado de repouso aninhada em mim, contemplando-a enquanto a sua respiração calma revelava o sono profundo no qual ela se encontrava.
Flashes da noite passada invadiram a minha mente através de cenas desordenadas, como se os meus pensamentos desejassem repassar todos os acontecimentos de uma vez, não respeitando a ordem dos fatos. A imagem ingênua transmitida por foi totalmente quebrada; As sensações que ela despertou em mim, a textura da sua pele e o calor emanado dela foram o suficiente para que eu reparasse nela como mulher. não era uma simples garota e eu me convencia disso cada dia mais.
Suspirei e olhei para o lado oposto, tateando a mesa de cabeceira à procura do meu celular. Apanhei o aparelho e, com dificuldade devido à claridade provinda da tela, chequei as horas. 11hrs16min. Encarei mais uma vez e, com cuidado para não acordá-la, desvencilhei-me de seus braços, saindo da cama sem fazer movimentos bruscos. Ela se mexeu, porém, não despertou. Coloquei uma calça de moletom e saí do quarto, dando de cara com Bento, que dormia na porta do cômodo. O cão arqueou as orelhas e balançou o rabo em euforia ao me ver. Ri fraco e o acariciei, fazendo sinal para que ele não latisse, vendo-o direcionar os olhos curiosos para dentro do dormitório como se soubesse que estava ali.
- Não faça barulho e muito menos pule na cama. – Avisei com o tom de voz comedido à medida que retornava a fim de buscar o meu celular esquecido em cima da pequena mesa. Notei o Pastor Alemão sair correndo com algo na boca e dei de ombros, imaginando que algum brinquedo seu havia se perdido no local. Fechei a porta e me encaminhei ao quarto de hóspedes com a finalidade de tomar um banho rápido. Feito isso, vesti-me novamente e desci as escadas, esfregando o rosto com as mãos ao passo que um misto de sentimentos desordenados me deixavam com uma porra de sensação incômoda.
Segui em direção à cozinha e retirei uma garrafa d’água da geladeira, encostando-me no balcão enquanto encarava o interior do refrigerador sem saber o que fazer.
comia algo de manhã? O que ela gostava?
Passei uma mão na nuca ainda em dúvida e preparei a cafeteira, tornando a me apoiar na bancada à espera da finalização do processo de preparo do café. Cruzei os braços e fixei a atenção em um ponto aleatório à minha frente, mais pensativo do que eu desejava estar. Poderia ser qualquer outra pessoa na minha cama e não seria nem um pouco estranho se esse fosse o caso, entretanto, não era. Poderia ter sido unicamente sexo, contudo, eu também possuía consciência de que não fora, pois cada parte de mim correspondia de maneira intensa demais à presença de , e isso vinha se repetindo em diversas situações, o que nos levou a cruzar um caminho sem volta. Vê-la entregue a mim daquele modo só comprovou tal constatação. Relembrar as expressões manifestadas por ela diante dos meus toques ao explorá-la dava um nó em minha mente já confusa, que insistia em maximizar toda e qualquer reflexão a respeito do que andava acontecendo entre nós dois.
Pressionei a válvula no porta filtro e removi a jarra de café, desligando o aparelho logo depois. Ouvi um ruído moderado provindo da sala e dei alguns passos em direção ao batente da porta da qual dava acesso ao cômodo em questão, interrompendo o ato no instante em que avistei descer o último degrau da escada. Parecendo encabulada, ela olhava o chão com atenção; As bochechas ruborizadas denunciavam que algo a estava deixando envergonhada durante o tempo em que segurava o lençol enrolado em seu corpo. Encostei-me ali e cruzei os braços novamente, permitindo que um sutil sorriso ladino escapasse entre os meus lábios diante da figura enrubescida e concentrada em cada pedaço do apartamento, varrendo-o alheia à minha análise. Na atual conjuntura, aquele pano amarrotado cobrindo-a de forma um tanto quanto engraçada era desnecessário, haja vista que eu sabia exatamente o que havia sob ele, contudo, a cena me parecia, no mínimo, interessante.
A garota desviou as órbitas atentas do piso e cravou-as em mim, gesto que só exacerbou a vermelhidão no seu rosto. Durante nossa troca de olhares, os lábios rubros tal como as suas bochechas se esconderam por milésimos de segundos dentre os seus dentes e eu apenas acompanhei o movimento, vislumbrando-a concentrado.
- Bom dia. – Sua voz soou aveludada e enrouquecida, contendo traços de sonolência em seu timbre. sorriu fraco e colocou uma mecha de cabelo atrás das orelhas, ajeitando o lençol no pedaço de seu colo descoberto, infelizmente o cobrindo em seguida.
- Bom dia. – Respondi ainda com o ligeiro sorriso pendendo em minha boca. – Dormiu bem? – Questionei. Ela assentiu e o sorriso doce fez-se presente.
- E você? – Devolveu a pergunta.
- Também. – Falei. maneou a cabeça em compreensão e franziu minimamente o cenho de modo divertido e duvidoso.
- Eu me mexi muito? Às vezes eu sou bem espaçosa. – Comentou embaraçada. Ri e neguei, afinal, ela dormiu e acordou da mesma forma: Abraçada e aninhada em mim.
- Não. Mal senti você ao meu lado.
- Ah, que bom. – Disse, desviando os olhos para o sofá. Ela realmente procurava alguma coisa.
- Algo errado? – Indaguei e, de novo, a sua face tornou-se avermelhada.
- Não... – Iniciou, outra vez inspecionando o chão. – É que eu meio que perdi o meu sutiã. – Confessou acanhada. Não pude segurar um breve riso, notando-a estreitar os olhos na minha direção.
- Você procurou no quarto? – Tornei a perguntar e assentiu. Subitamente Bento surgiu na sala, cessando as nossas dúvidas ao passar sorrateiro carregando o sutiã anteriormente sumido. Franzimos o cenho, igualmente atônitos ao reparar no Pastor Alemão que caminhava desconfiado para a área externa.
- Bento! – soltou um gritinho afetado e isso foi o bastante para que o cão saísse em disparada rumo ao seu destino, sem soltar o objeto da garota que corria atrapalhada atrás dele, tropeçando vez ou outra no pano envolto nela ao passo em que tentava alcançar o meu cachorro, que se divertia com a situação, assim como eu, que gargalhava de uma desengonçada na qual também ria. – Me devolva isso! – Bradou risonha e o Pastor Alemão fez um “olé” assim que ameaçou pegar o sutiã de volta. Mais uma queixa afetada foi-se ouvida junto a uma gargalhada gostosa e, no segundo em que eu me prontifiquei a finalmente intervir no acontecimento, Bento soltou a peça sem parar de correr, adentrando a cozinha após o seu pequeno show. Um baque seco ressoou pelo apartamento e eu imediatamente dirigi a minha atenção sentido ao local onde o barulho foi-se escutado, logo enxergando sentada como se houvesse caído. Aturdida, ela esticou-se e apanhou o sutiã, suspirando derrotada. Neguei com a cabeça soltando um riso rápido e me desloquei em sua direção, estendendo a mão para ampará-la; Feito isso, ela ergueu-se rente ao meu corpo, persistindo em segurar o pano longo como se a sua vida dependesse disso.
Fixei as íris nas suas e fui devidamente correspondido. Desci os olhos até as suas mãos que agarravam o tecido com afinco e voltei a encará-la, puxando-o vagarosamente enquanto a fitava a espera de uma possível objeção – que não veio.
- Presumo que isso seja dispensável, não? – Inquiri observando-a com cuidado. Ela soltou o lençol e deixou o braço cair junto a lateral de seu tronco, repuxando os lábios de modo meigo. Constatei que o pano foi de encontro aos nossos pés e os seus seios espremeram-se contra o meu peitoral despido, sendo novamente invadido por todas as sensações da noite passada. Arrepiei-me de imediato e acompanhei os gestos de , que virou de costas e, sem pressa, passou um braço seguido do outro pelas alças do sutiã, das quais ficaram soltas nas laterais. A ausência de contato causou uma sensação indefinida.
- Você poderia me dar uma ajudinha, por favor? – A garota perguntou sem me olhar. Em silêncio, alcancei o seu corpo e sutilmente deixei com que a ponta dos meus dedos tocasse a sua pele durante o movimento que me levou a juntar o fecho de seu sutiã, notando-a se arrepiar pelo contato brando. Uni ambos e, ao terminar o feito, me mediu por cima dos ombros com uma expressão esperta em sua face. Ri enviesado e arqueei uma sobrancelha. – Obrigada. – Ela afastou-se, restringindo as suas vestes somente pela calcinha que dava uma visão ampla de sua bunda. Passei a mão pelos cabelos sem conseguir prestar atenção em outra coisa senão na garota adiante, que caminhava com destreza até o sofá, remexendo os quadris de um lado para o outro numa artimanha visível para me provocar e, caralho, estava dando certo. pegou o seu vestido de cima do tapete e o resvalou pelo seu corpo, vestindo uma alça por vez, ajeitando-o tão tranquilamente que dava a impressão de estar sozinha ali. Dei-me conta de que, bem como o seu vestido, a minha camisa também encontrava-se caída pelo chão, sendo um fragmento da noite que se iniciou naquela sala e se estendeu em meu quarto.
Ela enfim tornou a me encarar, deparando-se comigo a analisando tal qual um completo imbecil. O semblante calmo ocultou o provável contentamento em presenciar o êxito de sua ação, o que me foi comprovado ao identificar o sorriso discreto esticado em seus lábios. Dei-lhe uma última encarada e o aroma do café me despertou, recordando-me de que eu o havia recém preparado.
- Você toma café? – Questionei a que vislumbrava a vista através da extensa janela anexa à divisão entre a sala e a área externa. Ela redirecionou o seu foco até mim e afirmou.
- O sangue que corria em minhas veias foi substituído por cafeína há um bom tempo. – Comunicou divertida. Eu ri e assenti.
- Só um minuto, então. – Voltei à cozinha e despejei o líquido em duas canecas, conferindo se ele permanecia aquecido antes de regressar com ambas em minhas mãos. Ao fazê-lo, deparei-me com estudando atentamente as prateleiras posicionadas na parede interna, passando os olhos compenetrados por todos os porta-retratos postos sobre o suporte.
- Eu não sei o que você costuma comer pela manhã – Comecei, me situando atrás de sua figura distraída. Ela girou o tronco a fim de me fitar e o seu habitual sorriso doce manifestou-se ao pegar a caneca que lhe foi entregue com o líquido fumegando na parte superior do objeto. agradeceu e eu dei seguimento a minha fala – Estava esperando você acordar para me dizer. – Concluí. A garota pendeu superficialmente a cabeça para o lado, conservando a leveza expressa por sua fisionomia carinhosa.
- Só o café já é o suficiente, não se preocupe. – Assegurou e eu arqueei uma sobrancelha.
- Estou começando a achar que você tem algo contra fazer refeições na minha casa, . – Pronunciei zombeteiro, admirando a garota rir fraco sem deixar a expressão divertida vacilar.
- Não sei se confio nos seus dotes culinários... Mal sei se você tem um, inclusive. – Findou com os olhos semicerrados.
- Neste caso a cafeteira fez todo o trabalho, mas não desdenhe sobre o que você desconhece. – Rebati com os braços cruzados, observando-a do mesmo modo que eu era observado.
- Vou te dar o benefício da dúvida. – A garota sorriu desconfiada.
- Hm... Dar o benefício da dúvida a alguém significa acreditar no que a pessoa está falando. – Iniciei e concordou.
- Sim. Não existe nada que me prove o contrário, não é mesmo? Nunca experimentei nada do que você já fez. – Mencionou, olhando-me detalhadamente.
- Quem sabe eu sane a sua dúvida algum dia. – Deixei a frase no ar e direcionei o foco da minha atenção até uma fotografia em especial, sentindo o olhar de em mim. Examinei a imagem e foi como ser levado até o dia do qual ela fora tirada; Eu havia sido uma criança feliz, apesar de tudo. O meu sorriso até então inocente retratava a alegria estampada em meu rosto ao estar ao lado do meu pai, o homem que costumava ser a minha inspiração antes de se tornar uma pessoa frívola e soberba. A julgar pela minha vida atualmente, tais lembranças distantes não pareciam minhas.
- É uma foto bonita. – O timbre manso de ecoou despretensioso ao meu lado. Fitei-a de esguelha e a vi admirando o retrato com interesse. – Você é bem parecido com o seu pai. Quando eu me mudei para a casa de vocês, sempre os via juntos. Era legal de presenciar. – Avaliou e eu concordei sem vontade de me pronunciar. Um silêncio inoportuno instalou-se entre nós e reparei a garota se remexer desconfortável, retomando a sua fala com hesitação. – Desculpe, eu não quis soar intrometida. – Parei de vislumbrar o porta-retratos e encarei , só assim percebendo que o meu cenho havia se franzido sem que eu me desse conta, muito provavelmente me deixando com um aspecto mal humorado. Suavizei a expressão e pisquei um tanto quanto perdido, negando com a cabeça em seguida. Aproximei o meu corpo do dela e toquei-lhe o rosto, pousando a minha mão em sua face.
- Não se desculpe, está tudo bem. – Afaguei a sua bochecha com o polegar. – Eu apenas me distraí. – Tranquilizei-a. Eu não possuía o hábito de refletir acerca da minha relação com os meus pais, trazer esse tópico à tona não era comum e tampouco relevante, além de ser igualmente indiferente. Um sorriso terno brotou em seus lábios e ela moveu a cabeça para o lado com o intuito de aumentar o contato dos meus dedos na região recentemente acariciada. O som abafado de um tom de chamada nos despertou e varreu a sala com os olhos à procura da melodia, desvencilhando-se de mim quando enxergou a sua bolsa na mesa de centro. Caminhou até o aparelho e o retirou de dentro do pequeno objeto, atendendo a ligação sem demora.
- Oi, mãe (...) Sim, tudo bem (...) Não, não irei demorar – Peguei o meu celular, acomodei-me no sofá e me desliguei do diálogo, aproveitando para conferir as minhas mensagens e e-mails. Arrastei o dedo pelas janelas a fim de lê-las superficialmente e, em meio a uma e outra conversa, avistei uma notificação de .

E aí, ! Não conseguimos nos falar direito ontem, queria conversar com você. O que acha de um happy hour amanhã?

Após o incidente da discussão, e eu não trocamos muitas palavras. Na realidade, nosso primeiro contato depois do ocorrido se deu na festa da noite anterior, onde ambos agimos normalmente. Eu conhecia muito bem o meu amigo e sempre soube lidar com a sua personalidade por vezes difícil, contudo, não era de hoje que o seu modo de agir perante diversos assuntos tornou-se árduo de suportar.

Beleza, cara. Confirmo no período da tarde.

Digitei-lhe a resposta, guardei o aparelho e desviei o meu foco à , observando-a conforme ela trocava o peso dos pés e mexia nas unhas, entretida na chamada.

- (...) Vocês já saíram? Não se esqueça de deixar a chave (...) Certo (...) Beijo.

encerrou a ligação e se manteve parada no mesmo lugar por poucos segundos; Colocou o celular de volta na bolsa e deu alguns passos a fim de regressar para o lugar em que eu me encontrava, sentando-se ao meu lado em seguida.
Beberiquei o café já morno sem muita preocupação e pus os meus olhos na garota que fazia o mesmo que eu, diferindo do fato que ela contemplava a caneca e distraidamente batucava os dedos na porcelana a cada intervalo de goles dados no líquido contido ali.
- Você disse à sua mãe onde estava? – Chamei a atenção de ao quebrar o silêncio e ela me fitou com a fisionomia questionadora.
- Falei que estava com um amigo. Não preciso entrar em detalhes, ela sabendo que eu estou viva, basta. – Riu brevemente. – Por que a pergunta?
- Apenas curiosidade. Imaginei que você não veria necessidade de falar. – Presumi. - Seria um problema se ela soubesse que eu estou com você. – Comunicou receosa e eu continuei a olhá-la atentamente.
- A julgar pelo tempo que nós nos conhecemos, construir uma amizade não deveria ser um problema. – Avaliei e me examinou de uma forma da qual não consegui identificar.
- Você tem toda razão! Eu seguramente podia ter falado: “Oi, mãe. Então, estou no apartamento do . – Fez um gesto de telefone imaginário com as mãos e prosseguiu – Sim, , o filho dos seus patrões simpáticos que ficariam mais do que felizes em saber desta situação!” Realmente, não tem nada de problemático nisso. – Findou com a sentença dotada de sarcasmo. Ergui uma sobrancelha e a garota sustentou o meu olhar, escorrendo o seu ao longo de toda a minha face. Nossas íris voltaram a se fixar uma na outra e eu maneei a cabeça em compreensão.
- Bom, não cabe a mim interferir na maneira como você fala sobre isso.
- Exatamente. E eu não menti, afinal de contas. Estou com um amigo, não é? – Questionou. Captei uma leve acidez na sua pergunta e me vi fitando os seus lábios no instante em que os mordeu sutilmente, fazendo-os se elevarem voluptuosos através de seus dentes. Reestabeleci o nosso contato visual e a sua respiração quente foi um aviso de que ela se encontrava mais perto do que eu havia reparado, muito embora nenhum de nós tenhamos nos mexido. desceu os olhos para a minha boca tão rapidamente que só pude detectar o gesto por estar compenetrado em seu rosto, onde posicionei uma mão sem pestanejar.
- Sim, você está com um amigo. – Aproximei-me devagar não deixando de vislumbrá-la um minuto sequer.
- Ótimo... – Sibilou quando ambos os lábios encostaram-se de leve – Só amigos. – Estabeleceu num fio de voz.
- Só. – Soprei contra a boca de e, por fim, acabei com a pouca distância que nos separava. O gosto de café se misturou e o sabor foi acentuado no momento em que a minha língua deslizou pela sua, sentindo-a tão cálida quanto das outras vezes as quais a experimentei conectada a mim. A sua mão desocupada pela caneca alcançou a minha nuca com facilidade, permitindo com que eu respirasse fundo ao receber as carícias assíduas naquela região, às vezes constatando-a alterar o ato com singelos puxões que me enlouqueciam sempre que os dedos de fincavam-se ali.
Mordisquei o seu lábio inferior e sorri satisfeito ao ouvi-la resfolegar.
- ... – Iniciou num sussurro, rompendo o beijo repentinamente – Eu vou derrubar essa caneca. – Informou risonha e eu constatei que ela segurava o objeto com certa dificuldade. Ri fraco e o recolhi de sua mão, colocando-o sobre a mesinha ao lado do sofá. fez menção de unir o seu corpo ao meu, todavia, descontinuou a ação quando Bento pulou no sofá completamente eufórico, deixando claro que desejava alguém para arremessar o brinquedo em sua boca.
Gargalhamos juntos e o meu riso vacilou progressivamente no segundo em que ela apoiou a testa na curva do meu pescoço sem parar de rir, visto que o meu cachorro insistia em cutucá-la com o focinho. Enquanto e Bento se divertiam, eu apenas os observava sem proferir nada. Inúmeros questionamentos circundaram a minha mente e eu me vi num dilema não propositado em relação a tudo o que se passava nessa relação estranha a qual desenvolvemos.
Eu sempre detive controle de absolutamente todos os aspectos da minha vida e eles geralmente não me surpreendiam muito, diante disso, eu levava o meu dia-a-dia fadado à rotina sem grandes emoções. Houve um tempo em que eu previ com exatidão como eu conduziria a minha existência até o seu fim, e esse prenúncio revelava um homem bem sucedido com uma esplêndida posição profissional, no entanto, sem grandes expectativas no que se dizia respeito ao âmbito pessoal. Talvez eu acabasse me casando com Cassie e, dessa forma, viveria dentro do padrão esperado por todos e me encaixaria no que já era esperado, no entanto, o término do nosso relacionamento me mostrou quão designado às ruínas aquele namoro se encontrava. E aí, apareceu; Tão repentina quanto às tempestades da estação atual, e fodendo com a minha sanidade de uma maneira que chegava a afetar o meu humor por não fazer ideia de como proceder à súbita vontade de tê-la por perto. Apesar de não querer pensar em regras, padrões ou justificativas, gostaria de não apressar o curso das coisas; Permitir com que elas fluíssem naturalmente era a opção mais viável, ainda que uma singela incerteza me acometesse moderadamente.
Fui desperto de meu devaneio pela respiração branda de contra a minha pele; O seu torso se mexeu ligeiramente e ela ergueu a cabeça para ter uma melhor visão do meu rosto, encarando-me ressabiada ao passo que acariciava Bento com uma das mãos.
- Faz check in na terra, porque você está aéreo. – Brincou e eu dei um sorriso ladino. Percebendo o meu silêncio, retomou a sua fala. – Está tudo bem? – Indagou desconfiada.
- Sim. – Falei, recebendo um aceno como resposta. – Vejo que você conseguiu acalmá-lo. – Me referi ao cão adormecido e tranquilo, muito distinto do modo em que ele estava há minutos atrás.
- Nós nos entendemos muito bem, não é, Bento? – Inquiriu. Ele abriu os olhos e a fitou alerta, imóvel conforme aceitava o afago da garota concentrada no que fazia. checou o relógio depositado na estante e moveu as íris em minha direção. – Acho que eu já vou... Tenho muito trabalho para terminar.
- Sem problemas, eu te levo. – Notifiquei. – Só vou colocar uma blusa e já volto.
- Tudo bem. – Os lábios dela formaram uma linha fina, sorrindo simples. Levantei-me e subi as escadas até o meu quarto, cobrindo o meu tronco com um agasalho de moletom. O cinza do céu apagava qualquer sinal de um possível raio de sol dar às caras naquela imensidão predominantemente nublada, provando que a temperatura do lado de fora decerto não estava alta. Apanhei um casaco para e fiz o caminho de volta à sala, encontrando-a conversando não sei o quê com o meu cachorro, que, estranhamente, aparentava entendê-la.
- Já podemos ir. – Recolhi as minhas chaves de cima da mesa e apoiei-me ali de braços cruzados, medindo-a durante o tempo em que ela calçava os sapatos. Bento desceu do sofá sentou-se no chão frente a ela, que ajoelhou-se diante do Pastor Alemão e o abraçou. Ri enviesado e continuei observando-os.
- Comporte-se, ouviu? Nada de destruir o apartamento. – Ele deitou a cabeça lateralmente; O rabo balançou-se com vigor e acariciou por trás de suas orelhas arqueadas, tornando a ficar de pé após a despedida. Pegou a sua bolsa e me acompanhou porta afora, pondo-se ao meu lado à espera do elevador. O adentramos e o clima gélido fez-se perceptível.
- Vista isso. Está frio lá fora. – Estendi-lhe a blusa e, depois de consideráveis segundos fitando a vestimenta, tomou-a para si.
- Obrigada. – Sorriu e, aparentemente sem jeito, o trajou por cima do vestido de pouca espessura. A peça – grande demais para ela – encobriu a sua mão e alcançou a metade de suas coxas, na altura da veste sob a jaqueta.
- Ficou bem em você. – Aleguei despretensioso. se auto avaliou e riu à medida que rumávamos em direção ao meu carro na garagem do prédio.
- Vou lançar essa tendência. – Ressaltou em tom de brincadeira. Acompanhei o seu riso e abri a porta do veículo para que ela entrasse, fazendo o mesmo em seguida. Como de praxe, a garota se aconchegou no banco do passageiro e focou a sua visão na paisagem refletida através da janela repleta de gotículas provindas da garoa fina e densa que caía, a qual umidificava o asfalto e as ruas.
A quietude oriunda do ambiente silencioso não era desconfortável, mas dizia muito a respeito da necessidade de preservarmos a nossa individualidade sem perder tempo com conversas triviais a fim de somente preenchermos a atmosfera social com assuntos supérfluos. Seguimos o trajeto inteiro na mais absoluta ausência de palavras e eu não fiz questão de mudar isso.
Estacionei em frente ao condomínio e, calado, analisei . Ela desprendeu o cinto de segurança e retribuiu o olhar com o semblante avaliativo, esticando os lábios em um sorriso efêmero antes de transpassar a sua mão dos meus ombros até o meu pescoço, descontinuando a locomoção no momento em que alcançou a minha nuca, trazendo-me para si enquanto definia o seu movimento seguinte. Eu não me mexi; Deixei com que a decisão ficasse em suas mãos e a segui com o olhar. Ambas as respirações se tornaram pesadas e, ao contrário do que eu previa, a sua boca tocou suavemente o canto da minha, demorando-se ali de modo intencional. A garota tomou uma pequena distância do meu rosto apenas para conseguir me fitar e eu pude enxergar a expressão travessa que ela carregava. Franzi o cenho e arqueei uma sobrancelha, contudo, não tive tempo para esboçar qualquer reação, haja vista que a sua respiração quente entrou em evidência. Eu fechei os olhos ao sentir os seus lábios escorregarem devagar pelos meus num selinho profundo, fazendo-me respirar fundo e me amaldiçoar simultaneamente ao passo em que a minha cabeça girava. Inferno. Me vi soltando o ar que ao menos sabia que prendia, embrenhei as mãos nos seus fios e segurei a parte detrás de sua cabeça, correspondendo a profundidade de nosso contato. Juntei nossas línguas no instante em que ela entreabriu os lábios, mandando para a puta que o pariu todo e qualquer indício de autocontrole que ousava querer se revelar. A sensação de sua boca quente colada à minha causava um misto de respostas corporais inteiramente vigorosas que exprimiam quão inusitado era vê-la de um jeito novo e íntimo. Nossos lábios se acariciaram pela última vez e os deixamos unidos por mais alguns segundos. Nos separei minimamente com o intuito de olhá-la nos olhos, logo admirando , que me estudava com ternura. O seu hálito caloroso exalou e se confundiu com o meu; As suas íris reluziam em múltiplos significados, todavia, não fui capaz de interpretá-los.
Ela recuou a sua mão anteriormente pousada em minha nuca e reconduziu o seu corpo de volta no banco; Guiou os dedos até o zíper do casaco indicando que iria tirá-lo, porém, a impedi.
- Não precisa devolvê-lo, está garoando. Eu pego depois. – Disse para , que sorriu agradecida. – Obrigado por me acompanhar na festa. – Sua face adquiriu um tom rubro adorável diante da minha fala.
- Eu que agradeço pelo convite. – Respondeu. Lancei-lhe uma piscadela e, mais uma vez, o sorriso moldou-se em seu semblante corado. Observei-a sair do carro e entrar no condomínio, sumindo de vista a seguir. Apoiei os cotovelos no volante e passei a mão pelos cabelos, um tanto quanto aturdido em virtude da conexão indescritível entre mim e a garota cujo acabara de sair do meu lado. Eu irei pagar para ver até onde isso nos levará.
Arranquei com o veículo e voltei ao meu apartamento, agora tendo como companhia um copo de whisky, um maço de cigarros e inúmeros arquivos de processos em andamento.

**


Pilhas de documentos e folhas ocupavam a parte lateral da minha mesa; No centro, dois papeis grampeados tomavam completamente a minha atenção conforme eu os lia de maneira rigorosa; À frente, estava a minha cliente a qual me vigiava em expectativa, aguardando a orientação que eu lhe daria assim que finalizasse a interpretação do conteúdo impresso. Feito isso, dirigi o meu foco a ela e juntei às mãos sobre o tampo de vidro, demonstrando sobriedade.
- O boletim de ocorrência está adequado às circunstâncias, senhora Broderick. – A mulher assentiu atenta às palavras emitidas por mim – Como o documento está formalizado, entrarei imediatamente com a ação judicial para a medida protetiva, tudo bem?
- Sim, Doutor. E essa medida tem prazo de validade?
- Não há prazo legal determinado. Ela vigora somente enquanto necessária para a efetiva proteção da vítima, que, neste contexto, é você. – Expliquei – Entretanto, a medida pode ser alterada ou reestabelecida quando for preciso e de acordo com as particularidades do caso.
- Compreendo... E o que vai acontecer a partir de agora?
- O autor será intimado e ouvido em inquérito policial, que posteriormente será relatado ao Fórum local. Isso originará um Processo cujo você figurará como vítima, onde o seu ex-marido, de acordo com provas e testemunhas, poderá ser condenado até quatro anos de prisão. – Esclareci e minha cliente concordou ao assimilar as informações. – Já enviei os dados dele para as autoridades policiais, que irão conferir se ele tem ficha criminal. Em suma, é isso.
- Muito obrigada, Doutor . – A mulher se levantou e eu fiz o mesmo, estendendo-lhe a mão em cumprimento.
- Por nada, senhora Broderick. Qualquer dúvida que possa surgir, contate-me pelo número do cartão.
- Está bem. Tenha uma boa noite! – Falou. Seguimos juntos até a porta do meu escritório e eu a abri a fim de que ela passasse.
- Igualmente. – Respondi. Após vê-la deixar o local, voltei à minha mesa, checando o horário no relógio preso em meu pulso.
19hrs25min.
Reuni os papeis em um pequeno amontoado que facilitasse a organização dos documentos e os guardei em minha pasta, organizando o restante de arquivos antes de dar o expediente por encerrado. Três batidas na porta sonorizaram pelo recinto e a figura da minha secretária apareceu, adentrando a sala depois de minha autorização.
- Com licença, senhor. Uma correspondência em seu nome foi deixada na recepção. – Informou, colocando um envelope mediano em evidência. Franzi o cenho e o peguei. Não me recordava de estar à espera de nenhuma carta. Conferi o seu exterior em busca do remetente e um arrepio subiu pela minha espinha ao vê-lo preenchido com recortes de letras, das quais formavam o meu nome e sobrenome, sem constar mais nenhum dado.
- Bridget, por acaso você sabe quem o deixou aqui? – Perguntei à mulher, vendo-a negar.
- Não senhor. O envelope estava junto às demais correspondências.
- Certo. Obrigado. E pode ir para casa, aliás. Está ficando tarde. – Concedi extremamente cismado e tenso quanto ao conteúdo da carta. Bridget agradeceu e se despediu desejando-me uma boa noite, ausentando-se do escritório logo depois.
Sentei-me atrás da minha mesa novamente e encarei o sobrescrito uma última vez, tratando de abri-lo sem mais delongas.
Retirei de seu interior uma folha e uma fotografia; Cravei os olhos ressabiados na imagem, todavia, não fui capaz de interpretar absolutamente nada do que era mostrado ali. A foto consistia basicamente em uma imensidão escura – indicando que ela fora tirada à noite – e, no canto inferior à direita, expunha apenas o que, na minha concepção, assemelhava-se a um pedaço de pano, como se houvessem cortado o restante da foto propositalmente.
Franzi o cenho, tentando evocar qualquer coisa que me arremetesse àquele tecido. Nada me veio à mente.
Um pressentimento ruim deixou o clima pesado a medida que calafrios rondavam pelo meu corpo. Eu sabia que algo estava muito errado e comprovei a minha intuição ao desdobrar o papel vindo junto ao retrato. Todo o texto da carta se resumia a colagens.

“Olá, . Espero que goste de enigmas, pois preparei este especialmente para você.
Nos falaremos muito em breve.”

Caralho.
A sensação de risco eminente me fez paralisar e encarar a folha, alternando a minha observação entre a fotografia e ela ao mesmo tempo em que o peso da preocupação caía sobre os meus ombros. Sustentei os cotovelos em cima da mesa e esfreguei o rosto, farto dessa merda de situação que não acabava nunca. O nível de ódio que me consumiu atingiu o seu ápice, elevando-se tão subitamente que os meus músculos tencionaram a ponto de causar incômodo.
O que essa porra de foto significava? Como a encomenda foi entregue, sendo que nela não constavam os dados imprescindíveis para que o correio pudesse executar a sua função? Nada daquilo tinha fundamento.
Respirei fundo e massageei as têmporas. Ao mesmo tempo em que eu ansiava descobrir qual era a finalidade de me enviarem tal imagem, uma parte de mim temia achar o sentido por trás desse novo passo dado pelo maldito que se empenhava em transformar a minha vida num inferno. Dei uma última olhada na carta e a guardei de volta no envelope, depositando-a dentro da minha pasta; Apanhei as minhas coisas e saí do escritório rumo ao bar onde havia combinado com , ignorando o desconforto proveniente da apreensão recém sentida. Um ambiente descontraído e um copo de bebida decerto me relaxariam.
Acelerei com o carro e encaminhei em direção ao local com o meu sinal de alerta acionado, descontando a insatisfação que me assolava na força com a qual eu segurava o volante. O trajeto não era demorado e o trânsito livre de complicações cooperou para que eu logo chegasse ao meu destino; Tirei o paletó e o dependurei no banco do passageiro; Arregacei as mangas da camisa e afrouxei a gravata, saindo do veículo no momento em que avistei o manobrista se aproximar. Entreguei-lhe as chaves do automóvel e imediatamente senti a brisa moderadamente gélida vir de encontro ao meu rosto; Adentrei o estabelecimento de fachada luminosa e reconheci o meu amigo sentado no balcão já com uma taça em mãos.
- E ai, cara?! – Cumprimentei-lhe com um sutil tapinha nas costas. virou-se e o retribuiu.
- Tranquilo, ? – Questionou no instante em que me sentei ao seu lado.
- Tranquilo. – Fiz um sinal para o barman e pedi o meu costumeiro The Macallan*. Ele assentiu e mexeu em sua taça.
- Não conseguimos nos falar direito na festa, gostaria de ter trocado uma palavra com você. – Beberiquei o líquido malte e maneei a cabeça, esperando-o continuar. – Fiquei feliz por te ver lá, não queria que se instalasse um clima meio merda entre nós. – Expôs sério, como raramente o via.
- Você sabe que passa dos limites, não sabe, irmão? – desviou os olhos de sua bebida e me encarou. – Seria uma puta situação incômoda caso ficássemos afastados por uma discussão, mas não sou eu quem precisa se desculpar. – Manifestei claro e explícito.
- Tenho consciência disso, . Foi mal por aquele dia.
- Relaxa, cara. Antes de tudo, peço somente uma coisa a você. – Iniciei e foi a vez dele aguardar para que eu prosseguisse. – Trate as pessoas com respeito. E quando eu digo pessoas, me refiro à . Não quero mais comentários hostis em relação a ela, por favor. – Cravei conciso e notei o olhar do meu amigo estreitar ligeiramente, regressando ao seu normal quase que de imediato. Ele tomou mais um gole do líquido translúcido e deu um riso anasalado.
- Como desejar, vossa alteza. Longe de mim arrumar problema com a sua queridinha. – Afirmou mantendo o breve riso comedido. Arqueei uma sobrancelha e resolvi fixar a minha atenção no copo quase pela metade, esvaziando-o um pouco mais em seguida. – Se não for muito indiscreto da minha parte, posso lhe perguntar se esse rolo entre vocês é pra valer? – Indagou. Respirei fundo e passei uma mão pela nuca, levando segundos consideráveis até respondê-lo.
- Não denominamos nada, apenas estamos muito próximos. É preciso ter cuidado ao caracterizar esse tipo de coisa, um casinho leve e divertido pode sair de controle e se tornar algo perigoso. – Declarei reflexivo. – Não quero magoá-la, mas temo no que poderá ocorrer se apressarmos demais o curso de tudo. – Concluí e ouvi o meu amigo murmurar um “hm”, virando toda a sua bebida num só gole.
- Pense bastante no que irá fazer. Você é influente e importante, a julgar pela sua família, isso ocasionaria um escândalo e destruiria a vida dela. Não se envolva, cara. Tem tanta mulher por aí, vai mesmo arriscar prejudicá-la? – questionou de modo direto. O fitei sério sem deixar de raciocinar mediante o seu conselho.
- A situação não funciona dessa maneira. – Neguei com a cabeça e ri sem humor. Era tarde para ter tais fatos em mente, de qualquer forma. A minha ligação com excedeu os contras, embora eles fossem muitos.
- Pense no que eu lhe disse. Você pode estar cometendo um erro em se envolver com ela. – Meu amigo advertiu. O líquido seco do whisky desceu pela minha garganta, trazendo consigo a tão apreciada sensação ardente. Eu me abstive de proferir outro argumento e me dediquei a ouvir o próximo assunto do qual deu início, ainda que a minha cabeça estivesse longe em inúmeras questões;
Ainda que a minha mente estivesse perdida em um certo alguém.

**


’s POV
Depois de uma segunda-feira agitada com direito à apresentação de um seminário e atendimentos cansativos na supervisão do estágio, a tranquilidade em meu âmbito acadêmico finalmente chegou para compensar tamanha correria do dia anterior. Sentadas no jardim do campus, e eu desfrutávamos da felicidade cujo professor nos propiciou ao dispensar a nossa turma uma aula mais cedo. Encostei a minha cabeça no tronco da árvore e respirei fundo, sentindo o brando calor do raio de sol – tímido por entre as nuvens – tocar parcialmente o meu corpo, aquecendo-o à medida que a suave brisa balançava as folhas da copa, originando um leve ar frio.
- Ah, o som de um suspiro apaixonado... Vejo corações imaginários ao seu redor, . – brincou, fazendo-me abrir os olhos e a fitar enquanto ria.
- Eu não suspirei por causa disso. – Falei na defensiva, recebendo um olhar torto da minha amiga. – Certo... Só um pouquinho. – Dei-me por vencida ao passo em que segurava o riso.
- O que uma noite de sexo com o Senhor Lindo não faz, não é mesmo, sweetie? – Zombou maliciosa com um olhar repleto de segundas intenções. Gargalhei alto e ergui os ombros.
- Eu poderia negar, porém, não vou. – Retruquei de maneira despretensiosa ainda gargalhando. custou a parar de me perturbar até saber de – quase – tudo o que acontecera entre mim e , e é claro que o relatório da noite não foi o suficiente para que ela parasse de voltar ao assunto como uma boa amiga extremamente contente pela outra, soltando comentários avulsos e engraçadinhos praticamente o tempo todo.
- Vocês estão se falando? – Questionou interessada e eu neguei.
- Não é necessário que nos falemos só para cumprir algum tipo de obrigação-pós-dormir-juntos. – Pontuei indiferente. – A nossa situação está esclarecida, de qualquer forma. Entre nós não há nada além de amizade. – Expliquei na tentativa de me mostrar neutra e até mesmo desinteressada, contudo, falhei, visto que cravou os orbes analíticos em minha fisionomia inexpressiva.
- Olha, eu super apoio amizade colorida. Tive várias, inclusive! Mas temos um porém no seu caso e penso eu que seja desnecessário frisar qual é esse empecilho. – Disse me estudando com zelo. Eu somente concordei. – Não subestime os seus sentimentos.
- Claro que não. Eu não irei colocá-lo acima das minhas expectativas, sei que não posso esperar muito do . – Expressei conformada.
- Então tudo bem! Engula o seu coração, transe bastante e aproveite. – piscou e averiguou o seu celular. – Tenho que ir trabalhar. Quer uma carona até o abrigo?
- Vou passar na loja antes. Se você quiser me levar até lá, ficarei imensamente grata. – Sorri largo e me levantei com a ajuda da minha amiga.
- Se um dia você duvidar do meu amor, eu juro que não respondo por mim. – Ameaçou com os olhos cerrados e o dedo indicador apontado diretamente para o meu rosto risonho. – Vamos, eu te deixo lá. – Comunicou. Abracei-a de lado e intensifiquei o contato ao escutá-la resmungar durante a nossa caminhada em direção ao seu carro.
- É a sua lista de pacientes? – Inquiri, apanhando uma pasta posta sobre o banco do carona.
- Sim. Preciso passar esses dados para uma planilha. – respondeu com o veículo já em movimento.
- Você está gostando da clínica?
- Demais! O serviço é bem pesado, mas igualmente compensador. – A satisfação resplandecia na sua feição realizada e eu não pude sentir outra coisa senão orgulho. – O que você vai fazer hoje no seu trabalho?
- Eu tenho que levar uma encomenda para o correio. O Vicenzo não pode ir porque estamos na semana em que recebemos entregas todos os dias, por isso, alguém precisa permanecer na loja. – Esclareci e maneou a cabeça em compreensão. – Sair mais cedo da aula calhou muito bem, eu não teria tempo de realizar todas as tarefas e ainda desempenhar a visitação no abrigo.
- Falta pouco para as férias. Foquemos nisso.
- Dois meses que demoram dois anos para passar. – Lamuriei e apoiei a cabeça no banco. Minha amiga riu e emendou outro assunto, encadeando diversos tópicos diferentes até o final do trajeto, que não tardou a chegar.
- A sua viagem deu o total de quinze reais e noventa centavos, senhorita . – brincou ao estacionar na frente da R&R.
- Coloque na conta da nossa amizade. – Retruquei em meio a risos. – Obrigada pela carona, mi amor. Bom trabalho. – Depositei-lhe um beijo no rosto e ela acenou num gesto de despedida, dando partida no momento em que eu saí do automóvel. Adentrei a loja e avistei Vicenzo, que desviou a sua atenção do computador logo que o sino da porta anunciou a minha presença ali. O largo sorriso de coringa se manifestou e ele baixou o tronco e a cabeça, fazendo reverência conforme eu me aproximava.
- Ora, ora, que honra deparar-me com tamanha formosura nesta terça-feira fastidiosa! – Exclamou num tom formal exagerado, beijando as costas das minhas mãos.
- Presumo que você tenha assistido Maria Antonieta* de novo. – Satirizei e ri, arrumando o meu material em cima do guichê.
- Pode ser que sim, pode ser que não... – Ele se situou ao meu lado. – Talvez eu só seja muito cavalheiro. Fica no ar. – Lançou-me uma piscadela e eu apenas gargalhava. – Vou pegar a encomenda, lindinha. Você pode atender o cliente enquanto isso? – Perguntou, indicando a pessoa com a cabeça.
- Claro, sem problemas. – Respondi já indo de encontro ao indivíduo parado de costas, o qual parecia alheio ao fitar um disco em suas mãos.
- Olá, precisa de ajuda? – Coloquei-me à disposição, sorrindo mais ao reconhecer o homem parado à minha frente. Benitez, se eu bem me recordava.
- Oh, boa tarde! – Saudou simpático – Como vai?
- Muito bem, e o senhor? Fico contente por vê-lo por aqui novamente. – Falei amigável.
- Estou ótimo! A qualidade dos produtos me surpreendeu, sendo assim, decidi voltar. – Proferiu igualmente gentil.
- Que bom saber disso! Imagino que o senhor goste de rock, já que levou um disco do Led Zeppelin na primeira vez em que veio, e agora, está com um do Pearl Jam. – Observei aplicada.
- Boa memória. – O modo como ele sorria me arremetia a uma sensação de familiaridade, embora eu não soubesse dizer ao certo o que ela significava realmente. As várias rugas em seu rosto – junto aos fios brancos – explicitavam as incontáveis histórias vivenciadas no decorrer do tempo, como se fosse possível ser teletransportado para os anos sessenta ao som de Otis Redding* somente por admirá-lo. – Vim buscar este aqui. – Mostrou a capa do vinil.
- Escolha maravilhosa. – Elogiei. Vicenzo apareceu com uma caixa de tamanho médio em seus braços e eu fui até ele, efetuando um sinal com as mãos para que o Senhor Benitez me seguisse. Após concluir o método de pagamento e entregar-lhe a sacola, o homem agradeceu, manifestando o seu ar amistoso no ato.
- Até mais, .
- Boa memória. – Reproduzi a sua fala, haja vista que eu não usava crachá naquele momento. Sorri e o senhor me acompanhou, despedindo-se logo depois. O sino ressoou pelo ambiente e a figura amistosa sumiu entre ela ao passar pela porta. Voltei a minha atenção ao Vicenzo e encarei o pacote posicionado em cima do balcão. – É só isso?
- Sim, lindinha. – Disse ele. A cabeça – levemente pendida para o lado – apoiada em uma mão demonstrava tédio, e eu não consegui segurar o riso, afinal, tudo o que vocalista fazia soava absolutamente teatral – e engraçado.
- Bom, então eu já vou. – Anunciei, tomando posse da caixa e equilibrando a bolsa nos ombros – Ainda tenho que ir para o abrigo.
- Às vezes eu fico cansado só de te ouvir contar a respeito dos seus afazeres. – Vicenzo alegou com a feição tomada por desânimo. – Queria dizer que estou enviando coragem a você, mas infelizmente vou ficar devendo, portanto, boa sorte. – Terminou o seu discurso com os olhos piscando freneticamente de modo afetado. Ri e assenti.
- Agradeço pela sinceridade. Até mais, Vivi. – Ele fez uma careta em razão do apelido. Mandei um beijo e o assisti pegá-lo no ar, pondo-o do lado esquerdo do peito. Transpassei a porta e apressei-me em andar rumo ao correio mais próximo, agradecendo mentalmente pela chuva não ter despontado entre as nuvens não completamente carregadas, as quais tomavam conta de boa parte do céu mesclado entre tons de azul e cinza chumbo.
Despachei a encomenda e tomei o ônibus com destino à Instituição, tendo a mais maravilhosa alegria dos menos afortunados ao adentrar o transporte: Muitos lugares para sentar. Ajeitei-me em um dos bancos e peguei o meu celular; Os meus dedos escorreram involuntariamente por todas as conversas – das atuais até as mais antigas – ao passo em que eu as lia por cima somente para passar o tempo, todavia, cessei a locomoção na tela ao me deparar com o ícone da foto do . Mordi o lábio e abri a sua janela; O nosso breve diálogo de sábado mal ocupava toda a página, entretanto, era o bastante para que eu sorrisse ao me lembrar daquela noite.

Bom dia. Te pego hoje às sete, tudo bem?

Bom dia! Claro, combinado.

Certo. Até mais tarde ;)

Até. :)

Visto por último hoje às 14:34.

Ah, meu Deus. Eu não estava fazendo isso.
Olhar o visto por último era demais.
Franzi o cenho e apaguei a conversa, guardando o aparelho na bolsa como se ele queimasse as minhas mãos. Respirei fundo e fechei os olhos a fim de descansá-los ao menos por um momento; Permiti com que a minha mente anuviasse e assim permaneci até que alcançasse o meu destino. Desci do ônibus e passei pelos portões do abrigo após me identificar, sorrindo com vontade ao avistar Archie correr ao meu encontro logo que a minha presença foi notada nas dependências do pátio.
- Oi! – Saudou animado, mostrando o sorriso com várias janelinhas em virtude da ausência dos dentes de leite.
- Olá! Como você está?
- Eu ‘tô bem... Fiz um montão de desenhos para colocar na caixinha! – Exclamou enquanto batia palminhas frenéticas.
- Oba! E você irá mostrá-los para mim? – Questionei e o garotinho colocou a mão na testa num gesto de obviedade.
- Mas é claro que sim, né?! – Externou daquele jeitinho absurdamente fofo com as mãozinhas na cintura, fazendo-me rir. Um grupo com as demais crianças localizadas ali gritaram o nome de Archie, que fez um gesto para que eles esperassem. – É a minha vez de contar no esconde-esconde, depois eu volto, ‘tá? – Perguntou atento e eu quis apertá-lo. Assenti e bati continência.
- Sim, capitão. Eles precisam de você. – Aleguei, vendo-o imitar o meu gesto e correr de volta ao local repleto de pequenos.
Ergui-me e varri a área com os olhos à procura de Trish, contudo, a única pessoa que eu avistei foi Cassie. Sentada em um dos bancos do recinto, parecia imersa às anotações das quais executava no tablet em seu colo. Imediatamente me questionei sobre como ela era capaz de preservar tanta classe de forma tão natural e nas mais simples atividades do dia-a-dia – como aquela, por exemplo –. Eu recordava claramente dos momentos em que a via na casa dos e me surpreendia com tamanha elegância utilizada por ela até mesmo para andar, o que me ajudou no processo de conformidade em relação ao seu namoro com . Eles sempre aparentaram ser um casal perfeito em inúmeros aspectos, tudo se encaixava. Mais tarde eu descobriria que não era bem assim, apesar de ainda não entender ao certo o real motivo do término dos dois.
Trish entrou no meu campo de visão e eu acordei para a vida quando a enxerguei acenar para mim. Caminhei até a mulher sorridente – e consequentemente até Cassie –, desejando boa tarde à última, que – já de pé – respondeu sem expressar grandes emoções.
- Desculpem a demora. – Disse ao me cumprimentar com um breve abraço e apertar as mãos de Cassie. – Algumas crianças tomaram o lanche da tarde e o refeitório ficou inabitável. – Explicou rindo e eu a acompanhei. – A Magnólia já irá te receber, senhorita Privost. – Referiu-se a mulher ao meu lado.
- Muito bem. Será que é possível fazer uma ligação antes?
- Claro. Fique à vontade. – Trish respondeu. Cassie pediu licença e afastou-se moderadamente de nós duas; O som do salto ecoava imponente a cada passo dado, ainda que o furor produzido pelos pequenos repercutisse alto pelo ambiente.
- Como andam as coisas por aqui? – Questionei ansiando por uma boa notícia.
- Talvez consigamos respirar um pouco mais aliviadas, já que, por enquanto, não foi dado um prazo para que o problema estrutural do orfanato seja resolvido. Infelizmente o empréstimo está estagnado, mas só de não possuirmos uma data definida para solucionarmos isso tudo, já é um alívio. Quanto menos chover, melhor para nós. – Esclareceu otimista e num reflexo imediato levei os meus olhos em direção ao céu agora nublado.
- Vai dar tudo certo! Eu comecei a separar algumas cobertas e lençóis, talvez consiga trazê-los na próxima visitação, inclusive. – Mencionei tornando a fitá-la.
- Ah, . Muito obrigada! Você não tem noção do quão útil isso será.
- Não há de quê! Vou ajudar no que eu puder. – Sorri e ambas olhamos para o lado oposto ao notarmos uma das crianças chamarem por Trish, que fez um gesto pedindo que eu esperasse. Ela seguiu ao local do qual fora requisitada e guiou os pequenos em direção à outra divisão do pátio, deixando com que, aos poucos, a agitação desse espaço a um ligeiro silêncio naquele pedaço do recinto. A voz de Cassie fez-se audível e, embora eu não desejasse escutá-la, a ausência de ruídos possibilitou que a sua conversa fosse ouvida.

- (...) Finalmente serei recebida hoje. Não entra na minha cabeça por qual motivo eu fui requerida para escrever essa matéria, é deprimente ficar aqui. (...) – A diretora nunca está presente, sabe-se lá qual é o pretexto para o seu sumiço. Sinto que não terei muitas coisas a dizer. (...) – Não levo jeito com crianças, não seja tola. Irei desligar, não quero arriscar perdê-la de vista mais uma vez. (...) – Ok. Até.

Franzi o cenho diante de sua declaração. Apesar de compreender a impaciência de Cassie – afinal, ela já havia tentado um contato com Magnólia por outras duas vezes e não era de seu conhecimento o que se sucedia aqui –, a interpretação no que se diz respeito à ausência da mulher não me parecia correta. Reparei que ela retornou ao lugar que anteriormente ocupava e Archie disparou até mim, tão eufórico que precisei acalmá-lo.
- Me esconde! Eu não vou conseguir salvar o mundo se me acharem. – Falou num murmúrio. Ri e, antes que eu lhe dissesse um esconderijo, o garotinho colocou-se atrás de Cassie, que petrificou no mesmo instante. A cena era, no mínimo, hilária; O desespero misturado com a confusão era expresso em sua fisionomia surpresa. Ela me encarou como se pedisse socorro e eu não fui capaz de segurar uma breve risada.
- Psiu. – Sussurrei à Archie, que me encarou atento. Apontei para o pilar mais próximo e ele sorriu entusiasmado, logo se escondendo atrás da coluna. Cassie recuperou a postura num claro sinal de alívio e me olhou rapidamente, maneando a cabeça no que eu interpretei ser uma forma de agradecimento. Sorri e vislumbrei Trish regressar – agora vestindo um avental e trazendo consigo outro em uma das mãos –, oferecendo-o para que eu o pegasse. Assim o fiz.
- Pode entrar, senhorita Privost. Creio que Magnólia está pronta para atendê-la. – Falou à Cassie, que assentiu e se dirigiu para dentro das dependências do abrigo. – E vamos ao que interessa... – Iniciou, executando um gesto para que eu a seguisse – Achei que seria interessante se você visse as crianças em uma atividade de socialização. – Disse ao passo em que rumávamos até uma sala da qual eu deduzi ser utilizada para que as crianças desempenhassem aquele tipo de tarefa. – Eles irão usar tinta-guache, deste modo, será mais seguro se você vestir esse avental, levando em conta que sempre te puxam para participar também. – Trish alegou bem humorada. Concordei em meio a um sorriso conforme prestava atenção em todos os detalhes passados por ela. Archie acenou já perto da porta e eu acenei de volta, me perguntando como raios ele já estava ali, dado que, minutos atrás, o pequeno se encontrava escondido em outro lugar. – Sei que anotações são de extrema importância para o seu trabalho, então sinta-se livre e as faça sem problemas, tudo bem? Como eles usarão papel, não será estranho que você esteja escrevendo enquanto a atividade acontece. Posso passar a descrição dos objetivos via e-mail, caso você queira. – Concluiu. Afirmei com a cabeça e agradeci, adentrando o espaço repleto de cartolinas, mesas e diversos objetos artísticos. Sorri para Archie e ajeitei-me perto dele, dando início à observação.

Dar mais um dia de observação como finalizado era sempre difícil. Ver o semblante tristonho de Archie ao me assistir deixar as dependências da Instituição cortava o meu coração, eu não sabia como seria quando encerrasse o meu trabalho e pensar a respeito disso só me trazia mais desconsolo. Com a sua caixinha – quase lotada – guardada junto a mim, acenei uma última vez e, por fim, passei pelos portões, notando que Cassie saía com o carro no mesmo instante. Dirigi-me ao ponto de ônibus absorta no cansaço rotineiro cujo provocava uma moleza engraçada no meu corpo e senti o meu ombro bater no que parecia ser outro ombro. Aturdida, procurei pela causa do choque e topei com uma mulher parada na frente do abrigo, tão perdida quanto eu.
- Sinto muito, moça. – Pedi franzindo o cenho em pensar, totalmente sem graça. Ela negou com a cabeça, arrumando a bolsa que descera de seus braços devido ao encontrão.
- Eu quem peço desculpas. Machucou você? – Inquiriu preocupada e eu balancei a cabeça em negação.
- Imagina! Estou bem. Eu devia prestar atenção, isso sim. – Apontei risonha e a mulher reproduziu o meu gesto. – Desculpe novamente. – Reforcei. Ela sorriu simpática e eu prossegui até o ponto, vislumbrando-a encarar o orfanato e andar pelo lado contrário a ele. Minutos depois o ônibus chegou, entretanto, não obtive tanta sorte como horas mais cedo e fui obrigada a ficar de pé. Encostei a cabeça no meu braço e cochilei – ou tentei cochilar –, durante o trajeto, porém, era desperta de minuto em minuto em consequência do susto provindo da movimentação do transporte; E pelo fato de não estar sentada, logicamente.
Entrei na mansão após um percurso emocionante dentro do ônibus abarrotado de calor humano e percorri o caminho até a minha casa em passos largos, louca por um banho, comida e cama. Uma movimentação não usual no jardim chamou a minha atenção e eu apertei os olhos com o intuito de enxergar o que acontecia ali, vendo um homem desconhecido, o jardineiro e Dona Kyara ali. A última gesticulava visivelmente aborrecida, bradando aos sete ventos algo que certamente não me soava muito bom. Fiz uma careta e abri a porta, sorrindo de alívio ao tirar o calçado e reconhecer o aroma inconfundível da torta da minha mãe tomar conta do ambiente.
- Ah, a redenção! Obrigada aos deuses por essa surpresa maravilhosa! – Exclamei espalhafatosa e depositei um beijo em sua bochecha. A sua risada melodiosa ressonou pela cozinha enquanto ela tirava o alimento do fogão, fazendo os meus olhos brilharem. Fui até o meu quarto e guardei o meu material e a minha bolsa; Lavei as mãos no banheiro e retornei ao cômodo.
- Você chegou bem na hora, filha. – Minha mãe deu a volta no balcão e pôs a torta em cima da mesa. – Como foi a aula? E a visitação no abrigo? – Perguntou ao mesmo tempo em que nos sentávamos para comer.
- Ambos tranquilos. Ganhei mais um desenho do Archie, acredita? Ele é a coisa mais fofa do mundo. – Ela sorriu terna. Eu havia contado sobre o pequeno e minha mãe encantou-se por ele sem sequer conhecê-lo, tamanha a doçura do garotinho.
- Que criança mais carinhosa! – Proferiu deslumbrada e eu assenti sem tirar o sorriso do rosto – Ele está gostando da caixinha?
- Está amando! Prevejo que terei que arranjar outra bem maior do que a atual, posto que ela já se encaminha para a superlotação. – Falei e a mulher diante de mim riu. – E aqui? Tudo bem?
- Sim, filha. Mesma rotina de sempre... – Declarou serena e eu movi a cabeça em entendimento.
- O que houve com a Malévola? A vi tendo uma crise de raiva e ela não aparentava estar nem um pouco feliz. – Comentei e minha mãe me repreendeu com o olhar pelo apelido direcionado à Dona Kyara, apesar de reprimir o riso.
- Surgiu um vazamento no jardim e não vão conseguir reparar até sábado. Você não tem noção dos gritos que ela deu ao receber essa notícia. – Contorceu sua face em uma careta desgostosa e eu fiz o mesmo.
- Presenciei uma amostra agora há pouco. Mas qual é o problema em não consertarem esse vazamento até o final de semana? – Questionei dando mais uma garfada na torta em meu prato.
- Será a comemoração do aniversário da Dona Kyara, filha.
- Ah, é verdade... O que ela irá fazer esse ano? Sacrificar alguém? Sugar a vitalidade das pessoas? Cultuar as forças das trevas? – Brinquei e minha mãe gargalhou.
- ! Não fale dessa maneira, que horror. – Advertiu mantendo um rastro de risada em seu rosto.
- Que pena que a senhora não poderá consumar o ritual de mais um ano de vida... – Zombei novamente e ri alto em virtude do olhar repleto de censura do qual minha mãe me lançou. Sibilei um “desculpe” ainda com vontade de rir e foquei em terminar de comer para, por fim, tomar um banho e cair na cama.

**


A relação espaço-tempo devia estar com algum tipo de distúrbio ou a minha percepção em relação a tal tema andava muito falha.
Eu não conseguia me acostumar com a rapidez do decorrer dos dias e a saudade dos tempos onde tudo parecia mais legal e a vida passava mais devagar era muito, mas muito real. A semana acabou num piscar de olhos e sem eventos memoráveis, colaborando para a mais profunda rotina se apoderar de cada hora do meu ritmo diário até que o sábado chegasse. E lá estava eu, saindo do meu trabalho com as bochechas doendo de rir das gracinhas feitas por Vicenzo durante o expediente, o que foi ótimo para me distrair dos pensamentos intrusos dos quais rondavam a minha mente. Era estranho chegar em casa e não ser recebida pelo Bento com a sua habitual energia, a falta que ele fazia era descomunal e eu até mesmo tive vontade de chorar em razão da saudade do Pastor Alemão enérgico. Bem como a estranheza acarretada pela falta do cão, também fui preenchida com inúmeras incertezas quanto a . Este assunto demandava cem por cento da minha parte racional e eu a exercitei continuamente nessa quase uma semana sem vê-lo ou conversar com ele. Nós éramos só amigos e ambos muito ocupados com a própria vida, somente isso. Única e exclusivamente isso. Além de tudo, ele agora não morava mais na mansão, era óbvio que não nos veríamos com frequência.
Suspirei e me aconcheguei no banco do ônibus já à caminho de casa, sendo desperta de meus devaneios assim que o meu celular tocou. Retirei o aparelho da minha bolsa e aceitei a chamada.
- Alô?
- ? – A pessoa do outro lado da linha perguntou e eu franzi o cenho, reconhecendo a voz referida, embora não me recordasse ao certo de onde.
- Sim... Quem gostaria?
- É a Dominc, coordenadora de eventos! Lembra-se mim? – Indagou e eu sorri, pousando a mão na testa ao ouvir o seu nome.
- Ah, sabia que essa voz era familiar! Claro que eu me lembro de você, Dominic! Troquei de celular e perdi o seu número, desculpe. – Há um tempo, antes de trabalhar na R&R e no meu auge de desespero por um emprego, iniciei bicos esporádicos em eventos como garçonete. Conheci Dominic e acabamos mantendo contato por esse período, onde ela sempre me chamava para trabalhar nas ocasiões em que o pagamento era satisfatório.
Não se preocupe, . O que importa é que eu não perdi o seu. – Falou agradável, exatamente como lhe era usual. – Como vai?
- Muito bem! E você? Que surpresa boa! – Exclamei feliz pelo contato.
- Estou ótima. Adoraria bater papo, mas ir direto ao ponto é fundamental. – Começou e, em silêncio, a esperei ir em frente. – Em primeiro lugar, peço desculpas por ligar em cima da hora, contudo, surgiu um contratempo e, como possuo confiança em você, a vi como uma luz no fim do túnel. A garçonete da festa de hoje não poderá comparecer e eu não posso ficar sem um funcionário de jeito nenhum, visto que se trata de uma comemoração grandiosa e todo auxílio fará diferença. Se não for pedir demais, é do seu interesse aceitar esse trabalho extra? – Finalizou em expectativa e eu ponderei.
- Que horas seria? E onde será o local do evento?
- Começará às sete e meia no Le vin Dellorso. – Assenti vagarosamente, admirada. Aquele lugar era nada mais, nada menos, do que o espaço mais sofisticado da cidade.
- Uau. – Expressei abismada e Dominic riu.
- Não é a toa que o cachê é alto, por isso dei prioridade a você.
- Obrigada pela credibilidade, Nic. É um bom horário. Por mim, está fechado. – Consolidei. Trabalhar nos eventos coordenados por Dominic sempre foi tranquilo, o seu profissionalismo resultava em festas minuciosamente organizadas que explicitavam quão perfeccionista ela era e, acima de tudo, rendia uma incrível retribuição financeira. Eu não recusaria.
- Eu sabia que podia contar com você, ! Agradeço por me salvar. Vou passar as demais informações por mensagem, tudo bem?
- Claro, como você quiser. – Falei solícita.
- Certo, irei mandar imediatamente. Mais uma vez, muito obrigada. Te vejo hoje à noite.
- Eu que agradeço, Nic. Até mais tarde! – Ela respondeu um “até” e a ligação foi finalizada. Averiguei as horas na tela de bloqueio e comecei uma lista mental das coisas as quais eu faria assim que estivesse em casa. 13hrs45min. Talvez ainda conseguisse adiantar algumas tarefas da faculdade e tirar um cochilo antes de atravessar a cidade.

Dois ônibus e um metrô foram necessários para que eu chegasse ao meu destino. Um total de duas horas de percurso;
Em passos rápidos, eu meio-que-andava-meio-que-corria enquanto fitava atentamente a numeração da rua à procura do endereço dado por Dominic. Após caminhar por cerca de quinze minutos, vislumbrei a vasta fachada luxuosa e o meu queixo caiu com a infraestrutura da parte externa do lugar que mais parecia um palácio. As pilastras imponentes resplandeciam o dourado vívido de sua cor e eu não duvidava que aquilo fosse ouro de verdade; O alpendre sustentado pelas colunas era igualmente dourado, todavia, resquícios de linhas orientais da cor preta compunham uma mistura de tonalidades extremamente sofisticadas; A entrada era extensa e as portas enormes, fazendo com que eu me sentisse pequena; Céus, eu mal podia esperar para ver a parte interna. A movimentação nos arredores do local se resumia apenas a funcionários e seguranças, todos se preparando para o início da festa que se daria dali a uma hora. Completamente vislumbrada, aproximei-me do segurança e ele me observou por cima do nariz sem mover um músculo ou sequer sair de sua postura rígida.
- Com licença... Meu nome é , vim a pedido de Dominic Sting. – Ele tocou em um ponto no seu ouvido, notificando a minha chegada ao entrar em contato com alguém. Em seguida, maneou a cabeça, liberando o meu acesso às dependências do recinto. Agradeci e quase tive uma taquicardia ao adentrar o salão. O ambiente, o tamanho e o estilo do recinto agregavam elegantemente a decoração de alto padrão, unindo elegância e aconchego – proporcionado pela baixa iluminação –. O teto preto era constituído de inúmeras e diminutas lâmpadas brancas que o deixava similar a um céu estrelado e, no centro da cobertura, um lustre gigantesco coberto de brilhantes machucava os olhos tamanha a resplandecência dos seus adornos. No lado direito, uma parede de vidro dava passagem para a área externa do jardim, trazendo para o interior do salão uma sensação de contato com a natureza; O ambiente possuía cinco espaços independentes, sendo eles: pátio, térreo, mezanino, átrio e terraço, todos conceituados modernos, executando perfeitamente cada detalhe. Puffs, bancos e sofás estupidamente brancos encontravam-se ali aleatoriamente, junto a mesas e cadeiras transparentes, tão claras e vistosas quanto. Enxerguei Dominic entrar em meu campo de visão sobre os saltos sempre bem-postos e sorri, dando-lhe um ligeiro abraço no instante em que ela me alcançou.
- Que saudade! – Disse à mulher sorridente, que concordou.
- Espero que você tenha guardado muito bem o meu número, senhorita . Temos que nos encontrar fora desse ambiente de trabalho. – Expressou me fitando de modo esperto. No auge de seus trinta e três anos, Dominic trazia consigo feições fortes que explicitavam a sua personalidade igualmente incisiva, entretanto, não menos amável.
- Mas é óbvio que eu salvei! E irei cobrar essa saída, aliás. – Proferi alegre.
- O você tem feito? E a faculdade? – Questionou interessada.
- Termino ano que vem! E ainda estou trabalhando na R&R... Está meio difícil conseguir estágio na minha área. – Respondi e Dominic assentiu em compreensão. – Mas sério, Nic. Que lugar é esse? – Indaguei fascinada e a mulher se encheu de pompa, transmitindo orgulho.
- É impressionante, não é? Nem acredito que consegui reservá-lo tão em cima da hora! – Proferiu contente.
- Será uma festa de aniversário? – Olhei em volta e Dominic assentiu.
- Vamos conversando enquanto andamos, sim? Explicarei como tudo ocorrerá aos demais funcionários e você entenderá. – Realizou um sinal para que eu a acompanhasse e eu o fiz. – Já adianto que estão previstos quatrocentos e cinquenta convidados. – Arregalei os olhos, assustada.
- Tudo isso? – Inquiri chocada e ela riu afirmando. Chegamos a uma sala que mais parecia um escritório gigantesco abarrotado de pessoas e eu tratei de me juntar a elas, escutando atentamente o que Dominic e seu assistente diziam.

Finalizei o nó no avental em minha cintura após vestir o uniforme e encarei o meu reflexo no espelho diante de mim. Eu estava parecendo um pinguim. Ri sozinha e deixei o cômodo separado para que a equipe se trocasse, já ouvindo de longe o som vindo do salão principal. Passei na cozinha para pegar a bandeja de petiscos e pedi que alguma entidade divina me guiasse na árdua tarefa de não derrubar nada.
- Está muito lotado? – Perguntei a um homem – também garçom – do qual havia retornado com a sua bandeja vazia.
- Demais. – Respondeu ao passo em que andávamos até o acesso o ambiente onde o evento acontecia. – Só gente chique, bem coisa de bacana mesmo.
- De quem é o aniversário?
- Ah, de uma endinheirada aí. Ouvi dizer que a mulher é advogada das boas. – O fitei confusa pela informação, achando coincidência demais no relato. Varri a imensidão tomada por convidados requintados esbanjando magnificência e o meu estômago deu um solavanco de nervoso ao constatar que não se tratava apenas de coincidência.
A aniversariante era a Senhora .
Meus olhos alcançaram a sua figura estonteante e classuda, tão elegante que se tornava impossível não contemplá-la em completa admiração. Sua pose vaidosa não deixava dúvidas de que a estrela da noite era ela, quase como se um holofote estivesse o tempo todo apontado para a mulher que gritava poder.
Se a festa era da Dona Kyara, significava que...
Bem, eu nem precisei procurar muito para achá-lo entre um grupo de pessoas, conversando serenamente. Meus olhos foram guiados a ele como um imã e, Deus, a sensação de ter levado um soco só não era maior do que a beleza daquele homem. A camisa social branca dobrada até os cotovelos e com três botões perigosamente desabotoados caía justa pelo seu corpo, delineando seus ombros largos de modo que eu precisei refrear a minha mente de pensamentos impuros, ainda que satisfeita comigo mesma por já ter passado as minhas mãos por ali. Eu já devia ter me acostumado a vê-lo de roupas formais, no entanto, a impressão que eu possuía era de que a visão ficava melhor a cada vez que ele as usava. A calça – igualmente social – de lavagem escura tinha como adereço um cinto preto, e eu já não sabia se era coisa da minha cabeça, mas tudo ali aparentava estar justo demais; Enquanto uma de suas mãos segurava uma taça, a outra escondia-se moderadamente no bolso da calça, onde apenas o relógio ostensivo ficava à mostra. Subi a minha análise até o seu rosto e prendi a respiração no exato momento em que moveu a cabeça para o lado. Os seus olhos se chocaram com os meus e no mesmo segundo o seu cenho se franziu, evidenciando o misto de surpresa e confusão ao notar a minha presença mais adiante. Ele arqueou uma sobrancelha e eu caí na realidade rapidamente, cortando o contato visual ainda desatinada e com o coração à mil. Respirei fundo e comecei a exercer o meu trabalho sem desviar o foco para qualquer coisa que não fosse a bandeja em minhas mãos, porém, a intensa sensação de ser observada queimava por todo o meu corpo prestes a desmontar em consequência da análise a qual eu era submetida conforme servia os convidados.
Percorri o meio do recinto à medida que me desvencilhava dos indivíduos espalhados pelo espaço, quase fazendo milagre por segurar a bandeja mantendo a compostura sem permitir com que a feição simpática vacilasse, no entanto, o milagre falhou e o meu sorriso se desfez.
A Senhora entrou no meu campo de visão e, consequentemente, eu entrei no dela. Como se não acreditasse no que via, a mulher bem-apessoada fincou as íris felinas em mim, cerrado-as de maneira voluptuosas; Seus lábios cobertos de vermelho carmim se ergueram minimamente e um sorriso arrogante formou-se neles. Ela levou a taça à boca com cuidado para não estragar o conjunto da obra que compunha a sua maquiagem e eu a percebi tocar levemente o braço do Senhor Henrico, que logo me avistou. Apesar de intrigado, o homem não ligou muito para o que viu e retornou ao diálogo do qual participava.
Voltei à cozinha em tempo hábil e peguei outra leva de petiscos, regressando ao salão sem demora. Reconheci os rostos de outros convidados e suspirei.
A noite seria longa.

As minhas bochechas doíam de tanto sorrir e tentar ser agradável com pessoas que sequer me enxergavam. Meus olhos esbarravam nos de frequentemente e era visível que ele ainda se encontrava curioso por me ver ali, encarando-me de tal forma que eu precisei puxar o ar dos meus pulmões com força a fim de permanecer focada no desempenho de minha função.
Atravessei o corredor que dava acesso a uma espécie de dispensa e avistei Dominic surgir de uma das portas do saguão carregando uma prancheta. Ela gesticulou para que eu aguardasse e tocou no ponto em seu ouvido, falando com alguém do outro lado da linha ao passo em que caminhava ao meu encontro.
- , será que você pode me fazer um favor? – Indagou checando as folhas em suas mãos.
- Posso sim. O que houve?
- Tem como você ajeitar os arranjos de flores que estão próximos do pátio? Eles estão tortos. – Pediu e eu assenti.
- Claro, irei arrumá-los assim que trocar a bandeja, tudo bem? Essa aqui está meio ruim. – Mostrei o objeto prateado à Dominic, que o examinou e afirmou.
- Sem problemas. Obrigada, . – Falou e refez os passos velozes rumo ao mezanino. Retomei o percurso em direção ao cômodo aproveitado como dispensa e fui abordada por uma senhora que, a julgar pela vestimenta e aparência – ambas elegantes – se tratava de uma convidada.
- Oh, finalmente encontrei alguém por aqui! Escute, meu amor, por acaso você consegue uma garrafa de champagne para mim? – Perguntou de uma só vez e eu precisei assimilar a sua solicitação durante consideráveis segundos. Mesmo com os fios completamente brancos – bem próximos do prateado – e a feição franzina resultante das rugas, não restava dúvidas de que a senhora sofisticada possuía jovialidade para dar e vender. Eu facilmente a visualizava como uma dama da alta sociedade que usava chapéus e luvas, tudo na mais exímia perfeição.
- Acredito que já estão servindo champagne, senhora. Mas eu posso checar caso não estejam. – Respondi simpática e a mulher negou com a cabeça, balançando as mãos expressando desacordo.
- Por Deus, não utilize este pronome de tratamento nem sob tortura! Não gastei uma fortuna em procedimentos estéticos para ser chamada de senhora! Eu pareço uma anciã? – Desembestou a falar e apoiou as mãos na cintura. O seu questionamento saiu de um jeito divertido e até brincalhão, eu diria. Pisquei os olhos diversas vezes e, atônita, titubeei antes de proferir uma frase decente.
- De jeito nenhum! Como a sen... – Parei imediatamente e me recriminei, consertando a palavra antes de terminar de dizê-la. – Como prefere ser chamada?
- Rosalyn está de bom tamanho. – Sorriu satisfeita. – Meu corpo anseia por uma bebida, contudo, a minha família insiste em me diminuir a uma velha ultrapassada. – Revirou os olhos e eu não consegui reprimir um breve riso. – Bons tempos em que o meu paladar era agraciado com boas doses de Salvatore’s Legacy*. – Findou pesarosa parecendo repuxar a sua juventude pela memória. Se a família a proíbe de beber, é provável que exista um motivo por trás disso. Oh, céus, como eu farei para negar o seu pedido?
- Velha ultrapassada? Quem me dera ter a sua aparência daqui a uns anos. – Comentei e ela riu.
- Fico lisonjeada. Diga-me, amada... Você irá acatar o meu desejo e me conceder ao menos uma taça de algo alcoólico? – Seu pedido soava como uma súplica. Suspirei e busquei um método de não ser interpretada como indelicada.
- Eu gostaria muito de ajudá-la, mas não posso fazer nada que a prejudique. Se a sua família não permite que a senh... você, beba, seria errado que eu os contrariasse. Além disso, poderia custar o meu trabalho e eu realmente preciso dele. Desculpe-me. – Lamentei abatida. Rosalyn rolou os olhos e suspirou, dando de ombros em seguida.
- Acalme-se, amada. Eu já sabia que provavelmente não teria acesso a nenhum destilado hoje à noite, entretanto, não custava tentar, não é?
- Agradeço pela compreensão. – Sorri, vendo-a abanar as mãos novamente.
- Bem, você pode ao menos inserir uma azeitona na minha água com gás para que eu finja estar ingerindo uma bebida decente? – Perguntou entediada. Ri e concordei.
- Mas é claro que sim. Só um minuto. – Adentrei as dependências da cozinha e despejei a água gelada na taça; Coloquei uma azeitona num palito dentro do objeto cristalino e voltei ao corredor, entregando o “drink” à Rosalyn. – Aqui está. Espero que seja a melhor água que você já tomou. – Brinquei.
- Certamente será, amada. – Disse ela erguendo a taça.
- Rosalyn, o que faz aqui? – Aquela voz. O tom presunçoso era inconfundível e eu nem precisei me virar para reconhecer Dona Kyara no mesmo ambiente que eu.
- Vim atrás de um pouco de sossego, vocês parecem abutres em cima de mim, tenha dó. – A outra mulher reclamou e eu franzi o cenho. Vocês?
- O que tem nessa taça? – Andou até Rosalyn e examinou o líquido incolor. – Eu não acredito que você foi irresponsável a ponto de servir bebida alcoólica para uma senhora! – Referiu-se a mim e eu tive que fazer um esforço sobre-humano para não rolar os orbes.
- Aqui não tem nenhuma senhora, não me aborreça com esse tratamento antiquado, Kyara. E não seja rude, que deselegante! A moça me serviu água, fui eu quem pediu para que ela a decorasse com azeitona. – Expôs numa entonação de censura. Eu não estava entendendo nada. A Senhora me fitou por cima dos olhos e me mediu com desdém.
- O Henrico pediu para que eu lhe procurasse. – Mencionou à Rosalyn, que assentiu colérica.
- Meu filho virou o meu fantasma, sinceramente! Nem o meu marido gruda tanto dessa maneira. – Ralhou impaciente. Meu filho? Ela era avó do ? – Obrigada pela água, amada. – Agradeceu e deu às costas, sequer esperando que Dona Kyara a acompanhasse. Respondi um “de nada” meio desconcertado e fiz menção de me retirar, porém, mal dei um passo e a voz superior fez-se audível mais uma vez.
- O mundo é realmente pequeno, você não acha? – Indagou e eu me mantive quieta a encarando inexpressiva. – Fico imensamente feliz por vê-la servir na comemoração do meu aniversário, talvez assim você coloque nessa cabecinha onde é o seu lugar. – Mordi a parte interna da bochecha e apertei os dedos na lateral da bandeja. – Espero que você trabalhe direito, querida. Quem sabe eu não te dê uma boa gorjeta? – Sorriu repleta de perversidade. Respirei fundo e a contemplei se afastar, andando aprumada nos saltos imponentes quase totalmente cobertos pelo pano comprido do vestido.
Entrei na dispensa e troquei a bandeja, logo tratando de arrumar as flores das quais Dominic me pediu. Eu não possuía tempo para me aborrecer com a prepotência da Senhora , afinal, o serviço necessitava ser feito. Cruzei o salão sem desviar a atenção do ponto a minha frente e cheguei aos inúmeros – e lindos – arranjos de flores, sorrindo automaticamente por obra da plenitude das cores delas. Naquele instante fiquei alheia a tudo e foquei cem por cento no jeito em que as plantas dispunham-se na decoração, tirando uma folha dali e outra daqui, até que uma movimentação de alguém encostado na mesa ao meu lado quebrou a minha bolha de concentração. Olhei de soslaio e o meu coração acelerou ao vislumbrar apoiado ali com os braços cruzados e uma taça em mãos, olhando atentamente para frente. Continuei mexendo nos galhos que não paravam na posição certa e ele se pronunciou.
- Confesso que estou surpreso. Aqui é o último lugar em que eu imaginei que poderia te encontrar. – Comunicou sem se mover e com os olhos fixos num ponto adiante. Ri sem humor e afirmei.
- Pode apostar que eu não fazia ideia de que o evento em questão era da sua família. – Confessei e torci o nariz.
- É uma grande coincidência.
- A lei natural dos encontros é surpreendente, de fato. – Distanciei-me ligeiramente do arranjo com o intuito de contemplar a minha recém-organização. Senti que me admirava e, depois de muito evitar naquela noite, o fitei de volta. Minhas mãos começaram a suar e o meu estômago deu um nó entre aquela sensação clichê de sentir todos os sintomas fisiológicos resultantes de ser estudada pela pessoa que você é apaixonada. Acorda, . Mordi o lábio e dirigi a minha atenção às flores já ordenadas, notando que a minha missão estava concluída. Hora de regressar à cozinha. – Tenho que retornar ao trabalho... Boa festa. – Sorri e ele maneou a cabeça.
Eu sabia que ele me encarava à medida que eu me locomovia pelo salão.

Exausta, fatigada, cansada.
Meu corpo inteiro clamava por descanso.
O fim do evento havia chegado e, apesar dos pesares, tudo correra dentro dos conformes. Não é como se as pessoas da elite se importassem com quem servia o champagne deles, de qualquer forma.
- , pode ir embora. Deixe isso aí, tem bastante gente para limpar. – Disse Dominic ao surgir na cozinha me vendo empilhar as bandejas.
- Nic, eu não vou deixar o serviço pela metade.
- Eu sei que não, mas é tarde e eu sei que você mora longe. Daqui a pouco o transporte público para de funcionar. Confie em mim, não tem problema se você for agora. – Confirmou precisa e eu sorri.
- Obrigada! Vamos marcar um café, sim? – Falei, abraçando-a brevemente.
- Por favor! E agradeço demais pela ajuda de hoje. Deixei o envelope com o pagamento do lado dos seus pertences. – Assenti e acenei, desejando “boa noite” a ela e aos demais ali presentes. Rumei até a cabine e troquei de roupa, aninhando-me em um casaco grande e quentinho, posto que a temperatura costumava cair no decorrer da noite e madrugada. Guardei o envelope no fundo da bolsa e a sustentei em meus ombros, partindo sem demora.
Varri a rua vazia com os olhos e firmei os meus dedos na alça da bolsa, começando a marchar numa velocidade que deixava as minhas pernas quentes. Bairros de classe alta não possuíam nenhum ponto de ônibus ou metrô em suas proximidades e isso me irritava completamente, além de que nenhuma alma me acompanhava naquele momento. Meu sinal de alerta foi ligado e um toque em meus braços me colocou num estado de pavor instantâneo, onde o meu modo de defesa guiou os meus movimentos e, automaticamente, tive a primeira atitude que se passou pela minha cabeça: Virei o tronco e bati com a bolsa no indivíduo atrás de mim, só depois me dando conta sobre quem eu havia presenteado com uma bela bolsada.
Arregalei os olhos e levei as mãos à boca, estarrecida.
estava parado com o cenho franzido e a sobrancelha arqueada, provavelmente não compreendendo a motivação da minha atitude. Um sorriso pendeu no canto de seus lábios e eu senti o meu rosto queimar.
- Puta merda, ! Isso é jeito de aparecer? Que inferno! – Bradei irritada, ajeitando o meu instrumento de proteção de volta ao seu lugar. O homem riu alto e eu cruzei os braços, reparando que a minha adrenalina encontrava-se nas alturas.
- Desculpe, não foi a minha intenção. – Seu riso cessou e ele colocou as mãos no bolso. – Você tem um bom reflexo.
- O que você está fazendo aqui? Todo mundo já foi embora. – Questionei confusa.
- Deixei a minha avó em casa e voltei para te buscar. – Rebateu direto e reto. Pendi a cabeça para o lado e cerrei os olhos em busca de um indício de brincadeira no seu rosto, todavia, só me deparei com seriedade.
- É sério?
- Por que não seria, ? – Mordi os lábios e dei de ombros. – Tudo bem pra você se eu te levar em casa? – Sorri e assenti. Que tipo de pergunta era aquela? Era mais do que óbvio que eu não me importaria.
- Está brincando? Você já deu uma boa olhada nesse bairro fantasmagórico?! Claro que por mim tudo bem! – Expressei meio abismada demais e riu. Ele apoiou a palma da mão nas minhas costas e gentilmente me guiou rumo ao seu carro, estacionado não muito longe.
O interior agradavelmente quente do veículo massageou minha face gelada e eu me permiti relaxar. colocou-se no banco do motorista após fechar a porta para mim e deu partida, ligando o rádio numa música qualquer.
- Você costuma trabalhar em eventos com frequência? – Quebrou o silêncio.
- Antigamente, sim. Na verdade, fazia muito tempo que eu não trabalhava em um. – Respondi refletindo acerca de tal fato. – Meu brinde de boas-vindas foi o aniversário da sua mãe. – Não fui capaz de impedir que o sarcasmo transbordasse em minha frase. Fitei e um sorriso discreto pendia distraidamente nos seus lábios.
- Presumo que essa ironia foi utilizada para encobertar um possível desagrado. – Considerou divertido.
- Digamos que foi uma imensa surpresa. – Limitei-me a dizer e ele concordou.
Observei a paisagem pela janela e, um pouco mais à frente, avistei um letreiro reluzente que chamou a minha atenção. Notei que se tratava de um trailer que vendia cachorro quente e ele me trouxe à memória que a minha última refeição ocorrera às duas e meia da tarde. O meu estômago doeu e a vontade que se apossou do meu ser foi gigantesca. – ... – Iniciei e ele murmurou um “hm”. – Você poderia parar o carro um pouquinho? – Perguntei meio embaraçada. O homem me encarou sem entender e diminuiu a velocidade do automóvel.
- O que houve? Está tudo bem? – Inquiriu, me estudando com preocupação.
- Sim. É que eu estou com fome e queria comer ali. – Apontei no sentido do trailer. Ele franziu o cenho.
- Ali? – Reafirmou desconfiado e eu balancei a cabeça confirmando. – Tem certeza, ?
- Tenho. – Consolidei sem dúvidas quanto a minha decisão. Embora desconfiado, manobrou o carro na beira da avenida e estacionou em frente ao lugar. Descemos do veículo e nos encaminhamos até a carreta de lanche. O aroma maravilhoso de comida adentrou as minhas narinas incitando – mais – a fome que me assolava e eu sorri amigável para o casal de meia idade localizado no comando do negócio.
- Boa noite! Gostariam do cardápio? – A mulher interrogou simpática.
- Boa noite! Gostaria sim, obrigada. – Aceitei o pequeno livreto e comecei a leitura, extremamente animada com a ideia de comer qualquer coisa da lista. Olhei para o lado e prendi o riso em razão da maneira como se portava. Com as mãos habitualmente guardadas nos bolsos laterais do sobretudo e uma diminuta ruguinha no meio da testa devido ao cenho ainda franzido, ele encarava a estrutura da parte interna do trailer nitidamente curioso e intrigado.
- Você não vai querer nada? – Inquiri me divertindo com a situação.
- Acho que não.
- Jura? Vai me deixar comer sozinha? – Seus olhos pousaram no cardápio e o homem pareceu ponderar.
- E então, já decidiram? – A mulher apareceu novamente, aguardando em expectativa.
- Eu vou querer esse aqui e uma água. – Apontei para uma das opções e ela sorriu.
- E você, rapaz? Não vai acompanhar a sua namorada e fazer um pedido? – Minha cara foi no chão e voltou. Me mexi desconfortável e o calor em meu rosto subiu tão rápido que eu tive a impressão de que iria explodir, enquanto nem se alterou. – Que tal um acordo? Eu lhes dou mais um lanche e, caso você não goste, fica por conta da casa. – Piscou divertida. Fitei esperando a sua resposta e ela enfim veio.
- Pode ser. – Troquei olhares cúmplices com a mulher e ela saiu. Sentamo-nos em uma das mesinhas postas nos arredores do recinto e achei graça em como não perdia a postura em hipótese alguma. Ele me fitou e ergueu uma sobrancelha ao ver a minha expressão risonha. – O que foi?
- Nada... – Ri e balancei os ombros. – Estou me perguntando se você já frequentou um trailer desses, mas acho que não, certo?
- Pra tudo tem uma primeira vez, não é? – O homem riu fraco. Os pedidos chegaram e eu logo peguei o meu, vendo-o fazer o mesmo com o dele. Era uma cena um tanto quanto... Incomum. trajado naquele smoking Armani, Kalvin Clein ou sei lá o quê, sentado em uma mesa de plástico comendo em uma caminhonete na rua. Tomei um gole da minha água e prendi o riso.
- Não precisa comer se não quiser.
- Por que eu não comeria?
- Porque quando nós chegamos parecia que você estava diante de um elemento exótico. – Zombei e apenas me olhou sem proferir nada. Prossegui me deliciando com o meu lanche lutando para não deixar com que o molho caísse e me sujasse inteira.
- Pra quem nunca tinha comido, eu me saí melhor do que você. – mencionou sorrindo enviesado. O encarei sem compreender. Ele inclinou o corpo e se aproximou com um sorriso enviesado brincando em seus lábios; Passou a ponta do dedo indicador no canto da minha boca num ato devagar demais, perto demais e voltou a sua posição, limpando-o no guardanapo e me lançando uma piscadela em seguida. Pisquei algumas vezes sentindo o rastro quente deixado pelo seu toque e tratei de me certificar de que não portava mais nenhum resquício de molho ali, passando o guardanapo logo depois.
- Se você não se sujar enquanto come isso, não comeu direito. – Debochei. riu e murmurou um “aham” ao passo em que íamos pagar a conta. Ele tirou a carteira do bolso, porém, o refreei. – Eu lhe apresentei essa maravilha, portanto, eu pago.
- ... – Fez menção de discordar, contudo, não permiti.
- Eu acabei de me matar de trabalhar, o que significa que eu vou ter o prazer de pagar e sentir o gosto de direcionar o meu suado dinheirinho a algo útil. – Concluí decidida e retirei a nota da carteira, apesar da clara insatisfação do homem ao meu lado. Agradecemos ao casal e retornamos ao carro, retomando o caminho previamente estabelecido.
Me peguei encarando a visão parcial do rosto de e estudei os seus traços sérios e compenetrados na pista, perdida sobre quão lindo ele era mesmo executando tarefas comuns como aquela. Desviei o olhar e contemplei as ruas vazias durante todo o percurso, cansada além da conta para estar apta a dizer alguma coisa. Felizmente pareceu me entender, pois seguimos em silêncio somente desfrutando da música calma cujo soava pelo automóvel.
Reconheci a entrada do condomínio e retirei o cinto, sorrindo para o homem que me admirava com seriedade.
- Obrigada pela carona e por ter me acompanhado no trailer. – Ele negou com a cabeça como se não tivesse feito nada demais. Aproximei-me de seu rosto e pousei meus lábios na sua bochecha, embora a vontade fosse outra. Acariciei os fios de sua nuca no decorrer do ato e, com muito esforço, afastei-me. A fisionomia séria não se alterou. – Boa noite. – Disse pela última vez e deixei o veículo, adentrando o condomínio em seguida. A Maserati sumiu rua afora e eu fitei o nada ao mesmo tempo em que desejava saber o que se passava pela cabeça de .

’s POV
O domingo não estava favorável para que eu me concentrasse em nada. Já havia perdido as contas de quantas vezes tentei ler os documentos em minhas mãos, todavia, sem sucesso. Os meus pensamentos ora eram levados até o caso Zummack – e o que vinha acontecendo no que se referia a ele –, ora pairavam em , e, neste último tópico, permaneciam insistentemente, mesmo eu lutando para que não.
Nunca, em hipótese alguma, imaginei que a encontraria na festa de aniversário da minha mãe, todavia, a vida sempre dava um jeito de me surpreender da forma mais inexplicável possível. Tê-la no mesmo ambiente que eu em circunstâncias tão distintas só comprovavam o fato de que as nossas diferenças nos transformavam nas pessoas que nós éramos, e conhecer a realidade dela me parecia cada vez mais interessante. Naquele instante, enquanto a via exercer o seu trabalho de modo tão profissional, me dei conta do abismo que existia entre nós. E esse mesmo abismo parecia irrelevante sempre que estávamos juntos.
Respirei fundo e passei aos mãos no rosto, totalmente impaciente. Saí do escritório e Bento veio ao meu encalço, me seguindo pelo apartamento. Meu celular tocou do outro lado da sala e eu fui até ele, gelando no mesmo momento em que li número desconhecido na tela do aparelho. Aceitei a chamada e a maldita voz robótica da qual soou através do outro lado da linha me fez fechar o punho em ódio.
- Eu lhe avisei que nos falaríamos em breve, . Confesso que estava louco para conversar com você! – A porra do tom cínico era cortante e transmitia um sarcasmo mordaz. Meu maxilar travou e os meus músculos tencionaram.
- Você é doente. – Ri sem humor. O timbre robótico manifestou uma gargalhada exagerada e o meu ódio só aumentou. – Um perturbado de merda.
- Ouch. – Mais uma risada. – Todos somos, querido . O mundo é doente. Gostou do presentinho que eu lhe enviei? – As palpitações cardíacas em meu peito eram tão fortes que me causava falta de ar. Baguncei os cabelos e toquei as têmporas, buscando calma.
- Que merda de foto era aquela? – Questionei aumentando a entonação da minha voz.
- Oh, que pena que o enigma não foi desvendado. Esperava mais de você, doutor . – Ele cuspiu as palavras em escárnio – Vamos lá... Enviei-lhe outra surpresinha. Suponho que agora você compreenderá. – Franzi o cenho e encarei o aparelho. A notificação de uma nova mensagem de texto bipou na tela e eu imediatamente a abri.
Um calafrio subiu pela minha espinha e a minha cabeça girou.
Meu corpo tremeu e a vertigem me atingiu com força. De repente, tudo pareceu estar em câmera lenta.
Era uma foto da .
- Seu desgraçado... – Comecei entredentes ao voltar a colocar o celular no ouvido.
- EI! Se eu estivesse na sua pele, começaria a me tratar com mais respeito. – Expeli o ar dos meus pulmões com força e fechei os olhos, transpassando as mãos pela nuca e puxando os fios do local. – É uma garota adorável, não posso negar.
- Se você tocar nela... – Ri, entretanto, o meu riso expressava a minha fúria. Eu andava de um lado para o outro no apartamento, completamente agitado e com o coração a mil. O maldito riu e eu quis acabar com raça dele naquele instante mais do que em qualquer outro.
- Ah, que bonitinho! Soube que terceiros sabem da nossa amizade, portanto, resolvi inserir mais gente no jogo. Nada mais justo, não acha? – Eu não possuía capacidade para racionar sobre absolutamente nada.
- O QUE VOCÊ QUER DE MIM, PORRA? – Explodi exausto.
- Antes eu queria que você saísse do caso, agora, eu quero o contrário. Quero que você fique para que eu possa testar a sua capacidade. Vamos ver se o é tudo isso. – Não tive tempo de responder. A chamada foi finalizada e eu joguei o celular no sofá com ódio. Inteiramente transtornado, bati a mão na primeira coisa que estava ao meu alcance, descontando a fúria numa escultura de vidro qualquer. Um enorme estrondo ecoou pelo cômodo e os cacos de vidro espalharam-se pelo chão.
Aquela luta era só minha, e deixar no meio disso estava fora de cogitação.

The Macallan: É uma marca de uísque single malt escocesa, considerada uma das mais caras do mundo.
Maria Antonieta: O filme conta a história da jovem rainha da França do século XVIII.
Otis redding: Cantor de soul norte-americano.
Salvatore's Legacy: Coquetel baseado em conhaque.


Capítulo 16

"Diga alguma coisa, eu estou desistindo de você. Lamento que eu não possa te alcançar." Say Something - Aguilera (feat. A Great Big World).


’s POV.
Sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos e o celular em mãos, eu encarava a tela do aparelho a qual exibia a foto de . Não sabia há quanto tempo me encontrava naquela posição, mas os meus músculos doíam como se eu estivesse petrificado no sofá por um longo período, o suficiente para sentir o meu corpo gradativamente tenso a cada instante em que o diálogo da recente ligação era assimilado pela minha mente conturbada.
Com a adrenalina relativamente mais baixa, parei para analisar a fotografia; Passei os olhos por cada detalhe dela e constatei que a imagem fora tirada no dia da festa de Paolo, no momento em que saía pelos portões do condomínio.
Outro calafrio assolou o meu corpo e o meu sangue fervilhou só de imaginar quão perto aquele maldito se encontrava de nós.
Sobretudo, dela.
Esfreguei o rosto em completa angústia sentindo um misto de sensações as quais afloraram o meu lado mais primitivo, cujo o único desejo era pegar o desgraçado responsável por transformar a minha vida num inferno e desfigurá-lo antes de jogá-lo atrás das grades pelo resto da miserável vida dele.
A situação atual exigia que a minha mente funcionasse em sua forma mais ágil e eficiente com a finalidade de buscar soluções a curto prazo, onde a minha prioridade se dava única e exclusivamente à proteger as pessoas ao meu redor. A proteger .

"Soube que terceiros sabem da nossa amizade..."

Otto.
Ele necessitava ficar ciente de todo o risco que corria, embora eu sempre fizesse questão de alertá-lo a respeito da periculosidade envolvida no caso. Se porventura o doente culpado por essa merda toda ainda não souber que ele é a pessoa a qual me ajuda e fornece provas, era somente uma questão de tempo até fazê-lo.
Busquei o meu celular anteriormente arremessado no sofá e disquei o número dele, não demorando mais do que três toques até ser atendido.
- Boa noite, . – Saudou do outro lado da linha.
- Boa noite, Otto. Você tem alguns minutos livres para que possamos conversar?
- Com certeza. Alguma novidade? – Indagou interessado.
- Receio que sim, ainda que não seja boa. Recém recebi outra ligação e acredito que eu deva lhe alertar a respeito de seu conteúdo.
- Não acredito que esse alucinado não parou! O que houve dessa vez?! – A pergunta saíra numa inflexão de voz furiosa, demonstrando a sua impaciência. Passei a mão livre pelo rosto e expirei, igualmente enraivecido.
- De algum modo, o desgraçado descobriu que existe alguém cooperando comigo no caso, o que abre uma série de hipóteses quanto a isso. A mais relevante no momento é considerar que ele já possua consciência de que é você quem está contribuindo com as provas. – Esclareci, ouvindo-o xingar através da chamada.
- COMO ele descobriu? Não é possível que ele saiba que sou eu! – Esbravejou. Levantei-me e, mais uma vez, iniciei a minha camada ao longo do apartamento. Acendi um cigarro e apoiei-me no batente de acesso ao terraço.
- Acalme-se, Otto. Foi somente de uma suposição, afinal, temos que pensar além do que nos é sabido. Na realidade, irei reafirmar o que eu outrora já lhe comuniquei: É melhor que você fique fora disso. As coisas estão se tornando cada vez mais pesadas, outras pessoas estão sendo envolvidas nisso e não é seguro insistir em fazer parte de algo assim. – Encerrei o mais breve e claro possível.
- Eu já dei o meu parecer à você, Doutor . Não irei descansar enquanto o assassino do meu padrinho não estiver devidamente preso, e, com todo respeito, o farei com ou sem a sua ajuda. – Rebateu decidido. Soltei a fumaça do tabaco e massageei as têmporas, exausto o bastante para não retrucar a sua vontade.
- O meu compromisso é provar a inocência do meu cliente, Otto. Não possuo o direito de te impedir de fazer o que deseja, aparentemente você assume os riscos, sendo assim, a minha parte está feita. – Findei conformado sem ter muito que discutir. Eu não desviaria o meu foco do caso, ainda que a integridade física dele me preocupasse.
- O que você quis dizer com “outras pessoas estão sendo envolvidas nisso?” – Inquiriu confuso. - Ao que tudo indica, não se referiu apenas a mim.
- Não, esse é um dos motivos pelos quais eu lhe contatei. Você tem conhecimento sobre como identificar números privados?
- Hm... Não muito, entretanto, conheço alguém que certamente tem.
- É imprescindível que a pessoa seja de confiança. – Avisei-lhe. Nenhuma informação deveria cair em mãos erradas.
- Sem dúvidas. Fique tranquilo, pois se trata de uma grande colega, ela é extremamente honesta. – Assegurou com firmeza. - Me envie o número, mandarei à ela ainda hoje.
- Ótimo, agradeço. – Dei uma breve pausa antes de explicá-lo a respeito de minha solicitação. – Quanto à sua dúvida: Uma amiga minha também virou alvo de ameaças. – Iniciei, sentindo todo o ódio voltar e estrondear dentro do meu peito. – A mesma pessoa doente por trás de todo esse inferno resolveu colocá-la no meio de algo que ela sequer faz ideia do que se trata! – Minhas palavras saíram ríspidas e eu quase pude sentir uma veia da testa pulsar mais rápido, tamanha minha revolta.
- Lamento, . A situação está tomando proporções gigantescas. Se me permite lhe dar um conselho: Seria bom que você contasse à ela sobre o que anda acontecendo. – Recomendou criterioso e eu refleti durante alguns segundos.
- Não quero incluí-la nisso, muito pelo contrário. Quanto mais longe ela ficar de todo esse cenário, melhor. – Pus fim à discussão, escutando-o murmurar um “tudo bem”.
- Encaminhe todos os dados para mim a fim de que eu os envie para análise o mais rápido possível. Entrarei em contato no instante em que obtiver alguma resposta.
- Obrigado. Tenha uma boa noite, Otto. – Disse, regressando ao escritório do meu apartamento.
- Boa noite, Doutor . – O timbre abafado da ligação soou, apontando o fim da chamada. Posicionei-me na mesa do cômodo e fitei os documentos espalhados por sua dimensão, vendo Bento se fazer presente ali e deitar-se ao lado da minha cadeira.
Encher a mente com trabalho decerto amenizaria a apreensão que se fazia presente em cada milímetro do meu corpo tenso.

**


O dia mal havia chegado na metade, no entanto, o cansaço mental experimentado naquele ponto certamente resultava da quantidade exorbitante de trabalho realizado por mim. As incontáveis folhas de processos e documentos pareciam se multiplicar diante da minha figura consumida por reflexões descabidas para o momento, as quais insistiam em tirar o meu foco das tarefas, ainda que durante poucos minutos. Finalizei a assinatura de um dos papéis e guardei-o em sua devida pasta, examinando o seguimento de um dos casos cujo eu representava.
Uma movimentação estranha desenrolou-se do lado de fora do escritório, tirando o pouco de concentração que eu ainda dispunha. Esforcei-me em ignorar a maldita falácia no exterior do ambiente, porém, o ruído de vozes em simultâneo me interrompia a cada letra lida. Já puto pelo barulho repentino, levantei-me bruscamente da cadeira e rumei em passos duros até à saída do local, abrindo a porta com a feição saturada de mal humor. Deparei-me de imediato com Bridget bem em frente a minha sala e vinquei as sobrancelhas ao reparar em sua expressão angustiada.
Algo me dizia que aquilo não era um bom sinal.
- Qual é causa de tamanho furor? Está impossível trabalhar aqui! – Esbravejei sem um pingo de paciência, atraindo olhares hesitantes dos indivíduos agitados. Os burburinhos cessaram e eu desci as íris à minha secretária igualmente receosa.
- Senhor... – Apontou em direção à TV LED fixada na parede do lado oposto ao que eu me encontrava. Cruzei os braços e foquei no aparelho, semicerrando os olhos assim que a vinheta de um telejornal qualquer ilustrou a tela, mostrando dois repórteres postos detrás de uma bancada em seguida.

“Últimas notícias: Documentos referentes ao assassinato do banqueiro Mason Zummack são vazados e laudo pericial é liberado para os veículos de imprensa.
Cerca de duas páginas do arquivo confidencial do Instituto de Perícias Judiciais vieram à público nesta quinta-feira, divulgados por uma fonte anônima, revelando detalhes do caso que deixou o país em alerta. O conteúdo dos documentos secretos expõe particularidades do crime e minúcias da noite do homicídio. O escritório , responsável pela defesa do réu Lee Feldmann e o I.P.J ainda não se pronunciaram.
Mais informações hoje à noite, no Jornal Nova Mídia.

A raiva e a descrença subiram através do meu corpo e pararam em minha garganta, ocasionando um nó constituído da mais profunda indignação.
Eu não conseguia desviar os meus olhos cerrados e faiscantes de cólera da televisão, enquanto a minha cabeça tumultuada absorvia à contragosto os fatos apresentados no telejornal. O meu maxilar travado em fúria começava a incomodar, todavia, pouco me importei. Os burburinhos regressaram ao passo em que eu era observado com apreensão pelas pessoas cismadas espalhadas por aquela extensão do ambiente, como se estivessem esperando pela minha reação diante do ocorrido. Apalpei o bolso interno do meu terno somente para me certificar de que as minhas chaves encontravam-se ali e, sem exprimir atitude alguma, caminhei rumo ao elevador, sentindo os olhares queimarem em minhas costas.
Foda-se o falatório, fofocas e a mídia suja que ama um circo.
Eu não daria isso a eles.
Adentrei o espaço fechado e só então externalizei o meu descontentamento por meio de um esfregar de mãos pelo rosto e cabelo, expelindo uma boa quantidade de ar com ira. Esfreguei as têmporas e busquei calma, mesmo sentindo totalmente o oposto à isso.
A sensação que eu possuía era de completa apatia.
A minha vida encontrava-se envolta à múltiplos eventos ruins que se sucediam consecutivamente, sem me dar uma porra de descanso sequer. Sem uma mísera folga. Até mesmo a única coisa boa a qual acontecera comigo estava sendo afastada de mim, deixando-me de mãos atadas e sem escolha senão abrir mão do sentimento ímpar cujo me transformava em uma versão melhor do que eu jamais fui. Cruzei o estacionamento com pressa e entrei em meu carro, acelerando sem pensar duas vezes, traçando a rota sentido ao Instituto incumbido de elaborar o laudo da perícia. Minhas mãos rodeavam o volante com uma força desmedida, fazendo com que as pontas dos meus dedos descolorissem e ganhassem uma cor esbranquiçada pela rigidez do contato.
Avistei o amplo prédio espelhado e movimentei a cabeça, estreitando os olhos com intuito de enxergar que merda estava acontecendo em frente ao edifício. Um significativo fluxo de repórteres acercava a área como abutres em busca de carcaça animal, numa caçada incessante pelo deslize que os faria conquistar o melhor furo de reportagem. Apoiei os cotovelos na direção e, pela milésima vez no dia, passei as mãos no rosto e exalei o oxigênio em meus pulmões com força, absolutamente frustrado.
Mas que inferno.
Avancei com o veículo e, sem tardar, o fulgor do clarão originado pelos flashes de diversas câmeras foram disparados defronte a mim, explodindo contra o vidro fumê do automóvel e também dos meus óculos escuros. Os seguranças do local improvisaram uma barreira ao redor do carro e, com extrema dificuldade por obra do bloqueio de jornalistas exaltados, me retirei dali, locomovendo-me rapidamente rumo à entrada do Instituto.

- Doutor , você acha que o sistema de justiça criminal está bem preparado para resistir à pressões?

- Os juízes levam em conta o clamor público gerado por certos casos criminais?

- A cobertura midiática reverbera na justiça criminal?

Sem proferir resposta alguma às questões disparadas à mim, enfim coloquei-me porta adentro do edifício, sentindo a minha mente funcionar de modo fervoroso. Andei mediante a passos duros até a recepção e parei diante do extenso balcão de mármore, retirando os óculos escuros logo depois.
- Com licença. Boa tarde. – Pronunciei a mulher compenetrada no computador à sua frente. Ela desviou os olhos da máquina e sorriu simpática.
- Boa tarde. Posso ajudá-lo?
- Gostaria de falar com Gary Rourke, responsável pelo departamento de perícias. Diga a ele que é o , ele saberá de quem se trata. – Apresentei-me sem delongas. A recepcionista assentiu e retirou o telefone do gancho.
- Só um momento, senhor . – Pediu. Maneei a cabeça em concordância, esperando que a ligação fosse feita. Após poucos minutos, a chamada encerrou-se e ela tornou a sua atenção à minha figura compenetrada em um ponto qualquer do vasto hall. – O senhor Rourke irá recebê-lo. Pegue o elevador quatro; Primeiro andar, sala três. – Informou.
- Obrigado. – Percorri o acesso aos elevadores e, em pouco tempo, tomei-o. Desci no andar demandado e toquei a campainha posta na parte lateral da porta, a qual fora aberta sem demora. A fisionomia preocupada do homem denunciou a culpa mascarada através da face inexpressiva por trás dos óculos de grau. Ele deu passagem para que eu entrasse e assim o fiz.
- Creio que devamos pular os cumprimentos, correto? Sei o motivo de sua visita, doutor. Sente-se, por gentileza. – Solicitou. Sentei-me e o encarei.
- Senhor Rourke, serei breve e claro. Qual é a explicação perante o ocorrido com parte do laudo pericial? – Perguntei firme, juntando as minhas mãos em cima da mesa. – Sabendo de sua responsabilidade e competência, muito me admira que algo tão grave tenha se sucedido. – Gary removeu os óculos durante breves segundos, friccionando a divisão entre os olhos.
- Eu realmente gostaria de possuir uma resposta para a sua pergunta, contudo, lamentavelmente não a tenho. Fui pego de surpresa, nunca previ que um conteúdo daqui seria vazado, isso jamais ocorreu. – Defendeu-se aflito.
- Acredito que tal episódio será devidamente apurado, certo? O senhor rege um grande grupo de funcionários e certamente um deles é o responsável por tamanha imprudência. – Comuniquei, vendo-o concordar. – As consequências deste vazamento poderão ser catastróficas para o andamento do caso, tudo graças a uma leviandade. É definitivamente lamentável. – Expus, tentando controlar o meu tom de voz junto a minha raiva.
- Compreendo a sua reação e garanto que as devidas providências serão tomadas, doutor .
- Espero que sim, senhor Rourke. É uma pena um Instituto tão renomado quanto esse ficar à mercê de condutas anti-profissionais. Não entrarei na temática sobre a demora injustificada na apresentação do laudo pericial, inclusive. Este não é o ponto principal no momento, ainda que seja de extrema importância, visto que a espera deixa as partes de mãos atadas enquanto aguardam. – O homem escutava atento, apenas assentindo. – Não quero ser obrigado a formalizar uma representação contra o I.P.J, apesar de possuir razões suficientes para fazê-lo. – Seu semblante se alterou em completa surpresa em consequência de minha frase.
- O Instituto de Perícias Judiciais é vinculado à Secretaria da Justiça e da Defesa, eles seguramente prestarão medidas cabíveis e o auxílio condigno à situação. Tudo será resolvido, doutor . Eu garanto. – Consumou convicto. – Semana que vem o laudo completo estará pronto.
- Muito bem. Em tal caso, estamos entendidos. – Levantei-me e Gary reproduziu a minha ação, acompanhando-me até a porta.
- Mais uma vez: Eu sinto muito que isso tenha acontecido. Iremos reparar o dano e encontrar o culpado por essa situação. – Concordei e firmamos um aperto de mãos.
- Não tenho outra saída senão confiar na sua capacidade, senhor Rourke. Tenha uma boa tarde.
- Igualmente. – Dei-lhe às costas e peguei o elevador. Lancei um aceno de cabeça à recepcionista, voltando a posicionar os óculos escuros em meu rosto. Os seguranças do estabelecimento vieram ao meu encontro e, novamente, a onda de luminosidade foi lançada em minha direção. Fiz um gesto para que os guardas aguardassem e imediatamente a agitação de repórteres concentrou-se à minha volta.
- As providências pertinentes serão tomadas em virtude do vazamento de parte do laudo pericial. Tal ocorrência não afetará o andamento do caso, tampouco o meu cliente. Sem mais declarações por ora. Tenham uma boa tarde. – Ignorei a sequência de questionamentos e retomei os meus passos, introduzindo-me no meu carro rapidamente. Dei partida com pressa, mal parando para respirar, só o fazendo no instante em que me deparei com o primeiro sinal vermelho.
Encostei a cabeça no apoio do banco e afrouxei a gravata, procurando amenizar a sensação sufocante a qual incomodava não somente o meu pescoço, como também o meu corpo inteiro. O toque do meu celular ecoou pelo interior do automóvel, o que foi o bastante para que um arrepio transpassasse a minha espinha, cujo só atenuou quando vi o nome de piscando na tela. Coloquei o aparelho no viva-voz e aceitei a chamada.
- E aí, ?! – Soou animado. - Está famoso, hein?! – Falou certamente se referindo às notícias recentes e eu ri sem humor.
- E ai, cara? – Disse, sem vontade nenhuma de tocar no assunto mencionado por ele, mesmo que de modo indireto.
- Tendo em vista esse tom de voz desanimado, acertei em cheio em ter te ligado. – Mencionou e eu o aguardei continuar a fim de saber o que ele queria. – O seu expediente já acabou? – Conferi as horas no relógio do painel antes de respondê-lo, surpreso pelo tempo ter passado tão rápido.
- Pode-se dizer que sim. Falta meia hora para acabar, na realidade. Por quê?
- Esplêndido! Estou a caminho do Crown Towers, está a fim de me encontrar lá e melhorar um pouco esse humor azedo? – Inquiriu entusiasmado e eu raciocinei sobre o convite ao longo de poucos segundos. – Vamos lá, . Não é como se encerrar o horário de trabalho minutos mais cedo fosse ocasionar problemas a você, futuro dono de tudo aquilo. – Protestou entediado e eu neguei com a cabeça, desaprovando mentalmente a sua fala.
- A questão não é essa, cara. Estou com um puta cansaço, meu dia foi um inferno. Preciso descansar.
- Qual é, irmão?! Tem certeza que vai dispensar um King George*? Desestressar é necessário! – Tentou mais uma vez. Suspirei e massageei as têmporas brevemente.
- Caralho, você é muito insistente. – Manifestei rindo fraco no mesmo momento em que o meu amigo riu com vontade. – Beleza. Dentro de alguns instantes eu chego aí.
- Sabia que eu podia contar com você, grande . – Expressou satisfeito. Despedi-me de e encerrei a chamada, apertando o botão de atalho com a finalidade de ligar para Bridget, a qual me atendeu logo em seguida. Pedi para que ela fechasse o meu escritório e mudei o percurso da rota, conduzindo o veículo sentido ao bar.

A estrutura harmoniosa do amplo espaço permanecia a mesma, embora sutis mudanças tenham sido executadas na parte interna do lugar cujo eu já não frequentava há um bom tempo. Cruzei o caminho de iluminação baixa e não encontrei dificuldade em avistar sentado em uma das mesas do vasto bar, parecendo estar em uma ligação com alguém. Fez um sinal com as mãos assim que captou a minha presença ali e finalizou a chamada, guardando o aparelho logo depois.
- Que demora, irmão! Veio de ré?! – Perguntou à medida que nos cumprimentávamos com um meio abraço corriqueiro.
- Devo te lembrar que agora é horário de pico e tem um trânsito do cacete em todas as vias expressas? – Inquiri cínico, me juntando a ele.
- Outch, vejo que alguém se encontra com a energia pesada. Quer um abraço? – Debochou satírico. Arqueei uma sobrancelha e o encarei sério, vendo-o erguer os braços num gesto de rendição. – Sério, . Conte-me como você está. Eu vi que as coisas não vão bem no caso em que você está trabalhando. – Avaliou intrigado. Afirmei devagar e passei as mãos pelo rosto e, em seguida, pelo cabelo.
- Às vezes eu tenho a impressão de que vou explodir de nervoso, cara. Esse caso é, sem dúvidas, o desafio da minha carreira. – Concluí, sentindo a exaustão me dominar e resultar numa pequena pontada em minha cabeça.
- Pensa no prestígio envolvido nisso, . Sua reputação só tende a subir. – Falou e eu me limitei a concordar enquanto pedia o meu drink. Notando que o tema da conversa não era do meu agrado, redirecionou o diálogo a outro rumo. – O Adrian irá fazer uma pequena comemoração no apartamento dele daqui a algumas semanas, aparentemente a academia dele está ganhando notoriedade.
- Sim, ele comentou comigo. A companhia cresceu no raking e ficou em primeiro, se eu não me engano. – Mencionei, bebericando o líquido de sabor amargo e textura macia, ambos já conhecidos pelo meu paladar.
- E você vai na celebração? – Interrogou, regularmente conferindo algo em seu celular posto sobre a mesa.
- É provável que eu dê uma passada lá após o expediente. E você? – Devolvi o questionamento e o meu amigo negou.
- Tenho uma viagem bem no dia. – Maneei a cabeça mais uma vez. O semblante de foi tomado por um sorriso sugestivo, com isso, franzi o cenho, não compreendendo o gesto. Ele se levantou e eu o acompanhei com a visão, ficando ainda mais confuso ao vislumbrar Betsy e outra mulher desconhecida por mim caminhando juntas rumo à nossa mesa. Lancei um olhar questionador ao meu amigo e também me levantei, não entendendo porra nenhuma.
- Olá, rapazes. – Betsy pronunciou, saudando com um beijo no rosto. Moveu o tronco em minha direção e deu um de seus sorrisos mordazes, arqueando os lábios cheios e tipicamente tingidos de vermelho. Pôs uma de suas mãos em meu peitoral e levou a outra até o lado esquerdo do meu rosto, pousando sua boca na parte direita da minha face, demorando-se ali propositalmente. A fragrância marcante adocicada misturada com o aroma de rosas penetrou minhas narinas, destacando a presença da mulher em nosso meio. – Bom te ver, . – Emitiu sem permitir que a sutil feição esperta vacilasse.
- Digo o mesmo, Betsy. – Expressei com um breve sorriso ladino.
- Essa é Lorrie, uma colega do trabalho. Lorrie, . – Betsy apresentou a mulher que até então conversava com Jonatas.
- Muito prazer, Lorrie. – Cumprimentei-a.
- Seu nome é imensamente famoso no meio jurídico, . O prazer é meu. – Sorriu e eu retribuí sem ter muito que lhe responder. Sentamos os quatro à mesa e, mais uma vez, fitei o meu amigo que ostentava uma postura aparentemente orgulhosa de seu feito, o qual eu não demorei a assimilar qual foi. Eu não faria perguntas a na presença das duas, ainda que desejasse confrontá-lo em relação àquilo. O encarei sério ao longo de milésimos de segundos e me integrei no conteúdo da conversa recém-instaurada.

(...)

- Como esquecer da nossa viagem de formatura do colegial?! Nós ficamos sem dormir por uns três dias e emendamos todas as festas possíveis. – Betsy lembrou, caindo na risada. e Lorrie encontravam-se em outra divisão do estabelecimento, restando somente minha antiga colega de colegial e eu na mesa anteriormente ocupada em sua totalidade. Acompanhei momentaneamente o seu riso e afirmei, rememorando tal episódio de minha adolescência extremamente bem aproveitada.
- Presumo que tenham sido mais do que três dias. – Deduzi, pondo fim ao líquido amadeirado agora inexistente em meu copo. A mulher descruzou as pernas e as cruzou mais uma vez, demorando um tempo razoável a fazê-lo. Segui os movimentos de suas cochas parcialmente cobertas por uma saia lápis cor de chumbo e arqueei o cenho dado à visão favorecida pela ação corporal. Subi a minha inspeção pelo corpo de Betsy com o semblante carregado de seriedade e encontrei a sua face aguçada num olhar ambicioso. Ela passou a ponta das unhas tão rubras quanto os seus lábios em volta da taça cristalina, tudo sem a mínima pressa, e prendeu parcialmente a carne de sua boca entre os dentes. Quieto e atento, eu apenas seguia os seus gestos com uma sobrancelha levantada.
- Sabe, ... – Iniciou, ainda concentrada no objeto translúcido. – Sempre me perguntei o motivo de nunca termos sequer ficado no decorrer de todo esse tempo. – Tocou indiscretamente a minha coxa, por um triz de chegar à sua parte interna. Fitei a sua mão posta no local e tornei a encará-la, sentindo um leve arrepio em função do toque. – Você não? – Concluiu meticulosa e vigilante. Eu nunca havia parado pensar em tal fato. Betsy era atraente. Demasiado atraente. Isso vinha desde muito tempo atrás, todavia, a nossa relação nunca passou de mera afinidade acadêmica.
Ao menos para mim.
Ela aparentava ansiar pela resposta que eu daria, não desviando a atenção do meu rosto nem por um momento.
- Para ser sincero, tal questionamento jamais se formou em minha mente. – Proferi. Sua fisionomia não se alterou. A pressão na área tocada por ela aumentou e eu semicerrei os olhos, deixando com que um discreto sorriso moldasse o canto dos meus lábios. Betsy impulsionou o seu dorso para frente e ficou cara a cara comigo. O hálito quente de Martini bateu contra o meu rosto e a sua outra mão foi de encontro a minha nuca, onde ela passou as unhas de maneira felina, arrancando um suspiro denso de mim.
- Decerto que nós precisamos sanar a minha dúvida e fazer você se questionar o motivo disso nunca ter ocorrido. – Soprou em meu ouvido e os arrepios se intensificaram. Em poucos segundos a sua boca carnuda tomou a minha de um jeito ávido e faminto, resultado de anos de espera. O gosto das bebidas se embaralhou no instante em que nossas línguas se tocaram sem espaço para protelações e eu apoiei uma de minhas mãos na lateral de seu rosto, encaminhando-a até a sua nuca. Por mais que a situação fosse extremamente agradável, a minha mente traiçoeira deu às caras e acionou uma ligeira fração de minha consciência, a maldita fração cujo foi o suficiente para que eu não conseguisse desfrutar do momento por simplesmente não me sentir conectado a nada daquilo.
Os lábios de Betsy pressionavam os meus com volúpia, e quanto mais eu me esforçava para me desligar da porra da sensação estranha de vazio, mais vago eu me sentia, chegando num ponto em que a frustração só não era maior do que a raiva de mim mesmo. Eu poderia sair daqui e simplesmente desfrutar de uma bela noite de sexo com uma bela mulher que evidentemente queria o mesmo que eu, todavia, o meu desejo carnal se desassociava do resto das minhas vontades. Cansado de toda aquela merda conflitante, encerrei o beijo aos poucos e me afastei cuidadosamente. A mulher um tanto quanto arfante me fitou confusa e eu suspirei, esfregando o rosto completamente aturdido pela minha reação não premeditada.
- Desculpe, Betsy, mas... Eu não estou no clima. – Confessei levemente aborrecido. Ela se aprumou e retomou a sua postura.
- Uau, , o que houve? Voltou com a Cassie, por acaso? – Perguntou satírica e eu neguei. – Vai ser babá de quem hoje? – Voltou a indagar e eu, com o semblante sério e inalterável, não lhe disse coisa alguma. Eu não era um otário para não saber que a causadora dessa merda de desorganização mental se tratava de Alyssa, e a menção indireta à garota não me ajudou a esquecê-la naquela altura da noite.
e Lorrie retornaram e eu fiz um sinal para que o garçom trouxesse a minha conta.
- Ué, . Já vai? – Inquiriu surpreso e eu assenti.
- Estou com um puta cansaço e amanhã acordo cedo. – Esclareci. – Mas valeu o convite, cara. – Falei, terminando de passar o cartão na máquina.
- Eu que agradeço por você ter vindo, irmão. – Dei-lhe um breve abraço de despedida junto a breves tapinhas em suas costas, vendo Betsy fazer menção de pagar sua parte.
- Não se preocupe, essas rodadas foram por minha conta. – Avisei-a enquanto me despedia de Lorrie. Ela arqueou o cenho e recolheu a mão, guardando o cartão na carteira. Deu tchau para e para sua colega, andando em silêncio ao meu lado rumo à saída do bar. Aterrissei a palma da minha mão em suas costas e a guiei pelo caminho do estacionamento, já avistando o manobrista buscar ambos os carros.
- Estou te devendo alguns drinks, . – Declarou despretensiosa. A olhei e sorri enviesado.
- Não se cobra por uma gentileza, Betsy. Está tudo bem. – Assegurei fitando um ponto fixo dali. O funcionário chegou com as chaves e a mulher me lançou uma piscadela marota.
- Gentileza se retribui com gentileza. Até mais, . – Concluiu, dando às costas e seguindo até o seu automóvel em seus usuais passos felinos. Ri fraco e neguei com a cabeça, adentrando o meu carro logo depois.
O toque do meu celular ressoou e, como de costume, experimentei o calafrio habitual tomar o meu corpo. Apanhei-o sem demora e não me surpreendi ao ler: “Número desconhecido” na tela ainda bloqueada. Abri a mensagem abruptamente e o meu maxilar travou de nervoso com os dizeres do conteúdo do texto.

”Olá, formidável (quiçá nem tanto) Doutor ! Como foi o seu dia? Fiquei sabendo que não muito tranquilo. Eu lhe fiz um favor e apressei o andamento do laudo da perícia só para que você não diga que eu sou uma pessoa horrível, contudo, não existe o bom sem o ruim. Boa sorte lidando com a imprensa!
Lembre-se de nunca deixar as suas emoções controlarem o seu julgamento, você nunca sabe o que (ou quem) está a perder.
Tenha uma noite estupenda!”


- Mas que porra! – Bradei em completa cólera e desespero. Apertei o aparelho em minhas mãos e soquei o volante com força, apoiando a testa ali ao passo em que a minha respiração tornava-se descompassada em razão da agitação e do nervosismo. Os meus músculos tensionaram outra vez e a sensação de estar morto e vivendo no inferno regressou com maior vigor.
Eu estava em pedaços;
Ao que tudo indicava, paz era a única coisa da qual eu nunca mais possuiria.

’s POV.
Peso. Muito, mas muito peso.
Meu braço dormente se assemelhava a uma gelatina em razão da enorme caixa que eu trazia comigo, estando esta repleta de cobertores, lençóis e roupas de cama no geral. Após juntar tudo durante algumas semanas, finalmente consegui quantidade o suficiente para as crianças do abrigo, e tal feito melhorou o meu humor quase completamente naquela sexta-feira razoavelmente fria.
Varri o pátio e a extensão do ambiente, estranhando a ausência da habitual movimentação entre o lugar agora tomado por um silêncio que chegava a ser fora do comum. Soltei a caixa no chão imediatamente senti um alívio percorrer a área dolorida, em seguida, massageei meus ombros e antebraços em meio a uma ligeira careta devido a moderada dor. Alcancei Trish com o olhar e sorri largo, gesto do qual foi prontamente retribuído pela mulher também sorridente que caminhava até mim.
- Olá, ! – Saudou, dando-me um ligeiro abraço.
- Olá! – Retribui o ato – Que silêncio é esse aqui? – Questionei, dando mais uma conferida no recinto.
- Essa ausência de pequenos correndo pra lá e pra cá é realmente rara, não é? – Riu e eu a acompanhei. – Está na hora do cochilo deles. – Esclareceu.
- Ah, claro! – Dei uma leve batida na testa pela lembrança. – Hoje eu cheguei um pouquinho adiantada. E trouxe um presentinho, aliás! – Curvei o meu dorso e mostrei-lhe a caixa cheia de panos. O semblante de Trish se iluminou em gratidão.
- Oh, meu Deus. Muito obrigada, ! Você não faz ideia do que isso significa para nós! – Contornou o meu corpo com os seus braços e me apertou, fazendo-me rir enquanto correspondia a sua atitude.
- Eu vou arranjar um jeito de conseguir mais. Esses estavam lá em casa há um tempo, mas não se preocupe, pois eu lavei um por um! – Falei satisfeita, sendo encarada de maneira terna pela mulher diante de mim.
- Você já fez mais do que pensa! Venha, vamos colocá-la lá dentro. – Proferiu alegre e pegou uma lateral da caixa. Eu fiz o mesmo com a outra. Carregamos o caixote corredor adentro até uma salinha a qual eu não conhecia até àquele momento. Subi o olhar e consecutivamente dei de cara com Cassie ali, nos fitando meio confusa em virtude de nossa entrada nem um pouco sutil. Notei uma câmera em suas mãos e pressupus que ela estivesse tirando algumas fotos do cômodo cujo eu parei para admirar só naquele minuto. A modesta sala parecia uma espécie de almoxarifado, onde diversos objetos encontravam-se armazenados em prateleiras, caixas e gavetas extensas. Uma poltrona de aparência desgastada ocupava o canto inferior direito do cômodo e, à sua frente, uma raque bege servia como apoio a uma televisão de boa qualidade, ligada num canal qualquer. A janela aberta propiciava uma sensação de frescor dentro do recinto, contudo, logo imaginei como aquele lugar ficaria abafado no instante em que a abertura a qual possibilita a ventilação fosse fechada. No geral, tratava-se de uma área organizada e bem conservada dentro de suas possibilidades, apesar de notavelmente envelhecido.
- Está precisando de algo, senhorita Privost? – Trish voltou-se à Cassie, que negou.
- As fotografias estão quase prontas, mas obrigada, de qualquer forma.
- Disponha. Fale comigo se houver algo em que eu possa ajudar. – Reafirmou e a mulher habitualmente elegante limitou-se em assentir, redirecionando sua atenção para a câmera. – , você pode aguardar por um momento? Tenho de checar se o lanche das crianças está pronto.
- Mas é claro! – Sorri – Vou retirar os edredons da caixa e dobrá-los em cima da estante, tudo bem?
- Fique a vontade, querida. Já volto, sim? – Inquiriu. Afirmei e comecei a tirar coberta por coberta do lugar onde elas encontravam-se guardadas, dobrando-as cuidadosamente. Era um tanto quanto estranho parar para analisar a situação. Cassie e eu, ambas no mesmo espaço prestando serviço à mesma instituição, mesmo que em circunstâncias diferentes.

(...)

"Giro de notícias da semana: Após vazamento de documentos confidenciais, , advogado de defesa de Lee Feldmann, quebra o silêncio (...)

De súbito, retirei totalmente o meu foco dos cobertores e fixei os meus olhos na televisão, surpresa em topar com a imagem de rodeado por repórteres ali naquela rápida vinheta. A julgar pela chamada da matéria, ele certamente estava enfrentando problemas no trabalho. Uma ligeira preocupação me acertou em cheio e me recordei de imediato quanto a sua atitude apreensiva diante da mera notícia de um assassinato no dia em que estávamos juntos em seu carro, relembrando de sua postura enrijecida antes de desligar o rádio de abruptamente.
Apesar de estar moderadamente magoada com , meu peito não deixou de se encher de aflição e desespero só de imaginar a possibilidade de algo ruim acontecer a ele. Pisquei algumas vezes e franzi o cenho, tentando dissipar tais pensamentos negativos da minha mente. Fitei Cassie de soslaio, vendo a sua expressão absorta e igualmente ressabiada. Um som de passos do lado de fora da sala chamou a minha atenção, fazendo-me olhar naquele sentido e sorrir largo ao enxergar um Archie sonolento bem diante da porta. Ele ainda não havia me visto. Coçou os olhinhos inchados em razão do cochilo e agarrou a manta localizada em seus pequenos braços, varrendo todo a extensão do recinto com os olhos. Quando enfim me enxergou o encarando de modo divertido, correu sala adentro e se jogou sobre o meu corpo. Gargalhei, retribuindo o seu abraço cheio de energia.
- Nossa, que recepção maravilhosa! – Exclamei extremamente feliz com o carinho.
- É a primeira vez que eu acordo e você já 'tá aqui! – Proferiu animado, mostrando as janelinhas ocasionadas pela perda dos dentes de leite.
- Você viu, seu dorminhoco?! – Cutuquei a sua barriguinha e ele riu, se encolhendo. – Achei que você não fosse acordar! – Brinquei, vendo-o balançar a cabeça em discordância repetidas vezes.
- A gente tem que acordar pra comer depois da soneca, senão a barriga faz um barulhão! - Disse com cara de sapeca e eu não consegui controlar outra gargalhada. – O que é isso? – Apontou para a caixa e para os diversos edredons no chão.
- São cobertas para proteger vocês do frio. – Respondi e as janelinhas ficaram à mostra novamente.
- Todo mundo vai ficar quentinho? – Questionou encarando os panos e o meu coração deu nó apenas de imaginar as necessidades que aquelas crianças passavam.
- Sim, vocês vão ficar bem quentinhos. – Acariciei os seus cabelos com ternura. Trish apareceu na entrada do cômodo e fez um gesto com as mãos, chamando o pequeno ao meu lado.
- Hey, malandrinho! O lanche está pronto, venha comer. – Avisou. Ele alternou o olhar entre mim e Trish como se relutasse sobre o que fazer.
- Vá lanchar. Você não quer que a sua barriga faça um monte de barulhos, quer? – Indaguei e os seus olhos se arregalaram ao passo em que ele negava. – Irei até o refeitório assim que acabar aqui, combinado?
- 'Ta bom. Vou sentar bem na ponta pra você me ver! – Comunicou e eu quase morri de amores, observando-o sair do recinto todo saltitante de mãozinhas dadas com Trish. Notei Cassie olhar na direção da caixa com certa curiosidade, deslocando o seu foco do objeto e levando-o até mim após bons minutos de avaliação.
- Magnólia comentou que o abrigo estava passando por um período difícil, entretanto, não achei que fosse tão ruim. – Julgou reflexiva e eu quase me assustei com o fato de que ela direcionara a palavra a mim.
- É bem ruim. Estão faltando muitas coisas, tanto para as crianças, quanto para o orfanato. – Respondi pesarosa. Eu não fazia ideia sobre até onde era permitido contar a respeito do assunto, dessa forma, achei melhor restringir a minha fala somente àquela frase. Cassie moveu a cabeça em compreensão e voltou a tirar suas fotos; Eu retomei a tarefa de dobrar as cobertas.

**

Adentrei as dependências da mansão e o meu coração acelerou ao ver o carro de estacionado no mesmo lugar em que costumava ficar. O porta-malas aberto indicava que ele certamente veio buscar o restante de suas coisas e, ainda que eu estivesse me habituando à sua ausência, ela não se tornava menos difícil. Segui até a entrada de serviço como sempre fazia e, ao invés de me deparar com a minha mãe na cozinha, quem se encontrava ali era o responsável pelo aumento da velocidade dos meus batimentos cardíacos. Apoiado na pia e com ambas as mãos ocupadas – uma por um copo d’água e a outra pelo celular –, ele aparentava estar absorto em suas próprias reflexões, tanto que eu precisei dar mais alguns passos para que, enfim, a minha presença fosse notada. No momento em que os seus olhos pairaram sob os meus, o meu coração que batia depressa se apertou.
ostentava uma fisionomia cansada, quase abatida. Quase tão abatida como no dia em que nos beijamos pela primeira vez, deixando-me tão preocupada quanto eu havia ficado naquela noite. Instantaneamente desejei saber qual era o problema, comprovando que sim, o problema existia, no momento em que ele não proferiu uma palavra sequer e apenas voltou a sua atenção ao aparelho que anteriormente tomava toda a sua concentração. Simplesmente assim. Simplesmente sem falar absolutamente nada. Franzi o cenho não compreendendo tal comportamento.
- Olá. – Arrisquei – Como você está? – voltou a me olhar. Largou o celular em cima da pia e transpassou a mão pela nuca.
- Bem. E você? – Devolveu a pergunta.
- Bem... – Respondi. O contato visual era intenso e contrastava com a recente atitude esquiva do homem que, calado e sério, limitava-se em me estudar com as íris inexpressivas. O gesto, no entanto, não durou muito e logo ele virou para frente, esvaziando o copo de água num gole só. Colocou o objeto de vidro em um canto qualquer da pia e desencostou-se de sua beirada, tudo envolto a uma feição gélida que me esfriava tal como um banho na temperatura negativa.
- Boa noite, . – Disse e saiu, não sem antes me fitar mais uma vez, levando consigo o ar pesado do qual emanava de si. O aroma de seu perfume permaneceu por todo o ambiente. Eu não o respondi. O choque com tamanha indiferença me fez continuar parada encarando o nada com dúvidas e mais dúvidas.
Um toque relativamente alto me acordou para vida e eu varri o lugar com os olhos à procura da origem do tinido, cujo se fez audível novamente. Segui o som e vi que se tratava do celular de . Apanhei-o com o intuito de devolvê-lo, porém, refreei o ato ao ler “Betsy” na tela. Engoli a seco e o peguei. O apito soou outra vez, vibrando em minhas mãos. Eu não devia olhar e sabia que era muito errado, entretanto, o meu sexto sentido gritava mais alto do que o timbre provindo das mensagens recebidas.
Passar os olhos entre as notificações da tela bloqueada foi o suficiente para que um solavanco atingisse o meu estômago, embrulhando-o de imediato.
A sensação era de ter o corpo adormecido, onde o meu coração se apertava, mas agora de tristeza.

Hey!

Obrigada pela companhia na noite passada, uma pena que não pudemos esticar...

Beijos... Na boca ;)


Minha respiração falhou e a garganta deu um nó que doía.
Encarei o celular me sentindo totalmente fora de órbita. Isso explicava o comportamento esquisito de . Ele provavelmente não queria me passar a ideia errada sobre nós, afinal, não somos nada um do outro. Mas por que agir de modo tão apático diante de mim? Será que toda a conversa e todas as coisas que ele já havia dito foram somente um pretexto para me ter nas mãos? De repente, a minha mente começou a trabalhar e fervilhar em pensamentos prejudiciais e danosos dos quais eu não estava apta a descontinuar ou lidar. Saí da cozinha em meio a passos automáticos e perdidos com o objetivo de alcançar antes que ele fosse embora, vendo-o percorrer o caminho contrário certamente notando a falta de seu aparelho eletrônico. Ele veio ao meu encontro e eu parei em sua frente, estendendo o celular em completo silêncio. Suas íris cravaram-se em meu rosto, permitindo que eu visse de perto o abatimento em sua face, a qual expressava um pesar cortante. Meu nariz ardeu e eu respirei fundo, engolindo toda e qualquer demonstração de melancolia que pudesse vir a surgir com a sensação de que algo ruim nos afastaria. O fitei de volta, firme e transparecendo a frieza que ele anteriormente manifestava, torcendo para que acabássemos com aquela troca de olhares o mais rápido possível antes que eu sucumbisse à louca vontade de derramar algumas lágrimas teimosas. Assim o fez. Pegou o aparelho e o guardou no bolso de sua calça social.
- Obrigado. – Falou e eu neguei com a cabeça. Não esperava que um possível diálogo se estendesse, embora achasse meio difícil que o seu jeito monossilábico mudasse de uma hora para outra. Sustentei o nosso contato visual desejando lhe questionar acerca de sua conduta evasiva, contudo, decidi por somente me manter calada, pois as palavras lidas á minutos atrás repercutiam em minha mente de modo que eu já não sentia vontade alguma de lhe dizer nada. não me devia satisfações do que fez ou deixou de fazer, todavia, eu desejava ouvi-las, apesar da minha parte racional gritar que a melhor atitude que eu poderia tomar era virar as costas e não tentar tirar água de pedra. Ouvir o meu lado lógico e coeso parecia ser o correto naquele momento, por isso, o acatei sem demora. – . – A voz grave soou baixa e enrouquecida no instante em que fiz menção de me virar. Descontinuei a ação e fitei o dono do timbre imponente, escorrendo os olhos pela figura cheia de seriedade. Mãos no bolso da calça, postura firme, olhar esgotado e inexpressivo; Se eu pudesse descrever , o único adjetivo possível seria: Confuso. A sua confusão estava me confundindo e eu não queria encarar tais sentimentos. Não com a mente tão bagunçada como ela se encontrava.
Ele respirou fundo e pareceu travar uma batalha interna entre proferir algo ou prosseguir na completa ausência de diálogo. Tal conduta não combinava em nada com o confiante que eu conhecida, mas a julgar pelo conteúdo das mensagens recebidas em seu celular e o seu modo estranho de agir perante a mim, não me surpreenderia que uma nova faceta de sua personalidade – até então desconhecida – estivesse se mostrando. Soltei um riso anasalado e neguei com a cabeça.
- Acho que hoje não é um dia propício para nós conversarmos. – Iniciei e o homem estreitou ligeiramente os profundos olhos atentos. – Sinto que algo está errado, mas não vou insistir por uma explicação. – Notei o seu maxilar travar. Seus olhos não se desconectaram dos meus e um fio de escuridão passou por eles, demonstrando que, definitivamente, algo não sairia bem de nossa sucinta interação. Uma brisa gélida como o clima que nos envolvia assolou o meu corpo e produziu um ruído oriundo das folhas dançantes das árvores, fazendo-me contornar o meu tronco com os braços a fim de me esquentar. O meu íntimo clamava pelo calor cujo o corpo de emanava, no entanto, eu teria que me contentar unicamente com a minha própria capacidade de evitar o frio.
- Não tem nada de errado, . – Afirmou e a minha vontade de rir de nervoso só aumentou. – O meu dia foi cheio e eu estou cansado. Só isso. – Declarou. Ri sem humor e assenti. Realmente, a noite anterior deve tê-lo cansado muito.
- Eu imagino. – A minha fala saiu com resquícios de sarcasmo, entretanto, não me importei. franziu o cenho e eu retomei a minha sentença. – Bom descanso, então. – Juntei os lábios num breve sorriso fechado, persistindo em observá-lo do mesmo modo em que eu era observada. Ele deu um passo para frente e ficou rente ao meu corpo, perto o bastante para que eu erguesse superficialmente a cabeça com o propósito de alcançar o seu rosto com os olhos. Sua mão direita saiu de seu bolso e foi de encontro à minha bochecha, onde ele a apoiou apenas para encostar os lábios em minha testa, tão rápido que eu quase não consegui assimilar.
- Se cuida. – Falou e se afastou na mesma agilidade em que se aproximou, distanciando-se sem olhar para trás. Ainda sem compreender o que estava acontecendo, o observei fechar o porta-malas e entrar no carro para, em seguida, dar partida e sumir entre a saída da mansão.
Se o seu instinto lhe diz uma coisa, você deve ouvi-lo.
Por mais que queiramos negar a existência de um conflito ou aquela singela impressão de que algo sairá dos trilhos, é impossível ignorar os sinais perceptíveis de que você está em um barco prestes a afundar. Era exatamente como eu me sentia: Naufragando. Como se o meu envolvimento com estivesse ficando por ali.

”Obrigada pela companhia na noite passada...”

Neguei com a cabeça ainda encarando o nada anteriormente ocupado pelo automóvel e respirei fundo. O meu estômago embrulhado denunciava quão afetava eu me encontrava e o nó em minha garganta persistia em me incomodar. Por fim, saí do centro do quintal e segui o caminho de casa em meio a passos robóticos enquanto a minha mente funcionava em fervorosa. Joguei a minha bolsa no chão ao lado do sofá e me arremessei no móvel confortável, encarando o teto no mesmo segundo. Tentei anuviar os meus pensamentos que teimavam em elaborar imagens de com outra e foquei nos detalhes de madeira que compunham a base do telhado, me surpreendendo com uma gota molhada enroscada no canto dos meus olhos. Limpei-a de imediato e expirei impaciente, constatando a mistura de emoções as quais motivavam as lágrimas teimosas, também resultantes da súbita saudade de um certo Pastor Alemão que sempre me alegrava em momentos como esse. O ruído de porta se abrindo me chamou a atenção e eu passei as mãos nos olhos, retirando os vestígios de choro do meu rosto ao enxergar minha mãe atravessando a divisão entre o modesto hall e a sala.
- Oi, filha. Chegou há muito tempo? – Questionou ao depositar um singelo beijo em minha testa.
- Mais ou menos. Fui até a cozinha, mas não te encontrei. – Respondi com um sorriso, empenhada em irradiar uma serenidade que eu não possuía.
- Ah, eu certamente estava na dispensa. – Explicou. – Hoje foi um dia bem parado. A Senhora e o Senhor ficam fora o dia inteiro e desde a partida de eles sequer jantam! O máximo que me pedem é um café ou chá, o que torna as minhas tarefas resumidas à organização de itens culinários. – Confessou enfadada, ligando o fogo e colocando algo numa panela. Torci o nariz ante a menção do nome de .
- Sabe o que eu acho? – Indaguei, sendo incentivada a continuar pela sua feição questionadora. – Acho que você deveria desfrutar desse tempo livre para se dedicar à confeitaria. – Ajeitei-me no sofá com o intuito de vislumbrá-la.
- Como assim, ? Eu ainda tenho as minhas obrigações, como seria capaz de estudar durante elas? – Perguntou interessada.
- Existem incontáveis tutoriais e dicas para a execução dessas receitas bem elaboradas e bonitas que você ama assistir em programas de tv. – Ela me fitou como se eu fosse louca e eu ri brevemente. – Internet, mãezinha! Aprimore as suas técnicas utilizando as tecnologias. Quem sabe você não se empolga e investe nisso? Imagina que maravilhoso seria sair daqui e ter o seu próprio negócio? – Disse já empolgada, vendo-a sorrir e compartilhar minimamente do meu ânimo.
- Não sei não, ... Na teoria isso é incrível, entretanto, sabemos que na prática a coisa muda de rota. Não posso dispersar do meu serviço, embora ultimamente ele não seja muito.
- Tentar não custa nada! Veja umas receitas, prepare-as e as sirva para o Senhor Henrico e a Dona Kyara. Garanto que eles não vão reclamar. – Comentei e dei de ombros.
- Vou pensar no assunto, certo? – Expressou sorrindo fechado e eu assenti. – Vai jantar? – Fiz uma careta e neguei.
- Estou sem fome. – Comuniquei a minha mãe, que cerrou os olhos em consequência da minha fala.
- Sem fome? Tem certeza? – Reafirmou a indagação, fitando-me ressabiada. Afirmei novamente e peguei a minha bolsa, levantando-me do sofá.
- É apenas cansaço. Só quero tomar um banho e dormir. – Esclareci, dando-lhe um beijo no rosto.
- Tudo bem... Boa noite, filha. Durma bem. – Murmurei um “boa noite” e me encaminhei para o meu quarto, colocando a bolsa de qualquer jeito num canto aleatório assim que cheguei no cômodo sossegado, encarando os livros espalhados sobre a mesinha posta ali. Apanhei uma muda de pijamas e, antes de seguir até o banheiro, fechei a cortina a qual dava visão do quarto – agora apagado – de .
Algo me dizia que eu teria que me acostumar com aquela sensação de vazio.

**


Sábado pela manhã era o meu momento preferido da semana e eu nunca soube explicar o motivo, só sabia que comumente me sentia bem em todos eles, principalmente quando os dias vinham seguidos de um tempo aberto junto a uma temperatura amena e agradável, exatamente como aquele em específico. Após um começo de expediente um tanto quanto agitado, onde Vicenzo e eu nos viramos em dobro para atender à demanda de clientes, enfim usufruíamos da calmaria seguida a todo o alvoroço ocorrido na loja.
- Psiu, lindinha. – O vocalista arrastou a sua cadeira até ficar do meu lado, cutucando-me com o indicador bem na curva da minha cintura. Dei um pulo e ele riu divertido quando lhe fitei com os olhos semicerrados.
- Eu não sou touchcreen, fofo. Funciono sem ter que me apertar. – Lancei-lhe um sorriso dissimulado sem mostrar os dentes e Vicenzo riu mais. Continuei a olhá-lo com uma mão apoiada na cabeça, aguardando que ele tinha para falar.
- Uma bala pelos seus pensamentos. – Disse, pegando um doce de dentro do pote localizado em cima do balcão e estendendo-o para mim. – Você está tão longe que daqui a pouco sai voando. – Brincou e, dessa vez, fui eu que ri. – Qual é o motivo de tamanho martírio, raio de sol? – Indagou imitando a minha pose, também deitando sua cabeça em uma mão. Suspirei e torci o nariz, protelando se lhe contava a razão do meu estado distraído ou se permanecia fingindo que nada me afligia. Vicenzo possuía um breve conhecimento acerca do meu envolvimento com , contudo, não havia lhe dado detalhes ou maiores explicações. Não era necessário, afinal de contas, para um bom entendedor, meia palavra bastava e ele decerto compreendera o contexto da situação.
- Digamos que, hipoteticamente, você esteja se envolvendo com alguém... – Comecei, sendo contemplada de maneira curiosa pelo meu colega de trabalho. – Porém, digamos também que você e essa pessoa tenham deixado bem claro que são apenas amigos. – Ele murmurou um “hm” e eu segui em frente. – Você aceita esse... termo, entretanto, começa a se perguntar até onde vai a relação entre vocês, já que a outra pessoa ocasionalmente manifesta atitudes que não condizem com um convívio de amizade. No desenrolar disso, ocorrem diversas coisas e esse indivíduo hipotético repentinamente demonstra-se distante. O que você faria? – Finalizei, estranhando o modo sarcástico, quase satírico, do qual Vicenzo me analisava.
- Beleza, . O que o playba fez? – Indagou sem intermediários, desvendando o pressuposto da minha questão com um tédio evidente devido a minha enrolação para concluir o que ele já sabia. Ri fraco e rolei os olhos em consequência da minha tentativa fracassada de ludibriá-lo.
- Desvendou bem, espertalhão. – Assumi, vendo o sorriso de coringa moldar-se em seu rosto.
- Digamos que, hipoteticamente, você seja péssima para omitir algo. – Tirou sarro ironicamente, arrancando-me uma breve risada. Era fato que eu nunca soube mentir muito bem. – Existe um ditado que eu curto muito: Se você dá muitas voltas, acaba por ficar tonto. Tome nota e seja direta, lindinha. – Piscou e eu franzi o cenho em virtude de seu conselho.
- Que raio de ditado é esse que eu nunca ouvi?
- Acabei de inventá-lo, mas não importa. Estou cem por cento certo de que você necessita de um ombro amigo e, pasme, eu possuo dois! – Exclamou exagerado apontando para ambas as partes referidas de seu corpo.
- Você quer que eu resuma ou está com paciência para ouvir tudo? – Perguntei sorrindo torto e Vicenzo torceu a sua face numa feição óbvia.
- O que você acha, raio de sol? Tenho cara de Ellen DeGeneres, por acaso? – Rebateu, fazendo-me gargalhar e erguer as mãos no ar em rendição.
- Certo, serei bem direta.
- Seja.
- O está estranho... – Expus e ele levantou uma sobrancelha.
- Você poderia ser mais específica, por gentileza? – Pediu claramente não compreendendo a situação. Respirei fundo novamente e soltei de uma vez.
- Eu dormi com o e agora ele resolveu me tratar com indiferença. – Vicenzo manteve a expressão de incógnita e eu continuei. – Nos vimos ontem e ele mal falou comigo e evitava até me encarar. – Esclareci e a figura tatuada à minha frente não pareceu impressionada enquanto afirmava vagarosamente.
- Vai ver o cara estava cansado ou coisa do tipo. Não coloque merda nessa cabecinha, coração. Fica na boa. – Proferiu daquele jeito descolado e descontraído que só ele tinha. Abocanhou outra bala do pote e juntou as mãos atrás da cabeça.
- Você não está entendendo. Ele agiu complemente diferente, como se nós fôssemos dois estranhos novamente. Dá pra notar quando a pessoa não te quer por perto. – Apontei deixando transparecer a minha mágoa. Reconhecendo que eu falava serio, o vocalista se ajeitou na cadeira e voltou-se para mim, estudando-me atentamente. – Sem querer eu vi uma mensagem no celular dele e o remetente era uma mulher agradecendo pela noite deles. Compreende onde o problema está? – Minhas palavras saíam carregadas de uma consternação que não me agradava. Vicenzo contorceu o rosto numa ligeira careta e concordou.
- Eu cairia de lado no chão muito feliz se fosse para dar uma voadora com os dois pés na cara dele. – Anunciou simplesmente. Ri alto e neguei com a cabeça.
- Belas palavras de apoio.
- Não tenho a intenção de soar insensível, lindinha, mas essa coisa de part-time lover and full time friend* só funcionou cem por cento para a Ellen Page e o Michael Cera, o que foi retratado em um filme, ou seja, ficção. Na vida real, essa coisa de misturar amizade com relacionamento é bem mais complicada. É tipo colocar tequila na boca e atear fogo: Você sabe que vai dar merda, porém, insiste mesmo assim. – Proferiu de modo preciso e eu fui obrigada a concordar. A probabilidade de minha aproximação com resultar em uma catástrofe gigantesca era muito alta, e, infelizmente, parecia estar se concretizando.
- Não quero imaginar que ele fingiu ser decente todo esse tempo só para me levar para cama. – Confessei e, pela primeira vez, vi Vicenzo com a expressão séria, sem qualquer sinal de brincadeira ou derivados.
- Se for esse o caso, ele não passa de um engomadinho cretino de merda que eu terei o prazer de quebrar a cara caso veja. – Falou, exteriorizando a personalidade forte que a sua aparência revelava e poderia justificar, muito embora se tratasse apenas de uma casca que não era fiel ao que o vocalista de fato representava no dia-a-dia. – Entretanto, pode não ser, o que significa que você não deve tirar conclusões precipitadas, lindinha. Espere mais um pouco e, se ele continuar agindo como o babaca que ele aparenta ser, dê um chute na bunda dele e mande-o se foder. – Encerrou com um sorriso largo. Ri de seu jeito espontâneo de lidar com os acontecimentos, já me sentindo melhor sem o peso de carregar aquilo sozinha, visto que ainda não havia falado com .
- Obrigada por me ouvir, Vivi. – Pousei minha mão nas laterais de sua boca e fiz um biquinho com ela. Vicenzo franziu o cenho e riu em seguida, desfazendo o gesto. – O som da sineta da porta ecoou pela loja, anunciando um novo cliente; Fitei a entrada e voltei minha atenção à figura ao meu lado que se preparava para ir até lá. – Deixa que eu atendo. Encare como um ato de gratidão. – Proferi já me levantando e refreando os seus movimentos.
- Aceitarei de bom grado, apesar de que um beijinho seria muito bem vindo também... – Comentou despretensioso e eu ri, lançando-lhe um olhar repreensor antes de cumprimentar a jovem parada frente às prateleiras de vinis dos anos oitenta.

**
Skinner (1953/1970) reconhece as emoções como predisposições para classificar o comportamento em relação às várias circunstâncias que o afetam. Isso requer conhecimento de como elas foram induzidas e como podem ser alteradas para que se possa reconhecer o comportamento emocional e as condições manipuláveis das quais é função.

Larguei as folhas em cima da mesa e cocei os meus olhos cansados de percorrer entre tantas letras por horas a fio, espreguiçando-me na cadeira a qual incomodava as minhas costas ao passo que sentia os leves estalos oriundos de uma coluna que protestava com veemência por repouso.
Após chegar em casa depois de uma agitada tarde no trabalho, o meu lado exausto desejava um pouco de estagnação e inatividade que apenas boas horas de sono proporcionariam, contudo, as obrigações falaram mais alto e, ao invés de me estirar em minha cama confortável, me sentei numa cadeira de madeira diante de diversos livros e várias folhas as quais tomaram completamente o resto do meu dia. Era consideravelmente difícil estudar a respeito das emoções quando você sequer se sente capaz de encarar as suas.
Levantei-me dali e segui para o banheiro a fim de tomar um banho e, enfim, relaxar com a sensação da água quente escorrendo pelo meu corpo. Passei os olhos pela extensão da minha pele enquanto me ensaboava e parei na sutil – quase apagada – marca roxa localizada no meu quadril. Toquei-a levemente e um suspiro resignado escapou entre os meus lábios comprimidos em descontentamento ao lembrar-me que os dedos de fizeram morada naquele local, deixando traços que até então perduravam em minha derme cujo sentia falta de seu toque preciso e rigoroso.
Removi o sabão e finalizei o banho sem dar espaço às paranoias que assolavam a minha mente; Me vesti e fui até a cozinha com a finalidade de preparar um lanche, afinal, o meu estômago gritava por comida. O céu alaranjado mesclava-se com as nuvens moderadamente escuras e o sol já se ocultava no horizonte, prenunciando o início da noite através do crepúsculo. Uma vontade repentina de fazer qualquer coisa que não fosse ficar em casa me tomou por completo, encobrindo os sinais de cansaço que até então se manifestavam intensamente. Quem sabe não topasse fazer algo hoje? Apanhei o meu celular e toquei no ícone de ligação, aguardando que a minha amiga atendesse a minha chamada. Segundos depois, sua voz habitualmente animada soou do outro lado da linha.
- Olá!
- Oi, mi amor. Como você está?
- Exausta! Cheguei agora a pouco da supervisão e estou procrastinando ao invés de organizar as tarefas do trabalho. – Reclamou e eu soltei um risinho baixo por obra de seu tom arrastado em lamúria. E você, sweetie?
- Igualmente cansada. Não parei desde que voltei da loja, o artigo de comportamental consumiu a minha tarde. – Me queixei, escutando concordar. – Sabe, eu estava pensando aqui e...
- Aí não, amor. Está na cozinha. – Franzi o cenho ao ouvi-la sussurrar. – Desculpe, . O Adrian está aqui e ele não sabe procurar as coisas ao invés de me perguntar. – Explicou aumentando o tom de voz e eu pude notar a risada do homem soar abafada pela ligação, fazendo-me rir também. Consegui, inclusive, imaginar o olhar zangado de . – O que você ia dizer? – Tomei um gole de suco e neguei com a cabeça, mesmo que o ato não fosse capaz de ser visto pela minha amiga.
- Nada... Ia perguntar se você quer fazer algo, mas podemos deixar pra outro dia. – Dei uma boa mordida no meu lanche enquanto refletia sobre qual seria o filme escolhido da noite.
- De jeito nenhum! Sisters before misters*. Venha pra cá, vou despachar o Adrian daqui a pouco. Faz tempo desde que tivemos uma noite só nossa. Aproveite e traga o seu material para irmos à aula na segunda.
– Proferiu animada e eu sorri.
- Podemos ficar na jacuzzi maravilhosa do seu terraço? – Inquiri divertida, sonhando com a hidromassagem da banheira.
- Com uma garrafa de vinho.
– Completou. - Fechado. Vou arrumar as minhas coisas e já saio de casa. – Comuniquei, apressando-me em terminar a minha modesta refeição. – Até daqui a pouco, mi amor.
- Até, sweetie. – Finalizamos a chamada e eu tomei o resto da minha bebida num gole só. Limpei o que eu havia sujado e tratei de colocar os meus pertences em uma bolsa, abaixando-me para recolher a blusa caída do guarda-roupa. Apanhei a vestimenta e não precisei observá-la mais do que alguns segundos para descobrir que o casaco pertencia ao . O mesmo casaco que ele me emprestou.
Guardei-o no lugar e fiz uma nota mental para que eu não me esquecesse de devolvê-lo assim que possível. Deixei o meu quarto e rumei em direção à mansão, encontrando minha mãe e Cícero conversando na cozinha.
- Olá para vocês. – Falei ao entrar no cômodo tomado por um aroma delicioso de chocolate e café.
- Ei, ! É quase impossível lhe ver por aqui, menina. – O senhor apontou no instante em que a minha presença fora notada por ambos.
- Ai, Cícero, eu ando tão ocupada que quase não paro em casa. Quando paro, não saio da frente dos livros. – Suspirei conformada e ele assentiu em compreensão.
- Aonde você vai, filha? – Minha mãe perguntou, fitando a bolsa estufada em meus ombros.
- Vou pra casa da . Só volto na segunda, tudo bem? – Informei e ela concordou.
- Bom, e eu vou dar uma olhada no jardim. Estão finalizando a restauração do cano e eu definitivamente não quero que a senhora se irrite novamente. – O senhor avisou divertido, arrancando-nos um ligeiro riso. – Tchau, menina. Juízo. – Virou-se para mim e eu fiz um “joinha” com as mãos, acenando para ele em seguida.
- Tem alguém em casa? – Questionei, notando uma bandeja com uma xícara de café posta sobre ela.
- Só o senhor . Ele ficou trancado no escritório durante o dia inteiro, saiu há poucos minutos. Agora está na área externa, sozinho. – Esclareceu. – Resolvi preparar um café e já ia levá-lo até lá.
- Ah, sim... – Maneei a cabeça vagarosamente – Eu vou passar pela área, quer que eu leve?
- Se você puder fazer isso, ficarei grata. Tenho que tirar o bolo do forno e a cobertura ainda não ficou pronta. – Disse, mexendo algo dentro da panela.
- Sem problemas, eu faço. Tchau, mãe. Até amanhã. – Depositei um beijo em seu rosto e tomei posse da bandeja.
- Cuidado, filha. – Pediu. Concordei e me retirei do cômodo em passos cuidadosos, locomovendo-me com atenção a fim de não derrubar tudo. A minha vista alcançou a figura ostensiva e comumente aprumada do senhor Henrico, cuja postura segura não vacilava independentemente de estar em um momento de lazer. Aparentemente aquilo era de família, haja vista que o mesmo acontecia com e a senhora Kyara. Bem como o filho, o hábito de fumar lhe pertencia, entretanto, ao invés de cigarro, o homem segurava um charuto marrom. Era inegável a semelhança entre os dois.
- Com licença. – Murmurei e ele se virou portando a face séria da qual lhe era usual durante o tempo que examinava a bandeja, permitindo que um sutil vinco se formasse entre as suas sobrancelhas. – A minha mãe preparou para o senhor. – Falei, pondo o objeto prateado em evidência. Em todos os anos morando na residência dos , nunca experimentei parar e analisar a situação familiar deles, pois, a meu ver, eles eram uma família endinheirada e tradicional: Sem muita emoção, dentro dos padrões e com a vida inteira ganha; Porém, de alguns meses para cá – e com a aproximação de –, muitas brechas se abriram e eu concluí que nada era o que parecia. Desde a relação dele com a Cassie, até a relação com os pais, todos os vínculos possuíam problemas e, a julgar pelo vazio estampado no rosto do senhor , tais impressões provavelmente eram verdadeiras. De repente, eu senti dó. Como era possível deter de um império cheio de prestígio, obter um patrimônio milionário, estampar a capa da Forbes e ainda assim carregar tamanha fisionomia fechada? A riqueza trazia consigo o infortúnio da solidão? Quanto se sacrificava em virtude do sucesso? Eu realmente gostaria de saber.
Notei que ele também me avaliava e imediatamente me perguntei se os mesmos questionamentos se passavam pela sua mente, porém, neste caso, o impasse se trataria de tentar imaginar como seria viver com tão pouco na conta do banco.
- Deixe-a aí, por favor. – Solicitou. Eu quase franzi a testa ao ouvir um por favor e posicionei a bandeja em cima da mesinha já pronta para sair dali. – Obrigado. – Como se não bastasse ser surpreendida uma vez, a segunda ocorreu logo em seguida. Não me recordava de escutar tais palavras vindas do homem diante de mim, que tornou a fumar o seu charuto sem preocupações. Pisquei algumas vezes estranhando a atitude, mas agradeci aos céus pelo ato educado.
- Por nada. – Respondi e, enfim, me retirei, tomando o caminho à saída da mansão.

**


- Hey, ! – Adrian me cumprimentou assim que abriu a porta da casa de .
- Olá! – Dei-lhe um breve abraço e adentrei o hall extenso, logo avistando a minha amiga se aproximar com um sorriso de orelha a orelha, vestindo um roupão espalhafatoso e portando duas taças cristalinas, uma em cada mão. Ri alto e o Adrian me acompanhou.
- Ao que tudo indica, eu perdi a minha namorada para você. – Brincou.
- Eu tenho os meus encantos, querido. – Lancei-lhe uma piscadela e me abraçou de lado.
- Vá encontrar os seus amigos e desgrude de mim, homem. A e eu temos um encontro. – Minha amiga entrou na brincadeira e ele ergueu as mãos enquanto gargalhava.
- Certo, certo... Eu já estava de saída. – Deu um rápido selinho na namorada e um beijo em meu rosto. – A propósito: Vou reunir os meus alunos e alguns conhecidos lá em casa. A academia está em primeiro lugar no ranking da Confederação de Boxe e vamos fazer uma pequena celebração daqui a algumas semanas. Está convidada. – Falou, direcionando-se a mim.
- Parabéns, mestre. – Felicitei divertida – E eu vou sim, sem dúvidas. – Confirmei e ele sorriu, avançando até a saída.
- Bom encontro, garotas.
- Obrigada. – Agradecemos em uníssono, olhando-o sair e fechar a porta atrás de si.
- Vou guardar a sua bolsa no meu quarto e você – apontou para mim – vai colocar um biquíni, a banheira está devidamente pronta. – Notificou, pousando as taças num lugar aleatório antes de tirar a bolsa dos meus ombros e andar rumo à escada.
- Será que eu posso tirar o meu biquíni de dentro da bolsa? – Perguntei retoricamente e ela parou. – Você está muito prestativa hoje. – Proferi divertida, puxando o conjunto sem demora.
- Meu sobrenome é agilidade, sweetie. Anda logo, tem um roupão para você atrás da porta do banheiro. E leve as taças assim que terminar! – Gritou já chegando ao topo da escada. Ri e neguei com a cabeça, adentrando o lavabo localizado perto do corredor. Vesti a roupa de banho e apanhei o roupão, saindo do cômodo em seguida; Peguei as taças anteriormente postas na sala e me desloquei até o terraço, encontrando dentro da jacuzzi.
- Prontinho. – Pronunciei, me juntando a minha amiga. A água quente produzia nuvens de vapor sobre ela e eu sorri satisfeita ao senti-la em contato com o meu corpo.
- Agora sim. – Entreguei uma taça a ela, que, sem demora, derramou o líquido avermelhado em seu interior, repetindo o procedimento com a outra. – Um merecido descanso após um dia corrido. – Suspendeu o utensílio cristalino e brindamos, gerando um breve tilintar em razão do curto atrito. Beberiquei o vinho e a sutil gradação alcoólica casou perfeitamente com o sabor da uva.
- Pra que você pegou todos esses cremes? – Inquiri ao ver os potes em cima de um banco ao lado da jacuzzi.
- Spa caseiro, sweetie. Escolha um e passe neste rostinho. – Falou, espalhando uma pasta azul no próprio rosto. Não consegui evitar uma risada, atraindo o olhar inquisitivo da minha amiga.
- Você está parecendo um smurf. Um smurf fofo. – Brinquei e ela jogou água em mim, acompanhando o meu riso. Distribuí o creme verde e gelado pela minha face e não foi necessário ver o meu reflexo em lugar nenhum para saber que eu me encontrava tão engraçada quanto , que ria da situação.
- Como estão as coisas com o ? – Perguntou de uma só vez. Torci o nariz e dei de ombros.
- Acho que não estão. – Respondi e ela me encarou sem entender. – Nos encontramos por acaso ontem e ele foi super frio. Mal me olhou, praticamente não falou comigo. – Ela franziu o cenho e eu prossegui – Ainda que fosse esquisito, tentei compreender a atitude, sabe? Mas vi uma mensagem no celular dele que fez todo o sentido.
- Espera... Como você viu? E o que você viu? – Interrogou claramente desconsertada.
- Fui devolver o celular que ele havia esquecido na cozinha e o aparelho bipou na minha mão. As notificações aparecem na tela de bloqueio e eu sei que é errado ler as coisas dos outros, no entanto, só passei os olhos pela tela e notei uma mensagem de uma mulher agradecendo pela noite dos dois. – Sorri sem humor e a feição de se retorceu em desatino.
- Não acredito! – Exclamou exaltada. Eu apenas assenti.
- Parece que avançamos um passo e retrocedemos dois. Eu tenho consciência de que não posso cobrar nada do e nem ele de mim, entende? Só que ser tratada daquela maneira distante foi extremamente frustrante. Já coloquei em dúvida absolutamente tudo o que ele já disse até então. Talvez tudo não tenha passado de um teatro à base de muita lábia para me levar pra cama. – Concluí fitando o nada em meio a um suspiro arrastado.
- Calma, . Antes de tomar partido a respeito disso, acho válido dar tempo ao tempo. Eu não coloco a mão no fogo por ninguém, principalmente por homem, porém, a decisão mais pertinente a se tomar, é esperar. Isso se você quiser. – Declarou me fitando atenta. – Você pode simplesmente deixá-lo pra lá e interpretar isso como um aviso de que esse envolvimento de vocês não daria certo, ou pode ignorar e continuar com essa amizade colorida estranha.
- Vou aguardar parar ver como as coisas se encaminharão. Não sou mais a tonta que eu era quando estava com o , se as minhas suspeitas se confirmarem, eu caio fora. – Findei concisa e minha amiga maneou a cabeça, afirmando. – Sentimento nenhum será superior ao meu amor próprio.
- Preach it, sister!* ergueu a sua taça em concordância à minha fala e eu sorri, embora o meu peito apertado demonstrasse que não seria tão fácil assim.

As últimas semanas foram baseadas em muito café e energético para que o meu corpo suportasse a maratona de estudos intercalados com trabalho, dado que o final do semestre se aproximava, trazendo junto com ele a sensação de que a faculdade havia se apoderado completamente de todo o meu tempo e energia. Eu mal notava o presente virar passado.
Tive que adiar as visitações na Instituição – posto que não teria tempo para cumprir os horários –, e logo me peguei imaginando se Archie interpretara a minha breve ausência de maneira errada, mesmo que eu o tenha avisado a respeito do meu não comparecimento temporário. Tal reflexão se transformou em melancolia ao passo em que eu transcrevia as anotações das idas ao abrigo, me lembrando de que o meu trabalho estava noventa por cento concluído e que eu não demoraria muito até finalizá-lo. Ajeitei o meu corpo na cadeira da biblioteca e varri o local com os olhos, refletindo a respeito da conclusão da atividade em questão. Não era de minha vontade deixar de comparecer ao orfanato, eu havia me apegado àquele lugar – sobretudo às crianças – e não fazer parte de tudo o que eles representavam não me parecia uma opção; Não ser contagiada com a personalidade enérgica de Archie sempre que ele se deparava com algo novo não era uma opção.
Após finalizar a supervisão de todas as terças, me enfiei na biblioteca do campus da faculdade e foquei nos livros e slides, tentando diminuir o máximo possível das atividades pendentes. Os trabalhos dos quais valiam metade da nota se acumulavam, os prazos se encurtavam e só de pensar na quantidade de matéria para estudar já me dava desespero. Admirei o entardecer cair através do céu repleto de nuvens brancas e recolhi meu material, cansada o bastante para não conseguir ler nem uma palavra a mais. Com dificuldade devido ao peso e a quantidade de coisas, arrumei a bolsa em meu ombro e me retirei da extensa sala, sentindo o brando mormaço do fim do dia aquecer moderadamente o meu corpo. A umidade indicava que uma chuva chegaria a qualquer momento, o que me fez apertar o passo rumo à saída das dependências da faculdade a fim de evitar me olhar caso as minhas suspeitas se confirmassem. Chequei o relógio em meu pulso e tratei de agilizar – ainda mais – o meu caminhar, visto que eu possuía compromisso dali a algumas horas. Não demorei a pegar o ônibus e me permiti cochilar durante o trajeto, pois os meus olhos já não executavam corretamente a árdua função de se manterem abertos.
Cheguei em casa e mal sentei. Tomei um banho rápido e parei em frente ao guarda-roupa, compenetrada na missão de selecionar a roupa que eu usaria naquela noite. Como de costume, protelei por bons minutos até finalmente eleger as peças escolhidas, vestindo-as imediatamente para, em seguida, terminar de me arrumar, já ouvindo o celular apitar diversas vezes devido a uma apressada. Borrifei o perfume em partes estratégicas do meu corpo e apanhei a pequena bolsa sobre a cama, rumando à saída do condomínio, onde a minha amiga já me aguardava.
- Olá, mi amor. – Cumprimentamo-nos com um beijo no rosto e ela deu partida assim que eu me acomodei ao seu lado no banco do passageiro.
- Olá! Estou com certa inveja de você, toda cheirosa e arrumadinha. Vim direto da clínica, não pude nem tomar um banho. – Reclamou num murmúrio desolado e eu ri brevemente. – Ainda preciso concluir a minha parte no nosso relatório de Psicanálise! Vou enlouquecer! - Não precisa se preocupar com isso, eu o terminei hoje à tarde. – Falei e desviou a atenção da pista durante poucos segundos somente para demonstrar sua incredulidade.
- O quê?! , por que você não me cobrou? Não era para tê-lo feito sozinha! – Exclamou inconformada.
- Pare de bobagem! Vi que você estava ocupada e não quis te importunar. Eu o fiz em questão de minutos, não foi difícil.
- Não estou menos ocupada do que você, senhorita. – Acusou repreensiva.
- Você tem a minha total permissão para comprar aquele Pretzel maravilhoso da cantina da faculdade como retribuição ao meu gesto de bondade. – Disse sorrindo largo, observando rir à medida que concordava com a cabeça.
- Justo. Temos um acordo.
- É um prazer fazer negócios com você. – Proferi entusiasmada e rimos juntas, conversando sobre outro assunto até alcançarmos o nosso destino.
Minha amiga estacionou o veículo na garagem do prédio em que Adrian morava e descemos em seguida, andando rumo ao hall de entrada do bloco no qual ele morava. O condomínio não apresentava uma arquitetura excessivamente luxuosa, tampouco ostentava adornos pomposos e majestosos, embora seguisse a mesma linha de estrutura dos apartamentos caros espalhados pela cidade. O elevador parou no andar requerido e adentrou a residência do namorado comigo ao seu encalço, grudando nele quase que imediatamente no instante em que o viu. Exprimi um ligeiro riso, aguardando ambos se separarem.
- Já não era sem tempo! Por Deus, um dia vocês farão uma fusão. – Gracejei através de um tom de protesto, causando gargalhadas no casal.
- Fico feliz que você tenha vindo, . – Revelou sorridente e eu acompanhei a sua expressão.
- Promessa é dívida, meu caro. – Afirmei de forma enfática posteriormente ao nosso ligeiro abraço.
- Tem bebida no refrigerador – apontou para a região a pouca distância de nós no que eu distingui como sendo uma espécie de espaço gourmet, onde um grupo de pessoas localizavam-se papeando bem-dispostas – e os petiscos estão na cozinha. – Encerrou. Assenti e não tive tempo de observar o local com mais tranquilidade, haja vista que pegou em minha mão com euforia, me guiando consigo entre o recinto ocupado por indivíduos espalhados de modo aleatório ali, cumprimentando-os de longe com acenos simpáticos.
- Perfeito! Estou morrendo de fome! – Clamou vibrante. Adrian riu e voltou a sua atenção a seus convidados enquanto minha amiga e eu atravessávamos a sala de estar sentindo a cozinha.
- Céus, também estou faminta. A última vez que eu coloquei algo no estômago foi na hora do almoço! – Lamuriei, só me dando conta do meu apetite gigantesco quando os meus olhos alcançaram os inúmeros tipos de sanduíches postos sobre a bancada da divisão da casa usada para o preparo das refeições. O recinto aparentava ser inteiramente planejado, todos os utensílios combinavam com o aspecto intencionalmente rudimentar do cômodo, o qual unia de maneira impecável a tonalidade preta e marrom conhaque dos móveis produzidos sob medida.
- Te entendo, sweetie. Eu fico tão atulhada de serviço que me esqueço de que sou um ser humano e preciso de comida. – Respondeu apanhando um dos lanches e eu fiz o mesmo. – O meu emprego é espetacular, mas exige demais em vários aspectos. Agora eu compreendo o motivo da clínica ser tão renomada.
- Encare isso como um preparo para o exercício da nossa profissão. Em breve você estará plenamente adaptada e com certeza sentirá menos essa pressão toda. – Tranquilizei-a. Dar um passo importante na vida – especialmente na profissional –, de fato, reivindica muito de nossa capacidade de resiliência. – Ao menos você já está trabalhando na área. Eu gostaria de sair da R&R e ter um emprego no campo da psicologia, mas os meus currículos são ignorados com sucesso. – Lamentei, dando uma mordida considerável no sanduíche em minhas mãos.
- Jura, ? Nem uma resposta? – Questionou compadecida e eu neguei.
- Estamos nos encaminhando para o penúltimo semestre, é um pouco frustrante. – Confessei em meio a um suspiro desconsolado. As empresas visavam funcionários com vivências internacionais, intercâmbios e afins, fato que dificultava a minha inserção no meio. O mercado apresentava-se cada vez mais disputado, as vagas regularmente cobravam mais do que eu poderia oferecer inicialmente, e ainda que eu tenha absoluta consciência do meu potencial, oportunidade é o primeiro passo para que eu consiga demonstrar minhas habilidades e competências. < br> - Você é super inteligente, garanto que não demorará a aparecer algo. Só não desanime, sweetie. – me confortou. Sorri e neguei.
- Não reconheço essa palavra, mi amor. Ela não consta no meu vocabulário. – Pisquei determinada.
- Não esperava menos de você, de qualquer forma. – Imitou o meu gesto exprimindo cumplicidade. – Vamos pegar algo para beber e socializar, agora já me encontro apta a estabelecer contato com o público. – Falou conforme acabávamos de comer, fazendo com que eu risse de seu jeito revigorado após forrar o estômago. Retiramo-nos da cozinha e percorremos a sala de estar até a parte externa do apartamento, nos unindo a Adrian e a uma parcela dos demais convidados os quais compunham o pequeno conjunto de pessoas. me entregou uma long neck e eu logo me empolguei com o tópico discutido ali, rapidamente me envolvendo na conversa animada sobre teorias da conspiração.

- (...) Eu tentei ensiná-la a dar um jab* e ela quase quebrou o meu nariz! – Adrian relatou exasperado e todos gargalharam. As minhas bochechas doíam de tanto que eu ria ao ouvi-lo contar a respeito do dia em que acertou um soco bem no meio de seu rosto, relatando o ocorrido com uma representação teatral absurdamente engraçada. – Eu tenho uma cicatriz como prova, como vocês podem ver. – Apontou para o seu dorso nasal, e lá havia um ligeiro relevo comprovando que, de fato, o golpe fora forte. – Eu namoro com o Muhammad Ali*! – E aquele foi o estopim. Joguei a cabeça para trás, rindo como nunca da expressão boquiaberta da minha amiga e da comparação feita pelo seu namorado.
- Não subestime este rostinho de princesa, querido. Eu sou muito boa de briga, já quebrei o dente de um cara na balada porque ele foi escroto com uma garota perto de mim. – Disse e eu imediatamente me recordei do fato.
- É verdade, eu estava junto. – Assegurei – O imbecil não aceitou um “não” e ficou revoltadinho, proferiu barbaridades para a garota e deu um puxão horrível no braço dela. Eu mandei o cara se afastar e ele se cresceu pra cima de mim, só que eu não tive tempo de assimilar o que o babaca faria porque quando percebi, o punho da já estava enfiado na boca dele. – Finalizei e não consegui refrear uma risada devido à lembrança.
- Desci o cacete mesmo, não me arrependo. – Afirmou. Adrian a encarou surpreso, puxando-a para um breve selinho.
- Que orgulho, amor. – Expôs todo pomposo e um coro de vaias simulando aversão preencheu o ambiente, sendo substituído por risos em seguida. O som da campainha ecoou anunciando que mais alguém havia chegado e Adrian pediu licença, deslocando-se rumo à porta com o objetivo de receber seja lá quem fosse. Desviei o foco daquela direção e joguei a garrafa da cerveja no lixo, constatando que bebi o líquido em abundância por efeito da louca vontade de ir ao toalete.
- Onde fica o banheiro? – Perguntei à .
- Atravesse a sala e entre no corredor. É a primeira porta à esquerda. – Explicou e eu assenti, comunicando-lhe que já voltava. Efetuei o caminho que me fora dito e achei o cômodo sem grandes problemas. Fiz o que tinha que fazer, lavei as mãos e regressei ao local do qual eu anteriormente ocupava, franzindo o cenho no instante em o olhar significativo da minha amiga se conectou ao meu durante o tempo em que eu andava sentido à área externa.
Notei a presença de mais uma pessoa li e estreitei a visão enquanto admirava o indivíduo cujo encontrava-se de costas. Eu conhecia aquele corpo e aquele cabelo; Reconheceria de qualquer forma. Diminuí o passo e o meu coração produziu as habituais batidas frenéticas num ato contínuo o qual só se sucedia quando me deparava com a sua figura imponente.
- Ah, olha ela aí! , o seu celular estava tocando. – Adrian avisou. Não era necessário que ele se virasse para que eu comprovasse o que eu já sabia, entretanto, ele o fez, apenas reforçando a minha certeza de que aqueles olhos me tiravam de órbita como nenhum outro já tirou.
girou parcialmente o tronco e o nosso contato visual foi imediato. Eu podia sentir o sangue pulsar em minhas veias diante de sua análise repleta de seriedade, era quase como se ele me despisse somente através daquele ato. Meu estômago se agitou e as minhas mãos suadas denunciavam o efeito que aquele homem causava em mim.
Retornou a sua pose e uma ligeira decepção me assolou. Eu esperava que ele ao menos exprimisse um de seus sorrisos ladinos, porém, nada aconteceu. A sensação de levar um banho de água fria deu às caras mais uma vez. Ao invés de me dirigir ao espaço aberto do apartamento, mudei o trajeto e alcancei a minha bolsa em cima do sofá, reconhecendo ao meu lado sem demora.
- Eu esqueci de considerar a hipótese de que o viria. – Comentou e eu dei de ombros.
- Já era de se esperar, temos amigos em comum. Não é grande coisa. – Emiti, checando a ligação perdida no meu celular. – Eu só estou a ponto de explodir em consequência da maneira como ele me encarou, mas até aí tudo bem. – Soltei um tanto quanto nervosa e a minha amiga riu fraco.
- É bom que o tenha vindo, assim você verifica se o comportamento esquisito continuará ou se foi um evento isolado acarretado por algum problema aleatório. – Considerou.
- Sinto que eu já tive a minha resposta. Ele me olhou, entretanto, não manifestou nenhuma reação relevante. – Suspirei e guardei o aparelho na bolsa, não me recordando do número na lista de chamadas perdidas. – Eu não vou me anular por causa disso, de qualquer modo. A minha consciência está limpa.
- E isso é o mais importante. – me apoiou e eu sorri, regressando ao local previamente premeditado junto a ela. Aproveitando que encontrava-se mais afastado conversando com Adrian, parei para estudá-lo com mais calma. A roupa social demonstrava que ele certamente havia acabado de sair do trabalho; Se livrou do porte formal favorecido pelo uso do terno e deu abertura para um aspecto mais despojado ao trajar somente uma blusa branca habitualmente dobrada nos cotovelos, onde a calça de linho preta acompanhada do cinto igualmente preto resultava em minha costumeira mania de morder os lábios ao transpassar os olhos por cada demarcação de seu corpo bem delimitado pelas peças de roupa.
Apanhei mais uma long neck e desloquei a minha atenção à e aos demais presentes na rodinha a qual fazíamos parte, empenhada em resistir à tentação de encarar o homem cujo emanava uma indiferença que machucava.

Eu já não suportava mais o clima pesado entre mim e , sobretudo, não suportava não ter conhecimento sobre o que motivou tal atmosfera incômoda. Tentar agir normalmente só piorava a minha raiva – a qual crescia gradualmente – sempre que o flagrava com as íris perdidas em minha direção, tão vagas que era difícil supor qual era o devaneio que lhe desgastava.
Um considerável número de convidados já haviam partido, restando apenas alguns indivíduos espalhados pelo apartamento e terraço. e eu conversávamos na sala; Adrian, e Paolo – o qual chegara há não muito tempo – encontravam-se no sentido oposto do cômodo em que estávamos, imersos no próprio assunto.
- Eu simplesmente detesto quando as pessoas não colocam o lixo no lixo. – apontou para uma boa quantidade de garrafas espalhadas em cima da mesa com a feição desgostosa.
- Pode deixar que eu as levo até à cozinha, já ia fazer isso com essa, de qualquer modo. – Expus a long neck em minhas mãos para minha amiga, que exibiu um sorriso largo e assentiu. Ri e levantei-me do sofá, me dirigindo à mesa localizada ao lado de Adrian e companhia, começando a apanhar as garrafas vazias postas sobre o móvel a fim de jogá-las no lixo junto a minha igualmente esvaziada.
- (...) Achei que você fosse viajar com o já que agora vocês são sócios, mesmo que indiretamente. – Adrian comentou a Paolo, que negou com a cabeça. Só a menção ao nome de já me causava repulsa.
- Fechamos negócio, contudo, os trâmites de ambas empresas são divergentes neste aspecto, então preferimos não incluir transações comerciais no contrato. – Esclareceu.
- Ele comentou por cima quando me avisou que não poderia vir, todavia, não compreendi de início, cheguei a pensar que você não viria. Inclusive, , estou surpreso que tenha vindo sozinho. – De costas para os três e organizando as garrafas, me concentrei na última frase proferida por Adrian. A sensação ruim surgiu e, acompanhada dela, surgiu à impressão de que àquele tópico não me agradaria.
- Não entendi o que motivou tal surpresa, Adrian. – A voz de finalmente fez-se audível, tão grave e enrouquecida como nunca. Prendi a respiração e, me preparando para a resposta que viria a seguir.
- O comentou que vocês fizeram um happy hour e que a Betsy estava lá, cara. Você deixou a minha festa acompanhado dela e também ficaram juntos há pouco tempo, presumi que estava acontecendo algo. – Precisei segurar as garrafas com o objetivo de não permitir que elas caíssem de minhas mãos, embora tenham trepidado moderadamente. De repente todas as informações se encaixaram. A mulher das mensagens era a mesma mulher da festa de Adrian. O solavanco em meu estômago uniu-se aos diversos sentimentos tóxicos que permeavam o meu corpo e mente. Se fora quem contou a Adrian a respeito de tudo isso, significava que ele possuía ciência de que eu fiz papel de idiota nas mãos do amigo dele e, com certeza, faria questão de salientar este fato com discursos preestabelecidos como se o título de senhor da razão pertencesse a si mesmo. Embora eu estivesse de costas para o trio, me encontrava inteiramente no campo de visão de , dado que ele se localizava entre os amigos, e eu, à sua frente, o que significava que ele decerto sabia que eu escutara a conversa. Atordoada, firmei as garrafas em meus braços e zarpei em direção à cozinha entre passos robóticos e um tanto quanto apressados, não desejando ouvir mais nada. Depositei-as na superfície da ilha do cômodo em questão e encarei um ponto fixo aleatório, totalmente perplexa com a chuva de informações jogadas bem na minha cara.
A imagem que eu tinha de desfazia-se progressivamente em pedaços dolorosos de frustração e incredulidade, aos poucos transformando-se em um gigantesco ponto de interrogação.
O que aconteceu com todas as coisas ditas por nós? Por ele?!
Onde estava o transparente e direto que não era adepto à joguinhos imaturos?
Nada fazia sentido.
Um ruído vindo da entrada chamou a minha atenção e eu automaticamente me virei, desejando não tê-lo feito quando avistei a figura do homem demasiado sério introduzindo-se inesperadamente nas dependências da cozinha, fechando a porta atrás de si logo depois.
Nossos olhos se conectaram;
A mágoa refletia-se nos meus;
A severidade irradiava nos seus;
Sustentei a conexão entre eles, ainda que fitá-lo profundamente me causasse inúmeros sentimentos e sensações diferentes. A minha mente gritava para que eu fosse embora dali antes mesmo de ouvir o que tinha a dizer, todavia, eu merecia explicações. Merecia saber por que diabos o seu comportamento se alterou de uma hora para outra, merecia saber caso ele tenha se interessado por alguém, eu merecia ficar livre dos questionamentos que rodeavam a minha cabeça confusa e, acima de tudo, merecia, enfim, acabar com a minha bolha de expectativas fracassadas no que se dizia respeito ao nosso envolvimento. Ele parou frente à porta recentemente fechada e escondeu as mãos no bolso de sua calça social. Eu não me movi, tampouco proferi palavra alguma.
- Nós precisamos conversar, . – Meu nome soou forte em sua voz firme.
- Uau, vejo que a sua capacidade de falar retornou! Que bom! – Expressei transbordando cinismo, rindo de modo sarcástico. A postura rija do homem não se alterou, ainda assim, pude notar os seus olhos analíticos se estreitarem quase que imperceptivelmente.
- Preciso que você me escute, pode ser? – Solicitou com a expressão fechada. Cruzei os braços e encostei-me na pia.
- Vá em frente. – Encorajei-o, seca. Ele suspirou e eu reuni toda força necessária para não fraquejar perante o seu jeito de me estudar, parecendo devanear ao passo que escorria as íris sobre as minhas.
- Você tem todo direito de não querer me escutar, a propósito. – Avisou. Ri sem humor e neguei.
- Pelo contrário, . Eu aprecio muito resolver as coisas de forma direta e sem joguinhos. – Alfinetei satírica e ele permaneceu impassível.
- Eu nunca quis que nada disso tomasse o rumo que tomou. Na verdade, eu não quero – foi a vez dele externar um riso seco e menear a cabeça negativamente –, mas certas situações fogem do nosso controle e não há pra onde correr. – Franzi o cenho sem entender.
- O que você está querendo dizer? – Questionei desorientada, não compreendendo o rumo da conversa. – Todo esse monólogo é desnecessário, não faça uma introdução descabida para adiar o que está mais do que óbvio para mim e acredito que para você também, . Eu não sou boba, tudo bem? – Falei já pressentindo a minha calma ir pelos ares.
- E você acha que é fácil te olhar sabendo que eu fui um merda por não fazer ideia de como conversar com você e simplesmente ter sumido por semanas, ? Como você imagina que é ter uma conexão tão forte com uma pessoa, no entanto, não poder ficar com ela?! – Perguntou igualmente perdendo a serenidade. Ambos havíamos nos deslocado do lugar onde estávamos, aproximando-nos moderadamente.
- Tenho bagagem o suficiente neste aspecto para afirmar que não é bom. – Declarei direta com o coração apertado. Encarar o semblante pesaroso de não ajudava.
- Nós não podemos ficar juntos, estar comigo implica ter várias coisas a perder, por mais que você ache que não. – Findou e o meu estômago revirou.
Nós não podemos ficar juntos.
Engoli a saliva com dificuldade e deixei visível a minha confusão ao piscar várias vezes com o coração na mão.
- ”Não podemos”,”não posso” – Parafraseei a sua fala, já sem paciência nenhuma. – Você pode ser sincero e me contar o que houve, pelo menos?! Soltar palavras sem dar significado a elas não adianta de muita coisa. – Pedi. Ele transpassou as mãos pela nuca e em seguida pelos cabelos, desconfortável com as minhas inquisições. – Seu silêncio possibilita que eu o interprete da maneira que eu quiser, sabia? Então é assim? Fala que somos amigos, diz mil e uma frases bonitinhas para depois me ignorar após transarmos? Era apenas sobre sexo, no fim das contas? – Disparei irritada e o que eu lhe disse aparentemente o pegou em cheio, visto que os seus olhos se estreitaram e a sua feição tornou-se colérica, bem próxima de ofendida.
- O quê?!... – Balançou a cabeça em sinal de desaprovação – Eu não sou um moleque, ! – Bradou inconformado.
- Então pare de dar desculpas esfarrapadas e seja franco comigo, que saco! – Explodi exausta. A tensão era tão densa que possivelmente daria para cortá-la com uma faca. expeliu o ar com força e, mais uma vez, percorreu as mãos através dos cabelos, nitidamente nervoso. Fixou sua atenção em mim e observá-lo de perto doeu. Doeu devido a inúmeras razões, principalmente por, consequentemente, ser capaz de enxergar sua fisionomia repleta de uma intensidade e rigidez cortantes.
- Tem muita coisa acontecendo, . O melhor é que nós nos afastemos. – Uma parte de mim já sabia que isso ocorreria, porém, ouvir da boca dele só tornava tudo pior. Eu me sentia descartável. Mordi o lábio e assenti devagar, assimilando a sua sentença enquanto meus olhos ardiam em brasa. O homem contorceu a sua face em algo que se assemelhava a pesar e fez menção de levar às mãos ao meu rosto, no entanto, recuei, não permitindo que ele completasse a ação.
- Eu te respeito, embora não entenda. Não vou ficar a mercê da sua hesitação, pois não tenho o direito de te cobrar nada, não é mesmo? Faça o que quiser, fique com quem bem entender, só não se esqueça de que existem várias formas de se manter uma relação saudável com as pessoas, e mentir ou omitir não é uma delas. – Ultimei, odiando a sensação de estar com a garganta fechada em um nó dolorido. não desgrudava os olhos dos meus, preso em sua costumeira postura séria e avaliativa.
- Nada é tão fácil quanto parece, ocasionalmente temos que abrir mão de algumas coisas em prol de outras e isso não significa que elas sejam menos importantes. – Disse em meio a um tom consumido por insatisfação. – Eu possuo consciência dos meus atos, portanto, não vou pedir para que você me compreenda.
- Que ótimo, porque eu, definitivamente, não compreendo. Até perguntaria o que houve com o ”não irei abrir mão de estar com você” , mas, francamente, cansei de não receber uma resposta clara. No fim, você já teve o que desejava de mim. O mundo é fácil para pessoas como você. Está acostumado a ter tudo o que quer e conseguiu. – Sorri de maneira irônica e me afastei alguns passos. expressava uma mágoa quase palpável. Suas sobrancelhas estavam minimamente unidas e a e testa discretamente franzida. Ele retomou a nossa proximidade ao movimentar os pés até mim novamente, por um triz de encostar os nossos corpos; Engoli a seco e prendi o ar.
- Olhe bem para mim e responda, : É isso o que você, de fato, pensa? Você acha que eu seria um puta de um babaca a ponto de fingir te querer por perto apenas para te levar pra cama? – Perguntou fitando diretamente dentro dos meus olhos de um jeito tão profundo que fez com que eu me perdesse por um milésimo de segundos, a um triz de vacilar durante o seu gesto demasiado intenso. Um leque de expressões e sentimentos perpassaram seu semblante e eu senti as lágrimas as quais lutei bravamente para não surgirem fazerem-se presente, marejando os meus olhos.
- Se você não me provar o contrário, sim. – Comuniquei sem delongas e ele pareceu decepcionado com a resposta, considerando o seu vagaroso maneio afirmativo com a cabeça.
- Não dificulte as coisas. – Emitiu num tom gélido e grave. Neguei, dando alguns passos para trás novamente.
- Não se preocupe, eu não vou mais dificultar. Já ouvi o bastante. Você tem muita lábia, . Meus parabéns! – Dei-lhe as costas e não o ouvi proferir mais palavra nenhuma. Abri a porta da cozinha e marchei em meio a passos rápidos e duros pelo corredor, sentindo, enfim, o aspecto molhado das lágrimas umedecendo a minha face. Passei tal qual um foguete pela sala e agradeci mentalmente por Adrian e Paolo não se encontrarem mais ali, apenas , que veio ao meu encontro no instante em que me avistou.
- , o que houve? – Questionou estarrecida e eu funguei baixo, apanhando a minha bolsa de cima do sofá.
- Eu posso explicar depois? Só quero ir embora. – Disse a ela, que apressou-se em pegar suas chaves sobre a mesinha de centro.
- Tudo bem, eu levo você. – Falou me estudando repleta de preocupação.
- Não precisa. Não está tão tarde, eu realmente preciso de ar, sabe? Prometo que te ligo assim que chegar em casa. – Tentei transpassar firmeza através de um riso frouxo, limpando as gotas de choro dos meus olhos lacrimejantes enquanto caminhávamos rumo à saída do apartamento. Ainda que contrariada, concordou.
- Não se esqueça de me ligar e tome cuidado, sim?
- Pode deixar. – Dei-lhe um breve abraço – Agradeça o Adrian pelo convite e diga que eu tive que ir embora, por favor?
- Claro, sweetie. Eu falo com ele. – Sorri e saí porta afora, pegando o elevador sem demora, deixando uma apreensiva para trás. Encostei-me na parede fria do cubículo e respirei fundo, concedendo ao meu pranto a liberdade de cair sem que o reprimisse.
O meu desconfiômetro havia falhado. Eu devia ter presumido que tudo estava bom demais para ser verdade, no fim das contas.
Eu batia o pé e enchia o peito ao dizer que me mantinha com os pés no chão quanto a minha ”relação” com ;
A teoria era sempre mais fácil comparada à prática, e a partir disso, concluí somente uma coisa: Mentir para si mesma é sempre a pior mentira.


Continua...

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Nota da autora: Olha só uma att dupla!!!!! Sei que demorei bastante para atualizar e essa é a minha maneira de me redimir. ^^ Obrigada pelos comentários, agradeço demais pelo apoio, lindezas! Espero que gostem. Qualquer coisa, falem comigo pelo ask ou pelo grupo de INHTP. Os links estão na parte "sobre a autora" na página inicial da fic. <3333



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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