Última atualização: 18/01/2019

Capítulo 01

— Eu juro por Deus, essa é a última vez que eu te busco em um bar. — Decretei. E eu quis dizer cada uma dessas palavras. O cara pendurado em meu ombro pesava o dobro de mim, sem contar que era palmos mais altos.
— Ela não me ama mais... — chorou, suas pernas bambearam e eu tive que usar mais força para mantê-lo em pé e continuar arrastando seu corpo mole pelas escadas do prédio. — O que vai ser de mim?
— Você vai ficar bem. Me pergunto o que vai ser do meu braço. — Eu devolvi, com meu senso de humor ácido. Seus braços envolveram meu pescoço enquanto eu travava uma dura batalha em localizar as chaves no bolso do meu jeans.
— Cara, eu não quero ficar sozinho. — Ele murmurava; me obrigando esticar a cabeça o máximo possível para o lado oposto. Cristo. Meus olhos marejaram com o bafo de álcool. — Ela é a mulher da minha vida. Você sabe, não é?
— Todo mundo sabe.
— Nunca na minha vida encontrei uma mulher tão autêntica e determinada. Karen fez de mim um homem melhor, ela mudou a minha vida!
— Ela é como uma fada. — Eu destranquei a porta.
— Sim! — vibrou. — Exatamente isso! Uma fada. Uma fada do amor.
— Você deveria escrever um livro de romance. — Ironizei, aproveitando da pequena distração para me divertir ao menos um pouco no meio de toda a bagunça. Nós entramos no meu apartamento e o mormaço só piorou meu cansaço físico. Corri para abrir a única janela do cômodo. Ar fresco é importante em um lugar minúsculo e sem ventilação. Isso não pareceu afetar meu amigo bêbado e de coração partido, no entanto. Ele se jogou no sofá rasgado e coberto de pelo; onde era a cama do meu companheiro de quatro patas, e se enrolou no cobertor do bicho. Claro, O Sr. Jack, um Pug de pelos pretos, o recebeu com lambidas molhadas e desesperadas.
— Ok, Sr. Jack, sem abusar do homem bêbado. — Eu ordenei quando as lambidas foram para a boca alcoolizada. A bolinha de pelo saltou do sofá e me alcançou. Eu o ergui. — Como você ficou durante o tempo em que eu estive fora? Se comportou?
— Karen... Eu te amo! — gritou. O Sr. Jack deu duas latidas para minha careta indignada.
— Eu já fiz tudo o que podia por esse cara. — Eu disse para o cãozinho. Às vezes eu tinha a impressão que era compreendido por ele. — O que você acha?
Mais latidas.
— O quê? Você quer que eu o jogue da janela? Isso não seria cruel?
Alguém bateu à porta, interrompendo meu diálogo nada lúcido. Eu coloquei Sr. Jack no chão, mas não foi uma boa ideia. O senhorio do apartamento entrou pela porta que estava encostada e foi recebido com rosnadas e ameaças de mordida.
, seu aluguel está vencido. De novo! — Ele disparou, impaciente. Depois, olhou para o corpo esparramado no sofá. — Vejo que sua noite foi boa. Está com dinheiro para levar o amigo para beber?
Sr. Jack abocanhou a beirada da calça dele, sendo afastado bruscamente pelo sapato.
— Amiguinho, aqui. — Eu chamei enquanto o senhorio tagarelava, mas meu cãozinho tinha sua própria intuição. Se ele não gosta da energia de alguém, ele se torna uma verdadeira peste.
—... Eu deixei você trazer essa bola de pelo imunda aqui para dentro, mesmo sendo contra as regras do prédio. Deixei você pagar a conta de luz atrasada e abrigar o seu amigo em um quarto de ocupação única! Mas você está abusando da minha boa vontade. Já faz treze dias, . Não posso mais esperar!
Eu levei meus olhos para ele, sem qualquer saco para continuar ouvindo seus sermões. E o Sr. Jack novamente tentou abocanhá-lo. Pena, o velho foi mais rápido e se esquivou.
— Estou fazendo o máximo que posso para conseguir o emprego. — Eu respondi, tentando a calma. Um de nós precisava manter o equilíbrio.
— Você está fazendo o máximo que pode desde que entrou aqui. Não posso mais compreender as suas justificativas, eu também tenho contas e responsabilidades!
— Me dê apenas dois dias. — Eu pedi. murmurou algo relacionado a casamento. — Dois dias e eu te dou esse aluguel e metade do próximo.
— Um dia. — O homem destacou, andando para a porta. — Um dia e nada mais que isso.
Sr. Jack segurou sua bainha e só largou quando ele estava totalmente fora do quarto.
— Bom trabalho. — Eu me agachei para acaricia-lo. — Da próxima vez, tente pegar por trás. Mas tenha cuidado, ok? Esse cara é mau.
Ele balançou o rabinho.
— Por favor, não me deixe! Não posso viver sem você, será que não percebe?
Soltei um suspiro longo e cansado ao voltar a assistir a figura dramática.
— O que vamos fazer com ele?
Não era como se eu não soubesse o que fazer. As horas seguidas foram trabalhosas. Dar banho em um marmanjo de 28 anos não é fácil, principalmente bêbado.
— Para de me agarrar, porra! Você tá pelado, isso é nojento. — Eu o afastei pelo rosto, empurrando-o para baixo jato forte de água do chuveiro.
— Vou virar gay. — decidiu, a água escorrendo por seu cabelo gorduroso. — É a melhor coisa a se fazer. Gays não machucam o coração do outro, eles são gentis. E também sabem conversar.
— Não me diga?
— Digo! E digo mais, posso lidar com isso, você vai ver. Vou ser o melhor gay de todos!
Eu gargalhei de sua visão retorcida, lamentando por não ter mais um aparelho eletrônico por perto para registrar a confissão. Durante o banho de sobriedade, contou seus pontos de vistas sobre uma possível vida com outro homem. Foi convincente. Mas o cara era tarado demais para ter sua masculinidade alterada. Quando uma canção sofrida e desafinada começou, eu o deixei em seu particular e adiantei outras coisas. Minutos mais tarde, quase cuspi o café de volta na xícara quando ele saiu do banheiro com um dos meus moletons de corrida, mas que ficaram parecendo legging em suas pernas.
— Já está começando a praticar a homossexualidade? — Eu brinquei. Ele se apoiou no balcão e sentou, esgotado. Foram horas debaixo do chuveiro para recuperar metade das suas energias.
— Valeu por ter me buscado no bar. — Ele disse, apoiando a bolsa térmica que deixei preparada na têmpora. — Foi traumatizante.
O entreguei uma garrafa de água e uma cartela de aspirina.
— Imagino que tenha sido. Você chorou por três horas seguidas.
— Sem volta, meu amigo. Ela está decidida. Quer seguir em frente. — Ele contou.
— Certo. Eu lamento pelo seu relacionamento. — Eu disse. — Mas precisamos conversar sobre algo mais importante agora.
— O que pode ser mais importante que o meu coração partido?
— O meu aluguel. — Fui direto. Sem enrolações. Nossa amizade consistia em sinceridade e verdade. Nada mais que isso. — Eu sei que as coisas estão difíceis para você agora que teve que sair de casa...
Ele gemeu ao se ajeitar no banco.
— Mas eu não tenho mais um emprego. — Completei, e espremeu os olhos ao me olhar de volta.
— Wanda não retornou suas ligações?
— Não. E nem vai.
— Vagabunda. — Xingou baixo. — Porque não conta a verdade para o seu chefe?
— E o que eu diria? Que fiquei com a mulher dele e ela não aceitou o término?
— Você não sabia que ela era casada. — Ele defendeu.
— Como se isso fosse valer de algo. Eu só tenho a perder, em todos os ângulos. — Dei de ombros. — Ela conseguiu foder o meu emprego do jeito que disse que faria.
— Vamos nos vingar. — sugeriu, tornando-se estranha e desnecessariamente animado. — Sério, vamos lá! Nós fazíamos isso no ensino médio, lembra? Qualquer problema a vista era solucionado com a dupla TJ.
— A bebida ainda está fazendo efeito? — Me afastei para o pequeno armário duplo suspenso a procura de algo para comer, mas a dispensa estava cada vez mais em falta. — Meu saldo bancário está no vermelho.
— Posso tentar pegar um empréstimo para você. — Ele ofereceu.
— E depois, caso eu não consiga um emprego, como vou fazer para te devolver?
— Você pode pensar nisso depois, cara. Não se sobrecarregue tanto.
— Não é essa a questão aqui, . — Me virei para ele, esbanjando seriedade. — Eu devo um agiota um valor alto, muito alto. Mesmo que eu consiga algo temporário, não vai ser o suficiente para manter a casa e quitar essa dívida.
— Nós podemos ficar um tempo na casa dos meus pais em Nuvallie. — Ele sugeriu. Eu apenas lhe dei um olhar contrariado. — Eu sei que é no interior, mas você tem outra opção?
— Uma que não seja morar no mato.
— A fazenda é legal. Eu vivi lá quando era garoto.
— Por isso veio morar com seus tios na cidade?
parou por um tempo.
— É, você tem razão. — Ele admitiu. — É uma merda. Meu pai continua fanático por plantação e gado. Acordar às 5 da manhã para ordenhar? Nem fodendo! A única teta que eu quero tocar novamente é a da Karen. Foda-se essa ideia. Vamos vender drogas.
— Não dá pra falar sério com você. — Meus olhos involuntariamente rolaram para cima. Coloquei a xícara sobre o balcão que nos separava; um pequeno lembrete colou em meu cotovelo. — O que é isso? — Eu desgrudei o papel rabiscado com números de telefone e avaliei.
— Ah! — soltou. — Um cara ligou ontem te procurando, mas cortaram a linha telefônica durante a chamada, só deu tempo de anotar o número.
— Ele disse o que queria? — Eu me atentei a ele, que fez outra careta na tentativa de lembrar.
— Algo referente à proposta...
— Emprego? — Disparei.
— Não, proposta. Você é surdo?
Voltei a ler o papel, curioso. O DDD era de outro estado.
— Vou ligar de volta. Me empresta seu celular?
Ele coçou a cabeça.
— Eu perdi ontem no meio do tumulto...
Me ergui da cadeira e atravessei a sala, pescando meu casaco e carteira.
— Onde vai?
— Telefonar. — Avancei para a porta. — Se for sair não esqueça de trancar a porta.
— Quem iria roubar essa espelunca? — Sua voz me seguiu, enquanto eu envolvia a maçaneta. Ao abrir a porta, dei de cara com um desconhecido, que rapidamente recuou para trás. Seus olhos aumentaram ao me ver. Ele era loiro, vestia social, e definitivamente, nunca havia o visto antes.
— Santo Deus... Vocês são realmente idênticos!
— Como é? — Murmurei, perdido.
O homem sorriu e passou por mim, entrando no apartamento, sem se quer ser convidado.
, certo? É um prazer conhecê-lo.
Eu e não demos um pio se quer. Ficamos encarando o cara loiro de pele bronzeada e perfume tão forte que tirou todo o cheiro de mofo do cômodo. Sério, se haviam bactérias por ali (o que eu tinha certeza que sim) elas haviam sido exoneradas.
Sob a atenção confusa de nós dois, ele riu, passando a mão na camisa e limpando a garganta antes de prosseguir:
— Desculpe minha falta de educação. Eu sou Alexander Flitz, amigo e advogado particular do seu irmão.
— Meu irmão? — Eu repeti, surpreso. — Faz anos que não nos falamos...
— Sim, eu sei. Mas ele nunca se esqueceu de você, saiba disso.
Sim, ele esqueceu. Mas isso eu não admitira em voz alta.
— Claro que ele esqueceu. — , por outro lado, não teve a mesma ideia. Ele deu um passo adiante, tomando o controle com uma pose nada amigável. — Por que esse cara está procurando ele agora?
Alexander pareceu um pouco desconcertado com a repentina irritação do meu amigo. Eu me movi para frente, recuperando a atenção.
— Aconteceu alguma coisa com ele? — Perguntei, ansioso.
— Não, ele está muito bem.
— Então o que esse babaca quer? — apressou.
— Ei, fique tranquilo. — Eu murmurei, tentando soar discreto.
Alexander pigarreou, mexendo na gola de sua camisa e dando um sorriso pacífico.
— Eu gostaria de convidá-lo para almoçar. Não é um assunto muito... Digamos, abordável para se ter na presença de outras pessoas.
— Ele é de confiança. Está tudo bem. — Eu disse, antes que o cara ao meu lado soasse ainda mais rude. , por sua vez, cruzou os braços.
— Tudo bem, . Então creio que devo dispensar formalidades.
— Seja direto, por favor. — Pedi. — Do que se trata?
— Uma proposta.
— Ah, então foi você que ligou ontem, antes do telefone ser cortado! — Meu melhor amigo se recordou. — Se eu soubesse que se tratava disso nem teria atendido.
, — Alexander me olhava, apesar dos comentários negativo. — Seu irmão precisa de você. Tem algo grande acontecendo com ele, não temos mais ninguém a recorrer.
— Ele também precisou do irmão a vida inteira! Parece que o jogo virou, não é mesmo? — respondeu por mim. Eu o puxei para trás pelo ombro.
— Porquê ele precisa de mim? — Perguntei, cedendo a algumas defesas internas. Os olhos azuis de Alexander tomaram um brilho de interesse sem igual. Ele esboçou um sorriso satisfeito e puxou a bolsa transversal para frente do corpo, antes de sacar algo.
— Aqui.
Eu encarei o envelope amarelo suspenso no ar por alguns segundos.
— Tenho certeza que isso vai te animar.
Peguei o envelope. Não era difícil deduzir que eram notas. Muitas delas. Um suspiro de coragem escapou de mim quando conferi isso. Atrás de mim, assobiou, igualmente assustado com a quantia.
— Este é o preço inicial para o seu serviço. — O homem disse antes de qualquer pergunta. — Você só precisa ter disponibilidade e fazer algumas coisas para conseguir mais.
Uma parte de mim dizia que isso era errado. Aceitar dinheiro do meu irmão de repente, a inda por cima, depois de tantos anos? Mas a outra parte, a mais sensata e lógica, estava aliviando minha cabeça.
não disse nada. Ótimo. Era bom que estivesse calado, assim os nós da minha mente não atrapalhariam meu raciocínio. A minha frente, Alexander esperava como se tivesse toda a paciência do mundo. Uma bela jogada, devo dizer. Ninguém em sã consciência recusaria todo aquele dinheiro. Principalmente correndo o risco de morrer a cada esquina.
Eu abaixei o envelope. Estava decidido mesmo antes de uma resposta.
— O que eu tenho que fazer?




Continua...



Nota da autora: Obrigada a quem acompanhar. Farei o possível para atualizar sempre.


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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