Última atualização: 23/12/2018

Prólogo - Um ano antes


Eu estou me tornando uma especialista em fazer as malas.
Três anos antes, eu as fechava pouco depois do enterro do meu pai, agora, o motivo é o desaparecimento de minha prima. A tragédia parece ser o combustível dessa família.
, tem certeza de que não quer se despedir de ninguém antes de partirmos? — Minha mãe disse da porta de meu quarto.
— Já me despedi de tudo. — Respondi sincera.
— Ah, querida... — Ela tinha costume de mordiscar a ponta dos polegares sempre que ficava tensa, uma mania que eu acabava repetindo as vezes, mesmo sem perceber. — Eu sei que você adora Chicago tanto quanto eu, mas seus tios precisam de nós agora.
Chicago havia me trazido o alívio. Depois do choque de ser a garota do interior, eu havia me adaptado tão fácil a cidade grande que nunca mais havia considerado voltar para Hawkins, mas eu devia isso a Barb.
— Quando a encontrarmos, poderemos voltar para casa. — Tentei parecer confiante.

Mad Max


— Sinto muito que não pude cozinhar. Eu ia fazer o macarrão assado que vocês gostam, mas esqueci da hora e quando vi já era tarde! Ainda bem que pode buscar comida para nós. — Minha tia dizia constrangida.
— Está tudo bem. — Nancy Wheeler, a nossa convidada, tranquilizou.
— É, adoro KFC. — Seu namorado, Steve Harrington, completou. Eu sabia que era mentira dos dois, mas apreciava a intenção.
— Então, eu percebi uma placa de vende-se no seu jardim. — Nancy trouxe o assunto para a mesa. — É dos vizinhos... ou...
O sorriso que eles abriram, Deus! Meus tios estavam tão esperançosos, quase felizes. Sentia um nó se formar em minha garganta enquanto eles contavam sobre o jornalista investigativo que haviam contratado, Murray Bauman.
— Ah, isso é ótimo. É ótimo, não é? — Steve disse, me lembrando o porque eu não gostava dele no ensino fundamental.
— Anham, vamos uma família de sem tetos bem feliz...
! — Meu tio me interrompeu. Não precisava, no entanto, eu tinha me arrependido da reclamação no minuto em que as palavras saíram da minha boca.
— Desculpe. Vocês estão certos, o que importa é... encontrar a Barb. — Tentei reformular. Encontrar Barb, quanto mais tempo passava, mais distante essa possibilidade parecia.
— Mas é por isso eu vocês estão vendendo a casa? — Nancy, a nossa convidada, voltou ao assunto.
— Não se preocupe conosco, estamos bem. Mais do que bem, pela primeira vez em muito tempo nós temos esperança.
— Com licença, eu já volto. — Nancy se levantou abruptamente. A tensão no ar poderia nos esmagar.
— Eu também... — Me levantei em seguida.

***

! — A garota quase pulou de susto ao me encontrar ao lado de fora do banheiro.
— Eu não queria te assustar. — Disse rápido. — É que, bem... Não dá para gente continuar assim, não é? — Mordi o polegar.
— O que você quer dizer? — Nancy perguntou como se eu fosse um fantasma. Na verdade, desde que eu havia voltado, era assim que ela me olhava na maior parte do tempo, mas não podia culpá-la por isso.
— Nós três éramos amigas. — Evoquei nossa infância, antes de me mudar para Chicago, Barb, Nancy e eu costumávamos brincar juntas o tempo todo. Nós havíamos crescido e mudado bastante no período em que ficamos separadas, mas eu sempre me lembrei delas com carinho. Esperava que Nancy também se lembrasse assim de mim. — E... bem.. — Barb sempre foi a mais responsável, sempre foi a que cuidava da gente. Eu não... eu... eu sei que devíamos fazer justiça para ela, mas se ela estivesse viva, ela estaria aqui. Eu sei que dói pensar isso, e dói ainda mais dizer em voz alta, mas, depois de quase um ano, a resposta só pode ser uma Nancy, eu não acho que a gente possa salvar a Barb, mas podemos tentar salvar meus tios. Eles estão desesperados, vão vender a casa, estão endividados. É a única coisa que eu acho que podemos fazer por ela agora, sabe? Garantir que os pais dela fiquem bem.
... eu... — Nancy gaguejou, mas eu estava concentrada demais em engolir meu próprio choro para me preocupar com as lágrimas dela.
— Você entende isso também, não é? Sei que quando me mudei para Chicago nós perdemos o contato, mas você é o mais próximo de uma amiga que eu tenho aqui em Hawkins. Eu não sei o que fazer, eles não me ouvem. Mas eles ficam tão felizes quando você vem visitá-los, talvez se conversássemos todos juntos, se você pudesse me ajudar...
— Ajudar? — Ela levou as mãos à cabeça, como se a ideia parecesse loucura. — Eu? Ajudar?
— Eu sei que estou pedindo demais, você e Steve já são legais o bastante de vir aqui, mas eu estou sozinha.
— Ei! — A voz de Steve interrompeu minha súplica. — Nancy, você está chorando? Tudo bem? — Ele perguntou abraçando a namorada e me olhando feio.
— Precisamos ir embora. — Ela disse.
— Eu não devia despejar tudo em você, Nance, desculpe. — Pedi sincera, não queria afastar aquela que poderia ser minha única aliada. — Mas eu não sei mais para quem recorrer. Também sinto falta dela, mas eu tenho medo que essa esperança tire tudo o que resta deles.

***
Eu ainda me refiro ao quarto como quarto de hóspedes. Mesmo estando aqui há um ano, evitei decorar, meus pôsteres e fotos ainda estavam todos em Chicago. Aqui, as paredes me encaravam lisas e a cômoda só tinha o telefone que eu usava para ligar para mamãe. Ela acabou voltando quando a polícia encerrou as buscas oficiais — para não perder o bom cargo que tinha como enfermeira chefe na cidade grande — mas eu não tive coragem de deixar meus tios sozinhos, então, me mudei para o quarto de hóspedes.
Nunca considerei usar o quarto de Barb, era mórbido demais. Toda a casa já estava cheia de fotos suas, meus tios tentavam deixar sua presença o mais forte possível, mas a sensação que eu tinha era que viver cercada por seu rosto apenas abria um pouco mais a ferida.
Talvez, eu quem esteja errada. Talvez eu devesse ter mais esperança. Eu devia isso aos meus tios, devia isso a Barb. Foram eles que nos ajudaram a ir para Chicago em primeiro lugar, onde mamãe e eu poderíamos recomeçar a vida longe de todas as piadas e as fofocas que papai nos deixou de herança.
Meus olhos começaram a arder. Desde que voltei para Hawkins, eu vivia com essa sensação de que iria desmoronar. Escolhi ficar para ajudar meus tios, mas não conseguia resolver nada, sentia falta de minha mãe e falta de Chicago, e só Deus sabe o quanto eu queria ter um amigo, mas me parecia tão egoísta ter problemas assim enquanto Barb estava desaparecida e provavelmente morta. Eu me sentia culpada por querer seguir em frente, como se o luto nunca fosse passar. Sozinha, tanto física quanto emocionalmente, me permiti chorar.
Como era possível manter a esperança?



Gostosura ou travessura, aberração


— Você não lembra que a mãe dela... — O sussurro não foi tão baixo quanto o grupo de garotas esperava, mas eu me concentrei em seguir em frente. Parece que essa cidade jamais esquece.
— Joan! — Chamei a menina saindo da biblioteca. Ela me encarou como se avaliasse se eu realmente era um ser humano.
— Não grite meu nome. — Ela bufou.
— Sua encomenda. — Respondi rápido entregando o papel com o artigo de língua inglesa.
— Sério, aqui? No meio de todo mundo? — Ela revirou os olhos.
— É pegar ou largar. — Respondi ríspida. Joan puxou a carteira da bolsa e me entregou as notas um pouco amassadas.
— Sempre um prazer fazer negócios! — Sorri guardando o dinheiro. Mas Joan saiu correndo sem nem conferir nenhuma das quinze laudas que eu havia redigido sobre Hamlet. Bom, é de se admitir que se ela estava pagando para não ter que ler o livro e fazer o trabalho de fato, isso não era uma grande surpresa.
— Eu faria isso em um lugar em que os professores não possam ver, se fosse você. — Quase dei um pulo de susto ao ouvir a voz. Steve e Nancy estavam próximos a porta da biblioteca.
— Oi! — Tentei sorrir. Steve devolveu minha simpatia, mas Nancy ainda parecia tão perturbada quanto na noite anterior. Parecia que eu realmente havia dado uma tremenda dor de cabeça a mais para a garota.
— Nancy, olha, eu sinto muito por ontem, todo aquele drama não tinha nada a ver com nenhum de vocês dois. Já é legal o suficiente irem visitar minha família. Desculpe colocar uma responsabilidade que não é...
— Tudo bem, . — Nancy me interrompeu.
— Ah, certo, eu só queria pedir desculpas e pedir para vocês esquecerem aquilo, ok? — Mordi o polegar. Nancy acenou positivamente com a cabeça.
— Olha... — Comecei a falar depressa, se parasse para pensar, provavelmente desistiria. — A festa de Halloween da Tina é hoje, não é? Quem sabe possamos nos encontrar lá? Sabe, nos divertirmos como adolescentes normais e bobos, sem drama! — Eles não precisavam saber que eu nem sabia quem era Tina e que ninguém havia me convidado para ir lá, a escola toda estava falando da festa, não é como se precisássemos de convites formais. Pelo menos eu esperava que não.
— Ótima ideia! — Steve disse animado. — Na verdade eu tinha acabo de dizer isso para a Nance, nós precisamos de uma noite boba de adolescente!
— Legal! — Sorri tentando conter minha empolgação. Eu estava mesmo desesperada por um pouco de vida social.

***

Encarei o espelho pela milésima vez. A cor do cabelo passava longe do loiro icônico, mas a maquiagem e o penteado haviam ficado melhor do que eu esperava, juntando com o vestido branco, até que eu estava uma Marilyn Monroe bem decente.
— Tem certeza que está tudo bem, tia? — Perguntei mais uma vez antes de sair.
— Claro, você precisa se divertir um pouco. — Ela tentou fazer um carinho reconfortador em meu ombro, mas só pareceu ainda mais nervosa. — Só não volte muito tarde e tome cuidado, não quero que o mesmo aconteça com...
— Vai ficar tudo bem! — Disse firme antes que ela terminasse a frase. — As ruas estão cheias de crianças pedindo doces com as famílias, não vou correr nenhum perigo.
— Certo. — Ela beijou minha bochecha em despedida.
Era um pouco esquisito ter que ir andando sozinha até uma festa, mas meus tios já haviam vendido o carro deles e mamãe precisava do nosso para trabalhar em Chicago, então caminhar era meu único meio de locomoção. Encontrar a casa de Tina não era nenhum desafio, a festa não ficava muito longe e a música alta provavelmente podia ser ouvida em toda cidade.
Quando passei pelas portas e fui engolida por uma centena de adolescentes risonhos em fantasias, pude me sentir parte da multidão. Peguei um copo do ponche e deixei a dança me levar, com meu coração batendo no ritmo da música e os sons sufocando meus pensamentos. Eu merecia me divertir um pouco, não é?
— Oi! — Um garoto alto e bonito riu para mim enquanto eu já emendava a quinta música dançando sozinha.
— Oi, Jason?! — Ri apontando para a máscara de Hockey que ele havia prendido no topo da cabeça.
— Rick, na verdade. — Ele riu de volta.
. — Me apresentei.
— Rick! — Uma vampira furiosa chegou até nós. — O que você está fazendo?
Pela cara de Rick, ele não deveria estar flertando com outra garota.
— Nada! — Se defendeu. — Ela quem veio falar comigo. — Garotos! Comecei a recuar, querendo fugir da discussão do casal.
— A fantasia de amante do presidente combina, pegou emprestada da sua mãe? — Ouvi a voz da garota se destacando do barulho da multidão, seguida de algumas risadas.
— Só quero a força que Marilyn teve para lidar com as mentiras. — Resmunguei, mas nem sei se ela entendeu, ou se era uma boa defesa, me enfiei no meio das pessoas tentando sumir no meio delas. Bebi o resto do ponche com raiva.
Agora, parecia que todos haviam se lembrado de quem eu era. Me sentia constrangida demais para voltar a dançar, mas não queria ir embora sem pelo menos falar com Nancy e Steve. Não queria ser a adolescente problemática e sozinha pelo resto do ensino médio, talvez se conseguisse encontrar com Nancy em um lugar que não fosse a escola ou os jantares esquisitos da titia, nós pudéssemos nos divertir e voltar a ser amigas como antes.
Circulei um pouco, mas logo voltei para a mesa do ponche - pelo menos eu poderia ocupar as mãos com alguma coisa - tive a sorte de ver o cabelo inconfundível de Steve balançando ao lado de Nancy e tentei abrir um sorriso que dissesse “ei, desculpa a bagunça em que eu estou metida, será que podemos ser amigos?”, mas que provavelmente eles entenderam como “eu sou a própria bagunça”
— Oi! — Gritei indo em direção aos dois. — Vocês estão incríveis!
— Obrigado. — Steve Harrington deu um sorriso muito melhor que o meu. — Você também está!
— Obrigada! Tenho que confessar, enquanto arrumava meu cabelo só conseguia pensar naquela vez em que nós tentamos ondular o cabelo da boneca da Nancy e acabamos deixando ela careca...
— Bobagem! — Nancy me cortou. Steve encarou a namorada assustado.
— Ok, acho que você realmente bebeu demais, Nance. — Ele repreendeu a namorada.
— Bobagem, é tudo bobagem, ! Você fica fingindo que somos amigas, mas não dá para olhar para você.... não dá para olhar para você sem lembrar do que fizemos com a Barb. Você não pode tomar o lugar dela. — Ela me empurrou e saiu em direção à mesa de bebidas.
O chão pareceu se abrir sob meus pés. Steve saiu correndo atrás de Nancy, então os dois começaram a discutir, até que a garota derrubasse a bebida em sua roupa branca e saísse ainda mais furiosa em direção ao banheiro.
Corri para porta o mais rápido que meus saltos altos permitiam, esbarrando em várias pessoas no caminho.
Atravessei o jardim, continuei andando em frente até que o tumulto diminuísse. Perto da casa vizinha, me encostei em uma árvore e comecei a chorar de novo. Droga, eu odiava a frequência com que isso acontecia agora. Estava cansada de Hawkins, cansada das pessoas que não me deixavam seguir em frente, de ver meus tios desesperados, de sempre ficar me perguntando o que aconteceu com Barb, de não encontrar nenhuma resposta e, principalmente, cansada de ficar sozinha. Sentei no jardim tentando me acalmar para voltar para casa, chegar lá chorando só colocaria mais problemas na cabeça da minha família.
— Vai sujar seu vestido. — Limpei as lágrimas, fazendo com que as pontas dos meus dedos ficassem pretos com a maquiagem borrada. Steve se sentou ao meu lado na grama. — Ela só disse aquilo porque se sente culpada pelo que aconteceu com a Barb. — Ele disse, não sei se para mim ou para si mesmo.
— Ela está certa, não posso agir como se nada tivesse acontecido, como se Barb não devesse estar aqui no meu lugar. — Admiti. — Não precisa ficar preocupado comigo, pode voltar para festa.
— Não, eu vou embora. Só estava esperando aquilo, na verdade. — Steve apontou para uma Nancy frustrada, que saía da casa de Tina acompanhada de outra pessoa.
— Por que sua namorada está indo embora com Jonathan Byers? — Perguntei.
— Não é só você que é bobagem. — Respondeu triste.
— Ah, bom, tenho certeza que depois de uma conversa sóbria vocês vão se acertar. — Tentei animá-lo. Se alguém me dissesse que eu terminaria a noite com Steve Harrington desabafando sobre sua vida amorosa, jamais acreditaria. Pelo jeito como ele sorriu quando me olhou, provavelmente também não.
— Hnnn... seu olho. — Ele pediu permissão para limpar outro borrado de maquiagem causado pelo meu choro.
— Na próxima vez vou escolher uma fantasia de Carrie, a estranha. — Debochei da minha própria aparência.
— Achei que você combinou com Marilyn, na verdade. — Ele disse sorrindo e eu senti algo se revirar dentro de mim outra vez.
— A amante do presidente? — Fiquei na defensiva. Ele demorou uns dois segundos para perceber o que havia dito.
— Não! Eu queria dizer que você estava bonita como a Marilyn, , juro. Eu nunca fiz piada com a história da sua mãe.
— Mas ria quando a Carol e o Tommy faziam, não ria? — Rebati seca. Quando estávamos no fim do ensino fundamental e tudo explodiu, o grupo de amigos populares de Steve eram os piores.
Já ouviram aquelas histórias sobre homens que viajam muito e tem uma segunda família? Pois bem, meu pai era um vendedor que passava pouco tempo em casa e quando ele faleceu em um acidente de carro, mamãe e eu descobrimos que nós duas éramos a segunda família. O projeto paralelo, a amante do interior e a filha bastarda. Além da dor de ter perdido meu pai, tive que lidar com a dor de descobrir que ele não era quem eu pensava.
— Eu sinto muito. — Steve disse. — Eu fiz várias coisas das quais eu me arrependo.
— Steve, eu preciso perguntar. — Comecei a morder meu dedão — Por que Nancy se culpa pelo que aconteceu com a Barb?
— É... complicado. — Ele gaguejou, desviando o olhar. — Não foi culpa dela.
— Eu confio em vocês, meus tios confiam em vocês, por favor, façam essa confiança valer a pena. O que vocês não estão nos contando? — Insisti.
— Barb não gostava de mim. — Ele disse devagar. — Ela e Nancy haviam discutido por causa disso naquela noite elas não puderam fazer as pazes antes de acontecer.
— Entendo. — Relaxei. — Às vezes eu sinto a mesma coisa por ter ido embora, sabe, um certa culpa.
Uma gritaria veio da casa, aparentemente o novo garoto da Califórnia estava criando alguma confusão.
— Adolescentes. — Steve revirou os olhos rindo. — Acho melhor ir embora, de qualquer forma.
— Ah, sim. — Concordei. Steve deu a mão para que eu me levantasse do chão.
— Onde está seu carro? — Perguntou.
— Eu não tenho um. — Dei de ombros.
— E sua carona? Você veio como?
— Andando, não é tão longe. Eu morava em Chicago, lembra? Já viu os índices de criminalidade lá?
— Já viu a quantidade de coisas estranhas que acontecem aqui? — Ele ergueu as sobrancelhas. — Vamos, eu te levo embora. Não posso adicionar “deixar a garota da cidade grande se perder no interior” na minha lista de arrependimentos.
— Eu nasci em Hawkins! — Revirei os olhos. — Mas aceito a carona.

O Girino


Fazia algum tempo que não comia dentro do refeitório, a pressão de ter que escolher um lugar em uma mesa quando não estamos enturmados no ensino médio é mais real do que as pessoas imaginam. Então, minhas distrações para o horário do almoço era me infiltrar em lugares vazios para comer meu lanche, hoje, eu estava na arquibancada do ginásio.
— É um lugar estranho para almoçar. — Sua voz me assustou pela segunda vez em tempo recorde.
— As portas não estavam trancadas. — Respondi rindo para Steve Harrington. — Eu sou a esquisita sem amigos, e você? Veio aqui só para me assustar?
— Para me esconder, na verdade. — Ele admitiu. — Precisava de um tempo para pensar, se importa? — Apontou para o espaço ao meu lado antes de se sentar.
— Bem-vindo a vila dos perdedores. — Debochei, ele acompanhou meu riso.
— É engraçado, não é? — Ele começou. — Parece que um século se passou desde que eu era o rei dessa quadra, mas faz só um ano, praticamente. Já teve a sensação de que as coisas estão mudando rápido demais e você não consegue acompanhar?
— Não, nunca vivi nada parecido. — Arqueei a sobrancelha.
— Como você superou? — Seus olhos castanhos me encararam de forma série.
— Não acho que sou um exemplo tão bom assim. — Respondi baixinho.
— Seus tios acham. — Ele disse. — Nancy e eu também, nós percebemos tudo o que você faz por eles.
— Obrigada. — Disse sincera. — Sabe, eu gosto mais dessa sua versão plebeu, rei Steve era um babaca.
— Você é uma das poucas! — Eu podia jurar que suas bochechas coraram.
— O Steve que ria das piadas do Tommy e da Carol jamais se importaria em visitar meus tios. Isso também é importante para eles, mostra que as pessoas não se esqueceram completamente da Barb.
— Isso é por causa da Nancy, se não fosse por ela eu não teria amadurecido nada nesse último ano. — Seus ombros se encolheram enquanto ele encarava os próprios pés. Tomei a liberdade de pousar minhas mãos em suas costas, em sinal de solidariedade.
— É pelo que ela disse ontem que você está se escondendo? — Instiguei.
— Falei com ela, sóbria dessa vez, mas ela não conseguiu nem dizer que me amava, parece que nosso relacionamento foi mesmo bobagem. — Suas mãos correram aflitas pelos seus volumosos cabelos.
— Não foi bobagem, você mesmo disse que amadureceu muito, tenho certeza que você também mudou a Nancy nesse último ano, as coisas vão se acertar.
— Obrigado. — Vacilei quando seus olhos castanhos me encararam. — E você não é uma perdedora sem amigos, Marylin Monroe, você tem a mim.
Quando o horário de almoço terminou, Steve e eu saímos juntos do ginásio. Conversar com ele foi um alívio, eu andava me sentindo tão sobrecarregada com as tarefas da casa dos meus tios, os bicos para conseguir algum dinheiro e a escola que, só de ter um respiro da vida de adolescente normal, já fazia Hawkins parecer menos solitária.
No entanto, nossa conversa foi interrompida quando Steve foi empurrado para frente.
— Desculpe, rei. — Garoto disse irônico, encarando Steve que já havia se recuperado do encontrão. — Olá, você. — Seus olhos passavam de Steve para mim, me deixando desconfortável.
— Você não tem uma aula para ir, Billy? — Steve interrompeu.
— Vejo vocês por aí. — O sorriso dele sequer estremeceu.
— É o cara da Califórnia, não é? O aluno novo. — Comentei.
— Billy. — Steve respondeu. — Ele não gosta muito de mim.
— Ele não parece gostar de ninguém.

Eu não tinha considerado que eu realmente fosse ver Billy por aí, afinal de contas, nós nunca havíamos prestado atenção um no outro. Ele já estava criando uma certa fama, é verdade, fosse de bad boy bronzeado ou de encrenqueiro, mas eu definitivamente não andava no radar do por aí. Pelo menos não antes dele me ver conversando com Steve, como puder perceber pelo sorriso malicioso com que ele me encarou quando passei por ele no estacionamento.
— Olá, você. — Ele disse. Segui meu caminho em direção ao ônibus. — Ei, garota do Steve, não vai me responder? — Ouvi ele insistir.
— Bem, eu não sou a garota de ninguém, especialmente do Steve, se é isso que desperta seu interesse. — Respondi seca.
— Não posso dizer que não gosto de uma competição.
— Eu não sou um prêmio, a aprovação do Steve também não. — Billy me encarou de novo, com aquela expressão que infelizmente toda mulher aprende a reconhecer bem cedo em um cara: um alerta para ficar o mais longe possível. Billy ergueu as duas mãos para o alto, como se se rendesse. Dei as costas e voltei ao meu caminho, apressando o passo até o ônibus, caso ele resolvesse ir atrás de mim.
*
— Oi querida, falou com Nancy hoje? — Minha tia perguntou assim que entrei em casa. Ela estava sentada próxima a porta, os olhos um pouco vermelhos, como se tivesse chorado.
— Na verdade, não. — Respondi. — Aconteceu alguma coisa?
— Ah, ela ligou aqui em casa agora a pouco. — Disse abanando as mãos como se não fosse nada.
— O que ela disse?
— Ela não disse. — Titia cochichou. — Posso te contar um segredo, não é querida? — Concordei com a cabeça para que ela continuasse. — Nancy parecia bem nervosa, ela me ligou e pediu para que encontrássemos ela amanhã no parque Forest Hills. Ela disse... ela disse que quer me contar alguma coisa sobre a Barb.
— E ela marcou um encontro? Por que não veio aqui de uma vez? — Reclamei. Ligar para minha tia e dizer meias palavras para deixá-la ainda mais aflita não era exatamente a ajuda que eu esperava quando pedi para Nancy conversar com ela.
— Não sei, querida, mas fiquei assustada. Não contei a ninguém ainda, nem seu tio. Não sei o que dizer quando ele chegar do trabalho. — Me partia o coração ver a situação dela, suas mãos estavam trêmulas.
— Tia, você sabia que Nancy e Barb haviam discutido no dia em que ela desapareceu? — Comecei. — Talvez seja isso que Nancy queira te contar.
— Eu não sabia. — Ela respondeu. — Elas pareciam tão amigas...
— Elas eram! — Apressei em dizer. — Mas amigos também discutem, não é? Steve me contou que Nancy se sente culpada porque as duas não conseguiram fazer as pazes, talvez ela queira desabafar sobre isso com a senhora.
— Ah, probrezinha. — Minha tia disse. — Talvez seja só isso mesmo. Vocês duas podiam tanto passar mais tempo juntas, eu não quero que vocês desperdicem a vida de vocês atrás de dois velhos como eu e o seu tio.
— Não diga isso! — Repreendi. — Eu fiquei aqui porque amo vocês dois.
— Eu sei, querida, e nós agradecemos muito, essa casa nem estaria de pé se não fosse sua ajuda, mas encontrar a sua prima é o nosso dever, não o seu. — Ela acariciou o topo da minha cabeça.
— Não posso simplesmente dar as costas quando eu sinto que posso ajudar vocês, não consigo. — Respondi.
— Eu só não quero que você perca sua vida também, , não seria justo com você. — Nós abraçamos, confortando uma a outra.
— Talvez você devesse ir falar com Nancy amanhã no meu lugar, assim vocês podem se reaproximar e se perdoarem em nome da Barb, ela não ia querer que as duas melhores amigas passassem tanto tempo assim carregando um peso que não é delas.



Will, o sábio



Na manhã seguinte, peguei a velha bicicleta de Barb emprestada para ir até o parque marcado ao invés de pegar o ônibus para ir à escola. Considerando que eu já fazia o dobro de dever de casa de qualquer forma para vender, não perderia muito conteúdo.
Eu estava nervosa, mas estranhamente me sentia bem. Talvez desse tudo certo, Nancy desabafaria comigo, nós conseguiríamos falar sobre Barb sem que fosse tão dolorido, conversaríamos com meus tios depois, finalmente, começaríamos a superar. Era esse o pensamento que eu tinha e era com ele que eu me distraía no caminho.
Talvez, tenha sido por isso que eu demorei para perceber o carro. Virando a esquina, na contramão e vindo na minha direção. Tentei desviar com a bicicleta para a calçada, mas antes que eu conseguisse, da mesma forma súbita com que ele apareceu, o motorista por trás do vidro escuro o jogou para cima de mim, acertando meu guidão, fazendo com que eu perdesse o controle da bicicleta e caísse no chão.
Gritei com o susto, por reflexo, usei o braço para proteger minha cabeça. A próxima coisa que senti foi o asfalto áspero contra ele e a primeira pontada de dor.
— Mas que droga! — Xinguei para ninguém. — O carro já estava longe e eu sequer havia conseguido ver a placa. Depois de bater em mim, ele acelerou e sumiu, quase como houvesse sido de propósito. Parecia absurdo, mas era essa a sensação que tinha, principalmente quando vi que o guidão da bicicleta agora estava completamente torto e provavelmente eu teria que terminar o meu caminho andando. Ótimo, se o universo tinha como objetivo me atrasar, conseguiu!
A dor da pancada ainda incomodava. Estiquei o braço direito, que havia sofrido o maior impacto e testei os movimentos, ao menos nada parecia quebrado, mas o ralado enorme e cheio de sangue que cobria a região do meu cotovelo já era assustador o bastante.
Eu poderia voltar para casa, para limpar o machucado e ligar para Nancy depois. Mas e se ela desistisse? Se ela achasse que ninguém se importava o bastante para ir até lá?
Respirei fundo ignorando o ardor do meu braço e me levantei, sem arriscar pedalar na bicicleta torta — outra queda é a última coisa da qual eu preciso agora — mas também não tinha coragem de abandoná-la no meio da rua — afinal, ela era de Barb — então a empurrei pelo restante do caminho.
Quando finalmente cheguei, o sangue seco formava uma casca grossa. Procurei por Nancy, mas não havia nenhum sinal dela. Amaldiçoei o fato de não estar usando um relógio, não tinha noção de quanto tempo estava atrasada. Encostei a bicicleta torta em uma árvore e sentei-me em um banco de madeira, observando um grupo de crianças brincando de pato, pato, ganso.
— Parece que a senhorita sofreu um acidente, não foi? — Um homem de casaco cinza se aproximou devagar, com seu cachorro, uma gracinha de pelo amarelo e porte grande.
— É, mas não foi nada sério. O senhor pode me dizer o horário, por favor? — Pedi.
— Nove e vinte. — Encarou o relógio. — Está esperando alguém?
— Sim. — Respondi, propositalmente sem dar mais informações. Ele sorriu simpático e se afastou, mas estranhamente, eu sentia que haviam olhares demais em mim. Provavelmente estavam curiosos por causa do machucado, de qualquer forma, ao menos agora eu sabia que estava vinte minutos atrasada. Será que Nancy havia desistido assim tão fácil? Suspirei, decidindo esperar. Talvez ela também tivesse tido algum imprevisto e se atrasado um pouco.
Mas é claro que não foi isso que aconteceu, quanto mais o tempo passava, mais a chance de Nancy não aparecer se tornava uma certeza. Acho que devo ter levado ao menos uma hora para aceitar o fato e decidir voltar para casa. Então, mais uma vez, comecei a empurrar a bicicleta.
Já era quase meio dia quando cheguei na casa dos meus tios. Deixei a bicicleta nos fundos e entrei, aliviada por estar sozinha. Minha tia não ter chegado ainda de seu emprego de meio período e meu tio só chegava a noite.
A primeira coisa que fiz foi tomar um banho quente, a água e o sabão fazendo meu machucado arder enquanto eu o limpava. Depois, tentei telefonar para a casa de Nancy, mas a linha estava ocupada, então me distraí preparando o almoço e em seguida limpando a cozinha. Quando o relógio começou a se aproximar das três da tarde, tentei novamente. A senhora Wheeler que ela ainda estava na escola e que depois iria para a casa de Stacy para uma “noite das garotas”. Agradeci e desliguei. Escola. Ótimo. Ou Nancy havia mentido para os pais, ou para mim.


Dig Doug


Eu também menti. Não sei exatamente o motivo, mas decidi esconder meu machucado, fazendo um curativo escondida e estava usando mangas compridas desde a noite anterior, quando contei para minha tia que Nancy havia me contado sobre a discussão com Barb sobre Steve na noite em que ela desapareceu. Hoje, saí com um casaco para a escola, disfarçando ao máximo a dor que sentia quando movimentava o braço. Acho que inventar uma história era mais fácil do que aceitar a falta de respostas. Afinal, não havia qualquer indício de que eu conseguiria outra história, de qualquer forma, já que Nancy não havia aparecido na aula de novo.
Estava na biblioteca, tentando me distrair com o dever de casa. O meu próprio trabalho desta vez, perdi a aula de geometria ontem e números não são meu forte, então era melhor não acumular matéria, mas estranhamente, justo na vez em que eu estava decida a ficar sozinha, parecia que eu não iria conseguir isso.
— Estava procurando por você. — Billy sentou-se ao lado oposto da mesa em que eu estava, me encarando com seus olhos claros.
— A que devo a honra? — Sustentei seu olhar. Já havia entendido que ele estava acostumado a intimidar as pessoas, não deixaria que ele pensasse que isso funcionaria comigo.
, não é? Acho que nós poderíamos começar de novo, não sei o que Harrington disse sobre mim, mas...
— É isso que você quer saber, não é? — Interrompi. — O que Steve fala de você? Billy, sinceramente, eu não vou fazer fofocas sobre meu amigo.
— Seu amigo? — Debochou. — Ok, já entendi que você é bem difícil. Bom para o Harrington que pelo menos alguém fica atrás dele, já que a outra o chutou pra matar aula com o Byers.
— O quê? — Não pude deixar de exclamar. Nancy estava matando aula com Jonathan Byers?
— Agora você quer fazer fofoca? — Ele me olhou da mesma forma desafiadora que eu havia encarado antes. — Se ele estiver solteiro você perde o interesse? Ouvi dizer que isso é comum na sua família.
— Vai para o inferno, Billy. — Enfiei o livro dentro da bolsa, sentindo um nó se formar em minha garganta. Dei as costas e respirei fundo. Não posso me importar com o que alguém como Billy diz. Não posso. Já tenho coisas demais acontecendo na minha vida.
Droga.
Eu estava cansada de ficar sentada, sofrendo e sentindo pena de mim mesma. Precisava fazer alguma coisa. Já fazia um ano que eu estava me esquivando todos os problemas, chegou a hora de encará-los.
Matei a última aula, mas não fui para casa. Caminhei firme em direção a casa dos Wheeler. Nancy era a única chance que eu tinha de solucionar e encerrar algo, eu precisava fazer isso. Por mim, por meus tios e por Barb.

*

— Onde ela está? — Apertei o passo para conseguir chegar até a discussão. Reconheceria aquele cabelo em qualquer lugar.
— Não importa. Temos problemas maiores do que a sua vida amorosa. — Steve estava discutindo com um garoto. Como era o nome dele mesmo? Me lembrava dele como o amigo do irmão da Nancy e do garoto dos Sinclair. — Ainda tem aquele taco?
— Que taco? — Steve perguntou.
— Aquele com pregos! — O garoto respondeu como se fosse óbvio.
— Por que?
— Eu explico no caminho!
— Você tem um taco com pregos? — Quase gritei, mas os passos rápidos tinham prejudicado um pouco meu fôlego.
— Ah, droga! Mais essa! — O menor reclamou. Justin?
— O que aconteceu com o seu braço? — Steve encarou as ataduras que eu havia feito escondida de minha tia para conseguir usar o casaco sem que ele ficasse incomodando a ferida. Com a caminhada até a casa de Nancy, eu tinha amarrado a blusa de frio na cintura por causa do calor do exercício.
— Um acidente quando eu estava indo em encontrar com a Nancy, mas não é nada grave. O que você estava dizendo sobre um taco com pregos, mesmo? — Voltei ao assunto.
— Você ia se encontrar com Nancy? — Steve perguntou.
— Steve! — O garoto interrompeu. — Agora?
— Eu estou indo me encontrar com ela. — Disse firme. — Mas parece que não vai ser tão fácil assim. Steve, escute... — Não sei se faria bem em contar para ele, mas ele era a única chance ali, não é? E o mais perto de um amigo. — Eu sei que tem alguma coisa que vocês não estão me contando sobre minha prima, e eu preciso ter uma conversa sincera e honesta com Nancy. Ela ligou para minha tia e depois eu não consegui mais falar com ela.
— O que? — Steve arregalou os olhos. — O que ela disse para sua tia?
— Nada. Essa é a questão. Nós não sabemos de nada! — Reclamei.
— Filho da puta, vamos pular o drama! Tem uma crise acontecendo! — O menino gritou.
— Dustin! — Steve repreendeu. Esse era o nome dele! — Pessoas mais velhas conversando, ok? Cala a boca um segundo e eu te ajudo com o sei lá o que você precisa.
— Precisamos agir agora, é código vermelho, caramba. — Dustin reclamou e Steve ficou olhando como se o garoto falasse grego. — Droga, certo, código invertido!
— Que merda! — Steve reclamou. — Tudo bem, olha, , amanhã eu posso...
— Não! — Interrompi. — Eu estou deixando para amanhã faz um ano, Steve, e seja lá o que esteja acontecendo e o que vocês estão escondendo, envolve a Barb e isso me dá o direito de saber. Eu vou com vocês pra esse tal código.
— Ah... não... não é uma boa ide...
— Ótimo! Tem alguma coisa que consegue usar pra bater bem forte? — Dustin interrompeu.
— Dustin! — Steve repreendeu de novo. — , isso pode ser perigoso, entende...
— Steve, você foi uma ótima pessoa nos últimos dias, de verdade. Mas minha prima está desaparecida, provavelmente morta, Nancy disse que queria conversar comigo e enquanto eu ia sou atropelada de propósito por um carro que sumiu, agora, vocês estão falando sobre um tal de código. Eu vou com vocês. Isso diz respeito a mim também.
Steve ficou me encarando com os olhos arregalados. Sua expressão incrédula ia do meu curativo para o meu rosto.
— De propósito? Merda, entra no carro. — Ele disse.
— Até que enfim! — Dustin disse e correu para pegar o banco da frente.


O Espião


— Espere um segundo, o quão grande? — A voz de Steve soou por cima da música no rádio.
— Primeiro era assim. — Dustin sinalizou com uma das mãos. — Agora está assim. — Completou, mostrando um tamanho muito maior.
— Tem certeza de que não era um lagarto? — Arrisquei do banco de trás.
— Não é um lagarto! — Dustin exclamou.
— Como você sabe? — Steve perguntou.
— Como eu sei que não é um lagarto? — O mais novo encarou incrédulo.
— É, como você sabe que não é um lagarto! — Steve retrucou.
— Porque o rosto dele se abriu e ele comeu o meu gato! — Dustin respondeu.
— Como assim o rosto se abriu? — Arregalei os olhos, Steve deu de ombros parecendo convencido.
— Você vai precisar ver para acreditar. — Dustin disse.
A história ainda estava confusa, mas Dustin precisava da ajuda de Steve para capturar uma... espécie de animal? Eu estava determinada a ver até onde as coisas iam, mas elas ficavam cada vez mais estranhas. Quando chegamos a casa do menino, Steve desceu e foi até o seu porta malas.
— É realmente um taco com pregos, certo. — Exclamei tentando fingir que não estava assustada. — Vamos pegar a coisa.
— Se você quiser ficar no car...
— Corta essa, Steve. — Interrompi antes que ele terminasse a frase. — Eu vou até o fim disso.
Inexplicavelmente, ele deixou escapar um sorriso enquanto rodava o taco na mão. Steve Harrington podia não ser mais o valentão que eu conhecia antes, mas ainda adorava se exibir.
Dustin nos levou até o porão, a entrada fechada com uma corrente, encaramos os três em silêncio por alguns segundos.
— Não ouço nada. — Steve foi o primeiro a se pronunciar.
— Está aí dentro! — Dustin reafirmou e eu realmente me arrependi de não ter nada que fosse capaz de usar para bater com força. Steve deu uma leve batida na porta, mas nada aconteceu. Umedecendo os lábios de forma nervosa, ele tomou fôlego antes de tentar novamente, com mais força. O silêncio continuava.
— Escuta garoto, se isso for uma pegadinha de Halloween, eu mato você. Tá certo?
— Não é uma pegadinha, certo? E tira essa lanterna da minha cara! — Dustin reclamou com os olhos apertados por causa da luz.
— Tem uma chave para essa coisa? — Steve pediu sério, Dustin puxou a chave de seu bolso e estendeu para Steve, que me passou a lanterna. Ergui o feixe de luz na direção do cadeado enquanto ele destrancava o porão.
— Ele deve ter descido. Eu ficarei aqui em cima, caso ele tente escapar. — Dustin encarava as escadas. Steve olhou chocado, enquanto balançava a cabeça negativamente.
— Eu desço com você. — Me prontifiquei. — Vamos! — Tomei a frente, mas Steve logo veio ao meu lado.
Descemos as escadas tensos. Steve segurava o taco firme em uma mão, enquanto com a outra amparava meu ombro. Eu apontava a lanterna para nossa frente, iluminando trechos do porão até chegarmos próximos o suficiente para que eu acendesse a lâmpada. Quando a iluminação melhorou, o toque de Steve se tornou um pouco mais apertado. Acompanhei seu olhar e segurei o susto na garganta.
— Definitivamente, não é uma pegadinha de Halloween. — Disse encarando a pele estranha e gosmenta que Steve ergueu no ar com seu taco de pregos.
— Não é só isso. — Acompanhei o olhar dele até a parede do porão... ou bem... a falta dela.
— Steve? — A voz de Dustin ecoou. — O que está acontecendo aí?
Harrington foi chamar o garoto. Ele mesmo havia dito que era preciso ver para acreditar, e já havia percebido que eufemismo não era a palavra da noite.
— Merda... — O menino exclamou quando viu a pele. — MERDA! — Repetiu ao ver o nosso maior problema, o buraco na parede. Seja lá que tipo de animal o garoto havia encontrado, agora ele estava solto por Hawkins.
— Não é possível. — Dustin encarava assustado. — Precisamos encontrá-lo.
— E como vamos fazer isso? — Steve exasperou. — Não tem nem como saber para onde ele foi depois daqui.
— Então a gente precisa encontrar uma forma de atrair ele até nós. — Interrompi. — Dustin, o que ele comia?
— Eu usei carne crua para trazer o Dart para o porão.
— Dart? Henderson, você deu um nome pra coisa? — Steve encarou.
— Ele era legal no começo! — Dustin se defendeu. — E agora isso não faz diferença, a gente tem que achar ele antes que coma mais gatos, ou coisas maiores!
— Certo, garoto, vamos então conseguir a isca. Quanto de carne você tem aqui?
— Vamos para cozinha. — Dustin chamou. — Minha mãe ainda está procurando a meow meow, podemos fazer da casa a nossa batcaverna.
— Aquilo são as coisas da jardinagem? — Perguntei, encarando algumas ferramentas empoeiradas.
— Não acho que seja a hora de se preocupar com jardinagem. — Steve questionou.
— Claro que não, eu preciso de uma arma. — Respondi examinando minhas opções. Rastelos de terra, pás pequenas e aquela que parecia mais ofensiva: uma machete cuidadosamente guardada em uma capa de couro escuro. A peguei na mão para sentir o peso, tirando a lâmina da capa e examinando.
— Legal! — Dustin exclamou. — Eu também quero uma!
— Não, você não! — Steve quase gritou. — Já pensou se você cai com um negócio desse na mão? Ou se isso pega no olho? — Repreendeu dramático.
— Você está acabando com a parte que era para ser divertida. — Dustin reclamou olhando para mim, como se esperasse que eu o defendesse.
— Olha, Dustin, você é o cérebro desta operação, mas Steve e eu seremos os músculos. Nada de armas para você. — O garoto revirou os olhos frustrados, mas entendeu as ordens.
— Tragam essas bundas logo para a cozinha, vamos encontrar o Dart.

***
— Isso é ótimo querida, fico feliz que estejam se acertando. Já estava na hora de você retomar sua vida! — Minha tia disse pelo telefone, deixando o peso da minha segunda mentira pairar sobre mim.
— Sim, a senhora Wheeler está nos chamando para jantar agora. Amanhã dou notícias, tudo bem?
— Claro, divirta-se!
— Obrigada. — Respondi. — Amo você. — Completei, mas acho que ela já havia desligado o telefone. Fiz o mesmo com o aparelho da casa de Dustin.
— Dustin está procurando um balde para levarmos as iscas, mas tem muita carne congelada ainda, estava pensando em aproveitar para descansar um pouco. Já que por enquanto temos que esperar mesmo, pelo menos assim partimos de madrugada e não voltamos até encontrarmos. — Steve contou entrando na sala.
— Unhum... — Murmurei. — Boa ideia.
— Tudo certo com você? — Steve perguntou preocupado, se sentando ao meu lado no sofá.
— Claro, só estou me acostumando com essa loucura. — Respondi. — A parte mais estranha, no entanto, é minha tia acreditar que eu fui convidada para uma festa do pijama. — Sorri fraco.
— Sinto muito que você foi arrastada para isso, uma vez que a sua vida perde a normalidade, não dá para voltar atrás, sabe?
— A coisa que nós vamos caçar, ela tem a ver com o ano passado? Com Will Byers e com... Barb? — Mordisquei meu dedão enquanto esperava a resposta.
— Não posso ter certeza até ver de perto, mas eu acho que é uma possibilidade. — Steve respondeu baixinho.
— Então eu já fui arrastada para isso a muito tempo Steve, eu preciso de respostas.
, escute. — Steve encarou. — Tem muitas coisas estranhas escondidas em Hawkins, eu não posso te impedir de vir comigo, mas preciso te avisar. Eu estou falando sério quando digo que não há volta, ok? Tem criaturas e pessoas muito perigosas que guardam segredos nesta cidade, e elas já tentaram machucar você. — Ele disse acariciando de leve o braço no qual eu carregava os curativos do atropelamento. — Daqui para frente, isso só vai piorar.
— Eu disse até o fim, não disse? E a gente precisa ajudar o garoto, ele é novo demais para uma tragédia. — Mais uma vez, eu tentava soar mais corajosa do que realmente estava me sentindo. Steve me encarava sério, de uma forma que eu quase nunca havia visto, um jeito acolhedor, quase protetor. Senti meu braço formigar no local onde ele me tocava.
Apesar de tudo, pelo menos eu havia finalmente arrumado um bom amigo.

***

O cansaço se revelou o maior inimigo da minha determinação. Tínhamos seguido o conselho de Steve e tentando dormir um pouco antes de partir, mas já estávamos andando há horas, acompanhando o trilho de trem em uma linha reta que parecia interminável. Sinceramente, acho que se alguém me mandasse voltar para casa agora eu nem saberia qual direção tomar. O sol já brilhava quente no topo de nossas cabeças e ainda não havia nenhuma pista. O meu balde de iscas havia sido o primeiro a ser esvaziado, por isso estava há alguns passos à frente dos dois, agora Steve era quem jogava os pedaços de carne no chão, mas ainda havia outra porção com Dustin.
— Ok, deixe-me ver se entendi. — Steve disse enquanto jogava mais uma isca. — Você guardou algo que sabia que era perigoso para impressionar uma garota que acabou de conhecer?
— Você está simplificando demais. — Dustin interrompeu.
— Por que uma garota se interessaria por uma lesma nojenta? — O outro questionou.
— Uma lesma interdimensional? Porque é demais! — O mais novo revidou, quase ofendido. Ele era um menino engraçado.
— Mesmo se ela achasse legal, o que não achou, parece que forçou a barra. — Harrington continuou.
— Nem todo mundo tem seu cabelo perfeito. — Segurei a risada ao ouvir a resposta. Ainda bem que eles só conseguiam ver minhas costas.
— Não é sobre o cabelo, cara, o crucial para conquistar as garotas é agir como se não ligasse. — Certo, agora as coisas estavam realmente engraçadas.
— Mesmo se ligar?
— É, elas ficam doidas. — Steve concluiu. Rodei em meus próprios calcanhares para encará-los.
— Você é realmente charmoso, Don Juan, mas ignorar uma garota definitivamente não é a melhor forma para conquistá-la. — Rebati.
— Então, qual é a melhor forma? — Steve devolveu a pergunta, não deixando de dar um sorriso de canto com o “charmoso”. Meu deus, como ele é convencido!
— Ser legal com ela. — Respondi. — Não tem mistério nenhum, vocês que gostam de complicar tudo. — Revirei os olhos enquanto esperava parada que eles me alcançassem para recomeçar a andar ao lado deles.
— Mas Steve namorou um monte de garotas, ele sabe o que está dizendo! — Dustin defendeu.
— E eu SOU uma garota, espertinho, isso me torna uma especialista muito maior. Outra dica importante é essa, escute o que a garota tem para dizer. — Respondi frustrada, alguém precisa ensinar as crianças de hoje em dia sobre igualdade de gêneros. São os anos 80, pelo amor de Deus!
— Certo, mas e depois? — Dustin interrompeu.
— Você espera até sentir. — Steve continuou.
— Sentir o que?
— É como antes de uma tempestade. Você não pode ver, mas pode sentir uma eletricidade, sabe?
— Como no campo eletromagnético quando as nuvens na atmosfera... — Dustin começou.
— Não... não... não... uma eletricidade sexual. — Steve interrompeu.
— Oh! — O garoto exclamou um tanto assustado.
— Você sente isso e aí se aproxima. — Steve completou. Encarei ele com as sobrancelhas arqueadas, e por incrível, que pareça, podia jurar que suas bochechas coraram quando percebeu que eu estava olhando. Mas ele desviou o olhar para encarar o menino, jamais deixaria seu ego admitir isso.
— É quando você a beija? — Dustin perguntou.
— Não, calma romeu! Claro, algumas garotas querem que você parta para cima. Sabe, forte, passional, como um leão. Mas com outras tem que agir devagar, furtivo, como um ninja. — Não pude evitar rir novamente. De onde ele tirou tudo isso?
, qual tipo é você? — Dustin perguntou me fazendo parar de rir. Desta vez foi Steve quem me encarou, e minhas bochechas que provavelmente coraram.
— Provavelmente do tipo que vai usar isso em você. —  Apontei para a machete presa pela alça da capa no cós de minha calça jeans. — Se seguir os conselhos do Harrington.
é do tipo durona, ocupada demais para dar atenção para monte de garotos que se apaixonam por ela. — Steve piscou. Revirei os olhos tão forte que podia sentir eles quase entrando dentro da minha cabeça.
— Que tipo é a Nancy? — Dustin perguntou, cortando o clima leve.
— Nancy é diferente das outras garotas. — Steve respondeu, toda sua pose convencida murchando só de ouvir o nome dela.
— É, ela parece bem especial. — Dustin concordou. — Mas essa garota é também é especial, ela é diferente.
— Hey, hey, hey... você está se apaixonando por essa garota?— Steve parou de andar, apontando com uma isca para o rosto de Dustin.
— Não! — Disse na defensiva.
— Ótimo, não se apaixone. Ela só vai partir seu coração e você é novo demais para essa merda. — Steve disse, voltando a andar. Meu próprio coração deu um pulo, ele não estava falando mais de Dustin, mas acho que de si mesmo. Ainda estava arrasado por causa de Nancy.
— Fabargé. — Steve voltou a falar depois de um momento em silêncio.
— O que? — Dustin perguntou.
— É Fabargé Organics. — Repetiu apontando para o próprio cabelo. — Use o xampu e o condicionador e quando o cabelo estiver úmido, atenção, não é molhado, é úmido...
— Úmido. — Dustin repetiu baixinho como se estivesse anotando o maior segredo do mundo.
— Aí borrife quatro vezes o laquê da Farrah Fawcett. — Ele terminou de falar.
— Laquê da Farrah Fawcett. — Dustin repetiu.
— É, se contar para alguém o que eu te contei, você já era, eu te mato Henderson, entendeu? — Ele aponta novamente, antes de jogar outra isca no chão.
— Ok. Farrah Fawcett. — Dustin concordo com a cabeça. E eu comecei a rir novamente.
— Isso vale para você também, Holland. — Steve acompanhou minha risada, dando um leve soquinho no meu braço saudável.
— Farrah Fawcett, sério? — Continuei rindo.
— Ela é linda! — Steve rebateu.
Perto da uma da tarde, paramos para descansar um pouco e comer os sanduíches que havíamos embrulhado, agora não faltava muito para chegarmos ao nosso objetivo.
— É, isso vai funcionar — Steve disse encarando o local — Muito bem, boa ideia garoto. — Ele aprova e Dustin sorri orgulhoso. Estávamos em um terreno que servia como um ferro velho, fizemos o caminho de iscas até a parte mais aberta do terreno e despejamos o que sobrou em uma pilha de carne.
— Eu disse mal passada. — Alguém gritou. O garoto dos Sinclair, acompanhado de uma garota, acenava da sua bicicleta.
— Quem é essa? — Steve perguntou, se referindo a menina ruiva.  Dustin não respondeu, só encarava incrédulo o par.
— Dustin! — Lucas exclamou se aproximando. — Por que você está com o Steve e com a babá? Sem ofensa. — Acrescentou se dirigindo à nós.
— Que babá? — Dustin perguntou.
— Eu fico com a irmã do Lucas às vezes, quando os Sinclair têm algum compromisso. Nada demais. — Justifiquei o porque o garoto me conhecia.
— Que seja! — Dustin reclamou.
— Eles sabem? — Steve perguntou para Dustin.
— Eu contei para Max. — A outra menina olhava com cara de poucos amigos.
— Então, vamos voltar ao plano. — Steve voltou a sua pose de líder, mas eu continuava prestando atenção nas três crianças. — Precisamos criar peso naquele ônibus para nos protegermos nele, tipo uma barricada, me ajudem a encontrar tudo o que possa servir para isso, vamos.
— Lucas, me ajude ali. — Dustin saiu acompanhado do amigo e os dois se esconderam atrás de um carro vermelho. Max ouviu Steve e começou a procurar por placas de metal e pneus antigos, eu deixei que os meninos tivessem a privacidade que estavam precisando e segui Steve para perto de uns barris.
— Você não entendeu? — Perguntei.
— O que? — Ele me encarou, tirando os óculos escuros e o guardando na bolsa.
— A garota do Dustin, é a Max. — Sinalizei com a cabeça para a menina.
— Como você sabe que é ela? — Perguntou.
— Honestamente, você não reparou o jeito que ele ficou quando ela chegou aqui com o Lucas?
— Eu não tenho esse poder de babá. — Deu de ombros. — Aliás, eu nem sabia que você tinha!
— Não com frequência, eu só tento juntar um pouco de dinheiro para ajudar em casa. — Respondi. — Vender dever de casa, ser babá, qualquer outra coisa que aparecer.
— Como eu posso ter jantando tantas vezes na sua casa e saber tão pouco sobre você? Sou um péssimo amigo, desculpe.
— Você é um ótimo amigo. — Respondi. — e não só pra mim, para Dustin também.
— Para o garoto? — Perguntou. Começando a puxar a sujeira de cima do barril de metal para que pudéssemos levá-lo até o ônibus. Me juntei a ele. — Ei, cuidado com o braço! — Alertou.
— Eu estou bem. — Respondi. — Você é um grande amigo, Harrington, mas às vezes precisa prestar um pouco mais de atenção nas coisas que estão ao seu redor. Nós passamos a noite na casa de Dustin, e você viu os pais dele? — Steve franziu a sobrancelha. — Fora os amigos, ele é um tanto solitário. E agora Max e Lucas juntos, ele deve estar se sentindo totalmente de lado, e a forma como ele olha para você, como ouve todos os seus conselhos. Ele admira você, Steve, então seja legal com ele.
— Estou tentando. — Ele disse. — Eu meio que gosto do garoto também. — Admitiu. Garotos e sentimentos, qual o problema de dizer as coisas?
— Eu sei que gosta muito, por isso que você é um bom amigo. — Sorri. — Agora vamos trabalhar, ainda não pegamos o lagarto que abre a cara.
— Demogorgon. — Steve disse baixinho.
— O quê? — Perguntei.
— Não faz sentido achar que ainda é um segredo, até a garota aleatória já sabe. Se for a mesma criatura que eu enfrentei o ano passado, é um Demogorgon.
— Certo. — Assenti. — Vamos pegar esse Demogorgon.
— Vou chamar os dois cabeçudos para o trabalho também. — Steve saiu em direção ao carro vermelho em que Lucas e Dustin ainda se escondiam.

Pelo resto da tarde, trabalhamos em nossa armadilha. Steve derrubou combustível na pilha de iscas, criando um rastro próximo ao nosso ônibus/esconderijo. Aparentemente, o tal Demogorgon era sensível a fogo, e o plano era fazer com que ele queimasse sem que precisássemos chegar muito perto. Quando o sol começou a se por, corremos para o ônibus e nos fechamos lá dentro.

Esperamos.

— Você já enfrentou um desses antes? — Max perguntou ríspida para Steve, que parou de brincar distraído com o isqueiro para acenar positivamente com a cabeça. — E tem certeza de que não era um urso?
— Não seja idiota, não era um urso. Por que está aqui se não acredita em nós? — Encarei Dustin assustada com sua grosseria. — Vá para casa. — Ele completou, fazendo com que Max olhasse para ele desacreditada.
— Alguém está de mal humor. — respondeu. — Passou da hora de ir dormir? — Debochou. A garota subiu as escadas para o teto solar ao topo do ônibus, indo para o lugar onde Lucas fazia vigia com seus binóculos.
— Isso, mostre para ela que não se importa. — Steve sorriu para Dustin.
— Eu não me importo. — Ele respondeu bravo. — Porque você está piscando, Steve? Pare! — Steve me encarou, como se realmente não tivesse entendido o que havia de errado.
— O que eu disse antes? Não é assim que se conquista uma garota! — Sussurrei de volta enquanto Dustin foi encarar a janela emburrado. Homens!
Depois disso, nossa espera não demorou mais. Ouvimos um barulho estranha, como um urro animalesco, próximo. Steve e eu nos juntamos a Dustin na janela.
— Está vendo o Dart? — Dustin perguntou.
— Não. — Steve respondeu.
— Lucas, o que está havendo? — Dustin gritou para o amigo que estava de vigia.
— Esperem! — A voz de Lucas respondeu. — Estou vendo, à esquerda!
Seguindo as coordenadas de Lucas, vi uma sombra parecida com um grande cachorro. Apertei os olhos tentando distinguir melhor sua forma.
— O que ele está fazendo? — Perguntei.
— Não sei. Ele não está mordendo a isca. Porque não? — Steve olhou rapidamente para Dustin. Já que o garoto havia dado um nome para a coisa, talvez soubesse sobre seu comportamento.
— Talvez não esteja com fome. — O mais novo respondeu sem transparecer certeza.
— Talvez tenha enjoado de bife. — Steve resmungou e se afastou da janela.
— Steve, o que está fazendo? — Dustin perguntou um tanto nervoso, tirando minha concentração da forma curiosa do animal. Mas assim que encarei Steve e entendi o que ele pretendia fazer, comecei a negar com a cabeça.
— Nem pense nisso! — Exclamei.
— Preparem-se. — Ele disse jogando o isqueiro no ar na direção de Dustin, que o pegou no ar, Steve agarrou seu  taco com pregos, apertando a arma até os nós de seus dedos ficarem brancos.
— Steve. — Chamei. — Vou com você.
— Fique com as crianças. — Ele respondeu, pouco antes de saltar do ônibus. Que porcaria de ideia! Dustin voltou para a janela, acompanhando Steve com o olhar. O imitei, sentindo meu coração acelerar quando Steve Harrington simplesmente começou a assobiar como se estivesse chamando o seu cachorro de estimação.
— Vamos amigão! —  Steve balançava o seu taco no ar enquanto chamava.
— O que ele está fazendo? — Max desce as escadas e se junta a nós na janela.
— Variando o cardápio. — Dustin respondeu e eu instintivamente toquei na machete ainda presa em minha cintura.
— Vamos amigão, hora do jantar! Humanos são mais gostosos do que gatos, eu juro! — Steve chamou do lado de fora.
— Ele é louco! — Max disse inconformada.
— Ele é demais! — Dustin completou orgulhoso.
— Ele está em perigo! — Corrijo.
De repente, as coisas começam a acontecer rápido demais. Minha visão periférica nota outro movimento perto de Steve, uma nova sombra surgia.
— Fiquem no ônibus. — Oriento antes de correr para a saída, puxando a machete para fora da capa.
— Steve! — Chamei seu nome no mesmo momento que Lucas.
— Estou um pouco ocupado aqui! — Ele respondeu sem olhar para trás.
— Steve, cuidado! — Lucas grita. — À direita, à direita!
Ergui a arma no ar, segurando firme em seu cabo com a minha mão boa. Corri até o estranho animal à direita de Steve, próximo a uma caminhonete abandonada, mirando o em sua cabeça, ou ao menos o que se parecia com ela. Enquanto ele se aproximava de Steve, usei toda a força para enterrar a machete em seu corpo. Errei a cabeça, mas acertei seu dorso. Puxei a machete de volta para mim, voltando a empunhá-la na direção da criatura. Cambaleando, ela se virou para mim e soltou um som parecido com um rosnado muito alto. Sua cabeça se abriu, revelando uma espécie de flor dentada que me ameaçava.  
! — Ouvi Steve gritar, mas não me movi, ainda focada na lâmina gosmenta do sangue. Harrington rolou pelo capô da caminhonete atrás da criatura e usou seu taco para arremessá-la para longe. Ferida, ela recuou, mas as outras se aproximavam para tomar seu lugar.
— Abortar missão! Abortar missão! — Dustin gritava da porta do ônibus..
— Steve! Corre! — Chamo meu amigo, que me encara só por meio segundo antes que saíssemos correndo para o ônibus, Steve pula primeiro e eu vou logo em seguida, assim que passei pela porta, ele a fechou e se posicionou entre mim e a entrada. O peso do animal colidiu contra o metal de nosso forte e Steve usou seu próprio peso para tentar reforçar a barricada.
— Eles são raivosos? — Max grita.
— Eles não podem entrar! Não podem entrar! — Lucas se junta ao coro assustado. Uma confusão de vozes e gritos começa a tomar forma. Puxo uma chapa de metal que estava presa a parede oposto e passo para Steve reforçar a porta. O ônibus balança enquanto uma das das patas se esgueirava por entre as ferragens da entrada. Steve usa seu taco para bater.
— Se afastem das paredes! — Grito para as crianças, que correm para longe da porta. Ergo novamente a machete no ar, empurro Steve para o lado com meu braço machucado para protegê-lo e desço a lâmina no ar, decepando a pata da criatura.
— Tem alguém aí? Mike? Will? Qualquer um!  Estamos no ferro velho e vamos morrer! — Ouço Dustin gritar pouco antes do ônibus levar outro solavanco.
A pata/tentáculo/parte da criatura está se contorcendo no chão mesmo sem pertencer mais há um corpo, Steve a chuta para fora e volta a prensar a chapa de metal contra a porta, eu tento abrir caminho para ele mas com o solavancos acabo caindo. Jogo a machete para longe evitando que ela me machuque, mas quando ela cai com um estalo atrás das ferragens de onde o motorista deveria ficar, me arrependo. Estou desarmada. Passos amassam o teto do ônibus, assim que percebemos a entrada livre no teto solar com a escada me levanto para tentar recuperar a machete. Max grita, mas por sorte, Steve é mais rápido e corre para ficar entre a criatura e as crianças.
— Saia do caminho! Saia do caminho! — Ele grita — Você quer? Vem pegar! — Desafia a criatura com seu taco, enquanto ela abre sua cabeça e mostra seus dentes. Mas antes que Steve o atacasse, ele recua. O ônibus dá um último solavanco com o peso do salto para fora do teto e um silêncio mortal pesa no ar. Me lembrando a machete, eu a recupero e volto a empunhá-la. Só por garantia.
Ficamos encarando uns aos outros, procurando coragem para entender o que havia acontecido. Steve respira fundo e encara as crianças, como se quisesse ter certeza que todas estavam inteiras. Por último, seus olhos castanhos param em mim. Sinalizo com a cabeça para a porta e ele concorda, se aproximando. Juntos e com as armas em punho, abrimos. As crianças coladas em nossas costas.
— O que aconteceu? — Lucas foi o primeiro a falar.
— Não sei. — Max verbalizou por nós.
— Steve os assustou? — Dustin arriscou.
— Não. — O próprio Harrington respondeu. —  De jeito nenhum. Eles estão indo para algum lugar.




The Lost Cousin


— Precisamos ir para um lugar seguro. — Lucas diz.
— Você está sangrando.  — Steve interrompe, encarando sério meu braço, a mancha vermelha se formando nas ataduras. — Entrem, eles podem sentir o cheiro e voltar. Dustin, você tem algo na mochila que possa servir de curativo?
Com a adrenalina se dissipando, começo a sentir meu corpo todo tremer. Steve recoloca a chapa de metal — agora meio amassada — na entrada. Quando ele me olha, suas sobrancelhas se juntam em uma expressão preocupada. Conforme meu cérebro vai associando o que acabou de acontecer, eu entendo o que provavelmente aconteceu no ano passado.
— Não fiquem perto da porta, entenderam? Nós só precisamos dar um jeito no machucado da e então bolamos um plano. — Steve pega a mochila na mão de Dustin e me guia para a escada, subimos para o posto de vigia do Lucas enquanto os outros três ficam dentro do ônibus. Dalí, Steve conseguiria ficar de olho caso alguma coisa se aproximasse novamente e teríamos um segundo antes de voltar para a emergência.
Eu realmente precisava de um segundo.
? — Steve tocou minha mão, só então percebi que ainda estava agarrada a machete. Soltei a arma aos poucos, respirando fundo e tentando manter a calma. A imagem daqueles vários dentes ainda me atormentando.
— Eu sempre disse que deveríamos seguir em frente. — Balbuciei. — Eu sempre disse que ela não voltaria, que deveríamos ser fortes por ela... mas... Steve... — Senti meus olhos enchendo de lágrimas. — No fundo eu queria que alguém me provasse que eu estava errada.
— Eu sinto muito, . — Ele colocou seus braços ao meu redor e me puxou para um abraço. Baixei a guarda, permitindo algumas lágrimas rápidas enquanto me aninhava em seus braços.
— Foi um daqueles monstros, um daqueles Demogorgons? Meu Deus, Barb deve ter sentindo tanto medo, deve ter sido tão horrível, ela não merecia isso...  — Não consigo mais racionalizar. Steve acaricia meus cabelos me consolando.
, eu sinto muito, vou fazer tudo o que puder para te proteger, eu juro. — Ele toca meu rosto, fazendo com que eu sustentasse seu olhar. — Não que você precise, já que foi você quem salvou minha vida hoje. — Steve sorri fraco.
— Fizemos um time. — Percebo nossa proximidade e me afasto um pouco, mas ainda sustentando seu olhar. Precisava me acalmar, não podia me dar ao luxo de sofrer agora. Precisávamos levar as crianças de volta para casa.
— Você é minha amiga, não é? — Steve recomeça, estranhamente sem graça. Harrington tímido era tão estranho quanto um cachorro demoníaco.
— Claro. — Respondo.
— Eu preciso te contar algo sobre a Barb. — Disse firme. — Eu vou entender se você se afastar e me odiar depois, mas por favor, me prometa que não vai partir agora. Não posso adicionar “deixar a garota da cidade grande se perder em uma floresta com criaturas assassinas” na minha lista de arrependimentos. — Concordei com a cabeça, estava ansiosa demais agora. Finalmente, eu teria a história toda.
— Na noite em que aconteceu, Barb e Nancy tinham ido até minha casa, nós estávamos fazendo coisas estúpidas de adolescentes e Barb cortou o dedo em uma lata de cerveja, então elas tiveram uma discussão e Nancy foi comigo para o meu quarto e depois disso ela desapareceu. — Ele disse tudo meio rápido demais, como se tivesse medo de perder a coragem. Mas mesmo nervoso, não tirou seus olhos dos meus. — Nós deixamos sua prima sozinha, mas não tínhamos ideia de que seria perigoso. Éramos adolescentes idiotas e normais na época... Eu sinto muito. — Repetiu, esticando as pontas dos dedos para tocar minha mão.
— Você está brava? — Arriscou.
— Estou triste. — Respondi sincera.
— Eles realmente sentem o cheiro do sangue? Tipo tubarões? — Perguntei, assimilando o detalhe do corte da lata com o meu braço. Steve concordou com a cabeça.
— Então precisamos dar um jeito nisso. — Digo e começo a puxar a fita da minha atadura. Steve puxa a garrafa de água da mochila e me ajuda a limpar a ferida exposta. Confesso que ela estava ainda mais feia do que me lembrava, mas apreciei o fato de que Steve não hesitou em me ajudar a improvisar um curativo usando um lenço de flanela.




O devorador de mentes


— Era mesmo Dart? — Max perguntou. Estávamos de volta a caminhada dos trilhos, a diferença é que agora era a lua quem nos acompanhava. Steve e Dustin iam na frente, segurando as lanternas, seguidos por Lucas e Max enquanto eu ficava por último. Assim, nós que éramos mais velhos, poderíamos proteger os dois lados caso algo acontecesse.
— Sim, tinha o desenho amarelo no traseiro. — Dustin respondeu.
— Ele era pequeno há dois dias! — A menina exclamou balançando os cabelos ruivos.
— Já passou por três ecdises. — O garoto continuou justificando.
— Como é? — Steve apontou a lanterna para nós.
— Ecdise, troca de pele para crescer. — Respondeu como se fosse óbvio.
— Como uma lagarta. — Completei vendo sua expressão confusa. Steve ergueu as sobrancelhas para mim. — Trabalhos de biologia são minha maior fonte de renda, só perdem para os de inglês. — Dei de ombros.
— E quando ele vai trocar de novo?  — Max interrompeu.
—  Deve ser logo. Quando trocar estará adulto, ou quase, assim como os amigos dele.
— É, e vai comer mais do que gatos. — Steve suspirou.
— Espera, gatos? Dart comeu um gato? — Lucas interviu.
— Não! — O amigo respondeu nervoso.
— Como não? Ele comeu a Miau! — Steve encarou. Caramba, ele não tem mesmo o mínimo tato.
— Miau? Quem é Miau?  — Max continuou perguntando.
— A gata do Dustin.
— Steve! — Henderson repreendeu o mais velho, incrédulo com a fofoca.
— Eu sabia! Você ficou com ele! — Lucas parou a caminhada para fazer a acusação. Parece que a noite não é só de descobertas para mim.
— Não... não... — Gaguejou.
— Não? — Sinclair refutou, incisivo demais para alguém tão jovem.
— Não, eu... eu... — Dustin suspirou — Ele ficou com saudade, queria ir pra casa. Não sabia que ele era um demogorgon!
— Admite agora? — Sinclair elevou o tom de voz, transformando a conversa em uma discussão.
—Quem se importa? Temos que ir! — Max tentou acalmar os ânimos.
— Eu me importo, colocou o grupo em risco, quebrou a lei! — Lucas ainda estava firme em suas convicções. Não poderia culpá-lo, sei como era difícil lidar com mentiras.
— E você também. — Dustin começou devolver os gritos.
— Eu?
— Contou a verdade para uma estranha! — Apontou o feixe de luz bem no rosto de Max, frustrado.
— Uma estranha? — A garota apertou os olhos, mas deu dois passos fortes para o meio da discussão.
— Você contou para a babá da minha irmã! — Devolveu a acusação.
— Eu adoraria que vocês me deixassem de fora disso. — Pedi.
— Não fui eu quem contou, foi o Steve! — Dustin gritou me ignorando.
— Ah, então foi a sua outra babá? — Lucas ironizou. —  E você também queria contar para Max!
— Mas não contei, certo, Lucas? Não contei! Nós dois quebramos a regra, ok? Estamos quites. Dustin!
— Pessoal... — Ouvi Steve chamar baixinho no meio da discussão. Percebi que ele encarava a floresta apreensivo.
— Não, não estamos quites! Nem tente! Seu animalzinho poderia ter nos devorado! — Lucas continuava falando.
— Pessoal... — Chamei também, tentando ter a atenção deles.
— Ele não ia nos devorar! — No entanto, continuei sendo ignorada.
— Então ele veio dar oi?
— Pessoal! — Steve gritou mais alto, fazendo com que até eu desse um pulo assustado. Com o silêncio que se seguiu, fui capaz de ouvir distante o som dos demogorgons. Harrington nos encarou, fazendo sinal para que o seguíssemos, e partiu para as folhagens.
— Por que estamos indo na direção do som? Olá? — Max questionou incrédula, mas os meninos a ignoraram para seguir Steve.
— Eu sei, é uma péssima ideia. — Concordei com ela. O que aconteceu com a ideia de ir para um lugar seguro? — Mas é melhor não separarmos o grupo, então vamos.
— Merda!  — Max e eu seguimos para a lateral, caindo em um campo aberto que dava uma visão fantástica do resto das trilhas. Os meninos estavam à nossa frente, encarando o vale que se estendia até o horizonte escuro.
— Não estou vendo-os. — Henderson disse. Lucas logo assumiu novamente o seu posto de vigia e puxou seus binóculos.
— É o laboratório. — Respondeu. — Eles estão voltando para casa.
Ótimo, um laboratório escondido no meio do mato. O que mais mudou em Hawkins em três anos que eu morei fora?
— Devíamos ir até lá. — Dustin arriscou.
— Para onde as criaturas estão indo? — Max questionou novamente.
— Não é a melhor ideia, mas não estamos mais seguros andando no meio da noite nos trilhos. — Falei lentamente, quase não acreditando no que estava dizendo. — Se é um laboratório, deve haver pessoas e provavelmente carros.
— Faz sentido. — Steve concordou. — Certo, mas vocês ficam perto da gente o tempo todo e nada de discussões bobas agora, entenderam? — Ele olhava para as três crianças. Se estivéssemos eu qualquer outra situação que não envolvesse criaturas assassinas, eu acharia a cena engraçada.
— Certo, babá. — Dustin revirou os olhos.
— Não me chame assim. — Repreendeu.  
Voltamos a andar, decididos a colocar o pior, mas único, plano da história em ação.

Continuamos com a formação de antes, Steve tomando a frente e eu na retaguarda. Com a descida a nossa favor, logo podíamos avistar o laboratório.
— Aquilo parecem faróis! — Dustin apontou para os feixes de luz. —  Vamos!
— Olá? —  Uma voz masculina gritou. Graças a Deus, outras pessoas!
— Fiquem atrás de mim. — Steve levantou os dedos, fazendo um sinal para que chegássemos mais perto. Em seus calcanhares, fomos em direção ao carro.
— Quem está aí? — A voz perguntou.
— Steve? — O grito surpreso de Nancy Wheeler e Jonathan Byers nos recepcionou fora da mata.
— Nancy? — Ele disse igualmente surpreso, seus ombros ficando mais tensos.
? — Os olhos de Nancy iam do meu rosto para o de Steve incrédulos. — O que estão fazendo aqui?
— O que vocês estão fazendo aqui? — Harrington devolveu a pergunta.
— Estamos procurando por Mike e Will. — Ela respondeu.
— Eles não estão lá dentro, estão? — Dustin interrompeu aflito.
— Não temos certeza.
— Por quê? — Jonathan perguntou preocupado, e como resposta, ouvimos o rosnar do demogorgon vindo de dentro do laboratório.
— Eu preciso entrar lá dentro. — Jonathan é o primeiro a dizer.
— E fazer o que? O lugar provavelmente está cheio de demogorgons, precisamos de um plano primeiro. — Steve interrompe ríspido.
— Meu irmão e minha mãe devem estar lá, precisamos fazer alguma coisa! — Jonathan respondeu igualmente amargurado.
— Não tem porque discutir, os dois estão certos! — Interrompi. — Precisamos ajudar os outros mas sem um plano só vamos acabar nos colocando em risco também.
— E você sabe o que está acontecendo? Sabe o que um demogorgon é? — Nancy me encarou. Respirei fundo para empurrar a lembrança da nossa última conversa em que ela gritava bêbada que eu jamais poderia tomar o lugar de Barb para longe. — Você contou para ela? — Ela encarou Steve furiosa.
— Porque você ligou na casa dela e a colocou em perigo! — Steve respondeu.
— Agora realmente não é a hora para isso. — Tentei interromper.
— Steve, o que você disse sobre discussões bobas? — Dustin colaborou.
— Mas essa discussão não é boba! — Steve não desistiu. — Eu sempre disse que abrir a boca nos colocaria em perigo, e olha só onde estamos agora! — Ele levantou os braços, gesticulando para todos os lados.
— Você acha que eu não sei? — Nancy aumentou a voz — Meu irmão pode estar lá dentro!
— Calma! — Pedi de novo! — Quando foi a última vez que vocês viram Will e Mike?
— Nenhum deles atendeu o meu chamado. — Dustin começou a contar, mas logo foi interrompido novamente por Nancy.
— A energia voltou! — Ela disse atravessando por entre a discussão.
— O portão! — Jonathan exclamou como um chamado, todos corremos na direção dos grandes portões de metal. O Byers mais velho entrou na guarita e começou a mexer nos comandos.
— Me deixe tentar! — Dustin exigiu. — Jonathan, me deixe tentar! — Resmungou tomando a frente.
— Filho da puta! — Xingou. Enquanto ainda continuava apertando os botões. Até que tão de repente quanto a volta da energia, um clique metálico estalou e fez com que as grades começassem a se mover.
— Ei, consegui! — Dustin disse orgulhoso.
— Vamos! — Nancy gritou indo para o carro, Jonathan a seguiu.
— E nós? — Dustin questionou.
— Esperamos. — Disse fazendo com que todos me encarassem. — Eles tem a melhor chance dentro do carro e tendo espaço para transportar mais pessoas lá dentro, é melhor esperarmos do lado de fora e deixar que Nancy e Jonathan salvem a família deles — Respondi. Nancy me encarou, e pela primeira vez em muito tempo, seu olhar não trazia mágoa. Trazia gratidão.
Juntos, os dois partiram, e juntos, Steve e eu ficamos para trás com as crianças. Me reencostei na guarita, tentando disfarçar a tensão.
— Não é justo. — Dustin resmungou. — Mike e Will são nossa família também.
— Eu sei garoto, é por isso que precisamos estar inteiros para quando eles saírem de lá. — Steve respondeu, dando um peteleco na aba do boné do mais jovem.
— Quero só ver. — Dustin revirou os olhos, se juntando a Max e Lucas que encaravam aflitos a entrada do laboratório. Steve veio para o meu lado, igualmente tenso, mas fingindo que não.
— Sabe de um segredo — comecei baixinho — Você se tornou uma ótima babá.  — Um sorriso leve tomou o canto de sua boca, mas seus olhos continuaram firmes.
— Aprendi com a melhor. — Devolveu meu sussurro. — Posso contar um segredo também? — Assenti positivamente.
— Ainda acho que Nancy errou te colocando em perigo com aquela ligação, mas fico feliz por você ter me ajudado a sobreviver à loucura desse dia.
— Obrigada. — Me permiti sorrir. — Viu, é assim que você conquista as garotas, sendo legal com elas.
— Pessoal! — A voz de Max nos interrompeu, sendo seguida por buzinas.
— Eles estão voltando! — Volto para a posição alerta. Steve corre para fazer as crianças saírem de frente dos carros que buzinavam. Sim, carros. Nancy e Jonathan passaram em alta velocidade, mas em seguida o xerife Hopper aparece com o carro da delegacia.
— Vamos! — O xerife destranca a porta.
— Entrem, entrem! — Steve guia as crianças para o banco de trás primeiro, depois, agarra minha mão e me puxa para que eu entrasse antes que ele. Por fim, ele pula para o banco da frente. Assim que estamos todos dentro, Hopper acelera e nós partimos.
— Devo perguntar porque estão todos aqui? — Os olhos maduros do Sheriff nos encaravam pelo retrovisor.
— É uma longa história. — Dustin respondeu. — Estão todos bem?
— Nem todos.

***


Eu não conheci Bob Newby.
Mas eu vi Joyce Byers inconsolável. Eu vi o corpo do seu filho mais novo desacordado. Eu senti a tristeza e o desespero tomarem forma no ar quando nos refugiavamos na casa dela.
Perder alguém querido nos faz perder um pouco de nós mesmos.
Jonathan estava ao lado do irmão, sendo amparado por Nancy de forma carinhosa, percebi que Steve encarou a cena por alguns segundos antes de se juntar a mim e as crianças na cozinha.
— Quantas pessoas no laboratório? Eu não sei! Não sei quantas sobreviveram. — O único som que eu ouvia era a voz frustrada do Xerife ao telefone. — A polícia? Eu sou a polícia! Xerife Jim Hopper! Sim, no número que eu te dei. Estarei aqui.
— Não acreditaram em você, não é?
— Veremos.
— Veremos? Não podemos ficar parados com essas coisas soltas! — Mike reclamou.
— Ficamos aqui e esperamos por ajuda. — Hopper tentou encerrar as discussões, nos deixando em um silêncio tenso enquanto se retirava da cozinha e ia até o quarto onde Joyce estava.
Algo que eu sempre admirei nos Wheeler, era o quanto eles defendiam suas convicções. Quando éramos crianças, Barb era a que analisava as consequências e assumia as responsabilidades, enquanto Nancy tomava as iniciativas mais corajosas e ousadas. Mike Wheeler também tinha isso em si.
— Sabiam que o Bob fundou o clube de jornalismo de Hawkins? —  O garoto pegou uma pilha de jogos de tabuleiro e trouxe para a mesa da cozinha. Pela forma triste com a qual encarava os brinquedos na mesa, provavelmente eles tinham alguma conexão com Newby. —  Ele fez uma petição para a escola criar o clube e arrecadou fundos para o equipamento. O senhor Clarke aprendeu tudo com ele, muito legal, né? Bob não pode ter morrido em vão.
— O que quer fazer, Mike? — Dustin começou com seu jeito desesperado. — O xerife tem razão, não podemos parar os demodogs sozinhos!
— Demodogs? — Max interrompeu.
— Demorgogon, cachorros...  Demodogs! — Dustin levantou as duas mãos para o ar, depois juntou as duas palmas como se estivesse juntando o significado das duas palavras. — Tipo um jogo de palavras, sabe?
— Ok. — Max encarou o garoto como se ele fosse completamente pirado. Talvez ele fosse um pouquinho, mas eu não podia dizer que não havia me apegado ao menino.
— Quer dizer, quando era só o Dart talvez conseguíssemos... — Dustin voltou ao assunto principal.
— Mas há um exército agora. — Lucas completou a frase.
— O exército dele... — Mike interrompeu.
— O que quer dizer com dele? — Steve entrou na discussão.
— O exército dele. — Mike repetiu. — Talvez se o detivermos, podemos deter o exército.
— Deter quem? — Perguntei. Mike saiu em disparada para um dos outros quartos da casa, seguido pelas outras crianças.
— Você vem? — Provoquei Steve enquanto também seguia os meninos.
— O monstro das sombras. — Dustin encarava o desenho dentro daquele que provavelmente era o quarto de Will Byers. Os riscos de giz de cera formavam uma grande figura preta, parecida com uma aranha monstruosa.
— Ele pegou Will no campo. — Mike continuou sua teoria.  — O doutor disse que era como um vírus que o infectou.
— Então esse vírus o liga até os túneis? — Max reformulou para que todos pudéssemos acompanhar.
— Aos túneis, ao monstro, ao mundo invertido, tudo!
— Ei, calma! — Agora as informações também se tornavam novas para Steve.
— O Monstro das Sombras está dentro de tudo e se os cipós sentem alguma coisa, tipo dor, Will também sente. — Mike explicou.
— E Dart também. — Lucas acrescentou.
— Como uma mente em colmeia? — Arrisquei.
— Colmeia? — Steve continuou encarando como se nada fizesse sentido.
— Senhor Clarke nos ensinou isso, é como uma consciência coletiva, um superorganismo. — Dustin explicou.
— É isto que controla tudo. — Mike apontou para o desenho. — É o cérebro.
— Como um devorador de mentes. — Dustin começou. Esse termo eu nunca havia estudado, mas Lucas estalou os dedos como se o mistério fosse todo resolvido.
— Reúna todos na cozinha. — Dustin orientou.
***

— O Devorador de Mentes. — Dustin colocou o livro na mesa para que todos pudéssemos acompanhar sua explicação.
— O que diabo é isso? — Hopper perguntou.
— Um monstro de uma dimensão desconhecida, ele é tão antigo que nem conhece o seu verdadeiro lar.  Escraviza raças de outras dimensões tomando seus cérebros com seus poderes.
— Meu Deus, nada disso é real! É um jogo de crianças. — Hopper resmungou descrente.
— É um manual e não é para crianças! — Dustin retrucou. — E a menos que você saiba de algo que nós não sabemos, essa é a melhor metáfora que temos.
— Analogia. — Lucas corrigiu.
— Analogia? É isso que te preocupa? Beleza! — Dustin aumentou a voz novamente ficando irritado. — Essa é a melhor analogia que temos.
— Ok, então esse incinerador de mentes... — Nancy interviu.
— Devorador. — Dustin corrigiu.
— O que ele quer?  — A garota concluiu a pergunta.
— Basicamente, nos conquistar, porque ele acredita ser uma raça mestre.
— Como os alemães! — Steve disse orgulhoso, mas ficou sem graça quando eu e Nancy o encaramos.
— Os nazistas? — Dustin perguntou. — Claro, se os nazistas fossem de outra dimensão! Ele considera outras raças, como nós, inferiores.
— Ele quer se propagar e dominar as outras dimensões. — Mike entra na discussão.
— Estamos falando da destruição do mundo como o conhecemos. — Lucas concorda.
— Isso é ótimo. — Steve reclama nervoso, passando as mãos pelos cabelos. — Maravilha.
— Então, se essa coisa é o cérebro que controla tudo e a matarmos... — Nancy pegou o livro na mão.
— Matamos tudo o que ela controla. — O irmão concordou.
— Vencemos. — Dustin disse.
— Teoricamente. — Lucas acrescentou.
— Ótimo, então como matamos essa coisa? — Hopper pegou o livro para si também. — Bolas de fogo?
— Não, sem bolas de fogo. — Dustin respondeu. — Bem... você convoca um exercito de mortos-vivos porque eles não têm cérebro... — Hopper fechou o livro e a cara para o garoto. — É só um jogo. — Dustin se redimiu sem graça
— O que diabos estamos fazendo aqui. — Hopper reclamou batendo frustrado o livro na mesa.
— Achei que estivéssemos esperando reforço militar. — Dustin recuperou sua boa forma para a discussão.
— Estamos! — Hopper devolveu.
— Mesmo se vierem, como vão deter isso? — Mike se juntou a frustração de Dustin. — Não da pra atirar com armas!
— Não sabe disso, nós não sabemos de nada. — O xerife continuou igualmente frustrado. Não sabia dizer se as crianças estavam sendo muito maduras, ou se ele estava tão cansado que havia se igualado aos meninos.
— Sabemos que matou todo mundo naquele laboratório! — Mike devolveu.
— E que logo eles vão trocar de pele de novo! — Lucas acrescentou.
— E é uma questão de tempo até que os túneis cheguem na cidade. — Dustin concluiu. Tenho que admitir, eu estava definitivamente do lado das crianças nessa.
— Eles estão certos. — Joyce Byers apareceu, mostrando que eu não era a única a creditar nas crianças. — Temos que matar aquilo. Eu quero matar aquilo.
— Eu também, Joyce! — Hopper concordou indo até ela. — Mas como vamos fazer isso? Não sabemos com o que estamos lidando aqui.
— Não, mas ele sabe. — Mike disse andando firme até a sala, onde o caçula de Joyce dormia. — Se alguém sabe como destruir essa coisa, é o Will. Ele está conectado com ela, saberá a fraqueza.
— Achei que não podíamos confiar nele agora, que ele era o espião do Devorador de Mentes. — Max indagou.
— Sim. — Mike concordou. — Mas ele não pode espiar se não souber onde está.

Tínhamos um novo plano. Esconder nossa localização do espião e rezar para que Will conseguisse se comunicar conosco, para isso, transformariamos o galpão de ferramentas em um espaço neutro. Coloquei a machete e o casaco de lado e me preparei para ajudar a retirar todos os itens que pudessem denunciar nossa localização para o espião.
— Posso ajudar com isso? — Perguntei para Nancy enquanto ela começava a carregar algumas latas velha de tinta para fora.
— Sim. — Ela respondeu um tanto sem graça. Pegamos cada uma o máximo de quantidade que conseguimos e fomos para fora. Hopper voltava para dentro depois de jogar alguns materiais de qualquer jeito a alguns passos do galpão.
— Então, esse curativo no seu braço foi por causa da ligação? — Nancy perguntou, aproveitando o segundo que teríamos sozinha.
— Está tudo bem, Nance. — Tranquilizei. — Se não fosse por isso eu não estaria aqui.
— Não estaria lutando contra criaturas de outra dimensão. — Ela sorriu fraco.
— Não tinha nada melhor para fazer mesmo. — Dei de ombros tentando tirar um sorriso verdadeiro de seu rosto.
— Escute, . — No entanto, não consegui, Nancy continuava séria. — Eu estava procurando uma forma de fazer as coisas melhorarem para você e para os seus tios, juro, a ligação pode ter sido imprudente, mas eu estava tentando consertar as coisas.
— Eu sei, Nance. Eu acredito em você. — Respondi. Um barulho alto me fez dar um salto assustada, xerife hopper já havia voltado com mais materiais.
— Vão ficar paradas aí ou vão ajudar? — Ele lançou antes de voltar para dentro do galpão.
— Estamos indo. — Justifiquei, mas ele nem esperou para ouvir.
— Tem muita coisa acontecendo, mas eu queria que você soubesse que eu sinto muito pela Barb e que eu nunca desisti dela. — Nancy completou antes de voltarmos as tarefas. — E eu sinto muito pela forma como te tratei no último ano também, era só… que….
— Parecia que eu era o fantasma da Barb? — Completei.
— Acho que sim, sinto muito. Sinto muito ter dito que você queria tomar o lugar dela também, eu estava frustrada com muitas coisas e procurando lugares onde descontá-las.
— Aquilo me machucou muito, mas acho que se eu não tivesse me afastado tanto quando fui para Chicago nós também não teríamos tido esses desentendimentos, vocês eram minhas amigas e eu esqueci disso para fugir de tudo.
— Você tinha seus motivos. — Nancy reconfortou.
— Devíamos voltar a ajudar ou o Xerife vai nos dar outra bronca. — Sorri.
— Espere, eu posso fazer só uma pergunta?  — Assenti positivamente. — Não estou com ciúmes, só curiosa… — Ela nem precisou terminar a pergunta para eu saber para onde o assunto iria.
— Somos só amigos, ele ainda gosta de você. — Respondi. Nancy me olhou com certa surpresa.
— Certo, vamos voltar ao trabalho.
E mais uma vez, de todas as coisas inacreditáveis que aconteceram naquele dia, ter uma dose de drama adolescente ainda era provavelmente o detalhe que menos encaixava. Principalmente quando me dei conta que não havia gostado de admitir em voz alta que Steve Harrington ainda era apaixonado pela ex. Droga, eu realmente precisava rever as minhas prioridades.
— Distribuição de tarefas: Você, corta a fita. — Hopper surgiu novamente jogando um rolo de fita isolante para ela. — Você, encontra mais fita. — Apontou para mim.
— Claro. — Fui para dentro da casa procurar pelo material, enquanto Nancy voltava para o galpão.
Demorei alguns segundos para encontrar alguns rolos nos armários da senhora Byers, assim que voltei, perto da porta, ouvi as vozes baixas e Nancy e Steve conversando. Não era certo prestar atenção, mas não pude evitar.
— Esses pestinhas dão trabalho, sabe. — Steve subia alguns degraus para pendurar o forro na parede.
te ajudou, não é? — Nancy arriscou enquanto cortava o rolo de fita isolante que Hopper havia dado para ela mais cedo.
— Muito. — Steve respondeu concentrado em seu trabalho.
— Você e a , bem.. — Nancy começou a refazer a pergunta, aparentemente ela queria uma confirmação das duas partes.
— Somos só amigos. — Steve respondeu seco, fazendo com que eu me arrependesse de ter ouvido.
— É que dá pra sentir uma certa eletricidade entre vocês agora, ela é uma garota muito legal, só... — Nancy hesitou antes de continuar. — Não a machuque ainda mais, certo?
— Você quer realmente falar sobre corações partidos? — Steve rebateu.
— Encontrei a fita! — Entrei no galpão interrompendo a conversa, fingindo que não percebia a tensão que havia ficado no ar.

Quando tudo estava pronto, voltamos para casa. Deixando Will com sua família, o xerife e Will no galpão.
— Vai dar tudo certo. — Murmurei para Dustin, que havia voltado para a cozinha depois de olhar pela janela pela milésima vez.
— Ficar aqui parado é um saco. — Ele resmunga de volta. — Não sei o que está acontecendo lá!
— Esperar pode ser a tarefa mais difícil, mas também é importante. Precisamos confiar no Will, agora.
— E como sabemos que ele vai voltar? — O garoto estava realmente impaciente.
— Não sabemos. — Concordei. — Mas precisamos ter esperança. — Completei, quase ouvindo a voz de meus tios em minha mente.

Hopper entrou de supetão pela porta dos fundos, nos dando um susto. Logo todos os outros vieram para cozinha seguindo o barulho, o xerife, sem explicações, pegou um pedaço de papel e começou a escrever .
— O que aconteceu? — Dustin perguntou com seu jeito impaciente.
— Ele está falando, mas não com palavras. — Hopper riscava vários pontos e trços no papel.
— O que é isso? — Steve perguntou, esticando a cabeça por meu ombro para conseguir enxergar.
— Código Morse. — As crianças responderam em coro. Hopper começou a traduzir os pontos, os transformando em letras.
“AQUI”

Will estava ali, falando conosco, então, nos unimos para conseguir ouvir. Os que estavam com ele voltaram para lá, enquanto nós nos organizamos para traduzir o que o garoto dizia. Dustin e Lucas encontraram manuais com o alfabeto em código morse para que nós pudéssemos encontrar os códigos que Hopper transmitia pelo walkie talkie.
— Ponto… ponto… traço… — Dustin diz para Lucas que começa a procurar a letra correspondente.
— Isso é um pouco confuso, não é? — Digo baixinho para Steve.
— Um coisa que você não sabe? — Um sorriso escapa no canto de seus lábios.
— Bom, as pessoas que estudam até entenderem código morse geralmente não pagam outras pessoas para fazer o dever de casa, então está totalmente fora da minha área de atuação. — Respondo sorrindo também.
— É um E. — A voz de Nancy nos interrompe, fazendo nossa atenção voltar para o problema real. Steve se senta ao lado dela e nós focamos nas letras. S.E.L.A.R.P.O.R.T.A.L.
— Selar portal. — Encaramos o papel, tentando entender o que a mensagem de Will significava.

Um ruído estridente nos interrompeu. Todos nossos olhares se viraram para o telefone preso a parede, meu estômago gelou. Dustin correu para bater o aparelho no gancho, fazendo o barulho cessar. Mas, por algum senso de humor estranho do destino, ele voltou a tocar. Nancy correu e arrancou o aparelho da parede, puxando os fios, e o atirou no chão com toda força.
— Acham que ele ouviu? — Max foi a primeira a ter coragem de falar em voz alta.
— É só um telefone, poderia ser qualquer lugar, certo? — Steve tentou tranquilizar.
— Não contaria com essa sorte. — E como se eu tivesse dado a deixa, os ruídos começaram a ecoar ao longe.
— Isso não é bom! — Dustin disse aflito.
— Fiquem longe das janelas! — Xerife Hopper rompeu pela porta dos fundos, seguido pelos outros.Will sendo carregado nos braços — Sabe usar isso? — O xerife estende a arma para Jonathan, que hesita encarando. — Sabe usar isso? Hopper repete urgente.
— Eu sei. — Nancy toma arma para si. Sigo seu exemplo e corro para recuperar a machete deixada de lado na cozinha, todos tentam se armar como podem e formamos um círculo na sala, encarando as janelas, esperando para saber de onde as criaturas surgiriam.
— O que eles estão fazendo? — Ouço a voz de Joyce questionar. Estou próxima a Dustin, percebo que inconscientemente assumi uma postura protetora com o garoto. Steve está um pouco mais ao lado, empunhando seu bastão. Se quisessem pegar o menino, precisariam derrubar nós dois primeiro.
Os sons continuam ao lado de fora, encaramos cada janela conforme os ruídos parecem mudar de direção. A direção do barulho mudava constantemente, meu coração dando um salto a cada novo grunhido. Por que eles não atacavam logo?
De repente, a janela se parte a vários gritos surgem ao meu lado, meu corpo todo dói quando ergo a arma no ar, pronta para a luta. Mas o Demodog que rompeu o vidro não se move.
— Puta merda! — Ouço Dustin sussurrar perto de mim. — Ele morreu?
O xerife Hopper, cuidadosamente, se aproxima o suficiente para cutucar o demodog com a ponta da bota. Prendo a respiração, mas nada acontece, a criatura  continua imóvel. Mas, antes que tenhamos tempo de criar qualquer teoria, um novo som chama nossa atenção para porta. Giro meus pés, percebendo que sequer afrouxei a mão que segurava a machete. A fechadura da um clique, como que se um fantasma a destrancasse e a porta começa a se abrir lentamente e, para meu espanto, revela uma menina com um pequeno filete de sangue escorrendo pelo nariz.





Continua...



Nota da autora: Muito obrigada por ter lido até aqui. Não esquece de deixar o seu comentário, falando tudo o que se passa aí no seu coraçãozinho! Esse capítulo atrasou, e o nove também deve dar uma atrasadinha, porque estou com problemas técnicos com o meu notebook. Mas não desistam de mim, por favor! A gente se ver assim que possível :D Beijo ❤️

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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