Last Gift

Última atualização: 26/09/2018

Prólogo


– Então, pensou no que eu disse? – observei o rosto próximo ao meu.
Nossa respiração estava quase em seu fluxo normal, mas ainda podia sentir o efeito do ápice passeando preguiçosamente pelo meu corpo, assim como os dedos acariciando despreocupadamente o meu mamilo enquanto aguardava a minha resposta.
– Você sabe como me sinto a respeito disso. – dei uma olhada rápida no meu corpo e fechei os olhos. – Podemos tentar inseminação. – murmurei consciente da resposta que viria a seguir.
– Se pudesse, eu os teria. – as pontas dos dedos deslizaram sobre meu rosto, ao mesmo tempo em que seu queixo repousou entre meus seios. Abri os olhos e levei a mão até seus cabelos.
Observei Alyne Walker olhar-me com os olhos azuis gigantes, projetando um leve bico. Ela sabia que fazer aquilo era meu ponto fraco. Fiz uma careta e ela sorriu. Acariciei seu cabelo ruivo brilhante, agora estavam na altura dos ombros, levemente ondulados.
Haviam-se passado três anos desde que a tinha visto pela primeira vez, em uma visita ao hospital do câncer próximo a minha casa. Parei um instante em meu caminho para observar a moça sentada conversando gentilmente com uma criança. Seus olhos azuis capturaram os meus e, então, ela sorriu. Meus pés me levaram naquela direção. Passamos a tarde conversando, enquanto ela recebia a quimioterapia. Sem conseguir explicar o motivo, não fui capaz de me afastar e passei a noite ali. Voltei nos próximos dias até que ela recebeu alta. Um ano até que tivemos o primeiro beijo, dois meses depois viemos a morar juntas em uma união estável.
– Volta. – recebi um aperto na coxa trazendo-me para a realidade, dei um pequeno sorriso – Confia em mim? – dei um sorriso largo, logo foi correspondido por um ainda maior. – Então, acredite. – assenti sem dar uma resposta e a trouxe para perto, capturei os lábios num beijo longo.
Há dois meses, Alyne demonstrou desejo de termos um filho e, desde então, estávamos tentando achar um jeito de conceber essa criança. Conversamos várias vezes durante esse período até que, por fim, ela me disse que preferia o método tradicional ao método frio da inseminação artificial, e não só ele, como conhecia alguém perfeito que poderia nos ajudar.
– Confie em você mesma. – sussurrou contra meus lábios ao apertar minha cintura.
– É isso que você quer? – olhei-a nos olhos, acariciando seu rosto.
– É o meu desejo. – seu olhar veio firme em minha direção, em seus lábios permanecia um sorriso carinhoso.
– E quando ele chegará? – deixei escapar um sorriso, bati com a pontinha do dedo em seu nariz. Alyne piscou lentamente, até que as palavras fizeram sentido. Seus olhos brilharam úmidos, os lábios tremeram e imediatamente me envolveu num abraço apertado. – Amor? – sussurrei assim que senti meu pescoço ficar úmido.
Alyne ergueu seu rosto, mesmo à luz das lágrimas, mantinha um sorriso feliz nos lábios cheios. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, novamente seus lábios percorreram meu pescoço, um arrepio percorreu meu corpo e deixei um gemido escapar.


Capítulo 01


– Só... mais... um detalhe...zinho. – murmurei enquanto dava o último retoque na imagem, sorri vitoriosa vendo a capa do meu próximo livro pronto.
Massageei os ombros e dei uma olhadinha preguiçosa no relógio, foi o que bastou para que saltasse da cadeira e saísse correndo em direção à cozinha. Estava atrasada. Muito, muito atrasada! Conferi mais uma vez no relógio, duas horas para que tudo ficasse pronto. Separei os ingredientes necessários para o strogonoff de camarão, em seguida foi a vez do arroz crocante. Por último, coloquei literalmente a mão na massa ao preparar a rosca de azeitona e provolone.
– Oi? – regulei a temperatura do forno elétrico ao mesmo tempo em que atendia o telefone.
, tudo bem? – sorri ao ouvir a voz animada.
– Oi, amor, acabei me empolgando com a capa. – fiz uma careta. – Mas está tudo entrando no eixo. Como estão as coisas por aí?
– Estamos quase acabando. – pude ouvir o barulho de risos e gritos ao fundo. – Essas crianças estão cada vez mais agitadas.
– Espere até ser a nossa vez, vou ficar de cabelos brancos! – brinquei e em seguida ouvi o som doce do seu riso.
– Exagerada! – ralhou de forma carinhosa. – Mais uns minutos e estou chegando, ok? Amo você! – mordi os lábios ao ouvir o som característico de um beijo.
– Está bem, amor, amo você. – com um sorriso nos lábios, desliguei o telefone.
Parei um instante na frente da pia, observando a paisagem. Uma semana havia passado desde que tinha concordado com aquele plano, hoje seria o dia que ia conhecer o tal amigo. Impossível não sentir um frio na barriga, até mesmo um desconforto com aquela situação, mas se a faria feliz, era o que realmente importava. Poderia e deixaria aquele ou qualquer outro sentimento de lado.
Conferi mais uma vez como estavam as coisas antes de subir as escadas, parei um instante em um dos primeiros quartos. , este era o nome dele, ficaria em nossa casa durante o período. Dei uma olhada em volta, vendo se tudo estava no devido lugar. Um arrepio frio correu por minhas costas assim que meu olhar recaiu sobre a cama. Girei sobre os calcanhares e sai rapidamente dali.
Caminhei apressada em direção ao nosso quarto. Existia um certo incômodo e não poderia deixar de sentir, por mais otimista que pudesse estar. Ao chegar lá, caminhei em direção ao closet e optei por um vestido leve, florido, de botões, em seguida fui para o banheiro. Deixei a água quente correr sobre meu corpo, afastando qualquer traço de ansiedade e receio que estivesse impregnado sob a minha pele. Meia hora depois, estava colocando os brincos em frente ao espelho, alisei a roupa mais uma vez, calcei os sapatos e finalmente desci.
Às sete horas, ouvi a porta da frente abrir. Sorri enquanto terminava de colocar o arroz em uma pequena travessa. Contei lentamente até cinco e, ao chegar nesse, senti os braços rodearem a minha cintura e o rosto descansar em minhas costas. Deixei a travessa de lado, cobri as mãos com as minhas e lentamente girei, ficando de frente para ela.
– Olá, estranha. – levei suas mãos até os lábios e beijei cada uma antes de trazê-la para mais perto.
– Como você está? – seus olhos fizeram uma busca rápida em meu rosto antes de descansarem sobre os meus.
– Tudo bem. – respondi sem fitá-la diretamente nos olhos, em vez disso, apenas descansei as mãos em sua cintura, dando um leve sorriso.
? – as pontas dos seus dedos deslizaram sobre meu rosto e mordisquei um deles. – Me conta. – pediu num sussurro.
– Só um pouco ansiosa. – respondi a contragosto, apertando levemente a cintura.
? – seu olhar, apesar de gentil, era inquiridor.
– Quantas vezes por dia tentaremos? Se ele não... tiver ereção? E se...
– E se mais nada. – o dedo pousou sobre meus lábios, impedindo que outra frase surgisse. – Nunca, jamais, pediria isso para outra pessoa senão ele, eu confio e sei que cuidará de você. E quanto todas às suas dúvidas, vamos tratar de esclarecer quando ele chegar, ok? – assenti lentamente.
Apoiada na ponta dos pés, seus lábios juntaram-se aos meus, os dentes passaram levemente sobre meu lábio inferior antes de sua língua fazer o mesmo caminho. Estremeci sob aquele simples toque e aprofundei o beijo, deixando escapar um gemido. Seus dedos acharam caminho entre os meus fios pretos, seu corpo colou contra o meu. Escorreguei meus lábios sobre seu pescoço enquanto procurávamos por ar, minhas mãos percorriam por seu corpo da mesma forma que as dela exploravam meus seios.
– Temos quanto tempo? – murmurei, mordiscando seu lóbulo, e a vi puxar o ar com mais força.
– Acho que... – sua voz saiu num rouco ronronar próximo ao meu ouvido, mas antes que pudesse concluir a frase, ouvimos o barulho da campainha. – Nenhum! – fiz uma careta, sem poder esconder minha irritação por ser interrompida. Alyne deixou escapar um sorriso antes de novamente juntar nossos lábios em um beijo rápido. – Terminamos isso mais tarde. – deu uma piscadela ao dar um passo atrás.
Assenti com a cabeça, fazendo um bico, enquanto a via sair saltitando da cozinha. Num suspiro resignado, voltei para arrumar as travessas. Ouvi o riso alegre dela e o murmurar masculino, revirei os olhos, fazendo uma careta. Diante do barulho de passos no corredor, ergui o olhar exatamente quando ambos entraram na cozinha.
Foi o que bastou para sentir o coração saltar no peito e o estômago contrair. Não sei exatamente o que estava esperando, mas aquele homem não era nem de longe o que havia imaginado.
O maxilar cinzelado, coberto por uma camada de barba cheia, os olhos de avelã, até onde podia supor, o brilho contagiante de uma risada que ele mal podia conter – havia também marcas de expressão naquela região. Sim, ele sorria muito. A maneira que o meneio de cabeça veio, vi-o arquear a sobrancelha e os dentes brancos luzirem entre os lábios cheios e contrastar ao pelo escuro da barba, assim como seu cabelo num tom profundo de preto. Era mais alto que eu, magro, novamente, até onde podia ver da roupa despojada, jaqueta e jeans.
Contive o desejo de dar um passo atrás, sentindo-me como um animal encurralado.
? – demorei alguns segundos antes de desviar o olhar para Alyne. – Este é o . Esta é a minha esposa, .
O olhar calmo de Alyne pousou sobre o meu. Forcei um sorriso antes de encarar novamente o rapaz, mas esse já não se encontrava no seu lugar.
– Ouvi muito falar de você, . – fiquei estática enquanto ele me abraçava, como se fossemos velhos amigos – É um prazer finalmente te conhecer! – sorriu ao afastar-se.
Fiquei espantada olhando para o rapaz, esse mantinha um sorriso nos lábios cheios e o olhar curioso, talvez esperando alguma reação da minha parte.
– Hm... é. – pega de surpresa, não sabia como responder a todo aquele entusiasmo, olhei de um para outro. – Digo o mesmo. – dei um sorriso amarelo.
– Posso te ajudar em alguma coisa? – solícito, o rapaz deu um passo em frente.
– Não! – dei dois passos para atrás – Está tudo sob controle. Alyne, por que você não leva o nosso convidado até o seu aposento enquanto dou os toques finais por aqui? – empurrei o melhor sorriso em direção a eles.
– Certo. – lançando um olhar avaliador em minha direção, com direito a uma sobrancelha erguida. – Dez minutos?
– Quinze. – pisquei, dando uns minutos a mais para que ela pudesse tomar um banho rápido. Alyne puxou pela mão, este ainda deu um aceno antes de sair.
Não pude evitar sorrir ao ver a cena, mas logo estava séria ao dar alguns passos e depositar a pequena travessa de arroz crocante sobre a mesa. Em seguida foi a vez do strogonoff ser trocado de lugar e descansar na travessa e retirei a forma com a rosca do forno.
E, por último, que diabos?!


– Oi. – olhei sobre ombro e dei um sorriso educado. – Vai soar extremamente repetitivo, mas posso ajudar em alguma coisa?
– Ali. – dei um pequeno sorriso e apontei com a cabeça em direção à pequena adega localizada ao lado do armário. – Escolha um vinho para nós.
Observei enquanto ele sumia porta adentro, voltei a atenção para o que fazia antes. Minutos depois o vi voltar com um vinho Section 94 Dog Point Sauvignon Blanc, muito apreciado por mim. Sorri com a escolha sábia e apontei para o armário, indicando as taças. A minha mania – irritante, por sinal – de terminar de organizar o jantar e de imediato lavar a louça impedia-me de fazer outra coisa senão aquilo. Dei uma última olhada sobre a mesa e voltei a atenção para a pequena tarefa.
Deveríamos estar conversando, certo? Sim, mas não sabia ao certo por onde começar, principalmente por ele aparentemente saber sobre mim, e eu, pelo contrário, não tinha a mínima ideia de quem ele era na vida da minha esposa, muito menos que ele existia, devo ressaltar. Havia aquela pequena luzinha piscando no pano de fundo, mantendo-me atenta a qualquer coisa.
– Primeira gaveta a minha esquerda. – disse e observei enquanto o olhar masculino claramente brilhou curioso, ao passo que ele aproximou-se de onde estava.
A risada rouca soou assim que ele retirou um pano de prato da gaveta. Dei de ombros e sorri.
– Dando-me trabalho, ? – disse, já pegando a primeira coisa que viu pela frente.
– Uau, estamos usando o sobrenome? E foi você quem pediu. – dei um sorriso inocente. – Então, conte-me a seu respeito. – perguntei, um tanto curiosa.
– Você acha que tem alguém maluco na minha família ou alguma doença genética perigosa que a criança pode herdar? – o tom levemente afetado e falsamente ofendido do rapaz provocou uma gargalhada em mim.
– Nada disso. – balancei a cabeça, ainda rindo. – Aparentemente você sabe mais sobre mim do que eu sobre você.
– Bom. – ele sorriu e pareceu pensar por um instante. – Olá, meu nome é , tenho trinta dois anos e conheço a Alyne durante a minha vida toda. – estendeu a mão em minha direção, olhei para a mão estendida e para a minha ainda ensaboada. – Vamos lá, juro que não mordo.
– Nem se eu pedir? – brinquei e aceitei o cumprimento, o riso morreu em meus lábios assim que a minha mão foi envolvida pela outra.
Não houvera choques e nem borboleta no estômago.
Nada desse tipo.
Nada que pudesse ser explicado com facilidade.
Apenas aquela estranha sensação que parecia subir calmamente por minha mão e estender suas garras por cada poro do meu corpo. Encarei o olhar, procurando por vestígios de que não havia sido a única a ter aquele pequeno desconforto. Qualquer emoção estava muito bem escondida por trás dos olhos verdes pintados pelo punhado de manchas castanhas.
– Não me digam que já brigaram e estão fazendo as pazes?! – pisquei, confusa, ao ouvir a voz da Alyne e notei que ainda mantinha o cumprimento.
– Boba. – ralhei e desfiz do cumprimento, dei um sorriso ao receber o beijo na bochecha. – Estávamos apenas conversando. – esfreguei de forma enérgica a mão embaixo da torneira, na esperança que qualquer vestígio do toque anterior fosse embora.
– Bom, voltando ao assunto anterior, tenho um irmão e uma irmã. – enxuguei as mãos e balancei a cabeça, assentindo. – Bardon e Shannan. – franzi as sobrancelhas.
– Agora bateu aquela saudade. – Alyne comentou, saudosa, deitando a cabeça em meu ombro. – Mas vamos falar disso enquanto jantamos, estou praticamente desmaiando de fome!
– Olha aí, o exagero tem nome e sobrenome. – dei um beijo estalado na bochecha da menor enquanto nos dirigíamos à mesa redonda, posta próxima à ampla janela da cozinha.
– Ela era minha vizinha pentelha. – ele piscou para Alyne, servindo o vinho.
– Que nada! – Alyne estalou a língua, debochada. – Eu gostava mesmo era de brincar com o Bardon e a Shannan, mas você vinha de brinde, fazer o quê. – ri baixo, observando os dois.
– Shannan não é um nome muito comum. – comentei enquanto me servia do strogonoff.
Um alerta disparou em minha mente, onde já havia ouvido aquele nome?
– Nada sobre a Shannan é comum. – Alyne sorriu, carinhosa.
– Realmente! Teve aquela vez que ela cismou que poderia fazer malabarismo com maçãs na parte traseira da bicicleta... – ele gemeu, desesperado.
– E isso causou um sinal sobre a sobrancelha esquerda? – comentei e rapidamente os dois me fitaram, espantados.
– Como você sabe? – perguntaram juntos, sorri para ambos e saí correndo.
– Da última vez que vi Ethan, ele havia comentado que estava interessado em alguém com esse nome, mas ainda não sabia se estava ou não sendo correspondido. Vamos lá, quantas Shannan vocês conhecem? – comentei, andando devagar para a cozinha, acompanhada do smartphone. Em poucos comandos encontrei o que procurava. – Algumas horas atrás, recebi isso. – mostrei a tela do objeto para ambos. – Quais as possibilidades de encontrar outra garota com o mesmo nome que minha futura cunhada? Pois é, tecnicamente você faz parte da minha família.
– Então, esse é o rapaz. – observou atentamente a foto. – Mais cedo Shannan esteve no escritório para me contar sobre ele. Quem diria que ele seria seu irmão.
– Vocês são parecidos. – conferi mais uma vez a foto, a moça me parecia tão sorridente quanto o homem a minha frente. E aqueles dois, Ethan e Shannan, eram lindos juntos.
Dei uma batidinha no ombro do rapaz e voltei a sentar-me ao lado de Alyne.
– Acredite, não é só fisicamente. – disse Alyne num tom conspiratório, dando uma olhada para o outro lado da mesa. – Tom & Jerry, te lembra alguma coisa?
– Ei, piralha! – ele apontou com o garfo em direção a Alyne. – Amo a minha irmã, mas às vezes ela é tão teimosa.
– Quando você conhecer o Ethan e Owen, você saberá o que é teimosia em carne e osso. – balancei a cabeça e suspirei. – O que a sua família acha sobre a sua decisão de nos ajudar?
– Alyne foi criada como parte da nossa família, como tal, nós iríamos ajudá-la não importando a situação.
Se eram tão assim “chegados”, por que nenhum deles compareceu ao meu casamento?
Engoli a pergunta afiada e acompanhei sorrir de forma carinhosa e cobrir a mão de Alyne com a dele. Beberiquei o vinho, assentindo. Dei de ombros, arquivando a pergunta para mais tarde, e empurrei o sentimento esquisito, sem querer contagiar o ambiente amigável. Voltei a atenção para meu prato, enquanto ambos voltavam no tempo, relembrando da infância.
Coloquei o prato de lado e aproveitei aquele instante para analisar a pessoa do outro lado da mesa. Não sabia identificar exatamente o que ele tinha de errado, ou muito certo. Talvez, todo aquele ar de mistério que o cercava, em alguns momentos, deixasse as coisas mais... interessantes. Repreendi-me imediatamente. Não havia nada de interessante. seria apenas o reprodutor para o nosso projeto futuro. Nada mais, nada menos do que isso.
Franzi as sobrancelhas, estudando-o, mas se nessa brincadeira toda a criança viesse com alguns traços do pai, como por exemplo a facilidade para sorrir... Arregalei os olhos assim que notei as sobrancelhas arqueadas enquanto ele me observava. Dei uma tossidela e voltei a atenção para a minha taça, que misteriosamente estava vazia. Legal.
? – dei um pulo ao sentir a mão pousar no meu antebraço. – Sobre aquela questão que estávamos conversando mais cedo. – estava ficando corada. – Talvez fosse bom acertar tudo agora? – para meu imenso desprazer e coroar o momento constrangedor, o celular dela tocou. Deixando um beijo em minha bochecha, Alyne deixou a cozinha.
– Então? – sim, eu estava muito corada, e só piorou quando o encarei.
– Sobre isso. – cruzei as pernas, ignorando o desconforto causado pelo acúmulo de sangue em meu rosto. – De que forma faremos isso? Digo, você precisa de algum material para... – estava totalmente desconfortável, e o olhar penetrante não estava ajudando em nada.
– Para ter uma ereção? – completou e fiz um gesto afirmativo com a cabeça, novamente a sobrancelha dele estava erguida e a mão coçando o queixo coberto pela barba. – Você acha que eu preciso de ajuda para isso?
– Talvez.. precise? – desconversei, capturando a garrafa e enchendo a taça novamente. – Tecnicamente você estará praticando com uma desconhecida, a qual você não tem nenhum tipo de atração e totalmente fora dos padrões. – dei de ombros, ressaltando o óbvio da situação.
– Realmente, Alyne tinha razão, isso se não for um pouco pior. – murmurou, balançando a cabeça um tanto aborrecido para o meu gosto.
– Como é?! – engasguei com o vinho e o fitei, cerrando os olhos.
– Nada em particular, assunto entre sua esposa e eu. – deu de ombro, olhando preguiçosamente sobre meu ombro.
– Claro. – disse, sentindo o sangue ferver instantaneamente. Dei um sorriso frio e levantei da mesa, começando a retirar a louça.
Uma das coisas que mais odiava no mundo era a fofoca ou qualquer tipo de comentário desnecessário, principalmente sobre a minha pessoa, ainda mais envolvendo um desconhecido. Irritada. Estava extremamente irritada. Cerrei os olhos, analisando o objeto em minhas mãos... Talvez, se eu acertasse uma travessa bem no centro daquela testa ridiculamente grande, eu me sentiria bem melhor.
– Desculpe-me. – a mão cobriu a minha, retirando o objeto das minhas mãos com extrema delicadeza. – De forma alguma queria te deixar desconfortável.
Fiquei em silêncio por um instante, agora vendo as minhas mãos vazias.
– Você fez um bom trabalho com isso. – ironizei, fitei-o de esguelha. – Achou que eu jogaria isso na sua cabeça? – estreitei os olhos, erguendo a cabeça e notando o quanto ele estava próximo.
– Provavelmente, a forma que você cerrou os olhos é a mesma que a Shannan faz segundos antes de atirar um objeto em minha direção, seja ele qual for. – ele balançou a cabeça e sem querer dei risada. – Você ainda ri?
– Estou me identificando cada vez mais com a sua irmã. – sorri largo e o vi fazer uma careta, inconformado.
– Quero estar bem longe de vocês quando ambas estiverem irritadas no mesmo aposento! – balançou a cabeça por um instante. – Gostaria almoçar comigo amanhã?
– Desculpe? – arregalei os olhos, dando um passo atrás.
– Penso que seria melhor para nós passarmos algum tempo juntos, antes que passemos para algo mais íntimo. – disse, encostando-se à pia e fitando-me atento.
– É uma ótima ideia. – concordei, sentindo a irritação diminuir consideravelmente.
– Chegue mais para lá. – dobrando as mangas da camisa, empurrou a lateral do seu quadril contra o meu, fazendo com que eu desse um passo para o lado. – Vou lhe mostrar como sou ótimo quando se trata de lavar a louça.
– É mesmo? – cruzei os braços e encostei-me à pia, observando-o. – Quer fazer do seu jeito?
– Com toda certeza! – piscou em minha direção e apenas dei um sorriso enviesado.
– Ei! – abri os braços assim que Alyne entrou na cozinha. – Tudo bem? – perguntei assim que ela se aninhou contra meu peito num abraço extremamente apertado.
– Tudo, sim. – respondeu sem me olhar, quando o fez, havia um sorriso um tanto contrariado em seus belos lábios. – Perguntaram se eu podia assumir à tarde com as crianças, já que a responsável se ausentou por tempo indeterminado.
– E você vai, não é? – fiz carinho nos cabelos e a vi balançar a cabeça de modo afirmativo. – Não será exatamente um bicho de sete cabeças, você gosta de ficar com as crianças.
– Sim, mas eu estava te ajudando com o livro, e agora...
– E agora você cuidará dos bebês. Sabe que isso veio em boa hora? – balancei a cabeça e dei um sorriso largo.
– Veio? – a curiosidade dela era palpável.
– Sim, porque quando o bebê chorar de madrugada, será você quem cuidará! – pisquei para ela e sorri, esperta.
– Você é bem rápida, não é mesmo, ?! – apertou as minhas bochechas e eu ri.
– Muito, muito esperta. – instintivamente a trouxe para mais perto.
Alyne sorriu, colando os lábios sobre os meus, depositando um beijo que seria quase casto se não fosse o fato de que apenas alguns minutos atrás ela estava em meus braços naquela mesma posição. Literalmente tentando apagar nosso fogo, espirrou água em nossa direção.
– Está ficando quente aqui, vocês não acham? – sorriu inocente, agora enxugando as mãos num pano de prato próximo.
– Meu rapaz, é a segunda vez no dia que você me interrompe, desse jeito você não vai ganhar a sobremesa. – estreitei os olhos.
– Segunda vez? Sobremesa? – seus olhos brilharam e eu sorri com a animação.
– Nada além de sorvete, infelizmente não deu tempo de preparar algo mais elaborado. Alyne, está no freezer, ok? – essa assentiu antes de ir buscar o objeto de desejo de ambos.
– Uma pergunta, gente. – Alyne interrompeu seu caminho e olhou para nós dois. – Por que você lavou a louça, se a lava-louças estava bem do seu lado?
– Lava-louças? – olhou para mim e dei de ombros, sorrindo travessa.
– Não olhe para mim, você quis fazer do seu jeito. – pisquei e saí em direção ao armário, alcançando as taças.
– Nesse caso, por que você estava lavando a louça? – cruzou os braços, observando-me entre curioso e perplexo.
– Mania maluca da . – Alyne sorriu e dei de ombros.
– Ela tem razão. – balancei a cabeça, depositando as taças para sobremesa em cima da mesa. – Bom apetite.
– Ei, você não vai comer? – Alyne perguntou, segurando a minha mão antes que eu pudesse me afastar.
– Hoje não, vou dar uma olhadinha no livro antes de subir, ok? – depositei um beijo em sua testa e o fitei. – , por favor, não me diga que você é daquele tipo que acorda cedo, cheio de energia, fazendo exercícios, esbanjando alegria matinal.
– Não se preocupe comigo, dormir é o meu nome do meio. Em todo e qualquer lugar que posso. – sorriu largo.
– Gostei disso. – dei um sorriso tão largo quanto o dele. – Boa noite, .
Acenei para os dois antes de deixar a cozinha, passei pela sala ampla e fui em direção ao corredor lateral, só parei quando encontrei a porta de madeira maciça. Girei sobre a poltrona e observei a vista pela parede de vidro, buscando apoio no descanso dos pés. Recostei a cabeça no espaldar da cadeira e observei o céu escuro.
Tamborilei os dedos pelo braço da poltrona, pensativa. Sempre imaginei que o mais difícil seria conversar com os meus pais adotivos sobre o meu gênero. Não era exatamente o que eles esperavam, mas, ainda assim, apoiaram-me.
Minha atual situação fazia a primeira parecer brincadeira de criança.
Houve, sim, alguns rapazes durante um período da minha vida. Nesse tempo, até mesmo me relacionei de forma íntima com eles. Logo, não existia um mistério para o que aconteceria entre e eu. O único problema era... Encarei minha mão novamente. A sensação daquele toque permanecia firme, parecia transpassar a minha pele e atingir meus ossos. Novamente esfreguei minha mão no tecido da roupa.
Tentei achar conforto no fato que estava nervosa, extremamente ansiosa, e que nada daquilo teria efeito no dia seguinte. Tendo isso em mente, girei novamente a cadeira e movi mouse do iMac, em poucos minutos estava mergulhada no texto. Quase três horas depois, salvei o que havia escrito e dei por encerrado o dia.
Sorri, ouvindo a conversa animada no quarto de . Passei rapidamente por eles e me deixei cair sobre a cama. A tensão do dia dava sinais, e fechei os olhos por um instante, relaxando os músculos.
– Ninguém te disse que é pecado dormir de roupa? – ainda de olhos fechados, sorri ao sentir a cama pender.
– E o que podemos fazer para remediar essa grave ofensa, minha senhora? – arfei quando as mãos subiram por minhas coxas, levando consigo o tecido da saia do vestido.
– Acho que podemos retirar essas peças infames. – murmurou, distribuindo beijos a cada botão aberto.
– Me parece uma ótima solução para o meu crime. – disse sobre os lábios dela, enquanto erguia o corpo para remover o vestido. – Espere, a porta. – afastei-me por um instante, notando que permanecia escancarada.
– Sem problemas, já foi dormir. – sua voz soou abafada contra meus seios, e voltei a deitar em meio a um espasmo ao sentir um leve dedilhar sobre a calcinha de renda.
Logo as peças de roupa dela juntaram-se à minha em algum ponto do quarto. Permanecemos naquela dança por algumas horas, até que finalmente estávamos saciadas e cansadas o suficiente para dormir.


Capítulo 02


Estranhei o ambiente a minha volta até que, por fim, dei conta de onde estava. Soltei um gemido estrangulado e cobri o rosto com o braço quando as imagens da noite anterior saltaram diante dos meus olhos. Por mais que estivesse tentando desviar o pensamento, novamente estava preso sobre ele.
Deveria ter desconfiado daquele silêncio apenas quebrado por um ou outro murmúrio, mas talvez até pela curiosidade – fiz uma careta com o meu próprio pensamento – cobri a distância do meu quarto para o delas. E foi exatamente nessa hora que qualquer resquício de sono evaporou do meu corpo. Parei em frente à porta, pronto para marcar o horário do almoço. Mas não tão pronto para o que eu encontrei, devo dizer, antes que pudesse dar meia volta e ir para o quarto, meus olhos foram rápidos em absorver o que se passava ali.
Os seios fartos e turgidos, sacudidos suavemente pelo balanço do corpo, a urgência do quadril ao mover-se em busca de mais, o cabelo espalhado sobre o travesseiro e o rosto contorcido em uma máscara de prazer.
Sem conseguir conciliar o sono, circulei pelo quarto, ajeitei a roupa pela milésima vez no closet, conferi se não havia ligações perdidas no smartphone, li e reli os e-mails no tablete, tudo para evitar pensar. Mas nada havia resolvido o meu problema e aquela estranha sensação que me rondava desde a primeira vez que a tinha tocado. Não vá por esse caminho! Repreendi-me quando algo começou a mover-se estranho em minha confusão. Sem mais, apelei por uma ducha fria, não somente por estar levemente alterado, mas pelo incômodo.
Mesmo agora, depois de horas, a minha reação era a mesma.
– Eu mereço. – resmunguei e procurei o smartphone embaixo do travesseiro – Droga! – estava atrasado.
Afastando as cobertas, da mesma forma em que empurrava aquela emoção para bem longe, corri para o closet. Fiz a ligação e deixei o smartphone no viva-voz, enquanto rapidamente procurava alguma coisa para vestir.
! Tudo bem? – ouvi o cumprimento alegre.
– Sim, mas preciso de uma mesa para daqui alguns minutos, Miguel Ángel. – disse, enquanto já me encaminhava para o banheiro.
– Temos alguma coisa aqui. – sua voz era pura curiosidade. – Qual o motivo da pressa?
– Uma longa história, vemo-nos mais tarde, obrigado! – despedi-me, já abrindo o registro da ducha.
Minutos mais tarde, dava uma olhada rápida no espelho antes de girar a maçaneta e sair do quarto. Parei ali por instante, procurando por um ruído que pudesse me levar na direção certa. Como resposta a minha dúvida, ouvi o som de uma gaveta sendo fechada. Refiz os passos da noite anterior e fui em direção à porta no fim do corredor, encontrava-se entreaberta.
? – chamei e dei uma leve batida na porta.
– Entre. – ouvia a voz abafada, terminando de abrir a porta, olhei em volta e não encontrei ninguém. – Estou atrasada?
– Nem um pouco. – sorri ao vê-la sair de uma porta a minha esquerda; as bochechas levemente coradas, enquanto segurava uma pequena bolsa entre as mãos. – Vamos?
– Sim. – lançando um sorriso em minha direção, passou a minha frente.
Demorei alguns passos para alcançá-la. Apenas num gesto involuntário, observei o tecido creme moldar-se ao corpo curvilíneo enquanto caminhava sob os saltos altos. O detalhe em seu ombro fez com que um sorriso surgisse em meus lábios, uma tatuagem. Como eu não havia visto isso ontem? Fiz a pergunta e, automaticamente, respondi:Talvez porque você estava ocupado apreciando outros detalhes?
– Então, para onde estamos indo? – a voz macia arrancou-me dos meus pensamentos.
– Para o meu restaurante favorito, apenas alguns minutos daqui. – respondi enquanto descíamos o lance de escada em direção à porta da frente.
– Por acaso, esse restaurante tem um nome? – perguntou enquanto digitava os números, selando a porta antes de voltar-se em minha direção.
– Nem um pouco controladora, não é? – a frase escapou por meus lábios antes que pudesse contê-la.
Erguendo as sobrancelhas, mantinha um olhar descontraído em minha direção.
– Uma das minhas qualidades, ou seria defeito? – sorriu largo ao passar por mim, em direção à garagem. – Você vem? – gritou sobre o ombro antes de sumir da minha vista.
Diferente da noite anterior, onde ela parecia estar o tempo todo tensa, hoje parecia relaxada, amigável. Perguntando-me se a sua atitude tinha alguma coisa a ver com o que havia presenciado, segui os passos dela. Encontrei a bela mulher encostada no sedan BMW M3, um contraste perfeito entre o azurite black e o vestido pálido que cobria até um pouco acima do joelho e terminava num decote discreto, ainda assim, revelador. Os cabelos permaneciam num elaborado coque, deixando alguns cachos cair de forma preguiçosa sobre os ombros.
BMW M3. – sua voz era um misto de descrença e divertimento, ela me encarava abertamente. – Nem um pouco clichê, senhor advogado.
– E por que não? – respondi com outra pergunta, cobri a distância enquanto destravei o carro e o abri. Fiz um pequeno gesto, esperando que ela entrasse.
– Estava esperando algo como uma Benz CLS55 AMG ou Gran Coupe. – agora, próximo a ela, podia sentir o envolvente perfume emanando da pele morena. – Obrigada. – agradeceu ao acomodar-se no banco.
– Aquilo era algo que eu não esperava. – apontei em direção a Harley-Davidson, Night Rod estacionada a poucos metros de onde estávamos.
– O que eu posso dizer, gosto do vento. – sorriu. – Parece que mantínhamos um pensamento um pouco diferente sobre o nosso gosto automobilístico. – deu uma piscadela antes de capturar a porta e fechá-la num baque suave.
Quando eu achava que não podia me surpreender ainda mais, parecia ser uma caixinha de surpresa, e eu queria desvendar seus mistérios a cada minuto. Tomei o meu lugar no carro e fiz a manobra para fora dali. O trajeto foi feito regado à conversa, para a minha surpresa, o assunto se tratava de carros! Longe de mim qualquer tipo de pensamento machista sobre mulheres e carros, estava surpreendido pela animação de sobre esse assunto. O que me levou a discorrer sobre o tema nos vinte minutos até o restaurante.
Saltei do carro e abri a porta para ela, com um gesto apreciativo, sorriu. De forma automática, procurei pela mão, imediatamente tentou soltar, mas prendi com delicadeza ao entrelaçar os dedos. Para todos os efeitos, quanto mais contato fizéssemos agora, melhor seria para o que viria a seguir. E também, quem sabe daquela forma tudo o que outrora havia sentido desvanecesse num passe de mágica e a sensação incômoda fosse embora. Para minha surpresa, isso não aconteceu, sobrou apenas o conforto caloroso e a proximidade emboscando-me ainda mais para um caminho muito, muito perigoso.
Ainda discutíamos, enquanto seguíamos em direção aos degraus que nos levariam até a entrada do restaurante.
– Nesse caso você terá que dar o seu braço a torcer e concordar comigo que...
Desviei o caminho e fiz um sinal para que ela ficasse em silêncio, enquanto meio escondido observava o casal descer os poucos degraus. O rapaz alto tinha um olhar carinhoso em direção à figura roliça tão bem conhecida por mim, Shannan. Ausentes sobre o que acontecia além deles mesmos, passaram pelo local onde estávamos e Ethan a guiou o sedan.
– Então, você gosta de voyeurismo? – sussurrou ao meu lado, provocando uma risada que me fez trincar os dentes para evitar rir e despertar a atenção em nossa direção. – Se não é esse caso, estamos aqui para observar se meu irmão é digno da sua irmã? Por sinal, ela me aparece ainda mais bonita pessoalmente. – concluiu, pendendo a cabeça.
– Não e sim. – não havia motivo para mentir. – Gostaria de ter um olhar sobre seu irmão, mas não por esse motivo. Como se Shannan fosse algo a ser despejada de um lado para o outro. Por um longo tempo não tinha visto minha irmã tão feliz como ela estava ao falar sobre ele. Por isso, queria ver se havia reciprocidade entre eles. Se Ethan está tão apaixonado como eu sei que ela está.
– Quanto a isso, você pode descansar. – sorriu ao voltar para o caminho da entrada. – Ethan esteve perdido desde a primeira vez que a viu. – suspirou e deixou uma pequena risadinha escapar. – Lembro-me perfeitamente de ver o olhar atordoado quando encontrei-me com ele naquele mesmo dia.
Adentramos o ambiente claro e muito bem decorado, parecia à vontade. Ainda estava aturdido pelas informações que ela deixou escapar, quando Miguel Ángel Takahashi aproximou-se com um sorriso amplo e curioso em nossa direção. E novamente me surpreendi quando vejo enlaçar o outro num abraço apertado.
O que no mundo estava acontecendo que todos pareciam se conhecer?! Ou melhor, como nunca nos encontramos antes?!
– Um dia desses você ainda será a causa do meu divórcio, sabia disso, Miguel Ángel? – comentou, bem humorada, ao lançar um olhar sugestivo para ele.
– Eu só estou esperando a Alyne deslizar e bam! – riu e ele piscou, antes de vir em minha direção de braços abertos. – .
– Miguel Ángel. – trocamos um cumprimento caloroso.
Dividíamos o quarto na faculdade, e desde sempre era apreciador da culinária do mais velho. A amizade evoluiu e continuou além dos portões da faculdade, para minha eterna alegria. Além de um ótimo chef, Miguel Ángel era a pessoa mais calorosa e com um bom coração que eu já havia conhecido. Com a correria do trabalho, quase não havia tempo para uma refeição decente, e graças à amizade de longa data, fazia minhas encomendas com ele a qualquer hora do dia ou noite. Com um pequeno ajuste, em troca e como forma de agradecimento, havíamos assinado um contrato exclusivo com Takahashi, qualquer funcionário ligado à nossa empresa poderia ter sua refeição ali.
– Finalmente uma folga. – um sorriso sincero mesclado à curiosidade pairava no rosto do meu amigo de longa data.
– Como vocês dois se conhecem? – ele e eu perguntamos na mesma hora.
– Alyne e eu sempre estamos por aqui, apenas para admirar a paisagem e apreciar o talento do nosso chef. – sorriu largo e com surpresa, vejo Miguel Ángel corar com o elogio velado.
– Esse é um dia muitas surpresas. – piscou em minha direção. – Ethan e Shannan. – Miguel Ángel nos olhou, divertido. – Confesso que fiquei chocado, e agora vocês dois. Eles acabaram de sair, vocês passaram por eles? – Miguel Ángel perguntou, animado.
– Não exatamente. – desconversei e o sorriso conhecedor aumentou no outro rapaz.
– Sempre o irmão mais velho. – ralhou Miguel Ángel, mantendo um sorriso de canto, e me olhou de esguelha. – Bom, venham por aqui.
Foi com um imenso prazer ver que estávamos sendo guiados para as mesas mais afastadas, localizadas na parte detrás do restaurante, em meio a um belo jardim. Meu lugar favorito quando podia escapar da loucura dos casos e queria ter um minuto privado. Salvo por um outro casal, estes pareceram não notar a nossa chegada, seriamos os únicos ali. Miguel Ángel, já adiantando a função cabida a mim, mantinha a cadeira afastada para sentar.
Completamente diferente do modo como fui recebido, notei que permanecia tranquila em torno do mais velho, até mesmo alegre. Atribui o fato ao nervosismo da situação. Colocando os fatos em linha, nem eu estava completamente à vontade no primeiro instante. Um pouco nervoso, eu diria. Tomei a cadeira oposta à que ela ocupava e permaneci em silêncio, enquanto os dois conversam animados, indo do livro que estava escrevendo, até Alyne.
– Ok, mas quando ambas estiverem livres, apareçam por aqui. E você, , o que me diz? Tenho uma receita nova.
– Ótima ideia, conte comigo. – Miguel Ángel sorriu, vaidoso, antes de afastar-se para buscar o menu e a carta de vinho.
manteve o sorriso até vê-lo sumir pelo caminho que fizemos. Então, virou-se em minha direção e sua expressão era séria.
– Você está bem? – os olhos castanhos estavam preocupados ao me fitar, fiz um movimento afirmativo com a cabeça e a vi estreitar os olhos.
– Tudo bem. – respondi e observei o detalhe no centro da mesa, um arranjo de flores com o qual eu comecei a brincar distraidamente enquanto meus pensamentos vagavam rumo à Shannan.
Impetuosa e avançada, assim era Shannan. Sempre à frente de todos, formou-se antes do que as outras pessoas da sua própria idade, hoje em dia uma jornalista de mão cheia para a revista Vogue. Eu tinha orgulho dela, mesmo com o temperamento forte e explosivo, fazendo as coisas sempre do seu próprio jeito. E, apesar disso, eu amava a minha irmã.
Fiquei em choque quando Shannan me contou sobre seus sentimentos. Não podia deixar de me preocupar se o rapaz teria sentimentos tão elevados quanto ela e, bem, ela era minha irmãzinha da mesma forma que se fosse Bardon no lugar dela, teria a mesma preocupação e até mesmo desolação. Depois do ocorrido ao nosso pai, foi tão natural manter-nos ainda mais próximos.
Despertei do meu devaneio quando vi as unhas curtas e vermelhas sobre a minha mão, encontrei o olhar condescendente de .
– É estranho. Ela é a minha pequena, apesar de algumas divergências durante a nossa vida. Ela me disse, mas ver foi uma emoção estranha, não sei se consigo explicar com exatidão. – derramei em um tiro e me repreendi em seguida por me expor.
– Se serve de consolo, ela lhe contou. Acredito que seria mais traumático cair de paraquedas nessa situação. – a mão acolheu a minha antes que ela continuasse. – Digo por mim, não foi fácil chegar e contar que eu estava saindo com Alyne.
– Ainda assim, você acabou contando? – questionei e a vi corar enquanto dava um sorriso travesso.
– Foi meio difícil negar alguma coisa quando os gêmeos chegaram em casa e me viram inspecionar a garganta da Alyne com a língua. – riu e olhou-me agora um pouco mais séria. – Quando sentei com eles e revelei meus sentimentos, de como me sentia a respeito dela, não foi um passeio no parque, sabe? Nunca é quando se trata de sentimentos, ainda mais quando você vai falar disso para o seu irmão. – fiz um meneio com a cabeça. – Pode acreditar em mim. Ela foi realmente corajosa. – os olhos castanhos permaneciam calmos e os lábios mantinham-se curvados num sorriso confiante.
– Com licença. – erguemos o olhar ao mesmo tempo, um rapaz estava parado ao nosso lado. – Miguel Ángel pediu desculpas, mas surgiu um pequeno problema na cozinha, então atenderei vocês.
Assim que o rapaz se afastou com os nossos pedidos, continuamos em meio à conversa leve. Estar ali estava sendo bastante agradável. Sentia-me confortável, e fazia muito tempo que não me sentia daquela forma. Observei e, até agora, tudo o que Alyne havia me dito sobre ela fazia todo o sentindo. Era incrível a forma como ela me deixava à vontade em meio a conversa, mesmo que ela não dominasse o assunto, não tinha vergonha de perguntar. Mal percebi quando o almoço foi servido, quando dei por mim, já estávamos nos despedindo do Miguel Ángel.
Desci as escadas para o estacionamento, um tanto relutante em acabar por ali.
– Que tal um passeio, antes de voltarmos? – perguntei enquanto abria a porta do carro.
– Eu topo! – um sorriso animado curvou os lábios cheios, por um vago momento me perguntei como seria beijá-los. – , tudo bem?
– Claro! – dei meu melhor sorriso ao desviar aquele pensamento para longe, ali não era a hora, muito menos o lugar.
Dei a volta no carro, acomodando-me no lugar, minutos depois chegávamos ao lugar escolhido por mim, um parque um pouco afastado do centro da cidade. Agora caminhávamos tranquilamente, apreciando a paisagem em um silêncio agradável.
– Sobre Alyne, imagino que não seja uma situação fácil.
– Não. – concordou, um pouco encolhida. – Acredito que o meu lugar seria o melhor para ela. Alyne tem um talento natural para crianças, é quase algo mágico. Acredito que você saiba sobre a histerectomia radical*.
– Sim. – assenti lentamente. – Quando Alyne era mais nova, sempre quis ter filhos, imagino que tenha sido um golpe receber a notícia.
– Quando a conheci, Alyne já estava em quimioterapia e radioterapia. Uma mulher tão jovem e cheia de vida tendo algo tão querido por ela arrancado de suas mãos... queria ter chegado mais cedo. – respirou fundo e tentou sorrir. – Vamos fazer o possível por ela.
Concordei e percorremos alguns bons passos em silêncio.
– Como é conviver com a Sra. Walker? – vi fazer uma careta. – Não deve fácil. – comentei, dando um sorriso compreensivo.
– Digamos que ela não é a minha fã número um. – parou abrupta, e olhei para trás e vi o ultraje em seu rosto. – Nem devia estar conversando com você. – deu um sorriso enviesado ao voltar a caminhar.
– Oras, por quê? – olhei curioso e ela apenas desviou o olhar do meu.
– Ignore a minha lentidão em associar os fatos. – deu de ombros, franzido as sobrancelhas. – Como diabos a minha ficha não caiu antes? – murmurou para si, um tanto aborrecida.
? – entrei a sua frente e ela quase bateu em mim antes de finalmente parar.
– Devo dizer que você, sim, tem uma grande fã, por sinal. – seus olhos cintilaram uma frieza e, por alguns minutos, pensei em ter voltado à noite anterior. – Walker tem uma queda pela sua pessoa, faz questão de deixar isso bem claro todas as vezes que nos encontramos.
– Não tenho culpa se ela tem bom gosto. – tentei brincar para ver se aquele mal-estar pudesse passar, foi a pior viagem.
– Realmente. – toda camaradagem anterior pareceu sumir no ar, o sorriso bailou nos lábios, mas nem chegou perto dos olhos antes que desviasse de mim e continuasse a andar.
Praguejei mentalmente por ter tocado naquele assunto, mas como diabos eu ia saber que existia um desafeto daquela dimensão entre as duas? Eu era inocente. Mesmo assim permaneci quieto durante os próximos metros, sem saber o que fazer. Quase como se a natureza pudesse sentir o dissabor de , o vento gelado e carregado com o cheiro característico de chuva veio nos açoitar. Algumas pessoas a nossa volta apertaram o passo, talvez com receio que a chuva pudesse chegar antes do previsto.
Poucos passos nos separavam quando assisti parar. Aproximei-me dela apenas para vê-la de olhos fechados. Em seguida, um sorriso calmo tomou conta dos lábios femininos. Os cabelos dançavam ao sabor do vento e ela não parecia ligar para o emaranhado que ficaria depois. Enlevada, vi os músculos lentamente perderem a tensão. Era o sinal que eu precisava para me aproximar, parei a sua frente. abriu os olhos no mesmo instante em que o vento chegou ao seu ápice, trazendo consigo os primeiros pingos da chuva.
Não houve qualquer movimento para sair daquela posição, os olhos castanhos me fitavam com intensidade, dei um passo em frente. Com cuidado, afastei os fios, que agora molhados permaneciam, colados à face, deixei que esses descansassem atrás da orelha. O toque efêmero dos meus dedos foi o suficiente para que a pele sofresse um frêmito. Instantaneamente o ar pareceu escasso a minha volta, todos os meus sentidos estavam em alerta, e não só os meus, vi o leve arfar em .
Ignorando todo o instinto que me instigava a vencer a pouca distância entre nós e capturar os lábios femininos, segurei a sua mão e saí correndo em direção ao o abrigo mais próximo, a cafeteria. Não éramos os únicos com aquela ideia, todas as pessoas pareciam estar ali, já não havia espaço dentro do ambiente acolhedor. Somente uma pequena área coberta estava disponível, mas o espaço era exíguo. encostou-se à parede e parei a sua frente.
Não houve tempo para relaxar, a chuva aumentou instantaneamente. Mas não foi aquilo que realmente me pegou desprevenido. As mãos descansaram em minha cintura, com uma pressão firme, trouxe-me para perto. Estava literalmente cara a cara com .
– Chuva. – e num murmúrio continuou. – E me desculpe por antes.
parecia alheia ao fato de estarmos tão próximos, podia sentir cada curva contra o meu corpo, e aquilo não me estava fazendo bem, ou melhor, estava fazendo bem até demais. Fiz um gesto afirmativo dizendo que estava tudo bem. A cabeça pendeu sobre meu ombro, agora a respiração batia tranquilamente em meu pescoço, causando arrepios constantes.
Fui praticamente arrancado do meu devaneio sensual ao ouvir um comentário mordaz vindo de algum lugar próximo.
“Como esse tipo de pessoa tem coragem de sair de casa? É realmente uma vergonha, por que em vez de sair por aí desfilando numa roupa dessas, não fica e casa e faz uma dieta?”
“Alguém avise para ela que os cachos saíram de moda há muito tempo.”
“Meu deus, olhem a cor daquela pele!”

A frase não só veio no tom asqueroso, como acompanhada de um som que lembrava a vômito. Procurei a fonte daqueles comentários sórdidos, a nossa esquerda encontrei um grupo de adolescentes. Lancei um olhar de desprezo naquela direção antes de voltar-me para . Sob mim, senti o corpo ficar tenso. Eu estava sentindo tamanha raiva que a minha vontade era de estrangular uma por uma pela falta de respeito.
“Ele é lindo! O que ele está fazendo com ela?!”
“Ela é gorda! Como ele consegue?”
“Tenho nojo só de olhar, imagina estar perto daquela monstruosidade!”

A imbecilidade daquelas garotas não havia tamanho, e a minha paciência era pouca. Fiz um movimento para ir naquela direção e me segurou.
– Não vale à pena.
O tom era leve, mas o desconforto estava estampado nos olhos castanhos, entendendo que seria ainda pior qualquer movimento da minha parte. Consternado, respirei fundo e a acolhi protetoramente.
– Desculpe estar te fazendo passar por isso, mas, por favor, aguente mais um pouco, logo poderemos sair daqui. – pelo tremor das suas mãos, soube que era com esforço que ela mantinha um sorriso calmo nos lábios. – Acredite, isso não é nada comparado a sua fã. – murmurou antes de voltar à posição anterior.
Envolvi-a em um abraço enquanto fazia carinho em seus cabelos. Sentia-me de mãos atadas com o tamanho do preconceito sem cabimento daquelas garotas, bem como a ignorância da senhora Walker ao julgar alguém pelo tamanho do manequim. Aparentemente ela estava calma e relaxada para quem visse de longe, mas ali, onde eu estava, podia sentir a tensão instalada em cada músculo, e a minha revolta só aumentou.
Minutos mais tarde, a chuva deu uma pequena trégua. Entrelacei meus dedos ao dela, fazendo menção de sair dali. Acenei ironicamente para as garotas, enquanto elas permaneciam chafurdadas em pura ignorância, eu tinha o prazer de estar indo embora com aquela mulher maravilhosa.
O caminho para casa foi feito em meio a uma conversa agitada, percebia que fazia o possível para manter-se variando entre os assuntos, talvez por receio que voltássemos ao que aconteceu. Deixei que conduzisse o assunto, para ser sincero, minha revolta não havia passado.
Já em casa, cada um foi para o seu quarto retirar a roupa molhada e tomar um banho. Encontramo-nos novamente na sala para uma pequena sessão de filmes; mais tarde, Alyne chegou e fizemos um pedido em um restaurante chinês, já que nenhum de nós estávamos dispostos a preparar o jantar. A noite terminou de uma forma calma, numa despedida rápida, subi para o meu quarto. Mal deitei e já estava fechando os olhos.

Três dias haviam-se passado desde o nosso almoço. Durante esse tempo, estava quase abandonado pela casa, por assim dizer. , em um surto criativo, estava concentrada em seu livro e quase não havia restado tempo para estarmos juntos. Alyne passava o dia todo na ala pediátrica no hospital e vinha à noite.
Dei uma olhada no relógio, constatando que ainda eram duas horas da tarde e nem ao menos havia visto . Desci as escadas em direção à cozinha, já familiarizado com a casa, dei uma boa olhada na geladeira, procurando por algo que pudesse fazer algum sanduiche. Vinte minutos depois já estava com vários sanduiches prontos e duas xícaras de café em uma bandeja a caminho do escritório.
– Intervalo. – disse, abrindo a porta.
– Amém! – disse, dando um sorriso cansado ao encostar-se na cadeira. – Já disse que odeio revisar?
– Qual é o problema? – estendi uma xícara em sua direção e me sentei na poltrona oposta.
– Obrigada. – suspirou antes de bebericar sua xícara. – Como você já deve ter percebido, tenho uma ou outra mania maluca. Dentre elas, mesmo sabendo que terei uma revisora, odeio mandar o texto sem revisar, mas eu odeio fazer isso. – franziu o nariz ao pegar um dos sanduíches.
– Devo presumir que Alyne te ajudava nessa parte? – assentiu, deixando um gemido de satisfação escapar ao mastigar seu sanduíche.
– Exatamente. Isso está uma delícia! – elogiou antes de partir para um segundo. – E agora eu estou quase maluca, por não ter um pingo de paciência.
– Se você não se importar, posso te ajudar. – disse, solícito, ao pegar um sanduiche.
– Sério?! – confirmei com um gesto de cabeça. – Não acredito!
Num ato de pura espontaneidade, deixou sua poltrona e rapidamente deu a volta na mesa, vindo me dar um abraço e um beijo estalado na bochecha. Eu ri com o gesto alegre e acompanhei com o olhar o saltitar para seu antigo lugar. Em poucos minutos os sanduiches tinham acabado e as xícaras estavam vazias. Levei a pequena bagunça para pia e logo estava de volta com as xícaras reabastecidas.
– Aqui está. – me estendeu um tablete. – Antes de mais nada, penso que você precisa se ambientar com a história, para então passarmos para a parte angustiante, a revisão.
– E você pode relaxar enquanto isso. – peguei o objeto e fiz um gesto em direção ao sofá.
– Ótima ideia. – acomodei-me no sofá e ao meu lado.
De tempos em tempos, percebia o olhar apreensivo em minha direção, aliado ao leve ruído das unhas batendo contra o couro. Com o canto dos olhos, vi-a caminhar em direção à estante, começar a tirar livro por livro e realinhar cada um por ordem de tamanho. Feito aquilo, novamente ela estava sentada ao meu lado. Não durou muito e logo estava de volta à escrivaninha, mexendo no computador. Pelo barulho discreto, notei que parecia estar em alguma rede social conversando, mas nem mesmo aquilo foi o suficiente.
De novo veio sentar-se ao meu lado, antes que ela pudesse fazer qualquer outro movimento, como quem não queria nada, tratei de me esticar no sofá e deitar a cabeça na coxa macia. Sem outra opção e tecnicamente confinada ao sofá, ela permaneceu levemente rígida e quieta. Um pouco mais confortável com a minha proximidade, os dedos acharam lugar nos meus cabelos e instintivamente dei um suspiro satisfeito.
A cada nova página me via envolvido com a história, um suspense onde a protagonista, uma detetive forense, lutando para provar a inocência do seu antigo parceiro em uma série de assassinatos. Todas as pistas encontradas iam para um caminho diferente, e todos apontavam para justamente para aquele que ela teimava em defender. Quase duzentas páginas mais tarde e completamente envolvido pela história, vim notar que os movimentos em meus cabelos haviam cessado, ergui o olhar e vi de olhos fechado num leve ressonar.
O mínimo movimento de sentar foi o suficiente para que ela acordasse, se espreguiçou lentamente, deu um sorriso e, por fim, esfregou os olhos.
– E então? – a curiosidade ganhava espaço no rosto sonolento.
– Estou realmente curioso. – disse, sincero, e a vi corar de satisfação.
– Ótimo, adoro feedback! – sorriu, animada.
Na hora seguinte, permanecíamos em uma discussão acalorada sobre cada ponto da história. Para a tristeza do meu lado curioso, permanecia resoluta em não dar nenhum spoiler, por mais minúsculo que esse fosse. Tendo essa parte em dia, passávamos para a revisão do último capítulo, o qual ela estava revisando quando a interrompi mais cedo.
Para facilitar a tarefa, compartilhou comigo o documento, agora com ambos logados, já começava algumas mudanças. Dava uma sugestão de como poderia ficar uma ou outra cena, todas as dicas eram bem-vindas por ela. Ao surgir uma dúvida, debatíamos sobre esta até achar uma maneira que pudesse encaixar. Era extremamente interessante que neste interim uma ideia saltava e logo a via tomar forma diante dos meus olhos, eu me sentia alegre ao presenciar aquele momento.
Estávamos absortos quando fomos interrompidos pela chegada da Alyne, que não vinha sozinha, mas trazia consigo duas caixas de pizza. Outra pausa e esparramados pelo escritório degustando daquele pedaço de céu, enquanto colocava a esposa a par sobre a história.
Fazia o possível para permanecer alheio a pequena troca de caricias do outro lado da sala. Ignorei a inquietação que me rondava todas as vezes que Alyne encontrava-se presente. Talvez, fosse apenas o cansaço das últimas horas, nada além disso.
Era o que realmente eu queria acreditar.
– Pelo jeito vocês ainda vão longe na revisão, não é? – Alyne perguntou e assentiu.
– A menos que meu ajudante esteja cansado. – lançou um olhar em minha direção e prontamente me endireitei.
– Longe disto, ainda mais abastecido. – dei um sorriso largo, que logo foi correspondido por .
– Sendo assim, vou subir. Amanhã vou precisar chegar mais cedo. – desviei o olhar assim que Alyne inclinou-se para dar um beijo na outra. – Boa noite, .
– Boa noite. – respondi enquanto recebia um beijo na bochecha, em contrapartida me sentia um tanto traíra por ficar feliz quando a vi sair porta afora.
Retomamos as atividades com energia, o tempo parecia correr e já era um pouco mais das cinco da manhã quando havíamos concluído a revisão do capítulo anterior e o novo. Antes de dar por encerrado, demos mais uma lida e foi com satisfação que, por fim, caímos exaustos contra a cadeira. Ficamos por ali beliscando o que havia sobrado da pizza antes de dar algum passo para fora do escritório.
Ajuntei os utensílios, as caixas e os copos usados por nós, enquanto salvava pela milésima vez e em vários lugares diferentes a atualização do livro, porque segundo ela, era sempre bom ter guardado em mais de um lugar para não correr o risco de algo pifar e ela ficar sem o material. Sim, vamos falar sobre as manias dessa moça...
– Obrigada pela ajuda, , se não fosse por você, ainda estaria atolada na revisão. – ela sorriu, deixando escapar um suspiro exausto.
– Que isso, foi um prazer ajudar. – disse, sincero, apesar do desgaste. Realmente havia sido gostoso passar aquele tempo com ela – Vou indo. Boa noite, .
– Boa noite. – ela acenou, respondi o gesto antes de me retirar. – ?
– Sim? – parei um instante, já com a porta aberta.
– O que você acha de tentarmos amanhã ou depois?


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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