Última atualização: 12/03/2022

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Capítulo 23

"Nós temos algum tipo de magia, baby. O que quer que isso seja, eu andarei com você." - Walk With You - Janelle Kroll.


’s POV.

Existia uma linha tênue entre o aborrecimento e a satisfação moldados no semblante vaidoso de Cassie, seus olhos analíticos pareciam perfurar os meus ao transmitir um desdém velado por sua fisionomia indiferente a qual beirava à frieza, e tal mistura de sentimentos e emoções tornava incompreensível o significado por trás de toda aquela avaliação. A mulher alternou o olhar de mim para uma última vez antes de aprumar a postura e jogar os cabelos sempre muito bem arrumados para o lado, desviando sua atenção de nós a fim de iniciar sua caminhada através da vasta extensão de concreto desgastado, carregando consigo seus materiais de trabalho. Fitei a garota ao meu lado e ela correspondeu o gesto enquanto intercalava as olhadas de mim para Archie, cuja animação para falar sobre desenho permanecia a todo vapor.
- (...) vou procurar aquele dragão que eu fiz, pera aí! – O garotinho exclamou eufórico, não tardando a sair correndo pelo trajeto que Cassie percorrera instantes atrás. Ri fraco e ergui meu corpo, sendo acompanhado por .
- Ele gostou de você. – Comentou expondo um sorriso sereno nos lábios convidativos, encarando a área de acesso à parte interna do recinto, onde a pequena figura agitada de Archie atravessara feito um foguete.
- É recíproco. – Afirmei, realmente tocado pela simpatia do garoto. – Agora compreendo a razão de você ser tão apegada a ele. – Comentei atraindo a atenção da garota, que sorriu mais abertamente devido a minha constatação.
- Não tem como não ser. – Concluiu sorridente. Assenti e reparei-a direcionar as orbes atentas até o Audi branco recém estacionado mais à frente, não se demorando a fazê-lo. Apesar de sua tentativa de concluir o ato sem ser notada, tal gesto não passara despercebido por mim.
- É uma grande coincidência Cassie estar desenvolvendo uma matéria sobre este abrigo em questão. – Aleguei ainda um tanto quanto surpreso com o fato, varrendo o local com os olhos conforme me dava conta de sua estrutura defasada.
- Sim. – respondeu, fazendo-me tornar a encará-la. – Ela é uma ótima profissional e está bem empenhada, embora este lugar não lhe seja familiar. – Observou, voltando a curvar os lábios em meio a um sorriso singelo. – Confesso que fiquei embasbacada quando a vi trazer tantas doações para cá, foi uma bela surpresa. Fora que essa matéria é uma oportunidade de ouro para que situação da instituição ganhe visibilidade. – Completou com o olhar vago no formigueiro de crianças espalhadas pelo pátio. Encarei-a e tive uma visão parcial de seus belos traços instigantes, percebendo que sua atitude alheia revelava um incômodo velado pela maneira vaga com que a garota as observava.
- Tenho a impressão de que algo a está preocupando. – Analisei, tendo como resposta um suspiro enfadado. torceu o nariz sutilmente e seu ato só comprovou as minhas suspeitas.
- As coisas não andam fáceis por aqui... O abrigo corre o risco de fechar. – Soltou sem delongas, direcionando suas íris brilhantes até as minhas. Um lampejo de tristeza perpassou por ali e eu imediatamente me senti mal. Mal pelas crianças, mal por saber o que aquela informação implicava e, sobretudo, mal por vê-la daquela forma.
- Como assim? O que está havendo?! – Indaguei, compartilhando de sua preocupação.
- A estrutura da instituição está quase que totalmente comprometida. Há infiltrações em grande parte dos cômodos, as crianças sofrem pelo frio e pela precariedade nas comodidades da área interna, tudo isso se torna prejudicial a elas. A diretora daqui já tentou diversos empréstimos para que a reforma possa ser feita, entretanto, todos são recusados. A integridade física dos pequenos está posta em risco, se nós não encontrarmos uma maneira de conseguir a quantia necessária para liberar o empréstimo e começar a reforma, irão interditar e fechar o estabelecimento. Nos deram um prazo de dois meses. – Outro suspiro fora expelido pela garota de ombros baixos e expressão desanimada. Eu me sentia dolorosamente afetado em razão do que havia ouvido e presenciar quão unidos todos daquele lugar pareciam ser só piorou o meu estado. Percebendo que ela continuaria, me mantive calado, estudando-a com cuidado. – Estamos planejando uma festa de arrecadação de fundos, espero que dê tudo certo.
- De quanto é essa dívida?
- Cinco mil. Óbvio que a reforma demanda muito mais dinheiro, entretanto, quitar a dívida já nos possibilita de contar com o empréstimo para iniciá-la, talvez até concluí-la. – Explicou esperançosa e eu assenti. Era impossível não se revoltar diante de tamanha injustiça. Eu fui criado em um mundo no qual esbanjar luxo e gastar fortunas em superficialidades ditava como você seria reconhecido pelo meio, e apesar de deter um ódio profundo pela vaidade implicada nessa questão, possuir consciência de que eu usufruía dos meus privilégios quanto pertencido a um grupo de alto poder econômico me fazia sentir um hipócrita maldito. Enquanto pessoas do meu círculo social gastavam esta quantia em uma noite, crianças corriam risco de perderem o teto que lhes abrigava pela falta do mesmo valor.
- Eu posso ajudar, . – Disse, vendo-a franzir o cenho em confusão. – Não me importaria em doar essa verba, assim vocês teriam ao menos o dinheiro do empréstimo. – Ao contrário do que eu esperava, a garota não respondeu de imediato. Seus olhos se desconectaram dos meus e focaram no chão durante alguns segundos, retomando a conexão logo em seguida.
- ... Eu não te contei esperando que você use o seu dinheiro. – Declarou externando um riso nervoso. Arqueei uma sobrancelha, não absorvendo muito bem o motivo de seu aparente desconforto.
- Quando foi que eu disse isso, ? Essa possibilidade sequer passou pela minha cabeça. Eu apenas ofereci ajuda. – Rebati calmo. A garota relaxou a postura defensiva e externou um sorriso meigo.
- Eu sei e agradeço muito. De verdade. É só qu... – Hey, ! – Uma voz feminina soou animada, interrompendo sua frase. Direcionei minha atenção no sentido do som e avistei uma mulher sorridente se aproximar de nós.
- Nós conversamos sobre esse assunto depois, tudo bem? – pediu e eu concordei, dando aquele diálogo por encerrado. – Olá, Trish. Boa tarde! – Saudou animada, acenando para a moça que não parecia ser tão mais velha do que eu.
- Archie me contou que você havia chegado e que tinha companhia. – Declarou amigável assim que concluiu sua caminhada até o local onde nos situávamos, pairando os olhos sobre mim. afirmou, fitando-me com a boca curvada em um sorriso singelo. Eu não fazia ideia que sentia tanta falta daquela boca na minha até retribuir o seu olhar e tirar alguns milésimos de segundos a fim de encará-la com mais afinco, rindo fraco ao notá-la piscar algumas vezes antes de me lançar uma última encarada divertida para então cortar nosso contato visual, voltando-se à mulher à nossa frente.
- Sim, claro! Trish, este é o . Ele veio deixar algumas doações para as crianças. – Maneei a cabeça em um cumprimento educado e lhe estendi uma mão, sendo prontamente retribuído.
- Prazer em conhecê-la.
- O prazer é meu, . Obrigada pela iniciativa. – Agradeceu simpática e eu neguei com a cabeça.
- Não há de quê, é um prazer colaborar com a causa de vocês. já falou muito daqui. – Comentei, vendo-a erguer as palmas em rendição e sibilar um: “culpada”.
- Trish é coordenadora pedagógica do abrigo e faz-tudo em tempo integral. Se não fosse primeiramente por ela, eu não teria conseguido continuar frequentando a instituição.
- Nah, balela. Magnólia teria aceitado você mesmo se eu não tivesse falado com ela antes. – A garota sorriu e balançou os ombros. – Bem, eu adoraria bater papo com vocês, mas preciso voltar ao pátio. Se as crianças ficarem mais de dez minutos sem supervisão, aquele lugar explode! – Exclamou meio assombrada, fazendo-nos rir. – , você poderia, por favor, colocar as doações na sala onde as outras caixas estão?
- Claro! Daqui a pouco vou lá te ajudar.
- Não precisa se apressar, querida. E , obrigada novamente pela ajuda. Significa muito. – Trish sorriu e eu pude notar que ela trazia consigo um ar afável, quase maternal, que decerto lhe era extremamente útil em um ambiente como aquele.
- Fico à disposição para o que vocês precisarem. – Pontuei solícito e recebi um aceno simpático da mulher que não tardou a dar às costas e refazer o trajeto rumo ao destino preterido.
- Então, doutor ... – O tom de voz brincalhão de soou ao meu lado, levando-me a erguer uma sobrancelha e avaliá-la de forma curiosa, muito embora o diminuto repuxar no canto dos meus lábios revelasse que eu havia captado seu gracejo. – Já que você deseja tanto ajudar, pode começar me ajudando a levar o que você trouxe lá para dentro. – Sugeriu mostrando todos os dentes através de um sorriso aberto, ocasionando-me uma breve gargalhada perante sua expressão deveras exagerada e pidona.
- Está se aproveitando da minha bondade, ? – Indaguei satírico e a garota balançou os ombros, pousando uma de suas mãos na cintura à medida que me olhava de maneira esperta.
- O termo correto é: “Aproveitando as oportunidades”. – Corrigiu perspicaz. – Agora tire esse terno porque você irá fazer um esforcinho. – Intimou mandona e eu imediatamente levantei o cenho em puro divertimento ao captar o duplo sentido contido em sua frase, contemplando arregalar os olhos e abrir e fechar a boca diversas vezes ao se dar conta do que havia dito.
- Wow, isso soou meio errado... – Censurou-se, parecendo refletir a respeito da situação. Limitei-me a permanecer estudando-a curiosa, pendendo os lábios lateralmente enquanto me divertia com seu embaraço. – Eu não quis dizer... nesse sentido. Eu me referi a tirar o terno para que ele não sofra nenhum dano ou fique sujo, já que você provavelmente irá voltar para o escritório e não pode fazer isso estando todo empoeirado ou sei lá o quê. – Justificou atrapalhada, abanando as mãos no ar.
- Está pensando em mim sem o terno, ? Não acha que este ambiente é um pouco inoportuno para tal atitude? – Provoquei e mantive minha fisionomia divertida sem desviar os olhos dela, que cerrou os seus a fim de – tentar – me recriminar, o que claramente não surtiu efeito, levando em conta que a garota evidentemente segurava o próprio riso.
- Pare de pensar besteiras e abra logo esse porta-malas, . Não me irrite. – Bronqueou utilizando um falso tom zangado, enfim emitindo o sonido de seu ligeiro riso cômico conforme andava até a parte traseira do meu automóvel. Acompanhei-a e gargalhei brevemente por efeito de seu caráter espirituoso o qual comumente me inseria numa atmosfera plácida e agradável, tornando indiscutível o fato de que aquela garota era, sem dúvida alguma, a calma em meio ao meu caos.
Destravei o compartimento do bagageiro e me desfiz do tecido pesado que compunha minha vestimenta, colocando-o na cabine somente por aquele momento. Retirei a grande caixa de papelão posta ali e pegou a outra, indicando a trilha de concreto com a cabeça em um pedido mudo para que eu a seguisse.
- Como está o seu braço? Não vai lhe prejudicar carregar tanto peso? – Questionei mencionando o membro recém-contundido.
- Não. Já estou novinha em folha. – Assegurou ao passo que cruzávamos a ampla área tomada por crianças correndo de um lado para o outro. A gargalhada de misturou-se com o estrépito de gritos e risos eufóricos advindos dos pequenos que passavam entre nós, obrigando-nos a desviar deles como se fossem um campo minado. Eu não podia negar que a cena era, de fato, engraçada, o que me obrigou a rir também.
Adentramos a parte interna do abrigo e todo o desespero da garota ao meu lado fez – ainda mais – sentido. A estrutura comprometida das paredes era visível logo de cara. Fissuras, corrosões e focos de mofo tomavam conta de boa parte da tinta batida que possivelmente fora branca em um passado distante, estando agora tomada pelo desgaste proveniente do tempo; Manchas escuras comprometiam a estética do teto onde a degradação dos materiais danificava a resistência da cobertura, o que me levava a crer que a decisão de interditar a instituição fora totalmente correta. Aquele lugar necessitava de um reparo integral e urgente.
- É bem ruim, não é? – A voz de ressoou esmorecida através de seu questionamento retórico.
- A situação é complicada, mas decerto que não é irreversível. O correto seria que um engenheiro fizesse uma inspeção por toda a área. – Aconselhei e ela concordou, empurrando a porta da sala com a cintura para que pudéssemos passar. O cômodo muito se assemelhava a um almoxarifado destinado à armazenagem de variados utensílios, sendo aproveitado naquela circunstância para guardar os muitos caixotes, sacolas e bolsas repletas de cobertores e mantas acondicionadas no local.
- Pode deixar a caixa aqui no canto. – Falou, depositando a sua junto às demais. Fiz o mesmo e reparei que ela me admirava com um sorriso brando, atraindo minha atenção perante o gesto despretensioso. – Obrigada. Eu sei que você já escutou bastante essa palavra por hoje, mas não custa reforçar a gratidão. – Gracejou e eu ri fraco negando com a cabeça. – Nem acredito que já temos tanta coisa. – Varreu os olhos pelas doações e os voltou até mim logo depois.
- Você faz algo importante aqui, . O mérito é todo seu. Eu apenas colaborei. – Ressaltei, vendo o canto de seus lábios arquearem mais intensamente.
- Ontem eu passei o dia e a noite estudando, hoje fiz duas provas na faculdade e ainda tenho dois seminários para apresentar amanhã, estou um verdadeiro caco de exaustão, porém, é só chegar aqui que tudo ameniza. É realmente importante. – Complementou com um brilho nos olhos bonito de se ver. Era fascinante deparar-se com tamanha entrega em prol de uma causa tão nobre, e tal ato muito me recordou de como eu me sentia ao realizar assistência jurídica voluntária, atividade essa que eu lamentavelmente havia deixado em segundo plano desde que a minha vida virara um inferno.
- Te admiro por isso. Como anda a reta final do semestre? – Perguntei a medida que caminhávamos para fora da sala úmida, traçando o rumo de volta ao pátio.
- Acho que bem... Vou saber de fato na sexta-feira. Só consigo pensar nas minhas férias! – Clamou dramática e eu exprimi um risinho em virtude de sua ação teatral.
- Está mais perto do que longe, você sobrevive. Quem sabe não haja uma surpresa lhe esperando sexta à noite. – Joguei a frase no ar e a garota imediatamente virou o rosto para mim, encarando-me aturdida. Observei-a de soslaio e permiti com que um sorriso ladino brincasse em meus lábios, satisfeito por contemplar sua expressão que transmitia um misto de curiosidade e desorientação.
- Como assim?! Qual surpresa?!
- Chama-se surpresa por um bom motivo. – Adverti tranquilamente. Não precisei fitá-la para saber que ela me fuzilava com o olhar.
- Dê somente uma dica, então. Só uma! – Insistiu e avançou um passo à minha frente, acompanhando meus passos enquanto andava de costas ao mesmo tempo que me observava em expectativa. Ri e arqueei uma sobrancelha, sustentando seu contato visual de forma irredutível. Antes que me fosse possível formular uma resposta que a fizesse desistir de perseverar em sua insistência, senti meu celular vibrar no meu bolso, o que me fez descontinuar minha caminhada e retirá-lo dali sem demora, deparando-me com o número da Delegacia de Polícia no visor. refreou seu andar e apontou em direção aos fundos do abrigo.
- Lá é mais silencioso. – Aconselhou e eu agradeci, seguindo apressado até o lugar indicado.
- falando. – Saudei ao aceitar a chamada.
- Boa tarde, doutor . Aqui quem fala é o delegado Volkman.
- Boa tarde, excelentíssimo. A quê devo sua ligação? – Inquiri ao homem responsável pelo andamento do caso Zummack. Ferdinand Volkman era um dos melhores e mais requisitados delegados da área, tendo sido eleito por dois anos consecutivos como Profissional do Ano por meio da categoria jurídica.
- Estou entrando em contato para lhe informar que a cópia do novo laudo pericial o qual solicitou já está disponível, podendo ser retirada diretamente no Departamento de Polícia com o prazo de cinco dias úteis, contando a partir de hoje. – Comunicou prático e direto. Uma agitação fez-se presente em meu interior diante de tal informação, produzindo uma série de reflexões incessantes relacionadas ao possível conteúdo esclarecedor inserido no documento em questão.
- Agradeço a solicitude, delegado Volkman. Hoje mesmo passarei aí para retirá-lo.
- Certo. Tenha um bom dia, doutor .
- Obrigado. Um bom dia para o senhor também. – Encerrei a ligação e transpassei uma mão pela nuca, expelindo o ar de meus pulmões com certa força. A adrenalina de estar a um passo de me defrontar com uma prova a favor do meu cliente mexia com cada maldita célula do meu corpo, induzindo-me a premeditar meu próximo passo no caso que havia se tornado um jogo infernal cujo prêmio seria a absolvição de Lee Feldmann e a cabeça do desgraçado que arquitetara toda essa merda. Eu não comprava seu silêncio repentino, tampouco me sentia aliviado em razão de seu sumiço momentâneo, posto que não fazer ideia do significado de tal desaparecimento me colocava em uma posição a qual me causava repulsa: A de estar no escuro.
Esfreguei o rosto e respirei fundo mais uma vez, focando em um ponto aleatório do descampado daquele espaço atipicamente pacato, procurando anuviar minha mente inquieta. A ausência de nicotina gritou em meus pulmões, fazendo-me desejar urgentemente um cigarro. Hábitos ruins vêm com sensações ruins, afinal de contas.
- Mais problemas? – Uma voz conhecida soou despretensiosa atrás de mim. Girei o tronco e me deparei com Cassie sentada em um banco localizado sob uma gigantesca árvore, compenetrada nas funções de sua câmera fotográfica. Eu nem sequer a havia notado se aproximar. Coloquei minhas mãos em ambos os bolsos da calça social e lhe observei fotografar a lateral do muro cor de chumbo, deslocando seu olhos até mim após concluir o ato. – Não se incomode em responder, foi uma pergunta retórica. Eu já sei que a resposta é sim. – Findou cravando seu olhar ininteligível em meu rosto. Suspirei e maneei a cabeça em concordância.
- Apenas o usual. – Restringi minhas explicações àquela única frase e ela assentiu em compreensão. – Como você está, Cass?
- Esplêndida, como você pode notar. E você?
- Estou bem.
Silêncio.
Cassie afirmou com a cabeça novamente e pousou sua câmera sobre o seu colo, analisando-me calada. A única coisa que se ouvia eram os sons abafados dos gritos das crianças e o barulho da copa da árvore, que balançava agitada por obra da forte ventania, fazendo os galhos colidirem entre si.
- Não estou nem um pouco chocada por vê-lo aqui. – A mulher quebrou a ausência de diálogo com o tom de voz comedido, embora uma certa frieza estivesse mascarada por trás de sua face inexpressiva. – Eu sabia que o seu espírito filantrópico o levaria a vir até este lugar no momento em que lhe contei sobre ele. – Deixei com que um diminuto riso fraco escapasse através dos meus lábios devido ao seu jeito de referir-se a mim, continuando a fitá-la serenamente.
- É possível que o meu espírito filantrópico a tenha contaminado, Cassie. Não se esqueça que foi você quem me contou sobre as doações e inclusive colaborou por si só. – Rebati esperto, vendo-a arquear uma sobrancelha e empinar o nariz antes de dar de ombros.
- Que seja. Achei que a sua amiguinha houvesse lhe deixado a par da situação precária desse orfanato, já que aparentemente vocês estão bem próximos. – Alfinetou mordaz. Respirei fundo e fixei meus olhos nela, vendo-a me corresponder de forma cortante. – Não me encare com pena, . Eu não sou uma coitada. Acha mesmo que eu realmente estou surpresa com isso? – Indagou ácida. Tudo que eu não desejava era ter um embate sobre o que quer que fosse, e conversar com Cassie sobre mim e encabeçava o tópico de assuntos inoportunos para aquele momento.
- Eu não esperava que você fosse soltar fogos de artifício ao saber sobre nós, Cass. Só acho q... – Oh, então existe um nós? – A mulher me interrompeu com um riso sarcástico. Suspirei sonoramente, buscando calma do inferno para lidar com a situação. – Exatamente como previ...
- Foi totalmente inesperado, eu não sabia que as coisas nos levariam a esse patamar.
- Eu sempre soube. Você era o único desavisado que não reparava em como essa garota te olhava, . Por Deus, eu sempre te falei! – Seu riso zombeteiro ganhou mais força e eu não soube o que dizer. Permaneci calado durante alguns segundos, sentindo-me estranhamente injusto ao me colocar em seu lugar.
- Não pense que nosso término se deu por outro motivo senão por nossas divergências pessoais, por favor. Eu nunca quis te magoar, Cassie. – Expus verdadeiramente sentido acerca das circunstâncias.
- Não seja tolo, muito menos prepotente, . Nosso namoro não duraria mais do que durou, e tudo bem. Eu não estou nem aí para vocês dois, sinceramente. Quando eu lhe disse que me sentia grata pelo nosso término, não brinquei. Namorem, casem, tenham filhos e cozinhem biscoitos juntos, eu não dou a mínima. Só de saber que eu sempre tive razão, já me sinto ótima. Quer coisa melhor do que ter razão? Honestamente, não existe nada melhor do que ver o seu semblante quando você está errado. É revigorante. – Suas frases gritavam uma vaidade levemente cômica, contudo, não me importei. Não me encontrava apto a debater ou contestar. Me mantive sério e impassível, escolhendo, pela primeira vez, ter paz a ter razão. – Só me responda uma coisa: Você está apaixonado por ela? – Soou novamente. Tomei uma boa quantidade de ar e, sem hesitar, verbalizei o que já era óbvio para mim.
- Sim. Eu estou apaixonado por .
A expressão de Cassie não se alterou. Ela ergueu o cenho e assentiu indiferente, jogando os cabelos para o lado como lhe era habitual.
- Boa sorte e felicidades. – Soltou simplesmente e voltou a focar completamente em sua câmera. Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes havia respirado fundo, e fazê-lo novamente não fora nenhuma novidade naquele contexto.
- Cuide-se, Cass. Boa tarde.
- Boa tarde, . – Perfilei-a uma última vez e me retirei, atravessando o gramado esverdeado a fim de regressar para o pátio movimentado. O zunido oriundo das crianças agitadas fez-se audível novamente e, de longe, vislumbrei conversando com Archie, o qual possuía folhas de papel nas mãos. Aproximei-me de ambos e fui recebido pelo sorriso banguela do mais novo, que exibiu orgulhoso os desenhos retratados na superfície branca.
- Eu fui brincar de correr e esqueci de mostrar o dragão! – Levou uma mão até sua testa e apertou os olhos ao passo que negava com a cabeça, formalizando uma pose típica de um adulto preocupado. e eu rimos juntos ante a atitude do garoto. – Ó! Eu fiz sozinho! – Agachei-me à sua frente bem como havia feito num momento anterior e peguei o desenho, analisando-o com precisão.
- É um ótimo dragão, Archie. Bom trabalho! Gostaria de me contar mais sobre ele? – Questionei e o pequeno moveu a cabeça assiduamente em afirmação. Olhei para a garota que nos admirava em silêncio e trocamos sorrisos cúmplices antes de nos voltarmos ao artista à nossa frente.
- Ele é muuuuito poderoso e defende o castelo! Eu ainda não tive tempo de desenhar tudo, mas o fogo vai sair daqui – apontou para a cauda – e daqui – deslizou o indicador sentido à boca do animal, explicando tudo com extrema dedicação. – Aí eu vou fazer uma historinha onde ele ganha um prêmio porque defendeu o castelo direitinho. – Encerrou cheio de si. Aquela criança era, de fato, uma figura.
- Será uma história interessante, eu já estou curioso para vê-la. – Relatei vendo concordar com a cabeça.
- Você irá nos mostrar quando ela estiver pronta?
- É claro que sim, né! – Archie respondeu como se fosse óbvio, pousando as duas mãos na cintura de uma maneira excessivamente teatral e cômica.
- Então tudo bem, senhor desenhista. e eu vamos esperar até que tudo seja finalizado, não é? – A garota voltou-se para mim e eu assenti de acordo.
- Com certeza! Leve o tempo que precisar, grandes artistas precisam focar no próprio trabalho.
- É, eu sei. – O garotinho respondeu distraído ao mesmo tempo que admirava os traços estampados no papel. Exprimi outro breve riso e chequei meu relógio de pulso, constatando que logo meu horário de almoço acabaria.
- Preciso ir. – Comuniquei à , recebendo um maneio afirmativo como retorno.
- Ei, amigo. – Chamei Archie, assistindo-o erguer a cabeça do desenho para me encarar atento. – Eu tenho que ir embora agora. Espero vê-lo em breve para falarmos mais sobre heróis. – Disse e ele expôs o sorriso parcialmente desdentado outra vez.
- bom! - Então temos um acordo. – Fechei minha mão em punho e a suspendi, vendo o pequeno corresponder o gesto e encostar os nódulos nos meus em um toque cúmplice.
- Temos! A disse pra mim um dia que quando a gente combina alguma coisa, tem que cumprir. Você não pode desquebrar o combinado. – Alertou esperto e eu ri de sua palavra recém inventada, fitando a precursora da frase a qual sorriu e deu de ombros.
- E ela tem razão. Acordos feitos através de toques de mãos precisam ser levados a sério.
- Tudo bem, então agora eu acredito! – Exclamou enérgico e imitou o gesto anteriormente executado por mim, erguendo o punho fechado para que eu tocasse com o meu. Assim o fiz.
- Estou me sentindo meio deixada de lado aqui. – se queixou num falso tom magoado, atraindo nossa atenção.
- Nãããão, você não não! – Archie estendeu a mão fechada em sua direção e ela riu, executando o movimento do qual lamentara não fazer parte. – Agora faz com ela! – O mais novo pediu animado, cutucando-me freneticamente. Fixei minhas íris na garota e fui retribuído com um olhar divertido, levando-me a pender os lábios em um sorriso ladino. Levantei meu punho mais uma vez e encostou o seu ali perdurando nossa conexão visual. – Issoooo! – A voz do garotinho ressoou satisfeita diantei do que via e tal som fora o bastante para que rissemos novamente.
- Bom, então... Até mais, Archie. Não se esqueça do nosso acordo. – Falei ao me levantar. Bem como eu, também erguera o corpo.
- Não vou! - Archie, junte-se aos seus amiguinhos, sim? Irei acompanhar e já volto para brincar com vocês. – A garota pediu gentilmente, efetuando um afago nos cabelos do mais novo. O pequeno afirmou e saiu em disparada sentido à multidão, não sem antes girar parcialmente o tronco para acenar um "tchau" vibrante em minha direção, o qual fora imediatamente correspondido por mim. – Você sabe que de agora em diante ele irá esperar suas visitas, não sabe? Crianças realmente levam tudo em consideração. – A garota soou divertida, embora eu pudesse sentir os vestígios de seriedade sutilmente abrangidos em sua observação. Parei ao lado da porta do motorista e guardei ambas as mãos nos bolsos da calça, traçando os detalhes de sua face com os olhos.
- Sim, eu sei. Me agradaria muito voltar aqui caso não haja problema. – Declarei descansando um leve sorriso no canto da boca. Fui estudado de forma compenetrada pela figura espirituosa à minha frente, quase achando graça de seu jeito furtivo ao me avaliar.
- Uau, você sente mesmo bastante saudade de mim! Isso tudo é vontade de ficar perto? – Questionou zombeteira e eu arqueei uma sobrancelha diante de seu gracejo presunçoso, perdurando a diminuta curva em meus lábios que, de fato, sentiam falta dos dela.
- Eu tenho inúmeras vontades quando o assunto é você, , contudo, este não é o melhor lugar para verbalizá-las, tampouco para supri-las. – Avancei um passo e encostei minha boca em seu ouvido, experienciando a sensação satisfatória de percebê-la tensionar. – Sinta-se à vontade para imaginar o que eu quis dizer com isso e eu terei o imenso prazer em lhe explicar na prática. – Soprei alguns timbres mais baixos e me afastei minimamente apenas para olhá-la, deparando-me com seu semblante enrubescido o qual divergia da fisionomia ardilosa da garota que parecera captar e aprovar todos os significados englobados na frase.
- Você é um descarado, . – Acusou ao mesmo tempo que ria e negava com a cabeça.
- E você é linda. – Rebati, voltando a me aproximar dela. Pousei uma mão em sua bochecha quente e depositei um ligeiro beijo em sua testa, admirando-a fechar os olhos durante o ato.
Uma sensação reconfortante tomou conta do meu peito.
Eu não desejei entender a origem daquilo, somente desfrutei daquele sentimento singular que despertava meu instinto protetor a ponto de transformar toda sua plenitude no mais completo pavor ao imaginar algo de ruim acontecendo com . Tal possibilidade levou o meu sangue a fervilhar e correr mais rápido em minhas veias, criando uma atmosfera de angústia que fora exteriorizada através de uma inspiração profunda e prolongada cuja tensão emanada não passara despercebida pela garota parada rente ao meu corpo.
- Está tudo bem? – Questionou evidentemente preocupada conforme me examinava com certa apreensão. Dispersei os efêmeros devaneios que momentaneamente me infernizaram e afirmei, retomando o sorriso sereno a fim de lhe passar segurança.
- Só estava me recordando de que preciso passar na delegacia antes de voltar ao escritório.
- Aconteceu alguma coisa? – Tornou a perguntar ainda ressabiada e não foi necessário que ela verbalizasse sobre qual coisa havia se referido. Era evidente que o receio no que diz respeito às ameaças a rodeava e eu me odiei por isso. Me odiei por tê-la envolvido nessa merda toda, mesmo que indiretamente; Me odiei por presenciar sua preocupação comigo quando tudo que ela deveria fazer era preocupar-se consigo mesma e, sobretudo, me odiei por sentir culpa.
- Nada aconteceu, . Fique tranquila. Tenho apenas que buscar alguns documentos. – Esclareci com calma e a garota moveu a cabeça em compreensão. – Falo com você mais tarde. Cuide-se. – Lancei-lhe uma piscadela e abri a porta do carro, vendo-a retribuir o gesto. Liguei o carro e dei partida rumo à delegacia, ansiando por ter o laudo em mãos.

- Bridget, transfira todas as ligações para mais tarde, por favor. Estou ocupado até a segunda ordem. – Pedi à minha secretária, que assentiu prontamente. Entrei em meu escritório e sentei-me ali, abrindo o envelope com certa pressa. Varri o documento com os olhos atentos à procura da única parte que me interessava, encontrando-a sem maiores dificuldades.

INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA SEÇÃO TÉCNICA DE CRIMES CONTRA A PESSOA

[...]

"° Examinando-se o local, observou-se uma remota presença de cinzas da marca Insignia na região externa do pátio."

Uma onda de satisfação agitou meu interior ao ler aquele mínimo parágrafo.
Tudo o que eu necessitava estava relatado ali.
As peças começavam a se encaixar e eu não via a hora de virar a porra do jogo.

’s POV.

Eu já conseguia sentir o cheiro das férias.
A sensação de concluir todas as provas, trabalhos e seminários era indescritível, a liberdade soava como um presente após um semestre tão atribulado – em todos os sentidos possíveis –, misturando-se com o alívio por ter sobrevivido sem maiores danos diante de semanas extremamente estressantes e cansativas. Meus cadernos e livros foram objetos de tortura durante todos esses dias, e ainda que eu estivesse imersa num momento repleto de gratidão por ter concluído mais um período do curso sem surtar, quase dar às mãos ao Buda não isentava minha vontade de esquecer até mesmo que eu era alfabetizada. Mais do que sentir o cheiro das férias, eu desejava obter a certeza de que havia tido êxito em minhas notas, pois ficar de exame e ser obrigada a refazer qualquer prova que fosse representaria o meu passaporte direto para o inferno.
Atualizei o sistema da faculdade pela milésima vez naquela quinta-feira amena e bufei em frustração ao me deparar com as minhas grades vazias sem sinal de nota alguma. Enfiei o indicador no teclado novamente, esperançosa para, enfim, confirmar o início da minha temporada de descanso da vida universitária, fixando os olhos na tela do computador como se nele houvesse a descoberta da felicidade ou coisa parecida.
- Nossa, olha isso aqui! – Vicenzo inclinou a cabeça em linha reta, apontando para o dispositivo repleto de botões no qual eu anteriormente pressionava de modo contínuo. Franzi o cenho e repeti seu ato, analisando o conjunto de teclas em busca de algo errado.
- O quê? – Indaguei sem entender a motivação de seu posicionamento afetado e pasmo.
- Acho que o teclado está sangrando depois de levar tanta pancada do seu dedo. – Debochou satírico. Ri e rolei os olhos, refreando meu raciocínio de criar uma réplica à sua piadinha no instante em que encarei a página da universidade onde todas as lacunas encontravam-se preenchidas com números.
- Ah, meu Deus! MINHAS NOTAS SAÍRAM! – Exclamei mais alterada do que eu gostaria, agradecendo internamente pela ausência de clientes na loja.
- Hmm... Vejo um nove, um oito e meio... – O vocalista se intrometeu na minha frente e anunciou bisbilhoteiro. Afastei sua cabeleira da frente do monitor completamente afobada e grudei meus globos oculares ali com o coração saindo pela boca.
- Senhoras e senhores, aqui vemos uma espécie comum de universitarius desesperadus do qual assume uma personalidade desesperada nesta época do ano... – Vicenzo soou teatral igual a um guia de museu e eu não consegui conter uma gargalhada, correndo minhas íris através de cada linha com extrema atenção enquanto sentia meu interior se agitar em euforia.
Li a última ala de números e fitei a figura curiosa ao meu lado que me observava em expectativa à espera da tão esperada notícia:
- ESTOU DE FÉRIAS! – Comemorei em alto e bom tom, batendo palminhas frenéticas ao passo que fazia uma dancinha ridícula para celebrar o acontecimento. A risada engraçada do meu amigo fez-se audível e logo outra salva de palmas tomou conta do ambiente, abafando a melodia de alguma música do Pink Floyd que soava harmoniosa por entre o recinto.
- DISCURSO! DISCURSO! – Ele bradou tão animado quanto eu. Ri e apanhei o corretivo posto sobre o balcão na intenção de usá-lo como microfone, levantando-me da cadeira a fim de entrar na brincadeira.
- Bem, eu gostaria de agradecer primeiramente a minha sanidade por ter se mantido firme durante esse semestre do cão, admiro muito tamanha resistência. – Vicenzo soltou um "uhul" animado. Gargalhei e limpei a garganta, continuando com aquela cena ridícula, porém divertida. – Também quero deixar o meu muito obrigada à cafeína, pois sem ela eu teria sucumbido a vontade de jogar tudo para o alto e optado por dormir pelo resto dos meus dias. – O vocalista riu audivelmente e pegou o corretivo da minha mão à lá Kayne West e Taylor Swift no VMA.
- E por último, mas não menos importante, ela agradece a mim e ao meu rostinho perfeitamente esculpido por alegrar sua vida e lhe trazer inspiração para viver neste mundo maléfico. De nada, raio de sol. – Ele inclinou moderadamente seu tronco e pousou uma mão no peito forjando uma pose emocionada. Mais uma risada fora exprimida por mim. Neguei com a cabeça e voltei a me sentar, vendo-o fazer o mesmo. Suspirei aliviada pela conclusão do semestre, sentindo um quentinho gostoso no coração ao ver todo o meu esforço sendo recompensado com boas notas. Eu estava orgulhosa. Olhei para o lado e topei com Vicenzo me estudando de modo demasiado sorridente durante o tempo que apoiava sua cabeça em uma de suas mãos, exibindo o característico sorriso de coringa que parecia estar a ponto de rasgar suas bochechas.
- O que foi? – Perguntei correspondendo o repuxar de lábios espirituoso.
- Amo ver rostinhos contentes. – Respondeu de modo simples. – Ainda mais quando o rostinho em questão pertence a um amigo. Sou uma espécie de dementador invertido, lindinha. Meu alimento é contribuir com a felicidade das pessoas, e não sugar. – Acrescentou cheio de si, levando-me a rir de seu jeito descontraído.
- Você engoliu um ursinho carinhoso? Quanto amor, Vivi! – Satirizei, recebendo um dedo do meio como resposta.
- Tsc. Não dá mesmo para exercer meu espírito evoluído com você. – Lamentou de forma acusadora enquanto eu me mantinha rindo.
- Perdão. Mas falando sério... Obrigada. Você sabe que o seu apoio é essencial.
- Eu sei. – Admitiu convencido e deu de ombros. – E mais essencial do que o meu apoio, é encher o rabo de álcool para exaltar mais um passo dado rumo à graduação. Precisamos começar as suas férias em grande estilo. – A sugestão do vocalista mais parecera uma exigência, contudo, não me importei. A ideia não era ruim, afinal de contas.
- Estou dentro. Meu ser carece de algumas doses de felicidade.
- Assim que eu gosto! – Vicenzo suspendeu uma mão e eu bati minha palma contra a sua, formalizando nossos planos com um high five determinado.
Voltei minha atenção à planilha do estoque após toda baderna protagonizada por mim e pelo roqueiro expansivo e foquei no meu trabalho, agora concedendo cem por cento da minha atenção para o Excel e aos dados apresentados nele.

O clima ameno havia durado menos do que um intervalo de tempo de vinte e quatro horas. Bastou que o cair da noite assumisse a vastidão do céu para as nuvens carregadas darem às caras, trazendo com elas uma vigorosa chuva nada surpreendente, levando em conta que eram raros os dias livres das corriqueiras pancadas d'água.
Ajeitei o notebook no colo e abri meu e-mail, movendo meu olhos diretamente para o assunto de um em particular.

Instituto PsicoViver Convocação para processo seletivo Qui 13:57

Endireitei a postura e cliquei no correio eletrônico tal qual um raio, sentindo minha adrenalina ir à mil.
Que seja uma entrevista de emprego, por favor, que seja uma entrevista de emprego.

“Boa tarde, .

Obrigada pela sua candidatura à vaga de Estagiário de Recursos Humanos na PsicoViver e por toda a disponibilidade. Infelizmente, currículo não foi selecionado para a fase de entrevistas.

Fique atenta à nossa página de recrutamento para conhecer as nossas novas oportunidades.

Com os melhores cumprimentos,

Suzann Flermann - Coordenadora de Recrutamento e Seleção."

Minha animação se foi tão rápido quanto veio.
Suspirei frustrada e larguei o computador compacto no canto da cama, tornando a me ajeitar debaixo das cobertas. O desânimo se misturava com a sensação de ter tomado um belo e repentino banho de água fria. Eu poderia facilmente fazer uma coleção de e-mails semelhantes àquele, cujo conteúdo eu já sabia de cor e salteado. O mercado de trabalho estava disputado e disso eu não tinha dúvidas, entretanto, não ser selecionada nem para uma entrevista colocava a prova todo o meu futuro profissional, deixando-me imersa a um estresse sem fim. Ter o emprego na R&R me ajudava muito, era um bom ofício e me dava liberdade de fazer o meu próprio itinerário, contudo, já não me servia mais. Eu almejava crescer, desenvolver minhas habilidades, sentir na pele os desafios da minha área e construir uma carreira sólida, no entanto, a cada currículo recusado, tal desejo reduzia-se a pó. Inspirei profundamente a fim de abandonar tais pensamentos destrutivos e apanhei meu celular posto sobre o criado-mudo, estranhando a falta de resposta advinda de , que mal recebera a mensagem enviada por mim a horas atrás. Rolei a interface do aplicativo e não foi necessário que eu procurasse demais, pois logo minha conversa com surgiu dentre todas as outras. Ignorei a idiotice remetida ao que eu estava prestes a fazer e selecionei sua janela somente para reler nosso breve diálogo ocorrido há poucos minutos.

"Adivinha quem está oficialmente de férias?????"

"Sua animação não deixa margem para dúvidas, haha. Fico feliz, . Parabéns!"

"Obrigada :) vou me deitar agora, estou cansada. Foram muitas emoções para um dia só. Boa noite!

"Tenha uma boa noite, linda. Algo me diz que nos veremos amanhã, aconselho que não faça planos."

"Céus, !!!!! Eu sou curiosa, não faça isso! O que você está tramando?!"

" ;) "

Um sorriso débil moldou-se em meus lábios ao passo que o meu coração batia à mil por hora.
A curiosidade me corroía e agitava todas as partes do meu corpo. Eu odiava suspense, ainda mais quando se tratava de um encontro do qual eu não sabia muito bem se realmente poderia ser considerado um. O que faríamos? Para onde iríamos? Nós iríamos a algum lugar?! Céus!
Meu anseio por obter conhecimento com relação ao programa de amanhã só não se encontrava maior do que a onda de felicidade que me atingia perante às circunstâncias. Eu reprimia toda e qualquer expectativa imposta acerca do que e eu éramos, pois atribuir um rótulo não cabia no momento atual, todavia, não dava para evitar me sentir como uma boba frente a todas as coisas que vinham se sucedendo entre nós dois.
Vê-lo no abrigo exercitando sua solicitude e benevolência a respeito do quadro complicado em que a instituição se encontrava não fora surpreendente, mas sim, admirável. Ele não fazia esforço para ser uma pessoa incrível e eu já não podia relutar contra a intensidade dos meus sentimentos a seu respeito. Possuir ciência de toda a dificuldade que se aproximava em todos os âmbitos possíveis não me abalaria. Respirar fundo e cultuar um bom caráter teria de ser o bastante por agora.

Meu corpo implorava por um banho e por descanso.
O dia na loja havia sido cheio e, bem como antigamente, trabalhei sozinha, cobrindo a ausência do vocalista que tocaria em outra cidade com sua banda. Da mesma maneira que Vicenzo, eu me sentia absurdamente feliz ao ver meus amigos obtendo êxito em suas aspirações na vida, fato que me recordou de . Enquanto estava à caminho de casa e desfrutava do milagre de pegar um ônibus vazio eu tentei, pela centésima vez, falar com minha amiga. Ela andava extremamente esquisita e não saber o que lhe causava tamanha estranheza me deixava de mãos atadas, visto que eu nunca tinha presenciado nada parecido vindo dela. Toquei no ícone de chamada e, enfim ouvi um ruído do outro lado da linha antes do incomum timbre abatido ressoar através do celular.
- Oi, sweetie.
- Olá! Como você está?
- Bem, e você? – Soltei um suspiro resignado e toquei as têmporas. Ela não desabafaria assim tão fácil, de qualquer forma.
- Bem também! Eu te liguei e enviei inúmeras mensagens, estava preocupada.
- Desculpe, . Fiquei atarefada com a faculdade e com o trabalho, não tive cabeça para falar com ninguém após as provas. – Confessou deixando transparecer seu cansaço.
- Não se desculpe, mi amor. Eu entendo. Você foi bem? – Uma súbita mudez fez-se presente em meio à chamada. Tirei o aparelho do ouvido e encarei a tela acesa com o intuito de checar se continuava na linha, colocando-o de volta ao local anteriormente posicionado depois de obter minha confirmação.
- Ah, sim... Quer dizer, fui bem em uma ou outra. Fiquei de exame em três matérias. Estou uma pilha de nervos. – O constrangimento em sua voz era quase palpável e eu instantaneamente me senti mal, afinal, era visível que minha amiga encontrava-se esgotada, e precisar estudar novamente para três provas não chegava nem perto de ser o que ela necessitava no momento.
- Os testes realmente foram bem difíceis esse semestre, não se culpe. Você sabe que vai tirar isso de letra, não sabe? Eu posso te ajudar, inclusive. – Busquei confortá-la de alguma forma, ainda sem saber muito bem o que dizer ou fazer para ajudá-la. sempre passou direto e nunca teve problemas com suas notas, e a julgar pelo cenário atual, não seria exagero supor que essa reviravolta se deu por obra de seu estágio demasiado exigente.
- Obrigada, ... Eu gostaria de conversar mais, mas vou dirigir agora. Podemos nos ver no domingo, o que acha?
- Claro, acho ótimo! Combinamos direitinho mais tarde, também estou indo para casa. – Comuniquei já descendo do ônibus rumo ao condomínio.
- Certo... Até mais, sweetie. Obrigada novamente pela força.
- Não agradeça. Nós acabaremos com esse seu desânimo no domingo! – Exclamei animada, ouvindo-a rir. – Até logo, mi amor. Vá descansar. – Encerrei a chamada e adentrei os portões da mansão dos , notando que apenas o carro utilizado por Barret encontrava-se estacionado na garagem. Segui até a cozinha e a encontrei encostada à pia imersa em seu próprio mundo enquanto passava os olhos por um livro de receitas. Soltei uma risadinha e murmurei um "psiu", ato que a levou a desviar sua atenção da folha de papel e depositá-la em mim.
- Oi, filha. Que bom que você já chegou!
- Nem me fale... Estou morta! Aparentemente todo mundo resolveu comprar discos hoje. – Fiz uma careta cansada e a mulher riu.
­ Vai sair hoje? – ­Interrogou interessada.
- É uma ótima pergunta, dona ... – Disse, refletindo sobre o aviso de na noite de ontem. Minha mãe transcorreu as íris atentas ao longo do meu rosto como se desejasse me decifrar e eu me remexi incomodada, encarando um ponto aleatório para me recompor. – Não tem ninguém em casa? – Questionei ao me recordar da ausência dos veículos do senhor e da senhora na garagem.
- O senhor Henrico ainda está no escritório e a dona Kyara foi para uma audiência durante a tarde. Parecia sério, pois ela saiu daqui tal qual um furacão. – A mulher contorceu a face numa ligeira careta engraçada e eu a acompanhei, tremendo só de imaginar Kyara no auge de seus nervos aflorados.
- Temo por quem for enfrentá-la. – Declarei realmente compadecida com a pobre alma desconhecida, fazendo a mais velha à minha frente rir. – Bem, vou para casa. Meu ser clama por um banho.
- Tudo bem, filha. Tem comida na geladeira. Não pretendo demorar aqui. – Avisou e eu assenti, dirigindo-me até a porta dos fundos por onde me retirei sem demora. Atravessei o descampado úmido com todo cuidado do mundo para não escorregar, recebendo a lufada de ar fresco advinda do início do anoitecer antes de notar a diferença de temperatura no segundo em que coloquei os pés na sala. O bipe do meu celular anunciou que uma nova mensagem havia chegado ao ecoar abafado dentro da minha bolsa, mal me dando tempo de esparramar o meu corpo no sofá. Puxei-o dali de qualquer jeito e senti o meu coração pular assim que encarei a tela de bloqueio, conduta comum e involuntária sempre que eu avistava o nome de entre as notificações. Abri-a sem rodeios e o sorriso que se formou em meu rosto poderia até mesmo rasgar minhas bochechas.

"Presumo que você não tenha esquecido que tem um compromisso comigo hoje, srta. Ferrer."

Eu, de fato, parecia uma idiota. Céus, eu era uma completa pateta, no entanto, não dei a mínima por provavelmente estar fitando o aparelho em minhas mãos com um sorriso débil ao mesmo tempo que digitava uma resposta para o advogado cheio de mistérios.

"Eu não levei aquela mensagem muito a sério, para falar a verdade..."

Enviei e sua réplica não tardou a chegar.

"Tudo o que eu falo deve ser levado a sério, . Fique pronta, pedirei que Barret te leve até o meu apartamento daqui a uma hora."

Mas que diabos...?

"Barret? Por que ele? O que você está tramando, ? Eu não sei qual roupa colocar!"

Ah, meu Deus. Eu ia explodir de curiosidade. Endireitei minha postura no sofá e gargalhei alto quando li sua resposta maldosa.

"Eu gosto muito quando você não veste nada, mas posso cuidar disso depois. Coloque algo normal, babe. Te vejo daqui uma hora."

"Algo normal". O que era algo normal?
Levantei do móvel estofado num pulo e corri em direção ao banheiro, despindo-me depressa e entrando no chuveiro com a mesma velocidade para tomar o banho mais rápido do Livro dos Recordes do Guinness. Sequei o cabelo e selecionei as peças de roupa que eu vestiria tudo ao mesmo tempo, trajando-as de maneira desajeitada em razão de minha pressa desmedida. Fiz uma maquiagem sutil e peguei meu casaco, sendo observada de maneira divertidamente questionadora por minha mãe, que aparentava ter acabado de chegar.
- Posso saber aonde você vai, mocinha? – Perguntou com a sobrancelha arqueada, embora seus lábios denunciassem o repuxar contido neles. Eu não queria mentir. Droga, eu não precisava mentir. Balbuciei uma resposta para a sua indagação e abaixei os ombros, soltando um suspiro de rendição. – Nós conversaremos sobre isso depois, tudo bem? Pode ir. Só me dê notícias. – Meus olhos se arregalaram e meu estômago afundou. Abri e fechei a boca em completo desatino, não entendendo absolutamente nada do que havia acontecido ali. Franzi o cenho e balancei a cabeça em busca de uma frase plausível para dar e ela, entretanto, minha mente não ajudou. De longe pude ouvir o motor do carro reverberar, anunciando que Barret estava a minha espera. Fitei o semblante sereno da mulher diante de mim à procura de qualquer reação que fosse, mas não encontrei nada. – Vá, . Já falei que vamos conversar em outro momento. – Eu sentia as palavras entaladas em minha garganta, contudo, por algum motivo, não conseguia soltá-las. Pisquei aturdida e limitei-me a manear a cabeça em concordância, deslocando meu corpo inerte através de passos robóticos rumo ao encontro de Barret, que me aguardava parado ao lado da porta do passageiro, bem como eu imaginei. Tomei uma boa quantidade de oxigênio e expeli com intensidade, delineando um sorriso amigável ao homem do qual retribuiu o ato.
- Boa noite, . Hoje eu irei servi-la. – Expôs cortês, abrindo a porta do automóvel para mim. Ri e neguei com a cabeça, balançando as mãos em recusa.
- Por Deus, Barret. Não precisa disso. – Proferi sem graça e ele riu.
- Ordens são ordens, senhorita. Queira se ajeitar, por favor. – Insistiu, indicando a parte interna do veículo com uma mão. Dei-me por vencida e agradeci, entrando logo em seguida. Olhei em volta e deixei meu queixo cair com o interior daquele carrão, sentindo-me cada vez mais esquisita por estar ali naquelas circunstâncias. O homem sorridente ocupou o assento do motorista e deu partida enquanto eu me pegava imaginando o que ele estaria pensando a respeito daquela cena incomum. Me mantive calada ao longo de todo o trajeto, cutucando meus dedos em puro nervosismo por não saber o que pretendia com tudo aquilo. Não demorou muito para que eu reconhecesse a fachada luxuosa do condomínio do homem em questão e logo Barret posicionou-se do lado de fora, abrindo a porta como mandava o figurino.
- Obrigada. – Falei agradecida.
- Que isso, menina. Tenha uma ótima noite. – Desejou afável e eu sorri um tanto quanto sem jeito, acenando um tchau com as mãos antes de tocar o interfone para ser anunciada. Os portões foram abertos e eu dei uma última olhada no motorista amistoso, assistindo-o acelerar após a minha entrada no elegante prédio. Respirei e inspirei incontáveis vezes no decorrer do percurso até a cobertura pertencida a , executando a ação pela última vez antes de tocar a campainha do apartamento. O latido enérgico de Bento me denunciou com antecedência, fazendo-me gargalhar brevemente. O "clic" da porta soou suave e a figura estonteante e absurdamente cheirosa do advogado surgiu instantaneamente, levando-me a conter um suspiro ridículo. Embora ele trajasse roupas normais, o conjunto da obra deixava-o lindo por si só. A camiseta preta marcava seu tronco bem delineado e a calça branca de moletom completava seu ar casual, e eu decidi naquele minuto que amava vê-lo daquela forma. Fui explorada de cima abaixo por seus olhos analíticos, apesar de também não estar vestindo nada demais. Meus pelos se eriçaram somente frente à sua ligeira avaliação precisa e a cereja do bolo deu-se por seu sorriso ladino que combinava perfeitamente com a sua fisionomia mordaz.
- Boa noite, . – Seu timbre grave e rouco soou como música para os meus ouvidos.
- Boa noite, . – Respondi utilizando do mesmo tom sério. Não demorou muito para que ambos ríssemos daquela formalidade teatral, e antes que eu pudesse raciocinar, senti um puxão firme e forte em minha cintura junto ao baque gostoso do meu corpo contra o de , que pousou os lábios macios sobre os meus em um selinho demorado enquanto sorríamos entre o gesto. Por fim, permiti com que o suspiro bobo se manifestasse. Separamo-nos sem demora e outro baque atingira o meu corpo, agora provindo do Pastor Alemão enlouquecido por atenção. Ri e me equilibrei, abraçando-o de modo efusivo.
- Oi, meu amorzinho! Que saudade! – Disse animada demais, escutando o homem atrás de nós gargalhar. Bento movimentou as orelhas e me encarou enérgico, deslizando sua língua pela extensão da minha bochecha sem que eu fosse capaz de evitar o gesto de amor lotado de baba. – Arghhh, seu danado! Eu achei que um abraço fosse o suficiente para nós dois! – Reclamei virando o rosto a fim de me esquivar de outro ato carinhoso do cão amoroso. A gargalhada de ganhou mais intensidade e eu girei a cabeça para repreendê-lo, mesmo que eu estivesse rindo tanto quanto ele. Bento tirou as patas do meu colo e iniciou uma corrida entusiasmada por todo o apartamento, enfim desistindo de me dar um banho de baba.
- A relação de vocês anda cada vez melhor. – Zombou, fitando-me satírico com o corpo apoiado na pilastra da sala e os braços cruzados sobre o peitoral.
- Nós nos entendemos. – Dei de ombros e ele exprimiu outra breve risada, assentindo devagar.
- Eu quero muito saber a razão de todo esse suspense, mas tenho que lavar o meu rosto primeiro. Você tem poucos minutos para pensar em um modo de me explicar tudo. – Ameacei com o dedo em riste. O advogado ergueu o canto do lábio e fez o mesmo com uma sobrancelha, encarando-me daquele jeito que eu amava e odiava na mesma proporção.
- Fique à vontade. Não quero beijar o Bento por tabela. – Debochou outra vez. Prendi o riso e cerrei os olhos em sua direção, encaminhando-me para o banheiro localizado naquele mesmo andar. Passei uma água na bochecha sem me demorar e retornei ao cômodo, reparando que não encontrava-se ali. Varri o local com os olhos sondando seu paradeiro, não obtendo sucesso. Coloquei minha bolsa em cima da mesinha de centro e me ajeitei no sofá mais confortável que eu já havia visto na vida, sendo acompanhada pelo Pastor Alemão que deitou-se ao meu lado. Tirei meus sapatos e estirei meu corpo no assento estofado, aconchegando-me junto ao cachorro e abraçando seu pelo fofo. Eu não fazia ideia de que estava tão cansada até sentir o meu corpo inteiro formigar.
- O que está acontecendo aqui? – A entonação cômica pertencente ao advogado tomou conta do ambiente. Abri os olhos e me deparei com sua figura imponente observando a mim e ao seu cachorro de maneira engraçada.
- Estou me energizando após uma semana turbulenta de provas. – Falei simplesmente sem me mover e o homem riu. Foquei meu olhar em e franzi o cenho ao notar que ele escondia algo atrás de suas costas. Tal constatação pareceu ser captada por , pois logo minha dúvida foi sanada quando seu braço retornou à posição correta, exibindo consigo um buquê de rosas do qual parecia ter sido tirado de um conto de fadas. Pisquei algumas vezes sem compreender muito bem o que via e voltei a me sentar, encarando o advogado com a maior cara de nada já vista. O canto de sua boca continuava pendido para o lado e a sua fisionomia era tranquila, quase serena. Enquanto uma mão escondia-se no bolso da calça, a outra segurava o conjunto de flores de modo despojado.
- Pode pegar, se quiser. É seu. – Despertei do meu estado de torpor e sorri completamente abobalhada, levantando-me do sofá ainda meio aérea. Apanhei o buquê e o vislumbrei extasiada com o coração a ponto de sair pela boca. Ergui meus olhos e estabeleci um profundo contato visual com o homem que examinava com zelo.
- Eu... Nossa! Elas são lindas! Não sei o que dizer. – Soltei meio perdida e ele riu fraco. – Obrigada. – Deslizei minha mão livre em sua nuca e colei meus lábios nos seus de súbito, sentindo-o contornar minha cintura com seus braços rijos e determinados. Sua língua deslizou sobre a minha com calma e nossas bocas moveram-se igualmente sem pressa. Resfolegamos entre o beijo e eu firmei meus dedos em meio aos seus cabelos ao passo que as mãos decididas do advogado apertaram a pele sob minha camiseta, fazendo-me exprimir um grunhido baixo. Dei um pequeno impulso para me equilibrar melhor e pisei em falso, quebrando totalmente o clima ao pender o corpo para trás e cair de costas no sofá num baque mudo, trazendo e as rosas comigo e transformando a cena anteriormente romântica em um desastre total.
- Você deveria vir com um aviso de perigo. – O advogado satirizou rindo, rolando seu tronco para sair de cima de mim.
- Meu desastre natural é um charme. – Ergui o corpo e coloquei o buque cuidadosamente sobre a mesinha junto a minha bolsa, aninhando-me no peitoral do homem ao meu lado em seguida.
- Desculpe por não ter ido lhe buscar. – Começou e eu o fitei. – Vim direto do trabalho para preparar nosso jantar. – Sorri derretida e pousei minha mão em seu rosto, executando uma leve carícia ali.
- Acha mesmo que eu liguei para isso? , olha só o que você fez! Eu amei! – Afirmei encantada, vendo um sorriso satisfeito moldar-se em seu rosto.
- Fico feliz. Foi uma forma de lhe parabenizar pela conclusão do semestre na faculdade.
- Obrigada. De verdade. – Disse, abraçando-o como se a minha vida dependesse disso. O homem entrelaçou deus dedos nos fios dos meus cabelos e iniciou um afago reconfortante, depositando um beijo em minha testa.
O silêncio instalou-se ali e, após bons minutos, resolvi quebrá-lo.
- Sobre o que você falou com relação a ir ao abrigo novamente... Eu iria adorar. – Confessei de súbito. O advogado inclinou a cabeça para baixo e me olhou repleto de seriedade.
- Eu não quero de forma alguma invadir o seu espaço, . Voltar lá será um prazer, desde que você esteja realmente de acordo com isso.
- Pare de bobeira. Se eu estou dizendo que iria adorar, é porque iria mesmo. Archie gostou de você. – Disse, lembrando do garotinho que não tardou a perguntar se voltaria ao abrigo logo que o homem fora embora de lá. – Só não quero falar a respeito da situação financeira da instituição. Não agora. – Admiti e o advogado concordou. Eu ainda não havia tido tempo para refletir acerca do assunto e ele era delicado demais para ser tratado de maneira leviana. Não era hora de permitir com que o meu orgulho tomasse frente da situação e eu sabia muito bem disso, afinal, nada daquilo era sobre mim. Trish e Magnolia precisavam ser comunicadas a respeito de tudo antes de uma decisão ser tomada.
Fixei meus olhos nas rosas vermelhas e bem cuidadas conforme prosseguia com as carícias em meus cabelos, sentindo cada parte do meu ser confirmar que eu era apaixonada por absolutamente tudo que o remetia.
De súbito me lembrei da cena protagonizada por mim e por minha mãe horas mais cedo, o que me levou a considerar que ela já sabia o que andava acontecendo entre mim e o filho de seus patrões. Aos poucos, todos pareciam se dar conta do que ocorria, e tal constatação me conduziu a um sentimento de culpa ao chegar em um nome em especial: .
A última coisa que eu desejava era começar um envolvimento com alguém estando emaranhada em uma rede de mentiras e omissões, a sensação só piorava ao avaliar as circunstâncias e colocá-las em tópicos mentais, onde meu bom-senso avisava que não merecia estar no escuro quanto ao meu antigo relacionamento com seu melhor amigo. Não era justo. Eu não gostaria que me escondessem tal informação, e me colocar em seu lugar foi o pontapé necessário para que uma coragem repentina assolasse meu corpo e controlasse meus movimentos e ações. Afastei-me dele e me sentei, recebendo um olhar questionador em resposta a minha atitude. Minhas mãos começaram a suar e o meu coração tornou a acelerar, todavia, agora por um motivo diferente.
- Algo errado? – O advogado também aprumou a postura, contemplando-me preocupado. Respirei fundo e tentei ignorar o tremor que começava a se manifestar em mim.
- Eu tenho que conversar com você sobre um assunto. – Comecei sem vacilar e notei a expressão séria de ganhar mais intensidade. O toque estridente provindo de algum celular rompeu através do ambiente tenso e eu não sabia se comemorava ou lamentava, haja vista que a coragem havia se dissipado junto aos sons do ringtone. Assisti o homem tirar seu aparelho do bolso e atendê-lo com um vinco entre as sobrancelhas, gerando um receio imediato que subiu pela minha espinha em forma de arrepio.
- Oi, pai. – Suspirei aliviada à menção do termo pai, no entanto, o alívio não durou por muito tempo. empalideceu e sua fisionomia encontrava-se assustada. – Como assim? Onde foi isso? Onde ela está? [...] – Estou indo praí. – Finalizou a chamada aturdido e se colocou de pé rapidamente. Fiz o mesmo, tocando-lhe o rosto a fim de fazê-lo olhar para mim.
- O que aconteceu, ? – Perguntei preocupada.
- Minha mãe está no hospital.



Capítulo 24

"Porque somos nós contra o mundo. Eu e você contra todos eles. E se você ouvir essas palavras, saberá que estamos suportando." Us Against The World – Westlife.


’s POV.

A atmosfera de tensão circundava o ambiente taciturno tomado por uma apreensão quase palpável.
O clima anteriormente leve havia se tornado carregado, sendo acentuado pelo silêncio mórbido que me fez paralisar diante do receio de tomar qualquer atitude senão observar, preocupada, o desatino de frente a notícia recebida minutos atrás. Com o semblante sério contorcido em angústia, o homem parecia ter perdido o rumo ao passo que transitava de um lado a outro enquanto decidia entre transpassar os dedos através dos fios do cabelo e fluir a atenção ao longo da sala à procura de algo. Respirei fundo e, cautelosa, aproximei-me dele, tocando-lhe o antebraço a fim de fazê-lo parar de andar. O vinco formado no meio das sobrancelhas denunciava o nervosismo latente estampado em sua fisionomia opaca, causando-me um aperto no peito ao presenciá-lo tão desorientado.
- Ei… – Pousei uma mão no rosto do advogado inquieto e busquei os seus olhos com os meus, incitando-o a olhar para mim. – Primeiro de tudo: Fique calmo. – As íris refulgentes agora brilhavam numa nuance nebulosa, deixando-o ainda mais intimidador do que de costume. Eu já não me impressionava com nada daquilo. A máscara impassível utilizada por era somente a fachada de um indecoroso edifício arquitetado para camuflar possíveis desníveis, contudo, tais fissuras não me repeliam mais. – O que houve com sua mãe? – Questionei, fitando-o de maneira zelosa. O homem sutilmente balançou a cabeça em negação.
- Não sei, meu pai não explicou porra nenhuma. Apenas disse que ela passou mal e está internada. – Respondeu colérico, embora eu pudesse perceber seu esforço para controlar os próprios nervos. – O tom de voz dele não me agradou, preciso ir ao hospital. – Novamente a mão do advogado deslizou pelo cabelo num explícito ato de agonia. Suspirei e assenti.
- Eu vou com você. – Afirmei decidida. concentrou as orbes atentas nas minhas e, dotado de seriedade, analisou-me durante milésimos de segundos, concordando logo depois. Era notável que ele possuía um parecer a respeito de minha escolha, bem como era óbvio de que isso seria discutido noutro momento, afinal, aquele não estava propício para possíveis objeções. Recolhemos nossos casacos e seguimos porta afora, adentrando o elevador sem proferir uma palavra sequer. A vibração tensa do advogado podia ser percebida à mínima análise meticulosa, levando-me a absorver seu estado de espírito pesado após a breve avaliação. Conduzi minha mão até o seu braço e efetuei um leve afago na região na tentativa de confortá-lo, gesto no qual o despertou do torpor em que encontrava-se inserido. – Não deve ser nada grave, você vai ver. – O homem retirou os olhos das portas de metal e os pousou sobre mim, arrastando minimamente o canto dos lábios num sorriso franzino antes de envolver meu corpo num abraço lateral, reconfortante e protetor como lhe era costumeiro.
- Assim espero. – Ainda que ele procurasse soar convicto, a dualidade contida na frase gritava receio. Atravessamos o estacionamento ocupado por ostentosos veículos e logo destravou o qual lhe pertencia, onde ocupamos seus respectivos bancos sem demora. O cair da noite trazia consigo o fino chuvisco que salpicava o para-brisas do carro, transformando a metódica cena preestabelecida instantes atrás em uma completa versão dramática daquele contexto de carga emocional pesada. De soslaio, olhei o homem ao meu lado, deparando-me de imediato com sua expressão dura acompanhada pelo maxilar travado e o vinco entre as sobrancelhas franzidas. As mãos apertavam o volante de modo demasiado firme, evidenciando que ele descontava as preocupações as quais lhe rodeavam a mente na interface do aro circular. Reprimi um suspiro audível e foquei nas ruas banhadas pela garoa gradualmente mais grossa, temendo o que viesse a ocorrer dali em diante. Independentemente de não possuir uma boa relação com a senhora , eu nunca, em hipótese alguma, lhe desejaria o mal. Querendo ou não, ela estendera a mão para minha mãe no pior momento de nossas vidas, e, bem, eu seria um tanto quanto ingrata por não reconhecer a benevolência acerca de tal atitude.
Kyara era, sem sombra de dúvidas, uma mulher complexa. Eu a via como o retrato perfeito da elite social.
Rigorosa, implacável e assustadoramente refinada, a mulher esbanjava um poder capaz de intimidar qualquer um, sobretudo àqueles que conheciam a linhagem . Apesar de não ser uma de suas fãs, eu a admirava. O esforço que a matriarca da influente família impunha para manter o status quo de seu meio era surpreendente, contudo, ele não havia surtido muito efeito, haja vista que eu, a última pessoa por ela considerada digna de frequentar o mundo da alta sociedade, agora me encontrava com seu filho. A vida é irônica e ri de você enquanto toma champagne e cospe na sua cara.
Voltei a fitar . Ele permanecia rígido em sua inflexível postura. Eu torcia para que dona Kyara ficasse bem não apenas porque odiava ver pessoas sofrerem, mas também porque odiava vê-lo sofrer.
Redirecionei a atenção à rua e meus olhos quase saltaram das órbitas assim que captaram a impressionante estrutura arquitetônica adiante. Os vários prédios reluzentes formavam um conjunto de blocos grandiosos e luxuosos, onde passarelas suspensas interligavam as alas e também conectavam o hospital às demais instalações, todas muito bem iluminadas. Entramos em uma espécie de subsolo no qual imediatamente identifiquei como o estacionamento e logo o carro encontrava-se devidamente manobrado. Desde o momento em que saímos do apartamento, não havíamos proferido uma palavra sequer. Tudo parecia ser feito em movimentos robóticos, trépidos, receosos. Adentramos o lobby da recepção e, enquanto o advogado sorvia as informações passadas a ele, dei uma breve varrida no local com os olhos atentos. Eu odiava hospitais, mas aquele mal se parecia com um. Talvez por estar um tanto quanto atônita frente a situação, ainda não tinha me ligado no que estar ali implicava, sobretudo por ter certeza de que Henrico esperava que o filho aparecesse sem companhia. Sem a minha companhia. Minha ficha foi caindo depressa como volumosas gotas d’água que rapidamente começavam a preencher um copo pequeno demais para elas.
A sensação de fobia contraiu o meu peito e intensificou-se no segundo em que a porta do elevador se abriu, revelando o andar da internação. Dessa vez, eu não quis analisar nada. A extensa porta de vidro que separava o corredor da sala de espera aproximava-se a cada passo que nós dávamos, e eu já conseguia sentir minhas mãos suarem. Era como estar indo de encontro ao matadouro.
Eu estava ali por . Eu não estava fazendo nada de errado.
A palma do advogado capturou a minha com determinação, entrelaçando nossos dedos de modo firme, convicto. Subi os olhos e o fitei, defrontando-me com sua feição séria, fria, mas acima de tudo, destemida. Ele sabia que estávamos dando um passo sem volta.
O contato de nossas peles juntas fervilhou o meu sangue, trazendo o conforto e o bem-estar que eu necessitava.
O ambiente aparentemente aconchegante da sala materializou-se à frente, bem como a figura imponente do senhor . Sentado em uma poltrona cor de vinho, ele nunca me parecera tão intimidador.
Meu coração esmagava minhas costelas.
O polegar de acariciou o meu cuidadosamente.
A porta foi empurrada.
Henrico desviou os olhos do vácuo e os pousou em nós dois. Tão cortante, tão inquisitivo, perigosamente incrédulo.
Meus joelhos afrouxaram e eu já não sabia mais como fazer o ar sair de meus pulmões.
Cruzamos o ambiente sob o olhar duro do homem que não ousou se mover. Ele se limitava a atravessar a análise fulminante entre mim e o filho como lâminas.
Eu me sentia uma formiga insignificante.
Ser perfilada com tamanha dureza sugou o último fio de autoconfiança que me restava.

”[…] Estou abrindo os seus olhos para o óbvio, o seu mundo não se encaixa ao de , você sabe disso...”

”[…] Isso não vai dar certo, gracinha. A família do não irá aceitar de bom grado...”

Engoli a seco, odiando tais pensamentos intrusos e sabotadores.
Puxei uma boa quantidade de oxigênio e o exalei com certa dificuldade. O ar saíra de modo entrecortado. O fiz novamente e reorganizei meu eu interior, enfim tornando menos árdua a caminhada até Henrico, o qual havia levantado da poltrona sem deixar de nos perfilar com as íris incendiárias. As mãos no bolso da calça social junto ao semblante mal-encarado me remetiam a , que ficava exatamente daquele jeito sempre que adotava tal postura. O entrelaço do advogado em minha mão tornou-se mais vívido e eu instantaneamente senti segurança através do gesto.
Nosso andar cessou e eu automaticamente recuei alguns passos somente para me certificar de que conseguiria manter meu espaço pessoal longe da atmosfera densa advinda do homem mal-encarado à nossa frente. Suas orbes incisivas e questionadoras pousaram sobre mim como se pudessem me desintegrar e, embora estivesse apavorada por dentro, permaneci inexpressiva. Impenetrável.
- Como minha mãe está? – A voz forte e grave de reverberou, chamando a atenção do pai para si.
- O que isto significa, ? – Ignorou a pergunta com outra inquisição dotada de austeridade. – O que a filha da está fazendo aqui?! – A análise fulminante direcionada ao homem ao meu lado certamente poderia arrancar-lhe um pedaço, caso fosse possível. Contive um revirar de olhos diante da forma repulsiva utilizada por Henrico para se referir a mim e fitei de esguelha, vendo-o encarar o pai friamente.
- – Frisou num tom repreensor – veio me acompanhar. Imagino que tenha sido uma pergunta retórica, pois é óbvia a razão pela qual estou aqui com ela. – Expôs sem vacilar a postura aprumada e impassível. – Como minha mãe está? – Voltou a interrogar, insistindo em receber uma resposta à sua recente indagação.
- Não acredito que você levou essa história adiante, ! – Esbravejou ríspido, ignorando-o mais uma vez. Seu tom grosseiro soou comedido. Era impossível ignorar o sentimento de ofensa que me assolou ao presenciar o desprezo do mais velho quanto ao envolvimento de seu filho comigo. – Como se atreve a trazê-la para cá?! – Respirei fundo pela milésima vez e o meu radar de confusão apitou em alerta geral no segundo em que tornei a espiar . Eu conhecia o significado das expressões estampadas no rosto dele. A junção dos olhos ligeiramente semicerrados com os músculos da mandíbula apertados indicavam a tangível ira explicitada por intermédio do intenso contato visual protagonizado por ele e o pai, o qual sustentava o ato carregando a mesma postura arrogante de sempre. Permaneci calada e inexpressiva enquanto meu corpo respondia àquela situação desconfortável, fazendo-me tremer internamente tamanha tensão pairada no ar.
- Eu honestamente não quero discutir, entretanto, sugiro que se habitue ao que está presenciando agora.
- E eu sugiro que repense tal decisão estúpida! Não aceito que você envolva subordinados nos assuntos da família, não ache que eu permitirei tamanho absurdo! – Bradou quase cuspindo as palavras. Meu estômago embrulhou de nojo e foi necessário que eu me refreasse para não retrucar à altura. Alguém tinha que estar com os ânimos controlados a fim de evitar que a situação piorasse e a julgar pela fisionomia de , uma guerra poderia se instalar ali que ele não daria a mínima. – Não serei conivente com esse desaforo em prol de uma diversão sua! – Franzi o cenho e, antes de perder o pouco de paciência que me restava, fiz menção de soltar a mão do advogado com o propósito de deixá-lo conversar com o pai e me afastar daqueles ataques passivo agressivos, no entanto, reconsiderei a decisão no instante em que notei a postura de se tornar hostil para então avançar em direção ao mais velho, que pareceu não se importar com a exaltação do filho.
- Eu não lhe pedi para aceitar nada! – Vociferou tempestuoso, atraindo a atenção dos poucos enfermeiros que passavam dali para lá.
- … – Tentei conter sua cólera e movê-lo de volta a uma distância segura do senhor . Sem sucesso.
- Com quem você pensa que está falando?! Diminua o tom e se controle!
- Pare de tentar me controlar, porra! – Encolhi os ombros momentaneamente e olhei em volta sem saber o que fazer. – Tenho o direito de viver como eu bem entender, tenho direito de estar com quem eu bem entender e exijo respeito pelas minhas escolhas. Não ouse servir-se de desdém para com ela, eu não admitirei isso! – Rugiu novamente. Embora Henrico se mostrasse inflexível, era perceptível que os lampejos de raiva os quais perpassavam por entre seu semblante não demorariam a irromper em uma discussão bem mais acalorada.
- Ei! – Reuni um pouco mais de força e, enfim, consegui atrair o olhar de para mim. – Acalme-se, nós estamos em um hospital. As pessoas estão olhando. Discutir agora não lhe levará a nada. – Disse, finalmente vendo-o amansar a compostura anteriormente inflamada. Varri o local com os olhos e rapidamente levei o homem ainda alterado para a outra extremidade da sala longe da figura presunçosa do pai, o qual nos encarava dotado de severidade. – Eu não ligo para o que ele fala, está bem? – Completei assim que alcançamos um afastamento livre das objeções intolerantes de Henrico. riu sem humor e negou com a cabeça, transpassando as mãos através do rosto e cabelo em movimentos nervosos.
- Eu ligo para o que ele fala, ! Você não vai ser tratada dessa maneira de jeito nenhum!
- Nós sabíamos que isso aconteceria, bater de frente na atual conjuntura não adiantará absolutamente nada. Eu me propus a vir já tendo em mente que a recepção não seria boa, , só que agora não é o momento para confrontar o seu pai dessa forma. – Falei. Ele me fitou durante alguns segundos e por fim assentiu, respirando fundo após o ato.
- Estou cansado dessa merda, já passou da hora de colocar o meu pai no lugar dele! – Esbravejou outra vez e intencionou virar a cabeça para encarar o homem citado, contudo, o impedi, tocando-lhe a face a fim de fazê-lo olhar para mim.
- Eu imagino, mas você não pode perder a cabeça, . Ainda mais aqui e agora. – Aconselhei, aproveitando para executar uma leve carícia no local onde minha mão repousava. Ele suspirou e pousou sua palma sobre a minha, retribuindo o carinho.
- Tem razão. – Sorri fraco e permaneci quieta, desfrutando da sensação acalentadora ocasionada por nossa troca de afeto. Além dela, também era possível pressentir uma energia pairando sobre nós, e não foi necessário que eu me virasse para o lado oposto da sala para descobrir a fonte dessa intuição. Era certo que Henrico assistia toda cena e, pela primeira vez, não me importei. As cartas já haviam sido expostas à mesa, de qualquer forma. – Obrigado por vir até aqui comigo. Compreendo que não foi fácil e você não precisava passar por isso. – A voz baixa e rouca de despertou-me do meu momentâneo devaneio. Foquei nos seus olhos opacos, percebendo um fulgor de exaustão perpassar por eles.
- Está tudo bem, eu gosto de participar de um bom drama. Reativa os meus instintos de defesa. – Gracejei e o advogado riu fraco, negando com a cabeça simultaneamente ao gesto.
- Falo sério, . Sei que você gostaria de esperar um pouco mais até deixar que soubessem de nós.
- … Todo mundo meio que já sabe. – Ri sem humor e ele aprumou o rosto sério, fitando-me atentamente. – Inclusive a minha mãe. Ela jogou verde antes de eu sair de casa. – Disse, temendo de antemão os rumos que a minha conversa com ela levariam.
- Como você está se sentindo acerca disso tudo? – Indagou, perfilando minha face com zelo.
- Uh, achei que a responsável por fazer perguntas de viés psicológico era eu. – Brinquei novamente, no entanto, a única coisa que arranquei do homem à minha frente foi um arquear de sobrancelhas. Torci o nariz e dei de ombros, desfazendo-me da minha pose piadista. Utilizei da minha visão periférica e dei uma breve checada no senhor , que havia se ocupado em uma ligação telefônica, gesticulando exasperado para quem quer que fosse do outro lado da linha. Sentado na mesma poltrona onde o encontramos ao irromper as dependências do recinto, ele aparentava estar mais mal humorado do que nunca. Oh, céus.
- A gente precisa deixar a vida acontecer. Eu não quero ficar me escondendo tal como uma adolescente, soa meio ridículo se for parar para analisar. Nós não estamos fazendo nada de errado, . Nossas diferenças não deveriam importar tanto assim. – Esclareci, farta de temer viver a minha vida só porque não levava comigo o título de herdeira ou coisa parecida. O advogado delineou cada parte do meu rosto com as íris obstinadas, trazendo-me para si até ficarmos perto o suficiente para despertar as clichês e malditas borboletas que teimavam em fazer festa sempre que ele se aproximava tão intimamente.
- Elas não me importam. Creio que não importem para você também. – Considerou. Sorri meio de lado e neguei. Não me importar era diferente de não me preocupar e a reação da minha mãe de fato me afligia, contudo, limitei-me a não estender o tópico, pois antecipar a apreensão que eu decerto sentiria na conversa em questão só pioraria o meu estado de espírito que já não era dos melhores. me examinou com o olhar clínico de quem busca algum tipo de incoerência velada pelo meu maneio de cabeça e curvou a lateral dos lábios, movendo-os na direção da minha testa em seguida. Depositou um ligeiro beijo na região e me aninhou em seus braços em um sofá enquanto aguardávamos notícias de sua mãe.
Henrico encerrou o telefonema que parecia ter lhe enraivecido ainda mais e o guardou no paletó com certa brutalidade, vasculhando o ambiente até pairar a mirada em mim e no seu filho. Os olhos do homem nos espreitaram em pura censura antes voltarem-se a um ponto qualquer da sala, explicitando sua vontade de deparar-se com qualquer coisa, menos conosco juntos. O silêncio recém-instaurado ali juntou-se à aura sepulcral que somente hospitais possuíam, serpenteando o ambiente como se pudesse me apertar a jugular. Minutos depois, um homem de idade trajado completamente de branco surgiu por entre a porta de vidro que separava a sala de espera das demais dependências do andar, despertando-nos do incômodo estado de inércia que nos encontrávamos.
- Vai lá. Eu espero aqui. – Desvencilhei-me do braço de e dei um sorriso fechado. Ele somente concordou e se levantou de súbito, juntando-se ao pai na coleta de informações a respeito da saúde de Kyara. Eu possuía consciência de quais eram os meus limites naquele cenário, e continuar sentada exatamente como eu estava me parecia o mais sensato a se fazer. Restringi-me a observar os três homens mais à frente sem conseguir distinguir o que era dito, sendo capaz apenas de admirar a figura séria de o qual balançava a cabeça em compreensão ao passo que ouvia o médico falar. Notei a postura dos dois alterar-se para algo próximo à incompreensão e me aprumei no estofado do sofá, esforçando-me para tentar entender o que havia provocado tal conduta. Após minutos de contestações, explicações advindas do doutor e mais diálogo, Henrico acompanhou o profissional corredor adentro e fez o caminho de volta até mim sendo escoltado pelo meu semblante confuso.
- E então…? – Questionei meio perdida, assistindo-o se sentar e apoiar os cotovelos em sua coxa, percorrendo as mãos através do rosto estafado antes de me encarar.
- Minha mãe está bem. Parece que passou mal após uma audiência e desmaiou, mas já foi medicada e adormeceu. – Começou e eu assenti, aguardando-o prosseguir. O advogado parou sua fala e cravou as íris esgotadas numa zona qualquer da sala. Tomou fôlego para então seguir adiante. – Ao que tudo indica, isso foi causado por um problema cardíaco. – Contraí minha expressão em puro pesar e toquei-lhe a mão, acariciando-a com meu polegar.
- É grave?
- Não, porém, pode vir a ser. Ele acompanhará o caso dela com atenção, contudo, aparentemente, a doença evoluiu até chegar no estado atual.
- Mas e quanto as viagens que ela fazia para realizar exames médicos? – Apontei meio confusa devido ao relato do advogado, que desviou os olhos do vazio e enfim os pousou em meu rosto.
- Ótima pergunta. Nunca me preocupei com eles, minha mãe sempre dizia que estava tudo bem e eu jamais imaginei que ela pudesse ser capaz de acobertar algo tão delicado. – Respondeu num misto de seriedade e desorientação. – Eles farão uma bateria de exames para que possam nos dar um diagnóstico mais preciso, é provável que amanhã no período da tarde já o tenham. Vou apenas dar uma passada no quarto dela e então vamos embora, tudo bem?
- Você não prefere ficar?
- Meu pai permanecerá aqui por hoje, a parcela de calma que eu possuía para partilhar do mesmo ambiente que ele já foi excedida. – Farpeou ainda nitidamente irritado com a discussão entre os dois. Acenei em concordância e conduzi minha mão anteriormente posta sobre a dele até o seu rosto, sentindo a textura da barba por fazer roçar na pele da minha palma. O advogado suavizou a expressão e me encarou de maneira concentrada ao passo que acompanhava, calado, a carícia feita por mim.
- Não mantenha tanta raiva para si, faz mal. Deixe-o esbravejar sozinho. – Falei, arrancando um diminuto risinho torto de .
- Gostaria de ter a sua calma.
- Uh, espere só até você me ver na TPM. – Forjei uma careta teatral e ele riu com mais ímpeto, negando com a cabeça como lhe era costumeiro sempre que eu falava alguma bobagem. Henrico despontou corredor afora e eu troquei um rápido contato visual com , que levantou-se do sofá não sem antes me fitar como se questionasse implicitamente se, de fato, estaria tudo bem ficar ali sem ele durante alguns minutos. Sorri e assenti, admirando-o lançar um efêmero olhar incisivo na direção do pai conforme andava imponente de encontro ao enfermeiro que o aguardava no batente da porta cristalina.
Respirei profundamente e não tardei a me levantar, encaminhando-me rumo à extensa parede de vidro que proporcionava uma visão abrangente da cidade que mais parecia uma miniatura dali de cima. Observei o horizonte por detrás da vidraça a esmo, única e exclusivamente com a intenção de evitar qualquer tipo de contato com o senhor , entretanto, vi meus planos irem por água abaixo ao distinguir o reflexo dele se aproximando de onde eu me encontrava. De repente, uma sombra nebulosa pairou sobre minha cabeça e um nó se alojou em minha garganta, fazendo com que a simples tarefa de engolir saliva fosse mais complicada do que realmente era. As batidas frenéticas e nervosas do meu coração deram às caras novamente ao mesmo tempo que sentia meu corpo enrijecer. A figura altiva do homem parou ao meu lado, era possível perceber a tensão planando no ar e ela parecia sambar em meus ombros agora duros como pedra.
- É uma visão e tanto. Daqui podemos contemplar tudo tão claramente que é inevitável não se sentir um mero grão de areia ao perceber que vivemos no solo, junto àqueles que, neste instante, parecem formigas aos nossos olhos. – Iniciou despretensioso. O timbre rasteiro como uma cobra prestes a dar o bote gritava cuidado, todavia, algo dentro de mim catapultou o temor para o raio que o parta e deu lugar à naturalidade que eu lutava para expressar enquanto me esforçava para respirar direito.
- Ponto de vista. – Soltei. A voz falha continha resquícios do meu desconforto o qual logo tratei de mascarar com um contido coçar de garganta, dando continuidade à frase a seguir. – Se duas pessoas olharem de ângulos diferentes, verão realidades diferentes. No momento, eles são formigas para nós; Quando estivermos lá embaixo, nós seremos formigas para quem está aqui em cima. O modo como enxergamos alguém nem sempre é o concreto. – Alfinetei sem acreditar que aquilo havia mesmo saído da minha boca. Não ousei mover minha atenção da paisagem, tampouco Henrico. Ouvi o homem exprimir um risinho ácido e firmei meus braços cruzados, criando uma barreira imaginária entre mim e sua hostilidade velada.
- ”Como alguém pode ver claramente quando não vê sequer a si mesmo?” – Semicerrei os olhos diante da menção daquela frase mais do que conhecida por mim.
- Jung. – Respondi, dando nome ao autor de tal questionamento.
- Formidável. Você é esperta, . Há bravura escondida neste rosto aparentemente inofensivo. – Comentou ainda utilizando do tom pastoso. Não respondi. – Sendo tão esperta como vejo que é, sabe que basta uma autoavaliação para dar-se conta de que esse relacionamento afetivo entre você e eventualmente gerará conflitos. – O oxigênio que eu me esforçava a expelir travou nos meus pulmões. Revirei os olhos e não me atrevi a encará-lo. Quem de longe nos observasse diria que éramos somente duas pessoas conversando amigavelmente, muito embora a palpável tensão imersa ali indicasse o contrário.
- Em toda relação há conflitos, senhor . – Rebati demonstrando uma tranquilidade que eu na verdade não sentia. O diabinho em meus ombros teimava em me induzir a dar-lhe respostas atravessadas, apesar de eu saber que aquele era um território arriscado demais para simplesmente verbalizar o que eu realmente desejava.
- É evidente que sim. E eles se acentuam quando se deparam com abismos tão visíveis como os que separam vocês dois. Depois da paixão e da perda da expectativa, a tendência é o estresse aumentar e, veja bem, será frustrante para ambos. estava quase noivo e é natural que busque distrações após o término, você deveria se policiar sobre o que quer para si mesma. – Sua sentença me abateu como um tapa dolorido diretamente no ego. Enfim desviei os olhos da janela e os cravei no homem inalterável ao meu lado, fitando-o ultrajada e com o desejo de esfregar sua feição arrogante no vidro esmerado.
- Doutor … – Controlei meu tom de voz, gerindo-o para que ele soasse o mais desafetado possível. – O senhor pode não gostar de mim, mas dar a entender que eu sou uma diversão para o é desrespeitoso comigo. E, bem… Isso também é quase como fazer pouco caso das decisões do seu próprio filho. – Disparei num misto de hesitação e revolta, mordendo minha língua ao notar que ela talvez houvesse me feito ultrapassar uma linha tênue a partir da sentença recém-verbalizada. Henrico virou a cabeça na minha direção tal como um robô programado para atacar, ainda que o semblante frio permanecesse intacto. Um modesto sorrisinho vil moldou-se em seus lábios junto ao fugaz levantar de sobrancelhas, deixando ainda mais clara a semelhança com . Tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente.
- Ora… Está sugerindo que sabe mais a respeito da minha família do que eu, ? No seu lugar, eu tomaria cuidado com o que insinua. Utilizo de muita prudência para selecionar os meus desafetos e o passatempo do meu filho tem tanta relevância quanto um inseto parado num para-brisas. – O nó preso na minha garganta doeu. Cerrei os olhos e refreei o ímpeto de esquentar sua bochecha com a palma da mão, que coçava tamanha a descrença frente ao que eu acabara de ouvir. Não obstante, ele prosseguiu. – Eu prezo pela estabilidade do meu lar. Não estamos em um bom momento para lidar com desordens, misturar interesses me soa como bobagem e eu disponho de um sobrenome a zelar. Por mim tanto faz com quem meu filho dorme, contanto que isso não influencie na vida dele, e agora está influenciando. Confio no seu bom senso para se dar conta de que o nosso meio não é para você. Continue escondida na cozinha junto à sua mãe e mantenha-se longe de problemas, poupe-me desse namorico enfadonho com , pois vocês dois sabem que não os levará a lugar algum. Não o atrapalhe mais. – Arrematou num golpe seco e certeiro. O tom de voz transbordava uma calma perversa. Minha cabeça girava continuamente enquanto meu peito doía de tanta raiva, fazendo-me experienciar sensações nada agradáveis ao não conseguir colocar para fora o ar dos meus pulmões. Meu estado fora de órbita permitiu com que eu ouvisse um ”tenha uma boa noite” jocoso antes de enxergar o embaçado vislumbre da cruel figura de Henrico deslocar-se do espaço onde nos encontrávamos, deixando-me ali com a mistura de sensações desesperadoramente incômodas e prejudiciais ao meu corpo trêmulo de ira.
Não sei quanto tempo depois senti um par de mãos quentes tocando-me o rosto e pisquei devagar, distinguindo a imagem de materializar-se à minha frente conforme eu retornava à terra.
- ? – O encarei meio perdida e topei com seu semblante preocupado, apesar do vinco entre as sobrancelhas do homem revelarem uma cólera incontestável. – O que aconteceu? – A pergunta saíra arrastada, quase pausada. E ela era retórica. O advogado levantou o músculo da testa e correu a expressão dura através da sala. Segui o seu olhar, reparando que o senhor não mais localizava-se ali.
- Seu pai não é uma boa companhia. – Revelei com um sorriso engessado e sem humor. Ele amaldiçoou-se baixo e soltou um xingamento, olhando-me com pesar em seguida.
- Maldito! – Esbravejou outra vez. O pesar foi substituído pelo maxilar contraído. Os nós dos seus dedos afundaram-se na minha nuca, efetuando um carinho confortante no local. Aos poucos respirar tornou-se viável novamente. – Que merda ele disse para você? – Perguntou aborrecido. Engoli a seco e neguei, odiando ter me afetado pelas palavras desprezíveis de Henrico.
- Ele basicamente acha que eu sou uma diversão para você. Uma diversão que atrapalha, ou coisa do tipo. Foi muita merda para que eu consiga reproduzir no momento e, , eu juro que não aceitarei ser tratada dessa maneira. Querer manter o emprego da minha mãe não vai custar minha dignidade! – Exclamei mais para mim mesma do que para ele, sentindo as palavras queimarem a cada sentença proferida, assim como a minha retina embargada. De raiva. O sério advogado me analisou de maneira sofrida, como se olhar para mim o machucasse. Ele fechou os olhos com certa amargura e balançou a cabeça em negação.
- Inacreditável… – Foi a vez dele exprimir um riso ácido, mordaz. – Prometo que isso não vai ficar assim. Eu sinto muito por essa merda… Porra! – Vociferou em puro martírio. Senti a palma da sua mão apoiar-se na parte de trás da minha cabeça com cuidado, ao passo que a outra revestiu a minha cintura, juntando nossos corpos em um abraço acolhedor. – Sinto muito mesmo. – A impressão de estar cercada por um muro protetor surgiu junto à característica segurança transpassada por , cujo calor do corpo envolveu o meu trazendo a sensação de calmaria que eu carecia. Ele encostou o queixo rente à minha têmpora. A barba raspou ali de um jeito gostoso que sutilmente me eriçou os pelos do corpo, levando-me a intensificar o abraço ao infiltrar minhas palmas sob o sobretudo pesado, satisfeita por sentir a calidez e os traços de seu corpo com maior fervor ao contornar o tronco robusto com meus braços necessitados de mais contato corporal. Espalmei minha mão nas suas costas e suspirei, notando o advogado fazer o mesmo. – Eu não devia ter deixado você sozinha. – Assumiu parecendo se culpar. Eu apenas neguei.
- Você veio ver a sua mãe e o fez. Saímos de casa para isso. – Rebati tranquilizando-o.
- Não saímos de casa para você ouvir desaforos. – Contestou com o tom de voz rouco e cortante. – Que meu pai agradeça aos céus por não estar aqui, porque eu juro que se o vir na minha frente… – deixou a frase no ar. O breve riso sórdido que ele exprimiu não foi nada comparado ao timbre furioso e, embora eu desejasse esfregar o rosto de Henrico no asfalto quente, presenciar pai e filho num embate violento não era o que eu queria para a minha noite. Já tivemos emoções desagradáveis o suficiente.
- Tudo bem, mas ele não está. Deve ter ido coletar algumas almas por aí. – Falei sem pensar, arregalando os olhos depois de notar que havia acabado de comparar o senhor a uma entidade sobrenatural maligna na frente do filho. Para o meu alívio ele riu, ainda que o feito não tenha durado muito.
- Vamos embora, preciso ficar longe desse hospital ao menos por hoje. – O homem pronunciou cansado, entrelaçando nossas mãos sem demora. Concordei veemente e quase suspirei de alívio ao sair daquele prédio e pisar no estacionamento, adentrando o confortável carro como se o ato fosse salvar a minha vida. O advogado deu partida no veículo e seguiu o trajeto rumo ao seu apartamento sem se preocupar em esconder a aparência rígida e pensativa, aparentando estar perdido nas próprias reflexões. Decidi não interrompê-lo e me acomodei melhor no banco, apreciando o vidro respingado de chuva.
Por mais que eu soubesse dos obstáculos pelos quais passaria ao ir adiante com , era impossível desconsiderar o sabor amargo da realidade ao vivenciá-la fora da minha imaginação. As palavras de Henrico ecoavam na minha mente em looping e fervilhavam meu sangue, voltando a desgastar o resto de serenidade que me restava à proporção que davam espaço para diversas questões das quais não me ajudariam em nada.
Românticos incuráveis afirmavam convictos que o amor supera tudo e que se não há dificuldade no caminho é porque não vale a pena, contudo, na vida real, tais declarações piegas caíam por terra com força. Apesar do meu eu poético ser molenga e encaixar-se totalmente neste romantismo estereotipado, ponderar e racionalizar a situação mostrava-se mais coerente do que idealizar sofrimento. Até que ponto devemos arriscar tudo em prol de um sentimento? Será que poetas, escritores e compositores montaram seus trabalhos com base em mentiras?
Por ora, eu não tinha como obter respostas a essas perguntas, entretanto, decerto pensaria a respeito.
Fui lançada de volta à terra ao sentir o carro desligar e movimentar-se ao meu lado, indicando que havíamos chegado e também que eu havia mergulhado num outro mundo por mais tempo do que pretendia.
Saímos do veículo da mesma maneira na qual entramos: Quietos.
A ausência de diálogo não o impediu de escorregar seus braços ao redor dos meus ombros e trazê-lo para si com destreza, levando-me a suspirar baixo. Apoiei minha cabeça no seu peitoral e fechei os olhos enquanto o elevador subia, notando meu corpo reclamar de sono. Ou talvez a minha mente só estivesse clamando por um pouco de paz proporcionada pela suspensão temporária do meu estado de vigília. Senti um breve beijo ser depositado em minha testa antes das portas metálicas se abrirem e revelarem o elegante andar privativo. abriu a porta do apartamento e fomos recebidos por um Bento alegre de rabo balançante, que ziguezagueava entre nossas pernas como se não nos visse há anos.
- Você é um bolinho de afeto. – Falei para o corpulento saco de pelos, rindo e acariciando-o.
- Ou um poodle preso no corpo de um Pastor Alemão. – O advogado alegou erguendo o cenho para o cão de barriga para cima e língua caída no canto da boca. – E aí, bobão. – Disse, arrastando a mão através da proeminência arredondada. – Preciso dar uma segurada na quantidade de ração que coloco para você. – Observou satírico e eu ri com vontade, aliviada por sentir o clima mais leve. encarou a entrada da cozinha e se voltou para mim. – Nosso jantar decerto já esfriou. – Um bocejo escapou da minha boca como uma resposta imediata ao seu comentário. Ele inclinou os lábios de modo sutil e me avaliou compadecido.
- Não estou com fome, mas tenho sono de sobra. – Confessei, vendo-o soltar um breve riso sutil e concordar com a cabeça.
- Tudo bem, já entendi. Vamos deitar. – O homem descontinuou as carícias no Pastor Alemão e se levantou, oferecendo sua palma para que eu fizesse o mesmo. Apanhei-a e fui impulsionada para cima, chocando nossos corpos levemente. Trocamos sorrisos cúmplices e, antes de subirmos as escadas, corri em direção à mesinha de centro, pegando o buquê de rosas que havia ganhado e agarrando-o com vigor. levantou uma sobrancelha e me fitou irônico. – Vai levá-lo para dormir conosco? – Indagou zombeteiro e eu rolei os olhos, contendo o riso.
- Rá, rá. Não. Vou colocá-lo em um lugar seguro bem longe dos instintos destruidores do Bento. Nós dois sabemos como ele ama a natureza. – Lancei um olhar engraçado ao cão, que apenas me encarou e mexeu as orelhas.
- É uma boa ideia. Definitivamente não quero acordar com rosas espalhadas pelo apartamento. – O advogado desaprovou ao passo que andávamos escada acima na companhia de um Bento pomposo à nossa frente. Ri e me perdi durante alguns segundos no vermelho vívido das lindas pétalas saudáveis, odiando imaginá-las estraçalhadas por todo canto.
Depositei o conjunto de rosas sobre a cômoda e me desfiz das minhas roupas sem pressa, sentindo a área posterior do meu corpo queimar sob a presença de uma carga elétrica advinda do lado oposto do quarto. Dei uma rápida espionada pelo canto dos olhos e avistei, de relance, encostado no batente da porta do banheiro com os braços cruzados, analisando-me de maneira séria e minuciosa. Emiti uma risadinha contida e soltei o feixe do sutiã na maior calma possível, guardando-o junto às demais peças. Tirei uma camisola fina da minha bolsa e a passei pelos braços e pescoço, deixando meus seios e o restante do corpo à mostra. Virei-me despretensiosa e permiti com que o extático homem à minha frente tivesse uma visão ampla do que havia ficado exposto, enfim resvalando o tecido macio através das partes anteriormente descobertas.
- Ah, você está aí! – Fingi surpresa, forçando um tom de voz debochado. Ele cerrou os olhos e o vestígio de um sorriso esperto se infiltrou nos seus lábios, os quais curvaram-se de um jeito astuto. Ofereci-lhe minha melhor fisionomia simplória e me enfiei debaixo das cobertas, agradecendo aos céus assim que o conforto daquela cama gigantesca me atingiu. Notei o lado do colchão afundar e logo em seguida fui surpreendida por um puxão enérgico na cintura, sentindo minhas costas chocarem-se contra um peitoral robusto e desnudo. Mal tive tempo de esboçar reação alguma, pois, num movimento veloz, fui virada para frente quase que imediatamente tal como um bife na frigideira, deparando-me com o semblante ardiloso do advogado que me encarava com o usual arquear de sobrancelhas na expressão envolvente. Entrelacei minha perna com a dele e sorri cínica, aninhando-me no seu corpo firme.
- Espero que não esteja tentando me provocar, . Posso fazer o seu sono desvanecer em questão de segundos. – soprou em meu ouvido. O hálito quente em conjunto com o timbre rouco e baixo me fez estremecer. Respirei fundo e fui acometida pelo aroma delicioso de seu perfume, entrando em uma espécie de transe bom demais para ser quebrado.
- Estava apenas trocando de roupa. – Respondi e dei de ombros, fazendo uso do tom de voz mais casto que consegui. Ele riu brevemente, escorregando as mãos por dentro da minha camisola inútil que honestamente não tampava nada naquele momento. Fechei os olhos, sentindo ondas de arrepios eriçarem meus pelos e acelerarem meu coração. Seus dedos alcançaram minhas costas e arrastaram-se por ali com suavidade, iniciando um carinho bom demais para ser definido com palavras. Suspirei audivelmente e me abriguei nos braços robustos, apreciando as carícias das quais dissolveram a pó toda tensão acumulada pela noite turbulenta. Movi o rosto com o intuito de deixá-lo rente ao dele e fui atingida por sua respiração cálida e tranquila que logo misturou-se à minha numa troca de sensações revigorantes. Estar com ele me transbordava. Afaguei sua barba e, em meio à penumbra, juntei nossos lábios num selinho demorado, sendo agraciada pelo prazer de sentir minha pele ser pressionada por sua mão precisa.
- Sei que as coisas não andam fáceis, mas porra… Ninguém vai me fazer abrir mão de você. – O homem sussurrou após eu voltar à posição anterior e me estreitar junto a ele como se desejasse nos fundir.
Ouvir aquilo doeu. Doeu porque eu cheguei a ponderar sobre até que ponto seria certo nós dois ficarmos juntos.
Naquele instante, as respostas às minhas dúvidas vieram mais cedo do que eu imaginei.
Sim, valia a pena assumir um risco em prol do que vivíamos. Eu não sabia aonde isso nos levaria, entretanto, estava disposta a descobrir por mim mesma.

**


Peso sobre minhas pernas, ronco nos meus ouvidos e cheiro de loção canina.
O conjunto das três peculiaridades me fez despertar um tanto quanto atônita. Abri os olhos com dificuldade e tateei o colchão ainda tomada pela confusão matutina, franzindo o cenho no minuto em que toquei em algo peludo e corpulento. Forcei a visão e virei o tronco para frente, dando de cara com Bento dormindo atravessado ao meu lado.
- Não acredito… – Murmurei rindo baixo diante da cena. O ronco do cão poderia facilmente competir com os trovões das tempestades sazonais, ele mal parecia ter noção de que ocupava a metade do colchão enquanto descansava as patas pesadas sobre mim, imerso num sono pesado de dar inveja. Tirei-as dali com cuidado para não acordá-lo e me sentei, conferindo as horas no relógio de cabeceira.
09hrs16min.
Estiquei-me preguiçosa e pulei da cama escutando meu estômago protestar por não ter recebido alimento nenhum num intervalo de horas. Felizmente a fome era a única coisa incômoda naquele momento, pois todo resquício de emoções ruins provindas dos acontecimentos no hospital foram atenuadas por uma ótima noite de sono. Claro que tê-la feito nos braços de fora apenas um detalhe. Embora o problema ainda estivesse presente, saber que daríamos um jeito e encontraríamos apoio um no outro tornava as coisas menos ruins, ainda que permanecessem desfavoráveis.
Desci as escadarias me perguntando quando eu iria me acostumar com a imensidão do apartamento, até que meus passos foram refreados ao avistar uma figura familiar demais arrumando alguns adornos na mesa farta composta do que eu imaginei ser o café da manhã. A recordação do aniversário de Kyara me veio à mente e os meus olhos saltaram ao reconhecer a elegante senhora de vestes refinadas:
A avó de .
Praguejei mentalmente e avaliei a mim mesma querendo morrer por estar trajando somente a fina e minúscula camisola cujo pano de microfibra poupava-me de ficar completamente exposta, entrando em um embate interno que envolvia obedecer meus reflexos e regressar ao quarto correndo degraus acima ou terminar de descê-los e passar uma grande vergonha matutina.
A Lei de Murphy que há muito não dava o ar da graça no meu dia a dia resolveu fazer seu comeback em grande estilo, uma vez que não tive tempo de decidir. Como se houvesse notado a presença de mais alguém ali, a mulher levantou o olhar e girou o tronco parcialmente, tendo a bela e total visão de uma garota seminua parada tal qual uma pateta na escada do apartamento do seu neto.
Ai, merda.
Eu desejava ser abduzida, queria ser sugada para outra dimensão ou virar pó e sair esvoaçando por aí.
Fui analisada de cima abaixo no melhor estilo Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada e tal inspeção meticulosa paralisou meus músculos. Alguma coisa na expressão dela demonstrava divertimento, contudo, não me atrevi a arriscar esta interpretação, afinal, a meu ver, a situação estava tão divertida quanto um baú cheio de mofo.
- Eu não acredito que ele está no escrit… – surgiu entre a divisão da qual dava acesso à cozinha e deixou sua frase morrer ao seguir o olhar da mais velha, parando-os em mim logo depois. Ele não pareceu nem um pouco afetado, no entanto.
- , querido, não vai me apresentar a mocinha? – A voz dela entoou jocosa. Lancei uma encarada nervosa e desesperada para o homem, vendo-o repuxar um sorrisinho nos lábios curvados. Quis esganá-lo no mesmo instante.
- Claro. Ela só precisa terminar de descer as escadas. – Gracejou zombeteiro. Céus, eu iria matá-lo. Fulminei-o com os olhos e me empenhei em tentar andar e agir como uma pessoa normal, apesar de saber que o esforço seria em vão dado o meu visível estado de constrangimento.
De repente, eu havia desaprendido a andar. Foquei em meus pés e agarrei a aba da camisola a fim de evitar que ela revelasse mais do que já o fazia normalmente, comemorando e agradecendo a ajuda divina ao me ver já no último degrau. – Vó, esta é . , essa é a minha avó, Rosalyn. – Senti um pano envolver minha pele desnuda e ergui a visão, captando o advogado agora sereno contornar os meus ombros com um moletom de zíper. O fechei no corpo e enfim a encarei. Um sorriso nervoso tropeçou nos meus lábios.
- Muito prazer. Desculpe pelo traje. – Falei completamente sem graça. Bem, aparentemente Rosalyn não se lembrava de mim. Ofereci-lhe a mão e ela foi prontamente capturada por ambas as palmas da senhora que esbanjava tanta classe quanto Audrey Hepburn.
- Oh, não se preocupe. Fui indelicada em não avisar com antecedência sobre a visita. – A mulher balançou nossas mãos graciosamente e sorriu de lado negando com a cabeça.
- Tampouco é necessário que o faça, dona Rosalyn. – Repreendeu cortês. A mulher replicou com um curvar de lábios carinhoso para então retomar o contato visual comigo. – Espere um segundo… – Os olhos caprichosamente maquiados da mulher exploraram minhas feições com atenção. – Nós nos conhecemos? – Perguntou desconfiada. Sorri embaraçada e assenti. Ela se recordara, afinal.
- É, bem… Eu trabalhei na festa de aniversário da senhora .
- Ah, a mocinha do drink! – Exclamou carregando um novo clarear no semblante surpreso. O advogado correu os olhos entre nós duas visivelmente confuso.
- Mocinha do drink? – O homem questionou. Era nítido que ele estava achando graça da situação, haja vista que o sorrisinho pendido no canto da boca mantinha-se intacto. – O que eu perdi?
- Ela me serviu um esplêndido drink de água com azeitona no aniversário de sua mãe. Não obtive êxito em convencê-la a me servir nada alcoólico. – Informou, direcionando-me um olhar sugestivo e eu diria que cômico. Ri meio sem jeito relembrando do dia em questão ao mesmo tempo que seguia dispondo da fisionomia moderadamente desorientada, porém igualmente divertida.
- Achei que a senh… – Interrompi a frase ao recordar que Rosalyn não gostava de ser titulada de tal forma e me corrigi antes que ela mesma o fizesse. – Que você não me reconheceria.
- Esses olhos não deixam passar nada, meu amor. – Assegurou esperta. – Agora vão comer antes que o café esfrie, sim? Conversa-se melhor de estômago cheio. – Ela deu leves batidinhas afáveis nas minhas costas e me impulsionou gentilmente em direção à mesa cheia. Fitei o homem ao meu lado no melhor estado ”o que diabos está acontecendo?”, vendo-o conservar a expressão vagamente risonha à medida que me guiava até o local pretendido. Ao contrário de mim, ele demonstrava uma naturalidade cômica diante da cena, como se já estivesse acostumado a lidar com a personalidade furacônica de sua avó deslumbrante.
- Então quer dizer que as duas se conheceram enquanto você buscava por coquetéis proibidos durante a festa, dona Rosalyn? – satirizou despretensioso e a mulher citada limitou-se a balançar os ombros sem alterar a pose pomposa.
- O que eu posso falar? Aguentar vocês no meu pé tal qual abutres requer uma paciência que só se adquire ingerindo álcool, querido. – Retrucou serena. Um tapa com luva de pelica. Segurei o riso e o advogado sentado ao meu lado elevou uma sobrancelha, moldando um sorrisinho resignado nos lábios anteriormente ocupados pela xícara de café fumegante.
- Grato pela sinceridade. – Ele respondeu rindo ligeiramente.
- Bom, perdoem a indiscrição, mas e quanto a vocês? – Transcorreu o indicador entre mim e o neto – Conheceram-se no dia da festa? – Inquiriu insinuante e o café que eu bebia por pouco não errou o seu caminho e ocasionou uma ridícula cena de engasgo. Pigarreei disfarçadamente e fitei de esguelha, torcendo para que fosse ele quem sanasse a curiosidade de sua avó. Eu não saberia como lhe explicar ou por onde começá-lo. O homem pousou a xícara sobre o pires e maneou a cabeça em negação.
- e eu nos conhecemos há muito tempo, na verdade. Ela é filha da , vó. – Meu desejo fora atendido e o neto da atenta senhora à nossa frente respondeu-lhe sem delongas.
- … Querido, eu só conheço a que trabalha na casa dos seus pais. – Alegou sem entender. Exprimi um sorriso fechado e engessado, assistindo encarar a avó de maneira sugestiva por cima da xícara que voltara a levar à boca. Ela, por sua vez, parecia repuxar algo da memória diante da sucinta expressão autoexplicativa do neto. Segundos de reflexão depois, os traços do rosto de Rosalyn iluminaram-se com um sorriso particularmente garboso e inteligível, porém notoriamente surpreso.
- Oh, entendi. – E lá estava o que eu achei ser uma espécie de divertimento brincando nos seus lábios pigmentados de magenta, apesar de eu preferir não arriscar predizer as emoções dela. – Já ouvi falar de você, amada. Vocês moram lá há tempos, como nunca a vi antes? – Indagou meio pasma. – Bom, não é como se eu frequentasse muito a casa do meu filho, mas enfim.
- Eu sinceramente não sei. – Ri fraco dada as circunstâncias, achando tudo aquilo comicamente bizarro – Também nunca havia visto a senh… você, até o aniversário da dona Kyara. Ao menos esta não foi sua primeira impressão a meu respeito. – Brinquei, apontando para a blusa que me cobria. A simpática senhora riu e abanou uma mão em descaso.
- Ah, meu amor, eu achei essa muito mais interessante, se quer saber. Se eu lhe contar o que já aprontei por aí… – Reparei desviar os olhos do jornal que eu até então não tinha visto ali e fitar Rosalyn com a sobrancelha arqueada, o que foi o suficiente para que eu risse com gosto em virtude de sua conduta irônica.
- Ora, querido, você não pensou que eu me casei com o seu avô sendo uma dama desprovida de experiências prazerosas, pensou? – A mulher perguntou portando a mesma face do neto.
- Eu honestamente nunca pensei sobre isso nem um pouco. – Frisou zombeteiro e ela abanou a mão em desdenho outra vez, conferindo as horas no refulgente relógio de pulso envolto em seu braço.
- Bom, eu adoraria ficar e conversar por mais horas a fio, no entanto, preciso ir. Vim somente saber como você estava diante do infeliz incidente com a sua mãe, querido. O motorista está me esperando lá embaixo. – Rosalyn levantou-se. e eu fizemos o mesmo.
- , amada, vê-la foi um acaso deveras agradável. Lhe espero para tomarmos um delicioso chá enquanto eu falo acerca das minhas histórias de juventude sem que o meu neto bisbilhote nossos assuntos. – Ela gracejou, fazendo o homem citado erguer o cenho e cruzar os braços carregando um sorriso sarcástico em resposta. Ri e assenti.
- Será um prazer, dona Rosalyn. Fiquei feliz de encontrá-la. – A mulher curvou os lábios amigavelmente e entrelaçou o braço no braço de , acenando com a cabeça em despedida para então seguir rumo à porta na companhia dele.
Contemplei-os de longe, sentindo meu peito se aquecer ao presenciar a linda relação que ambos pareciam compartilhar. Ver que pelo menos alguém daquela família dispunha de gentileza e civilidade abrandava a sensação de jazer no centro de uma jaula de leões, sobretudo após a noite anterior em que o filho daquela senhora tão polida fez questão de despejar palavras vis e arrogantes para cima de mim.
Bem, agora eu sabia a quem havia herdado suas características agradáveis, o que me levou a questionar se o seu avô partilhava da mesma personalidade.
Rosalyn comprovara que a primeira impressão da qual tive sobre ela era verdadeira. Notava-se de cara que ela divergia do restante da família.
A figura vigorosa do advogado culpado pela minha cara de abobalhada fez-se presente novamente, entrando no meu campo de visão ao fechar a porta do apartamento e caminhar de volta à mesa.
- Bom dia. – Saudou caçoísta, levando em conta que não havíamos nos falado diretamente até então. Fui delicadamente puxada pela cintura, onde o homem pousou as mãos firmes ao mesmo tempo que agraciava minha testa com a textura macia e quente dos seus lábios encostados naquela região.
- Bom dia, doutor . – Contornei o pescoço dele com os braços e o encarei. – Ótimo dia para acordar quase seminua e dar de cara com uma senhora parada na sala, não é mesmo? – Ironizei e ele gargalhou.
- Desculpe por não ter avisado, não quis acordar você.
- Aprecio seu respeito pelo meu sono, mas nesse caso, você poderia tê-lo feito. Eu quase morri de vergonha! – Enterrei meu rosto no seu peitoral, sentindo-o rir.
- Não se incomode tanto com isso, minha avó é uma pessoa excepcional. Do contrário, eu não teria ficado tão tranquilo frente a situação. – Justificou afetuoso assim como os movimentos calmos executados nos meus cabelos. Suspirei resignada e dei de ombros.
- Temi que sua avó torcesse o nariz ao nos ver juntos. Uma coisa é ser educada com a garçonete enquanto ela está somente exercendo o trabalho dela, outra é se manter assim quando a vê coabitando um ambiente familiar. – A seriedade de retornara ao seu rosto contorcido numa expressão de objeção.
- Ela não é assim, .
- Eu sei. A dona Rosalyn comprovou a regra da hierarquia. A forma como tratamos alguém de uma posição hierarquicamente inferior pode revelar muito em relação a nossa personalidade, fiquei feliz em constatar que eu não errei quando a julguei para o bem. Sua avó é ótima. Sei a quem você puxou. – Dei uma leve batidinha em seu nariz com o ponta do indicador bem como ele ocasionalmente fazia comigo, fazendo-o levantar a sobrancelha e me analisar satírico. Pouco me importei em ter praticamente afirmado que os seus pais não eram nada agradáveis e o homem também pareceu não ligar. Bem, eu não havia mentido. Atentei-me às feições bem esculpidas no semblante dele e acompanhei os olhos agora reflexivos do homem me admirarem de um jeito que não pude decifrar. – O que foi? – Questionei meio perdida ante o súbito silêncio esquisito. sorriu sem emoção e negou com a cabeça.
- Queria aproveitar o final de semana com você, mas o infeliz imprevisto com a minha mãe acabou bagunçando tudo. Preciso passar no escritório para resolver algumas pendências de última hora e vou para o hospital depois. Sinto muito por essa confusão, a minha intenção era outra, acredite. – Lamentou. Ofereci-lhe um sorriso compreensivo e deslizei meus dedos em seu rosto.
- Não sinta. Saiba que, por mais que o nosso jantar e todo o resto tenha dado errado, só de ver que você teve o cuidado de pensar em tudo isso para nós dois já me deixa muito feliz. tem um lado romântico, afinal. – Gracejei e sua sobrancelha ergueu-se por uma fração de segundo, ainda que eu conseguisse identificar um risinho furtivo nos seus lábios inclinados. – Falando sério… Foi uma situação inesperada. É a sua mãe, sabe? Está tudo bem. Mesmo. – Fui analisada de forma carinhosa antes de ele juntar nossas bocas num selinho demorado.
- Prometo recompensá-la devidamente.
- Ah, eu acho bom. Presenciar sua pose de neto perfeito despertou coisas em mim. Acho esse porte de homem benevolente um atributo extremamente sexy. – Pisquei esperta e me virei a fim de tirar a mesa. Senti o tronco robusto do homem prensar as minhas costas e transpassar os braços fortes pelas laterais do meu corpo, encurralando-me entre ele e o móvel enquanto um volume cilíndrico pressionava-se contra a minha bunda, me causando um frenesi imediato. Respirei fundo com o estômago virado do avesso. A palma de sua mão tocou a minha com destreza, refreando os movimentos que eu fazia com o intuito de recolher as xícaras postas ali.
- Não precisa. – Chiou próximo à minha orelha. Engoli em seco procurando discernimento para formular uma frase coerente, embora fosse bem difícil elaborar algo decente quando se tinha colado em mim. E isso incluía a elevação firme ainda investida nas minhas nádegas. Sem dúvidas, eu não seria capaz de pensar numa frase decente quando tudo que se passava na minha mente denotava indecência.
- Eu… – Comecei e parei no mesmo instante. Outra investida roçou-se despretensiosa contra mim e ateou fogo em minhas entranhas.
- Virão limpar o apartamento hoje. – Soprou novamente. – Não se incomode. – E tão rápido quanto ele se aproximou, se afastou. A súbita falta do contato físico inseriu-me em um estado de vazio urgente, como se uma gélida ventania esfriasse a minha estrutura corporal anteriormente flamejante. Puxei o oxigênio dos meus pulmões e, atônita, virei-me para frente, desejando tacar uma torrada na cabeça de no segundo em que observei o sorriso torto e petulante despontar na fisionomia maliciosamente despudorada dele. Cerrei os olhos e os cravei na figura cínica agora mais distante do que eu gostaria.
- No momento eu meio que estou incomodada, sim. – Reclamei e a frase saíra mais afetada do que eu gostaria, sentindo o meu coração bater entre as minhas pernas. E, céus, existia um ponto ali que se encontrava sensível demais. Minha vontade de tacar algo no homem triplicou assim que ele soltou um risinho sarcástico e me lançou um olhar lúbrico antes de dar às costas e andar rumo à escadaria.
- Presumo que você esteja precisando de um banho frio, . Sinta-se à vontade para me acompanhar. – Falou por cima dos ombros. O diabinho que habitava alguma parte de mim me cutucou e acendeu o meu lado vingativo, levando-me a curvar os lábios e abrir o zíper do moletom para então colocá-lo sobre uma cadeira localizada ali, revelando a camisola fina.
- Tem razão… – Fiz o mesmo caminho que e passei por ele na escada, sendo acompanhada por seus olhos sérios e analíticos. Puxei o pano frágil da vestimenta e o tirei com facilidade, ficando apenas de calcinha à medida que subia os degraus. – … Mas tomarei o banho em outro banheiro, você não pode se atrasar para os seus compromissos. – Parei no topo da escada e foi a minha vez de fitar o advogado por cima dos ombros, quase desistindo do meu charminho ao contemplá-lo me admirar com lascívia e atenção. Quase. – E se nós fizermos o que queremos, meu bem, ninguém sairá deste apartamento tão cedo. – O advogado levantou uma sobrancelha e entortou o canto dos lábios discretamente. Pisquei satisfeita e segui para o banheiro daquele andar, sentindo um olhar preciso queimar minha pele. Ponto para mim.


**
havia me deixado no condomínio há bons minutos.
Sentada no banco da praça próxima a mansão dos , eu ridiculamente protelava o momento de chegar em casa e, finalmente, jogar as cartas na mesa para minha mãe.
Eu já havia contado quantas voltas um homem de meia idade percorrera nos arredores do espaço arborizado: Quinze. Já tinha visto o entregador do mercado ir e vir umas cinco vezes pela rua e também contei a totalidade de bancos espalhados ao longo da extensão do parque: Dez.
Bufei irritada comigo mesma. Levantei-me dali e tomei uma boa quantidade de oxigênio com o objetivo de acalmar meus nervos e juntando coragem para completar o restante do trajeto. Adentrei as suntuosas dependências da morada grande e luxuosa que encontrava-se silenciosa e aparentemente pouco movimentada, dando uma rápida conferida na entrada dos fundos a qual ligava à área de serviço em busca de algum sinal da minha mãe ali. Nenhum. Respirei fundo pela centésima vez e entrei em casa, imediatamente vislumbrando a silhueta da mulher fazer-se presente entre o espaço da sala e a cozinha. O sutil “clic” da porta sendo fechada chamou a atenção daquela que eu encarava, levando-a a girar o tronco e dar de cara comigo no cômodo.
- Oi, filha. – Saudou serena, como sempre. Okay, nada de errado até então. – Não sabia que voltaria tão cedo. – Torci o nariz e exprimi um sorriso que mais pareceu uma careta.
- Que bom que está aqui. Não trabalhou hoje? – Sentei-me em um banco posto detrás do balcão de madeira, assistindo-a mover-se dali para lá na cozinha.
- Só pela manhã. O senhor mal ficou em casa depois do susto que a dona Kyara nos deu. Na verdade, eu sequer o vi.
- Ah, sim. Eu fiquei sabendo… – Comentei arbitrariamente, cutucando uma das maçãs guardadas na fruteira.
- Claro que ficou. – Um olhar sugestivo foi lançado na minha direção. Suspirei e decidi entrar no assunto de uma vez por todas.
- Sobre a nossa conversa pendente… Bom, eu preciso contar uma coisa. – Minha mãe parou o que estava fazendo e encostou-se à pia, enxugando as mãos no avental enquanto me fitava atenta num sinal implícito de que esperava que eu prosseguisse.
Céus, eu parecia uma adolescente prestes a confessar que levou uma advertência.
Puxei o ar dos pulmões e deixei com que a frase fosse expelida junto ao oxigênio. – Eu estava com ontem. Estou há um tempinho, na verdade. Nós meio que... Estamos saindo. – E saiu. Embaralhada, talvez um pouco hesitante, mas não menos verdadeira e clara. Corri os olhos através da mulher à minha frente, descansando meus braços no balcão que nos separava. Eu buscava um vestígio de qualquer emoção que fosse, qualquer indício de que ela esboçaria alguma reação, no entanto, a única coisa que encontrei em sua face neutra foi: Nada. Parecia que eu havia acabado de lhe contar que o céu é azul.
- Eu sei, . – Eu fazia ideia de que sim, ela sabia, contudo, ouvi-la confirmar tais suspeitas não deixava de ser chocante. Pisquei aturdida, sem saber se tentava verbalizar algo ou a aguardava continuar. Antes que eu chegasse a uma conclusão, a nada surpresa mulher decidiu por mim. – Aquele dia em que vocês estavam conversando aqui na frente me fez começar a desconfiar. – Assumiu ainda indiferente. Abri e fechei a boca algumas vezes antes de estar apta a proferir a sentença de forma inteligível.
- Eu quis te contar desde o início, mas temi que a sua reação não fosse boa.
- O quê exatamente você quis me contar, ? – Questionou cruzando os braços e firmando as íris astuciosas na minha figura desconcertada. Franzi o cenho sem entender.
- Como assim o quê? – Devolvi a pergunta meio perdida, sentindo uma coisa no meu interior se abrandar ao vê-la esboçar o seu típico sorriso complacente.
- Quis me contar a respeito do seu… envolvimento com , ou sobre os seus sentimentos ao longo de todo esse tempo? – Esclareceu direta e reta, fazendo meu queixo ir ao chão. Um riso nervoso cambaleou nos meus lábios.
- Não entendi. – Ela me observava como se eu fosse um vaso de planta ou apenas muito estúpida. Eu me sentia como a segunda opção. Atônita, a assisti se livrar do avental e dar a volta na bancada, sentando-se no banquinho ao meu lado.
- … Eu sou sua mãe. Como pôde pensar que eu não me atentaria às suas mudanças repentinas sempre que o assunto era o ? Acha mesmo que eu não percebia os olhares, as expressões e em como você se portava diante dele? Filha, você pode achar que engana qualquer um, menos a mim. – Findou com um ar maternal que aos poucos me acalmou. Resvalei os olhos pelo chão e voltei a conectá-los com os dela, rindo sem humor. Todo mundo já havia notado em algum momento. Aparentemente eu não enganava ninguém. – Por que teve tanto receio em me contar, ?
- é filho dos seus patrões, mãe. Você não sabe quantas vezes eu me peguei remoendo essa situação. Quantas vezes eu tive medo de arruinar o seu emprego, quantas vezes eu coloquei tudo na balança para reconsiderar o que está acontecendo… – Dei uma breve pausa, lembrando que inclusive havia refletido a respeito na noite anterior. – Eu não quero ser leviana e simplesmente ignorar o que estar com ele implica, tampouco quis esconder por puro egoísmo, mas também não quero abrir mão disso. é incrível. É incrível como ser humano e é incrível comigo. – Meus olhos arderam, enviando o ardor para o meu nariz e garganta, que se fechou num bolo dolorido e agoniante. Droga, eu não queria chorar. Ela juntou minhas mãos entre as suas e me encarou terna. – Será que é justo desistir de algo que me faz tão feliz só porque, teoricamente, nossas vidas não se encaixam? – Não me surpreendi ao notar que a pergunta saíra num tom abatido. Por dentro, eu me sentia assim: Cansada. Cansada de estar no meio desse embate entre razão e emoção, cansada de ouvir sempre a mesma coisa sobre quão impossível é se envolver com alguém que possui vivências tão dissemelhantes. Rapidamente passei a ponta dos dedos no canto dos olhos, sumindo com o vestígio da teimosa gota de lágrima dependurada ali e recuperando a postura logo depois.
- Fiquei magoada por saber que você cogitou a hipótese de receber uma má reação vinda de mim, . Eu jamais me oporia à sua felicdade. – Contraí um pouco os ombros, sentindo o peso da culpa entrar em conflito com o alívio de ouvir aquilo.
- Eu sei, eu sei… É que... Acho que tive medo de que a única pessoa cuja opinião importa se opusesse a uma coisa que importa para mim. – Declarar aquela frase foi como retirar uma armadura de aço superpesada do meu corpo. A atenuação da carga quase me fez suspirar, entretanto, minha mãe quem o fez, intensificando a junção das nossas mãos.
- Filha, você é crescida e sabe o que faz, eu não posso pautar, muito menos me intrometer nos seus relacionamentos, contanto que eles a façam bem.
- Queria que você não fosse a única a pensar assim… – A frase saíra mais como um resmungo e a fisionomia da mulher à minha frente crispou sutilmente.
- O senhor e a senhora sabem? – Torci o nariz e me empertiguei no banco.
- Apenas o senhor , porque, bem… Fui ao hospital com ontem.
- Você foi?! – Minha mãe perguntou um tanto quanto chocada, sendo a primeira vez que enxergava tal expressão nela desde o início da conversa.
- Conheci a avó dele também. Um amor. Nem parece que é mãe do Poderoso Chefão e sogra da Cruella De Vil. – Soltei de uma vez e ela riu brevemente, depois piscou aturdida com a boca formando um ‘o’.
- Ai, meu Deus. – Murmurou espantada. – Eu realmente estou atrasada nas novidades. – Apertei os lábios ligeiramente sem jeito.
- Não acho que seja adequado que a dona Kyara receba notícias bombásticas no momento. Não quero que ela tenha outro ataque do coração. – Falei meio assustada e, apesar de não ter sido minha intenção soar engraçada, arranquei um ligeiro sorriso condescendente de uma que agora falhava em esconder a leve apreensão moldeada na face serena. – E se eles se revoltam e resolvem demitir você por puro capricho? Como vai ser?! – Ela suspirou.
- … Uma coisa de cada vez, tudo bem? Não é obrigação sua se preocupar com o meu trabalho. – Fiz menção de contradizer, porém, minha mãe impediu. – Para ser bem sincera, se me coubesse decidir ou opinar, não gostaria de vê-la envolvida com . – Engoli em seco e o meu estômago afundou. A confissão recém feita contradizia com o timbre calmo e terno utilizado para proferi-la. – Isso não significa que eu não goste dele ou ache que tenho direito de interferir nas suas escolhas, mas sim, que eu sei mais do que qualquer um que esse meio é difícil. Essas pessoas vivem em uma realidade paralela da qual as deixa deslumbrada, filha. E não estou falando do , mas sim de quem o cerca. Veja bem… – Ela arrumou a postura e eu automaticamente reproduzi o feito, calada como se houvesse colado meus próprios lábios com super bonder. Meu peito apertou como se alguém estivesse pressionando a minha caixa torácica exaustivamente. – Eu me preocupo com o seu bem-estar, . Não quero ver você sendo preterida por nenhum endinheirado com o rei na barriga. Não vou assistir você se jogar em um mundo completamente diferente sem antes alertá-la sobre onde está se metendo; Sem antes ter a certeza de que não está pulando sozinha. Não mergulhe de cabeça caso não tenha convicção da equivalência dos sentimentos, não se arrisque se estiver arriscando sozinha, não bagunce a sua vida à toa. Por outro lado, se você estiver segura de que um futuro junto a , de que nenhum sacrifício será em vão e, o mais importante, se estiver verdadeiramente feliz, terá o meu apoio incondicional. – E o aperto se dissipou. Fiquei quieta durante poucos segundos somente digerindo o que me fora dito, pensando no que ainda necessitava ser exposto. Por fim, afirmei com a cabeça, dando por encerrada a conversa. Eu sabia que haveria outras, de qualquer modo.
- Não se preocupe, mãe. Eu não farei nada sem fundamento. Não posso prever o futuro, contudo, posso arriscar afirmar que nada disso é unilateral. e eu nos gostamos, sabe? Não sei se isso basta, porém, quero descobrir. – Um sorriso satisfeito brotou nos lábios dela. Minha mão foi acariciada de um jeito maternal e compreensivo.
- Então descubra. Só não pense que não pode me contar a respeito do que te aflige, . – Sorri me sentindo totalmente emotiva. Inclinei-me no banco e abracei desajeitadamente a mulher sentada à frente, a qual riu e equilibrou-se em seu assento, retribuindo o gesto sem demora.
- Obrigada. – Falei, notando-a negar com a cabeça.
- Apenas pense muito antes de tomar qualquer atitude, tudo bem? Permanecendo ou não com , seja coerente e firme em suas ações. Nunca abaixe a cabeça para ninguém, filha. – Entoou zelosa e eu curvei os lábios.
- Prometo que vou me cuidar, dona . – Ela me fitou analítica ao longo de alguns segundos após nos afastarmos, oferecendo-me um leve sorriso em seguida. Ainda que se empenhasse em demonstrar um semblante convincente, minha mãe não parecia nem um pouco segura. Ouvir suas palavras de apoio fora de extrema importância para que eu me sentisse bem, ou menos pior do que eu outrora me sentira, contudo, era notório que ela guardava um ponto de vista particular acerca de todas as novidades. Eu só não sabia até que ponto ele poderia ser considerado bom ou ruim.
- Falei à Judith que iria acompanhá-la até o mercado, não irei demorar. Deixei o almoço pronto. – Minha mãe levantou-se e eu fiz o mesmo. Meu estômago ainda estava cheio das panquecas adornadas de confeitos dos quais eu nunca havia visto ou ouvido falar.
- Tudo bem… Tenho alguns assuntos do abrigo para organizar. – Disse, olhando-a se locomover em direção à porta.
- O tempo começou a fechar… Pode tirar as roupas do varal para mim caso chova? – Perguntou, enfiando metade do corpo para dentro.
- Sim, senhora. – Ergui o polegar em afirmação e ela agradeceu sorrindo, enfim deixando a casa. Encaminhei-me para o meu quarto, troquei o jeans por um moletom confortável e peguei um caderno junto ao meu estojo, seguindo rumo ao meu lugar preferido da mansão.
Atravessei o belo jardim tomado por flores suntuosas de cores vibrantes e avistei o banco-balanço ali no meio, isolado e rodeado pela natureza planejada, exatamente como eu gostava. Ajeitei-me no assento e abri o conjunto de folhas, escolhendo uma em branco de maneira aleatória. Eu precisava começar a planejar a festa de arrecadação de fundos do abrigo.
Respirei fundo em busca de concentração e encarei um ponto aleatório, vislumbrando, de longe, o amplo salão de festas da exuberante moradia dos . A estrutura perfeitamente edificada reluzia chamativa, despertando meus devaneios e lembranças enquanto levava ambos para uma dança que me impulsionou a rodopiar no ritmo nostálgico das comparações entre passado e presente, as quais piruetaram repentinas através da minha mente.

FLASHBACK:

A dinâmica pós-festa na mansão dos seguia um ritual predeterminado do qual todos os funcionários cumpriam com disciplina.
Os garçons incumbiam-se de recolher taças erroneamente largadas em cantos onde elas não deveriam estar; Às pessoas encarregadas da limpeza era delegada a tarefa de deixar o salão tão brilhante quanto as joias dos ilustres convidados; O ofício das cozinheiras não diferia da ocupação cotidiana: Preparar o cardápio e organizar a cozinha após os eventos. Nesse meio-tempo, uma regra clara jamais deveria ser rompida: “Nunca executem os afazeres de final de festa enquanto houver visitas nos aposentos da casa. Não quero ninguém zanzando entre os convidados como se os mandasse embora, só apareçam a partir do momento em que não haja mais ninguém em lugar algum.” Dizia a senhora enquanto encarava a todos por cima do nariz.
Tão fofa.
- Tobiah! Tobiah! – Exclamei um pouco exasperada demais ao ver um dos garçons retornando do salão com algumas taças lhe ocupando as mãos. Levantei-me da escadinha que dava acesso à porta dos fundos e fui ao encontro do homem que me fitava meio sobressaltado devido ao meu chamado enérgico. – Desculpe. – Pedi assim que me aproximei dele. – Não tem mais ninguém lá, tem?
- Não. Acabei de pegar as últimas taças. – Respondeu, erguendo uma mão a fim de mostrar os cálices que sobraram.
- Os ramos de flores estão intactos? – Tornei a questionar, vendo-o assentir.
- Impecáveis. Se for pegá-los, pode separar alguns para mim? Quero levar para minha esposa. – Falou visivelmente sem jeito, mas eu achei aquilo uma graça.
- Mas é claro! Vou montar um buquê lindo para ela. – Pisquei e ele agradeceu, retomando a caminhada em direção à entrada da cozinha.
Direcionei-me até o caminho de pedras ansiosa para apanhar as rosas, tulipas e muitas outras lindas flores que lamentavelmente seriam descartadas depois de cumprir o propósito de aformosear a decoração da festa, mas não sem antes conseguir salvar boa parte delas transformando-as em decoração para o meu quarto.
”Jogue-as fora, elas já não me servem mais.” Novamente dizia dona Kyara. Eu nunca entenderia o motivo de gente rica desperdiçar tantas coisas como se elas não fossem nada.
Fiz menção de adentrar às dependências do recinto e refreei meus passos de súbito ao avistar uma movimentação de duas pessoas fazendo o mesmo pela entrada do lado oposto, impelindo-me a recuar e ocultar o corpo na parede. Inclinei o tronco para frente de modo sorrateiro e forcei a visão, enfim enxergando com clareza quem eram as duas figuras que apareceram ali de repente.
e sua namorada, Cassie.

(Coloque a música Dancing On My Own – Nicole Cross para tocar).

Meu estômago deu um solavanco dolorido.
Engoli em seco e, embora o lado mais sensato do meu cérebro gritasse para que eu desse meia volta e saísse dali, o meu lado masoquista mostrou-se mais forte naquele instante.
sustentava um copo como um líquido amadeirado o qual eu julguei ser whisky; A outra mão estava ocupada segurando a mão de Cassie. Era a primeira vez que eu a via em uma festa de família, o que comprovava a seriedade do relacionamento. Ainda era estranho vê-lo nessa posição. Era estranho me sentir tão afetada por alguém que sequer possuía alguma ligação comigo, era ridículo ficar parada ali desejando estar no lugar de outra pessoa e alimentando emoções idiotas e danosas.
Meus olhos focaram-se no advogado como ímãs.
Céus, eu poderia odiá-lo por ser tão lindo.
A calça social preta em conjunto com a blusa branca do mesmo modelo não diferia de suas vestimentas habituais, no entanto, eu nunca seria capaz de não suspirar sempre que o via as trajando. O semblante sério e minimamente sarcástico ornava perfeitamente com o cabelo perfeitamente arrumado para parecer desalinhado. Desalinhado da mesma maneira que as batidas do meu coração ao reparar que ele e Cassie formavam um par lindo aos olhos de quem os admirava. Os dois decerto eram aquele casal alvo de comentários deslumbrados sobre quão bem eles combinavam… Sobre quão bonitos os filhos seriam.
E eu seria estúpida caso não concordasse. Cassie era tão maravilhosa que doía.
Só não doeu mais do que presenciar colar seus lábios aos dela.
Só não doeu mais do que vê-la rir e puxá-lo para uma dança silenciosa digna de um filme de romance.
O homem pareceu resistir de início, porém, a relutância não durou muito e ele logo se rendeu. Contornou a cintura curvilínea da garota com o seu braço robusto e ela pousou os próprios ao redor do pescoço dele, ambos se movendo quase que imperceptivelmente.
Um turbilhão de sentimentos faziam uma algazarra no meu interior caótico. Respirar já não era tão fácil quando se tinha um bolo incômodo entalado na garganta.
Dessa vez, foi ela quem o beijou. A boca dele era habilidosa.
Meu estado de ânimo despencou como se algum dementador tivesse sugado boa parte da minha disposição. A brisa gélida noturna eriçou os pelos dos meus braços e esvoaçou os fios soltos dos meus cabelos, retrato fidedigno das emoções bagunçadas que me acometiam naquele instante. Uma força maior e mais ajuizada anteriormente paralisada perante a cena diante de mim enfim fez-se presente, obrigando-me a parar de olhar para o casal.
Dei fim à conexão dos meus olhos os quais estavam presos na hipnotizante figura do advogado e aprumei o corpo na parede, buscando oxigênio para os meus pulmões. Quase agradeci aos céus no instante em que finalmente consegui respirar direito. Passei as mãos através do meu rosto e fitei o céu límpido sobre a minha cabeça. Sentei-me no chão, abracei os joelhos e esperei. Esperei as batidas do meu coração normalizarem, esperei a sensação de ser uma completa tola esvair-se junto ao vento, esperei a maestria lenta e fascinante dos lábios de sumirem da minha mente.
Apenas esperei.
Eu ainda queria as minhas flores, afinal.
Os murmúrios que indicavam a existência de pessoas na área cessaram após alguns minutos dos quais eu não contei. Ergui meu corpo e conferi o interior do salão, aliviada ao me deparar com nada além da calmaria tranquilizante daquela ala pertencente a mansão. Percorri o extenso espaço maravilhada com a decoração aprimorada pelas rosas brancas e vermelhas, tulipas púrpuras, gardênias peroladas e cravos dos quais possuíam várias tonalidades em uma única flor. Uma verdadeira obra de arte. Senti-me energizada novamente, boquiaberta com tanta beleza resplandecendo defronte às minhas íris impressionadas. Comecei minha coleta sem me importar em ter mãos o suficiente para carregar tantas plantas, escolhendo ramilhetes abundantes que poderiam compor uma floricultura por si só. O perfume advindo das flores funcionava como calmante para o meu sistema nervoso.
Um ruído de passos no revestimento lustroso do mármore cor de creme perfurou a bolha mágica na qual eu me encontrava. Alarmada, girei o tronco na direção do som, quase caindo para trás ao captar irromper calmamente porta adentro. Ele parou de andar assim que levantou a cabeça e me viu inerte no cômodo.
Estar mais perto me possibilitou notar que sua camisa branca encontrava-se manchada de batom cor-de-rosa.
Desviei o olhar de tal detalhe ao sentir meu estômago afundar, porém, minhas orbes foram apreendidas pela locomoção das suas, que transcorriam curiosas pelas flores sob minha posse. O homem me encarou com a sobrancelha sutilmente levantada, provavelmente se perguntando o que diabos eu faria com aquilo.
- Desculpe. Assustei você? – O timbre rouco e marcante reverberou potente, acariciando meus tímpanos sensíveis ao silêncio anterior.
- Não… Tudo bem. Eu só estava pegando algumas flores. Espero que não tenha problema. – Ele negou com a cabeça sem dar muita importância e mudou a direção de sua atenção para as mesas, parecendo procurar por algo do qual eu descobri se tratar de um aparelho celular ao assisti-lo pegar o objeto e guardá-lo em um dos bolsos da calça social.
Acordei para vida e me virei, tocando as flores de modo casual a fim de agir como uma pessoa normal. Senti os passos se afastarem e uma brisa gélida envolver meu corpo quando notei a porta sendo aberta mais uma vez.
- Boa noite. – A voz grave soou. Olhei para o lado e vislumbrei me observando por cima dos ombros. Sério, magnético e fascinantemente intimidador, ainda que uma leve serenidade pairasse no rosto bem-proporcionado. Uma tremulação na minha barriga e nos meus joelhos denunciaram a reação que aquele simples olhar causava em mim. E eu me odiei por isso.
- Boa noite. – Respondi, dando graças a todas as divindades por minha voz ter saído sem trepidações.
E então ele se retirou.
Contudo, o aroma de seu perfume permaneceu flutuando através do salão, impregnando a essência cara nas minhas narinas como uma substância deliciosa e proibidamente viciante.
Tão longe, mas tão perto.

[…]

”Eu estou bem aqui, por que você não pode me ver?
Estou dando tudo de mim, mas não sou a garota que você está levando para casa.
Eu continuo dançando sozinha...”


FIM DE FLASHBACK

Suspirei nostálgica e permiti com que um sorriso saudoso se emoldurasse em meus lábios.
Era louco ver como tudo havia mudado. Como eu já não me sentia integralmente representada pela do passado; Como ela já não caracterizava ao todo a do presente. Muito embora os meus sentimentos permanecessem iguais, a maneira como eu os trabalhava tornara-se mais madura. Eu tinha muito a me orgulhar, afinal de contas.
Uma rápida vibração no bolso da minha calça catapultou-me de volta à realidade em definitivo.
Tirei-o de dentro da parte interna do moletom e vi o nome de brilhar em forma de notificação.

”Hey, sweetie. Podemos remarcar o encontro de amanhã? O Adrian não está muito bem de saúde e veio para cá. Te ligo mais tarde, pode ser? Beijos.”

Céus, ver minha a melhor amiga estava tão difícil quanto ganhar na loteria.

”Tudo bem, mi amor. Fale a ele que eu mandei melhoras! Mais tarde você me explica o que houve, sem problemas. Beijinhos.”

Guardei o aparelho novamente e encarei o caderno no meu colo, transportando o meu foco para outro assunto que demandava maior atenção naquele momento.
Eu tinha um abrigo para ajudar a salvar.


’s POV:

Meus passos decididos sobre o chão polido faziam eco em torno do andar silencioso.
Ondas de cabeças curiosas viravam o pescoço feito corujas, acompanhando observadoras cada passada dada por mim até a mesa de Bridget, que deslocou os olhos do computador no automático e piscou surpresa ao deparar-se comigo ali em pleno sábado.
- Boa tarde, senhor. – Saudou aprumada na pose solícita de sempre.
- Boa tarde, Bridget. Meu pai ainda se encontra em reunião? – Questionei sem saco algum para enrolações descabidas.
- Não. O cliente acabou de sair, mas ele permaneceu na sala. Devo anunciá-lo, senhor ?
- Não é necessário. Obrigado. – Ela limitou-se a assentir, tirando a palma da mão posta na parte superior do telefone tão rápido quanto a colocou.
Olhares queimavam minhas costas como raios de energia.
Não me importei em parecer simpático ou bem-humorado no restante da caminhada rumo ao escritório daquele que se intitulava como pai, mas que há tempos não se comportava como tal.
Tampouco me incomodei em bater no vidro serigrafado antes de irromper cômodo adentro, empurrando a porta num rompante cujo baque seco fez o homem ali presente olhar sobressaltado na direção da entrada.
Pro inferno os bons modos.
- Mas que diabos…? , perdeu o juízo? O que pensa que está fazendo entrando aqui como um animal descontrolado?! – Bronqueou estarrecido. Sorri enviesado e encarei os papéis espalhados pela mesa.
- Boa tarde, pai. Muito ocupado? – Indaguei irônico. Ele seguiu a linha dos meus olhos e encarou as folhas com o cenho franzido em desorientação, tornando a me fitar logo em seguida. Empertigou a postura e juntou as mãos sobre a superfície de quartzo, intensificando nosso contato visual ao recuperar o semblante questionador e crítico.
Aquela feição me causou asco. A minha paciência enfim havia se esgotado.
- Devo me dar ao trabalho de questionar a motivação dessa conduta repulsiva ou você pretende me poupar e explicar o que raios está havendo? – A pergunta saíra ríspida, contudo, o tom de voz comedido demonstrava sua gana por ser o portador do controle da situação.
Que o controle fosse para a puta que o pariu. Eu estava engasgado.
Contornei o móvel posto no centro da sala simulando uma calma a qual passava longe do que eu sentia no momento. Parei no lado oposto da mesa e espalmei minhas mãos ali, bem em frente ao homem que me inspecionava como se eu fosse uma bomba relógio prestes a explodir.
Eu não me sentia diferente disso.
Percorri meus globos oculares pela extensão da face endurecida do meu pai, onde traços impetuosos moldavam-se com firmeza. Executei a inspeção minuciosa pendendo os lábios num curvar sarcástico, sendo observado pelo homem que me fitava com um leve vinco entre as sobrancelhas.
- Houve um tempo em que eu desejei ser igual a você. – Admiti de súbito, terminando a frase com um riso seco sem humor enquanto continuava a examiná-lo com desdém. – Não sei no que porra eu estava pensando. – Sibilei escarnecedor.
- Aonde você quer chegar com isso, ? Me interrompeu para se lamentar? Se a resposta for sim, aconselho a dar meia volta e ir embora. Não tenho tempo para suas lástimas despropositadas. – Desconsiderou impaciente.
Meus músculos rígidos começavam a protestar contra a tensão descarregada neles, no entanto, eu já não controlava as reações físicas provocadas pelo estresse advindo das questões acumuladas as quais eu estava disposto a fazer virem à tona.
- Não tem tempo assim como também não teve a decência de adiar uma reunião pífia mesmo quando sua esposa está na merda de um hospital?! – Cuspi as palavras com asco, sentindo uma pontada dolorida e aguda atingir minha cabeça. Meu genitor arqueou uma sobrancelha e aprumou-se na cadeira, inclinando o corpo para frente como se pretendesse me intimidar com o ato. A única conduta que o gesto ocasionou, no entanto, foi a sustentação da minha postura irredutível diante a ele.
- Isso é alguma piada estúpida? Porque eu estou custando a acreditar que você teve a audácia de vir até aqui achando que pode me repreender por algo, . Eu vim trabalhar, vim atender um cliente de última hora, ao contrário de você, que perdeu a cabeça por um rabo de saia qualquer e optou por ir embora a se dispor a ficar no hospital ontem a noite. Não banque o hipócrita e pare de drama.
- Dobre sua língua ao mencionar . – Rosnei entredentes, vendo-o levantar um músculo da testa. – Eu fui embora porque não queria mais olhar para sua cara!
- Cuidado… – Notei a contração nos lábios dele e exprimi outro riso gélido, ostentando um olhar tão incendiário quanto a queimação que se espalhava através do meu interior agitado.
- Fui embora para não dar sorte ao azar de estar no mesmo ambiente que você. Suas atrocidades já não me atingem há algum tempo, pai, mas deixar à mercê dos seus comentários desprezíveis não era uma opção.
O vestígio de um sorriso escabroso revelou-se nos seus lábios antes de evoluir para uma risada ácida. Franzi a testa, reforçando a fulminante conexão visual.
- Ah, por isso essa revolta toda?! – Levantou de uma só vez, arrastando a cadeira para trás. O atrito do metal sobre o piso estrondeou ardido por meio do escritório. – Esse showzinho tolo se iniciou porque eu simplesmente falei algumas verdades para aquela garota? – Permaneci inalterável, pressionando a superfície da mesa com certa violência. Não precisei olhar para baixo para ver que os nós dos meus dedos encontravam-se embranquecidos por obra da força imposta ali. – Somente fui sincero com a menina, queira ou não esse… Envolvimento ridículo só piorou as coisas para você. Como pai, tenho o dever de alertá-lo. Desde que você se misturou com ela, tornou-se displicente e alheio. Essa garota o levará ao fundo do poço, , e eu não me disponibilizarei a lhe ajudar. – Encarei um ponto fixo à minha frente sem a mínima vontade de seguir a voz prepotente do homem que agora transitava por toda a extensão daquela maldita sala. Os músculos apertados da minha mandíbula retesaram ao passo que uma descarga de ira esquentava o meu sangue.
”Como pai...”
Ele não sabia de porra nenhuma.
Ri sarcástico e me virei para frente. Apoiei meu corpo na mesa de reuniões e cruzei os braços enquanto o assistia balançar os cubos de gelo dentro do copo de whisky, como se até mesmo aqueles movimentos precisassem ser meticulosamente calculados.
- Não aja como se, de repente, a minha vida lhe fosse interessante, pois nós dois sabemos que você não se importa com nada que vá além dos seus próprios benefícios. – Ele desviou a atenção da bebida e a concentrou em mim, espreitando os olhos no ato. – Proponho que você poupe os seus esforços e invista energia em assuntos dos quais lhe interessam, porque o que eu faço e com quem eu me envolvo não é um deles. Pare de agir como se pudesse controlar tudo e todos porque você não pode, pai. Supere esse senso de dominação. Eu me mato nessa merda de escritório, estou cuidando de um caso FODIDO e tudo que você tem a dizer é que eu me tornei displicente por culpa da única pessoa que mantém minha cabeça no lugar?! O QUE VOCÊ QUER DE MIM, AFINAL? – Elevei o tom de voz e ergui os braços em exaustão, avançando alguns passos na direção dele durante o ato. Havia uma linha frágil sustentando a tensão eminente daquele conflito indireto e ela poderia se romper ao mínimo sinal de exasperação de qualquer um de nós, colocando-nos num campo minado cheio de armadilhas verbais, entretanto, eu não dava a mínima em ultrapassá-las.
Eu já havia mandado o meu equilíbrio para o inferno.
- Eu quero que você honre o sobrenome que carrega, quero que faça jus ao que ele representa. Eu criei você para ter foco, . Preparei você para ter pulso firme como um herdeiro digno do império que possuímos. Acha que tudo o que temos veio fácil? Acha que administrar cada suspiro dado aqui e nas outras filiais é brincadeira? – Permaneci parado no mesmo lugar, vendo-o me encarar incisivo e retribuindo o olhar da mesma maneira. – Em vez de ficar com esse papinho lamurioso clamando piedade e tapinhas nas costas por fazer o seu trabalho, que tal rever suas prioridades e começar a assimilar a ideia de que, um dia, tudo isso pertencerá a você? – O timbre fulminante contorceu meu estômago à medida que as palavras pesavam e faziam barulho dentro da minha cabeça.
- Impressionante… – Uma risada inconformada saiu ardida pela minha garganta. Esfreguei as mãos no rosto e neguei sem acreditar que ele seguiria por aquele rumo. – Eu cresci tendo consciência de quem eu sou, não é como se eu pudesse esquecer. Acontece que eu não me limito à porcaria de um sobrenome, tampouco desejo que ele me defina, ao contrário de você! Não se sente mal em viver em meio à relações por conveniência? Acha mesmo que essas pessoas que lambem o chão que a nossa família pisa o fazem simplesmente porque nos admiram e querem nossa amizade? Quantas delas ligaram para saber se a sua esposa estava bem? Quantas se dispuseram a colocar um pouco de consideração acima da inconveniente curiosidade? Tudo é puro interesse e eu honestamente não suporto nutrir relacionamentos baseados em falsidade. Problema é seu se essa é a sua receita de merda para o sucesso, pai, mas ela não é a minha. – As frases saíam amargas pela minha boca e levavam consigo uma carga de desgaste acumulado. A grande quantidade de palavras despejadas de maneira célere tornaram o meu fôlego entrecortado, eu podia sentir a secura bucal arranhar minhas cordas vocais, assim como sentia o olhar vidrado do meu pai me queimar. Sua postura ofensiva indicava um descontentamento explícito do qual me deixou completamente satisfeito.
- Essa receita de merda gera lucros de milhões para o nosso patrimônio. Eu não estou nem aí se somos bem quistos ou não, que vão todos para o inferno com as bajulações, contanto que faturemos em cima delas e, olhe em volta… – Ele abriu os braços, exibindo a vastidão do escritório. Semicerrei os olhos para o gesto. – É exatamente isso que acontece! Não venha querer me dar lição de moral enquanto usufrui dos bens conquistados através do que você condena, . São por essas atitudes que eu coloco à prova a sua capacidade de comandar nossos bens! Seu estilo de liderança gentil é inoportuno para o âmbito do empreendedorismo, a hierarquia exige que sejamos calculistas. Lembre-se que ambição é o alimento dos vencedores, basta desse teatrinho melodramático! – Bronqueou envaidecido e eu exprimi outro riso sarcástico.
- Até agora só o que eu escutei foram sentenças acusatórias a respeito da minha capacidade profissional, mas parece que você já se esqueceu dos meus êxitos em todos os casos dos quais defendi. Me subjugue o quanto quiser, nada vai mudar o fato de que, como você mesmo disse, este teto sob nossas cabeças, o chão onde pisamos, tudo me pertencerá e eu não renunciarei ao direito de exercer meu ofício da forma como achar correta. Eu me garanto, sou um dos melhores advogados por aqui e você sabe bem disso. – Assegurei, pouco me fodendo por soar um maldito arrogante.
- Ser bom no que faz não lhe isenta de carecer de um perfil mais rígido para cuidar de uma companhia desta magnitude. Não sou o monstro que acha que sou, apenas faço o que é necessário para preservar o que me é significativo, você deveria se portar da mesma maneira. – A tranquilidade disposta no seu timbre indiferente em conjunto com a sentença recém verbalizada quase me fez gargalhar. Ao invés disso, avancei mais alguns passos e parei próximo a ele, explorando seu rosto impassível com seriedade. Era como estar diante de um espelho futurista do qual revelava o meu porvir, e eu imediatamente desaprovei o que vislumbrei. Expeli outro riso sarcástico que mais parecera um pigarro aborrecido e escondi as mãos no bolso da calça, adotando uma postura imperturbada.
- Eu vou simplificar as coisas, pai. Não sou você e nunca vou ser um protótipo seu, então aconselho que poupe a si mesmo de frustrações e aceite os meus meios de levar a vida e de desempenhar o meu trabalho. Eu não sou a porra de um moleque. Comece a respeitar minhas decisões e, acima de tudo, respeite a pessoa com a qual eu escolhi me envolver. A partir de HOJE, nosso convivo se dará única e exclusivamente à questões profissionais, as pessoais não entrarão neste contexto. Chega.
- É impressão minha ou você está querendo ditar o que eu eu devo fazer, ? – Questionou rasteiro, no entanto, não alterei minha pose, muito menos minha expressão.
- Estou estabelecendo limites para que consigamos conviver e desempenhar nossas tarefas neste escritório da melhor forma possível. Não é isso que lhe interessa? Pois bem. Você é o dono do jogo e eu sou o dono da bola. Como futuro CEO da & Ritter Advocacia, tenho o dever de prezar pelo bom funcionamento do ambiente de trabalho, entretanto, o senhor está impedindo que isso ocorra ao se colocar à frente do que não lhe diz respeito. – Entoei prático e direto. Ele piscou as pestanas devagar e estreitou as pálpebras, oferecendo-me somente o silêncio ao longo de um curto período de tempo, parecendo digerir minhas palavras.
- A que ponto preocupar-se com o destino do escritório não me diz respeito?
- No momento em que este ponto passa a interferir nos outros âmbitos da minha vida em benefício à sua ganância. Que se dane as aspirações e as vontades do meu filho, contanto que ele gere ganhos para mim. É assim que você pensa, não é? Magnífico! Eu vou continuar sendo um viabilizador para a perpetuação do nosso legado, em contrapartida, você vai parar de se meter nos meus assuntos pessoais. Nossa relação se resumirá às práticas profissionais. – Decretei prático e direto. Sem pretender dar-lhe margem para uma resposta, logo tratei de prosseguir. – Tenho muito a agradecer a você, sim. Seus exemplos de como não se portar sendo pai me foram bem úteis, afinal de contas, eu não desejo me ver como um miserável escravo do poder. Um dia eu terei filhos e, quando for olhar para trás, terei orgulho do que fui para eles. Dinheiro nenhum pagará isso. – Finalizei curvando os lábios num sorriso vazio, muito embora meu corpo experienciasse uma leveza singular por enfim ter me livrado de parte da carga acumulada ao longo de tanto tempo. Girei o corpo e decidi dar toda aquela merda de discussão por encerrada, deixando a figura prostrada do meu pai para trás ao passo que caminhava rumo à porta.
- Não vire as costas para mim, ! – Sua voz soou cortante atrás de mim. O observei por cima dos ombros, encarando-o sem emoção.
- Por que não? Reciprocidade. Só estou repetindo o que você vem fazendo comigo há tempos. E, mais uma coisa: Sou competente o bastante para gerir os negócios do meu modo e ainda assim ser um homem que dispõe de humanidade, você deveria tentar. – Por fim alcancei a maçaneta fria, girando-a e me retirando daquela sala sufocante em meio à passadas determinadas corredor afora.
Não me virei para comprovar a atenção desnecessária que atraía enquanto caminhava até os elevadores, sentindo incontáveis pares de olhos atingirem meu dorso. Imaginei que a probabilidade de as pessoas ali presentes terem captado a centelha de hostilidade queimando dentro do escritório era muito alta, todavia, não me incomodei. Ser alvo de burburinhos irrelevantes já não me aborrecia.
- Até mais, Bridget. – Desejei, erguendo uma sobrancelha ao notar o pulinho que a mulher dera ao me ouvir.
- Até, senhor. Tenha um bom final de semana. – Maneei a cabeça em agradecimento e virei o corredor, chamando o elevador em seguida. Adentrei o cubículo após sua chegada, apertei o botão o qual sinalizava a garagem e escorei as costas no espelho do local, expelindo o ar dos meus pulmões com força.
Puta que pariu, como a minha cabeça doía.
Praguejei mentalmente por não carregar comigo as malditas cápsulas contra enxaqueca, desejando, por ora, um cigarro e um whisky duplo para atenuar os efeitos do estresse na parte frontal do meu crânio.
Tateei meus bolsos à procura da primeira opção e me odiei novamente ao recordar-me de que os meus cigarros haviam acabado.
Caralho.
Desativei o alarme e entrei no meu carro num ímpeto impaciente, dando partida de imediato.
Minha mente funcionava à milhão conforme flashes da recente conversa com meu pai estouravam repetitivos por ali. Um misto de alívio pelo acerto de contas, e ira em razão das palavras proferidas por ele, formavam um amontoado de emoções discrepantes que transformavam-se no mais completo inconformismo diante de sua ambição desmedida e insistência em me converter em um maldito robô condicionado a acatar passivamente o modo de agir e de pensar que ele julgava ser correto.
Eu podia continuar a conviver com toda a merda que já estava habituado a lidar, viver no limite como se todos os meus dias fossem pautados em um jogo com oito segundos para o fim da prorrogação não era um problema.
Os ossos do ofício existiam e eu teria de enfrentá-los de qualquer forma.
Ser o próximo dono dos negócios e CEO do escritório não era nada comparado ao estresse de ter que ouvir a todo momento a mesma porra de ladainha que saía da boca do meu pai, o qual parecia nutrir uma satisfação descabida em colocar a minha capacidade profissional à prova sempre que possível.
Isso era algo que eu jamais consentiria.
Possuo todas as competências necessárias para gerenciar os negócios de maneira qualificada e não permitirei que ninguém interfira nisso, da mesma maneira que não permitirei que apontem como um empecilho quando, na verdade, ela era a única responsável por eu manter a minha cabeça no lugar. E a única que me fazia ver e sentir que vida não se reduzia à bolha da qual me cercava.
Dei um suspiro profundo e prolongado e procurei me concentrar na direção à minha frente, entrando na rodovia a caminho do hospital enquanto tentava anuviar meus pensamentos acelerados durante o trajeto, que felizmente não durou muito.
Pouco tempo depois já me encontrava sentado na sala de espera do centro médico, perdido no celular em minhas mãos e nos e-mails não respondidos que lotavam a minha caixa de entrada, embora eu houvesse respondido uma leva deles no dia anterior.
- Senhor ! O doutor já vai atendê-lo. – O timbre agudo e solícito da atendente despertou-me dos meus afazeres. Levantei-me e agradeci, seguindo corredor adentro até alcançar a porta branca, onde jazia uma placa personalizada com a identificação do médico gravada em prata.
Dr. Saymon Finkler – Chefe de Cardiologia.
Adentrei o consultório e o homem se ergueu atenciosamente.
- Senhor . Boa tarde. – Saudou cordialmente e estendeu-me a mão, a qual segurei em um cumprimento cortês.
- Boa tarde, doutor Finkler. Obrigado por me receber. – Disse antes de nos sentarmos novamente. Acomodei-me na cadeira em frente à mesa repleta de papéis, conjuntos de documentos e um notebook.
- Não se incomode em agradecer. – Falou ele à medida que folheava uma pasta grossa da qual eu imaginei pertencer aos dados de internação. – Como eu já havia comunicado, sua mãe está estável. Realizamos uma bateria de exames, dentre eles o eletro e o ecocardiograma, e foi detectado um espaçamento da parede do ventrículo esquerdo. – Ele virou a tela do notebook para minha direção, apontando a lacuna referida na imagem com o dedo indicador. Cerrei as pálpebras e maneei a cabeça em afirmação, incitando-o a continuar. – O aumento dessa massa acarretou um bloqueio atrioventricular, dificultando a condução dos estímulos dos átrios para os ventrículos, ou seja, a velocidade dos sinais elétricos não estão completando o caminho adequado até o coração da sua mãe. Esse bloqueio pode ser descrito em até três graus e, com base na aparência do eletrocardiograma, o bloqueio dela se encontra no segundo grau.
Eu podia sentir a ruga moldada no meio da minha testa ao passo que assimilava as informações com a mente fervilhando.
- Quais são as causas desse bloqueio, doutor Finkler? E isso é algo grave? – Questionei meio perdido.
- Neste caso, o bloqueio fora causado pelo uso excessivo de beta-bloqueantes, que são medicamentos utilizados para o tratamento de distúrbios cardiovasculares. – Franzi o cenho e comecei a ligar os pontos imediatamente. Decerto que minha mãe havia conseguido tais fármacos em suas eventuais consultas fora da cidade. Senti-me um puta imbecil instantaneamente. Como diabos eu não me atentei a elas? – Nos bloqueios de segundo grau somente alguns impulsos chegam aos ventrículos. O coração pode bater de forma lenta, irregular ou de ambas as formas. Estamos falando de um bloqueio de segundo grau tipo dois e ele é sim um pouco mais grave, na maioria das vezes precisamos considerar uma cirurgia para o implante de Marca-Passo cardíaco. Faremos o acompanhamento clínico dela, no entanto, é quase certo de que recorrer à inserção através da operação é o melhor caminho a se seguir, dado que sua mãe vem apresentando desmaios e tonturas, o que não é bom. – Esclareceu me fitando sobre os óculos. Os músculos do meu rosto contraíram-se devido a menção à palavra “cirurgia” e o gesto provavelmente fora captado pelo homem de meia-idade à minha frente, pois ele logo tratou de completar sua explicação. – Mas não se preocupe com isso agora, tudo bem? Irei assistir e administrar o caso dela com cautela antes de tomar qualquer decisão. A única recomendação, por ora, é mantê-la afastada do trabalho e de estresse no geral. – Soltei uma breve risada irônica, haja vista que Kyara não aceitaria tais condições de bom grado.
- Temo que essa seja a parte mais difícil. – Falei, arrancando um sorriso condescendente dele.
- Fique tranquilo quanto a isso, eu comecei a preparar o terreno para dar esta notícia. – Expôs bem disposto. Ofereci-lhe um sorriso frugal em resposta. – Acredito que ela terá alta na terça-feira, passarei as demais informações e recomendações até lá.
- Certo. Muito obrigado pelos esclarecimentos e por dispor de seu tempo, doutor Finkler. – Levantei-me e ele repetiu meu ato conforme apertávamos as mãos.
- É sempre um prazer ser-me útil, senhor . Fique à vontade para ver sua mãe, aliás. Suponho que tenha vindo como acompanhante do dia. – Concordei amistoso.
- Sim, infelizmente não consegui vê-la acordada na noite anterior. Obrigado novamente e tenha um bom trabalho. – Despedi-me e me retirei dali, seguindo para o pavimento dos quartos.
Aproximei-me da sucinta abertura de vidro situada na parte superior da porta e avistei a mulher de semblante entediado folhear uma revista de modo robótico, fazendo-me inclinar os lábios num riso satírico diante da cena. Efetuei duas batidas na porta e ela subiu o olhar, suavizando a expressão ao me ver entrando no cômodo.
- Por favor, não olhe muito para o meu estado deplorável. Eu fico terrível de azul. – Ralhou desgostosa. Ri fraco e neguei com a cabeça, depositando um beijo no topo de seus cabelos.
- Como está se sentindo? – Perguntei, analisando o equipamento de monitorização de batimentos cardíacos e os fios interligados pelo seu corpo.
- Enfastiada de ficar aqui sem fazer absolutamente nada, porém bem. Eu francamente não compreendo a razão de tamanho exagero, fora apenas um desmaio à toa. – Ergui uma sobrancelha e lhe encarei irônico.
- Bom, dona Kyara, o doutor Flinker me passou uma versão bem diferente da situação. Suponho que saiba do que se trata. – Rebati zombeteiro e ela se remexeu impaciente, balançando as mãos como se o tópico não fosse tão importante. – Por que foi tão negligente com sua própria saúde, mãe? Qual foi a finalidade de consultar-se fora da cidade, afinal?
Ela bufou e voltou a manusear a revista sobre o seu colo.
- Eu não achei que o problema fosse sério de fato, seria loucura prejudicar o meu trabalho por uma enfermidade passageira. Acabei exagerando nas doses de medicamento ao tomá-las com o intuito de apressar o tratamento, pois não podia simplesmente ficar passando mal por aí tal como uma incapaz. – Queixou-se em protesto. Observei-a com seriedade.
- Espero que tenha ciência de quão errada você está, sobretudo que tenha noção de sua condição atual. – Alertei sem esconder o tom repreensivo contido na frase, vendo-a suspirar e balançar a cabeça ainda que à contragosto.
- Será que eu posso desfrutar da companhia do meu filho sem ouvir mais advertências? – Indagou arqueando a testa.
Sorri ligeiramente e assenti, ajeitando-me na poltrona localizada ao lado da cama e acompanhando o discurso insatisfeito da mulher à medida que ela examinava a revista e lia uma matéria sobre arquitetura e decoração, opinando fervorosamente acerca da “ornamentação e pintura de extremo mal gosto” escolhidas para revestirem e adornarem a casa do senador da cidade.

**


Narração em terceira pessoa.

O fumo espesso dos tabacos exalava e misturava-se com o aroma das fragrâncias caras e da bebida alcoólica posta sobre a mesinha de centro. O Dalmore 62 jazia pela metade, entretanto, os copos das três figuras situadas na ampla sala encontrava-se cheio.
Os egos inflamados escondiam-se no íntimo de cada um a fim de manter a ordem, levando em conta que possuíam o anseio comum de obter êxito nas tramoias maquiavélicas, ainda que bastasse um deslize para que as personalidades vaidosas se fizessem presentes com potência.
- Já demos trégua o suficiente. Ele baixou a guarda? Deixou-se levar pela interrupção repentina das ligações e descuidou-se com algum documento, laudo ou informação útil? Irei me adiantar e responder a vocês: Não. O que conseguimos até o momento? Nada. – A voz entoou ríspida e impaciente, nadando rasteira até os tímpanos dos outros dois presentes no recinto. Um deles se manteve quieto enquanto martelava um meio de criar uma estratégia valida; O outro, comprimiu os lábios e a fisionomia fechada, sentindo-se imediatamente ultrajado defronte à crítica verbalizada pelo comparsa. Empertigou-se na poltrona de couro cor de caramelo e afiou os olhos cemicerrados.
- O que lhe faz pensar que pode palpitar no meu método de agir? Qual foi o seu avanço até agora? – Retrucou fulminante e apertou o copo com força, descontando no objeto toda sua frustração. O alvo de sua cólera riu ácido.
- Não me leve a mal, contudo, vocês me parecem um tanto quanto perdidos. – Satirizou bebericando o líquido amargo. O terceiro individuo até então calado fitava ambos companheiros desejando que nenhum embate supérfluo se iniciasse, uma vez que existiam coisas mais importantes a serem discutidas naquele instante.
- Sendo assim, mostre-nos a sua sabedoria e diga o que tem para oferecer neste caso. Estou ansioso para ouvir suas ideias. – Incitou denotando a impaciência no tom de voz estremecedor e melodioso. Odiava ser confrontado. Ele era o líder e cabeça de tudo aquilo, merecia respeito, afinal.
- Temos que impedi-lo de chegar às provas chave. Até mesmo eu que estou distante tenho conhecimento de que o novo laudo da perícia saiu e, olhem só, inclusive já se encontra nas mãos dele! – Bronqueou dotado de sarcasmo. Aquele que se intitulava o coordenador dos passos de cada um ali moveu a cabeça tal qual um raio na direção do sujeito até então mudo, o qual moderadamente encolheu os ombros por instinto.
- E como raios você sabe disso? – A pergunta saíra arrastada, pastosa. Apesar de ter sido feita para o informante da questão em pauta, o foco fora totalmente direcionado para o elemento imóvel e de poucas palavras.
- Faço a minha parte, meu amigo. Tenho os meus contatos. – Soltou tranquilamente, vislumbrando os dois cúmplices imergirem numa bolha acusadora e defensiva. Deliciou-se com o sabor do líquido espumoso e reprimiu um revirar de olhos ao conceber a ideia de que se viraria melhor sozinho. ”Basta um passo em falso desses palermas para que eu dê com a língua nos dentes e me safe”. Uma boa pose de coitado e algumas mãos molhadas com milhões seria o bastante para livrar-se de sua parcela de culpa naquele antro de sujeira.
- […] Como você deixou isso chegar nas mãos dele?! Dentre todos você é o que teoricamente deveria estar MAIS atento! – A figura autoritária exclamou.
- Ele ficou mais esperto com o nosso sumiço e após o susto com a garota, a culpa não é minha! Qual é, o não é burro. Acordem! Nenhum de nós tem noção de qual passo dar agora. – Enfim a voz do aliado fez-se presente e alastrou-se alterada através do ambiente. – Sabemos que há alguém que o está ajudando, portanto, creio que o mais sensato a se fazer por agora é descobrir de quem se trata.
- E apagá-lo, bem como fizemos com o Averbuck. – O comparsa completou como se aquilo não significasse nada. Ceifar uma vida não faria diferença, desde que os segredos sórdidos se mantivessem guardados à sete chaves. Pela primeira vez ganharam um aceno positivo daquele que vaidosamente se nomeava o chefe da situação.
- Chegou a hora de voltarmos à ativa, meus caros. Eliminar provas, eliminar pessoas, eliminar qualquer um que ouse atravessar o nosso caminho. Um brinde ao crime perfeito!
Tim-tim.
O tilintar das taças ecoou sonoro num brinde calculista;
A ganância maléfica jorrou e espalhou-se por entre as três figuras risonhas, sórdidas e sedentas pela impunidade.

”Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer – Fernando Pessoa.”




Capítulo 25

"Você faz parecer mágica, porque eu não vejo mais ninguém, ninguém além de você." Earned It - The Weeknd.


’s POV.

O burburinho infantil e alvoroçado podia ser ouvido há metros de distância da entrada do abrigo. A tarde amena decerto havia contribuído para tamanha euforia, muito embora os pequenos demonstrassem o agito usual em qualquer clima ou ambiente, sobretudo em dias ensolarados como aquele.
Eu compartilhava da animação deles, ainda que por uma razão um pouco diferente. As ideias para a festa de arrecadação de fundos estavam frescas e prontas para serem compartilhadas, deixando-me em êxtase ao projetar mentalmente todo contexto da decoração enquanto caminhava e analisava a extensa dimensão do local já imaginando o que faria ali.
Vultos abruptos e alvoroçados destruíram minha breve divagação e me levaram de volta ao cenário real e ainda desprovido dos adornos que em breve ocupariam a vastidão daquele recinto em questão, fazendo-me descontinuar meus passos e observar Trish correndo em meio à gargalhadas a medida em que era seguida por um grupo de crianças entusiasmadas e decididas a alcançá-la como se a mulher fosse um pote de doces ambulante. Ri e me mantive parada acompanhando a cômica correria, sendo finalmente notada ali após ela se render e se deixar ser pega pelo grupo de serzinhos afobados que logo tornaram a disparar ao longo do extenso descampado, agora focados em perseguir outra vítima.
— Eu tenho certeza que os raios solares alteram alguma coisa no DNA dessas crianças, juro! Elas não pararam um minuto sequer desde o momento em que acordaram! – Trish queixou-se em meio a um resfolegar cansado. Sua expressão assustada era quase cômica, fato que me levou a esboçar outro riso diante da figura exaurida à minha frente.
— Isso se chama energia acumulada, e levando em conta os dias em que o tempo esteve chuvoso, devo alertar que ainda há muito o que ser gasto. – Avaliei, divertindo-me com o esforço da mulher em se recompor da corrida desenfreada. – Trate de se recuperar, pois nós precisamos conversar. – Informei sem conseguir conter minha inquietude para enfim despejar todo planejamento referente à festa, recebendo o olhar curioso de Trish em resposta.
— Eu aprendi a temer essa sua carinha inofensiva, por trás dela há uma mente um tanto quanto peculiar. – Ri novamente ao passo que nos direcionávamos até os fundos do abrigo, onde o silêncio fazia-se mais presente do que o furor infantil da área externa.
— Bom, veja por si só. – Falei, entregando-lhe o caderno onde havia esquematizado os preparos do evento. – Por enquanto é só um esboço, mas acredito que já dê para ter um direcionamento sobre como começar.
— Hm... Isso está muito interessante, ! Teremos barracas de comida, bazar e... Uma banda? – A mulher desviou os olhos das folhas em suas mãos e os pousou em mim sem esconder a curiosidade exposta nos orbes semicerrados.
— Digamos que eu tenha uma pessoa perfeita para me ajudar com esse detalhe. – Soltei despretensiosa. – Talvez minha mãe possa dar um apoio com a parte gastronômica.
— Ah, seria perfeito! Eu jamais me esquecerei dos brownies que você trouxe aquele dia, estavam magníficos. Sua mãe é bastante talentosa, acho uma ótima ideia. – Sorri em agradecimento e assenti, afinal, tal fato não era nenhuma novidade para mim. Trish tornou a ler os rabiscos apresentados no papel e, durante o tempo em que a mulher minuciava os registros feitos ali, deixei com que minha atenção se prendesse na vasta abertura que compunha a janela da sala de Magnólia, sorrindo automaticamente por saber de seu apoio acerca da festa.
— Não é incrível que a Magnólia tenha concordado com tudo? – Mencionei, atraindo a fisionomia reflexiva da mulher anteriormente focada no caderno. – Obrigada por ter conversado com ela.
— Ah, imagina, ! Você tinha que ver a empolgação dela, inclusive pelas crianças, que nunca vivenciaram algo do tipo.
— Por falar nas crianças... Você não acha que seria interessante se nós permitíssemos com que elas fizessem parte dos preparativos? Pode ser pintando as barraquinhas, ajudando a enfeitar o lugar, enfim... É importante que todas se sintam incluídas no processo. – Introduzi a sugestão e o semblante de Trish se iluminou.
— Mas é claro que seria! Nós também podemos expor os trabalhos que elas fazem durante as aulas!
— Ótimo! – Bati algumas palminhas de animação. – Céus, eu mal posso esperar para ver tudo pronto. – Declarei devaneante, dando uma boa olhada ao redor. Parei a análise em um ponto adiante, fixando os olhos na extremidade em evidência ao ser atingida por um insight de criatividade. – Trish, por acaso há alguma trena por aqui? – Perguntei simplesmente, fazendo-a me encarar de modo engraçado.
— Trena? Ahn... Eu não sei, mas posso procurar. Devo questionar esse súbito pedido? – A pergunta foi devolvida junto a uma pitada de humor, causando-me um breve riso notar a expressão de incógnita estampada no rosto da mulher.
— Não, você deve apenas encontrar uma trena. Acho que acabei de decidir onde o palco ficará. – Lancei-lhe uma piscadela esperta, vendo-a erguer as mãos em sinal de rendição antes de se levantar e sair em busca da ferramenta solicitada.
Percorri o vasto pátio e alcancei a área intencionada, planejando mentalmente a construção de um grande tablado naquela zona perfeita para tal. Continuei minha análise no decorrer de mais alguns minutos, até ser curiosamente interrompida por uma série de toques contínuos na minha perna. Desloquei meu olhar para baixo e sorri largo ao me deparar com o serzinho responsável pelos cutucões.
- Oi! – Archie saudou tão sorridente quanto eu, exibindo as janelinhas propiciadas por efeito da ausência de dentes.
— Olá! Que surpresa boa! – Agachei-me à sua altura e lhe abracei apertado, ouvindo-o gargalhar e se debater entre os meus braços.
— Eu vim te ajudar! – Ele informou vibrante, mostrando, orgulhoso, a fita métrica posta em suas mãos. – A Trish me deu uma missão, ela disse que era pra eu te entregar isso porque agora eu sou um assistente. – O pequeno explicou todo pomposo. Ao longe, pude vê-la nos observando. Trish emitiu um sinal apontando que precisava ir para sabe-se lá onde e eu assenti, demonstrando que estava tudo bem.
— Você aceita ser o meu assistente?
— Sim! Aceito!
— Está pronto para começar a missão, capitão? – Bati continência e ele reproduziu o gesto com a carinha mais fofa do mundo.
’Tô! – Archie dedicou-se a dar pulinhos alvoroçados, fazendo-me rir alto.
— Então vamos começar! Segure essa ponta no chão com bastante força, está bem? – Ele assentiu veemente, ficando o princípio da régua flexível no gramado. Comecei a andar para trás conforme acompanhava os números do utensílio de medida, concentrada em determinar o tamanho da região marcado. – Muito bem! Você é o melhor segurador de pontas que eu já vi! – Elogiei elevando o tom de voz para que o pequeno me ouvisse. Meu coração se aqueceu ao admirá-lo externar um sorriso imenso.
— Vai mais rápido! Mais rápido! – Incentivou enérgico, referindo-se ao meu caminhar vagaroso e provavelmente tedioso para a sua agitação infantil.
— Ah, isso me pareceu um desafio... Assim está bom, capitão? – Entrei na brincadeira e acelerei o ritmo dos meus passos de modo que uma desajeitada corrida de costas fosse iniciada. O gargalhar de Archie preencheu o espaço e eu me juntei a ele, imprimindo cada vez mais velocidade no divertido ato que, por um instante, me impeliu a esquecer sobre qual era a prioridade ali. A expressão do responsável por aquela cena cômica foi substituída por olhos e bocas arregalados, dando-lhe um ar travesso. – O que o senhor está aprontand... – Deixei a frase morrer no segundo em que um forte choque colidiu contra as minhas costas, lançando meu corpo para frente como se eu fosse uma bola. Assustada, pisei em falso e tropecei nos meus próprios pés, atingindo a superfície coberta de grama sem nem sequer dispor de tempo para tentar me equilibrar.
Caí feito uma batata no chão.
O baque mudo do tombo ocasionou uma dor lancinante e certeira no meu cóccix, entretanto, não tive oportunidade de vivenciar tal sofrimento, pois um gritinho afetado foi emitido bem ao meu lado, seguido de outro baque com destino semelhante ao meu.
Em seguida, pude ouvir o riso alto e melodioso de Archie, que sem dúvida alguma se entretinha com a embaraçosa cena.

Pisquei aturdida e foquei na figura jogada diante de mim, só então compreendendo o desastre: Eu havida derrubado Cassie, e esta me fuzilava com o olhar em chamas.
Uh, oh.
— Qual é o seu problema?! Por que estava correndo de costas, você é louca?! Olhe o que você fez! – Bradou, irritada, gesticulando igual a um polvo. Franzi o cenho e lhe encarei de volta.
— Desculpe, mas você também estava de costas!
— Sim, querida. Trabalhando, e não agindo como se tivesse cinco anos de idade! – Rebateu recriminadora. Abri a boca para lhe responder, porém, desisti no segundo em que fui atraída a um fato bem mais relevante: a ostensiva e aparentemente sensível câmera fotográfica suspensa em seu pescoço.
— Ai, meu Deus. Esse negócio não quebrou, quebrou? – Inquiri assustada e receosa, clamando aos céus para que o equipamento não houvesse sofrido nenhum dano com o atrito da queda.
— Eu utilizo alças por motivos óbvios. Era esperado que uma criança esbarrasse em mim, não... Você! – Cassie esbravejou envolta àquele chilique momentâneo e um tanto quanto engraçado. Vê-la sentada – mesmo contra sua vontade –, sobre a terra coberta por plantas trajada nas usuais vestes de grife era, no mínimo, peculiar.
— Veja só, parece que eu sou uma surpresa, então! – Ironizei enquanto me levantava, assistindo-a revirar os olhos bem delineados e tomar a mesma atitude, no entanto, com muito mais dificuldade, uma vez que os saltos altos impediam-na de manter o equilíbrio sobre os próprios pés.
— Argh, não acredito que afundei meu Saint Laurent nessa grama barrenta! – Resmungou incerta entre impulsionar o corpo para cima, ou sustentar o bico fino do lustroso calçado no solo desnivelado.
— E eu não acredito que você escolheu um sapato desses para pisar na grama! Nunca ouviu falar em tênis?! – Soltei abismada e sem filtro nenhum, esticando a mão na direção da mulher que me mediu de um jeito esquisito como se eu possuísse duas cabeças ou seis olhos na cara. Eu não sabia muito bem o que um Saint Laurent era, no entanto, podia imaginar que se tratava de uma marca importante, uma vez que a senhora detinha de uma coleção deles em meio ao seu infinito acervo de peças de alta-costura.
— Eu prefiro deixar esse senso de moda básico para quem não dispõe de bom gosto algum, obrigada. – Contrapôs ácida, aterrizando os olhos incertos e dúbios na minha palma estendida, indecisa sobre aceitar a ajuda ofertada. Fitei meus pés calçados com um par de flexíveis sapatos surrados e emiti uma risadinha culpada, captando a indireta-direta dela.
— Tem razão, não estou muito glamorosa no momento, entretanto, estou de pé. E aí, pretende deixar o seu Saint Laurent fincado na grama barrenta o dia todo ou vai aceitar a ajuda de uma pessoa brega que usa tênis velhos? – Interpelei satírica, balançando meus dedos rente a linha do olhar de Cassie, vendo-a cerrá-los pela milésima vez e fechar a cara antes de segurar a minha mão. Puxei-a para cima num só impulso, quase nos fazendo ir ao chão novamente.
— Ótimo! Como vou aparecer na redação estando toda suja e desgrenhada?! Urgh! – Ela protestou desolada e eu me limitei a analisá-la rapidamente, logo concluindo que não havia nada mais que algumas manchas espalhadas pela calça de seu terninho salmão. Ignorei os resmungos de Cassie e foquei no pequeno ser risonho que se aproximava de nós duas com divertimento flutuando no rosto sapeca.
— Você perdeu o desafio e agora a gente vai ter que começar tuuuudo de novo! – Exclamou pousando as mãozinhas na cintura. Era humanamente impossível não rir do jeito astuto de Archie.
— Perdão, capitão. Acho que eu me empolguei.
— Tudo bem, foi engraçado. – Disse dando de ombros e eu abri a boca em descrença. – Ela também vai ser sua assistente? – O menor indagou olhando em dúvida para a elegante mulher, a qual descontinuou a limpeza na sua roupa não mais tão impecável, encarando a mim e Archie sem entender.
— Perdão? Assistente? Do que ele está falando? – Por alguma razão, sua incredulidade diante do termo me fez rir brevemente. Decerto que ela desaprovava a ideia de interpretar o papel de auxiliar, mesmo não compreendendo sobre a que o pequeno se referia.
— Não é nada demais, apenas pedi a Archie que me ajudasse a medir essa parte do pátio. Estou organizando uma festa no abrigo e preciso ter noção das dimensões da área para montar a decoração. – Esclareci por cima e Cassie arqueou uma sobrancelha em desconfiança.
— Desculpe por lhe trazer de volta à realidade, mas não vejo fundamento para que ocorra uma festa aqui. Não há muito que comemorar, basta olhar em volta. Este lugar está aos pedaços.
— Exatamente. O propósito da festa é arrecadar fundos para salvar o abrigo, estando aos pedaços ou não, este é o único lar que essas crianças possuem. Não estamos falando de uma casa de bonecas da qual se joga fora depois de quebrada, e sim da moradia de pessoas que necessitam de amparo. – Respondi. A fisionomia comumente empinada da mulher vacilou por alguns instantes, dando lugar a um lampejo de compreensão que logo regressou a sua habitual condição pedante.
— Boas intenções de nada adiantam se você não souber executar o trabalho da forma correta, a começar pelo seu modo de medir a área do terreno. Não manuseie a trena tal qual uma desesperada, a retraia com calma e evite o impacto da fita no carretel. Boa sorte. – Cassie findou como uma enciclopédia da medição e deu às costas em seguida, caminhando sobre os preciosos Saint Laurent em passos harmoniosos até sumir do meu campo de visão, deixando-me ali, parada e ligeiramente chocada com o seu aparente conhecimento sobre o assunto.
Pisquei meio perdida e me voltei à Archie, que se encontrava alheio do mundo enquanto brincava com o utensílio de metragem. O pequeno subiu os olhos até mim e me fitou atento.
— Ela ’ta brava? – Perguntou certamente reportando-se à Cassie. Sorri e neguei com a cabeça, acariciando-lhe os cabelos macios.

— Eu acho que essa é ela de bom humor. – Julguei avaliativa e Archie pareceu não compreender, optando somente por balançar os ombros e retornar ao local ocupado por ele antes da minha vergonhosa queda.
Vamo começar de novo! Agora vê se não cai! – Aconselhou mandão e eu caí na gargalhada.
Céus, uma criança estava chamando a minha atenção.

— Positivo e operante, capitão! Eu acho que o assistente aqui sou eu. – Falei, contemplando-o inflar o corpinho já agachado em sua posição anterior. Refiz o caminho e marquei o início da escala métrica, tornando a percorrer o trajeto agora de modo mais alerta e calmo.

**


Droga, droga, droga.
A minha relação caótica com o transporte público ia de mal à pior.
Me enfiar em um ônibus abarrotado após uma manhã tranquila e divertida no abrigo era, de longe, o suprassumo da dura realidade proletária a qual eu vivenciava diariamente, sobretudo naquele momento em questão, onde cada centímetro do meu corpo apertava-se entre os demais corpos igualmente espremidos. Eu podia terminantemente refutar a lei de Newton, afinal, dois corpos podiam sim ocupar o mesmo espaço.
Na atual circunstância, não só dois, mas três e muito mais.
Me remexi procurando uma posição menos asfixiante, sendo obrigada a de fato me mover no instante em que o meu celular vibrou continuamente no bolso da minha calça. Desloquei o braço para trás e, depois de uma certa dificuldade, tirei-o de lá, lendo o nome de Adrian piscando na tela.
— Olá!
- Hey, ! Como vai?
— Bem e voc... Ai! – Reclamei ao levar um pisão no pé, bufando de impaciência por obra do ocorrido. – Perdão, estou no ônibus lotado e alguém acabou de esmagar o meu dedinho. Enfim, e você, como está?
— Estou bem, tudo nos conformes. Você consegue falar agora? Posso ligar mais tarde, caso seja melhor.
— Ah, não. Relaxe. Estou no meu habitat natural, me viro muito bem nessas circunstâncias. – Gracejei, esforçando-me a enxergar as ruas através da janela coberta por cabeças, dado que perder o meu ponto de parada definitivamente não era o que eu desejava nem por um decreto. – O que manda? Melhorou?
— Melhorei? De quê? – Adrian questionou, confuso. Considerando o seu tom de voz desentendido, ele seguramente não possuía conhecimento acerca da motivação da pergunta. Franzi o cenho e rapidamente cavei na minha memória, buscando evocar a lembrança do dia no qual havia me informado da ”doença” do namorado. As informações simplesmente não se encaixavam. O que a levaria a mentir para mim?
— Ah, esquece. Eu pensei que você estivesse doente, mas devo tê-lo confundido com outra pessoa. E então, o que você precisa falar comigo? – Desconversei, tratando de mudar o rumo do tópico de imediato.
, você tem falado com a ? Ela anda meio distante, dispersa... Não sei o que fazer para ajudá-la, não sei o que há de errado. – Touché. Com toda certeza do mundo havia algo muito incomum acontecendo.
— Bem, ela está um pouco atarefada com as provas finais e com o trabalho novo. Notei-a um pouco exausta esses tempos, talvez seja por conta do excesso de obrigações. – Mencionei, finalmente dando sinal para descer daquele inferno em forma de transporte.
— Sim, eu pensei nisso. De qualquer forma, posso lhe pedir um favor? – Sua entoação aflita gerou uma sensação semelhante em mim.
— Claro que pode, Adrian.
— Teria a possibilidade de você me comunicar caso perceba qualquer coisa estranha?
— Fique tranquilo, tudo bem? Irei manter você informado. Obrigada por se preocupar com ela. – Embora essa fosse a atitude esperada de qualquer pessoa com a qual se compartilha uma relação, ver que partilhava de sua intimidade com alguém tão bom para ela me causou alívio.
— Eu não faria diferente disso. Agradeço pela ajuda, . Desculpe tomar o seu tempo.
— Pare de bobagem! é importante para mim, sempre estarei disposta a fazer o que estiver ao meu alcance para vê-la bem. – Afirmei à medida que realizava uma espécie de contorcionismo para alcançar a porta do ônibus. – Preciso desligar agora, o meu ponto chegou.
— Sem problemas, e... ah, já ia me esquecendo! Teremos um evento para apresentar o novo patrocinador da academia no domingo, vou pedir à que envie os convites para você até amanhã, então fique de olho no e-mail.
— Poxa vida, um novo patrocinador? Que incrível, Adrian! Será um prazer comparecer, agradeço pelo convite. – Proferi realmente animada por ele.
— Eu sei, é surreal! No domingo conversamos melhor, não vou mais te atrasar. Até mais, .
— Até! E parabéns pelo reconhecimento! – Escutei-o agradecer e encerrei a chamada, sentindo uma lufada de ar me atingir como um refresco enviado diretamente dos céus assim que eu, enfim, desci do ônibus.
A informação de que mentira para mim matutava em minha mente inquieta, atrelando-se ao seu comportamento esquisito e distante o qual volteava numa bola de neve repleta de indagações e dúvidas.
Eu teria que encontrar uma forma de abordá-la sem ser invasiva.
Limpei os meus pensamentos por ora e atravessei a porta da Retrô Records, reverberando o tinido agudo da sineta responsável por anunciar os clientes e também por acordar Vicenzo, que dormia com os braços jogados sobre a bancada de maneira desleixada. O vocalista despertou num pulo assustado e aturdido, olhando para todos os lados completamente assombrado.
— BOA TARDE, VIVI! – Comuniquei minha chegada falando mais alto do que seria considerado normal, prendendo o riso ao ver a figura desalinhada pousar as duas mãos nas laterais da cabeça demonstrando a pior expressão possível.
— Será que tem como você falar mais baixo, coração? Mas tipo, tão baixo a ponto de eu não conseguir escutar? – Ralhou mal humorado, escorrendo a cabeça entre as suas mãos. Fiz uma careta e me aproximei dele, apoiando meus cotovelos no lado oposto da mobília.
— Uh, acho que alguém comeu rebelditos no café da manhã. Não está ouvindo os passarinhos lá fora? É sexta-feira! – Comemorei, empolgada. Longe de ser contemplado pelo meu entusiasmo, Vicenzo somente emitiu um grunhido repreensor, permanecendo escondido entre os braços tatuados.
— Ouvir passarinhos cantando a uma hora da madrugada só é legal se você for o caralho da Cinderela. – Frisou resmungão. Fiz uma careta e retesei meu tronco para frente com o objetivo de enxergar o semblante do vocalista.
— Erm... Vivi, meu amorzinho, agora é uma hora sim, porém, uma hora da tarde. – Ele levantou o olhar, por fim concedendo a visão total de seu rosto. – Céus! O que houve com você?! – Avaliei-o boquiaberta, espantada diante do que vi. A pele pálida dava contraste às escuras olheiras arroxeadas sob os seus olhos fundos e opacos, tão ressecados quanto os seus lábios esbranquiçados; seu movimento de piscar encontrava-se lento, como se entreabrir os orbes fosse uma tarefa complicada a ponto de fazê-la de modo tão arrastado. Vicenzo sustentou a cabeça na mão e me encarou, entediado, diferente de mim, que o fitava assustada.
— O meu dia está tipo um corredor polonês onde você mal consegue respirar entre um golpe e outro. – Disse ele em meio a um bocejo fatigado.
— Não é por nada não, mas parece que você saiu diretamente de um filme do Tarantino.
— Em um mundo perfeito, eu lhe diria que virei a noite enchendo o rabo de Schnapps enquanto quebrava umas guitarras em um hotel cinco estrelas na companhia de James Hetfield, entretanto, como a realidade é cruel e o mundo é uma bosta, declaro que virei a noite tocando no S.D.R e dormi por exatamente trinta belíssimos minutos, os quais se encerram no segundo em que você, cara estraga prazeres, passou por aquela porta. – Concluiu, apontando o indicador na direção da entrada. Arqueei o cenho e cruzei os braços na altura do peito, vislumbrando o característico sorriso de coringa moldar a face abatida de Vicenzo. – Todo astro do rock tem cara de quem não dorme há dias, portanto, estou no caminho certo. – Ele me ofereceu uma piscadela e voltou se esparramar na repartição da loja.
— Sabia que astros do rock também são engajados em causas humanitárias? – Comentei despretensiosa, contornando o balcão e me sentando ao lado do ser tatuado, que balbuciou um “hm” desconfiado como resposta. – Sabe, acho que este é o único atributo que lhe falta... Participar de um super show beneficente em um abrigo! – Joguei como quem não quer nada, parando no ponto onde eu desejava chegar. O vocalista afastou minimamente o rosto para me olhar. O piercing situado em sua sobrancelha reluziu assim que ele elevou o supercílio, encarando-me ressabiado.
, meu raio de sol, você cheirou o pó da parede?
— Ah, Vivi. Não acha que seria bacana mudar um pouquinho de ambiente? Fazer algo diferente? Eu comentei com você que a instituição onde eu faço trabalho voluntário corre um sério risco de fechar, não contei? – Recebi um aceno positivo como resposta. – Estou organizando uma festa de arrecadação de fundos, entretanto, não existe festa sem banda, e, por uma belíssima coincidência do destino, eu tenho um amigo lindo e talentoso do qual é vocalista de uma! Não é o máximo?! – Exibi um sorriso exagerado, lançando-lhe a melhor expressão esperançosa que consegui.
- É um orfanato cheio de criancinhas, eu não posso chegar lá e cantar músicas sobre sexo e uso de entorpecentes! Eu teria que criar uma versão rock’n’roll de alguma canção do Frozen ou sei lá. – Vicenzo argumentou moderadamente hesitante.
— Eu acredito que há um repertório decente em algum lugar desse seu coração peludo. Por favorzinho, Vivi! – Juntei as mãos em súplica, olhando-o no fundo dos olhos.

— Argh, ah não! Me ajude! Eu estou... SENTINDO! – Começou ele, pousando as mãos sobre o coração de maneira afetada. Gargalhei e rolei os orbes, não acreditando no que ele estava fazendo.
— Por favor, não me diga que você está imitando o Grinch.
— Aqui jaz minha pose de roqueiro insensível, fui abatido por... sentimentos de compaixão! – Prosseguiu, imerso em sua encenação teatral.
— Isso significa que você aceita tocar na festa?! – Questionei, eufórica, consumida pela exaltação do momento.
— Lindinha, vou preparar uma playlist digna de ser tocada em berçários. – Piscou, orgulhoso e eu soltei um gritinho contente, abraçando a figura ao meu lado com furor, quase nos derrubando de nossas respectivas cadeiras.
— Por isso que eu te amo!
— Beleza, raio de sol. O seu amor está me sufocando! – Resmungou abafado. – Precisamos comemorar as suas férias e também a minha fase Supernanny. Cerveja por minha conta no SDR amanhã! – Aprovei seu o anúncio através de um high five animado.
— Combinado!
Uma alegria imensa inundou o meu coração.
As coisas estavam, aos poucos, dando certo.
A esperança traz consigo uma sensação de bem estar que, quando fundamentada pelas razões certas, pode ser transformadora. Lutar pelo que eu acredito jamais seria perda de tempo.

’s POV.

Os papéis e arquivos distribuídos em pilhas sobre a mesa do escritório retratavam o árduo ofício do qual me incumbi durante aquele sábado atipicamente ensolarado.
Deixei meu corpo cair na cadeira e resvalei uma olhadela nos processos, voltando-me à ampla parede de vidro incumbida de conceder uma bela vista panorâmica da cidade. Contemplei-a alheio e distraído pela movimentação vespertina da metrópole, afrouxando o nó da gravata até desprendê-la do meu pescoço.
Desligar-me do trabalho parecia um grande desafio. As inúmeras demandas profissionais requeriam cada vez mais do meu tempo, e as consequências da série de compromissos e prazos a cumprir me levaram a sacrificar uma parcela do meu final de semana para receber clientes, gerar relatórios e, majoritamente, estudar o conteúdo processual do caso Zummack. As provas documentais produzidas em conjunto com o recente lado pericial resultavam na soma de evidências primordiais para refutar a acusação, que até o presente momento não acreditava em elementos contundentes no que se dizia respeito à inculpabilidade de Lee Feldmann.
Os fragmentos de tabaco detectados na parte externa do sítio fomentariam minha tese de defesa, uma vez que as contradições entre as provas e as diversas pontas soltas no que se concerne ao dia do fato começavam a indicar um novo ponto de vista sobre o crime em si. Reavaliando as recentes ocorrências desde o início de todo inferno envolto ao caso, existia um conjunto de eventos a serem esclarecidos, onde as perturbadoras pontas soltas deveriam ser coletadas e amarradas o mais rápido possível. A morte de Sandro Averbuck, o vazamento do laudo pericial, a porra das ameaças... Tudo flutuava de forma desconexa, colocando-me em uma posição de completa inexatidão perante as circunstâncias. Eu não estava acostumado a não saber quais decisões tomar. Odiava, sobretudo, não saber o que esperar. A repentina interrupção de contato com o desgraçado por trás de toda essa merda havia me jogado num limbo de incertezas, e pior do que manter-se preso a uma maldita corda bamba de hesitações, somente o silêncio. Como premeditar ações futuras quando se está tolhido em um campo minado de perigosas possibilidades?
Eu certamente teria que descobrir.
E teria que fazê-lo protegendo os meus; Protegendo .
Ela, que se tornara o meu maior ponto fraco, mas que irremediavelmente me deixava mais forte.
O paradoxo perfeito para me levar a perder a cabeça ante a remota possibilidade de perdê-la. De vê-la ferida novamente.
Esfreguei as mãos no rosto e expeli o ar de meus pulmões em uma golfada esgotada.
As paredes do escritório pareciam estar se comprimindo, exercendo a sufocante sensação de pressão em minha cabeça, sinal explícito e terminante de que o meu tempo ali tinha de esgotado.
Recolhi meus objetos pessoais, joguei o terno sobre os ombros e me retirei do recinto sem pensar duas vezes.
— Tenha um bom final de semana, Bridget. – Desejei à mulher posta atrás do balcão de granito.
— Igualmente, senhor . – Ofereci-lhe um aceno de cabeça e segui rumo aos elevadores, adentrando a cabine em seguida. Apoiei o corpo na parede espelhada e saquei o celular do meu bolso, perdendo alguns minutos durante o tempo em que checava as mensagens no aparelho. Parei no ícone da foto de e selecionei a conversa, repuxando os lábios em um sorriso involuntário ao admirar a imagem exibida em seu perfil.

”Acabei de sair do escritório, linda. Vou parar em casa para tomar um banho, mas não devo demorar. Daqui a pouco estarei aí.”

Enviei-lhe o sucinto comunicado, recebendo a resposta após poucos segundos.

”Tudo bem, estou quase pronta. Só preciso decidir o que vestir.”

Repeti o gesto de instantes e atrás e tornei a repuxar os lábios, contudo, com outro propósito em mente. Segundas, terceiras e todas as intenções possíveis associaram-se em meu pensamento indecoroso, idealizando o corpo da garota sem as peças de roupa que eu ocasionalmente deleitava-me em tirar.

”Você fica incrível de qualquer forma, babe. Principalmente sem roupa nenhuma.

A notificação de “digitando” manifestou-se instantaneamente.
A mensagem não demorou a vir, e o seu conteúdo em muito me agradou.

”Principalmente quando é você quem as tira. Talvez eu coloque algo fácil de ser arrancado.”

Sorri enviesado, experienciando meu corpo reagir em antecipação apenas com a mera informação lida.
me enlouquecia e sabia disso. Eu me permitia enlouquecer por ela e já não me importava em admitir o óbvio.
O tinido de chegada ao andar solicitado rompeu minha imaginação abruptamente, arrancando-me da esfera de devaneios nada puros em que eu me deparava. Guardei o aparelho de volta ao interior da calça social e transpassei as portas de metal em meio a um ímpeto automático e alheado, refreando meus passos ao topar com uma figura que decerto pretendia introduzir-se no ascensor de transporte.
— Oh, ! Que agradável surpresa! – O homem saudou cordial.
— Boa tarde, Carl. Como vai?
— Ótimo, embora atarefado. A empresa está se reerguendo aos poucos, sabe como é. – Comentou de modo frugal. Assenti sem ter muito o que lhe dizer, haja vista que, de certa forma, eu fui o culpado pelo declínio de seus negócios.
— Lamento que a situação tenha tomado tais proporções.
— Não é necessário que se desculpe, tampouco que lamente, . Você estava cumprindo com o seu dever, e o fez esplendidamente.
— Somente defendi um inocente em juízo. O profissional deve ser separado de eventuais amizades e companheirismos, agradeço por ter compreendido o meu lado, Carl. – Expus honesto, observando-o concordar.
— Guardar ressentimento não é do meu feitio. Carrego grande arrependimento pelo que fiz.
— Que bom.
Outro aceno de cabeça fora dado.
Um breve silêncio rodeou o ambiente, entretanto, o homem tratou de não prolongá-lo.
— Trabalhando em um sábado? Henrico lhe instruiu com louvor, você é um nato.
Eu teria encarado seu comentário como um elogio, não fosse a aversão atrelada à comparação com meu pai. Ser um nato há muito não me trazia contentamento algum. Concebendo minha falta de resposta, Carl prosseguiu. – Gostaria de conversar mais, no entanto, devo me apressar. Marquei um horário com seu pai, não quero ser indelicado em me atrasar. – Refreei um arquear de sobrancelhas frente ao seu relato, controlando também a ligeira curiosidade referente a informação comunicada.
— Ele saiu para visitar um cliente e até o momento não retornou. Creio que você terá que aguardá-lo, Carl.
— Não há problema. Tenho todo tempo do mundo. – Assenti novamente, observando-o entrar no elevador anteriormente ocupado por mim. – Até a próxima, . É sempre bom vê-lo.
— Igualmente. – Repliquei, observando-o sumir por atrás da abertura de metal.
Verifiquei o relógio no meu pulso e apressei o passo até a Maserati estacionada mais adiante, acelerando-a tão logo quanto me pus porta adentro, ansiando por sumir daquele prédio o mais rápido possível. Deixei a aprazível melodia advinda da voz de Brent Stephen ecoar entre o interior do veículo e foquei minha atenção na via pública, optando por tomar um caminho mais curto e menos usual do que eu costumava percorrer. Ainda que eu desejasse contemplar o céu límpido e vislumbrar a aparência pouco frequente do sol vespertino, acatei a agilidade que o espaço de tempo pedia e concluí o trajeto em poucos minutos, manobrando o carro em sua vaga sem demora.
— E aí, carinha. – Saudei o vibrante Pastor Alemão assim que coloquei os pés no apartamento, presenciando-o pular eufórico com a minha chegada. – Como passou o dia? Espero que sem comer nenhuma planta, seu pilantra. – Adverti enquanto acariciava suas orelhas, sendo avaliado por um Bento atento ao que lhe era dito. Apanhei o agora desgastado e mordido Scooby-Doo de plástico que fora dado por e o arremessei, olhando o animado cão partir em disparada a fim de alcançar o brinquedo.
Esbocei um ligeiro riso e me desfiz da gravata dependurada em meu pescoço, dando o mesmo destino a blusa social. Direcionei-me ao banheiro com Bento em meu encalço, rindo mais uma vez ao constatar que ele carregava o Scooby-Doo babado como se o objeto fosse a coisa mais importante do mundo.
Me desfiz das demais peças de roupa que ainda restavam em meu corpo e o inseri sob a ducha, permitindo com que os meus músculos relaxassem debaixo do grande volume de água. Desfrutei do momento por consideráveis minutos conforme a água liberava o estresse acumulado, fornecendo a carga de energia revigorante que eu tanto almejava. Enrolei uma toalha na cintura e regressei ao meu quarto, trajando as vestes informais as quais eu raramente utilizava.
O som advindo de uma vibração contínua repercutiu ao redor do cômodo, ocasionando-me um efêmero frio na espinha que atravessou o meu interior como se eu me encontrasse condicionado a hesitar qualquer merda de notificação advinda do meu aparelho celular. Apanhei-o sobre a mesa de cabeceira num gesto automático, vendo o nome de Paolo piscar na tela.
— E aí, Herzog.
— Ora, ora, parece que o ilustre ainda se recorda do meu nome. – Paolo satirizou do outro lado da ligação.
— Qual é, irmão. Está precisando de um abraço? – Zombei, ouvindo-o resmungar.
— Eu devia bloquear o seu número e te mandar para a casa do caralho! Só eu me preocupo com essa amizade, francamente. – Gargalhei ligeiramente, apesar de saber que havia fundamento em sua queixa. Eu andava me portando como um amigo de merda.
— Perdão, cara. A rotina está foda, há muito acontecendo.
— Uau. Acabei de ouvir você se desculpar? Beleza, é hora de cometer todas as loucuras que eu sempre sonhei, pois este é um sinal de que o apocalipse está próximo!
— Vá se foder.
— E voltamos à programação normal. Esse é o que eu conheço! Ranzinza e emburrado. Quais são os planos para hoje, cara? Está a fim de ir ao All Black assistir à apresentação do elenco dos Warriors?
— Não vai dar, Herzog. Combinei de ir a um pub com a , um amigo dela tem uma banda e os caras vão tocar lá.
— Você? Indo assistir uma banda em um pub? O amor romântico muda mesmo as pessoas... Quando foi a última vez em que você fez isso? Há uns oito anos? – Meu amigo gracejou, sarcástico. De fato, há muito que tais programas deixaram de fazer parte do meu cotidiano.
— Cale a boca. Ia convidá-lo para ir conosco, mas você está enchendo a porra do meu saco, então considere o convite cancelado.
— E perder você frequentando um lugar desses? Jamais. Me passe o endereço. – Exprimi um curto riso e neguei com a cabeça.
— Já estou enviando. Vou buscar a e nos encontramos lá, pode ser?
— Combinado, Don Juan. Até daqui a pouco.
Direcionei-lhe um xingamento antes de encerrar a chamada, descendo as escadas de volta à sala com os meus pertences em mãos.
— Tchau, bobão. – Acariciei o Pastor Alemão deitado sobre o sofá, sendo observado atentamente por um Bento alerta. – A vem para cá hoje, portanto comporte-se, ouviu? – Ele remexeu as orelhas, balançando o rabo energicamente. Depositei uma última caricia em seu pelo curiosamente limpo e me desloquei do apartamento rumo à garagem, adentrando a Maserati e dando partida sem demora.
Nos últimos meses a minha vida havia dado um giro de trezentos e sessenta graus, vagueando entre dois extremos: O inferno em sua totalidade perturbadora e o céu em sua calma tranquilizadora. A garota a qual eu me preparava para encontrar encaixava-se no segundo extremo, o extremo responsável por manter a minha cabeça no lugar. Diante de toda a merda, de toda a sujeira e martírio, a minha válvula de escape era ela. E que se foda a razão e o seu conceito moral acerca de quão errado era entregarmos a nossa felicidade nas mãos de outrem; eu arcaria com tais circunstâncias sem hesitações.
Parei o carro em frente ao condomínio e me retirei do veículo, encostando-me nele logo após informar minha chegada à . Contemplá-la passar por aquele portão fora uma experiência quase divina.
Admirei-a da cabeça aos pés sem pudor algum, vislumbrando suas pernas e coxas desnudas até alcançar os componentes de seu pequeno vestido cor de chumbo, desejando jogá-lo no chão do meu quarto.
Ou em qualquer outro lugar.
Percorri os orbes extasiados através de seus lábios carmim e enfim conectei nossos olhos, absorto em virtude do brilho irradiado por suas íris.
Puta merda.
— Olá. – Saudou doce. Curvei o canto dos lábios e contornei a sua cintura com os braços, trazendo-a para mim. Seu riso ecoou melodioso, enviando faíscas de euforia diretamente para o meu âmago.
— Olá. – Respondi, deleitando-me com a maciez de suas mãos em contato com o meu rosto. Seus lábios tocaram os meus com calma, numa ação tão delicada que me fez respirar fundo entre o ato. Ela afastou-se minimamente e me encarou através de um sorriso afetuoso.
— Tem certeza que você não está muito cansado?
— Não se preocupe com isso. Estou bem. – Assegurei, abrindo a porta do passageiro para que ela entrasse. Dei a volta no automóvel e fiz o mesmo, sendo arrebatado pelo agradável aroma de seu perfume já impregnado em minhas roupas.
— Obrigada por ter concordado em vir. Você vai adorar o som da banda, juro! Eles são muito bons! – Exclamou animada, fazendo-me rir ante tamanha empolgação.
— Não agradeça, não é sacrifício algum estar onde te faz bem. – Garanti, recebendo um terno repuxar de lábios em resposta. – Convidei o Paolo, espero que não haja problema.
— Claro que não! Vai ser tão legal! Uma pena que e Adrian estejam ocupados. – Lamentou, expressando um beicinho completamente adorável.
— Acredito que a organização do evento na academia esteja bastante trabalhosa. – Avaliei e assentiu.
— Parece que só irão divulgar o nome da empresa patrocinadora amanhã, durante a festa.
Ergui o cenho e maneei a cabeça em compressão, trilhando a rota manifestada no GPS enquanto me divertia com a eufórica garota ao meu lado, que não parava de falar nem por um segundo sequer. – É ali na frente. – Apontou ela, indicando um letreiro vermelho e luminoso com a sigla “S.D.R” piscando em neon. Arqueei a sobrancelha, curioso a respeito dos entornos do estabelecimento. Manobrei o carro em uma das vagas livres, observando a quantidade de motocicletas estilo Harley Davidson espalhadas por ali.
— Bom, o Vicenzo já chegou. – Reorientei minha atenção à caminhonete que encarava, recordando-me em vê-la no interior daquela pick-up por diversas vezes. – Aqui não tem manobrista, então guarde bem as chaves do seu carro. – Gracejou, lançando-me uma piscadela marota. Soltei um ligeiro riso e maneei a cabeça em negação, saindo do veículo assim como ela. – Nós vamos esperar o Paolo?
— Não haverá necessidade. Ele acabou de chegar. – Falei, indicando a Mercedez branca recém estacionada na área quase lotada. Meu amigo caminhou sorridente em nossa direção, e se eu bem o conhecia, a expressão de divertimento estampada em seu rosto moldava-se ali às minhas custas.
— Boa noite, casal! – Exclamou animado, cumprimentando com um abraço e a mim com o nosso habitual tapinha nas costas. – Estou pronto para curtir um bom rock’n’roll.
— Percebe-se. – Julguei, analisando a jaqueta de couro que ele vestia.
— Parece que eu corro o risco de ter os meus órgãos arrancados e vendidos nesse lugar. Gostei. – Paolo proferiu observador. A gargalhada de misturou-se com a música alta do recinto, sumindo gradativamente ao passo que nos inseríamos no ambiente repleto de pessoas de todos os tipos. Cabelos coloridos, piercings, coturnos e couro pareciam fazer parte do dress code do pub, onde incontáveis pôsteres de bandas revestiam as paredes refletidas por uma luz avermelhada. A melodia de alguma música do Slipknot reverberava eufônica, e embora nós diferíssemos muito dos demais frequentadores daquele âmbito grunge, ninguém aparentava se importar.
— Meu raio de sol! Finalmente! – Uma voz não muito conhecida solfejou, todavia, não precisei procurar demais, pois logo uma figura completamente tatuada e familiar fez-se presente, abraçando de modo demasiado efusivo e enérgico. – Vejo que trouxe companhia... – Estudou curioso, levando-me a levantar as sobrancelhas frente à sua maneira excêntrica de olhar para mim e Paolo.
— Seja bonzinho, Vicenzo. – A garota ameaçou, embora eu pudesse identificar o riso preso em sua garganta.
Bruce Wayne, que honra tê-lo neste estabelecimento! Como pode um cavaleiro tão virtuoso arriscar a sua reputação vindo aqui? – Ele prestou reverência e eu me limitei a fitá-lo sério, sem esboçar reação. – E você... Eu não conheço. – O sujeito voltou-se para Paolo, que o encarava confuso. – Batman e Robin! Ou você seria o Alfred dele?
— Tudo bem, Vivi. Já chega. Você está assustando os dois. – interviu em meio a risos.
— Droga... Okay, sejam bem-vindos e não destruam nada. Deixem isso por minha conta! – E tão rápido quanto veio, o protótipo de Mad Max partiu, correndo apressado rumo ao palco.
— Não liguem, o Vicenzo é assim mesmo e com certeza já deve ter bebido.
— De onde ele saiu? – Paolo questionou atônito.
— Apareceu em uma cesta na porta da minha casa. – Ela brincou espirituosa, nos guiando até uma mesa vazia. – Chegamos bem na hora.
A iluminação foi diminuída drasticamente. O palco tornou-se escuro, e um amontoado de pessoas juntou-se na dianteira deste como se aguardassem o show do ano.
A introdução no violão e a progressão de acordes deram um clima dramático aos primeiros segundos da canção, seguido do conhecido conjunto de notas que compunham a incomparável harmonia de The Unforgiven, do Metallica.
A atmosfera do espaço foi ocupada por um clima harmônico e singular. Todos que ali se encontravam demonstravam partilhar de um elo incompreensível a quem estava de fora, e de repente eu entendi o aglomerado de indivíduos agitados pela apresentação.
Os caras eram verdadeiramente bons.
Paolo parecia estar tão surpreso quanto eu, haja vista que não desviava os olhos do palco.
balançava o tronco de um lado para o outro, cantarolando a letra da música distraidamente. Aquela letra que em tanto apresentava pontos condizentes demais com relação a minha vida.

“O que eu senti
O que eu soube
Nunca refletiu no que eu demonstrei
Nunca ser
Nunca ver
Não posso ver o que poderia ter sido.”

O significado por trás daquele clássico era a representação de tudo o que eu passei. Era a representação da minha vida. Eu, que sempre vivi única e exclusivamente para atender os desejos de terceiros, moldado ao estilo dominador e elitista que poderia ter me transformado em um escravo do status quo, um fantoche que vale bilhões.

” Eles dedicam suas vidas
Para tirar tudo
Ele tenta agradar a todos
Nesse homem rancoroso ele se transformou.”


Fitei novamente.
Ela, que atualmente enfrentava cada batalha comigo. Que corajosamente entrou em meu mundo superficial e atribulado.
Sucumbir aos trejeitos e padrões do meio em que eu nasci configurava em perdê-la. Pro inferno tais paradigmas. Eu não desejava acabar como um velho descartado tal qual uma roupa furada e sem serventia alguma, preso a solidão que o dinheiro me submeteu.
O solo de guitarra me despertou do incômodo devaneio no qual eu havia me inserido.
Pisquei algumas vezes e voltei à terra, tornando apenas a apreciar a música e aproveitar minha noite.

**


Ela sabia o que estava fazendo.
Encostado no balcão do bar com uma long neck em mãos, eu admirava balançar os quadris no ritmo de um rock alternativo na companhia de uma garota de cabelos coloridos. A letra da canção era sugestiva, e a cada instante em que ela a sibilava olhando para mim, eu sentia que o meu termostato interno aumentava sua temperatura.
Após o show do peculiar amigo de , a garota resolveu que seria uma boa ideia me provocar a porra da noite toda, com direito a mãos sorrateiras sob a mesa e sorrisos insinuantes de cinco em cinco minutos, culminando naquela dança interessante e hipnotizante demais para que os meus olhos se desgrudassem dela.
Honrado em saber que aquela performance era dedicada para mim, permaneci escoltando seus movimentos lentos, quase felinos, deslocando meus olhos através de seu corpo à medida que a sua mão passeava por ele. A noite era inteiramente dela, e eu a assistiria brilhar.
Sorvi um gole da cerveja e a acompanhei caminhar em minha direção portando um casto sorriso no rosto corado.
— Acho que já podemos ir embora. Parece que o Vicenzo e o Paolo se deram bem, afinal de contas. – Analisou, apontando para a extremidade onde ambos conversavam dinamicamente. – A estudei durante alguns segundos, assentindo em seguida.
Nos despedimos dos dois com um aceno longínquo e seguimos para o estacionamento. Abri a porta do carro e entrou, não sem antes deixar a barra do vestido subir intencionalmente ao se ajeitar no banco do passageiro. Curvei uma sobrancelha e adentrei o outro lado do automóvel, estranhando o seu silêncio.
Algo na fisionomia dela remetia a desafio.

(Escute Fantasy do Black Black Atlass a partir daqui)

Meus instintos aguçados faziam o trabalho sujo de desviar minha atenção das ruas, direcionando-a à garota ao meu lado que em nada colaborava com tais pretensões. A lascívia pairava furtivamente no interior do veículo, encoberta pela impossibilidade de consumação de seus impulsos perante a atual circunstância, mas vívida o suficiente para me fazer respirar com dificuldade cada vez que encarava de soslaio, sendo ela a responsável por tirar completamente o meu foco da direção.
Uma das alças de seu vestido encontrava-se caída, facilitando a exposição dos seios que subiam e desciam em razão de sua respiração pesada. Eventualmente a garota atritava as próprias coxas, fazendo a curta barra da vestimenta erguer-se de maneira gradativa até parar em uma altura perigosa.
Eu poderia pensar em mil formas de me livrar daquele inconveniente pedaço de pano. Poderia pensar em inúmeras maneiras de levá-la a estremecer seu corpo em cima de mim, ali mesmo, apoiada sobre o volante, entregue aos mais sórdidos prazeres carnais que nos fosse viável concretizar.
O semáforo vermelho despontou mais à frente. Parei o carro diante do sinal de trânsito e arrastei o olhar para o banco do passageiro, encontrando o vestígio de um sorriso comedido moldeando os lábios rubros e convidativos de . Ela umedeceu a boca com uma calma que eu julguei proposital, induzindo-me a fantasiar aquela língua explorando um lugar bem específico e atualmente duro.
— Foco na estrada, . – A voz aveludada ressonou mansa. Franzi o cenho e reorientei minha visão ao farol, percebendo que ele agora encontrava-se verde. Exprimi um riso fraco e ergui uma sobrancelha em sua direção antes de tornar a acelerar o automóvel.
— Perdão. – Iniciei, colocando minha mão livre em sua coxa quente. – Devo ter me distraído. – Completei, deixando-a vagar sorrateiramente para a parte interna do local. Ouvi um suspiro sôfrego escapar da garota que afastou moderadamente suas pernas, dando livre acesso àquela área cálida e deliciosamente exposta.
— Não consigo imaginar o porquê. – Soprou despretensiosa. Curvei o canto dos lábios, captando exatamente o jogo de gato e rato que começara ali.
— Acredito que não. – Escorreguei meus dedos decididos até sua virilha, resvalando-os no montículo dilatado sob o tecido úmido da calcinha cuja dona contorceu-se no banco imediatamente. Eu estava submetido a um excitante teste de resistência, e embora a pressão no meu estômago estivesse despertando o desejo latente de parar aquela porra de carro e tomá-la para mim, controlei tais empolgações neurológicas e decidi prolongar meu divertimento.
— Sabia que ceder às distrações enquanto dirige é muito perigoso? – Eu não a olhava, contudo, não era necessário que o fizesse para saber que, naquele momento, exibia seu costumeiro sorriso travesso. Intencionei voltar a lhe tocar, entretanto, fui impedido pela palma de sua mão, a qual conteve o toque premeditado. – Coloque as duas mãos no volante. – O tom autoritário me despertou uma leve curiosidade. Decidi apenas obedecê-la, estimulado a ver até onde ela iria. Pela minha visão periférica pude enxergá-la brincar com a barra do vestido, subindo-a e resvalando-a entre a sua pele.
estava decidida a me testar.
Manobrar o veículo através das ruas nunca fora tão difícil, e a tarefa complicou-se ainda mais quando, de relance, a avistei deslizar a minúscula vestimenta pelas pernas que roçavam umas nas outras propositalmente. Merda. Segurei a direção com força, sentindo minha respiração falhar. Fiz uma curva aberta e freei o automóvel na primeira esquina deserta que surgiu no caminho, fazendo nossos corpos impulsionarem-se para frente em consequência da freada brusca. Encarei-a com os olhos semicerrados e fui admirado da mesma forma, contemplando seus lábios erguerem-se com mais intensidade conforme a peça terminava o seu trajeto, indo parar diretamente no chão.
— Que bom que você parou. – Iniciou serena, desafivelando o cinto em seguida. Limitei-me a ser um telespectador de seu show, acompanhando cada movimento à medida que era tomado pelo estupor do apetite lúbrico que avolumava minhas calças. – Seria impossível fazer o que eu quero com você dirigindo. – A garota avançou para o meu colo em um uma incitação tão clara e desavergonhada que me roubou o sentido, sentando-se sobre o ponto rígido de modo que eu pudesse sentir a prazerosa sensação de seu calor molhado em cima de mim, exatamente do jeito que eu ansiava desde o início.
— Você está tomando algumas decisões arriscadas, . – Apontei enrouquecido, vivenciando a impulsividade ocasionada pelo tesão imprudente como um adolescente no auge da puberdade.
— Quem nunca aprontou uma dessas que atire uma roda aro dezoito. – Gracejou esperta, envolvendo minha nuca com as mãos. Tudo nela parecia quente; Tudo em mim parecia implorar para que eu sucumbisse àquela aventura perigosamente excitante, onde o cenário inusitado, o risco e a perspectiva de utilizar posições arrojadas só aumentavam minha ereção incômoda, que também gritava para explorar por dentro.
Foda-se.
Sorri enviesado e espalmei minhas mãos no seu traseiro, apertando-lhe ambas as carnes apenas para friccionar nossas pelves. Ela não conteve um suspiro e eu aproveitei para aproximar o meu rosto de sua nuca, deixando meus lábios e barba roçarem levemente a lateral daquele pescoço tão delicado, que quase implorava por beijos quando estava assim, à mostra. Eu simplesmente adorava fazê-la se arrepiar.
— Se você soubesse como eu quero te foder bem aqui nesse carro... – Rosnei, subindo a boca até a sua orelha. Ela abaixou a cabeça num pedido implícito para que eu continuasse o que estava fazendo, ronronando fraco diante do leve rastro que a minha língua traçava na pele febril e macia.
— Me mostre como. – A súplica na frase saíra iminente. O órgão no meio das minhas pernas latejou no instante em que a figura sobre mim rebolou no local, sendo o suficiente para que eu perdesse o resto de controle que me restava. Um grunhido ruidoso saiu pela minha garganta e ecoou diretamente nos seus ouvidos.
— Com todo prazer. – Mordi o lóbulo daquela área sensível e, sem paciência nenhuma para enrolações, dei um último apertão em seu traseiro, seguido de um tapa forte e audível que a fez gemer e pousar a cabeça na curva do meu pescoço. Eu adorava aquele som. – Puta merda, eu nunca vou me cansar de ouvir você gemer. – Falei antes de subir minha palma rumo a sua nuca, enchendo-a com uma boa quantidade de seus cabelos. Fiz questão de puxá-los para então envolver em um beijo faminto e urgente, entregue a necessidade inadiável de possuí-la e tê-la toda para mim.
Suas mãos convictas realizaram um trajeto firme por debaixo da minha blusa, indecisas a respeito de qual tarefa desempenhar, mas obstinadas o suficiente para me levar a arfar contra os seus lábios no segundo em que ela fincou as unhas em meu peitoral, descendo-as vagarosamente pelo meu abdômen. Contraí a região de súbito, entrando em êxtase ao conjecturar o seu próximo passo, o qual foi revelado pelo modo provocativo com que brincava com o cós da minha calça enquanto nossas bocas e línguas se misturavam. Sons molhados encheram o interior do veículo que aparentava estar quente como o inferno, embora possuí-la – de todos os sentidos possíveis – fosse uma experiência quase divina. Farto daquela provocação atrevida, rompi o beijo repentinamente, sorrindo satisfeito ao me deparar com o semblante perdido da garota arfante. Corri minhas mãos pelas laterais do seu corpo com lentidão e as posicionei nas alças já caídas do curto vestido que, àquela altura, encontrava-se embolado e suspenso em sua cintura, deixando-a desprotegida e pronta para mim.
— Suponho que você precise de uma certa atenção aqui. – Puxei ambas as tiras para baixo, levando com elas a parte de cima da vestimenta sobre os seus mamilos duros, maravilhosamente rijos e convidativos. Minha boca salivou com o desejo palpável de sugá-los, e foi o que eu fiz. Cobri um seio com a boca e outro com a mão, sentindo aqueles deliciosos bicos endurecerem ao toque e as sucções intercaladas com lambidas, urrando entre o ato ao finalmente senti-la abrir o meu zíper, dando um pequeno alívio à minha ereção vigorosa e pulsante. Apertei o bico de seu mamilo entre os dedos, inebriado com os sons obscenos que escapavam de sua boca entreaberta.
— Céus, ... – Ela murmurou projetando os seios nus para frente com as costas arqueadas. Eu chupava as mamas que oferecia, louco de desejo e tesão. Tal sensação foi exacerbada ao perceber que ela se empenhava em se livrar das minhas roupas de baixo de uma só vez, tendo minha ajuda para efetivação do feito. Meu pau foi agraciado pela liberdade, sua cabeça cutucou-lhe a entrada ardente e úmida, dolorosamente perto do calor de seu sexo. Porra, iria me enlouquecer. Ofeguei com força contra os seus mamilos, totalmente insano à medida que a garota arrastava a ponta do meu membro endurecido através das dobras encharcadas entre as suas coxas.
Geralmente era eu quem ditava o ritmo do jogo, todavia, resolvi tirar proveito da situação e me deleitar diante daquela dança de prazer sutil apenas por mais alguns segundos antes de tomar as rédeas do cenário, segurando seu quadril num ímpeto firme a fim de descontinuar suas ações angustiantes. Ela me fitou vacilante. Eu sorri ardiloso.
— Você se divertiu me torturando, não se divertiu? Agora é a minha vez. – Reclinei o banco para trás, liberando espaço entre e o volante. – Vire-se de costas para mim. – Ordenei direto, vendo-a me encarar aturdida por poucos segundos até, enfim, assimilar o que lhe fora solicitado. A garota girou o tronco em um movimento rápido e habilidoso, apoiando-se no volante logo depois. Dei uma boa admirada em seu corpo empinado, desfrutando da voluptuosa imagem de suas nádegas arrebitadas como duas luas gêmeas, vislumbrando um brilho de umidade em seu broto que clamava para ser preenchido. Recurvei os lábios ante ao que via, inebriado por aquele corpo que era a chave para todo pecado perpassado em minha mente sórdida. Aquele corpo que eu já conhecia tão bem e que respondia perfeitamente aos meus comandos.
— O que você está esper... – Não permiti com que ela continuasse. Conduzi minha palma até uma das poupas esféricas, deferindo outro tapa audível naquela área rotunda cuja tonalidade tornou-se avermelhada após o ato. Um murmúrio sôfrego ressoou da boca de , que agitou os quadris em protesto.
— Antecipação é metade do prazer, babe. Diga-me o que você quer. – Utilizei da outra mão livre para enchê-la com os seus cabelos, enrolando-os em minha palma num enlaço firme.
— Eu... – Choquei a palma contra o seu traseiro novamente. O estalo fez a pele atingida estremecer, dando a região a mesma cor rubra que a outra extremidade recém impactada. Seu gemido era música para os meus ouvidos.
— Diga. – Inclinei-a sobre o volante, puxando o chumaço de cabelo com o intuito de levá-la a me olhar. Resvalei minha boca na sua orelha, mordendo-a sutilmente ao passo que escorregava meu dedo indicador no meio de suas pernas, circulando o pacote sensível de nervos com a mão revestida em sua excitação. Ela estava molhada para caralho, fato que gerou um furor no meu volume pungente.
O único som escutado fora o choramingo saído de sua garganta.
A garota virou o rosto lateralmente, observando-me num misto de malícia e clamor.
— Achei que os seus tapas fossem mais fortes do que isso. Está com dó de quem, ? Esse é o seu melhor? – Meu interior transformou-se em um vulcão em ebulição como uma besta cruel. Semicerrei os orbes e permiti com que minha boca pendesse para o lado, deliciosamente satisfeito em razão da carta branca para encher a mão num estralo mais pesado, deixando meus cinco dedos e minha palma desenhados naquela circunferência avermelhada.
— E você? Aguenta tudo isso? – Rugi em seu ouvido, acertando-lhe novamente. Sua boca era toda gemidos e lamúrias enquanto aquele corpo deslizava para frente e para trás, fazendo meu eixo de carne esfregar-se entre as bochechas de seu traseiro e de sua fenda encharcada.
Um, dois, três choques da minha mão foram de encontro aos seus contornos circulares.
— Não pare. – Ela implorou. – Eu quero você agora. Por favor. – Meu tesão encontrava-se nas alturas, imerso no êxtase de proporcionar prazer àquela garota que merecia sentir-se a mulher mais incrível do mundo, exatamente como ela era.
Agradeci às forças divinas assim que avistei minha carteira em fácil acesso, retirando de lá o preservativo para então revesti-lo com o meu órgão cobiçoso por .
— Você vai acabar comigo. – Rosnei, apertando-lhe as esferas abrasadas com força antes de empurrá-la para cima, mergulhando meu pau vibrante no seu íntimo pulsante, roubando-lhe a respiração ao me aprofundar dentro dela.
Maldição. Eu a venerava.
Tranquei minhas mãos ao redor dos seus quadris e assumi o controle. Investi com força, deslizando para dentro e para fora, manobrando-a naqueles movimentos intensos e libidinosos conforme nossos sons e corpos atrelavam-se em um só.
Inclinei a cabeça para o lado e fechei os olhos, mais entregue do que nunca.
Eu não queria mais nada.
Não via mais nada.
Perdi a noção do tempo, entrei em outra realidade, preso naquele estupor de tesão.
As marcas das palmas suadas estavam ornando por entre o vidro fumê embaçado.
Notei-a se contrair em mim, tremendo as pernas que vibravam como o seu centro ungido pelo líquido afrodisíaco que escorria quente. Quente como ela.
O gemido alto anunciou o seu ápice. Retirei minha ereção com calma para então penetrá-la mais uma vez, invadindo sua contração e ouvindo-a amaldiçoar aos céus, arqueando o dorso e se sentando de costas para mim. A garota me lançou um olhar devasso antes de iniciar uma série de reboladas no meu colo, movendo-se habilidosamente sobre o meu pau, seu corpo batendo contra o meu a ponto de me fazer perder a sanidade.
Trinquei os dentes e encostei a cabeça no banco, aproveitando da posição para estimular-lhe o clitóris inchado. Meu estômago apertou no momento em que senti a carga correr veloz para lhe encher, levando-me a xingar e amaldiçoar as contrações do meu corpo.
... – Ela chiou arrastado.
— Porra... – se pressionou contra mim, girando os quadris com a vulva pulsante. O oxigênio deixou os meus pulmões numa expiração longa a qual os fez queimar; meu auge esporrou abundante, libertando as sensações de letargia e profundo prazer.
Algo muito intenso havia acabado de acontecer entre nós. Estávamos extasiados, suados, ofegantes, absortos naquela experiência inapropriada, arriscada e, sobretudo, fascinante.
Arfante, a garota virou a face para me encarar. O suave sorriso moldado na expressão leve, satisfeita e corada, aqueceu o meu peito. Fitei-a do mesmo modo, acariciando-lhe os cabelos molhados ao passo que distribuía breves beijos em suas costas.
Nada fora dito.
A cumplicidade emanava tranquila pelo interior do automóvel caloroso.
Tudo aquilo resumia-se à entrega.
Minha e de .
Minha, por me permitir. Dela, por se deixar conduzir.
Uma força maior imperava ali e em meu interior. Eu realmente não me importava para onde eu iria quando morresse, pois já havia encontrado o paraíso.

(Música que a PP dançou: Criminal - Fiona Apple)





Capítulo 26

"Este navio colidiu. Nós queimamos o passado como cinzas de um fantasma a deriva." The Void - Andy Black .


’s POV.

Meu corpo completamente relaxado encontrava-se tomado por uma sensação de conforto indescritível, tão magnífica quanto o leve aroma de cafeína que adentrou as minhas narinas, conduzindo-me a despertar progressivamente. Me remexi entre os lençóis sedosos e tateei a cama, deparando-me somente com um o cão peludo e espaçoso ao meu lado. Ri baixinho e virei o tronco, notando que o cheiro de café tornara-se mais acentuado.
— Bom dia. — A voz grave e enrouquecida cortejou. Abri os olhos com dificuldade, tendo a melhor visão que uma reles mortal poderia apreciar.
descamisado, vestindo única e exclusivamente uma calça de moletom.
E com uma bandeja de café de manhã.
Ai, meu Deus.
Pisquei um tanto quanto zonza e me sentei na cama, experimentando os resquícios de sonolência entorpecerem os meus gestos vagarosos. Alternei o meu olhar entre a bandeja repleta de coisas das quais eu sequer sabia pronunciar os nomes, até , que me fitava com o habitual arquear de sobrancelhas debochado como se a minha confusão o divertisse.
— Bom... dia. – Respondi, absolutamente boba. — Que horas são?
— Dez para às quatro da tarde. — O homem sorriu enviesado e pousou o receptáculo aberto sobre o colchão. Arregalei os olhos, espantada. Céus, eu havia dormido demais. Só me dei conta de quão faminta estava quando avistei a imensidão de frutas coloridas e pães exibidos no tabuleiro bonito. — Imaginei que estivesse com fome, babe. Você gastou muita energia ontem. — Ele soltou mordaz. Gargalhei alto, percebendo o meu rosto esquentar de súbito enquanto sentia uma parte bem específica do meu corpo arder levemente assim que arrumei a minha postura.
— É, foi uma noite bem interessante. — Acrescentei, enfiando um morango todo na boca. — Vi que você gostou da banda do Vicenzo. – Mudei de tópico, vendo-o assentir.
— Eles são bons. O lugar também é agradável.
— Fico feliz por você ter gostado. — Confessei sincera, bebendo uma boa quantidade do líquido fumegante contido na xícara.
— Não há a possibilidade de eu não gostar de algo estando com você. — O advogado expôs tranquilamente. Eu, por outro lado, fiquei por um triz de engasgar com a bebida recentemente sorvida. Tentar refrear minhas feições de pateta já não era uma opção. Deixei a refeição de lado e me aninhei em seu peitoral, recebendo um beijo terno no topo da cabeça.
— Nós precisamos nos arrumar. O evento do Adrian já deve ter começado.
— Sim, precisamos. Estava somente aguardando você acordar.
— Leve-me até o chuveiro, caso contrário eu não sairei daqui. — Revelei, ajeitando-me em meio às cobertas quentinhas. Mal tive tempo de me acomodar. No segundo seguinte, fui surpreendida pela ausência de contato com a cama confortável. Meu corpo fora içado de imediato à medida que eu era carregada quarto afora tal qual um saco de farinha, fato que me levou a rir alto tanto pela situação, quanto por ver Bento nos seguir faceiro.
! Ficou maluco? — Bradei, explodindo de rir.
— Foi você quem pediu. — Ele respondeu, nos inserindo em um banheiro que eu até então não conhecia. Meus olhos brilharam diante da banheira espaçosa e estupidamente bela, revestida de mármore preto assim como todo o cômodo. — Só não garanto que será um banho rápido. — O advogado inteirou sagaz. Eu tremi em antecipação.
Aparentemente nós demoraríamos a sair daquele apartamento.

Aquela poderia ser facilmente a academia mais bonita que eu já havia visto na vida. O espaçoso ambiente repleto de atletas, fotógrafos e convidados possuía uma decoração digna de novela, onde até mesmo os equipamentos reluziam aos olhos de quem os contemplasse. Em uma das paredes jazia uma grande tela coberta por uma cortina preta, o que eu imaginei se tratar do célebre nome do patrocinador misterioso, o qual decerto ainda não tinha sido revelado. Olhei em volta, atenta à decoração esportiva do estabelecimento, direcionando minha atenção ao ringue no centro do amplo pátio, cujo tablado fincado ali parecia ter sido montado naquele momento, evidenciando o trabalho duro de Adrian que muito provavelmente encontrava-se explodindo de orgulho pela conquista. e eu atravessamos a extremidade do átrio à procura do namorado da minha amiga, encontrando-o junto de Paolo e em um canto mais afastado do furor.
— Ah, que bom que vocês chegaram! — Adrian emitiu, entusiasmado.
— Obrigado por nos convidar, cara. Felicidades nesta nova fase de seus negócios. — o felicitou, cumprimentando-o com um meio abraço.
— Está tudo lindo! – Falei, saudando os demais presentes ali, não sem antes abraçar .
— Que saudade, sweetie! — Ela me apertou entre os seus braços e eu devolvi na mesma proporção, só então me dando conta de como eu estava sentindo falta da minha melhor amiga. E de quantas coisas nós precisávamos tratar.
— Sim! Ando sentindo muito a sua falta, sabia? Nós temos que conversar. — Confessei sincera, assistindo-a dar um suspiro consternado.
— Perdão pela ausência, . Eu nem sei por onde começar.
— Não se aflija com esse assunto agora, tudo bem? Trataremos disso depois. — Expus, compreensiva. concordou, sorrindo em agradecimento.
— E então, como esse patrocínio aconteceu, Adrian? — Perguntei, interessada.
— Foi meio chocante, se vocês querem saber. O cara é CEO de uma empresa que em nada tem a ver com qualquer tipo de esporte, no entanto, ele é um fã fervoroso de boxe e artes marciais. Aparentemente a boa reputação dos lutadores da academia lhe chamou a atenção.
— Esse garotão está ficando famoso. – Paolo suspendeu seu drink em comemoração. Adrian sorriu sem graça e fez menção de responder, contudo, um dos inúmeros homens trajados de roupas sociais com pontos nos ouvidos o interrompeu, falando algo para que só ele escutasse.
— Pessoal, chegou a hora de apresentar o patrocinador. Desejem-me sorte. – Disse notavelmente nervoso.
— Já deu tudo certo, Adrian. Vá tranquilo. – aconselhou, sempre aprumado em sua pose sóbria.
— Caso você fique nervoso, basta imaginar todo mundo pelado. Sempre funciona. — Paolo orientou, piadista, fazendo-nos rir.
deu as mãos para o namorado e o acompanhou rumo ao palco, dando-lhe apoio conforme ambos cruzavam o extenso espaço até o local. Um microfone lhe fora dado por alguém da equipe no instante em que ele pisou os pés no palanque, varrendo os olhos deslumbrados por todos ali presentes.
O mais completo silêncio preencheu o ambiente, onde podia-se ouvir inclusive uma agulha caindo sobre o chão.
— Boa noite. Eu não poderia iniciar este discurso sem antes agradecer a cada um pela presença e por disporem de um tempo para prestigiar este dia extremamente importante não somente para mim, mas também para todos os membros deste grupo que eu considero a minha segunda família. Em nome de todos os atletas e funcionários da Vortex, quero deixar o meu mais sincero muito obrigado. — Uma salva de palmas ecoou potente perante o princípio de sua oratória. — Na época em que as atividades da academia foram iniciadas, eu jamais imaginei que o meu projeto chegaria tão longe. Com o intuito de dar suporte aos jovens e àqueles que sonham em se aperfeiçoar no esporte de combate, foi criado o Punho de Ferro, um empreendimento voltado a resgatar a cidadania de crianças, adolescentes e adultos, utilizando a luta como ferramenta preponderante para o desenvolvimento de valores morais e virtudes de um bom ser humano. Eu, como idealizador deste projeto, quero agora pedir uma salva de palmas para o mais novo membro da família Vortex, Georgie Benett, CEO da G&J Enterprise. — Os aplausos tornaram-se audíveis mais uma vez. Franzi o cenho, achando aquele nome bem familiar.
G & J Enterprise?
Eu conhecia essa empresa.
O homem juntou-se à Adrian, iniciando outra exposição oral acerca do patrocínio. À medida que ele discursava, eu cavava em minha esforçada memória a informação sobre a familiaridade de tal designação.
— (...) Nada disso seria possível sem o constante empenho dos meus sócios. — Mais palmas. O senhor de meia-idade apontou para um ponto ao lado do palco, e eu não quis acreditar no que os meus olhos viram.
.
A patrocinadora em questão era a nada mais, nada menos, do que a empresa onde trabalhava e era sócio.
Ele içou a taça de champagne. me fitou tão perdida quanto eu me encontrava. Ao meu lado, e Paolo aparentavam estar igualmente surpresos.
parecia uma praga. Uma criatura maligna onipresente que surgia nos momentos mais impróprios possíveis, apenas para me incomodar com sua presença não quista.
O restante do discurso fora indiferente para mim. Na verdade, eu mal prestei atenção, só voltando ao mundo real quando Adrian retornara acompanhado de Georgie e, lamentavelmente, de . Ele apresentou um a um, enfim chegando a mim.
— Georgie, essa é , namorada de . — Embora tal denominação não fosse de todo certa, eu gostei de como ela soou. Gostei, especialmente, porque o advogado não a contrapôs. Cumprimentei-o no automático, observando franzir o cenho.
— Não sabia que a G&J estava realizando atividades de cunho social. — comentou ao indivíduo indesejado após cumprimentá-lo.
— Grandes novidades, . Quis te contar, mas você anda bem ocupado. — Lançou-me um olhar sugestivo. Fechei a cara, rolando os olhos. O advogado o encarou sério.
— Espero que lhe edifique como pessoa. — Retrucou ácido com as mãos apoiadas em minha cintura. o fitou com uma pitada de cinismo correndo-lhe o semblante chistoso.
— Bem, e eu espero que todos aproveitem a festa. — Adrian quebrou o clima tenso. – Venham, gostaria de apresentá-los aos pugilistas campeões estaduais. — Ele interceptou, levando consigo Georgie e, finalmente, . Agradeci mentalmente por isso.
iniciou um assunto aleatório com Paolo. andou até mim, receosa.
— Eu não fazia ideia de que a empresa dele estava patrocinando a academia. — Sussurrou para que só eu a ouvisse.
— A lei de Murphy deve me amar muito. — reclamei, irritada. — Infelizes coincidências andam acontecendo com frequência na minha vida. Essa porcaria de empresa está envolvida em tudo!
— Ouvi Adrian comentando que eles procuram investir em diversos setores. Trata-se de uma das maiores companhias do país, afinal.
— Percebe-se. Parece que, de repente, só ela passou a existir neste lugar. — Ralhei ainda inconformada com o fato. Eu pouco sabia acerca do ofício de , uma vez de que nós raramente conversávamos sobre trabalho, e tal desinformação começava a gerar frutos nada satisfatórios diante das infelizes coincidências ocorridas até então. Minha amiga me ofereceu um olhar condescendente. Eu apanhei a primeira taça de bebida alcoólica que me foi servida.
Algo em meu estômago revirou-se, incomodado.
Concentrei-me em ignorar tal sensação, embora o insistente par de olhos não me deixasse em paz.
Algo não estava certo.

**


Aquilo parecia errado, e realmente era.
Ali, em meio aos meus amigos e o clima descontraído, jazia a culpa atormentadora que, como uma serpente traiçoeira, ondulava-se ao redor do meu corpo tenso utilizando o chacoalhar de seu guizo para me avisar que uma situação de perigo circundava o ambiente, tornando-o agoniante e intimidador.
Tal sensação era transmitida pela presença de , cujo olhar furtivo e consternado teimava em me perseguir durante toda a noite, atingindo em cheio a minha figura incomodada com seu modo crítico de avaliar a mim e , o qual se encontrava ao meu lado conversando com Paolo sem ao menos imaginar que era alvo de tal análise dotada de significados que somente eu compreendia.
Parado no lado oposto do cômodo com o milésimo copo de destilado na mão, agora fazia questão de não disfarçar que me encarava sem pudor algum, ignorando completamente o fato de uma pessoa aleatória estar falando com ele naquele instante.
O gole dado em sua bebida fora longo.
A serpente que outrora se enrolara em mim, agora rastejava em sua direção como se lhe pertencesse.
Algo em meu interior se revirou em alerta. Seu semblante sério carregava um pesar que, a meu ver, não parecia certo. Os olhos estreitaram-se, contudo, não se desprenderam de mim. Pisquei atônita e cortei aquela conexão visual desagradável, sentindo minha intuição enviar calafrios de apreensão para o meu âmago aflito.
— Está tudo bem? — A voz grave capaz de me acalmar em qualquer ocasião soou atenciosa, despertando-me da inércia inoportuna onde eu anteriormente permanecia. Concentrei-me nos traços bem proporcionados de e assenti, oferecendo-lhe um sorriso fraco. Conduzi minha mão até o seu rosto e transpassei a ponta dos dedos no local em um breve carinho suave, odiando cada vez mais as pequenas contrações musculares que decerto haviam captado, ainda que de forma imprecisa, alguma coisa errada pairando sobre a atmosfera aparentemente tranquila. O advogado me avaliou cuidadoso, acompanhando meus movimentos na sua face enquanto eu experienciava o atrito gostoso da sua barba em contato com a pele sensível da minha palma.
A impressão de estar sendo observada queimava a parte posterior do meu corpo.
inclinou-se e encostou os lábios quentes nos meus, fazendo-me suspirar com textura macia e confortante do breve toque em questão.
— Ah, que bonitinhos. O filho da puta do Eros realmente flechou o meu amigo! Estou emocionado e talvez um pouco enojado também. — Paolo satirizou, fazendo-nos rir diante da piadinha recém proferida.
— Isso porque você é tão afetuoso quanto um tijolo, querido. Deixe-os esbanjar meiguice em paz. — surgiu por entre o repartimento da área externa na companhia de Adrian, intervindo no assunto de imediato. Ri novamente e o advogado negou com a cabeça. Paolo, por sua vez, limitou-se a dar de ombros sem se importar em rebater a constatação da minha amiga.
— Se até o amoleceu, há chances para você também, Paolo. Confie no seu potencial. — Adrian caçoou, levando o alvo da brincadeira a erguer o cenho, apesar de um vestígio de divertimento perpassar por sua expressão superficialmente séria, o que nos fez rir mais uma vez. Aproveitei do momento leve e puxei uma boa quantidade de oxigênio para os meus pulmões, decidida a fazer dissipar todos os pensamentos angustiantes que pareciam flutuar sobre a mim.
Não obtive êxito, no entanto.
Toda calma que eu buscava alcançar foi para os ares no segundo em que avistei um quase cambaleante caminhar até nós portando um sorriso sórdido nos lábios curvados. A má intenção podia ser detectada nas íris refulgentes e, se antes a sensação de que algo ruim iria acontecer não passava de uma mera intuição aguçada, naquele minuto, ela havia se tornado uma certeza torturante.
sorveu o líquido alcoólico num só gole, finalizando-o com vigor.
O copo foi abandonado no caminho. As mãos vazias ocuparam-se em bater uma na outra, iniciando o acompanhamento rítmico das palmas melodiosas responsáveis por fazer todos ali descontinuarem a conversa, confusos com o sonoro aplauso.
De repente minhas mãos transformaram-se em gelo. O nó no meu estômago também fez-se presente, mais profundo do que nunca.
Aquilo parecia errado, e realmente era.
— O assunto me parece agradável, gostaria de rir também. — A frase de saíra arrastada e irônica. Ninguém ousou respondê-lo. Eu apenas me limitava a encará-lo com uma nítida expressão de desaprovação, não compreendendo – ou não querendo compreender –, sua intenção oculta por aquele show inconveniente. — Não desejei felicidades pelo namoro, que indelicadeza a minha! — Os olhos satíricos transcorreram de para mim, e presos aos meus se mantiveram.
— Acho que você excedeu o limite no consumo de álcool, . — O advogado mal-encarado criticou severo, avaliando o amigo de modo censurador. Este pareceu não se afetar diante do tom repreensivo dirigido a ele, visto que um riso enfadonho ecoou de seus lábios anteriormente ocupados por copos e garrafas de bebida.
— E eu acho que você está muito sério, irmão. Permita-me estimar as mais sinceras felicitações ao casal. — ensaiou uma reverência desajeitada, acabando por tropicar para o lado, desequilibrando-se no ato. Eu permanecia estática ao lado de , que observava a figura bêbada à nossa frente com feições duras. Feições essas as quais eu havia aprendido a ler.
Ele não estava nada feliz.
Quietos, os demais ali presentes acompanhavam a cena sem entender, exceto por , que aparentava estar tão apreensiva quanto eu ao me enviar um olhar receoso.
Notei as mãos firmes do homem ao meu lado contornarem a minha cintura com ímpeto, intencionando que saíssemos daquele local sem prolongar a atenção à dissimulação de .
— Oh, como assim?! Para onde vocês vão? , irmão, não saia antes de se inteirar das novidades! A certamente pode lhe explicar melhor. — Escarneceu, sarcástico. O alívio fora tão fugaz quanto o estouro de um projétil saindo do cano de um revólver.
O alvo da bala certamente era eu.
Virei o tronco e o encarei ultrajada. A serenidade que eu lutava para manter esvaiu-se com a ventania do cair da noite, dando espaço apenas para uma raiva incontrolável.
— Qual é o seu problema, ?! — Confrontei-o, evidenciando toda minha ira no questionamento ríspido. — Será que você não percebe que ninguém está interessado em ser sua plateia?! — O sorrisinho desdenhoso tomou forma, tão odiável quanto antes.
— Eu não teria tanta certeza, gracinha. — Cerrei os olhos frente a sua petulância ao se referir a mim daquela maneira. — Por que não perguntamos ao , uh?
— Aconselho você a tomar cuidado e parar por aqui, cara. — A entonação forte vibrou carregada e alarmante. A postura ofensiva do advogado transmitia um ar irritadiço, o qual era facilmente captado pelo vinco formado entre as suas sobrancelhas e a mandíbula rígida. emitiu outro riso bêbado e jocoso.
— Oh, acho que tem alguém meio mal humorado... — Caçoou debochado, sendo o suficiente para que semicerrasse os olhos faiscantes. Toquei-lhe o braço, levando-o a desviar sua atenção do amigo e direcioná-la até mim.
— Ele não vale a pena o estresse. — Afirmei moderadamente trêmula, vendo que Paolo decidira intervir enquanto procurava afastar dali. — É melhor irmos embora. — O homem me estudou, zeloso, dirigindo um rápido olhar mal encarado ao amigo antes de intencionar voltar a me guiar à saída.
— Vamos lá, bad boy. Não está curioso para saber o que ela tem a lhe dizer? — elevou a voz à medida que era reprimido por um Paolo impaciente, que agora possuía ajuda de e Adrian. Busquei puxar oxigênio para os meus pulmões, sentindo-o travar em meu peito apertado. – Prefere que eu conte? — Anunciou novamente.
Para o meu desespero, descontinuou os passos que havia iniciado.
Suas mãos firmes permaneciam nas minhas costas, as íris notoriamente confusas me estudaram um tanto quanto questionadoras. Àquela altura eu já me encontrava imersa em uma inércia angustiante, como se estivesse submetida à ação de forças as quais me obrigavam a entrar em estado de inatividade.
— Sobre o quê ele está falando, ? — O advogado interpelou utilizando-se de um tom remansado, no entanto, a dúvida e o desalinho eram perceptíveis em sua face absurdamente bonita, cuja incompreensão com relação ao momento revelava-se através da seriedade contida ali.
Engoli a seco, experimentando a sufocante enxurrada de acontecimentos dos quais eu tentei evitar me acertarem de uma só vez, e no pior cenário possível.
Fechar os olhos e pedir para acordar não adiantaria. Aquilo não se tratava de um sonho ruim, e sim das consequências das minhas próprias protelações em confessar a verdade, em adiar o inadiável.
O homem correu os olhos pelo meu rosto que decerto estava contorcido em angústia. O seu, por outro lado, emoldurava-se na mais pura desorientação.
— Nós podemos conversar em outro lug...
, irmão, sua namoradinha anda escondendo algumas coisas de você... — me interrompeu, desvencilhando-se de Paolo de maneira trôpega e relutante, tornando a cambalear em nossa direção.
— JÁ CHEGA! – Exclamei enraivecida e com a paciência esgotada.
— E deixar o meu melhor amigo sem saber que toda essa raiva é proporcional ao sentimento que você nutria por mim há pouco tempo? Hm... Acho que não.
Minha respiração falhou e acelerou, tudo ao mesmo tempo.
O aperto em meu peito se acentuou e o doloroso nó em minha garganta ganhou força.
O baque do acontecimento caíra diretamente sobre os meus ombros, dando a impressão de que ambos pesavam uma tonelada cada.
Eu não quis olhar para nenhuma das pessoas que ali se encontravam.
Eu não queria olhar para .
Ainda assim, o fiz.
Céus, eu gostaria de não tê-lo feito.
Ele me fitava firmemente. Seus orbes cravejados na minha figura paralisada pareciam enfatizar todos os questionamentos, dúvidas e, sobretudo, a confusão sentida a partir do relato feito de maneira tão súbita e inapropriada.
... — iniciou, aturdido. Pisquei algumas vezes, tão aturdida quanto ele. Abri a boca a fim de lhe responder, todavia, não encontrei as palavras corretas para tal. Fechei-a, abri de novo e repeti o ato, detestando-me por não ser capaz de formular ao menos uma frase. Eu podia conceber todos os pares de olhos nos observando, julgando, ansiosos e temerosos pela possível bomba que explodiria ali. — ...? — estimulou ao notar a minha dificuldade em proferir qualquer sentença que fosse. Vê-lo imerso naquele emaranhado de omissões, tão perdido e desconfiado, fez o nó em minha garganta aumentar. E doer. Puxei o ar e busquei oxigenar o meu cérebro enguiçado.
— Só me escute, por favor. — Pedi, enfim conseguindo me expressar ao mesmo tempo em que era meticulosamente avaliada pelas íris incisivas do homem a minha frente. — Eu vou esclarecer essa porcaria toda, mas nós temos que sair daqui. — Afirmei, transparecendo a minha urgência em sumir daquele ambiente o mais rápido possível. O advogado limitou-se a assentir vagarosamente, contudo, a nauseante voz que eu já não suportava mais escutar fez-se audível novamente antes mesmo de pensarmos em virar as costas.
— Enquanto vocês posam de casal perfeito, sua namorada finge que não passou dois anos da vida dela comigo, .
E, como eu pude prever desde o início da noite, a onda de verdades mascaradas por mentiras simplórias irrompeu o recinto com toda sua força tempestuosa.
Eu deveria gritar, deveria mandar para o inferno, deveria fazer qualquer coisa, no entanto, não fiz nada.
Parada e me sentindo completamente vulnerável, somente me preocupei em fitar , que, para o meu desespero, encontrava-se inexpressivo, perplexo.
O olhar vago e levemente semicerrado escorria através do meu num misto de descrença, surpresa e... Desapontamento. Ele parecia me questionar a respeito da veracidade do que ouvira, e eu lamentavelmente não tinha como negá-la.
Culpada.
Quando estamos debaixo d’água, sentimos os estímulos externos com menos clareza. Os sons ficam abafados, as vozes tornam-se pouco claras e nossos movimentos lentificam. A sensação que me acometia era bastante semelhante.
Todo cenário ao redor desapareceu.
Talvez e Adrian estivessem empenhados em dispersar a plateia curiosa que ali jazia.
Talvez Paolo estivesse tentando conter um persistente em arruinar ainda mais a noite.
Eu não saberia confirmar tais questões, pois a única pessoa com a qual eu me importava não fazia nada além de perscrutar minha alma por meio de seu olhar enigmático, frívolo e implacável. Segundos depois, os desviou de mim para então fixá-los no amigo, porém, agora de modo acusador, duro e severo.
— Não me olhe assim, cara. Quem cala consente, e a julgar pelo silêncio dela, imagino que você já tenha a resposta que deseja.
— E o que VOCÊ deseja, ? Por Deus, sua vida é tão vazia e despropositada que a única forma de encontrar satisfação é sendo desprezível? — Por fim tomei a frente da situação e me dirigi a ele, esgotada por presenciá-lo fazer o que bem entendia. — Se você vai dizer algo, então diga! Só não aja como um covarde que vive para jogar piadinhas ridículas, porque de ridícula basta cena que você criou! — Bradei com o dedo indicador em riste, vendo-o cerrar as pálpebras baixas em razão da bebida. — Não queira montar um circo às minhas custas, porque quem manda no picadeiro sou eu. — Assegurei para que apenas ele ouvisse.
— É mesmo? Então devo lhe avisar que a sua plateia não parece muito satisfeita, gracinha. — expôs, zombeteiro, desviando os orbes flamejantes de diversão para um ponto logo atrás do meu corpo levemente trêmulo.
Girei o tronco e deparei-me com intercalando sua atenção entre mim e o amigo.
A fisionomia vaga mantinha-se ali, mas o cenho franzido demonstrava que ele decerto buscava assimilar o que estava diante de seus olhos opacos.
Toda minha coragem vacilou ao reconhecer uma ponta de mágoa no seu modo de me contemplar.
— Suponho que vocês queiram me dizer algo. — Seu timbre rouco soou pesado. A frase também fora direcionada a , contudo, era em mim que o ininteligível advogado dedicava todo o seu foco, o qual se manifestava mediante a um rigoroso contato visual compartilhado entre nós dois. As palavras embaralharam-se na minha mente mais uma vez. — Isso tudo é verdade, ? — indagou e eu imediatamente notei que ele desejava ouvir a confirmação vinda da minha boca. Contraí meu rosto em puro pesar, demorando mais do que eu gostaria para respondê-lo. Sentia-me zonza, aflita, tudo ao meu redor aparentava estar em câmera lenta.
Não havia necessidade de prolongar tamanha agonia. A verdade estava ali, escancarada e envolta em sua aura reveladora.

Maneei a cabeça em afirmação, enviando-lhe um olhar derrotado e desconsolado num mudo pedido de desculpas através do ato.
O vinco entre suas sobrancelhas intensificou-se, deixando seu cenho ainda mais franzido.
Eu queria que ele esbravejasse, questionasse, expressasse qualquer coisa que não fosse me estudar de forma tão sentida.
— Eu posso explicar, tudo bem? — Falei. O clichê ridículo da frase só não fora mais aversivo do que a presença de , que fazia questão de piorar o que já estava ruim. Ele assistia a cena com divertimento, e eu instantaneamente desejei acabar com o sorrisinho enviesado pendido em seus lábios.
— Estou ansioso para ouvir, mas não aqui. Nós não precisamos de mais exposição. — A entonação seca do advogado soara cortante, bem como sua análise concentrada em meu rosto. Em todo caso, eu não poderia concordar mais. Só queria sair dali. Reparei que evitava a todo custo olhar para o amigo, e quando ele por fim o fez, compreendi o motivo. A julgar pela maneira como os dois se encaravam, era perceptível que o mínimo contato entre ambos poderia desencadear uma situação bem pior do que a atual. — Se eu fosse você, sumiria daqui agora. — voltou-se para e vociferou entredentes. Este, em contrapartida, o fitou com um ar sarcástico.
— Oh, não precisa ficar com ciúmes, . Não vê que você é o sensato cavalheiro de armadura dourada e eu sou o monstro injusto? — Alfinetou, irônico.
— Cale a porra da boca, . Vou pedir apenas uma vez. — Hostilidade. Postura cada vez mais ofensiva. Eu conhecia bem o suficiente para saber interpretar tais condutas, e elas significavam que o seu sangue-frio havia esquentado. Meu sinal de alerta praticamente gritou.
— Corta essa, . Eu estou fazendo o meu papel de amigo ao lhe contar que a sua garota já foi minha e é assim você me recompensa?
— EU MANDEI VOCÊ CALAR A PORRA DA BOCA! — O advogado bradou com os punhos cerrados, avançando em direção à figura embriagada num ímpeto raivoso.
— Já que estamos compartilhando segredinhos, se me permite dizer, o sexo com ela era ótimo. E para a sua informação, fui eu quem a levou para a cama pela primeira vez. Como se sente ao saber que eu fui o primeiro a fazê-la gozar?
Antes que eu pudesse me sentir mais enojada do que estava me sentindo, antes mesmo que eu pensasse em reagir frente a tamanho desrespeito, o borrão do vigoroso corpo de projetou-se para cima de num movimento ágil e concomitantemente violento, pressionando-o contra a parede mais próxima. Notava-se que respiração deste se tornara curta e ofegante.
Estávamos todos estupefatos, sem saber como proceder.
o bateu contra o elemento de alvenaria, fazendo-o ricochetear.
— Eu juro por Deus que vou quebrar a MERDA da sua cara se você se atrever a sequer tocar no nome dela novamente! — Ele esbravejou, segurando pela gola da camisa. Um riso frio e ácido lhe fora dado em resposta, como se houvesse graça em todo aquele cenário de nervos inflamados.
— Há um tempo não era somente no nome que eu tocava. — lançou-me uma piscadela petulante. Eu quis vomitar. Cerrei os olhos e, após isso, tudo o que pode ser ouvido foi o estalo do punho de acertando em cheio o rosto do homem, levando-o a vacilar cambaleante devido a força do ato. Considerando o som audível de osso fraturando, dava-se para arriscar que o nariz de havia quebrado.
Arfei, completamente pasma. Um burburinho igualmente perplexo ecoou pelo local.
— ESTOU FARTO DE PRESENCIAR VOCÊ SE COMPORTANDO COMO UM MALDITO FILHO DA PUTA! — Furioso, ele deferiu um novo soco na face já ferida do amigo, chocando o dorso de sua mão contra o lado direito da fisionomia tomada por sangue.
caiu no chão tal qual um boneco, mal sendo capaz de falar. Tão rápido quanto desmoronou, foi erguido novamente pelo advogado enraivecido. estava vermelho, as veias saltadas em seu pescoço, em seus braços e em sua testa davam indícios da ira que ele decerto sentia. O golpe seguinte teve o mesmo rumo que os anteriores, formando um grande estrago no rosto da figura pregada contra a parede. Um filete do líquido avermelhado escorria no canto direito de sua boca e os olhos arroxeados iniciavam inchaço, enquanto seu nariz jorrava o líquido espesso e escarlate que também descia por meio de um corte no supercílio, acumulando-se nas pálpebras dilatadas. Os hematomas em razão dos socos levados pareciam doloridos.
Procurando impedir que outro golpe fosse dado por , Adrian interveio, tentando contê-lo através de um empurrão que o levou a soltar , cujo corpo tombara mais uma vez de encontro a superfície de concreto. Naquele momento, era ele quem se encontrava atordoado e quase esvaecido.
Senti um afago atencioso em meus ombros e, só então percebi que situava-se ao meu lado. Olhei-a, perplexa, tomada pela apatia e perturbação acerca do que ocorria ali. De relance, identifiquei a dificuldade de Adrian em manter o impetuoso advogado a uma distância segura de , o qual, transtornado, alternava sua atenção entre o amigo e o fluido carmim que escorria no meio de sua palma firmada no centro do rosto.
— Acalme-se, ! — O namorado da minha amiga reclamou, impelindo-o para trás novamente. — Não vale a pena, cara.
— É, não vale. — Ainda portando o aspecto agressivo, deu uma última encarada em . Um laivo de ira atravessou os olhos sedentos do homem, que parecia não sentir muito pelo estado deplorável do amigo. Este, cuspiu uma grande quantidade de sangue, claramente não acreditando no que havia acontecido. — Seu lugar é exatamente esse. No chão. Sinta-se sortudo por eu não ter quebrado todos os ossos do seu corpo! — Ameaçou, intencionando a aproximar-se de mais uma vez. Acordei para a vida e fui até o advogado antes que ele matasse , espalmando minhas mãos em seu peitoral arfante conforme o impulsionava à saída da área externa.
— Já chega, tudo bem? — Arquejei sobressaltada, puxando o corpulento homem para qualquer lugar que não fosse o ambiente onde a confusão se instalara. se permitiu ser levado, não deixando de encarar o amigo até onde fosse possível fazê-lo. Adentramos o primeiro recinto vazio que surgiu, o qual identifiquei se tratar de um escritório no segundo em que fechei a porta atrás de mim.
Encostei-me ali, estonteada e com o coração na boca, somente dando-me conta do meu estado assim que fitei as minhas mãos trêmulas. Desviei o foco delas e passei a vislumbrar , imediatamente fixando os olhos nos nós de seus dedos.
Os resquícios do sangue de jaziam ali como um lembrete do que houvera.
O advogado seguiu a linha do meu olhar e pairou os seus sobre as manchas rubras e secas, porém, não se afetou pelo que viu.
Ao que tudo indicava ele estava mais interessado em me avaliar, e o leque de emoções as quais perpassaram por entre seu semblante sério despertaram algo que eu até então havia controlado com êxito: a vontade de chorar.
— A última coisa que eu queria era que você soubesse de tudo dessa forma. — Minha voz cortou o silêncio reflexivo.
— E quando exatamente você pretendia me contar, ? Você de fato pretendia me contar? — Sua indagação soara ofendida. As sobrancelhas unidas em insatisfação salientavam o desgosto dele diante às circunstâncias. Balancei a cabeça em desconsolo, totalmente nervosa.
— Mas é óbvio que sim! Céus, , eu tentei abordar o assunto inúmeras vezes, mas sempre acontecia alguma coisa para atrapalhar, nunca parecia o momento certo! Como você pensa que eu me sentia tendo que carregar isso comigo, sabendo que a pessoa que mais merecia saber da verdade já possuía problemas o suficiente?! — Soltei num só ímpeto. O advogado negou com a cabeça.
— E como você pensa que eu me senti ao assistir você e o discutindo uma relação que eu sequer sabia que um dia existiu?!
— Pode apostar que você provavelmente não está se sentindo pior do que eu, que passei dois anos da minha vida com alguém tão podre! Sabe quem era a pessoa que ligava para ele na época em que vocês estavam viajando? Era eu! Sabe a otária que ele enganava enquanto dormia com praticamente toda a população feminina da cidade? Era eu! Quando fazia pouco caso da boba com quem ele saía, era de mim que os seus amigos idiotas tiravam sarro. Eu passei dois anos achando que não era boa o suficiente, dois anos sendo ludibriada e escondida por pura futilidade, então me desculpe por temer que esse relacionamento horrível também estragasse o que nós temos. — Desabafei com a voz trepidante, notando uma lágrima se formar no cantinho do meu olho. Não me preocupei em impedir o seu caminho, experienciando a sensação molhada traçar um caminho lento pela minha bochecha.
Você não sabe quão difícil é falar sobre um determinado assunto até que chega o dia em que precisa fazê-lo. Tocar naquele em especial machucava. Machucava mais do que eu esperava, aliás. crispou minimamente a face aborrecida. A ruga no meio de sua testa ganhou vigor.
Ele não aparentava estar feliz com o que ouviu, e tal suposição confirmou-se pelo modo como emitiu um riso gélido à medida que negava veemente com a cabeça.
— Inacreditável... como eu nunca percebi que toda a implicância dele por você e toda a implicância entre vocês dois ia além de uma mera antipatia?! — O advogado falou mais para si mesmo do que para mim, compenetrado no próprio raciocínio. Compenetrado no ligar de pontos propiciado pelas informações recentemente confessadas. — O jeito como ele sempre te olhou... — A frase soou amarga, e o complemento de tal severidade expressou-se por meio do diminuto sorriso enviesado que despontou de seus lábios torcidos. — Absorver tudo isso é difícil demais.
— O que é difícil exatamente, ? A situação em si ou a ideia moralista de que estar com uma mulher que já se envolveu com o seu melhor amigo é inadequado? — Interroguei um tanto vacilante, avaliando-o ressentida.
E da mesma forma fui avaliada.
O homem diante de mim fincou os orbes nebulosos nos meus, cerrando-os de modo injuriado enquanto me examinava como se eu tivesse acabado de lhe dirigir a pior das ofensas.
, você acha que eu estou assim em função disso?! — Ele devolveu a pergunta com descrença, não se demorando a emitir outro riso seco e sem humor. — Para o inferno o , este não é o ponto! Sim, o fato de você ter preferido recorrer à omissão em lugar de se abrir comigo me magoou pra caralho, mas nada chega perto do ódio que eu sinto por MIM! Eu fui cego, ignorei todos os indícios de mau-caratismo do cara que durante anos eu chamei de melhor amigo para, no fim, comprovar o quão filho da puta ele é. O quão filho da puta ele foi com você! — me mantive em silêncio, ouvindo-o atenta e sem mover nem um único músculo. — Quantas merdas aconteceram diante dos meus olhos e pelas minhas costas até que tudo chegasse a esse ponto?! — A pergunta não possuía o objetivo de obter uma resposta, mas sim de estimular sua observação particular acerca do assunto.
— Várias. — murmurei sem rodeios. — Eu costumava me questionar sobre o que diabos levava alguém como você a ter amizade com alguém como , até notar que, no fim, estávamos na mesma. Eu também me esquivei da verdade e o acobertei em várias das condutas sem caráter dele.
— Ao que tudo indica nós temos dificuldade para enxergar o óbvio. – rebateu seco. Respirei fundo, esforçando-me a obter serenidade para projetar um discurso coerente em minha mente turbulenta.
— Eu gostaria que você compreendesse o meu lado, . Você está me ouvindo, mas não está me entendendo. — comuniquei, aborrecida, sentindo que a sobrecarga do momento poderia resultar em descontrole ao mínimo gesto equivocado. — Reconheço que errei em muitos aspectos e peço desculpas por isso, contudo, não vou me justificar incansavelmente pelo meu passado, porque ele já me machuca o suficiente.
— Você não vai e eu tampouco desejo que você o faça, . Não quero que você se justifique, eu quero que confie em mim da mesma maneira que eu confiei em você e me abri com relação ao inferno que a minha vida se encontra! Como você espera que eu te entenda, sendo que eu nem sei ao certo o que houve?! Aquele desgraçado fez mal a você e só Deus sabe como eu desejo acabar com a maldita raça dele em consequência disso, no entanto, há algo mais importante aqui. Este é o momento de você se livrar de uma parte do seu sofrimento compartilhando-o comigo. — Àquela altura as lágrimas previamente contidas já ensaiavam a liberdade almejada ao transbordarem dos meus olhos marejados. Apesar de cicatrizada, a ferida propiciada pelas traições, desconfianças e mentiras ainda exercia um papel prejudicial ao meu emocional calejado. Em todo caso, escondê-la já não era mais uma opção.
— Tudo bem, vamos lá. Eu começo dizendo que o seu amigo tinha vergonha de mim ou começo contando sobre a humilhação que era ter que aguentá-lo soltando piadinhas após o nosso término? Piadinhas essas que eram feitas na frente de todos, inclusive na frente dos acéfalos com os quais você anda e que sempre riram das porcarias cometidas por ele! — Introduzi o tema em questão praticamente cuspindo as palavras, afetada pelas lembranças dolorosas remetidas àquele tempo turbulento. Remetidas a um passado presente. carregava consigo um nítido ar pesaroso, porém nada disse. A julgar por sua fisionomia compenetrada, o atento advogado continuaria de tal forma: abstendo-se de interrupções e interessado apenas em me ouvir. — Eu era ingênua e me deixei levar pela lábia de uma pessoa egoísta cuja aproximação nos conduziu gradualmente a uma espécie de relacionamento unilateral, considerando que eu era a única comprometida da história. Ser iludida e induzida a sentir culpa em razão dos erros dele me causou marcas difíceis de esquecer, mas eu não permiti com que isso definisse quem eu sou, porque obviamente não define. Foram dois longos anos me perguntando por qual motivo eu não podia estar junto ao nas festas e reuniões realizadas na sua casa, testemunhando-o comparecer em todas elas sem me dirigir uma palavra, e tudo graças a quê? A vergonha. — Neste instante o cenho de se contorceu, salientando uma espécie de reprovação em vista às declarações proferidas por mim. A ruga formada entre as suas sobrancelhas em conjunto com o maxilar travado denotava uma indignação tangível, quase tão perceptível quanto o meu nervosismo ao confidenciar-lhe tais eventos tão penosos. Constatando que o compenetrado e reflexivo homem à minha frente não falaria nada, tomei fôlego e prossegui. — Ele nunca me assumiu por sentir vergonha de ser visto com a filha de alguém que trabalha para a sua família, você não tem noção do constrangimento que é ser vítima do desprezo de terceiros por não limpar suor com cédulas de dinheiro! Eu sempre tive orgulho de ser quem eu sou e a minha relação com o imbecil do quase destruiu isso, então sim, , eu preferi esconder essa parte da minha vida, pois a mínima menção a ela me transporta de volta à do passado, e eu não gosto de trazê-la à tona! — Finalizei com a voz embargada e entrecortada pelo choro contido.
O rosto de tornou-se desfocado em borrões turvos, bastando um piscar de olhos para que as grossas gotas d’água responsáveis por embaçar minha visão caíssem livremente num pranto silencioso, úmido de emoções há muito tempo guardadas que agora escorriam em forma de lágrimas desimpedidas.
Entre a ausência total de sons nada mais existia.
A falta de retorno advinda do outro indivíduo que ali se encontrava estava começando a me intrigar, contudo, não me foi dado tempo para um possível protesto acerca disso. Um toque cuidadoso em minha cintura impulsionou o meu corpo para frente, gesto realizado de modo tão zeloso e ponderado que, por um instante, senti-me feita de vidro. me puxou delicadamente para o seu corpo, encaixando-me dentro de um abraço confortável através da junção de nossos torsos.
Emiti um suspiro arrastado antes de amparar minha cabeça no seu peitoral, descansando-a sobre o coração do homem o qual contornou as minhas costas com seus braços vigorosos, delineando um trajeto suave rumo aos meus cabelos, onde pousou as mãos de maneira protetora antes de acariciar a região gentilmente. Se o intuito de tal atitude era me acalmar, havia dado certo.
Ele nada disse, no entanto, palavras não eram necessárias naquele momento. Aquela expressão física falava por si só.
O advogado sutilmente me pressionou contra o seu tronco, segurando-me forte o bastante para que eu concebesse todas as motivações por trás do ato.
Retribuí o feito na mesma proporção, agarrando-o pelo corpo quente com avidez.
Respirei fundo e expirei.
Aos poucos a minha adrenalina baixou, dando lugar à calma; Junto a ela veio o cessar do choro, o qual se converteu em uma ou outra gotícula obstinada em brotar no canto dos meus olhos.
— Sinto muito por você ter vivenciado tudo isso. Puta merda, eu sinto muito mesmo. — O timbre grave de enfim ecoou, exalando uma rouquidão sôfrega.
Neguei com a cabeça ainda com o rosto enterrado no seu tórax.
— Nunca foi a minha intenção esconder as coisas de você, acredite. — Separei-me ligeiramente dele com a finalidade de encará-lo. — Nós temos o nosso passado e não podemos apagá-lo, só que no meu caso, eu gostaria muito. Olha no que deu, sabe? Toda essa confusão podia ter sido evitada.
— Não se culpe e não jogue o peso dos comportamentos daquele cretino em cima de você, . Quem provocou isso foi ele. Conhecendo como eu conheço, sei que não tardaria para que algo semelhante ocorresse, ainda que em outras circunstâncias. Minha tolerância para as merdas dele se esgotou. — Um lampejo de ira cruzou as íris do advogado ao mencionar o amigo.
— Eu entendo que a situação é desagradável, pois há a questão da convivência, principalmente entre vocês. — Observei. riu seco e sem humor.
— Convivência após o que ele fez hoje? Após eu tomar conhecimento do que ele já fez com você? Nem fodendo. Há muita coisa se passando pela minha cabeça e eu certamente precisarei de um tempo para digerir tanta informação, entretanto, o real problema foi cogitar a possibilidade de você não se sentir confortável em conversar comigo. — Ora eu odiava, ora eu amava sua capacidade de penetrar a minha alma apenas com o olhar. Ser admirada através de tanta profundidade e dedicação deixava o meu interior remexido, tomado pela sensação gostosa e aterrorizante que era estar apaixonada.
Sobretudo, estar apaixonada por .
Ele podia carregar consigo um sobrenome de prestígio, o título de herdeiro, CEO, advogado renomado e seja lá o que fosse, eu não me importava. Para mim, ele era unicamente o homem incrível que se encontrava ali, bem na minha frente, esforçando-se por nós; Esforçando-se para transmitir a confiança que eu carecia no momento.
Despertei do meu transe momentâneo, focando no rosto atento e próximo ao meu.
— A questão é que eu não me estava preparada para introduzir o assunto. Se eu não me sentisse confortável com você, nós sequer estaríamos juntos, para começo de conversa. — Respondi, vendo-o assentir.
— Confie em mim, , porque eu acredito em você.
— Eu confio. — Garanti. escorreu os olhos ao longo de toda a minha face, demorando-se um pouco mais nos meus lábios antes de deslocar os próprios em direção à minha testa, depositando um beijo demorado no local enquanto afagava cada parte da minha nuca com a ponta dos dedos. Suspirei satisfeita tanto pela carícia, quanto por perceber que os pelos do seu braço se eriçavam somente por tocar em mim. — Será que você poderia me levar para casa? Esse lugar já deu o que tinha que dar. — Murmurei entorpecida e reprimi uma queixa descontente diante da falta do toque do homem no instante em que ele descontinuou o afago, acatando meu pedido em seguida.
— Concordo.
Eu não tinha noção de quanto tempo e eu havíamos ficado naquele cômodo, contudo, desejava que tivesse sido o suficiente para que não houvesse ninguém mais no salão, afinal, encarar olhares indiscretos ou dar explicações até mesmo para os meus amigos não estava na lista de “coisas das quais eu gostaria de fazer no momento.” Eu não queria falar sobre o acontecido, tampouco queria estender o tópico.
Só queria esperar a poeira baixar frente a todo escândalo sucedido.
Só queria me esquecer daquela noite.



Capítulo 27

“Não nos falamos desde que saímos, está tão ultrapassado. Está frio lá fora, mas entre nós está ainda pior. O mundo desacelera, mas meu coração bate depressa agora. Eu sei que essa é a parte onde o fim começa." I Hate This Part — The Pussycat Dolls.


.

O gosto amargo do whisky descendo pela minha garganta não se comparava à amargura que me corroía naquele momento. Em meio a um gole e outro eu tentava, com muito custo, assimilar a gama de sentimentos adversos frente ao lamentável evento de ontem.
O ódio por e seu comportamento abominável misturava-se com a desagradável sensação de traição que me rasgava o peito como uma lâmina incisiva, a qual extirpava, de dentro de mim, a mágoa com relação à todas as verdades escancaradas de maneira inconsequente pelo cara que eu costumava chamar de irmão. Verdades essas que permaneciam engasgadas, inconcebíveis em minha mente caótica, sobretudo por saber que omitira a situação até onde lhe foi possível, optando por escondê-la enquanto cobrava de mim um posicionamento que nem ela mesma possuía.

, irmão, sua namoradinha anda escondendo algumas coisas de você…”

(...)

Lampejos das cenas de horas atrás insistiam em me abater gradativamente, impondo-me em um incansável looping de ruminação perante a absolutamente todos os momentos em que e estiveram em contato, desde as estranhas interações as quais presenciei, até àquelas que ocasionalmente me fugiram a atenção.
"— JÁ CHEGA!
— E deixar o meu melhor amigo sem saber que toda essa raiva é proporcional ao sentimento que você nutria por mim a pouco tempo atrás?"

(...)

Porra, como pude ser tão cego?
Expeli um riso carregado de escárnio e sorvi o restante do líquido destilado em um golpe só, esfregando o rosto com as mesmas mãos que foram capazes de arrancar sangue daquele filho da puta asqueroso. Acendi o terceiro cigarro seguido e traguei o fumo como se, através de tal gesto, a sucessão de emoções perniciosas fossem igualmente sugadas junto às substâncias tão tóxicas quanto o emaranhado de mentiras no qual eu me encontrava durante esse tempo todo.
Uma onda de flashback’s concernentes a um dos vários episódios protagonizados pelos dois bombardearam o meu juízo alterado, explodindo a ira até então contida por mim.

“— O que você está fazendo aí, cara? — Perguntei, avistando parado na parte central da adega. Ele virou-se, revelando a figura de à sua frente. Arqueei o cenho em dúvida, conectando meus olhos aos da garota, que encontrava-se levemente ruborizada enquanto um vinco ocupava o meio de suas sobrancelhas. — Algo errado por aqui? — Questionei, desconfiado, cravando minha feição em , que imediatamente se retirou do depósito de bebidas.
Eu o conhecia, deste modo, presumir que fora ele o motivador da tensão pairada no ar não seria equívoco algum.
— Não, não, . Só estava cumprimentando a .
Prendi minha atenção nela, analisando-a minuciosamente a fim de comprovar a afirmação do meu amigo. nada disse. Apenas iniciou sua caminhada rumo à saída do cômodo, não sem antes ser interrompida por mim, que a tocou suavemente no braço com o intuito de fazê-la parar no meio do caminho.
— Tudo bem?
— Sim... — Sua voz branda soara trêmula. Cerrei as írises, intensificando minha análise em seu semblante delicado. — Só vim pegar essa garrafa para a Judith. — Respondeu, levantando o vinho em suas mãos.
Assenti vagarosamente, perdurando o contato dos meus olhos nos seus por mais alguns segundos. Recebi um sorriso fraco da garota, acompanhando-a marchar porta afora sem olhar para trás.”

(...)

O que diabos tinha acontecido ali?
O que aquele cretino havia falado para ela?
Ejetei a fumaça do tabaco com força, apagando a bituca recém acendida num movimento rápido antes de me levantar do sofá, erguendo-me em um ímpeto fervoroso o qual levou o Pastor Alemão ao meu lado a içar a cabeça, assustado.
— Perdão, carinha. Já volto. — Acariciei suas orelhas e apanhei as chaves do carro, retirando o casaco do suporte sem ao menos me importar por estar agindo sem pensar.

“— O quê? Vai brigar comigo por estar perto da sua protegida?
— Depende. Você fez algo para que eu tome tal atitude? — Retruquei com um tom de voz cortante e ele franziu o cenho.
— Cuidado, . Com essa reação, pode parecer que você está a fim dela. — advertiu zombeteiro e eu cerrei os olhos.

— Qual é a sua, cara? — Indaguei cético, sem entender a sua atitude implicante sempre que o assunto era .

Ele balançou a cabeça com um sorriso de lado e tomou um gole da bebida em suas mãos.”

(...)

Foda-se. Eu não conseguiria passar outra noite com tantas questões entaladas, enroscadas em meu âmago desordenado.
Adentrei o elevador e encostei-me à parede espelhada, fitando o teto conforme a cabine descia rumo à garagem.

“Enquanto vocês posam de casal perfeito, sua namorada finge que não passou dois anos da vida dela comigo.”

(...)

“Eu estou fazendo o meu papel de amigo ao lhe contar que a sua garota já foi minha e é assim você me recompensa?”

(...)

Apertei os punhos, enfurecido.
As coisas não terminariam dessa maneira. Eu tinha muito a dizer, e teria que escutar.
Saí do elevador às cegas, marchando em direção ao meu automóvel sem me importar com porra nenhuma a não ser descarregar a raiva responsável por tensionar os meus músculos e trincar o meu maxilar.
Adentrei a Maserati e dei partida apressadamente, ouvindo o atrito do pneu em contato com o chão produzir um som agudo devido a aceleração do carro.
Era perturbadoramente incrível como o perfume de emanava sutilmente por entre o interior do veículo, impregnado em cada centímetro do local que fora palco para o nosso imprudente e libidinoso espetáculo, cuja magnificência resplandecida por ela só não fora maior do que o meu êxtase em tomar aquele corpo sempre que mergulhávamos em nossa bolha, em nosso mundo compartilhado do qual cumpria com louvor o papel de me imergir em uma paz celestial.

“A última coisa que eu queria era que você soubesse de tudo dessa forma.”

(...)

Como e quando desejava me contar, no entanto, eu não sabia.
A ideia de permanecer às escuras quanto ao antigo relacionamento dos dois me deixava absurdamente desconfortável, sobretudo por possuir conhecimento do sofrimento vivenciado por ela durante todo esse tempo.
Uma batalha interna seguia custosa dentro de mim, na qual razão e mágoa travavam um embate conflituoso, onde sucumbir à decepção direcionada à e vivenciar a lástima ocasionada pela quebra de confiança soava mais palpável do que lutar arduamente contra minha sensatez, a qual me dizia para simplesmente dar ouvidos à razão e aguardar até que tais sentimentos aversivos se dissipassem naturalmente.

“— Uau, por essa eu não esperava! — exclamou chocado após irromper meu apartamento de súbito, sem meu convite para fazê-lo.
Fechei os olhos e toquei as têmporas, desejando socá-lo em razão da indiscrição inconveniente. Meu corpo ainda experimentava as sensações efervescentes incitadas por , conduzindo-me a um algor de sentimentos inclassificáveis.
— Sempre inovando, ein, ?
— Não comece, . — Repreendi, ríspido.
— Seria uma falta de educação imperdoável da minha parte não cumprimentá-la.
— Não se incomode em falar comigo, eu posso viver sem isso. — rebateu, ácida. Cruzei os braços e intercalei minha atenção através dos dois, fitando meu amigo de maneira crítica.
— Eu realmente atrapalhei algo? Sinto muito, amigo. — Ergui uma sobrancelha e firmei minha feição severa nele, detestando, mais do que nunca, entrever a sátira exposta em seu rosto.”

(...)

Permitir com que a poeira baixasse não apagaria as merdas realizadas por .
Não apagaria as inúmeras vezes em que ele e farpearam e entraram em um conflito motivado pela porra do antigo envolvimento entre eles, não apagaria o filho da puta que foi, não apagaria os confrontos furtivos acobertados pela hostilidade exalada no ar sempre que ambos habitavam o mesmo espaço, acima de tudo, não apagaria a dissimulação interpretada para esconder o que estava nítido, e só eu não notei.

“— Valeu, cara. Agora irei me retirar para não atrapalhar ainda mais. — Avisou, debochado, no instante em que retornei do quarto e lhe entreguei o bridge. — Tchau, . Pense bem no que eu lhe disse. — Aconselhou irônico.
Franzi o cenho sem entender, movendo os olhos de para , que acenou, zombeteiro, deslocando-se do meu apartamento logo em seguida. Fechei a porta e, confuso, observei a garota ruborizada utilizando de uma atenção desmedida para com ela.
— “Pense bem no que eu lhe disse?” — Reproduzi a frase, intrigado. maneou a cabeça em negação e distendeu um sorriso frouxo nos lábios.
— Bobagem, como sempre. Nada que valha à pena ser comentado.”

(...)

“Nada que valha à pena ser comentado”.
Ri sem humor e balancei a cabeça, pressionando o volante com força o suficiente para branquejar os nós dos meus dedos.
Manobrei o veículo no bairro residencial e segui o trajeto rumo ao condomínio onde habitava, sentindo minha boca amargar. Não por efeito da bebida recém ingerida. Identifiquei-me na portaria e estacionei o carro na vaga para visitantes, percorrendo o caminho até os elevadores.

“— Não é por nada não, , mas isso aqui não combina muito com você. — Debochou, satírico, girando a touca nos dedos. Maneei a cabeça em negação e sorri enviesado, tornando a me entreter com a long neck e o programa televisivo que certamente era mais interessante do que as piadas do meu amigo. – E aí, , não vai compartilhar as novidades? Quem é a Cinderela que deixou isso para trás? — Insistiu, sarcástico.

Tornei a observá-lo e ergui uma sobrancelha devido à sua intromissão, porém, não me importei o bastante para censurá-lo, afinal de contas, não tinha nada a esconder.
— A touca pertence à . Ela a esqueceu aqui. — Revelei, despreocupado. parou de rodear a peça e sustentou a expressão satírica em seu rosto, gesto que não me agradou nem um pouco.
? Qual ? — A pergunta era retórica e eu sabia, levando em conta que só conhecíamos uma pessoa com esse nome. Seu questionamento transbordava ironia, servindo somente para me irritar.
— A única que nós conhecemos e a qual você muito bem quem é. — Ralhei, ríspido e meu amigo gargalhou brevemente. Permaneci o observando com seriedade, não compartilhando de seu senso de humor ridículo.
— Entendi... — Descontinuou seu riso teatral e assentiu vagarosamente à medida que olhava o pertence mais uma vez, colocando-o em um canto do sofá em seguida. — Achei que você não iria em frente com ela, . — Proferiu, enfim deixando o sarcasmo de lado e utilizando de seu tom de voz normal.
— Achou errado. — Cortei qualquer oportunidade de argumentação, respondendo-o do modo mais seco possível. — E cara, na boa. Eu vou pedir pela última vez, com o resquício de paciência que me resta: Se você não quiser ter problemas comigo, não a desdenhe, tampouco utilize desse cinismo sem noção ao tocar nesse assunto. Pode ter certeza de que você não vai querer me ver puto, então espero que tenhamos um acordo. — Findei claro e objetivo, demonstrando que eu não estava de brincadeira.
O semblante de encontrava-se tão sério quanto o meu. Sua sobrancelha arqueou-se e ele afirmou com a cabeça mais uma vez, bebendo o restante de sua cerveja num gole só.
— Vocês estão juntos mesmo? — Indagou, agora redirecionando sua atenção para o início do jogo. Eu não sabia o que lhe responder, haja vista que e eu não havíamos chegado a um consenso sobre o que, de fato, seríamos.
— Não exatamente. — Falei e meu amigo murmurou um “hm”, não estendendo o assunto.”

(...)

Apesar do choque perante todas as informações as quais pipocavam meu pensamento enfastiado, no fundo, eu não me sentia de todo surpreso. Após parar para explorar os pormenores da situação, saber que tomara atitudes deploráveis e fora um filho da puta em nada me admirava. O comportamento duvidoso do meu amigo sempre colocou seu caráter à prova, e só eu não me dei conta.
No fundo, eu era mais culpado do que qualquer um, afinal, o pior cego é aquele que não quer ver, e foram incontáveis as vezes em que tive a oportunidade de sanar minhas dúvidas a respeito da aversão entre e , entretanto, não o fiz.
Encarei a numeração marcada na porta do apartamento e apertei a campainha, escondendo as mãos nos bolsos da calça. Não precisei aguardar demais. Segundos depois, a imagem sarcástica de revelou-se como um atenuante à raiva que me consumia. Fui observado de modo cínico pela figura de braços cruzados e sorriso hostil, podendo ter uma boa visão dos ferimentos ocasionados por mim.
— Olha só… Veio pedir desculpas?
— Não, vim tirar algumas coisas a limpo. — Afirmei, incisivo, explorando com minúcia os hematomas que eu havia deixado em seu rosto.
Seu supercílio ainda encontrava-se inchado, exibindo ali uma proeminência avermelhada que expelia uma pequena fração de sangue fresco. Manchas arroxeadas espalhavam-se através da extensão do semblante duro, o qual eu não sentia muito por ter lesionado.
exalou um riso anasalado, reforçando a sátira explícita no ato.
— Tirar algumas coisas a limpo? Quer que eu o convide para entrar e lhe sirva um chazinho enquanto você fala sobre assuntos dos quais não me importo? — Rebateu, zombeteiro.
Cerrei os olhos e me mantive inerte, fitando-o sério.
— A menos que você deseje resolver nossas pendências aqui fora, sugiro que me deixe entrar. — Afirmei. sustentou o meu olhar me dando espaço para adentrar o flat.
— Não temos nada para resolver, . Achei que tivesse sido claro. Seu problema não é mais comigo, minha parte como amigo está feita. Lhe contei tudo, não contei?
Fixei meus olhos nele e emiti um riso amargo, não acreditando no que havia acabado de ouvir.
— Você não pode estar falando sério. — Neguei com a cabeça, transpassando as mãos por entre os meus cabelos a fim de descontar a incredulidade em algum lugar que não fosse a cara do homem à minha frente. — Porra, não é possível que alguém seja tão cretino!
— Se você se deu o trabalho de vir até aqui para me xingar, pode dar meia volta e sumir. Nunca tive paciência para os seus sermões, e não vai ser agora que começarei a ter, cara.
— Sermão?! Eu devia terminar de quebrar a sua maldita cara, ! O que você fez ontem foi imperdoável, quer mesmo que eu acredite que você iniciou aquela exposição de merda para fazer o papel de bom amigo? Sobretudo após as ofensas proferidas não só a mim, como também a ?! Pro inferno as suas boas intenções, como você pôde desrespeitar uma pessoa com a qual se envolveu por tanto tempo? Como você pôde desrespeitar a nossa amizade?! Caralho! — Despejei, descrente, sentindo meu corpo tensionar e a minha cabeça pulsar.
— Corte esse papo de herói da justiça e dos bons costumes, . Eu nunca lhe devi explicações sobre as mulheres com as quais me envolvi e deixei de me envolver, com não seria diferente. O que você gostaria que eu fizesse? Marcasse uma noite do pijama para lhe contar que estava dormindo com a filha da sua empregada? — Questionou, provocador.

“— , qual é a porra do seu problema com a ? — Indaguei entredentes. Ele estendeu as mãos, eximindo-se da culpa.
— Problema algum, apenas estou chateado por você me esconder uma coisa tão surpreendente como essa. Você tem a mulher que quiser, vai mesmo perder tempo com uma ninguém?”

(...)

Vinquei as sobrancelhas e marchei até ele, agarrando o colarinho de sua blusa num ímpeto repleto de ódio.
— Meça suas palavras, caso contrário, não terei pena de lhe proporcionar outro olho roxo. — Ameacei, colérico, recebendo uma risada escarnecedora em resposta. Firmei meu aperto no tecido amarfanhado, colidindo as costas de contra a parede.
— Você não tem o direito de me cobrar porra nenhuma, . Meu relacionamento com não era da sua conta, você nunca prestou atenção nela e agora quer bancar o namoradinho protetor? Me poupe. Eu estive ao lado dela enquanto você sequer a notava, e quer saber de uma coisa? Aguentei dois anos testemunhando-a encantada por você, que desfilava para todos os lados acompanhado de Cassie, posando de casal perfeito. Engula sua prepotência, o que nós vivemos não lhe diz respeito.
fez menção de se soltar de meu confronte, contudo, o impedi. Mantive-o imobilizado, alimentando nosso contato visual carregado de uma energia agressiva.

“— Eu vou deixar uma coisa bem clara... Não é porque somos amigos, que você pode falar e fazer o que quiser, ouviu? Controle o seu temperamento e não ouse desprezá-la. — Adverti, ouvindo-o assoviar, surpreso.

— Se eu fosse você, não colocaria a mão fogo…”

(...)

— Agora diz. Se antes eu não tinha nada a ver com a merda que você fez, agora eu tenho. Seu ego fragilizado causou sofrimento a ela, . Suas infantilidades ultrapassaram todos os limites e eu honestamente já as tolerei demais. Você é um covarde que descontou sua frustração na pessoa errada.
— Eu não descontei nada em ninguém. O mundo não gira ao seu redor, . Sinto lhe decepcionar com essa novidade. — Curvei os lábios em menosprezo, maneando a cabeça em negação.
— Isso não é sobre mim, cara. É sobre . Se você nutrisse um pingo de ombridade em meio a esse caráter podre, se resolveria comigo, ao invés de simplesmente direcionar a ela o seu desapontamento perante suas expectativas fracassadas.
— Caráter podre porque eu ousei lhe dizer algumas verdades? Você sempre se achou o soberano detentor da razão, mas nunca parou para raciocinar a respeito das próprias condutas. Não fode! — ralhou, impulsionando o meu tronco com força para longe dele. Meu sangue fervilhou em minhas veias.
— Quem você pensa que é para me cobrar autocrítica?! Pare de se portar feito um moleque e comece a agir como um homem, porra! Eu devia ter arrebentado a sua cara há tempos, você não respeitou a nossa amizade, não respeitou
— Então arrebente, ! Está esperando o quê? Acha que me bater vai apagar as vezes em que sua protegida gemeu na minha cama? — Ele interrompeu exibindo um sorriso vil.
Meu corpo foi tomado por uma adrenalina que o agitou severamente. Parti para cima de e o empurrei com violência, colidindo minhas mãos contra o seu dorso num acesso de ódio o qual o levou a cambalear.
— É inacreditável que eu tenha crescido com um verme feito você! Eu costumava te chamar de IRMÃO, caralho! — Vociferei, enfurecido, notando minha respiração se acelerar e os meus músculos se enrijecerem dolorosamente.
— E EU TAMBÉM, INFERNO! Isso antes de você se tornar esse PRETENSIOSO DE MERDA! — me empurrou de volta, elevando meus nervos à flor da pele.

“— Sobre o que está falando, especificamente?

— Como você disse... Não é da minha conta. Estou apenas te dando um toque, é o meu papel de amigo. — Deu de ombros, desinteressado, contudo, eu prossegui querendo compreender.
, por que você muda completamente quando o assunto é a ? Cara, de verdade, que implicância é essa? — Perguntei e o notei rir, cínico.”
(...)

A ira exalava das partes mais obscuras do meu íntimo, fazendo minhas mãos tremularem. Tomei impulso e fui de encontro a ele, cego de ódio. Peguei-o pelo pescoço e o choquei contra a parede novamente, prensando-o ali sem dar-lhe a chance de se mover.

“— Fala sério, . Você acha que eu vou me preocupar com o que aquela garota faz? Leve-a para o seu apartamento e fodam à vontade.”

(...)

— Esse pretensioso de merda tem tudo o que você quer. Sou bem sucedido, rodeado por pessoas que se importam comigo e estou com a mulher incrível que você, como o filho da puta burro que é, perdeu. Faça o escândalo que bem entender, cara. No fim, você está sozinho. Sua personalidade desprezível vai levá-lo ao fundo do poço e te largar lá, sem ninguém. — Frisei entredentes, deferindo, com a mão livre, três breves tapas na bochecha de , depositando neles um pouco mais de potência do que o necessário.
Soltei seu pescoço e dei-lhe às costas, farto de me desgastar com um ser tão indigno.
Meus passos foram descontinuados por uma pressão no braço, a qual me impeliu a virar instintivamente para trás antes de sentir um golpe no rosto, cujo imprevisto do choque me fez vacilar até o chão.
— Vá se foder, .
Logo um rastro quente escorreu pelas laterais da minha boca. O gosto metálico do sangue despertou os meus instintos bestiais, acarretando no crescente frenesi raivoso incumbido de me erguer velozmente na direção de .
Projetei o corpo para frente e cerrei os punhos, acertando-lhe em cheio o olho até então livre dos hematomas arroxeados.
— Eu tentei ao máximo evitar que chegássemos, mais uma vez, às vias de fato, contudo, gente como você só aprende assim! — Bradei, exasperado, sentindo meus lábios latejarem.
tropeçou, levando as mãos no local recém acertado. Recuperou o aprumo para então arrojar-se e partir para cima de mim, não se dando por satisfeito ante a protuberância provocada pelo intenso baque do meu punho na região avermelhada.
— Dessa vez eu não vou ficar apenas olhando, ! Vá para o inferno com as suas lições de moral! — Impedi com que o meu corpo atingisse o piso novamente ao assisti-lo levantar o braço rumo a localidade da qual ele alvejara, arremessando-o sobre o carpete por meio de outro empurrão impetuoso.
Eu estava fora do meu estado normal.
Tudo o que me vinha à mente eram as sucessões de cenas nas quais despejara seus comentários vis com relação a , e tais lembranças embaralhavam-se com a incredulidade perante seu papel de otário, tanto para com ela, quanto no que tange a nossa amizade. Ajoelhei-me sobre ele e colidi as juntas dos dedos na sua face ferida, fazendo uma série de estalos ecoarem pela sala.
— Basta de show, ! Você tem muito a evoluir como ser humano, mas não serei eu a acompanhá-lo nessa jornada. Chega!
Meu supercílio fora abatido por uma punhalada repentina.
O ardor propagou-se por ali instantaneamente.
Devolvi o golpe uma, duas, três vezes.
Sua cabeça virava da esquerda para a direita a cada soco deferido, expelindo a linfa rubra por todo seu semblante danificado.
Refreei o fluxo de acertos e encarei minhas mãos sujas, sendo invadido pelo meu bom senso anteriormente perdido ao fitar os respingos punícios grudados em minha pele.
manteve-se estirado no chão enquanto tossia incessantemente, cuspindo abundantes gotas do sangue que eu havia tirado dele.
Ergui-me e, com a respiração acelerada, lancei um último olhar fulminante à figura deformada a qual esforçava-se para se sentar.
— Pode ter certeza de que isso doeu mais em mim, cara.
— Você sempre quer sair por cima, não quer, ? Sempre almeja ser o ganhador de tudo! — Ele rebateu, cerrando as pálpebras completamente inchadas. Uma grande quantidade do líquido carmim jorrou espesso através de sua fisionomia lesionada.
— Não se trata de ganhar ou perder, não estamos em um jogo. Essa é a vida real e você definitivamente não sabe lidar com ela. — Pontuei, limpando o canto da boca, manchando meus dedos com o fluido denso. — Não vou mais perder tempo com isso. Eu poderia lhe desejar boa sorte, mas ao contrário de você, não sou hipócrita. No momento, não consigo lhe aspirar absolutamente nada de bom.
— Pois eu lhe desejo muito boa sorte, irmão. Você vai precisar, afinal, há muito o que ser compreendido e, se eu bem te conheço, por trás dessa postura confiante há uma vulnerabilidade catastrófica facilmente acionada a mínima incapacidade de entender ou dominar uma situação. — avaliou mordaz, pronunciando as palavras com dificuldade.
O observei sem emoção, maneando a cabeça negativamente.
— Seus argumentos são pífios e dignos de pena, assim como você. — Aleguei, seco e girei o tronco, intencionando iniciar meus passos em direção à porta.
— Ah! Faça um favor para mim e entregue isto à . Diga a ela que eu me esqueci de devolver. — Franzi o cenho e tornei a encarar o homem sentado de forma desajeitada, assistindo-o esticar o corpo e pegar algo de dentro da gaveta pertencente a um armarinho posicionado no cômodo.
jogou o objeto na minha direção e eu o apanhei por reflexo, não sendo necessário analisá-lo em demasia para identificá-lo.
Ali, nas minhas mãos, jazia a chave da edícula onde e moravam.
Meu coração descompassou.
Minha cabeça deu um nó, afetando totalmente os meus sentidos já perturbados.
Levantei o olhar e deparei-me com a feição ensanguentada e zombeteira que me observava em expectativa, claramente esperando um episódio de descontrole.
Guardei o molho de chaves no bolso e sustentei a conexão visual, ignorando a quantidade de pensamentos desordenados que me acometiam.
— Deve ser frustrante ter que depender de outrem para tentar ser relevante, cara. Fez bem em entregar as chaves à pessoa certa, aliás. Seria uma pena para você incomodá-la novamente e ter o seu rosto de merda desfigurado por mim pela terceira vez. — Ultimei, vendo-o unir as sobrancelhas e endurecer a expressão com as mãos por cima do nariz fraturado.
Retomei minha caminhada rumo à saída sem dar-lhe chances de resposta, batendo a porta num rompante enérgico após deslocar-me por ela em passadas vigorosas com o raciocínio a mil por hora.
Introduzi-me no elevador e retirei o utensílio metálico do bolso, cravando minha atenção nele enquanto meu quebra-cabeça mental empenhava-se em juntar as peças desconexas dos acontecimentos.

“— (...) Entraremos em contato caso o seu objeto seja localizado. — Ela agradeceu e me olhou.
— Eu perdi as minhas chaves, antes que você pergunte. — Proferiu, tediosa. Coloquei as mãos nos bolsos da minha calça e cravejei a minha atenção em seu olhar baixo.”

(...)

A festa de aniversário do Adrian.
Mas que porra…?
De repente, todas as minhas convicções caíram por terra.
havia, de fato, perdido as chaves nesse dia, ou por algum motivo do qual eu não gostaria de me aprofundar, as possuíra esse tempo todo?
Quanto mais eu escavava o tópico em questão, mais eu me sentia preso no centro de um furacão tormentoso. Tantas pontas soltas estavam começando a me tirar do sério. Ajeitei-me no banco do carro e peguei meu celular, notando um solavanco de merda alastrar-se pelo meu peito ao constatar a ausência de contato por parte da garota.

Visto por último hoje às 16:55.


Expeli o ar de meus pulmões com força, jogando o aparelho de qualquer jeito no banco do passageiro.
Acendi um cigarro e dei partida celeramente, ansiando que a adrenalina da velocidade sobrepusesse a sensação catastrófica que me acometia de modo angustiante.

**


TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Processo: 0003665-52.2016.8.26.0361

Ação: Ação Penal

Julgamento: 22 de Dezembro

Ementa: DEMORA NÃO ATRIBUÍVEL À DEFESA — CONFIGURAÇÃO DO EXCESSO DE PRAZO — PARECER MINISTERIAL PELA CONCESSÃO DA ORDEM.

I- Verifica-se excesso prazal quando há delonga na instrução criminal, além do prazo permitido em lei para o seu término por culpa imputada aos órgãos judiciais ou acusatórios. O réu encontra-se preso em decorrência da decisão de prisão domiciliar, desde o dia 10 de Janeiro, por isto, uma vez que não pode ser atribuível à defesa a demora na conclusão da instrução probatória, não se justifica a manutenção da custódia cautelar do réu por mais de 200 (duzentos) dias.

II- O juiz é o destinatário da prova, devendo guardar adstrição ao seu livre convencimento, competindo-lhe determinar as provas úteis à instrução do feito, até mesmo de ofício, afastando as diligências que entender inúteis ou meramente protelatórias sem que, com isso, incorra em cerceamento de defesa.

III- Ordem concedida.

“Ordem concedida.”
Ler a sentença pela milésima vez não atenuava o êxtase responsável por me agitar em exaltação frente a notícia.
Eu enfim havia conseguido conferir a Lee Feldmann o benefício de sair de casa durante o regime domiciliar, sendo-lhe autorizado saídas monitoradas durante dois dias da semana a fim de que ele exerça suas atividades profissionais.
A falta de fundamentação no que correspondia ao processo penal, em conjunto com a tese processual documentada por mim, outorgou ao meu cliente o direito de usufruir de tal modalidade de cumprimento de pena, ainda que com algumas ressalvas.
Esfreguei o rosto com as mãos e me permiti soltar o ar dos meus pulmões, expelindo, no ato, a sobrecarga de estresse atada ao caso e ao meu trabalho em si. Engoli um comprimido para enxaqueca e reclinei-me na cadeira, avistando meu pai colocar-se porta adentro ao mesmo tempo que ocupava-se com uma ligação telefônica.
Cruzei os braços e o fitei, aguardando até que o telefonema fosse encerrado.
— (...) O inquérito precisa ser encaminhado ao Ministério Público em até trinta dias, portanto, avise-me caso haja concessão de prazo. Certo. Tenha uma boa tarde. — Ele finalizou a chamada e me encarou de volta, aproximando-se da minha mesa enquanto lançava olhares reprovadores em direção aos hematomas expostos em meu rosto.
— Bridget avisou que você desejava falar comigo. Qual é o problema e por que não foi à minha sala? — Perguntou empedernido em seu tom seco.
Desconsiderei sua rispidez e relaxei meu corpo, entregando-lhe o documento onde jazia o comunicado de autorização.
— Veja por si mesmo.
O homem passou os olhos pelo papel e suavizou a fisionomia fechada, dando lugar ao que pude reconhecer como surpresa.
— “Ordem concedida?” Como você….?
— Somente fiz o meu trabalho, se é isso que você quer saber. — O interrompi, endireitando a postura e entrelaçando as mãos sobre a mesa. — Ao que tudo indica, minha tese processual convenceu o juiz. Não existem provas contundentes contra Feldmann, há inúmeras inconsistências envolvidas no caso, não faz sentido deixá-lo trancafiado vinte e quatro horas por dia. — Afirmei, convicto.
Meu pai esmiuçou as escrituras contidas na folha por mais alguns segundos, deslocando os olhos meticulosos dali até firmá-los nos meus.
O aspecto impassível retornara à sua face. Ele assentiu vagarosamente, finalmente concordando com minha opinião acerca de algo.
— Avise Feldmann o quanto antes.
— Já o fiz. Falei com ele assim que recebi a notificação. — Respondi direto, assistindo-o erguer uma sobrancelha e balançar a cabeça outra vez.
— Ótimo. É provável que a imprensa divulgue essa decisão judicial, como os abutres intrometidos que são. À vista disso, penso que seja cabível a você que lhes conceda uma entrevista, aparecer de forma positiva na mídia pode ser útil. Evite dar declarações detalhadas e atente-se ao que lhe for perguntado.
— A julgar as recentes ocorrências envoltas ao caso, creio que a organização de uma coletiva de imprensa também seja justificável. Estou farto de ser questionado mil vezes sobre o mesmo assunto, esclarecer tudo de uma só vez me soa menos maçante. — Considerei.
— De fato há demandas a serem elucidadas. Apresente-se pelas razões certas e fale estrategicamente.
Foi o meu momento de arquear o cenho em estranheza.
Ver Henrico consentir às minhas sugestões não era um evento corriqueiro.
Concordei e lhe observei fazer menção à saída do escritório.
— Carl veio procurar você no sábado. — Comentei. Meu pai interrompeu sua ação e voltou-se para mim.
— Eu sei. Pedi a Thompson que o recebesse, acabei demorando mais do que o esperado em meu compromisso.
— Está formalizando algum negócio com ele? — Indaguei, pouco me fodendo por soar bisbilhoteiro.
— Se o assunto lhe competisse eu teria pedido a você que o atendesse, não acha, ? — Uni as sobrancelhas e o encarei, sério.
— Se porventura tal assunto for relacionado ao escritório, ele me compete, sim. Não é você que sempre ressalta minha necessidade em me incluir nos trâmites internos daqui? — Retruquei, irônico.
O homem reproduziu minha expressão, nitidamente incomodado com minha truculência.
Foda-se.
— Definitivamente não estou com paciência, tampouco com tempo, para perder com suas insolências. Carl veio pedir a indicação de um advogado trabalhista para lhe prestar consultoria, ou seja, nada que te diz respeito. — Limitei-me a lhe oferecer um maneio de cabeça em resposta, acompanhando-o andar rumo à porta. — Esqueça um pouco o trabalho e lembre-se que sua mãe saiu do hospital e ainda não recebeu uma visita sua. — Disse ele, virando o tronco em minha direção antes de girar a maçaneta.
Soltei um riso anasalado e lhe fitei, sarcástico.
— Você me pedindo isso? Bom, eu tenho a quem puxar, não é mesmo? — Repliquei, ácido, sendo alvo de uma intensa análise realizada por meu pai, que nada proferiu.
Colocou-se para fora da sala, fazendo o leve estrondo da porta ecoar ruidoso através do ambiente.
Permaneci com o olhar vago no nada, à medida que pensava em tudo.
A trepidação pertencente ao vibracall do meu celular despertou-me do breve momento de inércia, conduzindo-me a apanhá-lo roboticamente.
O nome de Otto pestaneava ininterruptamente na tela.
— Boa tarde, Otto. — Falei ao aceitar a chamada.
— Boa tarde, Doutor . Estou atrapalhando? Você pode falar agora?
— Não está atrapalhando de forma alguma, estou livre. A que devo sua ligação?
— Bem, serei direto. Andei tirando algumas fotografias da parte externa do sítio onde meu padrinho foi assassinado… — Respirei fundo e toquei as têmporas, fechando os olhos no ato.
— Otto, já lhe pedi para não se arriscar. Isso que você está fazendo é totalmente o oposto do que aconselhei. — Adverti, apreensivo somente com a hipótese de ter mais uma morte atrelada ao caso Zummack.
— Eu avisei que não iria ficar de braços cruzados, . Os seguranças à paisana que você contratou estão fazendo bem o trabalho deles, estou vivo, não estou? Pois bem. Permita-me continuar… — Pediu. Massageei a lateral da cabeça e fiquei em silêncio, concedendo-lhe autorização para prosseguir. — Tenho andado ocupado visitando o local. De início, o fiz apenas para manter viva minha ânsia por justiça. Depois, fui percebendo movimentações estranhas nos arredores.
Cerrei o sobrolho e empertiguei minha postura, alerta.
— Movimentações estranhas? Especifique, por gentileza.
— Passei a vigiar o caseiro durante as últimas semanas, o peguei discutindo ao telefone por diversas vezes. Sei que ele poderia estar falando com qualquer pessoa, dessa forma, utilizei os recursos da minha filmadora para tentar sintonizar o tópico das discussões.
— O caseiro já deu o depoimento dele. Foi consistente. — Refutei, desconfiado.
— Consistente não quer dizer verdadeiro. Em uma das filmagens, pude ouvi-lo se queixar a respeito de algo. O áudio obviamente não captou o som com nitidez, porém, a pronúncia das palavras “descobrirem” e “dinheiro” são claras. A maneira como ele gesticula e olha para a parte interna do sítio não pode ser considerada coincidência. Você, mais do que ninguém, sabe que não existem coincidências em um cenário de crime.
As informações exprimidas por Otto implantaram dúvidas até então inexistentes em minha mente sobrecarregada.
Expeli o oxigênio dos meus pulmões com ímpeto, buscando equilibrar meu discernimento.
— Essa acusação é muito séria. Eu não posso intimar uma testemunha às cegas. Você poderia me encaminhar esse vídeo?
— Claro. Primeiro irei terminar de ajustar a imagem dele. Finalizado esse procedimento, realizarei o envio para que você tire as suas próprias conclusões.
— Certo. Irei aguardar. Agradeço sua disposição em ajudar, Otto. De verdade. Mas tome cuidado. Estamos lidando com pessoas perigosas, embora não saibamos quem são elas. — Avisei, engolfado nas incertezas e hesitações provenientes às atuais circunstâncias.
— Sei bem disso, . Assim como você não se amedronta, eu também não.
Suspirei e mantive os olhos fechados. Não era como se coubesse a mim controlar as atitudes de outrem, sobretudo quando se tratava de alguém tão obstinado por respostas. Eu não o culpava, de qualquer forma.
— Tudo bem. Vamos nos falando.
— Combinado. Tenha uma boa tarde, .
— Igualmente.
A chamada foi finalizada de imediato.
Transpassei minhas mãos pelos cabelos e esfreguei o rosto.
Com quem o caseiro mantinha contato?
E por qual razão o fazia?
Ele mentira em juízo?
Quanto mais eu procurava compreender tanta merda sucedida, menos eu me sentia apto a fazê-lo.
A ambição ceifa a vida das pessoas. A ganância incrimina inocentes.
Viver em um mundo como o meu nunca fora tão desgastante.

“Dura é a luta contra o desejo, que compra o que quer à custa da alma.”
HERÁCLITO.

**


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Meu corpo encontrava-se doído como se eu tivesse carregado pedras o dia inteiro.
Os olhos inchados denunciavam a noite em claro banhada a lágrimas copiosas, as quais externaram toda vergonha e nervosismo ante a exposição humilhante da qual fui parte.
Humilhada.
Era exatamente assim que eu me sentia.
A feição magoada de , não saía da minha cabeça nem por um segundo. Os rostos julgadores continuavam me assombrando, intensificando o sentimento de culpa que revirava o meu estômago vazio, incapaz de receber alimento algum.
O meu esforço para superar as marcas deixadas por , virou pó. A sensação era de terem arrancado a casca de um machucado falsamente cicatrizado, expondo-o aos agentes infecciosos causadores da piora do meu estado que já era ruim por si próprio.
Eu sempre possuí plena consciência de que isso poderia acontecer.
Protelei até onde pude, enrolei, ignorei o meu sexto sentido que me alertou, desde o princípio, sobre a possibilidade de presenciar a verdade sendo descoberta de modo tão cruel. Contar com a sorte é bom, até que ela se vira contra você e se transforma em puro azar.
Não havia falado com , desde o ocorrido.
Na verdade, evitei contato com tudo e todos. O constrangimento me impedia de ser racional, voltar a me sentir frágil como aquela , guiada pelo emocional trazia memórias dolorosas demais, e ter ciência de que eu teria que enfrentá-las e remexer em um passado não muito distante, era um verdadeiro pesadelo.
Suspirei pesadamente.
Meu peito fatigado doeu.
Felizmente a tarde agradável no abrigo serviu para me livrar, ao menos um pouco, da indisposição que anteriormente acometia todo meu corpo.
Beberiquei o café já frio e o devolvi à mesa, sem ânimo.
Olhei em volta, admirando a cafeteria vazia. O ambiente aconchegante junto ao aroma de cafeína ajudava a clarear os meus pensamentos, enviando calma ao meu cérebro ocupado por reflexões deturpadas.
Fitei o aparelho celular posto ao lado da xícara e mordi o lábio, incerta. Céus, eu precisava conversar com . Precisava vê-lo com os ânimos remansados, precisava ouvi-lo. Não havíamos trocado uma palavra sequer desde domingo, o que estava me deixando angustiada.
Ele tinha o direito de se calar e digerir as informações, e eu não o culpava por isso.
Apanhei o celular e o analisei em minhas mãos.
Eu geralmente não me importava em agir conforme as minhas vontades, entretanto, o presente cenário me levava a uma confusão mental agoniante. Receio, vergonha e arrependimento somavam-se a indecisão, a qual incumbia-se de me inserir em um dilema ridículo: ligar para o , ou lhe dar um tempo?
Inspirei e expirei.
Uma insegurança há muito tempo desaparecida retornou com força total.
Essa não é você, . Essa não é você.
Repeti para mim mesma em um mantra ininterrupto.
Minha instabilidade me dizia para não procurá-lo. Já a minha intuição, gritava a plenos pulmões a fim de que eu agisse como a mulher decidida que eu era.
Abri a aba de contatos e busquei pelo nome de , notando o meu coração errar as batidas.
Resolva isso. Enfrente.
Selecionei o ícone de telefone e pousei o celular no ouvido.
Meu estômago afundou, deu voltas, remexeu-se em apreensão.
Um toque, dois, três.
Nada.
Quatro, cinco, seis.
Bem, ele certamente podia não querer falar comigo.
Fiz menção de encerrar a chamada, porém, fui surpreendida por um ruído seguido daquela voz grave, potente.
? — Meu interior borboletou ao escutá-lo. Engoli a seco, cravando meus olhos na rua através do vidro límpido. — Alô?
Despertei do mundo da lua e pisquei, atônita.
— Oi. — Falei em um fio de voz.
— Como você está?
— Bem… — Menti. — E você?
— Bem.
Silêncio.
Eu absolutamente detestava climas estranhos.
Tamborilei os dedos na xícara, recobrando minha atitude em seguida.
— Eu queria conversar. Teria como você me encontrar na Upper Coffe? A cafeteria que fica de esquina para o abrigo. — Pedi sem delongas.
— Claro. Saio do escritório em cinco minutos.
— Tudo bem. Estou na parte de dentro. — Informei, balançando as pernas freneticamente em sinal de nervosismo, tal qual uma adolescente em seu primeiro encontro.
Este, no entanto, não teria a leveza que um encontro comum deve possuir.
— Certo.
— Até daqui a pouco, então…
— Até.
A entoação arrepiante de foi substituída pelo toque do qual sinalizava o fim do telefonema. Devolvi o celular à superfície ocupada pelo café e respirei profundamente, percebendo a minha mente anuviar.
Ir do céu ao inferno estava se tornando algo corriqueiro em minha vida. Para quem não gostava de caminhar na corda bamba, eu andava o fazendo com bastante frequência.
Quando me deixou em casa no domingo, nada fora dito por nenhum de nós.
O caminho regido pelo silêncio sepulcral evidenciou a falta de vontade de ambos de tecer comentários com relação ao ocorrido, e embora eu tenha agradecido mentalmente por aquele momento de calma, não o ouvir proferir absolutamente nada abriu espaço para inúmeras interpretações de minha parte. E todas elas carregavam significados negativos.
Arrumei a touca em minha cabeça e contemplei as folhas das árvores farfalharem com o vento. Respondi uma mensagem de Milena, conversei com Vicenzo e esperei.
Meu coração estava na garganta, e eu mal conseguia explicar o porquê.
Cerca de meia hora depois, um aroma característico invadiu os meus sentidos. O perfume de fez-se presente, anunciando sua chegada no estabelecimento à medida que caminhava imponente no sentido à mesa onde eu me encontrava sentada.
E agora também boba.
Ele era tão lindo que doía.
Trajado de preto da cabeça aos pés, o sério homem carregava consigo um ar majestoso quase intimidador. Com as mãos escondidas nos bolsos do sobretudo e o olhar preso em mim, o advogado executou uma intensa inspeção em meu rosto que, naquele instante, ganhou um rubor tão intenso quanto a conexão cuja qual firmávamos.
Forcei a visão e franzi o cenho ao notar hematomas expostos no seu supercílio e boca. Um solavanco intenso envolveu o meu estômago, arrepiando-me por inteira. Logo, o episódio das ameaças me viera à mente, apavorando-me de imediato.
O que havia acontecido ali?
Remexi-me na cadeira e fui agraciada com o ligeiro contato dos seus lábios cálidos na minha testa, gesto este que aqueceu o meu peito apertado.
— Perdão pela demora, peguei um pouco de trânsito. — Disse, ajeitando-se à minha frente.
— O que houve com você? Por que está machucado, ? — Interroguei, assustada, esticando o tronco a fim de tocar-lhe a face.
O homem suspirou e desviou as íris das minhas, balançando a cabeça em negação.
— Não se preocupe com isso. Já resolvi. — Declarou, esquivo.
Encarei-o inconformada.
— O caramba que eu não vou me preocupar! Vou perguntar novamente: O que aconteceu? — Insisti, examinando o corte vermelho localizado ao lado de sua sobrancelha.
me analisou, concentrado. Relaxou os ombros e fechou o semblante já carrancudo, expelindo o oxigênio de uma só vez.
— Tive um desentendimento com .
Pisquei, aturdida, continuando a observá-lo petrificada.
— O quê?! Quando? … — Deixei a frase morrer, resvalando a ponta dos dedos em seu lábio machucado. Ele acompanhava cada movimento meu com vigor, estremecendo sobre o meu toque.
— Ontem. — Respondeu seco. — Não existia a menor chance de não confrontá-lo após toda aquela merda.
Abri e fechei a boca, pasmada.
Nos entreolhamos, atentos um no outro.
— Não acredito que você foi remexer nessa história. Não bastou o showzinho de domingo? — Perguntei num murmúrio cansado.
A figura séria à minha frente arqueou uma sobrancelha, expondo a contusão um tanto quanto feia.
— Não. Não bastou. E sabe por quê? Porque eu não engoli o que ele fez! — O advogado emitiu, alterado. Joguei meu corpo de volta no assento e pousei as mãos no rosto. Eu só queria esquecer de tudo. — Olhe para você, ! Acha que te ver mal não me afeta?! — Tentei respirar fundo, mas o ar saiu entrecortado. Minha garganta doeu. — Agora, por exemplo, você mal consegue me olhar nos olhos. Esses cortes incomodam muito menos do que presenciar isso. — Seu timbre rouco soou pesaroso, revelando que eu não era a única fragilizada na história.
Abaixei minhas palmas e, enfim, o contemplei.
me averiguava com cuidado, embora o vinco formado no centro de sua testa indicasse uma aversão da qual não pude interpretar.
Senti meus músculos tensionarem.
— Estou cansada, constrangida e exausta desse assunto. Quanto mais eu me esforço para mantê-lo no passado, mais ele ganha espaço na minha vida. Não obstante, depois de tanto me empenhar para seguir em frente, vejo essa bola de neve afetar você também. — Esbocei um riso melancólico, sem humor. — É difícil, sabe?
— Sim, eu sei. E não é necessário fingir comigo. Até quando você pretendia sustentar essa situação?
Abaixei os olhos e fitei as minhas mãos.
— Sempre estive presa em um impasse. Gostaria de ignorar o passado e jogá-lo no fundo do baú, onde é o lugar dele, entretanto, tinha ciência de que uma hora ou outra teria que trazê-lo à tona, pois planejava abrir o jogo com você. — Expus, vendo me estudar intimamente.
Ele desvelava o fundo do meu coração e perscrutava a minha alma.
— Você não pode manter tanto guardado para si. Reprimir não facilita as coisas.
— E o que facilita, ? Eu fecho os olhos e vejo a reação das pessoas presenciando aquele show de horrores, aquela exposição da minha vida na frente de gente que eu nem conheço! Na frente dos meus amigos, dos seus! Meu Deus… — Neguei com a cabeça, refreando, ao máximo, a súbita ardência que flamejava meus orbes úmidos. — Eu evito falar sobre isso porque sei exatamente para onde sou levada, e não quero que tantas sensações ruins sejam revividas. — Confessei amargamente.
escorria sua análise enérgica por mim como se eu fosse um mistério a ser desvendado. Eu, por outro lado, procurava escapar da potência de tal ato, uma vez que ser alvo de tamanha aplicação ocasionava uma agitação em meu interior.
— Você não precisava suportar isso sozinha. Você não precisa, aliás. No entanto, é muito complicado demonstrar apoio quando tudo o que você faz é se fechar, .
Ri, sarcástica, abraçando o corpo com a finalidade de me proteger de mim mesma.

Eu estive aqui para você, e só eu vou estar. Mais ninguém conseguirá te olhar como eu te olho, gracinha. Mais ninguém te entenderá como eu.”

As recordações provindas de uma das tantas frases absurdas de inundaram a minha mente como se uma comporta tivesse sido aberta, despejando o que eu havia ocultado até então.
— Não estou me fechando, estou me protegendo! Não quero dramatizar nada, mas eu realmente estou exausta! O problema maior não foi apenas ter me envolvido com , e sim a maneira como esse envolvimento começou e terminou. Crescer no meio desse mundo ostentoso e fútil do qual você faz parte, enquanto minha mãe se matava de trabalhar na sua casa para me sustentar sozinha, mexeu com a minha cabeça. Me relacionar com um cara que tinha vergonha de mim, machucou. Ver esse mesmo cara me ridicularizando pelos motivos mais ridículos do mundo, foi o ápice. E sabe a pior parte disso? — Tomei ar e continuei, trêmula. — Assistir você me acusando de ousar tomar conta dos meus próprios problemas não torna tudo mais fácil.
O nó preso em minha garganta ganhou força. Eu sentia raiva, todavia, não era capaz de identificar exatamente a origem dela.
cerrou os olhos e moldou uma expressão indignada em seu semblante ininteligível.
— Não vou me desculpar por me preocupar com você, . Você realmente está me ouvindo? Está se ouvindo? Só quero te ajudar, que merda!

“Ele nunca olhou para você, gracinha. Desista. Ao contrário dele, eu estou aqui.”

— Me ajudar? , não há o que ser ajudado, já foi. Naquela época você sequer sabia que eu existia, então não tome o problema como seu, está bem? — As palavras escorregavam pela minha língua sem que eu possuísse controle sobre elas.
Eu só desejava descarregar minha ira, e tal anseio desconhecia os limites do bom senso.
nunca me pareceu tão ofendido. Seu rosto contraiu-se em descrença ao passo que me media, pesaroso.
— Impressionante… Pensei que já tivéssemos superado isso. Eu estou tentando, . De fato estou. O que mais você quer?! Saia um pouco da defensiva e seja racional, droga! Não tenho o poder de mudar o passado, porém, estou aqui, fazendo o possível para me manter no seu presente e futuro!

“Por que está agindo dessa forma? Sinceramente, às vezes é difícil ficar perto de você. Pare de tornar as coisas complicadas, gracinha. Só confie em mim.”

— Sinto muito por fazê-lo se sacrificar, não sabia que era assim tão trabalhoso para você. Eu honestamente estou esgotada de sentir como se sempre fosse necessário um martírio para ficarmos juntos. Como se nunca fossemos alcançar paz. Como se nunca fossemos compreender um ao outro efetivamente. — Assumi com a voz embargada. Meu coração encontrava-se pequenino, esmagado pelas verdades que eu não queria enxergar.
Infelizmente, os românticos incorrigíveis erraram feio.
Apenas o sentimento não basta para sustentar uma relação.
Ser perdidamente apaixonada pelo homem diante de mim, cuja feição esmorecida acarretava-me uma sufocante dor no peito, não impedia que eu reconhecesse o desgaste ligado às circunstâncias.
maneou a cabeça negativamente, fechando os olhos durante o gesto. Quando os abriu, viabilizou a escuridão apossada de suas íris opacas, apáticas. O desapontamento dele era nítido, tão nítido quanto o torpor do qual apoderava-se da minha essência, sugando toda lógica cabível para resolver tal inconveniente. Nada estava saindo do modo como eu inicialmente havia planejado.
— Não faça isso. Não vá por esse caminho. Eu sei que você está machucada, , mas nem todo mundo vai te fazer mal. Eu jamais o faria. — O advogado afirmou, aflito.
Minha risada trêmula e seca ressoou vacilante.
— À essa altura eu já não sei mais o que me faz bem ou mal, para ser honesta.
— Uau. Devo perguntar se eu me encontro em meio a esses questionamentos?
Neguei com a cabeça, percebendo um rastro quente correr através da minha bochecha.
— Se existe algo inquestionável para mim, , esse algo é o que eu sinto por você. O que eu sempre senti. — Sorri, desarmada de todo e qualquer indício de acanhamento por confessar o óbvio. — Entretanto, estamos lutando, nos desgastando... Eu passei anos da minha vida tentando consertar uma pessoa e uma relação sem conserto. Não quero cometer os mesmos erros, não quero me machucar, pois demorei muito tempo para me curar.
, eu não sou o . Você está projetando um contexto que não nos cabe.
— Esse é o problema! Querendo ou não, isso faz parte de mim, . Eu não posso simplesmente agir como se não tivesse um passado, você também tem! — Foi a vez do homem rir cético.
— A diferença é que você não deixa o seu passado no passado! Até quando você vai permitir que aquele maldito imponha o que acontece dentro de você, ?

“Não se apegue aos contos de fada que já leu, gracinha. Neste caso, o príncipe já encontrou a princesa dele. Até quando você insistirá nessa paixãozinha ridícula?”

Resfoleguei com os batimentos cardíacos acelerados. Meu peito executava movimentos de sobe e desce constantes, mesmo que respirar se fizesse trabalhoso naquele momento.
— Ou eu deixo essa situação para trás, ou tento esclarecer as coisas para você, ! Não consigo fazer ambos! Você não é o único a se esforçar por aqui, está bem? Não aja como se a culpa fosse inteiramente minha. — Pedi, abalada.
— Eu não disse isso. Por favor, não coloque palavras na minha boca. Tudo o que eu fiz desde que me sentei aqui, foi me dispor a te entender. Em hipótese alguma ousaria culpar você de qualquer coisa que fosse, .
Ele esfregou o rosto e conduziu as mãos até o seu cabelo, fitando-me com o olhar baixo. Me permiti ficar em silêncio, forçando-me a me acalmar.
compartilhou da súbita ausência de diálogo, parecendo refletir, assim como eu.
A fragrância doce emanada dos pães e bolos, em conjunto com o delicioso aroma de café, ironicamente propagava uma aprazibilidade que em nada combinava com a cena.
Segundos de quietude depois, um longo suspiro foi emitido pelo homem. A figura séria aprumou a postura e mapeou minha face, utilizando-se de um zelo descomunal ao fazê-lo.
Os efeitos que ele causava em mim nunca seriam fáceis de explicar. O advogado abrandava toda e qualquer exasperação de dentro do meu coração, remansando-me do acesso de inconstância criado por aquele clima estranho.
— Visto que, aparentemente, estamos clarificando as coisas, gostaria que você me tirasse uma dúvida acerca de um detalhe curioso. — quebrou o silêncio, parecendo mexer no bolso de sua calça. Observei-o atenta, arregalando meus olhos surpresos ao vê-lo exibir o objeto agora em suas mãos. — O que a chave da sua casa estava fazendo com o , ?



Capítulo 28

"Antes de deixar você ir, dê-me apenas mais uma noite para mostrar como eu me sinto.” — A Different Kind Of Pain - Cold


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Perder o chão sob os meus pés estava se tornando corriqueiro para mim.
Sob os olhos inquisitivos e ressentidos de , eu procurava entender o que estava acontecendo ali. Acima de tudo, procurava entender como e por qual motivo minha chave há tanto tempo perdida encontrava-se em sua posse, agora estendida na linha do meu olhar enquanto o homem à minha frente aguardava uma resposta para sua dúvida que, ironicamente, era também a minha.
Pisquei, aturdida, e vinquei o cenho, completamente desorientada.
Inclinei o tronco e peguei o objeto de suas mãos, notando que as minhas tremulavam levemente. Por mais que eu me esforçasse para organizar meus pensamentos e o quadro de situações das quais poderiam ter culminado naquela em especial, nada me vinha à mente.
— E então...? — A voz rouca de ressoou contida, chamando minha atenção para o seu semblante ininteligível e igualmente apreensivo.
O meu não devia estar diferente.
— Não faço ideia! — Admiti. Balancei a cabeça e sustentei nosso contato visual, oferecendo-lhe um riso seco e aflito. — Eu perdi essa chave no aniversário do Adrian, eu… eu não sei como ela acabou indo parar justo com o !
— Muito menos eu. — Ele afirmou, apático.
— Espero que você não esteja pensando que eu a entreguei para ele, . Além do mais, deixe-me refrescar sua memória: nós dois não tínhamos nada naquela época, portanto, mesmo que eu o tivesse feito, você não teria o direito de me cobrar qualquer coisa que fosse. Não me lembro de muita coisa daquela noite, mas se bem me recordo, você estava acompanhado, não estava? — Questionei, irônica, experienciando uma súbita irritação que me efervesceu o rosto.
O sério advogado esfregou a face cansada e expirou audivelmente, mantendo sua feição abatida entre as mãos durante alguns instantes antes de erguer o olhar. Diferente do que lhe era habitual, não utilizou de sua expressão implacável para me encarar. A gama de emoções reveladas por meio daquelas írises intensas denotava o mais puro desalento, e apesar de odiar vê-lo tão angustiado, subjugar meus descontentamentos estava fora de questão. Eu também possuía minhas próprias angústias para lidar.
— O que há de errado, ? Só quero entender tudo isso. Estou confuso, mas nunca faria pré-julgamentos antes de ouvir você. Para mim, a sua palavra vale mais.
— Eu não sei o que há de errado, eu só estou... muito cansada. Fiquei bêbada, perdi as chaves na festa e deve tê-la encontrado quando esbarrei com ele antes de ir embora. É uma infeliz coincidência, porém, aconteceu! — Exclamei, nervosa.
As írises opacas de firmaram-se em mim. Não permiti com que minha fisionomia vacilasse, tampouco lutei contra o meu lado aborrecido do qual me impelia a soltar todas as questões entaladas em minha garganta, pois tinha convicção de tudo que havia dito e estava prestes a dizer.
Ele assentiu lentamente, examinando-me com zelo.
— Tudo bem. Eu não vim aqui para brigar, . Nós precisamos conversar, não discutir.
— Eu sei, te liguei para ter um diálogo pacífico, e não para trocar acusações. Só não vou admitir nenhum tipo de crítica sobre atitudes que você mesmo tomou. Foi-se o tempo em que eu aceitava isso.
— Em momento algum te critiquei. Você está na defensiva o tempo inteiro, não é necessário agir dessa maneira comigo.
Reuni o pouco de calma que me restava e inalei o ar profundamente, compenetrada em reestruturar o meu emocional bagunçado. Concordei e juntei as mãos sobre o meu colo, inconscientemente cutucando meus dedos no ato.
— Na época em que me envolvi com ainda era muito nova. No início se tratava só de um passatempo, mas após alguns encontros acabei me envolvendo demais. Não tinha tanta experiência com relacionamentos e isso me levou a normalizar diversos comportamentos errados da parte dele, principalmente no que se referia a assumir o que tínhamos. Ele costumava dizer que não havia motivos para rotular nossa relação, demorou um bom tempo para que minha ficha caísse quanto aos seus sumiços, a indiferença e suas recorrentes mentiras — descontinuei minha fala e tomei fôlego, sendo metodicamente contemplada pelos olhos intensos de . — manipulava todas as brigas, sempre que eu reclamava a respeito de alguma coisa, ele magicamente virava a vítima e no final eu saía pedindo desculpas por deixá-lo mal. Eu simplesmente aceitava que ele estava certo, sendo que no começo tinha certeza de que era o contrário. É humilhante lembrar que minha companhia só era bem-vinda às escuras, e a partir disso, fui transportada para um caminho sem volta, onde comecei a me anular para caber nas expectativas dele — ri seco, inconformada com tamanha tolice. — aparecia na sua casa e fazia questão de me ignorar na frente dos amiguinhos idiotas de vocês, mas era só todos virarem as costas que eu magicamente me tornava a melhor pessoa do mundo. Depois de tudo, ainda fui alvo de brincadeirinhas ridículas, e você sabe bem quais eram, uma vez que presenciou a maioria delas — apontei, ácida. — , não posso falar que sinto muito por querer enterrar e esquecer esses momentos, porque não sinto. Não quando a maior afetada fui eu.
A figura impactada do advogado esmoreceu. Uma sucessão de emoções atravessou o seu rosto: remorso, angústia, culpa e outras menos definíveis.
Suas mãos foram de encontro às têmporas, permanecendo ali ao mesmo tempo que sua cabeça balançava em negação como se ele travasse um conflito interno consigo mesmo.
Outro suspiro arrastado foi expelido por .
Dentre todas as vezes nas quais seus olhos vigorosos me encararam, aquela conseguiu ser a mais dolorosa. Só não sabia se para ele, ou para mim.
Certamente para ambos.
O poderoso herdeiro transmitia uma vulnerabilidade nunca vista antes. Os ombros caídos e as pálpebras baixas manifestavam a instabilidade de suas emoções, e pela primeira vez, aparentava estar desprovido de argumentos quanto ao que lhe fora relatado.
Ele vincou a sobrancelha e desceu o olhar, encarando o vazio com o semblante vago.
— Eu… me perdoe, . — A voz que antes era normal desceu alguns tons até virar quase um sussurro. — Você foi exposta a constantes situações degradantes e eu não fiz nada. Nunca fiz nada. Sempre te achei tão segura, tão auto suficiente… eu nunca… porra. — O advogado chacoalhou a cabeça ainda encarando o nada.
Apesar de estar falando comigo, sua reflexão repercutia mais como uma dura condenação para consigo mesmo. Um choque de realidade que eu julgava necessário.
— Ter você ao meu lado é incrível, . Parece tão certo, tão extraordinário... — Minha frase chamou-lhe a atenção, fazendo-o fixar os orbes opacos nos meus. — O que eu sinto por você é puro e genuíno, acontece que o sentimento sozinho não sustenta uma relação. Por mais que vivamos em nossa bolha, não dá para ignorar a problemática acerca de nós dois. Acerca da sua vida, da minha.
— E qual seria essa problemática, ? — Nós estamos com uma visão romântica da coisa toda e acabamos menosprezando alguns detalhes que fazem muita diferença. Detalhes que acentuam as nossas diferenças. Minha mãe me criou sozinha e fez de tudo para que eu tivesse uma educação digna, um teto, comida na mesa e, principalmente, um futuro diferente do presente dela. Você não tem ideia de como é viver assim. Não posso colocar os esforços dela a perder por pensar apenas em mim e no que eu quero, entende?
parecia assimilar minhas sentenças em doses morosas e amargas de uma realidade difícil de absorver. Sua robusta estrutura física sempre aprumada em um equilíbrio natural exalava uma tensão incontestável, quase palpável.
— Eu te entendo e nunca ignorei sua história, pelo contrário. Sua mãe tem o meu completo respeito, em hipótese alguma a desconsideraria em meio ao que temos. É exatamente por este motivo que garanti a você que nada aconteceria com ela, dei a minha palavra.
Um riso penoso escapou dos meus lábios.
Meu coração contraiu-se, ficando tão apertado quanto as mãos do homem à minha frente, as quais apresentavam-se unidas uma na outra em uma compressão de embranquecer a ponta dos dedos.
— Acontece que não é você quem paga o salário de ninguém, . Sua influência termina quando as ordens de seus pais se sobressaem a ela. Estou cansada de aguentar tanta hostilidade vinda deles, sua mãe me trata como lixo mesmo não sabendo que estamos juntos, imagina quando souber! Eu não quero lidar com isso. Não enquanto estiver morando na casa dela e enquanto a minha mãe depender desse emprego. Essa situação com o só me fez enxergar que começamos algo na base do impulso, sendo que existem muitos outros assuntos a serem resolvidos em torno de nós dois.
O dono dos olhos mais expressivos que eu já havia visto uniu levemente as sobrancelhas, erguendo uma delas em seguida.
— A meu ver, isso é um conjunto de questões acumuladas que vieram à tona da pior forma possível. E agora você as está levando a um patamar complicado de se contestar, pois a julgar pelo seu discurso repleto de justificativas, sua decisão para conosco já está tomada.
— Você prestou atenção no que eu disse, ? Olhe o que nós estamos fazendo! Quer um exemplo de uma das problemáticas que eu mencionei? Você anda recebendo ameaças. Sua vida está correndo perigo, não dá para fingir que isso não é sério. Você precisa tomar providências antes que algo pior aconteça! Ganhar um caso é mais importante do que ficar vivo? Eu não quero dormir ao seu lado e acordar com medo de ter sido a última vez a tê-lo feito, não quero presenciar seu egocentrismo te sugando e te levando para o buraco, por Deus, dê um jeito na sua vida!
Minha mente conturbada e cheia de objeções trabalhava à polvorosa. O rastro quente e molhado que me escorria bochecha abaixo não tinha permissão para tal, contudo, nenhuma parte do meu corpo parecia responder aos meus comandos, sobretudo a minha boca.
Não confunda falar o que pensa, com falar sem pensar.
O borrão formado pelas lágrimas aglomeradas nas comportas dos meus olhos impedia-me de focalizar a figura do advogado subitamente quieto, e seria preferível permanecer daquele modo a vislumbrar o que se tornou visível para mim naquele instante.
Gélido. O olhar frio e lancinante de enviou uma sensação de soco diretamente para o meu estômago. Seu rosto sério e impassível demonstrava uma mágoa cortante, e a lâmina incumbida de fazê-lo havia também cortado o meu coração.
— Não me diga como encarar essa situação, . Avisei desde o início que não queria você envolvida nisso, esse assunto é minha responsabilidade. Sei dos riscos que corro, tudo o que desejo é acabar com essa merda de uma vez por todas, mas nada é tão fácil assim. Conviver com o fato de que um problema meu causou danos a você já é árduo por si só, te ver ferida me matou por dentro, a última coisa que eu preciso é ser criticado pela pessoa que eu mais quero proteger.
Quanto mais eu me empenhava em arrumar a desordem na minha cabeça, mais ela funcionava como uma roda na superfície, girando mecanicamente em um círculo de estresse que nem sequer eu mesma me encontrava apta a compreender.
— Eu tenho razão e você sabe disso, .
— Eu entendo o seu ponto, entretanto, certifique-se de olhar nos meus olhos após jogar suas opiniões na minha cara desse jeito. — O pedido do advogado soou seco, despertando-me para o fato de que eu fitava a xícara posta sobre a mesa com uma atenção desmedida. Não havia notado em qual momento deixei de observá-lo.
— Falar a verdade agora é “jogar na cara?” — Rebati, impaciente.
O barulho que eu ouvia por dentro era inquieto e alto.
não moveu um músculo. Somente respirou fundo e continuou a explorar meu rosto com ímpeto.
— A quanto tempo essa série de coisas vêm te incomodando?
Dei de ombros e correspondi a sua avaliação.
— Acho que sempre incomodaram, mas eu preferi ocultar a verdade com medidas temporárias. Adiei a responsabilidade de resolver algo no presente, para o futuro. O problema é que o futuro chegou, não dá mais para negar que tenho minhas coisas pra cuidar. Você deveria fazer o mesmo.
Deixar meus sentimentos para trás era doloroso.
Às vezes, fazer a coisa certa machucava.
— Se nada disso tivesse acontecido, você teria tomado a mesma decisão?
Meus pés remexiam-se sob a mesa, agitados tal qual uma britadeira. Parei para refletir durante alguns segundos, passando meus olhos através da face de enquanto examinava desde a textura de sua pele, até os fios de sua barba. Os ferimentos localizados no canto de sua boca e em seu supercílio não passaram despercebidos à minha análise, levando-me a vincar o centro da testa em insatisfação.
— Chamei você para conversar porque sentia que precisava. Não possuía nenhuma definição a respeito de nada, eu só queria… falar. E nesse ímpeto de falar, me vieram à mente todos os motivos pelos quais nós sempre quebramos uma coisa ao consertar outra. Não é possível manter o equilíbrio de uma relação quando se está desequilibrado. E olha só para nós! , olhe para você… eu não preciso que você vá bater em alguém por minha causa, você se machucou e sabe-se lá Deus como está. Por mais que eu não goste dele, não compactuo com esse tipo de atitude.
, você o está defendendo? Depois de tudo que ele fez?
— Céus, não! Pare de enxergar somente o que você quer ver e faça uma autocrítica, . Reavalie à sua maneira de resolver adversidades, você não sabe lidar com frustração porque foi criado para ter tudo o que quer! — Exclamei, subindo levemente o tom de voz.
As pálpebras do advogado cerraram-se em pura descrença.
— É isso que você pensa de mim?
— É isso que muita gente pensa. Tire esse véu de herdeiro endinheirado e dono da razão e repense o seu comportamento como alguém normal!
— “Alguém normal?” — Disse ele, visivelmente atordoado. — Você realmente quer dizer essas coisas que eu acabei de ouvir, ?
— Sim. Quero que as outras pessoas te vejam como eu vejo, sem essa máscara de durão irredutível com nariz empinado, . Não estou dizendo para você mudar, estou dizendo para você melhorar. E desejo que você o faça não por mim, mas sim, por si mesmo.
O modo pelo qual o advogado me encarava era vago. Embora os olhos dele estivessem presos aos meus, sua mente decerto encontrava-se longe. Vê-lo tão distante, ainda que tão perto, dizia muito sobre como eu me sentia naquela composição de pequenos detalhes, os quais se tornaram grandes demais para serem simplesmente jogados para debaixo do tapete.
— Você tem razão, . O melhor é que fiquemos afastados no momento, eu já ouvi o suficiente e não há nada mais a ser comentado. — A declaração foi verbalizada em tom incisivo. O homem fez-se claro tal qual o fulgor de um relâmpago, e sua concordância glacial frente às minhas constatações e afirmações penosas estilhaçou-me por dentro.
Saber que, por ora, aquela era a atitude correta a se tomar, não deixava o cenário menos triste.
Pelo contrário.
O processo de romper algo profundo e latente é ainda mais doloroso se comparado a ação de abdicar do que já não emociona o coração e toca a alma. E fazia os dois com louvor.
Limitamo-nos a ocupar a atmosfera densa com a conexão de nossos olhos, compenetrados um no outro. A lamentação velada ao longo daqueles incontáveis segundos escancarou o fato mais inegável de todos: nós estávamos desgastados.
Puxei o ar de meus pulmões e o nó contido em minha garganta contraiu-se em protesto.
— Eu preciso de um tempo disso tudo. Desculpe. — Soltei num impulso desconsolado. A figura do advogado não se alterou, entretanto, seus olhos nebulosos pairavam em mim como uma águia perspicaz e atenta.
— O tempo está dado. — Rebateu ele, seco.
— Por favor, entenda o meu lado. Você não tem nada a perder nessa história, mas eu tenho.
Notei-o olhando diretamente para uma extremidade específica da minha bochecha, onde uma lágrima solitária escorria lentamente pela pele úmida.
Apanhei minha bolsa e, com a cabeça girando em confusão, levantei-me sob a vigilância de um imóvel.
— Eu sou apaixonada por você, . Muito. Mas também sou apaixonada por mim, e agora não vejo como fazer isso funcionar sem que cuidemos primeiramente de nossos impasses. — Confessei sem lhe dar abertura para uma réplica.
Deixei a cafeteria sem olhar para trás, caminhando rua afora às cegas por obra dos borrões ocasionados pelas lágrimas que enchiam meus olhos e me impediam de enxergar com clareza. Minha cabeça cheia de pensamentos embaralhados rodava sem parar, tornando impossível a tarefa de absorver o ocorrido e meu feito diante de toda situação.
Entrei no ônibus num movimento automático, nem sequer conferindo se aquela era mesmo a linha correta. Sentei-me no solitário banco vazio localizado ao fundo do transporte e enfim liberei o pranto até então contido, pouco ligando se seria observada pelos passageiros que ali se encontravam. Eu apenas desejava amenizar a sensação esmagadora em meu peito, a qual resumia-se em uma variedade de sentimentos provocados por diversos motivos diferentes, culminando naquele choro carregado de significados. Eu chorava por mim, por , por nós, pela minha mãe, por nossa situação, por tudo. Todas as coisas para as quais havia fechado os olhos até o presente momento.

“— Não estamos em um bom momento para lidar com desordens, misturar interesses me soa como bobagem e eu disponho de um sobrenome a zelar. Por mim tanto faz com quem meu filho dorme, contanto que isso não influencie na vida dele, e agora está influenciando. Confio no seu bom senso para se dar conta de que o nosso meio não é para você. Continue escondida na cozinha junto à sua mãe e mantenha-se longe de problemas, poupe-me desse namorico enfadonho com , pois vocês dois sabem que não os levará a lugar algum. Não o atrapalhe mais.”

Ensaiei uma tentativa de respirar fundo, porém, o ar ficou preso na minha garganta. Cobri meus olhos com as mãos e senti a pele daquela área umedecer com as lágrimas que desciam por ali, livres e encarregadas de fazerem parte de um choro representado como um desabafo da alma.

“— Você precisa fazer alguma coisa, precisa contatar a polícia, não sei! — Falei, empenhada em achar uma solução para tal fato até então insolucionável.
"— Envolver a polícia só irá piorar a situação. Quem me garante que não há um policial ou alguma autoridade semelhante envolvida nisso? Não posso confiar em ninguém, não posso arriscar dar um passo errado. — Expôs, reflexivo, enfim retirando os olhos do chão para me encarar. — Eu não posso me precipitar e colocar você em risco, . Algo muito ruim poderia ter ocorrido e você não tem noção de como eu ficaria fodido... de como eu perderia a cabeça se algo acontecesse com você.”

(...)

“ — O que está feito, está feito, . Não vou negar que estou apavorada, porém, se desesperar só irá piorar, concorda? Talvez seja exatamente isso que essa pessoa quer... ver você perder o controle. — Disse e sua avaliação em minha face tornou-se mais firme. — Quando eu falei que você não conhecia meus vários lados, não brinquei. Eu não vou me abater só porque um doente resolveu me usar para infernizar a sua vida, recomendo que você faça o mesmo.”

(...)

“— Use a sua obstinação com inteligência! Ajude a sua mãe, seja boazinha e não arrisque o emprego dela por uma bobagem. Seria péssimo ter que despedi-la, ela é uma serviçal exemplar. Sabe o que seria mais péssimo ainda? Ter que colocar vocês duas na rua.”

Eu gostaria que tudo fosse mais fácil.
Basta um período de conflito para que comecemos a questionar a nossa vida e nossos caminhos, onde a onda de “e se’s” comprometem nosso discernimento e dão abertura para uma sequência de reflexões negativas, e era exatamente a atitude que eu estava tomando enquanto vislumbrava as pessoas indo e vindo através da janela.
Embora sempre tenha aceitado muito bem a minha realidade, geralmente me via imaginando uma trajetória diferente para ela. E se o meu pai estivesse vivo? E se minha mãe pudesse seguir seus próprios sonhos, ao invés de viver na cozinha de pessoas que não a valorizam de verdade? E se? Novamente esforcei-me para puxar o oxigênio dos meus pulmões, enfim sentindo um pequeno alívio ao expirar o ar em meio ao choro silencioso e mais brando.
Dei sinal e realizei um exercício de respiração com a finalidade de me acalmar, limpando do meu rosto qualquer resquício de lágrima. Moldei a melhor expressão neutra que me foi possível em tais circunstâncias, caminhando roboticamente por entre o luxuoso condomínio ocupado pela nata da sociedade.
A dinâmica da mansão dos nunca me incomodou tanto. Talvez fosse obra do meu estresse, talvez eu estivesse de saco cheio de toda a frescura pairada sobre a atmosfera da casa, talvez a minha aversão abrangesse todas essas opções e muitas outras.
Decidi por não seguir a rotina de sempre e passei reto pela entrada da cozinha onde minha mãe decerto estaria, afinal, não gostaria que ela reparasse meu estado abatido naquele momento. Entrei em casa e, após tomar um banho para clarear — e acalmar — as ideias, joguei meu corpo cansado na cama, fitando o teto com mais atenção que o normal. Eu me encontrava presa em uma bolha, no entanto, diferente das vezes anteriores, essa bolha não abrangia . Ela era somente minha.
? — Uma voz entoou hesitante pelo quarto, levando-me a dar um sobressalto sobre o colchão. Virei o rosto de imediato, deparando-me com minha mãe e seu cenho arqueado para mim.
Ensaiei um sorriso engessado, e ele de fato saíra um tanto quanto artificial.
— Oi, mãe.
— Não me ouviu chegar? Chamei você várias vezes. — Perguntou ela, olhando-me de um jeito ressabiado que apenas mães faziam.
— Estava distraída pensando sobre a festa do abrigo. — Menti, sendo analisada pelos olhos semicerrados da mulher encostada no batente da porta.
Céus, eu não possuía o mínimo de habilidade para disfarçar meus sentimentos.
— Hm… com essa cara inchada?
Droga.
Torci o nariz e suspirei audivelmente, permitindo com que meus ombros caídos denunciassem minha insatisfação.
— É… pode ser que tenha acontecido mais algumas coisas… — Iniciei, incerta e,ao mesmo tempo, decidida a ser honesta a respeito de tudo.
Dona , astuta como de costume, logo se prontificou a sentar-se na minha frente. Depositou algumas batidinhas afáveis sobre a minha perna em sinal de encorajamento e me estudou, atenta, exatamente do modo como ela fazia sempre que notava uma alteração em meu comportamento.
— Vamos lá, o que houve? Brigou com o ?
Respirei fundo mais uma vez e passei as mãos por entre meus cabelos, angustiada.
— Mais ou menos… eu pedi para que nos afastássemos. Domingo aconteceu algo bem ruim e eu tenho uma parcela de culpa nisso. — Declarei, sentindo minhas mãos gelarem. Se fosse para resolver minhas questões, que começasse pela mais importante: ser honesta com minha mãe.
Ela vincou o centro da testa, visivelmente confusa.
— Por que, filha? Você parecia gostar tanto dele… o que de tão ruim pode ter ocorrido para que você se culpe?
— Eu menti. Ou omiti. Talvez as duas coisas. — Soltei, vendo sua expressão se transformar de confusa, para séria. — E não fiz isso apenas para ele. Foi para você também.
— O que você fez, ? Que história é essa?
Engoli seco e baixei o olhar, fixando-o em minhas mãos juntas sobre o meu colo.
Não havia mais para onde fugir.
— Sabe o ? Amigo do ?
— Sim…? — Incentivou, ressabiada.
— Nós já tivemos um relacionamento escondido de todo mundo. — Confessei ainda evitando encarar minha mãe. Não era necessário fazê-lo, no entanto, pois eu sabia que seu semblante perplexo significava mais do que o atual silêncio poderia dizer. — Faz tempo e durou dois anos. Ele não foi bom para mim e por isso preferi fingir que nada aconteceu, o problema é que fingi para as pessoas erradas, ou seja, para você e para o .
Mais um curto período de silêncio.
Criei coragem e ergui a cabeça, encontrando os maternos orbes analíticos que executavam o trabalho de me avaliar impassivelmente.
Era como voltar à sensação infantil de saber que havia errado, bastando um olhar mais firme para ter consciência de que a atitude tomada definitivamente não fora aprovada.
— “Faz tempo” quanto, ? E quando você passou a achar que precisa esconder as coisas de mim? Eu sempre te apoiei em tudo e nunca reprimi suas vontades e escolhas, mesmo não concordando a fundo com elas.
Embora não tenha verbalizado, era claro que ela havia se referido a .
Eu preferia não ter entendido sua fala, apesar de possuir ciência de que o problema não era ele de fato, e sim, o mundo no qual ele encontrava-se inserido.
Um suspiro condescendente evadiu-se dos meus lábios.
A culpa surgiu com força total.
— Comecei a sair com ele após completar dezoito anos. — Falei, observando minha mãe crispar o cenho em aversão. — Não devia ter mentido, mas na minha cabeça era melhor fazer tudo escondido a não ter sua aprovação.
— O problema não foi somente a mentira, filha. Foi a quebra de confiança e as ações as quais levaram a ela.
E aquele foi o gancho para a vontade de chorar retornar com tudo.
Minha omissão resultou em consequências infelizes, e certamente a mais dolorosa delas era presenciar a decepção no rosto da pessoa que sempre esteve ali por mim.
— Desculpe. — Falei num fio de voz. Não me sentia capaz de proferir frase alguma, senão aquela.
— Enquanto eu achava que você estava na casa de alguma amiga, na verdade você estava com . , e se tivesse acontecido algo com você? Como eu saberia do seu paradeiro? — Silêncio. Me mantive quieta e com a atenção focada em um ponto aleatório do colchão, refletindo acerca de todas as vezes nas quais havia mentido para ela. — Você não fez isso apenas uma vez, filha. Também me escondeu sua relação com até onde pôde. Por quê?
Meu estômago deu um nó, e esse mesmo nó locomoveu-se até a minha garganta. Dei de ombros e neguei com a cabeça, incapaz de formular uma resposta coerente à sua pergunta. O remorso me corroía por dentro como ácido no metal.
— Não sei. Medo da sua reação, eu acho. Não foi proposital... em ambas as vezes tive a sensação de que estava me metendo em uma situação arriscada. Com , porque você costumava me alertar a respeito de gente como ele; com , por motivos óbvios. De qualquer maneira, as duas deram errado. nunca me assumiu por vergonha, já é filho de dois tiranos elitistas que pagam o seu salário e são donos dessa casa.
A expressão repreensiva da mulher suavizou, alterando-se para pesarosa e eu diria que também compadecida. Ela respirou fundo assim como eu, tornando a dar leves tapinhas afetuosos nas minhas pernas.
— Já falei e repito: jamais permita que alguém a faça duvidar do próprio valor. Eu pedia para que ficasse longe de pessoas como eles porque estava preocupada com sua integridade em meio a isso, gente como os e como o estão habituadas a ter o controle sobre tudo, e eu não criei filha para ser controlada por ninguém. — Declarou ela, firme como eu nunca havia visto. — E esse é só mais um mimado sem inteligência o suficiente para dar valor ao que realmente importa, a partir de hoje quero que pare de afirmar que ele tinha vergonha de você, ouviu? Ele quem devia se envergonhar por ser tão vazio e fútil, viver assim só atrai solidão e esse é o destino de quem existe única e exclusivamente em prol de status e dinheiro. Você é muito mais do que isso, . — Concluiu, decidida. Suas palavras soaram consoladoras e como um soco na consciência ao mesmo tempo. Parei de cutucar meus dedos e a encarei, balançando a cabeça em concordância. — O que aconteceu no domingo?
Arrumei minha postura na cama e esfreguei a face, não tão preparada para lhe contar a respeito do ocorrido, mas disposta a fazê-lo.
Iniciei a exposição sobre a noite em questão, tremendo de nervoso à medida que recordava das cenas ainda tão vívidas para mim, vendo a característica fúria materna estampada no rosto de uma irada.
— (...) Depois disso e brigaram novamente, e então eu me dei conta de que precisávamos de um tempo para absorver essa história toda. Eu não podia continuar com ele enquanto fingia que isso não me prejudicaria. — Finalizei, desanimada, recordando da reação e do semblante abatido de durante nossa conversa de horas atrás.
Minha mãe se manteve quieta por longos minutos.
Respirou profundamente e maneou a cabeça em negação, notoriamente sentida pelo que acabara de ouvir.
— Sinto muito que essa confusão tenha acontecido, filha. Você deveria ter sido honesta com desde o início, para toda ação ou falta dela há uma consequência e, uma omissão aparentemente inocente, pode se transformar em uma bola de neve gigantesca. — Alegou sem deixar de afagar minha mão. — Só não carregue toda culpa para si. Você não tem controle sobre os atos de ninguém, se comportou de maneira imatura e piorou a situação. Sei que você gosta muito do e lamento pelo afastamento de vocês dois, mas agora realmente é melhor que vocês fiquem distantes.
— Sim. — Confirmei mediante a um simples murmúrio.
— Resistir ao que já ocorreu só prolonga o sofrimento e cria conflitos. Olhe para frente, aprenda com os seus erros e dê tempo ao tempo, filha.
— Tem razão. Desculpe mais uma vez por ter mentido. — Pedi, moldando um sorriso frouxo nos lábios.
Minhas mãos foram apertadas com afeição antes de minha mãe retribuir o sorriso, levantando-se da cama em seguida.
Eu a conhecia bem o suficiente para ter plena noção de que ela estava chateada, contudo, não podia culpá-la, somente compreendê-la.
A porta do meu quarto se fechou, permitindo com que eu voltasse a ficar sozinha com meus pensamentos e novas reflexões possibilitadas pelo diálogo mãe e filha.
Aconcheguei-me sob as cobertas e fechei os olhos, procurando acalmar o embaralhado de informações as quais ampliavam a dimensão real dos meus problemas.
Com o coração apertado e sentindo uma ou outra lágrima teimosa escorrer pelo canto dos meus olhos, enfim peguei no sono, mobilizando minhas emoções a tranquilizarem-se ao menos por algumas horas.

**


O ambiente nem sempre calmo, porém totalmente reconfortante pertencente ao abrigo, nunca falhava em me trazer aconchego. Ali, eu conseguia esquecer um pouco dos meus problemas e simplesmente focar em doar energia em prol de uma causa importante, além de receber um carinho capaz de me ajudar a manter a serenidade diante do atual período da minha vida.
Olhei para o lado e sorri fraco ao ver Archie e as demais crianças compenetradas em seus desenhos, os quais serviriam para enfeitar a festa que organizávamos animadamente e que, dia após dia, saía do papel para então concretizar-se na chance de salvar não somente aquele lugar, como também o vínculo criado pelos pequenos e cultivado com tanto amor por Magnólia, Trish e os colaboradores envolvidos no projeto.
, acho que vamos precisar de mais ajuda para construir as barracas. Pelas minhas contas, serão o total de vinte tendas. — Trish informou, estendendo o planejamento que ela mesma havia desenhado. — Vou procurar alguém que monte a armação do palco, faça os panfletos e… é isso. — Disse ela, perdida nas próprias anotações entre o monte de papéis.
Ri de sua dificuldade para organizar as folhas e conferi o esboço, tendo uma visão clara sobre quão bonita a decoração ficaria.
— Ai, meu Deus. Isso está incrível, você é uma desenhista de mão cheia! — Exclamei, admirada, sorrindo a ponto de fazer minhas bochechas doerem. — Não se preocupe quanto a montagem das barracas, darei um jeito nisso. Estou tão animada! Magnólia já viu esse desenho? — Desembestei a falar, agora sendo Trish a rir de minha empolgação.
— Já sim, ela amou! Há tempos que eu não a presenciava tão motivada com algo.
— Isso é ótimo, o apoio dela é fundamental. Estou verificando a lista de doces e salgados antes de passá-la para minha mãe, depois podemos separar um final de semana para iniciar a preparação da parte estrutural. — Avaliei e Trish assentiu, examinando o caderno que eu havia lhe entregado.
— Minha tinta acabô’. — A voz infantil e levemente arteira soou repentina ao nosso lado, fazendo-nos virar e dar de cara com um Archie sujo de guache azul da cabeça aos pés.
Arregalei os olhos e entrei em um estado de choque momentâneo que não durou mais do que dois segundos, pois logo em seguida explodi em gargalhadas junto à Trish, deixando o pequeno sem entender muito bem aquele acesso de risos.
— Meu amor, você está parecendo um Smurf. — Falei, esforçando-me para conter a risada que insistia em subir pela minha garganta.
, você pode ir pegar mais tinta lá dentro? Vou levar este mocinho azulado para se limpar. — Trish pediu tão risonha quanto eu.
— Claro! Vá cuidar dessa emergência. — Concordei, enviando um olhar divertido a Archie.
O pequeno encolheu o corpinho e encobriu sua expressão travessa no ato.
Ri novamente e me desloquei rumo a parte interna do lugar, parando bruscamente ao encontrar Cassie ali.
De costas e sentada em um dos bancos do local, a elegante mulher não parecia ostentar sua postura confiante de sempre.
Os ombros levemente caídos revelavam uma nova faceta daquela pessoa tão segura, e os suspiros dados entre uma frase e outra enquanto ela falava ao telefone alimentavam a imagem de alguém visivelmente desarmada, vulnerável perante ao que lhe afligia.
— Essa matéria irá me render um prêmio prestigiado na categoria jornalística, gostaria que fôssemos jantar no Le Crissier hoje à noite (...) Ah, claro. Seus compromissos... (...) Papai está ocupado, enfurnado no escritório (...) Sem problemas, mãe. Irei mudar a reserva somente para mim (...) Tudo bem (...) Tchau.
Incerta a respeito do que fazer, continuei parada próxima à área ocupada por Cassie, tomada por um sentimento de compaixão ao captar certa tristeza em seu semblante bem maquiado, porém letárgico.
Ela apoiou-se nos cotovelos e focou sua atenção nas crianças que brincavam a poucos metros dali, contemplativa na assídua movimentação no centro do pátio.
— Eu quero ser ela, porque ela tem uma câmera legal e é bonita. — Uma das garotinhas relatou, apontando na direção de Cassie.
Ao contrário do que eu esperava, a dona dos reluzentes saltos altos não ignorou ou desdenhou da fala dirigida a ela, mas sim, sorriu para a menina. Embora fraco, o gesto foi o suficiente para fazer a pequena correspondê-lo com alegria antes de sair correndo saguão afora.
A mulher respirou profundamente e endireitou sua pose como se tivesse ingerido uma dose de sua própria personalidade, ajeitando os cabelos naturalmente alinhados para então levantar-se do banco, sumindo do meu campo de visão ao caminhar para os fundos do abrigo.
Meio surpresa com o que havia acabado de presenciar, saí do estado de inércia e segui até a salinha indicada por Trish. Peguei uma nova caixa de tinta guache e retornei à área externa onde ela e Archie estavam, enxergando-o consideravelmente mais limpo comparado a minutos atrás.
— Quem é você?! Para onde foi o Smurf que estava aqui? — Brinquei, varrendo o recinto com os olhos.
— Não era o Smurf, era eu! — Ele protestou, posicionando as duas mãozinhas na cintura.
— Ah, não acredito! Archie? Então foi você quem me pediu isso aqui? — Perguntei, mostrando-lhe a caixinha.
Ele assentiu, enérgico, encarando o objeto com entusiasmo.
— Tome cuidado para não se sujar de novo, tudo bem? Seus amiguinhos também precisam das tintas.
— Tá’ bom, eu vou dividir direitinho. — Assegurou,, sorridente e logo correu de encontro às outras crianças.
— Ele gosta muito de você. — Trish expôs com leveza em seu rosto. — É ótimo vê-lo assim. Archie sente falta da mãe, embora tenha sido deixado aqui ainda bem pequeno.
— Eu também gosto muito dele, a conexão foi imediata. — Declarei, observando-o de longe.
— Deu para notar.
Sorri e desviei a atenção de Archie para Trish, curiosa a respeito de um assunto que me veio à mente de súbito.
— Cassie ainda não terminou a matéria sobre o abrigo?
— Ela pediu para cobrir a organização da festa e a festa em si. Magnólia gostou da ideia e permitiu.
Pisquei, admirada e um tanto quanto boquiaberta diante da informação.
— Jura?! Isso é ótimo e vai nos ajudar bastante.
— Sim, tudo está se encaminhando bem. Que tal começarmos a pintar aquelas madeiras para as barracas? — Sugeriu, fitando-me de um jeito engraçado.
— Vamos nos sujar! — Apoiei a ideia proposta, pronta para colocar a mão na massa.
Em meio ao nevoeiro escuro sempre há uma luz, e a minha era aquele lugar.

**


Os limites impostos na mansão dos foram implicitamente ensinados para mim desde muito nova. Não se enturme com eles — ou com qualquer pessoa que contenha um adereço ou roupa que financeiramente valha meus dois rins ou outro órgão importante —, não ultrapasse a porta da cozinha, utilize os termos "senhor" e "senhora" e controle sua língua, ainda que não seja fácil mantê-la dentro da boca em determinadas situações.
Pobre de quem rompesse aquela barreira velada pelos costumes elitistas, que quando questionada, obrigava seus precursores a engessarem um sorriso amarelo no rosto antes de proferirem discursos pré concebidos e falsamente jocosos.

"Quem faz o patrão é a empregada, e quem faz a empregada é o patrão. Até em nossa casa elas moram, são como família!"

No entanto, a divisão encarregada de nos classificar como subalternos estava lá.
Não verbalizada, mas demonstrada através de olhares presunçosos ou censuradores ao nos verem ocupando o mesmo lugar que eles, mesmo que estivéssemos apenas prestando um serviço para a dita bolha da elite.
Espaços demarcados pelo dinheiro traziam consigo um preconceito social mascarado. Sendo ali, naquele cômodo onde minha mãe passava a maior parte de seus dias, ou sendo em estabelecimentos "públicos", nos quais o público era minuciosamente selecionado para se encaixar nas exigências pertencentes a classe de padrão elevado.
Parei de cortar o alface e me permiti estudar a dinâmica que ocorria na cozinha.
Empregados indo e voltando, panelas trabalhando a todo vapor e murmúrios de conversas paralelas a fim de criar uma distração em meio ao ofício.
No fim, tudo continuava igual.
— Coloquem mais um prato na mesa, o senhor virá jantar com os pais. — Judith avisou ao surgir entre a extensa porta responsável por separar a cozinha da sala de jantar.
Agradeci mentalmente por ter abandonado a faca na bancada, pois as chances de me cortar após tal informação eram muitas.
Um agito revirou meu estômago num entrelaçado de emoções.
— Ele visitou a mãe somente uma vez desde a cirurgia, essa gente rica não tem coração. — Uma das funcionárias acusou.
— Nem faz tanto tempo que a senhora saiu do hospital, é muito ocupado, não seja bisbilhoteira. — Judith repreendeu.
Enquanto os funcionários da mansão debatiam com relação a dinâmica familiar dos , eu me peguei encarando a porta de acesso totalmente petrificada.
O contato zero entre mim e seguia intacto, o meu coração, porém, encontrava-se em frangalhos.
— Talvez seja melhor você ir, filha. — Mamãe cochichou ao se aproximar.
Dei um leve sobressalto e assenti.
— Deixe-me terminar isso aqui primeiro.
— Tudo bem. E cuidado. — Alertou, afagando meus ombros em sinal de apoio.
Voltei a focar na verdura, mas volte e meia minha anteninha teimava em vibrar na direção da sala de jantar.
Como esperado, minutos depois, o som do motor vindo de fora repercutiu diretamente nas batidas do meu coração acelerado.
Ele havia chegado.
A taquicardia que me assolou competia com o tremor em minhas mãos para ver quem incomodava mais.
Separei a última folha de alface e coloquei a faca de lado, limpando a mão no avental logo em seguida.
— Vou para casa, tenho assuntos do abrigo para resolver. — Inventei a primeira desculpa que me veio à mente, recebendo acenos de cabeça em resposta.
Minha mãe, por sua vez, repetiu o afago em meus ombros, acariciando aquela área com zelo.
— Pode ir, filha. Obrigada pela ajuda.
Sorri e me despedi dos demais ali localizados, traçando meu caminho rumo ao território livre dos efeitos que o advogado causava em meu corpo e em meus sentimentos.
Tomei um banho e me distraí por algumas horas com um filme água com açúcar que passava na televisão, sendo bruscamente atingida pela falta de algo importante.
Meu celular.
Não precisei escavar os confins da minha memória para saber exatamente onde ele fora esquecido. Esfreguei o rosto e bufei de raiva, inconformada com tamanha desatenção. Minha mãe certamente não se atentaria em pegá-lo.
Calcei meu tênis e, invadida por um nervosismo irritantemente juvenil, refiz o breve trajeto até a mansão, sentindo um tremor no estômago assim que enxerguei a Maserati de ainda estacionada no lugar onde costumava ficar.
Acalme-se, . Pare de ser infantil.
Adentrei a cozinha e me deparei com o nada, contemplando-a já arrumada e sem ninguém.
Franzi o cenho e peguei o aparelho posto no canto do armário, dando um pulinho idiota ao assistir a porta se abrir, revelando uma Judith igualmente assustada comigo parada no meio do ambiente vazio.
— Ai, quer matar, Jud?! — Perguntei, afobada.
— Eu que te pergunto, menina! Credo, parece uma assombração. — Ela reclamou com a mão no peito, fazendo-me rir.
— Desculpe. Onde está minha mãe?
— Foi colocar o lixo para fora. — Esclareceu. — , aproveitando que você está aqui, poderia fazer um grande favor para mim?
— Claro! No que eu posso ajudar?
— O senhor Henrico pediu uma xícara de café, teria como levá-la para ele, por gentileza? Dona Kyara está me chamando na sala de estar e nós duas sabemos que ela não gosta de esperar.
Ai, droga.
Reprimi uma careta e assenti.
— Ah... certo. Posso sim. — Aceitei, meio vacilante.
— Muito obrigada, querida. A bandeja é esta aqui. — A mulher pegou o receptáculo dourado e o entregou.
— Imagina, Jud. — Disse, forçando um sorriso em meio a minha inquietação.
Coloquei-me para fora do que eu encarava como espaço seguro e me joguei aos leões, andando vagarosamente escada acima ao passo que intercalava minha concentração na bandeja e nos arredores da mansão.
Empurrei a porta do escritório com cuidado e precisei de muito esforço para não tropeçar ali mesmo ao vislumbrar um dorso bem conhecido.
E não era o de Henrico.
, que encontrava-se virado para a janela, girou o corpo sentido a porta como se estivesse em câmera lenta. Mãos nos bolsos da calça social, camisa semi-abotoada e uma única sobrancelha arqueada. Ali estavam as características de . Ali estava ele.
Seu semblante suavizou ao me ver.
As respostas emocionais que desabrocharam dentro de mim frente ao modo como me encarou demonstraram a razão pela qual ficar longe dele era tão difícil. Da mesma maneira que polos de naturezas diferente se atraem, nós dois sempre acabávamos nos encontrando de alguma forma.
— Oi. — Enfim cortei o esquisito silêncio instalado no escritório.
— Boa noite, . — A entonação grave ecoou mais rouca do que nunca.
Depois de tanto tempo, eu ainda não era capaz de dizer se o seu jeito intenso de me analisar era proposital, porém, com certeza conseguia sentir os resultados de tal ato.
— Como você está? — Questionei, obrigando meu cérebro a enviar os comandos necessários para que eu me mexesse e depositasse a bandeja sobre a mesa. Não lhe dei tempo para verbalizar uma réplica, pois bastou que eu o olhasse mais de perto para obter a resposta ante a minha pergunta. — , você está dormindo bem? — Lancei-lhe outra indagação, encarando-o, preocupada. As bolsas arroxeadas sob os seus olhos opacos denunciavam que não.
— Sim, só estou muito ocupado com o trabalho. — Ele rebateu, acompanhando minha análise em seu rosto com atenção.
— Não faça isso consigo mesmo. Sei que não é apenas o trabalho que te suga, mas sim o que vem com ele. Pare de se colocar em risco. — Soltei, não me importando em trazer aquele assunto à tona novamente. Vê-lo se desgastando aos poucos também me matava por dentro.

— Se acontecer alguma coisa com você… — O interrompi, sendo arrebatada por uma sensação terrível ao imaginar tal cenário.
O advogado suspirou, pesaroso, externando um leque de emoções através de seu semblante consternado.
— Não me olhe desse jeito, por favor. — Seu pedido soou como uma súplica.
— Não posso continuar vendo você se definhar sem falar nada. — Determinei com a voz embargada. permaneceu quieto, contudo, o modo penoso pelo qual ele me estudava falava por si só. — Mas parece que você já está decidido. — Ri sem humor e neguei com a cabeça, sentindo uma lágrima brotar no canto dos meus olhos.
— Quero que esteja segura e que seja feliz, não que se afunde comigo. — O homem se aproximou, trazendo consigo o aroma de seu perfume. Levou o polegar até a minha bochecha e, dotado de calma, limpou a solitária gota de água que escorria por ali. — Você estava certa, eu tenho coisas a serem resolvidas, e infelizmente essa é uma delas. Nada vai mudar o que eu sinto por você, só quero que se lembre disso.
— Está precisando de alguma coisa, ? — O som seco e rígido de uma terceira voz reverberou pelo recinto. Não foi necessário me virar para saber que o senhor havia dado o ar de sua graça.
subiu o olhar na direção do pai por meio de uma repreensão explícita, intencionando retrucá-lo. — Não, vim apenas deixar o café. Tenham uma boa noite. — Tomei a frente da situação e cortei o propósito de , olhando-o profundamente antes de me afastar e caminhar até a porta, deixando pai e filho para trás. Pude sentir os olhos do último queimando em minhas costas.
Saí do escritório e bati a porta atrás de mim, carregando em meu peito uma angústia fora do normal. Desci as escadas e, mais por instinto do que por juízo, enfiei-me no primeiro lugar aberto que encontrei, ansiando me acalmar e tomar um pouco de ar para então conseguir voltar para casa sem parecer tão desnorteada.
Apoiei-me na sacada do terraço e enterrei as mãos entre os fios dos meus cabelos, descontando no feito uma parte da frustração e do misto de sentimentos que me tiravam a paz.
Inspirei e expirei uma, duas, três vezes. Em todas elas, vislumbrei cenários desastrosos diante dos fatos. Imaginei uma tragédia acontecendo com , imaginei minha mãe e eu no meio da rua, imaginei a culpa me corroendo por saber da gravidade da situação e não ter dito nada, imaginei uma catástrofe total.
Se eu pudesse descrever meu estado de desespero, seria algo como presenciar o início de um grande incêndio sem poder impedi-lo, pois caso eu o fizesse, me queimaria. A sensação de impotência era real.
A brisa levemente fria foi de encontro ao meu corpo, relaxando-o à medida que eu a inalava vagarosamente.
Me perdi em pensamentos, distraída e absolutamente desligada do mundo ao meu redor, aérea o bastante para não me dar conta de quanto tempo havia ficado ali contemplando o nada. Não ouvi o motor do carro de anunciando sua partida, não ouvi movimentação alguma nos arredores da mansão, contudo, ouvi passos e senti a presença de mais alguém perto de onde eu estava.
— Espero não estar atrapalhando seu momento de lazer. — A voz acusou repleta de cinismo.
Meu coração foi à garganta devido ao susto, colocando-me em um estado de alerta imediato no instante em que senti o cheiro de tabaco invadir o ambiente. O referido aroma junto ao sarcasmo palpável caracterizavam o possuinte de tais atributos sem que fosse preciso eu me virar para vê-lo.
Eu não tinha outra opção senão respondê-lo, embora não quisesse.
Segurei uma réplica ácida e girei o tronco, topando com a figura sisuda e formal de Henrico apoiada na sacada, da mesma forma que eu me encontrava segundos atrás.
Sua postura, expressões e até mesmo seus hábitos eram idênticos aos de , e apesar de o segundo não admitir nem sob tortura, ele e o pai compartilhavam mais traços em comum do que poderia perceber.
— Só estava tomando um ar. Não devia estar aqui, desculpe. — Falei, seca, odiando a sensação de ter engolido mais um sapo.
Desculpe o caramba.
— Percebo que você tem certa resistência em saber onde deveria estar. — A ironia apareceu mais uma vez.
Refreei meus passos e cravei meus olhos nele, nem um pouco preocupada em esconder minha expressão descontente.
— Perdão? — Indaguei, resignada. Minha pergunta fora completamente retórica, afinal, eu havia entendido muito bem o significado de sua fala.
— Você continua a tentar se encaixar onde não lhe convém. Não admito circulação de funcionários nas dependências da casa após o horário estipulado. — O modo ridiculamente tranquilo pelo qual o homem destilou seu veneno me enfureceu. Ele soprava a fumaça daquele charuto despreocupado, nem sequer tendo a decência de me olhar para verbalizar seus maldizeres perversos. — As regalias que tem com não são válidas aqui.
Estreitei os olhos, ultrajada.
— Não sou funcionária daqui e não tenho regalias com ninguém. — Rebati, irritada. Meu tom ríspido o levou a pousar os olhos em mim, exibindo uma sobrancelha levantada assim como o filho usualmente fazia.
— Acredito que essas não foram as boas maneiras que sua mãe lhe ensinou, sobretudo para referir-se a quem a empregou. — Henrico repreendeu, intimidador. Meu estômago deu um solavanco imediato, revirando-se de raiva e medo. — Alertei sobre os perigos de dar intimidade a quem não deve, entretanto, depois que ele se meteu com você, ficou cego.
E aquele foi o estopim para a minha paciência e juízo irem por água abaixo.
Meu rosto queimou tamanha ira. Aquela montanha russa de emoções iria descarrilar, e os danos causados seriam irreversíveis.
— Já passou pela cabeça do senhor que, se e eu nos envolvemos, foi porque ele também quis? Só está falando essas coisas porque não sabe que seu filho tem opinião própria, tem vontades próprias. Não sabe ou se recusa a perceber. Ele não é influenciável. — Desatei a falar, sem controle algum sobre o que saía pela minha boca. — Esse tempo todo ele vem sendo tratado como um fantoche à mercê das vontades de todos, e mesmo relutante quanto a isso, mesmo se negando a ser manipulado, as atitudes de vocês o afetam diretamente.
Henrico me encarava com vigor, quase como se quisesse me desintegrar com o olhar.
A diminuta veia em sua testa não deixava dúvidas quanto ao seu desagrado acerca de minhas palavras, porém, não me acovardei. Eu estava farta de tudo aquilo.
— Como se atreve? Quem lhe deu o direito de opinar a respeito da minha família? — O homem esbravejou, inconformado. — Não brinque com a sorte, .
— Digo isso com todo respeito, senhor . Não tenho nada a ver com sua família, mas vocês se incomodam tanto comigo sendo que na verdade não enxergam a raiz do problema, e ele não sou eu. Sou filha da cozinheira de vocês, sim. Não sou herdeira, não ando por aí de jatinho e isso incomoda, tudo bem, eu aceito, só não pense que este é o único revés envolvido na situação, porque não é. Não quando é preterido a todo momento por quem deveria acreditar nele.
A face de Henrico tornou-se rubra. A veia anteriormente diminuta havia ganhado volume, e se eu pudesse arriscar, diria que ela pulsava em suas têmporas franzidas. Eu deveria me calar como sempre fazia, entretanto, simplesmente não conseguia.
— O que diabos você está dizendo?!
— Não quero acreditar que o senhor seja tão sem coração a ponto de não conseguir enxergar os esforços do seu filho. E nem digo esforços com relação aos negócios da família, e sim, em se matar para receber reconhecimento do próprio pai, a pessoa que teria de dar forças a ele, e não o colocar para baixo. só quer te orgulhar, não percebe? No fundo, ele precisa apenas do apoio e da aprovação do pai. Pare para refletir, senhor . Você mesmo afastou o seu filho. — Conclui meus argumentos com a adrenalina à mil. Escondi minhas mãos trêmulas e geladas nos bolsos do casaco, sendo alvo dos olhos severamente críticos de Henrico, que nada dizia. Interpretei a ausência de resposta como um sinal para sair dali, sinal este do qual resolvi acatar com prontidão. — Vou me manter longe, não se preocupe mais. Só queria que o senhor soubesse que precisa de você. Tenha uma boa noite.
E tão rápido quanto joguei as verdades ao vento, retirei-me do terraço sem olhar para trás. Percorri o trajeto de volta para casa em passadas ágeis e urgentes, louca para me desligar de tudo com uma boa noite de sono, apesar de não estar conseguindo dormir direito há dias.
Não fiquei surpresa ao encontrar minha mãe sentada na sala na companhia de seu bom e velho livro de culinária, tampouco fiquei surpresa ao assisti-la desviar os olhos das páginas e fixá-los em mim, completamente desconfiada.
, aonde você foi?
— Esqueci meu celular na cozinha. Fui pegá-lo e fiquei um pouquinho no jardim. — Respondi, procurando soar o mais natural possível. — Vou deitar, tudo bem? Boa noite. — Disse, depositando um breve beijo em seu rosto.
— Tudo bem... Boa noite, filha. — Concordou, fitando-me ainda ressabiada. Ofereci-lhe um meio sorriso e fui para o quarto, jogando meu corpo moído na cama.
O cansaço que eu sentia não era físico, mas sim, mental.
Tirei o celular do bolso e um alívio invadiu meu peito ao ver uma mensagem de .


Estou lhe devendo uma conversa, não estou? E aposto que você também precisa conversar. Consegui uma folga amanhã, que tal uma tarde de meninas?

Você leu os meus pensamentos. Combinado.



Pousei o aparelho ao lado do colchão e fechei os olhos, desejando cavar um buraco e me enfiar nele. Ao invés da escuridão surgir com o cerrar de minhas pálpebras, o que me veio à mente foi a imagem de e sua expressão esgotada, abatida.
Apanhei meu celular e abri o aplicativo de mensagens, descendo as conversas até encontrar a janela onde jazia meu último diálogo com o responsável pela minha insônia.

“Online”

Meu coração saltou.
Abri sua foto e a admirei, sentindo-me uma tonta.
Por que fazer o certo doía tanto?
O vazio que assolava o meu peito não se preenchia com nada. Eu podia fingir ser forte o quanto quisesse, pois era ali, deitada com a cabeça no travesseiro, que a realidade dos meus sentimentos e minha fragilidade vinha com força.
Bloqueei a tela e joguei o telefone num canto qualquer da cama.
Uma agonia sufocante se alastrou através do meu coração, libertando um choro pesado e baixinho daqueles de dilacerar a alma. As lágrimas escorriam pelo meu rosto e molhavam o travesseiro, mas eu não me importava o bastante para limpá-las ou refreá-las. Longe disso. Eu só queria aliviar a pressão em meu peito e a sensação de bolo na garganta, queria fazer qualquer coisa para as emoções negativas pararem de perpetuar dentro de mim.
O sonido de gotas na janela prenunciou a chegada da chuva, e tal como o céu, eu também fui dormir chovendo.



Capítulo 28 - Parte II



O clima ensolarado após um longo período de chuva geralmente nos impele a refletir sobre essa loucura oscilante que a nossa vida é, onde dias nascem e morrem, sempre anunciando um novo tempo. Aquela tarde em especial atestava perfeitamente tal reflexão, dado que, após a intensa carga d'água ocorrida na noite anterior — carga d’água que caíra do céu e dos meus olhos —, o dia havia nascido resplandecente e convidativo para levantar a cabeça e vivê-lo, independente de como eu me sentia por dentro.
Atravessei a adornada entrada da casa de e sorri instantaneamente ao me deparar com ela parada no batente da porta, visivelmente animada em me ver. Fui contagiada por seu nítido bom humor, realmente feliz por não enxergar nenhum resquício de abatimento em seu rosto.
— Bom, eu esperava ser recebida com alguns Pretzels e uma taça de um dos seus champagnes que pagam uma hipoteca, mas vou te perdoar porque você está muito fofinha demonstrando saudades de mim. — Gracejei, gargalhando alto no exato segundo em que minha amiga recolheu os braços previamente abertos na minha direção e teatralmente fechou a cara.
— Não devemos dar asa à cobra, definitivamente. — Ela ralhou, dissimulando o riso. Abracei-a com vontade, e sua falsa relutância em corresponder ao gesto logo transformou-se em um enlace carregado de cumplicidade e apreço mútuo. — Mas eu senti mesmo. E se os bolinhos da sua mãe não estiverem dentro dessa bolsa, você pode dar meia volta e ir embora.
Ri e me separei dela, despregando a abertura do acessório pendurado em meus ombros a fim de lhe mostrar o pote cheio de brownies.
— Querida, missão dada é missão cumprida.
— Perfeito. Agora sim você pode entrar. — disse, concedendo-me passagem.
— Eu poderia te xingar agora, porém, levando em consideração todos esses mimos especialmente para mim, irei te poupar. — Falei, batendo palminhas de entusiasmo diante das guloseimas e bebidas postas sobre a mesinha da sala.
Tirei meus sapatos e me joguei no tapete cor-de-rosa fofinho e felpudo que tomava conta de todo o cômodo, logo sendo acompanhada pela minha amiga.
— Como você está, sweetie? — Ela indagou, cuidadosa, servindo-me uma taça de espumante. A interrogativa já trazia uma resposta em sua subjacência. sabia que eu não estava bem.
Inspirei e dei de ombros, assistindo as diversas borbulhas fazerem uma festa no interior do objeto translúcido.
— Não sei dizer… está tudo tão desconexo, tão caótico.
— Eu imagino. O que aconteceu durante esses dias? Fiquei preocupada, mas imaginei que você precisava de um tempo quietinha.
Desviei os olhos das minhas mãos e os pousei em , a qual fitava-me de maneira terna.
— Desculpe por não ter ligado, as últimas semanas foram péssimas. É como se tudo estivesse escorrendo pelo ralo, inclusive meu discernimento. Ainda estou completamente envergonhada pelo show que deu, essa situação vem pesando demais no meu comportamento. Parece um gatilho que me faz perder o controle, não sei. — Aleguei, meio embaralhada.
, você não tem que se desculpar. Há quanto tempo nós viemos entendendo o silêncio uma da outra sem julgamentos? O ocorrido daquela noite foi uma exposição maldosa, respeite o que está sentindo.
— Mesmo que eu esteja me sentindo culpada? — Minha pergunta soou vacilante.
se ajeitou e virou o corpo de frente para mim dotada de seriedade, sendo esta uma faceta sua que raramente tornava-se visível.
Sweetie, vou ser sincera com você. Essa culpa está aí dentro há muito tempo, e ela vem sendo alimentada desde o seu relacionamento com . Tudo o que remete a ele desperta resquícios das coisas ruins que você passou, e não foram poucas. — Minha amiga tinha um ponto e ele mostrava-se totalmente válido. Sabendo que ela avançaria em seu discurso, limitei-me a ficar calada, aguardando-a continuar. — Você sempre sentiu algo pelo , o namoro dele com a Cassie te abateu de alguma forma e aí apareceu. Viu você em um momento de fragilidade, começou a te idolatrar e, a partir daí, a manipulação foi apenas uma das consequências. Você acha que um relacionamento abusivo começa com um tapa na cara? Não, bebê. Seu erro foi ter escondido isso do , porém, não carregue mais do que você precisa suportar.
A declaração de me acertou em cheio, dando-me a impressão de que suas palavras haviam ganhado forma e me sacudido pelos ombros.
Possuir conhecimento a respeito do tema em foco não tornava mais fácil a iniciativa de captar suas particularidades e inseri-las nas minhas respostas emocionais, especialmente quando tudo em mim encontrava-se à flor da pele.
— Essa culpa não vem somente disso… depois de tudo, pedi para se afastar. — Confessei, sendo mais uma vez atingida pela imagem abalada do advogado e o seu modo vigoroso de me analisar.
arregalou os olhos, boquiaberta.
— Como assim, ?!
— Preciso organizar minha gaveta sentimental e tenho certeza de que o também. Eu não quero ficar longe, mas a situação nos obrigou a enxergar as coisas sob outra perspectiva. — Esclareci, desanimada. — Estou vivendo em uma contradição.
— Você está com medo porque sua mãe trabalha para os pais dele, não está?
Uma das características que eu mais admirava na minha amizade com , era a nossa capacidade de reconhecer os anseios uma da outra nas entrelinhas.
A partir de sua pergunta cirúrgica pude confirmar que, naquele instante, ela novamente reconheceu os meus sem que eu os tivesse exposto.
Um suspiro murcho saiu por entre os meus lábios. Meu medo ia muito além dos costumes elitistas de Henrico e Kyara.
— Sim, amiga. Imagina se a minha mãe perdesse o emprego? Imagina se nós fôssemos expulsas caso e eu oficializássemos algo? Não dá para fechar os olhos para isso. Henrico nos viu juntos no hospital e me disse coisas horríveis, Kyara sempre faz questão de me olhar por cima do nariz… como aguentar isso vivendo praticamente sob o mesmo teto que eles?
— Realmente, sweetie… é uma situação complicada e triste ao mesmo tempo, porque o que você e o sentem um pelo outro é nítido. Infelizmente existe toda essa questão envolvendo sua mãe, o trabalho dela e a falta de senso dos , mas quer saber de uma coisa? Está tudo bem tirar um tempo pra cuidar das suas sombras e dores no campo afetivo. é o menos afetado nessa história toda, se ele de fato se importar com você, vai entender e esperar esse furacão passar. — proferiu, externando um sorriso confortante.
Retribuí — ainda que não na mesma intensidade — e dei um bom gole na bebida em minhas mãos, deixando-a fazer cócegas em minha garganta.
— A conversa que tive com ele fugiu um pouco do que eu esperava. Me descontrolei e falei coisas que não devia ter dito. Não da forma como foram ditas. Eu só queria falar, falar e falar, era uma raiva tão incomum, não fazia ideia de onde ela vinha e para onde ela queria ir.
— Geralmente o desespero não nos deixa ver um palmo à nossa frente, suas reações foram normais para alguém na sua atual posição, .
Bufei e encostei meu corpo no pé do sofá, encarando o teto estupidamente branco da sala de .
— A verdade é que a vida é uma quina e nós somos mindinhos. — Reclamei, enfastiada.
A sonora gargalhada da minha amiga invadiu o cômodo de tal maneira que, mesmo sem pretender, a acompanhei em seu riso cômico.
— Ai, sweetie… na vida existe uma coisa chamada sincronicidade. O momento certo encaixa tudo da melhor forma possível, pode acreditar. — Ela se jogou ao meu lado e deu um empurrãozinho em meu ombro com o dela. Apoiei minha cabeça ali e suspirei audivelmente.
— O que eu faria sem você? — Falei num murmúrio melancólico. Outro risinho fora emitido por , que cultivou um curto silêncio perante minha observação, parecendo refletir acerca de algo.
— Bem…
Levantei a cabeça e a fitei, encontrando uma expressão esquisita moldada em seu rosto. Eu a conhecia bem o bastante para captar um sentido oculto naquele gesto.
— Pensei que você soltaria uma piadinha, mas pelo que estou vendo, não é isso que vem por aí… — Falei, assistindo-a concordar, meio retraída, apesar de conseguir sentir certa serenidade vinda dela. — É agora que você me explica o motivo de ter andado tão estranha? Eu não me esqueci, mi amor.
Agora foi a vez de suspirar pesadamente.
— Sei que não, eu muito menos. Só queria esperar mais um pouco para contar.
— Ai, meu Deus. Você está grávida?! — Questionei, alarmada, recebendo um arregalar de olhos e uma risada em resposta.
— Não! Ficou louca?! Não tem nada a ver com gravidez.
— Então o que é? Você está me deixando nervosa! — Exclamei de fato inquieta.
Minha amiga se remexeu, respirou, voltou a se remexer e, por fim, focou sua atenção em mim.
— Nos últimos meses me ocupei e foquei cem por cento na faculdade e no meu emprego. Estabeleci inúmeras metas com relação a minha vida profissional e coloquei na cabeça que iria cumprir todas elas, independente do que isso me custaria. — Ela iniciou pacientemente. Eu, por outro lado, estava mais impaciente do que nunca. — Diante dos meus esforços na clínica, surgiu uma grande oportunidade de me aperfeiçoar por meio de um curso com tudo pago por eles…
, isso é ótimo! — Comemorei, empolgada, deixando a taça de lado para lhe abraçar. — Parabéns, amiga!
— Calma, … Tem mais um pequeno detalhe. — Separei-me dela e a encarei um tanto confusa por não senti-la efetivamente animada com o que dizia. — O curso é em outro país.
Meu comportamento inicial foi permanecer parada, olhando para meio sem saber — ou conseguir — esboçar uma reação sequer, sendo meticulosamente estudada por ela, como se avaliasse o que eu faria a seguir.
— Uau… não é um detalhe pequeno, mas é incrível! Quanto tempo você ficaria fora?
— Seis meses. — Dessa vez sua resposta fora ainda mais hesitante.
As explicações saídas da boca dela me deixavam feliz e chocada, simultaneamente. Feliz por ela, chocada por me dar conta de que provavelmente não teria minha melhor amiga ao meu lado durante um tempo considerável.
Boquiaberta, busquei me reorganizar internamente para digerir a notícia.
— Seis meses?! E quanto a faculdade?
Eu não era a melhor pessoa no quesito matemático da coisa, contudo, não era necessário sê-lo para constatar o óbvio: seis meses correspondia a um semestre inteiro. Um semestre restante para nos formarmos.
— Bem… eu teria que terminar lá. — Certamente notando meu semblante abismado, logo tratou de continuar. — Deixe-me explicar melhor… a empresa elaborou um programa de capacitação para os melhores estagiários de cada setor. Quem é selecionado tem direito a esse curso, mais a oportunidade de finalizar a faculdade fora, o que conta muito para o nosso currículo. As despesas estudantis são bancadas por eles, no entanto, é primordial que tenhamos boas notas e um desempenho acima da média nas aulas, por esse motivo eu estava tão estressada e exausta na semana de provas. Não podia ter ficado de recuperação, entretanto, dei um jeito de me recuperar e mantive minha vaga. Decidi me resguardar e me afastar socialmente para refletir sobre tudo, optei por esperar a classificação dos escolhidos para então abrir o jogo com todo mundo, e claro que você seria a primeira a saber, portanto, cá estou totalmente apavorada e eufórica falando sem parar enquanto minha melhor amiga me olha absolutamente perplexa. — Ela concluiu após metralhar as notícias recentes de sua vida de uma só vez.
Abri e fechei a boca um tanto quanto balbuciante, procurando restabelecer o funcionamento do meu raciocínio ante tantas novidades.
— Minha nossa… eu… céus, vamos com calma, eu preciso absorver essas informações. — Expus inteiramente passada, levando minhas mãos às têmporas e massageando-as a fim de me nortear. A FindHelth era a clínica mais renomada do país, e agora eu sabia o motivo.
— Você não faz ideia de quão contente e assustada eu estou, sweetie. Sempre desejei mostrar à minha família que levo minha profissão à sério e que nunca me acomodei com o conforto de nossa condição financeira, ter alcançado essa chance de crescer sem sequer ter me formado é importante demais para mim. — desabafou, sonhadora.
Seu sorriso radiante exposto com tamanha satisfação foi o bastante para que meu estado se transformasse de perplexo, para honestamente feliz, impelindo-me a projetar o corpo para frente e tornar a abraçá-la com mais entusiasmo do que antes, fazendo-nos tombar para o lado em virtude do meu excesso de afeto.
— Eu vou explodir de orgulho e morrer de saudade! — Bradei, ainda grudada em uma gargalhante.
— Queria muito que nos formássemos juntas, fiquei com medo de você se chatear.
Recobrei a postura e ajudei minha amiga a fazer o mesmo, pegando suas mãos e apertando-as nas minhas com o objetivo de lhe passar segurança.
— Sua felicidade é a minha felicidade, nós teremos muitas outras ocasiões favoráveis para comemorarmos nossa formatura. Essa chance que surgiu para você não acontece sempre, agarre-a sem pensar duas vezes, ouviu, garota? — Aconselhei firmemente, triunfando em meus esforços para não sucumbir a súbita vontade de chorar. Tal esforço, contudo, foi por água abaixo no segundo em que vi os olhos de marejarem, enchendo meu peito de uma saudade prematura.
— Não sei como contar a Adrian, já ensaiei um milhão de vezes e nunca me parece bom o bastante. — Lamentou, num muxoxo embargado.
— É o seu futuro, mi amor. São seis meses e não uma vida toda, pegue o que você falou para mim e use como exemplo. Se ele realmente gostar de você, vai esperar. Não é como se você fosse morar lá, entende? Adrian está conquistando os próprios sonhos, tome coragem e conquiste os seus.
— O que vai ser de mim sem você por tanto tempo? — Minha amiga choramingou, envolvendo-me novamente em um abraço apertado e recíproco.
— Me conta assim que você descobrir, porque estou me perguntando isso neste exato momento. — Revelei tão chorosa quanto ela, perdurando naquela demonstração de afeição embalada de fungadas e lágrimas. A cena seria cômica, se já não fosse trágica. — Eles informaram quando vocês vão?
— Ainda não. — falou, soltando-se ligeiramente do abraço para me olhar. — É possível que nos comuniquem em até três semanas.
— Ufa! Então vai dar tempo para você ir à festa no abrigo. — Comemorei entre palminhas.
— Eu jamais perderia esse evento, queridinha. Agora chega, vamos escolher um filme de comédia para liberar um pouco de endorfina e te tirar dessa bad. Escolhe aí, vou pegar a pipoca na cozinha.
— Coloca manteiga! — Gritei, caindo na gargalhada ao receber um dedo do meio enquanto minha amiga caminhava corredor adentro.
Liguei a televisão e me ocupei em caçar o controle sob as almofadas do sofá, encontrando o portal para Nárnia, mas nada do aparelho.

[...]

"... consiste no direito de não ser declarado culpado senão mediante sentença transitada em julgado, ao término do devido processo legal, em que o acusado tenha se utilizado de todos os meios de prova pertinentes para sua defesa e para a destruição da credibilidade das provas apresentadas pela acusação..."

Aquela voz.
Girei meu corpo num movimento automático e veloz, sendo puxada pela entonação grave responsável por arrepiar-me da cabeça aos pés. Engoli em seco e petrifiquei de imediato frente a imagem exibida na tela da televisão.
Repórteres, câmeras e microfones cercavam aos montes; flashes eram continuamente disparados em sua direção, iluminando o rosto sério e concentrado do advogado bem-posto diante de tamanha exposição. Atrás dele, homens carrancudos trajados de roupa preta pareciam fazer o trabalho de vigilância, imóveis e alertas aos mínimos maneios do herdeiro dos , que seguia respondendo perguntas direcionadas a ele no que eu identifiquei como uma coletiva de imprensa.
Sweetie, achei um pacote de marshmallow no armário, que tal se derretêssemos chocolate e… eita! — cortou a própria frase logo que acompanhou a linha do meu olhar.

[...]

“— Doutor , há diversos pontos a serem esclarecidos acerca da morte de Mason Zummack e de Sandro Averbuck, bem como os recentes acontecimentos envolvendo o vazamento do laudo pericial. Tais inconsistências estão ligadas à demora para o segmento do julgamento?
— Todos os pormenores citados estão sendo minuciosamente investigados. Os inquéritos já foram abertos e os levantamentos correspondentes a cada crime foram repassados às equipes responsáveis, nós criminalistas só podemos garantir empenho e rapidez no ingresso das peças processuais a fim de que possamos trabalhar sempre dentro dos limites da ética. Próxima pergunta, por gentileza.”

Meus batimentos cardíacos aceleraram como resposta imediata àquele cenário aversivo. Contrações musculares involuntárias tremularam cada parte do meu corpo, fazendo um calafrio terrível subir através da minha espinha.
O que raios estava pensando?!

[...]

“— Doutor, não acha que o desligamento das câmeras pode ter sido um caso pensado de seu cliente, para justamente possuir uma desculpa que o faça parecer inocente?
— Todos esses questionamentos serão discutidos em júri, onde os fatores e provas apresentadas culminarão em uma decisão embasada, pois é para isso que o julgamento serve. Aqui só serão respondidas perguntas de teor midiático, uma vez que meu cliente terá a oportunidade de provar sua inocência e explicar-se diante da justiça na data prevista para tal. Próxima pergunta.”

, você está pálida! — Minha amiga observou, assustada, guiando-me de encontro ao sofá. — Quer um copo d'água? Por que você está assim?
— Me preocupo com se expondo desse jeito. — Justifiquei com os olhos presos na televisão.

[...]

“— Doutor , seu primeiro caso de relevância se sucedeu contra a empresa de Carl Deiner e terminou com êxito. À vista disso, acha que há motivação corporativa por trás do homicídio, uma vez que Mason era próximo de empresários e políticos?

Carl Deiner.
Carl? Será o mesmo Carl?
Que diabos…?
Entrei em um embate interno, refletindo sobre o que estava assistindo.
— Agora eu entendo o porquê do ser tão ranzinza. Coitado, imagina o estresse que é lidar com essas coisas… — considerou, torcendo o rosto em uma careta desgostosa. Eu apenas assenti, atenta à devolutiva do homem taxativo e extremamente profissional que verbalizava seu parecer com uma desenvoltura invejável.

[...]

“— … e como pontuei anteriormente, suposições são descabidas ao caso em questão. Agradeço pela atenção, tenham uma boa tarde.”

A reprodução do telejornal fora subitamente substituída pela tela de início da Netflix. Virei o rosto e deparei-me com minha melhor amiga apontando o controle para mim.
— Tem uma nuvem cinza em cima da sua cabeça, cruz credo! Será que podemos nos entupir de carboidrato e dar risada de coisas idiotas, por favor? — Ela inquiriu, dramática. Ri e concordei, aconchegando-me ao seu lado.
Apesar de não ser possível dar credibilidade a todas as sensações aversivas que me invadiam em tais circunstâncias, o mau pressentimento fazia por si só o trabalho de me colocar em sobreaviso.
E eu nunca quis tanto estar errada.

**

NARRAÇÃO EM TERCEIRA PESSOA.


As três figuras sentadas em frente à televisão encaravam a tela do eletrodoméstico com extremo desvelo, cada qual com sua própria opinião acerca do que ouviram e assistiram minutos atrás.
Um silêncio lúgubre perdurava no antro da luxuosa sala, palco das confabulas entre os agentes daquele caos o qual ganhara as manchetes dos telejornais e visibilidade no âmbito empresarial, chamando a atenção daqueles que clamavam por justiça, seja lá o que o dito termo realmente representava.
O mais colérico entre eles varreu os orbes analíticos nos pertences caros os quais levou um bom tempo para recuperar. Ele sempre esteve em seu caminho. Agora, no entanto, iria padecer no mesmo inferno onde o colocou naquela época sombria.
Tinha tudo esquematizado.
O período em que sumiu da vida do herdeiro lhe fora muito útil para observá-lo com mais diligência. O estudou e juntou as informações coletadas em um esquema perfeito, restando unicamente colocar o plano em prática.
— Volte a se aproximar dele. — O ruído de sua voz tão tempestuosa quanto a personalidade que carregava retumbou dominante. Os comparsas o fitaram, confusos sobre a quem o “mandachuva” direcionara a ordem. Notando a falta de compreensão dos cúmplices, bufou, irritado e prosseguiu. — Você. — Apontou para um deles. — Seguirá agindo como de costume. Já você — Sinalizou ao alvo mencionado. — Irá se reaproximar dos . Preciso de informações. — Ditou, resoluto, recebendo afirmações positivas dos outros dois co-autores.
Circulou um lembrete escrito a caneta vermelha e sorriu sórdido.

"Esta é a data do julgamento. Veremos se você chegará até o final dele."

Será que chegará vivo? Será que chegará são, com as faculdades mentais intactas? Será que, ao menos, chegaria?
Ele esperava que não. Ele se planejava para que não.
Ele lhe tirou tudo, nada mais justo do que retribuir o favor.

**


.

Clarões estouravam em meu rosto incessantemente numa batalha de luzes cegantes. Sequências de vozes e perguntas cercavam-me sem interrupção, repórteres protestavam e ninguém se entendia. Escoltado por guardas, atravessei o corredor de flashes e entrei em meu carro com certa brutalidade, esgotado do circo midiático realizado pelos meios de comunicação interessados em alcançar audiência a todo custo.
Dei partida velozmente e deixei o alarde para trás, restando somente o acompanhamento dos seguranças encarregados de zelarem pela minha integridade física. Até onde os ossos do ofício poderiam me levar? E até que ponto transitar por aí rodeado de vigilantes me traria alguma proteção? O sangue latejava com violência em minhas têmporas, no limite a respeito de todos os âmbitos da minha vida.
Os raios solares daquela tarde iluminavam as ruas, fato que contrastava com a nebulosidade presa ao meu espírito semimorto. Parei em frente ao farol vermelho e prendi meus olhos na cena diante de mim, a qual veio a calhar em um momento perfeito. Pai e filho cruzavam a faixa de pedestres entre brincadeiras e risos soltos, onde o garoto trajado com o uniforme de uma escola de futebol falava animadamente a respeito de um assunto que parecia muito lhe agradar.
Até mesmo acontecimentos triviais do dia a dia andavam me tirando do eixo, revirando elementos internos que há muito não faziam diferença para mim.
Crescer ladeado por regras, compromissos inúteis e rigidez descabida anulou uma parte essencial no que diz respeito à construção da minha infância, fazendo-me desconhecer determinadas sensações e experiências exatamente por não tê-las vivenciado efetivamente.
Como uma criança reconhece afeto em forma de dinheiro?
Apesar do meu avô ter suprido boa parte do vazio paterno culpado por me perturbar durante anos, algo ainda parecia errado. Nunca ter jogado futebol com a figura teoricamente responsável por me ensinar a fazê-lo me parecia errado. Por sentir na pele os efeitos de tantos erros, havia em mim uma vontade pura e cristalina de me esforçar para ser um bom pai, ainda que eu não possuísse o melhor exemplo a ser seguido.
Idealizações diferiam da realidade, e a minha situação de merda me obrigava a questionar se um dia eu chegaria a formar uma família, especialmente quando a única pessoa capaz de despertar meus instintos para tais vontades resolvera se afastar.
Estacionei o carro na garagem e segui rumo ao meu apartamento, sendo recebido pelo Pastor Alemão eufórico que cumpria fielmente sua função de companheiro para todas as horas.
— E aí, carinha. — Saudei, emitindo a primeira risada do dia ao assisti-lo atravessar o apartamento feito um furacão enquanto corria com um de seus brinquedos na boca.
Larguei meu paletó sobre a mesinha de centro e dei à maleta recheada de documentos importantes o mesmo destino.
A garrafa de whisky abrilhantou minhas írises no mesmo segundo em que pousei os olhos nela, atraindo-me para si feito mágica.
Servi-me de uma dose, e ela logo evoluiu para duas, três.
Me joguei no sofá e coloquei a bebida ao meu lado, tendo agora a escolta de Bento que fazia questão de me observar como se não aprovasse o que via.
— O quê? Você também vai me julgar? — Indaguei. O cão mexeu as orelhas e tombou a cabeça, sustentando aquele contato visual esquisito.
Minha boca estava amarga, entretanto, a bebida recém ingerida não era a única culpada por tal sensação. Sentia o corpo doído como se tivesse carregado pedras o dia inteiro. Meu coração batia descompassado ao mesmo tempo que mil pensamentos cruzavam minha mente, indo do episódio desconfortante criado pelo filho da puta do , até minha conversa com .

aparecia na sua casa e fazia questão de me ignorar na frente dos amiguinhos idiotas de vocês, mas era só todos virarem as costas que eu magicamente me tornava a melhor pessoa do mundo. Depois de tudo, ainda fui alvo de brincadeirinhas ridículas, e você sabe bem quais eram, uma vez que presenciou a maioria delas.”

Sorvi outra dose.
Quão derrotado alguém pode se sentir, mesmo estando no ápice da merda? Até que ponto eu era diferente das pessoas as quais criticava tão duramente? Como eu me permiti estar envolto por tudo que eu sempre rejeitei?
No fim, a “lei do espelho” comprovou-se por si só: o que vemos nos outros nos revela informações sagradas sobre nós mesmos. Eu nunca detestei tanto enfrentar a minha essência.
Retirei meu celular do bolso e digitei uma mensagem para Paolo, invadido pelo repentino peso na consciência em virtude das minhas diversas condutas relapsas concernentes a nossa amizade. Que belo amigo fodido eu era. Um belo filho da puta egoísta.
Fiz menção de colocar o aparelho sobre a mesinha, porém, a vibração vinda dele me induziu a descontinuar tal intenção.
Bastou que eu antevesse o ícone correspondente ao correio eletrônico para ter uma ideia do que viria a seguir, onde minha suposição pré-concebida a respeito do remetente da mensagem converteu-se em uma certeza estarrecedora após sua abertura.

“Ótimo discurso, doutor. Suas respostas foram esclarecedoras. Confesso que me surpreendi com sua coragem em recorrer à mídia somente para lhe proporcionar uma falsa sensação de controle, todavia, essa atitude lamentavelmente me irritou um pouco. Seu tempo para desistir do caso está acabando, . Não queira pagar para ver.”

“A ganância insaciável é um dos tristes fenômenos que apressam a autodestruição do homem.”

Textos judaicos.




Capítulo 29

Se o céu estiver caindo, apenas pegue minha mão e segure-a. Você não tem que ficar sozinha." I Won't Let You Go – James Morrison.


.

O entorpecimento da minha consciência e a inabilidade de processar as coisas ao meu redor tornavam árdua a tarefa de assimilar o que eu havia acabado de ler.
Forcei a visão e encarei a tela do celular onde a mensagem permanecia visível, porém um tanto quanto borrada devido aos meus sentidos comprometidos pelo álcool. Ainda que com um pouco de dificuldade, reli o pequeno texto enquanto experimentava uma gama de emoções discrepantes, mas igualmente desagradáveis, tomarem conta de cada parte do meu ser, enrijecendo meus músculos de maneira dolorosa.
Estava farto de tudo aquilo, esgotado de todas as formas possíveis.
O ódio pela situação atrelado a estafa mental não eram piores do que a sensação de fracasso. Estava me sentindo um fraco por me deixar abater por um merda que resolveu brincar de Deus e foder a minha vida, sentia-me um incompetente incapaz de enfrentar as tribulações que atravessavam o meu caminho, tão fragilizado quanto uma criança perdida dos pais em um ambiente estranho.
Eu, que sempre fui inabalável em minhas convicções e ações, agora experimentava o gosto amargo de uma vulnerabilidade inédita e sufocante, envolta na agonia de desconhecer os rumos de um futuro comprometido por fardos difíceis de serem carregados.

“Não faça isso consigo mesmo. Sei que não é apenas o trabalho que te suga, mas sim o que vem com ele. Pare de se colocar em risco.”

As palavras suplicantes de rodearam minha mente conturbada, saturada de tanto trabalhar para encontrar um pouco de quietação entre a desordem.
Até que ponto a validação que minha carreira me proporcionava era vantajosa? Minha auto aflição não me deixava raciocinar com efetividade. O mundo estava pegando fogo e o inferno me parecia familiar.
A melodia gritante do interfone ecoou através do apartamento, fazendo-me levantar atordoado e seguir até o aparelho em meio a passos levemente descoordenados, conduzido pelos efeitos do whiskey recém ingerido. Liberei a entrada de Paolo e me joguei na poltrona situada na sala, acendendo o cigarro responsável por me causar uma falsa sensação de calma. O tinido da campainha anunciou a chegada do meu amigo, que logo fez-se presente no apartamento com seu típico comportamento descontraído.
— Herzog está na área! — A voz de Paolo preencheu o espaço. Virei o rosto e o cumprimentei com um aceno de cabeça, forçando os olhos para sua vestimenta incomum.
— Engoliu um grunge dos anos noventa? — Questionei ao examinar a blusa quadriculada amarrada em seu quadril e a calça rasgada que compunha aquele estilo inusitado.
— Desculpe, . Não consigo enxergar você no meio de tanta fumaça. — Satirizou, esparramando-se no sofá à minha frente. — Você não fuma dentro de casa, o que te deu? E… ahn… isso não estava aí antes. — Ele apontou para o pequeno hematoma em meu supercílio, inclinando o corpo para frente como se quisesse me observar melhor.
Expeli a fumaça sem muito ânimo e reprimi um resmungo descontente.
— Briguei com . — Admiti sem delongas.
Paolo encrespou a testa.
— De novo?! Cacete, você realmente virou um bad boy…
Neguei com a cabeça, reprovando o termo utilizado.
Aquele ocorrido havia sido, de fato, dolorido. Não por obra do ferimento, mas sim pelos motivos que levaram a ele. A troca de agressões entre mim e o cara que eu pensava ser meu melhor amigo machucara muito mais do que a minha pele. Anos de confiança foram jogados no lixo, reduziram-se a um emaranhado de mentiras e mal caratismo disfarçados de uma personalidade desprezível.
— Não me orgulho disso, só quero esquecer essa merda. — Alcancei a garrafa de whiskey quase vazia e fiz menção de bebê-la, no entanto, uma mão decidida e veloz a tirou do meu domínio.
Franzi o cenho e encarei o responsável por tal ato pronto para lhe direcionar uma objeção nada amistosa.
— Beleza, chega. O álcool não é um bom conselheiro em momentos de crise. E jogue esse cigarro fora antes que eu morra sufocado.
Arqueei uma sobrancelha, sem mover um músculo.
— Mas que diabos…?
— Não foi um pedido, . Caralho, olhe para você! Eu sei que as coisas estão difíceis, mas desenvolver cirrose ou câncer no pulmão também não vai ajudar. O que está rolando, cara?!
Respirei fundo e apaguei o cigarro no cinzeiro, largando-o sobre os resíduos queimados. Esfreguei o rosto como se o gesto pudesse amenizar meu atordoamento, buscando também centralizar meu raciocínio bagunçado.
Para quem estava acostumado a manter a vida e os sentimentos trancafiados, ter as fragilidades reveladas tão abertamente era um martírio.
— Eu estou cansado, irmão. Estou exausto. Me dei conta de que sou um bosta. Um amigo bosta, um filho bosta, um profissional bosta… um… namorado bosta. — Expus meio a contragosto, sabendo que nem sequer fui capaz de oficializar algo com .
Paolo contorceu a face, parecendo entrar em um consenso consigo mesmo a respeito de meu estado deplorável.
— Wow… não é para tanto! Você é um puta advogado renomado e é uma das pessoas mais íntegras que eu conheço, . Somos amigos há anos. Éramos apenas dois moleques quando você segurou minha barra na pior crise financeira da minha família, passamos por várias coisas juntos. O que eu conheço não se auto deprecia desse jeito, que porra é essa?
Permaneci calado durante alguns segundos com a cabeça a ponto de explodir.
Apoiei os cotovelos na perna e cobri meu rosto com as palmas das mãos, esgotado como jamais estive. Ter os horizontes limitados por possibilidades obscuras me impedia de vislumbrar qualquer centelha de luz que fosse.
— Não é tão simples, Herzog. Passei tanto tempo imerso na minha bolha de verdades absolutas que não levei em conta o ponto de vista das outras pessoas. Fui um egoísta de merda.
— Qual é, irmão. E quem não dá uma dessas de vez em quando? Você cobra de si uma perfeição inexistente. Pode ser que certas atitudes suas não tenham sido tão corretas, mas e daí? Pelo menos sua ficha caiu. O homem de lata tem um coração, afinal. — Meu amigo debochou, fazendo-me emitir um breve riso seco. — Ao que tudo indica, você e não se encontram em bons termos, não é?
— Ela pediu para que nos afastássemos. Não a culpo.
— O quê?! Sinto muito, cara. A garota gosta de você, logo, logo vocês se acertam.
Ri sem humor e maneei a cabeça em negação.
— Não tenho tanta certeza disso, entretanto, darei o tempo que ela merece e precisa.
— Eu não sou muito expert nessa área do coração, mas acho que, às vezes, gostar também é ficar longe. Dar espaço é fundamental, Romeu. Para tudo se tem um jeito, relaxa. — Ergui o cenho ante a súbita onda de inspiração de Paolo, o qual riu e deu de ombros. — O quê? Eu não sou um insensível. Tenho os meus momentos.
— Percebe-se. — Determinei após acompanhá-lo em seu riso. — Qual é o evento por trás dessa produção?
Meu amigo remexeu-se, inquieto, exibindo um sorriso ladino cujo significado era óbvio para quem o conhecia como eu.
— Um bon vivant jamais revela os seus passos, meu caro .
Ri e concordei, iniciando outro tópico que não fosse a espiral infernal sucedida em minha vida.
Falar com Paolo geralmente trazia a leveza que toda relação de amizade deveria ter. Desde moleques compartilhávamos uma parceria singular independente de nossas personalidades absolutamente distintas, e apesar de ser um merda para demonstrar, eu era completamente grato pela irmandade partilhada por nós.

(...)

— Essa sessão programa da Oprah foi muito bacana, porém, a vida me chama. — Paolo declarou após jogarmos conversa fora por mais algum tempo.
Ele levantou-se e eu fiz o mesmo, praguejando mentalmente os resultados da bebida destilada em meu organismo.
— Bom divertimento, Herzog. — Falei, depositando leves tapas em suas costas.
— Valeu, irmão. Trate de se recompor, ou quem vai lhe dar umas porradas sou eu. — Ameaçou assim que nos soltamos do meio abraço.
Ensaiei um riso débil e assenti.
— Ei, cara. — Chamei, vendo meu amigo descontinuar seus passos e se virar. — Obrigado.
— Não agradeça, . Quando sua fossa passar você vai me pagar uma garrafa de Stoli Elit.
— Fechado.
Assisti-o se retirar do apartamento e segui escada acima, notando meu corpo implorar por um banho e descanso.
Entrei em meu quarto sem me surpreender diante da cena vista, pressentindo o trabalho que eu teria para tirar Bento do meio do colchão onde jazia adormecido, esparramado como se a cama lhe pertencesse.
Ri internamente e me desloquei rumo ao banheiro, enfiando-me sob o jato de água quente à medida que desfrutava da restrição sensorial propiciada pela calmaria do momento.
O peso dos meus pensamentos não era maior do que o peso instaurado em meu peito, tornando perceptível a impressão de risco iminente em todo e qualquer movimento realizado por mim.
Ações perigosas são precedidas de silêncios aterradores. Eu já não sabia se manter o meu permanecia sendo o melhor a ser feito naquelas circunstâncias.

**


Cigarro em uma das mãos, uma xícara de café em outra. Componentes que, para mim, eram como calmantes. O aroma matutino misturava-se com o primeiro fumo do dia, cuja fumaça eu expelia calmamente enquanto sentia o cheiro agradável da cafeína se espalhar por todo o ambiente, incrementando meu ritual de todas as manhãs.
Contemplei a paisagem da cobertura e caminhei até o parapeito do terraço, debruçando-me ali a fim de estudar o panorama matizado de cinza e azul, onde os raios solares escondidos entre as nuvens pareciam lutar por um espaço em meio a cortina de névoa.
Ingeri um longo gole do líquido fumegante e desci meus olhos para a rua já movimentada, acompanhando a pequenez dos transeuntes que, diferentemente de mim, possuíam uma perspectiva para aquele domingo parcialmente ensolarado.
A apatia existencial oriunda de uma realidade complexa exercia, com louvor, o seu papel de me paralisar ante as minhas próprias angústias.
Espremido em uma solidão da qual eu mesmo havia me colocado, pude enfim experimentar a miséria de ser oprimido pelo dinheiro, pela ânsia de controle e de poder. Dedicar-me a tecer um caminho diferente daquele percorrido por meu pai servira somente para me prender na teia que eu tanto procurei me desvencilhar.
A fruta realmente não cai tão longe do pé, afinal de contas.
Esbocei um riso seco e traguei meu último cigarro, voltando à parte interna do apartamento tomado pelo estado de letargia que não me permitia sentir nada além de um desânimo profundo.
Peguei meu celular anteriormente deixado sobre a mesinha da sala e franzi o cenho ao me deparar com duas chamadas perdidas exibidas ali.
Receber ligações de minha mãe não era algo comum.
Retornei o telefonema de imediato, receando alguma possível notícia ruim acerca de sua saúde debilitada.
? Por onde esteve? Estou tentando falar com você há horas! — A voz imperiosa soou dominante como lhe era habitual, demonstrando que nada havia de errado com a mulher do outro lado da linha.
Massageei as têmporas e respirei fundo, prevendo a dor de cabeça que estava por vir assim que uma incômoda pontada se alastrou pelo local.
— Bom dia, mãe. Estava dormindo, deixei meu celular no silencioso. Aconteceu alguma coisa?
— Não posso desejar saber como meu filho está? — Questionou ela, fazendo uso de um tom estranhamente condescendente.
— Está tudo bem, e você? Tem tomado a medicação da maneira que o doutor Finkler receitou?
— Evidente que sim, não se preocupe. Liguei para pedir que venha até aqui. Sei que anda atarefado, mas você ainda é um , . Sua ausência tem se tornado recorrente.
Fechei os olhos e friccionei a dimensão entre minhas sobrancelhas com os dedos, descontente quanto às considerações verbalizadas por ela, mas compreensivo perante sua conduta lamuriosa. Afastar-se do trabalho certamente a estava deixando instável.
— Desculpe, estou com muita coisa na cabeça.
— Entendo, filho. Venha para o almoço e conversaremos, sim?
— Certo. Tem certeza de que não há nada errado? — Insisti, ainda ressabiado em virtude de seu ânimo repentino e sua urgência em me ver.
— Claro que sim, querido.
Assenti, ainda que ela não pudesse enxergar.
— Me dê alguns minutos, daqui a pouco estarei aí.
— Perfeito. Vou ordenar agora mesmo para que preparem um cardápio especial. Não demore. — Falou, explicitando o temperamento incomumente vibrante dissimulado pelo timbre comedido.
Concordei e finalizei a chamada, encarando a fileira de pastas e papéis exibida na estante repleta de documentos a serem estudados. Tal tarefa teria de ficar para depois.
— Você ainda tem meia hora para dormir, amigão. Vamos passear. — Informei ao Pastor Alemão espalhado no sofá.
Bastou que a palavra mágica fosse proferida para o cão erguer as sobrancelhas e ajeitar a postura, magicamente desperto do sono de minutos atrás. Ri fraco e lhe acariciei a área superior da cabeça, recebendo uma bela lambida no rosto como validação àquele contato físico praticado por mim. Não aguentei e gargalhei alto, desviando de sua efusividade à medida que ele tentava alcançar minha bochecha.
— Beleza, beleza. Já entendi que você gostou da ideia, só espere até que eu tome um banho. Você precisa fazer o mesmo, a propósito. — Avaliei, efetuando uma última carícia atrás de suas orelhas antes de subir as escadas e me direcionar ao meu quarto.
Tomei uma ducha rápida e me vesti, sendo escoltado por um Bento eufórico que decerto não via a hora de sair de casa. Coloquei-o na coleira, peguei meus pertences junto a chave do carro e saí acompanhado do cão saltitante, o qual acomodou-se em seu lugar no banco de trás tal como um raio.
Só sabemos a importância da liberdade a partir do momento em que a perdemos, e foi ali, no caminho rumo à casa de meus pais, que percebi quão comprometida minha autonomia se encontrava. Meu direito de ir e vir havia se limitado a olhares tensos direcionados às ruas, seguranças em meu encalço e sinais de alerta diante de toda e qualquer movimentação incomum ocorrida ao meu redor.
Dentre os vários fatores desencadeantes do estresse emocional que há muito fazia parte dos meus dias, o medo era, inquestionavelmente, o pior deles.
Nunca precisei conviver com temor, seja ele qual fosse. Jamais experimentei nenhum tipo de amedrontamento e sempre controlei os anseios que eventualmente cruzavam meu destino cuja sina eu já sabia de cor, entretanto, tais crenças predeterminadas foram substituídas pelo vazio da incerteza.
E eu absolutamente detestava estar encurralado em um território tão desconhecido.
Verifiquei a rua pelo retrovisor e virei a esquina, tornando a inspecionar o vidro frontal enquanto era acometido por uma estranha sensação de desconfiança perante a movimentação na estrada.
O sexto sentido incumbido de me deixar sobreavisado intensificou-se abruptamente, levando-me a questionar se tamanha desconfiança correspondia à intuição ou resumia-se a uma mera mania de perseguição.
Cruzei a via pública e intercalei olhares entre os espelhos do carro e a estrada, sentindo meus músculos enrijecerem e minhas mãos suarem ao notar a presença constante de uma caminhonete preta atrás de mim.
Resetei a postura, puxei um pouco de ar e expirei, esforçando-me para colocar minhas emoções no eixo.
Situação de merda.
Uma sucessão de incômodos internos assolaram meu corpo, e por mais que eu buscasse controlá-los, os estímulos primitivos e irracionais simplesmente não obedeciam às minhas intenções.
Meu cérebro enviou comandos imediatos para que eu acelerasse o carro, alterasse o trajeto, sumisse daquela rota o mais rápido possível, contudo, antes mesmo de eu resolver dar ouvidos àquela intuição repentina, avistei a caminhonete ocupar a faixa ao lado da minha, ficando próxima o suficiente para que eu identificasse seu condutor.
Alheio à análise a qual era submetido, um senhor de idade ocupava o interior do veículo parecendo se preocupar apenas com a música que tocava nos fones que usava, ultrapassando-me tão rapidamente quanto se aproximara.
— Mas que porra…? — Protestei no instante em que o assisti adentrar em um bairro residencial, consequentemente destruindo a paranoia na qual eu havia me inserido naqueles poucos minutos.
Dei um longo suspiro e neguei com a cabeça, vagueando entre a irritação comigo mesmo, e o alívio por tudo não ter passado de um devaneio mal arquitetado criado pela minha mente caótica.
Embrenhei uma mão em meus cabelos e transpassei-a por ali na tentativa de voltar ao prumo, retornando ao percurso previamente planejado à medida que sentia minha adrenalina baixar.
Minutos depois a fachada do condomínio fez-se visível, assim como o Pastor Alemão agora devidamente acordado, que iniciou uma festa do banco traseiro no instante em que avistou o descampado onde costumava correr e sujar-se diariamente.
— Aproveite, carinha, pois amanhã você vai tirar essa sujeira. — Avisei, logo percebendo que havia um carro familiar estacionado na garagem.
De repente, tudo fez sentido.
Soltei Bento no gramado e me dirigi ao hall de entrada destituído de movimentação, embora pudesse ouvir indícios de longínquas conversas paralelas vindas de algum cômodo relativamente próximo.
— Bom dia, senhor . — Uma voz feminina soou às minhas costas, fazendo-me virar no ato.
— Bom dia, Judith. Como vai? — Perguntei à senhora de meia-idade, a qual exprimiu o usual sorriso terno que sempre lhe fora característico.
— Muito bem e o senhor? Sua mãe está à sua espera na sala de estar.
— Estou bem, obrigado. Não se incomode em me acompanhar, você parece ocupada. — Disse, avaliando seu avental sujo de farinha e repleto de manchas avermelhadas das quais julguei se tratarem de geleia.
A mulher riu e praticou uma rápida inspeção em si mesma.
— Oh, sim. Estou ajudando a preparar cupcakes, não vá embora antes que eu lhe dê um pouco deles. Sei que gosta bastante.
Meu coração bombeou tão velozmente quanto o olhar que lancei até a extensão de acesso à cozinha, completamente levado pelos meus atos puramente automáticos. Analisei o corredor o quanto pude, como se a energia aplicada àquela observação fosse atrair quem eu ansiava ver, ainda que somente para admirá-la de longe.
Nada ocorreu, no entanto.
Voltei meus olhos à mulher parada adiante e encontrei uma espécie de compadecimento expresso em seu rosto, uma compaixão implícita que não deixava dúvidas acerca de seu conhecimento com relação ao foco de meu interesse.
— Se me permite dizer, senhor… Ela não está. — Avisou, cuidadosa.
Não sabia se Judith havia pegado alguma coisa no ar, ou se toda a situação estava óbvia demais, contudo, não me importei, sequer me surpreendi. Eu já não fazia questão de esconder.
Limitei-me a curvar o canto dos lábios e sorrir fraco, não externando nada além de um conformismo desconsolado.
— Oh, finalmente, ! Não o ouvi chegar, por que não me comunicou, Judith? — O tom crítico vindo de minha mãe repercutiu através das dependências do hall.
A senhora visivelmente desconcertada arregalou os olhos e me fitou espantada. Gesticulei para que ela se acalmasse e me virei para a elegante mulher, a qual caminhava ao nosso encontro por meio de passos firmes.
— Fui eu quem a pediu para não fazê-lo, acabei de chegar. — Esclareci, depositando um breve beijo no topo de sua cabeça.
Minha mãe encarou Judith sem muita confiança, entretanto, apenas assentiu.
— Pode se retirar. Diga à que o almoço deverá ser servido até o meio dia. — Ordenou. inflexível.
— Sim senhora. Com licença. — Respondeu ela prontamente, logo sumindo porta adentro.
— Você podia ser um pouco mais amistosa, não acha?
— Sabe bem que a liberdade dá aval para a libertinagem, mas não vamos nos aborrecer por coisas irrelevantes, pois temos visita! — Meu braço foi enlaçado com uma disposição quase infantil ao passo que cruzávamos o comprido percurso de acesso à sala de estar.
Não tive escolha senão me abster de repreendê-la perante à primeira sentença de seu discurso, uma vez que tal oportunidade fora interrompida logo que a mulher abriu a porta com empolgação, olhando-me envaidecida enquanto intercalava o feito entre mim e a figura sentada no sofá.
A dona do Audi branco desviou os olhos da janela e os aterrissou em nós, piscando-os aparentemente confusa ao se dar conta de minha presença no recinto.
— Olhe só quem veio me ver, filho! Não é uma bela coincidência? — Minha mãe interrogou demasiadamente empolgada.
Era nítido o fato de não haver coincidência alguma naquele cenário obviamente orquestrado por ela, justificando por si só sua urgência para o meu comparecimento desprovido de qualquer causalidade, dado o contexto do acontecimento como um todo.
— Oi, Cass. Bom te ver. — Pronunciei, procurando quebrar o clima esquisito instalado no ar.
Cassie pousou a xícara de porcelana sobre o seu colo e exibiu um sorriso fechado, maneando a cabeça em cumprimento.
— Igualmente.
— Venha, querido. Sente-se. Ajude-me a convencê-la a ficar para o almoço, até agora não obtive êxito em minhas tentativas. — Ainda com o braço enlaçado ao meu, a mulher guiou-me à superfície desocupada do sofá, ao lado dela e de frente para a minha ex-namorada, que parecia tão perdida quanto eu.
A atitude de minha mãe em nada me agradou. Sentia-me desrespeitado e de certa forma coagido, preso àquele princípio de constrangimento que poderia ter sido evitado caso ela possuísse o mínimo de sensatez em seus propósitos.
Eu sabia exatamente o que ela pretendia.
— Sinto muito, Kyara. Gostaria de ficar, mas…
— Hoje é domingo, meu bem. Sinto tanta falta de quando esta casa era habitada, especialmente quando você passava os finais de semana aqui... — Comentou naturalmente, adotando uma postura serena a fim de mascarar a veracidade por trás da frase dita.
Meus olhos instantaneamente fixaram-se em minha genitora.
Os de Cassie resvalaram o chão.
O meu descontentamento para com sua falta de limites era explícito. O que aparentava ser uma simples observação inocente era, na realidade, uma indireta para mim.
— Mãe. — Recriminei-a entredentes.
Sua feição não se alterou.
— Perdoe-me, querido. Não tive a intenção embaraçar vocês dois, fiz somente um comentário. Não há muito sobre o que ser abordado quando não se pode sair de casa, relembrar bons momentos tende a me deixar feliz. — Descansou as mãos por cima das minhas e contemplou-me zelosa, alternando o gesto na direção de Cassie.
Alguma coisa na expressão de minha mãe manifestava uma essência esperançosa, emocional de forma raramente vista.
— Torço para que você possa retomar suas atividades em breve. Mamãe mandou lembranças, prometeu vir lhe ver após o lançamento da nova coleção. — Cassie se antecipou na singela mudança de assunto, captando para si atenção da mulher.
Nos entreolhamos por uma fração de segundos, num acordo mútuo e subentendido de que distraí-la com outros temas era o melhor a ser feito.
Motivada sob a questão trazida pela minha ex-namorada, a figura ao meu lado não tardou a se entreter em um novo falatório desenfreado que não deixava margem para seus comentários inoportunos, apesar de vez ou outra soltar insinuações a respeito do que não lhe dizia respeito.
Mais calado do que participativo, proferi poucas palavras durante a conversação, ocasionalmente interagindo para não acentuar o desconforto inegavelmente hospedado entre mim e Cassie, que conferiu o relógio em seu pulso e levantou-se em seguida.
— Foi um prazer vê-la, Kyara, mas preciso ir.
O semblante de minha mãe esmoreceu. Também ficando de pé, ela alcançou as mãos da ex-nora e as juntou, pesarosa, fitando-a de forma um tanto teatral. Arqueei o cenho diante da cena, observando as ações exageradas da mulher.
— Oh, já, querida?! Realmente não quer nos acompanhar para o almoço?
— Adoraria, porém, teremos que deixar para outro dia. — Cassie lamentou. — Estão me esperando para tirar algumas fotos, não posso me atrasar.
— Sendo assim, está convidada para jantar conosco na semana que vem. Não aceito um não como resposta.
Minha ex-namorada titubeou, resvalando as pupilas indecisas em mim. Inspirei profundamente, sem ter outra atitude senão retribuir seu olhar, demonstrando que me encontrava igualmente pouco à vontade em face da inconveniência a qual fomos submetidos.
Eu nem mesmo sabia da existência do dito jantar.
— Agradeço imensamente pelo convite, Kyara. Confirmarei minha presença ainda essa semana, tudo bem? — Respondeu, voltando-se à figura que mantinha as palmas envoltas às dela.
Mais do que envergonhado, eu estava farto de ter meu espaço desrespeitado de forma tão evidente, como se não possuísse autoridade acerca de minha própria vida.
— Magnífico, meu bem. Espero que compareça, seus pais também estão convidados. — Intimou, sorrindo envaidecida. — , acompanhe-a até a porta.
— Não precis…
— Tudo bem, Cass. — Afirmei. Não havia motivos para agir com indelicadeza, considerando que ela nada tinha a ver com aquilo.
Cassie pareceu hesitar a princípio, entretanto, cedeu. Despediu-se de minha mãe e pôs-se a andar comigo, os saltos produzindo o único ruído audível no interior do corredor extenso.
— Como anda o projeto no abrigo? Você não costuma trabalhar aos domingos. — Disse, dando um fim no persistente silêncio entre nós.
— Não costumava. A festa beneficente acontecerá no sábado, me encarreguei de registrar tudo. — Esclareceu. — Imagino que você participará, já que se mostrou bem interessado quando lhe encontrei lá.
Calei-me momentaneamente.
A informação relatada por ela era uma novidade. Ponderei em virtude dos pormenores implicados à questão, não tendo a mínima noção se minha presença na festa seria aceita de bom grado.
— Não sei, talvez. — Confessei. Cassie me encarou com o cenho franzido, mas não emitiu comentário algum.
— Eu não fazia ideia de que você estaria aqui, só para deixar claro. Soube do que houve com sua mãe, vim somente visitá-la. — Mencionou ao chegarmos na garagem.
Neguei com a cabeça e a fitei, sério.
— Conheço minha mãe, Cass. Isso foi obra exclusivamente dela. Desculpe-me por todo esse constrangimento.
Ela soltou um riso anasalado.
— Kyara fora uma sogra excepcional, porém, devo admitir que tanta afeição me pegou de surpresa. Ela está relutante para aceitar nosso término porque me adora mais do que eu imaginava, ou porque não aprova sua relação com ? — Indagou direta.
Sustentei minha fisionomia fechada, inexpressiva.
Meus olhos desconectaram-se dos de Cassie e vaguearam ociosos através do pátio, raciocinando quais palavras e ações adotar mediante àquela inquisição.
e eu não estamos juntos. — Revelei, recobrando nossa conexão visual. — E meu pai é o único que sabe sobre nós.
O rosto dela contorceu-se em espanto.
Um riso sarcástico se desenhou em sua boca, de forma que evidenciasse a incredulidade contida no ato.
— Está brincando, não está? Depois de tanto drama, ?!
Suspirei, negando com a cabeça.
— Não, Cassie. Não estou. — Assumi sem emoção, enfiando as mãos no bolso da calça.
Uma momentânea ausência de fala instalou-se ali.
A feição estarrecida junto às sobrancelhas erguidas se manteve assim ao longo de bons minutos, alterando-se para o seu estado normal depois que a mulher inspirou e penteou os cabelos com os dedos, exatamente do jeito que fazia quando finalizava uma determinada reflexão.
— Éramos amigos antes de sermos namorados. Torço pela sua felicidade, seja como for. — Assegurou, dando de ombros, causando-me uma leve surpresa em razão da confissão não esperada.
Concordei, reparando que uma nova atmosfera nos circundava.
Sem a pressão de ninguém, livres de exposições absurdas e despropositadas, pudemos quebrar nossa redoma de vidro.
Pela primeira vez, não existia nenhum tipo de tensão no ar.
— Obrigado, Cass. É recíproco.
Fui submetido a uma profunda análise. Ela me estudou como se, ao fazê-lo, conseguisse investigar a própria memória, aparentando recapitular uma sequência de cenas e lembranças enquanto fixava as írises nas minhas.
— Eu odiava a sua teimosia na época em que namorávamos, irei detestá-la ainda mais caso você tenha decidido abandoná-la justo agora, honestamente. — Arqueei a sobrancelha sem entender. — Não passei raiva à toa. Você é insuportavelmente teimoso, , portanto, se começou a fazer algo em prol de si mesmo, termine. — Dito isso, Cassie avançou um passo e largou um beijo estalado em meu rosto, afastando-se tão repentinamente quanto o gesto recém realizado.
Pensativo, assisti minha ex-namorada marchar até o Audi Branco e adentrar nele com agilidade, colocando-o para funcionar e desaparecendo além das dependências da residência.
Eu, todavia, continuei estacionado no local, imerso nas palavras dela. Pararia para dissecar seu conselho num momento posterior.
Não tardei a me deslocar dali, realizando o caminho de volta à sala de estar, onde minha mãe jazia despreocupadamente sentada.
— Você poderia me explicar o que foi tudo aquilo? — A pergunta saíra num rompante ultrajado.
O questionamento pareceu não afetá-la.
Dotada de uma tranquilidade robótica, girou o tronco superficialmente e me olhou desentendida, um fingimento claro que ela não fazia questão de dissimular.
— A quê está se referindo, querido?
Um riso seco rasgou minha garganta. Balancei a cabeça de um lado para o outro e cerrei as pálpebras em sua direção.
— Seu fingimento é dispensável, mãe. Você sabe o que fez.
— Só quero sua felicidade, não fiz nada demais.
— Forçar uma situação não é nada demais para você? — Rebati, inconformado.
Fomos interrompidos por sutis batidas na porta.
Cessamos nosso diálogo acalorado e, depois de uma rápida espera, a peça de madeira se abriu, revelando o perfil de pela fresta.
— Com licença, senhora . O almoço está pronto e já será servido.
Minha mãe assentiu e me dirigiu um olhar sugestivo, pondo-se a andar para fora do cômodo levando consigo sua refutação descontinuada. A refeição seria indigesta.
Saímos da sala, para a sala de jantar, a qual encontrava-se impecavelmente arrumada, adornada com utensílios culinários situados cada qual em seus devidos lugares.
Meu olfato aprovou o cheiro agradável vindo da cozinha, e apesar de estar ciente de que não despontaria dali, foi inevitável desejar que ela o fizesse.
Sentamo-nos à mesa na mais intensa quietude. O rastro da conversa não finalizada contorcia minha jugular, sufocando-me pelas palavras não ditas e descontentamentos não verbalizados.
— Desfaça essa carranca, . Há algo de errado em desejar que meu filho se case com uma mulher de classe? — O tom aveludado ecoou cheio de vaidade.
Eu desejava discutir a natureza de seu comportamento inadequado, todavia, isso implicaria em ouvir argumentos tão inadequados quanto. Era o preço a se pagar.
— Não comece com esse discurso problemático. Cassie e eu terminamos há tempos e você a constrangeu ao armar esse encontro. — Apontei, aborrecido.
— Não seja exagerado. Em toda relação há impasses, como você acha que casamentos duram tanto tempo? — Retrucou sem se dar o trabalho de me olhar, desdobrando o guardanapo e pousando-o sobre o seu colo.
— Quando ambos desejam estar juntos, o que não é o caso. Eu gostaria que você respeitasse o meu término, pois não existe possibilidade de volta.
Ela por fim subiu as írises expressivas e as alinhou nas minhas.
— Está saindo com alguém? É por este motivo?
— O motivo é que não devo explicações sobre minha vida pessoal, mãe.
— Meu instinto materno não erra e sua expressão não lhe deixa mentir. Quem é a moça? É filha de alguém conhecido?
A abertura da cozinha foi afastada. surgiu acompanhada de Judith, ambas empurrando o carrinho térmico com prudência.
Minha mãe lançou-me um aviso visual para que eu cessasse a comunicação.
Curvei o supercílio e resvalei os olhos na mãe de .
Foda-se.
Eu faria justamente o contrário.
— Estou sim apaixonado por alguém, se é realmente isso o que quer saber. E ela é incrível. — Os orbes da mulher à minha frente saltaram tamanha perplexidade. Cravei minha atenção em , que tinha uma diminuta ruga formada no meio da testa conforme nos rondava com diligência e servia os pratos. Sua fisionomia levemente desconcertada validava minhas intenções. Ela havia entendido. — Se torce tanto por minha felicidade, pare de insistir em tentar controlar minha vida e aceite o que já foi. Não irei me estender neste assunto. — Findei, decidido.
enfim me contemplou, ainda que por alguns segundos. Concluiu a função desempenhada ali e murmurou um “com licença”, retirando-se do recinto na companhia de Judith.
Minha mãe me repreendeu com o olhar. A ausência de expressão somada à avaliação que mais se assemelhava a um juízo de sentença me dizia que suas perguntas obtinham uma finalidade específica.
— Não amava seu pai quando me casei com ele, acredito que era recíproco. — Disse após manter-se quieta e reflexiva. — A princípio, o matrimônio visava a união das fortunas, no entanto, construímos nosso vínculo a partir da convivência. O amor fora uma consequência. Reflita a respeito, filho. Olhe a sua volta... a vida não é amena e açucarada.
Não olhei, não me movi.
Resumi minhas ações a um efêmero balançar de cabeça.
— Meus dias não serão ditados por um viés de natureza negocial, sendo assim, creio que terei de quebrar este padrão. Não quero ser o tipo de marido que deixa a esposa sozinha em pleno domingo.
Ela suspirou.
Me encarou por cima do nariz e bebericou a água contida em sua taça, colocando-a sobre a mesa logo após.
— Seu pai foi se encontrar com Russell. Ele o convidou para almoçar.
— O Privost? Pai de Cassie?
— Sim. Sabe que eles têm negócios juntos.
Arqueei a sobrancelha, contudo, preferi renunciar ao conflito. Prolongar tais controvérsias só serviria para me desgastar.
Houve um longo silêncio.
O barulho dos talheres tilintando nos pratos foi o único som audível por incontáveis minutos.
Hora ou outra um novo tópico era trazido à tona por minha mãe. Conversamos a respeito de sua saúde e de como ela sentia falta de exercer sua profissão; mudamos o foco para as pautas jornalísticas do dia, opinamos acerca de amenidades e voltamos ao silêncio novamente.
Eu já havia me acostumado a fazer vista grossa quanto aos embates criados por ela, detalhe que não tornava as coisas menos intragáveis.

(...)

— Está certa de que se sente bem para dar um jantar? — Questionei, preocupado, fitando minha mãe de esguelha.
A incidência do sol no entardecer resplandecia o deck localizado na área externa. Soprei o fumo do meu cigarro tranquilamente, encostado na parede e atento ao agitado Pastor Alemão que corria pelo descampado.
A mulher descansou a xícara de chá fumegante no pires e afirmou.
— Me sinto esplêndida, quero solenizar minha recuperação. Doutor Finkler levantou a hipótese de dispensar a cirurgia, desde que eu fique longe de estresse. Penso que seja cabível uma comemoração neste caso.
— Fico feliz, é uma notícia ótima. — Confirmei, tragando mais fumaça e sensibilizando a parte de mim que só relaxava sob efeito de nicotina.
— Você deveria parar com essas porcarias, . — Advertiu, destinando um olhar crítico para o tabaco em minhas mãos. Repuxei o canto dos lábios e joguei a bituca no cinzeiro ao meu lado. — Essa tal garota que você mencionou…
Encarei-a seriamente, sendo o bastante para impedi-la de prosseguir. Sua visão se estreitou ao passo que me examinava de forma minuciosa.
Eu desejava poder lhe contar a verdade. Eu poderia lhe mostrar que algo havia despertado dentro de mim, e que era bom. Era confortante, mesmo em meio a tanto caos.
Lamentavelmente, no momento atual, não existia nada a ser confessado. Meus sentimentos eram só meus.
Porra, como eu queria que as coisas fossem diferentes.
Suspirei baixo e me desencostei da divisória de vidro, rompendo as lamúrias mentais das quais faziam eu me sentir alguém medíocre. Um puta de um fraco.
— Bento! — Chamei pelo cão enérgico que virou a cabeça bruscamente ao ouvir meus comandos.
— Não vá agora, filho. Fique mais um pouco.
— Tenho alguns processos para analisar, amanhã será um dia cheio no escritório. — Aleguei, batendo na minha perna a fim de reafirmar a ordem feita ao Pastor Alemão, o qual disparou em meu encontro quase tropeçando nas próprias patas.
— Está se preparando para o julgamento?
O julgamento.
A mera alusão ao caso desencadeou o aumento dos meus batimentos cardíacos, sintoma interno correspondente à perturbação ligada a ele. Pude sentir minha expressão endurecer, não obstante a tentativa de passar neutralidade perante a pergunta de minha mãe.
Assenti sob a inspeção meticulosa da mulher.
— Tudo irá correr bem, sabe que nunca perco. — Garanti. A segurança transmitida pela frase sugeria um equilíbrio que eu não possuía. — Nos vemos no jantar, cuide-se e me ligue se precisar de alguma coisa. — Falei, dando-lhe um ligeiro beijo na testa.
— Cuide-se também, e … — Suspendi meus passos e me virei. — Tente não se expor demais por aí. Ter a imagem tão explorada em um caso com cobertura midiática pode atrapalhar.
Fiquei inerte, impedido de responder à sua recomendação certeira e pertinente dada às circunstâncias.
A imprensa não era a maior das minhas preocupações no momento, de qualquer modo.
Ofereci-lhe um aceno de cabeça e tornei a andar, tendo plena convicção de que era espionado pelas costas.
— Senhor ! — Fui interrompido outra vez.
Judith apareceu de supetão pelo interior de um dos corredores da residência, sacudindo uma mão alvoroçada no ar enquanto limpava a outra no avental amarrado em sua cintura.
— Sim?
— Os cupcakes! — Exclamou, agitada.
Meus lábios curvaram-se num sorriso polido e relativamente divertido.
— É verdade, havia me esquecido.
— Espere só um instante, irei pegá-los para você. — Declarou ela, debandando-se depressa até a cozinha.
Acatei seu pedido e lhe aguardei ali, no centro da passagem tomada por diversas portas, notando um som contínuo e sussurrante vindo de dentro de uma delas.

“— (...) O pior já passou, consegui me virar (...) guarde essas lamentações, por favor (...) estou no trabalho, irei desligar.”

E nada mais fora dito.
Contraí a testa em confusão, sem assimilar direito o que diabos significara aquilo. Encarei a abertura do cômodo por onde imaginei ter ouvido o projeto de conversa, e por onde, para o meu completo espanto, saiu, carregando consigo uma bandeja vazia e um semblante pálido.
Não demorou para que ela se deparasse comigo à sua frente.
O tabuleiro de metal foi ao chão, fazendo o estrondo agudo retumbar por toda a extensão do corredor, trilha sonora da qual combinava perfeitamente com o pavor no rosto da mulher, que me olhava como se eu fosse a personificação de seus piores pesadelos.
Abaixei-me e peguei o objeto caído.
perdurou em seu estado petrificado, abriu e fechou a boca no esforço de proferir algo, mas desistiu.
Levantei uma sobrancelha e a medi, ressabiado.
? Está tudo bem?
Ela movimentou as pálpebras e as cerrou como quem subitamente desperta de um transe, pegando a bandeja suspensa em sua direção.
— S-sim, tudo. Só me assustei. — Elucidou, mostrando um sorriso engessado que simbolizava o oposto. — Precisa de alguma coisa, senhor ?
Minha feição de insatisfação foi contida pela respiração pesada que me escapou da boca. A regra de etiqueta imposta em seu tratamento para comigo era quase ofensiva.
— Não, . Obrigado. Estou apenas esperando Judith.
Ela concordou e fez menção de se retirar, contudo, não o fez.
Fui observado com precisão, designado ao silencioso julgamento visual da mulher. Minhas sobrancelhas uniram-se num franzir de testa.
Meu contato com sempre fora limitado, indo de oposição à relação de proximidade a qual eu partilhava com os demais funcionários da residência, possivelmente pelo fato de seu trabalho resumir-se quase totalmente à cozinha.
Eu a admirava, e tal disposição emocional não estava atrelada ao meu envolvimento com . A garra de no cotidiano, na maneira como cumpria seus afazeres e criara a filha, mesmo após o falecimento do marido e a perda do pouco que tinha, era de se reverenciar.
Baseado na falta de interação direta entre nós e em sua personalidade habitualmente retraída, eu podia afirmar que havia uma explicação plausível para aquela súbita atitude de me encarar tão abertamente, explicação essa que eu imaginava qual era.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — A duradoura escassez de comunicação se rompeu, comprovando minha dedução anterior. Sinalizei para ela seguir adiante. — O que o senhor disse há pouco tem a ver com a ?
Como previsto, sua inquisição não me surpreendeu.
Assenti simplesmente, conservando o aspecto de seriedade em meu rosto.
— Não precisa me tratar com tamanha formalidade. — Pedi, distendendo um diminuto sorriso nos lábios. — E sim, tem.
A mulher inalou o ar e o expeliu intensamente.
… você conhece os seus pais, sabe a vida que leva. Não vou interferir nessa história, mas eu sou mãe. A última coisa que desejo é ver minha filha sofrer.
— Jamais faria algo que a prejudicasse ou prejudicasse vocês duas. Não estamos juntos no momento, no entanto, isso não altera o que eu sinto. é importante para mim, . Muito. — Entoei, firme.
Nenhuma contestação foi feita.
Era no mínimo estranho abrir o jogo assim, sem delongas, entretanto, ser congruente com meus sentimentos trazia o alívio que só a verdade causava. Pro inferno as ponderações das quais eu costumava carregar.
— Desculpe-me pela demora, senhor. Me enrolei com as formas. Aqui estão os cupcakes, caprichou neles! — Judith retornou, entregando-me uma delicada caixa decorada sob os argumentos da talentosa cozinheira, que fez questão de salientar o trabalho em conjunto.
Sorri e lhes agradeci.
— Fiquem de olho na minha mãe e me comuniquem se houver qualquer contratempo, por gentileza.
As duas mulheres moveram a cabeça em compreensão. Despedi-me e parti dali, por fim rumando para fora da moradia onde vivi durante tantos anos, mas que já não abarcava a pessoa que eu havia me tornado em decorrência de tantas transformações.
— Vamos para casa, amigão. — Falei para o Pastor Alemão que me aguardava deitado ao lado do carro.
Pastas de documentos, pilhas de processos a serem estudados e uma garrafa de whisky. Estes seriam os elementos responsáveis por me fazer companhia pelo restante do dia, quiçá da noite.

**


.

O público da Retrô Record’s era seleto e tinha um padrão simples: pessoas adeptas ao sentimento de nostalgia aplicado nos discos de vinil, revistas em quadrinhos e souvenirs colecionáveis, os quais resgatavam memórias dos interessados em reviver o saudosismo do passado.
Naquela tarde de segunda-feira, entretanto, ninguém parecia atraído pelos raros itens da loja, levando em consideração o marasmo impregnado no estabelecimento.
Bufei, entediada e desci a página do classificado online de currículos e vagas de emprego, empenhada em minha busca incessante por um estágio.
— Vivi, olha aqui essa vaga, que absurdo! “Graduação em psicologia com experiência em aplicação, correção e confecção de avaliações psicológicas...” — Enunciei em voz alta. — Eles estão cobrando experiência em um ESTÁGIO! — Esbravejei, rindo sarcasticamente do conteúdo lido.
A resposta do meu amigo não veio.
Olhei para trás e deslizei a cadeira de rodinhas até a figura compenetrada, esticando o pescoço por cima de seus ombros a fim de espiar o que ele estava fazendo.
— Cacete, parece que eu tenho duas cabeças! Quer liberar o meu espaço pessoal, por obséquio? — Vicenzo ralhou e endireitou o corpo.
Por cima do balcão, um caderno inteiramente rabiscado com versos rasurados apresentou-se entre os braços tatuados, incitando ainda mais minha curiosidade.
— Está escrevendo?
— Estou, ou melhor, estava compondo, pois agora perdi a vibe. Você estourou a minha bolha de concentração. — Acusou, esfregando as mãos no rosto e nos cabelos desgrenhados.
Levantei o cenho e o cerrei ao detectar as olheiras profundas debaixo de seus olhos cansados.
— Compondo ou decompondo? Não é de hoje que você anda com essa aparência de morto.
— Faz parte da minha estética, não julgue o meu conceito visual, raio de sol. — Contrapôs, inserindo a caneta atrás das orelhas. Ri e me arrastei de volta ao meu lugar, sendo agora a vez de Vicenzo juntar-se a mim. — E aí, vai querer ajuda para arrumar a decoração da festa?
— Não, faltam apenas as luzes e a finalização das barracas. Trish conseguiu um pessoal para isso. A única coisa que você, meu rockstar preferido, terá de fazer, é ser musicalmente agradável.
— Moleza. A playlist top 50 temas da Disney está pronta. — Gracejou, exibindo seu sorriso de coringa.
A sineta da porta anunciou a chegada de alguém, levando-nos a olhar para frente simultaneamente.
O cliente que atravessou a entrada nos era familiar. Conhecido, eu diria.
— Faaaala, senhor Benitez! — Vicenzo saudou cheio de marra, cumprimentando o homem com um toque de mão esquisito.
Destinei um olhar desorientado ao vocalista, sentindo uma interrogação imaginária se formar bem no meio da minha testa.
— Boa tarde, jovens. — Disse ele, sorrindo atencioso.
— Boa tarde. — Correspondi à sua simpatia, admirada com o porte classudo do indivíduo de cabelos esbranquiçados.
Eu tinha faro para identificar pessoas sofisticadas. Tratava-se única e exclusivamente de conhecimento de causa, um juízo de valor embasado nas minhas vivências como moradora da mansão dos , e a julgar pelo ar requintado que o senhor emanava, meu talento especulativo havia acertado novamente.
Algo nele aludia a um homem de idade rico dos anos quarenta. A calça social larga de cintura alta era vestida com um suéter de gola V, estando este por cima da camisa de colarinho perfeitamente alinhado, a qual escondia uma gravata vermelha, traje de quem é proprietário de um negócio valoroso. Dono de uma fazenda, de uma vinícola ou de um ramo mobiliário, talvez.
— Veio conferir os discos novos? Aquele vinil do Kiss chegou ontem. — Meu amigo comunicou um tanto efusivo, da mesma forma que se fala com quem se tem proximidade.
Apoiei os cotovelos na superfície do móvel comprido e revezei minha atenção entre ambos, alheia à interação amigável sucedida ali.
— Puxa, fico feliz! Vou dar uma olhada nas estantes, obrigado.
— Que intimidade foi essa? — Cochichei, observando o homem passear através dos corredores abarrotados de long-plays.
— Minha personalidade é cativante, eu faço amigos com facilidade, tá’ legal? — Vicenzo respondeu de modo afetado. Pousei uma não na cintura e o fitei satírica, logo ouvindo-o continuar. — Ele veio aqui algumas vezes, mas você não estava. Não sei se é um ritual de idoso, só sei que é sempre daquele jeito. — O vocalista apontou com os olhos, sinalizando para eu seguir a linha de seu olhar. — Ele vem, passa uma meia hora entretido nos discos, conversa comigo e vai embora levando alguma coisa. Um velhinho do rock.
— Não aparenta. Eu chutaria que o gosto musical dele tem mais a ver com Beethoven. — Avaliei, arrancando um riso divertido de Vicenzo.
— Julgando o livro pela capa, senhorita … eu poderia ser fã de música clássica.
O medi da cabeça aos pés, equilibrando o sarcasmo em meu rosto e no canto da minha boca.
— Volte ao trabalho e pare de falar bobagens, seu amigo está vindo.
A figura tatuada se prontificou a atendê-lo, tagarela e fissurado no papo sobre os produtos escolhidos pelo gentil senhor.
— Gosto muito de Juanes, minha mãe ouvia bastante quando eu era pequena. — Relatei sem pretensão no segundo em que vi o CD do cantor sendo embalado.
— Ela deve ser uma mulher de bom gosto. — Benitez consolidou, sorridente. Concordei, replicando sua expressão agradável.
— Prontinho. Agradecemos a preferência. — O vocalista cantarolou, entregando a compra para o mais velho.
— Eu que agradeço. Tenham uma ótima semana.
E então o homem partiu. O tinido do pequeno sino pregado à porta reverberou novamente, melodioso e gradual.
— Será que ele é solitário? — Soprei, apiedada, prendendo meu foco por onde o senhor acabara de passar.
— Parece. Ele perguntou por você um dia desses.
— Como assim? — Questionei, duvidosa.
— Foi em uma das vezes em que ele veio e você não estava. “E a mocinha que também fica aqui?” — Vicenzo imitou modificando seu timbre de voz. — Expliquei que não temos horário definido e ficou por isso mesmo.
A interrogação novamente deu forma no meu rosto. Assenti devagar e contemplei a rua, visível devido ao espaço envidraçado preenchido por revistas e bonecos de edição limitada.
Um comparecimento estranho se alastrou pelo meu peito, fruto da compaixão pelo senhor que se mostrava, ao menos à primeira vista, alguém bondoso.
Mudei minha atividade mental para o computador à frente e afastei tais pensamentos intrusos, dando continuidade à tarefa de passar raiva com os anúncios de estágio enquanto Vicenzo me pentelhava.

**


Depois de semanas a fio organizando e planejando, correndo e lutando contra todos os imprevistos surgidos no caminho, o tão aguardado dia enfim havia chegado. Depois de tanto estresse, nervosismo e expectativa, a efetivação do que anteriormente fora somente um projeto desenhado em um caderno tornou-se concreta, impecavelmente materializada em cada detalhe daquele ambiente embelezado pelo fulgor solar.
Os últimos dias foram, seguramente, os mais difíceis. A dedicação aos detalhes finais do evento embaralhou-se com meu perfeccionismo e o de Trish, cabendo à Magnólia nos acalmar e nos colocar de volta aos eixos, pulso firme que fez jus ao seu título de diretora do abrigo.
Minhas mãos estavam calejadas e levemente ardidas por obra do esforço físico realizado, porém, não eram apenas elas que doíam… todo o meu corpo sentia os resultados da trabalheira diária para concluir os preparativos da festa que mudaria a vida de diversos pequenos.
E eu faria tudo de novo.
Inerte no mesmo lugar já há um bom tempo, eu vislumbrava, maravilhada, o desfecho de uma missão devidamente concluída. Havia uma criança sorridente em cada espaço percorrido, espaço esse povoado por pessoas de todos os tipos. A mobilização comunitária de vizinhos, comerciantes locais, lojas do bairro e afins, criou uma rede de apoio cuja força viabilizou ações das quais eu jamais poderia imaginar.
O terreno do abrigo, que previamente lembrava um campo abandonado, agora parecia um parque de diversões. Máquinas com prêmios, barracas de brincadeiras e barracas de comidas ocupavam os arredores da área; um pula-pula de tamanho avantajado jazia fronteiriço ao pátio, junto a uma piscina de bolinhas e um percurso de corrida. O palco encontrava-se em um quadrante de evidência, devidamente bem montado com equipamentos de luz e sabe-se lá mais o quê, serviço exclusivamente prestado pelo filho do padeiro.
Estava tudo lindo. Tão lindo, tão colorido, tão feliz.
A felicidade não cabia no meu peito. Eu queria explodir, tamanho orgulho de todos ali presentes, que também exalavam contentamento extremo enquanto aproveitavam a festa.
— Planeta terra chamando… — Pisquei, atordoada e olhei para o lado, deparando-me com uma Trish de rosto pintado.
Soltei uma gargalhada alta, analisando o desenho de zebra exposto no seu semblante divertido.
— Você está uma gracinha! Serei eternamente grata por ter conseguido uma maquiadora. — Disse, observando minha amiga e Adrian compenetrados na máquina de prêmios.
— Acha mesmo que a senhorita irá escapar? Vim lhe buscar para isso. — Ameaçou, fazendo-me rir mais intensamente.
— Não dá para te levar a sério assim, desculpe. Dá para acreditar nas proporções que essa festa tomou? Nem parece o mesmo lugar! Tem gente aqui que com certeza nunca pegou um ônibus na vida.
Trish maneou a cabeça em afirmação.
— Será que são conhecidos da Cassie?
Segui a linha de seu olhar e avistei a jornalista conversando com pessoas iguais a ela: bem vestidas, aprumadas e de movimentos refinados. A mera hipótese de Cassie ter contribuído para o aparente sucesso do evento despertou algo bom dentro de mim; um acalento afeiçoado, alegre com a ideia de vê-la envolvida em uma iniciativa para além de seus interesses profissionais.
— Olhando por esse lado… acho que agora sabemos de onde os brinquedos caros vieram. — Ponderei, meio chocada, mas absurdamente contente.
— Ela ajudou muito com a matéria a respeito do abrigo, ganhamos notoriedade. — A mulher avaliou enquanto fitava o grupo adiante. — Mas enfim, não nos matamos durante dias para ficarmos fofocando aqui no canto. Vá pintar essa cara bonitinha antes que o seu amigo e o bando dele resolvam invadir a fila!
Contemplei Vicenzo e os colegas de banda nas barraquinhas de jogos e ri, chegando à conclusão de que eles eram mais crianças do que as próprias. Voltei-me à Trish e lhe ofereci um sorriso esperto, recuando meus passos à medida que a mulher me estudava intimidadora.
— Claro, só vou pegar algo para comer…
— Mentirosa! Crianças, que tal levarmos a para pintar um animalzinho no rosto?
Fitei-a, inconformada e, embalada pelo espírito infantil espalhado na atmosfera, iniciei uma fuga engraçada, sendo perseguida por um bando mirim disposto a me fazer entrar para o clube dos facialmente coloridos.
Percorri a região enquanto gargalhava da cena na qual eu protagonizava, correndo numa disputa acirrada com os pequenos atrás de mim. Desviei de um lado, desviei de outro, acelerei as passadas e dei uma ligeira espiadela sobre os meus ombros na intenção de confirmar se eles haviam desistido, pronta para lhes caçoar da derrota iminente.
Tudo o que eu fiz, porém, foi sentir um baque corpulento me paralisando bruscamente a ponto de ricochetear meu corpo para trás.
Equilibrei-me com o firme auxílio de uma mão em minha cintura, sustentada pela estrutura vítima do encontrão vergonhoso.
— Algumas coisas nunca mudam, não é mesmo?
Aquela voz.
Reassumi a compostura e subi o olhar.
A feição satírica entrou em foco, eu perdi o meu.
O meio sorriso pendido para o lado e o olhar penetrante de fizeram meus nervos brigarem dentro de mim. Minha perna virou gelatina. Eu virei gelatina. Meu coração retumbou tão forte que quase me deixou surda.
— Oi! Desculpe, eu… as crianças estavam correndo e... que surpresa! — Balbuciei completamente embaralhada, querendo me enfiar em um buraco profundo. Parecia que os vocábulos tinham fugido da minha mente como insetos amedrontados.
— Espero que não se importe por eu ter vindo, posso ir embora se você quiser.
Sua hesitação soou errada. Céus, como soou. A remota possibilidade de realmente pensar que eu o expulsaria me despedaçou.
— Não, claro que não. Archie irá gostar de te ver.
Eu havia gostado de vê-lo.
O advogado maneou a cabeça e sorriu.
— Hey, ! Bela festa, hein? — Paolo surgiu no encalço do amigo, guardando as chaves do carro no bolso ao passo que se aproximava.
— Oi! Bom te ver, Paolo! Espero que gost… — Abandonei a frase na metade ao enxergar, de longe, certa figura tatuada carregando um pequeno pelos pés. De ponta cabeça. — VICENZO, COLOQUE ESSA CRIANÇA NO CHÃO! — Gritei, exasperada.
O vocalista obedeceu, largando o menino risonho no solo. Trocou um "high five" animado com ele e andou até nós, moldando os lábios para cima no melhor estilo arteiro.
— Ora, ora, Bruce Wayne e Alfred! Sejam bem-vindos, não temos champagne, mas temos suco concentrado e comida. — Saudou, curvando-se para frente numa reverência cômica.
Pude ler um tipo de perspicácia nas expressões de , o qual condicionou o rockstar a sua típica avaliação de sobrancelhas levantadas, apesar de notar um projeto de humor infiltrado nos lábios minimamente repuxados do homem não tão sério.
— Boa tarde, Vicenzo.
— Comida? Tenho muito interesse! Meu estômago está comendo o meu pulmão! — Paolo cortou os cumprimentos e reclamou levando as mãos à barriga.
Entoei um risinho jocoso, achando graça da escolha de palavras utilizada por ele.
— Então você vai ser obrigado a experimentar os bolinhos que a mãe da fez. — Meu amigo indicou as barracas com a cabeça.
Paolo girou o tronco e as observou, abrindo um sorriso satisfeito pelo que viu.
— Sendo assim, peço licença a vocês. Tenho uma fome para saciar.
O sujeito faminto anunciou e saiu na companhia de Vicenzo, mal esperando por uma resposta. Fitei a dupla já afastada apenas como uma desculpa besta para simular tranquilidade, uma vez que a presença de comprimia meus órgãos internos num nervosismo gostoso e ao mesmo tempo irritante, deixando agridoce a sensação de tê-lo por perto.
Entre olhá-lo ou não, eu sempre optaria pela primeira opção, de qualquer maneira.
Nossas írises conectaram-se feito ímãs. Intencionei falar algo, mas foi ele quem tomou a iniciativa.
— Vocês fizeram um ótimo trabalho. — Elogiou, dando uma breve conferida em volta.
Eu sorri. Por algum motivo, o sorriso não alcançou meus olhos.
— Obrigada. Estou feliz.
— É bom te ver assim.
Meu coração saltou novamente.
Senti uma súbita vontade de abraçá-lo.
— Oi! — Um timbre infantil solfejou vibrante.
Archie brotou ao meu lado com as bochechas avermelhadas e a testa reluzindo suor, exibindo as janelinhas num sorriso aberto.
— E aí, carinha. — O advogado agachou e ofereceu o punho para o mais novo bater. Ele assim o fez. — Se divertindo?
— Siiiim! Eu dei uma cambalhota no pula-pula! — O pequeno comemorou balançando o corpinho em animação.
— Isso é bastante radical.
— É?! — Archie indagou maravilhado e Diego assentiu. O som de sua risada rouca retumbou diretamente para o meu estômago borboletante. — Vamo’ jogar bola?
— Só se eu for do seu time.
Eu era, de fato, uma gelatina. Sentia-me como naqueles desenhos em que corações pulsantes surgem nos olhos dos personagens, boba ante a interação dos dois.
O pequeno saltitou, concordando veemente com a cabeça.
— Tá’ bom! Vem!
ergueu o corpo e só teve tempo de me encarar uma última vez antes de ser puxado por Archie até o campo improvisado, onde Adrian chegara igualmente arrastado, cercado de crianças dotadas de energia para gastar.
— Eles roubaram o meu namorado! — exclamou sobrechegando de repente. — Não acredito que o veio! Amiga, que fofo!
— É… isso porque você não o viu conversando com o Archie. — Falei, abobalhada, fazendo minha amiga rir. — Não achei que ele viria.
— Nem eu. Em pensar que eu o chamava de engravatado metido... — Ela gracejou. Uma gargalhada impetuosa evadiu-se da minha boca.
Olhei para o saquinho que carregava e roubei um punhado de pipoca dali, recebendo uma repreensão visual e um xingamento em resposta. A cena que ocorria no gramado à frente merecia ser devidamente apreciada.
Eu nunca havia visto daquele jeito.
Livre das roupas sociais cotidianas e da seriedade habitual, ele não mais remetia ao advogado bem sucedido herdeiro de um império. Entre risos e bolas chutadas, o homem tinha a mesma aparência de alguém livre, liberto dos hábitos, valores e modelos inerentes a elite da qual ele pertencia.
Apoiei a mão no queixo e me permiti transparecer totalmente pateta.
Archie acertou o gol após passar a bola para ele, que correu com a mãozinha erguida na direção do companheiro de time. As palmas se encontraram numa celebração cúmplice, e mesmo ligeiramente afastada pude ouvir a gargalhada estridente do pequeno no instante em que o homem o pegou com um só braço, carregando-o pela cintura feito um saco de batatas.
O advogado virou a cabeça para o lado e deu de cara comigo o admirando. Minha mente flutuou em um vasto branco, anuviando-se para somente ele entrar em foco. Tinha a ver com ligação. Ligação mental, física. Aquela conexão sobre a qual seus pensamentos remansam, pois sabem que ali existe a segurança necessária para seguir em frente, para descansar, para certificar-se de que tudo ficaria bem.
E foi quando confidenciou-me um sorriso sereno que eu senti. Senti seu amparo, sua proteção, senti paz.

Eu me recordaria daquele sorriso sempre que ansiasse por sua presença. Nada, nem ninguém, poderia tirar sua imagem de mim.



Capítulo 30

“Quando sua mente quebra o espírito da sua alma, sua fé caminha sobre vidro quebrado.” 21 Guns — Green Day.


.

Palco montado, equipamentos prontos e banda a postos para dar início a tão esperada performance da Unholy Warriors, denominação forte que, em tal contexto, destoava dos membros ridiculamente trajados com macacões de bichinhos, cada qual representando um animal.
Um grupo de adolescentes, provavelmente moradores do bairro, amontoou-se na beira da estrutura destinada à apresentação, curiosos a respeito do som e do estilo musical tocado pelo grupo, cena que me induziu a soltar uma risadinha divertida em razão da playlist criada para o show, concluindo que Vicenzo e o restante dos integrantes teriam um público interessante naquela ensolarada tarde de sábado.
Aos poucos a densidade da multidão aumentou.
, Trish e eu nos posicionamos um pouco mais atrás da aglomeração, nas laterais do tablado. Eu estava louca para ouvir o que eles haviam aprontado.
? — Uma mão tocou o meu ombro de forma delicada. Olhei para o lado e sorri ao me deparar com Magnólia e seu semblante contente, fisionomia irradiada por ela desde o início do dia.
— Gostaria que você fizesse um favor para mim, por gentileza.
— Claro! O que seria?
— Quero que você faça o discurso de agradecimento antes de a banda tocar, caso se sinta confortável para isso.
Arregalei os olhos, totalmente boquiaberta.
— O quê?! Não! Magnolia, você é a diretora!
— Sim, eu sou, mas nós embarcamos nessa porque você pensou em tudo. — Afirmou, juntando minhas mãos às suas. — Sou muito grata a você, . Considere como um presente.
Pisquei, embasbacada, porém honrada com o pedido.
Fitei Trish e , ambas demonstrando apoio por meio de vigorosos e afirmativos acenos de cabeça, notoriamente vibrantes com a situação.
— Eu nem preparei nada, o que vou dizer lá em cima?
— Sweetie, garanto que não lhe faltam palavras para discursar sobre hoje. Pense no nosso trabalho da faculdade, é por causa dele que estamos aqui. — encorajou.
Analisei os três rostos esperançosos e me rendi.
O nervosismo se tornou um reles friozinho na barriga comparado à felicidade que se alastrou em meu peito.
— Tudo bem, farei o discurso.
Magnólia sorriu calorosa.
Minhas amigas deram um high five animado.
— Vai lá, garota. Arrasa. — Trish depositou tapinhas nas minhas costas, gentilmente me empurrando para frente.
Ri e respirei fundo umas quinhentas vezes enquanto cruzava o campo e costurava através das pessoas, trocando um olhar cúmplice com Vicenzo, que cedeu o espaço do microfone para mim e deu um passo para trás em seguida.
Puxei o ar mais uma vez e engoli a saliva em minha boca, o líquido desceu seco como a temperatura daquela tarde. A luz solar me cegou quando me posicionei melhor, ofuscando em dourado todos os corpos que me observavam.
Cerrei as pálpebras e fui atraída para um ponto específico, colocando os olhos nele.
Em pé, ao lado de Paolo, localizava-se aprumado em sua postura costumeira: mãos nos bolsos da calça e expressão impassível, a qual ganhara o acréscimo de um modesto sorriso que despontou moderado no canto de seus lábios.
Imediatamente sorri e me concentrei, preparada para começar a falar.
— Hm… boa tarde! Espero que estejam se divertindo. Para quem não sabe, me chamo e sou voluntária no abrigo há alguns meses. Minha história aqui começou de um jeito diferente e puramente acadêmico, digamos assim. O que era para ser o tema do meu trabalho, virou amor. Este lugar me conquistou desde o primeiro momento em que pisei nessa grama e fui recebida por Trish e Magnólia. O Instituto Doce Lar é feito por pessoas gigantes que carregam com elas um coração igualmente grande. Aqui, as ausências são compensadas com carinho, atenção e zelo, porque no fim do dia, o amor que damos e recebemos é tudo o que importa. — Segurei uma lágrima e suspirei. — Sentir-se vivo é se enxergar no outro, é aproximar-se do próximo com dedicação, e afirmo com toda a certeza que tem sido gratificante doar um pouquinho de mim e receber um pouquinho de todo mundo daqui. Nossa intenção não é somente promover uma festa beneficente, desejamos também divulgar que podemos fazer a diferença, nós temos o poder de mudar a vida de alguém. Receber um sorriso e abraçar a quem precisa, deveria fazer parte de nossas vidas. Obrigada a cada um de vocês, muito obrigada por nos dar a oportunidade de mostrar o nosso trabalho, este evento só está acontecendo porque unimos nossas forças. Que consigamos permitir com que essa linda ação siga firme em seus propósitos, que percebamos que todos merecem ser olhados, percebidos e cuidados. Agora fiquem com os Unholy Warriors e aproveitem o show!
Uma enxurrada de aplausos se elevou e explodiu perseverante. Liberei o oxigênio dos meus pulmões numa golfada pesada, sentindo um rastro molhado me escorrer bochecha abaixo. Afastei-me do microfone, consentindo a Vicenzo a vez de tomar conta de seu lugar no centro do palanque.
Desci dali e logo um mar de abraços me envolveu, arrebentando os diques do meu coração, fazendo vazar sensibilidade pelas comportas dos meus olhos.
— Amiga, foi lindo! — Ouvi exclamar, tão chorosa quanto eu.
— Imagine só se ela tivesse preparado algo… — Trish brincou, tendo o apoio de Magnólia. A mulher secava os olhos marejados com um lencinho, a emoção explícita traduzia os sentimentos que ela não foi capaz de verbalizar.
Virei o pescoço e peguei me encarando sereno. Sorrimos um para o outro, forma representativa do apoio mútuo nutrido em nosso universo particular.
A salva de palmas foi substituída por acordes de guitarra, conjunto harmônico que anunciou a introdução de uma famosa canção infantil, versão rock'n'roll facilmente conhecida no segundo em que Vicenzo começou a cantar.
— Eu não acredito que ele está tocando Let It Go versão heavy metal! — Entoei, gargalhando.
As crianças pulavam agitadas, e até mesmo os jovens reunidos na parte frontal do palco aparentavam estar se divertindo com os arranjos da música. De fato, os Unholy Warriors eram bons e obtinham um resultado positivo ao fazerem o improvável, conquistando para eles o domínio das melodias interpretadas.
A banda emendou outros covers de temas dos filmes da Disney e encerrou o espetáculo com Be Like That, do Three Doors Down, a fim de agradar os mais velhos.
Olhei para a minha direita e admirei ao lado de Paolo e Adrian, trio focado na canção tocada. Despreocupado, o advogado assistia a apresentação sustentando um ar descontraído denunciado pela movimentação quase imperceptível de sua cabeça no ritmo da música.
Sorri internamente e retomei o foco para o show do meu amigo, batendo as palmas uma na outra com fervor ao fim dos últimos versos entoados. Vozeei um gritinho de aprovação, o qual se fundiu com o som estrondoso de mais aplausos e um sonoro assovio, conduzindo-me a seguir o tinido e vislumbrar Paolo soprando entre os dedos com furor.
— Valeu, galera! Valeu, crianças! Vocês foram um ótimo público, não se esqueçam de escovar os dentes antes de dormir. — Vicenzo gracejou e desceu da plataforma acompanhado dos demais membros.
Disparei de encontro a figura tatuada e me empoleirei em cima dele, arrebatando-o em um abraço enérgico que por um triz não nos derrubou.
— Eu AMEI, ficou incrível! — Clamei, afobada, sentindo o vocalista rir entre os meus braços.
— Claro que ficou, nós somos fodas, meu caro raio de sol.
— Como você os convenceu a fazerem isso?
— Estou devendo cerveja para eles até a próxima encarnação. — Falou, conformado. Ri e me soltei, voltando-me para o restante dos rapazes.
— Parabéns, gente. E muito obrigada pelo show, significou demais.
— E perder comida de graça com patrocínio de cerveja vitalício do nosso Vivi? Foi um convite irrecusável. — Um dos integrantes zombou. Vicenzo rolou os olhos.
— Vocês não irão me irritar, hoje estou na minha versão censurada, então irei mandá-los se foderem apenas na minha mente.
— Isso não foi muito censurado.... — Avaliei, rindo.
— Ainda estou aprendendo. — Defendeu-se, dando de ombros. — Acho que estão te procurando, raio de sol. — Apontou com a cabeça para um lugar sobre os meus ombros.
Olhei para trás a tempo de ver Archie correndo em minha direção com um leão desenhado no rosto, certamente sendo a coisa mais fofa que eu havia visto no dia.
— Falta você pintar o rosto! Vamo' lá! — Saltitou, pidão.
— Verdade, eu também acho que ela deveria pintar. — Vicenzo reforçou.
Ri e concordei de imediato, sem ter como negar um pedido daquela coisinha pequena com rosto colorido.
— Vou pedir um desenho igual ao seu.
O sorriso banguela rasgou entre as bochechas coloridas e, sem delongas, fui puxada pela mão por um Archie que corria comigo quase me fazendo tropeçar nos meus próprios pés.
— Moça... desenha um leão nela. — Ele pediu ao chegarmos no estande de maquiagem.
Troquei um olhar divertido com a maquiadora e ela afirmou, indicando para que eu me sentasse no banco à sua frente.
— Isso pode lhe causar cócegas, caso queira se coçar, me avise. — Alertou já mexendo nos inúmeros pincéis expostos sobre o pequeno camarim repleto de tintas, sombras, purpurina e outra infinidade de produtos exclusivos para aquele fim.
Concordei e fiz o possível para não me mexer enquanto a cerda macia se movia através da minha pele, onde a sensação gelada e pastosa da substância colorida provocava um leve espasmo a cada pincelada aplicada.
— Como está ficando? — Perguntei ao garotinho sentado do meu lado e o olhei de esguelha, vendo-o focado na arte que gradativamente ganhava forma.
— Muito legal, igual a minha! — Comemorou, espevitado.
Mais uma série de pinceladas salpicaram minha bochecha, nariz e olhos, tudo em meio a alterações de cores e instrumentos usados cada qual para uma finalidade. A seguir, a mulher se afastou minimamente e contemplou o trabalho recém realizado com uma expressão feliz e orgulhosa.
— Prontinho! — Entregou-me um espelhinho e deu espaço para que eu também me olhasse no espelho do camarim.
Archie levantou, animado, olhando-me como se eu fosse a coisa mais interessante do mundo.
Fitei minha aparência e simplesmente adorei o que vi. Talvez tanto quanto o pequeno que me cercava admirado.
— A gente tá' parecido!
— Estamos! Você gostou?
— Muuuuito!
— Então bate aqui, capitão. — Ofereci minha palma e ele bateu a sua contra ela.
— Você é extremamente talentosa. — Elogiei a maquiadora, que sorriu em agradecimento. — Sempre quis aprender a fazer isso, mas sou desprovida de coordenação motora.
— Ah, é mais fácil do que parece, pode acreditar. Quer tentar pintar? Só precisamos de uma cobaia. — Ri alto e a olhei meio em dúvida se a sugestão era séria ou não. — Vamos lá! Estou precisando de descanso. — Brincou.
De repente, me senti completamente animada tal qual uma criança. O espírito infantil daquela festa realmente tinha me acertado em cheio. Olhei Archie e ele parecia mais contente do que eu, encorajando-me mediante acenos de cabeça frenéticos.
— Pintar é super divertido!
— Certo, você será o meu ajudante. Escolha alguém para pintarmos.
As pálpebras cobertas por sombra branca se estreitaram enquanto ele varria o lugar com os olhos, atento a todo mundo que passava por nós. Segundos depois, seu semblante se iluminou. O garotinho correu tão determinado quanto uma flecha atirada contra o seu alvo, e no momento em que reconheci quem foi a vítima escolhida, quase tive um ataque cardíaco.
Archie se enfiou no meio de Paolo, Adrian, Vicenzo e , cutucando o último com fervor. O advogado prestou atenção no falatório-explicativo do menino e subiu o olhar, conectando-o diretamente em mim. Apesar de estarmos consideravelmente afastados, consegui enxergar seu semblante caçoísta com nitidez, tão evidente quanto o usual erguer de sobrancelhas acompanhado do repuxar ladino e mordaz de seus lábios.
Ele maneou a cabeça num sinal positivo e se permitiu ser guiado por Archie, deixando o trio risonho para trás. Vicenzo fez beicinho na minha direção e simulou uma série de beijos, tirando sarro da sinuca de bico em que eu havia me enfiado. Ou melhor, que Archie havia me enfiado.
Ignorei o roqueiro debochado e fitei a dupla já à minha frente, podendo contemplar, de perto, o divertimento estampado na fisionomia de .
— Faz o desenho nele! Ele deixou! — O pequeno falou, empolgado.
— Fiquei curioso a respeito de suas habilidades artísticas. — Comentou. O risinho esperto no canto da boca manteve-se intacto.
— Sou uma mulher multifacetada, possuo vários atributos estimáveis. — Respondi à medida que ocupava o assento destinado à maquiadora. ocupou o banco anteriormente tomado por mim, esboçando sua risada rouca causadora do meu frenesi interno.
— Eu falei para ele escolher o tigre! — Archie exclamou, radiante.
— Venha me ajudar a separar as maquiagens, parceirinho. — A mulher pediu, logo sendo atendida pelo furacão mirim que voou até ela, distanciando-se alguns passos de nós.
Encarei e quis rir ao imaginar aquele homem sempre tão sério com um tigre pintado no rosto. Nem nos meus sonhos mais insanos imaginaria algo semelhante acontecendo.
— Isso pode não dar muito certo. — Avisei, meio temerosa em cometer uma lambança naquela face tão bonita.
— Confio no seu potencial... você tem talento com as mãos. — Rebateu. O timbre utilizado denotou a ambiguidade e o duplo sentido impelido na frase.
Arregalei os orbes e o fitei descrente.
Ele, por sua vez, permaneceu com o feitio descontraído, insistindo também em manter a perspicácia dos lábios pendidos para um só lado, molhando-os rapidamente num golpe baixo a fim de atrair minha atenção para a região.
Minhas vontades detinham de uma força ditatorial para com o restante do meu corpo, sendo este subordinado pela atração recíproca e palpável partilhada entre mim e o homem sentado centímetros à frente, cujo plano de me induzir a contemplar sua boca deu cem por cento certo, ainda que eu não tenha me demorado na cultuação a ela, pois logo subi meus olhos e os conectei aos seus.
O ar ardiloso não mais se encontrava ali. A habitual seriedade abrangeu o território que lhe pertencia, dividindo o protagonismo com a singela serenidade transmitida pelo seu modo de me admirar.
— Aqui estão os materiais e o croqui da imagem. — A criadora daquela ideia brilhante e Archie regressaram, trazendo os objetos necessários para eu praticar meus dotes desenhísticos. Acordei para a vida e quebrei o contato visual com , desviando minha atenção até a dupla que se pôs a organizar as tintas no suporte ao meu lado.
— Óh, pinta o nariz dele. — O pequeno estendeu o potinho com o líquido preto e eu o peguei, soltando um breve riso junto ao advogado.
— Fique de olho nela, amigão. Você é o artista de confiança por aqui. — Ele zombou, arrancando uma gargalhada do garotinho.
Cerrei os olhos e fechei a cara, tentando conter a risada da qual estragaria minha simulação de aborrecimento.
— Estou com um utensílio pontiagudo nas mãos, se eu fosse você, levaria isso em consideração.
A sonoridade rouca e cômica ecoou em seguida.
— Perdão. É um prazer servir de tela para você. — Admitiu, recobrando a sobriedade.
Sorri brevemente e arrastei o banco para frente com a finalidade de ficar mais perto de seu rosto, sentindo meu coração palpitar assim que a sua respiração misturou-se com a minha, tamanha proximidade exigida para que nenhum erro acontecesse.
Mergulhei a ponta do pincel no pigmento escuro e, com calma, toquei-o levemente na pele de , imitando o contorno indicado no esboço.
Conduzi minha mão livre até a lateral de sua bochecha e a apoiei no local, buscando firmeza nos traços delineados sob os olhos vigilantes do homem, o que deixava a tarefa um pouco mais difícil do que ela realmente era. Deslizei a cerda através da depressão vertical localizada entre o seu nariz e boca e a transpassei em uma linha na altura do lábio superior, devagar o bastante para assistir a textura macia se mover superficialmente conforme eu a preenchia. A saudade de senti-lo resvala-la contra os meus próprios lábios me comprimiu o estômago, apertando também o meu peito.
Verifiquei a região pintada e o fitei em seguida. As íris brilhantes pareciam mais resplandecentes, mais vívidas, mais saudosas. Seu jeito de escorre-las por todas as partes do meu rosto traduzia bem àquela linguagem não-dita, expressada pela essência do olhar cuidadoso e intenso atribuído a mim.
— Agora você já pode aplicar a tinta laranja com a esponjinha... — A voz feminina me tirou da bolha, obrigando-me a piscar aluada e ajustar a postura.
A atenção de continuou centrada nos meus atos.
— Toma. — Archie cumpriu seu papel de ajudante e me entregou o apetrecho mencionado.
— Será que eu vou parecer tão feroz quanto você? — O advogado questionou ao pequeno, que exibiu as janelinhas de modo sapeca e intercalou o olhar maroto entre nós dois.
— Eu acho que não...
Gargalhadas explodiram no exato momento em que a resposta veio em forma de um súbito sincericídio infantil, cujo responsável comprimiu os ombrinhos como quem assume a responsabilidade ante a traquinagem verbalizada.
— Tudo bem, eu aceito ser só um pouco feroz. — respondeu ainda risonho.
— Nãão, você pode ser feroz também, vai! — Archie voltou atrás na sua palavra. — Agora não se mexe, senão a tinta vai borrar todinha! — Decretou ele.
e eu nos entreolhamos divertidos e este logo assumiu o porte estático solicitado, pronto para receber os toques da coloração alaranjada, a qual não tardei a espalhar nas extremidades de sua testa e olhos, achando a oportunidade perfeita para reapoiar minha palma no semblante sereno do homem que me perfilava com diligência.
A textura confortante da barba em contato com a pele sensível dos meus dedos despertou a memória tátil dos momentos em que, aninhada ao seu corpo, senti a infinitude do tempo se esvair feito pó enquanto acariciava-lhe a face morna, coberta com os pelos curtos que me atritavam o rosto em meio à união ocasional de nossos lábios.
— Espero que você não esteja pintando a minha barba. — O pivô da minha letargia soprou, satírico.
Interrompi o que estava fazendo e, razoavelmente zonza, desviei minha atenção para a lateral de sua bochecha, percebendo que sim, eu havia manchado a região com o pigmento colorido.
Reprimi um risinho e deslizei o polegar através do ponto em questão num carinho velado, mas não tão disfarçado a ponto de passar despercebido pelo homem que resfolegou, fazendo florescer os sentimentos germinados pela semente do carinho, afeição e respeito compartilhados entre nós.
Contive a vontade de prolongar os toques ali executados e troquei de apetrecho, concluindo a pintura após os últimos acabamentos no rosto de . Dei uma rápida verificada em minha obra e sorri. Ele estava uma graça. O advogado ergueu a sobrancelha e contraiu a musculatura da boca num sorriso engraçado.
— Terminamos por aqui.
— Toma, vê como ficou! — Archie surgiu com um espelhinho e entregou para o homem, que o pegou e conferiu a própria imagem no reflexo.
Troquei um olhar cheio de expectativa com o pequeno. A cara de estava hilária. Prendi o riso, mas ele, no entanto, não conteve o seu, soltando uma risadinha rouca.
— Bom… estou impressionado. E aí, amigão? Aprovado? — Perguntou a Archie.
— Siiiim! Agora você também tá radical!
— Parabéns pelo trabalho, . Você é uma artista e tanto. — alegou daquele jeito sórdido que só ele tinha. A expressão despudorada contrastava com o desenho colorido em seu rosto.
Meu coração tamborilou no peito. Antes mesmo de eu lhe responder, Archie o pegou pela mão, manifestando toda a euforia que carregava consigo naquela tarde.
— Vamo' escolher outra pessoa pra pintar o rosto! — Ele propôs, arrastando o advogado pela mão.
Nos entreolhamos, divertidos. Lancei-lhe um tchauzinho e assisti o advogado se afastar na companhia do pequeno espoleta, ambos sumindo em meio às pessoas em questão de segundos.
— Ele está trazendo todo mundo para se maquiar. — A maquiadora falou, rindo. Eu a acompanhei.
— Até o fim da festa todos aqui estarão com o rosto pintado.
— Eu tenho certeza que sim. — Ela concordou.
Agradeci a mulher e me retirei assim que uma curta fila de crianças se organizou ali. Caminhei tranquila por entre o descampado, apreciando o dia lindo que resplandecia luz sobre o vasto campo. Os raios solares iluminavam a copa das árvores, intensificando os vários tons de verde das folhas e do gramado, uma das únicas partes bem-cuidadas graças à chuva constante responsável por molhar o lugar.
Passei os olhos através dos rostos alegres e deixei com que o meu reproduzisse a contentação vista. Parei minha observação no gigante castelo inflável e senti minhas bochechas doerem de tanto sorrir ao ver gargalhar enquanto Archie fazia acrobacias no brinquedo, totalmente ligado nos duzentos e vinte.
Mais ao canto, perto dali, um rosto meramente conhecido encarava o castelo com atenção. Forcei os olhos e a memória, tentando me lembrar se já havia visto a mulher que parecia perdida em meio à multidão, sendo acertada por um lampejo de recordação assim que ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, fazendo-se visível.

“(...)

Dirigi-me ao ponto de ônibus absorta no cansaço rotineiro que provocava uma moleza engraçada no meu corpo e senti o meu ombro bater no que parecia ser outro ombro. Aturdida, procurei pela causa do choque e topei com uma mulher parada na frente do abrigo, tão perdida quanto eu.
— Sinto muito, moça. — Pedi, franzindo o cenho com pensar, totalmente sem graça. Ela negou com a cabeça, arrumando a bolsa que descera de seus braços devido ao encontrão.
— Eu quem peço desculpas. Machucou você? — Inquiriu, preocupada e eu balancei a cabeça em negação.
— Imagina! Estou bem. Eu devia prestar atenção, isso sim. —Apontei, risonha e a mulher reproduziu o meu gesto. — Desculpe novamente. — Reforcei.
Ela sorriu simpática e eu prossegui até o ponto, vislumbrando-a encarar o orfanato e andar pelo lado contrário a ele.”



Atravessei o mar de gente e alcancei a mulher que não tirava os olhos do brinquedo. Cutuquei-lhe e ela se virou num sobressalto.
— Oi! Desculpe, assustei você? — Falei meio sem jeito.
Ela piscou algumas vezes e distendeu os lábios para os lados.
— Não, não. Estava admirando a festa, está bem bonita…
— Sim, demais! — Concordei, orgulhosa. — Acho que já te vi antes… nos esbarramos na rua a um tempinho atrás, lembra de mim?
Os olhos dela resvalaram o chão por milésimos de segundos, voltando-se para mim em seguida. Ela agarrou a alça da bolsa e negou com os ombros um tanto quanto retraídos.
— Perdão, esbarro com muita gente durante o dia. — Lamentou.
Balancei a cabeça e lhe ofereci um sorriso compreensível.
— Ah, não tem problema. Vim apenas saber se está precisando de alguma coisa… espero que aproveite a festa, de qualquer forma.
Ela assentiu. Os cabelos caíram sobre o rosto novamente.
— Eu irei. Obrigada.
Recebi uma última olhada dela antes de vê-la virar às costas e se misturar com os demais presentes. Encarei o nada durante alguns segundos, confusa sobre os trejeitos da mulher cuja atitude pareceu querer me repelir.
Dei de ombros e retomei meu caminho, seguindo em direção à barraca onde Trish se encontrava.

**


Uma explosão de cores tomou conta do horizonte na paisagem do pôr do sol. O céu de fogo deslumbrante tinha nuances alaranjadas misturadas com tons de azul, emprestando à paisagem um aspecto digno do dia incrível que se encerrava junto àquele aroma característico de um final de tarde.
Eu estava feliz.
Mais do que feliz, estava satisfeita com o resultado final da festa. Não sabia se havíamos conseguido o valor necessário para salvar o abrigo, porém, ter proporcionado uma experiência diferente para aquelas crianças já plantava algum tipo de bem-estar em meu peito.
O abrigo esvaziava-se aos poucos, as pessoas começavam a se dispersar enquanto somente resquícios da festa permaneciam no lugar agora praticamente vazio. Apoiei minhas mãos sobre a bancada da barraca e dei uma boa verificada ao redor, ainda sem acreditar na perfeita concretização de um plano saído diretamente das folhas de um caderno velho e da minha mente fértil.
— Ei, fofinha… cuidado com isso, não a carregue assim! — Ouvi um choramingo desesperado próximo de mim.
Virei o rosto e sufoquei o riso.
Primeiro enxerguei uma criança arrastando uma bolsa pela alça.
Posteriormente enxerguei Cassie, que perseguia a pequena com desespero e súplica palpáveis no semblante aflito.
— Isso é uma Prada! — Protestou, lamuriosa e desistiu de escoltar a garotinha que nem sequer se importou com ela.
Não aguentei e emiti uma gargalhada abafada, chamando a atenção da mulher. O nítido inconformismo pairava, de forma cômica, em seu rosto aborrecido.
— Desculpe. — Murmurei, prendendo a risada na garganta. — De onde essa bolsa saiu?
— Coloquei na caixa de doações, ela deve ter pego lá. — Pisquei, aturdida. Aquele negócio tinha o preço de um carro popular. — Uma Prada sendo arrastada no meio do mato, era só o que me faltava. — Reclamou, bufando.
— Acho que ela não sabe o que é isso...
— Óbvio. Se soubesse não estaria fazendo um absurdo desses. — Retorquiu em pura obviedade.
A gargalhada antes atravancada escapou da minha boca sonoramente. Cassie levantou a sobrancelha bem feita e me mediu sem entender.
— Vou salvar a bolsa e te poupar de um possível ataque do coração.
Pretendia seguir a pequena e negociar a posse do objeto, no entanto, não avancei mais do que três passos. Dei meia volta e olhei para Cassie que, distraída, digitava algo em seu celular. — Hm, ei. — Chamei-lhe.
Ela desviou os olhos da tela e os pousou em mim.
— Sim?
— Eu e mais um pessoal vamos estender a festa para a casa da . Você nos ajudou muito e nada teria dado certo sem a sua assistência… então, bem… se quiser ir…
A mulher se calou por alguns segundos, limitando-se a me encarar como se esperasse o seu cérebro raciocinar uma resposta coerente ao convite feito.
Estava pronta para retornar às minhas pretensões iniciais e desistir de ter uma resposta, entretanto, um murmúrio titubeante me levou a girar o calcanhar e tornar a fitá-la.
— Há algumas matérias pendentes para serem revisadas hoje a noite, mas… obrigada. — Presenciei, pela primeira vez, um curto sorriso perpassar pelos seus lábios agora vagamente alceados para o lado.
No decorrer de todos esses anos, jamais vi Cassie tão humana. Os trejeitos geralmente calculados para demonstrar uma perfeição intimidadora deram lugar a uma sobriedade leve, imprevisível, mas também admirável.
Concordei com a cabeça e retribuí o gesto, partindo em busca da garotinha que, felizmente, havia abandonado a bolsa no meio do caminho e se entretido com um saquinho de doces dado por Trish. Coloquei-a de volta à caixa lotada de casacos, roupas diversas, cobertas e afins e peguei o receptáculo de papelão com o objetivo de guardá-lo na parte interna do abrigo, contudo, fui obrigada a parar bruscamente.
A cena diante de mim demandou toda a minha devoção.
carregava um Archie adormecido em seu colo. A cabeça do pequeno descansava tranquilamente nos ombros largos do advogado, cujo pescoço encontrava-se agarrado pelos bracinhos pousados ali de modo firme. Naquele instante, desejei que os meus olhos tirassem fotos somente para guardar tal imagem comigo.
— Estava procurando por você. Acho que esse carinha enfim se cansou.
Intercalei meus olhos entre ele e Archie, notando os meus próprios lábios formarem um sorriso suave diante do que eu via.
— Não é para menos, ele não parou um segundo sequer. Vem, eu mostro onde ficam os quartos.
maneou a cabeça e me seguiu ao longo do pátio.
Caminhamos corredor adentro, lado a lado e em silêncio, escutando apenas o som dos nossos passos em contato com o piso de concreto. Equilibrei a caixa em uma mão e abri a porta, dando passagem para o homem entrar no modesto cômodo ocupado por camas forradas com mantas simples, iluminado pela ampla janela rústica a qual abrangia boa parte da parede interna.
— Qual dessas é a cama dele? — O timbre grave soou, indagador.
— Essa aqui. — Arrumei a caixa em um canto qualquer e fiz sinal para que ele me seguisse até o móvel situado na ponta direita do quarto.
Dobrei a colcha na metade da cama e, cauteloso, deitou Archie sobre o colchão, tomando cuidado para não acordá-lo. O pequeno soltou alguns resmungos, mas logo aconchegou-se sob a grossa coberta.
— Gostaria de ter esse sono pesado.
— Ele vai dormir durante a noite inteira. Conseguiu escapar do banho, Trish irá enlouquecer. — Aleguei, já prevendo o surto da mulher. O maior pavor dela era saber que as crianças foram para a cama sem o dito ato de higiene pessoal.
O advogado riu e me acompanhou de volta ao pátio. A falta de diálogo novamente imperou entre nós dois, no entanto, nada ali me incomodou. Nossos silêncios costumavam ser confortáveis, e aquele não era diferente.
— Foi uma bela festa.
— Sim, foi. Não acredito que deu tudo certo! — Esfreguei o rosto e expeli um suspiro cansado.
— Nunca duvidei que daria. Espero que esteja orgulhosa de si mesma, porque eu estou.
Meu coração errou as batidas.
Mergulhei em um entorpecimento momentâneo, perdida com seu jeito específico de olhar para mim.
— Não sei se a diferença que fiz foi grande ou pequena, mas foi a diferença que eu precisei fazer, ainda que não tenha sido o suficiente.
— E foi. Pode acreditar.
Nos encaramos. Nenhum de nós disse nada no decorrer de incontáveis segundos, momentos esses onde os sentimentos não eram pronunciados, e sim captados pela forma de comunicação não verbal que impactava todas as células do meu corpo.
— Obrigada por vir.
apenas negou com a cabeça. Meu peito apertou e a sensação de vazio me assolou em cheio, como se eu sentisse falta dele mesmo vendo-o ali, na minha frente; como uma saudade imediata sem sentido que ocasionava um sufocante caos dentro de mim.
— Foi uma tarde muito agradável.
Concordei, admirando seu rosto ainda perfeitamente colorido com a pintura de tigre.
Seu celular vibrou.
Ele o retirou de dentro do bolso e leu o conteúdo exposto na tela, uma singela ruga encrespando-se entre as suas sobrancelhas. Meu corpo gelou.

O homem devolveu o aparelho para a fenda lateral de sua calça e me fitou, sério.
— Está tudo bem. Preciso ir, tenho assuntos do trabalho para resolver.
Não me movi, nem me mexi. O aperto no peito se intensificou. Olhei-o, ressabiada e visivelmente amedrontada, medo capturado pelo advogado que avançou um passo e levou uma mão até o meu rosto.
, está tudo bem. Fique tranquila, é só trabalho. — Garantiu, encarando-me no fundo dos olhos.
O polegar dele fez um carinho rápido e suave na minha bochecha. Seus dedos ágeis ocuparam-se com uma mecha do meu cabelo e colocaram-na atrás da minha orelha.
Acabei com o resto de distância entre nós e colei nossos corpos, passando os braços em volta do pescoço de e escondendo o meu rosto ali. Ele apresentou-se surpreso de início, mas logo suas mãos grandes e decididas tomaram rumo; uma contornou minha cintura, a outra foi pousada entre os meus cabelos, embrenhando a palma nos fios com vontade. Acariciou a região, correspondendo ao abraço de maneira ainda mais intensa. Ele parecia ter uma espécie de calmante na ponta de seus dedos, dissolvendo-me de relaxamento até os ossos.
— Não faça nada sozinho, por favor. — Pedi num murmúrio suplicante, sentindo-o me apertar contra si.
— Não quero que se preocupe, quero que aproveite a sua noite e se divirta. Estou me cuidando. — O tom rouco sussurrou perto do meu ouvido. O arrepio foi inevitável.
A angústia, o aperto no peito e a sensação estranha e perturbadora de que algo não estava certo não sumiram. Aquela advertência antecipada certamente não me daria paz, porém, procurei me convencer como pude.
Separei-me dele o suficiente para conseguir encará-lo. Fixei meus olhos nos seus e fui devidamente correspondida com a mesma energia, o conhecia bem o bastante para ver que ele tentava me passar confiança através do ato. Suspirei e assenti, dando-me por convencida.
— Prometa que vai tomar cuidado.
— Eu prometo e espero o mesmo de você. Não ande sozinha por aí. — depositou um beijo na minha testa, afastando-se logo depois. — Até mais, .
— Até...
O observei sair do abrigo até sumir do meu campo de visão. Uma mão tocou os meus ombros num afago amigável. se posicionou ao meu lado, seguindo a linha do meu olhar.
— Está tudo bem? — Indagou, preocupada.
— Sim… tudo.
— Pensei que você fosse convidá-lo.
— Ficar muito tempo perto dele me faria jogar tudo para o alto. — Refleti, absorta na saudade prematura que me acarretava.
— Às vezes isso pode ser algo bom. — Minha amiga considerou.
O rascunho de um sorrisinho conformado brotou na minha boca.
— Não quando tudo pode cair em cima da sua cabeça depois.
riu alto e passou os braços em volta dos meus ombros.
— Estamos terminando de arrumar uma parcela da bagunça. O Vicenzo vai lá para casa com os caras da banda e o Paolo, portanto, melhore essa carinha. Quero a minha melhor amiga feliz!
Mostrei-lhe todos os meus dentes, fazendo graça. Gargalhamos e andamos juntas para o pátio, empenhadas em dar um jeito nos copos e lixos deixados na grama.
Eu precisava ignorar aquela sensação estranha e aproveitar a noite com meus amigos.

**


— Ah, qual é, raio de sol! Ainda nem deu meia noite, vai mesmo dispensar a minha excelentíssima companhia para… dormir?! Quem faz isso hoje em dia? — Vicenzo estacionou sua caminhonete em frente ao condomínio e me encarou pidão, tentando, pela milésima vez, me convencer a ir para um dos lugares de localização duvidosa que ele costumava frequentar.
Ri alto frente ao semblante indignado do meu amigo e pousei uma mão em cada lado de suas bochechas, juntando-as num biquinho cômico.
— Eu faço isso, amore mio. Estou morta, meu corpo todo dói e se os meus olhos não se fecharem daqui a meia hora, no máximo, vou ter uma síncope.
Maix eu vou ti trazer di vouta quando voxê quijer. — Argumentou de um jeito engraçado, ainda com o rosto sendo apertado em forma de peixe.
— O Paolo já vai te acompanhar, você não precisa de mim. — Levantei uma sobrancelha e o fitei, zombeteira, soltando-o em seguida.
Ele rolou os olhos e me destinou um sorrisinho esperto.
— Meu coração e os meus braços são grandes o suficiente para caber os dois.
Gargalhei alto, deferindo um leve empurrão em seus ombros.
— Você sabe que eu não divido o meu espaço com ninguém. Conte comigo na próxima saída, mas hoje nem pensar.
Vicenzo bufou, resignado e se jogou no banco com os braços estendidos da forma mais teatral que conseguiu.
— Só não vou insistir mais porque você parece estar chapada. A vermelhidão nos seus olhos está me dando medo, eu não fico assim nem se fumar todo o meu pezinho de maconha de uma vez.
— Você é tão sutil que me emociona, Vivi.
— Fazer o quê, lindinha? I was born this way. — Deu de ombros, exibindo o sorriso de coringa.
Ri e balancei a cabeça em negação, dando-lhe um rápido beijo no rosto e pulando para fora do automóvel.
— Juízo, rockstar. E obrigada por hoje, de verdade.
— Por que está me agradecendo? Adoro o meu público infantil e eu nem sabia que tinha um, mas eles são ótimos. Ganhei doce a tarde inteira, tem tanta glicose no meu sangue que vou poder beber em paz até o ano que vem. — Ele se gabou, arrancando-me uma sonora gargalhada. — Foi um prazer ajudar, curti demais. O nosso próximo show será para comemorar a arrecadação da grana e a reforma da porra toda.
— Espero que sim, quero uma nova playlist de rock'in'roll para crianças e uma demo de Let Go versão metal.
— Tenho ótimas ideias para uma versão enérgica e explosiva de Baby Shark. Boa noite, raio de sol.
— Boa noite, Vivi. Divirta-se.
Ele jogou um beijo no ar e eu o peguei, fingindo colocá-lo no lado esquerdo do peito. Acompanhei a caminhonete sumir do meu campo de visão e entrei no condomínio com um sorriso brincando em meus lábios, apesar de algo dentro de mim se remexer em agonia.
Como racionalizar sensações tão confusas? O meu dia havia sido ótimo por inúmeras razões, por que cargas d’água o peso nos meus ombros simplesmente não desaparecia?
A aprazibilidade noturna da mansão combinava plenamente com o cheiro de terra molhada propagado do jardim, estando este iluminado por tênues luzes brancas pregadas no solo.
Expirei o aroma cuja fragrância serviu para acalmar meus pensamentos e propiciar a serenidade que o meu corpo precisava, esquadrinhando a encenação espectral de sombras e ilusões de óptica produzida na grama.
.
Rápido como o estouro de um balão, todo o meu breve estado de calmaria se dissipou. O chamado ligeiramente longínquo me fez descontinuar os meus passos e virar em direção ao som da voz imperiosa, cuja dona se fazia mais imperial ainda.
Parada sob o alpendre da área externa, Kyara encontrava-se envolvida por um roupão de seda perolado; uma xícara de chá fumegante ocupava uma de suas mãos adornadas por anéis cintilantes, tão brilhantes quanto os seus cabelos perfeitamente arrumados em um coque sofisticado, conjunto que expressava a alma elegante rodeada pela expressão predadora estampada no rosto da mulher.
Com os pés fincados no mesmo lugar e rodeada pela sensação de alerta que a presença de Kyara despertava em todas as partes possíveis do meu corpo, a assisti dar um passo à frente e fixar os olhos felinos nos meus. Parecia que a mulher possuía domínio até mesmo dos fenômenos da natureza, pois junto com a sua análise frívola veio uma intensa rajada de vento que imediatamente me levou a cruzar os braços cobertos pelo algodão fino do meu suéter.
Inalei a brisa fria, enchendo os meus pulmões de oxigênio e amenizando a má impressão provinda da vagarosa aproximação de Kyara, que parou sob o centro da luz e maneou a cabeça em um pedido mudo para que eu subisse os degraus da escada exterior.
Nada naquela situação soava bem.
Ativei o modo automático e me vi caminhando em passos robóticos até a mulher localizada no topo da marquise, sendo meticulosamente vigiada conforme meus pés percorriam os subníveis de mármore.
Firmei meus braços à minha volta e coloquei-me de frente à matriarca dos enquanto era submetida ao seu olhar crítico, pormenorizado feito uma lupa sobre algum experimento excêntrico. As pálpebras revestidas por longos cílios estreitaram-se assim que os seus olhos alcançaram o meu rosto, onde eu instantaneamente levei uma mão antes de me dar conta de que ainda me encontrava coberta pela tintura amarelada, fruto da pintura artística de horas atrás.
Meu riso engessado e sem graça não fora tão duro quanto a expressão de Kyara. Não havia verdadeiramente um conflito ali, no entanto, a tensão ziguezagueava como um fio eletrificado prestes a entrar em curto circuito. A sobrecarga de impressões direcionadas uma a outra era bem mais alta do que uma mera análise poderia suportar.
— Há algo errado? — Minha voz emergiu fraca e entrecortada. Pigarreei, procurando conter qualquer tipo de emoção mais forte.
— De maneira alguma. — Pausou por um instante. Uma ardileza corrosiva lampejou nos olhos dela, trazendo um brilho nebuloso às íris cravejadas em mim. Cismada, aguardei-a prosseguir. — Daremos um jantar na terça-feira, suponho que saiba disso.
Crispei o centro da testa, realizando um rastreio mental à procura da informação anunciada por Kyara. Não me lembrava de ter ouvido nenhum comentário a respeito.
— Não sabia, senhora.
— Melhor assim. Eu mesma gostaria de lhe comunicar que precisarei de seus serviços, não quero garçonetes desconhecidas perambulando pela casa. Você sempre foi muito prestativa e solícita com sua mãe, creio que agora não será diferente.
Um pequeno sorriso vil cristalizou-se em seus lábios. O semblante sereno suscitava uma confiança própria de quem detinha intenções calculadas e encobertas pelo ar estranhamente tranquilo que, indiscutivelmente, não fazia jus à estética presunçosa ligada a ela.
Meus serviços? Eu nem sequer trabalhava para ela.
Mentalizei uma resposta ríspida. Outras vieram a reboque.
Suas ações e palavras foram premeditadas. Kyara era o tipo de pessoa que analisava todos os cenários e consequências possíveis antes de colocar as garras de fora, característica clássica sobre a qual eu tinha um vasto entendimento.
Ela nunca se importou com a quantidade de funcionários existentes na mansão, a origem deles jamais fora um empecilho ou um incômodo; para Kyara , empregados eram somente empregados, mão de obra sem identidade resumida aos serviços prestados e ordens acatadas, tornando tais justificativas inteiramente inviáveis.
Sendo assim, o desejo da mulher disposta a poucos passos de distância era óbvio: me ver servir, obedecer e desempenhar funções que autoafirmavam sua superioridade egóica e ânsia de estar em evidência para ser bajulada e atendida.
Kyara queria me diminuir. Foi com essa conclusão que o sangue correu afogueado por minhas veias.
— Claro. Nunca deixei minha mãe mofar naquela cozinha, por que agora seria diferente? — A frase saiu da minha boca com a velocidade e o peso de uma bola de canhão.
Submeti meus músculos faciais ao trabalho de erguerem-se num sorriso simples e cínico, contrariando a dona da expressão esnobe, cujo rosto ganhou um leve indício de aborrecimento quando uma pequena ruga formou-se em sua testa.
— Acha mesmo que sua mãe mofa na cozinha, ? — O questionamento soou mordaz. Havia uma dose de sátira oculta pela entoação mansa que em nada combinava com a índole de Kyara.
— Não importa o que eu acho, não é mesmo, senhora ?
— Definitivamente não. — Replicou ela, incisiva feito o corte de uma lâmina.
Um riso seco deslizou através dos meus lábios. Fiz um gesto afirmativo, não vendo quaisquer razões para permanecer naquela interação densa que apenas sugava a minha energia.
— Então estamos entendidas. Boa noite. — Girei sobre os calcanhares, descendo os degraus sem esperar resposta da mulher de olhar insistente e perseguidor.
Desloquei-me gramado afora, tão apática que mal conseguia sentir meus passos afrontarem o terreno coberto por folhas secas estalantes, as quais crepitavam sob os meus pés conforme eu atravessava o vasto campo da mansão.
A ventania áspera foi abandonada do lado de fora após eu entrar em casa. A sala estava escura, da mesma maneira que o restante dos cômodos. Andei silenciosa até o estreito corredor ocupado por três portas e espiei uma delas, encontrando minha mãe profundamente adormecida debaixo das cobertas. Parti para o meu quarto com a mente muito agitada, efeito da desagradável abordagem de Kyara e sua incrível capacidade de destruir o bom humor construído ao longo do meu dia.
Ela corrompia o meu projeto de evolução espiritual, e o fazia única e exclusivamente porque sabia que eu não a confrontaria. Não enquanto o teto sobre a minha cabeça e o salário da minha mãe estivessem atrelados ao seu poder, aprisionando-me na interminável série de sapos engolidos no decorrer de todos esses anos.
Soprei todo o ar contido em meus pulmões como se tentasse eliminar a raiva com o sopro. O máximo alcançado foi uma branda, quase imperceptível sensação de desanuviamento mental, equilíbrio bem-vindo após ser alvo das malevolências da Cruella De Vil do Direito.
Juntei meus cabelos em um coque e marchei rumo ao banheiro, esperando que uma boa ducha de água quente terminasse de me relaxar.
Um episódio infeliz não apagaria aquele dia maravilhoso, muito menos me faria absorver uma amargura que não me pertencia.
Eu permaneceria em paz.
Ao menos este era o plano.



Capítulo 30 - Parte II

.

O sol começara a se pôr e seu brilho laranja era difundido pelo ar cinza-chumbo do anoitecer. Enquanto terminava os últimos ajustes no uniforme que Kyara fizera questão de me entregar pessoalmente horas antes, assistia, através da janela do meu quarto, a imensidão azul petróleo formar um conjunto perfeito com a iluminada mansão de estilo neoclássico, local onde já se iniciava uma crescente movimentação de pessoas.
Suspirei em puro desgosto e dei um último aperto no avental amarrado em volta da minha cintura. Eu me sentia como uma panela de pressão prestes passar do limite e explodir, efervescida à medida que acumulava insatisfações em cima de insatisfações.
Encarei-me no espelho, torcendo o nariz ao analisar as peças do traje cheio de pequenas pregas e babados ridículos. Precisei controlar o ímpeto de rasgá-lo e entregá-lo em pedacinhos à Kyara, contudo, a cena criada em minha mente ao imaginar o hipotético chilique da mulher me serviu de alento para acalmar tantas emoções à flor da pele.
— Vamos lá, você já fez isso outras vezes. — Murmurei, saindo de casa a seguir.
Cruzei o descampado no piloto automático e empurrei a porta de serviço. O falatório misturado fazia jus ao fluxo excessivo de uma tropa de funcionários que iam e vinham da entrada principal, todos trajados com a vestimenta-padrão escolhida pela matriarca da família.
Ao longe, ouvia-se uma música instrumental repercutir emparelhada a conversas simultâneas. Aquilo não era só um jantar nem aqui, nem na China.
, o que está fazendo aqui? E vestida desse jeito? Onde conseguiu essa roupa?! — O bombardeio de perguntas me tirou da condição contemplativa, catapultando-me direto para a presença materna inquisitiva e confusa à minha frente.
Balancei a cabeça num maneio negativo. O desânimo caiu sobre mim feito uma mortalha.
— Mais tarde eu explico, mãe. Agora não dá.— Soprei, não tendo ideia de como encaixaria a situação em um contexto aceitável.
— Que história é essa de “agora não dá”, filha? Por que está usando uniforme?
, estava procurando por você. Poderia me acompanhar, querida? — Judith sobrechegou de supetão no melhor momento possível.
Minha mãe sondou meu rosto e meus olhos de modo sugestivo. Lancei-lhe um sorriso meio frouxo, seguindo a senhora que infiltrou-se no corredor de acesso à despensa tão rápido quanto um relâmpago.
— Oi, Jud. Quer ajuda? — Interroguei ao alcançá-la já dentro do cômodo.
— Está tudo bem, só achei melhor falar em particular. — Assegurou, serena. Ela deve ter lido a dúvida estampada em meu rosto, pois não demorou a continuar. — A dona Kyara perguntou de você umas três vezes. Quer que você sirva as bebidas.
Meus olhos reviraram quase até irem parar atrás da minha cabeça.
— Claro. Ela também não pediu para eu fazer acrobacias enquanto sirvo? — Ralhei, impaciente. — A feição da mulher ganhou um ar terno e preocupado. Respirei fundo, auto-censurando o meu humor ruim. — Desculpe, Jud. Não quis ser rude.
Judith me encarou com pesar.
— Eu te conheço tão bem quanto sua mãe, minha menina. Sei que há algo acontecendo, de longe percebe-se a apatia nessa carinha tão bonita.
Sorri, mas o ato com certeza não chegou a expressar o efeito planejado.
— É… tem bastante coisa acontecendo. — Confessei. Meu timbre cansado ecoou afônico e moderado. — Mas não quero falar sobre isso, sabe? Nem sei como falar, na verdade.
Minhas palmas foram envolvidas por afáveis mãos franzinas. O afago caloroso irradiou complacência, brandura propagada também através do sorriso direcionado a mim.
— Coloque paz no seu coração, tudo há de se ajeitar, . Você e sua mãe não estão sozinhas, não pense que precisa aguentar além do que pode suportar, porque não precisa.
Meu peito se aqueceu em gratidão. Retribuí o carinho de Judith e lhe respondi com um aceno positivo, verdadeiramente contagiada por sua positividade fraternal.
— Obrigada, Jud. É melhor eu ir antes que a Lady Tremaine comece a me caçar para valer. — Simulei uma fisionomia assustada, fazendo-a rir.
— Vai lá, querida. Tenha paciência.
Pendi a boca para o lado e assenti, certa de que manter um controle emocional equilibrado seria o meu desafio da noite.
Retornei à cozinha barulhenta, contornando a grande mesa lotada de bandejas rigorosamente enfileiradas; umas jaziam ocupadas com taças, outras preenchidas por copos cheios dos mais variados tipos de bebidas caras.
A tonalidade caramelada de um licor específico atraiu minha atenção.
Whisky.
Olhei ao redor de maneira furtiva, verificando se todos, de fato, encontravam-se concentrados nas próprias responsabilidades. Se fosse para aturar Kyara e seu jantar frescurento, que eu o fizesse com um pouco álcool no sangue.
Após comprovar que não seria pega no flagra, roubei uma dose do destilado posto sobre o receptáculo prateado e entornei o líquido num gole só. Tive de me conter para não o cuspir ao degustar o sabor amargo que ardeu minha garganta e retorceu os músculos do meu rosto numa careta azeda. Céus, como o gostava daquilo?
Pigarreei com o estômago em chamas e rapidamente abandonei a evidência do crime, pegando a bandeja de champanhe com cuidado.
Encarei a porta e soltei um suspiro pesado.
Tudo era maçante.
A situação, os eventos sucedidos no grandioso palacete dos , a rotina viver ali, à mercê da vontade dos outros.
Eu não estava desconfortável comigo mesma. Estava desconfortável por enfrentar sempre os mesmos problemas, por exercer sempre o papel de uma pessoa perseguida pelas leis de um destino injusto do qual me obrigava a tolerar o intolerável e aceitar o inaceitável.
A linha entre resiliência e passividade era muito tênue.
— Nós iremos conversar mais tarde, filha. Não engoli suas respostas esquivas.
Dei um saltinho de susto, por pouco não derrubando as taças do tabuleiro que balançou em minhas mãos. Eu quase ri quando enxerguei uma cenoura apontada em riste para mim, mas desisti no exato momento em que notei minha mãe me examinar desconfiada.
Optei somente por afirmar e exibir um sorriso fechado. Ela me estudou uma última vez antes de regressar para o balcão colorido por frutas, legumes, verduras e outros alimentos já pré-prontos, empolgada com seu trabalho bem-apresentado.
Empolgação que em nada combinava com a minha.
Enchi o peito de coragem e comecei, pé por pé, a atravessar a passagem e me dirigir ao salão principal, o som imaginário da marcha fúnebre solfejando em minha mente como um prenúncio da longa noite que viria a seguir.
O ritmo dos meus passos foram espontaneamente diminuídos logo que o majestoso espaço para festas entrou em foco. A extensa mesa de não sei quantos lugares ocupava o fundo da área de tamanho colossal, posicionada no canto esquerdo, decorada por uma constelação de adornos dourados, candelabros, seda, guardanapos de linho e copos de cristal ladeados por vasos de flores vívidas.
Como esperado, os convidados esbanjavam requinte com acessórios dos quais, de modo evidente, custavam mais do que o potinho de ouro no final do arco-íris. E foi nesse instante que a personificação da palavra elegância materializou-se diante dos meus olhos.
Kyara possuía um magnetismo provocativo, isso ninguém podia negar. Olhou-me de cima abaixo ostentando um sorriso triunfante, espreitando minha figura paralisada sem esconder a satisfação em testemunhar o meu nítido aborrecimento.
Não tive forças para sentir nada. Sustentei seu olhar e entrei no salão de uma vez por todas.
Postergar uma situação não a fazia desaparecer.
Comecei a servir as bebidas petrificando um sorriso engessado nos lábios, desconectada da realidade que se desenrolava turva em meu entorno.
— Este uniforme lhe caiu muito bem. Você está servindo como acontece desde que chegou nesta casa e como está acontecendo agora, essa é a ordem das coisas. — Um sussurro maldoso soprou em meu ouvido direito.
Efervesci como se o meu termostato interno tivesse pifado.
Girei a cabeça cegamente a tempo de entrever a precursora da frase desfilar jubilosa pelo interior do recinto, largando o veneno destilado para cima de mim como se não tivesse feito nada.
Kyara entrelaçou os braços nos de Henrico, deleitosa por estar em seu habitat natural cercada da cultura de delicadeza extrema à custa muita de falsidade.
A queimação se espalhou pelas minhas vísceras e abrangeu os meus olhos alinhados na mais pura cólera. Eu era a designação perfeita de uma sombra nebulosa, um metamorfo vazio, frouxo.
Pisquei devagar, querendo sumir.
Esforcei-me para que as imagens se desembaçassem da minha retina, onde uma silhueta feminina corporizou-se ofuscante, tamanha a intensidade do brilho espelhado em seu vestido.
A dona da peça sorriu abertamente ao me ver. Cochichou algo para o seu acompanhante e o puxou pela mão, costurando através das pessoas até encurtar nossa distância. Não pude deixar de sorrir também.
— Amada, que prazer em vê-la! — Rosalyn solenizou, esbanjando sua simpatia habitual.
— O prazer é meu, a senh… você está incrível!
— Oh, imagina. Peguei a primeira roupa que vi na frente. — Piscou, astuta. — Leon, meu bem, esta é .
Uma versão mais velha de Henrico maneou a cabeça em cumprimento. Guardava vagas lembranças de vê-lo na mansão, contudo, nunca havia parado para observar sobre quão fortes eram os genes masculinos dos . Henrico era a cópia de Leon; assemelhava- se a ambos. Sorri para o elegante senhor, reconhecendo nele determinadas características físicas herdadas pelo próprio neto.
— É bom conhecê-la formalmente, muito embora a tenha visto antes. Ouvi excelentes coisas a seu respeito. — Leon comportava-se igual a um gentleman e inspirava uma presença agradável, simpatia esta partilhada com Rosalyn, cuja face se iluminou após o marido pronunciar a última frase.
A minha, por outro lado, deve ter ganhado um tom avermelhado. Imediatamente imaginei quais coisas ele havia ouvido, e como havia ouvido, levando em conta o perfil furacônico de sua esposa, a qual me vira meio que quase nua no apartamento de seu neto.
— O que faz usando esse traje horrendo? Por qual motivo não está com ? — Rosalyn disparou, demonstrando sua espirituosa personalidade sem filtro. Notei Leon apertar-lhe o ombro levemente, gesto que a fez cair em si. — Oh, bem… não é da minha conta, não é mesmo? Perdoe-me pela indiscrição.
Sorri e balancei a cabeça.
Ninguém tinha noção do que se passava naquela casa.
— Longa história… — Chiei, apática. A menção a agitou meu estômago.
As suposições acerca do paradeiro do advogado mal tiveram tempo de atingir minha mente curiosa. Ergui o olhar para o fundo do salão e o encontrei. Meu cérebro entrou em pane. Fiquei tonta, destrambelhada, fora da realidade.
Ele era lindo.
Droga, ele era absurdamente lindo, e sua beleza imensurável unida às roupas sociais habitualmente usadas definia, sem sombra de dúvidas, a pane instaurada dentro de mim naquele instante.
O causador de tais reações enlouquecedoras cravou os olhos escrupulosos nos meus, para depois escorrê-los da minha cabeça aos pés, não incitado por segundas intenções, mas sim aparentando não compreender a minha vestimenta e o que eu estava fazendo ali.
Meu coração martelou dentro do meu peito quando restabeleceu nossa conexão visual. Perdi o conhecimento do mundo ao meu redor, senti como se nada existisse, como um tipo de sonho que nos leva a enxergar os acontecimentos em forma de vultos desconexos.
A realidade, no entanto, sempre se mostraria mais forte uma hora ou outra. Tomei consciência da minha assim que movi o meu olhar para o lado, notando a figura de Kyara brotar através da visão periférica a qual possibilitou que eu a visse me fuzilar com os olhos em chamas.
Despertei como se a minha chave geral interna tivesse sido ligada.
Os estímulos externos tornaram-se visíveis mais uma vez; a música ficou audível, as conversas e risadas paralelas infiltraram-se nos meus tímpanos dando a impressão de que o botão de volume do ambiente havia sido girado até o máximo.
Senti a análise de perdurar sobre mim, entretanto, não o correspondi. Seus avôs, parados à minha frente com expressões ininteligíveis no rosto, alternavam-se entre nós dois representando espectadores concentrados em um espetáculo muito interessante.
Sorri constrangida, ajeitando a bandeja vazia debaixo do braço.
— Desculpem, eu tenho que…
— Claro, meu bem, não se incomode conosco. — Rosalyn antecipou num tom condescendente, recebendo o apoio de Leon. — Me procure mais tarde, sim?
Algo sugestivo dançava nas entrelinhas do cenho impecavelmente maquiado, e eu assimilei a mensagem. Ela desejava conversar comigo.
— Pode deixar. — Concordei num aceno positivo e marchei de volta à cozinha, pegando uma nova leva de champanhe, guiada por ações robóticas enquanto fugia dos olhares de , quando o que eu mais queria era correr para ele.
Os momentos seguintes arrastaram-se entediantes. Empenhei-me em servir apenas um lado do salão, onde o fluxo de pessoas era maior e a probabilidade de topar com qualquer rosto conhecido, menor.
Naquela noite, a ideia de passar despercebida em muito me agradava.
Servi a última taça da bandeja para uma mulher de nariz empinado e percorri, pela centésima vez em menos de uma hora, o grande espaço do recinto lotado.
, minha menina, você poderia pegar um vidro de azeite na despensa para mim, por favor? — Judith pediu ao me parar no meio do caminho.
— Posso sim, Jud. Já levo, tudo bem?
— Certo, querida. Obrigada. — A senhora agradeceu, apressada, sumindo entre os convidados em seguida.
Fiz o trajeto contrário à cozinha e andei através do extenso corredor, entrando no compartimento repleto de prateleiras, mantimentos e armários. Iniciei a procura pelo frasco desaparecido junto a outros potes, alheia e compenetrada na caçada, até que o tinido de um “clic” piou às minhas costas.
Olhei por cima dos meus ombros e senti minha respiração ficar irregular.
Um sério revelou-se dentro da saleta, os músculos da mandíbula apertados de um jeito que só ocorria nos momentos em que algo o desagradava ou tirava do sério. A porta atrás dele estava fechada e, a julgar pelo ruído reverberado da fechadura, também trancada.
— Pois não? Em que posso ajudar? — Zombei, irônica, humor ácido e bucólico reprovado por , que suspirou e maneou a cabeça em negação.
— Não faz isso.
Torci o nariz e balancei os ombros.
— Só estou brincando.
O aroma do perfume dele me deixou zonza.
— Não brinque. — Falou firme, pesaroso. Foi a minha vez de suspirar. — O que está acontecendo, ?
— Pergunte a sua mãe, ela com certeza vai responder a sua pergunta. — Bronqueei, cansada.
As pálpebras do advogado se estreitaram e seu semblante se fechou ainda mais. avançou alguns passos para perto de mim.
— É por isso que você está aqui? Foi ela quem pediu? — O homem inquiriu entredentes. Seu tom de voz bradou rigorosamente enfurecido.
— O que você acha? Eu estou de saco cheio, irritada e estressada e devo tudo isso ela. — Cuspi as palavras pouco ligando por se tratar da mãe dele. — Percebe que nunca vamos ter paz?

— Eu preciso entregar isso à Judith, ok? Conversamos depois. — Interrompi após tirar o vidro do azeite de cima na prateleira.
Ele me perfilou, calado. Seu olhar cabisbaixo retraiu meu estômago, me apertou o peito. Minha frustração amplificou o ódio que eu sentia de toda aquela situação. Por que minha história com tinha que possuir tantos desvios, infortúnios e poréns?
O homem limitou-se a balançar a cabeça e me dar passagem. Meus olhos arderam e o bolo que me tomou apossou a garganta tornou difícil o simples ato de engolir a saliva travada na região.
— Você está lindo, aliás. — Confessei repentinamente, sorrindo fraco para ele. As comportas dos meus olhos se encheram de lágrimas.
Não lhe dei margem para réplica. Saí dali levando comigo a vontade de jogar tudo para o alto para então me jogar nos braços acolhedores de , morada predileta dos meus mais profundos sentimentos e abrigo contra todo o mal existente.
Zarpei rumo à cozinha e coloquei o frasco sobre a mesa na velocidade da luz, ágil o suficiente para que nem mesmo minha mãe me avistasse no cômodo. Apanhei um copo d’água e passei pela porta dos fundos feito um furacão, sonhando com um pouco de sossego.
Apoiei-me em um dos pilares edificados no local, enfim expirando o ar puro livre da fusão aromática de fragrâncias caras exaladas no salão.
— Como você consegue? — Alguém disse do nada.
Meu corpo deu um sobressalto, os batimentos cardíacos acelerados zunindo em meus ouvidos. Forcei a visão e precisei controlar minha feição de surpresa ao descobrir a dona da voz que julguei conhecida.
Assim como eu, Cassie situava-se apoiada em uma pilastra. Uma taça praticamente vazia ocupava uma de suas mãos, e não foi necessária uma análise mais aprofundada para saber que muitas outras tiveram o mesmo rumo que aquela.
O tédio demonstrado na expressão dela era um tanto quanto engraçado de se ver.
— Como eu consigo o quê? — Indaguei, recuperada do susto.
— Fazer o que não quer. A impaciência está nítida e estampada no seu rosto.
Ri seca.
— Não tenho muita escolha...
— Eu também não tive hoje. Gostaria de estar em qualquer lugar, menos aqui, mas meu pai continua com essa fixação nos . Pfff, como se precisássemos deles. — Desprezou, rolando os olhos.
Cassie estava, de fato, alta.
Fiz uma careta e lhe entreguei o copo d'água raptado minutos atrás. Ela agora segurava duas bebidas, uma em cada mão, cena peculiar e risível para alguém como eu, que nunca a havia presenciado fora do personagem classudo usual.
— Parece que a noite vai ser longa para nós duas, então.
— Espero conseguir ir embora antes que ela se torne mais entediante do que está. — Bebericou o líquido não alcoólico e entortou a boca em desaprovação.
— Você veio dirigindo? — Pedi, temendo a possibilidade de a mulher pegar no volante naquele estado.
— Não, viemos com o motorista.
— Ah, que bom.
Silêncio.
Desfrutei de mais uns minutos de paz antes de decidir que já era hora de retornar ao castelo da bruxa.
— Está tudo bem com você? Não quer entrar?
Cassie negou sem tirar os olhos do celular.
— Estou ótima agora que encontrei alguém para me resgatar daqui. — Desencostou-se do sustentáculo e me entregou o copo e a taça. — Obrigada e boa noite.
— Boa noite… — Fitei-a meio desconcertada, meio risonha, observando-a se retirar e seguir rumo a saída da mansão quase saltitando.
Impulsionei o corpo contra a porta dos fundos e me arrastei de volta para aquele antro infernal.
As horas passariam rápido. O tempo seria o meu amigo.

**


Uma sinfônica música suave embalava a interação entre os convidados dispostos no salão. Movimentos robóticos e apáticos continuavam a regir minhas ações, as quais eram meticulosamente seguidas por , que me observava sob o copo de bebida sem se preocupar em ser discreto, amparando cada passo meu em meio àquelas pessoas preenchidas pela própria vaidade.
Estendi a rica bandeja com petiscos de aparência exótica e tentei me mostrar receptiva ao servi-la, contudo, não corresponderam à minha simpatia engessada. Contorci o rosto em uma careta nada sutil, estressada o bastante para não me importar com os protocolos de conduta cabíveis à situação.
Por um momento senti à vontade alucinante de buscar o conforto que somente os olhos de me traziam. Ludibriando as normas impostas por mim mesma, virei a cabeça e o encontrei. Braços cruzados, drink na mão, semblante impassível.
Ele estava ali.
Seu amparo, sua segurança, meu refúgio entre o caos; a conexão cuja intensidade jamais sucumbiria aos impasses existentes em nossa história cheia de “e se’s” e “poréns”.
A brecha para reabastecer minhas energias foi imediatamente cessada por um estrondo seco de vidro se estilhaçando no chão. Dei um pulinho assustado e conduzi meu olhar rumo ao espaço pelo qual o som reverberou, deparando-me com Kyara e sua carranca predadora. Os estilhaços cristalinos espalhados rente aos pés da mulher denunciaram-na. Não foi um acidente. Ela olhou em volta e me reconheceu ali, a menos de cinco passos de distância. Cerrou as pálpebras felinas como um caçador que avista uma presa em potencial, deixando-me a ponto de ter uma síncope nervosa.
, limpe isso. — Ordenou num tom cortante que se sobressaiu à melodia ambiente. Uma curvatura vil despontou dos lábios rubros, conferindo-lhe o caráter vilanesco que caía muito bem aos trejeitos calculados da matriarca dos .
Pisquei, desorientada e a encarei, atônita.
Pares de olhos fincaram-se em mim, todos cheios de ângulos, curiosidade e indiferença. Meu estômago embrulhou, o embaraço tomou conta de cada célula do meu corpo paralisado. Pude ouvi-la repetir a ordem de maneira ainda mais ditatorial, contudo, continuei imóvel, sentindo o sangue em minhas veias correrem com agilidade, tão rápido quanto as batidas aceleradas do meu coração.

Reuni uma boa quantidade de fôlego e foquei minha atenção na figura autoritária logo à frente. Uma onda de coragem inconsequente assumiu o controle da minha boca, que se abriu trêmula antes de proferir a palavra enfática, libertadora e catártica que clamava para ser dita.
— Não.
Ela me olhou como se eu tivesse sete cabeças. Soltei uma lufada de ar pesarosa. Não conseguia manter as mãos paradas, pressionando as unhas contra a palma com uma força que não podia perceber naquele momento.
— Perdão, acho que não me fiz clara… não foi um pedido. Mandei limpar. — A frase ressoou áspera, sussurrante.
— E eu disse não.
Uma inquietação de pavor borbulhou em meu âmago, entretanto, me mantive firme. Os orbes de Kyara se espreitaram e me mediram venenosos, incendiários.
— Você perdeu o juízo? — Rumorejou novamente, as írises calculistas olhando em volta a fim de se certificar que não estávamos despertando o interesse de ninguém. — Para a sua sorte, meu humor está esplêndido, sendo assim lhe darei uma última chance… limpe. Agora.
Senti meu mundo girar lentamente até parar. Eu me sentia balançando à beira de um precipício, a um passo em falso de mergulhar no abismo. O ódio crescente dentro de mim tomou o controle de todos os meus atos e gestos, cegando-me para absolutamente tudo.
— Não vou limpar porcaria nenhuma, cansei. Não trabalho para você, só te aturo por causa da minha mãe, mas agora chega. Qual é o seu problema comigo? — Desengatilhei minha metralhadora verbal. O alvo me fulminou com os olhos.
O vermelho-raiva se esparramou na pele de sua face.
— Meu problema é com quem não sabe se colocar no próprio lugar. — As palavras de Kyara aumentaram alguns décimos. — Se não fosse por mim, você e sua mãe teriam ido morar debaixo da ponte e você estaria em um trabalho qualquer, e não fazendo faculdade para ajudar a resolver os problemas dos outros, quando nem sequer tem capacidade para resolver os próprios. Não tome o meu tempo e obedeça imediatamente, garota petulante!
Perdi a cabeça e o controle dos meus próprios atos.
A olhei desafiadora e arremessei a bandeja no chão.
O estardalhaço reverberou ensurdecedor, espalhando os quitutes pelo piso de porcelanato. Pude ouvir comentários e buchichos espantados. Parecia que Kyara estava sendo estrangulada por uma sucuri, de tanto que os seus olhos saltaram.
— O meu lugar é onde eu quiser. A senhora só nos abrigou para amaciar o próprio ego e para ABUSAR DA BOA VONTADE DA MINHA MÃE, que passa quase VINTE E QUATRO HORAS naquela cozinha! — Gritei, irada.
Minha consciência insistia que eu deveria parar. Mas minha consciência era personagem secundário na equação.
A plateia à nossa volta nos assistia em completo estarrecimento. Para mim, todos não passavam de borrões. Henrico apareceu, visivelmente atônito e furioso. Em sem encalço estavam Rosalyn e Leon, ambos pasmos e assustados.
Nada me importava. Eu estava fora de mim.
— Posso saber que baderna é essa?! — Ele esbravejou ao lado de Kyara.
— Essa garota é uma selvagem mal educada! — Ela respondeu, fitando-me enojada como se eu fosse um tipo de inseto.
Nós formigaram em minha garganta. O chão desapareceu debaixo de mim como se tivessem puxado um tapete sob os meus pés.
— E a senhora é uma megera elitista! Só porque são milionários andam por aí achando que podem destratar as pessoas, mas não podem! Caráter vem de dentro, vem da alma, e não do bolso. Não tenho uma quantia na conta com sei lá quantos dígitos, no entanto, tenho a consciência limpa por nunca ter diminuído ninguém e por nunca ter feito uma pessoa se sentir mal. Você se acha melhor do que todo mundo, mas não faz nem a própria unha. Mil vezes eu do que você, Kyara. — Cuspi, com os olhos marejados.
Minha visão embaçada pelas lágrimas transformou a representação das imagens e acontecimentos em borrões desfocados.
Escutei a voz de Henrico proferir uma frase ou duas, porém, a escuta não passou de frases emboladas. Não ouvia direito, não enxergava direito, não raciocinava. Meu peito doía e eu mal conseguia respirar.
— O que significa isso? O que está acontecendo? — A voz de trovão me levou a virar em sua direção.
.
Ele me fitou confuso e escorreu os olhos cuidadosos ao longo de cada pedaço do meu rosto, franzindo o seu ao acompanhar o rastro de um pranto não autorizado molhar a minha bochecha. Subiu a carranca para os pais, sobretudo para a mãe, e se posicionou de maneira protetora um pouco mais à minha frente.
— Veja por você mesmo! Olhe a zona que essa garota atrevida causou. — Kyara ralhou, apontando para a bandeja e a sujeira na cerâmica.
— Não fale assim, mãe. — O advogado repreendeu duramente. A mulher esbugalhou os olhos outra vez. — Por qual razão isso aconteceu?
— Eu não acredito que você vai defendê-la, . Olhe esse vexame! Ela simplesmente jogou um utensílio doméstico no chão!
— Não foi exatamente assim e a senhora sabe bem disso! — Me defendi, raivosa. — Sua mãe quebrou um copo de propósito, só para eu limpar. Eu…
— Não se explique. — O homem interrompeu, gentilmente. — Eu acredito em você. — Afirmou, pegando o meu rosto entre as mãos.
Na frente de todo mundo.
Na frente dos avós.
De seus pais.
Kyara tinha a aparência de alguém que havia visto um fantasma ou que ouvira a pior das ofensas.
— Ah, meu Deus. Não pode ser. Essa garota fez a sua cabeça, !
— Eu sou um homem adulto, tomo minhas próprias decisões e escolho quem desejo ter ao meu lado. Pare de agir dessa forma ridícula, pare de querer me controlar e, acima de tudo, pare de tentar atingir . Não percebe quão longe esse seu comportamento chegou, mãe? Olhe ao seu redor… honestamente, vale a pena?
A mulher varreu o recinto com os olhos, transcorrendo-os pelos rostos indiscretos e observadores dos espectadores daquele circo. Passou as írises flamejantes por mim e, em seguida, as fincou no filho.
— Então é ela que você…
— Sim, é ela. — cortou direto e objetivo.
— Que afronta… inacreditável! — Gemeu irredutível em sua atitude birrenta. Henrico tentou guiá-la para fora do recinto, porém não obteve sucesso.
O homem encarou um ponto atrás de nós e apressou-se para ir de encontro à pessoa que irrompeu salão adentro feito um foguete.
Minha mãe. A cereja do bolo.
Encolhi os ombros e torci para que o chão se abrisse e me engolisse.
— O que houve aqui?! — Indagou, exasperada com Judith em seu encalço.
— Sua filha houve aqui, . — Não contente, a matriarca dos soltou seu veneno novamente. — Mas isso não tem nada a ver com você.
— Engano seu, Dona Kyara. Tem tudo a ver comigo… é uma parte de mim, é minha filha. — Ela defendeu sem delongas, utilizando de seu raio-x maternal para pescar, no ar, a situação desenrolada ali.
— Mãe… — Murmurei.
— Tudo bem, filha. Eu já soube o suficiente. Chega.
Arregalei os olhos.
— Como assim…?
, vamos conversar no escritório, por gentileza. — Henrico intercedeu, firme.
— Vá para casa, . Deixe que eu resolvo. — Decretou quase sem piscar. Eu jamais a havia visto de tal maneira, e preferia ter continuado assim.
Limitei-me a concordar, assistindo-a encarar Kyara com uma expressão indecifrável sobressaída na feição rígida. Os dois se retiraram do local e eu girei os calcanhares com o intuito de fazer a mesma coisa, imersa em um tipo de nevoeiro cognitivo que nublava meu julgamento e percepção sobre mim e sobre terceiros.
— Você nunca terá o sangue de nossa família, nunca se encaixará em nosso mundo. — A mulher farpeou, maldosa. — Agradeça a mim pelo pouco que possui, tudo me pertence de alguma forma. Desde a casa, até as roupas, inclusive essa que está usando.
Notei Rosalyn lhe direcionar um comentário e censurá-la, mas não existia coisa alguma que eu conseguisse vislumbrar ou ouvir com nitidez.
— Ainda bem. — Rebati, sincera. — E não seja por isso.
Tirei o avental por meio de um forte puxão, conferindo a ele o mesmo destino dado a bandeja. Meu temperamento inflamável governou os movimentos a seguir, e antes que fosse capaz de impedir, puxei o vestido para os lados, rasgando o pano e fazendo os botões voarem sabe-se lá para onde. Arranquei a peça com ódio e feliz, na mesma proporção, e a chutei na direção de Kyara, trajando somente calcinha e sutiã.
O queixo dela caiu; os burburinhos ecoaram de novo.
Sorri satisfeita.
O blazer preto de cobriu o meu corpo sem demora. Senti suas mãos fortes e zelosas se sustentarem na base da minha coluna e me guiarem gentilmente à saída do lugar.
Talvez Leon tenha conseguido tirar Kyara do salão; talvez Rosalyn estivesse nos acompanhando para fora do cômodo. Minha habilidade de registrar as informações ao meu entorno mostrava-se comprometida, permitindo apenas que eu me deixasse ser conduzida sem maiores empecilhos.
— Primeiro eu a vejo seminua no apartamento do meu neto, depois você agita essa festa aporrinhante… seminua. De fato, gosto muito de você, amada. — A senhora declarou, pomposa.
Eu quis rir, entretanto, não encontrei forças para tal ato.
— Tudo bem, vó. Eu assumo por aqui. Obrigado. — Escutei dizer.
Ela assentiu e se colocou à disposição para o caso de necessitarmos de algo, ausentando-se para que o neto e eu continuássemos a caminhada silenciosa sozinhos. O vento frio nos rodeou com uma rajada intensa após alcançarmos o lado de fora da mansão, e foi naquele segundo em que a minha consciência em slow motion me obrigou a acordar e realizar uma auto observação em meu corpo tampado pela roupa de .
— Eu falei todas aquelas coisas para a sua mãe, mas não vou dizer que eu sinto muito, porque não sinto nem um pouco. — Admiti ao quebrar o silêncio. — Você não é igual àquelas pessoas, mas seus costumes são, . Sua criação te possibilitou de ter os manejos necessários para esse tipo de coisa, por mais que você tente ser alguém simples, você não é. Eu não sei lidar com isso tudo. Como lidar com esse tipo de situação? — Desembestei a falar. — Por que nós não podemos ter paz? O que vai ser de mim e da minha mãe?
As frases embargadas eram verbalizadas como um descarregamento de emoções, e o advogado pareceu entender. Ele não precisava dizer nada, só precisava me ouvir. Eu só queria que ele me ouvisse.
E assim foi feito.
Senti os braços fortes de me cercarem e me puxarem para perto. Sussurros de "sinto muito" foram proferidos contra o topo da minha cabeça enquanto eu desaguava num choro baixo e nervoso. O sentimento de impossibilidade e de fraqueza era, com certeza, o pior.
Solucei baixinho contra o seu peito; os braços apertaram-me com dedicação por mais alguns minutos, espalhando um calor gostoso através do meu corpo exausto.
Separei-me de e limpei o rosto. A dor exposta no dele quase me levou às lágrimas novamente, lágrimas as quais mal tinham cessado. Intencionei tirar o blazer, contudo, o advogado me refreou ao erguer a palma e negar.
— Preciso ir.

— Conversamos depois, eu prometo. Eu só preciso… colocar a cabeça no lugar. — Comuniquei, exausta.
O homem somente deu um aceno positivo, sério e concentrado em mim.
Fui resgatada da inércia deprimente, pequenos fragmentos de bom-senso me atingiam à medida que a minha adrenalina baixava.
Céus, o que eu fiz?
Murmurei um boa noite e caminhei até a “minha” casa.
Ela não era minha. Era única e exclusivamente uma moradia, e não o meu lar.
Os olhos de queimaram na parte posterior do meu corpo.
Girei a maçaneta e entrei num rompante, cruzando a sala e indo direto para o que era, até então, o meu quarto. Eu não fazia ideia se ele continuaria a ter tal utilidade.
Minha intuição gritava que não.
Joguei o meu corpo de qualquer jeito na cama e iniciei mais um round de um choro baixo, sufocante. Naquele momento, eu não desejava pensar em coisa nenhuma, pois tinha plena certeza de que, dali para frente, o que eu mais faria seria justamente aquilo: pensar, raciocinar, decidir sobre um bocado de questões diferentes.
Concedi à minha mente a permissão para anuviar.
Flashes das ocorrências da noite atrapalharam tais pretensões, no entanto.
Céus… o que eu fiz?


Lady Tremaine: A Madrasta Malvada da Cinderela.








Continua...




Nota da autora: Depois de algum tempinho sem atualização, eis-me aqui com 3 capítulos para vocês! <3 Por favor, não esqueçam de deixar um comentáriozinho para esta autora que vos fala, eu com certeza ficarei feliz <3 Para ficar por dentro das datas de atualizações futuras, basta entrar no grupo da fic, o link está na página inicia da fic, na aba "sobre a autora". Beijinhos. <3<3<3



Nota da beta: Ai, meu Deeeus, esses capítulo foram muito tristes, ver o meu casal separado dói demaaaais, e esse fim me arrepiou inteirinha, ai, ai pp, cuidado. Espero esses dois juntinhos logo.


Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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