La Donna

Última atualização: 16/04/2019

Capítulo 1

Eu estava no canto daquela grandiosa sala.
Sozinha ali, nada mais tinha um sentido significativo para mim. Não tinha mais porquê não desistir, ou um motivo para seguir em frente.
caminhava em minha direção em passos pequenos e calmos, nada exagerado. Era engraçado pensar que a menos de dois dias eu ficaria desejosa de seus braços ao redor de mim ou de seus beijos em meus lábios e pescoço.
Seu rosto revelava a aflição que ele sentia. Seria por mim ou pelo momento?
Ele estava a poucos passos de mim. Olhei para baixo para fingir não o ver, mas não demorou muito para seu perfume amadeirado tomar conta do pouco espaço que ele fez ficar entre nós dois.
Num gesto de pena, talvez, ele me envolveu em seus braços. Eu realmente não queria pena de ninguém, mas não queria luta. Na verdade, não tinha mais nem um pingo de força tudo havia se esvaído no momento em que aquela campainha tocou.

Íamos, mamma, papa, Valentina e eu, jantarmos fora, para comemoração de algum feito de meu pai que ele só contaria no jantar. Estávamos em um momento de descontração, as três meninas se arrumando. Meu corpo, minha mente e meus sentidos me avisavam que algo ruim aconteceria, mas decidi ignora-los.
Depois de correr atrás de Valentina por toda a sala, eu estava vitoriosa, sentada no sofá calçando em seus pezinhos pequenos sapatinhos vermelhos.
A campainha tocou, foi a última vez que vi um sorriso no rosto da minha mãe. Ela caminhava para o pesadelo, mas não sabia disso. Não sabia do impacto que traria uma visita naquele momento, não sabia a devastação que causaria o tocar daquela campainha.

Dois dias depois é isso que passa na minha cabeça enquanto recebo um abraço que me conforta, mas sufoca.
Não tive coragem de ir ver seu caixão simbólico. Os legistas disseram que o queimaram vivo. Só de lembrar disso, meus olhos começam a arder novamente. Mamma logicamente não me disse isso, ouvi, espionando as conversas dela e de zia Geovanna.
Me dava ódio essa situação e mais ainda não poder fazer nada. O que eu faria? Sairia pelo mundo atrás do assassino do meu pai e na melhor das hipóteses voltaria quebrada para casa? Mamma não suportaria outra perda.
Minha cabeça estava confusa e girava no meio de tanta gente com quem eu não queria falar, não queria ver. Não era problema com as pessoas sem si, mas todo meu momento me transformava, transformações doem.

Os dias que se passaram foram mais complicados demais.
vAinda tinham uma movimentação grande na minha casa, as pessoas vinham se despedir, mostrar condolências, contar belas histórias sobre meu pai e outras vinham para fofocar. Querem saber quem assumirá o lugar dele, alguns cara-de-pau vem até para pedir o cargo dele. Algo que me enoja.
O cargo estava entre Geovani Greco, Francesco Fiori e eu, mas não era uma briga ou guerra, era algo complicado.
Francesco era um dos melhores amigos do meu pai, ele, Manuel (meu pai) e Geovani eram como uma versão masculina e mais séria de As Três Espiãs Demais. Francesco é mais integrado na história e envolvimentos da Nostra Famiglia. Geovani é quem treina todo mundo e incentiva um bom trabalho vindo dos recrutas mais novos. E eu era apenas uma garota curiosa que adorava se meter em confusão, que amava de todo seu coração ser uma mafiosa, assim como o pai.
Assim como meu pai, essa frase martelava na minha cabeça. Meu sonho era ser como ele. Ele me ensinou tanta coisa, mas me faltam tantas outras. Nunca corri um perigo de verdade, sempre estava protegida. Será que se eu ficasse com a máfia eu o desapontaria?
Em um mês tive que decidir e a decisão estava mais clara que as águas cristalinas da praia de Elba.
A primeira reunião que eu participaria seria a reunião com os Fiori, Moccio e Geovani.

— Eu já decidi o que fazer.

Falei rápido enquanto todos estavam falando sobre a proteção e dinheiro da máfia que ganharíamos mesmo que eu não assumisse.
Fiquei quieta observando Nicola, filho de Francesco olhando para mim com a cara de quem se divertiria. Ele era o único que sabia da minha decisão.

— E qual é, ? — disse Francesco com um ar curioso e gentil.

Apesar de Francesco ser meu padrinho e ser mais próximo da minha família, Geovani me conhecia muito bem.

— Mãe, eu não quero te decepcionar — olhei para baixo um pouco sem jeito. — Mas eu quero entrar nessa.
Me detive a olhar poucos rostos. Nicola riu batendo poucas palmas, Geovani abriu um enorme sorrio enquanto Francesco ficou de certa forma emocionado e me deu um abraço, murmurando que sabia que eu tomaria a decisão certa ou algo do tipo.
me olhava preocupado, meio desesperado. Zia Geovanna falava algo para minha mãe que eu não entendia. Ela saiu da sala dizendo que ia ver as meninas, Luna e Valentina, que brincavam no andar de cima.
Mamma levantou da cadeira e deu um pequeno sorriso.

— Era lógico que você escolheria seguir os passos de Manuel, cabeça dura como ele — disse enquanto seus olhos deixavam clara a emoção, mas não era de total alegria.
— Vou marcar uma reunião com todos os membros daqui a dois dias — disse Geovani. — Pode ser um pouco assustador, mas Francesco e eu estaremos lá por você — deu um pigarro e Geovani riu. — também.

Os dias que se seguiram até a reunião passaram lentamente como uma terrível tortura. Mamma falava o tempo todo de coisas como não deixar a família de lado e de não deixar a máfia me dominar.
Eu, quando saia do quarto, sempre dava de cara com a porta do escritório do meu pai, mas evitava olha-la mais que o necessário. Eu tinha medo de abri-la e desencadear todos aqueles pensamentos e memórias. Eu tinha medo de abri-la e ver que ela era como uma comporta aberta. Um pequeno despejo das nossas histórias e nada faria com que aquilo fosse cessado.
Eu evitava pensar muito sobre ele. Sabia que se pensasse muito eu seria levada a total loucura. Minha mente já estava focada e tinha um propósito maior.
Passava o dia mentindo sobre meu humor ou escondendo minhas verdades, fugindo de quem me conhecia, dando sorrisos falsos com aspectos de verdadeiros e por qualquer coisa me trancando no quarto.
Não abria as cortinas. Minhas janelas altas davam para a janela do quarto de e ele, tirando minha mãe, era o mais preocupado comigo, mas ele aprendeu a me dar o espaço necessário com o tempo.

Eu já havia mudado de roupa várias vezes. Eu me sentia confusa com o que vestir mais por questão de apresentação para eles. Não queria que eles pensassem que eu era uma princesinha metida que estava tentando fazer algo que eu não conhecia ou não sabia. Eu passei a tarde pensando em uma roupa que impusesse meu respeito, mas toda vez que pensava no termo de roupa que impusesse respeito, eu ria.
Mas na última tentativa, lembrei que eles já me conheciam, lembrei que eu tinha que impor respeito por ser eu, então me arrumei não me atendo a detalhes como caprichos em maquiagem. Fui até a cabeceira da minha cama, onde tinha porta-retratos com a foto da nossa família.
Beijei delicadamente a ponta dos meus dedos e as pus sobre a foto.

— Espero não te decepcionar — disse olhando a foto do meu pai. — E proteger vocês — agora me virando para Valentina e mamma.

Saí de meu quarto me encaminhando nervosamente para a sala.
Os cabelos castanhos claros de Valentina se esvoaçavam por onde ela passava rodopiando e fazendo alguns passos de ballet. Ela, provavelmente, é o espírito que traz vida a casa. O motivo pelo qual eu sei que devo lutar.
Valentina tem 9 anos e é absurdo o tanto que ela é o reflexo do meu pai. Seus olhos sempre atentos e grandes são castanho bem claro, como de papa. Seu nariz arrebitadinho lembra muito o dele, e ainda tem toda a energia que os dois transmitiam e agora só vem dela.

, você pode vir aqui? — gritou mamma da cozinha.

Passei por Valentina sorrindo para ela, que sorria de volta para mim, ainda dando seus rodopios cheios de graça.
Ao chegar na cozinha, havia uma xícara sobre a bancada.

— Para você — disse mamma dando a volta na bancada e sentando do meu lado enquanto tomava alguns goles do chá oolong. — Eles vão querer te desrespeitar, vão tentar fazer você se sentir mal e incapaz.

Deixei minha xícara em cima da bancada e me virei para mamma um pouco decepcionada.

— Desculpa mamma, mas pensei que você iria me apoiar, não tentar me fazer desistir.
— Não, meu amor — Anna Moccio, se apressou. — Quero que você entenda que independente de qualquer coisa, você é capaz. Ninguém vai fazer isso melhor que você — ela pôs uma arma que eu havia ganhado no meu último aniversário sobre a bancada. — Leva. Evite usar, mas leve.

Eu era restritamente proibida de usar armas, a não ser que fosse em aulas de tiro, e eu podia quando meu pai me levava para trabalhar com ele, mas nunca precisei.
O interfone tocou, mamma foi atender e voltou dizendo que eu deveria rapidamente ir porquê o carro que veio me buscar já estava lá embaixo.

Estava na hora da reunião. Estávamos todos numa casa afastada da cidade, no meio do nada. Era uma casa de campo majestosa, eu sempre gostei dela.
Nos reunimos, como de costume, no porão da casa e estava lotado. Havia vários gerentes de sessões da Nostra Famiglia, meu pai já havia me apresentado, alguns ainda não conhecia.
Meu pai me explicou que eles eram chamados de Dons, apesar de serem só gerentes, por conta de segurança. Quando se é Dom, tem mais prestígios que um gerente, além do fato de que gerentes são descartáveis. Mas meu pai não pensava assim. Além do mais, esses gerentes cuidam de sessões inteiras em vários países e regiões, eu os admirava por isso. Eles tornavam o trabalho mais fácil, mas será que continuariam a tornar?
O rosto confuso de alguns membros da Nostra Famiglia por me ver na reunião, ficaram mais confusos quando me viram ao lado de Francesco que iniciava a reunião com um minuto de silêncio em homenagem ao meu pai.
Depois desse minuto a palavra foi passada a mim. Eu tentava encontrar ali rostos conhecidos ou caras receptivas, então vi Dom Pietro Salieri, que era como um filho pro meu pai com um sorriso amigável para mim, olhei para o fim da sala e vi sorrindo para mim.

— Bem, sou Moccio, filha do Dom Manuel Moccio, para quem não me conhece.

Um silêncio reinou por um curto tempo. O que eu deveria dizer agora mesmo? Me sentia um pouco inquieta, talvez confusa.

— Eu não gosto de enrolações, então vou ser direta com vocês todos. Fico feliz pelo apoio que deram a minha família e eu espero que depois desse pronunciamento ainda tenhamos apoio — dei um risinho meio sem graça, mas agradecido. — O sonho Moccio de manter um clã grande não se foi junto com meu pai, assim como não se foi com meu avô. Nostra Famiglia foi criada pelos Moccios e a decisão que tive de tomar não foi simples.

Me senti meio insegura de continuar até olhar para e ele me encorajar, em silêncio, a distância, mas encorajar como ele sempre fazia.

Nostra Famiglia, continuará no poder nos Moccio e eu serei a mais nova Donna.

Burburinhos e sons de espanto tomaram a sala e eu respeitei, por alguns segundos. Lógico que eles iam ficar assim. Não era que eu fosse fraca, mas eles não iriam querer ter uma mulher mandando.

— Sei que é algo inesperado, talvez nunca tenha nem passado pela cabeça de vocês. Mas foi a decisão que tive e ela cabe apenas a mim.

Tentava me conter e não olhar as caras irritadas e bravas para mim, ao invés de medo, me deu coragem. Eu não desistiria por uma sala com caras bravas.

— Tudo o que fiz e aprendi foi guiado pelo meu pai, eu sei que eu posso fazer isso por honra ao nome dele e ao nome dos Moccio.

Fiz um silencio que pareceu durar horas. Minha noção de tempo parecia estar se perdendo.

— Já que ninguém vai falar nada, eu falo — um homem com cara de 50 e pouco, de cabelos grisalhos, da primeira fileira se manifestou. — Eu proponho uma votação pela honra de Manuel. Essa garota não pode assumir e trucidar esse clã tão renomado.

Respirei fundo e revirei os olhos sem paciência.

— Foi mal, mas sem poder de escolha.
— Mas isso é uma vergonha para Manuel, sua filha achando que o clã mais importante da Itália é uma brincadeira.

Seu ar debochado me irritava mais do que qualquer coisa. O pior era ver algumas pessoas o apoiando

— Pare de citar o nome do meu pai.

O homem se levantou e se aproximou como em desafio. Houve uma certa movimentação, deu para ouvir.

— Senão você vai fazer o que?

Tirei minha arma do coldre e a destravei.

— Você não deve nem saber atirar. Queremos alguém que ameaça e não faz como líder? — virou ele para as pessoas ainda sentadas, mas se virou para mim. — É só isso?

Um estouro oco reverberou pela sala. O tiro pegou em uma das madeiras de sustentação do teto do porão.

— Mais uma vez ameaçando, senhorita Moccio? — disse se virando pra mim, me desafiando sem disfarçar.

Em um rápido movimento o virei e apliquei uma gravata nele pressionando com um braço quanto colocava a arma em sua cabeça.

— Se continuar me ofendendo com seu sarcasmo escroto seus miolos serão a nova decoração desse porão, estamos de acordo? — disse sussurrando em seu ouvido.

Ele não se mexeu e nem falou nada, era óbvio que estava tentando tirar completamente minha paciência para brincar de ser mártir na situação.
Apertei um pouco mais o braço fazendo o grunhir e reclamar do aperto.

Siamo d'accordo?

Ele balançou a cabeça e então o joguei no chão. Ele caiu vermelho, tentando engolir e pôr para dentro todo o ar que poderia conseguir.
Me virei para o restante dos ali presentes.

— Como ia dizendo antes de ser interrompida, nada será modificado e todos continuaram com seus cargos.

Depois de algumas mais considerações e avisos vindos de Geovani e Francesco, a reunião acabou.

Moccio, calma como um mar agitado — riu Pietro Salieri se aproximando.

Ele era um pouco mais velho que , e Dio, como era lindo. Parecia que os dois disputavam e o mais difícil era escolher quem venceria.
Sorri sem jeito para ele que pegou minhas mãos para dar um beijo nelas e eu derreti.
Francesco se aproximou de mim, tocando em minhas costas e Salieri soltou minhas mãos. se aproximou sorrindo para mim.

— Diria que foi um pouco mais surpreendente do que eu imaginava. Uma entrada bem - disse rindo.
— Se não fosse exagerado, não seria — disse rindo.

Depois de alguns minutos conversando com algumas pessoas, fomos caminhando para o carro. Pietro se despediu enquanto eu entrava no carro de Francesco com Geovani e .

— Você acha que vão haver mais oposições? — disse a Geovani.
— Não mesmo, eles estão com medo, vão ficar.

Dei os ombros. Menos mal.


Capítulo 2

No caminho para casa eu me senti relativamente péssima. Era pra eu estar animada, ou até mesmo feliz, mas não queria nem ouvir falar de máfia.
estava sentado ao meu lado no banco de trás, provavelmente percebendo o incômodo que eu estava sentindo com o assunto de Geovani e Francesco. Eu, provavelmente, nunca ficaria obcecada nesse assunto a ponto de falar só disso.
De repente eu me desliguei de tudo aquilo. Pode ter sido por sentir afastar meu cabelo do meu ombro e deitar sua cabeça nele de forma estratégica o bastante para sua respiração tocar meu pescoço, me fazendo arrepiar. Ou a forma que, depois de pegar minha mão, fez a ponta de seus dedos deslizar pelo meu braço.
Foi assim por todo caminho. Eu estava no meio de um assunto um tanto estressante, mas o silêncio dele, o toque dele, me traziam uma sensação de relaxamento imediato.

Obviamente o jantar de comemoração por tudo ter dado certo foi na minha casa. Mamma estava feliz. Era claro e talvez até palpável. Mas não era só felicidade. Alívio talvez?
Enquanto Luna e Valentina brincavam no quarto de Valentina e mamma e zia Geovanna conversavam na sala de jantar, eu e Nicola lavamos a louça. Nicola lavava e eu secava. Me posicionei em um lugar que eu poderia ver sentado vendo futebol junto com seu pai e Geovani.
Ora ou outra me pegava admirando sua apreensão para a TV.

- Então... - começou Nicola, fazendo com que eu olhasse pra ele, tirando a atenção de . - Quem foi na reunião?

O sorrisinho malicioso que ele dava, enquanto me olhava como se fosse uma pergunta inocente me fez ter certeza rapidamente de quem ele estava perguntando em específico.

- Lógico que Pietro foi - sorri dando os ombros a ele e me sentando na bancada da cozinha.

Olhei pra sala observando morder o lábio inferior de apreensão. Amava quando ele fazia isso.

- Na verdade, foi bem difícil me concentrar, sabe?
- Lógico que foi. Você tem dois olhos, mas não dá pra olhar para Pietro e ao mesmo tempo.
- Infelizmente - disse fazendo uma cara de falsa pena.
- Por isso, que Pietro deve ser meu. Cada um com um.- Nicola deu uma risadinha com uma cara de convencido. Como se vencesse algo.
- Pietro não é de ninguém. E ele é praticamente como um irmão - dou ombros terminado de secar um prato.
- Você fica com o meu e eu fico com o seu, capiche? - diz dando uma piscadela pra mim.
- Non capicho - digo batendo com o pano de prato em seu braço e dando uma risada.

Quando terminou o futebol, Nicola e imploraram para zia Geovanna para ficar na minha casa pra assistir filme. Depois de muita insistência, até de mamma, ela cedeu e deixou os meninos ficarem e até dormir, mas eles teriam que ir em casa, o que me deu um ótimo tempo para um banho relaxante.
Foi como relembrar a infância minha e de . Um colchão no chão com muitos cobertores e travesseiros, vestindo nossos melhores pijamas como se fossem fantasias de super-heróis. Mamma fez pipoca e alguns petiscos para beliscarmos durante o filme de terror, que inclusive fez Nicola pular dezenas de vezes.
Durante o filme, senti dando a mão pra mim. Eu queria talvez zoar ele um pouco, por parecer com medo, mas não o fiz. Vai que ele tirasse a mão dali e minha paz acabasse?
Quando o filme acabou, eu era a única acordada.
Nic estava de costas pra mim todo encolhido. estava deitado de lado, de frente pra mim.
A luz da televisão iluminava o rosto dele parcialmente. Apesar de não poder ver seus lindos olhos âmbar, ele era mais bonito dormindo calmamente. Isso me fez vontade de tocar seu rosto e eu apenas o fiz. Eu senti sua pele sob meus dedos e o arrepio, como eletricidade percorrer meu corpo. Me contive pra não beijar seus lábios e deixá-lo descansar.

Não demorou muito até eu cair no sono e, sinceramente, também não demorou muito até eu acordar com me chamando baixinho acariciando meus cabelos.
Era impossível não acordar com um sorriso no rosto e com um bom humor.
Durante o dia resolvemos algumas coisas em casa. Por exemplo, eu deveria ter um escritório em casa e então arrumamos o escritório do primeiro andar pra ser o meu. Pelo menos até termos mais tranquilidade para entrarmos no escritório de papa que ficava do lado do meu quarto no andar de cima.
Depois de muito tempo, resolvi abrir minhas cortinas e arrumar meu quarto. Enquanto eu o arrumava, desviava o olhar muitas vezes para o quarto perfeito e meticulosamente arrumado de .
Depois vi que ainda tinha um tempo para dar uma corrida rápida. Tomei um banho rápido e vesti uma roupa confortável. Peguei meu iPod e deixei meu celular em cima da cama. Ao chegar no andar debaixo, reparei que estava sozinha em casa, provavelmente aquela era a hora do ballet de Valentina. Me alonguei rapidamente e me pus a correr pelas ruas e ruelas da cidade. Músicas das mais diversas explodiam em meu ouvido me fazendo correr com toda minha vontade. Só quando reparei que já estava quase escurecendo voltei para casa.
Ao chegar em casa, vi mamma andando de um lado para o outro da sala de estar. Ela começou a falar nervosa e eu não entendia nada, a música estava alta, mas tinha certeza que ela estava me acusando de algo.
Ao tirar o fone, ouvi mil acusações e apenas fiquei parada olhando sem entender para mamma que apenas falava e falava irritada.

- Você é igualzinha ao Manuel.

Ao ouvir ela dizer isso apenas dei uma risada e me virei indo para a cozinha.

- Quem me dera - disse abrindo a geladeira e retirando uma garrafa de água.

Ao fechar a geladeira a vi me olhando com ódio. Eu fiquei assustada, mas dei uma risada.

- Você acha graça, não é? Quero ver achar graça de castigo.

Bebi minha água e olhei pra ela revirando os olhos.

- Esse surto aí, é por qual motivo?
- Você não pode sair de casa sem avisar, sem celular. E se alguém raptar você?
- Eu sei me proteger, fica tranquila.

Me virei indo em direção das escadas pra ir tomar um banho.

- Você está proibida de sair de casa sozinha. Você só vai sair daqui dessa casa acompanhada de alguém - mamma gritou da sala e eu respirei fundo. Eu entendia a preocupação, mas achava desnecessário o drama. Me virei para ela e fiquei em silêncio e observando ela andando até mim.
- Você não vai sair dessa casa sozinha e sem avisar. E só sai se eu permitir.

Eu me senti irritada. Desci as escadas que já havia subido e a vi ficar frente a frente comigo. Respirei fundo e a olhei de forma séria.

- Você é minha mãe, eu te respeito, mas você não tem o direito de me proibir a nada. Se eu quiser eu saio, agora mesmo, e você não tem direito de me proibir.
- Você não tem direito de nada - disse Anna gritando.
- Veremos se não - disse com cara de debochada e apenas senti a mão de Anna batendo contra meu rosto.

Um ódio se apoderou de mim, mas eu apenas saí para o quarto. Bati a porta com bastante força. Tomei um banho rápido e vesti uma roupa qualquer, peguei meu celular em cima da cama.
Desci até a sala, passando reto por Mamma que estava ali. Ao sair de casa, fui andando até chegar a uma rua e então mandei uma mensagem para Pietro perguntando se ele poderia me encontrar.
Não demorou muito até Pietro me pegar na rua, me levar ao café e saber de tudo que estava acontecendo. Ele estava de frente pra mim e se vestia sempre do mesmo jeito e eu achava perfeito. A calça jeans, a camisa branca e a jaqueta de couro sempre combinavam e deixavam ele com o ar de garoto mal. Ele estava sentado na minha frente e eu via sua boca se mexer, mas não prestava muito bem atenção no que ele dizia.

- Entendeu?

Balancei a cabeça negativamente afim de afastar os pensamentos sobre ele na minha cabeça.

- Não muito, desculpa, eu estava pensando em tanta coisa.

Na verdade em você, sem dúvidas era o que minha cabeça respondeu.
Pietro tocou meu antebraço direito e passou seus dedos lentamente até chegar a palma da minha mão.

- Estamos todo preocupados com você, minha piccola.

Ele juntou minha mão a ele e deu um beijo nos nós de meus dedos.

- Eu sei, meu anjo - disse debochada chegando um pouco mais pra frente, ficando um tanto próxima e então falei sussurrando. - Mas eu sei me cuidar, esqueceu?

Dei uma piscadela voltando a me sentar direito.
Vi Pietro se endireitar em sua cadeira mordendo o lábio inferior e sorrindo pra mim. Ele abriu a boca pra falar algo, mas mudou de ideia apenas respirando fundamente.

- Acho que você tem que pensar em guarda costas.

A fala de Pietro me fez revirar os olhos e dar uma risada.

- Pra quê? Nem meu pai tinha.

Pietro ponderou por alguns instantes e pareceu se render.

- Pode ser que seja um exagero mesmo.

Ainda ficamos ali conversando sobre várias outras coisas relacionadas a máfia e como eu teria que me comportar. Minhas redes sociais, já pouco movimentadas, foram excluídas por questão de segurança.
Não demorou muito até irmos embora. Pietro insistiu para me deixar em casa, mas eu queria caminhar.
Ao chegar na frente da minha casa olhei pra ela. Não tinha vontade de entrar. Eu continuei caminhando por um tempo.
Poucas ruas depois da minha casa havia um lugar que eu tinha o costume de ir com papa. É um lugar bonito com uma árvore frondosa, que rendia uma boa sombra durante o dia, e uma vista espetacular para o mar.
Sentei debaixo da árvore e olhei pro horizonte, para o mais longe que podia olhar. Deixei meus pensamentos vagueando sob as estrelas. As lembranças vieram, com toda clareza.

- Mas você é muito teimosa mesmo - papa se referia a uma discussão que havia tido com mamma. - Você puxou a mim, não podemos negar.

Eu dei uma risadinha.
As pessoas sempre diziam isso pra mim: o quanto eu havia puxado o meu pai e isso pra mim, com certeza, era uma honra.

- Você sabe, não sabe?

Olhei pra ele com olhos curiosos.

- O que?
- Que ela só está preocupada.

Revirei os olhos me voltando a vista espetacular que aquele dia me proporcionava.

- A cor desse mar sempre me lembrou a cor dos seus olhos. E o mar me lembra você - olhei atenta para Manuel que olhava para o mar. - Você tem esses olhos claros que, assim como o mar, dá a impressão de que só de olhar a gente conhece inteiro.
- Como assim? - perguntei um tanto curiosa enquanto papa me abraçava e beijava o topo da minha cabeça.
- Você tem muita coisa nessa cabecinha que ninguém nem imagina.

Dei ombros. Realmente isso era verdade. Eu tinha coisas na cabeça que ninguém entendia.


Pensando bem, na verdade nem eu entendia.
Eu apenas sorri com o pensamento. Eu só lembrei o quanto minha mãe brigava comigo por preocupação.
Era estranho ver como as coisas mudaram drasticamente em alguns meses, mas ao mesmo tempo não mudaram nada.
Depois de um curto tempo fui para casa, sentindo uma brisa gelada, arrependida por ter esquecido o meu casaco.
Quando cheguei em casa, reparei que mamma estava na sala vendo televisão, provavelmente Luna estava brincando no quarto dela.
Caminhei até o sofá e me sentei um tanto próxima a mamma e limpei a garganta.

- Quero te pedir desculpas.

Anna se virou pra mim, e abaixou a televisão me olhando nos olhos de forma curiosa me esperando terminar.
Ela realmente tem olhos que intimidam. Por um curto tempo, me arrependi de ter dito algo, mas os brincos dela me chamaram atenção. Eram os brincos que meu pai havia dado a ela há um tempo. Pra mim foi como um sinal de que eu deveria continuar, de que eu deveria falar.
Respirei fundo e a olhei nos olhos, mas não com os olhos cheios de acusação como os dela.

- Eu me comportei de maneira péssima hoje.

Sua expressão ainda estava dura, mas seus olhos estava mais suaves sobre mim.

- Eu não acho que tenha necessidade de você se preocupar. Eu sei que é uma coisa nova, eu também tenho medo, mas poucas pessoas sabem que estou à frente da Nostra Famiglia.

Um silêncio incômodo e infindável se instalou. Pareceram horas quando só se passaram segundos.

- Quero estabelecer regras - disse Anna. - Quero que ande com o celular e atenda quando eu ligar. E avise quando sair.

Afirmei levemente com a cabeça.

- Justo.

Me levantei do sofá e passei por mamma que tocou minha mão me fazendo virar pra ela e a olhar.

- Só tome cuidado.

Abri um sorriso pra ela.

- Cuidarei de mim, você e Valentina.- disse dando um beijo em sua testa.

A noite foi irritante, regida por pesadelos e longos momentos em claro. Horas e horas olhando o celular, tentando ver se a hora passava, mas nada. Antes do sol nascer levantei pra caminhar.
Na cozinha deixei um recado pra minha mãe avisando que iria correr um pouco e tomei uma xícara de café bem forte para me despertar.
Na corrida senti a brisa gelada bater contra a minha pele e então me senti viva. Senti meu coração bater, a vida acontecer.
Não demorei muito para voltar para casa, ainda a tempo de Valentina acordar e tomar café da manhã com ela.

- Bom dia, amore mio - mamma entrou animada na cozinha.

Valentina estava vestindo seu pijama, sentada no balcão e eu estava passando Nutella no pão dela.

- Bom dia, mamma - disse animada pegando um pouco de café para ela. - O que temos para fazer hoje?
- Valentina e eu temos várias coisas, você tem o seu primeiro dia no trabalho - mamma sorriu levando a xícara a boca.

Meu primeiro dia...




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Nota de Beta: Ah, acho que a Mamma exagerou um pouquinho, mas espero mesmo que a Mia saiba se cuidar. Estou ansiosa pra saber como vai ser o primeiro dia de trabalho.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus