Lost in Translation

Última atualização: 26/05/2020

Capítulo 1

There was a party that she had to miss
Because her friend kept cutting her wrists
Hyper-politicized sexual trysts
"Oh, I think my boyfriend's a nihilist"


- Anya, eu já ‘tô arrumando as minhas malas e não há nada que você possa fazer pra me impedir. Eu não conheço ninguém nessa cidade, eu não suporto o calor e o dono do apartamento só responde mensagem quando chega o dia de depositar o aluguel e como é que eu vou consertar esse ar condicionado sozinha sem acreditar que alguém tá me passando golpe em outro idioma? – eu gritava com o celular na mão enquanto andava desesperada na cozinha que não era minha. – Eu bem que tentei, mas acho que meu lugar é em casa... Em casa de verdade. Vou ligar pro Axel pra saber se ele pode me buscar no aeroporto ainda amanhã de manhã. Está decidido, Anni, e não tente me convencer do contrário. – falei com pressa antes que uma suposta interrupção acontecesse. – OK... Me chama quando puder escutar. Te amo.
Soltei o botão de enviar o áudio e fechei a janela da conversa com Anya, minha melhor e, àquela altura, única amiga. Eu não estava arrumando mala nenhuma, não havia comprado passagem de avião pra casa e definitivamente não ligaria pro meu irmão mais velho egoísta pra saber se ele poderia me encontrar, mas enviar aquele áudio desesperado faria o efeito perfeito que eu queria causar: o de surtar outra pessoa além de mim mesma. Às vezes tudo que a gente precisa é extravasar e aliviar um pouco a pressão, a ansiedade, o pânico, e o melhor jeito de fazer isso é incluir outra pessoa nessa crise existencial.
Nenhuma das motivações era mentira. Era o meio de julho, a mais alta temporada e temperatura de Barcelona e eu não conseguia lidar com as ruas tão cheias de gente e com meu apartamento tão vazio. OK, não posso agir como se eu fosse a rainha das soirées em casa, como se eu recebesse amigos e vivesse como uma borboleta social nos mais diversos grupos de amigos – eu não sou nada disso. Só que eu havia chegado num ponto em que literalmente a última coisa que eu fazia no meu dia inteiro era socializar. Não me lembrava a última vez que eu tinha aberto a boca para falar pessoalmente com outra pessoa sem ser o seleto grupo de três ou quatro seres humanos que só interagiam comigo com mais de uma frase porque aquele era o local de trabalho. Anya estava sempre por ali, mas ela decidira desbravar a Croácia junto de seu namorado que mais parecia um deus nórdico, o que significava, então, que há dois meses eu não a via. Eu apostava com força que tanto ela quanto Thor (o nome dele nem é Thor e eu não sei pronunciar nomes eslavos, então sempre foi mais fácil para mim e para ele que eu simplesmente o chamasse de Thor) voltariam com o pior bronzeado de todos, ostentando uma pele vermelha de pimentão plastificada.
Ah sim, me esqueci do surto.
O que eu queria é que enquanto eu estivesse tomando um longo banho gelado para aliviar o calor, Anya recebesse o áudio que eu enviara por WhatsApp e me falasse algo bem motivador para me convencer a ficar. Por motivador eu quero dizer agressivo ou então ameaçador, porque carinho e empatia não são duas palavras que eu posso colocar no espectro de personalidade da minha melhor amiga. De qualquer forma, eu precisava desse tapa na cara do universo e estava disposta a facilitar a minha situação apenas nesse sentido.
Realmente, não arrumei nenhuma mala, mas arrumei o minúsculo studio que eu chamava de meu, porque de repente uma faxina no ambiente poderia ajudar a minha ansiedade. Havia uma tarefa que eu estava postergando havia meses e aquela também parecia uma ótima oportunidade para tirá-la da minha lista de afazeres de uma vez por todas.
Toda a minha parafernália de Paris estava intacta em uma caixa que veio por correio. O adesivo de FRÁGIL era muito irônico naquele momento, porque a fragilidade não era só no conteúdo e sim na qualidade de cada item que estava amorosamente embalado e guardado ali dentro. Frágil também era eu depois de tomar o pé na bunda mais caótico da minha vida, porque não dá pra simplesmente esquecer um relacionamento incrível que durou três anos e exigiu tudo que eu conseguiria doar de mim mesma para uma pessoa que eu tinha certeza que me amava do mesmo jeito.
Bom, não dá para esquecer, mas aparentemente dá para resumir; peguei uma tesoura afiada e saí cortando a fita de segurança com tamanha determinação como se aquilo fosse um cordão umbilical. Queria poder dizer que aquele momento foi digno de livro de romance em que a mocinha recupera memórias do seu antigo amor e todas elas ainda têm o mesmo perfume dele, mas tudo que eu senti foi cheiro de papelão, plástico e poeira e isso foi bem decepcionante. Não tão decepcionante quanto abrir cada coisinha, cada item, cada roupa guardada e constatar que a minha memória visual afetiva ainda estava bem conectada àqueles anos em Paris com Max. Havia uma caixinha de metal que compramos numa loja de presentes em Liverpool e eu sabia que ali dentro estavam alguns CDs recuperados de um mercado a céu aberto que nós dois visitamos e montamos, assim, a nossa playlist. Senti um calafrio percorrendo o meu corpo quando abri e a primeira capa que vi foi a do Ben Howard, e logo embaixo encontrei também Aerosmith, Arctic Monkeys e The Zombies.
Ah meu deus, eu vou ter que parar de ouvir The Zombies agora...
Eu já deveria saber que compartilhar gosto musical é a pior das ideias, mas ninguém que decide fazer isso consegue pensar que um dia o relacionamento vai acabar. A única coisa que eu sempre quis foi ter alguém pra dividir Crazy comigo como se fosse a performance mais importante da carreira... e Max fez isso, Max sempre fora essa pessoa até então.
Sem condição de arcar com o prejuízo musical, apenas coloquei de volta os poucos títulos que eu já havia retirado e fechei a caixa de metal. Dei um pulo na cozinha e busquei um saco de lixo enorme e que ficaria bem cheio, assim eu esperava. Debrucei-me em cima da máquina do tempo que só viajava para o passado e voltei a cavar as melhores memórias que faziam o meu coração doer tanto. Não demorei a encontrar um horrível panfleto sobre como se portar em um ataque terrorista; Max me dera aquilo com as melhores intenções do mundo, mesmo que por um momento eu tenha achado de extremo mau gosto. Havia várias explicações lógicas: primeiro, ele era militar formado e estava preocupado com a minha segurança enquanto nós não estivéssemos juntos. Segundo, realmente Paris havia acabado de passar pelo pior ataque terrorista da história e o segundo em menos de um ano, e também não por acaso eu estava por perto de um dos locais onde muita gente havia morrido. E terceiro, afinal de contas, eu estudava Segurança Internacional e estava começando a me interessar por negociações de reféns em situações extremas, então aquilo era do meu interesse. Ainda assim, foi mais um item pra sacola de lixo.
Sim, Max era militar e esse fato eu jamais poderia esquecer porque o trabalho dele estava diretamente ligado ao meu; o dele mais prático, e o meu mais burocrático. Ele gostava de brincar que qualquer erro meu num escritório acabaria matando-o, e eu dizia que se não fosse toda a literatura e teoria que eu estudo, qualquer erro dele levaria à morte de vários inocentes. Não era uma coisa saudável pra se fazer piada, mas este era Max, afinal de contas. Outras coisas que ele também era? Generoso, altruísta, muito bonito e não muito alto, o que sempre me colocou em posição desconfortável porque eu sou mais alta que a média das mulheres e amo usar salto alto – ah, a masculinidade frágil. Num porta retrato digital eu encontrei duas fotos nossas em situações em que eu tive que deixar algum sapato de salto maravilhoso de lado em troca de aparecer um mísero centímetro mais baixa que ele, mas ainda assim eram dois momentos que eu me lembrava perfeitamente bem... Em sua “formatura” na academia militar, no qual eu fora madrinha (ou o que quer que tenha sido) e quando nós dois terminamos de mobiliar nosso primeiro apartamento juntos.
Não sabia se era saudade e nostalgia, mas me lembrar daquele lugar que eu já chamei de lar (e eu não quero dizer só o imóvel, e sim toda a atmosfera de dividir uma casa e uma vida com alguém) estava me fazendo mal. Minha cabeça estava enfiada naquela caixa de Pandora sem esperança no final e eu arrancava cada pedacinho de dignidade que ainda me restava. Eu não estava com um nó na garganta, eu estava com a corda inteira.
De volta pro futuro, abri bem o saco de lixo preto e despejei todo o conteúdo restante da caixa sem pestanejar. Era que nem arrancar um band-aid que ficara colado no meu coração por meses e o único jeito era jogar água oxigenada em cima para não infeccionar o machucado. Anya ficaria orgulhosa de mim, mas não sem antes gritar comigo por ainda me permitir revisitar as memórias que ainda eram as mais dolorosas.
Agora não havia muito que fazer antes que a minha estimada e agressiva melhor amiga pudesse me ligar só pra poder brigar comigo. Preparei-me para tomar o banho gelado que eu tanto queria desde que chegara em casa depois de ir ao mercado transpirando e sofrendo de calor. Eram quase nove da noite e o céu ainda brilhava de tão claro, parecia que o sol estava quase se pondo. Nas últimas semanas eu estava sempre ansiando pela noite, que no verão custava a chegar e logo ia embora, porque eu tinha a constante ilusão de que o dia seguinte seria melhor, mas nunca era. Eu sempre só queria que anoitecesse para que eu finalmente não precisasse mais pensar, choramingar pelo leite derramado e ficar obcecada por coisas que não me ajudam em nada.
Nem se eu quisesse ser dramática ao extremo eu conseguiria demorar muito no banho; a minha consciência ecológica pesava demais e, afinal de contas, eu estava entediada até pra isso. Liguei a TV na sala num volume alto o suficiente para eu escutar do banheiro enquanto eu penteava o cabelo molhado e fazia todo um ritual de beleza desnecessário, mas que a vendedora da Lush me garantiu que me acalmaria um pouco.
Durante uma cena aleatória de Mad Men eu finalmente ouvi meu celular tocando e já sabia que era Anya. Fingi não estar ansiosa e andei tranquilamente a pequena distância entre o banheiro e a mesa da sala.
- , quem não aguenta mais sou eu! – disse a voz carinhosa do outro lado da linha.
- Oi, Anni, como ‘tá a viagem? – fingi despreocupação.
- Não ouse se fazer de desentendida como se não tivesse me mandado aquele áudio desesperada, mulher! – ela continuou gritando. – , você vai desfazer essa merda dessa mala, vai esperar mais algumas semanas até a gente voltar e aí sim vai me dar o prazer de te passar o maior sermão que você já ouviu na vida.
- Tudo bem, mãe...
- Garota, eu não terminei. – Anya me interrompeu, mas dessa vez sua voz estava mais contida e com um tom de sofrimento. – Eu ‘tô preocupada com você, aliás nós dois estamos. Andrej queria voltar esse fim de semana pra poder te ajudar, mas eu já não caio mais nos seus surtos.
Senti um peso na barriga. A mera ideia de atrapalhar a viagem de Anya e Thor por causa do meu drama (que era verídico, mesmo assim), me deixaria extremamente culpada.
- , você precisa se dar uma chance de melhorar. Eu nunca fui o tipo de amiga que só vai dizer que você precisa ver o lado bom das coisas, que tudo vai passar, e esse tipo de clichê que não serve pra nada. Mas ainda assim é você que precisa deixar que coisas boas aconteçam na sua vida daqui pra frente. Quanto tempo eu precisei pra te convencer a sair de Paris? – ela perguntou e eu não fui nem capaz de responder. – Há quanto tempo você me prometeu que ir pra um país novo seria o pontapé pra você deixar o Max pra trás?
Era sempre muito pior ouvir um terceiro mencionando o nome dele. Até então, era como se Max existisse só na minha cabeça e isso acabava me reconfortando de um jeito muito esquisito. Saber que literalmente todo mundo na minha vida também o conheceu e se lembrava do término era mais um tapa na cara.
- Enquanto a gente não chega eu quero te ver bem, quero te ver melhorando. – Anni continuou. – E quero você em Barcelona, porque quem não vai saber existir nessa cidade insuportável de quente sem a melhor amiga sou eu!
- Tudo bem, você me convenceu... – eu ri como se eu de fato estivesse planejando ir embora imediatamente. – Mas ainda não sei o que fazer pra melhorar. Quer dizer, não é como se eu estivesse stalkeando ele em redes sociais, ou ligando pra ele, tentando algum contato, nada disso. Eu só sei que ainda existe alguma coisinha aqui dentro de mim por causa dele, Anya. Eu não sei se é amor, se é carinho, se é ressentimento... Só sei que quero que acabe.
- Eu te entendo. – ela respondeu com igual frustração. – Você precisa chegar naquela fase em que seu corpo não reage mais a absolutamente nada que remeta a ele, mesmo que seja de forma negativa.
- Claro... – concordei vagamente.
- , eu preciso ir agora. Já chamaram a gente no restaurante e eu não ‘tô me aguentando de fome. – Anya disse um pouco desesperada.
- Eu não vou deixar você comer o pão todo... – ouvi a voz divertida de Thor no fundo.
- Thor acha que você não vai comer tudo que te aparecer pela frente, coitado... – ri ao imaginar os dois lutando para ver quem ficava com a cestinha de pães da mesa. – Desculpa te assustar, Anni.
- Eu só te desculpo quando eu voltar e ver que você ‘tá minimamente bem.
- Não esperava que você respondesse nada menos que isso. – sorri ao imaginar a minha amiga passivo agressiva tentando ser amável comigo. – Amo vocês.
- A gente também te ama! – Anya disse com empolgação e eu pude ouvir um “te ama” ecoando no fundo vindo de Thor.
Desliguei o celular com um enorme peso no coração, porque tão cedo eu não conseguiria me perdoar por ter interrompido qualquer tranquilidade nas férias dos meus únicos amigos. Anya tinha toda a razão, pra variar, só que eu não sabia nem por onde e nem como começar a “me dar chances”. Eu sempre fui uma dessas pessoas que fica procurando por sinais do universo pra poder ter a iniciativa de fazer alguma coisa – a ideia de me mudar para Barcelona só me ocorreu porque Vicky, Cristina, Barcelona foi o primeiro e único filme do Woody Allen que eu fui capaz de assistir e gostar sem sentir ojeriza pelo diretor, e isso logo na mesma semana que Anni decidiu que viria pra cá e me convidou para ir junto. Isso sim era um sinal do universo, e eu acho que até concordo que o mundo não pode me enviar sinais se eu não sair de casa...
Sem condição de pensar mais sobre isso, fechei todas as cortinas da casa para bloquear a claridade que ainda chegava dentro do studio e tomei dois comprimidos do meu remédio para dormir. Quem sabe amanhã eu não demoraria umas duas horas a mais para voltar pra casa depois do trabalho...

Eu tentava me convencer de que o meu turno no dia seguinte não seria tão dolorosamente miserável, mas a quem eu estava querendo enganar? Eu adorava trabalhar no café do Bob, isso era fato, mas há algo de extremamente irritante em ficar sentada na frente do caixa por cinco horas atendendo gente em sua maioria mal educada. Aquilo também não ajudava com a questão da socialização; outro dia mesmo eu li um livro sobre a crise na pós modernidade e vi que a tecnologia e a globalização excluem qualquer possibilidade dos seres humanos sequer aprenderem a interagir em grupo. Eu podia observar isso muito bem enquanto atendia as dezenas de pessoas no caixa todas as manhãs: até dá pra interagir quando se é garçonete, hostess ou o próprio Bob (que fazia questão de passar de mesa em mesa frequentemente para saber a satisfação dos clientes, e na maioria das vezes a resposta era extremamente positiva), mas no meu caso as pessoas só entregam um papelzinho com o valor da conta, o cartão de crédito e pronto. Mal se usa dinheiro hoje em dia, e isso era outra coisa que eu havia lido no livro, porque até mesmo a popularização do cartão de crédito corta a possibilidade de contato físico humano, uma vez que não é mais necessário estender e encostar as mãos para pegar as notas e moedas.
Claro que o fato de eu não falar nada de catalão também não era algo ao meu favor. Em Barcelona todo mundo recebe a educação em espanhol (que eles chamam de castelhano) e em catalão e até então eu nunca havia encontrado nenhum local que não soubesse falar perfeitamente as duas línguas, mas é claro que a preferência era pela língua que representava a identidade da região. Conhecia vários estrangeiros como eu que se sentiam ultrajados por isso, mas eu sempre achei o máximo e algo muito digno por parte da população. Eu também nascera de um país com mais de um idioma oficial, só que nenhuma das quatro línguas algum dia tinha sido proibida de ser falada. Saber que o direito de manifestar sua identidade num aspecto tão básico quanto o idioma foi algo que as pessoas custaram a conquistar fazia com que eu respeitasse mais ainda aquela cultura.
E essa divagação durou a manhã inteira.
Eu só trabalhava até a hora do almoço e então trocava de lugar com Tony, o rapaz fortinho que fazia o maior sucesso no meu lugar. Naquele dia ele não estava a postos para assumir a minha posição, e eu chamei uma das garçonetes para perguntar onde ele havia se metido – afinal, eu queria sair pela cidade esperando o universo me procurar.
- Ele ‘tá ali no fundo com a Lydia. – Romina, uma das garçonetes, me respondeu vagamente.
- LYDIA? – arregalei os olhos quando ouvi o nome de uma das minhas poucas pessoas próxima por ali.
- Sim, ela voltou. – Romina me respondeu com um pouquinho mais de entusiasmo.
Será que isso serviria como sinal do universo? Lydia não aparecia no trabalho há mais de um mês e eu sabia o motivo – e tentava entendê-lo. Na primeira e única vez que eu quase saí para uma festa à noite, Lydia e eu combinamos de ir juntas e que eu passaria em seu apartamento para buscá-la. Não havia porteiro no prédio e ela me disse que a chave reserva ficava em um fundo falso no vaso de plantas ao lado da porta, caso não pudesse atender a campainha por ainda estar no banho.
Nada no mundo me preparou para a cena que eu quase encontrei antes de chegar ali. Havia uma ambulância do lado de fora do prédio pronta para levar Lydia dali direto para o hospital. O pouquíssimo que me disseram foi que a moradora tinha passado mal e tido uma crise nervosa, mas que estava completamente estável e não corria risco nenhum. Eu não sabia o que isso queria dizer, mas definitivamente não era a coisa mais tranquila e corriqueira do mundo.
Lydia, que até então sempre tomava remédios para algum tipo de transtorno de ansiedade, não estava respondendo muito bem a um tratamento mais recente, e por isso já se sentia mal há um tempo. Quer dizer, eu não sei bem explicar o que ela queria nem quais eram suas intenções... As únicas informações que eu tinha a respeito eram do nosso chefe e das garçonetes que a conheciam há mais tempo. Só sabia que ela precisava passar um tempo longe, e por isso optara por um tratamento em uma clínica que não ficava muito longe da cidade.
Tentei não manter aquela última imagem na minha mente enquanto eu ia para os fundos do restaurante. Sim, Lydia definitivamente estava ali, sorrindo e inclinando a cabeça de lado de forma compreensiva ao conversar com outra funcionária.
- Ei, ! – ela mesma disse quando me viu chegando na sala onde todos os funcionários guardavam seus pertences antes do expediente.
Ela parecia aliviada em me ver... Não porque eu era algum tipo de refúgio pessoal ou amiga de longa data, mas porque uma das garçonetes parecia que lhe passava um discurso motivacional exatamente do tipo que Anya não faria de jeito nenhum. Sim, é tudo que alguém que está lidando com questões psicológicas quer ouvir, que “as coisas vão melhorar.”
- Meu deus, eu não achei que você fosse voltar tão rápido! – acabei dizendo sem pensar, porque isso poderia ser entendido como “uau, achei que deixariam você trancada por um bom tempo” e tudo mais.
- Bem... Trocaram quase toda a minha medicação e eu preciso ir à terapia duas vezes por semana. – ela suspirou e me olhou com uma expressão sonhadora, se é que isso era possível. – Minha irmã chegou à cidade pra poder morar comigo por uns tempos, sabe como é, pra eu não ficar sozinha.
Eu apenas assenti, muito embora não fosse o meu lugar para compreender ou não aquela situação triste. Tentei disfarçar, mas não consegui; acabei olhando para braço de Lydia e tamanha foi a minha surpresa quando vi que seu pulso estava envolto em plástico filme.
- Ah, isso! – ela percebeu o meu olhar atento e levantou o braço para me mostrar a tatuagem que agora brilhava por causa da proteção em volta. – Eu fiz anteontem pra cobrir uma cicatriz antiga. Foi ideia da minha terapeuta, apesar de que eu não sei se é muito responsável ela me dar esse tipo de conselho.
Era um lindo desenho; onde antes provavelmente havia essa cicatriz, agora era coberta pelo desenho de várias pétalas de flor de lótus. O desenho era maravilhoso e extremamente delicado, o que combinava com a aparência e a personalidade de Lydia.
- E não doeu? – perguntei sem nem pensar.
Eu queria me bater bem forte na cara. Muito embora aquela tatuagem fosse linda eu ainda não conseguia pensar que Lydia havia pagado alguém para fazer vários cortes na sua própria pele, isso com o intuito de cobrir um corte já existente. Era irônico demais.
- Bom, doeu... – ela respondeu sem ficar sem graça com a minha pergunta indiscreta. – Mas dessa vez eu gostei. Eu nunca tinha feito nada disso, nem piercing, e agora me sinto especial. Tem um intuito, sabe?
Não sabia, mas assenti como se soubesse. Eu concordaria com tudo que ela me dissesse que teve que fazer para se sentir melhor.
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, a própria Lydia me ofereceu um sorriso e se inclinou para um abraço. Foi estranho. Eu a abracei de volta porque sabia que não só era a coisa educada a se fazer, como também ela parecia que me devia algum tipo de agradecimento. Lydia era legal e eu poderia aproveitar a chance de ter mais um amigo no meu seleto círculo social.
Vinte minutos mais tarde eu já havia saído do café e agora não tinha para onde ir. Barcelona é uma cidade visualmente incrível, colorida e barulhenta por causa dos turistas. Decidi esticar meu caminho passando pela Rambla, que obviamente estava lotada de gente para todos os cantos; o tempo que eu gastaria indo para casa de metrô era quase triplicado por eu passar por aquela rua, principalmente pelo custo de desviar da horda de pessoas que insistia em andar bem lentamente embaixo do sol das duas da tarde.
Como sempre, havia gente vendendo coisas pirateadas na calçada, havia as tendas de artesanato e souvenirs, havia o grande mosaico colorido de Mirò completamente ignorado no meio do caminho. A melhor parte de Barcelona é que a arte realmente estava em todo canto, e me parecia impossível sair na rua sem encher os olhos de tantas cores, aromas, sons e sensações. Falando assim nem parece que a cidade me dava crises de ansiedade.
GREAT SCOTT!
Lydia me disse que se sentia especial e agora ela tinha um pedaço de arte em si. Realmente, eu concordei com o que ela havia dito sem saber exatamente o que significava, mas agora aquela ideia havia me atingido e tal forma que eu até fiquei arrepiada mesmo com o calor de 39 graus.
Abandonei o plano de ficar na rua durante a tarde. Voltei para casa de metrô com tanta pressa que nem me lembrei de colocar fones de ouvido para acelerar o tempo relativo. Só sei que eu já estava em casa em tempo recorde e liguei meu notebook com pressa e desespero – uma péssima combinação, todo mundo sabe que o computador não pode perceber que você ‘tá em pânico, porque ele entra automaticamente em modo lentidão.
Melhores estúdios de tatuagem em Barcelona.
Apertei enter com determinação. O primeiro resultado era um blog que listava perfeitamente os melhores tatuadores de Barcelona de acordo com popularidade e preço. Esse último detalhe já não me importava porque eu estava completamente disposta a pagar qualquer valor que fosse em nome das condições de assepsia.
O lugar mais recomendado era um estúdio pessoal de um tatuador extremamente renomado, que por um acaso era o favorito de 8 em cada 10 jogadores de futebol. Não bastou um minuto em seu site para saber que sua agenda estava lotada e só abriria de novo em outubro. Isso por um momento me preocupou, porque eu com certeza não parei para pensar que os melhores lugares eram, de fato, muito requisitados. Eu precisava realizar aquela epifania antes que a minha cabeça voltasse ao estado vegetativo de antes – e infelizmente tudo era assim comigo, ou eu faço no calor do momento ou não faço de jeito nenhum. A organização mandou lembranças.
O segundo resultado, então, era a própria sorte sorrindo para mim. Havia um telefone e um número de celular para que a sessão pudesse ser agendada por WhatsApp – ah, mais um jeito da pós modernidade eliminar o contato entre as pessoas. Nem pensei duas vezes e fui por celular mesmo, assim eu não passaria a vergonha de cometer nenhum erro de espanhol em voz alta.

@: Olá! Gostaria de saber qual o horário mais próximo que vocês têm disponível. É para tatuagem.
@Soul2SoulStudio: Olá.
@Soul2SoulStudio: Depende do desenho, alguns levam muito tempo.
@Soul2SoulStudio: Você pode enviá-lo agora, por favor?
@: claro.


Não, não era claro. Bom, algumas vezes na vida eu realmente havia pensado em fazer alguma tatuagem, mas nunca ficara em uma situação em que eu de fato estava marcando horário para fazê-la. Consultei as fotos do celular e, da maneira mais irresponsável e inconseqüente de todas, escolhi um desenho bem antigo e que provavelmente eu tinha achado bonito há dois anos.
Seja o que o universo quiser.

@Soul2SoulStudio: Onde você quer fazer?
@: no esterno, sabe? Na “caixa” do peito.
@Soul2SoulStudio: OK.
@Soul2SoulStudio: está disponível amanhã a partir das 17 horas.
@Soul2SoulStudio: passei o seu desenho para que ele pudesse trabalhá-lo.
@: então às 17:00 estarei aí!
@Soul2SoulStudio: você pode passar seu nome completo, por favor?
@Soul2SoulStudio: e você precisa trazer algum documento para atestar que é maior de idade.
@: tudo bem.
@: Rosseau.
@Soul2SoulStudio: marcada para às 17 horas com Gispert.


Eu e a pessoa desconhecida do estúdio trocamos mais algumas mensagens sobre o valor da tatuagem, os cuidados que eu deveria tomar antes de ir, etc. Não dava mais pra esconder a minha ansiedade e, finalmente, pela primeira vez desde que eu chegara em Barcelona, eu me sentia quase viva.


Capítulo 2

And you're sure that I'd learn
I'm pushing through bodies
Avoiding me and walking 'round you.
And you're cold and I burn
I guess I'll never learn


Constantemente a minha cabeça é tomada por ideias de duas naturezas completamente diferentes e, de alguma forma, complementares. Metade do tempo eu passo tentando lidar com pensamentos obsessivos sobre coisas insignificantes e que supostamente podem acabar com a minha vida inteira, e na outra metade eu sou completamente tomada por culpa e ressentimento de ter gasto tanto esforço me preocupando com coisas que não importam e que ninguém mais daria atenção a não ser eu mesma.
Naquela manhã, por exemplo, eu estava muitíssimo preocupada em como eu esconderia meus seios pra fazer a tatuagem, e honestamente em nenhum momento sequer me ocorreu que, quem é tatuador, provavelmente já está acostumado em ver partes do corpo completamente descobertas. Pessoalmente, eu não fui criada sob nenhuma ideia que me faria ver a nudez como algo proibido, vergonhoso, nem nada do tipo, mas ainda assim o que me preocupava de verdade era sobre como evitar algum tipo de comportamento inadequado da minha parte – porque, meu deus, só de imaginar que eu poderia chegar no estúdio e agir de forma inapropriada numa situação profissional já me dava uma dor no estômago.
Por fim, eu resolvi só cobrir uma parte de cada seio com esparadrapo e seja o que Deus quiser. Ainda havia uma voz no fundo da minha mente que me dizia que não teria problema nenhum aparecer assim, não só porque o tatuador estava no seu ambiente de trabalho, mas também porque todo mundo em Barcelona ‘tá acostumado com topless na praia. Mas é claro que essa voz sã e consciente nunca é mais alta do que as minhas mini crises diárias.
Saí de casa sem sutiã e torcendo para não suar tanto no caminho, porque assim a cola do esparadrapo duraria o suficiente. O estúdio ficava consideravelmente perto do meu bairro, então dava pra pegar só umas duas estações de metrô e ir caminhando por mais dez minutos. Eu obviamente estava ansiosa, mas era do tipo bom, era o frio na barriga que te dá vontade de sorrir e você precisa travar a mandíbula bem forte, senão fica por aí andando na rua rindo para desconhecidos que com certeza vão pensar “doida” ao olhar pra você.
Cheguei ao endereço do estúdio e não fiquei nem um pouco surpresa, porque era exatamente como qualquer outro lugar que eu já tivesse visto na internet. Por fora era apenas uma placa discreta onde se lia “Soul2Soul Studio” em cima de uma porta dupla de vidro, e do lado de dentro tudo era vermelho e dourado como o lobby de um hotel cinco estrelas. Acho que não dá mesmo pra fugir dos clichês, porque a primeira pessoa que eu me deparei no balcão da recepção foi uma mulher baixinha de cabelo roxo, azul e verde que tinha um jeito imponente de alguém que poderia facilmente me bater até eu falar chega. Ela mexia freneticamente num computador à sua frente e só percebeu que eu estava ali quando parei bem na frente dela.
- Oi... – falei tímida – Eu marquei um horário hoje às cinco horas.
- Olá! – ela cordialmente me respondeu em espanhol – Você tem horário com quem?
- Ah, eu conversei com vocês ontem por WhatsApp. – expliquei. – Não sei se vou saber pronunciar direito o nome do tatuador, então prefiro nem arriscar para não falar de um jeito leigo. Meu nome é Rousseau, pode procurar assim.
Meu deus, por que eu dou uma explicação tão inconclusiva e desnecessariamente detalhada pra responder uma simples pergunta?
- Sim! Foi comigo que você conversou ontem, então. – ela me deu um sorriso educado. – Você vai fazer com o . Ele só ‘tá terminando de arrumar a sala.
- Tudo bem, não tenho pressa... – imagina, só tenho um coração que bate com tanta rapidez por causa do nervosismo que eu nem consigo escutar meus próprios pensamentos. Melhor assim.
- Enquanto isso, vou precisar conferir se você é maior de idade. – ela pediu ainda de forma muito solícita, como se estivesse me pedindo desculpas por desconfiar de mim de algum jeito.
- Aqui está. – tirei da minha bolsa uma cópia do meu passaporte que eu frequentemente usava como carteira.
- Bom, dezenove anos então. – ela disse depois de olhar o documento por um tempo. Depois, ainda deu mais uma analisada em outro detalhe. – Dá pra ver que você não é daqui.
- Pois é, eu sou suíça. – respondi um pouco sem graça. – Acho que isso se nota pelo meu pobre conhecimento em espanhol.
O que também sempre é possível notar é a minha falta de habilidade social, porque eu continuava a falar coisas que absolutamente ninguém perguntou ou sequer se interessa.
- Você pode esperar na ante sala, se quiser. – ela me apontou na direção dos fundos do estúdio. – Não vai demorar muito até o terminar de limpar o espaço do trabalho anterior.
Apenas assenti e fui à direção que ela havia me apontado. Depois de passar do interior do estúdio muito bem decorado, entrei numa parte que parecia um hospital; os azulejos brancos, o cheiro de desinfetante e álcool, tudo obsessivamente organizado e limpo – o que era mesmo um ótimo sinal. Enxerguei um singelo sofá baixinho em frente a uma das salas, sentei-me ali e tirei meu livro da bolsa – eu sempre estou preparada pra enfrentar qualquer momento de espera e paciência. Ainda precisava lidar com a ansiedade positiva crescente e o medo irreal de ser inapropriada com a questão de cobrir os seios e tudo mais.
Se engajar com livros enquanto se espera para fazer algo, é realmente difícil de lidar. Eu estava numa menção muito interessante sobre o experimento da prisão de Stanford, que quase dava pra associar o tema com as teses de vigilância e disciplina, quando percebi que alguém andava na minha direção. Muito provavelmente já era a minha vez, e para ver quem era eu resolvi erguer o rosto.
E precisei erguer mais ainda.
Sem aviso prévio, me deparo com o homem mais alto que eu já havia visto pessoalmente. Ele parou bem na minha frente e me olhou de cima enquanto eu continuava com a cabeça toda inclinada para poder vê-lo.
- Rousseau? – ele perguntou objetivamente. Eu fiz sinal que sim, sem falar nada. – Eu sou o .
Não sabia o que responder, então eu só assenti. Me pergunto como é possível que eu estivesse tão impressionada com a altura do cara a ponto de nem saber o que falar. Ele fez sinal para que eu o acompanhasse e foi até a porta de uma das salas de azulejo branco. Só quando eu me levantei, que eu pude constatar de verdade como ele era, e isso me deixou bastante desconcertada por dentro.
Imaginei o trabalho e a demora para cobrir de tatuagens um corpo gigantesco daquele jeito. Ele também era o estereótipo de tatuador com os braços fechados com desenhos que nem fazem sentido, alargador enorme em uma orelha e na outra uma argola grossa, o estilo da roupa como quem diz que não está nem aí para o que os outros pensam, mas que com certeza isso faria dele uma pessoa cool. E, porra, como ele era bonito.
Sem muito tempo para pensar nisso, só entrei na sala e fiquei esperando enquanto ele tirava alguns materiais vedados em plástico. Havia ali uma maca tipo de hospital com o colchão plastificado e imaculadamente branco. Sentia que meu coração estava a ponto de implodir, tamanha era a minha ansiedade para fazer uma tatuagem que eu havia planejado 24 horas antes.
- Olha, esse aqui é o desenho que você nos mandou. – ele ficou na minha frente e estendeu um papel muito claro e fino que continha o desenho que eu escolhera. – Eu vou colocar o decalque na sua pele para poder marcar o desenho pra depois tatuar em cima, como se fosse um contorno. – ele me explicou com paciência. – Isso é só tinta facilmente removível, ela serve pra saber se é exatamente desse jeito que você quer a tatuagem.
Continuei apenas balançando a cabeça para mostrar que estava entendendo tudo, mas acho que nenhuma palavra conseguia durar mais de 5 segundos na minha mente, porque eu ainda estava chocada com todo o “conjunto da obra” que ele era. Foi assim também que eu lembrei que estava com os dois seios parcialmente cobertos por esparadrapo e é claro que isso me fez ficar extremamente vermelha e um pouco ansiosa do jeito ruim.
- É a sua primeira vez? – perguntou sorrindo um pouco, talvez pelo sentido ambíguo da pergunta.
- É sim. – confirmei sem graça.
- Engraçado... – ele já olhou para mim com um pouco mais de naturalidade. – É muito raro ver gente, principalmente mulher, fazendo a primeira tatuagem sozinha.
- O que posso dizer. – dei ombros. – Eu não conheço ninguém aqui.
- É mesmo? – ele perguntou enquanto se concentrava em arrumar uma espécie de avental de plástico. – E você é de onde?
- Suíça.
- Ah, então você é milionária? – ergueu os olhos na minha direção e um sorriso brincava no seu rosto.
- Não! – eu quase gritei, mas ao mesmo tempo também me deu vontade de rir. – Isso é só um estereótipo, não corresponde à realidade de lá.
- Sei... – ele continuou sorrindo, agora de forma descrente. – E você está em Barcelona a passeio, trabalho...?
- Eu me mudei para cá há três meses – tentei falar sem muito ressentimento, mas não sei se deu muito certo. – Antes eu morava em Paris, mas não dei conta de ficar mais tempo por lá.
Eu estava respondendo suas perguntas de forma distraída enquanto brincava com a orelha do livro que eu ainda não havia guardado. Levantei o olhar e percebi que ele havia parado de mexer no avental de plástico e agora olhava para mim, e provavelmente estava olhando esse tempo todo. Não deu pra evitar que todo o meu sangue fluísse para as minhas bochechas, porque dava um pouco de vergonha partilhar esse tipo de detalhe com um desconhecido, por mais simpático (e bonito) que ele fosse.
- E você ‘tá gostando daqui ou já quer voltar pra casa só pra carregar uma baguette embaixo do braço? - ele provocou sem parar de sorrir.
- Não, imagina. – resolvi entrar na brincadeira e usei o mesmo tom de sarcasmo. – Só sinto falta de verdade das guilhotinas e das revoluções burguesas.
Ele então abriu um sorriso genuíno quando percebeu que eu estava correspondendo o assunto, e aí eu me senti que meu rosto ficava cada vez mais quente de tanta vergonha. É difícil lidar com novas interações humanas quando se passa tanto tempo só dentro de casa.
- Bom, pelo que eu entendi, você quer o desenho no seu esterno, não é? – ele se sentou no avesso de uma cadeira, com as costas viradas para mim e onde ele apoiava os dois braços. Eu acenei confirmando. – Então, já podemos começar? Eu ainda preciso colar o desenho na sua pele.
Se antes eu já estava com vergonha, agora então minha boca havia até secado de tão constrangida que eu estava prestes a ficar ao ter que perguntar sobre ter de ficar sem blusa.
- Olha, não sei se é adequado... – falei completamente sem jeito. – Mas eu não sabia direito como fazer pra ficar coberta, então eu coloquei uns esparadrapos, sabe?
- Sim, não tem problema. – ele havia se levantado e estendeu o avental de plástico para mim. – Eu ia te dar isso aqui, de qualquer jeito, você coloca nas costas e ele cobre tudo na lateral do seu corpo. Mas pode fazer como preferir. Vou te dar um minuto de privacidade pra você se arrumar, ok?
- Obrigada. – estiquei a mão para pegar o avental azul.
saiu da minúscula sala branca e fechou a porta atrás de si, me deixando completamente sozinha ali. Não deixei que qualquer paranoia tomasse conta da minha cabeça pro caso de ter alguma câmera escondida por ali, então rapidamente tirei a blusa e vesti conforme ele havia indicado. O avental cobria toda a lateral do meu corpo e deixava apenas metade de cada seio exposto, e o esparadrapo que eu coloquei realmente ajudou a ficar mais discreto.
- Pronto. – avisei em voz alta.
Ele entrou de novo e me indicou onde ficar naquela maca de hospital. Deitei-me apoiando a cabeça num travesseiro também coberto por um plástico grosso e encarei o teto. Eu realmente estava prestes a fazer uma tatuagem e isso parecia surreal demais. Ainda estava absolutamente nervosa e ansiosa, e felizmente os dois sentimentos eram muito positivos.
- Olha só, costuma doer bastante nessa parte do corpo. – ele me avisou enquanto tirava de um pacote uma máscara higiênica de pano branco. – Se você precisar é só me avisar e eu paro um pouco. Enquanto isso, quero que você tente respirar movimentando mais a barriga do que o peito, porque assim evita que eu comece a fazer tudo fora do contorno caso você se mexa. Pode ser?
- Tudo bem.
Agora sim parecia decisivo. Depois de passar o desenho para a parte entre as minhas costelas, ele já tinha a agulha na mão e a tinta preta ao lado. Eu havia lido num site algumas dicas para se distrair da dor, como por exemplo, ouvir música ou mascar chiclete – que era o que eu tinha. Fiquei com receio de em algum momento acabar mordendo a minha própria língua, e pra ser sincera eu não ficaria surpresa de alguma merda assim acontecesse logo comigo.
- Vamos lá! – ele anunciou e encostou a agulha na minha pele.
Era provavelmente uma das melhores sensações do mundo. Eu não pude conter um sorriso enorme (que devia ser o primeiro verdadeiro em várias semanas) quando senti aquela agulha pequenininha rasgando a minha pele centenas de vezes por cada fração de segundo. Quase que como por instinto, também pude vê-lo sorrindo mesmo por trás da máscara cirúrgica, porque suas bochechas se ergueram e seus olhos verdes de aspecto felino ficaram apertados.
- Então, qual livro você estava lendo?
Ele me pegou de surpresa. Eu estava me concentrando em uma lâmpada branca no teto para poder aproveitar aquela experiência sem nenhum tipo de interrupção ou pensamento obsessivo da minha parte. Mexi a cabeça de modo a ficar mais confortável e nossos olhares se encontraram rapidamente, mas logo ele voltou a atenção para a agulha em cima de mim.
- Vigiar e Punir. – respondi com orgulho.
- Que título triste. – ele comentou em voz baixa. – Sobre o que é?
- É sobre teoria política. – reprimi um suspiro de emoção para poder falar de algo que eu amo. – Fala sobre como a sociedade moderna foi se organizando de tal forma a reprimir as anomias, a criminalidade e a violência através do controle corporal, da vigilância e da paranoia.
- É mesmo? – ele estreitou as sobrancelhas para mim. – Você gosta desse tipo de assunto?
- Sim, claro. – respondi um pouco insegura por causa do seu tom de voz.
- Legal, eu também – foi o que ele disse e que me deixou confusa de novo. – Quem sabe você me empresta ele quando terminar de ler.
Soltei uma risada baixa e voltei a encarar o teto branco. Parecia surreal demais que aquele cara todo alternativo se divertisse lendo esse tipo de coisa, e parecia mais improvável ainda que logo eu fosse emprestar o meu livro.
A dor era bastante suportável até então. A todo momento me dava vontade de levantar o queixo e espiar para ver como estava ficando, mas eu tinha que controlar esse impulso por não querer estragar nada do processo, como ele mesmo havia me pedido.
- Nada mal. – ele falou tranquilamente depois de alguns minutos que passamos em silêncio. – Você ‘tá aguentando muito bem a dor.
- Eu juro que não ‘tô achando grandes coisas por enquanto...
- Sempre tem gente que fica com medo da agulha, seja por ela mesma ou pelo barulho que ela faz.
- O barulho não me incomoda. – acenei negativamente. – Meu irmão mais velho é dentista, então eu ‘tô acostumada com esse motor barulhento.
- Então ‘tá explicado o seu sorriso tão bonito. – ele ergueu as sobrancelhas sugestivamente.
Ok, o que foi que acabou de acontecer aqui?
- O-obrigada! – respondi dessa vez mais envergonhada do que em qualquer outro momento da minha vida que eu pudesse me lembrar.
Que diabos de sinal é esse, universo? Eu estava deitada sem blusa e havia um homem debruçado em cima do meu peito. A disparidade até mesmo de poder psicológico naquela situação era gigantesca. Bom, não é como se ele estivesse encostando em mim mais do que o necessário ou falando coisas inapropriadas, mas eu realmente fui pega de surpresa. E acabei gostando.
Seguiram-se mais alguns bons minutos no completo silêncio, exceto pelo barulho da agulha. Eu ainda não sentia nenhuma dor muito profunda, então sinceramente não tinha como reclamar de nada. Mas eu ainda queria muito ver como estava até então e tentei mover minha cabeça para cima e enxergar a parte onde tinha as duas mãos.
- Ei, não pode olhar! – ele me repreendeu estendendo a mão que segurava uma gaze branca. – É melhor se surpreender.
- Mas eu ‘tô curiosa!
- Não. Sem spoiler.
Acho que qualquer outra pessoa no meu lugar ficaria desconfortável ao extremo... Na verdade, até eu mesma deveria ficar morrendo de vergonha nessa posição, mas por incrível que pareça eu entrava na onda de todos os comentários engraçadinhos e provocativos que ele fazia. Quase que como mágica eu sabia muito bem o que responder, como corresponder ao assunto e ao tom de voz que ele usava, etc. Nem parecia que eu era completamente surtada e obsessiva quando se tratava de conversar com outra pessoa sem ser minha única amiga.
Não demorou muito para que o desenho fosse terminado. Levantei da maca e fui me olhar no espelho comprido que havia na parede e mal pude acreditar no que havia ali em mim. Eu tinha escolhido de forma completamente aleatória, mas ficou tão perfeito e tão a minha cara que parecia até destino. Os ramos de lavanda foram traçados de forma bem delicada e minimalista, e agora parecia que meu peito repousava em cima das flores como se fosse uma pintura – ninguém segura a minha autoestima depois dessa tatuagem.
- Meu Deus... – eu sorri e cobri a boca ao me olhar, ainda completamente descrente. – Eu realmente fiz isso!
- Fez sim. – assentiu distraidamente enquanto jogava no lixo algumas embalagens plásticas e colocava suas coisas no devido lugar. – Como você ‘tá se sentindo?
- Eu ‘tô completamente em choque ainda. – olhei para ele através do reflexo, uma vez que ele havia parado atrás de mim. – Deve ser o melhor momento da minha vida.
O que era algo muito triste de se dizer, pra falar a verdade...
- Vem cá, a gente precisa tirar foto pra colocar no site e nas redes sociais. – ele fez sinal para que eu o seguisse.
Rapidamente tirei o avental e coloquei-o dobrado em cima da cadeira onde ele estava antes. Abaixei a blusa e fui andando na direção em que ele ia.
Fomos para uma sala ao lado onde havia um grande painel pintado de preto, e o reconheci das fotos que havia na página do Facebook do estúdio. Ali estava também a garota da recepção acendendo uma luz profissional na direção da parede.
- Como foi? – ela me perguntou de forma amigável quando eu entrei na sala, ainda com um sorriso gigantesco no rosto.
- Eu adorei! – respondi com entusiasmo demais, mas eu não conseguia me conter.
Subi no degrau que ela havia me indicado e levantei a blusa, com os seios ainda parcialmente cobertos de esparadrapo. estava encostado do outro lado da sala e me olhava como se também estivesse se divertindo com a coisa toda. Eu estava tão entusiasmada com a tatuagem que só consegui sorrir para ele sem parar enquanto me tiravam as fotos. Lembrei-me de Lydia, que havia dito que se sentia especial, e acho que agora entendia o que ela quis dizer; literalmente havia arte no meu corpo, arte marcada pra sempre e isso me deixava completamente encantada.
Logo em seguida fui de volta até a recepção para pagar, e, enquanto isso, me explicava cuidadosamente como eu deveria cuidar até que estivesse completamente cicatrizada. Eu assentia para tudo que ele falava e, com certeza, eu tomaria todos os cuidados extras para que nada de horrível acontecesse.
- Aqui está. – entreguei o dinheiro exato para a recepcionista.
- Ah, antes que eu me esqueça. – lembrou de repente. – Você deve passar a pomada cicatrizante sempre que possível nos próximos dias, e depois pode usar só umas duas vezes, principalmente depois de tomar banho. – ele entrou atrás do balcão e puxou de uma caixa o pote da tal pomada. – Acho que eu deveria ter avisado antes que o valor dela não está incluso no preço da tatuagem, mas são só 8 euros.
- Não se preocupe. – fiz um gesto na sua direção e procurei o cartão de crédito na minha carteira.
- Ih, a máquina de cartão não está funcionando hoje, não sei por que. – a recepcionista me olhou frustrada e como se pedisse desculpas – Acho que é sinal fraco.
- E agora? – perguntei olhando para . – Eu saí de casa com o valor exato da tatuagem.
- Eu sei onde tem um caixa aqui perto. Eu te levo lá. – saiu de trás do balcão rapidamente e parou ao meu lado.
Sorri em agradecimento e, mais uma vez, o acompanhei, só que agora foi pela rua. Ainda estava de dia, obviamente, por causa do verão, mas provavelmente já era quase sete da noite. Não havia tanta gente por ali, então manter uma conversa foi fácil sem precisar desviar de hordas de turistas que não sabem andar direito.
- Então... – ouvi a voz dele me chamando. – Além de ler sobre teoria política, o que você faz por aqui? – franzi a testa por não entender direito a pergunta. – Quer dizer, você estuda, trabalha...?
- Ah sim! – revirei os olhos. – Eu pedi transferência de universidade, então, em setembro, eu começo a estudar na Autónoma. Também trabalho, mas só no turno da manhã. Não é grande coisa...
- O que você estuda? – ele puxou do bolso um maço de cigarro, colocou um entre os lábios e acendeu-o.
- Segurança Internacional. – dei um sorriso amarelo, porque já estava esperando algum comentário debochado.
- Parece coisa de gente importante, mas eu sinceramente não sei o que isso quer dizer. – ele sorriu e depois deu um trago.
- Digamos que eu estudo fenômenos de violência quando eles se tornam ameaças globais ou então, quando existe um padrão de ocorrência muito repetitivo e similar em diferentes partes do mundo. – expliquei da forma mais sucinta possível.
- Ah tá, então... Você estuda os terroristas?
Olhei para ele de lado. Como era possível um completo desconhecido associar imediatamente as poucas informações que eu dei e acertar em cheio qual era a minha especialidade?
- Sim, terrorismo é a área que mais me interessa. – concordei com um pouco de admiração.
Antes que o assunto rendesse mais, ele me apontou logo a frente um caixa eletrônico e eu prontamente fui até lá.
- Porra, cinco euros de taxa pra qualquer saque que eu fizer? – exclamei espantada ao olhar para a tela. Ali estava dizendo claramente que para qualquer saque, seria descontada a quantia de cinco euros. – Que absurdo!
- Não, não pode ser. – se posicionou de novo atrás de mim e abaixou o suficiente para que seu rosto pairasse acima do meu ao olhar para a tela do caixa. – Ah, acho que é porque o seu banco não é daqui. Mas mesmo assim, não me parece certo...
- E agora? Eu posso voltar amanhã e comprar a pomada, mas não quero deixar de cuidar da tatuagem logo no primeiro dia. – olhei confusa para ele. – Não posso lavar com aquele soro fi...
- Soro filosófico? – ele completou.
- Não é fisiológico? – corrigi com receio.
- Ah sim! – ele exclamou e passou uma das mãos pelos cabelos loiros. – Olha só, tive uma ideia. Eu não tenho mais nenhum cliente marcado hoje, então o que você acha da gente tomar uma cerveja ou comer alguma coisa? Você paga, eu te dou a pomada e nós dois ficamos quites e felizes.
Eu ia falar alguma coisa, mas a proposta dele de basicamente me chamar pra sair me fez ficar com a boca levemente aberta. Menos de vinte e quatro horas atrás eu havia prometido para Anya e para mim mesma que eu abriria espaço e daria chances para que coisas boas me acontecessem. Eu só não imaginei que a minha situação estava tão crítica a ponto de eu literalmente sair na rua e já ter tantas coisas diferentes acontecendo assim tão rápido. Em uma fração de segundo eu refleti sobre as minhas possibilidades naquele dia. Número um: eu diria “não, obrigada, eu volto no estúdio amanhã” e iria para casa assistir séries ruins até dormir. Número dois: aceitaria o convite deste homem legal para beber alguma coisa em troca da pomada que eu realmente precisava.
- Tem algum lugar bom por aqui? – cruzei os braços e sorri para ele, dando a entender que, sim, eu aceitaria sua sugestão.
Bom, que se foda o meu desajuste social!


Capítulo 3

I can see you standing next to me
In and out, somewhere else right now
You sigh, look away
I can see it clear as day


Fiquei pensando no quanto Anya ficaria orgulhosa de mim, e também no quanto eu ainda me sentia completamente autoconsciente muito embora eu tivesse a opção de simplesmente ir embora pra casa onde as coisas não me apavoram.
Uma coisa eu preciso esclarecer para mim mesma: eu não era assim antes. Parece que me mudar de país depois foi uma ruptura completa na minha perspectiva de vida. Eu não era exatamente a pessoa mais popular ou sociável de todas, mas antes eu nunca havia passado por nenhuma situação em que eu tivesse completa aversão e incapacidade de me relacionar com alguém, independente do nível de profundidade que o contato poderia exigir. Eu sempre fui absurdamente ansiosa e surtada com qualquer coisa que ameaçasse fugir do normal e do planejado, mas, nos últimos meses, eu experimentava quase que uma fobia de gente – isso ao mesmo tempo em que eu sentia falta de sair, de conversar, de ter amigos e tudo mais. A barreira linguística que havia entre Barcelona e eu também era outro grande obstáculo que me impedia de progredir nos meus mais recentes medos, e eu acho que é necessário reconhecer o quanto aquela situação estava completamente sob o controle.
Enquanto seguia andando tranquilamente subindo a rua, eu não senti hora nenhuma o impulso de cantar um mantra na minha cabeça de “vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem”, que era algo que eu fazia constantemente em Barcelona. Talvez tenha sido o fato de que, absolutamente tudo que esse tatuador falara comigo, me deixou completamente surpresa do jeito positivo, então eu não tinha como reagir com aversão. Ou quem sabe era a adrenalina de fazer algo novo que me deixou meio aérea ao nervosismo natural. Provavelmente as duas coisas.
- Você bebe? – a voz de me tirou a concentração. Olhei para ele sem conseguir raciocinar muito bem. – Posso pedir uma cerveja pra você também?
Quando me dei conta, estávamos parados em frente a um típico e pequeno bar catalão. Não havia nada escrito em espanhol e eu precisei piscar algumas vezes para sequer tentar entender alguma coisa ali.
- Bebo sim. – respondi finalmente. – Pode pedir.
Enquanto se debruçava no balcão e pedia qualquer coisa em catalão que eu não fui capaz de entender, eu pude observá-lo de outro jeito. Eu sou muito dramática pra essas coisas, então acredito que a luz branca medonha do estúdio não tenha favorecido para que eu pudesse perceber muita coisa de sua aparência além da altura (que era fácil de constatar) e das tatuagens. A dois passos de distância, pude reparar no quanto seu rosto era tão certinho e cheio de ângulos. Não havia sequer um mísero resquício de desenvolvimento da adolescência nele, então só pude supor que ele deveria ser uns cinco anos mais velho que eu, pelo menos. Quando ele ainda me tatuava eu pude ver que seus olhos eram verdes escuros, do tipo que fica cada vez mais brilhante e profundo sob a luz do sol. Ele também realmente tinha um aspecto felino que eu não sabia dizer exatamente qual era; havia qualquer coisa na profundidade e no formato dos olhos que me lembravam bastante qualquer felino imponente. Era interessante.
Tentei disfarçar para não parecer que eu estava o encarando. Quando o atendente nos entregou duas garrafas de cerveja, lhe estendi o cartão para que pudesse pagar. não disse nada, apenas segurava uma long neck em cada mão e observava atentamente enquanto eu agradecia o cara atrás do caixa e guardava a minha carteira na bolsa novamente.
- Olha, tem um banco ali. – ele apontou com uma das mãos para um banco de madeira vazio do outro lado da rua.
Ficava do lado de fora de uma praça, por mais que não fosse nem um pouco parecida com as praças de Paris, e algumas pessoas ocasionalmente passavam por ali de bicicleta ou de skate. Não estava tão quente quanto no dia anterior e até batia uma brisa fresca, o que era sempre o clima ideal para mim.
- Cheers, mate – ele inclinou a sua garrafa na minha direção e encostei a minha na dele. – Vai, me conta: qual a história da sua tatuagem?
- Achei que tatuadores odiassem esse clichê de “significado” de tatuagem. – respondi tentando dar uma de esperta, só para não falar que eu havia escolhido aleatoriamente. – A história é que eu vi, gostei, você estava disponível e eu tinha dinheiro. C’est fini!
Ele não respondeu. Apenas ficou uns cinco segundos me encarando e balançando a cabeça em leve descrença. Quando achei que ele tinha se ofendido pela minha resposta “grosseira”, ele abriu um sorriso e deu outro gole na cerveja.
- Mas eu tenho mais ideias para outras tatuagens – continuei. – Só achei que a primeira deveria ser essa.
Que mentira deslavada...
- O que mais você já pensou em fazer? – ele perguntou.
- Sempre penso em coisas relacionadas aos meus livros preferidos, alguma frase que me marcou, sei lá...
- Tipo qual livro? – ele insistiu. – E qual frase?
Definitivamente eu não estava acostumada com uma pessoa conversando comigo e demonstrando tanto interesse assim. Eu ainda não estava convencida muito bem se aquilo era mera cordialidade, se era só uma troca de favor financeiro ou se ele realmente estava a fim de render a conversa comigo. Por via das dúvidas (e pelo bem da minha promessa pessoal), resolvi ir na dele.
-“It is sometimes an appropriate response to reality to go insane.” – citei da minha memória. – É de um livro chamado Valis, do Philip K. Dick.
- Como é? – ele perguntou novamente enquanto tirava o celular do bolso. – Escreve o nome pra mim?
Peguei o telefone que ele me estendia com o bloco de notas aberto. Cuidadosamente colocando todas as letras maiúsculas do jeito certo. Entreguei de volta o celular e percebi que ele me olhava ainda do mesmo jeito, como se quisesse enxergar alguma coisa além da pessoa que estava ali na sua frente.
- Esse você também pode me emprestar? – ele perguntou como se houvesse algum acordo prévio em que eu lhe emprestaria qualquer outro livro.
- Não, esse você vai ter que procurar sozinho. – pensei em perguntar quando é que eu havia lhe prometido emprestar algum livro, mas resolvi que dar corda seria mais divertido.
- Justo. – ele assentiu. Vi que ele mexia no bolso de trás da calça e logo depois me estendeu um tubo branco e um cartão. – Aqui está seu presente, e o cartão do estúdio.
- Obrigada. – recolhi e observei o cartão. No verso estava escrito à caneta @gnaves. Então ele estava me passando o endereço pessoal, não só o da loja...
- Qualquer dúvida sobre como proceder é só nos chamar. – disse de forma simpática. – Você tem nosso número.
Percebi que a cerveja dele já estava quase no fim e a minha pouco havia passado da metade. Acho que era a deixa para cada um seguir seu caminho, muito embora eu queria continuar ali conversando com ele.
- Está na minha hora de fechar o estúdio, então... – ele confirmou o que eu estava pensando. – Obrigada pela companhia.
- E obrigada pela tatuagem. – respondi e fiquei em pé ao mesmo tempo que ele.
não hesitou nem por uma fração de segundo. Ele simplesmente se aproximou e abaixou um pouco para me dar um abraço muito confortável e pouco profissional, digamos assim. Eu obviamente correspondi, porque estaria mentindo se dissesse que não tinha vontade em saber como era finalmente me sentir um pouco baixinha perto de alguém.
Logo ele me soltou e sorrimos um para o outro. Perguntei vagamente onde ficava o metrô e ele me apontou para o lado oposto de onde viemos, então eu seguiria para outra direção, de qualquer forma.
- Até mais, .
Dei um tchauzinho e segui para o lado direito da rua. Por um momento eu havia esquecido da nova e incrível tatuagem que fizera e isso ainda era a coisa mais legal que tinha acontecido na minha vida recentemente. Peguei meu celular na bolsa e abri na conversa com o estúdio, porque logo havia recebido as fotos tiradas há pouco tempo. Encaminhei todas para Anya e apenas esperei sua reação até que eu pudesse chegar em casa.
Uma vez já no meu pequeno e confortável apartamento, tirei a blusa e fui direto para o espelho do banheiro. Era uma coisa incrível isso de olhar o próprio reflexo e sorrir, e sentir orgulho e felicidade. Não era necessariamente pela minha aparência, mas ainda assim eu estava ali me olhando e verdadeiramente sentia que poderia gostar de mim mesma, que poderia me admirar. Lydia estava certa. Ela se sentia especial por ter arte em si e eu me sentia bonita.

Acordei cedo no dia seguinte para poder cuidar da tatuagem. Tentei não entrar em pânico quando vi que havia uma gosma preta espalhada no meu peito embaixo do plástico filme... A quem estou querendo me enganar? Eu surtei sim. Achei que tudo estava perdido e que minha pele teve uma reação horrorosa. O horror durou pouco tempo até eu pegar uma gaze encharcada e começar a limpar a região, que voltou a ficar impecável. O desenho estava ali como antes, mas um pouco de “plasma” tinha saído, e isso era normal – pelo que li na internet.
Anya ainda não havia respondido minhas mensagens, o que só poderia significar que ela e Thor tinham transado a noite inteira e estavam exaustos. Conheço meus amigos.
Não me surpreendi quando entrei no meu perfil do Instagram e vi que havia me seguido – porque eu havia feito o mesmo à noite antes de dormir – e que ele tinha me mandado mensagem direta. Abri com um sorriso no rosto e li o que ele havia escrito:

@GNaves: Hola! Queria saber qual dessas fotos você gostou mais?
@GNaves: eu prefiro a primeira... #smilepower
@Rousseau: Bonjour. Também gostei da primeira


Ele havia me enviado a versão editada das fotos que tinha tirado; ambas cobriam meu rosto, mas a primeira aparecia um pouco do meu sorriso que saíra naturalmente em algum momento da sessão improvisada.

@GNaves: vou colocar ela no perfil do estúdio, então.
@Rousseau: :)


Dessa vez eu fiquei com receio de render assunto, porque ele havia me abordado de forma tão profissional que com certeza eram somente essas as suas intenções. De qualquer forma, eu tinha que ir trabalhar e não podia perder tempo que nem uma adolescente (por mais que eu ainda fosse uma) que fica com o celular na mão conversando com o crush.
Sei que passei a manhã inteira completamente radiante. Ninguém no trabalho pareceu perceber, e isso não tinha problema. Eu estava me sentindo tão alegre por ter gostado de algo em mim mesma que nem a constante ignorância dos meus colegas em relação à mim conseguiu me abalar. Resolvi não contar a Lydia que eu havia feito uma tatuagem literalmente um dia antes dela ter me contado da sua, porque isso poderia parecer um pouco estranho (como se eu a tivesse imitado) e porque eu ainda queria guardar essa pequena conquista só para mim – e por conquista eu também quero dizer todas as repercussões de socialização que vieram com a tatuagem.
No caminho de volta para a casa, eu rezei por outro motivo que me fizesse ficar na rua um pouco mais. Eu poderia ir à praia, fazer compras, ir a algum museu... Mas queria mesmo ter uma motivação específica que me chamasse e me prendesse por causa de algum propósito. Não nego que fiquei um pouco frustrada, mas não era como se depois de um único dia espontâneo eu já tivesse revolucionado a minha perspectiva de vida.
Vi que minha foto tinha sido postada e naturalmente sorri. Tirei print da tela e novamente mandei para Anya e no mesmo segundo ela visualizou essa e todas as outras mensagens. A notificação de chamada em vídeo apareceu, para o meu espanto.
- Ah, oi Thor! – cumprimentei quando vi aquela figura enorme na tela.
- Oi . – ele respondeu com a voz grossa. – Anya está com a cara enfiada no vaso e pediu para eu te ligar.
Ah, isso explicava o sumiço. Pela tela, eles pareciam estar no quarto do hotel. Thor estava deitado na cama e eu podia ver um pedaço da porta aberta do banheiro, onde eu imaginei que Anya poderia estar.
- Ressaca ou intoxicação? – perguntei fazendo cara de nojo.
- Os dois. – Thor riu. – Acho que não se mistura mexilhão e vodka com tanta intensidade num dia só.
Ouvi um gemido alto e doloroso no fundo da ligação, e imaginei que fosse Anya concordando.
- Então você fez mesmo uma tatuagem, huh! – Thor falou na verdade sem muita surpresa.
- Fiz! – respondi orgulhosa. – Você viu as fotos?
Anya apareceu na tela antes que Thor pudesse responder. Ela estava de roupão azul marinho e com um copo de água na mão. O rosto amarelado e murcho de quem havia vomitado tudo que tinha dentro de si.
- Tira a blusa aí pra eu ver. – ela disse sem animação enquanto tampava os olhos do namorado. Hesitei, mas por fim levantei a minha camisa o suficiente para ela poder ver o desenho. – Olha só, , quem diria...
- Certamente eu não diria... – disse Thor, agora sem uma mão lhe cobrindo o rosto.
- Sim, e tem mais... – continuei, agora com a intenção de relatar todo o ocorrido com .
Sob um olhar de peixe morto de Anya, mas que eu sabia que ela estava fazendo um esforço enorme pra deixar o entusiasmo tomar conta, e a cara de reprovação do meu viking de estimação, contei em detalhes as coisas todas que eu e o tatuador havíamos feito; as indiretas, os joguinhos com palavras, a intenção implícita em cada assunto.
- Nossa, mas em nome de Jesus, , você precisa arrumar um jeito de sair com esse cara. – Anni aproximou o rosto da tela do celular.
- Você ficou louca? – Thor se virou para ela incrédulo. – O cara pode ser doido, pode usar essa situação à favor dele e tudo mais. Você não vai fazer nada com ele.
- Mas como assim, Andrej? – Anya agora havia se virado para ele. – Não dá pra ver que o sujeito foi extremamente profissional?
- Isso é o mínimo que ele tem que fazer, Anni...
- Eu sei disso, mas ele não ‘tá tirando proveito de uma menininha que tem crush nele! – Anya insistiu do jeito mais convincente que conseguia ter naquela situação. – Porra, já é maior de idade, vacinada e faixa preta.
- De onde você tirou isso? – dessa vez Thor colocou as duas mãos ao lado do rosto e falou bem alto. – Não é possível que você quer convencer a sua melhor amiga a dar corda pra um cara que numa situação profissional ele passou uma cantada.
- Gente, eu ainda ‘tô aqui... – acenei levemente, mas me divertido com a discussão.
- Você ‘tá tentando fazer slut shaming que eu sei! Sem ofensas, ... – Anya pareceu perceber finalmente que eu estava ali. – Ela vai corresponder e vai chamar ele pra sair sim, ou pelo menos vai concordar se ele te chamar, não é ? Ele é bonito?
- Não interessa, amor! – Thor não me deixou responder. Dessa vez ele olhou para mim e assumiu uma expressão mais calma. – Eu só não quero que você faça nada que pode se arrepender, só porque a sua amiga irresponsável ‘tá forçando isso na sua cabeça.
Desejei que eu não tivesse falado nada, afinal de contas. Por mais que aquilo ali fosse a prova viva que meus (dois únicos) amigos se importavam com a minha felicidade ou com o meu bom discernimento, eu sinceramente não queria que o assunto fosse grande coisa. Porra, o cara só havia me dado umas indiretas e me seguido no Instagram, se eu parasse pra pensar. Isso realmente não significava nada.
Enquanto eles ainda discutiam se eu deveria ou não transar com um desconhecido, chegou uma notificação na parte de cima do meu celular. Aqueles dois últimos dias estavam se mostrando mais irônicos do que o normal...
- GENTE, OLHA AQUI! – precisei gritar para que os dois me notassem. – Ele me chamou nas mensagens diretas de novo!
- Abre! – Anya gritou ao mesmo tempo em que Thor falou “Não olha” com firmeza.

@GNaves: oye, niña, eu poderia ter te falado mais cedo, mas acabei de me lembrar. Vai ter um cinema a céu aberto na montanha de Montjuic hoje às 10 horas e eu queria te chamar pra ir :)

Li a mensagem em voz alta ao vivo para os dois rostinhos atentos na pequena tela do celular. Não pude evitar sorrir um pouco, mas logo fui tomada pela ansiedade negativa que eu sinceramente não estava sentindo tanta falta assim.
- O que é que eu respondo? – perguntei atônita.
- Fala que vai e pergunta onde vocês podem se encontrar – respondeu Anni, com o rosto descansando no ombro do namorado.
- Você não pode fazer isso, . - protestou Thor enquanto balançava o rosto negativamente. – Olha, será que eu preciso trazer à tona as possíveis consequências ruins?
- Andrej, cai na real! – Anni falou com a voz arrastada. – O pior que pode acontecer é ele ser ruim de cama! E só tem como saber se você tentar.
Mais cinco minutos desse argumento bobo na minha frente, mas eu ainda não sabia como responder. Ainda não sabia o que queria fazer de verdade. Pelo sim e pelo não, considerando que eu poderia ficar em casa na segurança de que nada ruim ou desconfortável acontecesse, resolvi ir pelo não.
Não demorou muito para eu terminar a conversa com Anya e Thor, primeiro porque ela estava se sentindo mal de novo e segundo porque aquilo não fora nem um pouco produtivo. O que era ainda pior: eu não queria me sentir culpada ou arrependida de qualquer coisa, estes não eram sentimentos que eu dava conta de lidar no presente momento.

@Rousseau: quem dera se você tivesse me falado mais cedo! Acabei de receber uma amiga em casa e vamos sair para jantar.
@GNaves: tudo bem, fica para a próxima :(
@GNaves: não se esqueça que você pode passar aqui no estúdio amanhã para eu dar uma olhada no processo de cicatrização.
@Rousseau: não vou me esquecer. Amanhã eu passo aí no mesmo horário, ok?
@GNaves: eu ‘tô com a agenda um pouco cheia amanhã. Se vc vier mais ou menos às sete da noite eu posso te dar a devida atenção...
@Rousseau: pode ser!


Era muito mais fácil sentir o frio na barriga quando a conversa era por celular. Senti uma pontinha de arrependimento e eu sabia que poderia muito bem mandar uma mensagem falando quer saber? Eu aceito o seu convite, mas eu ainda não sabia dizer se eu agiria de forma tão despreocupada e natural assim se eu realmente saísse de casa.
Mais uma vez, optei pela opção que era mesmo a mais segura, mas a minha zona de conforto já havia se mostrado bastante perigosa e claustrofóbica.


Capítulo 4

You always get under my skin
I don't find it irritating
You always play to win
I don't need rehabilitating


Que novidade, eu estava nervosa!
Cada vez mais, eu percebia que eu estava por conta própria. Mais cedo no trabalho eu tive que aturar a coisa mais insuportável de todas, que foi um casal adolescente extremamente adorável e apaixonado. Ao contrário da maioria, eles não ficaram se agarrando em pleno café, mas dava pra ver e sentir de longe o quão próximos eles eram. O tempo todo eles não paravam por um segundo de conversar e de rir, dava gosto de ver duas pessoas tão comprometidas e entretidas consigo mesmos e não com o celular. Depois de pagar, o garoto ainda carregou a própria mochila e a da namorada e os dois saíram de mãos dadas alegremente. Não que eu ache que um gesto desses é supremo na escala de demonstrações amorosas – sim, eu entendo todo o contexto patriarcal, toda a história de tratar a mulher como se fosse um ser fisicamente frágil e tudo mais, mas ainda assim eu não conseguia deixar de achar aquela interação particular tão bonitinha.
Bom, isso me fez concluir que eu estou sozinha porque, eventualmente, Anya voltaria para Barcelona com Thor e, veja bem, ela já tinha uma vida com ele. Acontece que, uma das coisas que Anni e eu compartilhávamos antes em Paris, era essa coisa de “vida de casal”. Já me dá uma pontada horrível no estômago só de lembrar, mas algumas memórias dolorosas sempre eram inevitáveis: Anya e Thor começaram a namorar na mesma época que Max e eu, quando todos nós tínhamos entre 15 e 16 anos. O relacionamento deles durava, até então, em seus mais de quatro anos, enquanto o meu obviamente ficara no passado. A minha ficha ainda não tinha caído que quando os dois voltassem da longa (e merecida) viagem à Croácia, eu não voltaria à minha vida normal de sair em casais com os meus melhores amigos.
O pouco tempo que eu havia passado em Barcelona de fato com a companhia de Anya e Thor foi apenas o suficiente para arrumar a mudança de apartamento, para encontrar um emprego para mim e para que eu pudesse reorganizar a minha vida acadêmica. Quando eles voltassem, eu não teria magicamente a minha amiga à minha completa disposição, ocasionalmente com o seu namorado figurante de Game of Thrones. Os dois estavam ali pelo mesmo motivo que eu, que era para começar uma vida nova juntos. Sei lá, eu nunca achei que eles fossem me deixar de lado ou que eu seria considerada a “vela”, mas também não havia parado para pensar nas consequências de começar algo por conta própria, de um jeito ou de outro.
Eu tinha que me lembrar de sair de casa com fones de ouvido. Estava parada do lado de fora do estúdio de tatuagem há pelo menos uns vinte minutos, tentando ver se o tempo passava mais rápido caso o meu cérebro estivesse ocupado com alguma crise emocional. Seria mais fácil simplesmente escutar música. Eu não estava com nenhum livro naquele momento, e duvido que sequer conseguisse manter a concentração em alguma página.
Aquele dia era diferente, o que parecia estranho, porque logo ontem eu ainda estava extasiada e incrivelmente animada com a minha tatuagem. Com louvor, eu ainda era a pessoa mais impulsiva do mundo, então é claro que não seria possível manter o mesmo nível de felicidade que eu tive no dia anterior. Eu não daria conta de arcar com todas as epifanias e boas ansiedades necessárias um dia após o outro.
Não escureceria tão cedo e ainda faltava pouco mais de dez minutos para às sete da noite. Não vale a pena perder tanto tempo tentando distrair a minha cabeça, sendo que eu só penso em evitar a grande questão que me deixava inquieta. O que foi aquilo de ontem com ? Eu já sabia que não era coisa da minha imaginação, porque não dá pra simplesmente delirar e achar que um cara ‘tá dando em cima de mim desse jeito. Além disso, eu ainda tinha as evidências muito claras dele me chamando pra sair, e tudo isso ainda passou pela avaliação minuciosa de Anni, então eu não podia estar enganada sozinha.
Eu não sabia muito bem o que estava esperando, quer dizer, eu poderia entrar e ficar sentada ali na recepção até que estivesse livre pra poder olhar a minha tatuagem, o que quer que isso signifique. Estava tudo ótimo, obrigada, eu tinha feito absolutamente tudo que ele havia mandado a respeito da troca do plástico filme e do uso da pomada, e a não ser que apenas a minha pele corresse algum risco, eu ainda não entendia o propósito de estar ali.
Claro, isso também não significaria total descaso da minha parte. Eu simplesmente não posso ignorar o fato de que ele poderia despertar algum interesse dentro de mim. Tive receio no dia anterior, mas pelo menos ali eu teria de ser firme independente da qualidade da nossa conversa.
Continuei tão absorta nos meus pensamentos que, para variar, me assustei quando uma voz conhecida me chamou a atenção:
- Você ‘tá parada aí há meia hora. ‘Tá esperando alguém?
Ele me olhava de forma muito confusa, como se realmente não fizesse sentido algum eu estar parada ali na porta do estúdio sem nenhum motivo aparente. tinha o cabelo mais loiro do que dois dias atrás e isso me chamou bastante atenção, porque o tom dourado escuro combinava perfeitamente com suas feições, a cor de seus olhos e a roupa toda preta. O colorido das tatuagens que lhe cobriam cada centímetro dos braços e um pouco do pescoço, obviamente se destacava, e eu percebi que gostava de imaginá-lo como um grande canvas de arte pronto para ser desenhado.
- Não vai entrar? – ele insistiu quando eu demorei a responder.
- Eu estava esperando dar sete horas. – dei ombros como se pedisse desculpas.
- Mas você pode esperar aqui dentro, oras. – sorriu como se fosse óbvio. Depois, ele abriu a porta de vidro do estúdio como se para me dar espaço. Eu saí de onde estava e passei entre o vão de seu braço e a estrutura de madeira. – Agora sim.
A recepcionista não estava ali, e tampouco havia outra pessoa no balcão. Percebi que só estávamos eu, e um outro cara que parecia ser seu cliente mais recente, só porque ele tinha uma tatuagem recém feita no braço e coberta de plástico filme. fez sinal para que eu me sentasse e eu o fiz, enquanto o outro não parecia ter notado a minha presença.
Os dois conversavam alto em catalão, então eu realmente não tinha como saber absolutamente nada, mas logo suas vozes ficaram ainda mais altas e eu percebi que eles se aproximavam da recepção. De forma atenciosa, estendeu a mão na minha direção e por uma fração de segundo eu achei que ele queria que eu a segurasse, mas por sorte entendi que ele estava apenas me indicando.
- , esse é o meu grande amigo Miguel. – disse solene e em espanhol, mas batendo com certa força nas costas do outro. – Miguel, essa é a minha nova amiga .
Não pude deixar de rir do jeito com que ele nos apresentou. Miguel estendeu a mesma mão do braço recém tatuado e sorriu de forma genuína.
- não parou de falar de você! – ele exclamou e pareceu que se arrependeu instantaneamente. – Da sua tatuagem, claro!
- Sim, eu... Eu realmente não costumo fazer nada no estilo que você pediu, mas acho que o resultado foi muito bom, não? – ele colocou a mão no rosto de forma pensativa enquanto olhava para mim com esperança.
- Eu não poderia ter amado mais. – respondi simplesmente, porque afinal de contas era a verdade.
- Que bom saber. – Miguel acenou. – Bom, me desculpe por sair com pressa, Nina, mas foi um prazer conhecê-la. – ele novamente estendeu a mão para mim.
Eu me despedi desse jeito mais formal e observei eles trocarem algumas palavras rápidas em catalão. Ainda dava pra notar a proximidade entre eles e foi curioso entender aquela dinâmica com tanta facilidade; Miguel parecia ser umas duas décadas mais velho que eu, e ele tratava como se fosse seu primogênito, com afeto, proximidade e, ao mesmo tempo, lhe apontando o dedo como se lhe desse um aviso. sorria e o respondia igualmente com respeito e humor, muito embora eu não entendesse muito bem do que eles falavam.
A porta de vidro fechou-se lentamente depois que Miguel saíra. já não estava mais na minha frente; ao invés disso, ele parecia organizar algumas coisas no balcão.
- Só tem a gente aqui? – perguntei, quando percebi que ele estava trancando o caixa do mesmo jeito que eu sabia fazer no café.
Ele confirmou com um aceno distraído. Considerando a situação que eu estava antes, acho que qualquer pessoa... Não, qualquer mulher, ficaria apreensiva e receosa de ficar num ambiente fechado com um homem tecnicamente desconhecido. Estaria mentindo se dissesse que estava tranquila, mas depois tentei me lembrar que aquele era um lugar cheio de câmeras e eu havia avisado a Anya por telefone que estava vindo para cá.
- Bom, se importa de levantar a blusa só o suficiente para eu ver como está? – ele finalmente parou na minha frente com um ar meio agitado.
- ‘Tá tudo bem? – eu perguntei com a maior naturalidade possível.
- Sim, eu só... Só fico cheio de coisas para resolver aqui sozinho e às vezes é difícil lidar com toda a parte burocrática. – ele passou a mão pelos cabelos loiros e respirou fundo. – Me desculpa te colocar no meio disso.
- Me colocar no meio de quê? – eu tentei sorrir para acalmá-lo. – Eu só perguntei porque você me parece um pouco nervoso.
- Uh... Sim, nervoso. – ele soltou uma risada forçada pelo nariz e piscou algumas vezes.
- Pronto, se te acalma eu levanto a blusa pra você ver! – forcei um duplo sentido na frase pra ver se ele mudava a expressão. Deu certo. Logo ele riu de verdade e escondeu parte do rosto nas mãos cheias de desenhos e anéis grossos de metal.
Segurei na barra da camiseta branca que eu usava e levantei até onde a metade da tatuagem estava. ficou numa posição meio esquisita, um pouco agachado na minha frente para que ele pudesse ver. Por um segundo, pensei ter visto as duas mãos dele se levantando ao lado do corpo, como se fossem segurar a minha blusa ou tocar a minha pele, mas ele se manteve praticamente imóvel e à distância.
- Muito bem. – ele se levantou. – Provavelmente por amanhã você vai começar a sentir uma vontade gigantesca de coçar a sua tatuagem. Eu encarecidamente peço que você resista a esse impulso, porque vai fazer um estrago muito grande se você começar a arranhar com as unhas ou mesmo com algum objeto macio.
- Resistir à tortura que o meu próprio corpo faz, entendi. – concordei com ele.
era encantador. Parecia que qualquer pequena tentativa que eu fazia de tentar impressioná-lo, fazê-lo sorrir ou algo assim, dava incrivelmente certo. Até então, ele correspondia a tudo que eu falava, e eu não digo só na conversa cheia de conotações e significados implícitos.
- Então, está tudo certo? – perguntei ao abaixar a blusa.
- Sim... – ele respondeu prontamente e seguiu-se um silêncio um pouco tenso. – Quer dizer, sim, está tudo OK com a sua tatuagem, mas eu queria saber se você gostaria de sair. Comigo, sabe?
Eu não deveria levar tanto tempo assim para responder, mas me permiti alguns segundos para fingir que estava pensando na proposta. até parecia eu: franzindo a testa como se para enxergar alguma coisa de longe, rangendo os dentes e mordendo o interior da bochecha. Como se eu pudesse recusar um convite desses!
- Mas é claro! O que você tem em mente?
Ele parecia aliviado, e isso era muito divertido. Em nenhum cenário eu diria não, de forma alguma, por mais nervosa que eu estivesse.
- A melhor sangria de Barcelona inteira! – ele disse animado enquanto fazia menção de ir até a porta principal, e balançava um molho de chaves em uma das mãos.
- Já ouvi essa antes... – fingi desdém, embora sorrisse. – Acho que todo restaurante em Barceloneta tem isso escrito na porta.
- Nada em Barceloneta é remotamente próximo do que eu chamaria de bom. – riu enquanto trancava a pesada porta de vidro pelo lado de fora. – Além disso, lá é caro demais pro meu gosto, cheio de turistas demais pro meu gosto e... Bom, esqueci que você é turista.
- Oficialmente, eu sou estudante! – levantei um dedo fazendo objeção. – Eu não sou turista... Eu ainda nem fui à Casa Batllò!
- Nem eu. – ele deu ombros e colocou uma mão em cada bolso frontal dos jeans pretos.
- Viu só? Eu já tenho hábitos locais.
- Tem vontade de aprender catalão? – ele perguntou parecendo ter esperança.
- Ah... Não. – respondi de forma distante. – Quer dizer, eu já falo espanhol... – vi que ele me olhou de lado. – Ei! Eu falo sim!
- Tudo bem, você fala espanhol – ele fingiu concordar.
- Bom, eu realmente falo. – ignorei a brincadeira. – Não faz sentido aprender o dialeto sendo que a língua do país inteiro eu já sei.
- Você é da parte francesa da Suíça? – ele perguntou e eu afirmei com a cabeça. – Bom, se alguém se muda para a parte francesa sem saber falar francês, como dá pra se virar?
- A maioria das escolas particulares é em inglês e, assim como aqui, as faculdades têm cursos ministrados em outras línguas. – expliquei. – E é um caso muito mais complicado do que aqui, de qualquer forma.
- Mais complicado que a Catalunha? – ele parecia incrédulo.
- Bom, sim. Cada placa, cada sinal de rua, cada anúncio... Tudo tem de ser escrito impreterivelmente em quatro línguas: alemão, francês, italiano e romanche – listei. – Às vezes também em inglês, nos lugares mais turísticos.
- Você é doida. – ele simplesmente balançou a cabeça negativamente. – E você sabe falar isso tudo?
- Um pouco de cada...
Eu caminhava ao lado dele sem nem questionar onde estávamos indo. Acho que a simples promessa da suposta melhor sangria da cidade já era suficiente para eu embarcar sem nem questionar.
- Sabe, até agora eu tive poucas chances de praticar espanhol – comecei a contar.
- Castelhano – me corrigiu. – Pra início de conversa, se você quer que seu esforço em falar a língua seja levado a sério, vai ter que dizer castelhano ao invés de espanhol.
Aquele jeito protetor e nacionalista de falar não me era mais novidade depois de alguns meses morando ali, então apenas assenti porque, afinal, a estrangeira era eu.
- Tudo bem. – assenti. – Eu nunca consegui praticar castelhano por muito tempo. Quer dizer, eu trabalho de manhã e tudo mais, mas pouca gente fala comigo.
- Você faz o que?
- Eu trabalho no caixa do Bob’s Kitchen, ali no El Gòtic – respondi. – Impressionante, não é?
- Claro que é. – ele deu ombros. – Você ‘tá longe de casa, em outro país que nem fala a língua nativa, é estudante, tudo por conta própria... É impressionante sim.
Não consegui conter o sorriso, é claro. Eu ainda não achava nada disso remotamente impressionante, mas o jeito com que havia dito com tanta simplicidade me fez querer acreditar e dar crédito no esforço que eu fazia todos os dias.
- É logo ali. – apontou para um restaurante modesto do outro lado do quarteirão.
Era como qualquer outro lugar que eu passava pela rua, então não conseguia entender de cara o que havia de tão especial. Barcelona no final da tarde era dividida entre dois públicos alvos: o pessoal que curtia rooftop dos hotéis mais caros e elegantes para comer tapas e beber champagne, e o pessoal dos bares de rua em que era permitido fumar, música muito alta tocava e sempre havia uma bandeira da Catalunha balançando na fechada – era num desses que estávamos prestes a entrar.
Havia uma mureta de mármore e vidro que envolvia a área descoberta do bar, e prontamente me indicou uma mesa no canto. Não entendi exatamente o que ele havia dito, mas me sentei em uma cadeira e observei enquanto ele entrava apressado na parte de dentro do local. Foi o tempo de tirar o celular da bolsa e conferir se havia alguma mensagem das únicas três pessoas que me chamavam (Anni e meus irmãos Axel e Eric) que logo apareceu de volta. Ali sentada era sempre mais intimidador vê-lo em pé. Facilmente ele teria um e noventa de altura...
- Eu conheço o dono daqui, o Sebastián. – ele explicou antes de se sentar. – Então pedi direto para que ele trouxesse a melhor sangria.
Antes também que eu pudesse respondê-lo, puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. Não na minha frente, mas ao meu lado. Isso sim me deixara completamente surpresa e tenho certeza que senti todos os litros de sangue do meu corpo subindo diretamente para o meu pescoço e bochechas, mas tentei fingir que aquele ato era completamente dentro do normal.
Durante três anos eu tinha que me sentar um pouco curvada – a bunda lá atrás da cadeira e o tronco lá na frente – para fazer com que Max se sentisse mais alto, e frequentemente eu tinha que me lembrar que poderia me sentar agora como bem entendesse. Só que com , aquela monstruosidade maravilhosa de ser humano, do meu lado, eu naturalmente me encolhia, mas não era de medo ou submissão.
- Não deve demorar. – ele disse enquanto brincava com o porta velas vermelho que ficava ao centro da mesa. – Enquanto isso, posso continuar te entrevistando?
- C-claro. – franzi a testa ao ouvir a pergunta.
- Ótimo! – ele deu uma batidinha de comemoração na mesa e virou o corpo completamente para o meu lado, enquanto apoiava o braço direito na mesa à nossa frente. – Você estava dizendo que não tem com quem praticar castelhano, certo? – eu confirmei. – Quer dizer, você não tinha, porque pode falar comigo agora.
- Imagino que sim... – respondi tímida.
- OK, agora me diz, deve ter alguém que te deixou na mão sozinha em Barcelona, porque eu não acredito que você decidiu por conta própria se mudar pra um lugar desconhecido.
- Não é a primeira vez que eu faço isso. – ergui uma sobrancelha para parecer mais esperta que ele. – Antes de vir pra cá eu passei um ano e meio em Paris e uns meses em Viena.
Por causa de Max...
- Isso ainda não responde a minha pergunta. – ele imitou a minha expressão. – Algo me diz que isso não estava nos seus planos.
- Você tem razão. – cedi. – Eu realmente estou aqui por causa da minha melhor amiga, Anya. Ela me convenceu que uma mudança total seria a melhor coisa pra mim. E ela já planejava se mudar para cá com o namorado, então foi fácil me convencer. Ela sabe fazer isso muito bem...
- É mesmo? – coçou a barba dourada. – Por quê? Como ela é?
- Anya? Ela é incrível... É o oposto de mim, na verdade. – respondi de forma sonhadora de novo. – Ela é holandesa, mas se mudou muito nova pra Suíça e nós duas sempre estudamos juntas. Sabe, ela é muito mandona, meio violenta com as palavras, fala sem pensar e tudo mais. Mas o engraçado é que ela nunca fala coisas ruins, porque tem um coração muito bom... Então sei que ela sempre quer o melhor para todo mundo, por mais que ela não saiba ser carinhosa com as palavras.
Imaginei que eu estivesse falando de forma nostálgica. Percebi que um sorrisinho tomava conta do meu rosto e que o imitava como se estivesse completamente envolvido naquilo que eu falava.
- E o namorado dela também é ótimo. – continuei. – Ele é um típico norueguês... Ou será que ele é da Dinamarca? – perguntei a mim mesma e soltou uma risada. – Bom, eu o chamo de viking ou então de Thor, porque o nome dele é muito complicado de falar o tempo inteiro.
- Como ele se chama?
- A-N-D-R-E-J – soletrei.
Como que para me salvar de um possível choro emocionado de saudade da minha melhor amiga, o garçom chegou com uma jarra bonita com a sangria. parecia vibrar sem sair do lugar e prontamente arrumou ele mesmo os dois copos.
- Me fala se é a melhor que você já tomou. – ele disse animado enquanto tomava do próprio copo.
Fingi analisar bem o copo nas minhas mãos. Sangria era bom demais e eu não ligava muito se fosse a melhor da cidade, pra ser sincera. Tomei o primeiro gole enquanto ele me olhava apreensivo e sem parar de sorrir.
- É ok... – fingi para testar sua reação.
- Tudo bem, aqui eu não volto com você! – ele também entrou na brincadeira.
- ‘Tô brincando! É mesmo muito, muito boa. É que é engraçado testar as suas reações.
- Eu sei que é. – ele assentiu. – Eu faço isso com as pessoas o tempo inteiro.
- Eu finjo que não sei absolutamente nada sobre uns assuntos triviais só pra ver o quão a pessoa fica com raiva pela minha falsa ignorância. – confessei depois de tomar mais um gole da sangria. – Por exemplo, se alguém fala “ah, eu gosto de Harry Potter” eu provavelmente digo algo do tipo "quem é esse Harry? Nunca ouvi falar desse sujeito."
- Ah, para com isso! – sorria sem parar. – Essa é a minha marca registrada!
- Agora você tem competição, cara...
- Você é engraçada, niña... – ele disse com naturalidade. – , niña, menina.
Claramente não era o álcool, porque aquela sangria não tinha tanto gosto assim de vinho, mas eu senti aquela coisa que se parece com estômago embrulhando... Só que bom. Era quase como ansiedade, mas eu estava perfeitamente confortável ali.
- Pode continuar a sua série de perguntas. – resolvi dizer para me livrar da responsabilidade de manter a conversa.
- Eu não tenho nada ensaiado, é só a minha curiosidade genuína. – ele deu ombros.
- Então me responde você. – ergui as sobrancelhas. – Me fale sobre ser tatuador. Como você começou, como descobriu que trabalharia com isso e tudo mais.
colocou mais sangria no próprio copo antes de responder.
- Não existe uma história inspiradora por trás, não se engane. – ele respondeu. – Eu saí de casa aos dezessete anos e não tinha nenhuma intenção de ir pra faculdade. Aceitei um trabalho de instrutor de natação num acampamento de férias pra poder juntar uma grana e pagar o aluguel do lugar onde eu dividia com mais dois amigos. O verão acabou e eu arrumei outro trabalho como recepcionista de hotel, é o que mais se encontra por aqui... – recordava sem parecer saudosista. – Passei uns bons anos por lá, até que vi um curso de técnica e higienização em arte corporal e pensei que deveria tentar. Não planejei ser tatuador, apenas uni uma habilidade no desenho com a utilidade de cobrar por isso.
- E o seu estúdio? – perguntei.
- A gente abriu há menos de um ano. Por “a gente” eu quero dizer meu amigo Arón e eu. Nós dois trabalhamos no mesmo estúdio por anos, até que resolvemos tentar a sorte.
- Y que te parece?
- Eu sempre achei que seria melhor ser dono de algo do que ser empregado. – ele refletiu com um pouco de pesar, mas logo forçou uma piada para mudar o tom. – Sabe como é, eu quis ascender de assalariado para burguês.
- Claro... – revirei os olhos.
- Mas acontece que é muito difícil. Há muita competição por aqui na cidade dos artistas, e a gente precisa de toda ajuda possível para seguir em frente no nosso pequeno estúdio.
Pouca gente descreveria o próprio trabalho com tanta honestidade, sem se depreciar ou se supervalorizar. falava com a mesma naturalidade que alguém que contasse sobre seu gosto musical, por exemplo, e isso me fez sentir uma pontada de admiração por ele.
- Bom, acho que se depender de mim. – levantei o meu copo e fiz menção de brindar no ar – Eu não descanso até ter umas cinco tatuagens, então vai ser um bocado de trabalho pra vocês.
- Trabalho pra mim. – ele erguera o dedo indicador. – A gente não divide clientes ali, não.
- Você já gastou pelo menos os dois braços inteiros com tatuagens. – eu observei. – Ainda tem parte no seu corpo que não tenha nada caso você queira fazer mais alguma coisa?
sorriu com a minha pergunta como se fosse algo que ele jamais ouvira na sua vida. Bom, eu sinceramente achava que era uma dúvida muito pertinente. Quer dizer, não havia espaço nenhum pelo menos nos seus braços pra poder tatuar alguma coisa nova...
- Eu acho que nunca parei pra pensar nisso... – ele respondeu tentando não rir. – Mas obrigada por colocar esse peso na minha consciência.
- Por nada. – imitei seu tom irônico sem me deixar abalar. Tentei olhar discretamente para as partes expostas do seu corpo que estavam ao meu alcance. – Arte é algo tão bom. E eu digo isso no sentido mais simples da palavra, sabe? Tudo tem o potencial de ser um desastre ou de ser uma obra prima, sempre depende de quem vê.
- Mas tudo não é exatamente assim? – ele me perguntou como se já soubesse a resposta.
- O que quer dizer?
- Veja só, sem querer cair naquela fala clichê de “tudo é socialmente construído”. – ele fez aspas com os dedos. – Você não acha que é impossível existir qualquer conceito de definição estática? Você me diz que a arte tem potencial de ser apreciada ou rechaçada, certo? – ele me perguntou e eu assenti. – Pois bem, não é só a arte, é tudo. Não existe nada que não seja um produto de sentidos e significados que outras pessoas com diferentes origens, vivências e memórias resolveram atribuir.
- A cultura é uma maneira do homem manipular a natureza... – eu repeti automaticamente as palavras de algum antropólogo famoso.
- E a arte é a maneira de manipular a realidade – completou.
- Posso usá-lo como referência um dia? – perguntei e ele sorriu. – ‘Tô brincando. Quem dera se algum dia eu tivesse a chance de falar sobre arte na minha carreira acadêmica.
Ele não falou mais nada. Alguns segundos se passaram de um jeito que parecia que ambos estávamos tentando processar mentalmente as nossas conclusões e reflexões sobre o assunto.
- Mas o que você disse é interessante... – resolvi quebrar o silêncio depois de terminar mais um copo de sangria. – Somos produto das nossas vivências e memórias, e é isso que explica os sentidos e significados que damos às coisas. Quer dizer...
Não me dei conta imediatamente, mas a partir daquele instante eu já estava completamente imersa naquele argumento. não mais falava. Ele havia parado de beber e de encher o próprio copo e agora me olhava como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
- O que é que me diferencia de qualquer outra pessoa que tem o mesmo nome que eu? – indaguei, mas mais parecia o início de um monólogo. – Eu não sou a só porque minha mãe me deu esse nome, não. Eu sou a , que nasceu na Suíça, que agora mora em Barcelona, que fez uma tatuagem, que tem três irmãos, que chorou por três dias quando era criança porque furou a mão com um prego e achou que ia morrer de tétano. Tudo isso constrói quem eu sou, e eu só enxergo o mundo de um jeito que é completamente influenciado pelas minhas memórias, pela minha criação, pela minha essência.
Olhei para . Ele havia mudado de posição e não mais se encostava no braço direito em cima da mesa; agora estava completamente reto e tinha os olhos verdes apertados como se não enxergasse direito. Não soube decifrar aquela expressão, mas imediatamente me arrependi de ter falado tanto sem parar.
- Sei lá, ‘tô viajando. – me apressei em dizer enquanto tomava finalmente o último gole de sangria e amaldiçoava absolutamente qualquer impulso que eu havia resistido.
- Você tem três irmãos? – perguntou como se fosse a coisa mais absurda do mundo.
Respirei aliviada e ele começou a rir.
- Sério que é isso que você escolheu prestar atenção? – perguntei tentando parecer irritada.
- Porra, três irmãos! São mais velhos, mais novos...
- Na verdade, além de ter um irmão mais velho, eu também sou gêmea! E, pra completar, também tenho um irmão mais novo - respondi sucintamente, sem nenhuma vontade de falar da minha família.
- Eu sei como é. – ele assentiu. – Eu tenho três irmãos de diferentes idades e uma irmã adolescente. Não tenho contato com absolutamente nenhum deles.
Era a segunda vez que ele fazia isso. Digo, agir como se algo que eu tivesse falado fosse um escândalo quando na verdade ele compartilhava do mesmo pensamento ou, no caso, a mesma configuração familiar complicada.
- Desculpa, não é que eu não te levei a sério. – ele continuou agora com um tom de voz mais baixo. – É que você disse umas coisas tão... Poéticas. Fiquei com medo de me cair uma lagriminha.
- Não sei dizer se você ‘tá falando a verdade...
- Eu ‘tô. – assentiu algumas vezes de cabeça baixa. – É porque o assunto me pegou de surpresa. Eu realmente tenho receio de ficar emocionado assim em público e ao vivo.
E quem foi pega desprevenida dessa vez fui eu. Mesmo que fosse brincadeira, era ainda assim muito raro ver alguma pessoa falando abertamente que não queria que caísse uma lágrima por causa de uma conversa ou um assunto específico. Não sabia exatamente como absorver essa informação sobre , mas apenas decidi que era algo bom.
- Tudo bem, a gente não precisa falar disso. – eu disse tentando parecer compreensiva. Eu poderia tanto me referir ao assunto sobre arte e memórias e tudo mais, quanto ao tema “família”, que por um acaso era a última coisa que eu gostava de pensar.
- Podemos falar então sobre você chorando porque achou que ia morrer de tétano?
É claro que não consegui conter o sorriso enorme que tomou conta do meu rosto. Com a mesma facilidade ele também me fez sorrir – e praticamente me derreter de encanto na cadeira onde eu estava sentada, diga-se de passagem.
E essa foi a primeira das diversas e longas histórias de infância que compartilhamos naquela noite que poderia muito bem nunca ter acabado.

Capítulo 5

Shit, I'm in no rush
We have all our lives
We can just get high
And watch time pass by
Then again there's nothing we can't do


A caminhada até a minha casa foi cansativa, mas proveitosa. Mesmo tendo o metrô, insistiu em me acompanhar e, assim, pudemos aproveitar mais quarenta minutos de conversa de qualidade. Eu me sentia que nem naquela imagem de duas pessoas casualmente andando em direção a um caminho que parece um céu estrelado, o que significava que certas pessoas têm essa capacidade de nos manter em uma conversa genial por tempo infinito. Era exatamente assim que eu estava me sentindo.
Não foi necessário tanto tempo assim para continuar acreditando e sentindo que era uma companhia muito, mas muito boa. Acho que qualquer pessoa ficaria automaticamente encantada pelo fato dele ser um cara bonito, e esse não era um fator fácil de separar da realidade. Só que o que era impressionante é que, mesmo que eu tentasse descrevê-lo só como atraente fisicamente, eu ainda não conseguiria me aproximar nem em 10% do quanto eu estava me divertindo com ele há horas. Beleza e aparência são recursos fáceis demais para justificar essa atração, e eu tinha até então muitos outros motivos para gostar dele.
Eu me atentei tão pouco ao nervosismo de antes que fui pega de surpresa com a maneira com a qual ele se despediu de mim bem em frente ao meu prédio.
- Olha, eu não quero soar romântico agora... – ouvi ele dizer e de repente eu quase achei que o mundo parou.
Antes que ele pudesse concluir o raciocínio, eu já havia dado aquela enorme surtada mental. Eu ouvi a palavra “romântico” e isso me deixou em real estado de ansiedade. Senti como se eu tivesse tomado um susto gigantesco e meu coração não aguentaria. Isso pode parecer estranho de descrever, afinal, aquela taquicardia não era por eu estar “emocionada” (porque eu, na verdade, não estava) e sim por eu ter nenhum preparo para ouvir esse tipo de coisa.
- Mas eu queria dizer que esse tipo de conversa, esses assuntos... – ele continuou e eu senti meu estômago se encher de borboletas, como nas descrições de filmes de adolescente. - Isso tudo me deixa comovido de várias formas.
- Comovido? – perguntei apreensiva.
- É, mas eu acho que comovido não deve ter o mesmo sentido para você do que tem para mim. – ele se explicou. – A tradução não é equivalente. É como se fosse excited em inglês, mas em castelhano é no sentido sexual.
- Ah...
- Na verdade, eu estaria mentindo se excluísse essa possibilidade. – ele se virou para mim e ergueu uma das sobrancelhas sugestivamente. – Porque tudo sempre foi interligado pra mim; interesse emocional, intelectual, físico... É tudo a mesma coisa.
Ele não havia dito nada de decepcionante, mas honestamente eu não conseguia entender porque aquela fala havia me incomodado um pouco.
- Não se preocupe. – percebi que as palavras saíram naturalmente. – Você não corre esse risco comigo. Não há mais nenhuma gota de romantismo em mim, então você não vai ser mal interpretado.
- Ok, mas o que isso quer dizer? – ele indagou. – Sobre romantismo em você?
- Eu te explico outro dia. – respondi rapidamente para acabar logo com o desconforto momentâneo. – Pra hoje já ‘tá um pouco tarde.
- Eu posso te cobrar então? – sorriu com certo ar esperançoso.
Meu clima sorridente definitivamente havia acabado e agora eu não via o momento de finalmente passar pela porta da frente do prédio e entrar logo no apartamento. Me sentiria extremamente rude se não o respondesse ou cortasse o assunto com má atitude, então fiz um esforço para não parecer tão desapontada assim.
- Pode sim. – assenti e dei-lhe um sorriso fraco. – Quando você quiser, é só falar.
- Vou te procurar o mais rápido possível... Ah merda, não queria parecer tão chato assim.
- Para com isso. – eu o tranquilizei. – Há semanas eu não conversava direito com qualquer pessoa. Tive a sorte de passar esse tempo todo com alguém tão legal e inteligente como você. Eu estava precisando disso.
- É, eu sei como é. Eu também.
Sem mais delongas, encurtou a distância entre nós com um passo e se abaixou um pouco para me dar outro abraço. Por um instante muito breve, eu queria ter ficado ali e terminar a noite assim, sem ter um vazio existencial na cabeça me aguardando assim que eu saísse do elevador.
- Bonne nuit.
- Bona nit, Niña.
Senti que meu sorriso se desfez assim que deixei a pesada porta de vidro e metal se fechar atrás de mim. O elevador estava no térreo, então logo eu havia chegado ao meu pequeno apartamento de novo.
Com muita coisa na cabeça e sem saber se eu queria simplesmente me deitar na cama e ficar pensando nisso até adormecer, decidi pegar o celular e abri na conversa daquele irmão que com certeza não era a “minha versão masculina”, mas que eu mais sentia falta depois de ter me mudado para Paris e depois para Barcelona. Oficialmente ele era mais velho por menos de três minutos, mas eu gostava de pensar que eu era a responsável por ele.
- Oi Eric... – eu falei para o celular enquanto segurava o botão de enviar áudio. – Eu queria que você soubesse que eu fiz uma tatuagem! Dá pra acreditar? Por favor não conta pra vó, ok? Não quero que ela tenha mais um motivo pra brigar comigo. E também não conta pro Axel ou pro Milo... Mentira, pode contar pro Milo. Acho que você vai gostar, mas depois eu te mando a foto, ou quem sabe você pode vir pra cá quando conseguir dispensa do quartel! Eu posso te levar no lugar que tem a melhor sangria que eu já bebi na vida, muito melhor do que aquela que a gente comprava no festival de Montreux, e muito mais barata também. Quem me levou lá foi um amigo. Sim, eu fiz um amigo aqui, que por um acaso é o meu tatuador. Foi a segunda vez que a gente saiu pra beber e eu acabei de voltar do bar, acabei de me despedir dele.
“Foi estranho, sabe? Eu não consegui evitar e acabei pensando em... Você sabe quem. Foram as melhores horas que eu passei desde que eu cheguei aqui e eu acho que isso me confundiu bastante. Eu passei anos acostumada a associar esse tipo de coisa com encontros, com relacionamento, com algo que tem um beijo no final da noite. E acho que até teve muita coisa de duplo sentido nas nossas conversas, mas aí agora há pouco ele me disse algo que me deixou.. Triste. E eu nem sei dizer o porquê.”
“Não dá pra se apaixonar em dois dias e eu sei disso. Mas, como eu falei, eu acho que passei tanto tempo acreditando que o último estágio de relacionamento entre duas pessoas tem que ser o romance que eu acabei me enganando, ou tendo a impressão errada. Ao mesmo tempo em que eu fiquei decepcionada quando ele me falou que não estava a fim de romantismo, eu quis deixar bem claro que eu também não... Quer dizer, eu não estou pronta pra isso ainda, não é mesmo? Eu só não sei por que ainda ‘tô tão decepcionada...”
Eu já estava falando há cinco minutos. Fiquei com dó do pobre Eric, que já estava prestando serviço militar obrigatório, e que provavelmente acordaria com a notificação de mensagem. Ele teria que acordar muito cedo e aquele áudio poderia atrapalhar o seu sono.
Com a mesma frustração que entrei em casa, eu cancelei o áudio. Apenas prometi para mim mesma que enviaria as fotos da tatuagem no dia seguinte – e que ainda pediria segredo sobre ela, por enquanto.

Nunca na minha vida eu senti tanta vontade de ir à praia... E nunca antes eu fiquei tão impossibilitada. Me parecia que eu deveria esperar pouco mais de um mês para tomar sol diretamente no local da tatuagem e, ainda assim, sob bastante protetor. Não saberia dizer onde o calor era pior, ali no caixa do Bob’s Kitchen ou como eu imaginava que estaria a estação Urquinaona no sentido da praia. Entupido de gente branquela, mas com cor de pimentão, suor pra tudo quanto é lado, reclamações altas e em inglês se sobrepondo à maioria, um ou dois batedores de carteiras casualmente se espremendo na multidão.
Domingos e feriados eram as únicas ocasiões em que o serviço de entregas funcionava, e eu tinha a infeliz tarefa de atender telefone, registrar pedidos por aplicativo, distribuir notas pequenas e reabastecer os porta-moedas dos entregadores. Aquele trabalho não era de Deus e com certeza eu era muito mal paga pra fazer aquilo, considerando o desgaste mental e a responsabilidade de lidar com dinheiro num ritmo muito mais acelerado.
Naquele dia eu desejei tanto que eu pudesse voltar para casa com um plano específico para o resto da minha tarde e da noite. Parecia que os meus breves dias com de companhia haviam me estragado mais ainda, porque eu constantemente me esquecia que Anya e Thor ainda eram inalcançáveis por mais algumas semanas. Eric até havia respondido rapidamente quando eu enviei as fotos da tatuagem. Eu queria também ter a coragem de convidá-lo para passar alguns dias comigo depois que ele terminasse o quartel, mas não sei se eu já estava “perdoada” o suficiente por ter me mudado de país de novo em tão pouco tempo.
Minha família era muito pequena e muito complicada. Quando se tratava de contato direto, eu estava restrita a apenas três pessoas: Eric, minha avó Emma e o marido dela, o meu avô postiço que eu amava mais do que a mim mesma, Léon. Meu irmão mais novo, Milo, ainda tinha apenas sete anos de idade. Quem sabe quando ele completasse todas as fases do desenvolvimento psicoemocional de Freud eu poderia ressurgir das cinzas e explicar o meu paradeiro. Aliás, essa era uma explicação que eu devia por inteiro a todo mundo da minha família; meu irmão mais velho, o Axel, era o mais distante e o que guardava mais ressentimento da nossa mãe e de mim – cada uma por seu motivo específico.
O que me levava novamente à questão de que Barcelona era, sim, uma cidade incrível, apesar de todos os inconvenientes, e eu deveria me forçar mais a sair explorando-a. Eu ainda tinha inúmeros museus, catedrais e monumentos para visitar, mas a preguiça de sair fazendo tudo isso em pleno final de julho ainda pesava na balança da indecisão. A desculpa perfeita para ir a tudo isso, seria se Eric me visitasse no mês seguinte, e eu já começava a criar esperanças.
Me pergunto se um dia eu teria paz de espírito o suficiente para passar uma simples manhã sem me torturar com a responsabilidade e a culpa de não ter cumprido com absolutamente nada que poderia me tornar um ser humano mais normal...
- Ei, , a gente vai à Karma hoje à noite. – ouvi Romina dizer casualmente na sala de funcionários enquanto eu tirava meu avental e guardava no meu escaninho. – Eu, Marta, Ale, até Lydia e a irmã vão também.
- É mesmo? – perguntei tentando forçar interesse. – Quem vai tocar?
- Não sei, mas a Ale disse que é ótimo. – ela deu ombros, se referindo à subgerente do café. – Quer ir?
- Sei lá, não sei se faz muito o meu estilo... – respondi vagamente. – A Karma é mais pra quem gosta de dançar, música eletrônica e tudo mais.
- Tem certeza? – ela parecia ter muita vontade de ser simpática comigo. – De qualquer forma, a gente vai sair pra tomar uns drinks antes na Plaça Reial, você deveria encontrar a gente lá!
Hesitei antes de responder. Eu ainda havia prometido a mim mesma que não desistiria ou descartaria tão facilmente qualquer possibilidade de sair da minha perigosa zona de conforto da amargura.
- Bom, até mais tarde você me passa a localização de onde vocês decidirem beber. – concordei com um sorriso. – Eu encontro vocês lá!
Saí do café um pouco desapontada, porque achei que eu ficaria tão animada quanto no dia que resolvi fazer a tatuagem. Aquela era uma empreitada mais arriscada que marcar o meu próprio corpo pra sempre e eu não estava nem um terço tão ansiosa quanto antes.
Já no metrô, aproveitei para ver se, por um acaso, não havia me mandado nenhuma mensagem direta... E nada. Eu estava esperando, sim, que ele falasse comigo quase que imediatamente, mas tentei não ficar tão nervosa a respeito, afinal, ele mesmo dissera que ainda me procuraria. Não tinha motivos para achar que eu havia feito ou dito algo errado dois dias atrás.


Romina havia dito que estava em um restaurante aberto próximo à fonte da Plaça Reial, então eu desci na estação Liceu e de lá fui caminhando pela rua mais famosa da cidade. A La Rambla era de uma natureza extremamente curiosa à noite. Não havia a multidão de turistas que mal dava para ver o chão. A grande calçada, que ficava na verdade na “metade” da avenida, era muito espaçosa e era agora ocupada por traficantes. Esse era o fato mais bizarro sobre Barcelona e que eu jamais me esqueceria da primeira vez que andara por ali acompanhada de Anni e Thor e fomos abordados literalmente a cada dois minutos por alguém dizendo em alto e bom som “cocaína? MD? Marijuana?” Isso acontecia com a maior naturalidade ao lado de pontos de prostituição e alguns carros de polícia que só serviam para garantir que nenhuma briga de gente bêbada ou assalto à mão armada acontecesse (porque os roubos e as carteiras batidas ainda eram bem normais).
A estratégia de beber antes de entrar no Karma era muito boa; toda entrada em qualquer clube da cidade incluía apenas uma bebida alcoólica que não fosse de shot, então todo mundo se reunia para encher a cara pelo menor preço possível para não gastar com drinks caros mais tarde.
Em meio aos chamados dos traficantes, encontrei a grande mesa onde todas as outras funcionárias do café já estavam reunidas. Realmente, até Lydia estava ali sorridente com um copo de refrigerante nas mãos. Ela foi a primeira a acenar na minha direção, e então eu me senti muito mais confortável do que estava antes.
- Olha quem saiu de casa! – sorriu Ale, a nossa subgerente que estava sempre radiante. Ela era tão alta quanto eu, o cabelo cacheado muito bem cuidado lhe dava um ar sofisticado e sua pele era visivelmente dourada de sol.
Depois de cumprimentar a todas com muito entusiasmo, porque assim eram os espanhóis, puxei uma cadeira de metal bem ao lado de Lydia. Ela também havia rapidamente me apresentado a sua irmã, Luisa, a que ela mencionara que ficaria um tempo com ela na cidade. Estava contente por vê-la tão à vontade assim.
A própria Romina fez um sinal a um garçom que estava de passagem por ali e levantou seu copo alto, indicando que eu beberia o mesmo que ela – que me parecia gin e tônica. Todas elas estavam igualmente bem vestidas e elegantes, o que claramente indicava que iriam dançar. Os clubes, boates e casas de show de Barcelona eram conhecidas por ter regras um tanto quanto machistas sobre a vestimenta das mulheres, quase sempre proibindo a entrada delas usando calça jeans, tênis ou até mesmo sapato sem salto. Mesmo se eu mudasse de ideia, acho que não poderia entrar na Karma; eu havia escolhido usar um vestido de verão um pouco mais solto, muito embora fosse preto e de decote apertado. Obviamente não perdera a chance de usar salto alto, mas de qualquer forma eu estava bem simples perto das minhas colegas de trabalho caprichosamente maquiadas.
- Você não cansa desses homens catalães, ? – perguntou Ale, depois de dar um olhar estreito para um cara que parecia rondar a nossa mesa.
- Não posso dizer que conheci muitos. – dei ombros.
- Eu não sou daqui, sou de Andalucia, sabe? – ela continuou quase gritando em meio ao barulho alto de música e conversa ali fora. – E preciso comentar que os caras daqui são muito mais pra frente do que em qualquer outro lugar que eu já morei!
Aquele comentário gerou uma reação engraçada. Luisa e Romina pareciam discordar de Ale, dizendo que era apenas o jeito dos espanhóis, o “sangue quente”. Lydia fizera uma cara de preguiça para outro sujeito que passara por nós e dissera algo em catalão, e que me parecera uma cantada ou algo assim.
- Eu acho super irritante, e crescer com isso sempre foi desagradável. – ela disse enquanto balançava a cabeça com reprovação.
- Você não namora, ? – perguntou Romina, interessada.
- Não, sou só eu.
- Mas você é tão bonita! – ela disse como se fosse uma constatação óbvia e todas as outras riram junto.
- Mas eu também sou uma bagunça! – respondi no mesmo tom de voz divertido.
Então elas foram a fundo ao assunto de complicações amorosas e eu decidi que deveria fechar a minha mente completamente, caso não quisesse chorar. Eu estava atenta o suficiente para concordar, acenar negativamente e reagir de forma apropriada aos comentários, mas não queria dar a minha história dramática ou sequer fazer nenhuma observação.
Como que para me tirar da realidade, senti o meu celular vibrar na pequena bolsa a tiracolo que eu havia trazido.

@GNaves: o assunto aí ‘tá tão ruim assim?

Minhas mãos gelaram imediatamente. Levantei o rosto e olhei por todos os lados tentando encontrar à vista. Ele deveria estar em pé ou me observando de dentro de algum lugar, pois não conseguia achá-lo naquela multidão de jeito nenhum.

@Rousseau: e você ‘tá onde???
@GNaves: perto o bastante pra ver você nesse vestido bonito...
@GNaves: longe o suficiente pra você não me ver fumando porros.
@Rousseau: porros?
@GNaves: baseado.
@Rousseau: eu não ligo pra maconha. Literalmente todo mundo nesse lugar ‘tá fumando alguma coisa.
@GNaves: mas eu ligo, tenho medo de parecer paranóico.
@Rousseau: paranoica ‘tô eu de saber que você ‘tá me vendo de algum lugar. ‘Tô me sentindo vigiada.
@GNaves: isso me diverte.
@GNaves: ao contrário do assunto aí da sua mesa. Qual delas é a sua amiga Anya?
@Rousseau: são minhas colegas do trabalho. A Anya ainda não voltou.
@GNaves: vão pra onde depois?
@Rousseau: por quê? ‘Tá querendo me acompanhar?
@GNaves: dependendo do lugar... ;)
@Rousseau: elas vão para o Karma, e eu vou pra casa.
@GNaves: nesse caso eu te acompanho sim.
@GNaves: es broma :)
@GNaves: eu já vou embora também, só vim acompanhar o Arón, meu business partner, e por motivos óbvios, a sua figura me chamou a minha atenção.
@Rousseau: ‘tô começando a ficar nervosa. Onde você está?
@GNaves: se ficar girando tanto na cadeira vai acabar tonta – ou mais tonta, por causa da bebida.
@GNaves: vou deixar você em paz agora. Eu devia ter só te admirado de longe sem te atrapalhar.
@GNaves: logo menos a gente se vê.


Parei de responder, mas foi de propósito. Imaginei que ele ainda estivesse olhando e fiz a maior cara de indignada que consegui, mas sem deixar ela durar por muito tempo a ponto de alguma das minhas colegas perguntar o que aconteceu. Senti-me tão contrariada que foi até divertido.
Tomei um gole enorme da gin tônica gelada e dei mais uma olhada casual no ambiente, numa tentativa boba de enfim encontrar . Eu era alta e ele mais alto ainda, então deveria ser um pouco mais fácil identificar uma figura gigantesca ali com a minha visão panorâmica, mas logo desisti, porque provavelmente ele tinha saído discretamente.
Precisei morder minha bochecha por dentro, tamanha era a minha vontade de sorrir. Não sei dizer se foram os comentários bobos que havia feito (que, aliás, já não eram nada surpreendentes) ou se era mesmo o álcool combinado à companhia de todas as minhas colegas, mas eu senti de novo aquela energia boa e positiva de quando eu havia feito a minha tatuagem. É um pouco difícil de explicar, até porque era algo meio novo pra mim, mas eu me senti... Radiante, essa era a palavra certa.


Capítulo 6


Let's just stop and think, before I lose faith
Surely I can't fall into a game of chase
Around his little finger, that boy has got me curled
I try to reach out but he's in his own world


Eu já não precisava do Google Maps para encontrar o estúdio de . Era a minha terceira visita e eu sabia de cor em qual rua estreita, que parecia um beco, eu deveria entrar e ver o anúncio preto e branco de metal escrito TATTOO, que indicava a rua ainda mais estreita, onde finalmente ficava a placa Soul2Soul Studio. Minha expectativa era de que, àquela altura, eu já fosse uma espécie de “rosto conhecido” ali, uma vez que pelo menos três pessoas diferentes já me conheciam – mas quando parei para pensar nas três pessoas, me dei conta de que eu ainda não sabia o nome da recepcionista de cabelo de sereia.
Durante a semana seguinte, havia me procurado para me chamar pra sair de novo. Sob o incentivo de Anya e os protestos de Thor, eu aceitei sem nem perguntar para onde iríamos; considerando que as vezes anteriores excederam as expectativas, eu realmente não estava preocupada com o lugar, a ocasião ou nada disso. Continuava tranquila em diversos aspectos, mas em pânico em outros – afinal de contas, ainda sou eu.
Por volta das oito da noite, eu já estava empurrando a porta do estúdio e me deparando com a recepcionista de cabelo de sereia (posso oficializar esse como o nome dela?). Ela estava falando em catalão no telefone e parecia um pouco nervosa e estressada. Não sei se ela me notou ali imediatamente, então só me sentei no pequeno sofá vermelho da entrada e esperei até ter a oportunidade de falar.
O clima ali estava um pouco pesado, como se algum problema tivesse acontecido. Logo apareceu de dentro de uma das salas totalmente brancas e ele foi direto até onde eu estava. Prontamente me coloquei de pé para cumprimentá-lo e vi o quanto ele também parecia agitado.
- O que aconteceu? – fui logo perguntando quando ele parou na minha frente sem conseguir sorrir nem nada.
- Um problema de infiltração em uma sala. – ele me respondeu depois de me dar um abraço desajeitado. – O que não pode acontecer em hipótese alguma, porque se chega a vigilância sanitária ou mesmo se algum cliente ou nós mesmos entramos em contato com mofo, vai ser um desastre sem tamanho.
- Mas tudo aqui é tão limpo... – eu disse como se isso ajudasse em alguma coisa.
- Há poucos meses a gente se mudou pra esse endereço e foi o Arón que fez as primeiras visitas com o corretor de imóveis. – passou a mão pelos cabelos e eu pude notar que sua testa estava brilhando de suor. – Só que ele foi essa semana pra Viena fazer uma flash week e os caras da imobiliária só aceitam tratar desse assunto com ele. Então sobrou para mim e para a Chiara lidar com essa merda.
Chiara! Então esse era o nome da recepcionista!
- Quando eu aluguei meu apartamento me disseram para testar todos os utilitários pelo menos umas cinco vezes. – relembrei – Sabe, me recomendaram ligar o chuveiro diversas vezes, abrir todas as torneiras, conferir os interruptores... Sempre tem gente que quer entregar um imóvel prestes a cair aos pedaços e deixar o inquilino cuidar desses problemas por conta própria.
A recepcionista – quer dizer, Chiara – enfim desligou o telefone e se dirigiu diretamente a e disse algo em catalão que eu pude entender mais ou menos. Era algo sobre mandar algum reparador e um corretor para avaliar os custos da manutenção somente durante a semana seguinte.
- Ah, hola, ! – ela disse com um sorriso forçado, convenhamos, por causa da situação. – Desculpa não ter te cumprimentado.
Eu apenas acenei e fiz como quem diz que não tem problema, assim com um gesto.
- Acho que a empresa vai resolver por conta própria se acionarmos o seguro do contrato. – Chiara continuou, dessa vez em catalão, me dando a impressão de que eu também estaria inserida no assunto. – Isso é bom, porque podemos receber o dinheiro de volta.
- E se acontece alguma coisa até chamarmos um encanador? – perguntou , preocupado. – Não sei se dá pra correr esse risco durante a semana.
- A gente faz por conta própria então...? – ela disse num tom de voz meio incerto.
- Posso ver se o Miguel nos ajuda. – parecia considerar a sugestão. – Mas vai dar muito trabalho.
- E você sabe que eu tenho que buscar a Catarina agora... Amanhã posso deixá-la com o pai e venho para cá depois, mas hoje é realmente impossível ficar aqui.
Segui observando aquela conversa. Os dois estavam visivelmente incomodados e achei que talvez eu teria que voltar para casa para deixar pelo menos cuidando de suas prioridades. Ou então...
- O que quer que seja, eu ‘tô disponível para ajudar. – dei ombros. – Bom, a não ser que eu tenha que lidar com encanamento de verdade...
Chiara me olhou com algo que eu só poderia reconhecer como satisfação, ou um pouco de surpresa por uma pessoa “estranha” se oferecer para ajudar num problema. , no entanto, não parecia ver aquele ato como algo desprendido.
- Tem certeza? – ele perguntou. – A gente tem uma sala inteira para desmontar, limpar e esterilizar.
- Claro que posso, desde que vocês me digam o que fazer para eu não piorar a situação mais ainda.
- Ótimo, então! – Chiara disse prontamente. – Porque eu não posso trazer minha filha pra cá, é completamente inviável... Mas eu volto amanhã de manhã. – dessa vez ela olhava para .
Ele só assentiu sem olhar para nenhuma de nós. Eu fiquei parada esperando alguma resposta ou manifestação, mas ele só foi para trás do balcão também e foi a deixa para Chiara pegar uma mochila de couro e sair pela porta do estúdio bem rapidamente.
- Não ‘tá certo isso. – murmurou alguns segundos depois dela ter fechado a porta de vidro atrás de si. – Ela que tem de ajudar.
- Mas se ela tem a filha dela para cuidar...
- É, eu sei. – ele voltou a me responder sem humor. Continuei parada em pé no lugar onde estava desde que me cumprimentara. Virei-me na direção de onde ele estava e pude vê-lo novamente passando a mão pelos cabelos, e depois escondendo o próprio rosto nas palmas das mãos de um jeito muito frustrado.
- E que cara é essa? – perguntei agora um pouco incomodada com o jeito que ele agia.
- Não é nada. – ele respondeu, como se eu fosse acreditar. – Lembra do que eu te falei que é muito mais difícil ser dono do próprio estúdio?
- Sim, e me lembro também de ter falado que ser burguês traz péssimas consequências.
- Você não falou nada disso.
- Então você ‘tá sabendo agora.
Achei que a minha piada resultaria em um sorriso da parte dele, mas apenas suspirou uma vez para se acalmar. Me aproximei do balcão e ele me olhou com um pouco de dó.
- Não era assim que deveria ser o dia. E também não era esse tipo de problema que eu esperava em tão pouco tempo desde que a gente abriu o estúdio.
- A gente não vai chegar a lugar nenhum se você só ficar reclamando do quanto as coisas deram errado, ao invés de levantar e tentar arrumar a merda que já foi feita. – eu incorporei a personalidade da minha avó e disse para com o tom de voz mais firme que consegui.
- É, você tem razão... – ele respondeu com um pouco de birra, como se fosse uma criança que recebeu ordens. – Eu desmonto a sala e depois você me ajuda a limpar tudo que ficou encharcado.
Assenti e comecei a segui-lo pelo estúdio adentro. Antes que ele pudesse entrar na tal sala em que havia a infiltração, ele parou no meio do caminho e me disse:
- Última chance pra desistir.
- Vai logo! – empurrei-o de brincadeira, arrancando uma risada tanto dele quanto de mim mesma. Imagino que tenha sido uma cena engraçada de ser vista por fora, já que eu parecia minúscula perto dele tão alto.
Rapidamente, ele puxou uma das macas, uma pequena cômoda branca com três gavetas onde ele guardava vários materiais descartáveis, uma lata de lixo de metal, a mesa com as bandejas de inox e, por fim, todo o conteúdo que ficava nos armários da parede, como as tintas, papel toalha, plástico filme, etc. me entregava em mãos as coisas menores e eu as levava com cuidado para qualquer superfície disponível, inclusive o balcão da recepção. Quando a sala estava enfim vazia, exceto pelas prateleiras da parede, era hora de limpar.
- Aproveita e me conta o que a gente ficou de conversar. – me pediu casualmente, enquanto me entregava um par de luvas de borracha azul para eu colocar. – Na verdade, o que você ficou de me responder.
- Como assim? – me fingi de boba. Acho que ele percebeu, porque ergueu as sobrancelhas sugestivamente.
Em silêncio, apenas dei ombros. Peguei uma garrafa de água sanitária e fiquei em um canto da sala com uma escova de limpeza na mão, enquanto ficara do outro lado em cima de uma pequena escada de três degraus cuidando de secar o teto. Mesmo nessa distância, a sala era pequena o suficiente para que a gente se escutasse bem.
- Aquilo que eu disse sobre não ter nenhuma gota de romantismo em mim... Bom, eu só não queria que você achasse que não poderia dizer alguma coisa com medo de ser mal interpretado. – logo percebi que meu raciocínio só fazia sentido para mim. – Quer dizer, você mesmo disse que não queria soar romântico... E você não corre esse risco comigo, porque eu não interpretaria nada que você dissesse com esse sentido. Eu tenho a tendência a entender as coisas da maneira mais... Literal, o possível.
- Que bom, eu também. – comentou como se fosse a coisa mais casual do mundo.
- E quando você disse que se sentiu comovido pelo assunto e pela conversa que a gente teve a noite toda. – eu continuei, embora já sentisse meu coração batendo alucinadamente pelo que eu estava prestes a dizer. – Eu também me senti. Em todos os sentidos possíveis. Eu queria ter te dado corda desde a hora que você me chamou pra sair, mas agora não lembro porque não fiz isso.
- Como assim dar corda? – percebi que ele havia se virado de costas e agora olhava para mim. – Você ‘tá falando de se sentir atraída?
Também parei o que estava fazendo e olhei para cima. Ele não estava sério, confuso ou nada assim, muito pelo contrário; um sorriso convencido atravessava o seu rosto e eu me senti compelida a rir também.
- Sim, exatamente. – admiti. – Quando você me mandou mensagem me chamando para o cinema de Montjuic eu deveria ter respondido sim, mas eu não tinha certeza se você também entendia e sentia aquilo tudo do mesmo jeito que eu.
- É, eu senti sim. – confirmou, ainda sem voltar a limpar a parte de cima da parede. Eu senti a mesma ansiedade boa crescendo, mas agora estava também um pouco tensa porque não dava pra saber o rumo dessa conversa. – Eu achei que deveria arriscar e te chamar pra sair, mas, querendo ou não, eu estava tatuando você. Literalmente te machucando, se você parar pra pensar, e no meio dos seus peitos. É uma posição de poder meio esquisita, por isso deixei a decisão com você.
Ah, então aquilo ali era tensão sexual. Eu estava sentada no chão com a calça jeans a ponto de ser arruinada por entrar em contato com água sanitária, esfregando desinfetante no azulejo da parede e suando por causa do ar condicionado, mas eu podia sentir na pele toda a intenção contida nas palavras de . Naquele instante eu só queria ligar para Thor e gritar na cara dele que ele estava errado desde o início, porque era, sim, um cara muito decente.
- Você não estava me machucando. – eu contestei com um pouco de prepotência. – Eu fiquei rindo o tempo inteiro, não me lembro de ter sentido dor.
- Você é resistente.
- Então, te respondi a pergunta? – voltei a minha atenção para a limpeza.
- Não, na verdade não – ele também virou de costas. – Você não me explicou direito o porquê de não haver, abre aspas, nenhuma gota de romantismo no seu corpo, fecha aspas.
O cheiro da água sanitária me dava muita ânsia de vômito. Eu conseguia sentir o refluxo quase subindo na minha garganta enquanto eu pensava no rumo daquele assunto.
- Porque eu acho que é cilada. – respondi simplesmente. – Romantismo pode estragar muita coisa e é melhor não ter as faculdades mentais atrapalhadas por causa disso. Eu não sou cínica nem nada. Eu acredito em amor, eu adoro amor, mas estar apaixonado e ser afetado por romantismo é perigoso.
- Eu concordo totalmente com você. – assentiu de longe. – Parece que paixão faz parte de um feitiço ou alienação, e impede as pessoas de agir naturalmente e de pensar racionalmente.
- Me deixa adivinhar – me arrastei pelo chão para uma parte que eu ainda não havia limpado. – Você tem alguma história traumática que te fez pensar assim? Porque eu tenho.
virou para trás e me olhou ainda com o mesmo sorriso no rosto. Acho que eu estava me dando muito bem nesse assunto e falando coisas bem assertivas – para variar. Senti uma pequena leva de coragem pra poder desenvolver a conversa e me abrir com alguém que até pouco tempo era desconhecido. Anya teria orgulho.
- Tenho, é claro. – ele desceu da escada e também se mudou de lugar. – Quando eu era adolescente, eu me apaixonava muito fácil e sofria demais pelo que eu achava que era amor, mas depois percebi que eu só não lidava muito bem com rejeição. Uns dois anos atrás, eu achei que estava pronto pra ter uma família, pensar em filhos e tudo mais, e minha namorada vivia me testando sobre essas coisas. Me perguntava se eu estava pronto para esse enorme comprometimento para o resto da vida e queria que eu prometesse coisas que eu não tinha condição de prometer. – contava também com muita naturalidade. – Quanto mais ela me perguntava se eu a amaria para sempre, menos certeza eu tinha disso.
- Como assim?
- Aos poucos a ideia de criar uma família me parecia cada vez mais perigosa. Eu achei que me casar e ter filhos eram coisas que viriam naturalmente, e não uma decisão que eu teria de cumprir como se fosse um contrato. Porra, como é que eu conseguiria prometer que amaria ela pro resto da vida? Ninguém tem certeza disso, ninguém tem a resposta definitiva. E se ela um dia mudasse de ideia também?
- Então, ela preferiria que você mentisse pra manter a ilusão ao invés de falar a verdade? – arrisquei.
- Exatamente. – vi pelo canto do olho que ele dava um sorriso um pouco nostálgico. – Então, quando eu não fui capaz de prometer o impossível, ela foi embora. E foi assim que eu percebi que não amava ela, afinal de contas, porque foi muito fácil aceitar o fim do único relacionamento que eu tive na minha vida.
Eu queria concordar com absolutamente tudo que havia contado, mas parecia clichê demais simplesmente dizer “eu também” para a história dele. Quando alguém compartilha algo tão pessoal assim, fica difícil responder à altura, por mais que literalmente aquilo tudo tivesse acontecido comigo também.
- Você se arrependeu de alguma coisa? – perguntei, porque sabia que era a coisa mais honesta a se fazer e, afinal de contas, eu queria falar sobre esse assunto com ele. Me sentia quase pronta para dividir a minha própria história também.
- Não, eu sei que tomei a decisão certa. O problema é que eu entrei numa crise existencial que já dura dois anos. – respondeu e eu quase senti meu coração saltar pela boca quando ele disse as palavras crise existencial. – Não falta muito pra eu fazer trinta anos e, às vezes, me enlouquece pensar que eu quase formei uma família. Eu me sinto completamente despreparado agora, apesar de que não desconsidero um dia me casar e ter filhos.
Mordi a bochecha por dentro de novo para não falar nenhuma coisa genérica de quem quer ajudar, mas só vai saber falar de si mesma.
- Eu sou todo errado, . – ele suspirou e agora não parecia tão sorridente assim. – Eu sou muito orgulhoso, muito insensível, tenho muitos vícios... Então eu acho que devo evitar romance, por assim dizer, porque sempre é questão de tempo até eu me aproximar de alguém e a pessoa perceber todos esses problemas. E nunca é legal quando alguém se afasta e me deixa sozinho de novo.
Quando entramos num momento de silêncio, percebi que havia terminado de limpar metade do chão da sala, e, agora, eu deveria trocar de lugar com , mas não quis interrompê-lo. Na verdade o que eu queria era dizer que eu também era uma bagunça e, que do jeito mais triste possível, eu entendia absolutamente tudo que ele havia dito, mas não pareceu o suficiente.
Tive um pequeno momento de auto-reflexão em que várias lembranças do meu término recente vieram à tona e eu não consegui evitar que as lágrimas também aparecessem. Disse para mim mesma que provavelmente era a água sanitária, mas a quem eu queria enganar?
- Amor deveria ser o processo, e não a recompensa .– decidi falar, como se descrevesse uma perspectiva geral e nada pessoal. – Acho que amor é o que acontece quando duas pessoas se conhecem e crescem juntas, mas não somente em função de algum objetivo futuro. Amor se constrói, mas não é o produto final.
- Você é muito boa em falar essas coisas. – olhou para mim novamente. – Seus pais teriam orgulho.
- Meu pai já morreu e minha mãe largou a mim e aos meus irmãos e sumiu no mundo com o namorado. – eu respondi prontamente, como se o desafiasse a me contar algo pior do que isso. – Mas obrigada pelo elogio.
- Porra...
olhou para mim do alto da escada. Eu dei ombros e nós dois começamos a rir ao mesmo tempo. Era incrível como parecia tão fácil contar para ele esse tipo de detalhe que exigia de mim uma força e um controle muito grande para conseguir me expressar.
- Vamos trocar de lugar. – ele andou até onde eu estava e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Como eu já havia pensado, agora eu precisava limpar o chão do outro lado da sala e ele a parte superior entre a parede e o teto. Passamos muito tempo em silêncio, que por sinal, eu não sentia a menor necessidade de preencher falando qualquer bobagem. Acredito que, com qualquer outra pessoa, eu me sentiria extremamente apreensiva de dividir qualquer pensamento ou história que eu tinha, mas tornava tudo tão confortável que eu me sentia como se tivesse tirado um peso das costas. Eu não havia desabafado, nem nada disso – até porque foi ele que havia compartilhado uma história sobre si mesmo -, mas eu com certeza sentia um alívio por saber que estava progredindo, que já era capaz de conversar sobre esse tipo de assunto com alguém que não fosse Anya.
Não muito tempo depois, decidimos que era melhor colocar uns ventiladores ligados na sala para tirar qualquer umidade que ainda estivesse por ali. Não sei como funcionaria esse processo de esterilização, mas acredito que era algo que faria com uma pessoa mais profissional durante a semana. De qualquer forma, ele ainda recorria ao celular várias vezes para falar com quem eu imaginei que fosse Arón, o outro dono do estúdio, e parecia igualmente estressado para lidar com o problema.
- Não aguento mais. – ele disse, exausto, depois de se jogar no sofá vermelho da recepção. – Vou me aposentar depois disso.
Eu sorri em resposta e me mantive em pé com as mãos na cintura na frente dele, onde o ventilador alcançava e jogava uma brisa nas minhas costas. Eram quase onze da noite e finalmente havia escurecido, mas o calor era o mesmo de cinco horas da tarde.
- Caralho, ‘tá muito quente. – ele continuou com a mesma voz cansada.
- ‘Tá sim, e sabe o que é bom tomar nesse clima? – perguntei e fiz uma cara muito séria.
- O quê? Uma cerveja?
- Não, os meios de produção. – respondi com a mesma expressão e vi-o revirar os olhos e gemer de desaprovação.
- Qué tonta eres, tía... – ele disse com insatisfação.
- Tonta? – fingi indignação. Sentei-me ao seu lado, mas à uma distância segura, e o empurrei no ombro de brincadeira. – Pendejo.
endireitou a postura e virou o corpo completamente para o meu lado e eu o imitei.
- Pendejo? – ele repetiu quase gritando. – Isso nem existe na Espanha, . É coisa do México. Você precisa aprender xingamentos em castelhano e que todo mundo vai entender.
- Eu normalmente não xingo ninguém, pra falar a verdade. – respondi. – E se for pra fazer isso, eu prefiro na minha língua materna, ou então em espanhol do México. – continuei e frisei bastante a palavra espanhol para irritá-lo de propósito.
deu ombros e relaxou no sofá novamente. Eu não conseguia parar de sorrir e isso era completamente anormal para a minha personalidade, mas estava feliz de aproveitar enquanto durava.
- Pendejo... murmurou do nada como se estivesse falando sozinho.
Ele se levantou e foi em direção ao computador que ficava em cima do balcão. Ficou ali por um tempo e eu o observei de longe, mas meu olhar acabou se desviando para as inúmeras fotos e desenhos pregados nas paredes. Dava para ver que o estúdio tinha um estilo muito específico de desenho e que o que eu havia feito com , era uma enorme exceção em meio a todo o trabalho. A maioria do que estava exposto nas paredes se tratava de desenhos com referências religiosas, muita coisa colorida, frases e vários desenhos elaborados de criaturas místicas.
- Tem gente que realmente tatua desenho animado em pleno 2018? – perguntei apontando para uma tatuagem de Rick e Morty no catálogo.
- Sim, e essa é uma categoria bem popular por aqui. – respondeu sem olhar pra mim.
- Meu Deus... – continuei folheando a pasta de desenhos que estava ao meu alcance no sofá. – Esse desenho é tão absurdo, aliás. É como se fosse um livro do Albert Camus versão colorida.
- Meu amigo tem o rosto do Camus tatuado.
- Pobre coitado... – respondi imediatamente.
A reação de foi soltar uma risada muito alta, e a minha foi de cobrir a boca como se eu tivesse falado algo sem querer. – e realmente foi, porque foi uma fala completamente natural e involuntária. Só de pensar que esse amigo poderia ser o Miguel que eu havia conhecido, já sentia meu rosto ficar queimando de vergonha.
- Vou falar isso pra ele. – não me viu completamente vermelha.
- Diga que foi uma conhecida que falou isso, não que fui eu. – avisei.
- Uma conhecida gostosa, é isso que vou dizer. Vai deixá-lo ainda mais magoado.
- É mesmo? – passei por cima de toda timidez que poderia ter tomado conta de mim e entrei na brincadeira, para variar. – Obrigada, , fico agradecida.
Ele olhou para mim por cima da tela do computador um pouco confuso.
- Não precisa fingir que eu ‘tô brincando, , você sabe que é bonita.
- Tudo bem então... – senti que minha boca ficou seca novamente e era a segunda vez que isso acontecia depois que me dizia algo. Mas, como eu evidentemente já estava surtando por dentro por não saber se ele já estava flertando comigo novamente, eu precisei levar a conversa adiante como se não fosse a sério. – E você pode atestar que sabe disso então, afinal, você viu os peitos da conhecida. No caso, eu.
De novo, pude ver que havia erguido o olhar do computador e agora me encarava. Eu não era burra e sabia muito bem quando a conotação sexual de uma brincadeira poderia ser levada a sério. E essa era a minha intenção.
- Você tem que admitir que eu fui muito profissional ao cobrir os seus seios. – ele agora se inclinava para frente no balcão para conversar.
- Bom, eu cobri eles em casa com esparadrapo.
- É, é verdade... Me lembro de achar que você tinha silicone.
- Já ouvi isso antes. – e realmente não era a primeira vez que alguém me falava isso.
- E deu pra ver que eram naturais, porque quando você se deitou, eles não ficaram duros no lugar. Eu sou profissional, mas não posso ignorar o que eu gosto. – continuou com uma expressão serena no rosto. De repente, e poderia muito bem ser brincadeira da parte dele, ele fechou os olhos e ergueu as duas mãos no ar. – Se eu me concentrar, eu me lembro muito bem como eles são.
- Não lembra, não. – eu levantei meu dedo indicador no ar como se estivesse ameaçando-o. – Eles estavam cobertos!
- Ah, mas eu posso imaginar... – começou a rir ainda de olhos fechados. – Vou ter que desenhar pra poder matar a minha saudade daquela visão.
- Como você é besta! – também comecei a rir ao perceber que ele estava mesmo brincando. – Bom saber que, se algum dia eu resolver furar o mamilo, eu vou procurar literalmente qualquer pessoa, menos você!
- Você já é de casa, ! Tem que me deixar fazer.
- Não, de jeito nenhum. – continuei negando, apesar de não parar de sorrir. – Vou procurar uma mulher pra isso. Você nunca vai saber como eles são.
- Espera aí... – cruzou os braços em cima do balcão. – Não me diga que você tem mamilo invertido?
Senti que meu queixo ia cair, mas consegui me segurar. Não deu pra conter a surpresa diante daquela pergunta tão certeira, então eu só gaguejei minha resposta antes de me levantar do sofá e ir em direção a qualquer uma das salas no fundo do estúdio.
- Não...
- Tem sim! praticamente gritou e veio correndo atrás de mim.
Como cada passo que ele dava era equivalente a seis passos meus, ele conseguiu se colocar no batente da porta antes que eu pudesse fugir por ali.
- Porra, como você adivinhou? – perguntei, realmente incomodada com o quão envergonhada ele havia me deixado.
- Acontece que eu sou especialista em consertar mamilo invertido. – ele ajeitou a gola da camisa pra fazer pose. – Então, você precisa me deixar arrumar o seu. Eu te dou desconto de fidelidade.
- Não são invertidos. – comecei a gesticular de tão nervosa que eu já estava. – Só são... Tímidos. Quando faz frio eles aparecem, e em outras ocasiões também.
Eu não precisava dar nenhum tipo de explicação detalhada, mas por alguma razão acabei fazendo isso. continuava parado na minha frente e eu fiquei bem consciente do quanto ele estava próximo de mim, e eu ainda assim precisava erguer meu queixo para poder ver seus olhos verdes.
- Então como eles são? – ele perguntou em tom provocativo. – Em temperatura ambiente?
- Eu realmente não vou te contar, . Você ‘tá lá embaixo na escala da intimidade pra saber uma coisa dessas.
cruzou os braços. Eu já não sabia mais interpretar se ele ainda estava brincando, dando em cima de mim, falando sério ou simplesmente sendo um pouco inadequado.
- O que eu preciso fazer para subir no seu quesito intimidade então, ?
Pensei no que Anya faria se fosse eu; provavelmente teria encurtado a distância dando um passo à frente e dizendo alguma coisa muito provocante e instigante. Por mais que essa fosse a minha vontade, não dava pra contrariar a minha recente inadequação social.
- Sei lá. – respondi ainda nervosa. – Me deixar espremer os seus cravos.
E mais uma vez ele riu como se eu tivesse dito algo igualmente adorável e engraçado. passou a mão pelos cabelos e abriu espaço para eu passar, e continuou sorrindo de um jeito encantador, como sempre.
- Você precisa parar de me fazer rir assim, . Eu vou acabar gostando de você além da conta.
Ele, então, deu meia volta e foi andando lentamente para os fundos do estúdio. Em uma fração de segundo, eu precisei lutar contra todas as minhas células, neurônios, vértebras e átomos que me mandavam ir atrás dele e perguntar o que diabos ele quis dizer com isso. Precisei também de muita força para conter o sorriso mínimo que insistiu em aparecer no cantinho do meu rosto, e contra esse instinto eu falhei. Eu queria me reprovar por ter gostado disso, queria ter me repreendido, me questionado seriamente sobre o quanto aquela simples frase foi uma das melhores coisas que eu poderia ter escutado.
Senti que eu deveria ir embora, porque estava perigosamente perto de passar mal de ansiedade, mas eu não queria sair dali de jeito nenhum. Provavelmente, aquilo não significava nada para , mas não posso negar que havia me afetado de um jeito que eu não saberia explicar. Nessas horas, é difícil distinguir aquela dor de barriga que acontece quando eu me sinto decepcionada da dor de barriga que bate sempre que a felicidade por antecipação toma conta de mim.
Tenho que encarar isso como se não fosse grande coisa, pensei. Lembrei-me do quanto ele fez questão de dizer que não queria soar romântico para mim, e que eu prontamente disse que comigo ele não corria esse risco. Por outro lado, há menos de uma hora, nós dois “admitimos” que sentimos atração um pelo outro. Aquilo, na verdade, não tinha nenhuma conotação romântica, por assim dizer, mas eu pensei também no histórico da noite com várias ocasiões em que pelo menos eu tinha notado um clima entre a gente.
Para espantar meus pensamentos, reapareceu e me disse algo sobre voltar todos os móveis e objetos para dentro da sala. Eu confirmei com um aceno e parti para ajudá-lo a levar a maca, a cômoda e tudo que antes era guardado nas estantes. Fomos muito rápidos ao reorganizar o lugar, e ele estava levemente mais calmo ao ver que os estragos em relação à contaminação por mofo estavam contidos. Entendi que, por enquanto, a infiltração estava contida na base da “gambiarra”, mas que pelo visto não vazava mais água da rachadura na parede. Fiquei com medo de tocar no assunto e acabar por deixá-lo desconfortável (coisa que provavelmente aconteceria também), mas de repente me senti desencorajada a começar qualquer outra conversa.
Eu teria que guardar essa questão para mim mesma, provavelmente antes de colocar a cabeça no travesseiro na hora de dormir e passar horas em claro pensando freneticamente no que ele havia dito.


Capítulo 7

When you smile, I melt inside
I'm not worthy for a minute of your time
I really wish it was only me and you
I'm jealous of everybody in the room


- Duas semanas, baby, em duas semanas a gente volta. – Anya anunciou por Skype no domingo à tarde.
- Porra, finalmente! – eu estava falando de longe na bancada da cozinha terminando de lavar uma pilha de louça. – Eu sou suspeita para falar, mas acho que vocês ficaram tempo demais na Croácia. O país é minúsculo! O que mais tem pra ver depois de dez dias?
- Ah, , Dubrovnik é maravilhosa demais pra ser apenas visitada, ela precisa ser vivida. – Anni respondeu em tom sonhador e prepotente.
- ‘Tá bom, blogueira de viagem. – revirei os olhos.
- De qualquer forma, você está certa. A gente ‘tá aqui há muito tempo, então Andrej se comprometeu a escolher outro lugarzinho pra gente conhecer. – ela continuou. – O que você me diz da Sérvia?
- Eu sou absolutamente contra a Sérvia – respondi e Anya riu. – O trauma da guerra da Bósnia ainda existe, então não gosto de incentivar o turismo em países responsáveis por genocídios.
- Mas não perde uma oportunidade de enaltecer Berlim...
- Não discute comigo. – carreguei a tigela até a mesa de centro da sala e me sentei no sofá de frente para a tela do computador. – Vocês podem ir pra Eslovênia, ou para a Hungria! Por favor, escolham a Hungria! Você sabe o quanto eu sempre quis ir aos museus de Budapeste. E também de Varsóvia. Bom, basicamente de toda ex-república soviética...
- Ai não, que chatice! – Anya protestou. – ‘Tá fora da lista então.
Era a cara de Anya falar isso. Eu constantemente me esquecia que ela tinha zero consideração ou sensibilidade para artes e história no geral. Ela era 100% de exatas e estava prestes a continuar a estudar alguma engenharia complicadíssima quando voltasse à Barcelona.
- Ok, acho que Eslovênia vai satisfazer o interesse de vocês.
- Ouviu isso, Andrej? – ela se virou de costas e falou olhando para Thor, que aparecia ao fundo sentado em frente à escrivaninha do quarto de hotel. – O problema é voltar logo em agosto e ter que enfrentar mais duas semanas de tédio.
Havia um fenômeno muito curioso em toda a Espanha, mas era especialmente predominante em Barcelona: agosto era um mês considerado morto no país. Vários serviços fechavam completamente durante os trinta dias, incluindo restaurantes, farmácias, supermercados, museus, shoppings e até mesmo autoescolas e consultórios médicos particulares. As cidades ficavam consideravelmente mais desertas, pouquíssima gente permanecia no país e o clima de verão quente e arrastado ficava mais insuportável ainda. Me surpreendi ao assistir um filme do Pedro Almodóvar que mostrava uma mulher sendo arrastada pela rua por um seqüestrador e ela reclamava que não havia ninguém na rua para ajudá-la, ao que o próprio sujeito respondia “claro, estamos em agosto”. Era nesse nível.
Se o Bob fosse fechar durante o período, eu deveria considerar voltar pra casa por uns dias, pelo menos enquanto Anya e Thor não voltassem. Passar duas semanas em casa me faria bem e seria uma boa oportunidade para começar a pedir desculpas aos meus avós por ter praticamente fugido para outro país pela segunda vez em tão pouco tempo.
- E que horas a senhorita vai se arrumar para ver o seu tatuador de novo? – Anni perguntou toda sorridente.
- Hora nenhuma, porque eu não vou me arrumar. – respondi. – E nem vou sair com ele ou algo assim. Ele me pediu ajuda para pintar o estúdio, Anni, então eu vou com roupa velha, de cabelo preso e cara lavada.
- Nossa, você ‘tá muito a fim de impressioná-lo então. – ela me olhou com deboche pela câmera do computador.
- Como assim?
- É, toda despretensiosa e casual, como se não estivesse nem aí que ele prestasse atenção em você. Só falta você falar que vai de moletom largo, tênis velho e óculos de grau.
- Quem é que usaria moletom no calor de trinta e sete graus, Anya? – perguntei incrédula. – E eu não quero impressioná-lo. Pra ser sincera, eu acho que fiquei com o pé atrás por causa de ontem.
- Por causa do que ele disse sobre gostar de você?
- Exatamente... – suspirei e encarei a tela como se a minha amiga estivesse presente. – Não entendi o propósito de dizer aquilo, sendo que há uma semana ele me disse que não queria parecer romântico.
- Você falou a mesma coisa para ele, meu bem. – Anni ergueu as sobrancelhas para mim. – E agora ‘tá aí toda nervosa fingindo que não sente absolutamente nada.
- Anya, eu não nego que ele me atrai, mas você não acha que está meio cedo para eu gostar de alguém? – perguntei, por mais que a ideia por trás daquele questionamento me doesse um pouco.
- Cedo demais por que? – ela me devolveu a pergunta com um tom meio cético. – Existe prazo pra voltar à ativa depois de um término? Cento e vinte dias úteis?
- Não...
- Tem gente que não espera nem vinte e quatro horas, . – Anya continuou.
- É, mas eu não sou gente. – falei alto e com firmeza. – Eu não sei se ‘tô pronta e não sei se acredito nisso de que dá pra gostar de alguém com tão pouco tempo de convivência.
Anni descruzou os braços e suspirou algumas vezes, claramente impaciente, mas se esforçando para ser ponderada – o que era algo muito raro de acontecer. Eu estava sempre preparada para ouvir um sermão bem agressivo e assertivo da parte dela, independente da situação.
- Olha, se você não tentar, então nunca vai saber. – ela respondeu. – E, , você ‘tá colocando regras nas coisas só pra evitá-las a qualquer custo. E daí que você o conhece há pouquíssimo tempo? Você sabia que a Natalie Portman se apaixonou pelo coreógrafo dela enquanto filmava Cisne Negro e na altura do Oscar que ela ganhou pelo filme ela já estava grávida de oito meses?
- De onde você tirou isso? – franzi a testa com aquela notícia aleatória.
- Argh, da revista de fofocas de um banheiro de bar. – Anni respondeu e passou as duas mãos pelo rosto como se estivesse morrendo de preguiça de me explicar. – Era a única em inglês e era de 2012, mas isso não importa. , eu não ‘tô dizendo pra você ir até ele e investir num relacionamento, mas você precisa parar de impor essas condições que só existem na sua cabeça e podem muito bem não corresponder à realidade.
- E se eu quebrar a cara de novo? – perguntei.
- Você precisa continuar partindo seu coração até ele se abrir. – Anya sorriu com uma serenidade que não era comum.
- E onde você leu essa frase? – perguntei com desconfiança. – De alguma pichação hipster?
- Não, sua otária, eu tirei da minha cabeça. – Anya fechou a cara pra mim. – E nunca mais você vai me ouvir falando uma coisa dessas pro seu próprio bem.
Não aguentei e comecei a rir, o que acabou irritando Anni mais ainda. Aquela sim era a minha melhor amiga agressiva que eu tanto amava e era grata por ter na minha vida.
Já estava a caminho do estúdio e cheia de raiva porque acabei me atrasando por culpa de algo que Anya havia dito. Passei um bom tempo em frente ao espelho analisando minuciosamente a minha escolha de roupas, e não conseguia parar de pensar no quanto cada peça poderia dizer se eu estava ou não tentando chamar a atenção.
Pra inicio de conversa, não, eu não queria chamar a atenção de ninguém, não queria impressionar, não queria passar a impressão de que eu era completamente desinteressada. Sair de casa usando short ou vestido me pareceu arriscado demais, porque se produtos químicos estavam envolvidos, eu gostaria de proteger a minha pele. Acabei usando a mesma calça jeans do dia anterior, que por sinal estava arruinada por causa dos vários pingos água sanitária – e acho que se eu passasse na Zara mais próxima eu encontraria um modelo semelhante e caríssimo -, e encontrei uma blusa bordô apertada com o emblema e os dizeres do exército suíço.
Há meses eu não me preocupava com a minha roupa ou com a minha aparência no geral. Eu tentava ser no máximo apresentável, e a ideia de ficar um pouco mais bonita usando maquiagem ou alguma peça que me favorecesse, parecia algo muito distante da realidade. Toda vaidade que eu tinha (e gostava) já fora embora há muito tempo.
Prometi a mim mesma que em algum momento do mês de julho eu tiraria um dia para aproveitar as famosas rebaixas, a liquidação anual que durava quase seis semanas em Barcelona. Talvez eu merecesse um pouquinho de cuidado.
Assim que eu entrei no pequeno beco que levava à rua do estúdio, já ouvi um grupo de pessoas falando bem alto. Do outro lado do quarteirão pude ver e mais dois homens na porta do lugar, cada um vestido com o que pareciam ser capaz de chuva transparente.
- Ei, chegou o reforço! – disse bem alto quando me viu a poucos metros de distância.
Atravessei a rua minúscula que só dava espaço para bicicletas e motos e parei na esquina onde os três estavam. Eu sabia que tinha um sorriso meio assustado e meio desconfiado no rosto quando me deparei com os três homens olhando para mim como se estivessem rindo de algo que eu não sabia o que era.
- O que vocês estão fazendo? – perguntei com um pouco de receio.
- Tirando foto do quanto a gente ‘tá bonito. – deu ombros. Eu balancei a cabeça negativamente e comecei a rir junto. – É sério, não acha que esse look ‘tá digno de fazer um ensaio?
Olhei para os três e percebi que um deles era o amigo de que eu havia conhecido na semana anterior, o Miguel. O outro era um sujeito um pouco mais alto que eu e fazia o tipo “garoto mais bonito da escola”, aquele tipo de pessoa que você já fica automaticamente sem graça se sequer olha na sua direção e sorri.
- Bom, acho que sim... – respondi tentando entrar na brincadeira.
- Sobrou uma capa pra você também, mas é diferente. – Miguel se dirigiu diretamente a mim.
- É verdade. – concordou e estendeu a mão na minha direção. – Me deixa guardar as suas coisas no balcão e eu trago a sua roupa especial.
Entreguei-lhe a minha bolsa e olhei com desconfiança enquanto ele entrava rapidamente na recepção e voltava para o lado de fora antes mesmo que a porta de vidro se fechasse. Em suas mãos havia uma capa de chuva amarela bem berrante.
- Não acredito nisso... – balancei a cabeça em negação enquanto desdobrava aquele tecido de plástico. Os três me olhavam extasiados e eu, por fim, vesti aquilo ali.
- Ei, tem que cobrir a cabeça. – se pôs na minha frente e ajeitou o capuz de plástico grosso, colocando o meu cabelo todo para trás. Isso exigiu que ele passasse a mão no meu pescoço e depois na minha nuca e eu senti suas mãos geladas, o que me deu a impressão de um arrepio no lugar onde ele havia encostado. Ele também puxou as duas cordinhas que apertaram a abertura do capuz em volta do meu rosto, me fazendo ficar apenas com os olhos, o nariz e parte da boca descobertos. – Pronto, agora ‘tá bom.
- Meu deus do céu... – eu me olhei no reflexo de vidro da entrada do estúdio. Estendi meus braços e balancei todo aquele plástico em volta do meu corpo. – Eu ‘tô parecendo o Kenny do South Park!
- Ninguém quis ficar com essa. – deu ombros. – É a mais feia e a mais quente.
- Que ótimo...
- , você já conhece o Miguel. – ele apontou para o cara que eu já conhecia e depois apresentou o outro. – Esse é o Nacho, outro entusiasta de tatuagens e meu amigo desde que me entendo por gente.
Nacho não poderia ser seu nome de verdade, mas guardei essa dúvida para mim mesma. Feitas as apresentações, foi o Miguel que entregou para cada um de nós uma lata pesada de tinta com um cano de spray na ponta. Como eu havia imaginado antes, ele parecia mesmo encarnar o papel de homem mais velho e responsável pela bagunça e começou a nos dar instruções de como e onde passar a tinta nas paredes da sala que e eu havíamos limpado no dia anterior.
- É esse que tem a tatuagem do Camus? – virei para trás enquanto entrávamos na parte de dentro do estúdio e perguntei para em voz baixa.
- Não, mas foi ele que tatuou. – ele me respondeu sorrindo e fez sinal de silêncio, como se pedisse para eu guardar segredo.
A sala infiltrada mais uma vez estava completamente vazia, exceto pelo armário da parede. Havia uma fita branca que dividia todos os quatro lados da parede pela metade, e Miguel nos orientou, então, a jogar os jatos de tinta abaixo da marca. Fiz tudo completamente às cegas porque não fazia ideia de como aquilo tudo funcionaria no final do dia, mas confiei que qualquer um ali tinha mais conhecimento do que eu. Minha parte era apenas ajudar.
Achei que ficaria completamente alheia à conversa dos três por motivos óbvios. Primeiro que eles provavelmente falariam em catalão o tempo inteiro, segundo que os três eram amigos de longa data e eu estava ali, mais uma vez, só porque havia insistido em ajudar. Eu estava preparada para me sentir deslocada, para variar, mas me surpreendi quando o segundo amigo, o Nacho, começou a perguntar de mim.
- Então, amiga do , ele falou que você estuda terrorismo, é verdade?
- Ela tem nome, Nacho. – repreendeu Miguel lá do seu canto na sala.
- Foi mal, tentei fazer graça! – ele ergueu os braços como se pedisse desculpa.
Segurei bastante para não dar uma resposta meio grossa ou no mínimo revirar os olhos. Eu havia me esquecido como era essa sensação de estar no meio de um grupo de homens e algum deles ser um pouco idiota; felizmente todos os homens da minha vida, e eram vários, graças aos meus irmãos, passavam longe de qualquer estereótipo masculino. Bom, tenho que admitir, no entanto, que meu irmão mais velho era o pior tipo de homem desse mundo com sua constante masculinidade tóxica. Era por essas e outras que a gente não se dava bem.
- Eu estudo terrorismo, sim, amigo do . – respondi. – Entre outras coisas.
- Legal, legal... – ele assentiu. – A gente teve um ataque na cidade no ano passado, você ficou sabendo?
- É claro que eu fiquei sabendo. – ergui as sobrancelhas como se fosse óbvio. – Eu vou começar a trabalhar num projeto da Universidade sobre como as cidades européias se recuperam de um ataque terrorista.
- Em qual universidade você estuda, ? – perguntou Miguel educadamente.
- Na UAB.
- Na Autónoma?
- Exatamente. – confirmei com um sorriso. – É bem perto de onde eu moro.
- É impressionante. – Miguel continuou. – Você fez transferência ou...?
- Sim, eu me transferi da França. – expliquei com alegria porque vi que ele estava genuinamente interessado. – Não é tão difícil assim, uma vez que eu já estava engajada nos estudos de Segurança Internacional, foi fácil achar um nicho acadêmico aqui que acomodasse a minha pretensão de carga horária.
- E onde você estudava antes? – dessa vez Nacho perguntou.
- La Sorbonne. – respondi distraidamente.
Silêncio. O barulhinho do spray saindo das outras três latas de tinta havia cessado e eu virei para trás apenas para ver aqueles três sujeitos me encarando como se eu tivesse dito algum absurdo.
- Que foi? – perguntei assustada.
- Você estudava na Sorbonne? – Miguel repetiu como se a informação fosse um escândalo.
- Sim...
- Tía, quantos anos você tem? – foi a fez de Nacho perguntar ainda com aquele mesmo tom de surpresa.
- Dezenove... – respondi com cuidado.
- Você tem dezenove anos? finalmente falou alguma coisa, porém aquela entonação começava a me apavorar.
- Tenho, mas por que vocês estão falando assim? – cruzei os braços.
Os três se entreolharam sem falar nada, o que aumentou mais ainda a minha profunda irritação.
- Eu acho que eu nunca respirei o mesmo ar de alguém tão inteligente assim. – Nacho ergueu as sobrancelhas e voltou a pintar a sua parte calmamente.
- Não é pra tanto. – contestei aquela observação. – Mal sabem vocês que o renome da Sorbonne vem na verdade dos estudos de artes, literatura e idiomas. O resto ‘tá dentro do padrão.
- Mesmo assim, dá pra ver de longe que você é inteligente, Niña. – Miguel disse carinhosamente. – É o que nos esconde esse tipo de coisa pra não exibir você.
Olhei para que ainda parecia processar a informação de que eu tinha dezenove anos. Eu achei que em alguma conversa eu tinha mencionado isso, mas parece que não. Me dei conta de que, na verdade, eu também não sabia exatamente a idade dele, mas me lembrava dele ter dito que tinha quase trinta anos. Não sei por que esse detalhe fixou-se na minha mente e agora eu estava curiosa.
- Eu nem sabia disso... – ele se defendeu.
Passei um breve momento fantasiando com contando sobre mim para os seus amigos. Miguel já havia dito que ele falara da minha tatuagem, e agora ele também havia contado que eu estudava terrorismo. Por algum motivo, me parecia uma situação muito agradável de se imaginar, ele falando sobre mim, sobre o que a gente havia conversado, nossas inúmeras coisas em comum e as poucas opiniões divergentes. Era estranho pensar que ele tinha uma opinião muito específica sobre a minha pessoa, assim como eu tinha dele, mas eu preferia pensar que seus olhos felinos transbordavam interesse nos detalhes ao me descrever quem ele conhecia.
Me surpreendi com esse pensamento e tenho certeza que acabei ficando muito vermelha, como se eu mesma tivesse me pegado no flagra fazendo algo errado. Dava vontade de apertar os lábios para que o sorriso não me escapasse, e disso com certeza eu já havia perdido o controle. Queria que de fora fosse muito plausível que eu estivesse sorrindo por conta de um assunto engraçado levantado por qualquer um dos três caras ali, mas por dentro eu sabia muito bem que o motivo da minha satisfação era saber que, de novo, andava falando de mim.

Aquela ajuda na pintura da sala do estúdio rapidamente escalou para uma minirreforma não planejada e orquestrada por três pessoas completamente leigas e Miguel. Eu tive uma ideia sobre os vários abajures e luminárias que ficavam espalhados pelo estúdio e comecei a mudá-los de lugar para melhor favorecer o ambiente da recepção. Em algum momento da tarde, Nacho apareceu com uma enorme cartela de adesivos escrito I Love Pain e começou a pregá-los em todos os lugares possíveis, o que devo admitir que ficou bem legal. A entrada do estúdio antes parecia um pouco claustrofóbica, e agora, com alguns pequenos ajustes, estava perfeitamente aconchegante – o tipo de atmosfera que tranquiliza qualquer pessoa antes dela ter a própria pele rasgada por uma agulha.
De qualquer forma, uma pessoa da corretora de imóveis era esperada no dia seguinte para cuidar de verdade da parte do encanamento, como era previsto no seguro que e o colega haviam fechado por contrato. Dessa parte eu também não entendia quase nada, mas tenho certeza que seria bem cuidada porque todo mundo ali se mostrava bem responsável.
Nacho decidiu que era hora de descansar e nos sugeriu que a gente devia beber alguma coisa. Ele mesmo apareceu com duas garrafas de tequila, mistura para margarita e vários copos de shot e taças. Aparentemente, ele guardava uma caixa de isopor no carro com tudo que havia sobrado da festa de San Juan algumas semanas antes, por isso já estava preparado.
Nos acomodamos numa espécie de terraço que havia nos fundos do estúdio, uma área que eu ainda não tinha visto, onde havia uma mesa de ferro e várias cadeiras de jardim. se movimentava rapidamente para deixar o lugar apresentável; trouxe uma toalha, lavou os copos e acendeu as luzes externas, porque já anoitecia.
Ele não falava diretamente comigo há horas. Quando estávamos entretidos em um assunto, sim, ele falava e correspondia, mas por algum motivo ele havia parado de se dirigir a mim por algum tempo. Por isso me surpreendi quando ele puxou uma das cadeiras e se sentou bem ao meu lado, mas com mais proximidade que o normal. Era engraçado ver o enorme espaço que ele precisava dar entre a cadeira e a mesa para poder acomodar as pernas enormes. Lembrei-me mais ou menos o desconforto que eu mesma sentia quando estava usando as carteiras escolares com a mesa colada à cadeira.
Queria virar para o lado e lhe dizer qualquer coisa amigável ou no mínimo demonstrar que eu percebera sua presença ali, mas me ocorreu que talvez eu tivesse dito ou feito alguma coisa errada sem querer naquele meio tempo e ainda não tinha percebido. Comecei a ficar nervosa e me senti extremamente agradecida que Nacho tivesse me entregado um shot de tequila.
- Um brinde, então. – Miguel anunciou em voz alta e erguendo o seu próprio copo. – Às merdas que acontecem de vez em quando, às reformas e aos novos amigos.
- Que brega... – Nacho riu sozinho.
Mais depressa do que eu, virou a tequila e colocou o copo na mesa com força. Senti minha garganta e minha língua queimarem quando virei todo o conteúdo do copo de uma vez, e não consegui segurar a careta quando senti a dormência. Isso, claro, não me impediria de tomar mais.
- Me perdoe recomeçar o interrogatório, . – Nacho se dirigiu à mim alguns shots depois. – Mas você tem que reconhecer que estamos em desvantagem aqui. Nós três já sabemos tudo um sobre o outro, então, você é o assunto mais interessante no momento.
- O que você quer saber? – devolvi a pergunta em tom de desafio enquanto ele colocava mais tequila no meu copo.
- A pergunta do meio milhão – Nacho anunciou como se fosse a coisa mais importante do mundo. – Você tem alguma amiga pra me apresentar?
Franzi a testa sem entender, enquanto e Miguel riam. Nacho virou mais um gole e esperou a minha resposta.
- Como assim pergunta “do meio milhão?” – repeti.
- É porque a pergunta do milhão é outra. – ele se explicou. – Eu perguntaria se você tem namorado, mas independente da sua resposta, eu já sei que você ‘tá fora dos meus limites.
- Hmm... – peguei meu copo já cheio e também virei tudo de uma vez. – Você é mais esperto do que parece.
Os três, então, começaram a rir alto e o próprio Nacho fez uma cara de touché, mesmo que também tivesse achado graça.
- Mas respondendo à sua pergunta, não, eu não tenho amiga para te apresentar. – pensei em Anya e depois me lembrei das minhas colegas de trabalho. – Na verdade, eu conheço as garotas que trabalham no Bob’s Kitchen, mas não sou tão próxima delas assim... Por enquanto. – pisquei o olho para fingir cumplicidade.
- Isso aí! – Nacho apontou para mim com satisfação. – Pode fazer propaganda de mim quando quiser.
- O que é que ela vai falar de você, Nacho? – indagou Miguel.
- Repetente da sétima série. – , de repente, começou a listar. – Roubou o carro da mãe da namorada no colegial pra poder ir pra Girona, brochou no primeiro ménage...
- , essas coisas não se contam! – gritou Nacho do outro lado da mesa.
- Não vai ser segredo quando você travar com sua futura namorada, tio contestou com um sorriso cínico no rosto. – É melhor deixá-la informada das possibilidades.
- Nada disso é verdade. – Nacho apontou para e me olhou em desespero.
- Parece verídico para mim... – dei ombros e vi ele ficando cada vez mais apavorado.
- Chega, vamos mudar de assunto. – ele bateu na mesa.
Não deu certo. O que aconteceu dali pra frente foi basicamente uma coletânea muito extensa e rica em detalhes de todas as péssimas decisões que Nacho havia tomado durante toda a vida. A maioria dos casos envolvia algum furto de carro que tinha toda inocência, a combinação desastrosa de alguma droga e álcool ou então alguma merda que ele havia falado para alguma mulher. Não precisei de muito tempo para decidir que definitivamente eu jamais sequer mencionaria o nome de Nacho para qualquer uma das minhas colegas de trabalho. Ele era engraçado, charmoso e tudo mais, mas ele não valeria a pena. Melhor mantê-lo por perto como amigo.
Eu não havia percebido como bebia tanto. Miguel, para a minha surpresa, não estava bebendo desde o início da noite, e ele tinha se encarregado de levar Nacho em segurança para casa em seu carro – porque àquela altura, ele estava entre a fase sorridente e a fase sonolenta do álcool. Eram mais de onze da noite quando todos concordamos que era hora de ir embora, afinal, a segunda feira nos aguardava.
- Eu te acompanho até em casa. – me disse em voz baixa quando estávamos saindo do estúdio.
- Não precisa, ‘tá tarde. – agradeci enquanto via-o trancando a porta e acionando o alarme pelo pequeno controle. – Você tem que ir embora também.
- Eu moro há menos de três quarteirões daqui – ele apontou na direção oposta. – Eu só preciso passar no mercado antes e te levo pelo menos até o metrô Jaume I.
Avaliei a situação rapidamente. estava bem em pé e falava calmamente, o que era o oposto do que eu imaginaria de uma pessoa tão alcoolizada.
- Tudo bem. – concordei e comecei a acompanhá-lo pela rua.
Ele não disse mais nada. Passamos por um supermercado Keisy, aberto 24 horas, e fez menção de entrar. Eu fui atrás e continuei seguindo-o distraidamente enquanto ele pegava algumas coisas e colocava numa cesta de metal.
- , preciso te contar uma coisa. – ouvi me chamar quando já estávamos parados na fila não muito longa.
Esse tipo de frase não se diz. Simplesmente não se diz. É a maior covardia que pode ser feita com qualquer pessoa que sofre com ansiedade. Naquela mísera fração de segundo eu já havia visualizado os piores cenários na minha cabeça.
- Eu não consigo te levar pra casa. – ele se abaixou para me falar próximo ao meu ouvido. – Eu não ‘tô aguentando ficar em pé.
Virei-me na sua direção e o olhei bem. Eu sabia que havia algo de errado, porque não era possível que ele havia bebido tanto, muito mais do que eu e Nacho, e ainda estava perfeitamente estável.
- Não tem problema – eu tentei conter o impulso de rir daquela situação. – Eu vou sozinha até o metrô e você vai pro seu lado.
- ... – ele continuou. – Acho que você não ‘tá entendendo.
- Você ‘tá passando mal? – arregalei os olhos.
- Quase. – admitiu. – Então será que...
- Você ‘tá me pedindo pra te levar em casa? – eu cruzei os braços e sorri, esperando que ele ficasse um pouco sem graça com a minha constatação.
apenas assentiu e depois começou a rir também.
- Não consigo acreditar nisso. – eu balancei o rosto em negação enquanto o caixa passava as compras. – Um homem desse tamanho precisa de babá.
- Eu não preciso de babá – ele sussurrou. – Eu só preciso chegar em casa inteiro. Não quero cair em qualquer beco e acordar com um cachorro lambendo a minha cara.
- Você fala como se isso já tivesse acontecido...
Na porta do supermercado, carregava a sacola de compras e me entregava as chaves de casa. Ele prometera que conseguiria me guiar pelo caminho, mas que a parte de abrir a porta do prédio e do apartamento seria por minha conta. Eu concordei, muito embora mal pudesse acreditar que aquilo estava acontecendo. Preciso confessar que eu também estava bastante tonta, mas nem de longe eu passaria mal. Talvez tenha sido o álcool o responsável por me manter livre de uma crise de ansiedade naquele momento.
Nem em um milhão de anos eu achei que a minha noite começaria assim.


Capítulo 8

I don't know if we should be alone together
I still got a crush, that's obvious
If nobody's around, what's stopping us?


Ele morava mesmo muito perto dali, então em menos de quinze minutos já estávamos em frente ao seu prédio. me disse que morava no terceiro andar, e logo menos ele estava apoiado na parede do elevador, gemendo do que parecia ser dor. Saímos de lá e ele me indicou com a mão a porta que eu deveria abrir. Não parei para pensar que eu estava literalmente entrando na casa dele, algo que eu não imaginei que fosse acontecer tão cedo – e eu não posso negar que, ultimamente, eu vislumbrava o dia que isso fosse acontecer.
- Fique à vontade, a casa é sua, não repare na bagunça, blá blá blá... – largou a sacola de plástico em cima de uma mesa de vidro e saiu andando rapidamente pelo apartamento.
Não vi exatamente onde ele havia entrado, apenas ouvi uma porta batendo e depois o silêncio. Procurei um interruptor por perto e acendi a luz da sala onde estávamos e dei uma olhada no ambiente. Livros por toda parte de forma desordenada, alguns cactos pequenos, papeis e itens de pintura eram os objetos que mais chamavam a atenção por ali. Todos os móveis pareciam improvisados, desde os dois enormes sofás diferentes com almofadas de tamanhos variados até a escrivaninha que era ocupada por um grande iMac, algumas velas aromáticas e mais papeis de desenho – uma combinação no mínimo perigosa.
Fechei a porta atrás de mim e peguei a sacola que havia jogado de qualquer jeito por aí. Procurei a cozinha e levei as compras até lá, e pude reparar que ali, sim, a ordem e a limpeza eram imperativas, menos mal. tinha comprado um verdadeiro kit anti ressaca com pó de café forte, uma barra de chocolate meio amargo, um pacote de torradas e um abacate pequeno.
Continuei sem ouvir qualquer outro barulho desde que estava ali dentro, então decidi me fazer útil. Por mais que todos os meus instintos me dissessem para jamais abrir a geladeira na casa de qualquer pessoa que não fosse Anya, encontrei ali dentro uma garrafa de suco de laranja e água gelada. Achei também uma faca de ponta fina e abri o abacate em dois, tirei a semente e amassei uma das metades em cima de duas das torradas recém compradas. Coloquei tudo em cima de um prato limpo, peguei a barra de chocolate e levei para a sala em cima da mesa de vidro. Voltei à cozinha para buscar os dois copos com suco e água e esperei que ressurgisse das cinzas.
Me senti muito boba, mas ao mesmo tempo apreensiva. Não sei dizer o que me deu para simplesmente invadir a cozinha de uma pessoa alcoolizada e lhe preparar algo para comer, ma me pareceu a coisa certa. Nunca na minha vida eu faria de novo uma coisa daquelas, porque o nervosismo que me bateu eu jamais desejaria experimentar novamente.
finalmente apareceu de roupa trocada. Ao invés da regular vestimenta toda preta, ele agora estava com uma blusa cinza de algodão e uma calça que parecia de pijama. Ele estava com um aspecto miserável com uma camada de suor frio brilhando na testa. Quando finalmente percebeu o que estava esperando na mesa, ele me olhou confuso.
- Quem fez isso? – ele perguntou, apontando para onde eu estava.
- Como assim quem? – devolvi a pergunta. – Claro que fui eu.
- Por quê?
- Porque você está passando mal, . – respondi bem devagar para que ele não pudesse fazer outra pergunta idiota.
- Você entrou na minha cozinha e mexeu nas minhas coisas? – ele puxou uma cadeira na minha frente para se sentar.
Eu senti que a vergonha queimava no meu rosto que nem demônio entrando no Vaticano. Empurrei o copo de suco de laranja em sua direção e ordenei com firmeza:
- Toma isso, vai te fazer bem.
não disse mais nada, apenas aceitou o que eu havia falado e bebeu de uma vez todo o conteúdo do copo – o que era uma péssima ideia, porque se ele estava prestes a passar mal, com certeza o suco bateria no seu estômago e sairia do mesmo jeito que entrou. Eu ainda não sabia se gostaria de estar ali para acompanhar esse momento.
- Você vomitou?
- Um pouco. – ele respondeu com a voz embargada. – Não queria que você escutasse, sabe. Isso também ‘tá um pouco além do lugar que você ocupa na minha escala de intimidade.
Não aguentei e comecei a rir me lembrando do que eu mesma tinha dito sobre a gente não se conhecer bem o suficiente para ele ver o meu mamilo que não era invertido.
- Eu acabei de abrir a sua geladeira, acho que mereço ganhar alguns pontos.
- Isso é verdade. – ele concordou enquanto ia em direção à torrada com abacate. – Requer bastante coragem, estou orgulhoso de você.
- Bom, eu agradeço o reconhecimento. – imitei o seu tom de voz cordial.
praticamente engolia a comida em poucos segundos. Foi engraçado vê-lo assim e me lembrar dos meus próprios irmãos e de quando a gente era criança. A memória afetiva foi tão boa que eu não consegui conter um pequeno sorriso no canto dos lábios, que percebeu e provavelmente achou que eu estava sorrindo para ele.
- Que foi? – ele perguntou.
- Nada. Eu só gosto de cuidar das pessoas.
- É bom saber disso. Vou te manter sempre por perto, então. – disse de um jeito que me pareceu carinhoso. – Tenho que me lembrar de fazer isso mais vezes.
Dei uma risada sem graça e percebi que estava ficando vermelha novamente. Com o copo d’água na mão, também notou e começou a rir sozinho.
- Você é sempre tão tímida? – ele perguntou admirado.
- É o álcool.
Poderia ser, mas nem eu acreditava nisso.
se levantou da mesa e foi até a rede que ficava pendurada de frente para uma pequena varanda, o famoso balcón que havia em todos os apartamentos de Barcelona. Ele se acomodou ali com uma perna apoiada na parede e outra no chão. Sem saber o que fazer ali sentada sozinha, fui atrás dele e me sentei no sofá mais próximo de frente para seu rosto.
- Quantos pontos eu já subi na sua escala de intimidade? – ele perguntou e me olhou de um jeito sonhador.
- Deixe-me ver... – eu fingi pensar com seriedade. – Te ajudei quando você deu PT, mas não vi você vomitando. – comecei a listar nos dedos. – Então não precisei segurar o seu cabelo. Em compensação, eu basicamente te alimentei e salvei a sua vida com hidratação e uma boa dose de glicose. Eu diria que a essa altura, você me deve pelo menos um presente.
- Eu te devo um presente? – ele apontou para si mesmo indignado.
- Isso mesmo. – eu sorri satisfeita. – Eu também espero um cartão.
fez um barulho esquisito com a boca, como se estalasse os lábios em negação e deboche. Eu me encostei ao sofá e fiquei observando apenas uma metade do seu rosto iluminada pela lua e pelos postes lá fora.
- Intimidade é um pouco diferente pra mim. – eu resolvi dizer, depois de relaxar os ombros no lugar onde eu estava sentada.
- Em que sentido?
- Pequenas coisas são sempre mais difíceis. – decidi fechar os olhos para tentar forçar a minha memória. – Eu sempre resisti bastante com a convivência diária com outra pessoa, compartilhar rotinas, manias e frescuras. Demorei quase dois anos para conseguir passar mais de um fim de semana na casa dos pais do meu namorado... Ex, na verdade. A simples ideia de conhecer os pais dele e ser integrada ao núcleo familiar me deixava em pânico.
- Por quanto tempo vocês ficaram juntos?
- A gente começou a namorar quando eu tinha quinze anos. – relembrei. – E terminamos no último dia de São Valentim.
- Você quer dizer desse ano? – perguntou em voz alta e eu só assenti em silêncio, confirmando. – É um dos motivos de você ter se mudado? Quer dizer, além da sua amiga insistir?
- Exatamente. – respondi, e fiquei surpresa dele se lembrar desse detalhe, que eu provavelmente só havia mencionado uma vez. – Eu já tinha chegado ao ponto em que eu dividia toda a minha intimidade com ele, mas não sei dizer se foi por vontade própria ou por obrigação.
- Quando você diz intimidade eu não sei se você fala de...
- Sexo é fácil. – eu o interrompi sabendo bem o que ele queria dizer. – Com isso eu nunca tive problema, muito pelo contrário. Tirar a roupa na frente de alguém, ficar exposto, se sentir fisicamente frágil, isso tudo é muito momentâneo. E dá pra esquecer a vergonha quando se está com tesão, isso é fato.
riu e eu abri os olhos. Ele havia mudado de posição para ficar sentado na rede, mesmo que de um jeito desajeitado.
- Fale por você. – ele abaixou a cabeça e cruzou os braços.
- Como assim?
- Eu não acho que é tão fácil assim. – começou a explicar. – Eu sempre demoro muito tempo até ficar à vontade com alguém. Eu sempre preciso me sentir confortável acima de tudo.
- Engraçado... – peguei aquelas palavras e me dei um instante para refletir comigo mesma. – Já eu, sempre preciso me sentir desafiada.
Esperei que ele fosse rir, mas de novo aquele silêncio pesado caiu em cima de nós dois. dessa vez sustentou o meu olhar de baixo pra cima e permaneceu com o rosto sério.
- Ok, acho que quem ficou com tesão fui eu agora.
Eventualmente eu descobriria que ele não estava brincando, mas mesmo assim eu ri e levei aquilo como se ele estivesse debochando do que eu havia dito antes.
- Sei lá, eu gosto de chegar ao meu limite com uma pessoa. – eu continuei. – Sabe aquele ponto maravilhoso em que todas as tensões se encostam e tudo aquilo que você sente por dentro começa a ultrapassar a barreira emocional e se torna física?
apenas assentiu e parecia impressionado. Isso era ótimo, porque inconscientemente eu já havia tomado ele como um desafio.
- Pois então. Isso é fácil e é divertido. Disso eu gosto.
- Do que você não gosta é de conhecer os pais e de... Sei lá, dividir a roupa pra lavar? – perguntou com um sorriso no rosto.
- Exatamente.
- Então você prefere tirar a blusa na primeira vez que conhece um cara? – ele ergueu as duas sobrancelhas.
Mordi o lábio e imitei o seu sorriso, mas na minha superfície da minha mente, ele ainda estava apenas brincando comigo e com o conteúdo de todas as nossas conversas anteriores.
- Sim.
- Em toda a minha vida, eu nunca conheci uma mulher que nem você. – soltou uma risada fraca e se inclinou para frente. – Quem diria...
- Homens se impressionam muito fácil.
sorriu de lado e passou a mão nos cabelos loiros. Ele parecia querer dizer alguma coisa, mas por algum motivo, só conseguia balançar a cabeça em negação e continuar sorrindo.
- O que foi? – estranhei aquele comportamento.
- Eu ‘tô tentando pensar em qualquer desculpa pra te ver de novo. – ele respondeu. – Porque até agora, eu tive sorte que várias inconveniências e coincidências aconteceram, mas não sei como vai ser daqui pra frente. Na verdade, nem sei se você gosta de me ver tanto assim...
- Não se preocupe, eu te chamo pra sair. – tranquilizei-o, porque aquela insegurança contida foi a coisa mais adorável que eu já tinha visto nele. – Não tem como não gostar de falar com você, . Você deve ser a melhor pessoa que eu conheci em Barcelona.
Até porque eu nem conhecia tanta gente assim, mas resolvi omitir esse pensamento.
- É, eu sei. Eu gosto muito de mim mesmo também. – ele disse cheio de convencimento.
- ‘Tô vendo que você não ‘tá mais passando mal. – apertei meus olhos na sua direção e ele parou de rir imediatamente. – Eu tenho que ir pra casa, meu turno é o da manhã... - Tudo bem, eu não quero atrapalhar o seu sono.
me acompanhou até o elevador e também chamou um táxi por um aplicativo local. Quando apareceu a notificação que o carro já estava chegando, eu já estava a postos para sair, mas fez questão de se despedir de mim.
- Desculpa ter segurado você aqui por muito tempo. – ele começou se desculpando. – E eu nem sei como te agradecer por ter ficado.
- Já falei que você pode me dar um presente e um cartão! – brinquei só para ver sua expressão sorridente. – Es broma. Não foi nada. Eu imagino que você teria feito o mesmo por mim.
- Teria sim, pode ter certeza. De qualquer jeito, obrigada de novo, Niña. Trocamos um abraço desajeitado, porque eu estava com um pouco de pressa para descer e ainda estava um pouco tonto. Dei-lhe um sorriso antes de abrir a porta do elevador e vi pela janelinha de vidro que ele ficou lá no corredor por mais alguns instantes.
Foi só quando eu me sentei no banco de trás do táxi que eu percebi o quanto estava exausta fisicamente. Meu corpo pedia um descanso, como se eu tivesse trabalhado arduamente o dia inteiro sem parar, mas minha cabeça estava frenética de várias sensações e memórias que inevitavelmente me faziam sorrir sem perceber. Talvez o motorista tenha notado pelo retrovisor que eu estava toda alegre olhando para o nada, e provavelmente pensou que eu era doida.
Aos poucos, eu tentaria me convencer de que me sentir daquele jeito era algo extremamente necessário. Eu sabia muito bem que todo mundo à minha volta percebia o quão nervosa e preocupada eu ficava com os menores dos problemas. A imagem que eu passava era de uma pessoa 100% tensa e travada, mas eu ainda me lembrava de como eu era antes de experimentar coisas como o luto e o abandono. Era esse tipo de sentimento que eu queria afastar cada vez mais do meu processo de adaptação num país novo e numa vida nova.


Capítulo 9

I got everything that I wanted
I built myself a house on the Hill
All my passion fulfilled, saw it fast like a film
All that sadness and guilt, now I just wanna chill
But I can't


Demorei a aprender que eu morava na Dreta de l’Eixample, e não na L’Antiga Esquerra, e muito menos na La Nova Esquerra. Eu costumava dizer que morava em Sagrada Família, afinal, a catedral estava a apenas cinco quarteirões de distância, mas aparentemente isso era um caminho longo o suficiente para ser considerado outro bairro. Aprendi que estava errada, e então deixei que as experientes vozes locais me ensinassem o que era correto. Mas, no final das contas, o que importava era que, aos poucos, eu conhecia a geopolítica de Barcelona, um quarteirão de cada vez. Estava acostumada ao mesmo trajeto todos os dias, dois quilômetros a pé ou então três estações de metrô, e frequentemente esticava o meu caminho graças às visitas aos becos e ruas estreitas do Barri Gòtic, onde trabalhava .
A segunda quinzena de agosto era tão ruim quanto haviam prometido: o tempo parecia ter parado, metade da cidade havia desaparecido e o calor com certeza estava mais intenso. Eu achei que teria duas semanas de folga na primeira metade do mês, porque 80% dos restaurantes e lojas entravam de recesso na quinzena, mas eu estava redondamente enganada. Bob havia reduzido o expediente do café pela metade, mas por coincidência ou não, era exatamente durante o meu turno que ele ficaria aberto. Praticamente não havia movimento algum depois das nove da manhã, então o resto do tempo passava da forma mais lenta e tediosa o possível.
Eu decidi ser mais esperta. Faltava pouco tempo para Anya e Thor retornarem de viagem, e eu podia usar o meu vasto tempo livre para aprender um pouco mais sobre aquela cidade que era visualmente atrativa, mas cuja personalidade ainda me intimidava. Me comprometi a visitar as redondezas que eu pudesse facilmente chegar a pé, e que me ofereciam pelo menos uma vista que valesse a pena. Depois do trabalho, eu caminhava por boa parte do Passeig de Colom, com seus hotéis luxuosos de um lado e o principal píer de Barcelona do outro. Às vezes eu optava por um trajeto menos ensolarado, e seguia pelo Passeig de Gracia, que já era perto da minha casa, mas que eu ainda não conhecia. Os prédios modernistas sempre decorados por várias bandeiras da Catalunha pendendo dos balcóns, a impressionante quantidade de mercadinhos que pertenciam ao imigrantes do sul da Ásia, os patinetes aos montes e as pessoas dormindo tranquilamente jogadas em qualquer gramado. Me perguntava quando é que eu enfim me sentiria em casa naquela cidade, que tinha tudo para conquistar o meu coração, mas me causava desconfiança. A vida não poderia ser tão boa assim.
Eram seis horas da tarde de uma segunda feira, que fora extremamente desprovida de agitação. Há dias eu já não ligava a televisão ou o computador, nem mesmo ouvia música no celular enquanto ia da casa para o trabalho. Me expus aos sons da cidade, mesmo que fossem apenas buzinas de carro e pessoas falando uma língua que eu não dominava, porque eu queria que o meu cérebro descansasse um pouco de toda informação desnecessária, anúncios e dramas. Eu estava voltando para casa à passo de tartaruga e constatei que o meu restaurante preferido àquela altura estava fechado. Ele era a minha opção mais conveniente porque ficava no caminho do meu prédio e eu já tinha passado por ali tantas vezes que o casal de donos já sabia o meu pedido preferido.
Minha fome sem tamanho me obrigou a abaixar o meu padrão de qualidade, então parei no restaurante que havia na esquina da minha casa. Não havia absolutamente nada de especial ali, muito pelo contrário; todos (e eu não estou exagerando) os restaurantes de esquina pertenciam a alguma família oriental quase sempre vinda da China. Também não existia nenhum critério no menu, porque aparentemente os chineses eram especialistas em todos os pratos típicos da Espanha, da Catalunha e ainda faziam pizza. E foi exatamente isso que eu pedi quando me sentei na cadeira de metal numa mesa do lado de fora. Não queria correr risco com nada exótico demais.
Respirei fundo e contemplei a enorme avenida onde eu morava. O silêncio imperava ali e, por algum motivo, isso me incomodou. Eu precisava me distrair um pouco. Peguei o celular com a intenção de mandar mensagem para , mas ele já havia me chamado.

@: Nacho mandou dizer how you doing?
@: Eu estou de ótimo humor, então vou apenas fingir que não li isso
@: ah é? ‘Tá sorridente?
@: bastante
@: E qual o motivo?
@: um pouco de paz de espírito que eu estou merecendo
@: gostaria de ter a mesma sensação...
@: o que você ‘tá fazendo além de estar sorrindo?
@: fazendo nada enquanto espero minha pizza. E você?
@: contemplando meu lar recém faxinado
@: então você não está ocupado agora?
@: neste momento, não.
@: eu preciso de algo para passar meu tempo por enquanto
@: eu posso te entreter
@: onde você está?
@: na esquina da minha casa
@: mas eu quis dizer me entreter por celular... Você não está com o Nacho?
@: na verdade fui eu que falei aquilo...
@: how you doing?
@: não me faça sentir vergonha alheia, por favor
@: tudo bem... Ainda quer que eu te encontre?


Não respondi a última mensagem diretamente. Apenas mandei a minha localização e observei até que ele visualizasse. Também não esperei que ele me mandasse nenhum sinal sequer de que de fato estava a caminho. Eu simplesmente teria de confiar que ele apareceria.
Para a total surpresa de todas as células e neurônios do meu corpo, não senti nenhum pingo de ansiedade. Quer dizer, eu estava na expectativa que chegasse logo, mas em momento algum eu me peguei nervosa ou tive que me acalmar por qualquer motivo. Eu acredito que tenha sido graças ao barato natural de ter passado dias e mais dias não pensando em absolutamente nada, ou então devia ser o sono que eu estava sentindo há algum tempo. Aquele sol que insistia em ficar depois das seis da tarde, os tons dourados que a cidade ganhava com tamanha intensidade de luz me deixavam com muita vontade de apenas fechar os olhinhos em qualquer lugar, a qualquer instante.
Pude ver atravessando a esquina do quarteirão adiante. Ele vinha na direção oposta do metrô que ficava no final da rua, então não fui pega de surpresa por sua presença. Era impossível não notar uma figura tão diferente; eu digo isso não pela aparência e pelas roupas, mas sim pela altura. Eu já havia me acostumado ao pescoço e braços completamente cobertos por tatuagens, aos brincos enormes e ao olhar que eu ainda insistia que me lembrava um gato. Ainda assim, nada seria mais chamativo do que os impressionantes um e noventa e três de altura.
Quando chegou perto, ele simplesmente se sentou na cadeira bem ao meu lado e não disse nada. Apenas cruzou as mãos em cima da mesa e me olhou com uma expressão muito divertida, como se a minha cara fosse engraçada. Apareceu o mesmo garçom que me atendeu e pediu não uma, mas duas cervejas. Olhei para ele sugestivamente e enfim obtive uma resposta direta:
- Você não ‘tá bebendo nada. Eu também quero companhia.
- Pizza e cerveja... Não sei se combina muito. – fiz uma careta pensando nas duas coisas juntas.
- No calor, tudo combina com cerveja, sim. – ele insistiu e recostou-se na cadeira, pendendo um pouco mais para o lado esquerdo onde eu estava. – Você pediu uma pizza grande?
- Claro. – respondi, mas na minha mente eu já estava receosa. A pizza grande era suficiente para mim.
- Por que você ‘tá com essa cara?
- Bom, eu pedi pensando na minha fome. – expliquei – E eu conheço você. Se deixar, vai comer a pizza inteira sozinho.
- Vamos mudar para gigante então. – sugeriu dando ombros.
- É melhor pedir outra grande só pra você...
- , não acredito que você não quer dividir sua pizza comigo! – ele me acusou, mas um sorriso imediatamente surgiu no seu rosto.
- Eu não sou pequena, , eu também como muito! – apontei para mim mesma e ele me encarou.
Ele balançou a cabeça negativamente achando tudo aquilo um absurdo. Mas decidiu ceder assim que o garçom voltou com as cervejas e ele aproveitou para pedir uma pizza para si.
- É que pra mim todo mundo é baixinho e fragilzinho. – puxou um cigarro do bolso da calça e acendeu. - Eu esqueço que você é a exceção.
Puxei o copo grande e fiz menção de fazer um brinde. Ele empurrou o próprio na direção do meu e então bebemos. Aquela cerveja deveria ser a pior coisa que eu já havia bebido na minha vida inteira, aguada e morna.
- Que nojo... – comentei ao voltar o meu copo para a mesa.
- Eu gostei. – bebeu mais um gole enorme em seguida. Desconfiava que ele tivesse dito aquilo de propósito para me contrariar.
Como eu já havia pedido há um tempo, a minha pizza chegou naquele exato instante. Antes que o rapaz pudesse ir, pedi a ele que trouxesse ketchup e ele assentiu, mas não antes de me olhar confuso.
Pela visão periférica, havia mudado o peso do corpo para o outro lado da cadeira, assim a fumaça do cigarro não iria à minha direção. Por isso e pela minha fome absurda, apenas coloquei o ketchup em um pedaço e finalmente pude comer em paz.
- Meu rosto ‘tá sujo? – perguntei com as sobrancelhas franzidas quando percebi que ele me olhava de um jeito esquisito.
- O que foi que você acabou de fazer? – ele perguntou e soltou um pouco da fumaça.
- Eu não fiz nada, ora. – dei ombros sem entender.
- E o que é isso aí na sua pizza? – ele apontou para a forma de metal na minha frente.
Ainda não fazia ideia do que ele estava falando. Olhei várias vezes para ele e para a pizza na mesa, e então perguntei:
- Quer dizer o ketchup?
- É, o ketchup! – ele parecia indignado.
- Você não gosta?
- , ninguém gosta... – deu um último trago no cigarro e apagou no cinzeiro de vidro que estava na sua frente. – Isso é normal na Suíça? Colocar ketchup na pizza?
- Sim. – respondi ainda bastante confusa. Por que aquele escândalo todo? – Não é normal aqui?
- Claro que não. – ele então sorriu um pouco, mas parecia que aquela simples ação fora algo completamente de outro mundo. – Você não viu a cara do garçom quando você pediu? Ele também estranhou.
- Sei lá, vai ver ele não fala espanhol direito!
- Eu finalmente achei algo muito errado em você. – declarou como se aquilo fosse uma decepção gigantesca.
- Finalmente? – imitei o seu tom de voz. – O que isso quer dizer?
parecia que fora pego de surpresa tanto pelo que havia dito quanto por eu ter prestado atenção. Mas ele, para variar, era tão direto e sincero que não se abateu e respondeu com bastante confiança:
- Quer dizer que cada vez mais eu tenho certeza que você é um belo conjunto de coisas boas. – ele apoiou o rosto na mão esquerda e me olhou de um jeito que eu só poderia classificar como sonhador.
- Você achou que falando isso ia me deixar com vergonha? – apontei para ele. – Achou errado. A única coisa que eu consigo sentir nesse exato momento é vontade de comer.
sorriu para mim, mas cobriu a boca com a mão e só ficou me encarando enquanto eu terminava de tomar toda a cerveja restante do meu copo. Ele tinha sido pego de surpresa pela minha repentina segurança, e parecia ter ficado bastante admirado com isso.
- É uma pena. – ele arrumou a postura e levou o próprio copo aos lábios. – Eu gosto muito de como os seus olhos ficam quando você está sem graça.
Senti meu rosto ruborizando imediatamente. Simplesmente não conseguiria olhar para , que obviamente tinha percebido a minha reação. Meu coração estava daquele jeito como se eu tivesse tomado um susto, só que bom.
- Muito bem, você conseguiu... – respondi, mordendo o lábio tentando segurar um sorriso e falhando miseravelmente.
sabia exatamente o que falava e que suas intenções eram certeiras. Ele retribuiu apenas com a mesma expressão de divertimento e deslumbramento ao mesmo tempo. Talvez porque eu estava com o tal olhar sem graça...
- Mas voltando ao que é importante! – ele praticamente anunciou, agora com uma voz animada e presunçosa. – Seu defeito é esse: péssimo gosto alimentar.
- Quem me dera se isso fosse mesmo um defeito e se fosse o único que eu tenho... – respondi com um suspiro. – Pois saiba que colocar ketchup na pizza é normal em todos os lugares em que eu já morei. Até em Paris, onde as pessoas são extremamente frescas e criteriosas com comida.
- Tudo em Paris é melhor, é claro. – ele disse com um pouco de sarcasmo. – A cidade do romance. Me surpreende você gostar tanto de lá.
Aquele era um assunto delicado, quase tocava em algumas feridas que eu tinha feito questão de tratar nas últimas semanas. Senti um frio no estômago, mas não me deixei abalar.
- Era uma época diferente. – fechei os olhos tentando ignorar aquela sensação. – E engano seu que Paris é a cidade do amor. Isso é um mito.
- Ah é? Como é Paris então?
- É a cidade da história e da boêmia, pelo menos a meu ver. – expliquei com um pouco de nostalgia. – É a cidade da esperança do amor, para falar a verdade. As pessoas vão para Paris achando que o ar de lá é mágico. Colocam cadeado nas pontes, escrevem nomes nos muros. Existe toda uma sorte de ritos de amarração amorosa pela cidade inteira. Mas lugar nenhum é tão poderoso assim. Basta passar um tempo lá que você aprende a encontrar a magia em outras coisas além do romance... A dependência dessas expectativas produz muita frustração. Metade dos parisienses é mal humorada por causa disso, mas a outra metade conseguiu sua felicidade de outras maneiras.
- Eu nunca visitei. – disse depois de acompanhar as minhas palavras com total atenção. – Talvez a gente devesse ir um dia.
- Eu nunca mais vou voltar lá.
Aquela determinação me surpreendeu. Eu nunca antes havia pensado sobre esse assunto, então não tinha certeza de onde aquela ideia tinha surgido. Parecia verdadeira. Nos breves instantes em que eu fiquei em silêncio, a pizza de tinha chegado. Eu ainda cometi o erro de pedir mais uma rodada de cerveja para nós dois, por mais que eu tivesse achado aquela a pior bebida que eu já tinha provado.
- Você também tem uma longa história pra me contar. – ele me olhava atentamente. – Você já escutou a minha. Eu quero ouvir a sua.
- O que você quer que eu te diga? – dei ombros sem poder evitar a minha voz embargada. – Acho que dá pra deduzir que eu vim pra cá por causa de um relacionamento que deu errado.
- Quão errado? – insistiu.
- O suficiente para eu ficar desconfiada pelo resto da minha vida. E traumatizada também.
Senti um gosto amargo na boca que eu sabia que era refluxo, algo que acontecia com frequência quando eu me sentia ansiosa. Apertei meus lábios como se tentasse impedir as palavras de saírem por conta própria, mas aquela parecia ser uma batalha que eu travava com a minha cabeça também; eu tinha vontade e determinação para falar sobre isso, mas passei tanto tempo tentando bloquear as memórias que agora elas sairiam com dificuldade.
- Dediquei os últimos anos a alguém que não me queria de verdade, que me enxergava como um projeto. Essa pessoa queria que eu mudasse completamente para atender às próprias necessidades. Em troca, eu confiei toda a minha carência emocional nele, depositei todas as minhas expectativas amorosas naquele relacionamento e eu me sentia realizada assim. Quando eu deixei de ser apenas um personagem secundário na história dele... Aí veio o pior.
- Em que sentido?
- Ele me fez acreditar que eu era uma grande decepção... – lembrei-me. – De repente, eu não tinha mais a minha única fonte de carinho, atenção e amor. Eu me tornei uma pessoa completamente dependente emocionalmente e que, do nada, ficou sozinha no mundo. Por isso eu jurei para mim mesma que jamais seria tão ligada a alguém. Eu teria que dar conta sozinha das minhas necessidades.
- E isso tem funcionado bem? – perguntou com jeito de que já sabia mais ou menos a resposta.
- Não, eu sou um desastre. – ergui as sobrancelhas como se indicasse o óbvio. – Eu vim para uma cidade com meus dois melhores amigos e mal sobrevivo sem a companhia deles. Passei semanas, até meses sem interagir com pessoas. Não sei falar o idioma local e não me garanto tanto assim no espanhol...
- ... castellano. – ele corrigiu.
- Viu só? Não sei fazer nada.
- Eu vim para essa cidade para ser quem eu quiser. – continuei agora determinada a concluir o assunto. – Eu matei o meu antigo eu, mas para ser sincera... Essa versão de agora também não é muito boa. Pelo menos eu não fico mais desejando ser outra pessoa. Já consegui me conformar com o que tenho por enquanto.
- O que você tem por enquanto?
- Um emprego que me toma pouco tempo... – comecei a listar nos dedos. – Metade da minha família que não fala comigo, saudade dos meus amigos, muita coisa pela frente esse ano.
não respondeu por um tempo. Ele alternava o olhar, às vezes mordia o próprio lábio se impedindo de dizer qualquer coisa por impulso. Balançava a perna a ponto de bater os joelhos embaixo da mesa sem parar, e aquilo começava a me deixar nervosa.
- Por que você não apareceu no estúdio antes? – ele enfim perguntou.
Não soube o que responder de cara. Ainda não havia lhe contado a história de Lydia e de como a tatuagem dela me fizera ter vontade de ter uma também, então não tinha a menor ideia de como me explicar.
- Bom, eu não tive essa vontade de fazer tatuagem antes...
- Eu sei, eu sei. – ele levou uma das mãos ao rosto e fez uma expressão dramática. – Só estou pensando alto. É porque eu acho que eu poderia ter te ajudado esse tempo todo... Não que eu seja a melhor pessoa do mundo para isso, sabe? – ele se apressou para corrigir. – Mas eu tenho a impressão que você e eu somos parecidos nesse sentido. Eu tenho vontade de tentar ser outra pessoa. Não de mudar completamente, mas... Mas ultimamente eu quero me permitir algo que eu tenho me privado há muito tempo.
Eu tinha certeza que aquela hora e lugar eram completamente desfavoráveis para a conversa. passou as mãos no rosto e no cabelo algumas vezes, parecia nervoso.
- O que foi agora? – perguntei.
- , eu não quero ser inadequado, considerando que o foco da nossa conversa deveria ser só você.
Ah não, aquilo me dava um mau pressentimento.
- Tudo aquilo que você disse sobre ser a pessoa que você quer... – ele tentou se explicar, mas parecia cada vez mais ansioso. – Bom, para resumir, eu queria te dizer que eu também.
- Você também o que?
- Eu não pensei nisso só agora, é uma ideia recorrente e que tem ocupado cada vez mais a minha cabeça e as minhas intenções. - Não sei se você está ciente disso, mas eu tenho certeza que eu não te conheci à toa. – ele levou a mão até um dos bolsos na intenção de pegar mais um cigarro, mas desistiu na mesma hora – Eu tive milhares de clientes a minha vida toda e até agora nenhuma pessoa tinha me despertado tantas coisas boas. Há anos eu me tornei alguém cheio de má vontade e rancor, mas eu simplesmente me recuso a continuar assim. Cansei de isolar todas as possibilidades que eu tenho de ser alguém melhor.
Apertei meus lábios um contra o outro, porque meu rosto estava se mexendo sozinho para o que poderia ser tanto um sorriso envergonhado quanto uma careta de medo e mais pura ansiedade. Não sabia onde pôr as minhas mãos e, de repente, até senti vontade de ser fumante para poder segurar alguma coisa e acabar com o meu nervosismo.
- O que eu estou querendo dizer, colocou os braços em cima da mesa numa tentativa de me alcançar. – É que eu acho que...
- Eu sei. – levantei uma das mãos e coloquei entre nós dois. Ele piscou e eu respirei fundo depois de um breve momento de silêncio. – Mas calma. Nenhum de nós quer cair na cilada da paixão instantânea.
Não achei que aquelas palavras sairiam da minha boca tão cedo. Eu não tinha coragem, segurança, confiança, nada que me desse respaldo para afirmar os sentimentos de outra pessoa em relação a mim. Mas com essa declaração, eu enfim constatava e admitia para ele o que eu mesma sentia.
Um tempo razoável se passou sem que nenhum de nós dissesse mais nada. Foi o suficiente para eu me sentir incomodada, porque o que tinha sido um momento importante para mim, agora se traduzia em insegurança e desconforto. me olhava de um jeito como se estivesse impressionado e confuso ao mesmo tempo. Por um instante acabei com medo de que eu tivesse entendido tudo errado...
- Pelo amor de Deus, , você precisa falar alguma coisa. – implorei com leve desespero.
- Eu fico aliviado em saber que não é cedo demais para isso. – ele respondeu com um leve sorriso no rosto – Passei muito tempo tentando me convencer do contrário.
Segurei uma risada, não por achar aquilo engraçado, e sim irônico. Há quantos dias eu havia brigado com Anya porque era simplesmente impossível se apaixonar em tão pouco tempo?
- Já sei que você precisa de um tempo para pensar excessivamente sobre isso. – revirou os olhos com a intenção de fazer piada.
- Você já me conhece tão bem... – respondi contente.
- Quem me dera conhecer mais.
- Não, já chega de tentar me deixar com vergonha por hoje. – levantei o dedo indicador e apontei na sua direção.
- Tudo bem. Eu guardo para mais tarde. – piscou.
À essa altura, já estávamos em pé depois de ter dividido a conta do restaurante. Minha vontade era de chegar mais perto dele e tentar qualquer outro tipo de gesto – e tive a impressão que ele estava prestes a fazer o mesmo -, mas resisti somente aquela vez. Minha casa era na outra direção, mas fui andando com ele até o quarteirão seguinte entre a esquina e o metrô.
- Vou aguardar um par de horas até começar a passar mal por causa dessa pizza. – ele disse assim que atravessamos a rua.
- Vai continuar reclamando? – cruzei os braços com impaciência. – Só porque a pizza custou seis euros não significa que ela é de má qualidade.
- Hã, significa sim. – retrucou – Esqueceu que eu sou daqui? Tenho um grande histórico de passar mal com comidas boas, baratas e perigosas.
- Você está sendo dramático demais. – revirei os olhos.
- A gente se fala mais tarde? – ele perguntou esperançoso.
- Sim. E se vê em breve.
Com isso, tomei a iniciativa de abraçá-lo. Era sempre algo muito engraçado porque eu estava acostumada a ter esse contato com Anya e Thor, que eram tão altos quanto eu, mas estava a uns bons vinte centímetros acima de mim. Eu acabei por entrelaçar meus braços em volta da sua cintura, e ele apoiou o queixo na minha testa por alguns segundos. Fechei os olhos e tentei aproveitar aquele breve momento antes que ele fosse embora.
estava certíssimo quando disse que eu pensaria até demais sobre o assunto. Mas, em primeiro lugar, eu sentia como se um enorme peso tivesse sido tirado do meu coração; eu precisava falar, ser compreendida e até ser chamada a atenção para as minhas falhas constantes.
Fiquei satisfeita comigo mesma por não ter transformado aquela situação numa mera oportunidade de falar sobre relacionamentos. Não posso negar que este era o assunto que mais ocupava a minha cabeça nas últimas semanas, mas tenho que reconhecer a profundidade dos meus problemas e das minhas resoluções para o presente e futuro. Eu ainda conservo esse ar sonhador no meu coração de achar tão legal ter um amor correspondido, e isso com certeza me faria dormir sorrindo nas noites seguintes.


Capítulo 10


She's a pretty girl
She's always falling down
And I think I just fell in love with her
But she won't ever remember, remember




Eu já estava habituado a ser olhado com estranheza ou até mesmo desconfiança, seja pelas minhas tatuagens, pelos brincos não convencionais, pela feição de “homem mau” (créditos à minha irmã por ter descoberto este meu traço natural) ou pela minha altura; a verdade é que mesmo na cidade conhecida por ser acolhedora das diferenças, eu ainda era visto como, no mínimo, um pouco esquisito. Eu quase nunca saía da minha pequena bolha de conforto dos meus amigos e de todo circuito de tatuadores de Barcelona porque entre eles eu era só mais um, eu passava despercebido.
Por isso parecia que ) escolhera um dos lugares mais turísticos da cidade só para rir da minha cara. Eu estava parado em frente à Casa Batllò há pelo menos uns quinze minutos e já tinha perdido a conta de quantas pessoas, especialmente mulheres turistas, haviam desviado do meu caminho depois de me encarar à distância. Não bastasse a localização estratégica, também estava muito atrasada e ainda não dera nenhum sinal de vida, o que me deixava ainda mais apreensivo – não pelo meu óbvio desconforto por estar fora do lugar, mas sim porque eu tinha ficado muito surpreso pelo convite que ela me havia feito e agora queria vê-la de novo mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Depois de tanto tempo olhando pra todos os lados freneticamente a ponto de ficar tonto, de repente a vi correndo na saída do metrô Passeig de Gràcia. veio andando com tanta pressa que não sei como ela não tropeçou ou esbarrou em ninguém que estava no caminho.
Me adiantei e fui também ao seu encontro, muito mais motivado pela vontade de sair daquela multidão de gente que ficava me encarando. parou tão abruptamente no meio do caminho que eu só consegui encará-la sem puxar para um abraço como eu sempre fazia.
- Por que demorou tanto? – perguntei ao invés de cumprimentar.
- Me... Desculpa. – ela mal conseguia formar frases elaboradas pela falta de ar. – Eu vim do apartamento da Anya. Ela chega amanhã à tarde e eu queria deixar tudo arrumado. Acabei perdendo a hora. – tentou recuperar o fôlego mais uma vez antes de disparar mais algumas frases. – Eu te contei que era pra ela ter voltado há duas semanas? Pois então. O Thor quis dar uma volta enorme pra poder passar uns dias com os pais, então lá foram eles para a Oslo e só agora conseguiram um vôo barato pra cá. Mas enfim... Será que nos atrasamos? Eu ‘tô falando muito?
Já era difícil demais me concentrar por conta própria enquanto conversava com , e agora que ela tinha as bochechas avermelhadas por ter corrido tanto, tornava essa tarefa ainda mais complicada. Estava tentado a levantar as mãos e apertá-las, mas felizmente eu ainda tinha o bom senso de não me comportar como se fosse um adulto inconveniente na frente de uma criança.
- Tudo bem, acho que a gente ainda ‘tá dentro do horário. - fiz menção de olhar um relógio inexistente no meu pulso.
Atrações turísticas tinham essas regras muito restritas que não deixavam ninguém entrar depois do horário selecionado na compra do ingresso, e por isso mesmo e eu havíamos combinado de nos encontrar com um pouco de antecedência.
- Sim, ‘tá tudo certo. – ela confirmou.
- Vamos para a fila, então? – perguntei e apontei para o grupo de pessoas atrás da gente.
- O que acha de furar fila? – disse toda sorridente.
- Furar fila?
assentiu com animação. Para a minha surpresa, ela tomou a minha mão e me puxou em direção à entrada sinalizada da atração onde havia dois guichês. Apenas fiquei atrás dela enquanto ela mostrava alguma coisa no celular para um sujeito engravatado e com aparência séria. Ele me deu uma olhada rápida e depois fez sinal para nós dois ao mesmo tempo, e logo em seguida ouvi agradecendo-o educadamente.
- O que foi isso? – abaixei meu corpo para perguntar-lhe ao pé do ouvido. Dali até dava para sentir o cheiro que parecia ser banana e mel do seu shampoo.
- Talvez eu tenha comprado um ingresso especial. – ela disse simplesmente e sem muitos detalhes. - Tenho alguns contatos, cobrei alguns favores...
Não respondi, mas fiquei desconfiado porque ainda parecia que ela estava escondendo mais alguma coisa.
- Só pra você saber... – avisei tentando controlar o pânico que crescia no meu peito. – Eu não lido muito bem com lugares apertados.
- Claro que não lida. – disse com ironia. – Desse tamanho qualquer lugar fica apertado.
Bom, ela estava certa. Eu já me sentia extremamente desconfortável porque a casa era voltada para dentro; não havia praticamente nenhuma janela para o exterior, e as poucas que eu consegui enxergar estavam devidamente trancadas. No melhor estilo surrealista, a Casa tinha proporções fora do normal, muitas curvas e cores que não correspondiam à realidade. Era estranhamente frio ali dentro e eu mal via a hora de enxergar um pouco de luz do sol que não viesse de um vitral que ocupasse uma parede inteira, porque aquelas cenas de pesadelo não sairiam da minha cabeça tão cedo.
Quando expressei para as minhas opiniões pouco convencionais sobre a Casa, ela me olhou como se eu tivesse dito os maiores absurdos ou ofendido alguém que ela pessoalmente conhecesse.
- Você é artista, como pode dizer uma coisa dessas? – cruzou os braços para mim.
Já era o quarto lance de escadas que a gente subia sem parar, mas sem jamais passar por algum andar onde havia vários visitantes. Talvez a ideia dela fosse começar do terraço e descer aos poucos para conhecer cada plano, mas ela teria me dito isso àquela altura, não?
- Porra, quantos andares tem isso aqui? – perguntei quando já havia me cansado de só subir.
- Você só sabe reclamar? – ela me devolveu a pergunta.
Eu sabia que estava com cara de emburrado, mas é que era um pouco difícil aproveitar a visita quando a única coisa que eu fazia era ficar com medo das paredes apertadas e do exercício desnecessário que estávamos fazendo ao subir todos aqueles degraus.
- Só quero saber quando é que a gente vai poder tirar nossa foto de turista... – coloquei uma mão em cada um de seus ombros e joguei um pouco do meu peso para atrapalhá-la na subida. – ‘Tô ficando cansado.
- A gente vai de elevador então... – ela se convenceu.
Bati palmas animado e entramos no primeiro elevador à vista, que obviamente não era nada convencional assim como o resto da Casa. Aquela gaiola de grades azuis subia com uma considerável lentidão, mas ainda era melhor do que praticamente escalar mais três andares sem parar.
Paramos no último piso antes de mais um lance de escadas que me prometera que valeria a pena. Eu não tinha outra opção além de acreditar e segui-la, mas a minha principal motivação era o brilho que havia nos seus olhos e o sorriso que ela não conseguia conter desde que havíamos entrado ali. Eu reconhecia muito bem aquele sentimento e quase podia experimentá-lo eu mesmo; era divertido vê-la daquele jeito animado e quase radiante, como se estivesse guardando uma surpresa para mim e mal pudesse se conter. Para variar, eu sorria automaticamente só de estar em sua companhia.
parou na minha frente e me olhou sugestivamente antes de seguir praticamente agachada por uma passagem estreita de pedra que parecia cair aos pedaços. Eu a imitei e controlei todo o meu impulso de dar meia volta e não passar de jeito nenhum por aquele buraco. Mas que bom que o fiz.
Era uma mistura de telhado e terraço da Casa ao mesmo tempo, mas parecia preparado para algo a mais. A construção de cruz que se enxergava da rua estava bem ali na nossa frente e era tão impressionante de perto como era de longe. olhava animada para o lugar e para mim como se esperasse que eu percebesse alguma coisa.
Notei, então, que havia um palco montado com vários instrumentos já posicionados. Um pouco à nossa frente, havia também uma mesa com várias taças de champagne vazias e alguns baldes de gelo; todo o espaço estava coberto e interligado por inúmeros cordões e pequenas lâmpadas amareladas, e agora que estava escurecendo, elas davam ao ambiente um ar bem aconchegante.
- Qual é a cilada? – perguntei para uma que só faltava pular de tanta alegria contida.
- Um show de jazz! – ela respondeu erguendo os braços no ar que nem em desenho animado. – E bebida de graça, claro.
Era a melhor ideia que poderia ter, e o fato de que ela havia escolhido aquela ocasião e aquele lugar tinha alguma motivação sobrenatural por trás... Isso porque nunca antes havíamos conversado sobre música e nossos gostos e, por um acaso, jazz era tudo que eu mais amava nessa vida. Como era possível que ela já soubesse disso? Teria sido apenas um palpite de sorte?
- Bom, a propaganda do evento dizia que o show começa às nove, então não deve demorar muito. – ela examinou o palco não muito longe de onde estávamos. – Por favor, me diz que você gosta de jazz... Mas na verdade não tem problema se não gostar, porque você vai sair daqui gostando mesmo contra a sua vontade. ?
- Eu nem sei o que responder. – dei ombros e enfiei as mãos nos bolsos, de repente dando falta do meu maço de cigarros. – Acho que fiquei um pouco impressionado. Eu fui criado ouvindo jazz, eu amo Billie Holiday e Louis Armstrong. Não sei como você adivinhou, mas ‘tô muito surpreso!
Ela logo ficou toda convencida e eu acho que poderia passar a noite inteira fazendo ela se sentir sensacional desse jeito, simplesmente porque era divertido demais. dava corda para todas as minhas piadas, ela entrava em todos os meus assuntos idiotas e até correspondia quando eu dava em cima dela – coisa que eu fazia com uma frequência impressionante, porque eu já não sabia mais como fazer para que ela percebesse que eu a queria demais.
Aquela ocasião parecia ideal para que eu pudesse finalmente dar um passo além do que eu estava acostumado. Eu só esperava do fundo do meu coração que ela não se assustasse ou se sentisse intimidada. Esses eram riscos muito grandes que eu teria de correr.
- Na verdade, eu percebi que, de tantas coisas, a gente nunca falou sobre música.
- É porque esse é um assunto muito delicado. – expliquei com solenidade exagerada e ela fez cara de quem estava prestando atenção. Segurei o sorriso e segui fazendo pose de especialista. – Veja bem, grandes desavenças podem surgir entre nós; e se eu de repente descubro que você prefere o Noel ao Liam? O que eu vou pensar de você?
- Você vai pensar que eu sou simplesmente uma pessoa sensata, porque todo mundo sabe que o Noel Gallagher é infinitamente superior ao Liam. – retrucou imediatamente.
Dessa vez não consegui deixar de sorrir e vi que ela me olhava de um jeito presunçoso, quase triunfante. Pude jurar que ela ia acabar piscando para mim ou então ficaria com vergonha, porque, pra ser sincero, qualquer mulher teria alguma reação a esse tipo de tensão de “desafio” que fica no ar. Mas não ...
- Muito bem colocado. – acabei cedendo e ela jogou o cabelo para trás num gesto dramático e convencido em resposta.
A gente trocou um olhar cúmplice, por algum motivo, e caímos na risada ao mesmo tempo. Eu poderia facilmente ignorar todas as pessoas que estavam ali no mesmo ambiente, todos os músicos descolados que começavam a se posicionar no palco, todas as vozes que começavam a formar um barulho uniforme e cada vez mais alto. Aquilo ali era muito mais importante, aquela sensação incrível de que entre eu e havia uma espécie de bolha que nos deixava paralelos à realidade, como se existíssemos daquele jeito somente entre a gente e nada nem ninguém poderia interferir. Não sei explicar direito, e provavelmente falharia miseravelmente se tentasse. Só sabia que era bom.
Ela também percebeu que os músicos já entravam e se preparavam para começar a tocar. Vislumbrei a mesa cheia de taças de champagne que, num piscar de olhos, já estavam cheias e à disposição. acompanhou o meu olhar e, de novo, deve ter pensado a mesma coisa, pois sua reação foi igualmente positiva:
- Hora de fazer o ingresso valer à pena. – ela então piscou para mim e saiu andando em direção à mesa, que não estava muito longe dali.
Dei uma olhada em volta e me senti um pouco exposto; eu não sabia exatamente quais eram os planos de , então me vesti do jeito de sempre, todo de preto sem nenhuma pretensão. As pessoas ali em sua maioria trajavam roupas elegantes e casuais, parecia coisa de rede social de gente rica. já andava na minha direção novamente segurando uma taça de champagne em cada mão. Eu não havia reparado antes, mas ela também estava bem bonita com um vestido curto cor de creme e de tecido grosso (o que eu achei uma pena, não vou mentir que eu tinha uma queda por mulher com roupa fina ou transparente), que parecia deixá-la mais bronzeada que o normal. Não sei dizer se ela estava usando maquiagem no rosto, mas o batom cor-de-rosa bem claro era perceptível nos seus lábios cada vez que ela sorria pra mim.
- ‘Tô me sentindo meio desarrumado. – reclamei assim que ela me entregou uma das taças. – E acho que tem gente reparando, sei lá.
- Um sujeito desse tamanho coberto de tatuagens, é claro que as pessoas reparam. – respondeu como se fosse óbvio. – Não se preocupe. Eu garanto que todo mundo te olha porque você é atraente.
- É mesmo? – ergui as sobrancelhas.
- Não finge que você não sabe que é bonito, . repetiu o que pareciam ser as minhas palavras de outra conversa.
Felizmente, eu sou muito grande para que qualquer quantidade de sangue consiga ser bombeada para as minhas bochechas com rapidez, então eu nunca fico vermelho quando ‘tô sem graça – não sei se era assim que funcionava, mas era a minha teoria.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa com o mesmo nível de deboche, ergueu a taça e brindou na minha, e eu imitei seu gesto. Com rapidez impressionante até para mim, ela simplesmente virou todo o champagne de uma vez só e depois me encarou como se não fosse nada demais.
- Que foi? – ela perguntou e deu ombros. – ‘Tá calor e eu preciso de algo geladinho.
Sem falar nada, fiz igual; em dois goles eu já havia bebido todo conteúdo daquela minúscula taça. Imaginei que isso também não seria muito bem visto pelo público de gente rica por ali.
- Será que aqui ‘tá bom pra ver o palco? – espiou por trás do ombro, porque ela estava de costas para os músicos.
- Você é alta também, acho que ‘tá ótimo. – respondi. Peguei a taça vazia da mão dela e apontei para a mesa de bebidas. – Quer mais?
- Claro. – ela assentiu e trocou de lugar comigo para poder olhar o palco. – É melhor pegar agora, acho que vai começar.
Dito e feito. No curto trajeto entre a mesa de bebidas e o nosso lugar estratégico, os músicos começaram as primeiras notas. Não era o que eu estava esperando, aliás; parecia o jazz que precedeu a invenção do rock, bem animado e quase me dava vontade de dançar. Sorri com a ideia desse impossível acontecimento e enfim estendi as taças para um garçom que estava posicionado com uma garrafa.
Enquanto esperava o refil de champagne, virei meu rosto de lado e busquei com o olhar, e foi aí que eu tomei minha decisão. Qualquer pessoa atualmente aproveitaria essa chance para, sei lá, dar uma olhada rápida no celular. Eu sinceramente estava esperando vê-la digitando alguma coisa ou pelo menos com o aparelho em mãos enquanto eu não estava ali com ela, mas não foi isso que aconteceu. me acompanhava com o olhar. Desconfio que ela já estivesse sorrindo antes, mas não queria ser tão idealista assim.
O rapaz me entregou as taças e eu me esqueci de agradecer. Simplesmente estava absorto no olhar daquela mulher tão encantadora e no quanto ela parecia me esperar com expectativa – mesmo que fosse apenas vontade de beber mais álcool. me dava vontade de ser engraçado, de ser irônico e debochado com o único e exclusivo intuito de provocá-la, de ser criativo, de ser mais inteligente, de ler mais e de compartilhar meus gostos, meus pensamentos e meus receios. Eu não queria impressioná-la, muito pelo contrário; até me dava um pouco de medo imaginar que ela poderia se sentir entediada, chateada ou incomodada com a minha presença. Tudo que partia de mim para ela era completamente espontâneo e ela parecia gostar do que eu tinha a oferecer.
Alcancei-a e entreguei a taça de champagne. Quis tomar tudo de uma vez só para ver se o álcool me dava mais coragem, mas me lembrei que eu era um sujeito de quase trinta anos que não deveria depender de bebida nenhuma para fazer o que eu queria. Eu não tinha motivos para ser inseguro, porque até então retribuía absolutamente tudo que eu fazia para ela, me restava saber se finalmente estávamos na mesma página.
Esperaria até o final da próxima música e seguraria sua mão. Eu tinha que saber como ela reagiria a esse contato, porque era claramente uma pré-investida romântica. Depois, eu encurtaria a distância entre nós e, com muita esperança no coração, ela não daria nenhum passo para trás. Queria vê-la sem graça, confesso, porque eu gostava de imaginar aquele rosto vermelho e sem ar por outros motivos. Eu tinha de fazer isso logo porque eu não suportava mais parecer um moleque que não sabe se a menina do colégio gosta dele de volta, e no meu caso, a recíproca já era verdadeira.
Só teria de esperar mais um pouco e depois outra música. Devia ser o que? Uns seis ou sete minutos? Esse tempo parecia não acabar nunca, eu me sentia estagnado na minha própria mente com nada além de um plano infalível.
não sorria mais daquele jeito sonhador, não se mexia ligeiramente ao som da música, ela nem sequer bebia do champagne que tanto queria. Aqueles lábios que eu planejava beijar estavam apertados numa linha fina complementando sua expressão tensa e pensativa. Não sei se ela havia notado que eu a observava – provavelmente sim, porque eu tinha perdido completamente a noção do normal e agora basicamente encarava-a de cima com esperança de ela corresponder ao meu olhar levemente psicopata.
Só até a outra música, pensei.
Só mais alguns minutos.
Não vou estragar o momento.
E então, ergueu o rosto e me fitou de um jeito que eu só posso descrever como instigante e “encorajador”.
Foda-se a música.
Ela não deu nenhum passo, mas eu encurtei a nossa distância vertical ao me inclinar um pouco na sua direção. Fechamos os olhos juntos quando faltava apenas meio centímetro para que nossos narizes se tocassem, e em seguida foi a vez de finalmente sentir aqueles lábios pintados de cor-de-rosa ocupando o mesmo espaço que os meus. Eles nunca têm gosto de nada, por mais que seja muito romântico dizer que os lábios de alguém têm gosto de qualquer coisa doce, mas o hálito sim e o nosso tinha o mesmo sabor de champagne.
Queria pra sempre aquela sensação de encostar na sua boca pela primeira vez. correspondeu ao beijo de um jeito calmo e sem pressa, e eu não esperava nada menos dela. Naqueles breves segundos nós dois apenas sentimos a pele um do outro, mas não demorou para que eu investisse e aprofundasse o beijo do jeito que eu queria. Minha língua tocou a dela e eu senti como se enfim libertasse algum instinto de natureza escondido por tanto tempo. Parecia que eu estava sob o controle dos nossos movimentos, então continuei o beijo com o que parecia ser apenas um terço do desejo que eu tinha por ela, tamanha era a minha vontade de nunca mais romper o contato delicioso que a gente tinha ali.
parecia se conter um pouco. Ela parava de me beijar de volta sem necessariamente tirar seus lábios dos meus, mas no segundo seguinte já voltava a corresponder e eu podia sentir sua mão livre puxando o meu rosto para si com gentileza. A boca que se encaixava perfeitamente, a língua que tocava a minha e me fazia confundir o gosto de álcool, o sentimento de alívio misturado com surpresa...
Eu precisava partir o beijo contra a minha vontade porque eu tinha que vê-la, tinha que saber a sua reação e tinha que aproveitar qualquer outra oportunidade de beijá-la novamente.
A primeira canção tinha chegado ao fim com um generoso aplauso de todo mundo que estava ali, com exceção de e eu. Parecia que os músicos tinham tirado suas últimas notas de propósito apenas para fechar de forma impecável o nosso primeiro beijo apressado. Então quer dizer que pra isso a música acabava logo?
- Eu devia ter feito isso há mais tempo... – disse baixo para que ela pudesse ouvir mesmo com o barulho.
- E eu deveria ter deixado.
- Sim, eu tentei insistir! – avisei com a intenção de provocá-la.
balançou a cabeça em negação e me deu um sorriso de lado. Ela então mirou a minha boca e depois alternou os nossos olhares, e só isso já foi necessário para que eu praticamente a tomasse para mim de novo. Foi inevitável sorrir durante aquele beijo, porque agora sim eu podia sentir sua pele encostando-se à minha sem nenhum receio, sem nada contido. Uma de suas mãos foi direto para o meu pescoço e depois subiu para acariciar os meus cabelos da nuca, enquanto eu a segurei de lado com o braço entrelaçado em sua cintura; o grande bônus é que era alta e isso me deixava numa posição mais confortável.
A música alta me impedia de escutar, mas senti que ela gemeu baixinho com satisfação contra a minha boca e isso me deixou muito consciente da quantidade de pessoas que estavam em nossa volta. Queria continuar sentindo aquela combinação dos seus lábios e do seu corpo junto aos meus, mas não precisaria de muito esforço além daquele para que a minha excitação ficasse evidente.
Senti que tudo estava perdido quando o nosso beijo desacelerou e ela deu uma leve e discreta mordida na minha pele inferior. Apertei minha mão em sua cintura como resposta, e ela sorriu no beijo ao selar nossos lábios novamente.
- Joder, não faz isso... – tentei me conter.
- Eu sei que tem muita gente. – ela concordou e encostou seu nariz ao meu. – Mas não deu pra segurar.
- Quem não vai conseguir se segurar sou eu. – depositei outro beijo no canto da sua boca e ela sorriu com deleite.
Não queria soltá-la de jeito nenhum, mas eu precisava me acalmar só por um momento. Aproximei o meu rosto do alto dos seus cabelos, que tinham um perfume maravilhoso, e ela, ao mesmo tempo, se acomodou naquele abraço de lado. Segurei meu impulso de começar a me mover lentamente acompanhando o ritmo da música, porque isso já seria lírico e exaltado demais da minha parte. Sorri sozinho ao pensar que eu realmente tinha vontade de tirá-la para dançar, mas como eu tenho bom senso de vergonha alheia, eu não o fiz.
Eu estava tão ansioso que já não me importava prestar muita atenção na música, por mais que estivesse tão alegre de me levar ali. Só queria ter a chance de ir embora ou de ficar sozinho com ela o mais rápido possível e longe daquela multidão de gente que me deixava desconfortável.
Claro que isso não nos impediu de aproveitar bastante a noite. Rapidamente perdi a conta de quantas vezes nós dois bebemos taças e mais taças de champagne sem nem alternar com qualquer outra bebida (a ressaca de champagne é a pior e eu já estava preparado para enfrentá-la no dia seguinte), e cada vez que ela me beijava eu sentia algo novo, como se com o passar do tempo, uma sensação diferente fosse libertada do meu corpo. Passei um bom tempo abraçando-a de costas e ocasionalmente beijando seu pescoço com discrição – e ser discreto estava longe das minhas intenções com ela, isso me deixava um pouco irritado. Para a minha constante surpresa, não sentia cócegas ou se arrepiava com o toque nessa área sensível, e isso me fazia ainda mais inquieto para descobrir o que é que poderia deixá-la excitada.
Era hora de aplaudir no final de uma música, mas não queria sair da posição agradável em que eu estava. Mesmo assim tive que soltar , porque ela começou a se mexer e depois se virou de frente para mim.
- Mais? – ela ergueu a própria taça sugestivamente.
- Eu ‘tô bem por enquanto. – respondi, mas na verdade eu já estava meio tonto.
- Bom, eu poderia beber mais algumas.
- Tem certeza? Champagne costuma me deixar devastado no dia seguinte, não sei você... – alertei com um pouco de medo de parecer protetor ou algo assim.
- ‘Tá tudo bem comigo. – ela assegurou. – Mas vou ao banheiro antes.
Antes que ela partisse em direção à mesa de bebidas, minha mão direita deslizou desde o seu ombro percorrendo todo o seu braço, até que eu puxei-a pela mão pedindo para voltar. entendeu o que eu queria e sorriu quando eu segurei delicadamente o perfil do seu rosto de encontro ao meu. Ela mesma me beijou rapidamente e depois desapareceu da minha frente enquanto eu ainda estava de olhos fechados e sentindo a falta da sua pele na minha.
Meu sonho de princesa era saber o que ela estava pensando. Bom, era óbvio que ela, no mínimo, gostava de mim de volta e eu me sentia um adolescente ao descobrir que a garota dos sonhos aceitou sair pra um encontro. era o completo oposto de qualquer mulher com quem eu costumava me envolver e isso com certeza me intimidava um pouco. Ao mesmo tempo em que ela tinha tanta confiança para tirar a blusa na minha frente, ela também ficava extremamente constrangida quando eu dizia que ela era bonita. Metade do tempo ela passava completamente apavorada e ansiosa a respeito de algo desconhecido, e a outra ela correspondia todas as minhas investidas e conseguia ser mais sexualmente motivada do que eu. Ela era completamente imprevisível e eu estava doido para entendê-la.
Tenho que dar o devido crédito à escolha do lugar, do evento, da música, tudo... Eu me lembro de ter faltado em todas as excursões da escola aos monumentos e construções do Gaudí simplesmente porque para a minha mãe nunca fez sentido eu ir quando era criança nessas coisas, sendo que eu provavelmente não entenderia nada. Mal sabia ela que o contato com a arte desde pequeno me fez uma falta absurda e eu passei mais de uma década correndo atrás do prejuízo.
Era tudo tão bonito e eu deveria ter a sensibilidade para melhor apreciar o lugar onde eu estava. Acompanhei todos os cordões de luzes quentes que partiam do mesmo ponto no centro do terraço e se esticavam até as mais diversas pontas da construção de pedra, mármore, tijolo e azulejo colorido. As pessoas em volta pareciam mais bonitas e mais animadas, talvez fosse o álcool de boa qualidade completamente liberado, ou então fosse só o efeito incrível de estar num lugar daqueles. Era muita sorte, principalmente para mim.
Procurei próxima ao champagne e não a vi por perto, mas depois lembrei que ela também iria ao banheiro e que havia muita gente por ali. Eu devia pensar no que fazer depois que o show acabasse... Quer dizer, será que ela só queria ir embora e nem mesmo teria vontade pra comer alguma coisa mais tarde? Ainda era muito cedo para chamá-la pra minha casa? Não é como se ela fosse totalmente estranha ao lugar, e talvez eu pudesse apresentá-la à Kali...
Quando a avistei no meio da multidão, senti um peso esquisito no peito. andava com muita pressa e tinha uma cara de pânico, como se tivesse se assustado ou algo assim. Dava pra ver de longe que alguma coisa estava errada e eu praticamente saltei de onde estava para ir de encontro a ela.
- Que foi? – tentei colocar a mão no seu ombro, mas ela simplesmente continuou andando e eu a acompanhei. – ?
Pensei que ela pudesse ter se machucado, passado mal, sei lá. Não havia mais nenhuma taça em suas mãos, que por sinal estavam geladas como se ela estivesse tendo uma queda de pressão muito brusca.
- Você passou mal? – perguntei tentando não ficar apavorado.
- Não, não... – ela finalmente me respondeu com a voz embargada. – Só me veio uma sensação ruim. Acho que eu que não ‘tô à vontade com essa multidão.
É claro que aquilo era mentira, mas não questionei. Sua justificativa poderia ser falsa e omissa, mas os sinais eram muito evidentes de que alguma coisa havia acontecido para deixá-la daquele jeito. estava amarela, seu olhar estava apreensivo e ela parecia que ia chorar a qualquer momento, mas as lágrimas nunca caíram pelo rosto.
- Isso ‘tá parecendo uma crise de pânico, Niña. – tentei usar a minha entonação mais delicada o possível para não deixá-la pior ainda. – Você toma algum remédio pra isso?
Quando eu disse essas palavras, finalmente olhou diretamente para mim. Antes parecia que ela estava completamente desesperada por dentro e isso só era perceptível pelo seu olhar inquieto, mas então ela me encarou confusa como se tivesse tido um insight.
- T-tomo, quando eu me sinto mal, eu tomo. – ela assentiu de um jeito que parecia um pouco desconfiado.
- Tem ele aqui com você? – apontei para a bolsa que ela carregava.
- Tenho em casa.
- Então vamos buscá-lo. – eu disse com firmeza.
Eu estava falando completamente sem raciocinar ou pensar duas vezes, mas em hipótese alguma eu queria deixá-la daquele jeito sozinha ou simplesmente me livrar da responsabilidade ou de qualquer cuidado. A primeira reação dela foi ficar um pouco indignada e ela rapidamente fingiu que já estava melhor, mas eu não acreditei.
- Não, , você não precisa fazer isso... – ela tentou se desvencilhar da minha mão em seu ombro.
- Preciso e quero fazer isso, sim. – tive de insistir. – Quando eu estava nojento de bêbado você pelo menos me levou pra casa, certo? É o mínimo que eu posso fazer para retribuir o favor.
- Você não estava nojento de bêbado. – ela cruzou os braços e se encolheu.
- Eu gorfei fora do vaso, . – confessei com um pouco de pesar.
- Ah...
Por um segundo achei que a minha estratégia de distraí-la estava dando certo, mas continuava a ponto de chorar, tremia de nervosismo e seu rosto ainda estava paralisado naquela expressão de profundo pânico. Eu tinha que pelo menos tirá-la daquele lugar lotado de gente o mais rápido possível.
- , eu não vou conseguir dormir em paz sem saber que você ‘tá em casa segura e passando bem. – me abaixei um pouco para ficar na sua altura. – Nós ficamos quites depois disso, por favor...
Ela olhou para trás algumas vezes, como se estivesse fiscalizando o lugar. Por fim, ela apenas assentiu e se deu por vencida.
Eu não sabia se devia segurar sua mão, passar o braço pelos seus ombros... Esses gestos românticos pareciam completamente fora de lugar, mas eu queria demonstrar que eu ainda estava ali. Por via das dúvidas, resolvi apenas segui-la de perto até o elevador, pois não queria intimidá-la a ficar agarrada comigo naquela condição tão incômoda. Não sabia dizer se ela estava se contendo ou se estava sentindo vergonha, mas enquanto descíamos ela se encolheu no canto do extremo oposto de onde eu estava. Queria dizer que estava tudo bem, porque realmente estava, mas achei melhor guardar qualquer conforto para mais tarde.

Nem dois minutos no táxi e nós já havíamos chegado ao endereço que havia informado ao motorista. Ela morava praticamente ao lado da Avenida Passeig de Gracià, e isso era um pouco estranho; aquela era uma das regiões mais caras de Barcelona para se viver, porque ficava a poucos minutos de várias atrações turísticas e ainda assim conservava a tranquilidade de um bairro familiar. Até onde eu sabia, trabalhava meio turno num café, então as contas não batiam.
Não precisei insistir para acompanhá-la porque ela mesma simplesmente foi entrando rapidamente no prédio e depois subiu dois lances de escadas (e que raiva dessa fixação por ir sempre pela escada) para chegar ao pequeno apartamento. Ela segurou a porta para que eu entrasse e depois fechou atrás de nós com cuidado.
Era um estúdio pequeno, mas de teto bem alto. A sala e a cozinha ocupavam o mesmo ambiente, juntamente à uma escrivaninha bem larga e uma mesa de jantar de quatro lugares. Havia apenas duas portas visíveis, a que ia para o balcón e a que ia para o banheiro. O quarto parecia ficar atrás de uma parede divisória incompleta que eu ainda não conseguia ver totalmente. Parecia muito confortável e aconchegante, mas não tinha a cara de ser um lar. Ainda era impecável demais pra isso.
passou praticamente correndo na minha frente e foi até o banheiro com um copo d’água na mão. Pude vê-la engolindo um comprimido e olhando o próprio rosto no espelho.
- Que bagunça... – ela disse depois de sair de lá. – E que falta de educação a minha: , por favor, fique à vontade.
Eu contive o meu sorriso por vê-la um pouco desajeitada. Sentei-me no sofá que ela havia me indicado que ficava bem em frente à uma TV conectada a um notebook fechado. Ela passou por mim e abriu a porta que dava para a varanda e ficou ali por um tempo sentindo a brisa fresca entrar pelo cômodo. Seu semblante havia mudado bastante nos últimos minutos. Desde que saímos da Casa, na verdade, ela parecia ter se acalmado; não estava mais pálida e não suava frio. No lugar do medo, agora ela tinha uma expressão de raiva, ou pelo menos de incômodo.
Queria levantar e ir até ela para lhe dar um beijo, mas eu também queria que ela tivesse todo o espaço possível dentro da própria casa. Minha preocupação não havia passado nem pela metade e ainda por cima, eu precisava arrumar um jeito de medir minhas palavras cuidadosamente para que acreditasse que eu estava ali porque queria, não porque era uma “obrigação.”
Quando achei que ela estava prestes a falar alguma coisa, apenas puxou o ar com muita intensidade e o soltou numa risada um pouco desesperada, como se estivesse desabafando. Não aguentei e comecei a rir também e acho que isso a deixou um pouco mais confortável.
- Você vai ficar bem? – perguntei enfim.
- Vou. – ela confirmou balançando a cabeça. – É só esse remédio que me deixa meio derrubada, mas por sorte eu troquei de turno amanhã no trabalho e não preciso acordar cedo.
- É um remédio muito forte? Eu vou acabar preocupado...
- Ah meu deus... Me desculpa, . – ela pediu chorosa.
- De jeito nenhum, tía! – eu corri do sofá e fui até a janela de vidro. Tirei as palmas de suas mãos que cobriam o rosto e entrelacei-as em volta da minha cintura, colocando-a em um abraço. – Eu não pedi desculpas quando você cuidou de mim completamente bêbado! En serio, , pense nisso como uma retribuição pelo que você fez por mim naquela vez.
- Então quer dizer que eu não vou ganhar o meu presente por ter subido na sua escala de intimidade? – ela perguntou com a voz abafada contra a minha camisa.
- Eu ainda posso te mandar um cartão. – dei ombros e ela continuou rindo.
- Pesado!
se soltou do meu abraço forçado e me deu um sorriso trêmulo antes de ir em direção ao que eu supus antes que fosse mesmo o quarto. Eu fiquei por ali mesmo e esperei até que ela voltasse alguns minutos depois, vestindo o que com certeza era seu pijama – a clássica combinação de blusa velha de banda com short de flanela.
- O meu remédio vai me fazer apagar logo... – ela cruzou os braços daquele mesmo jeito defensivo.
- Eu estava pensando... – tentei ignorar a vergonha que subia pelo meu rosto. – Se eu não poderia ficar por aqui.
Confesso que me senti um pouquinho humilhado quando me olhou completamente confusa. Não que eu tivesse dito algum absurdo, quer dizer, minha intenção não era tirar vantagem de uma mulher naquela situação sensível... Poxa, eu só queria um lugar fácil para dormir!
- Quer dizer dormir aqui? – ela repetiu como se não tivesse me entendido e eu assenti confirmando. – Claro que pode... Mas não sei onde você dormiria.
- Bom... – olhei para ela sugestivamente.
- É, acho que o sofá é pequeno demais pra você. – ela concordou com muito mais facilidade do que eu esperava.
Fui até o quarto e me deparei com uma organização que não me era familiar. A luz amarelada era perfeita para dar bastante sono, e as paredes brancas eram decoradas com algumas pequenas réplicas de obras de arte emolduradas. Em cima da cômoda havia um porta-retrato com uma enorme montagem de fotos que eu não tive tempo de procurar detalhes, mas queria observar uma de cada vez. estava sentada no canto esquerdo da cama e mexia no celular atentamente.
- Esses são seus? – apontei para a parede. Imaginei que fosse seu toque pessoal no quarto.
- São sim... !!! – ela praticamente gritou para me chamar a atenção. – Você vai tirar a roupa?
- Eu vou dormir usando jeans? – perguntei de volta na desconfortável posição de ter as calças na metade das pernas. – , eu não vou te bolinar durante a noite, por favor...
Ela revirou os olhos e fez um barulho que eu só posso traduzir como “é, tanto faz, você ‘tá certo.” Percebi que ela havia ligado o ar condicionado (finalmente, porque desde que eu a conhecera que ela já estava reclamando da falta dele no apartamento) e arrumava na temperatura perfeita antes de apagar as luzes. Esperei que ela o fizesse para que eu me deitasse também – parecia que eu era educado assim.
Era incrível que o travesseiro tivesse o mesmo perfume de banana e mel do cabelo de . Eu girei para o lado em sua direção, mas ela estava de costas e isso por algum motivo me deixou incomodado.
- Você ‘tá com sono? – ela perguntou depois de alguns minutos de silêncio.
- Não, mas se eu fechar os olhos eu durmo. – respondi e pude ouvi-la rir. – Não era assim que eu imaginava a minha primeira vez dormindo na sua cama.
- Então você já imaginou alguma coisa? – ela perguntou no que parecia ser um tom provocativo.
Pelo movimento na cama pude perceber que ela agora estava virada para o meu lado e possivelmente me encarava no escuro.
- Claro que imaginei, e sei que você também. – respondi com sinceridade. Antes que ela pudesse se martirizar por qualquer coisa, resolvi acalmá-la. – Mas tudo em seu tempo. Eu espero mais um pouco.
Tive a certeza que ela estava sorrindo e meu corpo inteiro parecia reagir à imagem dela sob o lençol mordendo o lábio e olhando para mim. Pelo menos era a visão que eu tinha na minha mente...
- Vem cá... – sussurrei. Estiquei o braço até tocá-la e, para a minha surpresa, ela nem hesitou ao vir ao meu encontro. Seu corpo se encaixou muito bem ao meu. – A nossa noite foi ótima, não importa o que você diga. Eu estou exatamente onde eu queria estar, por mais que o meu desempenho tenha sido prejudicado.
Então eu ri por conta própria e me senti absolutamente contente de estar ali com ela. Inclinei o meu rosto e encaixei-o no seu pescoço para depositar ali um beijo, porque tenho certeza que aquela área exposta continuava tão atraente no escuro quanto era ao vivo e em cores.
- Não precisa ficar tensa. – eu me adiantei ao ver que não tinha reagido de forma alguma. – Eu realmente não pretendo e nem consigo fazer nada. Eu bebi tanto quanto você. Álcool alimenta a libido, que já não é pouca, mas assim minhas habilidades motoras ficam prejudicadas.
Com aquela enxurrada de informações não solicitadas, eu imaginei que dessa vez conseguiria arrancar uma risada de , mas claro que não. Ela suspirou como se me julgasse (eu não conseguia ver seu rosto no escuro, mas alguma coisa me dizia que ela estava debochando de mim) e disse apenas duas palavrinhas antes de pegar no sono profundo: - Bom saber.


Capítulo 11


Le pido a Dios que te cuide, pero tú te cuidas sola
Solo me es difícil de controlar
¿Estás segura? Piénsalo antes de actuar
Relájate conmigo, ¿que tú crees si juntos nos quedamos viendo Netflix?



É claro que eu acordei mais cedo do que deveria porque é sempre assim quando a gente dorme fora de casa e aí precisa esperar uma eternidade até a outra pessoa finalmente acordar também. Amanhece muito cedo no verão, então sem surpresa nenhuma às sete da manhã já havia um sol brilhando lá fora como se fosse meio dia. Se eu me esforçasse, eu conseguiria tirar mais uma horinha de sono, mas eu já estava ansioso para saber as repercussões da noite anterior.
dormia feito uma pedra do outro lado da cama. Nisso a gente era completamente diferente e eu senti que deveria ter avisado que eu tenho o sono mais agitado de todos, a ponto de gesticular e conversar sozinho enquanto durmo que nem um bebê. Se eu a atrapalhei durante a noite (grandes chances de ter acontecido), eu logo teria que pedir desculpas.
Por fim, me levantei tentando fazer o mínimo de barulho e fui até o banheiro. Não contive o sorriso ao ver na pia que tinha uma Curaprox cor de rosa, esse deveria ser o estereótipo suíço mais tímido e adorável que eu já vira até então. Voltei rapidamente para o quarto e tive a certeza que, se eu me deitasse de novo, eu faria um escândalo sem querer, então apenas peguei a minha calça e fui até a sala para vesti-la.
não tinha fechado as cortinas e nem a janela, então o sol iluminava totalmente a sala/cozinha/escritório que era aquele estúdio. A típica decoração hipster que misturava móveis sóbrios e de madeira com alguns objetos decorativos de cores fortes não parecia o estilo de ... Supus que ela ainda não tinha mexido muito no apartamento até então, mas dava para ver que ela tinha pretensões. Na mesa de centro bem larga que ficava em frente à uma TV, havia alguns livros de arte desses que ninguém lê e só empilha pra ficar bonito. Em meio aos volumes de Monet, Picasso e Egon Schiele, havia alguns títulos mais incomuns relacionados a tanques de guerra, drones e geopolítica.
Sentei-me em um divã baixo que ficava bem ao lado da janela do balcón embaixo do sol. Puxei o celular do bolso da calça e procurei qualquer bobagem para assistir enquanto não acordava. Ainda era muito cedo para ir para o estúdio e, mesmo que eu perdesse a hora, eu não sairia dali sem conversar com ela.
Pouco menos de uma hora depois, um ruído chamou a minha atenção. Por um segundo, achei que poderia ser mexendo em algo no quarto, mas, para a minha surpresa, o barulho vinha da porta da sala e logo ela se abriu. Fiquei completamente assustado por um segundo, mas assim que eu vi quem era, eu consegui relaxar e apenas mantive a minha postura ereta.
Uma mulher alta e bem vestida me encarava muito mal. Ela deu um passo para dentro do apartamento e fechou cuidadosamente a porta atrás de si sem virar as costas para mim nem por um momento.
- Tatuador. – ela quebrou o silêncio com aquela voz pouco amigável.
- Melhor amiga. – eu acenei de volta com a mesma entonação.
Então aquela era a famosa e especial Anya. Não sei porquê me surpreendi com o fato dela se dirigir a mim em castelhano, mas já havia me dito que as duas estudaram a língua juntas e que a amiga também era fluente. De qualquer forma, havia alguma coisa de muito hostil no jeito que ela me olhava, e eu sinceramente não posso culpá-la. Com certeza, estava me julgando bastante.
- tem razão, você é muito transparente. – eu arrisquei dizer alguma coisa, com a esperança de baixar aquela tensão.
- Não deu pra conter a minha surpresa. – Anya respondeu ainda com aquele jeito desconfiado. – Ela ‘tá dormindo?
Balancei a cabeça confirmando em silêncio. Ela deu mais alguns passos dentro do estúdio e se sentou na ponta de um dos sofás o mais longe o possível de mim. Eu faria o mesmo...
- Então, a noite foi boa? – ela perguntou com um tom ligeiramente mais amigável e até deu um sorriso forçado.
- Foi... – dessa vez eu respondi na defensiva. – Mas ela teve uma crise de pânico, eu acho, ou de ansiedade. Eu fiquei pra ajudar.
- O que aconteceu? – Anya franziu as sobrancelhas e me olhou preocupada.
- Não sei dizer ao certo. – comecei a relembrar. – Quer dizer, você pode me ajudar a entender. Num momento tudo estava ótimo e no outro ela aparece quase chorando, tremendo e suando frio. Disse que não se sentia bem com a multidão, mas eu sei que isso não é verdade. Alguma coisa aconteceu no tempo em que ela saiu sozinha e que a deixou daquele jeito. - Ela viu alguém. – Anya disse e me olhou com cautela.
Hostia, ela já sabia que alguma coisa tinha acontecido com ? Por que me perguntou então?
Antes que eu pudesse expressar a minha leve indignação em voz alta, percebi o porquê de ela ter feito isso. Anya provavelmente estava me testando para ver se eu era confiável o suficiente para ela soltar aquele tipo de informação. Ela era esperta que nem o demônio.
- Ah... E ela te disse quem?
- Não, é complicado de explicar. – ela respondeu um pouco sem graça. – Eu simplesmente sei que ela pode ter visto uma determinada pessoa e por isso teve uma crise de ansiedade. Onde vocês estavam mesmo?
- Na Casa Battlò, era um show de jazz.
Anya respirou fundo e desviou o olhar, que agora parecia ainda mais preocupado. Me senti um tonto sem entender nada do que estava acontecendo, como se cada um de nós, incluindo , tivesse uma peça fundamental da história, mas não estávamos dispostos a compartilhar.
- E você ficou com ela esse tempo todo que ela passou mal? – ela ergueu as sobrancelhas para mim sugestivamente.
- Mas é claro. – respondi sem tentar parecer convencido.
- E você ainda dormiu aqui? – ela continuou.
- Sim, eu fiquei preocupado demais pra deixá-la sozinha.
-Você já passou a noite aqui antes?
- Se eu já tivesse dormido aqui, eu acho que você seria a primeira a saber, não é mesmo? – eu sorri triunfante para responder aquele interrogatório que mais parecia uma armadilha.
Anya me lançou um olhar caricato de desconfiança, mas logo sorriu com real divertimento pela primeira vez desde que havia chegado ali.
- Você é bom. – ela cedeu. – E ela é ótima, não é? Sabia que ela fala cinco línguas?
- Ela me disse que sabia só um pouco de algumas... – contestei.
- Não, ela é fluente. – Anya confirmou. – Estava sendo modesta, pra variar. Ela não gosta de exibir absolutamente nada.
- Isso explica muita coisa... – pensei em voz alta e deixei escapar um sorriso. Olhei de volta para ela do outro lado da sala e não pude deixar de perguntar. – Ei, você vai ter que perdoar a minha curiosidade, mas eu só queria entender o que aconteceu. Se você tem alguma ideia do que ou quem pode ter visto antes de ter praticamente surtado, por que você não me conta?
- Eu nem te conheço. – ela deu ombros e me olhou de cima a baixo como se eu tivesse algo de sujo na cara.
Eu estava esperando exatamente essa resposta, mas queria poder pular essa atitude defensiva para poder ser o mais assertivo possível. Por outro lado, ela realmente não tinha motivo nenhum para confiar em mim...
- Foi o ex namorado? – insisti. Cruzei os braços e inclinei meu corpo para frente a fim de mirá-la melhor. – Ou foi o irmão mais velho? Por tudo que ela me contou até hoje, essas são as duas pessoas que poderiam ter provocado uma reação péssima do jeito que eu vi ontem.
Anya ficou calada, mordendo o lado de dentro da bochecha. Era incrível como havia descrito-a com precisão cirúrgica; agressiva, pretensiosa e protetora com quem se importa.
- Quando ela te contar pessoalmente do ocorrido de ontem... – eu continuei e tentei ser o mais claro o possível – Você vai dizer que já tinha uma ideia de que essa pessoa misteriosa poderia aparecer no caminho dela? Ou vai fingir que não sabe de nada? Será que ela vai reagir bem?
Minha intenção não era ser tão hostil assim, mas precisava que aquela garota entendesse que nós tínhamos uma pessoa em comum de quem eu queria o bem tanto quanto ela. Percebi que deu certo quando ela finalmente relaxou os ombros e respirou fundo antes de sair contando o caso inteiro:
- Eu não tinha como contar nada. Ela ‘tá melhor há semanas e eu não queria que ela ficasse mal por algo que era apenas uma pequena possibilidade... Bom, imagino que não deu certo. Sim, é o ex namorado. Max sabe que ela veio para cá com a gente e ele a conhece muito bem, não deve ter sido difícil encontrar algum evento que ela com certeza frequentaria.
- Então é isso, ele foi procurá-la, deve ter falado um monte e ela se chateou? – senti que ficava nervoso só de constatar aquilo e por conhecer alguém que tinha informações a mais sobre aquela história toda, mais do que a própria tinha me dado. Não sabia muito bem se eu queria mais detalhes por enquanto.
- Não sei, ele não é do tipo que faz uma cena ou escândalo. – Anya deu ombros e fez uma cara meio chorosa que não combinava nem um pouco com ela. – Eu devia ter contado a ela quando soube...
- Devia mesmo. – concordei com a voz mais séria que consegui. – Essa situação foi a coisa mais empata foda que já me aconteceu na vida.
- Ah garoto, pelo amor de... – Anya revirou os olhos com tanta força que eles quase não voltaram à órbita.
- É brincadeira, tía! – a interrompi e levantei as mãos em sinal de rendição. Ela soltou mais uma risada irônica sem achar o mínimo de graça de mim. Não ligo.
- Se você for assim o tempo todo, vai acabar tirando ela do sério. – Anya comentou sem necessariamente soar crítica ou algo parecido.
- É o que eu espero.
- Vai ser uma novidade boa na vida dela, eu admito. – ela ergueu as sobrancelhas e finalmente me lançou algo que parecia um sorriso amigável. – A que você conhece agora não é a mesma com quem eu cresci, nem a que deixou Paris meses atrás, muito menos a que eu vi pela última vez antes do verão começar. Ela ‘tá mudando pra melhor e eu tenho que reconhecer a sua importância nisso.
- Vale...
- Por favor, não conte nada disso pra ela... – ela me pediu. – Deixe que mais tarde eu e ela vamos conversar bastante e esse assunto virá à tona.
- Não se preocupe.
- Família ruim, saiu de casa cedo e desde então não teve muita sorte... Acho que te dei os piores detalhes sobre a minha melhor amiga. Te assustei, não é? – ela perguntou com um pouco de dó.
- Muito pelo contrário.
Ela havia me dado coragem.
- Bom, é algo pra você poder pensar. – Anya deu ombros e fez uma cara de tédio. – Enfim, eu queria encontrar acordada à essa hora pra gente poder tomar café no Bob’s Kitchen, mas já que ela ‘tá demorando tanto...
- Ela acabou misturando bastante álcool com o remédio de ansiedade, deve ficar apagada por um tempo. - eu tinha certa expertise no assunto dos narcóticos.
- Eu acho que eu vou embora. – ela anunciou ao mesmo tempo em que se levantava do sofá num salto e pegava a bolsa que havia largado por ali. – ‘Tô morrendo de fome e não aguento esperar.
Não me mexi, apenas assenti enquanto ela mesma já buscava a própria chave e ia em direção à porta da sala.
- Foi um prazer te conhecer. – eu cumprimentei-a com educação e com reais intenções. – E obrigado pela conversa.
- De nada, tatuador. – ela abriu a porta e se virou para acenar uma última vez. – Ah, vê se deixa ela livre por hoje. Quero vê-la pra poder passar o dia inteiro falando sobre as novidades e sobre você.
- Não prometo nada. – eu sorri de volta e ela fechou a porta sem batê-la.
Isso era tão familiar para mim que eu queria ignorar completamente o pedido de Anya de manter isso em segredo e apenas dizer a que eu entendia muito bem como era se sentir daquele jeito. Eu vim ao mundo de maneira completamente indesejada e cresci invisível num lar que não era saudável para ninguém dentro dele. Eu também saí de casa aos dezessete anos e várias vezes tentei melhorar a minha relação com os meus pais e com os irmãos que foram descobertos com o passar do tempo, mas aquilo me deixava exausto.
Anya havia me deixado sozinho com os meus pensamentos. A única conclusão que eu poderia tirar era que e eu combinávamos muito bem no sentido de ter esses fantasmas do passado. Com sorte, nada disso seria destrutivo e tóxico entre nós, porque seria uma pena ver alguém como ela indo embora – agora era eu quem tinha receio dela não querer mais ficar.

- Há quanto tempo você está aí?
Eu praticamente pulei de onde eu estava quando ouvi a voz alta de quebrando o silêncio que já imperava no apartamento há mais de uma hora. Depois que Anya tinha ido embora, eu resolvi me aventurar por um dos livros de política e guerra que estava em cima da mesa de centro e logo me distraí com uma descrição muito interessante sobre o desempenho de um determinado tanque em solo arenoso.
- Já tem umas duas horas... – fechei o livro e acompanhei com o olhar enquanto ela andava rapidamente em direção ao banheiro e fechou a porta com um baque.
Não sabia o que fazer. Justo naquele momento me veio a ideia de preparar alguma coisa para comer do mesmo jeito que ela tinha feito para mim quando eu estava bêbado, mas a infeliz inspiração chegou na hora errada. Joder, eu podia ter saído para comprar alguma coisa e deixado um bilhete caso ela acordasse e não me visse por ali...
Depois de um tempo, ela saiu do banheiro com o rosto limpo e marcado por olheiras. Ela se afundou perto de mim no sofá e cruzou as pernas em cima da mesa onde eu havia recolocado o livro sobre arsenal de guerra e me encarou inexpressiva.
- Você está bem? – perguntei e, de repente, fiquei muito consciente de que ela estava usando um pijama velhinho e eu continuava sem camisa. A gente, homem, não vale nada mesmo...
- Eu nunca estive tão sem graça na minha vida. – apoiou o rosto em uma das mãos. – Queria poder apagar a minha memória... E a sua também.
- Fale por você. – eu a interrompi e tentei soar divertido. – Eu bebi de graça, ouvi música boa e dormi com quem eu queria.
Sabia que minha tentativa fora bem sucedida quando revirou os olhos e tentou conter um sorriso, mas não conseguiu. Era mesmo muito fácil deixá-la tímida.
- Adivinha quem eu acabei de conhecer? – resolvi contar a novidade para deixá-la mais animada.
- Como assim?
- Anya passou por aqui.
- O quê? escancarou a boca. – Ela simplesmente veio e foi embora? Sem falar comigo?
- Você ‘tava dormindo... – tentei justificar ao ver sua expressão desapontada.
- Meu deus, vocês conversaram? – ela agora parecia igualmente escandalizada e em pânico.
O que eu ia dizer? Mentir?
- Até que ela não é tão agressiva assim. – respondi com timidez. – Bom, ela me mandou te deixar livre por hoje porque ela quer passar a tarde com você.
- Então vocês conversaram mesmo...
praticamente não piscava. Eu só imaginava o quanto ela estava preocupada (com razão) só de tentar adivinhar o que é que eu e sua melhor amiga havíamos falado enquanto ela estava tecnicamente ausente.
- Só o suficiente para ela deixar bem claro que ela desconfia de mim, que vai me acompanhar de perto e outros tipos de ameaça. Ela parece ser uma boa amiga, só um pouco mal educada.
- Eu vou resolver isso já, já... – ela disse, fechando os olhos com uma calma muito forçada.
Fiquei ainda mais consciente de que eu estava muito longe e muito mais sem roupa. No pequeno intervalo entre um assunto e outro, pensei em ir até o quarto buscar a minha camisa que havia ficado em algum lugar, mas até eu me senti um pouco tímido por simplesmente levantar do nada.
- Vamos falar sobre o que aconteceu ontem ou... – gesticulei com uma das mãos para chamar sua atenção.
- Ainda não sei o que dizer. – deu ombros. – Sabe aquele dia que você me encontrou na esquina pra comer pizza?
- Pues claro.
- Eu te contei de como eu estava me sentindo bem e em paz, em comparação à pilha de nervos que eu normalmente sou. Eu não consigo dar um passo sequer para fora de casa sem antes pensar em tudo que pode dar errado porque simplesmente eu não dou mais conta de lidar com tanta coisa me estressando. Só que enfim as coisas pareciam ter mudado na minha cabeça...
- Pero...? – perguntei já prevendo o “porém” na história.
- Mas ontem eu achei que tinha perdido toda a paz de espírito que eu tinha conquistado quando vi algo que me tirou do sério – parecia ter se confessado. – Parecia que o meu progresso tinha ido todo por água abaixo quando eu me permiti ficar abalada e fraca de novo por ter visto quem eu não deveria.
- Eu achei que estava entendendo o que você queria me dizer, mas me perdi. – balancei a cabeça em negação. – Eu te vi mal ontem, aquilo pra mim era claramente uma crise de pânico, sei lá, do tipo que eu já tive a vida inteira. Tudo bem ter ficado mal, mas eu não sei aonde você quer chegar...
- Ontem eu fui dormir com a certeza de que hoje eu teria de começar do zero – ela me respondeu com determinação ao abraçar uma almofada do sofá. – Quando acordei me senti igual... Não igual à ontem, mas sim igual a qualquer outro dia antes disso. Você tinha razão; me lembrei do resto da noite e fiquei bem satisfeita. Com muita vergonha de ter feito você passar por esse papel miserável, mas continuo bem feliz.
Me peguei distraído com o rosto apoiado no braço, olhando para enquanto ela falava com determinação. Não deu pra segurar um pouquinho do sorriso escapando pelo meu rosto, porque, pra ser sincero, eu queria que ela soubesse perfeitamente do que eu estava pensando.
- Que foi? Falei algo de errado? – ela mesma se interrompeu, assustada.
- Não, não – apressei em me recompor. – Eu acho que eu te subestimei. Fiquei preocupado além da conta por ter te visto daquele jeito, eu não sabia o que pensar e só queria ajudar. Preciso admitir que até eu fiquei achando que isso te afetaria a longo prazo, mas eu ‘tava errado, . Você chegou até aqui fazendo um progresso imenso praticamente sozinha e se empenhando um pouco todo dia. Eu deveria te dar um pouco mais de crédito. E você também.
- Ah... Bom, obrigada!
- Então... Quais são seus planos para hoje?
- Como assim? – ela piscou confusa.
- Eu tenho que ir trabalhar e acho que você também, mas e depois? – dei ombros.
- Eu não vou trabalhar, afinal de contas, eu troquei de turno com um dos meus colegas – se explicou e apontou para o celular como se tivesse se referindo a uma pessoa. – E eu acho que vou para a casa da Anya mais tarde.
- Claro, claro...
Não posso negar que aquela decepção doeu como um chute no estômago, mas quem é que eu estava pensando que era? Dono da niña? Além do mais, nos últimos meses, ela havia passado praticamente todos os fins de semana comigo e até um pouco mais, então de falta de atenção eu não poderia reclamar de jeito nenhum. Só que havia ficado uma pontinha de esperança...
- O que a gente faz agora? – ela me olhou de cima a baixo de um jeito meio inseguro, porém com um ar adorável.
- Yo que sé - balancei a cabeça negativamente, mas não quis soar mal educado nem nada parecido. – Vá ver a sua amiga. Ela parecia tão ansiosa para te encontrar aqui.
- Eu vou, mas eu quis dizer a gente. Pensar nisso ‘tá me deixando ansiosa...
- Não foi há muito tempo que você me pediu um pouco de calma pra gente não se arriscar no amor instantâneo – eu respondi imediatamente, porque já tinha esse discurso guardado na cabeça. – Eu acho que depois de ontem e de levar um leve sermão da sua melhor amiga, eu aguento qualquer coisa... Aguento até esperar até amanhã. O que você acha?
me olhava pelo canto do olho de um jeito engraçado. Agora quem estava ansioso era eu, porque eu não queria parecer nem insistente e nem desinteressado – só o suficiente para que ela se sentisse confortável e ao mesmo tempo soubesse que eu a queria hoje tanto quanto ontem.
- Eu acho justo – ela confirmou e se levantou do sofá num pulo. – Eu vou para a casa da Anya e adiamos a resolução de hoje para amanhã. Falando assim, parece tranquilo.
- É, tranquilo – imitei seu tom de voz com exagero e fui andando atrás dela na direção do quarto. – Não foi você que teve que dormir passando vontade ontem...
- Ah, não? – ela me entregou a minha camisa cuidadosamente dobrada acompanhada de uma leve indignação. – , eu fui dormir chorando... Só não disse por onde. Já ouviu esse ditado?
Precisei me segurar para não rir, mas não deu. com as mãos na cintura, a expressão séria e parecia mais alta e imponente que o normal.
- Não, nunca ouvi isso! Mas gostei, e acho bom você manter isso em mente até amanhã.
- Como você é pretensioso...
Sem pudor nenhum, ela simplesmente trocou de roupa na minha frente como se eu nem estivesse no mesmo cômodo. Eu acho que àquela altura, já estava mais do que claro que era a pessoa que tinha menos problema com nudez e exibicionismo que eu já havia conhecido na minha vida, mas confesso que fiquei um pouco surpreso com a naturalidade. Ela estava de costas, mas eu parei o que estava fazendo e esperei ela terminar, por mais que tivesse sido bem rápido. Em menos de um minuto, ela havia tirado o pijama e colocado um jeans e uma camiseta branca bem bonita e já estava pronta para sair.
- Vamos? – ela perguntou com inocência, como se nada tivesse acontecido.
- Vamos... – deixei que ela passasse na minha frente, mas puxei sua mão para dentro do quarto de novo e, com um pouco de força desnecessária, fiz com que seu corpo se juntasse ao meu. Senti o gosto de seus lábios de novo e foi tão marcante quanto da primeira vez, só que ainda mais urgente, se é que era possível. Fiz a gente se separar poucos segundos depois e preparei a melhor cara de ingênuo que eu também poderia fazer. – Para não passar vontade até amanhã.
Minha mãe me criou muito bem.


Capítulo 12


Sueño que estoy andando
Por un puente y que la acera
Cuanto más quiero cruzarlo
Más se mueve y tambalea




O que eu posso dizer que foi o maior choque que o meu corpo já recebeu foi simplesmente ser arrancada do chão por uma sombra enorme. Meus pés balançavam no ar e minha cabeça ficou presa entre dois braços que facilmente contornavam os meus ombros, inclusive me deixando sem ar por vários segundos. Foi o pior abraço de urso que eu já havia recebido na minha vida.
Thor finalmente me soltou e me colocou no chão, mas eu não tive tempo de raciocinar ou de deixar o sangue fluir de volta para a minha cabeça. Anya, que estava bem atrás dele no batente da porta, fez o contrário: ela se jogou em cima de mim e eu aguentei seu peso, crente que eu terminaria o dia com escoliose. Aquilo não fazia o menor sentido pra mim porque quanto mais ao norte, menores são as demonstrações de afeto. Ali na minha frente, eu tinha um espécime viking e uma holandesa ex jogadora de handebol e ambos estavam carinhosos demais pro meu gosto
. A violência presente naquele bonito gesto de saudade e apreço por me ver foi fácil de ignorar. Ver aqueles dois rostos familiares (e eu realmente me apego ao sentido de família) me deixou tão feliz que por um momento achei que meus olhos encheram de lágrimas.
- Você fez tanta falta! – eu abracei Anni de volta, mas dessa vez que nem uma pessoa normal.
- Só ela? E eu não? – perguntou Thor fazendo uma pose com as mãos na cintura.
- Não...
Anya riu e finalmente me soltou do abraço. Dei uma boa olhada em seus rostos bronzeados de sol, o que denunciava imediatamente que os dois eram estrangeiros – não que eu não fosse, mas eu não estava que nem um pimentão. Thor fechou a porta atrás de mim e eu me deparei com uma bagunça que claramente não era minha das semanas que eu me encarreguei de arrumar o apartamento.
- Ainda sem tempo de desfazer as malas, não é?
- Acho mais fácil jogar tudo fora e começar do zero. – Anya deu meia volta e foi em direção à cozinha. – Exceto pelos presentes, e por falar nisso, aqui estão os seus.
- Seus? – me surpreendi. – Plural?
- A gente só tem você pra presentear. – explicou Thor atrás de mim.
- Vamos lá, unboxing de mimos. – Anya disse com uma voz afetada como se fosse blogueira de Instagram. Primeiro ela me entregou uma jarra delicada de vidro lilás. – Isso é óleo de lavanda de Zagreb. Achei apropriado pra combinar com a sua tatuagem!
Abri o frasco para sentir o perfume do líquido ali dentro. Não fazia ideia para quê servia um óleo de lavanda, se era pra usar na cozinha ou se eu poderia passar no corpo... Ou só deixar de enfeite. Mesmo assim, achei adorável a lembrança e a relação com a minha tatuagem.
- Agora temos aqui um exemplar de pão de gengibre, que é completamente normal e não tem nada de especial, a não ser o fato de que é em formato de coração e tem o selo da confeitaria de Dubrovnik! – Anni entregou-me um embrulho vermelho e dourado.
- É melhor que você tenha pelo menos um chaveiro pra me dar... – avisei de brincadeira.
- Quase isso. – ela concordou e, finalmente, tirou de uma sacola de presente vários ímãs de geladeira. – Um toque pessoal na decoração do seu apartamento.
- Pessoal sendo que eu nunca fui pra lá! – eu sorri enquanto olhava os três ímãs coloridos. – ‘Tô brincando, Anni. Eu adorei tudo, principalmente o que é de comer.
Ela parecia satisfeita com as pequenas compras e acho que a minha boa reação não deixou a desejar.
- Então, o que você acha de contar as novidades enquanto nos ajuda a lavar roupa? – propôs Thor com uma animação fora do normal.
- Que tal eu só contar as novidades enquanto observo vocês lavando roupa? – imitei sua expressão e ele revirou os olhos para mim. – Falando sério, o que vocês acham de sair pra comer tapas?
- Essa foi a proposta mais espanhola que você já fez, se é que isso faz sentido. – Anya me olhou de cima a baixo. – Você já é praticamente local.
- Bom, eu tive que me manter entretida enquanto vocês estavam fora!
- Pois é, e é disso que você tem que nos contar. – Thor respondeu.
- Não sei se têm graça te contar as coisas, viking. – eu tentei ao máximo parecer presunçosa. – Eu fui lá e fiz tudo que você me aconselhou a não fazer.
- Sim, e você é doida. – ele me contestou imediatamente. – Mas eu reconheço que você ‘tá feliz e até mais sorridente, então não vou te repreender.
- Até porque é adulta... – Anya completou e depois disse diretamente a mim. – E você realmente parece mais alegre. Nem dá pra notar que algo ruim aconteceu...
Em meio aos elogios sinceros dos meus amigos, eu senti o meu sorriso desmoronar lentamente. Eles estavam certos, eu realmente estava mais contente e satisfeita há dias, mas por pouco tempo eu havia me esquecido que logo ontem algo no mínimo desagradável tinha acontecido.
- Ah pronto, eu sabia que não dava pra glorificar tanto assim, Andrej. – Anya ficou alarmada. – Coisa boa é fácil de espantar.
- Não, não é isso, Anni... – eu a interrompi. Passei a mão pelos cabelos que já estavam um pouco sujos e grudentos do calor, o que me deixava desconfortável na minha própria pele. – Eu ‘tô bem, eu ‘tô tão feliz e tranquila que vocês nem me reconheceriam.
- Então o que aconteceu ontem? – Thor perguntou e eu o olhei confusa por um segundo, mas depois fez sentido que ele já soubesse de uma parte da história.
- Eu contei pra ele. – Anya cruzou os braços e apontou para o namorado. – Quer dizer, eu conheci o seu amigo, ele me contou mais ou menos e o Andrej já sabe tudo que eu sei.
Aquela explicação confusa era mais do que suficiente para confirmar as minhas suspeitas de que Anya e havia conversado por um tempo enquanto eu estava dormindo...
- Falando nisso, ele é só seu amigo mesmo? – Andrej perguntou de um jeito tão ingênuo que parecia até alívio cômico.
- Sei lá... – respondi com sinceridade. – Não sei o que ele quer, não sei se a gente compartilha dos mesmos significados.
- , pelo amor de deus! – Anni me olhou com descrença. – Ele até dormiu na sua casa. E todo mundo sabe que espanhol tem essa mania de achar que uma ficada é sinal de compromisso. Aliás, não só espanhol... Digo o mesmo dos holandeses, franceses...
- Alemães... – eu completei sugestivamente.
Anya parou de listar as nacionalidades e nós três nos entreolhamos. Ela e Thor me fitavam com um pouco de aflição, eu acho, como se estivessem esperando que eu dissesse algo extremamente dramático e surpreendente. A verdade é que eu queria logo tirar aquela angústia da minha cabeça e do meu coração, mas eu não conseguia encontrar as palavras certas para explicar o que eu estava sentindo e pensando.
- . – Anya finalmente pronunciou meu nome com cuidado. - O Max está mesmo aqui na cidade?
Toda vez que eu escutava aquele nome em voz alta por outra pessoa eu sentia o meu peito completamente estrangulado. Quando somente eu pensava no assunto, era fácil demais fingir que nada do que tinha acontecido era real, mas quando mais alguém sabia do passado era quase como se esfregassem na minha cara toda aquela merda.
- Sim. Eu o vi ontem na Casa Batllò.
- Ele te procurou?
- Não, não acho que ele nem me viu. – respondi rapidamente. – Eu só... Eu o vi de longe e entrei em pânico, mas parecia que ele estava me procurando. Procurando alguém, pelo menos. O resto você já sabe.
- Quem pode ter contado que você se mudou pra cá? – ela continuou me interrogando.
- Axel, talvez. – arrisquei – Dos meus irmãos, acho que só ele diria algo sobre mim. E meus avós não têm motivo pra ter contato com ele.
- , não é difícil descobrir que você ‘tá aqui. – Thor balançou a cabeça negativamente e disse com calma, como se tentasse me dar uma notícia ruim. – Todos nós temos amigos e colegas em comum. Ele não precisa ter perguntado diretamente para alguém da sua família. Talvez ele só ouviu falar...
- Isso, o Andrej ‘tá certo. – Anni apressou-se em concordar com o namorado.
Preciso admitir que aquilo era mais do que plausível. Na verdade, aquela suposição já havia passado pela minha cabeça diversas vezes desde que eu havia acordado, mesmo que eu não acreditasse muito nessa possibilidade; ainda assim, era a cara do meu irmão mais velho fazer esse tipo de coisa comigo.
- Mas como é que ele sabia que você iria logo pro evento da Casa Batllò? É isso que eu não entendo. – Andrej tinha os olhos arregalados de tanta indignação, e eu compartilhava o sentimento, mas estava muito cansada para isso.
- Já desisti de entender isso por hoje. – eu me encolhi e encarei meus próprios tênis com bastante determinação. – Por que ele iria atrás de mim num show? Não faz sentido. Supondo que o meu irmão tenha contado para ele que eu estou aqui, ele poderia ter dito de uma vez qual era o meu telefone ou onde eu moro, sei lá. Ele não precisaria me stalkear na rua...
- É, se ele quisesse te ver ele teria conseguido seu endereço de uma vez. – Anni concordou, enfim.
- Isso não precisa ser um mistério que a gente precisa desvendar. – eu balancei a cabeça em negação. – Inclusive, eu preferiria nunca mais ter que pensar em nada do que aconteceu, principalmente ontem. Se ele está aqui em Barcelona... Bom, o que eu posso fazer? – dei ombros e encarei os dois alternadamente. – Não vou procurá-lo e só posso torcer para que ele não faça o mesmo.
- Ele teve meses pra querer saber de você. – Anya disse em um tom que tentava ser reconfortante.
- Não, amiga, eu não tenho a intenção de dizer que ele perdeu a chance comigo. – até porque eu não sei se isso é verdade, pensei. – Eu só quero ficar livre de pelo menos uma das inúmeras razões que me fez mudar de país. Só não queria que isso tivesse me custado uma crise de ansiedade em público e logo com do meu lado.
- Que aliás... – Anya me interrompeu exibindo um sorriso convencido no rosto, finalmente mudando de assunto. – Meus parabéns, . Ótima escolha, bem o seu tipo.
- Qual o meu tipo?
- Tipo meio esquisito. – ela respondeu como se fosse óbvio.
- É verdade, gente bonitinha não combina com você. – Thor concordou.
Ok, isso era pra ser um elogio?
- Aquele alargador do tamanho de uma rolha, o brinco gigantesco, aquelas tatuagens que mais parecem pichação do Banksy... – Anya começou a descrever de um jeito estranhamente sonhador.
- Oi, eu perdi alguma coisa? – o namorado se manifestou e olhou para ela fingindo ciúmes só para provocá-la.
- Calma, amor, quando você conhecê-lo, vai ver como ele é bonito!
- Quem disse que eu vou apresentá-lo a vocês? – perguntei indignada.
Eu me sentia na sétima série de novo discutindo aquilo com meus dois melhores amigos. Os dois queriam detalhes sórdidos, mas ficava difícil contar sobre a noite anterior que foi interrompida por algo incômodo. Além do mais, Anya e Andrej já haviam lido todos os prints de conversas importantes e significativas que eu tive com – afinal, eu precisava da opinião de terceiros -, de modo que não havia tanta novidade assim.
Eles queriam me convencer a armar um encontro duplo, sendo que eu nem sabia o que esperava de mim! Para ser sincera, eu mesma ainda não tinha parado pra pensar no que eu queria...
- Vocês marcaram de sair hoje? – Anya perguntou interessada.
- Não, já que aparentemente você proibiu ele de me ver porque queria passar o dia comigo! – eu apontei.
- Bom, é verdade, nada mais justo do que você me dar atenção de qualidade, só pra variar. Mas amanhã ainda é domingo e eu tenho certeza que ele deve te procurar pra fazer alguma coisa, e você não vai dizer não.
- Sim, senhora. – balancei o meu rosto tentando ser debochada. – Eu faço o esforço de vê-lo amanhã só pra te agradar.
- , vê se cresce e para de fingir que você não ‘tá precisando transar. – as palavras de Anya simplesmente cortaram o ar como navalhas, tanto que Andrej até se desencostou do balcão de madeira da cozinha e andou em direção à sala.
- Eu acho que a conversa de vocês vai tomar um rumo inadequado pra mim, então eu vou lavar roupa. – ele tossiu para disfarçar a vergonha.
- Um homem desse tamanho fica todo sensível porque escuta a palavra transar. – Anya olhou para ele e disse bem alto com bastante descrença. – Lava com o amaciante concentrado, amor, e não com o normal!
Sempre me daria um calorzinho no coração ver que aqueles dois seriam tão especiais e tão únicos no jeito de agir um com o outro. Eu tinha muita sorte de tê-los como amigos, de um lado a pessoa mais agressiva e mandona do mundo, e do outro um sujeito que era um crossover de jogador de basquete e Ursinhos Carinhosos.
- Acho que não custa nada dar o braço a torcer – concordei com ela.
- Sim, é de uma boa torcida de braço que você tá precisando. – Anya continuou com aquele jeito depravado. – Pretende vê-lo quando então?
- Bom, acho que amanhã, né! – soltei os braços ao lado do corpo, me dando por vencida. – É difícil não ter criatividade pra poder chamá-lo pra algum lugar diferente, porque uma coisa que eu nunca vou poder fazer é reclamar do tédio em Barcelona. Só não se distrai quem não quer.
- Você mesma passou séculos não querendo se distrair e do nada teve uma epifania. – Anni sorriu pra me animar.
- Só que a primeira vez que eu tive a iniciativa, foi pra sair ontem à noite, e olha a merda que aconteceu... – lembrei-me e sorri de volta, mas dessa vez para expressar derrota.
- Aí, ... Se não fosse uma situação tão chata, eu brigaria por você ser tão pessimista, mas acho que você ‘tá no seu direito de ficar com o pé atrás.
Eu não respondi, só ergui as sobrancelhas e balancei a cabeça concordando com ela. Estava mesmo no meu direito de ficar frustrada porque finalmente aquilo parecia um relacionamento promissor, mas me sentia completamente incapaz de dar qualquer passo por conta própria. Como se eu quisesse crescer mesmo com uma âncora de problemas (na verdade um só problema) me segurasse e me puxasse pro fundo do poço. Isso não acabaria com a minha força de vontade, mas com certeza era algo que me desmotivava...

Poucas horas mais tarde, Anya me fez ir com ela ao supermercado para o que ela tinha me prometido que seria uma comprinha modesta, mas que terminou com nós duas dividindo o peso de uma enorme caixa de papelão com itens necessários para abastecer a geladeira por um mês. Eu sabia que a minha principal função naquela visita era apenas de ajudá-los com a chegada da viagem, como se eu já não tivesse feito nada durante as várias semanas anteriores. Não estava reclamando, mas queria muito que Thor tivesse tido a decência de ir conosco.
- Você não acha estranho como existe um equilíbrio entre homens legais e homens escrotos na sua vida? – Anni perguntou distraidamente enquanto caminhávamos devagar para dar conta do peso.
- O quê? – virei para ela sem entender de onde aquela ideia tinha saído.
- Sabe, todo homem que passa pela sua vida se encaixa somente em duas categorias. – ela continuou a explicar. – Você teve um pai ausente, mas tem um avô postiço incrível. Um irmão machista, agressivo e psicopata...
- Axel... – eu completei antes que ela pudesse elaborar ainda mais nas qualidades do meu irmão mais velho.
- ... e um irmão que não é o mais brilhante de todos, mas que tem um coração muito bom.
- Você ‘tá falando do Eric ou do Milo?
- Do Eric, porque o Milo é criança e não dá pra saber o que ele vai se tornar. – Anni continuou elaborando a sua lista de personalidades masculinas. – Também teve um namorado extremamente inseguro, orgulhoso e insensível, mas agora deu sorte com outro que é...
- não é meu namorado. – me apressei em corrigir. Ainda.
- ... muito bem resolvido, engraçado e tem boas intenções.
Olhei para Anya com desconfiança e parei imediatamente de caminhar. Isso foi um pequeno problema, porque quando ela deu um passo sozinha a caixa de papelão com as compras foi direto para o chão. Não estávamos carregando a uma altura muito grande, então não teve problema, mas o estrondo que ela deu ao cair adicionou uma carga dramática à minha pausa intencional.
- O que deu em você? – perguntei tentando conter um sorriso, mas que era muito mais por nervosismo do que de achar graça em alguma coisa. – Por que ‘tá elogiando tanto alguém que você mal conhece? – Anni me olhou com falsa inocência típica de quem coloca a mão no peito e diz “eeeeu?” como se tivesse sido ofendida. – Não se faz de sonsa, Anya, você não é de falar bem de homem nenhum.
- Você não confia no cuidado que eu tenho com você? – ela largou a própria metade da caixa e cruzou os braços. – Não é como se eu só tivesse constatado isso agora, porque você realmente tem um histórico infeliz e igualmente bem sucedido com figuras masculinas.
- E você entrou nessa longa reflexão só pra falar bem do no final? – continuei na defensiva.
- Sim, e daí? Olha, eu não vou esconder que ‘tô bem aliviada de ver você assim, sei lá, mais leve, bem disposta. Eu preferiria que não fosse exclusivamente por causa de um cara aleatório, mas já que foi o caso... Só posso torcer para que dê certo essa coisa mágica que ele ‘tá fazendo por você.
- Eu não consigo enxergar isso que todo mundo vê... – comecei a explicar, mas Anya me interrompeu com um grito.
- Como assim todo mundo? Você tem outros amigos?
- Não seja boba, Anni. – revirei os olhos para ela, sem paciência. – Sei lá, foi só modo de dizer.
- E a verdade te incomoda?
- Não, não me incomoda. – segurei o tom irônico e passivo agressivo, afinal, isso era característica da minha amiga e não minha. – Eu só não quero ser uma dessas pessoas que chegou ao fundo do poço por causa de um namoro, e agora só ‘tá melhorando graças a outro cara.
Acho que Anya não esperava que aquele simples comentário dela rendesse uma cena de choro bem no meio da calçada no final da tarde. Eu estava de braços cruzados como uma forma de me auto proteger, e ela deu a volta na caixa largada no chão e se posicionou na minha frente. Senti minha amiga me abraçando com cuidado, mas não consegui desfazer a posição firme em que eu estava.
- Nessas horas, qualquer ajuda é bem vinda, . – a ouvi dizer de forma reconfortante. – Esse cara surgiu do nada na sua vida e está te fazendo bem. Pense nisso como um empurrão que você precisava, não como se ele estivesse te salvando. Eu só queria que você soubesse que eu o acho uma ótima influência, independente do tipo de relacionamento que vocês têm ou eventualmente podem ter. Talvez a minha escolha de palavras tenha sido exagerada, eu realmente não gosto de ficar elogiando homem... – Anni voltou ao seu semblante sarcástico normal e arrancou de mim uma risada.
- É bom saber. – concordei com ela e voltei a pegar o meu lado da caixa. – Agora, será que dá pra gente falar de outra coisa sem ser dele?
- Tipo o quê?
- Tipo... Suas aulas começam quando?
- Ah, que chatice! – Anya protestou, mas me respondeu imediatamente. – Final de setembro, não que eu esteja ansiosa para esse dia chegar.
- Você vai agradecer de voltar para a faculdade depois de passar o resto do mês completamente à toa. Eu passo a maior parte do dia assim depois do trabalho e mal vejo a hora de ficar ocupada.
- Falando nisso, e esse é um assunto interessante de verdade, o que a gente vai fazer a partir de agora? – ela mudou completamente o foco da conversa.
- A gente? Eu vou pegar o máximo de turnos que eu puder no Bob’s Kitchen. Não vou cair na sua conversa, senão semana que vem eu ‘tô embarcando pra Menorca.
- , sempre tão responsável e sensata... – Anya forçou uma admiração. – Até parece que se você não estalar os dedos, aparece algum dinheiro do seu pai pra te deixar à vontade.
Lancei-lhe um olhar torto. Ela sabia muito bem que falar esse tipo de coisa me deixava extremamente constrangida, por mais que tivesse algum fundo de verdade nisso. Mas é claro que ela só estalou os lábios com desdém e continuou falando por conta própria.
- Eu acho que a gente deveria procurar alguma montanha ou qualquer lugar do gênero, sabe, pelo menos no fim de semana pra fugir um pouco desse calor infernal.
- Não, eu não vou procurar nada porque eu já te disse que preciso trabalhar. – insisti. – Mas, falando nisso, tenho que ligar para o dono do apartamento e pedir pelo amor de deus que ele dê um jeito no ar condicionado.
- Até hoje?
- Na verdade, ele até voltou a funcionar, mas só consigo deixá-lo no mais frio possível. E deve ter alguma coisa suja lá dentro, porque não pode ser coincidência que logo hoje eu acordei com rinite de novo. – expliquei com um pouco de frustração na voz e Anni fez cara de nojo. – Eu não ‘tô pagando aluguel à toa, não é mesmo?
Anya apenas acenou concordando comigo e voltou ao assunto de viajar novamente na sexta-feira, e eu já não sabia quais outras desculpas eu poderia inventar para não participar desse plano. Por fim, eu desisti de arrumar qualquer motivação e apenas disse que não estava nem um pouco a fim de planejar nada por enquanto.
No fundo, eu queria guardar a minha disposição para viajar numa visita aos meus avós e irmãos num futuro não muito distante. Não conseguiria reunir força de vontade o suficiente para ir para outro país enquanto as coisas em casa ainda estavam mal resolvidas. Oficialmente, eu não devia nada a ninguém, é claro, mas eu ainda sentia uma pequena obrigação emocional de voltar para a minha cidade e rever a minha família – e por qualquer motivo que fossem, eu também não dava conta de fazer isso por livre e espontânea vontade, por enquanto. Como se eu precisasse das crises de ansiedade noturnas que há algum tempo não faziam falta nenhuma.

Como previsto, fiquei na casa de Anya e Thor até o final da tarde. Morria de preguiça de ter que sair dali e pegar metrô no calor e no sol das sete horas, mas eu também tinha bom senso o suficiente para finalmente deixá-los sozinhos. No caminho para a estação, eu mudei de ideia e resolvi pegar um táxi, porque a simples possibilidade de ter que passar os dois trajetos em pé já tinha me deixado exausta.
Sentada no carro que eu não demorei nem um minuto para achar, aproveitei para mandar uma mensagem para o rapaz que me alugava o apartamento. Nosso histórico de conversa era basicamente esse: ele me lembrando de depositar o valor do aluguel e das contas e eu enviando-lhe foto dos comprovantes bancários. Essa deveria ser a quarta ou quinta vez que eu pedia que ele fosse arrumar o maldito ar condicionado no studio, então decidi ser mais assertiva e impaciente com as minhas palavras. Com sorte, daria certo.
O nome de bem lá em cima das conversas continuava em negrito, porque ele me chamara havia umas duas horas e eu ainda não tinha respondido. Mordi o lábio hesitando por um breve momento, mas depois abri sua janela para matar logo a curiosidade.

@: Acabamos de marcar um evento aqui, vai ser um flash day com DJ e open bar. Próxima sexta-feira, a partir das 18:00.
@: Meu amigo quer saber se você vem...
@: “Seu amigo” é?
@: Sim, o Nacho. Ele quer saber se ainda está de pé o combinado de você apresentar pra ele alguma amiga sua.
@: Coitado...
@: Falando nisso, você ainda ‘tá sob custódia da sua amiga Anya?
@: Acabei de sair de lá e ‘tô quase chegando em casa.
@: Como é isso de flash day?
@: Um dia inteiro em que a gente só disponibiliza desenhos prontos do nosso portfólio por um preço único. No caso, 60 euros.
@: Posso te mostrar os que eu fiz, se você quiser.
@: Mas tem que ser pessoalmente ;)
@: O que eu ganho se já fechar horário para uma tatuagem surpresa?
@: Ganha prioridade na lista de espera
@: Só isso?
@: Ok... Piercing de graça, que tal?
@: NÃO
@: Não custava perguntar...
@: Já chegou em casa?
@: Elevador.


Entrei na sala ainda sorrindo para a tela do celular. E fiquei ainda mais satisfeita quando vi a resposta do dono do apartamento dizendo que logo chegaria ao prédio e, no mais tardar, arrumaria o ar condicionado na manhã seguinte sem falta. Confiei naquilo (pela última vez) e pensei que com sorte eu não passaria nem mais uma noite com algo atacando as minhas alergias.
Com mais duas pessoas de volta na minha vida eu já não me sentia tão vulnerável e solitária. A última vez que eu havia procurado Anya num momento de desespero, eu me senti extremamente culpada por atrapalhar suas férias, não parecia que eu tinha o direito de interromper sua distração com algum dos meus dramas. Não que eu pretendesse jogar tudo nas costas dela e de Thor e cobrar a atenção dos dois, mas eu realmente me sentia mais calma ao saber que eles estavam mais “ao meu alcance.”
Minhas preocupações ainda eram numerosas e muito evidentes, mas pelo menos parecia que elas estavam sob controle. Até mesmo a figura distante de Max na noite anterior já não parecia me incomodar tanto assim uma vez que eu tinha acabado de passar um tempo com meus dois melhores amigos. Eles me trouxeram de volta à órbita da Terra, espantaram um fantasma do passado – fico admirada com o quão teatral eu consigo ser às vezes. De qualquer forma, é incrível o bem que as pessoas certas podem fazer na vida de cada um...
Me surpreendi sorrindo de orelha a orelha enquanto lavava o cabelo no banho, até porque senti o gosto horrível da espuma do shampoo escorrendo direto para a minha boca. Não estava acostumada com esse tipo de tranquilidade e leveza de espírito, então alguma coisa tinha que me chamar à atenção para a minha cara de boba.
Não eram nem nove horas quando eu me sentei no sofá e encarei o catálogo da Netflix – péssimo o da Espanha, por sinal – e dei por encerrado o meu sábado à noite. Foi só nesse momento que me bateu um leve vazio no peito, porque qualquer pessoa da minha idade estaria aproveitando Barcelona, teria ido a alguma festa, bar, ou mesmo à praia... Me senti como se estivesse perdendo algo acontecendo no mundo lá fora.
Minha frustração foi rapidamente substituída por outra. Não consegui encontrar Mad Men no menu e eu ainda estava na terceira temporada da série, a que me provocava asma só de ver o tanto de cigarro que os personagens fumavam. Fiquei um bom tempo encarando o nada naquele eterno limbo de procurar algo decente para assistir sem cair na tentação de escolher alguma coisa repetida.
A campainha tocando me assustou mais do que qualquer coisa nessa vida. Definitivamente aquele era um som que eu não havia me acostumado a ouvir, porque Anya tinha as chaves e, bom, só ela mesma me visitava. Lembrei-me de Joan, o dono do apartamento, e me levantei num pulo para atendê-lo, já antecipando enfim o conserto do ar. Verifiquei rapidamente que eu estava decente com o que na verdade era meu pijama, mas poderia se passar por uma roupa bem simples.
Eu abri a porta com uma única e pequena expectativa, porque é assim que o corpo de qualquer pessoa se prepara quando sabe o que vai acontecer. Pois bem, e é assim que as surpresas acontecem. Daquele tipo que faz o seu coração quase querer sair pela boca e sua cabeça não sabe nem processar as informações direito.
- Eu não consegui esperar até poder ficar perto de você de novo.
A combinação da voz e do semblante de ali na minha frente tornava a situação ainda mais incomum. Eu me preocupei em entender como ele havia praticamente se materializado na porta da minha casa, ao invés de prestar atenção no que ele tinha acabado de dizer. Uma espécie de “confissão” que mais tarde me causaria uma impressão muito grande.
No final das contas, eu desisti de sequer falar e só dei espaço para que ele entrasse logo. Meu sábado à noite, então, não estaria encerrado tão cedo.


Capítulo 13

It'll be alright babe, see, me, I got you covered
I'm gonna be your lover, you might be the one
If it's only tonight, we don't need to worry
We ain't in a hurry, rushin' into love


Eu tinha um repertório impressionante de perguntas na ponta da minha língua, mas o meu completo choque (de entusiasmo, é claro) me impediu de raciocinar na hora certa. tinha perdido a suposta timidez de segundos antes e agora estava sentado no meu sofá, no exato lugar onde eu estava antes. Ele parecia mais confortável e seguro, como a pessoa que eu já conhecia normalmente.
- Como você entrou no prédio? – eu enfim perguntei tentando conter um sorriso no rosto.
- Eu lembrei do número de segurança ontem à noite quando te vi digitar no interfone. – ele deu ombros simplesmente. – Eu espero que não esteja interrompendo você...
- Mas é claro que não. – eu imediatamente cortei o que ele estava falando. – Por mim a minha hora de dormir já estaria próxima, olha só como eu ‘tô vestida.
- Eu ‘tô olhando.
Eu não precisava me passar por alguém que não era. Qualquer pensamento, qualquer intenção inocente já tinha dado o mais definitivo adeus assim que vi parado no batente da minha porta. Na noite anterior eu havia experimentado brevemente o que era ficar próxima a ele e, até agora, eu continuava curiosa sobre como seria ter mais. Muito além da minha própria iniciativa, na verdade eu queria que ele me tocasse e que fosse até mim. Se ele havia dito que não conseguia esperar até me ver de novo, isso me fez desejar que ele me mostrasse o que queria assim que a gente estivesse junto de novo.
- É sério, , eu posso ir embora se for muito tarde pra você...
- . – eu o interrompi novamente. Queria que ele parasse com esse tom de voz falsamente moderado, porque isso fazia a ansiedade crescer no meu peito e eu não sabia por quanto tempo eu daria conta de ficar somente de pé na frente dele. – Eu não quero mais dormir agora. Me fala o que você veio fazer aqui.
Com a mesma rapidez desde o instante que ele havia chegado até esse diálogo pretensioso, ele se levantou do sofá e eu dei dois passos à frente. Eu achei que escutaria um baque do meu corpo indo de encontro até seu tronco tão alto e magro, mas ele já tinha estendido os braços de forma a me trazer de encontro a si com um pouco mais de delicadeza. Foi uma das poucas vezes que ele foi tão amável comigo nesse sentido.
Eu gostava de como reagia naturalmente com encaixando seu torso no meu. Não queria apenas sentir suas mãos posicionadas no meu cabelo e na parte baixa da minha cintura. Eu precisava tocá-lo e, acima de tudo, me tocar também. A boca dele ainda era exatamente como eu me lembrava da noite anterior, só que melhor. Seus lábios faziam movimentos que se distinguiam do resto do corpo, e essa mistura de ritmos já me deixava insana; uma de suas mãos se deslocava com rapidez para dentro da minha blusa, mas seu beijo era surpreendentemente lento e intenso. Sentia o gosto daquela pele molhada por inteira, e não apenas a ponta dela encostando-se à minha.
Deixei escapar um gemido bem baixinho de tanto prazer que eu estava sentindo. sorriu durante o beijo com o mesmo nível de entusiasmo e assim eu decidi dar adeus à minha razão. A pele quente da palma de sua mão encontrou meu seio esquerdo desprotegido de qualquer sutiã embaixo da blusa, e o envolveu com impetuosidade. Ali mesmo, em pé, ele levantou o tecido cinza que me cobria e encolheu o corpo o suficiente para deslocar os lábios desde o meu rosto até o espaço entre os seios. Retribuí o seu olhar deslumbrado quando ele beijou a tatuagem naquela região sensível, sabendo que era algo que nós dois queríamos que ele fizesse há muito tempo.
O beijo seguinte foi muito mais desajeitado e caótico que o anterior. Me recusei a distanciar nossos lábios mesmo enquanto eu o empurrava gentilmente em direção ao meu quarto, e ele ia andando de costas bem devagar. O trajeto era curto, mas foi o suficiente para que me colocasse entre ele e a parede ao lado da própria porta da sala. Seus dois braços me prenderam naquele pequeno espaço e eu o encarei de volta, enquanto ele me olhava como se avaliasse meu corpo, meu rosto, minhas reações. Aquilo era extremamente tentador, trocar um olhar febril e cheio de desejo sem nem se encostar direito – mesmo que por alguns poucos segundos.
Quando percebi meu corpo encostando-se ao colchão da cama, eu já nem sabia o meu próprio nome. O meu resquício de consciência me fez avisar que eu não tinha camisinha em casa, mas ele prontamente respondeu que tinha algumas – o que também não me deixou admirada, porque homem não perde a chance de se mostrar por causa disso.
As minhas últimas visões antes de me entregar totalmente a ele foram exatamente de puxando a minha calça com as mãos trêmulas, e depois abaixando o rosto em direção as minhas pernas um pouco abertas. Nada mal para quem tinha começado o dia com poucas expectativas.

- Ah, não...
Olhei para aquela posição que me lembrava vagamente a minha avó, porém uma versão masculina e bem alta com os braços coloridos posicionados com impaciência na cintura e tentei entender a origem daquela resistência. estava em pé no meio da minha sala e falava sozinho com a televisão ligada ainda no menu da Netflix.
- Alguma coisa errada? – perguntei cautelosa.
- ‘Tá falando sério? – ele me devolveu a pergunta assim que eu fui para o seu lado e me acomodei no sofá, mas ele continuou me olhando de cima. – Você quer mesmo ver Stranger Things hoje?
- Quero...? – continuei respondendo com perguntas, e agora aquela conversa sem nenhum ponto final começava a me irritar. E ele em pé parado também, então puxei-o pelo braço para que ele caísse sentado onde eu estava. – Eu achei que você gostasse.
Quer dizer, tudo em indicava que ele fosse gostar de Stranger Things. Até acho que já tivemos algum debate acalorado sobre séries, mas a atitude dele me fez questionar a minha memória.
- Eu gosto, mas acho desonesto a gente assistir logo agora. – ele respondeu e fez menos sentido ainda.
- Olha, parece até que eu ‘tô conversando com o meu irmão pequeno, então eu vou começar a fingir que estou entendendo tudo isso... – levantei uma mão no ar como se pedisse para ele parar com aquilo.
- Você não vai se sentir culpada de transar durante uma série boa dessas? – quase arregalou os olhos como se fosse óbvio. – Eu me sentiria. Melhor escolher algo repetido e não perder nada, não?
- Meu deus, ...
- Não foi pra isso que você sugeriu ver Netflix? – ele disse com falsa indignação. – Ou você quer mesmo assistir série?
Eu sabia que ele estava brincando e, para variar, tentando me fazer ficar sem graça. Pelo menos parecia piada, mas até que fazia sentido...
- Você ‘tá me deixando com vergonha alheia dessa vez. – balancei a cabeça negativamente, mas não consegui segurar um sorriso no rosto e logo a cara séria dele se desfez. Ah, eu sabia.
- Flipo contigo, niña começou a rir com os olhinhos fechados, e eu nem sabia o que ele tinha dito, mas soava bom.
Ele não reclamou tanto assim que dei play no primeiro episódio. Meu turno não era tão cedo assim no dia seguinte e ele não trabalharia, então não havia necessidade de se preocupar com horas não dormidas. Uma breve parte da noite foi dedicada à uma atividade inocente e bem comportada – enquanto a outra foi o oposto disso.
Enquanto a história não demandava minha total atenção, pensei no quanto eu estava confortável de um jeito diferente. Eu nunca havia recebido em casa uma pessoa por tanto tempo assim, nem mesmo Anya ou Thor haviam dormido no apartamento antes, uma vez que os dois moravam juntos. Aquela era a segunda noite consecutiva que passava ali e dessa vez eu estava consciente da companhia dele – e ele se fazia muito presente.
Não precisei ficar com medo de nenhuma limitação imaginária de contato ou gesto entre nós dois. Quando me puxou de costas sobre parte do seu peito eu apenas deixei que ele me colocasse de forma confortável para nós dois. Eu havia me esquecido que esse tipo de proximidade existia – eu recebia e dava abraços em outras pessoas, mas não era a mesma coisa. Depois de um tempo naquela posição, nós dois havíamos afundado um pouco no sofá e nos sentimos ainda mais acolhidos, de um jeito que eu pendi minha cabeça para trás um pouco e ele relaxou quase em cima da minha tatuagem. Vez ou outra eu vislumbrava algum pequeno desenho aleatório que aparecia na pele dele e eu precisava me conter para não olhar com mais atenção. Algo tão simples, como sentir de novo a pele de outra pessoa na minha, me deixou tão surpresa que eu perdia a concentração.
- Será que essa namorada do Dustin é real? – me assustou com a pergunta do nada, embora sua voz tenha saído baixa e próxima ao meu ouvido.
- Acho que sim.
- Pra mim ele ‘tá inventando.
- Parece um recurso meio óbvio... – suspirei sem tirar os olhos da tela. – Vão insistir a temporada inteira numa namoradinha que nunca aparece só para colocar o coitado do menino nerd em dúvida, mas no final ela vai surgir pra provar que ele está dizendo a verdade desde o início.
Eu disse aquilo de um jeito tranquilo, mas com determinação. não falou mais nada, mas ele fazia um som estranho como se estivesse mordendo o lábio o tempo inteiro e ponderando sobre um assunto, então imaginei que logo ele tivesse mais alguma consideração a ser feita.
- Como você sabe disso? – ele enfim me questionou com a voz umas duas oitavas acima do tom normal.
- É óbvio! – repeti e dei ombros suavemente. – Essa namorada é real, mas o fato dele não conseguir falar com ela serve pra manter esse bate-boca sem fim entre os personagens.
- Vale.
- Eu quero saber mesmo quando é que vai aparecer alguma grande referência a De Volta Pro Futuro – continuei minha observação.
- E por que teria alguma coisa de De Volta Pro Futuro aí?
Parecia um desses momentos de filme em que a trilha sonora para abruptamente com um barulho de agulha arranhando o disco de vinil. parecia igualmente entretido e sem entender parte do assunto, o que me faz questionar se de fato a gente estava vendo a mesma série.
- Porque se passa na mesma época de lançamento do filme... – respondi vagamente, já que para mim esse era um fato conhecido. – Verão de 1985.
- E você tem certeza que vai ter alguma referência? – agora ele parecia estar debochando do meu conhecimento trivial.
- Claro que tenho. – mexi minha cabeça de um jeito que pudesse vê-lo de costas. – É o maior evento de cultura pop daquele ano, e essa série é literalmente uma ode aos anos 70 e 80. Como é que o filme não teria importância em algum momento?
- Você fica muito fofa quando não sabe do que ‘tá falando. – me deu um sorriso convencido.
- Eu sei do que ‘tô falando – eu respondi em tom de desafio. – Meu histórico de acertos é bem extenso. Sabe que até minha tatuagem foi um plano precipitado e ficou ótima, no final das contas? – dessa vez ele piscou convencido. – Não é sempre que eu faço algo impulsivo assim.
- É mesmo? Eu achei que já era um plano seu.
Então percebi que era o fim de Stranger Things naquela noite. Saí da posição em que estava rapidamente só para pausar o episódio e depois me reclinei de novo no sofá, porém dessa vez de um jeito que pudesse ver o rosto de .
- Ah, bom, eu menti quando te contei dela. – eu lhe dei um sorriso sem graça e ele ergueu as sobrancelhas sugestivamente. – Uma menina do meu trabalho, a Lydia, tinha feito uma e eu fiquei com vontade de ter uma também, então marquei imediatamente. Tipo, na mesma hora.
- Mas você já sabia o que fazer, não? Se você tinha uma ideia, então não foi tão precipitado assim.
- Eu decidi fazer as flores de lavanda no mesmo segundo que mandei a mensagem marcando horário. – encolhi os ombros. – Procurei algum desenho aleatório salvo no meu celular há meses, talvez anos.
- Por que você não me contou isso quando te perguntei? – parecia mais entretido do que indignado.
- Achei que você fosse me julgar...
- Realmente, eu estou te julgando.
- , vai dizer que nesse corpo inteiro você não tem nenhuma tatuagem que fez por impulso? – eu levantei a voz, mas não consegui conter o meu sorriso divertido.
- É claro que eu tenho, mas...
- E você ainda me julga? – interrompi.
- Mas , eu sou tatuador, é quase minha obrigação ter tatuagens feitas por impulso. – começou a rir no meio da resposta. – Eu tenho esse passe livre, mas você não.
- Sabe que antes eu queria muito saber se você tinha o corpo inteiro tatuado? – mudei minha expressão para algo mais sereno e, assim eu esperava, instigante. – Agora eu sei que não tem quase nada nas costas e nas pernas.
Enquanto conversávamos, minha mão esquerda fazia o contorno de alguns dos inúmeros desenhos coloridos que tinha no braço. A maioria fazia parte de uma grande aquarela que eu não saberia distinguir as partes, mas era um conjunto bonito. Os pêlos dali se arrepiavam de vez em quando, quase sempre no mesmo instante em que as suas pupilas dilatavam um pouquinho – era possível perceber, uma vez que eu estava perto do seu rosto. Era muito convidativo, muito agradável.
- Falando nisso... – ele se aproximou, e sua mão direita tirou com cuidado uma mecha de cabelos que caía nos meus olhos. – Eu coloquei você no primeiro horário no flash day. Espero que você tenha falado sério.
- Eu ainda não sei se tenho incentivo o suficiente para fazer outra tatuagem assim do nada. – resolvi fingir que não tinha concordado 100% com a ideia. – Quando eu te disse que precisava de algo a mais, aí sim eu estava falando sério.
- Muito bem. – se fez de pensativo. – Eu posso deixar você escolher qualquer desenho pelo mesmo preço, mesmo que não seja do portfólio disponível e do tamanho que você quiser.
- Não sei se isso me ajuda muito, eu nem sei por onde começar a escolher um novo desenho.
- Ou então eu te dou um piercing. – ele propôs. – A jóia que você quiser para colocar onde quiser... Desde que seja comigo.
- “Geralmente quando me encontro entre dois males, eu prefiro escolher aquele que eu ainda não provei.” – ergui uma sobrancelha esperando que ele reconhecesse a célebre frase da Mae West, mas claro que isso não aconteceu. - Sendo assim, eu faço a tatuagem e você me dá um piercing então.
- Ótimo, e onde será?
- E se eu só te contar no dia? – perguntei um pouco incerta. Eu sabia que queria que eu fizesse o bendito piercing no mamilo, mas achei que aquela fixação toda fosse de antes dele ver absolutamente meu corpo inteiro. Não havia mais nada ali que fosse uma novidade para ele.
- Você vai fazer isso de propósito, não é?
Tentei fazer a minha melhor cara de inocente, ao mesmo tempo em que mordi meu lábio de propósito. Acenei afirmativamente e acompanhou o movimento leve que eu fazia. Ele, que encarava minha boca daquele jeito determinado, então me puxou com força para um beijo. Todas as minhas tentativas de provocá-lo sempre davam certo.
Tentei não pensar no sono que começava a aparecer e nem no trabalho que eu teria de enfrentar mais tarde. Sabendo que o final da minha noite seria ainda melhor que o começo, eu tinha certeza que tudo ficaria bem.

Acabei saindo de casa em cima da hora para ir para o trabalho e nem tive a oportunidade de convidar para conhecer o infinito cardápio vegano, sem glúten, sem açúcar, sem lactose e... sem gosto que era servido no Bob’s Kitchen. Isso era brincadeira, na verdade. Toda a comida lá era divina e eu com certeza teria me tornado cliente fiel do café se já não trabalhasse lá.
Só por um momento eu hesitei ao passar pela porta dos fundos do lugar. Eu tinha essa paranóia que com certeza foi adquirida depois de assistir aquele episódio de That’s 70s Show em que Eric e Donna fazem sexo pela primeira vez e eles acham que está literalmente escrito “I had sex” na testa dos dois. Na minha mente criativa, assim que algum colega me visse, logo perceberia que havia algo diferente comigo, eu seria exposta por ter transado e esse era um diálogo que eu não gostaria de ter com nenhum conhecido.
estava completamente calmo e tranquilo quando saímos do meu apartamento. Eu insisti que andássemos depressa até o metrô, porque obviamente quem ia perder a hora era eu e não ele. Ele desceu na terceira estação e se despediu me dando um beijo e piscando rapidamente para mim. Geralmente a gente já antecipava o nosso próximo encontro, mas dessa vez foi diferente – não sabia dizer se fora pela pressa ou por qualquer outro motivo.
Uma das minhas variadas funções era anotar todo o cardápio do dia e suas variações semanais. Essa deveria ser uma obrigação do próprio Bob, dono do restaurante, mas a minha letra era mais bonita e eu sabia desenhar florzinhas. Então todos os dias antes do lugar abrir, eu me dedicava aos cavaletes verdes, que eram exibidos tanto na entrada quanto na esquina do quarteirão. Eu normalmente fazia isso do lado de fora do café, sentada no pequeno muro que ficava em volta da entrada, e naquele dia fui surpreendida por Lydia, que apareceu na minha frente com o celular apontado para mim.
- Que isso? – levantei o rosto rapidamente, estranhando aquela atitude.
- Aja naturalmente. Bob quer que a gente comece a tirar algumas fotos da rotina do restaurante, das coisas bonitinhas que a gente faz. – Lydia explicou. – Acho que virou moda no Instagram.
- Ah, é verdade! Um tanto de lugar em Paris faz isso. – concordei distraidamente.
- Então, vamos fingir espontaneidade. – ela riu e voltou a apontar o celular pra mim.
Fiz o que qualquer pessoa faria e joguei meu cabelo para o lado e endireitei a postura. O quadro verde ficou apoiado nas minhas pernas enquanto eu escrevia nele com o giz branco. Lydia logo tirou algumas fotos e me mostrou o resultado. Mais tarde eu daria uma olhada no post no próprio perfil do café.
Por algum motivo, aquele domingo foi muito mais cheio e ocupado que o normal e eu acabei ajudando a servir algumas mesas. Sempre gosto quando isso acontece, porque me tira a oportunidade de pensar obsessivamente sobre a minha vida – sabe como é, fica difícil me concentrar e remoer a última vez que falei com a minha mãe enquanto um grupo de doze pessoas briga para poder se sentar numa mesa em que só cabem oito.
Um dia como aquele me fazia pensar que eu deveria arrumar outro trabalho. Não que trabalhar no restaurante fosse algo menos digno ou um sub emprego, muito pelo contrário, mas eu constantemente sentia a necessidade de uma ocupação mais longa e que me desse mais responsabilidades. Assim que as aulas começassem, eu poderia procurar algum estágio ou projeto de extensão para poder me dedicar e ganhar alguma experiência relevante na minha área, mesmo que fosse por pouco dinheiro.
Me fazia muito bem quando minha mente não tinha tempo para mais nada. Acho que, por ter ficado à deriva por tanto tempo, eu só conseguia me sentir descansada e em paz quando eu tinha alguma ocupação mais complexa. Eu precisava valorizar essas coisas que me deixavam tranquila.
Quando o movimento finalmente caiu e já se aproximava a hora de fechar logo após as duas da tarde, Bob, o dono do restaurante auto-intitulado, me chamou antes que eu pudesse entrar na sala dos funcionários para deixar meu avental por lá.
- Preciso de mais um favor seu, , se não for um empecilho muito grande. – ele me pediu muito solícito com aquele sotaque inglês que jamais fora perdido mesmo depois de décadas na Espanha. Eu apenas assenti e esperei que ele explicasse. – Marcamos um evento para hoje à noite, e era para ser somente para um grupo privado, mas vamos abrir a casa de qualquer forma. Preciso de pelo menos mais três pessoas para atender os convidados e os outros clientes. Como Tony não vem no dia de folga de jeito nenhum, então será que posso contar com você?
Não sei por que hesitei e fingi pensar no assunto. Eu tinha planos? Não. Eu tinha algum encontro marcado com qualquer um dos meus dois (bom, agora três) amigos? Também não. Talvez eu quisesse que pelo menos alguém pensasse que eu tinha alguma concessão a fazer.
- Tudo bem, é claro que eu posso. – confirmei e vi o semblante aliviado de Bob ficar um pouco menos vermelho.
- Ótimo! – ele esfregou as duas mãos que nem um mosquito faz e entrou rapidamente no escritório para buscar um panfleto, enquanto continuava a falar. – Vou pagar por hora com adicional noturno para compensar esse trabalho de última hora. Vamos colocar algumas mesas no gramado da frente, estender algumas luzes, ligar as caixas de som...
Bob explicou vagamente e me entregou o papel onde se lia Bob’s Cocktail Night. Ele seguiu descrevendo como seria o evento, e pra mim se tratava de um open bar só de drinks elaborados. Dentro do restaurante, ficaria o tal grupo privado e do lado de fora, seria aberto para um público limitado. Logo pensei em avisar Anya e Thor, porque bebida boa e música era a combinação ideal para os dois. Eu já sabia da qualidade dos eventos do Bob e tinha certeza que aquele não decepcionaria.
Tirei foto do panfleto e enviei para Anya por mensagem, que ela tratou de responder quase que imediatamente:

@Anya: estaremos lá
@Anya: me ajuda a escolher roupa


Eu iria para casa mesmo tendo que voltar para o restaurante mais tarde, afinal, algum intervalo eu precisaria ter. Ainda teria que tomar banho e usar o uniforme “formal” que era reservado para esses raros eventos. Passei o curto caminho no metrô avaliando as peças de roupa escolhidas por Anya, e obviamente pensei em convidar também, mas percebi o quão estranho seria colocá-lo num lugar em que ele não conhecia ninguém e eu não poderia servir de companhia. Acho Anya um perigoso rosto conhecido, e eu sabia muito bem que aquela poderia ser uma oportunidade perfeita para que os meus melhores amigos intimidassem o cara que eu estava... Saindo, apenas.
Não havíamos nos falado desde a despedida naquela manhã e eu não queria ser a primeira a procurá-lo. Por quê? Porque havia uma insegurança estúpida na minha cabeça e parecia existir essa regra não-verbal de que quem fizesse o primeiro contato era o mais carente. Eu não sabia mais ser uma mulher solteira com um relacionamento pendente no ar.
Durante o dia, eu não havia pensado nisso direito, mas naquele par de horas que passei em casa, descansando e me arrumando para voltar ao trabalho, eu pude dedicar algumas sinapses ao assunto. Anya estava certa sobre alguns aspectos: os homens que a gente conhecia eram completamente diferentes dos espanhóis, especificamente dos catalães. A minha noção geral era que todo europeu já achava que qualquer beijo significava namoro automaticamente (eis um povo que não sabe se divertir), mas eu não queria ser a primeira a assumir um compromisso. Eu nem sabia o motivo de me importar tanto com rótulos e com essa questão.
Estava fora de questão comentar qualquer coisa com Anya porque ela viria novamente com aquele discurso de que eu tenho que dar uma chance às mudanças na minha vida. Em primeiro lugar, eu não queria admitir que ela estivesse certa, porque ela ficaria insuportável de tão convencida. E em segundo lugar, isso não me levaria à lugar nenhum – a experiência que ela tinha com relacionamentos era exatamente igual a minha, tirando as partes ruins, então que outro conselho revolucionário ela poderia me dar?
Saí de casa extremamente desconfortável com a roupa que tinha que usar. O conjunto era uma blusa social branca cujas mangas iam dobradas até o cotovelo, um short curto o suficiente para ser levemente inapropriado para um local de trabalho, suspensório e uma gravata borboleta preta que eu só colocaria quando estivesse de fato trabalhando. Eu estava cem por cento autoconsciente e me sentia bastante retraída. Poucas vezes o meu trabalho me deixava assim; eram raros os clientes que abusavam do meu sorriso e da minha simpatia formal, mas eu sabia que aquela noite, todas nós (Lydia, Romina, Ale, Marta e eu) passaríamos algum tipo de constrangimento.

Tocava Fleetwood Mac dentro do restaurante para os convidados particulares, e lá fora no gramado eu só escutava música pop romântica genérica. É muito vergonhoso achar que o próprio gosto musical é melhor do que o de outra pessoa, mas se tinha um gênero que me desagradava com certeza era esse: pop romântico atual.
Anya e Thor estavam parecendo um casal desses de revista; sempre que olhava na direção deles eu os via sorrindo e casualmente segurando as taças pela metade. Como se estivessem sempre prontos no melhor ângulo para serem fotografados. Fiquei feliz por tê-los de volta bem próximos de mim, por mais que eu já tivesse pensado que os dois também tinham uma vida própria para começar e que eu deveria superar a fase de precisar de ajuda 24 horas por dia.
A noite foi lenta e frustrante, o oposto do que eu achei que seria. Me imaginei correndo e servindo convidados sem parar, mas a verdade é que passei muito mais tempo na cozinha seguindo as receitas de drinks (criadas pelo próprio Bob, diga-se de passagem) e colocando tudo cuidadosamente nas taças e copos certos. Pergunto-me se isso era melhor do que ficar em casa na companhia de uma potencial crise de ansiedade.
Me lembro de chegar em casa e ignorar duas chamadas e a conversa pendente no WhatsApp com o meu irmão mais velho. Não sabia qual fora a última vez que ele me dirigira a palavra diretamente e eu já poderia imaginar o conteúdo das mensagens que ele estava me mandando. Aquela era uma das raras vezes em que eu ignoraria a minha intuição – eu ainda não sabia, mas mais tarde viria o arrependimento. Não tinha paciência para qualquer tipo de agressividade ou ironia no momento, então decidi largar para o dia seguinte ou até a próxima vez que ele quisesse me atormentar.
No final das contas, pelo menos eu fui paga.


Capítulo 14


One moment I was tearing off your blouse,
Now you're living in my house
What happened to just messing around?


Era sempre assim. Eu perdi completamente a noção de tempo e tive pequenos surtos mentais insuportáveis durante a semana. Anya havia me xingado, Eric ficou ofendido com alguma mensagem minha e até Romina, do restaurante, tinha me respondido mal quando eu fui grossa sem motivo (e depois passei horas chorando sozinha em casa de arrependimento). Um cliente de espírito de corno me corrigiu dizendo “tarde” quando eu disse distraidamente “buen día”, só porque recém havia passado do meio dia. Senti meus olhos lacrimejarem de tanto ódio e força que eu fiz para não mandar o sujeito à merda.
Foi só quando eu decidi consultar o calendário do meu ciclo que percebi que na semana seguinte eu ficaria menstruada. Foi como se um coral de anjos tivesse tocado na minha cabeça. Então eu não havia me tornado um ser desprezível pra sempre, eu só estava de TPM!
Isso era perfeito. Eu estava prestes a cancelar com porque tinha certeza que aquela era a minha nova personalidade completamente intolerável, mas agora eu sabia que era coisa passageira. Não havia me esquecido do flash day no estúdio dele naquela sexta-feira; até fui capaz de convencer tanto Thor quanto Anya a fazer uma tatuagem também (por coincidência, foi nessa mesma ocasião que ela se cansou do meu mau humor e me teceu diversos xingamentos bem elaborados).
Improvisei um discurso motivacional no caminho. Resolvi inventar uma segurança e uma boa vontade que eu não tinha naturalmente, mas poderia fingir pelo bem de conhecer outros amigos de que com certeza estariam por lá. Ele havia me explicado que faria como se fosse um encontro de outros tatuadores da cidade, que haveria música e bebidas para os clientes também. Nada mais amedrontador do que isso.
Minhas muletas sociais (Anya e Thor) só iriam à noite, então eu ficaria por minha completa conta, a não ser que me desse total atenção. OK, eu estava no meu período insuportável, mas eu ainda era racional, certo? Era fora de questão que ele deixasse de trabalhar só por minha causa. Eu teria que me virar.
Já da esquina eu consegui ouvir conversas altas e um pouco de música vindos do estúdio. Já escurecia um pouco e as luzes bonitas estavam acesas, o que dava ao espaço um ar aconchegante e boêmio, se é que é possível de imaginar. Observei a entrada do lugar até com um pouco de orgulho, porque fora minha a ideia de levar mais luzes amareladas para combinar com o acabamento de madeira e veludo vermelho.
Infelizmente, a boa sensação passou logo, porque eu percebi que ali estava abarrotado de gente e eu não conhecia um rosto sequer. Havia gente de todos os estilos possíveis, e eu nem saberia identificar qual cabelo colorido dentre tantos era o de Chiara, a recepcionista com cara de super heroína. Minha primeira reação foi cruzar os braços de um jeito que parecia que eu estava me dando um abraço de conforto, me dizendo que tudo ia ficar bem.
- Niña!
Senti um braço em volta dos meus ombros e olhei para o lado. O dono daquele corpo esquisito era nada mais, nada menos que Nacho. Ele logo me soltou e se posicionou na minha frente com um sorriso bobo estampado na cara.
- Calma, ninguém aqui vai te bater! – ele falava alto, o que me assustava mais ainda.
- Oi, Nacho... – eu acho que consegui responder. Eu devia estar com os olhos arregalados, no mínimo, porque ele parecia me achar a coisa mais engraçada do mundo. – O que você ‘tá fazendo aqui fora?
Ele levantou o braço direito e exibiu uma garrafa de gin.
- É claro que você é o responsável pelas bebidas. – tentei usar um tom amigável.
- E você não vai entrar? – ele perguntou apontando para trás.
- Vou, eu acabei de chegar. – confirmei mais para mim mesma.
Não acredito que fiquei grata que Nacho apareceu na minha frente. Tudo bem que eu não tinha uma grande sorte de pessoas conhecidas que poderiam aparecer ao meu resgate, mas tinha que ser logo ele?
E então, lá dentro do estúdio cheio de gente, eu estava seguindo o infame e inapropriado amigo de . Este estava à vista no arco que dividia a recepção e as salas onde se faziam as tatuagens e não prestou atenção em mim de cara. Acho que é porque Nacho ainda estava totalmente na minha frente e bloqueava a visão, mas eu já o tinha visto e aquela sensação boa de não parar de sorrir já tomava conta do meu semblante.
estava conversando com duas pessoas e, por um acaso, seu olhar foi para onde eu estava quando Nacho finalmente resolveu ir para outra direção. Eu parei de andar e fiquei esperando alguma reação dele, porque não queria chegar onde ele estava e me intrometer na conversa. nem sequer olhou de volta para os dois amigos que estavam na sua frente, ele só colocou a mão no ombro de um deles e começou a andar ao meu encontro. Por um segundo, encarei aquela expressão séria no rosto dele, mas que imediatamente se transformou num sorriso que eu pude retribuir.
Eu não o via desde o domingo, então não estava muito segura de como agir quando estivesse com ele de novo. Mas não precisei raciocinar muito sobre isso, porque assim que ele pôde me alcançar, senti seu rosto quente grudado ao meu, e então seus lábios. Me sentia calma com o toque da mão dele me trazendo cada vez mais próxima para si, mas ao mesmo tempo, nervosa com sua presença. Era bom.
- Por que demorou tanto? – ele me perguntou enfim. – Você era o meu primeiro horário da noite.
- Eu te atrasei muito? – fiquei aflita imediatamente.
- Não, quando você não chegou antes do combinado eu simplesmente passei para o próximo – ele deu ombros. – Mas eu queria te ver logo.
- Eu ‘tô aqui agora – respondi e dei-lhe um sorriso sem graça, como se pudesse pedir desculpas.
- É, então vamos cuidar de você finalmente. – segurou a minha mão e começou a andar em direção aos fundos do estúdio. Ele virou para trás e perguntou em voz mais alta que o normal por causa da música. – Vamos pra última sala?
- Pra quê? – perguntei, me lembrando que a última sala do corredor era a única cuja porta não era transparente e dava um pouco mais de privacidade para os clientes que assim quisessem.
- Você tem que fazer seu piercing antes da tatuagem, não acha? - ele ergueu a sobrancelha sugestivamente.
- Mas por que eu precisaria... – perguntei e parei de repente no meio do caminho. – , você não ‘tá achando que eu vou furar o mamilo, né?
Eu falei o mais baixo o possível, considerando o barulho no ambiente. Ele fez uma cara de desentendido e riu alto, chamando a atenção de quem estava em volta.
- ‘Tô achando sim, eu até separei a jóia. – ele respondeu simplesmente. – Se não for assim, então eu não faço.
- Você vai descumprir o que me prometeu?
- Onde você quer o piercing então, ? – ele cruzou os braços imitando a minha postura.
- No nariz.
- Você me fez acreditar esse tempo todo que ia furar o mamilo comigo? – ele voltou a segurar a minha mão e me puxou em direção à segunda sala desocupada.
- Fala baixo... – chamei a atenção dele. – Eu não te fiz acreditar em nada, eu só disse que seria surpresa.
Entramos em uma das salas que eu havia ajudado a pintar. ainda balançava a cabeça em negação enquanto abria o que parecia ser um estojo de jóias do tipo que havia nas vitrines do estúdio. Apontei para uma argola dourada bem pequena e ele a tirou do mostruário. A porta ainda estava aberta, mas o barulho já não incomodava tanto assim.
- Não imaginei que seria desse jeito. – observei distraída. - Que o quê seria desse jeito? – ele perguntou enquanto lavava as mãos com antisséptico.
- O flash day. É que tem muita gente e eu não entendo como vocês conseguem se concentrar para tatuar.
- Por isso a gente separa o catálogo, porque são desenhos que já conhecemos e treinamos bastante. – explicou.
Antes que eu pudesse comentar, ele se posicionou na minha frente com a bandeja onde já estavam a jóia, a agulha e uma pinça enorme que eu não sabia para quê serviria.
- Eu te garanto que não vai doer, mas você vai chorar mesmo assim. – ele me avisou. – É uma reação natural.
Aquele era o mesmo profissional que havia me tatuado meses atrás; ele me explicou direitinho cada passo do processo por mais rápido que fosse. Quando eu havia entendido tudo e disse que estava pronta, ele pegou uma caneta e marcou na minha narina o lugar exato para o furo. E então, ele havia passado a agulha enorme por ali e no mesmo instante senti uma lágrima descendo na minha bochecha direita; doía sim, mas era suportável. Fiquei com medo de olhar a agulha parada no meu nariz enquanto ele colocava a argola pelo outro lado, então contei de zero a dez bem lentamente com os olhos apertados.
Senti meu rosto ainda molhado enquanto ele mexia no meu nariz, com certeza colocando logo a peça que eu havia escolhido. Quando percebi que ele havia se afastado, resolvi abrir meus olhos marejados no mesmo instante em que ele puxava um espelho da bancada de mármore.
- Ficou muito bom! – ele me disse antes mesmo de me mostrar. Olhei meu reflexo e encarei aquela coisinha dourada no meu nariz. Sorri involuntariamente e comecei a secar as lágrimas do rosto, prestando mais atenção nisso do que no próprio piercing. E eu gostei, de verdade. Combinou comigo de um jeito diferente.
- Minha avó vai me matar... – comentei enquanto me admirava de todos os ângulos possíveis.
riu do outro lado da sala. Ele estava colocando no lixo todo o material descartável e também guardando alguns utensílios.
- Então, como devo cuidar? – perguntei sobre o piercing recém colocado.
- Não precisa fazer nada pelas próximas horas. – ele estendeu a mão para que eu me levantasse da cadeira e ficasse de frente para ele. – Mais tarde eu te explico tudo.
Eu não era boba e sabia muito bem o que isso significava na “escola de formação em segundas intenções Naves.” Como era exatamente o que eu também queria, apenas acenei concordando com ele.
- Acho que você gostaria de conhecer alguns dos meus amigos lá fora. – ele segurava as minhas duas mãos e olhava para mim de cima. – Prometo que só o Nacho é daquele jeito.
- Sabe que alguns dos meus também vêm? E com “alguns” eu quero dizer todos os dois, é claro.
- Eles já chegaram?
- Ainda não, mas não devem demorar.
- Então, enquanto isso, você pode ficar lá fora comigo... – indicou a entrada do estúdio e tinha uma expressão esperançosa no rosto.
Coloquei um sorriso no rosto e apenas concordei com um aceno, e então nós dois saímos juntos da sala. Eu estava muito autoconsciente da minha cara de choro e do meu nariz vermelho quase roxo devido ao piercing, mas não me importei tanto assim. ainda cumprimentou mais umas três pessoas que passavam do corredor para os fundos do estúdio onde havia aquele jardim. De repente, me ocorreu que todo mundo ali falava catalão, menos eu...
Passamos pela recepção e fomos lá para fora, onde avistei Nacho novamente num grupo de pessoas e era na direção dele que estávamos indo. Havia mais dois homens e duas mulheres, e uma delas reconheci pelo cabelo roxo e azul um pouco mais claro do que eu já tinha visto antes.
- Hola, ! – Chiara se adiantou ao meu lado e me cumprimentou.
- Oi! – eu retribuí seu abraço de lado e fiquei muito, mas muito grata por não ter simplesmente sido jogada naquele grupo de pessoas como a única que não conhecia ninguém.
trocou algumas palavras muito rápidas em catalão com aquelas pessoas na nossa frente, e eu entendi um total de nada. Enquanto isso, senti três olhares me avaliando de maneiras completamente diferentes. Nacho parecia pronto para rir de qualquer besteira que eu fizesse ou falasse, um dos homens que estava na minha frente não tinha falado nada até então e alternava o olhar entre e eu como se nos comparasse, e, por fim, a outra mulher de cabelos curtinhos parecia ao mesmo tempo entretida e ansiosa ao me encarar com um sorriso leve no rosto.
- Como eu já tinha mencionado antes, essa é a apoiou o braço em volta dos meus ombros ao me indicar e depois o deixou por ali mesmo. – Luís, Arón, o outro dono do estúdio, e Mireia.
Falei “oi” a todos os três que eu ainda não conhecia e eles retribuíram educadamente. Todo mundo sabe que a regra é que se deve cumprimentar individualmente quem a gente conhece num grupo e reconhecer a presença do resto com um único gesto apenas. De qualquer forma, então aquele era o Arón de quem tanto falava, o cara que não parava de olhar para nós dois. Ele tinha um estilo muito engraçado, mas obviamente não falei isso em voz alta; vi dois piercings no dorso do nariz, ele também usava uma camisa social branca e um boné vintage desses que só os velhinhos têm.
- Esse aí você fez agora? – o Luís perguntou, apontando para o próprio rosto, e eu entendi que ele quis dizer o piercing no nariz.
- Sim! – fui com o intuito de tocá-lo, mas parei antes que pudesse encostar na jóia porque lembrei que minha mão provavelmente estaria suja. – Acho que ‘tá na cara, deve ficar vermelho por um tempo...
- É impossível não chorar, não é? – a outra mulher, Mireia, comentou de forma simpática e pude perceber que ela tinha um pequeno ponto no próprio nariz também. – Mas é o lugar mais tranquilo pra cicatrizar. Logo você se acostuma.
- Não, o lugar que é mais rápido para cicatrização é o lábio. – interrompeu uma voz masculina característica de quem fuma cigarro há pelo menos uns dez anos. – Por causa da circulação de sangue.
Quem disse isso fora Arón, e eu notei um tom de autoridade forçada no assunto, o famoso “homexplicando”. Eu não fui a única que percebeu isso, porque a própria Mireia revirou os olhos para ele e pude ler seus lábios dizendo “whatever” discretamente sem emitir nenhum som.
Todos eles passaram a trocar ideia casualmente, e em espanhol. Fico grata quando encontro pessoas que fazem isso, mesmo sabendo que a obrigação de falar a outra língua é totalmente minha. De qualquer forma, eu não tinha muito a dizer naquele grupo de pessoas recém conhecidas e Nacho, então fiquei no meu papel de concordar e imitar as reações de todos eles pra pelo menos ser educada.
Aquela era a minha pequena tragédia pessoal em Barcelona: ter a necessidade de conhecer pessoas novas, mas não conseguir interagir com praticamente ninguém por causa do idioma e da minha própria insegurança. Eu me lembrava de ter comentado isso vagamente com , o que já fora o suficiente para que ele me encorajasse a conversar com alguns dos seus amigos.
Ficar completamente dependente de outra pessoa nesse tipo de situação era péssimo, e o pior é que eu nunca tinha sido assim antes. Talvez por ter passado a minha vida inteira nos mesmíssimos círculos sociais, eu nunca precisei passar por esse incômodo de seguir a única pessoa que eu conhecia no recinto. A minha vontade de conversar era maior ainda naquele momento, mas eu não tinha nem um mísero pingo de coragem dentro de mim.
Como anjos que foram enviados para a Terra com a única missão de me salvar, Anya e Thor finalmente chegaram ali. Por coincidência, eu dei uma olhada no ambiente e me deparei com os dois andando de mãos dadas pelo beco estreito que se abria antes de chegar à rua do estúdio. Acho que meu rosto deve ter se iluminado naturalmente, tamanho foi o meu alívio, e eu tirei delicadamente o braço de de cima dos meus ombros e me virei para ele:
- Lá estão eles! – eu avisei com um pouco de animação fora do normal, e por um segundo achei que também se viraria na direção que eu apontava. Mas não, ele apenas assentiu e voltou a conversar com os amigos.
Senti meu rosto esquentando de vergonha, eu acho. Ou de leve frustração. Bom, não era justo achar que ele ficaria tão feliz quanto eu fiquei ao ver os meus amigos, não é mesmo?
Anya me olhava com uma expressão horrível; um sorriso torto e só uma sobrancelha erguida como se estivesse incrédula e morrendo de desgosto ao mesmo tempo. Diminui meu passo em direção a eles até que nos encontramos não muito longe de onde ainda estava com os amigos. Hesitei em cumprimentar os dois, mas minha amiga foi mais rápida e logo manifestou sua indignação:
- O que é isso na sua cara?
- É um pelicano, não é óbvio? – respondi também em francês como se sentisse falta da minha língua materna há anos.
- Eu achei lindo, . – Thor largou a mão de Anni e me deu um abraço. – Não liga pro que ela falar, ela entrou na TPM hoje também.
Resolvi ignorar que esse também significava que até Andrej estava ciente do meu ciclo menstrual.
- Não acredito que estou aqui pra fazer uma tatuagem – Anya ignorou o que o namorado havia dito e resolveu focar em si mesma. – Vai ser com o seu amiguinho?
- Você não precisa agir como se fosse super protetora, a gente já conversou sobre isso. – Thor revirou os olhos ao reclamar. – Meia hora atrás, você não parava de falar no quanto queria ver dando certo com o tal tatuador. Até eu, que era contra essa história toda, já superei essa fase.
- Você, Andrej, é um insubordinado. – Anya disse entre dentes, para o meu divertimento. Acompanhar essa exposição da minha melhor amiga era como assistir um episódio inédito de Friends, só que com os meus próprios friends.
- Eu também não vou comentar da sua falta de educação, Anni. – eu a interrompi. – Só estou muito feliz que vocês chegaram. Não sei o que fazer no meio de tanta gente que eu não conheço.
- Ele ‘tá olhando pra cá. – Anya falou em voz baixa depois de percorrer o ambiente com o olhar.
- Pra que você ‘tá sussurrando? Você ‘tá falando em francês!
- Olha, amor, é o mais alto de todos ali na frente. – ela descreveu sem qualquer tipo de detalhe.
Não queria olhar para trás porque assim , se estivesse mesmo nos observando, saberia que estávamos falando dele. Pensar isso não adiantou muito, porque ele veio na nossa direção de qualquer forma. Quando vi o olhar de Anya se fixando num ponto atrás de mim, senti a mão de puxando a minha e se colocando ao meu lado.
- Olá de novo. – Anni deu seu melhor sorriso simpático sem exibir os dentes.
- Fico feliz que tenham vindo. – a respondeu com igual formalidade e depois se virou para Thor e estendeu a mão.
- Andrej. – ele se adiantou antes que eu mesma pudesse apresentá-lo como Thor. – , certo?
- Certo. – ele assentiu ao apertar as mãos. – me diz que vocês também querem participar do flash day, é mesmo?
- É claro! – Anya respondeu com uma animação tirada do nada. – Com tanta propaganda gratuita que ela faz, a gente precisa conferir se ela não é suspeita demais para falar.
Puta madre, que desastre. Eu sabia muito bem o que ela estava fazendo, meu Deus do céu, aquela era uma tentativa péssima de demonstrar que eu expressava meus sentimentos por pra eles. Eu conhecia aquela ideia, porque eu tinha feito algo parecido quando ela e Thor ainda não namoravam; eu basicamente comentava de forma despretensiosa perto dele que Anya o elogiava bastante. A diferença, e a minha amiga infelizmente se esqueceu disso, é que aquilo era algo que a gente fazia na escola aos quatorze anos.
Fingi não ver pelo canto do olho que tinha erguido as sobrancelhas em admiração, e sorriu para mim rapidamente. Por sorte, Thor resolveu impedir que a namorada fizesse outro comentário parecido.
- Eu gostei bastante dos desenhos de vocês, até olhei algumas fotos do catálogo pelo Instagram. Esse estilo cyberpunk é o que eu mais gosto para tatuagens.
- É o meu também! – concordou e depois soltou uma risada. – Quer dizer, é o meu preferido para criar. Obviamente eu não tenho critérios a respeito de estilo de desenho na minha própria pele.
Ele estendeu os dois braços por um segundo, dando a entender que falava das próprias tatuagens completamente aleatórias.
- É o meu sócio que ‘tá reservado para tatuar vocês às 19:30h – explicou com aquele jeito profissional. – Ele acabou de entrar para fazer um piercing, mas eu já posso mostrar o catálogo do flash day pra vocês enquanto isso.
Anya e Thor trocaram um olhar rapidamente e concordaram em uníssono. Andrej se adiantou e perguntou algo para e os dois engataram num assunto enquanto caminhávamos até a parte de dentro do estúdio. Aproveitei a chance e puxei Anya pelo cotovelo e a coloquei praticamente grudada em mim.
- Eu vou matar você. – comecei a dizer bem baixinho, mas sem tirar o sorriso forçado do rosto. – É isso, Anni, você não me deu opção além do homicídio.
- Eu só tentei te ajudar! – ela me olhou indignada. – Você precisa que levantem a sua moral às vezes.
- Anya, a gente fazia aquilo na oitava série! – continuei ralhando com ela, mas foi completamente em vão.
- Deixa de ser boba, . – ela se desvencilhou de algumas pessoas na recepção até o balcão onde já estava com um catálogo aberto. – Ele sorriu, ele gostou.
Antes que eu pudesse responder, ela saiu na minha frente e começou a olhar o catálogo junto ao namorado. Eu suspirei algumas vezes para conter a minha insatisfação e tentei esquecer esse assunto.
Fiquei completamente absorta nos meus pensamentos e nem sequer reparei que os dois já haviam escolhido os próprios desenhos. Parei de braços cruzados encarando o vazio até que Anya estalou os dedos na minha cara e me tirou do meu transe. Ela optou por uma mão com um punhal cravado no meio, imagem esta que eu já tinha visto várias vezes espalhada pelo estúdio inteiro, mas em diferentes versões. Thor, por sua vez, escolheu uma imagem um pouco maior do que pareciam ser engrenagens destruídas – com certeza era bem cyberpunk.
encaminhou os dois para a sala onde estava Arón e eu fui atrás. Queria muito presenciar Anya tatuando o lado de dentro do antebraço, mas cada divisão do estúdio dedicada para um artista por vez era muito pequena. Obviamente quem faria questão de estar ali era Thor, então apenas observei da porta, torcendo para não ser muito incômodo.
- Então é dessa dor que você reclamou? – ela perguntou quando Arón começou o desenho.
- Não, até porque eu não senti dor nenhuma. – respondi no mesmo tom de desafio.
Aquilo não era totalmente verdade, porque é claro que doera um pouquinho. Eu só estava tão distraída na hora conversando com que mal pude perceber...
Anni não parava de sorrir em êxtase. Ela estava tão feliz de fazer a primeira tatuagem que trocava os idiomas enquanto falava com Thor e também se dirigia a Arón, que não parecia entender francês e respondia em inglês com muita confusão. Ele mal tinha falado comigo e não parecia muito interessado nisso, mas com Anya e Andrej ele fazia questão de perguntar sobre eles. Ossos do ofício, talvez, a parte de conversar com o cliente para ele ficar entretido o suficiente para gostar do artista e do estúdio.
Ela teve a chance de praticamente fazer uma autobiografia. Contou que nasceu na Holanda e se mudou para a Suíça aos nove anos por causa do emprego da mãe, que nunca aprenderia catalão porque já tinha esgotado sua cota de idiomas aprendidos e que era uma futura engenheira. Thor, às vezes, olhava para mim com cara de tédio quando Anya entrava em detalhes muito minuciosos sobre si mesma, mas eu continuei achando completamente adorável aquela sessão de massagem no ego que ela tanto precisava. Anni era uma pessoa que dedicava energia demais à outras pessoas, e às vezes ela só queria ser um pouquinho egoísta e dar atenção a si mesma.
O desenho não era muito grande, mas tinha vários detalhes elaborados. Pouco mais de uma hora depois, minha amiga já exibia o plástico em volta do desenho bem feito. Arón tirou fotos ali mesmo com o próprio celular, e depois reiniciou todo o processo de assepsia e higiene para começar a tatuagem de Thor.
Eu estava cansada de ficar em parada em pé no batente da porta. Quando já estava incomodada o suficiente, apareceu e veio na minha direção no corredor. Há menos de dez minutos, ele havia saído de uma das salas depois de tatuar outro cliente, então eu sabia que ele iria até a entrada acertar com ele e depois voltaria.
- Já sabe o que você vai fazer? – ele perguntou, se referindo à tatuagem.
- Mais ou menos. – eu finalmente me senti um pouco confortável, pois ele se colocou atrás de mim e me puxou de encontro ao seu peito. – Eu tive uma ideia melhor. Eu quero fazer uma tatuagem minha, sabe? Quero pensar e desenhá-la aos poucos. Com você, é claro.
- Você sabe o que isso quer dizer, certo? – ele me abraçou pelas costas e começou a se mover inconscientemente acompanhando o ritmo da música de rap que tocava lá fora. – Muito planejamento, muitos rascunhos, muito mais tempo, mais dinheiro...
- Eu sei de tudo isso, tanto quanto eu sei que quero algo que seja só meu. O que você acha?
- Eu acho... – ele tentou fazer mistério. – Que estou livre pra começar quando você quiser.
- Ótimo! – sorri na mesma hora. – Eu ligo na segunda-feira para consultar a sua agenda.
assentiu e riu com o meu jeito totalmente formal.
- Então sem tatuagem pra você hoje? – ele voltou a perguntar.
- Sim, mas com grandes planos para a semana.
- Mal posso esperar. – concordou. – Ei, então acho que vou usar esse horário para tatuar uma menina que me procurou mais cedo. Quer ficar na sala comigo?
Eu daria tudo por um sofá, rede, banquinho, cadeira, qualquer coisa para não ficar mais em pé. Assenti confirmando e me pediu para ir para a última sala do corredor. Logo menos ele apareceu com a cliente acompanhada de outra amiga, as duas claramente eram turistas e não falavam muito bem espanhol. Foi divertido acompanhar conversando em inglês, algo que eu ainda não tinha visto. De repente, me perguntei se ele tinha omitido que falava francês... Percebi que nunca havia perguntado isso e só de pensar que ele entendia o que eu falava com Anni na frente dele, eu já começava a ficar apreensiva.


Capítulo 15


This is my life, you by my side
Key lime and perfume and festivals
Taking our dreams, turning them to things
It’s like magic, babe, isn’t life wonderful?


Eram dez e meia da noite quando me encontrei com Anya e Thor na recepção. A quantidade de pessoas havia caído drasticamente desde a última vez que eu passara ali; dentro do estúdio, eu ainda podia identificar uns dois clientes recém atendidos, todos os amigos de que eu conheci mais cedo, incluindo Nacho e Chiara, e algumas poucas pessoas lá fora. Para a minha surpresa, percebi que Andrej estava marcando logo outra sessão com Arón.
- Vamos pensar neste que eu te mandei. – ele explicava para o tatuador que o escutava atentamente. – Quero fazer a minha própria versão. Sexta-feira, então?
Acompanhei um pouco a conversa dos dois, e realmente Thor estava determinado a fazer um desenho próprio, assim como eu.
- Quero fazer outra, mas primeiro essa precisa cicatrizar. – Anni comentou ao meu lado depois de pagar Arón. – Você tinha razão, a sensação é incrível!
- Claro que eu tinha razão... – fiz uma cara de convencida e ela, para a minha surpresa, me abraçou de lado.
- Me preocupo tanto com você, . – Anya me deu um sorriso meigo. – Eu fico feliz de ver você com pessoas boas e fazendo coisas novas. Merda de TPM!
- Não vá chorar, Anni. – Thor brincou ao seu lado.
- Se eu quiser eu choro, Andrej! – ela respondeu de forma ríspida e depois riu, para a confusão de todos nós.
apareceu logo em seguida e perguntou sobre a tatuagem de Thor. Os dois conversaram amigavelmente sobre o desenho e sobre a sessão que ele já havia marcado. parecia muito satisfeito e agradecido pela confiança do meu amigo, e ele fez questão de expressar isso para ele.
- Eu garanto que nós dois voltaremos inúmeras vezes – Thor disse quase sorrindo, mas ele não costumava ser tão expressivo assim.
- A gente já ‘tá indo, quer carona? – Anya perguntou, mas logo mudou de ideia. – Ah, você vai ficar até fechar, é claro!
- É, vou... – percebi que havia prestado atenção nisso e parecia contente. – Mas então amanhã a gente se vê? É meu dia de folga.
- Sim! Eu te falo sobre a aula de culinária à tarde. Por favor, vem com a gente! – Anya estava estranhamente animada.
- Ah, eu vou pensar. – dei ombros, mas sem muita vontade de ceder.
Me despedi dos dois com um abraço e os vi sair pela porta de vidro e madeira pesada, cada um segurando o próprio tubo de pomada para tatuagem.
- Em toda a minha vida, eu nunca a vi tão animada desse jeito! – comentei com admiração para ouvir. – Que milagre uma tatuagem faz.
- É, hoje ela parecia mais amigável... Mas não de cara.
- Seus amigos, niña? – ouvi uma voz alta do outro lado do estúdio me chamando.
- Sim, Nacho, os dois são meus melhores amigos. – respondi com orgulho, olhando para ele sentado no sofá vermelho.
Nacho não disse mais nada. Ele só parecia absorver a informação e depois virou a cara como se nem tivesse me chamado antes. Não me importei muito.
Aquele mesmo grupo de horas antes havia restado no final da noite. Havia muita bebida restante do que fora servido para os convidados, então Nacho votou por comemorar o sucesso do evento no jardim do estúdio acabando com o estoque de álcool. Acho que ninguém se opôs, afinal, era mesmo uma boa ideia.
Observei a disposição de destilados e espumantes na minha frente. Havia pouca coisa não alcoólica, mas eu tive uma inspiração com as opções disponíveis. Enquanto todo mundo arrumava algumas mesas na parte plana do terraço, eu espalhei a quantidade certa de copos numa bancada e separei as bebidas que eu conhecia. Eu ainda me lembrava de pelo menos umas três receitas diferentes de drinks que precisei preparar no Bob’s na semana anterior e resolvi improvisar com as garrafas na minha frente.
Ninguém havia reparado que eu estava no meu canto preparando aquilo, mas quando me procurou, eu estendi as mãos mostrando com orgulho a mise en place alcoólica.
- Voilà!
- O que é isso tudo? – ele olhou para as taças diversificadas com um sorriso admirado no rosto.
- Eu tive que me virar com algumas coisas. – apontei para as garrafas que eu tinha utilizado. – Usei essa bebida estranha de gengibre ao invés do verdadeiro, água tônica e gin. Acho que ficou OK...
pegou uma bandeja e me ajudou a transportar os copos da bancada para as duas mesas já arrumadas. Chiara, Arón, Mireia e Luís pareciam aprovar aquela novidade, mas é claro que eu tinha que ouvir algo a mais vindo de Nacho:
- Olha só, , você é mesmo muito talentosa!
- Merci. – agradeci com sinceridade, apesar de saber que ele não faria só aquele comentário.
- Ela é inteligente, traz clientes pro estúdio, prepara bebidas pra todo mundo... – ele continuou dessa vez olhando para que ainda estava ao meu lado na bancada. – , você se deu muito bem com a sua namorada nova.
Aquilo não parecia uma provocação maldosa, muito pelo contrário. Por mais inconveniente que Nacho fosse, ele não era debochado nesse sentido. Mas mesmo assim, eu senti o efeito daquela frase, e foi como se meu coração despencasse do meu peito. Para aquilo eu não estava pronta, mas não podia deixar transparecer. Não consegui enxergar para saber se ele mesmo tinha reagido de algum jeito, mas, de novo, não me importei.
- Isso aí na sua mão é cava, Nacho? – perguntei indo em direção a ele e apontando para a garrafa de espumante que ele segurava. Não esperei que resposta e apenas peguei da mão dele. – Sei de um drink ótimo com champagne, mas esse aqui vai servir.
Imaginei que as outras pessoas estavam acompanhando aquela conversa, mas na verdade não era tão chamativo quanto eu estava pensando. Uma pena, pois eu adoraria ter mais público presenciando a cara de Nacho quando eu voltei para a bancada e disse distraidamente:
- Você se deu muito bem com esse seu distribuidor, .
O comentário era direcionado a , mas eu disse olhando diretamente para Nacho e ainda dei uma piscada rápida, para que ele pudesse interpretar minha resposta como brincadeira, e não como provocação.
Para me deixar mais satisfeita ainda, senti me abraçando com força e dizendo perto do meu ouvido:
- Acho que nada nesse mundo pode me deixar mais feliz que alguém que finalmente vai fazer o Nacho completamente sem graça.
- Nada? – perguntei incrédula. – Eu aceito o desafio, então.
Dei as costas a , deixando a provocação no ar e andei em direção à mesa onde as outras pessoas já se sentavam e conversavam. Ele obviamente veio atrás e se acomodou bem do meu lado, mais próximo do que a outra vez que estivemos ali. Puxei dois copos, um para mim e outro para ele, mas recusou com um gesto e eu fiquei sem entender. Praticamente no mesmo instante, a mulher de cabelos curtinhos vermelho-cereja que fora legal comigo, Mireia, terminou de enrolar um baseado e estendeu-o na nossa direção.
- Todo seu. – ela disse com um sorriso sereno e as sobrancelhas erguidas.
- Graciès pegou de sua mão e tirou um isqueiro do bolso.
Mantive meu descontentamento apenas por dentro da minha cabeça; cheiro de maconha era uma coisa que me dava uma náusea absurda, mas eu não queria correr o risco de ser a fresca e estraga prazeres do rolê de ninguém. Se eu soubesse disso, eu teria ido embora mais cedo...
Fiquei com aquele medinho de forçar demais uma boa impressão para agradar as pessoas que eu havia recém conhecido. Acho que fiz mais do que o suficiente ao prover um tipo de bebida com um pouco mais de qualidade do que aquela que Nacho traria sabe-se lá de onde. Mesmo se eu quisesse, não consegui conversar tanto assim porque eu não entendi praticamente nada, nem pelo jeito que aquele grupo falava e nem pelo contexto. Continuei apenas sorrindo e concordando, murmurando algumas frases quando necessário, mas nada que rendesse assunto de verdade. Era mais seguro.
Permanecer tanto tempo calada tinha suas vantagens, por exemplo, observar o comportamento alheio, e duas coisas me chamaram a atenção. A primeira delas foi o jeito que e Mireia conversavam, e pela primeira vez na minha vida adulta eu tive certeza que senti ciúmes. Os dois trocavam inúmeras piadas e gestos internos, e eu me surpreendi mordendo a minha bochecha por dentro da boca para evitar que uma cara de reprovação feito a Meryl Streep em O Diabo Veste Prada surgisse no meu rosto. A minha voz interior, ao mesmo tempo, me dizia para deixar de ser boba porque qualquer um tem direito de ter esse tipo de relacionamento próximo com amigos do sexo oposto, e seria uma enorme imaturidade da minha parte ficar incomodada com isso. Ela tinha sido legal comigo mais cedo e eu não tinha motivo nenhum para me sentir assim – mas acho que é assim que ciúme funciona, é algo completamente irracional.
A outra pessoa que eu me demorei em analisar foi Arón, o sócio de no estúdio. Ele já tinha me encarado de um jeito super esquisito ao me conhecer, mas isso poderia ser coisa da minha cabeça naquela hora – só que depois ficou ainda mais estranho. Arón era muito extrovertido e contava um caso atrás do outro, mas hora nenhuma ele fazia contato visual comigo. Era como se eu não estivesse ali praticamente na frente dele, ou ele deliberadamente escolhesse fingir que eu não existisse. Meses atrás eu teria ficado apavorada com a mera possibilidade de eu ter sido desagradável com alguém sem querer, mas agora eu achava o cúmulo da falta de educação uma pessoa simplesmente me ignorar assim, sem mais nem menos. Arriscava dizer que se eu o fizesse uma pergunta diretamente ele ainda assim fingiria que não tinha me escutado – mas é claro que eu não ia aprontar uma coisa dessas.
Depois de certo tempo me sentindo um enfeite sem utilidade, alguém se lembrou que o metrô fechava à 01:00 da manhã e todos se prontificaram a arrumar o quintal do estúdio em tempo recorde. Não sei o que me deu, mas imediatamente me soltei do braço de e me ocupei em separar e guardar as bebidas com Nacho, o mais preocupado com o que havia sobrado do open bar. Ele falava sem parar e me dava orientações específicas do que colocar em qual caixa de isopor, então pude me esquecer do meu ciúme repentino e sem lógica.
Quando Anya me perguntou mais cedo se eu queria carona e eu havia respondido que não, eu já tinha em mente que eu terminaria a noite na casa de , e não na minha. Quando ele e eu nos despedimos do grupo que ia em direção ao metrô, tenho quase certeza que senti um ou outro olhar de julgamento pelas minhas costas, mas àquela altura, eu já não me importava e queria ir muito ir para algum lugar em que eu não me sentisse mais pressionada para ser sociável.
- Essa é sempre a pior parte. – comentou distraidamente enquanto entrávamos no prédio dele.
- Qual? – perguntei em voz baixa.
- Voltar pra casa achando que vou descansar, mas tenho que acordar cedo de qualquer jeito – ele jogou a cabeça para trás fazendo um gesto dramático.
- Essa não é a vantagem de ser o burguês da história? Você não pode fazer seu próprio horário?
- Não depois do evento. Eu deveria chegar cedo para limpar as salas e repor os estoques de máscaras e luvas. – ele me explicou ao abrir a porta do apartamento, mas de repente fechou-a sem mais nem menos. – Esqueci de um detalhe. Tenho mais alguém pra te apresentar.
Era só o que me faltava.
- É muito especial para mim e eu espero que vocês se dêem bem... – continuou quando viu que eu só o encarava de volta sem reação, já que estava cansada demais para isso por mais que fosse brincadeira. – Ela é tão tímida quanto você, então talvez demore um tempo para dar as caras.
Não foi necessário esperar tempo algum. Logo percebi do que se tratava. Uma gatinha de três cores estava em cima de um dos sofás e olhava atentamente para a porta aberta. e eu ficamos em cima do tapete da sala olhando para a sua reação antes mesmo de entrar no cômodo, e não poderia ter sido mais adorável. Primeiro ela pulou para o sofá mais distante que ficava embaixo do balcón e de lá ficou me observando com aqueles olhões arregalados e as pupilas do tamanho de um prato. riu baixinho e fechou a porta atrás de mim e basicamente me deixou sozinha ali na sala, entregue à minha própria sorte.
Talvez eu tivesse me esquecido de compartilhar esse detalhe com , mas a minha vida inteira eu tive gatos rondando a minha casa, então estava mais do que acostumada ao comportamento deles. Nenhum nunca foi meu porque minha avó dizia que não queria se apegar a nenhum ser vivo que fosse durar pouco tempo e que ela possivelmente tivesse que enterrar um dia. Ainda assim, eles sempre apareciam quando a gente resgatava algum da rua até encontrar um outro lar adequado. achou que me deixaria intimidada com um gato, pois estava redondamente enganado.
- Você não me contou que tinha ela. – comentei em voz alta para que ele ouvisse de onde quer que estivesse.
Andei devagarinho até um dos sofás e me sentei. Estiquei um dos braços na direção dela e ofereci a minha mão no meio do caminho para que ela pudesse se aproximar, mas não esperei que ela quisesse chegar perto tão cedo. Porém, aquele gesto cordial funcionou, porque ela levantou o nariz no ar e piscou uma única vez olhando para mim. Sucesso.
- Eu achei que tivesse contado quando você veio aqui aquela vez. – ele apareceu de um dos cômodos. – Mas ela deve ter se escondido quando a gente entrou fazendo barulho e tudo mais. Ela é bem medrosa.
- Ela tem nome?
- Kali, que nem a deusa indiana.
- Kali, a deusa da destruição? – perguntei incrédula.
- A própria.
- Ela vai gostar de mim. – afirmei com convicção. – Eu me dou muito bem com gatinhos e animais que não têm temperamento fácil. Talvez porque eu nunca tive bicho nenhum em casa e sempre quis ter tanto o meu próprio...
- Por que você não adota um agora? – ele perguntou sentando-se ao meu lado.
- Não sei se tenho responsabilidade. – dei ombros. – E não saberia escolher um nome.
revirou os olhos para a minha preocupação trivial. Olhamos ao mesmo tempo na direção da gata e ela continuava afastada no sofá, porém numa posição menos defensiva.
- Eu vou tomar banho, preciso tirar esse cheiro de fumaça de mim. – ele se levantou num pulo e depois com o maior descaramento estendeu a mão para mim. – Você vem?
- Se eu v...? – repeti a pergunta com uma risada um pouco histérica. – Eu ‘tô um pouco despreparada pra isso aqui.
- Do que mais você precisa se vai ficar sem roupa?
Não respondi. Apenas o olhei tão desacreditada quanto antes e esperei que ele falasse logo que era brincadeira, mas aparentemente não era.
- Você que sabe. – ele deu ombros e se inclinou para me dar um beijo rapidamente. – Não demoro.
- Tudo bem. – assenti. Ele realmente estava com cheiro de fumaça de maconha, o que fez meu estômago embrulhar do jeito ruim.
Tomei a liberdade de andar pelo apartamento enquanto ouvia o chuveiro ligado. Eu ainda me lembrava daquele caos de desenhos empilhados em cima do computador e das velas e incensos, mas ainda não conhecia nada além da cozinha e da sala. Fui à direção em que havia seguido e passei pelo banheiro de porta fechada de onde pude ouvir ainda mais alto o barulho da água corrente. O apartamento era definitivamente maior que o meu (qualquer lugar é), mas além daquela, só havia outra porta que deveria ser o quarto dele.
Imaginei que por ali eu encontraria a maior concentração de desenhos e expressão artística por ser um espaço tão pessoal, mas foi o contrário. O quarto dele era tão livre de exageros quanto o meu. A cama ficava encostada à parede e embaixo da janela, e do outro lado havia uma cômoda larga ao invés de um armário completo, assim como no meu quarto. Em cima dela, havia uma bagunça a nível saudável com várias moedas espalhadas, dois carregadores de celular, fones de ouvido, perfume e a mesma pomada que eu havia usado para cicatrizar a minha tatuagem.
Vi na parede um quadro de metal onde estavam pregados alguns cartões e fotografias com ímas variados. Havia uma foto dele com uma menina que parecia ser só um pouco mais nova que eu e era exatamente igual a ele, com os mesmos olhos verdes escuros, os mesmos traços longos e firmes e o rosto sério. Outra foto de e Nacho de quando eles pareciam ter recém entrado na puberdade, mas ambos já ostentavam piercings na sobrancelha e no septo. Me peguei sorrindo com aquelas memórias que nem eram minhas.
Sentei-me na cama e puxei o celular da bolsa. Havia postado duas fotos nos Stories do Instagram mais cedo, uma de Anya com cara de maravilhada para a própria tatuagem (com Thor no fundo revirando os olhos) e outra de enquanto ele atendia às clientes estrangeiras que eu acompanhei na sala. Eu tinha pouquíssimas pessoas me seguindo naquela rede social, então ela servia para entrar em contato com amigos da minha cidade e, mais recentemente, com aqueles que eu havia feito em Barcelona. Conferi as visualizações daquelas duas fotos e parecia tudo dentro do normal, exceto por...
@: ‘tá acordada?
Eu reconhecia todas as pessoas que haviam visto as minhas fotos, menos uma. Bom, sempre têm aqueles perfis russos aleatórios que surgem do nada, mas eles não chamam a atenção. Coloquei meu dedo em cima do nome da pessoa para que pudesse abrir a sua página no Instagram, e tamanha foi a minha surpresa quando percebi que eu estava bloqueada. Tirei print tanto da tela dos stories quanto do perfil da pessoa e enviei para Anya, torcendo para que ela me respondesse logo.
@: você conhece essa pessoa?
Sei que qualquer ser humano normal não veria nada de estranho nisso, mas eu era a pessoa mais esquecível e irrelevante do mundo e nunca antes um perfil desconhecido havia visto alguma foto minha e ainda por cima me bloqueado, sabe-se lá por que. Minha paranoia a respeito de privacidade crescera exponencialmente depois de toda a situação com Max e agoram qualquer coisa era motivo para eu me sentir exposta e vulnerável. Aquele nome – Fanny Deserres – não era estrangeiro o suficiente para passar despercebido pelos meus olhos.
Fiquei encarando o celular por um tempo, como se por milagre Anya fosse acordar e me responder. Mal percebi o silêncio que se fizera quando havia desligado o chuveiro e saído do banho finalmente.
- Agora sim me sinto decente! – ele entrou sorrindo no quarto ao me encontrar ali. – Aconteceu alguma coisa?
- Pardon? – levantei os olhos do celular e encarei-o parado no meio do caminho secando o cabelo com uma toalha e vestindo somente e exclusivamente uma cueca samba-canção. – Sim, quer dizer, não, não aconteceu nada! Eu acho que só ‘tô um pouco cansada.
E “cansada” lê-se com uma crescente ansiedade no peito só de imaginar que meu ex namorado não só estava na mesma cidade que eu, como também havia investido em um perfil falso para poder bisbilhotar a minha vida. Eu tinha absolutamente zero evidência para sustentar a minha hipótese, mas é claro que eu tinha que considerar a pior de todas e me preparar caso ela fosse verdade.
- Eu vou fingir que acredito se isso te deixar mais tranquila. – ele sacudiu a cabeça negativamente. – Mas você sabe que deveria me contar essas coisas, não é?
- Sei? – perguntei com um sorriso inseguro.
- Não é que você deve no sentido de obrigação – tratou de se explicar e se sentou ao meu lado na cama. – Eu digo no sentido de recomendação, e que... Bom, eu gostaria de saber qualquer coisa que esteja acontecendo.
- Eu vou manter isso em mente. – respondi com um pouco mais de confiança, porém certa de que aquela não era a hora de compartilhar o que havia acontecido. – Obrigada, .
- Agora me responda... – ele colocou o dedo indicador no contorno da minha boca e me olhou de um jeito completamente diferente dessa vez. – Quão cansada você está?
Minha primeira reação foi revirar os olhos com ironia, mas no mesmo instante senti um sorriso involuntário surgir no meu rosto. Queria que eu mesma fosse responsável por me acalmar quando ‘tô tensa e ansiosa, mas acho que não teria problema se assumisse essa função. Contanto que ele estivesse por perto e que eu aprendesse com sua presença, tudo ficaria bem.

- A equipe do CSI: Barcelona está te esperando na varanda... – Thor me recebeu na porta do apartamento com uma expressão de tédio que eu constantemente via no rosto dele quando Anya inventava alguma moda.
Não contestei nenhuma parte daquela informação, apenas fui até o balcón da sala que era grande o suficiente para acomodar uma mesinha de jardim com duas cadeiras, onde minha amiga já estava sentada de pernas cruzadas e com os olhinhos atentos no celular.
- Deixa eu adivinhar... – nem sequer me dei ao trabalho de dar-lhe bom dia. – Max fez mesmo um perfil fake pra me vigiar?
Anya não me respondeu em voz alta. Ao invés disso, estendeu o celular na minha direção para que eu pudesse olhar a tela.
- O que é isso? – perguntei diretamente a ela.
- Eu pedi para seguir essa garota assim que vi suas mensagens – ela explicou apontando para o aparelho na minha mão. – Olha os stories.
Cliquei no círculo de sua foto de perfil e passei adiante as imagens. Vi uma mulher com rosto angelical e cabelos loiros bem curtos sorrindo no que parecia uma trilha. Na foto seguinte, uma paisagem com a marcação do lugar – Terragona. Espiei a reação de Anya, mas era ela quem parecia esperar que eu dissesse algo. A terceira e última foto que havia sido postada apenas três horas antes foi a que finalmente me fez dizer alguma coisa.
- Terragona não é longe daqui. – Anya praticamente sussurrou quando coloquei o celular sobre a mesa depois de encarar por alguns segundos a foto da garota loira sorrindo ao lado de Max.
- É longe o suficiente pra mim. – tentei não esboçar nenhum nervosismo. – Quem sabe esse tempo todo ele esteja de férias com a namorada nova. Talvez ele nem saiba que eu estou aqui e isso tudo não passou de uma coincidência, não é?
- E por que ela iria logo ao seu perfil para te bloquear e ainda te stalkear?– Anya pegou de volta o celular – E olha isso. – ela me estendeu a mão de volta. – Temos vários seguidores em comum, todos de Montreux. Ela deve ser de lá também.
Não resisti e tomei o maldito celular da sua mão mais uma vez. Havia dezenas de fotos postadas com amigos, familiares, mas nenhuma com Max. Parei o que estava fazendo e eu mesma fechei o aplicativo para não ter que me afundar ainda mais naquela teoria da conspiração que Anya estava criando aos poucos.
- E quem nunca stalkeou a ex do atual? – argumentei, e pude ouvir Thor gritando “eu te disse!” dos fundos do apartamento. – Isso é normal, não tem nada de absurdo.
Eu não gostaria de imaginar o que Max dissera sobre mim para que sua provável atual namorada quisesse ver minhas fotos. Duvidava que ele tivesse contado uma versão justa e verossímil daquela história, mas isso eu jamais saberia com certeza.
- Tudo bem, então... – Anni ergueu os braços dando-se por vencida. – Eu nunca tive ex namorado, então não sei lidar com isso. Espero nunca ter que aprender.
- Obrigada pela sua missão de desvendar a identidade da stalker – agradeci e ela estalou os lábios com desdém.
- Eu ainda vou ficar de olho nela. – Anya balançou o celular no ar com um tom ameaçador.
Max não estava por perto e isso era mais do que suficiente para me fazer andar tranquila pela cidade, ainda que Barcelona me fizesse desconfiar de tudo e todos. Desfazer essa crença era um desafio que eu estava mais do que disposta a encarar.


Capítulo 16

I needed you to please give my reflection a break
From the face it’s seeing now
Oh, darling, would you mind giving my reflection a break
From the pain it’s feeling now?


Eu não estava preparada para o início das aulas e isso ficou bem claro quando eu finalmente ganhei acesso ao portal online do aluno e recebi a lista de leituras para o verão que eu deveria ter feito e também os textos recomendados para o primeiro bimestre. Na sexta-feira da primeira semana, eu me encontrava completamente atordoada enquanto olhava as várias páginas das duas listas que eu já deveria ter conhecimento, e me perguntava o que é que eu eventualmente teria de sacrificar para conseguir ficar em dia com os estudos: meu emprego ou a minha recém conquistada vida social.
- Meses e meses completamente à toa e eu não me dei ao trabalho de consultar essa maldita lista. – continuei reclamando em voz alta para que me escutasse e prestasse atenção no meu drama. – Todo esse tempo enclausurada em casa, eu fiquei assistindo Drag Race sem parar, quando na verdade deveria ter lido pelo menos umas 600 páginas para poder começar o semestre no mesmo nível que o resto da turma.
- O que te faz pensar que os outros alunos realmente leram isso tudo? – ele perguntou distraidamente enquanto desenhava em seu tablet.
- Não sei, mas eu preciso assumir que todo mundo está em um determinado patamar para poder acompanhar as aulas – dei ombros. – Pelo menos uma vez na vida eu gostaria de não deixar que as minhas leituras se acumulem em cima da hora. País novo, vida nova.
- Eu aposto que você ‘tá exagerando... – ele disse distraidamente sem levantar os olhos da tela em cima da mesa de centro ao meu lado. – Não te imagino sendo irresponsável com nada nesse mundo, simplesmente porque você é neurótica demais. E isso te faz mal.
Não entendi o motivo dele falar com tanto desdém, mas ignorei porque talvez eu estivesse reclamando há muito tempo sem parar. Continuei olhando o calendário de provas e eventos do semestre e cometi o erro de comentar em voz alta (mesmo que fosse para mim mesma) o que acabara de ler:
- Olha só, festa de Halloween...
- Paso de fiestas de pijos me cortou no meio da frase como se eu estivesse sugerindo qualquer coisa.
- E por que você ‘tá falando desse jeito? – larguei o computador de lado e olhei feio em sua direção. – No seas gilipollas.
Meu tom de voz irritado foi o suficiente para que ele erguesse o rosto na minha direção, mas não o bastante para que ele ficasse intimidado. Pelo contrário, ele riu com tamanha naturalidade como se tivesse escutado uma piada.
- E como você aprendeu essa palavra? – ele perguntou ainda sorrindo.
- Convivendo com seus amigos – ergui a sobrancelha sem cair naquele rostinho adorável. – Por que você está assim?
- Problemas no estúdio – se limitou a responder e voltou a abaixar a cabeça. – Vou ter que comprar a outra parte do investimento.
- Quem é que vai sair?
não precisou responder, apenas ergueu as sobrancelhas sugestivamente e eu sabia que ele estava falando de Arón, o seu sócio que não gostava de mim. Não que ele tivesse verbalizado esse sentimento alguma vez, mas todos os nossos encontros e conversas não foram exatamente... Agradáveis. Desde que nos conhecemos, ele me olhava com extrema desconfiança e nunca se dera ao trabalho de ser educado e eu, medrosa que sou, apenas saía do seu caminho e me fingia de invisível. Até que perguntei a Nacho se eu tinha feito algo de errado e ele me disse para não me preocupar, porque Arón não gostava de mim assim de graça e que a companhia dele não me faria falta. Nacho tinha tanta sensibilidade quanto um parafuso enferrujado.
- Assim do nada? – perguntei agora interessada.
- Ele recebeu proposta de residência em Bilbao.
- E você está de mau humor porque vai sentir falta dele, ou porque não queria ter que gastar desse dinheiro...? – insisti sugestivamente.
- Ele é meu amigo, ou assim pensava. – seguiu desenhando sem parar, como normalmente fazia quando tinha algo o incomodando. – Não estava nos meus planos ter que comprar a parte dele no negócio, mas também não achei que ele pudesse fazer isso comigo. Eu saí do estúdio em que trabalhava por causa dele, porque ele me propôs que começássemos algo que fosse nosso.
- E Nacho?
- Não sei se quero colocá-lo no meio disso sem nem poder garantir que meu estúdio vai dar mais lucro que o dele – ele deu ombros, mas sua voz parecia magoada. – Ele não tem ganas de seguir sendo empregado para sempre, mas não é justo que ele entre num negócio que atualmente está instável.
me fez enxergar que eu não poderia resolver de uma vez todos os problemas que me apareciam pelo caminho. Aquela era uma dessas situações em que eu tinha vontade de pensar nas mais diversas soluções possíveis, fazer planos a longo prazo e confiar no meu potencial assertivo, mas eu sabia que não era disso que ele precisava no momento.
- Talvez isso seja melhor. – sugeri sem querer impor a minha opinião. – Se ele está tão disposto a largar tudo sem pensar nos compromissos que já fez com você, então...
- Si, tal vez...
Claramente ele estava incomodado, então resolvi não render tanto aquele assunto. Sei que eu não me importaria de nunca mais ter que ver Arón e ser completamente ignorada por ele de tal forma que até outras pessoas percebiam aquela atitude.
- Você me chamou de gilipollas! disse em voz alta depois de vários minutos em silêncio.
Virei o rosto para ele e percebi que de novo ele sorria, então quem sabe aquela má vontade comigo tivesse ido embora.
- Não chamei não, eu disse precisamente para você não agir como um babaca. – me apressei em corrigir.
- Dá igual! – ele ficou falsamente indignado. – Eu devo estar mesmo muito mal educado pra você querer me xingar.
- Pra ser sincera, eu estava esperando pela oportunidade certa para poder chamar alguém disso. – admiti sem conter a risada. – Gilipollas. Acho que é a minha nova palavra preferida em castellano.
- E qual era a de antes mesmo?
- Botellón – respondi e ele começou a rir comigo. – Que foi? Eu gosto das gírias daqui!
- Botellón y gilipollas, tía... balançou a cabeça em negação. – Flipo contigo.
Fiquei com vergonha de perguntar o que era flipar e guardei a dúvida para quando eu estivesse com Lydia ou Romina no trabalho. Se fosse uma coisa muito óbvia ou boba, jamais me deixaria em paz por ter perguntado, assim como quando eu queria saber a diferença entre joder e follar – um arrependimento que eu ainda guardava.
Meu celular começou a vibrar com algumas mensagens chegando. Deixei meu computador de lado e alcancei o aparelho sem me levantar do sofá.

@Anya: não sabe o que aconteceu aqui em casa hoje mais cedo.
@Anya: tocaram o interfone lá de baixo e eu atendi.
@Anya: era um cara com uma prancheta na mão. Ele me perguntou se era eu e eu disse que sim.
@: como assim ele perguntou se era você? Ele sabia seu nome?
@Anya: sim.
@: seu nome TODO?
@Anya: sim, ele perguntou: eu falo com a senhorita anya baardewijk? Assim com sotaque carregado.
@Anya: e eu respondi que SIM, e ele disse que tinha uma encomenda para mim logo logo. E depois ele FOI EMBORA.
@: e qual era a encomenda?
@Anya: você não entendeu?
@: aparentemente não
@Anya: ele veio até aqui, disse meu nome e que tinha uma encomenda para mim. A tal encomenda não chegou e ele não disse o que é, só disse que vai chegar (não disse quando) e simplesmente partiu!
@: ok, eu duvido que isso aconteceu de verdade...
@Anya: não faça gaslighting comigo!
@: maldita hora em que a gente decidiu assistir aos seminários feministas juntas...
@: você tem coisa chegando do aliexpress o tempo inteiro. Tenho certeza que é alguma coisa de lá que você nem lembra ter comprado
@Anya: e se isso for golpe pra me sequestrarem?
@: não é golpe.
@Anya: como é que você sabe?
@: eu conheço técnicas e esquemas de sequestro, Anni...
@Anya: ah é... tipo quais?
@: não vou alimentar suas paranoias logo agora. está aqui.
@Anya: eu espero que você não tenha se esquecido de comprar proteção pra deixar na sua casa.
@: ai, meu deus
@Anya: eu estou falando sério.
@: tchau Anni.
@Anya: , você ficou muito tempo sem comprar camisinha, é um hábito que você tem que retomar AGORA.
@: não vou ficar lendo essas humilhações.
@Anya: preocupações*
@: a bon


- Anya? – perguntou quando percebi que ele me observava sorrir para o celular na minha mão.
- Sim, como você sabe?
- Você só conversa com ela.
- ‘Tá dizendo que eu não tenho amigos? – perguntei com falsa irritação, apesar de que aquele comentário tinha sido um pouco assertivo de um jeito ruim.
- Não. – ele respondeu com cuidado. – Eu sei que você gosta de um círculo social pequeno para não ter que se preocupar com muita gente.
- É que eu ainda não me sinto em casa aqui, parece que sou uma eterna recém chegada. – soltei um suspiro de frustração e encarei o teto. – Sinto como se eu vivesse uma vida temporária com coisas emprestadas, móveis e roupas que não são meus, amigos que não são meus.
- E se você mudasse de casa? – sugeriu com real interesse. – Você vive reclamando que esse apartamento é todo errado pro seu gosto, que é tudo muito colorido e exageradamente hipster.
- Mas se eu ficar aqui tempo o suficiente quem sabe eu me acostume com o lugar e finalmente me sinta à vontade... – contemplei minhas opções – Eu pelo menos queria redecorar esse lugar com algumas coisas minhas.
- Você deveria morar comigo. – disse com a mesma naturalidade de quem fala que gosta de chocolate. No momento em que a frase ficou no ar, eu senti meu coração pesando no corpo como se ele fosse o único órgão dentro de mim, e minha boca ficou árida de tão seca com o susto. – Uma ideia pro futuro, pelo menos...
Eu entendi de onde partiu aquele comentário, mas eu não estava preparada para ouvi-lo. É claro que ele só queria ser empático, não é? Não era uma oferta nem um plano, afinal, não estávamos nessa fase. Não estávamos em fase nenhuma, se quer saber o que eu acho, éramos apenas eu e ele vivendo um dia após o outro – não sei se o lema dos alcoólicos anônimos serviria para explicar a dinâmica do meu relacionamento, mas era algo parecido e estava ótimo para nós dois.
Tentei não levar a sério, mas também não quis desmerecer sua boa vontade de tentar me fazer sentir melhor. Assim que o choque passou, eu sorri rapidamente e tentei fazer uma brincadeira daquela sugestão:
- Mas aí quem tem que redecorar o apartamento é você. A paleta de cores caótica pode até combinar com as suas tatuagens, mas a desordem da sua casa e dos seus móveis é algo inconcebível para mim.
- Olha, móveis de pallet estão na moda, sabia disso? – cruzou os braços e imitou o meu tom de voz.
- A moda é morar numa casa onde não dá pra passar aspirador de pó? – me acomodei no sofá para levar aquela discussão da maneira mais indignada possível. – Eu quase morro de rinite quando passo mais de cinco minutos na sua sala.
- Pois eu acho normal – ele deu ombros.
- Claro que você acha normal! Fuma o dia inteiro! Você ‘tá acostumado a respirar mal, então não consegue notar a diferença.
- Ok, eu não vou discutir isso mais...
Porque eu estou certa, me garanti mentalmente.
Aproveitei por mais um tempo a frustração de ver todos aqueles títulos e artigos que eu já deveria ter lido – mas sem de fato fazer nenhum esforço para mudar essa realidade – e aceitei que eu teria que começar o semestre já correndo atrás do prejuízo. O mau humor de também parecia ter ido embora repentinamente, porque logo ele começou a falar sobre alguma decisão tenebrosa tomada pelo governo da Catalunha sobre as próximas eleições, e daí não parou mais. Ele era a minha fonte mais razoável sobre a situação política do país (por mais que nossas conclusões sobre os mesmos assuntos divergissem com frequência), então eu me dispus a prestar atenção. E, afinal, era sempre bom tê-lo por perto.

Alguns sinais o universo manda e nós insistimos em ignorar só porque eles destoam da narrativa perfeita que criamos na nossa mente. Eu sempre me considerei uma pessoa muito intuitiva e controladora, e por isso achei que essas coisas não escapariam do meu radar quando acontecessem. Mas a minha constante distração e esforço para me encantar com a vida nova me deixaram momentaneamente cega para todas as evidências que estavam aparecendo o tempo inteiro.
Naquele domingo que eu cobriria apenas o horário da manhã, eu recebi mais quatro chamadas do meu irmão Axel, das quais nenhuma eu atendi. As nossas últimas conversas sempre terminaram em confronto e eu não queria aquilo de novo; e também, o fato de que eu o ignorava há semanas talvez piorasse qualquer potencial contato que teríamos num futuro próximo. Eu prometi a mim mesma alguns dias antes que pelo menos escreveria uma mensagem para me explicar e tentar algum tipo de reconciliação, mas me esqueci. Todas aquelas ligações rejeitadas provavelmente eram o primeiro sinal.
Saí de casa sem o celular, e mais tarde eu também perceberia que aquilo não fora meramente uma inconveniência, só porque eu não poderia ouvir música no caminho do trabalho. Cheguei com muita antecedência como de costume, porque a ideia de me atrasar ou aparecer no café em cima da hora aterrorizavam até o meu relógio biológico. Passei o tempo escrevendo o menú del dia com giz no pequeno quadro verde e pendurei-o na entrada do restaurante às oito da manhã em ponto, a hora de abrir a porta e o caixa. Tudo normal demais.
O expediente tumultuado e lotado não me permitiu prestar atenção em muitos detalhes que não fossem as contas e os pedidos que me faziam na bancada principal do café. Pela primeira vez desde que eu começara a trabalhar ali, havia fila de espera na porta antes mesmo do horário do almoço, então Romina, Lydia e eu nos desdobramos em diferentes funções enquanto Bob calmamente organizava as reservas e observava tudo com o olhar satisfeito. Um bom dia para o capitalismo.
Faltavam apenas quinze minutos para que eu pudesse bater meu ponto e ir embora. O próximo no turno que se virasse com aquela multidão. Eu nem lembrava o meu próprio nome, mesmo que ele estivesse escrito em dourado num broche preso ao meu avental. Em um instante, eu entregava a máquina de cartão de crédito para um cliente e esperava ele digitar a senha, e no outro eu levantei o rosto para observar o crescente movimento lá fora e finalmente o vi.
Ele devia estar esperando há um tempo, porque estava dentro do café falando com Bob, pedindo uma mesa. Ou perguntando por mim. Foi o que eu deduzi na hora. Um calafrio percorreu o meu corpo tão rapidamente como se eu tivesse tomado um choque elétrico; parecia que eu tinha despencado de um degrau sem saber que estava pisando no chão. Eu sabia que eu ouvi essa expressão em algum filme infantil que não parecia feito pra crianças, mas não me lembrei do nome na hora.
Max falava com Bob, mas olhava para mim. Meu chefe anotava alguma coisa na prancheta de mão, com certeza o nome dele para que ele fosse chamado assim que uma mesa ficasse vazia. Tão despercebido, tão despretensioso era aquele encontro. E a única coisa que eu conseguia sentir era pânico. Fui pega no flagra, mas não cometi crime algum. Talvez o de ir embora quando não era mais bem vinda.
A fila de clientes se acumulava na minha frente, então eu desviei o olhar dele e voltei a minha mínima atenção para os papeis que todos me entregavam esperando o mínimo de contato possível. Mas só porque eu deixei de olhar não significava que eu não era mais observada. Me senti um alvo. Achei que Max poderia gritar meu nome no meio da multidão, que ele apontaria o dedo para mim e começaria a expor todas as minhas falhas, os meus segredos e fraquezas. Isso era absurdamente improvável, é claro, ele era uma pessoa calma e fria, mas mesmo assim eu me sentia em perigo.
Arquitetei meu plano de fuga ao mesmo tempo em que o executava. Alguém tocou no meu braço e eu praticamente pulei do banco tamanho o susto, mas era apenas Tony chegando para o próprio turno. Eu não respondi, apenas saí detrás do caixa e corri praticamente sem ar pelo corredor da cozinha até a sala dos funcionários. Eu definitivamente não poderia sair pela saída principal, passando atrás da bancada do café e depois pela porta da frente. Não por onde Max estava.
Embolei meu uniforme verde e joguei-o de qualquer forma no meu armário, e sem olhar para os lados com medo de ser vista por qualquer um, eu marchei até a saída de incêndio dos fundos e bati a porta. E então eu corri.
Tudo estava muito claro na minha mente: Max percebera a minha ausência e resolveu dar a volta no restaurante para me procurar. Ele havia planejado a sua própria emboscada – afinal, era isso que ele queria ao aparecer bem ali na minha frente, não é mesmo? Por isso eu corri. Corri até a estação Jaume I e entrei no metrô no sentido do estúdio de . Eu sentia o sangue escapando do meu rosto e das minhas mãos, sentia a minha boca seca e o coração batendo forte na minha garganta, tão alto que eu não conseguia escutar meus próprios pensamentos.
Os sete minutos mais demorados da minha vida passaram lentos o suficiente para que eu pensasse na possibilidade de Max ter me alcançado. O que ele queria comigo? Por que viera atrás de mim? O que ele tem a me dizer depois desse tempo? Depois de tudo? Quem sabe aquele confronto não fosse tão ruim assim e eu poderia enfim ter algumas respostas.
Claro que não, como eu posso ser tão burra? E por que estou tão surpresa? Os sinais realmente estavam ali, eu só não me lembrava a ordem exata com que eles apareceram porque fui ingênua o suficiente para fingir que não havia nada de errado. Max estava em Barcelona e aquela não era a primeira vez que eu o via. Eu já tinha capturado um vislumbre daquele rosto tão familiar e sério que eu conhecera por anos, dos olhos claros que se tornavam invisíveis na luz do sol, do jeito atento e sempre alerta que ele deixava transparecer na linguagem corporal. Ele estava por perto e eu me convenci de que aquilo era uma miragem. E agora eu sabia que ele estava atrás de mim.
Diminuí meu passo quando percebi que estava entrando no beco antes do estúdio. Aquele foi o primeiro lugar que me passou pela cabeça, mas o que eu ia dizer? Como eu explicaria aquilo para desde o início? Quem garante que ele teria a disposição para me ouvir e se sequer acreditaria em mim? É muito fácil desmerecer uma pessoa naquele estado paranóico e ansioso como o meu. Eu precisava de um conforto, de um lugar seguro, mas não queria dividir esse fardo com mais ninguém. Ir para casa era um risco, porque se Max tinha encontrado o meu trabalho, o que mais ele sabia?
Depois de engolir o choro mais uma vez, dei meia volta e refiz o meu caminho com pressa, como se agora tivesse medo de ser pega por algum conhecido ali no meio da rua.
Voltei para o metrô, mas não segui na linha da minha casa. Talvez eu só estivesse a salvo de verdade se eu ficasse em constante movimento, me deslocando de um lugar ao outro até despistá-lo. Afinal de contas, essa era uma das intenções ao me mudar de cidade. Eu podia fazer isso por quanto tempo fosse necessário, mas por dentro, ele ainda me assombrava, ainda estava bem ao meu lado prestes a realizar um grande medo que eu nem sabia qual era.


Capítulo 17

Happy endings cloud your head now
You have put your expectations too high
Sit on the bed, tears running down our eyes
Once upon a time, I wonder why


Supondo que eu estivesse no pleno comando de tudo que acontece comigo, em primeiro lugar, aquele dia teria começado de um jeito completamente diferente, é claro, mas já que as coisas estavam dando errado, eu poderia pelo menos acrescentar alguns contratempos menos desagradáveis. Eu queria ter um pingo a mais de coragem pra ter entrado no estúdio e procurado , mas a verdade é que eu nem saberia por onde começar a contar aquela história. Queria que meu celular tivesse magicamente aparecido na minha bolsa para que eu pudesse ter ligado para Anya pedindo socorro, mas tudo que eu achei ali foi uma cartela esquecida contendo o remédio que me foi prescrito exatamente para aquele tipo de situação. Que conveniente.
E então, eu voltei para casa tomando os maiores trajetos que conhecia. Desci na estação e parei nos bancos frios esperando um, dois, às vezes três trens pararem por ali até decidir entrar no próximo. Andei pela avenida pelo lado oposto em que costumava sempre seguir e entrei no mercado que evitava por ser muito longe de casa quando eu não queria carregar peso na volta. Tive vontade de comprar várias coisas desnecessárias, mas saí de lá apenas com um litro de leite e uma caixa de cereal de chocolate. Não achei que precisasse de uma refeição mais completa que essa.
Parecia uma vida atrás que e eu estávamos no restaurante chinês que vendia pizza boa e cerveja ruim, e eu estava aproveitando cada segundo de uma tranquilidade e paz de espírito que me eram tão desconhecidas que eu quase me sentia estranha ao desfrutar. Pois eu devia ter me agarrado àquela sensação ainda mais. Virei cada esquina ainda com medo, por mais conhecida e segura que fosse, receosa até mesmo que um rosto amigável estivesse à minha espera. Engraçado como, num instante, eu precisava desesperadamente de uma companhia e agora o simples pensamento de encontrar alguém conhecido me aterrorizava, só porque muito provavelmente eu teria que recontar aquela história horrível mais uma vez. Senti refluxo só de imaginar.
Meu coração só parou de bater a mil por hora quando eu comecei a subir as escadas do meu prédio. Senti um vazio no peito no lugar da taquicardia que, na verdade, percebi que era uma falta muito grande de não ter para quem ou para o que voltar para casa no final do dia – poderia ser uma pessoa ou, sei lá, um gato, e eu não tinha nenhum dos dois. havia dado aquela sugestão praticamente um minuto atrás, pelo menos era o que a minha memória me dizia, mas eu não sabia confiar muito bem na minha mente para me dizer em que espaço-tempo eu estava vivendo. Talvez eu teria o meu celular naquele momento, mas dele eu tinha medo de ativar a internet e receber qualquer tipo de mensagem que fui obrigada a evitar durante a manhã e a tarde.
Fui tomar banho com a esperança de me afogar no chuveiro ou de entrar em prantos de um jeito tão intenso que seria impossível distinguir o que era choro e o que era água da torneira. Mas eu simplesmente estava em choque e as minhas reações variavam conforme eu pensava e também me forçava a deixar de pensar no assunto. Cada vez mais eu estava cogitando tomar um dos comprimidos que me fora receitado exatamente para aquele tipo de situação e eu sei que eles me seriam mais do que úteis, mas uma hora ou outra eu teria que confrontar meus próprios pensamentos. Eu teria que confrontá-lo também.
Ainda não era tarde o suficiente para dormir e eu deveria mesmo dar um jeito de verificar se tinha alguma mensagem não respondida no meu celular. Provavelmente sim. Liguei-o, mas desativei a internet antes que eu pudesse aparecer online em qualquer coisa. Ao invés disso, liguei para o primeiro número que me veio à cabeça e desejei com todas as forças do mundo que não fosse em vão.
- Então quer dizer que você ainda está viva? – disse a voz do outro lado do telefone, sempre irônica em relação à mim. – Eu te liguei tantas vezes que achei que tivesse o número errado. Agora vejo que você só estava me ignorando.
- Quando você terminar de desabafar, eu posso dizer boa noite, Axel, e perguntar como você está? – respirei fundo antes de falar qualquer bobagem que pudesse piorar a minha imagem que já era péssima perante a minha família.
- Você acha que pode fazer tudo o que faz e ainda tem o direito de se sentir superior, a dona da verdade? – meu irmão mais velho continuou, depois de soltar uma risada que não tinha nada a ver com qualquer comentário engraçado. – Há quanto tempo você não conversa com a minha avó? Ou com o meu irmão pequeno? Qual foi a última vez que você sequer mandou uma mensagem perguntando se está tudo bem? Eu só consegui o seu número porque nesses últimos cinco meses você teve a decência de mandar duas ou três mensagens para Eric para cordialmente informá-lo que estava se mudando para Espanha, sabe-se lá por quanto tempo ou com quem.
Eu queria vomitar. Eu sentia que iria vomitar de desgosto de mim mesma. Era isso ou meu coração estava prestes a sair pela boca mais uma vez naquele dia. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
- Eu não devia ter ligado... – foi o que eu consegui dizer em meio ao gosto de lágrimas no meu rosto.
Afastei o celular do meu rosto e segurei-o com força, mas sem ter coragem de apertar o botão vermelho na tela para finalizar a chamada. Encarei o nome de Axel na tela e vi alguns segundos se passarem como se fossem uma eternidade, até que ouvi sua voz novamente mais calma falar na linha:
- Não, , você >i>deveria ligar. – ele soltou a respiração de um jeito pesado. – Todos pensam e falam de você o tempo inteiro. Para variar. Nem a minha notícia conseguiu tirar a preocupação que a nossa avó tem com você.
- Aconteceu alguma coisa? – me ergui no sofá, como se me preparasse para ouvir algo ruim.
- Sim, é o que eu tenho tentado te contar... – Axel dessa vez riu com satisfação. – Céline está grávida. E é uma menina, olha só.
- Ai meu deus, Axel!
Meu irmão mais velho era um tanto quanto machista e antiquado, e por isso ele e Céline eram um casal extremamente improvável, afinal, ela era designer de uma marca sustentável – na minha mente criativa, eles eram Elon Musk e Grimes. Eu não gostaria de pensar na criação que a minha futura sobrinha teria sob os cuidados de Axel e longe da minha família materna. Aquela notícia realmente tinha me pegado de surpresa de várias maneiras; senti meu coração se encher de genuína felicidade por ele e por finalmente ter mais uma menina entre nós, mas honestamente? Coitada dessa criança...
- Coitada dessa criança... – eu acabei dizendo em voz alta.
- Ha-ha, vejo que você continua ridícula como sempre.
- Tant pis. – dei ombros como se ele pudesse me ver. – Meus parabéns, Axel, sei que vocês fazem uma família linda, principalmente agora.
- Vou acreditar em você dessa vez. – ele assentiu, dessa vez com um tom de voz mais agradável, finalmente. – Há meses eu tento te ligar. Era só isso? Você só não queria atender?
- Eu... – não sabia o que dizer.> – Acho que não estava pronta para conversar ainda.
- E o que mudou?
- Muita coisa.
- Mudou para melhor ou para pior? – Axel perguntou de bom humor, sem saber a profundidade do próprio questionamento.
Fiquei em silêncio, mas acho que algum ruído parecido com uma resposta deve ter saído da minha garganta e foi o suficiente para ele perceber que eu não entraria em detalhes. Ele era o mais inteligente de nós quatro.
- Você deveria me contar mais sobre como estão as coisas aí. – ele insistiu. – Eu não consigo não ficar preocupado de vez em quando.
- O que você precisa saber? – revirei os olhos, aproveitando que ele não poderia reprovar a minha reação adversa àquela repentina proteção, que nunca antes acontecera entre nós dois. – Eu trabalho, voltei para a faculdade, Anya e Andrej também estão em Barcelona. E eu fiz uma tatuagem. E um piercing. E eu namoro o meu tatuador... Quer dizer, eu acho que namoro...
- Uau. – Axel disse admirado depois de alguns instantes, mas eu sabia que ele estava sendo irônico novamente. – Vai ser muito fácil tomar o seu lugar como neto favorito daqui para frente. Uma tatuagem, piercing e namorando um tatuador depois de tudo. O Natal desse ano vai ser o melhor.
Axel era um completo gilipollas, essa era a verdade. Só ele conseguiria transformar uma pergunta simpática e supostamente preocupada em um assunto completamente egoísta. E eu não sei por que eu continuava surpresa.
- Bom, eu acho que eu vou desligar então... – ameacei, e logo ele protestou.
- Non, non! Antes eu preciso pedir o seu endereço.
- Meu endereço? – repeti a pergunta como se estivesse surda. – E para quê?
- Vovó quer mandar algumas das suas coisas. – ele respondeu rapidamente, quase como se nem quisesse que eu escutasse.
- Quer dizer que ela ‘tá se livrando das minhas coisas, é isso? – perguntei de volta, ignorando a dor que senti no coração e me dei um abraço improvisado.
- , não precisa falar assim. – Axel respirou fundo pela décima quinta vez só naquela ligação, porque parecia que era necessário ter muita paciência para falar comigo. – Você pretende voltar para cá?
Aquela era uma pergunta que ninguém nunca tinha me feito, mas que o tempo inteiro eu me questionava de forma indireta. Num lugar em que eu me sentia tão estranha, estrangeira e sozinha, será que eventualmente eu ia querer chamá-lo de lar por conta própria? E se eu quisesse a minha primeira casa?
- Não. – respondi sem pensar muito. – E acho que não sou bem vinda.
- Isso não é verdade. Se você se desse ao trabalho de mostrar que se importa com as pessoas que te amam, saberia que você é, sim, bem vinda aqui.
Por favor, Axel, logo você não vai me fazer chorar agora.
- Vou mandar pra você meu endereço. Eu bem que sinto falta de algumas roupas.
- Isso não é nada demais, d’accord? Não tem ninguém se desfazendo de você. Algumas decisões precisam ser tomadas para superar fases da vida, só isso.
- Eu sou a única neta, Axel, não uma fase do Mario Kart. – o ressentimento falou mais alto do que eu consegui esconder. – Enfim, divirtam-se empacotando as minhas coisas.
- , esse drama...
Não escutei o resto da frase. Era fácil para ele falar, não era? Era ele apenas dando o recado e, supostamente, não tinha nada a ver com a decisão de me apagar fisicamente da memória da nossa família.
- Tudo bem, Axel. – fingi concordar para terminar aquela ligação, que deveria ter sido conciliadora e até agradável. – Como quiser. Vou te mandar meu endereço, mas acho que agora preciso desligar e adiantar uma leitura da faculdade. De novo, parabéns pelo bebê!
- Obrigado, , esse é o mais feliz que eu já estive na vida e não consigo nem me conter. E você tem que nos ligar mais vezes. Ou nos ligar... ponto final.
É claro que ele não conseguiria terminar a conversa de um jeito cem por cento amigável, mas eu decidi relevar. Na minha cabeça, isso me faria a pessoa mais madura, mas eu sabia que em grande parte daquele assunto ele estava certo; a minha negligência para com a minha família era algo que não dava para desculpar, e eu não queria descobrir até que ponto eu havia perdido certos laços. Porém, ainda era minha responsabilidade correr atrás para reparar o tempo perdido.
Mas a partir de quando? Isso parecia coisa demais para fazer do nada. Com a imagem de Max na cidade, que eu tanto queria que fosse a minha casa agora, eu tinha mais uma distração negativa. Ou será que tinha mesmo? Será que eu precisava ouvi-lo para acabar logo com essa história e saber se ele tinha algo importante para me dizer?
Resolvi que, por enquanto, eu só tinha que ligar logo a internet do celular e mandar o meu endereço para o Axel e acabar com isso de uma vez. Eu já imaginei que pelo menos Anya tivesse me mandado algumas mensagens, mas não achei que fossem tantas e muito menos que o conteúdo delas por notificação fosse alarmante o suficiente para me deixar em pânico.
Por isso, em menos de um segundo, apertei o botão de chamada em vídeo quase deixando o celular cair da minha própria mão.
- Onde é que você estava? - ela me atendeu enquanto mastigava de boca cheia e segurava um punhado de stroopwafels na outra mão, como se fosse um estereótipo ambulante.
- Max foi me procurar no café! – eu falei alto sem pensar duas vezes. Na verdade, eu queria perguntar sobre as mensagens que ela havia me enviado, mas não aguentei.
- O QUE? – Anni praticamente cuspiu o que estava comendo e virou o rosto para o lado. – Andrej!
- Anya, não precisa contar pro seu prédio inteiro. – eu fingi chorar. – E agora me diz por que é que você inventou de seguir aquela garota no Instagram?
- O que foi? Pra que você ‘tá gritando? – a cabeça ruiva de Thor apareceu atrás de Anni enquanto ela perambulava pelo apartamento.
- Max foi atrás da do restaurante. – ela ignorou a minha pergunta.
- O quê? ­– Andrej praticamente imitou a reação de Anya, porém sem os berros. – Ele falou com você?
- Não, foi bem no final do meu expediente e depois eu saí correndo pela porta dos fundos pra ele não me ver. – respondi, inquieta. – Agora, Anya, me diz por que você foi falar com aquela menina no Instagram?
- Que menina? – perguntou o pobre Thor que parecia saber menos que eu.
A garota em questão era a suposta namorada de Max, a que havia me stalkeado, mas convenientemente me bloqueado nas redes sociais para que eu não pudesse ver nada dela. Anya se sentiu no direito de falar com ela por algum motivo e agora dizia ter algum tipo de “informação”, seja lá o que isso quer dizer.
- Você sabe qual, Andrej, aquela que você brigou comigo por eu ficar olhando o perfil... – Anya revirou os olhos ao responder.
- Quer dizer aquela que eu te avisei pra deixar em paz porque esse assunto não era da sua conta?
- Sim, a própria. – Anya então pegou o próprio computador e abriu o perfil dela na rede social.
Ela começou a descrever fotos da menina com Max, e eu não só fechei os olhos como também fechei os ouvidos, se é que isso era possível. Se existia uma sensação que era o oposto à catarse, era aquilo que eu estava experimentando; enquanto Anya falava de todas as evidências que ela colhera de fotos dos dois juntos, há quanto tempo, de lugares em que os dois visitaram, eu apenas me fechei, me encolhi e prendi a respiração, como se aquilo fosse uma injeção muito dolorida e demorada que eu precisasse aguentar para um mal maior passar logo.
- Anni. – eu a interrompi depois de algum tempo. – Vamos direto ao ponto. Você disse que falou com ela. Tem algo que eu deva saber? Algo relevante além de detalhes do namoro deles?
- Tem. – ela respondeu com satisfação e ignorou. – Ela me mandou mensagem. Quer dizer, que tipo de psicopata manda mensagem pra qualquer um que segue no Instagram, não é?
- Não sei, talvez o mesmo tipo de psicopata que enxerga o quão errado é isso que você está fazendo... – comentou Thor em voz baixa enquanto continuava ao lado de Anni, mas com o próprio computador no colo e uma calculadora científica na mão.
- Enfim... – ela fingiu não se importar. – Ela escreveu “salut! Você é prima do Ralph, não é? Me lembro dele da equipe de futebol da escola” ou seja, até aí já podemos concluir que ela estudou em qualquer escola de Montreux, e sabemos que não tem muitas por lá e que ela é mais ou menos da nossa idade, porque conhece mesmo o meu primo Ralph e se lembra dele da época em que ele jogava.
- E como é que isso é uma evidência?
- Calma, , vou chegar lá. – ela me olhou feio, mas eu já me arrependia daquela ligação desde o início. – Bom, eu rendi assunto como quem não quer nada e perguntei quem mais de Montreux ela conhecia, porque não me lembro dela da nossa escola.
- É, eu também não me lembro... – comentei vagamente.
- E ela perguntou se talvez eu conhecia o Max. – Anya soltou a frase como se fosse uma confissão que estivesse presa em seu peito.
Fez-se um breve silêncio entre nós três. Thor parou de alternar a atenção entre o computador e a calculadora e olhou de lado para o celular na mão de Anni, na certa estava tentando ver como eu tinha reagido. Eu gostava de imaginar que o meu rosto estava imperturbável, mas talvez a miniatura da minha própria imagem no cantinho da tela enganasse os meus sentidos. Talvez o peso que eu senti no meu peito tivesse ficado evidente na minha expressão e os dois perceberam na mesma hora.
- Bom, mas isso é óbvio, não? – perguntei forçando uma risada, sem achar graça absolutamente nenhuma. – A gente já tinha deduzido isso.
- Eu disse que conhecia Max há muitos anos, desde o ensino médio, e ela ficou toda animada porque ela sempre gostava de conhecer amigos do namorado. – Anni continuou rapidamente enquanto passava pelas mensagens no computador, e cada vez mais o meu estômago se revoltava. – É claro que eu me fingi de boba e disse que não sabia que Max namorava. Ela disse que os dois estão juntos há pouco mais de um ano e meio.
Se eu tivesse comido o cereal de chocolate mais cedo, ele certamente teria saído do mesmo jeito que entrou. Anya, que até então parecia estar no meio dessa palhaçada só por brincadeira, agora me olhava pelo celular como se eu fosse surtar a qualquer instante. E ela estava certa.
- Você deve ter lido errado. – eu me apressei em dizer. – Ou então ela digitou errado.
- Não foi isso, ...
- Não é possível que eles namorem há um ano e meio. Não é.
- Eu sei.
- Não, não parece que sabe, porque se soubesse, você me diria que ela digitou errado ou que você leu errado essa informação, Anya! – eu comecei a gesticular os braços sem parar como se isso pudesse aliviar o meu nervosismo. – Eles não podem estar namorando há esse tempo todo porque isso significa que ele estava namorando nós duas ao mesmo tempo e até mesmo Max não chega a ser tão mau caráter assim!
Vi pela câmera Andrej se levantar e pegar o computador do colo de Anya e dizer chega bem baixinho. Eu comecei a sentir os efeitos daquilo que pensei que fosse uma crise de ansiedade, como suor frio, taquicardia e visão turva. Por algum motivo, me lembrar que eu estava em casa e nada poderia me acontecer ali, foi o suficiente para desacelerar a minha respiração. Era horrível pensar que eu dependia da sorte para poder lidar com sucesso com momentos como aquele.
- , a gente já sabe há meses que ele foi um covarde, a pior pessoa do mundo com você, ele te tornou emocionalmente dependente, triste...
- Vai por mim, Anni, você ficar citando essas coisas não me ajuda nem um pouco. – balancei meu rosto em negação. – E saber disso é muito diferente. Se ele realmente estava com outra pessoa por meses enquanto estava comigo, eu preciso, sim, saber. É outra situação. Eu nunca achei que Max fosse uma pessoa ruim nesse nível.
- E isso quer dizer o quê? Que da próxima vez que ele te procurar, você não vai fugir, que você vai falar com ele?
- E daí se for isso mesmo? – perguntei com irritação.
- , por que você se importa com esse homem à essa altura? – ela praticamente choramingou do outro lado da câmera.
- Anya, parece que você tem duas personalidades quando fala comigo! – deixei a minha voz se elevar a um quase-grito sem querer, tamanha a minha frustração com a minha melhor amiga. – Você não pode passar semanas, senão meses, dizendo que eu tenho que encarar esse problema e depois dizer “ah, bom, é melhor deixar isso pra lá” quando eu finalmente tenho a chance de confrontá-lo em pessoa. Isso é por que você acha que pode resolver as coisas melhor do que eu? Eu sou uma incapaz co-dependente que virou uma coitada depois do estrago que Max fez?
- Não foi isso que eu disse... – Anya abaixou a voz. Mas foi o que pensou, eu quase completei, mas achei melhor ficar calada, porque a nossa discussão já tinha escalado o suficiente e eu sabia que terminaria muito mal. – Por que você se importa tanto com Max até hoje? Você sente algo por ele, o não significa nada?
Aquilo foi... Demais.
- Anya, eu me importo porque eu me importo. No dia que você for enganada e feita de otária e, muito provavelmente, corna por um ano, você que lide com isso como bem entender. Eu estarei lá pra te apoiar. Isso não tem absolutamente nada a ver com e eu não consigo mais ter essa conversa. – eu sem querer larguei o celular no sofá onde eu estava sem nem perceber que havia me sentado ali. – Eu vou desligar.
Essa última frase eu disse alto o suficiente para ela me ouvir. Estiquei a minha mão e apertei o botão vermelho para encerrar a chamada de vídeo e contemplei meu apartamento vazio. Nos filmes e séries, a gente sempre vê a personagem pegando um travesseiro e gritando nele e eu até pensei em fazer isso, mas me pareceu que eu só babaria em cima da fronha, no final das contas. Muito pouco prático.
O remédio, que continuava no fundo da minha bolsa, ah esse sim me parecia convidativo. Me levantei do sofá enquanto escutava o meu celular seguir vibrando e eu sabia que era Anya me chamando novamente, mas eu ia continuar ignorando toda e qualquer chamada dela ou de Andrej, pelo menos até amanhã. Não conseguia me lembrar de nenhuma ocasião em que nós duas havíamos brigado nos últimos anos, ou sequer de uma conversa em que nossos pontos de vista divergiram tanto que chegamos ao ponto de nos estranhar. Aquilo pareceu uma briga porque foi desgastante como uma. E doeu como uma.
Peguei a cartela de nome engraçado com Z e tomei logo 2, porque julguei (errado) que eu estava tensa de um jeito que apenas um comprimido não daria conta. E quem sabe assim o efeito seria mais rápido.
O barulho do celular vibrando me incomodava porque aquilo significaria Anya não sabendo aceitar um não. Voltei ao sofá e tamanha foi a minha surpresa quando vi o nome de na tela e a foto dele no fundo da chamada.
- Holi... – atendi como se já pedisse desculpas.
- Oye, te vi en línea por um tempão, mas você não respondeu as minhas mensagens – ele parecia sorrir enquanto falava, mas ao mesmo tempo um pouco sem graça. – E você sumiu o dia inteiro. Quero muito pensar que eu não fiz algo de errado, mas...
- No te preocupes, eu não tive um dia muito bom. – fui até o quarto e deitei na cama em pleno escuro. – Na verdade, meu dia foi horrível e foi ficando cada vez pior. Eu queria ter te chamado antes.
- Está em casa? – ele perguntou por cima de um barulho que parecia trânsito.
- Sim.
- Bom, eu dei um tiro no escuro e resolvi sair da minha e ir te procurar... – parecia confessar algo que o deixava morrendo de vergonha, e eu achei aquilo a coisa mais linda do mundo. – Espero que não te pareça muito stalker.
Eu daria todo o meu dinheiro para não ouvir aquela palavra novamente...
- Você está vindo pra cá? – perguntei deixando um sorriso escapar.
- Sim. – ele respondeu tentando falar mais alto que o barulho externo. – Acabei de trocar de estação. Faltam só três até Tetuan.
- Argh, só tem um problema. – me encolhi pensando na única chance daquela noite terminar bem. – Eu tomei um remédio para ansiedade e ele deve me apagar.
- ! Você tomou droga? – fingiu estar escandalizado e eu sabia muito bem a cara que ele estava fazendo.
- Claro que não! Eu tomei um remédio que tem o meu nome na receita e que me foi prescrito de forma responsável.
Tirando a parte em que eu não tomei a quantidade certa, é claro, mas isso ele não precisava saber.
- Qual remédio é esse e quantos você tomou?
Bom, talvez ele fosse saber sim...
Falei o nome do remédio, a dosagem e disse que havia tomado dois. Foi o suficiente para que soltasse uma risada divertida antes de me explicar qual a graça.
- Nas mãos erradas, isso é droga, sim!
- Quer dizer nas suas mãos? – perguntei já imaginando o que ele pretendia. – , isso vai me fazer dormir.
- Vai te fazer dormir se você ficar deitada de olhinhos cerrados, . – ele me explicou como se eu fosse uma criança. – Se você ficar acordada comigo, vai ser muito diferente. Agora vai se arrumando que a gente vai sair.
- Você não está sugerindo que eu te dê do meu remédio... Está? – perguntei mesmo sabendo que a resposta era afirmativa.
- Eu só estou pedindo e dizendo que vai ser ótimo. – ele respondeu muito perspicaz. – Se você não quiser me dar do remédio, eu tenho outra coisa comigo.
Que ótimo...
- Tudo bem, mas eu não consigo me arrumar com tanta pressa assim. – eu me levantei da cama num salto.
- No te preocupes, eu tive uma ideia e antes vou passar na casa de um amigo no caminho.
- Que ideia? – perguntei apreensiva – É pra eu usar que tipo de roupa?
- Jeans, de preferência que você possa jogar fora caso algo aconteça. – ele respondeu prontamente e eu me perguntei se ele estava falando sério, para variar. – Blusa de frio porque não ‘tá mais quente. Tênis.
- Vale.
- Chego aí en um rato, tenho que entrar no metrô.
Antes que eu pudesse me despedir, vi que ele já havia desligado.
Percebi que estava rindo sem motivo algum enquanto estava trocando de roupa; só a expectativa de fazer algo completamente inesperado com àquela hora na verdade pareciam suficientes para me deixar eufórica. Conferi várias vezes no espelho se a calça jeans que mal servia em mim estava bonita, e se a blusa de mangas compridas que eu usava de pijama era aceitável. Não sabia se eu deveria levar bolsa ou não, mas por via das dúvidas coloquei meu celular, chaves, carteira e o maldito remédio numa mochila pequena que era mais bonitinha do que prática de verdade.
Desci para a portaria e só senti meu coração se acalmar de verdade quando vi a figura alta de virar a esquina em direção ao meu prédio. E pouco depois do meu corpo se aquietar, os efeitos interessantes do remédio começaram.


Continua...



Nota da autora: Olá! Espero que estejam bem, saudáveis e seguras em casa (quem pode, é claro). Tomara que gostem do capítulo e até a próxima atualização. Se cuidem <3


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus