Última atualização: 27/02/2017

Capítulo 1

2014
10 de março de 2014/ 07AM. - Apartamento da e do .

Point Of View

As lembranças são amargas e dolorosas. Podem passar dias, meses ou até mesmo anos, porém eu nunca vou me esquecer de você. Não há um só dia que eu não me lembre do que aconteceu, que eu não me arrependa, eu juro que sim. Uma das coisas que eu mais desejo, é o seu perdão, porque só de pensar na possibilidade que você me odeia, eu sofro.

- Já acordada, ?
- Sim, .
- Um milagre está acontecendo. - , meu melhor amigo, disse se fazendo de debochado.
- Que milagre, idiota? - Questionei fechando meu diário e o deixando de lado.
- Você acordar sem ninguém precisar sumir com um dos seus Manolo. - Disse e se jogou ao meu lado no sofá.
- Já disse que com os meus Manolo não se brinca. - Falei lhe taquei uma almofada.
- Realmente, brinca com tudo, menos o Manolo. - Sam disse chegando na sala também.
- E quem foi que te chamou aqui? - perguntou tentando se fazer de grosseiro e Sam fez uma careta.
- Bom dia, amores, menos você, . - , meu irmão, disse chegando na sala também enquanto abraçava Sam.
- Amor, o está me tratando mal - Sam disse virando para o meu irmão e fazendo cara triste.
- Sete horas da manhã e essa overdose de melação, vou morrer com isso. - Disse me levantando. - Vou até me ajeitar logo pra universidade.

Fui passar por e o mesmo soltou Sam e num ato rápido, me abraçou me tirando do chão, me fazendo dar um gritinho, rindo em seguida.

- Não fica com ciúmes, não, minha irmã linda - disse me abraçando e me dando beijos na bochecha.
- Vai lá com a Samantha, vai - disse tentando controlar o riso.
- E como é que eu faço pra viver sem você? - Perguntou dramático.
- SE VIRA, IRMÃOZINHO - gritei enquanto batia no seu braço e ele me soltou rindo.

[...]

10 de março de 2014/ 08:45 AM - Universidade de Juilliard

Depois do ter deixado eu e Sam na universidade, ele e seguiram para o escritório. Entramos e a aula de telejornalismo começou, depois mais duas outras aulas até que o tempo vago chegasse.

- , vamos até a lanchonete, preciso comer alguma coisa - Sam disse.
- Vamos, eu preciso também. – Disse.

Saí com Samantha e seguimos em direção ao prédio B, onde a lanchonete era melhor que a do prédio em que estudávamos...

- Olha a louca voltou. - Escutei um cara sussurrar.
- Ela? A Di Ângelo louca? - Questionou uma garota sussurrando.
- EI, VOCÊS DOIS, NÃO TEM MAIS O QUE FAZER, NÃO? - Samantha gritou chamando atenção dos dois.
- Samantha Lewis, deixa eles, nós somos indiferentes a eles.
- Olha, além de louca é arrogante, Di Ângelo - O garoto disse.
- E você é só mais um qualquer que me venera. - Disse e fiz questão de chegar mais perto deles - E vejo que vocês sabem bem sobre nós, sabe até mesmo coisas que não são verdade, agora, vocês, para nós e os outros, não são ninguém.

Puxei Samantha e dei as costas aos dois idiotas que ficaram murmurando, minha amiga desviou para uma parte afastada do pátio.

- Você tá bem?
- Estou, Sammy, vamos. - Disse e ela continuou me encarando. - Na verdade, estou com dor de cabeça, vou embora.
- Vai, e descansa - disse preocupada. - Eu vou almoçar com o , mas vou tentar chegar rápido

Dei à volta refazendo meu caminho de volta ao prédio C, indo para sala buscar as minhas coisas.
Saí dali e logo avistei um táxi, entrando no mesmo, descobri com que minha querida tia Vivian não estaria no hospital e resolvi ir até ela.
Em poucos minutos o táxi parava em frente ao enorme prédio com cobertura luxuosa.

- Olá, tia Vivian. - Disse assim que abri sua porta e a encontrei, sentada em seu enorme sofá cheia de folhas espalhadas.
- Olá, minha querida. - Disse e se levantou para me abraçar. - Então quer dizer que estamos de volta à Nova York e você só veio me ver hoje? Quando voltou? - Questionou brincalhona
- Cheguei cansada de viagem e precisei me adaptar a casa nova com o meu irmão e a Sam. – Expliquei. - Faz uma semana que voltei...
- A senhorita não estaria fugindo de mim, certo? - Perguntou segurando minhas mãos e me puxando para sentar junto no sofá.
- Não, tia, não estou. Mas a senhora não está chateada?
- Já se passou um ano...
- Não! - Falei um pouco alto a cortando e minha tia me olhou nos olhos um pouco surpresa pela minha reação. - Não estou falando disso. Estou falando se ficou chateada por eu não ter vindo antes. - Falei e soltei o ar que eu nem percebi que tinha prendido, relaxando meus ombros e ela apertou mais minhas mãos contra as suas.
- Não, eu não fiquei chateada. Sei que a sua pergunta também tem um pouco haver com tudo aquilo que aconteceu, mas você precisa entender que tudo isso ficou lá em 2013. E que o...
- Vivian - falei me soltando dela. - Tia Vivian, desculpe... Eu realmente não quero falar sobre isso. Até porque não tem o que falar nada, é verdade - disse e tentei esboçar o meu melhor sorriso.
- Mas não é o que parece.
- Mais é a verdade, eu juro. Como você disse, já passou, acabou, não vamos mais falar disso. - Pedi e ela pareceu aceitar já que veio andando até mim e me abraçou.
- Vou ver algo para nós almoçarmos, vem comigo? - Perguntou e eu assenti dizendo que "sim" e a seguindo para a cozinha.

Fui caminhando até a cozinha com minha tia na frente e reparando que aquele apartamento não havia mudado tanto desde a última vez em que estive aqui, pois, os quadros ainda estavam devidamente em seu lugar, assim como as estantes de livros e aquele espelho... Àquele enorme espelho que eu não pude evitar me olhar.

- FlashBack ON -

- Ainda olhando essas marcas? - perguntou e eu me assustei abaixando as mangas.
- Não, na verdade estava olhando minha roupa. - Disse tentando disfarçar.
- Não, você estava vendo essas marcas, já faz uma semana, foi super difícil te tirar daquele quarto, sei que se eu pudesse, transferia tudo o que você está sentindo, pensando e todas essas marcas para mim. Mas eu não posso. - disse e chegou mais perto para segurar minhas mãos, porém eu me afastei. - Você é minha irmã, . Minha única irmã, minha família, não posso ver você se deixando levar e ficar parado, me sinto inútil. - Disse me dando um sorriso triste e eu funguei passando as mangas do moletom pelo meu rosto secando as lágrimas.

Ver meu irmão me olhando com aquele olhar perdido, triste, me matava, na verdade ultimamente tudo estava me matando. Então eu não resistir e me joguei em cima dele, o abraçando.

- Não posso perder você, , não posso.
- V... vo... cê nãã...o vai. - Disse gaguejando tentando controlar as malditas lágrimas.

- Flashback Off -

- Querida? - Tia vivian me chamou aparecendo no corredor e chamando minha atenção. - Alguma coisa com o seu braço?
- Não! - Falei alto. - Está tudo bem. - Disse e caminhei até ela.

[...]

- Quem era? - Perguntei quando Vivian apareceu na sala depois de um telefonema do hospital enquanto víamos um filme juntas.
- Era da diretoria. Parece que a menina que iria cobrir todas as matérias do Hospital Memorial Di Ângelo, que vai se tornar escola para internos, ela recebeu uma proposta melhor e foi embora, precisamos urgente de uma outra pessoa. - Disse e se sentou jogada no sofá mostrando estar exausta. - Tem você...
- E...e...eu? - Gaguejei até que conseguir falar.
- Sim, você cursa Jornalismo e está no segundo ano, seria um estágio, são apenas por seis meses, minha sobrinha. - Disse tentando me convencer.
- Eu não sei, tia.
- Você só precisa ficar pelo menos duas horas no hospital e fazer uma matéria todos os dias para o blog sobre o Hospital.
- Eu vou pensar. - Disse e titia me abraçou. - Preciso ir agora.

Me despedi dela, e saí logo para ir embora antes que ficasse mais tarde, resolvi ir até uma cafeteria que tinha ali perto, comprei um frappucino e logo depois peguei um táxi para casa, precisava muito pensar sobre a proposta que recebi.
Cheguei em casa e ainda não tinha ninguém, então tomei um banho e resolvi ir assistir alguma série na sala.

- Cheguei - disse entrando.
- Vai morar aqui agora, é?
- Eu vou ficar aqui até meu apartamento ser liberado, intrometida. - disse e eu tive que rir.
- Que bom que chegou, , meu maninho, não queria ficar sozinha. - Disse e se jogou ao meu lado no sofá.
- Cadê o e a Sam?
- Devem estar em algum lugar que eu não quero saber, o grude deles está me matando. – Falei.
- Vamos lá, solte mais seu ciúmes. – Disse.
- E você pode soltar seu lado gay - falei rindo e o mesmo me tacou uma almofada. - Preciso falar com você!
- Fale, é algo sério? - Perguntou ficando com a sua postura ereta.
- Tia Vivian me chamou hoje para ser jornalista do Hospital por seis meses. - Disse e mordi os lábios mostrando meu nervosismo.
- E você? Aceitou?
- Ainda não. - Disse.
- Ainda não? Você tá ficando maluca, Di Ângelo? - falou em um tom grosso e um pouco alto.
- Isso eu sempre fui, e eu não sei por que você está falando alto. Eu não disse que aceitei, disse que ia pensar. - Falei brava.
- Mas eu estou preocupado! - Disse firme - Ou você não se lembra do que...
- , PARA - Gritei e ele me olhou surpreso. - Não quero brigar com você, eu precisava falar com alguém e precisava ser um de vocês três. Eu já disse que passou e acabou, não temos que tocar naquele assunto, vou ser uma jornalista, preciso de experiências.
- Eu só não quero ver você mal, eu não quero mesmo. - Disse e veio me abraçar. - Como não vou tirar isso da sua cabeça, pensa com jeitinho. - Disse e beijou o topo da minha cabeça.
- Não vai mesmo. - Disse e sorri.

[...]

17 de março de 2014/ 10:00AM - Hospital Memorial Di Ângelo

Uma semana foi o prazo em que eu pedi à Vivian para pensar sobre a proposta, resolvi não falar nada com e Sam, para que eles não ficassem preocupados assim como ficou. E então, por fim, meu prazo acabou e eu precisava dar a minha resposta.
Estava há uns vinte minutos parada em frente ao hospital depois de ter descido do táxi e encarava aquele hospital que tinha crescido mais nos último ano. Respirei e inspirei umas três vezes até que comecei a andar, tentando me manter confiante para dentro daquele local.
Segui até a sala de Tia Vivian que me esperava sozinha, já que eu pedi para que tratássemos só nos duas.

- Bom dia, minha querida. - Disse assim que abri a porta.
- Bom dia, Tia. - Disse e lhe dei um sorriso singelo.
- E então, vamos ao que interessa? - Disse e se sentou. - Qual é a sua resposta?

Respirei e inspirei... 1, 2, 3.

- Eu aceito.



Capítulo 2

Point Of View
17 de março de 2014 / 09AM - Hospital Memorial Di Ângelo, Nova York.

Caminho pelos corredores daquele hospital que me traz tantas lembranças, andava em direção aos degraus que me levariam ao estacionamento. Assim que passo pela porta de saída e respiro aquele ar puro, começo a pensar em minhas decisões, não acho que tenha feito errado, eu adoro meu curso da faculdade e essa é minha chance de deixar meu blog famoso, o hospital escola, mesmo não tendo me feito bem no passado, é uma grande oportunidade de ganhar experiências para quando me formar.
Começo a andar por aqueles longos corredores, logo encontrando meu Audi a3 branco e entrando nele.

[...]

17 de março de 2014 - Apartamento dos Di Ângelo, Nova York.

Chego à rua em que o prédio onde moro se localiza, ando até o elevador esperando chegar ao meu andar, logo desço do mesmo procurando minhas chaves e abrindo a porta de meu apartamento e assim que o entro, escuto barulhos de passos soando pelo chão de madeira. aparece na sala com seus cabelos bagunçados e roupas confortáveis.

- Bom dia, não foi pro escritório hoje? Tenho certeza que não era pra você estar em casa nesse horário.
- Nossa, , está me expulsando da minha própria casa? - Pergunta colocando as mãos em direção ao seu coração como se estivesse sentindo dor e fazendo uma expressão de quem está indignado e magoado. - E respondendo sua pergunta, não, não havia nada de importante para hoje, então passei os poucos horários que tinham para amanhã com a intenção de ficar com minha amada irmãzinha, pensei de vermos algum filme e comer besteiras, mas pelo jeito você não queria que seu irmão tirasse um tempo fora do trabalho. - Diz fazendo um bico enorme, ou melhor dizendo, uma trompa de elefante nos lábios
- Oh, , não é que eu não queira passar um tempo com você, só não estou acostumada a te ver deixando algo importante pra depois. - Olho para seus lábios e não consigo me segurar. - E pode parar com isso, olha seu tamanho, já é um marmanjo e fazendo bico igual uma criança de cinco anos. - Debocho.
- Vou deixar isso passar, só vou ignorar. A Samantha já vai chegar, liguei pra ela para avisar, ela pareceu bem animada, às vezes me sinto sobrando entre vocês duas. - Solto uma risada soprada, nós podemos já iniciar o filme e fazer pipoca. - parecia animado para passar um tempo em família. - Você saiu sem dizer aonde ia, poderia me contar?

Eu precisava contar, se alguém fizesse antes, ele iria ficar possesso.

- Eu estava no hospital, conversando com a tia Vivian e ela me fez uma proposta ótima. Ela havia contratado uma moça para publicar sobre o hospital escola, no final acabou que a garota achou algo melhor e ela ficou na mão, quando cheguei lá, ela me propôs de eu publicar em meu blog sobre o hospital, assim além de ganhar mais seguidores e adquirir experiências, eu ainda estaria lhe ajudando. - Lhe encaro e, como eu já imaginava, ele não parecia nada contente com a notícia.
- Eu não acredito que você aceitou isso! Você melhor que ninguém sabe o que aconteceu lá, você viveu aquilo na pele, foi desgastante e agora isso vai retornar com tudo, você não vai ganhar experiências, vai é se acabar se começar a frequentar aquele lugar, tudo que aquele Infeliz fez pra você vai retornar na sua mente!
- EU JÁ SUPEREI ISSO HÁ MUITO TEMPO, ! - Grito e acaba se assustando, dando um leve pulo pra trás e quase se desequilibrando e caindo.
- Superou tanto que até está gritando comigo, você sabe, , os profissionais já te disseram que foi um grande trauma que abalou seu psicológico de certo modo. - Ele diz tranquilo, parecendo se controlar para conseguir me convencer.
- Eu estou muito bem, eu já falei que já superei àquilo, para com isso de me tratar como se fosse quebrar! Até parece que não acredita em mim!
- Tudo bem então, , vai lá, depois que você quebrar a cara, eu vou estar aqui, isso porque eu sempre vou estar aqui por você, sou seu irmão e te amo!
- Para de ser assim! Eu não vou quebrar a cara, já superei àquilo que aconteceu e agora trabalhando lá vou conseguir resgatar meu blog que está começando a ficar sem assuntos, não tinha como eu estar melhor, acredite.

A porta da sala é aberta e logo uma Samantha animada passa por lá, mas assim que se vira para nós, faz uma expressão estranha com o cenho franzido.

- Acho que as coisas não estão muito bem por aqui, vamos, podem botar pra fora.
- A vai... - corro e tampo a boca do , conheço ele, os dois iriam se juntar para tentar fazer eu mudar minha opinião.
- Nada não, Sam, depois eu te conto, agora vamos assistir logo esse filme, já digo que vocês vão ser responsáveis por fazer a pipoca. - Tento disfarçar, sendo fuzilada pelos olhos de meu irmão que começa a andar em direção à cozinha. - E nada de agarração !

[...]

Point Of View
17 de março de 2014 / 09AM - Casa do , Nova York

Acordo com o som alarmante do meu relógio, abro meus olhos e encaro o teto branco de meu quarto com a visão embaçada, espero me acostumar e com muito custo me levanto da cama, andando em direção ao banheiro, afinal, não posso me dar ao luxo de faltar ao trabalho por pura preguiça.
Assim que termino meu banho e minhas higiene matinais, passo pela sala pegando minhas chaves e meu sobretudo, já que estava um tempo gelado.
Saio de meu apartamento e tranco a porta, vou em direção ao elevador esperando chegar até o estacionamento.
Entro em meu carro em rumo ao hospital.

[...]

Assim que chego à recepção, reparo que a moça que foi contratada recentemente parecia agitada.

- Bom dia, senhorita Montgomery.
- Bom dia, senhor , como vai?
- Eu estou bem, já você parece meio desesperada.
- O senhor conhece Wendy, ela gosta de tudo perfeito e mesmo sabendo que eu sou nova, me cobra muito.
- Eu sei que você vai dar conta, agora eu tenho que subir, a próxima paciente chega daqui uns dez minutos. - Comento e dou um sorriso a ela, logo começando a andar até meu escritório.

[...]

Escuto batidas na porta e logo uma paciente minha entra na sala, ela se chamava Emily e tinha 9 aninhos, era muito quieta e os pais começaram a se preocupar por isso, possui dificuldades para fazer amizades por ser muito retraída, ela começou as consultas faz em torno de duas semanas e sinto que ela ainda não tem confiança em mim para se abrir.

- Oi. - Ela diz bem baixinho, se tivesse algum barulho eu já não conseguiria ouvi-la.
- Olá, pode se sentar. - Lhe dou um sorriso. – Bom, Emily, eu pensei bastante e acho que podemos jogar alguns jogos. - Assim eu imaginava que conseguiria ir ganhando ela, já que em todas as outras consultas ela só respondia o que eu perguntava e nunca falava por espontânea vontade. - Você gosta de algum em especial?
- Eu gosto bastante de imagem e ação. - Ela responde, ainda falando bem baixo.
- Então vamos jogar imagem e ação. - Sorrio e levanto para buscar o jogo no armário. - Eu vou sair para pegar o jogo e já volto, certo?
- Certo.

Antes mesmo de eu abrir a porta, escuto batidas na mesma, como já estava para sair, só abro e encontro Montgomery.

- Aconteceu alguma coisa? – Pergunto
- Nada demais, só que a paciente das 15:40 desmarcou o horário.
- Tudo bem, obrigado por me avisar.

Ela logo sai e eu vou ate o armário pegar o jogo e volto pra sala.
Olho meu relógio entediado e vejo que faltam cinco minutos pro meu horário de almoço, como não tem nenhum paciente pra agora, decido sair um pouco mais cedo.
Saio do hospital e atravesso a rua, chegando aonde eu sempre almoço com Emma por ser perto de ambos nossos trabalhos. Ela já estava lá, estava sentada em uma mesa afastada, caminho até ela.

- Boa tarde. - Falo sorrindo e ela logo se levanta e me abraça, em seguida deixando um selar em meu lábios.
- Boa tarde, amor.

Nos sentamos e fazemos nossos pedidos quando algum garçom vem perguntar.

- Como foi no trabalho hoje? - Pergunto e começo a comer.
- Ah, foi normal, brigas por guardas de crianças, pais chorando quando conseguem, se eu não gostasse tanto desse ramo na advocacia eu largaria, me dá uma dor no coração quando vejo a felicidade das crianças em poderem viver com ambos os pais mesmo não sendo juntos.
- Eu imagino como deve ser, crianças são frágeis e ver as duas pessoas que mais ama brigando por sua guarda deve ser horrível. - Comento pensando sobre isso.
- Sim, mas me conte sobre como foi seu dia hoje.
- Ah, Emma, igual o seu foi, normal, só adotei uma nova técnica para tentar ganhar a confiança de Emily, lembra daquela criança que é retraída? - Vejo Emma balançar sua cabeça em um ‘sim’. - Então, eu pensei em jogar jogos com ela e quando sentir que estou ganhando confiança, começar a fazer perguntar e tentar descobrir o porquê desse jeito retraído. Queriam que eu a colocasse em um grupo com mais crianças pra ela se enturmar, mas eu não acredito que isso vá ajudar, só acho que vai piorar sua timidez.
- Bom, se você acha que vai conseguir ajudá-la assim, vai em frente, eu sei que você é ótimo no que faz. - Ela diz sorrindo

Passamos o resto do horário de almoço conversando e depois eu comecei a andar em direção ao hospital.

[...]

17 de março de 2014 / 14PM - Hospital Memorial Di Ângelo, Nova York

Assim que entrei, fui até o bebedouro saciar minha sede, passei por uma moça ruiva que parecia apressada saindo da sala De Vivian - dona do hospital - e lhe desejei "Boa tarde", mas ao contrário do que pensei, ela não respondeu, só me encarou e fez uma expressão de pânico, ela ficou pálida como se estivesse vendo um fantasma e começou a correr murmurando coisas sem sentido.
Eu corri atrás dela, a garota podia estar tendo uma crise de pânico e mesmo sem a conhecer não teria coragem de ignorar isso. Quando ela parou de correr e virou de frente pra mim começou a gritar:

- Não se aproxime de mim! - Desobedecendo ela, comecei a me aproximar. - Sai de perto de mim!
- Moça, precisa se acalmar, vai acabar passando mal assim. - Dou um sorriso tentando lhe acalmar, o que parece ter dado errado, já que a expressão dela parecia ainda mais aterrorizada.

Naquele momento, já estava formado um círculo com pessoas em volta de nós sem entender nada e provavelmente me culpando por algo que nem eu entendi.
Quando fui me aproximar mais dela, ela começou a ficar mole e tentar correr, acabou que tropeçou e quando ela iria cair, eu segurei seu corpo, percebendo que ela estava com a respiração bem mais tranquila que antes, o que era bem estranho.
Olhei para seu rosto e percebi que ela havia desmaiado.



Capítulo 3

Point Of View
17 de março de 2017 / 10AM - Hospital Memorial Di Ângelo, Nova York

- Eu preciso de um quarto vazio, urgente. - Grito segurando a moça melhor em meus braços e andando com ela pelo pequeno circulo de pessoas que se formou ali. - RÁPIDO, EU PRECISO DE UM QUARTO. - Grito um pouco mais alto.
- Aqui, Dr. - uma enfermeira diz alto abrindo uma porta e eu corro com ela até lá.

Entro no quarto e coloco a moça ruiva sobre a cama, percebendo que ela ainda está desacordada.

- Vá chamar um médico, agora, precisamos saber quem é ela - digo ainda a olhando e segurando sua mão para ver se achava algum pulso.
- Ela tem um crachá - a enfermeira diz e só então eu me atento.

Di Ângelo

Leio alto e logo eu e a enfermeira nos damos conta que a moça é da família dos donos do hospital.

- Chame um médico e traga Vivian até aqui – digo, e ela saí rapidamente.

Poucos minutos depois Vivian entra correndo no quarto.

- O que houve com a minha sobrinha? - Pergunta aflita.
- Sobrinha ? – Questiono.
- Sim, irmã de Do Ângelo, seu amigo - responde verificando o pulso da sobrinha assim como eu fiz minutos atrás.
- Bom, eu não sei exatamente. Estava passando por ela, que estava perto do bebedouro, e de repente ela olhou para mim e começou a dizer coisas sem sentidos, e repetir: "De novo, não" e "Não faz isso comigo". - expliquei e estranhei quando Vivian ficou com sua postura ereta, me encarando um pouco assustada. - Como sou psicólogo, consigo ver quando é um ataque de pânico de longe, mas ela estava desesperada e se afastando, tentei me aproximar e ela simplesmente caiu.
- Então ela olhou para você do nada e começou a surtar? – Perguntou.
- Sim, exatamente assim – disse.
- Eu não sabia que ela estava assim, ela parecia tão bem - Vivian falava para si mesmo e foi impossível não ter escutado.
- O que disse? - Perguntei em um momento de curiosidade.
- Nada, eu preciso ir e falar com , ele é superprotetor e desde que a irmã voltou, ele está mais ainda - disse e saiu da sala apressada e pude perceber que a mesma estava nervosa. - Você pode ir - disse me encarando.
- Não, eu prefiro ficar, já pedi para adiar um paciente - disse e Vivian ficou um pouco sem saber o que fazer, mas por fim, concordou e saiu.

O médico de plantão entrou logo após Vivian sair e começou a examinar , e eu resolvi mandar uma mensagem para .

"Fala, Brother, estou aqui com sua irmã, sim, eu acabei de conhecê-la. Ela teve um estresse e acabou desmaiando, está em observação aqui" Xx

"Estou indo para aí, agora" Xx

Retornei ao quarto de quando o médico saiu me passando algumas instruções e um relatório, que eu disse que passaria tudo para . Resolvi ficar no quarto até que a mesma acordasse ou chegasse.
A mulher começou a se remexer na cama e eu levantei chegando até perto dela, e quando a mesma abriu os olhos, por fim me encarando, vi seus olhos se abrirem mais e se escurecerem na mesma hora em que ela levantou gritando e me fazendo ir para trás assustado.

- NÃO FAZ ISSO DE NOVO, NÃO ME MACHUCA DE NOVO - gritou desesperada se encolhendo na cama abraçando os joelhos enquanto chorava.

Olhei para ela assustado e percebi que estava me confundido com uma outra pessoa, então cheguei mais perto para acalmá-la.
- POR FAVOR, DE NOVO NÃO – gritou.
- , calma, eu não vou fazer nada. - disse chegando perto da cama.
- NÃO CHEGA PER...
- , PARA - gritei um pouco mais alto e ela se encolheu na cama enquanto abraçava aos joelhos, e seu choro saía mais baixo, porém ainda sufocante.
- Desculpa, por favor, me desculpa, eu juro que não vou gritar - ela dizia baixinho e sua voz saía abafada por ela esconder a cabeça entre os joelhos enquanto tentava controlar o choro.
- Não tem porque se desculpar - disse sentando na cama e ela tentou se afastar mais. - Eu não vou fazer mal à você, seja lá quem for que fez algo contra você, essa pessoa não está aqui, não sou eu. – Disse.

Esperei que ela esboçasse alguma reação, mas a mesma continuava com a cabeça entre os joelhos chorando baixo enquanto ela sussurrava algo como: "por favor".

- Bom, vou provar que não sou essa pessoa. Sou , tenho 24 anos, sou amigo do seu irmão, , nos conhecemos quando eu voltei para Nova York e estava em busca de emprego e ele me indicou o hospital de sua tia, ele comentou sobre você algumas vezes e disse que estava fora da cidade. - Disse mantendo minha voz calma e tentando passar o máximo de paz possível para ela. E isso até que funcionou, levantou a cabeça, mas ainda não me encarava. - Não sou essa pessoa que você está pensando, olhe pra mim e verá. - Disse.

levantou sua cabeça e pela primeira vez, olhou nos meus olhos. Eu não pude deixar de perceber que seus olhos castanhos estavam vermelhos e amedrontados, mas agora ela parecia estar se acalmando. Seu rímel tinha escorrido pelos seus olhos, deixando uma marca preta até sua bochecha.

- Viu? Eu não sou quem você pensava. - Disse e lhe dei um pequeno sorriso.

Point Of View
17 de março de 2014 - Hospital Memorial Di Ângelo, Nova York

Minha cabeça doía, eu sentia que ela iria explodir, não lembrava exatamente o que aconteceu, apenas que me virei para cumprimentar o médico que falou comigo e o vi. Eu entrei em desespero, estava em um corredor sem saída, não teria como fugir dele, e aí não lembro mais nada.
Logo depois, percebi que não se tratava dele, e sim de , que eu descobri ser amigo do meu irmão, aquele homem alto, moreno de cabelos escuros, me lembrava tanto ele... Que me assustou e ao mesmo tempo me trouxe uma calma arrebatadora.
Senti meu corpo em paz quando levantei a cabeça encarando os seus olhos castanhos. Eu o olhava e sentia confiança, ele estava dizendo a verdade quando disse que não é ele. Senti meu coração desacelerar, o desespero desaparecer e eu me senti em paz.

- Nã... Não é mesmo - disse baixinho tentando regular minha voz.
- Não sou - afirmou sorrindo. - Quer água? Você teve uma crise de stress muito forte, o médico receitou um calmante e repouso. Sua tia esteve aqui, porém, precisou ir e está chegando.
- Quero sim - disse ainda um pouco intimidada, me ajeitando na cama, e o mesmo levantou saindo do quarto.

O mesmo voltou cinco minutos depois, com um copo de água em mãos e logo me entregou, voltando a se sentar na beirada da cama.

- ! - gritou entrando no quarto e eu soltei o copo na mesinha que tinha ao lado.
- - gritei de volta o abraçando quando o mesmo se jogou na cama.
- Você me deu um susto, não faça mais isso - disse me apertando. - Samantha está indo para casa com , ela ficou bastante preocupada.
- Ela está bem, Brother - disse fazendo olhar para ele. - Apenas um grande estresse. Aqui está a receita. - Disse e entregou ao meu irmão. – Agora, eu preciso ir, tenho duas pacientes, me esperando. Melhoras, - disse e saiu.

me abraçou novamente após ler a receita e eu sentia que ele também estava assustado.

- O que aconteceu para isso?
- O .
- O que tem ele?
- Ele me lembrou o... - disse e dei uma pausa - Jhonny - disse baixo e com a voz trêmula.

me olhou surpreso. Depois de dois anos, essa era a primeira vez que eu dizia seu nome em voz alta. Meu irmão continuou me olhando até que segurou minhas mãos e eu soltei o ar que estava prendendo.

- Eu nunca reparei, mas o acaba lembrando ele um pouco mesmo, acho que é o jeito físico, eu não se..
- Não quero falar disso, tá bom? Do que ele lembra, só quero sair daqui, ir pra casa abraçar a Sam e o - disse enquanto olhava para quase que suplicando.
- Tudo bem, anjo. Vou ver se você já está de alta - disse e ia saindo quando eu segurei a sua mão.
- Chama pelo telefone, não quero ficar sozinha - disse e me encolhi. voltou a se sentar na cama, me abraçando de lado enquanto pegava o telefone.

[...]

Pouco mais de meia hora depois, eu fui liberada por estar com pulsação e pressão normal, eu e fomos até a farmácia comprar o remédio que foi receitado, e logo depois seguimos para o nosso apartamento.
Chegamos lá, eu subi até o quinto andar com em meu alcanço e assim que abri a porta, fui recebida por uma Samantha desesperada se jogando em cima de mim e me abraçando.

- , que susto que você me deu, tá tudo bem? - perguntou enquanto me abraçava.
- Sim, Sam, eu estou bem - disse retribuindo o abraço.
- Assim você vai matá-la. - disse. - Como está, pequena Di Ângelo? - Perguntou me abraçando.
- Agora que estou aqui com vocês, estou melhor ainda. - Disse e os três me abraçaram.
- AI - gritei quando Sam, depois de parar de me abraçar, me bateu.
- Não me assusta assim de novo, por favor - disse chorosa. - Já passei por isso há um ano e foi horrível. Não faz isso comigo, pensar na possibilidade de perder minha amiga é horrível - falou e foi difícil para eu entender a última parte, porque Sam começou a chorar descontroladamente.
- Já passou, Sam - falei baixo também chorando.
- Já passou, meninas - disse e sentou abraçando nós duas.
- O que aconteceu exatamente ? - Sam questionou.
- Eu estava no hospital e até então estava tudo bem, aí eu fui beber água e um homem alto e moreno passou por mim - disse fechando os olhos, me lembrando. - Ele me cumprimentou e então quando eu olhei, eu surtei, achei que fosse ele, Samantha. - Falei dando uma pausa. - Achei que fosse o Jhonny e me desesperei...

Samantha, assim como , ficaram surpresos por eu dizer o nome de Jhonny do mesmo jeito que ficou. Continuei contando para eles tudo que tinha acontecido até a hora em que chegou lá e foi embora.

- E foi isso que aconteceu, o médico receitou alguns calmantes e só – disse.
- Que bom que está tudo bem, agora - Sam disse.
- Que tal para esquecermos isso e assistirmos uma série? - sugeriu querendo fugir de todo aquele assunto que deixava um clima tão pesado.
- Acho ótimo - Eu e Sam concordamos.
- Vou fazer pipoca - disse e se levantou indo para a cozinha.

foi fazer pipoca para nós, voltando pouco tempo depois com doces, pipoca e sucos.



Capítulo 4

Point Of View
19 de março de 2014 / 06:55 AM - Apto dos Di Ângelo, Nova York.

Eu estava acordada fazia mais de vinte minutos e continuava deitada na cama, não estava com vontade nenhuma de ir para universidade e eu precisava contar à Samantha sobre minha decisão. Levantei calçando meu chinelo rosa bebê. Estava me preparando para sair do quarto quando escutei a voz de , e Sam.

- Bom, já que o meu apartamento está todo reformado e eu vou dividir o aluguel com o , eu volto para lá hoje - escutei dizer.
- É melhor mesmo, se não meu irmãozinho se acampa lá primeiro que você e eu também. - Samantha disse eu aposto que ela mandou beijinho no ar para só para irritá-lo.
- Você mora aqui - disse.
- É, mas o certo é eu morar com o meu irmão e preciso ter um lugar para fugir, e esse lugar é o apartamento do . - Disse e riu. - Cadê a ?
- Eu não sei, deve está se ajeitando, , vamos, o escritório tá foda esses dias. - resmungou.
- É, vamos - disse e eu escutei a porta bater.

Abrir a porta e segui indo em direção à cozinha onde provavelmente Samantha estava.

- Ainda não tá pronta, ? Temos aula às sete e meia, hoje - reclamou.
- Eu não vou – disse. - E nem precisa falar que eu já faltei dois dias, estou fazendo matérias online - disse e ela me olhou torto e eu forcei um sorriso.
- Quer me falar alguma coisa? - Perguntou enquanto comia um pedaço de bolo de laranja.
- Tá tão na cara assim?
- Eerrr... Sim - disse e riu.
- Não vou mais fazer o estágio no Hospital - disse e logo quis me ocupar com o pano de prato.
- QUÊ? – gritou.
- Eu já disse que eu odeio você? Por que toda vez que eu te conto algo sério você grita? - falei e fechei a cara, tacando o pano de prato na cara dela.
- Ah, engraçada, você me ama. Mas eu não entendo, . - disse e soltou um longo suspiro. - Você brigou com o , comigo, com o , dizendo que iria continuar e agora simplesmente não vai mais?
- Eu acabei percebendo que essa não é a minha praia, quero ser uma jornalista esportiva, narrar jogos, conseguir entrevistas com aqueles jogadores gatos, passes livres, e é isso. - Disse e a encarei.
- Tem certeza? Não é por ele? - Questionou e eu desviei o olhar quando a mesma me encarou.
- Não, não é por ele. Eu só não quero continuar, aquele hospital já é da minha família, não quero estagiar lá – disse.
- E o que você vai fazer? Deixar sua tia na mão? - questionou.
- Eu vou indicar você – disse, ela me encarou boquiaberta. - Se você quiser, é claro.
- É claro que eu quero, não estava achando nenhum estágio mesmo.
- Acabou de achar, não vou para à universidade, é melhor você ir.

Sam concordou, passou por mim se despedindo e pedindo para que eu pensasse um pouco e logo depois saiu.

[Coloque Sign Of Times para tocar, agora ]
Levantei e resolvi ligar a banheira e usar meus sais para relaxar. Peguei meu celular e coloquei Sign Of Times para tocar. A água já estava morna, já tinha colocado os sais e algumas pétalas, e me permitir afundar na água e fechar os olhos para poder relaxar e prestar atenção na letra daquela música que eu nunca tinha parado pra escutar realmente.

Just stop your crying (Apenas pare de chorar)
It's a sign of the times (É um sinal dos tempos)
Welcome to the final show (Bem-vindo ao show final)
Hope you're wearing your best clothes (Espero que você esteja vestindo suas melhores roupas)

O hospital era da minha família, eu gostava bastante dele, afinal, ele seria uma herança minha e do um dia, era a única coisa viva que eu tinha da minha mãe e da minha vida no passado. Eu gostava, gostava mesmo ou será que eu estava me convencendo a gostar? Eu não sabia.

You can't bribe the door on your way to sky (Você não pode subornar a porta em seu caminho para o céu)
You look pretty good down here (Você parece estar muito bem aqui embaixo)
But you ain't really good (Mas você não está bem de verdade)

- Flashback On -
Um ano atrás...
11 de fevereiro de 2013 / 15PM - Hospital Memorial Di Ângelo, Nova York

- Seu plano é me deixar plantada por mais duas horas lá fora? - Perguntei me escorando na porta do quarto enquanto o mesmo continuava a olhar para sua paciente.
- Não, eu já estava indo - falou sem me olhar.
- Não - disse e me desencostei da porta caminhando para perto dele. - Você não estava indo, porque disse isso há meia hora - disse de forma irônica.
- QUE DROGA, , QUER CALAR A BOCA? - Gritou se virando e segurando meus braços e eu soltei um gritinho por ter me assustado.
- Tá ficando maluco, John? - perguntei e o empurrei.
- Não, só cala á porra da boca - disse eu revirei os olhos indo me sentar na poltrona.
- Me espera lá fora, agora. - Disse grosso.
- Esse hospital é meu, baby, e eu espero aqui – disse, joguei meus cabelos para trás colocando as pernas no braço da poltrona enquanto pegava meu celular e John bufou voltando à fazer os exames na paciente que parecia inconsciente.

- Flashback Off -

We never learn, we been here before (Nós nunca aprendemos, já passamos por isso)
Why are we always stuck and running from (Por que estamos sempre presos, fugindo das)
The bullets? (Balas?)
The bullets (Das balas)
We never learn, we been here before (Nós nunca aprendemos, já passamos por isso)
Why are we always stuck and running from (Por que estamos sempre presos, fugindo das)
The bullets? (Balas?)
The bullets (Das Balas)

Quando dei por mim, senti como se meu corpo estivesse afundando, e me lembrar daquele dia, que para muitos é algo simples, e pra mim não era só mostrar fraca e vulnerável novamente. Puxei meu roupão e me vesti saindo da banheira enquanto ia ao meu closet.

Just stop your crying (Pare de chorar)
It's a sign of the times (É um sinal dos tempos)
We gotta get away from here (Temos que fugir daqui)
We gotta get away from here (Temos que fugir daqui)
Just stop your crying (Pare de chorar)
It will be alright (Tudo vai ficar bem)
They told me that the end is near (Eles me disseram que o fim está próximo)
We gotta get away from here (Temos que fugir daqui)

Escolhi uma calça preta rasgada no joelho, uma blusa de mangas curtas verde musgo e uma sapatilha preta com lacinho. Peguei uma jaqueta de couro preta e comecei a secar meu cabelo quando escutei a porta sendo destrancada.

- SAMANTHA? - Gritei indo em direção à porta e por um momento senti meu coração bater mais rápido que o normal e uma pontada de medo me atingir.
- ? - questionou quando apareceu no corredor do nosso apartamento. O corredor ligava ao banheiro, meu quarto que era logo o segundo e o de e Sam que era o último, e do outro lado ainda tinha um pequeno quarto e a porta que leva à cozinha.
- Ai, , que susto - disse pondo a mão no peito e voltando para dentro do quarto jogando a toalha na cama.
- Você não tinha aula?
- Sim, querido papai. Mas resolvi fazer online e você?
- Eu esqueci alguns documentos do caso do Sr. Stark e voltei para buscar - explicou e foi para o seu quarto.
- Bom, então me espere, só vou dividir meu cabelo, pega minha bolsa e vou com você - falei alto para que ele escutasse e ele murmurou um "Ok".

Peguei minha bolsa e jaqueta, fiquei esperando na sala por que não demorou muito para aparecer e seguimos juntos ao elevador e depois entramos na Ranger Rover preta que estava parada em frente ao prédio. - Aonde eu deixo você?
- Vou até o escritório e de lá pego um táxi, não estava a fim de dirigir hoje - disse e mordi os lábios levemente.
- Só isso mesmo? - Perguntou erguendo uma sobrancelha.
- Não, vou sair do estágio no hospital - disse e me encarou e eu agradeci pelo sinal ter fechado, ou eu não sabia o que ia acontecer.
- É o quê?
- Eu achei que estava bem, e não estou, . É difícil admitir, mas é isso, resolvi sair e começar a ser uma jornalista para o lado esportivo - expliquei e vi um sorriso se formar no rosto do meu irmão.
- Se você estiver bem e feliz, eu fico bem e feliz, também - disse e olhou para mim sorrindo antes de dá partida no carro novamente.
- Obrigada, maninho, eu amo você - disse e me estiquei lhe dando um beijo no rosto.
- Mas agora me deixa no próximo ponto de táxi que você ver, porque vou ao hospital falar com titia.

[...]

- Mary, Tia Vivian está aí - perguntei para sua secretária.
- Sim, está. Ela tá com alguém lá na sala, não me recordo se é o ou o Mark, mas tem alguém, mas pode ir subindo - disse e pegou o telefone para ligar pra ela e agradeci indo para o elevador.

Esperei por vinte minutos até que saísse do escritório dela e eu entrasse sem nem dá a chance dele falar algo.

- Minha querida, que bom que veio, pronta para voltar? - perguntou me abraçando.
- Sobre isso mesmo que eu vim aqui - disse e sua feição mudou para uma pessoa bem preocupada e se sentou na sua cadeira de rodinhas preta de couro, eu sentei na poltrona à sua frente, brincando com alguns enfeites que estavam sob à mesa de vidro. - Não posso continuar - disse rápida e mantive minha atenção à bola de vidro de enfeite que tinha ali.
- Por que não? - perguntou triste.
- Porque eu... - dei uma pausa e me sentir engoli em seco e foi preciso respirar algumas vezes antes de falar - não consigo. – Disse. - É isso, tia, eu simplesmente não consigo e essa não é minha praia também, quero ser jornalista esportiva.
- Oh, minha querida, eu fico triste, você sabe, mas estamos aqui com o melhor para você, se você não consegue por causa do John..
-Titia, não - disse rápida e ríspida.
- Ah, minha querida... - titia ia continuar e eu a cortei.
- Não, tia. Está tudo bem, essa só não é a praia da queridinha aqui. E bom, a Samantha é uma ótima pessoa para ficar no meu lugar. – Disse. - Agora, eu preciso ir vou fazer as aulas da faculdade - e me despedi dela.
- Diga para Samantha passar aqui então, ainda hoje ou amanhã - disse e eu assenti saindo da sala.

Estava indo em direção ao corredor para pegar o elevador quando vi parado e vir na minha direção, e eu até tentei desviar.

- , eu preciso ir – disse.
- Mas eu não falei nada - disse e levantou as mãos para o alto.
- Mas ia falar - disse e o fuzilei com o olhar.
- É, eu ia, sim, eu acabei escutando você dizer que não vai mais fazer o blog aqui - disse e entrou junto comigo no elevador. - E eu só acho que isso tem a ver comigo.
- O mundo não gira em torno de você, baby - falei e revirei os olhos. - Não sei se já te disseram isso.
- Já, sim, mas mesmo assim eu ainda acho que eu tenho uma parcela nessa sua decisão - falou e saiu atrás de mim quando as portas do elevador se abriram. - E por isso eu queria te recomendar uma terapia, eu sou psicólogo, apenas seis sessões.
- Mas que droga, . Me deixa - falei alto e apertei meus passos saindo do hospital, ignorando os olhares que recebi por ter falado alto.

Saí correndo para um ponto de táxi e peguei o primeiro que parou no ponto assustando até mesmo o motorista, logo eu já estava dentro do apartamento. Eu estava sentada no sofá branco e enorme com um notebook e várias folhas ao meu redor enquanto passava algumas músicas na televisão.

- Chegamos - Sam gritou.
- Olá, chegaram juntos? – questionei.
- Sim, veio aqui buscar as suas últimas coisas, e o me buscou na faculdade. - Sam explicou.
- Trouxe pizza, . - gritou.
- Eu que dei a ideia - disse entrando atrás também.

Fomos todos juntos sentar na cozinha para comer a pizza e bastante refrigerante, resolvemos fazer uma festa no apartamento do e para celebrar a inauguração. E eu e Sam iríamos organizar. Então eles perguntaram sobre meu dia e eu contei tudo e resolvi falar sobre o .

- Quando estava saindo, encontrei o , e ele disse sobre eu fazer terapia.
- Terapia? - Sam questionou enquanto pegava outro pedaço de pizza.
- Por quê? - perguntou preocupado e só fazia gestos enquanto comia.
- Porque ele acha que o meu surto, tem a ver com ele. - Disse e dei uma pausa. - Ou pelo Johnny.
- Você contou do Johnny? - Sam perguntou e largou a pizza na mesa.
- Contou?
- É claro que não, e nem vou e não vamos falar sobre isso. é louco e eu não preciso de terapia.
- Não é uma má ideia - disse baixo, mas eu escutei.
- Eu vou fingir que não escutei.
- , e nem estão errados.
- Não vamos falar sobre isso e eu não quero, se for continuar, vou dormir ou sair - disse e fechei a cara.

Fiz que ia sair da cozinha, quando eles prometeram que não iriam mais tocar no assunto e nós continuamos ali comendo e conversando. Pouco mais de dez da noite, foi embora e e Sam foram para o quarto que me restou ir para o meu também e ficar vendo jogos e me envolvendo mais no mundo do futebol.



Capítulo 5

Point Of View Di Ângelo.
24 de março de 2014 - 10:00 AM - Faculdade, New York

Eu me encontro na faculdade, estava no tempo de intervalo que durava em media uma hora e trinta minutos. Até aí, tudo bem, ou melhor, nada bem. As coisas não estavam normais, o normal seria pessoas estranhas me julgando por um assunto que elas desconhecem e por incrível que pareça o número dessas pessoas hoje estava mínimo.
Fui caminhando até o refeitório, assim que cheguei, paguei pelos meus lanches e sai na direção de um banco onde eu sempre fico com a Samantha.
Estava perto do banco quando avistei a Sam com um garoto que as vezes ficava conosco, se não me engano, seu nome é Ashton, quanto mais me aproximava, mais ficava curiosa por Samantha aparentemente estar tentando dar uma bronca no garoto.

- Oi, Ash, Sam. - Cumprimentem sorrindo, a cena era realmente engraçada, a caçula dos definitivamente não consegue ser seria.
- Oi, , tudo bem? - Ashton me encarou como quem pedia socorro e eu só tentei reprimir ainda mais meu riso.
- Pode parar de tentar mudar o assunto, mocinho!
- O que aconteceu aqui? A escola já estava estranha antes, mas agora com uma Samantha tentando ser séria, ficou mais grave.
- O bonitão aqui. - Apontou para o garoto loiro. - Engravidou uma garota que está no primeiro ano da faculdade de engenharia!
- Por isso o meu dia está tranquilo hoje? - Pergunto com deboche.
- Por isso mesmo, o manezão ainda está com medo de encarar os pais da coitada.
- Poxa, Ashton, eu acreditava que você era o juízo de nosso grupo. - Brinco.
- ! Para de levar em tom de brincadeira! O que ele fez foi sério!
- Não está mais aqui quem falou.
- Você vai lá conversar com a garota, vai falar com os pais dela, assumir essa criança, já que na hora de fazer, fez, e só volta pra cá quando resolver todos esses seus problemas, seu garoto idiota! - Gritou enquanto estapeava a nuca do menino encolhido que logo tratou de levantar e começar a andar pra dentro do refeitório.
- Não acha que pegou pesado? - Pergunto enquanto desembrulho meu lanche e entrego o dela junto ao suco.

Tenho dó dos futuros filhos do com essa louca, se ela for resolver as coisas assim, vai traumatizar as crianças.

- Não, ele realmente precisa crescer.
- Se você acha. - Murmuro enquanto dou a primeira mordida em meu lanche.

[...]

Point Of View .
3:20PM - Hospital Memorial Di Ângelo.

Havia acabado de sair pro meu horário de almoço quando me ligou marcando para me encontrar no restaurante que tem perto do hospital, eu já conheço o lugar, pois sempre que é possível venho passar meu almoço aqui junto com a Emma.
O local todo é decorado em cores neutras, o piso é de madeira e o lugar em si tem uma aparência rústica.
Passei pela porta automática e após cumprimentar alguns funcionários que passaram por mim, cheguei ao fundo, assim como combinado, o estava em uma mesa bem distante, onde teríamos privacidade pra conversar.

- Ei, cara, quanto tempo.
- Verdade, o tempo pra se divertir está escasso. - Sorrio enquanto puxo a cadeira e sento me acomodando.
- Cadê a Emma? Devia ter trazido ela. Apesar do jeitão sério, ela é uma das poucas que sabem se divertir.
- O escritório anda cobrando bastante dela no novo caso e ela mal tem tempo pra comer, preferi não avisar sobre esse almoço, mas sempre que quiser, pode passar lá em casa para bater um papo com ela, sei que vocês são amigos de anos e eu não posso me intrometer nisso.
- Olha que eu vou mesmo visitar vocês, aliás, não sei como conseguem se suportar sendo tão diferentes um do outro em certos aspectos.
- Até eu me pergunto isso às vezes, acho que a calma e paciência que ela tem contribui e muito.
- Sim, mas mudando de assunto, você parece meio abatido.
- A história é confusa vai querer mesmo saber?
- Sim, pra você estar com essa aparência, é coisa seria.
- Não é nem da minha conta direito, mas a sobrinha da dona do hospital anda mexendo com minha cabeça.
- !! Você esta atraído por essa garota?
- Não, lógico que não. - Digo incrédulo, não acredito que ele pensou sobre eu trair minha noiva. - O que aconteceu foi que essa garota é bem misteriosa e parece ser perturbada. Eu só tenho interesse profissional nela, nada mais.
- Entendo, mas como assim perturbada? - Pergunta confuso.
- Na primeira vez que ela me viu, saiu correndo e gritando para me afastar, eu fiquei preocupado e corri atrás dela, sendo psicólogo, percebi que ela estava tendo um início de ataque de pânico. Depois disso, nos encontramos uma outra vez e ela parecia estar tentando fugir de mim. - Tento explicar de um jeito resumido.
- Apesar de confuso, eu entendi, só não peguei o por quê de isso estar te atormentando - Suspira.
- Atormentado não é a melhor palavra para definir como me sinto... Está mais pra incomodado com o fato de ela não estar se tratando. - Nem eu entendia direito como me sentia.
- Você faz o que achar melhor, só espero que não se arrependa.
- Não vou, Di Ângelo é teimosa, e não burra. - Murmuro a última parte.
- Ah não, ! Não acredito que essa garota é a ! - parecia indignado.
- O que tem ser ela? Ou melhor, como você conhece ela?
- Eu sou lerdo, mas você, só Jesus mesmo. - Me encara parecendo querer me matar. - Minha irmã namora o filho mais velho dos Di Ângelo, ou melhor, , e tu foi logo se interessar na vida da garota confusão?
- Nossa , que grosseiro. - Tento mudar o assunto deixando ele desconfortável. - E por que garota confusão?
- Foi mal, não pensei nas palavras antes de dizer. - Parecia realmente arrependido, como se tivesse escutado. - Mas enfim, vamos trocar de assunto, hoje tem uma festa legal, espero te encontrar lá.
- Ah cara, tu sabe que não depende de mim, eu namoro e fora isso vou estar cansado do trabalho.
- Só da uma passadinha lá, por mim, prometo que vai ser legal.
- Vou ver. - Olho pro meu relógio, me surpreendendo pelo horário. - Oh, eu tenho que voltar pro hospital, já estou atrasado, na verdade. - Me levando da cadeira e em seguida faz o mesmo, logo vindo em minha direção e me dando tapinhas nas costas.
- Pode ir lá, só não se esquece dos amigos igual fez da última vez.
- Eu não te esqueci...
- Vai logo pro hospital, , já esta atrasado!

Atravesso a rua e entro no hospital, passo pela secretária Montgomery e lhe pergunto se tinha algo marcado, sendo respondido com um não.
Assim que entro na minha sala, encontro uma moça morena sentada na cadeira de costas pra mim e começo a me perguntar se me deram a informação errada.

- Err, boa tarde. - Digo confuso.
- Boa tarde. - Responde sorrindo enquanto se vira e eu comecei a reconhecer aquele rosto. Era Samantha, namorada do . Ela parece notar minha confusão ao lhe reconhecer e logo começa a se explicar. - Me desculpa por invadir sua sala, não era minha intenção, mas como falaram que você não tinha nenhum paciente pra agora, quis vir conversar um pouco.
- Samantha? - Pergunto só para confirmar o que já sabia. Ela faz um sinal que sim com a cabeça. - Que surpresa, eu realmente não esperava te encontrar aqui. - Sorrio.

Samantha é irmã do e como citei antes, namorada do . Dificilmente nos encontrávamos por sermos ocupados, mas quando acontecia, nunca chegávamos a falar mais do que cumprimentos.

- E eu não esperava ter que vir aqui. - Sorri. - Na verdade, eu só vim por um assunto sério.
- Assunto sério? Como veio me procurar, acha que eu posso ajudar?
- Não acho, tenho certeza. - Diz com convicção.
- E sobre o que é esse assunto? - Pergunto curioso.
- Di Ângelo. -
- A sobrinha de Vivian? - Pergunto incrédulo. Quando eu finalmente consigo esquecer ela por um tempo, alguma coisa acontece para me lembrar.
- Ela mesmo. - Suspira. - Já deve ter percebido o jeito fechado dela.
- Já percebi. Uma vez nos encontramos no corredor e quando fui conversar ela, ela simplesmente se fechou e foi ignorante.
- É o jeito dela de se proteger. - Diz parecendo estar cansada. - já passou por um grande trauma.
- Que tipo de trauma? - Pergunto curioso, mesmo sabendo que fui um pouco indelicado.
- Só ela pode contar e eu vim falar sobre isso, passou por esse trauma que até hoje não conseguiu superar e isso faz mal a ela. Minha amiga nunca aceitou nenhuma ajuda psicológica e eu acho que já passou do tempo dela superar coisas que já aconteceram.
- Entendo. Você quer que eu convença ela a procurar ajuda? - Mais afirmo do que pergunto.
- Mais ou menos. Você mesmo tem uma ótima fama profissional e poderia ajudá-la.
- Acha que ela vai concordar? - Pergunto já desconfiado. não foi muito amigável nas vezes que nos encontramos.
- Com insistência, eu acredito que sim.

Consegui conversar por mais alguns minutos sobre com a Samantha. Foi agradável, mas infelizmente eu tinha uma paciente marcada e Sam teve que ir embora.

[...]

11:00 PM - Pub, New York.

Estacionei meu carro logo chegando à entrada do pub e por sorte avistando perto dos seguranças, assim facilitando minha entrada.

- Não é que você veio mesmo! - Indagou sorrindo enquanto entravamos no lugar, já sentindo luzes coloridas escuras dificultar um pouco minha visão.
- Eu te devia essa, mas não vou poder ficar muito por aqui. - Grito por cima do som alto pra conseguir me entender.
- Tudo bem. O que conta é você ter vindo - Disse enquanto caminhávamos com dificuldade até o bar. - Sei que você conhece a maioria das bebidas pela época que não tinha se transformado nesse velho rabugento que é hoje, então me diz, vai querer qual bebida hoje?
- Eu não sou velho e muito menos rabugento, só sou responsável e sei que não posso me dar o luxo de sair pra baladas em dia de semana, fora que eu namoro. - Falo como se estivesse bravo com sua brincadeira. - E hoje não vou beber, meu carro não vai pra casa sozinho, muito menos eu, portanto, prefiro evitar um acidente.
- Como eu disse, um verdadeiro velho.
- Ei! - Grito indignado.

O telefone de toca e ele atende, parecendo bravo assim que escuta o que a pessoa da outra linha diz. O baixinho não demora muito para desligar e logo se vira pra mim com uma expressão levemente seria.

- , pode ir lá fora comigo rapidinho? Aparentemente o segurança barrou o burro do Michael e como ele perdeu o convite que mandei, vou ter que ir resolver. - Revira os olhos.
- Vamos lá.

E voltamos à entrada, enquanto o conversava com o segurança, eu me afastei um pouco.
Avistei uma cabeleira ruiva e não consegui conter minha surpresa diante daquilo.
Ainda não conseguindo acreditar, fui me aproximando enquanto a garota parecia tentar se distanciar.

- Wow, ou o mundo é realmente pequeno, ou temos amigos em comum. - Comento puxando assunto.
- Acredito mais na segunda opção. - Sorri. Apesar de anteriormente parecer estar fugindo, agora ela não demonstra seu desconforto, ou sabe disfarçar muito bem ou simplesmente, ao contrário do que pensei, não tem motivos para se sentir assim perto de mim. - Quem te convidou? - Pergunta parecendo curiosa.
- , acho que o conhece por ser irmão da Samantha.
- Claro, só não sabia que são amigos.
- Eu e nos conhecemos há anos. - Comento tentando prolongar o assunto. - Veio com o ?
- Era pra ter sido, mas ele acabou se atrasando no consultório e tive que vir sozinha.
- Entendi. Fiquei sabendo que desistiu de fazer a matéria sobre o hospital escola.
- As coisas se espalham fácil por aquele lugar, hein. Achei que tivesse mudado um pouco, mas aparentemente continua do mesmo jeito. – Murmura, entretanto, consigo pegar o final da frase.
- Muita gente localizada em um lugar só, as vezes fofocar acaba sendo o único jeito de passar o tempo.
- Nesse tempo de fofoca poderiam muito bem salvar mais vidas. - Acaba soltando, aparentemente sem perceber, já que parece até mesmo surpresa por sua fala anterior.
- Eu só comentei sobre por me sentir de certo modo envolvido nessa sua decisão. - Comento já sabendo que receberia uma resposta rude.
- Não há motivos de você estar envolvido.
- Tem certeza?
- Absoluta. - Diz com convicção.
- Se tem tanta certeza assim, acredito que possa passar por uma consulta comigo facilmente.
- Não vejo razões para ir a um psicólogo.
- Quase ter um ataque de pânico ao me encontrar pela primeira vez não seria razão suficiente?
- Eu só te confundi com outra pessoa. - Tenta justificar.
- Mais um motivo para ir. - Eu estava confiante em fazer Di Ângelo ter confiança em mim e não iria desistir tão cedo. - Vamos fazer assim, você vai à quatro consultas comigo e se ainda assim não se sentir confortável, pode me falar que eu vou te deixar em paz. - Propus.
- Eu não vou ganhar nada com isso e você vai perder tempo. Mas se esse for o único jeito de me deixar em paz, eu aceito, não vai ser nada demais no final mesmo. - Diz parecendo acreditar totalmente no que disse.
- Tem tempo livre amanhã? Queria fazer uma prévia antes de realmente começar as consultas.
- Por mim, tudo bem, qualquer horário da tarde.
- Então até amanhã de tarde. - Sorrio e encaro a entrada, não encontrando mais ali. - Vamos entrar? - Pergunto e ela assente.

Assim que entramos, cada um foi procurar por seus amigos, mesmo sendo conhecidos, eu ainda preferia esperar para depois talvez encontrar as outras pessoa, fora que já estava começando a ficar tarde e eu logo teria que voltar pra casa.

[...]

25 de março de 2014 - 2:50 PM - Hospital Memorial Di Angêlo, New York.

Estava esperando minha próxima paciente, que já estava atrasada, por sinal, o que estava começando a me irritar. Não foi um curto atraso, era quase dez minutos e isso é muito!
Escuto batidas na porta, grito um entre e logo a ruiva que já estou começando a me acostumar com o rosto entra na minha sala.

- Boa tarde. - Ela cumprimenta.
- Boa tarde. Pode se sentar no sofá mesmo. - Aponto pro sofá branco que tinha encostado à parede. logo faz o que digo.
- Samantha esteve em meu consultório ontem. - Comento sabendo que não seria ela a começar o assunto.
- A Sam? Tem certeza? Acho que ela não precisa de ajuda em questões psicológicas.
- Ela acabou falando um pouco sobre você. - Não quis lhe contar a verdade, que eu e sua amiga passamos todo o tempo conversando sobre si, espero que esse pouquinho que revelei não traga problemas para a namorada do .
- Sério? O que ela falou sobre mim? - Pergunta com uma curiosidade aparente.
- Que seu jeito fechado é por causa de um trauma.
- Acho que isso não lhe diz respeito. - não consegue disfarçar seu desconforto.
- Realmente, não, mas agora sendo seu psicólogo, acho que seria um dos principais assuntos que devemos tratar.
- Eu também acho muitas coisas, como por exemplo, que Samantha tem que aprender a controlar a boca e que você, doutor, devia aprender a respeitar como seus pacientes se sentem em relação a certos assuntos. Não é nada do que você pensa, aliás, você não devia nem ter citado sobre algo que não foi seu paciente a contar. Me desculpe se fui rude, mas pra mim essa "prévia" já acabou.

Mal tive tempo de absorver o que tinha acabado de acontecer, só avistei saindo vermelha de tão furiosa e batendo a porta de minha sala com força.



Capítulo 6

Point Of View Di Ângelo.

9 de maio de 2014, Sexta, Nova York - Apartamento dos Di Ângelo. 06AM

- Flashback On -

- Por que o Johnny está com aquela cara? - Katheryn perguntou.
- Ah, é porque nós brigamos e eu estou dando um gelo nele, mas ao invés de ficar falando da minha vida, vamos curtir essa festa - disse e mandei um beijo no ar para ela e fui dançando para longe dela.

Fui a procura de , Samantha e , mas não achei nenhum dos três e resolvi que iria curtir a festa sozinha, à essa altura, era capaz de ter arrumado uma companhia e Sam e já estarem em uma festa particular.

- Me dá um whisky, por favor! - Pedi ao barman que assentiu.

Alguns minutinhos depois, outro barman apareceu e colocou um drink azul na minha frente.

- Eu não pedi isso, não - disse empurrando o copo de volta para o barman.
- Você não, mas o rapaz ali mandou te entregar.

Olhei para o lado e dei um pequeno sorriso de lado, meu Whisky logo chegou e eu deixei o drink, saindo de volta para a pista.
- Vem comigo, agora! - Me assustei quando Johnny falou alto no meu ouvido agarrando o meu braço e me carregando para fora da pista.
- Ai, Johnny, calma aí, tá me apertando - disse enquanto ele me puxava bruscamente para o jardim.
- Só por que a gente brigou agora você dá mole para os outros? - Perguntou gritando.
- O quê? Não! - disse alto também me soltando. - Eu não estava dando mole para ninguém, aquele homem apenas me deu uma bebida, e se você viu bem a ce...
- Eu quero saber se você faz isso sempre - disse me cortando.
- SE VOCÊ VIU BEM A CENA, EU NÃO ACEITEI - Gritei irritada.
- MAS PARECEU QUE SIM - Gritou de volta chegando mais perto.
- Para de gritar! - falei alto - Você tá bêbado, acho que a festa já acabou pra você, devia ir embora.
- PRA QUÊ? PARA VOCÊ APROVEITAR MELHOR? - gritou segurando bruscamente meu braço e me sacudindo - ME DIZ, - perguntou e eu me assustei.
- N..n..não J... Johnny - disse entre gaguejos.
- Vocês estão bem? - escutei quando Samantha perguntou, e eu e Johnny olhamos para ela e .
- Sim - Johnny respondeu.
- ? - Sam perguntou ignorando Johnny.
- Estou - disse dando um sorriso fraco e soltando meu braço de John - E vocês já vão?
- Sim - falou e eu percebi que meu irmão estava bastante embriagado – Vamos, amor, a tá bem - disse dando vários beijos em Sam e eu rir com a cena.

Samantha nos olhou uma última vez antes de ser puxada por . Assim que e Sam deram as costas, me virei para voltar para dentro da festa.

- Aonde pensa que vai?
- Voltar para a festa, Johnny - disse revirando os olhos.
- Por que tá assim ? Pra que tanta impaciência? - Disse irritado. - VOCÊ VAI LÁ, NÉ, VAI VOLTAR A DAR MOLE PRA AQUELE CARA - gritou vindo pra cima de mim.
- JOHNNY, PARA! ISSO NÃO É HORA E NEM LUGAR, É UMA FESTA DO HOSPITAL - Gritei o empurrando e virando as costas para voltar ao salão.
- NÃO! – Gritou e em um momento eu estava indo para dentro do salão e no outro eu estava sendo jogada na parede, sendo encurralada e logo senti duas mãos segurando meu rosto, fazendo encará-lo.

Meus olhos estavam arregalados e eu nem percebi quando algumas lágrimas começaram a cair do meu rosto.

- D..desc... Desculpa - Johnny disse olhando pra mim enquanto se tremia, chorava, gaguejava e tentava encostar no meu rosto e eu apenas me mantinha encostada na parede com o rosto virado sem reação alguma.

- Flashback Off -

- NÃO! - gritei e senti meu corpo batendo no chão.
- ? - entrou dentro do quarto gritando e com um semblante assustado - O que houve? - perguntou chegando próximo de mim.
- Eu não sei - disse olhando. Só então percebi que estava caída no chão do meu quarto
- Você tá chorando? - perguntou me pegando no colo e me colocando na cama.
- ? ? O que houve? - Sam perguntou entrando no quarto.
- Eu... E... Eu sonhei com o Johnny - disse e pela primeira vez percebi que estava chorando.
- De novo? - Sam questionou e eu apenas assenti fungando um pouco.
- Sim.
- Sobre o quê? - perguntou se sentando ao meu lado e me abraçando.
- O dia da festa - disse e sentir minha voz falhar - Eu não quero falar sobre isso...
- Tudo bem, você não precisa falar se quiser. - Sam disse se sentando ao meu lado e ambos me abraçaram.
- Vou me arrumar - disse e fui em direção ao meu banheiro.

Tinha se passado pouco mais de meia hora, quando eu saí do banheiro secando meus cabelos e encontrei sentado na minha cama.

- Ainda aqui? Pensei que estava no escritório - disse caminhando até o mesmo. - Você tá chorando? - questionei quando vi meu irmão sentado de cabeça baixo e fungando.
- Estou.
- Cadê o meu irmão machão, hein?
- Ele não existe - disse e me encarou e eu sentei ao seu lado.
- Ei, ei para com isso, por que isso agora?
- Por que quando você mais precisou do seu "irmão machão" ele estava bêbado e ocupado demais para perceber o que a irmã estava passando.
- , a culpa não é sua, eu é que devia ter para...
- NÃO! - falou alto e firme - A culpa não é sua, mas eu devia ter percebido antes, era o meu dever te proteger - disse chorando e abaixou a cabeça.
- E você faz isso, - o abracei - Se eu voltei pra cá, se eu estou tentando, é por que você sempre fez muito bem o seu dever.
- Você está bem mesmo?
- Estou, nós precisamos seguir - disse e o olhei - Agora levanta e vai, está atrasado e eu também.

[...]

9 de maio de 2014, Sexta, Nova York - Universidade. 18:45PM/ Apartamento.

Eu estava morta, eu simplesmente tinha passado o dia todo na universidade e tudo o que eu queria era minha casa, tinha me mandado mensagem dizendo que ele e Samantha tinham chamado para que pudéssemos ficar em casa conversando, bebendo.
Estava procurando as chaves na minha bolsa quando parei prestando atenção um pouco na conversa que meu irmão, Samantha e tinham dentro do apartamento.

- Ela teve outro sonho com Johnny.
- De novo? - escutei questionar.
- Sim - falou e eu pude imaginar sua feição preocupada.
- Com esse, é o décimo pesadelo que ela tem lembrando daquele cara em dois meses - Sam disse - Ela não me falou nada, ela nem toca no assunto.
- Ela ficou estranha de dois meses pra cá, quando o nos apresentou o - disse e o tom de preocupação era claro em sua voz.
- Deve ser por que ele é psicólogo, ela deve ter sentido algo, porque eu não vejo eles conversando direito, ela parece evitar ele - disse.
- Cheguei - disse abrindo a porta e forçando um sorriso.
- ! - disse surpreso, mas levantou vindo me abraçar. - Tudo bem?
- Tudo ótimo. - falei sorrindo - Vou tomar um banho - falei passando, apertando o rosto de Sam e dando um beijo na testa de enquanto seguia para o meu quarto.

Fui para o meu quarto jogando meus sapatos para um lado e minha roupa para outro, entrando no banheiro e ligando o chuveiro em uma ducha quente.
Pouco tempo depois saí do quarto vestindo uma calça de moletom cinza, blusa branca, chinelos e cabelos molhados e encontrei , Sam, e sentados no sofá assistindo a um jogo.

- ! - chamei indo até ele de braços aberto.
- , você cresceu ou eu fiquei maior? - disse enquanto ele me abraçava me tirando do chão.
- HA-HA-HA você e essas suas piadas chatinhas - disse fingindo que estava rindo.
- Acho que ela diminuiu - disse gargalhando alto.
- Eu concordo! - Sam e falaram entrando na onda.
- SAMANTHA! - A repreendi rindo. - Seu bobo - disse cutucando - me solta vou pegar algo para comer.
- Vai lá, ruivinha.

Levantei o dedo para e me virei indo para cozinha, entrei na mesma indo em direção à geladeira pegar alguma coisa.

- Oi.
- AI MEU DEUS, QUE SUSTO! - gritei pondo as mãos no peito. - Você também veio, ?
- Se eu estou aqui, parece que sim, né? - disse como se fosse óbvio.
- Ah, eu esqueci que agora você sempre está aqui.
- É, vai ter que me aturar - disse dando de ombros e bebendo um pouco da sua cerveja - Soube que você tem tidos pesadelos e acordando assustada.
- É, mas quem nunca teve pesadelos – disse.

Dei de costas para o mesmo analisando a geladeira e vendo que não tinha nada, peguei uma latinha de refrigerante e vi ali parado, me encarando.

- O que foi?
- Eu só queria entender, o por que de você ter saído daquele jeito - disse ainda me analisando.
- Mas que droga, você disse que se não tivesse nada a ver com você, eu iria na consulta, eu fui e você foi superintrometido.
- Não, eu apenas perguntei - disse me cortando.
- Isso não tem a ver com você, não se mete - disse o fuzilando com os olhos.
- Pois eu acho que tem. - disse fazendo o mesmo.
- Eu não me importo com o que você acha - disse e lhe dei as costas saindo da cozinha.
- Por que não pedimos pizza? - Sam perguntou assim que eu apareci.
- Eu topo - falou levantando as mãos igual criança.
- Eu também - disse fazendo high five com .
- Amo marguerita - falou quando passou por mim esbarrando no meu ombro e eu me afastei.

A noite se passou com tentando manter contato e falar da tal consulta, e comigo o evitando de todas as formas possíveis, depois resolvemos jogar verdade ou desafio e terminamos a noite apenas eu, e Sam levemente alcoolizados.

[...]

12 de maio de 2014, segunda, Nova York - Apartamento/ 04AM

Acordei mais uma vez assustada, desesperada com outro sonho que tive me lembrando do Johnny, olhei meu relógio e vi que marcavam quatro da manhã. Resolvi levantar e ir distrair a mente, não podia acordar Sam e mais uma vez, já que toda vez que tinha pesadelos, eu acordava chorando, gritando e acabava fazendo com que Sam e se preocupassem, as vezes sentia os mesmo como meus pais até.
Levantei levando comigo um cobertor, liguei a TV e coloquei na Netflix no primeiro episódio de Grey's Anatomy enquanto preparava um chá de hortelã com alguns cookies. Depois que preparei tudo, me sentei e comecei a assistir ao episódio.


- Você dormiu aí? - Sam perguntou com voz sonolenta chegando à sala e me fazendo despertar.
- Acho que sim - falei me espreguiçando.
- Por quê? - disse e se sentou ao meu lado.
- Estava sem sono, resolvi ver Grey's acabei dormindo.
- Sua vaca, vendo nossa série sem mim, não me conte nada do nono episódio da nona temporada, ainda não vi - disse rindo e pegando um cookie que tinha sobrado ali.
- Ah, eu não veria sem você, vi o primeiro episódio mesmo - falei desligando a TV - Deu saudades, são que horas?
- Cinco e meia da manhã estava indo ao banheiro e vi você, está tudo bem, né?
- Está sim, só acho que dormir aqui e toda torta vendo TV, me causou dor musculares e dor de cabeça, temos alguma aula importante?
- Não, hoje não, só aquele professor chato - falou e riu o imitando.
- Estou pensando em faltar e dormir.
- Se você tiver querendo falar algo, precisando, você me falaria, né?
- Samantha, que isso? Assim como a Cristina e Meredith, você é a minha pessoa, eu te conto tudo - disse e a puxei para um abraço - Mas agora eu vou voltar a dormir, ouvir dizer que hoje é a folga do , você devia faltar também e sair com ele, a gente chama o Ash aqui de noite. - falei enquanto ia para o meu quarto e escutei Sam dá um gritinho de "Yeah".

Entrei no meu quarto me aconchegando na minha cama e logo voltei a dormir. Acordei e era pouco mais de duas da tarde e demorei um pouco para me situar o porquê de eu ter faltado e de ter acordado tão tarde e me lembrei de que foi por conta de outro sonho que tive com Johnny mais cedo.
Vi meu celular com várias mensagens de Ash e de , dizendo que ele e Sam iriam passar o dia fora, e por um momento me senti feliz, mas eu sabia que eu precisava parar de pensar de vez naquele garoto.
Levantei correndo pegando uma roupa qualquer no armário, tomei um banho e saí pegando minhas chaves indo em direção ao hospital o mais rápido possível, antes que minha coragem acabasse.

15 de maio de 2014, segunda, Nova York - Hospital Memorial Di Ângelo/13:40PM

Saí do meu carro um pouco desajeitada enquanto corria para dentro do hospital, segurava meu celular e chaves do carro na mão e tentava colocar tudo na bolsa.
Caminhei para o terceiro andar que era o de psicologia e procurei por algum interno, vendo que não tinha nenhum, caminhei até a secretária.

- Doutor está? - perguntei e a mesma assentiu.

Dei as costas para ela e caminhei em direção à sala, assim que ela percebeu meu ato, se levantou e veio atrás de mim, dizendo que eu não podia entrar.

- Você não pode entrar - disse quando eu já tinha aberto a sala.
- Doutor, eu preciso da sua ajuda - disse já dentro da sala.
- O que é isso aqui? - perguntou irritado.
- Eu tentei impedi-la, mas ela não me deu bola - disse e só então que eu percebi que havia uma paciente ali, visivelmente confusa e constrangida. - Tudo bem, pode ir, eu resolvo.
- Eu preciso da sua ajuda - falei quando a secretária saiu.
- , eu estou no meio de uma consu...
- Eu preciso da sua ajuda, - apelei o chamando pelo nome - Eu realmente preciso - disse e pela primeira vez nós dois nos olhamos olhos nos olhos.

pareceu ficar incerto e indeciso de suas ações, logo o mesmo bufou jogando as mãos para o ar e passando pelo cabelo, e enfim olhou para paciente.

- Dona Lorelay, estou com um enorme problema e preciso resolver, me desculpe pelo ocorrido, será que podemos remarcar essa sessão ? E ainda lhe darei outra sessão extra sem custo algum.
- Oh... eu... eu acho que tudo bem - disse meio indecisa e sem reação e logo se levantou - Até a próxima.

acompanhou a moça até a saída e logo se virou fechando e trancando a porta e por fim me encarou.

- Do que precisa?
- Eu tenho tidos pesadelos desde os últimos meses, para ser mais exata desde a consulta - disse me sentando e o encarei - Preciso de ajuda - disse essa última parte mais baixo e abaixei minha cabeça.
- Bom, nós podemos começar com quatro sessões iniciais e...
- Ninguém pode saber, então tem que ser no final do seu expediente - pedi e me olhou por um tempo e por fim bufou assentindo.
- Todas as quintas, depois das seis - disse - Vamos começar de um jeito profissional, ok?
- Ok.
- Eu, sou , seu psicólogo e gostaria de saber mais de você.

Respirei e inspirei, senti vontade de sair correndo, mas tudo que fiz foi apertar os meus olhos, e fechar minhas mãos.

- Sou Di Ângelo, tenho 19 anos, moro com meu irmão e minha cunhada.
- Por quê?
- O quê?
- Por que mora com seu irmão? Foi uma escolha sua?

Aquela pergunta me atingiu em cheio, mas eu não podia desistir, não agora.

- Meus pais morreram - disse e se sentou colocando uma perna em cima da outra e suas mãos sobre seus joelhos. - Minha mãe, na verdade.
- E você quer me falar isso?
- Bom, tudo começou quando eu tinha seis anos. Meus pais naquela época viviam brigando pelos cantos da casa e logo depois ela foi constatada com depressão, mas eu não entendia direito e o dizia que tudo ia ficar bem, até que em um dia de muito frio... - disse e engoli em seco.
- Até que em um dia? - Ele me estimulou a falar, calmo.
- Minha mãe e meu pai brigaram feio, e ela desceu as escadas pedindo para ele não ir, mas nós dois não entendemos, só sei que ele foi. Então algumas horas mais tarde mamãe resolveu que iria sair, isso ela já não fazia mais, mas ela estava bastante estranha - disse e apertei meus olhos tentando segurar as lágrimas.
- Você não precisa continuar, se quiser - disse cauteloso.
- Tudo bem, até que mais tarde tia Vivian apareceu ali, e quando estávamos vendo jornal, vimos a noticia de um carro que capotou, e era o da minha mãe.
- Então ela morreu ali?
- Não, ela ficou muito mal e todos nós ficamos no hospital, alguns dias depois ela acordou relativamente muito bem, mas meu pai não aparecia há mais de cinco dias e eu e vivíamos perguntando, e tia Vivian só dizia que ele havia viajado. Naquele mesmo dia minha mãe piorou e precisou de cirurgia e antes de ir, eu a escutei falar "não deixe que meus filhos se afetem com a minha partida, e que o George não afete eles, seja mãe deles".

Eu só percebi que estava chorando quando uma lágrima salgada entrou na minha boca e sentir meu nariz se entupir, funguei algumas vezes e tentei recuperar o ar...

- O que está querendo dizer? - perguntou enquanto me entregava uma água.
- Naquele dia minha mãe não resistiu a cirurgia, e foi ali que eu e descobrimos que meu pai havia nos deixado para viver com outra mulher e só então eu liguei que a depressão, as brigas, eram por causa dele.
- E você nunca mais o viu? - neguei com a cabeça.
- Não o vejo desde os meus seis anos, logo depois nós nos mudamos para Nova York e o hospital foi fundado.
- Você o odeia?

- Flashback On - Narrador On
Maio de 2001. , seis anos, , nove anos.

A pequena garota de enorme cabelos ruivos desceu as escadas correndo quando viu seu irmão adentrando a casa acompanhado do mais velho.

- Papai, - a menina gritou e logo deu um pulo no colo do pai.
- Oh, minha princesa! Que saudades, hein - disse beijando os cabelos da menina e a colocando no chão.
- Mas vocês só saíram por uma hora - a pequena garotinha disse pondo as mãos na cintura.
- Mas nós morremos de saudades, Princesinha - disse de forma brincalhona indo para cima da irmã, fazendo cócegas.
- George - Meredith disse chegando à sala - Nós precisamos conversar.
- Meredith, agora não é uma boa hora.
- NUNCA É UMA BOA HORA, NÃO É...
- MEREDITH, PARE! - George gritou extremamente nervoso, o que fez com que e se assustassem, e a pequena garota começasse a chorar sendo levada pelo irmão para longe da sala - Olha o que você faz, assustou as crianças!
- Eu? Foi você quem gritou, George, nos últimos meses muitas coisas têm sido sua culpa - disse o acusando - E eu nem preciso citar, mas se quiser, podemos começar pela sua infidelidade.
- Essa história de novo? Você está paranoica com isso - o homem falou rude e deu as costas para sua esposa. – Oh, princesa, vem aqui, não chora - disse entrando na cozinha e pegando a pequena garotinha no colo enquanto abraçava seu filho.
- Não gosto de ver vocês brigando - O irmão mais velho confessou - Você parece que vai nos deixar.
- Ei - George chamou sentando-se na cadeira com a menina ainda em seu colo e puxando o outro também - De todo o hospital e matrimonio que eu tenho, a única herança de fato que eu tenho, são vocês, eu não vou deixá-los - disse e deu um beijo na testa de cada um.

- Flashback Off -

- ?
- Sim?
- Está tudo bem? Você me pareceu aérea e não respondeu minha pergunta - ele perguntou de forma preocupada. - Acha que isso pode ter se tornado um trauma, digo, ter feito parte dos seus pesadelos ou que levaram você a isso?
- Se eu o odeio? Foi isso que perguntou... - perguntei um pouco incomodada tentando desviar o assunto e ele apenas assentiu. - Estava me lembrando agora de uma das poucas lembranças de infância com os meus pais ainda, e de uma das brigas dele.
- Continue.
- E eu me lembrei que naquele dia eu fiquei assustada com a briga e chorei com medo de perdê-los, e aí o meu pai, o George, quer dizer - me corrigir e me olhou - Disse que nós dois, eu e meu irmão, éramos a herança dele, mas me diga você, que herança é essa que faz isso?
- Eu a entendo perfeitamente, nós vamos encontrar um jeito de você se entender com essas questões, quer falar algo mais ou já se sente bem por hoje? Acha que temos outro motivo para conversa outro ocorrido?

Assim que me perguntou aquilo, me senti tensa, lembrando rapidamente de Johnny e longo senti a tensão e o desespero percorrer meu corpo, era lembrança demais para eu falar.

- Não, está ótimo, até quinta - disse rápida, já me levantando e indo para a porta - E não se esqueça, sem ninguém saber - disse e bati a porta, sem esperar uma resposta dele.

[...]

15 de maio de 2014, Nova York - Apartamento Di Ângelo - 18PM

Cheguei em casa e me permitir ir tomar um bom banho de espumante e ervas para poder relaxar, pela tensão e o desespero que senti só de pensar em tocar no assunto Johnny, por que eu sabia que ainda não estava pronta para falar e nem se algum dia estaria, essas lembranças ainda eram vivas demais na minha mente como se elas estivessem acontecidos há poucos minutos. Mas ao mesmo tempo eu me sentia um pouco leve, afundei minha cabeça na água esfregando fortemente meus cabelos como se aquilo pudesse levar tudo e por fim eu acabei meu banho.
Coloquei uma legging preta junto a uma blusa grande e branca com uma sapatilha no pé e fui para sala resolvendo, por fim, não sair e pedir uma pizza mesmo.

- Olha só quem chegou - disse quando Samantha abriu a porta se agarrando com - Pelo amor de Deus, sou nova para ficar traumatizada - disse tampando meus olhos enquanto os mesmo caíram na gargalhada.
- Sua boba - disse enquanto se jogava em cima de mim e eu gritava para que ele saísse - me abandonaram o dia todo, acho nada mais que justo assistirem Grey's comigo ou você, querido irmão, deixa um pouco da minha amiga comigo.
- Você é minha pessoa, baby - Sam disse e se jogou no sofá - Mas vamos assistir, amor?
- Sim, vamos, to querendo ver também, mas eu to cheio de fome - falou enquanto passava a mão pela barriga.
- Quero nem saber o porque - disse com segundas intenções e minha amiga me tacou uma almofada - eu pedi uma pizza, , me ajuda a pegar os pratos e copos, e Sam vai colocando o episódio aí?
- Ok, capitã - meu irmão disse brincando e se levantou junto comigo.

Já tinha pego os três pratos, enquanto pegava os talheres e copos quando a campainha tocou.

- Vamos, , preciso pagar - disse já saindo da cozinha
- Calma, apressada - disse batendo no meu ombro de leve e passando a minha frente – Samantha, que cara é essa?

perguntou quando chegamos a sala e minha amiga olhava estática para a porta, nos assustamos com essa reação dela e corremos juntos para a porta. Eu não sei quanto tempo foi entre a porta da cozinha e a porta de entrada, ou como foi o soco em meu estomago, eu só senti os pratos caindo de minhas mãos, minha cara de assustada, apavorada, desacredita, eu não sabia, o meu estômago se revirou e palavras saíram da minha boca sem permissão.

- PAI? - Eu e falamos juntos.



Capítulo 7

Point Of View
15 de maio de 2014, Sexta, Nova York - Apartamento dos Di Ângelo. 20h.

— PAI?! — Eu e falamos juntos.

Não! Não pode ser, eu realmente não consigo aceitar que após anos, ele simplesmente vai aparecer na porta de minha casa achando que está tudo bem. Não está nada bem! Não foram meses fora por precisar trabalhar, foram treze anos pouco se importando se seus filhos estavam bem ou não.
Me viro para e o vejo com a mesma expressão chocada que eu estava, estava pálido, parecia ter acabado de ver um fantasma, se pensarmos bem, é realmente um fantasma de nosso passado, uma peça extremamente importante em nossas vidas.

— O que faz aqui, George? — Pergunto curta e grossa, se ele está se iludindo acreditando que é só comprar um pirulito e me entregar que vou aceitá-lo, está muito enganado, não sou mais uma criança que acredita em tudo que dizem.
— Não me chame de George, sou seu pai. — Como se ele pudesse exigir isso. — Eu não posso visitar meus filhos?

Eu não vou aguentar isso!

— Seria normal você vir visitar seus filhos, porém não sei se pode nos chamar de filhos, já que passou treze anos fora, pouco se importando conosco.

Me sentia frustrada, é meu pai, óbvio que estava mexida com isso, uma confusão de sentimentos me atacava com tudo e eu sentia que iria desmoronar, mas ainda assim lutava com todas as minhas forças para continuar de pé.

— Para com isso, . — segura em meus ombros e tenta me acalmar. — Vamos ouvir o que ele veio falar. — Não entendia a calma que estava, um autocontrole de dar inveja.
— Ouvir o que ele veio falar? — Debocho. — Ele por acaso nos ouviu em alguma das tantas vezes que tentamos falar? Não! E assim como ele, eu também não sou obrigada a ouvi-lo.

Corro até o sofá e pego minha bolsa, estava sem dinheiro, então peguei a quantia que deixava em um cofre, na prateleira. Passei pela porta esbarrando propositalmente no ombro de George e caminhei até sair do prédio onde moro. Sam ainda estava em choque e não pode fazer nada para me impedir.
Chamei um táxi e fui ao primeiro lugar que me lembrei, um dos lugares onde acredito que teria paz.

Point Of View 15 de maio de 2014, Sexta, Nova York - Apartamento Malik. 21:15h.

Emma havia acabado de sair, sua mãe havia lhe ligado dizendo não estar se sentindo bem e Emma achou melhor passar em sua antiga casa para ver como minha sogra estava.
Não deu tempo de preparar o jantar após o acontecimento anterior, então encomendei. A comida não demorou a chegar e quando estava pra me servir, escuto meu celular começar a tocar, atendo sem olhar quem é enquanto começou a praguejar mentalmente a pessoa do outro lado da linha.

? — Reconheço a voz de na linha.
—Oh, , quanto tempo, lembrou que eu existo..

Não posso terminar minha fala, pois logo torna à falar, me cortando.

— Cara, tem como você ir até o parque central? me ligou pedindo desesperada para ir pra lá, mas não posso, estou atolado de trabalho e meu chefe acabou de convocar eu e para uma reunião agora, para organizar uns papéis e ele já não gosta muito de mim.
—Claro, eu vou agora mesmo.
—Obrigado, não sabe como estou aliviado.

Não enrolei e desliguei o telefone. Pelo pouco que conheço , já sei que não deveria demorar.
Saio de casa correndo e eu já ia procurando a chave em minha carteira.
Com o olhar, busco meu carro, e vejo que deixei o mesmo do lado de fora da garagem. Aperto o alarme e entro. Enquanto passo o cinto com uma mão, com a outra vou ligando o veículo.
O parque não era tão longe de minha casa, portanto não foi tão demorado chegar.
estava perto de onde estacionei meu carro de qualquer jeito. A ruiva estava sentada em um dos diversos bancos e carregava um olhar perdido. Me aproximei lentamente tentando não assustá-la e me sentei ao seu lado, apesar disso, ela ainda não se virou para ver quem estava ao seu lado, então a chamei:

. — Chamei em um tom controlado.
— Ele voltou, . — Foi tudo o que ela disse, com voz chorosa. Me sentei ao seu lado no banco pondo minhas mãos na sua costa.
— Ele quem, ? Olha pra mim, fala comigo. — perguntei preocupado.
— Ele, é o meu pai, e ele voltou.

Depois do que disse, eu não sei quanto tempo demorei para me recompor, só consegui me lembrar de toda a nossa primeira sessão e ela contando tudo o que aconteceu com o seu pai e sua mãe, logo depois, a última coisa que passou foi a imagem dos olhos de vermelhos de tanto chorar, como que se todo o passo que ela deu para frente, hoje se retrocedeu em 13 anos.

?
— Eu estou aqui. — Foi tudo o que disse antes de puxá-la para um abraço.

A mesma pareceu ter se desmanchado no meu braço, porque começou a chorar compulsivamente.

— Ei, olha pra mim. — Disse me afastando. — Você não tá legal pra ir para casa, então vamos lá pra casa do , e lá você me conta, ok?
— Ok. — Então me levantei, puxando ela e caminhamos até o carro.

[...]

Apartamento do / - 22:00

Chegamos à casa dos meninos era por volta de nove e quarenta, quando disse que iria tomar um banho para se recompor e eu fui procurar alguma coisa que nós pudéssemos comer.
Preferi então por fazer um macarrão à bolonhesa, estava quase acabando quando a mesma apareceu na cozinha.

— Oi. — Disse um pouco tímida.
— Oi. — Respondi de volta sorrindo. — Sei que é a casa dos meninos, mas eu já me sinto tão de casa que estou preparando uma comida.
— Que bom, eu estava mesmo com fome - disse e se sentou em uma das cadeiras da cozinha. — Me desculpe por essa roupa. - Disse e só então fui repará-la, usava uma blusa do bob esponja que estava um pouco larga que caía nos ombros e uma calça de moletom cinza.
— A blusa é da Samantha, que ela esqueceu aqui, e a calça do .
— E então? - Pigarreei.
— Sim?
— O que acha de me contar o que aconteceu agora? — Perguntei e parei para olhá-la.
— Bom. — Ela começou e abaixou cabeça, deixando seus cabelos caírem no rosto — Eu estava em casa com o e a Sam que haviam acabado de chegar, nós íamos fazer maratona de Grey's quando a campainha tocou e a Sam atendeu — Deu uma pausa.
— Está tudo bem?
— E então eu corri até a sala para entregar o dinheiro, eu achava que nossa pizza já tinha chego, mas quando cheguei — Ela deu uma pausa e eu me virei em sua direção desligando o fogão e a olhando. me encarou nos olhos e eu caminhei até ela sentando na cadeira da frente.
—Se você não quiser. — Comecei a falar apoiando uma de minhas mãos na sua perna.
— Não. — disse rápida — Era ele, eu cheguei à porta e me deparei com o George ali, depois de treze anos. — Falou tudo de uma vez e então abaixou a cabeça.
— E o que você fez?
— Eu fiquei em choque, — Respirou fundo. — Era o George ali na minha frente, a última vez eu era tão pequena.
— E o que você sentiu?
— Raiva, tristeza, ódio, saudades, eu não sei, era tudo junto eu estava confusa. — Disse se levantando. — Eu estou confusa. — Se corrigiu.
— E por que saiu de lá?
— Ah, ! Por favor — exclamou irritada, jogando as mãos para o alto e depois passando pelo cabelo. — O George chega depois de tanto tempo e age como se nada tivesse acontecido e você espera que eu o acolhesse?
— Não, mas que o escutasse, que fizesse igual ao .
— AH! POR FAVOR, . — Gritou irritada. — Ele me abandonou, deixou a mim e ao . — Disse essa última parte mais rápida e frustrada.
— E você precisa superar, precisa deixar passar, cicatrizar. — Falei me levantando e tentando soar o mais calmo possível enquanto me aproximava dela.
— VOCÊ ESCUTOU O QUE EU DISSE? ESCUTOU QUE ELE NOS DEIXOU? — Gritou novamente.
— Não tem por que gritar. Passou, , supera - Disse com um tom mais alto e irritado.
— Superar? Você escutou o que eu disse na consulta? — Perguntou e eu assenti. Pela primeira vez no meio daquela discussão prestei atenção nela, estava com os lábios absurdamente vermelho e entreabertos, os olhos de cor castanho claro saltavam para fora e já recebiam um tom avermelhado dizendo que ela choraria em breve, as bochechas levemente coradas e o seu cabelo bagunçado que caía perfeitamente sobre seu rosto fazendo uma combinação absurda. — EU DISSE QUE ELE ME DEIXOU NO MOMENTO EM QUE EU MAIS PRECISAVA DELE. — Gritou e então eu voltei à tona.
— EU SEI DISSO, NÃO PRECISA GRITAR, EU NÃO SOU SURDO, EU SOU PSICÓLOGO! — Gritei com raiva novamente. — Eu só disse que você precisa superar. - Assim que disse isso, ela me olhou nos olhos, mordendo os lábios e então lágrimas grandes e pesadas começaram a cair de seus olhos.
— Não tem como superar isso, eu não sei.
— É claro que sabe, por que não começar escutando o que ele tem a dizer? - Perguntei me sentando na sua frente novamente.
— POR QUE ELE NÃO TEM NADA A DIZER, - Exclamou irritada, se levantando novamente e fazendo a cadeira ir de encontro com o chão. — EU NÃO AGUENTO MAIS ISSO, EU NÃO AGUENTO MAIS ESSA DOR — as lágrimas desciam abundantes por seu rosto. — E VOCÊ AINDA ME DIZ PARA SUPERAR?
— SIM, , É ISSO QUE NÓS FAZEMOS QUANDO QUEREMOS SEGUIR EM FRENTE, SUPERAMOS! — Estava irritado, sentia minhas veias saltarem.

estava na cozinha perto da pia e a mesa, e parecia está assustada por eu está gritando cada vez mais alto, descobri isso porque ela me olhava como se buscasse proteção enquanto lágrimas solitárias rolavam pelo seu rosto.
Eu não sei exatamente o que aconteceu comigo, só sei que em um momento eu estava parado longe dela e no outro minha mão direita já rodava a sua cintura enquanto a esquerda se perdia no meio de seus cabelos ruivos e eu a trazia para mim, indo de encontro com a sua boca.
Nossas bocas se chocaram e foi como se choque elétrico fosse passado de um para o outro, minha língua invadiu sua boca e nós começávamos um beijo rápido, mas aproveitando cada momento e deixando guardado. O desejo era explicito, as mãos dela passeavam pelas minhas costas, braços e cabelo, enquanto eu apertava mais sua cintura tentando trazer o máximo possível de contato e a imprensava contra a pia.
empurrou seu corpo contra o meu e nós fomos caminhando para trás, eu caí sentado na cadeira, me separando dela por alguns minutos para recuperar o ar e então ela voltar a sentar no meu colo, voltando a me beijar. Minhas mãos passavam por toda a extensão do seu tórax, barriga e quadril enquanto ela me abraçava e bagunçava meus cabelos. Agora o nosso beijo era lento, mas ainda assim com muito desejo, como se estivéssemos dependendo daquilo. Me separei da mesma quando o ar faltou, beijando em volta da sua boca e seu pescoço, enquanto minhas mãos desciam para sua cintura colocando a mão por debaixo da sua blusa. Voltando então a nos beijarmos, dessa vez um pouco mais feroz.
Foi então que a imagem da Emma veio em minha cabeça e eu me separei de rapidamente, a empurrando do meu colo.

— O que foi? — Perguntou ofegante e eu abaixei a cabeça puxando meus fios de cabelo e tentando controlar a respiração.
— Me desculpa, isso não podia ter acontecido - Disse sem olhá-la.
— Ei, que isso? — Perguntou se abaixando na minha frente e apoiando suas mãos em meu joelho — Só por que você é meu médico? Eu não ligo.

Só então eu me liguei de que talvez não soubesse de Emma e me senti pior do que já estava por ter a traído.

— Não é por isso. — Disse de cabeça ainda baixa, tirando suas mãos de mim.
— Então é pelo o quê? — Perguntou calma, colocando novamente suas mãos na minha perna só que dessa vez, em cima das minhas.
— É por causa da Emma, minha noiva.

Point Of View Di Ângelo

— É por causa da Emma, minha noiva. — Eu não sei o que aconteceu, senti apenas me olhando com uma cara de arrependido, minhas mãos caindo de cima das suas e eu me sentando no chão sem reação. — . — Me chamou e a preocupação era explicita em sua voz.
— Só vai embora. - Foi tudo o que eu consegui dizer. — Por favor, . Vai embora.



Capítulo 8

Point Of View


- Eu posso explicar, . Me deixa explicar. - Disse se achegando perto de mim e eu me levantei rápido se afastando. - Eu só disse que isso não podia ter acontecido, não é o certo, não é quem eu sou!
- Eu disse para você ir embora - falei entre dentes com raiva. - Eu não quero saber quem você é.
- Eu disse que eu posso explicar para você, então me escuta - disse nervoso e eu pude ver lágrimas se formando em seus olhos.
- Explicar o quê? - perguntei irritada e comecei a falar antes mesmo dele começar - Que você estava aqui me consolando por eu ter apenas 19 anos e ser uma ferrada na vida cheia de problemas e então de repente você sentiu pena de mim e resolveu me beijar para ver se isso passava e quando estava bom demais, você simplesmente lembrou que tinha uma noiva e me jogou para escanteio novamente, como se eu não fosse nada, é isso, ? - perguntei depois de despejar tudo sobre ele que me olhava assustado.
- Não, não é isso - disse tentando me tocar e eu desviei indo para porta sendo seguida por ele.
- Já que essa não é a minha casa e eu não posso te obrigar a sair, eu vou - disse e fui em direção ao quarto pegar minhas coisas.
- Não! - disse firme e eu parei no meio do caminho sem olhar para ele - Eu vou, você merece ficar mais.

Escutei a porta atrás de mim sendo aberta e logo depois sendo batida seguida de uma fungada como indicasse que o mesmo havia saído dali chorando. Senti minhas pernas fraquejarem e meu corpo ir ao chão, isso não podia está acontecendo comigo, eu não podia ficar abalada por ter me beijado e logo depois ter ido correndo para os braços de sua amada e perfeita noiva.
Senti minhas lágrimas escorrerem rapidamente, meu coração se apertar e a sensação de angústia se achegar.

Dia seguinte...

Eu optei por não esperar a carona de e ao perceber que ambos estavam vendo que eu estava mal e que me fariam perguntas e me lembraria da noite anterior.
Agradeci ao chegar em casa e vê que estava sozinha e tudo se resumiu em tomar banho e abrir a gavetas de doces, passando o dia todo assim.

Alguns dias depois.

Sete dias tinham se passado desde que eu e nos beijamos e eu não conseguia esquecer, destes sete dias, em três todos saíram juntos e o mesmo não compareceu e nem eu. A verdade é que eu não conseguia esquecer toda aquela sensação, como se estivesse naquele momento e depois aparecia na minha mente ele se lembrando de sua noiva, Emma.
Passei a ir para a faculdade e tentar focar o máximo possível nos meus estudos.

- Você está me escutando?
- Não - Fui sincera e Sam torceu o nariz.
- O que está acontecendo? Quero saber se vai jantar comigo no shopping depois do estágio?
- São que horas? Ah, Meu Deus, são cinco e quarenta e cinco, eu preciso ir - disse juntando tudo correndo. - Você encerra tudo pra mim, preciso sair, não demoro.
- , volta aqui, aonde você vai?
- Te amo - gritei e corri em direção à porta do Jornal.

[...]

Caminhei correndo pelos corredores daquele hospital vendo que estava 15 minutos atrasada e tomando coragem para encará-lo depois de sete dias, porque eu sabia que ainda sim ele podia me ajudar e que agora devia tratá-lo como um psicólogo, o que seria difícil, mas não impossível.

- O... - Fechei meus olhos com força me repreendendo pela forma que falei e respirei fundo - O Doutor está? - perguntei para a secretária que me olhava esquisito.
- Sim, está a sua espera.

Dei as costas para a mesma e caminhei até o primeiro corredor à esquerda indo em direção à porta dois. Ao colocar a mão na maçaneta, senti meu coração bater mais forte e embrulhos no estômago de nervosismo que quase me fizeram desistir. Apertei meus olhos e virei a maçaneta que foi aberta antes, me fazendo dá de cara com ali parado.

- Ai que susto - disse pondo a mão no peito.
- Entre - disse seco.
- Licença - disse e caminhei até poltrona maior me sentando.
- Nós não podemos continuar.
- O quê?
- Eu disse que nós não podemos continuar mais com isso! - disse firme sem manter contato visual.
- Isso o quê? O que nós tivemos há uma semana ou as consultas, porque eu não estou entendendo - falei nervosa passando as mãos pela perna e tentando me manter calma.
- Com as consultas, e acho melhor fazermos como se nada tivesse acontecido
- É O QUÊ? - Gritei indignada - OLHA PARA MIM, !
- Não grita - disse baixo me olhando pela primeira vez - Eu não posso continuar, esse não é quem eu sou. Não posso agir como seu psicólogo como se nada tivesse acontecido, quando à questão é que eu traí a Emma.
- Ah, Emma? Mas e eu, ? - perguntei nervosamente andando de um lado para o outro.
- Eu não sou assim, eu sou uma pessoa certa e correta que tem conceitos e opiniões próprias e se eu não acabar com isso, eu vou está me desmoralizando

Ao escutar aquelas palavras o meu coração se apertou e se partiu como há um ano, como se toda aquela sensação estivesse sendo passada mais uma vez e de forma diferentes, como se eles fossem interligados e dispostos a me quebrar.
Senti a sala bem decorada começar a girar, a garganta se fechar e eu dei alguns passos para trás.

- , você está bem? - perguntou saindo de perto de sua mesa caminhando até onde eu estava.

- Fica aí - disse apertando os olhos e me sentando.
- Você está pálida, deixa eu ajudar.
- NÃO! - gritei me levantando rápido e o empurrando para longe de mim e sentindo toda a minha cabeça girar - Como você pode fazer isso comigo? Você me conheceu da pior maneira possível e desde então sempre foi atrás de mim, dizendo que eu precisava de ajuda e precisava me cuidar, se eu aceitei isso, foi por que você insistiu - dei uma pausa tomando fôlego e me olhava do outro lado da mesa de centro sem nenhuma expressão - Pra agora você fazer simplesmente isso? Me jogar para escanteio, dizer que esse não é você. Então me diz quem você é porque para mim você é um imoral e sem palavra.

As palavras pareceram atingir que na mesma hora abriu a boca e fechou sem ação nenhuma.

- Eu quero te ajudar, e eu sei que eu insisti para isso, mas foi porque eu, como psicólogo, percebi que você estava com problemas que estavam fazendo mal para sua saúde normal e mental...
- HA - rir debochada puxando fios de meu cabelo - Então agora além de garota problemática, sou doente também?
- Não é isso que eu quis dizer - falou irritado apontando o dedo para mim.
- Não fala mais nada, vou embora - falei frustrada e caminhei indo pegar minha bolsa e passando pelo mesmo, mas ele segurou em meu braço, ficando de costas para mim.
- Eu não estou deixando de ser seu psicólogo, por que eu quero - disse e eu rir debochada enquanto ele falava ainda me segurando - Em partes sim, mas é porque essa pessoa não sou eu, sempre tive meus conceitos e agora eu destruí um dos meus conceitos, e eu não me sentiria bem com isso. Nossa relação devia ser apenas profissional e aqui no consultório, nos tratando como amigos, mas sem envolvimento, porque seria errado comigo, com você e com a Emma, que é quem eu amo. - falou puxando o ar e eu continuava ali parada sendo segurada por ele - Mas aí o me ligou perguntando se eu podia ir até você porque estava precisando e eu...
- Eu liguei para o e não você - o cortei falando fria e me soltando dele.
- Mas o não podia - disse firme - E eu sabia que você gostaria que eu estivesse lá, porque vi que estava confiando em mim e então eu fui, queria te consolar e te ajudar sem mesmo saber do que se tratava - disse soltando um suspiro longo e eu me virei, levantando um pouco a cabeça, olhando para ele, que se permanecia ainda de lado, como se estivesse indo para o lado ao contrário do meu - E então nós fomos para a casa deles que são nossos amigos, o que não podia, já que eu devia te tratar como psicólogo naquela hora, e aconteceu o que aconteceu e eu me sinto mal em ter traído quem eu amo, sempre quis ajudar você e com isso precisei até mesmo mentir para ter suas consultas depois, e prefiro fingir que isso não aconteceu e acabar tudo aqui e agora. - disse suspirando novamente e mostrando que estava sendo sincero e triste, o que me quebrava mais.
- Eu já entendi que você ama a Emma, e tudo bem nós acabarmos aqui, , você não vai mais precisar mentir por mim e acabar com os seus ideais e conceito - falei o encarando nos olhos enquanto o mesmo se virava, fazendo ficarmos um de frente para o outro e eu tive que erguer mais minha cabeça diante da diferença de tamanho. - E pode ficar tranquilo que nada aconteceu entre nós e você estava certo, eu estava confiando em você, estava mesmo - disse frustrada espalmando minhas mãos em seu peito e ele acompanhou o movimento. - Vamos evitar contatos também, tchau, .

Me virei para sair quando passou por mim entrando na frente da porta e eu me assustei o olhando de novo.

- Eu quero que continue o tratamento e que fique bem, e por isso eu passei o seu caso para o , que tem um consultório próximo ao Central Park e ele é bom, devia ir lá.
- Não precisa se preocupar comigo, eu sei como cuidar, quebrei muito a cara já e levo mais essa como experiência - o encarei e ele fez o mesmo, me estendendo o cartão e eu peguei – Agora, me dê licença.

Passei por ele puxando a maçaneta da porta com firmeza e segurando o choro, que agora parecia ter voltado com força.

- Adeus, - disse e bati a porta.

Saí correndo pelos corredores enquanto as lágrimas escorriam compulsivamente e eu ia esbarrando em muitas pessoas, algumas eu pedia desculpas e outras, não. Senti a sensação de liberdade e alívio, como se estivesse me libertando de algo, como há um ano.
Peguei meu celular e chamei um táxi que em sete minutos estava parando na minha frente e eu entrei.

- Senhorita, qual o trajeto?
- Hum, Boate Cielo, por favor - disse e o mesmo me olhou estranho, mas assentiu.

Às 20:45hrs estava saltando em frente à boate, andei até a entrada e com uma conversa, consegui que os seguranças me deixassem entrar.
A música eletrônica tocava ali e fazia muitas pessoas dançarem juntas e parecer que estavam realmente animadas, e que eles não tinham problema algum daquele jeito, rindo e brincando.

- Quero dois shots de tequila, por favor.
- Vamos começar devagar, moça.
- Eu estou, moço. - falei debochada.

O garçom me entregou as bebidas e eu as tomei de uma vez, pedindo depois mais uma dose e um whisky duplo.

[...]

Os meus pés pareciam voar pela pista de dança, eu podia sentir o meu coração acelerado e até mesmo ouvir as batidas, eu dançava e jogava as mãos para o alto, a fim de livrar toda aquela tristeza de cima de mim.
Meu telefone tocou e eu vi que haviam mensagens dos meus amigos e irmão, preocupados comigo. A raiva me consumiu junto com a tristeza e eu me afastei indo para o bar, que era o lugar mais calmo ali.

- Alô - falei assim que a ligação foi aceita.
- Alô, , o que quer? - perguntou
- Eu quero que vá você, seus ideais e sua ajuda para o inferno - disse rindo com a voz já embolada.
- É o quê? Você está bêbada? Onde você está?
- Como você é chato e careta, quanta pergunta, doutor certinho. Eu estou curtindo, eu disse que não precisava da sua ajuda - disse e finalizei a ligação mandando beijos para , que gritava protestando para que eu não desligasse.



Point Off View

Depois de ter contado para que não seria mais seu psicólogo, eu esperava uma reação ruim da mesma, mas não tanto. As palavras dela me atingiram mais do que eu achava que poderia.

- Vou à casa do , não demoro - disse dando um beijo na testa de Emma.
- De novo? Você não pode ficar em casa comigo, você tá diferente, .
- Emma, por favor, agora não - disse tentando controlar minha raiva e frustração, afinal, Emma não tinha culpa.
- Agora não? Então, quando? - perguntou irritada, jogando seus fios loiros para trás.
- Depois, foi apenas quinta passada e essa, mas isso vai acabar - disse e saí sem deixar que ela argumentasse.

[...]

Fui direto para o apartamento de junto com e agradeci porque o mesmo não estava lá e com isso, pude conversar com o meu amigo.
Estava tentando contar sobre o que aconteceu sem dizer quem era, quando recebi uma ligação de .

- Alô, o que quer, ? - falei assim que atendi.
- Eu quero que vá você, seus ideais e sua ajuda para o inferno - disse rindo com a voz já embolada.
- É o quê? Você ta bêbada? Onde você está?
- Como você é chato e careta, quanta pergunta, doutor certinho. Eu estou curtindo, eu disse que não precisava da sua ajuda.
- , NÃO DESLIGA - Gritei, mas já era em vão.

- Pode me explicar o porquê de todos esses gritos com a ? O está atrás dela - disse preocupado e desconfiado.
- Vou contar tudo.

[...]

- Então você acabou beijando a , traindo a Emma, virou psicólogo dela e tudo isso em apenas uma semana?
- Sim.
- Você está ficando rápido - falou rindo.
- Sem brincadeiras, é melhor você se afasta da , ela têm realmente muitos problemas e tudo têm desmoronado para ela.
- Vou ligar e descobrir onde ela está, vamos levá-la para casa.
- Eu vou, você não - disse.
- Eu vou - protestei - Liga do seu celular.

tinha conseguido descobrir em qual boate se encontrava e nós fomos em direção ao meu carro, depois traçando o trajeto para lá.
Ao chegarmos lá, foi necessário um pequeno suborno ao segurança para que nos deixassem entrar, o que não me agradou muito, e começamos a procurar pelo bar, onde o bar tender, Michael, disse que a manteria ali. Em meio a tantas pessoas, enxerguei a garota ruiva sentada no bar falando com o bar tender.

- ! - chamei.
- Oh meu Deus, doutor certinho, o que faz aqui? - perguntou debochada e rindo enquanto erguia seu copo.
- Sem gracinhas, vamos embora.
- Ah, mas você acabou de chegar, doutor certinho
- , é sério hoje já deu. - apareceu atrás de mim falando e ela parou para olhar ele.
- OK, vamos embora, mas eu vou com e não com você - ela disse apontando seu dedo indicador no meu peito.

seguiu com até a saída da boate, depois tivemos que fazer alguns esforços para que ela entrasse no carro, aonde a mesma colocou a cabeça encostada no vidro e pareceu ficar ali quieta.

- Chegamos - disse e abri a porta de trás, puxando a mesma.
- Eu já disse que eu não quero que você me encoste, doutor certinho. - disse a mesma, gritando e se debatendo.
- , eu estou aqui, não vai te encostar - disse chegando perto dela.

Entramos no prédio e eu apertei o quinto andar indo direto para o corredor esquerdo, no número 505 e batemos uma vez, e logo atendeu.

- Em plena quinta-feira e você me faz isso!
- MEU DEUS, COMO VOCÊ É CHATO – ela gritou com a voz arrastada parando no meio do corredor – EU JÁ TINHA DITO QUE EU NÃO QUERIA VOCÊ PERTO DE MIM, AINDA NÃO SE LIGOU?
- Para de gritar.
- , você está bêbada? - perguntou abrindo a porta com Samantha em seu alcanço – O que está acontecendo? – perguntou olhando de mim para a sua irmã.
- Nada – respondi rápido.
- , eu pedi para me esperar – disse saindo do elevador.
- Eu quero entender o que está acontecendo – perguntou irritado e desconfiado.
- Amor, a tá acabada com a pressão da faculdade, foi um erro ela ter sumido e ter bebido muito, mas olha, ela já está quase apagando – disse Sam, indo até a amiga que a abraçou – O e deviam estar juntos e trouxeram ela aqui, são nossos amigos também e dela.
- Ele não – levantou a cabeça falando, mas Samantha a calou.
- É, você tá certa, vamos entrar, obrigada, irmãos – disse isso e saiu junto comigo e enquanto e Samantha entravam.

[...]

Point Of View

Acordei me sentindo como se um trator estivesse passando por cima de mim e eu não conseguia me defender. Impulsionei meu corpo para frente e por fim levantando, minha cabeça doeu e eu me arrependi de ter bebido tanto. Flashes do dia anterior foram soltos na minha mente e eu senti doer mais.
Prendi o cabelo e saí do quarto, descalça mesmo e de pijama, torcendo para que não tivesse ninguém em casa.

- O está aí ainda, e eu não fui para a faculdade, hoje é aula online, se estava tentando se esconder falhou – Samantha disse rápida e seca sentada no sofá, a mesma nem ao menos se virou, continuou falando enquanto me olhava pelo reflexo da televisão desligada.
- Eu não estava – disse mordendo os lábios.
- Estava sim, qual foi, Di Ângelo, o que tá acontecendo? – Samantha perguntou se virando e me encarando, sua feição era de irritada e chateada – Você morde os lábios quando fica mentindo, não tenta fazer isso, pensei que fosse sua melhor amiga.
- E você é, mas...
- Ei, maninha, podemos conversar? – perguntou surgindo atrás de mim e eu me assustei, mas apenas assenti, indo para o quarto.- O que tá rolando?
- Desculpa, , desculpa, não queria fazer isso – disse sincera – Só ta sendo muita coisa em muito pouco tempo, meu pai acabou de voltar e eu ainda não compreendi isso.
- É, eu sei, nem eu – disse – Só não faz mais isso, têm sido anos difíceis para todos nós, não é se fechando, se calando ou bebendo que iremos resolver.
- Sim, verdade, mas acho que nem tudo se resolve.
- Um psicólogo, sim.
- Podemos conversar sobre isso, depois?
- Só vou dizer que sim, porque estou atrasado sei que aconteceu algo e quero saber de tudo, agora tchau e fica bem – disse e se levantou dando um beijo na minha testa e saindo.

[...]

Eu havia contado tudo para Samantha, que estava chateada por eu ter demorado a contar, mas também estava chocada, meu envolvimento com e ter aceito pela primeira vez me tratar, era algo demais para ela.
Minha melhor amiga me aconselhou a ir na tal consulta com e disse para que eu fosse sincera com e quando ambos perguntassem, mas que fosse no meu tempo.
Agora eu estava sentada esperando para ser chamada para minha primeira consulta com o meu novo psicólogo.

[...]

Uma hora depois eu deixei a sala, eu não sabia exatamente como estava me sentindo, mas era algo bom. Começamos aos poucos e conversando e tentando fazer com que eu me abrisse no meu tempo. Marcamos duas vezes na semana à tarde.
Deixei o consultório me despedindo da secretária e sai sentindo o ar gelado bater em meu rosto, apertei minha bolsa ao meu corpo e fui caminhando até o Porsche. Tinha já destravado o carro quando olhei para o outro lado do estacionamento e vi uma figura conhecida vindo em minha direção.

- O que faz aqui? - perguntei ríspida.
- Vim ter certeza de que viria a consulta - disse, colocando suas mãos no bolso. O mesmo usava uma blusa cinza, calça moletom e tênis preto.
- Eu tenho 19 anos, não sou mais uma criança, não preciso que cuide de mim e se precisar, tenho ao meu irmão.
- Não precisa disso, queria saber apenas como foi a consulta, como se sentiu, quero que continue. - disse e sua voz era chateada e triste.
- Não torne isso algo horrível, . Nós não temos nada, foi você mesmo que disse, acabou com algo que não existia, então, agora eu não vejo o porquê de contar como foi minha consulta com o psicólogo, ou você veio me dizer que não era pra falar do que aconteceu? Por que se for, não aconteceu - falei e lhe dei as costas entrando no carro e logo dando partida, deixando ele para trás parado no frio com as mãos no bolso e o olhar que eu demorava pra decifrar, mas agora eu sabia que era de triste e confuso.



Capítulo 9

Point of View


, hora de acordar! — Sam grita em meus ouvidos enquanto bate palma, fazendo um barulho totalmente insuportável.

Enfiei minha cabeça na almofada e, após perceber que não teria jeito de fugir do furacão Samantha, decidi despertar. Abri preguiçosamente meus olhos, me sentando a contragosto no sofá e a encarando com a melhor cara de brava que consegui fazer.

— Cara feia pra mim é fome, levanta esse popozão e vamos comer! — Diz animada, começando a puxar meus braços em uma tentativa bem falha de me fazer acordar. — Você dormiu a noite toda no sofá? — Perguntou espantada e só então reparei nas dores que sentia em minhas costas. — Definitivamente precisamos trocar esse estofado duro por algo melhor. — O que deu em sua cabeça?
— Eu estava tão cansada que só cheguei em casa e me joguei no sofá, devo ter dormido por um bom tempo aqui, pelo menos é o que minhas costas querem me dizer.
— Agora já foi, não adianta reclamar das dores. Vamos preparar o café e depois você toma um remédio para aliviar. — Me espreguiço no sofá e levanto, indo até a cozinha. — O que quer comer hoje?
— Não me pergunte como se você soubesse fazer algo além de panqueca. — Digo rindo. Aqui em casa quem costuma cozinhar é o , Samantha só observa, como se estivesse aprendendo algo.
— Eu sei sim, eu aprendi a fazer torradas. — Se gaba.
— Oh, que orgulho! — Brinco. — Toma vergonha na sua cara, Sam. Vamos fazer um suco e pegar torrada pronta mesmo, é melhor do que você colocar fogo na casa e depois eu sair como a culpada.
— Eu não sou tão ruim na cozinha a tal ponto de incendiar a casa.
— E aquela vez que-
— Esquece, é passado. — Sam diz enquanto fica nas pontinhas dos pés para conseguir pegar a embalagem de torrada que está guardada no armário.
— Certo. — Murmuro risonha.
— Mas e aí? Como estão as coisas com o ?
— Ele é um bom profissional, eu só não sinto a mesma segurança que sentia com o . — Digo enquanto observo minha amiga toda atrapalhada tentando fazer o suco.
— Acha que ele não é confiável?
— Não é isso, só que eu tinha intimidade já com o , eu sinto que estou começando do zero de novo.
— Confiança não se ganha de uma hora pra outra, você melhor do que ninguém sabe disso. — Me encara séria.
— O tenta aprofundar as consultas, mas eu me sinto insegura e confusa para falar sobre certas coisas.
— Isso é normal, mas você tem que ter em sua cabeça que ele está lá para te ajudar e não te julgar por seus atos do passado.
— Eu sei disso. — Digo pensativa, seria difícil construir confiança de uma hora pra outra em alguém desconhecido.
— E o ?
— Preferia nem lembrar muito dele. Lembra da última consulta que tive com o ? Quando terminou, eu me encontrei ele na saída, se pagando de preocupado comigo. — Desabafo frustrada pelo acontecimento.
— Ele não poderia estar realmente preocupado?
— Não acho que estaria, ele deveria se importar com sua noiva.
— O que você fez?
— Falei algumas coisas que estavam presas e fui embora. Ele me machucou, me magoou, eu me senti como se tivesse retrocedido ao passado.
— Se você se sentiu tão mal assim, o melhor é se afastar ou você sente algo por ele?
— Não... Não sei, é confuso, desde que aquilo aconteceu tudo se tornou mais complicado.
— Como você se sente com ele?
— Na maioria das vezes, me sinto bem, me sinto protegida e eu gosto da companhia dele.
— Só da companhia dele? — Começo a me sentir pressionada com as perguntas e decido dar um fim nisso.
— Eu não sei, Samantha! — Digo já nervosa, Samantha me encara feio por eu ter levantado a voz. — Você sabe como tudo é mais complicado pra mim.
— Eu acho que já está na hora de você parar de se fazer de "coitadinha" e começar a agir. Você está gostando dele, só não percebeu ainda por preferir se fazer de coitada, eu entendo seu trauma, eu acompanhei você desde o que aconteceu, só que acho que está na hora de começar a enfrentar o mundo. O maior passo que pode dar para superar isso é se permitir gostar de outro alguém.
— Chega desse assunto.
— Se você prefere assim. — Da de ombros, como se não ligasse.
— Ótimo.


Point of View

Após a discussão que tive com , me senti o pior ser humano do mundo, eu realmente não quero me envolver com ela estando noivo, isso não é certo. Eu sou bem mais parecido com Emma, nos conhecemos há tempos, não sei como consegui beijar outra pessoa gostando tanto dela do jeito que gosto, estamos noivos, temos o mesmo sonho de construir uma família, a conheço como a palma da minha mão, nossas famílias se adoram, tem tudo para dar certo!
Eu me sinto um completo idiota por ter gostado do beijo e não conseguir esquecer do gosto dos lábios de , no momento parecia que tínhamos o encaixe perfeito, o sabor de seus lábios, seus cabelos bagunçados, tudo me fez não pensar nas minhas atitudes, eu fui inconsequente e agora terei que lidar com as consequências de meu ato.
Eu tentei conversar com ela, me explicar, mas acho que a magoei tanto que ela não quer ver minha cara por nada. Ao vê-la dizer aquelas palavras, descrevendo como se sentia, me senti horrível, no momento estava tão impactado que não consegui correr atrás dela e insistir para ela me ouvir. Sei que não posso cobrar isso dela, eu errei, mas ainda assim me importo e quero seu bem.
Após a discussão eu fui para meu escritório adiantar o trabalho e ao chegar em casa e encontrar Emma dormindo no sofá, percebi que havia feito merda novamente. Ela tinha me pedido para chegar antes porque precisávamos conversar.
Me ajoelhei próximo ao sofá e lhe chamei baixinho, Emma só soltou um baixo resmungo e virou para o lado. Suspirei cansado e a peguei no colo, observando seu rosto durante o caminho para o quarto. Emma estava com olheiras, ela andou se esforçando muito no trabalho e assuntos do casamento, é uma garota esforçada que merece o mundo, o típico biquinho que ela sempre faz enquanto dorme estava lá, seus fios estavam desgrenhados, mas ainda assim não tiravam sua beleza.
Ao chegar ao quarto, a deitei cuidadosamente na cama, temendo acordá-la, não adiantou muito, pois segundos depois seu celular começou a tocar.

— Droga. — Murmurei a observando pegar o celular lentamente.
, você só chegou agora? — Perguntou enquanto bocejava e negava a chamada.
— Por que não atendeu? — Mudei o foco da conversa.
— Não é nada importante. Agora me responde, você só chegou agora?
— Sim, resolvi adiantar meu trabalho.
— Tente não se cobrar tanto, amor. — Diz afetuosa. — Eu fiquei te esperando para conversarmos, você esqueceu, né? Você nunca tinha esquecido antes.
— Me desculpa, Emma, o trabalho está me cobrando muito. — Dou a primeira desculpa que encontro. Vejo Emma me encarar hesitante, ela sabe que quando não estou muito bem, costumo trabalhar mais do que o normal.
— Não acha bom tirar umas pequenas férias? — Pergunta preocupada. Me aproximo dela e sento na ponta da cama, começando a mexer em seus dedos.
— Eu amo meu trabalho, não conseguiria me afastar e nem deixariam, a agenda está lotada por agora. — Dessa vez fui totalmente sincero, o hospital está cobrando bastante de seus funcionários.
— Se você prefere assim. — Da de ombros. — Está muito cansado agora?
— Não, por quê?
— Eu queria falar sobre nosso casamento, amor, quanto antes resolvermos as papeladas, melhor vai ser, não quero ter que fazer as coisas na correria. — Se explica.
— Não acha que está cedo?
— Não, podemos marcar a data para maio, eu realmente gosto desse mês. — Diz animada, exibindo um sorriso enorme em seu rosto. — Temos que ver quem vamos convidar, a decoração, comida, o local, são tantas coisas que só de pensar já me cansa, mas é pro nosso casamento, pensando assim, o cansaço já some.
— Pode deixar que a maioria sua mãe vai querer decidir. — Acabo soltando. Desde o começo do relacionamento a mãe de Emma sempre se meteu muito, e não que eu não goste de minha sogra, ela é uma ótima mulher, só que acha que a filha não pode resolver as coisas sozinha, o que é totalmente o contrário, pois Emma é super independente.
— Eu não quero que ela decida, é algo nosso, eu quero escolher esses detalhes com você, esse momento é especial.
— Não acha melhor adiar?

A morena me encara surpresa, eu sempre era o primeiro a querer resolver as coisas do casamento para fazer a cerimônia logo, mas agora estou achando melhor demorarmos mais um pouco.

— Por que adiar? Você está com dúvidas sobre algo? — Percebo que Emma questionou isso já irritada com minha resistência.
— Não, só acho que vai ser melhor para ambos.
— Adiar não vai ajudar em nada. Estou sentindo como se você estivesse com dúvidas.
— Eu não estou com dúvidas. — Afirmo com certeza.
— Tem certeza? Você está estranho ultimamente.
— Continuo do mesmo jeito.
— Não, não continua e pelo jeito só vou conseguir entrar em consenso com você quando estiver disposto a me ouvir, o que não está acontecendo hoje.
— Eu estou cansado. — Tento fugir de me explicar.
— Eu te perguntei se podia falar, você assentiu. Vá descansar então e amanhã conversamos, é melhor. — Ela me dá um beijo na bochecha e se vira pro outro lado.

Me levanto e pego roupas limpas para ir tomar banho. Durante o banho todo pensei sobre isso tudo que está acontecendo e isso me trouxe uma forte enxaqueca. Ao deitar na cama não abracei Emma como de costume, virei para o outro lado e continuei pensativo.
Eu definitivamente estou com dúvidas nesse momento.


Point of View

Sam e saíram para jantar fora, eu não quis ir junto pois sei que como casal eles precisam de privacidade e eu não sei lidar muito bem com essa privacidade. Assim que eles bateram a porta de entrada, eu já corri para meu celular e mandei vir para cá o mais rápido possível, como sempre ele não demorou, as vezes me questiono se ele realmente trabalha porque não é possível sempre estar livre.
Neste momento estamos conversando sobre minha vida, ou seja, as coisas não estão fluindo muito bem porque minha vida é uma total bagunça.

— Vamos, desabafe comigo, me diga tudo o que está sentindo. Finja que sou o seu novo psicólogo, o nome dele, certo? — diz enquanto me puxa para seus braços, me acomodando em seu colo ao mesmo tempo em que começava a acariciar meu couro cabeludo de uma forma gostosa.
— O doutor não me puxa pro colo dele, isso seria muito estranho, e você é meu melhor amigo, é ainda mais fácil conversar com você sobre meus sentimentos. — Inclinei minha cabeça em direção às suas mãos, querendo mais do carinho.
— Assim você parece um gatinho manhoso. — comenta risonho. — Mas vamos continuar, o que tanto anda te afligindo nesses dias?
— Eu preciso que você me ajude a entender meus sentimentos, tudo está muito confuso aqui dentro. — Aponto para meu coração.
— Não tenho certeza, mas acho que isso só você pode entender.
— Que tipo de psicólogo você é, ? Ainda bem que você não seguiu essa carreira! — Exclamo indignada, ele não está me ajudando em nada até agora.
— Cala a boquinha que pelo menos eu tô tentando te ajudar.

Fechei meus olhos antes de começar a falar e suspirei alto, tentando relaxar meus músculos tensionados.

— Eu sinto algo estranho por uma pessoa, ele me deixa confusa, meus sentimentos são confusos perto dele. Em um momento estou animada, no outro me sinto nervosa, meu coração palpita e eu sinto uma enorme vontade de ser protegida e proteger ele.
— Para tudo! Essa tal pessoa por acaso é o ?
— Como você sabe? — Pergunto incrédula.
— Eu tenho uma ótima percepção das coisas a minha volta. — Se gaba, jogando os cachos para o lado. — Continue.
— Eu sentia uma grande confiança nele, porém ele conseguiu destruir tudo, mas mesmo após ele me decepcionar, eu ainda não consigo parar de pensar nele.
— Você o ama? — pergunta do nada e eu arregalo meus olhos instantaneamente.

Engasgo em minha própria saliva, sinto dar fracas batidinhas em minhas costas e após recuperar o fôlego percebo que minhas bochechas estão quentes.

— Não acha que amar é uma palavra muito forte? — Pergunto.
— Em partes sim, em partes não, é bem complexo.
— Você que é complexo! Não consigo entender meus próprios sentimentos. Isso é frustrante!
— Calma, , tudo vai se esclarecer no momento certo. Se você ama ele ou não, só seu coração pode dizer.
— Meu coração é mais confuso que eu. — Brinco.
— O tempo pode ajudar seu coração a deixar de ser confuso.


[...]



foi embora ao entardecer começar a cair, ele recebeu uma ligação de seu chefe que parecia estar bem bravo consigo, agora sim está confirmado que realmente tem um emprego.
Eu decidi aproveitar que estava sozinha para ficar livre. Já havia assistido dois filmes de drama e chorado horrores, sentia vontade de rir de mim mesma por isso. Me levantei e decidi tomar banho para ficar confortável com uma roupa limpa.
Comecei a tirar minhas roupas apressadamente e entrei em baixo do chuveiro, sentindo a água quente relaxar meus músculos. Estava passando o sabonete em meu corpo quando cheguei em minhas coxas e me lembrei das palavras de Samantha sobre superar, encarei a pequena cicatriz naquele local e uma sensação de sufoco começou a me dominar. Lembranças aleatórias começaram a invadir minha mente, uma sendo a principal.


Flashback on
A cada passo que eu dava, suspirava com raiva. Dessa vez Johnny foi longe demais, não vou aturar ouvir os outros me chamando de corna, não. De qualquer forma, não adianta sentar e chorar, então decidi vir tirar satisfações, ele me deve isso.
Abri a porta de forma bruta, chamando sua atenção, ele me encarou com interesse, estava prestes a falar algo quando ele me cortou.

— Meu bem, achou o local dos médicos? — John falou debochado.
— Eu sou dona desse hospital, sabia? — Disse rude, o encarando com raiva.
— Esse hospital tem o seu nome — me olhou de cara fechada.
— Por que me traiu? — Fui direto ao ponto.
, vamos voltar a isso de novo? E ainda por cima aqui no hospital? — John perguntou se levando enquanto ajeitava o seu jaleco impecável.
— VOLTAR NISSO? É SÉRIO? — Gritei exaltada entrando na sala e batendo a porta atrás de mim.
— ABAIXA O TOM DE VOZ COMIGO — Gritou se exaltando e eu me assustei, tremendo um pouco. — Eu já disse, você e eu brigamos e eu me irritei. Eu fui para o bar e a Kimberly estava lá, foi isso.
— Johnny...
— Eu não acabei - disse cada palavra silabicamente, cerrando os punhos enquanto eu me calei — Se nós não tivéssemos brigados, eu não estaria lá, estaria com você e-
— AH MEU DEUS, JOHHNY JAWAAD, VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO QUE A CULPA DE VOCÊ TER ME TRAIDO É MINHA? — Gritei novamente, irritada.
— EU JÁ FALEI PARA NÃO GRITAR — Ele disse batendo a porta do lado com força e eu me estremeci um pouco.
— Eu não vou fazer isso. — falei enquanto jogava minhas mãos para o ar em forma de rendição e depois passando as mãos pelo meu cabelo. — Acabou, Johnny — Me virei para sair.
— Não, nós temos que conversar — falou baixo e firme caminhando até mim na porta.
— Não, eu disse que acabou — Me virei para pegar a maçaneta da porta.
— E eu disse que nós temos que conversar — disse segurando fortemente no meu braço — E se eu falei que temos que conversar, é por que temos!
— Johnny, tá me machucando — Tentei soltar meu braço de seu aperto — Me solta — disse tentando me puxar já um pouco desesperada.
— NÃO!
— EU VOU DENUNCIAR VOCÊ, VOU ENTREGAR VOCÊ PARA A POLÍCIA - gritei firme tentando intimidá-lo.
— VOCÊ NÃO VAI FAZER NADA, PORQUE EU NÃO VOU DEIXAR — Johnny havia pego meu outro braço e me prendia com o seu corpo, me pressionando contra a porta.
— Você é abusivo, você é maluco, John!
— EU NÃO SOU LOUCO — o soco havia passado rente ao meu rosto e acertando com tudo à parede ao meu lado, o que me fez fechar meus olhos com força.

Meus olhos estavam fechados, meu peito subia e descia com o coração acelerado e eu só pedia para que tudo aquilo passasse, por um momento se passou na minha mente de que eu não sairia dali. As mãos de Johnny foram se afrouxando do meu braço e eu senti meus pés tocarem totalmente o chão, o homem na minha frente encostou a cabeça no meu ombro e eu continuei ali parada.
Flashback off


Desperto assustada das lembranças amargas que preenchem meu passado, sinto meu coração acelerado.

!
— QUEM TÁ AÍ? — grito assustada como se estivesse escutando alguém me chamando.

Saí do banheiro e me enrolei na toalha. Corri para o quarto e tentei me acalmar, coloquei minhas roupas íntimas, quando escutei alguns barulhos na sala como se alguém estivesse chutando a porta e deixando coisas cair no chão. Olhei para porta desesperada tirando a toalha de meus cabelos.


Flashback On
2013, março.

Eu cheguei em casa e tudo que eu fiz foi ir para o quarto e chorar. Samantha e haviam saído para comemorar mais um ano de namoro e eu estava sozinha. Fui para o meu quarto e tomei um bom banho para relaxar e esquecer que havia sido traída por aquele imbecil do meu namorado.
Já havia saído do banheiro e estava em meu quarto secando os meus grandes e enorme cabelo ruivo tentando focar meus pensamentos em qualquer outra coisa. Estava tudo bem até começar a escutar alguém esmurrar a porta e gritar.

— ABRE A PORRA DESSA PORTA – John gritou socando a porta e eu senti meu corpo tremer como se a porta fosse cair – VOCÊ ACHA QUE PODE APARECER NA MINHA CASA, GRITAR QUE EU SOU UM TRAIDOR E IR EMBORA ASSIM? COMO SE EU NÃO FOSSE ATRÁS?

Naquele momento eu senti medo e não conseguia mover o meu corpo, eu estava parada no meio da sala da casa de tia Vivian e escutava o meu namorado esmurrar a porta e me questionava quanto tempo demoraria pra ela vir ao chão e naquele momento eu senti medo.

— VOCÊ NÃO FOI LÁ, NÃO GRITOU COMIGO NA FRENTE DOS MEUS AMIGOS? NÃO ME DESAFIOU, VAMOS LÁ, MEU AMOR, ABRA A PORTA – gritou mais uma vez antes de chutar a porta e o tom dele era de raiva e de uma forte embriaguez.
Flashback Off



Eu não consegui ver quando começou a chover, só vi quando uma grande ventania atingiu a casa em cheio e logo depois o barulho de vasos se espatifando no chão se fez presente. Meu coração se acelerou, minhas mãos tremeram, de repente a sensação de está sendo sufoca e a sensação de que ele estava atrás de mim era presente.

- VAI EMBORA, JOHNNY, VAI EMBORA – gritei já sentindo lágrimas correrem pelos meus olhos – A GENTE CONVERSA QUANDO VOCÊ NÃO ESTIVER BÊBADO.

Olhei para o lado e vi quando meu telefone piscou na cômoda e percebi que aquela era minha única salvação, corri até lá pegando meu telefone e discando o número da Samantha, que deu desligado, depois o de , e , ninguém atendia. Vozes invadiam minha cabeça e eu parecia está cada vez mais sufoca, fui perdendo as forças e sentir meu corpo ir ao chão quando disquei um último número que me veio à mente.

?



Capítulo 10

Point Of View Malik
Cheguei do consultório mais cedo aquele dia, para compensar a noite anterior em que eu havia ido atrás de . E depois de toda aquela discussão havia ido direto para o consultório, o que fez que eu não resolvesse nada com Emma sobre nosso casamento.
- Chegou cedo, o que houve? – Emma perguntou.
- Nada, só adiei alguns pacientes – disse e lhe dei um beijo na testa
- Então o que acha de ver Teen Wolf comigo? – Ela disse me olhando.
- Huh, pode ser, vou só tomar um banho.
Subi as escadas pulando de dois degraus de cada vez e entrei no quarto tirando a roupa e indo em direção ao banheiro. Deixei meu celular em cima da pia do banheiro e entrei no box. A água caía nas minhas costas enquanto eu lembrava de como eu e Emma nos conhecemos. Foi em uma festa da fraternidade ao qual me obrigou a ir e lá eu a conheci minha futura amada e advogada. Ela estava linda e alegre, fazendo piadas que ela dizia serem ruins, mas eram ótimas. Eu pelo menos achava.
No tempo da faculdade, Emma e me deram muita força e apoio. Não foi fácil passar seis anos longe de Nova York estudando e deixando toda minha família aqui e sempre desejei muito voltar para cá e exercer minha profissão.
Quando terminei meu banho, fui até o quarto colocando apenas uma bermuda leve.
- AMOR? – Emma chamou.
- Eu já vou descer, meu bem. – Respondi.
Estava quase saindo do quarto quando meu celular começou a tocar e eu voltei.

- Ligação On
- ? – Uma voz claramente alterada perguntou.
- ? é você? – Perguntei preocupado ao escutar a voz dela daquele jeito e aquela hora.
- , me ajuda, me ajuda ele tá aqui! Tem alguma coisa aqui! – Ela disse aflita entre suspiros entrecortados.
- Ele quem? O que aconteceu? – perguntei ficando nervoso – , me responde, tá aí?
A respiração de ficou cada vez mais distante e logo o celular começou a fazer um barulho que indicava que ele havia sido desligado.
- DROGA! – gritei jogando o celular na cama.
Corri até meu armário e vesti uma camisa qualquer. Peguei meu telefone e desci as escadas correndo, passando pela mesa e pegando minhas chaves e correndo até a porta.
- ? – Emma gritou e eu me virei para olhá-la. Ela estava parada na porta da cozinha, me olhando sem entender.
- Oi. – disse indo até ela.
- Aonde você vai? – Ela perguntou juntando as sobrancelhas, confusa.
- Eu não posso explicar agora, mas preciso ir. Eu te amo. – Ela assentiu e eu beijei sua testa e saí batendo a porta atrás de mim.

[...]

Alguns minutos depois, dirigindo em uma velocidade não recomendada, eu já estava passando pelo Central Park e entrando no terceiro quarteirão. Estacionei em frente ao prédio e fui até a recepção.
- Sr. James. – Chamei tentando não parecer nervoso.
- Sim. – O homem voltou seu olhar para mim.
- O senhor poderia me dizer se alguém subiu para o 204? - Perguntei encostando no balcão.
- Para o apartamento dos Di Angelo? Não, não subiu ninguém. – Ele me olhou desconfiado.
- Acho que aconteceu alguma coisa. O senhor poderia, por favor me emprestar a chave reserva? Eu me responsabilizo por tudo, só preciso que seja rápido. – Pedi aflito.
O Sr. James pareceu compreender e sentir o meu desespero e o quão preocupado eu estava. Ele me deu as chaves, sem perguntas e eu corri até o elevador.
- ? – Chamei baixinho entrando no apartamento cautelosamente já que o lugar estava totalmente escuro.
Caminhava pela sala com cuidado, quando escutei um choro baixinho vindo do corredor, mais precisamente da cozinha. Caminhei até lá e encontrei sentada no chão, com a cabeça entre os joelhos e sussurrava algo para que alguém fosse embora como da primeira vez em que nos vimos. Acendi a luz da cozinha e fui até ela.
- . - Chamei baixo com cuidado e calma enquanto colocava uma de minhas mãos em seu braço.
- Me deixa, por favor, me deixa! – Pediu baixo, enquanto chorava e tremia. – Eu não queria gritar com você, mas você fez aquilo...
- Ei, ei, eu não fiz nada. – disse a cortando – Olha para mim. Eu sou o . Não tem ninguém aqui além de mim.– Disse sentando de frente para ela que pareceu acreditar em minhas palavras e levantou a cabeça devagar.
- . – Constatou quando levantou a cabeça totalmente e me olhou com aqueles olhos castanhos que estavam mais vermelhos que o normal.
- Sim, sou eu. – falei suavemente e lhe dei um sorriso, tirando os fios ruivos de seu rosto. – Está tudo bem agora, estou aqui com você e...
Não consegui terminar a frase, se jogou para cima de mim me abraçando desajeitadamente, o que me fez quase cair para trás e me apoiar na bancada da cozinha.
- Começou a chover, e aí a luz acabou e eu fiquei com medo e do nada eu comecei a lembrar. – Ela falou entre soluços – Lembrar dele, .
- Calma, foi só uma crise de pânico, mas eu estou aqui. – disse e afastei seu corpo do meu para ver seu rosto que estava bem vermelho. – A chuva já até passou um pouco, o que acha de ir tomar um banho? – Sugeri.
- Eu estou com medo. – Confessou baixando o rosto.
- Eu vou está aqui quando sair. – Disse segurando seu rosto com as minhas mãos e ela pareceu concordar.
tinha ido tomar banho e eu resolvi procurar alguma coisa para que nós dois pudéssemos comer, não achei nada de bom, então resolvi sair e ir ao mercado mais perto.

[...]

- Você disse que ia estar aqui. – Falou baixinho me olhando com o rosto ainda vermelho.
- Não tinha nada para comer, fui até o mercado, desculpe. Eu deveria ter avisado. – Falei e senti um aperto no peito por ter feito chorar e sentir medo de novo. - Vocês precisam comprar mais coisas para essa casa. – Disse tentando fazê-la rir e ela deu uma risadinha baixa.
- O que trouxe? – Perguntou curiosa.
- Massa. – disse e sacudi a sacola, sorrindo.
Fui para a cozinha preparar a comida e veio junto para me ajudar. Em meia hora tudo estava pronto e nós estávamos indo para a sala com nossos pratos.
- Podemos ver Grey’s? – perguntou.
- Grey’s Anatomy? – questionei e ela afirmou. – Pode ser, eu nunca vi. Eu estava pensando em começar com a...
- Com? – Ela perguntou me encarando.
- Deixa pra lá - Engoli o que eu iria dizer e senti um gostinho amargo.
- Então, vamos ver o primeiro episódio, porque Karev, O’ Malley, Yang, Grey e Stevens merecem ser exaltados. – Falou e abriu um enorme sorriso, pondo o cabelo para trás
- Você fica ainda mais bonita com o cabelo molhado. – Disse sem pensar e ela me olhou. – Digo, de quem puxou esses cabelos ruivos? – Corrigi rápido.
- Da minha mãe. – Falou. – Ela tinha os cabelos bem ruivos, e foi a única coisa que eu herdei dela e o , ele com certeza foi a personalidade. – Ela sorriu fraco.
- Foi? E você, de quem é sua personalidade? – Perguntei a encarando.
- Infelizmente me pareço mais com o George. – Disse sem emoção. – Podemos ver agora?
- Claro. – Disse e ela iniciou o episódio enquanto começávamos a comer.
Eram nove horas da noite quando olhei para o lado e vi totalmente adormecida, depois de termos assistidos três episódios seguidos ela pareceu por fim se entregar ao cansaço. Me levantei, coloquei nossos pratos na cozinha e voltei, peguei no colo, e ela pareceu apenas se aconchegar mais, e a levei para o seu quarto colocando-a na cama e a cobrindo.
- Fica bem, tá? – Disse passando minha mão pelo seu rosto e tirando os fios de cabelo dela, por fim me afastando.
- Você vai embora? – perguntou sonolenta, mas logo se sentou na cama e eu tive que voltar para perto dela. - ?
- Sim, eu vou, já são nove horas e a Emma já me ligou algumas vezes. – Falei um pouco indeciso se era certo falar aquilo e logo constatei que não ao ver sua expressão.
- Ah, Emma. – Falou dando um suspiro – Não pode ficar nem mais um pouco, até o e Sam chegarem?
- Eu realmente preciso ir agora. Eu vim aqui porque você estava mal, mas está melhor agora. Vai ficar tudo bem. – Tentei a acalmar.
- Só por isso, ? – Ela perguntou séria. - Se eu estivesse bem e te chamasse aqui não viria? – Ela perguntou me colocando contra a parede.
- Não foi isso que eu disse. Estou aqui por me importar e me preocupar com você. E para dizer agora que tudo que disse no dia em que fui até o consultório do foi errado.
- Você se importa comigo? – Perguntou se levantando e vindo até mim.
- Sim. – Respondi.
- Mas eu gosto de você – Falou e eu me surpreendi por suas palavras tão diretas. – É isso, eu pensei que não fosse acontecer mais, mas eu gosto de você, . Desde que você chegou com todo o seu cuidado e carinho eu passei a gostar de você e confiar como confio nos meus amigos. Eu achei que isso não pudesse acontecer porque às vezes a sua presença me perturba, mas ela me acalma e me traz mais paz do que perturbação. – parou para tomar um ar e continuou enquanto eu a olhava sem ação. – Você consegue ser pra mim alguém bom que eu sempre desejei, me faz sentir confiante, me faz ter coragem para superar, se não fosse por você ter insistido e investido em mim talvez hoje eu não estivesse no tratamento. Você me traz lembranças que me fazem sentir medo e meu coração palpitar, mas quando eu olho pra você de novo, tudo aquilo some porque eu me sinto em paz. Eu acho que estou completamente apaixonada por você. E então?
- Eu preciso sair daqui. – Foi tudo o que disse antes de deixar em pé plantada no meio do quarto sem entender nada.
Caminhei o mais rápido possível, não queria que viesse atrás de mim, estava confuso demais para lidar com ela e tudo aquilo que havia dito. Cheguei na recepção, entreguei as chaves e entrei no meu carro, não conseguia entender o que eu estava sentindo. Não era a primeira vez que ficava mexido por ela, mas agora era diferente, ela havia se declarado e eu estava assustado demais para dizer não, ou talvez não quisesse. Quando dei por mim eu não estava mais tomando rumo para minha casa e sim para de .
- ? – perguntou confuso quando abriu a porta.
- Sim, podemos conversar? – Disse entrando rápido.
- Claro, tá tudo bem? Algo com a Emma? – Ele perguntou me guiando até a sala.
- Não. É com a . – Disse e o olhei enquanto me sentava no sofá.
- O que tem ela? – Ele me encarou arqueando uma sobrancelha.
- Quando eu a beijei e traí a Emma, eu sabia que não poderia continuar com aquilo. Mas eu sabia que você podia, porque também é um ótimo psicólogo, ou eu achava que era... – tinha uma expressão confusa no rosto, que logo mudou para uma injuriada.
- Você não está falando coisa com coisa. Não entendi nada do que disse. E como assim achava que era? – disse tentando soar calmo.
- teve outra crise de pânico hoje. Eu te passei o caso dela com intuito de que você cuidasse dela. – Disse passando as mãos pelo cabelo.
- , as consultas estão fluindo. Não sabemos o que de fato aconteceu e ela precisa estar pronta para falar. – Ele respirou fundo. – E isso não te dá direito de interferir ou de questionar os meus métodos. Você a encaminhou para mim porque não ia conseguir fazer isso, agora ela é minha paciente. Você devia saber bem como funciona isso. Depois que encaminha um paciente, está feito. – falou sério, bufou e se encostou no sofá olhando para o teto.
- Eu sei. - Falei nervoso, estava coberto de razão.
- Parece que não, não quando se trata dela. – Ele repreendeu sem me olhar.
- O que você está querendo dizer? – Perguntei impaciente e não respondeu. – Só porque hoje, na verdade até agora pouco, eu estava com ela? – Bufei. – E estava com tanto medo, que eu até me senti mal por não poder ajudar, não fazer aquilo passar. – Vomitei.
- Me conta o que aconteceu direito, . - respirou fundo e me olhou.
- Ela me ligou e a voz dela era puro pavor e então a ligação caiu e sem pensar, eu fui até a casa dela. E ela estava lá sentada no chão da cozinha chorando e aparentemente com muito medo, e eu lhe disse que estava lá e que tudo ia ficar bem. – Soltei o ar que nem percebi que segurava. - E ver aqueles olhos castanhos que eu acho tão bonitos, vermelhos e tão distantes me doeu o coração.
- me interrompeu.
- Deixa eu terminar. – disse e ele se calou. - E aí ela foi tomar banho e eu resolvi sair para comprar algo para a gente comer. Quando eu voltei ela ainda estava tão mal que eu me senti como se tivesse quebrado uma promessa.
- Você tá escutando o que tá dizendo? – disse balançando a cabeça, não acreditando no que ouvia.
- Estou. - Falei nervoso, puxando alguns fios de cabelo.
- Não parece, olha o que você está falando... - Ele começou.
- E aí, ela simplesmente se declarou pra mim, assim direta e reta. – Falei cortando-o. – Disse que ao mesmo tempo em que eu era quem fazia ela ter medo, era quem trazia paz. E então eu não soube o que fazer e vim parar aqui. – Cuspi o resto da história, e senti o peso nas costas diminuir.
- Não soube o que fazer? – questionou .
- Sim, eu me senti estranho e deixar ela lá me quebrou o coração. - Falei soltando um longo suspiro. – E por um momento eu pensei que você não estivesse fazendo o seu trabalho direito e eu resolvi vir aqui para confirmar que é bobeira minha. Mas eu sei, não vou questionar seu trabalho, é só que eu precisava de um argumento plausível para entender o que aconteceu.
- . – respirou fundo e perguntou. – Quer que eu mande a real?
- Quero. – Respondi e o olhei.
- Você simplesmente está apaixonado pela Di Angelo. – Ele disse sem rodeios.
- O QUÊ? TÁ MALUCO? – Gritei me exaltando um pouco, enquanto levantava do sofá em um pulo. – EU AMO MINHA NOIVA!
- E desde que chegou aqui você por acaso se lembrou da Emma? Porque pelo que sei, você só falou da e de você. – disse calmo.
- Mas... – Eu estava ainda mais confuso.
- , você já é um homem de vinte quatro anos. Não tem mais idade para ficar mentindo para si. Até porque, isso não é mais só sobre você – falou firme e eu o encarei. – Eu aconselharia você a ir para casa, e pensar com cuidado, tomar uma decisão. Você não pode se casar com a Emma estando assim, se a te ligar no dia do casamento chorando, você deixa a Emma no altar e vai. E isso é perigoso para você e principalmente para a Emma, que merece mais que isso. – Ele disse.
- É, acho que você tá certo, posso estar confuso sobre as duas. – Disse praticamente ignorando o que ele havia dito.
- Eu tenho plena certeza que você está apenas negando para si. – Falou – E da próxima vez que você aparecer aqui questionando meu trabalho e dizendo que não faço meu trabalho direito eu quebro sua cara. – disse sorrindo irônico.
- Você faz muito bem. – Respirei fundo. - Agora preciso ir, deixei a Emma em casa sozinha. – Disse e fui para casa.

[...]

Entrei na garagem e resolvi checar o relógio que indicava uma hora da manhã.
- Droga. – murmurei batendo com as mãos no volante.
- ? - Emma chamou e quando me viu, veio até mim. - Você chegou, estava preocupada.
- Me desculpa, foi um paciente. – Foi tudo o que consegui dizer. Logo eu saí do carro, Emma veio até mim e selou nossos lábios.
- Que foi? Tá parecendo estar tenso. – Disse fazendo uma careta e eu forcei o melhor sorriso.
- Apenas cansado, vamos entrar? – Disse.
- Vamos, estava te esperando para jantar. – Emma disse entrando e eu me senti a pior pessoa do mundo.

[...]

Dois dias depois...
Dois dias haviam se passado desde que se declarou para mim. Desde então, eu evitei qualquer tipo de contato com os meus amigos porque sabia que precisava pôr a cabeça no lugar e não faria isso dando de cara com aquela que estava agitando minha vida, vulgo .
Cheguei em casa naquele dia às seis, e Emma ainda não estava lá. No dia em que cheguei tarde tentei a todo momento disfarçar minha tensão e meus pensamentos, mas estava difícil. Hoje a sorte pareceu estar ao meu lado e ela resolveu ficar até mais tarde no trabalho, e dormir na casa de uma amiga.
- Cheguei! – Emma disse abrindo a porta, e eu apertei os olhos me repreendendo por ter ficado alegre rápido demais.
- Oi, meu bem. - Ela me deu um beijo.
- Vou tomar banho e já volto. - Disse e subiu as escadas cantarolando.
Emma subiu e em quarenta minutos já estava de volta, disse que ela havia sido rápida e ela riu achando que fosse ironia.
Por um momento durante a risada de Emma me fez lembrar de .

Flashback On
- Eu não acredito! O cara com que ela dormiu é o chefe dela? – Perguntei embasbacado.
- Sim. – disse rindo. – Inacreditável, não é?
- Sim, bastante. - Disse e me recostei no sofá.
- Meu casal favorito. E a forma como o destino os uniu novamente é simplesmente cômica. – falou e soltou uma risada nasalada – Eu amo eles.
Flashback off

- Amor, escutou o que eu disse? – Emma perguntou me cutucando.
- Não. – Falei, desligando a televisão e ela me olhou.
- Eu estava dizendo que seria lindo casar na igreja mais perto do Central Park para depois tirarmos fotos por lá. – Ela disse me encarando.
- Nós precisamos conversar. – Disse sério, ajeitando minha postura e Emma se afastou de mim me olhando sem entender.
- O que foi? – Ela perguntou.
Eu tinha quase certeza que era uma decisão precipitada, mas desde que a garota ruiva se declarou para mim, eu simplesmente estava com a minha mente desgraçada. E eu tive certeza disso quando vi ela em Emma.
- Nós precisamos de um tempo. – Falei direto e ela me olhou com os olhos arregalados.
- Nós? - Ela havia sido pega de surpresa.
- Eu preciso de um tempo. – Me corrigi enquanto passava a mão pela nuca.
- Por que isso, ? - Ela respirou tentando manter a calma. - Você nunca foi assim, sempre foi decidido em tudo que queria, sempre teve certeza. Eu realmente não entendo.
- Mas agora eu não tenho mais, Emma. Eu estou confuso e perdido. – Disse soltando o ar.
- Perdido? Quem é você e o que fez com o meu Malik ? Porque esse não é aquele que eu conheci há quatro anos. – Emma disse se afastando.
- Em! Por favor, me desculpa. Mas não sei se posso continuar fazendo isso com você, colocando nesse meio todo que eu me meti. – Disse e escorreguei minha mão para segurar a dela que puxou rapidamente para longe do meu contato.
- Eu quero saber. O que fez você ter dúvida sobre nós? - Falou chorosa e eu me senti mais uma vez um monstro por estar fazendo ela chorar.
- Você não precisa disso, eu não quero ver você assim... – Não consegui terminar de falar porque Emma me cortou.
- NÃO! - Gritou exaltada se levantando. – Eu quero saber. Eu mereço mais do que desculpas e dizer que está em dúvida! – Emma disse magoada e aquilo estava me matando, só consegui olhar para qualquer lugar que não fosse o seu rosto. – Você conheceu alguém? Quem foi? O que aconteceu? – Ela perguntou gritando.
- Foi a . – Disse sentindo minha voz embargar. E ver o rosto de Emma desacreditado me fez sentir a pior pessoa do mundo e eu só conseguia olhar para o chão.
- V...você está com ela? - Perguntou com a voz embargada e gaguejando um pouco. – Me responde! – disse dessa vez com a voz tentando soar o mais firme possível.
- Não, não estou com ela. – disse olhando-a.
- Então você ficou com ela? – Ela gritou e arremessou um vaso que estava próximo em cima da mesa de centro, mas errou a mira.
- Sim. – Respondi sem olhá-la.
O choro de Emma foi tudo o que eu consegui ouvir, porque não tinha coragem de olhá-la, eu estava com a cabeça abaixada sobre meus joelhos e sentia algumas lágrimas caindo do meu rosto também.
- Eu quero saber tudo. – Falou rápido como se pensasse que não iria conseguir terminar a frase.
- Emma, não faz isso com você. – Pedi.
- VOCÊ FEZ ISSO COMIGO, E É MEU DIREITO! – Gritou, jogando algumas almofadas e eu não tive forças nem para desviar delas.
- O pai dela reapareceu depois de anos e o pediu para que eu fosse encontrá-la e dar uma força. E eu fui, acabei indo para a casa dela, porque ela estava muito mal e acabou acontecendo, eu a beijei. – Disse sem animo.
- A beijou? – Emma disse sem reação.
- Sim, só isso. – Disse, como se amenizasse algo. - Depois eu me arrependi e disse que era noivo.
- Ah, você beija ela e depois simplesmente lembra que eu existo? – Emma riu alto e sem humor. Sua risada me assustou.
- Em, não foi isso, mas eu não sabia o que fazer na hora. Eu deixei de ser psicólogo dela e queria tentar esquecer meu erro. – Disse me levantando.
- Você realmente não é mais o que eu conheço. Tentou esconder sua infidelidade, se envolveu com uma paciente que precisava da sua ajuda, confundiu ela e agora está fazendo isso. – Emma parecia chocada.
- Eu não sabia o que fazer. E não saberia lidar com isso tratando ela, por isso eu passei ela para o . – Disse atordoado.
- E você pretendia o quê? Nunca me contar? – Emma disse me olhando, seu olhar demonstrava sua decepção.
- Eu não queria magoar você, eu não quero. – Reformulei minha frase.
Agora ela não chorava mais, apesar de estar com os olhos vermelhos, Emma apenas se sentou na poltrona e me escutava visivelmente decepcionada e triste com tudo.
- Mas magoou, . E ainda não cumpriu seu dever como psicólogo, que era deixá-la bem, mas isso não me importa. Nada que tenha a ver com essa garota e você me interessa. - Falou com tom de desprezo e eu me arrastei no sofá para ficar mais perto da poltrona. – O que fez você mudar de ideia e me contar?
- Dois dias atrás ela teve uma crise de pânico novamente e me ligou... - Comecei.
- E você foi atrás dela para ajudar, sem pensar. – Completou a frase entendendo tudo. – Então foi isso?
- Não, eu fui até lá para ajudá-la. Para me certificar que ela ficaria bem. E então quando eu estava indo embora ela simplesmente se declarou e eu me senti em anos indeciso sobre nós, mas... – Emma me cortou.
- Mas nada, eu não quero saber! - Disse com a voz de choro novamente. - Você está indeciso, mas eu não. Nosso noivado acaba aqui, ! – Ela disse áspera e se levantou num rompante.
Eu nunca havia visto Emma tão decidida e tão forte. Emma falou rapidamente como se cada palavra a cortasse por dentro e eu sabia que sim, porque estava fazendo isso comigo. Eu amava Emma, ou pelo menos achava que sim. Por quatro anos eu estive certo de que queria ela em minha vida e nunca um término seria fácil para nós. Me sentia mal por ter traído ela, mas era só eu me lembrar de e de como aquela garota me fazia querer que eu a protegesse de tudo e desejar que ela estivesse sempre aos meus olhos, que eu sentia perdido e indeciso.
- Você pode, por favor, deixar a minha casa. – Ela disse, indo em direção as escadas
- Vamos conversar. Eu não queria isso, me desculpa. – Pedi, me levantando.
- Vamos conversar, sim. – Emma disse e eu me senti aliviado. - Mas não agora, porque hoje eu só consigo pensar nas formas possíveis de vingança. Dar um ponto final nisso é o melhor para que ninguém se machuque mais do que já se machucou, ou para que ninguém vá preso por duplo homicídio.
- Mas, Em... - Ela estava triste. Sua ironia só demonstrava isso.
- Mas nada, . - Disse enquanto subia as escadas..
Naquele momento eu entendi que eu já a tinha feito sofrer, e senti muito. Eu havia destruído um relacionamento de anos. Precisava respeitar o seu espaço e o seu tempo para que nós pudéssemos conversar. Escutei a porta do banheiro bater e logo depois ser trancada.
"E aí, será que posso passar uns dias na casa de vocês? Depois eu explico." Xx
Eu havia mandando uma mensagem para e , que primeiro falaram do meu sumiço nesses dois dias e depois deixaram eu ficar na casa deles. Ótimo, pelo menos já tinha um lugar. Fui até o segundo andar indo para o quarto e procurando pela minha mala, para arrumar algumas coisas.
Comecei a dobrar algumas roupas e colocar na mala, enquanto refletia sobre tudo que passei desde o dia em que conheci Emma, até hoje. Senti meu coração apertar ao perceber que, o que eu nunca quis, e sempre prometi a mim mesmo nunca fazer, estava acontecendo. Que era fazer Emma chorar e sofrer, e também.
Por estar sentindo algo por ela, coisa que eu nem tenho certeza se é verdade, eu havia a deixado sozinha e sem lhe falar nada e com certeza ela também não estava em uma situação boa. Pela primeira vez na vida me senti parecido com meu irmão e a repugnância me sufocou, ele nunca foi exemplo para ninguém em questão de relacionamento. E me sentir parecido com ele quanto a isso era horrível.
Voltei à realidade quando vi que já não cabia mais nada na mala, então a fechei, peguei algumas coisas a mais e desci, encontrando Emma sentada no sofá com uma almofada em seu colo e o rosto vermelho.
- Depois eu... - Senti minha garganta se fechar e minha língua se enrolar, senti vontade de chorar também, e por isso não consegui terminar a frase.
- Você vem buscar o resto das suas coisas. - Completou séria.
- Me desculpe, Emma. - Falei com a voz chorosa. - Nunca quis que você passasse por isso...
- ! – Falou alto em forma de repreensão. - Agora não. - Disse pausadamente enquanto segurava as lágrimas.
- Tudo bem. - Disse coçando a nuca e me sentindo mal por deixá-la ali.
Olhei-a por um tempo, respirei fundo e saí pela porta, fui até a garagem, joguei minha mala no porta-malas e entrei no meu carro, e fiquei com a cabeça encostada no volante por alguns segundos sentido as lágrimas rolarem pela forma como tudo acabou. Mas ao mesmo tempo aliviado em saber que agora poderia fazer minha escolha em paz, sem fazer duas pessoas sofrerem mais do que já estavam. Dou partida no carro e sigo para casa dos meus amigos.
- E então, foi expulso pela, Em ? - pergunta brincalhão.
- Sim. - Digo em um tom triste.
- Por quê, cara? – perguntou me olhando.
- . - Digo e ambos se olham e tornam a me olhar. - Acho que vou ter que contar isso direito.
- Com certeza. - Falaram e eu sigo até o sofá me sentando e começando a contar.
Não que eles já não soubessem, afinal é meu amigo e me pediu para que eu tomasse cuidado com isso, e também é meu amigo, porém tenho certeza que contou algo sobre nós para ele.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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