Última atualização: 31/12/2019

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Capítulo 17

"Mal posso esperar para romper essas mudanças emocionais, parece tanto como um caso perdido." H.A.T.E.U. - Mariah Carey.


Narração em terceira pessoa:

Ira.
Substantivo do qual possuía inúmeros significados, dentre deles: Sentimento de ódio, de rancor generalizado dirigido a uma ou mais pessoas em razão de alguma ofensa, insulto etc, também podendo remeter gana em função de alguma situação injuriante e indignação. Naquele caso, a última opção lhe era mais cabível.
Um misto de revolta e incredulidade deixavam-no com um imenso desejo de quebrar a taça de cristal francês a qual segurava com extrema força enquanto contemplava, pela quinta vez somente naquele dia, a face do herdeiro do império na tela da TV, cheio de si como não fosse um reles mortal tal qual o restante dos seres humanos.
Não podia negar que, apesar da ojeriza nutrida pelo homem, sua maneira de desafiá-lo o estava distraindo de sua vida comumente regada à rotina.

”As providências pertinentes serão tomadas em virtude do vazamento de parte do laudo pericial. Tal ocorrência não afetará o andamento do caso, tampouco o meu cliente. Sem mais declarações por ora.”

Riu ácido e bebericou o líquido amargo contido na taça.
Ah, ele o faria engolir toda essa arrogância e excesso de autoconfiança. E como iria! Os assuntos pendentes os quais os envolvia iam muito além daquele caso em particular, onde, mais uma vez, o herdeiro fora requisitado para atuar contra os interesses do homem cuja ganância não possuía fim.
Por um infortúnio do destino, ambos os caminhos sempre acabavam se cruzando e, neste jogo de conveniências – sendo o ganho e aumento de capital o seu principal objetivo – nada, nem ninguém, o atrapalharia. A última pessoa que tentara atravessar os seus negócios acabara com projéteis de bala no corpo, de qualquer forma.
“Bem, azar o dele” – pensou enquanto apanhava o aparelho celular posto sobre a mesinha de centro da sala. Não tinha culpa se um ou outro desavisado ousava atravessar a sua rota e interferir nos seus planos, ele não estabelecia distinção sobre quem teria que derrubar para que tudo se mantivesse intacto, má sorte da pessoa que ousasse confrontá-lo.
Discou o número do comparsa e se ajeitou na poltrona Charles Eames, aguardando pelo momento em que seria atendido. A chamada fora aceita após alguns toques, revelando o tom de voz levemente aborrecido do cúmplice encarregado de coletar informações e deixá-lo a par do que ocorria.
- Estou parado em frente ao prédio há horas! Qual a razão da demora?! – Ralhou impaciente e o outro homem revirou os olhos, insatisfeito com a agitação do escolhido para contribuir com seus objetivos.
- Não seja apressado, a afobação nunca nos leva a lugar nenhum, meu caro. Quais as notícias da noite? – Inquiriu interessado e cobiçoso por algo que excitasse a sua mente degenerada.
- Eu que lhe pergunto. Lembre-se de que foi você quem solicitou que eu o seguisse, sendo assim, o fiz. Nada de novo aconteceu, ele entrou no condomínio e continua lá. – Respondeu enquanto fitava o conjunto de apartamentos com demasiada atenção à procura de qualquer movimentação fora do usual. O companheiro fez um barulho com a boca e assentiu vagarosamente, refletindo a respeito do próximo passo que daria. – A propósito: Você perdeu o juízo? Vazar uma parte do laudo pericial? Tem noção das informações preciosas contidas naquele documento? Informações essas que podem nos ferrar! O não demorará a juntar as peças, qual o fundamento disso?! – Questionou exasperado, temendo as consequências do ato que, a seu ver, fora imprudente o suficiente para colocar tudo a perder. Ouviu o grunhido revoltoso do fomentador de tudo aquilo, o qual cerrou os olhos em descrença em consequência do afronte recém-sofrido.
- Parece que quem perdeu o juízo foi você! Não me diga o que fazer, não ajo sem arquitetar os meus objetivos. – Ralhou repreensor.
- Então você pode me dar a justificativa por tê-lo vazado? O não me pareceu muito impressionado. – Julgou avaliativo. O homem mexeu a taça, vislumbrando o líquido espumoso dançar no interior do cálice cristalino. Riu cínico e bebericou o restante da bebida.
- Quero levá-lo ao limite. Meus assuntos com ele vão além do que se vê atualmente, e nada melhor do que inseri-lo num caos midiático repleto de pressão para que a sua mente perca o controle de modo gradual. – Concluiu o raciocínio sorrindo jubiloso, deixando o comparsa com inúmeras dúvidas em relação ao que ouvira, uma vez que não foi capaz de compreender o que o outro quis dizer com: “Meus assuntos com ele vão além do que se vê...”. O que o aparentemente perfeito havia feito para despertar a ira de seu parceiro? Comumente estranhava a aversão desmedida para com o herdeiro do império de advocacia, embora não se importasse nem um pouco com tal questão. Só desejava alcançar o que almejava, pois estava farto de sentir que não se situava no padrão de vida que tanto ambicionava. Escorou-se no volante e maneou a cabeça sem muita vontade, já sentindo o corpo reclamar por passar tanto tempo dentro de um carro.
- Sinceramente? Faça o que desejar, entretanto, não permita que essa sua ânsia por controle nos ponha num beco sem saída. – Alertou cansado.
- Apenas siga o meu raciocínio, creio que não seja difícil. – Iniciou – O julgamento não está tão longe, defender um réu acusado de homicídio não é nada simples, imagine agora defendê-lo com o psicológico totalmente abalado? – Indagou, mantendo os lábios erguidos num sorriso satisfeito, instigando o companheiro refletir sobre tal argumento. – Tudo isso acarretará em uma bola de neve tremenda, ele se tornará uma pilha de nervos e, consequentemente, perderá o caso. Será benéfico para você e para mim, é exatamente o que desejamos. – Finalizou orgulhoso do modo que coordenava as próprias metas. Levantou-se da poltrona e começou uma caminhada ao longo da sala de estar, já imaginando o êxtase do sucesso em cometer o crime perfeito.
- Faz sentido. – O mais inseguro afirmou. – Ele não sairá do caso, sairá?
- Não. – Respondeu indiferente. – Mas não importa. Já me encontro suficientemente irritado e decidido a vê-lo abaixar a cabeça e recolher toda a petulância e soberba. – Consumou a ponto de cuspir as palavras, sendo devidamente entendido pelo aliado que decidiu somente balbuciar grunhidos de compreensão. Cerrou os olhos em direção ao portão do condomínio e demorou a assimilar a imagem retratada a significativos metros do local onde estava estacionado, franzindo o cenho ao distinguir a figura familiar atravessar os portões do condomínio e retirar-se dali.
- Espere um minuto... – Curvou o tronco moderadamente e fez esforço a fim de enxergar melhor só para ter certeza do que via. E teve. A garota – já conhecida – demonstrava estar alheada, absorta em sabe-se lá o que acometia os seus pensamentos. A examinou levar uma mão até o rosto e transpassá-la no canto dos olhos, gesto que só gerou uma imensa curiosidade a respeito do que havia acontecido naquele apartamento.
- Gostaria de ser informado sobre a causa de seu silêncio repentino, se não for pedir demais. – O mais autoritário pediu em tom sarcástico.
- A garota que anda saindo com o acabou de deixar o prédio. – Informou, ligando o automóvel e a acompanhando vagarosamente num ato de vigilância.
- Os ventos definitivamente sopram ao nosso favor! Não sabia que ela estaria aí... – Avaliou com a mente a mil; Não podia permitir que tal casualidade fosse desperdiçada, seria um gesto absurdamente inexperiente, afinal, quando as eventualidades se casam e formam uma oportunidade perfeita, a decisão mais coerente é a de dançar conforme a música. Seu sorriso alargou-se e uma ideia genial se estabilizou em sua cabeça. “É hora de começar a testá-lo.” – Pensou consigo mesmo. – Vamos dar um susto no doutor . – Disse firme e satírico. O comparsa piscou em confusão, não absorvendo a deliberação do cúmplice.
- Susto?! – Questionou, prevendo que algo não muito bom viria a seguir.
- Sim, susto. Quero que você avance com o carro na garota. – Falou simplesmente, como se houvesse pedido uma bebida no bar.
No instante em que ouviu a fala do parceiro, vincou as sobrancelhas e balançou a cabeça em negação, achando que limites deveriam ser definidos. Uma parte de si – uma pequena, quase inexistente parte – insistia em dizer-lhe que machucar uma pessoa que nada tinha a ver com os seus interesses era demais para ele, ainda que fosse para atingir alguém que não lhe era benquisto. Avistou a garota virar a rua e continuou a segui-la à espreita.
- Consumar o ato é exagero, não? Sou mais adepto ao terror psicológico, sinceramente. – Tentou argumentar, ainda que soubesse que seria em vão. Escutou o riso ácido do outro lado da linha e respirou fundo, reunindo coragem a fim de acatar a ordem determinada.
- Não finja que há humanidade em você, poupe-me desse discursinho falso de que presa pelo bem-estar de seja lá quem for. Suas mãos já estão sujas de sangue. – Findou com rigor, achando toda aquela hesitação um saco. Se existia algo que o tirava do sério, covardia encabeçava o topo da lista.
- Tenho consciência disso. – Rebateu nervoso. – Somente expus o meu ponto de vista, mas não importa. Você está certo.
- É evidente que estou. Cortemos o papo furado, faça o que eu ordenei. Ligarei depois. – Encerrou a chamada sem sequer aguardar que o cúmplice o respondesse. Este, em contrapartida, bufou em desgosto e fitou a garota metros à frente.
Todos são reféns das próprias ações e, apesar de passar longe de ser uma pessoa religiosa – era completamente cético, na realidade – imaginou o que lhe esperava no dia em que as suas atividades biológicas cessassem, trazendo consigo a única coisa inevitável – e o antônimo – da vida: A morte.
Se o inferno realmente existir, o tormento eterno no lago de fogo certamente o esperava, porém, desfrutar de uma boa existência enquanto houvesse vida em seu sistema parecia valer à pena.
O start já foi apertado há tempos.
O jogo definitivamente tinha começado.

’s POV

O ponto de ônibus nunca pareceu tão distante.
Meu corpo encontrava-se imerso num torpor que explicitava o meu desatino perante a cena recentemente protagonizada entre mim e , onde cada palavra proferida por nós vagava de maneira desalinhada na minha cabeça confusa.
Sua forma repentina de romper o nosso vínculo foi totalmente estranha e, ao mesmo tempo em que eu tentava encontrar uma explicação para a sua maneira contraditória de se afastar, também desejava apenas seguir com a minha vida e esquecer desses meses nos quais convivemos de modo tão íntimo, pois empenhar-me em resolver, em vão, uma determinada situação, era exaustivo demais e eu não fazia o tipo de pessoa que permitia se cansar em virtude de outra. Não mais. Se era isso que desejava, assim seria.
Eu não estava mais atrás de respostas, somente queria me livrar da decepção que eu sentia e captar o aprendizado oculto nessa quebrada de cara gigantesca cujo me derrubou da nuvem à base de pontapés.
Respirei fundo e apertei o passo, não gostando nem um pouco da ausência de movimentação na rua. O atrito da minha bota contra o asfalto úmido de orvalho produzia um som pesado durante o tempo em que eu percorria o trajeto em meio a ágeis passadas de perna, assustando-me quando um carro ou outro surgia na via pública. Meu celular vibrou no bolso da calça junto ao seu toque relativamente elevado, fazendo-me dar um sobressalto, minimamente alarmada devido ao abalo originado pela música do ringtone. Inspirei profunda e alongadamente, ainda aturdida pelo susto. Apanhei o aparelho e sorri ao ler o nome de Vicenzo piscando na tela.
- Oi, Vi. – Falei, esforçada a parecer animada com o intuito de encobrir a voz levemente embargada.
- Como vai, raio de sol? – Perguntou envaidecido, fazendo-me repuxar os lábios em agrado.
- Bem... E você?
- Não sei ao certo... Só posso dar essa resposta a você caso saiba o motivo dessa voz desanimada. – Comentou despretensioso e eu emiti um riso anasalado.
- Céus, como você faz isso? – Indaguei rindo e meio boquiaberta com a capacidade do vocalista em pescar as coisas, ouvindo-o me acompanhar por um breve momento. – Eu estou bem, de verdade. Não houve nada além do que eu já suspeitava, na verdade. – Expus e Vicenzo balbuciou um ruído em compreensão.
- Tenho uma ideia sobre o que se trata... – O tédio era mais do que explícito na sua voz. – O que pega, lindinha?
- Prefiro explicar pessoalmente, Vivi. Estou no bairro próximo à Regent Brompton e a minha bateria está por um triz de morrer. – Avisei, rapidamente olhando a tela do celular só para checar a porcentagem restante. Ainda meio receosa com o breu e a falta de movimentação na rua, olhei para trás e, de longe, avistei um facho de luz advindo de um carro há significativos metros. Tratei de andar mais rápido, já odiando a demora e a distância para chegar no ponto de ônibus.
- Como você desejar, mademoiselle. Eu vim na casa de um amigo e ele mora há uns dez minutos daí. Está a fim de me encontrar? Abriu uma cafeteria aí perto e lá vende aqueles doces enjoativos que você vive comendo.
– Comunicou, referindo-se ao meu vício em macarons.
- Você está tentando me comprar com doces?! Se a resposta for sim, devo dizer que deu certo. – Aceitei o convite e ouvi a risada de Vicenzo ecoar através da chamada.
- Me mande a sua localização e fique paradinha exatamente onde você se encontra agora. – Pediu e eu imediatamente lhe enviei o que me fora solicitado, varrendo aquela parte do bairro com os olhos a fim de achar algum banco para que eu pudesse me sentar enquanto o aguardava. Virei moderadamente o tronco e olhei sobre os meus ombros outra vez, sentindo o meu sinal de alerta soar ao constatar que o veículo desconhecido e suspeito mantinha-se a metros de distância de mim.
- Vi, será que você pode se apressar? Esse lugar está meio esquisito e fantasmagórico demais para o meu gosto. – Informei, pronta para trocar de calçada e evitar ficar na mesma mão cujo automóvel se encontrava. Praguejei baixo pela falta de movimento na avenida enquanto fazia um lembrete mental de nunca mais pegar àquele caminho àquela hora, onde o fluxo de pessoas ali se resumia a zero.
- Já estou no carro, lindinha. Peguei a caminhonete emprestada. Isso tudo é saudade? – Brincou, arrancando-me uma breve risada.
- Eu diria que se trata apenas da minha imensa vontade de comer macarons... – Zombei, ouvindo-o gargalhar. Fiz menção de atravessar a rua e inspecionei os dois lados antes de prosseguir, dando de cara com uma luz intensa a qual foi de encontro ao meu rosto.
Cerrei os olhos e pude reconhecer o carro anteriormente distante se aproximar em uma velocidade além da que poderia ser considerada normal. O foco de luz extremamente vigoroso me impediu de enxergar com mais definição, entretanto, eu não precisei fazê-lo para notar que ele vinha em alta velocidade na minha direção. Surpresa, senti as batidas frenéticas do meu coração surgirem com a sensação de perigo iminente.
Eu mal tive tempo de reagir.
O veículo avançou e, por reflexo, regressei e dei alguns passos para trás, voltando à calçada rapidamente;
Tudo ocorreu numa agilidade cujo eu não consegui acompanhar.
Com pressa em sair do caminho do automóvel, tropecei nos meus pés e senti o forte impacto do concreto duro chocando-se contra o meu corpo; Um estalo foi-se ouvido seguido de uma dor lancinante no meu braço direito, onde uma queimação imensamente dolorida acometeu o membro por inteiro. Meus cotovelos, mãos e ambos os antebraços ardiam como se estivessem em contato com fogo. Enxerguei o veículo correr rua afora e sumir do meu campo de visão em questão de segundos, sequer dando tempo de conferir sua placa, deixando unicamente a fumaça do carburador como rastro.
Felizmente havia conseguido me desvencilhar, no entanto, o meu empenho causou a queda cujo originou os hematomas os quais eu agora encarava, completamente assustada e com o coração a ponto de sair pela boca. O meu esforço para me mexer durou apenas até o momento em que a dor excruciante nas minhas costas e no braço ferido me fez grunhir em protesto pelo ato, incapaz de pôr em movimento tal parte do meu corpo.
Respirei fundo e, com muita dificuldade, sentei-me e me escorei na árvore próxima à calçada, segurando o braço ferido extremamente confusa e com a pior dor que eu já experimentei na vida. Atônita, virei a cabeça e avistei minha bolsa jogada não muito distante do lugar onde eu estava. Ao meu lado, o aparelho de celular outrora em chamada encontrava-se trincado, ainda que a tela acesa atestasse que ele não havia dado perda total. Novamente fiz menção de me mexer com o intuito de pegar o telefone móvel, puxando-o com a perna até que ele estivesse ao meu alcance, enfim obtendo êxito na minha ação. Lentamente soltei o meu braço machucado ao lado do meu tronco e coloquei o celular no ouvido com o outro, imediatamente escutando a voz alterada de Vicenzo ressoar aflita.
- ?! Alô, ?! – Respirei fundo e fiz uma careta em consequência da dor que me assolava.
- Oi... Onde você está? – Inquiri meio desorientada enquanto buscava um meio de me acalmar.
- Acabei de virar a esquina, que porra de barulho foi esse?! – Questionou exasperado.
- Quase fui atropelada. – Proferi meio zonza, não encontrando uma maneira mais sútil ou detalhada de explicar-lhe sobre o que houve.
- Como é?! Você se machucou?
- Um pouco. Acho que quebrei o braço. – Me mexi desconfortável, exprimindo outra careta ao sentir outra onda de dor me atingir.
- Mas que caralho, não acredito! Estou chegando. Acho que já te vi, inclusive. – Reparei que uma caminhonete se aproximava e, de súbito, Vicenzo finalizou a chamada. Estacionou de qualquer jeito e saiu de dentro do veículo num pulo, correndo até mim velozmente.
- Não é o melhor jeito de encontrar alguém, né? – Zombei, forçando o humor que a cena certamente não possuía. Meu amigo abaixou-se e me estudou aterrorizado, cravando os seus olhos nas escoriações em minha pele, as quais sangravam moderadamente.
- Puta que o pariu, que merda é essa?! Como isso aconteceu, lindinha? Qual é o braço que você acha que quebrou? – Disparou, passando os olhos atentos da minha cabeça até os pés. Apontei para o braço direito e ele contorceu o rosto.
- Foi tudo muito rápido. Eu pedi para que você se apressasse porque tive a impressão de que o carro estava me seguindo. O mesmo carro que quase me acertou. – Expus, recordando-me da sensação estranha em ver o veículo andando vagarosamente, ainda que longe de mim.
- Você conseguiu enxergar a placa? E o filho da puta simplesmente fugiu?! – Voltou a questionar e eu neguei com a cabeça pela primeira pergunta.
- Não deu para ver nada. Só sei que o carro era preto. – Vicenzo bufou aborrecido e assentiu.
- Isso não importa agora, você precisa ir para o hospital. – Examinou, parecendo não saber para onde olhava ou o que fazia. Se não fosse pela sensação dolorida a qual perpassava o meu corpo, eu certamente riria de sua fisionomia perdida e apavorada. – Ai, porra, estou com medo de mexer em você e te quebrar em outro lugar. – Passou as mãos pelo rosto e eu não aguentei. Ri alto, mesmo que o ato não tenha durado muito, levando em conta que a dor não permitia com que nenhum gesto se realizasse plenamente.
- Eu não sou feita de vidro, Vicenzo. Só machuquei o braço. – Notifiquei ainda rindo fraco. Ele inspecionou os arranhões e contusões na minha pele parcialmente coberta pelo vermelho do sangue que caía através da lesão e me fitou agoniado.
- Vou te erguer, tudo bem? Caso sinta algo além de felicidade em estar grudadinha em mim, me avise. – Satirizou com o propósito de quebrar a tensão da situação e eu revirei os olhos segurando o riso. O vocalista apanhou a minha bolsa do chão, posicionou-se ao meu lado e, cuidadosamente, contornou a minha cintura com um de seus braços, começando a me levantar consigo sem pressa. Murmurei em protesto pela movimentação e Vicenzo refreou a ação, fitando-me preocupado. Incentivei-o a prosseguir por meio de um olhar encorajador, demonstrando que não desejava que parássemos, e ele assim o fez. Subimos de modo gradual e calmo até que, enfim, ficamos de pé. Escorei-me no corpo do meu amigo sem soltar o braço ferido, sentindo-o firmar o contato entre nós enquanto andávamos a passos lentos rumo à caminhonete, onde, com o seu auxílio, adentrei quase chorando de dor por obra do esforço executado. Vicenzo logo ajeitou-se no banco do passageiro e me encarou com aquela feição de quem havia acabado de presenciar uma cena de filme de terror. Acelerou o veículo e partiu sentido ao hospital perto dali, perguntando-me de minuto em minuto como eu me sentia.
Não sabia ao certo se estive muito concentrada na dor que originava calafrios em meu braço ou se o baque estava alterando a minha percepção de tudo ao meu redor, no entanto, a cada piscada que eu executava, uma cena diferente se mostrava diante dos meus olhos.
Percebi Vicenzo me retirar do automóvel e seguir comigo até o departamento de emergência e acidente do centro médico, onde uma mulher totalmente trajada de branco nos amparou prontamente.
- Boa noite. O que houve, querida? – Inquiriu atenta, fitando-me de modo minucioso.
- Acho que quebrei o braço. – Respondi segurando-o com força, exprimindo uma careta ao sentir uma forte pontada no membro machucado acompanhada de um espasmo intenso e agoniante que se estendeu por todo o meu corpo.
- Certo. Vamos realizar alguns exames radiográficos combinados com avaliação médica, tudo bem? – Assenti, pedindo aos céus para que ela não pedisse que Vicenzo saísse de perto de mim. Eu odiava hospitais. – Como isso aconteceu, meu bem? – Voltou a perguntar e eu olhei para o meu amigo em um pedido mudo para que ele respondesse.
- Ela meio que foi atropelada. Ou quase foi. – Proferiu meio perdido. Se eu não estivesse tão aflita, certamente teria rido.
- Nós podemos conversar sobre isso depois. Iremos, primeiramente, cuidar dessa fratura. – Disse de modo calmo, passando tranquilidade através de sua voz.
- Pense em flores, biscoito com sorvete e arco-íris, lindinha. Está tudo sob controle. – Mencionou afobado antes de eu entrar na sala de radiografia. Soltei uma risadinha – visto que ele se encontrava mais tenso do que eu – e afirmei, iniciando os procedimentos necessários para que o diagnóstico fosse feito.

**


Os suaves sons de apito – mais precisamente de bipe – emitiam um sinal audível contínuo. O cheiro de plástico, sobretudo de álcool, invadia a minha narina de maneira incômoda, impulsionando-me a contrair a face numa careta que expressava desagrado. O branco das paredes doía a visão e a minha vontade era de sair correndo dali, tamanha a agonia de ficar naquele ambiente.
Após realizar todos os exames, constatou-se o óbvio: Eu havia quebrado o braço; mais precisamente, havia ganhado uma fratura fechada, onde, apesar do choque, não resultou no rompimento da pele ou em grandes danos ao osso, que permanecia alinhado. Lamentavelmente não pude fugir do molde de gesso utilizado para unir as pontas quebradas do membro lesionado, estando agora parcialmente mobilizada. O gosto ruim dos analgésicos usados para atenuar a dor espalhava-se pela minha boca, e não consegui evitar outra careta descontente, ouvindo Vicenzo rir ao meu lado na cama.
- É a quarta careta que você faz em menos de um minuto. – Zombou divertido e eu esbocei uma risada.
- Esse negócio é horrível. Mal coloquei e já quero tirar. – Resmunguei. – Meu celular ficou dentro da bolsa no carro, você pode me emprestar o seu? Preciso ligar para a minha mãe. – Pedi ao vocalista, que me entregou o seu aparelho sem pestanejar. Disquei os números pertencentes à mulher e, depois de alguns toques, a chamada foi aceita.
- Oi, mãe. É a . – Me identifiquei, levando em conta que o número era desconhecido para ela.
- Oi, filha. Que número é esse? Cadê o seu celular? – Questionou confusa e eu me preparei para avisar-lhe do acontecido sem causar pânico.
- É o número do Vicenzo. Já adianto que está tudo bem, eu estou bem, vim para o hospital porque quebrei o braço. – Soltei de uma vez, sabendo que a frase saíra um tanto quanto embaralhada.
- O QUÊ?! Como assim “quebrou o braço?” Onde você está, ? O que aconteceu? – Disparou quase sem respirar. Ao fundo, ruídos dos quais demonstravam que a mulher se movimentava rapidamente ressoavam através da ligação.
- Mãe, calma. Um louco passou pela rua e quase me atropelou, mas foi somente um susto. Estou devidamente medicada e imobilizada.
- Quase atropelou?! Por Deus, , qual é o hospital que você está? – Insistiu.
- No centro médico perto da Regent Brompton. Mãe, não é preciso que você venha. Eu vou ficar em observação somente para precaver, porém, o médico disse que amanhã de manhã já terei alta. O Vicenzo está comigo. – Tentei acalmá-la, embora soubesse que de nada adiantaria. A escutei contra-argumentar e, por último, informou que logo chegaria, mal me dando chance de resposta no minuto em que a chamada foi encerrada.
- Sua mãe parece ser furacão quando fica nervosa, deu para ouvir a voz dela daqui. – O vocalista mencionou boquiaberto. – Agora eu sei de quem você puxou, lindinha. – Brincou, fazendo rir.
- Viu? Os genes são a resposta para tudo. – Dei de ombros, entrando na brincadeira. Ajeitei-me na cama com dificuldade por obra do braço fraturado e suspirei inteiramente exausta. – Vou enviar uma mensagem para a , tudo bem? – Interroguei, ainda tendo a posse de seu aparelho telefônico.
- Vá em frente, raio de sol. – Agradeci e digitei resumidamente sobre o fatídico incidente, também prevendo que a sua reação não diferiria muito da reação da dona . Devolvi o celular para o meu amigo e reparei que ele me vislumbrava como quem anseia por fazer uma pergunta. – O que foi, Vivi?
- Enquanto os remédios não fazem efeito e sua mãe não chega, você quer me contar o que pegou entre você e o playba? – Perguntou cauteloso. Expeli o ar de meus pulmões com força e assenti.
- Ah, verdade... Bem, o estava no mesmo lugar que eu e se manteve indiferente o tempo inteiro. Nós discutimos e eu ouvi de sua boca que seria melhor que nós nos afastássemos. Ele basicamente enrolou e não disse nada com nada. – Elucidei, vendo a fisionomia de Vicenzo se fechar ao passo em que ele negava com a cabeça.
- Manda esse otário se foder. Se ele não banca as próprias escolhas, não merece estar com você, lindinha. – Recomendou e eu concordei em silêncio, reparando que a moleza oriunda da medicação iniciava o seu trabalho.
- Me mantenha acordada até que a minha mãe chegue. – Pedi sonolenta.
- Eu poderia sugerir inúmeras maneiras de não te deixar dormir, contudo, elas não são nada recomendáveis para alguém que está impossibilitada de fazer movimentos bruscos. – Lançou-me uma piscadela e eu gargalhei, encarando-o boquiaberta após o ato.
- Céus, Vicenzo, você não perde uma.
- Não curto perder tempo. – Deu de ombros, acompanhando o meu riso.
Continuamos a conversar banalidades conforme os minutos passavam e, aproximadamente uma hora depois, a figura desesperada de minha mãe adentrou o quarto tal qual um furacão, assustando a mim e ao meu amigo. Não precisei estudá-la demais para notar a sua face excessivamente preocupada.
- Oi, filha. Como você está? Meu Deus, que aflição! – Exclamou conferindo cada parte do meu corpo, levando as mãos à boca conforme via os hematomas espalhados pela minha pele. – Como isso aconteceu? O responsável não parou para te ajudar? – Disparou novamente.
- Mãe... – Chamei-a, apontando o meu companheiro de trabalho com a cabeça. – Esse é o Vicenzo. Foi ele quem me ajudou.
- Oh, querido, desculpe-me pela falta de educação! Obrigada por ficar com a . – Agradeceu sorridente, gesto que foi imitado pelo meu amigo.
- Não foi nada. Muito prazer, aliás. – Expressou com o seu sorriso de coringa.
- O prazer é todo meu. E que susto que eu levei! – Transpassou as mãos pelo rosto em completo desatino.
- Acalma-se, dona . Como você pode ver, estou inteira, apesar de um pouco quebrada. – Brinquei, vendo-a negar com a cabeça e Vicenzo segurar o riso. – A pessoa não parou para me socorrer, é bem provável que se trate de um louco bêbado por trás do volante. Vou para casa amanhã, aliás. Não tinha necessidade de você vir.
- Óbvio que tinha, . Não fale bobagem, tem noção de quão amedrontada eu fiquei? Já avisei ao senhor e a senhora que viria ao hospital e só voltaria pela manhã.
- Bom, eu posso vir buscá-las antes de abrir a loja. – O homem tatuado se dispôs, solícito.
- Imagina! E se você se atrasar? – Contestei e ele rolou as íris.
- Relaxa, lindinha. Estamos combinados. Vou deixá-las a sós e ir para casa, me ligue caso precise de alguma coisa, ouviu? – Falou, depositando um breve beijo estalado em meu rosto. – Até mais, senhora . Foi ótimo conhecê-la. – Voltou-se a minha mãe, que ergueu os lábios num sorriso moderado.
- Digo o mesmo, querido. Até amanhã.
- Obrigada por hoje, Vivi. – Declarei, feliz por poder contar com alguém como Vicenzo, que deu mais uma de suas piscadelas características, desaparecendo porta afora em questão de segundos. Bocejei e fechei os olhos, tão mole que mal me encontrava apta a conversar. – Os remédios estão me dando sono. – Comentei com a mulher posta sobre a poltrona ao meu lado.
- Durma, filha. Estou por aqui, tudo bem? – Concordei e me concentrei no silêncio sepulcral do recinto.
Aos poucos, fui me desligando dos estímulos exteriores e perdi a sensibilidade física, adormecendo quase que imediatamente.

’s POV

Acreditar que está fazendo a coisa certa nunca me pareceu tão errado.
A imagem do semblante confuso e decepcionado de na noite anterior não saía da minha cabeça, contribuindo para que eu me sentisse o pior merda que já existiu. Após vê-la marchar porta afora carregando consigo aquela imensidão de sentimentos negativos a meu respeito, o meu lado destruído por testemunhar seu pranto moderado quis mandar tudo para a puta que o pariu e simplesmente ir atrás dela a fim de impedir que mais lágrimas caíssem de seus olhos intensos, os quais possuíam a habilidade foder com a minha cabeça de um modo quase surpreendente. não merecia participar de todo o caos cuja minha vida se encontrava, entretanto, o ódio que me consumia por tê-la afastado tão subitamente me fazia querer socar qualquer coisa que amenizasse a sensação de fracasso; Que amenizasse a sensação de perda. Eu havia perdido a única pessoa que conseguia transmitir calma para os meus dias atribulados, e isso só consolidava o meu pressentimento de que talvez eu não tenha nascido para ter paz em nenhum âmbito da minha vida.
Sentado na mesa da sala de reuniões, eu encarava o dia predominantemente cinza através da janela do escritório também ocupado por Thompson e meu pai, ambos aguardando até que o restante dos funcionários se apresentassem para a conferência daquela manhã. O silêncio sepulcral do recinto foi quebrado devido ao tremor ocasionado pelo modo vibratório do meu celular localizado em cima da mesa de vidro, que agora tremia por efeito do toque. Ignorando os olhares dos homens presentes ali – e experimentando o costumeiro calafrio infernal que ocorria sempre que o meu aparelho apitava –, apanhei-o, tomando conhecimento de quem se tratava ao ler o nome de Paolo na tela. Levantei-me da mesa e fui até um ponto mais afastado do cômodo, aceitando a ligação logo em seguida.
- Fala, ! Tudo certo? – Saudou do outro lado da linha. Encostei-me à parede e, através da extensa janela de vidro, passei a encarar o fervoroso movimento matinal da cidade junto à paisagem tomada por prédios.
- Tranquilo, irmão. E aí?
- Também, cara. Foi mal por ligar a essa hora, aliás. Você está ocupado? - Ainda não. Tenho uma reunião daqui a... – dei uma rápida conferida em meu relógio de pulso – dez minutos, mas por enquanto estou livre. Algo errado, Herzog? – Questionei, de fato estranhando sua ligação àquela hora.
- Devo dizer que sim. Vou ser bem direto. Acabei de falar com o Adrian e ele me contou que a está no hospital, achei que você gostaria de saber. – Franzi o cenho e imediatamente senti o sangue congelar ao mesmo tempo em que o meu coração iniciou batidas descompassadas, quase doloridas. De repente até mesmo respirar tornou-se uma tarefa árdua. Minha cabeça rodou e foi como se o mundo houvesse caído sobre os meus ombros enquanto o mundo sumia sob os meus pés.
- O QUÊ?! Que porra é essa que você está falando, Paolo?! O quê... O que aconteceu? – Balancei a cabeça, não sendo capaz de absorver tal informação – Onde ela está? COMO ela está?! – Perguntei totalmente perturbado, saindo do meu estado de inércia no mesmo instante. Andei em direção à mesa em meio a passos rápidos e ignorei os olhares inquisitivos dos dois homens que pareciam confusos com a minha agitação. Não me importei. Que se foda a reunião. Peguei a minha maleta e rumei à saída do escritório inteiramente transtornado, sentindo os meus pés executarem todo o trabalho de modo ágil e robótico, quase brusco. Eu ouvia o meu amigo falar sem parar, mas não prestava a mínima atenção nas palavras proferidas por ele.
- ! ! Aonde você vai?! O que você pensa que está fazendo...? – O questionamento irritado e autoritário demonstrava a ira explícita no tom de voz do meu pai, porém, aquilo não me causou efeito algum, tampouco impediu que eu abrisse a porta da sala com furor, num rompante que produziu um baque seco o qual reverberou entre o lado de fora do escritório, atraindo a atenção das pessoas ali, que me olharam sobressaltadas.
- Não me espere para a reunião. – Disse claro e objetivo, deixando as suas queixas para trás. Parei a porta do elevador com as mãos assim que a vi prestes a se fechar e afastei a abertura novamente, adentrando abruptamente o espaço ocupado por outros indivíduos que me fitaram surpresos.
- Qual é, ?! Estou falando sozinho, caralho! – Paolo bradou irritado e só então eu me recordei de que me encontrava em uma chamada telefônica com ele.
- Onde a está? – Indaguei direto, sem ter interesse no que o meu amigo havia dito até então.
- Cara... Não é melhor que você deixe para vê-la depois? Não sei o que houve entre vocês ontem, mas...
- Onde.ela.está? – Repeti pausadamente. Nenhuma informação que não fosse àquela me interessava. Ouvi Paolo suspirar ao passo em que me retirava do elevador, percorrendo a garagem do prédio comercial praticamente correndo.
- Naquele hospital entre a Regent Brompton e a Weinfield. O Adrian não entrou em detalhes, mas disse que está tudo bem.
- Valeu por me avisar, Herzog. Falo com você depois. – Comuniquei já dentro do carro, não demorando a dar partida.
- Relaxa, irmão. Mande notícias assim que possível. – Pediu e eu concordei, finalizando a ligação em seguida.
Eu possuía consciência de que dirigia além do limite de velocidade, entretanto, as minhas emoções desequilibradas me impediam de raciocinar de forma correta. A urgência para chegar ao meu destino falava mais alto do que qualquer coisa naquele momento. Os vultos decorrentes da aceleração desmedida transpassavam a janela e transformavam as imagens em pó; Vez ou outra os pneus cantavam no asfalto, produzindo um barulho agudo que assustava os transeuntes desavisados. Nada daquilo tinha relevância. A minha irresponsabilidade momentânea reduziu-se a nada comparada ao meu estado extremamente conturbado.
Nunca fui alguém otimista. Sempre acreditei que viver de esperança era algo demasiado utópico para os tempos atuais, a ingenuidade implicada a tanto positivismo me entediava, todavia, naquele momento, me vi agarrado a tudo o que eu nunca reconheci como genuíno. Seja otimismo, esperança ou a porra que servir para a situação, eu só desejava encontrar bem e que essa sua ida ao hospital em nada tenha a ver com as ameaças às quais gradativamente sugavam toda a minha sanidade. As quais me obrigaram a ficar longe dela. Observei os meus dedos pressionarem o volante com força, deixando-os doloridos o suficiente para dar início a um pequeno incômodo, e aquela foi a maneira que eu encontrei de descarregar a frustração e o ódio que eu sentia. Eu só desejava pegar o maldito por trás dessa merda toda e acabar com ele até vê-lo virar cinza.
Avistei a estrutura do movimentado hospital e não me preocupei em estacionar o carro de modo correto. Guardei-o de qualquer jeito do outro lado da rua e corri até a ampla entrada do estabelecimento, vez ou outra esbarrando nos pedestres da calçada durante o tempo em que me apressava para alcançar o meu destino. Não foi preciso que eu desse mais nenhum passo para que os meus olhos fossem levados como imãs até a figura de que, naquele instante, descia os degraus da fachada do centro médico acompanhada de sua mãe e de mais uma pessoa que, inicialmente, não fui capaz de identificar. Cerrei os olhos e, enfim, reconheci o outro indivíduo – mais precisamente o cara – junto às duas. Se eu bem me recordava, tratava-se do colega de trabalho de , o qual eu havia visto na loja há alguns meses. Como se sentisse que estava sendo contemplada, a garota desviou a atenção do chão e olhou para o lado, deparando-se comigo um pouco mais à frente no mesmo segundo.
Sua face se contraiu em um misto de surpresa e confusão, no entanto, ela rapidamente tratou de evitar o nosso contato visual e continuou a caminhar. Você não sabe a falta que algo lhe faz até que chega o momento em que não mais o tem e, naquele momento, experimentei exatamente o significado de tal frase. O habitual sorriso que demonstrava ao me ver foi substituído pela mais completa indiferença, e mesmo sabendo que eu merecia aquilo, a ciência de minha culpa não atenuou a sensação ruim a qual me apossou e causou uma reviravolta em meu estômago. Percorri o restante da distância que nos separava e me aproximei dos três, instantaneamente sendo recebido por feições ininteligíveis que entregavam a dúvida por tomar conhecimento de minha presença ali. me fitou curiosa, enquanto a filha tinha o característico vinco entre as suas sobrancelhas, agora encarando-me de maneira precisa, embora vazia.
- Bom dia. – Falei, passando os olhos por todos, fixando-os em novamente.
- Bom dia, . O que faz aqui? – questionou de modo cismado. Guardei as minhas mãos nos bolsos laterais do terno e, em razão pelo meu desespero, somente naquele momento percebi que não possuía uma resposta cabível para dar a ela.
- Fiquei sabendo do que houve, achei que pudesse ajudar em alguma coisa. – Expus, examinando o estado de , que exprimiu um ligeiro riso cínico.
- Não precisamos de nada, obrigada. – A voz da garota saiu gélida. Meu foco foi levado até o seu braço, onde um molde de gesso envolto a uma tala indicava que a fratura não fora tão superficial assim; uma de suas mãos encontrava-se enfaixada e curativos espalhavam-se pela extensão de seus braços e ombros. Engoli a seco, sentindo-me cada vez pior. Um nó se formou em minha garganta e fechei as minhas mãos em punho, inconformado com a covardia daquilo. – Nós estamos de saída. – Disse firme. Subi o meu olhar e encontrei o seu, vago como eu jamais havia presenciado. O meu maxilar travado doía, a minha expressão muito provavelmente não era das melhores, entretanto, tudo ao meu redor parecia ser desprezível.
- Vem, lindinha, vou ajudar você a subir na caminhonete. – Notei um braço tatuado firmar o apoio nas costas de e acompanhei o movimento em direção ao dono dele, topando com o cara que trabalha junto a ela. Arqueei uma sobrancelha e voltei a fitá-la, vendo-a assentir em meio a um levantar de lábios. O alívio em apreciar o seu sorriso divergia do moderado incômodo que me atingiu, causando-me uma leve insatisfação. Ainda assim, eu não tinha o direito de sentir qualquer coisa que fosse e sabia disso.
- Agradeço a gentileza, , mas já está tudo sob controle. – mencionou terna – Deixei os seus pais cientes do ocorrido, inclusive. – Maneei a cabeça em compreensão. Ela percorreu os olhos atentos entre mim e a filha, aparentando estudar a fisionomia da última, que não proferiu mais nada e simplesmente seguiu até o veículo cercada de seu colega que parecia ter acabado de sair da capa de um CD grunge dos anos oitenta. Eu me mantive ali, somente a acompanhando com o olhar. A observei adentrar a caminhonete com o auxílio da figura tatuada, pouco me fodendo em tentar encobrir a minha expressão fechada. Eu era o culpado por toda essa merda estar acontecendo, toda escolha tem consequências e lidar com as minhas nunca me pareceu tão complicado. Voltei à atenção à e notei que ela me estudava ressabiada, revelando os traços semelhantes com os de quando a garota examinava algo por meio de seu jeito esperto. Acordei para a vida e limpei a garganta, um tanto quanto inquieto mediante a análise recém-executada pela mulher ao meu lado.
- A realmente está bem? Não houve nada de grave? – Indaguei preocupado. sorriu e negou.
- O carro não a acertou, a fratura foi ocasionada em consequência da queda.
- Ela chegou a ver o motorista? Conseguiu identificá-lo de algum modo? – Perguntei interessado, afinal, seria uma informação valiosa para que inúmeras dúvidas fossem sanadas. A julgar pelo semblante de , eu lamentavelmente ficaria sem as respostas pelas quais eu ansiava.
- Não... A pessoa estava em alta velocidade e nem sequer parou para ajudá-la. – Declarou indignada. Afirmei com a cabeça, sentindo-me no auge do meu estresse. – Obrigada pela preocupação, . Volte ao trabalho, acredito que você tenha os seus compromissos, certo? – Concordei, entretanto, as minhas obrigações não me afligiam na atual circunstância. sorriu mais uma vez e despediu-se, proferindo palavras que passaram despercebidas pela minha audição no minuto em que dei uma última – e rápida – conferida sentido à caminhonete, desejando não tê-lo feito assim que o meu olhar cruzou com o de . Ela não tardou a redirecionar sua atenção para frente, mais uma vez desconsiderando completamente a minha presença ali. Perdido em minhas próprias divagações, vislumbrei o automóvel afastar-se e sumir rua afora enquanto o meu corpo queixava-se pela alta carga emocional posta em torno da minha vida.
Esfreguei o rosto com as mãos e transpassei-as entre os meus cabelos, completamente atordoado. Constantemente recebia olhares curiosos oriundos dos pedestres que transitavam aquela divisão da calçada, e o motivo era mais do que compreensível a julgar pelo fato de que eu era o único a me manter petrificado no meio da rua em um horário de movimentação intensa. Ainda assim, tudo o que eu enxergava eram borrões e esboços de corpos indo para lá e para cá conforme a minha mente tumultuada empenhava-se em encontrar um modo de suportar tanta merda acontecendo de uma só vez. Despertei de meu breve transe e readquiri minha lucidez, logo tratando de seguir o caminho de volta ao meu carro, acelerando-o rumo ao escritório bem como o fiz durante o trajeto de ida. Em meio a diversos suspiros profundos e pontadas doloridas na cabeça, estacionei na vaga do prédio comercial preparando-me de antemão para ouvir meu pai bradar sua fúria sobre mim, o que não demorou a ocorrer assim que coloquei os pés no acesso à chegada do andar.
- . Para minha sala, . – Soou ríspido com a face rígida. Os funcionários que ali se encontravam somente abaixaram a cabeça e simularam focar cada um em seu trabalho, muito embora aquilo fosse unicamente fingimento. Não exprimi reação alguma e simplesmente o segui até o local imposto, escutando a porta ser fechada com uma força além da que poderia ser considerada normal. Encostei-me à mesa e cruzei os braços, esperando o que estava por vir. – Eu quero uma explicação plausível para a sua atitude irresponsável de hoje mais cedo, e eu quero agora. – Concluiu entredentes. Não expressei gesto algum.
- Tinha algo importante a fazer. – Disse e a sua fisionomia endureceu ainda mais. O homem cerrou os olhos e me encarou enfurecido.
- Ah, sinto muito que um compromisso de trabalho tenha atrapalhado os seus planos! E o que era tão importante assim para que você perdesse uma reunião cuja sua participação era imprescindível, ?! – Indagou áspero, fuzilando-me com o olhar. Sustentei-o sem vacilar.
- Fui ver no hospital. – Soltei de uma só vez, vendo sua testa franzir e a confusão tomar conta de seu rosto severo.
- O quê?!
- Fui ver no hospital. – Repeti minha fala de maneira simples e objetiva ao meu pai, que se manteve imóvel diante de mim.
Piscou aturdido como se houvesse acabado de ouvir qualquer absurdo sem tamanho e, com toda calma – a qual ele provavelmente não possuía – tirou um charuto da gaveta pertencente à sua mesa. Acendeu-o sem se preocupar em estar dentro de um ambiente fechado e o tragou com calma, fitando-me inexpressivo. Permaneci na mesma posição, somente o encarando de volta. O silêncio tangível emanava tensão.
- Você saiu daqui tal como um louco e abandonou um compromisso profissional somente para ver a filha da ? Eu sinceramente nunca esperei que a sua estupidez chegasse a este ponto, , porém, você sempre encontra um meio de me surpreender. – Mencionou satírico. Estreitei os olhos e firmei minha postura. – Não satisfeito em jogar o nome de nossa família na lama, você também quer se prejudicar e prejudicar os meus negócios com as suas tolices? – Questionou, soltando a fumaça vagarosamente.
- Uma pessoa se machucou e é assim que você reage? Com tamanha indiferença? – Ignorei sua fala anterior e inquiri sem acreditar em sua frieza.
- Não seja tão dramático, a garota está bem. – Ralhou impaciente. – Olha, , o que você faz com a sua vida pessoal francamente não me interessa. Eu já desisti de tentar compreender o que se passa pela sua cabeça para se importar tanto com uma desabastada, mas isso é problema seu. O que eu não irei tolerar é que o nosso sobrenome seja atirado no lixo devido as suas imprudências, ouviu bem? Ser um bom advogado não lhe isenta de ser chutado daqui caso suas ações resultem em prejuízos para mim! – Exclamou inflexível e eu me limitei em assentir devagar.
- Tudo o que eu faço soa como banalidade para você. Eu sempre fiz o possível para andar na linha e provar que tenho capacidade, entretanto, basta qualquer mínimo deslize para que tudo o que já foi feito passe a ser questionado por você. Engraçado, não acha? – Inquiri sarcástico e fui observado de modo inexpressivo pelo homem que não moveu um músculo, preso em sua pose impassível.
- Você acha que sabe tudo da vida. Não existe cabimento em iniciar este discurso, visto que o seu comportamento anda extremamente falho. – Começou analítico. Franzi o cenho, ouvindo-o retomar sua fala. – Por acaso a parte vazada do laudo pericial já foi lida? – Perguntou direto e eu não soube o que responder. Os recentes acontecimentos haviam me dispersado completamente de meus afazeres – sobretudo este em questão –, levando-me a sentir aversão somente em tocar em tal assunto. Eu tinha consciência de que estava deixando a minha vida se transformar em uma bola de neve, o controle de todos os aspectos de meu cotidiano escorria entre os meus dedos e eu já não sabia o que fazer para retomar o domínio da situação. Percebendo que eu não falaria nada, meu pai então avançou – O que está acontecendo com você, ? Anda desatento, parece que não dorme há dias, não consegue focar no trabalho... Se isso for um meio tolo do qual você encontrou para dizer que não deseja mais cuidar do caso Zummack, aconselho a desistir desde já. A julgar pelo andamento das coisas, nenhum advogado aceitaria pegar a causa, portanto, sugiro que você encarregue-se de recuperar a sua postura profissional e resolva dar prioridade a ela. Não aceitarei condutas imprudentes, acredito que você saiba disso. – Concluiu, soprando a fumaça do tabaco de maneira despretensiosa. Outra pontada dolorosa pulsou em minha cabeça e, apesar de desejar retrucar as palavras proferidas a mim, resolvi não prolongar a discussão. Eu gostaria de lhe deixar ciente em relação às ameaças, todavia, havia muita coisa em jogo e eu já não sabia se realmente poderia contar com ele. Limitei-me a assentir e desencostei da mesa, realizando o percurso até a saída de sua sala em completo silêncio. – Eu não sei qual é a sua relação com a filha da , mas recomendo que você pare com isso imediatamente. Ela não é para você, . – Descontinuei o ato de girar a maçaneta e o olhei por cima dos ombros com os olhos semicerrados. Ri enviesado e neguei com a cabeça.
- Quem decide isso sou eu, pai. – Abri a porta e me retirei dali, rumando em direção a minha sala com a conhecida pressão no crânio. Adentrei o local e me sentei frente à minha mesa, pegando um comprimido para enxaqueca logo em seguida. Esfreguei o rosto com as mãos e suspirei totalmente exausto, preocupado e frustrado. Apanhei o meu celular posto sobre a superfície de vidro e toquei no aplicativo de mensagens, abrindo a conversa com .

Visto por último hoje às 09:14.

Protelei em digitar algo, mas não sabia ao certo o que dizer.
Pedir-lhe desculpas? Tentar criar um diálogo? Tendo em vista sua atitude hoje mais cedo, ela seguramente não me corresponderia.
Guardei o aparelho e encarei o notebook diante de mim, onde o arquivo referente ao laudo pericial encontrava-se exposto na tela.

Instituto de Polícia Técnica.

”Nessas pesquisas foram encontrados os seguintes objetos: Um pacote de lenços – parcialmente utilizado; Seis folhas de papel – três (3) postas no canto inferior direito da sala; três (3) postas sob a vítima, e um copo – cujo líquido inserido foi-se identificado como sendo da marca Pinwinnie Royale Scotch Whisky (12 Anos).
A equipe da Delegacia de Homicídios encontrou, no local, sete (7) projéteis de arma de fogo, que foram remetidos a este Instituto com ofício do titular dessa especialidade e são motivo de outro exame pericial.”


Franzi o cenho ao ler o início do documento.
Pacote de lenços? Copo de Whisky? O que tais objetos estariam fazendo na cena do crime? Em especial um copo de bebida alcoólica, posto que o meu cliente não encontrava-se apto a beber naquela noite e, até onde me era sabido, Mason Zummack não carregava nenhum drink consigo no momento do homicídio.
Peguei meu aparelho celular mais uma vez e disquei os números do meu cliente, aguardando até a chamada fosse aceita.
- Bom dia, doutor . – Saudou após poucos toques.
- Bom dia, senhor Feldmann. Como vai?
- Na mesma de sempre. Aflito com tudo o que anda acontecendo... – Respondeu num tom de voz debilitado. – E você? Como andam as coisas, a propósito?
- Encaminhando. – Disse sem entrar em detalhes – O senhor está ciente dos recentes acontecimentos a respeito do vazamento de informações sobre o caso, enviei-lhe uma mensagem na semana passada comentando a respeito do ocorrido. – Ele murmurou em afirmação, dessa forma, continuei. – Iniciei a análise do arquivo e algumas informações me chamaram a atenção. Gostaria de sanar as dúvidas quanto ao que li.
- Claro! Em que posso ajudar?
- O senhor havia me dito que não podia beber na noite da festa, correto? – Indaguei com os olhos fixos na tela do notebook.
- Sim, correto.
- Bom, no laudo consta que encontraram um copo com resquícios de Whisky no cômodo onde o corpo foi alvejado. Você se lembra de ver o Mason portando um copo ou um drink no momento em que ele saiu de perto de vocês? – Perguntei interessado, ansiando por sua resposta.
- Não. Não me recordo de vê-lo com nada nas mãos. O que isso pode significar?
- Partindo do princípio que nenhum dos dois estavam consumindo bebidas na hora do delito, provar sua inocência ficará mais fácil. Ainda temos a foto que mostra uma pessoa no fundo do salão, creio que eu possa utilizar deste fato a seu favor. – Avaliei reflexivo enquanto fazia anotações em uma caderneta.
- Fico imensamente feliz em escutá-lo dizer isso! Confesso que o desânimo havia me consumido, é ótimo receber uma boa notícia para variar. – Expressou em meio a um tom de voz moderadamente mais confiante.
- Não perca as esperanças, senhor Feldmann. Gradativamente as coisas irão se encaixar.
- É somente o que eu espero, doutor . Agradeço pelo seu esforço, acredito que, qualquer outro profissional já teria abandonado o barco. – Disse ele, e eu não pude deixar de me sentir um tanto quanto culpado devido a minha breve distração com relação aos meus compromissos. Era indispensável que eu voltasse a focar cem por cento em meu trabalho, embora a minha mente insistisse em não conseguir cumprir a simples tarefa de funcionar de modo preciso.
- Não é de meu feitio agir de tal forma. Irei prestar os meus serviços até o fim, não se preocupe. Obrigado por esclarecer minhas dúvidas, lhe manterei informado, tudo bem?
- Claro, sem problemas. Não hesite em me contatar caso precise, por favor.
- Igualmente, senhor Feldmann. Tenha um bom dia.
- Um bom dia para você também, doutor . – Agradeci e encerrei a chamada. Mal coloquei o celular de volta à mesa e o zunido do qual indicava que uma nova mensagem havia chegado me fez pegá-lo novamente. Receoso, virei a tela e vi que Otto tinha entrado em contato.

”Bom dia, . Como prometido, enviei as informações à minha amiga e tudo o que ela conseguiu decodificar foi o tipo de aparelho utilizado para a emissão da foto. Trata-se de um celular pré pago da marca Nokia 5120; Ela o rastreou e o identificou num depósito de lixo próximo à entrada da cidade. É provável que a pessoa faça uso do aparelho e jogue-o fora logo em seguida. Avisarei caso surjam mais dados sobre isso.”

Massageei as têmporas e soltei a minha respiração toda de uma só vez.
O dia seria longo.

**


Meus músculos tensos acompanhados da cabeça a ponto de explodir resultavam do dia maçante no escritório. Tantos estímulos em conjunto com as responsabilidades pessoais e profissionais me sobrecarregaram em demasia, e dizer que eu estava mais do que exausto seria pouco para tentar explicar como eu me sentia.
Abri a porta do apartamento e imediatamente fui recebido pelo Pastor Alemão sempre eufórico, que pulou em meu colo demonstrando sua felicidade em me ver. Sorri e abaixei-me, correspondendo ao seu ato de carinho conforme distribuía carícias por toda a extensão de seu pelo.
- E aí, carinha?! Como foi o seu dia? – Perguntei, rindo de sua pose ao ficar de barriga para cima com a língua de fora. – Acredito que bem melhor do que o meu. – Joguei o terno sobre o sofá e peguei uma long neck na geladeira, sentando-me no chão junto ao cão. Bento deitou-se ao meu lado, mantendo as orelhas arqueadas enquanto ouvia atentamente o que eu tinha para falar. – Vi a hoje. – Comecei, dando um longo gole no líquido estupidamente gelado, refrescando a minha garganta de imediato. O Pastor Alemão balançou o rabo no instante em que mencionei o nome da garota, gesto que arrancou um breve sorriso meu. – Eu fiz uma merda gigantesca, amigão. Sou um puta de um babaca. – Comentei descontente, balançando a cabeça em negação. Bento ergueu a sua e me encarou curioso. – Eu só quis deixá-la fora dos meus problemas, mas não adiantou de muita coisa. O que eu faço, carinha? – Questionei ao cão, que apenas maneou a cabeça para o lado e moveu as orelhas. Em meio a outro profundo gole de cerveja, retirei o meu celular do bolso da calça e fui até o contato de , tocando no ícone de ligação. O som da chamada em espera nunca foi tão agoniante, e eu entendi o recado no instante em que o barulho foi interrompido de súbito. Ela recusara o telefonema. Fitei o aparelho e suspirei resignado, guardando-o no bolso da calça logo após minha tentativa frustrada de entrar em contato com , que claramente não desejava falar comigo de modo algum. Levantei-me e finalizei minha bebida de uma só vez, seguindo rumo às escadas completamente desanimado. – Vem, garoto. Vamos dormir. – Chamei e Bento veio até mim, subindo os degraus em meu encalço.
Tomei um banho rápido e me joguei na cama com os pensamentos voltados a ninguém mais, ninguém menos, que a garota cujo sorriso tinha o poder de me transferir uma calma impressionante; à garota que eu certamente havia perdido quando mal cheguei a possuir.


”Neblina fecha aeroporto no início desta manhã;”
“Exportações do agronegócio somam mais de noventa e seis bilhões de dólares só neste ano;”
“Senado demite servidor que avisou sobre varreduras contra grampos;”
“Telescópio Hubble registra uma das galáxias mais antigas do Universo;”
Bom dia. Está no ar o Jornal Primeira Hora desta quinta-feira, são sete horas e vinte e seis minutos. Peguem os seus casacos, pois, neste momento, os termômetros estão marcando dez graus...”


Desliguei a televisão, apanhei a caneca de café fumegante sobre a mesinha de centro e andei em direção à área externa, ignorando a lufada de ar gélido da qual foi de encontro ao meu peitoral descoberto no minuto em que eu pus os meus pés ali. Encostei no batente da porta e admirei a visão propiciada pela cobertura, onde o céu cinzento e fechado obrigava as pessoas a acenderem os faróis de seus carros. Apesar do aspecto carregado, o dia aparentava estar calmo pelas ruas; Diferente de mim, que permanecia com o humor de mau à pior, especialmente por não ter conseguido pregar os olhos durante a noite.
Eu era uma mistura de preocupação, culpa, medo e ódio.
Beberiquei o líquido quente e forte e senti um tufo de pelos emaranhar-se entre as minhas pernas. Não precisei olhar para baixo para saber que Bento tinha juntado a mim.
- Bom dia, amigão. – Saudei o cão, que se sentou rente aos meus pés. – Estou com a manhã livre, o que significa que você vai tomar banho. Não dá para dividir apartamento com alguém fedorento, foi mal. – O Pastor Alemão virou-se e me observou, abaixando as orelhas conforme eu falava. Ri e continuei – Não é nada pessoal, carinha. Você é um ótimo colega de quarto e tudo mais, só precisa voltar a cheirar decentemente. – Finalizei e Bento soltou um latido, correndo para dentro numa agilidade surpreendente. Gargalhei alto e tomei o restante do café sem pressa, agradecendo mentalmente pelos afazeres no fórum terem vetado a minha presença no escritório ao menos por hoje.

- Hoje você estava terrível, hein, cara? Tudo aquilo só por causa de uma ducha? Que vergonha! – Exclamei enquanto esperava o Pastor Alemão adentrar o carro após finalizar o seu banho. Bento me fitou com as orelhas baixas e eu ri, dando a volta no veículo e adentrando nele, acelerando-o sem deixar de gargalhar da confusão que o cão causou no pet shop, molhando inclusive a mulher encarregada de cuidar do banho e tosa. – Creio que eu tenha uma parcela de culpa nesse seu acúmulo de energia. Desculpe por não estar tão presente, amigão. – Disse ao passo em que dirigia, deslocando o olhar do trajeto apenas para admirar rapidamente meu companheiro de todas as horas. Bento desviou seu foco da rua e me encarou debilmente, como se questionasse sobre que porra eu estava falando. – Você fica o tempo inteiro preso naquele apartamento, não possui mais um descampado para correr ou um jardim para destruir. – Ri fraco, lembrando-me das recorrentes queixas que minha mãe proferia sempre que o Pastor Alemão resolvia mexer em seu terreno cultivado com flores e plantas. – Acredito também que você sinta falta da ... – Seu rabo balançou freneticamente, ato o qual comprovou a minha suposição. A julgar pela relação dos dois, ela certamente sentia-se do mesmo modo. Conferi meu relógio de pulso e fiz o contorno da avenida, mudando a rota do trajeto, agora, para a casa dos meus pais.
Eram inúmeras as chances de não encontrar por lá; Acima de tudo, eram inúmeras as chances de dar com a cara na porta, no entanto, eu esgotaria todas as minhas fichas e possibilidades apenas com a finalidade de vê-la. Esse era o preço a ser pago graças às minhas escolhas erradas.
Tomar decisões é sempre muito complicado, fazer uma escolha que não envolve só a si próprio requer muito cuidado e lidar com o peso da culpa de se dar conta do erro cometido é ainda mais torturante. A vontade imensurável de consertar a merda que eu havia feito veio acompanhada de algo que eu, até então, – inutilmente – lutava contra: A certeza de que o que eu sentia por ultrapassava qualquer compreensão; Nós havíamos dito e feito coisas das quais tornavam claro que já não cabia nomear a nossa situação como sendo apenas amizade. Eu tive que aprender, refletir e descobrir qual foi o meu descuido – e equívoco – para, só assim, assimilar a falta que a garota fazia, não sendo necessário muitos dias para que eu percebesse que a queria perto de mim. Quando as prioridades são claras, as resoluções são mais fáceis.
Estacionei o carro no local onde costumava fazê-lo e desci, abrindo a porta do passageiro para o Pastor Alemão que saltou numa velocidade impressionante, não tardando a começar sua corrida entusiasmada pela vastidão do campo antes mesmo de eu impedi-lo de se sujar novamente. Varri o lugar silencioso com os olhos e avistei Cícero sair com um regador nas mãos, sorrindo em minha direção no instante em que me viu à sua frente.
- Bom dia, senhor! – Cumprimentou-me animado como lhe era usual.
- Bom dia, Cícero. Tem alguém aqui? – Questionei, averiguando ao redor.
- Tem sim. A está lá dentro com a Judith e os outros funcionários estão espalhados pela casa, como sempre. – Assenti, ainda que não fosse exatamente a informação que eu desejava. – Ah! A está aí, também. Pobrezinha, toda remendada. Ficou sabendo que um maluco quase a atropelou? Sinceramente, não se pode andar despreocupado em momento nenhum, as pessoas estão perdendo o juízo! – Disparou zangado.
- Sim, eu soube. É realmente revoltante. – Declarei contendo meu tom de voz irritado somente ao ouvir sobre isso, vendo o mais velho concordar.
- O senhor veio buscar algo? Quer que eu o ajude?
- Não. Aproveitei a manhã livre para resolver algumas pendências e resolvi passar aqui. Pode voltar ao trabalho, inclusive. Obrigado, Cícero. – Esbocei um meio sorriso.
- Não há de quê. Precisando, estou no jardim em frente à entrada. – Agradeci mais uma vez e o vi caminhar rumo ao acesso da casa, desaparecendo entre as plantas. Sem pensar demais, caminhei com destino aos fundos do recinto, distinguindo, ao longe, sentada no alpendre de sua moradia junto ao Bento. A garota ria e o abraçava fervorosamente utilizando somente o braço livre enquanto o cão distribuía lambidas empolgadas por toda extensão de seu rosto radiante. Não contive o impulso de sorrir também.
- (...) Como você está cheiroso! De pelo cortado, coleira nova... Todo charmoso e lindo. Quase morro de saudades, seu pestinha! – Exprimiu um biquinho e, mais uma vez, agarrou o Pastor Alemão, que parecia mais animado do que nunca. Parei diante dos dois e foi como se tudo se dissipasse da minha mente turbulenta. Quieto e aproveitando que a minha presença não era notada, permaneci observando a cena. Bento fez menção de pular próximo ao braço machucado de e eu fui obrigado a intervir.
- Bento, assim não! – Repreendi e ambos olharam para frente de súbito. A garota piscou confusa e tornou a focar completamente no cão, ignorando-me, exatamente como previ.
- Comporte-se, ouviu? Seja um bom garoto, mesmo longe de mim. – Transpassou os dedos entre suas orelhas e o envolveu novamente num breve meio-abraço, apoiando-se com certa dificuldade em uma só mão a fim de se erguer. Fiz menção de ajudá-la, descontinuando minha ação no instante em que fui observado pelos seus olhos repletos de censura.
- Não precisa. – Reprovou seca, escorando nos pilares do alpendre. Terminando de se levantar, deu às costas com o intuito de voltar para dentro de sua casa.
- Também não é preciso que você saia. – Rebati, ouvindo seu riso sarcástico cortar nossa atmosfera já tensa. Tocou a maçaneta da porta e eu subi os poucos degraus da área externa, indo ao seu encontro com uma urgência desmedida. – ... Por favor. Eu só quero um minuto. Só um. – Praticamente implorei. Ela girou o tronco e deu um pequeno passo para trás ao me ver perto de si.
- Já terminei com o Bento, não tenho mais o que fazer aqui. – O tom de voz arisco me acertou em cheio. Suspirei e maneei a cabeça, demonstrando que eu aceitaria receber a sua aversão, caso ela decidisse prosseguir dessa forma.
- Não vim buscá-lo. Vim ver você. – Soltei direto. Sua feição de desprazer não se alterou. Passei os olhos pelo seu braço lesionado e pela sua mão enfaixada. O casaco de lã me impediu de verificar os demais ferimentos, contudo, eu sabia que eles estavam ali.
- O que você quer? – Questionou hostil. Tornei a fitá-la e a indiferença transmitida por suas íris carregadas comprovaram que a tarefa não seria fácil. Eu não esperava o contrário, de qualquer maneira. – Nós fomos bem claros na última vez que nos vimos, não?
- Eu fui claro, mas não fui sincero, tampouco fui verdadeiro com o que eu de fato queria. Com o que eu quero. – Revelei cravando meus olhos nos dela. arqueou uma sobrancelha e riu momentaneamente.
- Não quero sua sinceridade, não mais. Pare de falar comigo ou de querer saber como eu estou, , por Deus! Você é um homem adulto, já chega de agir como um adolescente confuso. – Proferiu com o tom de voz carregado. Franzi o cenho e, não obstante, ela continuou. – Você gosta bastante de falar, mas creio que agora seja o seu momento de ouvir. Eu sempre tentei compreender o seu lado, mas cansei de ver as coisas pela sua perspectiva. Pra tudo tem limite e o meu já excedeu. – Cada palavra cuspida pela garota me atingia em cheio. Cada verdade, cada suspiro que ela exprimia, tudo afirmava que eu havia sido um otário egoísta do caralho durante todos esses meses. – Nós não temos nada um com outro, nunca tivemos. Aquela noite foi boa, ambos aproveitamos e, sinceramente, não tem problema algum ter sido apenas sexo. O que eu não admito é você se contradizer o tempo inteiro. Chega. – concluiu me mutilando somente pelo modo de me observar. Assenti devagar sem cortar nosso intenso contato visual.
- Eu não discordo de nada do que você disse, eu fui um merda, eu sou um babaca e, porra, só Deus sabe como eu me odeio por ter feito tantas escolhas erradas e por não ter sido franco em relação a tudo quando tive a oportunidade. Nada vai arrumar a bagunça que eu fiz e pode ter certeza de que cada vez que eu fecho os olhos a culpa se encarrega de me castigar, entretanto, ela não é mais torturante do que saber que eu machuquei você. – Falei sem parar e sem me importar com coisa alguma. engoliu a seco e sustentou nossa conexão, porém, seu semblante vazio e inexpressivo se manteve inabalável.
- Percebe quão errado isso é? Na terça você pede para que nós nos afastemos, já na quinta aparece arrependido. Não estou, não sou e nunca serei submissa às suas vontades, . Tem noção de como eu me senti péssima quando você agiu feito um imbecil na cozinha e me ignorou sem motivo aparente? Já parou para pensar, um minuto sequer, que o seu comportamento distante poderia me magoar? Eu aposto que não, e sabe por quê? Porque você toma suas decisões com base no seu achismo e faz o que der na telha sem levar em consideração que, do outro lado, existe uma pessoa que não tem bola de cristal para adivinhar as suas intenções. – Atento, absorvi sua fala enquanto analisava sua face aborrecida – Não tenho paciência para a sua indecisão, se você não sabe o que quer, não sou eu quem vai te mostrar. Não sei qual é o seu problema, só que sei que ele não é meu. De coração, divirta-se, saia e fique com quem você quiser, afinal, você já está fazendo isso, não é mesmo? – Ela sorriu cínica e eu toquei as têmporas, respirando fundo.
- Eu fiz tudo errado e... – , para. – Tentei argumentar, contudo, me interrompeu. – É desnecessário que você se martirize e se xingue, isso não vai consertar o que houve. Seja lá o que nós desenvolvemos no decorrer desses meses, sendo amizade ou algo a mais, eu dispenso. Não dá para estar com alguém que é quente em um dia, e frio no outro. Andar na corda bamba não faz o meu estilo. – Concluiu decidida. A mágoa persistia em perpassar através de seus olhos, salientando que de nada adiantaria conversar no ápice de nossas emoções acaloradas. Assenti, sequer cogitando a hipótese de prolongar a discussão.
- Espero que você possa me escutar em algum momento. – Falei, fitando-a com seriedade. A garota desviou as íris analíticas das minhas e as levou até Bento, o qual encontrava-se deitado nos observando, como se soubesse que não era uma hora favorável para bagunça.
- Eu sei que os seus dias são corridos, mas agradeceria se você o trouxesse mais vezes pra cá. Sinto saudades. – Disse, ignorando o meu pedido anterior e mudando o rumo do diálogo. Inclinou moderadamente o tronco e afagou a cabeça do Pastor Alemão. Suspirei, afirmando.
- Não vejo problema em deixá-lo aqui hoje. Posso buscá-lo amanhã. – Sugeri e me encarou brevemente, concordando com a cabeça.
- Seria ótimo. – Perdemos bons segundos somente mantendo o contato de nossos olhos, até que a garota pareceu despertar. – Só um minuto, preciso dar algo a você. – Entrou em casa rapidamente e eu franzi o cenho, só compreendendo a quê a garota se referia quando a avistei retornar com a blusa que eu havia lhe emprestado. Aquela simples peça de roupa trouxe à minha memória diversos flashback’s da noite na qual passei com , que, inexpressiva, estendeu-me a vestimenta. – Obrigada. – Apanhei o pano de suas mãos, negando com a cabeça. O silêncio entre nós não era mais uma novidade e ele se fez presente outra vez. Ela me olhava como quem analisa alguma coisa, suas íris opacas escorreram pela extensão do meu rosto e eu acompanhei o trajeto executado pela garota, que, em conjunto com a brisa gélida a qual nos atingiu, deu um passo para trás, grudando as costas na porta como se eu fosse um ser abominável cujo contato transmitia algo terrível. – Creio que você tenha compromissos a cumprir, não é? Agradeço por ter trazido o Bento, mas pode ir viver a sua vida. Eu não preciso de vigília por causa de um braço quebrado. – Satirizou em meio a um sorriso cínico. Arqueei uma sobrancelha, notando que ela praticamente havia me expulsado dali.
- Não conhecia esse seu lado sútil. – Comentei irônico, vendo-a dar de ombros.
- Você não conhece nem metade dos meus lados, . – Retrucou ácida. Assenti em afirmação, recebendo mais uma de suas frases dotadas de sarcasmo. Levei minha atenção para o Pastor Alemão atento e o acariciei, já sabendo que eu estranharia a sua ausência momentânea.
- Seja um bom garoto, hein, cara. Nada de chegar perto do jardim ou de roer a borda dos vasos de planta. Volto amanhã para te pegar. – Avisei executando uma última carícia na parte posterior de suas orelhas e fitei , que somente observava a cena. – Se cuida. Eu vou aguardar até que você queira me ouvir. – Comuniquei à garota encostada na porta. Ela nada disse. Virei-me e fiz o caminho de volta ao meu carro, refletindo desde então a respeito de tudo o que ouvi minutos atrás.
Acenei para Cícero e dei partida rumo ao meu apartamento a fim de tomar um banho e me aprontar para a visitação ao fórum a qual ocorreria dali há poucas horas.

**


A completa ausência de som no ambiente taciturno me inseriu em uma atmosfera densa, onde somente o som da intensa corrente de ar reverberava por ali. As fortes golfadas de vento provocavam ruídos oriundos das plantas localizadas naquela área, as quais dançavam de acordo com as rajadas impetuosas.
Sentado no sofá da cobertura após uma tarde inteira de serviço no fórum, eu desfrutava de minhas únicas companhias: Um maço de cigarros – já pela metade – e uma garrafa de whisky. Meu terno, juntamente com a gravata, encontrava-se jogado sobre algum lugar do extenso espaço cujo eu mal utilizava, levando em consideração que minha vida resumia-se basicamente ao trabalho e, ocasionalmente, a eventos sociais, bem como uma ou outra ida a algum barzinho aleatório com o intuito de preservar as amizades que eu possuía. Eu desejava saber quando passei a ser um mero telespectador dos meus dias, contudo, obter tal resposta seria difícil, visto que, desde o instante em que me vi formado, fechei todas as outras possibilidades de abrir meus caminhos para outra coisa que não fosse minha profissão ou à atender as expectativas envoltas no sobrenome e no que ele representa perante a sociedade.
Tudo isso era uma puta perda de tempo pois, no fim, cá estou sozinho. Luxo, dinheiro e prestígio não supriam vazio algum, e, embora tais valores nunca tenham sido uma motivação para mim, eram uma consequência de todas as minhas ações. Tudo se resumia às consequências, especialmente porque permiti que o meu estilo de vida – e o que ele traz consigo – afastasse a pessoa que eu, surpreendentemente, passei a nutrir sentimentos. Sentimentos confusos que me atingiram de modo tão arrebatador que não tive a capacidade de defini-los quando era tempo, acabando por, mais uma vez, meter os pés pelas mãos, quando a única atitude correta a se tomar resumia-se a ser franco quanto ao que eu sinto e ao que estou envolvido. Traguei o cigarro profundamente, como se todo o fumo fosse queimar no ato, queimando também o conflito interno que me atormentava de maneira severa.
Mente vazia era oficina do diabo, entretanto, a mente cheia também poderia ser.
Meu celular vibrou dentro do bolso da calça social e eu o apanhei, tão anestesiado que mal senti o costumeiro frio na espinha que me atingia sempre que o aparelho dava sinal de vida.

”Espero que você tenha algo decente para beber nesse apartamento, . Daqui a pouco estou aí.

Li a mensagem de Paolo e digitei um “ok”, sentindo os efeitos de ter consumido metade de uma garrafa de whisky sozinho. Expeli a fumaça do tabaco com calma, jogando a bituca no cinzeiro ao meu lado. Ingeri um bom gole do líquido amadeirado e permaneci fitando o nada, só saindo do meu estado de inércia no instante em que o barulho do interfone me despertou. O atendi e liberei a entrada de Paolo, logo ouvindo o sino da campainha anunciar sua chegada.
- Está aberta, cara! – Exclamei da área externa, avistando-o adentrar a sala e dirigir-se à cozinha com um pequeno engradado de cerveja em mãos.
- Porra, , nem para ajeitar a geladeira você serve! Onde eu vou enfiar essas long necks?! – Gritou do cômodo e eu ri brevemente do barulho de vidro se chocando.
- Se vira! – Gritei de volta, finalizando minha bebida num golpe só. Meu amigo proferiu um xingamento aleatório e, em seguida, surgiu na cobertura, sentando-se num banco por ali.
- E aí, ? Quando vai ser o enterro? – Entregou-me uma garrafa e eu franzi o cenho, encarando-o sem entender. – Sua cara de morto está bem aparente. – Zombou. Ri sem humor e neguei com a cabeça, acendendo outro cigarro. Paolo fitou o frasco de whisky praticamente vazio e tornou a me estudar. – Você está bebendo tanto álcool que daqui a pouco vira um posto. E o seu pulmão ainda existe? Caralho! – Exclamou de forma exagerada e eu o lancei-lhe um olhar repreensivo.
- Virou minha mãe agora, Herzog? Não fode. – Ralhei, ingerindo a cerveja gelada no ato.
- Wow, beleza. Faça como desejar, só me diga quais são os seus tipos de flores preferidas, assim posso levá-las no seu funeral. – Satirizou novamente. O olhei aborrecido, gesto do qual foi prontamente ignorado por ele. – Você precisa reduzir esse nível de estresse, . Seu humor anda terrível. – Suspirei e soprei a fumaça, transpassando a mão pelos cabelos.
- Foi mal. – Disse, sabendo que o meu amigo não estava errado. – Como estão as coisas?
- Tudo tranquilo, estamos em um período de muitas reuniões. Tenho uma viagem marcada para semana que vem, os negócios andam promissores. – Comentou satisfeito e eu afirmei em compreensão.
- Bacana, cara. Fico feliz.
- E você? Por qual razão está tão estranho, irmão? – Perguntou em meio a um gole na sua bebida. Fiz o mesmo, respirando fundo pela milésima vez.
- Muita coisa acontecendo de uma só vez. – Respondi encarando o nada à minha frente. Paolo murmurou um “hm” e, notando que eu não entraria em detalhes, varreu a extensão do local com os olhos como quem procura algo.
- Cadê o Bento?
- Está com a . – Respondi, vendo meu amigo vincar as sobrancelhas em confusão. – Fui vê-la e o levei. Irei buscá-lo amanhã. – A risada de Paolo repercutiu de súbito e foi o meu momento de franzir o cenho, não entendendo sua atitude inesperada.
- É impressão minha ou vocês estão dividindo a guarda do cachorro? – Questionou ainda com resquícios de riso em sua voz. Em silêncio, continuei o observando com seriedade até que ele parasse. Paolo se recuperou e prosseguiu. – Vocês estão numa boa?
- Não. – Falei, tomando um gole considerável da minha bebida.
- Esse climão tem a ver com a festa na casa do Adrian?
- Mais ou menos, cara. Eu fiz algumas merdas e ela está no direito de não querer me ouvir. – Revelei pensativo.
- Quais merdas? Ter ficado com a Betsy? Vocês dois nem tinham nada sério, qual o erro nisso? – Contrapôs atônito.
- É bem mais complexo do que aparenta. – Expressei cansado.
- Ou talvez você tenha complicado a situação. – Retrucou dando de ombros e eu fui obrigado a concordar.
- Decerto que sim.
- Ligue para a garota, sei lá. Tente reverter. – Paolo sugeriu, entretanto, neguei.
- Vou dar um tempo à . Não quero incomodá-la, ela não quer conversar comigo nem fodendo. – Conclui, agora cravando os olhos na long neck em minhas mãos.
- É, você foi flechado pelo Eros mesmo, hein, ? – Meu amigo zombou e eu não proferi mais nada, decidindo por mudar de assunto e sair daquela atmosfera pesada na qual eu me encontrava.

’s POV

A brisa gélida da noite em nada me incomodava, tampouco me fazia querer sair do lugar onde eu estava. Sentada no banco posto sob o alpendre de casa, eu acariciava o Pastor Alemão que dormia tranquilamente com a cabeça em meu colo. Sorri com a sensação boa acompanhada do quentinho que invadiu o meu coração apertado, finalmente me sentindo bem após momentos conturbados. Encarei o céu escuro à procura de algum vestígio da lua ou de estrelas, deparando-me apenas com o breu noturno que precedia a frente fria já moderadamente presente.
Embora estivesse afastada da faculdade até segunda-feira, não deixaria de fazer a visitação ao abrigo. Eu daria um jeito, de qualquer forma, uma vez que a temperatura baixa só me lembrava da necessidade de levar o restante dos cobertores e lençóis os quais eu havia já separado previamente. Ao longe, enxerguei minha mãe se aproximar com o semblante cansado enquanto olhava curiosa para o cão junto a mim.
- O que o Bento está fazendo aqui? Achei que o viesse pegá-lo. – Expôs sem compreender a estada dele ali, afagando meus ombros assim que chegou perto o suficiente para fazê-lo.
- Só amanhã. Hoje este garotão vai ser meu travesseiro, não vai? – Indaguei ao Pastor Alemão, que balançou o rabo e abriu os olhos ao me ouvir falar. Minha mãe arqueou o cenho ao mesmo tempo em que um sorriso brincava em seus lábios repuxados em um sorriso. – Ele está limpinho e cheiroso! Fala para ela o mocinho perfumado que você é. – Mexi nas bochechas de Bento com a minha mão livre, fazendo a mulher diante de nós rir.
- Certo. Entrem antes que vocês dois congelem aqui fora. – Aconselhou, colocando-se para dentro da casa logo depois.
- Vamos, garoto. Aqui ainda tem aqueles petiscos que eu comprei para você, vamos assistir série e comer, já que eu estou contundida e não vou acordar cedo amanhã. – Disse, fechando a porta atrás de mim. O cachorro deitou-se no tapete da sala e eu peguei um pedaço de torta na geladeira, sentando-me à mesa acompanhada de minha mãe. – É um saco fazer qualquer coisa com um braço quebrado, fico toda desengonçada. – Reclamei, remexendo o membro imobilizado.
- Você tem quinze dias para conviver com isso, filha. Vai passar rápido. – Emitiu em seu habitual tom de voz reconfortante. Suspirei e assenti. – Está sentindo dor?
- Não, estou bem. Às vezes tenho uns espasmos chatos, mas nada demais. – Informei, lutando para cortar um pedaço de massa com o garfo. – Daria pra eu ir para a faculdade tranquilamente, inclusive. Perder três dias de aula justo no fim do semestre é a treva. – Me queixei outra vez, agradecendo mentalmente por existir na minha vida.
- Ordens médicas são ordens médicas, . Você pode pegar a matéria depois.
- Eu sei, só que não é a mesma coisa. – Relatei em um muxoxo. Minha mãe sorriu e negou com a cabeça.
- Filha, posso te perguntar algo? – Inquiriu de repente e eu engoli a torta de uma só vez, olhando-a um tanto quanto receosa.
- Essa é a segunda frase que eu mais temo. A primeira continua sendo: Transação não autorizada. – Exprimi inquieta, ouvindo-a gargalhar rapidamente. – Manda a ver, dona . – Pedi, temendo o que estava por vir.
- Existe uma justificativa por trás da preocupação do com você? – Pisquei diversas vezes, quase engasgando com a minha própria saliva. A minha primeira reação foi rir, ato que mascarava o nervoso por trás de tal ação; A segunda reação foi negar veemente de maneira exagerada.
- O quê?! De onde você tirou isso? – Perguntei completamente desconcertada.
- Não é de hoje que eu noto pequenos comportamentos estranhos de ambos os lados. Sou sua mãe, . Eu te conheço mais do que você mesma. – Declarou impassível e o meu riso vacilou gradativamente, dando espaço a uma luta interna sobre o que responder à mulher a qual me estudava concentrada. Mordi a parte interna da bochecha e me remexi desconfortável, afinal, não existia mais nada a ser dito no que dizia respeito a mim e . O que eu poderia lhe contar? “Sim, mãe, eu tive uma espécie de rolo com o filho dos seus patrões, porém, ele se mostrou uma contradição ambulante e nós terminamos o que nem começou.”
Bem, até que não era uma má ideia. Eu realmente não queria esconder nada dela.
Abri a boca para, enfim, responder o seu questionamento, no entanto, o som do interfone impediu que eu realizasse o feito. Minha mãe me lançou um olhar significativo e levantou-se, andando de encontro ao objeto barulhento. Respirei fundo com o coração na boca, escutando-a falar com sabe-se lá quem.
- Filha, você está esperando alguém? – Interrogou no instante em que retornou à mesa. Franzi o cenho e neguei. – O porteiro avisou que tem um amigo seu aqui na frente querendo falar com você. Paolo, se não me engano. – Contorci ainda mais o meu rosto, totalmente desorientada. O que ele fazia aqui?
- Paolo? Tem certeza? – Tornei a perguntar, vendo-a afirmar. Ergui-me da cadeira e, confusa, peguei o meu casaco. – Vou até lá saber o que houve. – Comuniquei a minha mãe, que assentiu novamente. – Já volto, Bento. Espere aí. – Disse para o cão que me observava com atenção. Saí de casa e me encolhi ao receber uma forte corrente de ar no rosto, caminhando por meio de passos ágeis rumo à entrada do condomínio. Cerrei os olhos em direção à pessoa de costas para o amplo portão, pessoa essa que em nada se assemelhava a Paolo. Diminuí a velocidade dos pés e refreei os meus movimentos no exato momento em que o homem se virou.
me encarou com a feição tomada por uma seriedade que eu raramente via.
Colocou uma de suas mãos no bolso da calça e não expressou absolutamente nada. Não sorriu debochado, não me lançou uma de suas piscadelas irritantes, não exteriorizou coisa nenhuma.
- Quer que eu abra o portão, mocinha? – O porteiro indagou e eu não soube o que dizer, visto que eu não tinha certeza se desejava recebê-lo, tampouco conversar com ele.
- Não vou tomar o seu tempo. – por fim se manifestou, aumentando a entoação de sua voz a fim de que eu pudesse ouvi-lo com clareza. Eu já não aguentava mais as nossas discussões, tampouco aguentava viver numa eterna batalha de argumentos ríspidos. Decidida a dar-lhe uma oportunidade de redenção, fiz um “joinha” com as mãos para o homem dentro da cabine, que destravou o acesso ao conjunto residencial.
- Não vou ficar aí fora, se quiser, entra. A não ser que você tenha problemas em ser visto comigo. – Não perdi a oportunidade de alfinetá-lo, pouco ligando em saber que o porteiro certamente ouvira. permaneceu sem alterações, passando pelo portão no mais completo silêncio. Iniciei uma caminhada sentido à praça mais próxima num pedido mudo e indireto para que o homem ao meu lado me seguisse, e ele assim o fez.
- Eu te liguei na terça à noite. – Comentou despretensioso. Imediatamente me lembrei da ligação perdida cujo número eu não reconheci naquele dia. – Como previsto, você não me atendeu.
- Me ligou pra quê? Não tenho o seu número.
- Eu imaginei que não, só liguei porque... Sei lá, não tinha uma razão concreta. – Chegamos na praça vazia e eu me sentei num banco, sentindo sua presença ao meu lado. – Confesso que estou surpreso por você ter concordado em me receber, gracinha.
- Estou farta de nossas brigas desgastantes, não temos mais idade para agir assim. – Falei encarando um ponto fixo diante de nós. – Se você for uma pessoa decente comigo, eu vou ser uma pessoa decente com você.
- Todas as vezes das quais eu tentei ter um contato com você, fui recebido com agressividade. – Proferiu e eu o olhei descrente.
- Como é?! Sério, ? Você realmente pensa desse jeito? Não passou pela sua cabeça que o seu modo de se comportar sempre foi desprezível? Caso a resposta seja não, recomendo uma autocrítica. Vai te fazer bem. – Bronqueei, me arrependendo no mesmo instante por ter aceitado dialogar com ele.
- Ouch, calma aí. Beleza, eu admito que às vezes exagero. – Ri sem humor e murmurei um “às vezes” sarcástico. – Soube do que houve e quis ver como você estava, mas a julgar pela língua afiada, vejo que tudo se encontra na mais perfeita ordem. – Ironizou enquanto me observava com dedicação.
- Quebrei o braço, não fiquei muda. – Rebati de novo, olhando para frente e ignorando a sua análise em mim.
- Está realmente tudo bem? Só machucou o braço?
- Só.
- Menos mal. – Considerou, tocando na tala a qual envolvia o membro lesionado. Observei o ato e balancei o braço sutilmente, prática que o obrigou a descontinuar o que fazia. – Achei que o estaria aqui, dado que você é a protegida dele. – Soltou aleatoriamente e a sua fala me levou a encará-lo.
- Não é necessário jogar verde, muito menos se fingir de tonto, . Você sabe o que aconteceu, e sabe muito antes de mim. – Expus aborrecida com a sua tentativa de sair pela tangente.
- Uau, e como você tem tanta certeza disso? Não fale como se eu fosse culpado pela situação, eu não obriguei o a ficar com ninguém, gracinha. Pelo contrário. Ele foi embora acompanhado, inclusive. – Meu estômago revirou e um nó dolorido se formou em minha garganta. Empenhei-me em recuperar o ar perdido, experimentando uma raiva descomunal em virtude da cena patética protagonizada por hoje cedo. – Você me disse que ele queria estar perto de você e olha agora, . Eu te avisei. – Relatou como se fosse o dono da razão, justamente como previsto. Cerrei os olhos, sentindo que a minha calma momentânea havia se esvaído.
- Cale a boca. De verdade, só fique calado. Você é a última pessoa que tem autoridade para me advertir, chega a ser surreal a sua cara de pau em pagar de bom moço. – Cuspi as palavras, levantando-me de supetão. me fitou ligeiramente surpreso pelo meu acesso de raiva repentino, reproduzindo a minha ação ao erguer o seu corpo do banco.
- Não desconte a sua frustração em mim, gracinha. Eu não tenho nada a ver com isso. Vim sem a pretensão de discutir, não transforme isso em mais uma briga, principalmente se ela for motivada pelo . Já estava mais do que na hora de você desencanar, acha mesmo que ele iria assumir algo sério após um relacionamento de quase quatro anos? Era só ter raciocinado com um pouco mais de esperteza, . Você esteve presente a vida toda e não fez diferença! Ele nunca reparou em você, ao contrário de mim! Não me pinte como o monstro da história, quando você mesma tem ciência de que não é bem assim que as coisas funcionam. Eu sou apaixonado por você e digo isso aqui na sua cara, sem enrolação. Tenho os meus defeitos, no entanto, você não pode negar que eu sempre estive presente de alguma forma. – Assim como eu, parecia irritado. Com a respiração descompassada e a cabeça revirada, o fitei segurando o choro preso em minha garganta cada vez mais dolorida. Respirei fundo e apontei para a direção na qual viemos.
- Vá embora. Foi uma péssima ideia tentar conversar com você. – Ordenei e o homem riu desacreditado.
- Não conhecia essa que prefere fugir à encarar a verdade.
- Se você me conhecesse mesmo saberia que eu não ligo para o que você pensa. Vá.embora. – Repeti pausadamente. assentiu devagar e deu poucos passos para trás.
- Tenha uma boa noite, gracinha. Cuidado com a rua. – Lancei-lhe o pior olhar que eu já havia lançado e o assisti se afastar em meio a passos duros rumo à saída. Joguei o meu corpo no banco mais uma vez e apoiei o rosto nas mãos, me odiando por não conseguir refrear as gotas quentes e molhadas provindas da raiva que eu sentia.
Esfreguei-as instantaneamente e bufei, vislumbrando a imensidão escura da noite.
Eu não desejei sumir;
Não desejei fugir;
Apenas levantei uma bandeira branca imaginária para representar a paz que eu ansiava.


Eros: Eros, na mitologia grega, era o deus do amor e do erotismo.



Capítulo 18

“Mas você sente a minha falta de verdade? Você quer saber o que estou fazendo sem você?” – Do You Miss Me At All – Bridgit Mendler.


’s POV.

O peso sobre a minha barriga provocou uma leve sensação de pressão no local, levando-me a, aos poucos, recuperar o meu estado de consciência conforme um ruído inusitado fazia-se cada vez mais audível. Abri os olhos vagarosamente e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a cabeça do Pastor Alemão espaçoso em cima do local levemente pressionado, ao passo em que emanava um som engraçado e alto.
Ele estava roncando.
Mordi a parte interna da bochecha com o objetivo de segurar o riso para não acordá-lo, porém, o ressono seguinte estremeceu o meu corpo, fazendo-me soltar a gargalhada até então presa. Bento ergueu a cabeça e me encarou de súbito, parecendo assustado.
- Desculpe, bebê. Não quis te acordar, mas você estava roncando muito alto. – Falei entre risos enquanto o acariciava. Virei parcialmente meu tronco e abri uma brecha da cortina, vislumbrando o céu cinza de imediato. Fechei-a quase que instantaneamente e, com cuidado em razão do braço engessado, me joguei na cama outra vez, agarrando o cão durante o tempo em que me aconchegava no quentinho da cama. – Aparentemente está frio lá fora, talvez isso explique a minha falta de coragem hoje. Ainda estou como sono, acredita? E não, não é por causa do seu ronco. – Disse ao ser observada pelo cachorro com extrema atenção – É que é chato demais dormir com um negócio desse no braço. – Levantei o membro e Bento maneou a cabeça para o lado, encarando-o curioso. Tateei o colchão com a mão útil e peguei meu celular, checando as notificações e a hora.
09hrs05min.
Bocejei e abri a mensagem de , que enviara uma foto sua com cara de tédio durante a aula.

”Eu não aguento mais tanta matéria, a revisão está enorme! Sábado levo tudo para você, sweetie. Mantenha esse bracinho longe de encrenca.”

Sorri e lhe respondi, odiando digitar com uma mão só. Coloquei o aparelho de lado e encarei Bento ao meu lado, que voltara a cair no sono com uma rapidez impressionante. Com cuidado, saí da cama e segui até o banheiro, já irritada pela tarefa árdua e complicada de tomar banho com o braço petrificado. O cotidiano com aquilo preso em mim era absolutamente terrível, tudo o que eu fazia se tornava uma luta absurda, além de que, com certeza, o gesso não duraria muito sem que eu o molhasse.
Após muito empenho e alguns palavrões, enfim finalizei o banho, saindo do cômodo vaporizado com a impressão de que havia acabado de executar inúmeros movimentos de contorcionismo. Adentrei o meu quarto e avistei minha mãe em um embate engraçado com Bento, que parecia não querer sair do meio das cobertas postas sobre o colchão.
- Quem está ganhando? – Perguntei em meio a risos, admirando a sua tentativa de puxar o edredom sob o Pastor Alemão teimoso. Também rindo, ela apoiou uma das mãos no quadril e negou com a cabeça, fitando o cão que não dava a mínima para outra coisa que não fosse o seu sono.
- Aparentemente o Bento. – Disse, conformada com o fato de que ele não sairia da cama tão cedo.
- O que você está fazendo aqui, mãe? Não era para você estar na casa dos ? – Questionei, estranhando vê-la em casa naquele horário.
- Vim lhe ajudar a se vestir e a colocar a tipoia, filha. Não confio no seu senso de equilíbrio, é o seu terceiro dia com o gesso e ontem você quase quebrou o outro braço tentando pôr a roupa. – Satirizou e eu torci o nariz, dando de ombros meio a contragosto.
- Eu só preciso de um pouco de prática, essa infantilização toda é desnecessária, dona . – Falei ao passo em que fitava as roupas no armário. – É tudo questão de adaptação a uma situação retrógrada temporária. – Argumentei firme e fiz menção de pegar as peças escolhidas, interrompendo a ação de súbito ao notar que a minha única mão livre fazia a função de segurar a toalha em meu corpo. Redirecionei o olhar à minha mãe e sorri amarelo, afastando-me para que ela pudesse retirar as vestimentas da pilha de roupas. O seu olhar de: “Viu como eu estou certa?” foi o suficiente para que eu suspirasse resignada e aceitasse o seu auxílio, trajando as peças ainda com certa complicação. Após ajustar a tipoia no braço e estar devidamente vestida, a mulher diante de mim me analisou curiosa e, novamente, levou às mãos à cintura.
- Você pretende ir para onde, senhorita? – Indagou ressabiada.
- Bem, eu tenho algumas coisas para fazer no abrigo. O semestre está acabando, eu preciso terminar as visitações e finalizar o meu trabalho. – Expliquei, omitindo a parte que eu levaria comigo uma sacola imensa de cobertores.
- Não sei não, ... Andar de ônibus com um braço recém-fraturado? Não acho uma boa ideia. – Refutou receosa.
- Não estamos em horário de tráfego intenso, os ônibus não estão cheios. Além do mais, eu estou contundida. Alguém pode ficar compadecido e ceder um lugar para mim, então não tem motivo para tamanha preocupação. – Lancei-lhe uma piscadela enquanto – tentava – me arrumar, e minha mãe suspirou resignada.
- Por Deus, filha, tome cuidado, ouviu? Nada de andar por aí com a cabeça na lua! – Ordenou certamente não gostando muito da ideia, embora não mais tenha se oposto.
- Sim, senhora. Essa experiência está sendo incômoda o bastante para que eu não queira repeti-la. – Assegurei e ela assentiu.
- Avise-me caso você sinta alguma coisa, tudo bem?
- Dor cria caráter, mãezinha. – Brinquei, logo recebendo um olhar duro da mulher que decerto não gostara da frase. Ri e logo tratei de me redimir. – Brincadeira. Fique tranquila, eu não vou demorar.
- Preciso voltar para a cozinha, deixei um bolo no forno. – Depositou um afago em meu ombro e eu maneei a cabeça em compreensão. – Não coloque o celular no vibratório de jeito nenhum.
- Positivo, dona . – Sorri e a observei retirar-se do recinto. O inconveniente de ter que me virar com apenas um braço custou um pouco mais de esforço até que eu, enfim, estivesse apta a pegar minha bolsa e colocar sua alça no ombro livre, atravessando-a pela frente do corpo e deixando-a na lateral. À medida que eu me movia para lá e para cá no quarto, Bento limitava-se a me acompanhar com os olhos atentos e a cabeça apoiada nas patas dianteiras, completamente sem vontade de descer do colchão. – Você pretende ficar aí o dia inteiro? – Questionei ao cão, que somente balançou o rabo. Ri e peguei a sacola com os edredons, já imaginando o trabalho que eu teria para andar com aquilo por aí. – Eu vou sair, mas prometo que volto logo. Nada de destruir o meu quarto, mocinho. – Disse, sendo avaliada minuciosamente por Bento, que mexeu as orelhas de modo que demonstrasse seu interesse pelo que foi dito a ele. – Caso você queira ir lá para fora, a porta está entreaberta. Até mais tarde. – Saí dali e, com o intuito de esconder a enorme sacola em minhas mãos, sorrateiramente atravessei o quintal, haja vista que a minha mãe enlouqueceria se me pegasse levando algo daquele tamanho na atual conjuntura do momento.
- Ei, menina ! – A voz de Cícero fez-se presente e eu imediatamente parei de caminhar, virando o tronco a fim de encará-lo. Dei o meu melhor sorriso largo e fui analisada com curiosidade pelo senhor que se aproximava gradualmente.
- Bom dia! – Saudei bem disposta, vendo-o expressar sua costumeira feição terna.
- Bom dia! Como você está, menina? E como vai esse braço?
- Vai bem. Incomoda muito, mas... – Dei de ombros – Só preciso aguentar mais algumas semanas. – Exprimi conformada, vendo-o assentir.
- Logo, logo você estará boa, ! Agora, cá entre nós, carregar essa sacola não vai lhe prejudicar? – Inquiriu lançando um olhar significativo para o objeto referido. Meu sorriso largo transformou-se em um sorriso amarelo e Cícero cerrou os olhos, logo prevendo – e tendo – a resposta para a sua constatação.
- Eu realmente preciso levar isso comigo e... Bem... Eu não devia carregar tanto peso, porém, a causa é maior do que uma prescrição médica. – Argumentei e o senhor vincou as sobrancelhas.
- Menina, menina... Que causa seria essa? – Tornou a perguntar, permanecendo com o semblante que evidenciava seu interesse e também preocupação com a minha condição.
- O abrigo do qual eu visito toda a semana está passando por alguns problemas, sabe? Faltam cobertores, a estrutura está péssima, enfim... – Deixei a frase no ar de modo pesaroso e Cícero contraiu a face numa expressão comovida. – Não comente com a minha mãe, por favorzinho... – Pedi, fazendo o maior semblante de dó com o intuito de comovê-lo. Cícero suspirou e relaxou os ombros, assentindo em seguida.
- Você faz essa cara desde pequena e sempre me venceu. – Negou resignado e eu sorri verdadeiramente.
- Muito obrigada! Estou te devendo uma! – Exclamei já me afastando. O mais velho acompanhou o meu riso e acenou conforme eu me distanciava, já rumando de modo veloz à saída da mansão. Carregar a bolsa em uma só mão me rendeu um enorme cansaço com direito a alguns palavrões resmungados ao passo em que eu caminhava até o ponto de ônibus, onde eu, enfim, pude descansar e me sentar por consideráveis minutos. Agradeci por ser um horário relativamente favorável ao trânsito no instante em que distingui o transporte vir de encontro ao local ocupado por mim, não demorando para que eu me atrapalhasse a subir os degraus do veículo. Após receber ajuda de uma simpática senhora, enfim pude me ajeitar em um lugar vazio ao lado da janela, mexendo o membro lesionado com o objetivo de diminuir a leve dor a qual insistia em me atormentar de minuto a minuto.
Apanhei o meu celular do bolso da blusa e, despretensiosamente, iniciei uma averiguada superficial nos aplicativos e no histórico de chamadas, ato que me rendeu um solavanco no estômago ao ver os registros das ligações de . Ligações as quais eu havia ignorado uma por uma. Eu estava cansada de suas desculpas, de suas lamentações e atitudes hesitantes, a minha paciência já não suportava as mudanças constantes do homem que conseguia ir do oito ao oitenta em questão de instantes. A intensidade de seus olhos me parecia real, entretanto, eu já não podia arriscar confiar no que eu via, afinal, nossa percepção costuma nos enganar no que diz respeito aos sentimentos e a pessoa responsável por despertar tais sensações em nós. Palavras não me confortavam. Não mais.
Reconheci a rua do abrigo e dei sinal, mais uma vez custando a me equilibrar durante o processo de me locomover no ônibus e descer dele, tendo auxílio das pessoas que certamente se compadeceram com o meu estado completamente desajeitado. Agradeci e prossegui o trajeto já conhecido, atravessando o extenso portão da entrada do recinto agitado pelos gritos e risadas dos pequenos que ali residiam. Parei próxima ao pátio e deixei a sacola no chão para que eu pudesse descansar, a careta de incômodo fez-se presente novamente em razão do esforço recém realizado e o formigamento nos meus dedos da mão anunciou que a minha teimosia acarretaria uma noite infernal regada à remédios para dor. Olhei para frente e me deparei com Cassie me encarando um tanto quanto curiosa pela minha circunstância, seus olhos perpassaram o meu braço num gesto rápido e, inexpressiva como lhe era costumeiro, apenas correspondeu o meu sorriso com um maneio de cabeça. Respirei fundo, recolhendo o máximo de força do meu íntimo a fim de finalizar o caminho rumo ao local pretendido e peguei a sacola pesada, retomando meus passos árduos enquanto mais arrastava a bolsa com as cobertas, do que propriamente a levava de modo considerado normal. Um par de sapatos altos e lustrosos invadiu o meu campo de visão e eu cerrei os olhos ao notar que Cassie encontrava-se ao meu lado, estranhando mais ainda assim que ela, sem dizer nada, somente se apossou da sacola anteriormente em minhas mãos, levando-a consigo com a facilidade que me faltava.
- Obrigada. Eu sofri um quase-atropelamento e quebrei o braço, desde então até a mais simples atividade tornou-se trabalhosa em demasia. – Comecei a tagarelar. Fitei-a de soslaio e sua fisionomia inexpressiva mantinha-se firme e forte.
- O que te fez pensar que seria uma boa ideia sair carregando algo assim estando desse jeito? – Questionou meio ríspida sem me encarar, apenas continuando de cabeça erguida e postura ereta. Torci o nariz e dei de ombros.
- Não tenho carro, mas tenho pernas. Além do mais, é uma questão de necessidade. O tempo anda fechado e as crianças não têm como se aquecer. – Respondi naturalmente e Cassie não estendeu a conversa, optando por voltar ao silêncio. Colocou a bolsa no concreto do pátio e rumou até o seu carro, não dando oportunidade para que eu lhe agradecesse outra vez. A cena que se seguiu foi bem chocante. A mulher puxou duas bolsas do banco de trás do automóvel e, de imediato, constatei que nelas continham cobertores, bem como eu havia feito. Meu semblante decerto demonstrava a surpresa por vê-la contribuir com a causa, contudo, limitamo-nos a trocar olhares conforme eu a acompanhava adentrar a parte interna do orfanato. Senti algo envolta das minhas pernas e sorri largo no momento que identifiquei Archie me abraçando na forma que lhe era possível.
- Hey! Que saudade de você! – Exclamei com o coração quentinho em receber o carinho do pequeno agarrado a mim. Ele ergueu a cabeça e encarou a tipoia em meu braço, tombando-a para o lado de forma curiosa, como se perguntasse a si mesmo o que aquilo fazia ali.
- O que é isso aí? – Indagou interessado, afastando-se para me fitar melhor.
- Eu me machuquei, e isso aqui – ergui o membro contundido – serve para curar o dodói. – Disse e o garotinho exprimiu um ligeiro bico, prosseguindo em sua fisionomia pensativa.
- Dói?
- Não mais. Quando nós cuidamos do dodói ele para de doer, não para? – Perguntei e Archie assentiu veemente. – Estou bem agora, mocinho. – Cutuquei-lhe a barriga. Ele se encolheu e riu.
- ‘Tá, eu vou tomar conta de você pro seu machucado não doer. – Proferiu com o peito estufado e eu quase morri de amor. Afaguei seus cabelos enquanto o via conversar algo com um coleguinha que havia se aproximado, aproveitando da interação dos dois para buscar por Trish, que até então não tinha aparecido pelos arredores do abrigo. – Ei... – Archie chamou e eu desci o olhar até ele, deparando-me com sua carinha desconfiada.
- O que houve? – Perguntei sem parar de acariciar seus fios.
- Eu posso tomar conta de você depois de brincar de esconde-esconde? – Cutucou seus dedos aparentando estar um tanto quanto receoso e eu sorri.
- Mas é claro que pode! Eu prometo que irei me comportar, capitão. – Afirmei e o pequeno sorriu largo.
- Eu já volto, só vou ali rapidinho! – Comunicou já correndo rumo aos seus amigos e eu gargalhei brevemente. Olhei em volta e, enfim, avistei a mulher entrar em meu campo de visão, vindo até mim com a fisionomia afável de sempre.
- Bom dia, ! Como você está? Melhorou? Fiquei muito preocupada com a sua mensagem, menina! – Expôs em alerta, dando-me um abraço mais demorado do que normalmente dava. Ri e o retribuí do modo que me foi possível.
- Estou bem! Logo, logo me livro dessa coisa. – Disse referindo-me a tipoia. Trish fitou a sacola posta perto dos meus pés e cravou os olhos semicerrados nos meus. – , quem trouxe essa bolsa enorme? – Inquiriu num tom repreensivo e eu, mais uma vez, sorri amarelo.
- Eu... Mas não foi tão difícil, juro! As crianças precisavam das cobertas, o tempo anda fechado e a previsão é de que continue assim. Salvo uma dorzinha ou outra, tudo ocorreu bem. – Argumentei e ela assentiu desconfiada.
- Por falar nisso, a senhorita Privost nos doou alguns edredons, você viu? – Proferiu um tanto chocada, bem como eu fiquei no instante em que constatei que Cassie retirou a bolsa de seu carro.
- Sim... Confesso que não esperava. Fiquei feliz com a consideração que ela teve. – Revelei, encarando o veículo da mulher que anteriormente me ajudara.
- Foi uma atitude muito bacana, mesmo. – Concordou e eu assenti. – Mudando de assunto, ... É o seu penúltimo dia aqui, não é? – Sua face continha pesar e a minha decerto encontrava-se igual.
- Sim. – Suspirei desgostosa – Inclusive gostaria de conversar com a Magnólia sobre esse pequeno detalhe. Será que ela aceitaria que eu ficasse no abrigo somente como voluntária? Quero continuar frequentando, tenho certeza que posso ajudar vocês. – Manifestei esperançosa de que a minha presença contínua fosse aceita.
- Eu certamente posso contribuir para que a sua vontade seja atendida. Seria muito maravilhoso ter você aqui conosco! – Trish declarou já animada com a ideia.
- Jura?! Mesmo?! – Ela afirmou – Por isso eu te adoro! Muito obrigada! – Abracei-a de maneira efusiva, ouvindo-a rir enquanto pedia para que eu tomasse cuidado.
- Vamos às atividades de hoje, conversamos sobre isso depois, pode ser?
- Claro, com certeza! – Respondi eufórica demais. Direcionamo-nos à sala de brinquedos em meio a risos e, com o coração mais aliviado pela modesta chance de não ser o fim das visitações no orfanato.

- Crianças, não se esqueçam de tapar as canetinhas após o uso. – Trish avisou conforme os pequenos concluíam a tarefa requerida. Veio até o local onde eu estava e, bem como eu fazia, observou o furor de crianças que, compenetradas, executavam a divertida função de desenhar com tudo o que tinham direito.
- Como as coisas estão encaminhando por aqui? Alguma novidade? – Perguntei, ansiando por escutar uma resposta positiva no que se referia às circunstâncias atuais do abrigo.
- Nos deram um prazo. Dois meses. – Disse e meus olhos arregalaram-se instantaneamente – Magnólia não conseguiu o empréstimo, temos sessenta dias para arrumar a situação das crianças, resolver a papelada e tudo mais... Eu estou tentando ser forte, estou tentando pensar no bem dos pequenos, mas eles só ficarão bem aqui! – Sua voz embargou e eu senti os meus olhos queimarem. Cravei minha atenção em Archie e ele imediatamente ergueu sua cabeça, fitando-me de volta com um sorriso enorme na face alegre. Apesar de não me encontrar em meu melhor humor, retribuí o gesto, ainda que o meu coração apertado se opusesse diante do ato forçado. Respirei fundo com o intuito de organizar meus pensamentos, desacreditando no que acabara de ouvir.
- Isso é muito pouco... – A frase saiu num murmúrio desconsolado. – Eles serão mandados pra onde? Como explicar uma coisa dessas para crianças que já sofreram com abandono?! Não é certo! Algo precisa ser feito! – Disse completamente atônita.
- Penso o mesmo que você, . Não há nada a se fazer, infelizmente. Eu estou perdida, Magnólia mais ainda. – Lamentou e eu fiquei em silêncio. Pense, . Pense. Vamos lá, não deixe isso assim. Como arranjar a quantia necessária para reformar o orfanato e quitar a dívida do lugar? Aliás... De quanto era a dívida? Encarei Trish e ela parecia estar longe.
- Trish. – Chamei e a mulher direcionou os olhos até mim. – Perdão pela indiscrição, porém, você pode me tirar uma dúvida? – A mulher afirmou e eu continuei. – De quanto dinheiro estamos falando? Gostaria de saber sobre a despesa total, incluindo a reforma e o pagamento do que vocês devem. – Ela suspirou e se remexeu incomodada.
- Vinte mil. A dívida é de cinco mil, no entanto, não temos essa quantia. Caso tivéssemos, o empréstimo seria liberado e pegaríamos quinze mil para a reforma. – Explicou e eu maneei a cabeça.
- Então o problema todo são os cinco mil?
- Sim. – Suspirou novamente. – Já tentamos fazer uma espécie de vaquinha, entretanto, não deu certo. Sempre falta. – Esclareceu de novo. – O que mais poderíamos fazer? Uma festa para arrecadar dinheiro? – Questionou satírica. Pisquei diversas vezes, gostando muito do que escutei. Meu semblante se iluminou e os meus lábios se repuxaram em um enorme sorriso.
- É isso! – Proferi entusiasmada e Trish vincou as sobrancelhas.
- ”É isso” o quê, ? – Inquiriu sem compreender.
- A festa! É uma ótima ideia, é uma ideia maravilhosa! – Respondi sem permitir que a minha feição empolgada se desfizesse, não me importando nem um pouco com a forma esquisita que a mulher ao meu lado me analisava.
- O quê?! É sério?
- Mas é óbvio! Eu não sei como faremos essa festa, contudo, ela irá acontecer. Não questione, só concorde comigo e o do resto eu cuido! – Expus segura de cada palavra dita, embora realmente não possuísse ideia alguma de como planejaria tudo. Trish ponderou durante poucos segundos e, após refletir brevemente, deu-se por vencida através de uma jogada de ombros.
- Não é como se tivéssemos outras opções para descartar a única que surgiu. Eu estou de acordo e digo mais: Do resto nós cuidamos. – Piscou e eu assenti, sentindo-me totalmente animada.
- Vou começar a colocar as ideias no papel e te passo tudo, pode ser? – Interroguei a ela, que concordou. – O não nós já temos, vamos correr atrás do sim e desse dinheiro! Vai ficar tudo bem. – Tentei confortá-la – e confortar a mim mesma – por meio da frase proferida, recebendo um afago nos ombros em resposta. Vislumbrei Archie vir em nossa direção segurando um papel, deixando-o colado ao peito como se escondesse o que havia ali. Parou em frente a nós duas e estendeu a folha portando uma fisionomia satisfeita em seu rostinho sapeca.
- Eu fiz pra você, ó. Toma. – Entregou-me o que segurava e eu peguei, totalmente encantada por receber um presente dele. Analisei o desenho, passando os olhos por cada traço feito pelo menininho tomado por expectativa durante o tempo em que me observava, aguardando a minha fala a respeito de sua arte.
- Que desenho mais lindo, Archie! Eu amei, muito obrigada! – Acariciei seus cabelos e o sorriso dele alargou.
- Brigado. Eu fiz um urso porque fico feliz quando vejo ursos, daí queria que você ficasse feliz também por causa do seu dodói. – Comunicou de modo meigo. Agachei-me e, embora o desequilíbrio ocasionado pela falta de sustentação do braço lesionado dificultasse minha ação, o abracei.
- Pois eu estou muito feliz, viu? Depois desse presente lindo é impossível não melhorar! O que é isso laranja na mão dele? – Perguntei curiosa ao notar o pequeno detalhe.
- Ele ‘tava comendo Cheetos. – Respondeu simplesmente e eu gargalhei alto, escutando Trish fazer o mesmo. Levantei-me com a ajuda dela e o pequeno correu de volta ao seu grupo de amigos, o que só aumentou o aperto em meu coração somente com a hipótese de vê-los separados.
- Já é quase hora do almoço deles. Você vai ficar?
- Não. – Lamentei – Eu preciso ir. Tenho que me virar para estudar para as provas finais e concluir os trabalhos de fim de semestre.
- Ah, eu entendo. E não se preocupe, . Irei encontrar um jeito de informar à Magnólia sobre o seu possível voluntariado aqui. – Noticiou solícita e eu sorri em agradecimento.
- Muito obrigada, Trish. Vamos nos falando sobre a festa de arrecadação do dinheiro, certo?
- Com certeza! Mandarei uma mensagem se eu por ventura tiver alguma ideia magnífica com relação a essa nossa invenção. – Brincou e eu ri.
- Farei o mesmo. Vai dar tudo certo. – Reafirmei, abraçando-lhe brevemente. Archie correu em minha direção e o bico que usualmente exprimia sempre que me via deixar o abrigo manifestou-se sem demora.
- Já vai? – Perguntou num muxoxo. Automaticamente reproduzi o seu gesto, também formando um bico em meus lábios.
- Sim... Mas eu volto, não se esqueça. Além do mais, eu ganhei um novo lindo desenho e tenho que colocá-lo na parede do meu quarto. – Pisquei para o garotinho, aliviada em ver sua face suavizar através de um sorriso orgulhoso.
- Eba! Tudo bem, eu espero você voltar. Só não demora, ‘tá? – Pediu, carinhoso. O misto de sensações ruins me arrebatou novamente. Como seria se mandassem Archie para um lugar ruim e sem ninguém que ele conheça? Como seria se o mandassem para longe? E o restante das crianças? Céus, refletir com relação a isso doía. E muito. Recuperei minha postura e lhe devolvi o sorriso ao passo que afagava suas bochechas grandes.
- Não irei, capitão. Quando você menos esperar, estarei aqui te enchendo de cócegas. – Cutuquei sua barriguinha, ato que me era costumeiro, e sua risada preencheu meus ouvidos. – Até breve! – Acenei para ele e para os outros pequenos, saindo da sala com a cabeça fervilhando com os planos que necessitavam ser elaborados o mais rápido possível. Como eu iria preparar uma festa? Retirei-me dali e topei com Cassie conforme andava rumo aos portões do orfanato, o que me lembrou de sua ajuda ao doar as cobertas hoje mais cedo.
- Cassie! – Chamei, reunindo uma boa dose de coragem para fazê-lo. A mulher virou parcialmente o tronco e me encarou de modo que transpareceu a sua confusão em me ver naquele contexto. Percebendo que ela nada diria, limpei a garganta e avancei com minha intenção de construir um diálogo decente. – Ahn... Foi bem legal o que você fez. Sabe, de trazer os edredons e tudo mais... – Terminei e ela apenas moveu a cabeça em afirmação.
- Elas não me serviam de nada, não custava. – Relatou indiferente.
- Obrigada, de qualquer forma. Você não sabe quão importante foi esse gesto. – Sorri, genuinamente contente com o fato de que os pequenos já não passariam frio ao anoitecer.
- Como eu inicialmente disse... Não foi nada. – Repetiu e eu assenti.
- Muitas vezes o que é nada para você, pode significar muito para outros. – A expressão imponente de Cassie vacilou por milésimos de segundos para, logo depois, retornar. – Bem... Tchau. Obrigada mais uma vez. – Externei um “tchauzinho” e afastei-me, tornando a caminhar sentido ao acesso do lugar. Tomei o ônibus de volta ao condomínio, imersa em minhas reflexões acerca de inúmeras coisas.

Digitar com uma mão só era terrível.
Eu movia uma imagem um milímetro para a esquerda e todo o texto sumia; Três novas páginas apareciam; ao fundo, eu podia escutar sons de sirenes enquanto o caos ocorria no Word. Bufei e tomei o milésimo gole da milésima xícara de café, sentindo a overdose de conhecimento me colocar num estado de exaustão, cujo peso impedia meus olhos de lerem mais um parágrafo. Fitei o Pastor Alemão que estava deitado perto do pé da cadeira e o acariciei com um dos meus pés, triste com o fato de que viria buscá-lo logo mais.
.
O zunido do celular tocando em cima da mesa tratou de executar o trabalho de me acordar, tão alto que quase me matou do coração. Peguei-o e sorri ao ver a foto escolhida como imagem de contato, imagem que mostrava Vicenzo usando argila verde no rosto inteiro.
- Como vai o meu raio de sol favorito? – Sua voz ressoou animada.
- Espero que eu seja o único raio de sol que você conhece, senhor Vicenzo. – Ameacei divertida e ele gargalhou.
- Você é o único, sem igual e incomparável raio de sol. A honra desta denominação é somente sua. – Confirmou com a entonação que deixava claro que o sorriso de coringa encontrava-se em seu rosto.
- Eu acho muito bom. Tenho um braço envolto com gesso extremamente duro e sei bem como utilizá-lo. – Brinquei e, outra vez, sua risada fez-se audível.
- Parece que tem alguém perigosa hoje, foi mordida por algum lutador de MMA? – Indagou zombeteiro. – Quais são seus planos para hoje, miss punho de cimento? – Gargalhei alto e murmurei um xingamento qualquer.
- Comer tacos e assistir um filme de romance que vai me fazer questionar toda a minha vida amorosa enquanto travo uma guerra de proporções mundiais comigo mesma para não pensar demais sobre o dramalhão mexicano no qual eu me envolvi nos últimos meses, consumando a cena ridícula com uma dose exagerada de choro e revolta direcionada a todos os homens existentes na face da Terra, ato que determinará o meu completo e humilhante fundo do poço. – Concluí quase sem ar. O outro lado da linha encontrava-se em um silêncio sepulcral.
- Porra, você precisa sair de casa. – Vicenzo disse meio desesperado e eu ri. – Eu estou falando muito sério, . Que diabo de programa merda, só faltou a trilha sonora fúnebre! Gata, você quer afogar as mágoas e eu sou o próprio oceano da perdição. O que me diz? – Eu não conseguia cessar o meu riso devido às gracinhas do meu amigo que, sem dúvidas, não desistiria de sua ideia. Ele não precisaria insistir, de qualquer maneira. O convite me parecia tentador e a probabilidade de me divertir era enorme.
- Tudo bem. – Aceitei sem pestanejar.
- O quê?! Nenhum “mas?” Nenhum “Ai, eu estou cansada.” – Falou de modo afetado. – Cancela o nosso rolê porque hoje vai chover tanto que Noé vai voltar com a barca só para buscar a galera toda. – Gracejou e eu revirei os olhos.
- Se você começar a zombar de mim, eu desligo a ligação e te troco pelos tacos! – Adverti divertida e, assim como eu, Vicenzo ria sem parar.
- Não farei objeções, mademoiselle. Esteja pronta às oito, te pego não somente neste horário, como também a noite toda.
- Vicenzo! – O repreendi entre gargalhadas.
- Até breve, raio de sol! – O vocalista encerrou a chamada, mal aguardando para que eu o respondesse. Balancei a cabeça em negação e levantei-me da cadeira, já imaginando o trabalho que eu teria para me arrumar.
- Daqui a pouco o seu dono estará aqui, não é? – Iniciei para Bento, que balançou as orelhas no momento em que notou que eu falava –. Olha, cá pra nós, eu sinto falta dele. Estou chateada? Sim. Estou com raiva? Bastante. Porém, é estranho voltar a tratá-lo formalmente, sabe? Mas ele não se ajuda! Como alguém pode ser uma completa incógnita e ainda sim transmitir tanta verdade quando olha nos meus olhos? – O cão moveu o rabo e eu respirei fundo. – Bem, não tem o que fazer... Vou tomar um banho e já volto. – Avisei, assistindo-o balançar a orelha em compreensão. Apanhei minha toalha e segui com destino ao banheiro, pronta para dar início à luta contra o meu braço.

A temperatura razoavelmente baixa em nada colaborava comigo.
Escolher – e usar – mais do que duas peças de roupa, na atual situação, não era nem um pouco agradável. Felizmente minha mãe havia adquirido uma habilidade admirável de surgir nesses momentos dificultosos, ajudando-me a não fazer nenhuma besteira e manter o gesso no lugar. Encarei o meu reflexo no espelho e, atrás de mim, a mulher me fitava receosa. Sorri e rolei os olhos, sem precisar lhe questionar a respeito de sua fisionomia que transmitia uma só mensagem: “Não sei se gosto disso”.
- Está tudo bem, dona . Vou e volto com o Vicenzo, sem maiores problemas. – Falei, dando os últimos retoques na maquiagem.
- Eu não disse nada. – Ergueu as mãos na defensiva e eu cerrei os olhos. – Divirta-se e cuidado, dona . – Afagou os meus cabelos e locomoveu-se até a porta.
- Sim, senhora. Ah, mãe! – Ela girou o calcanhar e se virou. – O vem buscar o Bento daqui a pouco. Você pode entregá-lo, por favor?
- Hm... Claro, filha. Vou apenas tomar um banho rápido. – Informou e eu afirmei com a cabeça, acompanhando-a se retirar do quarto.
- Chegou a pior hora... Não quero dar tchau para você. – Sentei-me na cama. Bento saiu do chão e pulou sobre o colchão, apoiando a cabeça nas minhas pernas. Fiz carinho em seu pelo macio, já sentindo falta do ronco do Pastor Alemão pelas manhãs e de sua folga ao roubar boa parte do espaço da cama para si. Meu celular apitou e eu dei uma ligeira conferida na tela, tomando conhecimento da chegada de Vicenzo, que fez questão de lotar minha tela de bloqueio com inúmeras mensagens, uma em cada linha. Ri e maneei a cabeça em negação. – Até, garotão. Espero te ver logo. – Passei minha mão entre suas orelhas, peguei minha bolsa e atravessei os cômodos, refreando meus passos ao escutar o ruído do contato de suas patas no piso de maneira. – Não faça isso, assim você me obriga a ficar aqui com você! – Exclamei com o coração partido por precisar devolvê-lo. Bento sentou-se frente à porta e a encarou como se aguardasse por algo, gesto que me causou estranheza. – O que foi? Parece até que está esperando alguém. – Ri e girei a maçaneta, sentindo meu sorriso morrer ao me deparar com a pessoa que se preparava para bater na porta.
Com uma mão no bolso sobretudo e a outra suspensa no ar, me encarou inexpressivo. Recolheu o braço e colocou a mão – anteriormente erguida – na outra abertura vazia da vestimenta, escorrendo os olhos através da extensão das minhas pernas cobertas pela meia-calça até cravá-los nos meus, originando um arrepio que transpassou por todo o meu corpo, onde o homem sequer se preocupou em disfarçar que recém analisara. Sustentei o contato visual, apesar de perceber todas as sensações eletrizantes me corroendo por dentro.
- Boa noite. – tomou a frente da situação e quebrou o silêncio.
- Boa noite. – Respondi simplesmente. A falta de diálogo instalou-se mais uma vez.
- E aí, carinha? – O homem abaixou-se e acariciou o cão, que, enfim, fez festa com a chegada do dono, movimentando o rabo freneticamente conforme recebia o afago em sua cabeça. – Espero que você tenha se comportado. – Falou com aquele sorriso ladino que provocava espasmos em mim. Soltei o ar com força e encarei um ponto qualquer do quintal, obrigando-me a não entrar num universo paralelo mediante àquele gesto tão simples, porém totalmente viciante de se olhar. Percebi se levantar e os resquícios de seu riso mantiveram-se em seus lábios rosados pelo frio; Não contente, ele voltou a fixar as íris nas minhas. O amor que eu sentia sempre que o via completamente vestido de preto era proporcional ao ódio por não ser capaz de ignorar cada detalhe de sua figura habitualmente imponente, as emoções conflitantes batalhavam em meu interior e tudo piorou com o seu modo de estudar cada ponto do meu rosto – já quente –, gesto que culminava no meu fim por parecer que lia a minha alma apenas com tal expressão. – Como você está? E o braço? – Perguntou. Agora sua fisionomia se contorceu minimamente no que eu pude reconhecer como preocupação.
- Tudo ok. Para ambos. – Comuniquei sem estender o assunto e ele assentiu.
- Sente alguma dor?
- Não. Tomo antibiótico quando vejo que está incomodando. – afirmou outra vez.
Silêncio.
- Vai sair?
- Não que seja da sua conta, mas sim, eu vou. – Diferente do que eu esperava, o homem não arqueou a sobrancelha ou manifestou um gesto que poderia ser interpretado como: “Com quem você acha que está falando?”. Na realidade, um leque de sentimentos – todos negativos – perpassaram pelo seu semblante, onde o mais evidente era o de tristeza. Eu queria que ele se sentisse da mesma forma que eu me sentia, entretanto, o meu lado emocional infelizmente falou mais alto naquela circunstância, despertando o conhecido aperto no peito acompanhado da vontade de mandar a razão para o raio que o parta e simplesmente pular em seus braços para abraçá-lo com força. Lamentavelmente eu não o faria. Não enquanto não escutasse de sua boca tudo o que eu sabia que ele guardava dentro de si. Eu precisava sair dali. Reuni o pouco de sanidade que me restava e fiz menção de me retirar, ainda que a minha real vontade fosse de permanecer ali, mesmo que apenas para continuar naquela troca de olhares rodeada de inúmeros significados. firmou sua análise em mim e eu estremeci com o aroma forte de seu perfume, o qual me atingiu feito um soco assim que a brisa intensa levou a fragrância até o meu sistema olfativo, inserindo-me num estado de torpor que eu conhecia bem. Regressei os dois passos que havia dado e o encarei, decidindo por fazê-lo sem nenhuma pose hostil. O encarei sendo eu mesma, sem máscaras ou tentativas de atingi-lo. A maneira como eu o encarei externou o meu cansaço sobre tudo, inclusive sobre aquela luta da qual não teria nenhum vencedor. Ninguém sai ileso pelo que sente, o que conta é a coragem para enfrentar tais sentimentos. Receoso, avançou um passo conforme me observava com cuidado, como se questionasse se realmente deveria tomar tal atitude. Eu não intervi. Seu tronco encostou-se em meu peito e eu engoli a seco. Acompanhei sua mão fazer o trajeto até o meu rosto, experimentando a sensação reconfortante de seu polegar vagando suavemente pela minha bochecha, enquanto seus outros dedos encontravam-se apoiados próximos ao meu maxilar. Prendi a respiração no instante em que ele levou os lábios até a minha testa, encostando levemente o queixo sobre a minha cabeça após deixar um breve beijo no local ao mesmo tempo em que manteve o carinho em minha face. De repente tudo fez-se pó e o meu pensamento anuviou.
- Eu não aguento mais ficar assim com você, . Eu... Eu simplesmente não aguento. – Sua voz sôfrega e rouca me surpreendeu. – Até quando vamos insistir em tratar um ao outro com tamanha frieza? Eu mereço sua mágoa e assumo a minha culpa, mas, porra... Eu estou disposto a esclarecer tudo. – Terminou cansado e a minha garganta deu um nó, assim como os meus olhos deram indícios de que logo liberariam as lágrimas as quais eu resistia em permitir com que caíssem.
- Você sabe que me decepcionou, . – Falei quase num sussurro, entorpecida por nossa proximidade depois de um período de tempo relativamente grande.
- Eu sei e nunca vou me perdoar por isso. – Apoiei a cabeça em seu peitoral, pouco me importando em sustentar minha postura inflexível, agora notando que a mão de traçava o caminho entre os meus cabelos sem pressa. As batidas do seu coração soaram como música para os meus ouvidos e eu me concentrei nelas. – Me perdoe por te colocar em uma situação da qual você não tem consciência e por ser um puta imbecil por não dizer que... Caralho, eu quero ficar com você, . – Ele embrenhou os dedos pelos meus fios e transferiu o carinho para aquela parte do meu corpo, sendo o suficiente para que o choro preso enfim fosse liberado com força, como se expelisse toda minha exaustão e todo o peso junto com as gotas grossas que caíam desenfreadamente.
- Então por que você fez o que fez? Por que agiu como um idiota? – Disparei com a voz completamente embargada.
- Eu lhe devo uma explicação e irei dá-la a você tudo bem? Mas nós temos que conversar com calma. – Balancei a cabeça em concordância e o toque do meu celular soou estridente pelo ambiente, assustando não somente a mim, como a também. Afastei-me dele e apanhei o aparelho no bolso do meu casaco, vendo que Vicenzo me ligava. Sequei as lágrimas de qualquer jeito e limpei a garganta, aceitando a chamada em seguida.
- Oi, Vi. – Nada do que eu fiz surtiu efeito.
- Ihhh... Não gostei dessa entonação anasalada não, hein.
- Desculpe, eu estou indo. – Falei meio perdida, imaginando que toda a minha produção havia ido por água abaixo, literalmente. voltou a enfiar as mãos no bolso do sobretudo e olhou para o lado oposto ao meu.
- Devo preparar o meu ombrinho amigo? O esquerdo ou o direito? – Questionou divertido.
- Já chego aí, tudo bem?
- Sem problemas, raio de sol. A carruagem está à sua espera. – Ri brevemente e encerrei a ligação, expelindo uma boa quantidade de ar em razão do recente acontecimento. Fitei e ele fez o mesmo, voltando a focalizar sua atenção em meu rosto.
- Eu preciso ir. – Anunciei moderadamente atônita. – Nós iremos conversar e eu espero ouvir a verdade, não meia dúzia de desculpas sobre como tudo é complicado demais como se eu fosse uma estúpida que não pode entender. – Expus firme, sendo estudada seriamente pelo homem que se limitou em balançar a cabeça vagarosamente.
- Nunca pensei isso de você, . – Repreendeu.
- Mas pareceu. – Rebati e ele negou parecendo ofendido. Decidi não alongar o tópico em questão e alisei as orelhas de Bento por um breve momento, despedindo-me novamente. – Não importa agora, discutimos isso depois. Tenha uma boa noite. – Trocamos um último olhar – o suficiente para ocasionar uma leve reviravolta em meu estômago – e lhe dei as costas, pronta para sair dali.
- Se cuida. – O tom grave ecoou já um tanto quanto longínquo e eu virei parcialmente o tronco somente para assentir, tornando a caminhar quintal afora com a mente a mil.
Atravessei a portaria e Vicenzo saiu da caminhonete, fazendo reverência assim que eu alcancei a calçada e me aproximei dele, que abriu a porta para mim.
- Boa noite, senhorita rímel-borrado. Queira entrar na sua limusine. – Gracejou bem-humorado e eu dei uma rápida admirada no retrovisor, caindo na risada ao constatar as minhas olheiras feitas de maquiagem.
- Estou parecendo a noiva cadáver. – Entrei na brincadeira e o meu amigo gargalhou, oferecendo-me um lenço o qual eu peguei imediatamente.
- Não é o meu aniversário, porém, achei que levaria um bolo. – Falou conforme subia na caminhonete e eu exprimi um riso sem humor.
- Jamais, Vivi. Você acha mesmo que eu perderia a chance de ver você fazendo tudo o que eu quero? – Satirizei mostrando a tipoia, recebendo um olhar cínico do vocalista.
- Você joga baixo, gata.
- Apenas uso as armas que eu tenho. – Dei de ombros. Observei os portões do condomínio enquanto meu amigo se ajeitava no automóvel e, ao longe, identifiquei um carro passando pela extensa abertura. Não foi necessário que eu estreitasse o olhar para constatar que aquela era a Maserati de . Como se um imã nos ligasse, o homem virou a cabeça e deu de encontro comigo o fitando através do para-brisa. Com a expressão inteiramente fechada, ele encarou a mim e Vicenzo – que propositalmente deslocou o seu braço sobre os meus ombros –, fixando seu foco em mim por poucos segundos até voltar a prestar atenção à sua frente, sumindo pela rua tão rápido quanto durou nosso contato visual.
- Se o playba tivesse olhos de lazer eu teria virado churrasco. – Disse explodindo de rir. Neguei com a cabeça, lançando um olhar significativo para os meus ombros, não conseguindo segurar o riso mediante o jeito debochado do vocalista. – Ele merece ficar putinho, vai. Deixe o projeto de Bruce Wayne sofrer um pouco. – Deu uma piscadela e foi a minha vez de gargalhar com vontade em razão do apelido dito pela figura zombeteira localizada no banco do motorista.
- Céus, você é terrível!
- São seus olhos, raio de sol. – Piscou novamente, atento à avenida úmida com o sereno da noite.
- O foi buscar o Bento. – Iniciei. Vicenzo fez uma careta e eu ri, retomando minha fala. – Rolou um pequeno drama. Digamos que a minha parte sensível tenha falado mais alto e, com isso, eu tenha chorado um pouquinho... – Comentei despretensiosa, logo escutando a gargalhada vibrante do vocalista preencher o interior do veículo.
- Prossiga...
- Vou ouvir o que ele tem a dizer. Só quero resolver tudo, sabe? Estou cansada. – Admiti em meio a um suspiro.
- Você sabe que eu acho esse negócio de sentimento um saco, mas vou me esforçar para dar um conselho sábio, então foca aqui no meu rostinho bem diagramado. – O vocalista pediu e eu ri, obedecendo a sua solicitação. – Nunca passe vontade de nada na vida. Se você acha que deve – e quer – se acertar com o riquinho rico, se acerte. Se você só quer conversar para depois chutar a bunda dele, chute. Até porque é chato pra caralho ficar nesse “ai, eu te quero, mas não podemos fazer nada sobre isso.” – Falou com a voz afetada – Merdas acontecem, as pessoas erram, raio de sol. Você, eu, todo mundo já tomou uma decisão babaca na vida. Ele não apenas tomou uma decisão babaca, como é um babaca, mas isso não vem ao caso no momento. Não se sinta mal se não quiser escutá-lo e também não se sinta mal se quiser, viva la vida. – Concluiu portando o sorriso de coringa nos lábios repuxados.
- Moral da história? – Inquiri divertida, vendo-o se inclinar minimamente para aumentar o volume do rádio.
- Foda-se essa merda por agora, não fique remoendo isso. Let’s have fun, gata! – Declarou animado, começando a cantar a música que tocava.
Ri e concordei, afinal, Vicenzo estava certo.
A respeito de tudo.

Eu parecia estar presenciando um dejavú.
O combo de muitas pessoas, bebida, cigarro e música alta, em muito se assemelhava com a festa que Vicenzo havia dado em seu apartamento, tendo o único diferencial por se tratar de uma casa. Minhas bochechas formigavam entre um copo e outro de cerveja devido às conversas divertidas com os amigos de Vicenzo, eu já não aguentava mais rir e isso parecia um incentivo para que mais besteiras fossem ditas.
Agora num ambiente calmo e sem o grupo de pessoas ao redor, o vocalista e eu desfrutávamos de nossas long necks enquanto emendávamos diversos assuntos; A varanda da residência encontrava-se mais vazia – local propício para estabelecer um diálogo audível – e o sofá de estofado gasto serviu perfeitamente para que pudéssemos nos sentar confortavelmente, haja vista que eu evitava a todo custo me inserir no furor de convidados do lado de dentro da casa, pois levar esbarrões no braço lesionado não se encaixava no que eu considerava bom.
- Nós estamos aqui há mais ou menos duas horas e eu ainda não sei quem é o anfitrião da festa. – Comentei curiosa e Vicenzo riu.
- Você dividiu um drink com ela e conversou pra caralho. – Disse, apontando com o bico da garrafa para uma mulher de cabelo rosa. Bati na testa e assenti.
- Ah, claro! Yanna, não é? – Meu amigo afirmou. – Gostei muito dela, me pareceu ser uma ótima pessoa. – Avaliei, bebericando o líquido gelado.
- Ela é. Sabe o cara que te ofereceu a cerveja assim que nós chegamos? – Concordei – É marido dela.
- Mentira?! Que amor! Eles de fato formam um casal bonito. – Considerei admirada.
- Toda essa galera aqui frequenta o bar onde eu te levei, acabou que viramos uma família. – Vicenzo mencionou alheio, encarando a long neck em suas mãos. Eu nunca havia o visto se portar de maneira séria e aquilo me chamou a atenção. O vocalista tinha uma personalidade extrovertida, vivia brincando e fazendo piadas por aí, contudo, sua vida era um mistério total. Eu não sabia nada a seu respeito e aquilo me intrigava. Um homem parou diante dele e, disfarçadamente, mostrou-lhe algo no bolso. Cerrei os olhos com o intuito de enxergar sobre o que se tratava e me surpreendi ao ver um pacote transparente, no qual o conteúdo eu conhecia bem. O pó branco ocupava metade do plástico e eu agradeci aos céus no momento em que Vicenzo o recusou, liberando o cara que sumiu porta adentro rumo à sala. Analisei meu amigo com cuidado, fixando o olhar em seu semblante inexpressivo e estranhei. Algo não estava certo.
- Hm, deixa eu ver aqui os ingredientes dessa cerveja pra eu comprar e estocar – Levantei a garrafa rente aos meus olhos e fingi ler os componentes escritos nela – assim te dou quando você estiver atacado. Nunca vi você tão quieto. – Arrisquei uma brincadeira e ele enfim soltou uma risadinha. – Vi... Aquilo que aquele homem te ofereceu...
- Relaxa, raio de sol. Eu não uso cocaína, se é o que você quer saber. Não mais. – Pisquei algumas vezes, razoavelmente estupefata pelo não mais e Vicenzo riu sem humor. – O que seria de um membro de uma banda de rock sem um bom drama, não é mesmo?
- Você teve problemas com isso? Com drogas? – Perguntei um tanto quanto receosa em tocar num tópico delicado para ele.
- Não precisa ter medo de me perguntar, lindinha. Não é como se eu houvesse tido uma experiência de quase morte e essas paradas sinistras, eu só fiquei em uma clínica por algum tempo. – Soltou naturalmente, tomando um considerável gole de sua cerveja. Continuei o fitando durante bons segundos, buscando o correto a se dizer naquela situação. – Se eu bem te conheço, sua cabeça deve estar pegando fogo com as perguntas que eu sei que você quer fazer. Manda a ver, eu as responderei. Vou adorar me sentir uma estrela do rock dando aquelas entrevistas pós-surto. – Brincou, provavelmente tentando amenizar a gravidade do assunto, e eu ri fraco negando com a cabeça.
- Por quanto tempo você ficou internado?
- Seis meses. – Falou e eu ergui o cenho em surpresa.
- É bastante tempo... – Mensurei ainda meio atordoada. Vicenzo concordou. – Como você entrou nessa, Vi? Digo... O que houve?
- Senta que lá vem história... – Começou e eu mal me movi. – Era uma vez, num reino distante... – O repreendi com o olhar e ele ergueu as mãos. Murmurou um “desculpe” e retomou sua fala. – Eu comecei a usar assim que entrei na faculdade, não teve uma razão plausível. Foi coisa de adolescente imbecil, saca? Entrei na onda errada e quando percebi a gravidade da merda toda, era tarde demais. Fiquei sequelado, virei um zumbi, fodi com a minha família, larguei os estudos, tive uma overdose e fui internado à força. Às pressas. – Minha respiração saía com dificuldade, o impacto em escutar tal desabafo me inseriu num estado de choque sem tamanho. À medida que Vicenzo contava sua experiência, pude notar tristeza em seus olhos. – Saí da clínica, me mudei pra cá e conheci os caras da banda no S.D.R, eles me viram tocar e me chamaram para fazer parte. Por isso nos tornamos família. Arrisco a dizer que a banda salvou a porra da minha vida. – O riso sem humor manifestou-se novamente. Engoli a seco e encarei as minhas mãos por poucos segundos somente para refletir – e digerir – o que me foi dito, completamente sensibilizada pelo que ouvi. Levantei a cabeça e voltei a observar Vicenzo, que manteve o olhar baixo. Toquei seu ombro e executei um carinho no local a fim de tentar transmitir um certo conforto a ele, que recobrou a postura e me encarou de volta, sorrindo logo depois. – Estou de boa, raio de sol. Vaso ruim não quebra. – Deu uma piscadela, mas eu não me convenci. Era óbvio que aquilo o machucava. Embora ainda possuísse incontáveis dúvidas pairando sobre a minha mente, resolvi não prosseguir com os questionamentos.
- Obrigada por me contar, fico feliz que você tenha superado. – Revelei, num misto de orgulho e preocupação com o meu amigo que insistia em agir como se tivesse se recuperado de uma gripe.
- Tive o que mereci, entrei nessa por conta própria e paguei o preço pelo que fiz. Algumas gramas de felicidade momentânea para dias de depressão intensa. – Proferiu absorto em seu mundo. Às vezes nós precisamos suprimir nossos desejos e escolher por fazer o que é correto ao invés do que queremos, levando em conta a atual circunstância, acabei engolindo toda e qualquer vontade de aprofundar o tópico em questão e respeitei o silêncio que caíra sobre nós dois. Minutos após o breve período sem dizermos palavra nenhuma, por fim ousei falar algo.
- Se você tocar nessa porcaria de novo, eu juro que pego o saquinho e enfio no seu... – OPA! – Vicenzo me interrompeu gargalhando e eu o acompanhei. – Beleza, não há necessidade de violência por aqui, raio de sol. Já foi, eu estou zero bala. – Garantiu estufando o peito e eu não o contestei.
- Ótimo! Já deu desse papo baixo astral, agora levante essa bunda daí e vá buscar mais cerveja para nós. – Sorri largo e apanhei a long neck posta ao meu lado, entregando-a para o vocalista, que estreitou o olhar.
- Sorte a sua que você está com dodói, gata. Sorte a sua. – Disse ao se levantar e pegar a garrafa das minhas mãos. Acenei um “tchauzinho” e o segui com o olhar até vê-lo transpassar o acesso para a varanda.
O céu escuro da noite encontrava-se tomado por nuvens, as quais denunciavam que o dia seguinte não seria ensolarado, tampouco quente. Vários pensamentos diferentes tomaram a minha mente, todos eles se embaralharam de forma desordenada e por mais que eu desejasse me manter longe das minhas preocupações ao menos por algumas horas, o mínimo deslize trazia à tona os pontos até então evitados.
Como eu organizaria uma festa de arrecadação de fundos para o abrigo?
Como seria a minha conversa com ?
Além de ainda estar estarrecida com a revelação de Vicenzo. Ele estava indo bem, porém, o seu fácil acesso ao que deveria se esquivar me preocupava, e muito. Como amiga, eu temia que algo ruim voltasse a ocorrer, e por mais que confiasse no esforço dele, saber de tudo o que houve quando ele ainda pode entrar em contato com a droga no momento em que desejar me deixava temerosa.
Vislumbrei o vocalista retornar com uma garrafa em cada mão e sorri, empenhada em deixar os meus questionamentos de lado e voltar a aproveitar a noite.

O dia seguinte amanheceu frio. Uma garoa fina caía do céu cinza e molhava a grama do descampado, que parecia brilhar por estar banhado com o orvalho do chuvisco fraco. Respirei profundamente e o cheiro de terra molhada entrou pelo meu nariz, misturando-se com o aroma do chá de hortelã fumegante em minha mão. Levei-o à boca e o líquido quente esquentou a minha garganta instantaneamente, fazendo o mesmo com o meu corpo. Ao meu lado, anotava a matéria em meu caderno enquanto eu ditava as palavras a ela, que havia trazido tudo o que perdi nos dias em que não compareci na faculdade.
- Eu fiquei afastada das aulas por alguns dias ou por meses? Tem tanta folha aqui que eu já não sei mais o que estamos fazendo! – Protestei perdida e riu.
- Vamos pensar pelo lado positivo: As férias estão chegando! – Exclamou entusiasmada.
- Não vejo a hora, minha pilha já acabou.
- Acho que a de todo mundo. – Completou e eu assenti. – Não quer parar um pouco? Você disse que machucou as costas quando caiu, não está sentindo dor? – Perguntou me estudando preocupada.
- Quero, mas não porque estou sentindo dor, e sim porque meus olhos precisam de descanso. – Larguei o papel em cima do meu colo e me ajeitei no banco localizado no alpendre.
- Quando você vai tirar o gesso, sweetie?
- Daqui a duas semanas. – Fiz uma careta e minha amiga riu fraco.
- Ainda bem que você não quebrou o braço que usa para escrever. – Avaliou aliviada.
- Nem me fale, eu iria enlouquecer, principalmente por estarmos quase em época de provas. – Disse, vendo terminar de digitar algo em seu celular.
- Você nos assustou. – Comentou após deixar o aparelho de lado. – Preciso aprender a ouvir a minha intuição, sabia que era pra eu ter levado você para casa naquela noite.
- Não tinha como adivinhar que isso aconteceria, mi amor. Relaxa. – Assegurei tentando tranquilizá-la. – Não foi nada grave e eu estou bem, até ganhei um acessório novo. – Brinquei mostrando a tipoia e minha amiga revirou os olhos segurando o riso.
- Eu fiquei com tanto ódio do que agradeci por ele ter ido embora rápido. – Admitiu ríspida. Franzi o cenho, não compreendendo sua última sentença. – Todo mundo notou que houve um problema entre vocês dois, . – Suspirei e torci o nariz. Era óbvio que perceberiam, visto que nós dois ficamos na cozinha por mais tempo que o necessário. – Tudo fez mais sentido após você me contar sobre o que vocês falaram, ainda assim, deu para reparar o climão envolvido na situação. Ver você sair arrasada daquele jeito não foi legal. – Revelou, mantendo o tom de preocupação em sua voz.
- Se eu ficasse mais um pouco enfiaria as garrafas de cerveja na goela dele. – Revelei meio emburrada e riu.
- Depois que você saiu o veio falar comigo, aliás. – Minha amiga informou. Cerrei os olhos e ela prosseguiu. – Ele perguntou onde você estava, respondi que tinha ido embora e o Mister educação mal agradeceu, simplesmente se despediu de todo mundo de qualquer jeito e saiu também. – Reclamou revirando os olhos. – Ele é o ser humano que mais se contradiz no universo.
- É. – Suspirei. – Nos encontramos quando ele veio buscar o Bento. – Iniciei e se arrumou no banco, mostrando-se interessada. – Não é necessário que eu diga que aconteceu um pequeno drama, não é?
- Especifique. – Pediu levemente confusa.
- Ele meio que se desculpou, basicamente disse que não quer mais ficar na situação em que estamos.
- E...
- E que quer ficar comigo. – Concluí meio alheia, fixando o olhar na garoa que se intensificava. Não precisei encarar minha amiga para saber que ela me analisava. – Nos abraçamos, eu chorei um pouco e entramos em comum acordo quanto à nossa necessidade de conversar sobre tudo.
- Você quer conversar com ele? – Indagou cautelosa.
- Quero, só não sei se devo. A mágoa não passou totalmente, entende? Talvez seja medo de fazer papel de idiota, não sei. – Balancei os ombros, enfim fitando minha amiga. Eu conhecia aquele semblante. Ah, e como conhecia. Decerto que, naquele segundo, elaborava o melhor modo de dizer exatamente o que eu precisava escutar, apesar de muito possivelmente ser contra a sua própria vontade.
- Olha, é bem possível que eu tenha tanto receio da babaquice do quanto você, mas, infelizmente, também sou uma pessoa justa. Ouvir o que ele tem a dizer pode ser bom, . Assim você fica tranquila para seguir sua vida ou fazer o que acha que deve. Comunicação é sempre uma coisa positiva e, veja bem, você está tão preocupada em guardar essa mágoa que não sobra espaço para deixar isso ir. – considerou e eu parei para refletir. Ela não estava errada. De fato que, quando estamos enfrentando um período confuso, cair na armadilha de persistir em um círculo de pensamentos desnecessários era muito fácil e não ajudava em nada.
Assenti e beberiquei o meu chá, reflexiva a respeito das palavras proferidas pela minha amiga.
Eu daria uma chance ao .
Apenas uma. Ele teria uma oportunidade para esclarecer o que raios estava acontecendo com ele.
Conosco.




Capítulo 19

“Estou vivendo para a única coisa que eu conheço, estou correndo e não tenho muita certeza para onde ir. Não sei no que estou me metendo, apenas esperando por um momento aqui com você. Não há mais nada para perder, não há mais nada para achar, não há nada no mundo que possa mudar a minha mente.” – Hanging By A Moment – Lifehouse.


’s POV

A ampla parede de vidro propiciava uma extensa vista do céu cinzento e carregado, aumentando a sensação de amplitude do escritório que nunca me pareceu tão sufocante. Uma fina garoa caía do outro lado da vidraça, as gotículas de água manchavam o objeto translúcido e eu perdi bons minutos vislumbrando a paisagem iluminada pelas luzes dos prédios.
O início daquela noite de segunda-feira não se diferenciava de todas as outras, as longas reuniões tomaram boa parte do meu dia e, agora num momento mais calmo, eu aproveitava da ausência de compromissos para ler o restante das informações vazadas do caso Zummack, muito embora o meu foco estivesse longe dos papéis localizados sobre a minha mesa.
Expeli o ar de meus pulmões com força e esfreguei o rosto, buscando uma maneira de reunir toda a concentração necessária para avaliar o relatório.

° Na análise realizada, os Peritos identificaram o corpo da vítima com o rosto virado para o chão e perfurações na cabeça e nas costas.

° Foi alvejado por sete (7) tiros de Calibre 380.

° De acordo com a Perícia, o crime ocorreu entre às 23hrs00min e 23hrs30min.

Era tudo o que eu precisava.
Retirei o celular do bolso e digitei uma mensagem à Otto, que certamente detinha das respostas que eu precisava.

”Boa noite, Otto. Acabei de ler uma parte interessante do Laudo Pericial e acredito que você possa me fornecer algumas respostas. A Perícia constatou que o homicídio aconteceu entre às onze e onze e meia, desta forma, quero que você separe todas as fotografias tiradas na noite da festa. Estou saindo do trabalho agora e irei buscá-las.

Guardei o aparelho no terno e juntei meus pertences, deixando minha sala em meio a passos apressados.
- Bridget, tranque a minha sala, por favor. – Pedi sem parar de andar e minha secretária assentiu.
- Doutor . – Chamou. Descontinuei o meu caminhar e a encarei, estimulando-a a prosseguir. – O segurança do prédio acabou de interfonar para avisar que alguns repórteres estão parados na frente do portão da garagem. – Franzi o cenho, descrente no que acabara de ouvir.
- Como é? – Perguntei não com o objetivo de obter uma resposta, mas sim por me negar a acreditar que eu não teria sossego nem para sair da porra do trabalho.
- A saída se encontra bloqueada no momento, senhor. – Bufei irritado e neguei com a cabeça. – Não se preocupe, eu já pedi para que os seguranças os tirassem de lá. – Afirmou solícita.
- Tudo bem, Bridget. Obrigado por me comunicar. – Agradeci e, furioso, retomei meu trajeto inicial, adentrando no elevador de súbito. Eu dificilmente conseguiria dirigir até a casa de Otto, o que significava que os meus planos teriam que ser alterados e a minha pretensão inicial de buscar as fotografias teria que ser adiada para um momento posterior. Atravessei o estacionamento já imaginando o furor que decerto enfrentaria e entrei em meu carro, dando partida rapidamente. O portão automático mal se moveu e a claridade de flashes avançou em minha direção como um clarão vindo de um raio, automaticamente fazendo com que eu cerrasse os olhos a fim de evitar que a iluminação intensa machucasse minha visão. Enterrei a mão na buzina enquanto os guardas impediam que os jornalistas se aproximassem e arranquei com o automóvel, afastando-me do grupo de pessoas após o ligeiro episódio desagradável.
A mídia exerce grande poder sobre os indivíduos, tendo como objetivo transformar situações para o seu próprio interesse, e aquela em especial era um prato cheio a eles. Todos ansiavam pegar a primeira fila com o intuito de acompanhar o andamento do caso Zummack e eu sabia muito bem o motivo: Colocar à prova o meu potencial como advogado no primeiro deslize que eu possa vir a cometer. Havia muita coisa em jogo principalmente em virtude do peso que o sobrenome carregava no âmbito jurídico, era mais do que óbvio que todos se juntariam para questionar se o herdeiro do império de fato merecia estar onde está. Eu detestava tal nomenclatura e tampouco dava ouvido aos adjetivos empregados a mim, no entanto, não conseguia deixar de sentir a onda de raiva acertar o meu ego cujo aumentava o meu desejo de calar a boca de todos ao provar que eu possuo méritos em todas minhas conquistas, sendo desnecessário que eu me escore em minha família para ser bem sucedido.
Estacionei na garagem do prédio e segui rumo ao meu apartamento, tendo a sensação de que a gravata começava a me enforcar. Arranquei-a de meu pescoço e girei a chave no trinco, sorrindo ao notar Bento farejar por debaixo da porta, eufórico como lhe era habitual.
- E aí, amigão! – Saudei à medida que o cão pulava em mim, posicionando as patas dianteiras sobre as minhas pernas. Guardei minha pasta sobre a mesinha de centro e me joguei no sofá, enfim dando atenção ao Pastor Alemão elétrico ao meu lado. Me livrei do terno e logo depois da blusa social, quase suspirando de alívio por experimentar a liberdade proporcionada pela ausência das peças. Transpassei as mãos pelo meu rosto e as levei até os meus cabelos, bagunçando-os como se o ato fosse diminuir a tensão acumulada durante o dia. Apanhei meu celular e vi que Otto respondera minha mensagem.

”As fotos estão separadas. Avise quando chegar.”


Bufei frustrado e lhe respondi.

”Otto, aconteceu um imprevisto e tive que vir direto para casa. Deixe as fotografias como estão, explicarei tudo amanhã. Boa noite.


Larguei o aparelho e apoiei a cabeça no encosto do sofá. Cada centímetro do meu corpo gritava de cansaço, entretanto, desligar os meus pensamentos parecia ser impossível àquela altura. O excesso de atividades as quais eu era submetido diariamente me conduzia a uma fadiga intensa, como se eu carregasse o peso do mundo nas minhas costas.
Eu me preocupava em não dar conta do caso Zummack. Me preocupava com o que ele poderia causar não somente a mim, como às pessoas pelas quais eu zelava, e possuía muita relevância nisso. Ela havia se machucado, tudo devido à minha mania imbecil de antecipar acontecimentos e tentar decidir as coisas sozinho. Não era justo alguém inocente fazer parte de tanta merda, contudo, eu não poderia evitar de contá-la toda a verdade, afinal, sua segurança estava em jogo e aquilo se tornou prioridade para mim. Ser um babaca do caralho não alterava o fato de que eu sentia falta de e, porra, eu faria qualquer coisa para que nós realmente conversássemos, embora não fizesse ideia de como iria verbalizar tudo que se passava comigo quando o assunto era ela.
O medo é um mecanismo de defesa e proteção inerente ao ser humano, entretanto, viver com ele em demasia acabava comigo dia após dia, transformando minha vida num inferno onde eu, lamentavelmente, queimava de modo gradual. Certamente o quadro piorava ao misturar ódio à situação, e devo dizer que tal sentimento me levaria a cometer uma loucura no instante em que me deparasse com o maldito doente responsável por isso. Esse momento com certeza chegaria, eu mesmo cuidaria para que ocorresse o mais rápido possível.
Fui desperto pelo vibracall do meu celular e o peguei, atendendo a chamada num ímpeto. O frio na espinha já não era uma novidade.
- Boa noite, . – Reconheci a voz feminina do outro lado da linha.
- Boa noite, Betsy. Como vai?
- Cansada após um longo dia no trabalho... E você? Presumo que não muito diferente de mim. – Avaliou rindo fraco.
- Me encontro em um estado semelhante. – Respondi, voltando a acariciar o Pastor Alemão que não saíra do meu lado desde o minuto em que me sentei no sofá.
- Hm... Sabe, noites exaustivas pedem um bom drink junto a uma boa companhia. Ainda estou lhe devendo uma bebida, não estou? – Inquiriu utilizando um tom de voz instigante.
- Não se preocupe, não está me devendo nada. – Falei, ouvindo-a rir baixo de modo quase libidinoso.
- E quanto à companhia? , não sabia que você tinha se tornado tão difícil! – Brincou divertida e foi a minha vez de rir brevemente. - Desculpe, Betsy. Agradeço o convite, mas estou bem cansado. – Suspirei, esfregando o rosto com a mão livre.
- Se eu bem te conheço, tem mais do que um simples cansaço por trás disso... – Pressupôs com uma leve malícia, o que me remeteu aos tempos em que éramos amigos próximos anos atrás.
- É, digamos que sim. – Assumi e me veio à mente com uma rapidez impressionante.
- Ora ora, o doutor foi fisgado novamente. – Satirizou. – Bem, neste caso, não irei insistir. Devo lhe desejar boa sorte? - Eu particularmente não acredito em sorte, mas agradeço pela consideração. – Expus, ainda que no fundo eu possuísse a consciência de que eu deveria contar com essa sorte que sempre desmereci.
- Não me surpreendo, você sempre foi a racionalidade em pessoa. – Avaliou nostálgica. – Já que a minha companhia não está disponível, irei desfrutar de um bom vinho enquanto espero o sono chegar.
- É uma boa ideia. Tenha uma boa noite, Betsy. – Falei, sentindo que, assim como a mulher do outro lado da ligação, eu também precisaria ingerir uma boa dose de álcool para adormecer.
- Boa noite, . Durma bem. – O ruído da chamada sendo finalizada ressoou através da ligação. Guardei o aparelho no bolso e levantei-me em busca da garrafa de whisky posta no bar climatizado, ansiando amenizar a agitação da qual eu me encontrava com o auxílio da bebida.

Todo e qualquer passo que eu desse teria que ser meticulosamente calculado, o assédio de repórteres havia chegado em um patamar incômodo demais para ser ignorado e, levando em conta tal circunstância, mudar alguns hábitos de minha rotina seria o mais inteligente a se fazer. Pensando nisso, precedi a possível presença de jornalistas nos arredores e acordei horas antes de o despertador executar seu ofício, dirigindo-me à casa de Otto como outrora planejei.
À proporção que o céu clareava, abriam-se nuvens cinzentas que dominavam a paisagem urbana, onde os comércios começavam a dar movimento à cidade. Deixei meu carro no estacionamento próximo à rua de Otto e segui em direção ao seu apartamento, logo encontrando-o sentado na escada do prédio com uma caneca fumegante em mãos.
- Bom dia, . – Disse, liberando o meu acesso ao abrir o pequeno portão de metal.
- Bom dia. Desculpe-me pelo horário, infelizmente tive que alterar minha agenda. – Justifiquei enquanto subíamos as escadarias.
- Não se preocupe. Acompanho os noticiários, vejo que a imprensa não anda facilitando as coisas. – Comentou ao fechar a porta atrás de si. – Adiantei o trabalho que você teria e procurei as fotos tiradas entre onze e onze e meia. – Apontou para a mesinha de centro tomada por fotografias e eu me sentei no sofá, iniciando minha análise por cada uma atentamente.
- Você pode me arrumar uma caneta, por favor, Otto? – Pedi e o homem instantaneamente entregou-me o objeto solicitado.
- O que você está fazendo? – Perguntou ao me ver circular o rosto de Lee Feldmann em três imagens.
- A primeira foto foi tirada às onze e cinco, a segunda às onze e dez e a terceira às onze e quinze. Depois disso, o senhor Feldmann não aparece mais, porém, temos este retrato em que, ao fundo, torna-se visível a presença de alguém não identificado exatamente às onze e vinte e seis. – Fiz uma seta indicando a figura desfocada e Otto assentiu em compreensão. – Segundo meu cliente, ele estava fumando na parte externa do sítio neste horário. A perícia certamente não verificou o local mencionado, portanto, irei elaborar uma carta para o juiz solicitando a inspeção ainda hoje. Não podemos descartar a hipótese da autoria do crime ser provinda de um não convidado e, para ser sincero, cada vez mais as minhas suspeitas apontam para essa perspectiva da situação. – Concluí, mantendo o foco no exame pormenorizado das imagens postas sobre a mesa.
- Como um não convidado teve acesso à uma festa repleta de seguranças? Eu era o fotógrafo e fiquei cerca de uma hora somente para que validassem a minha entrada no evento! – Exclamou descontente e eu toquei minhas têmporas, refletindo sobre tal fato.
- Existe um jogo de interesses no meio dessa história, Otto. Decerto há mais pessoas envolvidas, o ponto é saber quem e o que as motivou. – Avaliei reflexivo.
- Dinheiro. Obviamente alguém influente está comandando toda essa palhaçada. – O homem afirmou ríspido e eu maneei a cabeça em concordância.
- É possível, nada pode ser descartado.
- O meu padrinho odiava isso... – Otto começou e eu o fitei sem entender, esperando-o seguir em frente. – Corrupção, abuso de poder e derivados. Eu não consigo acreditar que ele foi morto por um crápula que gosta de brincar de Deus! Eu quero acabar com a raça desse desgraçado! Eu juro que morreria feliz só em saber quem fez essa atrocidade. – Concluiu junto a um riso melancólico. Não pude deixar de me compadecer com o seu estado.
- Eu sinto muito, Otto. De verdade. Saiba que, assim como você, desejo ver a cara desse maldito. Alguém importante para mim está correndo risco e o que eu mais quero é acabar com essa merda, mas eu preciso pedir para que você se preserve. – Alertei, temendo que ele fizesse algo que pudesse prejudicá-lo. – Uma pessoa inocente está sendo acusada de um crime que não cometeu, meu trabalho é reverter este quadro e, acompanhado disso, irei me certificar de dar ao culpado o destino que ele merece, contudo, temos que pensar com cautela. É só o que eu te peço. – Concluí claro e objetivo, firmando minha análise na figura moderadamente desestabilizada diante de mim.
- Só quero fazer justiça, . – Tentou argumentar e eu neguei com a cabeça.
- Isso não cabe a você. – Rebati. – Eu aceitei a sua colaboração, Otto, mas apenas a colaboração. Do resto cuido eu, entendido?
- A lei não funciona para pessoas influentes, eu não confio nisso. – Retrucou novamente.
- Então confie em mim. – Pedi encarando-o com firmeza. Otto respirou fundo e passou as mãos pelo rosto, concordando notavelmente contra sua vontade.
- Você não teme, ? – Perguntou de súbito. Arqueei uma sobrancelha e mantive minha postura, não compreendendo seu questionamento. – Aparentemente o seu medo envolve terceiros, mas nunca a si mesmo. Você sabe que querem te tirar do caminho, não sabe? – Concluiu e eu maneei a cabeça em concordância.
- Eu consigo me virar, Otto. – Limitei-me a lhe dar somente essa resposta, vendo-o assumir uma expressão inquisitiva que manifestava seu descontentamento com o que acabara de escutar. Ainda assim, ele não insistiu ou prolongou o tópico em questão. Chequei o horário em meu relógio de pulso e juntei as fotografias em um envelope, levantando-me do sofá em seguida. – Vou anexar essas imagens com o restante da documentação da tese de defesa.
- Tudo bem. Irei tratar as fotos que estavam no cartão de memória e te ligo caso veja algo importante. – Comunicou ao passo que me acompanhava até a porta.
- Certo. Até mais, Otto. Tenha um bom dia.
- Pra você também, . – Agradeci e desci as escadas, regressando ao local onde meu carro encontrava-se estacionado. Adentrei o veículo e iniciei o trajeto rumo ao prédio do escritório, novamente imerso em diversas questões que rodeavam minha mente, a qual era bombardeada com as informações divergentes que lutavam umas com as outras como se disputassem prioridade em meu cérebro.
Um pouco mais a adiante já era possível avistar o gigantesco edifício espelhado, no entanto, eu não entraria ali no momento. Parei o automóvel diante da cafeteria localizada em frente ao prédio, sentindo o aroma agradável de café e nozes provir do estabelecimento revestido de tijolos rústicos sustentado por toldos brancos, o que realçava o ar aconchegante que todo ambiente como aquele deveria possuir. Eu não era um cliente assíduo, tampouco costumava frequentar tais lugares, contudo, não podia negar que a calmaria a qual singelo espaço emanava seria mais do que bem vinda naquele instante. E em muitos outros.
Estudei o interior do recinto rapidamente e me dirigi à última mesa adjacente à vasta janela de vidro, cuja vista para a rua úmida em razão da garoa me pareceu interessante e aprazível. Um senhor – que parecia ter os seus sessenta e poucos anos – deu a volta na bancada de madeira maciça e, portando uma pequena caderneta em mãos, veio até mim exprimindo um sorriso simpático que evidenciou suas bochechas rosadas quase cobertas pela barba tão branca como um novelo de lã, do mesmo modo que o seu cabelo moderadamente comprido, deixando-o com uma aparência muito semelhante ao que muitos igualariam como o Papai Noel. Franzi o cenho e rompi o ligeiro devaneio irrelevante, fitando o mais velho que mantinha o semblante afável no rosto.
- Bom dia! Gostaria de pedir algo? – Indagou em expectativa. Passei os olhos pelo grande painel fixado na parede da parte posterior do guichê de atendimento e voltei a encarar o senhor solícito.
- Apenas um café, por favor. – Disse, observando-o anotar o pedido no bloco de notas utilizando o lápis que trazia atrás da orelha.
- Com ou sem açúcar, meu jovem?
- Sem. – Respondi.
- Mais alguma coisa? Posso pegar o cardápio, caso deseje. – Se dispôs e eu neguei.
- Só isso, obrigado. – Ele assentiu e se retirou. Perdi bons minutos acompanhando o fluxo intenso de carros indo e vindo através da via pública, também aproveitando para dar uma breve inspecionada no interior do estabelecimento. Assim como a fachada, as paredes de dentro também revestiam-se de tijolos rudimentares, dando ao lugar um aspecto rústico que era complementado com o balcão de madeira, feito do mesmo material que o chão. No geral, nada fugia do padrão de uma cafeteria normal, porém, eu me arriscaria a dizer que havia uma peculiaridade ali que deixava o ambiente confortável, sendo quase como um diferencial, apesar de eu não saber do que se tratava e sequer conseguir identificar um fator que justificasse tal sensação.
- Prontinho. Se quiser fazer mais um pedido, é só me chamar. Hoje o movimento está fraco. – O senhor comentou, depositando a caneca fumegante sobre a minha mesa.
Agradeci e retirei o celular do bolso, checando os emails da minha caixa de entrada como habitualmente fazia pela manhã. Beberiquei o líquido quente e me concentrei em responder os assuntos mais importantes, iniciando a execução da carta a qual eu enviaria para o juiz logo em seguida. O súbito surgimento de uma nova ligação interrompeu minha tarefa e, ao ler “número desconhecido” na tela, eu soube imediatamente a que ela se referia. Senti o frio na espinha transpassar pelo meu corpo e aceitei a chamada, já constatando que os efeitos da angústia começavam a aparecer.
- Gostando do café, ? – A merda da voz robótica soou satírica. Imediatamente dei um sobressalto alarmado, olhando para todos os lados completamente atônito.
- Só pode ser brincadeira... – Soltei um riso sem humor dotado de escárnio.
- Eu jamais brinco, doutor . Já faz um tempinho, não faz? Presumo que você tenha muitas novidades para me contar. Como vai a sua amiga? , estou correto? Pobrezinha, soube do que houve... As pessoas andam tão irresponsáveis no volante! – Semicerrei os olhos e o meu coração disparou. O meu sangue ferveu dentro de mim enquanto o ódio ardia a minha garganta, ocasionando-me um mal estar tamanha a ira que corria pelas minhas veias. Fechei uma mão em punho e apertei o aparelho com a outra, travando o maxilar.
- Seu filho da puta! Eu juro por Deus que irei destruí-lo com as minhas próprias mãos, ouviu bem? – Proferi entredentes, contendo o meu tom de voz para não chamar a atenção. – Vou mandar um cretino como você para o lugar que merece, guarde bem essas palavras. – Ouvi o desgraçado realizar um barulho com a boca, de modo que demonstrava que ele reprovara algo.
- Nananinanão – Disse com a voz debochada. - Tome muito cuidado com o que você diz, . E jurar por Deus? Pfff... Nós dois sabemos que o mais perto que chegaremos de uma consagração divina será quando um de nós presenciarmos o outro numa poça de sangue aos pés. Sinceramente, você me irrita cada vez mais com essa sua pose arisca. Eu me policiaria a respeito disso, aliás. – Avisou de maneira quase infantil e eu respirei fundo, massageando as têmporas.
- Eu cansei de perguntar o que você quer, qual é a porra do seu problema?! O que você quiser, você tem. Se quiser a mim, você tem. Se quiser dinheiro, eu arrumo a quantia que você desejar, faço o inferno que for preciso para acabar com essa palhaçada! – Bradei nervoso e a minha condição piorou ao escutá-lo rir.
- Quem disse que eu preciso de dinheiro, ? Não seja estúpido. Você devia ter saído do caso logo no início, mas claro que isso não aconteceria. O imponente herdeiro não perderia a oportunidade de meter o bedelho nos negócios de terceiros somente para alimentar sua vaidade e mostrar que pode, não é?! – Expôs impaciente e foi o meu momento de rir cinicamente.
- É o meu trabalho, caralho! – Refreei o ímpeto de gritar, descontando minha vontade na força usada para segurar o celular. Meus dedos formigavam, entretanto, não me importei.
- Eu poderia falar que não é pessoal, mas bem, talvez seja. Irei aproveitar que estou bem humorado para lhe explicar alguns pontos, portanto, preste atenção. – Com o cotovelo apoiado na mesa e os dedos ainda posicionados nas têmporas, mantive meu silêncio a fim de ouvir o que o maldito tinha a comunicar. – Tenho que admitir que você é bom, . Qualquer outro advogadozinho meia boca teria pulado fora do caso desde o começo, facilitando, e muito, os meus planos. A pessoa abandonaria tudo, ninguém assumiria a responsabilidade de defender um réu claramente culpado numa situação conturbada e voilà! Eu ganho. No entanto, meu roteiro saiu dos trilhos assim que eu soube que você cuidaria da causa. O desafio de testar sua capacidade foi ficando interessante e eu simplesmente peguei gosto em ver você engolindo seu ego de merda. Em ver você temendo por algo. Você precisa aprender a escutar os outros, . Sua gana por sempre querer sair por cima e permanecer em sua pose falsamente imbatível pode custar caro. – Finalizou num tom hostil. Franzi o cenho perante suas observações.
- Suas palavras soam como se você me conhecesse. – Avaliei reflexivo, ignorando todo o seu discurso. – O modo como você fala revela sua propriedade no assunto, ninguém aponta tantas características em uma pessoa que sequer conviveu brevemente. Tomando como base o seu falatório insignificante, consigo concluir uma coisa com bastante certeza: Você vai se enforcar com o seu próprio jogo, e a corda é o seu apreço excessivo por satisfazer sua mente doente. Seja lá o que você tem contra mim, resolva comigo. Não seja um covarde e coloque mais gente no meio dessa merda, deixe a fora disso. Não ouse encostar nela ou eu juro que cuidarei para que a sua pena seja bem pior do que já será. – Sobreavisei ríspido, dando uma rápida olhada através da janela. Varri o recinto com os olhos após o gesto, constatando que o local permanecia vazio e o senhor continuava lendo o seu jornal sobre a bancada.
- Blá, blá, blá... Patético! Vou pensar em um acordo para que acabemos com isso da melhor forma, só não se anime, pois não é uma promessa, afinal, está divertido. Se quiser um conselho, fique atento daqui pra frente. Você sabe que acidentes acontecem. E, ah! Tome cuidado com a sua garota. Até breve. – O ruído que se seguiu anunciou o fim da ligação. Tentei puxar o ar dos meus pulmões, no entanto, não obtive sucesso no ato. Meu peito parecia pesar uma tonelada, bem como a minha cabeça, que dava sinais de que não demoraria até uma crise insuportável se iniciar. Larguei o celular sobre a mesa e esfreguei o rosto me sentindo inteiramente perdido e esgotado, o misto de emoções pareciam entrar em colapso em meu interior e a tensão evidenciava o estado de calamidade em que eu me encontrava. Eu estava tão endurecido que os músculos de cada centímetro do meu corpo doíam, quase como se eu tivesse corrido uma maratona.
- Desgraçado... – Murmurei repleto de escárnio. Retirei as mãos do rosto e desviei o olhar para o lado, deparando-me com o senhor bem ali, encarando-me parecendo preocupado.
- Tudo certo, meu jovem? Precisa de algo? – Interrogou cismado e eu neguei ainda meio aturdido, recolhendo meu aparelho de cima da mesa e deixando uma nota de dinheiro no local.
- Não, obrigado. Está tudo bem. Tenha um bom dia. – Proferi já me levantando do banco com certa pressa, mal ouvindo a resposta do mais velho.
Fiz o retorno com o carro e entrei no estacionamento do edifício comercial, manobrando o veículo em sua vaga delimitada. Segui em direção ao elevador do qual dava acesso ao escritório, executando todas as minhas ações no modo automático através de movimentos robóticos. Atravessei o ambiente em passadas rápidas e duras, diminuindo a velocidade do meu caminhar ao dar de cara com meu pai próximo à entrada de sua sala na companhia de Thompson, que, assim como eu, aparentava ter acabado de chegar. Ambos me encararam curiosos e fui medido com mais cautela pelo mais velho, que arqueou minimamente o cenho à medida que certamente procurava compreender a razão do meu agito naquela hora da manhã.
- Bom dia. – Proferi, encaminhando-me rapidamente para minha sala. Thompson respondeu à minha saudação, porém, meu pai persistiu em sua análise.
- Só um minuto, . Venha até minha sala, por favor. – Ele enfim disse algo, andando rumo ao lugar solicitado. Não disse nada e segui em seu encalço, adentrando as dependências daquela parte em questão. O mais velho fechou a porta e direcionou-se até a estante lotada de pastas, tirando uma de lá e a entregando para mim.
- Preciso que você cuide desses processos para mim. – Solicitou. Peguei o objeto e assenti ao passo que lia superficialmente o conteúdo de um dos arquivos. – Qual o motivo dessa fisionomia carregada? Espero que não tenha nenhum cliente para visitar hoje, essa não é uma expressão apropriada. – Apontou, desaprovando minha expressão fechada. Exprimi um sorriso torto cujo significado por trás estava longe de ser positivo.
- Está me perguntando porque se importa ou porque não quer que eu cause prejuízo? – Retruquei sem paciência e não foi preciso que eu o encarasse para saber que ele me fitava com o cenho franzido.
- Não é de hoje que a sua atitude estranha me incomoda, . – Expôs atento. Desviei o olhar dos papéis e por fim o observei inexpressivo, ponderando sobre lhe contar a respeito do que estava se passando, visto que tomar uma posição com relação a um assunto tão delicado implicava em diversas consequências para com outras pessoas, e eu me encontrava numa corda bamba onde buscava equilibrar o peso de preservá-las com a finalidade de evitar que algo ruim acontecesse a elas. – Digo de antemão que é inviável que você saia do caso Zummack, portanto, se essa for a explicação para tal conduta, desista. – Sobreavisou conciso e eu ri fraco, negando com a cabeça.
- Não se preocupe, senhor Henrico. Negócios em primeiro lugar, não é? – Andei até a saída do recinto e o fitei – Não há nada para se incomodar. Com licença. – Retirei-me dali sem demora e segui para a minha sala com a intenção de permanecer nela durante todo o expediente.
Fechei a porta e ajeitei-me em minha mesa, logo tratando de retirar da gaveta uma cartela do remédio indicado contra enxaqueca. Engoli o comprimido a seco, mais uma vez transpassando minhas mãos pelo meu rosto a fim de reunir a calma necessária para limpar a minha mente inquieta. Ao observar a pilha de documentos diante de mim, soube que eu deveria pôr em prática as incontáveis tarefas do dia, entretanto, o meu lado profissional não falava mais alto naquele instante.

” Tome cuidado com a sua garota.

Todas as sensações regressaram de uma só vez e me acometeram com força, novamente me conduzindo a um estado de ira fora do normal. Abruptamente apanhei meu celular no bolso do terno e, sem pensar demais, apertei o ícone de ligação no número de , pouco me fodendo com o fato de que nós ainda permanecíamos imersos numa espécie de guerra fria. A cada toque repetitivo ecoado do outro lado da linha a minha agonia se intensificava, eu somente desejava que ela me atendesse e, enfim, me escutasse de uma vez por todas.
- Oi. – Para o meu alívio, sua voz moderadamente baixa causada pela rouquidão matutina soou incerta pelo outro lado da linha.
- Oi. – Silêncio. Era possível ouvir sua respiração branda através da ligação, e apenas tal evento já me proporcionou uma calma fora do comum. – Desculpe por ligar a essa hora.
- Tudo bem... Já estou indo para a faculdade, você não me acordou. – Expressou simplesmente e eu procurei manter os pensamentos negativos longe da minha mente agitada por não saber ao certo se ela se encontrava segura durante o trajeto. – Aconteceu alguma coisa? – Perguntou, provavelmente estranhando o telefonema repentino. Transpassei a mão livre pela nuca e respirei fundo.
- Pode-se dizer que sim.
- O que houve, ? Está me deixando preocupada! – Exclamou um tanto quanto exasperada.
- Não aconteceu nada. Eu só preciso falar com você, temos que conversar pessoalmente. Não é um assunto que dê para tratar por telefone. – Procurei esclarecer de maneira que amenizasse o teor urgente do assunto.
- Você sabe que nunca, em hipótese nenhuma, se diz isso para alguém, não sabe? Só piora a situação, por Deus, eu não tenho serenidade o suficiente para isso! – Repreendeu moderadamente alterada. Se o cenário fosse outro, eu certamente teria rido do seu modo atropelado de manifestar seus anseios, contudo, a atmosfera tensa da qual nos encontrávamos não permitia que nada semelhante fosse exprimido. – Eu achei que soubesse sobre o que conversaríamos, mas está soando como se o ponto principal fosse mais complexo e significativo do que parece. – Avaliou objetiva. Ela tinha razão, de fato era.
- Tem muita coisa para ser explicada, . Quando há possibilidade de nos vermos? – Questionei direto, desejando deixá-la ciente do que se passava o mais rápido possível.
- Vou ficar até tarde na faculdade amanhã, depois disso, estou livre.
- Certo. Só me tire uma dúvida: Até tarde quanto? – Inquiri novamente.
- Até umas seis, sete horas...
– Respondeu e eu assenti, ainda que o ato não pudesse ser visto pela garota. Uma voz se fez presente no fundo da ligação aparentando ser direcionada à , que pareceu afastar o aparelho de seu ouvido para comunicar-se mais claramente com a pessoa da qual falava com ela. – Eu preciso ir para minha sala, tenho prova agora. – Informou assim que voltou a estabelecer contato comigo.
- Sem problemas. Boa prova.
- Obrigada... – Agradeceu após um breve suspiro. A ausência de som surgiu mais uma vez, porém, o telefonema não foi encerrado. Minha mão percorreu o caminho do meu rosto até minha nuca pela milésima vez, enquanto apenas nossas respirações eram ouvidas através da chamada.
- Se cuida, tudo bem? – Cortei o silêncio, escutando-a murmurar um “uhum” quase inaudível.
- Até.
- Até. – Por fim o ruído que indicava o fim da chamada ecoou. Fitei o celular em minhas mãos durante poucos segundos e o coloquei sobre a mesa, agora determinado a cuidar dos processos diante de mim.

Os indícios de exaustão já não eram mais uma novidade nos fins dos meus dias, contudo, naquele em especial, cada partícula do meu ser doía em razão da tensão vivenciada desde as primeiras horas da manhã. Minha garganta clamava por uma boa dose de whisky e o meu pescoço certamente expeliria a gravata envolta a ele a qualquer minuto, não sendo necessário que eu atingisse as dependências do meu apartamento para retirá-la bruscamente, jogando-a em cima do sofá logo após adentrar o recinto. A habitual euforia do Pastor Alemão elétrico entre as minhas pernas arrancou um ligeiro sorriso meu à medida que eu me livrava dos meus pertences juntamente com o terno e a blusa social, não me importando em depositá-los na companhia da gravata anteriormente jogada no mesmo lugar.
- E aí, carinha. – Saudei o cão, que só sossegou no instante em que eu lhe dei a devida atenção ao acariciar suas orelhas e a extensão de seu pelo. – Muito me admira esse seu puta ânimo vinte e quatro horas por dia. – Avaliei durante o breve carinho, vendo-o me fitar atento. – Se bem que se as minhas únicas atividades obrigatórias fossem comer e morder brinquedos eu também seria tão entusiasmado quanto você. – Considerei exprimindo um meio sorriso. Direcionei-me até o minibar situado entre a sala de jantar e a sala de estar e imediatamente me servi de uma boa dose da bebida previamente ansiada, ingerindo-a de uma só vez ao passo que experienciava a agradável queimação provinda do álcool. Sem demora, tratei de encher o copo outra vez. Peguei o maço de cigarros, retirei um tabaco da caixa e o acendi, dando uma longa tragada para que, simbolicamente, meu estresse se dissipasse com a fumaça.
Em meio a um gole e um trago, me peguei refletindo acerca da diferença entre estar só e estar sozinho. Estar só era uma ação deliberada e consciente e, por mais que tal condição nunca tivesse me incomodado – pelo contrário, afinal, ser reservado era uma característica que vinha associada a alguns momentos de singularidade junto ao conceito de sozinho propriamente dito –, as atuais ocorrências da minha vida me conduziram a um estado de vazio muito grande, onde eu, de forma inesperada, encontrei o alívio para tal sensação na presença de . Lamentavelmente a bagunça cujo eu me introduzi imprevistamente havia acabado com a minha única fonte de paz, e embora eu desejasse tê-la de volta, a prioridade era garantir que ela estivesse bem, seja como for.
Uma certa vez, há um bom tempo, li uma frase na qual dizia: “Quanto mais velho você fica, menos amigos você vai ter”, e ainda que eu não concordasse totalmente com ela na época, hoje comprovo sua veracidade. Tenho vários colegas, inúmeros conhecidos, no entanto, já não sabia quem denominar como amigo. Na realidade, o único que poderia ser intitulado de tal modo era Paolo, que, desde o momento em que voltara para o país, tem se mostrado uma pessoa melhor do que eu esperava. Nós nunca fomos realmente próximos na adolescência, pode-se se dizer que a nossa convivência era superficial comparada a minha amizade com , por exemplo, todavia, os papéis tinham se invertido. e eu estávamos afastados e eu não sabia se tal fato se dava pelo excesso de compromissos ou pelas exigências profissionais de cada um.
Tirei o celular do bolso da calça social e disquei os números do meu amigo, entretanto, a chamada caiu direto na caixa postal. Repeti o ato com o contato de Paolo e os toques da ligação sendo efetuada se repetiram durante poucos segundos, cessando logo em seguida.
- Fala, ! – Atendeu em seu corriqueiro jeito animado.
- E aí, irmão. Tranquilo? – Questionei, acendendo outro cigarro e bebericando o whisky gelado.
- Tranquilo. Estou a caminho do Temple para assistir o Knicks chutar os Warriors! Está a fim? – Dei um breve riso e neguei com a cabeça, soprando a fumaça do tabaco enquanto fitava um ponto qualquer da sala.
- Valeu, Herzog. Eu passo. Meu dia foi uma merda. Vou assistir aqui em casa mesmo, pensei em chamar você e o , mas ele não atendeu. – Revelei, escutando meu amigo murmurar algo em compreensão.
- Que pena. – Se eu bem o conhecia e a julgar por sua falta de proximidade para com , sua frase significava completamente o contrário do que proferiu. – Se o seu dia foi uma merda, vá para o bar e o torne bom. Isso se chama mudança de perspectiva. – Expôs persuasivo.
- Eu literalmente acabei de chegar, cara. Não vai rolar.
- Você tem trinta minutos até o jogo começar, . Não me irrite e mova sua bunda preguiçosa até aqui. – Sem mais nem menos a ligação foi finalizada. Arqueei uma sobrancelha e, contrariado, encarei o celular. O filho da puta havia desligado na minha cara.
Expeli o ar de meus pulmões com certa força e finalizei o meu drink num só gole, seguindo rumo ao meu banheiro meio a contragosto. Tomei uma ducha rápida e troquei de roupa, despedindo-me do Pastor Alemão que parecia preocupado demais em correr pelo apartamento sem motivo nenhum para se importar com a minha saída. Desativei o alarme do carro e adentrei nele, dando partida de imediato. Agradeci pelo percurso se opor ao fluxo intenso da avenida principal, o que facilitou a minha rápida chegada ao estabelecimento. Deixei o veículo com o manobrista e ingressei nas dependências do ambiente já cheio de clientes que certamente veriam o jogo ali, transcorrendo os olhos pela extensão do balcão em busca do meu amigo, que se encontrava sentado na ponta da ampla bancada posta em frente ao bar repleto de bebidas alcoólicas e iguarias.
- Você é um puta de um cretino, Herzog! Desligou na minha cara, seu maldito. – Disse ao me aproximar, vendo-o rir alto ao passo que se levantava para me cumprimentar.
- E veja só, deu certo! – Mostrou os dentes e eu revirei os olhos, ajeitando-me ao seu lado. – Puta merda, que olheiras são essas, ? Daqui a pouco as duas criam vida própria, já deu nome a elas? – Interrogou me fitando de modo exagerado. O encarei sério, demonstrando minha censura ao seu senso de humor crítico apenas através de tal gesto.
- Vá se foder. – Mandei ríspido e o seu riso se intensificou. Não consegui segurar e me permiti rir fraco enquanto maneava a cabeça em negação.
- Ei, campeão! – Paolo solicitou ao barman – Dois drinks, por favor. Ambos para ele. – Brincou e eu balancei a cabeça novamente. – Como seu amigo, é o meu dever avisar que você me parece cada vez mais abatido. – Examinou ponderado. Assenti e esfreguei o rosto ligeiramente, hábito que eu havia criado sempre que me sentia incomodado ou cansado sobre algo.
- Efeito do trabalho. – Falei em meio a um longo suspiro.
- Às vezes eu tenho medo de você ter uma síncope nervosa, irmão. – Paolo comentou cismado. – As coisas continuam pesadas?
- Você não faz ideia... – Deixei a frase no ar e beberiquei minha cerveja. – Não quero conversar sobre esse tipo de assunto, vim espairecer.
- Claro, afinal, eu te chamei exatamente para isso, e não para uma reunião de negócios. – Ergueu seu copo numa espécie de brinde, tomando um gole considerável da bebida. – Já sabe o que fará no feriado da semana que vem? – Perguntou e eu puxei a informação pela memória, buscando me recordar sobre qual festividade meu amigo se referia. Segundos depois, a lembrança da data de comemoração pelo aniversário da cidade me veio à mente. Meus dias andavam tão atribulados que a celebração em questão ficara esquecida por mim até aquele momento.
- Não faço ideia. Provavelmente nada. – Respondi sem grandes emoções. – E você?
- Acho que vou visitar meus pais, não os vejo desde que voltei.
- Bacana, cara. Diga que eu mandei lembranças. – Pedi e meu amigo concordou.
- Ouvi dizer que a queima de fogos desse ano será a maior desde mil novecentos e setenta. – Relatou admirado. – Caralho, a vista do seu apartamento é incrível e dá para enxergar boa parte da cidade, com certeza você terá uma vista de outro mundo, .
- Bem lembrado. Queria ter visto ano passado, mas estava viajando. – Expus, recordando-me exatamente do dia mencionado, embora ele não fosse nem um pouco memorável ou agradável. Havia passado o final de semana na casa de campo da família de Cassie, onde tivemos uma briga da qual resultou em nosso primeiro término, dando início a muitos outros. Eu reconhecia minha parcela de culpa em boa parte deles. Ingeri outra grande dose do líquido em meu copo e soltei um suspiro resignado. – Cara, você acha que eu tenho dificuldade em me expressar? – Questionei de súbito, atraindo a atenção de Paolo, que desviou os olhos do telão fixado à parede com um semblante carregado de dúvida expresso por meio do vinco entre as suas sobrancelhas.
- Que papo é esse, ? Como assim? – Devolveu a pergunta manifestando sua confusão.
- É, tipo... Nesse negócio de demonstrar sentimentos e emoções. – Meu amigo cerrou os olhos à medida que me avaliava curioso. – Porra, Herzog, quero saber se você acha que eu não sei me expressar direito, porra! – Ralhei impaciente, vendo-o arquear uma sobrancelha como se a minha inquisição já estivesse respondida.
- Você tem a sensibilidade de uma pedra, . Você é a pior pessoa do mundo nisso, é ruim pra caralho. – Soltou direto e foi a minha vez de erguer uma sobrancelha. Notando minha reprovação devido a sua frase, ele tratou de dar seguimento a sua fala. – Se eu soubesse que iríamos discutir a respeito dessas coisas, eu teria ido até a sua casa e levado sorvete para que pudéssemos comer enquanto abrimos o coração. – Satirizou rindo e eu lhe acompanhei exprimindo um riso fraco, quase sem humor.
- Sei lá, cara. Vou ver amanhã, combinamos de conversar. – Informei fitando meu copo praticamente vazio.
- Hm... E aí? – Paolo incentivou. Perpassei uma mão na nuca, refletindo de imediato sobre como travaria um diálogo com ela.
- Só quero resolver tudo. – Confessei, irritado por me sentir como um adolescente perdido.
- Então resolva, é simples. – Desviei meu foco do objeto de vidro diante de mim e o encarei. – Não pense muito, Romeu, somente faça o que tiver que fazer para consertar a merda. – Deu uma breve pausa para voltar a falar logo em seguida. – Você é tão inteligente para algumas coisas e tão burro para outras! Puta merda, , você está afim da garota e não tem capacidade de contar para ela? Sério mesmo? – Indagou inconformado e, apesar de não gostar de ser confrontado dessa maneira, tinha conhecimento de que o meu amigo estava certo, ainda que ele não soubesse de toda a história e o real motivo pelo qual eu me afastei de . Resolvi não prolongar o tópico.
- Eu irei cuidar disso amanhã. – Afirmei decidido, acabando com a cerveja do meu copo. – Pode parar de incorporar a Oprah, Herzog. O jogo vai começar. – Zombei, indicando o telão com a cabeça. Paolo mostrou seu dedo médio e riu, voltando seu foco ao ponto anteriormente observado.

O melhor horário para ir ao fórum, sem dúvida, era pela manhã. Os corredores vazios e a ausência de movimento em muito colaboraram para que eu pudesse resolver os assuntos do escritório sem o falatório desmedido em meus ouvidos, e, após entregar alguns documentos para o juiz junto à carta a qual redigi para o próprio, parti dali com um bom intervalo de tempo até o meu próximo compromisso.
A chuva havia dado uma trégua e o sol começara a despontar timidamente entre as nuvens escuras que compunham o céu moderadamente nublado, contudo, o vento gelado perdurava, trazendo consigo a sensação de temperatura baixa. Conforme dirigia pelas ruas compostas por transeuntes apressados e veículos por todos os lados, fui pego de surpresa pela repentina vontade de visitar meus avós. Fazia tempo desde a última vez em que tirei poucas horas do meu dia para vê-los, e constatar tal fato ocasionou um certo peso em minha consciência, visto que eu possuía um forte vínculo com ambos. Mudei o sentido inicial do meu trajeto e segui rumo ao local pretendido, começando a dirigir pelo tranquilo bairro residencial, no qual o único movimento se dava pelos moradores passeando com seus cães, onde desfrutavam da momentânea manifestação dos raios solares. Toquei o interfone e me identifiquei, logo adentrando a residência que mais se assemelhava a um sítio em virtude da vasta área verde constituída por árvores, arbustos e muitas flores. Sempre apreciei a preferência de meus avós pela modéstia e, apesar de toda a moradia ser elaborada com muito bom gosto e requinte, nada chegava ao exagero de demonstrar vaidade pela vida confortável que detinham.
Desci do veículo e fui recebido por Carlota, governanta da casa. A mulher trabalhava ali antes mesmo do meu nascimento e, em decorrência desse fato, a considerava como avó. Seus braços se abriram instantaneamente em conjunto com o largo sorriso afetuoso que nunca mudara mesmo com o passar do tempo, transmitindo a habitual sensação confortante no momento em que correspondi ao seu abraço apertado.
- Meu menino, quanto tempo você não aparece por aqui! – Exclamou, afastando-se de mim apenas para me olhar admirada. – Oh, meu Deus, está cada vez mais bonito, como pode?! – Declarou abismada e eu sorri. Peguei suas mãos e depositei um breve beijo nelas, verdadeiramente feliz por vê-la.
- Desculpe por ter sumido, Lot. – Falei, mencionando o apelido pelo qual a chamava desde pequeno. – Culpa inteiramente minha. Meus dias estão tremendamente corridos. – Assumi pesaroso e a mulher de meia idade balançou as mãos como se não houvesse problema nenhum.
- Não se desculpe! Imagino como deve ser. Mas diga, como vai? Você está bem? – Perguntou interessada.
- Estou sim, tudo tranquilo. E por aqui, como vão as coisas? – Falei, olhando em volta à medida que vislumbrava o recinto pacato.
- Tudo na mais perfeita ordem! Venha, sua avó está no jardim. – Disse e eu a acompanhei, caminhando pela dimensão sinuosa que formava a entrada do terreno cultivado com flores, plantas versáteis e uma trilha de pedras que davam acesso ao centro do jardim, onde a elegante senhora encontrava-se sentada em uma cadeira que fazia conjunto com a singela mesinha posta à sua frente, ambas cobertas de adornos sofisticados. O aroma confortante de hortelã misturava-se ao cheiro inerente da natureza, automaticamente gerando uma sensação branda que tinha o poder de tranquilizar quem ali estivesse. O ruído de meus passos sobre o chão de cascalhos chamou a atenção da mulher, que ergueu olhar ao depositar a xícara sobre o pires. Um sorriso imediatamente montou-se em seus lábios coloridos de um vermelho quase vinho, evidenciando que a minha surpresa surtira o efeito que eu gostaria.
- Querido! Que surpresa maravilhosa! – Falou, fazendo menção de se levantar. Ergui a mão em um pedido mudo para que ela não o fizesse e dei-lhe um beijo na testa.
- Senti que estava lhe devendo uma visita. – Disse, sentando-me na cadeira diante dela. – Como você está? – Inquiri, recordando de sua reprovação ao ouvir alguém tratando-a por “senhora”.
- Esplendorosa, principalmente agora. Carlota, meu bem, traga uma xícara de café para o , por favor. – Pediu, sabendo de minha preferência pela bebida. Lot assentiu e retirou-se, deixando-nos em seguida. – Seu avô não vai acreditar que você está aqui! – Expôs eufórica e eu sorri.
- Onde está o senhor León? Ainda não o vi, a propósito.
- Ele deu uma saidinha, mas não deve demorar. Espero que tenhamos mais do que alguns minutos para jogar conversa fora. – Pontuou animada e eu ri brevemente, concordando com a cabeça.
- Tenho uma boa brecha até o meu próximo compromisso, dona Rosalyn. – Relatei, fitando-a satisfeito em vê-la daquela forma.
- Magnífico! Conte-me, querido, como anda sua vida? – Era nítido o seu fervor em ficar a par do que acontecia comigo, no entanto, eu infelizmente não tinha nada de significativo para lhe dizer. Exprimi um modesto sorriso fraco e dei de ombros.
- Normal, vó. Vivo basicamente para o trabalho. – Admitir aquilo em voz alta era pior do que eu imaginava. A mulher manifestou seu desagrado perante minha recente declaração através de um quase imperceptível levantar de sobrancelha.
- Isso não é certo, . Você é jovem demais para viver desse modo robótico! Um homem tão brilhante, inteligente, dotado de qualidades desanimado desse jeito?! Inadmissível! – Disparou descontente. Permaneci em silêncio. – Você sempre se cobrou muito, querido. Parece que vive se punindo por ser quem é, esse comportamento não é saudável. – Mantive meu olhar na paisagem ao redor, refletindo a respeito das afirmações que eram certeiras. – Não vejo alegria no seu olhar, o que está acontecendo, meu neto? – Questionou me avaliando com atenção.
- Eu estou bem, não se preocupe comigo. – Tentei lhe passar segurança através de minhas palavras, mas o ato obviamente fora em vão, afinal, eu conhecia bem a mulher a minha frente.
- Não fale asneiras, tenha santa paciência! Embora eu esteja longe de se parecer com uma, eu sou sua avó e me preocupo em dobro! – Ralhou e eu não consegui segurar o riso por obra de seu jeito pomposo. – Fale ao menos uma coisa boa que aconteceu na sua vida recentemente e eu lhe pouparei de mais puxões de orelha. – Ordenou, endireitando ainda mais sua postura em seu assento.
Não foi necessário que eu esforçasse para ter a resposta do que me fora solicitado. . A garota me veio à mente de modo súbito, brusco como um raio. Respirei fundo e transpassei as mãos pelos cabelos.
- Tinha algo, entretanto, é bem possível que eu o tenha estragado. – Reconheci e minha avó continuou inexpressiva, certamente aguardando o desenvolvimento de minha recente confissão. Meu desejo era lhe dizer que eu era um bacaca fodido cujas decisões só culminavam em merda, porém, a pouparia de lamentações.
- Oh, é impressão minha ou o meu neto está com o coração ocupado? – Sorri torto, nada surpreso com a sua capacidade de juntar um mais e um e tirar as conclusões corretas sobre tudo. – Ah, estou tão feliz! Eu a conheço? – Indagou, decerto desejando que eu sanasse sua curiosidade sobre ser Cassie a responsável por tal diálogo.
- Não, não conhece. – Falei e ela pareceu refletir.
- O que houve de tão grave para que você jogue a toalha assim? Querido, você tem o meu sangue, nós não desistimos do que queremos com facilidade. – Lançou uma piscadela e eu repuxei os lábios em um meio sorriso. – A não ser que você tenha agido de má fé com a moça, sendo assim, serei obrigada a descer do salto e lhe dar uns tabefes, pouco me importa se você tem o quádruplo do meu tamanho! – Intimidou estreitando os olhos. Gargalhei alto, ainda que, no fundo, eu não duvidasse que ela de fato o fizesse.
- Não foi bem o que ocorreu, embora eu a tenha magoado mesmo sem pretender. – Lamentei, vislumbrando um ponto aleatório do jardim.
- Você não é uma pessoa ruim, querido. Talvez só esteja perdido. Aja da maneira correta e se encontre. Quando eu irei conhecer a pessoa que despertou tais sentimentos em você? – Inquiriu entusiasmada.
- Caso eu consiga reverter todo o caos que causei, certamente a trarei aqui para que vocês se conheçam. – Garanti, experimentando a terrível sensação de contar com o incerto. Carlota regressou com uma bandeja em mãos e, junto a ela, estava meu avô, que caminhava sorridente enquanto vinha até mim com os braços abertos.
- Ora se não é o sumido ! Por pouco não me esqueço de que tenho neto! – Queixou-se me envolvendo em um forte abraço. Ri e correspondi, imediatamente ouvindo-o resmungar. – Devagar, cavalheiro, meus ossos já não aguentam tamanha robustez. – Mencionou no momento em que nos separamos, arrancando-me outra risada.
- Bom ver o senhor. Como está? – Perguntei, vendo-o depositar um rápido beijo na testa de minha avó, sentando-se ao seu lado após o gesto. Agradeci Carlota pelo café e voltei a ajeitar-me em minha cadeira.
- Ótimo. A que devemos a honra de sua presença? – Indagou sorridente.
- Achei que já estava na hora. – Disse. – Tenho um tempo considerável até a visita ao próximo cliente, portanto, resolvi passar por aqui.
- Claro, claro... Ando acompanhando os noticiários, a imprensa está em cima de você devido ao caso Zummack, não é? – A simples menção a causa em questão fez com que eu me remexesse incomodado.
- Por Deus, León! Nosso neto vem nos visitar entre uma folga momentânea e você puxa assunto de trabalho?! – A mulher interveio inconformada e eu a agradeci mentalmente.
- Oh, é verdade. Perdão, . – Desculpou-se. Neguei com a cabeça, tranquilizando-o. – Você está me devendo uma partida de golf, não pense que eu me esqueci! – Citou, mudando o tópico da conversa.
- Eu também não me esqueci. – Garanti. Meu avô detinha de uma grande paixão pelo esporte em pauta, e rejeitar qualquer convite para jogá-lo resultava em uma grave ofensa a ele.
- Já lhe contei sobre como eu ganhei o meu primeiro troféu no torneio da cidade? – Comentou empolgado e pude ver minha avó revirar os olhos.
- Você só recontou esse dia umas quinhentas vezes, meu bem. – Cortou o companheiro, que a fitou contrariado. Quieto e segurando o riso, eu somente me limitei a observar os dois entrarem em um debate com relação ao tema dito, sentindo-me bem por estar ali.

Como esperado, a chuva veio. O que inicialmente era uma forte garoa transformou-se em um temporal com direito a fortes trovões, os quais retumbavam num estrondo alto, dando a sensação de que o solo encharcado estremecia a cada ressoar.
Após partir da casa de meus avós, tratei de cumprir os afazeres profissionais pendentes, incluindo a estipulada visita ao cliente que se encontrava com um problema de coação* em seu ambiente de trabalho. Já dentro do carro posteriormente ao final de minhas incumbências do dia, chequei as horas em meu relógio de pulso.
17hrs47min.
Respirei fundo e esfreguei o rosto, preparando-me para o que viria a seguir. Montar um discurso ou seguir um roteiro não fazia o meu tipo, porém, eu possuía consciência de que seria fundamental saber quais palavras iria utilizar ao abrir o jogo com , afinal, ela merecia ouvir toda a verdade a respeito de absolutamente tudo. Acelerei o automóvel e iniciei o trajeto rumo ao campus da faculdade que eu conhecia bem, pressentindo que as coisas não seriam nada fáceis. Minutos depois de um curso um tanto quanto complicado em virtude do trânsito, avistei o amplo edifício da universidade. A chuva intensa me impedia de estacionar na área separada para tal feito, visto que no local não havia cobertura. Direcionei-me até o estacionamento de uso exclusivo do corpo docente e de pessoas autorizadas e, ao aguardar que a minha entrada fosse concedida pela guarita, abaixei o vidro para que pudesse ser identificado.
- Boa noite, senhor .
- Boa noite, Álvaro. Você pode liberar o meu acesso ao estacionamento só por um instante? Não irei demorar. – Disse ao guarda, que por sinal era um velho conhecido meu. Ser ex-aluno e comumente participar de palestras no campus me propiciou certos benefícios e, dado a circunstância, eu não me negaria a usá-los.
- Mas é claro! Fique o tempo que precisar.
- Muito obrigado. – Acenei com a cabeça e fechei o vidro, adentrando as dependências da instituição. Manobrei o carro em uma vaga qualquer e desci, ativando o alarme conforme seguia rumo ao acesso à parte interna do lugar que se encontrava vazio, fora um ou outro aluno que perambulava pelos corredores. Cumprimentei os seguranças e alguns professores que lecionavam na faculdade desde os tempos em que eu ainda estudava na própria e, enfim, alcancei o meu destino, encostando-me à parede próxima à saída dos estudantes. Enquanto aguardava , aproveitei para varrer o pátio com os olhos, inserido na sensação de nostalgia que sempre me acometia ao estar ali.
Não demorou muito para que um burburinho se fizesse audível, denunciando que um grupo de pessoas se aproximava gradativamente da parte externa daquele setor do campus. Olhei para o lado e reconheci a figura de , que despedia-se sorridente dos colegas os quais rapidamente se dispersaram cada qual para uma direção em meio à tempestade. Desapoiei meu tronco da parede e iniciei um caminhar lento ao seu encontro, vendo-a exprimir uma ligeira careta adorável ao fitar a carga d’àgua que caía do céu iluminado por raios. A garota retirou o celular do bolso do casaco e pareceu ligar para alguém, suspeita que me fora sanada no instante em que o toque do meu celular ecoou ao longo do ambiente silencioso, levando-a a virar-se abruptamente à procura do som. Seus olhos se arregalaram no segundo em que eu entrei em seu campo de visão, sua surpresa em me ver ali era quase tangível e demonstrada através de seu semblante agora franzido.
- Por que está aqui? Eu ainda ia te ligar. – Proferiu confusa. Estendi a mão em direção ao dilúvio diante de nós num gesto autoexplicativo, sorrindo torto ao vê-la torcer o nariz.
- Não me esqueci de sua aversão por raios. – Comentei. desviou a atenção do saguão e a moveu para mim, fixando suas íris nas minhas exatamente do modo que me desconcertava por inteiro.
- Então vamos. Estou congelando aqui. – Falou e eu assenti, colocando uma de minhas mãos na base das suas costas, guiando-a sentido ao estacionamento do subsolo. – Não sabia que tinham liberado o acesso a essa parte do campus. – Avaliou, provavelmente estranhando o caminho que seguíamos, haja vista que ele era proibido para alunos ou qualquer um que não possuísse licença para frequentá-lo.
- Não liberaram. – Respondi simplesmente, sentido que a garota me encarava.
- Ah. Óbvio. Deve ser muito bom conseguir as coisas com certa facilidade só por ser quem é. – Soltou de uma só vez e foi a minha vez de fitá-la, porém, decidi por me manter em silêncio. Destravei as portas do carro e abri o lado do passageiro para , que agradeceu ao entrar. Eu evitava a todo custo olhar para o seu braço machucado, contudo, era impossível não notá-lo, bem como era impossível não sentir ódio por saber a causa dele.
Nenhum de nós ousou quebrar a ausência de diálogo. Do lado de fora, a chuva era intensa; Um verdadeiro temporal que soprava a água pelo vento e batia com força no para-brisa, cuja tarefa de limpar todo aguaceiro do vidro tornava-se cada vez mais árdua. Eu ocasionalmente lançava breves olhares à garota ao meu lado, no entanto, ela parecia imersa nos próprios pensamentos durante o tempo que admirava as ruas através da janela molhada. O caminho foi resumido inteiramente no mais completo silêncio, e embora o cenário dispusesse de uma tensão inegável, nada naquele carro apresentava o mínimo incômodo. Entrei no condomínio e conduzi o automóvel até sua vaga, deixando-o ali após estacioná-lo. Dei a volta no veículo a fim de abrir a porta para e a ajudei a se retirar do banco, enfim ouvindo sua voz ao me agradecer.
- Tudo bem pra você estar aqui? – Perguntei antes de entrarmos no elevador, que chegou depressa.
- Sim. Do contrário, eu sequer teria entrado no seu carro, tampouco estaria aqui. – Declarou incisiva e eu maneei a cabeça em afirmação. Subimos calados e o tinido do qual informava o andar preterido ressoou sem demora, fazendo-nos seguir adiante até a entrada do meu apartamento. Girei a chave ouvindo de antemão o Pastor Alemão desesperado farejar a fresta embaixo da porta, e se eu bem o conhecia, ele sabia que estava ali.
- Devagar, Bento. – Pedi, concedendo passagem à garota, que abriu um enorme sorriso ao ir de encontro com o cão eufórico.
- Olá, lindinho! – Saudou tão animada quanto Bento, acariciando-o veemente. Enquanto depositava meus pertences sobre a bancada e a estante, aproveitei para admirá-los, notando que um ligeiro sorriso fraco formava-se em meus lábios minimamente repuxados para o lado.
- Deseja beber algo? – Questionei a ela, que retirou os olhos do cachorro somente para negar.
- Estou bem, obrigada. – Assenti, apoiando meu tronco na pilastra localizada na sala. Cruzei os braços frente ao peito e esperei até que finalizasse seu momento com meu cachorro, que pareceu perceber que aquele não era o seu lugar por ora. O Pastor Alemão ausentou-se do cômodo e nos deixou a sós, onde o silêncio se revelou mais uma vez. Encarei a garota parada mais à frente e ela me encarou de volta, sustentando o intenso contato visual.

(Ouça All I Need da Within Temptation a partir daqui)


- Sinto sua falta. – Optei por começar com a maior verdade dentre as diversas outras as quais ainda não havia proferido. Notei-a engolir a seco e o seu olhar vacilar durante milésimos de segundos. – Eu deveria dar início às explicações que você merece, mas eu sinceramente não sei como fazer isso sem antes dizer a coisa mais latente para mim. – Confessei.
- Estou aqui para te ver tentar. – Rebateu de maneira cortante e eu respirei fundo, maneando a cabeça em concordância.
- Eu sempre vivi muito bem com a possibilidade de remar a favor da maré e simplesmente seguir os padrões esperados para a minha vida. – Iniciei, desapoiando o meu corpo do pilar e caminhando em direção à garota, que permanecia imóvel. – Entretanto, tudo virou de cabeça para baixo numa velocidade repentina e eu, que até então era uma vítima da rotina, me vi fodido com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. – Parei rente ao seu corpo, contudo, mantive certa distância entre nós dois.
- Você tem uma carreira consolidada, doutorado e o diabo a quatro, mas não sabe se expressar quando se depara com algo que não sabe lidar. – Falou com os olhos fixos nos meus. – Aonde você quer chegar, ? O que está havendo?
- Eu vou chegar lá, tudo bem? Só... Só deixe-me continuar. – Pedi e ela não disse mais nada. Transpassei uma mão pela nuca e retomei minha fala. – Nós nos aproximamos e isso me pegou de surpresa, eu demorei a me dar conta de que esse tempo inteiro havia uma pessoa incrível perto de mim. A porra da minha mania de racionalizar tudo é uma merda, eu sei que eu me atrapalho, , só que nada disso foi para te machucar. – Declarei pesaroso. A garota não moveu um músculo, sustentando sua fisionomia inexpressiva.
- Não é necessário que eu diga que foi exatamente o que aconteceu, não é? Eu sei que essa coisa toda entre a gente é novidade, é normal sentir-se confuso, pode acreditar que eu também fiquei assim, só que, ... Você mudou da água para o vinho em questão de dias! O que passou pela sua cabeça para achar que me ignorar, ficar com outra pessoa e alegar que não queria mais me ver não me machucaria? – A mágoa em suas íris brilhantes originou um solavanco em meu estômago, tornando ainda maior a certeza de que eu era um completo babaca. – Não me importa se havíamos combinado que não era nada sério, tá legal? Eu não estou nem aí! Responsabilidade emocional é algo que não depende de rótulo nenhum. – Suas palavras me atingiam como inúmeros socos. Encarei seu rosto levemente ruborizado enquanto buscava um meio de demonstrar que eu me odiava tanto quanto ela, no entanto, a culpa me impedia de pensar com clareza.
- ... – Fechei os olhos e respirei fundo, fazendo-os sem demora apenas para situar os meus pensamentos. – Eu errei, eu SEI que eu agi tão mal que fica difícil de consertar tudo, pode ter certeza que você está coberta de razão, mas... Caralho, me perdoa, por favor... – Balancei a cabeça em negação, pouco me fodendo com o fato de que a minha frase saíra como uma súplica.
- O que você sente, ? O que você sentiu? Demonstre alguma coisa, pare de ser assim! Pare de tentar engolir e esconder seus sentimentos, pare de correr atrás de mim se não for para se abrir verdadeiramente! Demonstrar o que sente não mata e não te faz um fraco, então me fale o que você quer! – Esbravejou irritada. Lancei-lhe um olhar sério e avancei os passos que faltavam para que ficássemos, de fato, com os corpos juntos. Senti o seu peito subir e descer com certa pressa. O meu não se encontrava diferente.
- Eu quero você na minha vida. Eu não sei o que nos espera, eu não sei como isso irá funcionar, mas eu sei de uma coisa: Não quero enfrentar nada disso sem você. – Proferi a fitando seriamente. – Já falei e repito: Eu quero ficar com você. Eu sinto a porra do meu coração sair pela boca sempre que te vejo, sinto vontade de te beijar mais do que eu, sei lá, sinto necessidade de respirar. Estou aqui, na sua frente, pedindo perdão pelos meus erros e assumindo minha culpa por eles, . – Disparei a falar, vendo-a segurar a respiração com os olhos vermelhos moderadamente arregalados. – Estou tentando melhorar por você. – Acabei com o mínimo espaço que jazia entre nós. Segurei seu queixo com destreza e o levantei até que o seu rosto estivesse ao meu alcance, conduzindo meus dedos por suas bochechas quentes. Uma lágrima desceu pelo canto de seus olhos e eu logo tratei de limpá-la dali, transpassando levemente o polegar por ela.
- Enfrentar o quê exatamente, ? O que há de errado? Faça-me entender. – Pediu num fio de voz. Suspirei e lhe guiei em direção ao sofá, sentando-me no móvel com a garota diante de mim.
- Achei que seria mais fácil te poupar dos meus problemas se a fizesse ter raiva de mim. – Disse e vincou as sobrancelhas. – Abdicar da sua presença foi uma puta decisão difícil. – Tornei a acariciar sua face, acompanhando-a fechar os olhos por um breve instante à medida que eu realizava o ato. – Há um tempo você me perguntou se eu possuía algum medo e pediu para que eu lhe contasse caso descobrisse qual era, lembra? – Inquiri e ela afirmou atenta. – Eu descobri que tenho medo de perder você. – Revelei com toda a sinceridade que a situação exigia. abriu e fechou a boca, parecendo aturdida. Escorreu as íris através de cada ponto do meu rosto à medida que chegava cada vez mais perto, trazendo consigo a capacidade de me paralisar em expectativa. Nutri-me de seu hálito morno e perfumado que me deixava desnorteado e senti os meus músculos amolecerem no momento em que ela passou o seu braço livre pelo meu pescoço, enterrando seu rosto no local. Meu sangue ferveu e cada extensão do meu corpo se arrepiou. A sensação da oxitocina sendo liberada em minhas veias originou um bem-estar físico sem igual, extinguindo de súbito todo e qualquer sinal de tensão que ali estava. Correspondi seu gesto e deslizei um braço pela sua cintura, trazendo-a para mim com urgência conforme utilizava o outro para acariciar seus cabelos, reparando que ela também executava um carinho nos meus fios. Puta merda, como eu senti falta daquilo.
- Por que você falou tudo aquilo? Por que quis se afastar? Qual a razão para se esquivar tanto? – Interrogou com a voz abafada em minha nuca arrepiada. Firmei meu abraço e fez o mesmo, se aconchegando em mim.
- Só queria proteger você de todo o caos no qual minha vida se encontra. – Respondi e ela se afastou ligeiramente para conseguir me observar.
- Eu vou perguntar de novo: O que está acontecendo? – Perguntou séria. Suspirei e, completamente contra minha vontade, desfiz o abraço, levantando-me em seguida.
- Só um minuto, tudo bem? – Falei, caminhando em passadas rápidas rumo ao meu escritório. Apanhei o envelope sobre a mesa e retornei à sala com os nervos novamente em polvorosa. Entreguei-o à que o pegou, ainda que não compreendesse o propósito daquilo. – Abra. – Disse ainda de pé, vendo-a fazer o que lhe fora solicitado. – Eu me afastei de você porque temi pela sua segurança. – Comecei, experimentando a sensação horrível de presenciar sua até então expressão confusa transformar-se em algo próximo ao choque conforme analisava as fotos em suas mãos.
- , o que significa isso? Sou eu! Somos nós! – Exclamou exasperada mostrando as imagens e eu esfreguei o rosto concordando. Fixei um intenso contato visual com e puxei o ar de meus pulmões, expelindo-o com força.
- Eu estou sendo ameaçado, . E você virou um alvo.


Coação: É o ato de exercer pressão psicológica ou constrangimento no indivíduo a fim de fazê-lo praticar, independente se por ação ou omissão, ato que não deseje.



Capítulo 20

“Você foi inesperada. Quando nossos lábios se conectaram, eu ressuscitei.” – Numbers – The Cab.


’s POV.

A sensação era de ver tudo ao meu redor transformar-se em um borrão desconexo de informações.
Nada fazia sentido, nada parecia se encaixar e, por mais que eu me esforçasse para compreender o que me fora dito, minha mente insistia em não executar suas funções de modo correto, tampouco permitia com que eu proferisse uma palavra sequer.
sofrendo ameaças? Por quê? Eu virei um alvo? Como?
Avaliei as fotografias em meu colo, minhas mãos trêmulas e geladas trepidavam ao passo em que eu transpassava as folhas, estudando uma a uma no mais completo estado de choque. Uma imagem retratava a minha saída do condomínio no dia da festa da qual acompanhei ; Outra o mostrava junto a mim à caminho de seu carro; A última expunha nós dois entrando no local do evento.
Retirei mais um papel do envelope e levei minha mão livre à boca tamanho o espanto ao ler o conteúdo nele escrito, ou melhor, colado, onde diversas letras desiguais formavam as palavras que constituíam o texto de recortes do que eu julguei provir de revistas e jornais.

”Espero que goste de enigmas, pois preparei este especialmente para você.”

Conduzi meus olhos ao que deduzi ser outra foto – que até aquele momento não havia visto – e imediatamente senti o meu coração parar por milésimos de segundos, para então voltar a bater freneticamente em seguida. Era como se os batimentos doessem, como se o meu peito fosse rasgado durante o tempo que a minha ficha caía a respeito do que eu via ali. Cerrei o olhar e estudei a imagem, esforçando-me para decifrá-la. Não foi necessário que eu o fizesse por muito tempo, pois logo identifiquei o único elemento focalizado na foto, onde o pedaço de pano mostrado era nada mais, nada menos, do que pertencente a uma blusa minha. Arranquei a touca da minha cabeça e a deixei em um canto do sofá, transpassando meus dedos nos fios de modo que o meu nervoso fosse descontado no ato. Tentei puxar o ar de meus pulmões a fim de dizer algo, contudo, minha voz parou na garganta e eu não pude concluir o ato.
Subi o meu olhar até , sentindo o meu peito apertar a ponto de me causar uma falta de ar tão agoniante quanto a fisionomia do homem diante de mim, que, dotado de seriedade, fitava-me de maneira apreensiva, quase pesarosa.
- Isso é ridículo. – Exprimi um riso nervoso. – Você ao menos tem ideia de quem está fazendo isso? Por que estão fazendo uma coisa dessas?! – Questionei exasperada.
- Eu não sei, . Não tenho respostas concretas para dar a você, estou completamente de mãos atadas. – Suas mãos esfregaram-se contra o seu rosto mais uma vez. – Achei que só quisessem que eu saísse do caso, mas vi que não se trata somente disso. Essa merda virou um doentio jogo de perseguição e eu não consigo compreender a motivação dele! – Exclamou angustiado e eu engoli a seco. De repente, tudo começou a se encaixar. Seu modo de reagir perante as notícias a respeito do caso em que trabalhava e seu aparente esgotamento refletido no semblante comumente cansado, de fato, não eram mera coincidência. Encarei o nada, ainda procurando uma maneira de digerir tudo aquilo, sentindo o estofado do sofá afundar ao meu lado. Direcionei os olhos ao local e observei agora sentado ali com o corpo inclinado para frente. O homem apoiou os braços sobre as pernas e juntou suas mãos, respirando fundo durante o tempo que mantinha o olhar perdido em um ponto aleatório do chão. Não pude evitar ser acometida por um sentimento ruim na boca do estômago, experimentando a péssima sensação de impotência que só piorava o meu estado atual.
- Você precisa fazer alguma coisa, precisa contatar à polícia, não sei! – Falei, empenhada em achar uma solução para tal fato até então insolucionável.
- Envolver a polícia só irá piorar a situação. Quem me garante que não há um policial ou alguma autoridade semelhante envolvida nisso? Não posso confiar em ninguém, não posso arriscar dar um passo errado. – Expôs reflexivo, enfim retirando os olhos do chão para me encarar. – Eu não posso me precipitar e colocar você em risco, . Algo muito ruim poderia ter ocorrido e você não tem noção de como eu ficaria fodido... De como eu perderia a cabeça se algo acontecesse com você. – As íris intensas me avaliaram de modo obstinado, dando a impressão de que possuíam a capacidade de me desvendar por inteira apenas mediante a esse ato. Sustentei o contato visual e me mantive em silêncio ao longo de alguns segundos, tendo a sensação de estar cada vez mais confusa. Eram diversas questões a serem discutidas e eu precisava abordá-las com calma, contudo, o meu lado desesperado por explicações não permitia com que eu pensasse de forma organizada.
- Antes de tudo, me tire uma dúvida... Você só se arrependeu porque viu que poderia me perder? Foi peso na consciência, é isso?
- Não! Por Deus, não! Eu me arrependi porque desde o início soube que estava errado, eu fui ridículo em te induzir a sentir raiva de mim somente para fazer com que você se afastasse e se mantivesse longe disso! Eu sei que agi como um moleque e tomei uma atitude equivocada, tudo bem? Mas eu não sabia como reagir. – Ele parou por poucos segundos e tomou fôlego, comprimindo os lábios e fechando os olhos à medida que negava com a cabeça durante o ato, abrindo-os em seguida. Tornou a me fitar e sua fisionomia firme regressou, embora a angústia permanecesse refletida nas entrelinhas de sua expressão obstinada. – Eu me desculpo por tudo o que fiz, porém, não irei me desculpar por tentar proteger você, . – Afirmou decidido. Vinquei as sobrancelhas e, assim como o homem fizera instantes antes, balancei a cabeça em negação, emitindo um riso sem humor.
- Não me trate como se eu fosse uma criança que precisa que lhe deem a mão para atravessar a rua, . Eu não sou frágil, não preciso ser cuidada e talvez isso pudesse ter sido evitado se eu soubesse o que estava acontecendo e no que me envolveram! – Rebati imersa nas sensações que me dominavam de uma só vez. Eu sentia raiva; Sentia medo; Sentia a confusão embaralhar minha mente e, sobretudo, sentia o pavor mais genuíno que alguém poderia sentir diante de uma situação como aquela. Ao meu lado, limitava-se a continuar com seu modo indecifrável de me analisar, onde o seu olhar cravejado no meu transpassava um leque de emoções significativas. Ele respirou fundo e assentiu.
- Tem razão, eu devia ter contado a verdade desde o início. – Confessou simplesmente e eu concordei.
- Você não pode impedir que um ser humano livre tome as próprias decisões. – Comecei, agora num tom de voz mais brando. – Quando digo isso, significa que, ao invés de se precipitar e agir da maneira que você julga ser melhor para mim, fale comigo. Dê à pessoa a informação e deixe que ela resolva o que fazer com o que lhe foi dito. – Concluí objetiva e não proferiu uma palavra sequer. Sua postura não se alterou e sua forma de me analisar permaneceu a mesma de minutos atrás.
Silêncio.
O lampejo de um relâmpago cortou o céu, levando o clarão à iluminar o apartamento. Seguido da intensa descarga elétrica, veio o trovão, que fez os vidros da gigantesca porta de correr tremerem com sua forte potência.
- Em nada adiantará prosseguirmos com essa discussão, . – A ausência de diálogo enfim foi quebrada. Meu apelido soou melodioso em sua voz terna e eu me concentrei nas formas bem estruturadas de sua face. – Já assumi o meu erro, agora tudo o que me interessa é resolver essa situação e proteger quem é importante para mim. Eu não estou duvidando da sua capacidade de enfrentar as coisas, mas saiba que isso é mais sério do aparenta e está me consumindo de uma maneira exaustiva. Tudo o que eu não preciso é ver alguém sofrendo com as consequências de algo pela qual não é responsável. – Seus olhos direcionaram-se até o meu braço contundido; O homem vincou as sobrancelhas, fitando a contusão com pesar. Toquei o seu queixo e, gentilmente, o fiz desviar sua atenção dali, fazendo-o me olhar.
- O que está feito, está feito, . Não vou negar que estou apavorada, porém, se desesperar só irá piorar, concorda? Talvez seja exatamente isso que essa pessoa quer... Ver você perder o controle. – Disse e sua avaliação em minha face tornou-se mais firme. – Quando eu falei que você não conhecia meus vários lados, não brinquei. Eu não vou me abater só porque um doente resolveu me usar para infernizar a sua vida, recomendo que você faça o mesmo. – Finalizei decidida. Fiz menção de recolher minha mão ao notar que ainda segurava o seu rosto, entretanto, fui impedida de concluir o ato pela palma de , que pousou sobre a minha, segurando-a carinhosamente. Suspirei e não ousei quebrar nosso contato tanto visual, quanto físico.
- Eu honestamente não sei o que dizer a você. – Riu sem humor, transmitindo sua cólera mascarada pelo gesto contraditório.
- Não há nada a ser dito, apenas a ser feito. Você vai continuar trabalhando para acabar com essa palhaçada e eu vou seguir com a minha vida fingindo que não sei o que está havendo, mesmo que esteja com medo. Estou acostumada a ter sua mãe atormentando a minha paz, o que é um doido perto disso? – Gracejei divertida, dessa vez conseguindo arrancar um riso genuíno do homem anteriormente sério. Ele balançou a cabeça em negação, cessando a breve risada.
- Temo que não seja tão fácil, mas admiro sua valentia. – Seus lábios repuxaram-se num sorriso ladino. – No último telefonema que recebi, seu nome foi citado, . – Minha respiração falhou e minha garganta fechou. Pisquei algumas vezes, esforçando-me a juntar os fatos.
- Como sabem o meu nome, os lugares dos quais você e eu frequentamos e onde nós estamos? É óbvio que tem mais de uma pessoa envolvida nisso! – Exclamei e assentiu.
- Não me surpreende que saibam a respeito dessas informações. Esse meio é sujo. Comunicações telefônicas são interceptadas sem autorização, domicílios são violados ilegalmente, confissões são extraídas mediante tortura... Eu já vi o suficiente para ter uma ideia do que o ser humano é capaz. – Mencionou esfregando o rosto, a preocupação era visível em seu semblante fechado e o meu certamente não se encontrava diferente. – Não tenho dúvidas quanto o envolvimento de mais indivíduos, talvez haja muito mais do que eu imagino. O laudo pericial do caso foi vazado propositalmente, decerto alguém possibilitou que tal evento ocorresse. – Eu me surpreendia a cada novo fato revelado e mais um acontecimento passou a fazer sentido. Os repórteres em frente ao condomínio e as matérias nos jornais não se tratavam de mera casualidade. levantou-se do sofá e, aparentemente inquieto, acendeu um cigarro, tragando o fumo com força. Encostou o corpo no pilar próximo ao sofá e me encarou, cruzando os braços rente ao peitoral a ponto de fazer saltar os bíceps torneados, o que era um complemento à sua postura fechada e enrijecida.
- Mais alguém está ciente sobre o que está acontecendo? – Perguntei, vendo-o expelir a fumaça sem tirar os olhos de mim.
- Sim, Otto Zucker. Afilhado da vítima. Ele se dispôs a me ajudar com informações e eu não tive como negar. – Senti um pequeno alívio. Era bom que outra pessoa soubesse de tudo, dividir o peso de um fardo era melhor do que carregá-lo sozinho e, em tal circunstância, o mais adequado seria obter qualquer tipo de auxílio. – Confesso que não me agrada tê-lo como ajudante, é perigoso. – Continuou após uma rápida pausa em sua fala e eu o aguardei prosseguir. – Já estão cientes que eu ando recebendo assistência de terceiros, decerto não demorará muito até que descubram de quem se trata. Quanto mais eu me esforço para não incluir ninguém no meio dessa merda, mais eu vejo minhas intenções falharem. – Suas palavras saíram ríspidas. Pude perceber sua expressão corporal manifestar a tensão palpável que ele sentia, tamanha firmeza com que o homem cruzava os braços. – Contratei seguranças à paisana para Otto e farei o mesmo com você. – Decretou impassível e eu imediatamente contorci meu rosto em algo similar a uma careta. A julgar pela discreta levantada de sobrancelhas que o homem externou, o meu gesto realmente fora reconhecido como tal. Emiti um riso repleto de nervosismo e neguei com a cabeça algumas vezes.
- O quê?! De jeito nenhum! – Contestei determinada. não moveu um músculo sequer. A sobrancelha erguida e a postura firme não se alteraram, o semblante sério transmitia a sua decisão inflexível, no entanto, eu estava disposta a brigar por minha opinião. – Eu não quero ser seguida por um bando de caras que eu nem conheço! Não me sentirei à vontade, de modo nenhum! Não, mil vezes não! – Decretei perseverante. Sua figura imutável começava a me causar raiva e ele pareceu perceber, pois respirou fundo, dando o último trago no cigarro e jogando-o no cinzeiro próximo a si em seguida, para então tornar a se sentar ao meu lado.
- ... – Começou, unindo ambas as palmas para iniciar o seu provável monólogo. – Tenho consciência do quão desconfortável isso é, compreendo a relutância de sua parte, contudo, eu não vou deixar você correr risco. Creio que tenha ficado claro sobre a capacidade desses filhos da puta em fazer merda, é completamente inviável que eu não faça nada a respeito! – Retrucou tão irredutível quanto eu.
- Essa é a palavra! Desconfortável! Eu vou andar pra lá e pra cá com o MIB – Homens de Preto atrás de mim?! Nem pensar! É incômodo! – Exclamei inconformada e quis socar ao notar um sorriso discreto pendendo em seus lábios.
- A não ser que você seja responsável pelos encontros alienígenas na Terra, não terá nada de MIB. – Falou quase rindo e eu cerrei os olhos. – São seguranças à paisana, . Eles são profissionais selecionados e treinados e disponibilizam serviços personalizados. Ninguém irá seguir você vinte e quatro horas por dia, eu só quero garantir que você estará bem. – Terminou sua fala olhando-me daquele jeito carinhoso e protetor o qual me desestabilizava além da conta. Suspirei e torci o nariz, refletindo a respeito da proposta. Apesar de parecer relativamente tranquila, eu estava com medo e não podia negar, contudo, deixar o temor me corroer não era uma possibilidade.
- Tudo bem ter uma espécie de garantia de segurança uma hora ou outra, mas não quero isso o tempo todo. O foco maior é você. Você precisa se cuidar mais do que qualquer outra pessoa. Se quisessem, de fato, me causar algum mal, já teriam o feito, e o resultado seria muito mais do que um braço quebrado que nem foram eles que ocasionaram. Somente me deram um susto e a finalidade desses acontecimentos é mexer com o seu psicológico. Estão ameaçando você porque sabem da sua capacidade. – Aleguei, levando-o a olhar para mim com mais vigor. – É bem possível que queiram te afastar de todo mundo para que possam te manipular, . Não permita que isso aconteça. – Aconselhei precisa. Ele se manteve imóvel, estudando-me com extrema atenção. Por fim, o homem deu um longo suspiro, expelindo o ar de seus pulmões com certa força.
- Como quiser. – Deu-se por vencido e novamente nos inserimos em nossa bolha, trocando olhares cúmplices ao longo de alguns segundos. – Fico mais tranquilo tendo você por perto. – Admitiu numa naturalidade que me pegou de surpresa. Sorri e conduzi minha mão não imobilizada até o seu rosto, pousando-a ali com sutileza.
- Você não está sozinho, . Não precisa estar. – Transpassei o polegar por sua bochecha e o notei suspirar cansado enquanto me encarava atento. – Olha... Eu ainda não tenho um posicionamento quanto à nós, sabe? Tudo que você disse foi incrível, mas... Eu preciso colocar a cabeça no lugar. É muita coisa para assimilar e eu estou um tanto quanto perdida. – Expus com cautela e a fisionomia do homem não se modificou. Ele apenas assentiu concentrado em meu rosto. – Só quero que você saiba que eu estou aqui, tudo bem? – O controle que eu exercia para não desviar os meus olhos em direção aos seus lábios era sobre-humano, visto que, se eu o fizesse, seria inevitável não beijá-lo, e tal ato não seria cabível para o momento. Executei uma última carícia em sua barba e abaixei a mão, sentindo falta da textura de sua pele em contato com a minha palma.
- Eu não quero te apressar em nada, . Não se preocupe com isso. Seu apoio já está de bom tamanho. – Proferiu sereno e eu sorri. Redirecionei meu olhar até às fotos sobre a mesinha de centro, ainda atônita com tudo o que eu havia acabado de saber. e eu nos encontrávamos imersos em nossas próprias reflexões, ambos com as próprias motivações para não ousarmos exprimir uma frase sequer, tampouco interromper com meias palavras o silêncio que se instalara ali. Bento surgiu através da porta de acesso à sala e, sem fazer o alarde que lhe era habitual, deitou-se rente aos meus pés com tranquilidade, como se sentisse o clima não favorável à sua bagunça costumeira.
- Tem algo mais para me dizer ou mostrar, ou as novidades bombásticas acabaram por aqui? – Gracejei, tentando amenizar o peso que pairava no ar. riu sem humor e negou com a cabeça.
- Você já está ciente do que precisa estar.
- Bem... Então eu já vou. Está ficando bem tarde. – Falei, afagando as orelhas do cão abaixo de mim. O homem simplesmente afirmou e levantou-se, levando-me a fazer o mesmo.
- ... – Chamei-o. Ele me fitou por cima dos ombros enquanto colocava o casaco, incitando-me a continuar. – Tudo bem você me levar? Agora eu vou ficar com receio sempre que você dirigir sozinho à noite. – Comentei, observando um pequeno sorriso pender em seus lábios conforme se aproximava da minha figura incomodada.
- Vamos seguir com a nossa vida normalmente, lembra? Não quero que se importe com isso, . – Pediu, encarando meu rosto com zelo. Respirei fundo e torci o nariz, demonstrando que de nada adiantaria me pedir aquilo. Eu me preocuparia de qualquer jeito.
- Não é fácil.
- Eu sei que não. – Reafirmou minha fala anterior. – Mas não é justo que vivamos com medo.
- Não é justo essa pessoa usar você como marionete e me usar como instrumento de manipulação! – Disse, voltando a experimentar a raiva subir o meu sangue.
- A vida não é justa. – Acrescentou simplesmente. – As pessoas vão agir da forma mais ardilosa possível para conseguir o que desejam e que se dane a justiça. O meu dever é combater esse tipo de gente, no entanto, atualmente, é necessário que façamos tudo com a maior calma possível, . Abdicar do meu direito de ir e vir não está nos meus planos.
- Claro, eu não tiro a sua razão e também não irei me privar disso. É só receio. – A última frase saíra dois tons mais baixos. nada disse. Somente acariciou o meu rosto por breves segundos e apanhou suas chaves sobre a mesinha, caminhando até a porta em seguida. Despedi-me de Bento pela última vez, apanhei minha bolsa e segui em seu encalço, saindo do apartamento assim que o homem abriu a porta para que eu me retirasse, fechando-a atrás de si antes de chamar o elevador. Em silêncio adentramos o recinto e em silêncio nos deslocamos pela extensão do estacionamento, a mão de apoiada sutilmente na base da minha coluna me passava a sensação de segurança a qual eu necessitava naquela circunstância e, ainda que eu estivesse decidida a não sucumbir ao medo, uma parte de mim tremia apenas por imaginar que um louco andava por aí nos vigiando em lugares impensáveis.
O conforto do carro propiciou um alívio ao frio que fazia do lado de fora, ajeitei-me no banco do passageiro e observei se acomodar ao meu lado, logo colocando o veículo para andar nas ruas molhadas pela recente chuva. Vez ou outra eu sentia o seu olhar pairar sobre mim, o que me levava a retribuir o gesto e sustentar – mesmo que por poucos instantes – nossa conexão visual que claramente tinha como propósito checar nossa condição naquela determinada conjuntura tensa. Relaxei minha postura e encostei a cabeça no apoio do assento, fitando as gotículas de água que encontravam-se espalhadas pelo vidro fumê. Perdi bons minutos desfrutando de meu pensamento anuviado enquanto focava em abstrair a mente, tendo meu objetivo interrompido por um estrondo que fez o meu coração rasgar no peito e o meu corpo pular no banco, completamente alerta. Procurei o responsável por tal ruído e constatei que a o barulho vinha de uma moto a qual felizmente já se distanciava de nós. Amaldiçoei mentalmente o escapamento problemático e respirei fundo, sentindo minha mão posicionada sobre minhas pernas ser tocada delicadamente pela mão livre de , que executou um ligeiro afago ali sem desviar sua atenção da estrada, provocando um misto de sensações confortantes que esquentaram o meu peito apertado em aflição.
- Você quer passar uma imagem de inabalável para mascarar um possível medo ou só se acostumou a conviver com ele? – Questionei um tanto quanto incrédula em razão de seu comportamento indiferente perante o episódio anterior. O homem continuou sem manifestar uma reação sequer.
- Eu me adaptei a ele. – Respondeu, desviando os olhos da rua para me fitar rapidamente. Não proferi mais nada, haja vista que não encontrava palavras para expressar minha descrença no que dizia respeito a toda àquela situação surreal.
Voltei a observar a paisagem através da janela e somente despertei de meus devaneios assim que reconheci a fachada do condomínio mais adiante. Arrumei minha postura e destravei o cinto de segurança no instante em que parou o automóvel, admirando-me atenciosamente bem como eu fazia com ele.
- Promete pra mim que você vai me falar caso haja algo de errado. – Pedi, cravando meu olhar no dele.
- Deixar de abrir o jogo com você já não é mais uma opção, . Não se preocupe. – Assegurou preciso e eu sorri. A atmosfera que comumente surgia sempre que nos encarávamos de maneira tão atenta e cuidadosa fez-se presente num ímpeto, inserindo-me num estado de torpor que me fazia desejar ser analisada daquela forma por muito tempo. Sabendo que não deveríamos dar bobeira por aí – principalmente durante a noite –, tratei de acordar para vida. Impulsionei o corpo para frente e pousei a mão desocupada em seu rosto, aproximando-me o suficiente para colar meus lábios na sua bochecha moderadamente fria. Me permiti fechar os olhos durante o feito, inalando uma boa quantidade do aroma forte de seu perfume marcante que habitualmente impregnava minhas roupas. Percebi seu corpo tornar-se rígido com o toque e o meu se aqueceu somente por sentir a textura de sua face em contato com a pele sensível da minha boca, que desejava buscar a sua ainda que eu soubesse da minha necessidade de me dar um tempo e digerir tudo o que havia acontecido. Separei-me dele e me deparei com sua feição serena que, mais do que nunca, parecia me hipnotizar e dissipar o meu lado racional. Seu comportamento envolvente não era proposital, entretanto, a magnitude implicada em suas ações comprometia absolutamente todas as minhas certezas e decisões, principalmente naquele instante no qual nos encontrávamos cada vez mais próximos, partilhando de nossas respirações pesadas e falhas. A razão foi encoberta pelo desejo repentino que me impulsionou a descer o olhar rumo aos seus lábios convidativos, onde eu não me demorei a admirar, retornando às suas íris intensas e faiscantes que complementavam seu semblante sério e concentrado. também perdeu alguns segundos fitando minha boca e foi aí que eu notei o meu autocontrole gritar.
- Eu queria muito beijar você. – Minha voz baixa soou tal qual um sopro. Reparei um discreto vinco formar-se entre suas sobrancelhas e prossegui. – Mas, como eu já havia dito em um momento anterior, as coisas não funcionam assim. Eu tenho dúvidas, incertezas e não é fácil me desfazer delas. – Falei e o homem assentiu vagarosamente, dotado de seriedade.
- Compreendo e respeito, afinal, é uma situação nova para ambos. Eu me senti confuso, é natural que você se sinta também, sobretudo após o que aconteceu. – Disse e foi por um triz que eu não ri, afinal, para ele, podia sim ser novidade, contudo, para mim, não era. Sentir-me daquela forma, possuir tais sentimentos, nada disso era novo. Limitei a expressar um modesto sorriso e concordar com a cabeça, avaliando-o com apreço.
- É bom que não fiquemos muito tempo enrolando aqui, não é? Pare de me seduzir e deixe-me sair desse carro. – Gracejei num falso tom de repreensão, arrancando um efêmero riso do homem que manifestou sua odiável mania de repuxar os lábios lateralmente.
- Se eu, de fato, desejasse te seduzir, garanto que daqui você não sairia tão cedo. – Sua voz rasteira repleta de segundas e terceiras intenções me surpreendeu. Era incrível como o seu olhar conseguia evoluir de manso para ardiloso em questão de segundos, transmitindo um ar predador que aquecia o meu baixo ventre numa agilidade impressionante. Cerrei os olhos e lancei-lhe uma encarada esperta, vendo-o manter a fisionomia maliciosa em sua face sagaz.
- Seria interessante saber como você se vira dentro de um carro, se é que me entende. – Rebati travessa, já virando o corpo em direção à porta. Atingi o ponto máximo de satisfação ao vê-lo arquear uma sobrancelha e reforçar a expressão tentadora, exprimido um riso cafajeste que, mais uma vez, enviou raios cálidos para o meio de minhas coxas. – Boa noite. – Desejei, já me retirando do automóvel. – Será que você pode me avisar quando chegar? Eu ficaria mais tranquila.
- Claro. Boa noite, . – Disse, contemplando-me com atenção. Por fim deixei o automóvel, dando uma última conferida no homem que continuava a me acompanhar com o olhar. Acenei e adentrei os portões do condomínio, virando novamente somente para observá-lo partir após se certificar de que eu me encontrava dentro das dependências do conjunto residencial.
Por um momento eu havia esquecido das notícias ruins, me agradava o modo como nós dois conseguíamos amenizar um clima não favorável sem sequer nos darmos conta disso, e ninguém podia negar que tal habilidade era especial e importante. Sentir-se em casa com uma pessoa era importante. Naquele caso, lar não era um lugar, mas sim, alguém. Entrei nas dependências da mansão dos e curiosamente avistei as luzes da cozinha acesas, o que não costumava ser normal a menos que minha mãe estivesse por lá. Caminhei rumo à entrada de serviço e coloquei-me cômodo adentro, parando de súbito ao dar de cara com a Senhora parcialmente apoiada sobre a pia. Franzi o cenho e a vi beber um copo d’àgua em grandes goladas, finalizando o conteúdo sem demora. Ela respirou fundo e endireitou o corpo, transpassando os dedos entre os fios bem cuidados de seus cabelos alinhados conforme recuperava sua pose aprumada, gesto que só me intrigou ainda mais. Depositou o copo na superfície da plataforma de granito e moveu o dorso para o lado, topando com a minha figura imóvel posta próxima ao batente da porta com a maior cara de pastel já vista.
- Procurando algo? – Perguntou incisiva.
- Desculpe, achei que a minha mãe estivesse aqui. – Expliquei, estranhando seu semblante razoavelmente abatido. Ver Kyara menos do que deslumbrante era uma coisa que nunca acontecia, e eu possuía propriedade para dizer que ela não se deixava abalar ou transparecer uma possível apatia em hipótese nenhuma. – A senhora está bem? – Indaguei meio hesitante, sendo encarada pelos olhos felinos da mais velha que agora já voltara a empinar o nariz.
- Sim, estou. – Rebateu seca. – Avise à sua mãe que preciso dela mais cedo amanhã para ajudar Judith a dar início às preparações do Brunch de domingo. – Ordenou e não esperou que eu lhe desse uma resposta, terminando por dar às costas e se retirar da cozinha esbanjando uma classe que a fazia parecer flutuar sobre o chão. Torci meu rosto numa careta e, igualmente à Dona Kyara, tratei de sair dali, ansiando em dar ao meu corpo e mente o descanso que ambos necessitavam.
Entrei em casa e segui até os aposentos da minha mãe, onde abri a porta vagarosamente apenas para confirmar que a mulher já se encontrava em seu décimo sono. Coloquei meu material em um canto qualquer do meu quarto e me preparei para tomar banho com a porcaria do braço engessado, agradecendo aos céus por faltar pouco para que eu me visse livre daquilo. Depois de muito trabalho, enfim senti a água quente escorrer pela extensão da minha pele, lavando não somente ela, mas minha alma também. Eu me esforçava a refletir sobre qualquer coisa que não fosse às ameaças sofridas por – e por mim também de certa forma –, entretanto, tudo me levava a criar inúmeras teorias e cenas nada boas em minha mente fértil que teimava em imaginar o pior. Eu não queria ser pessimista, não queria ceder ao pavor somente por imaginar algo ruim acontecendo conosco, no entanto, à medida que a ficha caía, a tarefa de ignorar tais medos tornava-se tão difícil quanto se equilibrar na corda bamba da vida. O bipe do celular soou e eu logo o apanhei de cima da pia, pouco me importando por ainda estar debaixo do chuveiro. Ler o nome de na tela trouxe um alívio imediato à minha inquietação.

”Estou em casa. Se cuide.”


Sorri fraco e coloquei o aparelho de volta à pia, não demorando a finalizar meu banho.
Eu esperava ser capaz de dormir ao menos um pouco, porém, já era sabido que Morpheu teria sérios problemas comigo essa noite, afinal, eu certamente tardaria a pegar no sono e talvez sequer o faria.

**


A minha noite de sono se resumiu a cochilos entrecortados e agitados, exatamente como previ.
Meus pensamentos não permitiram com que eu pregasse os olhos por mais de alguns minutos, e agora eles insistiam em querer fechar mesmo eu não podendo me entregar à vontade de dormir sobre as mesas do pátio da faculdade após uma bateria de provas exaustivas, as quais demandaram muita força de vontade para que eu me concentrasse sem perder a linha de raciocínio.
- Meu pulso vai cair! – brotou do além, assustando-me com sua presença repentina. Minha amiga se sentou diante de mim e bufou enquanto massageava a área causadora de sua reclamação.
- Nem me fale! Escrevi tanto que tive a impressão de estar redigindo a bíblia, mais um pouco e eu teria que enfaixar esse braço também. – Resmunguei mostrando o membro desimpedido de qualquer revés que o atrapalhasse, ouvindo rir.
- Quando você vai tirar esse treco mesmo? Semana que vem?
- Sim. Na terça-feira. – Falei sorrindo abertamente. Minha amiga maneou a cabeça e tomou um gole do meu chá, recebendo um olhar repreensivo meu pelo seu ato. Notei-a suspirar e estranhei sua fisionomia inexpressiva. – Conheço você bem o suficiente para saber que essa cara de nada não significa coisa boa. – Comentei avaliativa. deu de ombros e negou com a cabeça.
- Muito trabalho, sweetie. – Sua resposta curta não chegou nem perto de me convencer. Firmei meu exame pormenorizado no seu rosto desanimado e a encarei, demonstrando que ela precisaria de mais do que uma frase murcha para que eu comprovasse a veracidade do que me era dito.
- Muito trabalho para formular uma resposta melhor, não é? Porque essa aí não colou, sweetie.
- Estou falando a verdade! As consultas, relatórios e prazos em conjunto com o final do semestre estão me consumindo bastante, tive que abdicar do meu sono e você sabe como o meu humor se transforma quando não durmo o suficiente. – Declarou fazendo uma breve careta entediada. Observei-a por mais alguns segundos e assenti devagar, resolvendo se de fato acreditava ou se insistia mais um pouco. Reparando em sua nítida falta de paciência, resolvi acatar a primeira opção e respeitar o dia ruim da minha amiga.
- Você sabe que pode me pedir ajuda, caso precise. Eu tenho mais tempo livre, não me atrapalharia em nada.
- Eu sei, . Não se preocupe, eu dou conta. – Lançou-me uma piscadela e eu ri ao vê-la exprimir outra cara feia ao se dar conta de que o chá havia acabado. – Vai fazer o que agora?
- Ir ao abrigo. Hoje é o último dia de visitação. – Lamentei, aflita por não saber o que esperar assim que chegasse lá. A minha vontade era de permanecer frequentando assiduamente a instituição, no entanto, somente Magnólia poderia resolver tal assunto, e desconhecer seu veredito a respeito disso só piorava minha agonia. Eu sequer sabia se Trish havia tido oportunidade de conversar com ela, aliás.
- Você ficou com o tema mais complexo. – Comentou e eu assenti.
- São mais de trinta páginas somente dos relatórios de observação, foi um trabalho bem extenso. Eu me envolvi demais com a situação daquelas crianças, não pretendo simplesmente sumir da vida delas. – Confessei. deu um sorriso frouxo e tombou a cabeça moderadamente para o lado, como se refletisse acerca de algo.
- Acho muito nobre da sua parte, sweetie, mas você sabe que uma das premissas do nosso curso é não se envolver com as situações que chegam ao nosso conhecimento, não sabe? Não me interprete mal, eu só me preocupo com a recorrência que isso possa a vir ocorrer. É desgastante, pode te prejudicar. – Ajuizou de forma ponderada, proferindo cada palavra com cuidado.
- Eu conheço os limites e sei estabelecê-los, mi amor, contudo, não existe possibilidade de não se deixar levar pelo que eu vivenciei ali. São pessoas dependentes de outras pessoas e elas precisam de ajuda, isso não tem nada a ver comigo como profissional, e sim como ser humano. – Concluí firme. Pela mudança no semblante de e o discreto sorriso pendido em seus lábios, percebi que ela enfim compreendera a importância daquilo para mim.
- Eu entendo, você está certa e tem o meu apoio. – Disse e foi a minha vez de sorrir. – Eu gostaria muito de ficar aqui conversando, entretanto, o dever me chama. Vou cumprir a minha obrigação como a amiga maravilhosa que sou e te oferecer uma carona até o abrigo. E aí? Topa? – Questionou, recolhendo seu material sobre a mesa. Eu rapidamente me levantei e, com certa dificuldade devido ao braço inutilizável, ajeitei minha bolsa em meus ombros, olhando-a com a cara mais óbvia que consegui.
- Você ainda pergunta?! – Falei um pouco animada demais e minha amiga riu, negando com a cabeça.
- Realmente, não sei por que eu faço isso. – Rolou os olhos de maneira teatral, arrancando outro ligeiro riso meu conforme caminhávamos rumo ao estacionamento.

A dimensão extensa do pátio encontrava-se vazia e silenciosa, fugindo completamente do costumeiro furor que sempre se sucedia ali, onde as crianças eufóricas corriam e brincavam de um lado para o outro, esbanjando a energia que eu desejava ainda possuir. O horário da soneca da tarde deixava o local num marasmo inacreditável para quem já conhecia a intensa movimentação pertencente ao recinto, sendo quase inimaginável acreditar que o silêncio podia pairar nas dependências frequentemente repletas de pequenos agitados. Sentada em um dos bancos próximos ao corredor da parte interna do orfanato, eu aguardava Trish aparecer portando sua usual feição amigável a qual irradiava uma simpatia contagiante. Minhas pernas balançavam incessantemente sem que eu pudesse controlá-las, resposta comportamental relacionada à inquietação por não saber o que esperar após o fim das visitações. Eu tinha muito a pensar, ainda não fazia ideia de como solucionar – ou ao menos tentar – o problema financeiro da instituição, e um dia a mais era um dia a menos que teríamos para salvar o abrigo e manter todos juntos. Receber carta branca para acompanhar constantemente a rotina do local em muito me ajudaria a pensar com mais clareza, afinal, ver de perto o que se passava era bem melhor do que apenas saber através de outras pessoas, mesmo que essa pessoa em questão fosse Trish, que surgiu pela porta de uma das salas localizadas no comprido percurso o qual dava acesso aos demais ambientes dali.
- Boa tarde, ! – Exclamou, cumprimentando-me com seu usual abraço apertado. – Você chegou bem na hora!
- Boa tarde! Cheguei na hora de quê? – Indaguei curiosa.
- Magnólia está aqui, é uma ótima oportunidade para você conversar com ela. Eu comentei de forma bem sintetizada sobre a sua pretensão e ela se disponibilizou a te ouvir. – Comunicou animada e eu imediatamente sorri, sentindo uma pontada de esperança tomar conta de mim.
- Jura?! Que notícia boa! – Comemorei, partilhando da animação da mulher à minha frente. – Quando ela poderá me atender?
- Agora mesmo. Ela está na sala dela à sua espera.
- Ótimo! Obrigada, Trish! Segunda porta à esquerda, não é? – Perguntei, tendo a afirmativa por meio de um aceno de cabeça. Direcionei-me até o local pretendido e efetuei três ligeiras batidas na porta, ouvindo um “entra” em resposta ao gesto. Assim o fiz. Magnólia encontrava-se sentada atrás de sua mesa lotada de papéis empilhados de modo extremamente organizado, focada em um deles antes de redirecionar sua atenção à minha figura que a aguardava me notar de fato.
- Olá, . Sente-se, por favor. – Pediu atenciosa, apontando para a cadeira à sua frente. Agradeci e me ajeitei sobre o assento, colocando minha bolsa em meu colo.
- Boa tarde, Magnólia. Obrigada por me receber, sei que anda muito ocupada. – Disse, já elaborando o início do discurso em minha cabeça.
- Já me habituei a este fato, consigo administrar a correria sem muitas adversidades. Como vai? Soube do acidente que sofreu. – Declarou, lançando uma rápida olhada na tipoia que envolvia o meu braço.
- Ah, foi só um susto. Eu estou bem, apenas lesionada. – Brinquei, fazendo a mulher exprimir um riso momentâneo.
- Que bom. Vamos ao que interessa, suponho que seja um assunto importante, visto que hoje é o seu último dia de observação, correto? – Afirmei com a cabeça, preparando-me para começar a expor meu ponto de vista a ela. – Tudo saiu como o esperado? Você conseguiu o alcançar os resultados que esperava?
- Sim, minha experiência aqui foi maravilhosa, eu amei e consegui mais do que eu precisava. Apeguei-me ao lugar, às pessoas e, sobretudo, às crianças. E essa é exatamente a razão pela qual eu quis conversar com você. – Informei e Magnólia me incentivou a prosseguir. – Eu vi muita coisa durante esses meses, principalmente no que diz respeito às necessidades estruturais do orfanato, e essas necessidades são consequências dos problemas financeiros que vocês estão enfrentando. – A mulher suspirou, nitidamente consternada. – Eu quero ajudar, garanto que encontraremos uma solução para salvar o abrigo.
- ... Sua boa vontade é louvável, você não sabe quão gratificante é perceber que o nosso trabalho é admirado por alguém que, de certa forma, acabou de nos conhecer, mas nada é tão fácil assim. O banco não liberou o empréstimo, temos um prazo a cumprir e eu não faço ideia de como irei direcionar as crianças para outras instituições. Aceitar você aqui só iria sujeitar mais uma pessoa ao sofrimento de ter que deixar o orfanato num futuro breve, seria um passo sem sentido. – Argumentou pesarosa.
- Não jogue a toalha, Magnólia. Minha intenção não é ensinar você a exercer o seu trabalho, de jeito nenhum, eu só acho que esse discurso negativo não pode se aplicar assim. Vocês têm um prazo, não têm? O que significa que, entre esse período de tempo determinado, restam os dias livres para que algo seja feito. – Aleguei concisa, decidida a demonstrar minha opinião. – Já percebi que você é uma mulher extremamente forte e competente, eu admiro demais o que você faz aqui e o quanto você luta por esse lugar, seria um desperdício não esgotar todas as possibilidades de superar essa dificuldade. – Ela finalmente pareceu ponderar. A mais velha coçou os olhos por trás dos óculos e, mais uma vez, respirou fundo. Eu me mantive minha postura firme.
- Eu perco inúmeras noites de sono tentando encontrar um meio de desatar esses nós. Todas as minhas opções se esgotaram, nós nunca tivemos ajuda do governo, as autoridades nunca garantiram boas condições ao estabelecimento e agora querem tirá-lo de mim. É difícil demais recordar do momento no qual eu recebi a primeira criança em situação de abandono, ver o quanto crescemos, e constatar que tudo pode escorrer entre os meus dedos, . – Suas palavras soavam claramente como um desabafo e eu me senti feliz por vê-la externalizando seu desapontamento, afinal, aquela era uma forma válida de evacuar a mente para novos pensamentos.
- Vocês não têm ajuda do governo, tampouco possuem condições de pagar por serviços terceirizados. Se dois é melhor do que um, imagina três, quatro... Eu sei que as pessoas estão aqui porque querem e eu faço parte delas. Deixe-me ao menos tentar ajudar, ninguém tem nada a perder. – Falei da maneira mais convincente que pude. Magnólia repetiu o ato de coçar os olhos e tornou a me fitar no que me pareceram horas, embora tenham se passado somente poucos segundos. Cutuquei a madeira da cadeira a fim de descarregar um pouco do nervosismo que me assolava e vi que outro suspiro foi manifestado pela mulher diante de mim, a qual juntou as mãos sobre a mesa e relaxou os ombros em seguida.
- Sua habilidade de persuadir com argumentos é muito boa, . Você tem a minha permissão para continuar a frequentar a instituição. – Concluiu e eu sorri. Sorri tanto e tão abertamente que tive a impressão de rasgar minha boca no ato, contudo, não liguei. O sentimento de felicidade era mais do que real.
- Ai, meu Deus. Não acredito! Muito, muito, obrigada, Magnólia! Eu prometo que ajudarei de verdade, farei o possível para ser útil de todas as formas. Nós vamos salvar o orfanato e tudo dará certo! – Disse sem parar, vendo-a rir verdadeiramente.
- É o que eu espero. Só peço para que você me comunique a respeito de tudo o que fizer, tudo bem?
- Claro, com certeza! – Exclamei imersa na euforia proporcionada pela animação que eu sentia.
- Bom, creio que já estamos entendidas. Mais algum adendo? – Inquiriu solícita e eu neguei. – Eu gostaria demais de prosseguir com a conversa, no entanto, esses papéis necessitam de atenção. – Apontou na direção das folhas amontoadas. – Caso eu não esteja presente para lhe ajudar, recorra à Trish, certo?
- Pode deixar. Obrigada mesmo, Magnólia. Significa demais, você não sabe o quanto. – Agradeci, levantando-me. A mulher apenas sorriu. Pedi licença e me retirei da sala, logo avistando Trish sentada no banco anteriormente ocupado por mim.
- E então? – Perguntou visivelmente apreensiva e curiosa. A felicidade estampada em meu rosto a segundos atrás foi mascarada por uma fisionomia inexpressiva utilizada propositalmente para dar mais emoção à cena, e, a julgar pela cara da minha agora companheira, o meu objetivo fora devidamente atingido.
- Não tenho muito o que dizer... – Iniciei num falso tom de lamentação. – Só que, de agora em diante, você terá que me aguentar mais do que uma vez por semana. – Enfim permiti com que o sorriso largo regressasse, voltando a agir tão empolgada quanto estava no escritório de Magnólia. Após assimilar minha fala, Trish compartilhou da mesma euforia que eu e me abraçou forte.
- Que notícia maravilhosa! Eu sabia que ela concordaria!
- De início não foi tão fácil, tive que argumentar um pouco. – Esclareci, desfazendo o abraço. – A hesitação dela é compreensível. Deve ser desgastante tomar conta disso tudo, especialmente em tais circunstâncias.
- Sim, eu acompanho o empenho dela desde o meu primeiro dia aqui e é admirável. Ver que tudo pode ir por água abaixo me dá uma sensação de impotência tão grande... – Lamentou desanimada.
- Não vamos pensar no lado ruim da situação porque só atrai negatividade, vamos pensar na solução do nosso problema, ainda que não tenhamos ideia de qual seja ela. – Determinei precisa e Trish concordou.
- Tem razão. Agora que você é minha parceira, terá que participar de todas as atividades por aqui, a começar pela mais difícil: Acordar as crianças. Venha, o Archie vai adorar ver você! – Era bom sentir uma mudança de perspectiva diante do que vivenciávamos naquele momento. Enquanto eu caminhava ao longo dos corredores do abrigo e sorria para os demais voluntários que ali passavam, uma sensação de confiança foi se apoderando de cada célula do meu corpo. Um passo eu já havia dado.

O restante seria somente consequência.

’s POV.

Meus sentimentos eram complexos.
Ao mesmo tempo em que eu experienciava o alívio por, enfim, ter aberto o jogo com sobre absolutamente tudo, também era acometido pelo peso das palavras proferidas por mim. Apesar de saber que ela tinha o direito de ficar ciente no que – infelizmente – estava inserida, relatar a situação só tornava tudo mais real, pois, agora, a garota de fato encontrava-se no meio do furacão comigo, o que fazia cair por terra todo o meu esforço para que acontecesse exatamente o contrário.
Eu a queria perto de mim. Não apenas para me certificar de que ela estaria bem, mas também porque eu gostava do que eu me tornava ao seu lado. Eu havia redescoberto uma parte minha que há muito tempo não se mostrava, eu havia recobrado a capacidade de sorrir verdadeiramente mesmo estando em uma circunstância difícil e, apesar de ainda estranhar tal fato, não me arrependia de tê-lo verbalizado para a responsável por me levar do céu ao inferno em questão de segundos.
me levava ao céu nos momentos em que me permitia tocá-la e admirá-la de alguma forma; Ela me levava ao céu somente com sua presença. Essa presença era ainda mais apreciada quando eu a tomava em meus braços e a notava se eriçar diante do ato, e de tanto desejar sentir a textura de sua pele na minha, passei a cobiça-la inteiramente. Eu desejava sua companhia, desejava ser contemplado pelo modo como ela me contemplava, desejava apreciar sua personalidade atrapalhada, ansiava por vislumbrar todas as características as quais compunham a garota que eu vi crescer e que, agora, fazia crescer sentimentos em mim que eu sequer imaginei conhecer algum dia. Por outro lado, me levava ao inferno. Embora essa denominação não deva ser aplicada pelo significado negativo da palavra, nada mais condiz tanto com a sensação de estar envolvido a ela e a sua personalidade excêntrica capaz de enlouquecer qualquer um, ainda que esse seja um de seus atributos que mais me encantam nela. era a personificação do inferno, pois me fazia perder o controle e oscilar entre oito e oitenta com sua intensidade natural de quem vê o mundo com um filtro humanitário que lhe dá a valentia de ser quem é, alguém que emana uma atmosfera desconhecida capaz de seduzir e convidar para conhecer mais da doçura tentadora e perigosamente instigante refletida no fogo de seu olhar cativante.
Eu gostava de brincar com fogo, tanto que acabei entrando no seu jogo sem perceber que o seu calor viciava. Queimar-me já não parecia um problema.
Saí de meus devaneios e dei mais um gole no whisky estupidamente gelado em minhas mãos. Após mais um dia maçante no escritório, a única coisa apta a acalmar meus nervos era uma boa dose da bebida amadeirada que rasgava minha garganta e relaxava meus músculos ao entrar em contato com o meu paladar já familiarizado pelo gosto destilado do malte. Seria estupidez alegar que eu me orgulhava de meus hábitos nocivos, porém, a junção do álcool combinada à combustão lenta da nicotina proporcionava a falsa sensação de tranquilidade instantânea que eu precisava. Meu celular vibrou sobre o vidro da mesa de centro e, sem delongas, o apanhei com certa brutalidade, receando uma possível ligação indesejada. Felizmente, era o nome de que piscava no visor do aparelho.
- Quem é vivo sempre aparece... – Disse assim que aceitei a chamada.
- Não é só você que trabalha, . Ando passando mais tempo em aviões do que na minha própria casa. – Meu amigo respondeu e eu ri sem humor, afinal, compreendia bem sua situação.
- Relaxa, cara. Liguei para você esses dias, imaginei que estivesse ocupado.
- Gostaria de estar ocupado com coisas mais interessantes do que com uma porcaria de reunião que durou três horas. – Reclamou ríspido, dessa vez, fazendo-me rir de fato, mesmo que brevemente. – Mas e aí, irmão. Tranquilo? Como vai o andamento do caso?
- Mesma merda de sempre. – Falei, demonstrando meu descontentamento com o tópico. – Não me pergunte sobre a porra do trabalho, por favor. – Pedi em meio a um suspiro, tocando as têmporas no ato.
- Wow, beleza. Sem revolta, Doutor . Vai ver o jogo hoje?
- Óbvio. – Afirmei, finalizando o drink em meu copo.
- Perfeito. Topa um bar agora? – Perguntou e eu joguei o meu corpo no sofá, sem vontade alguma de sair de casa novamente.
- Não vai rolar, cara. Meu condomínio anda esporadicamente cercado por repórteres e eu não estou disposto a lidar com eles no momento. Prefiro não me expor mais do que o necessário, quero evitar dor de cabeça. – Esclareci, recordando-me da porra do estresse que eu havia enfrentado pela manhã com jornalistas prostrados feito abutres em frente ao prédio.
- Havia esquecido que o meu amigo virou o queridinho dos tabloides. Esse caso está dando visibilidade a você, por que não aproveita? – Respirei fundo e massageei o centro da testa, buscando a tolerância que eu não possuía para aquele tipo de questionamento.
- Não fode, . O contexto da situação é mais sério do que aparenta. – Revelei mal humorado. – Fique a vontade para assistir o jogo aqui, se assim desejar. Só traga mais cerveja. – Em respeito à relação de amizade construída ao longo dos anos, eu permanecia exercitando meu lado paciente acerca da personalidade do meu amigo, muito embora não concordasse – e não admitisse – certas atitudes suas. Comumente me pegava refletindo sobre sua maneira de se portar perante diversos cenários do dia a dia, e cada vez mais me dava conta de sua necessidade de evoluir e abandonar a imaturidade que ele insistia em demonstrar em diversos âmbitos do cotidiano.
- Eu vou levar um calmante, isso sim. Caralho, , seu discernimento para piada anda bem questionável. Melhore esse humor até que eu chegue aí, caso contrário, irei enfiar as garrafas de cerveja no seu rabo. – Advertiu, finalizando a ligação sem ao menos permitir com que eu o respondesse. Exprimi um riso anasalado e voltei a colocar o celular sobre a mesinha, avistando Bento descer as escadas com um osso de brinquedo na boca. Desde que ele o ganhara em uma de suas consultas ao veterinário, tudo o que o que o cão fazia era carregar o presente pra lá e pra cá como se soubesse que o motivo de tê-lo conquistado se deu ao seu – raro – bom comportamento durante o atendimento.
- E aí, bobão. Quer que eu jogue esse treco cheio de baba, é isso? – Questionei ao Pastor Alemão, que soltou o objeto de plástico rente aos meus pés, encarando-me eufórico após o feito. Ri e peguei sua nova aquisição gosmenta, arremessando-a em direção ao corredor, logo assistindo Bento sair em disparada até o local. Permaneci entretendo o cão incansável enquanto esperava chegar, o que não demorou a acontecer. Autorizei sua entrada e minutos depois a sineta da campainha ressoou pelo ambiente.
- Fala, bad boy! Está mais calminho ou vai me morder se eu chegar muito perto? – Meu amigo zombou no instante em que eu abri a porta, hesitando em entrar no apartamento.
- Vá se foder, cara. – Ri e lhe dei passagem, cumprimentando-o com leves tapas nas costas. – Coloque as garrafas no freezer, não estou a fim de tomar cerveja quente. – Disse, voltando a me sentar na poltrona, não sem antes ouvir alguns resmungos do recém chegado.
- A partida já começou? – me passou uma long neck e pegou outra para si antes de direcionar-se até a cozinha, onde guardou o restante das bebidas.
- Ainda não. – Respondi, entretido no pré-jogo que habitualmente era transmitido com o propósito de apresentar os bastidores da NBA. – O Durant pontua pra caralho, sem dúvidas é o melhor jogador ofensivo da competição. – Analisei concentrado na tela da televisão.
- Ele tem muita facilidade de arremesso e marca muito bem. – Meu amigo complementou e eu assenti, ingerindo a cevada deliciosamente gelada através de um generoso gole no líquido consistente.
- Em termos de infiltração e ataque, principalmente.
- Se o time aproveit... – deixou a frase morrer e eu desviei os olhos da TV, vendo-o retirar algo localizado sobre a almofada do sofá. Franzi o cenho ao constatar que o tal algo se tratava da touca a qual estava usando na terça-feira, e eu sequer havia notado seu pertence ali. Meu amigo fitava a peça atentamente, seu olhar rigoroso direcionado a ela era demonstrado pelo vinco entre suas sobrancelhas e ele parecia completamente inerte à medida que examinava o acessório. – Não é por nada não, , mas isso aqui não combina muito com você. – Debochou satírico, girando a touca nos dedos. Maneei a cabeça em negação e sorri enviesado, tornando a me entreter com a long neck e o programa televisivo que certamente era mais interessante do que as piadas do meu amigo. – E aí, , não vai compartilhar as novidades? Quem é a Cinderela que deixou isso para trás? – Insistiu sarcástico. Tornei a observá-lo e ergui uma sobrancelha devido à sua intromissão, porém, não me importei o bastante para censurá-lo, afinal de contas, não tinha nada a esconder.
- A touca pertence à . Ela a esqueceu aqui. – Revelei despreocupado. parou de rodear a peça e sustentou a expressão satírica em seu rosto, gesto que não me agradou nem um pouco.
- ? Qual ? – A pergunta era retórica e eu sabia, levando em conta que só conhecíamos uma pessoa com esse nome. Seu questionamento transbordava ironia, servindo somente para me irritar.
- A única que nós conhecemos e a qual você sabe muito bem quem é. – Ralhei ríspido e meu amigo gargalhou brevemente. Permaneci o observando com seriedade, não compartilhando de seu senso de humor ridículo.
- Entendi... – Descontinuou seu riso teatral e assentiu vagarosamente à medida que olhava o pertence mais uma vez, colocando-o em um canto do sofá em seguida. – Achei que você não iria em frente com ela, . – Proferiu, enfim deixando o sarcasmo de lado e utilizando de seu tom de voz normal.
- Achou errado. – Cortei qualquer oportunidade de argumentação, respondendo-o do modo mais seco possível. – E cara, na boa. Eu vou pedir pela última vez, com o resquício de paciência que me resta: Se você não quiser ter problemas comigo, não a desdenhe, tampouco utilize desse cinismo sem noção ao tocar nesse assunto. Pode ter certeza de que você não vai querer me ver puto, então espero que tenhamos um acordo. – Findei claro e objetivo, demonstrando que eu não estava de brincadeira. O semblante de encontrava-se tão sério quanto o meu. Sua sobrancelha arqueou-se e ele afirmou com a cabeça mais uma vez, bebendo o restante de sua cerveja num gole só.
- Vocês estão juntos mesmo? – Indagou, agora redirecionando sua atenção para o início do jogo. Eu não sabia o que lhe responder, haja vista que e eu não havíamos chegado a um consenso sobre o que, de fato, seríamos.
- Não exatamente. – Falei e meu amigo murmurou um “hm”, não estendendo o assunto.
- Vou pegar outra cerveja. Quer? – Disse ao se levantar.
- Quero sim. Valeu. – Foquei na partida que acabara de começar e, enfim, me permiti esvaziar a mente ao menos naquele momento, deixando com que o jogo de basquete fosse a única coisa a me entreter.

**


As coisas pareciam encaminhar, muito embora de forma vagarosa.
Minha carta havia sido aprovada pelo juiz e a perícia realizaria uma nova inspeção na parte externa do sítio onde Mason Zummack fora assassinado, o que decerto seria de grande utilidade para a tese de defesa do meu cliente. Caso detectem – o mínimo que seja – de fragmentos de tabaco em qualquer superfície da área inspecionada, a alegação do senhor Feldmann ganhará mais eficácia e resultará em um ponto importante no processo de sua absolvição. Os fatos alegados precisavam de provas para que a veracidade de suas declarações seja comprovada, e o meu dever era transformar tais argumentos em certeza jurídica. Ler e reler a documentação do caso de nada adiantava naquela altura do campeonato, eu necessitava ir mais a fundo e ver com os meus próprios olhos a movimentação em torno do local que, agora, era somente uma peça no quebra-cabeça de um homicídio imperfeito.
Esfreguei os olhos e suspirei, sentindo meu corpo avisar que eu deveria sair daquele escritório para descansar.
Juntei meus pertences e tranquei minha sala, despedindo-me de Bridget e dos demais funcionários que jaziam por ali, rumando na direção do elevador enquanto afrouxava a gravata que sufocava o meu pescoço dolorido. Encostei-me à parede espelhada do cubículo e fechei os olhos durante a descida até o estacionamento, notando-os pesar sob as pálpebras. Meu breve gesto de descanso foi imediatamente interrompido pelo bipe do meu celular cujo ruído indicava uma nova mensagem e, sem dar tempo de sentir qualquer tensão que fosse, apanhei o aparelho, estranhando o remetente do texto.
Cassie.

”Boa noite, . Como vai? Se estiver desocupado, faça um favor para mim. Vá até o seu armário e veja se nele há uma bolsa branca com detalhes dourados. Dei falta dela e provavelmente a esqueci no seu apartamento em uma das vezes que estive nele. Obrigada.


Eu sequer me recordava da última vez na qual nos falamos, sobretudo por mensagem de texto, o que acentuava a sensação de estranheza pelo contato repentino, ainda que tenhamos estabelecido uma convivência respeitosa após a briga de nosso término.

”Boa noite, Cass. Tudo tranquilo, e por aí? Acabei de sair do trabalho, assim que eu chegar em casa verifico se sua bolsa está lá, tudo bem?”


Digitei a resposta e devolvi o aparelho para o bolso do terno, adentrando meu carro e iniciando o trajeto sentido ao condomínio. Encerrar o expediente horas após o seu fim tinha as suas vantagens, e uma delas era a de não enfrentar o engarrafamento decorrente do horário de pico. Minutos após um trajeto raramente rápido, estacionei o veículo na garagem e subi para o meu apartamento, ouvindo a costumeira festa protagonizada por Bento sempre que ele notava a minha chegada. Mal abri a porta e fui recepcionado pelas patas do cão, o qual pulou em mim como se não me visse há anos.
- Beleza, carinha? – Acariciei suas orelhas e tratei de subir às escadas sem demora, já abrindo meu armário em busca do objeto requerido por Cassie. Não foi necessário que eu procurasse muito para avistar a mala posta no canto inferior do guarda-roupa. Retirei-a de lá e voltei à sala, pegando meu aparelho telefônico a fim de avisar-lhe sobre o paradeiro de seu acessório.

”Encontrei sua bolsa.”

”Ótimo, estou indo buscá-la. Deixe-a com o porteiro, caso queira.”

Suspirei e neguei com a cabeça, achando aquilo extremamente desnecessário. Não éramos inimigos, agir com tamanha falta de consideração não me parecia correto, e sim, imaturo. Apesar de tudo, eu tinha completa ciência de que ambos possuíamos maturidade o suficiente para tratarmos um ao outro de maneira normal, sem tais protocolos supérfluos. Tomei um banho rápido e coloquei uma roupa qualquer, aliviado por sentir-me livre do conjunto social que compunha minha vestimenta do dia-a-dia.
O barulho do interfone ecoou e eu o atendi apenas para cumprir o ritual, afinal, já sabia sobre o que se tratava. Peguei a bolsa anteriormente perdida e desci até o térreo, percorrendo o caminho sentido à entrada do conjunto residencial com o intuito de avistar Cassie, o que não demorou a acontecer.
- Oi, Cass. – Proferi, vendo-a desencostar-se de seu carro.
- Oi. Fiquei bem surpresa em saber que eu ainda tenho passe livre para entrar sem precisar ser anunciada, apesar de não haver mais utilidade para tal. – Comentou despretensiosa, cruzando os braços frente ao corpo.
- Eu me esqueci de fazê-lo, mas não é como se fosse uma obrigação. Nós não precisamos dessa radicalidade, Cassie. Não fizemos mal um ao outro, somente terminamos um relacionamento. – Esclareci, entregando-lhe a mala. A mulher deu de ombros e a pegou.
- Sei disso. Foi apenas uma observação.
- Como você está? – Questionei, começando um assunto que desviasse daquele em questão.
- Muito bem. Ocupada na redação, mas bem. – Respondeu simplesmente e eu maneei a cabeça em compreensão. – Imagino que você esteja trabalhando mais do que o usual, visto que não é difícil acompanhar as notícias sobre o que anda fazendo. Eu sinceramente agradeço pelo nosso término, agora eu vejo que conviver com isso não é para mim. – Confessou indiferente e eu exprimi um breve riso sem humor.
- Ossos do Ofício. – Proferi sem ter muito o que lhe responder. Cassie concordou e um silêncio incômodo se instalou entre nós.
- Às vezes eu sinto a sua falta. – A revelação repentina me pegou de surpresa. Encarei-a com seriedade, contudo, decidi continuar calado, haja vista que não compartilhava de seu sentimento. O carinho que eu nutria pela mulher à minha frente advinha do respeito e gratidão por nossos momentos juntos, eu a reconhecia como uma pessoa incrível que, assim como eu, carregava os próprios defeitos, falhas e imperfeições, sendo tais características responsáveis por nosso crescimento pessoal. Ela passou as mãos pelos cabelos e um meio sorriso enfadado surgiu entre os seus lábios. – Sentir a sua falta ocasionalmente não altera o fato de que foi melhor que tenhamos seguido caminhos diferentes, eu não nasci para ficar em segundo plano. – Admitiu direta.
- Aprecio sua sinceridade e concordo com você. Sinto muito por não ter conseguido suprir suas expectativas. – Cassie deu de ombros mais uma vez sem deixar o semblante indiferente vacilar.
O silêncio fez-se presente novamente.
- Bom, ainda tenho que passar no orfanato que, infelizmente, é a pauta da minha matéria, então se você me der licença... – Disse e abriu a porta de trás do seu carro, jogando a bolsa ali. – Aquele lugar é um show de horrores, onde já se viu as crianças não terem cobertas?! Fui obrigada a me compadecer com a situação e doar algumas, inclusive as levarei agora. – Queixou-se conforme arrumava algumas sacolas que, só naquele momento, chamaram minha atenção. – Não encontrava utilidade para esses cobertores antigos, então até que foi bom desocupar espaço no meu armário. – Cassie fechou a porta do veículo e, notando minha sobrancelha arqueada junto à expressão curiosa, tombou a cabeça para o lado, pousando uma de suas mãos na cintura com seu jeito impaciente. – O que foi, ?
- Nada. Só achei um gesto legal de sua parte. – Respondi, de fato admirado por sua atitude que, até então, era nova para mim. Ela rolou os olhos e riu superficialmente.
- Eu não sou um monstro, não compreendo tanta surpresa. – Defendeu-se quase ofendida e foi a minha vez de rir.
- Sei que não, Cass. Esse orfanato está arrecadando doações? – Questionei interessado, considerando que eu guardava uma pilha de cobertores sem serventia há um bom tempo.
- Digamos que sim. Ele fica na esquina do Carnaby Park, é impossível não reconhecer aquele muro medonho. - Vou separar um dia para levar algumas coisas até lá. – Comuniquei. Cassie somente assentiu, averiguando seu relógio de pulso.
- Obrigada por ter procurado a minha bolsa. – Agradeceu e eu neguei com a cabeça. – Ainda tenho uma agenda a cumprir, preciso me apressar. Foi bom te ver, .
- É recíproco. Dirija com cuidado. – Alertei à mulher, que manifestou um pequeno sorriso antes de entrar no Audi e dar partida, sumindo entre as ruas em questão de segundos. Retornei às dependências do condomínio e tomei o elevador de volta ao meu apartamento, refletindo acerca das voltas que a vida dava.
Vivíamos em constante mudança.
Essa era uma das certezas que eu sempre carregaria comigo.

’s POV.

Liberdade.
Felicidade.

Essas duas palavras representavam o meu estado atual por finalmente me ver livre do gesso e de seus companheiros. Adeus, tipoia; Adeus, dificuldade para executar até mesmo as tarefas mais fáceis do dia a dia; Adeus, irritação ocasionada por esse revés terrível. Eu esperava veemente nunca mais precisar lidar com nada parecido. Após a retirada do gesso, eu passei a apreciar cada movimento efetuado pelo membro anteriormente imobilizado, assim como passei a nutrir um amor por ele. Se me perguntassem qual era a parte preferida do meu corpo, eu responderia sem refutar: O meu braço.
A semana voou. Isso acontecia normalmente, entretanto, os últimos dias precedentes ao final do semestre me inseriu num universo paralelo o qual nele só existiam provas, trabalhos e seminários, restando apenas os dois últimos exames e as duas últimas apresentações que aconteceriam na segunda-feira depois do feriado prolongado que, para a minha felicidade, começaria amanhã. Durante esses dias, meu contato com se deu única e exclusivamente por meio de breves mensagens as quais se resumiam em: “Está tudo bem?” e aquilo estava me sufocando. Ele me deu espaço para que eu refletisse e ponderasse sobre nós dois, e embora não tenha conseguido direcionar minha mente a outra coisa que não fosse a matéria da faculdade, os pequenos momentos de descanso serviram para que eu constatasse que a verdade era uma só: Ou ficávamos juntos, ou estabelecíamos limites em nossa convivência. Levando em conta às circunstâncias as quais estávamos envolvidos, a última opção não seria, nem de longe, viável. As palavras proferidas por davam loopings na minha cabeça e bagunçavam todas as certezas que, àquela altura, não passavam de um mero equívoco executado pelo meu lado racional cuja eficiência encontrava-se fragilizada frente ao meu emocional balançado.
- Filha, tem certeza de que não quer ir? – Minha mãe apareceu repentinamente na porta do quarto, despertando-me da divagação responsável por me fazer esquecer da matéria contida no caderno que trepidou em meu colo devido ao susto. Pisquei algumas vezes e a encarei, reparando que ela ria, atitude provavelmente provocada pela expressão sobressaltada que eu exibia naquele momento. Recobrei a postura e assenti, respondendo a pergunta feita.
- Sim, mãe. Ainda preciso estudar para as provas que restaram e combinei de ver a Trish amanhã, mas fique tranquila, aproveite por mim. – Disse a ela, que finalizava a organização da pequena mala a qual levaria para a viagem que faria com Judith. – Para onde vocês vão, mesmo?
- Para a casa de campo dos filhos da Judith. Vi algumas fotos, é tudo tão lindo! – Exclamou encantada e eu sorri, feliz por saber que minha mãe teria um descanso merecido.
- Vai ser ótimo para você. Esse feriado na sexta-feira caiu como uma luva, três dias inteiros de sossego. – Comentei e a mulher à minha frente assentiu, mantendo o sorriso no rosto. – O senhor e a senhora já foram? – Indaguei, sabendo que ambos costumavam viajar nessa época.
- Sim, partiram há meia hora. – Seu celular apitou e ela o checou rapidamente. – E eu estou partindo agora. – Aproximou-se da minha cama e depositou um beijo no topo da minha cabeça. – Volto no domingo, filha. Cuide-se e me ligue se precisar.
- Pode deixar, dona . Boa viagem. – Sorri, assistindo-a caminhar de volta à porta. – Não faça nada que eu não faria. – Brinquei e deu uma breve gargalhada.
- Isso serve para você também, dona . Juízo. – Decretou, fitando-me de um modo um tanto quanto engraçado.
- Nasci com ele. – Dei uma piscadela marota, acompanhando a mulher com o olhar até vê-la sumir porta afora.
Respirei fundo e encarei o nada, empenhada a – tentar – me concentrar no conteúdo do caderno, embora, naquele instante, as palavras escritas ali parecessem ininteligíveis para mim.

**


As ruas estavam vazias e os comércios fechados.
À medida que eu caminhava pela calçada livre da costumeira movimentação avassaladora por transeuntes apressados, aproveitava para desfrutar do clima leve que o feriado proporcionava. Hora ou outra meu sentido de alerta me levava a olhar para todos os lados em busca de qualquer movimentação estranha, ato ocasionado em razão do temor que eu me empenhava a ignorar desde o instante em que soube das ameaças e de toda a história atrelada a elas.
Apesar do período atribulado no qual minha vida atravessava, evocar momentos bons trazia-me paz. Uma pequena faísca de satisfação reluzia em mim sempre que eu cruzava os portões do abrigo e avistava as crianças correndo ao longo do lugar, satisfação essa que acentuava por constatar a alegria de Archie ao notar minha presença frequente nas dependências do orfanato. Ainda que ocupada com outros assuntos, minha mente achou uma forma de trabalhar a todo vapor com o objetivo de obter um método de arrecadar fundos para salvar o orfanato, e, durante a semana, em um dos meus momentos de divagação no banho, um lampejo rompeu meu cérebro cansado de matutar saídas impossíveis, dando-me uma ideia relativamente trabalhosa que, caso se desenvolvesse da maneira que eu imaginava, resultaria na solução perfeita para todo o problema. Pensando nisso, tratei de contatar Trish imediatamente, que movida à curiosidade a respeito do que eu tinha para lhe falar, não demorou a marcar um encontro comigo com o objetivo de ficar por dentro da minha – talvez – brilhante ideia.
Adentrei a cafeteria e fui imediatamente inebriada pelo aroma gostoso de café, também desfrutando do cheiro gostoso advindo das iguarias expostas através do vidro do balcão. Varri o estabelecimento com os olhos e não demorei a avistar Trish sentada em uma mesinha próxima à janela, dando-nos a vista da parte externa do lugar, a qual era repleta de banquinhos, plantas e flores como se representasse uma pequena porção de um jardim. Fui ao seu encontro e a mulher sorriu animada assim que eu entrei em seu campo de visão, acenando alegremente conforme eu me aproximava.
- Olá! – Disse, abraçando-a rapidamente antes me sentar à sua frente.
- Oi, ! Você não sabe o alívio que eu senti quando soube que eu não seria a única a não fazer nada no feriado. – Comentou divertida. – Eu não aguentaria esperar até segunda-feira para saber o que você tem em mente.
- Eu não seria tão malvada a ponto de deixar você curiosa por tanto tempo. – Disse, ansiando por expor minha sugestão para a arrecadação de dinheiro.
- Então vamos cortar o papo furado, diga logo o que você pensou! – Pediu inquieta, fazendo-me rir.
- Vamos organizar uma festa. – Falei e a expressão da mulher transformou-se em uma incógnita nítida. Trish franziu o cenho e pareceu refletir sobre o que acabara de escutar.
- Festa? Como assim, festa? – Indagou completamente perdida.
- É, festa. Um evento com comida, música e tudo mais. – Vendo que ela continuara com o semblante esquisito, retomei minha fala e prossegui. – Ainda é uma ideia crua que precisa ser desenvolvida, por isso, você irá me ajudar. A festa aconteceria no abrigo, para que assim as pessoas pudessem ver com os próprios olhos a estrutura defasada do lugar. Poderíamos montar umas barraquinhas de comida, de brechó e tudo mais. – À medida que eu explicava, percebia sua fisionomia suavizar. – Claro que precisaríamos iniciar a divulgação desde já, mas podemos ver isso depois, visto que a organização é a parte mais importante. E aí, o que me diz? – Terminei e a encarei em expectativa. Segundos depois, Trish enfim esboçou uma reação, a qual se deu por um sorriso e um aceno de cabeça que quase me fez pular de euforia.
- Eu topo. – Findou, tão sorridente quanto eu. – É uma ideia meio doida, mas é a única que temos, então vamos focar cem por cento nela.
- Isso! – Comemorei entusiasmada. – Precisamos comunicar à Magnólia antes de fazermos qualquer coisa. Feito isso, colocaremos no papel o que venderemos, como venderemos e também outras possibilidades de atrações.
- Temos muito o que pensar... – Afirmou e eu concordei. – Se organizarmos direitinho, talvez consigamos um resultado positivo.
- Sim. Digamos que nós temos o rascunho da festa.
- E precisamos desenvolvê-lo até que ele vire uma bela obra de arte. – Complementou esperta. Ri e assenti mais uma vez.
- Você entrou no espírito da coisa, gostei! – Eu não imaginava que Trish cederia à minha ideia com tanta facilidade, e reparar que ela comprara minha sugestão e ainda se contagiou com o meu ânimo foi uma surpresa extremamente agradável.
- Será algo novo para as crianças, tenho certeza de que elas irão gostar muito. Isso pesou na minha decisão. – Relatou reflexiva. Era fato que elas nunca experienciaram uma situação diferente no orfanato, tampouco tiveram a oportunidade de entrar em contato com algo novo, e aquela era uma circunstância conveniente para que lhes fosse dada a chance de fazer parte de um contexto diferente do que estavam acostumados.
- Tenho certeza que elas irão se divertir muito. – Afirmei sorrindo só de imaginar a felicidade estampada no rosto dos pequenos. – Eu entrarei de férias na sexta-feira que vem, portanto, teremos bastante tempo para organizar tudo com calma.
- Vai dar tudo certo. – Assegurou otimista. – Minha esposa trabalha com gráfica, verei no que ela pode ajudar.
- Ótimo. Vou pedir um café para brindarmos o nascimento da nossa festa que certamente será maravilhosa! – Falei me levantando, não sem antes ouvir o seu riso ecoar pelo recinto.

Passar uma parte da tarde na companhia de Trish em muito me animou. Eu nunca me importei com datas comemorativas, sempre soube desfrutar da minha própria companhia e tal habilidade fora adquirida no decorrer dos anos em que vi minha mãe trabalhando incessantemente na casa dos , sem descanso. Natal, ano novo, páscoa... O cenário se repetia ano após ano e era o mesmo em todos eles. Enquanto eu me esgueirava através das paredes imponentes da mansão, imaginava como seria possuir metade do que aquelas pessoas afortunadas esbanjavam, até que chegou um momento no qual nada daquilo era novidade, e apesar de permanecer moderadamente interessada nas festas as quais sucediam-se na residência luxuosa, eu aprendi a admirar o que eu tinha.
Entretanto, naquele momento, fui assolada pela súbita vontade de ter mais do que apenas minha companhia ou do que eu obtinha em tal circunstância. Eu queria a companhia de alguém em particular. Como se tal desejo houvesse despertado meu lado impulsivo e imprudente, dei abertura para que um furacão impetuoso dotado de sentimentos e desejos tomasse a frente da situação e me carregasse para onde ele almejava. Dei sinal para o ônibus incumbido de seguir o trajeto próximo ao condomínio de e entrei no transporte num ímpeto, ainda chocada pela minha própria coragem. Eu não queria mais postergar minha felicidade em prol do medo e do receio, afinal de contas, ambos não me levariam a nada. Sempre fui corajosa o suficiente para assumir as rédeas da minha vida, das minhas vontades e necessidades, e dessa vez não seria diferente. Se fosse para escancarar a verdade e dar a cara à tapa, que eu o fizesse direito. Tirei meu celular do bolso e toquei no ícone das mensagens, digitando o texto de modo claro e objetivo.

”Está em casa? Preciso falar com você.”


Segundos depois obtive a resposta que eu queria.

”Estou. O que foi, ? Aconteceu alguma coisa?”


”Não. Estou indo aí.”


Guardei o aparelho e, mesmo sentindo-o vibrar em meu bolso, não ousei pegá-lo. Minutos depois, identifiquei o percurso e o bairro nobre do qual agora me encontrava e dei sinal, descendo do veículo em meio a passos atrapalhados conforme respirava e inspirava profundamente em busca de calma. O prédio luxuoso entrou em meu campo de visão e eu segui em direção à portaria, tocando o interfone preto com minhas mãos suadas de nervosismo.
- Boa tarde, poderia interfonar para o apartamento pertencente à ? Eu não sei o número, mas ele está ciente da minha visita. Meu nome é . Eu posso inclusive ligar par... – Desembestei a falar meio incerta, contudo, um “clic” alto refreou minha fala ao soar através do portão branco. O encarei por alguns segundos antes de entrar, confusa pela agilidade em que meu acesso foi permitido. Passei pela guarita e forcei minha memória a relembrar o caminho certo do bloco, haja vista que eu estava um tanto quanto perdida naquela imensidão de prédios deslumbrantes. Segui meu instinto e rumei até a entrada da esquerda, tomando o elevador em seguida. Apertei os números os quais recordava ver apertando e iniciei movimentos contínuos em meus dedos, balançando-os e tocando-os um nos outros, tudo para amenizar meu estado de nervos. O tinido curto anunciou a chegada à cobertura e só nesse instante eu me dei conta de que não tinha mais volta. Eu precisava seguir em frente. As aberturas de aço afastaram-se uma de cada lado e eu saí, dando de cara com a porta bonita do apartamento do homem que, para minha completa surpresa, a abriu de súbito, sequer me dando tempo de apertar a campainha. Seu rosto sério entrou em foco, pude notar a preocupação revelada pelo modesto vinco entre suas sobrancelhas e pela forma como fui analisada rapidamente, como se ele procurasse qualquer sinal de coisa errada ali. O homem deu passagem para que eu entrasse e eu o fiz, sendo recebida por um Bento enlouquecido com a minha presença. Fiz um breve carinho em sua cabeça e fitei , vendo-o fazer o mesmo comigo.
- O que houve, ? Por que não me respondeu mais? Fiquei preocupado! – Falou num tom meio irritado e eu respirei fundo.
- Desculpe. – Comecei, mais nervosa e inquieta do que eu gostaria, o que certamente foi percebido por , que suavizou a expressão e passou a me observar com cuidado, embora mantivesse o semblante sério.
- ... – Ele se aproximou e eu estendi a mão num pedido mudo para que sua frase não fosse completada.
- Eu preciso falar, tudo bem? Só me ouça. – Ordenei. O homem cruzou os braços frente ao peitoral robusto e limitou-se a me estudar calado. – Não sou uma pessoa que não banca o que sente, acho que já passou da hora de chutar o balde e, sinceramente, que se dane. – Seu cenho franziu ainda mais. – Lembra quando você disse que toda essa situação é nova para nós dois? – Questionei. apenas assentiu, claramente confuso. – Você errou feio, pelo menos em uma parte de sua afirmação. Nada disso é novo para mim. Eu tenho sentimentos por você há um bom tempo, antes mesmo de você saber ou se importar com a minha existência. – E saiu. Aquilo que eu vinha guardando há tempos fora exposto de uma só vez, como se fosse uma tonelada retirada de cima dos meus ombros. A fisionomia de podia ser descrita como uma mistura entre surpresa, choque e confusão. Ele fez menção de falar, no entanto, voltei a erguer a mão. – Você tem noção do que disse para mim? Suas palavras deram abertura para que eu pensasse e repensasse se essa atitude seria correta ou se eu estaria colocando os pés entre as mãos caso confessasse que eu tenho vontade de chutar a sua cara por me fazer sentir tanta coisa por tanto tempo. – Proferi irritada e o meu estado piorou assim que identifiquei um minúsculo sorriso brincar no canto de seus lábios. – Eu não estou vendo graça nenhuma. – Reclamei zangada, agora sendo analisada com ternura por seus olhos atentos. – Você sabe quão difícil foi podar um sentimento que insistia florescer cada dia mais? Sabe como foi colocar na minha cabeça que eu tinha que acordar para vida, porque a sua vida não cabia na minha e vice e versa? Você sabe que ainda não cabe. – Suspirei e me odiei com a sensação de ardor que começava a surgir nos meus olhos em conjunto com o nó na garganta que eu precisava controlar. – Você inclusive já deu a entender que preferia não ter me conhecido. – negou com a cabeça com pesar, como se não concordasse com o que eu acabara de lhe dizer. Avançou um passo e aproximou-se de mim, deixando um estreito espaço entre nós. A fragrância inconfundível de seu perfume adentrou minhas narinas e fez minha cabeça girar, e ela de fato girou no instante em que ele segurou meu queixo com cuidado, fixando seus olhos nos meus.
- Eu nunca, jamais, falaria uma coisa dessas, . Quando eu disse isso, me referi ao fato de que seria melhor para você que nunca tivesse se aproximado de mim, pois eu possuía ciência de que acabaria te envolvendo nos meus problemas. No fim, foi o que aconteceu, mas essa merda toda se tornou irrelevante, e sabe por quê? – Perguntou e eu neguei quieta. – Porque eu sinto como se eu pudesse aguentar qualquer coisa estando ao seu lado. – confessou numa tranquilidade invejável. Meu coração parecia querer sair pela boca e eu já nem sabia mais o que dizer, perdendo totalmente o enredo do meu discurso.
- Tenho medo de que, ao primeiro sinal de um problema maior, você se feche e simplesmente decida que ficar com outra pessoa e fingir que eu não existo seja o melhor a se fazer. – Mencionei e não foi preciso que eu entrasse em detalhes para que ele soubesse a quê eu me referia.
- Desculpe por aquilo, sei que fui um puta de um otário. Eu quis te afastar de alguma forma e encontrei a pior maneira de fazê-lo. – Proferiu, acariciando a pele do meu queixo. Meu corpo parecia flutuar, era como se os meus pés não tocassem mais o chão.
- Sim, você foi um imbecil. – Concordei e ele riu. Eu poderia passar horas somente vislumbrando tal ação. – Eu não quero ficar longe de você. – Revelei, dando por finalizado o meu propósito inicial de manter a nossa relação limitada à amizade. O homem segurou o meu rosto entre as suas mãos e acariciou minhas bochechas, deixando um rastro abrasador através da extensão de pele tocada por seus dedos. Prendi a respiração enquanto sentia a sua bater contra minha face, capturando-me e me envolvendo no leve aroma de whisky exalado a cada resfolegar seu.
- Você não vai, porque eu – frisou – não vou ficar longe. Eu vou ficar exatamente onde estou. Perto de você. – Soprou contra os meus lábios e o meu corpo correspondeu imediatamente ao experimentar a sensação reconfortante de seu hálito cálido atingir a minha boca.

(Escute Believe In Me do Lenny Kravitz a partir daqui).

Seus olhos pareciam faiscar, ele fazia questão de me estudar de uma forma que deixava transparecer o que desejava, e eu ansiava pelo mesmo.
- Não estamos tão perto como eu gostaria. – Aproveitando da proximidade em que nos encontrávamos, cessei a pequena brecha que nos separava e juntei nossos corpos, intensificando o nosso contato sem interromper a vigorosa conexão visual a qual ocasionava voltas e mais voltas em meu estômago. arrastou a mão anteriormente posicionada em meu rosto até a minha nuca, segurando com força os fios de cabelo do local ao enterrar os dedos ali.
- Ainda não estou satisfeito. – Soprou muito perto da minha boca, encostando seu tronco no meu. O timbre grave e rouco saíra arrastado, levando-me a cobiçar escutá-la rente ao meu ouvido. – Acredito que sempre dá para melhorar. – Arfei e uma descarga de calor atingiu a parte inferior do meu ventre no momento em que o homem envolveu minha cintura com os braços apenas para acentuar ainda mais nossa conexão física, unindo-nos sem dificuldade. – Agora sim. – Fui analisada com calma. Primeiro, escorreu os olhos precisos por todos os pontos da minha face, admirando-me com zelo. Seu semblante era sereno, contudo, aquela atmosfera me queimava por dentro como se o seu corpo transmitisse raios responsáveis por me deixar em ebulição; Em seguida, ele conectou suas íris nas minhas. As respirações entrecortadas e pesadas denunciavam nosso anseio um pelo outro, e bastou que o homem encarasse os meus lábios com atenção para que a chama até então controlada se acendesse de súbito.
- Não... Agora sim. – Sem aguentar mais aquilo, contornei seu pescoço com meus braços e o trouxe para mim, experimentando a sensação indescritível de seus lábios quentes sobre os meus. Ambos soltamos um suspiro no ato, e eu arriscaria dizer que havia alívio no modo como estabelecemos a primeira junção de nossas bocas após tanto tempo separados. No instante em que sua língua acariciou a minha, fui tomada pelo choque que percorria cada centímetro da minha pele sempre que os nossos sabores se misturavam. me apertou contra si e eu firmei meus braços ao redor de sua nuca, deleitando-me ao ouvi-lo grunhir entre o beijo assim que finquei minhas unhas no local, percorrendo-as rumo aos seus cabelos, onde efetuei um leve puxão. Tudo tinha gosto de saudade. Seu toque virava moda em minha derme, as bocas se fundiam com urgência e, apesar dos movimentos serem moderadamente lentos, ambas se chocavam de um jeito profundo e faminto – quase desesperado –, enquanto nossas mãos deslizavam por todos os lugares possíveis, indecisas a respeito de onde queriam ficar. Por dentro da minha blusa, os dedos gélidos de perpassaram os meus quadris; O frio sobre o quente. Fizeram um caminho torturante pelas minhas costas e eu notei o meu corpo ser guiado para um destino até então desconhecido.
Não me recordava em qual momento havia me livrado de minha bolsa – já jogada no chão –, entretanto, não me importei. Sem desgrudar nossos lábios, desci minhas mãos em direção à barra de sua camiseta e, com certa pressa, levantei-a até onde pude, tendo a ajuda de que tratou de retirá-la por completo. Os sapatos tiveram o mesmo destino. Paramos o beijo em uníssono, meu peito subia e descia rapidamente e o do homem colado a mim não se encontrava diferente. Ele se sentou no sofá trazendo-me junto consigo e eu me ajeitei em seu colo, passando uma perna por cima dele de modo a ficar com uma de cada lado de sua cintura. Eu podia senti-lo protuberante entre as minhas coxas, o pano fino da calça de moletom facilitava o contato e eu ardi em brasa apenas por saber que, sob mim, sua vontade fazia-se evidente através do volume que pressionava a parte mais pulsante do meu corpo. Mantendo a conexão de nossos olhos, livrei-me de minha jaqueta sem pressa. Encarei seu tronco desnudo e me permiti contemplá-lo durante alguns segundos, hipnotizada por cada detalhe seu, por cada músculo, por cada pequeno pedaço de pele e, sobretudo, pela sua forma de me encarar, a qual foi percebida no segundo em que subi minhas íris e tornei a observá-lo, deparando-me com sua expressão séria e ardente. Agarrei o tecido da minha blusa e a elevei, exibindo gradativamente minha pele. A vestimenta fez companhia às demais jogadas no chão, a ausência dela propiciou a uma visão de meus seios cobertos pelo sutiã e, sem intenção de deixá-lo ali, fiz questão de tirar a peça tão logo quanto a anterior, revelando-me para ele sem pudor. Eu jamais havia sido observada daquele modo. Quieto e sustentando a fisionomia sóbria, ele me assistia, acompanhando todas as minhas ações. De repente, me senti uma estimada obra de arte sendo apreciada por um artista. Os olhos do homem à minha frente cintilavam, ele cultuava o meu colo como quem degusta o momento com satisfação, explorando minuciosamente a saliência arredondada e túrgida que fora exposta por mim.
desviou o foco do meu tronco e o cravou em meu rosto, a volúpia e o desejo perpassavam através dos olhos ligeiramente semicerrados, despertando arrepios por toda a minha derme.
- Tenho que me recordar da textura da sua pele na minha... – Conduziu sua mão de encontro a minha face e me puxou para si assim que alcançou minha nuca, fazendo com que meus seios se espremessem em seu peitoral robusto, ato cuja sensação de prazer indescritível escapou em forma de gemido, principalmente ao experimentar seus lábios capturando os meus vagarosamente, encostando-os em um longo selinho. Senti seu braço se firmar com vigor ao meu redor, embora não fosse possível que ficássemos mais conectados do que nos encontrávamos naquele momento. Eu simplesmente adorava a pressão de seu toque em mim, eu adorava senti-lo exalar propriedade e segurança no que fazia, ainda mais quando ele direcionava tamanha energia somente para me satisfazer, sendo através de um gesto modesto, ou através da malícia emanada pelo modo como deixava evidente sua excitação proeminente, parecendo aguardar para que eu fizesse algo a respeito. Desfiz o contato de nossas bocas e levei minhas mãos até o seu rosto, vendo-o me acompanhar com o olhar ao notar meu razoável afastamento. Encaramo-nos mais uma vez. me estudou cauteloso e vincou minimamente as sobrancelhas, parecendo refletir acerca de uma coisa incômoda.
- Algo errado? – Imitei sua expressão, não compreendendo o motivo de tal atitude, constatando que sua carícia em minha nuca havia se tornado mais acentuada.
- Desculpe por nunca ter percebido. – Começou e eu juntei as sobrancelhas, confusa com a sua fala. Ele deu um riso frouxo, analisando-me com ternura. – Eu nunca imaginei que você pudesse ter sentimentos por mim, . – Meu rosto esquentou de imediato, mesmo não possuindo razão alguma para me envergonhar. arrastou sua mão de volta a minha face e sutilmente deslizou seu polegar sobre o meu lábio entreaberto, fazendo todos os meus pelos se eriçarem. – Eu sinceramente não sei se sou merecedor disso. – Falou e a minha reação foi negar com a cabeça.
- Não fale besteira, . – Repreendi e ele riu fraco. – Você é um tonto às vezes, mas isso não significa que não mereça vivenciar algo bom. – Disse, vendo-o rir com mais vontade dessa vez. Seus ombros encontravam-se relaxados, fato que me fez vibrar por dentro ao presenciá-lo tão bem, mesmo que fosse por tempo limitado, levando em conta que sua vida não estava fácil.
- Eu não posso mudar o passado, entretanto, tenho certeza do que quero para o meu presente. – Seus lábios foram guiados em direção a minha testa, onde um breve beijo foi depositado com mansidão. Fechei os olhos, aproveitando da sensação macia no local. – Eu quero você. você. Sinto muito por ter sido um merda e por toda a mágoa que eu causei... Especialmente pela demora em notar quão incrível você é. Estou disposto a compensar, caso ainda esteja interessada. – Gracejou, mantendo a testa encostada na minha. Ri e o fiz olhar para mim, deparando-me com sua feição leve. Aproximei meus lábios dos seus e, sem pressa, iniciei uma carícia superficial entre eles, passando a língua pela porção rosada e cheia somente com o intuito de testemunhar seu semblante ávido e desejoso. Mapeei levemente suas bochechas com os dedos, acariciando-as com calma, desfrutando de todas as sensações reconfortantes que invadiam meu peito e o aqueciam conforme a junção de nossos corpos permitia com que sentíssemos até mesmo os batimentos cardíacos um do outro.
- Não deixe com que eu me arrependa disso. – Falei num tom ameaçador. Ele riu novamente e levou sua boca ao meu ouvido.
- De maneira nenhuma. – Assegurou, fazendo-me fechar os olhos e respirar fundo com o seu hálito quente soprando ali propositalmente. Notando minha reação, iniciou uma trilha de beijos lânguidos rumo ao meu pescoço, intercalando-os com suaves mordidas em minha pele arrepiada. Tombei minha cabeça para o lado a fim de lhe dar um melhor acesso àquela área à medida que suas mãos passeavam pela base da minha coluna e cintura, onde fez questão de cravejar os dedos e as unhas curtas, apertando e acariciando a região. Me mexi sobre ele e, tomado pela combustão de excitação, emitiu um segundo suspiro entre o ato. Satisfeita com sua reação, aproveitei para resvalar minhas unhas na extensão de seu peitoral nu, completamente imersa nos estímulos envolvidos em tudo aquilo. Eu conseguia senti-lo rijo, ondas e mais ondas de desejo eram enviadas ao centro do meu ponto efervescente e tudo o que eu queria era me livrar do restante de nossas roupas.
Parecendo adivinhar o que eu desejava, o homem pousou as mãos no cós da minha calça, tocando a derme do meu quadril com força, levando-me a movimentá-lo contra o seu. Soltei um breve gemido e repetiu o gesto, investindo seu quadril contra o meu novamente enquanto desunia o fecho da minha veste sem desgrudar a boca do meu pescoço, o qual ardia cada vez que sua língua se deslocava veemente por ali. Ergui moderadamente o corpo e senti minha calça começar a ser abaixada. Afastei-me do torso quente do homem sob mim e me levantei, ficando à sua frente.
- Roupa demais. – Lancei-lhe um meio sorriso esperto, vendo-o retribuir o ato com uma sobrancelha arqueada ao passo que eu vagarosamente deslizava o jeans entre as minhas coxas, sendo alvo do olhar faiscante e predador de , que expressava um sorriso sacana ao passo que acompanhava atentamente cada movimento meu. Precisei me segurar para continuar com minha demora intencional em retirar a peça, pois a postura do homem perante a mim tirava todo mínimo autocontrole que eu lutava para exercer. Largado no sofá e portando uma fisionomia na qual gritava imoralidade, carregava consigo um ar cafajeste manifestado através do modo como ele apoiava o polegar no queixo e o indicador sobre a boca, avaliando-me com extremo interesse. Passei o pano pelos pés e me livrei dele por completo, ficando coberta somente pela renda da calcinha. Os olhos do homem escorreram por toda a extensão exposta, indo do meu rosto até os seios, onde desceu e só parou nas minhas coxas, para então percorrer todo o caminho de volta à minha face. Fez um sinal com o indicador e o dedo médio num pedido mudo para que eu fosse ao seu encontro, agora deixando que o costumeiro semblante sério tomasse conta de si. Avancei um passo e tornei a passar uma perna de cada lado de sua cintura, finalmente conseguindo senti-lo com mais precisão sem a presença do jeans atrapalhando o contato. Pousei minhas mãos no cós de sua calça de moletom, incitando-o ao raspar meus dedos e unhas por sua pele, sentindo-o respirar fundo e firmar sua análise em mim.
- Linda... – A voz mansa e rouca de soou grave. Automaticamente exprimi um sorriso débil, bicando um selinho em seus lábios, vendo-o sorrir assim como eu. – Você é linda. – De súbito, suas mãos encontraram cada qual o seu destino. Uma, foi de encontro ao meu seio direito; A outra traçou um percurso ardente pela parte interna das minhas coxas. Um gemido fraco escapou entre os meus lábios no instante em que sua palma apertou moderadamente meu mamilo, logo começando uma massagem enlouquecedora na rigidez do bico duro de excitação, movendo-o para cima e para baixo conforme brincava com ele utilizando a ponta dos dedos, levando-me a erguer sutilmente as costas e fechar os olhos enquanto explosões de desejo intensificavam as pulsações no meio das minhas pernas. Impulsionei meu quadril para frente e foi a vez dele emitir um grunhido baixo, apertando com força a extremidade próxima a minha virilha. Um soluço de prazer escapou de meus lábios no segundo em que senti sua boca cálida envolver o seio anteriormente acariciado. pressionou o mamilo com a língua e começou a sugá-lo, apertando-o suavemente entre os dentes para, em seguida, tornar a esfregá-lo com a ponta da língua, lambendo ao redor do bico e a parte central, ocasionalmente assoprando delicadamente a parte úmida. Ele se demorava em saboreá-lo e eu me empenhava em rebolar sobre sua ereção, friccionando-a contra a carne inchada no vértice de minhas coxas, não me importando de soltar murmúrios desconexos que demonstravam a minha necessidade por mais. Muito mais. Novamente puxei o cós de seu moletom e o homem pareceu se ligar, visto que interrompeu a atividade em meus seios para dar atenção à peça de roupa incômoda no meio de nós. Meu corpo foi içado durante um milésimo de segundo e logo em seguida as minhas costas chocaram-se no estofado macio do sofá, onde pude ter uma melhor visão de , e devo dizer que a vista era estonteante. Ajoelhado entre minhas coxas e com os olhos cravados nos meus, o homem arrastava o pano do moletom para baixo repetindo a minha demora anterior, fazendo-me experimentar do meu próprio veneno ao executar a tarefa com uma calma altamente agoniante. Eu poderia me irritar ou tomar a frente da situação, contudo, assisti-lo se desinibir para mim também era algo interessante. E ele estava lindo. Os cabelos sensualmente bagunçados e desregrados; Os lábios rosados e entreabertos; O semblante sério e concentrado; O peitoral robusto subindo e descendo num ritmo hipnotizante; Tudo formava um conjunto de características que me entorpeciam como se eu estivesse sob efeito de anestesia, entretanto, a sensação logo foi substituída pela excitação – ainda mais forte – no momento em que o vi levar sua cueca junto com a calça, libertando a causa do meu desejo e anseio que se mostrou deliciosamente rijo à minha frente. Minha intimidade pulsou e o calor no centro do local se acentuou assim que contemplei seu sexo ereto sair do tecido branco, cujo destino final foi o chão.
Varri toda sua estrutura física numa análise atenciosa enquanto meu corpo febril gritava para voltar a ser tocado, e, novamente, o homem acatou a minha vontade sem que fosse necessário que eu a verbalizasse. arrastou-se sobre mim, pousando uma mão em minha cintura e outra em meu rosto, onde distribuiu alguns beijos antes de alcançar meus lábios, puxando a parte inferior com os seus antes de preencher minha boca com sua língua quente, movendo-a sem pressa. E assim se seguiu. As bocas se deslocavam lentamente ao passo que apreciávamos todos os toques exercidos ali, buscando sempre desfrutar de cada elemento envolvido naquela troca de energia maravilhosa. Acompanhei o homem quebrar o beijo ao se esticar até a pequena mesinha de centro, na qual retirou um pequeno pacote de dentro de sua carteira, rasgando a embalagem agilmente. Deslizou uma mão pelo falo rijo e chegou à sua base levando consigo o envoltório fino, tornando à sua posição anterior, mais uma vez colando nossas bocas de maneira faminta. Mexi minha cintura num gesto explícito de provocação e urrou entre o beijo, levando suas mãos ao elástico da minha calcinha. Pedi aos céus para que ele não resolvesse iniciar uma de suas provocações e felizmente fui atendida, constatando que o pano descia com rapidez até parar em qualquer lugar do cômodo. Seu corpo se arrastou sobre o meu novamente e eu o abracei com as pernas, emitindo um gemido ardido no instante em que senti a extremidade quente e roliça ser pressionada contra o meu íntimo já lubrificado. Eu o queria dentro de mim sem enrolações. Perpassei uma mão em sua nuca e a conduzi na direção de seus cabelos, enterrando-a ali com fervor; A segunda foi responsável por pousar em sua face, local do qual me concentrei em efetuar leves carícias à medida que era fervorosamente estudada por , que encostou a testa na minha e fechou os olhos. Fiz o mesmo, inebriada com a sua respiração quente confundindo-se com a minha naquele momento tão singular, tão nosso, tão único, cujas emoções agradáveis refletiam por cada célula do meu ser.
- Senti sua falta. – Confessei num sussurro, imersa na atmosfera envolvente na qual nos circundava. suavemente perpassou seu nariz pelo meu num carinho adorável, encaminhando-o pela minha bochecha direita, deixando um breve beijo na região. Seguiu até a minha boca e roçou a própria ali, permitindo que uma pequena brecha as separasse.
- Não vai mais precisar sentir. – Disse convicto, acabando com o imperceptível espaço que separava nossos lábios, tomando o meu com vontade em uma pressa quase aflita. Ajeitei-me sob ele e desci a palma sobre sua firmeza, direcionando-a a minha entrada completamente entregue à vontade de senti-lo me preencher aos poucos. Naquela circunstância, tudo o que eu queria era tê-lo dentro de mim. Eu dispensava qualquer coisa que não fosse exatamente aquilo, sem perda de tempo ou provocações desnecessárias. O prazer foi extravazado em uníssono através de gemidos emitidos por nós assim que imergiu com precisão em meu âmago molhado de excitação, penetrando-me profundamente como se aquilo fosse a última coisa que faria na vida. Arqueei as costas de imediato. Ele chegou ao fundo e voltou, uma das mãos cravadas em minha cintura deslocou-se num gesto repentino e ágil, levando as minhas acima da cabeça, prendendo-as unidas pelo pulso. Protestei entre o beijo e o notei rir antes de puxar o meu lábio inferior com os dentes, investindo o seu quadril contra o meu mais e mais, invadindo-me com seu vigor duro e latejante, perfeitamente encaixado em meu corpo como se fôssemos as últimas peças de um quebra-cabeças até então incompleto.
Movimentei-me junto com em um ritmo só, cada impulso me transportava para níveis crescentes de êxtase enquanto o homem fazia questão de não tirar os olhos de mim à medida que eu lutava para deixar os meus abertos, o que despertava fagulhas de luxúria e desejo as quais se propagavam deliciosamente em meu centro úmido e pulsante. Ainda unida a ele, contorci-me sob o seu corpo, ansiando por tocá-lo e descarregar todo o desejo em sua pele já lustrosa pelo suor, onde o atrito dos movimentos misturavam nossas transpirações.
- ... – Comecei com dificuldade, haja vista que, agora, seus lábios traçavam um caminho ardente pelo meu pescoço, mordicando e lambendo a extremidade lateral com fervor. Ergui a pelve, intensificando suas estocadas em minha intimidade abrasada. Ele grunhiu contra a área da qual possuía sua atenção e o seu hálito abafado provocou um frenesi em minhas terminações nervosas. – Me solta... Por favor. – Praticamente implorei, tentando, mais uma vez, mexer as mãos. Sem sucesso. Um gemido mais alto ecoou pela minha boca no instante em que sua língua rodeou o bico túrgido do meu seio esquerdo, diminuindo a velocidade de seus movimentos dentro de mim conforme efetuava tal ação desesperadora. Não foi necessário que eu o olhasse para saber que um odioso sorriso malicioso brincava em seus lábios. tornou a ficar rente ao meu rosto e, como previ, o maldito sorriso ladino estava lá, zombeteiro como nunca. Eu podia ver uma faísca de travessura em seu semblante intenso enquanto ele me observava de modo ardiloso e, embora desejasse proferir todos os palavrões possíveis, voltei a fechar os olhos e tombar a cabeça para trás quando o homem tornou a introduzir lentamente sua virilidade em minha intimidade entumecida, movendo-se em meu íntimo com destreza em uma precisão doce que me agitava progressivamente.
- Desculpe, linda. Não compreendi o que você disse. Pode repetir? – A voz rouca e ofegante soprou em meu ouvido, arrepiando-me imediatamente. Seu ritmo lento estava me causando uma agonia gigantesca, o falo endurecido entrava e saía sem pressa e, ocasionalmente, sua glande chocava-se com meu clitóris vultuoso de excitação, friccionando-se na carne para o meu completo sofrimento.
- Não irei repetir. – Concentrei-me em fitá-lo e cerrei os olhos. Se ele desejava brincar, eu também o faria. – Você vai me soltar... Agora. – Contraí minha região íntima no momento em que o homem alcançou a parte interior do canal e o apertei, consequentemente impedindo a saída de seu membro. emitiu um urro sôfrego e deitou a cabeça na curva do meu pescoço, tendo exatamente a reação que eu esperava. Meus pulsos livraram-se do toque firme e logo tratei de afundar minhas unhas na pele de suas costas, pouco me importando com futuras marcas.
- Porra... – Novamente o urro fez-se audível. Seu corpo tensionou e eu suspirei, inteiramente à mercê dele e ele à minha. Deixei que um breve riso satisfeito se fizesse presente e firmei minhas pernas ao redor de sua cintura, aproveitando da proximidade de seu tronco para mordiscar levemente o ombro do homem, sentindo-o responder a tal estímulo na forma como seu desejo me possuía e adentrava, mexendo-se com vigor. – Você me deixa louco, garota. – Vociferou em meu ouvido, mordendo o lóbulo da minha orelha. O desejo imerso entre nós, nossos corações acelerados, as respirações entrecortadas, o atrito dos corpos e o suor duplo que se tornou somente um, tudo era um conjunto perfeito que expressava nossa sintonia.
- Então vamos enlouquecer juntos. – Proferi num sussurro. Sua maneira de possuir meu corpo me consumia ao passo que ele se movia profundo, intenso e viril em meu centro cada vez mais molhado. A modesta risada de ressoou em meu ouvido e, antes mesmo de eu perceber o que estava acontecendo, senti suas mãos descerem até a parte de trás de ambas as minhas pernas, envolvendo-me e firmando-me com mais afinco ao seu redor. Empurrei meu quadril para frente, levando-o cada vez mais fundo dentro de mim enquanto os gemidos saíam sem restrições. Suas estocadas enérgicas eram como uma massagem erótica deliciosa e contínua em meu sexo, conduzindo-nos a um único rumo: O do prazer. Retirei minhas mãos de suas costas e as enterrei em seus cabelos, juntando nossas bocas como se aquilo nunca fosse o suficiente. As mãos de saíram de minhas pernas e deslizaram rumo às minhas ancas, apertando-me ainda mais contra si conforme nossos corpos se moviam num padrão rítmico mais e mais carregado de tesão, sequer permitindo que nossos lábios se mantivessem unidos por muito tempo.
- Eu adoro ouvir você gemer. – Proferiu sórdido, enlouquecendo-me com o seu tom de voz grave e obsceno. Eu me encontrava incendiada e já conseguia sentir pequenos espasmos espalharem-se pelo meu ponto excitado ao mesmo tempo em que o sangue pulsava forte e quente através das minhas artérias, incitando-me a elevar sutilmente à pélvis, rebolando para baixo e para cima conforme metia com fervor, totalmente grudado em mim, deixando meus seios esmagados contra o seu peitoral molhado. A habitual agitação cresceu e meus grunhidos transformaram-se em nítidos gemidos, o que estimulou o homem a deslizar sua mão entre nós dois e tocar meu clitóris inchado e besuntado de lubrificação, instigando as terminações nervosas dali através de leves carícias circulares. Isso, em conjunto com os seus sussurros roucos em meu ouvido, acarretaram o meu fim. O prazer da excitação atingiu seu ponto máximo. Meu sexo se contraiu ao passo que uma intensa onda de satisfação enviou choques de euforia por todo o meu corpo, que se torceu em deleite por experimentar tal sensação incrível. Cravei minhas unhas na base de sua coluna e gemeu, investindo mais rápido e forte conforme nosso ritmo crescente nos enviava ao ápice. A parte inferior do meu canal encharcado estreitou para, logo em seguida, expandir-se em uma liberação intensa de todo o prazer acumulado, fazendo-me estremecer sob o corpo do homem que urrou em êxtase, tencionando seus músculos ao passo que sua respiração arfante batia forte contra o meu ouvido, levando-me à loucura em razão do gemido rouco emanado ali. Assim como eu, explodiu e pulsou mais energicamente em meu interior, atingindo seu auge enquanto eu o sentia relaxar o corpo aos poucos, diminuindo os movimentos em meu sexo sensível até pará-los por completo.
O ar expelido por nós saía de maneira irregular e densa ao mesmo tempo em que ambos os troncos subiam e desciam de forma rápida. As peles suadas não ousaram se desgrudar. moveu sutilmente o torso apenas para se livrar do preservativo e deitou-se ao meu lado no amplo sofá, puxando-me para si num abraço protetor, exatamente da forma que eu adorava. Apoiou levemente o queixo no topo da minha cabeça e depositou um breve beijo na própria. Seus dedos se embrenharam em meus cabelos e fizeram um carinho gostoso ali, levando-me a fechar os olhos com a intenção de aproveitar o momento e apreciar seu toque zeloso. Abracei-o pela cintura para sentir os músculos de seu peitoral, aproveitando de seu calor reconfortante para me aquecer ao experienciar um ligeiro calafrio resultante da brisa gelada advinda da extensa janela aberta.

Diferente das outras vezes em que estivemos juntos, aquela parecia mais especial.

Havia intimidade entre os nossos corpos nus unidos naquele abraço, onde as nuances e latências de nossa relação formava o que nós éramos: Pessoas diferentes, ambas com suas particularidades e peculiaridades, contudo, portando algo em comum: O desejo de conhecer o universo do outro.

Os fogos de artifício vibrantes encheram o céu através explosões multicoloridas e encantadoras. me encarou e eu sorri, penteando seus cabelos com a ponta dos dedos. Ele fechou os olhos durante alguns segundos, repuxando os lábios num sorriso sereno.
- Gosto de te ver sorrindo. – Disse despretensiosa. O homem voltou a me fitar e o seu semblante contente quase me derreteu.
- Obrigado por me fazer sorrir. – Minha expressão boba certamente estava um tanto quanto ridícula, mas eu não liguei. Eu não gostava da expressão "borboletas no estômago", no entanto, não encontrava outro jeito de especificar o que eu sentia naquele instante. transpassou o polegar pelo meu lábio inferior, sustentando o leve sorriso no rosto. – Me dei conta de que não me importo com merda nenhuma, desde que eu esteja com você. – Alegou firme, tomando minha boca com precisão.

Diferente das outras vezes em que estivemos juntos, aquela me fez pressentir o início de algo muito bom.



Capítulo 21

“E agora, agora que você está perto, não há nada mais sem você, sem você aqui." – Goo Goo Dolls – Without You Here.


’s POV.

Aquele corpo ofegante no sofá da minha sala transmitia inúmeros significados para mim, sobretudo naquele momento em especial. Sentir aninhada em meu peito, tão serena entre os meus braços, elevava a minha mente a outro nível e eu enlouquecia apenas por experienciar sua pele quente grudada na minha após compartilharmos nossas energias da melhor maneira possível.
A garota deitada sobre o meu peitoral igualmente arfante admirava as explosões coloridas dos fogos de artifício como quem admira uma imensidão de possibilidades diante dos detalhes brilhantes no céu, e eu, em contrapartida, viabilizava todas essas possibilidades nela. Seu olhar verdadeiro e implacável transmitia uma paz capaz de dar sentido a tudo que a rodeava, e a sintonia imersa através de nós dois incendiava até mesmo o mais vigoroso iceberg, tamanha a intensidade de nossa conexão.
Eu jamais conseguiria explicar o inexplicável. Jamais imaginaria que um dia me sentiria tão completo, tão embriagado por tudo que remetia à , a mesma que eu conheci tão nova e que gradativamente me fez questionar a razão por nunca tê-la observado com cuidado, por nunca ter percebido os seus sentimentos por mim e por ter cogitado a possibilidade de ficar longe daquele sorriso doce que agora entrara em meu campo de visão, arrancando-me de meus devaneios para então contemplar o semblante moderadamente curioso e risonho da mulher responsável pela minha breve divagação. A julgar pelo modo divertido no qual me encarava, eu decerto sustentava uma puta fisionomia de idiota, contudo, pouco me importei em ter sido pego a analisando com tamanha dedicação, afinal de contas, coisas demais já haviam sido escondidas.
- Alô, alô, planeta terra chamando ... – Brincou, estalando os dedos de frente para o meu rosto. Deixei com que um modesto sorriso ladino pendesse em meus lábios e conduzi minha mão até sua bochecha levemente corada, acariciando a região com destreza, notando-a exprimir um sorriso similar ao meu. Transpassei o polegar por ali por meio de movimentos calmos enquanto se limitava a conectar nossos olhares tal como lhe era habitual, parecendo me decifrar a cada fração de segundo em que nos perdíamos um no outro, e, porra, a beleza de se perder e se encontrar na mesma pessoa era algo que remetia todas as coisas boas das quais eu ocultava, levando-me a enfim sentir que uma parte da minha vida miserável fazia sentido.
A brisa anteriormente sutil passou a adentrar pela porta de correr com mais ímpeto, trazendo consigo a temperatura gélida de seu vigor noturno e esvoaçando os papeis postos sobre a mesinha de centro da sala, sendo eles alguns dos documentos referentes ao caso Zummack, os quais eu analisava antes de chegar. Foquei minha atenção nas folhas espalhadas pelo chão e pousei os meus olhos em uma das fotografias pertencentes aos elementos que compunham as evidências do homicídio, absorto na imensidão de pensamentos pertencentes àquele tópico em questão, entretanto, a ligeira chuva de reflexões fora prontamente interrompida pela figura seminua de , que perambulava pelo recinto à medida que recolhia desajeitadamente a papelada jogada por ali. Limitei-me a acompanha-la com o olhar, assistindo-a mover-se para lá e para cá trajando apenas minha camiseta ao mesmo tempo em que reunia o conjunto de arquivos em uma espécie de pilha atrapalhada, carregando-os nos braços em direção à estante, onde os depositou sem demora. Arqueei uma sobrancelha e permaneci a encarando, quase rindo de seu jeito desengonçado de impedir com que as folhas voltassem a cair.
- Deixe isso aí, . – Disse, soltando um riso fraco por obra de sua teimosia para com as folhas mal organizadas na pilha, enfim vendo-a obter sucesso em guardá-los no amontoado de informações impressas.
- Você não é obrigado e nem vai lidar com isso agora. – Declarou, carregando um sorriso satisfeito nos lábios. Deu meia volta e regressou até o sofá, sentando-se no meu colo. – Vamos deixar as coisas ruins de lado ao menos um pouquinho, tudo bem? – Questionou ela, emanando doçura em seu tom de voz terno. Suspirei e assenti, ainda que eu soubesse da minha dificuldade em simplesmente evacuar a mente de preocupações e pensamentos conflituosos.
- Essa merda toda me tira do sério de uma forma inexplicável... – Me queixei aborrecido. sorriu compreensiva, revelando sua condescendência ante as circunstâncias apresentadas.
- Eu sei, , mas você não pode permitir que isso te consuma. É exatamente o que eles querem. – Avaliou concisa. Ela estava certa, eu precisava mandar essa porra para o inferno e gastar disposição com o que realmente valia a pena, e aproveitar a companhia da garota a minha frente era inquestionavelmente uma ótima justificativa para abandonar temporariamente os meus problemas.
- Vou parar de racionalizar e relaxar um pouco.
- Um pouco não, querido. Quero você totalmente relaxado. – Advertiu, comunicando seu pedido por intermédio de uma falsa entoação autoritária. Levantei uma sobrancelha e a fitei de modo sarcástico.
- Se esse relaxamento incluir você rebolando em cima de mim, acatarei seu pedido com muito prazer. – Proferi, permitindo com que um minúsculo sorriso sacana brincasse no canto dos meus lábios enquanto me divertia com as feições da garota diante de mim, a qual abria e fechava a boca num claro gesto de desconcerto.
- ! – Exclamou boquiaberta em meio a gargalhadas. O leve rubor em seu rosto surpreso era completamente adorável e só tornava a situação mais cômica, embora eu pudesse identificar traços de malícia nas entrelinhas de seu semblante risonho. – Bem direto ao ponto, não é mesmo?
- Enrolar não é muito do meu feitio. – Fixei minha atenção nela ainda com o breve repuxar de lábios brincando no canto da boca, passando a ser correspondido no ato pelas íris vibrantes da garota que sustentou e correspondeu à atmosfera intensa do momento.
- Essa é uma informação interessante, . – Julgou avaliativa. A sagacidade demonstrada através de sua frase expressava um certo grau de ardileza, instigando-me tanto verbalmente quanto fisicamente ao sentir o peso de ser deslocado sobre o meu colo no segundo em que a garota moveu uma perna de cada lado da minha cintura, sentando-se de frente para mim. Não foi preciso mais do que isso para que eu voltasse a experienciar meu corpo reagir de imediato tal qual um moleque no auge de sua puberdade.
- Espero que você não esteja tentando me provocar, . – Aconselhei com um leve tom de censura na voz. – Dois podem jogar esse jogo. – Usufrui do fácil acesso propiciado por sua posição e conduzi minhas mãos à parte posterior de suas coxas, deslizando meus dedos por ali até alcançar a porção redonda de seu traseiro, apertando-o com vontade e erguendo-o ligeiramente, me deliciando com o contato absoluto da minha palma na parte carnuda e globular da garota colada contra as minhas coxas.
- Já te contei que eu sou bastante competitiva? – A droga daquele sorriso do qual trazia consigo uma mistura de volúpia e diversão decerto me fariam perder os sentidos algum dia, todavia, eu estava pouco me fodendo para qualquer coisa que não envolvesse estar entre suas pernas e ouvir os sons emitidos por sua boca entreaberta enquanto gozava, bem como havíamos feito em um momento anterior, especialmente quando ela me encarava daquele modo tão singular. Eu sinceramente estava pouco me fodendo para qualquer coisa que não fosse e admitir tal fato já não me incomodava mais.
Levantei as extremidades dos lábios com sutileza, demonstrando que muito me agradava o rumo que nosso assunto leviano estava tomando. Aproximei-me de seu pescoço e esfreguei meu rosto em sua nuca com cautela a fim de vê-la se arrepiar, evento que, para minha felicidade, ocorreu sem tardar. Minha língua logo tomou o mesmo caminho, sua pele quente aumentava o meu desejo de senti-la unida ao meu corpo e, caralho, escutar seus suspiros no pé do meu ouvido poderia ser considerado um ato de total covardia à minha sanidade. Lamentavelmente não pude apreciar mais de tal som, visto que ruídos inconvenientes sobressaíram os murmúrios prazerosos de , acarretando a completa quebra de clima no segundo em que Bento surgiu tal como um furacão desenfreado, jogando seu corpo sobre o sofá sem a menor noção de seu tamanho. Interrompi meus movimentos na nuca da garota que, assim como eu, encontrava-se desnorteada, e observei o Pastor Alemão desengonçado nos encarar repleto de entusiasmo sem sequer imaginar que havia interrompido algo. A gargalhada espirituosa de tomou conta do ambiente e eu me juntei a ela, negando com a cabeça durante o gesto.
- Porra, amigão... – Falei ainda rindo.
- Acho que nós estamos te atrapalhando, não estamos? – Franzi o cenho sem compreender a pergunta da garota ao cão, só assimilando o que ela quis dizer quando a vi se esticar em direção ao canto do móvel para então retirar um brinquedo de lá.
- Na verdade foi ao contrário. – Corrigi sua sentença, olhando-a jogar o objeto para um Bento enérgico o qual tratou de correr através das dependências do apartamento em busca de seu bem precioso.
- Bem, nós meio que estávamos atrapalhando a diversão dele.
- E ele a nossa. – Respondi. riu fraco e deu de ombros, distraída em assistir o Pastor Alemão transitar disparado pela sala. Firmei meus braços na dobra de seus joelhos e me levantei, erguendo-a junto a mim num impulso repentino que imediatamente fez com que sua gargalhada ecoasse pelo interior do ambiente mais uma vez. Eu gostava de ouvi-la.
- O que você está fazendo?! – Indagou, prendendo suas pernas em volta da minha cintura e contornando meu pescoço com seus braços a fim de se apoiar melhor a medida que eu a carregava rumo à outra divisão da casa com Bento em nosso encalço.
- Parece óbvio, não parece? – Disse satírico e ela rolou os olhos. – Está com fome? – Perguntei, colocando-a sobre a bancada pertencente à ilha da cozinha sem me separar dela.
- Depende... Se você for cozinhar para mim, sim. – A garota cruzou as panturrilhas no meu quadril e sorriu ao mesmo tempo que sustentava uma fisionomia pidona. Repuxei ligeiramente o canto da boca e arqueei uma sobrancelha, disposto a ver até onde o seu poder de persuasão iria, haja vista que ela parecia querer me convencer de um jeito interessante a julgar pelo rastro feito por suas unhas nas minhas costas, divertindo-se com o efeito que o ato gerava em meu corpo inevitavelmente arrepiado.
- Não pense que isso funciona, . Eu persuado juízes e jurados nos tribunais, não o contrário. O que faz você pensar na possibilidade de conseguir me convencer a alguma coisa? – Inquiri entrando no seu jogo. Seu sorriso esperto se intensificou e uma expressão muito próxima ao deboche moldou-se em seu rosto.
- Bem... – deslocou suas mãos das minhas costas e as levou até botões da camisa de flanela grande demais para ela, captando minha atenção e curiosidade no ato. Semicerrei os olhos e sustentei minha postura sem compreender ao certo o que a garota desejava, embora estivesse gostando do que via. – Garanto que você não tem isso no tribunal. – Seu dedo indicador soltou a primeira abertura da vestimenta, e foi aí que eu enfim entendi suas intenções. O diminuto sorriso que eu conservava ganhou vigor e ela repetiu a façanha, só se dando por satisfeita quando mais nenhum pano impedia a visão quase absoluta de seus seios. Ofeguei e, sério, cravei meus olhos nela. O maldito sorrisinho continuava em seus lábios convidativos. Desejar mandar meu autocontrole para a puta que pariu já não me pertencia mais, eu já não o possuía há um bom tempo, de qualquer modo.
- Querendo me seduzir para benefício próprio, huh? Isso não é nada bonito, . – Recriminei-a, agarrando seus quadris com firmeza. Ela entrelaçou os dedos nos meus cabelos, acariciando meu couro cabeludo com destreza sem desviar suas íris espirituosas de mim.
- Seleção audiovisual. – Mencionou orgulhosa e eu tornei a erguer o sobrolho, aguardando-a prosseguir. – Mensagens audiovisuais atraentes são uma tática para evitar que alguém lhe diga “não”. – Lançou-me uma piscadela e eu soltei um riso breve. – Distrair alguém com imagens sedutoras ou com uma música agradável impede a vítima de raciocinar com totalidade. – Clarificou cheia de si. Me permiti rir com mais vontade e assenti vagarosamente.
- É de fato uma bela e convincente imagem. – Falei em meio a um sorriso sórdido, aproximando meu rosto ao de , que fechou os olhos por poucos segundos no instante em que apoiei uma mão em sua face, executando um carinho delicado na região. Parei rente a sua boca e, antes de consumar minha vontade, tornei a falar. – No entanto, já me daria por satisfeito apenas com isso. – Encerrei a pequena distância deixada propositalmente entre nós e, arrebatado pela sensação reconfortante de seu hálito cálido contra meus lábios, tomei os seus com zelo, puxando-a para perto a fim de que eu fosse capaz até mesmo de sentir seus batimentos cardíacos acelerados contra o meu peito. Seu perfume dulcificado agora encontrava-se misturado com o meu, criando uma fragrância unicamente nossa e, a partir de tal descoberta, comprovei que eu estava irremediavelmente fodido e vendido por ela. E duro. Queria incliná-la sobre o balcão e escorregar dentro de seu corpo, porém, antes mesmo que eu completasse meu raciocínio, suas pernas me afastaram de súbito, rompendo o beijo e os meus planos de usufruir da bancada de um jeito muito mais prazeroso. Fitei-a atônito e me deparei com o ar cínico emoldurando sua aparência sarcástica, deixando bem claro que a situação a divertia. Levantei o cenho e imitei a sua expressão, observando-a com um sorriso despudorado conforme a assistia abotoar a camiseta.
- Na frente das crianças não. – Falou, maneando a cabeça em direção ao Pastor Alemão deitado próximo a nós dois. – E n­­ão me compare com os seus casos, . Eu posso dar muito mais trabalho. – Os botões infelizmente haviam sido devidamente afivelados. Outra piscadela foi executada pela garota e eu ri de sua feição espertalhona.
- É um trabalho que muito me agrada. – Comentei, encostando-me à pia situada de frente para o balcão no qual a garota se localizava sentada. Cruzei os braços e prendi meus olhos nela, que apenas sorriu de canto e se concentrou em prender os fios de cabelo os quais me impediam de contemplar o rubor mínimo apresentado em suas bochechas, contrastando piamente com sua atitude astuciosa de momentos antes. – O que você quer comer? – Questionei. pendeu a cabeça para o lado e intensificou seu sorriso.
- Me surpreenda. – Disse simplesmente. Meus lábios curvaram-se e eu assenti, repassando mentalmente o que eu iria preparar.
- Não faria nada diferente disso. – Foi a minha vez de piscar o olho em sua direção, logo ouvindo sua risada preencher o lugar durante o tempo em que eu desarrolhava o vinho tinto, enchendo duas taças com o líquido turvo.
- Wow, okay, Jamie Oliver*. – Satirizou bem humorada, agradecendo pela bebida assim que eu lhe entreguei o cálice cristalino. – Você vai fazer o quê? – Perguntou curiosa. Parei de lavar as batatas e a olhei sobre os ombros com a sobrancelha erguida.
- Ser surpreendida implica em não saber o que esperar, portanto, não irei acabar com a graça do suspense. – Expus zombeteiro. Ela suspirou resignada e concordou.
- Justo. – Sorri e voltei a me virar, colocando as batatas na panela e levando-as ao fogo. O barulho das patas do meu cachorro e da gargalhada incomparável de ressoou através do recinto. Inclinei-me para o lado e não me surpreendi ao ver Bento correndo com um brinquedo na boca enquanto a garota aparentava se decidir entre rir ou seguir o cão.
Ela era cativante mesmo sem se esforçar para isso.
Parei para admirar a cena tal qual um tolo, mas não liguei em parecer um.
Minha camisa lhe caía perfeitamente bem; Os cabelos presos de forma desajeitada davam-na um ar descontraído e a maneira como seu riso fácil espalhava-se em ondas sonoras vívidas decerto estimulava qualquer um a lhe acompanhar. A garota bebericou o vinho e sumiu do meu campo de visão, provavelmente empenhada em caçar Bento pelo apartamento. Soltei uma risada débil e neguei com a cabeça, transpassando uma de minhas mãos na nuca para então retomar meu foco no jantar.
- Ah, não. Não brinca que você tem esse CD! – A voz animada de fez-se audível após consideráveis minutos e eu franzi o cenho, quase me assustando com a rapidez em que a garota reapareceu na cozinha. Direcionei meu olhar à sua mão e repuxei o canto da boca assim que vi sobre o que ela falava. – Quer dizer que escuta Juanes*... – Proferiu debochada, balançando o disco compacto de um lado para o outro.
- Comprei uns CD’s a um tempo atrás e ganhei de brinde. Talvez eu tenha escutado uma ou duas vezes. – Ri e dei de ombros. estreitou o olhar e me acompanhou. – Você gosta?
- De Juanes? – Interrogou e eu assenti, intercalando minha atenção entre ela e os legumes refogados. – Talvez eu tenha performado Para Tu Amor algumas vezes com o propósito de treinar o meu espanhol. – Declarou repetindo minha postura feita anteriormente. – O meu Espanhol é limitado a discografia da Shakira e do Juanes, na verdade. – Era cômico e incomum como eu me permitia rir com frequência sempre que estava em sua companhia.
- O que significa que sim, você gosta. – Afirmei e a garota levantou as mãos em rendição. – Como você achou?
- Pode ser que o Bento tenha derrubado algumas coisas suas... – Revelou como quem não quer nada. Arqueei o cenho e a esperei continuar, achando graça na maneira que ela gesticulava para falar. – Não se preocupe, já dei um jeito nisso. Não foi uma graaaande bagunça, ele só esbarr... – Tudo bem, . – A interrompi sem conseguir segurar o riso. – Pode colocar o CD se quiser. Estou curioso sobre suas habilidades performáticas.
- Eu não tenho dúvidas disso. – Piscou convencida e se dirigiu para a sala quase saltitando. Olhei para o Pastor Alemão sentado ao meu lado, que desviou a atenção da abertura pela qual passara recentemente e retribuiu meu gesto como se estivesse me perguntando o que a garota planejava.

“Escute Nada Valgo Sin Tu Amor do Juanes a partir daqui”

Ouvi a melodia do violão repercutir por entre as dependências do recinto e balancei a cabeça em negação junto a um meio sorriso, colocando a assadeira no forno após finalizar o recheio da receita.
Equilibrei os pratos e talheres em uma mão e apanhei minha taça posta na superfície da pia com a outra, seguindo para a divisão da sala de jantar adjunta à sala de estar. Coloquei os objetos na mesa e me escorei no pilar do cômodo a fim de observar a visão privilegiada favorecida por de costas. Agachada e com a bunda levemente empinada, ela se inclinava para frente com dificuldade ao passo que apalpava o chão debaixo da estante, parecendo estar à procura de algo perdido. Sua calcinha mais mostrava do que escondia, e naquela circunstância minha blusa já não lhe servia de mais nada, levando em conta que agora o pano encontrava-se suspenso na metade de suas coxas. As coisas que se passavam em minha mente não eram nem um pouco puras, e tudo piorou quando seu corpo se inclinou mais, torturando-me gradativamente com o seu traseiro arrebitado à mostra. Eu poderia remover aquela peça minúscula apenas com o olhar. Ou com a boca. Respirei fundo um tanto quanto desesperado e tomei um gole do vinho sem desviar meus olhos dela, vendo-a enfim recuperar seja lá o que diabos tinha sumido. Lamentei internamente por isso no segundo em que a garota se levantou, sorrindo arteira ao notar que eu a secava sem pudor nenhum durante todo esse tempo.
Sua boca começou a sibilar a música despretensiosamente enquanto ela movia o corpo de um lado para o outro no ritmo ainda lento da canção, tudo sem deixar com que o sorriso travesso vacilasse e nossos olhares se desconectassem. Por fora eu mantinha minha feição impassível junto ao breve repuxar de lábios, mas por dentro eu fervilhava com a imagem perturbadoramente estonteante de cantarolando em espanhol sem se preocupar em soar afinada ou elegante, fato que só a tornava mais atraente.

Ela não fazia esforço algum para executar quaisquer movimentos e apenas a cena de seus quadris se balançando de forma tão natural já poderia ser considerada erótica por si só.
Puxei o ar de meus pulmões mais uma vez e levei a taça à minha boca novamente, cruzando os braços e desfrutando da imagem interessante diante de mim. se divertia e regularmente ria de sua própria atuação, levando-me a fazer a mesma coisa. Bento surgiu do nada no meio da situação, correndo entre as pernas da garota que gargalhava em consequência da intromissão do cão eufórico, o qual jogou suas patas dianteiras sobre ela, tão enérgico a ponto de quase fazê-la tropeçar. Não tive tempo de repreendê-lo em razão da falta de tato, haja vista que pegou suas duas patas e o equilibrou momentaneamente para dançar com ele, ambos desajeitados no próprio ritmo. Não aguentei e ri com vontade, pois o Pastor Alemão parecia estar gostando do que acontecia, apesar de não ter durado muito.
Ela locomoveu-se em minha direção e parou a poucos passos de distância, fitando-me serena. Descruzei meus braços e, com a mão não ocupada pela taça, envolvi sua cintura, trazendo-a para perto de mim. A estudei minuciosamente e esbocei um sorriso fraco com o contato de seus dedos no meu rosto. Eu nunca conseguiria explicar as sensações as quais me acometiam sempre que o assunto era , não sabia ao certo quando os sentimentos tornaram-se tão reais e intensos, contudo, sabia que eles estavam ali, e estavam mais fortes do que nunca. A abracei e a garota se aninhou em meu peito, retribuindo o gesto sem rodeios. Depositei um beijo terno no topo de sua cabeça, apoiando meu queixo nela sem dizer uma palavra. Não era necessário proferir coisa alguma. Um suspiro cansado foi exalado pela garota entre os meus braços, quase como um sinal implícito de que havia um certo incômodo velado no ato recém cometido. Afastei-me cuidadosamente e a encarei.
- Está tudo bem?
- Sim... – Respondeu com obviedade como se minha pergunta não tivesse sentido. Seu sorriso inquieto demonstrava o contrário.
- Tem certeza? – Peguei seu queixo e a fiz olhar para mim.
- Tenho, . Por que não estaria bem? – Devolveu a questão erguendo os lábios de forma doce, sustentando minha análise a fim de passar segurança através da ação. Neguei com a cabeça e, ainda que não acreditasse em sua resposta, decidi não insistir.
- Devo encarar isso como medo de experimentar o jantar que eu preparei? – Brinquei, lançando-lhe um olhar irônico.
- Pero que si, pero que no*... – Falou fazendo graça, consequentemente arrancando uma gargalhada minha.
- Vamos tirar a prova agora. – Dei uma piscadela e indiquei a sala de jantar com a cabeça, seguindo para o local com em meu encalço.
- O cheiro está ótimo. Ponto para você.
- Pode ter certeza que o restante está igualmente muito bom. – Puxei uma cadeira para ela se sentar, ouvindo-a agradecer em seguida.
- Precisa de ajuda?
- Que tipo de anfitrião eu seria caso precisasse? – Indaguei com um sorriso pretensioso, o qual foi reforçado pela garota junto a um revirar de olhos afetado.
- Claro, me esqueci que você é quase um chef profissional com treinamento clássico. Desculpe. – Satirizou sarcástica. Ri e me desloquei para a cozinha, enfim retirando a refeição já pronta do forno. Peguei a garrafa de vinho da geladeira e retornei à sala de jantar com ambas nas mãos, depositando a assadeira e a bebida sobre a mesa.
- Uau! Isso é um suflê?! Como assim?! Os meus sempre murcham! – exclamou admirada e um tanto quanto inconformada, o que era extremamente engraçado.
- Sim, isso é um suflê. – Confirmei enchendo as taças com o líquido encorpado. – Não é tão difícil de preparar.
- Minhas habilidades gastronômicas não permitem com que eu ache tão fácil assim. – Retrucou rindo de si mesma. – Não sei cozinhar, mas sei comer. Acho que está de bom tamanho. – Soltei uma gargalhada e assenti, servindo a nós dois.
- Sem dúvidas está. – Dei um gole no vinho e fitei a garota à minha frente. – Fique com as honras de provar primeiro.
- Certo... Vamos ver se o seu suflê é tão gostoso quanto bonito. – Arqueei uma sobrancelha e a acompanhei introduzir o garfo na massa fumegante, soprando-a para então levá-la à boca após o breve ato. Algumas mastigadas depois, ela bebericou sua bebida e conectou suas íris nas minhas.
- Céus, isso está muito, mas muito bom! Onde você aprendeu a cozinhar?! – Interrogou incrédula.
- Não me recordo de fato. Pode-se dizer que é um daqueles hobbies que você adquire e não sabe exatamente quando. – Declarei de maneira simples sob o olhar curioso de .
- Eu jurava que o seu hobbie era tipo, não sei, lutar esgrima ou praticar hipismo. Talvez tênis ou golfe. – Arriscou ainda surpresa. – Emiti um riso cínico e vinquei as sobrancelhas.
- Poderia me dizer no que você se baseou para formular essa opinião a meu respeito? – A pergunta era retórica, afinal, eu já sabia a resposta.
- Ah... Bem... São esportes elitizados, né... Geralmente pessoas como você são adeptos a eles... – Explicou meio embaraçada e eu deixei com que o sorriso sarcástico no qual eu carregava ganhasse força.
- “Pessoas como eu?” – Parei de comer e reproduzi sua fala, me divertindo com a sucinta carranca manifestada através de seu olhar repreensivo.
- Não se faça de desentendido, . – Ralhou impaciente, entretanto, pude notar que ela segurava o riso.
- Eu gosto de tênis e ocasionalmente jogo golfe com o meu avô, se isso te conforta. – Admiti e sibilou um “sabia” recriminador. – Acredito que você já tenha ouvido falar que julgar o livro pela capa é errado.
- Culpada. – Ergueu as mãos e deu de ombros.
- Eu nunca pré-julguei você. – Acrescentei, atraindo sua atenção. A garota riu sem humor ao mesmo tempo que os seus olhos se anuviaram, bem como o clima descontraído que de repente converteu-se em uma atmosfera no mínimo esquisita. Minha feição sarcástica deu lugar à seriedade, não compreendendo a súbita mudança de clima.
- É claro que não. Você mal sabia que eu existia. – Seu riso desdenhoso deu às caras outra vez. Pousei a taça sobre a mesa e a encarei fixamente enquanto ela comia como se não houvesse dito nada demais.
- ... – Chamei-a com suavidade. Reparei um curto suspiro ser expelido antes da garota terminar seu gole no vinho e voltar sua atenção para mim. – Isso não é verdade. – Aleguei sério. O sorriso irônico e irritante tornou a aparecer.
- Nós dois sabemos que é. E está tudo bem! Foi apenas um comentário, não precisa levar à ferro e fogo, .
- Eu nunca fiz pouco caso da sua presença, . Sim, infelizmente demorei para reparar quão maravilhosa você é, mas saiba que eu já me culpo o suficiente por saber que tudo estava bem debaixo do meu nariz e eu não enxerguei. Só não diga eu não possuía ciência em relação a sua existência, porque não procede. Não faça isso, por favor. – Pedi quase num tom de súplica. A garota engoliu a seco e desviou nosso contato visual, agora encarando um ponto aleatório da vista propiciada pela extensa parede de vidro localizada ao nosso lado. – Qual o motivo para trazer esse assunto à tona, ? – Inquiri cauteloso e ela reestabeleceu a conexão de nossos olhos.
- Eu só comentei. Era a visão que eu tinha acerca de tudo, sabe? Não quero que você se sinta culpado, afinal não estamos falando sobre um favor que você não fez para mim, por exemplo. Sentimentos são complexos, a vida em si é complexa e as coisas não funcionam igual a um roteiro determinado. Está tudo bem. De verdade. – Sorriu meiga e eu apenas concordei, pois não desejava prolongar o tópico em pauta. – Vamos falar de coisas mais importantes, como a folha de planta que está na boca do Bento neste exato momento. – Franzi as sobrancelhas e girei o tronco na direção em que ela apontava, dando de cara com o Pastor Alemão que, sorrateiro, atravessava o acesso à cobertura com o vegetal entre os dentes.
- Bento! – Chamei sua atenção e fui ao seu encontro, escutando a risada de ecoar da sala de jantar. – De onde você arrancou isso, hein, cara? – Indaguei a ele, vendo-o soltar o galho e me fitar desconfiado. Varri o pavimento com os olhos em busca de algum sinal de destruição entre as plantas situadas no terraço e, para o meu alívio, tudo se encontrava em ordem. – Vou te dar o benefício da dúvida e acreditar que essa folha caiu com o vento. – Comuniquei ao cão, que moveu as orelhas e tombou a cabeça para o lado. – E não adianta recorrer à essa cara de dó, eu já conheço seus truques, amigão. Nada de comer as plantas, ouviu? – Sua cabeça endireitou-se e o rabo balançou freneticamente. – Ótimo, estamos entendidos. – Afaguei seu pelo por alguns segundos e voltei à sala, dando falta de ali. Atentei-me também à mesa já arrumada sem os utensílios culinários e me locomovi até a cozinha, encontrando-a organizando os pratos e talheres na pia imersa nos próprios pensamentos. Caminhei por trás de sua figura concentrada sem fazer alarde e apoiei um braço na plataforma ocupada pelas louças, ficando rente ao seu corpo de costas.
- O que você está fazendo? – A garota deu um pulinho assustado e olhou alarmada para mim.
- Por Deus, ! Quer fazer minha pressão arterial explodir? – Perguntou sobressaltada.
- Depende do contexto. – Rebati com um sorriso esperto no canto dos lábios. Ela cerrou os olhos e riu negando com a cabeça.
- Estou organizando a cozinha, ué. Você preparou tudo, é o justo.
- Não se incomode com isso, tirar a mesa já foi o suficiente. – Aleguei agradecido. fez menção de contestar, porém, o sonido advindo de um toque de celular ecoou ao longe, interrompendo suas intenções.
- Salvo pelo meu telefone. – Proferiu em tom de intimidação e eu somente a fitei irônico, observando-a se retirar com certa pressa para atender a chamada. A sinalização acústica feita por seu aparelho imediatamente trouxe à tona uma constatação curiosa: As ligações de ameaça haviam cessado temporariamente. O sumiço inusitado decerto possuía uma finalidade, e parar para refletir a respeito de tal questão me levou a crer que eu teria que redobrar a minha atenção, bem como ser calculista a ponto de prever os possíveis movimentos do filho da puta responsável por toda essa merda. Era hora de tomar as rédeas da situação e mostrar para o desgraçado que ousar atravessar o meu caminho foi a pior escolha que ele poderia ter feito na vida. Vida na qual eu terei o imenso prazer de transformar num inferno para então ficarmos quites. – Se saísse laser dos seus globos oculares essa parede não existiria mais. – Interrompi meus devaneios e dirigi minha atenção para a porta, onde encontrava-se apoiada de braços cruzados com uma feição satírica no rosto. Sorri fraco e fui até ela, pegando-lhe pela mão a fim de que fôssemos para a área externa do apartamento. Eu não revelaria a causa de tal incômodo, pois estava farto de verbalizar minha frustração diante das circunstâncias. Medidas precisavam ser tomadas e de nada adiantaria pensar demais ou jogar palavras ao vento. Sentamo-nos no sofá próximo à churrasqueira do espaço que já fora cenário de inúmeros momentos da minha vida e parei para encarar a garota ao meu lado, a qual vislumbrava admirada a vista panorâmica da cidade iluminada. Abracei-a pelo ombro e a puxei para junto de mim, aninhando seu corpo no meu. Em questão de segundos Bento surgiu à nossa frente, pulando no assento estofado e acomodando-se perto de , que soltou uma risadinha assim que o cão deitou a cabeça em suas pernas. – Descobriu de onde ele tirou aquela folha?
- Não vi nada de errado com as plantas, então prefiro acreditar que caiu com o vento.
- Lembro que a sua mãe ficava louca quando ele resolvia visitar o jardim dela. Era engraçado. – Comentou e foi a minha vez de rir brevemente.
- Nem me fale. – O silêncio instalou-se novamente. Aproveitei o tópico em questão e continuei. – Como estão as coisas por lá?
- Normais. Nada diferente do que sempre foi.
- Minha mãe nunca mais deu ataques desnecessários? – Indaguei, referindo-me ao infeliz episódio em que a mulher ultrapassou todos os limites e confrontou acerca de assuntos dos quais não lhe diziam respeito. Senti a garota suspirar e negar ainda encostada em meus ombros.
- Ela anda meio bem-humorada, se quer saber. Deu folga para a minha mãe e para a Judith, inclusive. Ambas foram viajar, fiquei bem feliz. – Informou e eu não pude evitar unir as sobrancelhas em confusão, visto que isso não era costumeiro. – Quando eu digo bem-humorada, significa que ela não me olhou como se quisesse pisar na minha cabeça, ela só não me olhou literalmente, o que já é bom se for parar para analisar todo o contexto. – Gracejou e eu neguei com a cabeça.
- Sinto muito por você passar por essa palhaçada. – Meu tom de voz saíra seco e o aborrecimento demonstrado na frase era evidente. afastou-se minimamente, compartilhando da mesma seriedade que eu. – Não quero que você se habitue a ser tratada dessa maneira, eu não vou permitir.
- ... – Iniciou incerta. Conduzi minha mão rumo a sua face e transpassei meu polegar pela extensão de sua pele, encorajando-a a prosseguir. – Já imaginou se a sua mãe sonha que nós... Bem...
- Estamos juntos? – Completei e ela assentiu. – Ela terá que aceitar. É simples.
- Gostaria que fosse simples assim. Temo pelo emprego da minha mãe, entende? Eu estou pouco me lixando para o que pensam de mim, contanto que não a afete. – Notar a aflição expressada por fez o meu estômago afundar de imediato. O ódio por todas as convenções sociais e elitistas as quais envolviam a mim e a minha família me devorava por dentro, que eles fossem para o inferno com os preceitos mesquinhos e ultrapassados que carregavam. Eu não abdicaria dos meus ideais, tampouco renunciaria os meus planos em prol de terceiros. Olhei no fundo dos olhos intensos de , sendo prontamente retribuído.
- Preciso que você confie em mim assim como vem fazendo. Ninguém fará nada que lhe prejudique ou prejudique sua mãe, está bem? – Seus lábios ergueram-se num sorriso confiante ao mesmo tempo que ela maneou a cabeça em concordância. – Eu quero que você fique para o café da manhã. – Expus direto. As íris brilhantes de seus olhos ganharam mais vivacidade; Suas mãos macias e quentes foram de encontro ao meu rosto, produzindo um choque delicioso que foi reforçado pela sensação única de sua boca contra a minha. Puxei-a mais para mim num forte impulso e a senti arfar, conduta que só me instigou a aumentar nosso contato através de outro puxão em seu quadril, apertando seu corpo no meu com urgência.
A minha sanidade se esvaía aos poucos, dando espaço para o mais puro desejo;
Meu juízo foi tomado por e eu ansiava tomá-la para mim em todos os sentidos e em todos os lugares possíveis, vendo-a se entregar às sensações maravilhosas as quais nos norteavam. A necessidade de tê-la era quase dolorosa e eu felizmente possuía a noite inteira para recuperar o tempo que perdemos.
Eu sabia o que eu queria.
E era ela.

’s POV:

Dizem que o segredo de acordar sorrindo consiste em dormir feliz.
Eu nunca fui fã de frases clichês e óbvias, porém, estava pagando a língua e comprovando a veracidade desta naquele exato momento. Sequer foi necessário que eu despertasse por completo para que uma onda de bem-estar tomasse conta de cada pedacinho do meu corpo, embora ele estivesse moderadamente dolorido devido a noite ocupada protagonizada por mim e , o qual encontrava-se tranquilamente adormecido ao meu lado.
Céus, eu parecia uma louca, mas não conseguia parar de sorrir, muito menos parar de olhar para os traços daquele rostinho odiavelmente maravilhoso cujo dono me abraçava mesmo não estando acordado. Resolvi parar de admirá-lo e girei o tronco com cuidado para não despertá-lo, ajeitando-me melhor na cama até ficar com as costas coladas no seu torso robusto. Fechei os olhos novamente e me permiti raciocinar sobre absolutamente tudo o que ocorrera, a começar pela minha súbita coragem de decidir não somente vir ao apartamento de , como também despejar todas as verdades entaladas na minha garganta há tempos. Eu tinha consciência de que não viveríamos um conto de fadas. As dificuldades eram inúmeras, os contras pesavam tanto quanto os prós e ter um olhar racional frente às adversidades seria essencial se quiséssemos, de fato, levar nosso envolvimento a diante.
O medo era uma realidade e eu teria que me acostumar com ela, apesar disso soar muito errado ao meu ver. Ninguém deveria se acostumar com o que lhe faz mal. estava sofrendo ameaças, eu virei um alvo e agora estávamos no meio de um furacão sem previsão de remissão. Vê-lo atordoado em virtude do caos no qual assolou sua vida cortava o meu coração de uma forma dolorida, o sentimento de impotência me fazia querer gritar, entretanto, o barulho não surtiria efeito algum. Eu temia por tanta coisa... Temia por mim, temia por ele, temia pela reação da Dona Kyara e do Senhor Henrico assim que ambos soubessem de nós dois, temia pelo emprego da minha mãe e, claro, temia pela reação dela quando ligasse os pontos e percebesse que omiti a verdade quanto às minhas saídas e quanto ao meu paradeiro em todas elas. Ontem à noite mais uma mentira entrara na lista, aliás. Receber sua ligação estando bem no apartamento de me fez ter vontade de abrir o jogo naquele instante e tirar todo o peso dos meus ombros, todavia, não seria a coisa mais inteligente a se fazer. Eu teria uma conversa séria e franca com a minha mãe para então expor os fatos com calma, pois ela merecia compreender toda a história nos mínimos detalhes e eu não ousaria escondê-los. Não mais.
Identifiquei a mão grande de tocar meu quadril e envolvê-lo com destreza, nem mesmo me dando a chance de assimilar o que acontecia ao me puxar para si com ímpeto. Dei uma risadinha, percebendo os pelos do meu braço se eriçarem em resposta ao ato.
- Bom dia. – Sua voz rouca e sonolenta soprou contra o meu ouvido, fazendo algo abaixo do meu ventre esquentar.
- Bom dia. – Respondi colada demais a ele, sentindo o seu peitoral subir e descer rente ao meu dorso.
- Dormiu bem? – Voltei meu tronco à posição anterior e fiquei de frente para o homem. Um sorriso bobo brotou involuntariamente no meu rosto ao dar de cara com o seu semblante amassado pós-sono unido ao seu característico levantar no canto dos lábios.
- Bastante. E você?
- Bastante. – Reproduziu minha fala e eu consegui identificar um ligeiro ar de malícia perpassar por sua fisionomia serena. Pousei minha mão ali e acariciei sua barba por fazer, sendo minuciosamente observada através de seus olhos que transmitiam um leque de sentimentos dentre a usual seriedade sempre presente. deu um pequeno impulso somente para aproximar sua boca da minha e então capturou meus lábios com ternura, deixando-os encostados aos dele ao longo de poucos segundos que poderiam ter sido convertidos em mais, não fosse o toque inconveniente de seu celular. O homem respirou fundo e interrompeu a junção de nossas bocas. O olhei receosa enquanto sua expressão encontrava-se séria e ininteligível, não sendo necessário que expressássemos o que se passava em nossa cabeça. Acompanhei-o apanhar o aparelho sobre o criado mudo e quase respirei aliviada ao ver o seu cenho suavizar.
- E aí, cara. – Saudou a pessoa do outro lado da linha. Alterei minha posição e deitei de barriga para cima, encarando o teto bonito do quarto de . – (...) Porra, eu ainda nem vi que horas são. – (...) Não sei, irmão. Vou ver. – Olhei-o de soslaio e o vislumbrei segurar o celular com uma mão e, com a outra, entrelaçar os dedos nos cabelos a medida que, de olhos fechados, escutava o que lhe falavam. – (...) É evidente que eu sei onde fica. – Os bíceps saltados davam à cena um “quê” de charme e eu já não conseguia dizer se eu estava muito boba ou se ele, efetivamente, convertia as mínimas tarefas cotidianas em um comercial de algum produto representado por modelos lindos. – (...) Beleza, qualquer coisa eu mando uma mensagem. – (...) – Tranquilo. Até. – encerrou a ligação e transpassou as mãos pelos fios bagunçados, voltando a se acomodar na cama.
- Que horas são? – Questionei meio perdida.
- Quatro e quarenta da tarde. – Arregalei os olhos e ele riu.
- Presumo que estejamos um pouco atrasados no tempo.
- E eu achando que ainda era de manhã. Céus! – Massageei as têmporas aturdida.
- Você tem algum compromisso hoje? – O homem indagou e eu parei para evocar qualquer memória que me remetesse a algum tipo de atividade marcada. Sem sucesso.
- Não que eu me lembre.
- Um amigo meu vai dar um jantar hoje à noite. Gostaria que você me acompanhasse. – Falou sem delongas, fitando-me despreocupado. O sorriso débil e involuntário deu às caras novamente e moldou-se de bom grado em meus lábios, contudo, não permiti com que ele durasse muito. Modifiquei-o de bobo para irônico e fiz a melhor cara de esnobe que pude, provocando o frequente arquear de sobrancelhas de .
- Você deu sorte que a minha agenda está livre hoje. – Me gabei e o homem sorriu torto.
- Aparentemente os ventos andam soprando a meu favor. – Proferiu, lançando-me uma piscadela. – Antes de tudo, acho importante dizer que o estará lá. Sei que você não é a maior fã dele, sendo assim, caso isso te incomode, nós podemos elaborar outros planos. – O homem sugeriu tal como o lorde que era. Não fui capaz de esconder a insatisfação estampada em meu rosto por saber que a última pessoa a qual eu desejava ver estaria em meio aos convidados, no entanto, eu não tinha o direito de privar a presença de em lugar nenhum, sobretudo em um evento dado por um amigo dele, além disso, também não me privaria de vivenciar um momento bom por causa de . Nunca, jamais. Dei de ombros e recobrei minha feição indiferente.
- Não se preocupe, ele não é um problema. – Afirmei tranquila.
- Que bom. Está com fome?
- Não. Na verdade, eu precisava ir para casa me arrumar. – Comuniquei e concordou.
- Vou tomar banho, me trocar e passamos lá, pode ser? Tenho que buscar uns pertences que ficaram no meu antigo quarto, enquanto isso você se arruma.
- Claro, está ótimo. – Me enfiei entre as cobertas e o homem me mediu sarcástico. – O quê? – Inquiri sem entender o motivo da avaliação. – Sinto muito, mas me encontro confortável demais para sair daqui antes da hora e ir tomar banho com você. Hoje estou difícil. – Gracejei, arrancando-lhe uma gargalhada.
- Veremos se essa dificuldade resistirá até o fim da noite. – Direcionou-me um último sorriso cafajeste e levantou-se da cama, seguindo rumo ao banheiro. O arrependimento bateu no segundo em que apreciei suas costas largas e todo o conjunto da obra se afastar, entretanto, mal completei meu raciocínio e avistei seu diminuto sorrisinho ardiloso antes da porta do recinto se fechar junto a um “clic” da tranca. Filho da mãe. Ri e neguei com a cabeça, fechando os olhos sem demora.

Eu sentia um carinho gostoso ser feito em meus cabelos, embora a sensação ainda estivesse longínqua.
O aroma forte e amadeirado do perfume de entrou pelas minhas narinas levando-me a despertar gradativamente, ainda que eu não me recordasse ao certo quando havia caído sono. Abri os olhos e me deparei com a figura devidamente vestida do homem que, naquele instante, encontrava-se sentado na ponta da cama me fitando carinhoso ao passo que executava um suave cafuné entre meus fios desgrenhados.
- Desculpe por te acordar. Está cansada? – Perguntou atencioso e eu neguei.
- Só estava esperando você. – Falei meio desorientada, sentando-me na superfície macia.
- Tem certeza de que não quer comer nada? – Insistiu me analisando com cuidado.
- Tenho, obrigada. – Depositei um breve selinho em seus lábios e enfim me levantei. – Minhas roupas estão jogadas na sala. – Mencionei num misto de embaraço e divertimento, apoiando uma mão na testa. riu brevemente.
- Acho que você está bem assim, embora precise delas. – Alegou sorrindo enviesado e eu o acompanhei.
- Gosto de você sem as suas também, ainda bem que podemos tirá-las, não é mesmo? – Provoquei. O homem cerrou os olhos e eu tremi sob sua maneira dotada de seriedade ao me admirar.
- ... – Intimidou com aquele ar sórdido que exalava testosterona. Tive que ser muito forte para resistir a vontade de pular no colo dele e criar novos planos para a nossa noite. Externei o maior semblante inocente que consegui e andei até a porta de seu quarto sentindo seu olhar queimar sobre mim.
- Vou me vestir. – Avisei e me retirei dali, deixando um sério para trás. Desci as escadas e iniciei minha coleta de roupas pela extensão da sala, vestindo as peças uma por uma. Bento apareceu de sabe-se lá onde e se embolou entre as minhas pernas, a um triz de me derrubar. – Oi, lindinho! – Agachei-me e acariciei seu pelo que, como sempre, parecia mais hidratado do que o meu cabelo. O cão fitou a escada balançando o rabo com energia e eu direcionei minha atenção ao local, assistindo o homem concentrado em seu celular atravessar os degraus tranquilamente. A essência forte e característica de seu perfume tomou conta do ambiente antes mesmo que ele atingisse o cômodo desejado; A mão livre se decidia entre arrumar ou bagunçar seus cabelos úmidos e a camisa social escura aberta até o terceiro botão só deixava tudo melhor em conjunto com o jeans de lavagem preta. Céus, ele tinha que parar de dobrar as mangas das camisas daquela forma. Voltei à Terra e me ergui do chão, apanhando minha bolsa do sofá em seguida.
- Podemos ir? – Indagou, recolhendo seu sobretudo dependurado no cabide e as chaves do compartimento separado para guardá-las. Assenti e afaguei as orelhas do Pastor Alemão uma última vez, colocando-me porta afora após abri-la para mim. Adentramos o elevador e o homem passou os braços pelos meus ombros, efetuando um carinho no local. Meu corpo aqueceu por dentro, ainda que a temperatura lá fora estivesse relativamente baixa.
Nos acomodamos no automóvel e deu partida, iniciando o trajeto para o lugar que já fora a sua casa.
- Uau, as ruas estão fantasmagóricas. – Observei realmente surpresa pela ausência de transeuntes nas calçadas e a falta de carros na rodovia.
- Muita gente aproveitou o feriado prolongado para viajar. – O homem ao meu lado respondeu concentrado no volante, apesar de não haver muito movimento de veículos no caminho. Apenas concordei e foquei na paisagem refletida através do vidro. Não sabia o que esperar desse jantar. Seria um ambiente totalmente novo e eu não conseguia refrear o pequeno nervosismo que me consumia, afinal de contas, não era acostumada a frequentar reuniões sociais e toda essa coisa cheia de formalidade e bons costumes. Eu mal tinha ideia do que vestir! Baseada no traje do homem ao meu lado, comecei a montar e desmontar looks na minha cabeça à procura de uma solução fundamentada por roupas compradas no setor de promoções. Oh, Deus. Eu teria problemas.
Avistei a fachada do condomínio e me assustei com a rapidez do percurso, me dando conta de que passei tempo demais matutando a respeito do meu desespero fashion. deu a volta no carro e abriu a porta para mim, ajudando-me a descer.
- Obrigada. – Disse, sondando o movimento da mansão por temer que a Dona Kyara ou o Senhor Henrico resolvessem aparecer do nada. Eu ainda não estava pronta para isso. pareceu notar, pois pegou no meu queixo com cuidado e me levou a olhá-lo.
- Lembre-se do que conversamos. – Pediu e eu suspirei assentindo. – Vou separar as minhas coisas. Leve o tempo que precisar, não temos pressa. Quando terminar dê um toque no meu celular.
- Tudo bem. Até daqui a pouco. – Sorri e dei uma piscadela, vendo-o retribuir. Apertei o passo e entrei em casa tal qual um foguete, seguindo direto para o chuveiro. Eu nunca havia tomado um banho tão rápido, porém tão bom. A sensação de lavar o cabelo era uma coisa maravilhosa, contudo, secá-lo ao mesmo tempo que mexe no guarda-roupa não era lá muito divertido. Tirei as peças escolhidas e me vesti, torcendo para que estivesse apresentável. Olhei-me no espelho e dei uma conferida minuciosa na roupa, aprovando mentalmente o que eu via. Fiz minha maquiagem e expeli algumas – muitas – borrifadas de perfume ao redor do meu corpo, pegando uma modesta bolsinha apenas para colocar meu celular e a chave. Nota mental: Não perdê-la outra vez, haja vista que havia recém feito um molho novo devido ao sumiço do antigo. Enviei uma mensagem para e respirei fundo, caminhando ao seu encontro conforme cantava um mantra tranquilizante em minha cabeça. Ele já se encontrava na garagem à minha espera, apoiado no automóvel com ambas as mãos no sobretudo e os globos oculares presos em cada passo que eu executava. Olhei para o lado e gelei ao me deparar com a Senhora Fainello próxima à porta de acesso ao estacionamento da mansão, bastando apenas que ela se virasse para me ver ali. Não sei bem como e nem de onde, entretanto, Cícero brotou no cômodo no qual Dona Kyara estava, lançando-me um sorriso cúmplice antes de rapidamente fechar a porta e falar algo aleatório para mulher. A voz dela foi se distanciando e o meu coração voltou a bater normalmente. Eu não tinha entendido nada, contudo, devia minha pele ao senhorzinho que eu sempre tive o prazer de considerar como avô. Terminei de cruzar o recinto e minhas bochechas queimaram frente a maneira como me admirou. Seus olhos escorreram dos meus pés à cabeça de uma forma que parecia me deixar nua unicamente por meio de sua exploração despudorada, mas nada foi mais fatal do que vê-lo sorrir no instante em que parei à sua frente. Tratava-se de um sorriso sem segundas intenções, sem desejos velados, sem nada que não fosse única e exclusivamente seu contentamento perante minha presença.
- Você está incrível, . – Elogiou admirado. Abri um sorriso tão ou maior que o seu, jogando o cabelo para trás de modo convencido apenas para fazer graça.
- Obrigada. Você também está, mas eu precisava ter dito isso antes porque o timing já passou. – Esclareci meio confusa e ele riu, repetindo seu gesto nobre de sempre abrir a porta do carro para mim.
- Agradeço de qualquer forma. – Respondeu já no banco do motorista. – Qual a razão de você ter paralisado no meio do caminho?
- Sua mãe estava a um espirro de dar de cara comigo na garagem. – Fiz uma careta meio desesperada. manteve sua postura inexpressiva. – Sei que nós não temos nada a esconder, só que eu necessito de mais um tempinho para me preparar para a tempestade que vem por aí.
- Eu entendo, fique tranquila.
- Minha meta de vida é ficar tranquila. – Pronunciei, notando uma fina garoa manchar o vidro e o retrovisor da Maserati. Senti uma leve pressão em minha perna e derreti por dentro ao ver a mão de acariciar a região com o polegar, enquanto a outra manuseava o volante com prudência. Pousei a minha palma por cima da sua e o homem entrelaçou seus dedos nos meus, colaborando para a sensação de calor aquecer meu peito que explodia de felicidade. Permanecemos daquele modo o caminho inteiro, e se eu possuía alguma incerteza ou nervosismo, ambos se dissiparam como uma suave brisa que leva consigo as folhas caídas das árvores.
Paramos em um estacionamento bonito demais para ser apenas uma área destinada a guardar automóveis e a porta ao meu lado se abriu, revelando o que eu supus ser o manobrista. Desci do veículo e agradeci a gentileza, logo sendo guiada pelas mãos de em minha coluna. Tentei não parecer tão deslumbrada com a arquitetura do recinto, todavia, eram tantas luzes, cristais e colunas brilhantes que eu não sabia o que contemplar primeiro. Direcionei meu olhar encantado para a lateral do restaurante e deixei com que ele vacilasse ao topar com bem no meu campo de visão, encarando a mim e com algo bem próximo à indignação estampada em seu rosto fechado. A mão do homem ao meu lado desviou das minhas costas e fez um caminho decidido até a minha palma, entrelaçando-a com a sua firmemente.
semicerrou os olhos faiscantes sem desviá-los de nós.
A noite seria longa.


Jamie Oliver: É um chef de cozinha e personalidade televisiva do Reino Unido.

Juanes: Cantor, compositor e guitarrista colombiano.

Pero que si, pero que no: Talvez sim, talvez não.



Capítulo 22

"Nada do que eu fiz este tempo todo foi bom o suficiente. Bem, obrigado amor, você me fez mais forte. Agora eu posso seguir meu caminho" – Neglected – Katharine McPhee.

’s POV.

De repente eu havia regressado ao ensino médio no meu primeiro dia de aula em um colégio novo. A sensação de ­­­ser uma estranha num ambiente desconhecido trouxe o típico nervosismo de quem enfrenta uma situação incomum, e levando em consideração todo aquele luxo e todas aquelas pessoas diferentes – com exceção do rosto familiar que insistia em fuzilar minha mão entrelaçada na de –, eu poderia afirmar de maneira convicta que nada daquilo era comum para mim, ainda mais quando os olhares inquisitivos dos amigos do homem ao meu lado expressavam curiosidade diante da cena que viam.
Exteriorizei o sorriso mais tranquilo que o momento me pedia e acompanhei atravessar o vasto saguão rumo a um grupo de convidados localizados na extremidade do salão principal, deixando uma ruga de espanto riscar minha testa a cada adorno ostensivo que compunha a estrutura do local, sentindo a luminosidade proveniente do gigantesco lustre central ir de encontro com o meu rosto, levando-me a encarar o requinte pendurado no teto por breves segundos. As pontas cristalinas refletiam a iluminação, que se intensificava ao bater nas paredes laterais tomadas por espelhos. Céus, era tudo tão brilhante, tão dourado, tão lindo! A música ambiente ecoava através das dependências do salão e, apesar de se tratar de um jantar, um número considerável de pessoas conversava distraidamente por ali, fazendo-me estranhar o fato de que todos pareciam se conhecer de alguma forma, e tal constatação ganhou força a medida que acenava com a cabeça para um e outro conjunto de indivíduos espalhados nas dependências do lugar.
- É impressão minha ou todo mundo nesse restaurante se conhece? – Questionei meio atordoada, olhando de soslaio. Ele sorriu torto e me fitou.
- Não é impressão. O estabelecimento foi fechado apenas para convidados. – Explicou e eu imediatamente fiquei boquiaberta, ouvindo a risadinha rouca do advogado que fazia questão de acariciar minha mão com seu polegar sem soltá-la nem por um minuto. Tomei uma boa quantidade de ar assim que percebi o destino de nossos passos, ignorando por completo a existência de em meio às pessoas que cumprimentava enquanto me apresentava para cada uma delas.
- E aí, ! Finalmente saiu da toca! – Disse ele, dando um meio abraço no amigo durante o tempo que aproveitava para lançar-me um olhar cortante o qual beirava à ironia. Arqueei a sobrancelha e tratei de orientar minha atenção a um ponto qualquer do ambiente, desprovida de vontade de olhar para a feição satírica de . – Boa noite, . Que surpresa vê-la aqui! – Ironia. Muita ironia. Ironia palpável. Sua saudação em conjunto com o semblante zombeteiro fez meus globos oculares revirarem. fixou os olhos censuradores na figura debochada à nossa frente e eu pude perceber um sorriso quase imperceptível brincar no canto de seus lábios, ainda que sua feição fosse séria.
- Aconselho você a se acostumar, cara. – Respondeu ao amigo, encarando-me rapidamente apenas para que eu captasse a segurança transmitida por sua face firme. O sorriso bobo que eu abri poderia ser visto há metros de distância, em contrapartida, a aparência anteriormente cínica de sumira de imediato, dando lugar a um cenho levemente cerrado, embora um resquício de sátira perpassasse por ele. Sorri com vontade e o observei, quase saltitando pela fala do advogado, que agora trocava breves palavras com o anfitrião do jantar.
- Boa noite, . – Respondi o mais simples possível, vendo-o me analisar inexpressivo. A mão firme de pousou na base das minhas costas, guiando-me em direção ao lado oposto do amplo espaço, no qual algumas mesas um pouco mais informais encontravam-se postas adjacentes a uma parede de vidro, possibilitando-nos de ter uma visão belíssima do deque de madeira situado numa espécie de terraço rodeado de plantas e lâmpadas de luz baixa. Deus, aquilo era lindo.
- Você está se sentindo desconfortável? – Perguntou, puxando uma cadeira para que eu me sentasse. O fiz e o contemplei sem entender, negando com a cabeça ao passo que ele se acomodava ao meu lado na mesa coberta por um pano fino de seda perolada. passou um braço pelas costas da minha cadeira de modo que ficássemos o mais perto possível, e tal ato foi o suficiente para que o meu peito se aquecesse com o mínimo gesto realizado por ele a fim de manter-se próximo a mim de alguma maneira.
- Não, por que estaria? – Devolvi a inquisição, assistindo-o apanhar um copo de whisky servido pelos garçons que transitavam para lá e para cá, agradecendo em seguida. O homem deu um curto gole na bebida e cravou os olhos atentos em mim, limitando-se a balançar a cabeça assim como eu havia feito segundos antes.
- Não quero que você esteja em um lugar onde não se sinta bem. – Esclareceu sério como lhe era habitual, estudando-me com cuidado. Sorri e levei uma de minhas mãos até o seu rosto, alisando a região com o polegar por breves instantes antes de juntar meus lábios aos seus num selinho, deliciando-me com a sensação gelada do líquido recém ingerido por ele em contato com a minha boca. O leve sabor amargo do licor destilado também fez-se presente, originando uma súbita vontade de beijá-lo mais intensamente, principalmente no minuto em que senti seus dedos transpassarem os fios dos meus cabelos, realizando um carinho acolhedor capaz de adormecer e aquecer o meu corpo, tudo ao mesmo tempo. Afastei minimamente meu rosto do dele e sorri, derretida com a forma pela qual era admirada.
- Estou me sentindo muito bem, não se preocupe. Não tem como não estar, na verdade. Eu amo essas coisas brilhantes e reluzentes, sou praticamente um inseto atraído por luz. – Gracejei, indicando a decoração sofisticada do restaurante. arqueou a sobrancelha e soltou uma pequena gargalhada.
- Irei me lembrar dessa informação. – Comentou, lançando-me uma piscadela.
- Qual o motivo desse jantar? Alguma comemoração? – Perguntei olhando em volta, prestando mais atenção nas áreas ainda não observadas. Parei o meu olhar em uma escadaria espiral que levava ao segundo andar, deparando-me com a beleza dos degraus revestidos por vidros cristalinos que faziam uma combinação perfeita com o corrimão dourado, ligando às escadas ao acesso à uma larga e gigantesca porta de madeira de cedro, a qual encontrava-se fechada.
- Nenhuma em especial. Elliot somente quis reunir alguns amigos.
- Uau, ele sabe dar uma reuniãozinha discreta, né? – Avaliei distraída, analisando os detalhes que compunham a arquitetura da área de convivência, escutando rir da ironia proferida por mim. Quando eu desejava reunir os meus amigos, apenas me juntava a eles para comer um bolo ou tomar uma cerveja em algum barzinho de fachada duvidosa. Como alguém simplesmente decide fechar um restaurante de luxo? Céus!
- Nós frequentávamos o mesmo clube, bem como a maioria das pessoas que aqui estão. Acabamos criando muitos contatos, grande parte dos clientes do escritório são de lá. – O advogado expôs, degustando seu whisky tranquilamente. Os clubes privados da cidade eram conhecidos pelas taxas exorbitantes cobradas aos interessados em serem aprovados nas entrevistas com os membros do conselho, e há quem diga que o valor de tal exigência financeira pode chegar a quinhentos mil. Dólares. Eu sempre achei tudo isso surreal demais. Como era possível ter tanto dinheiro assim? Como era possível tanta riqueza mal distribuída, permitindo que os detentores do capital pagassem quantias absurdas em coisas tão... Supérfluas. Logo as crianças do orfanato vieram à minha mente. O dinheiro gasto por essas pessoas em uma noite era o suficiente para resolver todos os problemas da Instituição. Uns com tanto, e outros sem nada. Ser sensato não isentava de desfrutar de seus privilégios, e por mais chocante que fosse, aquela era a realidade dele. Realidade utópica demais para quem possuía consciência da vida fora dos estabelecimentos particulares da elite.
- O que tem de tão extraordinário nesses lugares? – Indaguei realmente interessada, procurando entender sobre o tópico levantado. O homem ao meu lado me encarou ligeiramente confuso, decerto não compreendendo minha pergunta repentina. – Digo... Nesses clubes e lugares semelhantes, sabe? Todo mundo já ouviu falar a respeito dessas associações privadas e em como elas são quase secretas... – Expressei meio dramática, assistindo um sorriso ladino moldar-se nos lábios de . – É tipo uma seita? – Tornei a questionar, apoiando a cabeça na minha mão, agora vendo-o rir com vontade.
- Não, . Não é uma seita. – Iniciou risonho. – Eu honestamente não acho que tenha algo de muito relevante neles, talvez eu tenha enjoado, considerando que cresci frequentando-os. Costumava ser um lazer agradável na época em que eu era criança, sobretudo na minha adolescência, mas fui me ocupando com a vida real e deixei de lado.
- Lembro bem de quando eu ouvia sua mãe te chamando aos gritos para que você fosse à aula de natação e aula de não sei mais o quê. Você tinha uns onze anos e já era o típico playboy que usava blusa amarrada no ombro e possuía a agenda mais lotada do que político. – Satirizei divertida, provocando-o com a brincadeira. arqueou uma sobrancelha e curvou o canto da boca, encarando-me de um jeito mordaz.
- Você era muito nova, como se recorda disso? – Inquiriu divertido e eu dei de ombros.
- Trauma dos gritos da sua mãe, talvez. – Avaliei rindo. O advogado me acompanhou, assentindo com a cabeça.
- Já que aparentemente estamos evocando algumas lembranças aqui, um episódio bem... Interessante me veio à mente agora. – começou, sustentando o sorrisinho esperto nos lábios. Foi a minha vez de erguer a sobrancelha, curiosa acerca de seu relato. – Consegue se lembrar do dia em que você passou correndo pelo descampado próximo à piscina de casa e escorregou na grama? – Inquiriu zombeteiro e eu imediatamente soltei uma gargalhada, cobrindo o rosto com as mãos.
- Ah, meu Deus. Infelizmente sim! – Aquele foi um dos dias mais constrangedores da minha vida. Eu era a típica garota de doze anos que começava a enfrentar os problemas da pré-adolescência. Não sabia ao certo o que estava havendo comigo, contudo, sabia que não queria ser vista com uma espinha do tamanho de um ervilha no meio da minha testa, e quando eu digo: "não queria ser vista", refiro-me a não querer ser vista por , que localizava-se na companhia de seus pais e outros convidados na área de lazer da mansão. A sensação inusitada que assolava o meu estômago sempre que o via me deixava nervosa, fato normal para quem iniciava o processo de ter consciência a respeito dos próprios sentimentos, sentimentos esses os quais me inseriam no clichê da “garota mais nova que gosta do carinha mais velho e inalcançável.”
O solo encontrava-se recém molhado de chuva, eu precisava atravessar o terreno para chegar em casa e, ao invés de fazê-lo como qualquer pessoa normal que, sem dúvidas, passaria despercebida naquele cenário, dei ouvidos ao lado não muito esperto do meu cérebro e tive a brilhante ideia de percorrer o trajeto em disparada rumo ao meu destino, tendo como resultado um escorregão que gerou um tombo fenomenal com direito ao baque seco do meu corpo atingindo o gramado diante de todo mundo.
- O seu gritinho agudo fez o meu ouvido zumbir durante aquela noite inteira. – satirizou mais uma vez, agora trazendo à tona o grito de susto exteriorizado por mim no momento da embaraçosa queda. Maneei a cabeça em negação ainda com as mãos sobre a minha face quente de vergonha, rindo junto ao advogado.
- Não é preciso relembrar de todos os detalhes. – Adverti a ponto de explodir, enfim destampando os olhos para então me deparar com o semblante risonho do homem que me avaliava com cuidado e afeto. Meu riso cessou aos poucos e, sem que eu me desse conta, já me encontrava sustentando o seu olhar, ainda que não soubesse ao certo a razão de ser admirada daquela forma. – O que foi? – Questionei meio sem jeito, contemplando a concavidade formada em ambos os lados de suas bochechas devido ao seu sorriso espirituoso. Ele negou com a cabeça e inclinou moderadamente o tronco, puxando-me delicadamente pela nuca antes de encostar seus lábios quentes na minha testa. Meu peito acalentou-se e eu me derreti por completo, extasiada pelo aroma forte de seu perfume que nada mais era do que um componente dentre todos os outros os quais deixavam-no tão hipnotizante. Me permiti fechar os olhos por alguns segundos, totalmente entregue ao ato de zelo demonstrado através do suave carinho em meus cabelos, sentindo os dedos de afagarem a região com calma. O mundo lá fora acontecia enquanto nós dois vivenciávamos nosso momento sem nos preocupar com nada além do que partilhávamos naquele instante. Eu quase protestei ao notá-lo se afastar minimamente após um curto período de tempo daquela maneira, no entanto, bastou apenas que eu voltasse a fitar seu rosto para captar o significado de seu olhar. Eu conseguia enxergar a felicidade irradiar em suas íris brilhantes, pois as minhas não estavam diferentes. – Sentiu culpa por rir do meu mico e agora quer se redimir apelando para o seu rostinho odiavelmente bonito? – Brinquei, arrancando um breve riso do homem ao meu lado.
- Senti vontade de te beijar, na verdade. – Respondeu afiado com o maldito sorrisinho no canto da boca. Ergui uma sobrancelha e o observei, imitando seu gesto.
- Acho que assim eu posso pensar em te desculpar. – Disse despretensiosa. riu torto e levou sua mão até a minha bochecha, apoiando-a ali com destreza à medida que intercalava sua atenção entre os meus olhos e minha boca. Eu simplesmente adorava senti-lo tão perto, as sensações que tomavam conta do meu corpo sempre que a sua respiração cálida e branda misturava-se com a minha só não eram melhores do que sentir os seus lábios sobre os meus, bem como acontecia naquele exato momento. O toque calmo estabelecido por nossas línguas me levou a suspirar de leve a ponto de desmanchar pela sensibilidade revelada entre os movimentos delicados do beijo, era como se eu pudesse pisar nas nuvens toda vez que o homem puxava o meu lábio inferior e sorria entre aquela conexão tão singular. Em um minuto, relembrávamos o tempo em que éramos dois desconhecidos morando no “mesmo” lugar, no outro, aproveitávamos a companhia um do outro de tal maneira que eu certamente poderia afirmar que buscávamos recuperar o tempo perdido no meio de tantas possibilidades durante os anos passados. Aos poucos fui voltando para a realidade. O burburinho de pessoas conversando tornaram a ficar audíveis; A melodia suave da música calma que soava pelo ambiente voltou a penetrar os meus tímpanos; O beijo converteu-se em um longo selinho e eu precisei lutar contra o desejo de beijá-lo novamente assim que sua respiração calorosa bateu contra a minha boca, fazendo-me abrir os olhos mesmo contra a minha vontade. Sorri pela milésima vez ao me defrontar com seu semblante sereno e desfrutei da sensação gostosa de sua barba por fazer arranhando meus dedos os quais deslizavam por ali.
Tive o peculiar formigamento que geralmente nos acomete sempre que estamos sendo observados e movi os olhos além do ombro de , não tendo surpresa alguma ao chocar minhas íris com as de , que não fazia questão nenhuma de disfarçar sua avaliação crítica sobre nós enquanto tomava seu drink calmamente. O jeito que ele nos olhava não me parecia certo e gerou um breve calafrio em minha espinha. Tão rápido quanto o fitei, descontinuei o ato, voltando a focar no advogado que me estudava com atenção antes de se virar a fim de seguir o meu olhar, encontrando apenas o espaço vazio onde jazia a segundos atrás. Por um instante eu quis que ele estivesse ali. Por um instante eu quis que o visse e questionasse a razão pela qual seu amigo insistia em nos encarar e agir tal como um idiota, assim seria mais fácil simplesmente dispor do momento para lhe contar sobre absolutamente tudo, sem enrolações, contudo, minha coragem não seria o bastante para entrar no assunto sem uma deixa. Eu sabia que teria que fazê-lo uma hora ou outra, de qualquer forma. Ele merecia isso.
- Se distraiu com os brilhos novamente? – Inquiriu com a sobrancelha arqueada e eu ri fraco.
- Me distraí com um inseto. Inseto bem chato, inclusive. – Resmunguei um tanto quanto azeda. vincou o cenho e deu uma ligeira conferida no ar em busca do tal inseto, o que seria engraçado não fosse o contexto da situação. – Ele já deve ter ido. – Concluí, vendo-o assentir meio ressabiado enquanto a culpa dava às caras e cutucava o meu juízo. Notei uma movimentação no salão e avistei os convidados subindo a escadaria rumo ao segundo andar, não entendendo absolutamente nada. O homem a minha frente se levantou e estendeu sua mão em minha direção, convidando-me a fazer o mesmo. Ergui-me e entrelaçou nossas mãos ao passo que caminhávamos com destino à suntuosa escada de grande comprimento. – Para onde estamos indo? – Perguntei confusa, morta de medo de pisar nos degraus de vidro que formavam os pontos de apoio os quais permitiam a ligação entre os níveis diferentes.
- Para o segundo andar. – respondeu satírico repuxando o canto da boca e eu o olhei com a maior cara de “jura?” possível, arrancando um risinho contido do homem. – O jantar será servido no salão principal. – Desviei minha atenção dos meus pés, onde a intenção era me precaver de um tombo catastrófico naquela escada perigosamente linda e o admirei sem assimilar muito bem, haja vista que, para mim, tudo aconteceria no local no qual estávamos anteriormente. Deixei meus questionamentos para depois e parei para apreciar a porta de acesso àquela divisão do recinto, explorando sua arquitetura moderna e ao mesmo tempo clássica que era somente um convite à bela infraestrutura do ambiente.
O espaço dispunha de um belo terraço exposto ao ar livre, onde a transição gradual da parte interna do salão para a parte externa era feita por uma extensa porta de vidro, sendo neste momento que meus olhos analíticos se deram conta do maior destaque daquela estrutura perfeitamente bem projetada: Tudo ali era revestido por vidro. Desde o teto, até as paredes – as quais incumbiam-se de dar aos clientes uma vista panorâmica do jardim cuja magnificência era facilmente avistada pela transparência do cenário –, transformando o conjunto de todos os aspectos em uma atração esplendorosa aos olhos.
As pessoas já se organizavam em volta da enorme mesa arrumada esplendorosamente de modo que todos os convidados se acomodassem, enquanto eu apenas acompanhava até os lugares ainda vagos, sentando-me ao seu lado meio embasbacada com o capricho colocado nos enfeites elaborados que ali estavam. As taças lustrosas e cristalinas encontravam-se meticulosamente posicionadas diante de cada assento, assim como os guardanapos e talheres. Agradeci mentalmente no instante em que percebi que os utensílios sobre a mesa não passavam do bom e prático conjunto de garfo, faca e colher, levando em conta que eu não fazia ideia de como seguir a etiqueta da utilização de dez talheres para uma refeição, quinze para outra e assim sucessivamente. Já havia visto algo assim nos jantares em que os davam e aquele bando de coisas separadas somente para uma refeição me parecia uma frescura sem tamanho.
- Como o intuito deste jantar é reunir velhos amigos, escolhi um cardápio que, sem dúvidas, remeterá a ótimas lembranças de vocês. – Elliot, o anfitrião, iniciou empolgado à medida que os garçons se aproximavam servindo os pratos já montados.
- O que é isso? – Perguntei baixinho a , que desviou os olhos do amigo para pousá-los em mim e no prato peculiar a nossa frente.
- Guisado de frutos do mar. Você gosta? – Questionou relativamente preocupado. Sorri e dei de ombros.
- Preciso provar para saber, mas sempre tem uma barraquinha de cachorro quente na estrada caso eu não goste. – Proferi divertida, mencionando o dia em que paramos para comer no meio do nada. O homem riu e assentiu, apoiando uma mão na minha perna de maneira despretensiosa. Eram atitudes como esta que me deixavam completamente boba. Seu jeito de manter-se em contato comigo através de gestos mínimos só demonstravam que eu não poderia ser mais sortuda por tê-lo. Ele fazia os meus planos de não soar como uma pateta apaixonada falharem miseravelmente.
- Culinária de Ibiza. Muito bem pensado. – Um dos convidados elogiou, gerando um falatório a respeito do tal assunto. – Aquela viagem foi memorável. – Completou, recebendo afirmações convictas das pessoas sentadas à mesa.
- O verão Espanhol é inigualável! Fiquei um mês em crise de saudade das praias de lá após irmos embora, voltei à Cala Bassa pelo menos umas dez vezes depois disso. – Agora foi a vez de uma mulher comentar. Não pude deixar de notar seus traços lindíssimos e sofisticados os quais gritavam elegância até mesmo em sua forma de segurar a taça de Champagne. Tomei um gole do meu e foquei no papo em questão, afinal, eu adorava ouvir histórias, sobretudo de pessoas que enxugavam suor com cédulas de dinheiro. – Três anos se passaram desde a viagem, e devo dizer a vocês que o lugar só melhora.
- Ando tão atolado no trabalho que mal tenho tempo de viajar à lazer. Sinto falta desse tipo de diversão, só consigo lembrar do extremamente alcoolizado na Pacha.* – Elliot zombou, arrancando gargalhada de todos, inclusive de que certamente se recordara do fato. Eu me limitei a continuar bebendo o espumante mais gostoso que já havia provado na vida, me sentindo mais perdida do que boia na correnteza. – Nós fomos os que mais aproveitaram, já que vocês – Elliot apontou para e mais três homens também situados próximos a nós dois – fodidos, estavam acompanhados! Quem vai para Ibiza e leva a namorada, pelo amor de Deus?! – O homem bradou inconformado e eu imediatamente me senti desconfortável. Ele obviamente se referiu à Cassie. Não prestei atenção na resposta de ninguém, contudo, consegui ver lançar um olhar mortífero e cortante para o seu amigo enquanto bebericava o drink localizado em uma de suas mãos; A outra – ainda posicionada sobre a minha perna –, foi responsável por executar um curto carinho no local, levando-me a olhá-lo. Tive uma visão parcial de seu rosto sério e focado na conversa. Sorri para mim mesma, sabendo que a carícia efetuada na parte externa da minha coxa era uma demonstração de cuidado à sua maneira.
- Nós fomos em julho, não fomos? A alta temporada vai até agosto, vou tentar sumir uns dias do escritório para espairecer em Talamanca. – Vozes diferentes faziam observações e comentários acerca de tudo que remetia Ibiza e as maravilhas do local, no entanto, um detalhe já mencionado me chamou a atenção.
Mês de Julho.
Três anos atrás.
Franzi o cenho e fervilhei minha mente de cálculos e datas, recapitulando diversos momentos da minha vida no período citado, enfim chegando a uma conclusão nada surpreendente: e eu estávamos juntos nessa época. E ele havia mentido para mim.

FLASHBACK.

- Poxa, sete dias?! Os planos para o final de semana que vem estão cancelados, é isso? – Lamentei exibindo um diminuto biquinho de insatisfação para , que contorceu seu rosto em lamentação antes de bicar um breve selinho nos meus lábios.
- Infelizmente sim, gracinha. É uma viagem a trabalho muito importante, será uma semana repleta de conferências. – Explicou paciente e eu assenti em compreensão, embora uma ponta de frustração pairasse em meu peito. Ajeitei-me em meio ao edredom que e eu dividíamos naquela fria tarde de sábado e suspirei baixinho, sentindo a irritante sensação de que algo estava errado, apesar de, aparentemente, tudo se encontrar na mais perfeita ordem.
Já fazia um bom tempo desde que nós dois começamos a nos ver com mais frequência do que um simples casinho exigia, quase como se entrássemos no comum acordo de que aquilo era algo sério, mesmo que tal demonstração de oficialidade ainda não tivesse, de fato, sido verbalizada. O que havia começado única e exclusivamente como um passatempo e uma brincadeira, agora se tornava o início de um sentimento crescente em mim, como se eu, enfim, estivesse deixando toda paixão platônica por para trás a fim de finalmente seguir com a minha vida e focar em outra pessoa. Não fora premeditado, contudo, decerto era uma boa surpresa, salvo uma ou outra atitude desagradável de cuja lábia rapidamente contornava seja lá o que ele tivesse feito.
Meu momento de divagação foi percebido pelo homem ao meu lado, que moveu seu corpo com o intuito de me fitar. Devolvi seu olhar tentando não demonstrar minha feição alheia, sendo meticulosamente estudada por suas íris ressabiadas.
- O que foi esse suspiro, huh? – Questionou desconfiado e eu neguei com a cabeça.
- Nada, só estava pensando. – Falei. O semblante de se franziu.
- Percebe-se a fumaça saindo por aqui. – Zombou apontando para a minha cabeça e eu rolei os olhos, rindo e dando um leve tapinha em seu dedo que sobrevoava o local. – No que você está pensando? – Tornou a questionar. Puxei um pouco de ar dos pulmões e me remexi no sofá um tanto quanto incerta.
- Há quanto tempo estamos... Juntos? – Soltei sem delongas, encarando-o em expectativa. Minha pergunta pareceu tê-lo pego de surpresa, pois a ruga entre suas sobrancelhas ganhara intensidade. Seus globos oculares moveram-se para baixo por milésimos de segundos e voltaram a se conectar com os meus.
- Ahn... Quase um ano? Ou um ano, talvez. Por aí... Por qual razão viemos parar neste assunto? – Balancei a cabeça e dei de ombros. Inspirei profundamente, incomodada com algumas palavras presas em minha garganta.
- Sinceramente... Às vezes me pergunto se devo confiar em você. – Confessei de uma só vez. Algo cintilou por trás de seus olhos, levando-o a arrumar a postura, notavelmente incomodado.
- Wow! Por que você está dizendo isso? – Sua fisionomia inquisitiva gritava dúvida e sua expressão corporal protestava, totalmente na defensiva. Nem eu sabia o porquê de tal pressentimento, todavia, ele existia.
- Eu só sinto. – Disse simplesmente. – Admito que, no início, não te levava a sério. – O rosto dele se contraiu em uma expressão engraçada. – Mas agora é diferente. Acho que começar a ter sentimentos por você me deixou insegura sobre... Tudo. – Exprimi outro suspiro. não esboçou reação nenhuma durante alguns segundos, logo suavizando sua postura para então passar um de seus braços pelas minhas costas, conduzindo meu corpo para perto do seu.
- Hm, então acabou de confessar que está na minha? – Gracejou cheio de si e eu rolei os olhos pela milésima vez enquanto ria. – Todo esse dilema surgiu só porque vou viajar? Eu gostaria muito de levar você comigo, mas trata-se de uma viagem de acordos comerciais e... – Ele iniciou. Neguei veemente com a cabeça e ergui uma mão num pedido mudo para que sua fala não fosse concluída.
- , não. – Interrompi atônita. – Não tem nada a ver com isso, também não estou pedindo para ir com você ou coisa do tipo. Céus, eu não quero que fiquemos grudados! Só assumi o que eu sinto. – Expus relativamente nervosa, captando a atenção da figura inexpressiva a minha frente.
Silêncio.
Uma inquietude incômoda já começava a se apoderar do meu corpo, sobretudo por estar sendo avaliada com demasiada atenção por , que, para o meu alívio, tomou uma atitude ao puxar o meu quadril para que ficássemos com os corpos grudados. Um murmúrio de espanto e expectativa escapou da minha boca antes de sentir seus lábios quentes capturarem os meus com avidez, puxando-os entre os seus dentes para depois soltá-los e levar sua boca em direção ao meu ouvido.
- Pare de se preocupar tanto, . – Pediu em meio a um sussurro, fazendo-me ofegar. – Eu estou com você, eu gosto de você. O que nós temos é muito bom. – Falou, distribuindo beijos na pele sensível do lóbulo da minha orelha. Um raio de calor atingiu o meu ventre e eu imediatamente me odiei por ser tão suscetível ao seu toque. – Assim que eu voltar de viagem nós conversamos a respeito desse assunto, enquanto isso... – Seu dedo deslizou furtivamente entre o elástico da minha calcinha. – Limpe sua mente de questionamentos desnecessários. – Finalizou, tornando a unir nossas bocas com urgência.
Sete dias depois ele voltara de viagem. Minhas ligações foram atendidas apenas duas vezes.
A tal conversa nunca acontecera. A nossa relação se estendera por mais um ano entre trancos e barrancos, sendo cada vez mais emocionalmente nociva para mim.
Diante de toda essa experiência conturbada, aprendi uma lição valiosa: É fundamental confiar na própria intuição.

FIM DE FLASHBACK.


- (...) Ele falou escondido no telefone umas duas vezes até se cansar das ligações diárias e sumir com o próprio celular! – Explosão de gargalhadas. Ergui meus olhos e os conduzi para o outro lado da mesa a três lugares de distância do meu. Aparentemente o tema do papo era . O timing para mencionar tal acontecimento não poderia ser mais propício, e a coincidência em volta do tópico era quase hilária, se não fosse mais ridícula do que engraçada. A incredulidade que me apossou quase me fez rir da situação, o desprezo corroía o meu estômago como se eu tivesse ingerido ácido. Eu senti ódio pela daquela época, tão ingênua, imersa em uma ilusão fictícia estrelada pelo maior cretino já existente na face da Terra, cretino esse que ria fraco junto de seus amigos durante o tempo que lançava um olhar disfarçado em minha direção. Uma fagulha de receio perpassou por entre seu semblante descontraído antes dele abaixar o olhar e direcioná-lo à bebida em suas mãos. Mantive minha avaliação crítica sobre ele por mais alguns segundos, chocada com a sua capacidade de parecer cada vez pior com o passar do tempo.
Descontinuei o ato e decidi experimentar a refeição até então intocada no meu prato, decidindo por ficar alheia aos assuntos que emendavam-se um em seguida do outro.

O jantar seguiu normalmente sem muitas novidades. Algumas pessoas locomoveram-se de volta ao primeiro andar, outras discutiam sobre negócios em um canto qualquer do salão principal, enquanto e eu nos encontrávamos no imenso terraço junto a um casal de antigos colegas dele. Aproveitei da visão privilegiada cedida pela espaçosa área externa e direcionei o meu vislumbre para o jardim digno de conto de fadas, logo imaginando quão lindo ele deve ficar à luz do dia, embora a iluminação do local já o deixasse completamente estonteante.
- Então... , correto? Como você e o se conheceram? – Desviei os olhos das plantas e flores e os pousei na mulher ao meu lado, que me encarava interessada.
- Bem, nós nos conhecemos há bastante tempo... Minha mãe trabalha para os pais dele. – Comentei, vendo sua expressão clarear.
- Então ela é advogada? – Perguntou envolvida pela informação. Não consegui reprimir o pequeno risinho que escapou da minha garganta conforme eu negava com a cabeça.
- Cozinheira, na verdade. – Esclareci naturalmente, assistindo sua fisionomia empolgada vacilar, dando lugar a um sorriso amarelo.
- Oh! Que... Peculiar. – Relatou visivelmente desconcertada e eu sorri impassível.
- Normal, na verdade. É uma profissão, não é mesmo? – Rebati mantendo o sorriso desafetado no rosto, acompanhando-a assentir de modo banal. Rolei os olhos e tornei a olhar para frente, agora notando a presença de e Elliot ali. Respirei fundo e tomei um bom gole de vinho, notando que prestara atenção na breve conversa paralela que eu havia tido minutos antes.
Não tendo muita vontade de ouvir sobre o que eles estavam falando, girei o tronco com a intenção de tornar a admirar o jardim, sentindo um tranco rígido contra o meu corpo junto a uma imediata sensação molhada na minha roupa. Não consegui discernir muito bem o que ocorrera de início e pisquei atordoada, avistando um garçom me encarar petrificado devido ao nosso encontrão. A cena atraiu olhares curiosos dos demais presentes no local, o pobre homem esbaforido logo assumiu uma postura sobressaltada ao passo que pedia um milhão de desculpas, parecendo realmente apavorado. Sorri e ergui as duas mãos em um pedido mudo para que ele acalmasse.
- Fui eu quem virou de supetão. – Disse na tentativa de apaziguar a situação. – Não se preocupe. – Agachei-me e peguei sua bandeja do chão, agradecendo aos céus pela ausência de taças em sua superfície na hora do fatídico esbarrão.
- Está tudo bem? – indagou, inspecionando minha roupa parcialmente úmida de bebida. Afirmei e entreguei o objeto de metal ao garçom, ouvindo mais uma remessa de lamentações vindas dele. Acalmei-o novamente e, enfim, o assisti se retirar como se houvesse cometido um crime inafiançável. Era engraçado como sua atitude me era familiar. Eu me vi em seu lugar.
- Sim, não molhou demais. – Disse ao advogado, examinando a mancha roxa estampada no pano claro do tecido. retirou seu paletó e o colocou sobre os meus ombros, arrumando-o de modo que a parte agora transparente da vestimenta fosse completamente coberta por sua peça de roupa. Sorri e agradeci. – Só estou cheirando a vinho. Espero que você goste, agora me encontro inteiramente afrodisíaca. – Gracejei travessa, provocando um sutil riso no homem que agora levantava uma sobrancelha na minha direção, aproximando-se rente ao meu ouvido.
- Sou um exímio apreciador de vinhos. Poderia lambê-lo diretamente do seu corpo, inclusive. – Soprou de maneira sórdida. Sua voz baixa e rouca me arrepiou instantaneamente, enviando faíscas através da minha pele. Encarei-o boquiaberta e emiti um riso contido. Céus, aquela fisionomia perversa ainda iria me fazer explodir.
- Informação interessante, . Minha calcinha estaria molhada, caso estivesse usando uma. – Sussurrei de volta, quase explodindo de rir ao ver o seu semblante surpreso, o qual foi rapidamente substituído por seus traços sérios e vigorosos. O lábio moderadamente repuxado para o lado em conjunto com os olhos semicerrados deixava-o tal como um predador prestes a atacar sua presa, e nada poderia ser mais satisfatório do que aquela visão. Bom, eu estava, sim, usando calcinha, mas não perderia a oportunidade de provocá-lo. – Vou ao banheiro tentar limpar isso aqui, com licença. – Informei aos quatro indivíduos situados no singelo grupo, apesar de todos já estarem novamente focados em seus próprios assuntos. Lancei um último sorriso para e me retirei do terraço, direcionando os meus passos de volta ao salão principal. Atravessei a extremidade do recinto e percorri o longo corredor ornamentado por diversas obras de arte dependuradas nas paredes douradas, não demorando para encontrar uma linda porta arquitetada em uma pequena curva à direita. Certifiquei-me de que não havia ninguém ali e adentrei o ambiente que decerto poderia ser considerado o toalete mais bonito que eu já vira na vida, adiando minha análise curiosa para que pudesse focar em diminuir a mancha púrpura grudada na minha roupa. Deixei o paletó de sobre a pia que mais parecia um balcão e me inclinei rente a sua borda, esfregando o tecido com cuidado debaixo da água com sabão.

Passei um tempo considerável empenhada em não permitir que o vinho tinto estragasse minha roupa. Minutos depois, encarei o meu reflexo no espelho e conferi o borrão agora um pouco mais claro na vestimenta parcialmente úmida. Sabendo que não obteria um resultado melhor do que aquele, recoloquei o blazer de sobre o meu corpo a fim de tampar a transparência deixada pela água e abri a porta, distraída em endireitar o pano do paletó escuro. Subi o meu olhar e dei um pequeno sobressalto ao topar com uma figura conhecida apoiada na parede dianteira, os braços cruzados junto aos pés entrelaçados de modo despreocupado revelavam uma nítida postura confiante, como se estivesse parado ali já na intenção de me encontrar. Franzi o cenho e fiz menção de continuar com o meu propósito de me retirar, tendo minha ação inesperadamente interrompida pela entrada de no banheiro, onde o seu impulso levou-me a retornar de forma involuntária para dentro do local. Fitei-o estupefata, completamente aturdida em razão de sua atitude.
- Mas que diabos...? O que significa isso? Ficou maluco de vez?! – Bradei inconformada ao vê-lo fechar a porta às suas costas e apoiar-se nela, impedindo a minha passagem. Seus olhos fincaram-se em mim, um misto de reflexão e receio perpassaram através de seu semblante anuviado. Cruzeis os braços na altura do peito e me limitei a encará-lo enquanto esperava uma boa explicação para sua atitude inconsequente.
- Fique calma, gracinha. Só quero alguns minutos do seu tempo, tudo bem? – Vinquei as sobrancelhas com mais vigor e lhe lancei o pior olhar que consegui.
- Acho que você ainda não entendeu que não tem o direito de querer nada, . Me dê licença. – Avancei um passo e estiquei a mão até a maçaneta, ato que fora prontamente descontinuado no instante que o homem se posicionou em frente do objeto. O amaldiçoei com o olhar e respirei fundo, soltando o ar de meus pulmões com força.

(Escute Neglected da Katharine McPhee a partir daqui)

- Sobre o que você ouviu... – Começou e eu emiti um curto riso dotado de sarcasmo à medida que negava com a cabeça.
- Vamos lá... – Tomei uma boa quantidade de oxigênio e reuni a pouca quantidade de paciência que me restava. – Já passou da hora de você se colocar no seu lugar. Eu não sei qual é o seu problema, mas sinceramente não me importo. , você não percebe que a sua conduta é incoerente e absurda? Nós não temos mais nada a ver um com o outro por culpa sua. O que vai adiantar tentar me explicar sobre as porcarias que você fez? Elas já aconteceram, eu não ligo, nada disso me afeta. Já afetou um dia, hoje não mais. – Ele cortou o contato visual e encarou um ponto qualquer atrás de mim.
- Eu me arrependi, tá legal? Não devia ter feito aquilo. – Falou ainda sem me olhar. Exprimi outro riso sem humor.
- Mas fez. E continuou fazendo. Continuou me enrolando, continuou me enganando, se envolveu com outras pessoas, agiu da forma que quis. Não obstante, foi um belo de um idiota após nós terminarmos. As piadinhas que você jogava para cima de mim, as provocações infantis... Eu poderia passar dias listando os motivos pelos quais tenho aversão de você. – Minha última frase saíra firme, fazendo-o voltar a me observar. – Já parou para pensar que um pedido de desculpas nunca saiu da sua boca? Mesmo depois de tudo? Mesmo agora? – Silêncio. Ele não ousou me interromper. – Ué, você não queria conversar? Essa é a sua deixa! – Exclamei irônica.
- Eu gostava... Eu gosto de você, ! Só que era difícil para mim, inferno! Mesmo quando nós estávamos juntos eu me pegava imaginando quanto do que você sentia era o bastante para deixar o de lado! – Seu tom de voz aumentou alguns décimos. Minha postura impassível não se alterou.
- Não mencione os seus sentimentos por mim no presente, eu não quero saber. Eu cansei de me abrir para você naquela época, cansei de ser clara quanto ao que eu sentia, não venha querer se desvincular da culpa jogando-a nas minhas costas, por Deus! Não tinha nada a ver com o , eu conseguia enxergar algo de bom em você, sabe? Apesar de toda porcaria, eu gostei de você, sim. Gostei mesmo! Mas sua rede de mentiras e cinismo acabou com tudo. Você foi a primeira pessoa que eu deixei tocar o meu corpo, foi o primeiro a entrar na minha vida de maneira tão íntima em todos os sentidos e pouco se fodeu para isso! Você já parou para refletir sobre como eu me senti? – O homem nada disse. Tomei um pouco de ar e prossegui – Nossa relação foi tóxica. Você brincou comigo e com a minha cabeça ao agir como se nada nunca estivesse errado, como se eu estivesse imaginando tudo enquanto era feita de otária! – me estudava calado. A tensão em seu corpo era quase palpável, a face contorcida em puro incômodo cintilava de significados que eu não conseguia decifrar. – Por que você quer se explicar agora?
- Porque sim, droga! Eu tomei decisões imbecis, admito. Não posso fazer nada sobre isso, beleza? Eu queria ter tudo! Ter você, ter minha vida, minhas viagens, meus amigos...
- Toda ação tem consequências, . Sua maneira insensata de lidar com a mesquinhez ao seu redor o levou até aqui. Saiba aceitar. – Interrompi sem paciência com suas desculpas. Silêncio. Passei a mão pelo rosto e respirei fundo pela milésima vez. – Seja sincero ao menos uma vez e me responda: Você nunca quis nos assumir por medo que lhe fizessem o tipo de pergunta que aquela mulher me fez? Sobre a minha mãe... Eu percebi você prestando atenção na minha conversa. – Foi a sua vez de esfregar o rosto. transpassou uma mão pela nuca e bufou nitidamente irritado.
- Não leve isso tão a ferro e fogo, ... – Iniciou e eu rolei os olhos.
- Você queria ter tudo, mas Deus o livre de dizer para os seus amiguinhos endinheirados e elitistas que estava saindo com a filha da cozinheira dos . Que terrível seria perder o glamour que o posto de pegador lhe oferecia, quão apavorante seria assumir um compromisso com alguém sem influência?! Pobrezinho de você. – Satirizei, utilizando o máximo de deboche que cabia na situação. – Me poupe. Seu ego de merda está ferido porque eu estou com o , é por esse motivo que você faz questão de tentar provar seu arrependimento e de se explicar. Uma pessoa que deseja possuir tudo não aceita perder, mas eu não faço mais parte dos seus jogos. – Disse clara e objetiva. Um leque de emoções – todas nitidamente conflitantes – transpareciam por entre a face de , que carregava uma carranca nas feições habitualmente arrogantes.
- Depois de tudo eu não estava errado, afinal. Ver você com ele só comprova o que eu sempre soube. Ainda que eu me revisasse do avesso não preencheria o espaço que o ocupa. – Um curto riso dotado de escárnio foi expelido pelo homem à minha frente. Apesar de perceber a mágoa velada pelo ato, não me compadeci nem um pouco. Foi necessário que eu amadurecesse a fim de ver as coisas como elas realmente são, e, após tanto tempo, pude assimilar todas as atitudes tomadas por desde o início. Vê-lo se colocar como vítima da situação só me deixava cada vez mais nervosa.
- Porque você escolheu assim. Talvez nós dois não tivéssemos dado certo por inúmeros outros motivos, mas eles seriam apenas uma consequência da vida, e não motivados pela sua falta de caráter. Se você gostasse mesmo de mim teria agido de acordo com o seu sentimento, no entanto, a sua preocupação com a opinião de terceiros foi maior. Sua adoração pela vida badalada foi maior, e quer saber? Está tudo bem. Eu agradeço imensamente por isso, porque assim eu pude me envolver com alguém mil vezes melhor. – Reuni um pouco mais de fôlego e prossegui. – O homem que está lá fora merece toda a intensidade do meu sentimento, ele me trata como eu mereço ser tratada e, sem ofensas, você não conseguiria essa proeza porque sempre está focado demais em manter essa sua pose que não te traz nada de significativo. No fim do dia você está sozinho, mesmo acompanhado. O vazio que existe dentro de você não pode ser suprido por essas coisas supérfluas, . Mesmo que eu não estivesse com o , nós dois não teríamos volta. Eu me amo o suficiente para ter consciência do retrocesso que voltar para quem me machucou significaria, e eu sou uma mulher que segue adiante. Agora eu quero que você saia da minha frente e me deixe em paz, fui clara? – Conclui firme. Minhas palavras saíram de forma decidida, provocando uma leveza sobre os meus ombros graças à recente carga de sentenças jogadas contra , que se encontrava aturdido. Os olhos semicerrados em conjunto com os lábios espremidos em linha revelavam a rejeição de sua parte por obra das verdades jogadas em sua cara, contudo, não me abalei. A figura cheia de cólera deu um passo para o lado, finalmente concedendo passagem para mim sem tirar os olhos dos meus. Avancei em direção à porta e a abri sem demora, tomando fôlego como se faltasse ar em meus pulmões até então.
- Você vai contar a ele? – Refreei meu passo e encarei por cima dos ombros. Não foi necessário que eu lhe questionasse a respeito de sua pergunta. Eu sabia exatamente sobre o que ele falava.
- Óbvio que sim. Ao contrário de você, eu prezo muito pela sinceridade nas minhas relações. E o merece saber. Não quero e nem pretendo esconder nada dele.
- Isso não vai dar certo, gracinha. A família do não irá aceitar de bom grado, espero que você saiba. – Sua petulância retornara com força total. Ri sem humor e neguei com a cabeça.
- Agradeço pela opinião não solicitada, mas felizmente quem decide se dará certo ou não somos nós dois. Tenha uma boa noite. – Ultimei convicta, tratando de sair dali sem mais enrolações.
Perdi as contas de quantas vezes respirei fundo à medida que fazia o trajeto de volta ao terraço, buscando retomar todo a serenidade que a presença desagradável de me sugou. Apesar de tudo, eu me sentia leve. Poder expressar todo o desgosto que ele um dia me causou certamente era uma libertação de pequenas mágoas cujo peso eu não merecia carregar.
Era incrível como nossa visão sobre alguém podia mudar.

FLASHBACK.


Minhas pálpebras pareciam pesar cinco quilos cada uma.
O sono já havia se apossado do meu corpo há um bom tempo, entretanto, eu lutava contra Morpheu numa batalha incessante a fim de permanecer acordada, pois meu desejo era aproveitar o máximo possível da companhia de , que jazia ao meu lado com a expressão serena após protagonizarmos momentos intensos através dos lençóis agora bagunçados de sua cama. Ainda com o corpo suado, o homem vislumbrava o teto de seu quarto com uma atenção quase hipnotizante, parecendo divagar a respeito de algo extremamente importante ao passo que o seu peitoral subia e descia de modo tranquilo. Aconcheguei-me sob o edredom, sentindo o calor da minha pele contrastar com o frio ocasionado em razão da temperatura baixa daquela madrugada tão corriqueira entre inúmeras madrugadas vivenciadas por nós dois, embora uma energia diferente pairasse no ar.
Olhei de esguelha enquanto sentia meu interior se agitar de impaciência com o seu silêncio persistente, e tal sensação se acentuou no instante em que ele virou seu dorso para o lado, passando a me contemplar sem pudor algum. Seus olhos prenderam-se aos meus e a variedade de emoções transmitidas por suas íris me impediram de desvendar o que tal atitude significava.
- O que foi? – Questionei meio sem jeito devido a sua análise minuciosa, vendo-o pender o canto da boca em um pequeno sorriso travesso.
- Nada. Não posso te olhar? – Respondeu, mantendo a pose marota. Correspondi seu ato e sorri à medida que dava de ombros.
- Não é como se você já não tivesse olhado demais por hoje, se é que me entende. – Brinquei e ele esboçou um breve riso.
- Nunca é o bastante, gracinha. – Falou, trazendo-me para perto de si num ímpeto fervoroso, chocando nossas dermes novamente. Fitei seu rosto portando um semblante divertido, logo tratando de convertê-lo para a cara mais satírica que eu consegui ao notá-lo me encarar ainda mais concentrado do que antes.
- Desse jeito eu vou pensar que você está apaixonado. – Gracejei despretensiosa, rindo zombeteira da sua maneira de me observar. Ao contrário do que eu pensei, o homem a minha frente não compartilhou do mesmo divertimento que eu. Meu riso cessou gradativamente e um vinco formou-se no meio das minhas sobrancelhas ao perceber que voltara a me estudar de modo sério, tão reflexivo quanto se encontrava a minutos atrás.
- E eu estou. – Disse, quebrando a ausência de som com três palavras que fizeram o meu coração saltar de imediato. Não tive tempo para processar o que me fora dito por , visto que ele prosseguiu sem demora. – Eu estou apaixonado por você.

FIM DE FLASHBACK.


Ri sem humor e atravessei o salão, avistando no mesmo lugar, agora conversando tranquilamente com um homem que não se encontrava ali anteriormente. Eu nunca me cansaria de dizer quão lindo ele era até mesmo quando não fazia absolutamente nada para tal. Enquanto uma mão escondia-se no bolso de sua calça, a outra encarregava-se de segurar o drink amadeirado de maneira despreocupada. Os bíceps saltavam através da camisa dobrada e foi necessário que eu acordasse para a vida imediatamente antes de quase bater contra o vidro da porta em razão da análise abobalhada no homem que, como se sentisse a secada sobre si, ergueu o olhar, avistando-me caminhar em sua direção. Sorri e ele retribuiu, falando algo para o homem antes de deixá-lo para então vir ao meu encontro.
- Deu certo? Conseguiu limpar? – Indagou, levando a mão anteriormente situada em seu bolso até a minha cintura, pousando-a ali com propriedade.
- Sim, a mancha clareou bastante. – Falei, mostrando-lhe a fração do tecido recém lavado sob o pano de seu paletó. - Que bom. – A moderada sensação de cansaço que começava a surgir em mim manifestou-se através de um ligeiro bocejo, ato que chamou a atenção de , fazendo-o dar um riso anasalado e me encarar com ternura. – Suponho que seja uma boa hora para irmos embora. – Avaliou atencioso.
- Você prefere que eu afirme ou que eu aja de maneira cordial e diga que tudo bem ficarmos mais um pouco? – Perguntei divertida. O homem riu com mais ímpeto, negando com a cabeça.
- Certo, eu já entendi. – Respondeu repuxando o maldito canto da boca. – Concordo com você. Já ficamos o suficiente. – Sua mão deslizou para a base das minhas costas, guiando-me ao longo do salão onde nos despedimos rapidamente das pessoas que ali estavam. Retornamos ao primeiro andar e seguimos rumo à saída do restaurante, as janelas espelhadas revelavam o tempo fechado encenado pela garoa fina a qual antecipava a carga d’água que em breve viria, tornando a noite de sábado fria e úmida. A Maserati de logo entrou em nosso campo de visão, revelando o manobrista que lhe entregou as chaves sem demora, abrindo a porta do carro para mim logo depois. Agradeci e me aconcheguei no banco do passageiro, vendo o responsável por meus inúmeros sorrisos bobos sentar-se no lugar ao meu lado, arrancando com o veículo instantaneamente.
Ao passo que uma de suas mãos controlava o volante, a outra rapidamente descansou sobre a parte externa da minha coxa de modo despretensioso, provocando um choque em virtude da temperatura quente de sua pele em contato com a minha perna descoberta. Sorri para mim mesma e pousei a minha palma acima da sua, derretendo por dentro no segundo em que ele a virou e entrelaçou nossos dedos sem tirar os olhos da avenida vazia.
- Terei a honra de sua companhia esta noite? – Questionou, fitando-me ligeiramente. O sorriso pateta que eu carregava poderia rasgar o meu rosto.
- Eu sei que eu tenho uma personalidade magnética – Assisti rir fraco, tirando o foco das ruas para lançar um olhar irônico em minha direção durante alguns segundos – contudo, infelizmente, terei que ir para casa. – Lamentei. – Minha mãe chega amanhã cedo e eu tenho algumas coisas da faculdade para revisar.
- Ainda não está de férias?
- Quase. Sexta-feira é o último dia. – Disse, observando-o manear a cabeça em compreensão. – Mas, bem, não tem ninguém na casa dos seus pais e nem na minha... Você poderia ficar lá comigo até eu dormir. Imagina que tristeza pegar no sono completamente sozinha?! – Dramatizei, ouvindo rir audivelmente, encarando-me com uma sobrancelha erguida junto ao seu típico sorriso ladino.
- Tenho a impressão de que serei ludibriado com frequência por essa feição pidona. – Refletiu resignado e eu emiti um risinho curto.
- Se der certo dessa vez, com certeza será. – Apontei esperta. Seu riso se juntou ao meu.

estacionou o automóvel preto na vaga que antigamente lhe pertencia. Saímos da garagem em meio a passos apressados até minha casa, as mãos unidas permaneciam enquanto praticamente corríamos através do descampado molhado pela garoa cada vez mais forte, o que nos fazia parecer duas crianças. Abri a porta com agilidade, fechando-a com a mesma rapidez assim que ambos adentramos a residência silenciosa e quentinha.
- Vou tomar banho, mi casa es su casa literalmente. – Proferi divertida. O homem me encarou satírico, elevando a sobrancelha pela milésima vez. – Eu te convidaria para me acompanhar, mas o chuveiro não é grande e eu realmente estou com frio. Não que você não me esquente, porque olha, esquenta mesmo, só que... Estou falando demais e é melhor eu ir logo para o banheiro. – Interrompi meu falatório desmedido e parti para o cômodo em questão, deixando um advogado risonho para trás.
Eu realmente precisava conciliar o meu pensamento com a minha fala, evitaria muitos momentos embaraçosos.
Coloquei-me debaixo do jato de forma quase desesperada, relaxando no mesmo instante que senti a água quente bater contra a minha pele. Não me demorei ali, logo enrolando meu corpo na toalha felpuda e partindo para o meu quarto, encontrando sentado na minha cama enquanto folheava um álbum de fotos.
- Escolha de fantasia interessante. – Debochou zombeteiro e eu franzi o cenho, indo até ele com o intuito de descobrir sobre o que ele falava. Peguei o objeto de sua mão e gargalhei, tomando conhecimento de tamanho divertimento. A fotografia mostrava uma de sete anos de idade fantasiada de rainha da pipoca na festa do colégio. E a minha feição em nada combinava com as feições de uma rainha, levando em conta que a carranca emoldurada em meu rosto só não era pior do que a vestimenta em si.
- O quê? Eu fui uma rainha um pouquinho temperamental. – Disse dando de ombros. Foi a vez de gargalhar. Lancei-lhe um olhar duro, reprimindo o riso que insistia em sair pela minha garganta. Escolhi uma camisola qualquer e a coloquei na parte superior do criado mudo, virando o tronco em busca da escova de cabelo. Percebi uma presença atrás das minhas costas e movi o tronco, vendo o homem anteriormente sentado agora em pé, rente ao meu corpo com o olhar sério e compenetrado. Antes mesmo de eu assimilar o que acontecia, vi minha toalha ser puxada com cautela, escorregando da minha pele até parar no chão. Não me importei. Tremi sob a análise minuciosa de em cada pedaço exposto do meu corpo, desejando ser tocada por suas mãos grandes e firmes o mais breve possível. O homem se aproximou e eu, mais por necessidade do que por impulso, peguei sua palma e a coloquei sobre o meu coração descompassado, fazendo-o sentir os efeitos que causava em mim. A pupila dilatada do homem diante de mim cintilava com intensidade e não foi preciso que eu pousasse minha mão em seu peito para saber que ele se encontrava da mesma maneira que eu.
De repente o frio que me acometia se dissipou.
Propositalmente movi sua mão um pouco mais para baixo, bem no ponto que eu ansiava ser tocada. Ou ao menos um dos. Seus olhos se estreitaram, a atmosfera tornou-se densa. Suspirei com dificuldade ao senti-lo pressionar levemente o meu seio esquerdo, atento às minhas reações frente ao seu gesto. Logo o outro mamilo teve a mesma atenção de sua mão anteriormente livre, ambos os bicos túrgidos agora recebendo carícias ardilosas ora de seus dedos, ora de sua palma decidida. Os gemidos até então contidos ganharam força ao experienciar a boca de ir de encontro ao meu pescoço, onde o advogado perspicaz deslizou a língua quente junto aos seus lábios enérgicos, traçando uma trilha de beijos até a minha orelha, a qual recebeu uma leve mordida em seu lóbulo antes dele levar sua boca ao meu ouvido, parando-a ali.
- Você não tem noção da tentação que é tê-la assim, bem na minha frente. Porra, eu poderia passar a noite inteira demonstrando o que quero fazer com você agora, , entretanto, faremos diferente dessa vez. – Seu tom de voz rouco e baixo era pornográfico. A ausência das carícias em meus seios foi imediatamente sentida e a falta delas me levou a encarar de modo atônito. Ele esticou o braço até a cabeceira, apanhou meu pijama e o desdobrou. Eu me limitava a acompanhar seus movimentos com o olhar, o vinco entre as minhas sobrancelhas revelava a confusão diante de sua atitude. Ao contrário do que eu pensei, não avançou o sinal que sempre seria verde para ele. O pano foi deslizado pela minha cabeça e eu automaticamente passei meus braços por entre suas alças finas, totalmente sem entender. – Eu quero que você durma ao meu lado, quero que você faça isso sem sexo, sem segundas intenções, só com o meu corpo no seu. – Esclareceu firme. Demorei um pouco para conceber a ideia, porém, quando o fiz, precisei me segurar para não gritar aos quatro ventos que eu era a mulher mais sortuda do mundo. Minha única reação foi sorrir verdadeiramente feliz, colando meus lábios nos lábios de em um selinho demorado. Dirigi-me à minha cama e o levei comigo pela mão, aconchegando meu corpo ao do homem ao meu lado no momento em que ele se deitou ali, nos cobrindo a fim de barrar o frio. Meus cabelos foram agraciados pelo carinho gostoso que eu simplesmente adorava, levando os meus olhos a se fecharem em seguida. Escondi meu rosto na curva de seu pescoço, satisfeita em ver sua pele se arrepiar. – Sei que essa não foi a noite mais divertida da sua vida, mas obrigado por me acompanhar. – Soprou em meu ouvido. Sorri e neguei com a cabeça.
- Estar com você está de bom tamanho para mim, independente do lugar. – Admiti. A sensação de conforto e proteção trazia consigo o torpor que antecedia o sono, o qual começava a querer dar às caras. Um breve beijo foi depositado no topo da minha cabeça como resposta. Meus sentidos foram gradativamente se esvaindo, dando lugar à sonolência cada vez mais intensa. – Tome cuidado ao ir embora... Por favor. – Pedi, utilizando da pouca parcela ainda desperta da minha consciência.
- Durma e não se preocupe comigo, babe. Está tudo bem. – Me agarrei mais ao seu corpo, absorvendo ao máximo de sua presença antes de ceder e finalmente apagar.

’s POV.

- Atente-se à nomenclatura dos termos jurídicos, certo? Inquérito e processo não devem ser usados como sinônimos. Preliminarmente, no inquérito, há a investigação policial de fato. Em outras palavras, existe somente a suspeita, onde o indivíduo será indiciado a partir de provas sobre sua culpabilidade a fim de que um eventual processo seja movido. É a partir do processo que o poder judiciário julga alguém baseado nos instrumentos de convencimento. O inquérito pode sim ser um deles, a propósito. Em suma, no processo, a pessoa é julgada. Se um indivíduo está respondendo a um processo, significa que ele é acusado. Alguma dúvida? – Perguntei ao novo estagiário do escritório, que parecia completamente perdido em meio aos detalhes básicos do âmbito jurídico. O jovem garoto assustado negou com a cabeça. Sua ânsia de obter conhecimento a respeito de tudo era evidente, contudo, a postura de cordeiro amedrontado jogado em meio aos leões dificultava o seu objetivo de transmitir segurança às suas próprias ações. – Você está apenas começando, mas tem talento, Stelford. Vá com calma e não queira abraçar o mundo de uma só vez, isso pode te confundir. – Aconselhei, conferindo o horário em meu relógio de pulso. – Fale comigo caso precise de algo.
- Claro, entendi perfeitamente. Sem sombra de dúvidas o comunicarei se assim for necessário. Muito obrigado, doutor . – Falou agitado, recolhendo seus papéis sobre a minha mesa com dificuldade. – Desculpe pelo incômodo. Com licença. – Reagi com um maneio de cabeça e o acompanhei com o olhar, assistindo-o se retirar da minha sala em seguida. Recolhi meus pertences deixados na superfície de vidro e tateei o bolso do meu terno somente para me certificar que a chave do meu carro encontrava-se ali, trancando meu escritório com a finalidade de sair para o meu horário de almoço.
- Bridget, se por ventura alguém ligar ou aparecer me procurando, anote o motivo do contato e me passe imediatamente, tudo bem? Marque um horário comigo caso haja urgência. – Solicitei à mulher aplicada por trás de sua mesa de trabalho, recebendo aceno afirmativo em resposta.
- Sim, senhor. – Agradeci e me retirei, tomando o elevador rumo à garagem do prédio. Adentrei meu carro e dei partida, iniciando o trajeto com destino ao endereço situado no GPS.
O domingo havia sido uma prévia da segunda feira carrancuda e gelada que se aproximava. O amanhecer bastou para que tal evento fosse confirmado pela nebulosidade a qual despontou na alvorada escura que tomara o céu melancólico, não tendo se alterado mesmo no início da tarde igualmente acinzentada.
Enquanto eu me empenhava em descartar algumas coisas do meu armário no dia anterior, fui levado à última conversa que tive com Cassie. A pilha de edredons não utilizados trouxe a lembrança do momento em que a mulher mencionara sobre a pauta de sua atual matéria, despertando em mim uma curiosidade e interesse com relação ao abrigo no instante em que joguei suas coordenadas no google, compreendendo de imediato a necessidade de doações para o lugar. A partir de tal constatação, reuni todas as roupas de cama sem serventia nenhuma para mim e as coloquei em uma enorme sacola que agora ocupava o espaço do banco de trás do meu carro, transportando-a com a finalidade de deixá-la como doação para o orfanato.
O tráfego pós feriado encontrava-se infernal, os transeuntes apressados tornaram a ocupar as ruas, bem como a intensa circulação de automóveis que dificultava o meu acesso à via principal. Praguejei e conferi o meu celular, sentindo que algo estava demasiado errado. A ausência das ligações com teor intimidante soava como um sinal de alerta para a minha intuição aguçada, deixando-me de sobreaviso no que correspondia ao caso. O julgamento do processo corria sem atrasos, meu requisito por uma nova perícia fora devidamente acatado e o laudo desta sairia em breve, colocando-me sob uma agitação sem tamanho, posto que eu dependia de seus resultados para documentá-los nas provas a favor do meu cliente. O assédio dos jornalistas havia cessado por ora, salvo um ou outro repórter que se atrevia a me importunar na saída do fórum e do escritório, o que não me incomodava o suficiente para gerar um estresse maior do que eu já vivenciava normalmente.
Notei os veículos começarem a andar e suspirei de alívio, percorrendo o restante do trajeto sem maiores problemas. Avistei o extenso muro cor de chumbo e reconheci a fachada rústica do recinto de imediato, parando o carro rente a uma guarita envelhecida adjacente a um amplo portão de metal. Abaixei o vidro e avistei um senhor franzino colocar-se para fora do pequeno cubículo, fitando-me de modo amigável na mesma proporção que me avaliava curioso.
- Boa tarde. Me chamo , gostaria de deixar uma doação.
- Do que seria a doação, por gentileza, meu jovem? – Indagou enquanto retirava um interfone amarelado do gancho.
- Edredons, alguns travesseiros... Roupas de cama no geral. – Comuniquei e ele assentiu, discando alguns números nos botões desgastados.
- ?! – Uma voz extremamente conhecida soou do lado de fora. Franzi o cenho e virei a cabeça na direção do som, intensificando o gesto de confusão ao me deparar com parada ali, tão atônita quanto eu me encontrava no momento. – O que faz aqui? – Perguntou num misto de diversão e surpresa. Arqueei a sobrancelha, começando a juntar os elementos da situação, tomando ciência de que aquele era o orfanato do qual a garota outrora comentara. A coincidência imersa nas circunstâncias chegava a ser cômica.
- Soube que estavam precisando de cobertas e vim trazer algumas. Então é aqui qu... – Ei, rapaz. Pode deixar sua doação aqui comigo. Oh! E boa tarde, criança. – O senhor me interrompeu, cumprimentando logo depois, automaticamente atraindo nossa atenção para ele.
- Boa tarde, Jeff! – Respondeu animada. Eu me limitava observar a cena, ainda moderadamente perdido. – Você quer entrar? – A garota voltou-se para mim, emoldurando um sorriso doce no rosto. A ideia me pareceu interessante. – Pode estacionar o carro lá dentro. – Acenei em concordância, realmente estimulado a conhecer o local. se apoiou na guarita e falou algo para o mais velho, que afirmou com a cabeça e abriu o portão, liberando meu acesso imediatamente. Avancei com o veículo seguindo em linha reta através da trilha de concreto, escorrendo os olhos ao longo do vasto território tomado por crianças no pátio um pouco mais à frente. Desliguei o motor e me retirei do automóvel, assistindo se aproximar sem permitir com que o sorriso em seus lábios vacilasse. Apoiei meu corpo na estrutura do carro e cruzei os braços, admirando-a sem me importar de parecer um puta babaca.
- Boa tarde, senhorita . – Saudei no instante em que ela, enfim, parou à minha frente, contemplando seu sorriso ganhar força.
- Boa tarde, doutor . A que devo a honra? Veio salvar o dia? – Gracejou, fazendo-me exprimir um breve riso.
- Ouvi dizer que há uma certa princesa precisando de ajuda. – Disse, ouvindo-a rir com vontade.
- Sério, como você veio parar aqui?!
- A Cassie comentou a respeito do orfanato há um tempo e mencionou que estavam precisando de doações. Peguei o endereço com ela e vim deixar algumas cobertas que eu já não usava mais. Confesso que estou surpreso, não fazia ideia de que este é o tal abrigo que você frequenta. – Declarei, dando uma boa olhada ao redor. Avistei um pequeno garoto correr em nossa direção e pular em , que gargalhou alto ao passo que se equilibrava sobre seus joelhos, agachando-se e posicionando-se ao nível dele.
- Sim, é aqui eu venho sempre. E esse é o Archie, a propósito. – Proferiu ainda abraçada ao garotinho, que ergueu os olhos receosos até mim. Recordei-me do dia em que mencionara seu nome e me contara a respeito de sua história, e olhando para os dois, pude compreender exatamente a conexão que ela possuía com aquela criança. Sorri e imitei o gesto da garota, abaixando-me a fim de atingir uma estatura considerável para conversar com ele.
- E aí, Archie? Como vai? Meu nome é . – Estendi minha mão e o pequeno fitou como se lhe perguntasse se era seguro retribuir o ato. Ela o encorajou com o olhar e logo sua palma pequenina entrou em contato com a minha mão, formalizando o cumprimento intencionado. – Que aperto de mão forte! Você vai longe. – Elogiei, assistindo sua expressão desconfiada dar lugar a um sorriso largo e parcialmente banguela.
- Sério?! Mas a sua mão é beeeeem maior que a minha! – Exclamou fitando seus dedos. Gargalhei audivelmente e me acompanhou.
- E mesmo assim você mostrou o tamanho da força que guarda nela. – Complementei, vendo a face do garotinho eufórico se iluminar.
- Só falta eu ficar verde igual o Hulk!
- Ele é o seu herói favorito? – Perguntei e ele afirmou freneticamente.
- Eu fiz um montão de desenho do Hulk! Conta pra ele que eu sei desenhar! – Archie se virou para , que concordou.
- Oh, sim! Esse carinha aqui é um verdadeiro artista. – Disse ela, dando-lhe um leve cutucão na barriga. Ri e me distraí durante o tempo que o garotinho dissertava acerca de suas habilidades artísticas, não tardando a escutar um ruído de motor se aproximar dali, levando-me a olhar para frente de forma mecânica.
Reconheci o Audi branco parado à poucos metros de distância, onde o veículo só não era mais familiar do que a dona dele.
Cassie surgiu entre as portas do automóvel e dirigiu sua atenção para frente, pairando seus olhos questionadores e cortantes sobre mim.



Capítulo 23

"Nós temos algum tipo de magia, baby. O que quer que isso seja, eu andarei com você." - Walk With You - Janelle Kroll.


’s POV.

Existia uma linha tênue entre o aborrecimento e a satisfação moldados no semblante vaidoso de Cassie, seus olhos analíticos pareciam perfurar os meus ao transmitir um desdém velado por sua fisionomia indiferente a qual beirava à frieza, e tal mistura de sentimentos e emoções tornava incompreensível o significado por trás de toda aquela avaliação. A mulher alternou o olhar de mim para uma última vez antes de aprumar a postura e jogar os cabelos sempre muito bem arrumados para o lado, desviando sua atenção de nós a fim de iniciar sua caminhada através da vasta extensão de concreto desgastado, carregando consigo seus materiais de trabalho. Fitei a garota ao meu lado e ela correspondeu o gesto enquanto intercalava as olhadas de mim para Archie, cuja animação para falar sobre desenho permanecia a todo vapor.
- (...) vou procurar aquele dragão que eu fiz, pera aí! – O garotinho exclamou eufórico, não tardando a sair correndo pelo trajeto que Cassie percorrera instantes atrás. Ri fraco e ergui meu corpo, sendo acompanhado por .
- Ele gostou de você. – Comentou expondo um sorriso sereno nos lábios convidativos, encarando a área de acesso à parte interna do recinto, onde a pequena figura agitada de Archie atravessara feito um foguete.
- É recíproco. – Afirmei, realmente tocado pela simpatia do garoto. – Agora compreendo a razão de você ser tão apegada a ele. – Comentei atraindo a atenção da garota, que sorriu mais abertamente devido a minha constatação.
- Não tem como não ser. – Concluiu sorridente. Assenti e reparei-a direcionar as orbes atentas até o Audi branco recém estacionado mais à frente, não se demorando a fazê-lo. Apesar de sua tentativa de concluir o ato sem ser notada, tal gesto não passara despercebido por mim.
- É uma grande coincidência Cassie estar desenvolvendo uma matéria sobre este abrigo em questão. – Aleguei ainda um tanto quanto surpreso com o fato, varrendo o local com os olhos conforme me dava conta de sua estrutura defasada.
- Sim. – respondeu, fazendo-me tornar a encará-la. – Ela é uma ótima profissional e está bem empenhada, embora este lugar não lhe seja familiar. – Observou, voltando a curvar os lábios em meio a um sorriso singelo. – Confesso que fiquei embasbacada quando a vi trazer tantas doações para cá, foi uma bela surpresa. Fora que essa matéria é uma oportunidade de ouro para que situação da instituição ganhe visibilidade. – Completou com o olhar vago no formigueiro de crianças espalhadas pelo pátio. Encarei-a e tive uma visão parcial de seus belos traços instigantes, percebendo que sua atitude alheia revelava um incômodo velado pela maneira vaga com que a garota as observava.
- Tenho a impressão de que algo a está preocupando. – Analisei, tendo como resposta um suspiro enfadado. torceu o nariz sutilmente e seu ato só comprovou as minhas suspeitas.
- As coisas não andam fáceis por aqui... O abrigo corre o risco de fechar. – Soltou sem delongas, direcionando suas íris brilhantes até as minhas. Um lampejo de tristeza perpassou por ali e eu imediatamente me senti mal. Mal pelas crianças, mal por saber o que aquela informação implicava e, sobretudo, mal por vê-la daquela forma.
- Como assim? O que está havendo?! – Indaguei, compartilhando de sua preocupação.
- A estrutura da instituição está quase que totalmente comprometida. Há infiltrações em grande parte dos cômodos, as crianças sofrem pelo frio e pela precariedade nas comodidades da área interna, tudo isso se torna prejudicial a elas. A diretora daqui já tentou diversos empréstimos para que a reforma possa ser feita, entretanto, todos são recusados. A integridade física dos pequenos está posta em risco, se nós não encontrarmos uma maneira de conseguir a quantia necessária para liberar o empréstimo e começar a reforma, irão interditar e fechar o estabelecimento. Nos deram um prazo de dois meses. – Outro suspiro fora expelido pela garota de ombros baixos e expressão desanimada. Eu me sentia dolorosamente afetado em razão do que havia ouvido e presenciar quão unidos todos daquele lugar pareciam ser só piorou o meu estado. Percebendo que ela continuaria, me mantive calado, estudando-a com cuidado. – Estamos planejando uma festa de arrecadação de fundos, espero que dê tudo certo.
- De quanto é essa dívida?
- Cinco mil. Óbvio que a reforma demanda muito mais dinheiro, entretanto, quitar a dívida já nos possibilita de contar com o empréstimo para iniciá-la, talvez até concluí-la. – Explicou esperançosa e eu assenti. Era impossível não se revoltar diante de tamanha injustiça. Eu fui criado em um mundo no qual esbanjar luxo e gastar fortunas em superficialidades ditava como você seria reconhecido pelo meio, e apesar de deter um ódio profundo pela vaidade implicada nessa questão, possuir consciência de que eu usufruía dos meus privilégios quanto pertencido a um grupo de alto poder econômico me fazia sentir um hipócrita maldito. Enquanto pessoas do meu círculo social gastavam esta quantia em uma noite, crianças corriam risco de perderem o teto que lhes abrigava pela falta do mesmo valor.
- Eu posso ajudar, . – Disse, vendo-a franzir o cenho em confusão. – Não me importaria em doar essa verba, assim vocês teriam ao menos o dinheiro do empréstimo. – Ao contrário do que eu esperava, a garota não respondeu de imediato. Seus olhos se desconectaram dos meus e focaram no chão durante alguns segundos, retomando a conexão logo em seguida.
- ... Eu não te contei esperando que você use o seu dinheiro. – Declarou externando um riso nervoso. Arqueei uma sobrancelha, não absorvendo muito bem o motivo de seu aparente desconforto.
- Quando foi que eu disse isso, ? Essa possibilidade sequer passou pela minha cabeça. Eu apenas ofereci ajuda. – Rebati calmo. A garota relaxou a postura defensiva e externou um sorriso meigo.
- Eu sei e agradeço muito. De verdade. É só qu... – Hey, ! – Uma voz feminina soou animada, interrompendo sua frase. Direcionei minha atenção no sentido do som e avistei uma mulher sorridente se aproximar de nós.
- Nós conversamos sobre esse assunto depois, tudo bem? – pediu e eu concordei, dando aquele diálogo por encerrado. – Olá, Trish. Boa tarde! – Saudou animada, acenando para a moça que não parecia ser tão mais velha do que eu.
- Archie me contou que você havia chegado e que tinha companhia. – Declarou amigável assim que concluiu sua caminhada até o local onde nos situávamos, pairando os olhos sobre mim. afirmou, fitando-me com a boca curvada em um sorriso singelo. Eu não fazia ideia que sentia tanta falta daquela boca na minha até retribuir o seu olhar e tirar alguns milésimos de segundos a fim de encará-la com mais afinco, rindo fraco ao notá-la piscar algumas vezes antes de me lançar uma última encarada divertida para então cortar nosso contato visual, voltando-se à mulher à nossa frente.
- Sim, claro! Trish, este é o . Ele veio deixar algumas doações para as crianças. – Maneei a cabeça em um cumprimento educado e lhe estendi uma mão, sendo prontamente retribuído.
- Prazer em conhecê-la.
- O prazer é meu, . Obrigada pela iniciativa. – Agradeceu simpática e eu neguei com a cabeça.
- Não há de quê, é um prazer colaborar com a causa de vocês. já falou muito daqui. – Comentei, vendo-a erguer as palmas em rendição e sibilar um: “culpada”.
- Trish é coordenadora pedagógica do abrigo e faz-tudo em tempo integral. Se não fosse primeiramente por ela, eu não teria conseguido continuar frequentando a instituição.
- Nah, balela. Magnólia teria aceitado você mesmo se eu não tivesse falado com ela antes. – A garota sorriu e balançou os ombros. – Bem, eu adoraria bater papo com vocês, mas preciso voltar ao pátio. Se as crianças ficarem mais de dez minutos sem supervisão, aquele lugar explode! – Exclamou meio assombrada, fazendo-nos rir. – , você poderia, por favor, colocar as doações na sala onde as outras caixas estão?
- Claro! Daqui a pouco vou lá te ajudar.
- Não precisa se apressar, querida. E , obrigada novamente pela ajuda. Significa muito. – Trish sorriu e eu pude notar que ela trazia consigo um ar afável, quase maternal, que decerto lhe era extremamente útil em um ambiente como aquele.
- Fico à disposição para o que vocês precisarem. – Pontuei solícito e recebi um aceno simpático da mulher que não tardou a dar às costas e refazer o trajeto rumo ao destino preterido.
- Então, doutor ... – O tom de voz brincalhão de soou ao meu lado, levando-me a erguer uma sobrancelha e avaliá-la de forma curiosa, muito embora o diminuto repuxar no canto dos meus lábios revelasse que eu havia captado seu gracejo. – Já que você deseja tanto ajudar, pode começar me ajudando a levar o que você trouxe lá para dentro. – Sugeriu mostrando todos os dentes através de um sorriso aberto, ocasionando-me uma breve gargalhada perante sua expressão deveras exagerada e pidona.
- Está se aproveitando da minha bondade, ? – Indaguei satírico e a garota balançou os ombros, pousando uma de suas mãos na cintura à medida que me olhava de maneira esperta.
- O termo correto é: “Aproveitando as oportunidades”. – Corrigiu perspicaz. – Agora tire esse terno porque você irá fazer um esforcinho. – Intimou mandona e eu imediatamente levantei o cenho em puro divertimento ao captar o duplo sentido contido em sua frase, contemplando arregalar os olhos e abrir e fechar a boca diversas vezes ao se dar conta do que havia dito.
- Wow, isso soou meio errado... – Censurou-se, parecendo refletir a respeito da situação. Limitei-me a permanecer estudando-a curiosa, pendendo os lábios lateralmente enquanto me divertia com seu embaraço. – Eu não quis dizer... nesse sentido. Eu me referi a tirar o terno para que ele não sofra nenhum dano ou fique sujo, já que você provavelmente irá voltar para o escritório e não pode fazer isso estando todo empoeirado ou sei lá o quê. – Justificou atrapalhada, abanando as mãos no ar.
- Está pensando em mim sem o terno, ? Não acha que este ambiente é um pouco inoportuno para tal atitude? – Provoquei e mantive minha fisionomia divertida sem desviar os olhos dela, que cerrou os seus a fim de – tentar – me recriminar, o que claramente não surtiu efeito, levando em conta que a garota evidentemente segurava o próprio riso.
- Pare de pensar besteiras e abra logo esse porta-malas, . Não me irrite. – Bronqueou utilizando um falso tom zangado, enfim emitindo o sonido de seu ligeiro riso cômico conforme andava até a parte traseira do meu automóvel. Acompanhei-a e gargalhei brevemente por efeito de seu caráter espirituoso o qual comumente me inseria numa atmosfera plácida e agradável, tornando indiscutível o fato de que aquela garota era, sem dúvida alguma, a calma em meio ao meu caos.
Destravei o compartimento do bagageiro e me desfiz do tecido pesado que compunha minha vestimenta, colocando-o na cabine somente por aquele momento. Retirei a grande caixa de papelão posta ali e pegou a outra, indicando a trilha de concreto com a cabeça em um pedido mudo para que eu a seguisse.
- Como está o seu braço? Não vai lhe prejudicar carregar tanto peso? – Questionei mencionando o membro recém-contundido.
- Não. Já estou novinha em folha. – Assegurou ao passo que cruzávamos a ampla área tomada por crianças correndo de um lado para o outro. A gargalhada de misturou-se com o estrépito de gritos e risos eufóricos advindos dos pequenos que passavam entre nós, obrigando-nos a desviar deles como se fossem um campo minado. Eu não podia negar que a cena era, de fato, engraçada, o que me obrigou a rir também.
Adentramos a parte interna do abrigo e todo o desespero da garota ao meu lado fez – ainda mais – sentido. A estrutura comprometida das paredes era visível logo de cara. Fissuras, corrosões e focos de mofo tomavam conta de boa parte da tinta batida que possivelmente fora branca em um passado distante, estando agora tomada pelo desgaste proveniente do tempo; Manchas escuras comprometiam a estética do teto onde a degradação dos materiais danificava a resistência da cobertura, o que me levava a crer que a decisão de interditar a instituição fora totalmente correta. Aquele lugar necessitava de um reparo integral e urgente.
- É bem ruim, não é? – A voz de ressoou esmorecida através de seu questionamento retórico.
- A situação é complicada, mas decerto que não é irreversível. O correto seria que um engenheiro fizesse uma inspeção por toda a área. – Aconselhei e ela concordou, empurrando a porta da sala com a cintura para que pudéssemos passar. O cômodo muito se assemelhava a um almoxarifado destinado à armazenagem de variados utensílios, sendo aproveitado naquela circunstância para guardar os muitos caixotes, sacolas e bolsas repletas de cobertores e mantas acondicionadas no local.
- Pode deixar a caixa aqui no canto. – Falou, depositando a sua junto às demais. Fiz o mesmo e reparei que ela me admirava com um sorriso brando, atraindo minha atenção perante o gesto despretensioso. – Obrigada. Eu sei que você já escutou bastante essa palavra por hoje, mas não custa reforçar a gratidão. – Gracejou e eu ri fraco negando com a cabeça. – Nem acredito que já temos tanta coisa. – Varreu os olhos pelas doações e os voltou até mim logo depois.
- Você faz algo importante aqui, . O mérito é todo seu. Eu apenas colaborei. – Ressaltei, vendo o canto de seus lábios arquearem mais intensamente.
- Ontem eu passei o dia e a noite estudando, hoje fiz duas provas na faculdade e ainda tenho dois seminários para apresentar amanhã, estou um verdadeiro caco de exaustão, porém, é só chegar aqui que tudo ameniza. É realmente importante. – Complementou com um brilho nos olhos bonito de se ver. Era fascinante deparar-se com tamanha entrega em prol de uma causa tão nobre, e tal ato muito me recordou de como eu me sentia ao realizar assistência jurídica voluntária, atividade essa que eu lamentavelmente havia deixado em segundo plano desde que a minha vida virara um inferno.
- Te admiro por isso. Como anda a reta final do semestre? – Perguntei a medida que caminhávamos para fora da sala úmida, traçando o rumo de volta ao pátio.
- Acho que bem... Vou saber de fato na sexta-feira. Só consigo pensar nas minhas férias! – Clamou dramática e eu exprimi um risinho em virtude de sua ação teatral.
- Está mais perto do que longe, você sobrevive. Quem sabe não haja uma surpresa lhe esperando sexta à noite. – Joguei a frase no ar e a garota imediatamente virou o rosto para mim, encarando-me aturdida. Observei-a de soslaio e permiti com que um sorriso ladino brincasse em meus lábios, satisfeito por contemplar sua expressão que transmitia um misto de curiosidade e desorientação.
- Como assim?! Qual surpresa?!
- Chama-se surpresa por um bom motivo. – Adverti tranquilamente. Não precisei fitá-la para saber que ela me fuzilava com o olhar.
- Dê somente uma dica, então. Só uma! – Insistiu e avançou um passo à minha frente, acompanhando meus passos enquanto andava de costas ao mesmo tempo que me observava em expectativa. Ri e arqueei uma sobrancelha, sustentando seu contato visual de forma irredutível. Antes que me fosse possível formular uma resposta que a fizesse desistir de perseverar em sua insistência, senti meu celular vibrar no meu bolso, o que me fez descontinuar minha caminhada e retirá-lo dali sem demora, deparando-me com o número da Delegacia de Polícia no visor. refreou seu andar e apontou em direção aos fundos do abrigo.
- Lá é mais silencioso. – Aconselhou e eu agradeci, seguindo apressado até o lugar indicado.
- falando. – Saudei ao aceitar a chamada.
- Boa tarde, doutor . Aqui quem fala é o delegado Volkman.
- Boa tarde, excelentíssimo. A quê devo sua ligação? – Inquiri ao homem responsável pelo andamento do caso Zummack. Ferdinand Volkman era um dos melhores e mais requisitados delegados da área, tendo sido eleito por dois anos consecutivos como Profissional do Ano por meio da categoria jurídica.
- Estou entrando em contato para lhe informar que a cópia do novo laudo pericial o qual solicitou já está disponível, podendo ser retirada diretamente no Departamento de Polícia com o prazo de cinco dias úteis, contando a partir de hoje. – Comunicou prático e direto. Uma agitação fez-se presente em meu interior diante de tal informação, produzindo uma série de reflexões incessantes relacionadas ao possível conteúdo esclarecedor inserido no documento em questão.
- Agradeço a solicitude, delegado Volkman. Hoje mesmo passarei aí para retirá-lo.
- Certo. Tenha um bom dia, doutor .
- Obrigado. Um bom dia para o senhor também. – Encerrei a ligação e transpassei uma mão pela nuca, expelindo o ar de meus pulmões com certa força. A adrenalina de estar a um passo de me defrontar com uma prova a favor do meu cliente mexia com cada maldita célula do meu corpo, induzindo-me a premeditar meu próximo passo no caso que havia se tornado um jogo infernal cujo prêmio seria a absolvição de Lee Feldmann e a cabeça do desgraçado que arquitetara toda essa merda. Eu não comprava seu silêncio repentino, tampouco me sentia aliviado em razão de seu sumiço momentâneo, posto que não fazer ideia do significado de tal desaparecimento me colocava em uma posição a qual me causava repulsa: A de estar no escuro.
Esfreguei o rosto e respirei fundo mais uma vez, focando em um ponto aleatório do descampado daquele espaço atipicamente pacato, procurando anuviar minha mente inquieta. A ausência de nicotina gritou em meus pulmões, fazendo-me desejar urgentemente um cigarro. Hábitos ruins vêm com sensações ruins, afinal de contas.
- Mais problemas? – Uma voz conhecida soou despretensiosa atrás de mim. Girei o tronco e me deparei com Cassie sentada em um banco localizado sob uma gigantesca árvore, compenetrada nas funções de sua câmera fotográfica. Eu nem sequer a havia notado se aproximar. Coloquei minhas mãos em ambos os bolsos da calça social e lhe observei fotografar a lateral do muro cor de chumbo, deslocando seu olhos até mim após concluir o ato. – Não se incomode em responder, foi uma pergunta retórica. Eu já sei que a resposta é sim. – Findou cravando seu olhar ininteligível em meu rosto. Suspirei e maneei a cabeça em concordância.
- Apenas o usual. – Restringi minhas explicações àquela única frase e ela assentiu em compreensão. – Como você está, Cass?
- Esplêndida, como você pode notar. E você?
- Estou bem.
Silêncio.
Cassie afirmou com a cabeça novamente e pousou sua câmera sobre o seu colo, analisando-me calada. A única coisa que se ouvia eram os sons abafados dos gritos das crianças e o barulho da copa da árvore, que balançava agitada por obra da forte ventania, fazendo os galhos colidirem entre si.
- Não estou nem um pouco chocada por vê-lo aqui. – A mulher quebrou a ausência de diálogo com o tom de voz comedido, embora uma certa frieza estivesse mascarada por trás de sua face inexpressiva. – Eu sabia que o seu espírito filantrópico o levaria a vir até este lugar no momento em que lhe contei sobre ele. – Deixei com que um diminuto riso fraco escapasse através dos meus lábios devido ao seu jeito de referir-se a mim, continuando a fitá-la serenamente.
- É possível que o meu espírito filantrópico a tenha contaminado, Cassie. Não se esqueça que foi você quem me contou sobre as doações e inclusive colaborou por si só. – Rebati esperto, vendo-a arquear uma sobrancelha e empinar o nariz antes de dar de ombros.
- Que seja. Achei que a sua amiguinha houvesse lhe deixado a par da situação precária desse orfanato, já que aparentemente vocês estão bem próximos. – Alfinetou mordaz. Respirei fundo e fixei meus olhos nela, vendo-a me corresponder de forma cortante. – Não me encare com pena, . Eu não sou uma coitada. Acha mesmo que eu realmente estou surpresa com isso? – Indagou ácida. Tudo que eu não desejava era ter um embate sobre o que quer que fosse, e conversar com Cassie sobre mim e encabeçava o tópico de assuntos inoportunos para aquele momento.
- Eu não esperava que você fosse soltar fogos de artifício ao saber sobre nós, Cass. Só acho q... – Oh, então existe um nós? – A mulher me interrompeu com um riso sarcástico. Suspirei sonoramente, buscando calma do inferno para lidar com a situação. – Exatamente como previ...
- Foi totalmente inesperado, eu não sabia que as coisas nos levariam a esse patamar.
- Eu sempre soube. Você era o único desavisado que não reparava em como essa garota te olhava, . Por Deus, eu sempre te falei! – Seu riso zombeteiro ganhou mais força e eu não soube o que dizer. Permaneci calado durante alguns segundos, sentindo-me estranhamente injusto ao me colocar em seu lugar.
- Não pense que nosso término se deu por outro motivo senão por nossas divergências pessoais, por favor. Eu nunca quis te magoar, Cassie. – Expus verdadeiramente sentido acerca das circunstâncias.
- Não seja tolo, muito menos prepotente, . Nosso namoro não duraria mais do que durou, e tudo bem. Eu não estou nem aí para vocês dois, sinceramente. Quando eu lhe disse que me sentia grata pelo nosso término, não brinquei. Namorem, casem, tenham filhos e cozinhem biscoitos juntos, eu não dou a mínima. Só de saber que eu sempre tive razão, já me sinto ótima. Quer coisa melhor do que ter razão? Honestamente, não existe nada melhor do que ver o seu semblante quando você está errado. É revigorante. – Suas frases gritavam uma vaidade levemente cômica, contudo, não me importei. Não me encontrava apto a debater ou contestar. Me mantive sério e impassível, escolhendo, pela primeira vez, ter paz a ter razão. – Só me responda uma coisa: Você está apaixonado por ela? – Soou novamente. Tomei uma boa quantidade de ar e, sem hesitar, verbalizei o que já era óbvio para mim.
- Sim. Eu estou apaixonado por .
A expressão de Cassie não se alterou. Ela ergueu o cenho e assentiu indiferente, jogando os cabelos para o lado como lhe era habitual.
- Boa sorte e felicidades. – Soltou simplesmente e voltou a focar completamente em sua câmera. Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes havia respirado fundo, e fazê-lo novamente não fora nenhuma novidade naquele contexto.
- Cuide-se, Cass. Boa tarde.
- Boa tarde, . – Perfilei-a uma última vez e me retirei, atravessando o gramado esverdeado a fim de regressar para o pátio movimentado. O zunido oriundo das crianças agitadas fez-se audível novamente e, de longe, vislumbrei conversando com Archie, o qual possuía folhas de papel nas mãos. Aproximei-me de ambos e fui recebido pelo sorriso banguela do mais novo, que exibiu orgulhoso os desenhos retratados na superfície branca.
- Eu fui brincar de correr e esqueci de mostrar o dragão! – Levou uma mão até sua testa e apertou os olhos ao passo que negava com a cabeça, formalizando uma pose típica de um adulto preocupado. e eu rimos juntos ante a atitude do garoto. – Ó! Eu fiz sozinho! – Agachei-me à sua frente bem como havia feito num momento anterior e peguei o desenho, analisando-o com precisão.
- É um ótimo dragão, Archie. Bom trabalho! Gostaria de me contar mais sobre ele? – Questionei e o pequeno moveu a cabeça assiduamente em afirmação. Olhei para a garota que nos admirava em silêncio e trocamos sorrisos cúmplices antes de nos voltarmos ao artista à nossa frente.
- Ele é muuuuito poderoso e defende o castelo! Eu ainda não tive tempo de desenhar tudo, mas o fogo vai sair daqui – apontou para a cauda – e daqui – deslizou o indicador sentido à boca do animal, explicando tudo com extrema dedicação. – Aí eu vou fazer uma historinha onde ele ganha um prêmio porque defendeu o castelo direitinho. – Encerrou cheio de si. Aquela criança era, de fato, uma figura.
- Será uma história interessante, eu já estou curioso para vê-la. – Relatei vendo concordar com a cabeça.
- Você irá nos mostrar quando ela estiver pronta?
- É claro que sim, né! – Archie respondeu como se fosse óbvio, pousando as duas mãos na cintura de uma maneira excessivamente teatral e cômica.
- Então tudo bem, senhor desenhista. e eu vamos esperar até que tudo seja finalizado, não é? – A garota voltou-se para mim e eu assenti de acordo.
- Com certeza! Leve o tempo que precisar, grandes artistas precisam focar no próprio trabalho.
- É, eu sei. – O garotinho respondeu distraído ao mesmo tempo que admirava os traços estampados no papel. Exprimi outro breve riso e chequei meu relógio de pulso, constatando que logo meu horário de almoço acabaria.
- Preciso ir. – Comuniquei à , recebendo um maneio afirmativo como retorno.
- Ei, amigo. – Chamei Archie, assistindo-o erguer a cabeça do desenho para me encarar atento. – Eu tenho que ir embora agora. Espero vê-lo em breve para falarmos mais sobre heróis. – Disse e ele expôs o sorriso parcialmente desdentado outra vez.
- bom! - Então temos um acordo. – Fechei minha mão em punho e a suspendi, vendo o pequeno corresponder o gesto e encostar os nódulos nos meus em um toque cúmplice.
- Temos! A disse pra mim um dia que quando a gente combina alguma coisa, tem que cumprir. Você não pode desquebrar o combinado. – Alertou esperto e eu ri de sua palavra recém inventada, fitando a precursora da frase a qual sorriu e deu de ombros.
- E ela tem razão. Acordos feitos através de toques de mãos precisam ser levados a sério.
- Tudo bem, então agora eu acredito! – Exclamou enérgico e imitou o gesto anteriormente executado por mim, erguendo o punho fechado para que eu tocasse com o meu. Assim o fiz.
- Estou me sentindo meio deixada de lado aqui. – se queixou num falso tom magoado, atraindo nossa atenção.
- Nãããão, você não não! – Archie estendeu a mão fechada em sua direção e ela riu, executando o movimento do qual lamentara não fazer parte. – Agora faz com ela! – O mais novo pediu animado, cutucando-me freneticamente. Fixei minhas íris na garota e fui retribuído com um olhar divertido, levando-me a pender os lábios em um sorriso ladino. Levantei meu punho mais uma vez e encostou o seu ali perdurando nossa conexão visual. – Issoooo! – A voz do garotinho ressoou satisfeita diantei do que via e tal som fora o bastante para que rissemos novamente.
- Bom, então... Até mais, Archie. Não se esqueça do nosso acordo. – Falei ao me levantar. Bem como eu, também erguera o corpo.
- Não vou! - Archie, junte-se aos seus amiguinhos, sim? Irei acompanhar e já volto para brincar com vocês. – A garota pediu gentilmente, efetuando um afago nos cabelos do mais novo. O pequeno afirmou e saiu em disparada sentido à multidão, não sem antes girar parcialmente o tronco para acenar um "tchau" vibrante em minha direção, o qual fora imediatamente correspondido por mim. – Você sabe que de agora em diante ele irá esperar suas visitas, não sabe? Crianças realmente levam tudo em consideração. – A garota soou divertida, embora eu pudesse sentir os vestígios de seriedade sutilmente abrangidos em sua observação. Parei ao lado da porta do motorista e guardei ambas as mãos nos bolsos da calça, traçando os detalhes de sua face com os olhos.
- Sim, eu sei. Me agradaria muito voltar aqui caso não haja problema. – Declarei descansando um leve sorriso no canto da boca. Fui estudado de forma compenetrada pela figura espirituosa à minha frente, quase achando graça de seu jeito furtivo ao me avaliar.
- Uau, você sente mesmo bastante saudade de mim! Isso tudo é vontade de ficar perto? – Questionou zombeteira e eu arqueei uma sobrancelha diante de seu gracejo presunçoso, perdurando a diminuta curva em meus lábios que, de fato, sentiam falta dos dela.
- Eu tenho inúmeras vontades quando o assunto é você, , contudo, este não é o melhor lugar para verbalizá-las, tampouco para supri-las. – Avancei um passo e encostei minha boca em seu ouvido, experienciando a sensação satisfatória de percebê-la tensionar. – Sinta-se à vontade para imaginar o que eu quis dizer com isso e eu terei o imenso prazer em lhe explicar na prática. – Soprei alguns timbres mais baixos e me afastei minimamente apenas para olhá-la, deparando-me com seu semblante enrubescido o qual divergia da fisionomia ardilosa da garota que parecera captar e aprovar todos os significados englobados na frase.
- Você é um descarado, . – Acusou ao mesmo tempo que ria e negava com a cabeça.
- E você é linda. – Rebati, voltando a me aproximar dela. Pousei uma mão em sua bochecha quente e depositei um ligeiro beijo em sua testa, admirando-a fechar os olhos durante o ato.
Uma sensação reconfortante tomou conta do meu peito.
Eu não desejei entender a origem daquilo, somente desfrutei daquele sentimento singular que despertava meu instinto protetor a ponto de transformar toda sua plenitude no mais completo pavor ao imaginar algo de ruim acontecendo com . Tal possibilidade levou o meu sangue a fervilhar e correr mais rápido em minhas veias, criando uma atmosfera de angústia que fora exteriorizada através de uma inspiração profunda e prolongada cuja tensão emanada não passara despercebida pela garota parada rente ao meu corpo.
- Está tudo bem? – Questionou evidentemente preocupada conforme me examinava com certa apreensão. Dispersei os efêmeros devaneios que momentaneamente me infernizaram e afirmei, retomando o sorriso sereno a fim de lhe passar segurança.
- Só estava me recordando de que preciso passar na delegacia antes de voltar ao escritório.
- Aconteceu alguma coisa? – Tornou a perguntar ainda ressabiada e não foi necessário que ela verbalizasse sobre qual coisa havia se referido. Era evidente que o receio no que diz respeito às ameaças a rodeava e eu me odiei por isso. Me odiei por tê-la envolvido nessa merda toda, mesmo que indiretamente; Me odiei por presenciar sua preocupação comigo quando tudo que ela deveria fazer era preocupar-se consigo mesma e, sobretudo, me odiei por sentir culpa.
- Nada aconteceu, . Fique tranquila. Tenho apenas que buscar alguns documentos. – Esclareci com calma e a garota moveu a cabeça em compreensão. – Falo com você mais tarde. Cuide-se. – Lancei-lhe uma piscadela e abri a porta do carro, vendo-a retribuir o gesto. Liguei o carro e dei partida rumo à delegacia, ansiando por ter o laudo em mãos.

- Bridget, transfira todas as ligações para mais tarde, por favor. Estou ocupado até a segunda ordem. – Pedi à minha secretária, que assentiu prontamente. Entrei em meu escritório e sentei-me ali, abrindo o envelope com certa pressa. Varri o documento com os olhos atentos à procura da única parte que me interessava, encontrando-a sem maiores dificuldades.

INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA SEÇÃO TÉCNICA DE CRIMES CONTRA A PESSOA

[...]

"° Examinando-se o local, observou-se uma remota presença de cinzas da marca Insignia na região externa do pátio."

Uma onda de satisfação agitou meu interior ao ler aquele mínimo parágrafo.
Tudo o que eu necessitava estava relatado ali.
As peças começavam a se encaixar e eu não via a hora de virar a porra do jogo.

’s POV.

Eu já conseguia sentir o cheiro das férias.
A sensação de concluir todas as provas, trabalhos e seminários era indescritível, a liberdade soava como um presente após um semestre tão atribulado – em todos os sentidos possíveis –, misturando-se com o alívio por ter sobrevivido sem maiores danos diante de semanas extremamente estressantes e cansativas. Meus cadernos e livros foram objetos de tortura durante todos esses dias, e ainda que eu estivesse imersa num momento repleto de gratidão por ter concluído mais um período do curso sem surtar, quase dar às mãos ao Buda não isentava minha vontade de esquecer até mesmo que eu era alfabetizada. Mais do que sentir o cheiro das férias, eu desejava obter a certeza de que havia tido êxito em minhas notas, pois ficar de exame e ser obrigada a refazer qualquer prova que fosse representaria o meu passaporte direto para o inferno.
Atualizei o sistema da faculdade pela milésima vez naquela quinta-feira amena e bufei em frustração ao me deparar com as minhas grades vazias sem sinal de nota alguma. Enfiei o indicador no teclado novamente, esperançosa para, enfim, confirmar o início da minha temporada de descanso da vida universitária, fixando os olhos na tela do computador como se nele houvesse a descoberta da felicidade ou coisa parecida.
- Nossa, olha isso aqui! – Vicenzo inclinou a cabeça em linha reta, apontando para o dispositivo repleto de botões no qual eu anteriormente pressionava de modo contínuo. Franzi o cenho e repeti seu ato, analisando o conjunto de teclas em busca de algo errado.
- O quê? – Indaguei sem entender a motivação de seu posicionamento afetado e pasmo.
- Acho que o teclado está sangrando depois de levar tanta pancada do seu dedo. – Debochou satírico. Ri e rolei os olhos, refreando meu raciocínio de criar uma réplica à sua piadinha no instante em que encarei a página da universidade onde todas as lacunas encontravam-se preenchidas com números.
- Ah, meu Deus! MINHAS NOTAS SAÍRAM! – Exclamei mais alterada do que eu gostaria, agradecendo internamente pela ausência de clientes na loja.
- Hmm... Vejo um nove, um oito e meio... – O vocalista se intrometeu na minha frente e anunciou bisbilhoteiro. Afastei sua cabeleira da frente do monitor completamente afobada e grudei meus globos oculares ali com o coração saindo pela boca.
- Senhoras e senhores, aqui vemos uma espécie comum de universitarius desesperadus do qual assume uma personalidade desesperada nesta época do ano... – Vicenzo soou teatral igual a um guia de museu e eu não consegui conter uma gargalhada, correndo minhas íris através de cada linha com extrema atenção enquanto sentia meu interior se agitar em euforia.
Li a última ala de números e fitei a figura curiosa ao meu lado que me observava em expectativa à espera da tão esperada notícia:
- ESTOU DE FÉRIAS! – Comemorei em alto e bom tom, batendo palminhas frenéticas ao passo que fazia uma dancinha ridícula para celebrar o acontecimento. A risada engraçada do meu amigo fez-se audível e logo outra salva de palmas tomou conta do ambiente, abafando a melodia de alguma música do Pink Floyd que soava harmoniosa por entre o recinto.
- DISCURSO! DISCURSO! – Ele bradou tão animado quanto eu. Ri e apanhei o corretivo posto sobre o balcão na intenção de usá-lo como microfone, levantando-me da cadeira a fim de entrar na brincadeira.
- Bem, eu gostaria de agradecer primeiramente a minha sanidade por ter se mantido firme durante esse semestre do cão, admiro muito tamanha resistência. – Vicenzo soltou um "uhul" animado. Gargalhei e limpei a garganta, continuando com aquela cena ridícula, porém divertida. – Também quero deixar o meu muito obrigada à cafeína, pois sem ela eu teria sucumbido a vontade de jogar tudo para o alto e optado por dormir pelo resto dos meus dias. – O vocalista riu audivelmente e pegou o corretivo da minha mão à lá Kayne West e Taylor Swift no VMA.
- E por último, mas não menos importante, ela agradece a mim e ao meu rostinho perfeitamente esculpido por alegrar sua vida e lhe trazer inspiração para viver neste mundo maléfico. De nada, raio de sol. – Ele inclinou moderadamente seu tronco e pousou uma mão no peito forjando uma pose emocionada. Mais uma risada fora exprimida por mim. Neguei com a cabeça e voltei a me sentar, vendo-o fazer o mesmo. Suspirei aliviada pela conclusão do semestre, sentindo um quentinho gostoso no coração ao ver todo o meu esforço sendo recompensado com boas notas. Eu estava orgulhosa. Olhei para o lado e topei com Vicenzo me estudando de modo demasiado sorridente durante o tempo que apoiava sua cabeça em uma de suas mãos, exibindo o característico sorriso de coringa que parecia estar a ponto de rasgar suas bochechas.
- O que foi? – Perguntei correspondendo o repuxar de lábios espirituoso.
- Amo ver rostinhos contentes. – Respondeu de modo simples. – Ainda mais quando o rostinho em questão pertence a um amigo. Sou uma espécie de dementador invertido, lindinha. Meu alimento é contribuir com a felicidade das pessoas, e não sugar. – Acrescentou cheio de si, levando-me a rir de seu jeito descontraído.
- Você engoliu um ursinho carinhoso? Quanto amor, Vivi! – Satirizei, recebendo um dedo do meio como resposta.
- Tsc. Não dá mesmo para exercer meu espírito evoluído com você. – Lamentou de forma acusadora enquanto eu me mantinha rindo.
- Perdão. Mas falando sério... Obrigada. Você sabe que o seu apoio é essencial.
- Eu sei. – Admitiu convencido e deu de ombros. – E mais essencial do que o meu apoio, é encher o rabo de álcool para exaltar mais um passo dado rumo à graduação. Precisamos começar as suas férias em grande estilo. – A sugestão do vocalista mais parecera uma exigência, contudo, não me importei. A ideia não era ruim, afinal de contas.
- Estou dentro. Meu ser carece de algumas doses de felicidade.
- Assim que eu gosto! – Vicenzo suspendeu uma mão e eu bati minha palma contra a sua, formalizando nossos planos com um high five determinado.
Voltei minha atenção à planilha do estoque após toda baderna protagonizada por mim e pelo roqueiro expansivo e foquei no meu trabalho, agora concedendo cem por cento da minha atenção para o Excel e aos dados apresentados nele.

O clima ameno havia durado menos do que um intervalo de tempo de vinte e quatro horas. Bastou que o cair da noite assumisse a vastidão do céu para as nuvens carregadas darem às caras, trazendo com elas uma vigorosa chuva nada surpreendente, levando em conta que eram raros os dias livres das corriqueiras pancadas d'água.
Ajeitei o notebook no colo e abri meu e-mail, movendo meu olhos diretamente para o assunto de um em particular.

Instituto PsicoViver Convocação para processo seletivo Qui 13:57

Endireitei a postura e cliquei no correio eletrônico tal qual um raio, sentindo minha adrenalina ir à mil.
Que seja uma entrevista de emprego, por favor, que seja uma entrevista de emprego.

“Boa tarde, .

Obrigada pela sua candidatura à vaga de Estagiário de Recursos Humanos na PsicoViver e por toda a disponibilidade. Infelizmente, currículo não foi selecionado para a fase de entrevistas.

Fique atenta à nossa página de recrutamento para conhecer as nossas novas oportunidades.

Com os melhores cumprimentos,

Suzann Flermann - Coordenadora de Recrutamento e Seleção."

Minha animação se foi tão rápido quanto veio.
Suspirei frustrada e larguei o computador compacto no canto da cama, tornando a me ajeitar debaixo das cobertas. O desânimo se misturava com a sensação de ter tomado um belo e repentino banho de água fria. Eu poderia facilmente fazer uma coleção de e-mails semelhantes àquele, cujo conteúdo eu já sabia de cor e salteado. O mercado de trabalho estava disputado e disso eu não tinha dúvidas, entretanto, não ser selecionada nem para uma entrevista colocava a prova todo o meu futuro profissional, deixando-me imersa a um estresse sem fim. Ter o emprego na R&R me ajudava muito, era um bom ofício e me dava liberdade de fazer o meu próprio itinerário, contudo, já não me servia mais. Eu almejava crescer, desenvolver minhas habilidades, sentir na pele os desafios da minha área e construir uma carreira sólida, no entanto, a cada currículo recusado, tal desejo reduzia-se a pó. Inspirei profundamente a fim de abandonar tais pensamentos destrutivos e apanhei meu celular posto sobre o criado-mudo, estranhando a falta de resposta advinda de , que mal recebera a mensagem enviada por mim a horas atrás. Rolei a interface do aplicativo e não foi necessário que eu procurasse demais, pois logo minha conversa com surgiu dentre todas as outras. Ignorei a idiotice remetida ao que eu estava prestes a fazer e selecionei sua janela somente para reler nosso breve diálogo ocorrido há poucos minutos.

"Adivinha quem está oficialmente de férias?????"

"Sua animação não deixa margem para dúvidas, haha. Fico feliz, . Parabéns!"

"Obrigada :) vou me deitar agora, estou cansada. Foram muitas emoções para um dia só. Boa noite!

"Tenha uma boa noite, linda. Algo me diz que nos veremos amanhã, aconselho que não faça planos."

"Céus, !!!!! Eu sou curiosa, não faça isso! O que você está tramando?!"

" ;) "

Um sorriso débil moldou-se em meus lábios ao passo que o meu coração batia à mil por hora.
A curiosidade me corroía e agitava todas as partes do meu corpo. Eu odiava suspense, ainda mais quando se tratava de um encontro do qual eu não sabia muito bem se realmente poderia ser considerado um. O que faríamos? Para onde iríamos? Nós iríamos a algum lugar?! Céus!
Meu anseio por obter conhecimento com relação ao programa de amanhã só não se encontrava maior do que a onda de felicidade que me atingia perante às circunstâncias. Eu reprimia toda e qualquer expectativa imposta acerca do que e eu éramos, pois atribuir um rótulo não cabia no momento atual, todavia, não dava para evitar me sentir como uma boba frente a todas as coisas que vinham se sucedendo entre nós dois.
Vê-lo no abrigo exercitando sua solicitude e benevolência a respeito do quadro complicado em que a instituição se encontrava não fora surpreendente, mas sim, admirável. Ele não fazia esforço para ser uma pessoa incrível e eu já não podia relutar contra a intensidade dos meus sentimentos a seu respeito. Possuir ciência de toda a dificuldade que se aproximava em todos os âmbitos possíveis não me abalaria. Respirar fundo e cultuar um bom caráter teria de ser o bastante por agora.

Meu corpo implorava por um banho e por descanso.
O dia na loja havia sido cheio e, bem como antigamente, trabalhei sozinha, cobrindo a ausência do vocalista que tocaria em outra cidade com sua banda. Da mesma maneira que Vicenzo, eu me sentia absurdamente feliz ao ver meus amigos obtendo êxito em suas aspirações na vida, fato que me recordou de . Enquanto estava à caminho de casa e desfrutava do milagre de pegar um ônibus vazio eu tentei, pela centésima vez, falar com minha amiga. Ela andava extremamente esquisita e não saber o que lhe causava tamanha estranheza me deixava de mãos atadas, visto que eu nunca tinha presenciado nada parecido vindo dela. Toquei no ícone de chamada e, enfim ouvi um ruído do outro lado da linha antes do incomum timbre abatido ressoar através do celular.
- Oi, sweetie.
- Olá! Como você está?
- Bem, e você? – Soltei um suspiro resignado e toquei as têmporas. Ela não desabafaria assim tão fácil, de qualquer forma.
- Bem também! Eu te liguei e enviei inúmeras mensagens, estava preocupada.
- Desculpe, . Fiquei atarefada com a faculdade e com o trabalho, não tive cabeça para falar com ninguém após as provas. – Confessou deixando transparecer seu cansaço.
- Não se desculpe, mi amor. Eu entendo. Você foi bem? – Uma súbita mudez fez-se presente em meio à chamada. Tirei o aparelho do ouvido e encarei a tela acesa com o intuito de checar se continuava na linha, colocando-o de volta ao local anteriormente posicionado depois de obter minha confirmação.
- Ah, sim... Quer dizer, fui bem em uma ou outra. Fiquei de exame em três matérias. Estou uma pilha de nervos. – O constrangimento em sua voz era quase palpável e eu instantaneamente me senti mal, afinal, era visível que minha amiga encontrava-se esgotada, e precisar estudar novamente para três provas não chegava nem perto de ser o que ela necessitava no momento.
- Os testes realmente foram bem difíceis esse semestre, não se culpe. Você sabe que vai tirar isso de letra, não sabe? Eu posso te ajudar, inclusive. – Busquei confortá-la de alguma forma, ainda sem saber muito bem o que dizer ou fazer para ajudá-la. sempre passou direto e nunca teve problemas com suas notas, e a julgar pelo cenário atual, não seria exagero supor que essa reviravolta se deu por obra de seu estágio demasiado exigente.
- Obrigada, ... Eu gostaria de conversar mais, mas vou dirigir agora. Podemos nos ver no domingo, o que acha?
- Claro, acho ótimo! Combinamos direitinho mais tarde, também estou indo para casa. – Comuniquei já descendo do ônibus rumo ao condomínio.
- Certo... Até mais, sweetie. Obrigada novamente pela força.
- Não agradeça. Nós acabaremos com esse seu desânimo no domingo! – Exclamei animada, ouvindo-a rir. – Até logo, mi amor. Vá descansar. – Encerrei a chamada e adentrei os portões da mansão dos , notando que apenas o carro utilizado por Barret encontrava-se estacionado na garagem. Segui até a cozinha e a encontrei encostada à pia imersa em seu próprio mundo enquanto passava os olhos por um livro de receitas. Soltei uma risadinha e murmurei um "psiu", ato que a levou a desviar sua atenção da folha de papel e depositá-la em mim.
- Oi, filha. Que bom que você já chegou!
- Nem me fale... Estou morta! Aparentemente todo mundo resolveu comprar discos hoje. – Fiz uma careta cansada e a mulher riu.
­ Vai sair hoje? – ­Interrogou interessada.
- É uma ótima pergunta, dona ... – Disse, refletindo sobre o aviso de na noite de ontem. Minha mãe transcorreu as íris atentas ao longo do meu rosto como se desejasse me decifrar e eu me remexi incomodada, encarando um ponto aleatório para me recompor. – Não tem ninguém em casa? – Questionei ao me recordar da ausência dos veículos do senhor e da senhora na garagem.
- O senhor Henrico ainda está no escritório e a dona Kyara foi para uma audiência durante a tarde. Parecia sério, pois ela saiu daqui tal qual um furacão. – A mulher contorceu a face numa ligeira careta engraçada e eu a acompanhei, tremendo só de imaginar Kyara no auge de seus nervos aflorados.
- Temo por quem for enfrentá-la. – Declarei realmente compadecida com a pobre alma desconhecida, fazendo a mais velha à minha frente rir. – Bem, vou para casa. Meu ser clama por um banho.
- Tudo bem, filha. Tem comida na geladeira. Não pretendo demorar aqui. – Avisou e eu assenti, dirigindo-me até a porta dos fundos por onde me retirei sem demora. Atravessei o descampado úmido com todo cuidado do mundo para não escorregar, recebendo a lufada de ar fresco advinda do início do anoitecer antes de notar a diferença de temperatura no segundo em que coloquei os pés na sala. O bipe do meu celular anunciou que uma nova mensagem havia chegado ao ecoar abafado dentro da minha bolsa, mal me dando tempo de esparramar o meu corpo no sofá. Puxei-o dali de qualquer jeito e senti o meu coração pular assim que encarei a tela de bloqueio, conduta comum e involuntária sempre que eu avistava o nome de entre as notificações. Abri-a sem rodeios e o sorriso que se formou em meu rosto poderia até mesmo rasgar minhas bochechas.

"Presumo que você não tenha esquecido que tem um compromisso comigo hoje, srta. Ferrer."

Eu, de fato, parecia uma idiota. Céus, eu era uma completa pateta, no entanto, não dei a mínima por provavelmente estar fitando o aparelho em minhas mãos com um sorriso débil ao mesmo tempo que digitava uma resposta para o advogado cheio de mistérios.

"Eu não levei aquela mensagem muito a sério, para falar a verdade..."

Enviei e sua réplica não tardou a chegar.

"Tudo o que eu falo deve ser levado a sério, . Fique pronta, pedirei que Barret te leve até o meu apartamento daqui a uma hora."

Mas que diabos...?

"Barret? Por que ele? O que você está tramando, ? Eu não sei qual roupa colocar!"

Ah, meu Deus. Eu ia explodir de curiosidade. Endireitei minha postura no sofá e gargalhei alto quando li sua resposta maldosa.

"Eu gosto muito quando você não veste nada, mas posso cuidar disso depois. Coloque algo normal, babe. Te vejo daqui uma hora."

"Algo normal". O que era algo normal?
Levantei do móvel estofado num pulo e corri em direção ao banheiro, despindo-me depressa e entrando no chuveiro com a mesma velocidade para tomar o banho mais rápido do Livro dos Recordes do Guinness. Sequei o cabelo e selecionei as peças de roupa que eu vestiria tudo ao mesmo tempo, trajando-as de maneira desajeitada em razão de minha pressa desmedida. Fiz uma maquiagem sutil e peguei meu casaco, sendo observada de maneira divertidamente questionadora por minha mãe, que aparentava ter acabado de chegar.
- Posso saber aonde você vai, mocinha? – Perguntou com a sobrancelha arqueada, embora seus lábios denunciassem o repuxar contido neles. Eu não queria mentir. Droga, eu não precisava mentir. Balbuciei uma resposta para a sua indagação e abaixei os ombros, soltando um suspiro de rendição. – Nós conversaremos sobre isso depois, tudo bem? Pode ir. Só me dê notícias. – Meus olhos se arregalaram e meu estômago afundou. Abri e fechei a boca em completo desatino, não entendendo absolutamente nada do que havia acontecido ali. Franzi o cenho e balancei a cabeça em busca de uma frase plausível para dar e ela, entretanto, minha mente não ajudou. De longe pude ouvir o motor do carro reverberar, anunciando que Barret estava a minha espera. Fitei o semblante sereno da mulher diante de mim à procura de qualquer reação que fosse, mas não encontrei nada. – Vá, . Já falei que vamos conversar em outro momento. – Eu sentia as palavras entaladas em minha garganta, contudo, por algum motivo, não conseguia soltá-las. Pisquei aturdida e limitei-me a manear a cabeça em concordância, deslocando meu corpo inerte através de passos robóticos rumo ao encontro de Barret, que me aguardava parado ao lado da porta do passageiro, bem como eu imaginei. Tomei uma boa quantidade de oxigênio e expeli com intensidade, delineando um sorriso amigável ao homem do qual retribuiu o ato.
- Boa noite, . Hoje eu irei servi-la. – Expôs cortês, abrindo a porta do automóvel para mim. Ri e neguei com a cabeça, balançando as mãos em recusa.
- Por Deus, Barret. Não precisa disso. – Proferi sem graça e ele riu.
- Ordens são ordens, senhorita. Queira se ajeitar, por favor. – Insistiu, indicando a parte interna do veículo com uma mão. Dei-me por vencida e agradeci, entrando logo em seguida. Olhei em volta e deixei meu queixo cair com o interior daquele carrão, sentindo-me cada vez mais esquisita por estar ali naquelas circunstâncias. O homem sorridente ocupou o assento do motorista e deu partida enquanto eu me pegava imaginando o que ele estaria pensando a respeito daquela cena incomum. Me mantive calada ao longo de todo o trajeto, cutucando meus dedos em puro nervosismo por não saber o que pretendia com tudo aquilo. Não demorou muito para que eu reconhecesse a fachada luxuosa do condomínio do homem em questão e logo Barret posicionou-se do lado de fora, abrindo a porta como mandava o figurino.
- Obrigada. – Falei agradecida.
- Que isso, menina. Tenha uma ótima noite. – Desejou afável e eu sorri um tanto quanto sem jeito, acenando um tchau com as mãos antes de tocar o interfone para ser anunciada. Os portões foram abertos e eu dei uma última olhada no motorista amistoso, assistindo-o acelerar após a minha entrada no elegante prédio. Respirei e inspirei incontáveis vezes no decorrer do percurso até a cobertura pertencida a , executando a ação pela última vez antes de tocar a campainha do apartamento. O latido enérgico de Bento me denunciou com antecedência, fazendo-me gargalhar brevemente. O "clic" da porta soou suave e a figura estonteante e absurdamente cheirosa do advogado surgiu instantaneamente, levando-me a conter um suspiro ridículo. Embora ele trajasse roupas normais, o conjunto da obra deixava-o lindo por si só. A camiseta preta marcava seu tronco bem delineado e a calça branca de moletom completava seu ar casual, e eu decidi naquele minuto que amava vê-lo daquela forma. Fui explorada de cima abaixo por seus olhos analíticos, apesar de também não estar vestindo nada demais. Meus pelos se eriçaram somente frente à sua ligeira avaliação precisa e a cereja do bolo deu-se por seu sorriso ladino que combinava perfeitamente com a sua fisionomia mordaz.
- Boa noite, . – Seu timbre grave e rouco soou como música para os meus ouvidos.
- Boa noite, . – Respondi utilizando do mesmo tom sério. Não demorou muito para que ambos ríssemos daquela formalidade teatral, e antes que eu pudesse raciocinar, senti um puxão firme e forte em minha cintura junto ao baque gostoso do meu corpo contra o de , que pousou os lábios macios sobre os meus em um selinho demorado enquanto sorríamos entre o gesto. Por fim, permiti com que o suspiro bobo se manifestasse. Separamo-nos sem demora e outro baque atingira o meu corpo, agora provindo do Pastor Alemão enlouquecido por atenção. Ri e me equilibrei, abraçando-o de modo efusivo.
- Oi, meu amorzinho! Que saudade! – Disse animada demais, escutando o homem atrás de nós gargalhar. Bento movimentou as orelhas e me encarou enérgico, deslizando sua língua pela extensão da minha bochecha sem que eu fosse capaz de evitar o gesto de amor lotado de baba. – Arghhh, seu danado! Eu achei que um abraço fosse o suficiente para nós dois! – Reclamei virando o rosto a fim de me esquivar de outro ato carinhoso do cão amoroso. A gargalhada de ganhou mais intensidade e eu girei a cabeça para repreendê-lo, mesmo que eu estivesse rindo tanto quanto ele. Bento tirou as patas do meu colo e iniciou uma corrida entusiasmada por todo o apartamento, enfim desistindo de me dar um banho de baba.
- A relação de vocês anda cada vez melhor. – Zombou, fitando-me satírico com o corpo apoiado na pilastra da sala e os braços cruzados sobre o peitoral.
- Nós nos entendemos. – Dei de ombros e ele exprimiu outra breve risada, assentindo devagar.
- Eu quero muito saber a razão de todo esse suspense, mas tenho que lavar o meu rosto primeiro. Você tem poucos minutos para pensar em um modo de me explicar tudo. – Ameacei com o dedo em riste. O advogado ergueu o canto do lábio e fez o mesmo com uma sobrancelha, encarando-me daquele jeito que eu amava e odiava na mesma proporção.
- Fique à vontade. Não quero beijar o Bento por tabela. – Debochou outra vez. Prendi o riso e cerrei os olhos em sua direção, encaminhando-me para o banheiro localizado naquele mesmo andar. Passei uma água na bochecha sem me demorar e retornei ao cômodo, reparando que não encontrava-se ali. Varri o local com os olhos sondando seu paradeiro, não obtendo sucesso. Coloquei minha bolsa em cima da mesinha de centro e me ajeitei no sofá mais confortável que eu já havia visto na vida, sendo acompanhada pelo Pastor Alemão que deitou-se ao meu lado. Tirei meus sapatos e estirei meu corpo no assento estofado, aconchegando-me junto ao cachorro e abraçando seu pelo fofo. Eu não fazia ideia de que estava tão cansada até sentir o meu corpo inteiro formigar.
- O que está acontecendo aqui? – A entonação cômica pertencente ao advogado tomou conta do ambiente. Abri os olhos e me deparei com sua figura imponente observando a mim e ao seu cachorro de maneira engraçada.
- Estou me energizando após uma semana turbulenta de provas. – Falei simplesmente sem me mover e o homem riu. Foquei meu olhar em e franzi o cenho ao notar que ele escondia algo atrás de suas costas. Tal constatação pareceu ser captada por , pois logo minha dúvida foi sanada quando seu braço retornou à posição correta, exibindo consigo um buquê de rosas do qual parecia ter sido tirado de um conto de fadas. Pisquei algumas vezes sem compreender muito bem o que via e voltei a me sentar, encarando o advogado com a maior cara de nada já vista. O canto de sua boca continuava pendido para o lado e a sua fisionomia era tranquila, quase serena. Enquanto uma mão escondia-se no bolso da calça, a outra segurava o conjunto de flores de modo despojado.
- Pode pegar, se quiser. É seu. – Despertei do meu estado de torpor e sorri completamente abobalhada, levantando-me do sofá ainda meio aérea. Apanhei o buquê e o vislumbrei extasiada com o coração a ponto de sair pela boca. Ergui meus olhos e estabeleci um profundo contato visual com o homem que examinava com zelo.
- Eu... Nossa! Elas são lindas! Não sei o que dizer. – Soltei meio perdida e ele riu fraco. – Obrigada. – Deslizei minha mão livre em sua nuca e colei meus lábios nos seus de súbito, sentindo-o contornar minha cintura com seus braços rijos e determinados. Sua língua deslizou sobre a minha com calma e nossas bocas moveram-se igualmente sem pressa. Resfolegamos entre o beijo e eu firmei meus dedos em meio aos seus cabelos ao passo que as mãos decididas do advogado apertaram a pele sob minha camiseta, fazendo-me exprimir um grunhido baixo. Dei um pequeno impulso para me equilibrar melhor e pisei em falso, quebrando totalmente o clima ao pender o corpo para trás e cair de costas no sofá num baque mudo, trazendo e as rosas comigo e transformando a cena anteriormente romântica em um desastre total.
- Você deveria vir com um aviso de perigo. – O advogado satirizou rindo, rolando seu tronco para sair de cima de mim.
- Meu desastre natural é um charme. – Ergui o corpo e coloquei o buque cuidadosamente sobre a mesinha junto a minha bolsa, aninhando-me no peitoral do homem ao meu lado em seguida.
- Desculpe por não ter ido lhe buscar. – Começou e eu o fitei. – Vim direto do trabalho para preparar nosso jantar. – Sorri derretida e pousei minha mão em seu rosto, executando uma leve carícia ali.
- Acha mesmo que eu liguei para isso? , olha só o que você fez! Eu amei! – Afirmei encantada, vendo um sorriso satisfeito moldar-se em seu rosto.
- Fico feliz. Foi uma forma de lhe parabenizar pela conclusão do semestre na faculdade.
- Obrigada. De verdade. – Disse, abraçando-o como se a minha vida dependesse disso. O homem entrelaçou deus dedos nos fios dos meus cabelos e iniciou um afago reconfortante, depositando um beijo em minha testa.
O silêncio instalou-se ali e, após bons minutos, resolvi quebrá-lo.
- Sobre o que você falou com relação a ir ao abrigo novamente... Eu iria adorar. – Confessei de súbito. O advogado inclinou a cabeça para baixo e me olhou repleto de seriedade.
- Eu não quero de forma alguma invadir o seu espaço, . Voltar lá será um prazer, desde que você esteja realmente de acordo com isso.
- Pare de bobeira. Se eu estou dizendo que iria adorar, é porque iria mesmo. Archie gostou de você. – Disse, lembrando do garotinho que não tardou a perguntar se voltaria ao abrigo logo que o homem fora embora de lá. – Só não quero falar a respeito da situação financeira da instituição. Não agora. – Admiti e o advogado concordou. Eu ainda não havia tido tempo para refletir acerca do assunto e ele era delicado demais para ser tratado de maneira leviana. Não era hora de permitir com que o meu orgulho tomasse frente da situação e eu sabia muito bem disso, afinal, nada daquilo era sobre mim. Trish e Magnolia precisavam ser comunicadas a respeito de tudo antes de uma decisão ser tomada.
Fixei meus olhos nas rosas vermelhas e bem cuidadas conforme prosseguia com as carícias em meus cabelos, sentindo cada parte do meu ser confirmar que eu era apaixonada por absolutamente tudo que o remetia.
De súbito me lembrei da cena protagonizada por mim e por minha mãe horas mais cedo, o que me levou a considerar que ela já sabia o que andava acontecendo entre mim e o filho de seus patrões. Aos poucos, todos pareciam se dar conta do que ocorria, e tal constatação me conduziu a um sentimento de culpa ao chegar em um nome em especial: .
A última coisa que eu desejava era começar um envolvimento com alguém estando emaranhada em uma rede de mentiras e omissões, a sensação só piorava ao avaliar as circunstâncias e colocá-las em tópicos mentais, onde meu bom-senso avisava que não merecia estar no escuro quanto ao meu antigo relacionamento com seu melhor amigo. Não era justo. Eu não gostaria que me escondessem tal informação, e me colocar em seu lugar foi o pontapé necessário para que uma coragem repentina assolasse meu corpo e controlasse meus movimentos e ações. Afastei-me dele e me sentei, recebendo um olhar questionador em resposta a minha atitude. Minhas mãos começaram a suar e o meu coração tornou a acelerar, todavia, agora por um motivo diferente.
- Algo errado? – O advogado também aprumou a postura, contemplando-me preocupado. Respirei fundo e tentei ignorar o tremor que começava a se manifestar em mim.
- Eu tenho que conversar com você sobre um assunto. – Comecei sem vacilar e notei a expressão séria de ganhar mais intensidade. O toque estridente provindo de algum celular rompeu através do ambiente tenso e eu não sabia se comemorava ou lamentava, haja vista que a coragem havia se dissipado junto aos sons do ringtone. Assisti o homem tirar seu aparelho do bolso e atendê-lo com um vinco entre as sobrancelhas, gerando um receio imediato que subiu pela minha espinha em forma de arrepio.
- Oi, pai. – Suspirei aliviada à menção do termo pai, no entanto, o alívio não durou por muito tempo. empalideceu e sua fisionomia encontrava-se assustada. – Como assim? Onde foi isso? Onde ela está? [...] – Estou indo praí. – Finalizou a chamada aturdido e se colocou de pé rapidamente. Fiz o mesmo, tocando-lhe o rosto a fim de fazê-lo olhar para mim.
- O que aconteceu, ? – Perguntei preocupada.
- Minha mãe está no hospital.





Continua...




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Nota da autora: Caso alguém tenha interesse em participar, o link do grupo da fic está logo aqui embaixo. Posto muitas coisinhas legais lá (e spoilers, rs), portanto, todos serão bem-vindos :)
Grupo da Fic