Last Gift

Última atualização: 26/10/2017

Prólogo

– Então, pensou no que eu disse? – observei o rosto próximo ao meu.

Nossa respiração estava quase em seu fluxo normal, mas ainda podia sentir o efeito do ápice passeando preguiçosamente pelo meu corpo, assim como os dedos acariciando despreocupadamente o meu mamilo enquanto aguardava a minha resposta.

– Você sabe como me sinto a respeito disso. – dei uma olhada rápida no meu corpo e fechei os olhos. – Podemos tentar inseminação. – murmurei consciente da resposta que viria a seguir.
– Se pudesse, eu os teria. – as pontas dos dedos deslizaram sobre meu rosto, ao mesmo tempo em que seu queixo repousou entre meus seios, abri os olhos e levei a mão até seus cabelos.

Observei Jung YunHee olhar-me com os olhos castanhos gigantes projetando um leve bico. Ela sabia que fazer aquilo era ponto fraco, fiz uma careta e ela sorriu. Acariciei seus cabelos que agora estavam na altura dos ombros, levemente ondulados.
Haviam se passado três anos desde que a tinha visto pela primeira vez, em uma visita ao hospital do câncer próximo a minha casa. Parei um instante em meu caminho para observar a moça sentada conversando gentilmente com uma criança. Seus olhos castanhos capturaram os meus e então, ela sorriu. Meus pés me levaram naquela direção. Passamos a tarde conversando enquanto ela recebia a quimioterapia. Sem conseguir explicar o motivo, não fui capaz de me afastar e passei a noite ali. Voltei nos próximos dias até que ela recebeu alta. Um ano até que tivemos o primeiro beijo, dois meses depois viemos a morar juntas em uma união estável.

– Volta. – recebi um aperto na coxa trazendo–me para a realidade, dei um pequeno sorriso — Confia em mim? — dei um sorriso largo, logo foi correspondido por um ainda maior. – Então, acredite. – assenti sem dar uma resposta e a trouxe para perto, capturei os lábios num beijo longo.

Há dois meses, YunHee demonstrou desejo de termos um filho e desde então estávamos tentando achar um jeito de conceber essa criança. Conversamos várias vezes durante esse período, até que por fim, ela me disse que preferia o método tradicional ao método frio da inseminação artificial, e não só ele, como conhecia alguém perfeito que poderia nos ajudar.

– Confie em você mesma. – sussurrou contra meus lábios ao apertar minha cintura.
– É isso que você quer? – a olhei nos olhos, acariciando seu rosto.
– É o meu desejo. – seu olhar veio firme em minha direção, seus lábios permaneciam um sorriso carinhoso.
– E quando ele chega? – deixei escapar um sorriso, bati com a pontinha do dedo em seu nariz. YunHee piscou lentamente, até que as palavras fizeram sentido. Seus olhos brilharam úmidos, os lábios tremeram e imediatamente me envolveu num abraço apertado. – Amor? – sussurrei assim que senti meu pescoço ficar úmido.

YunHee ergueu seu rosto, mesmo à luz das lágrimas, mantinha um sorriso feliz nos lábios cheios. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, novamente seus lábios percorreram meu pescoço, um arrepio percorreu meu corpo e deixei um gemido escapar.



Capítulo 01

– Só... mais... um detalhe...zinho. – murmurei enquanto dava o último retoque na imagem, sorri vitoriosa ao ver a capa do meu próximo livro pronto.

Massageei os ombros e dei uma olhadinha preguiçosa no relógio, foi o que bastou para que eu saltasse da cadeira e saísse correndo em direção à cozinha. Estava atrasada. Muito, muito atrasada! Conferi mais uma vez no relógio, duas horas para que tudo ficasse pronto. Separei os ingredientes necessários para o Strogonoff de Camarão, em seguida foi a vez do Arroz Crocante. Por último, coloquei literalmente a mão na massa ao preparar a Rosca de Azeitona e Provolone.

– Oi? – regulei a temperatura do forno elétrico ao mesmo tempo em que atendia o telefone.
, tudo bem? – sorri ao ouvir a voz animada.
– Oi, amor, acabei me empolgando com a capa. – fiz uma careta – Mas está tudo entrando no eixo, como estão às coisas por aí?
– Estamos quase acabando. – pude ouvir o barulho de risos e gritos ao fundo. – Essas crianças estão cada vez mais agitadas.
– Espere até ser a nossa vez, vou ficar de cabelos brancos! – brinquei e em seguida ouvi o som doce do seu riso.
– Exagerada! – ralhou de forma carinhosa – Mais uns minutos e estou chegando, ok? Amo você! – mordi os lábios ao ouvir o som característico de um beijo.
– Está bem, amor, amo você. – com um sorriso nos lábios desliguei o telefone.

Parei um instante na frente da pia observando a paisagem. Uma semana havia se passado desde que havia concordado com aquele plano, hoje seria o dia que ia conhecer o tal amigo. Impossível não sentir um frio na barriga, até mesmo um desconforto com aquela situação, mas se a faria feliz, era o que realmente importava. Podia e iria deixar aquele ou qualquer outro sentimento de lado.
Conferi mais uma vez como estavam as coisas antes de subir as escadas, parei um instante em um dos primeiros quartos. , este era o nome dele, ficaria em nossa casa durante o período. Dei uma olhada em volta vendo se tudo estava no devido lugar. Um arrepio frio correu por minhas costas assim que meu olhar recaiu sobre a cama, girei sobre os calcanhares e sai rapidamente dali.
Caminhei apressada em direção ao nosso quarto, existia um certo incomodo e não poderia deixar de sentir, por mais otimista que pudesse estar. Ao chegar lá, caminhei em direção ao closet e optei por um vestido leve, florido de botões, em seguida fui para o banheiro. Deixei a água quente correr sobre meu corpo afastando qualquer traço de ansiedade e receio que estivesse impregnado sob a minha pele. Meia hora depois, estava colocando os brincos em frente ao espelho, alisei a roupa mais uma vez, calcei os sapatos e finalmente desci.
Às sete horas ouvi a porta da frente abrir, sorri enquanto terminava de colocar o arroz em uma pequena travessa. Contei lentamente até cinco e ao chegar neste, senti os braços rodearem a minha cintura e o rosto descansar em minhas costas. Deixei a travessa de lado, cobri as mãos com as minhas e lentamente girei ficando de frente para ela.

– Olá, estranha. – levei suas mãos até os lábios e beijei cada uma antes de trazê-la para mais perto.
– Como você está? – seus olhos fizeram uma busca rápida em meu rosto antes de descansarem sobre os meus.
– Tudo bem. – respondi sem fitá-la diretamente nos olhos, em vez disso, apenas descansei as mãos em sua cintura dando um leve sorriso.
? – as pontas dos seus dedos deslizaram sobre meu rosto e mordisquei um deles. – Me conta. – pediu num sussurro.
– Só um pouco ansiosa. – respondi a contragosto apertando levemente a cintura.
? – seu olhar, apesar de gentil, era inquiridor.
– Quantas vezes por dia iremos tentar? Se ele não... tiver ereção? E se...
– E se mais nada. – o dedo pousou sobre meus lábios impedindo que outra frase surgisse. – Nunca, jamais eu pediria isso para outra pessoa se não ele, eu confio e sei que irá cuidar de você. E quanto todas às suas dúvidas, vamos tratar de esclarecer quando ele chegar, ok? – assenti lentamente.

Apoiada na ponta dos pés, seus lábios juntaram-se aos meus, os dentes passaram levemente sobre meu lábio inferior antes de sua língua fazer o mesmo caminho. Estremeci sob aquele simples toque e aprofundei o beijo deixando escapar um gemido. Seus dedos acharam caminho entre os meus fios castanhos, seu corpo colou contra o meu. Escorreguei meus lábios sobre seu pescoço enquanto procurávamos por ar, minhas mãos percorriam por seu corpo da mesma forma que as dela exploravam meus seios.

– Temos quanto tempo? – murmurei mordiscando seu lóbulo e a vi puxar o ar com mais força.
– Acho que... – sua voz saiu num rouco ronronar próximo ao meu ouvido, mas antes que pudesse concluir a frase ouvimos o barulho da campainha – Nenhum! – fiz uma careta sem poder esconder minha irritação por ser interrompida, YunHee deixou escapar um sorriso antes de novamente juntar nossos lábios em um beijo rápido – Terminamos isso mais tarde. – deu uma piscadela ao dar um passo atrás.

Assenti com a cabeça fazendo um bico enquanto a via sair saltitando da cozinha. Num suspiro resignado voltei a arrumar as travessas, ouvi o riso alegre dela e o murmurar masculino, revirei os olhos fazendo uma careta. O barulho de passos no corredor, ergui o olhar exatamente quando ambos entraram na cozinha. Foi o que bastou para sentir o coração saltar no peito e o estômago contrair. Arquei as sobrancelhas significativamente ao fitar os dedos entrelaçados, encarei o rapaz estreitando os olhos. Ele estava próximo, muito próximo. Trinquei os dentes e dei um passo em frente instintivamente.

? – demorei alguns segundos antes de desviar o olhar para YunHee – Este é o , está é a minha esposa, .

O olhar calmo de YunHee posou sobre o meu, forcei um sorriso antes de encarar novamente o rapaz, mas esse já não se encontrava no seu lugar.

– Ouvi muito falar de você, . – fiquei estática enquanto ele me abraçava, como se fossemos velhos amigos – É um prazer estar finalmente te conhecendo! – sorriu ao afastar-se.

Fiquei espantada olhando para o rapaz, esse mantinha um sorriso nos lábios cheios e o olhar curioso, talvez esperando alguma reação da minha parte.

– Hm... é. – pega de surpresa não sabia como responder a todo aquele entusiasmo, olhei de um para outro. – Digo o mesmo. – dei um sorriso amarelo.
– Posso te ajudar em alguma coisa? – solícito, o rapaz deu um passo em frente.
– Não! – dei dois passos pra atrás – Está tudo sobcontrole. Yunnie, por que você não leva o nosso convidado até o seu aposento enquanto dou os toques finais por aqui? – empurrei o melhor sorriso em direção a eles.
– Certo. – lançando um olhar avaliador em minha direção, com direito a uma sobrancelha erguida – Dez minutos?
– Quinze. – pisquei, dando uns minutos a mais para que ela pudesse tomar um banho rápido. YunHee puxou pela mão, este ainda deu um aceno antes de sair.

Não pude evitar sorrir ao ver a cena, mas logo estava séria ao dar alguns passos e depositar a pequena travessa de arroz crocante sobre a mesa. Em seguida foi a vez do Strogonoff ser trocado de lugar e descansar na travessa, por último, retirei a forma com a rosca do forno.

– Oi. – olhei sobre ombro e dei um sorriso educado. – Vai soar extremamente repetitivo, mas posso ajudar em alguma coisa?
– Ali. – dei um pequeno sorriso e apontei com a cabeça em direção a pequena adega localizada ao lado do armário – Escolha um vinho para nós.

Observei enquanto ele sumia porta adentro, voltei à atenção para o que fazia antes. Minutos depois o vi voltar com um vinho Section 94 Dog Point Sauvignon Blanc, muito apreciado por mim. Sorri com a escolha sábia e apontei para o armário, indicando as taças. A minha mania – irritante por sinal – de terminar de organizar o jantar e de imediato lavar a louça, me impedia de fazer outra coisa senão aquilo. Dei uma última olhada sobre a mesa e voltei à atenção para a pequena tarefa.
Deveríamos estar conversando, certo? Sim, mas não sabia ao certo por onde começar, principalmente por ele aparentemente saber sobre mim e eu pelo contrário, não tinha a mínima ideia de quem ele era na vida da minha esposa, muito menos que ele existia, devo ressaltar.

– Primeira gaveta a minha esquerda. – disse e observei enquanto o olhar masculino claramente brilhou curioso ao passo que ele aproximou-se de onde estava. A risada rouca soou assim que ele retirou um pano de prato da gaveta, dei de ombros e sorri.
– Dando-me trabalho, ? – disse já pegando a primeira coisa que viu pela frente.
– Foi você quem pediu. – dei um sorriso inocente – Então, me conte a seu respeito. – perguntei um tanto curiosa.
– Você acha que tem alguém maluco na minha família ou alguma doença genética perigosa que a criança pode herdar? – o tom levemente afetado e falsamente ofendido do rapaz provocou uma gargalhada em mim.
– Nada disso. – balancei a cabeça ainda rindo – Aparentemente você sabe mais sobre mim, do que eu sobre você.
– Bom. – ele sorriu e pareceu pensar por um instante. – Olá, meu nome , tenho trinta anos e conheço a YunHee durante a minha vida toda. – estendeu a mão em minha direção, olhei para a mão estendida e para a minha ainda ensaboada. – Vamos lá, juro que não mordo.
– Nem se eu pedir? – brinquei e aceitei o cumprimento, o riso morreu em meus lábios assim que a minha mão foi envolvida pela outra.

Não houvera choques e nem borboleta no estômago. Nada desse tipo.
Nada que pudesse ser explicado com facilidade. Apenas aquela estranha sensação que parecia subir calmamente por minha mão e estender suas garras por cada poro do meu corpo. Encarei o olhar procurando por vestígios de que não havia sido a única a ter aquele pequeno desconforto. Qualquer emoção estava muito bem escondida por trás dos olhos castanhos.

– Não me digam que já brigaram e estão fazendo as pazes?! – pisquei confusa ao ouvir a voz da YunHee e notei que ainda mantinha o cumprimento.
– Boba. – ralhei e desfiz do cumprimento, dei um sorriso ao receber o beijo na bochecha. – Estávamos apenas conversando. – esfreguei de forma enérgica a mão embaixo da torneira, na esperança que qualquer vestígio do toque anterior fosse embora.
– Bom, voltando ao assunto anterior, tenho um irmão e uma irmã. – enxuguei as mãos e balancei a cabeça assentindo – YooHwan e a . – franzi as sobrancelhas.
– Agora bateu aquela saudade. – Yunnie comentou saudosa deitando a cabeça em meu ombro – Mas vamos falar disso enquanto jantamos, estou praticamente desmaiando de fome!
– Olha aí, o exagero tem nome e sobrenome. – dei um beijo estalado na bochecha da menor enquanto nos dirigíamos à mesa redonda, posta próxima à ampla janela da cozinha.
– Ela era minha vizinha pentelha. – ele piscou para YunHee servindo o vinho.
– Que nada! – YunHee estalou a língua debochada – Eu gostava mesmo era de brincar com o YooHwan e a , mas você vinha de brinde, fazer o quê. – ri baixo observando os dois.
– Mas esse nome, , não é muito comum para uma garota. – comentei enquanto me servia do strogonoff.
– Nada sobre a é comum. – YunHee sorriu carinhosa.
– Realmente! Lembra daquela vez que ela caiu com a bicicleta e fez...
– Uma cicatriz no queixo? – comentei e rapidamente os dois me fitaram, espantados.
– Como você sabe? – perguntaram juntos, sorri para ambos e sai correndo.
– Da última vez que vi , ele havia comentado que estava interessado em alguém com esse nome, mas ainda não sabia se estava ou não sendo correspondido. – comentei andando devagar para a cozinha acompanhada do smartphone, em poucos comandos encontrei o que procurava. – Algumas horas atrás, recebi isso. – mostrei a tela do objeto para ambos. – Quais as possibilidades de encontrar outra garota com o mesmo nome que minha futura cunhada? Pois é, tecnicamente você faz parte da minha família.
– Não estava sabendo de nada! – resmungou fazendo uma careta leve.
– Desculpe por isso. – solícita, dei uma batidinha no ombro do rapaz e voltei a sentar ao lado de YunHee – Se serve de consolo, vocês são parecidos.
– Acredite, não é só fisicamente. – disse num tom conspiratório dando uma olhada para o outro lado da mesa. – Tom & Jerry ficam no chinelo!
– Exagerada você. – ele apontou com o garfo em direção a Yunnie – Amo a minha irmã, mas às vezes ela é tão teimosa.
– Quando você conhecer o e JunSu, você vai saber o que é teimosia em carne e osso. – balancei a cabeça e suspirei. – O que a sua família acha sobre a sua decisão de nos ajudar?
– Yunnie foi criada como parte da nossa família, como tal, nós iríamos ajudá-la não importando a situação.

sorriu de forma carinhosa e cobriu a mão de YunHee com a dele, beberiquei o vinho assentindo. Nesse ambiente confortável, voltei à atenção para meu prato enquanto ambos voltavam no tempo, relembrando da infância.
Coloquei o prato de lado e aproveitei aquele instante para analisar a pessoa do outro lado da mesa. Não sabia identificar exatamente o que ele tinha de errado, ou muito certo, talvez todo aquele ar de mistério que o cercava, em alguns momentos, deixasse as coisas mais... interessantes. Me repreendi imediatamente. Não havia nada de interessante. seria apenas o reprodutor para o nosso projeto futuro. Nada mais, nada menos do que isso.
Franzi as sobrancelhas o estudando, mas se nessa brincadeira toda, a criança viesse com alguns traços do pai, como as bochechas e as covinhas, até mesmo o queixo e a facilidade para sorrir. Arregalei os olhos assim que notei as sobrancelhas arqueadas enquanto ele me observava. Dei uma tossidela e voltei à atenção para a minha taça que misteriosamente estava vazia, legal.

? – dei um pulo ao sentir a mão pousar no meu antebraço. – Sobre aquela questão que estávamos conversando mais cedo, talvez fosse bom acertar tudo agora? – estava ficando corada, para meu imenso desprazer, o celular dela tocou, deixando um beijo em minha bochecha, YunHee deixou a cozinha.
– Então? – sim, eu estava muito corada e só piorou quando o encarei.
– Sobre isso. – cruzei as pernas ignorando o desconforto causado pelo acumulo de sangue em meu rosto – De que forma faremos isso? Digo, você precisa de algum material para... – estava totalmente desconfortável e o olhar penetrante não estava ajudando em nada.
– Para ter uma ereção? – completou e fiz um gesto afirmativo com a cabeça, novamente a sobrancelha dele estava erguida – Você acha que eu preciso de ajuda para isso?
– Talvez precise? – desconversei capturando a garrafa e enchendo a taça novamente – Tecnicamente você estará praticando com uma total desconhecida, a qual você não tem nenhum tipo de atração e totalmente fora dos padrões. – dei de ombros dando um gole na bebida.
– Realmente, YunHee tinha razão, isso se não for um pouco pior. – ele balançou a cabeça um tanto aborrecido para o meu gosto.
– Como é?! – engasguei com o vinho e o fitei cerrando os olhos.
– Nada em particular, assunto meu e da sua esposa. – deu de ombro olhando preguiçosamente sobre meu ombro.
– Claro. – disse sentindo o sangue ferver instantaneamente, dei um sorriso frio e levantei da mesa começando a retirar a louça.

Uma das coisas que mais odiava no mundo, era a fofoca ou qualquer tipo de comentário desnecessário, principalmente sobre a minha pessoa, ainda mais envolvendo um desconhecido. Irritada. Eu estava extremamente irritada. Cerrei os olhos analisando o objeto em minhas mãos... talvez, se eu acertasse uma travessa bem no centro daquela testa ridiculamente grande, eu me sentiria bem melhor.

– Me desculpe. – a mão cobriu a minha retirando o objeto das minhas mãos com extrema delicadeza – De forma alguma queria te deixar desconfortável.

Fiquei em silêncio por um instante, agora vendo as minhas mãos vazias.

– Você achou que eu iria jogar isso na sua cabeça? – estreitei os olhos ao erguer a cabeça e notar o quanto ele estava próximo.
– Provavelmente, a forma que você cerrou os olhos é a mesma que a faz segundos antes de atirar um objeto em minha direção, seja ele qual for. – ele balançou a cabeça e sem querer dei risada – Você ainda ri?
– Estou me identificando cada vez mais com a sua irmã. – sorri largo e o vi fazer uma careta inconformado.
– Quero estar bem longe de vocês quando ambas estiverem irritadas no mesmo aposento! – balançou a cabeça por um instante – Gostaria almoçar comigo amanhã?
– Desculpe? – arregalei os olhos dando um passo atrás.
– Penso que seria melhor passarmos algum tempo juntos, antes de partirmos para algo mais sério. – disse encostando a pia e fitando-me atento.
– É uma ótima ideia. – concordei sentindo a irritação diminuir consideravelmente.
– Chegue mais para lá. – dobrando as mangas da camisa, empurrou a lateral do seu quadril contra o meu, fazendo com que eu desse um passo para o lado – Vou te mostrar como sou ótimo quando se trata de lavar a louça.
– É mesmo? – cruzei os braços e encostei a pia o observando – Quer fazer do seu jeito?
– Com toda certeza! – piscou em minha direção e apenas dei um sorriso enviesado.
– Ei! – abri os braços assim que YunHee entrou na cozinha – Tudo bem? – perguntei assim que ela se aninhou contra meu peito num abraço extremamente apertado.
– Tudo sim. – respondeu sem me olhar, quando o fez, havia um sorriso um tanto contrariado em seus belos lábios – Perguntaram se eu podia assumir à tarde com as crianças, já que a responsável se ausentara por tempo indeterminado.
– E você vai, não é? – fiz carinho nos cabelos e vi balançar a cabeça de modo afirmativo. – Não será exatamente um bicho de sete cabeças, você gosta de ficar com as crianças.
– Sim, mas eu estava te ajudando com o livro e agora...
– E agora você vai cuidar dos bebês. Sabe que isso veio em boa hora? – balancei a cabeça e dei um sorriso largo.
– Veio? – a curiosidade dela era palpável.
– Sim, porque quando o bebê chorar de madrugada, vai ser você quem vai cuidar! – pisquei para ela e sorri esperta.
– Você é bem esperta, hein, ?! – apertou as minhas bochechas e eu ri.
– Muito, muito esperta. – instintivamente a trouxe para mais perto.

YunHee sorriu colando os lábios sobre os meus, depositando um beijo que seria quase casto se não fosse o fato de que apenas alguns minutos atrás estava em meus braços naquela mesma posição. Literalmente tentando apagar nossa fogo, espirrou água em nossa direção.

– Está ficando quente aqui, vocês não acham? – sorria inocente, agora enxugando as mãos num pano de prato próximo.
– Meu rapaz, é a segunda vez no dia que você me interrompe, desse jeito você não vai ganhar a sobremesa. – estreitei os olhos.
– Sobremesa? – seus olhos brilharam e eu sorri com a animação.
– Nada além do que sorvete, infelizmente não deu tempo de preparar algo mais elaborado. YunHee, está no freezer, ok? – esta assentiu antes de ir buscar o objeto de desejo de ambos.
– Uma pergunta, gente. – YunHee interrompeu seu caminho e olhou para nós dois. – Por que você lavou a louça, se a lava louça estava bem do seu lado?
– Lava louça? – olhou para mim e dei de ombros sorrindo travessa.
– Não olhe para mim, você quis fazer do seu jeito. – pisquei e sai em direção ao armário alcançando as taças.
– Mas então por que antes você estava lavando a louça? – cruzou os braços deixando à vista um bico que quase batia em mim do outro lado do aposento.
– Mania maluca da . – YunHee sorriu e dei de ombros.
– Ela tem razão. – balancei a cabeça depositando as taças para sobremesa em cima da mesa. – Bom apetite para vocês.
– Ei, você não vai comer? – YunHee perguntou segurando a minha mão antes que eu pudesse me afastar.
– Hoje não, vou dar uma olhadinha no livro antes de subir, ok? – depositei um beijo em sua testa e o fitei – Não me diga que você é daquele tipo que acorda cedo, cheio de energia, fazendo exercícios, esbanjando alegria matinal.
– Não se preocupe comigo, dormir é o meu nome do meio. – sorriu largo.
– Gostei disso! – dei um sorriso tão largo quanto o dele – Boa noite, .

Acenei para os dois antes de deixar a cozinha, passei pela sala ampla e fui em direção ao corredor lateral, só parei quando encontrei a porta de madeira maciça. Girei sobre a poltrona e observei a vista pela parede de vidro, buscando apoio no descanso dos pés. Recostei a cabeça no espaldar da cadeira e observei o céu escuro.
Tamborilei os dedos pelo braço da poltrona pensativa, sempre imaginei que o mais difícil seria conversar com os meus pais adotivos sobre a minha opção sexual. Não era exatamente o que eles queriam para mim, mas ainda assim, contrariando os próprios princípios, me apoiaram. Minha a atual situação, fazia a primeira parecer brincadeira de criança.
Houveram sim alguns rapazes durante um período da minha vida, nesse tempo, até mesmo me relacionei de forma íntima com eles, então não existia um mistério para o que aconteceria entre e eu. O único problema era... encarei minha mão novamente. A sensação daquele toque permanecia firme, parecia transpassar a minha pele e atingir meus ossos, novamente esfreguei minha mão no tecido da roupa.
Tentei achar conforto no fato que estava nervosa, extremamente ansiosa e que nada daquilo teria efeito no dia seguinte. Tendo isso em mente, girei novamente a cadeira e movi mouse do iMac, em poucos minutos estava mergulhada no texto. Quase três horas depois, salvei o que havia escrito e dei por encerrado o dia.
Sorri ouvindo a conversa animada no quarto de , passei rapidamente por eles e me deixei cair sobre a cama. A tensão do dia dava sinais e fechei os olhos por um instante, relaxando os músculos.

– Ninguém te disse que é pecado dormir de roupa? – ainda de olhos fechados, sorri ao sentir a cama pender.
– E o que podemos fazer para remediar essa grave ofensa? – arfei quando as mãos subiram por minhas coxas levando consigo o tecido da saia do vestido.
– Acho que podemos retirar essas peças infames. – murmurou distribuindo beijos a cada botão aberto.
– Me parece uma ótima solução para o meu crime. – disse sobre os lábios dela enquanto erguia o corpo para remover o vestido. – Espere, a porta. – afastei-me um instante notando que esta permanecia escancarada.
– Sem problemas, já foi dormir. – sua voz soou abafada contra meus seios e voltei a deitar em meio a um espasmo ao sentir um leve dedilhar sobre a calcinha de renda.

Logo as peças de roupa delas juntaram-se a minha em algum ponto do quarto, permanecemos naquela dança por algumas horas até que finalmente estávamos saciadas e cansadas o suficiente para dormir.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Outras Fanfics:


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus