Última atualização: 24/06/2019
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Prólogo

’s POV

Antes de abrir os olhos, senti meu pescoço sendo envolvido. Sorri. Eu estava sendo abraçado por uma de minhas garotas, e independentemente de quem fosse, era a melhor sensação do mundo. Ergui as mãos e alarguei mais o sorriso ao perceber que se tratavam de bracinhos, identificando que era Clara. Com certeza tinha a deixado na nossa cama e ido fazer o café da manhã. 
- Bom dia, fofinha! - Desejei com o apelido que eu usava desde que minha esposa e eu descobrimos que teríamos uma menina. Ao ouvir minha voz, a garotinha de quase 5 anos ergueu a cabeça do meu peito e sorriu. Aquele sorriso, combinado a cara de sono mais fofa de todos os tempos, formavam uma das imagens mais fofas que eu conhecia. Só melhorava quando a pessoa responsável pelo cheiro maravilhoso que vinha da nossa cozinha, estava presente.  
- Bom dia, papai! - Minha garotinha cumprimentou, com a voz mergulhada em preguiça, me fazendo não saber se ria ou sorria. Clara me deu um beijo na bochecha, o que eu retribuí, e apertou meu rosto com as mãozinhas de criança que eu mais amava.  Eu não queria, mas precisava acordar e ir trabalhar, por isso afastei o edredom que nos cobria.  
- Vamos ver o que a mamãe tá aprontando na cozinha? - Sugeri, e a pequena arregalou os olhos em expectativa e praticamente pulou para fora da cama, mostrando sua animação em ver a mãe, me fazendo rir encantado, ainda mais quando ela começou a bater as mãos, falando repetidas vezes a palavra 'mamãe'. e Clara eram o exemplo vivo da conexão entre mãe e filha. Elas eram unha e carne. Onde uma estava, com certeza, a outra estaria.  
Decidi seguir o "exemplo" de minha filha e levantei, e depois de arrumar a cama, peguei-a no colo para irmos para a cozinha. 
Entrei na cozinha e, se eu achava que não existia imagem mais bonita, me enganei ao ver minha esposa tão entretida com as panquecas. O pequeno rádio tocava as músicas mais leves e que me faziam sorrir só em ver seu cabelo escuro se espalhar a medida em que ela balançava a cabeça. Os assobios, as dancinhas e tudo que rondava só me fazia apaixonar ainda mais por aquela mulher todo santo dia. Eu era muito louco por ela.  
Percebi que Clara iria gritar e me apressei em pedir para que ela fizesse silêncio com um gesto e os olhos arregalados. Sorrimos cúmplices e foi questão de segundos até que eu a colocasse no ar como se fosse um avião.  O avião mais cheio de amor que eu já tinha visto em toda a minha curta e feliz vida. 
Clara soltou uma gargalhada imensamente linda e muito gostosa de ouvir, a medida que eu andava com ela dentro da cozinha, a fazendo pensar que era o avião dos corações.  
- Voo 123 para o expresso do amor chegando! - Anunciei ao mesmo tempo em que vi virar com um dos seus sorrisos mais lindos.
- Bom dia, amor! - Abri um sorriso largo e lhe dei um selinho em cumprimento, percebendo Clarinha movimentar os dedinhos gordinhos como se os sacudissem em cima da nossa cabeça. Espalhando o amor, com certeza.  
- O que meu piloto e meu avião preferido fazem acordados a essa hora? - Uma risada bonita escapou por entre seus lábios e nossa filha gritou em resposta. 
- ESPALHANDO O AMOR! Vamos, papai! Vamos espalhar o amor pela cozinha! - Minha garotinha chamou tão eufórica quanto a mãe quando queria qualquer coisa e não demorou para que eu corresse com ela dentro do cômodo e ao redor da mesa, ouvindo as risadas maravilhosas e vendo os cachinhos dourados pularem da cabeça dela, enquanto acompanhava a grande folia que estávamos fazendo com um grande sorriso nos lábios. 
- Ei, piloto, pousa o avião do amor aqui. – Ouvi pedir rindo, e me virei a tempo de ver minha esposa começar a colocar as comidas do café da manhã sobre a mesa da cozinha. Deixei nossa filha na cadeirinha de refeições antes de a ajudar com os preparativos finais para podermos passar aquele momento como a família feliz que eu me orgulhava demais de sermos.

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Estacionei o carro na vaga reservada para mim no estacionamento do hospital com um sorriso contente, e até mesmo orgulhoso, por não ter me atrasado como previa ao sair de casa. O quê? Clara queria espalhar o amor por todos os cômodos da casa, eu iria dizer não? Óbvio que não, era uma atitude maravilhosa essa da minha filha. Conferi o celular antes de descer do carro e tive uma surpresa ainda melhor: além de não estar atrasado, eu estava alguns minutos adiantado. Poucos, mas era uma boa notícia. Era definitivamente meu dia de sorte!
Cumprimentei Jason, o segurança do turno da manhã, que respondeu de forma simpática, e entrei no meu local de trabalho, logo seguindo para o vestiário, onde encontrei meu amigo de longa data e cunhado preferido. Sim, ele é o único, mas não vem ao caso.
- Fala, cara! – Cumprimentei animado, me encaminhando para o meu armário, que ficava ao lado do dele para pegar minha roupa de trabalho.
- Hey! – respondeu da mesma forma, mas prestando atenção no celular em mãos.
Se aquilo eram nudes, eu iria denunciar pro Antunes! Mas foi aí que ouvi uma risada gostosa de criança e fiquei ainda mais curioso para saber do que se tratava. Estiquei a cabeça e vi Ben, filho do , lendo para as irmãs. Mas com certeza ele estava aumentando um pouco a história, as coisas que saíam de sua boca eram mirabolantes, ainda mais combinadas às gargalhadas altas que o menininho de 11 anos soltava.
- me enviou. – referiu-se ao vídeo enviado pela esposa. - Ela tá na creche do hospital com as crianças. – O traumatologista explicou e aí reconheci o local tão visitado por mim no primeiro ano de vida da Clara, quando ainda era neonatologista. Dava uma nostalgia imensa! Que saudade da minha pequena, modo bebê! Que saudade de ter um bebê em casa, inclusive.
Anotação mental: conversar com a esposa sobre isso, com argumentos convincentes.
- Eles definitivamente puxaram a mãe. Sorte a deles! – Zoei meu melhor amigo e ele me deu um belo pedala, antes de se juntar a mim nas risadas.
- Graças a Deus! – concordou comigo, apontando as mãos para o céu, como se agradecesse aos anjos pela dádiva alcançada. – A Clara também!
- Graças a Deus! – Repeti o pseudo-agradecimento, rindo. De fato, era uma grande sorte minha filha se parecer tanto com a mãe, só assim para ela ser tão linda o quanto era! Sim, eu sou e sempre serei, me julguem! Eu sei que todas as qualidades herdadas da mãe iam me causar cabelo branco e estresse no futuro, com o monte de desocupado que ia fazer fila na porta da minha casa, mas até o dia de escorraçar todos na base da vassourada, eu iria aproveitar e me orgulhar!
- A gente iniciou a Clarinha na leitura faz poucos dias. Ela tá tão minha bebê prodígio! – Eu tinha certeza de que as minhas íris tinham dado lugar para dois corações e que em poucos segundos a minha baba encheria o vestiário todo. Mas quem se importa? Eu definitivamente não.
- Outra coisa que ela puxou da minha irmã. Os são prodígios! – piscou rindo. Eu não podia deixar de concordar, minha mulher era linda, inteligente e todas as mais maravilhosas qualidades existentes no mundo. E eu era um idiota sortudo. O mais sortudo do mundo todo.
Meu celular começou a tocar no bolso da calça jeans que eu já havia trocado e quando o peguei, sorri largo com a completa transmissão de pensamento. Era .
- Oi, amor da minha vida! – Saudei, como o irrevogável e irretratável apaixonado que eu era e sentia orgulho em ser, e ouvi meu adorado cunhado fingir uma ânsia – como se ele tivesse alguma moral para me zoar sobre o assunto ‘bobo apaixonado’ – e depois de receber um dedo do meio da minha parte, se despediu, dizendo que iria trabalhar, deixando antes um beijo para a irmã, que foi prontamente retribuído.
- Hey, amor! Liguei rapidinho para não te atrapalhar. – Você não atrapalha, amor, pode ligar toda a hora! Ri internamente dos meus pensamentos ridículos e esperei que ela continuasse. – Vou na casa da minha mãe agora, eu e a pequena. Provavelmente eu vou pro autódromo mais tarde, mas aí eu a levo.
- Tá bom, . Só me avisa se eu precisar buscá-la, ok? – Ela murmurou um ‘sim, pode deixar que eu aviso’ em resposta.
- A gente vai terminar de se arrumar pra ir logo. Tchau, . Bom trabalho, te amo! A Clara tá mandando um beijo pro papai também!
- Obrigado, minhas meninas, amo demais as duas! – Mandei beijos e desliguei. Terminei de me arrumar, guardei minhas roupas ‘normais’ dentro do armário e logo saí do vestiário. No caminho para a sala dos atendentes, encontrei meus residentes e os orientei sobre as primeiras atividades daquele dia de trabalho.

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Bebi o restante do conteúdo da minha bebida favorita, vulgo café, e joguei o copo plástico com tampa, típico de cafeteria, na lixeira do saguão, antes de me dirigir ao ambulatório, onde tinha uma consulta a realizar. Cheguei a sala e logo avistei minha paciente, uma simpática senhorinha que havia sofrido uma pequena queda no banheiro de casa devido a uma tontura, e sorri para ela me aproximando. Iniciei os exames e perguntas de rotina, a fim de entender o caso e fornecer o diagnóstico mais correto. Logo vi uma movimentação começar e os paramédicos entrarem com um paciente. Até aí nada mais normal, afinal estávamos em um hospital e, mais especificamente a ala do Trauma. Mas então a movimentação começou a crescer, envolvendo cada vez mais profissionais e passei a prestar mais atenção, tentando identificar do que se tratava, pois não parecia ser algo muito simples. Provavelmente se tratava de um acidente automobilístico ou algo parecido.
Ouvi o pequeno bip do meu pager, indicando que eu estava sendo requisitado para trabalhar naquele caso, me dando maior certeza de que não se tratava de algo muito simples. Terminei de examinar a Sra. Carmichel e me despedi dela, pedindo licença e corri para o espaço em que o aglomerado se encontrava.
- Cheguei! Alguém me atualiza do caso. - Pedi a um dos residentes, calçando as luvas de látex.
- Jovem de, mais ou menos, 30 anos. Foi encontrada desacordada após um acidente de carro. No meio do trajeto os paramédicos disseram que ela teve uma convulsão, mas foi aplicado uma ampola de Diazepam. Chegou agitada, mas está em desorientação. – Afirmei com um suspiro.
Acidentes de carro eram uma das coisas mais comuns de se chegar no hospital, e quase sempre eram causados pela mesma coisa: alta velocidade, que muitas vezes ainda era acompanhada pelo uso abusivo do álcool, eu apenas esperava que não fosse o caso nessa vez. A convulsão provavelmente foi causada por uma hemorragia cerebral, o que já exigia um cuidado maior, mas que poderia ser confirmada com certeza apenas após um exame mais detalhado.
- Ok. Algum atendente foi bipado já? – Questionei por estar vendo vários residentes e internos, e apenas um atendente, além de mim.
- Você. E estão tentando bipar o . – Andrew, um de meus pupilos, já que pendia para a Neurologia como área de interesse para atuação, esclareceu.
- Eu sinceramente não sei onde ele se enfiou! – Miranda, a Chefe do Departamento de Cirurgia Geral ralhou, me fazendo quase rir. O sumido? A resposta era apenas uma!
- Pergunte para , ela tem a resposta! – Zooei meu cunhado. Mas era mais do que óbvio. Onde a esposa estava, ele provavelmente estaria.
- O caso, Dr. ! – Bailey me ralhou, provavelmente por causa da quantidade de internos que ali estavam, com os olhos enormes e as orelhas maiores ainda.
Afirmei, rindo e me virei, a fim de iniciar os procedimentos. Instantaneamente senti o riso cessar e o sorriso murchar, dando lugar para uma careta de confusão. Eu conhecia aquele tênis, e aquela calça. Balancei a cabeça, querendo afastar aqueles pensamentos. Eram um All Star preto e uma calça jeans normais e comuns. E daí que tinha uma estrelinha desenhada no pano perto do calcanhar e pequenos capacetes bordados na barra da calça? Qualquer pessoa podia customizar suas roupas daquela forma, não era tão diferente. Caminhei lentamente até a maca, como se estivesse indo para a forca ou ainda pior, e quando cheguei perto, entendi a sensação de o mundo parar, que as pessoas tanto falam sobre.
Na verdade, parecia mais que ele tinha desabado na minha cabeça. Minhas mãos estavam geladas e meu corpo tenso, estacado. Meus olhos estavam esbugalhados e era certeza estar mais branco do que papel. Eu sabia que estavam chamando, passando as atualizações do estado da paciente, esperando que eu fizesse o que se esperava de um médico, agisse. Mas eu não conseguia. Simplesmente não conseguia. Eu ouvia o que falavam, mas não conseguia processar nenhuma informação. Eu não conseguia me mexer, não conseguia falar, nem ao menos conseguia respirar, nem sentir alguma coisa além de um vazio tomando conta do meu peito, como se um buraco crescesse em meu corpo a cada segundo. Não, não, não, não, não podia ser. Aquilo era apenas um pesadelo, eu acordaria na sala de descanso a qualquer momento. Não era verdade, eu me recusava a acreditar que eu estava vivendo a realidade. Eu estava errado, não era o que eu estava imaginando que era. Não podia ser. Não podia ser ela.



Capítulo 1

“Uma residência cirúrgica é sobre treinar para o pior. Mas, por mais preparados que estejamos, não vemos realmente o desastre chegar. Tentamos imaginar o pior cenário para prever a catástrofe, mas quando o verdadeiro desastre chega, ele vem do nada.
E quando o pior realmente acontece... Nos encontramos completamente perdidos. Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? Nos perguntamos essa questão tantas vezes, que se tornou um clichê. Mas isso é porque coisas ruins acontecem com pessoas boas. Constantemente. Você só precisa esperar que quando seja sua vez, você saiba o que fazer. Como lidar. Como perseverar. Mas a verdade é...Você não sabe como reagir ao seu pior cenário... Até acontecer.”

Greys Anatomy.

- DR. ! NÓS ESTAMOS PERDENDO A PACIENTE! A SATURAÇÃO ESTÁ BAIXA! – Ouvi alguém gritar em meus ouvidos, enquanto sacudia meus ombros.
Eu achava que se tratava de Bailey, mas a minha visão turva não me deixava ter certeza. “Acordei” do transe que tinha se instalado em mim e balancei a cabeça. Não, nós não perderíamos aquela paciente. Não enquanto eu estivesse ali. Girei o corpo, encontrando um dos residentes que me encarava em expectativa pelas novas instruções sobre caso e respirei fundo o máximo que consegui, me preparando para dar a instrução mais difícil em toda a minha carreira na medicina.
- Alguém corre achar o ! Agora! E fala que a irmã dele tá no hospital. – O silêncio que se seguiu na sala depois que as palavras saíram da minha boca foi tão grande que, se um alfinete caísse no chão, pareceria igual ao barulho de uma bomba atômica sendo detonada.
Aquela não era uma paciente como todas as outras, quase todos os ali presentes a conheciam, ou ao menos já tinha ouvido da sucessora de Addison Montgomery na Neonatologia do Saint Paul, que tinha largado a medicina apenas dois anos depois de virar staff – e um após se tornar mãe – para se dedicar em tempo integral a uma de suas grandes paixões, a corrida.
Depois que o residente saiu, branco feito papel, mas rápido como foguete, fazer o que eu havia pedido, foi minha vez de correr, para onde minha esposa estava. Abaixei um pouco a postura, usei parte da força que eu nem sabia de onde estava tirando, para tentar controlar os olhos, que sentia quererem começar a vazar a qualquer segundo, e a voz – já que a minha única vontade no momento era gritar, mesmo sabendo que era o que eu não podia fazer, nem pelo local e nem pela situação – e sussurrei, torcendo muito para que pudesse me ouvir e me entender:
- ? Sou eu, eu estou aqui. Você está no hospital, está tudo bem agora. Eu vou ficar com você todo o tempo, eu prometo. Prometo. Mas eu vou precisar te entubar agora para poder cuidar de você, ok? Fica calma, você vai ficar bem, amor. Eu amo você. – Senti a garganta trancar e respirei fundo.
Não era hora de chorar, era hora de ser forte e agir. Eu precisava ser forte por nós, pela minha família. Fiz um leve carinho na bochecha dela, já aproveitando para analisar e constatar que, graças a Deus, só haviam ferimentos leves no local. Me afastei um pouco, pedindo os materiais necessários para proceder com a intubação e logo depois iniciar os procedimentos que nunca, em toda a minha vida, desejei realizar.
Alguns momentos depois – provavelmente poucos minutos, mas que estavam parecendo horas – percebi uma nova movimentação dentro da sala e nem precisei me mover para saber que era . E que ele estava em uma situação provavelmente muito parecida com a minha. Fiz algumas tentativas de o chamar para onde eu estava, mas ele, assim como eu alguns minutos atrás, estava parado no meio da sala, pálido e parecendo não escutar nada. Se tivesse outra solução, eu a usaria de bom grado, mas não tinha, eu precisava do , ele precisava me ajudar. Então eu fiz o que tinha sido a solução para mim naquele dia.
! ACORDA PRA VIDA, DROGA! VEM CÁ ME AJUDAR! – finalmente pareceu consciente, fungou e passou o dorso da mão no nariz, logo pedindo que alguém alcançasse uma luva de procedimento para ele calçar, e depois vindo até mim.
– Ela tá sedada? – O Chefe da Traumatologia perguntou e eu afirmei, dizendo que a havia sedado alguns minutos atrás. – Alguma fratura exposta? – Tornou a perguntar, sem olhar para mim, e suspirei, sabendo que não era portador de boas noticiais. Aliás, elas eram péssimas.
– Não, sem fratura exposta. Uma provável hemorragia cerebral e… Lesão na coluna. – Senti o estômago revirar por ter que dizer aquilo, enquanto fechou os olhos com força, parecendo tentar absorver aquela informação.
– Ah, merda! – Ele xingou, provavelmente com vontade de jogar alguma coisa na parede a ver quebrar em milhões de pedaços. Eu entendia, entendia perfeitamente, pois era a minha vontade também. Vontade de quebrar algo e ver ficar em cacos, exatamente igual estava o meu coração naquele momento. – Porra, pirralha! – O irmão da minha esposa voltou a xingar, e eu sabia que não era quem ele xingava. Era toda aquela situação terrível e ridícula que estávamos vivendo. Era simplesmente injusto. Ele começou a ajeitar a maca para que pudéssemos levar para a sala de exames, e realizar uma tomografia, para ter a real extensão do que tinha acontecido. Eu só não tinha certeza se eu queria isso. – , alguém chama . – pediu para que chamassem a esposa, e eu suspirei, querendo gritar em frustração pela centésima vez naqueles poucos minutos. surtaria, eu tinha certeza de que ela surtaria assim que toda essa turbulência tivesse acabado. Era sempre assim, ela se mantinha forte por todos, até que chegasse o momento em que ela pudesse desabar.
– Você consegue operar? – Perguntei, preocupado com o estado em que meu cunhado estava, enquanto nós empurrávamos a maca pelos corredores do hospital. Eu também estava mal, isso era claro e óbvio, mas eu sabia que não conseguiria ficar longe de nem por um momento. E eu tinha prometido que ficaria com ela, portanto, iria cumprir.
– Sem ela? Não. – Respondeu, se referindo a esposa, que era nossa enfermeira instrumentista. – Hoje simplesmente não dá. – O meu cunhado suspirou, olhando para a irmã. – Merda, ! Por que você não me chamou antes? Como você conseguiu? – disparou um monte de perguntas, como se fosse uma metralhadora giratória e eu apenas ri morto.
– Eu mandei te chamar assim que eu vi que era ela. – O vi afirmar com um aceno de cabeça. – E eu estou no automático. – Suspirei, cansado.
– Porra. O que a gente vai fazer? – parecia bem desesperado, como se estivesse a ponto de chorar a qualquer momento.
– Salvá-la, . É a única coisa que a gente tem pra fazer. – Declarei, sentindo a voz embargar e a garganta fechar.
– Eu não consigo! Eu simplesmente não consigo! – choramingou baixo, com as lágrimas descendo feito uma cachoeira nos olhos, o que ele tentava secar inutilmente com as costas do braço. Suspirei derrotado. Ele achava que eu conseguia? Claro que não! Era lá, a minha , poxa.
– Engole, por favor. – Pedi, praticamente implorei, mordendo a boca. Ouvi meu cunhado fungar mais algumas vezes, na certa tentando acalmar e cessar o choro.
– Você vai ser forte, pirralha, e eu não aceito menos que isso de você. Se nós dois vamos lutar por você, você também vai. – O disse, apertando a mão da irmã com força.
– Ela é mais forte que nós dois juntos!– Sorri verdadeiramente pela primeira vez desde que aquele pesadelo tinha começado. Era a mais pura das verdades, era uma das pessoas mais fortes e focadas que eu tinha conhecido em toda minha vida, e eu me sentia muito orgulhoso e honrado de participar da vida dela.
– Eu sei. Mas não custa a gente lembrar disso, não é? – deu de ombros, olhando para mim, e eu juro que não sei quem tomou a iniciativa, mas a próxima coisa que senti foi os braços do meu amigo ao redor de mim, em um abraço forte, que deixava transparecer claramente que sabíamos o que o outro estava sentindo naquele momento. Não falamos nada, não tinha a menor necessidade. Nós dois estávamos com medo, muito medo, mas também sabíamos da nossa capacidade, e não era hora de duvidar disso. Juntos, nós conseguiríamos.
– Eu vou matar vocês dois! MATAR! – As portas do elevador foram abertas, revelando uma que podia muito bem ser definida naquele momento como ‘capeta de jaleco’. Ela parecia realmente pronta para matar um de nós. Talvez os dois. Muito possivelmente os dois.
– Depois da cirurgia, , depois! – Falei, sabendo que era o mesmo que nada. Ela não estava me escutando.
– Sinceramente? Eu nem sei porque merda eu ainda instrumento vocês. – A enfermeira reclamou. – Não é assim que as coisas funcionam, eu preciso ser avisada, droga! – Aquela era uma forma bastante estranha, mas ainda sim, bem clara de desespero.
estava claramente desesperada. Embora tenham se conhecido de forma mais efetiva através de , quando o traumatologista começou a namorar a enfermeira, as duas não eram meras cunhadas, elas eram amigas, praticamente irmãs. O que tinha acontecido, afetava na mesma proporção que afetava a mim e . Todos somos uma família.
– Ninguém avisa a gente dessas coisas, . Infelizmente. – Respondi baixo. Infelizmente era a maior certeza, nada nos preparava para os acontecimentos futuros de nossa vida, principalmente os ruins. Eu apenas não digo que queria ter sido preparado, porque a minha maior vontade era de que nunca tivesse acontecido.
– Eu vou organizar a sala. Craniotomia? – A instrumentista perguntou diretamente para mim, se referindo à cirurgia que seria feita, e afirmei, vendo ela sair pelo corredor.
– Vou precisar ser muito cuidadoso com o corte do cabelo, ou ela vai me matar! – Tentei brincar, querendo afastar ao menos um pouco o clima pesado que tinha se instalado, eu sabia que era justamente o que minha noiva estaria tentando fazer, se a situação fosse outra. riu, meio no desespero. Não era fácil saber que sua irmã estava prestes a fazer uma cirurgia.
– Eu sendo você tirava logo tudo. – O mais velho dos alfinetou, me fazendo rir quase alto. Só se eu quisesse ser morto pelas mãos da minha querida esposa!
– Eu ainda quero estar casado, ! – Rimos do meu quase esganiço.
– Essa garota ainda vai matar a gente. – falou, enquanto entravamos na sala da tomografia.
– Hoje foi um teste! – Ri morto.
– Já passamos. Não precisa de mais, pirralha! – Rimos. Realmente, tínhamos passado por aquele teste com louvor, portanto, eu desejava nunca mais precisar passar. Arrumamos na mesa de exame e fomos para a cabine da sala de exame.
A situação não era boa, não era mais ou menos e muito menos das melhores. A situação era a pior coisa que estava acontecendo na minha vida, nunca em tantos anos de medicina eu quis estar tão errado. Nunca! O cérebro de estava tomado de sangue, o que era bem perceptível porque eu não conseguia mais ver as invaginações fisiológicas, só conseguia ver uma grande imensidão lisa e aquilo me embrulhou o estômago de um jeito que eu não conseguia explicar. Com o tórax estava tudo bem e todo o risco de fratura nas costelas tinha sido descartado, o abdome estava tudo bem também, sem sangramentos. Mas infelizmente, algo que eu não queria ver, eu vi. A T6 estava completamente esmagada e olhei pra em busca de algo diferente. Eu só queria estar delirando.
- Merda! Merda! Merda, ! – Suspirei derrotado, encarando a tela sem acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Na verdade, eu não queria acreditar. Era doloroso e injusto demais com . Pela primeira vez, estava odiando ser neurologista e me amaldiçoando por não ter dado ouvidos aos meus pais, quando eles falaram que eu devia ter feito Engenharia. Com certeza estava se sentindo da mesma forma, por ter largado o Direito.
– Eu vou matar minha irmã depois dessa cirurgia. – suspirou, tão frustrado quanto eu, chegando a se jogar para trás na cadeira de rodinhas em que estava, enquanto eu só queria vomitar.
– Me diz que isso é reversível. – Dessa vez não se tratava de uma quase súplica, era das mais claras e verdadeiras possíveis, um verdadeiro pedido de socorro. Eu precisava estar errado, eu precisava que me dissesse que eu estava errado! Eu só queria isso.
– Eu vou tentar ate o último minuto. – Senti meu coração pesar, como se tivessem colocado uma bola de ferro no lugar. Porra, por que ele não tinha me dito o que eu queria? Tentar não era o bastante! Mas o que mais doía era saber que aquilo não estava em nossas mãos.
– Vamos. Quanto mais tempo a gente passar aqui, pior fica. – O traumatologista deu um tapa na mesa, levantando em seguida. Fiz o mesmo, ainda que a contragosto e o encarei.
? – Ele se virou, me permitindo ver o vermelho em seus olhos. – Melhor trabalho das nossas carreiras. Foca nisso.
– Digno de Harper Avery. – Ele garantiu, tão sério quanto eu. – Vamos lá. – Me deu um tapinha nas costas, antes de seguirmos para o bloco cirúrgico.

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Estava fazendo a lavagem de minhas mãos e me preparando psicologicamente para o que estava por vir, enquanto observava , já dentro da sala de cirurgia, conversando com a própria esposa, enquanto ela dividia a atenção no que o marido falava e na arrumação dos equipamentos e utensílios que seriam necessários na operação. Certamente a instrumentista estava tentando acalmar, ao menos um pouco, o traumatologista, visto que ele seria de grande importância naquela cirurgia, sem contar toda a tensão que nos rondava. Suspirei pesadamente. A verdade é que eu também precisava do apoio que meu cunhado estava recebendo, mas a pessoa responsável por aquilo estava na mesa de cirurgia naquele momento, esperando que toda a experiência que eu tinha adquirido durante os anos praticando medicina fizessem efeito a seu favor.
– O que você acha que está fazendo? – Escutei uma voz seca se fazer presente no cômodo, cheia da mais extrema arrogância como sempre.
Pois é, infelizmente eu conhecia bem o ser que tinha, com certeza, vindo só para encher o meu saco. A única coisa que eu não sabia era como diabos ele tinha ficado sabendo do que tinha acontecido e aparatado lá tão rápido. Definitivamente, não era o meu dia de sorte. Eu só esperava que a maré melhorasse. Aliás, eu precisava disso.
– Lavando a mão. – Respondi curto. Se ele achava que eu perderia o meu precioso tempo o dando atenção, ele podia pensar de novo. Eu tinha coisas muito mais interessantes e importantes com o que me preocupar.
– Para que, ? Você está bem enganado se vai entrar nessa sala. Eu vou assumir. – Começou a se lavar. MAS QUE PORRA ERA AQUELA? Ah, mas se ele achava que eu o deixaria assumir aquela cirurgia, ele estava enganado. Bem enganado. Ele que tirasse o cavalinho da chuva.
– Como é que é, Robinson? – Esganicei, mas só para tirar a prova se ele teria a petulância de dizer tamanha bobagem outra vez. Eu tinha certeza que sim, mas queria ver até onde aquele sem noção poderia ir.
– Eu vou assumir a cirurgia. Você não tem condições emocionais pra isso. Agradeço se ficar na UTI esperando! – Mas era o quê? Eu tinha escutado aquilo mesmo? – Você também, ! Pode sair daí, já liguei pra equipe do Hospital Geral. – Soltei a risada mais alta e irônica possível. Aquele cara era um piadista.
– Nossa, já tentou a carreira de humorista? Porque olha, tem futuro, depois dessa piada. – Ironizei. Apertei o botão do interfone que permitia comunicação com a sala de cirurgia, como Peter tinha feito anteriormente, para falar com meu cunhado. – Não se mexe, .
– EU NÃO SAIO DAQUI PRA LUGAR NENHUM. VOCÊ NÃO ENCOSTA NA MINHA IRMÃ, ROBINSON. – gritou de lá de dentro, certamente nervoso com a presença do ser indesejado, que já tinha causado problemas demais para ele e . Suspirei. Não valia a pena se estressar com aquele desgraçado, e sabia disso.
, calma. Não vale a pena.
, calma. Não vale a pena. – Robinson debochou, e eu juro que precisei usar muita força para lembrar que não valia a pena me estressar. – Vocês ainda andam em bando? – O ser que sujava o nome da neurologia perguntou, me encarando com um olhar de tédio imenso. Respira, , respira.
– Se por bando, você diz família, sim. Andamos. – Sorri ironicamente. Se ele queria ser debochado, eu também seria. O triplo.
– Então pode tirar sua família e aquela mulher da sala? Eu já disse que eu e minha equipe vamos operar. – Além de tudo, ele ainda é surdo? Será que o cara era chato assim de nascença ou fazia curso? E aquela mulher é minha cunhada e uma das minhas melhores amigas, seu filho da puta!
– Bom, eu também disse que eu e a minha equipe vamos operar. Então nós vamos. – Usei de toda a calma que eu já quase não tinha mais por causa de toda aquela ladainha, para explicar uma coisa que deveria ser muito simples para uma pessoa que tinha frequentado os anos iniciais do colégio, quanto mais uma que tinha ido para a faculdade. – Quando o pessoal do Geral chegar, eles podem assistir. – A minha aparente calma iria o fazer perder a compostura, mas eu me importava? Não, eu não me importava.
– Olha aqui, moleque. – Ele se escorou no lavabo. – Tudo que você sabe hoje, saiu da minha cabeça, portanto não ache que pode muita coisa. Não importa se vocês estão acompanhados de uma das múmias fundadoras desse hospital, eu já disse que vou operar porque eu sou melhor e posso salvar a sua mulher! – Ai que você se engana, meu caro Robinson, ai que você se engana.
– Caso você não lembre, vou refrescar a sua memória. Você não é meu chefe mais, eu sou o Chefe da Neurologia. E o é o Chefe do Trauma. Então nos somos mais do que qualificados para operar. – Falei sério, mas respirando fundo e pedindo as divindades, paciência. Porque se eu pedisse força, partia para a agressão. – E não, Peter, tudo que eu sei hoje é fruto do meu esforço, do meu empenho pra chegar onde eu estou agora. Foi porque eu estudei pra caramba. Eu observei os atendentes daqui, inclusive você, claro, mas se eu não quisesse, não tinha valido de nada. Múmia fundadora? Nossa, é com essa atitude que você entra para as cirurgias? Deprimente, viu? – Debochei com a maior dose de cinismo do mundo na voz. – E eu não me importo se você tem milhões de anos de experiência e o caralho a quatro, você não é o melhor para a minha mulher! E quem vai salvar ela somos eu, o irmão dela e a ! – O Robinson apertou o nariz, na junção das sobrancelhas, como se estivesse saturado das minhas palavras. Eu também estava, colega, mas eram das suas.
– Pelo universo, ! Você acha que tem colhão pra fazer isso? Eu estou tentando te fazer não matar a sua esposa! – Ele não tinha falado aquilo, ele não tinha falado aquilo...
AQUELE FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! QUEM ELE ACHAVA QUE ERA PARA FALAR UMA MERDA DAQUELAS NA MINHA FRENTE? Perdi todo resto de paciência e compostura que me restava com aquele desgraçado e avancei para cima dele, o obrigando a dar um passo para trás. Mas parei um momento antes de enfiar a mão na cara dele, lembrando o que eu tinha me falado mil vezes naqueles últimos poucos minutos. Não valia a pena. Minha mão era valiosa demais para isso.
– Eu só não te soco agora, porque eu tenho coisa mais importante pra fazer. Mas nunca, nunca mais repita isso. Eu tenho muito mais do que você de qualquer coisa. – Apontei bem para ele, querendo que ele guardasse bem minhas palavras e aprendesse aquilo de uma vez por todas. – Como eu já falei, quando o pessoal do Geral chegar, deixe-os entrar, por mim tudo bem. Já você, vai encher o saco de outra pessoa, por que eu tenho trabalho a fazer. Passar bem. – E sai, o deixando com cara de tacho.
Com certeza, essa seria uma das primeiras coisas que eu contaria para assim que ela acordasse.



Capítulo 2

’s POV

Depois de quase 10 horas de cirurgia, e eu estávamos na UTI, realizando os exames pré operatórios. Eu checava os sinais vitais, com meu estereoscópico preferido, que tinha sido presente da própria , e fazia os testes neurológicos básicos, enquanto monitorava a sedação, através da Escala de Ramsay – afinal não poderia ser fraca demais, que poderia causar dores desnecessárias, nem forte demais, que seria capaz de agravar o quadro. Estava tudo bem, tudo ocorrendo dentro do esperado, e se Deus quisesse, continuaria assim. Agora era esperar as primeiras 24h, consideradas as mais críticas, e ir avaliando. Mas minha esposa era forte, e iria tirar de letra.
- Ai, pirralha, outra dessa e esse coração velho vai para o buraco. - reclamou com a irmã, em tom de brincadeira. Assim como eu, ele estava visivelmente aliviado. As últimas horas não tinham sido fáceis para ninguém.
- Eu não sei se as minhas pernas pararam ou começaram a tremer agora. – Ri morto, fazendo meu cunhado rir alto. – Mas o Robinson aparecer aqui? Desnecessário pra caramba. – Rolei os olhos, ouvindo o bufar desgostoso. Juro que se Peter se atrevesse a encostar em , cortaria a jugular dele com um bisturi. E eu não faria nada para impedir, muito pelo contrário.
- Nem me fala daquele estorvo. Eu ‘tô por aqui com ele. – O traumatologista reclamou, passando o dedo pelo pescoço. - Eu nem sei como você aguentou sete anos na cola daquele merda. O que droga ele queria aqui?
- Encher a porra do saco, como sempre. – Suspirei, saturado. Era incrível como aquele cara tinha capacidade de ser uma bela porcaria, reconhecida por todos que já conviveram com ele.
- A gente quase saiu no tapa depois que o Ben nasceu. – relembrou o fatídico dia em que Peter Robinson tinha sido posto em seu lugar. Foi memorável! – Queria ter feito bem pior, mas eu ainda era residente e, por mais que minha mulher merecesse que eu batesse nele até ele, no mínimo, desmaiar, eu tinha um filho para criar. Fora que me mata se eu sonhar em machucar as mãos. – Rimos. É, realmente quase tinha ido para a cova aquela vez. tinha ficado o verdadeiro Capeta de Jaleco vinho.
- É, tem isso. E ele não vale uma demissão. – Concordei, apesar de que, na minha cabeça, eu tinha a ideia de que hoje valia. Se ele passasse um pouco mais dos limites, eu não respondia mais por mim. - Tá tudo bem aí? – Perguntei ao meu melhor amigo, quando percebi que ele havia terminado a realização dos exames que competiam a ele. Ele sorriu largo.
- Sinceramente? Melhor não poderia estar. Fez direitinho o que eu pedi, pirralha. – Elogiou, a beijando na testa.
- Graças a Deus! – Ri morto. Ouvir aquilo me aliviava em um nível que eu jamais seria capaz de explicar. - Olha, você não pode me dar um susto desse. Nós temos uma filha para criar! – Assim que meu cérebro processou as palavras que saíram da minha boca, senti a vida deixar meu corpo pela segunda vez naquele dia, a medida em que meus olhos e arregalavam e, certamente meu rosto empalidecia. Segurei na guarda da cama, me impedindo de desmaiar. Meu Deus! Meu Deus do céu! A Clara!
- ? – Ouvi a voz de me chamar, seu tom era de preocupação com meu estado, mas parecia muito longe. E eu não tinha forças para responder.
- Não! Não, não, não, e não. – Sussurrei, nervoso. O mais nervoso que eu já estive na vida. Aquilo não poderia estar acontecendo, simplesmente não podia!
- , caralho! O que foi? – se manifestou mais uma vez, agora já um pouco mais nervoso com o meu silêncio repentino.
- CLARA! – Foi tudo que saiu da minha boca. Minha garganta tinha fechado. Uma bola de ferro tinha se instalado nela.
- Depois você conta a Clarinha. Deixa a poeira baixar! Vai ser mais doloroso se você contar agora, cara. – Agora tentava me acalmar, dando opinião sobre uma das, com certeza, piores situações que eu passaria nos próximos dias. Mas eu realmente desejava que aquele fosse o maior dos meus problemas. Ah, como eu desejava. Suspirei, antes de me manifestar.
- A Clara, ! A Clara! Eu não sei onde ela tá! Eu não sei onde minha filha tá! – Exclamei em pânico. Eu estava em estado de pânico. E se eu achei que tinha tremido quando vi minha mulher naquela maca na emergência, estava enganado. Meu estado atual era 20 vezes pior.
- MERDA! – O Chefe do trauma xingou. - Liga para minha mãe! Ela só pode estar com a minha mãe! – pediu, também assustado.
- Ela tá sempre com a mãe. – Eu sabia que, se Clara estivesse com a mãe no momento do acidente, teria sido trazida para o hospital também, claro que sabia. Mas isso não acalmava meu coração. Eu precisava ter certeza. Eu precisava ter certeza de onde ela estava.
- Dessa vez ela tá com a avó! Liga para minha mãe! – pediu mais uma vez, completamente nervoso com a minha total falta de reação. Eu estava estacado, olhando para o nada e pensando em tudo.
- ! VAI LIGAR PARA MINHA MÃE! VOCÊ PRECISA FALAR COM A SUA FILHA! – O traumatologista gritou, sacudido meus ombros, completamente saturado com a minha falta de posicionamento. Senti uma lágrima descer do meu olho e balancei a cabeça, “acordando".
- Você termina aqui? Eu preciso achar minha filha. – Perguntei, me referindo a checagem dos equipamentos médicos, mas nem esperei resposta antes de correr porta afora, apenas ouvindo meu cunhado pedir que eu desse retorno sobre a situação assim que possível.

-x-x-x-

Cheguei na sala de descanso, onde certamente era o lugar mais tranquilo do hospital todo, e peguei o celular, com as mãos tremendo mais do que vara verde, e encarei a tela escura do aparelho. Eu não lembrava de nenhum integrante da equipe da minha mulher, eu nem lembrava ao menos se eu tinha algum salvo no celular. Ok, . Respira. Respira. Você já passou por tanta coisa hoje, vai passar por mais essa também. Foco em achar a Clara. Fiz o que o meu ‘eu interior' estava mandando e respirei fundo, começando a busca em meus contatos, logo encontrando Randall, o dono da equipe.
- Atende, atende, atende. – Pedi em uma quase súplica, praticamente comendo as unhas, tentando aliviar, ao menos um pouco, o estresse do mundo. O hábito não era bom? Não era. Mas era a minha última preocupação.
- ! – O homem quase gritou, parecendo aliviado com a minha ligação. Certamente todos da equipe – uma grande família, como sempre dizia – estavam ansiosos por notícias. Eu só esperava que ele pudesse aliviar também o meu coração. - Como ela tá? Como a tá?
- E-ela... ela tá bem. Acabou de sair da cirurgia – Funguei.
- Eu sinto muito, cara, sinto muito pelo baque! – O homem que estava já nos seus 60 anos, fez uma tentativa de conforto, que eu agradeci sinceramente. – Mas e você? Como você tá?
- Eu não tenho certeza. – Fui o mais sincero possível. Eu realmente não sabia responder àquela pergunta. Acho que eu só ficaria totalmente bem quando pudesse levar para casa. Mas por hora, eu precisava de Clara. Eu precisa saber da minha filha. - Randall? - Perguntei baixo, apreensivo. Randall pediu que eu continuasse. - A minha filha… Você sabe se ela tá aí? Ou onde ela tá? – Meu coração apertou e eu só queria chorar. Eu estava com tanto medo da resposta!
- A Clarinha? A não veio com ela para cá hoje, chegou dizendo que precisava ser rápido porque tinha prometido ajudar a Clara e a mãe dela com algo, por isso que não tinha trazido, ou a mocinha não ia querer mais sair daqui. – Foi o que bastou para que o choro que eu estava prendendo até então, saísse. Aos montes, como um jato, e alto. Tanto que eu tinha quase certeza de que poderiam me ouvir por detrás da porta. Mas não importava, o meu alívio era maior e mais importante do que tudo. CLARA ESTAVA BEM! Provavelmente demolindo a casa dos avós, como ela sempre fazia quando resolvia brincar com todos os brinquedos de uma vez, mas bem. Eu não poderia estar mais aliviado.
- ? ACONTECEU ALGUMA COISA? – Randall gritou, certamente preocupado com o meu choro. Ele não fazia ideia de como tinha me dado a melhor notícia do dia. Funguei e respirei fundo, tomando fôlego para explicar a situação.
- Você tirou um caminhão das minhas costas. – O tom de agradecimento em minha voz era bem visível, deixando bem claro o motivo de toda a emoção, o que foi entendido por Randall, pois o suspiro dele também saiu aliviado.
- Cara, ela tá bem! Eu tenho certeza como a Clarinha está bem, não se preocupa com ela! Ela tá com a avó, e está bem. A também vai ficar, confia! Vocês são os melhores desse país.
- Obrigado, Randall. Obrigado mesmo! – Agradeci, com a maior sinceridade que existia dentro de mim, enquanto tentava secar as lágrimas, ainda que inutilmente.
- Quando precisar, você sabe que a gente tá aqui. – Agradeci. - Você nos dá notícias? E nós queríamos visitar a , quando for possível.
- Dou notícia sim! – Sorri. - E com certeza vocês podem vir visitar nos próximos dias, a vai adorar!
- Obrigado, cara! Obrigado mesmo por ter salvo a vida dela, você é foda! Mas liga para Clarinha, fala com ela e conforta seu coração! – Randall sugeriu, e eu afirmei, ainda que ele não pudesse ver.
- Vou fazer isso. Mais uma vez, obrigado! Eu mantenho vocês informados! – Garanti.
- Nos quem agradecemos! – Ele foi sincero. - Tchau, meu amigo! E se acalma um pouco!
- Acho que isso só quando eu tiver a Clara comigo. – Ri, ainda que fosse a mais pura das verdades. - Tchau!
Assim que desligamos, coloquei as mãos sob o rosto e desabei a chorar mais uma vez, aquele choro alto e intenso, que faz o corpo todo sacudir. Chorei por tudo. Chorei de medo, de frustração, de raiva para droga de situação que tinha acontecido. Mas especialmente, chorei de alívio. A minha família estava bem! Sim, os próximos dias, até mesmo meses, não seriam fáceis, nós iríamos passar por muita coisa, mas o que mais existia entre a gente era amor, e por isso, conseguiríamos superar o que fosse necessário.
Não sei quanto tempo depois, ouvi a porta da sala de descanso ser aberta e logo fechada, indicando que alguém tinha entrado no cômodo. Não me dei ao trabalho de olhar quem poderia ser, já sabendo que, muito provavelmente, era . Eu só esperava que não fosse um casal disposto a se pegar. A sala já estava reservada para a minha fossa. Respeito!
- Heeey, ! – Realmente, era uma pessoa da família , mas era a que mandava, tanto dentro de casa, quanto no hospital. O tom de voz de soou completamente diferente do habitual, sempre alegre e animado, mesmo depois de um longo plantão. O de agora, era de uma mãe preocupada, que era o que realmente ela estava. Preocupada e apreensiva. Sem esperar qualquer convite desnecessário, sentou no colchão ao meu lado, me fazendo levantar a cabeça e encará-la. Certamente meus olhos estavam mais vermelhos do que se tivesse ficado três dias sem dormir.
- Hey. – Tentei sorrir, falhando vergonhosamente.
- Ei.... – Senti um afago confortante em minhas costas. - A Clarinha tá bem, não tá? – Juro que não queria, mas quando a mulher tocou no nome da minha filha, o choro voltou com força total. arregalou os olhos.
- A-a Louise me disse que s-sim. – falou meio desesperada, certamente deduzindo que tinha acontecido alguma coisa com a sobrinha. A mulher me puxou para um abraço de lado, bem apertado e consolador, que eu não pensei em segundo algum em negar. Respirei fundo algumas vezes, buscando me acalmar um pouco, para que ao menos pudesse falar, inspirando e expirando com cuidado.
- Ela tá bem. – Sussurrei baixo e esganiçado, mas a proximidade permitiu que ela pudesse ouvir.
- Isso é bom, ! – sorriu, tentando me acalmar, ainda me abraçando com força. era uma boa amiga, tinha acertado em cheio.
- Eu sei, mas eu não consigo parar! – Esganicei sobre o choro.
- Chora, pode chorar, vai fazer seu coração ficar menos pesado. – Me consolou, enquanto fazia carinho em meu cabelo. – Sinceramente? Eu nem sei porque você só começou a chorar agora! – Rimos, meio mortos.
- Eu não podia chorar antes... Eu tinha que fazer alguma coisa. Ela dependia de mim! – Funguei, sentindo o peito aliviar, ao menos o pouco que a situação permitia. Se tinha uma coisa que eu tinha aprendido na minha profissão, era controlar minhas emoções quando elas não podiam ser extravasadas. Eu agia primeiro, e depois pensava. Era como eu tinha dito para naquele dia mais cedo: eu estava no piloto automático. precisava de mim, e ainda que pudesse parecer estranho devido à situação, eu precisava dela do mesmo jeito. Ou até mais. Naquela hora, não tinha tempo para desespero. O desespero que estava se esvaindo agora.
- Mas você foi incrível demais, eu juro que foi a sua melhor cirurgia em toooda a sua carreira. Foi um trabalho muito lindo, , você não tem noção de como eu me enchi de orgulho em ver você e o trabalhando assim! – A instrumentadora elogiou sinceramente, com um sorriso no rosto, e me fazendo rir meio morto. A minha melhor foi a que eu mais odiei fazer, só esperava que tivesse sido o suficiente. Ela me olhou, curiosa. - Mais alguma coisa que você queira gritar?
- Acho que não. – Neguei com um aceno de cabeça. Suspirei e a olhei. - Por acaso você já viu se tá na mídia? – era uma das mais conhecidas corredoras da NASCAR na atualidade, e ainda era filha de um dos maiores pilotos da história, obviamente logo a imprensa estaria envolvida. Mas eu não queria e nem conseguia lidar com isso agora. Eu só focaria em proteger Clara disso tudo.
- Já vi sim, vi algumas coisas e a Lou disse que vai deixar a Clah longe disso. Ela não precisa disso agora. – Suspirei aliviado.
- Obrigado, . Mesmo. – Usei de toda a sinceridade que existia em mim. Sem o casal , eu não sabia se teria superado esse dia caótico. Ela sorriu e me deu um beijo na cabeça, como se eu tivesse a idade do filho dela.
- Já falou com a Clara? – Neguei, falando que iria ligar para Louise e pedir para falar com minha filha, ainda que já fosse um pouco tarde.
- Quer tomar um café antes de ligar? Te pago um café bem amargo. – Piscou, me fazendo rir e depois afirmar. Isso seria bom. Aliás, uma das melhores opções para o momento. Ela suspirou e sorriu fechado. – Mas e você... Tá melhor, Capitão?
- Meio perdido. – Exclamei sincero, ouvindo afirmar. Ela me entendia, e com certeza, estava tentando não pensar em algo assim acontecer com a família dela - Eu não sei se eu fico ou vou para casa. Honestamente? Eu queria me dividir!
- Okay, tenho uma proposta para te fazer, tudo bem? – Afirmei, a esperando continuar.
- Prossiga.
- A Clah vai te encher de perguntas. - Umedeceu a boca, e eu afirmei. Com certeza ela faria muitas perguntas, eu só não sabia se tinha todas as respostas. - Já é noite, , ir agora só iria te quebrar um pouco mais e a Clarinha precisa do seu melhor. Liga para ela agora e tenta passar essa noite aqui com a , ela também precisa de você. Eu passo na Lou, pego a Clara e levo ela para dormir com os meninos. Amanhã, eu deixo ela lá na Lou e você vai ver sua princesa. – tomou fôlego e sorriu. - O que você me diz? – Eu tinha a melhor família do mundo! Definitivamente a melhor! Me joguei nos braços da minha cunhada, a abraçando forte, totalmente agradecido.
- Se o deixar de te valorizar, eu o mato! – Nós rimos, ou melhor, eu ri, gargalhou alto. - Eu nem sei como agradecer!
- Empurrando seu amigo para casa. – Ela piscou, me fazendo rir. - Ele vai fugir de mim perto da hora de ir para casa. Suponho que se esconder no banheiro! Você conhece!
- Ele vai para casa, pode deixar, eu me encarrego disso. Nem que eu feche a UTI! – Foi a minha vez de piscar e a dela de rir.
- Obrigada, de coração! – Ela agradeceu, pondo a mão no peito. - A Lou vai querer vir mais tarde, ok?
- Tudo bem! Vai ser bom para as duas. – assentiu, concordando inteiramente.
- Vamos lá? – A mulher levantou e me estendeu a mão para me ajudar a levantar, que eu logo aceitei. Já de pé, a abracei de lado, retribuindo o conforto que ela tinha me passado. Nós éramos família, se não nós, quem nos apoiaria?
- Obrigada! – Ela agradeceu baixo. Era certo que ela desabaria assim que chegasse em casa. Era sempre assim.
- ‘Tô aqui para isso. – Beijei sua bochecha, que sorriu de volta para mim, antes de sairmos da sala.

-x-x-x-

Após o café com donuts com , onde tivemos oportunidade de conversar e aliviar um pouco nossos corações, voltei para a sala de descanso, novamente pelo motivo de ser um lugar mais reservado para que eu pudesse ligar para a minha sogra e tentar falar com a minha filha. Nem de longe seria um momento fácil, além de acalmar Louise para que ela entendesse que agora estava tudo bem, eu teria que cuidar o máximo possível para não deixar minhas emoções muito transparentes para Clara. Eu não iria dar a notícia por telefone, não seria justo com ela, por isso eu não podia deixar que ela ficasse preocupada, achando que tinha acontecido alguma coisa. Amanhã, quando a visse, com calma, e de uma maneira que ela entendesse, contaria a ela. Respirei fundo e procurei em meus contatos o número do celular da minha sogra, que atendeu logo no segundo toque.
- Ai, meu Deus, . – Ela falou com a voz embargada, provavelmente ela estava chorando sozinha em algum canto da casa. - Como minha filha está? Por favor, me diz que ela tá viva! – O enorme desespero no pedido fez meu coração apertar.
- Ela tá bem, Louise! Nós fizemos a cirurgia e agora ela tá na UTI, mas ela tá estável... O tá com ela. – Expliquei, querendo tranquilizá-la.
- Oh, meu Deus. – Ouvi o choro da mulher se intensificar, o que durou vários minutos, nos quais não me pronunciei, apenas respeitei seu momento. Se estava difícil para mim, eu nem queria imaginar como estava sendo para Louise. era sua filha! E o marido também havia sido piloto, então ela sabia os riscos, sabia tudo que podia vir a acontecer. Mas, apesar disso, nunca tinha se oposto ao sonho da filha. Pelo contrário, era a maior incentivadora e fã n°1. Ok, talvez depois de Clara.
- A me ligou para dizer e eu fiquei tão desesperada, mas você me ligou agora e me deu tanto medo! – Ela chorou mais um pouco e depois respirou fundo algumas vezes, se recompondo.
- Não precisa ter medo, ela tá bem. Ela vai ficar bem. A é forte, e nós vamos superar isso, todos nós. Eu prometo! – Tentei passar o máximo de confiança possível. Não era da boca para fora, eu realmente acreditava nisso. Nós ficaríamos bem.
- Nós vamos superar. – Louise confirmou, convicta, e depois suspirou. Eu até já sabia o que viria a seguir. A mulher se preocupava com todos com quem convivia. – E você, como está?
- Levando. Vou ficar bem. – Respondi de forma breve, mas sincera.
- Nós estamos aqui para o que você precisar, você sabe disso! – Minha segunda mãe falou, tentando me passar segurança, mas o que mais ouvi foi uma gargalhada ao fundo da ligação. Eu reconheceria aquela risada mesmo em meio a uma multidão, ou ainda que eu estivesse no autódromo lotado para a final da NASCAR. Era Clara!
- É a Clara? – O alívio tão grande e evidente em minha voz, fez minha sogra rir.
- É sim. Eu queria afastar ela da TV e da Internet, então chamei para uma aula de culinária. A gente fez bolinhos. Agora ela tá desenhando na cozinha, brincando com os confeitos e coberta de glacê. – Rimos. Eu imaginei a cena e fiquei feliz por Louise ter passado aqueles momentos bons com Clara. As duas tinham se ajudado bastante, ainda que a mais nova não tivesse consciência disso. - Você quer falar com ela? – Confirmei, e ela afastou o celular para chamar minha filha. Só ouvi passinhos rápidos e a voz animada da minha pequena dizendo ‘cadê, vovó?’ e me fazendo sorrir.
- PAPAI! - Ela gritou alto, quase como se estivesse comendo o telefone, me fazendo rir.
- Oi, fofinhaaa! – Respondi com animação!
- Você vem para casa que horas? Você vai trazer a mamãe? Ela foi treinar, sabia? Eu queria ter ido junto para ver o Benny, mas eu ajudei a vovó com o almoço! – A metralhadora giratória Clara começou a disparar, nem deixando tempo para respirar entre as frases. O estado tinha um culpado, e ele se chamava: bolinhos. Ela tinha se entupido de bolinho, com certeza, e agora estava em uma ‘overdose' de açúcar. E isso foi responsável por me fazer rir verdadeiramente pela primeira vez naquele dia. Aquela pequena garotinha era capaz de melhorar qualquer situação, por mais desastrosa que fosse.
- Você ajudou com o almoço??? Me conta! – Arregalei os olhos exageradamente, querendo mostrar minha curiosidade, ainda que Clara não pudesse me ver. Com certeza ela entenderia.
- SIM! - A cachinhos dourados soltou um grito fino. – A gente fez tortas muito gostosas! Doces e salgadas, a vovó chorou cortando cebolas! - Senti uma bola crescer em minha garganta. Eu sabia muito bem que o responsável pelo choro, não foi a cebola. – Aí eu e o vovô cuidamos do almoço. Depois a gente brincou muito! A tarde inteira, de avião do amor. A gente encheu a vovó de amor!
- Tenho certeza que ela adorou! – Eu tinha o ser humano mais incrível desse mundo como filha, sem mais! Pigarreei, para amenizar o desconforto da garganta.
- A sua voz não tá brilhante! – Além de incrível, Clara era muito esperta e observadora. Eu precisava melhorar minha atuação! - Você tá cansado?
- ‘Tô, ‘tô um pouco cansado sim. Papai trabalhou bastante hoje. – Tentei disfarçar, mesmo sabendo que não seria completamente efetivo.
- Salvou muitas vidas que nem super herói? – Sim, filha, a pessoa mais importante das nossas vidas, inclusive. Mas como eu não podia falar aquilo, me limitei a concordar.
- VOCÊ É O MELHOR! O melhor do mundo, papai! – Clarinha gritou animada e orgulhosa, como sempre fazia quando eu mencionava alguma cirurgia. Juro que tentei, mas diante daquilo, foi impossível segurar o choro. Quando eu percebi, já praticamente soluçava.
- Papai? – A voz da pequena saiu baixa e preocupada. - Você tá bem? – Como eu tinha dito, incrível. Preciosa!!!!
- ‘Tô! ‘Tô sim! – Sequei o rosto, enxugando as lágrimas teimosas que insistiam em cair, com as costas da mão. Respirei fundo. - O papai precisa falar com você, tudo bem?
- Estou ouvindo! – Ela mostrou que estava prestando atenção.
- Então... Você sabe que a mamãe tem uma corrida importante daqui uns dias, certo? – Comecei, bem devagar, querendo explicar tudo bem certinho e ouvi um gritinho estridente e fino. Ri da animação da pequena. Assim como a mãe, Clara já adorava carros. Pilota em formação? Talvez...
- Claro! E ela tá dando bem duro! Vamos ficar orgulhosos dela! – Ela estava realmente bem orgulhosa. E feliz!
- Vamos! Vamos sim! Muito orgulho! – Concordei sorrindo, antes de prosseguir. Mas então... Por causa da corrida importante, ela vai precisar treinar até tarde hoje com o tio Austin. –Mordi a boca, com medo de que ela ficasse chateada. – E eu preciso ficar no hospital hoje. Aí eu falei com a tia para você dormir lá. Tudo bem para você? – A resposta veio em forma de grito esganiçado.
- EBA! EU VOU DORMIR NA TIA . EU VOU LEVAR BOLINHOS E A GENTE VAI DANÇAR COM O TIO ! FAZER A FESTA DO PIJAMA MAIS LEGAL DE TODAS! – Eu não duvidava que Clara estava dançando no meio da sala da casa da avó. A imagem me fez rir alto. - Obrigada, papai! Eu adoro brincar com as minhas primas!
- De nada, meu amor! – Respirei aliviado. Bem aliviado.
- Papai, eu preciso ir arrumar minha mochilinha para ir na casa da tia . – Ela estava agitada, era perceptível. Eu ri e concordei. - Eu te amo do tamanho do meu coração, tá? A mamãe também! Diz para ela ficar bem porque eu vou dormir na casa da tia!
- Eu vou falar, sim, Clah. Pode deixar! Ela vai ficar contente de saber isso. – Sorri, ainda que quisesse chorar alto. - A vai te deixar aí na vovó amanhã de manhã e eu vou te buscar. Ok?
- SIM! Tudo bem! Não se preocupa, eu sou grande já! – Quando minha bebê tinha crescido assim, meu Deus?
- Grande nada, é meu bebê! – Esganicei, a fazendo rir alto.
- Um beijo! Boa noite e salva mais gente ainda! – Ouvi o barulho do beijo que ela tinha mandado.
- Pode deixar, Capitã. Boa noite, um beijão! Mamãe e papai amam você do tamanho dos nossos corações! – Devolvi o beijo e desligamos, com ela avisando que passaria de volta para a avó.
- Oi, ! – A voz da minha sogra voltou a soar, dessa vez um pouco melhor. - Eu liguei para sua mãe, tudo bem? Ela me disse que eles vão chegar em Vancouver amanhã. Para ajudar vocês e dar um suporte maior. – Ela suspirou, bem mãe. Louise era uma mãe incrível, e para a sorte da nossa família, trilhava os mesmos passos de forma exemplar.
- Mesmo? Nossa, obrigado, Lou! – Sorri, imensamente agradecido por aquilo. Eu era marido e pai, mas também era filho. E todo filho precisa dos pais, principalmente nos momentos difíceis. Mas até a mãe de mencionar, eu não tinha me dado conta do quanto precisava da minha mãe. Eu precisava do colo da dona Lorraine.
- Você quer que a Clara durma aqui, querido? – Louise perguntou meio em dúvida. Claro que para ela jamais haveria problema em eu deixar a Clara lá, principalmente naquela noite. Mas assim que ela perguntou, me lembrei de que tinha comentado que Louise gostaria de fazer uma visita para a filha naquela noite. Nem ela e nem Chris dormiriam na UTI, eu sabia, até porque iria brigar assim que acordasse, - e eu deixaria essa parte apenas para mim – mas, obviamente, se Clara fosse ficar lá, os avós teriam que inventar um motivo para a saída. Murmurei, negando.
- Não, Lou, obrigado! Eu vou ficar por aqui, mas a Clah vai dormir na casa dos tios. Acabei de conversar com ela sobre isso e ela adorou a ideia! – Sorri aliviado.
- Nossa, é mesmo uma ótima ideia! Vai ser bom para a Clara ficar com os primos! E vai fazer bem para e, principalmente, para o . – O final da frase saiu triste. Pois é. Como se não bastasse a situação com , Louise com certeza estava preocupada com o estado emocional do filho mais velho.
- Foi o que nós pensamos. Vai ser bom para pequena. – Sorri. – Lou, você pode ajudar a Clara a se arrumar? deve passar aí daqui a pouquinho.
- Eu faço sim, não se preocupa. A Clara vai estar pronta. – Agradeci e a linha ficou muda por alguns instantes. Louise parecia pensar no que falar. – , Chris e eu podemos fazer uma visita? Eu não quero atrapalhar, mas queria tanto ver minha filha! – Sua voz ficou embargada. Por certo, estava se impedindo de chorar mais uma vez.
- Hoje mesmo ainda! – Ela fungou, emocionada. – está estável, então não vejo problemas. Só vou pedir que seja rápida, tudo bem? A cirurgia ainda é recente.
- Claro, claro. Eu só quero ver como ela está. Acalmar meu coração. – Outra fungada.
- Eu entendo! Sem problemas, podem vir a hora que quiserem, estamos esperando. – Fui sincero. Mesmo que não estivesse consciente, não havia dúvidas que a presença da mãe a ajudaria.
- Vamos esperar a e depois vamos para aí, então. Muito obrigada, querido. Por tudo! Você foi incrível hoje! – Minha sogra me elogiou, com a voz embargada. Sorri, sentindo os olhos queimarem.
- , junto com a Clara, é a parte mais importante da minha vida. Não há nada que eu não faria por elas. – Sorri.
- Elas tem sorte em ter você. Vocês tem sorte de ter um ao outro! – Aí eu concordava plenamente, sogra. Mas a sorte maior, com absoluta certeza, jogava do meu lado. – Tchau, ! Até mais!
- Até mais, Lou!

-x-x-x-

Depois da visita emocionante da Louise e do Chris, - em que eu deixei afogada nas orações e carinhos da mãe e do padrasto, que mais se enquadrava na categoria de pai, enquanto eu ia tentar comer algo para não morrer de hipoglicemia, principalmente levando em consideração que a minha última alimentação tinha sido quando me levou para tomar um café e comer alguns Donuts – acompanhei os dois até o estacionamento do hospital e voltei rapidamente para o quarto, o qual eu observei. Branco. Branco demais para o gosto de , certamente, mas eu tinha certeza de que Clara logo mudaria isso, com uma infinidade de desenhos. Suspirei e alonguei a coluna, sentindo-a estralar. Eu estava quebrado, quase que literalmente. E infelizmente não era só fisicamente. Agora eu sabia exatamente o que era uma derrota mesmo depois de um dos dias mais vitoriosos da minha vida. A Clara estava bem, finalmente estava estável e eu... Bom, eu vivia por minhas duas meninas, principalmente quando uma delas se encontrava em uma situação não tão confortável assim, então, eventualmente, eu ficaria bem. Olhei para , e não pude deixar de sorrir, ainda que a situação não fosse das mais favoráveis. Mesmo desacordada, minha esposa parecia um anjo de tão serena, os olhos calmamente fechados como se estivesse dormindo há várias horas, os cabelos espalhados pela maca e a certeza de que ela me mataria assim que acordasse, só pela falta de um discreto tufo. Ri baixo. Eu estava tão ferrado, mas não me importava. Eu só queria poder ouvi-la gritar novamente que eu era um idiota, ainda que da boca para fora, ouvir seus deboches e ironias sobre as péssimas situações, enfim... Tudo que fazia de , a . Eu só queria ela de volta e sabia que não estava pedindo demais, nos merecíamos aquilo com todo o nosso ser.
Puxei uma das poltronas que tinha no quarto e a aproximei da cama. Segurei sua mão com força e delicadeza juntos, levando-a, ainda que monitorada com o oxímetro, até meus lábios. Depositei um beijo casto no dorso e respirei fundo, sentindo as lágrimas descerem quentes em minhas bochechas. Funguei para tentar me controlar, pressionando os lábios na mão dela e fechei os olhos com força, eu precisava de força para conversar com ela como a gente sempre conversava. Era uma tradição nossa, e eu não deixaria que nada atrapalhasse isso.
Liguei o celular e abri o Spotify, colocando na playlist emo que tanto adorava e eu fazia questão de implicar só por pirraça. Ri baixo com aquele pensamento e coloquei meu telefone perto da cabeceira só para garantir que ela escutaria as músicas que tanto gostava.
Tomei fôlego.
- Hoje foi um dia duro... - Senti a garganta querer trancar, mas, mesmo, assim continuei. - Foi um dos dias mais importantes da minha vida, foi a minha melhor cirurgia, mas foi um dia tão duro, . Foi o momento que me colocaram a prova em tudo que aprendi nesses anos de medicina e tudo que eu mais queria agora era deitar nessa maca com você, te abraçar e dormir feito um bebê. - Respirei fundo e ao ouvir o monitor multiparametro alarmar, fiz uma careta mirando meus olhos para lá. estava com uma leve taquicardia e eu tinha certeza que era pela conversa. ELA ESTAVA ESCUTANDO, ELA DEFINITIVAMENTE ESTAVA ME ESCUTANDO. Abri o meu maior e mais largo sorriso, voltando a conversa, tão empolgado quanto antes. - E falando em bebê, a Clarinha tá bem. Eu falei com ela hoje e ela me disse que tinha comido um monte de bolinhos, que estava cheia de glacê e te amava do tamanho do coração dela. Me pediu para te dizer isso. - Beijei mais uma vez a mão da minha esposa, agora ouvindo o alarme do monitor ficar ensurdecedor.
Olhei em alerta para lá e, infelizmente, a taquicardia não era pela conversa. MERDA, ESTAVA TENDO UMA PARADA. MERDA! NÃO, NÃO, NÃO!
- CÓDIGO AZUL! CÓDIGO AZUL! - Gritei pela equipe ao acionar o alarme e logo baixei a maca para nível 180°.
Puxei o apoio de madeira e rapidamente coloquei-o embaixo do tórax da minha mulher, estava preparado para iniciar as compressões cardíacas, mas rapidamente tive um clique. Eu não podia estragar o belo trabalho do meu cunhado. Eu ia querer morrer se causasse quaisquer danos maiores a ela, mas eu não a queria morta. MERDA! O QUE MERDA EU IA FAZER?

.
Hold on, I still want you
Come back, I still need you
Let me take your hand I’ll make it right
I swear to love you all my life


Me vi de mãos atadas ao ver que a porra do tempo parecia se esticar entre pequenos segundos, voltando para si quando vi as duas pás sendo preparadas para serem estendidas a mim, assim que a equipe de plantão entrou no quarto, trazendo junto o carrinho de parada.
- TRAZ O CARRINHO! – Gritei mesmo que já visse o negócio ali dentro, enquanto já ambuzavam-na pelo tubo, optando pelo uso do desfibrilador. Não, amor, não faz isso comigo! Eu preciso de você! Aguenta firme, eu preciso de você. Eu e a Clara precisamos de você. Fica com a gente, por favor. - Carrega em 200!
- Aqui, doutor! - Katy, uma das plantonistas do cirúrgico me entregou as pás e logo outro enfermeiro já havia colocado os adesivos no peito dela, evitando uma queimadura pela descarga elétrica.
- AFASTA! - Posicionei uma entre os seios e a outra abaixo do seio esquerdo, logo vendo o pulo que o corpo da minha mulher deu na cama, enquanto eu ainda piscava, fungava e fazia as maiores caretas pelo choro, além de, sentir meu próprio coração acelerar aos montes.

Long endless highway
You're silent beside me
Driving a nightmare I can’t escape from
Helplessly prayin the light isn't fading
Hiding the shock and the chill in my bones
They took you away on a table
I pace back and forth as you lay still


Alguns segundos, acompanhados de um silêncio horrível e agonizante, a onda voltou a marcar ritmo normal no monitor, e a medida em que suspirei aliviado por aquilo, senti minha alma querer desabar em um choro que veio como uma avalanche, enquanto eu me apoiava na grade da maca, ouvindo a equipe perguntar se eu estava bem. Não estava. Definitivamente, eu não estava bem, mas, mesmo assim, dei vários acenos de cabeça positivos.

They pull you in to feel your heartbeat
Can you hear me screaming please don’t leave me?


- Dr. ?
- Um minuto, por favor. - Pedi com a cara enfiada no braço, fungando feito uma criança desmamada. - É a minha mulher que está aqui, eu preciso de um minuto!
Eu acho que a pessoa entendeu a intensidade com que aquela situação me atingia, principalmente quando a merda da música que tocava fazia total sentido com a minha situação. Mas que porra era aquela, como aquela música resumia todos os meus pensamentos? Agora a parada tinha trilha sonora?
Respirei fundo mais de cinco vezes antes de tentar levantar a cabeça e passei as mãos nos olhos, tentando enxugá-los, sem muito sucesso. Ajeitei os óculos no nariz e parei perto do Andrew, meu pupilo, que estava com o prontuário aberto. Eu precisava focar. Eu precisava fazer de tudo para que ficasse bem e voltasse logo para a gente. Só assim para as coisas melhorarem.

Hold on, I still need you
I don’t wanna let go
I know I’m not that strong
I just wanna hear you saying, baby
Let’s go home
I just wanna take you home


- O que houve? - Passei mais uma vez a mão na cara. - Qual a causa da parada? - Ainda sem certeza, mas podemos solicitar um ECG e o mapa pra entender melhor. - O rapaz respondeu prontamente e suspirei concordando. Eu faria a mesma coisa, embora quisesse mandar chamar o Riggs, eu só não sabia se eu queria que ele atendesse apenas .
- Pode solicitar. - Dei um tapinha nas costas dele e não esperei que a equipe terminasse de aferir os sinais vitais para voltar ao posto de guardião. Dali eu só saia para buscar minha filha na casa da avó.
- Tudo certo, Dr. , mas qualquer coisa, pode nos chamar. - Katy avisou prontamente e dei um sorriso fechado e agradecido em resposta, me restando apenas chorar contra a mão de , aumentando quando notei que já estávamos sozinhos mais uma vez naquele quarto.



Capítulo 3

's POV

Depois da agitação noturna, – cuidar de cinco crianças não era a tarefa mais fácil do mundo, com certeza, mas era a mais gratificante, principalmente quando você as amava mais do que tudo no mundo – aqui estava eu, deitada no ombro do meu marido, onde eu me mais me sentia protegida no mundo todo, com meus filhos e sobrinha deitados ao lado, nos colchões e fortes de almofadas que montamos para eles. Ter aqueles pequenos do nosso lado era ótimo, o que não era ao menos legal, era a circunstância que fez aquele arranjo ser preciso. E por isso eu estava tão quieta naquela noite, bem diferente dá matraca que era habitualmente. Senti me apertar mais no abraço, enquanto fazia um carinho reconfortante em meu braço.
- Anjo? – Ele me chamou baixo, obtendo só um murmuro como resposta. Não queria falar, e iria assim até quando conseguisse, mesmo sabendo que não duraria muito. - Você tá calada.
- Uhum. – Soltei um pigarro, querendo disfarçar a voz ruim e desmanchar um pouco a bola que tinha se formado em minha garganta. - Tentando dormir.
- Certeza? – Praga de homem que me conhecia mais do que todos no mundo! Dava nem para esconder as coisas sossegada, inferno. Não tinha jeito, só me restava admitir. Sacudi a cabeça em negação, enquanto mordia a boca. Certeza que a careta de choro que eu estava era gigante. Escondi a cabeça no peito de e, finalmente, permiti que o soluço escapasse.
- O universo não podia ter feito isso com a gente! – As lágrimas desciam dos meus olhos feito duas cachoeiras, e eu tinha a menor força para as controlar naquele momento. apertou mais ainda os braços ao redor de mim, me deixando chorar e me fazendo sentir segura e protegida ao meio ao caos. Eu sabia que tudo acontecia por um motivo, mesmo que às vezes não entendêssemos de cara. Mas parecia tão injusto. Era tão injusto! - Não podia! Não podia ter acontecido! Ela é a rainha da segurança! – Isso era verdade. , em todos aqueles anos, nunca entrou no carro quando ele não estava 120% seguro para que ela o fizesse, não importando o momento ou a circunstância. E por isso aquilo tudo era ainda mais difícil de engolir. Como a droga do acidente tinha acontecido? Não fazia o menor sentido!
- Não foi culpa dela, amor. Coisas ruins, acontecem todos os dias. Infelizmente hoje foi com a gente. – fungou, ainda que tentasse dar suporte emocional. Droga, além de ter minha quase irmã naquele estado, ainda tinha que ver o cara que eu amava com todo meu coração, sofrer daquele jeito. estava destroçado, era claro e evidente, mas no momento estava se fazendo de forte. Por mim.
- Foi do universo! Desse universo odioso! – Eu estava muito nervosa, e às vezes isso se manifestava em forma de fúria, como tinha acontecido mais cedo. - Você não ouse fazer isso comigo! Eu não sou o ! Eu não aguento! – As palavras saíram embaladas da minha boca. Tinha dúvidas de que conseguiria entender, mas eu esperava que sim.
- Shiiiiu, não pensa nisso. Não vai acontecer – Meu marido acariciou meu braço, procurando me acalmar. Eu precisava de uma comprovação, . Uma promessa!
- Promete para mim! Promete que você não vai sofrer algo assim! – Eu odiava chorar, ainda mais assim com tanta intensidade, sem conseguir parar. Também odiava me sentir fraca e impotente, como estava me sentindo. Tudo que eu queria era que as coisas voltassem ao normal o mais rápido possível. Ao menos, o máximo que poderiam.
- Prometo! Prometo! Confia em mim? – sussurrou, me passando toda sinceridade e confiança que eu tanto precisava. Eu amava aquele homem, sem mais.
- Confio! Você é minha fortaleza, eu preciso de você. Eu não sei o que ia fazer sem você!
- Eu tô aqui, anjo. Eu tô bem aqui, e não vou para lugar algum! – O meu traumatologista preferido me aconchegou mais em seus braços e beijou minha cabeça.
- Eu ‘tô tão aliviada que ela tá bem! – Funguei baixo, ouvindo meu marido murmurar em concordância. Aproveitei o momento e dei um beijo casto em seu pescoço, antes de sorrir fechado.
- Você foi tão corajoso! Obrigada por salvar minha amiga, minha irmã! – riu meio morto.
Eu sabia o que aquilo significava, mas não gostava quando identificava a ocorrência. não estava seguro de que tinha feito o bastante pela irmã. Ele achava que poderia ter tentado mais para reverter a paraplegia, mas não tinha o menor cabimento, a lesão não seria revertida de forma alguma. E ele tinha conseguido minimizar as sequelas. Era nisso que ele precisava focar! Afastei do seu peito e segurei o rosto dele, beijando a bochecha, querendo que ele entendesse que tinha sim sido maravilhoso naquela sala de cirurgia. Simplesmente perfeito.
- Você fez o impossível! E se saiu muito bem, você foi incrível lá e me encheu de orgulho!
- Obrigado por tudo hoje, anjo. Eu não conseguiria ter feito nada sem você comigo! – sorriu, mas não era o meu sorriso, aquele que eu amava ver em seu rosto. Pelo contrário, era um sorriso triste, que fazia meu coração querer despedaçar. Na impossibilidade de tirar aquele sentindo ruim de dentro de seu coração, o abracei com força, para que ele entendesse que eu estava lá para ele para todo o sempre. Sem porém.
- A gente é um time! Nós somos um só, lembra do casamento? Nós somos um! – Dei um beijinho casto em seus lábios, o ouvindo concordar.
- Sabe uma coisa engraçada? – Ele beijou minha testa.
- O quê? – Questionei, já bem mais calma, e de volta ao conforto do peito do meu marido, onde eu desenhava com a ponta do dedo.
- O jeito do , o fato de ele ser calmo e meticuloso, sempre me irritava. Hoje eu só soube agradecer! – Nós rimos.
- Eu lembro, você não gostava. Principalmente quando ele ensinava a ela. Hoje ele foi um verdadeiro chefe. – Sorri, orgulhosa do meu amigo e concunhado. - Vocês dois me orgulharam de um jeito que eu não vou saber descrever!
- Cada coisa que ele ensinava a ela, me deixava em pânico! – Correção: tudo envolvendo deixava em pânico, por isso não pôde ser o residente dela.
- A gente não teria feito nada sem a melhor instrumentadora do Saint Paul! – Senti um beijinho ser depositado em minha cabeça. E o Oscar de Melhor Marido do Mundo vai para... !
- Eu estava lá só tremendo e xingando vocês. – Me enfiei no pescoço de , para não rir alto e correr o risco de acordar as crianças, o que instalaria o caos. - Te amo!
- Era o que eu precisava. – me abraçou mais forte, beijando minha bochecha. - Também te amo.
- Você sempre foi tudo que eu preciso. E eu sou seu amuleto da sorte! – Sorri, deixando um bocejo escapar. O dia tinha sido tão agitado que tudo que eu precisava era de um descanso.
- Meu! Só meu! – Aquele homem ia me matar de um infarto qualquer dia desses ainda, não tinha a menor condição! Aquele sorriso me matava, mesmo sendo um dos motivos pelo qual tudo valia a pena. O abracei pelo pescoço. - Sono?
- Exausta. Cansada demais. Problema se eu dormir? – Eu sabia que não dormiria tão cedo naquela noite, duvidava até que fosse conseguir alguma hora.
- Pode dormir. Descansa. Mas fica aqui. Você aqui é o que eu preciso. – Pediu, se referindo ao abraço, e eu não demorei a concordar. Eu não sairia dali por nada no mundo. Nunca!
- Promete que me chama quando se sentir sozinho? – Pedi, recebendo um aceno de cabeça e um beijinho em resposta. Sorri mais uma vez e me aninhei em seu peito, não demorando nada para dormir.
-x-x-x-

’s POV

Eram quase 7h da manhã, e eu me encontrava que nem uma coruja, olhando para os poucos raios de sol que entravam por entre as cortinas do quarto de . Suspirei. Eu só rezava para que aquele novo dia fosse mais generoso com minha família, e trouxesse os bons momentos e sentimentos que o dia anterior tinha nos tirado. Me estiquei na cadeira em que tinha passado as últimas não sei quantas, mas muitas horas, alongando o corpo, enquanto esperava chegar para o plantão. Ele – e possivelmente – ficaria com a irmã, enquanto eu iria para casa, passar o dia com Clara e contar para ela, da melhor e mais lúdica forma possível, o que tinha acontecido com a mãe dela.
- Hey! - Ouvi um cumprimento e levantei a cabeça, vendo apenas o rosto de enfiado pela porta de vidro. Sorri, respondendo à saudação. - E ai? Como foi a noite? tá vindo receber o plantão com a Lúcia! – Para a minha sorte, ficaria no plantão hoje, junto com uma das enfermeiras mais experientes de hospital. Afirmei, sorrindo fechado.
- No geral, bem. – A resposta foi vaga, mas eu realmente não queria explicar o que tinha acontecido durante a noite, duas vezes. Esperaria chegar. - E a Clara, como ela tá? Ela dormiu bem? Perguntou alguma coisa? – Minha filha era uma das crianças mais espertas que eu conhecia, não tinha a menor modéstia em falar isso, então não me surpreenderia em nada se ela pegasse alguma coisa no ar sobre aqueles tempos sombrios.
- Ela brincou bastante com os meninos, comeu e dormiu logo. Foi bem tranquilo! – Sorri e suspirei mais aliviado. Seria a melhor solução eu mesmo poder explicar a situação toda para Clara.
- Bom dia! – Meu cunhado cumprimentou enquanto entra no quarto. Quando vi que ele tinha o prontuário da irmã em mãos, suspirei frustrado, já que eu sabia que havia sido colocada a parada na evolução de emergência. Ele com certeza, surtaria horrores! Droga, , você não poderia me deixar explicar antes? - Como assim a parou ontem à noite? – O grito veio completamente esganiçado. Merda!
- Parada? – entrou na preocupação do marido, me encarando com os olhos claros bastante arregalados. - Por que ela parou? Fala, ! – Suspirei, cansado e frustrado com tudo o que todos nós estávamos sendo obrigados a passar.
- A gente ainda não sabe com certeza, mas provavelmente foi por tudo que aconteceu. – Ouvi suspirar meio tremido e concentrei para não deixar me abater. - Controlei logo, diminui a sedação. Agora ela tá bem. Estável.
- Graças a Deus. Obrigada, , mesmo! – Afirmei, sorrindo tristemente para minha cunhada e amiga de longa data. E não me sentia tão heroico assim. – Conseguiu trazê-la rápido? Teve mais alguma outra complicação? – Ela tinha entrado no modo enfermeira, ela usava como uma forma de escape para os sentimentos não tomarem conta de si.
- Alguns segundos. – Que pareceram minutos, possivelmente horas, acrescentei mentalmente, e depois neguei sobre demais complicações. Graças a Deus, o resto da noite tinha transcorrido sem mais sustos.
A atitude de me surpreendeu, ao mesmo tempo em que não. O traumatologista colocou a prancheta em um lugar qualquer vago na mesinha do quarto e me puxou para um abraço apertado. Ele não sabia, ou talvez suspeitasse, mas era o que eu precisava. Eu jurava que não queria, não aguentava mais chorar, mais quando eu percebi, tudo voltou como uma enxurrada. Meu irmão da vida apenas me abraçou mais forte e deixou que eu desabasse em seu ombro.
- Respira, cara. O pior já passou e você a trouxe de volta! – esfregava minha as costas, em um gesto de conforto que eu apreciava e agradecia imensamente. Era muito bom ter minha família comigo.
- Eu achei que ela estava me ouvindo, ! Eu achei que era reação a minha voz. E não era! – Minha voz saia abafada pelo jaleco do .
- Eu também acharia, você não tem que se culpar por isso, conversar com ela ajuda na recuperação, você sabe. – Sim, eu sabia. Aquele tipo de estímulo era bom para a minha esposa. A ajudava a se sentir com a gente. respirou fundo. - Foi provavelmente um problema com a sedação. Respira, . Respira. A pirralha é forte! Foi só um susto!
- Foi o maior susto da droga da minha vida, ! – Esganicei, soltando um soluço.
- E você passou por ele que nem rolo compressor! – Se fosse em outra situação, eu, com certeza daria risada. confortando alguém era algo sempre bem engraçado. – Você conseguiu, é isso que importa aqui, que você conseguiu!
- Eu ‘tô com medo! – Fui sincero. Eu estava completamente morrendo de medo de que algo pior acontecesse. Eu só esperava que não, ou eu não sabia se aguentaria.
- Nós somos médicos, não máquinas! Nós somos humanos! Eu também estou com medo, , mas a gente vai cuidar dela! – Afirmei com a cabeça, recebendo um beijo na testa.
- Não deixa ela sozinha, tá? – Funguei. Eu sabia que jamais os deixariam se eu não estivesse presente, mas não custava reforçar.
- Ela não vai ficar sozinha, ! Confia em mim, eu prometo que ela não vai ficar sozinha! – Ele garantiu, com a maior certeza do mundo. Respirei fundo, tentando me acalmar.
- Obrigado. Obrigado mesmo, a vocês dois! – Fui sincero.
- Nós somos uma família, cara! A gente nunca vai se abandonar! Nunca! – sorriu. - Agora vai em casa tomar um banho e jogar uma água nessa cara. Você tá horrível! Clara vai tomar o maior susto! – Sério mesmo que ele iria me zoar? Tentei parecer ofendido, mas acabei rindo. Se ele sabia ser debochado, eu também sabia. Melhor ainda.
- Ainda assim ‘tô melhor do que você. - Sorri cínico, os fazendo rir.
- Até eu estou acabada. Imagina vocês dois que são velhos! – se pronunciou, sorrindo falsamente meiga, nos levando a rir mais uma vez.
- Falou a adolescente. – Rolei os olhos, brincando.
- Jovem adulta que quer mais um filho, mas seu amigo tá na andropausa! – Ela apontou para o marido, que rolou os olhos, já saturado do assunto que rondava a maioria das conversas entre o casal nos últimos dias. parecia focada em convencer o marido.
- Porra, , não seja velho. – Zoei rindo.
- Se você criar os próximos três, a gente faz no maior prazer! – sorriu malicioso e eu fiz cara de nojo. Ergh, muitos detalhes. Muitos detalhes mesmo! – Vai logo, !
- É o quarto da minha esposa, eu fico o quanto quiser. – Respondi pleno, e depois ri do drama do meu melhor amigo. – Cara, nem que você quiser vem três de novo.
- Claro que vem! – o casal praticamente gritou, fazendo os ofendidos.
- Coelhos! – Zoei da cara deles rindo, vendo as caras emburradas. Mas era fato! Eles não podiam negar.
- Vai logo, ! – Os dois voltaram a me ralhar em uníssono.
- Tchau! Qualquer coisa a gente te avisa! – sorriu, mas meneava a mão, como se dissesse ‘vaza daqui!’
- Obrigado! – Agradeci sincero, recebendo um sorriso de , enquanto bateu continência. Me despedi de com um beijo na testa, pegando o rumo para casa. Onde a jornada também não seria fácil.

-x-x-x-

Cheguei na casa dos e após conversar com Louise sobre o estado de saúde de , deixando de lado a parada ocorrida na noite anterior, segui para o quarto de brincar das crianças, onde Clara se entretinha com um dos milhares de brinquedos que a vovó Lou e o vovô Chris mantinham em casa para os netos. Coincidência ou não, minha pequena brincava com um dos brinquedos que havia pertencido a mãe, inclusive sendo classificado como um dos preferidos dela. Sorri com a cena mais do que lindinha e me abaixei, cobrindo os olhos dela com as mãos, quase em uma espécie de jogo de adivinhação.
- Oi, fofinha! – Cumprimentei, vendo a minha bebê levar um pequeno susto por minha ação repentina, mas logo se agitar, colocando as mãozinhas em cima das minhas, tentando as tiras de lá.
- PAPAI!!!! – Clara esganiçou, com os olhos arregalados e eu abri meus braços, a vendo pular em mim. A peguei no colo e abracei forte, mantendo a garotinha praticamente fundida a mim. Meu Deus, como eu amava aquele pequeno serzinho!
- Eu estava com tanta saudade. – Declarei, esmagando minha criança. Cheiro de criança era anestésico, e eu tinha quase certeza que seria efetivo em hospitais de tão incrível que era.
- Eu também estava com saudade! Bastante saudade! – O anjinho que atendia pelo nome de Clara, se aninhou mais em meus braços. Senti meu olho encher.
- Você sabe que o papai fica morrendo de saudade quando passa a noite no plantão! – Deixei as lágrimas tomarem conta do meu rosto e a criaturinha mais perceptível do Clã logo notou o que tinha acontecido, arregalando um pouco os olhos claros.
- Mas você tá me vendo agora, papai! Olha, eu ‘tô aqui! – Ela abriu os bracinhos para mostrar que o ela estava falando era verdade. Sorri com aquele gesto tão lindo da minha filhinha.
- Eu sei, princesa! Mas eu estava com tanto medo de não te ver em casa! – Declarei, sentindo o coração pesar e aliviar ao mesmo tempo, se aquilo era possível. Eu nem queria pensar em algo ter acontecido com Clara. Eu não seria capaz de aguentar. - Deixa o papai te abraçar! – Beijei a cabeça dela.
- Eu ‘tô na casa da vovó! – A confusão em meio àquela afirmação, me fez rir. Certamente Clara estava achando que o pai dela estava louco. Era a casa da vovó! Não da Clara!
- Eu sei! Não liga para o papai! – Ri, colocando o cabelo de Clara para trás da orelha. A alguns meses, ela pediu para deixar o cabelo crescer, dizendo que queria ver os cachinhos se formarem e ficarem lindos. – Mas o papai te ama muito, muito, muito. Mais do que tudo no mundo!
- Eu também te amo, papai. Do tamanho do meu coração! – Clara soltou um gritinho, abrindo os braços para mostrar intensidade do quanto ela me amava. O do quanto eu a amava. Mil vezes isso! - Eu guardei bolinhos! Três para o papai e três para mamãe! – A pequena mostrou três dedinhos, os quais beijei com barulho, fazendo-a rir alto! Enxuguei o rosto e respirei fundo, para me recompor.
- A gente pode ir para cozinha? Conversar e comer o bolinho? – Clara concordou com aquilo mais do que animada, me fazendo rir. A peguei no colo e fomos para a cozinha da casa de minha sogra. Deixei minha filha na cadeirinha e fui até a geladeira, para pegar os bolinhos e o suco de morango que Louise havia preparado. O preferido de .
- Eu coloquei um mooooonte de confeito no seu bolinho! – A mocinha me disse, abrindo bem os braços e com uma piscada arteira, o que ela considerava ser uma informação bem importante. Clara levava o assunto ‘bolinhos’ bastante a sério.
- MENTIRA! No meu bolinho tem um monte de confeito? – Entrei na brincadeira, arregalando os olhos e combinando com uma expressão gigante de surpresa. - Confeito de coração ou de estrelinha?
- Os dois! – E naquele momento, com aquela carinha de sapeca maior do mundo, Clara ficou ainda mais parecida com a mãe. As duas tinham simplesmente as mesmas expressões, principalmente o sorriso. Aquele sorriso me quebrava.
- AI, MEU DEUS! – Soltei um gritinho esganiçado e impactado. – Eu vou comer confeito até dar dor de barriga! – Exagerei, fazendo a pequena rir alto e bater as mãozinhas gordinhas.
Peguei os bolinhos, alguns guardanapos de papel – tanto pai, quanto filha se sujavam quando comiam doces, e confesso que eu era o pior daquela dupla – e o suco, os deixei em cima da mesa e puxei uma cadeira para sentar em frente a minha filha. Suspirei. Tinha chegado a hora.
- Clah. – Chamei, logo capturando sua atenção. - Eu queria conversar com você sobre a mamãe.
- Tá bom! – Ela afirmou com a cabeça, bem concentrada, ao mesmo tempo em que sorria lindamente. Como eu daria a notícia mais horrível para aquela coisinha adorável?
- Eu a vi hoje no hospital. Ela tá dodói. – Engoli em seco, sem muita coragem para encarar a criança em minha frente. Pigarreei, limpando a garganta. - Então o papai cuidou dela e fez ela ficar melhor, mas ela precisa ficar quietinha lá. Certo?
- A mamãe ta dodói? – A pequena questionou confusa. Para ela, a mãe tinha ido treinar e voltaria logo para fazer bolinhos com ela e a avó.
- Tá sim, meu amor. Sabe quando você caiu do patinete aquela vez? Que você ficou dodói? Ela também. – Tentei explicar da forma mais clara, porém lúdica possível.
- A mamãe caiu de patinete? – Se a situação fosse ao menos um pouco menos tensa, com certeza riria da grande interrogação que habitava o rosto da minha filha, mas infelizmente não era o caso. Respirei fundo. Eu precisava ser mais claro.
- Do Benny. Ela caiu do Benny e bateu a cabeça no chão. – Umedeci a boca. Benny era o carro de corrida de , que tinha sido nomeado assim em homenagem a Benjamin , grande piloto e pai da minha esposa. – E ela está com muita dor de cabeça, então a gente precisou dar aquele remédio para dor que dá um sooooono danado. E ela tá dormindo lá agora. – Expliquei com calma e paciência. Eu sabia que era muita informação para a pequena assimilar naquele momento.
- Eu sei qual é o remédio! A mamãe me deu quando eu cai de patinete! – Minha princesinha arregalou os olhos, animada por lembrar do tal remédio. - Mas eu não dormi. A mamãe disse que eu fui corajosa! – Clara exclamou orgulhosa de si por não ter sido afetada pelo efeito do remédio.
- Você é a menina mais corajosa que eu conheço! É a minha princesa espacial mais linda! – Elogiei, com corações nos olhos. Aquela bebê era capaz de alegrar o meu pior dia, isso estava cada vez mais comprovado. - Lembra que o tio olhou seu braço? E depois o papai fez uma brincadeira engraçada com você com a lanterna? A gente fez com ela também. – Clara afirmou, rindo ao se lembrar da situação que mencionei.
- A dor até passou! A da mamãe também passou? – Perguntou curiosa, e soltei um pigarro. Como eu explicava?
- Ela dormiu, então a gente não sabe ainda. Mas assim que ela acordar, vai dizer que você foi mais corajosa que ela! – Pisquei.
- A mamãe é bem corajosa! – Quando eu falava que Clara era escrita, as pessoas riam, talvez por ela fisicamente parecer mais comigo. Mas olhem isso, nem seis anos de idade e me ralhando!
- Sua mamãe é a rainha espacial mais corajosa que eu conheço. É a rainha espacial mais valente do mundo! – Beijei sua bochecha. - Só que ela precisou ser muito valente e agora tá descansando. Tudo bem, princesa?
- Tudo bem. – Ela afirmou com a cabeça, mas a forma como mexia no cabelo, enrolando um cachinho no dedo, enquanto praticamente comia a outra mãozinha, deixava claro que algo estava errado. Com cuidado, tirei a mão da boca da minha pequena e a segurei, mostrando que eu estava lá para ela.
- Pergunta para o papai. – Pedi baixinho.
- Até quando a mamãe vai dormir? E por que eu não posso ver? Eu durmo com a mamãe quando você tá no hospital! – A garotinha fez um biquinho gracioso.
- A gente precisou dar muito remédio, porque a dor era muito forte, nem um beijinho resolveu! – Arregalei os olhos, mostrando a intensidade das minhas palavras. - Sabe a bela adormecida? Ela tá dormindo que nem ela em um castelo bem confortável, lá no último andar do hospital. Só que tem uns guardas malvados que só deixam entrar adulto. Então eu digo que sou o príncipe encantado para poder ver ela!
- Beijinho sempre resolve, pai! E eu sou a princesa encantada! – Ela estava com as mãos na cintura, me encarando como se fosse adulta. MÃOS NA CINTURA. Eu queria seriamente morder aquela criança. Ainda bem que ela era minha.
- EU SEI! – Esganicei, tentando muito controlar o impulso de esmagar a pequena em meus braços. - Mas eu tentei! Dei vários beijinhos e ela estava chorando! Então a gente deu o remédio e eu dei um último beijinho e ela dormiu!
- Por que a mamãe tava chorando? – E eu sabia que tinha falado a coisa errada quando a postura brava se desmanchou, dando lugar para um rosto choroso. Segurei seu rosto, limpando qualquer vestígio de lágrima que estava ali.
- Não, princesa encantada! Não chora. Ela chorou porque tava doendo. Lembra quando o Ben se machucou e ele chorou? – Clara afirmou, com uma fungada.
- Mas eu não gosto quando a mamãe chora. – A loirinha reclamou com um biquinho. Definitivamente a coisa mais preciosa da minha vida.
- Ela não tá mais chorando. O papai promete! – Afirmei, limpando novamente seu rosto e já vendo o sorriso voltar. - Você confia no papai? – Beijei sua bochecha.
- Confio, papai! – Sorri grande.
- O papai sempre vai trazer notícias da mamãe e, quando puder, eu te levo para visitar ela. Tudo bem?
- Tá bom, papai! Eu vou cuidar de você que nem eu cuido da mamãe quando você ta no hospital! – E foi a vez dos meus olhos se encherem de lágrima. Abri os braços para recebê-la e a esmaguei forte, recebendo a mesma intensidade em resposta.
- Eu tenho tanta sorte no mundo em ter você e a mamãe comigo. – Suspirei, agradecido por, mesmo depois daquele dia caótico, poder voltar para casa, para a minha razão de viver. - Eu te amo, Clara! Muito, do tamanho do meu coração!
- Eu também te amo muito, papai! A gente pode guardar os bolinhos e o suco para mamãe quando ela acordar? – Ela me encarou com os olhos grandes e azuis.
- Você não acha melhor fazer uma festa surpresa? A festa do bolinho e suco! então a gente come esses e depois faz mais. O que você acha? – A pequena arregalou os olhos e ficou de pé no meu colo, de repente começando a dançar ali mesmo. Ri alto.
- FESTA! Nós vamos fazer uma festa muito legal! – Ri junto com ela, afirmando que sim, seria um mega festa!
- Vamos comer os bolinhos, senhorita confeiteira? – Beijei sua cabeça.
- VAMOS! – Clara gritou animada e a coloquei novamente sentada em cima da mesa, colocando os bolinhos e o suco perto dela.

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Depois que terminamos o lanche, lavei e guardei a louça, – com a ajuda, na verdade, coordenação de Clara – e depois levei minha filha para casa. Brincamos um pouco com alguns dos seus brinquedos preferidos de Clara e depois os guardamos bem bonitinhos na caixa de brinquedos, almoçamos, dei um banho nela e agora estávamos no meu quarto assistindo desenho animado. Eu acho que diria que fiz um bom trabalho, pois eu tinha conseguido fazer a finalização dos cachos da minha filha de forma correta. Sim, eu estava orgulhoso de mim!
- Clah? – Chamei baixinho, com a intenção de ver se ela estava dormindo. A garotinha estava quieta demais. Ou ela estava dormindo, ou bem concentrada. Percebi que era a segunda opção quando ela gargalhou com o Pernalonga, que havia sido esmagado e agora andava feito uma tampa. Aqueles desenhos eram doidos!
- Oi, daddy! – A loirinha virou a cabeça para cima, olhando para mim com os olhos brilhantes.
- Só queria ver se você tava dormindo. – Expliquei com um sorriso, vendo minha filha concordar e se esticar toda para beijar minha bochecha. Retribui o gesto.
- Sabe? Tem pouca comida na minha barriguinha. Ela tá reclamando! – A saco sem fundo que era minha filha se pronunciou com a cara mais deslavada do mundo, me fazendo rir alto.
- Ah é? A barriguinha tá reclamando? – Provoquei, e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, me virei para ela, começando a fazer cócegas em sua barriga. A garotinha ria e esperneava.
- ELA TÁ COM FOME. ELA VAI COMER SUA MÃO! – Ela gritou rindo, enquanto eu continuava com as cócegas. Quando a pequena já estava vermelha pelas risadas, resolvi parar e ela se ajeitou na cama.
- A gente almoçou tem pouco tempo, sua saco sem fundo! – Fingi ralhar, o que apenas a fez rir.
- Eu não tenho culpa se minha barriga cabe mais comida! – Ela disse plena. Desde quando Clara era plena?
- Cabe nada, já falei que você é pequena. – Retruquei, prendendo a risada. Eu era o pai sim, mas nunca tinha sido o pai que botava banca. Com um sorriso, eu já ficava completamente rendido aos encantos da menina.
- E eu já disse que meu estômago é enooorme! – Clara abriu os braços, bem dramática. Filha da . Definitivamente! – Minha mãe disse que eu sou metade !
- Eu diria que 80% - Brinquei. Eu podia brincar com meu cunhado, mas eu me orgulhava de pertencer àquela família. Da minha família!
- Mas eu também sou ! – As mãos gordinhas apertaram minhas bochechas. Sorte era o que eu tinha. Já falei isso?
- Para sorte do papai! – Certeza que minhas pupilas tinham virado dois corações, principalmente por que a minha princesinha estava abraçada a mim com braços e pernas. - O que você quer comer, filha?
- Um sanduiiiiche grande com presunto! – Soltou um gritinho animado. !
- Só presunto? – Estreitei os olhos, brincando com a falta de ingredientes naquele lanche.
- Tudo que tiver na geladeira! – Agora sim, essa era Clara ! - A gente vai dormir em casa hoje, né?
- Vamos! Você quer dormir comigo que nem você dorme com a mamãe quando o papai tá no hospital? – Beijei sua bochecha. Clara soltou um gritinho animado, me dando certeza de sua resposta.
- A gente vai dormir juntinho todos os dias! – Ela gritou feliz. Suspirei, pronto para explicar como seriam as coisas até que acordasse do coma.
- Eu vou ficar algumas noites no hospital com a mamãe. Uma noite eu fico com a mamãe e a outra com a Clara, tudo bem? – Sorri grande. Para minha sorte, Clara era bem compreensiva, eu sabia que aquilo era difícil de entender.
- Não! E Eu? Eu quero dormir todo dia com você, papai! – E aquela pequena frase me desarmou completamente. Como assim não, Clara? Por essa eu não esperava.
- Você dorme na tia , que nem ontem. – Foi tudo que consegui falar antes da criança voltar a protestar.
- A tia não é meu pai e nem a minha mãe! Por que você não pode trazer a mamãe para casa? – O tom de voz se dividia entre raivoso e choroso, por isso a abracei forte sem pensar duas vezes.
- Calma, Clara. A gente pode conversar? – Pedi com um certo desespero. Vê-la daquele jeito me doía mais do que qualquer coisa.
- Sim! - Ela suspirou que nem adulta. – Por Deus! - e sentou na cama com as pernas em posição de índio. Sorri e a acompanhei.
- O que eu te contei sobre a sua mãe? – Perguntei com cuidado, mostrando calma e compreensão. Era difícil para ela, eu precisava entender, aceitar e ajudar da melhor forma possível. A pequena suspirou bem cabisbaixa.
- Que ela tá dodói e tá dormindo. Mas a gente não dorme tanto assim! – Reclamou, parecendo ansiosa e saturada daquela história toda.
- Ela vai dormir um pouquinho mais do que a gente precisa dormir, filha. – Tentei explicar, a vendo suspirar, rolando os olhos, dizendo que aquilo era muito chato. Ri baixo, concordando. Realmente era bem chato! - E ela precisa dormir lá no hospital uns dias, eu não posso trazê-la para casa. Os guardas não vão deixar. – Arregalei os olhos, entrando em um personagem que eu sabia que ajudaria a entender o que estava acontecendo, e talvez, aceitar.
- Ai eu esqueci dos guardas! – Clara fez um bico, bastante chateada. - Não dá para gente se disfarçar que nem ninja?
- Infelizmente não, pequena. Eles são guardas bem chatos, mas espertos. – Imitei o bico. Clara suspirou, cruzando os braços. Onde estava minha criança, Deus?
- Nossa, que coisa chata! – Reclamou irritada. - Não quero mais esses guardas! Vou falar com a tia ! – E então eu não aguentei. Ri alto e abracei, esmagando a menininha em meus braços, o que a fez rir alto. A menina fofa e mais lindinha da minha vida!
- Fala! Quem sabe ela pede para o tio Antunes para ele tirar os guardas. – Instantaneamente, a loirinha começou a se agitar em meus braços. Certamente ela tinha adorado a ideia. Definitivamente aquele instinto de liderança ela tinha herdado da mãe e da tia. As pessoas ainda ouviriam muito falar de Clara , disso eu tinha a maior certeza!
- EBAAAAA! EU VOU SIM, VOU FAZER UMA REVOLUÇÃO! – O que eu disse? Aquela garotinha iria dominar o mundo! Ri mais uma vez, a enchendo de beijos apertados naquelas bochechas gordinhas que eu tanto amava! - E o que a gente vai fazer? – Clara me olhou, e eu sabia que o assunto tinha voltado para . Arrumei a postura.
- Se você permitir, moça adulta, eu vou revezar as noites. Se eu ficar com a mamãe algumas noites, ela vai melhorar mais rápido. – Finalmente eu tinha arrumado um argumento que prestasse! Boa, !!!! Vi que tinha acertado finalmente, quando ela gritou que aceitava, bastante animada!
- ASSIM EU ACEITO! A gente pode marcar em um calendário os dias? – Ela me perguntou, com os olhos grandes e dando curto.
- CLARO! – Afirmei, me animando também. - Eu vou buscar o calendário e fazer seu sanduíche, tá?
- Eu posso te ajudar? – Com aquela carinha de gato de botas, ela podia fazer o que quisesse comigo. Afirmei, a fazendo sorrir. - E eu vou marcar os dias coloridos!
- Os dias da mamãe e da Clara com cores diferentes? – Perguntei, colocando uma mecha do cabelo ondulado dela para trás da orelha. Ela afirmou com a cabeça.
- Os delas são roxos e os meus amarelos! – As cores preferidas de cada uma.
- Ótima escolha, fofinha. – Elogiei. - Busca o calendário e as canetinhas, e me encontra na cozinha? – Sugeri e ela afirmou com a cabeça, bem animada.
- VOU PEGAR MINHAS CANETAS! – Antes que eu pudesse fazer mais do que rir e pedir para ela ter cuidado para não cair, a mocinha saiu correndo em direção ao próprio quarto, com a intenção de pegar o que precisava para cumprir a missão de anotar os dias de cada uma no calendário.
Alguns minutos depois, enquanto eu terminava de preparar o suco, escutei os passos de Clara no assoalho e me virei, a vendo carregando o calendário em uma mão e seu estojo da escolinha na outra.
- Cheguei! – Ela anunciou, colocando tudo em cima da mesa da cozinha, portando um sorriso enorme nos lábios.
- Como você quer fazer o planejamento dos dias? – Perguntei enquanto cortava com cuidado, em metades, o tomate-cereja.
- Eu acho que a gente pode misturar os dias! – Clara respondeu, mas sem me olhar, já que estava concentrada escrevendo o nome ‘mamãe’ com a caneta roxa em algum ponto do calendário. – No dia em que você for dormir comigo, você passa a manhã com a mamãe, e quando for dormir com ela, fica comigo. – Me estiquei para beijar a cabeça da minha mocinha esperta. – Até que dia ela vai dormir, papai? – Merda. Merda, por essa eu não esperava. E agora, o que eu ia responder? Eu não podia falar que não sabia, Clara não iria entender. Se eu sou médico e dei o remédio para dormir, eu deveria saber quando ela vai acordar, certo? Certo. Porém errado. - Papai? Para eu colocar aqui no calendário! – Ela voltou a perguntar, me encarando com aqueles olhos enormes cheios de expectativa, e certamente não entendendo minha demora para responder. Olhão enorme, ora ele.
- Uhm... Deixa eu ver. – Comecei, incerto. - Oh, fofinha, seu lanche. – Coloquei o sanduíche e o suco em cima da mesa. Desviar era sempre uma boa opção quando se precisava.
- Obrigada, papai! – Clara tomou um gole do suco e limpou a boca com as costas da mão. Sorri para ela. – E aiiiii? Quando, pai? – Ela insistiu sobre querer saber quando a mãe acordava.
- Duas semanas. – Respondi a primeira coisa plausível que passou por minha cabeça. Eu não fazia ideia de quando acordaria, ninguém fazia, mas duas semanas me pareciam um tempo adequado para o quadro. Eu só não esperava que fosse muito mais.
- Então eu pulo a próxima quarta e na outra? – Ouvi a voz de Clara perguntar, enquanto ela anotava as informações que eu tinha repassado no calendário. Afirmei, respondendo que era isso mesmo. Pulava a próxima quarta, e era na outra.
- Então nosso calendário tá pronto! – A pequena anunciou, fechando as canetinhas utilizadas e as colocando de volta no estojo de bichinhos. – Olha que tá bonito! – Virou o calendário na minha direção para que eu pudesse ver e dar minha opinião. A cartolina estava toda colorida de amarelo e roxo, cheia de desenhos que ilustravam tanto Clara quanto a mãe, com os dias estipulados corretamente. Mais uma coisa que ela tinha herdado da mãe, ser metódica.
- Lindo, amor! – Elogiei com sinceridade, a fazendo sorrir largo.
- Você quer um pedaço do meu sanduíche? – A pequena esticou o sanduíche em minha direção, oferecendo o lanche. Franzi a testa, confuso.
- Sua barriguinha não tá mais com fome?
- Ela tá sim, mas a gente precisa ser educado. Seu barrigão não tá? – Dei uma gargalhada. Como assim, barrigão, Clara? Que calúnia! Neguei a oferta, agradecendo a preciosidade de filha que eu tinha e ela deu de ombros, logo abocanhando um pedaço do sanduíche.
Alguns segundos depois, senti meu celular, que estava no bolso esquerdo da calça, vibrar, me fazendo estacar no mesmo momento. Que não fosse ou . Que não fosse nada com ! Disfarcei o momento de preocupação o máximo que consegui para não alarmar Clara e puxei o celular, fazendo uma careta ao olhar para a tela. Não era , e menos ainda . Na verdade, eu não fazia ideia de quem poderia ser me ligando naquela hora. Dei uma última conferida em Clara e me afastei para atender a ligação.
- Alô. – Iniciei a ligação normalmente.
- Alô? Boa tarde, Mr. ! – Quem era aquela mulher? Como ela me conhecia.
- Boa tarde. – Respondi ao cumprimento, mais do que confuso, e esperei até que ela voltasse a falar.
- Eu sou Hannah Boullet da CBC Television e queria saber se o senhor pode falar do acidente da . Nós queríamos saber como tudo aconteceu e quais declarações o senhor pode dar. – Soltei um suspiro frustrado e cansado. Eu sabia que alguma hora os jornalistas iriam aparecer, afinal era um nome bastante conhecido no automobilismo canadense, e eu poderia até mesmo dizer internacional, mas eu não esperava que fosse tão cedo. Eu definitivamente não queria que fosse tão cedo.
- É muito recente, Hanna, eu não sei o que posso falar. – Usei de uma resposta defensiva.
- Nada que o senhor possa nos dizer sobre o estado da sua esposa? – A mulher perguntou mais uma vez, me fazendo morder a boca. - Como ela se encontra, se ela sofreu algo grave...
- Eu não cuido da carreira dela, é o padrasto, mas, naturalmente, a gente não teve tempo de falar sobre isso ainda. – Resolvi que a sinceridade era o melhor caminho naquele momento. O máximo que eu fazia era ir com nos treinos quando não estava de plantão e torcer feito um fanboy adolescente nas corridas. A carreira toda era agenciada por Chris, e as poucas palavras que troquei com ele nas últimas horas, passaram longe de qualquer assunto profissional.
- Nada que o senhor possa nos contar? – Suspirei novamente. Nossa, que mulher insistente! Minha vontade era desligar o celular naquele momento, mas se minha esposa ficasse sabendo que fiz isso, ela seria uma mulher viúva. E eu sabia que o certo era não fazer isso mesmo, a pobre Hannah estava só fazendo seu trabalho.
- Eu posso conversar com o meu sogro e talvez a gente consiga marcar uma coletiva, mas apenas para assuntos médicos. – Deixei claro que não, eu não falaria uma só palavra sobre como a família estava lidando com o acontecido, principalmente nossa filha. E eu também não falaria nada que Clara não soubesse sobre o estado de saúde da mãe.
- Nós agradecemos a sua disponibilidade e toda informação será bem-vinda! – Afirmei. - Estamos torcendo para que ela se recupere logo. O coração do Canadá inteiro está com vocês!
- Obrigado! – A vontade era de rolar os olhos, mas era outra coisa que eu não poderia fazer. Mas no final das contas, era bom contar com todo apoio, ainda que a demonstração às vezes parecesse um pouco exagerada. - Eu retorno assim que possível, tudo bem?
- Ficamos no aguardo e agradecemos! – A mulher falou. – Mais uma vez, desejamos tudo de melhor e faremos contato novamente. Obrigada! – E então a ligação ficou muda, indicando que tinha sido finalizada. Suspirei mais uma vez e sentei na primeira cadeira que encontrei, logo percebendo os grandes e azuis olhos de Clara me observando com curiosidade.
- É aquela gente da TV? – Ela se referiu aos jornalistas. Afirmei com um aceno de cabeça
- É sim. Eles querem falar sobre a mamãe.
- Você vai passar na TV? – Afirmei mais uma vez, ainda que a contragosto. - Eles conhecem a mamãe por causa da corrida, né?
- Sim, sim, a mamãe é famosa. – Pisquei, fazendo graça. Mas era verdade, era mesmo famosa, tanto pelo sobrenome, quanto por ela mesma.
- Isso é tãaaaaaaaaao legal! – Clara soltou um gritinho animado, enquanto eu portava uma careta horrenda. Eu queria achar esse mundo interessante que minha filha via, mas ainda não tinha alcançado o objetivo. - Você tá emburrado! Não seja tímido, papai! – Sim, minha filha tinha me zoado e ainda estava rindo da minha cara. Mereço! Ensaiei uma bronca, mais tudo que saiu da minha boca foi uma risada.
- Eu não gosto de falar na TV! – Bufei. Era tão mais fácil quando era a única da família que precisava aparecer na TV!
- Eu posso ir? – Falei que a menina gostava de mídia, não falei? Mas infelizmente, naquele momento, eu teria que barrar. Eu não poderia correr nenhum risco de ela acabar ouvindo algo que não deveria, em um momento nada favorável.
- Você vai estar na escola na hora. – Usei a primeira desculpa que surgiu em minha mente, mas que eu faria tudo para tornar verdade. Era mais fácil que ela estivesse na escola, assim não corria o risco de ver a coletiva. Esperei pelo protesto, que para a minha sorte, não veio.
- Tudo bem! Quer ver desenho de novo? – Clara perguntou, arrumando os cabelos para trás da orelha e o enfeitando com uma tiara que até então eu não tinha reparado que ela pegou no quarto, junto com as canetinhas.
- Quero! Vem no colo. – Pedi, a vendo esticar os bracinhos e praticamente pular em meu colo. Existia uma grande vantagem em ter filho pequeno: quando você mais precisasse de um abraço, era só o pegar no colo e esmagar nos braços como se não houvesse amanhã. E era justamente isso que precisava no momento. Beijei sua bochecha e depois a testa, e voltamos para o meu quarto, para a segunda rodada de desenhos animados.



Continua...




Nota da autora: Não esqueçam de dar uma conferida em Intersection Point da Tatye, que é interligada a LTF! <3



Nota da beta: Ah, esse capítulo foi tão fofinho, deu para conhecer um pouquinho a pequena Clara, tão lindinha e neném! Ameeei esse momento pai e filha! Ansiosa pela continuação <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.




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