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Última atualização:12/08/2021

Capítulo 24 - All I wanted was you.

Menta.
O sabor predominante era menta.
Havia algo de tabaco aqui e ali, mas menta reinava nos lábios de .
E que lábios.
E que beijo.
Apesar de ter tido uma atitude para lá de inovadora, eu estava literalmente vibrando por dentro, de forma totalmente involuntária.
Enquanto minhas mãos estavam em si, e meus lábios investiam nos seus, eu repetia um mantra na minha mente.
Eu estou beijando meu melhor amigo.
Eu estou beijando o cara pelo qual sou apaixonada.

Quer dizer, eu estava contando com um beijo de peça? É claro!
Eu estava completamente apaixonada por ele? É claro!
Eu sonhava em ser a pessoa que o beijaria, do nada? Nem fodendo!
Mas não me arrependi nenhum segundo sequer.
Eu estava tomada pelo momento, pelo sabor dos seus lábios, pelos cheiros, pela sensação de beijá-lo...
Aquilo era simplesmente surreal.
Sinceramente? Nunca fiquei tão feliz de tomar uma decisão sem pensar tanto.
Porém, tudo passou da água pro vinho quando senti a correspondência de no beijo! A princípio, eram só lábios que se chocavam; tecnicamente, os meus nos dele.
Então, as coisas mudaram. segurou firme em meus braços e começou a me beijar de volta.
Fiquei sem reação quando o senti aproximar seu corpo do meu, e abri levemente os meus olhos com o pequeno susto. Percebi que mantinha os seus bem fechados, e ele me segurava como se eu fosse feito de vidro, prestes a quebrar.
Como quem toma as rédeas da situação, suas mãos subiram agilmente para a minha nuca e ele abriu sua boca, revelando sua língua quente ao entrar em contato com meus lábios. Eu os abri enquanto arfava, e fui até as estrelas quando nossas línguas enfim se encontraram.
me beijou de volta.
De língua.

O beijo tomou forma, tomou movimento, tomou mais gosto; agora o tabaco era mais presente, mas a menta continuava a roubar toda a presença.
E eu descobri que meu mais novo sabor favorito era menta nos lábios de , no beijo de . E eu não tinha a mínima intenção de parar de prová-los.
O queixo com a barba rala se arrastava na minha pele, e eu senti meu interior esfriar e aquecer ao mesmo tempo, bem no baixo ventre, enquanto me deliciava com aquela sensação.
Nossos narizes se encostavam grosseiramente, devido ao ritmo intenso, e eu não pude deixar de notar o quanto o beijo era cheio de iniciativa... de ambas as partes.
estava me beijando com vontade.
As investidas com os movimentos, a forma como sua respiração saía descompassada, a pressão nos dedos enquanto ele aproximava seu corpo de mim.
Seu peitoral finalmente encostou no meu, e foi impossível não me sentir atraída quando aquilo aconteceu; por osmose ou não, meu tronco impostou-se para frente, e assim, eu pude sentir o calor que emanava do peito de , literalmente grudada em si.
Ele desceu as mãos firmes pelas minhas costas e, se possível, me trouxe mais pra perto, ao segurar minha cintura contra a sua.
Céus, eu queria muito aquilo.
Eu queria muito tudo aquilo.
Eu queria que estivéssemos nós e apenas nós no mundo.
Eu queria sentir a pele de , queria decifrar todas os sinais e partes de seu corpo, queria sentí-lo, degustá-lo, gravar meu desejo em si.
Queria, do mais profundo átomo de mim, ficar nua e experimentar fazer tudo que só esteve em pensamentos... E que muitas vezes eram mascarados por mim, com diferentes tipos de argumentação: o pseudo-namorado, o melhor amigo que namora e gosta de outra, o possível fim de uma amizade...
Naquele momento, eu não conseguia pensar em nada disso, nem me sentir culpada.
Eu não sabia se estava entorpecida pelo beijo, pelas expectativas, pela realidade ser melhor do que aquilo que sempre sonhei...
Eu só sabia que queria .
E de alguma forma, estava cansada de fingir que não.
A verdade era que eu estava inebriada o suficiente para não dar a mínima para os “e se?” que tanto me acompanhavam. Principalmente agora que eu havia beijado e sido beijada por – nada mais no campo das ideias, era tudo vivenciado, experimentado, vivido!
Viver é melhor que sonhar, já dizia o poeta.
Estávamos ficando sem ar quando o beijo começou a perder força. Eu não queria pará-lo, mas sabia que seu fim estava próximo. Então, decidi aproveitar a oportunidade; mordi o lábio inferior de e o suguei, logo depois de afastar o rosto sorrateiramente, enquanto buscava oxigênio para os pulmões.
Confesso que a timidez se fez um pouco presente, mas tive coragem o suficiente para dominá-la; alguns segundos depois, me atrevi a erguer a cabeça, bem lentamente... Para encontrar os olhos de me encarando, num típico traço de quem estava tonteado pelo que acabava de acontecer.
É, amigo. Sei bem como é.
Engoli a seco, percebendo que ele mal piscava; me encarava com um semblante diferente, como se estivesse focado demais num assunto que só ele soubesse.
Por fim, ele umedeceu os lábios lentamente, e piscou com calma, enquanto me explorava com o olhar. Eu estava bem aflita com isso, pois me sentia exposta, além do medo de receber uma fala negativa de si. Cacete, onde tinha ido parar a coragem?
Ele estava encarando o chão quando percebi que, de um sorrisinho miúdo, começou a dar risos contidos, até que estivesse rindo levemente.
Eu franzi o cenho e arqueei a sobrancelha.

“O que foi?” Me atrevi a quebrar o silêncio. Ele suspirou, me dando um sorriso culpado, e deu de ombros.
“Eu tive o pensamento mais aleatório possível agora.” E riu novamente de sua piada interna. Confesso que aquilo me acalmou um pouco, e eu sorri apenas por vê-lo daquele jeito.
“E qual foi?” Ele riu, coçando a nuca.
“Se sua mãe estivesse aqui e agora, provavelmente estaria aplaudindo bem animada.”

Eu gargalhei, escondendo o rosto com as mãos e afirmando com um aceno.
De repente, estava imaginando minha mãe com pompons e danças festivas, como quem comemora uma vitória de um jogo de basquete.

“Nisso eu tenho que concordar. A Sra. estaria soltando fogos, imaginando coisas...” Confabulei enquanto cruzava os braços. “Mas...”
“Mas?” Ele perguntou, ainda sorrindo.
“É só um beijo... não é?” Fingi naturalidade, enquanto mordiscava o lábio inferior.

deixou o sorriso esmaecer levemente, acenando com a cabeça.

“É, ué. Mas...” E olhou para o chão, levantando e descendo novamente a sobrancelha.
“Mas?” Perguntei, com uma esperança incomum. sorriu como se fosse contar um segredo.
“Você... Me beijou de verdade!” Ele exclamou, ainda rindo, enquanto passava a língua no lábio inferior. “E ainda me provocou com aquela mordida!”

Eu senti o rosto todo esquentar, e respirei fundo, dando de ombros e disfarçando com dificuldade o meu nervosismo. Soltei uma risadinha leve e ele me olhava um pouco incrédulo.
Decidi seguir com aquele ‘jogo’.

“É, ué! Você não falou que eu tinha medo? Tá aí o medo!” Gesticulei, encarando qualquer ponto que não fosse sua feição, que parecia se divertir muito com minhas reações.

Eu estava ficando encabulada.
Que merda.
E pra piorar, ele riu de novo enquanto negava com a cabeça.

“Isso não prova nada sobre seus medos, você sabe...”

Olhei para si com o olhar confuso.

“Como é que é?” Minha voz saiu mais perigosa do que de costume, e prendeu uma risada, dando de ombros.
“O que? Você acha que agir por impulsividade significa que você não tem medo? Você está toda sem graça só de falar nisso! Está na sua cara!” E seguiu rindo enquanto apontava em minha direção.
“Não é medo, !” Retruquei e ele arqueou a sobrancelha.
“E é o que, então?”
“Desconforto?” Sugeri com a feição óbvia, e seu sorriso sumiu, mudando para uma cara confusa.
“Desconforto? Meu beijo é tão ruim assim?” Sua voz soou mais grave. “Eu te deixo... desconfortável?”

‘Tão ruim que eu queria mais’, pensei comigo mesma. Mas não respondi isso, apenas respirei fundo e passei a mão no rosto, elaborando uma resposta que me expusesse menos.

“Não é você, é a situação! A gente... nunca fez isso.” Comecei a falar pensando apenas em fugir daquela conversa que tinha tudo para me comprometer. Eu não queria revelar que eu era apaixonada por ele! Pelo menos não naquele momento!
Os olhos de pararam no horizonte e eu vi quando seu pomo de adão subiu e desceu, conforme sua feição tornava-se pensativa.
“É diferente. Novo.” Continuei a explicar, perdida.
“Está dizendo que não é medo, mas um estranhamento?” Ele virou para me encarar e sua face parecia mais endurecida. Respirei fundo enquanto piscava algumas vezes, pensando no que ele disse.

Em momento nenhum ele desviou os olhos dos meus.
Dei de ombros, receosa.

“Talvez. Não é pra você?”

Ele umedeceu os lábios lentamente, enquanto passava os olhos pelo meu rosto. Cruzou os braços e encarou o chão, dando um sorriso de canto.

“Não sei. Acho que a gente enxerga isso de formas diferentes.”
“E como você enxerga?” Perguntei, sem deixar de encará-lo, e vi no seu rosto quando a surpresa lhe tomou de assalto, diante da minha pergunta.

Ele coçou a nuca, e me olhou desconcertado. Era impressão minha, ou ele estava ficando sem graça?
Por fim, suspirou e gesticulou, olhando para o lado.

“Amigos que estão tentando passar de ano direto e precisam se beijar para isso. Não é?”
“Uau. Que poder de síntese.” Deixei escapar com um pouco de escárnio e ele me deu de ombros.
“Ou não é só sobre isso?” E me olhou com o olhar atento. Eu estava com a boca levemente aberta, pensando em como sairia daquela sinuca de bico. Passei os olhos pelo seu rosto, notando a tensão estabelecida no maxilar, nos ombros...

Amigos que precisam se beijar. Como parecia fácil, né? Talvez para ele, fosse.
Então... era aquilo?
Eu sorri sem nenhum traço de humor na cara, digerindo o que ouvi e decidi vestir a carapuça, olhando-o sem receios.

“Foi como falei, você sabe... É só um beijo.” Respondi um pouco seca, cruzando os braços.

analisou minha feição por um tempo e depois, respondeu:

“Só um beijo.” Ele repetiu, me olhando enquanto prendia os lábios numa linha fina. “Então, sem estranhamentos, não é?” Falou com uma tranquilidade que ele nitidamente não sentia, uma vez que fez essa pergunta encarando o chão, enquanto dava de ombros e colocava as mãos no bolso.

Eu soltei uma risada rápida, balançando a cabeça lentamente.

“Quer saber? Acho que você tem razão.” Sorri abertamente, me sentindo a atriz.
“Tenho?” perguntou, me olhando incerto.
“É claro! Pra que estranhamento, não é?”
“...É.” Ele respondeu mecanicamente.
“Meu problema é pensar demais, não é?” Sugeri com uma careta óbvia.
“Talvez.” Ele ponderou, enquanto acenava e me observava. Coloquei meus braços para trás e dei um passo para frente, encarando nossos pés.
“E penso demais em tudo a ponto de não conseguir fazer nada, não é?” Joguei a cabeça pro lado, olhando para uma árvore aleatória, como se estivesse muito reflexiva.

arqueou uma sobrancelha para mim.

“Aonde quer chegar com isso, ?” Seu semblante era de desconfiança, e os olhos me miravam, semi-cerrados. Se eu não estivesse naquela situação, adoraria que ele me olhasse assim em outros contextos. Era um tesão só, confesso.

Virei meu rosto devagar na direção do seu, e sorri para si, enquanto lhe olhava bem nos olhos. Umedeci os lábios antes de materializar a ideia que estava na minha cabeça.

“A um consenso.”
“Consenso?” Ele sorriu, com ar de deboche.

Ah, . Esse jogo é um jogo para dois.

“É. Você quer passar de ano, eu também... Talvez seja um problema meu, sabe? Essa coisa de estranhar.”
“Hm.” Ele me olhou meio descrente, e eu senti vontade de rir, pensando na ideia inusitada que estava prestes a comunicar.

Mas não daria para trás agora.

“Então, para ajudar a naturalizar a ideia, poderíamos treinar todo dia até a peça. Não acha?”

arregalou os olhos e deixou a boca levemente aberta. Fechou, abriu de novo e fechou, sem ter muito o que dizer.
Engoliu a seco e soltou uma risada misturada com o ar, como se estivesse arfando e rindo ao mesmo tempo.
Eu continuei com a minha feição intacta: um sorriso gentil e um olhar um pouco esnobe, confesso.
Porque eu sabia que por essa, ele não esperava.

“Treinar?” Sua voz saiu um pouco falha e eu sorri como se não fosse nada demais.
“É. E então? O que me diz? Não está com medo, está?” Perguntei enquanto tocava seu queixo com meu dedo indicador.

Ele segurou meu punho e me trouxe mais pra perto, soltando uma risada rápida e convencida.

“Não me chamo .” E olhou dentro dos meus olhos. “Quando começamos?”

Eu umedeci os lábios, disfarçando o nervosismo. Estávamos muito perto e isso só me fazia rememorar o beijo que demos momentos atrás; e que meus lábios ainda formigavam devido ao recente contato.

“Amanhã. Hoje eu preciso descansar.” Me soltei de si e abaixei para pegar as minhas coisas que ainda estavam no chão, tudo para disfarçar o choque. Eu não esperava que ele topasse com tanta veemência, e eu não soube como agir diante de uma resposta tão... certeira.

Minhas mãos estavam levemente trêmulas, e mesmo tentando manter uma imagem de indiferença, acabei deixando tudo cair de forma estabanada. Bufei enquanto tentava catar todas as coisas de novo.
mantinha um sorriso no canto dos lábios quando se abaixou e juntou tudo em suas mãos, sem dizer nada. Ficou de pé e andou até a minha cabana, como se não fosse nada demais querer entrar no local sem minha permissão.
Não que ele realmente precisasse, mas estava um pouco irritada por ele ser tão corajoso e topar tudo sempre.
Não que fosse ruim ele me beijar todo dia, até a peça. Mas ele poderia ceder de vez em quando e me deixar vencer.
Mas, espera. Puta que pariu!
A gente ia se beijar todo dia até a peça!
Comecei a refletir em que tipo de conversa pós-beijo estávamos tendo, e automaticamente prendi meu maxilar, entendendo as sensações e sentimentos dentro de mim.
Por que insistia naquilo de medo, estranhamento, etc.? Por que ele queria que eu ficasse ‘numa nice’ sem estranhar nada?
Por que para ele parecia tão fácil seguir o script? Eu não significava nada pra ele? Não me via sequer como mulher? Apenas como sua melhor amiga?
Aquilo estava inflando no peito num misto de frustração e raiva.
Eu sabia que nada poderia ser feito, assim como não poderia fazer muita coisa em relação ao que eu sentia. Não se pode forçar alguém a gostar de você, não é? Ao mesmo tempo, não tinha culpa daquilo que sentia. Só me restava fazer algo ou não fazer nada a partir das emoções.
Talvez, no fim das contas, minha proposta tenha pego de surpresa, apenas porque ele não esperava que eu agisse daquele jeito. Era plausível, porque eu era tão previsível, sempre...
E tudo bem.
Quer dizer, tudo bem é o caralho; era bem frustrante e chato não ser enxergada nenhum pouquinho daquele jeito que eu via . Mas isso é sobre mim. Não dá exatamente pra cobrar nada dele.
Só os beijos.
Aparentemente, estar testando essa onda de não pensar tanto em tudo tinha me rendido uma cota significativa de beijos até o dia da peça.
Então eu tinha algum lucro, por assim dizer.
Poderia sair dessa situação e daqui há alguns anos, contar aos netos que gostei do meu melhor amigo e consegui dar uns amassos nele sem exatamente comprometer a amizade, nem precisar assumir meus sentimentos.
E sim, isso soava algo como “Pra quem não tem nada, a metade é o dobro” né?
Desesperada? Imagina.
Status da vida: esperando a hora que os humilhados serão exaltados.

“Você vai ficar parada aí ou vai me ajudar a abrir a porta?” Ele perguntou com a entonação malandra e eu bufei disfarçadamente antes de meter a mão na maçaneta e fazer o que ele me pediu.

Queria mesmo era meter a mão naquela cara.
E começar o treinamento de forma ininterrupta até o dia da peça.
Foco, !
Entramos no local, ele olhou ao redor de forma analítica e deduziu qual era a minha cama com poucos segundos de observação. E acertou. Deixou as coisas no canto e me olhou sem dizer nada.
Curiosamente ou não, não havíamos acendido a luz na cabana, mas o quarto tinha uma meia-iluminação com as luzes de fora.
E estávamos a sós, num silêncio nem constrangedor, nem exatamente confortável. Apenas... nós e a ausência de som.
E os olhares, que não se desgrudavam, independente do que estivesse acontecendo.

“Ainda está irritada comigo?” quebrou o silêncio, com um leve sorriso escondido no canto dos lábios.
“Não estou irritada com você.” Respondi, cruzando os braços e olhando para o chão.
“Está sim.” Ele respondeu, se aproximando de mim. Levantei meu rosto, suspirando ao avistá-lo de perto.
“Não estava. Mas você consegue me tirar do sério com facilidade, percebe?” Respondi um pouco ríspida, porém sincera.
“Por que?” Indagou com a voz sutil. Apelei para uma parte dos meus questionamentos de momentos atrás.
“Porque você insiste nessas coisas idiotas, de dizer que eu sinto isso e aquilo! Eu não tenho que provar nada do que eu sinto ou deixo de sentir! Nem pra você, nem pra ninguém!” Respondi me sentindo parcialmente leve ao desabafar aquilo (era uma meia verdade, talvez?) e cruzou os braços e me olhou sério.
“Exatamente. Você não precisa provar nada pra ninguém.”
“É!” Eu exclamei, abrindo os braços e o olhando como se fosse óbvio. “Não preciso!”
“Não precisa.” Ele repetiu, segurando em meus ombros. “Então para que ficar queimando a pouca paz que lhe resta e se importar com o que dizem ou o que vão dizer das suas ações, do que você pensa, sente... do que dirão de você?” Ele disse com a voz mais grave que o comum.

Mesmo com a pouca claridade, eu conseguia ver que o rosto de me observava atento e preocupado.
E então, algo dentro da minha mente estalou: aquela dinâmica irritante era sobre isso?

“Ah.” Eu deixei escapar, entendendo aonde queria chegar.
“Só você sabe o que sente ou o que deixa de sentir. Deixa o resto ser resto, . Ignorar não é fugir, muitas vezes é sinal de paz. E você merece ficar em paz, não acha?”

Ficamos nos olhando e eu respirei fundo de novo, sorrindo sem humor.

“Eu já não sei o que é isso há muito tempo.” Desabafei, pensando sobre toda aquela tempestade de sentimentos.
“E precisa ser assim?” chegou mais perto segurando meu queixo para que eu o olhasse nos olhos.

Ficamos nos encarando e eu umedeci os lábios, sentindo uma enorme vontade de beijá-lo de novo.

“Não é exatamente uma escolha.” Respondi, tendo dificuldades em desviar o olhar da sua boca. Entretanto, logo abracei a mim mesma e me afastei, indo me sentar na ponta da cama, de costas para ele e para a porta. “Mas acho que as coisas vão melhorar. Desde que você não banque o didático de novo tentando ser implicante.” Brinquei para quebrar o gelo, e riu levemente, encostando na parede perto da minha cabeceira, me olhando das sombras. “Era sobre isso?”
“Isso o que?” Ele perguntou, fingindo não saber do que se tratava. Bufei impaciente.
“Você queria que eu chegasse a essa conclusão sendo irritante desse jeito? Você sabe, me colocando contra a parede, dizendo que tenho medo e blá blá bla?”
“Funcionou, não foi?” Ele perguntou com a voz animada e eu ri sarcasticamente.
“Você é um porre.” Respondi, desenhando formas invisíveis no meu lençol.

Me senti um pouco desanimada. Aquela postura chata tinha rendido uns beijos, ao menos. Já que não era “para valer”, então o combinado dos beijos também não era... Era?
Droga. Eu queria aqueles beijos!

“Talvez. Mas você foi muito mais além do que eu esperava.” Respondeu, e pegou seu isqueiro do bolso, acendendo e apagando a chama.

Eu levantei minha cabeça para ver o rosto de se iluminar e escurecer nas sombras, me observando.

“Como assim?” Indaguei. soltou uma risada baixa e começou a passar a mão de um lado para o outro, atravessando a chama do isqueiro.

Ficou um tempo pensando enquanto fazia aquela pequena façanha, e quando eu já estava farta de esperar uma resposta, ele guardou o isqueiro no bolso e se colocou sentado diante de mim.

“Eu sou um homem de palavra, . E não arrego diante de um desafio.” E então, se levantou e começou a andar em direção a porta.

Eu fiquei de costas para si, tentando pensar se ele se referia ao que eu estava pensando.

“Significa?” Questionei, sem me virar.

Foi então que eu senti uma mão abraçar a minha nuca, enquanto a outra deslizou com os dedos pela lateral do meu rosto.
Minha cabeça foi para trás quando a puxou com firmeza e cuidado, e assim, ficamos de cara a cara.

“Trato é trato.” E assim, sem mais nem menos, ele me beijou, já pedindo passagem com sua língua.

Eu cedi automaticamente, segurando seu rosto enquanto trocávamos novamente aquele contato.
me beijava. De novo.
Todas aquelas sensações retornaram com tudo; o frio na barriga, o tesão, a voracidade nos movimentos, os lábios dançantes, os sabores... e a confirmação de que quando a gente se beijava era bom.
Incrivelmente bom.
As pontas de seus dedos, gélidos, desceram pelo centro do meu pescoço, me causando um arrepio instantâneo, e meu corpo tremulou levemente.
Ele riu dentre os lábios e desceu as mãos pelos meus ombros até que elas se apoiaram no colhão, paralelas ao meu corpo.
Por fim, prendeu meu lábio inferior entre seus dentes, da mesma forma que eu havia feito momentos atrás, e o arrastou levemente, ao se despedir do beijo.
Suprimi com dificuldade um gemido na garganta com aquele ato, enquanto nossas bocas se separavam.
olhou direto nos meus olhos e sorriu com os lábios avermelhados, e apoiou seu queixo na base do meu ombro esquerdo, encostando seus lábios em minha orelha.

“Até amanhã, . Durma bem.”

E assim, exatamente assim, ele se direcionou até a porta, e saiu da minha cabana, me deixando sozinha e entorpecida pelo que acabava de acontecer.

(...)


No dia seguinte, eu acordei cedo.
Acho que a frase certa era: eu mal dormi pois passei a noite inteira pensando nos beijos que dei, nos que daria, e em estratégias para amenizar o fogo que eu sentia por debaixo da pele, só de pensar em tudo aquilo.
Digamos apenas que estava agradecida por acordar cedo, já que o vestiário estava praticamente vazio e eu pude tomar um banho demorado em paz.
Saí de lá pouco mais de meia hora depois, e decidi tomar um café reforçado. Era realmente muito bom estar apenas em minha companhia, sem ter nenhum olhar me julgando ou me olhando como se tentasse adivinhar o que diabos tinha acontecido entre eu, , e Charlotte.
Comi o mais nobre dos pães; o pão francês com manteiga, quentinho, acompanhado dos ovos mexidos lindamente feitos pela equipe da cozinha. Tomei um suco de abacaxi com hortelã reforçado e um pouquinho de iogurte com sucrilhos, me sentindo praticamente indestrutível depois daquele café da manhã – quem sabe o próprio Tony da Kellogg’s.
Ou isso, ou o fato de eu ter trocado uns bons beijos com meu melhor amigo, por quem sou apaixonada há meses?
Quer dizer, o café da manhã teve sucrilhos, né? Difícil bater de frente.
De toda forma, terminei de comer e fui direto para a cabana, deixar as coisas e me aprontar para o projeto. Eu tinha acabado de olhar no celular; passava das nove da manhã quando, ainda nas escadas, ouvi vozes alteradas soarem dentro da cabana, automaticamente estranhando aquilo, já que, quando saí mais cedo, apenas se encontrava lá, dormindo igual a Bela Adormecida.

“É sério que agora você vai se fazer de pobre coitada? Me poupe, garota!” Ouvi a voz de soar agressiva, e franzi o cenho, apreensiva.
“Eu não estou me fazendo de nada! Mas a culpa definitivamente não é minha! Não era eu quem namorava, ele sim!” Meus olhos se arregalaram ao constatar que se tratava de Charlotte respondendo . Me aproximei mais um pouco, ficando a poucos centímetros da porta.
“Mas você sabia! Você sabia e o tempo todo ficou dando em cima dele, mesmo ele sendo comprometido! Que ele está errado, todo mundo sabe! Mas você também não teve um pingo de bom senso! É a , cara! Uma amiga de quem você mesmo disse sentir saudades!”
“Eu sei disso!” Charlotte retrucou com a voz alterada. Um tempo de silêncio se estabeleceu, e até as respirações pude ouvir. quebrou a atmosfera com sua voz soando mais baixa, como se não acreditasse no que ouvia.
“Sério, qual é o seu problema, Charlotte? É tão ruim assim não ser o centro das atenções de vez em quando?” Meu queixo caiu com aquela pergunta.
“Não, ! Não é isso! E-Eu não preciso disso!” A voz de Charlotte soou trêmula, e logo ouvi sua respiração entrecortar o choro. “Eu sei que ela é minha amiga. Não somos tão próximas, mas somos amigas! Quer dizer... Eu realmente gosto dela. Eu não... nunca quis fazer isso, . Eu não sabia até pouco tempo que eles estavam juntos, eu juro! Só fiquei sabendo pelos desabafos de !”
“Quando ele te contou!? Como é que foi isso, Charlotte? Em que situação seria necessário ele falar isso?” perguntou de uma forma dura, e eu estremeci tensa com a situação. Demorou até que a resposta viesse de Charlotte.
“Tudo aconteceu muito rápido. Eu percebi que ele estava distante, sem aquele ânimo de sempre, com o olhar perdido, cabisbaixo, principalmente depois da briga com . Percebi que ele se isolou de vocês, e os boatos eram que os garotos tinham brigado por causa da . E aparentemente, ela não estava falando com porque ele tinha começado a briga. Então estava sozinho, na merda, visivelmente magoado com tudo aquilo! O que eu poderia fazer além de ficar ao lado dele? Fiquei com pena, cara!”
“Ah, você ficou com pena? Que meigo da sua, Charlotte! E aí você o acolheu de pernas abertas!?” Ouvi retrucar e meu queixo se escancarou com aquela frase.

Eu não queria ser Charlotte naquele momento.

“Não! Cacete, claro que não! Eu apenas fui amiga dele, tentando conversar, animá-lo, mas ele não dizia nada! Nada até ontem...” Um novo silêncio se instaurou, e eu pude ouvir quando Charlotte bufou e voltou a falar, como se estivesse cansada. “Quando todas as atividades terminaram, eu encurralei na cabana e perguntei o que caralhos estava acontecendo. Ele segurou por algum tempo, mas logo depois começou a desabafar sobre o namoro, sobre um monte de coisas que tinha acontecido, sobre as brigas com a , sobre o medo dele de estar perdendo tudo sem poder fazer nada... Sobre o medo de perdê-la para .”

Eu engoli a seco aquela frase. Como pode ter medo e fazer o que ele fez!?
Charlotte seguiu a contar.

“Num momento, eu estava surpresa que ele tivesse guardado tanto para si, então a única coisa que consegui fazer ao vê-lo assim foi abraça-lo, tentando acalmá-lo, enquanto ele chorava por tudo aquilo. Num momento estávamos assim, só assim. Mas no outro... Bem. Foi quando aconteceu. A gente se beijou, as coisas foram acontecendo, e logo depois ela entrou na cabana! Foi tudo uma confusão...”

Eu ouvi tudo aquilo do lado de fora, imóvel. Fui atingida por um certo incômodo ao escutar as palavras de Charlotte, mas decidi que já era hora de sair daquele anonimato e por fim, abri a porta com firmeza, recebendo olhares assustados das meninas. Virei meu rosto para a garota chorosa, encarando-a. Notei suas malas arrumadas em suas mãos, e ergui o olhar novamente para o seu.

, eu...” Ela começou a dizer, mas eu a interrompi com uma fala precisa.
“Não há nada pra dizer, Charlotte. Eu ouvi o bastante, vi o bastante. Fiz o que precisava fazer... Eu só realmente não quero ter que olhar para a cara de vocês agora.” Falei enquanto guardava as coisas no meu armário, com uma tranquilidade assustadora.
“Certo, entendo...” Ela disse e após um tempo, se encaminhou para a saída. “Eu sinto muito. Por tudo.”
“Ok.” Respondi, sem olhá-la. Mas percebi que ainda ficou parada na porta, virada para mim.
“Se por acaso te importa saber, eu acho que vocês dois deveriam ficar juntos.” Ela falou tão rápido que de primeira, não acreditei que ela estivesse sugerindo aquilo.
“Como é que é?” Perguntei com a sobrancelha arqueada, e ela deu de ombros, encarando o chão.
“Ele realmente gosta de você, . Aquilo que você viu não significou nada, foi só... uma coisa humana, física, sabe?”

Eu fechei a porta do armário com uma brutalidade desnecessária. Coloquei as mãos na cintura, encarando Charlotte.

“O que você acha que sabe?” Perguntei com seriedade enquanto ela me olhava receosa. Caminhei dois passos em sua direção, ficando a um metro e meio de si.
“Você sabe qual é o problema com pessoas como você?” Tornei a perguntar, falando devagar.
“Como eu?” Ela perguntou confusa.
“Sim! Como você! Pessoas que acham que tem tudo resolvido, que entendem e sabem de tudo! O problema é que vocês acham que só vocês são espertos! Que acreditam tão cegamente e apenas no próprio juízo, que nem sequer passa pela cabeça miúda e mesquinha a possibilidade de estarem errados!”
“Eu não sou as-”
“É assim sim! Você acha que pode simplesmente vir aqui e falar sobre meu relacionamento com pelo que ele te contou cinco minutos antes de vocês se agarrem? Acha que pode me dizer o que devemos fazer um com o outro? Acha que pode me dizer o que devo sentir ao ver vocês dois juntos, Charlotte? Hein!?” A minha voz saiu mais agressiva, e ela tentou responder com a feição irritada.
“Eu só estou tentando ajudar!” Ela bradou e eu gargalhei na cara dela.
“Não, Charlotte. Você só está tentando se sentir menos escrota do que realmente foi.”
“Quer saber? Eu estava tentando ajudar, mas não dá para conversar assim. Você está fora de si!” Ela apontou pra mim e eu dei mais um passo em sua direção.
“Se tem uma coisa que você ainda não viu foi isso.” Cruzei meus braços e tranquei o maxilar, sentindo meus dentes rangerem um nos outros.
“Eu nem quero, porque não vim aqui pra isso!” Ela exclamou e eu ri debochadamente.
“Você veio aqui pra se sentir melhor, porque sabe que fez merda! Está fazendo isso e é o mínimo! Mas é tão cheia de si que sequer consegue olhar nos meus olhos e assumir isso na minha cara! Está apenas se vestindo de um papel ridículo por detrás de uma fala mais vazia ainda! Quem disse que eu preciso da sua ajuda? Dos seus conselhos amorosos? Da sua compaixão? Você estava enfiando a língua na boca de ontem e hoje acha que é alguém qualificado pra sequer direcionar a palavra a mim? Você não faz ideia do que eu preciso, Charlotte!”

O silêncio foi sepulcral.
Eu respirava fundo enquanto ela me encarava receosa, e sinceramente, até eu estava surpresa de ter dito tanto.
Charlotte piscou algumas vezes e voltou a falar depois de um tempo.

“Não, eu não faço ideia. Eu só estava tentando te ajudar! E sim, eu sei que tenho culpa, eu não sei da história de vocês e não estou querendo parecer que sei! Posso ter errado em dito aquele conselho para você, mas pelo menos vim tentar me redimir, entender a situação!”’ Ela exclamou agitada. Eu rolei os olhos com aquela declaração patética.
“Você não tem que entender nada, Charlotte, porque você nem faz parte da nossa vida, entende? Compartilhamos um passado bacana, mas não somos amigas próximas. Você pode tentar parecer boa, mas não força a barra! Muito menos vir dar pseudo conselhos como este! Você não tem o direito de dizer uma vírgula, principalmente por ter feito o que fez! Se manca!” Eu expliquei com uma paciência incomum e ela mordeu o lábio inferior, acenando afirmativamente.
“Eu só queria que você soubesse que eu não tinha essa intenção. De magoar você, não tinha mesmo! é um cara interessante, e sim, eu me sinto atraída por ele, mas honestamente, acho que é uma via de mão única. Apesar de ele ter errado completamente com você, sinto que o que aconteceu ontem foi pura carência. Ele... não estava bem. Entende?” Ela falou de uma forma tranquila, e eu bufei, negando com um aceno.

Olhei em seus olhos, e, depois de prender meus lábios numa linha fina, gesticulei ao questionar:

“Isso por acaso muda alguma coisa? Qualquer coisa?” Minha voz saiu bem mais grave do que de costume, e eu percebi que um sorriso triste pousou nos meus lábios.
“Nenhum pouco?” Ela insistiu, e eu olhei pro chão de novo.
“Não... E é por isso que digo que existe muito mais história do que você presumiu, Charlotte. Então se realmente ainda nutre algum afeto por mim... Me erra.” Fui tão sincera que literalmente desabafei, e novamente o silêncio se estabeleceu entre nós.

Apenas os olhares eram trocados, e eu não sabia dizer o que estava acontecendo ali, mas acho que meu desabafo fez com que ela entendesse que o buraco era definitivamente mais embaixo. Ela respirou fundo e iniciou sua fala.

“Eu sinto muito que tudo tenha terminado assim, . Espero que as coisas possam se resolver da melhor forma possível.” Ela falou de um jeito triste, visivelmente sem graça por tudo aquilo, e eu apenas suspirei, cansada.
“Charlotte, olha... Pra mim, o assunto encerrou e eu realmente não quero mais falar sobre isso. Tenha um bom dia.” Apontei para a porta com a mão aberta e ela suspirou, me olhando sem dizer nada.

Ajeitou a postura, a roupa. Coçou a nuca e consertou um fio de cabelo entre os dedos antes de quebrar o silêncio.

“Eu nunca quis que isso acontecesse. Nunca foi minha intenção me meter no relacionamento de vocês, eu sinto muito. Foi só isso que vim dizer. Fique bem.” Sua voz saiu baixa, e ela finalmente juntou as malas e foi embora.

Quando a porta bateu, respirei fundo ao massagear as têmporas.

“Tá tudo bem?” me perguntou, segurando meus ombros com gentileza. Eu afirmei com a cabeça, e ela me puxou pra um abraço, no qual eu retribuí parcialmente.
“Onde você estava?” Ela me perguntou curiosa, mexendo no meu cabelo carinhosamente.
“Tomando café.” Respondi com um meio sorriso.
“Hm... Ok. E você acordou cedo para isso? Tem certeza de que está bem mesmo?” Ela perguntou de novo, desconfiada. Ri levemente e expliquei.
“Na real eu não dormi direito, então aproveitei. Mas estou bem sim. Essa situação é chata, mas vai passar, e dentre muitas sensações, a que mais se sobressai é estar aliviada por ter resolvido as coisas com . Ainda que de uma forma inusitadíssima.”

riu levemente e concordou com um aceno.

“Você parece cansada, mas está com a carinha melhor que ontem.” Minha amiga comentou sorrindo e eu confirmei.
“Não foi do jeito que eu queria, mas conseguimos chegar num acordo, né?”
“Sim, e isso também faz parte, sabe? É a vida.” Ela respondeu, dando de ombros. Eu a encarei curiosa.
“Então... Me conta como esse papo entre vocês duas começou.” Ela levantou as sobrancelhas e as desceu novamente, enquanto prendia os lábios.
“Cara, eu não tenho sangue de barata. Ela estava toda pomposa arrumando as coisas, e com a maior cara lavada do mundo me perguntou como você estava. Eu respondi seca, disse que estava bem. E aí ela comentou que se sentia mal, porque não imaginava como você se sentia, porque ela nunca havia sido traída, sabe? Aí eu comecei a falar umas poucas e boas! Que tipo de comentário babaca é esse? Eu hein!”

Meus olhos se arregalaram e cobri minha boca com as mãos, prendendo uma risada.

“Meu Deus, você fez isso?”
“Fiz! E faria de novo! Vai querer cantar de galo em outro lugar!” Ela reclamou bufando. “E aí ela se fez de tonta, que não era bem assim... E aí eu falei pra ela parar de se fazer de desentendida e então...”
“Ah, então eu ouvi tudo, praticamente.” Respondi abanando a mão no ar, e me olhou confusa.
“Como assim ouviu tudo? Você estava espionando a gente, sua safada?” Eu fiz uma cara de “culpada” e dei de ombros.
“Eu estava prestes a entrar quando ouvi você confrontá-la. Eu queria ouvir até onde ela iria, queria saber a versão dela da história.”
“E então, o que achou?” me perguntou, cruzando os braços e encostando na porta do armário. Eu suspirei antes de responder.
“Eu estou sem saco de aturá-la? Sim. Quero ouvir as desculpas que ela tem? Não. Porque não altera em nada na minha vida. Só serve para gastar mais saliva e paciência, com esse encontro desnecessário que acabou de acontecer.”
“Ela foi muito entrona e sem noção com aquela frase! Isso é falta de bom senso, gente!” exclamou e eu concordei.
“Fico feliz que ela tenha sido minimamente sensata em sair daqui, porque já vai ser ruim o suficiente ter que ver e esbarrar com os dois pelos próximos dias.”
“E como você está se sentindo depois dessa conversa? Melhor? Pior? Mesma coisa?” me perguntou com os olhos atentos e eu suspirei.
“Agora, nesse exato momento, estou incomodada por ter tido minha zona de conforto atravessada por alguém que me causa desconforto. Não queria ter tido essa conversa, mas agora já foi. E pelo menos é um problema a menos na vida.”
“Oh, então isso é bom, não é?” Ela questionou enquanto pegava uma muda de roupa e a toalha de banho. Saímos da cabana momentos depois, andando devagar.
“Eu acho que sim. Pensei muitas coisas hoje de manhã, enquanto tomava banho, e depois no café... É preciso repensar as coisas, as situações, sabe? Se a vida passa a complicar-se, eu preciso aprender a descomplicar. A não tentar carregar tudo nas costas.” Falei pensativa, e me olhou com o cenho franzido, parando de andar no meio do gramado.
“O que foi?” Perguntei quando notei sua feição suspeita em minha direção.
“Eu que pergunto! Tá com o ar diferente, parece até que você tá recitando aquelas frases profundas da Clarice Lispector.”
Gargalhamos alto com sua observação, e eu mordi o lábio inferior, voltando a andar com ela ao meu lado.
“Estive pensando em muitas coisas, e percebi que está foda de lidar com esses sentimentos sobre , sozinha.” Falei, sentindo aos poucos a leveza voltar ao peito.
“Hm... E isso quer dizer...?” Minha amiga indagou com a sobrancelha arqueada e eu engoli a seco antes de responder.
“Quer dizer que tem sido muito difícil mesmo lidar com isso e estar por perto de .”

parou de andar e me olhou assustada.

“O quão difícil?”
“Muito difícil... A ponto de beijá-lo de supetão.”

As palavras pareciam gelatina escapando da colher. Trêmulas, esguias. segurou meu pulso, fazendo com que nós ficássemos de frente uma pra outra, perto do banheiro feminino. Ela me olhava com a maior cara de choque.

“Tá de sacanagem!?” Ela praticamente berrou e eu ri pedindo silêncio.
“Não!” Os olhos arregalados permaneceram.
“Você tá falando sério?”
“Tô.” Eu acenei com a cabeça, lambendo os lábios em nervosismo.
“Sério?” Ela tornou a perguntar, e eu ri sem graça.
“Sim! Ok? Estou falando sério.”
“O-kay... Puta que pariu. Caralho!” Ela respondeu automaticamente, e eu prendi uma risada. “Você vai me contar agora como foi isso!”

Eu ri abertamente e fui puxada por ela para um canto mais reservado. Ficamos perto de uma árvore enquanto em contava tudo detalhadamente para ela.

“Meu Deus, meu Deus, meu Deus! Eu não acredito!!! Caralho, puta que pariu, eu não sabia que viveria para ver esse momento! Meu Deeeeeeeeus!” Ela dizia feliz, enquanto saltitava e eu ria com a felicidade dela.
“Cara, por favor. Morre aqui, beleza? Não quero ninguém sabendo disso além de você.”
“Eu sou um caixão, querida.” Ela respondeu, fechando a boca num zíper invisível e eu ri de novo, suspirando.
“Mas e agora?”
“Agora a gente tá com esse combinado aí, e assim seguiremos até a peça.”

prendeu mal e porcamente a risada e eu indaguei com a sobrancelha arqueada.

“Que foi?”
“To vendo que você vai deixar o garoto com o lábio frouxo de tanto beijar.” E gargalhou alto enquanto eu ria sem graça.
“Para de bobeira! Pra sua informação, foi ele quem me beijou pela segunda vez!”
“Eita, caceta. Papo reto?”
“Retão.”
“Hm... sei.”
“Sei o que, garota?” Perguntei risonha e ela fez cara de sabichona.
“Então parece que temos uma recíproca, não é mesmo?”

Meu sorriso se murchou e eu dei de ombros.

“Não sei. É difícil dizer.”
“Como é difícil?”
“Ele namora a Lis, cara! Às vezes ele só tá achando isso novo, vendo este esquema como uma forma inusitada e fácil de passar de ano, sem prejudicar ninguém. Ou sei lá, pode estar querendo me animar também, depois dos chifres que me presenteou.” riu, negando com a cabeça. “O que foi agora?”

Ela cruzou os braços e me olhou repreensiva.

“Você precisa rever sua autoestima, garota.” Ela retrucou e eu a encarei com o olhar tedioso. “É sério! Eu tô começando a achar REAL que ele tá arrastando asa pro teu lado sim!”
“Meu Deus, qual parte do ‘ele namora a Lis’ você não entendeu?”
“Desculpa, sinceramente? Quem é Lis? Eu não tenho nada contra a garota, mas se fosse namorada dele ia ficar bem mal de pensar que a melhor amiga tem muito mais espaço na vida dele do que eu!” Eu rolei os olhos, discordando de . “É verdade, cara! Qualquer um pode ver isso!”
“Não é assim . Lis tem uma via de acesso que eu não alcanço. Eu daria muita coisa para estar no lugar dela? Sim, mas as coisas são como são. Não teria motivos para namorá-la se não gostasse dela. Ele não é mesmo o tipo de pessoa que faz as coisas que não quer.” Expliquei pacientemente e foi a vez de bufar.
“Sim, mas as pessoas não podem mudar de opinião? E se ele começou a namorá-la mas descobriu que gostava mais de tu? Sei lá, , só considera essa opção. Pensa comigo: se a gente começar a analisar pelo viés do “ele gosta de você”, então tudo vai começar a fazer sentido! Os ciúmes, o cuidado, a forma que ele te trata, te enxerga, te elogia...”

Fiquei olhando com uma cara de quem comeu e não gostou, pensando no porquê diabos namoraria Elise então?
Bufei, cansada.

“Ele não tem motivos para esconder isso...”
“Tanto quanto você.” me encarou com uma face tediosa e eu tomei uma porrada na boca do estômago.
“Você tá falando sério?” Perguntei depois de um tempo pensativa. “Você acha mesmo que isso pode ser uma opção?”
“Acho. E acho que você também deveria.”

Aquilo vibrou dentro de mim.
poderia gostar de mim? realmente poderia estar a fim de mim?

“Ou ele só tá matando a curiosidade de me dar uns pegas.” Dei de ombros, pensando alto, e gargalhou, negando com a cabeça.
“Caralho, desisto. Você é muito teimosa, cara!”
“Ué! E não pode ser essa opção?”
“Pode! Só que uma coisa não exclui a outra, só isso.” Ela cruzou os braços e me encarou como se eu fosse um bicho de sete cabeças. “Ai, cara. Só você...”

Em alguns segundos, comecei a pensar em tanta coisa...
Em Lis, em , até em , tentando rememorar a linha cronológica dos acontecimentos.
Como esperado, minha cabeça começou a doer de tanto pensar e eu gemi, frustrada.

“Ai, quer saber? Foda-se. Tô exausta demais para ficar pensando no que as pessoas podem ou não sentir. Eu decidi que não vou mais ficar conjecturando tudo, ! Qual é! Então, é isso! Se é um trato beijoqueiro que eu tenho, então vou aproveitá-lo! E chega! Quem quiser que conte suas histórias e assuma seus B.O.s! Já deu ficar queimando bufa com a mente alheia!”
“Mesmo a mente sendo de ?” Sua careta de deboche me fez ficar com uma cara de merda.
“Você não me ajuda, cara.” Comentei em certo desespero e ela riu, culpada.
“Bom... Eu acho que você tem que fazer aquilo que você se sente bem. Se não quer falar nada, não quer tentar entender a cabeça confusa do , e seguir guardando seus sentimentos pra si até que suma, vamos nessa, juntas. Se quiser o contrário, conte comigo também. Mas particularmente, acho que você tá no seu limite de segurar essa onda sozinha. Não precisa nem considerar que ele goste de você também, mas talvez de abrir o jogo e dizer que tá foda. Porque visivelmente, está.” Ela explicou e eu concordei, balançando a cabeça.
“É...”
“Se eu estivesse no seu lugar, já teria dito pra ele, mas seria tão catastrófico. Consigo imaginar perfeitamente: uma noite chuvosa, um brigando com o outro, discussões, dedo na cara e eu pá! Acabo vomitando tudo de forma atropelada, tornando a situação numa bosta maior do que já estava. O que só me faz pensar ‘que bom que a não é assim’, não é mesmo?”

Nós duas rimos abertamente, e em minha mente tudo ganhava vida: brigando com , mas mesmo ela achando que o final seria ruim, eu só conseguia vê-los juntos. Sorri com esse pensamento.

“Obrigada por isso, amiga.” Agradeci e me deu língua.
“Não precisa agradecer. Mas me diz, pretende treinar hoje?”
“Pode apostar esse seu belíssimo traseiro que sim!” Rimos novamente e eu dei de ombros. “Nah, brincadeira. Na real, acho que tudo vai depender do clima... Quando a gente se vir hoje.” Falei me sentindo ansiosa.
“É... Uau! Eu não estou acreditando nisso. Parece mentira!” Ela falou animada, e eu concordei, sonhadora.
“Uma parte de mim fica feliz, mas outra fica se perguntando o que vai ser depois da peça...” Ela me segurou pelos ombros e aproximou seu rosto do meu.
“Deixe para descobrir depois da peça, certo? Esse lance de Lis, você e ... Até então são dois amigos treinando para um esquete de teatro, então tecnicamente, tudo certo, ninguém quebrando as regras. Pensa no depois, só depois. Viva um dia de cada vez. Entendeu?”
“Sim senhora.” Respondi, aflita. “Caralho, eu quero muito quebrar as regras.”

Explodimos em risadas e nos despedimos brevemente, enquanto ela ia tomar banho e eu me direcionava para a sala do teatro, indo ao encontro do meu projeto e, possivelmente, ao trato com .
Seria esse, mais um dia de realizações?


Capítulo 25 – Life has a funny way helping you out (quinto dia)

Cheguei no local talvez cedo demais.
A porta até estava aberta, mas só tinha a professora lá dentro e eu não queria ficar ali jogando conversa fora sobre literatura, com todo perdão e respeito possível.
Então, fiquei sentada no banquinho de fora da sala, sentindo a brisa gostosa mexer com meu rosto, bem como sentia o calor do sol me aquecer.
Fechei os olhos, aproveitando aquele momento intimista, tentando praticar o mantra do “não pensar em nada”. Até que estava sendo possível esvaziar a mente, porém uma sombra deixou tudo mais escuro e frio. Estranhei, porque não lembrava de ter visto nuvens grandes o suficiente para cobrir o sol, então resolvi abrir os olhos. Acabei dando de cara com um cheiroso e recém-banhado, me encarando com um sorrisinho de canto e uma sobrancelha arqueada. Eu estava apenas olhando para aquele lindo rostinho quando ele pigarreou, se aproximando e pegando em minha mão, curvando-se levemente

“Madame Camargo, é um prazer desfrutar de vossa presença.” Ele lançou um olhar cúmplice e beijou a mão, sem quebrar o contato visual.
“Encantada, Senhor Seixas. O prazer é todo meu, imagine! Inenarrável partilhar de um momento tão sublime com o senhor.” Respondi com uma voz melodiosa, me levantando e cumprimentando como uma dama. Ficamos nos encarando, curvados, até que desatamos a rir, sem aguentar aquela brincadeira.

Ficamos assim, olhando um pro outro, até que eu percebi que olhava demais para e retornei à postura ereta, voltando a encarar meus pés. Ele fez o mesmo, e sua pergunta chamou minha atenção.

“O que foi, Amaral? Vai ficar de voyeur mesmo?” Levantei meu rosto, procurando entender a situação e estava simplesmente com aquela cara maníaca de quem “tá manjando” alguma coisa, enquanto nos encarava logo atrás de nós, com um sorriso sapeca no rosto.
“Nada, ué! Estou apreciando a atuação de vocês. Impecável!” E fez um joinha, trazendo certo humor para o ambiente. Todos riram, mas eu ri sem graça, admito.
“Veio ver o ensaio?” Perguntei, fugindo um pouco do foco.
“Na verdade, vim te entregar isso. Esqueceu na cabana.” E me entregou meu celular, que eu peguei com surpresa. Estava vivendo no mundo da lua mesmo!

Quando chequei o aparelho, percebi que tinha uma mensagem de todo feliz.

“CONSEGUI CARALHO!!!” Em letras garrafais apareciam na tela. Eu ri daquilo e encarei minha amiga com um sorriso cúmplice.
“Vejo que falou com , né?”

Ela sorriu sem graça, com as bochechas se destacando, e foi impossível não rir da sua cara.

“Siiim... E não vou negar, me fez um bem danado!” Ela uniu as mãos na altura do peito e eu dei um peteleco em seu nariz.
“Ai!” E fez uma careta de dor.
“Isso é por ser teimosa e maltratar o coração do meu amigo! sofreu, tá?”
“É, eu tô sabendo que ele encheu o saco... Foi muito?” Ela perguntou, dando uma risadinha.
“Muito. Era todo dia uma lamúria diferente.” respondeu suspirando e eu dei um tapa em seu ombro, voltando a falar.
“Que nada! Ele só estava ansioso para resolver as coisas. Ele gosta muito de você.” Fui sincera e ela suspirou apaixonada.
“Gosta mesmo.” concordou com um sorriso genuíno. concordou, feliz.
“É, eu também... Ele é uma pessoa incrível.”
“Não é porque é meu amigo... Mas é mesmo. E você também. Por isso são um casal da porra!” comentou e rimos da expressão sincera.
“E o melhor de tudo é que vocês terão a madrinha de casamento mais maravilhosa que existe!” Eu joguei a real, fazendo expressão de poder enquanto me olhava chocada. dava risadinhas enquanto negava com a cabeça.
“Você é foda, cara! Não deixa passar uma!” resmungou, e sentiu seu celular vibrar no bolso. Ela rapidamente checou o visor e rolou os olhos. “Tenho que ir. está surtando com meus atrasos no projeto. Beijos!”
“Beijos! Obrigada pelo celular!” Respondi enquanto ela estendia o polegar e se apressava, correndo até a sua sala.

Quando já estava longe, se sentou no banco e eu fiz o mesmo. Ele se virou pra mim com o semblante sério.

“Como você está?” Seus olhos analisavam minha face, e eu sorri.

Estava feliz que o clima entre nós não estava pesado.

“Estou bem... E você?”
“Estou preocupado com você. Chegou cedo... Tá bem mesmo?” E seu cenho franziu levemente, indicando preocupação falsa. Eu ri, dando de ombros.
“Acredita que acordei cedo e tomei café? Comi muito bem!” Me virei pra si, com uma careta animada e ele arregalou os olhos.
“Ora, vejam só! Você venceu seu desafio, eu te disse que hibernar não era tão necessário! Agora você só precisa manter esse ritmo, fico feliz por você.” Ele me sacaneou com a cara fingida e eu dei um tapa em seu ombro, rindo da piada infame.
“Para de graça, garoto chato! Para sua informação, foi muito legal, tá? Além do mais, estava precisando disso...” Comentei com um sorriso sincero no rosto.
“Imagino, . Que bom que tenha tirado esse tempo pra você.” Ele colocou a mão sobre minha cabeça e fez um carinho gostoso com a ponta dos dedos. Deitei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos, e ele riu.
“O que foi?” Perguntei, ainda com os olhos fechados.
“Você é muito filhotinho de cachorro, cara. Recebeu carinho, já sai aninhando pedindo por mais.” Ele comentou, cobrindo meus ombros com seu braço enquanto seguia com o carinho, me fazendo aconchegar em seu peito.
“Fazer o quê se você tem o melhor carinho do mundo?” Eu disse naturalmente, mas após alguns segundos de silêncio, me toquei que havia pensado alto demais. Abri meus olhos de maneira alarmada e parou de fazer carinho na minha cabeça, momentaneamente.
“Tenho?” Ele perguntou com a voz risonha, e eu senti pela sua movimentação que ele virou seu rosto pra baixo, para me ver. Eu dei uma leve travada e apenas respondi sem olhá-lo nos olhos.
“Uhum. Tem sim. Inclusive, por que parou hein?” Desloquei a pergunta e ele riu com aquilo, voltando a acariciar e eu fechei os meus olhos – de alívio e satisfação.

Ficamos um tempo em silêncio, e momentos assim eram cada vez mais comuns entre e eu. Aquilo era tão curioso, porque não se tratava de uma atmosfera constrangedora, e sim de paz. Era tão nós que me deixava com uma sensação de nostalgia, mesmo não tendo vivenciado aquilo que eu sonhava com .
E por mais que por dentro eu estivesse ansiando sobre o bendito acordo do “treino beijoqueiro”, eu realmente estava sendo influenciada pela atmosfera de paz que acontecia entre mim e .
Isso, além de ser inédito para nós (vide os últimos tempos caóticos que vivemos), era algo que me deixava aliviada. Durante todo aquele momento contemplativo e silencioso, eu me lembrava dos dias que achava que ia desidratar de tanto chorar, morrendo de saudade de e de perdê-lo, pensando que todo esforço sobre não contar dos meus sentimentos, havia sido em vão.

“Vamos nadar amanhã no lago?” Ele perguntou enquanto acariciava a cabeça, e eu senti um revirar na boca do estômago.

Aquela pergunta tão do nada me deixou toda cagada! No sentido figurado, é claro.
Lago? ?
Roupas de banho?
Óh céus.

“No lago?” Repeti e ele confirmou.
“Sim, no lago. Vamos?”

No lago… roupas de banho.
Eu e .
Eram só dois amigos nadando, certo?

“Hm... Oito horas?” Sugeri, optando por não pensar muito sobre aquilo.

se afastou de mim com uma cara assustada.

“Você tá me deixando preocupado com essa sua disposição matinal, sabia?” Eu rolei os olhos e ele bagunçou meu cabelo, rindo. “Certo, oito horas. Te pego na sua cabana?”
“Que cavalheiro! Me buscando em casa!” Comentei e ele gargalhou, dando de ombros.
“Eu recebi uma boa educação. Mas então, combinado?” E me olhou de maneira mais incisiva. Eu umedeci meus lábios e saí de seu ombro, lhe lançando um olhar desafiador.
“Combinado! Você vai se arrepender de zoar tanto meu humor matinal!”
“Tá aí uma coisa que eu quero ver.” Ele retrucou com humor na voz, e eu sorri pela forma que ele parecia estar se divertindo. Ficamos nos olhando por um tempo, e eu quebrei aquele contato, encarando o céu.
“Está um lindo dia, né?” Perguntei, sentindo o coração bater forte. Eu estava feliz.
“Não lembro a última vez que esteve tão lindo.” falou pontualmente, e eu abaixei o olhar para as árvores, pensando se ele se referia apenas ao dia. Pela entonação, eu suspeitava que tivesse algo a mais.

Mas talvez fosse só impressão da minha mente apaixonada, então apenas o olhei sorridente.

“Eu não poderia concordar mais.”

Nossos olhares voltaram a se encontrar, e meu sorriso aos poucos se esvaiu. me olhava contemplativo, e eu fazia o mesmo, sentindo os pensamentos fluírem a mil por hora. Só pensava no acordo, só pensava em atropelar tudo e todos e agarrar ! Beijá-lo, sentí-lo, tê-lo.
Eu não sei quanto tempo consegui ficar ali sem fazer nada, mas de toda forma, o universo pareceu intervir, já que a professora Strauss surgiu momentos depois, alegre feito uma criança em festa infantil.

“Oh, estão aí? Por favor, entrem! Já estamos quase na hora do ensaio! Animados?”

e eu nos entreolhamos, com um sorriso simples.
Você não faz ideia do quanto, professora...

***


Passamos a manhã fazendo ajustes nas falas, tentando gravá-las e contextualizá-las da melhor forma possível. Fizemos uns testes de figurinos e, após o almoço, engrenamos num ensaio já com as roupas dos personagens, bem como algumas ideias de maquiagem pairando em nossos rostos. A peça estava tomando forma!

“É então verdade que me ama?” Eu falei com a voz impostada, encarando com o olhar desconfiado. Interpretando Aurélia, era difícil olhar nos olhos de meu melhor amigo, fazer aquela pergunta e não sentir o revirar na boca do estômago.

sorriu de forma genuína, ajoelhado aos meus pés e segurando minhas mãos com firmeza.

“Pois duvida, Aurélia?” Me questionou com curiosidade.
“E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?” Eu desejaria que sim.
“Não lhe disse já?” Tornou a indagar com a feição confusa e eu suspirei, focando na peça e no enredo.
“Então nunca amou a outra?” Aurélia insistia e eu apenas emprestava meu corpo, minha voz para torná-la verdade; ainda que o diálogo fosse um sonho que eu gostaria ser real.
“Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...” disse com tanta naturalidade que demorei para respondê-lo. Respirei fundo, recobrando a postura da protagonista.
“Ou de outra mais rica!” Eu disse com tanta veemência que parecia mesmo que havia sido trocada como Aurélia. Me afastei a passos largos, usando a frustração dos últimos acontecimentos de minha vida como o gás da cena.
“Aurélia! Que significa isto?” ergueu-se num só movimento, arqueando as mãos para cima e me seguindo. Parei de costas para si, ofegante de forma proposital. Me virei de supetão e o encarei com raiva.
“Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nós estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.” A última palavra soou com firmeza e me encarou de olhos arregalados, incrédulo.
“Vendido!”
“Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.”
Com uma face zombeteira, sorri debochadamente enquanto desdobrava um papel em minhas mãos, entregando-o a , que o pegou exasperado.
“Agora, meu marido, se quer saber a razão por que o comprei de preferência a qualquer outro, vou dizê-la; e peço-lhe que me não interrompa. Deixe-me vazar o que tenho dentro desta alma, e que há um ano a está amargurando e consumindo. Sente-me, meu marido.” Falei com a voz de uma rainha, e o ato foi encerrado por uma salva de palmas da galera da produção, e uma professora Strauss muito animada veio até nós, com uma prancheta e os óculos de grau nas mãos.
“Ah meu Deus, vocês estão formidáveis, meus jovens! Nunca esperei que tivessem tanto talento, tanta potência... E a química entre os dois!? São as próprias encarnações de Aurélia e Seixas! Isso é tão divino, não tenho dúvidas de que tudo sairá perfeito!” Ela desabafou nos abraçando apertado e eu e nos entreolhamos sem graça — não sabia exatamente do que, mas estávamos sem jeito.

Talvez pelo fato de sermos reencarnações de Aurélia e Seixas — e aquele gostinho de ser um casal romântico, e não apenas amigos.

“Certo, o que vocês acham de descansarem por hoje? Estudem as falas para amanhã, onde começamos o novo ato no qual abordamos a história de Aurélia e Seixas, e aí encaminhamos para a cena final, sim?” A professora sugeriu, chamando minha atenção.
“Por mim tudo bem.” respondeu simploriamente e eu concordei com um acenar de cabeça.
“Ótimo! Já estou vendo o sucesso que vai ser...” A Sra. Strauss comentou com os olhos brilhando ao passar a vista pelo palco. Vários mini grupos se subdividiam entre figurino, cenário, e discussões de alterações finais para o texto que fechava a adaptação.
“Ah! Eu não posso esquecer de pedir isso para vocês...” Ela disse, se lembrando de algo aparentemente importante, e nos pegou pelos pulsos de forma sutil, trazendo nossos corpos para um canto mais reservado. “Vocês por acaso já começaram a praticar a cena final... voluntariamente?”

O arregalar dos olhos foi impossível, e eu pude ouvir a engolida a seco que deu quando a professora perguntou de maneira tão direta.

“Como assim, Sra. Strauss?” Eu retruquei igual uma idiota, apenas para preparar terreno e pensar numa desculpa esfarrapada, caso alguém tenha visto os beijos trocados entre e eu na noite anterior.

Realmente, discrição mandou lembranças para nós. Que fase!
A sra. Strauss respirou fundo e retirou os óculos dos olhos, limpando-os enquanto me respondia.

“Então... Eu preciso que deem tudo de si nesta peça, e não tenho dúvidas de que vocês estão mega dedicados nessa empreitada. Fico muito feliz com isso. Eu só preciso que mantenham os ensaios da cena final discretamente, entendem?” Ela sorriu sem graça e eu senti meu rosto pegar fogo. piscou algumas vezes e nem sequer me olhou de soslaio, como eu fiz com ele.
“Aconteceu alguma coisa?” foi o corajoso a perguntar. Acho que a professora entendeu aquilo e fez uma cara levemente desesperada.
“Não, não! Felizmente ninguém está encasquetando com nada da peça, e por mais que eu saiba que a maioria dos jovens aqui já tenha tido algumas boas experiências, a escola tem que ter todo cuidado para se respaldar e não pensarem que eu estou fomentando atos sexuais, entendem? Parece um pouco piegas, mas não seria muito legal se alguém pegasse vocês ‘ensaiando’ por aí. Até entenderem, e explicar que isso é arte, tudo já estaria comprometido e enfim. Não queremos isso, não é?” E deu um sorriso gigante, me fazendo sorrir meio nervosa.
“Hum... Claro, Sra. Strauss. Discrição é nosso sobrenome.” Motivos pelos quais eu odiava ficar ansiosa: me fazia dizer coisas idiotas como a que acabava de proferir. Senti prender porcamente uma risada ao meu lado, e lhe olhei com uma feição incisiva. Ele logo concordou comigo, encarando a professora animado.
“Conte conosco, professora.”

Ela suspirou aliviada e riu mais despojadamente.

“Vocês são incríveis, sério. E eu sei que pode parecer precaução demais, já que provavelmente não é uma novidade para vocês, né?” E cutucou a costela de com o cotovelo, enquanto olhava dele para mim com uma cara sugestiva e sorridente. a olhou incrédulo, com a sobrancelha arqueada.
“Como é?” Eu cuspi praticamente a pergunta, imitando as feições do meu amigo.

A professora perdeu o sorriso e olhou para nós sem saber o que falar. Até que sua boca virou um “o” e os olhos se abriram instantaneamente.

“Oh Meu Deus, vocês não são namorados?” Ela perguntou e nós dois negamos com a cabeça ao mesmo tempo, sem conseguir dizer nada.
“Deus, que vergonha!” Ela estapeou a própria testa e começou a gesticular com muita rapidez. “Me desculpem, eu não quis constrangê-los! É que vocês parecem tão enturmados, estão sempre juntos! Com aquela situação toda entre o Sr. e o Sr. , eu pensei que fosse um caso de ex-namorado ciumento!” Ela explicou toda enrolada, mas tão intensamente que senti a boca do estômago revirar com aquela descrição. A Sra. Strauss estava dizendo que parecíamos namorados? “Às vezes parecem que se falam pelo olhar...” Ela comentou desolada e eu senti que desmaiaria ali mesmo, de tanta vergonha.

Eu estava tão tensa, estatelada no lugar que não consegui mexer e nem me virar para encarar . Ele, por sua vez, parecia estar na mesma situação que eu. Com o adendo de que ele era namorado de alguém, mas parecia que essa pessoa sequer existia no ponto de vista da nossa professora, uma vez que se meter em brigas, estar sempre junto e ensaiar beijos parecia ser o suficiente para a professora concluir que éramos namorados.
Céus, aquilo era constrangedor pacas!

“Deve ser coisa da minha cabeça. Acho que na verdade vocês são apenas bons atores. E amigos, né?” Ela tentou consertar com um sorriso incerto e nós concordamos sem dizer nada; eu acho que estava tão chocado quanto eu diante daquela afirmativa.
“Bom... Então é isso, casal-QUERIDOS!” Ela se interrompeu, batendo novamente na testa — e dessa vez precisei chegar um pouco pra trás devido a força que ela usou. Doeu em mim. olhava assustado para a professora e eu encarava aquela situação como uma das mais embaraçosas dos últimos tempos.
“Sr. , Srta. ... Reforço o pedido de discrição dos ensaios da cena final.” Ela disse depois de pigarrear, tornando-se mais séria, com a postura ereta. Nós três nos entreolhamos durante um tempo, até que deu um tapinha no ombro da professora, forçando uma intimidade que fez tanto ela quanto eu olharmos para o rapaz com estranheza.
“Relaxa, prof! Somos um caixão, não falaremos nada. Esse assunto está como as renas do papai noel: EM TRENÓS!” E sorriu com todos os dentes, com uma cara de idiota que acaba de contar a pior piada do século.

Os olhares focaram em , que cada vez mais se sentia inclinado a explicar a piada — estágio final da miséria da comédia. Mas ele desceu até o fundo do poço, surpreendendo a todos.

“Em trenós, entendeu? Entre nós, em trenós! Hã? Hã?” E fez o gesto de trocadilho com as mãos, e a professora sorriu desconcertada. Eu acho que ela tinha entendido, só estava muito sem jeito de dizer que não viu nenhuma graça naquilo.

Eu suspirei de olhos fechados e tomei a dianteira da situação.

“Tá certo, professora! Nos vemos amanhã no ensaio, sim?” E sorri forçadamente, enquanto colocava as mãos nos ombros de e o empurrava para longe, que acenava para a Sra. Strauss com a mão esquerda.
“Em trenós, !?” Perguntei colocando as mãos na cintura, quando estávamos fora da sala. Ele deu de ombros, rindo sem graça.
“Foi o que veio à cabeça, ué!” Ele explicou, gesticulando com as mãos pra cima e eu segurei na base do nariz enquanto ria de sua cara.
“Apenas e somente isso?” Perguntei ainda risonha, e ele fez uma careta.
“Na verdade verdadeira, a piada é “O que uma rena de papai noel disse para outra?” e aí a resposta é: tá rolando um clima em trenós (entre nós). Entendeu?”
“Puta que pariu!” Eu exclamei gargalhando, segurando no ombro de , que ria comigo.
“Foi tão ruim assim?”
“Você fez uma escolha boa em não mandar a versão original. Mas da próxima vez, escolhe o silêncio, tá? Pelo menos era só uma pessoa passando vergonha, agora são duas.” Eu fiz dois com a mão, enquanto caminhávamos para o refeitório. Era hora do lanche.
“Ah, fala sério! Eu precisava fazer isso antes de me formar.” Ele disse convencido, colocando as mãos no bolso da calça.
“Passar vergonha na frente dos outros?” Perguntei risonha e ele sorriu.
“Não, isso eu vou fazer no dia da peça, e já faço nos shows da McFly. Me refiro a te deixar sem graça diante de uma professora a ponto de você precisar intervir.” E colocou o braço ao redor dos meus ombros, olhando pra frente como se não tivesse acabado de falar a coisa mais idiota da face da Terra.

Eu gargalhei alto, negando com a cabeça.

“Ok, você teve o que queria, completou sua sina. Agora só falta saber se na peça passaremos vergonha, porque com a McFly você definitivamente não precisa se preocupar.”
“Não?” Ele perguntou me olhando de soslaio, e eu fiz que não com a cabeça, olhando pra frente enquanto ria com a testa franzida.
“Claro que não! Você é incrível em cima do palco, .”

Ficamos andando calmamente, num silêncio confortável. me olhava com o rosto virado em minha direção, e eu fingia não perceber isso, enquanto chutava pedrinhas. Acho que fui muito enfática e não soube lidar com sua atenção.

“Queria me ver com seus olhos para saber como é.” Ele disse de uma forma mais séria, a voz um pouco rouca e grave. Eu ri, ainda sem olhá-lo. Estava mordendo minha bochecha quando decidi respondê-lo.
“Você definitivamente teria mais segurança em si mesmo.” Falei genuinamente, e ele me olhou surpreso.

O silêncio fez com que minha curiosidade falasse mais alto, e eu me virei para encará-lo. Minha barriga bateu palmas diante de seu olhar, meio intrigado, chocado com aquela declaração gratuita. Eu não estava mentindo, né? Por fora, estava tentando manter a naturalidade; por dentro parecia que uma festa rave acontecia, me deixando muito nervosa e agitada. Mas lá estava eu, tentando.

“É?” Ele perguntou com um sorriso tão singular que eu rolei os olhos e ri de sua cara fofa.
“É.” Respondi e dei de ombros, umedecendo os lábios num gesto nervoso e olhando pra frente. Estava difícil olhar nos olhos dele, que pareciam ter zero vergonha em focar nos meus diante de um assunto peculiar.
“Ok, eu realmente gostaria de me ver com seus olhos.” Ele disse risonho, e eu o acompanhei, me sentindo boba, e leve. Seguimos os próximos passos sem dizer nenhuma palavra a mais, com o clima agradável pairando entre nós.

Estávamos entrando no refeitório, indo em direção à fila, quando congelei ao dar de cara com — que estava junto de e . Ele nos olhava de um jeito tão analítico, ressentido. Eu engoli a seco e ignorei sua feição, ao tempo que senti o aperto da mão de em meu ombro me fortalecer.
Quer dizer, eu queria evitar sim. Mas sabia que era impossível não esbarrar com ele, principalmente estando num acampamento, né?
Minha saída foi tentar ignorar, e ao mesmo tempo ser cordial, caso surgisse algum tippo de interação.
Pelo menos era o que eu tinha em mente.

“E aí, pessoal! Como vai o projeto?” perguntou animado. Estranhamente animado.
“De vento em poupa! Vai ficar ótimo, além da gente dar uma palhinha das nossas músicas autorais. Eu sei, eu sou um gênio.” respondeu com a cara convencida e jogou seu ombro em direção ao amigo, que franziu o cenho em resposta.
“O que foi!?”
“Você só sabe dar ordens, !”
“Você quer que eu faça tudo, mulher!? Penso no projeto, executo... E vocês fazem o quê?” Ele perguntou indignado e fez cara de tédio.
“Eu não sei o , mas eu continuo sendo uma grandíssima gostosa que traz toda a beleza pro projeto e explico as partes mais fáceis na hora de apresentar.” E sorriu bem cafajeste, piscando rapidamente enquanto todos ríamos de sua cara.

Menos . Que não parava de olhar pra mim e .
E eu fiquei pensando que talvez fosse meio esquisito me ver daquele jeito com o meu melhor amigo (que por acaso sou completamente apaixonada e sabe disso). Mas também era muito esquisito ver e lembrar automaticamente do beijo entre ele e Charlotte.
Felizmente, meus pensamentos foram interrompidos por .

“E então, atores? Ensaiando muito pro Oscar?” Ela perguntou animada, e eu sorri levemente ao voltar para a conversa, enquanto dava o dedo do meio para ela, que devolveu com uma língua atrevida.
“Fazendo nosso melhor. Estamos ensaiando bastante.” Respondi sincera e interviu.
“Já ensaiaram tudo e estão apenas reforçando as partes difíceis?”
“Não exatamente, ainda falta um ato e a parte final.” Dessa vez, respondeu.
“Maneiro! Mas são partes muito difíceis de lembrar, de atuar?” perguntou ingenuamente e eu respirei fundo, ouvindo a risadinha de escárnio de soar bem plena.
“Não exatamente. É mais fácil do que as partes já feitas. É só uma questão de tempo, na verdade. Tudo vai estar pronto no dia da peça.” Ele deu de ombros e eu concordei consigo, recebendo os sorrisos de todos.

Menos , que continuava a nos olhar com uma cara péssima.

“Mal posso esperar pra ver.” comentou com uma cara sugestiva e arqueou a sobrancelha.
“Sério?” indagou e eu lancei um olhar incisivo para minha amiga. Ela soltou uma risada e se fez de idiota.
“Não acha legal ver nossos amigos pagando mico? Além do mais, eu adoro o final de ‘Senhora’. É uma reviravolta muito incrível. Você não leu, gênio?” Ela implicou com , que fez a melhor cara de pastel possível.
“Não. Do que se trata a história?” abriu a boca para responder, mas foi interrompida.
“Uma história de amor muito conturbada devido às questões sociais, mas que se resolve no final, quando eles finalmente superam suas diferenças e ficam juntos, de uma forma bem romântica e clichê, com declarações ostensivas e espalhafatosas. Imagino que esse seja o final que adore.” falou pela primeira vez, com os braços cruzados, encarando sem nenhuma emoção no olhar.
“É isso mesmo. Aurélia e Seixas sofreram muito e merecem ficar juntos.” Ela respondeu com a voz mais séria, encarando com a sobrancelha arqueada. Ele riu com ironia.
“Merecem mesmo. Nasceram um para o outro! Aliás, é ótimo que e estejam interpretando o casal. Afinal de contas, poucas pessoas teriam a ligação que ele têm para desempenhar o papel com tanta... naturalidade.” Era impressão minha ou estava insinuando algo?
“Eu concordo.” respondeu, dando de ombros e estranhamente calmo ao dizer aquilo. Diferente de , que prendeu o maxilar ao encarar meu melhor amigo, dando um sorriso forçado.

O que diabos estava acontecendo aqui!?

“É claro que concorda. Quem melhor do que você para fazer o papel de Seixas, não é mesmo?” Mais insinuações nas palavras de , e foi a vez de sorrir, fazendo pouco caso.
“E perder a oportunidade de dar uns amassos com essa mulher maravilhosa? Nem morto!”

soltou aquela resposta com a cara mais lavada, gargalhando de uma maneira quase forçada, que contagiou todos presentes. Dessa vez, nem eu nem rimos, por motivos completamente diferentes.
Mulher maravilhosa.
Amassos.
Oportunidade.
Era sério isso!? Ele tinha realmente dito aquilo!?
As palavras ficavam rodopiando na minha mente em 3D, dignas de apresentação em power point.
Enquanto ficava estarrecida com a resposta provocativa de , o clima daquela conversa ficava mais perigoso.

“Amassos? Eita!” comentou rindo de leve, e estava vermelha de tanto rir, me olhando sem disfarçar a cara de Michael Jackson comendo pipoca em ‘Thriller’. Já nos encarava de maxilar trincado, não disfarçando mais a cara enfezada.
“E o que Elise acha disso?” A voz do meu pseudo-ex-namorado soou no ambiente após um tempo, e eu engoli a seco. Apesar de estar incomodada com e de sua motivação indevida ao perguntar aquilo, eu também gostaria de saber a resposta.

parou de rir e encarou com uma expressão irritada. Deu de ombros, ajeitou a postura e ficou mais alto do que já estava.

“Eu estava brincando, . É uma peça, sabe? Teatro. Vamos apenas fingir que somos um casal. Não há nada pra Elise ou ninguém achar.”

rolou os olhos e riu.

“Essa é a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi para justificar uma pulada de cerca.”

Eu não acreditava que tinha dito aquilo. Fiquei encarando-o boquiaberta, sem reação, sentindo que a qualquer momento meus olhos furariam a cara do devido a raiva que eu sentia.
Aparentemente, ele conseguia ser um belo de um hipócrita ao dizer aquilo.
Mas novamente, respondeu e colocou a cereja do bolo.

“Não que eu lhe deva satisfações do meu relacionamento , mas para fins de conhecimento: Elise sabe e apoia. Madura como é, entende que isso é uma atividade extracurricular, apenas. Então, só pra constar: diferente de você, eu não vou estar fazendo nada de errado.” E soltou um sorriso digno de prêmio-deboche. “Relacionamento é outra coisa. Mas o que esperar de alguém que não entende muito sobre isso, não é?”

A cena seguinte foi típica de novela. O queixo de simplesmente despencou. Os olhos de pareciam que iam sair da órbita ocular.
E ficou irado de uma forma nunca antes vista, e deu um passo para frente.

“Como é que é?” Ele perguntou encarando .
“Você me ouviu. Não se faça de mais idiota do que já é.” A verdadeira ira de surgiu enquanto ele cuspia as palavras, sua feição completamente mudada. Precisei respirar fundo umas três vezes antes de tomar uma atitude; os dois se olhavam como se fossem dois cães de briga prestes a se atacar.

De novo! Cacete, de novo?
Olhei em volta, sentindo que apenas eu estava desperta para fazer algo. Foi quando reparei no espaço diante de nós e respirei fundo, intervindo.

“Gente, a fila andou. Dá pra focar na comida?” Me coloquei entre os dois, apontando para frente. me olhou com a cara irritada.
“Parece que andou mesmo, não é?”

Ah, não.
Ele não tinha dito aquilo!
Mais uma vez a boca abriu em choque, e eu pisquei inúmeras vezes em reação. Até que ficar em silêncio foi demais pra mim; puxei ar e o chamei raivosa;

“Chega! Lá fora, agora!” Bradei ao apontar o dedo para a porta trás de mim.
“O que? Eu não—”
“Agora!” Falei mais firme, e senti a mão de sobre meu ombro.
, não—”
.” Chamei sua atenção com a face raivosa, e pela troca de olhares, ele entendeu que eu não estava brincando. Apenas deslizou a mão, escondendo-a no bolso e encarou qualquer outro ponto, remexendo o maxilar, como se estivesse contrariado.

Bem, foda-se.
Eu olhei para e indiquei a saída com um aceno, andando fervorosamente até lá. Senti todos os olhares sobre mim, mas estava pouco me lixando.
Ao chegarmos do lado de fora e afastados da entrada, percebi que a temperatura tinha caído um pouco, mas estava com tanta raiva das atitudes de que nem o frio me abateu. Então apenas comecei a questionar aquela loucura de perguntas sem noção dele.

“Qual é a porra do seu problema, ?” Minha voz saiu incisiva, e ele me encarou com raiva, mas não respondeu nada. Apenas balançava a cabeça, e prendia os lábios numa linha endurecida. Os braços cruzados estavam firmes junto ao tronco, e ele desviou quando insisti na pergunta.
“O que está acontecendo, cara? Sério, que merda foi aquela lá dentro?” Gesticulei nervosa e ele suspirou, colocando as mãos na cabeça.
“Foi mal, tá bem? Eu meio que perdi o controle!” Ele disse à contragosto, e eu ri com sarcasmo.
“Meio? Você perdeu totalmente a noção das coisas, !” Eu falei mais alto, me aproximando de si enquanto fazia sinal de “maluco” com a mão direita. fechou os olhos por um tempo, e os abriu, encarando o chão.
“Eu sei disso!” Ele berrou, e eu dei um passo para trás, franzindo o cenho. Fiquei encarando sua face, confusa. Ele subiu o olhar para o meu, e respirou fundo.
“Olha, foi mal. Sério. Mas tá foda, entendeu? Eu gosto pra caralho de você, e ver essa aproximação de vocês me deixou...” E mordeu o lábio inferior, desviando o olhar.
“Deixou o que, ?” Perguntei impaciente, e ele rolou os olhos, dando o braço a torcer.
“Com ciúmes, tá legal!? Fiquei na merda de ciúmes vendo vocês tão juntos! E eu sei, eu sei que a gente não está mais junto, sei que ele namora a Elise, sei que vocês são amigos, mas ao saber dessa merda de cena na peça, eu… Urgh!” E passou a mão no rosto, tentando se acalmar. Me olhou por um momento e retomou a fala. “O que eu sinto é maior que isso tudo! Parece que o peito vai abrir, entende? Tá muito recente, tanta coisa acontecendo junto! E exigir que eu não reaja é complicado! Você poderia ser mais compreensiva!” Ele falou chateado e eu ri incrédula.
“Você só pode estar brincando, .” Eu disse, ainda rindo de nervoso, balançando a cabeça em negação.
“É tão absurdo assim te pedir isso?” Ele indagou irritado e eu trinquei o maxilar para responder.
“Só porque eu não te coloquei abaixo de cachorro depois te encontrar aos beijos com outra garota, não quer dizer que eu não possa fazer isso agora! Ou muito menos significar que você pode falar sobre o que pensa de mim ou da minha vida. O que aconteceu lá dentro não foi apenas uma cena de ciúmes, foi um show de horrores no qual você simplesmente vomitou toda e qualquer merda para se sentir menos miserável por si mesmo! Você afirmou coisas injustas, tão injustas que eu não quero nem lembrar! Como se já não tivesse dito todas essas merdas antes!” Neguei com a cabeça, suspirando. Ele manteve o olhar sobre mim, com a cara endurecida, sem dizer nada. Decidi continuar.
“E você ainda me pede compreensão? Você ficou com Charlotte, cara. A mesma garota com quem ficou anos atrás quando eu gostava de você. E não, naquela época você não tinha culpa de nada, mas estou citando como exemplo de que não há ninguém impune aqui! Já pensou que algumas coisas ficam e marcam a gente? Até que essa merda de acampamento acabe, eu tenho que conviver olhando pra sua cara e pra dela, entende isso? E aí eu te pergunto: quem é que não é compreensivo agora? Eu já não estou comendo o pão que o diabo amassou? Não estou vivendo um inferno o suficiente pra você? Eu simplesmente estou aqui tendo que lidar com as merdas que você faz e diz! Com as acusações infundadas sobre como eu estou num relacionamento amoroso com meu melhor amigo! E ao mesmo tempo, é impossível não olhar para você e não pensar naquela cena de vocês dois se beijando! Entende como você é, no mínimo, contraditório!? Hipócrita talvez combine mais, sabia?”
“Eu não—”
“Eu ainda estou falando!” Bradei novamente, respirando com dificuldade enquanto botava tudo para fora. Ele ficou quieto, mordendo o lábio inferior enquanto me olhava receoso. “Cacete, ! Porra, sério. O que aconteceu com o respeito, a admiração mútua? Sei que é difícil, mas não é só para você! Além de tudo que eu falei, ainda sou a garota que tem que lidar com essa merda de sentimento não correspondido, até que um dia passe. Essa não é a sua situação, sabe? Você, pelo visto, até tem um consolo super disponível para você!”
“E não foi isso que eu fui para você esse tempo todo?” Ele me perguntou com a voz baixa, mas a feição era tão séria que, junto com aquela afirmação, atravessou meu peito como um tiro.

Um consolo super disponível? Era somente isso que eu via em ?
Eu soltei o ar das narinas, como se tivesse soltado uma risada incrédula. A lágrima que escorreu do meu rosto denunciava a mágoa que eu tinha de .
O fim do nosso relacionamento não resumia o que ele era.
E em momento algum eu pensei em daquele jeito. Por acaso o tratei assim? Mesmo com o tempo todo conversando, tentando ser o mais honesta possível?
Sim, dava para errar mesmo diante das tentativas. Haviam pontos falhos que só naquele momento eu percebia. Mas não significava que foi um consolo. Pelo menos eu nunca vi dessa maneira, nem sequer o tratei assim.
Ele sempre foi uma tentativa de ser feliz, que durou o que tinha que durar. Era sobre isso, não era? Ver se dava certo...
Deu até onde daria.
Mas ninguém colocou uma arma na cabeça de e o obrigou a estar comigo… e muito menos a beijar Charlotte porque nossa comunicação havia falhado!
se remexeu, possuindo uma linha fina nos lábios. Eu respirei fundo e enxuguei a lágrima do rosto, negando com a cabeça e me achando ridícula em estar ali.

“Eu nunca te coloquei nesse lugar. Mas não vou mais perder meu tempo tentando te convencer do contrário, ou tendo que lidar com suas insinuações desmedidas, dando satisfação da minha vida... No fim das contas, você não entendeu porra nenhuma do nosso relacionamento. E eu perdi todas as fichas tentando fazer isso ser o menos doloroso possível para a gente. Mas já não dá mais.”
“O que quer dizer com isso?” perguntou com a voz falha.
“Não quero mais ter contato com você. Não dá para manter amizade com você, .”

Ele fechou os olhos com força, negando com a cabeça.

“É sério isso? A gente termina e você quer… Caralho, ! Eu estou sofrendo! É incontrolável, cara! Não é como se desse para simplesmente sermos melhores amigos, eu sei disso! Mas simplesmente cortar os laços? Isso é exagero! Você tem que entender!” E engoliu a seco, olhando para pontos perdidos no chão. “Eu não faço isso de propósito…”
, você tem agido como se me odiasse!” Eu falei num desabafo descontrolado, e ele me seguiu nessa.
“Eu não te odeio! Eu te amo, porra!”
“QUE!?” Eu falei exasperada, negando com a cabeça enquanto o olhava chocada.

Ele não poderia estar falando sério.
Aquilo não era amor nem de longe!
Suspirei passando as mãos no rosto. Que merda estava acontecendo?
me amava!?


Capítulo 26 - If I could, then I would (sexto dia).

Só podia ser mentira...
Aquilo não era amor nem de perto!
Formulei as palavras na minha cabeça, e após massagear minhas têmporas, disse com muita cautela.

“Você reaparece na minha vida, sugere um relacionamento mesmo sabendo que eu gosto de outra pessoa, passamos alguns meses tentando ser o mais transparentes possíveis, até que do nada você derrama uma chuva de expectativas sobre namoro e começa a reagir impulsivamente sobre tudo que tem a ver comigo e meu melhor amigo. Daí, chegando ao limite do absurdo, me acusa de traição e tudo que é direito, e como ato primoroso, você finaliza com tudo e dá uns amassos com uma amiga nossa em comum. Terminamos o que tínhamos, e você segue me acusando, jogando insinuações e outras falas que já nem te dizem mais respeito. Então me diz: o que eu realmente tenho que entender, ? A única coisa que consigo pensar é: você não me ama.”
“Você não pode afirmar um sentimento que não é seu! Como ousa?” Ele retrucou com a feição dolorida e eu sorri enquanto deixava as lágrimas caírem.
“Mas sei o que sinto por , . E eu não vivo atrapalhando a vida dele por não me escolher, por não estar comigo. Eu não quero para mim, eu quero feliz. Essa é a diferença. Você não me quer feliz… você só me quer para você. E isso pode ser tudo, menos amor.”

O silêncio foi sepulcral. abriu e fechou a boca várias vezes, sem conseguir falar nada, exatamente. Era doloroso vê-lo tentando compor algum argumento, mas estava nítido em sua face: o que eu tinha dito fazia sentido para ele.

“Ainda que seja doloroso amar uma pessoa, você não quer possuí-la. Você a quer livre e feliz… Mesmo que não seja com você. Consegue distinguir, ? Não me parece amor quando você age desse jeito...”

Era tão estranho falar ameno e ser ouvida. Era tão estranho falar com tanta prioridade e perceber que sim, eu sabia do que estava falando mesmo! E em como reconhecia isso, à contragosto ou não; suas expressões mostravam na batalha interna que ele sofria.
Talvez ele acreditasse mesmo que me amava. Isso não significava que ele não gostava ostensivamente de mim, mas amar… Era outra coisa.
Coisa esta que não parecia sentir por mim.

“Eu… Não sei o que te dizer…” Ele falou com a voz bem grave, o cenho franzido, o corpo retraído. Parecia que ele tinha levado um soco na boca do estômago.

E talvez tivesse mesmo.

“Acho que a gente não precisa dizer mais nada, . Tivemos um relacionamento, foi bom enquanto durou, mas não temos mais nada entre nós. Você não me deve satisfações da sua vida, e nem eu lhe devo da minha.”

Foi um aceno muito breve e contido que deu. Mas foi real. Então, prossegui com a fala.

“Se quiser dar bom dia, boa tarde, boa noite, tudo bem. Se quiser fingir que eu não existo, tudo bem também! Mas eu não vou mais aturar isso, entendeu? Não sou obrigada! Eu mereço e exijo respeito. É o mínimo, .”
“O mínimo.” Ele repetiu como se quisesse forçar aquilo a entrar na cabeça.
“Sim, o mínimo.”
“Eu diria que foi só o que restou.” Ele comentou com a voz embargada, entreolhando as árvores, sem focar em mim.
“Não por falta de tentativas. Mas, temos que lidar com as consequências de nossos atos, não acha?” Falei, irritada. Ele concordou contrariado, como se não quisesse entrar na discussão.

Também, que discussão? Aquilo era fato.

“Isso tudo parece um pesadelo.” Ele comentou com um sorriso entristecido e eu suspirei. “Parece que eu tô vendo de fora, sabe? Você caminhando, distante, e eu não conseguindo te alcançar. Tudo parece meio desfocado, meio errado… Fora do lugar.”
“Aparentemente, não estava tudo no lugar desde o início. E a gente se perdeu, tentando se encontrar...” Acho que nunca tinha dito algo tão pertinente. me olhou com aqueles olhos molhados, como se visse algo além de mim. “Acho que faz parte, e com o tempo, a gente supera isso.”

balbuciou sem sequer conseguir dizer algo, como se estivesse pensando muito. Até que simplesmente se calou, mordeu os lábios e por fim, negou com a cabeça, olhando para o chão.

“O problema é que eu não quero superar você.”

Fechei meus olhos com força, segurando o rosto, cansada.
Aquilo doía de ouvir, muito. Porque eu sabia como ele se sentia, mas não justificava em nada suas atitudes.

—”
“Eu sei. Eu sei. Eu já entendi… É que eu realmente gosto muito de você, mas… Não era pra ser, eu acho.” E me olhou acuado, dando de ombros. “Eu não fiz por mal. Mas acho que quanto mais eu tento lidar, mais eu erro, não é?” Ele falou com a voz fraca, e eu suspirei, mordendo o canto da boca.
“Sinto muito, mas você precisa lidar com seus sentimentos e com a situação de um jeito mais maduro, saudável... Caso queira que ainda exista banda, amizades e afins. Do contrário, não vai rolar. Eu não estou dizendo que é fácil, mas não vai prestar caso você queira bancar o intragável de novo. Porque foi exatamente isso que você foi.”

Acho que ficou surpreso com a sobriedade em minhas palavras, mas eu não poderia me furtar de dizer aquilo. Naquele momento, por mais sensata que eu estivesse sendo, ainda existia uma vontade imensa de dar uma voadora em seu peito, pra que nunca mais fizesse uma merda daquelas de novo.

“Acho que tem razão. Me parece que o melhor, por enquanto, é nos afastarmos.” Ele respondeu com a mesma seriedade, e eu engoli a seco a última parte.
“Pelo menos por enquanto, sim.” Comentei, sentindo minha voz sair com mais calma pela primeira vez diante daquele diálogo.

A atmosfera ficou sólida, de tão pesada. mordeu os lábios antes de falar novamente.

“Me desculpe pelo que houve. Não vai acontecer de novo.” E me olhou com dificuldade, coisa que nunca havia rolado entre nós. Concordei, sem dizer mais nada.

Ele acenou com a cabeça, e foi em direção à sua cabana, passando por mim sem proferir uma palavra a mais. Eu suspirei e massageei meu pescoço, liberando a tensão ali presa. Fiz o movimento de olhos fechados, e não sei exatamente quanto tempo passei assim, mas quando abri os olhos e avistei a entrada do refeitório, fumava um cigarro num canto reservado enquanto me encarava.
Respirei pesadamente, andando sem vontade até lá.

“Não vai comer?” Perguntei qualquer coisa quando cheguei perto o suficiente, cruzando meus braços e mirando a fumaça que saía das narinas de .
“Eu já comi.” Ele respondeu na maior cara de pau, apresentando o cigarro entre os dedos. Eu rolei os olhos e o observei seriamente.
“Você estava me espionando?”
“Só vim fumar, ué.” Tragou o cigarro, me olhando sem um pingo de vergonha, soltando a fumaça na minha cara. Dei um tapa em seu peito e ele logo reclamou.
“Para que essa agressividade, mulher?” Ele indagou com o cenho franzido.
“Para você parar de ser fofoqueiro! Cuide dos seus próprios problemas, !” Briguei colocando as mãos na cintura, e ele tragou novamente, batendo as cinzas do cigarro e sorrindo de lado.
“Você é problema meu, .” E deu de ombros enquanto cruzava os braços. Confesso que ouvir aquilo fez meu estômago dar uns pulinhos, mas não amenizei a cara de enfezada. Umedeci os lábios, respirando fundo.
“Eu estou falando sério!” Insisti e ele me olhou nos olhos, aproximando seu rosto do meu.
“E eu estou brincando, por acaso? Ou você acha que qualquer babaca pode vir te namorar, trair, falar meia dúzia de merda na tua cara e sair ileso?”

Ficamos nos olhando por um tempo, tão perto que eu poderia sentir o cheiro do cigarro como se eu mesma estivesse fumando. A luz do refeitório refletia pela janela alta, acima de nossas cabeças, iluminando nossos rostos apenas.
Eu sinceramente achava injusto que, mesmo chateado, tivesse feições tão lindas que desnorteavam meus pensamentos numa facilidade incrível.
Filho da puta.

“Eu cuido disso, ok?” Falei mais leve, e ele lentamente concordou, me respondendo mais ameno também.
“Eu sei que cuida, não estou dizendo o contrário. Eu sei que você é uma mulher forte, dona de si, sabe se defender. Eu só... estou a postos.” Sua mão alcançou meu rosto, fazendo um carinho suave na minha bochecha, até que ele percebeu o rastro de uma lágrima seca e seus olhos semi cerraram. “Você está bem?”

Continuei olhando sem conseguir responder nada; parte de mim estava concentrada em seu toque, enquanto a outra digeria suas palavras tão... aquecedoras.
E então, a partir daquela pergunta, me lembrei de algo importante; a fala dita para pinicava em minha mente, e eu não me sentia confortável com aquilo.
Eu sei que a gente não tinha nada além de amizade.
Eu sei que era só uma peça.
Eu sei que tínhamos um acordo bobo, no fim das contas.
Mas era só sobre “dar amassos com essa mulher maravilhosa”?
E… Lis?

“Você tá bem?” perguntou de novo, mais preocupado, e eu pisquei, percebendo que havia me dispersado da realidade.
“Lis pensa isso mesmo, ?”
“Que?” Ele perguntou com o cenho franzido, visivelmente confuso.
“Lis. Ela sabe dessa peça, ela sabe do nosso acordo? Ela sabe?” Disparei, um pouco tensa. me olhou desconfiado e deu mais um trago no cigarro, soltando a fumaça lentamente.
“Sim.”
“Sim o que, ?” Perguntei incisivamente.
“Sim, ela sabe! Por que essa pergunta, do nada?” Ele questionou, jogando o cigarro fora.
“E ela está ok com isso?”
“Está! É só uma peça, não é nada demais! Já não discutimos esse assunto?” estava irritado, com os braços cruzados. Eu neguei e apontei um dedo em sua direção.
“Não, não falamos sobre como Elise se sente quando o namorado dela dá uns amassos na melhor amiga!”

me olhou com a boca entreaberta, passando a língua pelos dentes, como se estivesse refletindo. Por fim, deu uma risada sem humor e deu de ombros, negando com a cabeça.

“Você está se deixando levar pelas palavras de merda do , .”
“Ah, qual é, ! Se até a professora teve uma impressão errada de nós, por que Lis não teria?” prendeu os lábios e olhou para o chão, reflexivo. Por fim, voltou a falar com a voz baixa.
“Você quer desistir da peça?”
“Não!” Respondi rápido demais, sentindo o coração na boca. Merda, eu era tão transparente!

Ficamos nos olhando por um tempo, ele nitidamente irritado com meus questionamentos e eu igualmente chateada por suas respostas evasivas.

.” Chamei seu nome, fazendo com que ele ajeitasse a postura. Segurei em seus ombros e me aproximei, tentando ficar firme. “Eu só quero evitar problemas. Eu sei que é uma peça. Somos só amigos que se beijam para passar de ano. Mas não vou ficar tranquila se todos os envolvidos também não estiverem.”

analisou meu rosto por um longo tempo, e por fim, acenou positivamente.

“Te garanto que está tudo bem.”
“Eu não quero outra pessoa me falando merdas como , entende? Além do mais, Lis é uma amiga. Não tão próxima, mas é. E eu respeito o que vocês tem. É só isso.” Nunca doeu tanto falar isso, mas era verdade.
“Eu entendi, e agradeço. Não precisa se preocupar mais do que você já faz. Relaxa, está bem?” Sua mão fez um carinho no meu rosto, e só ali eu vi o quanto estava tensa. Segui seu conselho e relaxei os músculos.
“Mesmo?” Perguntei, insistindo uma última vez. Ele concordou com um meio sorriso.
“Mesmo mesmo.”
“Ok.” Respondi, ainda sentindo o interior vibrar.

Desloquei meu olhar para o chão, me sentindo contemplativa. Sabia que os olhos de estavam em mim, e de alguma forma, aquilo me fazia sentir mais timidez do que de costume.
Inesperadamente, me puxou para um abraço, e eu praticamente caí de cara em seu peito, sendo envolvida em seus braços, seu calor e seu perfume misturado com tabaco.

“Você é uma pessoa maravilhosa, sabia?” Ele sussurrou no meu ouvido e eu arregalei os olhos, sentindo o coração aquecer.
“Eu acho que é a segunda vez que você diz isso hoje.” O peito dele ressoou com a risada e ele logo respondeu.
“É verdade. E poderia dizer uma terceira, mas você se acharia demais.”
“Já bati minha cota hoje?” Perguntei contra seu peito e ele riu de novo.
“Sim. Volte amanhã para mais.” Foi a minha vez de rir.
“Certamente voltarei.”

se afastou para me olhar, e eu aproveitei para me desfazer do abraço — era capaz de ficar lá para sempre.

“Está com fome?” Me perguntou, ajeitando um fio de cabelo solto meu.
“Um pouco.”
“Mas você não deveria...” Ele comentou ao andar de volta para o refeitório.
“Não!?”
“Não, já que você jantou .” Ele disse com um meio sorriso e eu rolei os olhos, enquanto gargalhava da fala idiota de .
“Vamos logo, seu besta.” Comentei empurrando suas costas em direção à fila.

E com o coração apertado.
Eram 7:57 quando bateu na porta da cabana. Abri a porta animada, com um sorriso de orelha a orelha.

“Que rapaz adiantado!” Falei ao fechar a porta atrás de mim.
“Três minutos só. Bom dia.” Ele falou com a voz de sono – e eu amava sua voz assim, era mais grave que o comum, e fazia um par perfeito com a cara ainda amassada.
“Bom dia, dorminhoco! Vamos?” Perguntei ao inclinar minha cabeça levemente para o lado enquanto deixava os braços atrás do corpo. Ele sorriu minimamente e concordou, descendo os degraus na minha frente.

Caminhamos lado a lado sem dizer nenhuma palavra; era comum que de manhã falássemos pouco, ainda estávamos naquele estado de sonolência em que o espírito aos poucos retorna pro corpo – mesmo que naquela ocasião em si eu estivesse mais animada do que pra um show ou festa.
Para ser bem sincera, estava me sentindo num encontro, mas toda vez que minha mente tentava vir com aquele pensamento, eu o cortava, me convencendo de que era só um momento entre amigos.
E era óbvio que eu falhava miseravelmente a cada minuto que nos aproximávamos do lago. Então, decidi preencher a cabeça com outras coisas.

“O que é isso?” Perguntei para a sacola na mão dele, que me olhou de soslaio e olhou para frente, sorrindo.
“Você vai saber.” Apenas disse, me deixando curiosa.

Ao chegarmos no lago, retiramos nossos chinelos e o frio na barriga subiu novamente; eu estava com um biquini azul fosco por debaixo do vestido floral de fundo verde. Era simples, mas se adequava ao meu corpo, e pensei que logo tiraria aquela roupa, perto de . Fiquei tão imersa nos pensamentos enquanto encarava a profundeza da água que só me toquei da realidade quando me chamou a atenção.

“Pronto. Não é muito, mas é o bastante. Espero que goste.” Ele comentou e eu olhei para a canga que cobria a areia e servia de toalha para algumas frutas espalhadas e uns biscoitos tipo cream cracker. Havia uma garrafa que eu julgava ser água, e dois sucos de caixinha. havia improvisado um café da manhã surpresa para nós!
“Ai meu Deus, olha isso!” Falei risonha, erguendo um pedaço de manga à boca. “Como conseguiu essa façanha?”
“Bom, a cozinha já estava aberta, eu contei uma história comovente e o resto você já sabe. Gostou?” Ele perguntou genuinamente curioso e eu sorri abertamente.
“Está brincando? Eu amei! Piquenique como nos velhos tempos!” Ri ao lembrar dos momentos mais infantis entre nós, no qual dividíamos comidas com nossas famílias reunidas.
“Bota velho nisso.” Ele falou rindo, roubando umas uvas do cacho enquanto tirava a blusa ao puxá-la pelas costas.

Confesso que estava sugando o suco de uva pelo canudinho e quase engasguei quando vi o torso nu de tão perto. Mas consegui disfarçar.

“Já vai entrar?” Perguntei e ele deu de ombros.
“Eu não sinto muita fome de manhã, mas posso te esperar, se quiser.”
“Só vou comer a banana e a gente vai.” Respondi e ele acenou, encarando a grandeza do lado diante de nós.
“Senti falta disso.” Ele disse depois de um tempo, sem me olhar. Eu estava mastigando e precisei terminar para perguntá-lo.
“Disso?”
“De nós. Das conversas, das brincadeiras... De estar em silêncio e estar bem.” E se virou para mim, com a feição pesarosa. “Foram longos três meses, .”
“Eu sei.” Respondi depois de um tempo apenas encarando-o, e respirei fundo, mastigando um novo pedaço de banana. “Acho que estamos aos poucos retomando, não é?” Perguntei incerta, e ele riu, concordando.
“Significa que posso cobrar afeto retroativo, né?” Eu ri com certa surpresa.
“Afeto não se cobra, . A sua sorte é que você tem um abraço muito bom e eu dificilmente me cansaria. Que tal?” Respondi com um sorriso sincero e ele arregalou os olhos, chocado.
“Então porque não está me abraçando agora?” Ele retrucou com a cara debochada e eu dei de ombros.
“Ih, mas é só “vinde à nós”? E o vosso reino?” Decidi implicar e arqueei uma sobrancelha pra si.
“O que houve com o papo de não cobrar afeto?” Ele indagou, mais irritante do que nunca.
“Isso não tem nada a ver. São apenas acertos de contas.” Respondi mal e porcamente, balançando a mão direita, mas investi na cara mais óbvia que eu poderia fazer enquanto terminava de comer a banana.

Ele mordeu o lábio inferior e rodou o piercing, rindo enquanto negava com a cabeça. Em um momento, eu observava aquela perfeição de garoto atiçar meus pensamentos mais profundos com aquela ação, e no outro, me respondia.

“Se você não existisse, precisaria ser inventada, na moral.”
“O que?” Eu perguntei, rindo.
“Você! Na boa… Só você para dizer essas coisas, fazer essas coisas... Eu tinha razão, no fim das contas.
“Sobre o que?” Foi a vez de indagar confusa. Percebi que ele respirou fundo, pensando em como me responder. O pomo-de-adão subiu e desceu, e umedeceu os lábios antes de explicar:
“Durante o tempo que a gente não se falou, eu tentava me convencer de que a vida seguia normalmente. Eu levantava pensando nesse mantra, e dormia desistindo dele.” E me olhou sério. “As coisas não voltaram ao normal, não foram mais fáceis sem você.”

O canudo soltou da minha boca com facilidade, enquanto eu tentava me lembrar de como respirar. coçou a nuca, e voltou a falar, gesticulando.

“E então, olhando para o que temos hoje, vendo você sendo tão você e eu sendo tão eu… E a gente sendo nós…” Ele riu nervoso ao encarar o chão, e deu de ombros, como se fosse algo óbvio. “Não há sem , definitivamente.”

Ele voltou a me encarar com um sorriso incerto e quase imperceptível. Naquele exato momento a luz solar refletiu da água diretamente para seu rosto, tornando evidente aquilo que já era lindo aos meus olhos.
Eu sorri de forma apaixonada.

“Sério?”
“Muito sério.” Ele respondeu, afirmando com a cabeça. Eu ri nervosa com sua declaração, e não me segurei: fui até ele e pulei em seu pescoço, o abraçando forte.
“Também não há sem , né?” E rimos com aquilo, como se fosse um trocadilho interno. Sem sair do abraço, continuei a falar. “Ainda bem que você existe.”

Seus braços automaticamente se prenderam à minha cintura e meu tronco encostou no seu com força. Aquilo me causou arrepios, e o pior é que nem dava pra disfarçar, a não ser que eu utilizasse a desculpa do frio matinal.
Com o silêncio e o abraço demorado, eu percebi que meus esforços para não beijar naquele momento estavam atuando além da capacidade normal, então desfiz aos poucos o enlace, e meu melhor amigo prontamente repetiu meus atos, passando a mão em seu próprio ombro enquanto olhava para longe.
Decidi disfarçar minha timidez sentando ao seu lado e ajeitando o cabelo, roubando mais um pedaço de manga.
A ausência de fala estava ficando meio constrangedora, mas não consegui pensar em nada para falar (e muito para fazer, se é que me entende).
Acabei tomando uma atitude mais plausível para a situação e retirei o vestido num só impulso, dobrando-o lentamente em meu colo. Me concentrava mais nisso do que em reparar se analisava meu corpo ou não.
O nervosismo acabava de crescer brutalmente.

“Como estamos hoje?” me perguntou olhando para o tecido em meu colo, e eu dei de ombros.
“Hoje estou melhor. Ontem estava com algumas coisas engasgadas...”
“Como...?” Ele fez sinal para que eu continuasse, e assim o fiz.
“Ontem foi um dia e tanto! Teve DR com , Charlotte...”

Ele fez cara de quem entendeu e acenou afirmativamente, olhando pra frente.

“Como foi com Charlotte?” Ele estava com os braços apoiados nos joelhos e abaixou a cabeça até apoiar o queixo ali, deixando apenas os olhos à vista. Eu suspirei ao respondê-lo.
e ela estavam meio que discutindo na cabana quando cheguei ontem do lago, de manhã. Foi meio que uma lavação de roupa suja, mas necessária. Charlotte consegue ser bem indigesta quando quer… Buscou se justificar em alguns momentos, e até mesmo tentou me aconselhar de que eu e ele deveríamos ficar juntos.”
“Sério?” A sobrancelha de se arqueoou e eu ri incrédula.
“Acredite se quiser. Mas coloquei tudo no seu devido lugar, dizendo o óbvio: a relação já estava desgastada antes, depois daquilo então… Sem chances de existir. Charlotte errou, mas ele errou mais. E isso tudo me deixou exausta, sabe? Tive duas conversas pesadas com , sobre tudo... Mas depois da cena de ontem, acho que se resolveu de fato. ”

cerrou os olhos e me olhou com uma careta de dor.

“É, uma porrada. Sinto muito.” Comentou com a voz abafada devido ao braço.
“Eu sei. Obrigada.” Respondi, desenhando aleatoriamente na areia.
“Hm...” Ele murmurou, olhando para meus desenhos. “E como você se sente com isso tudo?”
“Estranhamente... leve.” Falei sincera, suspirando.
“É?”
“Uhum. Por mais que esteja cansada, no fim consegui pontuar melhor tudo que eu acreditava estar pendente.” Resumi numa fala rápida, afundando a mão na areia molhada.

me olhou analítico, e voltou a mirar o lago.

“Não se cobre muito. Não tem um jeito certo de reagir a isso. foi um babaca? Foi. Você poderia ter dado uma voadora nele? Sim. Eu teria te ajudado? Com certeza. Mas você é tão incrível que foi muito além do que ele merecia. E quanto à Charlotte, parece que tudo foi explicado, então não perde sua paz pensando nisso ou naquilo... Respeite seu tempo e vá lidando da melhor forma pra você. Lembre-se, só você importa agora.” E me olhou sério, com o olhar ficando mais claro que de costume devido a luz que o lago refletia em seu rosto. Eu mordi meu lábio inferior, sorrindo levemente.
“Obrigada, . Você também é incrível.” Eu disse, sem deixar de encará-lo e gravar os traços daquela feição que me devolvia atenção, cuidado, afeto.
“Sou mesmo?” Ele perguntou com um sorriso brincalhão e eu dei de ombros, encarando meus pés.
“Às vezes é um idiota, mas no geral é um idiota legal.” E voltei a encará-lo risonha enquanto ele fingia indignação, abrindo a boca num “o” chocado.
“Ah, mas você tá muito fodida agora, garota.” E veio pra cima de mim enquanto eu começava a rir, tentando escapar de seu enlace, sem sucesso.
“Não, pera! O que você vai fazer!? , porra!” Ele veio rindo, me levantando no colo com facilidade e jogando meu vestido em cima da canga, correndo em direção ao lago.
“Você vai se arrepender de me chamar de idiota!” E foi entrando na água com coragem, dando passos moderados para não sentirmos tanta diferença. Mas mesmo assim, a primeira vez era sempre um choque! Eu apenas me balançava em seu colo, balbuciando “nãos” enquanto ele ria de mim.

O contato da água fria com meu corpo aquecido me fez agarrar o pescoço de com vontade, e quando nossos corpos já estavam praticamente molhados, ele anunciou sem esperar qualquer resposta de mim.

“Prende a respiração!” E inflou as bochechas, ficando com a cara mais engraçada que vi nos últimos tempos, antes de mergulhamos por inteiro no lago.

Debaixo d’água, fiquei sorrindo enquanto ele me olhava ainda com aquela careta, e ficamos submersos nos encarando, até que sua face voltou ao normal. Eu arqueei uma sobrancelha enquanto apontava pro pulso, e ele apenas rolou os olhos, me fazendo sorrir de novo.
Estávamos apostando quanto tempo conseguíamos ficar sem respirar, brincadeira antiga que fazíamos quando crianças. Eu sempre ganhava, com vez ou outra ele roubando pra ganhar. E pela cara de ansiedade dele, estava prestes a emergir ou simplesmente jogar sujo.
É claro que ele optou pela segunda opção.
Segundos depois, veio em minha direção com os dedos agitados querendo repousar em minha barriga, tentando me fazer cócegas. Eu neguei com a cabeça, e tentei escapar dele, mas o filho da mãe pegou meu pé e me puxou pra si, conseguindo me fazer rir com suas mãos e eu dando tapinhas em seu ombro.
Momentos depois voltamos à superfície, pegando o fôlego.

“Você é um escroto!” Bradei, dando um novo tapa em seu peito, que apenas ria de mim.
“Tá reclamando do que? Nós empatamos! Eu ainda fui bonzinho, poderia ter feito você perder.” Respondeu convencido e eu ri descrente.
“Porque você é um escroto trapaceiro de uma figa!” Fiz menção de dar um novo tapa em seu ombro, e ele segurou meu pulso com uma mão.

E foi aí que notei que estávamos próximos. Bem próximos.
A mão que jazia em minha cintura já não fazia cócegas; apenas me segurava com precisão.
E o sorriso que pairava em meus lábios foi aos poucos murchando, ao perceber o quanto aquela brincadeira estava indo longe. percebeu que estávamos numa posição um pouco delicada, mas não se afastou. Sua feição foi de animada para contemplativa. Analisou meu rosto, passando o olhar em todo canto, e me senti exposta diante daquela observação toda.
Parecia o clima perfeito para nos beijarmos.
E aquela constatação fez meu interior revirar.
Porque, por um mísero segundo, parecia que queria me beijar também.
Acho que meu olhar de assustada o deixou alarmado, porque no momento seguinte, ele pigarreou completamente sem graça e se afastou de mim, sem dizer nada. Apenas me encarava, e eu a ele.
De movimento, só a água entre nós.

“Eu... hm. Acho que vou dar uns mergulhos! Tudo bem?” E forcei um sorriso tímido, que foi devolvido na mesma proporção.
“Claro! Eu te acompanho.” Ele respondeu, e eu não o esperei; apenas sorri jogando água em si e mergulhei na sua frente, provocando-o numa nova brincadeira.

Enquanto mergulhava, reparava nos raios solares atravessando a água e no corpo submerso de ao meu lado, sorrindo pra mim enquanto eu fazia o mesmo.
Eu passei todo o tempo dentro d’água brincando, jogando conversa fora, mas não parava de pensar naquela tensão momentos atrás. E em como me sentia ansiosa pelo beijo da peça, mesmo que por várias vezes tentasse me concentrar em outras coisas.
Estava difícil aguardar aquele contato, mesmo que não fosse tão real, mesmo que se tratasse apenas de atuação; eu ansiava pelos lábios dele nos meus, nossas línguas se provando enquanto aninhava meu corpo ao seu. Pensar naquilo me fez sentir um calor incomum, mesmo estando debaixo d’água. Fosse peça ou fosse o acordo beijoqueiro, eu só queria prová-lo novamente.
Algum tempo depois, decidimos que já era hora de ir e juntos organizamos as coisas, caminhando lentamente de volta, quando estávamos passando por um banheiro próximo ao lago.

“Podemos dar uma paradinha aqui?”
“Ué, vai tomar banho aqui?” Ele perguntou como se fosse algo doido e eu choraminguei.
“Quero fazer xixi e o outro vestiário tá lonjão, !” Ele gargalhou e balançou a cabeça negativamente.
“Você é muito preguiçosa, cara!” Respondeu, entrando no local a passos largos.
“Ah, me erra, garoto!” Retruquei, dando um tapinha em seu braço, e para minha completa surpresa, revidou ao segurar minha mão.
“É carinho, ! Assim óh… viu?” Ele abriu os dedos da minha mão e passou a palma em seu rosto, enquanto sorria divertido. “Melhor, não acha?”

E lá estávamos próximos novamente.

“Talvez.” Respondi, meio aérea, aproveitando para acariciar sua pele. fechou momentaneamente os olhos e sorriu sem mostrar os dentes.
“Assim que deve ser. Entendeu?” E abriu os olhos, me encarando. Seu sorriso aos poucos se foi, e quando percebi, ele encarava minha boca.
“A gente não treinou ontem.” A frase saiu da minha boca como se escorregasse num toboguã.

Só me toquei do que tinha dito quando arregalei os olhos, encarando os de , que tinha um semblante divertido e até mesmo sensual.
Sem nem precisar explicar do que eu estava falando, ele apenas segurou meu queixo com o polegar e respondeu maroto:

“Não se preocupe. A gente compensa hoje.”

O barulho da sacola caindo no chão foi instantâneo, quase com a mesma rapidez que os seus lábios vieram até os meus. Sua língua brincou com a minha boca ao pedir passagem, e eu cedi totalmente entregue, principalmente com os corpos e roupas molhadas se encontrando com vontade, como era o caso.
O beijo aconteceu, estraçalhando todas as minhas barreiras, e eu simplesmente não poderia estar mais contente com aquilo.
Agarrei os ombros de ao mesmo tempo que suas mãos seguraram em minha cintura, me trazendo para mais perto de si. Eu não sei se o nível da empolgação estava alto demais, mas as coisas definitivamente mudaram de estágio quando senti minhas costas encontrarem a superfície gelada do azulejo. Aquela temperatura, em contrapartida com o calor trazido pelo beijo, me fez soltar um sôfrego gemido, enquanto meus ombros se encolhiam em reflexo.
parou de me beijar na hora e me encarou com os olhos preocupados.

“Te machuquei?”

Eu pisquei alguns segundos, demorando a entender sua pergunta. Olhei em seus olhos, depois encarei sua boca.
O dia seguinte era o dia da peça, então nada mais justo do que otimizar o tempo, certo?
…Certo?
Como se estivesse num transe, nada me restou além de balançar a cabeça algumas vezes e voltar a beijá-lo. Pelo modo que ele me acompanhou, parecia que não tinha problema algum.
Seu corpo tornou-se próximo novamente, a ponto de seu peitoral encontrar o meu, e se algum dia passei frio, não lembrava ou sequer fazia ideia de como era; me mantinha aquecida com seus beijos, seu corpo, seus toques…
As respirações entre o beijo que não se partia, os movimentos exploradores de nossas línguas que não cessavam, os narizes se tocando com os rostos que não se desgrudavam, o calor que não parava de aumentar…
Ficamos um bom tempo imersos naquele momento só nosso, totalmente livre de palavras, receios, impressões… Só era eu e , o beijo, os corpos… Tudo que eu tinha ansiado por tanto tempo.
Bem, não tudo né? Mas uma boa parte, daquelas que o pouco já parece o todo.
Como todo carnaval tem seu fim, ouvimos uma batida na porta do banheiro que nos fez nos afastar alarmados.

“Vai demorar muito aí?” A voz de um garoto soou por trás da porta e eu cobri a boca para não soltar uma risada nervosa.
“O que que a gente faz?” Eu sussurrei, olhando em volta do lugar. Era um banheiro com mais de um assento/divisória, mas eu havia trancado a porta principal, com medo de acontecer justamente o que poderia acontecer naquele momento: alguém flagrar eu e num mesmo lugar, pensando besteira de nós.

Quer dizer…
Besteiras plausíveis e reais, né?
, a hipócrita.

“Tive uma ideia!” respondeu num sussurro, me puxando para trás da porta. “Fica aqui e se prepara para o meu sinal.”
“Que sinal?” Perguntei ansiosa.

Ele tocou meu queixo e subiu o dedão até encostar no meu lábio inferior, enquanto sorria como um malandro.

“Você vai saber.”

E assim, ele abriu a porta e fez uma cara desesperada.

“Mano, na boa, não entra agora se quiser viver!” Já saiu do banheiro dando tapas na barriga, e pela fresta da porta, eu vi a feição do rapaz que aguardava — era de total horror.
“Porra, sério? To apertadão!”
“Vai por mim, eu sou intolerante à lactose e exagerei ontem. Eu acho que inutilizei o banheiro…” fez uma cara de dor e segurou a barriga, soltando uns gemidos de dor.

O menino olhou para e para o banheiro, visivelmente dividido.

“Você precisa de ajuda? Quer que eu chame alguém?”
“Não!” gritou aflito, e depois voltou a fazer a mesma feição, segurando a barriga. “Só me ajuda a chegar até ela…”
“Ela quem?”
“AURÉLIA!” Ele berrou, e eu entendi que se tratava do tal sinal. “Preciso chegar até Aurélia!”
“Aurélia?” Ouvi o outro perguntar.
“Quer dizer, ir até a cabana.” respondeu, fazendo novamente caras e bocas, dignas do ator mais inusitado que aquele acampamento já tinha tido.

Eu estava segurando as risadas num nível hard, mas felizmente o jovem se compadeceu da situação do meu melhor amigo e o ajudou a sair dali.
Felizmente, momentos depois eu estava igualmente livre, dando gargalhadas como não dava há tempos!
Caminhando em direção à minha cabana, senti o celular vibrar, e sorri automaticamente ao ler a mensagem.

: Você não vale nada, cara. Estou ouvindo suas risadas daqui!
Eu: A ideia foi toda sua! Não me culpe por achar graça!
: Você me paga, sua sacana.
Eu: Me erra, filhote de cruz credo :p
: Você me ama que eu sei…
Eu: Ninguém está negando ;)


Nossa conversa se encerrou com uma figurinha do (um cachorrinho sorridente, bem típico dele) e eu ri com aquilo. Voltei para a cabana sem conseguir sentir meus pés direito, ainda achando tudo muito louco e inédito.
Horas mais tarde, depois do ensaio, a Sra. Strauss comentava feliz sobre o quão produtivos estávamos, nos agradecendo novamente pelo empenho com seu tão amado projeto.
Nunca amei tanto uma professora! Nunca amei tanto literatura!
Acho que no fim das contas, eu é quem estava agradecida.


Continua...



Nota da autora: GA-LE-RA

Que saudade de vocês!
Desculpa a demora!
Seguinte: caos do trabalho (amem os professores, sério), mãozinha piorando vertiginosamente, porém DEUS E O UNIVERSO me ajudaram nesse recesso de meio de ano.
Consegui escrever pacas?
Sim!
Temos att dupla?
SIM
Temos beijos?
SIM
Temos provocações?
SIM
Temos nosso pp1 com a pp?
SIM, CARAI.
Temos POV do pp1?
NÃO
Mas... Temos um papo introdutório, como o do lago, né?
Acalma a cloaca xexéu! Vai vir! Enquanto isso, aproveeeeeita (segue a dica, sério xD).

Eu to animada demais para conseguir focar em uma coisa só, to até ouvindo The Carpenters feito aquelas pessoas apaixonadas cantando com os pássaros e deixando o copo encher de água enquanto sonha acordada com o crush.
No meu caso, sou eu boba de felicidade por atualizar IL HAHAHAHA mas enfim, vocês entenderam!
Comenta aí seu surto, que eu surto junto!

E vamos de jabá!

Bring me Home (Restrita, short finalizada) - em breve tem spin off hein!
Bendição (Espiritual, short finalizada)
My stardust (Kpop, com Jungkook fixo ♥, long em andamento, só vem que tá mt lindo!)
06.Crazy (Ficstape Simple Plan, Lefebvre fixo ♥, finalizada)
07. Try (Ficstape Simple Plan, com o pp livre, mas fiz com o Ben Barnes, socorro!)

Vou ficando por aqui e já sabem: qualquer coisa, berra lá no twitter! (@lullymaniac)

Beijos e até breve! ♥



Outras Fanfics:
Longfic
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Bring Me Home
Bendição

Ficstape
06.Crazy


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