Última atualização: 15/04/2019
Contador:

Prólogo

estava séria, o relógio em seu pulso marcava exatamente seis e meia da manhã e ela não conseguia de maneira alguma acordar o filho Benjamin para ir à escola. Isso, consequentemente, lhe dava um atraso para o trabalho. Estava arrumada, todo seu material da aula de espanhol que daria naquele dia para a sua turma do ensino médio na escola em que trabalhava, estava em cima da mesa. Dali a pouco menos de vinte minutos Eitor apareceria com a carona rotineira e Ben nem trocado estava. A criança não havia movido um músculo.
Ainda sentada ao lado do pequeno na cama de solteiro que tinha vários adesivos relacionados a esportes, em sua maioria futebol, ela tentou mais uma vez chacoalhar o filho para que ele levantasse e o mesmo se esquivou novamente.
- Ben, por favor, filho, nós estamos atrasados. – acariciou o ombro do menino, se sentiu culpada por ter permitido que na noite anterior ele tivesse ido dormir tarde, por ficar jogando vídeo game; sendo que ela também havia acordado um pouco atrasada.
Ainda faltavam quinze minutos para que Eitor aparecesse e ela já sentia esgotada, odiava ter que ser rigorosa com o filho para que ele a obedecesse. Deu mais um tempinho e pegou na gaveta dele o uniforme da escola, a calça de moletom, a camiseta de manga comprida e a meia branca. Optou por trocar a roupa do menino com ele adormecido e não foi fácil, com certeza. Ele já estava com seus oito anos, era pesado.
- Benjamin, eu não vou chamar mais uma vez, está na hora! – chamou-o firme quando terminou de colocar as meias em seus pés.
Ben abriu os olhinhos claros que herdada – para o desgosto da mãe – de seu pai irresponsável. Levou as mãozinhas até o rosto e coçou as duas pálpebras, bocejando em seguida. o olhou com tamanho amor, assim como em todas as manhãs, mas em seguida voltou a sua postura rígida. Puxou os dois braços do menino e o fez sentar, recebendo um resmungo em reclamação.
- Eu vou pegar seu material, enquanto isso você coloca o tênis e vai escovar os dentes.
O menino concordou ainda sonolento e se virou para fazer o que anunciara. Em questão de minutos conseguiu juntar tudo o que o filho precisaria naquele dia para suas aulas, acrescentando o seu par de chuteiras e luvas para jogar futebol. Toda segunda ele tinha treino na escola, jogava como goleiro titular do time do ensino fundamental. Depois foi separar o café da manhã dele.
Quando Ben terminou de fazer o que sua mãe havia lhe pedido, seguiu para a sala verificando se ela não havia esquecido de colocar em suas coisas seu uniforme para jogo, depois encontrou com a mais velha na cozinha. Assim que terminou de comer seu pão a campainha tocou, não teve tempo para pensar, sua mãe já lhe chamava na porta. Pegou o casaco de moletom do uniforme em cima da mesa e o vestiu, correu para a porta e a fechou. lhe deu a mochila e ele seguiu para o portão enquanto ela fazia seu melhor para trancar a porta, segurando seu material de aula, sua bolsa e a mochila do treino de Ben.
Eitor abriu a porta de trás do passageiro para Ben entrar, depois de lhe dar um abraço apertado, em seguida ajudou com todas as coisas que ela segurava, então ela pôde fechar o portão com o cadeado.
- Desculpa te fazer esperar, ele foi dormir tarde ontem... – lhe deu um beijo na bochecha e fez um bico se desculpando.
- Sem problemas. – Eitor respondeu lhe ajudando a entrar no carro e arrumar as coisas em seu colo.
O rapaz deu a volta e entrou do seu lado de motorista. Ligou o carro depois de passar o cinto de segurança e diminuiu o volume do som para poder se comunicar com Benjamin enquanto dirigia.
- Ei, campeão, tá ansioso pra hoje? – olhou pelo espelho retrovisor e viu o garoto lhe dar um sorriso bem aberto.
levou um tempo para raciocinar, até que se virou para Eitor com os olhos arregalados e levou a mão direita à testa. Ela havia se esquecido completamente do teste que o garoto faria para entrar na escolinha do Real Madrid naquela tarde depois da aula e seria na sua própria escola. Ficara até tão tarde planejando as aulas daquela manhã de segunda, que além de não ter prestado atenção no filho que ficara até tão tarde no vídeo game, esqueceu do dia importante para ele. Porém sua preocupação era em como seria, quem acompanharia ele naquela tarde caso ele fosse chamado por algum dos olheiros do time? Ela não podia sair da escola, teria uma reunião com os pais dos alunos da sua turma de inglês do turno da tarde de ensino fundamental. Eitor, como a conhecia muito bem, se prontificou ao parecer que leu seus pensamentos.
- Eu vou lá, se alguém se interessar nele eu estarei lá pra conversar... – sussurrou para a amiga que concordou.
- Obrigada. – ela murmurou um agradecimento e sorriu.
O caminho se seguiu quieto, até a primeira parada: a escola de Ben. desceu do carro e pegou a mochila de treino do filho, o mesmo estava apenas com a sua de material escolar. O acompanhou até a entrada da escola e quando ele estava para entrar com os amiguinhos, reparou no olhar do mesmo para um garoto logo a frente que se despedia do pai. leu o seu olhar e o sorriso que logo murchara, então se ajoelhou para ficar na sua altura e lhe abraçou.
- Não esqueça que a mamãe te ama. – se afastou e passou as mãos no rosto pequeno dele, uma de cada lado. O menino concordou sorrindo minimamente. – Boa sorte hoje no jogo, eu tenho certeza que você vai conseguir. – ela sorriu e beijou sua testa, se levantando em seguida.
Quando Benjamin estava quase entrando pelo portão, voltou correndo com dificuldade pela quantia de coisas que carregava e abraçou a mãe pela cintura. sorriu e ele se afastou.
- O toque da sorte, a gente não fez, mãe. – Ben disse se afastando.
estendeu a mão direita e cruzou com a esquerda, Ben fez o mesmo e entrelaçou as mãos; o toque da sorte era basicamente aperto das duas mãos e no final sempre dava beijo nas duas mãozinhas do filho.
- Agora estou pronto.
Dizendo isso ele correu para a entrada da escola e sumiu no meio das crianças. soltou a respiração pesada e voltou para o carro, aquele seria um longo dia para ela que não se aguentaria em ansiedade para saber da notícia e se sentiria a mãe mais desligada do mundo pelo resto da semana.


Capítulo Um

“Filha, a gente não tem dinheiro para o presente, mas escolhe uma estrela no céu, e fica com ela pra toda a vida.” — Jeannette Walls, O Castelo de Vidro.

A rua estava congestionada de pessoas atravessando para a entrada do estádio Santiago Bernabéu. segurava firme a mão de Ben para não perde-lo de vista, enquanto esperava Eitor estacionar o carro e ir se encontrar com os dois mais a irmã, , naquele ponto que ficava perto da entrada onde eles iriam. Era um jogo importante da La Liga para o time da casa, Real Madrid, eles precisavam de um saldo de gols maior que dois para alcançarem o terceiro lugar na somatória de pontos, assim se mantendo vivos na competição e na briga pela liderança, podendo ganhar em primeiro lugar.
já estava impaciente quando o irmão apareceu no meio daquela multidão, havia perdido a conta de quantas vezes balançara a mochila de Benjamin, por sua impaciência. Ele então pegou Ben e o colocou em seus ombros, deixando mais calma quanto ao menino sumir no meio daquele monte de gente com os mais diversos tipos de intenções naquele estádio. O caminho para eles foi tranquilo, pois a organização do lugar mesmo estando quase cem por cento cheio em sua capacidade, ainda era impecável.
Os adultos ficaram maravilhados quando Benjamin começou a gritar de felicidade porque veriam um jogo de seu time favorito pela primeira vez bem de perto, não só estavam perto do campo, como também estavam sentados no lado que fazia lateral com o corredor de saída dos jogadores para o campo, ou seja, atrás do banco de reservas. Ben só não sabia qual time ocuparia o banco à sua frente, mas torcia para que os jogadores do Sevilla ocupassem o outro espaço.
Faltavam apenas quinze minutos para que o jogo começasse; Benjamin estava sentado na ponta, apoiando-se na grade que servia para o segurar, para que não caísse no corredor de saída, sua mãe estava ao seu lado e entre ela e , tinha Eitor. Os três conversavam sobre coisas de trabalho enquanto o menino focava em ficar debruçado naquela grade, preparado para não perder nenhum movimento de quem passasse por ali até os jogadores estarem dentro do campo em suas devidas formações. Benjamin também permitia-se calcular se, caso escorregasse por baixo da grade, ficaria com alguma lesão. Havia sido aceito na escolinha do Real Madrid, não podia quebrar qualquer parte do seu corpo, seu treino começaria na semana seguinte, numa segunda-feira.
Olhou para sua mãe e a ouviu desabafar com sobre como estava tendo problemas no trabalho ultimamente, coisa que nunca lhe acontecera durante os dez anos em que esteve naquela escola. Benjamin ignorou, era assunto de adulto, ela que resolvesse, para ele o que importava era dar um jeito de escorregar ali sem se ferir. Ponderou mais um pouco e tornou a olhar para os três adultos que não estavam dando a mínima para ele, o que pouco acontecia, sua mãe era muito preocupada e complexada, não o deixava com aquela liberdade normalmente. Arrumou sua mochila em cima do banco e se apoiou novamente na grade, desta vez decidido.
Então, tão rápido quanto a luz, ele pulou e conseguiu se manter em pé, sem nenhuma dor. A queda fora pequena, afinal. Espiou por cima do pequeno muro e viu que nenhum dos três se quer reparou em sua ausência. O garoto então olhou para os lados e viu que ninguém o observava, o que lhe caiu como uma luva, ele podia entrar pelo corredor sorrateiramente. E ele o fez. Arrumou sua camisa do time, com o número 1 estampado embaixo de seu nome, e começou a caminhar pelo corredor por enquanto vazio. Até então chegar em uma parte onde haviam muitas pessoas, pessoas até demais, em frente a porta do vestiário do time da casa. Deu um passo para trás e sentiu seu corpo se chocar em algo, ou melhor, alguém. Virou-se para trás e direcionou seu rosto para cima, vendo um de seus maiores ídolos: Zinedine Zidane, o técnico do time e, antes desse cargo, jogador francês que defendeu a camisa do clube.
- Opa, desculpa garoto... – o homem disse, desviando do menino e entrando no meio daquele monte de gente antes da porta.
Benjamin ficou boquiaberto e se escondeu atrás de uma lixeira alta quando viu que muitos seguranças estavam ali. Estaria encrencado se fosse descoberto, sabia disso; quando sua mãe lhe deixava ver alguns vídeos no youtube, ele via vídeos do time e em alguns deles quando algum intruso invadia qualquer área era retirado a força. Ficou encolhido e com medo, desta vez pensando que realmente estaria encrencado, mas também porque sua mãe ficaria furiosa.
Viu a porta do vestiário se abrir e as pessoas se afastarem, seus olhos brilharam ao ver o capitão do time, Sergio Ramos, saindo dali totalmente concentrado. Sem pensar um minuto ele disparou em direção ao homem, abraçando sua cintura com tamanha força, quase levando Ramos ao chão. O mais velho levou um tempo para processar aquela cena, até finalmente passar os dois braços em volta do menino, neste momento os responsáveis para evitar aquele tipo de invasão já pareciam abutres em cima de uma carniça, fechando o espaço em volta dos dois. Sergio Ramos os dispensou com ajuda de Toni Kroos, o jogador de meio-campo do time, o menino já estava ali, de nada adiantaria expulsá-lo agora e ele era apenas uma criança e não um marmanjo terrorista. Além de quê eles tinham alguns minutos ainda; poderiam usar para uma coisa boa, afinal.
Benjamin chorava como nunca havia chorado antes, nem quando havia quebrado o pé, um ano antes, chorou desta forma. Era um grande mix de felicidade, ansiedade – ele poderia esperar até o dia do treino, iria ter a chance de conhecer os jogadores –, nervosismo e, o maior de todos, amor não só de fã daqueles homens que carregava como ídolos, mas também pelo esporte.
- Ei... – Ramos o chamou, tentando lhe afastar delicadamente. – Olha pra mim, garotão. – tentou mais uma vez e se agachou para ficar na altura do menino, neste momento os outros nove jogadores que faltavam já estavam atrás dele e, ou, do lado, fechando uma roda em volta daquela cena. Haviam fotógrafos registrando aquele momento também. – Como é seu nome? – o zagueiro perguntou quando o menino se afastou, já controlando seu choro.
- Be-b-ben-ja... – ele gaguejou.
- Benjamin? – Toni se abaixou também, dizendo o nome que vira na camiseta do garoto, colocando uma mão em seu ombro e sorrindo todo carismático. O jogador era meio conhecido por ser totalmente reservado, porém com crianças ele sempre se soltava. – Esse é seu nome, campeão?
- Sim... – Benjamin sorriu confirmando. – Benjamin Romero Remy – completou animado. – Mas minha mãe me chama de Ben... – disse pensativo e estendeu a mão para Kroos, o mais velho o olhou confuso. – Minha mãe me ensinou que adultos quando conhecem alguém apertam as mãos. – deu de ombros e ouviu um uníssono de risadas masculinas enquanto apertava a mão de Ramos e em seguida de Toni.
- E onde está sua mãe, Ben? – Zidane perguntou, quando chegou perto. – Ela veio com você ao estádio?
- Erhmm – murmurou. – Ela deve estar furiosa porque eu fugi. – fez careta. – Eu sai da arquibancada e entrei aqui sem ninguém me ver. Segunda eu começo a treinar la no Ciudad, mas não consegui segurar minha ansiedade, eu precisava conhecer vocês antes disso... Em todos os jogos do Real eu estou aqui. – desembestou a falar, para a sua surpresa, estava se sentindo mais a vontade.
Zidane olhou para o menino e para os jogadores, ouvindo em seguida que deveriam seguir para a saída para o campo. Achou que o menino merecia mais um pouco de atenção. Fez sua melhor feição de sério e chamou seu auxiliar. Os jogadores já estavam indo para a formação de fila e ele estava maravilhado com aquilo.
- Vamos combinar o seguinte, você vai tomar conta dele, David, durante o jogo... – Ben o olhou confirmar e em seguida deu ao garoto uma jaqueta que lhe ficou enorme, pois o vento estava ficando mais forte com o anoitecer. – Lá no banco, com a gente. Mas você tem que prometer que vai ficar quietinho, ok? – Zidane pediu ao garoto que concordou com a cabeça freneticamente. – Sua mãe pode te ver lá e vai saber que você está bem, ai no final do jogo ela pode vir até você ou damos um jeito dela te encontrar.
- Tá! – Benjamin fez um toque de mão com Zidane e foi guiado por David, super empolgado.

xxx

- ...Mas mudando o assunto, porque eu realmente não suporto mais você falando de trabalho enquanto está de folga, como é que Ben não se cansa desse lugar?
sorriu para a melhor amiga e deu de ombros, lembrando-se de como foi a primeira vez do filho em um jogo no estádio de seu time favorito. Benjamin a fez prometer que aquele tipo de passeio nunca cairia no esquecimento e convenceu a mãe que não bastava nada além de momentos como aquele para que o fizesse feliz. Respirou fundo e virou-se sorrindo para o lado onde seu filho estava sentado, concentrado em não perder um movimento daquela saída para o campo.
O coração estava no lugar em que deveria estar, mas seus batimentos rápidos fizeram parecer que estava saltando para fora da garganta. Benjamin não estava ali, do seu lado, lugar em que estava poucos minutos atrás, antes de decidir dar toda sua atenção ao desabafo que fazia para sobre como as coisas estavam difíceis no trabalho. Em uma rápida olhada de desespero em volta constatou que o filho não estava em nenhum metro ali perto de si. Benjamin havia sumido bem debaixo de seu nariz. Do seu e de e Eitor (mesmo ela sendo a mãe e responsável pelo menino, não estava sozinha ali). Pegou uma luva que estava no banco que ele ocupava e chamou por sua amiga.
- . – a mesma não a respondeu enquanto ela olhava desesperadamente ao redor. – ... – chamou mais uma vez, mas talvez fosse sua voz que não estava saindo. – !
Seus olhos marejados encararam o da amiga que na hora entendeu o recado.
- Fiquem calmas! Nós vamos achar ele. – foi tudo o que Eitor conseguiu dizer às duas.
fez um aceno negativo com a cabeça, pegou sua bolsa e tirou o celular de dentro dela. Deu as costas para o campo no mesmo momento em que os jogadores estavam entrando, sendo primeiro os que ficariam no banco de reservas para depois os membros técnicos, vindo por último os titulares em uma fila única com a equipe de arbitragem. Ela pouco ligou, enquanto os torcedores dos outros setores do estádio faziam a maior festa. Eitor e a seguiram quando ela começou a caminhar em direção à saída que a levaria para a zona interna. Quando estavam longe da algazarra e com pouco barulho no corredor do interior do estádio, decidiu que seria uma boa opção se separarem.
- Vamos nos dividir. Eu procuro por aqui e vou até a sala de segurança, enquanto vocês procuram no resto.
- Tá, tenho aqui no meu celular aquela foto dele no primeiro dia de aula desse ano, acho que ta bem legível. – comentou. – Vou ver pelos corredores e etc. Qualquer novidade me liga. – dito isso ela saiu.
- Vou ver nos banheiros da ala sul, o caminho para a sala de segurança é por essa escada. – Eitor pronunciou, dando um beijo na testa da amiga e em seguida saiu pelo lado contrário do dela.
Se vendo sozinha por aquele motivo, se sentiu perdida e um sentimento de pânico a assolou. Seu filho, uma criança indefesa e sem malícia, inocente de toda a maldade do mundo, estava perdido por aquele imenso estádio. Por mais que Bem conhecesse o lugar por sempre o frequentar, ele é apenas uma criança, alguém sem escrúpulos podia fazer qualquer maldade com seu doce menino.
Antes de subir ou sequer pensar em alguma coisa, sentou em um banco que estava no pé da escada, sentindo o pânico lhe domar, chorando silenciosamente e sentindo os sintomas que aquela crise lhe dava – dor no peito, falta de ar, sensação do coração acelerado quando o mesmo continua batendo de vagar. Um segurança do local apareceu e a questionou se precisava de ajuda, em meio ao choro e a dificuldade de formular a frase ela o explicou o que estava acontecendo. Muito atencioso ele lhe trouxe uma água e lhe pediu que esperasse ali, pois iria chamar um guarda para ajudar na busca com outros homens. Também se apresentou como Saulo e pelo seu rádio comunicador passou adiante para seus colegas a descrição do garoto e que ele estava desaparecido. Assim que ela se sentiu um pouco melhor foi levada para a sala de segurança. O jogo estava chegando ao fim do primeiro tempo e o time da casa estava empatado ainda no zero a zero, todavia não se importava no momento.
jurou que não havia passado muito tempo, com um policial em sua frente lhe questionando sobre como ela havia deixado aquilo acontecer, nas entrelinhas das suas sentenças cuidadosas. Porém, quando olhou para a televisão em sua direção que transmitia o jogo na área interna, percebeu algo familiar na imagem que era mostrada do banco de reservas com a comissão técnica. Parou para prestar atenção e se levantou do assento, chegando mais perto, ouvindo o exato momento que os locutores brincavam com o fato de ter um garotinho no banco.
- Benjamin!
Os policiais se assustaram com o tom de voz firme que ela usou, a poucos minutos atrás estava soluçando de chorar e mal formava frases inteiras. Ela estava na frente da televisão e subitamente se virou para trás novamente, soando desesperada.
- É ele. – na sua voz tinha urgência. – É o meu filho.

xxx

O jogo havia acabado, Real Madrid tinha ganho e se Benjamin já estava feliz antes do resultado da partida por assistir de um lugar inusitado, com aquele fim ele já estava muito mais animado. Desceu para a área dos vestiários conversando com os jogadores, falando sobre o que achou da performance deles naquele em específico.
De alguma forma eles foram notificados que a mãe do garoto estava a caminho do vestiário, acompanhada de autoridades e que fora verificado a veracidade da maternidade. Os jogadores decidiram o levar para tirarem algumas fotos e coisas do tipo antes que ele fosse embora. Benjamin não parecia muito recluso com a ideia, estava todo animado e aproveitando cada segundo.
Quando entrou no corredor do vestiário ao lado de Toni Kroos e estava para cruzar a porta que levaria para dentro, ouviu a voz conhecida de sua mãe. Como se fosse em câmera lenta ele se virou, vendo-a parada na outra ponta, cercada por seguranças e fotógrafos. Viu a feição dela mudar de aliviada para séria. estava brava e ele sabia que sua mãe sabia ser bem rigorosa quando queria. Por mais que ela evitasse agir de forma agressiva em suas palavras quando ia o repreender por alguma coisa, ao o fazer era bem marcante. Benjamin podia ser mimado em até certo ponto, entretanto sua mãe mantinha a linha de educação ser o mais importante.
Kroos segurava na mão do garoto e olhava para outro lado quando sentiu um leve aperto sobre sua pele. Olhou para a direção do baixinho ao seu lado e em seguida, numa diferença de segundos, já pôde ouvir uma voz urgente e muito, mas muito, brava e severa.
- Benjamin! – se abaixou na altura do filho o tocando nos ombros. Analisou-o por inteiro antes de assumir a carranca e continuar. – Você sabe que está bem encrencado, não sabe mocinho? – olhou para cima, seguindo a mão que seu filho dava para alguém.
- Mãe, esse é o Toni. – Benjamin disse enquanto a mãe se levantava. O brilho nos olhos do menino quase a fizeram abaixar a guarda. Quase. - Toni, essa é a minha mãe. – ele disse com toda sua inocência.
Os dois adultos se olharam, a criança não soltou a mão do jogador. mantinha o olhar sério ainda, reprendendo-o. Benjamin com toda sua audácia os apresentou para cortar o clima da sua mãe brava. Queria simplesmente desviar o foco, porém, não havia como, sua mãe era mais esperta.
desviou o olhar tão rápido que Toni mal pode capturar aquele olhar severo. A mulher puxou a criança pelos ombros e o jogador pôde sentir sua mão descolar-se da de Benjamin. Neste mesmo instante, Zidane juntamente com alguns dos outros jogadores se aproximaram conversando alto.
- Vamos embora, Ben, em casa nós iremos conversar! – disse, ainda brava, puxando o filho.
- Ei, espera moça. – Ramos entrou no meio, vendo que Kroos estava mais abobado do que prestando atenção. – Nós temos algumas coisas para ele. – completou.
O zagueiro decidiu que deveria ter ficado na sua quando recebeu o olhar da mãe do menino. Ela estava soltando fogo pelas ventas, como diriam os mais velhos.
- Ele não está merecendo. – respondeu.
- E por que não? – desta vez Kroos interviu, colocando uma mão sobre o ombro de Benjamin; agora ele tinha o jogador de um lado e sua mãe do outro. Os dois finalmente se encarando; Toni concluiu ser uma má ideia bater de frente com a mulher. – Digo... por que não? – diminuiu a intensidade da pergunta.
- Porquê esse mocinho aprontou com a mãe e não se deve agradar crianças que aprontam. – ela respondeu serenamente.
- Desculpa, senhora, mas ele não pode sair daqui sem levar alguma coisa de presente. – Ramos gesticulou com as mãos, nesta altura, todos os jogadores estavam olhando a situação.
- O que? – franziu o cenho, sentindo-se desafiada completou: - Me desculpe senhor...?
- Sergio. Sergio Ramos.
- Pois desculpe-me senhor Ramos, mas eu estou educando meu filho e se digo que ele não irá receber nenhum mimo depois do que aprontou com a mãe, ele não irá receber. – finalizou assumindo sua carranca.
Zidane estava ali do lado, vendo até que hora ele poderia ficar na sua e não se intrometer. De fato a mãe da criança estava certa e, novamente, de fato ela era a mãe. Se ela estava dizendo que não, então deveria ser não. Mas, por mais que o pequeno menino houvesse aprontado aquilo de sumir daquele jeito, eles ainda queriam lhe dar alguma coisa para recordar aquele momento que passaram juntos. Pois então, lembrando-se que o menino iniciaria na próxima segunda na escolinha do Real Madrid, resolveu intervir com algo que acataria com as duas partes – a da mãe que deveria ser a maior e a boa vontade dos jogadores de dar algo ao garoto.
- Com licença. – disse se aproximando. – Senhora...?
- Romero. Romero. – respondeu cruzando os braços.
- Muito prazer, Zinedine Zidane. Sou o técnico do time. – ofereceu a mão e educadamente a mulher apertou, enquanto o ouvia se apresentar. – Entendo que a senhora esteja educando seu filho assim, afinal ele é seu. Mas queríamos muito oferecer algum presente a ele. Benjamin foi um garoto muito educado e bonzinho, gostamos dele. – os dois dirigiram o olhar ao menino que agora tinha Kroos com as duas mãos em seus ombros e olhando para baixo. – Nem que seja uma simples coisa. Assim ele não recebe mimos e ambas as partes saem satisfeitas.
respirou fundo e molhou os lábios, finalmente encarando o alemão que mantinha suas mãos nos ombros de seu filho, como se estivesse ali para o protege-lo em seguida olhou para Benjamin e depois para Ramos, por fim parando em Zidane. Talvez devesse deixar para ser mais dura com a criança quando chegasse em casa. Pudera, ela estava nervosa, o menino havia sumido daquela maneira e por mais que fosse apenas uma criança, sabia o que estava fazendo. Enquanto ele se divertia na companhia dos ídolos do futebol, ela se descabelava em preocupação, sentindo-se a pior mãe do mundo, a mais irresponsável talvez.
Quando foi abrir a boca finalmente, segundos após sua análise interna, Kroos agiu. Ele tirou a camisa que usara para jogar e a chuteira, chamando alguém que pudesse pegar uma bolsa que fosse pequena para Benjamin levar as coisas. Toni normalmente não se expunha muito, o que fez Ramos se assustar quando o viu fazendo o ato de tirar a camisa, entretanto, o homem estava com uma regata branca por baixo, própria para esportes.
- Pronto. Uma camisa e minha chuteira especial. Edição exclusiva. – ele disse entregando o pequeno saco da adidas para o garoto.
- Eu vou te esperar do lado de fora, Benjamin. – disse e antes de pudesse sair depois de dizer tchau coletivo, Ramos disse:
- Nos desculpe qualquer coisa, só queríamos agradecer o grande torcedor que ele é.
- Tudo bem. – ela sorriu caminhando para a saída.
- Mãe, espera. – Ben a chamou e ela virou-se. – Tchau gente, obrigado mesmo.
, mesmo brava, viu com brilho nos olhos o filho se despedir de cada um dos jogadores com um toque de mão e um abraço. Cada um deles o tratou com carinho e ela sentiu seu coração assustado se confortar com aquilo. Não demorou muito e o menino já estava caminhando ao seu lado para fora daquela área. Quando estava um pouco mais afastada ela parou e ficou de frente para ele, segurando em seus ombros. Do mesmo lugar onde estava, Kroos ficou observando, porém não podia ouvir.
- Nunca mais faça isso. Não importa o que for, não me deixe preocupada desse jeito. – o abraçou chorando. – Eu ainda estou brava e você está de castigo. – completou se afastando e caminhando abraçada de lado com o filho.


Capítulo Dois

“Últimamente eu tenho pensado: eu quero que você seja mais feliz.” – Marshmello, Happier.

precisava tirar a segunda-feira de folga, mas era meio impossível, dado ao calendário de provas da escola que leciona. Então havia pedido à sua chefe que pelo menos a deixasse livre das aulas da manhã, deixaria toda a atividade pronta para quem quer que fosse a substituir, no fim das contas não iria fazer muita falta. Aquela semana era reservada aos alunos uma cartela de exercícios para que os ajudassem a estudar. Caso algum de seus alunos da manhã precisasse tirar dúvidas, ela se colocou a disposição durante a semana, para que a procurassem pela escola. Sendo assim conseguiu sua manhã livre.
Usou o tempo para fazer coisas que precisava. Passou no trabalho e deixou a pasta pronta para a diretora, após deixar Benjamin em sua escola, junto com Eitor. Logo após foi levada pelo amigo até a oficina onde havia deixado seu carro cerca de um mês antes, para manutenção. Tinha um carro fabricado nos anos 90 que passava mais tempo na oficina do que andando nas ruas. Era um Volkswagen Apollo, pagara bem baratinho nele e por ser econômico no combustível, lhe pareceu a melhor opção quando precisou comprar – cerca de cinco anos antes, quando Ben já estava maiorzinho e ela precisava levar ele para cima e para baixo, comparar um carro era a melhor opção.
Não podia dizer que estava arrependida porque não estava. Gastar o tanto que gastava com aquele carro em mecânica era apenas a consequência. Um carro antigo, da idade dele, não era de se esperar que fosse difícil de quebrar.
- Você não me olha com essa cara. – desce do carro de Eitor e bate a porta, já sabendo o sermão que estava por vir.
- Você me pediu aquela vez que a ajudasse com a compra do carro. Eu ajudei. – ele continuou, ignorando-a. – Te disse que valia a pena se você comprasse um carro mais novo e etc. – deu a volta no carro após tranca-lo e parou do lado da amiga na calçada. – Agora ta ai, o resultado de você não ouvir quando a gente tenta te ajudar. – apontou para a oficina na frente. – Gasta mais dinheiro com o carro que nem usa direito, do que com coisas que realmente podem lhe trazer mais benefícios...
- Mas esse carro me trás benefícios... – se vira pro amigo com as mãos na cintura.
- A é? E qual? – Eitor ri com a falta de resposta dela. – Linda, não adianta. Essa carroça ai foi uma cilada.
resolveu não falar mais nada e bufou, soltando os ombros, demonstrando a derrota naquela discussão enquanto caminhava para dentro da oficina.
Conhecia todos os mecânicos e o gerente, já tendo um pouco de intimidade com eles, devido à frequência que usava de seus serviços para o carro. Quando entrou no estabelecimento foi recebida com educação e respeito por parte de todos os homens que estavam ali. Por mais que fosse a primeira vez a levar Eitor consigo, Rodrigo, o mecânico que sempre cuidava de seu carro sabia que ele não era um namorado ou algo do tipo de sua cliente. Enquanto caminhava em direção à ela, que já estava falando com Carlos no balcão, limpando as mãos em um trapo de pano.
já sabia do interesse do mecânico em si. Rodrigo fora seu vizinho por quase seis meses e foi por indicação do mesmo e de todas as vezes que o mesmo a socorria em sua garagem, que levava o carro naquela oficina. Saíram uma vez, para um jantar que por fim acabou não sendo romântico, pois Benjamin teve uma crise de ansiedade, tendo que ser levado à emergência por . não chegou a dar outra chance para o mecânico e não fora por decisão própria, o afastamento simplesmente aconteceu, ela não tinha muito tempo para flertes. O pouco que lhe sobrava era dado ao seu filho de oito anos. Mal sabia quando foi a última vez que havia ignorado a mensagem de Rodrigo, de tão natural que fora.
- Eu venderia este carro... – o homem disse ao chegar perto, atrás do balcão, do lado de Carlos. Jogou o pano sem olhar para onde e sorriu minimamente para . – A um desmanche, claro.
Eitor riu e olhou para a amiga com a mão na barriga por cima do terno.
- Você deve ser Eitor... fala bastante de você. – Rodrigo diz olhando para o rapaz, estendendo a mão. O outro para de rir e o encara sério e confuso, apertando sua mão.
- Rodrigo era meu vizinho... O que sempre me ajudava com o carro. – disse, quebrando o clima estranho, situando Eitor. – Ele me indicou trazer o carro aqui.
O amigo não pôde deixar de achar graça na situação. Enquanto Carlos olhava confuso aquela situação, ele já sabia bem como descrever. Rodrigo sabia quem ele era, já que mencionara sempre falar sobre ele. Com certeza sabia que era homossexual, só queria garantir pelo toque de mão, por isso aquele cumprimento. Por mais que e ele não se falasse mais, Eitor sabia que o rapaz ainda nutria algum interesse em sua amiga. E ele estava achando graça nisso.
Sua irmã o acompanhava na conclusão de que estava na hora de assumir sua posição de mulher, além da de mãe – a qual levava muito a sério. Se lembrava da mesma contar-lhes sobre as conversas que tinha com o mecânico, em sse ver ele podia ser uma boa opção. Não podia esquecer o quão compreensivo ele foi quando, no encontro dos dois, Benjamin teve uma crise de ansiedade e precisou que sua mãe voltasse mais cedo para casa.
- Sempre digo isso a ela. – Eitor responde à Rodrigo.
- Mas não com essas palavras. – sorri falsamente para o amigo. – Ele consegue ser mais indelicado.
- Bom, não podemos fazer nada se você não se livra desse projeto de Frankenstein. bate de leve no ombro de Eitor e tira o cartão da bolsa em seguida, dando para Carlos.
- Passa logo, antes que eu seja obrigada a usar esse cartão para degolar esses dois. – disse humorada.
- Vou pegar a maquininha lá dentro. – ele pega o cartão e vai para onde menciona que iria, pelo mesmo lugar que Rodrigo veio.
- Eu vou pro carro, se precisar de mim estarei la... – Eitor estende a mão para Rodrigo novamente. – Foi um prazer dividir a mesma opinião, até mais.
abre e fecha a boca olhando para o amigo até ele se afastar por completo, ainda indignada.
- Você não precisa fingir que não está constrangida. – Rodrigo se apoia no balcão.
- Por que eu estaria? – se esforça o máximo para não gaguejar e o olha nos olhos. Seus olhos castanhos eram irresistíveis, o jeito descolado e aquele macacão meio aberto, deixando um pouco do peitoral malhado de fora, a deixava sem fôlego, não podia negar. Fazer o que? É mulher e tem suas necessidades, mesmo que muitas vezes se deixe de lado, de forma inconsciente, pelo filho. - Não vou ficar enrolando, ... – Rodrigo se endireita e, antes que Carlos volte, diz de uma vez: - Sai para um jantar comigo de novo... Benjamin pode ir junto dessa vez, assim ele não fica preocupado, se diverte e não precisamos terminar num hospital... sem críticas, pelo contrário, só estou pensando no bem de nós três. Entendo que seu filho tenha as necessidades dele...
Antes de possa responder, Carlos volta e Rodrigo se despede, mesmo que ela não tenha o respondido, deixando a chave do carro em cima do balcão.
- Desculpa a demora, não tava achando essa coisinha... – Carlos sorriu balançando a maquininha no ar levemente.
Demorou um pouco para ela raciocinar novamente. Ficou perdida em seus pensamentos. Todos em sua volta sempre lhe jogavam nesse questionamento, a mãe solteira que se dava demais para o filho e esquecia de si. Chegava a ser meio cansativo de ouvir, por mais que inconscientemente ela saiba que e Eitor, principalmente os dois com quem mais convivia, estavam certos.
- Tudo bem Carlos, quanto ficou? – sorriu fraco se concentrando na situação seguinte.

xxx

Ser mãe solteira não é uma tarefa fácil, pelo contrário, é algo que exige muito. Ser mãe já é de tamanha responsabilidade, logo ser mãe e solteira, sem o dito pai da criança para compartilhar de tal responsabilidade se torna muito mais difícil. engravidou de Ben quando estava no último ano da faculdade, namorava sério com Guzmann Remy, um francês que conhecera quando iniciou os estudos. Os dois estudavam em períodos diferentes, entretanto davam um jeito de manter-se em contato. Até que engravidou, fora a partir deste momento que tudo ficou diferente.
Teve o auxilio de Guzmann, o pai e até então seu namorado, pelo menos no início. Os dois passaram a morar juntos em um pequeno apartamento próximo à faculdade, era a única a trabalhar, pois Guzmann cursava medicina, então o curso exigia muito dele. Ao chegar no ano de estágio e residência, Guzmann e alternavam os horarios para ficarem com o filho. No início foi bem complicado, até que Benjamin fez dois anos de idade e seu pai sumiu, o que complicou mais.
Pra falar a verdade, sabia do paradeiro de Guzmann, o mesmo havia voltado para o seu país e ao menos se despediu dos dois. Ela se lembra com extrema revolta do dia que saiu para passear com o filho deixando o namorado em casa para estudar, num domingo ensolarado, e ao retornar não o encontrar. O armário estava vazio e não havia nenhum rastro de Guzmann.
Levou certo tempo para se acostumar com a rotina cansativa de ser mãe em tempo integral e sozinha. Se não fosse por Eitor e , talvez tivesse passado muito mais necessidades do que se quer um dia chegou a imaginar. Com a ajuda dos amigos conseguiu trabalhar muito mais que o planejado e comprou a casa que atualmente reside. Não era luxuosa afinal os dois não precisavam de nada além do conforto.
O fato de ter sido deixada não a provocava tanto, o que lhe destruía por dentro e lhe causava nojo e raiva de Guzmann era tudo o que seu filho passara pela perda do pai. A forma que ele foi atingido no meio de tudo. Benjamin já tinha dois anos, entendia que tinha um pai e uma mãe, todos os dias, o dia todo. Mas de repente só havia uma mãe, sem o pai para lhe ensinar a jogar bola e afins. A criança sofreu, sentiu tudo em cima de seus ombros conforme os anos foram passando. O abandono lhe trouxe uma ansiedade que não havia fim, noites mal dormidas, atividades incompletas, uma sofrendo por ver o filho sofrer.
Demorou um certo tempo até Benjamin descobrir que o futebol lhe ajudava a curar suas crises e suas preocupações, fez com que pudesse respirar mais aliviada.
Alívio, ela se sentia a aliviada em ver o filho feliz. Também ficava feliz, assim como estava durante o longo trajeto de sua casa até a famosa Ciudad Real Madrid, o centro de treinamento do clube, em Valdebebas, fora de Madrid.
- Se você vai treinar aqui todos os dias, vou precisar ver outro meio de transporte, filho. – diz, ao mesmo tempo que lê a placa que a guia para a entrada correta, diminuindo a velocidade do veículo.
- Você não está mais tão brava... isso significa que saí do castigo? – Benjamin ousou perguntar, evitando falar muito alto e usando toda sua educação, enquanto olhava pela janela o caminho até a entrada do CT, se sua mãe pudesse ver seus olhos veria que eles brilhavam como se estivessem emanando luz para fora.
- Não. Ainda está de castigo. – ela o responde simples.
parou com seu carro atrás de um na entrada pelo estacionamento do centro de treinamento, pela fila de visitante, como fora instruída para fazer. No banco de trás, Benjamin tirava o cinto e se colocava de joelhos, olhando estupefato para toda aquela imagem em sua frente. Não importou o quanto sua mãe lhe pediu para voltar a sentar-se e colocar o cinto novamente, ele não conseguia conter sua ansiedade misturada com felicidade. Se animou mais ainda ao ver os diversos carros que chegavam pela outra fila de entrada, apostaria que dentro de todos aqueles veículos com os vidros fechados, estavam os jogadores – cada um em seu carro.
Quando chegou sua vez na fila, apresentou a carta para entrada e em troca recebeu dois cartões, um com seu nome e outro com o de Benjamin. Com ele os dois teriam acesso ao Ciudad sem precisar entrar pela fila de visitante, podendo utilizar as outras que eram mais rápidas.
A mulher agradeceu ao rapaz que a liberou e seguiu com o veículo para estacionar. Deu alguns voltas até que encontrou uma vaga fácil e rápida próximo à entrada principal, ao lado de um Audi preto. Desligou o motor e desceu do carro e antes de fechar a porta falou para Ben sair pelo mesmo lado que ela – ele estava atrás do banco do passageiro –, como havia parado na primeira vaga próxima a entrada, não havia nenhum outro carro ao seu lado, somente no lado da saída do passageiro.
Abriu a porta para o filho, pois as portas de trás abriam somente por fora, uma vez que havia travado para que não fosse feito por dentro, por segurança mesmo. O deixou sair e foi até o porta-malas pegar suas coisas. Era uma bolsa de lado da adidas com o uniforme que usaria e uma troca de roupa para ir embora mais tarde. Tudo comprado por , exceto pela bolsa que havia sido um presente do clube para Benjamin como boas-vindas.
- Deixa, eu levo, mãe. – o menino pediu ao vir até a mãe na parte de trás do carro.
- É o mínimo que você deve fazer, criança... – ela disse com humor o entregando a bolsa.
Os dois caminham para a entrada, fazendo o mesmo caminho que as outras crianças que chegam junto. Ao que parecia, era o primeiro dia de todos. Muitas mães e pais que acompanhavam seus filhos se viam perdidos ali, assim como , algumas crianças se conheciam por fazerem parte da mesma escola ou escolinha de futebol, antes de passarem para a seleção do clube. Benjamin fora o único do seu colégio a conseguir passar, sendo um motivo de orgulho – além de ser bolsista em um dos melhores ensinos de Madrid, passou no primeiro teste e com destaque para entrar nas categorias de base de um dos maiores times do mundo.
Se não fosse por dois rapazes – que julgou serem funcionários aquele enorme centro – ela estava perdida, assim como os outros. Mostrou ao mais simpático deles o papel que recebera como comprovante e fora guiada para qual corredor deveria ir. Logo, estava dentro de um auditório recebendo do presidente do clube – junto com os outros pais – as boas vindas. Enquanto isso as crianças iam para o vestiário e logo em seguida rumariam para o campo de treinamento para, sabe-se la, conhecerem uns aos outros ou qualquer outra atividade de primeiro dia que teriam.
Fora liberado para os pais quinze minutos, então assim que Florentino, o presidente, e sua comissão saíram do auditório, uma porta se abriu e foram guiados para fora. A visão era linda, o pouco que seus olhos capturaram pôde sentir um pouco do que o filho sentia. Por mais que ainda estivesse brava com o que o menino aprontara no Santiago Bernabéu, não podia deixar de se emocionar ao ver seu único e amado filho entrar naquele campo junto com as outras crianças, vestido com o uniforme que ela tivera de comprar. Era um momento único, o ver sorrindo e conversando alegremente com os colegas novos.
Quando o técnico os ordenou que fizessem um circulo, um dos rapazes que estavam na porta na hora que entrou, informou que o tempo dos pais havia acabado. Pouco a pouco o ambiente se esvaziou e esperou para que pudesse sair tranquilamente. Lançou um ultimo tchau à Benjamin quando seus olhares se cruzaram e caminhou pelo mesmo caminho que entrou.
Durante seu percurso até o carro ouviu seu celular tocar sem parar, quando entrou no veículo o tirou do bolso e viu as milhares de ligações perdidas do trabalho, além de checar as horas. Nunca em todos os seus anos trabalhando no mesmo lugar tivera um momento desligado e, diga-se, irresponsável. O trajeto até Valdebebas levou mais tempo do que ela pensou que levaria, pois chegou a pegar trechos de engarrafamento, ou seja, chegaria para a segunda aula da tarde.
Depois de se explicar para sua chefe e pedir milhões de desculpas, guardou o celular e colocou a chave no contato. Tentou ligar o carro, mas ele não passava da injeção de gasolina.
- Droga! – resmungou batendo no voante.
Desceu do carro e abriu o capô, olhou diversas vezes e não conseguiu identificar nenhuma anormalia. Chegou mais perto do motor, com as mãos na cintura – uma ação típica de quando ficava concentrada e nervosa. Se concentrou, mas não identificou nada.
- Precisa de uma ajudinha?
Ouviu uma voz masculina no meio do silêncio e se assustou, ao levantar a cabeça bateu contra a tampa do capô um pouco acima.
- Ai! – reclamou levando a mão a onde bateu.
- Desculpa! Eu não intencionei em te assustar.... – o mesmo se desculpou e ela então se virou para o reconhecer logo em seguida, era um dos jogadores que estava com Benjamin no fim do jogo que ele invadiu a área interna. – Eu conheço você...
- Sim. – se afastou do capô e soltou os braços ao lado do corpo. – Nos encontramos no vestiário no último jogo do Real Madrid por causa do meu filho...
- Isso! – o jogador confirmou. – Benjamin, o nome dele é Benjamin Romero Remy, como ele mesmo se apresentou, certo? – concordou. – E você é... – ele pensou um pouco. – .
- Você é bom de memória... – sorriu minimamente. – Uma pena eu não ser assim, desculpe.
- Sem problemas, sou Toni. Toni Kroos. Prazer – se apresentou estendendo a mão, fez uma careta sutil estranhando. – Ben nos disse aquele dia que você o ensinou que adultos apertam as mãos quando se conhecem.
- Prazer, Toni. – riu imaginando seu filho dizendo aquilo e estendeu a mão, sorrindo sutilmente.
- Bom, precisa de ajuda?
Antes que pudesse responder, sentiu um cheiro forte emanar e olhou, instintivamente, para o chão vendo-o molhado.
- Ai meu Deus! – ela disse assustada.
- Calma, deixa eu ver. – Toni se aproximou e eles trocaram de lugar.
começou a roer as unhas em preocupação, aquilo no chão era claramente gasolina e se seu carro estava com vazamento de combustível era hora de realmente se livrar dele, além de não ser seguro.
Ela continuou a olhar, não entendendo o que Kroos fazia, mas ainda assim atenta. Não deixou de reparar na roupa que ele estava usando de treino; uma camiseta igual a que ele usava por baixo da de jogo no dia do primeiro “encontro”, um shorts com o comprimento pouco acima do joelho e um tênis para esportes da adidas. Ele estava apresentável e não suado, como da última vez que se encontraram.
- Bom, prontinho. Era a mangueira de combustível que se soltou, aparentemente consegui prender bem firme. – Toni disse assustando e a tirando de seu devaneio.
- Obrigada. Mesmo. – ela sorri agradecida.
- Eu não sou formado para isso e não entendo muito de carro, confesso que qualquer problema que há com o meu eu vou correndo para o mecânico. Então não me sentirei ofendido se quiser ir direto à um, saindo daqui... – ele leva a mão ao rosto e sem querer suja com preto, talvez seja graxa do motor.
- Talvez eu vá é direto para um desmanche, despachar esse carro. – ela murmura indo até o interior do carro e volta para ele com um rolo de papel higiênico. – Aqui, você se sujou.
Toni pegou o papel e se limpou, em seguida fechou a tampa do capô e esperou testar o carro para ver se pegaria. E pegou. Os dois esperaram um pouco para ter certeza que a mangueira não soltaria e quando a tiveram, se despediram, ela estava super atrasada para o trabalho e teria de achar um jeito de compensar com seus alunos.
- Bom, obrigada, Kroos. – ela agradeceu mais uma vez de dentro do carro e ele se aproximou dando a volta e parando do seu lado.
- Não há de quê, senhora Remy...
- Senhorita Romero. – o corrigiu. – Não sou casada e Remy é apenas de Benjamin. – completou diminuindo o tom de voz. -
- Ahh, me desculpe.
- Sem problemas. – ela sorriu para o tranquilizar. – Então, a gente se vê, Toni e obrigada mais uma vez.
- A gente se vê. – foi a última coisa que conseguiu dizer, pois ela sorriu uma última vez e arrancou com o carro.
Toni ficou parado até ver o carro sumir por completo, então caminhou poucos passos para chegar em seu carro que estava justamente parado na vaga ao lado da que ocupava. Analisou o chão e achou melhor chamar alguém para limpar aquela gasolina espalhada no chão, era perigoso ter aquilo ali exposto, uma simples bituca de cigarro jogada ali causaria um estrago gigantesco.
Por um momento esqueceu o que havia ido pegar em seu carro, concentrado na peculiaridade de e na lembrança que teve do encontro com o filho dela, Toni sempre teve um carinho maior pelos torcedores mirins e não pôde deixar de se recordar de Ben. Sentia que aquele torcedor era especial.


Capítulo Três

“Eu tenho corrido tanto para chegar até você sem nem perceber.” – Anonymous.

- Ben, eu não vou chamar outra vez, estamos atrasados! – gritou mais uma vez de dentro do carro.
Benjamin estava de costas conversando com seu amigo Lúcio – o único que tinha de toda a escola – e revirou os olhos para o grito que a mãe deu pela milésima vez. Ele sabia que se sua mãe o visse fazendo isso estaria encrencado, mas era inevitável não reclamar da afobação diária dela, o cansava. O trajeto levaria cerca de vinte minutos, pois pelo o que indicava o GPS não haveriam trechos de engarrafamentos, mas ela ainda sim insistia em sair mais cedo e ficar gritando igual uma louca com ele na frente da escola. Sua popularidade já era completamente inexistente se não fosse por Lúcio, ela só fazia isso piorar gritando assim. Porém, pelo menos desta vez durante a semana ela estava com o carro de Eitor e não a carroça – segundo sua concepção – que comprara e que quase nem usava.
- Bom, eu tenho que ir se não me atraso mesmo, sabe como é boca de mãe, né? – Ben se despede dando um abraço leve no amigo e eles apertam as mãos. O menino dá uma corridinha até o carro e antes de entrar no mesmo pela porta de trás fala com sua mãe. – Não precisava desse escândalo, mãe! A gente ainda ta bem adiantado.
- Você vai ver só, se pegarmos engarrafamento vou colocar isso na sua conta. – o respondeu, trocando a direção do olhar para o retrovisor, pois ele já ocupava o banco de trás.
- Me diz que pegou o par de luvas azul hoje, diz? – Benjamin choramingou colocando o corpo entre os dois bancos da frente, fez careta junto com a de sua mãe, ficando bravo por ela ter esquecido de trocar. – Fala sério, mãe! – disse em protesto. – Ela é de uma cor que não passa despercebida...
- Eu sei Benjamin, mas acontece que eu passei correndo em casa e só peguei a mala que, felizmente, já estava pronta. – ela se explicou. – Você ainda tem sorte de eu não ter esquecido a mala. – deu de ombros e se virou para o volante, colocando seu cinto enquanto falava. – Agora senta aí corretamente e põe esse cinto, não é porque não trabalho hoje que não vamos seguir o horário certinho. – o menino obedeceu, ouvindo em segundo plano o que a mãe continuou a falar enquanto colocava o carro para andar novamente: - Quanto mais cedo te deixo em Valdebebas, mais cedo volto e posso aproveitar minha primeira sexta no tédio. Sozinha.
Benjamin reconheceu o tom de voz dela e abaixou os ombros; por mais que ele tivesse oito anos, sabia o que ela escondia nas entrelinhas daquela sentença. Até a semana anterior os dois passavam muito mais tempo juntos. A mãe tinha todas as tardes de sexta livre, pois não dava aula na escola neste período e neste dia, então excepcionalmente de sexta ele saía à uma hora da tarde – bem mais cedo que às cinco, seu horário de período integral quando o fazia – e eles aproveitavam a tarde fazendo alguma coisa. não preparava aulas, não limpava casa ou fazia qualquer outra atividade doméstica apenas para dar atenção ao filho.
Ela trabalhava de segunda à sexta na escola, até quinta fazia os dois períodos e na sexta apenas o da manhã. Aos sábados dava aulas particulares de inglês para locais e espanhol para estrangeiros em casa mesmo. E aos domingos tirava o tempo para limpar casa, lavar roupas e preparar suas aulas da semana, além de pegar no pé do filho para que ele fizesse as tarefas da escola que fossem necessárias – coisa rotineira da semana, todos os dias era uma atividade diferente e aos finais de semana um trabalho específico.
Nesta primeira semana de treinos em Valdebebas, descobriu que o tanto que achou que seria cansativo para o filho fora exagero. Pegava ele na hora do almoço – durante seu intervalo do trabalho – e o levava para o centro de treinamento, que ficava a pouco mais de vinte minutos indo de carro da escola. Como saía às seis do trabalho, Eitor e alternariam quem buscaria ele, pois quando dava cinco horas ele já estava liberado. E de Valdebebas até sua casa levava quarenta minutos, principalmente quando o fluxo do horário de pico se intensificava mais.
Ben chegava às seis em casa e enquanto sua mãe não chegava, quem quer dos dois que fosse o buscar lhe fazia companhia e o ajudava com a lição de casa diária do colégio. Quando chega, perto das sete da noite, serve-o o jantar e lhe põe no banho, para que quando chegue dez horas ele já esteja na cama e ela possa arrumar o que quer que seja que tenha ficado fora do lugar, limpar a louça do jantar e tomar seu banho para finalmente dormir.
Ao ver dela nada havia mudado, pois quando Benjamin, antes de entrar para os treinos no clube, fazia o período integral na escola, a rotina era a mesma. Então agora o que havia mudado era apenas o local para onde ele ia. Porém, ainda era a primeira semana e se corroía por dentro sem saber como lidaria na sua primeira tarde de sexta-feira sem o filho para lhe fazer companhia. Não mostraria isso ao mesmo, para que não colocasse um empecilho na felicidade que ele vivia no momento. Então ela se concentrava em tudo o que fazia, para não sentir aquele vazio bobo de mãe, como, por exemplo, o trânsito que enfrentara até chegar em Valdebebas.
- Olha mãe, parece que essa vaga sempre ta livre pra nós né... – Benjamin disse ao ver pela janela a mesma vaga que sua mãe colocava o carro no estacionamento desde o primeiro dia que entraram ali. – E sempre é o mesmo carro do lado, de quem será que é? – ele observou.
- Não faço ideia...
se perguntou por uns instantes se aquele não era o carro de Toni, o jogador que fora super simpático e querido com seu filho no dia do jogo – o fatídico para Benjamin – e também prestativo e gentil com ela no início daquela semana. Não se lembrava de ter o visto entrar no carro e nem ter mencionado o que raios ele fazia no estacionamento aquela hora exata em que ela precisava mesmo de uma ajuda.
Varreu de si seus pensamentos e focou em estacionar o carro – facilmente o fez, já que o Audi de Eitor era bem mais fácil de dirigir que seu Volkswagen velho e, bom, ultrapassado.
- Bem que podia ser do Gareth, né? – Benjamin continuou o mesmo assunto quando saíram do carro, a animação exalava em sua voz. apenas ouvia enquanto abria o porta malas do carro. – Já pensou que legal: todos os dias eu paro do lado de Gareth Bale! – vibrou enquanto pegava sua mala.
olhou para os lados instintivamente e continuou a caminhar com o filho, acionando o alarme do veículo enquanto dava os passos.
- Mãe, que ‘cê ta fazendo? – o garoto notou que ela ainda o acompanhava e parou abruptamente.
- Indo com você até o vestiário, Benjamin. – ela disse como se fosse óbvio, ficando de frente para ele.
- Mas você não pode. – ele protestou.
- Claro que eu posso, criança! – revidou, impondo sua superioridade como mãe. – Tenho um cartão de acesso igualzinho ao seu, sou responsável por você, então enquanto não completar dezoito anos ainda eu terei o direito como mãe de estar em todos os lugares que você estiver. – o repreendeu abaixando o tom da voz.
- Mãe... – Ben a fez se abaixar para falar um pouco mais baixo. – Eu quero muito que você me veja jogar e continue cuidando de mim e me protegendo e todas essas coisas que as mães fazem, e que você faz super bem, mas não pode ver o treino. Por favor. É muito mico, nem os pais dos outros meninos vieram.
- Eles são eles Benjamin, eu sou eu...
- E por isso mesmo que você, Romero, vai voltar para aquele carro e só voltar aqui quando for pra me buscar. – Ben insistiu e sorriu ao final, para não parecer mal educado e nem desrespeitoso. – Sério, mãe, ta todo mundo te olhando estranho aqui... – falou baixo novamente, olhando pros lados.
respirou fundo e se sentiu vencida pelo filho. Teve que brigar consigo mesma para enxergar que ele estava crescendo e que o mínimo que pedia, que era aquele pouco de espaço, ela podia lhe dar. É normal quando crescer começar a pedir por mais espaço e liberdade, se lembrava bem de como foi em sua transição da infância para a pré-adolescência. Ela só não queria aceitar que Ben já estava tão mocinho a esse ponto.
- Tá, mas não vai se acostumando que quem dá ordens aqui sou eu. – ela sorri pro filho e lhe puxa para um abraço meio desengonçado por ter a mala enorme dele atrapalhando. – Eu sou a mãe, você o filho e é isso aí.
- Tá, agora me deixa ir... – Ben pediu soltando o abraço.
- Te amo filho. – diz segurando em seu rosto com as duas mãos e o solta, virando-se para vê-lo caminhar porta adentro sem olhar para trás.
Ficou por cinco minutos olhando seu reflexo naquele vidro limpíssimo, por dentro tinha algo lhe intencionando a gritar e ir atrás de seu filho, para o colocar dentro de uma redoma blindada. Perguntava-se como estava sendo sua relação com os outros garotos, se o tratavam bem, se ele os tratava bem, se o técnico já havia visto todo o seu potencial, se ele estava sendo educado e, o mais importante, se não tinha sentido nenhum sintoma de suas crises de ansiedade.
O maior medo de era Benjamin não lhe contar quando tivesse uma crise ou algum sintoma. Ela temia o filho não ter confiança em seu trabalho como mãe. Se sentia insegura muitas vezes e não podia demonstrar a ele, o deixaria bem preocupado e talvez até provocasse alguma reação indesejada na criança.
Enquanto divagava nestes pensamentos, não viu pelo reflexo Kroos caminhar atrás de si com a imensa mala – que usava para levar seus pertences para o treino –, lhe alcançando na frente daquela porta – ou viu e não deu bola, estava realmente somente com o corpo presente, sua consciência divagava por outro rumo. Podiam tira-la dali que não notaria e provavelmente não sentiria. Contudo, a voz de Toni Kroos em seu ouvido foi o suficiente para lhe fazer acordar.
- Isso que eu chamo de se livrar rápido. – ele disse e ela deu um pulo, virando-se para trás e o encarando confusa.
- Ahn... Eu... – murmurou e levou alguns segundos para entender do que se tratava.
- O carro. – confirmou o que ela se questionou internamente. – Eu vi vocês chegando... – ela estreitou o cenho. – Não, não estou perseguindo você ou seu filho, eu só...
- No lugar certo na hora certa. – ela disse sem pensar. No segundo seguinte que raciocinou, viu o duplo sentindo de sua frase. Toni podia entender que ela estava flertando, então contornou: – Não, espera, eu não quis dizer no outro sentido eu...
Ela parou olhando para o chão, os dois riram.
- Vamos recomeçar. – Toni estendeu a mão direita e sorriu abertamente. – Oi. apertou sua mão e se concentrou no sorriso que ele lhe abriu, simpático e cordial como em todos os encontros deles até então.
- Oi... – respondeu ainda olhando para o mesmo lugar.
- Tá tudo bem, senhorita Romero? – Kroos soltou sua mão, olhando-a estranho. Havia uma preocupação perceptível nela.
- Oh, sim! – ela sorriu com os lábios fechados. Kroos a olhou duvidando, então ela abaixou os ombros. – Desculpe, eu estou meio perdida... Benjamin acabou de entrar, não quis me deixar o ver jogar e, bom, é melhor eu ir embora. – completou com sinceridade e deu alguns passsos, mas Toni chamou sua atenção antes que se afastasse, dizendo:
- Quer vê-lo? Ele é incrível... – olhou-a serenamente. – Eu o vi jogar durante um intervalo que tivemos. Na verdade tenho o visto desde o início da semana.
- Se ele ver que eu entrei, vai ficar chateado. – voltou os mesmos passos.
- Tem um lugar que dá pra ver ele e você nem precisa ir ao campo. – o jogador indicou.
- Ah, eu não...
- Eu te acompanho. – cortou-a insistindo, deixando ela sem reação. – Ele não irá te ver.
Ela podia ir embora e respeitar o espaço do filho, mas não queria, na verdade. Estava com muita vontade de ver se havia enturmado-se bem com os outros garotos do time; pelo o pouco que entendia de futebol, sua preocupação era Benjamin ter sido jogado como reserva de algum outro menino, para ela o filho era o melhor. Entretanto, não diria não à morte de sua curiosidade e preocupação como mãe, precisava conferir e provar com os próprios olhos o bem estar do único filho.
- Ele não vai me ver mesmo? Não quero ser motivo de decepção para ele... É uma luta ensinar respeito de espaços à uma criança. – ela disse meio nervosa.
- Sim, você não será vista, o reflexo no vidro da academia vai te camuflar. – Toni respondeu com tom de humor.
deu de ombros à princípio e o seguiu, porém, após passar seu cartão de acesso quando já estavam dentro do centro de treinamento, questionou o olhar do jogador sobre si quando dissera sua última frase sobre o reflexo a camuflar. Olhou para seus braços com o cenho franzido, talvez ele estava fazendo uma comparação com o quão branca ela estava devido à sua falta de tempo para tomar banho de sol, por ficar o dia todo dentro de uma sala de aula e não ter horário em sua agenda de mãe para frequentar um clube ou viajar para um litoral mais próximo. Imaginou se ele visse suas pernas então, ficaria surpreso com tanta palidez por baixo daquele jeans de lavagem escura.
E mais uma vez os questionamentos internos sobre sua condição de vida vinham à sua mente. Na verdade, não era uma condição de vida, era o modo como ela havia moldado sua rotina sem perceber, levando-a a esquecer que além de mãe era uma mulher solteira de trinta anos. Ser mãe solteira não é uma condição, é uma consequência de irresponsabilidade e fragilidade do companheiro – ou pelo menos como deveria ser chamado. Mas não enxergava mais isso, mesmo que e Eitor lutassem para que a amiga se enxergasse além da mãe de Benjamin.
O que piorou foi a ansiedade generalizada que o garoto desenvolvera devido ao abandono do pai ainda novo, quando Benjamin começou a se dar conta de sua história: filho abandonado com uma mãe que se mataria de trabalhar para sustenta-lo, estudando numa escola cheia de crianças com os tradicionais pai e mãe na mesma casa. Ela resolveu que deveria proteger seu filho mais do que conseguiria e que o melhor para ele era ela estar cem por cento ao seu lado, rotineiramente.
Ouviu uma risada nasalada e quando tirou o olhar dos próprios braços olhou para frente, encarando o jogador loiro sorrindo. Deu um passo largo e caminhando ao lado dele desta vez, disse:
- Você também se camufla com tanta palidez, não estou sozinha nessa.
Toni riu jogando a cabeça para trás e parou de andar, virou-se para e disse:
- Só vou colocar a mala aqui dentro e me trocar, ai já vamos. – ainda de costas levou a mão à maçaneta da porta atrás de si. – Espera aqui, é rápido.
Ela não teve muito tempo para responder, logo viu a porta ser fechada em sua cara. Revirou os olhos e cruzou os braços, reparando pela primeira vez no corredor. Antes de poder dar um passo para o lado e sair do caminho para a porta, ouviu vozes e virou o rosto na direção. Dois homens conversavam usando outro idioma que ela acreditou ser português brasileiro – também se lembrava brevemente de que um deles era do Brasil – e vinha daquele lado, com a mesma mala de ombro que Kroos usava, então deduziu serem jogadores.
E eram. Os dois pararam de falar quando chegaram perto de , ela os olhou sorrindo minimamente. Eles sorriram de volta e entraram pela mesma porta que Toni havia entrado; porém os outros dois abriram a mesma com brutalidade, deixando-a ver como era por dentro daquele vestiário. Não que ela quisesse, mas ver Toni Kroos, o cara sempre simpático e prestativo, também cordial, de cueca branca e uma camiseta, a fez ficar chocada. Era uma situação que ela imaginava somente em filmes e livros, a mocinha vendo o mocinho e sentindo todas aquelas borboletas, corando seu rosto na hora.
Se sentiu aliviada quando a porta se fechou e ela levou a mão direita ao rosto, desacreditando na situação. Se estivesse junto nesse momento ela ouviria barbáries vindo da boca da melhor amiga – outro clichê, a mocinha dos filmes e livros sempre tem a melhor amiga louca que fala tudo o que quer sem censura, sendo bem elogiada pelo seu modo ‘cem por cento nem aí com os outros’ de viver.
Não demorou mais para que Kroos saísse pela porta, porém desta vez vestido com o uniforme de treino. Levaram segundos para que ela focasse sua atenção em outra coisa que não fosse a cena dele se equilibrando para vestir o shorts com aquela cueca branca, enquanto soltava uma gargalhada alta.
- É por aqui. – a voz com o sotaque carregado não ajudou muito a tirar aquela imagem da cabeça.
De braços cruzados ela o seguiu, olhando para os próprios pés, depois de murmurar um “ta bom” bem baixo. Kroos parou na frente de uma porta igual a do vestiário e a abriu, dando passagem para entrar primeiro.
“Cavalheiro, claro”, ela pensou depois de entrar.
Ouvindo o barulho da porta se fechando, se atentou para sua vista. Estava em uma sala pequena, havia uma maca para massagem no meio dela, algumas prateleiras com produtos de massagem, uma mesa com uma cadeira de escritório e um armário de portas brancas na parede lateral à porta. Porém, o que mais lhe chamava a atenção e interessava era a vista que o vidro transparente de frente para a entrada da sala dava pra quem entrasse e permanecesse lá. Um dos campos de treino.
Deu alguns passos e ficou parada quase colada na parede de vidro, não demorando muito para encontrar seu menino com o olhar no campo em sua direção. As crianças estavam em um círculo e no meio o preparador físico demonstrava os movimentos que eles deveriam fazer. Na posição que Benjamin estava ela conseguia enxerga-lo perfeitamente e o que viu aconchegou seu coração de uma forma que ela não saberia explicar se algum dia lhe perguntassem.
A sensação de ver o filho ali, sorrindo para o que o amigo do lado disse e em seguida falar algo e ver todos rindo com ele, sem exceção de nenhuma criança, era no mínimo confortante. estava pequena para o próprio corpo naquele momento, sua felicidade era tão grande que exalava e se Benjamin pudesse sentir, saberia o quão amado e importante era para a mãe. E sem perceber, ela chorava sem soluços ou barulhos, um choro quieto, enquanto apoiava a testa no vidro.
- Tá tudo bem? – sentiu a mão do jogador em seu ombro direito e se virou para o encarar sorrindo tênue para si.
- Sim... – tentou conter as lágrimas, mas sem sucesso. Sorriu mesmo assim. Um sorriso bobo, cheio de amor.
- Vem cá, senta aqui.
Ele apontou para a maca e os dois sentaram um ao lado do outro, olhando para a frente.
- Obrigada. – ela o olhou depois de um certo tempo. Toni virou o rosto e sorriu sem abrir os lábios. – De coração, não tenho como te agradecer por isso. – sua voz estava falhando.
- Sem problemas. – Kroos conteu a vontade de enxugar a lágrima que escorria pelo rosto dela, voltando a olhar para frente. – Ele deve ser muito para você. – completou, se sentindo um idiota por tal comentário, era óbvio que ele era muito para ela, afinal era seu filho.
sorriu soltando um sonzinho fraco, não haveria como explicar à alguém o quanto seu filho significava em sua vida.
- Ele foi o pouco que me sobrou e tudo o que era necessário pra completar. – disse, as palavras saiam com leveza.
- Na primeira vez que o vi, aquele dia no jogo, ele foi tão educado, que achei impossível ser real. – ouviu Toni dizer com um tom de nostalgia, como se tivesse passado anos desde o tal dia.
- Eu dou o meu melhor desde que o pai dele foi embora. – ela justificou, sem perceber.
- O pai dele abandonou vocês?
ficou espantada por Toni estar surpreso com aquilo, uma coisa tão comum de se acontecer atualmente – infelizmente.
- Sim, há seis anos. Ben tinha apenas dois aninhos. – ela iniciou, sentindo em si todo aquele sentimento de repulsa que guardava para Guzmann. – Foi muito difícil conforme Benjamin crescia e percebia que não tinha um pai, igual os amiguinhos da escola. Piorou com quatro anos, quando ele passava noites acordado e, se dormia, tinha pesadelos comigo o abandonando. Ele não se lembra do pai, mas sente o abandono, sente essa falta. É uma lacuna que eu não posso preencher, sabe?
Toni se sentiu extremamente enojado com o quão estúpido o homem podia ser, odiava se recordar de que histórias como a de e Benjamin eram mais comuns do que parecia. Não suportou a ideia de que alguém pudesse ter abandonado o garoto, aquele mesmo menino simpático e educado, extremamente focado e talentoso com seu futebol.
- E ele sabe? – o encarou confusa. – Que o pai o abandonou?
- Sim, a psicóloga me pediu que não escondesse isso dele, para podermos tratar sua ansiedade, que tem foco total nisso. – ela o explicou.
- Psicóloga? – questionou-a surpreso.
- Ele desenvolveu ansiedade generalizada, por isso passa por psicóloga a cada quinze dias. – se lembrou que a frequência nas terapias havia diminuído recentemente de uma vez na semana para uma a cada quinze dias e sorriu se lembrando. Vendo que Toni ficou confuso com sua feição, explicou: – Há dois meses a terapia diminuiu de uma vez por semana para uma a cada quinze dias...
- Poxa, isso é bom! – ele vibrou, sorrindo com ela.
- Sim. E tudo isso é graças ao futebol. – os dois se encararam, se ajeitou na maca e continuou – Ele é apaixonado por isso desde... Não consigo me lembrar de um Benjamin antes do futebol, porque são lembranças de sofrimento. – fechou os olhos respirando fundo e quando abriu as pálpebras, captou o verde dos olhos de Kroos, fixados em si, aguardando o resto de seu discurso. – Eitor, meu melhor amigo, o apresentou ao esporte e desde que Benjamin passou a entender e praticar pra valer, seu quadro tem melhorado. Mal consigo contar quantos jogos do Real Madrid eu fui no Santiago... – ela sorriu e ele se sentiu deslumbrado com tanto amor que emanava dela enquanto falava sobre o bem-estar do filho. – Benjamin sempre foi meu companheiro, e Eitor são nossos únicos amigos, mas meu filho é meu complemento. Tudo o que eu faço é pensando nele e por ele, quero que Ben tenha as melhores experiências na vida... – olhou para o campo novamente. – Ele é meu foco.
- Dá pra ver que todo esse esforço tem sido bem recompensado.
- Só que estou me sentindo perdida agora... – confessou voltando a encara-lo nos olhos. – Eu trabalho de segunda à sexta em uma escola, o dia todo. Aos domingos tenho que preparar minhas aulas semanais, que são várias, enquanto ele cuida de suas tarefas escolares. Aos sábados eu dou aulas particulares para estrangeiros que migraram e pessoas que querem aprender inglês... As tardes de sexta são o único tempo que eu tenho para passar com ele, sempre tínhamos algum programa, revezando quem escolhia. Mas, agora... – respirou um pouco. – Agora eu tenho minhas tardes de sexta livres e não faço ideia do que fazer.
- Na verdade você sabe, só não quer. – Toni respondeu dando de ombros. – Se acostumou com a rotina, é normal... Mas agora, além da escola, você divide Benjamin com outra coisa. É normal, , seu filho está crescendo, o mundo espera por ele.
- Sim. – respondeu fixando sua atenção ao filho do lado de fora, deixando o silencio dominar o espaço.
Ela ficou muda, ouvindo o próprio pensamento. Não queria concordar por puro orgulho, mas ainda sim sabia que ele estava certo. Não era possível que até Toni Kroos, o cara que mal conhecia, tivesse a mesma opinião que seus melhores amigos e isso ainda fosse errado. Talvez ela pudesse encontrar uma atividade física para fazer que ocupasse sua mente, talvez teria coragem para isso e não ficaria em casa esperando a hora passar para ir buscar Benjamin em Valdebebas. Poderia até começar por aquela tarde mesmo.
Olhou em seu relógio de pulso e se levantou rápido da maca, assustando o jogador.
- Muito obrigada, Toni. – parou de frente para ele, sorrindo. – Eu realmente não sei como agradecer.
- Ache o que fazer nas suas próximas tardes de sexta ou irei dedurar para Benjamin que você esteve aqui, posso até dizer que me ameaçou. Uma mãe coloca medo em qualquer um pelo seu filho. – ele brincou na resposta, se levantando também. Os dois riram. – Mas, é sério, , preencha seu espaço livre agora com você mesma.
Ela concordou com a cabeça e estendeu a mão direita, enquanto sorria com os lábios fechados.
- Até mais, senhor Kroos. – disse formalmente.
- Até o próximo encontro totalmente aleatório, senhorita Romero. – ergueu uma sobrancelha, achando graça interna no duplo sentido da frase do alemão enquanto apertava sua mão. Uma pena ele ter percebido. – Ah, eu não quis dizer isso... o outro sentido, não é nada com você eu só...
- Tá ok, Kroos, já passamos por isso hoje. – ela riu.
Os dois não se prolongaram mais na despedida, quando Kroos seguiu o corredor para o lado contrário da saída, sacou o celular no bolso do jeans – agradecendo mentalmente pelo aparelho não ter tido a tela trincada, depois dela esquecer ele no bolso e sentar em cima – e procurou em seus contatos o nome de Rodrigo. Ainda no lapso de coragem digitou um singelo “Oi”, não esperando a resposta chegasse tão rápido.

Capítulo Quatro - Parte 1

“Querido, aguente firme, tudo ficará bem.”

Era uma dor no peito que parecia ser impossível passar, às vezes até podia-se dizer que sim. A falta que o ar fazia nos pulmões, respirando descompassadamente e tendo dificuldades para manter o ritmo normal, tudo lhe deixando em mais desespero. Parecia que seu corpo estava fora do seu controle, gerando aquele pânico até mesmo dentro de seu próprio quarto, onde sabia que nenhum mal invadiria. Entretanto, aquele mal não era um invasor de cômodos ou situações, era algo dentro de si. E isso assustava ainda mais, fazendo com que sua percepção sempre fosse a mesma quando aqueles sintomas lhe atormentavam: o pânico.
As vozes em sua cabeça diziam “ele te deixou só”, “não queria você, nunca quis e nunca irá querer porque você não foi o suficiente”, etc, fazendo com que a sensação de insuficiência não fosse em relação somente ao que já havia passado, mas sim transpassando também para seu presente e atrapalhando toda a evolução atingida de forma árdua. Era um saco, podia dizer, um porre, um tremendo chute na bunda com scarpin de bico bem fino.
Não conseguia respirar direito, suava por isso, não conseguia ouvir nada de forma coerente que fosse dito – sabia disso de situações anteriores, mas neste momento estava só –, falar era praticamente impossível com aquele bolo tampando sua garganta, fazendo suas cordas vocais parecerem falhas e quase inexistentes, era um caos interno explodindo para o externo também.
Porém, quando a dor em sua cabeça chegou, o bolo tampando sua voz, a respiração desregular, a audição falha, todo aquele mal estar, pareceram diminuir por segundos, dando espaço para a necessidade de chamar uma ajuda. O único nome a qual sabia que podia chamar sem ter dúvidas de que viria ou receios de que não estaria por ter ido embora, por abandono. A única pessoa a qual sabia que o amor era incondicional e recíproco.
- Mãe! – Benjamin usou a única força que tinha para gritar por ela, voltando à posição anterior que mantinha suas pernas presas no enlaço de seus braços, dando espaço somente para que sua cabeça se encaixasse nos meios, ficando “escondida”.
No outro quarto, levou um susto ao escutar o grito do filho. Em menos de um minuto respirou fundo duas vezes se sentando na cama, para em seguida levantar e estar no quarto dele. O seu coração sentiu a agulhada pontuda e bem dada que aquela vista lhe proporcionava. Queria que toda aquela angústia e crise fosse sua e não para seu filho, assim a criança não sentiria tudo aquilo e não haveria sofrimento.
Como de costume, apenas pegou no guarda roupa do menino um casaco grande o suficiente para cobri-lo. Voltou para seu quarto correndo e enquanto vestia uma roupa fácil, separava os documentos necessários para dar entrada no hospital. Com cinco minutos, Benjamin já estava em seu colo, sendo carregado com dificuldade por seu tamanho, mas sem desistência, para ser colocado no banco de trás. sentou no seu lugar de motorista e pediu mentalmente para que o carro funcionasse, sem nenhuma restrição por qualquer parte mecânica. Ela precisava com emergência chegar ao hospital e naquela madrugada de segunda, não tinha muito tempo para perder esperando por Eitor – mesmo que ele viesse de boa vontade – ou um uber.
Virou a chave do carro uma vez, não pegou, a segunda também não, muito menos na terceira. Se desesperou mais, deixando o mais puro sentimento de ódio lhe tocar, mentalmente fazia o exercício para não deixar sua falta de confiança transparecer para seu filho. Olhou no espelho acima de sua cabeça e viu que Benjamin estava na mesma posição de quando o encontrou no quarto, balançando o corpo levemente.
- Filho, aguenta um pouquinho, a gente já chega no hospital! – disse tentando não vacilar com a voz.
Não demorou muito para que Benjamin começasse a sentir a náusea piorar, por fim vomitando no banco de trás. continuou insistindo no carro e, depois de muito implorar para uma força maior, o motor funcionou. Ainda com o carro ligado ela saiu do veículo e abriu o portão rapidamente, até chegou a prender o dedo na trava. Quando finalmente estava na rua uma chuva muito forte se iniciou, para lhe deixar mais frustrada ainda. Contudo, conseguiu chegar ao hospital.
Chamou de duas à quatro vezes por alguém para ajudar e quando percebeu, seu filho já estava em uma maca, sendo levado para dentro, enquanto continuava a vomitar – mesmo que já não tivesse mais nada no estômago que desse para ser expelido. O médico plantonista era um conhecido, por sorte, então não precisou se preocupar com o tipo de tratamento que seria oferecido à Benjamin. Depois de conversar brevemente com o profissional, o mesmo lhe pediu que ficasse ali naquela sala de espera enquanto cuidavam da criança e garantiu que ele ficaria bom logo.
se sentou na primeira poltrona que viu perto e passou as mãos no rosto, tentando, mas sem sucesso, conter as lágrimas desesperadas. Pegou o celular rapidamente e digitou uma mensagem para Rodrigo, ele fora a primeira pessoa que lhe veio à cabeça para tirar o seu carro dali e – pela milésima vez – levar para a oficina, talvez fosse mesmo a hora de se desfazer dele. Em seguida digitou um breve texto para a médica de Benjamin. Quando teve a resposta dos dois, guardou o celular no bolso. Estava tão longe dali que mal ouviu ser chamada, apenas levou um susto quando sentiu ser tocada no ombro.
- ? – levantou a cabeça para ver quem era a pessoa surpresa ao encontrá-la ali.
De uma forma que ela não conseguiu entender muito bem, se sentiu aliviada por ver aquele rosto conhecido e por dentro se sentiu melhor ainda por ser ele.
- Toni... Oi. – respondeu vendo-o se sentar ao seu lado.
- O que está fazendo aqui? – perguntou assustado.
- O Benjamin... – ela fungou, tentando conter o choro.
- O que aconteceu com ele? – Toni não percebeu, mas sua preocupação sobressaiu e seu semblante mudou drasticamente.
- Ele... ele... – tentando conter as lágrimas, fez uma careta. – Teve uma crise de pânico. Faz tanto tempo que ele não tem uma e hoje de repente...
Antes que pudesse terminar de falar, Toni a viu vacilar e as lágrimas se intensificarem, então a puxou para um abraço meio desajeitado pelo modo como estavam sentados. O modo como ele envolveu os braços ao redor dela fez com que o encaixe fosse perfeito, mesmo desajeitado. apoiou a cabeça na curva do pescoço com o ombro de Toni, podendo inalar o cheiro de perfume importado que ele usava. A mão direita dele fazia um movimento na coluna dela, em forma de carinho, enquanto a outra fechava aquele abraço como um casulo, posicionada no ombro da mesma. soluçava de chorar, havia acreditado que uma crise como aquela não voltaria atingir Ben novamente tão cedo.
Foi ali, naqueles poucos minutos, sendo consolada por ele, que sentiu um pouco de paz interior. O choro parou, gradativamente, mas parou. Quando estava mais calma, levantou a cabeça, encarando o olhar de Toni. Ele lhe transmitia aquela paz, era isso.
Em questão de segundos, ao constatar tal momento, uma muvuca lhe tirou daquele devaneio no paraíso. Olhou para a direção de onde vinha e, ao ver Rodrigo entrar como um furacão indo em sua direção, se soltou de Kroos e levantou-se, deixando o jogador sem entender nada.
- ! – Rodrigo exclamou alto.
- Oi... – ela o respondeu meio sem saber como, quando recebeu um abraço inesperado do mesmo.
- Eu vim assim que recebi sua mensagem e... – a soltou e olhou para trás, rapidamente, voltando o olhar em seguida para confirmar quem estava vendo sentado ali e que estava abraçando sua “garota”. Sem acreditar, disse: – Toni? Toni Kroos?
olhou para trás e aí sim se tocou de que Toni era figura pública. Revirou os olhos mentalmente para Rodrigo, o vendo tietar Kroos.
- Sim. – o jogador disse se levantando, não parecia entusiasmado com aquele momento de fã. Estavam ali por uma razão mais importante.
- Cara eu sou teu fã. – Rodrigo sorriu animado. – Acho sua forma de jogo brilhante e...
- ! – a mesma agradeceu quando ouviu uma quarta voz a chamar, cortando aquele momento, olhou para trás e viu a médica de Ben. – Eu vim o mais rápido que pude. – ela analisou os outros dois rapazes com a moça e estreitou os olhos para Toni, mas continuou: - Eu vou entrar lá.
- Ok, doutora. – concordou ainda sem reação.
- E vocês dois, pelo o que vi... Aqui é um hospital, se você – olhou para Rodrigo. – quer ter seu momento de fã, vá lá fora. – completou.
Ninguém falou nada conforme a psiquiatra caminhava para a porta que a levaria até Benjamin. Um silêncio se instalou, até decidir o quebrar.
- Então Rodrigo... Aqui está a chave. – estendeu a mesma para ele. – O carro está no estacionamento. Pode guinchar, arrumar e anunciar para vender que não quero mais...
- Você vai ficar sozinha? Como vai embora depois? – questionou. – Eu fico aqui até...
- Eu estou com ela. – Kroos respondeu o cortando, sem perceber ter soado autoritário. – Ela não vai ficar sozinha. – diminuiu a intensidade da voz trocando um olhar rápido com a mesma.
- ... – Rodrigo respondeu, olhando-a, esperando que a resposta viesse de sua boca.
- Ermmm... – iniciou, insegura. – Pode ir, Rodrigo... Obrigada.
Sem muito o que dizer ou reclamar, Rodrigo acenou positivo com a cabeça e fez questão de deixar um beijo na bochecha de , mais próximo dos lábios dela possível – até mais do que ela gostaria. Para Toni ele apenas sorriu e disse um “tchau” baixo. Ainda estava em dúvida sobre o que o jogador estava fazendo ali e como é que ele conhecia , seu pensamento variava entre “ela é maria chuteira” e “desde quando?” – um pouco machista, aliás.
Quando Rodrigo já não estava mais no campo de visão de e Toni, os dois se direcionaram de volta ao lugar anterior. Toni espera que se sente e senta-se ao lado da mesma, em silêncio, esperando para que ela desse o primeiro passo para uma conversa. E foi o que ela fez, pouco hesitante, mas fez.
- Me desculpa se for invasivo, mas... – fez uma pausa, desviando o olhar dos olhos dele. – Por que você está aqui? – completou, com o tom de voz baixo, receando que Toni se sentisse desconfortável e ofendido.
- Eu estava na casa de um amigo e... Bom... – ele fez uma careta. – quando estava indo embora, me envolvi num acidente com um outro carro cheio de jovens embriagados.
não evitou a feição de chocada e procurou reparar em algo físico de Toni que apontasse o acidente pela primeira vez, e foi aí que encontrou leve escoriações em seus dedos e punho. No rosto, próximo à mandíbula havia um hematoma bem mínimo. Ou seja, ele estava bem, aparentemente e o acidente não lhe atingiu completamente.
- Nossa e você está bem? Não teve nenhum ferimento grave? – o perguntou imediatamente.
- Não, não houve colisão dos veículos exatamente, eu desviei e eles bateram... – ele fez uma cara triste e prosseguiu: - Precisei quebrar o vidro para ajudar, aí consegui esses cortes.
Toni estendeu a mão, mostrando os curativos, estendeu a sua e colocou suavemente em cima da dele, os dois trocaram um breve olhar até serem interrompidos mais uma vez durante aquele meio tempo, porém desta vez sendo pela médica.
- Com licença, ?
A mesma levantou apenas a cabeça, direcionando seu olhar para a outra mulher, quando fez menção de se levantar foi parada pela médica, que se sentou ao seu lado. corrigiu sua postura e depois de olhar uma última vez para Toni, sentado ao seu lado direito, virou-se para a psiquiatra de Ben.
- Precisamos falar sobre Benjamin... – a médica iniciou.
- Sim. – foi tudo o que conseguiu responder, sentindo um ar quente em sua mão. Olhou para ela e viu que Toni havia posto a dele sobre a sua. – Precisamos. – ela completou, olhando nos olhos do jogador.
- Bom, eu conversei com a psicóloga, Anastasia me disse que diminuíram as sessões porque ele apresentou melhora. – fez uma pausa. – Mas, infelizmente a melhora não se manteve.
- Eu... eu não entendo, ele estava fazendo atividades, ocupando a cabeça, apenas com coisas que ele gosta e nada que o sobrecarregue... Eu... o que eu fiz de errado desta vez, doutora? – gaguejou, disparando toda sua culpa.
- , você não fez nada. – o olhar calmo e sincero da psiquiatra a fez acalmar por aquele tempo. – Felizmente ele tem a você que faz de tudo e mais um pouco para o manter estável e lutar pelo seu bem-estar. – continuou, com um sorriso sereno nos lábios. – A gente já teve essa conversa, querida, o problema de Benjamin não tem nada a ver com você.
- Então por que meu filho nunca melhora? – sua voz de choro fez com que a médica alternasse o o olhar para Toni e em seguida voltasse para si.
- Porque o trauma inconsciente é mais difícil de tratar, meu bem. Estamos há um ano o tratando, apenas. Há casos que levam uma vida. Portando, voltaremos com a dose inicial do tratamento com a medicação e as terapias voltarão a ser uma vez por semana e pode ser que, provavelmente, Ana decida colocar uma sessão a mais na semana a cada quinze dias, isso irá depender da avaliação dela. – concordou silenciosamente. – Bom, terminando o soro, ele já poderá ir para casa. Ana irá te ligar para confirmar o horário que ela poderá ver ele entre hoje a tarde e amanhã de manhã.
A médica não disse mais nada, muito menos . Toni apertou sua mão carinhosamente, a trazendo para perto, deixando com que ela usasse seu ombro de apoio e seu peito de travesseiro para as lágrimas silenciosas. Ele não era pai, não sabia o que ela sentia e tão pouco o que dizer para consola-la, não só pelo falto da paternidade nula, mas também por se considerar muito novo naquela pequena família para entender qualquer coisa. Talvez, ele sentia, em algum momento saberia como consolar a mulher e no momento que a médica se levantou e saiu dali, decidiu que isso se tornaria uma meta. Toni Kroos queria e iria ser o suporte que Benjamin e precisavam para momentos como aquele.


Continua...



Nota da autora: Finalmente, não?! Primeiramente, desculpa pela demora na atualização. Aconteceram algumas coisas e eu realmente tive um momento de bloqueio, por isso, também, o capítulo é menor desta vez e será dividido em duas partes.
Espero que tenham gostado, não esqueçam do comentário que só fortalece a autora aqui (HAHAH) e entrem no grupo do facebook, para detalhes e, quem sabe, spoilers.


Nota da Scripter: Achei super injusto esse capítulo curto desse jeito, mesmo sabendo que tem parte dois. ACHEI SIM, ACHEI MUITO INJUSTO. Como assim essa interação toda entre os dois, o Toni todo cuidadoso e mostrando estar ali pra ela eu aaaaaaah vou chorar de emoção!!!! Vou ficar no seu pé pra não demorar com a att. HEHEHEHE <3

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


comments powered by Disqus