Última atualização: 05/05/2019

Prologue

’s POV

Eu parecia um palerma no meio do corredor daquele hospital, hipnotizado por ela. Mas sempre havia sido assim desde que coloquei meu pé naquele lugar pra fazer minha residência, a enfermeira de olhos castanhos cor de mel me hipnotizava sempre que dirigia o olhar a mim, sendo ele de repreensão por alguma merda dita, fosse em demonstração de orgulho por algo certo. Ela tinha um olhar para tudo, exatamente tudo e para minha grande felicidade, eu conhecia todos eles com a palma da minha mão. Então, no momento, ela me olhava como se fosse me devorar com uma abocanhada só.
Entenderam porque eu estava feito um palerma no meio do corredor?
Porque aquela mulher me tirava do sério há uma boa porção de anos, mais precisamente, treze. Ainda mais quando caminhava lindamente na minha direção como se tudo que ela precisasse era que eu notasse sua presença. O que não era tão complicado quando era exatamente isso que acontecia quando ela estava perto de mim.
- Fecha a boca, você vai babar, querido. – ela empurrou meu queixo com dois dedos e me fez rir. – Já foi buscar as meninas na creche? Hoje é o seu dia. – piscou, me tirando daquele transe maravilhoso que eu entrava sempre que a encontrava nos corredores e me roubou um sanduíche que pendia na mão. Pois é, a enfermeira de olhos castanhos cor de mel, era minha esposa, minha linda e brilhante esposa. – Nossa, sanduíche bom! – ela disse de boca cheia me fazendo rir.
- Me dá um beijo. – abracei-a pela cintura e ganhei um selinho rápido. – Um beijo, anjo! – fiz a maior manha que ela não deu a mínima. – E não, ainda não fui buscar nosso trio na creche, mas aposto que a América e a Luna devem estar armando a revolução, enquanto a Tiana coordena. – declarei a fazendo gargalhar escandalosamente, mas era uma gargalhada tão gostosa de ouvir que suspirei contente.
- Você é doido, doidinho! – ela rodou o dedo em volta da orelha, enfiando o resto do meu sanduíche na boca. estava comendo demais, demais mesmo, pra caramba, mas felizmente estava tudo indo pra bunda. E que bunda. A bunda daquela mulher era linda.
- E você me ama! – lhe roubei um beijo. – E o Ben? – perguntei com um sorriso imenso pelo nosso rapazote, lembrando do vídeo em que ele lia algo mirabolante para nossas meninas e minha esposa abriu um imenso sorriso.
- Já fui deixar no colégio e assim que sair de lá, ele volta direto pra casa da sua mãe. – ela piscou sorrindo e me roubou um outro beijo. – Embora eu tenha certeza que vamos precisar revezar no sono hoje, já que as trigêmeas devem estar elétricas por terem dormido a noite toda.
- A gente não pode deixar elas com a dona Louise? – fiz um bico imenso, mas que foi beijado, então valeu a pena.

Dr. , compareça a emergência. Dr. , compareça a emergência.

A voz do anjo, como apelidamos o interfone, me chamou e na hora me dei conta de que deveria ter sido algo grave. Suspirei afrouxando os braços ao redor da minha enfermeira instrumentadora e ganhei o melhor dos beijos de boa sorte, por mais que ela soubesse que eu não operava sem ela. Eu nunca havia feito uma mísera cirurgia, depois que virei staff, sem instrumentando e sinceramente, eu nunca queria passar por aquilo. Era uma parceria de mais de sete anos. Juntos nós éramos um time, o melhor dos times.
- Eu pego as meninas. – ela sorriu pra mim e caminhou na direção da creche, enquanto eu corria pra emergência.



THE YEAR WE MET
Chapter 1

’s POV

Parei a moto no estacionamento do Saint Paul, tirei o capacete e sacudi os cabelos vendo a manada de residentes e internos das mais diversas áreas saírem dos seus carros e motos para irem em direção a 30 horas de plantão. Vi meu grupo de residentes ao longe e acenei pra eles parecendo uma professora simpática. Aquele dia não tinha começado muito bem e eu contava com aquele trio de ouro pra me animar. Me estiquei colocando a bolsa a tiracolo e joguei as chaves da moto dentro, rezando para que o Robinson não viesse mais uma vez, me encher a porra da paciência pra instrumentar qualquer cirurgia dele. Quando o homem ia entender que dele eu só queria o casual?
Aproveitei para prender o meu cabelo antes de entrar no hospital e o arrumei todo pra cima, deixando boa parte dos cachos pendurados em um rabo de cavalo que iriam para dentro de uma touca extra G dali alguns minutos. Eu simplesmente amava meu trabalho, ser enfermeira era algo incrivelmente maravilhoso que preenchia a minha vida. Era como se me renovasse a cada cirurgia instrumentada, a cada adrenalina dentro daquela sala e principalmente o respeito que todos ali nutriam por mim. Principalmente alguns dos cirurgiões arrogantes. Infelizmente era algo recorrente na corja antiga, mas que estava mudando com a nova geração de residentes.
Acenei para mais algumas conhecidas minhas que assim como eu, pegariam aquele plantão diurno e sem querer, esbarrei em um garoto que tinha ao menos o dobro do meu tamanho em massa corporal. Do susto tentei me encolher, me segurar e me manter firme ao mesmo tempo, quando ele segurou meus ombros, tentando estabilizar meu péssimo equilíbrio matinal.
- Desculpa, moça! Não foi por querer. – o rapaz se desculpou desviando rápido o olhar para o grupo de amigos que não tinha deixado de seguir para esperá-lo e, por mais que a vontade dele fosse de seguir, ele ainda esperava que eu me pronunciasse.
- Tudo bem, sem problemas! – respondi empática e me recompus, o fazendo me soltar e me lançar um sorriso disperso, depois correr na direção do grupinho mandando um tal de “” esperar. Aquele nome era diferente e infelizmente grudaria na minha cabeça o dia inteiro até perder o sentido. Meu cérebro funcionava miseravelmente daquele jeito e era frustrante não poder se livrar de uma palavra qualquer.
Finalmente consegui entrar no hospital sem mais intercorrências e após me trocar, dar tarefas ao meu trio de residentes mais foda daquele lugar, checar as eletivas do dia, ver direitinho o quadro e ver quanto tempo eu tinha até que pudesse orientar meus meninos, me apossei do balcão do posto da ala cirúrgica. Ali eu não podia tomar café, comer qualquer coisa ou fazer atividades suspeitas que viesse a contaminar, mas ao menos eu podia secar os médicos bonitões que passavam e atualizar a minha lista de sexo com homens bonitos, enquanto me perguntava porque não tinha ficado ainda com os que não eram casados. Mas muitos solteiros eu pegaria de novo, não era nada mal, na verdade.
E falando em médico bonitão, um certo cirurgião bonito pra caramba, mas que não valia uma lâmina 10, andava na minha direção com o maior jogo de cintura que eu já tinha visto naquele lugar. Definitivamente, Robinson era uma figura. O aspirante a neurologista chefe colocou um belo copo de café em cima do meu balcão e fiz uma careta.
- Já disse que nada de comida aqui, Robinson. – tentei ser dura, mas saiu mais como um deboche o que o fez rir baixo.
- Por que não, Mills? Eu trouxe especialmente pra você. – ele fez um bico e empurrei de leve o copo pra dentro do balcão. Jogar no lixo seria rude demais, ao menos na frente dele.
- Quer me comprar com café dessa vez? – escorei na bancada com um lado do corpo e ele fez o mesmo, só que muito sinuosamente. Eu sabia que sempre, sempre que ele me trazia café, queria alguma coisa.
- Quer instrumentar uma cirurgia minha hoje? É rapidinha, não vai te atrapalhar em nada.
Respirei fundo. Santa insistência. Ele não era uma pessoa ruim, eu só realmente não levava meus relacionamentos casuais a nível profissional, então eu preferia nem me envolver com sala de cirurgia com o cara dentro. Fosse ele enfermeiro ou médico.
- Eu já te disse. – ri baixo. – Eu não instrumento cirurgias de caras com quem saio e você sabe disso. Não gosto de misturar as duas coisas. – fui clara e ele rolou os olhos como se quisesse me irritar ainda que na brincadeira. – Mas posso mandar um dos meus residentes, garanto que eles vão te deixar orgulhoso.
- Eu quero você. – ele soprou em um convencimento que me causava ânsia. Céus como ainda saía com aquele homem? O sexo, , não tinha outra alternativa.
- Vai ficar querendo. – pisquei ao falar vagarosamente. Felizmente eu conseguia ser ainda mais convencida do que ele.
Ele soltou um suspiro impaciente e quando eu achei que fosse por minha recusa, percebi que dois residentes o procuravam com uma prancheta em mãos. Peter virou para os dois rapazes com uma arrogância fora do normal e aquilo me remexeu do jeito errado. Ele não precisava ser tão babaca daquele jeito, com certeza um daqueles dois iria colocar ele no bolso em pouco tempo. Aquele era um dos males de ser arrogante, você não se recicla. Prestei atenção nos dois residentes prestando atenção no que ele dizia e as instruções que dava para uma possível cirurgia, que um deles mencionou o Antunes.
Aquilo foi o suficiente pra me fazer entender que era um caso gigante no qual eu estaria metida no meio, instrumentando o Antunes, não o Robinson. Harold Antunes era como um pai pra mim, portanto ele era um dos médicos no qual eu mais tinha respeito dentro daquele hospital e isso queria dizer que uma cirurgia dele sempre significava um sim. Óbvio que eram as mais legais, ele definitivamente era o traumatologista mais foda que eu havia conhecido na minha vida, mesmo que ela não fosse tão longa assim.
Continuei a prestar atenção naquela conversa dos três e me dei conta de que o residente maior era o que quase tinha me derrubado no estacionamento aquela manhã. Eu me sentia uma depravada em encarar o rapaz daquele jeito, principalmente quando ele não parecia ter mais de 23 anos, mas tinha um par de ombros de dar inveja a qualquer um.

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’s POV

- Definitivamente, eu odeio esse cara. – rolei os olhos quando estava indo com , preparar o nosso caso para a cirurgia e meu amigo riu alto. – Como você aguenta?
- Sendo bem sincero? – me olhou com a maior cara de deboche me fazendo rir. – Nem eu sei, meu caro amigo. Nem eu sei, acho que é a vontade grande de aprender a consertar cérebros alheios.
- Você vai pro céu, . – suspirei meio saturado, dando tapinhas no ombro do meu amigo e rimos dentro do elevador.
Peter Robinson era o tipo de cara que eu não queria ser, na verdade era o tipo de cara que eu estava tentando evitar depois de uma péssima noite. Eu não havia dormido direito e minha paciência estava do tamanho de uma ervilha para aguentar desaforos de certas pessoas, aquele cara era um escroto e eu não entendia como toda semana ele aparecia com uma mulher diferente no estacionamento do hospital. E o pior, além de serem bonitas, elas pareciam ser bem legais e bem sucedidas. Era isso que não justificava o fato de ficar com ele. Robinson era um idiota arrogante.
Eu e preparamos a paciente para a cirurgia e logo depois fomos nos vestir e nos lavar pra acompanhar o grande feito da medicina. A galeria estaria completamente cheia naquele dia e confesso que estava ansioso para conseguir ajudar em alguma coisa que fosse, assim como meu melhor amigo também estava. Ser residente era algo fora do comum de tão incrível, óbvio que só deveria perder para ser um Staff, mas ao menos a gente tinha a chance de mostrar o que sabíamos e participar de cirurgias incríveis. Naquele momento eu queria muito que , minha irmã, já fosse residente que nem nós dois, mas infelizmente ela ainda era interna da outra turma.
Parei em frente a pia para me lavar e a torneira que eu iria usar estava quebrada. riu da minha cara de cu e empurrei ele de lado, fazendo meu amigo rir ainda mais.
- Hoje não é seu dia! – o mais desnecessário que existia me zoou e rolei os olhos.
- Você não imagina o quanto. – soltei uma risada mais do que frustrada e esperei meu amigo terminar de se lavar. – Acordei tarde, não comi direito, aguentei minha mãe reclamando três horas no meu ouvido porque eu tinha chegado de madrugada, quase derrubei uma moça no estacionamento e ainda tive que aguentar desaforos do seu professor. – suspirei saturado e só ouvi ainda mais risadas. – Deixa de ser cuzão, ! – bufei meio irritado, sabendo que nada daquilo tinha acabado meu dia. Na verdade, a noite anterior tinha.
- Você sabe que tudo isso é por causa do fora que a Sâmires te deu ontem, né? – meu amigo filho da puta jogou a verdade na minha cara e o puxei da pia, indo me lavar e querendo me afogar ali.
- A gente já tinha transado uma vez, como caralhos eu ia saber que ela não repetia transa. – rolei os olhos com aquela regra meio sem sentido pra mim. Se você gostava de ter saído com uma pessoa, era lógico que você iria querer sair de novo.
Sacudi a cabeça mais magoado com ter sido rejeitado do que qualquer outra coisa. Não que eu fosse louco por ela, mas tomar um não na cara magoava qualquer ego masculino que fosse. Todo homem sabia disso e não era qualquer mentira, alguns aproveitavam isso pra tocar a vida, outros se aproveitavam de forma ruim. Eu estava bem encaixado na primeira opção. Se ela não queria, eu encontraria quem quisesse.
Entrei no centro cirúrgico, deslumbrado com a quantidade de cirurgião foda dentro daquela mesma sala e respirei fundo não acreditando que eu estava mesmo ali. Olhei para o do meu lado e sorrimos sentindo exatamente a mesma coisa, era maravilhoso demais poder participar, mesmo que assistindo, de uma puta cirurgia daquela que juntaria neurocirurgia, traumatologia e mais uma caralhada de especialidades se o negócio desse merda. Mirei meu olhar na galeria enquanto andava na direção dos técnicos que nos ajudariam a vestir o capote cirúrgico e senti meu corpo quase capotar por cima de outro.
- Qual o seu problema? – o grito esganiçado veio bem na minha cara e a única coisa que eu consegui focar foi nos olhos da mulher. Merda! Eu tinha contaminado nós dois.
Abri a boca pra tentar me desculpar, mas o que consegui foi um olhar fuzilante da médica, ou seria enfermeira? Eu não sabia, a única coisa que eu conseguia processar era o quanto aquela mulher tinha olhos tão lindos e o quanto ela queria me matar, só pela força com que arrancou o capote cirúrgico do pescoço e saiu me xingando de interno.
- Eu sou residente! – me prestei ao ridículo e a sala inteira caiu na gargalhada com minha passada de vergonha. Olhei pro Antunes e ele tentava parar de rir, mesmo que não conseguisse.
- Vá se lavar, Dr. . De novo! – o homem mandou ainda rindo e balançando a cabeça de forma negativa. – Só, por favor, dessa vez não contamine nossa instrumentadora. – enfermeira, ela era enfermeira.
Eu tinha a sorte de ter um staff gente boa, porque se ali fosse o Robinson, a gente tinha saído no soco, principalmente depois da cara que ele fez quando eu esbarrei na enfermeira. Quem era ele para me olhar daquele jeito?
Me lavei novamente e ao entrar na sala, ouvi algumas risadinhas idiotas, aproveitei pra passar longe da mulher que me mataria com uma pinça se pudesse e me pus ao lado do Antunes, prestando atenção em tudo que ele se propunha a explicar pra mim e pro , por vezes sendo interrompido pelo Robinson com a mesma finalidade. A cirurgia começou divinamente bem, me fazendo desejar ter toda aquela prática e experiência um dia, tinha que confessar que os caras eram bons demais. Aquela senhora estava com a coluna praticamente aberta na mesa e por mais que o Antunes e o Robinson fossem completamente diferentes, eles tinham um sincronismo de dar inveja a qualquer um.
Por vezes, achei que a coisa iria dar merda quando as complicações apareceram, mas foram incrivelmente solucionadas com maestria, me fazendo entender que eu tinha muito, muito a aprender com aqueles caras, por mais que eu quisesse matar um deles.
Sabe aquela história de que você precisava fazer do seu trabalho o melhor do mundo? Eu via exatamente aquilo em meu professor, ele deixava a sala de cirurgia o mais familiar possível para ele, especificamente para ele. Então se você queria ouvir uma boa música enquanto operava, era com Harold Antunes. Ele tinha um gosto musical bem eclético, mas era muito fã do Queen, ou seja, vocês já tinham uma ideia do que tocava quando as cirurgias eram incrivelmente difíceis e no momento estava rodando “Another One Bites The Dust”. Ele não dançava, mas balançava a cabeça casualmente e me dava vontade de rir. Não era como se eu fosse ouvir música quando fosse mexer com a coluna de alguém, se você queria concentração, o silêncio era o melhor remédio. Coisa que mudou totalmente a minha concepção quando ouvi uma voz doce em meio aos bips, cantarolando a música.
Foquei minha visão na instrumentadora e ela balançava a cabeça por vezes, no ritmo da música e cantarolava junto parecendo checar as pinças que distribuía para a gente. Eu sei que deveria estar prestando atenção no andamento da cirurgia, mas alguma coisa nela me prendia sem eu entender porquê. Ri baixo com a encenação e de repente a vi me olhar como se eu fosse um louco, continuei a encarar aqueles olhos cor de mel e a mulher olhou para o Antunes como se indicasse alguma coisa, ou me avisasse que eu ia ser morto. Sacudi a cabeça de leve e ouvi o chamado.
- Dr. ? – o traumatologista me chamou e finalmente tomei fôlego do mar castanho que tinha me envolvido.
- Oi, oi. Doutor! – pisquei acordando e meu professor riu. Desviei rápido o olhar para ela e a vi rolar os olhos como se estivesse entediada.
- Podem finalizar pra mim? – ele deu um leve passo pra trás na mesa, se referindo a mim e ao e eu senti meu coração e cabeça explodirem.
EU IA FINALIZAR A CIRURGIA, CARALHO!
Olhei para e ele tinha a mesma expressão de alegria, satisfação e euforia no rosto. Era nossa, a gente ia dar os últimos pontos, fechar a cirurgia, acompanhar a paciente e muito provavelmente não dormir um pingo a noite. Mas nós dois, meros residentes, iriamos ter a honra de finalizar a cirurgia! Eu queria gritar, gritar!
- Claro! – nossa resposta saiu exatamente na mesma hora, parecendo até coro o fazendo rir.
- Você tem certeza, Harold? – um doce para quem adivinhar quem era o escroto. – Eles são residentes.
- Mas é claro que tenho certeza. Eu confio nos meus residentes, Peter. Você não? – o traumatologista mais foda que eu tinha conhecido em toda a minha vida disse com uma segurança que destruiu o outro lá, o fazendo suspirar vencido e finalmente se afastar da maca.
Ali era o caminho para nossa ascensão na cadeia alimentar da medicina.

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Saí da sala sem pisar no chão de tão flutuante, do meu lado precisava de um grande peso de porta, ou sairia voando pelo teto do hospital até se perder no céu. Nós éramos ótimos futuros cirurgiões que conseguiriam tudo que quisesse no futuro, afinal começávamos de baixo, começávamos apenas com a finalização de uma cirurgia. Aquilo era um imenso sinal de confiança que nos enchia o ego.
- Cara! Você viu que incrível o que a gente fez? – soltou um grito esganiçado, quase me sacudindo e arregalei os olhos na mesma proporção.
- Claro que eu vi! Foi foda demais, meu Deus! – passei a mão pelo cabelo, completamente incrédulo. – Nós somos uma dupla muito foda, a gente ainda vai operar muito juntos, você vai ver!
- Vamos ser o Han Solo e o Chewbacca desse lugar! – meu amigo disse rindo e me fez rir junto, quando a gente se abraçou mais do que feliz por ter conseguido fazer algo mais importante do que assistir. De repente todos os anos de estudo estavam realmente valendo a pena naquele lugar.
- Muito mais do que isso. A gente vai ser o Tico e Teco, sem dúvidas! – tentei prender a risada, mas gargalhamos com a melhor lombra do mundo, a lombra da felicidade.
- Quantos anos você tem, ? – o grito do foi escandaloso me fazendo rir junto com ele. Nós éramos dois idiotas. – Tico e Teco?
- Timão e Pumba é melhor? – perguntei ainda aos risos e me acompanhou. Eu não tinha culpa, se havíamos sido criados vendo Disney.
- Só se eu puder ser o Timão! – meu amigo me empurrou de lado e fiz uma careta, eu não queria ser o Pumba. – Mas pensei em Chuck e Wilson! – olhei pra ele e sacudimos a cabeça rindo.
- Ferris e Cameron, definitivamente. – fechamos o selo com soquinho e continuamos rindo pelo corredor.
- Afinal é isso que a gente esta fazendo mesmo dentro desse hospital. Curtindo a vida adoidado. – não me aguentei com a piada e o empurrei pelo ombro, fazendo meu amigo andar mais uns passos à frente.
Parei em frente ao quadro de cirurgias e logo ela me veio à cabeça. Quem era aquela mulher que quase tinha me matado, mas, mesmo assim, eu ainda estava encantado por ela?
- O que foi? – ouvi o perguntar um pouco atrás de mim.
- Você sabe o nome da instrumentadora? – fiz uma careta desgostosa por não ter nada de útil naquele quadro.
- A que você quase derrubou? – prendeu a risada e rolei os olhos.
- Sim! Ela, cara, você viu os olhos daquela mulher? Eu fiquei completamente preso e encantado. – virei a atenção pra ele, recebendo um suspiro cansado. Ali vinha coisa.
- Jura? Sério mesmo? Você fez uma das coisas mais fodas do seu início de carreira hoje e tá preocupado com os olhos da enfermeira, ? Supera a Sâmires que nem gente normal. – meu amigo rolou os olhos querendo me matar e com razão. Mas eu não tinha culpa, se só conseguia pensar nela, eu só... – Jura que você fechou a coluna da mulher e tá pensando na enfermeira instrumentadora? – parecia bem incrédulo com minha postura e na verdade, até eu estava. O que droga aquela mulher tinha feito comigo?
Meu amigo, que com certeza, iria pro céu por aguentar um neurologista tão arrogante, tirou o gorro da cabeça e jogou na minha cara com força, como se eu fosse um traidor. Aquilo me fez rir alto. Depois saiu sacudindo a cabeça e se eu o conhecia bem, ele estava me xingando por eu não ter jeito, mas era diferente àquela vez, eu juro que era.

-x-x-x-

Vinte e quatro horas, já eram quase as 24 horas completas do caso em que eu e estávamos cuidando, eu tinha mandado meu amigo para o descanso e continuava a observar a senhora ainda em coma, me perguntando se ela voltaria a ser o que era antes do acidente. Se lembraria dos filhos, marido, ou até dos netos. Era estranhamente fascinante saber que tínhamos técnicas para mexer nos sistemas de uma pessoa e ainda deixá-la viva e bem.
Suspirei largando meu livro um pouco de lado e passei os olhos em toda a monitoração que estava instalada na paciente, percebendo que há, pelo menos, uma hora, a alimentação enteral não tinha descido um centímetro. Aquilo estava errado, de forma alguma poderia estar certo. Levantei da poltrona e apertei um pouco o recipiente, na intenção de que a pasta descesse como nos havia sido ensinado, mas nada aconteceu. Estava obstruído. Cocei de leve a cabeça e decidi chamar a enfermeira do setor, as pessoas que mais salvavam a gente dentro daquele hospital.
Adentrei o posto, dando graças a Deus por ver uma delas atrás do balcão e me aproximei para pedir a ajuda, ansiando que não atrapalhasse qualquer coisa que ela estivesse fazendo. Pigarreei ao encostar na pedra de mármore e não vi qualquer sinal mostrando que ela tinha notado minha presença. Batuquei de leve o dedo na pedra e resolvi falar:
- Enfermeira! – chamei-a ao olhar melhor o prontuário da paciente e ouvi sua resposta.
- Oi, doutor. – a voz dela se sobressaiu ao prontuário e continuei procurando quando aquela sonda tinha sido passada.
- Oi! – respondi de forma simpática e continuei: – Eu tenho uma paciente no leito 6, que precisa troca da sonda nasoentérica. Você pode fazer agora, por favor? – olhei-a rapidamente e percebi que ela tinha feito uma careta. Merda, eu tinha sido grosso?
- Obstruiu? Eu troquei essa manhã. – o tom confuso me pegou em cheio e acabei por questionar se estava mesmo obstruída. Mas sim, se a alimentação não se movimentava de jeito nenhum. – Você tentou desobstruir?
Fiz uma careta de derrota completa por não ter me ligado que ela poderia ser desobstruída.
- Nunca fez? – a mulher me perguntou novamente e finalmente pude ver seu rosto direito, enquanto ela prendia a risada. Ela era bem bonita.
- Não? Você pode fazer para mim? – mantive minha careta de dor e foi questão de segundos até que ela soltasse toda aquela risada presa, me deixando encantado em como o rosto dela me parecia familiar. As bochechas, a boca e os olhos, principalmente os olhos. Arregalei os meus, meio estacado no meio do posto e senti meu coração quase parar de tanto bater, era ela! Era a enfermeira que estava instrumentando o Antunes.
- Posso, posso sim. – a mulher levantou da cadeira em que estava sentada e pareceu olhar para algum canto do andar em busca de alguém, me dando ainda mais certeza de que era ela sim! – Deixa eu ver se tem algum residente por aqui, peço para ele fazer.
- Ah, meu Deus! – foi tudo que saiu da minha boca, fazendo-a me olhar com uma grande interrogação na testa. – É você! – tentei verbalizar o meu espanto, ganhando uma expressão ainda maior de interrogação, linda, porém.
- Sim, eu sou eu. – ela vincou as sobrancelhas e eu riria se não estivesse tão empacado feito um mané. – Como eu não vi nenhum residente por aqui, eu faço. Quer aprender? – observei enquanto a enfermeira ainda sem nome pra mim, recolhia o celular e o carimbo, os colocando nos bolsos do scrub vermelho escuro. – Dr. ? Você quer aprender a desobstruir a sonda?
Sacudi a cabeça com força e a ouvir rir, acompanhei-a.
- Quero, quero sim! – coloquei a pasta em cima do balcão e a mulher recolheu para colocá-la na colmeia.
- Vamos! – ela soltou sorridente e em poucos segundos já andava para o leito da paciente comigo ao encalço, tão rápido que quase tropecei nos meus próprios pés.
A enfermeira parou a beira do leito e ajeitou a máscara que eu nem havia visto-a colocar no rosto, mexeu na sonda nasogástrica com uma segurança enorme e me olhou quase com uma exclamação na cara.
- Obstruída. – rimos. – Vamos lá, como se desobstrui alguma coisa? – ela direcionou a pergunta a mim, como se fosse algum tipo de professora e por minutos infames, me peguei desejando que ela tivesse sido algo do tipo durante meu tempo de faculdade. Droga, ! Pare de ser sacana!
- Você faz uma pressão com possivelmente um embolo, que irá transferir o impulso até tirar do meio o que está atrapalhando. – eu respondi um pouco óbvio, sem entender porque ela tinha me perguntado e a mulher abriu um sorriso de canto espertinho demais.
- Exatamente! É o mesmo princípio, mas com água destilada e uma seringa. – ela foi clara como a água e me permiti rir um pouco vitorioso com aquilo, recebendo em mãos, um par de luvas de procedimento.
Eu estava bem satisfeito com a minha resposta e o fato de eu ter acertado algo bem simples, só não estava feliz era com minha falta de destreza bem repentina para calçar a luva. Inferno! Eu não era tão merda daquele jeito, era só uma luva que não estava entrando no caralho da minha mão suada. Vergonha, eu estava passando uma baita vergonha na frente dela.
- Doutor? – a voz calma soou pelo quarto e se ela queria me acalmar, lembrando meu cargo naquele lugar, estava fazendo o completo oposto. – É um procedimento simples, você fez algo mais complexo nessa mulher. – céus, ela não precisava ter aquela voz tão doce. – Respire.
O foda era eu respirar e sentir o perfume dela, ficando ainda mais nervoso na presença da mulher. Droga, eu parecia a merda de um adolescente em crise, porque a vizinha gostosa estava falando comigo. Seja homem, seu idiota! Eu me odiava por estar prendendo minha atenção no corpo errado e da forma errada... Pensando coisas mais erradas ainda...
FINALMENTE! Luvas calçadas, dignidade perdida e a maior cara lisa do mundo.
- Consegue aspirar? – o tom veio trabalhado para tirar toda a tensão dali, me fazendo rir mais aliviado ao ver a ampola aberta e direcionada para mim. Ela era corajosa em ver meu fracasso com a luva e ainda esperar que eu aspirasse a água destilada com a agulha da seringa, enquanto ela segurava a ampola.
- Acho que sim! – entrei na onda e aspirei três ampolas de 2mls com a ajuda dela.
- Não fui eu quem me embolei pra calçar a luva. – ela arqueou a sobrancelha e rolei meus olhos, mesmo que estivesse rindo. Me preparei perante ao leito da paciente e ao desconectar a sonda da alimentação, conectei-a no bico da seringa já sem agulha. – O que vai desobstruir é a pressão que você vai colocar. – prendi a respiração quando senti o corpo da mulher perto demais do meu. Eu sei que ela estava apenas com a intenção de me explicar, mas era questão de milímetros até que a gente se colasse. – Você vai fazer assim: encosta a palma da mão na base e pode empurrar com força. – a mulher movimentou minha mão para explicar a posição correta. – Entendeu? – um sorriso bonito foi dado e eu quis morrer por estar sendo um idiota.
Afirmei com a cabeça e ouvi a ordem para que eu fizesse o procedimento ser dada. Empurrei o êmbolo com força, sentindo certa resistência e constatando que sim, ali havia uma obstrução que eu tinha tirado. Olhei-a na expectativa e sinalizando que eu havia acabado.
- Se você acha que foi, faça o teste. – ela me estendeu o estetoscópio para que eu auscultasse o som que o ar injetado faria no estômago e pegou a sonda com a seringa engatada, logo desengatando e puxando uma quantidade considerável de ar, enquanto eu posicionava a campanha do aparelho abaixo do xifoide da paciente, ouvindo o claro e limpo borbulhar assim que ela injetou.
- Escutei! – soltei um grito alguns decibéis a mais e ela riu com a minha animação, realmente sincera com minha felicidade em fazer algo certo. Eu também estava feliz!
- Tá vendo? Fácil, fácil! – ganhei um tapinha encorajador no ombro e uma piscada marota. Suspirei vendo-a recolher algumas das coisas que haviam sido usadas e destiná-las de forma certa ao lixo. – Mais alguma coisa, Dr.? – a enfermeira perguntou ao tirar as luvas e jogá-las fora, me fazendo entender que aquela era a minha deixa.
Virei meu corpo completamente para ela e abri um sorriso de canto. Eu era abusado e não iria deixar de ser.
- Qual o seu nome? – eu nem queria sorrir, mas só consegui deixá-lo maior ao ver que ela parecia ter gostado da pergunta só pelo jeito que rolou os olhos.
- . Mills.
- . – repeti para gravar um nome que não sairia da minha cabeça.
- Isso, garoto desatento. – eu não acreditava que ela estava me zoando pelos esbarrões. Nós rimos.
- ! – pisquei.
- Dr. . – ela piscou de volta querendo tirar meu barato e fiz um bico enorme. – Eu vou voltar para o posto, qualquer coisa, chama. – riu um tanto divertida e logo passou pela porta de vidro do leito.
- Eu ainda prefiro . – gritei na tentativa de que ela escutasse, quando já estava virando rotina gritar as coisas quando ninguém estava perto.



Chapter 2

’s POV

O sol quente batia na minha cara e nem o boné estava resolvendo. Já era quase meio dia de um domingo de folga, que eu e minha irmã milagrosamente tínhamos pegado juntos e estávamos no autódromo esperando o Chris. Ele era o cara mais incrível que eu tinha conhecido depois do meu pai, foi a pessoa que mais incentivou a a seguir sendo pilota reserva da StockCar, além de sempre apoiar nossos estudos e ser uma puta presença dentro daqueles dez anos sem o nosso pai. O Chris era como um segundo pai, só que claramente não aquele jeito com a minha mãe, ele era um dos nossos melhores amigos, ele e o Austin, seu filho.
Fiz uma careta puxando a aba do boné para trás, enquanto ajudava a trocar o pneu do Benny no pit stop e ouvi minha irmã reclamar mais uma vez pela demora do Christian. Céus, iria morrer de um infarto antes dos 30 se continuasse querendo que as coisas acontecem exatamente no tempo certo. Ela era perfeccionista e quem sabe fosse por isso que era a melhor pilota reserva da NASCARXfinity Series, mas não esperávamos a hora que ela fosse convidada para a divisão principal, junto com o Benny.
O Benny era o carro que havia sido do nosso pai. Benjamin, batizado em homenagem a ele e tão rápido quanto. Benjamin , o Grande B, era o melhor piloto de Stock Car do mundo, a NASCAR devia muito a ele pelas vitórias e estava seguindo no mesmo caminho, ela era meu orgulho na Terra. Era quem me impulsionava a andar na linha e ser uma boa pessoa para que pudesse cobrar aquilo dela.
Talvez, só talvez, eu tivesse tomado para mim uma responsabilidade paterna que não era, nem de longe, minha. Mas eu queria que nos dois seguíssemos no caminho certo e se eu podia ajudar minha irmã mais nova com aquilo, eu iria.
- A gente vai atrasar o treino de novo! - bufou impaciente e olhei para ela fazendo uma careta, pelo sol que refletia de cheio em meus óculos. Possivelmente eu precisaria fazer outra consulta em alguns meses, só para ter certeza que a merda da miopia tinha estabilizado e eu não ficaria mais cego ainda a cada nova consulta.
- , ele tem trabalho. Ele vem para cá na boa vontade, para de ser chata! - rolei os olhos e ela me chutou de leve, acabei caindo no chão. - A.I.! - arregalei meus olhos e a vi rir com deboche. Idiota. Levantei sacudindo a poeira da calça e a empurrei apenas com o peso do corpo, vendo a chata da minha irmã dar um minipasso para trás.
- ! - ela gritou como se tivesse sendo agredida e logo ouvi o grito do Chris.
- SEM BRIGA! - viramos de uma vez a tempo de vê-lo correndo na nossa direção com a maior cara de culpa por ter se atrasado. - Desculpa o atraso! Desculpa o atraso! O Austin quebrou o carro e precisei socorrer ele antes de vir. - o cara chegou perto da gente rindo e abraçou minha irmã primeiro, beijando a cabeça dela como se fosse mesmo sua filha. Ele me cumprimentou com um abraço apertado e logo deu um tapa no meu boné me fazendo rir. - Tudo certo com o Benny?
- Sim, era só um pneu furado. Nada demais. - dei de ombros e vi os dois mais sorridentes do mundo.
- Pronta para varar essas pistas, princesa? - Chris perguntou com os olhos arregalados e soltou um grito grosso em afirmação. Credo. Ri alto com a resposta dela e não precisou de muitos minutos para minha irmã entrar no carro e sair dali como se o Benny fosse a Millennium Falcon.
Nossa, eu estava tão nerd quanto o !
Nós éramos apaixonados pela velocidade e adrenalina, ela amava ainda mais a velocidade e se sentia em casa quando estava dentro de um daqueles carros, principalmente o Benny. Por quê? Porque ele era a nossa lembrança mais marcante do pai, assim como outras pequenas coisas que haviam ficado. Ela com o Benny, um Chevrolet Sonic, e uma medalhinha, eu com o Mustang 74 e o boné preferido dele. Era nossa forma de manter Benjamin ainda mais próximo da gente. Mas diferente dela, minha adrenalina não estava nas pistas, ela era desperta com algo bem diferente de velocidade, eu me sentia insano quando estava dentro das salas de cirurgia.
Sacudi a cabeça ao ouvir os gritos do Chris e logo o vi conversar com pelo fone, como se dissesse alguma instrução sobre ela não sair da pista. Voltei a aba do boné para frente e suspirei cruzando os braços, enquanto via os outros pilotos Juniors, fossem garotas ou garotos, zunirem naquela pista como se suas vidas dependessem daquilo. Segunda sempre era um dos dias de treino mais movimentados dali.
- A Louise não veio? – acordei dos pensamentos em ouvir a pergunta do Chris e soltei uma risada.
- Dona Louise tá toda entretida com um curso de confeitaria, que ela vai dar no instituto de gastronomia. – abri um sorriso orgulhoso por minha mãe não ficar parada nenhum minuto e usar a energia para passar coisas tão boas para outras pessoas. – Acho que as turmas começaram hoje!
- Eu sei! Eu estou na turma dela. – Christian definitivamente era o cara mais engraçado que eu conhecia na minha vida. Nós rimos alto com aquela notícia, mas eu sabia que ele falava sério, embora tivesse alma de velho. Economia doméstica?
- Cara, sério! – soltei mais uma gargalhada descontrolada, o vendo rir igualmente vermelho. – Quando é o bingo?
- Vai procurar o que fazer, moleque! – ele me empurrou de leve pelo ombro e sacudi a cabeça ao tentar parar de rir.

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’s POV

- Você não vai vir? - meu avô perguntou até meio nervoso com a minha demora.
- Claro que eu vou, pai! - respondi meio esganiçada enquanto corria pelos corredores do hospital na intenção de saber logo o que o Antunes queria tanto e me chamava incessantemente. - Se o Antunes não me matar do coração daqui para o fim do meio plantão. Ele só sabe me chamar no susto!
- Tenha respeito pelo seu tio, ! Ele só quer o seu bem. - meu avô, que na verdade era meu pai presente, me ralhou e acabei rindo baixo. - A nossa abóbora está prontinha para competição, ela é a mais linda e mais vistosa que eu já vi na vida!
Aquela contra-argumentação me ganhava de uma forma encantadora. Soltei um gritinho animado com a menção da minha abóbora e o ouvi rir animado.
- É A MINHA?
- A sua abóbora! A gente até colocou seu nome nela. Sua avó tá bem animada com a festa, achamos que podemos mesmo ganhar esse ano. - eu amava o jeito que vovô falava de todas as coisas do rancho, me mostrava todo o amor que a gente precisava ter pelo nosso cantinho.
- Ai, meu Deus, ela tem meu nome! - fiz já daninha animada no meio do corredor e rimos, mesmo que ele não tivesse visto. - Eu não posso perder de jeito nenhum, prometo que assim que o plantão acabar eu voo direto para aí. Não perco essa festa amanhã por nada, absolutamente nada!
Seu Jack riu de uma forma tão linda que eu queria derreter de amores por aqueles velhinhos lindos da minha vida. Eu amava os dois a um nível que eu não amaria mais ninguém daquele jeito na minha vida.
- Você tá conseguindo viver direitinho, minha filha? - ele perguntou com uma preocupação tão linda que eu queria gritar.
- Estou sim, pai! - ri baixo e encantada. - Tá dando tempo de comer, dormir e trabalhar, eu prometo! - terminei de falar assim que entrei na sala de exames, de onde Harold me chamava como se o mundo tivesse acabando.
- Manda um abraço para o tio Jack! - o idiota que era meu tio em uma linhagem mais distante de sangue abriu um sorriso meigo, ao deduzir que eu falava com o vovô e mostrei a língua.
- Harry tá mandando um abraço para vocês. - reproduzi as palavras e meu avô soltou uma risada animada. - Vou precisar desligar, tá bom?
- Tudo bem, minha filha. Mande outro abraço para ele e o convide para vir junto. Amo você! - seu Jack fez barulho de beijo e retribuí o carinho.
- Também amo vocês, pai! Diga a dona Rebecca que ela me ligue. – sorri feliz e desligamos o telefone. O coloquei no bolso do scrub e fiz a maior careta ao ver os exames expostos ali. - Ele te mandou um abraço... - disse para o Antunes, ainda vidrada naquele desastre que estavam os exames. - Caraca, o que foi isso?
- Esmagamento por bola de concreto. - o médico ao meu lado suspirou exausto e até derrotado, sabendo que muito provavelmente ali não tinha salvação. - Vai entrar nessa comigo, Mills? Não temos muitas esperanças, mas precisamos fazer o impossível.
- Claro que sim, Harry. - fiz uma careta ao perceber o estado de espírito dele e o abracei de lado para dar um pouco mais de conforto, sendo abraçada de volta. - Mas eu sou instrumentadora, não seu residente. - tentei debochar pelo incessante chamado e o homem riu baixo, rolando os olhos.
- O moleque tá de folga hoje. - ele suspirou frustrado, mas eu sabia que não era pela folga, era pela minúscula probabilidade de salvação do caso e a grande probabilidade de frustrar . - E você é minha sobrinha, quase filha. Tem obrigação de estar comigo em OR.
- Eu sou é seu amuleto da sorte, isso sim! - empinei o nariz, finalmente o fazendo rir espontâneo e o homem me empurrou de lado. Acabei rindo junto, abraçando uma das pessoas mais incríveis que eu conhecia. - Vai acontecer o que tiver que acontecer, você sabe. Vai salvar se tiver salvação.
- Eu sei, Mills! - ele suspirou frustrado e passou a mão pelos cabelos ainda escuros, mesmo o Antunes passando dos 50. - Vamos lá, a gente precisa se mexer. 
Nos soltamos do abraço já no corredor e o empurrei, ouvindo meu quase pai rir de novo. Eu era o amuleto da sorte dele, eu sabia disso!
- Ah, a Nancy mandou te chamar para ir jantar lá em casa hoje à noite. - Harry disse com um sorriso divertido e fiz a maior careta. - Ah, qual é? Você pode dar toco em seus esquemas para uma noite em família. Noite da pizza.
- Eu não vou sair com ninguém! - abri minha boca bem indignada com aquela suposição. - Eu vou viajar para casa dos meus pais! A minha abóbora está concorrendo a abóbora mais perfeita de North Saanich e ela é uma campeã. Eu não vou perder isso! - cutuquei seu ombro, fazendo o velho rir e sacudir a cabeça.
- Tinha esquecido do concurso Miss abóbora! - deboche! Aquele safado estava de deboche para o meu lado? Otário!
- Cadê a sua sensibilidade familiar? - enruguei o nariz ao discordar do deboche. - Eles são importantes para mim e enquanto eu puder, a felicidade deles é a minha. Então o Miss abóbora é mais importante do que tudo. – percebi que tinha me referido ao concurso como Miss abóbora e soltamos gargalhadas estridentes. Eu só poderia estar perdida se começasse agir que nem o Antunes.

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’s POV

Depois do treino da no autódromo, encontramos em um bar perto do hospital. Era perdido como sempre voltávamos ao mesmo local, por mais que tentássemos nos distanciar dali. Sempre, sempre voltaríamos ao pub mais frequentado por internos e residentes. Ali nós conhecíamos as maiores amizades, amores, inimigos que viravam melhores amigos de copo e as melhores histórias que um estudante poderia carregar.
Estávamos em uma mesa reclusa bem perto do alvo dos dardos, eu já tinha sentido uns dois cair em meu ombro com aquela bagunça, mas álcool era o melhor anestésico no fim das contas. ria com as piadas nerds do e eu me rendia as gargalhadas também. era meu melhor amigo desde o último ano de colegial, até na faculdade de medicina nós tínhamos entrado juntos, logo tinha entrado também e nos tornamos um trio e tanto. Ele era um dos caras mais simples que eu conhecia na vida, embora fosse um dos mais ricos. tinha tudo para ser um almofadinha enjoado, que poderia passar o resto da vida coçando a bunda e não morreria de fome, mas o cara tinha escolhido a medicina para amar e era incrível por isso!
Ele era o único cara que eu confiaria a de olhos fechados. Por quê? Porque era decente e não faria nada contra a vontade dela, então era mais seguro ter mais um protetor num hospital daquele cheio de urubu.
Senti um amendoim bem no meio da testa e fiz uma careta, estendendo a mão para tentar beliscar , mas ela se esquivou rindo.
- Você tá muito aéreo hoje! – ela esganiçou para mim e sacudi a cabeça, bebendo o resto da cerveja na caneca.
- Tá pensando na instrumentadora do Antunes. – soltou no meio da conversa como se fosse um tossido e arregalei os olhos para ele. Inferno! não sabia daquilo.
- ! – soltei um esganiço indignado com aquilo.
- MENTIRA! O bebezinho lá de casa tá apaixonado? – eu odiava a maneira que debochava de todas as coisas e me fazia rir, mesmo que eu fosse alvo do deboche.
- Vai a merda! – passei a mão no rosto meio desesperado. – E eu não estou apaixonado, é tesão apenas. – tentei cortar o assunto pela raiz, vendo minha irmã me olhar com asco e soltar a maior gargalhada duvidosa.
- Você fica ridículo falando isso. – a mais nova me repreendeu como se fosse minha mãe.
- Na boa, . Isso é assunto meu. – rolei os olhos meio saturado com tanto enchimento de saco e bebi mais um grande gole da cerveja, pedindo outra a garçonete que passava por ali.
- Eu juro que não acredito nisso. – ela ainda ria da minha cara de pateta. –Você tá obcecado por Mills. Idiota! – a gargalhada preencheu a cabine, enfiei a cara no tampo da mesa, ouvindo meu melhor amigo rir junto e bater nas minhas costas. Por que eu não podia ser um cara normal e simplesmente não fixar em certas mulheres? Tudo bem que tinha... Espera, a pirralha conhecia .
- Você conhece ? – meu esganiço tinha sido até vergonhoso.
- Ela é melhor amiga da Addie, tapado. É praticamente filha do seu professor. – minha irmã mais nova arregalou os olhos com a obviedade das informações e me senti mais tapado ainda. Eu nunca tinha reparado nos olhos dela até aquele dia, sequer sabia seu nome, na verdade.
- Porra, ! – o deu high five com minha irmã antes de caírem em uma crise de riso ininterrupta, até que fomos salvos pelo bip do pager.
Talvez fosse cruel imaginar que tínhamos sido chamados pela desgraça de alguém, mas nada melhor do que uma grande carnificina em uma noite tranquila na semana. Talvez eu tivesse a chance de fazer algo realmente grandioso sozinho, parafusar alguns ossos quem sabe.
- Vamos! – arrastei minha mochila do pé da mesa e vi quando minha irmã e meu amigo checavam os pagers deles, tão animados quanto eu.
Eu juro que queria ter sido o residente da naquele começo de internato, mas por alguma política antinepotismo do hospital, nosso sobrenome não encaixava junto. E embora ela estivesse sendo orientada pelo , eu ficava aliviado em saber que meu amigo era alguém com um puta futuro maravilhoso e tinha muito a ensinar a ela. Quem sabe até ela pendesse para o lado da neurologia também? Nunca se sabia o que poderia acontecer, mesmo quando ela tinha grudado no pé de Addison Montgomery. A neonatologista mais gata daquele hospital. O quê? Eu não estava morto, poderia e reparava em muitas coisas.
Voamos as pressas para os vestiários, fazendo qualquer lombar remanescente do álcool desaparecer sem precedentes. A emergência estava uma zona com gente para todo lado, residente para todo lado e os internos feito um punhado de baratas tontas. As macas chegavam de minutos em minutos, com gente chorando, gritando, desacordadas e por vezes, até em óbito. Me mexi com rapidez localizando os internos que estavam na minha responsabilidade naquele primeiro rodízio e fui ajudando como podia, do mesmo jeito que fazia com o grupo dele. Eu não estava tão seguro assim com aquele caos, óbvio que sabíamos resolver várias coisas, mas saber que os staffs, grande maioria deles, não estava dentro daquele hospital, me apavorava um pouco mais.
Recebi um homem na faixa de uns 40 anos, politraumatizado com uma depressão craniana e duas fraturas expostas nos ossos do braço e da perna. Corri junto com o para fazer a avaliação inicial enquanto mandava bipar qualquer staff.
- Alguém bipa o Antunes e o Robinson! – pedi meio desesperado, a medida que via uma enfermeira tentando um acesso no nosso paciente desacordado.
- Paciente vitima de um engavetamento na avenida norte. – a paramédica começou dando as instruções para nós dois que provavelmente resolveríamos aquele caso. Ao menos por enquanto. –Encontramos ele desacordado, mas ainda com pulso e perdendo muito sangue.
Afirmei com um aceno e logo ouvimos o alarme da monitoração, um bipe chato, mas que indicava que tinha algo de errado ali. Olhei meio agoniado para o monitor, que graças aos céus, o tinha decifrado.
- ! Saturação tá baixando rápido demais, a gente vai precisar intubar! – falou já se movendo para agir e passou a bola para minha irmã. – Drª. , já intubou alguma vez?
IA INTUBAR?
Arregalei os olhos até meio amedrontado com aquela situação. O cara estava quase morto e se ele viesse a óbito, aquilo ia marcar para o resto da vida. não poderia estar fazendo aquilo comigo, expor minha irmã à péssima situação de perder um paciente. Foi ali que eu percebi o quanto odiava meu melhor amigo e o porquê de eu não poder ser o residente da pirralha. Eu ia proteger ela de tudo que fosse ruim, mesmo que aquilo significasse me ferrar inteiro. não demorou muito para pegar o laringoscópio do mesmo jeito que a gente tinha treinado inúmeras vezes, e começar seguir todas as ordens do . Visualizar cordas vocais. Não encostar nos dentes. Inserir o laringoscópio, a cânula e por fim inflar o caff.
Era uma pena não ser tão fácil assim nas primeiras vezes.
Uma. Duas. Três vezes. Eu já estava nervoso com a saturação do cara baixando e sem conseguir intubar o paciente. Impaciente, ao ponto de gritar, enquanto o só explicava encorajando e mandava ela fazer mais uma vez. Talvez ele fosse um melhor professor que eu, ou talvez eu ainda não estivesse preparado para o amadurecimento da . Suspirei aliviado quando ela soltou um gritinho dizendo que tinha conseguido e sorri imensamente orgulhoso da pirralha. Com certeza a gente ia ter história para contar pelos próximos dias. Logo a saturação voltava a subir saudavelmente e voltamos a nos aproximar da maca. Comecei avaliar as fraturas expostas, à medida que cuidava do neurológico e ouvimos alguém chegar.
- Bom trabalho, Drª. ! – eu não sabia se era Deus, mas a voz grave do Antunes ressoou na sala como se fosse, me fazendo ficar ainda mais aliviado em ele estar ali.
- Obrigada, Dr. Antunes! – parecia brilhar e sorri ainda mais orgulhoso dela.
- Me expliquem o que está acontecendo aqui! – infelizmente o diabo também tinha sido convidado para festa e eu percebi isso na hora que o Robinson entrou na sala, tomando o lugar como se ele fosse um Deus.
- Dois residentes salvando a vida de um homem! – touchdown. Antunes era sim o melhor médico. – O Dr. , o Dr. e a Drª. estão fazendo um ótimo trabalho aqui.
- Espero que não tenham ferrado nada. – o entojo em forma de neurocirurgião parou perto do e começou perguntar como estava o estado neurológico do homem.
Expliquei minha avaliação ao Antunes, entendendo as pequenas considerações feitas para que meu trabalho pudesse melhorar e levamos o paciente para a TC, constatando que a situação não era nada boa. Ele precisaria fazer primeiro a cirurgia para descompressão cerebral e depois repararíamos as fraturas junto com a ortopedia, mais uma vez eu e ficaríamos por conta de mais um caso, juntos. Dessa vez com a presença da , a maior intubadora de todos os tempos.
Ajudei o Harold em mais alguns casos na emergência, infelizmente não obtendo tanto sucesso como antes até que finalmente tinha chegado um caso cirúrgico em nossas mãos, já que o Mr. Harbore esperaria mais algumas horas antes da correção definitiva das fraturas em membros inferiores, já que a cirurgia neurológica tinha sido bem complexa, segundo o . Subimos para nos lavar e eu não parava de falar em como aquele dia estava sendo louco, mas me calei de uma vez ao entender que o Antunes tinha deixado a família em uma tal de noite da pizza, para ir socorrer os casos mais graves.
Será que algum dia eu também ia passar por aquilo? Eu sei que estava minutos antes bebendo com meu amigo e minha irmã, mas estava todos três ali no hospital, na maior vibe cirurgiã.
- Dr. , olhe quem irá nos instrumentar, por favor. – meu professor pediu e automaticamente fiz uma careta. Não ia ser a ?
- Geralmente não é a ? – soltei sem pensar muito e ele prendeu uma risada anasalada.
- A enfermeira Mills está de folga. – Antunes me corrigiu com toda a classe, embora eu não estivesse me contendo.
- Eu sei, mas foi um engavetamento gigante. Não era para ela estar aqui?
- A Mills está de folga, . – ele deu um tapinha de conforto em meu braço como se estivesse com pena de mim e suspirei frustrado. Eu era um bocó mesmo.

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’s POV

Depois de uma negociação imensa para voltar para casa, consegui sair do rancho apenas de manhã com um carregamento de verduras, frutas, cereais, legumes, ovos, carne e doces para praticamente um ano. Eu acho que meus pais achavam que eu passava fome em Vancouver, sem mais. O banco traseiro do carro tinha feito o pequeno percurso de North Saanich até Vancouver, cheio das melhores e mais gostosas comidas e mantimentos do mundo. Eu tinha passado a melhor tarde do mundo no festival que os dois estavam tão empolgados e adivinhem, MINHA ABÓBORA TINHA GANHADO A COMPETIÇÃO. era mesmo a abóbora mais foda daquele lugarzinho. Mas mesmo assim, eu só tinha conseguido sair na madrugadinha porque os dois estavam com medo que eu me matasse na estrada.
Depois de chegar no apartamento, descarregar o carro com ajuda do porteiro e guardar tudo em casa, desci novamente já arrumada para o trabalho e com a bolsa cheia de doce da minha abóbora. Peguei a moto na minha segunda vaga e voei para o hospital antes que chegasse atrasada, precisava ver o Antunes antes que ele fosse embora, assim ficava mais fácil de dizer que ele também tinha ganhado um monte de coisas gostosas dos meus avós e tios dele.
Estacionei a Harley perto de um Mustangdos anos 70 (eu tinha certeza, porque eu conhecia vários carros antigos, só era péssima em lembrar o ano exato), que eu avaliei desde os rodões até as cores. Ele era lindo, realmente lindo. Guardei o capacete no bagageiro e na visão periférica percebi o dono do carro se aproximar, destravando as portas.
- Bom dia! Noite difícil? – cumprimentei o possível dono ou dona do carro, ansiando saber como seria meu dia de trabalho.
- Bom dia!!! – um cumprimento animado vindo de uma voz maravilhosamente conhecida me fez virar e confirmar a presença do traumatinho. Ele passou as mãos pelos cabelos curtos e prendi um suspiro. parecia bem cansado, quase ativando meu instinto maternal que queria enche-lo de colo. – Olha, difícil foi bastante. Teve um engavetamento enorme e tá uma loucura nas UTIs.
- Dr. ! – soltei um gritinho animado ao cumprimentá-lo e o vi abrir um sorriso bonito.
- Enfermeira Mills! – o garoto devolveu o meu deboche e acabamos rindo.
- O Antunes tá aí ainda? – perguntei ao ajeitar a mochila pesada e cheia de doce no ombro. Eu só esperava que gostasse de doce de abóbora, porque quando eu tivesse uma brecha, eu ia enchê-lo. – Eu quase voltava ontem, mas fui barrada. – soltei rindo mesmo sem entender porque tinha dito aquilo e recebi um sorriso seguido de uma careta.
- Ele tá aí sim. – me respondeu sobre o Harry. – E não, não dava para você voltar, era perigoso.
- Eu sei me cuidar, relaxa! No máximo eu ia ajudar com o socorro no meio da estrada. – soltei um riso breve ao achar uma fofura a preocupação dele. – Eu vou escorraçar seu chefe para casa! – ameacei meu tio e vi o rapaz rir, mesmo que cansado. – Mas e você, como se sente?
Uma simples pergunta que desencadeou um dos sorrisos mais bonitos que eu tinha visto sendo esboçado por ele.
- Ótimo! Foi incrível poder ajudar tanto. – estava verdadeiramente feliz o com que tinha feito para ajudar nos acontecidos da noite passada. Certeza que ele seria um ótimo cirurgião.
- Seja oficialmente, bem-vindo à Saúde! – pisquei o encorajando e o sorriso engrandecer ainda mais. – É assim que a gente trabalha, salvando vidas e histórias!
- Obrigado! – ele inflou um pouco e tomou fôlego para falar mais alguma coisa. – Sabe quem também entrou oficialmente na saúde noite passada?
- Quem? – perguntei um pouco confusa com a animação e orgulho dele. Talvez fosse a namorada.
- Minha incrível irmã! – abriu um sorriso tão grande que fechava os olhos por causa das bochechas. E ao mesmo tempo que eu queria rir, eu queria apertá-las com força. – Ela entubou pela primeira vez! E ainda ganhou um elogio do Antunes! – se existia um irmão mais orgulhoso do que , eu desconhecia. Que coisinha mais fofa!
- Você é o residente dela? – ri baixo querendo saber se o sucesso era compartilhado e o rapaz negou com um aceno contido, mas ainda com as bochechas rosadas. – E mesmo assim dá para ver você brilhando de orgulho! – nós rimos. – Mas não fica chateado, às vezes, as relações familiares acabam atrapalhando um pouco.
- Eu sei, eu fiquei tão nervoso que achei que ia precisar de um tubo também. – contou como se fosse um segredo e rimos com uma diversão imensa. Era bom encontrar alguém alto astral de manhã cedo, geralmente estão todos mal humorados.
- Eu queria poder ficar, mas estou um pouco atrasada já! – arregalei de leve os olhos e mostrei o relógio de pulso. Ele deu de ombros como se dissesse que eu não tinha porquê me preocupar com aquilo. – Infelizmente eu ainda sou uma subordinada nesse hospital. O Doutorado não serviu de muita coisa se não pude ser chefe. – fiz um bico desgostoso, mas que era até fingido. Eu amava a assistência.
soltou uma gargalhada contagiante e negou com um aceno de cabeça.
- Tem certeza que é? Você manda no Antunes! – o garoto me zoou na maior cara de pau e minha boca foi ao chão com o afronte.
- Ele me respeita, é diferente! – apontei o fazendo rir. – Mas, você gosta de doce de abóbora? – perguntei um tanto eufórica em saber se eu podia deixar metade do meu carregamento de doce com aquele rapaz e ele fez uma careta gigante. – Gosta ou não? – perguntei mais uma vez, tentando ser séria enquanto prendia a risada.
- Doce de abóbora? – ele franziu ainda mais a testa, sorrindo em seguida. – Gosto! Gosto!
Foi a minha deixa, abri um sorriso animado e abri o zíper da minha mochila, pegando vários pacotinhos com lacinhos bonitinhos para enchê-lo de doce. Minha avó sempre fazia e mandava que eu distribuísse aos meus amigos dentro do hospital e por algum motivo, ainda desconhecido por mim, estava merecendo mais doces de abóbora do que muito médico dentro daquele hospital.
- Receba com amor! – entreguei muitos pacotinhos de doce, enchendo as mãos do garoto com o melhor doce do mundo. – Foi feito com mais amor do que abóbora. Depois você me diz se gostou!
- Para mim? Sério! – o sorriso fofinho surgiu tão iluminado que me deu uma vontade imensa de morder . Foi inevitável não abrir um sorriso tão iluminado quanto.
- Para você!
- Uau! Obrigado, ! – aquela tinha sido a primeira vez que ele me chamava pelo apelido, mas bem diferente do que acontecia, eu não o repreendi. O rapaz estava tão animado com o doce que seria maldade minha. – Com certeza eu vou gostar, mas pode deixar que depois eu te conto.
- De nada! – sorri encantada com a grande festa que ele estava fazendo por causa de um simples doce. – Minha vó quem fez! Ela sempre faz e me manda espalhar o amor pelo hospital! Estou começando pelo estacionamento!
- Começou muito bem! Agradece a ela por mim. – ele piscou com um sorriso bonito e fechei a mochila, me aprontando para se despedir.
- E eu vou. Mas preciso ir trabalhar! – ajeitei a bolsa no ombro. – Foi bom te ver! – eu nem queria sorrir como uma encantadora de rapazes, mas foi mais forte do que eu. Eu tinha cantado na maior cara de pau e espontaneidade e esperava que ele tivesse entendido.
- Com certeza, eu digo o mesmo. – TOUCHDOWN. Ponto para você, !
Sorri ao acenar levemente com a mão e corri pelo estacionamento, antes que me atrasasse para mais um longo, cansativo e incrível dia de trabalho.



Continua...




Nota da autora: OLHA QUEM ESTÁ DE VOLTA!!!
Nos últimos caps publicados eu recebi lindos comentários falando sobre o Phill ser todo fofinho que fica nervoso perto da Sidney! Meus amores se vocês gostam disso, podem ficar, porque eu garanto que vai ter muuito, mas muuito mais! KKKKKKK 
Eu amo um homem nervoso perto da prometida!
Espero que vocês vejam ao longo da história, quanto os dois foram feitos um pro outro e amem ainda mais esse quarteto fantástico!
Obrigada pelo TOP, sem vocês, não conseguiríamos e mais uns beijinhos nesses lindos corações! 
Até a próxima!

Não esqueçam de dar uma conferida em Learning To Fall da Cam, mas que é inteiramente ligada a IP! <3 





Nota da beta: Aii eu já amo um quarteto, gente. A entubando a primeira vez foi incrível! E o que foi essa cena no estacionamento? Esse leve ferte já aqueceu meu core, aaaa! Já quero esse dois juntinhos <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.




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