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Finalizada em: 16/06/2020

Capítulo 1

may, 2016

Quando minha mãe disse que queria conversar comigo, eu esperava ouvir qualquer coisa, menos aquilo. Talvez tenha feito alguma merda na escola. Será que ela descobriu que cabulei aula para ficar com Nicholas Smith em uma sala vazia? Talvez tenha sido a festa que eu fui no sábado, quando supostamente estava de castigo. Achei que estava encrencada por causa de algum desses fatores. E eu queria muito estar.
Sério.
Faziam apenas dois meses, caramba! Quem toma uma decisão dessas em apenas dois meses?
Eu fiquei encarando minha genitora com uma cara que misturava o choque e o horror, o que fez o sorriso em seu rosto vacilar. Ela pareceu mesmo chateada, como se tivesse acabado de contar a melhor notícia que toda garota quer ouvir no último ano do ensino médio e eu estivesse me comportando de uma maneira totalmente ingrata.
Não era o caso.
- ? - Começou. - ? - Tentou novamente quando eu não respondi.
- Você está falando sério?
- Porque eu não estaria? - Ela pareceu sinceramente chocada.
- Mãe, você nem conhece o cara!
- Claro que conheço! Estamos juntos há…
- Dois meses! Dois meses, mãe! E nem são dois meses inteiros ainda! - Interrompi, elevando a voz para expressar toda minha indignação.
- , eu não preciso me explicar para você. Sou adulta, sei o que estou fazendo. Eu sou a mãe por aqui, lembra?
Dei um grunhido de frustração
-Tá ok querer se casar, eu super apoio, Josh é um cara bacana, mas eu me recuso a me mudar para casa de um cara que você conhece há dois meses! Minha vida está toda aqui, em New Orleans!
- Eu sei que é assustador, eu sei! - Disse minha mãe de maneira compreensiva colocando sua mão sobre a minha. - Nunca fiz nada por você esperando receber algo em troca, mas será poderia reconsiderar? Por favor?
O olhar dela chegava a partir meu coração. Eu não conseguia magoar minha mãe de propósito, não era uma desalmada, mas o que ela estava me pedindo era demais. Me mudar para Califórnia para morar com um homem que eu não conhecia junto com seus três filhos. Além de me sentir insegura, temia em me tornar babá dos meninos dele, que teria que cuidar como se fossem meus ”irmãos”. Não queria ir. Ela conheceu Josh em uma convenção de arquitetura há dois meses atrás e de repente estava noiva?
Minha mãe geralmente levava em consideração minha opinião, porém eu sabia que dessa vez eu seria obrigada a concordar com ela. Joanne nunca foi uma mulher egoísta e nesse caso eu conseguia entender porque ela estava agindo assim, mas isso não significava que eu tinha que aceitar.
- Você vai amar Los Angeles, ! E ainda vai poder visitar seus amigos sempre que puder!
- Claro, como se não tivesse mais de dois mil quilômetros de distância entre uma cidade e outra. - Murmurei carrancuda.
- Eu amo Josh, e desde o seu pai... eu achava que essa história de amor não existia. Há uma sincera conexão entre nós, . Eu queria que pudesse ser de outra forma, meu amor -Sussurrou, apertando minha mão mais forte e saindo da cozinha em seguida, dando a conversa por encerrada. Ela sabia que já tinha ganhado, por isso eu não disse nada.
Meu pai era militar. Morreu quando eu era bem criança, devia ter uns seis anos, e seu corpo jamais foi encontrado. Eu não me lembrava de muita coisa sobre ele. Sei que era um homem gentil e atencioso, e que era exatamente esse tipo de homem que minha mãe merecia agora, depois de longos anos de luto.
Só comecei a chorar depois de fechar a porta do meu quarto. A despedida seria dolorosa e no mínimo insuperável.
Eu amava a cidade tradicional e alegre onde cresci. Amava as histórias, as festas, as cores, o jazz. Amava andar pela praça perto de casa, amava a sorveteria do sr. Denver onde eu sempre fazia minhas lições de casa e acabava ganhando sorvete de graça. Amava a preguiça que se espalhava pela cidade em uma tarde de domingo, amava o French Quarter e amava o Mardi Gras, a melhor festa do mundo.
Amava minha popularidade na escola, amava ser a anfitriã de tantas festas maravilhosas. Amava ser a capitã das animadoras de torcida e todas as partes boas e regalias que o ensino médio me proporcionava por causa disso. E agora eu não iria nem me formar! Como assim a rainha do baile de formatura não estará no baile de formatura?
Mas nada se comparava ao amor que sentia pelos meus melhores amigos Nicole e Liam. Liam era meu vizinho, nos conhecíamos desde sempre, e Nick era uma imigrante brasileira que chegou pouco depois transformando a dupla no melhor trio do mundo. Éramos amigos desde o fundamental, e sempre fomos inseparáveis. Liam jogava pelo time masculino e estava contando com uma bolsa para a faculdade, e Nick estava no meu time de animadoras de torcida. Eles eram a maior dor que estava sentindo. Nenhum de nós três éramos realmente abastados, não teríamos condições de pegar aviões para nos vermos, e por mais que Liam tenha ganhado um carro do pai no ano passado, a viagem era muito longa para fazer por terra. Mais de trinta horas de viagem.
Mamãe sempre foi a responsável da casa. Era amorosa, porém rígida e desde que papai morreu ela tem se esforçado o dobro para se manter por nós duas. Ela era arquiteta, e por mais que seja uma profissão bem paga, aqui em New Orleans nunca é. Na verdade, quase não sobrava dinheiro no fim do mês, mas era o suficiente e nos sustentava. Ela nunca deixou que nada nos faltasse. Não que fôssemos tão pobres, mas considerando todas as contas que tínhamos que pagar, não éramos o tipo de pessoa que saia por aí esbanjando.
E estávamos tendo a oportunidade de ir para a Califórnia! Eu sei que qualquer pessoa que me vê diz que sou muito ingrata, mas sou apegada demais a pessoas e aos lugares. Ainda mais com o status como o meu. Porém tinha que reconhecer que minha mãe além de ficar com quem ela dizia que era o amor da vida dela, ainda tinha a chance de salvar sua carreira.
Decidi que ainda estava triste, e que permaneceria triste por cada segundo que passaria por lá, mas que não iria estragar isso para ela. Até me ofereceria para cuidar dos pestinhas. E depois, no ano seguinte, ainda poderia me inscrever para Columbia com Nick e Liam, como havíamos combinado! Eu ia perder um total de trezentos e sessenta e cinco dias sendo empática, então iria aguentar.
Ainda chorando, tomei banho e me preparei para dormir. Falaria com meus amigos no dia seguinte, na escola. A formatura seria ano que vem, e estava justamente pensando na melhor maneira de contar que não me formaria com eles quando adormeci e tive uma noite tranquila e sem sonhos.


Capítulo 2

july, 2016

- Eu não acredito que não vai estar aqui para as férias! Tinham tantas festas e viagens planejadas, ! – Sussurou uma bicuda Nicole pendurada no meu pescoço. – Estuda bastante para conseguirmos a Columbia! Vou te ligar sempre!
Continuei abraçando minha melhor amiga por minutos, até notar Liam olhando com tristeza para o interior da minha casa agora vazia.
- Conheço você a minha vida toda, conheço essa casa, todas as festas que a gente fazia aqui e agora outras pessoas vão morar aqui... isso é tão estranho. - Disse, decepcionado.
Fui ao seu encontro para abraçá-lo também. Não era para estarmos nos despedindo agora, fiz os dois prometerem ontem, na festa de despedida surpresa que planejaram para mim (esses dois usam qualquer desculpa para fazer uma festa), que não viriam até minha casa. Mas cá estamos.
- Não fica assim, Liam. São só algumas semanas.
- É um ano inteiro, .
- É, mas se pensar que são semanas parece que o tempo passa mais rápido. – Liam revirou os olhos para minha afirmação, e eu olhei para os dois com lágrimas nos olhos. – Vou sentir muita saudade de vocês.
- O time não será o mesmo sem você, . Já perdemos as estaduais, sabe disso, não sabe? – Nicole disse secando uma lágrima.
- Com você no time, Nicole? Até parece! – Respondi, chorando copiosamente. – Cuida bem do time. Vou torcer por vocês!
Vencemos o título regional, pela segunda vez consecutiva, em maio e no próximo semestre iríamos disputar as estaduais. Bom, elas iriam. Eu havia passado a responsabilidade de liderar o time para Nick, mas a treinadora não quis, pois Nick sairia em poucos meses. A capitã agora era Courtney, uma menina do segundo ano. Nicole ficou decepcionada, mas eu acreditava que ela iria superar.
- , está na hora! – Disse minha mãe aparecendo na sala vazia. Ela colocou os óculos de sol e o sorriso parecia que ia rasgar sua cara, de tão largo. – Tchau, Nick e Liam. Apareçam quando quiserem!
Dando um abraço rápido nos dois, saiu para fora da casa, me apressando para ir logo atrás. Apertei as mãos de Liam uma última vez, e a segui em direção a rua, entrando no carro que mamãe estava dirigindo. Ela ligou o carro e eu abaixei as janelas, gritando:
- Até o próximo verão em Columbia!
Ficamos acenando até que ambos estivessem pequenos demais para serem vistos.

A viagem de avião foi rápida, porém cansativa. Foram vinte e cinco minutos de carro até o aeroporto de New Orleans e aproximadamente quatro horas de vôo até Los Angeles. Josh iria nos encontrar na saída do aeroporto, onde minha mãe e eu passamos os dez últimos minutos procurando pelo abençoado. E até onde eu sabia, ainda teríamos mais uns vinte minutos de carro até a casa de Josh. Estava ansiosa para revê-lo, mas nunca tinha visto nenhum de seus filhos, nem por foto. E da última vez que eu chequei infelizmente eram todos meninos.
- Olha, ele está ali! – Gritou minha mãe animada. Eu nunca, em meus dezessete anos de vida, a tinha visto tão feliz. Carregamos nossa pouca bagagem de mão até onde um Josh igualmente feliz retribuía o entusiasmado aceno de minha mãe. Josh era um cara enorme com cara de pai que passava o final de semana fazendo churrasco no quintal. Ele até tinha cheiro de churrasco, percebi. Estava diferente da última vez – tinha tirado o bigode – mas continuava bonito. O que poucos caras conseguem na idade dele, sendo bem sincera. Josh e eu nos damos bem de cara, já que não era nem invasivo demais e nem indiferente demais. Podia se dizer que éramos bem adequados para morar sob o mesmo teto. Pelo menos por um ano.
- Joanne! Você está linda! – Cumprimentou, dando um beijo na testa dela. Ela respondeu envergonhada e enrubesceu. Foi bem constrangedor. – Oi, ! Fizeram uma boa viagem?
Minha mãe respondeu que sim, que tinha sido rápido e nem estávamos tão cansadas (mentira, ela estava e dava para perceber bem).
- A mudança chega na segunda à noite ou na terça de manhã. Precisamos ter certeza que vai ter alguém em casa para receber a mudança.- Disse Joanne, rapidamente.
Josh riu.
- Vamos chegar em casa primeiro, temos tempo para resolver isso. – Ele se virou para mim – Os meninos estão ansiosos para conhecer a nova irmã!
Dei um sorriso amarelo e preferi fazer zero comentários ou então eu acabaria falando algo como “eu também, apesar de não gostar de crianças”.
O caminho até a casa foi tranquilo e pacífico. Tirando toda melancolia de ser a garota nova na escola no último ano, perder meus melhores amigos, meu time e minha popularidade, eu acho que um dia eu poderia gostar daqui. A maresia era agradável e as praias bonitas; a brisa era suave e as vias organizadas e arborizadas. Os pedestres pareciam felizes e passeavam com seus cães ou carregavam sacolas. Estávamos chegando no que parecia ser um subúrbio, casas muito grandes com quintais espaçosos, o sol se derramando sobre o calçadão. Não era como os domingos em New Orleans, mas não tinha como comparar. Estava no litoral agora, não era difícil ver banhistas por todo o caminho. Eu gostava de praia, era um local bom para relaxar a mente e a água salgada sempre me acalmava. Talvez com tantos turistas esse local se passe do meu paraíso na terra para o próprio inferno.
- Turistas... – Murmurei para mim mesma quando a praia ficou atrás de nós.
- Férias de verão reúne muitos turistas mesmo. – Resmungou Josh. – Mas a praia perto de casa, Hermosa Beach, não é muito disputada por turistas. Posso pedir para um dos meninos te levar lá se não estiver muito cansada.
- Ah, claro. – Agradeci, confusa. – Eu gostaria, sim.
Ainda não sabia como eu seria bem acompanhada até a praia por crianças, mas não falei nada. Poucos minutos depois paramos em frente a uma construção bonita e grande. Tenho muita influência da minha mãe, talvez até siga o mesmo caminho que ela, então casas de revista são meu ponto fraco. E essa era definitivamente uma casa de revista. Ela se dividia em uma casa principal e da rua já era possível ver um almoxarifado e uma segunda casa nos fundos em anexo. Palmeiras grandes adornavam a entrada e da onde eu estava conseguia ver que uma grande sacada rodeava totalmente o segundo andar do imóvel. Era de um creme queimado e moderno. Somente quando fui para a lateral da casa reparei que tinham três andares e não dois, como parecia.
Pois bem.
Josh nos ajudou a tirar as malas do carro e nos acompanhou para a entrada. O interior era tão bonito quanto o lado de fora prometia. As paredes variavam entre o bege e o preto. Uma coisa delicada e agressiva ao mesmo tempo, o que eu achei divino. Combinava com Josh, um homem morando sozinho com três meninos. A personalidade da casa era gritante; era impossível entrar ali e não perceber que era um ambiente cem por cento masculino. Não tinham brinquedos espalhados, o que eu pensei que teria, mas como suspeitava uma grande televisão de tela plana se fazia presente na sala de estar.
- Sejam muito bem-vindas, meninas! – Ele avançou um pouco. – Aqui é o lavabo, e logo ali é a cozinha. – Disse apontando para o fim do grande corredor.
Mesmo dessa distância parecia ser a maior cozinha da minha vida. Josh parou na escada e subiu até a metade
- Luke, Mike, , elas chegaram! – Gritou. – Peço desculpas pelo , ele sempre vem para cá nos finais de semana, mas se enrolou com a faculdade.
Espera aí, faculdade?
-Talvez possam conhecê-lo no próximo final de semana! – Acrescentou, feliz, ao mesmo tempo que três meninos desciam as escadas.
Faculdade e três adolescentes? Primeiro que isso dava um total de quatro filhos e não três, e segundo que eu não estava nem um pouco confortável em dividir uma casa com três adolescentes que eu nem conhecia. Encarei minha mãe com uma expressão confusa, mas ela desviou do meu olhar, provavelmente se sentindo culpada. E para falar a verdade eu nem tinha ninguém para culpar, eu nunca de fato havia perguntado a idade deles, porque isso não me interessava. Ainda confusa e um pouco menos chocada, me propus a fazer minha análise. A primeira coisa que reparei é que tinham gêmeos. Eles pareciam ser os mais novos e eram a versão jovem de Josh; usavam até o mesmo corte de cabelo. O mais velho tinha os mesmos olhos do pai, mas era a única semelhança realmente significativa. Eram todos bonitos, e estavam bem arrumados. Só que não estavam nem um pouco felizes. Tentei detectar uma dose mínima de simpatia e não rolou: os olhares de desdém e antipatia continuaram pregados em mim. Acho que não vai rolar a tal visitinha para Hermosa Beach.
- Falem alguma coisa, meninos! – Disse Josh com o sorriso nas orelhas.
- Sejam bem-vindas. – Falou mecanicamente um dos gêmeos. Suspeitei que tinha sido irônico, até.
O mais velho riu, meio que confirmando minha teoria.
- É.
E simples assim os três passaram reto por nós e saíram pela porta da frente. Fiquei de boca aberta com a falta de educação e ela só se fechou quando escutei a porta batendo. Josh pareceu bem envergonhado.
- Peço desculpa por eles. Não são muito simpáticos. – Pontuou, sorrindo amarelo. – Não levem para o lado pessoal.
- Está tudo bem, querido. – Minha mãe passou as mãos no braço dele como um gesto de conforto, mas eu conheço Joanne. Ela estava bem chateada com o que aconteceu.
Perdendo toda a animação inicial, Josh mostrou o resto da casa e nos levou para o andar de cima onde estava meu quarto e o deles.
- Os meninos tem quartos aqui, mas eles passam quase o tempo todo no anexo, então não precisa se preocupar. No seu quarto tem um banheiro só para você.
Josh abriu a porta e eu pude ver o quarto mais... brega de todos os tempos. O quarto parecia ter sido projetado para uma menina de seis anos. Era rosa e branco, em todo o canto do quarto, o rosa e o branco se faziam presentes. Doía a vista, porém dava para consertar, o que era um consolo. E pensando bem, Josh só tinha feito aquilo para mim, pensando em mim. Tudo bem que partir do princípio de que eu gostava de rosa tanto assim só por que era menina era meio machista até, mas como ele tinha quatro filhos meninos que criou praticamente sozinho eu não ia julgar. Dei um sorriso sincero para Josh, não porque eu tinha gostado daquele quarto brega e exagerado, e sim porque ele estava orgulhoso de si mesmo e eu fiquei feliz por ele ter se preocupado com isso.
- Muito obrigada por ter feito isso, Josh. Eu amei! – Agradeci, indo fuçar em cada cantinho. Minha mãe sorriu e eles me deixaram a vontade no meu novo quarto. Como eu disse, não invasivo e nem indiferente. Perfeito.
Arrumei as poucas roupas que eu tinha trago comigo enquanto não chegava o resto da mudança e logo em seguida mandei uma mensagem para Nick dizendo que cheguei, com o relato completo e detalhado do trajeto e recheado de fotos que tirei por todo o caminho. Ela, assim como eu, ficou chocada com a descoberta dos irmãos adolescentes, mas depois riu e disse para eu ficar ligeira porque eles nem eram meus irmãos de sangue.
Que nojo, Nicole.
Resolvi, deliberadamente, visitar a praia sozinha. Daria uns quinze minutos a pé, mas o sol estava bem quente e eu não queria andar com o Google Maps debaixo do meu nariz o tempo todo. Por isso pedi um Uber, aproveitei para ir ao banheiro porque não sabia se lá iria ter um e quando o motorista já estava próximo eu desci, avisando minha mãe que estava indo explorar a vizinhança. Ela concordou, mas disse para eu não ficar na rua até muito tarde. Isso quase sempre significava voltar antes das 20:00h. Ainda eram 17h30, daria para aproveitar um pouco. Ela não gostava que eu chegava depois de escurecer porque tinha medo, e eu entendia o lado dela. Josh pareceu se sentir culpado porque nenhum dos meninos estaria comigo, mas não disse nada.
Em sete minutos estávamos em nosso destino final, Hermosa Beach. Era para ser uma praia calma, mas hoje era domingo e estávamos em julho, provavelmente por isso tinha uma concentração maior de pessoas. De longe eu vi o píer, que foi o que mais me chamou atenção. Atravessei a rua até o calçadão, percebendo uma construção de estádio no centro da praia. Tinham algumas pessoas conversando por lá, mas ainda não sabia para que servia o estádio. Dei de ombros e entrei na praia, andando calmamente até o píer. Coloquei minha playlist favorita no spotify, em um volume tão alto que se alguém tentasse chamar minha atenção eu provavelmente não ouviria. Cheguei ao píer e andei mais ou menos até o meio, da onde conseguia ver melhor o mar. A música continuou rugindo nos meus ouvidos e comecei a cantarolar baixinho junto com ela. Vi um grupo de adolescentes rindo e mesmo que não fosse possível ouvi-los de onde estava, eu sabia que estavam fazendo bastante bagunça. Pensar naquilo fez eu me sentir tão longe de casa quanto eu poderia estar. As lágrimas vieram junto com uma vontade de ir embora, de voltar para minha vida, para Nick e Liam, para New Orleans. Seria horrível fazer amigos aqui, e foi só então que me dei conta que estava muito dependente da minha popularidade na antiga escola.
Uma hora mais tarde, enxuguei as lágrimas com as mãos saí do píer me sentindo melhor. Queria procurar um espaço confortável para sentar na areia, mas ainda estava distraída olhando para o estádio que tinha ali na frente.
A música estava tão alta que eu não ouvi o aviso. Quando me dei conta já era tarde demais: eu já estava no chão, a bola tinha batido na minha cabeça, o fone se perdeu na areia e meu celular sumiu.
Se você ganha uma bolada que faz um headfone sair da cabeça e se partir ao meio, como percebi depois, significa que a bolada foi no mínimo de propósito. E era exatamente o que eu estava pensando quando vi um dos gêmeos junto com o grupo de adolescentes mais cedo. Ele estava sem expressão, mas quase sorriu.
Foi o outro gêmeo que me ajudou a levantar.
- Mal aí, sis. – Falou, malicioso. Sua voz era mais grave do que eu pensei que seria, e ela não combinava muito com ele. Ele era baixo demais para aquela voz. Encarei o garoto, confusa, e ele revirou os olhos. – Se precisa mesmo saber, Luke.
E apontou para uma mancha mediana no braço esquerdo. O outro gêmeo se aproximou, ainda com indiferença, e Luke apontou para o braço esquerdo do irmão, sem nenhuma mancha. – Mike.
Okay, Luke tinha mancha e Mike não. Eu poderia simplesmente ter agradecido e ido para casa. Mas o que saiu da minha boca foi:
- E quando estiverem usando blusa de frio?
Luke ficou uns cinco segundos inteiros me encarando, até que Mike começou a rir. Quando olhei ao meu redor, os outros adolescentes também riam de mim. No momento vou guardar a informação que Luke estava com uma regata amarela e Mike usava uma verde.
- A bolada foi tão forte que te deixou retardada ou você é assim o tempo todo? – Comentou Mike, me dirigindo a palavra pela primeira vez.
- Acho que foi a bolada. – Respondi tímida. Não sabia se estavam me sacaneando ou tentando me enturmar. E até ter certeza, eu não confiava em ninguém.
- Gente, coitada da menina! – Interrompeu uma loira, se escorando nos ombros de Mike.
Já achava a voz familiar, mas quando encarei o rosto dela eu congelei no lugar. Congelei porque eu conhecia aquela garota. Eu conhecia Shelly Carton e esperava que ela nunca na vida dela se lembrasse de mim, ou então minhas chances de entrar no time da escola nova estariam arruinadas.
- É nossa nova irmã, Shell. – Informou Mike, cruzando os braços e se virando para mim. Um garoto a minha direita me passou meu celular e meus fones destruídos e eu ainda não sabia quem tinha me dado uma bolada.
- É, sei bem. Alysson . – Falou, com a voz exalando malícia. – Me deixou em segundo lugar nas estaduais do ano passado.
Bom, ela lembrou. Acho meio difícil esquecer a cara de alguém que melou suas chances de ganhar um troféu e uma viagem para Miami com tudo pago.
- Não estou mais no time, então... – Ela riu, cutucando uma menina morena que estava ao seu lado. – Bom, eu já vou indo. Não sei quem me deu uma bolada, mas eu quero um fone novo. – Falei, me distanciando. Os gêmeos olharam um para cara do outro e isso me deixou preocupada.
- Foi quem jogou a bola.
- E você pode implorar por um fone novo até pelada, ele não vai dar. – Completou Luke.
- Ótimo.
Afastei-me do grupo ligando meu celular e ver que ele felizmente estava funcionando. Pedi um uber para voltar para casa, pois iria confrontar . Maravilhoso primeiro dia na cidade nova, ! Já fazendo novos inimigos!
- Vem. – Murmurou Mike me puxando pelo pulso. Estava acompanhado pelo irmão.
- O que? – Perguntei.
- Vamos te levar para casa. Cancela esse cara aí. – Disse Luke, puxando meu celular.
- Achei que não gostassem de mim. – Murmurei carrancuda.
- Ainda não te conhecemos para dizer se gostamos ou não. – Falou Mike, soltando meu pulso.
- O Mike é sério demais. Coitada. Eu gostei de você. – Luke fez graça, devolvendo meu celular, com a corrida cancelada.
- O que é isso? – Perguntei, quando passamos na frente das arquibancadas.
- Vôlei, mana. – Foi Luke quem respondeu. – Dia 26 vai ter jogo se quiser vir assistir. A chance de alguém acertar sua cabeça será mais baixa se estiver prestando atenção.
Mike riu, e entramos todos no carro que os havia trazido até aqui. Se estavam dirigindo, provavelmente tinham mais de dezesseis anos. Estavam no penúltimo ano, talvez? Chegamos em casa ao mesmo tempo que estava saindo. Mike tentou me segurar, mas eu fui mais rápida.
- Ei! – Gritei, chamando atenção do moreno lindo que estava no degrau da casa amarrando os sapatos. estava com roupa de ginástica, provavelmente ia correr. Ele fechou a cara para mim, me ignorando totalmente. – Estou falando com você!
Era impossível que saísse de casa sem me empurrar, e acho que ele precisou de muito autocontrole para não fazer isso.
- Pois não? – Disse.
A voz também era grave, mas combinava com ele. Imaginei de cara que ele fosse capitão de alguma coisa. Eu conhecia caras como ele o tempo todo. Ele deveria ter uns dezessete anos, e era bem magro, ao contrário dos irmãos que eram mais robustos. Mas quando cruzou os braços deu para ver os tríceps bem tensos.
Mostrei os fones quebrados.
- Você me deu uma bolada na cabeça e destruiu meus fones.
riu.
- Eu não fiz nada.
- Fez sim! Mike disse que você que me acertou a bola. – olhou para Mike com a sobrancelha arqueada, e revirou os olhos.
- Você é muito desastrada, deveria ter mais atenção enquanto anda. – Disse apenas, começando a se alongar. Eu estava perdendo essa batalha.
- É você quem deveria ter mais cuidado em onde joga sua maldita bola!
- Como eu ia te acertar uma bola se nem estava na praia? Como vê, acabei de sair de casa. Você não é lá muito esperta, né?
Ele tinha razão, eu não tinha pensado nisso. Será que Mike tinha falado que me deu uma bolada só para me sacanear? Mas preferi responder a outra acusação.
- Não sou esperta? Você nem me conhece!
- É mesmo? Cheerleader. Capitã. Dois prêmios. Planejou a viagem de formatura da qual não vai fazer parte. Gosta de festas. Detesta chuva. Você pensa em seguir a carreira da sua mãe, e não acho que uma animadora de torcida com pompons sabe lá muita coisa. Acho que fiz bem minha lição de casa. – Finalizou, dando um peteleco no meu nariz. – E eu não vou te dar outro fone porque eu não fiz nada.
Fiquei chocada com o ódio destilado e nem reparei quando ele passou por mim e saiu correndo pelo quarteirão.
- Bom, eu avisei. – Começou Luke, entrando na casa. Estava tão brava que entrei como um furacão, furiosa com todos os meninos do mundo.
Meu primeiro dia não tinha sido nada agradável. Falando com sinceridade eu gostaria muito que todos fossem bebês. Eu teria mil vezes menos trabalho. Sabia que não ia ceder, mas achava muito injusto.
A vida mostrou que eu estava errada quando na tarde do dia seguinte abri a porta do quarto e vi uma caixa. “Vê se não quebra esse”, estava escrito em um post-it verde limão.
Abri a caixa só para me decepcionar: era um fone novinho.


Capítulo 3

august, 2016

Já estava em Los Angeles há quatro semanas e não fiz nenhum progresso de amizade com os meninos, não descobri o verdadeiro dono da bolada e nem quem deixou os fones novos na minha porta. Claramente agradeci a todos no dia seguinte, mas ninguém se manifestou, então deixei para lá, e todos esqueceram dessa história. Com o tempo consegui redecorar meu quarto exageradamente rosa de uma maneira que não deixasse Josh chateado, e o resultado foi satisfatório. Por ficar muito em casa, notei a extrema ausência dos meninos, e por isso demorei um pouco para descobrir que eles eram os populares daqui, e estavam fazendo as mesmíssimas coisas que eu estava planejando fazer em New Orleans. Shelly aparecia com frequência e foi tão irônica quanto da primeira vez que nos vimos na praia. Podemos dizer com segurança que minhas chances de entrar no time da escola nova tinham se evaporado de vez. Shelly estava no penúltimo ano, como os gêmeos, e parecia ter uma relação estranha com Mike. Eles não eram namorados, mas não pareciam ser só amigos. O outro filho de Josh, , não voltou para casa desde que nos mudamos, e por mais que tentasse não demonstrar, minha mãe e eu notamos que isso fez Josh ficar cada vez mais ansioso.
Sem nada para fazer, fui mesmo no tal jogo de vôlei que Luke mencionou outro dia, mas depois de uns minutos fiquei entediada e acabei voltando para casa. Não era tão legal ir sozinha e percebi que ficar sozinha estava fazendo eu ficar deprimida.
Minha mãe também percebeu e junto com Josh fizeram um passeio de emergência comigo e com os meninos, mas nenhum deles foi. Mesmo assim foi até que divertido, nós três fomos ao cinema e depois fizemos algumas compras. Josh aproveitou a oportunidade do passeio para informar sobre minha matrícula na Redondo Union High, o que fez minha infelicidade voltar porque não estava animada para o início das aulas.
Queria muito ter meus amigos. Liam e Nick tentavam me ajudar, mas a cada foto e vídeo das férias deles fizeram eu me sentir tão distante, que era doloroso demais ver o que andavam fazendo. Mesmo assim eu via tudo, tanto pelo facebook como instagram. Só faltava agora um mês para o fim das férias, e ter pelo menos um círculo pequeno de amizade antes das aulas começarem, que era o meu plano, não estava funcionando muito bem.
Era sábado, os meninos sumiram pela manhã e Josh e minha mãe tinham ido resolver alguma coisa do casamento, então estava sozinha em casa. Decidi usar a piscina pela primeira vez desde a minha mudança. Coloquei um biquíni e fiquei em uma espreguiçadeira tomando um sol e ouvindo música com meus fones novos. Antes eu estava assistindo uma série coreana na Netflix, mas o sol não estava me deixando ver a tela, então desisti e passei a ouvir músicas. Eu ainda não tinha perdido a mania de ouvir música com o volume máximo, então o que me fez levantar não foi o som de alguém chegando e sim uns respingos de água gelada que pingaram no meu corpo.
Tirei os óculos de sol e abri os olhos, vendo nadando de um lado para o outro. Parei apenas por um minuto para olhá-lo. Ele era magro, enquanto nadava dava para ver as suas costelas. Tinha uma mancha de nascimento no final da coluna e só com essa nadadinha percebi que ele era metódico e organizado, pelas braçadas precisas e pelo tempo que usava entre elas. O cabelo estava precisando de um corte, assim como aquela barbicha rala que os meninos não querem tirar de jeito nenhum, como se fosse o segredo da masculinidade. Se fossemos um pouco próximos eu poderia dizer a ele para raspar essa barbicha porque não era nem um pouco atraente. Os dentes eram um pouco tortinhos, me segurei para não perguntar porque não havia usado aparelho. Tinha três pintinhas no pescoço que formavam um triângulo e do lado havia uma fina cicatriz, quase imperceptível.
O plano era ser indiferente, como temos feito um com o outro desde o primeiro dia, mas ele me pegou olhando.
- Ah, não te vi aí. – Disse, cínico, depois de jogar água em mim com os pés claramente de propósito. – Foi mal.
E bateu os pés na água com uma força desnecessária, só para ela pingar em mim de novo. Chutei água na cara dele, o que só fez ele rir.
- Eu também não te vi. – Respondi, doce.
Tirei meus fones dos ouvidos, indo até a escadinha da piscina e entrando na água. Estava muito gelada, mas como estava no sol há muito tempo, acabou me refrescando.
A piscina não era muito grande, então em quatro braçadas chegou até onde eu estava. Meu cabelo estava preso em um coque bem em cima da cabeça, quase na testa, o que era uma maneira óbvia de dizer que não queria molhar o cabelo. Mesmo assim deu um jeito de casualmente bater na água para que molhasse toda minha cara, incluindo meu cabelo.
- Porque você me trata assim? Eu não fiz nada para você. – Ele de fato pareceu pensar, mas depois o sorriso convencido voltou.
- Te trato assim porque não posso tratar sua mãe assim.
Olhei para ele horrorizada.
- Porque, ? Eu não pedi por isso. Eu não pedi para vir, nem para nossos pais se apaixonarem e principalmente nem para seu pai pedir a minha mãe em casamento. Eu queria estar em qualquer lugar do mundo que não fosse aqui. – Confessei.
- O problema é que ela não é só sua mãe, ela está tentando ser a nossa. E eu não preciso de outra mãe. - Disse, frustrado. E sincero, porque era verdade.
Minha mãe estava mesmo tentando consertar aqueles meninos quebrados, de uma forma tão óbvia que faziam eles me odiarem. Quando estava saindo para correr, como faz todas as noites, minha mãe pedia que não fosse correr a noite, e sim a tarde. Quando Mike saia com Shelly durante a semana, minha mãe pedia que ele não voltasse muito tarde. Quando Luke estava jogando videogame há muitas horas, minha mãe aparecia com seu rosto angelical no anexo e pedia que ele desligasse. Josh nunca confrontou minha mãe sobre isso, o que me faz pensar que já era algo combinado entre eles, apesar de Josh nunca ter tentado ser meu pai.
Olhei para com uma compreensão sincera.
- Eu peço desculpas por ela, . Ninguém tem o direito de agir como a mãe que não é. E ela nunca, jamais, vai substituir sua mãe. Se quiser, eu posso falar para ela que vocês não se sentem confortáveis com isso.
Minha completa simpatia deve ter pego de surpresa porque por um segundo, por um único segundo, ele me deu um sorriso normal. Quando ele sorriu assim, tão perto de mim, consegui ver que os dois dentes da frente eram um pouco separados um do outro, o que de certa forma só deixava ele mais charmoso. Uma pena que ele fosse tão babaca. deve ter percebido minha reação emocionada, porque rapidamente desfez o único sorriso simpático que tinha me dado em quatro semanas.
- Tanto faz, não ligo para você e nem para a idiota da sua mãe. - Respondeu, de uma maneira tão ríspida que fez meus olhos encherem de água.
Isso que você ganha tentando ser boazinha, . Ele não notou meus olhos marejados e se notou não pediu desculpas, apenas deu de ombros e continuou nadando metodicamente. Saí da piscina pela escadinha, indo para a espreguiçadeira me secar. Chega de piscina, chega de Los Angeles, chega dos garotos . Como posso chamar esses meninos de irmão algum dia na vida? Tivemos um começo péssimo e mesmo agora não estava muito melhor que antes.
Saí da piscina enrolada em um roupão. Não olhei para trás, mas senti o olhar de nas minhas costas enquanto andava e podia jurar que ele estava bem atrás de mim, mas não virei. Quando estava passando pela porta da cozinha para ir em direção a escada, porém, alguém deu um puxão no meu roupão.
- Droga, , que merda você…
Ele arqueou as sobrancelhas para mim, com um sorriso engraçado.
-Eu juro que não fui eu.
Olhei para o verdadeiro infrator e observei que não havia mesmo sido ele, o roupão ficou preso na maçaneta quando eu fui passar. Constrangida, arrumei o roupão ao meu redor, principalmente porque esse era um que eu ainda não conhecia.
- Pode me chamar de . Você deve ser a Alysson. - Apresentou-se, cordial, pegando na mesa o copo de água que estava bebendo.
Senti que estava mais vermelha que a maçã em cima da mesa, porém concordei assim mesmo.
sorriu, um sorriso tão largo e bonito que só pude olhar como uma idiota. Como estava olhando muito percebi que ele tinha covinhas bem na parte que suas pintas apareciam. Ele era mesmo muito bonito. De longe, o mais bonito de todos os irmãos. Ele tinha os mesmos olhos azuis dos outros, mas carregava um olhar bondoso no rosto e tinha uma leveza ao redor dele, parecia ser o tipo de pessoa tão positiva que você quer sempre estar perto. Devia ter uns vinte e três anos, talvez. Mas se fosse o caso, porque ainda estava na faculdade? Bom, não importa muito. Percebi que ele também estava me analisando e eu gostei disso. Ele é tipo seu irmão, !, uma voz me lembrou a informação, e o encanto passou.
- Sim. Prazer, . Desculpe pelo grito, achei que … bom, não importa, me desculpe, de qualquer forma.
- Sem problemas. - Houve uma pausa. - Está no último ano como , certo? - Quis saber, pegando uma banana do cacho. Parecia que ele estava buscando assuntos aleatórios só para conversar comigo.
- Sim, estou.
achou graça.
- Você só responde às perguntas com sim ou não?
- Não. - Dei risada também - Desculpe, eu não sou muito boa em fazer amizades. As últimas amizades que eu fiz foi no jardim de infância.
- Te entendo. No meu caso as únicas amizades foram meus irmãos e eles nem eram da mesma turma. A não ser talvez Mike e Luke. - Ele sorriu de novo. não era absolutamente nada parecido com os irmãos.
- E então… porque demorou tanto tempo para voltar para casa? Josh achou que estava evitando ele. - Não sei porque eu sempre tenho que ser tão intrometida, e fiquei arrependida de ter perguntado. ficou tenso, mas respondeu com paciência.
- Eu meio que falei a verdade para ele, estava mesmo enrolado com prazos. Mas, não conta para ninguém, a verdade cem por cento é que estava tendo aulas de reforço aos sábados. Se ele souber disso vai me fritar vivo.
Dei um sorriso compreensivo.
- Já tive aulas de reforço várias vezes. Não é grande coisa- Dei de ombros.
- É sim uma grande coisa, não é ? Se eu fosse mais esperto, teria voltado antes. –Os seus olhos gentis e penetrantes me fizeram entrar em transe quando percebi do que ele estava falando. Mesmo com o sol, um calafrio percorreu meu corpo e eu me arrepiei, e acho que não foi de frio.
- Hm… eu vou trocar de roupa.
O sorriso continuou por lá.
- Vou ver como anda meu irmão mais novo. - Anunciou piscando um dos olhos, com a banana na mão comida pela metade.
Eu passei por ele subindo as escadas e fechando a porta do meu quarto atrás de mim. Ele era muito bonito. Tinha o sorriso mais fofo que eu já vi. Tinha aquelas pintinhas e as covinhas. Foi gentil comigo, desejou ter me conhecido antes e ainda me deu uma piscadinha! Qual era o meu problema? Pelo menos a presença de iria acalmar a ansiedade de Josh, mas por um outro lado iria ferrar meus hormônios femininos. deveria ser proibido de vir a essa casa até eu mesma ir para a faculdade.
Reprimi meus hormônios enquanto digitava mensagens para Nick e Liam, mas, naturalmente, era sábado então eles não estavam online. Pedi desculpas a minha mãe e Josh em pensamento, pois por mais que eu tentasse não conseguia tirar o rosto lindo de da minha cabeça.

Algum tempo depois, quando não escutei nada no andar de baixo e declarei que estava sozinha e segura, resolvi descer para comer um sanduíche. Mas desci só para descobrir que não apenas um, mas todos os irmãos estavam reunidos na sala assistindo Velozes e Furiosos. Resolvi bancar a despercebida, mas ainda não conhecia a casa muito bem, então um degrau rangeu e todos olharam na minha direção. Mike não fez nada, Luke arqueou as sobrancelhas de um jeito brincalhão, me deu um sorriso simpático e revirou os olhos, me ignorando. Retribuí o sorriso de e passei por eles rapidamente para ir até a cozinha. Eu queria fazer exatamente isso, comer um sanduíche enquanto assistia naquela TV enorme, mas aqui estão eles. O que me deixa mais brava é que eu sabia que tinha uma televisão igualmente grande no anexo também, então o que eles estavam fazendo aqui? Comecei a pegar os ingredientes, bufando.
Logo depois de acrescentar um tomate no meu sanduíche percebi que minha mãe e Josh ainda não tinham voltado e eu estava sozinha no ninho de cobras (exceto pelo ).
- Traz um lanche para mim! - Gritou Luke da sala. Eu fingi que não ouvi, e Mike e também se juntaram ao coro. Apenas quando disse que também iria querer um que eu decidi fazer. Eu sei que era ridículo, antes de hoje eu nem conhecia esse cara, mas ele não parecia ser do tipo que maltrata as pessoas a troco de nada e nem que dá boladas em garotas e não pede desculpas. Minha amizade com os gêmeos estava na mesma, mas pelo menos não regredia, como acontecia com o .
Fiz os sanduíches resistindo ao ímpeto de deixar sem, porém, se fizesse isso não poderia mostrar para ele que eu era diferente e não queria guerra. Quando cheguei na sala para deixar os sanduíches deles, não tinha planos de ficar. Deixei um prato para cada na mesinha de centro e fui saindo de fininho, parando quando ouvi a voz de Luke.
- Ei, assiste o filme com a gente!
- Começou faz uns dez minutos, se quiser a gente volta do início. - Comentou .
não disse nada, e foi o impessoal Mike que decidiu por mim.
- Eu não me importo de assistir o começo de novo. -Disse ele.
Dei de ombros, eu não tinha nada para fazer mesmo. Não me passava pela cabeça que os populares irmãos assistiam filmes em família em um sábado a noite, e isso me fez segurar uma risada. Talvez fosse porque finalmente estava em casa e eles de fato eram muito unidos.
Achei um espaço vazio no sofá entre Luke e . Mike estava deitado em um colchão que alguém colocou no chão e havia pegado toda a poltrona da lateral para ele. No fim das contas decidi que eles não precisavam voltar desde o início do por minha causa, então eles só deram play e continuaram vendo o filme de onde estavam. Não sou muito fã de filmes de ação, mas estava gostando bastante do enredo, principalmente porque tinha um vilão que só se ferrava e não morria nunca. Eu já estava ficando nervosa com a sobrevivência do cara, reclamando o filme todo, até que Luke me mandou calar a boca. Em um determinado momento do filme, peguei olhando para mim. Não com ódio por ter atrapalhado um momento tão íntimo e fraternal, mas com curiosidade, talvez. Quando viu que eu estava olhando, voltou os olhos para tela. não olhou mais em minha direção.
Assim que os créditos finais apareceram na tela me espreguicei sorrindo. Isso sim era um progresso na minha relação com esses meninos estranhos. Quando olhei para o lado, vi que adormecera, em paz. Parecia outra pessoa dormindo assim. Livre do ódio e da raiva que o perseguia, do sorriso cínico. E ele não foi o único, todos os meninos tinham adormecido durante o filme. E ainda eram nove da noite. Deviam ter acordado cedo para alguma coisa, se estavam tão cansados.
Suspirando e sem fazer nenhum barulho, recolhi os pratos sujos e vazios, os levando para a cozinha. Coloquei todos os pratos na lavadora de louça e joguei os papéis usados no lixo próximo a pia. Aproveitei o momento para encher um copo com água, pois havia me dado sede.
- Ah você também não dormiu! - Exclamou a alegre e sonolenta voz de ao entrar na cozinha. Dei risada, me virando de frente para ele.
- O que quer dizer com “também”? - Perguntei retoricamente, fazendo aspas no ar. - Você estava dormindo profundamente, todos vocês estavam.
reprimiu um bocejo.
- Culpado.
Meu nervosismo fez com que derrubasse a água que estava bebendo, o que me deixou ainda mais nervosa. se solidarizou.
- Aqui.
Peguei o papel toalha que ele tinha me dado e fui secando a água do chão. Seus dedos se esbarraram nos meus algumas vezes, mas demonstrei não notar. Quando faltava só um resto úmido a ser seco, ele também se abaixou para me ajudar, ficando de joelhos. estava tão perto que poderia me tocar, e foi isso que ele fez. Tão delicadamente que eu quase não senti, ele passou a mão no meu cabelo. Depois pareceu ter se arrependido e chacoalhou a cabeça, constrangido com a sua própria ação. Para não deixar ele mais envergonhado, fingi que nem tinha reparado, mas é claro que reparei e é claro que a evidente tentativa de aproximação também não me ajudou em absolutamente nada na parte do “ele será seu meio irmão!”. Ele me olhou com o um sorriso chateado, saindo de perto de mim.
- Sabe, , queria mesmo ter te conhecido em outras circunstâncias. -Murmurou antes de sair da cozinha. Tão baixo que eu nem sei se ele queria mesmo que eu ouvisse. Mas eu ouvi e isso mudou tudo.
Samuel pelo visto me daria mais trabalho do que eu imaginei.

Na manhã seguinte, estava trocando de roupa quando ouvi alguém batendo na porta. Sei que só minha mãe vem me chamar no meu quarto, então nem me dei o trabalho de perguntar quem é.
- Pode entrar, mãe!
- Eu tenho uma proposta para você. - Disse .
Dei um grito e cobri meus seios, o que fez gritar também, sair do meu quarto e fechar a porta.
- Por que você entrou? - Gritei para o lado de fora da porta.
- Porque você me deixou entrar!
- Não, eu disse “pode entrar, mãe!”. Você por um acaso não é a minha mãe! - Gritei de volta inutilmente, colocando minha blusa e meu shorts. - Agora você pode entrar, .
Ele abriu a porta com um sorriso malicioso que chegava nos olhos, mas não disse nada. Deu uma olhada no meu quarto, em mim, na minha cama, e por fim decidiu se sentar na poltrona perto da janela. Confusa, sentei na poltrona que havia do lado.
- Como eu disse, tenho uma proposta para você.
- Que tipo de proposta? -Questionei desconfiada. não foi muito meu amigo desde que cheguei aqui.
- Eu sei que você gosta do . - Disse convicto e sério. - Não tem como gostar muito profundamente porque o conhece há um dia, mas sei que se sente atraída por ele de uma maneira que não deveria e que gostaria de conhecê-lo melhor.
realmente era mais observador do que parecia, e mesmo estando absolutamente correto, ainda tentei negar.
- Do que você está falando? Eu mal falei com !
- Eu vi vocês na cozinha ontem. E, o mais importante, eu ouvi o que ele te disse. gosta de você também.
Aquilo foi um tapa na minha cara. Achei que estávamos seguros, achei que eles estavam dormindo, mas principalmente achei que aquele momento roubado de sorrisos, toques e palavras que não deveriam ser ditas eram só nossos. Eu realmente me sentia atraída por , pela sua gentileza e pelos sorrisos de covinhas, mas só. estava certo, eu não conhecia , e como ele passava a maior parte do tempo na faculdade eu dificilmente iria conhecê-lo morando aqui. Quem dirá depois que eu fosse embora.
- Certo. - Percebi que era inútil tentar negar. - O que isso tem a ver com a sua proposta?
O rosto de se iluminou.
- Por qual motivo vocês não podem começar nada? - Perguntou com um olhar ferino.
- Nossos pais vão se casar, o que nos torna praticamente irmãos. - Ele bateu palmas, contente.
- Exato.
E finalmente entendi onde ele queria chegar. Olhei para horrorizada. Como um cara daqueles podia ser tão absurdamente infantil? Os meninos tinham muitos problemas, mas era o mais quebrado de todos. Ele era do tipo que não sabia dar valor ao que tinha, mas sentia saudades depois que perdia.
- Você quer que eu convença minha mãe a não se casar com Josh?
- Isso.
Continuei boquiaberta.
- E você acha que eu sacrificaria a felicidade da minha mãe, a pessoa com quem eu mais me importo no mundo, para conhecer um cara? Sério que você me acha assim tão fútil, ?
O sorriso maldoso em seu rosto vacilou, e eu já tinha perdido a paciência.
- Não. Mas pensa nisso. Sei que sente falta dos seus amigos. Nossos pais se separam e você pode voltar para New Orleans, para seus amigos. Você tinha um time, não tinha? Vai poder voltar para seu time e se formar com todo mundo que sente falta. E ano que vem, quando for para Columbia, vai poder conhecer da maneira correta!
Fiquei um pouco incomodada como parecia saber tudo sobre a minha vida, sobre meus amigos, a faculdade que eu queria ir, o curso que eu queria fazer, mas por outro lado, ele poderia facilmente ter pego essas informações no Facebook. Entretanto era assustador o modo como ele tinha razão. Eu queria muito que tudo voltasse ao normal. Eu já estava me acostumando com Josh, os meninos e Los Angeles, mas não há lugar como o nosso lar. Não podia acreditar que estava tendo pensamentos tão egoístas, eu jamais magoaria minha mãe de propósito. Porém era isso que eu pensava desde o começo, certo? Pensava que estava muito cedo para se casarem. Minha mãe nem sabia a quantidade de filhos correta do suposto noivo quando nos mudamos para cá! Só depois disso minha mente dá um estalo.
- Espera aí, estuda na Columbia?
- Sim.
Bufei, cruzando os braços.
- Mas ele tem uns vinte e três anos, deve estar perto de se formar. Não vai estar mais lá ano que vem.
- Que vinte e três, está maluca? Ele tem dezenove.
Não pode ser! Aquele poço de bondade e maturidade ainda tinha dezenove anos?
Como deve ter sido para sua mãe ter um filho atrás do outro? - Perguntei inocentemente, sem me dar conta de como essa pergunta poderia chatear . Os gêmeos tinham dezesseis, dezessete e dezoito.
- Ela não está mais aqui para a gente perguntar, não é mesmo? - Ironizou. Ele ficou magoado, me senti péssima na hora.
- , desculpa, eu...
- Dane-se. A oferta expira em uma hora. - Anunciou, se levantando. Uma dúvida passou na minha cabeça, de repente achando um manipulador filho da puta.
- Ainda não entendi porque precisa de mim para fazer isso. Você poderia fazer isso sozinho pelo que eu vejo.
Ele bufou, derrotado.
- Meu pai não me ouviria, ele nunca ouve. Sua mãe ouve você. - Parece que foi a coisa mais sincera e dolorosa que saiu da boca dele desde que nos conhecemos.
- Então eu acho que tenho mais de uma hora para pensar. - Disse, empurrando para fora e batendo a porta na cara dele.
Fiquei na minha cama pensando em uma escolha tomar. Se eu decidir ajudar , eu não conseguia saber se estaria fazendo isso para ter minha vida de volta, ou se era para ter a oportunidade de conhecer Samuel . E no fim, quando pensei nisso antes de dormir, percebi que qualquer que fosse minha motivação, das duas formas minha mãe ficaria magoada por uma coisa que eu fiz.
É a coisa certa a se fazer: não dar ouvidos para .


Capítulo 4

september, 2016

Tinha de tudo para ser o pior aniversário de dezoito anos de todos os tempos:
1- Eu não estava na Louisiana;
2- Eu não tinha nenhum amigo nessa cidade esquisita;
3- Minha mãe e Josh andavam tão ocupados que nem eles estavam disponíveis para mim;
4- As aulas começavam segunda feira e eu ainda não conhecia ninguém a não ser os meninos;
5- Já passava do meio dia e nenhum sinal de . Ele sempre chegava na sexta a noite e no máximo na metade do outro dia, mas parecia que ele não viria, justamente no dia do meu aniversário.
E como se já não estivesse ruim o bastante:
6- Estava chovendo. Sim. Uma chuva chata que me impedia até de curtir meu aniversário, sozinha, na piscina dos . Já odiava chuva antes, agora mais ainda.
Meu único consolo era que minha mãe parecia cada vez mais apaixonada e mesmo na minha completa infelicidade pude me sentir feliz por ela. Até mesmo porque o plano de falhou miseravelmente. Esses dois nasceram um para o outro.
. Depois do primeiro final de semana ele vinha sempre, mas nunca nos permitimos nos aproximar demais. Conversávamos sempre pelo whatsapp e sempre que ele vinha para cá, mas como amigos e só. Eu tentei não ficar a fim dele, mas quanto mais eu tentava, mais forçado ficava. Acredito que seja muito cedo para dizer que estava apaixonada, mas com certeza sentia alguma coisa. Desde o primeiro minuto que coloquei meus olhos nele. Ele era bem mais responsável do que imaginei, principalmente se considerar que nunca mais encorajou nada entre nós depois do episódio na cozinha. Ele era calmo e tranquilo, e conversávamos sobre tudo, mas eu conseguia ver para onde nossa relação estava indo e era para a friendzone.
Suspirei, deprimida. Aproveitando que não tinha ninguém em casa, resolvi assaltar a geladeira. Troquei os pijamas por uma roupa melhorzinha e desci para fazer meu super pobre almoço de aniversário. Fiz um sanduíche enorme com tudo que encontrei na frente, coloquei em um prato e aproveitei a chuva para assistir um filme na sala debaixo da coberta. Resolvi assistir a segunda temporada de 13 reasons why, que tinha sido atualizada em maio e eu ainda não tinha passado do primeiro episódio.
Seis episódios mais tarde, muito curiosa para assistir o final, mas com muita dor de cabeça para continuar, percebi que ainda era a única pessoa em casa. Subi para tomar um comprimido e um banho. Muito tempo na frente da TV faz isso com as pessoas. Assim que saí do chuveiro, meu celular tocou.
- Alô?
- ! Faz um favor para mim? - Era minha mãe. Ainda estava dividida entre me secar e falar alguma coisa, mas tentei prestar atenção.
- Do que você precisa?
- O Josh precisa do contrato de música do casamento! Ele esqueceu lá no anexo. Pode ver? Está em cima do sofá! Tira uma foto e me manda.
- Okay mã… - Ela desligou sem nem esperar eu responder. Eu não era assim tão emotiva, mas era a primeira coisa que ela falou desde quando eu acordei (porque ela já tinha saído) e não disse nem um singelo “Parabéns”.
Bufei, coloquei uma blusa de frio e fui ao nem tão modesto anexo. Eu já havia entrado lá antes, uma vez, com . Estávamos conversando sobre fotografia, para o qual eu não dava bola e ele dava muita, e então ele me chamou para ir ver o cantinho de fotografia dele no anexo. Era um espaço pequeno, mas bem confortável. Tinha uma sala, uma cozinha e dois quartos grandes com banheiros. Era um esconderijo perfeito para alguma coisa.
Atravessei a chuva e entrei no anexo escuro. Deveria ter trago uma lanterna caso a chuva apertasse e a energia caísse, mas já era tarde. Acendi a luz da sala para pegar o contrato perdido, mas assim que as primeiras pessoas foram reveladas, não consegui conter o grito de susto, seguido de alegria.
-Surpresa! - Gritaram todos eles em uníssono.
Estavam todos lá, Mike, Luke, Josh, minha mãe, , até ! Mas não era só isso, percebi que de todas as pessoas, as que eu mais queria ver estavam bem na minha frente: Nick e Liam.
- Meu Deus, vocês estão aqui! - Disse animada, correndo para abraçar os dois. Foi um misto de alegria e muito choro, eu nunca passei tanto tempo sem ver meus amigos antes. - Quando chegaram? Vão ficar quanto tempo? Ai meu Deus, eu nem acredito!
Rimos muito e fui abraçar todo mundo que separou um pouco de seu tempo para fazer aquilo por mim. Confesso que me demorei mais do que o necessário quando fui abraçar , mas não acho que alguém tenha reparado.
O anexo estava cheio de bexigas cor de rosa e pisca-pisca amarelo, poderia tirar uma foto bem pinterest agora se quisesse.
Em um determinado momento, foi a vez de Nick e Liam dançarem no Just Dance que alguém colocou ali, e vi me olhando. Fui até ele.
- Sei que alguém teve que te obrigar a ficar, mas mesmo assim, obrigada por ter vindo. -Disse, gentilmente.
Ele não deu a mínima. Claro. Só riu com deboche.
- Obrigada por ter vindo? Meu Deus, , eu moro aqui, lembra? Eu não tive muita escolha.
Meus olhos encheram d'água, eu sempre chorava quando ficava nervosa. Acho que ele não queria causar uma cena bem no dia do meu aniversário, por isso pelo menos pareceu arrependido.
- Desculpa, é só que é um saco fazer coisas que você não quer fazer. Tipo estar aqui nessa merda.
- , qual é o seu problema? –Questionou , me colocando ao seu lado. Os outros pareciam não ter notado, o que era um alívio. Não queria chamar atenção para o fato de ser um babaca.
- Ah, , não começa. Você sabe muito bem porque está aqui. – Os dois se fuzilaram com os olhos.
- Está com ciúmes, não está?
riu, mais debochado do que nunca.
- Você acha que eu teria ciúmes dessa sonsa? –Isso fez ficar irado. Não fazia ideia do que estava acontecendo ou porque teria ciúmes de mim, mas gostei de ver que pelo menos me defendia, não importava o motivo por trás da defesa.
- , seja lá o que for, resolvam entre vocês, por favor. Tem muita gente aqui. – Comentei, interferindo na discussão.
- Não, eu posso muito bem falar aqui mesmo que você é uma mimada e que eu não deveria ter vindo.
A antiga , a que não conhecia os , sairia da frente dele sem falar nenhuma palavra e mais tarde, quando ninguém estivesse olhando, provavelmente choraria no travesseiro. Eu tinha essa necessidade doentia de que todo mundo gostasse de mim, e o fato de o claramente não ir com a minha cara me machucava, mas o que me machucava mais ainda é que ele não tinha nem motivo para isso. Então eu ficava triste, lambendo minhas feridas, até me acalmar.
Mas eu era uma que conhecia os , e sinto que o modo como me tratavam me ensinou também a lidar com eles. E foi por isso, só por isso, que eu disse o que disse, sem me importar em controlar o volume da minha voz.
- Sabe, . Tem pessoas aqui nesse anexo que se importam comigo. Que de verdade querem meu bem e meu melhor. Tem pessoas aqui que eu amo e que realmente se esforçaram para estar aqui hoje porque queriam me ver feliz. - Ele tentou me interromper com outro deboche, mas eu continuei falando - Se você não é essa pessoa, sinta-se a vontade para se retirar. O anexo e a casa são seus, mas surpresa, se não notou essa também é minha casa agora. Vai para casa principal, se afoga na piscina, não sei! Se está aqui porque foi obrigado a vir, vai embora! Sério, vai embora, !
Tarde demais notei que minha voz estava um pouco mais alta do que deveria, e que todo mundo tinha olhos em mim e . Ele não teve muita escolha a não ser pegar o casaco e sair dali, e notei como ele tinha ficado levemente sem graça.
Luke e Nick vieram para perto de mim dizendo que estava tudo bem e que não era culpa minha, só que aí eu já não estava com clima de festa. Mas como eles se esforçaram mesmo para me fazerem uma festa surpresa e meus dois forasteiros preferidos tinham vindo de tão longe por mim, coloquei um sorriso no rosto e fui aproveitar o final da minha festa com a minha família.
- Está bem? – Perguntou , depois que eu dancei umas três músicas seguidas no Just Dance.
- Só estou cansada – Bebi o último gole de coca do meu copinho. – Mas vou superar.
Ele me deu um sorriso mínimo.
- Não estou falando disso, .
Fui até a mesa das bebidas e notei que me seguia. Coloquei mais refrigerante no meu copo e apoiei minhas costas na mesa.
- Eu não sei dizer. Ele sempre me tratou assim, não estou surpresa. Só queria saber o que foi que eu fiz, sabe? Vocês têm um pouco mais de um ano de diferença, mas você é tão maduro e ele é tão... babaca!
- Você não fez nada para . Mas acho que precisa dar um tempo dele. Vai acabar se machucando se, sabe, insistir. – Falou gentil, bagunçando meu cabelo e indo ao encontro de Josh em seguida.
Eu sabia que ele tinha razão, mas no que exatamente eu estava insistindo? Em fazer me tratar normalmente? De repente eu deveria parar de tentar me aproximar mesmo. Nick e Liam foram até mim para me empurrar para pista de dança novamente, interrompendo minha luta mental contra mim mesma. Ficamos por ali, junto com Mike e Luke, até as primeiras horas da manhã, quando fomos obrigados a desligar a música.
Tinha sido um aniversário maravilhoso, no fim das contas.


Na segunda de manhã, os gêmeos me deram uma carona para escola. Não tinha carro, por isso meu plano era ir a pé, mas eles me disseram que não teria problema se eu fosse com eles.
A Redondo Union High não é nada com o que eu pensei que seria. É uma escola pública, mas é claramente alto padrão, não vi sequer um único armário quebrado que eu sempre encontrava no meu colégio em New Orleans.
Por mais que sonhar tenha sido divertido, ainda não tinha nenhum amigo. Liam e Nick foram embora no domingo a tarde e a mim só cabia me lamuriar como a novata que eu era. Luke e Mike permaneceram fiéis ao meu lado e eu percebi que gostava muito da companhia deles. Não havia visto sair de casa, mas também não estava em parte alguma da escola. Quando passamos perto de Shelly, congelei no lugar, mas ela virou na direção contrária, com o nariz empinado. Luke riu e eu olhei para Mike.
- Vocês terminaram?
Luke riu ainda mais.
- Nunca teve um lance de verão, mana?
A verdade é que nunca tive lance nenhum, mas não disse isso para ele.
- Então vocês ficaram durante todo o verão e agora acabou? - Os dois confirmaram. -Deixa eu adivinhar. Ela está brava porque você só contou que era um lance de verão ontem a noite, não foi?
Mike pareceu se sentir culpado, e Luke bagunçou o cabelo dele.
- Ele sempre faz isso, não sei como elas ainda caem na dele.
Dei um sorriso brincalhão.
- Todas querem tirar uma casquinha de Mike .
- Você quer? - Perguntou Mike, me surpreendendo com a brincadeira ousada. Ele nunca tinha sido legal comigo até hoje, ele era tão fechado. Decidi entrar na brincadeira.
- Isso foi um convite?
- Tá legal, esse papo ficou bem estranho, vamos indo para aula? - Luke apontou para frente, querendo indicar que era para andarmos.
Mike e eu rimos, e acompanhamos Luke. Eles estavam no penúltimo ano, de modo que não poderiam me acompanhar dentro da sala por sermos de turmas diferentes, mas prometeram que estariam na porta da minha sala para me acompanharem para o almoço.
Não conhecia ninguém na sala nova, e tentei não pensar muito nisso. Era extremamente raro alguém ser transferido no último ano, então estava preocupada de ouvir cochichos tipo “porque ela teve que vir para cá? ” ou “o que será que ela fez de errado”. Para minha surpresa, vi bastante de rostos simpáticos sorrindo para mim, provavelmente pela popularidade positiva de Luke e Mike. Sorri de volta, prestando atenção na aula.
Como prometido, os gêmeos estavam de plantão para me receberem. Fui apresentada a alguns de seus amigos, mas esqueci o nome de todos quase imediatamente. Reconheci um dos meninos, o que me passou meus fones quebrados aquele dia na praia. Ele me cumprimentou com a cabeça, provavelmente me reconhecendo também.
Tinha que reconhecer que sim, tinha sido um bom primeiro dia.


Capítulo 5

december, 2016

Essa rotina se estendeu por semanas, e depois por meses. Os gêmeos pareciam não se importar com a minha companhia no começo, mas eu sabia que agora eles gostavam dela, e para mim estava muito bom daquela forma. Eu já sabia o caminho para o refeitório e a mesa que costumávamos nos sentar, mas mesmo assim Luke e Mike sempre iam ao meu encontro. Parecia que eu tinha encontrado um trio de novo onde me encaixar. Começamos a passar muito tempo juntos, saíamos depois da escola e fazíamos o dever de casa no anexo. Depois de um mês Luke e Mike não conseguiam mais sair de casa sem mim, mesmo quando eu estava atrasada. Quando completou dois meses eu já tinha conseguido entrar no time de animadoras de torcida porque Mike pediu desculpas a Shelly. E surpreendentemente ela era uma pessoa muito legal. Acho que ainda sentia raiva de mim por eu ter ganhado dela, mas parecia respeitar as nossas diferenças, pelo menos. Ela nunca me tratava de forma diferente do resto do time, era justa e fiquei surpresa de ter ganhado dela: o treinamento nessa escola era bem mais rígido que na anterior. Já no terceiro mês, não conseguiam separar Luke, Mike e . Sempre que iam chamar um, chamavam os três, era automático. Eu não sabia como essa aproximação tinha ficado tão forte, mas ela aconteceu naturalmente e eu gostava disso. Como me aproximei dos gêmeos, acabei me aproximando mais ainda de , que era sempre um amor quando vinha conversar comigo.
Completavam cinco meses desde que me mudei de New Orleans e as coisas estavam finalmente voltando a fazer sentido para mim. Não era a capitã do time e também não era popular como antes, mas isso já não importava mais como antes. Eu sempre senti medo de ser nova em algum lugar, mas aqui tive a chance de mostrar quem eu realmente era. O que não previa que fosse acontecer, aconteceu: comecei mesmo a gostar de Los Angeles.
Estava saindo da sala de aula para o almoço. Era para Mike e Luke estarem me esperando na porta como de costume, mas justo hoje eles não estavam. Em seu lugar estava .
- Onde estão seus irmãos? - Perguntei, procurando por dois clones atrás dele.
revirou os olhos.
- Você deveria saber se vê mais eles do que eu.
estava com ciúmes. Dei risada, e para minha surpresa ele me acompanhou. Ainda não conhecia profundamente , porque ele não deixava, mas pelo menos agora convivíamos em uma certa harmonia. Sabia de mais coisas sobre ele do que antes, andar com os gêmeos fez com que nós dois nos aproximássemos também. Descobri que ele não era popular como seus irmãos, muito provavelmente porque não queria ser. Na escola, passava boa parte do tempo livre lendo sozinho e as vezes eu o via na sala de música tocando violão. Ele fazia mais o tipo solitário, até porque não se dava bem com as pessoas. nunca me pediu desculpas pelo meu aniversário, mas eu também nunca pedi. Sei que passei dos limites aquele dia, deveria pelo menos ter falado mais baixo.
Deixei a sala de aula, e me seguiu.
- Eles tiveram que ir embora mais cedo. -Disse ele. -Pediram para eu ficar com você.
Dei um sorriso amargo.
- Não precisa se não quiser. Consigo achar minha mesa sozinha.
fez uma careta, mas não discutiu comigo, só continuou andando do meu lado. Ele se comportou pelo resto do dia, até mesmo na aula de Biologia, a única aula que tínhamos juntos.
Eu vinha percebendo há um tempo a mudança no comportamento dele, mas não sabia dizer se era pelos ciúmes por ter atenção de seus irmãos, se era pelo fato de me considerar uma intrusa, ou se no final das contas até que ia com a minha cara. Desde o primeiro dia em Los Angeles eu já havia notado que ele seria o mais difícil de conquistar. Isso vindo de alguém que fez amizade com Mike, conhecido como o ser mais inexpressivo do universo.
Apesar da mudança de comportamento, estava resmungão e carrancudo como sempre, é claro. E com essa carranca que ele me olhou com seus olhos monótonos e perguntou se eu poderia ajudá-lo a buscar uma forma de docinhos para degustação que minha mãe havia pedido para ele.
- É uma forma só, mas me ajudaria muito na viagem se tivesse alguém comigo. - Completou. - Até você.
Ignorei a arrogância em sua voz e aceitei o passeio; quem sabe teríamos um progresso nessa amizade maluca no final do dia. Descobri que era mais de uma hora de viagem até nosso destino e achei ridículo ir tão longe só para pegar docinhos que talvez minha mãe nem fosse comprar.
Fui ao banheiro após a última aula e já me esperava na porta para irmos. O início da viagem transcorreu muito bem, mas depois eu caí no sono e percebi que ficou bravo pelo modo como acordou.
- Chegamos. - Disse, rude.
Abri os olhos sonolenta, mas acordei vibrante quando vi a Califórnia dos filmes, a Los Angeles que quis conhecer desde meu primeiro dia aqui. Estávamos em uma avenida bem grande, com coqueiros se misturando com as fachadas comerciais dos prédios ao entorno. Uma combinação até que engraçada, principalmente se considerar que na mesma calçada tinham engravatados ao lado de homens de bermuda acompanhando crianças de toalhas, mesmo que fosse inverno e estivesse fazendo no máximo uns vinte e dois graus.
Minha mãe estava certa quando disse que eu amaria esse lugar. Achei que nunca me sentiria em casa, mas aqui estava eu, chamando esse estranho e conturbado lugar de lar, ao lado do ser mais carrancudo da Terra. Ainda havia muito a conhecer e apesar de clichê, nunca havia conhecido esse lado turístico da cidade. Ironicamente tinha ido até o letreiro de Hollywood com os gêmeos e uma vez, mais por insistência minha do que por vontade deles. Além de que eu não era tão boa motorista ainda e viajar sozinha em um carro caríssimo por mais de uma hora não estava nos meus planos do momento. Foi muito divertido, mais para mim do que para eles, mas valeu a pena do mesmo jeito.
seguiu reto por boa parte da grande avenida, depois virou no segundo semáforo, estacionando na frente de uma loja pintada de tons pastéis. Era ridiculamente charmosa e entendi claramente porque minha mãe insistiu em uma doceria do outro lado da cidade. Era a cara dela. Descemos do carro e pela vitrine já foi possível ver docinhos perfeito para casamentos; nem tinha comido e já estava torcendo para minha mãe escolher esses.
Enquanto eu namorava a vitrine, foi mais rápido: já tinha pedido e retirado nossa encomenda.
- Vamos. – disse, me empurrando de leve com a mão que não estava segurando a pequena bandeja.
Fiz uma careta aparentemente nada comovente, porque ele apenas revirou os olhos como se eu fosse uma criança mimada e não como uma turista nata. Abriu a porta do motorista e esperou eu ir cabisbaixa até onde ele estava.
- Já viemos até aqui, por que não damos uma voltinha? – Pedi, da maneira mais convincente possível.
Ele bufou e olhou para o relógio de pulso.
- Já são cinco e meia, você sabe que sua mãe não gosta que a gente fique na rua a noite durante a semana.
Arqueei a sobrancelha, desconfiada.
- Um: desde quando você respeita o que minha mãe fala? E dois: porque está tão ranzinza?
- Não respeito, é só conveniente falar isso para não ter que pela milionésima vez na minha vida passear por Santa Mônica. E dois: estou cansado.
- Estamos em Santa Mônica? Ah, , por favor, por favor! – Praticamente implorei, pulando na calçada. Ele me parou com a mão livre, envergonhado e parcialmente contagiado pelo meu entusiasmo. Colocou a bandeja no banco do passageiro e fechou a porta.
- Pronto, Vossa Majestade. – Disse com ironia. – Acompanhe-me, por gentileza.
Segui , satisfeita, até a baía que era paisagem de cartões postais. Ainda estava de dia, mas as luzes da roda gigante do parque já estavam acesas. Casais tiravam fotos no píer e vi algumas crianças correndo e fazendo bolhas de sabão que alguém estava vendendo por lá. Tinha ido de tênis para a escola hoje, mas estava tão animada que nem liguei se estivesse com chulé, apenas tirei os tênis para sentir o meu pé na areia macia.
- Muito bem, suje meu carro de areia, por que não? – Resmungou do meu lado. Dei de ombros, nada iria me abalar a essa altura.
- Você tem algum tipo de trauma desse lugar incrível, por acaso?
Ele chutou uma pedrinha.
-Não. – Mas ele tinha sim; sua voz tremeu antes de negar. Não insisti, não éramos amigos o bastante para que eu pudesse tentar arrancar uma resposta dele.
Parei de andar e fechei os olhos para aproveitar a maresia. Era uma quarta feira e mesmo assim tinham bastantes turistas, como eu, mas pelo menos hoje eu iria relevar esse fato. Conversamos calmamente com os pés na areia pelo que pareceu um bom tempo, depois alegou que era hora de irmos. Concordei, triste, já pensando no melhor argumento para fazer os gêmeos fazerem um passeio por aqui em um futuro próximo.
Tinha sido um bom dia. Apesar de ser um babaca comigo em todos os outros dias da semana, pelo menos hoje ele tinha sido gentil e até tivemos uma conversa tranquila e sem brigas.
Queria me acostumar com esse .


Capítulo 6

march, 2017

-E da próxima vez, vê se usa o cacete do seu próprio banheiro! - Gritou , irritado, jogando minha toalha no corredor.
Ele ficou bravo porque eu tinha tomado banho no banheiro do corredor, sendo que só fiz isso porque estava frio e meu chuveiro estava no modo verão. Eu tentei alterar, mas não alcancei. Nem tinha como saber que o banheiro do corredor era só dele, eu achei que era um banheiro social normal.
O comportamento de vinha me irritando a vários dias, principalmente quando implicava comigo por absolutamente nada e depois vinha na sala assistir Friends comigo como se nada tivesse acontecido. Ou então quando me obrigava a lavar a louça que ele tinha sujado, mas depois se oferecia para me ajudar com meus deveres de casa. Como se não bastasse, ainda tinha a questão de ele me sequestrar na escola as vezes e me levar para lugares depois da aula, como se fôssemos amigos de longa data. E já que os gêmeos e eu éramos amigos e eu já me permitia contar as coisas para eles, disse isso a Luke e Mike quando fomos para o anexo naquela tarde.
- Eu não entendo o . Ele me leva para lugares legais, fala comigo, mas depois me esnoba e me ignora. Ele deu todos os sinais de que me odeia, jogou uma bola em mim e nem pediu desculpas e ainda fez a maior cena no dia do meu aniversário.
Luke suspirou, compreensivo.
- Tenho uma confissão. - Disse Mike.
- O que foi?
- Eu que joguei a bola na sua cabeça. - Disse, dando de ombros. Luke cobriu a boca para não rir. - E meio que foi de propósito.
Tarde demais, Luke já estava gargalhando alto, completamente ignorando minha cara de indignada.
- Você… mas …? Ele não negou.
- Na verdade, ele negou sim. Eu juro que não entendi até hoje como você caiu nessa. -Ponderou Mike. Ele estava rindo, mas com respeito.
Dei um sorriso. Já tinha deixado a fatídica bolada para lá mesmo.
- Bom, então obrigada pelos fones!
Eles se olharam com olhares de gêmeos e eu sabia o que viria a seguir.
- Foi o que colocou lá. Ele disse que ficou com dó de você, principalmente depois que o Mike contou para ele que foi de propósito. Ele achou que foi uma brincadeira de mau gosto.
Mike concordou com o irmão.
- É, não achou nem um pouco engraçado.
- Que coisa mais estranha.
- Sabe, , eu sei que ele é um idiota, mas você só conhece o que ele quer que você veja.
- Ninguém obrigou ele a ficar aqui no dia do seu aniversário, sabia? Ele veio porque quis. -Luke falou com simpatia.
Mike riu.
- Ele nem foi convidado. Combinamos tudo sem ele. Eu que mandei mensagem para seus amigos e reservei as passagens. Ele chegou no anexo, perguntou se era uma festa para você e resolveu ficar.
- Mas ele me disse coisas odiosas naquele dia. Vocês sabem, estavam lá!
- Olha, , não sabemos porque ele age dessa forma, mas é só com você. Talvez ele goste de você ou... – Mike foi interrompido com uma cotovelada de Luke. Fiquei intrigada.
Eles me deram uma piscadinha de gêmeos e voltaram ao videogame. Chega de falar de homens por hoje, pelo visto.
Estava pensando no que tinha acontecido e mais ainda pensando no motivo que tem feito me tratar estranho desde quando eu cheguei. Não era ódio, e nem tinha como ser, ele estava interagindo comigo melhor que antes e muito mais que , meu crush não correspondido. Era outra coisa. Ciúmes? Raiva?
Acontece que não era nada disso. tinha raiva de mim porque tinha raiva dele mesmo. E isso mudou tudo sobre a forma que eu via ele.
-Já volto, meninos. -Anunciei, saindo do anexo.
Subi as escadas da casa principal, parando na frente do quarto de . Eu nunca tinha entrado ali, nunca sequer vi essa porta aberta. Não sabia qual eram as cores das paredes ou que música ele ouvia quando estava sozinho lá dentro. Respirei fundo e bati na porta. Uma, duas, três vezes. Ninguém apareceu. Provavelmente não estava em casa. Bati mais duas vezes, só para garantir.
- Posso te ajudar? -Perguntou , que estava atrás de mim.
Com uma toalha em volta da cintura. Dei licença para ele entrar no quarto e esperei alguns minutos até ele estar devidamente vestido.
- Pode entrar.
Suspirei de frustração. As paredes eram do mesmo tom de creme que todas as outras paredes da casa. O quarto de alguém diz muito sobre uma pessoa, e a impressão que deu foi que não queria deixar a marca dele ali. Estava impecavelmente arrumado, limpo e organizado, o que eu já esperava, mas o quarto era bem impessoal, poderia facilmente pertencer a um hotel chique. Mas só. Sem portas retratos, sem quadros ou pôsteres e nem uma alegre fronha aleatória nos travesseiros. Nada. A falta de objetos pessoais no quarto dele me incomodava, parecia que ele pretendia sair de casa e não voltar nunca mais. A única coisa que indicava a ocupação era o violão encostado em uma das paredes e um livro aberto na mesa de cabeceira, lido pela metade.
- Oi, . - Comecei.
- Oi, . Precisamos parar de nos encontrarmos nus.
Não precisava de um espelho para saber que estava corada, então tentei apagar a última frase de da minha memória. Não queria pensar nele nu. Eca.
- Bom… -Disse, me sentando em um dos pufes - eu queria te pedir desculpas. Desculpa por ter te acusado de quebrar meus fones no primeiro dia. Eu não tinha nenhuma prova a não ser a frase de Mike, então desculpa. E desculpa por ter gritado com você no dia do meu aniversário. Eu fiquei sabendo que você não foi obrigado a ir. Eu fiquei chateada pelo que me disse, foi muito maldoso, mas não deveria ter deixado você sem graça na frente de todo mundo. Deveria ter dito isso meses atrás, então me desculpe.
Falei tudo olhando nos olhos dele, e para alguém que parecia ser tão orgulhoso, estava bem emotivo. Eu sabia que tinha muito mais do que só um menino riquinho. Ele era também um cara engraçado, divertido, um ótimo guia, apesar de resmungão, que recebia a culpa de uma maldade feita por outra pessoa e deixava fones novos no dia seguinte, sem esperar nada em troca e que promovia passeios turísticos pela cidade porque sabia que eu gostava. No fundo acho que sempre soube disso, mas sua repulsa por mim quando me mudei me fez repeli-lo também.
- Eu… eu também falei coisas que eu não deveria. - Respondeu, olhando nos meus olhos. -Eu te desculpo se me desculpar também.
Dei um sorriso sincero, e sem esperar, me abraçou. Eu sabia que não iríamos ser tão inseparáveis quanto eu e os gêmeos, mas não ter como inimigo já era alguma coisa. Naquele momento entendi que ele nunca me odiou, só odiava o que minha presença representava para ele. Representava mudança, e detestava mudanças. Fiquei orgulhosa de saber isso sobre ele.
- Fica aqui, eu já volto - Disse depois de um tempo.
Aproveitei a deixa e como uma pessoa nada curiosa comecei a fuçar o quarto dele. Na cômoda havia uma folha de caderno com rasuras e notas musicais. Haviam dois versos “I wanna write you a song / One that's beautiful as you are sweet”. A julgar pelas rasuras e faltas de outros versos, supus que ele não conseguiu finalizar a música. Eu não queria mexer nas gavetas, mas minha curiosidade me venceu quando vi que uma delas estava entreaberta. Acho que na pressa para se trocar mais cedo ele acabou não fechando direito. E ali, enrolada em uma camiseta azul de basquete, estava a prova de que tinha sentimentos. Uma foto antiga de com uns sete ou oito anos na praia. Ao seu lado, abraçando seus ombros havia uma mulher. Entendi na hora porque não tinha nada a ver com Josh e nem com nenhum de seus irmãos: ele era a cara da mãe dele. Achei triste o fato de nunca ter de fato superado a morte da mãe.
- Geralmente a gente não sai revirando a gaveta de cueca no quarto dos outros. - Ele tinha razão, a gaveta estava cheia de cuecas. Enrubesci, ainda de costas para . - Ela era incrível. Você é muito parecida com ela, sabia? Por isso que eu gosto de você.
Eu ri.
- Jeito engraçado de demonstrar.
estava com uma garrafa de vodka e dois copos.
- Isso é…? Seu pai não se importa? - Perguntei, debilmente. Ele apenas deu um sorriso malicioso e fechou a porta. E trancou.
Andei em direção a porta, morta de vergonha.
- Hm, eu acho que não vai pegar bem a gente trancado no quarto, talvez eu devesse…
segurou minha mão a caminho da maçaneta e me guiou até o tapete. Revirei os olhos e acabei cedendo.
- Não tinha, sei lá, uma cerveja?
- Não, só tinha Vodka e eu preciso de álcool.
- Para que?
- Você não espera descobrir todos os meus sórdidos segredos em uma noite, espera?
Coloquei uma almofada nas costas, me encostando na cama.
- Vai me contar algum segredo, ?
- Eu gosto de você, . -Disse, simplesmente. Eu ri.
- Isso significa que não me odeia. Amei a notícia, ! - Falei com uma animação forçada, colocando vodka no meu copo. Ele colocou no dele também, mas não uma, nem duas, ele virou três copos de uma vez.
- Eu preciso de muito álcool para falar o que estou prestes a falar - Justificou quando me viu julgando pelo olhar.
- Como você é dramático.
- Eu gosto mesmo de você, . E quanto mais você se aproxima de , mais eu tento te afastar e mais você me odeia, e em uma louca contradição, mais me apaixono por você.
Olhei para ele estupefata. . Samuel . O nome aquece o meu coração me fazendo dar um sorriso bobo e lento durante milésimos de segundos. era tão gentil, bondoso e brincalhão, o completo oposto de seu carrancudo irmão mais novo. O que queria que eu pensasse? Tarde demais percebi que ele talvez tenha entendido tudo errado. Eu não queria e nunca quis conquistar por gostar dele amorosamente falando. Queria que ele fosse meu amigo, ou que pelo menos não me odiasse.
Ao me virar para olhar o envergonhado , senti uma leve vertigem e percebi que estava na metade do copinho, fazendo eu chegar a conclusão que era muito fraca para bebidas. estava esperando desesperado por uma resposta que não existia, e é só por isso que virei o copo na minha garganta de uma vez.
- , não tenho como sentir nada por você. Você não permitiu que eu te conhecesse de verdade, e além disso… seria muito errado.
virou mais um copo cheio. Ignorei a tontura e bebi outro copo junto com ele. Não sabia porque estava fazendo aquilo, mas era de certa forma revigorante. A vodka era nosso soro da verdade e nesse momento a gente precisava muito dela.
- Errado de que maneira? A culpa não é minha por gostar de você ou por nossos pais estarem prestes a se casarem.
- Eu sei, mas… é complicado.
Ele me lançou um olhar gélido antes de tomar mais um copo de uma vez. Eu já tinha perdido as contas de quantos copos ele tinha bebido, mas a garrafa de vodka já estava na metade.
-Você não ia dizer isso se fosse fazendo essa mesma declaração. - Resmungou, com a voz enrolada.
Ele tinha razão. Provavelmente eu estaria dizendo outras coisas. Não precisaria de vodka e estaria gargalhando alegremente a plenos pulmões pelo crush correspondido. Imaginar me deixava triste porque não deu nenhum indício de que ainda estava interessado em mim, se é que um dia esteve.
- , isso não é justo - Resmunguei. Notei que falei meio cantando e dei risada, uma risada mole e levemente alterada.
Ele esqueceu do que a gente estava falando por um momento para rir comigo.
- Mas já desceu a vodka?
- Não. – Ri, porque era verdade. Só estava levemente tonta.
- Sua mãe não encomendou doces em Santa Mônica. – Confessou, um tempo depois.
- Como?
- Eu sabia que queria ir para Santa Mônica e inventei uma história para levar você lá. Mike e Luke voltaram para casa sem você porque eu pedi para eles.
Fiquei boquiaberta.
- , você poderia simplesmente me convidar para ir. Eu teria aceitado.
Ele chegou mais perto de mim. Perigosamente perto.
- É horrível me sentir desse jeito. Tão vulnerável e esquisito perto de você. Sei que tive comportamentos infantis na minha tentativa de não demonstrar o que sinto, mas... não consigo mais aguentar. Eu sou louco por você, . –Sussurrou, com as mãos em meus cabelos.
Eu estava perdida demais em seu hálito inebriante, uma mistura de vodka e creme dental. Eu estava tonta demais por conta da bebida e cansada demais de tudo que vinha acontecendo. Estava absorta em seu cheiro de sabonete caseiro e colônia que eu nunca havia sentido antes. Olhando tão de perto notei que o sorriso não era tão torto quanto pensei que fosse e junto com os dois dentes separados o sorriso dele o deixava bastante atraente, na verdade. Também notei que havia tirado a barbicha esquisita, o que fez toda a diferença.
Ninguém podia me julgar. Um menino lindo estava se declarando para mim, sussurrando meu nome a centímetros do meu rosto, fazendo eu me sentir a menina mais desejada do mundo. Senti uma forte conexão com naquele momento de confissões bêbadas e a única coisa que me impedia era o rosto da minha mãe, que aparecia em looping na minha cabeça várias vezes. Bebi mais um shot de vodka, notando que a garrafa estava quase no fim.
- Não era para ter acontecido. Não era para se apaixonar por mim, . – Falei, um pouco enrolado. –Só queria que não me odiasse.
- Ah, eu nunca te odiei, . Nunca. –Sussurrou muito perto de mim, segurando meu rosto entre as mãos.
se aproximou devagar e beijou minhas bochechas. Senti seus lábios molhados pela bebida e seu cheiro de banho recém tomado invadiu minhas narinas. Ele se afastou para olhar em meus olhos e se aproximou novamente para beijar o lado esquerdo da minha bochecha. Sentindo a aprovação da minha falta de reação, porque eu estava bêbada e anestesiada pelo calor que estava sentindo, arrastou os lábios pela minha bochecha, me beijando superficialmente na boca. Afastei e me levantei por impulso, e me olhou assustado.
-O que estamos fazendo? – Perguntei, baixinho.
- Não sei. Só sei que eu quero. –Admitiu, se levantando também.
Mordi os lábios, minha respiração entrecortada. O calor era insuportável e percebi que eu também queria, mesmo se fosse com ele.
- Eu também. Eu também quero. –Disse.
arregalou os olhos, mas não perdeu tempo. Me puxou para si com urgência, me beijando muito mais profundamente. Me guiou para sua cama, onde me jogou, sem muita delicadeza. Os beijos não eram o bastante. Quanto mais ele me beijava, mais eu queria, e não me contentava só com suas mãos fortes apertando minha bunda e meus seios, de uma maneira quase inexperiente. Para ajudá-lo, me livrei da minha blusa e do meu sutiã, e tentei abaixar suas calças. Quando percebeu o que eu estava fazendo, terminou minha tarefa e abaixou minha saia também. Eu sabia que não estava bêbada o bastante para isso, mas eu queria naquele momento mesmo que não conseguisse explicar o motivo.
Desde que me mudei tenho pensado em como me sentiria em casa, e naquele momento, enrolada com em sua cama, me senti mais em casa do que nunca.

Acordei confusa, com dor de cabeça e protegida apenas por um lençol. Lembrava vagamente dos fatos e do fantasma de uma frase tão forte sendo lançada a minha volta. Pude ver que ainda estava no quarto de ; localizei-me rapidamente graças a decoração sem graça do ambiente. Ele não estava ali, o que me deu um tempo para pensar no que tinha feito. Tentei lembrar vagamente da quantidade de vodka que tinha ingerido na noite anterior, mas estava me enganando. Todos nós sabíamos que eu não tinha bebido o suficiente para não saber o que estava fazendo, não poderia nem culpar a bebida por essa ação estúpida. A verdade é que eu queria, pelo menos na hora. Quer dizer, parecia ser uma boa ideia. Tinha um menino dando em cima de mim, então porque não? Acontece que esse menino em questão, Alysson, vai se tornar seu irmão a qualquer momento.
Suspirei, com as mãos na minha cara, fazendo a conta simples de quanto era burra elevado a quingentésima potência (e mesmo com o resultado exorbitante eu ainda não seria burra o bastante). A porta se abriu atrás de mim, me tirando do meu torpor mórbido, de onde saiu apenas com uma calça de moletom, o cabelo molhado pingando no peito desnudo e magro. Ele parecia satisfeito, mas ao mesmo tempo temeroso pela minha reação. Para falar a verdade, quando dei uma boa olhada, ele pareceu bem sem graça.
- Sabe, nunca te perguntei isso, mas porque não tem banheiro no seu quarto? - Perguntei, para quebrar a tensão.
Ele pensou por um momento.
-Porque você está ocupando meu quarto no momento, enquanto eu estou no quarto de hóspedes.
Ah. A falta de mobília e objetos pessoais fazia bem mais sentido agora. fez uma cara de que iria tocar no assunto de ontem, assunto que eu não queria ouvir. Ah não, ele ia falar.
- Está tudo bem? Está parecendo arrependida - Ele começou, se sentando na ponta da cama.
- E estou.
Deu para perceber que ele contraiu a bochecha, como se não tivesse curtido muito o que ouviu, mas não pudesse fazer nada a respeito. O que era verdade.
- Mas isso não quer dizer nada, eu quis, pelo menos naquela hora. Você não fez nada de errado, . - Continuei, calmamente.
Lidar com o sensível e fofo era muito pior do que o explosivo, por mais incrível que pudesse parecer. O explosivo jamais faria eu me sentir culpada por deixá-lo chateado, e me sentir culpada era algo que eu realmente não gostava.
- Não fiz nada de certo também, pelo visto. - Resmungou, carrancudo.
Preferi não responder e deitou-se ao meu lado, provavelmente lembrando da noite de ontem, assim como eu estava fazendo. Não houve nada de excepcional, foi tudo dentro da média. Foi bom, claro, mas nada fora do normal. Exceto por um pequeno, porém importante, detalhe... Droga, ele fez eu me sentir realmente culpada.
- Se serve de consolo, eu gostei muito. - Falei, passando as mãos nos ombros dele, meio que o consolando.
Ele deu uma risada irônica.
- Me sinto consoladíssimo, obrigada, .
Voltamos para o silêncio monótono de antes, onde nenhum dos dois parecia saber o que dizer. Não era para ter acontecido isso, eu nem gostava de desse jeito! Ele iria ser meu irmão, pelo amor de Deus, isso era muito doentio, a situação toda era extremamente doentia. Lembrei-me dos primeiros dias em casa, das primeiras conversas e as cenas do que havia acontecido foi preenchido pelas novas informações que me dera na noite anterior. E se ele estiver certo? E se desde o começo ele realmente se sentiu atraído por mim?
Ouvi em minha mente a frase, aquela frase que eu tanto queria esquecer de ter ouvido durante nosso momento mais íntimo. Não importava o tanto de vezes que eu tentava apagá-la da memória, tinha certeza em meu ser que jamais me esqueceria do que ouvi. Queria atribuir tudo isso ao fato de ele ser manipulador e raramente fortalecer os poucos vínculos que tinha; queria dizer que não importava o que tinha dito; que eu era apenas um jogo para ele, que no final das contas eu não passava de um mero troféu.
Mas seria mentira, porque me amava.
Eu não soube lidar tão bem com a informação, por isso preferi fingir que não tinha ouvido. Não foi tão bem quanto o esperado, até porque ele repetiu a informação várias vezes, mas isso não me fez ficar feliz e nem me sentir amada; eu só pude sentir nojo de mim mesma por querer continuar. Que tipo horrível de pessoa eu era, continuar mesmo sabendo que a outra pessoa nutria sentimentos por mim.
- , será… será que a gente poderia esquecer disso? - Perguntou tímido, chegando mais perto de onde estava. Deitei minha cabeça em seu peito, ainda molhado por conta do cabelo, e surpresa com o tom contido de sua voz. Ele não me queria mais? Porque ele não queria lembrar disso?
- Acho que não sou só eu quem estou arrependida, então… - Alfinetei, incapaz de me conter.
Senti ele respirando fundo embaixo de mim.
- Não é isso, eu só…
Fomos interrompidos pela porta do quarto escancarada. De todas as pessoas que poderiam ter aberto a porta, demos de cara com nossos pais. Ainda achei que pudessem ver por outro lado, que estávamos bem próximos de um jeito fraternal, apenas, e eu talvez até conseguiria me livrar, mas tarde demais notei que eu estava nua, e que Josh devia estar vendo tudo através do tecido fino do lençol. Eu enrubesci e respirou mais fundo ainda, provavelmente pela última vez na vida.
- Vistam-se. - Foi tudo o que Josh disse antes de fechar a porta, claramente decepcionado conosco. Só notei que estava chorando quando secou minha lágrima com seu dedo e me deu um selinho carinhoso.
- Vai ficar tudo bem. -Disse, antes de levantar. Ele não sabia se ia mesmo ficar tudo bem, mas lá estava ele tentando me consolar. –Confie em mim.
Até ontem a gente não se dava bem e agora aqui estava , procurando minha calcinha. Ele tentou parecer convencido de que a gente não tinha estragado nada.
Já eu não tinha tanta certeza.


Capítulo 7

june, 2017
Eu tinha conseguido. Depois de tantos altos e baixos durante os doze últimos meses, eu finalmente havia conseguido. Eu havia acabado do jeito que queria desde o início, mas não estava tão feliz quanto imaginei que ficaria.
- Estamos nos formando, ! – Exclamou uma estridente Nicole na minha orelha.
Ela estava pulando animada junto com Liam e vários outros de nossos colegas de turma. Eu me contagiei pela alegria do momento e acabei pulando com ela, ao mesmo tempo que vários pais aplaudiam a conclusão do ensino médio. Minha mãe aplaudia orgulhosa e educadamente ao lado dos pais de Nick, que gritavam incentivos em português.
Liam, Nick e eu fomos até nossos pais, todos nós iríamos almoçar em um restaurante perto da escola para comemorar.
- Parabéns, querida. –Sussurrou minha mãe, me abraçando forte.
Fomos andando abraçadas até a saída, conversando alegremente sobre meus planos para Columbia. Avisei minha mãe que iria no carro de Nick e ela foi indo na frente, sozinha. Esperei na vaga onde Nick havia guardado seu carro.
- Tinham muitos desfechos diferentes para essa história, , mas nunca imaginei que seria assim. Depois que contou da mudança jamais imaginaria que nos formaríamos juntas. –Sorri, gentilmente.
- Foi mesmo muito legal.
- Quer dizer, a gente nem mesmo... –Ela se interrompeu, olhando para algum lugar no horizonte atrás de mim.
- Nem mesmo o que, Nick? – Questionei, olhando para trás.
Estava olhando diretamente para a entrada do estacionamento, na sombra de uma árvore que havia ali. Foi quando eu o vi. . Na porta da minha escola, em New Orleans. Nick me empurrou para eu ir ao seu encontro, e eu meio que corri aos tropeços.
Tinha algo de diferente em . Estava mais bonito, tinha um sorriso mais gentil no lugar daquele debochado. Parecia adulto, maduro. Talvez esse fosse o que eu deveria ter conhecido desde o começo.
- Quanto tempo, . –Começou, quando estávamos próximos o bastante. –Está linda.
Sorri para ele, torcendo para minha mãe já estar a caminho do restaurante e não ter o visto.
- , eu... eu sinto tanto...
- Nada disso foi culpa sua, . Ninguém culpa você. está com raiva de mim, mas Luke e Mike sentem muito sua falta. Mesmo que seja esquisita, eles falaram que sentem falta da nossa família.
Éramos mesmo uma família. As vezes comíamos juntos na mesa próxima a piscina, assistíamos filmes, até jogamos Monopoly uma vez, em duplas. Eu fiz dupla com , e fui responsável pela nossa falência, mas ele não demonstrou se importar. Nos finais de semana a casa ficava cheia, e quando o verão chegou de novo íamos para a praia o tempo todo. Pouco antes de tudo dar errado os gêmeos me levaram para Santa Mônica em um fim de semana de fevereiro e foi a melhor coisa que fiz em tempos.
Notei como amadureci e cresci em Los Angeles. Em como era preocupada com popularidade e festas e como foi importante perceber que a vida não era só feita disso. Estava orgulhosa por ter feito o melhor que pude no momento em que pensei que Los Angeles era a pior coisa que poderia acontecer comigo, quando foi justamente o contrário. Os irmãos me ensinaram a ser eu mesma. Quando falava de cor coisas sobre minha vida privada, parecia que ele sabia só porque ela era exposta, mas não era bem assim. Ele sabia porque minha vida era genérica, igual a de muitas garotas populares e líderes de torcida que ele conhecia. A vida em Los Angeles me fez abraçar a cheeleader em mim como um esporte e não como status, e a Redondo Union High me fez pertencer a um time, mesmo que eu não fosse a líder. Engraçado o modo como só damos valor para as coisas que perdemos.
Infelizmente, a ideia de voltar para lá era impossível, até mesmo porque eu iria para Nova York, então a presença de era um pouco desconcertante.
- Fico feliz em ver você, mas não podemos fazer nada sobre nós dois, , mesmo que...
- Eu sei o que vim fazer aqui. –Interrompeu. –E eu vim consertar a bagunça que eu criei. Desde o começo fui contra esse casamento, mas acontece que eu amo meu pai e ele estava feliz com sua mãe.
- Meu Deus, como você espera que tudo volte a ser como antes? Ainda mais depois do que fizemos?
Ele me olhou triste, colocando as mãos nos bolsos do moletom que estava usando.
- É por isso que tive que garantir que não vamos fazer novamente. Eu desisti de Columbia. Fui aceito em Stanford. Bem longe de Columbia... e de você.
A tristeza na voz dele me quebrou. Pelo que eu sabia devia ser a primeira vez na vida que estava realmente tomando uma decisão altruísta. Percebi que eu não fui a única que amadureceu nesses últimos doze meses. também era um diferente. Sacrificando a própria felicidade pela felicidade alheia.
- Você.... Você desistiu de uma universidade da Ivy Leage pela felicidade do seu pai?
- E pela sua. –Notei que foi uma decisão pensada nos mínimos detalhes e que ele não se arrependeu de sua decisão. – Eu, com muito custo, consegui trazer meu pai para cá.
- Josh está aqui? –Alarmei-me.
Minha mãe conseguiu seguir em frente sem me odiar, e isso custou muito para ela.
Não posso te culpar pelo que aconteceu, . Vocês são jovens, não são parentes e não se conheciam. A ideia e a culpa foram minhas, não posso te responsabilizar pela minha decisão. ” Foi o que ela me disse quando perguntei se ela me odiava. Como eu disse, Joanne nunca foi egoísta. Mas se tinha uma pessoa que merecia ser feliz, essa pessoa era ela.
- O que exatamente você está propondo, ? –Perguntei, receosa.
- Que a gente salve o casamento dos nossos pais.
- Os convites e contratos foram todos cancelados! Eles ficaram meses acertando as coisas, vai demorar meses para refazer tudo! Não é tão simples.
- , tentei enrolar, mas sua mãe já ligou duas vezes. –Disse Nick, chegando até a sombra de árvore em que estávamos. –Oi, .
acenou para ela, e em seguida me olhou suplicante.
- Acredita em mim, vai dar certo. Pede para sua mãe ir nesse endereço, as três horas. Por favor, é importante que ela vá, e que vá sozinha.
Concordei com a cabeça, segurando sua mão.
-Senti sua falta.
sorriu seu sorriso mais sincero.
- Também senti a sua. Você sabe que ainda estou apaixonado por você, certo?
- ...
- E sabe que eu ainda te amo. Mais do que nunca. Mesmo que não tenha me respondido.
Eu não sabia se amava . Como vou responder um sentimento que não sei se eu sinto? Não podia machucá-lo mais, principalmente depois de ter feito que fiz: dar a ele esperanças.
- Eu sei. – Respondi por fim, dando um beijo na bochecha dele. Não foi a melhor coisa que poderia ter feito, mas o que poderia fazer?
Deixei um tristonho no estacionamento, e Nick e eu corremos até o carro dela. Evitei falar sobre o assunto durante metade do caminho, até que ela não aguentou.
-Tem certeza do que está fazendo? Olha a confusão que isso causou.
Depois de ter nos pego na cama, minha mãe se trancou no quarto e Josh pediu para conversar com sozinho, em seguida se trancou no quarto com minha mãe. Não escutamos gritos nem nada, mas horas depois estávamos fazendo nossas malas de volta para New Orleans. Achei um exagero, porém minha mãe decidiu que não queria uma família disfuncional e admitiu que se antecipara em morar com Josh, forçando sua filha de dezessete anos a morar com três adolescentes. Eu havia criado muitos laços em Los Angeles, não queria partir. Principalmente porque apesar de estar arrependida do que fiz, entendi que realmente gostava de e passei a ver com outros olhos tudo que ele fez por mim. Não queria me separar dele agora que finalmente tínhamos um vínculo, mas minha mãe fora irredutível, fingindo não ouvir as súplicas de Josh. Senti pena por ele.
- A confusão foi causada por dois adolescentes bêbados. –Lembrei Nicole. – E são dois adolescentes que vão consertar tudo. Três meses já se passaram, minha mãe com certeza mudou de ideia.
Nick atualizou Liam rapidamente quando nos sentamos no restaurante. Ainda era uma e quinze da tarde e a ansiedade tirou minha fome. Entretanto, os minutos passaram rápido e quando saímos do restaurante já eram duas e quarenta.
- Mãe. –Chamei-a. –Não tenho muito tempo para explicar, mas será que pode ir até esse endereço? –Entreguei o papel na mão dela, e assim que leu percebi que não precisaria explicar nada. Ela já havia entendido.
- É o lugar onde nos encontramos pela primeira vez. –Disse, com a voz embargada. – É Josh.
Assenti com a cabeça.
- Por favor, você precisa ver o que ele tem para dizer. Por favor, mãe, faça isso por você mesma.
- , não é por sua causa. Prometo que não é. Só não sei se Josh e eu temos mesmo um futuro como família. Vocês estão crescidos... eu tentei e olha no que deu!
- Você está apaixonada por ele, e sabe disso. Eu não posso te obrigar a ir, mas Josh saiu de Los Angeles e dirigiu muitas horas para vir falar com você. Tem certeza que não quer ouvir o que ele tem a dizer?
Joanne me olhou dividida por um momento, mas segundos depois concordou e saiu porta afora pelo restaurante, prestes a decidir o nosso futuro.


Capítulo 8

august, 2017

Olhei-me no espelho, duvidando que algum dia estaria tão linda e tão bem vestida como hoje. Observava meu vestido salmão claro de cintura alta, com pregas caindo delicadamente no tule da saia até mais ou menos um pouco acima do meu joelho. A parte superior era bordada com pequenas pérolas, sendo o vestido de ombro a ombro, com um decote de coração. Meu cabelo estava solto e eu usava uma coroa de flores que eram do mesmo tom do vestido. Estava me sentindo a princesa das fadas.
O casamento iria acontecer na casa de campo de Josh, o lugar foi arrumado ás pressas depois de toda a confusão. Minha mãe havia optado por uma cerimônia simples, então estava vendo pela janela uma pequena multidão se formando. Nick não tinha conseguindo vir por conta de sua admissão bem-sucedida na Princeton, uma vez que não tinha sido aceita em Columbia, como Liam e eu. Ela desconfiava que fosse por ela ser imigrante, apesar de já ter green card e morar nos EUA há vários anos. De qualquer forma, Princeton fica bem perto de Nova York para eventuais visitas. Como Nick não iria vir e ia ficar muito caro vir de carro sozinho, Liam também decidiu dispensar o convite.
- Ainda bem que deu tudo certo, . – Disse , entrando no quarto.
Sorri, envergonhada.
- Ainda bem.
Ele parecia em conflito com alguma coisa, não sabia se falava algo ou deixava para lá, e isso meio que me incomodou.
-Se tem algo a me dizer, por favor, diga, .
Ele suspirou antes de começar, entrando no quarto onde eu estava e se sentando na beira da cama, próximo de onde eu estava.
-Não tem nada a ver com você. Mas me senti um idiota. Eu tentei te afastar desde o começo, uma atitude responsável pelo menos na minha cabeça, e o estava do seu lado o tempo todo não chegou nem perto de fazer o que eu fiz. –Ele sorriu. –Na verdade ele fez, do jeito errado. Tentando fazer você odiar ele.
-, não estou entendendo.
- Eu estou dizendo que deveria ser esperto como ele foi. Se fosse para acontecer isso de qualquer jeito, queria que tivesse sido comigo. Talvez você saiba o que sinto por você, por mais que tente esconder há um ano. E agora você gosta dele e..,
- Eu não sei se gosto. Você sabe o que eu também sinto por você, mas sabe, ... Quando paro para pensar nisso, me vem na cabeça falta de profundidade. Talvez eu goste de você porque é tão lindo, apenas. –Confessei, me sentando ao lado dele na cama. –Eu nem te conheço tão bem, não tanto conheço .
E assim que disse isso, percebi que era verdade. Passei tanto tempo desejando que não me odiasse, que acabamos verdadeiramente nos conhecendo melhor. Ainda não sabia se tinha perdoado por ter sido um idiota comigo, mas agora que eu realmente o conhecia, poderia dizer facilmente que ele precisava de terapia. Tinha problemas com raiva e saudades da mãe. Era egoísta e não sabia muito bem lidar com as pessoas diretamente, mesmo seus irmãos. tinha um gênio forte que não o tornava uma pessoa muito diplomática, ao contrário de mim, que sempre fui muito pacifica.
Mas por mais que tivesse seus problemas, era uma boa pessoa. Sabia que ele gostava de nadar quando estava estressado, e que corria a noite para relaxar. Ele gostava de absolutamente qualquer filme que colocassem na TV, mesmo se fosse comédias românticas melosas ou filmes de terror muito assustadores. gostava de ficar em casa quando estava chovendo, tocando seu violão ou lendo um livro e quando saia dava para ver que era por muita insistência de Luke e Mike. Ele adorava comer frango frito e nunca reclamava quando precisava ajudar minha mãe com alguma coisa. Apesar da carranca era extremamente paciente, e depois que o conhecia melhor, era possível reparar no senso de humor ácido e provocante. não assistia basquete, mas dizia que era fã dos Lakers, só para não ficar sobrando na conversa. Me levava de carro para todos os pontos turísticos de Los Angeles porque sabia que eu queria conhecer, e nunca me pediu nada em troca. Ele era o tipo de cara que ajudava as pessoas sem receber o crédito pela ajuda, e não se importava com isso. Ajudar em silêncio era o que ele tem feito o tempo todo. Lembrar de assim me deixou com saudades dele, e olhei para baixo, pensando com tristeza que mesmo que eu admita que sentia algo por ele, nunca poderíamos ficar juntos.
- Isso foi um grande...fora? –Questionou , meio sorrindo. Dei risada com ele.
- Isso foi um fora pequenininho. –Disse, concordando.
se aproximou e beijou minha cabeça no meio das flores, tomando cuidado para não desmanchar meu penteado. Eu entendia minha atração por ele, mas eu não o conhecia, e nunca conheceria tão bem. Ele era só um cara legal e lindo.
- , sua mãe está pedindo para a gente descer! –Chamou Mike na porta do quarto. Ele me encarou por um momento, depois sorriu. -Você está linda!
Corei com o elogio, sendo guiada pelos meus dois futuros irmãos até o andar de baixo. Luke, Mike e eu havíamos ajudado na decoração do espaço de dentro no dia anterior, enquanto Josh e arrumavam o lado de fora. A minha mãe coube passar o dia todo em um SPA, ao lado de suas duas irmãs. Não reclamei do trabalho, foi muito gratificante. Assim que descemos, meu olhar se encontrou com o de , que sorriu minimamente para mim, de um jeito amoroso. Ele disse “Gata” sem som, só mexendo os lábios. Dei uma risadinha baixa, indo ao seu encontro, onde também estava Luke.
- A gente arrasou muito. –Comentou, olhando o que tínhamos transformado em um salão. Passamos quase a manhã toda transferindo os móveis das salas de estar e de jantar para o barracão. Mike teve que desmontar alguns, como os armários e a mesa, mas o resto era modular, então foi fácil de tirar. Minha mãe ainda não tinha visto como ficou, fazia parte da surpresa.
O plano era fazer a cerimônia no gramado, mas os dias anteriores estavam chuvosos, o que era estranho para essa época do ano. Não quisemos arriscar e passamos para a parte de dentro. Hoje o céu estava claro e lindo, e como já tínhamos arrumado as cadeiras do lado de dentro, optamos por realizar a festa no jardim. Josh e também haviam feito um bom trabalho, só precisei acrescentar alguns detalhes depois.
Eu e os quatro irmãos estávamos sentados na primeira fila, quando a cerimônia começou. Sentei entre e Luke, e apertei a mão deles tão forte que ficou a marca, mas eles não ligaram, estavam igualmente emocionados. O prazer de assistir ao casamento da minha mãe, poder desfrutar da felicidade dela, me fez acreditar em almas gêmeas. Ela estava tão linda e jovial, mesmo que tenha amado muito meu pai consegui ver que ela e Josh nasceram um para o outro. Eram duas metades quebradas que se encontraram, há quilômetros de distância. Nunca houve brigas, nem intrigas, era um relacionamento limpo e lindo de observar. Era um exemplo a ser seguido. Chorei muito com os votos deles, nós cinco choramos, e em um determinado momento olhou para mim e eu sabia o que ele estava pensando. Que havíamos conseguido e que fizemos, pela primeira vez, a coisa certa, colocando a felicidade de nossos pais acima da nossa. E valeu a pena. Como valeu a pena!
Depois da cerimônia fomos todos para o jardim. As mesas foram dispostas em forma de círculo ao redor de uma improvisada pista de dança, onde havia um palanque e um microfone para os brindes. Estava na mesma mesa dos meninos, porém sozinha naquele momento. Minha mãe veio se sentar ao meu lado, com o rosto brilhando de felicidade.
- Obrigada, . Obrigada. –Agradeceu, com lágrimas escorrendo em seus olhos. Sorri para ela, limpando suas lágrimas. –Nunca achei que fosse ser feliz com alguém de novo. Sei que isso custou tudo para você, se mudar, abandonar toda sua vida, mas...
- Mamãe. –Interrompi, me virando melhor para ficar de frente para ela. –Eu não perdi nada. Não me custou nada. Nick e Liam são meus amigos de verdade, vão sempre estar comigo, foi só um adeus momentâneo. Eu amava New Orleans, mas eu te amo mais e eu quero estar onde quer que você esteja. E se agora seu coração está em Los Angeles, é onde o meu também sempre estará.
Joanne lançou os braços sobre mim, acariciando meus cabelos com paixão. A coroa estava presa com grampos, então doeu um pouco porque ela puxou, mas não me importei.
- Você está tão linda e tão madura, . Eu te amo muito. –Terminou, me dando um beijo na testa e indo se juntar com o seu, agora, marido.
- Oi. –Escutei a voz de saindo pelo microfone do palanque. Ele estava com o violão pendurado no pescoço e tinha um banquinho onde estava sentado. –Quero pedir atenção de todos, para dedicar uma música... aos noivos.
Mas olhava para mim, não para os noivos.
- Isso é difícil porque sou tímido. –Algumas pessoas riram. –Mas eu vou tentar.
Então ele começou a tocar os acordes. Os mesmos acordes que eu ouvia ele tocando nos dias de chuva que ele ficava trancado no quarto. E então quando os primeiros versos saíram de sua boca eu soube: ele estava cantando para mim.

I want to write you a song
(Eu quero escrever uma música para você)
One as beautiful as you are sweet
(Uma tão bonita quanto você é doce)
With just a hint of pain for the feeling
(Com apenas um pouquinho de dor)
That I get when you are gone
(Que é o sentimento que tive quando você se foi)
I want to write you a song
(Eu quero escrever uma música para você)

cantava com paixão e raiva ao mesmo tempo, e me surpreendi com a dor em sua voz, que era tão linda como todo o resto. As palavras entraram no meu coração, lembrando que pouco tempo atrás eu tinha mesmo pensado que jamais ficaríamos juntos. Deixou-me sem chão pensar que esse garoto lindo estava tocando uma música para mim, composta por ele mesmo, na frente de oitenta pessoas.
Há três meses atrás eu não sabia, mas agora eu tinha plena certeza.

I want to build you a boat
(Eu quero construir um barco para você)
One as strong as you are free
(Um tão forte como você é livre)
So anytime you think that your heart is gonna sink
(Então quando você pensar que seu coração vai afundar)
You know it won't
(Saiba que ele não vai)
I want to build you a boat
(Eu quero construir um barco para você)

Estava apaixonada por . Apaixonada de verdade. E ele nem precisou me falar nada, eu consegui chegar a essa conclusão sozinha. Apaixonada pelo senso de humor, pelo amadurecimento, por fazer a coisa certa. Esse cara na minha frente era completamente diferente do que conheci no ano passado. Eu amava o novo , o maduro, que sabia o que queria. Vi uma lágrima escorrendo em sua bochecha só para perceber que também escorria na minha. Estávamos vidrados olhando um para o outro, nem ocorreu olhar para os nossos pais. Provavelmente eles sabiam disso.

I want to write you a song
(Eu quero escrever uma música para você)
One to make your heart remember me
(Uma que faça você se lembrar de mim)
So anytime I'm gone
(Então, sempre que eu me for)
You can listen to my voice and sing along
(Você poderá escutar minha voz e cantar junto)
I want to write you a song
(Eu quero escrever uma música para você)
I want to write you a song
(Eu quero escrever uma música para você)

Eu me lembraria, . Eu me lembraria para sempre. Quando as últimas notas saíram do violão, eu me levantei. E aplaudi bem alto. As outras pessoas começaram a aplaudir e levantar também, uma por uma. Um envergonhado agradeceu os aplausos, deixando o violão encostado e descendo do palanque. Minha mãe e Josh foram chamados para o centro do círculo e veio falar comigo.
-Você reconheceu. –Afirmou, orgulhoso.
Bebi um gole do copo d’agua que estava na mesa e me virei de frente para ele, o que era difícil de fazer naquela mesa redonda.
- Sim. E percebi uma coisa enquanto você cantava. –Confessei. –Não vai mudar nada, talvez até deixe tudo pior, mas queria falar mesmo assim.
Ele se endireitou na cadeira, desconfiado, também se servindo de um copo d’agua.
- Fale. –Pediu, depois de dar um longo gole.
- Eu amo você, . –Mesmo tendo só um pouquinho ele conseguiu se engasgar, o que me fez levantar rapidamente e bater em suas costas. Foi tudo com muita dignidade. (Com isso entenda que fiquei histérica e bati forte demais, ele gritou e todo mundo num raio de um metro olhou em nossa direção).
- Vamos sair daqui. –Disse, me puxando para dentro da casa com ele.
Não tinha ninguém lá porque todos estavam comendo no jardim, então era um lugar seguro por enquanto. se virou de frente para mim e me olhou nos olhos, encarando com um semblante sério.
- Não vai falar nada? –Perguntei depois de um minuto de silêncio.
- Tem razão. –Começou. –Você tem razão, deixou tudo pior. Porque agora ninguém pode me impedir de fazer isso.
me puxou para perto dele, me beijando delicadamente nos lábios. Me empurrou devagar até que estivesse encostada na parede da sala, onde ninguém nos veria se olhasse pela janela. Os beijos começaram devagar, mas ficaram urgentes e desesperados depois. Consegui sentir uma lágrima salgada no meio do beijo, e percebi que era minha. Tudo ia ficar bem. O casamento tinha acontecido e eu tinha conseguido me acertar com , o que eu queria desde o começo. Todas as minhas lembranças com passavam pela minha cabeça ao mesmo tempo que a gente se beijava insistentemente. Eu sabia o porquê.
Era um beijo de despedida. Nunca mais iríamos ter outra oportunidade. Eu estava indo para Nova York, longe demais da ensolarada Califórnia, o estado que nunca achei que fosse me sentir em casa. Longe demais da casa enorme, do meu exagerado quarto rosa, dos irmãos , de , de tudo que um dia eu havia desprezado. Talvez se fosse mais maduro e soubesse lidar com seus problemas ele não teria me repelido tanto no começo e isso teria nos dado a chance de ter um romance escondido por muito mais tempo. Sentia que perdemos muito tempo nos afastando e agora era tarde demais para fazer qualquer coisa a não ser nos beijarmos para compensar toda saudade que ele me causaria no futuro.
Nos afastamos o suficiente para que eu pudesse notar que ele também estava chorando. O beijo se transformou em um abraço apertado, a música que ele fez para mim gritando na minha cabeça.
- Sempre seremos parte um do outro, . Não do jeito que queremos, mas sempre estaremos juntos.
limpou a lágrima solitária que escorria pela minha bochecha.
- Eu sei disso.
Ele me abraçou de novo e como era alguns centímetros mais alto que eu, apoiei minha cabeça em seu peito.
Conhecer de muitas maneiras foi como conhecer a mim mesma. Foi como percebi que era mimada, superficial e fútil. mudou muito, mas ele também fez de mim uma pessoa melhor. Quando olhava para mim mesma há um ano atrás, sentia um certo orgulho por reconhecer tão depressa a pessoa que estava me tornando. Daqui há duas semanas eu estaria instalada no meu novo apartamento no campus, longe de toda minha família, e de . Uma nova etapa da minha vida iria começar e eu estava pronta.
Enquanto nos abraçávamos sem falar nada e os versos da música que ele cantou ecoavam na minha mente, soube que iríamos superar isso. Pelo mesmo motivo que tudo começou: a proposta que ele me fez para cancelar o casamento e depois para consertá-lo. Se conseguimos fazer isso, conseguiríamos lidar com qualquer coisa.

“Então quando você pensar que seu coração vai afundar, saiba que não vai”


Fim.



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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