FFOBS - Looking for Colina, por Jadyu

Última atualização: 26/03/2018

Capítulo 1

Um pouco sobre mim

Posso ter 14 anos, mas não sou do tipo idiota. Amo ler o New York Times, mas também não abandono minhas fics. Eu não sou do tipo fofinha, muito menos do tipo que é louca por garotos. E meu quarto com certeza não é um daqueles cheios de pôsteres dos "ícones" que todos idolatram.
E seja lá o que eu faça, não me chame de mocinha. Essa palavra me faz sentir como se eu estivesse presa em um purgatório juvenil, no qual sou alimentada à força com cupcakes das princesas Disney enquanto assisto reprises de Hanna Montana. Essa fase pra mim já passou há muito tempo. Aliás, quem inventou esse nome? Não duvido nada que a pessoa esteja ganhando no mínimo duzentos mil dólares por ano e ainda anda por aí num Volvo. E olha que meu irmão mais novo poderia ter inventado um nome melhor e ele tem apenas 10 anos.

Cresci em Nova York e, quando era pequena, costumava fingir que minha babá fosse minha mãe. Ela me levava para a escola todos os dias, e me ensinou como amarrar os cadarços do meu tênis. Mas, óbvio, ela não era minha mãe. Minha verdadeira mãe era uma diretora de cinema, por isso ela nunca estava por perto. Estava sempre filmando em lugares como Japão, Canadá, Austrália. E ainda tem alguns críticos que diziam que ela estava ultrapassada, mas acho que o real motivo pelo qual as pessoas se tornam críticas de cinema é porque não conseguiram ser diretoras. Normalmente não me sinto famosa, mas quando ia as estreias de seus filmes viviam publicando fotos nossas em revistas e sites por aí. No começo, me senti eletrizada, mas depois comecei a me sentir entranha com isso. Afinal, eu não era nada comparado com a minha mãe, ela passou anos da sua vida colocando atores, escritores, diretores de fotografia, editores, estúdios numa espécie de liquidificador até achar que seus filmes estavam bons o suficiente para serem assistidos. Mas tudo o que eu fazia naquelas noites de estreia era ficar ao seu lado e levar o papel em que estava escrito seu discurso.

Meu irmão mais novo, Candy, era muito pequeno para ir às estreias com a gente ou sair em alguma foto. Quando minha mãe estava grávida dele, a única coisa que ela tinha desejo de comer eram doces, e esses desejos eram toda hora. Por isso seu nome é Candy, "doces" em inglês. Só que todos chamam ele de Joshua por engano. Às vezes acho que ele é o melhor irmão do mundo. Ele é um ótimo ouvinte e me dá espaço, sempre me deixa sozinha quando eu peço; também sabe guardar os meus segredos.

Eis aqui um deles: sei que disse a você que não sou do tipo louca por garotos, principalmente porque eles são mal-educados e imprevisíveis, mas tem um carinha que eu estou de olho desde que entrei na escola. O nome dele é . Ele é muito cheiroso. Mora do outro lado da rua. Ele só falou comigo dez palavras em quatro anos. Às vezes consigo ouvir ele tocando guitarra e gosto de imaginar que ele está fazendo um show só pra mim, e fico deitada na minha cama só imaginando. A música fica melhor quando você fecha os olhos.


Capítulo 2 - Aconteceu de repente


Eu e Candy, quando estamos de férias, passamos no acampamento de verão. Eu estava sentada no píer quando vi meu pai, com essa jaqueta de couro marrom olhando para a água. Era para ele estar em casa.
Saí correndo em sua direção e tive certeza de que alguma coisa não estava bem. Cheguei até ele. Ele se ajoelhou e me abraçou com muita força, tanta força que eu senti os meus ossos estalarem. Ele simplesmente começou a chorar.
— Sua mãe se foi.
As palavras saíram de sua garganta arranhando. Eu nunca tinha visto ele falar daquela maneira. Soube na hora que o "se foi" significava para sempre. Tenta imaginar porque minha mãe teria simplesmente fugido.
— O quê?
— Foi um acidente, ela foi atropelada...
Eu queria dar um soco na cara dele. Como ele podia me dizer aquilo? Como minha mãe de repente "se foi" desse jeito? Assim, de uma hora para outra?
Tudo pareceu tão injusto.
— O que você acha? Que ela vai ficar aqui na terra ou vai para o céu?
Acho que ele disse "nos dois", mas pode ter sido "oh dó". Eu estava confusa.
Não consegui chorar. Eu não estava sentindo nada. Poderia ter morrido naquele momento, porque a ideia de viver sem uma pessoa que você ama é como ter duas mãos pressionando seu coração, deixando ele tão pequeno que você não consegue sentir mais nada.

Depois de voltar para casa naquele dia do acampamento, naquele dia tão horrível, meu pai e eu não sabíamos como enfrentar o luto. Não falávamos muito, mas conseguimos apenas nos sentirmos confortáveis na presença um do outro... E agora fazemos isso, mais do que nunca.


Capítulo 3 - Será?


Era uma vez, um garoto com lindos olhos
Observado de longe por uma garota curiosa
Ouvindo pela janela aberta, imaginava as mãos dele tocando as cordas de sua guitarra
Fazendo o som mais vibrante que ela já ouviu
Lindo demais para ser descrito por palavras


Escrevia um poema sobre o meu vizinho, quando Candy entra esfregando os olhos, com seus cabelos bagunçados. Ele retira o poema da minha mão e lê, faz um sinal de aprovação.
- Por que está escrevendo?
- Você sabe como escrever me acalma.
Hoje é o dia em que decidi ir ao estúdio da mamãe, que ficou do jeito que estava desde a sua morte. Sinto que deve ter alguma coisa lá que possa fazer eu me aproximar dela de alguma forma. Meu pai foi lá uma vez, algumas semanas depois que ela morreu, mas ele disse que não conseguiu mexer em nada. Então até hoje o lugar deve estar do jeito que a mamãe deixou.
Quando chego da escola, meu pai não está em casa, por isso vou até o escritório e pego a chave na gaveta. A chave continua com o mesmo chaveiro da mamãe, escrito seu nome, "Colina". Eu olho para a chave na minha mão aberta e então fecho meus dedos ao redor dela.
É uma caminhada de 10 minutos e, ao chegar, percebo que estou um pouco suada. Respiro fundo e finalmente começo a subir as escadas do prédio. Vou até uma porta com uma placa escrito 8b, mas o b está quebrado e pendurado de uma forma que parece um q.
Viro a chave devagar e abro a porta.
A primeira coisa que fiz foi procurar por alguma coisa com que eu pudesse limpar o lugar. Achei um espanador, alguns panos, e um recipiente para colocar o limpa-vidro. Passo a próxima a hora limpando toda poeira que cobre tudo.
Quando termino, abro o notebook da minha mãe e me surpreendo com o fundo da tela. É uma foto minha sentada no meu quarto, não pareço feliz, e sim irritada.
Vejo uma corda pendurada na gaveta da sua escrivaninha, puxo-a. É o celular dela com o carregador conectado. Ligo para ver se ainda funciona. Confiro as chamadas e vejo que a última recebida foi a de um número desconhecido, no dia de sua morte. Ligo de volta, e nada. Cai na secretária eletrônica.
Resolvo sentar no chão e fico imaginando como seria trazer o aqui. Talvez ele pudesse tocar alguma coisa em sua guitarra. Então vejo minhas lágrimas caindo em cima da tela do telefone da mamãe. Chorei por alguns minutos, até ver uma coisa que me dá um nó no estômago. Levanto e pego em cima da escrivaninha um botão, que tinha o formato de uma máscara triste de teatro. O que será que isso está fazendo aqui?
Minha mãe nunca falou sobre trazer visitas aqui no estúdio, esse era o seu espaço. Mas alguém esteve lá. Alguém que não era meu pai. Será que a pessoa com quem ela falava naquele dia de sua morte, será que essa pessoa da ligação é o dono desse botão? Isso me fez imaginar que talvez haja mais para ser descoberto sobre a morte da mamãe.
Volto ao computador e vejo as pastas da área de trabalho. No canto inferior, tem uma pasta que se chama "", é o meu apelido, basicamente como todos me chamam. De fato, a única pessoa que me chama de , meu nome verdadeiro, são meus professores da escola.
Olho a pasta de novo e não consigo clicar nela. Provavelmente são apenas fotos e outras coisas, mas tem tanta coisa passando pela minha cabeça que posso sentir meu cérebro queimar. Olho a hora no computador e percebo que já está ficando tarde. Decido voltar pra casa.
No caminho de volta enquanto passava pelo Central Park, sinto vibrações vindo do meu bolso. O celular da mamãe. Ligo a tela e está escrito "5 novas mensagens". Desligo o celular como se fosse uma bomba prestes a explodir em minhas mãos. Volto pra casa correndo.
Subo para meu quarto e sento em minha cama. Será que minha mãe gostaria que eu lesse aquelas mensagens? Aquilo fazia parte da vida pessoal dela. Eu não devia me meter nisso. Talvez eu esteja criando paranoias, mas aquele botão realmente me fez questionar o que estava acontecendo na vida da mamãe antes de sua morte.
Logo depois, tento me concentrar no dever de casa, mas ouço ensaiando. Coloco o celular da mamãe embaixo do travesseiro e decido deitar na cama e apenas fechar os olhos, e deixar com que a música do penetrasse nos meus ossos.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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