Última atualização: 27/07/2019

I. Jackie & Ben

LONDRES, OUTUBRO DE 2017


Lily "" (Detroit, Michigan, 1 de janeiro de 1995) é uma patinadora artística americana. Ela disputou os Jogos Olímpicos em 2014, sendo medalhista de bronze; é bicampeã do campeonato nacional americano de 2014 e 2015; e também conquistou a medalha de ouro no Campeonato Mundial de 2016.

Vida pessoal
nasceu em Detroit, no estado do Michigan. Sua mãe é americana e seu pai era inglês.

Carreira
começou a patinar aos quinze anos, quando se apaixonou pelo esporte enquanto patinava em uma sessão pública no Detroit Skating Club, mas só passou a competir a partir dos dezoito, em 2013.
Atualmente reside em Londres, Inglaterra, e treina com Olga Lindemann, Andrey Kurilenko e a coreógrafa Danielle Rose.
No Nebelhorn Trophy de 2013, que serviu como repescagem olímpica, terminou a competição na 5ª posição, conquistando uma vaga na patinação artística em para os Estados Unidos. Representou a patinação do país nos Jogos Olímpicos de Sochi, na Rússia, levando medalha de bronze.
Em janeiro de 2014, conquistou sua primeira medalha de ouro no campeonato nacional americano. Em 2015, no mesmo campeonato nacional, levou o ouro novamente, assim como no Skate America. Em dezembro do mesmo ano, levou o bronze na Final do Grand Prix de Patinação Artística no Gelo.
Em março de 2016, ela conquistou a medalha de ouro no Campeonato Mundial. Em setembro de 2017, ficou em 3º lugar no Nebelhorn Trophy, que serviu de repescagem olímpica, e garantiu outra vez a vaga olímpica para os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos, que ocorrerão em Pyeongchang, na Coreia do Sul.

Peculiaridades
é conhecida por competir apenas com músicas da banda Queen, nunca tendo utilizado qualquer outro artista na trilha sonora de suas competições desde sua estreia em 2013. Seus figurinos também são frequentemente inspirados nas roupas do frontman Freddie Mercury. Além disso, ela também é famosa por se entregar 100% a suas performances, que são sempre emocionais ou divertidas.

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fechou sua própria página do Wikipédia e jogou sem cuidado o celular na cama, caindo para trás no colchão macio e fechando os olhos enquanto bufava. Desde que começara a competir, aos dezoito anos de idade, com exceção de seu ano de estreia, não se passava uma temporada sequer sem que ela fosse medalhista de ouro em pelo menos uma competição. Porém, seu sonho mesmo era conquistar o ouro para os Estados Unidos nas Olimpíadas de Inverno. Já havia tentado uma vez e mesmo levando o bronze – o que já era uma vitória e tanto para uma estreante nesses jogos e ainda mais em apenas seu segundo ano competindo – ficara frustrada. Havia chegado tão perto! A partir disso passou a treinar mais intenso. Não só levar o ouro importava, mas também sua vontade imensa de realizar um Axel triplo, o Moby Dick dos patinadores artísticos no gelo. E sem dúvida alguma realizar esse salto a ajudaria a conquistar o ouro para o país que tanto amava. Dois objetivos de uma só vez. Era o sonho perfeito. Tão perfeito que ela estava começando a duvidar de si mesma.
Como se não bastasse, seu estilista ainda não havia lhe entregado a prometida peça que estava customizando especialmente para ela, e sua próxima competição era dali a pouco mais de uma semana, no Canadá. Era cansativo viajar o tempo todo, mas ela jamais desprezaria esse privilégio e no final sempre valia a pena. Adorava conhecer lugares novos, se hospedar em hotéis, experimentar comidas diferentes, tirar fotos. Já havia visitado inúmeros estados americanos, além de países como França, Alemanha, Japão, China, Rússia, Espanha e Coreia do Sul. Um lugar que ainda faltava na sua lista de desejos, porém, era a Itália. O lado bom era que, com tudo dando certo, faltava pouco tempo para realizar esse feito, já que o Campeonato Mundial do ano seguinte seria recebido lá.
Aquela mudança súbita de pensamentos a deixou mais tranquila e animada com as perspectivas para o futuro. O importante era competir, certo? Tudo se tratava da jornada e não do destino e tudo mais, não era isso ou qualquer coisa parecida? Foi quando seu celular vibrou e tateou a cama em busca dele. Quando desbloqueou a tela, viu uma mensagem de sua melhor amiga, o que apenas contribuiu para o crescente bom humor.

[msg: jules] vc viu que o vai interpretar o roger taylor no filme do queen?? pensei em avisar pq é sua banda preferida e ele é o mais gato do elenco...

riu baixo, sacudindo a cabeça. Acreditava que todos já estavam por dentro daquela notícia, mas como sempre Juliette Loren era a última a saber. Ficou feliz pela animação da amiga mesmo assim, principalmente por ela ter ido contá-la sobre a "novidade". era realmente o mais bonito dos quatro principais, tinha que concordar, assim como, em sua opinião, era Roger na juventude. Quando viu a manchete em um site, quase dois meses atrás, aprovou na hora a escolha. Havia inclusive postado em sua conta no Twitter sobre isso, elogiando o elenco, em especial Rami Malek sendo Freddie Mercury.

[msg: you] sim! já tem 2 meses que isso saiu, mas obrigada por me lembrar dessa delícia de escolha!

Assim que terminou de digitar, mordeu o lábio inferior e abriu o aplicativo do Instagram, digitando o nome de usuário de na barra de busca apenas por curiosidade. Abriu o perfil do ator e começou a segui-lo por nenhuma razão específica, mas pronta para dar uma olhada básica nas fotos. Deus, ele era mesmo bonito, e os cliques com seu cachorro eram a coisa mais fofa. Evitou curtir qualquer publicação, por mais que tivesse sentido vontade; não queria parecer uma fã obcecada – até porque realmente não era – e muito menos uma celebridade com segundas intenções.
Tirando-a de seus devaneios, a voz de sua mãe ecoou do andar de baixo. Não moravam juntas há pelo menos um ano, mas a matriarca da família possuía a chave da casa da filha e era sempre bem-vinda. Normalmente, no entanto, costumava avisar antes de chegar.
— Oi, mãe — disse , uma mão deslizando sobre o corrimão enquanto descia as escadas. — Não esperava te ver hoje, aconteceu alguma coisa?
Jocelyn apenas sorriu para a filha, um sorriso energético que mostrava todos os dentes. Ela encolheu os ombros e sacudiu o corpo em uma dança engraçada, visivelmente escondendo algo atrás de si.
— O que é isso? — ofereceu um sorriso de canto, divertindo-se com a cena. — Uma pequena surpresa para minha filha preferida — disse Jocelyn.
— Ah, a única, você quer dizer?
— Minha filha preferida e a melhor patinadora artística do mundo — completou a mulher mais velha, estendendo uma mão na frente do corpo que segurava uma sacola de cor rosa brilhante.
ergueu as sobrancelhas enquanto ria, igualmente curiosa e animada. Pegou a sacola e correu para jogar-se no sofá e abrir o pacote. Quando a mãe contou que era um "presentinho atrasado do Brad", arregalou os olhos.
— Demorou mais porque eu meio que o fiz mudar a ideia inicial que ele tinha para seu figurino — explicou Jocelyn.
— Como assim, mãe?! — indagou , mas logo teve a resposta. Puxou com cuidado a peça da embalagem e seu queixo quase foi ao chão.
Um vestido em gola V de alças delicadas e com as costas cavadas, estilizado com uma representação autêntica das cores do arco-íris em gradiente: começando pelo rosa no topo, passando pelo laranja, amarelo e verde no meio, e tons claros e escuros de azul perto da bainha, além do violeta. Era quase inteiramente adornado de pequenos cristais e pérolas que faziam o tecido todo brilhar.
— Quero dizer... Você vai performar I Want to Break Free. E sei o quanto representar o que você apoia e expressar sua opinião é importante para você.
— Mãe... É perfeito! — Com isso, ofereceu um abraço apertado à mulher.
— Fico feliz que tenha gostado, meu bem. Tenho certeza que Jules vai aprovar também. E não se preocupe, Brad fará mais dois vestidos especiais para você ainda esse ano, para a competição no Japão e a final do Grand Prix, que você com certeza vai conseguir.
— Eu nem sei como agradecer.
— Ah, eu sei que vai descobrir. — Jocelyn roçou o dedo indicador no polegar, fazendo o famoso gesto que significava dinheiro. Com isso, mãe e filha caíram na gargalhada. — Bom... — continuou ela após um momento. — Vou deixar você se arrumar para o treino de logo mais. Nos vemos depois.
Depois que Jocelyn depositou um beijo casto na testa da filha e saiu porta afora, guardou cuidadosamente o novo figurino e começou a se preparar para o treino diário no Lee Valley Ice Centre. A rotina da atleta na cidade de Londres, cidade natal de seu pai, englobava três horas por dia de patinação; ioga e ginástica duas vezes por semana; e pilates uma. De fato, ela só dizia que as viagens eram exaustivas quando se esquecia momentaneamente daquelas atividades físicas.
Em outro ponto de Londres, mais precisamente no Prédio Gillette – um escritório de estilo Art Deco no qual muitos projetos estavam em desenvolvimento – uma cena de Bohemian Rhapsody era finalizada. Aquela em particular retratava o aniversário de Freddie Mercury, que era comemorado em sua casa da infância junto com seus pais e irmã, a namorada Mary e os outros membros da banda, Brian, John e Roger.
Quando o diretor Dexter Fletcher gritou o famoso "Corta!", o time de atores comemorou a conclusão excelente de mais uma cena, brindando, já fora dos personagens, os copos d'água que se encontravam na mesa do cenário.
Enquanto o elenco secundário se retirava do set, Fletcher aproveitou para chamar o principal para perto. Rami, Lucy, , Joe e Gwilym aproximaram-se.
— Novidades — anunciou. — No próximo fim de semana, gostaria que alguns de vocês fossem ao Canadá.
— Uau, qual a ocasião? — Lucy perguntou admirada.
— A queridinha da América, , irá competir no Skate Canada International e nada mais justo que o elenco do filme sobre a história do Queen prestigie a maior fã da banda.
— É verdade — concordou Rami. — Ela é bem famosa nos Estados Unidos.
— O que quer dizer com "maior fã"? — franziu as sobrancelhas.
— Você não a conhece? — Foi a vez de Joe falar. O loiro negou com a cabeça.
— Até eu a conheço, . — Gwilym riu e foi acompanhado por Lucy.
— Não importa quem a conhece ou não — Fletcher interrompeu. — Apenas preciso que alguns de vocês vão vê-la competir. Será bom para o marketing do filme.
— Eu iria com prazer, por marketing ou não, mas... — Rami trocou um olhar discreto com Lucy. — Já marquei uma viagem com meu irmão nesse próximo fim de semana de folga.
— Eu também não poderei — Lucy franziu os lábios, genuinamente chateada por não poder comparecer.
— Bom, eu estou muito interessado nessa super fã do Queen, então eu vou — se pronunciou. — Mesmo ainda não entendendo o motivo desse apelido...
Joe e Gwilym acenaram com a cabeça ao mesmo tempo, também se propondo a ir.
— Assista a pelo menos três apresentações dela e você logo entenderá. — Gwilym passou um braço pelos ombros do amigo.
— Perfeito! — Fletcher bateu palmas uma vez. — Vou providenciar as passagens e o hotel de vocês três. Mais informações em breve. Liberados!
A primeira coisa que fez então foi sacar o celular e jogar o nome da patinadora do Google. Naturalmente, começou checando as imagens espalhadas pela internet, ficando impressionado com a beleza de . Era alta, possuía olhos brilhantes e um corpo bem delineado, assim como longos cabelos que sempre estavam presos durante as competições. Fez uma expressão que denotava "nada mal" para si mesmo enquanto acomodava-se na cadeira do camarim compartilhado com os outros atores para sair por completo do personagem. Simultaneamente, seu celular apitou indicando a chegada de uma mensagem no Bumble.
Há pouco tempo começara a fazer uso de um aplicativo de namoros, desde o fim de seu relacionamento com Katriona Perrett. Seu único relacionamento na vida e que não havia sido nada curto, diga-se de passagem. Talvez por conta disso mesmo tivesse começado a sentir-se aprisionado ali. Agora, livre, poderia curtir o quanto quisesse. Não que não respeitasse Katriona durante o tempo que passaram juntos, de forma alguma; eram apaixonados desde a adolescência. Mas, no fim de tudo, as coisas haviam começado a esfriar e ele sentiu que não estava mais aproveitando aquela vida.
Fechando imediatamente o navegador de seu celular – porém não a aba na qual havia acabado de pesquisar sobre – o rapaz prontificou-se a iniciar uma conversa com a mais recente garota que o havia contatado. Já havia passado por milésimas, se bem que não do jeito que gostaria. Tendo tido apenas um relacionamento na vida inteira, sentia que havia perdido o jeito para flertar. Não conhecera outros encontros, outros beijos, outros toques, outras transas. Talvez estivesse um pouco nervoso. Se isso não fosse suficiente, ainda não havia encontrado uma garota que realmente o impressionasse e com quem sentisse um clique, digamos assim.
Bom, com pouco mais de uma semana de espera, ele logo viria a encontrar.


II. Someone New

REGINA, 28 DE OUTUBRO DE 2017

amava o Dia das Bruxas. Quando pequena, seus pais sempre a deixavam escolher a fantasia que quisesse e então a levavam para pedir doces pelo subúrbio em que moravam. Quando chegavam em casa ao fim da tarde, geralmente assistiam um filme de terror leve, que não contivesse riscos de traumatizar a pequena , e ficavam até tarde brincando de várias coisas; mais para distrair a garota dos pensamentos que sempre assolavam as crianças em relação àquele dia do que qualquer outra coisa. Algumas imaginavam bruxas voando do lado de fora da janela de seus quartos, outras imaginavam o monstro debaixo da cama, havia também as que imaginavam fantasmas arrastando correntes pelos corredores, e as que imaginavam o bicho-papão no armário. era uma dessas.
Conforme fora crescendo, no entanto, percebeu que o bicho-papão só existia em sua cabeça, mas ainda assim não conseguia parar de vê-lo vez ou outra, cada hora tomando uma forma diferente. Ele passou de ter a forma de um fora do garoto de quem gostava para ter a forma do falecimento de seu pai, por exemplo. Na atual conjuntura ele estava mudado, fazendo-se presente apenas em cada competição da qual ela participava. E nem precisava ser Dia das Bruxas para isso.
Fez aquela comparação mentalmente em questão de segundos enquanto olhava distraidamente pela janela do táxi que dividia com sua mãe e Juliette – a melhor amiga havia viajado para Regina, na província de Saskatchewan no Canadá, apenas para vê-la performar – e que as levava para a arena Brandt Centre, onde encontrariam os treinadores Olga e Andrey. Durante o caminho, observava as decorações da data comemorativa que se aproximava. Eram impressionantes como todo ano, não importava em que cidade ela estivesse. Amava ver as casas enfeitadas com os mais diversos tipos de adereços: teias de aranha falsas, esqueletos de plástico, lápides artesanais nos quintais, sombras feitas de papel escuro nas janelas...
Subitamente, foi trazida de volta à realidade por um toque no ombro. Removeu um dos airpods e virou-se para encarar Juliette, uma expressão de dúvida no rosto. I Want to Break Free podia ser ouvida a pouca distância dos fones de ouvido – a música tocava no modo repetido, já que a patinadora havia decidido repassar a coreografia do dia na mente de novo e de novo.
— No que está pensando? — murmurou Juliette.
— Em nada — respondeu rápido demais. No banco da frente, sua mãe conversava sobre um assunto qualquer com o motorista. — Não estou pensando em nada. E estou pensando em tudo. Tentando não pensar demais.
Fez a outra garota rir com isso e jogar uma mecha de seu longo cabelo castanho para trás, por cima do ombro, antes de responder.
— Ora, vamos. Relaxe. Você já tem essa competição na palma da mão. Vai dar tudo certo. Hoje tem tudo para dar certo. — Finalizou com um sorriso arteiro, dando certa ênfase naquela frase.
ergueu uma sobrancelha desconfiada, removendo o outro airpod agora.
— O que há com você? Está assim desde o aeroporto. Achei que era só a saudade, mas eu te conheço... Tem algo mais aí.
Lily — disse de forma solene. Havia soado tão falso que fez a dona do nome soltar uma risada nasalada. — Se me conhece tão bem saberia que eu sou assim mesmo, ainda mais quando minha amiga está prestes a fazer cair os queixos de todos nesse país. É sério, Trudeau vai ter que realizar um mutirão para recolher mandíbulas do chão.
sacudiu a cabeça com um largo sorriso sincero.
— Feliz Dia das Bruxas adiantado, eu acho... O que está planejando, Jules?
— Nada! Não estou planejando nada. Juro. — Era verdade. Mas isso não queria dizer que era toda a verdade.
Juliette sorriu triunfante consigo mesma depois de cada uma voltar sua atenção para o que faziam antes, ávida para o desenrolar do dia. Naquela rara ocasião, ela não era a última a saber de algo.
, Joe e Gwilym – respectivamente, Roger Taylor, John Deacon e Brian May no filme biográfico da banda Queen – desceram do carro que os levou até a arena onde ocorreria o Skate Canada International. Dispensaram o par de seguranças que os havia acompanhado para tentarem uma entrada discreta e logo se acomodaram em seus assentos, o mais próximo da pista de patinação que conseguiram, visto que o lugar já estava parcialmente lotado. Até então, nenhuma exclamação de surpresa fora dada, nem olhares curiosos foram lançados de soslaio na direção dos rapazes. Com uns quinze minutos de permanência, porém, algumas pessoas começaram a se aproximar para pedir fotos ou autógrafos, mas sempre calma e respeitosamente.
Já era expectado que os reconhecessem, especialmente devido a atual repercussão do filme que gravavam, mas era estranho como haviam notado algumas pessoas parecendo à procura dos três, como se já esperassem encontrá-los ali. Com uma rápida busca no Google, Joe constatou que, sim, aquilo era perfeitamente possível. De alguma forma, a notícia de que estariam presentes ali havia vazado. questionou-se se não teriam sido os próprios produtores executivos do filme que o fizeram. Afinal, seria bom para encher ainda mais o local e, como consequência, exaltar os atores por terem levado mais visibilidade ao evento, além da inicial estratégia de marketing. Bom, aquilo não daria certo se começassem a distrair o público com as próprias presenças ao invés das dos competidores, mas por fim a quadragésima quarta edição teve início e puderam sossegar uma vez que foram aparentemente esquecidos.
Em tempo, remexia-se inquieto na cadeira, já não aguentando mais esperar pela apresentação de , o único motivo pelo qual estava ali. Sendo sincero, nem mesmo havia ouvido falar da mesma antes de Fletcher comentar sobre, mas isso não tornava a razão de estar ali menos verdadeira. Era ela e ponto final. Acabara esquecendo-se de ler mais sobre ela, entretanto, ou assistir qualquer vídeo de alguma de suas competições, assim como seus amigos não fizeram questão de introduzi-lo àquele mundo.
Quase não percebeu quando a hora havia chegado então, apenas quando Gwilym e Joe levantaram-se com entusiasmo genuíno para aplaudir a próxima patinadora a entrar no rinque. retirou os protetores das lâminas dos patins e logo fez-se confortável sobre o gelo. Poucos minutos depois, a introdução de I Want to Break Free encheu os ouvidos de todos e flagrou-se exibindo um sorriso animado, endireitando-se para ter uma melhor visão do espetáculo.
— Uau, a roupa dela — comentou Gwilym. — Fantástica.
Joe e concordaram, o último ficando imediatamente impressionado com a originalidade da patinadora que se sobressaía em um mar de figurinos todos muito parecidos em cores. Ela, ao contrário, utilizava todas de uma só vez, em uma clara alusão e homenagem a Freddie Mercury, especialmente quando considerada a música escolhida.
não só entregava os movimentos requeridos pela competição, percebeu, ela dedicava-se completamente à música, dançando com destreza, cantando – de forma inaudível, é claro, mas era possível ver seus lábios se mexendo conforme a letra – e sorrindo, aparentando alegria apenas por estar ali. Ela deslizava de uma maneira que parecia voar, tinha uma agilidade incrível para saltos e giros, e brilhava. Acima de tudo, brilhava. Nas ocasiões em que Freddie falava o famoso trecho "God knows" da música, ela o interpretava da mesma forma cômica que Roger vestido de mulher fazia no clipe, e achou aquilo sensacional.
Ele nem conseguiu lançar aos amigos um olhar que denotasse o quanto estava admirado, tal era seu medo de perder qualquer detalhe daquilo tudo. Ao mesmo tempo em que se arrependia de não ter sabido sobre ela mais cedo, por outro lado agradecia pelo fato, pois caso contrário talvez não sentisse a emoção que sentia naquele instante.
Ao final, assoviou e aplaudiu com avidez, assim como a plateia inteira. curvou-se em agradecimento, ainda sorrindo, e deixou a pista.
— Uau! — Joe exclamou.
— Precisamos encontrá-la depois daqui — disse sem pensar. Após receber um olhar indecifrável dos dois, tentou explicar: — Ou vocês acham que Fletcher vai nos deixar voltar para Londres sem uma foto com ela?
— Eu vou pedir um autógrafo, isso sim. — Gwilym riu.
Dito e feito, quando tudo estava finalizado e já havia recebido sua medalha de bronze – uma injustiça de acordo com , Joe, Gwilym, Juliette e Jocelyn – e tirado dezenas de fotos, os atores foram em busca da americana, que ainda mantinha-se completamente alheia ao fato de que eles estavam lá.
— Garota... — Juliette chamou sua atenção em certo ponto, uma expressão arteira no rosto. — Agora que o nervosismo já passou, eu posso falar... está aqui.
— O quê?! — apertou a garrafa de plástico que segurava e quase cuspiu a água que antes bebia em grandes goles.
— Bom, não só ele... Todos os principais de Bohemian Rhapsody, menos o Freddie.
— Rami — corrigiu antes de sacudir a cabeça. — Meu Deus! Eles vieram me ver? Como você sabe disso?
— Eu li em algum site de fofoca hoje de manhã. — Juliette deu de ombros.
— Ah, então não deve ser verdade. — suspirou, alisando o figurino assinado por Brad Griffies.
— Então... Quem são aqueles ali?
Juliette apontou e virou o rosto para trás no mesmo segundo, bem a tempo de ver, de fato, , Joe Mazzello e Gwilym Lee vindo em sua direção. Assim que ficaram perto o suficiente, o mais alto foi o primeiro a cumprimentá-la, um sorriso enorme no rosto.
, Gwilym Lee — apresentou-se. — É um prazer conhecer a maior fã do Queen! — Ofereceu um abraço com os braços estendidos, que foi prontamente aceito. — , Joe Mazzello. — Apontou para os outros dois depois.
Joe também a cumprimentou com um abraço, já optou por um singelo beijo na bochecha.
— Uau, que honra tê-los aqui — disse , os olhos semi arregalados em surpresa e maravilha. — Esta é Juliette Loren, minha amiga.
Melhor amiga. É um prazer. — Juliette estendeu a mão para cada um dos três; e Joe apenas a sacudiram, mas Gwilym tomou-a na própria e depositou um beijo sobre seus dedos.
Depois de todas as introduções terem sido feitas, pigarreou.
— Grandes fãs, , parabéns pela medalha, apesar de acharmos que você merecia o ouro. Foi incrível.
— Muito obrigada! — Ela sorriu. Seu olhar demorou-se um pouco no dele, que não foi desviado. Um sorriso tímido tomava conta dos lábios do loiro.
Para , pessoalmente era ainda mais bela do que nas imagens que vira no Google. Ele a analisou enquanto ela já engatava com Joe um assunto qualquer sobre Jurassic Park; o pescoço exposto devido a cabelo preso em um rabo de cavalo, a compleição que brilhava não só pelo suor, mas também pela maquiagem com glitter, as pernas torneadas cobertas por meia-calça. Ele estava simplesmente sem palavras. Quando notou, os outros quatro já haviam mudado o assunto pelo menos duas vezes e agora discutiam detalhes sobre Bohemian Rhapsody. Durante todo o papo, alguns fotógrafos já aproveitavam a oportunidade para roubar alguns cliques nada escondidos.
— Não é, ? — A voz de Gwilym readquiriu foco apenas no final da frase que proferira.
piscou algumas vezes.
— O quê?
— Rami e Lucy.
— Ah, sim, eles são grandes fãs. Uma pena que não puderam vir.
Aquilo era incrível e inusitado para , que ofereceu um leve sorriso e assentiu em compreensão.
— Bom, posso garantir que terão outras oportunidades.
— chamou Jocelyn, interrompendo momentaneamente a conversa. Após ser apresentada a todos, comentou com a filha: — Não podemos demorar ou vamos perder o voo de volta para Londres.
— Certo, eu já vou.
— Você mora em Londres? — questionou Joe com interesse. — Eu esperava que residisse nos Estados Unidos ou algo assim. Escute, nós estamos sempre por lá agora, por causa do filme. Podíamos sair para beber qualquer dia desses, concordam? — Seu olhar flutuou entre cada um.
— Absolutamente, meu caro — disse Gwilym.
— Eu acho uma ideia ótima! — assentiu, sendo seguida por e Juliette, que também aprovaram a sugestão. Não era sempre que a melhor amiga estava por perto, mas quando estivesse, certamente sairia junto com o grupo.
— Perfeito, então combinamos. Juliette, por favor, poderia tirar uma foto de nós quatro?
A morena prontamente consentiu e Gwilym, Joe, e juntaram-se para caber na moldura, exatamente nessa ordem. pegou de leve na cintura de para posar, enquanto Joe apenas pôs a mão ao redor de seus ombros, assim como Gwilym havia feito com os dele. Isso não passou despercebido para ela, que sentiu um ardor percorrer sua pele com o toque de .
As despedidas vieram e logo estava de volta em uma cabine de avião ao lado de Jocelyn e Juliette, dessa vez com I'm in Love with My Car tocando nos airpods, absorta em pensamentos que iam longe, até um certo loiro de grandes olhos verdes.


III. In a Week

LONDRES, NOVEMBRO DE 2017


Em uma semana, havia virado um expert na vida profissional de . Agora sim, pesquisara a maior quantidade de vídeos de suas performances que conseguira e lera sua página do Wikipédia inteira, que continha poucos detalhes sobre a vida pessoal – algo pelo qual ele agradecia, pois achava justo conhecê-la mais intimamente do jeito antigo, ou seja, conversando e tornando-se amigos.
Havia até selecionado algumas apresentações que acabaram tomando um lugar especial em seu coração, sendo suas preferidas. A número um não poderia ser outra; aquela na qual ele a conhecera, com I Want to Break Free e o vestido de arco-íris. Logo depois vinha a das Olímpiadas de Inverno de 2014, na qual , no auge de seus dezenove anos, competira ao som de Somebody to Love enquanto usava um vestido cuja estampa era uma réplica exata da camiseta florida de Freddie no clipe, levando o bronze para os Estados Unidos. No Campeonato Mundial de 2015, apresentara Crazy Little Thing Called Love e, por mais que só houvesse conseguido o quinto lugar, a colocara em sua lista mental de apresentações preferidas devido à vivacidade com que aquela coreografia fora exibida ao mundo.
Outra que o havia marcado e, além de tudo, intrigado, fora a do Mundial de 2016, na qual recebera a medalha de ouro. A música escolhida para essa performance em particular havia sido Who Wants to Live Forever, e esta pareceu ter sido sua mais emocional até então; havia ido às lágrimas enquanto se apresentava, e parecia evidente que era por causa da música. Apesar disso, ainda patinava de maneira excelente. Compreensiva e notavelmente, todos haviam se emocionado junto com ela, tanto o público quanto os jurados. O ouro fora mais do que merecido.
Ao ler os comentários do vídeo desse dia no Youtube, observou algumas pessoas falando sobre o pai dela, teorizando que provavelmente tinha algo a ver com ele e/ou seu falecimento. Guardou então aquilo nos pensamentos para perguntá-la quando fosse propício, quando já fossem próximos o suficiente, coisa que mal podia esperar para acontecer...
Assim como .
O sol estava escondido naquela manhã, anunciando um dia chuvoso por vir, mas nem isso a impediu de enfrentar os deveres do dia a dia. O que compensava a este curto prazo eram as mensagens que vinha trocando com... . No dia seguinte da sua apresentação no Canadá, recebera uma notificação um tanto especial em seu Instagram.

@1 começou a seguir você.

Além dele, Joe e Gwilym fizeram o mesmo, assim como Lucy e Rami uns dias depois. Joe então criara um grupo no aplicativo com os seis juntos, para que pudessem manter contato; afinal, haviam mesmo concordado em marcar alguma saída por Londres. logo fora recebida como parte da família. Eventualmente, trocaram telefones e permutaram o local das conversas. Todos os dias falavam sobre os mais variados assuntos, com e mencionando-se em alguns momentos, mas nada muito pessoal.
Certo dia, porém, recebeu nada menos que um áudio de em privado, uma voz rouca de quem havia acabado de acordar enchendo seus ouvidos quando apertou o play.

[aud: ] , ei. Eu estava pensando... Os rapazes vão ficar fora por uns dias daqui a uma semana, eles vão ao Japão, mas eu não vou poder ir. Você não gostaria de fazer algo por Londres mesmo?

Como se não fosse suficiente ela ter recebido uma mensagem dele, ainda por cima era um áudio, e seu conteúdo era ainda melhor. Ele queria sair com ela. Só com ela. Tinha que significar algo, certo? Ou... Talvez ele só não quisesse ficar entediado, excluído em Londres sem os amigos. É, isso é mais provável, lembrava-se de ter pensado.
No entanto, por mais que quisesse muito aquilo, tivera que recusar. O NHK Trophy estava quase batendo à porta, dando-lhe um prazo curto entre este e o Skate Canada International passado, motivo pelo qual ela ainda não se propusera a marcar uma saída com os atores – estava treinando duro. Respondeu então na mesma moeda, encantada com a coincidência da situação.
[aud: you] Oi, . Veja, isso é muito engraçado, eu também vou estar no Japão na semana que vem. Tenho uma competição em Osaka... Mas assim que todos voltarmos, podemos definitivamente começar a curtir as noites de Londres juntos.

Não demorara muito até a resposta chegar, dessa vez em formato de texto.

[msg: ] Se encontrar aqueles safados por lá, não bebam muito saquê sem mim :)
[msg: you] eu vou beber por mim e por vc!

A partir daí, não pararam mais de conversar em privado, aumentando gradativamente a frequência de mensagens à medida que os dias passavam. O chat com Joe, Gwilym, Rami e Lucy ainda era movimentado, apesar disso.
A coletiva de imprensa de Bohemian Rhapsody no Japão chegou e passou, assim como o NHK Trophy, que conferira a mais uma medalha de ouro, dessa vez tornando-a a primeira mulher americana a levá-la nessa competição. Isso só a fez perceber que já estava mais do que na hora de dar uma pausa e sair para beber em comemoração.

[msg: you] hey
[msg: you] agora que todos nós estamos de volta...
[msg: joe mazzello] O nunca saiu.
[msg: you] acho que finalmente é nossa hora de tomar uns bons drinks
[msg: ] @Joe se manca
[msg: gwilym lee] Crianças...
[msg: lucy boynton] Apoiada!
[msg: rami malek] ↑ o que ela disse
[msg: you] dessa vez vcs vão poder levar o de verdade! @joe @gwilym @rami

Riu sozinha ao digitar aquela parte, referindo-se ao pôster de papelão de que os rapazes haviam carregado para lá e para cá pelo Japão.
Depois de muita discussão sobre a qual bar iriam no próximo sábado, todos acabaram concordando quanto ao The Dolphin, um estabelecimento com pista de dança, mesa de sinuca, máquina de karaokê e um jardim nos fundos para quem quisesse fumar ou relaxar depois. Além disso, de acordo com , "os donos deixam você dançar em qualquer superfície que aguente seu peso". Como exatamente ele sabia disso, resolveu não perguntar, mas sentiu que era algo que agradaria a Juliette. Era uma pena que ela já não estivesse mais na cidade desde a semana seguinte ao Canadá; havia retornado junto com para Londres para passarem alguns dias a mais juntas, mas logo tivera que voltar a Detroit. Tinha uma vida, afinal, que não dependia de . Ainda assim, falavam-se quase todos os dias, como sempre, e certamente Jules estava por dentro de tudo que acontecia na vida da amiga patinadora.
The Dolphin era simples por fora, uma construção antiga que lembrava muito um brownstone de Nova Iorque. encontrou o elenco de BoRhap na esquina, um pouco longe da confusão que formava-se na porta. Foi maravilhoso ver Joe, Gwilym e novamente, especialmente esse último. Encontrar Rami Malek e Lucy Boynton frente a frente pela primeira vez havia sido mais ainda. É claro que já haviam se tornado íntimos, de certa forma, devido a tantas conversas que vinham mantendo há três semanas, mas pessoalmente foi ainda mais especial.
Ao finalmente entrarem, notou que o lugar era o oposto do exterior. Seria completamente escuro não fossem as diversas luzes coloridas, única iluminação do lugar, e adorou aquilo. Além de todo o neon, havia mesas espalhadas por cada canto, além de inúmeros bancos altos de estofado vermelho ao longo do balcão de madeira polida do bar, onde alguns bartenders já atendiam aos pedidos dos clientes mais pontuais. Uma mesa de sinuca chamava a atenção no meio do salão, assim como uma máquina de karaokê encostada a uma parede mais distante. Ao lado desta, uma porta discreta levava aos fundos, ao prometido jardim, e outras duas aos banheiros. Em outro ponto encontrava-se uma pista de dança bem modesta, mas que servia a seu propósito. Aquele lugar fazia completamente o gosto de , e a julgar pelas expressões encantadas dos outros, fazia o deles também. A sugestão de havia sido fantástica.
— Vamos subir — disse ele, pondo-se em movimento até uma escada que até então não havia notado. — Eu reservei o segundo andar para nós.
Com exclamações alegres de comemoração, os outros cinco o acompanharam até em cima, aparentemente não tendo sido reconhecidos pelos demais ali presentes, possivelmente pela baixíssima iluminação. Após subirem os numerosos degraus, um segurança parado na escada prontamente liberou a passagem para eles e os deixou a sós.
O andar de cima era consideravelmente menor, mas ainda perfeito para a festa particular que fariam. Além do tamanho, aquele andar diferia do de baixo também pela falta de um bar e uma pista de dança, mas só a mesa de sinuca e o karaokê já seriam mais do que suficiente para atender às demandas de , , Joe, Gwilym, Rami e Lucy. Também havia uma separação acústica entre os dois andares, de modo que as músicas de um e de outro não se misturassem.
Começaram bebericando cervejas que Gwilym havia buscado no andar inferior, apenas batendo papo, sentados em um banco estofado que circulava uma mesa redonda. Ali, a iluminação também era precária e as luzes de neon deixavam tudo mais emocionante, sem mencionar as músicas clássicas de rock que tocavam ao fundo. Com meia hora de estadia, Lucy e decidiram abrir a bebedeira oficialmente com tequila, ambas julgando cerveja algo fraco demais para a ocasião. Levaram shots para todos, que prontamente aceitaram e viraram juntos. As moças, porém, queriam mais, e foi exatamente o que foram buscar. As moças, porém, queriam mais, e foi exatamente o que foram buscar.
— Pronta, Lucy?
— Nasci pronta, e você, ?
— Pode apostar.
Com isso, as duas sorriram de forma levada e levaram os pequenos copos de tequila aos lábios, virando-os imediatamente para consumir o líquido de uma só vez, o que causou uma queimação agradável no interior de seus corpos. Os rapazes apenas observavam e riam, com um medo cômico do que poderia surgir daquela ação.
Conforme a noite corria, sentia-se mais e mais eufórica, extremamente feliz e ávida por estar ali, uma sensação prazerosa tomando conta de si cada vez mais. E não era difícil observar que os amigos estavam na mesma vibe, rindo e fazendo piada de tudo, falando alto, brincando, tirando várias fotos. Não conseguiam parar de sorrir e gargalhar juntos. Era simplesmente extasiante.
Próximo da meia-noite, colocou Fat Bottomed Girls no karaokê e ofereceu um dos microfones a Lucy, que prontamente aceitou para cantar junto com a mais nova amiga. Na mesa de sinuca, , Joe, Gwilym e Rami faziam apostas amigáveis, onde seriam depois acompanhados pelas duas garotas ao terminarem o pequeno show no karaokê. Paravam de beber e jogar apenas para ir ao banheiro ou descer ao bar em busca de mais drinks. Em certo momento, Joe subiu novamente com seis copos de uma bebida cor-de-rosa em uma bandeja.
— Obrigada, barman. — Lucy riu.
— O melhor que nós temos — completou , erguendo seu copo para um brinde. Todos seguiram seu gesto e estalaram vidro contra vidro para em seguida cada um dar uma golada generosa.
Era um líquido um pouco espesso e muito doce; nem é necessário dizer o quanto foram dominados por aquele sabor, logo pedindo por mais. E o melhor: foram atendidos.
Não tinha uma pessoa sóbria naquele grupo, e isso só deixou e mais amigáveis um com o outro. Não haviam mantido muito contato durante a noite; ao invés disso, dividiam a atenção entre todos igualmente, especialmente para não chamarem atenção para o segredo íntimo de cada um de que se gostavam bastante, mesmo que nem sequer suspeitassem que o outro sentisse o mesmo na mesma intensidade.
Em certo momento da madrugada, deslizou suavemente para o lado de sobre o banco enquanto ela ria observando Joe e Gwilym tendo uma discussão um tanto engraçada durante uma partida de sinuca. Lucy e Rami haviam descido para buscar mais bebidas, mas ainda nada dos dois voltarem. O loiro casualmente apoiou um braço no local onde recostava-se, pronto para puxar assunto. Ela lhe lançou um olhar indecifrável e tomou mais um gole de seu drink.
— Então, ... O que vai fazer depois?
— Dormir, espero, e não vomitar. — Ela riu, sentindo-se bem mais desinibida. Estava um pouco tonta, assim como imaginava que os outros também estivessem, mas não era uma sensação ruim. Ainda.
— Você deveria dizer "dever de casa".
— Como é?
sentiu-se idiota de súbito, mas também riu, sacudindo a cabeça.
— Vai entender quando assistir BoRhap.
soltou um prolongado "oh" e ergueu as sobrancelhas, uma expressão divertida no rosto.
— Alerta de spoiler!
Seus risos encheram o ar, ambos caindo em uma atmosfera muito agradável e familiar, de modo que logo flagraram-se com os rostos muito próximos. A Terra pareceu girar mais devagar. Era apenas natural; havia uma atração mútua ali e os dois estavam sozinhos pela primeira vez na noite, além de embriagados.
! — Uma voz exclamou de repente. Era Gwilym, que espalmou o tampo da mesa com um baque. Joe não era mais visto por perto.
— Jesus. — levou uma mão ao peito. — Você me assustou. — Ao seu lado, sentira sobressaltar-se também.
Mas Gwilym nem deu importância e continuou.
— Sua amiga, Jules... Ela é tão bonita. Ela é linda — contemplou com a fala arrastada, o sotaque britânico soando mais forte.
— É mesmo? — Ela ergueu uma sobrancelha, tentando conter um sorrisinho.
— Sim... Eu não consigo tirá-la da minha cabeça. Você pode me passar o telefone dela?
riu alto, levando uma cotovelada nas costelas.
— É claro que posso — respondeu a garota, apenas concordando porque tinha certeza de que Juliette iria amar aquilo. — Você tem...? — Antes que pudesse terminar, Gwilym puxou uma caneta do bolso da jaqueta. rapidamente anotou em um guardanapo o número da garota, que naturalmente sabia de cor, e entregou-o para o amigo. — Divirta-se.
Então ele praticamente saltitou até o banheiro masculino. riu mais um pouco antes de retomar a fala.
— Onde estávamos?
deu um sorriso largo, as maçãs do rosto corando e ficando mais em evidência pelo repuxar dos lábios.
!
— Santo Deus. — bufou.
Era Lucy, que ignorara completamente o loiro e tinha sua atenção voltada para a amiga.
— Eu preciso da sua ajuda.
— Claro. — concordou. — O que é?
— Aqui não. — E puxou a outra pelo pulso, que logo começou a levantar do assento. — Vamos!
só teve tempo de olhar para trás e fazer uma careta frustrada para antes de murmurar um pedido de desculpas. Ele apenas assentiu, sem culpá-la, em seguida assistindo as duas entrarem no banheiro de qualquer jeito. Não muito tempo depois, Joe e Rami vinham subindo as escadas.
— começou Lucy, sentando-se na pia de mármore. — Eu não sei o que fazer! Eu gosto de um cara, gosto muito, mas ele não quer nos assumir!
— Espera. — ergueu um dedo. — Vocês estão namorando?
— Bom... Não — admitiu. — Mas estamos saindo.
— Há quanto tempo?
— Pouco.
— Certo. Ele provavelmente não deve querer fazer alarde por não ser algo sério ainda, Luce. — Tentou ser o mais sutil que pôde, evitando opinar que talvez esse tal cara apenas não quisesse algo sério.
Lucy fez um biquinho.
— É, talvez. Ele... Esse cara é meio tímido. Bem na dele.
— Pode parar de chamá-lo assim, eu sei que é o Rami — disse brincando, gesticulando desdenhosamente. Não sabia, é claro, mas resolveu fazer aquela piadinha só para descontrair. Os dois combinavam muito, afinal.
Seu queixo caiu, porém, quando Lucy respondeu.
— Merda. Quando ele te contou?
A outra arregalou os olhos, levando uma mão à boca.
— Ele... não contou.
— Você jogou verde?! — A atriz parecia desesperada, mas logo começou a rir. Se era de nervoso ou alívio, não soube dizer.
— Me desculpa! Eu não achei que você fosse admitir! Na verdade, eu nem suspeitava de nada!
— Tudo bem, calma. O importante é você não contar para ninguém.
— Prometo! Nem o Rami precisa saber que eu sei. Isso fica só entre nós até decidirem o contrário.
— Certo... — Lucy suspirou. — Estou um pouco aliviada. É bom contar para alguém.
— Eu sou mesmo a primeira a saber?
— Sim! Agora... Quando todos irão saber sobre você e , hein? Eu acho que estraguei algo lá fora, me desculpe...
— O quê?! — A voz de falhou. — Não sei do que está falando. e eu somos só amigos.
— Mas não por escolha dele. — Então Lucy fez uma cara de "falei demais".
— O que quer dizer? — aproximou-se, pegando a mão dela.
— Bom... Ele sempre fala de você. E sempre assiste vídeos seus durante os intervalos das gravações. Competições, entrevistas... Qualquer coisa. Eu acho que ele tem uma quedinha por você.
arfou.
— Isso é loucura.
Antes que pudessem continuar a fofoca, no entanto, ouviram batidas frenéticas na porta. Quando abriram, Joe estava parado ali saboreando uma fatia de pizza.
— É melhor virem logo ou não vai sobrar nada.
e Lucy trocaram um olhar cúmplice e sorriram, caminhando de volta ao point.
O resto da madrugada passou sem mais ocorrências apreciáveis. O grupo apenas continuou bebendo um pouco mais, no final também enchendo os estômagos com comida, tirando fotos e jogando. O básico. Em uma das fotografias, foi segurada na horizontal pelos quatro rapazes, todos evidentemente muito bêbados. Lucy tirou uma foto igual depois, que saíra igualmente engraçada. Postaram algumas nas stories do Instagram, onde era certo que renderia diversas capturas de tela.
tinha o coração mais leve depois da notícia de Lucy, sentindo-se ainda mais feliz e tendo a certeza de que não queria que aquela noite acabasse, especialmente se aquilo significasse não lembrar de metade dos acontecimentos no dia seguinte.


IV. To Be Alone

No dia seguinte ao The Dolphin, acordou com uma ressaca nada generosa. A cabeça latejava e girava, o estômago parecia vibrar de fome e enjoo, o corpo todo doía – sabia-se lá por que. Primeiramente, a patinadora reuniu todas as forças que tinha para levantar e ir até o banheiro. Depois, arrastou-se até o andar de baixo em busca de um copo d'água bem gelado para saciar a sede absurda com que acordara. Por fim, voltou à sua cama quente e confortável, jogando-se debaixo das cobertas e deleitando-se naquele bem-estar. O relógio marcava mais de meio-dia.
Por um momento, pensou em como seria bom ter ali com ela. E foi como se aquele pensamento o tivesse atraído. Ouviu o celular vibrar na mesa de cabeceira e esticou um braço para pegá-lo. Na tela desbloqueada, liam-se literalmente centenas de notificações de mensagens no grupo com o elenco de Bohemian Rhapsody. Aparentemente, enquanto dormia, alguns deles passaram o resto da madrugada passada em claro e parte daquela manhã conversando, enviando as fotos tiradas e comentando sobre a noitada que tiveram, em particular os melhores momentos.
Mas não foram aquelas mensagens que fizeram seu celular vibrar naquele instante, e sim uma de , perguntando se ela havia tido uma boa noite de sono. Sorriu sozinha enquanto mordia o lábio inferior, fechando os olhos e balançando a cabeça, sonhadora. Respondeu positivamente e a partir dali iniciou-se uma conversa que duraria pelo resto do dia. Acabaram combinando, então, de se encontrarem no dia seguinte no prédio da Prefeitura de Hornsey, onde e os outros estariam trabalhando em uma cena sobre a gravação da música que dava nome ao filme.
Como prometido, lá estava , após deixar seu treino diário de patinação, aguardando do lado de fora.
— Ei! — acenou, correndo até ela. Cumprimentaram-se com um abraço apertado.
— Uau, você está... — ela começou, recuando alguns passos para dar uma melhor olhada no figurino do ator. — Ótimo. Realmente ótimo. Sinto como se estivesse nos anos 70 com o próprio Roger Taylor na minha frente.
sorriu agradecido. Ele vestia uma camiseta justa listrada nas cores vermelho e branco e uma calça preta, igualmente justa. Já usava sua habitual roupa de treino: leggings pretas e um body colorido por cima.
— E eu me sinto nos anos 90 na presença da própria Tonya Harding.
— Você é muito gentil. — Ela retribuiu o sorriso. — Os rapazes não vêm? E Lucy?
— Uh... Não. Eles estão muito ocupados agora — mentiu, evitando admitir que não havia contado aos outros sobre sua visita. Afinal, não queria que eles atrapalhassem um momento a sós dos dois. A próxima parte, porém, era verdade. — Lucy não está nessa cena. Nos veremos apenas mais tarde. Ah, e sobre a banda... Eles tiveram que resolver outra coisa, então também não estão aqui. Não pense que eu perderia a oportunidade de te apresentar a eles.
Um rubor tomou conta das bochechas de e ela sentiu-se acalentada por aquelas doces palavras finais.
— Eu entendo! Bom, o que estamos esperando? Vamos dar uma volta.
Puseram-se a caminhar lado a lado ao redor do prédio da prefeitura. O ambiente estava completamente vazio, com seus arredores tendo sido reservados para a gravação do dia. olhou para o céu nublado por um tempo, procurando qualquer assunto que considerasse bom para puxar, mas falhando. Suspirou derrotada. Não desejava passar o breve tempo que tinha com naquela tarde agradável sem conversar sobre qualquer coisa relevante. Felizmente, ele falou primeiro.
— Você se importa se eu fumar?
— De jeito nenhum.
puxou um isqueiro e um maço de cigarros do bolso da calça, acendendo um e expelindo fumaça pelo nariz de um jeito bem atraente, diga-se de passagem. Eles então pararam para sentar em um banco.
— Obrigado. Eles não me deixam fumar lá. — O silêncio instalou-se por mais alguns segundos antes de ser quebrado novamente. — Então, ... Conte-me algumas coisas que você está cansada de ouvir, sendo patinadora artística.
— Uau, isso é excelente. Vamos lá, são tantas. — Ela riu. — Certo... Quando me perguntam se eu não fico com frio usando aqueles "vestidos minúsculos". — Fez aspas com os dedos. — Sabe, tente patinar por quatro minutos direto, saltando e girando sem parar, depois venha falar comigo. É impossível não suar.
gargalhou genuinamente divertido com aqueles comentários.
— O que mais?
— Quando dizem que patinação artística não é um esporte. Nossa, esse é o pior de todos. A vontade é de partir para cima da pessoa! — Ela fechou os punhos, rosnando de brincadeira. — Ah, e quando me perguntam se dói quando eu caio! — Aqui os dois riram alto. — Agora é sua vez! Conte-me algo que te irrita no ramo da atuação.
— Não tem muita coisa, mas eu simplesmente detesto quando me contratam só para ser um rostinho bonito e exibir meu corpo. Eu já fiquei sem camisa diversas vezes, especialmente em EastEnders. Foi uma novela que eu fiz — ele explicou dando de ombros. — Em X-Men eu também tive que ficar, mas não foi tanto assim e fazia sentido, então tudo bem.
— Eu adorei esse filme — comentou.
— Foi muito bom gravá-lo. Foi legal ter superpoderes e me tornar amigo do James McAvoy. — Ele exibiu um sorriso de canto.
— Você tem que me apresentar a ele um dia!
— Só se você me apresentar a... — fez uma pausa para pensar. — Caramba, eu não conheço ninguém além de você na patinação, tirando a Tonya Harding. Vocês são amigas?
sacudiu a cabeça, soltando uma gargalhada gostosa de ouvir.
— Não, mas vamos chegar lá. Quero conhecer a Margot Robbie também, aí eu te apresento a ela. Mas primeiro tenho que conhecer o McAvoy. E Brian e Roger, é claro! E John!
— Fechado. — Ele sorriu. — Enfim, agora eu evito qualquer tipo de trabalho que queiram me despir sem motivo algum.
— Está certo — concordou a garota. — Você é talentoso demais para isso.
O silêncio recaiu sobre eles mais uma vez, mas dessa vez era tranquilo e confortável. terminou seu cigarro e jogou-o em uma lixeira. O clima que havia rolado dois dias antes, no bar, não fora trazido à tona em nenhum momento, para alívio geral. Na verdade, ambos pensavam que havia sido apenas coisa da cabeça deles.
— Você sempre soube tocar bateria? — perguntou de repente, analisando o perfil de enquanto ele abria um sorriso cativante.
— Eu aprendi a tocar há uns três meses. Quando eu consegui o papel, não fazia nem ideia de como segurar as baquetas.
arregalou os olhos, surpresa em ouvir aquilo, mas soltou uma risada honesta.
— Você é louco!
— Eu sei! Eu menti no currículo, não recomendo. Quando soube que tinha sido escolhido, corri para encontrar um bom professor. Parece que deu certo.
— Eu mal posso esperar para assistir esse filme! Será que dá para vocês irem mais rápido com isso?
— Vou fazer o possível, senhora. — Em seguida, muito a contragosto, checou o relógio e fez uma careta de frustração. — Falando nisso, eu tenho que ir.
— Tudo bem. — levantou-se. — Vamos.
Fizeram todo o caminho de volta até o ponto de encontro, regozijando-se com o passeio e o ar límpido e frio do fim da tarde.
— Obrigada por ter vindo, .
— Foi um prazer, . Agora eu espero você qualquer dia depois do meu treino, está bem? Eu te mando o endereço.
O rosto do rapaz iluminou-se por completo com aquilo.
— Pode apostar. Talvez eu chegue até de surpresa, você nunca vai saber.
— Misterioso. Gosto disso.
Eles compartilharam uma última risada antes de darem mais um abraço e cada um seguir seu caminho.
Depois daquele primeiro encontro não oficial, e começaram a sair cada vez mais, sempre que possível, fazendo o mês de novembro voar. Saíam durante os intervalos de gravação de quando ele estava na cidade, antes e depois dos treinos de , almoçando, jantando, apenas passeando juntos, conversando sobre tudo.
Conversavam sobre as respectivas infâncias, sobre como ela havia se apaixonado por patinação, sobre a experiência dele com atuação antes e depois de Hollywood, sobre a família de , sobre o falecido pai de ... Sim, por iniciativa da própria, havia conseguido a brecha para perguntar sobre a famosa performance de Who Wants to Live Forever, aprendendo que aquela costumava ser a música preferida de Bruce e que havia tocado em seu velório.
No geral, falavam bastante sobre os gostos em comum, o que era a melhor parte, pois eram muitos. Além do que já sabiam, como cervejas, drinks coloridos, sinuca e bares, podiam contar também viagens de carro, rock clássico, cachorros e baladas, mas também principalmente o sossego do próprio lar, entre outros.
Os meios de comunicação já começavam a ferver com notícias sobre os dois. Desde a noite no The Dolphin, com o elenco completo do filme, começaram a pintar como a sexta integrante do grupo; uma espécie de membro honorário de Bohemian Rhapsody, ainda mais considerando sua relação com o Queen. Era de se esperar que depois, com as recentes e frequentes saídas apenas entre ela e , os boatos sobre um possível relacionamento começassem. Bom, por mais que realmente não se opusessem a isso, não comentavam nada a respeito um com o outro, mantendo a amizade pelo menos por ora. Mas é claro que Joe, Gwilym, Rami e Lucy não perdiam uma oportunidade de fazer piadas sobre isso.

[msg: joe mazzello] Como se não bastasse me trair com o Gwilym, agora tem que me trair com a também
[msg: joe mazzello] O de papelão nunca me trataria assim
[msg: lucy boynton] HAHAHAAH eu não acredito
[msg: rami malek] Vocês deveriam manter isso em segredo, o Joe não merece ser mais humilhado...
[msg: you] gente hahahaha parem, isso não existe! @joe pode parar de se preocupar
[msg: gwilym lee] Me encontre mais tarde @Joe vamos resolver isso ( ͡° ͜ʖ ͡°)
[msg: ] Joe, eu defenderei a sua honra
[msg: ] Deixa pra lá. Vai com o Gwilym!

Não estava claro se acreditavam nos rumores, suspeitavam de algo ou apoiavam o casal – com exceção de Lucy, que era bem honesta com quanto a isso. A atriz não via a hora dos dois pararem de enrolar e assumirem logo um romance. Mas nem tudo seria tão fácil assim... Ou seria?


V. Like Real People Do

LONDRES, DEZEMBRO DE 2017

Assim como novembro, o mês de dezembro voou.
e encontravam-se cada vez mais, apesar de agora revezarem melhor com as saídas em grupo. Mesmo com Joe, Gwilym, Rami e Lucy por perto, porém, os dois ainda pareciam ter olhos apenas um para o outro.
observava falar sobre os próprios interesses com atenção indivisa, sempre parecendo encantado pelo mero fato de ela estar empolgada enquanto tagarelava sobre algo de que gostava. E vice-versa – definitivamente não escapava dos olhares cativados de . Eram pequenos detalhes que, finalmente, todos os membros do grupo começaram a reparar e prestar atenção, apesar de não falarem nada com os pombinhos.
Certa tarde, durante um almoço pós-treino de que já durava horas, resolveu convidá-la para uma festa de réveillon que um de seus melhores amigos dava todo ano. Ele a havia buscado no centro de patinação e agora sentava em frente a ela à mesa de um restaurante.
, você tem planos para o ano novo?
— Bom, eu geralmente passo com a minha mãe lá em casa mesmo. Jules às vezes vai com a mãe dela e ficamos as quatro bebendo vinho e fofocando.
— Uau, isso parece promissor. — riu sinceramente, apoiando o queixo na mão.
— É, e comemos bolo também, porque é meu aniversário no dia primeiro!
— É sério? — O loiro ergueu as sobrancelhas. — O meu é no dia dois!
arregalou os olhos e sorriu animada com aquilo. não pôde deixar de acompanhá-la, não só por surpresa pela coincidência, mas também pela imagem adorável que era o sorriso e a alegria da patinadora naquele momento.
— Isso é demais! Mas por que a pergunta? O que tinha em mente?
— Ah, um amigão meu sempre dá uma festa na casa dele, com muita bebida, música, jogos... — Ele relaxou contra o encosto da cadeira.
— Eu topo — ela o interrompeu.
— Eu não quero atrapalhar a sua noite com as garotas.
— Não vai atrapalhar! É bom mudar, tenho certeza que elas irão entender.
sabia que elas não somente entenderiam como seriam as primeiras a dar-lhe bronca se ela ao menos pensasse em recusar aquele convite.
— Então... Posso te buscar no domingo às seis?
— Perfeito.
E lá estava , no dia marcado, se analisando pela vigésima vez na frente do espelho. Seus olhos passaram pela justa calça jeans até os saltos pretos antes de subir à blusa branca simples e a jaqueta de couro que finalizava o look.
— Você está linda, filha — assegurou Jocelyn, que segurava um celular com a câmera apontada para a jovem. Em outro continente, Juliette dava sua opinião via FaceTime.
— Eu acho que falta um decote.
— Está uns sete graus lá fora! — riu da melhor amiga. —Mas... Já que hoje será especial...
— Amém — Jules proferiu através do alto-falante.
logo trocou o visual mais comportado de antes por um vestido preto e justo aberto atrás, ornamentado com paetês que brilhavam maravilhosamente. Jules não havia especificado onde deveria ser o decote e, honestamente, um nas costas conseguia chamar tanta atenção quanto um na frente. A confirmação disso veio quando chegou e não conseguiu esconder a admiração em seu rosto ao ver dar uma voltinha tímida para exibir a escolha de figurino. Em seu braço, ela carregava um casaco de pele – falsa, é claro – de leopardo. Através da alta janela do quarto, Jocelyn e Juliette espiavam os dois entrando no carro e sumindo de vista.
também estava fantástico: camiseta e calças pretas, uma jaqueta de couro e botas no mesmo tom monocromático. Em retrospecto, porém, o ator achava que deveria ter se arrumado mais. Naturalmente, para , ele parecia simplesmente perfeito, em doses exatas de sexy e descontraído. Após trocarem alguns elogios discretos na presença do motorista particular, finalmente chegaram ao local da festa.
foi rapidamente apresentada aos amigos de , sendo recebida de forma calorosa por todos e reconhecida por alguns convidados que, para seu alívio, não eram fãs fissurados que invadiriam sua privacidade. Afinal, não estavam nos Estados Unidos e eles já estavam acostumados à presença de uma celebridade entre eles.
A noite passou da melhor forma possível. Música boa sem restrição de volume, bebidas excelentes, luzes neon, danças animadas, jogos de bebida, karaokê e cabine de fotos eram algumas das atrações naquela casa enorme. Além de muitos, muitos sotaques britânicos.
Já mais animada que o normal, puxou pela mão para a cabine, para que pudessem tirar fotografias que ela, sem dúvidas, guardaria com muito carinho. Os dois usavam bonés que não faziam ideia de onde haviam surgido e aproveitou para vestir o casaco de leopardo para montar uma foto ainda mais divertida. Entre risadas altas e mãos dadas para não perderem o equilíbrio, fizeram caretas e gestos engraçados, os rostos mais próximos do que certamente estariam se estivessem sóbrios. Após a revelação instantânea das fotos, riram mais ainda e cada um ficou com uma cópia do papel glossy.
Os amigos do ator, os sóbrios o suficiente para perceber o que estava acontecendo, cochichavam alegres entre si sobre a química que rolava entre ele e a patinadora americana.
— Vocês já o viram assim? — indagou um.
— Há muito tempo — respondeu outro.
— Definitivamente não nos últimos meses com a Kat — comentou Andy Read, o dono da casa.
— Acho que ele parece até mais feliz do que no início do namoro com ela.
Os comentários eram desconhecidos para os dois, que apenas preocupavam-se em ter uma noite incrível juntos. Inclusive, fizeram questão de mostrar o quanto estavam bêbados e alegres em fotos enviadas para o grupo de Bohemian Rhapsody. Longe dali, Lucy e Rami sorriam um para o outro ao ver como os amigos pareciam estar se apaixonando aos poucos, como eles mesmos. Joe e Gwilym estavam curtindo o réveillon com Allen Leech, intérprete de Paul Prenter no filme, também trocando olhares suspeitos e divertidos. Nem Jules escapou de receber aqueles anexos.
Já pouco antes da meia-noite, e encontravam-se na sacada do casarão, apenas conversando e bebericando seus drinks. Em certo ponto, o silêncio recaiu sobre o casal e apenas manteve os olhos colados em enquanto a mesma encarava o céu, admirando a beleza das estrelas. Quando percebeu que estava sendo observada, ela abriu um sorriso tímido.
— O que foi?
— Eu estava pensando...
— Em quê?
— Acho que já é hora de... Bom...
ofereceu um olhar que o encorajava a continuar, então ele admitiu de uma vez.
— Aqui, longe de câmeras, paparazzi, fãs... Acho que poderíamos nos beijar como pessoas de verdade fazem.
Pessoas de verdade. Ele tinha razão; eles não eram comuns. E por isso mesmo preferia, na maioria das vezes, o conforto de seu lar, onde poderia ser ele mesmo sem ter pessoas anotando cada coisa que ele fazia como se fosse algo extraordinário. então percebeu que, de fato, aquele era o primeiro momento em que estavam realmente a sós, em um ambiente seguro para serem eles mesmos. Afinal, nunca haviam se encontrado nas respectivas casas. E por mais que parecessem estar em privacidade nos breves encontros após os treinos da patinadora e durante os intervalos de filmagem de , não era bem assim. Mas ali... Ali, sim, poderiam se beijar como pessoas de verdade.
não conseguiu conter o sorriso que explodiu um seu rosto, tanto pelo pedido quanto pela surpresa.
— Eu acho que você está certo — disse a aproximou o rosto do dele. Fazia apenas dois meses que se conheciam, mas parecia muito mais.
pegou a jovem pela nuca, o dedão roçando seu pescoço e a mandíbula. Umedeceu os lábios enquanto ela engolia em seco em antecipação. E então aconteceu.
Fecharam os olhos e o beijo veio; lentamente primeiro, então ganhando velocidade e intensidade. As línguas se tocavam de forma graciosa, e os lábios que beijavam e chupavam pareciam ter sido feitos para aquele momento. Colocaram os copos na estrutura da sacada para que as mãos ficassem livres para pegar e apertar. Ambos os corpos estavam unidos em perfeita sintonia, com tocando as costas nuas de e ela os braços fortes dele, nenhum dos dois querendo que aquilo acabasse. Mas, é claro, eventualmente tiveram que parar e recuperar o fôlego.
— Finalmente — sussurrou. riu contra sua boca, os narizes gelados roçando um no outro. Ele ainda mantinha uma mão no rosto da jovem, acariciando-o enquanto recostava a testa na dela.
— Finalmente — ele ecoou.
— Ei, pombinhos. — Uma voz chamou e eles imediatamente viraram e para olhar, nervosos. Percebendo que era apenas Andy, o anfitrião da festa, suspiraram em alívio. — O ano já vai virar. Venham se juntar ao resto dos solteiros chatos e solitários.
e riram suavemente e seguiram o rapaz. Em pouco tempo, faltavam apenas dez segundos para 2017 se tornar 2018. Quando finalmente o relógio bateu meia-noite e todos gritaram em uníssono, abraçando-se e comemorando, não resistiu e puxou para outro beijo, ali mesmo, na frente dos solteiros chatos e solitários.
— Feliz aniversário, — sussurrou antes de selar seus lábios.
Simultaneamente, ambos desejaram poder morar naquele beijo, naquela vibe para sempre. Talvez fosse melhor mesmo – não sair daquele momento nunca. Eles não faziam ideia do que o novo ano traria.


VI. No Plan

LONDRES, JANEIRO DE 2018

De vez em quando, ainda tinha flashbacks da primeira madrugada do ano.
Nas suas primeiras horas com vinte e três anos de idade, ela e haviam achado um quarto destrancado e se apressado até a cama, entre passos trôpegos e mãos bobas aqui e ali. Não era difícil notar o quanto se desejavam, o quanto queriam possuir um ao outro o quanto antes. Porém, nada além de agarração e fricção havia acontecido.
... — dissera ofegante em certo ponto. A jaqueta de couro já tinha sido jogada longe e a camiseta retirada, expondo os músculos bem definidos dos braços, tórax e abdome do rapaz. — Podemos esperar?
Debaixo dele, ela ergueu os olhos e o encarou entre longos cílios. Estava um pouco confusa, mas foi compreensiva e logo acatou o pedido. Ofegava também quando sentou na cama ao lado dele, com batom borrado nos lábios e o rosto brilhando levemente de suor. No fim, entendeu que com tendo estado em um relacionamento por nove anos sem, obviamente, ter relações com qualquer outra pessoa além da ex-namorada, ele sentia que havia perdido o jeito. Nas próprias palavras dele, sentia-se virgem novamente. Era incrível o quanto ele já confiava em para admitir algo do tipo.
A melhor parte era que aquilo não mudava nada entre os dois, e os beijos e chamegos continuaram ao longo do mês. Logo, e , mesmo sem vir a público com o relacionamento, eram o novo casal mais quente de Hollywood. Afinal, agora era realmente verdade e a mídia havia captado algo de diferente além dos típicos passeios de antes – ele saindo da casa dela e vice-versa, por exemplo.
Ainda no início de janeiro, mais precisamente no dia do aniversário de vinte e sete anos de , ele resolvera comemorar em conjunto com , unindo os amigos de ambos em nada menos que um clube de patinação recreativa chamado Queens. Como se tudo já não fosse perfeito o suficiente, o evento naquela noite era retro, contando com os melhores hits dos anos 60 até 80 – o que com certeza incluía a banda preferida de – e uma gigante bola espelhada no teto. Tudo planejado por em uma surpresa para a garota, que quase havia ido às lágrimas devido a tanta consideração.
O estabelecimento, que também contava com um bar ao lado da pista de gelo, além de boliche e fliperama para outros eventos, estava parcialmente cheio, porém apenas com pessoas próximas e confiáveis dos dois lados. Andy estava lá, assim como Jules, que mais uma vez viera do outro lado do oceano para celebrar a melhor amiga, e, é claro, Joe, Gwilym, Rami, Lucy e Allen.
— Ora, o que temos aqui? — provocou amigavelmente ao ver Rami e Lucy chegando de mãos dadas. O casal apenas riu timidamente, logo parabenizando os amigos e recebendo os devidos parabéns em retorno pelo início oficial do namoro.
— Acham que são os únicos que podem? — Allen saiu em defesa de Rami e Lucy, mas com um sorriso enorme no rosto que evidenciava a brincadeira. Ele e a patinadora, finalmente tendo a chance de se conhecerem, tornaram-se bons amigos também.
Juliette e Gwilym encontraram-se novamente após muita conversa à distância, e pareceram muito confortáveis um com o outro. No geral, o grupo agora de oito mantinha-se ocupado entre giros desleixados sobre a pista e álcool – muito provavelmente o maior culpado pelos tombos e quase tombos.
Ao fim da festa, percebeu que a surpresa de não acabava com a escolha do local para a comemoração. Já com a lista de convidados presentes reduzida, ninguém menos que Roger Taylor, Brian May e John Deacon chegaram. Uma então suficiente embriagada foi às lágrimas e teve possivelmente o melhor momento de sua vida até então enquanto conversava animadamente sobre tudo com os membros restantes do Queen. Os outros apenas observavam de longe com sorrisos igualmente bobos pela felicidade de , e nunca pareceu tão apaixonado.
Nos dias seguintes, as fotos de tal evento, naturalmente, causaram o maior fervor ao serem divulgadas nas redes sociais pessoais de alguns presentes. Era algo marcante: a patinadora artística que só performava ao som da banda Queen finalmente conhecia suas maiores inspirações. Faltava um, é claro, mas ela pôde sentir que Freddie estava lá de certa forma.
Naquela noite, permitiu-se esquecer completamente do campeonato americano que viria a disputar em apenas cinco dias. Bom, era merecido; ninguém dava mais duro do que , e ela estava em sua melhor forma. Um descanso era merecido, e aquele em particular lhe daria mais energia e determinação do que qualquer outro.
Conforme o mês progredia, mesmo ficando cada vez mais próximos, e não discutiam sobre o que exatamente estava acontecendo entre os dois. Era emocionante. Era intenso. Era... rápido. E isso era tudo o que sabiam. Era sério? Parecia. não ficava com outras pessoas, e o mesmo fazia-se valer para . Mas eles conversavam sobre isso? Não.
— Isso tornaria tudo real demais — explicou a Jules e Lucy quando perguntada sobre o assunto, duas semanas após a icônica festa de aniversário. — Faz sentido?
— Não. — Essa foi a resposta em uníssono.
Ela suspirou.
— Vejam bem, eu tenho um objetivo fixo e claro, que não pode ser desviado por outros fatores. Conversar sobre um possível relacionamento tornaria isso um fator quase palpável!
— Uma distração — Juliette murmurou e assentiu.
Lucy aproveitou a deixa. Sua voz era doce como sempre, e os olhos, gentis.
, eu não acho que você tenha que escolher entre um e outro. — Para embasar seu ponto de vista, ela apontou para a mais recente medalha de ouro da patinadora pendurada na parede do quarto, de apenas dias atrás, e sorriu. — Você me parece bem focada. entende sua vida de atleta, e ele também tem a carreira em foco. Com certeza podem conciliar isso.
— Certo, mas... Os fãs já ficam enlouquecidos com cada novidade e foto nossa, alguns até nos cercam quando saímos juntos! É sufocante. Conseguem imaginar isso em dobro quando contarmos a verdade?
— Quanto a isso... — Lucy deu de ombros. — Namorando ou não, nenhum dos dois se verá livre do assédio dos fãs tão cedo.
— Mas, , também está tudo bem se vocês quiserem continuar só transando sem compromisso — assegurou Jules.
— Nós... — Ela pigarreou. — Não estamos transando.
— Por que não?!
Do outro lado de Londres, Gwilym questionava a mesma coisa a .
— Porque eu não me sinto pronto — respondeu o loiro.
— Nove anos com a mesma mulher podem fazer isso. — Joe foi compreensível. — Não há pressa, .
— Então vocês só estão se pegando exclusivamente, saindo e dormindo juntos, sem sexo? — perguntou Allen.
assentiu.
— Parece um relacionamento para mim. — Aquilo gerou algumas risadas. — Não pela falta de sexo, seus idiotas. Isso não é vital. Mas esses dois estão fazendo tudo o que um casal de namorados faz e se recusam a admitir. E aquela surpresa de aniversário? , você está apaixonado.
— Mas com medo de seguir em frente — Rami acrescentou.
— Como eu disse, nove anos... — Joe repetiu.
— Vocês têm razão. — interrompeu. — Isso me dá calafrios. Não de um jeito ruim, mas... Tentei por meses e agora a possibilidade de tornar isso oficial, real com uma simples conversa me assusta. É ridículo, não é?
Gwilym ofereceu um sorriso suave.
— Se fosse simples você não estaria tendo esse dilema agora.
e ainda pensavam naquilo quando, mais tarde, encontravam-se sozinhos no quarto dele, deitados nos braços um do outro. apoiava o queixo na cabeça da jovem, inebriado pelo aroma do xampu de coco que exalava daqueles cabelos longos, enquanto ela fazia-se perfeitamente confortável sobre o peitoral firme do rapaz, a respiração tranquila. Um beijo de na testa de então levou todas as dúvidas para longe, pelo menos por um momento.
Bom, estava ali a única coisa que nenhum dos dois sabia ou ao menos suspeitava: estavam enganando apenas a si mesmos. Estavam tão hesitantes e com tanto medo que não percebiam o quão envolvidos e apaixonados realmente estavam; como se uma conversa – ou falta de uma – mudaria alguma coisa além de um estúpido status de relacionamento.


Continua...



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