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Última atualização: 01/09/2020

Capítulo Único

Ok, eu nunca mais vou beber.
Tudo bem, talvez eu diga isso toda vez que acordo com ressaca e um gosto de morte na boca depois de uma festa até altas horas da madrugada. Mas dessa vez é oficial.
Com uma enxaqueca que parece que vai furar minhas têmporas, sou distraída pela dor por vários minutos depois de abrir os olhos, até notar os cabelos loiros de Daphne espalhados sobre meu travesseiro.
Apesar do desconforto que a bebida da noite anterior me traz, não posso evitar de sorrir. Ela fica adorável dormindo. O nariz arrebitadinho, as bochechas que ficam rosadas à toa e a boca que parece um pequeno morango, tanto no formato, quanto na cor, quanto no gosto…
Peraí, quê?
Tenho que piscar algumas vezes para tentar recuperar a lembrança que foge como água corrente pelo ralo.
Eu e Daphne…?
Ela se mexe levemente.
— Bom dia, raio de sol — ironizo.
A loira entreabre as próprias pálpebras, se espreguiçando como um filhote de gatinho, e sorri de leve para mim. Contudo, logo depois franze a testa com preocupação e confusão, enrugando o nariz assustada.
— Que foi?
— Ahn… — Ela se senta na cama, esfregando os cantos da boca. — Nada. Só… imaginei que você fosse estar… mais indisposta. Dada a quantidade bizarra de vodka pura que a Tracey derramou na sua boca ontem. — completa.
— Eu indisposta. — Também sento no colchão, e vejo ela esticar o corpo em uma apreensão que não entendo. — Você não teria uma Poção Cura Ressaca aí ou coisa do tipo, teria?
Daphne ri, parecendo ainda mais delicada e linda com sua risadinha suave.
— Vou providenciar.
Quando ela sai pela porta do quarto, com sua camisola de cetim azul claro (que mais parece um vestido de noite) e os fios dourados amassados atrás da cabeça, fecho os olhos bem apertado e afundo de novo a nuca no travesseiro.
Não é tão anormal assim que durmamos na mesma cama. Somos melhores amigas desde o quarto ano em Hogwarts, quando tive um surto antes do Baile de Inverno na hora de decidir minha roupa para que combinasse com as vestes a rigor de Draco, meu par. Diferente do que as outras garotas fizeram, que foi revirar os olhos — com despeito e inveja do fato de eu estar indo ao baile com o garoto mais cobiçado do nosso ano (atrás somente, devo admitir, do estúpido campeão Potter) —, Daphne se atrasou para o evento e deixou seu par, Theo Nott, esperando enquanto me ajudava a colocar pequenas presilhas de diamante nos cabelos e retocava minha maquiagem.
Ficamos inseparáveis desde então, e ela sabe de tudo sobre mim. É a primeira pessoa a quem sempre desabafo quando recebo cartas malcriadas de casa, que geralmente me recriminam por não ter arrumado um namorado sangue-puro e influente que possa ser uma união vantajosa aos negócios da família Parkinson. Foi a primeira pessoa a quem contei quando transei com Montague. E depois com Warrington. E Goldstein em seguida (com quem briguei feio dentro do banheiro dos monitores, com a camisa aberta e sem calcinha, quando descobri que ele fazia parte da maldita Armada de Dumbledore)…
Enfim. O ponto é: Daphne Greengrass é minha melhor amiga. E nada pode mudar isso. Mas… será que pode? Essa sensação borbulhante na boca do meu estômago traz uma dúvida que não consigo sanar de imediato.
Tentando ignorar a dor de cabeça pungente, me levanto devagar e reviro as gavetas de meu armário até encontrar uma pequena caixa. Me apoio de novo nos travesseiros de plumas e abro a tampa, para exibir o geodo de ágata verde em formato de bacia: uma Penseira. Tateio pela mesinha de cabeceira até pegar minha varinha e despejo as lembranças da noite anterior que estão em minha mente, mas que o álcool me impede de acessar. Mergulho de cabeça, ansiosa por entender melhor o que aconteceu.


As esmeraldas bordadas em meu vestido incomodavam mais do que eu gostaria de admitir, mas não importava. O reflexo que me encarava pelo espelho era exatamente como eu esperava que fosse: uma garota alta, de cabelos repicados e curtos com uma franjinha, delineado impecável e a aura de sofisticação que só o sangue puro pode conferir.
— Isso tudo é pra impressionar quem?
Me virei para encontrar Daphne encostada à porta de meu quarto, com um sorrisinho de canto e meus saltos altos Louboutin, pretos e todos de renda, nos pés.
— O sortudo da noite. — Passei os dedos pelo cabelo para aumentar o volume dos fios. — Ainda não decidi quem.
O sorriso dela ficou ligeiramente mais artificial do que estivera antes, mas devia ser só impressão.
— Se a convidada dele realmente não vier, vai tentar o Draco de novo?
A fofoca da semana era o convite que Draco Malfoy fizera a , a intercambista grifinória gostosa e inteligente que entrara em Hogwarts naquele ano e obtivera a atenção de todo o corpo discente, para nossa exclusiva festa de Dia das Bruxas. Ele a chamara despretensiosamente na biblioteca, conforme contado por Zoe Accrington, uma garota da turma da irmã de Daphne. A informação foi passando de boca em boca a uma velocidade absurda, e logo toda a Casa das Serpentes estava ciente de que uma leoa entraria em nosso ninho naquela noite. Era o que eu sempre dizia: fofocas se espalham mais rápido que Fogomaldito em Hogwarts. — Por mais que todo mundo duvide, acho bem possível que ela apareça. Você já viu como ela é petulante e destemida. De qualquer forma, não faria diferença. — Apanhei um tubo de gloss da penteadeira de mogno e apliquei um pouco sobre o batom preto, em seguida executando um feitiço para evitar que ele se borrasse. — Acho que cansei dele.
— Mesmo?
— Mesmo. Ele é gostoso e sabe muito bem o que faz com aqueles dedos, mas não sei se vale a pena, sabe? — Tampei o gloss. — Ele não me quer e eu sei que se a gente transasse eu ia me apegar. Não quero isso, ainda mais com por perto.
— Pansy Parkinson se sentindo ameaçada por uma grifinória? — ela quase riu da ideia, se aproximando de mim por trás e ajeitando o zíper de minha roupa que eu não tinha conseguido fechar direito.
— É porque você ainda não viu aquela garota de perto — resmunguei.
— Não tenho dúvidas de que você é mil vezes mais incrível — Daphne pousou a mão em meu ombro, com a palma quente contrastando com a temperatura da minha pele quando ela afagou carinhosamente.
— Obrigada, Daph — me virei para ela, que ajeitou meu cabelo atrás da orelha para evitar que grudasse nos lábios.
Ela hesitou por um instante, encarando meu batom, mas voltou a sorrir.
— De nada, Pan. Só estou sendo sincera.
— Vou querer meus sapatos de volta, hein! — gritei enquanto ela saía do quarto.
— Nunca! — ela berrou de volta.

***


, você está liiiindaaaa! parecia extremamente perplexa quando eu a envolvi num abraço, colocando um pouco do peso de meu corpo sobre ela devido a meu estado alcoólico do momento. Quando Daphne a trouxe pelo braço, seu rosto incerto contrastava totalmente com o poder e a segurança que ela exibia com a roupa: um vestido preto, justo, de algum tecido encorpado que eu não saberia descrever, e sapatos de serpente lindíssimos. Mas minha receptividade foi decisiva para ajudá-la a se soltar, apesar de eu não saber exatamente por que estava fazendo aquilo.
— Que bom que aquele fodido do Malfoy criou coragem pra te chamar!
Sobre o ombro dela, eu conseguia ver Draco claramente, sentado a uma das poltronas com um copo de uísque de fogo na mão, bebendo a uma velocidade que eu nunca tinha visto ele beber. Seus olhos não saíam de , por mais que a garota estivesse de costas e ele só pudesse ver a cascata de cabelos escuros e a bunda muito bem moldada da brasileira.
— Adorei sua roupa, Pansy — ela elogiou de volta, rindo de uma forma contagiante.
Dei uma voltinha para mostrar o vestido em todo o seu esplendor precioso, mas acabei cambaleando. Sorte que fui segurada por Daphne.
— Pansy, vamos dar um tempinho, beleza? — a voz da loira era firme. Minha melhor amiga se virou para Emilia Bulstrode e pediu: — Millie, leva a Pansy pra sentar um pouco, e obriga ela a beber pelo menos meio copo de água.
Abri a boca para retrucar que estava muitíssimo bem e não precisava de uma babá, mas Millie era forte demais para que eu me desvencilhasse.
Bulstrode me levou até um dos sofás mais próximos da janela que dava para o Lago Negro, área menos iluminada da sala comunal e cheia de casais se agarrando como se os dormitórios não estivessem à disposição. Tracey Davis (que poucos segundos antes estivera segurando uma garrafa de vodka contra minha boca) estava montada no colo de Goyle, que a encarava de um jeito abobalhado ridículo entre beijos muito melados; Crabbe estava próximo, segurando uma garrafa lacrada de cerveja amanteigada e encarando o teto, como se estivesse muito longe dali. Daphne dançava com , e a brasileira era secada por metade da sala comunal. Draco estava nitidamente puto, com as pálpebras abrindo e fechando devagar ao lado de uma garrafa de uísque de fogo que se esvaziava mais a cada minuto. Cogitei a possibilidade de me levantar e me juntar a ele, mas Millie empurrou meu ombro e caí sentada de novo.
— Ah, qual é. Eu nem… não tô tããão mal assim — tentei argumentar, com a voz meio pastosa.
— Aham, sei. — Emilia me lançou um olhar de descrença e me entregou um copo de cristal cheio de água. — Bebe.
— Mas eu…
— Você ouviu a Greengrass. Bebe.
Bufei como uma criança pirracenta, mas bebi a porra da água. Bati o fundo do copo na mesa de centro ao esvaziá-lo e fiz uma careta para minha colega. Millie ajeitou o colete de pelinhos que usava por cima da blusa e se levantou, sem paciência para a minha faceta bêbada.
Conforme ela foi se afastando, meus olhos a seguiram até chegarem a Greengrass e , que dançavam juntas uma música animada (n/a: dê play aqui para a começar a música!). As duas tinham uma sincronia invejável, o que me trouxe um aperto ao peito. Eu era quem deveria estar dançando com Daph. Era eu quem deveria estar segurando a cintura dela enquanto ela ondeia o corpo, joga os cabelos loiros e abre um sorriso que ilumina toda a sala.
Inferno. Por que elas tinham que ser tão insuportavelmente bonitas e sensuais e me afetarem de um jeito que nunca tinham me afetado antes? Por que eu estava com mais ciúmes de Daphne do que de Draco? Não fazia sentido. Eu quase afogara — literalmente — no início do ano por achar engraçado e por querer que ela se afastasse de Malfoy. Mas agora… eu estava zero preocupada com ele. Queria que ela se afastasse de Daphne, mas não por medo de perder minha amizade com a loira: na verdade, o receio era bem diferente. O receio advinha da diferença que eu via na minha frente no meio da pista de dança. Minha melhor amiga dançava com a intrusa como se fosse fácil e certo, rebolando contra ela como eu nunca tinha visto ela se sentir confortável para fazer com um menino.
Daphne era virgem. O mais longe que ela chegara fora beijar Nott (sem língua) na noite do Baile de Inverno, anos antes. Eu nem ao menos conseguia me lembrar de alguma ocasião em que ela tivesse demonstrado qualquer interesse por garotos. Se sentia mal e exposta dançando com eles nas festas que normalmente fazíamos. No entanto, estava ali com ... de um jeito que ela nunca dançara nem comigo. E um monstro rugiu em minhas entranhas, confuso porém furioso.
Enquanto eu lutava com a sensação estranha que se avolumava em meu peito ao ver Greengrass junto da garota de Malfoy, uma figura magra e vestindo uma camisola branca se encaminhou descalça à aglomeração de alunos dançantes. Era Astoria Greengrass (ou Tori para encurtar), a irmã mais nova de Daphne, que estava dois anos abaixo de nós e carregava uma maldição de sangue que a fazia definhar pouco a pouco. Ela cutucou a irmã, com o corpo encolhido por timidez ou por dor, ou quem sabe os dois.
Toda a leveza e diversão se esvaíram do rosto de minha amiga, que se despediu de com um beijo no rosto (o que fez minhas bochechas ferverem) e foi atrás da caçula.
A brasileira, porém, não ficou sozinha por muito tempo: rapidamente Blásio abriu um daqueles seus sorrisos abertos e galanteadores e a chamou para dançar. Filho de uma famosa modelo, era óbvio que nem mesmo uma garota tão bonita quanto recusaria seu carisma e beleza de imediato. Meu olhar procurou o de Malfoy, e caí na risada. Ele estava com um punho cerrado sobre o colo e outro sobre a mesa, apertando o copo de uísque de fogo com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Sua bela mandíbula estava ainda mais marcada do que o normal; o garoto trincava os dentes ao ver sua convidada rebolando e tendo suas curvas apalpadas por Zabini, ao som de uma canção de letra quase erótica.
Antes que eu pudesse sair do confortável sofá em que estava sentada, Draco se levantou, quase tropeçando e passando a mão pelos cabelos platinados — que normalmente estavam sempre perfeitamente penteados para trás, mas agora estavam bagunçados de um jeito que só o deixava... gostoso. Tal percepção me deixou ainda mais perdida. Como era possível que Draco e Daphne fossem tão atraentes para mim ao mesmo tempo?!
Em pé, ele tentou andar em linha reta até o amigo e sua… bom… pretendente, falhando miseravelmente; a todo instante seu corpo era desviado levemente em curvas, o que atraiu a atenção da garota.
Não sei se a vodka estava me pregando peças ou se cochilei por alguns instantes, mas do nada Zabini estava longe da pista de dança, notavelmente puto mas ostentando uma careta de desdém para tentar disfarçar. Ao me virar para o centro da sala para entender, vi Draco fazer o que eu sabia que estivera com vontade desde o início do ano: beijar . Ver aquilo me trouxe uma sensação muito peculiar. Não senti um repuxo no estômago por causa de ciúme, e exatamente essa ausência me brindou com euforia: eu não gostava mais dele. Quer dizer, óbvio que gostava de Malfoy; nos conhecíamos desde pequenos e era impossível que não houvesse nenhum tipo de afeição. Todavia, ele sempre tentara me afastar dessa obsessão romântica com respostas secas e grosserias pontuais, mas minha mãe vibrava com aquilo, achando que fosse a forma dele de demonstrar amor… Mas amor não deveria machucar, ou fazer mal. Amor era… Amor era aquele beijo que eu via na minha frente, em que o sonserino e a grifinória estavam imersos como se o resto do mundo não existisse e nunca tivesse existido.

* * *

— Finalmente conheci a garota do Draco, então. — disse Daph, se sentando ao meu lado no sofá.
As garras do monstro do ciúme cortaram minha garganta e fiquei sem saber o que dizer. Ela acabara de voltar do quarto de Astoria, mas não vestia mais a roupa de antes, e sim pantufas felpudas e uma camisola linda. Pelo decote, pude ver que ela guardava duas varinhas de alcaçuz entre os seios (“Qual o objetivo de ter peitos e usar sutiã se todo mundo me julga por guardar coisas neles?”, ela sempre resmungava), e uma me foi entregue por sua mão delicada.
— É. Eles foram pra lá — indiquei o corredor do dormitório masculino com o doce — há alguns minutos.
— Ela é muito legal. Tipo, legal demais para você ter quase afogado ela. — implicou, dando um empurrãozinho no meu joelho.
— Eu sei. — Dei uma mordida na varinha.
O casal composto por Malfoy e voltou dos quartos, e contive um sorriso ao vê-los juntos, sonolentos e com os rostos vermelhos. Ambos desabaram, cansados, em cima de um dos sofás da lareira.
— Olha que bonitinhos, por Merlim — ela comentou, apontando para eles com o queixo.
já tinha apagado em cima do peito de Draco, mas ele acariciava os cabelos dela, ainda bêbado demais para se preocupar com o fato de estar em público e proteger sua reputação de “pego mas não me apego”. Aquilo me irritou duplamente. Primeiro porque eu me sentia terrivelmente solteira diante da cena, e segundo porque eu estava diante de um sentimento inexplicável: não queria estar no lugar da grifinória, mas sim queria que Daphne me tocasse daquele jeito.
— Eu vou dormir — anunciei, aborrecida, levantando com dificuldade e indo na direção de meu próprio quarto.
Daphne não demorou a entrar no cômodo atrás de mim, batendo a porta com um ruído alto.
— Tá sendo fria por quê?
— Por nada. — Coloquei o resto do alcaçuz na boca, mastiguei e engoli antes de completar: — Na verdade, não tô sendo fria.
— Isso tudo é por causa da ? — Ela se sentou na cama, bem ao meu lado. — Você mesma disse hoje que não se importava mais com o Draco!
— Eu sei, mas…
— Você precisa superar essa fixação que tem por ele, Pan!
— Não é nada disso! — reclamei, alteando a voz.
— Então o que é? Você não sai da cola dele desde o primeiro ano! Nunca sequer reparou no que sempre esteve bem na sua frente!
— Talvez eu esteja puta porque você largou sua melhor amiga e preferiu ir dançar com ela! — esbravejei. Senti minhas pálpebras pesarem com lágrimas; merda. Odiava ficar sensível por causa do álcool.
Os olhos de Daphne se arregalaram. Ela hesitou por alguns instantes, e eu já estava armando uma resposta malcriada para a justificativa que ela fosse dar: “a gente sempre discute quando você está bêbada”, ou “eu fui ajudar a Tori”, ou ainda “para de ser dramática”. Mas não foi nada disso que saiu da boca dela, num murmúrio tímido.
— Eu prefiro mil vezes você.
Não pensei diante da surpresa que a frase dela me trouxe: apenas puxei sua nuca em minha direção, misturando meu batom preto com seu gloss cintilante num beijo lento e explorador. Nossos dentes se chocaram por um segundo, mas não foi isso que disparou choques por todo o meu corpo a partir dos lábios: foi a sensação única, nova e arrepiante de beijar uma garota, de beijar minha melhor amiga. Embrenhei meus dedos entre seus fios claros, surpresa e deliciada por ela retribuir o toque, e retribuir tão bem. Quando ela colocou um pouco mais de seu peso sobre mim, apoiando a mão sobre meu travesseiro, mordi lentamente seu lábio. Daphne levou a mão à linha de minha mandíbula e se afastou levemente, ainda próxima o bastante para inspirar o ar que eu expirara.
— Você tem gosto de morango — estupidamente falei.
Ela riu baixinho, afastando minha franja da frente de meus olhos. Agora foi vez dela de tomar minha boca para si, deslizando a língua devagar contra a minha e chupando meu lábio inferior. Tão doce. Tão macia.
— E você tem gosto de vodka — ela rebateu num sussurro, com o sorriso brilhando na penumbra.
Logo em seguida, porém, se afastou como se tivesse levado um choque, e fez menção de sair pela porta.
Não! Por que ela estava fugindo de mim? Ela era minha melhor amiga. Mas… depois daquele instante, aqueles breves segundos nos quais sua boca estivera na minha e eu era o centro de todos os seus sentidos… talvez pudéssemos ser tão mais que isso. Ela, como eu, parecia aterrorizada do que sentia em seu íntimo. Porém, eu precisava dela naquele instante; precisava ouvir sua voz afastando minha dúvida: será que só eu tinha sentido aquilo?
— Daph?
Ela parou de costas para mim.
— Oi, Pan.
— Dorme aqui?
Daphne hesitou, mas virou o rosto em minha direção.
— Eu ainda tô enjoada — inventei, fazendo drama. — Preciso que você fique aqui, para… bom, não quero estar sozinha caso eu passe mal, né…
Ela mordeu o lábio, vermelho e levemente inchado onde eu puxara com os dentes.
— Tudo bem.
Adormecemos lado a lado sem ousar tocar uma a outra, mas eu sentia meu peito ribombando, eletrificado com o que eu tinha acabado de descobrir sobre mim mesma.

Volto ao presente quando ouço passos no corredor dos dormitórios. Escondo a Penseira embaixo do lençol embolado, e vejo a porta ser aberta. Daphne aparece em pé segurando um copo, com as sobrancelhas erguidas ao ver meu rosto molhado.
Com o coração batendo violentamente contra as costelas, sorrio insegura, limpando as bochechas, e deixo que ela se aproxime e me entregue o copo.
— Achei que você tinha dito que ia me arrumar uma poção.
— E achei algo melhor. Uma vitamina de banana.
É minha vez de erguer as sobrancelhas.
— A herdeira da família Greengrass preferindo um artifício trouxa do que mágico?
Ela revira os olhos de um jeito fofo e tira um saquinho de pano, que contém um canudo de metal, de dentro do sutiã. O hábito dela, que sempre foi tão normal para mim, agora faz meu corpo se arrepiar e minha mente fervilhar de pensamentos que eu nunca tive antes.
— Eu prefiro... morangos — arrisco, baixo, olhando-a nos olhos enquanto sugo o canudo.
Ela demora um pouco para entender a mensagem oculta, e se surpreende antes de sorrir com um toque de malícia, exprimindo um significado profundo nos olhos. E essa é a resposta que eu preciso.




FIM.



Nota da autora: Oi, meninas!
Não sei se vocês vieram parar aqui porque já liam minha longfic “Dancing with the devil” ou se caíram de paraquedas nessa short: de qualquer modo, sejam bem-vindas! Às leitoras antigas: curtiram ler essa cena pela perspectiva da Pansy? Às novas: o que acharam dessa versão mais humana e desenvolvida da Pansy que apresentei?
Pansy Parkinson e Daphne Greengrass são duas personagens que são praticamente só mencionadas nos livros, e sempre tive vontade de aproveitar a oportunidade de elas serem da Sonserina para criar uma outra história para as duas. A Casa das Serpentes é muito apegada ao tradicionalismo, como muitas vezes a nossa sociedade se mostra, mas o fato de ambas serem as herdeiras de famílias sangue puro bruxas não significa que elas não possam descobrir quem são e quem amam. Nenhuma forma de amor, quando consensual e verdadeira, deve ser considerada um palavrão!
Espero que vocês tenham gostado dessa história (e da música que a inspirou) tanto quanto eu gostei de escrevê-la. Não deixem de conferir as outras histórias minhas que também entraram no Especial de 20 anos de Harry Potter! São elas:
Dancing with the devil I (LONGFIC: último capítulo)
Dancing with the devil II (LONGFIC: prólogo)
Before the dance (SHORTFIC: início)
Blackest hour (ONESHOT)

Muito obrigada pela sua leitura e até a próxima!
Beijos,
Bela Nottrix.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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