Legado de Poder

Última atualização: 03/09/2025

Capítulo 1

A residência, talvez, não fosse exatamente como imaginada. Localizada na cidade de Pormadre, a mansão Casa do Reino reluzia à distância, visível desde o asfalto da rua. Cercada por um cobogó de concreto, com meia parede, sua singeleza se destacava, emoldurada pela vista dos alfeneiros. Não demorou muito até que o portão deslizante liberasse a passagem do carro escuro. A velocidade aumentou na passarela de concreto, até o veículo estacionar na fachada, com o vidro do motorista abaixado. Avisaram ao mordomo sobre o visitante inesperado.
Nem tão inesperado seria para Enrico. Normalmente, ele considerava um empecilho ser interrompido após as quatorze horas. Nesse horário, costumava acompanhar um programa devocional na rádio, ouvindo as passagens da Bíblia enquanto enrolava um terço na mão. Devoto da Virgem Maria, sempre usava uma gargantilha com a imagem da santa por baixo da camiseta e, quando se lembrava, beijava-a às escondidas. Mas, naquela tarde, ele não ouvia versículos nem rezava. Fora do horário da programação, um livro sobre técnicas navais se tornara seu passatempo. Ao menos, depois de algumas páginas, ele sabia do que se tratava o assunto.
Os passos pausaram na entrada da sala. O mordomo se aproximou da poltrona para transmitir o recado, mas foi interrompido quando novas pegadas avançaram para dentro do cômodo. “Sou eu.” Enrico se virou na poltrona, inicialmente tentando reprovar o rapaz, mas sem sucesso.
Sempre mal-educado, ele jamais deixava de ser impaciente, especialmente quando não sabia esperar o retorno do mordomo com a permissão para entrar. Enrico nem sequer o repreendeu. Fechou o livro, deixando os dedos marcados nas páginas onde parara a leitura, e dispensou o mordomo. Com um gesto, jogou o livro na lareira, sobre outros que ali estavam.
— Eu lhe disse que voltaríamos a nos ver quando mandassem vir atrás de mim. — A voz de Enrico era baixa, mas carregada de um peso que parecia preencher o ar ao redor.
— Podemos marcar um reencontro para outro dia.
— Isso pode trazer azar. — Enrico se afastou da lareira e olhou atentamente para os braços do rapaz.
— Escondeu a santa antes de falar isso?
A cruz invertida no antebraço direito do rapaz se revelou completamente quando ele apontou para a gargantilha de Enrico. As tatuagens nunca agradaram a Enrico; para ele, eram um reflexo da falta de fé do rapaz. Apelidado por muitos de Anticristo, as cruzes invertidas nos antebraços faziam parte da identidade inventada do jovem. ‘Diabo solto em Monte dos Reis’. Enrico temia que os nomes satânicos destruíssem por completo sua boa índole.
— Prefiro não escondê-la de uma alma perdida — Enrico afirmou, sem desviar o olhar.
— Ela não vai se incomodar em salvar um diabo. — A tentativa de humor falhou, e o rapaz se intimidou imediatamente pelo olhar frio de Enrico, com seus delicados olhos azul-gelo, uma arma letal de constrangimento.
Enrico, então, tomou a iniciativa de ir direto ao ponto:
— Ainda não gosto de receber visitas, mas já sei que o motivo de você ter vindo tem a ver com a minha resposta.

***

A reunião prosseguia na sala, com as portas fechadas para evitar que segredos escapassem ou, quem sabe, apenas para conter os comentários precipitados. Diferente de seu amigo, Lorenzo rapidamente se acomodou ao uísque puro malte. Para ele, um paladar refinado era essencial, um toque de classe para qualquer situação, dispensando bebidas mais baratas, até nas conversas de última hora.
Lorenzo decidiu comparecer à reunião na mansão de Caius, um encontro cuidadosamente organizado pelo próprio Caius, que, como voz suprema da Sociedade e atual capô do clã Marquese, sabia como comandar a sala. Caius, descendente de duas famílias poderosas, fora consagrado no mundo do crime pelo clã Castelli, sua linhagem paterna. Alternando entre a serena Monte dos Reis e a intrigante cidade dos tiras, o sobrenome materno ajudava a esconder sua verdadeira identidade na Sociedade.
Alguns membros da elite mafiosa, consagrados na cidade costeira e montanhosa de Monte dos Reis, viviam em segredo e discrição na cidade dos tiras. Além de seus investimentos em multinacionais e fundações, o registro na cidade dos tiras facilitava a vida de Caius, permitindo-lhe permanecer invisível. Acostumado a essa dupla identidade, a ascensão de Caius à liderança da Sociedade foi rápida e sem resistência. Sem a necessidade de votação, ele conquistou a confiança dos outros, especialmente por não ter sido envolvido em nenhuma acusação criminal, mesmo antes de assumir o posto.
— Não sei se eles deveriam ser tão implacáveis — disse Lorenzo, com a calma serena de quem está seguro de sua posição.
O jornal, deixado sobre a mesa de centro de madeira polida, atraiu os olhos de Caius, que os fitou com um olhar pesado e pensativo. Nome respeitado dentro da Sociedade e oriundo do clã Valentini, Lorenzo, de braços cruzados, esperava pacientemente por uma resposta. Logo, ele disse, sem desviar o olhar:
— Sua mãe está morta mais uma vez no jornal.
Lorenzo não conseguiu esconder sua inquietação enquanto caminhava pela sala, onde as cortinas cerradas abafavam o som. O lustre de três castiçais iluminava suavemente o fino mastro da bandeira italiana, refletindo a luz no copo de uísque esquecido sobre a mesa, ainda com vestígios da bebida. Caius, sem pressa de responder, entrelaçou os dedos e se recostou na poltrona marrom, tentando desvendar a manchete que o perturbava.
— Estamos ficando sem tempo para resolver isso. Acabará nos envolvendo — continuou Lorenzo, a preocupação clara em sua voz.
— Ainda acredito que sou o único suspeito.
— Nem na cidade dos tiras você estava — disse Lorenzo, alcançando o copo na escrivaninha e, finalmente, se acomodando no sofá. A barba loira e cheia não se umedeceu com o trago demorado. — Precisamos aguardar o retorno de Ettore.
— Em Pormadre, ninguém é confiável — respondeu Caius, a frustração visível em seu rosto.
— Tentei conversar sem envolver ninguém, mas Enrico está demorando demais para dar uma resposta. Ele sabe onde está o último herdeiro dos Marquese.

***

Família antiga e venerada, os Marquese lideraram a fundação da Sociedade e a formação dos Rosa Azul, unindo inicialmente as três famílias mais poderosas. Junto aos Valentini e aos Castelli, estabeleceram as nomeações dos membros dos Rosa Azul. Seu símbolo, um canteiro de rosas azuis, cultivado por um antigo capô, tornou-se a marca dos aliados fiéis. O último nome ativo do clã Marquese, amplamente conhecido, era Vincenzo. Diziam que ele vivia recluso na Casa do Príncipe e, até onde se sabia, não deixara herdeiros.
— Ele era meu amigo. Jurei proteger o segredo do filho perdido de Vincenzo — disse Enrico, com uma voz carregada de um peso antigo.
— Um segredo que não pareceu muito bem guardado — provocou Ettore, apoiado casualmente no corrimão do pátio. Seus olhos seguiam o movimento dos regadores automáticos que molhavam a trilha aparada.
— Alguns suspeitavam. Mesmo assim, boatos não provam nada. A verdade é que dá força ao que importa — respondeu Enrico, escondendo as mãos nos bolsos da calça, enquanto observava as bromélias douradas aquecidas pelo sol.
— Toda mentira traz um fiapo de verdade — rebateu Ettore, os olhos fixos em Enrico, tentando desvendar algum detalhe em seu semblante.
— Nunca revelaram quem era a mãe da criança. Vincenzo nunca se casou.
O comentário fez Ettore soltar uma risada descontraída antes de dizer: — No final, acabou com um filho perdido longe de Monte dos Reis.
— É uma história que lembra a de Caius. Ele não foi escolhido para liderar os Marquese? — perguntou Enrico.
— Não por muito tempo. — A hesitação de Ettore chamou a atenção de Enrico, que o encarou com intensidade. — A mãe dele foi encontrada morta na cidade dos tiras.

***

Cidade normal ou Cidade dos Tiras. Terra da lei incompleta e da justiça cega e comprada. Poucos da Sociedade sobreviviam clandestinamente na região, as exceções mal percebidas pelos tiras. Inimigos da Sociedade, aliados aos alarmes da imprensa, transformaram Monte dos Reis no alvo das investigações policiais e dos rumores civis de Terra Bandida. Interligando os variados crimes do lugar, a máfia ganhou notoriedade e foi exposta pela mídia, com a sede localizada em Monte dos Reis. Assim, interpretaram os relatos de membros capturados. Envolvidos em crimes diversos, os clãs organizavam-se entre Membros e Recrutas, dispersos pelo mundo.
Caius, no entanto, optara por atuar diretamente na cidade normal. Empresário em destaque nas reportagens, rosto conhecido por comandar negócios com multinacionais, ele era um especialista da família Castelli. Recolhia o dobro do salário através das negociações de lavagem de dinheiro.
Nunca houve provas ou acusações confirmadas na cidade normal. A limpeza dos rastros era uma especialidade da família Castelli, sempre improvisada ao término dos trabalhos. Fiorella, esposa recatada e herdeira do nome forte dos Tarantino, já ouvira falar da técnica. Aceitou a união antes de Caius assumir o comando do clã Marquese, sem descendentes diretos, e governar a grande máfia.
Sentindo a ansiedade crescer, ela se retirou para a varanda. Já bastava ao marido ouvir conselhos do amigo e debater mais uma vez sobre a falsa acusação. Crente na inocência de Caius, qualquer insinuação contrária parecia arder-lhe as costas. Como não se garantia em argumentar, preferia simular um ataque de pânico ou fraqueza nas pernas. Inspirou o ar fresco repetidamente, aguardando no primeiro andar. Decidida a não retornar à sala, esticou a cabeça além do parapeito ao primeiro movimento aparente na escadaria.
Ainda em leve discussão, os dois homens desceram a escadaria larga da entrada. Com as mangas do pulôver ajustadas aos cotovelos, o riso solto de Caius indicava que a conversa tomara um rumo mais leve. Ao gesticular, ele se despediu de Lorenzo, que caminhou em direção ao Porsche Exclusive. O motor vibrante logo desapareceu após o chafariz obelisco.
Virando-se rapidamente, Caius encontrou Fiorella de imediato, provocando-lhe um leve descompasso no peito. Os passos dela, precisos sobre o salto scarpin amarelo, exalavam determinação.
— Me diga que ele trouxe alguma solução desta vez — pediu Fiorella, enquanto fixava o olhar em uma mancha na gola da camisa branca de Caius.
— Ainda estão procurando alguém para assumir meu lugar. — Ele tentou suavizar a preocupação da esposa, sorrindo com um peso oculto.
— Não vou acreditar que sua situação está tão ruim assim.
— Tenho que colaborar. — O olhar firme de Caius parecia vacilar, carregando uma tensão sutil.
Fiorella insistiu: — Mas não vai dar em nada. — O gesto de bater levemente na gola reafirmava sua confiança.
— Verei o que poderão me dizer amanhã.
O tom positivo e inesperado de Caius causou estranheza em Fiorella. Ela, que nunca confundia a ternura das mordiscadas nos dedos, começou a suspeitar do marido. Quando ele evitava contrariedades, o comportamento se tornava perceptível. Apesar do esforço, ela desistiu do questionamento.
— Terei que voltar à cidade. Precisam de um novo depoimento — concluiu Caius.

***

Provas concretas do assassinato de Carmen Montano não existiam. Encontraram seu corpo em uma noite abafada, reclinado no banco do motorista, com o xale rendado tingido de vermelho pelo disparo. Poucos dias antes, Caius passara pela cidade, mas já havia retornado a Monte dos Reis na tarde anterior. O caso tomou as manchetes, invadindo noticiários e alimentando rumores. A polícia informou Caius sobre o crime, exigindo seu retorno imediato para colaborar nas investigações.
— É uma idiotice arriscar tanto — Ettore pontuou, com um tom frio que mesclava desaprovação e indiferença.
Enrico, mãos escondidas nos bolsos, voltou-se com rapidez para ele.
— Alguma câmera escondida na sua casa que precise me avisar? — disse Ettore, com ironia.
O calor do sol pesava sobre o rosto de Ettore, intensificando a expressão irritada.
— Tem medo que eu entregue alguma prova da sua coragem para eles?
— Não me venha com sermões. Já tem um paraíso reservado, não? — Ettore respondeu com deboche, erguendo as mãos teatralmente.
O gesto blasfemo fez o sangue de Enrico ferver. Mesmo aparentando menos que seus cinquenta e três anos, os grisalhos no cabelo castanho e a barba alinhada o faziam parecer quase austero. Sua postura meticulosa mantinha as solteironas fascinadas, mas sua paciência tinha limites claros.
— Não me provoque quando o assunto é fé.
— Ora, não foi Lúcifer quem estudou a Bíblia antes de cair? — provocou Ettore, com um sorriso desafiador.
— Ele pecou antes de cumprir. — A resposta firme era carregada de convicção.
— E ainda fez uma mulher pecar. Está aí a raiz de tudo, não?
— Você precisou de uma mulher para nascer.
— E nunca pedi ajuda para sair da placenta.
Enrico avançou com passos largos pelo pátio, desviando das cicas nos canteiros, até o átrio quadrangular. O silêncio cortante preencheu o espaço entre os dois enquanto atravessavam o salão de leitura. Ettore, sempre inquieto, correu os dedos pelas lombadas dos livros, ignorando o aviso severo de Enrico.
— Não mexa. Se bagunçar, você arruma.
— Há muito aqui que não me interessa.
A parede próxima exibia uma pintura da santa com os braços abertos, pairando sobre nuvens. Ettore lançou-lhe um olhar zombeteiro antes de se distrair com o som da tampa do licor sendo aberta.
— Você ainda bebe?
— Tenho um gosto específico.
O aroma do licor de chocolate espalhou-se no ambiente, mas Ettore recusou a oferta com desdém. Ele explorava o salão com olhares rápidos, estranhando o ambiente repleto de móveis antiquados, livros organizados e o brilho opaco do candelabro barroco.
— Já pensou em suicídio ou teve ataques de pânico? — Ettore perguntou, cortando o silêncio de forma abrupta.
— Quer saber se me dou bem com os vizinhos? Eu sequer os conheço.
Antes que Ettore pudesse responder, a porta dupla rangeu ao ser aberta. Enrico desviou o olhar para a empregada, que anunciou a chegada de alguém à mansão. Ele observou do pátio enquanto um carro estacionava. Ettore, por curiosidade, seguiu o mordomo com os olhos até uma jovem que desembarcava com passos cuidadosos no jardim.
— Pensei que morava sozinho — Ettore comentou, estreitando os olhos contra o brilho do sol.
A moça falou rapidamente algo ao mordomo antes de seguir para os fundos da mansão. Enrico, cruzando os braços, observava-a com uma serenidade peculiar.
— Ela é minha filha.

***

A filha mais velha dos Tarantino chamava-se Eliane. Autoritária aos olhos dos conhecidos, envolvia-se em contrabando de tecidos. Quando o assunto era esperteza, superava Fiorella. Apesar de ser esposa e senhora do capô dos Messina, as aparências enganavam nas boas ocasiões ao lado da irmã. Rumores de rivalidade circulavam por causa dos maridos; Caius, com sua vida dupla na cidade dos tiras, mal mantinha uma posição entre os Castelli, enquanto Pasini já somava anos como capô dos Messina. As fofocas se espalhavam como rastilho de pólvora, pois, mesmo com trajetórias distintas, as irmãs Tarantino viviam em constante disputa. Não seria diferente agora, com Caius como principal suspeito do assassinato da própria mãe.
Descendo a escada apressadamente, Eliane cruzou o salão aberto, ignorando a voz infantil que ecoava da sala ao lado. O telefone em sua mão tremia com a insistência da chamada não atendida. Desde o quarto, ela tentava resolver o assunto. Desistindo, atravessou o arco que levava ao outro salão, os saltos finos tilintando no vinílico. Acomodou-se na poltrona vaga, sentindo o peso da frustração ao ouvir o leve virar da página de um caça-palavras — passatempo favorito do marido.
— Alguma notícia sobre Caius? — questionou, tentando conter a inquietação.
— Sua irmã deve saber algo — respondeu Pasini sem levantar os olhos, traçando uma palavra longa na página.
Eliane ocultou o desconforto nos lábios. Pasini, atento ao caça-palavras, movia a caneta como se nada mais importasse.
— Ela acredita em qualquer coisa — murmurou Eliane, observando uma criança correndo escada acima, os passos ecoando pesadamente.
— Ninguém nos avisou nada ainda, e isso me desconcerta. — Ela apoiou o braço na poltrona, os dedos batendo ritmicamente no estofado. — Não confio em Lorenzo.
Pasini demorou a responder. Traçou mais uma palavra no caça-palavras, pausando para conferir as letras.
— Ele está tentando ajudar.
Eliane franziu a testa, desconfortável com a tranquilidade do marido. — Não deveria ser assim.
Pasini desviou o olhar para a palma da mão da esposa, batendo contra o revestimento ocre do estofado. — Lorenzo não toma decisões sozinho.
— Mas a situação de Caius não favorece nenhuma decisão — retrucou Pasini, impaciente.
— Nem me garante que Caius seja inocente. Mandar matar a mãe, porque ela descobriu o envolvimento dele no crime... — A voz de Eliane adquiriu um tom mais firme, enquanto Pasini virava a página da revista com pressa, quase rasgando-a.
— Fiorella não vai aceitar isso. — A tensão de Eliane ficou evidente em sua postura rígida.
— Ela conhece as suas mentiras — afirmou Pasini distraído, o olhar fixo nas páginas. — Lorenzo fez bem em procurar Enrico — completou Pasini, de maneira enfática.
Eliane torceu a boca antes de responder. — Não concordo. Alguém de fora não deveria se intrometer.
— Ele foi amigo de Vincenzo; sabe onde encontrar o filho perdido. Achei que você se lembraria dele.
— Claro que me lembro. Ele era um Rosa Azul.

***

Rosa Azul era um segredo sussurrado no passado de Enrico. No clã dos Giordano, a família de sua mãe sempre se destacava, sendo preferida e priorizada. Juntas, as famílias Giordano e Caruso pareciam refletir uma harmonia indiscutível. Contudo, uma traição conjugal abalou os alicerces dessa união. Mais tarde, Enrico descobriu a existência de uma irmã por parte de pai, que vivia em Londres com a mãe. A própria mãe revelou os detalhes da infidelidade, expondo as feridas do passado.
Após o divórcio, pairavam dúvidas sobre o enfraquecimento da amizade entre os dois clãs. Apesar disso, os vínculos antigos não sucumbiram por completo. O casamento não foi suficiente para restaurar a confiança, mas a separação também não rompeu os laços que os uniam. Quando o pai de Enrico deixou Monte dos Reis, ele assumiu o sobrenome Giordano, herdando os negócios diversificados de sua mãe.
Até os 35 anos, Enrico desempenhou um papel ativo na Sociedade. Porém, ao atingir essa idade, escolheu se desligar. Mudou-se para Pormadre, onde abraçou a fé católica e se afastou de qualquer envolvimento com os Giordano e os Caruso, agora inativos.
Portadora de diabetes, a mãe foi a primeira a partir, deixando um vazio irreparável. Em seguida, a família se dispersou, dividida entre cidades e países distantes. Os negócios em Monte dos Reis foram abandonados, assim como os Caruso haviam feito anteriormente. Por sorte, o pai enviou notícias da Espanha: estava sendo cuidado por alguém que atendia sua artrose e o acompanhava na rotina com o casal de cães maltês. As conversas ocorriam esporadicamente. Enrico, sempre tímido e reservado, limitava-se a falar sobre o estado de saúde do pai, evitando trazer qualquer novidade pessoal.
Enrico jamais confessou ao pai sobre a existência da filha. Para ele, o velho não precisava conhecer os detalhes daquele convívio conturbado. Contudo, a verdade era inegável: Enrico não se iludia quanto à relação tumultuada entre eles. Ainda assim, respeitava a decisão da filha de manter as conversas mínimas e dedicar grande parte do dia ao orfanato da igreja. Giane, sua primeira e única filha, era raramente chamada pelo nome completo. Desde pequena, carregava o apelido curto, Gigi. Com frequência, trancava-se no quarto, descendo ao salão apenas quando necessário. Seus passos leves no assoalho refletiam a tentativa de evitar qualquer encontro com Enrico.
Assim que chegou à mansão, Giane não agiu de forma muito diferente. Era o paradeiro conhecido por todos, um lugar que ela já sabia como evitar ou enfrentar. A empregada, com delicadeza, bateu levemente à porta do quarto, aguardando a resposta da garota antes de anunciar o horário do jantar. Quando desceu, o som discreto do bater dos talheres não causou estranheza. Na sala de jantar, havia vinho servido e apenas Enrico à mesa.
Por detrás da parede, Giane observou em silêncio. Seus olhos encontraram o lugar reservado próximo à extremidade, ao lado de Enrico. Ele, por sua vez, fingiu não notar o movimento dela ao puxar a cadeira. Sentada, Giane voltou a atenção à massa fresca no prato à sua frente, ainda soltando vapor. Com um sopro proposital, afundou a salsa no molho, deixando clara a distância que desejava manter.
Durante toda a refeição, nenhuma palavra se fez ouvir. O silêncio dominava o ambiente, quebrado apenas pelo leve tinir dos talheres contra a porcelana. De tempos em tempos, Enrico, furtivamente, lançava olhares à moça, notando sua timidez refletida no prato quase intocado. Ele pousava os próprios talheres com cuidado, inclinando-se para um gole de vinho, como quem busca disfarçar a inquietação.
O clima se manteve assim por um longo momento, até que Giane, ainda concentrada em sua hesitação, captou o som de passos ao longe. A voz abafada, envolta numa conversa estranha ao telefone, aproximava-se lentamente, trazendo uma quebra inesperada ao silêncio da sala.
Enrico compreendeu rapidamente a cena: o celular afastado do ouvido de Ettore entregava o teor da conversa. Sem hesitar, deixou a mesa apressadamente e buscou refúgio em um dos salões vazios, onde preferiu concluir a ligação em um telefone fixo.
— O que você quer? — questionou, direto, sem esconder o tom de irritação.
— Saber da sua lealdade — respondeu a voz do outro lado, firme e calculada.
Resolver as questões com Lorenzo estava longe de ser fácil.
— Nunca tive lealdade com você — rebateu Enrico, a voz cortante como lâmina.
— Não é bem assim que amigos conversam — provocou Lorenzo, sarcástico.
Percebendo que Ettore havia se afastado da porta, Enrico ergueu o tom, abandonando o sussurro.
— Não me lembro de ter considerado você um amigo.
Do outro lado da linha, Lorenzo deixou escapar uma risada baixa, carregada de escárnio. Foi um gesto proposital, irritante, como se desejasse prolongar o desconforto. Espiando pela fresta da porta, Enrico viu Ettore desaparecer além da sala, movendo-se com pressa para fora do alcance.
Era mais uma investida opressiva de Lorenzo. Determinado a manter controle, Lorenzo tomou a iniciativa, exigindo que Ettore retornasse a Monte dos Reis o mais rápido possível.
— Eu ainda não disse nada para ele. E se não for um homem como é o esperado? — a dúvida pairava no ar, a preocupação se infiltrando nas palavras.
— Do que está falando? — Lorenzo respondeu com a voz áspera, a suspeita se tornando evidente a cada sílaba.
— A criança pode ser qualquer coisa. — O tom de incerteza era palpável, um pressentimento de que algo estava fora de lugar.
— Vincenzo não te deixaria sem essa informação. — A resposta de Lorenzo foi firme, como uma pedra que não se move, tentando dissipar qualquer sombra de dúvida que surgisse.
Enrico desistiu de responder. Nada parecia convencer Lorenzo. Já se metia demais no segredo de Vincenzo, e a Sociedade agora dependia mais do que nunca desse mistério. Não seria pela morte da mãe que Caius poderia ser condenado. A Sociedade corria um risco imenso. Um escândalo envolvendo um rosto conhecido na cidade dos tiras, sendo líder dos Marquese e da máfia escondida em Monte dos Reis, não parecia seguro para ninguém. Bastava apenas encontrar o herdeiro para livrar Caius da sentença pesada que o aguardava. Nenhuma investigação conseguiria provas de seus delitos na máfia; outro tomaria seu lugar em Monte dos Reis. Enrico compreendia a situação, mas deveria manter-se firme, ainda que irresoluto, considerando a promessa feita a Vincenzo. Por motivos que ninguém sabia, teve que esconder o filho. Jamais alguém deveria saber do herdeiro, e, mesmo diante de uma situação tão indecisa quanto a de Caius — algo nunca antes vivido pelos Rosa Azul —, a verdade permaneceria oculta.
Não havia razão para continuar envolvido com Monte dos Reis. A fé, com toda a sua verdade, também o limitava, e com boa razão. Mudara de vida, arrependendo-se das abominações e do mundo errado em que se envolvera na Sociedade. Ao ajudar com a revelação do herdeiro, tornava-se cúmplice do pecado, responsável pelas vidas perdidas, pelo crescimento das drogas e da prostituição. Nenhuma alma seria salva, e antes de chegarem ao reino, todas seriam entregues ao inferno. Foi um sermão na catedral da cidade que o fez abrir a bíblia e reconhecer a missão dos regenerados na terra. Pecaria novamente se se envolvesse com Monte dos Reis. Não valeria nada o arrependimento nem o esforço do início para se livrar das tentações. Seria como se nunca tivesse sido salvo, aceito e acolhido pela Virgem do céu.
Era indeciso não apenas por causa da promessa feita a Vincenzo, mas também pela fé que condenava os delitos de Monte dos Reis. A reta justiça deveria ser aplicada à cidade bandida.
Lorenzo não manteve a paciência durante o silêncio, resmungando pela falta de conversa. Enrico decidiu retornar, expandindo o peito antes de falar. Lorenzo desconfiou quando o suspiro foi solto.
— Preciso que Ettore volte amanhã. — Não deu tempo para Lorenzo replicar; a conversa seguiu decidida por Enrico. — Preciso explicar algumas coisas para ele.

Capítulo 2

Bem cedo, em Monte dos Reis, Ettore se preparava para partir novamente para Pormadre. Um carro já estava pronto para levá-lo. Embora ocupasse oficialmente a posição de missionário, um cargo de alto nível entre os recrutas, ele estava acostumado aos favores que recebia. Trabalhando entre as três famílias principais, os missionários eram responsáveis por missões complexas, fossem guarnições ou confrontos com rivais. Eles avançavam primeiro pelo caminho, enquanto os batedores e apagadores, com suas funções específicas, também se integravam nas necessidades das famílias. Tanto para questões urbanas quanto para execuções, cada grupo cumpria suas funções respectivas.
A ascensão ao cargo de missionário era um sinal de confiança, permitindo acesso a trabalhos importantes e decisões tomadas diretamente pelos líderes dos clãs. Funcionários dos capôs e das senhoras podiam ser reconhecidos como membros, garantindo espaço dentro do próprio clã. No entanto, esse não era o caso de Ettore. Ele havia ingressado na Sociedade como missionário, pois Caius precisava de um recruta particular. Não foi apresentado de forma destacada, mas apenas como alguém capaz, e Caius o aceitou. Mais tarde, os favores de Ettore foram divididos entre os Valentini, à medida que seguia a busca pelo herdeiro dos Marquese.
Enquanto Ettore cruzava o pátio, seus olhos captaram um Mercedes prateado contornando o portão principal. A visita, inesperada para aquele horário, dirigia-se à mansão Trofeo, o fortificado paraíso dos Valentini. A propriedade de Lorenzo, em especial, exibia um requinte singular: extensos canteiros de macieiras floresciam nos fundos, e uma piscina de cinquenta metros dominava a área de lazer. Não menos imponente, um salão de festas permanecia como símbolo de ostentação, sua grandiosidade jamais experimentada em uso.
A buzina soou de propósito, ecoando em frente às escadarias. Ettore cruzou os braços, fixando o olhar no exagero desnecessário do Mercedes prateado, cuja imponência contrastava com a simplicidade de uma manhã ensolarada.
Eliane desceu com graça calculada, segurando o chapéu matinê cinza em uma das mãos. Com um gesto suave, retirou os óculos quadrados ao cruzar o caminho de Ettore, sua postura impecável adicionando uma camada de intenção ao encontro inesperado.
Ela entrou às pressas na sala, movendo-se com determinação, e acomodou-se na poltrona Lilian, mantendo a postura ereta. Ajustou com firmeza o cinto grosso e escuro na cintura, demonstrando uma compostura calculada.
Notou um movimento sutil atrás da porta e, instintivamente, lançou um olhar breve para a escrivaninha, onde um conjunto de canetas coloridas repousava ordenadamente no porta-canetas.
As cortinas foram abertas com cuidado antes que ela ficasse sozinha na sala de espera. A luz do sol invadiu o espaço, realçando o brilho do piso de cimento cinza e lançando um destaque sobre os livros de economia dispostos na estante branca, estrategicamente posicionada ao lado das janelas.
A espera prolongada a impacientou, levando-a a agitar as pontas dos saltos que pressionavam o tapete em um ritmo descontínuo.
Logo, uma voz baixa surgiu do corredor do primeiro andar, ecoando discretamente na direção da sala. A porta abriu-se parcialmente, revelando uma mão clara segurando a maçaneta. Em seguida, metade do corpo alto e magro emergiu, inclinando-se para cumprimentar a empregada postada do lado de fora.
Eliane permaneceu impassível, ignorando o ‘bom dia’ educado, e iniciou um ataque direto assim que Lorenzo começou a caminhar em direção à escrivaninha.
— Pensei que você não morava mais aqui.
— Estive resolvendo um problema. — Lorenzo posicionou o celular sobre a escrivaninha com um movimento controlado e cruzou as mãos calmamente, aguardando.
— Sempre se envolvendo em problemas.
Eliane moldou um sorriso forçado, fixando-se no olhar insolente e desnecessário de Lorenzo, marcado por seus olhos de um azul-marinho profundo.
— Pensei que era o seu marido. — O esforço de Lorenzo em conter a voz num sussurro revelou-se fracassado.
— Ele não saberia lhe questionar como se deve. — A sobrancelha de Eliane arqueou-se, refletindo a tensão contida na voz firme.
— Então me diga, o que estou fazendo que não lhe agrada?
— Ninguém mandou você procurar um substituto para Caius.
Eliane cruzou as pernas, ajustando a postura em um gesto que reforçava seu desafio silencioso. A tolerância que demonstrava em relação a Lorenzo não era uma novidade voluntária, mas uma obrigação moldada ao longo do tempo. Ela desconfiava profundamente de seu carisma e da maneira como se envolvia nos assuntos alheios. Até onde sabia, Lorenzo era conhecido por sua autonomia, conduzindo negócios sozinho e evitando depender de qualquer um. Orgulhava-se das atividades ilícitas herdadas dos Valentini, incluindo cassinos e jogos de azar.
Sua paixão por esportes aquáticos era notória, mas sua vida amorosa era um tanto caótica, marcada por divórcios consecutivos. Eliane recordava-se bem do último casamento, encerrado há apenas seis meses, com a ex-esposa deixando Monte dos Reis. Pouco depois, outra mulher ocupara seu lugar na mansão, ostentando uma aliança fina e reluzente. Vinda de outra cidade, não da cidade dos tiras, a nova esposa tinha vocação para o ensino. Ao chegar em Monte dos Reis, rapidamente se acostumou ao luxo, deliciando-se com o caviar e aproveitando o dinheiro fácil proporcionado pelos negócios escusos do marido.
Lorenzo entrelaçou os dedos com firmeza, uma tensão perceptível surgindo em seus movimentos.
— Foi Caius quem teve a ideia.
— Ele teve, e você aceitou. — Eliane ajustou-se abruptamente na poltrona, o movimento denunciando seu desconforto momentâneo. — A Sociedade é que decide a maioria das coisas que ele pensar e não você.
— É uma decisão entre os mais íntimos.
— Envolvendo Enrico novamente.
Lorenzo inclinou-se para trás, apoiando-se nos braços da cadeira, surpreso pela postura firme e repentina de Eliane.
— Ainda podemos contar com os velhos amigos.
— Você está se garantindo demais com esse herdeiro. O nome dos Marquese não combina com você. — Eliane congelou a expressão, tornando-a rígida. — Não seria difícil assumir o lugar de Caius. Encontrou uma solução para governar.
Lorenzo ficou em silêncio, tentando levantar um canto dos lábios, mas desconfiado ao observar Eliane se afastando da poltrona.
— Já está indo embora?
Eliane continuava segurando o chapéu matinê e decidiu colocá-lo ao sair.
— Terminei o que tinha a dizer. — Ela fitou Lorenzo com firmeza, enfatizando cada palavra da conversa. — Não posso ficar mais, tenho que visitar minha irmã. Caius já saiu da cidade.
*


Provavelmente, uma outra cidade seria o melhor lugar para recomeçar a vida. Pormadre levou algum tempo para se tornar a primeira escolha de Enrico. Distante de Monte dos Reis, o centro da cidade tinha um caráter mais artesanal, com ruas estreitas e tranquilas. A cidade era embelezada por sobrados, que variavam entre os monocromáticos e os vibrantes, com ênfase nas cores vermelha, azul e amarela. Abaixo dos sobrados, havia cafeterias, docerias e padarias, atraindo com o convite acolhedor das massas. Fontes decoravam as ruas, e o pavimento de concreto era adornado com estrelas refletidas nos dois rios principais. À noite, fitas coloridas cruzavam os postes de luz baixos. Durante a semana, uma feira variada se organizava, com tendas exibindo hortaliças e, às vezes, vasos com mudas de plantas perfumadas.
A cidade repousava em um silêncio discreto, quebrado apenas pelo suave assobio da brisa que deslizava pelos rios. Após refletir sobre Pormadre, Enrico decidiu afastar-se temporariamente, escolhendo a cidade para recomeçar após se aposentar da máfia. Havia encerrado seu trabalho, expandindo os saldos dos Giordano, mas optou por não se envolver com a família de seu pai. Determinado a mudar de vida, passou a frequentar a antiga catedral da cidade, onde encontrou arrependimento para o passado imoral e transformou a devoção em rotina. Era um homem renovado, moldado pelo esforço, mas que ainda caminhava na tênue linha entre a redenção e o risco de desviar-se novamente.
Enrico atendeu o celular na sala do primeiro andar, junto à janela aberta. A luz do sol aquecia sua mão enquanto segurava o aparelho junto ao ouvido. Do outro lado, a voz de Ettore soou firme e direta:
— Estou a caminho de Pormadre.
Enrico esfregou o rosto, deixando escapar um suspiro antes de guardar o celular no bolso da calça. Desta vez, precisava ser fiel à sua palavra; Lorenzo não toleraria mais um adiamento. Com os braços cruzados contra o peito, mergulhou em pensamentos em busca de uma solução.
Num ímpeto, desceu as escadas apressado, atravessando a sala com passos decididos. Seus olhos captaram a figura da filha cruzando o ambiente em silêncio. Ele se virou, hesitando por um momento, antes de segui-la discretamente, atento ao seu percurso.
— Está saindo?
— Quero ficar aqui fora.
A garota envolveu os joelhos com os braços assim que se acomodou no deck do pátio. Enrico observava, aguardando que ela quebrasse o silêncio com mais palavras. Contudo, ao perceber a hesitação, desistiu de esperar e murmurou uma advertência suave, com a voz equilibrada e baixa.
— Me avise se decidir sair.
Gigi pouco se interessava por explorar a cidade. Seus passos eram restritos a poucos lugares em Pormadre, sempre optando pelos recantos menores e mais tranquilos. Passava com frequência pela catedral, onde o silêncio parecia refletir sua própria natureza reservada. Tanto ela quanto Enrico compartilhavam uma devoção de poucas palavras. Ele, em contrapartida, esforçava-se em quebrar a distância: sugeria temas, oferecia revistas, insistia em criar uma proximidade que jamais florescia.
Talvez a ausência de clareza sobre a mãe de Gigi fosse a razão mais plausível para a barreira entre eles. Nunca trocaram palavras diretas sobre o assunto. Enrico poderia ter contado que a mãe de Gigi vinha de outra cidade, mas evitava o tema, hesitando em tocar no motivo do divórcio. Assim, pai e filha permaneceram presos em um vínculo frágil, onde o silêncio ocupava o espaço de conversas nunca iniciadas e a má relação era tratada como um segredo trancado entre eles.

*

Poucos sequer suspeitavam que havia um segredo. Fiorella, em sua discrição, nunca espalhou boatos sobre a suposta traição de Caius. No entanto, seu olhar atento percebia as mudanças do marido após os retornos a Monte dos Reis. A atenção esparsa que ele oferecia jamais compensava as longas esperas, e a grosseria desnecessária apenas reforçava o desconforto. Não era difícil imaginar uma amante; na verdade, Fiorella já tinha convicção de que Caius, cedo ou tarde, encontraria uma aventura em outra cidade.
Em Monte dos Reis, eram um casal. Já na cidade dos tiras, Caius continuava vivendo como um solteiro cobiçado. A justificativa que ele deu, no entanto, soou convincente: manter um relacionamento sério naquela cidade poderia expor o nome de Fiorella à máfia, caso surgisse alguma investigação. Essa explicação, protegida pela precaução, acalmou Fiorella por um tempo. Ela concordava, aceitava, mas, em silêncio, temia as críticas da irmã, cuja reprovação era sempre uma sombra em sua mente.
Eliane nunca elogiava Caius; para ela, um homem com sorrisos generosos para todos era, no fundo, uma ilusão perigosa. Por pura provocação, sugeriu a Fiorella a possibilidade de um caso amoroso, só para vê-la perder a calma. E, de fato, antes do Natal — em novembro passado, a suspeita tomou forma.
Caius partira para a cidade dos tiras sob a justificativa de compromissos importantes. Porém, ao retornar a Monte dos Reis, carregava na mente a imagem de uma morena alva e destemida. O encontro com ela aconteceu por acaso, durante um coquetel empresarial. Conversaram pouco, trocaram impressões superficiais, mas o suficiente para que os números de telefone fossem compartilhados.
O amor por Fiorella se apagava em meio à negligência e à rudeza. Para ele, ela havia se tornado apenas uma obrigação. Já para a amante, Caius não mediu esforços ou gastos. Em um único colar de diamantes, investiu uma fortuna. Encomendou perfumes exóticos e bolsas que mal entendia, mas que combinavam perfeitamente com o gosto refinado daquela mulher nova.
Na véspera de Natal, Caius ajustou seus planos, remarcando o retorno à cidade. Antes de partir, deixou em Fiorella um beijo ausente e reservou à amante a maior fatia de sua atenção. Desde a viagem, as mensagens trocadas com a outra mulher mantinham-no preso a um entusiasmo volúvel. Alegara à esposa um trabalho urgente, mas a justificativa não passava de uma cortina para o verdadeiro propósito: um jantar a dois.
No entanto, o destino não cooperou. Incapaz de localizar a amante, viu-se obrigado a abandonar o plano. Restou-lhe apenas a opção de voltar para Monte dos Reis. Chegou carregado de presentes cuidadosamente escolhidos e uma frustração difícil de ignorar.
Ao atravessar a porta de casa, a ausência de uma ceia o surpreendeu. O ambiente parecia tão vazio quanto suas promessas. Fiorella, já no quarto, repousava cedo, alheia ao Natal que Caius pretendia reinventar.
Nada escapava aos olhos atentos de Eliane. Ela conhecia os pormenores e fazia questão de ir além, cavando informações que fortalecessem seus argumentos contra a irmã. Não era coincidência sua chegada antecipada à mansão; sabia que a vulnerabilidade de Fiorella lhe daria vantagem em qualquer discussão.
Eliane tinha um propósito claro: desarmar a irmã com palavras afiadas e insinuações cuidadosamente planejadas. A pressa para chegar cedo refletia mais do que impaciência; era estratégia. Fiorella, sem tempo de se preparar, se tornava um alvo mais fácil para as provocações de Eliane, que sempre saboreava a sensação de estar no controle.
Nos primeiros degraus da escada em leque, Fiorella notou o gesto inconfundível de recusa: a palma erguida, rejeitando algo servido. Avisaram-na da presença da irmã na sala, sentada com aparente tranquilidade no sofá de frente para a lareira, apagada, como o ânimo de Fiorella diante da visita.
Desceu o restante dos degraus com passos mais lentos, como quem hesita em enfrentar o que já sabe ser inevitável. Ao chegar ao tapete de lã que dominava o ambiente, Fiorella optou pelo silêncio. Não havia sorrisos nem cumprimentos; apenas o olhar fixo na irmã, que parecia esperar pelo início de um embate que Fiorella não queria travar.
— Não pense que é uma novidade receber uma visita minha.
— Nunca é uma visita boa.
— Posso ter piedade de você desta vez. — A conversa tranquila de Eliane ainda intimidou Fiorella, que contornou a poltrona, pousando as mãos unidas sobre o encosto. — Me agrada mais discutir com você na presença do seu guarda-costas.
Fiorella captou a ironia envolvendo Caius e lutou contra a vontade de retrucar, ciente de que não superava a língua afiada da irmã. Ainda assim, esforçou-se para responder com gentileza.
— Pensei que eu precisaria te contar que estou sozinha.
— Meu marido também é capô, sempre foi a vida toda. — Fiorella esticou o canto da boca em clara reprovação ao comentário da irmã. — Algumas coisas ele me diz, enquanto outras prefiro saber por conta própria.
— E o que você veio saber?
No mesmo instante, Eliane cruzou as pernas, demorando o olhar castanho na irmã. Não era a primeira vez que ponderava.
— Já descansou da amante? Não esqueci de acompanhar as novidades deste trisal mal assumido.
Fiorella manteve os olhos fixos, relembrando o problema anterior. Sustentou o olhar e a melancolia através do azul bebê.
— Tenho apenas problemas com a acusação do meu marido.
— Não me convence muito essa sua inocência com ele. Ele se arrependeu por falta de opção. Repensou porque a amante o deixou. É um fracasso.
— É vontade dele ficar mais tempo em Monte dos Reis.
Eliane estalou a língua com um riso leve, ajustando rapidamente a postura relaxada.
— Eu sinto pena quando você me pede para te humilhar.
Fiorella apertou as mãos, hesitante com o silêncio da irmã. Considerou sentar-se no sofá, mas Eliane logo retomou as perguntas.
— Sabe se já descobriram alguma coisa sobre o herdeiro de Vincenzo?
Fiorella desconfiava do olhar pacífico da irmã e, sem hesitar, revelou o que sabia. Incluiu o que ouvira do marido durante a noite: Enrico não mencionara o herdeiro, mas pedira que Ettore o encontrasse novamente.

*

Já não estava distante de Pormadre. Acelerando pela descida da encosta, o carro cruzou a divisa com o setor portuário agitado. A saída de Monte dos Reis também levava aos portos, onde um deles recebia cruzeiros, atraindo turistas sofisticados que frequentemente prolongavam sua estadia, especialmente por conta das reservas antecipadas nas pousadas à beira-mar. A cidade encantava, lucrando tanto com seus quiosques de palha à beira do mar quanto com a vida noturna vibrante, que oferecia quitutes feitos com iguarias do mar.
Apesar de ter passado tanto tempo em Monte dos Reis, Enrico nunca cultivou um grande apreço pela cidade. Sempre manteve um perfil discreto desde os tempos da máfia, frequentando cassinos e exposições de arte, e às vezes explorava boates mais tranquilas. Mesmo com um chofer, reduzia o consumo de álcool. Pormadre parecia ser o lugar ideal para ele, um refúgio perfeito para quem valorizava o celibato e evitava as fraquezas que só encontrava em Monte dos Reis. Ettore sabia que Enrico se adaptava bem a Pormadre, especialmente porque ele não era muito hábil nas conversas e preferia evitar a companhia de desconhecidos por muito tempo.
Cinco anos haviam se passado desde que Ettore conheceu Enrico. Naquele tempo, ele estava desesperado por trabalho, e Enrico lhe ofereceu uma solução rápida, mas temporária. Conseguir um bom emprego em Monte dos Reis era uma tarefa difícil. Ettore acabou servindo aos favores de Caius e, com o tempo, se estabeleceu na máfia. Inicialmente, sua reputação não era das melhores, mas logo ascendeu para o alto escalão, encarando qualquer situação com uma postura intransigente. Dependendo da missão, usava tanto os punhos quanto armas, sempre se garantindo com ameaças e, quando necessário, com tortura. Por isso, ficou conhecido como ‘Anticristo’; na máfia, não havia espaço para piedade.
Enrico não aceitava bem o apelido. Sabia que a mudança drástica de Ettore era reflexo do ambiente corrupto de Monte dos Reis. Quando Ettore se aproximou da casa, notou alguém passando pelo jardim. Dentro, Enrico aguardava no salão, movendo as peças de xadrez com destreza e planejando estratégias. Experiente no jogo, reposicionou a torre rapidamente assim que ouviu os passos do mordomo ecoando pelo salão.
Havia uma sala de estar discreta no primeiro andar. Ettore aguardava ali, enquanto a luz suave da tarde fluía pela porta de correr aberta. Encostado no guarda-corpo de inox, observava o jardim vazio. Ao dar meia volta, viu a porta se abrindo lentamente.
— Eu vi a sua filha no jardim; acho que ela saiu correndo. É bem parecida com você.
Enrico, sentado na poltrona, esfregou os dedos na têmpora. Ettore observou, atento ao grosso anel de prata que brilhava em sua mão.
— Não é fácil para mim falar sobre o que não deveria ser falado.
— Não precisa deixar as coisas tão estranhas; todo mundo já sabe que Vincenzo deixou um herdeiro.
— Ele não queria que ninguém soubesse.
— Muita gente acabou sabendo.
Ettore se acomodou na poltrona, cruzando as pernas, enquanto Enrico desviava o olhar para a porta de correr. Esse gesto fez Ettore estranhar a aversão de Enrico a olhar nos olhos.
— Acho que posso confiar em você.
Enrico explicou que não era a primeira vez que sua filha fugia de estranhos. Raramente recebiam visitas, e ele mantinha a casa com as portas sempre fechadas. Só saíam juntos em dias de missa ou nas festividades em homenagem aos santos. Ninguém suspeitava de desentendimentos; a aparência de boa relação era mantida, mas Giane, ao menos, tolerava o respeito.
— Acho que isso não tem muito a ver. — Ettore esticou a perna cruzada e apoiou as mãos nos joelhos, relaxando na poltrona enquanto observava a sala silenciosa. — Mas seria muito estranho se você não fosse um pai esquisito.
— Não cuidei bem dela. Tentei me reaproximar, mas ela acreditava que eu não a amava.
Ettore pensou em amenizar o constrangimento, mas ao ver a mão de Enrico cobrindo o rosto, decidiu que seria melhor não ser insensível. Era importante permitir que Enrico abrisse seu coração. Cruzou os braços, a camiseta escura marcando os cotovelos, enquanto seus olhos percorriam a sala, respeitoso diante da imagem dos querubins em linho fino.
— Ao menos deve saber no que você “trabalhava”.
— Eu nunca contei. Inventei mentiras sobre a mãe dela. Fiz ela acreditar que eu era casado, sem nunca ter sido.
Enrico baixou a voz, que até então havia se elevado, deixando a tensão dissipar suavemente pelo ambiente.
— Não é fácil dizer isso.
O silêncio tomou conta da sala, incomodando Ettore. Ele se levantou com calma, cruzou os braços e caminhou em direção a Enrico, passando lentamente à sua frente.
— Ainda estou tentando entender o que isso tem a ver com o grande segredo.
— É a mesma coisa.
— Sim, o seu segredo. — Ettore estendeu o dedo indicador em direção a Enrico, apontando para ele próximo à porta de correr. — Vamos resolver essa história; vai facilitar para todo mundo.
— Você ainda não entendeu?
— Está faltando me contar mais alguma coisa?
Enrico desviou o olhar após encarar Ettore, que soltou as mãos do quadril, sem vontade de continuar a conversa. A sala mergulhou em silêncio, e o vento podia ser ouvido com clareza.
— Deveria tentar resolver as coisas com ela. — Ettore tentou incentivar, sentindo a angústia crescente, misturada ao sussurro do vento.
— Não posso mais. — A voz desanimada de Enrico, suave e pesada, parecia carregar um problema sério. — Ela não vai me perdoar por ter fingido ser o que não era.
Ettore observou atentamente quando os olhos frágeis de Enrico o fixaram, revelando sua verdade, humana e imperfeita.
— Giane não é minha filha de verdade. Me deram um bebê. Vincenzo me entregou a filha dele.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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