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Última atualização: 27/07/2017

Capítulo 1


- Filha, precisamos ir. - minha mãe falou novamente através da porta fechada. - Só um minuto mãe. - falei, enquanto voltava a minha atenção para a tela do computador. - Não quero ir. - falei em inglês para ele. - , são só duas semanas. Vai ficar tudo bem. - ele falou. - Duas semanas sem te ver. Mesmo que seja assim. - falei, triste, me referindo ao Skype. - Ainda temos WhatsApp e Snap. Vai ficar tudo bem. - falou e eu respirei fundo. - Você tem razão. - falei enquanto ouvia minha mãe me chamar de novo. - Acho melhor você ir antes que ela derrube essa porta. - falou sorrindo. - Tchau. - falei, triste. - Tchau love. - falou e eu desliguei a câmera.
Meu nome é , tenho 16 anos e moro no Brasil com a minha família, mais especificamente em Búzios, no Rio de Janeiro.
Eu e Tom nos conhecemos através do Twitter, ele tinha 18 anos - fez 19 na semana passada. Aquela coisa de fã, sabe? Não que eu seja fanática por ele ou algo do tipo... Enfim. Somos amigos a quase seis meses, nunca nos vimos pessoalmente - minha família não tem dinheiro para me mandar pra uma viagem fora do país e ele está sempre ocupado com os filmes, não o culpo, é o sonho dele.
Eu peguei minha bolsa e minha pequena mala, enquanto passava pelo corredor até a sala, indo para a garagem, onde meu pai me esperava para colocar as coisas no carro. - Estava falando com ele de novo? - perguntou mas eu não precisava responder para ele saber que sim. - Querida... - mamãe começou enquanto colocava meu irmão mais novo na cadeirinha. - Não precisa falar mãe. Eu já sei. - falei enquanto sentava no banco de trás perto dos meus irmãos. Meus pais acham que é uma perda de tempo me envolver com Tom. Mais um clichê daquela história de ele é famoso e não quer nada sério com você!
- Animo . São as nossas férias em família. - meu pai falou. - A família toda vai estar lá, você vai poder interagir com mais gente além do seu namorado no computador. - Pela última vez pai, ele não é meu namorado! - falei enquanto colocava meus fones de ouvido. Encostei minha cabeça no vidro enquanto esperava meu pai tirar o carro da garagem em direção ao sítio da família, onde passaríamos as nossas 'férias'.
Nossa vida não é ruim, graças a Deus. Temos nossa casa, meu pai tem um emprego bom, minha família tem um sítio que foi deixado para todos de herança quando meu avô faleceu.
Sempre tive muita vontade de conhecer outros lugares, conhecer mais gente, outros países, mas sei que agora não é a hora. Desde que meu irmão mais novo nasceu, minha mãe decidiu ficar em casa para cuidar de nós, meu pai tem trabalhado mais e nós tivemos que cortar algumas coisas. Crianças gastam. Nunca tive a oportunidade de viajar. Demoramos algum tempo para chegar lá, e, quando o fizemos, quase todos já haviam chegado. Eu ainda estava de mal humor.
-Vocês finalmente chegaram! - Minha tia, Rebeca falou aos nos vir receber.
- Oi tia. - falei enquanto tirava as minhas coisas do carro.
- O que aconteceu com ela?
- Tá brava porque não pode ver o namorado! - Guilherme, meu irmão do meio, falou.
- Pela última vez, ele não é meu namorado! - falei, recolocando meu fone de ouvido, mas logo meu pai me interrompeu.
- Lembra das regras? - ele perguntou, enquanto tirava as coisas do carro.
- Nada de fones de ouvido! - falei, colocando-os na bolsa, pegando-a e levando a até o quarto conjugado que eu divido com meus país e meus irmãos quando ficamos aqui. Seriam longas duas semanas.
Quatro dias já haviam passado e eu não havia falado com Tom ainda. Ele deveria ter pego um vôo para Londres ontem para passar as férias com a família. Eram as primeiras férias dele desde que nos conhecemos e eu não ia conseguir conversar com ele todos os dias igual eu queria, pelo menos não por enquanto.
Era um pouco depois do almoço, os adultos estavam dormindo, em sua maioria. Eu estava sentada na varanda da casa, a lagoa a minha frente, o céu estava limpo e o sol bem quente, meus primos estavam jogando vôlei perto da lagoa, eu olhava os antigos snaps de Holland . Eu tinha 3G mas o sinal de celular não pegava em todo lugar, então eu não conseguia ligar pra ele ou ter uma conversa decente pela internet.
Estava tão distraída com meus pensamentos que nem percebi quando minha prima e melhor amiga, Rafaela, sentou na minha frente.
-Pensando nele? - perguntou.
- Eu to sempre pensando nele. - falei. - Não queria agir assim. Parece que eu to viciada em algum tipo de droga, mas eu… Sinto saudades.
- Eu sei qual é o seu problema! - ela falou, colocando a mão no meu braço.
- E qual é? - perguntei.
- Você está apaixonada! - falou, sorrindo, como se fosse uma coisa óbvia.
Rafaela era dois anos mais velha do que eu, ela tinha a mesma idade de Tom. Era a prima com idade mais próxima que eu tinha e, apesar da diferença de idade, nós desenvolvemos uma amizade muito grande nos últimos 8 anos e me orgulho disso.
- Será possível? - perguntei.- Nunca o vi pessoalmente! E se ele não for o que penso? E se eu estiver enganada?
- Infelizmente é um risco que você tem que estar disposta a correr se quer levar isso a diante. E... parece que seu coração já se decidiu! - falou, sorrindo de lado. Suspirei, pensando antes de respondê-la. Será possível? Quero dizer, eu gostava de conversar com ele e gostava da voz dele… O sotaque dele ecoava na minha mente o tempo todo… E o jeito que ele me fazia rir… A risada dele era minha fraqueza.
- Deus… Eu to completamente apaixonada por ele. - falei colocando meu rosto entre as minhas mãos, com vergonha. Provavelmente minhas bochechas estavam vermelhas- Como não percebi antes? - perguntei agora olhando pra ela.
- As vezes não percebemos o que está bem diante do nosso nariz! - falou.
- O que eu vou fazer? A probabilidade de eu viajar é muito baixa e ele tá sempre ocupado. Sabe quando eu vou encontrar ele? Provavelmente nunca!
- Pensaremos em alguma coisa, eu prometo, tá? - falou e eu concordo. - Não gosto de te ver assim, você precisa se distrair! Ficar pensando nele o tempo todo vai te fazer mal! Vamos jogar vôlei!
- Você sabe que vôlei não é o meu esporte! - falei.
- Então já tá mais do que na hora de passar a ser! Vem! - falou puxando meu braço.
- Você não tem jeito! Parece uma criança! - falei, me levantando e colocando o celular no bolso do short.
- O celular fica! - falou, me estendendo a mão e pegando o celular, colocando-o na mesinha perto da rede.
- Você é chata! - falei.
Caminhamos até onde meus primos jogavam. Eles nos “aceitaram” nós times e, apesar de eu ser péssima no vôlei, até que foi divertido. Rafaela me distraiu a tarde toda. Eu amo ela por causa disso, sabe quando você precisa pensar em outras coisas e ela sabe como distrair sua cabeça.
A temperatura caiu durante a noite. Era início de inverno, então a queda foi mais brusca. Nós juntamos a família toda e acendemos uma fogueira perto da lagoa. Levamos para fora alguns bancos, toalhas, cadeiras e cobertores para nos esquentarmos. Meu primo, Paulo, irmão de Rafaela levou o violão e nós ficamos ali até tarde da noite.
-Tá faltando uma voz. - meu tio, Carlos, comentou.
- Eu não vou cantar sozinha! - falei, me referindo a meu primo.
Minha família era basicamente assim: meus avos tiveram 3 filhos, que, ao todo tiveram 10 filhos. Somos em 3 mulheres e 7 homens. Eu, Gabriel, Guilherme, Rafaela, João, Miguel- irmãos -, Matheus, Paulo, Eduardo e Flávia - irmãos.
Antes que eu percebesse meu primo, Paulo, já havia começado a tocar os acordes no violão e começado a cantar I Know What You Did Last Summer do Shawn Mendes com a Camila Cabello e eu teria que cantar também! Nós sempre cantávamos quando estávamos em festas com nossos amigos - sim, também temos o mesmo círculo de amigos -, mas nunca havíamos cantado em frente da família toda, essa seria a primeira vez e eu estava meio nervosa.
Até que foi divertido. Todos ficaram maravilhados com a junção das nossas vozes. Eu fiquei feliz em não ter errado nada porque a idiota da minha prima estava gravando e eu não queria nenhum fiasco meu gravado na internet mais tarde.
Com o tempo às crianças foram dormir e os adultos também. Ficando só os adolescentes. Minha garganta doía um pouco por não estar acostumada a cantar tanto de uma vez só - foi quase uma hora direto! No momento meus primos estavam tentando me convencer a cantar uma última música antes de todos irmos dormir.
-Gente, eu não aguento! - falei.
- Qual é? Você é melhor que isso! - João reclamou.
- Vamos lá ! - Miguel falou.
- Tá bom. Espera. Eu tenho um desafio pra ela! - Rafaela falou e todos se calaram. Sabiam que eu quase nunca recusava um desafio quando era em relação à música!
- Qual é o desafio Rafa? - perguntei.
- Quero que você cante uma música romântica….
- E o que eu tenho cantado até agora? - falei interrompendo-a.
- Posso terminar de falar? - perguntou e eu fiquei quieta. - Obrigada. Uma música romântica para você sabe quem!
Além das minhas amigas - o que incluía a Rafaela -, meus pais e meus irmãos, ninguém sabia quem era o Tom.
-Você não presta! - falei, querendo assassina-la com o olhar.
- Como assim: ‘você sabe quem”? Você tá de rolo e não contou para a gente? - Eduardo perguntou.
- É complicado! - falei, querendo encerrar o assunto.
- E aí? Vai aceitar ou não? - Rafa perguntou.
- Eu vou! Me dê só um segundo para pensar em uma música! - falei e ela deu de ombros. Se rendendo. Quando dei por mim já cantava Give your heart a break da Demi Lovato. Foi mais tranquilo cantar essa música do que eu imaginei. Em minha mente eu imaginava que Tom estava ali ouvindo aquela música e foi bem mais fácil.
Mais dois dias se pasm e nós tivemos que voltar para casa. Meus irmãos tem muita alergia alimentar e às vezes Gabriel se esquece e come algumas coisas que ele não devia, é difícil para ele porque é muito novo. Isso já nos custou muitas noites no hospital, mas dessa vez ele não teve uma reação muito agressiva. Ele não ficou muito satisfeito de ter que voltar para casa, nem nós, mas não tínhamos muita escolha. Não podíamos correr o risco de ele ter um choque anafilático tão longe de um hospital.
Alguns dias atrás eu teria agradecido, mas eu estava gostando de ficar ali com meus primos.
Quando chegamos em casa eu ajudei meu pai a descarregar o carro e a entrar com as coisas, antes de pegar minha bolsa e levar para meu quarto.
Sempre sinto falta do meu quarto quando fico muito tempo longe de casa. A cama de solteiro de baixo da janela, com uma pequena mesinha de cabeceira e ao lado dessa uma bancada. Na parede oposta, de frente para a cama, meu armário e, ao lado dele, uma pequena estante aonde eu guardo minha coleção de livros. Ao lado da porta, que fica de frente para a janela, a parede era fechada com molduras em preto e branco com fotos tiradas por mim. Era meu pequeno mundo.

Joguei as bolsas no chão, perto da estante e da cama, enquanto pegava meu celular no bolso do short, ligando a internet, ansiosa. Logo que o telefone ligou as mensagens do WhatsApp chegaram. Algumas no grupo da escola. Outras no grupo de handebol. Várias no grupo dos amigos. Mas as que me interessavam eram as dele.
‘Hey. Sinto sua falta!’ , essa foi de 5 dias atrás.
‘ Preciso falar com você! Quando chegar em casa me liga.’ , essa foi de dois dias atrás.

Ok. Essa me preocupou. Ele nunca foi tão direto assim. E geralmente essa frase vem seguida de notícia ruim.
Levantei da cama e me sentei na cadeira do computador. Ligando-o. Me lembrando só depois de me olhar no espelho da porta do armário. Meu coração estava acelerado.
-Que merda! - falei para mim mesma. Eu estava realmente gostando dele. Liguei o Skype e esperei ele me atender. Não demorou muito!
- ? - Ele estava com um casaco leve e chapéu. Era possível perceber que o cabelo estava bagunçado. Continuava lindo.
- Hey. Tá tudo bem? - perguntei.
- Tá. Você já chegou?
- Sim. Meu irmão teve alergia. A gente teve que voltar mais cedo. - falei. Atrás dele era possível perceber um barulho alto, como se estivesse em um lugar com muitas pessoas, muito movimento.
- E ele tá bem? - perguntou.
- Tá. A gente voltou pra não correr o risco dele ter um choque anafilático lá e a gente está muito longe do hospital! - falei e ele concordou. - Aonde você está?
- Então… Lembra daquele último teste que eu fiz? - perguntou e eu assenti. - Eles me chamaram. Descobri um pouco antes de te mandar a mensagem!
- Sério Tom? Isso é maravilhoso! - falei.
- Não deu tempo nem deles me ligarem! Eu vi a notícia no Instagram da Marvel! - falou, animado e eu sorri. - Estou indo pra Atlanta agora! Começo a gravar em uma semana!
- Eu to muito feliz por você! De verdade! - falei. - Então nem deu tempo de você ir pra casa, né?
- Não. Não deu. Minha mãe ficou meio insatisfeita. Mas quando ela descobriu o porque ela ficou bem feliz! - falou.
- Eu imagino! Ela deve estar muito orgulhosa!
- Ela provavelmente deve estar contado pra Deus e o mundo!
- Ela tem orgulho de você! E eu também!
- Obrigado! - falou, sorrindo meio sem graça.
- Homem-Aranha! - falei encostando no encosto da cadeira. - Quem diria?
- Pois é! - falou. - Eu ainda não to acreditando! Parece surreal.
- Eu imagino. Eu também estou meio abobada aqui! - falei, sorrindo. Ouvi alguém bater na minha porta. Olhei para trás.
- Minha filha, você pode ficar com o seu irmão? - mamãe perguntou.
- Só um minuto! - falei e ela concordou. Antes que se afastasse muito no corredor, eu a chamei de volta.
- Sim?
- Vem cá. - pedi e ela entrou no quarto.
- Tom. Essa é a minha mãe. - falei olhando pra ele que foi pego desprevenido e ficou meio assustado com a situação. - Mãe, esse é o Tom.
- É um prazer finalmente conhecê-la, Senhora ! - falou.
- Me chame de Jéssica, querido. E é ótimo finalmente conhecê-lo também. fala muito de você! - Mamãe falou em inglês e eu senti minhas bochechas esquentarem.
- Mãe… Tom foi chamado para interpretar o Homem - aranha no novo filme no Capitão América! - falei e ela sorriu.
- Sério? Isso é ótimo querido! Parabéns! - ela falou e ele sorriu. - Somos fãs dos filmes da Marvel aqui em casa, então com certeza iremos acompanha-lo!
- Obrigado. Espero não decepcionar vocês! - falou.
- Você não vai! - falei, tentando tranquiliza-lo.
- Bom… Eu vou deixar vocês. Foi ótimo conhecê-lo, querido. E boa sorte.
- Igualmente. Obrigado. - acenando para ela.
- E você - falou em português, olhando para mim. - seu irmão. Cinco minutos.
- Pode deixar. - falei e ela saiu.
- Tudo bem? - perguntou.
- Sim. Ela pediu pra eu ficar com meu irmão. Mas me deu cinco minutos. - falei e ele sorriu.
- Ela é muito bonita! Você parece com ela! - falou e eu corei de novo.
- Obrigada. - falei. E ficamos em silêncio por alguns minutos. - Vai ficar tudo bem
Tom!
-Acho que sim, Haz vai vir me encontrar. Mas eu não vou poder ir pra casa por enquanto! - falou.
- Sinto muito! - falei. Ele olhou para o lado. Nervoso. - O que foi?
- Eu to surtando! - falou. - To sentindo um medo de fazer merda!
- Fazer merda por que Tom? - perguntei e ele deu de ombros. Ainda olhava para os lados. - Olha para mim! - falei e ele me encarou através da tela do telefone. - Você é ator. Está morando muitoooo longe de casa. Já fez filmes antes! Mas você só tem 19 anos. Fazer alguma coisa errada na nossa idade é normal! Mas você tem pessoas lá pra te ajudar com isso! O diretor tá lá pra isso. E no seu caso você tem dois! - falei e ele assentiu. - Não tem como você está mais preparado para isso!
- Tem razão!
- Apenas respire fundo tá? Vai ficar tudo bem! - falei, sorrindo.
- Obrigado!
- Mas eu não fiz nada! - falei.
- Você faz muito mais do que imagina! - falou e então ouvimos um voo ser anunciado. - Eu preciso ir!
- Tudo bem. Me manda uma mensagem quando tiver chegado, tá?
- Sempre. - falou. - Ah, amei o vídeo!
- Que vídeo? - perguntei, logo me lembrando da fogueira a duas noites a trás. Vou matar Rafaella.
- Aquele vídeo que você canta Demi. Sua prima postou no Instagram! - falou e desligou. Eu definitivamente vou matar a Rafaella.
Apesar de estarmos de férias, Guilherme ainda tinha aulas extras de bateria e eu treinos de handebol na escola. Alguns dias depois de voltarmos para casa eu tive que voltar para mais minhas atividades extras e meu irmão também.
-Eu vou levar seu irmão e deixo você no treino. Na volta eu passo na escola e te busco. - mamãe falou e eu concordei. Subi para o quarto, trocando de roupa. Coloquei uma roupa de academia, calçando meu tênis, peguei minha bolsa colocando algumas coisas necessárias dentro. Prendi meu cabelo em um rabo alto, enquanto descia as escadas. Peguei minha garrafinha de água na geladeira e encontrei minha mãe no carro.
O caminho até a minha escola foi curto. Me despedi da minha mãe e do meu irmão antes de entrar no prédio.
-Arrasa na aula garoto! - falei, estendendo minha mão para ele, que bateu nela, fazendo nosso aperto secreto.
Caminhei até a área da quadra, algumas já estavam na minha frente. Coloquei minha bolsa na arquibancada, antes de encontrar minhas amigas no meio da quadra.
-E aí? - Camila falou, terminando de se alongar.
- Gostei da roupa. - Alice falou se referindo a minha blusa do Capitão América.
- Obrigada. - falei, me sentando no chão, alongando as minhas pernas. - Como foram as férias? - perguntei a Carol, que havia passado a última semana na capital.
- Foi bom! Fui na praia. Alguns museus. Passei muitooooo tempo no shopping. - falou, não que precisasse. Ela era louca por roupas. - Mas meus parentes só deram dor de cabeça.
- Toda família sempre tem aquela parte que dá dor de cabeça! - Alice falou.
Nós treinamos até escurecer. Nosso último jogo era em algumas semanas e queríamos vencer. Para a maioria do time era realmente o último jogo usando aquele uniforme então queríamos deixar alguma motivação e incentivo para as meninas que entrariam no próximo ano.
Enquanto esperava pela minha mãe, fiquei conversando com Carol. Mas eu pensava apenas em deitar na minha cama e dormir.


Capítulo 2


Liguei para Tom há umas duas semanas e descobri que ele estava muito mais tranquilo do que antes. O pessoal foi muito receptivo com ele e os diretores tem ajudado muito. Ele diz que Robert Downey Jr e Chris Evans tem ajudado muito ele. Fiquei muito feliz ao ouvir isso. Seu melhor amigo, Harrison ou Haz, foi encontrá-lo em Atlanta e ficou uns dias por lá. Estava feliz por ele estar entre pessoas boas.
Eu tive que voltar para a escola no final de julho. O segundo semestre escolar tinha começado, com ele o ENEM estava se aproximando e com isso meus nervos estavam à flor da pele. Já havia brigado com meus irmãos e minhas amigas umas 3 vezes nessa semana e hoje ainda é um quarta-feira.
Cheguei em casa, depois da escola, já no final de tarde. Eu não aguentava mais ter que estudar tanto e ficar preocupada o tempo todo em não estar fazendo o que era preciso para conseguir uma boa nota e entrar na faculdade.
Joguei a mochila ao lado da bancada, fui até o computador ligando uma música qualquer e depois joguei a mim mesma na cama. Olhei as paredes a minha volta e notei que não havia mais nenhum espaço em que se podia ver a tinta da parede. Elas estavam preenchidas com papéis de matérias que eu deveria saber para fazer a prova no final de outubro. A poluição visual estava me cansado mais do que tudo no momento. Estava me deixando cada vez mais com a sensação de estar sendo sufocada, me lembrando de um passado que eu queria esquecer. Acabei me assustando quando meu celular vibrou.
‘Está fazendo o que?’ Tom perguntou. É incrível a sensação de paz que esse menino me traz. Se ele ao menos soubesse.
‘ No momento, estou tentada a rearrumar o meu quarto.’ Respondi. ‘E você?’
Levantei da cama, tentando me livrar daquele sentimento estranho e comecei a tirar os papéis que estavam perto da minha janela, arrancava- os e fazia pequenas bolas, amassando-os.
‘ De bobeira. Esperando o diretor me chamar para gravar uma das minhas últimas cenas!’
‘ Mas já? Foi rápido.’ Mandei e depois completei. ‘Quer participar da minha pequena loucura?’
Depois fui para a porta do meu armário. Fazia alguns bons meses desde a última vez em que eu vi a cor dele.
‘ Só se for agora!’ Respondeu e eu sorri.
Caminhei até meu computador, desligando a música enquanto ligava o Skype. Não demorou muito para que ele atendesse. Estava vestido com o uniforme do Homem-aranha, mas sem a máscara. . ‘Deus, estou perdida’.
-Você está literalmente esperando o diretor te chamar! - falei rindo e ele riu também, dando de ombros. - Espero não estar atrapalhando.
- Pois é. - falou, dando de ombros, e riu. - Você nunca atrapalha. - nem preciso descrever a minha reação né? Por que só faltou me derreter literalmente na cadeira. - E aí? Qual a loucura da vez?
- Eu to cansada, Tom. Agora são… - olhei no relógio do computador. - quase sete horas da noite e eu ainda estou usando o uniforme da escola. Não aguento mais isso! Eu olho pra esse quarto e me sinto cada vez mais sufocada. - falei mexendo a câmera do computador para tentar mostrar para ele um pouco da situação.
- Não é para menos. - falou e depois suspirou comigo. - Você precisa relaxar! Se divertir!
- Acredite. No momento é mais fácil falar do que fazer. Tá todo mundo mais ou menos na mesma situação que eu! - respirei fundo enquanto apoiava os cotovelos na mesa e passava a mão no cabelo, nervosa. - Só quero que esse ano acabe logo.
- Eu queria poder ajudar mais! - falou.
- Eu queria que as coisas fossem mais simples! - falei me encostando na cadeira e ele concordou.- Porque que a gente não mora pelo menos no mesmo país? As coisas seriam bem mais fáceis! - falei e ele assentiu.
- Daremos um jeito… - ele falou antes de ser interrompido por alguém atrás dele.
- Tom estão nos chamando. - era uma voz masculina. Tom olhou por cima do ombro.
- Já estou indo.

- Quem era? - perguntei curiosa.
- É o Chris!
- Evans? - perguntei dando uma de idiota.
- É! - falou levantando o telefone para que eu pudesse ver o mais velho na roupa de Capitão América. Quando o mesmo percebeu que era o centro das atenções voltou a olhar para nós.
- Hey você! Quem é você? - perguntou se aproximando. Deus eu estava horrível.

- Sou . - assim como Tom, ele estava sem a máscara da roupa.
- A namorada do Tom?! É um prazer conhecê-la . - ele falou e sorriu. E que sorriso, Senhor. Que Tom nunca descubra.
- Ela não é minha namorada Chris! - Tom falou meio envergonhado.
- Ele fala muito de você! - Chris falou.
- Fala bem, eu espero! - falei, sem graça.
- Você nem imagina! - falou e Tom abaixou o telefone, visivelmente sem graça também. Mas pude ouvir Evans reclamando ao fundo. Eu ri.
- Nós temos que ir! Como você já percebeu! - falou e eu assenti.

- E eu preciso de um banho. - falei e ele assentiu. - Nos falamos mais tarde?
- Até mais tarde! - falou e desligou, mas não sem me encarar antes por alguns segundos.
- Eu vou matar esse menino! - falei para mim mesma. Peguei o telefone e abri o Whatsapp, procurando o grupo das minhas amigas.
- ‘Vocês nem acreditam quem eu conheci!’ - sim, elas sabiam sobre Tom.
- ‘Quem foi dessa vez? ‘ - Carol perguntou.
-’ Estava no Skype com Tom e quem me aparece?’ Chris Evans! ‘- mandei esperando pelo surto.
- ‘Evans?! Aquele gostoso do CHRIS EVANSSSSSS?!’ - essa foi Camila.
- ‘Meu Deus, que me primo nunca veja essa conversa!’ - mandei zoando ela. Camila é namorada de Paulo.
- ‘Seu primo quem?’ - se fez de desentendida. Mandei uma carinha rindo.
- ‘Você não tá zoando né?’ - Alice perguntou.
- ‘ Não gente. Eu não to zuando. Ele realmente tava lá todo fortão, gostoso naquela roupa de Capitão América. Pronto pra gravar a cena!’ - mandei.
- ‘ELE TAVA VESTIDO DE CAPITÃO AMÉRICA?’ - sim, essa foi Alice surtando.
- ‘Menina, me dá um pouco dessa sorte que você tem, por favor?’ - Camila mandou.
- ‘ E como que ele é?’ - Rafaela perguntou.
- ‘É ainda mais lindo e charmoso que nos filmes?’ - mandou de novo.
- ‘Você nem imagina!’ - falei.

Esqueci da sensação de sufocamento que eu estava sentindo. Esqueci dos papéis jogados no meu quarto. Esqueci até de tomar meu banho. Quando eu estava com elas, as horas passavam que eu nem percebia, mas elas me faziam sentir melhor que qualquer coisa.

Tom Holland
-’Até mais tarde.’ - falou imitando a minha voz. -Cara, você é muito sem graça. - ouvi Chris falar assim que eu desliguei o telefone.
- E você fala demais! - falei.
- E você acha mesmo que ela ligou? Eu vi o brilho no olhos dela quando disse que você falava dela para a gente. Ela tá completamente na sua.
- Ela tava daquele jeito porque você apareceu. Ela é sua fã! - falei, sentindo uma sensação ruim no peito. Ciúme?!
- É diferente cara. Já vi o brilho dos olhos de fã durante muitos anos e não tem nada haver com aquilo! E pelo jeito que vocês dois conversavam, você também tá afim dela! - Falou, me deixando sem graça.
- Você acha? - perguntei, me referindo aos sentimentos dela, e ele assentiu. - A situação é complicada!
- Nunca é fácil. Olha, estão nos esperando! Mais tarde a gente conversa sobre isso tá? - falou e eu assenti. Tava na hora de entrar no personagem.
Demoramos um pouco mais do que o esperado para gravar a cena. A grande batalha no centro do ‘aeroporto’ já havia sido feita a alguns dias, agora gravávamos as cenas picadas dentro do lugar, como a minha cena com o Sebastian e Anthony. Foi bem legal. Mas estávamos todos muito cansados.
Depois de terminada a sessão de filmagem, nós fomos liberados. Então enquanto as mulheres iam tirar os uniformes em uma área só para elas, nós - homens - estávamos em um camarim para a nossa troca de roupa. Imagina a zona.
-Eu conheci a namorada do Tom hoje! - Chris falou. Ele realmente tinha uma boca enorme.
- A famosa ? - Robert perguntou.
- Ela não é minha namorada! - reclamei, como se isso fosse ajudar em alguma coisa.
- E ela é bonita? - Anthony perguntou. Eu vou socar alguém. Fingi me distrair com a comida.
- Muito. Acho que eu consigo pesquisar ela no Instagram! Ela tem Instagram Tom? - Chris perguntou, achando que eu fosse responder.
- É lógico que tem! Que adolescente não tem Instagram? - Robert falou na minha frente enquanto pegava o próprio telefone. Eu estava ferrado. - E aposto que ele segue ela! - Eu estava muito ferrado.
- Olha, é ela! - ouvi Chris dizer, ao mesmo tempo meu celular vibrou.
- ‘Ocupado? Preciso de uma ajuda!’ - nem preciso dizer quem era.
- ‘ Acabei de gravar agora! Do que precisa?’ - enviei, esperando a sua resposta.
- Nossa Tom. Não acha que ela é demais pra você não? - Sebastian perguntou.
- ‘Você pode dar uns conselhos pro meu irmão? Ele está prestes a cometer o maior erro da vida dele! ‘ - ela mandou e depois completou. - ‘Ele precisa de uns conselhos masculinos! Por favor??’ - Nem cogitei a possibilidade de negar, apesar de nem imaginar como eu poderia ajudar.
- Quer que eu te ligue? - Mandei de volta.
- Ele não tá nem ouvindo a gente! - Paul reclamou, me trazendo de volta à realidade.
A verdade é que eles sempre me zoam pelo fato de eu ser o mais novo entre eles e ser britânico - preconceito - que eu nem ligava mais. Agora apenas acharam mais um motivo para ficar no meu pé.
-Tá falando com quem? - Anthony perguntou, mas eu ainda estava meio lesado pensando no que o irmão dela poderia querer fazer que eu demorei para responder, causando mais uma onda de risos.
- Am… - falei igual a um retardado antes de responder. - … Minha mãe! - menti, sabendo que não adiantaria.
- Mentira! Você pensou! - Paul respondeu. - É ela.
Meu celular logo começou a tocar. Atendi prontamente, querendo fugir do assunto. Coloquei o telefone no ouvido.
-Alô. - falei.
- Hey. Não atrapalho mesmo? - perguntou.
- Você precisa parar de perguntar isso! - falei, ela conseguia ser ainda mais fofa quando se preocupava com meus horários.
- Tudo bem! Am… Que barulheira é essa aí atrás? - perguntou e eu ri. Não conseguindo me concentrar na conversa com ela ouvindo os rapazes me zoando, então abri a porta e caminhei pelo corredor.
- Chris contou sobre você pro resto dos caras aqui do estúdio, agora eles estão me zuando. Mas nada que eu não me acostume. - falei.
- Aí meu Deus, que vergonha. - falou e eu consegui imagina-la colocando as mãos no rosto, enquanto suas bochechas coravam. Meu Deus aonde estava com a cabeça.
- Então… O que seu irmão quer fazer? - mudei de assunto.
- Verdade… Am, ele tá querendo se declarar pra uma menina… Que não tem nenhum interesse por ele… Na frente da escola inteira! - ela falou. Ok. Essa vai ser difícil.
- Tudo bem. O que você precisa que eu faça?
- Eu não sei. Talvez me ajudar a colocar um pouco de juízo na cabeça dele. - falou e suspirou. - Pensei que você sendo homem e não sendo tão mais velho que ele, talvez, ele te escutasse.
- Eu não prometo nada. Mas eu posso tentar. - falei.
- É só o que eu preciso. Vou ligar a câmera e chamar ele. - falou e eu concordei. Esperei por alguns minutos até que ouvi os dois falando em sua língua nativa, antes do garoto se sentar na frente da tela do computador, emburrado. Ele não parecia ter mais do que 15 anos, cabelos . Parecia com , mas nem tanto, talvez tivesse puxado mais o pai. - Ele não está muito amigável no momento, então… Se ele não falar nada não se assuste.
- Tudo bem. Você pode nos dar um minuto? - perguntei e ela assenti.
- Vou estar ali fora. Obrigada por isso.
- De nada. - falei, sorrindo, enquanto me sentava no chão do corredor, encostado na parede. - Seu nome é Guilherme, não é?
- É. - monossilabo. Já é um começo.
- Meu nome é Tom. - falei e ele assentiu.
- Eu sei quem você é! - falou.
- Tudo bem. - uma frase completa, melhorou. - Ahm… Porque você não me conta o que aconteceu? - Eu não sabia nem o que estava fazendo, esperava apenas que aquele garoto cooperasse como meus irmãos. Assisti ele respirar fundo, como se não aguentasse mais contar a mesma história. Ele não iria falar. - Olha, eu sei que a gente não se conhece, mas se você me falar qual é o problema, talvez eu consiga te ajudar. Te dar umas dicas! Não estou aqui pra julgar ninguém. Só quero ajudar tá? - ele olhou para mim com cara de desconfiado, antes de suspirar novamente e começar a falar. Me contou, em seu inglês meio arranhado, que está na mesma escola desde pequeno e que por isso estuda com as mesmas pessoas a muitos anos.
Disse que esse ano entrou uma menina nova que era muito bonita e ela era legal com ele às vezes, mas sempre longe dos amigos dela, quando estava perto deles sempre o ignorava e ele não entendia o porquê disso, mas ele gostava muito dela. ‘Primeira paixão.’, pensei.
-Então eu comecei a andar perto dela. Sentar perto dela na hora do recreio, mas meus amigos não gostam disso. Eles não gostam dela. Dizem que ela é nojenta e patricinha. Que ela não quer nada comigo…
- E ela já fez alguma coisa pra provar isso?
- Algumas vezes, quando eu me sento perto deles, consigo ouvir eles rindo e olhando de lado pra mim. Ela às vezes ri também, mas sei que não é por mal. Talvez se eu mostrar pra ela que… - Deixou a frase morrer, ele não sabia como completa-la.
- Olha, sei que deve ser difícil. Mas, às vezes, nossos amigos podem ter razão. Se ela faz isso com você perto dos amigos dela é porque ela realmente não vê você como uma possibilidade além do que você já é, entende? - perguntei e ele assentiu. - O que sua irmã diz disso?
- Quase a mesma coisa que você! - ele falou.
- Eu já tive uma experiência quase parecida com a sua uma vez. Mas eu ainda era mais novo que você e não pedi conselho a ninguém. Você tem pessoas que querem te ajudar, não ignore o que elas dizem. - falei e ele assentiu.
- Mas… E se eu não sentir isso de novo? Perguntou. Era literalmente a primeira paixão dele.
- Quantos anos você tem?
- Treze. - respondeu.
- Quando estamos com essa idade até, mais ou menos, os 19 anos, tudo parece que não vai acontecer de novo ou que é o fim do mundo. Acredite, pode demorar, mas você vai sentir isso de novo!
- Já aconteceu com você? - perguntou.
- Não até recentemente. - falei sem pensar.
- Eu acho que você… - Bocejou. - … Tem razão. - Olhei a hora e já era quase meia noite no Brasil.
- Vai dormir garoto. E não faça nada de que se arrependa depois! - falei.
- Obrigado Tom. Você é uma pessoa legal. - falou.
- Obrigado. Boa noite.
- Boa noite. - falou e se levantou da cadeira. Ouvi os dois falarem em português no fundo, uma porta se fechou e sentou na cadeira. Aparentava cansaço.
- Obrigada. - falou.
- Ele é uma criança boa. Só precisa de um pouco de paciência.
- E você é um ótimo irmão mais velho. - falou e bocejou, sorri.
- Você devia ir dormir também.
- Acho que vou aceitar o conselho. - falou. - Hum… A menina que te rejeitou é uma idiota. Qualquer uma teria a sorte de ter você!
- Obrigado! - falei, meio sem graça. - Boa noite .
- Boa noite Tom. Espero que não peguem muito no seu pé. - falou e desligou. Me levantei enquanto bloqueava a tela do celular.
- Muito legal da sua parte. - Ouvi Scarlett falar. Ela já estava com roupas normais e o cabelo preso.
- Só ajudando uma amiga. - falei enquanto passava por ela no corredor em direção ao camarim.
- Ela parece ser uma pessoa muito legal.
- Ela é! - falei, parando de novo. - Ela é… - me lembrei de seu rosto, que mesmo cansado não deixava de ser bonito. - … muito bonita também. - Sorri.
- E você gosta dela? - perguntou e antes que eu processasse a pergunta direito, já havia respondido.
- Gosto… - Quando percebi o que tinha dito eu tentei mudar. - … Como… Como amiga…
- Hey, não precisa ficar nervoso, eu não vou te zoar e nem nada. - falou, sorrindo.- Olha, essa vida que escolhemos é difícil. Conciliar trabalho com vida pessoal não é fácil, acho que você já percebeu isso.
- Já.
- Um conselho de quem já viveu isso… Se você realmente gosta dela, não deixe ela ir embora por causa do seu trabalho ou da distância que separam vocês dois. Pessoas que entendem o que a gente faz e mesmo assim querem verdadeiramente compartilhar o que a gente passa são muito difíceis de se encontrar… Se você realmente gosta dela, não perca essa chance.
Será?


Acordei me sentindo mais disposta. Ficaria até tarde na escola de novo, dessa vez por causa do treino de handebol, mas isso não me desanimaria.
Levantei da cama, trocando de roupa e colocando o uniforme, peguei uma roupa de academia e coloquei dentro da mochila. Calcei o tênis e fui para a cozinha tomar café da manhã.
-Bom dia. - falei enquanto me sentava a mesa.
- Bom dia querida. - papai falou, bebendo uma xícara de café.
Peguei um pão e cortei-o, passando o requeijão e colocando um pedaço de queijo dentro.
-Bom dia . - Gabriel falou ao meu lado.
- Bom dia meu anjinho! - falei passando a mão na sua cabeça.
-Bom dia meu amor. - mamãe falou, beijando minha cabeça enquanto colocava a tigela de Gabriel ao meu lado. - Vai ficar até mais tarde hoje de novo?
- Vou. Tenho treino até as oito. - falei colocando um pedaço de pão na boca.
-Tem dinheiro pro almoço? - papai perguntou.
- Sobrou alguma coisa das férias. - falei e papai assentiu.
- Eu pego você! Não é bom você ficar andando sozinha por aí à noite. - mamãe falou.
- Tudo bem. Se eu conseguir carona com alguém eu te aviso! - falei, terminando de tomar meu suco.
- Estão prontos para ir? Vão chegar atrasados! - mamãe perguntou e eu levantei correndo para escovar os dentes. Seria um longo dia!

Capítulo 3


Cheguei em casa depois do treino e fui direto para o chuveiro. Estava nojenta. Quando
terminei penteei meu cabelo, colocando logo em seguida minha roupa íntima, com um
blusão que tinha a estampa de Londres e um short jeans
Logo depois desci para jantar, todos já me esperavam.
Durante o jantar nós conversamos sobre o dia de cada um. O da minha mãe, como sempre, era o mais agitado.
-Seu tio pediu pra dizer que os ensaios para a apresentação começam em dois dias. - Mamãe falou.
- Já tá naquela época do ano? - perguntei e ela assentiu.
- Você tá tão perdida no tempo que nem deve ter notado que já estamos no meio de agosto. - papai falou.
- Isso eu… - parei e pensei. Ele tinha razão. - … Verdade.
Meu tio, Carlos, e a esposa dele, Júlia, abriram alguns atrás uma escola de música. Ele ensina música e ela ensina dança. Começou como uma coisa pequena - os primeiros alunos foram eu e meus primos. - mas depois de um tempo foi crescendo e hoje eles conseguem se sustentar ensinando para crianças e jovens adolescentes em um espaço muito maior do que era antes e com mais ajuda.
Esse ano eles comemoram 10 anos da abertura da escola e querem fazer uma apresentação no Teatro Municipal de Búzios.
Eu e meus primos mais velhos não estudamos mais lá, só alguns mais novos da família como meu irmão. Só que meu tio insistiu que os primeiros alunos - nós - dele deveriam apresentar pelo menos uma ou duas músicas. Mesmo atarefada do jeito que eu estava não pude dizer não. E Guilherme estava animado em se apresentar com a gente.
-Eu ligo para ele mais tarde. - falei.
- Tudo bem. E como foi o treino? - perguntou.
- Foi bom. É sempre difícil voltar depois de uma pausa porque a gente fica meio preguiçosa e tal. Mas nada que não se resolva correndo. - falei.
- Vocês precisam estar em ótima forma se quiserem vencer o jogo.
- Eu sei. - falei.
Depois do jantar eu ajudei minha mãe a tirar a louça e a lavá-la. Dei boa noite para todo mundo e subi para meu quarto. Peguei meu telefone em cima da cama e vi uma ligação perdida de Paulo. Liguei de volta.
-Você ligou?
- Liguei. Lembra de Felipe? - falou. Tinha que me lembrar daquela peste.
- Meu ex. Lembro porque?
- Tá voltando para Búzios na semana que vem e vai fazer um show. Tá todo mundo querendo ir. Vamos também?
- Não sei não Paulo. Não queria ter que ver ele de novo.
- Sei que as coisas não terminaram bem entre vocês. Mas já faz um tempão desde a última vez que a gente conseguiu reunir todo mundo. Faz uma força vai.
- Vou pensar. - falei.
- Você não precisa nem ver ele se quiser. - falou e eu rolei os olhos.
- Já falei que vou pensar. - falei, cansada.
- Tudo bem. Vê e me fala. Preciso comprar os ingressos. - falou.
- Tá bom. Amanhã eu te dou uma resposta. Boa noite.
- Boa noite. - disse e desligou. Antes de travar a tela do telefone eu tive uma pequena luta interna sobre ligar ou não para Tom. Acabei decidindo pela segunda opção. Já fazia uns dois dias desde a última vez que eu havia falado com ele, tenho certeza de que se ele não estivesse ocupado já teria me ligado.
Coloquei o telefone em cima da minha mesinha de cabeceira, carregando-o, antes de ir até o armarinho e pegar meu pijama. Troquei de roupa, dobrado o jeans e a blusa antes de guarda-los. Apaguei a luz antes de deitar na cama e dormir rapidamente.

Escuro. Estava tudo escuro. Eu estava em um lugar apertado. Poderia sentir as paredes a
minha volta se simplesmente esticasse meus braços pequenos. Braços pequenos?! Braços de criança. Eu era criança de novo.
Podia ouvir vozes que vinham do lado de fora de onde quer que fosse onde eu estava Isso me causava medo. Por que as vozes eram ruins? Um homem e uma mulher. O homem estava com raiva. Raiva de que? De mim?! O que eu havia feito? A mulher parecia querer acalma-lo apesar de sua voz demonstrar que ela também estava com medo.
De repente ela grita.
-NÃO. - me fazendo chorar. Através dos meus olhos embaçados pelas lágrimas eu pude ver
quando o homem abriu as portas do que agora eu podia ver que era um armário.
- Aí está você praga. - falou enquanto me pegava pela parte de trás da blusa e me arrastava para fora do armário. A mulher gritou novamente tentando impedi-lo, mas dessa vez ela me acordou.

Acordei suada e ofegante. Sentei de supetão sentindo alguém colocar a mão no meu ombro.
-Tá tudo bem querida.
- Pai? - falei enquanto olhava para ele.
- Foi só um pesadelo. - falou, passando a mão pelo meu cabelo.
- Parecia tão real. - falei.
- Sempre parece. - falou me estendendo um copo de água. - Beba isso. Vai te ajudar a dormir. - bebi do copo todo. Enquanto me deitava novamente, eu olhei para ele.
- Pai? O que tem de errado comigo? - perguntei.
- Não tem nada de errado com você querida. Nada de errado.
- Eu to com medo. - falei.
- Eu sei. Vou ficar aqui até você dormir. Ajuda? - assenti.
- Obrigada. - falei bocejando.
- Boa noite meu anjo. - falou e apagou a luz do meu abajur. Apesar de estar tudo escuro, eu sabia que estava ali pois sua mão continuou a acariciar o meu cabelo, me fazendo dormir mais rápido.
O resto da semana passou rápido. Entre a escola, os treinos e o ensaio para a apresentação eu mal tinha tempo para ficar em casa sem estar dormindo. Isso me deu menos tempo para pensar no pesadelo, o que foi bom. Mas eu também tinha menos tempo para ficar com a minha família.
Apesar disso, eu não estava cansada. Tudo o que eu fazia eu amava. Apesar da dor no joelho ter piorado consideravelmente depois que eu voltei a treinar. Tudo isso também me deu menos tempo para pensar em Tom. Não nos falamos no decorrer dos últimos dias e eu não queria incomoda-lo. Quando ele tivesse tempo para falar comigo ele ligaria.
Amanhã era o show de Felipe que todos estavam querendo ir. Eu estava ligeiramente disposta a arrumar uma desculpa para não ir.
-E o que vocês vão usar no show amanhã? - Carol perguntou. Estávamos em uma vídeo conferência. Eu, ela, Camila, Alice e Rafaela.
- Eu ainda não sei. Provavelmente o primeiro vestido que eu achar no armário. - Rafaela falou. Apesar de ser mais velha e ter seus próprios amigos, ela sempre gostou de andar com a gente.
- Eu… Acho que eu não vou. - comentei.
- O que? - Alice praticamente deu um pulo na cadeira.
- Como assim? Estamos falando de sair a semana inteira. - Carol falou.
- Eu sei gente. Mas é que com toda essa movimentação. Todos esses ensaios e treinos… Estudando pra vestibular. Eu to tão cansada.
- Mentira. Estamos fazendo as mesmas coisas que você e todas nós vamos. - Camila.
- É por causa do Felipe? - Rafaela perguntou.
- Eu não queria ter que vê-lo de novo. - falei.
- Já faz três anos . - Carol falou.
- Você não precisa conversar com ele se não quiser. - Camila falou.
- E ela tem todo o direito. - Rafa falou.
Ouvi meu celular vibrar na cama. Levantei da frente do computador e fui até ele. Era uma mensagem de Tom.
‘ Estive pensando em você a semana inteira… Senti sua falta. Pegarei um avião para
Londres daqui a pouco. As gravações terminaram, queria que soubesse.’
Meu Deus, tem como esse menino ser mais fofo?
‘Senti sua falta também. Fico feliz que esteja indo para casa. Deve estar com saudade da sua família. Obrigada por me avisar. ‘
-? Cadê você criatura? - ouvi me chamarem do computador.
- Opa, desculpa. - falei me sentando na cadeira enquanto olhava pro celular. - Tive que checar uma coisa no celular.
- Quem é? - Carol perguntou.
- Ela tá com aquele sorriso no rosto. Com certeza é o Tom. - Rafaela falou, com um sorriso presunçoso no rosto.
- Hey, não falem de mim como se eu não estivesse aqui.
- Você não está aqui. Você está com a cabeça no seu amor proibido. - Camila falou enquanto fazia uma cara exagerada de apaixonada.
- Vocês querem saber? Eu vou nesse show. - falei e elas comemoraram. - E aí de Felipe se tentar alguma coisa.
Meu celular vibrou novamente.
‘ Boa noite Babygirl.’ Era a primeira vez que ele me chamava assim.
-Eu não preciso mais ter medo dele. - falei.

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O dia seguinte era sábado. Meus pais resolveram aproveitar o sol e ir numa praia mais afastada com meus irmãos. Eu não podia porque Alice inventou que queria comprar uma sandália nova pra hoje a noite.
Ela me encheu a tarde toda e quando estávamos terminando - já no meio da tarde - ela resolveu que eu deveria comprar algumas bijuterias para mim. Não tive escolha. Quando cheguei em casa mal tive tempo de tomar banho e colocar a roupa. Quando estava terminando a maquiagem, Paulo chegou para me buscar. Corri até a sala para abrir a porta para ele e logo voltei para o quarto.
-Falta muito? - ele perguntou.
- Não. Vou só pegar meu sapato e a bolsa. - falei enquanto sentava na cama para calçar a sandália.
-Só não demora. - escutei Paulo me apressar mais uma vez. - Ainda precisamos pegar Camila!
- Eu ainda não entendi porque você não buscou ela primeiro! - falei enquanto encontrava-o na sala.
- Porque ela estava mais atrasada que você. Não é atoa que são amigas. - falou , passando pela porta.
- Eita, não precisa ficar bravo! - falei enquanto me olhava uma última vez no espelho perto da porta e saia por esta. Encontrando o em seu carro.
- Se a gente pegar fila, a culpa é de vocês! - Camila morava perto da minha casa, apenas algumas ruas de distância. Chegaríamos rápido lá e, com sorte, pegaríamos um bom lugar para ver o show. Logo paramos em frente à casa dela. Paulo leu alguma coisa no celular e olhou para mim. - Ela pediu pra você entrar. Precisa de ajuda com alguma coisa!
- Tá falando sério? - perguntei e ele assentiu. - Depois você briga só comigo. - falei enquanto saía do carro.
Caminhei até a casa dela e apertei a campainha, esperando impacientemente. Esperei alguns segundos para a porta ser aberta por uma Camila
afobada, saindo correndo logo depois.
-Amiga, me ajuda. Paulo vai matar a gente se formos os últimos a chegar. - ela falou do banheiro que tinha perto da sala. Fui até lá para encontrá-la retocando a maquiagem.
- A gente uma vírgula. Eu só to 10 minutos atrasada! - falei.
- Tá, tanto faz.
- O que você precisa? - perguntei- Pega meu casaco lá fora enquanto eu calço o sapato?
- Qual que é? - perguntei, já na sala.
- É aquele branco, peludinho que você gosta! - gritou de volta.
Passei pela sala até a cozinha, indo a porta de vidro que levava a área externa da casa. A porta estava fechada e lá fora escuro. Abri-a e logo passei a mão em sua lateral procurando pelo interruptor. Logo que eu acendi a luz, levei um susto.
-Surpresa. - ouvi várias pessoas gritarem ao mesmo tempo, me fazendo levar as mãos a boca.
- Mas… O que é isso? - perguntei para as pessoas mais perto de mim. Meus pais.
- Não acredito que você realmente esqueceu. - mamãe falou colocando as mãos em meus ombros. - Hoje é seu aniversário, meu amor. - falou e me abraçou. Olhei ao meu redor e vi muitas pessoas. Minha família toda estava ali. Meus amigos mais próximos e algumas conhecidas do time de Handebol. Virei para trás vendo Camila e Paulo na cozinha.
- Eu vou matar vocês dois. - falei enquanto abraçava os dois ao mesmo tempo.
- Você caiu direitinho! - Camila falou, rindo da minha cara.
- Obrigada. - falei, limpando as lágrimas que eu nem havia percebido que caiam.
- Vai lá. Tem muita gente querendo te ver. - Paulo falou e eu assenti. Virando novamente para a entrada do quintal.
A casa de Camila é relativamente maior que a minha. Seu quintal tem uma piscina - que já nos rendeu ótimas festas - e algum espaço além da varanda que, agora estava cheio de mesas para os convidados sentarem.
A varanda, que começa na porta de trás da casa, acompanha um pedaço do muro à esquerda para uma área de churrasqueira, onde estava a mesa do bolo e mais algumas outras coisas de decoração. A mesa de comidas e bebidas estava ao lado da porta em que eu sai.
Meus irmãos logo vieram e me abraçaram. Cumprimentei minha família, alguns primos que não via a algum tempo pois moravam em outras cidades ou até mesmo estados. Caminhei até perto da mesa do bolo - que por sinal estava lindo - onde minhas adoráveis amigas estavam bem animadas, rindo da minha cara de surpresa até agora.
- Como vocês conseguiram guardar esse segredo de mim? - falei, enquanto observava tudo à minha volta.
- Não foi muito difícil . Você tem andado bem aérea nesses últimos dias! - Alice falou.
- E o motivo disso tem nome e sobrenome? - Carol perguntou.
- Provavelmente. - Rafaela me zoou.
- Bom, agora que eu já vi todo mundo, posso observar a decoração da festa sem que vocês fiquem no meu pé? - perguntei e elas riram.
- Na verdade, minha querida prima, você esqueceu alguém! - Rafa falou.
- Sério? Não me diga que é um daqueles tios distantes que eu nunca vi na minha vida? - perguntei, ajeitando a trança no meu ombro.
- Tio? Não. Distante? Talvez. - Alice falou enquanto me virava em direção à piscina. Pude perceber uma pessoa sozinha na beirada dela. Um rapaz. Não poderia ser... Caminhei até lá. Ele usava uma blusa de mangas curtas, calça jeans e tênis, o cabelo estava levemente bagunçado e seu rosto estava mais corado do que eu me lembrava. Era ele sim.
- Oh meu Deus. - falei, colocando as mãos no rosto.
- Ei Babygirl. - falou enquanto tirava as mãos do meu rosto.
- Você tá aqui. - falei em inglês, passando os braços pelo seu pescoço, escondendo o rosto em seu ombro. Chorei mais. Sorte minha que minha maquiagem era a prova d’agua.
- Não chora. - falou no meu ouvido. Apenas neguei com a cabeça.
- Desculpe. Eu não consegui controlar. - falei limpando o rosto. - Mas… Como? Falei com você ontem, estava indo para Londres!
- Bom… Eu meio que menti! Desculpa. Sua prima conseguiu meu número de celular e me ligou. Quando ela me disse sobre a festa, eu não pude perder a oportunidade. Chegamos ontem no final da tarde! - ele falou, seu sotaque é ainda mais lindo pessoalmente.
- Chegaram? - perguntei.
- Trouxe algumas pessoas comigo. Espero que você não se importe! - ele falou.
- Não. Claro que não. - falei. - Estou feliz que tenha vindo! - passei a mão no cabelo, nervosa. Eu tinha noção de que estávamos sendo observados por muitas pessoas e que, provavelmente, a maioria delas já sabia quem ele era, mas eu não me importava porque ele estava bem ali na minha frente.
- Eu tenho um presente de aniversário para você. - falou enquanto tirava uma pequena caixa do bolso da calça jeans, me estendendo
- Não precisava se preocupar. - falei.
- Abre. - olhei para ele com expectativa, pegando-a de sua mão. Olhei desconfiada para ele. - Abre logo. - falou, tão nervoso quanto eu. Voltei meu olhar para a pequena caixa em minhas mãos e abri. Era um colar. A corrente era grande, dourada e delicada. O pingente era pequeno, parecia um coração de vidro, mas o que tinha dentro era o que mais me chamou atenção.
- Isso é o que eu estou pensando que é? - perguntei, enquanto tirava o colar da caixa. - Não me pergunte porque ou como isso acontece, mas de algum jeito ele não derrete.
Poderá ter um pedaço de Londres com você sempre. - falou enquanto pegava o colar da minha mão e passava pelo meu pescoço. Era um pequeno floco de neve. Ajeitei-o por debaixo do xale, observando-o na minha mão logo depois.
- Obrigada. É, definitivamente, o melhor presente que alguém já me deu. - falei enquanto abraçava-o de novo.
- Não vai chorar de novo né?
- Não três vezes na mesma noite. - falei fazendo-o sorrir.
- Que bom. Estava começando a ficar preocupado. - falou me fazendo rir.
- Vem. Eu quero que conheça algumas pessoas. - falei pegando sua mão.
- Devo me preocupar? - perguntou.
- Não. Eles falam inglês então acho que você vai ficar bem. - falei enquanto caminhava na direção do pessoal. - Por favor, tentem não assusta-lo.
- Assusta-lo como? Somos normais! - Alice falou fazendo-nos rir.
- Até parece. - Rafaela falou. - Oi Tom, nos falamos pelo telefone.
- Yeah, lembro de você. Rafaela né?
- Isso. Nem todos somos loucos como a Alice. - minha prima falou fazendo nossa amiga retrucar.
- E você é o Paulo. Lembro de você dos vídeos.
- Eu já gostei dele. - Paulo falou, nos fazendo rir de novo.
- A morena é a Camila, namorada do Paulo, e a loura é a Carol.
- Prazer em conhecer vocês. - Tom falou, nervoso.
- Onde estão João e Miguel? - perguntei, logo sentindo os braços de alguém no meu ombro.
- Estou aqui querida prima. Sentindo minha falta? - João falou, em português, por cima do meu ombro.
- De você? Nunca! - falei dando uma cotovelada no seu estômago, fazendo-o me soltar.
- Sua mãe está te chamando pra tirar fotos, pirralha. Com todos os primos. - falou olhando para Paulo que rolou os olhos.
- Sério? Odeio tirar fotos. - falou enquanto se distanciava com Miguel.
- Eu já volto. - falei para Tom e depois olhei para as meninas. - Não assustem ele. Sério.
- Aonde você vai? - Tom perguntou.
- Minha mãe quer tirar fotos com os convidados. - falei, tirando o casaco. - Sinta-se a vontade. - olhei para Rafaela. - você vem também!
- Você tá feliz agora? - perguntou.
- Obrigada. - falei abraçando ela.
- A ideia foi da sua mãe, eu só ajudei. - falou.
- Mesmo assim. - falei enquanto me ajeitava no meio deles, de frente para o bolo. Minha mãe tirava as fotos em todos os aniversários. Devo ter ficado uma meia hora para tirar fotos
com todo mundo. Depois dos meus primos vieram meus tios, cada família por vez. Depois uma foto individual com cada amiga, Rafaela veio de novo.
- Você de novo? Isso é abuso. - falei.
- Para de reclamar. - falou e tiramos a foto. Tom ficou por último.
- Vem. - chamei-o, em inglês.
- Tá todo mundo olhando. - falou, tímido.
- Achei que tivesse acostumado com esse tipo de coisa. - falei colocando a mão no ombro dele para tirar a foto.
- É diferente. - falou.
- Vai realmente ficar a essa distância pra tirar a foto? - perguntei me referindo ao espaço que tinha entre a gente. Não ia ficar legal. - Ninguém aqui vai te morder se você fizer isso. -
falei colocando o braço dele na minha cintura. Eu não estava me aproveitando da situação, até meus primos faziam isso quando iam tirar fotos comigo. Era visível que ele tinha ficado sem graça mas a foto ia ficar bem melhor. Minha família - meus pais e irmãos - ficaram por último, Rafaela tirou a foto. Finalmente havia acabado.
- Muito obrigada por isso tudo. Não sei se mereço tanto. - falei para a minha mãe. - É claro que merece querida. Você é a melhor filha que podíamos ter pedido para alguém. - falou e eu a abracei.
- Obrigada por ter chamado ele. - falei.
- Você estava tão neurótica nessas últimas semanas que eu achei que precisava de um mimo. E sem contar que ele é um gato.
- Mãe, não. Somos só amigos. - falei.
- Não me diga que não quer nada com ele?
-Como poderia? Ele mora do outro lado do mundo!
- Quando realmente se gosta de alguém nenhuma distância é problema, já te disse isso. - falou. - De onde surgiu esse colar? - perguntou pegando o colar na mão.
- Ele me deu. É um floco de neve. Ele se lembrou, você acredita?
- Nenhum homem guarda esse tipo de informação sem motivo.
- Deixa eu aproveitar a minha festa antes que você encha a minha cabeça de asneiras. - falei enquanto caminhava para junto de meus primos e amigos. - Finalmente acabou. Posso aproveitar a festa sem interrupções.
- Pensei que você gostasse de fotos. - Alice falou.
- Eu gosto de tirar fotos e não de aparecer em fotos. Parece que nenhuma das fotos em que apareço ficam boas. - falei em inglês, me lembrando de Tom.
- É impressão sua. - Camila falou.
- Então Tom. falou que você é ator. - Paulo puxou assunto.
- É. Ele já fez alguns filmes bem interessantes. - falei.
- Qual é o mais recente? - Alice perguntou.
- Eu terminei de gravar O Capitão América 3 a duas semanas. - falou.
- Sério? Qual personagem? - Carol perguntou. Elas estavam se fazendo de desentendidas.
- Homem-Aranha. - falou.
- Então você é o Homem-Aranha novo? - Paulo perguntou. Acho que era o único que não sabia da informação.
- Sou sim. - falou, olhando para mim, dei de ombros.
- Você entrou em uma enrascada aqui. - falei. - Eu assisto aos filmes da Marvel com ele!
- Tudo bem. Gosto de conversar sobre o que eu faço.
- Você trabalhou com o gostoso do Chris Evans? - Alice perguntou fazendo do nos rir.
- Alice! - repreendi.
- O que? Eu to solteira. Eu posso falar!
- Limites amiga. Lembra? - Camila falou pra ela.
- Difícil era fazer ele largar do meu pé. - Tom respondeu a pergunta.
A noite se passou assim. Tranquila e brincalhona. Me surpreendi com a facilidade com que Tom e meus amigos se entenderam. Assim como a minha família. Ele ficou meio tímido
no começo, mas logo já estava mais solto. Quase não percebemos o quanto estava tarde e tivemos que cantar Parabéns. Graças ao meu bom Senhor as meninas não resolveram cantar ‘Quando será?’ apesar de eu saber que elas queriam muito.
Me deu muita pena de cortar o bolo. Ele era em camadas. Três para ser mais exata. A cor era um degradê, onde a menor camada era preta e a última terminava no rosa, passando pelo roxo, lilás e rosa escuro. A massa era branca com recheio de chocolate. Meu preferido.
A mistura da cor das bolas também estava linda. Os doces e a comida uma delícia. Mas o melhor de tudo eram os cupcakes.
-Mãe, você guardou alguns desses para mim em casa né? - perguntei com a boca meio cheia.
- O que você acha? - perguntou com cara de óbvio, enquanto cortava o resto do bolo.
- É por isso que eu te amo. - falei antes de sentir uma mão em minha cintura.
- Então quer dizer que você é uma formiga? - Tom perguntou.
- Só quando se trata de chocolate. Pensei que soubesse. - falei em inglês, fazendo cara de inocente.
- Se você estiver com problemas, dê a ela uma caixa de cupcakes. Ela nem se lembrará o que era. - minha mãe comentou, fazendo-o rir.
- Me lembrarei disso! - falou pegando um cupcake para ele.
- Então, quanto tempo ficará? - perguntei.
- Duas semanas. Preciso voltar para casa antes de começar à divulgação de ‘No coração do mar’. Vai me tomar um tempo. - falou.
- Para de reclamar que você gosta! - falei enquanto comia outro pedaço.
- Realmente não posso reclamar! Ter todas aquelas meninas chamando pelo meu nome! - falou fazendo cara de safado.
- Seu idiota. - falei batendo no peitoral dele. - Vou fingir que não ouvi isso!
- Não. Falando sério. Eu gosto das turnês, mas é horrível ter que passar tanto tempo no avião.
- Nunca andei de avião, mas posso imaginar.
Logo as pessoas começaram a ir embora. No final ficamos eu, meus pais, Camila, Paulo, Rafaela e Tom limpando a sujeira. Meus irmãos haviam dormido no sofá.
-Não precisa fazer isso! - falei para ele que tomou o saco preto de lixo da minha mão.
- Na verdade, eu to só matando o tempo. Sua mãe me ofereceu uma carona de volta para o hotel. - falou fazendo graça.
- Tem certeza? - perguntei e ele assentiu.
- Tá começando a ficar chato. - falou, fazendo cara de tédio.
- Tá bom. Desculpa. - falei e voltei a varrer o chão. Observei a mesa do bolo onde minha mãe guardava o que havia sobrado e tentava disfarçar, olhando a gente.
- , praia amanhã? - Paulo perguntou, em português, atrás de mim.
- Como manda a tradição! - falei.
- Vai também Tom? - perguntou em inglês.
- Onde? - perguntou, se aproximando.
- Uma praia mais afastada. Provavelmente ficaremos o dia todo lá. - falei.
- Parece ótimo! Posso levar mais gente? - perguntou.
- Pode. Quanto mais gente melhor! - Paulo falou e voltou para voltou para perto de Camila. Encarei Tom.
- O que foi? - perguntou.
- Eu ainda não acredito que você está aqui! - falei sorrindo.
- De verdade? Nem eu! - tocou meu rosto com a ponta de seus dedos. - Poder finalmente tocar o rosto por trás do computador parece surreal.
- Para mim também. - falei sorri para ele antes de um barulho atrás de mim quebrasse o clima.
- Estamos prontos para ir. - meu pai falou.
- Tá bom. - falei antes de fechar o saco de lixo e voltar para a entrada. Coloquei o saco junto com os outros, assim como Tom. - Vai caber todo mundo no carro?
- Seu pai vai com Paulo e Guilherme. Gabriel vai com a gente, deixamos Tom no caminho. - mamãe falou, antes de pegar algumas caixas e ir em direção ao carro.
- Obrigada amiga. Muito obrigada. - falei abraçando Camila.
- Que isso? Não fiz nada, meu trabalho foi só sondar pra você não descobrir nada. - falou.
- Nos vemos na praia amanhã? - perguntei.
- Passo na sua casa pra te buscar com o Paulo. Te mando o horário. - falou e murmurou logo em seguida. - Olha lá o que você vai usar para não enfartar o menino.
- Eu não sou você. E ele não pode entender a gente. - falei querendo entender porque ela sussurrava.
- Verdade.
- Idiota. Boa noite Camila.
- Boa noite. - completou em inglês. - Até amanhã Tom.
- Até. - falou enquanto ajeitava meu irmão mais novo em seu colo. Foi um momento fofo.
- Não precisa levar ele. Eu posso levá-lo. - falei enquanto pegava a última sacola.
- E a minha educação ficaria aonde? - saímos da casa e caminhamos até o carro que estava estacionado perto da calçada. Minha mãe terminava de colocar as caixas no banco da frente enquanto eu ajudava Tom a colocar Gabriel na cadeirinha no banco de trás. Como minha mãe havia ocupado o banco do carona com as caixas das sobras - intencionalmente, suponho pela cara que ela fez. -, eu fui no banco de trás entre meu irmão adormecido e Tom. Encostei minha cabeça no ombro dele e ele brincava com meus dedos.
Eu lutava para não dormir.
Em Búzios nada é muito longe e como não havia trânsito aquela hora, não demorou para chegarmos ao hotel dele, na beira da praia. Já estava perto da meia noite. Desci do carro junto com ele.
-Eu vou fazer a volta. - mamãe falou.
- Então… - comecei e logo ele me abraçou, quase me esmagando em seus braços.
- É bom poder fazer isso. - falou e eu passei meus braços pelo seu pescoço, me fazendo ficar na ponta dos pés mesmo de salto.
- Também acho. - falei. Ali, sozinhos, começamos a matar a angústia que ficava em nosso peito.
- Te vejo amanhã? - perguntou, quando nos afastamos.
- Claro. Vocês têm um carro? - perguntei.
- Eu e Harrison alugamos um Jipe para a gente. - falou.
- Harrison veio? - perguntei e ele assentiu. - Vai ser bom finalmente conhecer ele.
- Meus irmãos provavelmente também vão querer ir. Se estiver tudo bem.
- Claro. Até o Paddy?
- É provável que não. Mamãe não desgruda dele. Mas talvez os gêmeos queiram ir. - falou. Minha mãe voltou com o carro.
- Tá. Vê tudo aí e se precisar de alguma coisa me liga. Te passo uma mensagem com a hora amanhã. Venho com a Camila e o Paulo pra vocês seguirem a gente. - falei e ele assentiu. - Boa noite.
- Boa noite, Babygirl. - falou me fazendo corar. - Boa noite senhora . Obrigado pela carona.
- Que isso querido. Boa noite. - mamãe falou enquanto eu entrava no carro. Logo já deslizavamos pelas ruas de novo. - Babygirl?!
- Não começa mãe. - falei.

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No outro dia eu acordei com o barulho ensurdecedor do meu celular tocando. Tateei até encontrá-lo e logo atendi para acabar com aquilo.
-Alô? - falei com a voz grogue.
- Você ainda tá dormindo? Não creio. - ouvi a voz de Camila do outro lado. - Vai se encontrar com o Boy em uma hora e ainda tá dormindo.
- O que? - perguntei ainda meio sonolenta.
- . Já são quase dez horas. - falou me dando um susto. Olhei a hora no celular e ela tinha razão.
- Meu Deus. Dormi muito. - falei.
- Paulo vai passar aqui em casa daqui a pouco. Posso enrolar ele um pouco, mas Rafaela já está nos esperando.
- Tá bom. Já me sentei. - falei enquanto encostava na cabeceira da cama e coça os olhos.
- Ok. E me faça um favor antes de mudar de roupa. Abra o meu presente. - falou e desligou.
Me intriguei com aquilo. Levantei da cama e me espreguicei. Caminhei até a pequena pilha de presentes no canto do quarto e procurei pela caixa com o nome de Camila. Era uma caixa normal, quadrada e bem feita.
- Com certeza não foi ela quem fez! - murmurei me referindo ao embrulho. Abri a caixa e dentro vi um lindo biquíni, estampado, a parte de cima era um top que cobria meu visto todo
e a parte das minhas costas perto dos ombros também. A calcinha era comportada, apesar de as laterais serem três fios grossos do tecido. Provavelmente não escolheria aquela calcinha por vontade própria, mas eu havia adorado.
Vesti o biquíni e ele ficou lindo. Coloquei um short jeans e uma regata preta por cima. Escovei os dentes, penteei meu cabelo, fazendo um rabo de cavalo. Arrumei minha bolsa, colocando a toalha de praia, um casaquinho para o caso de esfriar mais tarde. Peguei meu celular, protetor labial e meu óculos.
Caminhei até a sala onde toda a minha família já estava. Minha mãe estava na cozinha, meu pai na sala assistindo a um jogo com meus irmãos.
-Bom dia. - falei.
- Bom dia filha. Achamos que não ia acordar mais. - papai falou.
- Eu realmente dormi mais do que podia. - falei enquanto comia alguma coisa da geladeira.
- Rafaela ligou para mim mais cedo e me disse que vocês vão a praia, apesar de eu já suspeitar. Vocês sempre vão. - mamãe falou e eu ri. - Disse a ela que você ainda estava dormindo e que era melhor ela ligar para os meninos.
- MEU DEUS. - gritei pelo susto e meu pai me repreendeu com o olhar. - Esqueci completamente.
- Ela disse que ligaria. - falou.
- Obrigada mãe. - falei enquanto checava meu celular de novo.
- Fiz algumas coisas para vocês levarem também. - falou. - Tentem não comer tudo de uma vez!
- Acho que Carol e Miguel vão levar alguma coisa. Sempre levam! - falei.
- Qual biquíni você colocou? - perguntou de modo que apenas eu escutasse. Suspirei.
- Um biquíni que Camila me deu de presente. - falei me levantando do banquinho e tirando a blusa para que ela visse.
- É muito bonito. - falou analisando o biquíni. - Você viu se tapou? - perguntou passando a mão nas minhas costas.
- Eu verifiquei três vezes. Elas sabem que eu não uso qualquer um. - falei colocando a blusa de volta.
- Uma hora você vai precisar contar para ele. - ela falou terminando os sanduíches.
- Não quero assustá-lo também. - confessei.
- Ele é diferente de Felipe querida. Consegui perceber isso ontem! - falou.
- Eu só não quero perder isso que a gente tem. Ele me faz tão bem… Depois de tudo o que passei. - falei sentindo meus olhos se encherem de lágrimas. Não vou chorar hoje.
- Confie nele meu amor. Tenho certeza de que ele pode te surpreender. - falou, me encarando.
- Eu conto antes dele ir embora! - falei e ela assentiu enquanto ouvíamos meu celular vibrar.
Mensagem de Camila. - Chegaram!
- Eu te ajudo levar as coisas. - falou enquanto colocava os últimos sanduíches na sacola. Peguei a sacola térmica com as bebidas e minha mãe pegou a com os sanduíches.
- Tchau meninos. Tchau pai. - falei, passado por ele, atrás do sofá, dando um beijo em sua cabeça.
- Juízo com aqueles meninos. - falou, me fazendo revirar os olhos. - Mas divirta-se.
- Tá bom pai. Obrigada. - passei pela porta aberta e encontrei o carro do meu tio - uma caminhonete prata alta - parado em frente à minha casa e Paulo colocando as sacolas no banco de trás para a minha mãe, entre eu e Rafaela. - Por que você não veio no seu carro?
- Porque esse tem mais espaço! - falou enquanto voltava para o banco do motorista e eu subia no carro.
- Juízo. - minha mãe falou. - Vocês quatro!
- Pode deixar tia, eu tomo conta delas! - Paulo falou fazendo a gente rir.
- Você é o que mais me preocupa! - mamãe falou e nós rimos mais. Paulo saiu com o carro.
- Melhor você avisar pra eles que estamos chegando! - Camila falou.
- Bom dia para vocês também! - falei enquanto pegava meu celular na bolsa, procurando o número de Tom.
- Gostou do biquíni? - Camila perguntou, me ignorando.
- Amei. - falei e logo depois ele atendeu o celular, não me dando chance de prestar atenção na conversa delas.
- Bom dia. - falou em seu sotaque britânico maravilhoso.
- Bom dia. - falei em inglês, nervosa.
- Dormiu demais? - perguntou, brincalhão.
- Alguma coisa parecida com isso. - falei, ficando sem graça e vi Rafaela fazer cara de dengo.
Queria ter alguma coisa para tampar nela naquele momento. - Chegamos em cinco minutos.
- Beleza. Vou terminar de amarrar as pranchas e apressar meus irmãos aqui. Vejo você daqui a pouco.
- Até daqui a pouco. - falei e desliguei.
- Meu Deus, ela tá completamente apaixonada! - Camila falou.
- Você ainda tinha alguma dúvida? - Rafaela perguntou. Será um longo dia.
Tentei ignorar elas até o caminho ao hotel. Consegui prestar atenção no hotel dessa vez e ele não era muito luxuoso, mas era conhecido aqui em Búzios por ser muito bom. O carro deles estava estacionado do lado de fora, duas pranchas de surf estavam em cima do Jipe, assim como algumas mochilas. Paulo estacionou perto e nós descemos. Ainda não havia visto Tom, mas reconheci Harrison pelas fotos que Tom havia me mostrado. Mas Rafaela não conhecia ele ainda.
Quando minha prima viu ele, amarrando as cordas que seguravam as pranchas no Jipe. Ela simplesmente parou no lugar. Tá certo que ele era muito bonito - O cabelo um pouco mais claro que o castanho normal, pele clara, os braços magros mas definidos. Camiseta branca, bermuda azul escura e chinelos no pé. Pude reparar que usava óculos escuro na hora. - mas eu prefiro meu moreno. - Eu tô realmente falando assim agora? Que coisa medonha. Se controla . Se controla.
-Quem tá apaixonada mesmo? - perguntei zoando ela que tentou se recompor rapidamente.
- Hey Harrison.
- . - falou, percebendo nossa presença.
- Prazer em conhecer você! - falei abraçando-o.
- Digo o mesmo. Não aguento mais Tom falando de você sem saber como você é. - falou, me fazendo rir.
- De você eu já vi fotos. - falei fazendo-o dar de ombros. - Bom… Esses são meus primos, Rafaela e Paulo, e minha amiga Camila. - devidamente apresentados eu comecei a procurar por Tom.
- Ele foi lá dentro apressar Sam e Harry. - Harrison falou, enquanto voltava para as cordas. Paulo ofereceu ajuda e logo eles já tinham terminado. Um dos gêmeos apareceu e jogou uma mochila na parte de trás do carro. - Harry, esses são , Paulo, Camila e Rafaela.
- Prazer em conhecê-los.
- Prazer em conhecer você também! - Camila falou.
- Cadê eles? - Hazz perguntou.
- Estão vindo. Mamãe está dando as mil e uma recomendações. Nem parece que Tom passa a maior parte do ano fora de casa! - ele falou e rimos.
- Mães nunca mudam. - Rafaela falou.
Não demorou muito para que Sam e Tom aparecessem, acompanhado do pai deles.
-Desculpem a demora. - Tom falou e me abraçou. - Bom dia.
- Bom dia. - falei antes de cumprimentar o Dominic, estendendo a mão. - É um prazer conhecê-lo, senhor Holland.
- Só Dominic já está bom. - falou enquanto aceitava a minha mão. - E é ótimo conhecê-la também.
- Podemos ir? - Hazz perguntou.
- Acho que sim. - Tom falou enquanto olhava em volta.
- Vou na frente. Qualquer coisa vocês ligam para a e a Rafa. - Paulo falou e os meninos assentiram.
- Essa praia que vocês vão é longe? - Dominic perguntou.
- Não. Deve ficar a uns 25, 30 minutos daqui dependendo do trânsito. - Camila respondeu. -
Mas tem total acesso a telefone, se precisar falar com os seus filhos. - Quem visse até diria que é educada.
- Pai, por favor. Já falei isso tudo pra mamãe. - Tom falou, antes de entrar no carro, cortando o pai dele.
- Nós vamos cuidar deles! - falei entrando no carro.
Capítulo 4


A praia era mais afastada da cidade e por isso era um pouco mais deserta. Quando chegamos no nosso local de encontro, o carro de João já estava estacionado no acostamento. Ele trouxe Miguel, Alice e Carol.
Paulo estacionou o carro atrás e Harrison estacionou atrás de nós. Descemos, pegando as nossas bolsas e sacolas com as comidas depois. Os meninos vieram do Jipe para ajudar a carregar as coisas até onde o pessoal havia montado as barracas e estendido as toalhas/cangas.
-Parece que finalmente João e Miguel encontraram amigos de Surf. - Paulo comentou e eu assenti, sorrindo.
- Eles também sabem surfar? - Tom perguntou, curioso.
- São viciados. - comentei enquanto lhe entregava a última sacola. O calor estava insuportável até mesmo para quem estava acostumado, como nós. Eu já estava suando.
Perguntei a Sam se eles precisavam de ajuda, mas o mesmo negou dizendo que eles não tinham trago muita coisa. Por isso logo caminhei até a areia, junto com Camila, aproveitando para logo tirar a minha sandália, sentindo os grãos de areia entrarem entre meus dedos. Alice e Carol já estavam deitadas, de biquíni, tomando sol. Joguei a minha bolsa ao lado delas enquanto pegava e estendia a canga.
-Vocês demoraram! - Alice reclamou, em português.
- Dormi demais e demoramos para sair do hotel com os meninos. - respondi, dando de ombros.
- Como foi depois que fomos embora ontem? - Carol sempre foi a mais curiosa.
- Ain… - falei, enquanto passava a mão pelo rosto e caia de costas na toalha. Provavelmente com cara de boba apaixonada.
- Não precisa nem falar, pelo visto foi bom. - comentou Alice, me zoando.
- Qual foi o presente que ele te deu? - Carol perguntou.
- Um cordão, com um pingente de vidro e um floco de neve de verdade dentro.
- Como isso é possível? - Alice perguntou.
- Não faço a mínima ideia! - falei.
Trocamos de assunto porque logo eles chegaram do nosso lado. Tom e Harrison carregando as pranchas, Sam e Harry trazendo duas mochilas ao lado de Paulo e Rafaela. Me levantei da canga.
-Bom… Vocês já conheceram o Tom. Esses são Harry, Sam e Harrison. - falei em inglês. - Meninos, essas são minhas amigas, Carol e Alice, e meus primos Miguel e João.
Todos se cumprimentaram e logo os meninos já estavam colocando as bolsas debaixo das barracas, junto das sacolas com as comidas. Tom e Harrison colocaram as pranchas enfiadas na areia junto com as de Miguel e João. Eles tiraram as regatas, ficando só de bermuda.
-Como vocês aguentam esse calor? -Harry perguntou.
- Como vocês aguentam aquele frio de Londres? - perguntei em inglês.
- É… - pareceu pensar e então encarou o mar a nossa frente.
Desviei o olhar de Harry para Tom. Posso dizer que as horas na academia fizeram muito bem para ele, porque, apesar de ser magro, seu corpo estava bem definido e musculoso. Os ombros largos davam seguimento a braços bem definidos e um abdômen quase ‘trincado’. Agradeço muito naquele momento por Tom ter conseguido o trabalho - interpretar o Homem-Aranha - que deixou ele daquele jeito. Alice me tirou de meu momento de admiração para fazer uma constatação de algo que eu já havia percebido.
- Vocês são muito brancos! - riu.
- É perigoso até se queimarem. Pasm protetor antes de sair? - Rafaela perguntou enquanto se ajeitava na canga ao meu lado.
Eu era a única que ainda não tinha tirada a roupa. O motivo não havia ficado claro na minha cabeça. Talvez por timidez - afinal tínhamos pessoas novas no grupo, inclusive o garoto por quem eu tinha uma pequena/grande paixão. - ou até mesmo por intimidação, já que o fato de eu ser a mais baixinha entre as minhas amigas sempre me fez achar que meu corpo nunca foi/é realmente bonito.
- Só de uns três tipos diferentes. - Sam falou, fazendo com que todos ríssemos.
- Minha mãe pode ser liberal, mas ainda é mãe. - Tom falou e se sentou ao meu lado na canga, enquanto os gêmeos pegaram alguma coisa na mochila e caminharam em direção a um rochedo que tinha ali perto.
- Sejam cuidadosos, é perigoso lá! - falei e eles assentiram.
- Não são crianças . - Carol me advertiu, rolando os olhos.
- Eu sei, mas me sinto responsável do mesmo jeito. - falei, em inglês, antes de voltar a olhar para a direção em que os meninos se afastavam.
- Eles são cuidadosos. - Tom me assegurou e eu assenti, enquanto observamos os meninos se afastarem, brincando entre si. - É o espírito fotográfico falando alto, eles não se aguentam!
- Eles não tem vontade de seguir o seu caminho? - perguntei, curiosa.
- Acho que Harry vai esperar para fazer Cinema na faculdade. Não que eu ache que ele precise. Mas Sam é uma pequena incógnita na família, acho que ele não tem muita certeza do que fazer. - falou.
- Tenho certeza do que ele decidir, vai ter os irmãos para apoiá-lo. - apoiei minha mão na sua, que estava apoiada na minha canga. Ele começou a brincar com meus dedos, apesar de não olhar para eles.
- Não vejo como poderia ser de outro jeito. - falou e me encarou. Então mudou de assunto. - Não vai tomar sol com as meninas?
- Vou. - tentei esconder meu incomodo em ter de tirar a blusa e o short.
- Vamos pra água? - Miguel perguntou e Tom assentiu, enquanto voltava a me encarar.
- Você vai adorar a água. É gelada. - falei para ele.
- Muito gelada?
- Muito gelada! - falei e ele olhou para o mar azul na nossa frente.
Ele me deu um beijo na bochecha antes de levantar, pegar sua prancha e indo em direção aos outros na água, não tenho a oportunidade de me ver com cara de boba por causa do beijo.
-Estou ferrada. - murmurei.
A manhã foi ótima. Os meninos ficaram na água praticamente o tempo todo. Pareciam crianças. Harrison era ótimo, finalmente consegui descobri porque Tom gostava tanto dele. Engraçado, simpático e muito bonito, nos demos bem logo de cara.
Os gêmeos não demoraram para voltar. Ficaram por perto e pudemos conversar melhor. Logo eles estavam se entrosando com a gente e sentindo mais à vontade, o que me deixou muito feliz. Tinha medo de que esse dia fosse acabar sendo estranho.
-Paddy ia adorar ter vindo! - Sam falou. - Ficou reclamando que estávamos abandonando ele com meus pais!
Rimos apesar de ficarmos com pena do caçula dos Holland.
- Tadinho. - Rafa murmurou e todas concordamos.
- Seus pais não deixaram ele vir? - perguntei, ajeitando meu cabelo para não ficar com a marca dele nas costas por causa do sol.
Os dois estavam embaixo da barraca, sentados nas próprias toalhas, bebendo água e olhando as fotos na máquina fotográfica enquanto eu e as meninas estávamos deitadas tomando sol nas costas.
- Ele é o caçula e ainda é muito novo, então acho que eles ficam com receio de deixar Paddy sair com a gente sem um adulto. - Harry respondeu antes do irmão.
- Apesar de Tom já ter 19 anos, não tem muito juízo naquela cabeça! - brincou fazendo-nos rir.
Os meninos saíram da água para descansar depois do que pareceu uma eternidade, mas, enquanto Harrison e Tom sentaram-se com a gente, Miguel e Paulo pegaram a bola de futebol, jogando um mano-a-mano. Os gêmeos, entediados, logo se juntaram a eles. Me levantei de perto das meninas, indo em direção a eles, perto da água.
-Tem lugar pra mais um? - perguntei.
- Bem que teria prima, mas não dá pra jogar com 5 pessoas. - Paulo falou, dando de ombros.
- E com 6 pessoas? - Rafaela perguntou, chegando ao meu lado. Eles se encararam e deram de ombros. Paulo chutou a bola para Miguel, eu corri atrás dele e peguei a bola de seus pés, não parando. Vi Rafaela mais acima e chutei a bola para ela. Quando percebi todos estavam jogando com a gente e foi muito divertido. Realmente precisava de um dia como aquele fazia algum tempo.
Paramos por causa do calor, sentamos - os meninos se esconderam debaixo das barracas novamente. - e comemos alguns sanduíches além algumas outras coisas. Depois eu me vi em uma discussão com Tom e meus primos sobre o porquê de eu não saber surfar.
-Porque eu nunca quis! - falei enquanto sentava na canga de novo, temendo o rumo daquela conversa.
- E não foi por falta de tentativa nossa! - João falou.
- Eu só não tenho senso de equilíbrio o suficiente para ficar em pé em cima da prancha. - falei.
- Então só vem comigo. A prancha é comprida o suficiente para nós dois. - Tom falou e estendeu a mão. - As ondas estão perfeitas, você precisa experimentar.
- Não! - falei olhando-o como se tivesse falado a coisa mais estranha do universo.
- Por favor. - falou, fazendo uma cara de dengo que eu amo, e eu não consegui negar. Até porque eu não conseguia negar uma coisa a ele por muito tempo.
- Tá bom. Mas se eu morrer afogada a culpa é sua! - Como eu disse, não durou muito tempo. Me levantei, aceitando sua mão ao mesmo tempo em que eu ouvi as meninas me zoando pelas costas.
- Alguém pega o celular, porque isso precisa ser lembrado! - Rafaela falou.
- Eu quero ficar bem perto pra poder ver tudo. - Carol falou.
- Eu só não mando vocês irem para aquele lugar porque eu sou uma pessoa educada! - falei, amarrando meu cabelo.
- Acho melhor você vestir uma blusa porque o sol está muito quente! - falou, apesar dele mesmo estar sem blusa, não que eu reclamasse, e eu assenti, pegando sua blusa por engano no meio das minhas coisas. Ele não se importou.
Caminhamos até onde as pranchas estavam, um pouco mais abaixo de nós na areia. Ele colocou a corda no tornozelo e tirou a prancha da areia.
-Você vai realmente fazer isso comigo? - perguntei, nervosa.
- Você vai gostar, eu prometo! - falou, dando o sorriso que eu tanto amava e me estendeu a mão de novo. Aceitei e ele me levou até a beirada da água. - Você só precisa sentar na beirada da prancha e me deixar fazer o resto. - tentou me tranquilizar enquanto colocava a prancha na água, a maré estava no meio das suas coxas. Olhei mais para frente, onde as ondas enormes quebravam.
- Tom. - olhei para ele com receio, começando a entender onde tinham me enfiado. Apesar da aparência de forte, eu era medrosa ao quadrado.
- Eu já te coloquei em alguma situação perigosa? - perguntou, revirando os olhos, e eu neguei. - Então, confia em mim. - me puxou pela mão delicadamente.
Entrei na água e parei ao seu lado. Tom me ajudou a sentar na prancha me dando impulso enquanto segurava a minha cintura e eu me apoiava em seus braços. Agradeci por estar quente e eu já estar vermelha por causa do sol, porque eu provavelmente teria ficado vermelha de vergonha. Tentei me controlar para não suspirar quando ele me soltou e, ao mesmo tempo, não me render a sensação das ‘borboletas’ no meu estômago. Eu estava muito ferrada.
Eu aproveitava cada segundo de cada situação com Tom, por mais que ele não sentisse o mesmo por mim, eram momentos nossos que poderiam não se repetir.
Fiquei de costas para ele o tempo todo, com meu rosto virado para a ponta da prancha e para o mar azul a minha frente. A água estava extremamente gelada, mas o sol quente compensava isso. Sabia que ele havia subido na prancha pela mudança no peso nela.
-Tudo bem? - ele perguntou.
- Sim. - falei. Então ele, deitado, começou a remar com os braços, me deixando em um misto de ansiedade e nervoso, esperando pela próxima onda. - Ainda não acredito que estou fazendo isso!
- Larga de ser medrosa! - brincou e se sentou atrás de mim.
- Eu vou te matar! - falei enquanto olhava por cima do ombro, vendo ele tirar o cabelo molhando do rosto. Quase suspirei de novo.
- Você vai me agradecer! - falou, enquanto olhava o mar a nossa frente. - A próxima vai ser perfeita. - falou se referindo a onda.
Eu descreveria a situação e o que eu senti, mas é praticamente impossível. Para ajudar eu diria que parece com a adrenalina de quando andamos de montanha russa, mas é ainda mais intenso. As meninas me contaram depois que conseguiam ouvir meus gritos de empolgação da areia, mas eu não me lembro de ter gritado. Me lembro de passar a ponta dos dedos pela onda ao meu lado quando entramos no tubo - foi uma sensação maravilhosa - e de segurar na borda da prancha para não cair em alguns momentos. Apesar de ter relutado para ir, queria que nunca tivesse acabado.
Quando a onda quebrou e nós saímos dela, eu não conseguia contar a empolgação dentro de mim, então quando atingimos uma área da água que estava mais calma eu mergulhei, saindo da prancha. Nadei até mais a frente, sentindo cada milímetro da minha pele reclamar da temperatura da água, mas eu não me importava. Estava feliz. Voltei a superfície com um sorriso no rosto.
-Isso foi incrível! - falei para Tom que estava sentado no meio da prancha.
- Eu disse. - sorriu enquanto me observava nadar até a prancha, apoiando meus braços na mesma e o queixo em cima deles.
- Obrigada! - agradeci.
- De nada. Qualquer coisa pra ver seus olhos brilharem desse jeito. - falou fazendo-me ficar envergonhada.
Não sei por quanto tempo ficamos na água, mas foi maravilhoso. Tom me levou mais algumas vezes e eu observei enquanto ele ia sozinho, e era ainda mais impressionante assistir de perto.
Ele tentou me ensinar alguns truques, mas como eu disse antes meu senso de equilíbrio não era dos melhores, então acabou não dando muito certo!
-Você tá muito vermelho! Melhor voltarmos! - falei me referindo ao rosto e ombros dele.
- Tudo bem! Vamos ver quem é mais rápido? Eu na prancha ou você na água? - perguntou.
- Não sei se vai ser muito justo, mas podemos tentar! - falei enquanto descia para a água gelada de novo. Sabia que era uma corrida perdida, mas seria divertido tentar. Esperamos pela próxima onda é óbvio que ele ganhou. Eu cheguei na areia muito depois.
- Você é muito lerda! - falou, enquanto soltava seu tornozelo e ajeitava a prancha perto das outras.
- Você é muito chato. - falei, respirando fundo, enquanto ajeitava meu cabelo, blusa e biquíni.
- Você bem que quer outra volta! - falou.
- Nem em sonho. Sua mãe me mata se eu te devolver com insolação! - falei, sendo claramente exagerada.
- Ah é? - perguntou se aproximando sorrateiramente e eu assenti. - E o que eu sou pra você me devolver? Um objeto? - perguntou, com um olhar divertido.
- Tá mais pra um sorvete que deixa a gente enjoado! - falei.
- Sorvete?! Eu pareço ter cara de sorvete? - perguntou, fingindo estar ofendido, agora já na minha frente. Fingi analisá-lo, para provocar mais.
- Agora que você perguntou… Parece sim! - falei, rindo.
- Ah é? Eu vou te mostrar o sorvete enjoativo então! - falou e começou a correr atrás de mim, fui pega desprevenida e apesar de ter corrido um pouco, ele acabou me alcançando rápido, me segurando pela cintura. Começamos a rir enquanto ele me levantou um pouco no ar. Tom me fazia sentir feliz e eu já não conseguia imaginar minha vida sem ele mais, apesar de ser apenas como amigo.
Estávamos tão envolvidos pelo nosso pequeno momento que nem percebemos a aproximação do recém-chegado, que acabou com a nossa felicidade.
- ? - fazia algum tempo que eu não ouvi aquela voz. Demorei alguns segundos para parar de rir e voltar para a realidade.
- Felipe? - perguntei, enquanto me desvencilhava de Tom. Eu reconheceria Felipe em qualquer lugar, apesar dele estar um pouco diferente. O cabelo estava mais escuro e a pele mais morena. Seu rosto aparentava mais maturidade apesar do seu olhar conter o mesmo brilho malandro pelo qual me apaixonei alguns anos atrás. O brilho que me trouxe muita decepção no passado e hoje só me faz sentir raiva.
- Uau. Você cresceu! Parece diferente. - falou, me olhando de cima a baixo, o que me fez ficar constrangida e irritada. Sentimentos que eu pouco gosto de sentir. Tom percebeu que a situação não era boa e se aproximou, mostrando-se presente.
- Não posso dizer o mesmo de você! - retruquei. Não daria meu braço a torcer, não a ele. Não ao cara a que partiu meu coração anos atrás.
- , tudo bem? - Tom perguntou ao meu lado, sério e preocupado.
- Sim. - falei, olhando para ele. Me sentia feliz por ele estar ali comigo naquele momento. Não conseguiria encarar aquele fantasma sozinha.
- Não vai nos apresentar ? - Felipe perguntou, agora em inglês. Sua voz tinha um tom irônico e me deixava enojada.
- Felipe esse é Tom. Tom esse é Felipe. - falei, em inglês. - O que você quer Felipe?
- Conversar! - falou.
- Conversar? Agora você quer conversar? Me poupe. - falei enquanto passava por ele em direção à barraca. Antes que eu pudesse ir muito longe, ele segurou meu braço. - Me solta. Agora! - falei, em português, entre dentes.
Observei, pelo canto do olho, o pessoal se aproximar um pouco, alarmados. Tom, atrás de Felipe, não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que não era coisa boa.
- Solta o braço dela! - Tom falou.
- Cara, com todo o respeito, isso não é da sua conta! - Felipe falou em inglês para ele.
- Pode até não ser da conta dele, mas ele merece saber mais da minha vida do que você! - falei e, em um momento de raiva, bati em seu rosto com meu braço livre. - Você fez sua escolha a anos atrás e, por causa disso, eu não te devo nada. Não quero você na minha vida, então não ouse aparecer na minha casa ou em qualquer outro lugar, senão a surra que você vai levar vai ser muito pior. - falei, Tom agora estava do meu lado. Segurei sua mão e puxei meu braço, me virando de costas para Felipe, caminhando até meus amigos.
- Você está bem? - Rafa perguntou, em inglês. Tínhamos entrado em acordo de sempre falar em inglês perto dos meninos, a menos que… bem ... fosse para falar sobre eles.
- Nunca me senti melhor. - falei.
- Quer ir embora? - Alice perguntou.
- Por causa dele? Não se incomode. - falei enquanto pegava uma garrafa de água e me sentava debaixo da barraca, respirando fundo. Observei enquanto o desgraçado passava bem longe e ia embora. Apesar de ter sido fácil, ele não ia desistir.
- Quem era ele? - Harry perguntou.
- Um fantasma de um passado que eu quero esquecer. - falei, dando o assunto por encerrado.
A mudança do meu humor era visível, eu tinha ficado irritada depois daquela aparição. Todo mundo fez esforço para não comentar sobre o caso, mas, infelizmente, eu não conseguia parar de pensar na assombração que deixou a praia da mesma forma que chegou.
Quando o sol começou a se pôr, nós juntamos nossas coisas e fomos embora. O caminho até em casa foi tranquilo e silencioso. Não queríamos falar sobre o ocorrido. Seguimos até o hotel, enquanto Miguel e João foram deixar as meninas em casa.
-Obrigado por hoje. - Tom falou, enquanto no despedíamos.
Seus irmãos e Harrison já haviam entrado com a maioria das coisas, sobrando apenas uma mochila nas suas costas e a prancha aos nossos pés.
- Obrigada por ter me levado para surfar, eu realmente gostei…
- Nunca seja teimosa comigo.
- Não é para tanto. - brinquei e ele riu. - E obrigada por ter ficado do meu lado também.
- Não sei qual é a história por trás de vocês dois, mas o jeito como ele te olhava, me deixou nervoso de um jeito que eu nunca me senti antes. - falou e me abraçou. Passei meus braços pela sua cintura, apertando-o.
Tom é o porto-seguro - apesar do mesmo não saber disso - que eu demorei anos para encontrar que, em meio a toda a confusão que foi e ainda é a minha vida, me transmite tranquilidade e amor de uma maneira que nada e nem ninguém conseguiu fazer. Agora eu entendo isso.
- Eu sempre vou ficar do seu lado. E esperarei até você quiser contar o que aconteceu! - falou, beijando a minha testa.
- Obrigada. Eu quero te contar. Quero mesmo. - ele assentiu. - Só é doloroso demais!
- Tá tudo bem. Eu posso esperar. - então mudou de assunto. - O que vai fazer amanhã?
- De manhã eu vou à Igreja. De tarde eu vou ficar de bobeira. - falei, agradecendo mentalmente pela mudança.
- Passa aqui depois. Vamos fazer alguma coisa juntos! - falou e eu assenti.
- Não precisa pedir duas vezes! - ri e coloquei um cabelo atrás da orelha.
- Se puder, trás a Rafaela também? Acho que Harrison gostou dela! - falou.
- Sério? - perguntei e ele assentiu, antes de ouvirmos uma buzina.
- Vamos ! - Camila gritou.
- Eu mereço isso? - fiz drama, fazendo-o rir. - Até amanhã.
- Até amanhã. - beijou minha testa de novo, senti minhas bochechas esquentarem. Caminhei até o carro e entrei. Observando ele, parado na porta do hotel, através da janela.
- E aí? - Rafaela perguntou ao meu lado.
- O que? - perguntei.
- O que aconteceu? - Camila perguntou.
- Não aconteceu nada! - falei, olhando para a janela.
- Qual é? Vocês pareciam um casal antes de toda aquela confusão começar. - Camila falou.
- Nem comente sobre aquilo. - falei.
- Eu sabia que ele viria para Búzios. Mas não achei que tivesse a audácia de ir procurar a gente, de ir procurar você depois do que ele fez! - Paulo falou enquanto me encarava pelo retrovisor.
- Eu espero qualquer coisa dele! - falei.
- Eu ia te avisar. Juro que eu ia. - falou.
- Não faria mais do que o seu dever. - Camila falou, batendo no braço do namorado.
- Eu não te culpo de nada. - tranquilizei Paulo enquanto encarava a janela.
Não comentaram mais nada, nem sobre Felipe e nem sobre Tom, agradeci mentalmente por isso. Logo eu já estava chegando em casa. Desci do carro e meu primo veio me ajudar a pegar as coisas na caçamba.
-Fica bem tá? - falou e beijou o topo da minha cabeça.
- Eu não tenho porque ficar abalada, tenho? - perguntei, como quem não quer nada, enquanto colocava a bolsa no ombro.
- Você sabe do que eu tô falando. - falou e me encarou, sério.
- Você sabe que eu não tenho como controlar isso. - falei enquanto caminhava para a entrada da casa, querendo dar um fim ao assunto.
- Não tem porque começar com esse tipo de pensamento . - falou, suspirando.
- Eu sei. Boa noite. - falei na porta.
- Boa noite. - responderam do carro e eu entrei dentro de casa.
Meus pais estavam deitados vendo filme no sofá. Meus irmãos estavam brincando na área de fora.
- Cheguei. - falei, colocando a bolsa do lado da porta e carregando a caixa que foi com a comida até a mesa da cozinha.
- E como que foi? - papai perguntou. - Você não está com uma cara muito boa! - me sentei na poltrona perto deles.
- Estava tudo indo muito bem até… - falei e suspirei. - Felipe aparecer lá.
- Ele voltou para Buzios? - mamãe perguntou, se sentando. Assenti. - E o que ele queria?
- Conversar. - falei.
- E o que você fez?
- Ri na cara dele. Como se fosse ser fácil desse jeito. - falei e tirei o casaco. - Teve a cara de pau de me pedir satisfações depois de tudo o que ele fez comigo.
- Se eu encontro esse menino na rua… - papai começou.
- Você não vai precisar fazer nada! - falei, mais preocupada com a pressão do meu pai do que com a situação. - Acho que a marca dos meus dedos no rosto dele deixaram bem claro que eu quero ele longe de mim e dessa casa.
- Você bateu nele? - mamãe perguntou.
- Não vou ser feita de trouxa duas vezes pela mesma pessoa, mãe. - falei e vi o olhar de incrédula no rosto dela. - Não olha pra mim assim, teria batido muito mais se os irmãos do Tom não tivessem junto. Não queria causar uma má impressão.
- E como você está se sentindo? Agora que ele voltou. - mamãe perguntou.
- Eu segui em frente mãe. Não posso dizer que não me abala, mas eu sou feliz agora. - falei.
- Com o Tom? - ela perguntou, fazendo eu e papai ficarmos desconfortáveis.
- Não tem essa de eu e Tom. Somos só amigos. - falei, tentando não me entregar, apesar de ter sido em vão.
- Tá…. Mas essa camisa que você está vestindo aí não é sua! - mamãe comentou, me fazendo vermelha por perceber pela primeira vez que eu não devolvi a camisa de Tom.
- Merda. - falei e eles riram.
- Vai tomar um banho querida.- mamãe riu - O jantar está quase pronto. - assenti, pegando minha bolsa perto da porta e indo em direção ao meu quarto.
Tomei um banho e troquei de roupa, só então percebendo o quanto estava cansada. Coloquei o que precisava ser colocado de molho e fui jantar. Meus pais não me perguntaram mais sobre Felipe, mas, para o meu desespero, me encheram de perguntas sobre Tom.
Não durei muito tempo depois do jantar. Ajudei a lavar as louças que sujamos e logo fui para o quarto. Coloquei o pijama e liguei o ventilador, deitando na cama.
O dia seguinte amanheceu ensolarado. Eu me levantei rapidamente enquanto ajeitava o cabelo e trocava de roupa para ir a Igreja. Enquanto procurava pela saia, eu tentava me lembrar que horas eu dormi e o que eu fazia. Não lembrava. Simplesmente apaguei na minha cama.
Depois de vestir a blusa branca e a saia azul, eu procurei pelos meus sapatos. Quando terminei procurei pelo meu telefone no meio dos lençóis. Ele estava cheio de mensagens das meninas, do grupo do handebol e dos amigos/primos, além de Tom. Não tive tempo de olhar, porque logo meu pai veio bater na porta, para me acordar.
-Ótimo, você está acordada. Pode me ajudar com seus irmãos? Sua mãe está um pouco atrasada. - pediu e eu assenti.
- Tá, eu já estou indo. - falei, pegando minhas pulseiras e relógio na caixinha de joias, em cima da prateleira, dentro do armário.
Não demorou muito para sairmos de casa. O caminho até a igreja era curto, mas não fazíamos ele a pé por causa do meu irmão mais novo. Com menos de cinco minutos nós chegamos na igreja e encontramos Rafaela,Paulo e meus tios.
-Como você passou a noite? - ela perguntou.
-Melhor do que eu esperava. Estaria mentindo se dissesse que não esperava por um pesadelo. - falei baixo para que meus pais não escutassem. Rafaela era a única a quem eu realmente confiava todos os meus problemas e que sabia de tudo o que eu já havia passado. Além de melhor amiga ela era minha família.
- Não começa. - mudei de assunto.
- Eu vou ver os meninos depois da missa. Quer ir comigo? Por favor. - falei, não precisando fingir o nervosismo. - Não quero conhecer os pais dele sozinha.
- Claro que eu vou. - falou e sorriu para mim.
- Meninas, vamos entrar? - meu tio perguntou, um pouco mais a frente, e concordamos.
Se eu disser que prestei atenção naquela missa eu estaria mentindo, por isso não direi. Queria apenas que acabasse logo.
No caminho de volta, meus pais deixaram eu e Rafaela no hotel, nos fazendo prometer que ligaríamos se precisássemos de alguma coisa ou quando quiséssemos ir embora. Concordamos com tudo o que disseram apenas para irem embora logo. Minhas mãos suavam frio e eu não conseguia ficar na mesma posição por mais de dois segundos. Quando foram fazer a volta para irem embora, nós logo subimos os degraus de madeira da entrada do hotel, passando pelas portas de vidro e entrando na recepção.
A parede direita da recepção era normal, já a esquerda era de vidro, que levava para a área externa do hotel - piscina, espreguiçadeiras e barzinho. Além das cabanas onde os hóspedes ficavam, na beirada da praia, e na extremidade oposta à nossa estava o restaurante. Todo o terreno, menos a área da praia, era cercado por uma cerca de bambu alta, dando privacidade aos hóspedes.
Chegamos até o balcão da recepção e esperamos pacientemente a recepcionista desligar o telefone e falar com a gente.
-Bom dia, o que eu posso fazer por vocês? - falou finalmente. Não ajudando com a minha ansiedade.
- Viemos ver a família Holland. - falei, querendo que ela agilizasse o processo- Estão esperando por nós.
- Seu nome?
- e Rafaela. - falei e ela desviou o olhar de nós para olhar um caderno à sua frente. Com muita má vontade.
- Ah sim. Cabana número cinco. - falou, como se não ligasse para nós, e voltou sua atenção para o computador.
- Mal educada. - Rafaela falou, depois que saímos da recepção.
- Podia ser um pouco mais gentil. - falei, mudando o foco dos meus pensamentos por um momento.
- Provavelmente gosta tanto do trabalho dela quanto eu gosto da minha faculdade. - falou, enquanto chegávamos perto da piscina e dávamos a volta nela.
- Não sei porque você ainda insiste em fazer medicina! - falei. - Pressão dos seus pais com certeza não é!
- Eu achei que pudesse me apaixonar pela profissão com o decorrer do curso, mas parece que está acontecendo o inverso.
- Então troca! Já disse que ninguém vai te julgar! - falei, parando em frente à porta da cabana 5. Pensei que fosse passar mal.
- Você ou eu? - Rafa perguntou.
- Você! - falei engolindo em seco. Observei minha prima dar um passo à frente e bater delicadamente na porta. Logo alguém abriu a porta e, felizmente, era alguém que eu conhecia.
- ?
- Hey Harry. - falei. - Tudo bem?
- Sim. Vem. Entrem! - falou, nos dando passagem. Apoiei a mão na alça da bolsa enquanto entrava na cabana, sendo seguida por Rafaela.
- Hey Harry. - ouvi ela falar.
- Hey Rafa.
- Tentei falar com Tom no caminho mas ele não atendeu. Ele está por aqui? - perguntei.
- Estamos todos lá na praia. - reparei apenas agora que ele estava sem camisa e descalço. - Venham. - falou e nós levou até a saída para a praia. Chegando na pequena varanda, nós tiramos nossos sapatos, colocando perto de uma mesinha, onde eu coloquei minha bolsa. Enquanto fazia isso, eu notei a família Holland aglomerada perto de uns coqueiros, alguns metros distante da nossa atual localização.
Se antes esperava por nós, agora Harry corria alguns metros à nossa frente, chamando atenção deles.
-Hey Tom! - gritou chamando atenção do irmão. - Tem alguém aqui querendo te ver! - falou e apontou para nós.
- Oi. - falei, tímida.
- Hey, você veio! - Tom falou e me abraçou. Passei meus braços por seu pescoço rapidamente.
- Claro que vim. - falei quando ele me soltou. - Viemos. - falei novamente, me referindo a Rafaela.
- Então você é a famosa ? - a mãe dele falou alguns metros atrás. Sim, eu sei quem é a mãe dele. Pele clara, olho castanho, cabelo castanho/ruivo. Definitivamente a mãe dele.
- Mãe, pai essas são e Rafaela. , Rafa, essa é a minha mãe, Nikki, e meu pai, Dominic, vocês conheceram ontem.
- É um prazer conhecê-los. - Rafaela falou.
- Tom fala tanto de vocês! - falei.
- Temos ouvido falar muito de você também querida! - a mãe dele falou, me fazendo corar.
- Espero que coisas boas. - falei.
- Maravilhosas. - falou me fazendo ficar mais envergonhada ainda. Harrison percebeu e mudou de assunto.
- Então vocês querem tentar? - falou, se referindo ao Slackline.
- Não aceitamos não como resposta. - Dom falou.
- Não acho que meu senso de equilíbrio ajudaria. - falei e olhei para a minha prima.
- Eu adoraria tentar. - falou enquanto fazia um nó na saia do vestido, encurtando-o. Fiz o máximo que pude para não encará-la com expressão de incrédula. Mas logo depois entendi o que ela queria: Ficar perto de Harrison. - Você me ajuda a subir?
- Ajudo. - ele falou. Rafa apoiou a mão no tronco do coqueiro e a outra segurou a de Harrison. A mão livre, ele apoiou na base das costas dela, dando apoio.
- Filha da mãe. - falei em português, encarando a situação.
- Tudo bem? - Tom perguntou.
- Não. Fica aqui. Se eu cair apoio em você. - Rafaela falou com ele, quando o mesmo tentou se afastar. Todos riram.
- Cuidado Harrison. Ela é pesada. - falei e ele fez um “Joia” com a mão ainda de costas para mim. Todos riram de novo. Voltei minha atenção para Tom, em um tom de voz mais baixo. - Ela tá completamente a fim dele. E eu não tinha percebido.
- Sério? Porque ele só falou dela depois que chegamos da praia ontem. Pelos 40 minutos que ficamos acordados. - falou, me fazendo rir.
- Nós não precisamos fazer mais nada! Acho que eles se resolvem sozinhos! - falei, vendo Rafa chegar até o meio da corda e perder o equilíbrio. Harrison tentou segura-la, mas foi tarde depois e o máximo que ele conseguiu foi não fazê-la cair de cara no chão.
- Acho melhor nos manter por perto apenas para o caso de precisarem de um empurrão. - falou e eu assenti.
- E você ? - Harry perguntou.
- Ah não. Eu tô bem aqui. - falei, tentando ser educada, mas morrendo de medo de passar vergonha.
- Como papai disse, nós não aceitamos não como resposta! Vem. - Tom falou, me puxando pela mão.
- Não Tom. Por favor. - falei, morrendo de vergonha.
- Lembra do que eu disse ontem na praia? Confia em mim! - falou, perto do meu rosto e, por um minuto, eu me esqueci que sua família estava toda por perto. Olhei para o lado e vi Rafaela nos encarar com as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados. Suspirei e encarei Tom de novo.
- Não tem jeito tem? - perguntei.
- Não!
- Aí Deus… Tá bom. - falei prendendo meu cabelo. - Mas se alguma coisa muito embaraçosa acontecer comigo, eu te mato!
- Não vai acontecer nada. Eu vou abaixar a corda e você coloca os pés nela...
Eu, basicamente, dei quatro passos na corda e depois cai em cima de Tom. Ficamos mais meia hora ali. Quando todos canm e Paddy quis comer todos concordamos que estava na hora de entrar um pouco. Eu e Rafa sentamos na varanda para limparmos os pés e calçar os sapatos.
Quando entramos, eu pude finalmente reparar na estrutura do alojamento: quando passávamos pela porta da varanda da praia entrávamos em um pequeno corredor com duas portas. A primeira a minha direita estava entreaberta e era o banheiro. A primeira a minha esquerda deveria ser um quarto, mas estava fechada. Ao lado dessa porta havia uma mesinha de apoio e um cabideiro, perto da porta da entrada. Em frente à essa mesinha tinha uma sala com sofá, duas poltronas e televisão, um frigobar e uma escada que leva para o andar de cima.
-Onde vocês estão dormindo? - perguntei para Tom quando ele me ofereceu uma garrafinha de água e quase me fez engasgar quando apenas apontou para cima. - Os cinco lá em cima?
- Sim.
- Nem queira ver a bagunça! - Sam falou e eu ri.
- Pois é. - falei.
- ? - ouvi Harry me chamar do sofá.
- Sim. - falei me aproximando dele.
- Vocês querem ver as fotos de ontem? - perguntou.
- Claro. - falei. - Rafa, vem ver.
Harry abriu o computador e os arquivos dele, enquanto sentia a presença de Rafaela atrás de nós, em pé. Harry abriu as fotos e pós o computador no meu colo. Comecei a ver e fica encantada com o talento dele. As fotos eram maravilhosas. Começava com as fotos da gruta e do rochedo. Depois da água em si e de pequenos detalhes na areia, como a posição de uma concha e até uma garrafa transparente envelhecida que estava enterrada pela metade na areia. Todas elas tiradas de posições incríveis com o plano de fundo sendo o mar. Depois vieram algumas das meninas posando. Ficaram engraçadas e lindas.
-Falem alguma coisa. - ele pediu, nervoso.
- Eu tô encantada. - falei. - Elas são lindas.
- São mesmo. Ficaram muito melhores do que eu tinha imaginado. - Rafa falou, apoiada, atrás de mim, nos cotovelos para enxergar melhor.
Então começaram. Fotos minhas e de Tom na água. Não tenho certeza de como ele conseguiu tanta definição, mas o
contraste da água azul com nós dois nas ondas ficou lindo. Dava até para ver as expressões em nossos rostos e eu conseguia dizer que estávamos felizes. Depois na areia, antes de Felipe aparecer e estragar tudo. De Tom correndo atrás de mim e me abraçando, me girando o ar.
-Achei que vocês fossem gostar! - falou, orgulhoso do próprio trabalho.
- Obrigada. - falei. - Você pode mandar para mim depois?
- Claro.
- Obrigada. - falei e olhei para Sam ao lado de Rafaela. - Sei que tem dedo seu nisso também. Obrigada. - falei e ele ficou envergonhado. Entreguei o computador de volta para ele e me levantei, indo até Tom.
- O que foi?
- Seus irmãos vão me fazer chorar! - senti meus olhos se encherem de lágrimas.
- Porque?
- Porque eu tô feliz! - falei e ri, o abraçando. - Por favor, não vai embora!
- Hey. Não pense nisso agora. Vamos apenas aproveitar por enquanto. Tá? - murmurou para mim e eu assenti. Ouvimos alguém pigarrear e nos separamos. Olhei para baixo e era Paddy. Logo atrás seus pais. O pequeno carregava um embrulho.
- Feliz aniversário. - Me estendeu o embrulho.
- Mas… - falei, sem entender.
- Nós queríamos ter ido a sua festa, mas Tom achou que pudesse ser um pouco rápido demais e, no final, acabei concordando com ele. - Nikki falou, abraçada ao marido. Peguei o embrulho da mão de Paddy, ainda sem entender. - Feliz aniversário atrasado querida. Esperamos que goste.
Me sentei de novo no sofá, agora com o embrulho no colo. Comecei a abri-lo com cuidado, com medo de estragar o que quer estivesse dentro daquele pacote. Quando eu abri o papel de presentes me deparei com uma caixa de papelão lisa, abri-a e envolvida em papel estava uma câmera Polaroid antiga, branca e rosa clara. Era a mais linda que eu já tinha visto. Ao lado dela pequenas caixas do que eu julguei ser papel para a câmera. Olhei novamente para Dom e Nikki, com os olhos marejados novamente.
-Eu não posso aceitar. - falei.
- Tom disse que você gosta de fotografar assim como os gêmeos. Pensamos que fosse gostar de ter uma dessas. - Dominic falou.
- Eu amei. Ela é linda. - falei olhando novamente para ela.
- Todos ajudaram a escolher o presente. E, apesar de eu ter tido uma dessas, foi Paddy quem fez a decisão final. - Nikki falou me fazendo olhar para o caçula da família. Depois passei a caixa para Rafaela que estava ao meu lado e me levantei, abraçando os dois. - Obrigada. Muito obrigada.
Capítulo 5


Queria poder dizer que vi Tom durante a semana inteira, mas, infelizmente, seria mentira. Entre as aulas na escola, ensaios na escola de música e treinos de handebol, não me sobrava tempo para ir até ele ou para ele vir até mim por mais de cinco minutos. Por isso, depois do dia que passei com ele e seus pais - que, a propósito foi ótimo -, só os vi na quinta. Quando meu treino foi transferido para a sexta-feira, minha mãe teve a brilhante ideia de convidar a família Holland para jantar na minha casa.
Minha reação imediata foi negar - não que eu não quisesse vê-los, mas a ideia de juntar as duas famílias me deixava nervosa, na verdade, a ideia de ter meu pai com Tom no mesmo cômodo por mais de cinco minutos me deixa nervosa. Nós duas ficamos vinte minutos no telefone discutindo a proposta dela, mas quando mamãe
argumentou que eles tinham vindo todo o caminho da Inglaterra até o Brasil apenas para me conhecer e que isso era o mínimo que podiamos fazer, eu fui ‘obrigada’ a concordar com ela.
Por isso, depois de desligar a ligação com a minha mãe, eu passei mais dez minutos falando com Tom e a mãe dele no celular, passando o endereço da minha casa - eles usariam o GPS para chegar até ela. E depois mais meia hora tentando convencer Rafaela a entrar nessa comigo - porque, obviamente, eu não iria passar por isso sozinha, eu precisava de um incentivo emocional. Foi uma hora muito longa. Rafaela saiu da faculdade no meio da tarde, passou em casa para buscar uma roupa e me buscou na escola, para irmos para a minha casa, reclamando o caminho todo.
-Ah, para de reclamar! Até parece que não quer passar mais tempo com o Harrison. - ela corou, parando de me encher o saco.
Quando chegamos em casa, o cheiro da comida podia ser sentido da porta de entrada. Meus irmãos estavam brincando no quintal dos fundos enquanto minha mãe estava completamente agitada, tentando ajeitar a casa e terminar a comida ao mesmo tempo. Nunca tinha visto ela daquele jeito.
-Mãe apenas respire. - ri, enquanto atravessávamos a sala em direção à cozinha, onde ela estava. - Eles são gente igual a gente. - ela me ignorou. Eu e Rafa nos sentamos nos bancos altos da ilha da cozinha. - Você não enlouqueceu com Tom, que é famoso. Porque está ficando de cabelos brancos por causa da família dele?
- Não é todo o dia que você conhece a família do seu futuro genro. - ela falou do fogão, me fazendo corar. Isso já tava começando a ficar chato.
- E pela última vez, ele não é e nem vai ser meu namorado. Por favor não fale isso na frente da família dele, vai me fazer parecer desesperada! - deu de ombros e voltou sua atenção para a panela.
- Mas você está desesperada. - Rafaela riu.
- Só nos seus pensamentos. - falei e ela riu mais. - Mas faça isso mesmo, fique rindo de mim. Espera pra ver o que ela vai fazer com você quando descobrir que você está caidinha pelo Harrison.
- Quem é Harrison? - mamãe perguntou, curiosa, do fogão. Ainda estava fazendo o recheio do empadão.
- Não é ninguém tia! Invenção da cabeça da sua filha… - falou antes de eu interrompe-la.
- O melhor amigo do Tom. - falei, fazendo mamãe sorrir mais ainda, enquanto largava a colher de madeira na panela para se juntar a nós na bancada.
- Mas isso é ótimo. Melhor impossível. Já pensou? Vocês duas namorando os dois ao mesmo tempo? - eu conseguia ver as engrenagens da cabeça dela funcionando. Ri internamente.
- Não vai acontecer tia. - Rafa falou antes de me puxar pela mão para o meu quarto. Dei de ombros para a minha mãe, enquanto ainda conseguia vê-la na cozinha, fazendo-a rir.
Troquei meu uniforme por uma roupa de ficar em casa para que pudéssemos voltar para a cozinha e ajudar a minha mãe. Enquanto ficamos por conta de guardar todos os brinquedos que estavam espalhados e ajeitar a casa, minha mãe conseguiu cuidar da comida e olhar meus irmãos. Quando terminamos, eu e Rafa fomos fazer a sobremesa - minha famosa torta de limão. Quando dei por mim já eram 18:30 e eu ainda não tinha tomado banho.
-?
- Oi meu amor. - falei, olhando para Gabriel agarrado a minha perna, enquanto eu limpava as minhas mãos.
- A gente vai conhecer o seu namolado hoje? - sim, ele ainda fala algumas palavras erradas.
- Quem disse que ele é meu namorado? - me agachei na sua altura.
- O Guilherme. - ele falou rindo com uma cara sapeca, e apontou para Guilherme escondido, atrás da porta da cozinha que leva ao quintal, que também tinha um olhar sapeca no rosto.
- Eu vou matar vocês dois. Vão pro chuveiro. Anda! - falei apontando para o corredor. Guilherme foi reclamando.
- Eu não quero tomar banho com o Gabriel.
- O problema não é meu! - falei firme, mas não estava brava de verdade,
mas eles não precisavam saber. De qualquer jeito eles iam ter de tomar banho. Acompanhei os dois até o banheiro, despi Gabriel e liguei o chuveiro, deixando os dois se virarem. - Volto em 15 minutos com as toalhas. - Fechei a porta do banheiro e me virei para Rafa.
- É seguro deixar os dois sozinhos aí?
- Totalmente. Guilherme da banho no Gabriel direto. - deu de ombros. - As roupas.
Fomos para o meu quarto. Rafaela me ajudou a procurar uma roupa que fosse bonita, mas não arrumada demais. Enquanto deixei ela escolhendo a roupa, eu levei a toalha dos meninos, separei a roupa de Gabriel, em cima da cama dele, e fui tomar banho no banheiro dos meus pais. Quando eu voltei para o quarto, enrolada na toalha, Rafaela já estava praticamente pronta, usando um short preto de cintura alta e uma blusa azul-bebe sem mangas.
-Uau. Se não queria impressionar, eu tenho medo do que vestiria se quisesse. - Falei enquanto vestia minha roupa íntima.
-Haha. Espera para ver a roupa que eu separei para você. - falou enquanto colocava o cordão no pescoço e a pulseira
- Tenho até medo. - falei penteando o cabelo. Depois que eu terminei ela jogou em mim um vestido amarelo de alcinhas. - Até que você não exagerou dessa vez.
- Você tem que aprender a confiar mais em mim. - falou ajeitando o próprio cabelo.
- Vai nessa. - falei colocando o vestido. Depois coloquei o colar que Tom me deu de presente. Brincos e pulseira para combinar. Depois ela me deu uma sobreposição cinza e uma rasteirinha. - Então? Como eu estou?
- Linda. - falou. - Se Tom não te pedir em namoro hoje ele seria um idiota.
- Obrigada. - falei, ignorando o segundo comentário dela, logo antes de tirar a sobreposição, não tinha necessidade. Alguém bateu na porta.
- Querida, você pode ficar lá na sala enquanto eu e seu pai nos ajeitamos? Seus irmãos estão prontos. - mamãe perguntou.
- Tá. Já estamos indo. - falei, ajeitando meu cabelo e pegando meu celular.
Meus irmãos estavam na sala, assistindo televisão, então eu aproveitei para arrumar a mesa enquanto Rafaela olhava eles. Eu estava bem ansiosa com aquele jantar - não poderia ser diferente - , olhava para o celular a cada 15 segundos e quase deixei cair a pilha de pratos quando recebi uma mensagem de Tom avisando que eles estavam quase chegando. Para o bem da minha sanidade mental, realmente não demorou muito para eles chegarem.
-Mãe, pai, eles chegaram. - falei enquanto caminhava em direção a entrada da casa. Respirei fundo, tentando acalmar meu coração, e olhei para Rafaela, alguns passos atras de mim, enquanto abri a porta, dando de cara com Tom. - Oi.
- Oi. - falou e me abraçou, não demorando. Cumprimentei todos os membros de sua família enquanto eles entravam na minha casa.
- Mãe, pai esses são Dominic e Nikki, os pais do Tom. Os irmãos Sam, Harry e Paddy. E Harrison. - falei.
- É um prazer conhecê-los. Eu sou Jéssica. Esse é meu marido Antônio e nossos filhos Gabriel e Guilherme. - mamãe falou, cumprimentando eles.
A noite foi muito agradável. Ninguém me envergonhou - mais do que o normal. Nossos pais acabaram se sentando na bancada da cozinha, tomando vinho e conversando, enquanto eu e o resto do pessoal nos espalhamos pela sala e conversamos sobre coisas aleatórias.
-Eu deveria me preocupar em deixar eles conversando sem a gente por perto? - perguntei para Tom.
- Realmente espero que não. - riu, me fazendo rir também, enquanto observávamos nossos pais conversando como se fossem velhos amigos. Observar aquela cena me deu um certo tipo de alívio. Acho que, no fundo, eu tinha medo daquela noite não dar certo por algum motivo. Rafaela desviou nossa atenção ao chamar por Tom. Ela estava sentada no outro sofá, ao lado de Harrison.
- É verdade que você quebrou o nariz durante uma filmagem? - perguntou.
- É. De um jeito não muito heróico. - falou bebendo um pouco da cerveja. Todos podem beber algo alcoólico, menos eu e os gêmeos.
- O que? Como que eu não sei disso? - perguntei, desencostando do sofá para encara-lo.
- Foi antes de eu te conhecer. - falou.
- Agora eu quero saber o que aconteceu! - falei, ansiosa.
- Tudo bem. - falou, tirando o braço que estava atras de mim, apoiado no assento do sofá.
- Essa história de novo não. - Sam falou, fazendo drama. Rimos.
- Antes de filmar Guerra Civil, eu fiquei um tempo na Colômbia fazendo outro filme. Era meu último dia de filmagem, na verdade, era minha última cena. - falou depois de pensar. - Eu tinha um bigode falso, por motivos óbvios. -rimos. - James, o diretor, virou para mim e perguntou: ‘já que esse é o nosso último dia, posso ver suas fotos sobre a sua experiência na Colômbia’. E eu falei que podia, dei meu telefone para ele e enquanto ele passava as fotos tinha um video meu, fazendo um mortal de costas na praia. E ele falou, não é você, não tem como ser você.
- Por que eu tô sentindo que a culpa foi sua? - perguntei e ele deu de ombros, mas os outros riram.
- Sabe, eu faço ginástica desde que era pequeno, então faz um tempo desde a última vez em que eu não consegui terminar um salto. - Tom explicou para Rafa. - E eu não sou do tipo de pessoa que ignora um desafio, e ele continuou falando que não era eu, que era algum tipo de truque de câmeras e tal. Então eu simplesmente levantei e falei: apenas observe. Eu tinha essas estupidas botas de trilha no pé, o que não era bom. Eu tentei fazer um mortal e simplesmente quebrei a cara.
- Meu Deus. - Rafa falou e começamos a rir.
- Eu não sei nem o que eu falo pra você! - ri.
- A única coisa que passava pela minha cabeça era:’ merda, isso simplesmente não aconteceu.’
- O que você fez? - perguntei.
- Eu levantei, achei que tinha quebrado os meus dentes. E eu me lembro da maquiadora, ela estava rindo, mas quando ela viu minha cara ela começou a gritar pelos paramédicos. - falou e rimos mais ainda.
- Meninos, o jantar está pronto. - mamãe nos chamou da cozinha.
- Já vamos mãe.
- Eles realinharam o meu nariz, mas tinha sangue em tudo e a única coisa em que eu pensava era: ‘acabou.’
- Esse drama todo é dele ou é por causa da profissão? - perguntei para Harry enquanto levantávamos.
- Eu acho que é dele mesmo.
- O melhor é o final. - Harrison falou.
- Não acabou? - Guilherme perguntou.
- Não. James falou que ia me mandar para o hospital, na cidade, mas eu tive que terminar a cena. - falou enquanto se sentava na mesa, assim como o resto de nós. Me sentei de frente para ele.
- É a história do nariz? - Dom perguntou.
- É. - Sam respondeu.
- Me mandaram para o hospital sozinho, ninguém falava inglês. - continuou. - Em algum a enfermeira estava tentando tirar a minha calça e eu ficava: ‘não, é o nariz, é o nariz.’ - falou apontando para o nariz. Rimos muito. - Mas aí ela injetou alguma coisa na perna e eu fui pra casa, consertei ele e tudo ficou bem.
- Graças a Deus. - mamãe falou.
- Mas posso dizer que a Marvel e a Sony não ficaram muito felizes com essa história. - falou antes de se servir.
O jantar estava uma delicia e todos amaram a minha sobremesa - sério, me deixaram com vergonha de tanto que elogiaram. Nos revezamos para cabermos todos na mesa. Os gêmeos, Paddy e Guilherme sentaram na ilha da cozinha, enquanto o resto sentou na mesa de jantar. Depois do jantar, quando o pessoal quis ir para o quintal, eu puxei Tom pela mão até o meu quarto.
-Pra onde você está me levando? - perguntou, desconfiado.
- Quero te mostrar uma coisa. - falei quando chegamos na porta do meu quarto. Abri e ele logo reconheceu.
- Isso é estranho.
- Meu quarto é estranho? - perguntei divertida.
- Não! Não. Eu quis dizer que é estranho estar do lado de cá. - passou a mão pelo computador.
- Eu sei. Tô brincando com você. - ri e ele respirou aliviado/exagerando.
- O que você queria me mostrar?
- Eu comecei a usar a câmera que vocês me deram. E eu queria que você fosse o primeiro a ver. - fui até o meu armário, pegando uma caixinha de madeira pequena.
Tom sentou na minha cama. Sentei ao seu lado e coloquei a caixa no seu colo, esperando que ele a abrisse.
- Você sabe que eu quero uma foto nossa com essa câmera né? - falou.
- Só uma? - ele riu e eu suspirei, antes de mudar o assunto. - Acho que eu nunca te agradeci por ter vindo até aqui.
- Eu já estava planejando. - comentou. - Sua prima apenas adiantou as coisas.
É bom estar aqui com ele. Senti-lo tão perto. Poder conversar e ouvir sua voz sem ter que ser por uma tela ou por um áudio de um aplicativo. É bom poder ouvir suas histórias através dele ao invés de lê-las em sites ou através de entrevistas. Com ele ao meu lado eu consigo sentir um nível de felicidade que eu não me lembro de ter sentido em toda a minha vida. Sai do meu devaneio para reparar em seu rosto concentrado, analisando as fotos em seu colo. A testa levemente franzida, os olhos compenetrados e os lábios levemente espremidos deixam ele mais lindo e me deixa mais apaixonada. Estou ferrada.
-Elas são lindas. - sorriu para mim.
- Obrigada.
- Sempre soube que você tem talento.
- Você vai me deixar sem graça. - encarei o tapete do quarto, provavelmente corando.
Então as fotos novas acabaram, levando a fotos antigas: minhas primeiras aulas de música, meu primeiro treino. Algumas fotos de aniversários. E então, uma foto de nossa apresentação que fizemos ao nos ‘formarmos’ na aula de música. Eu ainda namorava o Felipe, estávamos abraçados naquela foto. Tom demorou mais tempo nela.
-O que foi?
- Não é nada. - falou sem olhar nos meus olhos. Alguma coisa estava incomodando ele.
- Você pode me perguntar o que quiser, sabe disso né?
- Eu sei. Mas eu posso esperar.
- Me diz o que é. Por favor. O que é?
- Tudo bem. - finalmente olhou para mim. - O que aconteceu entre você e Felipe? - suspirei. - Eu sei que disse que esperaria, mas as ideias tem voado pela minha cabeça nesses últimos dias e não consigo mais manter isso para mim. Desculpe.
- Eu sei. Talvez seja melhor te contar de uma vez do que ficar segurando isso. - encarei-o - Você quer realmente saber?
- Quero! - falou e eu voltei a olhar para o chão do quarto.
- Se eu vou te contar isso, vou te contar tudo! Sem mais segredos sobre o meu passado. - Assentiu, me fazendo sentir meu estômago revirar com a expectativa de reviver tudo de novo. - Não tem um jeito fácil de contar isso, então vou te mostrar. - me sentei direito e peguei sua mão. Levei-a até as minhas costas. Ele não entendeu o que eu queria fazer, então acabou ficando meio receoso. - Tá tudo bem. Só quero que você sinta uma coisa. - falei e ele assentiu, ficando menos resistente. Levei sua mão até a grossa, porém curta, cicatriz que eu carregava nas costas, que, mesmo por cima do vestido, podia ser sentida no limite do meu soutien.
- Como isso aconteceu? - perguntou enquanto passava os dedos, delicadamente, por cima dela mais de uma vez. Dei de ombros.
- Ninguém sabe direito. Tem uma coisa sobre meu passado que eu não te contei. Eu sou adotada Tom.
- Adotada?! Como… - puxou a mão e apoiou os cotovelos nos joelhos, passando a mão pelo cabelo, nervoso. - Não. Não pode ser.
- É verdade. - passei a mão por seus ombros, tentando fazê-las parar de tremer. - Me adotaram quando eu tinha nove anos.
- Então… - passou a mão pelo cabelo de novo e olhou para mim. - Onde estão seus pais biológicos?
- Essa é a parte complicada. Até aonde eu sei, meu pai era um bêbado. Pelo o que dizem, era muito abusivo. Tanto com a minha mãe quanto comigo…
- Que tipo de abusos? - perguntou, a preocupação estampado em seus olhos.
- Não! - respondi prontamente ao entender o que se passava na cabeça dele. Abuso sexual. - Nada desse tipo. - senti seus músculos relaxarem por debaixo dos meus dedos quando ele suspirou. Retomei a história. - Minha mãe parecia ser uma boa pessoa, pelo pouco que eu me lembro, mas era submissa a ele, ninguém sabe porque. Quando me tiraram deles e me colocaram no sistema adotivo, meu pai havia sido preso e minha mãe internada em uma clínica de reabilitação. É tudo o que eu sei.
- Eu sinto muito . Eu não fazia ideia! - me abraçou. - Eu só não entendo porque não me contou isso antes.
- Poucas pessoas sabem. Nem mesmo minha família toda sabe a verdade por trás da minha história, só que eu fui adotada. Guilherme era muito pequeno quando eu cheguei aqui. Mas até ele sabia que havia alguma coisa errada comigo.
Eu tentava não encara-lo, já havia passado por aquela situação algumas vezes e ela não é agradavel, apesar das pessoas tentarem evitar o olhar de pena, leva um tempo para que elas não me olhem assim depois que sabem da verdade. Resolvi dizer isso a ele.
- As pessoas me olharam com pena a minha vida inteira, Tom. A última coisa que eu quero ou preciso é que você faça o mesmo. Ou pior… - senti meus olhos se encherem de lágrimas. Apesar da experiência ao contar sobre o meu passado é difícil não me emocionar ao lembrar de tudo. - Não queria que você me abandonasse.
- Hey. Não. Eu nunca faria isso com você. Nunca. Porque alguém faria isso com você?- falou, olhando fundo os meus olhos, então ele descobriu. - Felipe fez isso com você!
- Quando eu cheguei ao abrigo, mal conseguia dormir. As lembranças do que havia sofrido ainda estavam muito frescas na minha mente. Vivia elas todas as noites, então comecei a fazer acompanhamentos médicos que duraram anos. Depois de um tempo, eu simplesmente tranquei elas em uma área isolada do meu cérebro. Os médicos disseram que era como uma medida de segurança do meu corpo. Ou eu acabaria entrando em colapso. - não se escutava nada no quarto além da minha voz e as nossas respirações. - Eu não conseguia dormir, não conseguia comer. Eu não conseguia fazer nada. Conheci minha mãe adotiva lá.
- Ela trabalhava lá? - perguntou e eu olhei para uma foto minha com meus pais, em suas mãos.
- Era voluntária lá, como psicóloga. Ela fala que eles sempre quiseram uma filha e que quando ela colocou os olhos em mim, foi como se eu tivesse saído de dentro dela, por causa da imensidão do amor que sentiu por mim. - sorri e ele sorriu também, passando a mão pelo meu cabelo. - Depois de quase três anos lutando na justiça, eles conseguiram a minha guarda. Mas, apesar de ter saído do pesadelo, o pesadelo nunca me abandonou. Foi quando eu comecei com a música. Era um escape para mim. Conheci Felipe e minhas amigas lá. No começo ele era só o amigo do meu primo que era bonito. Mas com o tempo acabou virando paixão de adolescente e quando percebi ele correspondeu.
- Quando deu errado? - perguntou enxugando uma lágrima que descia dos meus olhos.
- Eu ainda estava machucada por tudo o que tinha acontecido. Disse isso a ele, mas não disse o que tinha acontecido. Fiz Paulo jurar que nunca contaria a ele sem que eu deixasse. Felipe me pediu que desse uma chance, que não importava o que tivessem feito comigo, ele iria ficar comigo, me ajudar. E eu simplesmente acreditei. Afinal, o que eu sabia da vida? Ele tinha 16 anos e eu tinha 13, praticamente pedia para que alguém me amasse. - suspirei, tentando segurar as lágrimas, o que ficou cada vez mais difícil. - Depois de 8 meses juntos, eu acreditei que poderia realmente dar certo. Então contei toda a verdade para ele. Quando terminei, ele disse que tudo ficaria bem, mas podia ver nos olhos dele que eu o tinha perdido naquele momento. - me sentei com as pernas cruzadas em cima da cama, finalmente o encarando. - Felipe se distanciou por um mês e meio. Um dia veio a minha casa, achei que íamos nos acertar, mas ele queria apenas dizer que estava transferindo a faculdade, que ele tinha acabado de começar, para a capital e que se mudaria no final de semana.
- Simples assim?
- Simples assim. Eu fiquei arrasada. Meu pai quase matou ele. Depois de um tempo, o susto passou e eu confrontei Paulo até que me contasse tudo.
- E qual era a verdade? - perguntou, parando. Suspirei.
- Ele tinha outra. Se mudou com ela para o Rio porque ela estava grávida de dois meses e meio. - falei esperando pela reação.
- Ele traia você?
- Fiquei sem falar com Paulo por semanas por ter me escondido a verdade. Mas no final entendi que ele só queria me proteger. - falei.
- Você sabe que eu nunca faria isso com você. Eu jamais faria isso com você. - falou, segurando minha mão entre as suas e olhou fundo nos meus olhos com aqueles olhos . O meu tom preferido de castanho, que me transmitia tanta calma e paz.
- Eu sei. Meu Deus Tom… - olhei para o teto, tentando controlar as lágrimas e depois voltei a olhar para ele. - Você não sabe o quanto você me ajuda… O quanto meus pesadelos diminuíram depois que eu conheci você…
- Você ainda tem pesadelos? - perguntou, passando a mão no meu rosto, secando-o.
- Você não entende? Eu nunca mais vou ser normal! Eu vou carregar as marcas do meu passado pelo resto da vida! Posso estar passando pela rua ou tendo um dia com meus amigos na praia e alguma coisa acabar despertando esses flashs que eu tenho às vezes.
- Me deixa te ajudar. - falou me segurando pelo cotovelo, de forma carinhosa. - Eu não estou dizendo que será fácil ou que será tudo as mil maravilhas, mas se você soubesse o quando eu gosto de você… - a cada palavra que ele dizia, meu coração dava um pulo no meu peito. - Me deixa estar ao seu lado, ser seu suporte . - encostou nossos narizes e depois deslizou o dele pela minha bochecha. Não sabia o que era respirar naquele momento. - Me deixe mostrar o quando você merece o melhor. O quanto você merece ser… - hesitou a dizer a última palavra. - amada. - senti as lágrimas descerem pelo meu rosto com mais força. - Por favor.
- Eu deixo. - falei, por fim, sentindo seus lábios, pressionando os meus, acabando com o nosso sofrimento. Minhas mãos foram para o seu rosto, não querendo que ele se distanciasse em nenhum momento, por nenhum motivo. Seus lábios eram macios e não tinham pressa. Perdi a noção do tempo e não sei quando, mas sua língua pediu passagem para se encontrar com a minha, me fazendo sentir as, famosas e clichês, borboletas no estômago. Senti seus braços envolverem a minha cintura e me puxarem para mais perto dele. Levando-me a posicionar os meus em seus ombros e minhas mãos em seu cabelo.
Com a mesma rapidez que se aproximou, ele se distanciou. E, mesmo que a distância fosse mínima, me fez protestar, inconscientemente.
-Espera. - pediu, tentando recuperar o fôlego.
- Não. - fiz drama. Riu.
- Eu preciso fazer isso direito. Não vim todo o caminho da Inglaterra até aqui pra deixar as coisas subentendidas. - se distanciou mais ainda, levantando da cama e se ajoelhando no chão, na minha frente, segurando minha mão direita entre as suas. Me lembrou a típica cena clichê de filme, mas eu não estava nem aí. - , você me daria a honra de ser seu namorado?
- Sim. - coração batendo forte no peito. Abracei-o forte, com medo do conto de fadas ser arrancado de mim. Uma batida na porta nos interrompeu.
- Querida, tudo bem por aqui? - mamãe perguntou ao abrir a porta, se deparando com nós dois ajoelhados no chão, abraçados.
- Eu… - levantei enquanto limpava meu rosto do rastro que as lágrimas deixaram, sem saber ao certo o que dizer para ela.
- Na verdade, senhora . - Tom falou na minha frente, enquanto ele mesmo se levantava. - Eu queria pedir a senhora e ao seu marido, permissão para namorar a .
- Querido… - mamãe olhou dele para mim e depois para Tom de novo. - Será um honra tê-lo na família. E tenho certeza de que meu marido pensará o mesmo.
- Obrigado. - abraçou-a. E, apesar do que minha mãe disse, foi preciso alguns minutos de conversa com meu pai, para fazê-lo aceitar a ideia - se é que aquela possibilidade já não havia passado pela cabeça dele antes. Nós estávamos oficialmente namorando.
Os pais dele me receberam super bem, já sabendo que aquilo poderia acontecer em algum momento da viagem - palavras da mãe dele, não minhas.
A pior parte da noite, foi quando eles precim ir embora e eu tive de me despedir de Tom até o próximo dia.
- Amanhã, eu vou treinar logo depois da aula. Você poderia aparecer por lá e depois a gente podia fazer alguma coisa. Só eu e você. - falei, brincando com a mão dele e me despedindo.
- Só preciso saber a hora e o endereço.
- Saio as 15:00 e eu te passo o endereço por mensagem depois.
- Então as 15:00 eu estarei lá. - falou e beijou minha testa, antes de me dar um selinho.
- Tem como serem mais melosos? - Harrison perguntou para Rafaela, que deu de ombros, ‘colando’ na pilastra atrás de Tom, chamando nossa atenção e implicando com a gente.
- E você deveria parar de ser tão chato cara. - Tom falou empurrando ele para longe.
- Me avisa quando você chegar no hotel tá? - pedi e ele assentiu.
- Sim senhora.
- Idiota. - falei, deixando-o ir se despedir da minha família enquanto eu me despedia da dele.

Capítulo 6


-O que tá acontecendo com você hoje ? - Gabriela perguntou durante o nosso intervalo do treino.
O treino já estava na metade e eu permanecia completamente distraída. Todas as bolas que caíram na minha mão foram perdidas e isso não deveria estar acontecendo. Com o último jogo sendo no próximo final de semana, eu deveria estar prestando extrema atenção no que faço, mas, além de feliz, eu estava muito cansada e ansiosa. -Vou prestar mais atenção. - prometi, terminando de beber a minha água.
- É bom mesmo. A última coisa de que precisamos é de mais dez minutos de corrida no final por sua causa. - Camila falou.
- Vocês não vão. - levantei-me, guardando a garrafa de água e indo até o centro da quadra. Nós, jogadores, sempre falamos em deixar todo o resto do lado de fora da quadra durante os jogos e treinos. Precisamos estar 100% focadas no que fazemos. E isso geralmente funciona para mim. Porém, hoje, estava sendo difícil.
-Tem alguma coisa acontecendo? - Carol perguntou, perto de mim.
- Não. - eu ainda não contei a elas sobre Tom.
- Então presta atenção na porcaria do treino. - falou indo para a sua posição.
- Pode deixar.
E assim se passou mais quarenta minutos de treino. Eu estava indo bem em prestar atenção e fazer as jogadas na hora certa. Quando eu percebi a presença de uma pessoa na arquibancada, eu fiquei, inconscientemente, melhor. As meninas me zoaram, depois que descobriram que estávamos juntos, mas era verdade, eu estava me exibindo para ele. Quando o treino terminou, eu estava completamente cansada e suada. Bebi água enquanto escutava o discurso de fim de treino do meu técnico sobre o quanto precisávamos estar focadas no jogo na próxima semana e o quanto aquele jogo é importante para as jogadoras que, assim como eu, iriam se formar nesse ano. Pela primeira vez, não prestei muita atenção no que ele disse. Quando ele terminou, não esperei pelas outras. Tentei correr de uma forma contida - se é que isso tem alguma espécie de sentido. - até Tom, que esperava pacientemente por mim na arquibancada, mexendo em seu telefone. Dei a volta na grade de contenção e fui até ele, no terceiro degrau da arquibancada, sentando ao seu lado. - Oi. - sorri.
- Olá. - me deu um selinho.
- Desculpe por te fazer esperar. - comentei.
- Não tem problema. Fico feliz por ver um pouco da sua rotina e do seu treino. - sorriu e eu sorri mais ainda.
- Preciso que você espere mais um pouquinho. Porque eu preciso de um banho. - riu de mim.
- Oi Tom. - Alice chamou enquanto pegava sua própria bolsa. As outras meninas estavam com ela. Pelo olhar e o sorriso no rosto delas, tinham visto o beijo e já desconfiavam de tudo.
- Hey meninas.
- Eu já volto. - falei e fiz questão de beijar ele de novo, para que, além das minhas amigas, as outras invejosas do time prestassem bastante atenção e parassem com os murmúrios que tinham começado desde a hora em que Tom chegou. Desci até a minha bolsa, me preparando para carregá-la até o vestiário. O olhar das minhas amigas não me deixava dúvidas, eu estava ferrada.
- Então vocês estão juntos? - Carol perguntou, como quem não quer nada.
- Estamos. - falei, casualmente, enquanto jogava minha bolsa no banco, perto dos chuveiros. Elas começaram a comemorar.
- Eu sabia que ele não ia esperar até o final da viagem! - Alice falou e fez um cumprimento com a Camila. - Vocês me devem 30 reais.
- Vocês apostaram? Não creio!
- Que tipo de amigas seríamos se não apostássemos? - Camila perguntou.
- Vocês são inacreditáveis. - falei, imitando o processo de outras meninas e tirava a roupa para tomar uma ducha.
- Você vai tomar banho aqui? Você nunca toma banho aqui! - Alice falou.
- Bom... Meu namorado está lá fora, eu não posso sair com ele fedendo a suor. - liguei a ducha e entrei debaixo dela.
- Então é oficial mesmo? - Carol indagou.
- É sim. - sorri e elas me zoaram.
Enquanto me concentrava no processo de lavar o cabelo, eu reparei nas meninas que se preparavam para sair do vestiário e não pude deixar de prestar atenção na beleza delas. Cada uma com suas características e belezas próprias, cada uma delas era mais bonita do que eu e isso acabou me levando a pensar no que Tom viu em mim. -, conta como ele fez! - Camila pediu, se referindo ao pedido de namoro.
Esperei até que só restássemos nós no vestiário, o que não demorou muito, para começar a contar as meninas tudo o que aconteceu na noite passada - desde a ligação da minha mãe até o que aconteceu no meu quarto, após o jantar. Eu não tinha problema em mencionar que contei a Tom sobre o meu passado, todas elas sabiam sobre os meus problemas. E ficaram muito felizes em saber que, depois do que aconteceu com Felipe, eu estava finalmente confiando em outra pessoa os problemas da minha vida. Graças aos comentários adicionais delas, quando eu terminei a história eu também havia terminado de me arrumar, e devo dizer que, apesar de simples - com uma calça jeans e uma camiseta arrumadinhas -, eu estava bonita.
- Então... Como eu estou?
- Bonita. - Alice falou, como eu esperava.
- Se eu fosse você andava logo, já deixou o menino esperando quase vinte minutos lá fora.
- Camila comentou.
- Isso tudo? - perguntei enquanto juntava as minhas coisas na mochila. - Eu realmente preciso ir.
Elas me ajudaram a juntar algumas coisas que estavam espalhadas e logo saímos, conversando e distraídas como sempre. Quando eu o vi sentado na arquibancada, com os cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o celular nas mãos com um olhar compenetrado e o sol de meio de tarde invadindo o ginásio atrás, eu precisei parar por um segundo para admirar. Me segurei para não pegar o celular e tirar uma foto. Levantei a mão para chamar sua atenção quando meu treinador apareceu.
- Ainda estão aqui? Achei que já tinham ido.
- A demorou um pouco mais hoje. - Carol comentou enquanto ajeitava a mochila nos próprios ombros.
- E vejo o porquê, está muito bonita .
- Obrigada treinador.
- Não vou prender vocês, obviamente tem planos melhores. - passou por nós enquanto carregava o grande saco com as bolas de treinamento. - Apenas tenham juízo.
- Pode deixar. - falamos juntas e, então, encarei Tom.
- Vamos? - perguntei, em inglês, e ele concordou. Nos despedimos das meninas na portaria e fomos em direção aonde seu carro estava estacionado. Ele abriu a porta do carro para mim e antes de fechar, comentou:
- Você está linda.
- Obrigada. - falei e lhe dei um selinho. Tom deu a volta no carro e logo estávamos passando pelas ruas de Búzios, com a ajuda do GPS e das minhas orientações. - Aonde vamos?
- Você deve estar com fome, então pensei em levar você para comer em algum lugar e depois... Vamos aonde quisermos. - desviou os olhos da rua apenas por alguns segundos para olhar para os meus olhos.
- Parece ótimo. - comentei e passei a mão por seus ombros, carinho esse que ele aceitou sem reclamar.
Tom me levou até a Rua das Pedras, onde lanchamos em uma Creperia e conversamos sobre coisas avulsas, mas também nos conhecemos melhor. A cada coisa nova que eu descobria sobre ele, mesmo que pudesse parecer um pequeno detalhe, eu ficava maravilhada. Vários pensamentos pasm pela minha cabeça. Queria saber sobre sua vida profissional, sobre seus amigos em casa, sobre a Inglaterra. Mas, pelo incrível que pareça, quanto mais eu escutava, mais o pensamento que predominava na minha cabeça era: Por que eu? Não tinha nada de diferente ou de extraordinário para oferecer a ele. Por que escolher a mim? Como sempre o medo falando mais alto, não tive coragem de perguntar a ele. Não queria acabar com o momento.
Tom estava amando passar esse tempo no Brasil, conhecer nossos gostos, nossa comida e nossa cultura. Segundo ele, é muito diferente da Inglaterra. Mas, ainda segundo ele, a melhor parte da viagem foi me conhecer pessoalmente e a minha família. Posso dizer o mesmo sobre ele.
Depois que terminamos de comer, voltamos para o carro e passeamos pelo litoral até pararmos em uma praia semi deserta. Tom distraiu minha mente dos pensamentos negativos - mesmo que não tivesse conhecimento disso - durante todo o caminho, contando histórias e me perguntando coisas sobre minha vida: minha família, faculdade, música, esporte, só que, infelizmente, a maldita dúvida não saia da minha cabeça.
- Você realmente gosta de praias, não gosta? - perguntei quando vi onde estávamos.
- Como você descobriu? - ironizou.
- Você quer que eu comece pelo fato do seu quarto no hotel ser na beira da praia ou pelo fato de você só ter postado fotos do mar desde que você chegou aqui? - fingi pensar e ele riu.
- Você me pegou. Tem razão. - tirou o sapato e desceu do carro. Não tinha ninguém no nosso campo de visão na praia e isso era ótimo, significava privacidade. Tom parou o carro perto da areia, por isso, quando eu tirei meus sapatos e desci do carro, meus pés logo entraram em contato com os pequenos grãos de areia.
Eu não estava dando para trás no nosso recente namoro. Não fazia ideia do porquê dessa pergunta surgir na minha cabeça de maneira tão repentina. Isso acabou trazendo de volta todas as memórias que eu me esforçava para esquecer do meu período com Felipe. Eu não sei. Mas tinha certeza de que se não fizesse essa pergunta em voz alta, eu não teria paz. Tom estava parado a alguns passos à minha frente, mas eu me mantive perto do carro, com as mãos apoiadas no capô que estava atrás de mim. Respirei fundo. Comecei antes que perdesse a coragem.
- Tom? - olhou para mim. - Eu preciso perguntar uma coisa.
- O que quiser. - se aproximou.
- Por que eu?
- O que você quer dizer com isso?
- Você é famoso. Sei que conhece várias pessoas. Poderia ter qualquer uma. Namorar qualquer uma... Não me entenda mal, eu estou feliz, te disse isso ontem. Estou feliz com isso que estamos construindo juntos, mas, agora que estamos completamente sozinhos, eu preciso perguntar e quero… ou melhor, preciso que seja sincero comigo. Por que eu? - ele chegou perto de mim, se preparando para responder a pergunta.
- Quando eu realmente decidi ser ator, meu pai me chamou para conversar e disse: olha filho, as coisas vão ser diferentes agora, você vai conhecer pessoas importantes e participar de coisas grandes, mas é extremamente importante que você permaneça o mesmo. - contou enquanto passava as mãos pelos meus braços, parecendo pensar no que dizer. - Eu tenho conseguido fazer isso até agora. Eu gosto de me manter normal e gosto quando as pessoas não me tratam diferente. - colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, sorrindo, o vento de fim de tarde estava balançando meu cabelo. - Quando eu conheci você, no Twitter, eu não tinha certeza do que aconteceria, mas sabia que, de alguma forma, você seria diferente. Você não se aproximou de mim por eu ser famoso.
Você se interessou por mim como pessoa desde o começo e isso é extremamente difícil.
- Não acho. - comentei e ele sorriu.
- Você, apesar de não saber, me mantém no chão . A cada decisão que eu tomo, eu penso, o que ela vai achar disso? - me fez corar. - Você se preocupa comigo e se interessa pela minha vida. Você me dá conselhos e me dá broncas quando eu preciso. - respirou fundo. - Eu não preciso e não quero alguém do meu lado que possa estar em todos os eventos e sair em capas de revista.
- Que bom que você sabe que eu não vou fazer isso. - falei e ele riu, olhando fundo nos meus olhos.
- Eu quero alguém que fique ao meu lado atrás das câmeras, que entenda meu trabalho, que esteja disposta a passar por tudo comigo e que, no final de uma filmagem que me deixe 5 meses longe, ainda possa me amar. Alguém que me dê conselhos, mas que também me faça não ser cabeça-dura quando eu precisar. Alguém que me respeite e que cuide de mim. - respirou fundo e pegou minha mão, colocando em cima do seu peito, onde fica seu coração. - Além disso, isso o que eu estou sentindo aqui, não me imagino sentindo por mais ninguém. - foi minha vez de respirar fundo. Abracei-o pelo pescoço.
- Desculpa. Me desculpa. Eu não consigo evitar. Tudo isso é bom demais. É sincero demais. Simples demais. Tenho medo de que seja apenas um sonho. - murmurei contra seu pescoço.
- Eu sei. Você sofreu antes. Mas o que eu te disse ontem não foi da boca para fora. Eu sei que não vai ser fácil, mas eu estou disposto a passar por cima de todas as barreiras e dificuldades com você. Eu prometo. - assenti e me beijou.
Decidi mudar logo de assunto, para não acabar com o resto do clima. Corremos e brincamos pela areia, na beira do mar, pelo o que pareceu uma eternidade. Tom tirou, o que pareciam ser, milhares de fotos nossas. Muitas eu não gostei, mas, como estavam no celular dele, eu não consegui apagar. Não que eu não tenha tirado fotos dele, mas Tom apenas não sabia do fato. Eu aproveitava seus momentos distraído para tirar fotos dele e de outras coisas. Quando cansamos, ele pegou duas colchas na traseira do carro, uma para sentarmos e a outra para nos cobrir, já que estávamos molhados e começava a ventar.
-Se eu ficar doente a culpa é sua. - reclamei.
- Larga de ser chata. - falou olhando para o telefone, mas passou o braço pelos meus ombros, me puxando mais para perto.
- Odiei essa - falei me referindo a foto que ele olhava no momento. - Tá brincando, eu amei essa.
- Você é meio suspeito pra dizer, você gosta de todas!
- Porque você ficou linda em todas!
- Se você diz. - Eu gosto dessa. - falou, se referindo a uma foto que pedimos para um senhor que estava passando na hora tirar. - Posso postar no Instagram?
- Acho que sim. - falei, meio sem saber o que dizer.
- Tem certeza? Quando eu apertar enviar, todos vão saber sobre nosso namoro. - Eu quero que todo mundo saiba. Não sei se faz diferença se for agora ou daqui a alguns meses. - falei olhando para ele.
- Tudo bem. De qualquer forma, nada vai mudar quando isso acontecer. - me assegurou e eu assenti, confiando nele.
Ficamos mais um tempo na praia, mas estava ficando de noite e Tom disse que não queria abusar da boa vontade dos meus pais no nosso primeiro encontro. Por isso, após o pôr do sol - que ele fez questão de tirar outra foto - nós fomos embora para a minha casa. -Você está preocupado com os meus pais? - comecei quando chegamos na frente da minha casa. - Sua mãe deve estar achando que eu te sequestrei.
- Nem tem tanto tempo assim. - desceu do carro e andou comigo até à frente da minha casa.
- Você praticamente abandonou o pobre coitado do Harrison hoje.
- Eu vejo a cara feia dele praticamente todos os dias. Posso trocar pelo seu lindo rosto por algumas horas. - falou fazendo carinho em minha bochecha e cabelo. Estávamos parados no portão da minha casa.
- Você vai me deixar mal acostumada com tantos elogios. - murmurei.
- Se isso te deixar feliz, eu não me importo de lembrá-la todos os dias o quanto você é linda. - estava bem perto de mim agora, se preparando para me beijar. Posso te dizer que a sensação estranha no estômago nunca vai embora. Mas antes que ele pudesse completar a distância, alguém abriu o portão, nos atrapalhando.
- Eu bem que achei ter escutado um carro. - escutei a voz da minha mãe.
- Mãe. - reclamei.
- Olá senhora . - Tom tentou ser educado, mas quem conhece ele como eu, sabe que ele estava nervoso. Afinal, mamãe tinha nos interrompido em um momento íntimo e ele já tinha dito o quanto ele fica tímido com essas coisas.
- Olá querido. Desculpe interromper, mas precisava trazer isso para fora. - mamãe disse, se referindo a sacola de lixo.
- Sem problemas. - falou e demos espaço para ela passar. Sorri sem graça.
- Quer entrar? - perguntei.
- Acho melhor não. Talvez seja melhor ir devagar com o seu pai. - falou.
- Poxa. - falei meio decepcionada. - Até amanhã então?
- Definitivamente. - me deu um selinho. Eu queria mais, mas minha mãe estava observando.
- Amanhã você tem ensaio geral na casa do seu tio. - mamãe comentou.
- Meu Deus, esqueci completamente.
- Ensaio? - Tom perguntou.
- Para a apresentação de música no fim do ano. Amanhã meu tio vai fazer um ensaio com todos os alunos, que vão participar da apresentação no final do ano. Eu vou ficar presa lá à tarde toda. E provavelmente grande parte da noite também. - falei, meio desesperada. Olhei para a minha mãe procurando por ajuda.
- Eu já liguei para o seu tio, expliquei tudo. - olhou para Tom - Você e sua família são mais do que bem-vindos para ficar com a gente amanhã.
- Sério? Não quero atrapalhar. e eu podemos fazer alguma coisa pela manhã ou no domingo.
- Não vai atrapalhar nada querido. É ótimo para nos conhecermos melhor. Amei conhecer seus pais.
- E eles a você. Muito obrigado.
Me despedi de Tom com algum custo. Queria aproveitar cada segundo com ele, já que na quinta - feira ele volta para casa. Tive que tomar outro banho porque estava toda suja de areia e maresia. Também tive que dar um pouco de atenção para os meus irmãos. Quando meus irmãos foram tomar banho, logo antes de sentarmos para jantar, foi quando eu tive um pouco de tempo para olhar meu telefone, atualizar minhas mensagens e dar uma olhada nas redes sociais. Meu Whattsapp estava quase travando, tinham algumas mensagens nos grupos, mas o que me chamou atenção foram as dezenas de mensagens que as meninas, Paulo e o resto dos meus primos - que fazem parte do nosso círculo de amizade - deixaram para mim no privado e no nosso grupo. A maior parte mandava eu checar meu Instagram o mais rápido possível.
Como eu desligo a opção de notificações de todas as minhas redes sociais, eu não tinha muita noção do que estava acontecendo. Quando eu abri o aplicativo, como eles tinham me pedido, a primeira coisa que eu notei foi que Tom, naturalmente, me marcou na foto. A segunda é que a foto possuía milhares de comentários e curtidas - de novo, normal, já que ele é famoso. Nada que eu não esperasse. Mas foi a terceira coisa que realmente me surpreendeu: eu também tinha novas notificações de amizade. De quem? Robert Downey Jr. Meu coração praticamente parou.
-Isso é sério? - murmurei.
- Querida, tudo bem? - mamãe questionou. Eu devia estar com uma cara muito, muito estranha, porque mamãe parecia preocupada.
- Aparentemente, Robert Downey Jr sabe quem eu sou! - mostrei o telefone para ela. Sim, ela sabe quem ele é! Provavelmente conhece os trabalhos dele melhor do que eu. Mamãe sorriu.
- Parece que alguém não consegue ficar longe de você! - me devolveu o celular, mostrando uma ligação de Tom. Peguei o telefone de sua mão e atendi.
- Hey.
- Babe, você está bem? - perguntou.
- Acho que eu posso começar a chorar a qualquer momento. - comentei, rindo nervosa.
- Você quer que eu tire a foto? Eu posso tirar a foto! - parecia preocupado.
- Não… Tom… Eu não vou chorar de tristeza e não quero que se sinta culpado por alguma coisa. Eu tinha noção de que as coisas iam mudar quando você assumisse nosso namoro. Não sou ingênua. Eu só não esperava que Robert Downey Jr fosse me mandar uma notificação no Instagram, logo no primeiro dia. Ou em dia nenhum. - falei e ri de novo. - Eu só não quero que se sinta pressionada a fazer nada com que não se sinta confortável. Não quero que sua vida mude por minha causa. - falou e eu pude perceber o receio em sua voz. Como se eu fosse dispensá-lo por causa de alguma coisa. Eu fiquei em silêncio por um minuto para poder ir até o quintal do lado de fora, não querendo que meus pais escutassem o que conversávamos. Respirei fundo enquanto me sentava no banco da pequena varanda. - Minha vida já é uma bagunça e você sabe disso.
- Eu sei.
- E eu já te disse que, apesar de toda a estabilidade e felicidade que eu tenho com a minha família, conhecer você foi em muito tempo a única coisa que sempre me pareceu certo desde o começo. - suspirei, tentando acalmá-lo. - Eu sei das responsabilidades e situações que vem com o fato de eu ser sua namorada. E eu estou disposta a enfrentar mídia, fofocas, raiva de fãs que provavelmente não vão gostar de mim e todo o resto que virá se isso fizer eu ficar do seu lado.
- Eu só não quero que isso te traga problemas ou desestabilize sua vida. - ele com certeza estava em conflito.
- Quem está tendo dúvidas agora? - perguntei fazendo ele rir e eu acabei rindo também. - Não vai me atrapalhar. E eu juro que se acontecer, você vai ser o primeiro a saber.
- De verdade? - perguntou e bocejou.
- De verdade! - prometi e acabei bocejando também.
- Acho que estamos os dois cansados. - riu.
- Não é para menos. - falei e ri também, sentindo meu celular vibrar com mais uma dúzia de mensagens de Rafaela e Companhia. - Acho que as meninas vão travar meu celular com tantas mensagens. - gargalhou. - Não estou brincando.
- Elas estão empolgadas.
- Você me faz passar por cada coisa. - falei, observando mamãe me chamar para jantar.
Pedi mais um minuto. - Estamos bem?
- Estamos. - consegui sentir o alívio em sua voz.
- Então eu preciso ir jantar. Nos falamos mais tarde?
- Até mais tarde! - desligamos.
Antes de entrar para jantar, eu voltei a olhar meu Instagram. A foto tinha cada vez mais curtidas e comentários - que eu não tinha coragem de olhar no momento. -, mas pela primeira prestei atenção na legenda que Tom havia colocado na imagem: “O melhor dessas férias foi ter encontrado você!” . Meu coração derreteu e voltou ao normal inúmeras vezes ao observar a foto e a legenda. Curti a foto mas não comentei nada, achei melhor por enquanto. Aceitei a solicitação de amizade e fui jantar.
Somente quando fui deitar na cama que pude ter tempo para ver minhas mensagens - e, realmente, as meninas estavam em um nível de empolgação que, quem visse de fora, talvez achasse que era maior que o meu. O número de curtidas da foto está cada vez maior e o de comentários também, a maioria deles queriam saber quem eu era e se realmente estávamos juntos. Alguns, dos que consegui ler, falavam mal de mim, mas eu sabia que era apenas inveja falando mais alto. Havia recebido muitas solicitações de amizade, mas não aceitei nenhuma, eram apenas de pessoas querendo saber quem eu era ou o que eu significava para Tom.
Apaguei no meio de uma conversa com Tom e outra com Camila, percebendo o fato apenas quando minha mãe me acordou no outro dia.
-Bom dia querida.
- Bom dia. - ainda estava coçando os olhos e meio grogue.
- Paulo ligou mais cedo. Estava indo buscar o resto das caixas de som e comprar umas coisas para o churrasco. Queria saber se você quer ir mais cedo com ele para ajudar. - perguntou enquanto guardava um edredom no meu armário.
- Acho que sim. Vou lavar o rosto e vou ligar para ele.
- Tudo bem. O café ainda está na mesa. - saiu do meu quarto.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Paulo, logo depois de mandar uma mensagem de bom dia para Tom. Levantei, prendendo o cabelo e indo até o banheiro no corredor. Lavei o rosto e ajeitei melhor o cabelo. Chequei meu celular de novo, mas nenhuma nova mensagem. Fui até a cozinha e me sentei à mesa, tomando meu café da manhã. Meus irmãos estavam brincando no quintal. Quando eu estava terminando de lavar a louça e de guardar o resto das coisas, Paulo me ligou de novo.
-Fala.
- Bom dia pra você também. - ironizou.
- Bom dia. - falei. - Aonde você está?
- Saindo da escola de música.
- Ainda? Você é muito lerdo!
- Se alguém tivesse ido me ajudar teria sido muito mais rápido.
- Desculpa, mas meu sono era mais importante. - zoei e ele reclamou.
- Agora que ficou famosa, fica esnobando os mortais. Espera pra ver o que eu vou fazer com você hoje.
- Credo Paulo. Eu estava brincando. - guardei o último prato e tirei o telefone do viva-voz. - Quanto tempo pra você passar aqui?
- Bom, eu estou mais perto do supermercado, então… Daqui uns quarenta minutos, tá bom? - falou e eu concordei, me despedindo e desligando o telefone.
Vi meus irmãos e avisei minha mãe, que estava pendurando algumas roupas no varal, que eu ia com Paulo mais cedo. Fui para o quarto trocar de roupa, pegando uma muda de roupa extra e um biquíni e a câmera que havia ganhado dos Holland, além de um carregador para meu celular, colocando tudo em uma pequena mochila. Meu primo chegou quando eu estava terminando de colocar a sandália.
-Atrasada? - perguntou, da porta do meu quarto.
- Não. Seu linguarudo. - falei, passando por ele.
Me despedi dos meus pais e logo estava na caminhonete com Paulo dirigindo ao meu lado até a casa dele, que não ficava a mais de 20 minutos dali, dependendo do trânsito.
-Papai falou que você vai levar seu namorado.
- Sim. Mamãe que arranjou tudo, na verdade.
- … Eu quero te perguntar uma coisa, mas você precisa prometer que não vai brava.
- Lá vem. - respirei fundo. - Prometo.
- Você tem certeza do que está fazendo? Quero dizer… com o Tom?
- O que você quer dizer? - olhei para ele.
- Ele tem uma vida completamente diferente da nossa. Mora em um país completamente diferente. Estilo de vida diferente. - respirou fundo. - Você mal conhece ele ! Tem certeza do que está fazendo? Tem certeza de que toda essa exposição vale a pena? Por causa dele?
- Olha… Eu não sei se toda essa exposição vale a pena. Sim, eu mal conheço ele e ele mal me conhece! Temos vidas completamente diferentes sim. E eu nunca tive certeza de nada na minha vida, provavelmente desde o momento em que eu respirei pela primeira vez e você sabe disso. - falei e senti meus olhos se encherem de lágrimas. - Mas, eu achei que conhecesse Felipe, somos da mesma cidade e tivemos o mesmo círculo de amizade, os mesmos interesses. E ele conseguiu destroçar meu coração de uma forma que ninguém nunca fez, além dos meus pais biológicos. - paramos em um sinal de trânsito e Paulo olhou para mim. - Se eu sei onde estou me metendo? Definitivamente não. Mas Tom me fez mais feliz em uma semana do que Felipe fez em meses. Então… eu estou disposta a arriscar algumas coisas para ver onde esse relacionamento vai nos levar. - chegamos em frente à sua casa e ele desligou o carro. - E eu queria muito que você me desse apoio, que me ajudasse a fazê-lo se sentir parte da família.
- Droga , eu não queria te fazer chorar. - falou, limpando uma lágrima que escorreu despercebida pelo meu rosto. - É lógico que eu vou ficar do seu lado. Como sempre fiquei.
Só quero cuidar de você, para que não saia machucada de novo.
- Eu sei. E agradeço por isso. - abracei-o. - Eu amo você.
- Também te amo pequena. - beijou meu cabelo. Senti meu celular vibrar em meu colo e me desvencilhei de Paulo para ver quem era.
- Falando nele. - falei vendo o nome de Tom brilhar na tela do telefone, meu primo riu.
Atendi. - Hey Babe.
- Bom dia. - sua voz era grogue.
- Bom dia dorminhoco. - decidi do carro, sorrindo, para ajudar Paulo a carregar as compras para dentro de casa.
- Aonde você está?
- Acabei de chegar na casa do meu tio. - adentrei a casa, passando pela minha tia e colocando as sacolas na cozinha.
- Já está na hora? - pareceu meio desesperado.
- Não. Relaxa. Vim mais cedo para ajudar a montar o equipamento, o ensaio só começa depois do almoço.
- Que bom. Não quero perder nem um momento. - falou e consegui perceber, pelo tom de sua voz, que ele estava sorrindo. Sorri também. Vi Rafaela me encarando.
- Babe, preciso desligar. Rafaela está me encarando com uma cara nada amigável aqui. - falei e ele riu, mas ela reclamou.
- Ela está mentindo Tom. - minha prima praticamente gritou no telefone, que estava no meu ouvido, me deixando temporariamente surda.
- Vai me deixar surda garota! - falei e ele riu duas vezes.
- Bom, vou deixar você trabalhar aí e vou tomar meu café. Vejo você mais tarde.
- Até mais tarde! - falei e desliguei.
- Já estão usando apelidos? - Rafa perguntou, enquanto bebia um copo de água. Apenas fiz língua para ela.
Ajudamos meu tio e Paulo a descarregar as coisas e levar para o quintal. A casa do meu tio era simples: dois andares, sala, cozinha, banheiro e em cima os quartos. Na parte de trás da casa tinha um espaço coberto com uma churrasqueira, rede para balançar, alguns bancos de madeira e uma mesa para refeições, e um gramado cercado que possuía bastante espaço para correr que já foi cenário de muitas brincadeiras nossas quando éramos crianças.
A porta de saída da casa para o quintal ‘dividia’ a área coberta ao meio, sendo que do lado maior ficava a churrasqueira e todo o resto, então resolvemos montar os equipamentos e o resto dos instrumentos do outro lado. Assim, se chover - o que é improvável de acontecer - não molharia tudo.
Paulo terminou de montar as caixas de som enquanto meu tio posicionava a bateria. Eu e Rafaela carregamos os bancos altos da cozinha para fora e posicionamos de maneira que ficasse na frente de tudo, sem tapar nenhum dos instrumentos. Depois disso nós ajudamos minha tia Júlia com o almoço e com o extra para o churrasco de tarde. Almoçamos. Enquanto dávamos os toques finais em tudo, meu tio foi tomar um banho e Paulo foi, junto com minha tia, buscar Camila e minha avó Maria. Nesse meio tempo Rafaela já havia feito um trança raíz na lateral do meu cabelo para ajudar com o tédio. Miguel e João chegaram, trazendo Alice e Carol.
-Quando as crianças vão chegar? - Alice perguntou.
- Em uma hora, eu acho. - Rafa comentou enquanto ajeitava os fios do meu cabelo que insistiam em cair da trança. Acabou desistindo eventualmente.
- Eu realmente espero que elas cheguem na hora. Tio Carlos não gosta de atrasos. - comentei.
- Vocês lembram quando começamos? - perguntou João.
- Era um saco ter que ver meus pais em casa e na escola de música. - Rafaela falou e nós rimos.
- Eles nos ensinaram muitas coisas. - Miguel falou e Carol começou a rir sozinha.
- Eu lembro de Miguel passando várias horas extras tentando pegar o ritmo da bateria. Esse foi lerdo e cabeça dura até pra isso. - Carol falou e nós gargalhamos.
- Pois é, mas eu lembro que você tinha uma voz de taquara rachada e uma meia dúzia de tranças nesse cabelo. - alfinetou meu primo.
- Minha voz era e ainda é muito bonita. Pelo menos é o que a minha mãe diz! - minha amiga encerrou o assunto, mas fazendo com que ríssemos mais.
- Mas, a melhor lembrança de todas, foi quando essa peça rara apareceu nas nossas vidas e nunca mais foi embora. - Rafa falou, enquanto passava os braços pelos meus ombros e apoiava o queixo no topo da minha cabeça.
- Já fazem oito anos. - falei, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
- Ohh amor, não chora. - Alice falou, acariciando meu braço. Mas eu podia dizer que ela estava emocionada também.
- Vocês não fazem ideia do quanto são importantes na minha vida. - falei sorrindo para todos eles. - Eu amo vocês demais.
- Amamos você também. Não se esqueça disso nunca, tá? - Carol falou e todos concordaram. Rafa beijou meu cabelo.
- Obrigada.
Logo mudamos de assunto para não pesar o dia e eles começaram a me encher o saco por conta de Tom.
-Então é pra valer mesmo? - Miguel perguntou, enquanto fazia embaixadinhas com a bola de futebol.
- É sim. - falei.
- Ele inclusive está vindo aí. - Rafa soltou como quem não quer nada.
- Vai me ver cantar pela primeira vez ao vivo. Tô nervosa.
- É realmente uma coisa importante. - Carol falou. Quase ninguém me viu cantar até hoje.
Meus próprios pais não veem a algum tempo.
- Por favor, não me envergonhem na frente da família dele. - pedi.
- Não prometemos nada. - João falou.
- Odeio vocês. - falei me levantando para atender a campainha que havia acabado de tocar. Meus pais e meus irmãos. Os meninos já entraram correndo para o quintal, enquanto meu pai entrou carregando algumas sacolas e minha mãe logo atrás.
- Alguém já chegou? - perguntou.
- Ainda não. Mas não deve demorar muito. - falei sentindo meu telefone vibrar na minha mão. Mensagem de Tom. Estavam estacionando o carro.
- Sua tia foi buscar sua avó? - perguntou e eu assenti, abrindo a porta de novo. - Não sei por que estão demorando tanto. - já estava do lado de fora esperando Tom e a família dele sair do carro. Paddy praticamente saiu correndo do carro para me abraçar pela cintura, me desequilibrando com o contato brusco. - Olá você também!
- Olá.
- Será que agora devo me preocupar com meu próprio irmão mais novo? - Tom falou se aproximando da gente.
- Nem comentarei nada. - falei, lhe dando um selinho.
Cumprimentei a ele e toda sua família. Logo estávamos dentro de casa. Meu tio apareceu e eu apresentei a todos. A comunicação seria meia complicada hoje, já que além de mim, meus primos/amigos e meus pais, ninguém falava inglês. Contava com a ajuda deles para fazerem os Holland se sentirem o mais próximo de nós quanto possível.
Os meninos logo se sentiram em casa com a bola de futebol e o gramado livre para eles. Não demorou muito para que Paulo e minha tia chegassem com minha avó e Camila. Tom fez questão de se manter arrumado até que isso acontecesse. Quando descobriu que minha avó participaria dessa pequena reunião, ele ficou todo empolgado e nervoso. Acho que a aprovação da matriarca mais velha da minha família em relação ao nosso namoro era importante para ele e eu fico feliz com isso, a opinião da minha avó é importante para mim. -Vovó. Eu quero te apresentar uma pessoa. - falei, enquanto a abraçava. Dei espaço para que ela pudesse ver Tom atrás de mim. - Quem é esse? - perguntou, meio desconfiada.
Minha avó está perto de fazer 70 anos e já é bem debilitada. Mas suas personalidade e opinião forte foram duas coisas que não se abalaram com o passar dos anos. Quando eu fui adotada, ela foi quem mais deu apoio aos meus pais e me ajudou a passar por todo o trauma que eu tinha sofrido, então é muito importante para mim que ela aprove e respeite Tom como meu namorado.
-Esse é Thomas. Nós estamos namorando.
- Que nome diferente! - comentou enquanto analisava-o. O pobre coitado não estava entendendo nada, então tive que traduzir para ele.
- Ele não é brasileiro, vó! Mora na Inglaterra com a família. Não entende português! - expliquei.
- , diga a ela que é um prazer conhecê-la e que eu realmente sinto muito por não entendê-la. - pediu e eu assenti, traduzindo para vovó.
- Não tem problema querido. Você parece ser um garoto bom. - segurou as duas mãos dele, o que pareceu ter pego-o de surpresa. - Minha já passou por muita coisa, então apenas não a machuque e não teremos problemas.
- Vovó! - reclamei e tentei traduzir aquilo do jeito menos agressivo possível, o que não foi fácil. Mas, o que mais me surpreendeu, foi a resposta de Tom.
- Preferiria machucar a mim mesmo antes de machucá-la. - Vovó pareceu satisfeita com a tradução que dei a ela e logo nos deixou para ir perturbar meus primos. Tom respirou fundo. - Desculpe por isso, ela pode ser uma pessoa difícil de lidar às vezes. - foi minha vez de segurar suas mãos e ficar na sua frente.
- Tudo bem. Ela só está cuidando da família dela. Faria o mesmo! - me deu um selinho antes de sermos interrompidos por Paulo e Miguel.
- Cara, você passou pela vovó! Isso é motivo para celebrar! - carregaram ele para perto das bebidas, me fazendo rir. Essa tarde renderia muita história.


Capítulo 7


Não demorou muito para que o quintal do meu tio estivesse cheio com 15 crianças entre 8 e 14 anos. Todos estavam muito animados já que esse é o primeiro ensaio em que juntamos todos, então eles poderão ver no que os outros estão trabalhando.
Eu estou apoiada no banco em que Tom está sentado, atrás de mim, com seus braços ao redor da minha cintura. Estamos sentados perto da churrasqueira com Paulo sentado à nossa frente e Camila no seu colo. Harrison está em pé ao meu lado. Comentávamos o quanto essas crianças nos procuraram nos últimos dias para pedir opinião sobre suas apresentações.
-Eu juro que não sei, mas conseguiram meu celular cara. O número do meu telefone! Eu fiquei assustada naquele dia. - Camila comentou e rimos.
- Uns dois meninos mais velhos já vieram me perguntar algumas coisas pelo Twitter. - falei. - Foi estranho.
- Vocês não devem se sentir assim, mas para eles vocês são como realeza. - Tom comentou.
- Realeza, amor?
- Sim! Foram os primeiros a estudar nessa escola. E continuaram por muitos anos. Então tudo o que vocês fazem em relação música ou dança, para eles, parece ser sempre o melhor! - bebeu um pouco de refrigerante antes de continuar. - Quando eu estava no teatro era assim, os mais velhos são sempre os melhores. E como vocês foram os primeiros, vocês são os melhores dos melhores!
- Eu nunca tinha pensado por esse lado- Camila comentou e Paulo concordou.
- Realeza?! - alfinetei sobre sua comparação mais uma vez.
- Você adora implicar né? - beijou meu cabelo enquanto eu ria. Antes que pudéssemos dar continuidade ao assunto, meu tio chamou nossa atenção, finalmente dando início ao ensaio.
- Queria pedir um minuto da atenção de vocês antes de começarmos com o ensaio. - meu tio pediu e, aos poucos, todos se acalmaram. Eu tentava traduzir o melhor que eu conseguia para Tom e Harrison. - Tentarei ser rápido. - rimos. - Só queria agradecer a todos que puderam estar aqui hoje, aos alunos, minha família, nossos amigos. Muito obrigado. Muitos não sabem, mas nesse dia de hoje, a 11 anos atrás, eu e minha esposa, Júlia, começamos com a ideia de montar a escola de música e dança. - Eu não sabia disso. - Um projeto que era nosso sonho e que demorou quase um ano para ficar pronto. Mas que transformou a vida dos nossos filhos, dos nossos sobrinhos, dos amigos deles e de muitas outras crianças e adolescentes com o passar dos anos.
- Muitos não conseguiram estar aqui hoje, para celebrar com a gente. Mas agradecemos pela vida deles todos os dias, porque vocês mudam a gente também. Então, antes de começarmos com o ensaio, peço que fiquem de pé - minha tia pediu e eu me afastei para Tom levantar do banco, assim como Camila fez com Paulo. Senti o braço de Tom firme na minha cintura. - E fechem seus olhos para que possamos rezar um Pai Nosso, agradecendo por tudo o que conquistamos durante esses anos que se passaram e pelo o que está por vir no futuro. - rezamos a oração inteira. No meio dela, Rafaela veio até mim e Paulo estendeu um microfone para cada um.
Meu tio veio até nós no meio da semana, sabendo que estávamos trabalhando em um projeto novo em grupo, pedindo se podíamos começar o ensaio cantando Hallelujah, deixando a nossa criatividade. E, em minha opinião, tinha ficado lindo.
Quando terminamos de orar, Paulo começou. Era uma versão estilo Coral. Eu, ele, Rafaela, Miguel e João - que, por sinal, descobrimos ter um timbre de voz muito mais grave que o normal para a idade dele - formamos um grupo muito bom. João e Miguel ficaram responsáveis, na maior parte do tempo, por fazer a batida e os sons de fundo. Eles são ótimos nisso.
Depois de Paulo, foi a vez de João. Nós cinco estávamos meio que espalhados pela área coberta, nas extremidades do círculo que tinha se formado ao redor dos meus tios. Ninguém falava nada, toda atenção estava na gente.
Quando chegou minha vez, eu respirei fundos fechei os olhos. Eu não podia me distrair. Sem dúvidas, essa é uma das músicas mais difíceis que eu já tinha cantado até hoje. E a ocasião e a presença de certas pessoas também não colabora com o nervoso na boca do estômago.
Cada palavra que saia da minha boca, saia com uma convicção enorme. Como se eu tivesse vivido cada uma deles. Quando eu não consegui mais ficar de olhos fechados, eu os abri e tudo o que eu vi foi admiração nos olhos dessas crianças/adolescentes, nos olhos da minha família e amigos. Nos olhos do meu namorado, e, por mais que eu tenha ficado sem graça, eu fiquei muito feliz.
Depois de mim foi a vez de Rafaela. Foi apaixonante escutar a voz dela. Se eu tenho problemas para cantar em público, minha prima é muito pior do que eu. É
maravilhoso poder passar por cima disso junto com ela.
Eu estava completamente entregue a música mais uma vez e a sensação era maravilhosa. Mas, tão rápido quanto começou, ela acabou, nos deixando com uma tímida salva de palmas.
Senti os lábios de Tom no meu cabelo e me virei para encará-lo, enquanto meu tio ajeitava o resto do pessoal para a próxima música. Alguém pegou o microfone da minha mão, mas não me importei em reparar em quem foi. Thomas me abraçou apertado e eu o abracei também, escondendo meu rosto em seu peito.
-Foi lindo. - murmurou no meu ouvido.
- Você gostou?
- Só fiquei chateado com uma coisa! - falou, me fazendo afastar para enxergar seu rosto.
- O quê?
- Você não me avisou que era para trazer uma câmera decente!
- Idiota. - bati em seu braço. - Eu juro que você quase me deu um ataque do coração agora.
- Desculpa. Tava brincando. - falou e voltamos para o abraço. - Eu amei. Sua voz é linda! Não que eu tivesse alguma dúvida, mas vale a pena dizer de novo.
- Obrigada. - falei, escondendo meu rosto de novo.
Harry nos interrompeu para perguntar se podia filmar o ensaio e eu disse que podia. O menino, ao contrário do irmão mais velho, nunca sai sem uma câmera decente por perto. Eu e Tom comemos mais um pouco, mas logo eu precisei, realmente, prestar atenção no ensaio. Logo seria minha vez novamente.
Eu, as meninas e Paulo, também no violão, cantamos uma versão de Mirrors do Justin Timberlake, com ajuda de Miguel na guitarra. Eu tentava não sorrir feito uma idiota, mas Tom estava parado atrás do grupo que estava sentado à nossa frente, encostado na mesa, com uma expressão de orgulho no rosto, claramente me encarando com um sorriso. Não era fácil não fazer o mesmo.
Tentei me concentrar nas crianças sentadas à nossa frente, no chão. Algumas conversavam entre si - nada que atrapalhasse o ensaio. - mas a maioria prestava atenção ou estava distraída na área gramada.
Quando começamos a bater palmas, apenas nossa voz seguindo, eu perdi o ritmo delas e comecei a rir. Me distraindo completamente, tentei rir fora do microfone para não atrapalhar mais, olhei para o lado e Alice tentava não rir também. Respirei fundo e logo voltei para a música, tinha uma parte sozinha e não podia errar completamente tudo por causa de uma coisa tão boba. Conseguimos terminar sem mais distrações.
Antes de começarmos a próxima música, meu tio fez alguns comentários sobre algumas notas em partes mais complicadas da música e sobre o meu pequeno deslize. Nada preocupante.
A próxima música seria uma versão de When I Was Your Man do Bruno Mars. Apenas a guitarra e a gente. Essa é uma música, na minha opinião, extremamente sentimental. Ela me lembra muito o que passei com Felipe. Me lembra que ele não me deu valor e não cuidou de mim quando precisei dele. Por muitos meses eu tinha pensado que a culpa do abandono dele era minha.
Mas hoje eu sei que a culpa foi da própria estupidez dele. Hoje, eu tinha Tom parado na minha frente para me fazer ver o outro lado daquela música. A parte do final feliz, onde a menina tinha um cara que cuidaria melhor dela, como eu tenho agora.
E, como se fosse sua deixa, meu ex apareceu no quintal da casa do meu tio. E pior ainda e sem um pingo de vergonha na cara, foi falar com minha família como se nada tivesse acontecido. Minha cara provavelmente ficou vermelha de raiva, porque era isso que eu estava sentindo: raiva.
A música terminou e eu fingi prestar atenção no que meu tio falava, mas eu fitava o filho da mãe que estava rindo e falando com minha tia. Me levantei, deixando que o grupo do meu irmão assumisse seu lugar. Caminhei até Tom, Harrison e os gêmeos, que estavam parados e sentados perto da mesa. Meus pais junto com Dom e Nikki estavam sentados perto da bancada que separa a área da churrasqueira.
-Harry, você pode filmar o ensaio do meu irmão? Por favor? - qualquer coisa para os gêmeos não ouvirem.
- Claro. - ele falou e Sam acompanhou ele.
- Eu vi. - Tom nem precisou que eu comentasse nada, o olhar matador deveria estar estampado na minha cara.
- Será que eu não fui clara com ele? - murmurei antes de respirar fundo para não socar ninguém inocente.
- Quer que eu faça alguma coisa? - perguntou. O pobre coitado do Harrison não estava entendendo muita coisa. Expliquei rapidamente a ele o meu passado com Felipe, sem contar os detalhes perturbadores da minha infância.
- E não. Ninguém vai fazer nada. - me dirigi a Tom e Paulo que havia acabado de se intrometer na conversa.
- Ele está na minha casa , eu tenho todo o direito de mandar ele embora. - reclamou.
- Tem. Mas se ele está aqui é porque provavelmente seus pais chamaram. Seus pais estão falando desse ensaio a semanas Paulo, se Felipe arrumar confusão vai estragar o ensaio todo e eu nunca vou me perdoar! - respirei fundo e chamei a atenção dos três. - Ninguém aqui está tão nervoso com isso quanto eu, mas ninguém vai fazer nada! Me entenderam? - concordaram.
- Eu vou te apoiar em qualquer que seja sua decisão, por mais que eu queira ve-lo bem longe de você. - Tom falou e beijou minha testa. Sorri para ele e voltei a prestar atenção no ensaio do meu irmão.
Por mais que Tom tenha se mostrado calmo com a situação, ele mal saiu do meu lado durante à tarde toda. Onde eu ia, ele ia atrás de mim.

Tom Holland

Nossa tarde estava sendo ótima. A família de tinha sido bastante receptiva quanto a mim e minha família. As crianças estavam colaborando para o ensaio acontecer sem grandes interrupções. Todas eram muito talentosas, era visível que algumas precisavam se esforçar mais que outras, mas isso sempre acontece.
Eu estava observando a e o pessoal ensaiar. Ela é ótima, é extremamente fácil perceber o quanto ela gosta de estar ali, o quanto ela gosta de cantar.
Mas, de repente, seu rosto mudou de expressão e ficou pálido, como se tivesse visto um fantasma. Logo eu percebi o porquê, ele apareceu. Felipe.
Ele chegou e logo foi cumprimentar os tios de . Como se fosse bem-vindo. Depois tentou conversar com a senhora Maria, avó de , mas a mesma não pareceu dar muita conversa para ele.
A música terminou e veio ao meu encontro e de Harrison. Seu rosto expressava raiva e nervosismo. Mas ela estava tentando ficar mais calma do que aparentava, tendo de controlar Paulo para que o mesmo não fizesse nenhuma besteira.
Respeitei sua vontade, se ela não queria confusão, não seria eu a contrariá-la. Apesar disso, eu diminuí a minha distância, estando sempre perto dela. Queria que ela soubesse que cada palavra que eu tinha dito, até aquele momento, sobre o infeliz era verdadeira é que eu estava ali para o que ela precisasse de mim. Inclusive expulsá-lo de lá se ela me pedisse.
Me sentei perto da bancada da churrasqueira, uma cerveja em uma mão e um pedaço carne na outra. Uma das coisas que sentiria falta dessa viagem, a comida.
Estava observando - que estava perto do Tio, observando o irmão ensaiar - quando senti uma mão no meu ombro. Olhei para trás e era a minha mãe.
-Pessoas adoráveis. - ela falou, enquanto se sentava na linha frente.
- São. - respondi, vagamente, enquanto meus olhos iam de para Felipe, que estava um pouco mais atrás dela.
- Tudo bem? - perguntou, colocando uma mão na minha perna para chamar minha atenção. Dei um gole na cerveja antes de respondê-la.
- A versão resumida? - perguntei, esperando que ela respondesse sim, para que eu não precisasse dar nenhum detalhe que deixasse em uma situação ruim.
- Por enquanto.
- Tá vendo aquele garoto que chegou depois? De cabelo castanho e bermuda branca? - assentiu. - O nome dele é Felipe. Ele é ex da . Eles não terminaram de um jeito amigável, por causa de umas coisas que ele fez.
- E o que você vai fazer a respeito? - perguntou.
- não quer arrumar confusão. Eu vou respeitar a vontade dela. - Contei a ela sobre o que aconteceu na praia. Sobre ele ter aparecido e tentado conversar com ela.
- Eu entendi que ela não queira confusão. Mas isso não quer dizer que você não pode impor sua presença. Não precisa brigar. Se ele quer tentar alguma coisa com ela, você precisa deixar claro que você é o namorado dela agora e que você não vai deixar brecha para outro. Principalmente ele. - falou e eu assenti, dando outro gole na cerveja. Olhei de novo para e ela não estava mais lá. E nem ele. Agradeci minha mãe pelo conselho e levantei, procurando pelos dois. Encontrei-os na cozinha.
estava de frente para a porta, segurando o que parecia ser uma garrafa de água em uma mão. Felipe estava de costas para mim. Os dois conversavam. Apesar de não entender português, a conversa não era amigável, estava tensa e seu rosto estava vermelho.
-Algum problema aqui? - perguntei.
- Você de novo? - Felipe perguntou, olhando por cima do ombro. - Será que você ainda não percebeu que essa conversa não diz respeito a você?
- Pois eu acho que o errado aqui é você, porque ela diz tão respeito a mim quanto a você. - falei e estendi o braço a , para que ficasse perto de mim. Ela veio e abraçou meu braço esquerdo. - Ela me contou tudo. Não entendo como você ainda tem coragem de aparecer aqui depois de tudo o que fez!
- Você teve coragem de me trocar por ele ? É isso mesmo?
- Eu não te troquei por ninguém Felipe. Você fez sua escolha a anos atrás. Eu estou seguindo com a minha vida e, sinceramente, eu estou muito mais feliz do que eu jamais estive. - falou.
- Cara, ninguém te quer aqui! Vai embora ficar com seu filho enquanto ainda te resta alguma dignidade! - falei.
- Você acha que é melhor do que eu porque é estrangeiro? Por que é um aspirante a ator? Quando você for embora, quem vai ficar aqui, do lado dela; sou eu.
- Do mesmo jeito que você ficou da última vez? Não é possível que você realmente ache que o que você é perdoável! - falou.
- Não. Eu não acho que sou melhor do que você por ser britânico ou ator. - respondi à pergunta que ele me fez. Dei um passo à frente, encarando ele. - Eu sei que sou melhor que você, porque quando ela me contou o que você fez, eu senti nojo. - Dei mais um passo à frente, o braço de largou o meu. - Eu sei que sou melhor que você, porque, quando me contou toda a verdade sobre o passado dela, nem por um segundo passou pela minha cabeça que a culpa disso pudesse ser dela. - dei mais um passo e, apesar dele ser alguns centímetros mais alto do que eu, meu olhar não vacilou nem por um segundo. - Eu sei que eu sou melhor do que você porque, mesmo quando eu precisar ir embora, porque eu não a deixaria por vontade própria, eu vou cuidar dela muito melhor do que você jamais cuidou.
Seu olhar vacilou minimamente, mas eu percebi. Pareceu pensar.
- Vai embora Felipe. - falou atrás de mim. - E não precisa mais voltar. Ninguém te quer aqui.
Ele ameaçou a querer me contornar para chegar a , mas eu bloqueei o caminho. Encarando-o firme.
-Eu não quero começar uma briga física, mas você está começando a me irritar!
- Vai embora Felipe. - escutei a voz de Paulo atrás de mim. - Não tem mais nada para você aqui.
Isso pareceu dá-lo um choque de realidade. Seu olhar alternou de mim para e para Paulo, antes dele virar as costas e caminhar em direção à porta, saindo. Com sorte, permanentemente, de nossas vidas. Senti a mão de em meu braço, só então percebendo o quanto estava tenso. Encarei-a.
-Ele machucou você? - perguntei, olhando fundo nos olhos dela.
- Não.
- Tem certeza?
- Eu juro. - falou e eu a abracei apertado, tentando normalizar minha respiração. Só então percebendo o quanto tinha ficado alterado com a situação. Encarei Paulo atrás de nós.
- Vocês estão bem?
- Estamos. - respondi.
- Obrigado por ter interferido. - agradeceu colocando uma mão em meu braço.
- Apenas fiz o que deveria ter feito. Se ele tiver um pouco de autopreservação, ele não vai mais aparecer.
- Vocês estão bem? - Júlia chamou nossa atenção.
- Estamos mãe.
- Paulo, é a sua vez e de de novo!
- Já vamos. - respondeu para a mãe.
- Obrigada. - falou, me encarando.
- Estamos juntos nessa. Estou apenas cuidando de você. - falei e beijei a testa dela, deixando que se desvencilhasse de mim.
e Paulo caminharam até os bancos, enquanto o mesmo pegava a guitarra, Guilherme estava sentado na bateria atrás deles e Miguel no violão.



Pela primeira vez desde que Felipe me deixou, eu senti como se o meu passado com ele estivesse realmente terminado e enterrado. Não ia mais me assombrar. E isso graças a Tom.
Me ajeitei no banco enquanto observava meu namorado sentado perto de nossos pais. Quando todos estavam prontos, eu e Paulo começamos a tocar uma versão acústica de See you again, Wiz Khalifa e Charlie Puth.
Essa é uma música extremamente emocionante. Sempre tenho que me controlar quando vou cantá-la para não chorar e estragar tudo.
Ao invés de deixar o microfone no apoio, eu prefiro segura-lo, para dar alguma função a minhas mãos. Paulo estava sentado à minha direita, por isso, minha perna esquerda tocava o chão e a direita estava apoiada no banco, me permitindo ficar de lado, olhando meu primo.
Mesmo a escolha da música tendo sido inofensiva, a letra possuía algum significado para mim e meus amigos, que eram praticamente integrantes da minha família. Passamos por muita coisa juntos, mas, no final de cada desafio, estávamos sempre ao lado um do outro, dando o suporte que o outro precisava. Como a letra da música diz o que era uma coisa pequena se transformou em uma amizade. Essa amizade se transformou num laço que nunca será desfeito.
O resto da tarde passou rápido, sem o fantasma para nos assombrar. Quando as crianças foram embora, logo depois do fim do ensaio de dança, permaneceram apenas meus amigos, Harrison e Tom - sua família havia ido embora - e a minha família.
Os mais velhos estavam na sala e na cozinha, organizando o resto da bagunça que havia ficado, enquanto o resto ficou sentado na grama, formando um pequeno círculo. As lâmpadas dispostas na grama para iluminação noturna nos forneciam a quantidade exata de luz que precisávamos para criar um clima agradável.
Eu estava sentada entre as pernas de Tom. Ao nosso lado direito estavam Harrison e ao lado de Rafaela. Do nosso lado esquerdo Miguel, ao lado dele João. Ao lado de João estava Camila e do lado dela Paulo. Ao lado do meu primo estava Alice e Carol.
-Você não cansa? - Harrison perguntou a Paulo, que estava dedilhando alguma coisa no violão.
- Não. - respondeu.
- Eu não sei como esse menino ainda não desenvolveu uma tendinite. - comentei, sem tirar os olhos do Instagram a minha frente.
- Eu também te amo peste! - falou e eu fiz língua pra ele. Voltei a olhar para o aplicativo, apenas então percebendo que meu namorado havia postado um pequeno vídeo meu cantando mais cedo.
- Pretendia me contar? - perguntei a ele, me referindo ao vídeo.
- Não. Você não ia deixar! - falou.
- E não ia mesmo. - falei, observando sua filmagem. Decidi travar o telefone e prestar atenção ao que estava acontecendo a minha volta. Só então percebendo que Harrison e Rafaela tinha sumido. - Cadê Rafaela?
- Entrou faz alguns minutos. - Alice respondeu. - E Harrison foi logo atrás dela.
Olhei para a janela do quarto dela, observando que a luz estava acesa. A cortina estava fechada, mas era possível ver as sombras. Eu estava meio que em estado de choque.
- Sem comentários sórdidos, por favor. É a minha irmã naquele quarto. - Paulo falou enquanto tentava claramente se distrair com o violão.
Um silêncio se instalou, acho que estávamos respeitando o pedido de Paulo ou apenas esperando para fazer os comentários quando o mesmo não estivesse por perto. Mas isso mudou quando o meu namorado deu uma de idiota e assobiou bem alto, fazendo com um barulho alto fosse ouvido no quarto da minha prima e que o resto de nós caísse na gargalhada.
-E eu acho que isso era exatamente o que Paulo disse para você não fazer. - falei enquanto tentava controlar minha risada.
- Foi mal, mas é meu melhor amigo. Eu não aguentei. - comentou enquanto beijava meu cabelo.
- É uma pena que vocês tenham que ir embora. Seria ótimo ter vocês com a gente por mais tempo. - Camila falou, me trazendo para a realidade. Tom iria embora em três dias.
Nos dias que se seguiram antes de sua partida, eu tentei passar o máximo de tempo que eu conseguia com ele e sua família. Fazíamos praticamente tudo juntos. Ele me buscava na escola após a aula ou os treinos e nós comíamos juntos. Passeávamos nós dois ou voltávamos para o hotel, onde ele e Harrison tentavam me ensinar a surfar ou apenas ficávamos sentados na areia, aproveitando a companhia um do outro e nos conhecendo melhor.
Na terça, dia anterior a sua partida, eu consegui matar a aula para ficar o dia todo com ele. Acordei no meu horário normal, me arrumei, peguei a mochila com tudo o que precisava para passar o dia fora. Não avisei a ele que ia, apenas sua mãe. Quando cheguei, quase todos estavam dormindo. Só Dom estava acordado.
-Bom dia. - disse sorrindo.
- Bom dia querida. Entre. - falou e deu espaço.
- Obrigada. Espero não ter te acordado.
- Não. Imagina. Eu acordei faz uns 15 minutos. Mas receio que tenha sido só eu. Os meninos ainda estão dormindo.
- Eu imaginei que isso pudesse acontecer.
- Eu posso chamar o Tom se você quiser.
- Eu gostaria de acordar ele, se não tiver problema. - falei, meio sem graça.
- Deixa só eu ver se está tudo certo e você pode subir.
- Obrigada. - falei enquanto observava ele colocar a xícara de café na bancada e subir para o quarto dos meninos. Esperei pacientemente na base da escada. Não demorou mais do que cinco minutos para me chamar.
- Todos estão dormindo. - falou, antes de abrir a porta pra mim.
- Eu vou tentar não fazer barulho. - falei e ele assentiu. - Obrigada.
O quarto estava uma pequena zona. Se eles tinham começado a fazer as malas - como haviam dito que fariam ontem à noite - não era visível, a quantidade de roupas espalhadas era imensa. Paddy estava dormindo na primeira cama à esquerda da porta. Estava todo esparramado na cama, com a colcha cobrindo apenas suas pernas, sorri. Sam estava ao dormindo ao lado dele.
Ao lado de Sam eu identifiquei Harry. Ambos estavam completamente cobertos e era possível ver apenas seus rostos e cabelo. Como se não bastasse serem gêmeos, ainda dormiam do mesmo jeito. Do meu lado direito, perto da porta, eu vi Harrison. Ele estava dormindo com um lençol fino. Usava uma bermuda e uma camiseta.
Entre as camas de Harrison e Tom tinha uma cômoda para apoiar as malas e algumas roupas.
Tirei minhas sandálias para não fazer barulho e caminhei até a cama do meu namorado. O quarto estava meio escuro, já que a cortina estava fechada, então eu tive que tomar cuidado para não tropeçar em nada e cair.
Apoiei minha bolsa e sandália no chão aos pés da cama, parando para observá-lo por um momento. Tom estava dormindo com o rosto virado para a janela. Seu cabelo estava completamente bagunçado e suas costas nuas, sendo possível ver seus músculos contraindo e relaxando a cada vez que ele respirava. Senti minhas bochechas queimarem com tal observação. Levantei a colcha que ele estava usando para dormir e me deitei ao seu lado, esperando que o movimento o acordasse. Como isso não aconteceu, eu comecei a fazer carinho nele. Beijei levemente seu ombro. ‘Desenhei’ seus músculos com a ponta dos meus dedos.
Fiquei ali por mais um tempo, até que ele finalmente começou a se mexer, acordando. Seu braço envolveu minha cintura, não me permitindo mexer. Tom virou o rosto pra mim e, ainda de olhos fechados.
-Bom dia. - murmurei pra ele, passando a mão pelo seu cabelo.
- Eu achei que estivesse sonhando, quando senti seu perfume. - falou e então abriu os olhos, mesmo que eles tenham ficado pequenos.
- Está forte? - perguntei.
- Não. Está perfeito. - falou e se mexeu na cama, deitando de barriga para cima. Corei. Não estava acostumada a vê-lo pessoalmente sem camisa. - Como você entrou?
- Seu pai me deixou subir. - falei, vendo ele ajeitar o cabelo com a mão e esfregar os olhos.
- Ele deve gostar mesmo de você. - falou.
- Isso é bom, né?
- Isso é perfeito. Não que eu tivesse dúvidas de que isso fosse acontecer. É impossível não gostar de você! - falou e eu sorri, sentindo ele fazer carinho no meu cabelo.
- Não quero que você vá embora. - liberei o que estava afligindo meu coração.
- Sabíamos que uma hora isso ia acontecer.
- Isso não torna as coisas mais fáceis. - falei.
- Eu sei. - suspirou e beijou minha testa. - Só tenta não pensar nisso tá?
- Tá bom. - ficamos em silêncio por um tempo, apenas aproveitando o mesmo e namorando um pouco. - Acho que deveríamos sair, para não acordar os meninos.
- Tarde demais. - escutei Harry reclamar, com a voz abafada pela colcha. Começamos a rir.
- Calem a boca. - ouvi Harrison falar da cama dele. Senti uma coisa macia acertar minhas costas, só então entendendo que Harrison havia jogado um travesseiro em mim. Se isso deveria servir para acabar com nossa risada, o efeito foi exatamente o contrário. Tom jogou o travesseiro de volta.
- Eu vou te esperar lá embaixo. - falei e lhe dei um selinho. Juntei minhas coisas e tentei sair sem fazer grande alarde. Será difícil deixar ele ir embora.
O andar de baixo estava silencioso. Não vi Dom lugar algum, então presumi que ele havia voltado para o quarto. Caminhei até a varanda que dava para a praia e me sentei no banco, para calçar minha sandália. Quando estava quase terminando, Nikki apareceu. Ela vestia um roupão, seu cabelo estava preso e bebia o que parecia ser uma xícara de chá.
-Bom dia. - falei.
-Bom dia. - respondeu. - Você chegou cedo mesmo.
- Dom me deixou entrar, realmente espero que não tenha problema.
- Não querida. Claro que não. - ela falou. - Posso me sentar? Queria conversar com você antes de Tom descer.
- Claro. Fica à vontade. - falei, dando espaço para ela se sentar ao meu lado. Dei o máximo de mim para ficar calma, mas eu sempre fico nervosa quando estou perto dela.
- Eu prometo que minhas intenções com o que eu vou falar, são as melhores.
- Tudo bem. - falei meio incerta.
- Como mãe, eu me preocupo com o bem-estar dos meus filhos. Sempre soube que chegaria o dia em que eles trariam as namoradas para casa e eu tenho me preparado para esse momento desde o dia em que eles nasceram. Mesmo, às vezes, achando que não exista nada que possa nos preparar para essa situação. - falou e respirou fundo. “Pronto. É esse o momento em que ela me diz que eu não sou boa o suficiente pro filho dela.”, é essa era a única coisa que passava na minha cabeça naquele momento. - Isso pode parecer meio sem nexo, mas um dia você vai me entender.
“É isso, foi bom enquanto durou.” Apenas assenti, me controlando para não começar a chorar na frente dela.
-Quando Tom decidiu virar ator, eu e meu marido fizemos o máximo possível para dar a ele o maior apoio que poderíamos. Para mantê-lo normal. Ensiná-lo a diferenciar quem realmente está perto dele por causa dele e quem está perto dele para se aproveitar da carreira dele. - respirou fundo e olhou para frente. - Eu não posso estar em todos os lugares com ele, mas quando ele me disse que vinha para o Brasil para conhecer você, eu insisti muito que toda a família viesse porque eu queria muito conhecer você. Você tem que entender que com tudo o que acontece na vida dele, eu e Dom ficamos preocupados. Uma menina, brasileira, que Tom conheceu pela internet? Isso tudo é estranho.
- Eu sei que tudo o que aconteceu entre mim e Tom foi rápido e diferente. E eu sei que eu não sou perfeita e que eu realmente não sei praticamente nada sobre como lidar com tudo o que envolve a profissão dele. - Eu estava meio desesperada nesse ponto, não fazia a mínima ideia do que dizer para ela que pudesse fazê-la me aceitar. - Mas eu juro, minhas intenções com Tom, são as melhores. Ele me conheceu quando eu estava passando por uma fase muito ruim. E eu ainda estou me recuperando dessa fase.
Nikki ficou em silêncio, escutando tudo o que eu tinha para falar. Eu senti meus olhos se encherem de lágrimas e minha garganta fechar, mas eu me recusava a chorar.
-Seu filho me deu esperança quando eu achava que eu não poderia gostar de mais ninguém. Eu mostrei a ele todos os meus defeitos e todas a bagagem que eu carrego e provavelmente carregarei durante toda a minha vida. E ele se mostrou disposto a me amar e me ajudar a passar por tudo isso. - Segurei sua mão que estava apoiada no banco, entre nós duas. - Tudo o que eu quero é uma oportunidade de mostrar que eu posso ajudá-lo com o que ele precisar. Que eu posso estar ao lado dele e amá-lo como ele demonstra me amar. Se você me der essa oportunidade, eu prometo que você não vai se arrepender.
- Querida, respire. - falou sorrindo e eu suspirei, inspirando fundo. - Eu nunca disse que você não é boa o suficiente para ele.
- Mas…
- Tudo o que queria dizer é que, depois de conhecê-la e conhecer sua família, seria uma honra ter você como parte da nossa família. - falou e eu respirei aliviada. Sorrindo, senti as lágrimas de alívio descerem pelo meu rosto. - Não chore.
- Desculpe, por um momento eu achei que você… - falei, me interrompendo inconscientemente para limpar o rosto.
- Que eu fosse o que? Pedir para que se afastasse de Tom? Nunca faria isso.
- Obrigada. Muito obrigada. Você não vai se arrepender. Eu prometo.
- Eu sei que não. - sorriu.
- Eu posso te dar um abraço? - perguntei.
- Mas é claro! - falou e me abraçou. Eu ainda tentava controlar meu choro. - Agora, pare de chorar. Ele vai acabar achando que nós brigamos.
- Desculpe. Desculpe. - falei e comecei a rir, enquanto tentava me ajeitar. - Obrigada.
- Se não são as duas mulheres da minha vida. - como se tivesse ouvido seu nome, o motivo da conversa apareceu pela porta, parando atrás da mãe dele.
- Bom dia querido.
- Bom dia mãe. - Deu-lhe um beijo na cabeça e então me encarou.
- O que foi? - perguntei.
- Você é linda! - falou e me deixou sem graça.
- Bom, já percebi que estou sobrando. - Nikki falou enquanto se levantava. - Eu vou chamar seu pai para o café. - e, do mesmo jeito que ela chegou, ela saiu. Tom sentou em seu lugar.
- Você está com uma carinha inchada. Aconteceu alguma coisa? Minha mãe disse alguma coisa?
- Não foram lágrimas de tristeza. Fique tranquilo. - falei e acariciei seu rosto. - Estávamos apenas conversando.
- Então, já que não há nenhum problema aqui, o que vamos fazer?
- Podemos começar pelo café da manhã? Estou ficando com fome!
- Você é um pequeno saco sem fundo! - ele falou para me zoar.
- Isso é uma calúnia. - falei e fiz bico.
- Você sabe que não é! - falou e se aproximou para me beijar, parando a poucos centímetros de distância do meu rosto.
- Talvez haja um pouco de verdade nisso. - falei e sorri.
- Minha Babygirl. - falou e me beijou.
A manhã passou rápida. Nós tomamos café e fomos dar uma volta, Paddy foi com a gente. Almoçamos na Rua das Pedras e tiramos muitas fotos, algumas nós três, outras apenas eu com um dos dois.
Depois do almoço nós voltamos para o hotel e fomos para a praia. Tom e Harrison surfaram por um tempo enquanto eu fiquei jogando futebol com os meninos. Quando eu cansei, porque aqueles três parecem ter uma energia infinita, eu estendi uma toalha na areia e sentei, observando meu namorado sair da água e fincar a prancha ao meu lado. Me encarou.
-O que foi? - perguntei, mas, ao invés do idiota me responder, ele simplesmente balançou o cabelo de um jeito que a água veio toda em mim. - Aí, sério?
- Você estava muito seca. - falou e se sentou ao meu lado.
- E você está muito molhado. - falei, sentando um pouco mais distante dele.
- Você vai me contar o que você e minha mãe estava conversando mais cedo?
- Tudo o que eu vou dizer é pra você não se preocupar. Nós duas estamos nos dando bem. - comentei, olhando para ele.
- Isso é muito importante. - falou e me abraçou.
- E você está me molhando. - falei, me afastando dele.
- E você está muito chata! - falou, mas eu não estava mais prestando atenção no que ele estava falando e sim nas horas de água que estavam escorrendo pelo seu pescoço até seus ombros e braços. Senti minha respiração ofegar e desviei meu olhar para que ele não percebesse que eu estava meio alterada. - O que foi?
- Não é nada. - falei.
- Me conta. - falou e chegou bem perto, de modo que poderíamos apenas sussurrar que o outro escutaria.
- Eu posso te pedir uma coisa? - perguntei, antes que perdesse a coragem.
- Qualquer coisa!
- Eu posso tocar no seu abdômen? - perguntei, corada.
- O que?
- Você sabe que eu só namorei com Felipe e nós nunca fomos… Além. E ele não era atlético como você. Então eu… - comecei a falar coisas desconexas, antes de ele me interromper, sorrindo.
- Amor, calma. Eu deixo. - Tom simplesmente se deitou de costas na toalha e ficou me encarando.
- Você tá falando sério? - perguntei e ele revirou os olhos, pegando minha mão ele mesmo e levando até os ‘gomos’ do seu abdômen. Corei.
- Sabia que essa ingenuidade sua te deixa mais fofa? - falou, mas eu não estava prestando muita atenção no que ele falava. Percebendo isso, ele se calou. As pontas dos meus dedos percorreram por entre os ‘gomos’ e por cima deles, meus olhos tentavam gravar cada reação e centímetro da pele dele. Era uma sensação extremamente diferente e boa tê-lo ali, sobre o ‘controle’ das minhas mãos. Tal pensamento fez com que eu mordesse meu lábio inferior inconscientemente. Tom contraiu sua barriga de propósito.
- Você não colabora pra minha sanidade. - falei em português, não conseguindo encará-lo.
- O que isso deveria significar?
- Que você… - murmurei fazendo o que eu provavelmente nunca faria antes, mas fiz antes que eu perdesse a coragem. Apoiei minha mão direita em seu peito e deitei metade do meu corpo em cima do dele, apoiando minha perna direita no meio das dele. Não sei o que estava acontecendo comigo, mas eu estava gostando da sensação de provocá-lo e de ser provocada por ele. Aproximei meu rosto de seu pescoço e, antes de beija-lo, sussurrei em seu ouvido. - … é muito gostoso. Eu não tô acostumada com isso. - falei e ele riu, apoiando a cabeça no antebraço. - A água descendo pelo seu pescoço e a luz do sol batendo em você não estão me ajudando também.
Antes de responder, ele nos girou, me pegando de surpresa. Me deitou de costas na toalha e deitou por cima de mim, apoiando apenas parte de seu peso em mim e a outra parte em seu braço acima da minha cabeça.
- Você realmente não sabe o quanto você é linda sabe? Você realmente não percebe o efeito que você tem sobre mim? - perguntou. Colocou meu cabelo atrás da minha orelha, se aproximou do meu pescoço e me deu um beijo bem na curva entre o ombro e o pescoço.
O toque da pele dele com a minha - eu estava usando um short e a parte de cima de um biquíni. - fazia com ‘borboletas’ de ansiedade se espalhassem pelo meu corpo. Pensava que esse tipo de clichê acontecesse apenas em filmes, mas eu não consigo pensar em melhor expressão para descrever o que senti naquele momento.
O toque do seu lábio com a minha pele, foi uma das melhores sensações que eu já tinha sentido até aquele momento. Seus lábios eram macios e Tom foi paciente, parecia querer gravar o gosto da minha pele em sua boca. Depois, ele passou o nariz contra o meu pescoço, pude sentir sua respiração pesada, agora parecendo querer se lembrar de cada detalhe do meu cheiro.
Apesar de eu estar gostando muito, parte de mim precisava ser racional. Eu ainda estava ganhando a confiança dos pais dele e não queria que toda a evolução feita nos últimos dias fosse mandada para o espaço caso eles nos pegassem na praia naquela situação. Além disso, seus irmãos estavam a alguns metros distantes de nós e não seria nada legal quando eles finalmente se tocassem que estávamos nos ‘pegando’ na praia assim, sem mais e nem menos.
Por isso, tive que fazer a última coisa que meu corpo queria naquele momento: Chamar Tom para a realidade de que não estávamos sozinhos.
-Tom. Seus irmãos. - ele soltou um murmúrio, do que eu pensava significar uma reclamação, quando ele entendeu o que eu queria dizer. Ao se afastar de mim, estava mordendo seu lábio inferior e olhou ao redor. Ninguém parecia ter notado o que aconteceu.
- Desculpa. - falou, se sentando ao meu lado.
- Não é como se eu não tivesse gostando. - falei dando de ombros. Ele sorriu. - Mas nós não estamos sozinhos.
- Eu sei. - suspirou. Ficamos em silêncio por alguns minutos antes de ele entrar em um novo assunto. - A Première de Guerra Civil vai ser em Abril. Primeiro em Nova York e depois em Londres.
- Isso vai ser emocionante. - comentei, fazendo carinho no cabelo dele.
- Eu chamei algumas pessoas para irem comigo! Mas em Nova York apenas Harrison e Sam vão. - olhou nos meus olhos. - Eu queria muito que você estivesse lá também. É uma experiência muito importante para mim e eu queria muito que você fosse como minha acompanhante.
- É sério? - falei, meio surpresa com o pedido. - Porque eu não saberia como me comportar.
- Acredite em mim, se o Sam consegue, você consegue também! - começou a brincar com meus dedos, que estavam apoiados no meu joelho. - Além disso, eu estava pensando se você poderia ir à Londres. Na verdade, eu iria amar se você pudesse ir nas duas Premières.
- Eu nem sei o que te dizer! - respirei fundo. - Se você prometer não me deixar fazer nem uma burrice e passar vergonha em nível mundial, - ele riu. - eu prometo fazer o máximo que eu conseguir para ir, como sua acompanhante, nas duas Premières.
- Eu prometo fazer o melhor que eu puder para não te deixar fazer burrice e passar vergonha em nível mundial. - falou e me abraçou pelos ombros.

Capítulo 8


Tom foi embora na quarta de manhã. Eu não consegui acompanhá-lo até o aeroporto, na cidade do Rio.
-Não vai. - falei, enquanto observava seus pais colocando o resto das malas no carro. - Você pode ficar mais um pouco.
- Eu não quero, mas eu preciso ir. Eu tenho coisas para fazer antes de começar a trabalhar. - falou, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Eu olhei para seu rosto e meu olhar deveria estar cheio de tristeza, pois Tom suspirou com meu gesto. - Eu vou sentir saudades também. - me abraçou de lado e beijou minha cabeça.
Vê-lo ir foi muito doloroso, como se um pedaço de mim tivesse ido junto com ele. Pela primeira vez eu entendi o que a expressão “buraco no coração” quer dizer. Mas, ao mesmo tempo que a distância nos deixa com saudade, ela nos deixa mais fortes. É graças a ela que fortalecemos a confiança um no outro, fortalecemos a nossa comunicação e muitas outras coisas.
A velocidade com que nosso namoro evoluiu depois que Tom foi embora é absurda. Nós sentimos necessidade de manter contato um com o outro o tempo todo, dando detalhes do nosso dia-a-dia de uma forma que não fazíamos antes. Também cresceu a necessidade de pedir conselhos e opiniões. Sim, fazíamos isso tudo antes, mas a diferença é que agora fazemos com mais franqueza e honestidade.
Eu estou conseguindo administrar meu tempo muito melhor do que antes, assim como meu psicológico - fico feliz em dizer que meus pesadelos diminuíram em quase 70% desde que meu namoro com Tom começou. - para estudar, treinar e ensaiar. É como se a vinda de Tom para o Brasil e o início de nosso namoro, tivessem me dado o gás e o ânimo que eu precisava para terminar meu ano e meu ensino médio.
Quanto a isso ele tem me dado o suporte que eu preciso, mesmo que de longe. Não fica me cobrando quando demoro para respondê-lo ou quando não consigo atendê-lo, apesar de eu fazer o máximo possível para conseguir dar atenção a ele sempre.
Tom voltou a trabalhar quase três semanas depois que já estava em casa. Começaria a fazer a turnê para promover No coração do Mar antes de começar a promover Capitão América:Guerra Civil. Seus horários estavam meio malucos, por isso eu tentava sempre atendê-lo quando me ligava.
Meus treinos diminuíram consideravelmente após o último jogo, no final de semana seguido da partida da família Holland. Até que então deixaram de acontecer.
O jogo foi extremamente emocionante. Meu treinador fez um discurso de motivação no início do jogo. Terminamos os dois primeiros tempos perdendo de pouquíssimos pontos. No pequeno intervalo nós pegamos o fôlego que precisávamos para terminar o jogo vencendo de uma quantidade considerável. Foi uma felicidade extrema para todo o time e para nossas famílias. Os pais de Camila fizeram um pequeno churrasco para comemorarmos, com direito a muitas fotos e histórias de treinos antigos. Mas, quando nos demos conta de que algumas de nós “aposentariam” os tênis, ficamos meio chorosas. Muitas usavam esse uniforme a anos e era difícil desapegar.
Depois disso eu passei a dedicar o meu tempo livre para fotografar. E, devo dizer, que estou ficando muito boa nisso. Algumas eu posto no Instagram e elas têm recebido um número cada vez maior de curtidas e comentários. Eu fotografava o que me der vontade: paisagens, animais, crianças… Me sentia muito orgulhosa do que estava conseguindo fazer.
Quando Tom começou a viajar, eu passei a acompanhar suas entrevistas pelo Youtube. Não conseguia assistir a todas, mas todas as que eu vi, os repórteres perguntavam a ele sobre a garota misteriosa da foto e se estávamos realmente juntos como os rumores supunham. Em todas ele respondia que sim, dando poucas informações sobre mim e sobre minha vida, como meu primeiro nome e de que país eu era.
Quando isso começou a acontecer, nós conversamos e decidimos, juntos, que não valia a pena ficar negando já que já postamos fotos juntos com legendas ‘românticas’. Então ele daria informações o suficiente para que saíssem do pé dele, mas que não os trariam direto para a minha vida.
Depois que fomos oficializados, alguns dos atores da Marvel, que já haviam trabalhado com Tom, começaram a me seguir no Instagram. Chris Hemsworth, Sebastian Stan e Elizabeth Olsen. Eu juro que meu coração parou por um segundo naquela semana.
Meus pais adoram o Tom. Minha mãe então, nem se fala. Mas, com toda a atenção extra que ele tem recebido por causa dos filmes recém lançados e pelos os que ainda estavam para ser lançados, eles começaram a ficar com um pé atrás em relação ao meu namorado.
Por outro lado, minha querida avó nos dá mais apoio do que eu poderia esperar. Em um final de semana, nós - os netos - estávamos todos juntos na casa dela, sempre tentamos fazer isso para que ela não se sinta sozinha. Nesse dia em especial, estava muito quente e resolvemos todos ir para a praia. Sim, a casa da minha avó fica na beira da praia! Chique né?
A casa da minha avó, apesar da excelente localização, não era muito grande. Apenas um andar. Sala, cozinha, dá-la de jantar, um quarto de visitas é uma suíte. Sentada na mesa da sala de jantar era possível ver a praia atrás da janela. A casa era pequena, mas ajeitadinha. Tudo em seu devido lugar e de um tamanho bom para que minha avó pudesse manter organizada, tendo apenas uma menina que vem fazer faxina para ela durante a semana.
Nesse dia eu não estava muito bem. Não estava no clima para ficar na praia. Estava me sentindo meio doente e com muita saudade de Thomas. Rafaela ficou me zoando, dizendo que era meu psicológico e a saudade que estava me abalando. Eu não contestei. Não duvidava de que pudesse acontecer.
Permaneci sentada na mesa da sala de jantar por algum tempo, olhando as fotos da semana que passamos juntos. Estava tão absorvida pelos meus pensamentos que não percebi quando minha avó se sentou ao meu lado. Juro que dei um pulo na cadeira quando ela colocou a mão no meu ombro.
-Que susto vovó. - falei e começamos a rir.
- Por que está aqui, sozinha e não lá fora com seus primos? - perguntou.
- Estou com saudades. - falei e mostrei a ela as fotos que estava olhando antes.
- Vocês estão bem?
- Sim. Mas ele tem trabalhado bastante. Com horários malucos. Quase não conseguimos manter uma conversa por mais de 5 minutos. Às vezes eu sinto como se faltasse uma parte de mim! Isso é loucura.
- Isso é não loucura querida. Isso se chama amor.
- Mas como posso amar alguém que conheço a tão pouco tempo?
- Quando conheci seu avô, nós éramos tão jovens quanto você e Thomas. Nos conhecemos em um restaurante, eu fui almoçar com seus bisavós e ele trabalhava lá, como garçom. Meu pai não gostava muito dele, por ele não ter uma condição financeira muito boa, mas eu sabia, no momento em que eu coloquei os olhos nele, que nós teríamos uma vida longa juntos. - segurou minha mão entre as suas e olhou bem fundo nos meus olhos antes de dizer - Se ele te faz feliz, você não pode dar a ninguém o direito de dizer que vocês não podem ficar juntos. Se esses sentimentos que você tem aí dentro, são tão fortes quanto você diz, isso é amor sim. E ele não vem quando a gente quer. Pelo contrário, ele aparece da forma e nos momentos mais inesperados possíveis.
- E eu achando que você fosse seguir o caminho do papai e tentar me persuadir a desistir. - falei, secando meu rosto das lágrimas.
- Você tem o direito e o dever de ir atrás da sua felicidade. E ninguém mesmo tem a autoridade de te tirar isso, o que inclui o seu pai! Então se ele começar com essa história de novo, você manda ele ir se catar e depois manda ele vir conversar comigo, tá?
- Vovó! - falei e comecei a rir.
- Eu estou falando sério.
- Eu sei. - falei, deitei a cabeça em seu colo e ela começou a fazer carinho no meu cabelo. - Eu te amo.
- Eu também te amo querida.
Depois desse dia, vovó se tornou nossa maior apoiadora. Muito mais do que ela apoiava o meu relacionamento com Felipe. Acho que, no fundo, ela sempre soube que ele não presta.
Falando no meu carma, Felipe não apareceu mais depois do Dia do Ensaio. Acho que ele realmente tem amor próprio e entendeu o recado. Não tive mais notícias dele nem pelos meus primos e nem por ninguém. Se algum deles sabe de alguma coisa, nenhum acho importante me dizê-las.
Harry, irmão de Tom, pediu permissão e postou vários vídeos de nosso ensaio, de ótima qualidade, nos ajudando a fazer propaganda tanto para a Escola quanto para a Apresentação que estava chegando. Eu não poderia ter ficado mais grata pela ajuda.
Meu relacionamento com os irmãos Holland não poderia ser melhor. Falava com Harry e Sam sempre que possível, sem contar que o pequeno Paddy me liga sempre que pode. Gostaria de poder dizer que tenho criado mais intimidade com meus sogros, mas, apesar de toda a comunicação através do Twitter com Dom e do Instagram com a Nikki, não é uma coisa muito tranquila de se fazer
Com o final do ano chegando, eu fiquei mais agitada. Como se não bastasse ter três ‘eventos’ super importantes, eles aconteceriam quase que na mesma semana. O ENEM aconteceria na primeira semana de novembro, a apresentação da Escola de Música seria na sexta seguinte e a nossa Formatura - colação e festa - no sábado. Dá pra imaginar que já estávamos extremamente agitados no final de setembro.
Nossa formatura aconteceu no salão de festas da família de Gabriela, uma colega de classe. Sim, os pais dela são donos de um clube. Liberaram o salão pra gente durante toda a noite de sábado e boa parte da madrugada de domingo. A única que tínhamos que nos preocupar era com a decoração, comida e roupas já que eles também nos forneceriam a música e bebidas.
Quanto a questão de roupas, eu só percebi que não tinha procurado nada - tanto para a formatura quanto para a apresentação de música - no meio de outubro, quando minhas amigas e Tom - sim, ele também. - ficaram me enchendo o saco. Então meu tempo livre era gasto para procurar vestidos e variações nas lojas de Búzios.
A sexta anterior à prova chegou e eu não estava me aguentando mais. Comecei a comer tudo o quanto é tipo de besteira que eu via pela frente, de tão nervosa que eu estava. Fotografar não estava me ajudando, cantar não estava me ajudando… A única coisa que me ajudava era ouvir a voz dele.
-Amor, você precisa se acalmar.
- Eu sei, eu sei. - sentia como se fosse começar a chorar. - Eu tô com medo. Medo de estragar tudo. De não conseguir e decepcionar meus pais.
- Amor, você vai me desculpar, mas isso é ridículo. Não é possível que você está se ouvindo falar. - murmurou alguma coisa com alguém do outro lado da linha e depois voltou sua atenção para mim. - , você é mais do que capaz de fazer essa prova. Você estudou a porcaria do ano todo e eu sei disso porque eu te acompanhei por todo o processo. Seus pais sabem que você consegue porque eles conhecem a filha que criaram e sabem o quanto você é inteligente. A única coisa que está faltando é você confiar em si mesma.
- Você tem razão. - murmurei depois de suspirar. - Eu consigo.
- É lógico que consegue. - falou. - Eu preciso ir, você vai ficar bem?
- Vou sim. Boa entrevista. - falei.
- Obrigado. Me liga amanhã depois da prova.
- Pode deixar.
- Boa noite. Fica bem.
- Boa noite amor.
Nem preciso dizer que a prova foi uma confusão na minha cabeça. Em alguns momentos eu achava que tinha feito as coisas da maneira certa e em outros eu podia jurar que ia tirar um belo de um zero. Então fiz a melhor coisa que podia fazer naquele momento, rasguei a prova e joguei fora.
Durante a semana nós fizemos ensaios no Teatro Municipal onde aconteceria a apresentação. Estava me sentindo muito mais leve, resolvi aproveitar cada minuto daquela experiência.
Sexta-feira foi muito corrida. Minha família acabou ajudando com o que podia na arrumação dos últimos detalhes - posicionamento de microfones, fios, instrumentos -, graças a Deus o técnico de iluminação nos ajudaria durante a apresentação.
Eu acabei não precisando comprar roupa para sexta, usei uma saia que estava guardada sem uso a um tempo e uma blusa emprestada das meninas. O cordão de Tom ficava em meu pescoço o tempo todo para mantê-lo perto de mim, o que ajudava bastante. Eu mandava fotos o tempo todo para deixá-lo informado do que estava acontecendo, mas não é a mesma coisa de quando a pessoa está ao seu lado.
A apresentação não poderia ter sido mais perfeita. Tudo ocorreu dentro do planejado. Claro que foram necessárias algumas improvisações de última hora aqui e ali, mas nada que não pudesse ser controlado.
Apesar de ter ficado acordada até tarde na sexta, eu tive que levantar ‘cedo’ para ir ao salão me ajeitar para a Formatura. Minha mãe fez questão de cabelo, unhas e uma maquiagem bem leve para combinar com meu vestido. Meus pais e meus irmãos - que estavam uma graça nas blusas de botão - iam para participar da Colação e um pouco da festa.
Nem preciso dizer que Tom me ligou no segundo que eu postei uma foto minha - tirada pela minha mãe -, reclamando que eu deveria ter mandado para ele primeiro, que ele estava esperando desde cedo. Mas ele não estava bravo de verdade. Pelo contrário. Ficou me elogiando à noite toda através mensagens e se lamentando por não estar ali comigo.
Foi uma noite extremamente emocionante. Com direito a fotos nossas quando éramos crianças em festas da escola e discurso de professores. Nossa turma era a mesma desde muito antes de eu começar a estudar com eles. Tínhamos nossas diferenças em muitas questões mas eu sentiria falta deles.
Depois da festa nós estávamos oficialmente de férias e eu consegui um emprego temporário em uma loja de sapatos durante o período de vendas do Natal. O dinheiro eu guardaria para comprar o que eu acabaria precisando para a A Premiere de Capitão América: Guerra Civil. Não pagaria tudo, mas pelo menos não dependeria dos meus pais para pagar tudo ou, pior, de Tom.
Mas, se ele me convidou, qual seria o problema em ele pagar por alguma coisa? Ou por tudo? Bom… Além do nosso namoro ser relativamente recente, eu queria deixar claro, desde de cedo, que eu não queria depender do dinheiro dele, muito menos para essas coisas.
Falando em Guerra Civil, parecia que estava acontecendo uma dentro da minha casa. Depois da minha formatura e até a abertura das inscrições da faculdade, meu único objetivo a ser atingido era dar um jeito de ir para a Première em Los Angeles - Sim, o idiota do meu namorado confundiu as Premières de No Coração do Mar e Capitão América. -, de lá Tom já tinha deixado claro que pagaria minha passagem pra Londres. Aparentemente estava tudo certo. Sim, eu disse aparentemente.
Depois da virada do ano, mais especificamente no meio de janeiro, meu pai encrencou que não me deixaria ir.
-Mas pai….
- , eu já disse que não!
- Mas por que?
- Não tem que ter um porquê! Eu sou seu pai e você tem que respeitar o que eu disser! E eu estou dizendo não! - pela primeira vez eu vi ele levantar a voz para um de nós. Meus olhos se encheram de lágrimas.
O que ele alegava? Que era muita exposição de imagem a mídia e que eu não estava preparada para isso. O que eu fiz? Escândalo dentro de casa pela primeira vez na minha vida, literalmente. Minha mãe tentou argumentar com ele. Mas não teve jeito.
Então, eu mudei de tática. Passei a ‘brincar’ de ficar muda. Não falei com meu pai por dois meses. Nunca senti raiva dele como naqueles dois meses. Já estava tudo certo! Eu estava começando a comprar o vestido e o sapato, minha mãe a pesquisar as passagens. Estava tudo acertado com os pais de Tom em Londres. Era bizarro meu pai fazer isso.
Nem preciso dizer que também fiquei péssima. Tom ficou triste com a situação, mas pareceu aceitar melhor do que eu. Ainda não tinha me dado por vencida e esperava que ele também não.
Março chegou, trazendo com ele a abertura das inscrições da faculdade. Consegui fazer as minhas logo no primeiro dia. Mesmo assim tive que esperar até o último para saber o resultado do SISU. Tortura. Qual curso eu tinha escolhido? Engenharia Civil. Não era minha primeira opção mas era a minha melhor. Espero que dê certo.
Continua...



Nota da autora: Hey gente. Um milagre aconteceu: eu consegui enviar dois capítulos em menos de um mês. 😊. Eu agradeço muito a paciência e o carinho de vocês. Eu comecei essa história porque eu tive muita dificuldade em achar histórias boas do Tom na internet e senti a necessidade de começar a minha. Então eu realmente peço desculpas pela demora em atualizar a história, mas eu peço também que não me abandonem, porque eu realmente não tenho a intenção de deixar vocês com uma história incompleta. Eu faço o meu melhor para atualizar o mais rápido que eu posso, com um capítulo grande e rico em detalhes, assim como situações. Eu realmente espero que quem não esteja comentando esteja gostando. E, por favor, quem está comentando, continue, eu adoro ver os comentários de vocês. É o que me motiva a continuar. Por favor comentem, é muito bom saber o que vocês estão achando. Obrigada por tudo.
Layla




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