Capítulo 01
O homem à minha frente falava sobre seus investimentos. Ou talvez fosse sobre vinhos — confesso que perdi a linha quando ele começou a repetir, com a mesma entonação automática, frases que soavam ensaiadas, copiadas de algum manual digital de como impressionar em encontros.
O restaurante era chique, a luz amarelada refletia em taças de cristal, e eu me sentia deslocada, como sempre. Ele sorria de vez em quando, mas não era para mim; era para a ideia de si mesmo que tentava vender.
Eu sorria de volta, por educação. Não porque queria.
Um vazio latejava dentro do meu peito, o mesmo que me acompanhava desde criança — como se faltasse algo que nunca encontrei, como se eu tivesse nascido em um lugar errado, em um tempo errado. Como se houvesse uma ausência em mim tão antiga quanto minha própria memória.
Enquanto ele falava, eu pensava em como esse cenário era previsível: restaurantes caros, conversas ocas, alguém esperando que eu me apaixonasse pelo currículo e não pela pessoa. Havia sempre algo… faltando. Um pedaço invisível da minha vida que eu não sabia nomear.
— Eu preciso acordar cedo amanhã — interrompi, quando ele começou a listar lugares “obrigatórios” para nossa próxima saída. — Tenho papéis para revisar.
Foi a desculpa mais fácil que encontrei, embora a verdade fosse bem mais simples: eu não aguentava mais.
Ele pareceu surpreso, mas assentiu, e eu escapei antes que ele pudesse insistir. Na rua, o vento frio da noite me acertou de cheio, e pela primeira vez naquele dia respirei fundo, como se estivesse devolvendo oxigênio aos pulmões depois de horas contidas.
Voltei para casa com o peito apertado, tentando entender por que ultimamente parecia que eu não lembrava direito dos últimos anos. Tudo era rotina, dias que se repetiam como se alguém tivesse dado um “copiar e colar” na minha vida. Trabalho, compromissos, encontros insossos. Às vezes me perguntava se estava depressiva. Talvez estivesse. Talvez fosse apenas a monotonia.
Quando cheguei ao prédio, subi, joguei a bolsa no sofá e, antes de entrar, parei um instante na varanda.
O céu estava escuro, recortado por poucas estrelas. Olhei para ele e senti uma pontada súbita, um déjà-vu tão forte que me fez estremecer. Uma lembrança que não vinha inteira, só a sensação: eu já tinha olhado para aquele mesmo céu antes, mas não sozinha.
Com quem?
A pergunta ficou suspensa dentro de mim, ecoando como um segredo que a memória se recusava a devolver.
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P.o.v Martha
Meu nome é Martha. Cinquenta e dois anos, casada há quase trinta, três filhos já crescidos, todos seguindo a própria vida. Eu precisava do emprego. Não que passássemos fome, mas as contas da casa cresciam mais rápido do que o salário do meu marido, e eu já não suportava a ideia de me sentir inútil dentro de casa. Então, quando vi o anúncio vago de “assistente pessoal” em Londres, aceitei a entrevista sem pensar duas vezes.
Foi em um café apertado, numa esquina que mal aparecia no mapa. Ele chegou atrasado, o que normalmente me faria desistir. Mas bastou ele entrar pela porta para que o ambiente inteiro parecesse se curvar.
Bonito, alto, elegante de um jeito meio fora de época, com roupas que pareciam compradas em brechós chiques e, ainda assim, impecáveis. Seu olhar era intenso demais, como se tivesse visto mais do que deveria. Parecia ser um velho no corpo de um jovem. Sua fala era polida, precisa, quase antiquada.
— Pode me chamar de Doutor. — Foi tudo o que disse sobre si mesmo.
Nenhum sobrenome, nenhum currículo, nada de explicações. Eu deveria ter achado estranho, mas a forma como pronunciou as palavras, grave e solene, me fez apenas assentir.
Naquela mesma semana comecei a trabalhar.
Os dias passavam lentos no apartamento que também era escritório. Era espaçoso, mas sempre silencioso, como se ninguém de fato morasse ali. O Doutor saía cedo, voltava tarde, raramente falava comigo. Eu já havia limpado cada canto, separado correspondências, catalogado caixas, e ainda assim me sentia invisível naquele lugar.
— Organize as correspondências por ordem de importância. — Ele me explicou logo no primeiro dia, guiando-me por uma sala enorme e abarrotada de gavetas, pilhas de papéis e armários antigos. — Envie o que for urgente, guarde o que não for, e… não mexa no que estiver lacrado.
Enquanto falava, observei os detalhes: prateleiras cobertas de livros empoeirados, relógios quebrados, fotografias antigas de lugares que não reconhecia e mapas de regiões que nem sabia se existiam. Parecia mais um arquivo morto de um governo secreto do que o escritório de um pesquisador.
Por alguns segundos, me peguei pensando, com humor desconfortável: Será que acabei entrando num esquema de lavagem de dinheiro? Ou corrupção? Ele tinha cara de quem escondia algo. Cara, postura, silêncio.
Mas a verdade é que não havia nada de perigoso nele. Apenas… mistério. Um mistério que parecia se prolongar nos corredores vazios da casa.
E foi esse silêncio que me levou a explorar.
Certo dia, sem nada a fazer, subi até o sótão. O espaço estava abarrotado de móveis cobertos por lençóis, malas antigas e caixas empilhadas. A poeira era tanta que parecia neve sobre o chão.
E então encontrei.
No fundo de um armário de madeira, escondida atrás de uma pilha de livros, havia uma caixa diferente das outras. Pequena, de papelão gasto, selada com fita amarelada. O curioso é que, ao contrário das correspondências soltas e amassadas que eu organizava todos os dias, essa estava cuidadosamente endereçada:
Para: .
O nome se repetia em dezenas de envelopes dentro da caixa, em caligrafia firme, quase apaixonada. Não era nada parecido com os relatórios técnicos que eu separava para ele. Eram cartas pessoais.
Fiquei ali parada, segurando a caixa como se pesasse toneladas. Eu deveria devolvê-la ao armário. Fingir que não vi. Era o que ele havia me pedido desde o começo. Mas havia algo magnético nela. Quem era ? Por que tantas cartas nunca enviadas?
Eu me convenci de que só estava… cumprindo meu papel. Eu era a secretária dele, afinal. Se havia correspondência endereçada, deveria ser enviada. Talvez fosse até uma forma de ajudá-lo com algo que ele não tinha coragem de resolver.
Naquela mesma noite, deixei a caixa com cuidado na porta de um prédio comum, no coração da cidade. Toquei a campainha, dei dois passos para trás, e esperei até ouvir passos do outro lado.
Depois virei as costas e fui embora, com o coração batendo mais rápido do que deveria.
A caixa agora estava nas mãos de .
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O dia tinha sido longo, igual a todos os outros. Escritório, planilhas, reuniões que poderiam ter sido um e-mail. Quando voltei para casa, já passava das oito, e a única coisa que eu queria era um banho quente e esquecer que existo.
Subi as escadas carregando a bolsa no ombro e um saco de compras na outra mão. Foi então que vi.
Uma caixa estava encostada na minha porta. Pequena, de papelão já meio gasto, mas ainda lacrada com fita antiga. Por um instante pensei que fosse entrega errada. Mas, ao me aproximar, percebi meu nome escrito com clareza no topo.
.
Não só meu nome — meu nome completo. E quase ninguém o usava.
O coração acelerou de um jeito estranho. Coloquei as compras no chão, fiquei ali, observando aquela coisa parada como se fosse uma bomba prestes a explodir. Toquei a superfície áspera do papelão, sentindo a poeira grudar nos dedos.
Olhei ao redor do corredor. Nada. Apenas portas fechadas, silêncio.
Peguei a caixa, levei para dentro e deixei em cima da mesa da sala. Não abri.
Fui tomar banho, preparar um chá, qualquer desculpa para não encarar aquilo. Mas a presença da caixa parecia maior que o próprio apartamento. Como se ocupasse todos os cômodos, como se me chamasse em silêncio.
De vez em quando eu passava por ela e sentia o peso da fita antiga segurando o que havia dentro. O que poderia ser tão importante para alguém lacrar assim, e ao mesmo tempo pessoal o suficiente para trazer meu nome escrito à mão?
Não lembrava de ter me inscrito em nada. Não esperava presentes, nem encomendas.
Sentei no sofá, chá nas mãos, e tentei assistir a qualquer coisa na televisão. Não consegui.
A caixa estava ali. Olhando para mim.
Pela primeira vez em semanas, senti que algo diferente acontecia na minha vida — e isso, ao invés de me animar, me deu medo.
Não abri. Ainda não.
Mas sabia que não iria conseguir resistir por muito tempo.
A caixa permaneceu sobre a mesa como um objeto qualquer. Eu quase consegui ignorá-la. Tomei banho, vesti meu pijama surrado, bebi o chá já frio e me encolhi na cama, disposta a apagar do mundo.
Quase consegui.
Quando meus olhos começaram a pesar, quando o corpo já cedia ao cansaço, a lembrança da caixa me atravessou como um raio. Senti o coração disparar sem motivo aparente, como se alguém tivesse sussurrado meu nome no escuro.
Virei de um lado para o outro, tentei convencer a mim mesma de que poderia esperar até amanhã. Mas não consegui.
Levantei, descalça, sentindo o frio do chão no corredor até a sala. A caixa ainda estava ali, intacta, silenciosa. A fita adesiva amarelada parecia frágil, mas resistia como se guardasse segredos demais.
Sentei-me à mesa e, com todo o cuidado, rompi o lacre. Dentro, dezenas de envelopes alinhados como soldados. Cada um trazia meu nome escrito em uma caligrafia firme, elegante, quase artística. Não reconheci a letra.
Peguei o primeiro envelope do topo. Notei que era recente — a tinta ainda nítida, o papel branco. Mas algo em mim hesitou. Virei a pilha de cartas e decidi começar pela mais antiga. Pela primeira.
Abri com cautela, como se o papel fosse vidro prestes a estilhaçar.
A carta dizia:
"Dez dias após o acidente. Já estou morrendo de saudade de você. Esqueci o quanto essa maldição poderia me tornar solitário, mas lembrei agora, enquanto estou longe de você.
Se eu tivesse tomado mais cuidado, você estaria aqui comigo neste instante. Estaríamos conversando sobre suas séries televisivas favoritas e seus livros modernos que mais parecem histórias de dormir. E olha que eu nem sou acostumado a dormir.
Daria tudo para vê-la novamente. Mas talvez tudo isso tenha sido ótimo para você. Talvez você volte à sua vida comum, esqueça de mim e, quem sabe, conheça outra pessoa, que lhe faça ainda mais feliz. Não que eu não a tenha feito feliz nesses últimos meses, mas agora sua felicidade virá acompanhada de tranquilidade.”
Larguei a folha sobre a mesa e fiquei encarando as linhas como se fossem um enigma.
Era impossível. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Talvez uma amiga do trabalho tentando me assustar, ou algum desconhecido do aplicativo de encontros fazendo uma piada de mau gosto.
Quem, em sã consciência, escreveria tantas cartas para mim? E de onde vinha esse tom de intimidade?
Suspirei, fechei os olhos, mas a letra dele ainda pulsava na minha mente, clara, nítida, impossível de esquecer.
Não podia ser real.
E, no entanto, algo em mim — algo pequeno e incômodo, escondido bem fundo — sussurrava que era.
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Minhas mãos tremiam levemente quando abri o segundo envelope. O papel tinha um cheiro leve de tinta seca e poeira antiga. A letra era a mesma: firme, alongada, elegante demais para ser de alguém comum.
Comecei a ler:
"Não sei bem o porquê escrevo. Não é para enviar, tampouco para aliviar qualquer dor — porque a dor, sei, permanecerá. Escrevo porque não posso confiar apenas na memória. Ela falha. Ela me trai. E você não merece ser perdida dentro desse vazio.
Desde o primeiro dia em que nos esbarramos, você começou a cobrir minha vida de bilhetes. Post-its coloridos espalhados como pequenas armadilhas de ternura. O seu apartamento parecia uma colmeia de recados:
‘Não esquecer de alimentar a Lisa.’
‘ gosta do café puro e sem leite para começar o dia.’
‘Volto em cinco minutos, não me procure.’
Às vezes ríamos disso. Você dizia que eu parecia incapaz de me lembrar das coisas mais simples, e eu retrucava que, no fundo, queria apenas guardar a sua letra em todos os cantos. Talvez tenha funcionado, porque nunca mais esqueci de nenhuma dessas minúcias.
E é por isso que escrevo. Para não esquecer. Para que seu nome, sua voz, seu olhar não se apaguem nas rachaduras do tempo em que vivo. Porque você não merece o esquecimento, . Você merece me perseguir até o fim dos meus dias. Você merece que eu seja perturbado pela sua ausência como se fosse uma presença eterna.
Estas cartas não são confissões. São memoriais. São minha forma desesperada de fixar a sua existência no papel, já que não posso tê-la ao meu lado. Escrevo para que você nunca se dissolva no tempo, ainda que apenas para mim.
Sei que jamais lerá isto. E, no entanto, continuo.”
Deixei a carta repousar sobre a mesa. A respiração me falhava.
Era tão íntimo. Tão detalhado.
Lisa: A minha gata. Café sem leite: meu ritual matinal desde sempre. Como ele poderia saber?
Não fazia sentido. Nenhum.
A razão me dizia que aquilo era apenas uma brincadeira elaborada, mas o coração latejava como se reconhecesse uma verdade que minha mente ainda se recusava a aceitar.
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Não consegui parar.
Abri uma terceira carta, depois uma quarta, depois perdi a conta. Minhas mãos corriam pelo papel, mas minha mente tropeçava a cada frase. Ele escrevia sobre mim com uma precisão que beirava o impossível. Não apenas os detalhes visíveis — o café puro, a calopsita de infância, a mania de deixar bilhetes — mas coisas que nunca dividi com ninguém.
Medos que nunca ousei confessar. O hábito de olhar para o céu noturno quando não consigo dormir. A sensação persistente de não pertencer a este mundo.
Fechei os olhos e uma onda de vertigem me tomou. Levantei, andei pela sala como uma fera enjaulada, os olhos percorrendo cada canto. Olhei para as prateleiras, atrás dos quadros, nos cantos escuros — à procura de câmeras escondidas, microfones, qualquer explicação plausível.
Nada. Apenas meu apartamento.
Mas e se não fosse?
Voltei à mesa. Outra carta. A caligrafia me puxava de volta, cada curva das letras parecia um convite. Era como se ele fosse um lord de outro século, um desses homens renascentistas que escreviam sonetos para suas amantes proibidas. Quem hoje escrevia assim? Quem hoje expunha sentimentos com tamanha devoção, sem medo de parecer ridículo?
O medo crescia dentro de mim, mas junto dele vinha um fascínio irresistível. Nunca conheci alguém que encarasse o próprio coração de forma tão nua, tão sem armaduras. Principalmente não um homem.
Era lindo. Assustador, mas lindo.
Dei por mim lendo em voz baixa, como se as palavras precisassem ser ditas para existir de verdade.
A cada carta, a mesma dualidade me consumia: parte de mim queria que fosse um delírio, uma pegadinha de mau gosto. A outra parte… desejava desesperadamente que fosse real.
E quanto mais lia, mais impossível parecia parar.
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P.o.v Martha on
O vento de Londres parecia sempre mais frio depois de viagens longas, e ainda assim ele entrava pela porta como se nem tivesse percebido o inverno. Alto, elegante, o sobretudo escuro balançando até ele pendurá-lo com um gesto distraído.
— Boa noite, Martha. — disse apenas, sem olhar muito.
— Boa noite, Doutor. — respondi, fechando a porta atrás de nós. — Espero que a viagem tenha sido… produtiva.
Ele assentiu, mas não deu detalhes. Nunca dava.
Nos últimos dias eu havia aprendido que o Doutor falava pouco e, quando falava, não era exatamente sobre o que você perguntava. Era como conversar com alguém que escondia metade das palavras numa gaveta invisível.
Enquanto ele ajeitava papéis sobre a mesa, fui até a pequena cozinha e preparei chá. Eu havia decidido que, mesmo que ele fosse uma esfinge em forma de gente, alguém precisava quebrar aquele silêncio sepulcral.
Coloquei a bandeja sobre a mesa e servi duas xícaras.
— Engraçado — comentei, tentando parecer casual —, eu nunca sei ao certo qual é o seu trabalho. Viaja tanto, volta com tanta papelada estranha…
Ele ergueu o olhar para mim, sério, mas não zangado. Os olhos dele eram de um azul tão profundo que por um instante tive a sensação de estar sendo medida, catalogada.
— Meu trabalho não cabe em uma definição simples. — disse, com aquela voz grave que fazia tudo soar como sentença. — Vamos dizer apenas que eu… coleciono histórias.
Aquilo não era resposta. Mas eu não estava disposta a desistir.
— Histórias? — insisti. — Parece um jornalista. Ou um espião.
Ele sorriu de canto. Foi a primeira vez que vi algo que poderia se chamar de humor nele.
— Às vezes, Martha, a diferença entre os dois é apenas uma questão de perspectiva.
O chá esfriava. Eu o observava em silêncio, ainda que minha mente fervesse de perguntas. Onde ele ia? Por que sempre parecia carregar um peso invisível? E, sobretudo, quem era , o nome que eu vira repetido tantas vezes naquelas cartas escondidas?
Mas não perguntei. Ainda não.
Ele bebia devagar, o olhar perdido na janela como se buscasse algo que ninguém mais poderia ver.
E eu, pela primeira vez, tive a estranha impressão de estar diante de um homem que carregava séculos nos ombros — e que, mesmo assim, nunca parava.
P.o.v Martha off
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Na manhã seguinte, acordou antes do despertador. O sol atravessava a cortina com um brilho quase líquido, e por um instante ela achou que o quarto estava coberto por reflexos de cristal. Piscou, e era só luz normal.
Fez café, como sempre. Mas quando encostou a xícara nos lábios, sentiu um arrepio no pé descalço, como se ainda estivesse pisando em algo frio e cortante. Recuou, deixando o líquido pingar sobre a mesa.
— Eu tô ficando louca — murmurou, limpando apressada com um pano de prato.
A caixa ainda estava sobre a mesa da sala. Por um momento, pensou em fechar tudo e jogar fora. Tentava esquecer de tudo, mas as palavras nas cartas era tudo o que pensava.
bateu a mão na mesa com força, fazendo a xícara chacoalhar novamente.
— Não! — a palavra escapou quase como um grito. — Isso não é real. Não pode ser.
Andava de um lado para o outro, respirando rápido. O coração pulava, mas a raiva era maior que o medo.
“Um mar de vidro? Guardiões de luz? Cidades suspensas em raízes gigantes?” — ela pensava, quase cuspindo as palavras. — “Que tipo de gente acha que isso é engraçado?”
A gata, Lisa, levantou a cabeça do sofá e miou baixinho, como se respondesse ao desabafo. se jogou ao lado dela, afundando o rosto nas mãos.
— Minha vida é aqui, entende? — disse para a gata, a voz falhando. — Eu tenho boletos, reuniões às duas da tarde, fila no mercado. Não… não um homem misterioso com vocabulário elegante, não viagens malucas. É só eu. Só eu e você. — Acariciou as costas de Lisa, buscando firmeza no ronronar.
Mas o peito continuava apertado. A cada vez que fechava os olhos, surgiam flashes que não podiam estar ali: ondas de cristal vibrando como música, a queda livre em direção ao vazio. Imagens tão vívidas que chegavam a doer.
— Chega — sussurrou. — Quem fez isso está rindo da minha cara.
Levantou-se de repente, decidida.
Foi até a porta do apartamento, mãos ainda trêmulas. O vizinho do 402, o senhor Clemente, tinha câmera no corredor. Sempre orgulhoso da “segurança” que o equipamento lhe dava, vivia mostrando trechos inúteis — entregadores de comida, a senhora do 401 reclamando do elevador.
respirou fundo, o nó no estômago apertando.
— Pois então eu vou ver quem deixou isso aqui. Quem me deixou essa porcaria de caixa.
Apertou a campainha do vizinho, tentando parecer firme, mas a voz saiu arranhada quando ele atendeu pelo olho mágico:
— ? Está tudo bem?
Ela forçou um sorriso que não sentia.
— Preciso ver as gravações da sua câmera. Alguém deixou um pacote na minha porta… e eu quero saber quem foi.
O senhor Clemente, com sua habitual cerimônia, passou o vídeo duas, três vezes. mal respirava, os olhos grudados na tela do celular dele.
Era noite, como lembrava. O corredor vazio. E então, às 21h07, uma mulher apareceu.
Meia-idade, casaco comprido, andar tranquilo demais para alguém deixando uma caixa clandestina. A câmera, apesar da resolução ruim, captou o detalhe: ela não parecia nervosa. Só depositou o pacote diante da porta de , ajeitou-o com cuidado, como quem coloca flores num túmulo.
engoliu em seco. Não a conhecia. Nunca a tinha visto no prédio, nem no bairro.
— Estranho, não é? — comentou Clemente, curioso. — Parece que sabia exatamente pra onde vinha.
O carro estacionado na calçada, porém, não passou despercebido. O reflexo da placa brilhava no canto do vídeo. anotou os números com a mão trêmula, agradeceu apressada e voltou para o apartamento, o coração em disparada.
Lisa a seguiu até o computador, miando impaciente por comida.
— Espera, gata, espera… — digitava como quem tenta abrir uma fechadura antes que o ladrão volte.
Sites de busca. Fóruns obscuros. Demorou, mas conseguiu: a placa correspondia a um veículo registrado em nome de Martha Golding.
O nome não significava nada. Uma estranha completa. Ainda assim, os dedos dela já estavam no teclado, correndo para o Facebook.
E lá estava: perfil público, algumas fotos com paisagens, outras com livros em mesas de café. Uma vida comum, ao menos no que aparecia.
hesitou. O cursor piscava no campo de mensagem.
Não faça isso, dizia uma parte dela. É loucura, você nem sabe se essa mulher existe de verdade.
Mas a outra parte, a que ainda sentia o frio do Mar de Vidro nos pés, venceu.
Digitou:
“Oi, Martha. Desculpa a intromissão, mas há alguns dias atrás, à noite, eu vi você deixando uma caixa na porta do meu apartamento. Quem é você?”
Por um instante, ficou encarando a tela. A mensagem enviada parecia gritar em letras vermelhas.
A gata pulou no colo dela, como se quisesse impedir que fosse mais longe.
Mas já era tarde.
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O bairro parecia silencioso demais para uma tarde de sábado. conferiu o endereço pela terceira vez no celular antes de parar diante da porta azul desbotada. A placa de ferro no muro confirmava: 38A.
Bateu. A porta se abriu quase no mesmo instante, como se já a esperassem.
— . — Martha sorriu de maneira discreta, como quem reencontra alguém que conhece há muito tempo. — Que bom que veio.
O interior da casa era acolhedor, simples: móveis de madeira antiga, prateleiras abarrotadas de livros, algumas fotografias em molduras discretas. Nada gritava “mistério”. O cheiro de chá recém-feito impregnava o ar.
— Moro com meu marido — explicou Martha, recolhendo uma manta esquecida no sofá. — Ele ainda está no trabalho. Meus filhos já são grandes e moram sozinhos.
se sentou, sem tirar o casaco. O corpo inteiro dizia que devia desconfiar.
— Você sabe por que estou aqui, não é? — perguntou, a voz trêmula, quase desafiando.
Martha assentiu. Colocou uma bandeja sobre a mesa baixa: duas xícaras fumegantes, como se tivesse previsto que aceitaria.
— Trabalho com o Doutor há algum tempo. Não é um trabalho que se explique num currículo. Ele é… curioso. Anda pelo mundo, observa, entende… às vezes conserta.
se inclinou para frente, a desconfiança queimando no olhar.
— E a caixa? Por que estava na minha porta?
Martha respirou fundo antes de responder.
— Porque era sua. Sempre foi. O Doutor escreveu aquelas cartas para você. Mas nunca teve coragem de entregá-las. Eu as encontrei guardadas, esquecidas entre documentos. Achei que seria errado deixá-las se perder.
— Isso é ridículo. — apertou os dedos no colo. — Eu não conheço esse homem. Nunca vivi nada daquilo.
Martha a observou com paciência.
O relógio na parede marcava os segundos como marteladas.
— Quem é ele, afinal? — insistiu, quase num sussurro. — O que ele quer de mim?
Martha desviou o olhar para a própria xícara.
— Eu não conheço o Doutor tão bem assim. Não queria me complicar. Sou só uma secretária… organizo coisas, passo recados. Eu não devia ter mexido nas coisas dele. Mas, quando vi aquela caixa, imaginei que fosse destinada a alguém importante.
A garganta de apertou. O déjà-vu das cartas voltou com força, junto à estranha dor de reconhecer memórias que nunca vivera.
— Você trabalha para alguém e não sabe o que ele faz? — a voz dela saiu incrédula. — E se for um assassino?
Martha respirou fundo.
— Olha, senhorita … já trabalhei com políticos e líderes de Estado. E se tem algo que essas pessoas prezam acima de tudo é privacidade. Eu estou lá para cumprir meu papel, não para fuçar.
(“Mas fuçou, né?”, pensou , amarga.)
— Só sei de uma coisa: vi em alguns documentos que ele lida com ciência. Não havia nome, nem sobrenome. Mas tudo apontava para pesquisas, tecnologia, teorias além da minha compreensão.
Um cientista. A palavra ecoou dentro de , desconfortável e magnética.
— E onde ele está agora? — perguntou, firme.
Martha sorriu com uma tristeza suave.
— Onde sempre esteve: em movimento. O Doutor nunca para. Mas sempre encontra um lugar para voltar.
varreu a sala com os olhos, como se cada livro ou fotografia pudesse guardar uma pista escondida. Não encontrou nada. Só o chá esfriando rápido demais.
Sentiu o impulso se formar antes mesmo de pensar: precisava encontrá-lo. Não por Martha, nem pelas cartas, mas porque nada faria sentido até que pudesse olhar nos olhos dele e perguntar por si mesma.
Apoiou a xícara na mesa com decisão.
— Se ele voltar… me avise. Quero encontrá-lo. — Pausou, tentando aliviar a tensão. — Não se preocupe, não vou colocar a culpa em você.
Martha apenas assentiu. Mas no fundo dos olhos dela, jurou ver um lampejo de dúvida — como se a simples promessa de “não se preocupar” fosse a mais frágil das mentiras.
O restaurante era chique, a luz amarelada refletia em taças de cristal, e eu me sentia deslocada, como sempre. Ele sorria de vez em quando, mas não era para mim; era para a ideia de si mesmo que tentava vender.
Eu sorria de volta, por educação. Não porque queria.
Um vazio latejava dentro do meu peito, o mesmo que me acompanhava desde criança — como se faltasse algo que nunca encontrei, como se eu tivesse nascido em um lugar errado, em um tempo errado. Como se houvesse uma ausência em mim tão antiga quanto minha própria memória.
Enquanto ele falava, eu pensava em como esse cenário era previsível: restaurantes caros, conversas ocas, alguém esperando que eu me apaixonasse pelo currículo e não pela pessoa. Havia sempre algo… faltando. Um pedaço invisível da minha vida que eu não sabia nomear.
— Eu preciso acordar cedo amanhã — interrompi, quando ele começou a listar lugares “obrigatórios” para nossa próxima saída. — Tenho papéis para revisar.
Foi a desculpa mais fácil que encontrei, embora a verdade fosse bem mais simples: eu não aguentava mais.
Ele pareceu surpreso, mas assentiu, e eu escapei antes que ele pudesse insistir. Na rua, o vento frio da noite me acertou de cheio, e pela primeira vez naquele dia respirei fundo, como se estivesse devolvendo oxigênio aos pulmões depois de horas contidas.
Voltei para casa com o peito apertado, tentando entender por que ultimamente parecia que eu não lembrava direito dos últimos anos. Tudo era rotina, dias que se repetiam como se alguém tivesse dado um “copiar e colar” na minha vida. Trabalho, compromissos, encontros insossos. Às vezes me perguntava se estava depressiva. Talvez estivesse. Talvez fosse apenas a monotonia.
Quando cheguei ao prédio, subi, joguei a bolsa no sofá e, antes de entrar, parei um instante na varanda.
O céu estava escuro, recortado por poucas estrelas. Olhei para ele e senti uma pontada súbita, um déjà-vu tão forte que me fez estremecer. Uma lembrança que não vinha inteira, só a sensação: eu já tinha olhado para aquele mesmo céu antes, mas não sozinha.
Com quem?
A pergunta ficou suspensa dentro de mim, ecoando como um segredo que a memória se recusava a devolver.
P.o.v Martha
Meu nome é Martha. Cinquenta e dois anos, casada há quase trinta, três filhos já crescidos, todos seguindo a própria vida. Eu precisava do emprego. Não que passássemos fome, mas as contas da casa cresciam mais rápido do que o salário do meu marido, e eu já não suportava a ideia de me sentir inútil dentro de casa. Então, quando vi o anúncio vago de “assistente pessoal” em Londres, aceitei a entrevista sem pensar duas vezes.
Foi em um café apertado, numa esquina que mal aparecia no mapa. Ele chegou atrasado, o que normalmente me faria desistir. Mas bastou ele entrar pela porta para que o ambiente inteiro parecesse se curvar.
Bonito, alto, elegante de um jeito meio fora de época, com roupas que pareciam compradas em brechós chiques e, ainda assim, impecáveis. Seu olhar era intenso demais, como se tivesse visto mais do que deveria. Parecia ser um velho no corpo de um jovem. Sua fala era polida, precisa, quase antiquada.
— Pode me chamar de Doutor. — Foi tudo o que disse sobre si mesmo.
Nenhum sobrenome, nenhum currículo, nada de explicações. Eu deveria ter achado estranho, mas a forma como pronunciou as palavras, grave e solene, me fez apenas assentir.
Naquela mesma semana comecei a trabalhar.
Os dias passavam lentos no apartamento que também era escritório. Era espaçoso, mas sempre silencioso, como se ninguém de fato morasse ali. O Doutor saía cedo, voltava tarde, raramente falava comigo. Eu já havia limpado cada canto, separado correspondências, catalogado caixas, e ainda assim me sentia invisível naquele lugar.
— Organize as correspondências por ordem de importância. — Ele me explicou logo no primeiro dia, guiando-me por uma sala enorme e abarrotada de gavetas, pilhas de papéis e armários antigos. — Envie o que for urgente, guarde o que não for, e… não mexa no que estiver lacrado.
Enquanto falava, observei os detalhes: prateleiras cobertas de livros empoeirados, relógios quebrados, fotografias antigas de lugares que não reconhecia e mapas de regiões que nem sabia se existiam. Parecia mais um arquivo morto de um governo secreto do que o escritório de um pesquisador.
Por alguns segundos, me peguei pensando, com humor desconfortável: Será que acabei entrando num esquema de lavagem de dinheiro? Ou corrupção? Ele tinha cara de quem escondia algo. Cara, postura, silêncio.
Mas a verdade é que não havia nada de perigoso nele. Apenas… mistério. Um mistério que parecia se prolongar nos corredores vazios da casa.
E foi esse silêncio que me levou a explorar.
Certo dia, sem nada a fazer, subi até o sótão. O espaço estava abarrotado de móveis cobertos por lençóis, malas antigas e caixas empilhadas. A poeira era tanta que parecia neve sobre o chão.
E então encontrei.
No fundo de um armário de madeira, escondida atrás de uma pilha de livros, havia uma caixa diferente das outras. Pequena, de papelão gasto, selada com fita amarelada. O curioso é que, ao contrário das correspondências soltas e amassadas que eu organizava todos os dias, essa estava cuidadosamente endereçada:
Para: .
O nome se repetia em dezenas de envelopes dentro da caixa, em caligrafia firme, quase apaixonada. Não era nada parecido com os relatórios técnicos que eu separava para ele. Eram cartas pessoais.
Fiquei ali parada, segurando a caixa como se pesasse toneladas. Eu deveria devolvê-la ao armário. Fingir que não vi. Era o que ele havia me pedido desde o começo. Mas havia algo magnético nela. Quem era ? Por que tantas cartas nunca enviadas?
Eu me convenci de que só estava… cumprindo meu papel. Eu era a secretária dele, afinal. Se havia correspondência endereçada, deveria ser enviada. Talvez fosse até uma forma de ajudá-lo com algo que ele não tinha coragem de resolver.
Naquela mesma noite, deixei a caixa com cuidado na porta de um prédio comum, no coração da cidade. Toquei a campainha, dei dois passos para trás, e esperei até ouvir passos do outro lado.
Depois virei as costas e fui embora, com o coração batendo mais rápido do que deveria.
A caixa agora estava nas mãos de .
O dia tinha sido longo, igual a todos os outros. Escritório, planilhas, reuniões que poderiam ter sido um e-mail. Quando voltei para casa, já passava das oito, e a única coisa que eu queria era um banho quente e esquecer que existo.
Subi as escadas carregando a bolsa no ombro e um saco de compras na outra mão. Foi então que vi.
Uma caixa estava encostada na minha porta. Pequena, de papelão já meio gasto, mas ainda lacrada com fita antiga. Por um instante pensei que fosse entrega errada. Mas, ao me aproximar, percebi meu nome escrito com clareza no topo.
.
Não só meu nome — meu nome completo. E quase ninguém o usava.
O coração acelerou de um jeito estranho. Coloquei as compras no chão, fiquei ali, observando aquela coisa parada como se fosse uma bomba prestes a explodir. Toquei a superfície áspera do papelão, sentindo a poeira grudar nos dedos.
Olhei ao redor do corredor. Nada. Apenas portas fechadas, silêncio.
Peguei a caixa, levei para dentro e deixei em cima da mesa da sala. Não abri.
Fui tomar banho, preparar um chá, qualquer desculpa para não encarar aquilo. Mas a presença da caixa parecia maior que o próprio apartamento. Como se ocupasse todos os cômodos, como se me chamasse em silêncio.
De vez em quando eu passava por ela e sentia o peso da fita antiga segurando o que havia dentro. O que poderia ser tão importante para alguém lacrar assim, e ao mesmo tempo pessoal o suficiente para trazer meu nome escrito à mão?
Não lembrava de ter me inscrito em nada. Não esperava presentes, nem encomendas.
Sentei no sofá, chá nas mãos, e tentei assistir a qualquer coisa na televisão. Não consegui.
A caixa estava ali. Olhando para mim.
Pela primeira vez em semanas, senti que algo diferente acontecia na minha vida — e isso, ao invés de me animar, me deu medo.
Não abri. Ainda não.
Mas sabia que não iria conseguir resistir por muito tempo.
A caixa permaneceu sobre a mesa como um objeto qualquer. Eu quase consegui ignorá-la. Tomei banho, vesti meu pijama surrado, bebi o chá já frio e me encolhi na cama, disposta a apagar do mundo.
Quase consegui.
Quando meus olhos começaram a pesar, quando o corpo já cedia ao cansaço, a lembrança da caixa me atravessou como um raio. Senti o coração disparar sem motivo aparente, como se alguém tivesse sussurrado meu nome no escuro.
Virei de um lado para o outro, tentei convencer a mim mesma de que poderia esperar até amanhã. Mas não consegui.
Levantei, descalça, sentindo o frio do chão no corredor até a sala. A caixa ainda estava ali, intacta, silenciosa. A fita adesiva amarelada parecia frágil, mas resistia como se guardasse segredos demais.
Sentei-me à mesa e, com todo o cuidado, rompi o lacre. Dentro, dezenas de envelopes alinhados como soldados. Cada um trazia meu nome escrito em uma caligrafia firme, elegante, quase artística. Não reconheci a letra.
Peguei o primeiro envelope do topo. Notei que era recente — a tinta ainda nítida, o papel branco. Mas algo em mim hesitou. Virei a pilha de cartas e decidi começar pela mais antiga. Pela primeira.
Abri com cautela, como se o papel fosse vidro prestes a estilhaçar.
A carta dizia:
"Dez dias após o acidente. Já estou morrendo de saudade de você. Esqueci o quanto essa maldição poderia me tornar solitário, mas lembrei agora, enquanto estou longe de você.
Se eu tivesse tomado mais cuidado, você estaria aqui comigo neste instante. Estaríamos conversando sobre suas séries televisivas favoritas e seus livros modernos que mais parecem histórias de dormir. E olha que eu nem sou acostumado a dormir.
Daria tudo para vê-la novamente. Mas talvez tudo isso tenha sido ótimo para você. Talvez você volte à sua vida comum, esqueça de mim e, quem sabe, conheça outra pessoa, que lhe faça ainda mais feliz. Não que eu não a tenha feito feliz nesses últimos meses, mas agora sua felicidade virá acompanhada de tranquilidade.”
Larguei a folha sobre a mesa e fiquei encarando as linhas como se fossem um enigma.
Era impossível. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Talvez uma amiga do trabalho tentando me assustar, ou algum desconhecido do aplicativo de encontros fazendo uma piada de mau gosto.
Quem, em sã consciência, escreveria tantas cartas para mim? E de onde vinha esse tom de intimidade?
Suspirei, fechei os olhos, mas a letra dele ainda pulsava na minha mente, clara, nítida, impossível de esquecer.
Não podia ser real.
E, no entanto, algo em mim — algo pequeno e incômodo, escondido bem fundo — sussurrava que era.
Minhas mãos tremiam levemente quando abri o segundo envelope. O papel tinha um cheiro leve de tinta seca e poeira antiga. A letra era a mesma: firme, alongada, elegante demais para ser de alguém comum.
Comecei a ler:
"Não sei bem o porquê escrevo. Não é para enviar, tampouco para aliviar qualquer dor — porque a dor, sei, permanecerá. Escrevo porque não posso confiar apenas na memória. Ela falha. Ela me trai. E você não merece ser perdida dentro desse vazio.
Desde o primeiro dia em que nos esbarramos, você começou a cobrir minha vida de bilhetes. Post-its coloridos espalhados como pequenas armadilhas de ternura. O seu apartamento parecia uma colmeia de recados:
‘Não esquecer de alimentar a Lisa.’
‘ gosta do café puro e sem leite para começar o dia.’
‘Volto em cinco minutos, não me procure.’
Às vezes ríamos disso. Você dizia que eu parecia incapaz de me lembrar das coisas mais simples, e eu retrucava que, no fundo, queria apenas guardar a sua letra em todos os cantos. Talvez tenha funcionado, porque nunca mais esqueci de nenhuma dessas minúcias.
E é por isso que escrevo. Para não esquecer. Para que seu nome, sua voz, seu olhar não se apaguem nas rachaduras do tempo em que vivo. Porque você não merece o esquecimento, . Você merece me perseguir até o fim dos meus dias. Você merece que eu seja perturbado pela sua ausência como se fosse uma presença eterna.
Estas cartas não são confissões. São memoriais. São minha forma desesperada de fixar a sua existência no papel, já que não posso tê-la ao meu lado. Escrevo para que você nunca se dissolva no tempo, ainda que apenas para mim.
Sei que jamais lerá isto. E, no entanto, continuo.”
Deixei a carta repousar sobre a mesa. A respiração me falhava.
Era tão íntimo. Tão detalhado.
Lisa: A minha gata. Café sem leite: meu ritual matinal desde sempre. Como ele poderia saber?
Não fazia sentido. Nenhum.
A razão me dizia que aquilo era apenas uma brincadeira elaborada, mas o coração latejava como se reconhecesse uma verdade que minha mente ainda se recusava a aceitar.
Não consegui parar.
Abri uma terceira carta, depois uma quarta, depois perdi a conta. Minhas mãos corriam pelo papel, mas minha mente tropeçava a cada frase. Ele escrevia sobre mim com uma precisão que beirava o impossível. Não apenas os detalhes visíveis — o café puro, a calopsita de infância, a mania de deixar bilhetes — mas coisas que nunca dividi com ninguém.
Medos que nunca ousei confessar. O hábito de olhar para o céu noturno quando não consigo dormir. A sensação persistente de não pertencer a este mundo.
Fechei os olhos e uma onda de vertigem me tomou. Levantei, andei pela sala como uma fera enjaulada, os olhos percorrendo cada canto. Olhei para as prateleiras, atrás dos quadros, nos cantos escuros — à procura de câmeras escondidas, microfones, qualquer explicação plausível.
Nada. Apenas meu apartamento.
Mas e se não fosse?
Voltei à mesa. Outra carta. A caligrafia me puxava de volta, cada curva das letras parecia um convite. Era como se ele fosse um lord de outro século, um desses homens renascentistas que escreviam sonetos para suas amantes proibidas. Quem hoje escrevia assim? Quem hoje expunha sentimentos com tamanha devoção, sem medo de parecer ridículo?
O medo crescia dentro de mim, mas junto dele vinha um fascínio irresistível. Nunca conheci alguém que encarasse o próprio coração de forma tão nua, tão sem armaduras. Principalmente não um homem.
Era lindo. Assustador, mas lindo.
Dei por mim lendo em voz baixa, como se as palavras precisassem ser ditas para existir de verdade.
A cada carta, a mesma dualidade me consumia: parte de mim queria que fosse um delírio, uma pegadinha de mau gosto. A outra parte… desejava desesperadamente que fosse real.
E quanto mais lia, mais impossível parecia parar.
P.o.v Martha on
O vento de Londres parecia sempre mais frio depois de viagens longas, e ainda assim ele entrava pela porta como se nem tivesse percebido o inverno. Alto, elegante, o sobretudo escuro balançando até ele pendurá-lo com um gesto distraído.
— Boa noite, Martha. — disse apenas, sem olhar muito.
— Boa noite, Doutor. — respondi, fechando a porta atrás de nós. — Espero que a viagem tenha sido… produtiva.
Ele assentiu, mas não deu detalhes. Nunca dava.
Nos últimos dias eu havia aprendido que o Doutor falava pouco e, quando falava, não era exatamente sobre o que você perguntava. Era como conversar com alguém que escondia metade das palavras numa gaveta invisível.
Enquanto ele ajeitava papéis sobre a mesa, fui até a pequena cozinha e preparei chá. Eu havia decidido que, mesmo que ele fosse uma esfinge em forma de gente, alguém precisava quebrar aquele silêncio sepulcral.
Coloquei a bandeja sobre a mesa e servi duas xícaras.
— Engraçado — comentei, tentando parecer casual —, eu nunca sei ao certo qual é o seu trabalho. Viaja tanto, volta com tanta papelada estranha…
Ele ergueu o olhar para mim, sério, mas não zangado. Os olhos dele eram de um azul tão profundo que por um instante tive a sensação de estar sendo medida, catalogada.
— Meu trabalho não cabe em uma definição simples. — disse, com aquela voz grave que fazia tudo soar como sentença. — Vamos dizer apenas que eu… coleciono histórias.
Aquilo não era resposta. Mas eu não estava disposta a desistir.
— Histórias? — insisti. — Parece um jornalista. Ou um espião.
Ele sorriu de canto. Foi a primeira vez que vi algo que poderia se chamar de humor nele.
— Às vezes, Martha, a diferença entre os dois é apenas uma questão de perspectiva.
O chá esfriava. Eu o observava em silêncio, ainda que minha mente fervesse de perguntas. Onde ele ia? Por que sempre parecia carregar um peso invisível? E, sobretudo, quem era , o nome que eu vira repetido tantas vezes naquelas cartas escondidas?
Mas não perguntei. Ainda não.
Ele bebia devagar, o olhar perdido na janela como se buscasse algo que ninguém mais poderia ver.
E eu, pela primeira vez, tive a estranha impressão de estar diante de um homem que carregava séculos nos ombros — e que, mesmo assim, nunca parava.
P.o.v Martha off
Na manhã seguinte, acordou antes do despertador. O sol atravessava a cortina com um brilho quase líquido, e por um instante ela achou que o quarto estava coberto por reflexos de cristal. Piscou, e era só luz normal.
Fez café, como sempre. Mas quando encostou a xícara nos lábios, sentiu um arrepio no pé descalço, como se ainda estivesse pisando em algo frio e cortante. Recuou, deixando o líquido pingar sobre a mesa.
— Eu tô ficando louca — murmurou, limpando apressada com um pano de prato.
A caixa ainda estava sobre a mesa da sala. Por um momento, pensou em fechar tudo e jogar fora. Tentava esquecer de tudo, mas as palavras nas cartas era tudo o que pensava.
bateu a mão na mesa com força, fazendo a xícara chacoalhar novamente.
— Não! — a palavra escapou quase como um grito. — Isso não é real. Não pode ser.
Andava de um lado para o outro, respirando rápido. O coração pulava, mas a raiva era maior que o medo.
“Um mar de vidro? Guardiões de luz? Cidades suspensas em raízes gigantes?” — ela pensava, quase cuspindo as palavras. — “Que tipo de gente acha que isso é engraçado?”
A gata, Lisa, levantou a cabeça do sofá e miou baixinho, como se respondesse ao desabafo. se jogou ao lado dela, afundando o rosto nas mãos.
— Minha vida é aqui, entende? — disse para a gata, a voz falhando. — Eu tenho boletos, reuniões às duas da tarde, fila no mercado. Não… não um homem misterioso com vocabulário elegante, não viagens malucas. É só eu. Só eu e você. — Acariciou as costas de Lisa, buscando firmeza no ronronar.
Mas o peito continuava apertado. A cada vez que fechava os olhos, surgiam flashes que não podiam estar ali: ondas de cristal vibrando como música, a queda livre em direção ao vazio. Imagens tão vívidas que chegavam a doer.
— Chega — sussurrou. — Quem fez isso está rindo da minha cara.
Levantou-se de repente, decidida.
Foi até a porta do apartamento, mãos ainda trêmulas. O vizinho do 402, o senhor Clemente, tinha câmera no corredor. Sempre orgulhoso da “segurança” que o equipamento lhe dava, vivia mostrando trechos inúteis — entregadores de comida, a senhora do 401 reclamando do elevador.
respirou fundo, o nó no estômago apertando.
— Pois então eu vou ver quem deixou isso aqui. Quem me deixou essa porcaria de caixa.
Apertou a campainha do vizinho, tentando parecer firme, mas a voz saiu arranhada quando ele atendeu pelo olho mágico:
— ? Está tudo bem?
Ela forçou um sorriso que não sentia.
— Preciso ver as gravações da sua câmera. Alguém deixou um pacote na minha porta… e eu quero saber quem foi.
O senhor Clemente, com sua habitual cerimônia, passou o vídeo duas, três vezes. mal respirava, os olhos grudados na tela do celular dele.
Era noite, como lembrava. O corredor vazio. E então, às 21h07, uma mulher apareceu.
Meia-idade, casaco comprido, andar tranquilo demais para alguém deixando uma caixa clandestina. A câmera, apesar da resolução ruim, captou o detalhe: ela não parecia nervosa. Só depositou o pacote diante da porta de , ajeitou-o com cuidado, como quem coloca flores num túmulo.
engoliu em seco. Não a conhecia. Nunca a tinha visto no prédio, nem no bairro.
— Estranho, não é? — comentou Clemente, curioso. — Parece que sabia exatamente pra onde vinha.
O carro estacionado na calçada, porém, não passou despercebido. O reflexo da placa brilhava no canto do vídeo. anotou os números com a mão trêmula, agradeceu apressada e voltou para o apartamento, o coração em disparada.
Lisa a seguiu até o computador, miando impaciente por comida.
— Espera, gata, espera… — digitava como quem tenta abrir uma fechadura antes que o ladrão volte.
Sites de busca. Fóruns obscuros. Demorou, mas conseguiu: a placa correspondia a um veículo registrado em nome de Martha Golding.
O nome não significava nada. Uma estranha completa. Ainda assim, os dedos dela já estavam no teclado, correndo para o Facebook.
E lá estava: perfil público, algumas fotos com paisagens, outras com livros em mesas de café. Uma vida comum, ao menos no que aparecia.
hesitou. O cursor piscava no campo de mensagem.
Não faça isso, dizia uma parte dela. É loucura, você nem sabe se essa mulher existe de verdade.
Mas a outra parte, a que ainda sentia o frio do Mar de Vidro nos pés, venceu.
Digitou:
“Oi, Martha. Desculpa a intromissão, mas há alguns dias atrás, à noite, eu vi você deixando uma caixa na porta do meu apartamento. Quem é você?”
Por um instante, ficou encarando a tela. A mensagem enviada parecia gritar em letras vermelhas.
A gata pulou no colo dela, como se quisesse impedir que fosse mais longe.
Mas já era tarde.
O bairro parecia silencioso demais para uma tarde de sábado. conferiu o endereço pela terceira vez no celular antes de parar diante da porta azul desbotada. A placa de ferro no muro confirmava: 38A.
Bateu. A porta se abriu quase no mesmo instante, como se já a esperassem.
— . — Martha sorriu de maneira discreta, como quem reencontra alguém que conhece há muito tempo. — Que bom que veio.
O interior da casa era acolhedor, simples: móveis de madeira antiga, prateleiras abarrotadas de livros, algumas fotografias em molduras discretas. Nada gritava “mistério”. O cheiro de chá recém-feito impregnava o ar.
— Moro com meu marido — explicou Martha, recolhendo uma manta esquecida no sofá. — Ele ainda está no trabalho. Meus filhos já são grandes e moram sozinhos.
se sentou, sem tirar o casaco. O corpo inteiro dizia que devia desconfiar.
— Você sabe por que estou aqui, não é? — perguntou, a voz trêmula, quase desafiando.
Martha assentiu. Colocou uma bandeja sobre a mesa baixa: duas xícaras fumegantes, como se tivesse previsto que aceitaria.
— Trabalho com o Doutor há algum tempo. Não é um trabalho que se explique num currículo. Ele é… curioso. Anda pelo mundo, observa, entende… às vezes conserta.
se inclinou para frente, a desconfiança queimando no olhar.
— E a caixa? Por que estava na minha porta?
Martha respirou fundo antes de responder.
— Porque era sua. Sempre foi. O Doutor escreveu aquelas cartas para você. Mas nunca teve coragem de entregá-las. Eu as encontrei guardadas, esquecidas entre documentos. Achei que seria errado deixá-las se perder.
— Isso é ridículo. — apertou os dedos no colo. — Eu não conheço esse homem. Nunca vivi nada daquilo.
Martha a observou com paciência.
O relógio na parede marcava os segundos como marteladas.
— Quem é ele, afinal? — insistiu, quase num sussurro. — O que ele quer de mim?
Martha desviou o olhar para a própria xícara.
— Eu não conheço o Doutor tão bem assim. Não queria me complicar. Sou só uma secretária… organizo coisas, passo recados. Eu não devia ter mexido nas coisas dele. Mas, quando vi aquela caixa, imaginei que fosse destinada a alguém importante.
A garganta de apertou. O déjà-vu das cartas voltou com força, junto à estranha dor de reconhecer memórias que nunca vivera.
— Você trabalha para alguém e não sabe o que ele faz? — a voz dela saiu incrédula. — E se for um assassino?
Martha respirou fundo.
— Olha, senhorita … já trabalhei com políticos e líderes de Estado. E se tem algo que essas pessoas prezam acima de tudo é privacidade. Eu estou lá para cumprir meu papel, não para fuçar.
(“Mas fuçou, né?”, pensou , amarga.)
— Só sei de uma coisa: vi em alguns documentos que ele lida com ciência. Não havia nome, nem sobrenome. Mas tudo apontava para pesquisas, tecnologia, teorias além da minha compreensão.
Um cientista. A palavra ecoou dentro de , desconfortável e magnética.
— E onde ele está agora? — perguntou, firme.
Martha sorriu com uma tristeza suave.
— Onde sempre esteve: em movimento. O Doutor nunca para. Mas sempre encontra um lugar para voltar.
varreu a sala com os olhos, como se cada livro ou fotografia pudesse guardar uma pista escondida. Não encontrou nada. Só o chá esfriando rápido demais.
Sentiu o impulso se formar antes mesmo de pensar: precisava encontrá-lo. Não por Martha, nem pelas cartas, mas porque nada faria sentido até que pudesse olhar nos olhos dele e perguntar por si mesma.
Apoiou a xícara na mesa com decisão.
— Se ele voltar… me avise. Quero encontrá-lo. — Pausou, tentando aliviar a tensão. — Não se preocupe, não vou colocar a culpa em você.
Martha apenas assentiu. Mas no fundo dos olhos dela, jurou ver um lampejo de dúvida — como se a simples promessa de “não se preocupar” fosse a mais frágil das mentiras.
Capítulo 2
Fazia semanas que ele não aparecia. E quando voltou, não era o mesmo homem impecável que saíra pela porta. O sobretudo estava rasgado, e sangue escorria discretamente pelo punho da camisa.
— Meu Deus, Doutor! — Martha correu até ele, apavorada.
Ele apenas ergueu a mão, como quem diz “está tudo sob controle”, mas os passos vacilantes entregavam a dor. Martha o guiou até a poltrona da sala, puxando a caixa de primeiros socorros com a rapidez de quem já havia imaginado esse momento mil vezes.
— Sente-se. — Sua voz soou mais firme do que ela mesma esperava.
Ele obedeceu, mas manteve o olhar distante, fixo em algum ponto além da parede. Martha começou a limpar o ferimento no ombro. Sangrava bastante, mas não parecia mortal.
— Quer me contar o que aconteceu? — ela arriscou.
Ele balançou a cabeça, quase divertido com a própria teimosia.
— Você não entenderia.
— Tente — rebateu Martha, irritada. — A não ser que você seja um vampiro ou coisa do tipo.
O canto da boca dele se ergueu num riso breve, abafado.
— Não, não sou um vampiro.
— Então um assassino de aluguel? — insistiu, aproveitando a rara oportunidade de vê-lo fragilizado. — Porque sinceramente, com esse seu ar misterioso, não duvidaria nada.
Dessa vez ele riu de verdade, mas o som foi curto, logo engolido pelo silêncio.
— Nada disso, Martha. — A voz dele baixou, quase um sussurro. — Eu sou uma pessoa boa. Ou pelo menos tento ser. Mas já faz muito, muito tempo que vivo sozinho. Mais do que qualquer um deveria.
Havia tanta melancolia naquela frase que Martha sentiu a vontade imediata de perguntar “quanto tempo?”, mas conteve-se. Continuou a enfaixar o ombro, sem dizer nada, porque qualquer palavra pareceria pequena demais.
Quando terminou, ele se levantou com dificuldade.
— Obrigado. — O olhar azul encontrou o dela por um instante, sincero. Depois desviou. — Boa noite, Martha.
Subiu as escadas devagar, o corpo pesado, mas a postura ainda orgulhosa.
Ela ficou ouvindo os passos até a porta do quarto se fechar com um clique suave.
Silêncio.
E então, como sempre, o som das passadas começou de novo. Ida e volta. Ida e volta.
Ele dizia “vou dormir”, mas Martha já sabia: o Doutor nunca dormia.
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A casa estava mergulhada em silêncio. Só o som das passadas no andar de cima se repetia, incansável, como se ele caminhasse em círculos dentro de si mesmo.
Martha permaneceu sentada na poltrona, as mãos ainda manchadas de sangue já seco. O cheiro metálico impregnava sua pele, insistente.
“Sou uma pessoa boa. Mas já faz muito, muito tempo que vivo sozinho.” As palavras ecoavam, arranhando a mente dela.
Quantos anos um homem podia carregar nos ombros antes de soar daquele jeito? Décadas? Séculos? Ela lembrava da primeira vez em que ouvira o nome “” nas cartas, e como aquele nome se repetia, como um refrão impossível de esquecer.
Subiu os olhos para o teto. Imaginou o Doutor lá em cima, andando de um lado para o outro, os pensamentos mais pesados que qualquer ferimento físico.
Suspirou. Pegou o celular.
Abriu o chat com .
Os dedos pairaram sobre a tela por alguns segundos antes de começar a digitar:
“, eu não deveria estar dizendo isso, mas preciso compartilhar. O Doutor voltou machucado hoje. Disse que eu não entenderia, mas… às vezes eu penso que ele não é como os outros. Que não é daqui, pelo menos não do jeito que a gente é. Ele nunca dorme, nunca descansa. Só anda. Anda como se o tempo inteiro fosse pouco.”
Apagou metade da mensagem, escreveu de novo.
“Achei uma pista. Em alguns documentos dele, vi símbolos estranhos, como fórmulas mas… não eram ciência comum. Ele guarda tudo como se fosse segredo de Estado. Mas não é. É mais antigo. Mais vasto. Como se fosse… outra linguagem.”
Parou, o coração disparado.
Será que devia mesmo arrastar ainda mais para dentro disso? Mas então lembrou-se do olhar vazio dela quando perguntou pela caixa. Da forma como as cartas a haviam atingido. Talvez fosse justo dividir esse fardo.
Respirou fundo e enviou:
“Sei que parece loucura, mas eu acho que o Doutor não é humano do jeito que conhecemos. Talvez ele nunca tenha sido.”
Deixou o celular sobre a mesa e se recostou, exausta.
No andar de cima, os passos dele continuavam. Ida e volta. Ida e volta. Como se a casa inteira fosse apenas uma prisão de paredes finas demais para conter o peso da eternidade.
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P.o.v
Adormeci tarde, as cartas ainda espalhadas sobre a mesa como se fossem fantasmas. Quando finalmente fechei os olhos, o sono não veio leve: veio denso, cheio de imagens que pareciam mais lembranças do que invenções.
Ele estava lá.
Um homem que eu nunca havia visto. Alto, com um ar elegante, olhos que pareciam guardar séculos. Não tinha rosto fixo — às vezes nítido, às vezes desfocado como se estivesse envolto em névoa. E, ainda assim, era lindo.
No sonho, estávamos tão próximos que eu podia sentir o calor da pele dele. Nossas mãos se tocavam com naturalidade, como se o gesto fosse antigo. Ele sorria para mim com uma ternura que me desarmava.
Conversávamos calmamente, embora as palavras fossem fragmentadas. Eu não conseguia ouvir frases inteiras, apenas pedaços: “sempre você”, “nunca esqueci”, “meu tempo acabou”. As falas se dissolviam como se o vento as levasse antes que eu pudesse guardá-las.
E então ele me beijava. Um beijo suave, cheio de promessa. Como se fosse o primeiro e o último ao mesmo tempo. Eu sentia meu corpo ceder, o coração disparar, e o sonho se tornava ainda mais enevoado, como se o próprio mundo não pudesse suportar aquele instante.
Havia carícias, juras de amor sussurradas, mas tudo era cortado, nublado, como se alguém apagasse trechos do filme que eu assistia. Quanto mais tentava fixar a imagem, mais ela se desfazia.
Acordei ofegante, o peito acelerado como se tivesse corrido quilômetros.
O quarto estava escuro, silencioso. O lençol grudava na pele com o suor frio do pesadelo — ou do que quer que fosse aquilo.
Levei alguns segundos para compreender: eu nunca havia visto aquele homem. E, no entanto, tinha a estranha certeza de que ele me conhecia mais do que qualquer um.
Olhei para a mesa. As cartas ainda estavam lá, imóveis, mas agora pareciam ainda mais vivas.
Era apenas um sonho. Eu repetia isso para mim. Apenas um sonho.
Mas não parecia.
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A mão tremia um pouco quando abri o próximo envelope. Eu já estava acostumada com a intensidade das cartas, mas essa parecia… diferente. O papel estava marcado, a caligrafia mais carregada, como se tivesse sido escrita com pressa ou emoção demais.
“Dia 142 sem você.
Ainda lembro da primeira noite em que me deixou adormecer ao seu lado.
Foram séculos de vida, , séculos de rostos e vozes que se apagaram com o tempo como pinturas expostas demais à luz. Mas nada em toda a minha memória se compara àquele instante em que você se deitou perto de mim e, pela primeira vez, senti que o tempo havia parado.
Seu corpo aquecido contra o meu, sua respiração calma, o jeito como buscou minha mão no escuro — tudo aquilo me devolveu algo que pensei ter perdido há eras: a certeza de que ainda era vivo.
Você sempre riu da forma como me perco em palavras grandiosas, mas não encontro outras. Em todas as minhas viagens, em todos os séculos, nunca conheci mulher tão bela quanto você, nem lábios que beijassem com tanta ternura.
Quando me beijou naquela noite, juro que pensei que o universo inteiro havia se contraído para caber naquele instante.
E quando me aceitou, quando me fez seu, eu compreendi o que nunca havia compreendido antes: que a eternidade pode ser suportada se, ao menos uma vez, alguém como você tocar a minha pele.
Guardo esse momento em mim como um viajante guarda o último pedaço de pão no deserto. É minha lembrança mais humana, a única que me impede de me tornar pedra por dentro.
Se escrevo tudo isso, não é para que você recorde. É para que eu nunca me permita esquecer.”
As letras pareciam cintilar diante dos meus olhos.
Fechei a carta às pressas, como se tivesse cometido um crime apenas por lê-la. O rosto queimava; senti o sangue subir às bochechas, ao pescoço. Estava chocada. Um homem que eu nunca vira descrevia com detalhes — não obscenos, mas íntimos demais — uma noite que eu jamais vivi.
Ou vivi?
Por um instante, uma lembrança vaga ameaçou surgir, um lampejo: calor, mãos, um beijo mais longo do que qualquer outro. Mas desapareceu antes que eu pudesse agarrar.
Corri os olhos pelo apartamento, como se esperasse ver alguém me observando. Nada. Só o silêncio e o som apressado da minha respiração.
Era impossível parar. Por mais assustador, vergonhoso ou absurdo que fosse, eu queria mais.
E essa fome começava a me devorar.
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“Dia 215 sem você.
Hoje recordei a primeira vez que compreendi que o mundo — não, os mundos — precisavam de alguém que os mantivesse inteiros.
Eu era apenas um cientista curioso, obcecado com fórmulas e mecanismos que mal compreendia, até que o acaso (ou a ironia do destino) colocou em minhas mãos um objeto que não deveria existir. Um amuleto, se assim posso chamá-lo, embora a palavra seja pequena demais para aquilo que contém.
Desde aquele dia, nunca mais pude repousar como os demais homens. Enquanto eles dormem, eu vigio. Enquanto vivem, eu caminho pelos interstícios de tudo o que existe, fechando rachaduras invisíveis, impedindo que o mal — sempre à espreita, sempre faminto — devore o que ainda nos resta de belo.
Não sei dizer se fui escolhido ou condenado. Talvez as duas coisas.
Sei apenas que, em meio a esse fardo, houve um instante em que tudo pareceu tolerável: o instante em que você segurou minha mão e me fez acreditar que eu ainda podia ser apenas um homem.
Você não imagina, , o que significa encontrar luz em meio a eras de escuridão. O que significa ter o peso do infinito e, ainda assim, sorrir como se eu fosse um rapaz comum, apaixonado por uma mulher comum.
Talvez por isso eu escreva. Para que, quando o vazio me chamar de novo, eu possa lembrar que não fui apenas guardião, vigia ou espectro.
Fui o seu.”
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Fechei a carta devagar, como se as palavras pudessem escapar do papel e me cercar. O coração ainda batia rápido, mas uma nova sensação começou a se infiltrar, estranha e incômoda: desconfiança.
Quem faria algo assim?
Levantei-me, fui até a cozinha, servi um copo d’água — qualquer desculpa para me afastar da caixa. Encostada na pia fria, pensei: poderia ser um artista excêntrico, alguém que coleciona fantasias românticas e as despeja em cartas, sem nunca ter visto meu rosto. Ou pior: um maluco qualquer, um stalker, que inventou uma história inteira para me assombrar.
Mas se era isso, como ele sabia de coisas que ninguém sabia? O café sem leite. O hábito de deixar bilhetes grudados em todas as superfícies. A mania de organizar meus livros por cor, e não por autor.
Nenhuma dessas coisas estava em rede social alguma.
— Não faz sentido… — murmurei para mim mesma, apertando o copo nas mãos.
Passei a mão pelos cabelos, andei pelo apartamento como uma fera enjaulada. Parte de mim queria trancar tudo numa gaveta, chamar a polícia, denunciar. Outra parte queria correr de volta à caixa e continuar lendo até os olhos arderem.
Quando finalmente me deixei cair no sofá, encarei o teto escuro e uma risada nervosa escapou da garganta. “Talvez eu tenha dado match com um lunático do Tinder que também fez curso de caligrafia e história antiga”, pensei, tentando me convencer. Mas a piada não colava.
Não era o tom de um lunático.
Era o tom de alguém que acreditava.
De alguém que sentia.
E eu não conseguia decidir o que era mais perturbador: a possibilidade de ser alvo de um estranho, ou a possibilidade de ser alvo de alguém que me conhecia… de verdade.
Fechei os olhos, mas em vez de paz veio a memória do sonho da noite anterior. O rosto dele, nublado e sem nome, aproximando-se do meu. As mãos firmes, os lábios quentes, as promessas sussurradas.
Acordei com um sobressalto, sem perceber que havia adormecido. A caixa ainda estava ali, sobre a mesa, como um convite.
E eu sabia que não teria forças para recusar.
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Eu já tinha perdido a conta de quantas cartas havia lido. A madrugada avançava, e as páginas se acumulavam sobre a mesa como testemunhas silenciosas de um amor impossível.
As mãos tremiam levemente, o coração batia descompassado. Havia uma última carta, ainda fechada, no fundo da caixa. A caligrafia era mais firme, quase solene.
Respirei fundo antes de romper o lacre.
Dia 327 sem você.
Esta casa já não me pertence. Tornou-se um eco de nós dois, . Cada objeto guarda a lembrança do seu toque, cada parede guarda o som da sua risada. Tento caminhar entre os móveis como quem atravessa um museu particular de ausências.
Pensei em contratar alguém que me auxilie, uma secretária talvez, para dar ordem ao caos que deixei se espalhar. Mas sei que, ainda assim, cada gaveta trará o mesmo tormento: o vazio que você deixou.
Há noites em que não consigo suportar estas paredes. É então que vou até o nosso lugar — aquele campo aberto, a colina alta de onde víamos as estrelas se multiplicarem até o horizonte. Você dizia que o céu ali parecia mais próximo, como se pudesse tocar com a ponta dos dedos.
Sento-me na mesma pedra onde costumávamos dividir o silêncio. Permaneço imóvel, esperando que você venha rir de mim outra vez, como ria sempre que eu me perdia em descrições poéticas do firmamento.
É ridículo, eu sei. Mas não consigo deixar de esperar.
Guardo esta esperança como quem guarda um segredo proibido: talvez, por um descuido do tempo, você volte a se sentar ao meu lado.
Se um dia sentir o mesmo chamado, se algum sussurro lhe fizer lembrar de mim, vá até lá. Estarei esperando.
O papel escorregou das minhas mãos.
Meu corpo inteiro gelou, mas não foi pelo medo.
Eu conhecia aquele lugar.
Conhecia desde menina — a colina onde costumava fugir nos verões, o refúgio secreto em que me deitava para olhar o céu e acreditar que havia algo além dessa vida comum.
Ninguém sabia disso. Nenhuma amiga, nenhum namorado, nem mesmo minha família.
Era meu segredo.
E agora estava ali, descrito com a exatidão de alguém que esteve comigo, que viveu ao meu lado.
As lágrimas vieram sem aviso. Não de tristeza, mas de uma estranha vertigem, como se o chão tivesse desaparecido. O mundo que eu conhecia parecia pequeno demais para conter a verdade que se insinuava diante de mim.
Alguém me esperava naquela colina.
E, de algum modo impossível, eu já sabia quem era.
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A carta ainda ardia na minha mente quando percebi que já estava com a chave do carro na mão.
Uma parte de mim gritava que aquilo era uma ideia péssima, provavelmente a pior decisão da minha vida. Outra parte — mais teimosa e irracional — me empurrava para frente como se fosse inevitável.
“, você enlouqueceu”, repeti para o reflexo no retrovisor quando liguei o motor.
Primeiro: se aquele homem era um psicopata qualquer, essa era a chance perfeita para me esquartejar e desovar meu corpo no alto da colina. “Lugar ermo, cenário romântico, vítima sentimental — perfeito”, ironizei para mim mesma, batucando os dedos no volante.
Segundo: e se ele fosse mesmo o que dizia ser? Um viajante do tempo, guardião das realidades, sei lá. Então por que eu, uma mortal comum com olheiras de escritório, precisava dirigir quilômetros pela estrada escura, em vez de simplesmente acordar um dia e vê-lo surgir no meio da minha sala? Não era essa a vantagem de mexer com espaço e tempo?
Bufei, frustrada. “Sério, se é pra sofrer por um viajante cósmico, que pelo menos ele saiba usar um atalho.”
Mas continuei dirigindo.
A estrada se estendia diante de mim, vazia, cortando os campos como uma fita negra iluminada pelos faróis. O rádio estava desligado, porque qualquer música parecia invasiva demais diante do que estava prestes a acontecer. Meus pensamentos faziam barulho suficiente.
O medo e a excitação brigavam dentro de mim. Eu me julgava, me condenava, me chamava de idiota por acreditar numa caixa de cartas escritas em caligrafia de outro século. Mas a cada quilômetro percorrido, o coração batia mais rápido, como se reconhecesse que algo inevitável me aguardava.
Quando finalmente vi a silhueta familiar da colina contra o céu estrelado, quase chorei. Era o meu lugar. Era o nosso lugar, de acordo com aquelas cartas impossíveis.
Estacionei o carro alguns metros antes, desliguei o motor e fiquei ali, com as mãos coladas ao volante.
Tudo em mim dizia: volte para casa.
Mas algo maior, mais antigo, sussurrava: continue.
Abri a porta, senti o vento frio da madrugada bater no rosto e comecei a subir.
Cada passo era um duelo entre a sanidade e a esperança.
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A subida foi mais curta do que lembrava. Talvez pela pressa, talvez pelo coração acelerado. Quando cheguei ao topo, o vento frio me envolveu e o silêncio caiu pesado, quebrado apenas pelo som das folhas secas sob meus passos.
A pedra estava lá, igualzinha, como um velho amigo que nunca se moveu. Sentei-me devagar, abraçando os joelhos contra o peito. O céu se abria imenso acima de mim, salpicado de estrelas, exatamente como nas lembranças que guardei da infância.
Mas não havia ninguém.
O tempo passou sem pressa. O frio se infiltrava pelas mangas do casaco, e eu comecei a rir sozinha — uma risada curta, nervosa, meio amarga.
“Parabéns, ”, sussurrei para mim mesma. “Você dirigiu quilômetros para reencontrar o amor cósmico de sua vida… e o que conseguiu? Uma gripe.”
Peguei o celular.
A mensagem já estava lá, enviada a Martha horas antes: ‘Se eu desaparecer, procure na colina. É sério.’
Um alívio estranho percorreu minha espinha. Ao menos alguém sabia onde eu estava.
Fechei os olhos por um instante, cansada. A pedra era desconfortável, o vento gelado, e ainda assim havia um certo consolo em estar ali. Talvez porque fosse um lugar meu, um refúgio antigo, não porque uma carta o transformara em santuário.
E foi então que ouvi.
Passos.
Leves, hesitantes, quebrando o silêncio atrás de mim.
Meu corpo inteiro ficou rígido. O instinto gritou para correr, mas a curiosidade — ou a loucura — me obrigou a virar.
E lá estava ele.
Um homem alto, esguio, de presença quase etérea. A silhueta contra as estrelas fazia-o parecer mais um anjo do que um ser humano. Os cabelos escuros agitavam-se com o vento, e os olhos — mesmo à distância — brilhavam de uma intensidade impossível.
Era o rosto do meu sonho.
Era o rosto das cartas.
Por um segundo, o mundo perdeu a lógica. Eu não soube se devia gritar, chorar ou simplesmente cair de joelhos.
Ele apenas me olhava, sério e belo, como se tivesse atravessado séculos para chegar até ali.
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Ele não disse nada de imediato. Apenas caminhou até a pedra, parou diante de mim e — como se sempre tivesse feito parte daquele lugar — sentou-se ao meu lado.
Eu não conseguia respirar direito. Cada detalhe dele parecia impossível de ignorar: o corte delicado da mandíbula, o brilho insuportavelmente intenso dos olhos, os lábios que se curvaram em um quase sorriso ao me ver ali. Até o vento parecia inclinar-se para tocá-lo primeiro.
Fiquei imóvel, olhando como uma criança que encontra uma criatura mítica pela primeira vez. Ele parecia… real demais para ser humano. Belo demais para caber no meu mundo.
— Você… — Minha voz falhou. Engoli em seco, tentando recompor alguma dignidade. — Eu li as cartas.
A expressão dele mudou. Algo entre surpresa e… medo? Os olhos piscaram rápido, e ele inclinou levemente a cabeça, como se buscasse confirmar se eu falava sério.
— Como? — perguntou, por fim. A voz dele era grave, calma, de uma formalidade que soava antiga. Uma voz que carregava séculos.
A resposta escapou de mim como um suspiro: — Martha.
Foi então que ele riu.
Meu coração tropeçou no peito. Eu já tinha me apaixonado pelo homem das cartas, mas vê-lo sorrir diante de mim foi devastador. Era como se o céu se abrisse. O riso era leve, inesperado, transformando aquele semblante tão solene em algo humano, próximo, quente.
E eu percebi que estava perdida. Não havia volta.
Fiquei ali, observando-o, pensando no absurdo de tudo aquilo: um desconhecido que eu sonhara, que escrevera sobre mim como se tivesse vivido em minha pele, agora sentado a centímetros de distância, rindo do meu choque.
Eu deveria ter medo. Mas tudo o que senti foi uma estranha familiaridade.
Como se, em algum lugar que minha memória não alcançava, eu já tivesse estado exatamente ali — com ele.
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Ele me observava em silêncio, os olhos fixos nos meus como se quisesse atravessar minha alma. Então, a pergunta veio, simples, mas com o peso de um universo inteiro:
— Você se lembra de algo?
Meu rosto queimou. O coração disparou de novo, e eu desejei que o vento fosse forte o bastante para me carregar dali. Respirei fundo, incapaz de sustentar aquele olhar por muito tempo.
— Não — respondi, a voz quase engasgada. — Não lembro… não de verdade.
Como eu poderia confessar que passara noites inteiras sonhando com ele? Sonhando seu corpo no meu, sua boca na minha pele, a intensidade febril de beijos que jamais vivi acordada? Como dizer que, na minha cama, ele já era um fantasma íntimo? Corri para longe desse pensamento e, antes que fosse tarde demais, deixei escapar a primeira coisa que me veio à mente:
— Você… você tem doutorado mesmo? Ou é só um título de charme?
A risada dele estourou no ar, tão natural e quente que minhas defesas se despedaçaram.
— Você já me fez exatamente essa pergunta. — Ele balançou a cabeça, divertido. — Sim, eu era doutor. Doutor Smith.
O nome soou solene, pesado demais para caber no homem que sorria ao meu lado.
— — repeti, saboreando as sílabas. — Muito melhor do que “Doutor”.
Ele sorriu mais largo, os olhos brilhando como se eu tivesse dito a coisa mais previsível e, ao mesmo tempo, mais íntima.
— Exato. Você só me chamava de .
Eu engoli em seco, o peito apertado. A sensação de perder algo que nunca tive se espalhava por mim, dolorosa, cruel.
— Eu não aguento mais — admiti, a voz embargada. — Quero lembrar. Eu tento, faço força, mas… nada. É como segurar fumaça com as mãos.
O sorriso dele se desfez. Agora seus olhos carregavam uma seriedade quase solene.
— Então eu vou contar — disse, baixando o tom, como quem faz um juramento. — Mas só se você realmente quiser saber.
O vento soprou mais forte, como se aguardasse a resposta junto comigo. Meu corpo inteiro tremeu, entre o medo do desconhecido e o desejo insuportável de preencher o vazio que me consumia.
recostou-se um pouco contra a pedra, como se finalmente cedesse ao peso dos anos que carregava. Afrouxou a gravata — um gesto simples, mas que, de algum modo, quebrou a barreira solene entre nós. Ele parecia mais humano, mais próximo, menos uma aparição impossível.
— Nós viajamos juntos — começou, a voz grave, mas agora tingida de uma certa nostalgia. — Meses inteiros. Você ficava maravilhada com tudo… cada cidade, cada época. Ria até do que era trivial. E eu… — ele suspirou, deixando escapar um sorriso leve — eu ria porque você ria.
Meu peito se contraiu. Havia ternura naquelas palavras, uma intimidade que me escapava, mas que, de repente, senti quase real.
— E nós…? — ousei perguntar, sem coragem de terminar a frase.
desviou o olhar, como se buscasse algo no horizonte.
— Nós nos aproximamos. Muito. — Sua voz suavizou, e por um instante parecia que ele iria dizer mais. Mas calou-se.
O silêncio entre nós pesou. O vento cortou as folhas, e fechou os olhos, como se estivesse reunindo forças para continuar. Quando voltou a falar, sua voz era diferente: baixa, tensa, embargada.
— Então aconteceu o acidente.
Minha respiração falhou.
— Um homem. — Ele engoliu em seco. — Um inimigo antigo, alguém que esperava a oportunidade perfeita. E encontrou… em você.
Um frio percorreu minha espinha. Senti a pele arrepiar, os dedos gelarem.
— Ele te levou, . — não me olhava agora; encarava o chão, como se fosse incapaz de sustentar o peso da própria lembrança. — Sequestrou você diante dos meus olhos. Não te feriu fisicamente, nunca foi essa a intenção. Ele… ele queria me destruir. E conseguiu.
Pausa.
— Tirou as suas memórias. Cada risada, cada olhar, cada instante nosso. Ele não apagou você… apagou a minha felicidade. Tirou tudo de mim.
Um nó subiu à minha garganta, e as palavras saíram em um sussurro trêmulo:
— Há um jeito de lembrar?
ergueu os olhos, e neles havia um cansaço antigo, uma dor que parecia não caber em um só homem.
— Talvez exista. — A resposta veio hesitante. — Mas eu estava cansado de tentar. Cada tentativa só te machucava mais. Ver você sangrar de dentro para fora… — Ele fechou os olhos por um instante, como se quisesse apagar a imagem. — Então eu te deixei ir.
O silêncio voltou, denso, insuportável. Eu mal conseguia respirar. As palavras “te deixei ir” batiam na minha mente como marteladas.
Ele me deixou.
Ele abriu mão de mim.
E, ainda assim, estava ali.
As palavras dele ecoavam dentro de mim, pesadas demais para caber no peito. O silêncio durou alguns segundos, até que minha própria voz surgiu, mais firme do que eu esperava:
— Talvez a gente pudesse tentar de outro jeito… sem magia.
ergueu uma sobrancelha, confuso.
— Como assim?
— Revivendo momentos. Lugares. Conversas. — Eu buscava as palavras como quem se agarra a tábuas no meio do naufrágio. — Talvez… talvez se eu sentir outra vez, algo volte. Uma fagulha. Qualquer coisa.
O olhar dele se tornou mais sombrio, quase doloroso.
— Por quê? — perguntou, devagar, como se cada letra custasse a sair. — Por que você se arriscaria? Esse mundo… , ele pode ser cruel. Viver na ignorância, sem carregar o peso da dor, não é mais seguro?
Senti meu coração bater mais rápido, e uma raiva suave me incendiou.
— Seguro não é viver pela metade. — Cruzei os braços, mesmo tremendo. — Você está decidindo por mim, . Está impondo o que acha melhor, sem nunca me perguntar o que eu quero.
Ele ficou em silêncio. O vento rodopiou entre nós, como se a própria noite estivesse esperando pela resposta.
— Então me diga. — A voz dele agora era baixa, intensa. — O que você quer, ?
Olhei bem fundo em seus olhos. Não havia espaço para dúvidas.
— Eu quero me lembrar. — A frase saiu firme, quase como um juramento. — Quero cada fragmento de volta, mesmo que doa.
Por um instante, vi algo quebrar dentro dele: um medo profundo, misturado a um brilho de esperança que tentava resistir.
— Meu Deus, Doutor! — Martha correu até ele, apavorada.
Ele apenas ergueu a mão, como quem diz “está tudo sob controle”, mas os passos vacilantes entregavam a dor. Martha o guiou até a poltrona da sala, puxando a caixa de primeiros socorros com a rapidez de quem já havia imaginado esse momento mil vezes.
— Sente-se. — Sua voz soou mais firme do que ela mesma esperava.
Ele obedeceu, mas manteve o olhar distante, fixo em algum ponto além da parede. Martha começou a limpar o ferimento no ombro. Sangrava bastante, mas não parecia mortal.
— Quer me contar o que aconteceu? — ela arriscou.
Ele balançou a cabeça, quase divertido com a própria teimosia.
— Você não entenderia.
— Tente — rebateu Martha, irritada. — A não ser que você seja um vampiro ou coisa do tipo.
O canto da boca dele se ergueu num riso breve, abafado.
— Não, não sou um vampiro.
— Então um assassino de aluguel? — insistiu, aproveitando a rara oportunidade de vê-lo fragilizado. — Porque sinceramente, com esse seu ar misterioso, não duvidaria nada.
Dessa vez ele riu de verdade, mas o som foi curto, logo engolido pelo silêncio.
— Nada disso, Martha. — A voz dele baixou, quase um sussurro. — Eu sou uma pessoa boa. Ou pelo menos tento ser. Mas já faz muito, muito tempo que vivo sozinho. Mais do que qualquer um deveria.
Havia tanta melancolia naquela frase que Martha sentiu a vontade imediata de perguntar “quanto tempo?”, mas conteve-se. Continuou a enfaixar o ombro, sem dizer nada, porque qualquer palavra pareceria pequena demais.
Quando terminou, ele se levantou com dificuldade.
— Obrigado. — O olhar azul encontrou o dela por um instante, sincero. Depois desviou. — Boa noite, Martha.
Subiu as escadas devagar, o corpo pesado, mas a postura ainda orgulhosa.
Ela ficou ouvindo os passos até a porta do quarto se fechar com um clique suave.
Silêncio.
E então, como sempre, o som das passadas começou de novo. Ida e volta. Ida e volta.
Ele dizia “vou dormir”, mas Martha já sabia: o Doutor nunca dormia.
A casa estava mergulhada em silêncio. Só o som das passadas no andar de cima se repetia, incansável, como se ele caminhasse em círculos dentro de si mesmo.
Martha permaneceu sentada na poltrona, as mãos ainda manchadas de sangue já seco. O cheiro metálico impregnava sua pele, insistente.
“Sou uma pessoa boa. Mas já faz muito, muito tempo que vivo sozinho.” As palavras ecoavam, arranhando a mente dela.
Quantos anos um homem podia carregar nos ombros antes de soar daquele jeito? Décadas? Séculos? Ela lembrava da primeira vez em que ouvira o nome “” nas cartas, e como aquele nome se repetia, como um refrão impossível de esquecer.
Subiu os olhos para o teto. Imaginou o Doutor lá em cima, andando de um lado para o outro, os pensamentos mais pesados que qualquer ferimento físico.
Suspirou. Pegou o celular.
Abriu o chat com .
Os dedos pairaram sobre a tela por alguns segundos antes de começar a digitar:
“, eu não deveria estar dizendo isso, mas preciso compartilhar. O Doutor voltou machucado hoje. Disse que eu não entenderia, mas… às vezes eu penso que ele não é como os outros. Que não é daqui, pelo menos não do jeito que a gente é. Ele nunca dorme, nunca descansa. Só anda. Anda como se o tempo inteiro fosse pouco.”
Apagou metade da mensagem, escreveu de novo.
“Achei uma pista. Em alguns documentos dele, vi símbolos estranhos, como fórmulas mas… não eram ciência comum. Ele guarda tudo como se fosse segredo de Estado. Mas não é. É mais antigo. Mais vasto. Como se fosse… outra linguagem.”
Parou, o coração disparado.
Será que devia mesmo arrastar ainda mais para dentro disso? Mas então lembrou-se do olhar vazio dela quando perguntou pela caixa. Da forma como as cartas a haviam atingido. Talvez fosse justo dividir esse fardo.
Respirou fundo e enviou:
“Sei que parece loucura, mas eu acho que o Doutor não é humano do jeito que conhecemos. Talvez ele nunca tenha sido.”
Deixou o celular sobre a mesa e se recostou, exausta.
No andar de cima, os passos dele continuavam. Ida e volta. Ida e volta. Como se a casa inteira fosse apenas uma prisão de paredes finas demais para conter o peso da eternidade.
P.o.v
Adormeci tarde, as cartas ainda espalhadas sobre a mesa como se fossem fantasmas. Quando finalmente fechei os olhos, o sono não veio leve: veio denso, cheio de imagens que pareciam mais lembranças do que invenções.
Ele estava lá.
Um homem que eu nunca havia visto. Alto, com um ar elegante, olhos que pareciam guardar séculos. Não tinha rosto fixo — às vezes nítido, às vezes desfocado como se estivesse envolto em névoa. E, ainda assim, era lindo.
No sonho, estávamos tão próximos que eu podia sentir o calor da pele dele. Nossas mãos se tocavam com naturalidade, como se o gesto fosse antigo. Ele sorria para mim com uma ternura que me desarmava.
Conversávamos calmamente, embora as palavras fossem fragmentadas. Eu não conseguia ouvir frases inteiras, apenas pedaços: “sempre você”, “nunca esqueci”, “meu tempo acabou”. As falas se dissolviam como se o vento as levasse antes que eu pudesse guardá-las.
E então ele me beijava. Um beijo suave, cheio de promessa. Como se fosse o primeiro e o último ao mesmo tempo. Eu sentia meu corpo ceder, o coração disparar, e o sonho se tornava ainda mais enevoado, como se o próprio mundo não pudesse suportar aquele instante.
Havia carícias, juras de amor sussurradas, mas tudo era cortado, nublado, como se alguém apagasse trechos do filme que eu assistia. Quanto mais tentava fixar a imagem, mais ela se desfazia.
Acordei ofegante, o peito acelerado como se tivesse corrido quilômetros.
O quarto estava escuro, silencioso. O lençol grudava na pele com o suor frio do pesadelo — ou do que quer que fosse aquilo.
Levei alguns segundos para compreender: eu nunca havia visto aquele homem. E, no entanto, tinha a estranha certeza de que ele me conhecia mais do que qualquer um.
Olhei para a mesa. As cartas ainda estavam lá, imóveis, mas agora pareciam ainda mais vivas.
Era apenas um sonho. Eu repetia isso para mim. Apenas um sonho.
Mas não parecia.
A mão tremia um pouco quando abri o próximo envelope. Eu já estava acostumada com a intensidade das cartas, mas essa parecia… diferente. O papel estava marcado, a caligrafia mais carregada, como se tivesse sido escrita com pressa ou emoção demais.
“Dia 142 sem você.
Ainda lembro da primeira noite em que me deixou adormecer ao seu lado.
Foram séculos de vida, , séculos de rostos e vozes que se apagaram com o tempo como pinturas expostas demais à luz. Mas nada em toda a minha memória se compara àquele instante em que você se deitou perto de mim e, pela primeira vez, senti que o tempo havia parado.
Seu corpo aquecido contra o meu, sua respiração calma, o jeito como buscou minha mão no escuro — tudo aquilo me devolveu algo que pensei ter perdido há eras: a certeza de que ainda era vivo.
Você sempre riu da forma como me perco em palavras grandiosas, mas não encontro outras. Em todas as minhas viagens, em todos os séculos, nunca conheci mulher tão bela quanto você, nem lábios que beijassem com tanta ternura.
Quando me beijou naquela noite, juro que pensei que o universo inteiro havia se contraído para caber naquele instante.
E quando me aceitou, quando me fez seu, eu compreendi o que nunca havia compreendido antes: que a eternidade pode ser suportada se, ao menos uma vez, alguém como você tocar a minha pele.
Guardo esse momento em mim como um viajante guarda o último pedaço de pão no deserto. É minha lembrança mais humana, a única que me impede de me tornar pedra por dentro.
Se escrevo tudo isso, não é para que você recorde. É para que eu nunca me permita esquecer.”
As letras pareciam cintilar diante dos meus olhos.
Fechei a carta às pressas, como se tivesse cometido um crime apenas por lê-la. O rosto queimava; senti o sangue subir às bochechas, ao pescoço. Estava chocada. Um homem que eu nunca vira descrevia com detalhes — não obscenos, mas íntimos demais — uma noite que eu jamais vivi.
Ou vivi?
Por um instante, uma lembrança vaga ameaçou surgir, um lampejo: calor, mãos, um beijo mais longo do que qualquer outro. Mas desapareceu antes que eu pudesse agarrar.
Corri os olhos pelo apartamento, como se esperasse ver alguém me observando. Nada. Só o silêncio e o som apressado da minha respiração.
Era impossível parar. Por mais assustador, vergonhoso ou absurdo que fosse, eu queria mais.
E essa fome começava a me devorar.
“Dia 215 sem você.
Hoje recordei a primeira vez que compreendi que o mundo — não, os mundos — precisavam de alguém que os mantivesse inteiros.
Eu era apenas um cientista curioso, obcecado com fórmulas e mecanismos que mal compreendia, até que o acaso (ou a ironia do destino) colocou em minhas mãos um objeto que não deveria existir. Um amuleto, se assim posso chamá-lo, embora a palavra seja pequena demais para aquilo que contém.
Desde aquele dia, nunca mais pude repousar como os demais homens. Enquanto eles dormem, eu vigio. Enquanto vivem, eu caminho pelos interstícios de tudo o que existe, fechando rachaduras invisíveis, impedindo que o mal — sempre à espreita, sempre faminto — devore o que ainda nos resta de belo.
Não sei dizer se fui escolhido ou condenado. Talvez as duas coisas.
Sei apenas que, em meio a esse fardo, houve um instante em que tudo pareceu tolerável: o instante em que você segurou minha mão e me fez acreditar que eu ainda podia ser apenas um homem.
Você não imagina, , o que significa encontrar luz em meio a eras de escuridão. O que significa ter o peso do infinito e, ainda assim, sorrir como se eu fosse um rapaz comum, apaixonado por uma mulher comum.
Talvez por isso eu escreva. Para que, quando o vazio me chamar de novo, eu possa lembrar que não fui apenas guardião, vigia ou espectro.
Fui o seu.”
Fechei a carta devagar, como se as palavras pudessem escapar do papel e me cercar. O coração ainda batia rápido, mas uma nova sensação começou a se infiltrar, estranha e incômoda: desconfiança.
Quem faria algo assim?
Levantei-me, fui até a cozinha, servi um copo d’água — qualquer desculpa para me afastar da caixa. Encostada na pia fria, pensei: poderia ser um artista excêntrico, alguém que coleciona fantasias românticas e as despeja em cartas, sem nunca ter visto meu rosto. Ou pior: um maluco qualquer, um stalker, que inventou uma história inteira para me assombrar.
Mas se era isso, como ele sabia de coisas que ninguém sabia? O café sem leite. O hábito de deixar bilhetes grudados em todas as superfícies. A mania de organizar meus livros por cor, e não por autor.
Nenhuma dessas coisas estava em rede social alguma.
— Não faz sentido… — murmurei para mim mesma, apertando o copo nas mãos.
Passei a mão pelos cabelos, andei pelo apartamento como uma fera enjaulada. Parte de mim queria trancar tudo numa gaveta, chamar a polícia, denunciar. Outra parte queria correr de volta à caixa e continuar lendo até os olhos arderem.
Quando finalmente me deixei cair no sofá, encarei o teto escuro e uma risada nervosa escapou da garganta. “Talvez eu tenha dado match com um lunático do Tinder que também fez curso de caligrafia e história antiga”, pensei, tentando me convencer. Mas a piada não colava.
Não era o tom de um lunático.
Era o tom de alguém que acreditava.
De alguém que sentia.
E eu não conseguia decidir o que era mais perturbador: a possibilidade de ser alvo de um estranho, ou a possibilidade de ser alvo de alguém que me conhecia… de verdade.
Fechei os olhos, mas em vez de paz veio a memória do sonho da noite anterior. O rosto dele, nublado e sem nome, aproximando-se do meu. As mãos firmes, os lábios quentes, as promessas sussurradas.
Acordei com um sobressalto, sem perceber que havia adormecido. A caixa ainda estava ali, sobre a mesa, como um convite.
E eu sabia que não teria forças para recusar.
Eu já tinha perdido a conta de quantas cartas havia lido. A madrugada avançava, e as páginas se acumulavam sobre a mesa como testemunhas silenciosas de um amor impossível.
As mãos tremiam levemente, o coração batia descompassado. Havia uma última carta, ainda fechada, no fundo da caixa. A caligrafia era mais firme, quase solene.
Respirei fundo antes de romper o lacre.
Dia 327 sem você.
Esta casa já não me pertence. Tornou-se um eco de nós dois, . Cada objeto guarda a lembrança do seu toque, cada parede guarda o som da sua risada. Tento caminhar entre os móveis como quem atravessa um museu particular de ausências.
Pensei em contratar alguém que me auxilie, uma secretária talvez, para dar ordem ao caos que deixei se espalhar. Mas sei que, ainda assim, cada gaveta trará o mesmo tormento: o vazio que você deixou.
Há noites em que não consigo suportar estas paredes. É então que vou até o nosso lugar — aquele campo aberto, a colina alta de onde víamos as estrelas se multiplicarem até o horizonte. Você dizia que o céu ali parecia mais próximo, como se pudesse tocar com a ponta dos dedos.
Sento-me na mesma pedra onde costumávamos dividir o silêncio. Permaneço imóvel, esperando que você venha rir de mim outra vez, como ria sempre que eu me perdia em descrições poéticas do firmamento.
É ridículo, eu sei. Mas não consigo deixar de esperar.
Guardo esta esperança como quem guarda um segredo proibido: talvez, por um descuido do tempo, você volte a se sentar ao meu lado.
Se um dia sentir o mesmo chamado, se algum sussurro lhe fizer lembrar de mim, vá até lá. Estarei esperando.
O papel escorregou das minhas mãos.
Meu corpo inteiro gelou, mas não foi pelo medo.
Eu conhecia aquele lugar.
Conhecia desde menina — a colina onde costumava fugir nos verões, o refúgio secreto em que me deitava para olhar o céu e acreditar que havia algo além dessa vida comum.
Ninguém sabia disso. Nenhuma amiga, nenhum namorado, nem mesmo minha família.
Era meu segredo.
E agora estava ali, descrito com a exatidão de alguém que esteve comigo, que viveu ao meu lado.
As lágrimas vieram sem aviso. Não de tristeza, mas de uma estranha vertigem, como se o chão tivesse desaparecido. O mundo que eu conhecia parecia pequeno demais para conter a verdade que se insinuava diante de mim.
Alguém me esperava naquela colina.
E, de algum modo impossível, eu já sabia quem era.
A carta ainda ardia na minha mente quando percebi que já estava com a chave do carro na mão.
Uma parte de mim gritava que aquilo era uma ideia péssima, provavelmente a pior decisão da minha vida. Outra parte — mais teimosa e irracional — me empurrava para frente como se fosse inevitável.
“, você enlouqueceu”, repeti para o reflexo no retrovisor quando liguei o motor.
Primeiro: se aquele homem era um psicopata qualquer, essa era a chance perfeita para me esquartejar e desovar meu corpo no alto da colina. “Lugar ermo, cenário romântico, vítima sentimental — perfeito”, ironizei para mim mesma, batucando os dedos no volante.
Segundo: e se ele fosse mesmo o que dizia ser? Um viajante do tempo, guardião das realidades, sei lá. Então por que eu, uma mortal comum com olheiras de escritório, precisava dirigir quilômetros pela estrada escura, em vez de simplesmente acordar um dia e vê-lo surgir no meio da minha sala? Não era essa a vantagem de mexer com espaço e tempo?
Bufei, frustrada. “Sério, se é pra sofrer por um viajante cósmico, que pelo menos ele saiba usar um atalho.”
Mas continuei dirigindo.
A estrada se estendia diante de mim, vazia, cortando os campos como uma fita negra iluminada pelos faróis. O rádio estava desligado, porque qualquer música parecia invasiva demais diante do que estava prestes a acontecer. Meus pensamentos faziam barulho suficiente.
O medo e a excitação brigavam dentro de mim. Eu me julgava, me condenava, me chamava de idiota por acreditar numa caixa de cartas escritas em caligrafia de outro século. Mas a cada quilômetro percorrido, o coração batia mais rápido, como se reconhecesse que algo inevitável me aguardava.
Quando finalmente vi a silhueta familiar da colina contra o céu estrelado, quase chorei. Era o meu lugar. Era o nosso lugar, de acordo com aquelas cartas impossíveis.
Estacionei o carro alguns metros antes, desliguei o motor e fiquei ali, com as mãos coladas ao volante.
Tudo em mim dizia: volte para casa.
Mas algo maior, mais antigo, sussurrava: continue.
Abri a porta, senti o vento frio da madrugada bater no rosto e comecei a subir.
Cada passo era um duelo entre a sanidade e a esperança.
A subida foi mais curta do que lembrava. Talvez pela pressa, talvez pelo coração acelerado. Quando cheguei ao topo, o vento frio me envolveu e o silêncio caiu pesado, quebrado apenas pelo som das folhas secas sob meus passos.
A pedra estava lá, igualzinha, como um velho amigo que nunca se moveu. Sentei-me devagar, abraçando os joelhos contra o peito. O céu se abria imenso acima de mim, salpicado de estrelas, exatamente como nas lembranças que guardei da infância.
Mas não havia ninguém.
O tempo passou sem pressa. O frio se infiltrava pelas mangas do casaco, e eu comecei a rir sozinha — uma risada curta, nervosa, meio amarga.
“Parabéns, ”, sussurrei para mim mesma. “Você dirigiu quilômetros para reencontrar o amor cósmico de sua vida… e o que conseguiu? Uma gripe.”
Peguei o celular.
A mensagem já estava lá, enviada a Martha horas antes: ‘Se eu desaparecer, procure na colina. É sério.’
Um alívio estranho percorreu minha espinha. Ao menos alguém sabia onde eu estava.
Fechei os olhos por um instante, cansada. A pedra era desconfortável, o vento gelado, e ainda assim havia um certo consolo em estar ali. Talvez porque fosse um lugar meu, um refúgio antigo, não porque uma carta o transformara em santuário.
E foi então que ouvi.
Passos.
Leves, hesitantes, quebrando o silêncio atrás de mim.
Meu corpo inteiro ficou rígido. O instinto gritou para correr, mas a curiosidade — ou a loucura — me obrigou a virar.
E lá estava ele.
Um homem alto, esguio, de presença quase etérea. A silhueta contra as estrelas fazia-o parecer mais um anjo do que um ser humano. Os cabelos escuros agitavam-se com o vento, e os olhos — mesmo à distância — brilhavam de uma intensidade impossível.
Era o rosto do meu sonho.
Era o rosto das cartas.
Por um segundo, o mundo perdeu a lógica. Eu não soube se devia gritar, chorar ou simplesmente cair de joelhos.
Ele apenas me olhava, sério e belo, como se tivesse atravessado séculos para chegar até ali.
Ele não disse nada de imediato. Apenas caminhou até a pedra, parou diante de mim e — como se sempre tivesse feito parte daquele lugar — sentou-se ao meu lado.
Eu não conseguia respirar direito. Cada detalhe dele parecia impossível de ignorar: o corte delicado da mandíbula, o brilho insuportavelmente intenso dos olhos, os lábios que se curvaram em um quase sorriso ao me ver ali. Até o vento parecia inclinar-se para tocá-lo primeiro.
Fiquei imóvel, olhando como uma criança que encontra uma criatura mítica pela primeira vez. Ele parecia… real demais para ser humano. Belo demais para caber no meu mundo.
— Você… — Minha voz falhou. Engoli em seco, tentando recompor alguma dignidade. — Eu li as cartas.
A expressão dele mudou. Algo entre surpresa e… medo? Os olhos piscaram rápido, e ele inclinou levemente a cabeça, como se buscasse confirmar se eu falava sério.
— Como? — perguntou, por fim. A voz dele era grave, calma, de uma formalidade que soava antiga. Uma voz que carregava séculos.
A resposta escapou de mim como um suspiro: — Martha.
Foi então que ele riu.
Meu coração tropeçou no peito. Eu já tinha me apaixonado pelo homem das cartas, mas vê-lo sorrir diante de mim foi devastador. Era como se o céu se abrisse. O riso era leve, inesperado, transformando aquele semblante tão solene em algo humano, próximo, quente.
E eu percebi que estava perdida. Não havia volta.
Fiquei ali, observando-o, pensando no absurdo de tudo aquilo: um desconhecido que eu sonhara, que escrevera sobre mim como se tivesse vivido em minha pele, agora sentado a centímetros de distância, rindo do meu choque.
Eu deveria ter medo. Mas tudo o que senti foi uma estranha familiaridade.
Como se, em algum lugar que minha memória não alcançava, eu já tivesse estado exatamente ali — com ele.
Ele me observava em silêncio, os olhos fixos nos meus como se quisesse atravessar minha alma. Então, a pergunta veio, simples, mas com o peso de um universo inteiro:
— Você se lembra de algo?
Meu rosto queimou. O coração disparou de novo, e eu desejei que o vento fosse forte o bastante para me carregar dali. Respirei fundo, incapaz de sustentar aquele olhar por muito tempo.
— Não — respondi, a voz quase engasgada. — Não lembro… não de verdade.
Como eu poderia confessar que passara noites inteiras sonhando com ele? Sonhando seu corpo no meu, sua boca na minha pele, a intensidade febril de beijos que jamais vivi acordada? Como dizer que, na minha cama, ele já era um fantasma íntimo? Corri para longe desse pensamento e, antes que fosse tarde demais, deixei escapar a primeira coisa que me veio à mente:
— Você… você tem doutorado mesmo? Ou é só um título de charme?
A risada dele estourou no ar, tão natural e quente que minhas defesas se despedaçaram.
— Você já me fez exatamente essa pergunta. — Ele balançou a cabeça, divertido. — Sim, eu era doutor. Doutor Smith.
O nome soou solene, pesado demais para caber no homem que sorria ao meu lado.
— — repeti, saboreando as sílabas. — Muito melhor do que “Doutor”.
Ele sorriu mais largo, os olhos brilhando como se eu tivesse dito a coisa mais previsível e, ao mesmo tempo, mais íntima.
— Exato. Você só me chamava de .
Eu engoli em seco, o peito apertado. A sensação de perder algo que nunca tive se espalhava por mim, dolorosa, cruel.
— Eu não aguento mais — admiti, a voz embargada. — Quero lembrar. Eu tento, faço força, mas… nada. É como segurar fumaça com as mãos.
O sorriso dele se desfez. Agora seus olhos carregavam uma seriedade quase solene.
— Então eu vou contar — disse, baixando o tom, como quem faz um juramento. — Mas só se você realmente quiser saber.
O vento soprou mais forte, como se aguardasse a resposta junto comigo. Meu corpo inteiro tremeu, entre o medo do desconhecido e o desejo insuportável de preencher o vazio que me consumia.
recostou-se um pouco contra a pedra, como se finalmente cedesse ao peso dos anos que carregava. Afrouxou a gravata — um gesto simples, mas que, de algum modo, quebrou a barreira solene entre nós. Ele parecia mais humano, mais próximo, menos uma aparição impossível.
— Nós viajamos juntos — começou, a voz grave, mas agora tingida de uma certa nostalgia. — Meses inteiros. Você ficava maravilhada com tudo… cada cidade, cada época. Ria até do que era trivial. E eu… — ele suspirou, deixando escapar um sorriso leve — eu ria porque você ria.
Meu peito se contraiu. Havia ternura naquelas palavras, uma intimidade que me escapava, mas que, de repente, senti quase real.
— E nós…? — ousei perguntar, sem coragem de terminar a frase.
desviou o olhar, como se buscasse algo no horizonte.
— Nós nos aproximamos. Muito. — Sua voz suavizou, e por um instante parecia que ele iria dizer mais. Mas calou-se.
O silêncio entre nós pesou. O vento cortou as folhas, e fechou os olhos, como se estivesse reunindo forças para continuar. Quando voltou a falar, sua voz era diferente: baixa, tensa, embargada.
— Então aconteceu o acidente.
Minha respiração falhou.
— Um homem. — Ele engoliu em seco. — Um inimigo antigo, alguém que esperava a oportunidade perfeita. E encontrou… em você.
Um frio percorreu minha espinha. Senti a pele arrepiar, os dedos gelarem.
— Ele te levou, . — não me olhava agora; encarava o chão, como se fosse incapaz de sustentar o peso da própria lembrança. — Sequestrou você diante dos meus olhos. Não te feriu fisicamente, nunca foi essa a intenção. Ele… ele queria me destruir. E conseguiu.
Pausa.
— Tirou as suas memórias. Cada risada, cada olhar, cada instante nosso. Ele não apagou você… apagou a minha felicidade. Tirou tudo de mim.
Um nó subiu à minha garganta, e as palavras saíram em um sussurro trêmulo:
— Há um jeito de lembrar?
ergueu os olhos, e neles havia um cansaço antigo, uma dor que parecia não caber em um só homem.
— Talvez exista. — A resposta veio hesitante. — Mas eu estava cansado de tentar. Cada tentativa só te machucava mais. Ver você sangrar de dentro para fora… — Ele fechou os olhos por um instante, como se quisesse apagar a imagem. — Então eu te deixei ir.
O silêncio voltou, denso, insuportável. Eu mal conseguia respirar. As palavras “te deixei ir” batiam na minha mente como marteladas.
Ele me deixou.
Ele abriu mão de mim.
E, ainda assim, estava ali.
As palavras dele ecoavam dentro de mim, pesadas demais para caber no peito. O silêncio durou alguns segundos, até que minha própria voz surgiu, mais firme do que eu esperava:
— Talvez a gente pudesse tentar de outro jeito… sem magia.
ergueu uma sobrancelha, confuso.
— Como assim?
— Revivendo momentos. Lugares. Conversas. — Eu buscava as palavras como quem se agarra a tábuas no meio do naufrágio. — Talvez… talvez se eu sentir outra vez, algo volte. Uma fagulha. Qualquer coisa.
O olhar dele se tornou mais sombrio, quase doloroso.
— Por quê? — perguntou, devagar, como se cada letra custasse a sair. — Por que você se arriscaria? Esse mundo… , ele pode ser cruel. Viver na ignorância, sem carregar o peso da dor, não é mais seguro?
Senti meu coração bater mais rápido, e uma raiva suave me incendiou.
— Seguro não é viver pela metade. — Cruzei os braços, mesmo tremendo. — Você está decidindo por mim, . Está impondo o que acha melhor, sem nunca me perguntar o que eu quero.
Ele ficou em silêncio. O vento rodopiou entre nós, como se a própria noite estivesse esperando pela resposta.
— Então me diga. — A voz dele agora era baixa, intensa. — O que você quer, ?
Olhei bem fundo em seus olhos. Não havia espaço para dúvidas.
— Eu quero me lembrar. — A frase saiu firme, quase como um juramento. — Quero cada fragmento de volta, mesmo que doa.
Por um instante, vi algo quebrar dentro dele: um medo profundo, misturado a um brilho de esperança que tentava resistir.
Capítulo 03
O despertador não tocou. Ainda assim, abri os olhos cedo, como se algo dentro de mim já soubesse que hoje seria diferente. O sábado tinha um peso especial: era o dia em que começaríamos a tentar resgatar minhas memórias.
Levantei devagar, ajeitando os cabelos desgrenhados, e senti o frio do chão sob os pés. O coração batia rápido, como se eu fosse para uma entrevista de emprego ou… um primeiro encontro. Vesti qualquer coisa, mas quando me olhei no espelho, percebi que estava nervosa demais até para escolher uma blusa decente.
Quando chegou, o mundo pareceu se ajeitar em torno dele. Não importava se estava apenas parado na porta do meu apartamento, com aquele ar de quem não pertencia a este século: ele chamava a atenção como uma estrela caída na calçada.
— Pronta? — perguntou, e a voz grave soou quase como uma promessa.
No caminho, eu esperava qualquer coisa: um mirante escondido, uma floresta perdida, talvez uma catedral medieval que só ele conhecia. Mas, quando viramos a esquina, meu corpo congelou.
Sorveteria.
A mesma de sempre.
Trinta e cinco metros da minha casa.
Eu parei no meio da calçada, encarando a placa azul desbotada e o toldo gasto.
— Espera. — Olhei para ele, incrédula. — Você podia me levar para qualquer ponto do espaço-tempo. Literalmente qualquer lugar da história da humanidade. E o meu grande desejo era… andar trinta e cinco metros para tomar o mesmo sorvete de sempre?
riu. Não uma risada discreta, mas aberta, contagiante. As pessoas na rua olharam, algumas discretamente, outras sem vergonha alguma. Ele tinha esse tipo de presença: era impossível não notar.
— Você não fazia questão de pirâmides, revoluções ou espetáculos imperiais — disse, ainda rindo. — O que você mais pedia era o de sempre: casquinha de chocolate meio amargo. “Com calda, por favor”, dizia, como se fosse a senha do universo.
Eu revirei os olhos, mas não consegui conter um sorriso.
— Que patético. — Cruzei os braços. — Isso não é nem um pouco cinematográfico.
— Ao contrário. — Ele se aproximou, baixando o tom de voz como se revelasse um segredo. — Foi nesse lugar simples que você mais me ensinou sobre o que significa viver.
Fiquei em silêncio, observando-o entrar na sorveteria como se fosse a coisa mais natural do mundo. E, de repente, a cena se tornou absurda: um viajante do tempo elegante, chamando atenção até da senhora que servia casquinhas, pedindo calmamente dois sorvetes de chocolate meio amargo com calda.
Quando ele me entregou um, nossas mãos se tocaram. O frio da casquinha contrastou com o calor da pele dele. Meu coração tropeçou.
Sentei na mesa de plástico branca, e ele se acomodou em frente. Por um instante, foi como… normalidade. Ridícula e mágica, ao mesmo tempo.
— Então? — perguntei, mordendo a borda do sorvete. — E o que a gente conversava tanto aqui?
apoiou o queixo na mão, me observando como quem olha para um tesouro esquecido.
— Sobre tudo. E sobre nada. — Ele sorriu. — Era aqui que você mais parecia… você mesma.
Fiquei ali, girando a casquinha entre os dedos, observando a calda escorrer devagar. O gosto era o mesmo de sempre: doce, familiar, quase banal. Mas com sentado em frente, o banal parecia impossível.
— Então eu ficava feliz só com isso? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Um sorvete?
— Não era o sorvete. — Ele sorriu de canto. — Era a gente aqui, conversando sobre tudo, a intimidade, a casualidade…
Revirei os olhos, prestes a responder com ironia, mas o riso morreu na garganta. Porque, sem aviso, uma imagem atravessou minha mente.
Eu estava ali, na mesma cadeira de plástico, mas havia uma música antiga saindo do rádio ao fundo, e tentava me ensinar a pronunciar uma palavra em francês. Eu ria tanto que quase deixei o sorvete cair, e ele, numa tentativa desesperada de me salvar da lambança, segurou minha mão por cima da mesa. Foi rápido, atrapalhado, mas quente. Quente de um jeito que ficou gravado na pele.
A lembrança sumiu tão rápido quanto veio. Mas o impacto ficou.
Deixei a casquinha cair no pratinho de papelão, minhas mãos tremendo levemente.
— O que foi? — perguntou, preocupado, inclinando-se para mim.
— Eu… eu vi. — Engoli em seco, encarando-o com olhos arregalados. — Aqui. Nós dois. Você segurando minha mão.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os anteriores: não era pesado, mas cheio de algo novo, algo que nascia ali, no espaço entre nós.
parecia não acreditar, mas seus olhos brilharam de um jeito que fez meu peito doer.
— Você se lembrou. — A voz saiu rouca, quase um sussurro.
E eu percebi que ele tinha razão.
Não era muito, não era completo. Mas era uma fagulha. Uma prova de que havia algo escondido em mim, esperando para despertar.
não sorriu. Seus olhos brilharam, sim, mas havia ali uma sombra de cautela, um receio quase paternal. Ele se recostou um pouco, como se buscasse retomar o fôlego antes de me encarar de novo.
— … isso não é pouca coisa. — A voz dele era baixa, firme. — Você se lembrou de algo. Mas preciso te perguntar: já tinha acontecido antes?
Meu coração disparou. O calor subiu pelas minhas bochechas, queimando até as orelhas.
— Antes? — repeti, tentando ganhar tempo, mordendo o lábio inferior.
Ele não desviava o olhar, e eu sabia que era inútil fugir. Respirei fundo, tentando colocar em palavras o que parecia absurdo.
— Eu… eu já sonhei. — Baixei os olhos para o sorvete, agora derretendo. — Não sei se era sonho. Mas parecia… mais.
Silêncio. O mundo lá fora seguia normal — crianças pedindo casquinha, a máquina de refrigerante chiando —, mas entre nós o ar ficou pesado.
— O que você viu? — perguntou, sem levantar a voz, mas cada palavra soou como uma ordem suave.
Engoli em seco.
Como eu poderia dizer aquilo?
Que o que me perseguia nas madrugadas não era um devaneio qualquer, mas a lembrança dele no meu quarto, os lençóis amassados, a respiração entrecortada? Que eu o lembrava sem camisa, a pele quente, os olhos queimando de desejo?
Corada, balancei a cabeça, enfiando a colher de plástico no sorvete só para ocupar as mãos.
— Não importa. — Murmurei, quase engasgando. — É… confuso demais.
não insistiu. Apenas me observou em silêncio, os olhos carregados de algo que eu não consegui decifrar. Talvez dor, talvez cuidado. Talvez ambos.
— Se for verdade, — disse ele, finalmente —, recuperar essas lembranças pode te ferir. Não só pela intensidade… mas porque há dores escondidas junto delas.
Ele afastou o olhar, fixando-se no nada, como se carregasse o peso de uma lembrança que ainda não ousava me devolver.
E, pela primeira vez, eu percebi: talvez o medo não fosse de eu sofrer. Talvez fosse dele.
________________________________________
O próximo final de semana amanheceu com um ar de expectativa que mal me deixou dormir. Quando me buscou, não fez suspense: apenas estendeu a mão e disse que tínhamos outro destino. E, em questão de segundos — ou talvez fosse mais tempo e eu nem soubesse calcular —, estávamos em Paris.
A cidade do amor.
Não havia clichê que coubesse na sensação de estar diante da Torre Eiffel, mesmo que eu tivesse visto tantas fotos, tantas vezes. Mas o que me deixou sem fala não foi a torre, nem as ruas iluminadas, nem o som distante de um acordeão: foi o apartamento.
Um quarto elegante, com janelas francesas abertas para a varanda. O horizonte exibia a torre inteira, dourada contra o céu da tarde. Era íntimo, quase secreto.
— Você já esteve aqui comigo — disse , ajeitando a gravata como quem ajeita também a própria memória. — Por meses. Este lugar era… nosso.
Não perguntei como ele tinha um apartamento em Paris. Nem de onde vinha, nem o que pagava. Simplesmente aceitei. Era . E, de algum modo, isso já bastava.
Nos acomodamos na sala, as luzes da cidade se acendendo devagar do lado de fora. O silêncio parecia confortável, mas meu coração não parava de martelar. E foi nesse ritmo que uma ideia insana me atravessou.
Talvez houvesse uma forma de forçar a memória a voltar.
— E se… — comecei, hesitante, mordendo o lábio. — E se eu tentasse… sentir de novo?
me olhou com cautela, sem entender. Antes que ele pudesse perguntar, eu me levantei, cruzei a curta distância entre nós e toquei seu rosto com as duas mãos. Ele não se afastou. Pelo contrário: seus olhos me seguiram com uma intensidade que quase me fez desistir.
Mas eu não desisti.
Me inclinei e o beijei.
Foi um beijo quente, suave no começo, depois mais firme, como se meu corpo soubesse o caminho que minha mente esquecia. O coração disparou, as mãos tremeram, o mundo sumiu. Tudo o que restou foi o gosto dele, o calor dele, a força da presença dele.
Quando nos afastamos, respirei fundo, quase trêmula. Esperei.
Mas nada aconteceu.
Nenhuma lembrança. Nenhum lampejo de outro tempo, outra vida. Apenas o silêncio pesado da decepção.
— Nada… — sussurrei, mordendo o lábio. — Não funcionou.
baixou os olhos, e pela primeira vez notei que havia tristeza misturada ao autocontrole.
— Eu disse que não seria tão simples — respondeu, a voz baixa, quase um consolo. — Mas isso não significa que não vai acontecer.
Eu queria acreditar. Mas, naquele momento, tudo que senti foi o vazio de esperar algo que não veio. — Então… — arrisquei, a voz saindo baixa, quase tímida. — Me conta. O que a gente fazia aqui, em Paris?
desviou o olhar. Pela primeira vez desde que o conheci, ele pareceu… constrangido.
— … — começou, pigarreando, como se buscasse a palavra certa. — Você… você gostava. Só isso.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase palpável. Eu arqueei a sobrancelha, surpresa. Ver o homem que parecia carregar séculos nos ombros corar levemente foi desconcertante, quase doce.
— Gostava? — insisti, inclinando a cabeça.
— Muito. — Ele passou a mão na nuca, nervoso. — É Paris, afinal. E você não era exatamente… discreta.
Meu rosto esquentou, e por alguns segundos, ficamos apenas nos olhando, sem saber se ríamos ou desviávamos os olhos. O clima se tornou íntimo, estranho e irresistível. Eu me sentei ao lado dele no sofá, perto demais para ser apenas conforto. O espaço entre nós parecia prestes a desaparecer a qualquer instante.
Para quebrar o silêncio, falei o que me vinha à mente:
— As cartas.
piscou, surpreso.
— O quê?
— Você escrevia… tão bem. — Apertei as mãos no colo, encarando-o. — Nunca li nada tão bonito, tão sincero. Era como se… cada palavra viesse direto do coração.
Ele respirou fundo, e o ar ficou pesado de emoção não dita. Por um instante, achei que ele fosse se afastar. Mas não. Seus olhos prenderam os meus, e havia neles uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto.
E então nos beijamos.
Dessa vez, não foi hesitante. Foi cheio, intenso, carregado de tudo o que as palavras não davam conta. Um beijo que queimava como fogo antigo reacendido, como se o tempo inteiro só tivesse esperado a fagulha certa.
E, no meio daquele calor, algo aconteceu.
Imagens me invadiram de repente: risadas abafadas sob lençóis brancos, o cheiro do vinho barato misturado ao seu perfume, a janela aberta com a Torre Eiffel iluminada ao fundo. Eu o vi me puxando pela cintura, eu o ouvi sussurrando em meu ouvido em outra língua, palavras que não entendi mas que me fizeram rir até as lágrimas.
Quando nos afastamos, meu peito arfava.
— Eu… — a voz falhou, mas consegui completar — eu me lembrei.
me encarava como se tivesse acabado de ver o impossível acontecer diante de seus olhos.
— O que você lembrou? — perguntou de repente, a voz urgente, quase sem fôlego. Os olhos dele ardiam de uma esperança tão intensa que parecia me atravessar inteira. — Me diz, . Cada detalhe.
Ainda zonza, fechei os olhos por um instante, tentando organizar as imagens que vinham como flashes.
— Nós… — respirei fundo, mordendo o lábio. — Estávamos aqui. Rindo. Você me puxava para a sacada, me fazia experimentar vinho horrível só para rir da minha cara. E… — corei, desviando o olhar — tinha… a cama.
A respiração dele acelerou, e um sorriso despontou no canto de sua boca.
— Então é isso. — Ele inclinou-se um pouco, a voz mais baixa e carregada de algo perigoso. — Talvez o truque seja simples. Continuarmos de onde paramos…
Arregalei os olhos e soltei uma risada nervosa.
— ! — exclamei, dando-lhe um tapinha no ombro, mais de brincadeira do que repreensão.
Ele riu também, mas o riso dele era leve, diferente. Não havia ironia, apenas uma alegria quase infantil, como se tivesse recebido um presente que não esperava.
— Eu não estou brincando tanto assim — disse, ainda sorrindo, mas os olhos brilhavam sérios, cheios de desejo e esperança.
Meu coração disparou de novo. Porque, no fundo, eu sabia: parte de mim queria exatamente isso.
________________________________________
Acordei no meio da noite. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, a Torre Eiffel iluminada refletia sua luz pela cortina entreaberta. A cama enorme parecia maior ainda sem ninguém ao lado, e por um instante me perguntei como seria dormir ali com — mas ele tinha insistido.
“Não é certo”, dissera, firme mas com uma doçura que partiu meu coração. “Você não se lembra de mim. Para você, sou um estranho. Dormir ao seu lado seria injusto.”
Eu achei fofo, mesmo que não tivesse concordado completamente. Afinal, depois das lembranças que haviam voltado, era tudo, menos um estranho. Mas guardei esse pensamento só para mim.
Levantei para pegar um copo d’água e, quando passei pela sala, o vi sentado no sofá, a gravata solta sobre o encosto, os cabelos um pouco bagunçados. Não estava dormindo.
— Você não dorme? — perguntei, surpresa.
Ele ergueu os olhos para mim, o rosto iluminado apenas pelo reflexo da cidade. Havia cansaço ali, mas também um brilho sereno.
— Só se estiver muito cansado — respondeu, com um leve encolher de ombros.
— Então… nunca? — provoquei, sentando-me na poltrona ao lado.
Ele sorriu de canto. — Quase nunca.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo os sons distantes de Paris adormecida: passos na rua, o ronronar de um carro, o vento. Era uma calma estranha, como se o mundo inteiro tivesse parado só para nós dois.
Aos poucos, a conversa surgiu, sem esforço. Falamos de coisas banais — sabores de sorvete, músicas antigas, lugares que eu ainda queria conhecer. Depois, deslizamos para o inesperado: ele me contou sobre uma vez em que errou uma data e quase estragou uma missão inteira. Eu ri até as lágrimas, e o som ecoou pelo apartamento como um bálsamo.
A madrugada se arrastou, e com ela o peso nos meus olhos. Eu me encolhi no canto do sofá, cada vez mais sonolenta, enquanto ele falava com aquela voz grave que parecia embalar a própria noite.
— … — murmurei, já quase vencida pelo sono. — Obrigada por não desistir de mim.
Ele não respondeu de imediato. Quando finalmente falou, sua voz era baixa demais, como se tivesse medo de que eu realmente ouvisse.
— Nunca desistiria.
E foi assim, ouvindo-o respirar ao meu lado, que adormeci no sofá, sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, estava exatamente onde deveria estar.
Levantei devagar, ajeitando os cabelos desgrenhados, e senti o frio do chão sob os pés. O coração batia rápido, como se eu fosse para uma entrevista de emprego ou… um primeiro encontro. Vesti qualquer coisa, mas quando me olhei no espelho, percebi que estava nervosa demais até para escolher uma blusa decente.
Quando chegou, o mundo pareceu se ajeitar em torno dele. Não importava se estava apenas parado na porta do meu apartamento, com aquele ar de quem não pertencia a este século: ele chamava a atenção como uma estrela caída na calçada.
— Pronta? — perguntou, e a voz grave soou quase como uma promessa.
No caminho, eu esperava qualquer coisa: um mirante escondido, uma floresta perdida, talvez uma catedral medieval que só ele conhecia. Mas, quando viramos a esquina, meu corpo congelou.
Sorveteria.
A mesma de sempre.
Trinta e cinco metros da minha casa.
Eu parei no meio da calçada, encarando a placa azul desbotada e o toldo gasto.
— Espera. — Olhei para ele, incrédula. — Você podia me levar para qualquer ponto do espaço-tempo. Literalmente qualquer lugar da história da humanidade. E o meu grande desejo era… andar trinta e cinco metros para tomar o mesmo sorvete de sempre?
riu. Não uma risada discreta, mas aberta, contagiante. As pessoas na rua olharam, algumas discretamente, outras sem vergonha alguma. Ele tinha esse tipo de presença: era impossível não notar.
— Você não fazia questão de pirâmides, revoluções ou espetáculos imperiais — disse, ainda rindo. — O que você mais pedia era o de sempre: casquinha de chocolate meio amargo. “Com calda, por favor”, dizia, como se fosse a senha do universo.
Eu revirei os olhos, mas não consegui conter um sorriso.
— Que patético. — Cruzei os braços. — Isso não é nem um pouco cinematográfico.
— Ao contrário. — Ele se aproximou, baixando o tom de voz como se revelasse um segredo. — Foi nesse lugar simples que você mais me ensinou sobre o que significa viver.
Fiquei em silêncio, observando-o entrar na sorveteria como se fosse a coisa mais natural do mundo. E, de repente, a cena se tornou absurda: um viajante do tempo elegante, chamando atenção até da senhora que servia casquinhas, pedindo calmamente dois sorvetes de chocolate meio amargo com calda.
Quando ele me entregou um, nossas mãos se tocaram. O frio da casquinha contrastou com o calor da pele dele. Meu coração tropeçou.
Sentei na mesa de plástico branca, e ele se acomodou em frente. Por um instante, foi como… normalidade. Ridícula e mágica, ao mesmo tempo.
— Então? — perguntei, mordendo a borda do sorvete. — E o que a gente conversava tanto aqui?
apoiou o queixo na mão, me observando como quem olha para um tesouro esquecido.
— Sobre tudo. E sobre nada. — Ele sorriu. — Era aqui que você mais parecia… você mesma.
Fiquei ali, girando a casquinha entre os dedos, observando a calda escorrer devagar. O gosto era o mesmo de sempre: doce, familiar, quase banal. Mas com sentado em frente, o banal parecia impossível.
— Então eu ficava feliz só com isso? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Um sorvete?
— Não era o sorvete. — Ele sorriu de canto. — Era a gente aqui, conversando sobre tudo, a intimidade, a casualidade…
Revirei os olhos, prestes a responder com ironia, mas o riso morreu na garganta. Porque, sem aviso, uma imagem atravessou minha mente.
Eu estava ali, na mesma cadeira de plástico, mas havia uma música antiga saindo do rádio ao fundo, e tentava me ensinar a pronunciar uma palavra em francês. Eu ria tanto que quase deixei o sorvete cair, e ele, numa tentativa desesperada de me salvar da lambança, segurou minha mão por cima da mesa. Foi rápido, atrapalhado, mas quente. Quente de um jeito que ficou gravado na pele.
A lembrança sumiu tão rápido quanto veio. Mas o impacto ficou.
Deixei a casquinha cair no pratinho de papelão, minhas mãos tremendo levemente.
— O que foi? — perguntou, preocupado, inclinando-se para mim.
— Eu… eu vi. — Engoli em seco, encarando-o com olhos arregalados. — Aqui. Nós dois. Você segurando minha mão.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os anteriores: não era pesado, mas cheio de algo novo, algo que nascia ali, no espaço entre nós.
parecia não acreditar, mas seus olhos brilharam de um jeito que fez meu peito doer.
— Você se lembrou. — A voz saiu rouca, quase um sussurro.
E eu percebi que ele tinha razão.
Não era muito, não era completo. Mas era uma fagulha. Uma prova de que havia algo escondido em mim, esperando para despertar.
não sorriu. Seus olhos brilharam, sim, mas havia ali uma sombra de cautela, um receio quase paternal. Ele se recostou um pouco, como se buscasse retomar o fôlego antes de me encarar de novo.
— … isso não é pouca coisa. — A voz dele era baixa, firme. — Você se lembrou de algo. Mas preciso te perguntar: já tinha acontecido antes?
Meu coração disparou. O calor subiu pelas minhas bochechas, queimando até as orelhas.
— Antes? — repeti, tentando ganhar tempo, mordendo o lábio inferior.
Ele não desviava o olhar, e eu sabia que era inútil fugir. Respirei fundo, tentando colocar em palavras o que parecia absurdo.
— Eu… eu já sonhei. — Baixei os olhos para o sorvete, agora derretendo. — Não sei se era sonho. Mas parecia… mais.
Silêncio. O mundo lá fora seguia normal — crianças pedindo casquinha, a máquina de refrigerante chiando —, mas entre nós o ar ficou pesado.
— O que você viu? — perguntou, sem levantar a voz, mas cada palavra soou como uma ordem suave.
Engoli em seco.
Como eu poderia dizer aquilo?
Que o que me perseguia nas madrugadas não era um devaneio qualquer, mas a lembrança dele no meu quarto, os lençóis amassados, a respiração entrecortada? Que eu o lembrava sem camisa, a pele quente, os olhos queimando de desejo?
Corada, balancei a cabeça, enfiando a colher de plástico no sorvete só para ocupar as mãos.
— Não importa. — Murmurei, quase engasgando. — É… confuso demais.
não insistiu. Apenas me observou em silêncio, os olhos carregados de algo que eu não consegui decifrar. Talvez dor, talvez cuidado. Talvez ambos.
— Se for verdade, — disse ele, finalmente —, recuperar essas lembranças pode te ferir. Não só pela intensidade… mas porque há dores escondidas junto delas.
Ele afastou o olhar, fixando-se no nada, como se carregasse o peso de uma lembrança que ainda não ousava me devolver.
E, pela primeira vez, eu percebi: talvez o medo não fosse de eu sofrer. Talvez fosse dele.
O próximo final de semana amanheceu com um ar de expectativa que mal me deixou dormir. Quando me buscou, não fez suspense: apenas estendeu a mão e disse que tínhamos outro destino. E, em questão de segundos — ou talvez fosse mais tempo e eu nem soubesse calcular —, estávamos em Paris.
A cidade do amor.
Não havia clichê que coubesse na sensação de estar diante da Torre Eiffel, mesmo que eu tivesse visto tantas fotos, tantas vezes. Mas o que me deixou sem fala não foi a torre, nem as ruas iluminadas, nem o som distante de um acordeão: foi o apartamento.
Um quarto elegante, com janelas francesas abertas para a varanda. O horizonte exibia a torre inteira, dourada contra o céu da tarde. Era íntimo, quase secreto.
— Você já esteve aqui comigo — disse , ajeitando a gravata como quem ajeita também a própria memória. — Por meses. Este lugar era… nosso.
Não perguntei como ele tinha um apartamento em Paris. Nem de onde vinha, nem o que pagava. Simplesmente aceitei. Era . E, de algum modo, isso já bastava.
Nos acomodamos na sala, as luzes da cidade se acendendo devagar do lado de fora. O silêncio parecia confortável, mas meu coração não parava de martelar. E foi nesse ritmo que uma ideia insana me atravessou.
Talvez houvesse uma forma de forçar a memória a voltar.
— E se… — comecei, hesitante, mordendo o lábio. — E se eu tentasse… sentir de novo?
me olhou com cautela, sem entender. Antes que ele pudesse perguntar, eu me levantei, cruzei a curta distância entre nós e toquei seu rosto com as duas mãos. Ele não se afastou. Pelo contrário: seus olhos me seguiram com uma intensidade que quase me fez desistir.
Mas eu não desisti.
Me inclinei e o beijei.
Foi um beijo quente, suave no começo, depois mais firme, como se meu corpo soubesse o caminho que minha mente esquecia. O coração disparou, as mãos tremeram, o mundo sumiu. Tudo o que restou foi o gosto dele, o calor dele, a força da presença dele.
Quando nos afastamos, respirei fundo, quase trêmula. Esperei.
Mas nada aconteceu.
Nenhuma lembrança. Nenhum lampejo de outro tempo, outra vida. Apenas o silêncio pesado da decepção.
— Nada… — sussurrei, mordendo o lábio. — Não funcionou.
baixou os olhos, e pela primeira vez notei que havia tristeza misturada ao autocontrole.
— Eu disse que não seria tão simples — respondeu, a voz baixa, quase um consolo. — Mas isso não significa que não vai acontecer.
Eu queria acreditar. Mas, naquele momento, tudo que senti foi o vazio de esperar algo que não veio. — Então… — arrisquei, a voz saindo baixa, quase tímida. — Me conta. O que a gente fazia aqui, em Paris?
desviou o olhar. Pela primeira vez desde que o conheci, ele pareceu… constrangido.
— … — começou, pigarreando, como se buscasse a palavra certa. — Você… você gostava. Só isso.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase palpável. Eu arqueei a sobrancelha, surpresa. Ver o homem que parecia carregar séculos nos ombros corar levemente foi desconcertante, quase doce.
— Gostava? — insisti, inclinando a cabeça.
— Muito. — Ele passou a mão na nuca, nervoso. — É Paris, afinal. E você não era exatamente… discreta.
Meu rosto esquentou, e por alguns segundos, ficamos apenas nos olhando, sem saber se ríamos ou desviávamos os olhos. O clima se tornou íntimo, estranho e irresistível. Eu me sentei ao lado dele no sofá, perto demais para ser apenas conforto. O espaço entre nós parecia prestes a desaparecer a qualquer instante.
Para quebrar o silêncio, falei o que me vinha à mente:
— As cartas.
piscou, surpreso.
— O quê?
— Você escrevia… tão bem. — Apertei as mãos no colo, encarando-o. — Nunca li nada tão bonito, tão sincero. Era como se… cada palavra viesse direto do coração.
Ele respirou fundo, e o ar ficou pesado de emoção não dita. Por um instante, achei que ele fosse se afastar. Mas não. Seus olhos prenderam os meus, e havia neles uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto.
E então nos beijamos.
Dessa vez, não foi hesitante. Foi cheio, intenso, carregado de tudo o que as palavras não davam conta. Um beijo que queimava como fogo antigo reacendido, como se o tempo inteiro só tivesse esperado a fagulha certa.
E, no meio daquele calor, algo aconteceu.
Imagens me invadiram de repente: risadas abafadas sob lençóis brancos, o cheiro do vinho barato misturado ao seu perfume, a janela aberta com a Torre Eiffel iluminada ao fundo. Eu o vi me puxando pela cintura, eu o ouvi sussurrando em meu ouvido em outra língua, palavras que não entendi mas que me fizeram rir até as lágrimas.
Quando nos afastamos, meu peito arfava.
— Eu… — a voz falhou, mas consegui completar — eu me lembrei.
me encarava como se tivesse acabado de ver o impossível acontecer diante de seus olhos.
— O que você lembrou? — perguntou de repente, a voz urgente, quase sem fôlego. Os olhos dele ardiam de uma esperança tão intensa que parecia me atravessar inteira. — Me diz, . Cada detalhe.
Ainda zonza, fechei os olhos por um instante, tentando organizar as imagens que vinham como flashes.
— Nós… — respirei fundo, mordendo o lábio. — Estávamos aqui. Rindo. Você me puxava para a sacada, me fazia experimentar vinho horrível só para rir da minha cara. E… — corei, desviando o olhar — tinha… a cama.
A respiração dele acelerou, e um sorriso despontou no canto de sua boca.
— Então é isso. — Ele inclinou-se um pouco, a voz mais baixa e carregada de algo perigoso. — Talvez o truque seja simples. Continuarmos de onde paramos…
Arregalei os olhos e soltei uma risada nervosa.
— ! — exclamei, dando-lhe um tapinha no ombro, mais de brincadeira do que repreensão.
Ele riu também, mas o riso dele era leve, diferente. Não havia ironia, apenas uma alegria quase infantil, como se tivesse recebido um presente que não esperava.
— Eu não estou brincando tanto assim — disse, ainda sorrindo, mas os olhos brilhavam sérios, cheios de desejo e esperança.
Meu coração disparou de novo. Porque, no fundo, eu sabia: parte de mim queria exatamente isso.
Acordei no meio da noite. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, a Torre Eiffel iluminada refletia sua luz pela cortina entreaberta. A cama enorme parecia maior ainda sem ninguém ao lado, e por um instante me perguntei como seria dormir ali com — mas ele tinha insistido.
“Não é certo”, dissera, firme mas com uma doçura que partiu meu coração. “Você não se lembra de mim. Para você, sou um estranho. Dormir ao seu lado seria injusto.”
Eu achei fofo, mesmo que não tivesse concordado completamente. Afinal, depois das lembranças que haviam voltado, era tudo, menos um estranho. Mas guardei esse pensamento só para mim.
Levantei para pegar um copo d’água e, quando passei pela sala, o vi sentado no sofá, a gravata solta sobre o encosto, os cabelos um pouco bagunçados. Não estava dormindo.
— Você não dorme? — perguntei, surpresa.
Ele ergueu os olhos para mim, o rosto iluminado apenas pelo reflexo da cidade. Havia cansaço ali, mas também um brilho sereno.
— Só se estiver muito cansado — respondeu, com um leve encolher de ombros.
— Então… nunca? — provoquei, sentando-me na poltrona ao lado.
Ele sorriu de canto. — Quase nunca.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo os sons distantes de Paris adormecida: passos na rua, o ronronar de um carro, o vento. Era uma calma estranha, como se o mundo inteiro tivesse parado só para nós dois.
Aos poucos, a conversa surgiu, sem esforço. Falamos de coisas banais — sabores de sorvete, músicas antigas, lugares que eu ainda queria conhecer. Depois, deslizamos para o inesperado: ele me contou sobre uma vez em que errou uma data e quase estragou uma missão inteira. Eu ri até as lágrimas, e o som ecoou pelo apartamento como um bálsamo.
A madrugada se arrastou, e com ela o peso nos meus olhos. Eu me encolhi no canto do sofá, cada vez mais sonolenta, enquanto ele falava com aquela voz grave que parecia embalar a própria noite.
— … — murmurei, já quase vencida pelo sono. — Obrigada por não desistir de mim.
Ele não respondeu de imediato. Quando finalmente falou, sua voz era baixa demais, como se tivesse medo de que eu realmente ouvisse.
— Nunca desistiria.
E foi assim, ouvindo-o respirar ao meu lado, que adormeci no sofá, sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, estava exatamente onde deveria estar.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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