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Mercenary Sister's






Última atualização: 28/09/2017

Prólogo


Nuvens cor de chumbo começavam a cobrir o céu, e a neblina sobrenatural começou a ficar mais densa. Seu corpo sem vida pendia imóvel em meus braços, sua pele com aroma floral começava a perder o calor. Eu não podia aceitar, não podia crer que ela estava morta. Tirei um cacho de seu rosto, o leve delineado preto ainda estava intacto em suas pálpebras, agora fechadas, ela parecia serena como um anjo, como se estivesse apenas dormindo. Senti as lágrimas quentes escorrerem por minhas bochechas, limpei a lama do canto de seu rosto, depositando um beijo em sua testa, e fazendo meu cérebro aceitar que ela estava morta. Mas foi quando a ficha caiu que meu coração se despedaçou.

Capítulo 1


jogou uma caixa para , que pegou habilmente no ar, sorrindo para a irmã.

- Você é ridícula,.- colocou a caixa dentro do elevador do prédio, junto das outras.- Aqui estão os vidros, sorte a sua eu ter pego a caixa.
- Eu sabia que você ia pegar, .- sorriu, piscando para a irmã mais velha.- Você nunca perde nada.


Sorriu, pegou a última caixa do porta-malas e travou o Jeep, indo para dentro da portaria do prédio acompanhada da irmã.

- Decimo andar?- perguntou , apoiando um pé numa caixa e com a mão no painel de botões do elevador.
- Sim, apartamento 687.- confirma, colocando a caixa no chão.
- 3h45min da manhã, maninha.- disse , olhando para seu relógio.- Seja bem-vinda ao seu novo lar.
sorriu ironicamente, mostrando o dedo do meio para a mais velha. Odiava quando se referia a localização de um trabalho como lar, sabia que elas nunca teriam um lar, e sabia que a irmã também tinha conhecimento do fato, até mais que ela mesma.

- Não me olhe com essa cara, .- bufou, se apoiando na parede do elevador, a arma em suas costas, presa ao cós da calça brilhou com a luz.- Foi só uma brincadeira.

bufou, sabia que sua irmã não tinha feito por mal. Ambas estavam estressadas com o caso atual, por mais que tivessem suas cartas na manga, nunca haviam enfrentado um nogitsune, e isso as assustava, já que uma Blackburn era criada para saber matar qualquer ser sobrenatural existente.

- Não gosto dessa cidade.- cortou o silêncio, seus olhos vagueavam por seu reflexo embaçado na superfície de inox do elevador, seus olhos azuis estavam perdidos, indecifráveis.- Quanto antes sairmos daqui, melhor.
- Você viu alguma coisa?- arqueou uma sobrancelha, levemente curiosa com o comentario da irmâ.- Teve alguma visão?
- Ai é que está o problema, . - endireitou a postura, nunca vinha boa coisa quando a chamava pelo nome. - Eu não tive nenhuma visão. E isso é o que me da medo, desde que chegamos aqui, o futuro virou um breu.

piscou, seus olhos ficaram azul escuro, sem retina, pupila ou íris, apenas azuis.

- E meus poderes parecem descontrolados.- ela piscou de novo, seus olhos retornaram a aparencia humana. - Isso nunca aconteceu antes, .

se concentrou no "cozinha" escrito no topo de uma caixa com marcador azul, toda aquela situação era realmente muito estranha. Por serem bruxas, cada uma tinha um "dom a mais", tinha visões do futuro e podia sentir qualquer ser sobrenatural, quase que como um radar, e digamos que nunca ficava sem ter nem que fosse uma dica do futuro, nunca mesmo.

As portas do elevador se abriram, sorriu animadamente, tentando parecer contente. Myra apertou o botão vermelho que travava o elevador.

- Vou abrir o apartamento, então começamos a levar as caixas.- disse , erguendo uma mão para que a irmã jogasse as chaves para ela.

Myra jogou as chaves para a irmã, que já estava fora do elevador, foi atrás de seu novo apartamento. Quando o relógio marcou 4h00min da manhã, todas as caixas estavam dentro do apartamento, e as irmãs estiradas cada uma em um sofá.

- Estou com sono.- grunhiu , o rosto afundado em uma almofada.
- Aluguei essa merda mobiliada, creio que isso inclua um quarto mobiliado, . - resmungou , tirando as botas e quase afofando a mesinha de centro para colocar sua pistola encima. - Escolha um e durma.
- Grossa.- olhou para a irmã com uma expressão de desaprovassão.- Vou dormir, tente descansar, temos muito o que fazer amanhã.
- Vai lá, mana. Já vou dormir. - bocejou, ficando apenas com a regata agarrada que delineava seu corpo cheio de curvas.- Vou fuçar no rádio e arquivos da polícia, até amanhã.
sorriu de canto para a irmã, tirando um cobertor da caixa e se perdendo na escuridão do corredor sem iluminação.

tirou seu laptop prateado de sua mochila e o abriu sobre a mesinha de centro, usando suas habilidades de hacker para invadir o sistema dos computadores da delegacia da polícia local, para ler os arquivos sobre as mortes envolvendo o nogitsune, que haviam sido citadas por Mr. M(apelido que havia dado para o empregador anônimo). Quando hackeou o sistema, olhou para o relógio do celular, que marcava 4h34min da manhã. O céu ainda estava azul cobalto, seus olhos começaram a pesar, a mais velha pegou um cobertor da caixa e foi para o quarto vago, se jogando na confortável cama de casal e criando um casulo com o cobertor, adormencendo assim que sua cabeça tocou o travesseiro.



O relógio marcava exatas 7h15min da manhã quando o toque escandaloso do celular de cortou o silêncio que dominava o apartamento. levantou assustada, pegando uma faca do bolso interno da jaqueta que estava jogada no chão e correndo para o quarto da irmã, a mesma parou na porta, ao ver que era apenas o maldito celular.

- Alô?- resmungou ao atender o telefone, um olho aberto e o outro não, por conta da forte claridade que invadia o quarto.
- Bom dia, pentelha Blackburn.- a voz suave de um homem veio do outro lado da linha, soando animada.
- Daniel? - perguntou, a voz rouca saindo fanha. - Você me acordou, filho de uma quenga.
Daniel riu com gosto, cantarolando junto de Cindy Lauper, que tocava ao fundo.
- Sempre adorei o humor matinal que você e sua irmã têm. - Daniel zombou.

Daniel Jamesson era um alquimista da Flórida, rico e que se gabaza por ostentar uma vida regada às mulheres, álcool e muitas festas, mas fora isso, um alquimista exemplar.

- Mas indo direto ao assunto.- Daniel deu um longo gole em uma xícara de café.

suspirou irritada na porta do quarto, havia posto a chamada no viva-voz e a mais velha estava começando a perder a paciência com os rodeios de Jamesson.

- Eu pesquisei em todos os livros que tenho acesso, todos com exceção de nenhum,- começou ele, parecendo decepcionado consigo mesmo.- E não achei nada sobre um nogitsune, não há origens verídicas, formas de matar, ou qualquer outra coisa. Me parece que se meteram em algo sério, meninas.

apoiou as costas no batente da porta, batendo levemente o cabo da faca na tempora, de olhos fechados. a olhou, em busca de uma resposta, a irmã continuou do mesmo jeito, tornou a olhar para a tela do celular, que mostrava uma foto de Daniel usando óculos escuros de armação rosa e fazendo uma fose feminina, foto tirada em uma de suas milhares festas.

- Obigado de qualquer jeito, Dan, avisaremos se tronarmos a precisar de ajuda.- disse, Daniel concorodu com um grunhido.- E se me acordar de novo, Jamesson, eu mesma vou para Malibu e te mato. Tchau.
- Também amo você.- Daniel riu.- Tchau.
abaixou a faca, olhando fixamente para o assoalho.

- Estou começando a achar que foi um tremendo erro termos pego esse trabalho.- suspirou ela.- Vamos fazer o reconhecimento hoje, se isso me parecer om possível, a gente larga.- falou a mais velha.
- Ele já fez o depósito de metade do dinheiro, .- lembrou , falando alto para a irmã que já havia voltado para seu quarto, a ouvisse.
- Não vou enfiar o nosso na reta por 75 mil dólares, .- quase gritou, catando suas roupas do chão do quarto, o cabelo cacheado caindo sobre seu rosto

Blackburn POV

Comecei a revirar minha mala, atrás de uma troca de roupa. Hoje seria o dia em que eu e iremos começar a ir para a escola, fuçar na vida dos envolvidos nos incidentes do nogitsune, um bando de adolescentes. Peguei de dentro da mala um jeans surrado, uma blusa agrrada de tecido fino preta com decote, minha habitual jaqueta de couro e o par de coturnos que sempre uso.

- Vou tomar banho, não demoro. - parou na porta do quarto, uma toalha violeta pendurada no ombro e a maquiagem toda borrada.- Enquanto isso você decide o que vamos comer de café-da-manhã.
- Tá, não demore, vamos começar na escola local hoje.- aviso, empurrando a mala com o pé para a parede.- Tenho quase certeza que vi uma lanchonete à três quadras daqui.
- Adoro x-bacon de café da manhã.

Jogo a troca de roupa sobre a cama e vou para a sala, sem em importar com minhas roupas. Me sento no sofá e abro o laptop e sintonizo na frequência de rádio da polícia e começo a revirarr as caixas, atrás das mochilas. Onde enfiou as malditas mochilas?

- Querendo achar algo? - uma voz masculina veio de trás de mim, da porta da sacada, me viro lentamente.
- Olá...- suspiro, sem me importar por estar vestida apenas de calcinha e regata.- Peter.
- Como tem passado, ?. - ele sorriu, caminhando lentamente até mim, parando dois passos de distância de mim, me olhando como se eu fosse sua presa.
- Como se você se importasse. - retruco e rio brevemente, olhando para ele.
- O que te traz a minha acolhedora cidade? - ele se aproximou mais um paço.


Há muito tempo atrás, quando eu visitei Beacon Hills pela primeira vez, época que Peter era apenas um rapaz, eu acabei o tornando um de meus "casos de verão", o cara sabia como deixar uma garota louquinha, e devo dizer que o tempo só lhe fez bem.

- Vim a trabalho. - endireitei a postura, sentindo a corrente de ar frio que entra pela porta me fazer arrepiar. - Não pretendo ficar por muito tempo.
- Ah, é uma pena. - ele responde, a malícia transbordando em suas palavras.- Poderíamos nos divertir muito.
- Eu tenho mais o que fazer, Peter, se sua conversinha de boas-vindas já foi dada, - sorrio docemente.- peço que se retire.
- Continua a de sempre...- ele riu levemente, me medindo dos pés a cabeça, como se fosse me agarrar, e se afastou, indo para a sacada outra vez, parando no meio do caminho.- Imortalidade te cai bem, Blackburn.

Rio, ele pula da sacada. Ouço o chuveiro desligar e torno a procurar pelas mochilas, fingindo que nada aconteceu. nunca gostou de Peter.
Da primeira vez que viemos para cá, e eu conheci o Hale, ela continuava me dizendo que ele não prestava. Ainda bem que ela sempre soube que quem não presta sou eu.

- O que está procurando? - veio para a sala, secando os cabelos ruivos com a toalha.
- Nossas mochilas.- olho brevemente para ela, voltando a revirar a caixa.
- Acho um saco a gente ter que ficar estudando.- ela bufa, se encostando no braço do sofá.- Eu já sou formada. E em Harvard, Harvard!
- Sim, e se estou certa, seria estranho uma garota de 18 anos aparecer por ai com um diploma dos anos 80. - olho para ela, dizendo o óbvio.
- Você também deve estar brava por não poder usar seu diploma de Oxford...- resmungou ela.
- Tem diferença entre querer e poder, e eu não quero usar o meu.- jogo a mochila finalmente achada para ela, tiro a minha da caixa e aumento o som do laptop. ela me olha com uma cara que me faz automaticamente lembrar dos anos 20, quando morávamos em Chicago.

Flashback On

Eu me sentei na cadeira, o vestido de miçangas tilintando, eu sorri, alta por conta dos vários Martinis que já havia bebido, e quanto mais bebia, mais queria dançar. puxou levemente meu braço, um sorriso bêbado tomando conta de sua face.
- Que os anos 20 nunca acabem, minha irmã!- disse ela, tentando soar mais alto que o jazz que tocava, ela me passou uma taça cheia de gim. Mais martini.
Eu dei uma gargalhada gostosa, tirando um cacho dos olhos, dando um longo gole no Martini. Um homem, alto e lindo, parou ao meu lado, sorrindo.
- A senhorita me daria à honra de uma dança? - ele sorriu, galanteador, uma música animada começou a tocar
- Claro ... - olhei para ele, esperando o mesmo dizer seu nome.
- Stefan, me chamo Stefan.- ele sorriu de canto, pegando minha mão.

Flashback Off

Entrei embaixo do chuveiro e girei o registro, sentindo a água quente cair em minha cabeça. Minha tempora latejou, minha visão começou a ficar turva. Conheço bem essa sensação. Me virei de costas para a parede, deslizando até o chão do box, senti meus olhos tomarem a forma sobrenatural, e a visão começou.

Eu estava no pé de uma colina, um homem grande e alto corria a minha frente, um grito cortou o silêncio da noite sem luar.

- Derek!- alguém berrou.
A visão subitamente mudou, agora eu estava em uma sacada, uma forte chuva caia. Havia um casal sentado na escadinha na entrada, a moça disse algo que não pude ouvir e o rapaz a abraçou, ela se aninhou em seus braços, e a única coisa que me chamou mais a atenção foi a tatuagem de duas listras, uma mais grossa que a outra, no braço forte do rapaz, então tive um vislumbre de um par de olhos azuis.
Pisquei repetidamente, sentindo o peito subir e descer, com a respiração descompassada. Estiquei a mão até o registro e o girei até o final, sentindo a temperatura da água esfriar, me arrastei para baixo da água, sentindo todos os pelos do meu corpo se eriçarem. Respiro fundo, controlando o ataque de pânico que tenho certeza que vai me atacar.

- ? - apareceu na porta do banheiro, me olhando preocupada.- Você está ai há 30 minutos...

Levantei o rosto, ela me analisou, percebendo que eu havia, finalmente, tido uma visão. Ela veio até o box, abrindo a porta de vidro e se enfiou dentro do box, fechando o registro.

- Aconteceu, não é? - ela me enrolou em uma toalha, me segurando e levantando do chão.- Foi muito ruim?
- Você sabe que não posso te dizer nada...- sussurrei, me apoiando nela. aguenta o meu peso vezes três.

Eu senti meu corpo tremer, me ajudou a sentar na cama. Não importa a intensidade da visão, ela sempre mexe com meu corpo, me deixa zonza e... frágil.

- Podemos ficar aqui hoje, , dane-se essa escola besta.- sugeriu ela, tirando um fio de cabelo que stava grudado em minha testa.
- Não, precisamos ir. - e sim, isso envolve minha visão.- Você mesma disse que Mr. M já fez o depósito de metade do dinheiro.
- E você mesma disse que não precisamos desse dinheiro. - retrucou.

POV Off

Blackburn POV

Enrolei em um roupão felpudo, que tirei de uma caixa qualquer. Ela me olhou, os lábios brancos e as mãos tremendo. Malditas sejam essas visões, odeio vê-la assim.

- Nós vamos.- ela disse por fim, tornando minha argumentação inútil, bufei e fiquei em pé.
- A culpa não vai ser minha se correr algo errado.- digo, voltando para o quarto.- Temos duas horas.

Uma hora depois estacionei o carro no estacionamento desta escola estúpida, digerindo um último donut de vanilla. desceu do carro, ela ainda estava palida, mas a leve maquiagem que cobria seu rosto disfarçava, desci e travei as portas
- Você tem certeza que está bem?- a olhei outra vez, colocando a alça da mochila no braço, o par de óculos escuros facilitou minha visão no sol.- Podemos voltar...
- Sim, eu estou bem.- ela responde, jogando a mochila sobre o ombro.- Vamos logo.
Caminhei ao seu lado, subindo a escadaria da entrada da escola, parecendo estar com uma tremenda ressaca de tanto que meus olhos ardiam. Empurrei a porta e segurei para passar.
Um garoto passou por nós, a única coisa que mais me chamou a atenção foi a tatuagem de duas listras em seu braço, uma mais grossa que a outra. E o poder que senti emanar dele, um poder que só senti uma vez na vida, há 100 anos atrás.
O poder de um alpha genuíno.

Capítulo 2


Pisquei repetidamente para assimilar o que minha habilidade acabara de me dizer. Um alpha? E um genuíno? Em Beacon Hills? Eu sabia que este lugar tinha poder, mas não tanto. estalou os dedos em frente aos meus olhos, e só assim que me toquei que ainda estava parada em frente à porta.

— O que foi? — perguntou , o cenho franzido.
— Eu senti uma coisa, mas meu radar deve ter dado pane. — Dei um peteleco na minha própria cabeça. — Vamos logo falar com a diretora.


Bufei quando tive que olhar pela quinquagésima vez para a plaquinha na porta, que indicava que aquela sala pertencia a Natalie Martin. Sem contar que as aulas haviam começado faz 20 minutos. Não que eu me importe com isso.

— Vocês são e Jamesson? — ela sorriu, o brilho azul de seu vestido reluziu com a luz artificial da secretaria. Obrigado, Dan, por nos emprestar seu sobrenome. — Entrem, por favor.

Ela abriu passagem para mim e . Eu entrei na frente, fazendo uma atenta varredura pelo escritório da diretora. Se há uma coisa que aprendi com todos esses anos de mercenária é sempre estar preparada para ter um plano de fuga, porque nunca se sabe quem realmente quer matar você. Os inimigos que fazemos em nossos trabalhos são o que eu costumo chamar de ossos do ofício.

— Então, senhoritas... — Natalie sorriu amarelo, folheando uma pasta de papel pardo. — Aqui diz que são emancipadas, o que quer dizer que são responsáveis por suas próprias matrículas. Interessante...

estalou, nervosa, os dedos de uma mão, e eu senti a superfície fria da pistola no coldre, preso na altura de minhas costelas, roçar em minha pele, o que me deu um profundo arrepio. Natalie Martin tinha uma aparência normal; o cabelo levemente ruivo cortado no estilo chanel acentuava as feições com leves rugas, mas, mesmo assim, eu senti, vindo de seu âmago, o poder delas saírem. Eu sabia reconhecer uma banshee quando via uma, mesmo uma que negasse e reprimisse com tanta veemência algo que fazia parte dela. e eu assinamos alguns papéis, trocamos algumas palavras com a diretora e nos retiramos, para tentar chegar até a nossa sala de Biologia, que, segundo a Sra. Cornell, responsável pela secretaria (que fedia a esmalte e acetona, por sinal), disse ser no quinto corredor. Agora, cabia a nós descobrir qual era o maldito quinto corredor. Estávamos paradas iguais duas idiotas no meio do corredor, tentando achar a merda da sala de Biologia, até que uma voz feminina nos chamou:

— Hm, com licença, estão perdidas? — Virei e vi uma garota bonita, de cabelo castanho ondulado, na altura dos ombros, e ela me estendeu a mão. — Me chamo Allison.
— sorri e apertei sua mão. Ela virou-se para .
— Eu sou — minha irmã sorriu, apertando a mão da moça. — Somos novas aqui. Eu e minha irmã estamos à procura da sala de Biologia.
— Ah, eu estou indo lá agora, posso levar vocês, se quiserem — ela sorriu. Parecia o tipo de garota que valia a pena ter como amiga. Pena que, quem era nosso amigo, sempre acabava com a vida em jogo.
— Seria de grandessíssima ajuda — respondi, arrumando a mochila no ombro.
— Então, vamos lá — ela sorriu, colocando uma mecha da franja atrás da orelha. — Disse que são novatas, né?
— É, primeiro dia de aula. — sorriu de canto, os cachos caindo sobre seus ombros. — É bom já conhecer alguém...
— Claro, posso apresentar vocês a uns amigos meus, se quiserem — sugeriu ela, olhando animadamente para . — Vão gostar de vocês.

Allison parou ao lado de uma porta ainda aberta.

— Aqui é a sala de Biologia. — Allison apontou para a pequena plaquinha escrito “Biology Class’’. — O professor é o Harrison Whitman. Não respirem muito alto, senão, ele vai te mandar para a detenção.

Eu e rimos e seguimos a simpática Allison para dentro da classe. Nos sentamos na última bancada de mármore negro da sala, e Allison sentou-se na da frente com uma garota de cabelo longo e ruivo, linda, que apresentou-se como Lydia Martin, e acabei ligando automaticamente com o nome da diretora.
Depois de 20 minutos de aula, Allison pendeu o corpo para trás na banqueta, fingindo estar se espreguiçando.

— Vou morrer de tédio — sussurrou ela, e Lydia engoliu uma risada.
soltou um risinho e sussurrou:
— O cabelo branco está dando réstia nos meus olhos — ela riu baixinho, o cabelo cacheado preso com um lápis. — Ele é muito chato.
— A conversa de vocês me parece interessante. Compartilhe conosco, senhorita Argent.

enrijeceu a postura. O nome Argent ecoou em minha cabeça. Argent? Argent? Eu quase fui morta por um Argent!

— Estamos falando sobre a matéria, senhor. Como é interessante os seres aclorofilados. — Allison sorriu brevemente.

estava ereta na banqueta, sua face perdeu totalmente a cor. Um homem, 40 anos atrás, quase nos matou e seu nome era Argent. Gerard Argent. Esse é um nome que nunca esquecerei.

— Hum, sei, claro. — Whitman resmungou, voltando a escrever o texto no quadro negro.

piscou repetidamente, tornando a sorrir distraidamente, mas eu percebi, por sua postura, que ela estava alerta com a garota Argent. A cicatriz que corria do meu tórax até a coxa queimou. Não podíamos ser mortas, mas podíamos ser gravemente feridas.

A aula correu rapidamente, depois do incidente com Whitman. Fomos saindo da sala. estava dura, conversando animadamente com Allison. Essa infeliz merece um Oscar em certas horas.

— Beacon Hills será um lar temporário. — contou, soltando o cabelo. — Eu e nos mudamos muito.
— Eu e minha família também éramos assim. Beacon foi nossa última parada — ela sorriu, amigável. Parecia ter gostado mesmo de .

O segundo tempo foi aula de Química. Tirei alguns cochilos durante a aula, a professora me deu alguns milhares de olhares mortais quando me acordava e perguntava algo envolvendo a tabela periódica e eu sabia responder mais corretamente que ela. Fato resultante de fazer o colegial umas 15 vezes.
Íamos saindo da sala outra vez; desta vez, seguindo para o vestiário feminino. Terceiro tempo era Educação Física, algo que sempre fui boa. Empurrei a porta e entrei, olhando o papel que a moça da secretaria havia nos dados, procurando a parte que dizia o número dos nossos armários no vestiário. apontou para a numeração na folha.

— 24 e 23. — Ela começou a olhar para os números dos armários. abriu seu armário, tirando a regata branca. Olhei para as cicatrizes espalhadas por seu corpo; havia marcas de tiros, facadas, mordidas de lobisomens, vampiros. Algo bom de ser uma bruxa milenar é saber como neutralizar o veneno de varias criaturas. E esconder ferimentos de humanos, esse, sim, é mais que útil. Abri o armário e joguei a blusa sobre a prateleira, tirando a baby look do uniforme de Educação Física lá de dentro; a blusa, por ser um número menor, colou-se em mim. ficou resmungando, o short de lycra colado em sua bunda. Ela estava hilária, para mim, e para o público masculino da escola, um monumento. Ela calçou um par de tênis, que trouxera na mochila, amarrando um coque alto no cabelo.

— Ouse rir e eu arrebento sua cara, vaca — ameaçou ela, me olhando com cara de assassina.— E em público. Humilhação em dobro.
— Poupe-me, — engoli uma gargalhada, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo, e apertei seu quadril delineado. — Você está deliciosa, maninha.
— Lasque-se.

Uma garota empurrou a porta dupla que dava acesso ao campo da lacrosse. Esperei o grupo se dissipar e fui a um pedaço do campo, junto do resto do pessoal, erguendo uma perna rente ao corpo, estalando quase todos os ossos e alongando todos os músculos. Repeti o processo com a outra.

— Se fosse para ser humilhada, nem vinha à aula, — brincou Lydia, rindo brevemente, e estalou o pescoço, rindo.
— Anos de prática, meu amor. — piscou, alongando os braços, e Lydia seguiu sua deixa, alongando-se. — Se quiser, eu te ensino.
— Vocês são más. — Allison surgiu, usando a mesma camiseta vermelha e short branco que nós, o cabelo ainda solto. — Não consigo nem tocar meu pé sem dobrar o joelho. Que se danem vocês e suas habilidades de ginastas.

deu um riso nasalado, quase caindo no chão e soltando o próprio pé para recobrar o equilíbrio.

— Você me faz rir, Argent — disse ela, o “Argent’’ saiu com um perfeito sotaque francês. Allison a olhou com uma expressão desconfiada. mordeu rapidamente o lábio. Ela estava bolando uma mentira. — Já fiz aulas de francês.

Muito mais que isso, . Moramos por 12 anos na França, na época vitoriana. Maneira eficiente de aprender francês.

— Ótimas aulas, hein. — Allison sorriu.

Bobby Finstock, ou Coach, como a maioria chamava, entrou no campo usando o apito, que vive pendurado em seu pescoço, para chamar nossas atenções.

— Como vejo que já se alongaram, vão ter que dividir o campo com os garotos de lacrosse. Tem a opção de futebol, corrida ou escalada. Escolham e não me encham o saco.— Finstock resmungou a última parte, o embolo de adolescentes se espalhou por metade do campo. Sorri, sugestiva, para , que entendeu meu olhar e correu na minha frente para o paredão de escalada, pendurando-se na primeira pedra.

POV OFF.

O time de lacrosse adentrou o campo; os novatos do primeiro ano recém inscritos para o time, ao seu encalço. Os mais atirados começaram a olhar e assobiar para algumas meninas; umas riam, e outras, respondiam com muxoxos irritados. O que chamou a atenção do atual capitão do time foi um tanto de cabelo ruivo que escalava habilmente o paredão, sem equipamento de segurança algum. A moça virou o rosto para o lado, com um sorriso travesso no rosto. Era linda. Daquela distância era possível ver com clareza os lábios rosados e as leves sardas espalhadas no rosto, os olhos verdes brilhavam. Stiles, o melhor amigo de Scott, lhe acertou um tapa estalado na cabeça.

— Terra para Scott! — Stiles estalou repetidamente os dedos, com o cenho franzido. — Estava olhand... Ow!

Stiles seguiu a linha de visão de Scott, agora, vendo as duas garotas escalando o paredão, ambas lindas.

— A ruiva ou a morena? — Stiles arqueou uma sobrancelha, segurando o taco embaixo do braço e colocando suas luvas. — Deve ser a ruiva, a morena é muito... Não seu tipo.

Scott riu com a última parte, colando suas luvas, e começou a manejar o taco, tirando os olhos da ruiva desconhecida.

— Não estava olhando para ninguém — mentiu o rapaz, estalando suas costas. — Vamos começar logo esse treino.

Lá no paredão, chegou ao topo, antes de , erguendo os braços, em sinal de vitória, e soltando um urro de alegria.

— Ganhei, Garota-Ferrugem! — fez uma dancinha da vitória ridícula. bufou com a menção de seu apelido de infância.— Sou mais rápida que Barry Allen!

riu, sentando-se ofegante no topo do paredão e tirando uma mecha de cabelo do rosto suado.

— Me chame assim de novo que eu te jogo daqui. — A mais nova ofegou, indo à escada na lateral do paredão e começando a descer da estrutura. — Vamos correr um pouco.

desceu o paredão logo atrás da irmã e foram ao início da trajetória da pista de corrida. Lydia e Allison conversavam aos cochichos, provavelmente algo bem particular, já que pararam assim que as irmãs chegaram.

— Vocês são boas, hein! — Brincou Lydia, o sorriso brincalhão realçando as maçãs rosadas do rosto da moça.
— Na nossa antiga cidade, havia bastante penhascos propícios para escaladas. Depois de um tempo, pega-se gosto pela coisa. — sorriu desconfortável. Já viajara o mundo, mas sempre ficava desconsertada quando elogiavam as habilidades que adquirira com o passar dos anos.
— Estavam falando sobre o que? — desconversou, notando o constrangimento da irmã.
— Hum, sobre uma festa que uns amigos estão organizando — omitiu Lydia. O real assunto da conversa não passava nem perto disso. — Uma Rave Neon.
— Vai ser no fim de semana. Venham, se quiserem. — Allison concordou. — Vai ser legal, o pessoal todo vai estar lá.
— Seria uma boa, não acha, ? — sorriu, olhando para a irmã. Estava curiosa para saber se era apenas Daniel quem sabia dar umas boas festas.
— Estou louca para tentar Daniel com algumas fotos de festas que não são dele. — remexeu os dedos, uma expressão maligna e cômica no rosto, e Lydia riu.
— Quem é Daniel?
— Um velho amigo.

A conversa se estendeu até o fim da aula, momento em que Lydia e Allison foram ao encontro de três rapazes do time de lacrosse: um era magricelo e pálido, de cabelo escuro; o outro era alto e de pele branquinha, o cabelo castanho formando leves cachos, realçando a mandíbula destacada; e o último era menor que o segundo e da altura do primeiro, de pele bronzeada, com cabelo escuro, o maxilar torto e olhos cor de avelã, a tatuagem das duas listras destacadas no braço forte. Eram Stilinski, Lahey e McCall, respectivamente, segundo seus uniformes.

— Meninos, estas são e . — Apresentou Lydia, apontando para cada irmã. Scott sorriu de canto ou ver que era a ruiva que escalava o paredão. — e , estes são Stiles, Isaac e Scott, nossos amigos.

cumprimentou cada um com um sorriso acanhado, sua cabeça doía com a intensidade que sentia do poder de Scott Mccal emanar, como se houvesse milhares de martelos batendo em seu crânio. Maldito radar sobrenatural. sorriu abertamente, dando um leve beijo na bochecha de cada; cumprimento brasileiro adquirido há muito tempo. As bochechas de Stiles coraram quando beijou a mesma, murmurando um “prazer em conhecê-lo’’ para cada. Mentalmente, a Blackburn gravou o nome Scott McCall na cabeça, o rapaz que aparecera abraçado à sua irmã naquela tão confusa visão.

Blackburn POV ON.

olhou fixamente para a tatuagem do garoto McCall por alguns segundos, ainda mantendo o falso sorriso distraído no rosto. Algo a perturbava. Nosso plano era conhecer o grupo e descobrir o máximo que podíamos sobre esse nogitsune, porque, afinal, não poderíamos enfrentar algo que nem sabíamos como matar, e essa garota Argent facilitou muito nosso trabalho de nos infiltrarmos para matar esse demônio flango.

— Vocês também vão à festa que a Lydia mencionou? — perguntou, amarrando o cabelo. Notei um leve olhar do garoto McCall para ela, tão discreto que nem ela percebeu. Sempre lerda essa minha irmã.
— Sim, sim — respondeu o tal Isaac Lahey, que, até pouco, estava conversando com Allison. — Vocês vão?
— Creio que sim, as garotas nos convidaram — respondi, e Stiles, que caminhava ao meu lado, sorriu. — Faz um bom tempo que não vou a uma boa festa...

Seguimos até a porta dos vestiários, conversando animadamente. conversava com Scott e Allison, e Isaac também, restando apenas eu, Stiles e Lydia, que conversávamos sobre alguma bobeira das aulas de química, que nem eu estava dando a devida atenção. Quando chegamos às portas dos vestiários, o grupo separou; nós quatro para um lado, e os três para o outro. Segui até meu armário, tirei a blusa e joguei dentro do armário, pegando uma das toalhas na última prateleira, e fui para o chuveiro. Tirei o short e me enfiei embaixo da água gelada, meus antebraços doeram com o esforço da escalada sem equipamentos. 20 metros podem parecer fáceis, mas estão longe disso. Passei a mão pelo rosto, tirando o cabelo ensopado dos olhos. Olhei para a cicatriz que seguia desde minha coxa até o quadril, me lembrando de como a conseguira:

Eu estava em um bar, com meu uniforme e bebendo um belo copo de uísque. Eu estava em um bar de mercenários, onde todos conheciam o nome Blackburn, mas ainda era um mistério a quem pertencia. Um homem gordo e mal encarado estava sentado no balcão, conversando com o barman: “Mas seria impossível existir um mercenário que ninguém sabia quem é”. O barman respondeu: “Elas matam tudo que mandam. Não se sabe da onde vieram, seus nomes ou rostos, mas sabem que uma usam uma bandana vermelha para tapar o rosto, e a outra, uma máscara, que cobre metade do rosto. Não deixam vestígios ou marcas, apenas um B escrito com o sangue do alvo no local. Se elas têm um alvo em suas costas, deixe-me lhe dar um conselho: corra’’. O gordo riu histericamente. “Aposto que fodo as duas por vinte euros’’. Aquilo feriu meu orgulho. Mesmo que dito por um gordo fracassado e bêbado, puxei a bandana até o nariz e levantei da mesa, indo calmamente em direção ao balcão. O barman me olhou com a sobrancelha arqueada. Eles normalmente não recebem mulheres que não sejam putas. Encaixei o indicador direito no buraco na base do facão, puxando a lâmina da bainha e girando a faca. “Eu quero ver você tentar, porco nojento’’. “Então, você é uma dessas Blackburns? Mas que piada’’. Ele quebrou a garrafa, fazendo lascas pontiagudas em quase toda a volta do cilindro e segurando-a como quem segura uma empunhadura. Pulei para frente, prendendo seu pescoço entre meu antebraço e a lâmina da faca, e ele ergueu o braço, as pontas da garrafa rasgando minha pele desde o meio da coxa até o osso do quadril. Aquilo me deixou tão puta que o decapitei, molhei a ponta dos dedos cobertos pelas luvas no seu sangue e desenhei o grande B circulado em seu peito flácido e peludo, engrossando a voz para me dirigir ao resto dos mercenários que estavam no bar: “Que isto sirva de aviso para aqueles que ousarem nos insultar. As Blackburn estão em todos os lugares e em lugar nenhum, então vamos matá-los sem misericórdia”. Chutei, sem muita força, o corpo sem cabeça do gordo, rindo mentalmente com os olhares incrédulos que os mercenários me lançavam. Essa fora uma época em que eu e precisávamos ganhar respeito no nosso meio de trabalho e, sendo uma mercenária, não tinha maneira melhor que matando.

Chacoalhei a cabeça, afastando aquelas lembranças que, considerando o tempo em que aconteceram, pertenceriam à outra vida. Puxei a toalha do gancho, me enrolando nela, e desviei de algumas garotas, voltando ao vestiário. já estava lá, sentada no banco e calçando suas botas. Ela sorriu de canto ao me ver. Abri meu armário, tirando meu bolo de roupas lá de dentro e me vestindo.

— Estou começando a achar que esse nogitsune será meio difícil de matar. Deveríamos fazer o reconhecimento dos locais de ataque — sussurrou ela quando ninguém estava perto. Passei os dedos pelo cabelo, tentando, em vão, desembaraçá-los. — Para termos ao menos uma noção, caso seja necessário algum plano de fuga.
— Eu faço. Estou mesmo querendo arranjar algo pra fazer; talvez, rever alguns amigos... — Ela me olhou com uma expressão de desagrado.
— Nem se atreva a ir atrás daquele garoto Hale, — ela advertiu.
— Ele nem deve mais ser um garoto, . — Fiz de conta que não o tinha visto desde a última vez que estivemos aqui. — Deve estar aparentando ser mais velho que nós.
— Nós fazemos isso pelo dinheiro, . Você lembra-se melhor que eu do que aconteceu da última vez: Thalia Hale morreu, e nós tivemos que viver na sombras por quase 12 anos. Essa família Hale leva destruição pra onde quer que vá.
— Não é como se nós fossemos muito afortunados de sorte — respondi, tentando domar o meu cabelo, que, por não ter sido lavado com condicionador, estava mais de mau humor que eu. — E eu só estava tirando com a sua cara.

bufou. Dei uma risadinha e tranquei meu armário, seguindo para o refeitório, sem esperar pela minha irmã. O almoço seguiu calmo, bebi só o refrigerante de limão, que peguei na maquina, e comi uma barrinha de cereal de pasta de amendoim, visto que o sanduiche que a senhora da cantina me serviu tinha uma aparência mais que duvidosa, mais puxada para nojento. Nem pagando, eu como esse troço. sentou-se ao meu lado. Ela cutucou o sanduiche, que, daquela distância, parecia ser de patê de atum, o que só o fazia parecer mais nojento ainda. Soltei um leve risinho, estendendo uma nota de dez dólares e mordiscando minha barrinha. Ela murmurou um “obrigada” e levantou-se, indo à maquina de comida. Olhei discretamente ao meu redor, procurando pelo grupinho; no caso, Allison, Lydia, Isaac, Stiles e Scott, não encontrando nenhum deles. Maravilha. O resto do dia se estendeu calmamente, passando rápido. Sou obrigada a confessar que dormi nas três últimas aulas. Estava muito entediada para prestar atenção em qualquer outra coisa, além do maldito nogitsune. Nunca temi quase nada na vida. Sempre todas as criaturas que conheci foram fáceis de lidar (lê-se: matar), mas nunca, na vida, nós havíamos enfrentado um nogitsune, só sabíamos que era ligado aos mitos de raposas trapaceiras do folclore japonês, ou era coreano? Ah, não me interessa, todos gostam de flango mesmo.

Saímos da escola por volta das quatro, ainda sem ter nenhuma notícia do grupo metido a detetive sobrenatural. Eu e paramos em um café, nos sentamos em uma mesa mais afastada da entrada, pedi uma xícara de café e um pedaço de torta de frutas que estava na vitrine, parecendo bem apetitosa, e pediu uma xícara de chá e um croissant com recheio de nutella. Gorda como sempre. Tirei de dentro de minha mochila o bolo de pastas de papel pardo, que Mr. M havia nos entregado, com dados sobre o nogitsune e informações que possam, eventualmente, nos ser úteis. Mas, com esse tanto de papel, duvido que alguma coisa que estava ali pudesse nos ser realmente útil.

— Estou até imaginando o tédio que será isso. — comentou, enquanto eu dividia o bolo de pastas em duas partes iguais.

E nosso fim de tarde se estendeu assim, lendo e pesquisando. Ah, não podemos esquecer o “comendo”.

Capítulo 3


Eu me joguei no sofá, sentindo os músculos da panturrilha doerem pela fadiga. Havia me esquecido o quão exaustivo e irritante era ir à escola. Já fiz isso tantas vezes que até poderia exercer o cargo de professora. De química, de preferência, mas, provavelmente, a polícia não aprovaria uma professora ensinando os alunos a fazerem bombas.

— O que vamos jantar? — berrou , do quarto. Mas que caralho, acabamos de comer! — Acho que tem uma anaconda no meu estômago.
— Não sei, comi três pedaços de torta — berrei em resposta, soltando o cabelo. — Eu vou sair e investigar os locais em que o nogitsune apareceu.

Puxei, debaixo do gabinete da pia da cozinha, o baú recheado de armas que levamos nos trabalhos; destranquei o cadeado com a chave, que sempre está pendurada em meu pescoço, levantei a tampa e puxei os compartimentos para os lados. Parecia uma imensa caixa de maquiagem, só que melhor, bem melhor. Peguei duas Smith&Wesson e comecei a abastecê-las com balas, preparando mais alguns pentes extras. Peguei uma baioneta militar e um facão. Destranquei o compartimento escondido, abrindo a gaveta, vendo os dois “uniformes’’ dobrados um do lado do outro; a bandana vermelha sobre o couro parecia brilhar. Apanhei o uniforme e tranquei a outra gaveta, fechando o baú e voltando ao gabinete.
Comecei a me despir na cozinha mesmo, afinal, não havia ninguém além de ali. Vesti a calça de couro e as botas de solado reforçado, tirei a regata e vesti o colete sobre o sutiã, fechando o zíper até o final. Amarrei a bandana no pescoço, solto o suficiente para poder puxá-la para cima, até cobrir o nariz, e arrumei o cabelo dentro do capuz, distribuindo minhas armas pelo corpo.

Empoleirei-me na janela. Quando Myra saiu do quarto, ela me olhou, enquanto tirava os resquícios de maquiagem dos olhos.

— Não morra — disse em romeno, uma pequena tradição nossa fazer isso.
Lhe dei um sorriso travesso e respondi com uma piscadela:
— Você sabe que isso é impossível.

Ela riu, e eu pulei do parapeito para o beco que há numa das laterais do prédio, usando a escada de incêndio para chegar ao topo. Pendurei-me no parapeito do terraço, usando uma mão, e me joguei para cima com a outra, e fiquei em pé, começando a correr. Pulei para o prédio vizinho. Fiquei pulando de um terraço para o outro, até chegar ao hospital, o primeiro local. Comecei a examinar cada canto do terraço, tentando achar alguma evidência que nos ajudasse, ao menos, a ter alguma referência de pesquisa para darmos a Dan. E acabei com o quê? Um monte de vagalumes mortos.
Enrijeci a postura quando senti outra pessoa comigo. Ergui a bandana até o nariz, com um leve sorriso no rosto. Estava começando a achar esta cidade entediante.

— Quem é você? — E ainda era homem. Hmmm, mais interessante ainda. — O que você quer aqui?

Virei-me, dando de cara com uma baita montanha de músculos. Uma bela montanha de músculos.

— Não acha que devia tratar uma dama com mais educação? — engrossei a voz para falar. Franzi o cenho, parecendo ofendida, e peguei um vagalume, guardando num saquinho e pondo no bolso interno do colete. — Sua mãe não lhe deu educação?
— Não vou perguntar de novo — ele retrucou. Limitei-me a dar uma gargalhada e dar meia volta. Ele ergueu o braço, para me dar um golpe, então virei num bom reflexo e segurei sua mão. Ele apareceu se surpreender com minha força. — O veneno da mordida fede em você.

Rapidamente, chutei-o para longe, pronta para sacar a Smith&Wesson carregada com prata, mas ele foi mais rápido, tentando me acertar um murro, só tentando. Esquivei três vezes consecutivas de murros, o peguei desprevenido e lhe dei uma cabeçada que fez seu nariz começar a sangrar. Dei um murro logo em seguida, dando três tiros em sua barriga, enquanto me jogava do parapeito.

Scott foi acordado durante a noite com três violentas batidas na porta de sua casa. O rapaz desceu as escadas, ainda sonolento, usando nada além de um samba canção como pijama. Girou a chave e a maçaneta, puxando a porta e dando de cara com Stiles.

— Derek sumiu — anunciou Lydia, que estava ao seu lado. — Sumiu mesmo.
— Como? Você tem certeza? — perguntou o rapaz, abrindo passagem para os amigos entrarem em sua casa.
— Sim, foi Peter quem veio pedir nossa ajuda. — Stiles foi quem respondeu desta vez. Scott piscou rapidamente, parecendo acordado ao ouvir a frase.
— Vou me vestir. — Stiles fez que “sim” com a cabeça, e Lydia recostou-se no sofá. Também havia sido acordada no meio da noite. Usava legging, um par de nike air preto e branco, junto de um moletom de academia roxo, e o cabelo preso num rabo de cavalo, e, mesmo sem qualquer adereço ou maquiagem, continuava linda.

Cinco minutos depois, McCall desceu as escadas, usando um par de coturnos, jeans gasto e um moletom de zíper, para cobrir o tronco desnudo, o rapaz colocou o celular no bolso, junto às chaves de casa.

— Okay, vamos encontrá-lo.


Pendurei-me no cano ao lado da janela aberta e me joguei para dentro, caindo em pé, sem emitir som algum. me olhou; estava no sofá, com um pote de pipoca nos braços e usava uma camiseta enorme dos Patriots, o cabelo trançado caia sobre o ombro esquerdo.

— Não achei muita coisa — respondi, prevendo a pergunta de minha irmã e tirando do bolso o saquinho com o vagalume morto, e joguei para ela. — Só um monte desses.

Comecei a tirar o uniforme, me jogando no sofá, ao lado de , que abriu o saquinho e pegou o vagalume por uma das patinhas, analisando atentamente o bichinho.

— Onde achou isto?
— No hospital que Mr. M havia dito ser o lugar onde apareceu primeiro, o único lugar onde o grupinho não esteve. Tem um monte desses no telhado — expliquei. — Um cara apareceu lá, querendo saber quem eu era. Lobisomem. Dei três tiros de bala de prata. Deve estar morto agora.
— Eu disse que não era pra chamar muita atenção, ... — me repreendeu, voltando o vagalume no saquinho e me devolvendo. — Mandamos isto para o Dan amanhã.

— Balas de prata — lembrou Scott ao olhar os ferimentos de Derek, que ainda convulsionava, e deitou-o em uma das macas de Deaton, com ajuda de Stiles. — Ele está muito pálido...

O Hale havia perdido bastante sangue, e não havia sido nada generosa quanto aos tiros. Uma bala estava alojada num osso da costela, outra havia perfurado o estômago e uma abriu um buraco de saída, mas não saiu. Precisavam da pólvora da bala e precisavam agora. Deaton tirou a bala das costas de Derek com uma pinça, vendo o B marcado à faca na base da bala.

— Não foi nenhum caçador que atirou nele. — Deaton contou, fazendo a face de preocupação de Scott piorar. — Foi alguém bem mais difícil de achar. Primeiro temos que tentar estabilizá-lo até conseguirmos as balas.

Em pouco tempo, Deaton fez sua mágica, então Derek parou de convulsionar.

— Este B, que está na bala, não pertence à família de caçador algum. Desde antigamente, há lendas sobre duas mercenárias, conhecidas apenas como irmãs Blackburn. Não se sabe como — começou o veterinário, e os três o ouviam atentamente —, mas, se alguém as contrata para matar você, elas o fazem sem deixar provas. Não existe um alvo que não tenham eliminado. Elas deixam apenas um B feito com sangue do alvo no local, como assinatura, para todos saberem que elas estiverem ali e que devem temê-las. Só vi balas assim uma vez na vida; na mesma semana, uma pack inteira de lobisomens foi morta. Mas, ao que parece, não estava em seus planos matar Derek.
— De qualquer jeito, vamos nos dividir e tentar rastreá-las — o rapaz suspirou, coçando a nuca; parecia cansado assim como o restante. — Eu e Aiden cobrimos um lado da cidade, Peter e Ethan o outro. Isaac e Allison, a floresta. Stiles e Lydia, o restante da cidade. Vamos achar quem disparou essas balas.


— Preferi deixar o resto para ser vistoriado amanhã. Não seria muito bom deixar o lobisomem ter uma amostra do meu cheiro — expliquei, prendendo os cabelos num coque. — Nem fodendo que eu iria dar chance para qualquer lobisomem nos rastrear.
— Sabe quem era o cara? — perguntou distraída com a reprise do programa da Oprah, que passava na TV. — Ou, ao menos, se ele era de alguma família?
— Um Hale não teria a insolência de me atacar, não depois de Peter. — Pesquei uma pipoca dentro do pote. — Deve ser algum transformado pela mordida. Única explicação que me faz mais sentido.

— Tentem cobrir o máximo de terreno possível, Derek não tem muito tempo. E precisamos achar esse maldito atirador. — Scott bocejou, bagunçando o cabelo. — Vamos nos manter ligados pelo celular. Algo relevante, o que quer que seja, liguem.

As duplas concordaram, indo para seus respectivos carros. Scott subiu em sua moto, acompanhado de Aiden, seguindo em disparada para a cidade. Não deixaria outro amigo morrer. Não mesmo.


Joguei-me na cama, me aninhando no travesseiro, pronta para dormir, quando senti aquela mesma pontada na têmpora. Duas em um dia só? Só pode ser brincadeira. Abri os olhos, vendo a visão tomar forma.

Eu estava no que me parecia ser um baile de máscaras. Eu usava um vestido de renda preta, com um decote bem chamativo, e uma máscara dourada cobria metade do meu rosto. E eu dançava com alguém, até que meu acompanhante me conduziu, e pude ver seu rosto: o infeliz no qual atirei. Mas o que eu senti ao vê-lo tão perto, sentindo o leve cheiro amadeirado de sua pele, foi diferente. Não queria que ele saísse de perto de mim e a vontade de beijá-lo foi maior ainda. Eu quase podia ver o triskelion tatuado em suas costas, que, por mais que eu não pudesse ver, sabia que estava ali, por debaixo do smoking.

A visão se desfez como fumaça.

Lydia bufou irritada quando deram a quinta volta por um quarteirão do centro. Não haviam achado nada e duvidava se iriam.

— Não achamos nada e duvido que acharemos. — Stiles respondeu, o telefone ligado no viva voz. — Sumiram, e Derek não parece muito apto a dizer como se pareciam.
— Peter e Ethan estão dando uma olhada no hospital. Eles devem achar alguma coisa, não é possível — respondeu o alpha, sem deixar sua real irritação aparecer em seu tom. — Liguem, caso acharem uma agulha sequer.

E desligou. Aiden voltou o capacete à cabeça, esperando o outro seguir com a moto.


Levantei-me da cama, praguejando em todos os idiomas que conheço e, olha, não eram poucos. Catei o uniforme no chão da sala e o vesti, sem nem me importar em pegar armas, só peguei a Smith&Wesson, junto do pente extra, subindo a bandana até o nariz. Mas que merda, viu? Eu praticamente mato o cara e sou obrigada a salvá-lo porque ele está ligado ao meu futuro? Mas que merda bem da mal feita. Vinte minutos depois, estou seguindo os rastros do alpha, que está dirigindo à toda na rua, enquanto corro, usando um feitiço de velocidade para acompanhar. Ele freia bruscamente a moto, tirando o capacete e dando uma longa fungada no ar. Ele me sentiu. Contei até vinte para que a porta do telhado fosse quase arrombada e o McCall, junto de um dos gêmeos, entrassem. Suspirei profundamente, antes de me virar. Ele me analisou dos pés a cabeça.

— Eu não planejava ferir seu amigo, ele só estava em meu caminho. Apenas um acidente de percurso. Espero que ele ainda não tenha morrido. — Peguei o pente extra e joguei para ele. — Considere isso uma oferenda de paz. Meu problema não é com você.
— O que você queria no hospital? — Ele pegou o pente no ar e o segurou firmemente.
— Meus casos são apenas de meu interesse e do meu contratante. Sigilo profissional. — Estou irritada demais para, sequer, dar tom de brincadeira à frase. — Não deixe ninguém do seu grupinho no nosso caminho e ninguém se fere.

Aprontei-me para pular do telhado, mas ele me impediu.

— Vamos descobrir quem vocês são — afirmou ele, confiante.
— Quero ver você tentar.

Scott dirigia tão rápido que preferia não pensar no tanto de multas que iria tomar pelas trocentas infrações cometidas naquele único trajeto. O resultado foi que, depois de 15 minutos, já havia chegado à clínica. Descendo às pressas da moto, com o capacete ainda na cabeça, entrou no lugar e jogou o pente de balas para Lydia, que rapidamente passou para Deaton, enquanto Stiles abria o portãozinho do balcão, que, por ser feito de Mountain Ash, impedia que todos os lobisomens o atravessassem, uma vez fechado.
O veterinário tirou três balas do pente e começou a “desmontar’’ a bala, despejando a pólvora no primeiro buraco de tiro e pressionando o ferimento. Uma leve fumaça subiu, as veias da barriga de Hale começaram a voltar a cor normal; o preto voltando ao ferimento como se fosse chupado com um canudo. E assim foi com as outras, e a cor começou a retornar ao rosto de Derek.

— Como acharam as Blackburn? — Deaton perguntou, guardando o pente e virando-se para Scott.
— Nós não achamos, ela veio até nós. Disse que não pretendia ferir Derek, que ele só estava em seu caminho — explicou Mccall. — Alertou-me para não deixar nenhum de nós intrometermos nos assuntos delas.
— Isso deve dizer que não estão aqui por nós.
— Conseguiu uma amostra de cheiro? — Deaton perguntou, removendo a agulha de wolfsbane do braço de Derek.
— Não, mas tenho certeza que, se senti-lo de novo, reconhecerei. — Scott bocejou, apoiando-se em uma das bancadas de inox. — É algo completamente diferente do cheiro que qualquer transmorfo* tem, parece algo mais forte e poderoso. Nunca senti antes.
— Alguns diziam que elas eram sobrenaturais por se saírem tão bem matando coisas que ninguém mais conseguia. — Deaton deu de ombros.
— O quê? Agora existem bruxas, ou sei lá o que, também? — Stiles ironizou.
— Você acha mesmo que só existem banshees e lobisomens no mundo sobrenatural, Stiles? — desta vez foi Scott quem respondeu, com uma sobrancelha arqueada.
— Nunca se sabe...
Quem riu desta vez foi Lydia enquanto checava a temperatura de Derek.


O dia amanheceu escuro, nublado e com nuvens carregadas. Passei a madrugada inteira rolando na cama, com aquela maldita visão na cabeça, vendo e revendo a cara do Hale, no qual atirei, e, pior de tudo, me lembrando de toda a família Hale, até do cunhado e dos sobrinhos de Peter. Todos eles morreram naquele incêndio provocado pelos Argents (o qual, segundo os lobisomens, tivemos culpa também), e não me lembro de nenhum infeliz que estivesse vivo, depois do incêndio, para ter essa idade agora. Ou será que só não estava a fim de me dar ao trabalho de conhecer ninguém além de Peter? Provavelmente. Levantei-me da cama, cansada de tentar dormir, peguei alguma roupa dentro das malas e me vesti. Peguei o celular e as chaves do Jeep, pronta para ir atrás de Peter. Descobriria quem era esse maldito. Ah, se iria. 15 minutos depois, estaciono em frente a um prédio no centro, não muito longe da minha atual moradia. Subi até o andar que sei ser o dele. Ser uma bruxa tem muitas vantagens.
Abri a porta, sem bater, e Peter pulou assustado. Ele estava na cozinha, usando apenas uma calça de moletom; provavelmente, acabara de acordar.

— Qual é o nome do cara no qual atirei? — perguntei, sem rodeios, fechando a porta atrás de mim. — Sei que ele é um Hale.
— Quem disse que ele é um Hale? — Peter apoiou-se na bancada da pia, agora, recuperado da minha entrada repentina.
— Não me faça repetir a pergunta. — Sentei-me em uma das banquetas, uma sobrancelha arqueada. Peter sempre foi difícil de lidar. — Eu vi o triskelion. E foi você quem colocou aquele pirralho no meu rastro. Ninguém, de doze anos atrás, está vivo ou ainda mora aqui. Não me tome por idiota, Peter.
— Lembra-se do filho do meio de Thalia? O mais novo que Laura? — Peter apoiou-se na bancada à minha frente. — O nome dele é Derek.
— Um babaca bem metidinho, hein. Thalia tinha cara de quem educava melhor os filhos — comentei, e ele riu. O filho da puta sabe mesmo quando não estou irritada.
— Você pegou leve com ele, obrigado. Única família... Sabe como é. — Peter deu de ombros. — Ele morre, e Thalia volta para puxar meu pé.
— Beleza, o mantenha fora das minhas coisas e fica tudo beleza. — Dei de ombros, pegando um pedaço do omelete, que estava servido no prato sobre a bancada, e como. Acariciei levemente a bochecha do Hale, e ele sorriu, malicioso. O segurei fortemente pelo cabelo e bati seu rosto contra o mármore, ouvindo a rachadura se abrir na pedra. — Ouse colocar mais alguém atrás de mim, e eu faço questão de esquecer os anos de amizade, e arrebento você, doçura. Assim como foi da primeira vez, só que agora vai ser sem dó.
— Sempre adorei esse seu gênio — ele riu. Maldito seja o sarcasmo! — Realmente acha que a primeira vez foi uma briga, ? Porque eu me lembro de uma outra coisa...
— Você é tão idiota que me faz até perder a vontade de arrebentar esta sua cara de galã de Hollywood aposentado. — Soltei-o, dando a primeira risada espontânea desde que cheguei nesta maldita cidade. — A propósito, você está muito bem, Pete.
— Também senti saudades.

Peter Hale poderia ser o rei dos caras babacas, mas uma coisa eu não negava: ele foi um dos poucos amigos verdadeiros que tive na vida. Mas isso não significa que eu não o arrebentaria, se fosse necessário. Sei que ele não pensaria duas vezes, antes de fazer o mesmo comigo.
O dia se arrastou lentamente. Nem eu, nem estávamos a fim de aparecer naquela escolinha chocha, depois de meu fatídico início de investigação. Quando o relógio no meu pulso marcou 04h50min da tarde, entrei no Jeep, dando-me por vencida e aceitando o fato de que não acordaria antes das seis. Quis tomar meu lugar nas pesquisas e varou a noite, e não achou nenhuma merda útil. Eu teria que anotar na minha lista de afazeres mental: ensiná-la a usar o Google devidamente, porque, se não...
Estacionei o Jeep na frente de um barzinho, saltei do carro e travei a porta. Empurrei a porta do estabelecimento, adentrando seu ambiente aquecido, que tinha cheiro de bebida destilada e café recém passado. Não sei o que chamou mais a atenção do barman, se foi eu ou o Rolex masculino preso ao meu pulso. Sentei-me em uma das banquetas forradas com couro vinho e pedi uma dose de whisky sem gelo. Ele abriu a boca para perguntar minha idade, mas calou-se assim que eu dei a ele meu melhor olhar assassino, que dava medo até nos piores desgraçados que já fui contratada para matar. Ele virou-se, servindo minha dose, enquanto eu me distraia com um joguinho de estourar bolhas no celular, uma merda qualquer. A pontada na têmpora tornou a me atacar, muito mais forte que em qualquer outra visão, como se algum maldito estivesse me fazendo acupuntura com as agulhas erradas. Virei o copo de whisky numa única golada. Normalmente, o whisky amortecia a dor de cabeça, que nenhuma aspirina do mundo curava, das minhas visões, mas nem isso fez até agora.

— Você está bem, moça? Quer que eu ligue para alguém? — perguntou gentilmente o barman quando virei o quarto copo de whisky, sem sequer respirar direito.
— Não, só me traga uma rodada de doses de tequila — respondi, sentindo a cabeça rodar com a tremenda dor de cabeça que essa visão, que nunca começa, estava me dando. Toquei meu nariz, vendo as pontas dos dedos sujas de sangue. — Onde é o banheiro, senhor?
— Passando o arco, tem uma placa indicando — o cara me respondeu, pegando a garrafa de José Cuervo Gold e os copinhos de dose.

Levantei-me apressada, enfiando o celular no bolso do cardigã surrado preto e empurrando a porta que uma placa indicava ser o banheiro feminino. Apoiei-me na bancada de mármore e me olhei no espelho, vendo o filete de sangue escorrer do meu nariz. Nenhuma novidade para mim. Puxei um tanto de toalhas de papel e comecei a tentar estancar o sangue com o ele. Girei o registro da torneira e, junto as mãos, jogando a água fria no rosto, permaneci uns três segundos com os olhos fechados, sentindo as pontadas ficarem cada vez mais fortes. Abri os olhos rapidamente, quando senti outro poder comigo, vendo os olhos azuis de minha primeira visão nesta cidade refletidos no espelho logo atrás de mim. Reconheci, no momento, o rosto do homem.

— Ora. Olá, doçura.
Dei a ele meu sorriso mais sarcástico.

*Não levem 'transmorfo' na cultura de Supernatural. O termo 'transmorfo' se aplica a qualquer criatura que mude de forma, até os lobisomens.

Capítulo 4


— Quem te disse quem eu sou? Não deixei nenhuma amostra de cheiro — perguntei retoricamente, me sentando na bancada de mármore cinza, com um sorriso sacana no rosto. — Não precisa nem responder. Sei que foi o rato do Peter, aquele pentelho nunca soube manter a boca fechada.

Ele ficou me encarando, os olhos azuis mostrando certa raiva. Ele era mais bonito do que eu notara. Tinha cabelo escuro e bagunçado, com uma rala barba por fazer cobrindo o rosto, os lábios rosados parecem bons para beijar, sem falar dos braços musculosos cruzados sobre o peito largo, deixando-o mais gato ainda.
Meu Senhor, tenho que parar de ser tão pervertida desse jeito.
Ele continuava me encarando, como se eu fosse um alvo no qual ele se imaginava fazendo vários buracos a faca. Reconheci o olhar, porque o dei-[ repetidamente para .

— Já se decidiu? — perguntei, ficando entediada.
— Me decidi? — Ele quase franziu o cenho em confusão.
— É, se vai me agarrar, ou vai querer vingança por eu ter atirado em você. — Dei de ombros, dando um leve peteleco no joelho, para afastar um pequeno mosquitinho que ali estava. — Por mais que eu ache que a primeira opção é bem mais vantajosa para ambos, já que seria vergonhoso um cara desse tamanho e com essa cara de mau tomar porrada de uma simples e indefesa adolescente como eu.

Ele deu três passos em minha direção. Pulei da bancada, ficando em pé à sua frente.

— Se conseguiu me dar três tiros, não tem nada de indefesa, ou simples, garota — retrucou ele, os braços caindo nas laterais do corpo. — Peter me falou sobre você.
— Se tivesse falado tudo, você não estaria me chamando de garota, criança — sorri de canto, quase que convidando-o com palavras do século 17 para comprar briga comigo.

Analisei seu rosto atentamente. Agora, eu lembrava quem era!

— Agora, eu me lembro de você! — Dei um pulinho de alegria. — Você é o garoto que matou a namorada. Claro, claro! O que se achava pra caramba.

Ele trincou a mandíbula, com a menção da garota morta, as mãos fechando em punho. Estava mesmo me perguntando quando ele ia se revelar o mesmo esquentadinho da adolescência. Escutei um clique vindo da porta. As pessoas achariam mais que estranho ter um cara no banheiro feminino, assim como eu não estou nem um pouco a fim de ser expulsa de bar nenhum hoje. Minhas engrenagens funcionaram com o clique. O empurrei para dentro de um reservado, tapando sua boca, e ele grasnou, tentando falar. Acertei um tapa estalado em sua mão, que tentava me afastar, e indiquei o par de pés visíveis no vão da porta. Ele parou de tentar. Destapei sua boca, o cheiro amadeirado que vinha dele tornou difícil respirar, e o calor fez minha pele pinicar. Reservado pequeno demais para duas pessoas. Empurrei a porta com o pé e saí apressada do reservado e do banheiro, virando a rodada de tequila, quase que num gole só, deixando uma nota de cem no balcão e saindo, quase que correndo, do bar. E minha cabeça voltou a latejar com violência.

— Onde você estava? — me perguntou enquanto varria a sala do apartamento.
— Sei beber — respondi, deixando a carteira sobre a bancada e indo atrás de um Advil. — Estou muito irritada para me importar com aquela escola estúpida. Continuamos o teatro amanhã e, sim, nós precisamos, ainda não descobrimos quem está possuído. Cara, como esse Mr. M sabe das coisas!

Carregando de ironia a última frase, coloquei três advils na boca e virei um copo com água.

— Você está bem, Liv? — apoiou a vassoura na parede, me olhando com o cenho franzido. — Está pálida.
— Minha cabeça dói... — minha voz saiu, quase que num sussurro.
— Vai ter uma visão? — Ela arregalou os olhos, quase entrando em pânico. — Quer sentar?
— Não, não é a dor das visões, é mais forte. Parece que minha cabeça vai explodir. — Cocei os olhos, colocando o copo na pia. — Vou precisar de mais Advil.

Fui para o quarto, me jogando de braços abertos na cama fofa e afundando o rosto num travesseiro. A escuridão nunca me pareceu tão maravilhosa. Assim que adormeci, o sonho em que mergulhei foi tão perturbador quanto minha dor de cabeça:

Uma mulher de cabelo longo e negro corria por uma mata, mas o longo vestido azul cobalto limitava o movimento de suas pernas, fazendo-a tropeçar em algumas raízes retorcidas no chão. Um berro agudo cortou o silêncio da noite, seguido por um som gorgolejante.

— Valerious... Onde está você? Hum? Vamos ter que brincar? — a voz ecoou por quase toda a mata. — Então vamos brincar. Peek-a-boo! Where are you?
— Morra, Gabriel! — a moça berrou, nem se dando ao trabalho de virar o rosto. — Morra!
— Não serei eu quem morrerá hoje... — o homem cantarolou. Agora, consegui ver a luz da tocha iluminar as árvores. — Vamos logo, Valerious. Não tenho a noite toda.

A moça tropeçou em um tronco e caiu de joelhos no chão. Com o pé virado num angulo estranho, ela sentou. Agora, via seu rosto... A mulher era eu.

Acordei num pulo, ofegando e suando frio. Olhei para o relógio digital sobre o criado, que marcava três e meia da manhã. Eu havia dormido isso tudo? Levantei-me, jogando os cobertores para o lado, ficando em pé e sentindo o frio do assoalho subir pela minha panturrilha.
Girei a maçaneta e abri a porta, saindo para o corredor escuro e deserto, com passos lentos e acuados. Do que eu estava com medo, afinal? Pisei em algo molhado e pegajoso. Tateei o sofá, sentindo, até o estofado úmido.

? — chamei, num murmuro, sentindo um aperto involuntário no peito. — ? Você está aí?

Passei a mão outra vez pelo sofá; agora, minha mão encontrou outra mão, fria e suja. Bati a mão na parede com tanta força que a luz se acendeu. E a cena que vi fez meu coração parar, quase que literalmente, no peito: estava estirada no sofá, os olhos vidrados mirando a TV, com três buracos no peito e coberta de sangue.

— Não, não, não. Não, por favor, não — comecei a soluçar compulsivamente, tocando o peito esburacado de minha irmã. — Por favor, não, . Não, não, não morra. Oh, minha irmã...

Ouvi o tilintar familiar de uma espada batendo em algo vir das sombras da cozinha e, então, o rosto mais que familiar ficou visível pela meia luz da sala.

— Oh, olá, .


Então, eu acordei outra vez, com um berro entalado na garganta. Puxei o ar ruidosamente, quase caindo de joelhos para fora da cama. Sequei uma lágrima solitária, que insistia em cair, levantando trôpega do chão, quase correndo para o outro quarto. A palpitação parou quando vi enrolada num cobertor, dormindo calmamente em sua cama.

POV OFF.

POV ON.

Acordei lentamente, sentindo meus olhos arderem por conta da luz, que entrava pela cortina aberta. Bocejei, me espreguiçando na cama.

? — chamei, indo ao banheiro.
— Hum? — ela respondeu. — Bom dia.
— Bom dia. — Mudei meu curso para a cozinha, vendo-a colocar todos os advils de uma cartela na boca, virando um copo com água em três goles. — Tá tudo bem?
— Uhum, só minha cabeça que ainda dói. — Ela jogou a cartela vazia no lixo, colocando o copo no escorredor. — Pronta para voltar ao teatrinho?
— Oh, nem me fale naquela escolinha. Cara, se não tivéssemos que descobrir quem é que está possuído, nem pisava naquele lugar. Odeio escolas — respondi, me jogando no sofá. — Vamos comer onde hoje?
— Não gostou dos donuts de anteontem? — Ela franziu o cenho, prendendo o cabelo num rabo-de-cavalo. — Sei lá, estou pensando em dar uma volta pela cidade, ver se achamos algum café bom.
— E depois tortura.
— Ah, qual é! O do queixo torto é a fim de você, não vejo maneira melhor para fazer com que ele se torne uma diversão. — Ela deu de ombros, sentando-se no encosto do sofá. — E não se faça de sonsa. Você notou a maneira como ele te olhou, só fingiu que não.
— Você é insuportável quando quer, . — Revirei os olhos, deitando a cabeça de lado e olhando para ela, que me olhava sugestiva. — Ai, tá! Eu percebi, assim como também percebi a tensão que rola entre ele e sua nova BFF.
— Allison não é minha nova “BFF’’. — Ela fez aspas com os dedos. — Ela é a uma Argent, . Argents não são legais, não importa qual.
Yeah, Gerard era um psicopata completo.

levantou-se, indo ao banheiro, o rabo-de-cavalo se desfazendo, e a cabeleira castanha escura caindo por suas costas. Levantei-me, num salto, do sofá, indo ao meu quarto e começando a revirar as malas, que nem me dei ao trabalho de desfazer. Separei uma camiseta do Metallica e um jeans surrado, junto de uma camisa xadrez preta e branca, e o mesmo par de coturnos que sempre uso. 20 minutos depois, saiu do banheiro, secando o cabelo.

— Faz quanto tempo que você não os corta? — perguntei, entrando no banheiro, e segurei a porta aberta. — Desde a era Medieval?
— Ai, boba. Eu usava cabelo curto na década de vinte, se não se lembra — ela riu.
— Cristo! Quase 100 décadas sem cortar o cabelo! — Brinquei, fechando a porta atrás de mim.

Enfiei-me embaixo do chuveiro, molhando o cabelo e sentindo cada músculo do meu corpo relaxar com a água quente. Nossa! Como isto era bom! Fiquei mais vinte minutos debaixo da água, me esfregando com o sabonete de cereja que comprou, que, por incrível que pareça, fez todo o banheiro ficar cheirando a cereja. Desliguei o registro e me enrolei em uma toalha, voltando ao meu quarto.

estava sentada no sofá, arrumando o cabelo quando saí do quarto. Ela usava uma baby look gola V azul escuro, com uma calça de cintura alta e um par de botas de salto médio, com uma leve maquiagem cobrindo o rosto.

— Está pronta? — Ela me encarou como se não me visse há séculos.
— O quê?
— Nada, só estou feliz por estarmos juntas. — Ela me levantou e me abraçou apertado. — Juro que nunca vou deixar nada te acontecer. É uma promessa.
— Você sabe que eu sempre irei te proteger também, minha querida. — Retribuí seu aperto, afagando o cabelo com cheiro de rosas. — Sempre. É o nosso pacto, lembra? Não precisamos de ninguém além de uma da outra.

Ela sorriu e me deu um beijo na testa, com os olhos lacrimejando. O que aconteceu? Será que ela viu alguma coisa relacionada a mim? Algo ruim? Bom, nem adiantava perguntar, já que ela não me contaria, de qualquer jeito.

— Pronta? Hoje o café é por minha conta. — sorriu, limpando os olhos. — Pago donuts extras.

Sorri, travessa, e puxei a mochila em cima do sofá, indo sorridente à porta.

POV OFF.

O homem sentou-se em uma das cadeiras da mesa, olhando com desaprovação para a esposa sentada à sua frente, que olhava nervosa para as mãos, que se moviam freneticamente, fazendo uma cama de gato com um elástico.

— Não acredito nisso, Noshiko. — O senhor Yukimura balançou a cabeça, em desaprovação. — Você não devia tê-las chamado para cá. Você conhece as histórias.
— Não tinha mais ideias, elas me pareceram a única opção viável. Nossa filha também está em perigo aqui. O nogitsune pode matá-la também — argumentou a mulher, parecendo cansada.
— Mas você devia ter falado comigo, antes de chamar as Blackburn para a cidade! Elas trazem morte para qualquer lugar que vão — respondeu o homem, parecendo exausto por ter que discutir o assunto outra vez.
— Elas são pagas para matar, querido — respondeu Noshiko, quase soando irônica. — E são as únicas capazes de matar o que eu trouxe pra nossas vidas.
— Trazer mercenárias para o nosso lar não vai resolver nossos problemas. — Yukimura bateu com a mão aberta na mesa. — Nós vamos encerrar esse contrato.
— Uma vez contratadas, elas vão até o fim, sem cancelamento — suspirou Noshiko, passando as mãos trêmulas pelo rosto. — Não tem mais jeito.

abocanhou o donut, sujando as extremidades dos lábios com a cobertura de chocolate. Parecendo uma criança feliz, riu, estendendo um guardanapo à sua irmã.

— Você está com a boca toda suja de chocolate. — bebeu um longo gole de café, para ajudar o lanche natural descer pela garganta. — Você parece uma criança comendo donuts.
— Ei! É que eles são tão deliciosos, eu apenas me... Delicio. — riu, limpando o chocolate da boca. — E os de morango são os melhores.
— Não saberia dizer, já que não como donuts. — A mais velha deu de ombros, comendo um último pedaço do lanche numa dentada só. — Não sei, são doces demais, dá pra sentir os cristais de açúcar.
— Esta é a intenção: sentir a gordura e o açúcar. — fez uma expressão de “Mana, você está dizendo o óbvio’’. — É como fast food, você não come porque acha saudável.
— Você é estranha. — riu, terminando seu café.
— É, vem de sangue.
— Vamos logo — a outra riu, tirando uma nota de cinquenta do bolso e deixando na mesa. — Temos que ir à escola.

puxou a mochila da cadeira ao seu lado, pegando o último donut do prato e o enfiando na boca.
25 minutos depois, girou o volante do Jeep, entrando em uma vaga bem em frente às escadas das portas da frente da escola e mordendo uma pelinha solta do lábio inferior, com um par de óculos escuro cobrindo os olhos, enquanto berrava, junto de uma música do Elvis, batucando com a mão no painel do carro e chacoalhando a cabeça animadamente.

Looooove me trueeeeeeeee — cantou a ruiva, com um tom esganiçado, enquanto a irmã ria alto.
— The Voice, American Idol ou The X Factor?
— O que tem? — franziu o cenho.
— Escolha um para eu te inscrever. — Liv deu de ombros, encrespando os lábios.
— Ai, engraçadinha. Ha ha ha.

As duas juntaram suas mochilas, que estavam no banco de trás do carro, saindo para a ensolarada, mas fria, manhã de Beacon Hills. O estacionamento estava apinhado de adolescentes, alguns estacionando seus carros, e outros, agarravando-se nos bancos espalhados pelo jardim, que, agora, estava coberto de folhas secas da cor do fogo.

— Hoje, a gente descobrimos quem é a porra do possuído. — bocejou, sem nem ver uma garota dar um tapa no namorado por encarar seu quadril avantajado. — Tô ficando de saco cheio desse caso.
— Tá é com saudades de Malibu e das festas do Daniel, fingida. — retrucou, empurrando a porta dupla azul da entrada da escola.
— Ah, e o que é que tem? Aquele mar maravilhoso com aquela casa maravilhosa, o whisky de primeira... — lembrou , com um sorriso no rosto.
— Qual é o problema com o whisky daqui?
— Já bebeu a porcaria que eles vendem? — A moça arqueou uma sobrancelha para a irmã, abrindo seu armário.

Scott fechou a porta de seu armário com um baque, vestindo a jaqueta, e Stiles o olhou sugestivo, com os braços cruzados sobre o peito magricelo.

— Que foi? — perguntou o rapaz, irritado.
— A garota ruiva, você gosta dela. — Stiles sorriu travesso, vendo não muito atrás com o cabelo liso caindo sobre os ombros. — Olha ela aí.

aproximou-se, com um sorriso amigável nos lábios, reparando que o menor, o qual ela não lembrava o nome, estava pálido, mais que o normal, e com os olhos fundos.

— Oi, pessoal — sorriu, soltando a alça da mochila.
— Oi... — Scott começou a cumprimentar, ficando constrangido por não lembrar o nome da moça.
. , Scott — completou a moça, com um sorriso nos lábios. — Pode me chamar de .
, desculpe, eu estava tão avoado anteontem que não prestei atenção quando as garotas apresentaram vocês — explicou-se ele, olhando, com um sorriso, para . — Oi.

olhou com uma expressão de “Eu te disse. E olha como eu disse’’, quando viu o sorriso de Scott para . Allison desceu as escadas que davam para o terceiro andar, junto de Isaac. A expressão de Scott fechou.

— Então, gente, as aulas foram muitos tediosas ontem? — perguntou , tentando inutilmente quebrar o clima tenso.
— Whitman não gostou muito de vocês. — Stiles tentou ajudar, enquanto Allison e Isaac iam em direção aos amigos. — Hoje só tem o coach de carne de pescoço.

Finstock era o tipo adorável de professor que sempre conquista os alunos.

— O adorável Bobby Finstock. — Brincou Isaac, o cachecol verde musgo contrastando com os olhos azuis. — Adoro fazer parte do time de lacrosse por causa dele.
— Ou seja, você que seja irritante — retrucou Stiles. — Cara, tá uns 25 graus lá fora, para que esse cachecol?
— Dá um charme, Stilinski.

Bobby Finstock empurrou a porta da sala, entrando com passos pesados no recinto. Todos os alunos viraram para frente.

— Bom dia, coisinhas — desejou o homem, bocejando, o solado de borracha do tênis estalando contra o chão encerado.

O professor continuou, por mais vinte minutos, falando e falando sobre a matéria que ia desde a página 50 a 58. Até que virou-se para Stilinski, que estava duro na cadeira, olhando para as folhas do caderno, os olhos bem abertos.

— Stilinski! — berrou Finstock de sua mesa.
— Hum? Desculpe-me. — O rapaz olhou para os lados, desnorteado. — Acabei cochilando.
— Stiles... — começou Scott.
— Você não estava dormindo — completou , olhando para o garoto, preocupada. — Você está bem?
— Uhum.
— Venha aqui na frente para ler, garoto — mandou Finstock. Stiles levantou, contornando as cadeiras e parando ao lado da mesa de Bobby, e pegou o livro em cima da mesa. Ele olhou para o livro aberto, franzindo o cenho, piscou várias vezes e voltou sua atenção outra vez para o texto. As letras pareciam estar trocando de lugar, tornando impossível ler. Sua cabeça doía loucamente. — Você está bem, Stilinski?
— Eu leio, coach. — levantou-se de sua mesa, pegando o livro, e Stiles a agradeceu com os olhos, voltando à sua mesa, meio zonzo.

começou a ler o texto em voz alta, quase que recitando as frases. Scott ainda olhava para Stiles, preocupado com o amigo.

— Eu não consigo ler! — cochichou Stiles, puxando Scott de volta para dentro da sala. — Simplesmente, não consigo.
— Mas como? Tipo, nada, nada mesmo? — Scott franziu o cenho.
— As letras se embaralham, formam um emaranhado e palavra nenhuma. — O rapaz coçou a cabeça, sentindo a tensão nos ombros aumentar. — O que diabos está acontecendo com a gente?

estava com as costas colada aos armários, ouvindo atentamente ao que Stiles dizia.

— Você não consegue se transformar, Allison está vendo o fantasma da tia morta, e eu não consigo ler — completou Stilinski.

respirou fundo, fazendo sua melhor expressão de confusa. Nem sabia o porquê estava fazendo aquilo, só sabia que tinha que fazer alguma coisa. Dentro de seu peito, dizia que ela deveria ir lá e fazer sua melhor carinha de menina inocente e confusa.
— Transformar no que? — perguntou a moça, fazendo a espinha de Scott gelar.

— Daniel, quer desenrolar pra falar? — mandou , enfiando a mochila no armário com uma mão e segurando o celular com a outra. — Para de rir! Respire. Fale.
— Eu encontrei um livro que fala sobre o nogitsune — anunciou o rapaz, animado. — Parece um Grimório oriental. Monstruosamente grande.
— Você acha que há um meio de matar?
— Lógico, tudo pode ser morto. Menos você e , diferentonas. — Brincou ele, abrindo o enorme grimório, da grossura de duas palmas na horizontal. — Mas como qualquer ficção boa, vai ficar para o final. Eu estou chegando lá. Você e estão bem?
— Uhum. Não gosto desta cidade. — A moça bateu a porta do armário. — Já tive três visões desde que chegamos. Nem uma semana.
— Caralho! Mas você tinha quase uma por mês. Isso não é normal, gata. — O rapaz encheu outra xicara imensa de café. — Vou descobrir como matar esse troço, e vocês saem daí.
— Obrigado, Dan — a moça deu um breve sorriso. — Estou com saudades de Malibu.
— Minhas portas estão sempre abertas para vocês. Sabe disso.
— Família é família, não? — riu.
— Família é família — concordou Daniel, dando um enorme gole na xicara de café. A última frase veio em romeno: — Não morra, garota.

desligou a chamada, afastando-se do armário, a tempo de ver Lydia e Allison arrastando o corpo inerte de para dentro de uma sala, enquanto Stiles e Scott carregavam uma perna.

— Mas que caralho?! — ela quase berrou.

Alguns pouquíssimos minutos antes...

— Transformar em que? — perguntou e, no segundo seguinte, a ruiva caiu, apagada, quase se estatelando no chão, se não fosse por Scott. Lydia estava parada no lugar, com um vaso com a metade quebrada na mão.
— O que? Ela ouviu vocês — tentou argumentar a outra ruiva.
— Mas não precisava apagar a menina! — retrucou Allison, que ninguém havia notado estar ali.
— A irmã dela está no corredor! — completou Stiles, indignado. — Vamos levá-la para dentro da sala.

Allison e Lydia seguraram um braço, e os rapazes, cada um uma perna, levando a moça para dentro da sala de aula, que foi quando apareceu no corredor, o cenho franzido e um celular na mão.

— Mas que caralho?! — quase berrou a moça, andando em passos apressados até o grupo. — Que porra estão fazendo com minha irmã?

Allison deu um pulo, largando o braço, que fez metade do torso de ir ao chão.

— Não é o que parece, . — Allison tentou remediar.

Lydia atirou o pedaço de vaso na Blackburn mais velha. O vaso flutuou no ar.

— Coloquem-na no chão! — ordenou , uma veia em sua têmpora saltou, pulsando loucamente. — Não me faça falar duas vezes.

Scott deitou cautelosamente no chão. Stiles o imitou.

— Afastem-se.

A mudança no costumeiro tom de voz distraído de Olivia foi tanta que Lydia foi a primeira a recuar. correu em direção a irmã, ajoelhando-se ao lado dela, checando seu pulso. Scott ainda olhava para o vaso flutuando no ar.

— O que é isso? — perguntou Scott, cutucando os cacos da peça de cerâmica.

levantou a cabeça da irmã, vendo os estilhaços minúsculos de vidro cravados em sua pela. A raiva subiu à cabeça.

— Ah, lobo, eu vou matar você. — A moça olhou raivosa para McCall, os olhos ficando azuis por completo.
— O que é você? — perguntou Allison, olhando para com o cenho franzido.
— Malditos sejam vocês, Argents — respondeu a moça, deitando a cabeça da irmã delicadamente no chão. Os olhos ainda azuis. — Vocês me irritam.
— O que é você? — perguntou Stiles outra vez quando ficou em pé.
— Sou uma bruxa, graveto de pernas. Uma bruxa — retrucou Blackburn. — Criatura que domina forças sobrenaturais e da natureza, caso você seja muito burro e não saiba o que a palavra significa.

Scott olhava atento para . Ainda não conseguia se transformar, então precisava ficar atento, caso ela fosse para cima de seus amigos. Ainda tinha força para impedi-la. O que aconteceu a seguir pareceu ter a duração de nem um segundo: , ao invés de tentar brigar com Scott, ergueu uma mão para cada lado, a palma aberta na direção de Lydia, Allison e Stiles, e a outra fechando-se em punho na direção de Scott, que começou a tentar respirar, engasgando. O rapaz começou a tossir quando o ar parou definitivamente de entrar. A mão de estava quase toda fechada. Scott conseguia sentir seu pulmão se comprimindo, encolhendo cada vez mais, sentia a traqueia parando de trabalhar, tornando impossível que o oxigênio passasse, e seus amigos não podiam fazer nada, se não, assistir a cena apavorados, já que a moça os segurava no ar com a telescinese. Scott começou a ficar vermelho, as veias verdes saltadas no pescoço contrastando com a pele rosada fortemente. Não demorou muito para que ele começasse a ficar roxo, e a mão de só faltava um pouquinho para estar completamente fechada em punho.
Lydia sentia a garganta queimando, como se alguém a tivesse feito beber ácido puro. Seria este um dos efeitos da magia da garota parada à sua frente? Ela tentava, com todas as suas forças, mexer os braços, que pareciam colados ao tronco por algo invisível. Nem seus pés tocavam o chão. E o pânico em seu peito só crescia, queria ajudar Scott, queria impedir que o amigo morresse sufocado. A tonalidade roxa azulada que sua pele tomava servia apenas para deixá-la ainda mais apavorada. O que eu faria? O que diabos eu podia fazer contra uma bruxa?
Uma vozinha bem lá no fundo de seu consciente parecia ter a resposta para aquela tola pergunta. Primeiro conseguiu ouvir apenas um ruído, enquanto tentava mexer seus braços, mas, então, a voz foi tomando volume e tom. Era a sua própria voz. Sua própria voz lhe dizendo a seguinte frase: grite, Lydia, grite!
O berro agudo e rouco cortou o ar no segundo seguinte. abaixou ambas as mãos, apertando com força seus ouvidos, que vertiam sangue assim como seus olhos. Scott caiu de joelhos no chão, tossindo loucamente, sentindo a sensação maravilhosa que era o ar entrando em seus pulmões. ajoelhou-se, com o sangue pingando no chão de mármore branco. No segundo seguinte, caiu apagada como a irmã.

Capítulo 5 - parte I


Blackburn POV ON.

Abri os olhos vagarosamente. Com uma luz artificial fazendo minhas vistas arderem, me sentei lentamente na cama. Que está dura demais. Lembro-me do colchão ser mais confortável que isto. Levantei a mão para coçar a nuca, mas minhas unhas entraram em contato com a superfície plana de uma bandagem. Despertei por completo numa fração de segundos. Olhei para os lados, vendo que estava deitada numa maca de aço polido e que estava deitada numa igual, ao meu lado, com sua face pálida manchada de sangue seco. Pulei da maca, checando seu pulso. Estável. Bom, isto era bom. Significava que estava dopada, ou apagada, e que acordaria logo, e, como a conhecia bem, acordaria possuída de raiva.

— Finalmente acordou — uma voz masculina veio detrás de mim, e me limitei apenas a procurar por ferimentos em . — Estava me perguntando qual acordaria primeiro.

Quando não achei ferimento algum, me virei lentamente para ver o rosto de quem falava comigo: era um homem, na faixa de uns 37 anos, de estatura média e careca, que usava por cima de um sweater verde musgo e um jeans surrado, um jaleco branco, que, segundo o bordado sobre o bolso, o identificava como Dr. Allan Deaton.

— Você é , certo? — perguntou ele, me jogando uma garrafinha com água. Peguei no ar e abri. De repente, notei o quão sedenta estava, mas, no meio do caminho, ao levar a garrafinha até a boca, abri a palma sobre o recipiente, e uma substância começou a se solidificar no centro do líquido, com um brilho amarelado. Mistletoe. Esse cara era mais esperto do que parecia. Arqueei uma sobrancelha, fazendo uma expressão de ofendida, puxei a substância para fora e a desfiz no ar, entornando a garrafa e bebendo tudo em três goles.
— Você é . Scott disse que a ruiva é . Não é tão ruiva quanto Lydia, mas é ruiva. Então é você. — Ele tamborilou com os dedos longos e ossudos numa bancada, também de aço polido, dizendo as palavras quase que para si. — Como está? Sente alguma dor na cabeça? Tive que dar um ponto aqui e lá, mas não foi nada grave.
— Estou ótima, agradeço a preocupação. — Rodeei a maca, vendo um largo circulo feito com tramazeira à nossa volta. Isso explicava a falta de amarras. — Como minha irmã se feriu?
— O grito de Lydia causou certo dando, mas nada permanente — ele respondeu como se aquilo não fosse nada demais. — Já cuidei dela. Vai acordar novinha em folha.
— A banshee fez isto? — Apontei para desacordada, com uma sobrancelha arqueada de novo; desta vez, em descrença.
— Visto que foi a única saída de impedir sua irmã de matar Scott sufocado. — Vi, mesmo com a distância entre nós, o brilho de curiosidade em seus olhos, como se estivesse vendo algum animal raro em exposição. Odiava que me olhassem assim. — Mas, como eu disse, ela vai acordar bem.
— Mistletoe não faz efeito em nós. — Sentei-me na maca. Nem tramazeira nos prende, mas iria deixá-lo pensar que sim. — Devia ter tentado wolfsbane ou verbena, garanto que seria mais efetivo.
— Você sentiria o cheiro de qualquer jeito. — Ele deu de ombros, como se isso fosse uma conversa casual que se tem em qualquer momento do cotidiano.

Olhei fixamente para sua figura, usando minha visão intuitiva, mais que a mundana. Eu sentia meu radar apitando, sentia aquela sensação de ter outro poder no cômodo além do meu e de Liv. Fiz as engrenagens do meu cérebro rodarem mais rápido ainda.
Qual era o nome mesmo?
Ah, lembrei! Druída. O nome era druída.

— Estamos aqui há quanto tempo? — perguntei, sustentando o mesmo tom casual na conversa.
— Umas 3 horas. Desde que Stiles e Allison trouxeram vocês aqui — respondeu ele, olhando distraidamente para uma prancheta abarrotada de papéis e escrevendo algumas coisas com uma esferográfica azul. — Perdoe o círculo, mas é que não podíamos arriscar sua irmã tentar matar mais alguém sufocado. Prezo minha vida, caso não se importe.
— Perdoe o temperamento difícil de minha irmã. Ela tende a ficar violenta quando estranhos quebram coisas na minha cabeça — respondi no mesmo tom casual; desta vez, deixando a ironia transparecer em meu tom. Queria saber até que ponto esse povo sabia de nós. — Caso não se importe, pode me dar um cobertor? Minha irmã está um pouco gelada.

E estava mesmo, só que não o suficiente para ser necessário um cobertor, levando em conta que a temperatura normal do corpo de era vinte e cinco graus. Allan começou a fuçar alguns gaveteiros de madeira branca e me jogou uma manta cinza logo em seguida. Peguei o cobertor no ar, fazendo uma ponta raspar no círculo de tramazeira, desfazendo a linha. Eles não sabiam que tramazeira não nos prendia, mas, também, não precisavam ter conhecimento desse detalhe. Então isso seria uma boa explicação para quando eu ficasse de saco cheio e desse o fora daqui. Desfiz as dobras do cobertor e coloquei sobre o corpo de , cujo o peito subia e descia lentamente.

— Eu sei o que quer perguntar. — Ele abaixou a prancheta, me olhando com o mesmo brilho de curiosidade. — Nós não sabemos como neutralizar vocês, apenas sabemos o que são.

Isso era bom. Muito bom.

— Você é bem desantenado para um druída — gracejei, com um sutil sorrisinho nos lábios. — O sobrenome Deaton está fazendo cócegas no meu cérebro.

Ele ignorou a segunda frase, me olhando com o cenho franzido.

— Como sabe o que eu sou? — indagou, mas quem ignorou desta vez fui eu. Enrijeci a postura quando senti aquela mesma sensação, aquele peso desconfortável no peito, aquela ardência nas narinas e aquele mesmo fedor do veneno que todo Hale carrega consigo. Meu modo psicopata odiosa ficou ativo. Estava mesmo me perguntando quando essa prole do Satanás iria aparecer de novo em nossas vidas. Obrigado, Deus, por estar apagada. Mas conhecendo a peça como eu conheço, ela já se encontrou com ele.
— Olá, — a voz rouca e grossa soou suave e mansa.

Capítulo 5 - parte II


Passei o braço por debaixo das pernas de , segurando seus braços com a outra e jogando-a sobre meus ombros como um saco de batatas.
Firmei o torso do corpo e botei o primeiro pé para fora do círculo de tramazeira. Nunca vi druída mais desatento que esse, sorte a dele que foi eu quem acordou primeiro.
Puxei uma maca de inox para fora, fazendo mais tramazeira se espalhar pelo chão. Empurrei a porta dos fundos e saí correndo para fora da clínica, sentindo cada nervo do meu corpo protestar contra o fato de eu ter que carregar peso extra comigo, e um peso extra bem pesadinho.
precisava de uma dieta pra ontem. Estaquei no lugar ao ouvir a voz masculina berrar da entrada da clínica:

— Vá pela esquerda, Argent! — mandou Peter Hale, com a mesma presunção natural e habitual no tom. — Eu vou pela direita. Elas não vão escapar.

A inquietação da ansiedade começou a bombear junto do sangue, o gosto de bile me subindo à garganta. Não se desespere, , vocês sempre tomam o controle. Sempre.
“Simples! Abra um portal!”, chiou uma vozinha maldosa, bem lá no fundo do meu cérebro. “Sabe que pode.”
“Não abra!”, cortou a outra voz, desesperada. “Ele nos encontrariam em questão de horas. Lembre-se do que disse.”
“Ela está muito longe para sentir o rastro que o portal vai deixar, e está muito ocupada apagada”, a vozinha maldosa rosnou. “Vai nos agradecer quando acordar em Malibu.”
Eu corria freneticamente enquanto as duas partes da minha consciência discutiam internamente. O emaranhado de prédios se estendia por todo centro, desde o cinza mórbido do concreto, até o mais vivo carmim. Os becos de ruelas estreitas não pareciam ter fim. Muito menos o peso da carga extra. E ter que ouvir o repetido ruído de pneu raspando contra o asfalto só servia para me enervar mais ainda. Porra de Peter Hale.

Pouco tempo antes...

Virei o corpo, com uma sobrancelha arqueada, vendo o tórax masculino envolto pelas sombras do cômodo apagado, bem mais alto e musculoso que da última vez que o vi. Ele deu três passos na direção da luz, deixando seu rosto visível, ainda na penumbra.

— Cara, juro que eu pensava que você seria aquele tipo de filho da puta que iria recorrer a outro veneno para nunca perder a carinha de bebê que você tinha. — Apoiei-me na maca que estava deitada. — Mas vejo que preferiu deixar sua carcaça do jeito que estava.
— Nem todos preferem desgraçar suas famílias para conseguir uns dias a mais, . — Ele carregou meu apelido com todo seu cinismo.— Sem contar que seria tedioso viver até o fim do mundo.
— Fale da minha família outra vez, e eu esfolarei sua língua no piche, depois arrancarei fora! — respondi suavemente. — Deixarei a garganta para você conseguir comer. Viu como sou generosa?
— Sempre foi a mais doce. — Ele esticou o pescoço, para ver deitada na maca. — E a mais fácil de capturar, se me lembro bem, ou a coisa se inverteu?
— Estou começando a reconsiderar a parte em que disse que deixo a garganta.

Posiciono o dois dedos sobre o pulso de , sentindo sua pulsação sanguínea mais acelerada que antes. Ainda bem que esta cretina estava para acordar.

— E sua irmã continua deslumbrante... — Observou Peter. A essa altura, Allan Deaton já havia sumido.

Não, sério. Estava começando a querer esganar esse energúmeno. Nunca gostei desse infeliz.

— Mesma fuça de sempre, como se você não lembrasse. Ou o Alzheimer já tá te afetando? — questionei, com o cenho franzido, me divertindo ao máximo em zoar sua idade. Não que eu seja muito jovem. — Foi você, não foi? Que disse a eles que tramazeira nos prende também...
— Não sou o fã número um de vocês, desculpe.

Esperava que ele não notasse o que eu faria naquela hora: passei a unha, o mais fundo possível, na palma da mão, fazendo um corte, que sangrou instantaneamente, e comecei a desenhar os símbolos com o polegar na maca. Símbolo de banimento. Poderoso e perigoso, mas eficaz. Peter virou-se, e puxei a energia do símbolo no ar, o círculo com as runas místicas flutuava como uma névoa densa e roxa. Peter prontificou-se a deixar os olhos azuis, mas eu fui mais rápida, joguei o símbolo no chão, que pareceu ser marcado a ferro quente no concreto, e pisei com força em cima. Hale voou longe.

Algum tempo depois...

Bufei irritada e joguei o corpo de , que pairou no ar. Pisquei, deixando meus olhos em sua real forma. O poder fluiu por meu corpo, fazendo o vigor sobrenatural bombear junto do sangue. Não sentia mais fadiga nenhuma. Comecei a correr por toda extensão da rua, me concentrando em manter no ar e, ao mesmo tempo, manter minha velocidade. Vi o prédio branco e vermelho erguendo-se no fim da rua. Enfiei-me no beco lateral e comecei a escalar o cano, tentando não cair. Atravessei janela adentro, caindo com um baque surdo no chão de tacos de madeira. Apoiei os cotovelos na janela e puxei para cima, jogando-a sobre o sofá.

Coloquei-me em pé e me esparramei na poltrona de couro vermelho, puxando o ar loucamente. Nunca corri tanto na vida. Pisquei fortemente e os olhos voltaram ao normal. Agora, notei o cheiro de carne frita e pimenta no ar. Merda. Puxei a Colt Python presa com silver tape debaixo da poltrona e apontei para a silhueta masculina parada no arco da cozinha.

— Porra, Daniel! Que susto! — Abaixei a arma ao reconhecer o rosto de Jamesson na pouca luz. — Nossa, infeliz, e se eu tivesse atirado em você?

POV OFF.

— Você não iria — ele respondeu calmamente, depois olhou para esparramada no sofá. — O que aconteceu com ela?
— Ah, a esquentadinha não conseguiu ficar nem um mês sem arranjar encrenca — explicou , dando um chute na perna da irmã, pendurada para fora do sofá, com força o suficiente para deixar roxo num futuro não muito distante. — Uma banshee a apagou. Neta daquela Martin, ao que parece.
— Mexa a panela do chilli, vou dar uma olhada nela. — Daniel era um rapaz alto e musculoso. Por ter sido criado na Califórnia, tinha a pele com um tom de caramelo, o rosto de mandíbula marcada coberto por uma espessa barba, e o cabelo bagunçado caia sobre a testa. (n/a: tipo Edgar Ramirez em Point Break) apoiou-se na bancada de mármore escuro e começou a mexer o chilli com uma colher de pau. Daniel pegou uma maleta do balcão, que lembrava fielmente as maletas dos médicos do século 19, e abaixou-se ao lado de , abrindo o fecho acobreado. diminuiu o fogo. Jamesson tirou um pequeno frasco etiquetado com os dizeres: infusão de sangue de lycan com verbena. O sangue estava negro por conta da verbena. tirou uma caixinha preta de um dos gabinetes e jogou um pacotinho com uma seringa para Daniel, que pegou o pacote no ar, sem nem tirar os olhos da maleta.
Quando a agulha já estava na veia de , Daniel apertou o embolo da seringa. Os vinte miligramas de sangue de lycan e verbena automaticamente deixaram as veias do braço da morena negras.

— Onde conseguiu sangue de lycan? — franziu o cenho, olhando por cima do ombro de Daniel. — Faz eras que não vejo um. Lucian?
— Sim, tive que cuidar do infeliz faz um tempo. — Daniel tampou o pequeno frasco com uma rolha a rolha outra vez. — Peguei meu pagamento.
— Quanto?
— Hum... Duas bolsas.
— Caralho! Nunca que, em sã consciência, Lucian iria deixar você drenar duas bolsas dele — a moça riu, tirando duas tigelinhas de uma caixa. — Ele estava em coma ou o quê?
— Quase isso... — Jamesson murmurou em resposta, puxando a pálpebra de para cima. Os olhos não estavam em sua forma humana. — Não sei o que a banshee fez, mas o corpo vai trabalhar mais rápido para combater o sangue de lycan. Qualquer dano será curado junto.
— Ótimo. Assim, ela acorda mais rápido, e eu posso socar a cara dela mais rápido.
Daniel fechou a maleta e levantou-se, atirando a seringa na caixa de papelão designada para lixo.
— O chilli ficou bom? — perguntou, olhando para o molho vermelho recém servido na tigela, que fumegava.
— Espera um pouco... — pegou uma colher e entregou outra para Dan, que encheu e enfiou na boca. Seu rosto ficou automaticamente vermelho.
— Que porra de pimenta você colocou nisto aqui?
— Receita própria. — Ele riu travesso. — Não gostou?
— Ah, meu querido, eu adorei!

Daniel riu e comeu mais um tanto.

— Danny, você sabe que eu adoro quando você vem nos dar uma mão no trabalho... — colocou a tigela sobre a bancada, olhando séria para Daniel. — Mas por que está aqui? Não devia estar em Mali?
— Ela me achou, ferrugem... — Dan olhou para o nada, o olhar de malícia e brincadeira habitual sendo substituído por um de extrema tristeza. — Você devia ter visto o estrago, nossa casa queimada até o chão. Consegui acessar o subsolo pela caverna do penhasco e peguei algumas coisas. Esperei uns dias, peguei o Audi de emergência e vim dirigindo até aqui.
— Ela te seguiu? — O pavor estava começando a tomar conta de . — Seguiu?
— Não. Eu a feri com uma lança espectral. — Jamesson apertou carinhosamente a mão de , numa tentativa de tranquilizar a amiga. — O ferimento vai atrasá-la o suficiente, até a gente terminar e sumir.
— Nós sempre teremos Saint Barts. — Brincou , com um sorriso pesaroso.

Um silêncio pesado se instalou por todo o apartamento, enquanto os dois comiam, sem saber o que falar para quebrar o medo daquela ameaça. sentiu raiva, raiva por esquecer como era viver com a maldita sombra daquele fantasma de um passado distante.
Fantasma? Estava mais para demônio.

— Gabrielle! — berrou ao acordar, caindo do sofá. Tamanho o susto. deu um pulo, batendo a mão com força na torneira e derrubando a tigela que ela lavava. Os cacos da louça boiaram na água dentro da pia. — ?
— Estamos aqui. — Daniel sinalizou para si e para a ruiva, ajudando a levantar. — está bem.
— O que houve? Nós estávamos na escola... — olhou à sua volta, atordoada. — Você estava desacordada...
— O Alpha nos levou até uma druida. Eu acordei antes. Peter estava lá, ainda acha que tramazeira nos prende. — explicou, apertando a mão, que latejava com violência. — Eu disse que aquela cobra ia te apunhalar pelas costas.
— Cara, como minha cabeça dói — resmungou a morena, apoiando-se em Dan. — Ah, oi, Danny.
— Oi, .

sentou-se no sofá de três lugares, as veias de seus olhos ainda acinzentadas. As mãos tremiam compulsivamente.

— Eu fiquei apagada todo esse tempo? — perguntou , depois de contar todos os recentes acontecimentos.
— Sua pulsação estava acelerada, mas você não acordava.
— Não sei o que aquela porra de ruiva fez. Eu estava presa em uma visão. — respondeu, um arrepio percorrendo sua espinha, fazendo-a estremecer. — Só que essa era diferente... Mostrava o passado ao invés do futuro.

olhava fixamente para o vidro da mesa de centro e, quando explicou o que acontecera, estacou no lugar, com medo do que via a seguir.

Capítulo 6


Flashback ON

A mulher brandia um par de machados de cabo curto, usando uma calça de couro e uma cota de malha para cobrir o torço. O rosto belo estava ferido e sujo de sangue. Atrás dela havia outra mulher usando um vestido de veludo verde musgo, com uma criança nos braços. O batalhão de soldados avançava lentamente, atentos e com suas armas em mãos. Sabiam o quão boa era a princesa quando o assunto era luta, e isso significava que não podiam nem sequer vacilar.

— Saia da frente, princesa — pediu Mycroft, o mais jovem e mais arrogante dos soldados.

A cota de malha da mulher começava a ficar coberta por uma fina camada de gelo da neve do inverno rigoroso.

— Princesa ...
— Se querem matar essa criança, vão ter que passar por mim primeiro — rugiu a princesa, irada. Realmente estava disposta a acabar com todos aqueles soldados e sabia que podia.

, caída no chão com seu recém-nascido filho nos braços, choramingou. Estava congelando até os ossos, e seu pequeno Benjen não parava de chorar, e, além de tudo, dependia de sua irmã para viver, já que nem sequer sabia lutar.
O primeiro soldado deu um paço à frente, brandindo sua espada, e arrancou metade de seu braço num golpe só. O guerreiro berrou de dor e foi ao chão. O segundo veio, que, sem sucesso algum, tentou ferir a princesa guerreira com um par de sabres, mas acabou com as tripas penduradas para fora do corpo.
Quando já havia massacrado metade do batalhão de soldados, nem se dera conta do perigo que espreitava logo atrás. Mycroft se esgueirava por trás de , que tentava acalmar seu filho. Mycroft agarrou a princesa mais nova, batendo com sua cabeça no chão de pedras, deixando-a completamente desnorteada, pegou a criança nos braços e sacou a adaga, a lâmina afiada brilhando com a luz das tochas. A cena seguinte fez com que congelasse, abaixando o machado com o qual acabara de arrancar a cabeça de um soldado. Mycroft enterrou a adaga no minúsculo peito da criança. berrou, horrorizada e completamente chocada. , irada por, no fim, não ter conseguido proteger a irmã, chutou com os dois pés um soldado e virou-se para Mycroft, tão possuída pela ira que os soldados que restaram recuaram.

— Tenha a decência de, ao menos, devolver essa criança à sua mãe — mandou ela, jogando os machados no chão e pegando uma espada. — Para que eu possa finalmente te matar, garoto arrogante. — Mycroft estendeu a criança para , estático com tamanha frieza no tom da princesa mais velha.

Mycroft conseguiu se defender da maioria dos ataques da princesa, mas acabou ferindo-se mais ainda.

— Você não mata um Valerious e fica sem receber a punição merecida.

E assim, enterrou a espada no peito do rapaz, que engasgou e caiu.

Já era noite quando acendeu uma fogueira para afastar o frio da floresta. permanecia congelada, olhando para o nada. Quando abrira um túmulo para o pequeno Benjen, ela só chorara mais ainda. levantou-se, pegando os dois machados da pedra sobre a qual os deixara e ofereceu um para , que só a olhou confusa.

— Levante a porra da bunda daí! — mandou a mais velha, ainda sentindo frio por estar apenas com aquela maldita cota de malha. — Vou te ensinar a lutar.
— Eu não, não levo jeito nenhum com armas...
— E foi isso que te deixou indefesa quando um guerreiro treinado te tomou seu filho. — chutou levemente a perna da irmã. — Vou te ensinar a lutar, ande logo.
— Eu não...
— Eu não vou falar de novo, . Se você não levantar daí para eu te ensinar a dar umas porradas, vou te dar porrada — ameaçou a morena. — Escolha o que te interessar mais.

levantou-se impaciente; estava cansada, assustada e triste, a última coisa que queria era aprender a lutar. Mas estava certa, não tinha que querer, ela precisava.

— Erga os braços. Não vai se defender com o ar, garota — instruiu a mais velha —, e eu não vou estar sempre por perto pra defender sua retaguarda.
— Você não me protege sempre...
— Quer que eu cite em ordem cronológica ou alfabética?

— A rainha ainda quer nossas cabeças numa lança, — sussurrou , puxando o capuz da capa para tapar o rosto. — Tome cuidado com quem fala...
— Nem todo mundo é espião da rainha, — retrucou , irritada.
— Nem todo mundo é santo, . — Uma carranca se formou no rosto de . — E a maioria nessa taverna vai abusar da sua ingenuidade, sem nem pensar duas vezes.
— Você é paranoica.

rosnou, enfiando um pedaço de queijo na boca. Por mais que soubesse que estava certa, não queria dar o braço a torcer, não para , que sempre fora a mais corajosa, a mais prendada e melhor guerreira.
ainda estava tendo aulas com a irmã, havia se familiarizado mais com um sabre que pegou de um homem que tentara atacá-las durante a madrugada, a arma era mais leve e curta que uma espada, mas ainda não estava cem por cento ótima no quesito luta corpo a corpo. Porém, como não dava descanso nas aulas, ela não estava muito longe disso.

— Coma logo e pare de ficar olhando para o nada — rosnou a morena. Já beirava à meia-noite quando finalmente conseguiu cochilar. Estava dividindo uma cama de casal com a mais nova e, pela primeira vez em um mês, sua irmã havia finalmente dormido profundamente. E não havia começado a gritar para que não matassem seu Benjen, o que já era um grande avanço.
O corredor da hospedagem estava vazio, mergulhado nas sombras, já que a maioria das velas espalhadas pelo cômodo foram apagadas. No fim do corredor, uma porta ainda estava aberta e, dentro daquele quarto, dois amigos altamente alcoolizados discutiam em “sussurros” gritados.

— São duas damas viajando sozinhas, nenhuma das duas tirou o capuz das capas na taverna! — sussurrou o mais alto e mais barbudo. — São as duas princesas fugitivas! Se as capturarmos, vamos ganhar uma recompensa gigante, Dimitru.
— A questão não é a recompensa, Aindreas! — rebateu o outro, cuspindo mais um tanto de saliva enquanto falava. — Os cartazes diziam que a princesa mais velha é a melhor guerreira de todo reino e que matou a Guarda Real com dois machados. Sabe o que isso significa? Que ela acaba com a gente em um estalar de dedos.
— Não se for pega durante o sono — o outro sorriu maliciosamente.

Depois de muito discutir, Aindreas convenceu seu amigo a ir até o quarto das duas moças que julgavam serem as princesas. Os dois já estavam um de cada lado da porta de madeira entalhada; Dimitru com duas adagas na mão, e Aindreas, com uma velha espada de esgrima.

— No três...

Dimitru girou a maçaneta e tentou empurrar a porta, mas algo a bloqueava.

— Posso, por gentileza, saber que porra os senhores estão tentando fazer? — perguntou , detrás da dupla, apoiada numa mesinha, que ocupava o espaço do corredor. O fecho da bainha dos machados preso em X em suas costas estavam abertas, prontos para serem sacados. — E por que estão tentando abrir a porta do quarto de uma dama armados e durante a madrugada?
— Porra! — praguejou Aindreas, depois de pular com o susto.
— Vou ter que arrancar a resposta dessa língua nojenta, cobrinha? — ralhou a morena, a cota de malha cintilando com a pouca luz.
— Você realmente é uma das princesas fugitivas! — quase berrou Dimitru, com o efeito do álcool deixando-o mais sobressaltado ainda. — Os cartazes diziam o que, Aindreas?
— Vale mais viva.

Antes que Dimitru pudesse fazer qualquer gracejo, um facão passou voando rente ao seu rosto, abrindo um curto e fundo corte na maçã de seu rosto. Com a surpresa, Aindreas olhou para a faca cravada na parede de madeira, tremendo, sendo acertado com um chute nas costas, enquanto Dimitru tentava, com uma das adagas, repelir o machado de , sem ter muito sucesso.
A princesa forçou os músculos do braço, aproximando mais ainda o machado do rosto de Dimitru. Aindreas, ainda meio grogue da bebida, acertou um chute na porta, fazendo-a abrir, sem espaço suficiente para entrar. Chutou e chutou. Até que a porta abriu.
estava nos fundos do quarto, grudada à parede e com o sabre na mão, tremendo feito vara verde. Seria mais fácil que tirar doce de criança render aquela ali. Quando ergueu o machado outra vez, para desferir, desta vez, um golpe mortal em Dimitru, Aindreas chamou sua atenção, apontando a ponta do sabre de para o pescoço da mesma. Típico, pensou a mais velha.
jogou o machado no chão, erguendo os braços, em sinal de rendição.

— Liberte-a, e eu não mato seu amigo — ofereceu a princesa.
— Não tão fácil assim, Alteza — retrucou Aindreas maliciosamente.
— Merda — sussurrou a morena, prevendo o que viria a seguir.

E Dimitru bateu com o cabo de madeira do machado na cabeça da mulher, fazendo-a cair como um fantoche no chão.

Capítulo 7


Blackburn POV ON.

Praguejei pela sexa-não-sei-qual vez, desenhando com tinta azul neon na lateral do meu rosto. Maldita hora em que cismou de ir à essa festa. Olhei novamente para meu reflexo no espelho, bufei, contrariada, e passei uma espessa camada do batom verde fluorescente nos lábios. Coloquei mais um grampo no cabelo, para garantir que aquele tanto de cabelo não tocasse no desenho em meu colo, que parecia bem mais avantajado com o bojo apertado daquele cropped, pincelei mais um pouco de pó e saí do banheiro, checando minha roupa no espelho de corpo inteiro. O figurino que escolhi caiu perfeitamente bem: um top cropped de renda branca, um shorts que o cos ia até meu umbigo, preto e rasgado em alguns pontos, e um par de botas que iam até acima do meu joelho, com saltos bem altos.
Voltei à sala, onde desenhava um bocado de desenhos abstratos com tinta neon de várias cores no abdômen malhado e cheio de gominhos de Daniel. Que também invocara de ir à festa. Mas até que a visão do corpo trabalhado de Danny todo desenhado era bem satisfatória, já que, para mim, ele nunca foi só um irmão. Aproveitava enquanto podia. Ele ergueu o rosto e sorriu em minha direção, com alguns fios do cabelo molhado caindo sobre a testa.
E o público feminino foi ao delírio.

também estava magnifica. Usava um cropped cor de rosa com algumas tiras nos seios, calça azul clara de cintura baixa, um par creme envernizado de peep toes, o cabelo preso numa trança embutida, com desenhos de várias cores espalhados pela barriga e braços. Linda com uma maquiagem que destacava seus olhos.

— Está totalmente, completamente, super sexy, mana — ela comentou, sorrindo. Desde que eu contara sobre a visão da morte de Benjen, ela sorria e brincava 24h por dias. — Já estou terminando o Danny, logo já estamos no Jeep.
— Não estou apressando, corazón — respondi, pegando a caixa dentro do gabinete da cozinha. Abri e comecei a selecionar o melhor e mais discreto par de adagas para esconder nesta roupa minúscula. — Tô me sentindo uma puta...

Daniel gargalhou alto.

— Para, . — repreendeu, também rindo. — Você tá linda. — Não muda o fato de eu estar parecendo uma vadia.
Peguei um par de adagas curtas, pontudas e afiadas, e escondi no cano das botas. Tranquei o baú e voltei ao gabinete, ficando em pé.

Meia hora depois, nós estávamos na entrada de onde seria a festa. Daniel puxou a porta, que mais parecia um portão. O flat tinha teto alto e com vigas espalhadas pelo salão, com janelas de paredes inteiras no fundo do cômodo. A música eletrônica estourava nos autofalantes, e vários corpos pulavam e falavam por todo canto. Entramos e Danny fechou a porta atrás da gente. Olhei em volta, identificando o bar.

— Vejo vocês depois! Divirtam-se! — berrei por conta da música alta e me direcionei para as escadas, assumindo minha personalidade de vadia descarada. Pedi ao rapaz, no bar, uma cerveja, e ele prontamente me entregou uma Budweiser long neck já aberta. Dei um longo gole e me apoiei com os cotovelos no balcão, observando a multidão dançar. Um garoto louro e de feições fortes aproximou-se, dançando, e parou ao meu lado, pedindo uma Heineken ao barman.

— Oi — ele cumprimentou, com um leve sorriso nos lábios, bebendo sua cerveja.
— Olá. — Limitei a olhá-lo pelo canto dos olhos. Gato, no mínimo.
— Me chamo Aiden. — Ele virou-se para mim, me estendendo a mão.

Pense em um nome, rápido! Qual, qual, qual... Já sei!

— Leia — sorri de volta. E quem não disse que Star Wars não salva a gente?
— Não está me zoando, né? — ele perguntou, ainda sorrindo.
— Não, minha mãe não se inspirou em Star Wars — menti, dando de ombros.
— Sendo assim... — Ele me olhou e fez uma breve reverência. — Minhas desculpas.
— Normal. A maioria das risadas escandalosas — inventei, ainda no meu papel de piranha cafajeste — são constrangedoras.
— Não posso nem imaginar... — ele deu uma risada contida, aproximando-se mais. — Mas é mais constrangedor ainda quando me confundem com o meu gêmeo gay.

Ele disse a última parte num tom baixo. Gargalhei alto e aproximei o rosto da orelha dele, a fim de poder ser ouvida.

— Desculpe-me, mas é que eu sempre achei essa possibilidade hilária — expliquei, ainda rindo internamente. — Digo, imagina se algum cara te agarra?
— Já tentaram.

Ri mais uma vez, desviando meus olhos de Aiden. Um remix de She Wolf, da Sia com o David Guetta, começou a tocar nos autofalantes. Amava essa música!
Peguei a mão de Aiden e o puxei para a pista de dança, e ele me olhou desconfiado.

— Eu simplesmente AMO essa música! — berrei, começando a remexer o quadril. — Você tem que dançar comigo!

Comecei a remexer o quadril. As várias roupas fluorescentes e desenhos com tintas também fluorescentes brilhavam por todo lado. Estávamos dançando próximos à imensa janela, que dava visão a uma varanda e ao céu noturno, sem nuvens e apenas com a lua.
Depois de muito dançar e flertar, Aiden se ofereceu a ir pegar bebidas para a gente, e eu concordei, parando encostada na imensa janela.
Olhei para fora. Havia uma garota com um cropped rosa, que brilhava com a luz negra. Eu não podia ver seu rosto por conta da escuridão da noite sombria e a falta de luzes normais no flat. Um garoto sem camisa foi jogado contra o vidro, bem em minha frente, o que me fez pular de susto para me afastar. Vi o mínimo de seu rosto por conta da pintura fluorescente na bochecha. Mas o que...? Aiden? Mas o Aiden foi para lá! Não, espera... O gêmeo! Isso!
Saí para a varanda, vendo o gêmeo caído no chão com os olhos esbugalhados e imóvel. A garota lutava com alguma coisa, quase impossível de ver no meio da escuridão, mas eu sabia que estava lá. Talvez, fosse pelos olhos brilhando feito vagalumes no escuro? Provavelmente.
Puxei as adagas das botas e me incluí na luta, golpeando a coisa como podia. A garota ficou ombro a ombro comigo, a coisa nos circundava, e, mesmo no escuro, consegui distinguir a arma que ele usava: uma katana. Agora, me diz, como é que eu me defenderia da porra de uma katana usando um par de adagas? É o que eu chamava de milagre que só as Blackburn faziam. Estalei pescoço e deixei meus olhos assumirem a sua forma, deixando minha visão cem vezes mais aguçada. Vi a coisa metida à samurai nos rondar, pronto para atacar, e assim o infeliz o fez. Barrei a espada com meu próprio braço, sentindo a dor irradiar do talho recém aberto. Girei a mão e agarrei a mão da coisa, firmando o aperto na adaga com a outra mão. E PAM! Cortei o punho do bicho fora. Mas não jorrou sangue, nem negro, nem vermelho, só fiquei com a mão enluvada na mão. Era só o que me faltava, a mão do troço se desfez em mais sombras.
A escuridão parecia se dissipar quando os olhos de vagalume desapareceram, tornando-se mais fácil ver.
Abaixei-me para checar o pulso do gêmeo Aiden, fraco, mas ainda estava lá. Passei o dedo por seu nariz, sentindo a leve respiração contra minha pele.

— Você está bem? — Levantei e me virei para checar a garota, que, agora, consegui ver o rosto. A menina Argent. A porra da coisa ressurgiu atrás da merda da garota. Puxei a adaga do cano da bota e tentei acertá-lo, mas um buraco se abriu no peito da coisa, e a adaga passou reto. — Se...

Mas a coisa tocou o pescoço dela, antes que eu pudesse sequer terminar a frase.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Não fez muito tempo que havíamos chegado naquela rave e não fez nem cinco minutos que e Dan me abandonaram. Nunca fui muito de festas, mas os dois sempre davam um jeito de me arrastar junto, e vinha de praxe os dois me largarem para ir atrás de algum pobre coitado, ou coitada, para acabar na cama deles.
Arranjei uma cerveja no bar e me sentei na escada em espiral numa das extremidades do loft. Olhei para o amontoado de corpos fluorescentes dançando loucamente com o mais novo lançamento do Aviccii. sempre me dizia que eu devia aproveitar mais a juventude inacabável que tínhamos; devia dançar, beber, arranjar mais namorados. Mas isso nunca foi para mim. Não mesmo.

— Será que podemos conversar? — Dei um pulo quando ouvi a voz do alpha vir por trás de mim.
— Deus do céu! — praguejei, levando a mão ao peito.
— Desculpe, não queria te assustar. — Ele ergueu as mãos, em sinal de rendição.
— Olha, se veio aqui para comprar briga pelo o que minha irmã fez, perdeu seu tempo, Scott — adiantei, segurando o pescoço da garrafa, como um taco, com uma das mãos. — Ela tem temperamento forte e pavio curto, e um maldito instinto protetor quando o assunto sou eu. Então, se ela te feriu, não foi sem motivo.
— Lydia quebrou um vaso na sua cabeça, só rebateu. — Ele sentou-se no da escada. — Vocês são as Blackburn, não é?
— Ah, não tem como fugir mais... — sussurrei, sentando ao seu lado. — Somos. Somos nós as Blackburns.
Ele parou, olhando para a multidão dançante.
— Desculpe-me por Lydia ter quebrado um vaso na sua cabeça — ele começou, com um leve sorriso.
— Desculpe-me por minha irmã ter quase te matado sufocado. Ela não sabe se controlar em certas horas — sorri.
— Posso te fazer uma pergunta, ? — Ele me olhou curioso. — Se é que eu ainda posso te chamar assim...
— Ainda pode me chamar assim, Scott — ri, dando outro gole na cerveja. — Faça sua pergunta.
— Vocês estão atrás do quê? — McCall concluiu a frase lentamente, parecendo estar com medo da resposta.
— Eu não posso dizer, Scott — expliquei, coçando a nuca. — Quando alguém nos contrata para ir atrás de alguém, os únicos que sabem quem ou o que somos nós duas e o contratante.
— Mercenárias tem “éticas trabalhistas’’?
O olhei, tentando parecer ofendida. Todo mundo fazia piada com nossa ética de trabalho.
— Okay, desculpe, só pensei que, talvez, eu e o pessoal pudéssemos ajudar. — Ele deu de ombros. — Digo, nós conhecemos a maioria dos seres sobrenaturais desta cidade.

Antes que eu pudesse responder, um estrondo veio, junto da música, que parou repentinamente. Levantei, quase caindo por conta do salto enorme do sapato. Scott segurou meu braço, ajudando-me a ficar em pé.

— Falta de costume com saltos — sorri, meio constrangida, vendo a mesa onde, até poucos minutos antes, o DJ tocava.
— E o dono da casa chegou. — Scott fez uma expressão que, se não fosse pela mesa virada no meio do povo, eu teria rolado de tanto rir.
Segui o lobisomem pelo meio da multidão, sem muita escolha, já que ele segurava a minha mão. Medo de eu fugir? Talvez.
— Todo mundo fora! — uma voz grave e rouca berrou, assustando todo mundo, já que todos os malucos pintados foram correndo para fora do loft.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Passei um braço do garoto pelo meu ombro e da Argent no outro, levando os dois para dentro do loft. E a música havia parado, seguida de um enorme estrondo, e alguém berrando para todo mundo dar o fora. Mas que maravilha. Empurrei a porta com o pé e puxei os dois para dentro. Lydia surgiu, junto com Daniel, e ele estava com a boca toda manchada de vermelho... Ah, esse é o meu Danny!

— Que porra você fez com eles? — Lydia berrou, e eu soltei os dois num reflexo assustado, erguendo os braços.
— Eu não fiz nada! Digo, isto eu fiz. — Apontei para os dois jogados no chão. — Uma coisa que nunca vi na porra da minha vida atacou o amiguinho aqui, e eu tentei ajudar sua amiga a se defender, então coisa sumiu. Fui checar o parceiro aqui, e a coisa apareceu de novo, e fez o mesmo com a Argent.
— Como era a coisa? — perguntou o garoto McCall. Olhei para ao seu lado, com o cenho franzido.
Ela repetiu a pergunta:
— Como era a coisa, ?
— Eu não sei! Não consegui ver o rosto do troço, mas usava uma katana e os olhos brilhavam como vagalumes. — Dei de ombros, ajudando Aiden a por seu gêmeo sentado.
— São os Onis. — Derek Hale surgiu não sei da onde. — Marcaram Allison e Ethan.
— São o quê? — perguntou , ainda ao lado de McCall.
— São como demônios. Eles meio que vêm das sombras. — Daniel foi quem respondeu, e eu, e , olhamos para ele.
— Eu li o grimorio. — Ele deu de ombros.
— Tem vários — completou Stiles. — Eles marcam as pessoas, como fizeram com Allison e Ethan.

Agora, Ethan já estava consciente, e Aiden estava ao lado do irmão, que ainda estava jogado no sofá, com o garoto Hale logo atrás, em pé, com os braços cruzados sobre o peito, e adivinha só! Ainda me olhando como se ele fosse um soldado americano, e eu, o Osama Bin Laden.
Rapazinho adorável esse aí.

— Isso é uma trégua, então? — questionou Scott.
— Uma trégua — eu e respondemos em uníssono.
— Agora, contem tudo o que sabem.
Eles começaram a explicar toda as informações que tinham a essa altura, o que tomou certo tempo.
— Tá bem, então, essa coisa se chama oni e tem vários outro como ele? — perguntei, me levantando do sofá. — Ele está vinculado com essa pessoa possuída, que vocês também não sabem quem é.
— E não vamos deixar você matar — adiantou a banshee.
— Nunca falei que iríamos matar o possuído, Martin. — Revirei os olhos. — Nosso contratante nos mandou exorcizar, ou sei lá que merda, o espirito, não matar a pessoa.
— Nós poderíamos nos ajudar... — sugeriu. Ô linguinha solta. — Nós estamos atrás do nogitsune também. E temos mais experiência em caçar criaturas que vocês.
— Experiência? — Lydia riu irônica. — Vocês mal têm 19 anos!
— Você sabia que pode direcionar suas ondas sonoras sobrenaturais de banshee, para explodir o crânio de alguém? — Ela me olhou confusa e desconfiada. — Ou que existem mais de um tipo de lobisomem? Bom, viu? Ponto para nós.
— Acredite, eu só quero exorcizar esse infeliz e dar o fora desta cidade, Lydia. — completou. — Agora que sabemos que essa coisa tem um monte de Jet Lis do capeta com ele, quero sumir mais ainda.
— Para mim, tudo bem. — Stiles se meteu, e Lydia olhou indignada para ele. — Cara, uma delas deu uma surra e teria matado o Derek, se não tivesse lhe salvado antes de morrer. Imagina o que duas delas não fariam contra esse nogitsune?
— Estou começando a gostar de você, menino — sorri o mais cínica que eu podia.
— Tá, vocês nos ajudam — disse Allison Argent, que eu nem tinha visto que havia voltado à vida. — Desde que não atirem em ninguém que não mereça.
— Não vou dividir dinheiro nenhum, também, que não seja com a minha irmã — completei, e Daniel me olhou indignado — e com o Dan.

Agora foi Derek Hale quem engoliu uma risada.

Puxei as botas e joguei num canto do quarto, sentindo meus pés agradecerem por tirar esse par de instrumentos de tortura. Joguei-me de costas na cama, me agarrando aos travesseiros e, quando estou fechando os olhos, para, ao menos, aproveitar minhas restantes três horas de madrugada para dormir, minha barriga ronca alto.
Puta que me pariu, maldita fome sem fim.
Bufei e me joguei para fora da cama, indo em direção à cozinha. Estava realmente me sentindo naqueles filmes de terror em que a mocinha sai do quarto na casa toda escura, chamando alguém (como se o assassino fosse, em uma hipótese absurda, respondê-la), vai à cozinha sombria (que é onde eu acabei de entrar) e morre tragicamente.
Peguei um pedaço de torta de limão e servi um copo de coca-cola, me sentando na bancada ao lado do fogão, e comecei a vasculhar uma caixa, em busca de uma colher.
Achei!
Peguei uma gigantesca colherada de torta e enfiei na boca. HMMMMM! Caralhos, quem inventou a torta de limão ganhava um beijo meu agora.

— Boa noite, Mermaid. — Dei um pulo na bancada quando ouvi a voz de Dan e virei para ele com minha melhor imitação de Emily Rose*.
— Desgraçado! Quase me matou do coração! — Dei um “sussurro’’ gritado, abaixando meu prato com torta. — Nunca mais faça isso, Daniel!
— Desculpa! — Ele ergueu as mãos, em sinal de rendição. — Você é muito assustada, ...

Ele riu e pegou minha coca-cola, sentando na ilha à minha frente. O olhei assassina de novo. Cretino. Ele arqueou uma sobrancelha, me desfiando a fazer alguma coisa.
Cretino vezes dois.

— Nossa, desde quando você deixa roubar sua comida? — Ele me olhou, fazendo a mais exagerada cara de espanto que já vi na vida.
— Desde quando minha torta tá muito boa para eu perder tempo com você.

Pobre coitado. Pobre mesmo, se achava que eu iria deixá-lo roubar minha comida fácil assim.
Terminei de comer minha torta com, basicamente, duas dentadas, com Daniel ainda me olhando, em desafio, com aquela maldita sobrancelhinha levantada. Um dia, mas um dia, eu a arrancaria na pinça, bem devagarzinho, para ser bem torturante.
Coloquei o prato sujo na pia, jogando um tanto de detergente na bucha, peguei a torneira do pino* e apertei a alavanca; esfreguei o prato com uma mão e passei a água com a outra.
Hmmmmm, perfeita essa ideia que eu acabei de ter...
Coloquei a torneira de volta no pino, deixando o prato no escorredor. Peguei a torneira e apontei para Daniel, e apertei a alavanca, deixando-o ensopado.

! — ele engasgou, rindo.
— Ah, mas nunca que você iria ficar impune por me roubar comida! — ri alto, ainda molhando-o com a torneira.
Ele pulou da bancada, tentando me segurar. Desvencilhei-me e continuei apertando a alavanca da torneira, rindo que nem uma retardada.
! — ele riu mais ainda, prensando-me contra o balcão. — Retardada.
— Nunca mais me robe comida, garoto — ri junto, soltando a alavanca. — Isso é pra você aprender, tá?
— Olha o meu estado, louca — ele riu, tirando o cabelo molhado da testa.
— Eu vi você com aquela garota Martin — sorri, sentindo uma gota de água escorrer por minha espinha. — Você não perde tempo, Deus que me perdoe, Daniel!
— O quê? Ela é bonita — ele argumentou, uma mão no meu quadril, e a outra coçando os olhos. Menino tapado. — Mas eu ainda prefiro morenas...
— É como diz aquele maldito ditado — começo, segurando uma risada: — pau que nasce torto, nunca se endireita.
— Não que o meu seja.
Gargalhei outra vez. Ele ainda ria, agora, com as duas mãos no meu quadril.
— Senti saudades, Danny — sorri levemente, finalmente beijando-o.

*Emily Rose é a protagonista do filme Exorcismo, de Emily Rose, sendo, assim, a possuída.
*Em algumas casas nos Estados Unidos, a torneira das pias é meio que soltas, tipo uma mangueira, que você solta do pino e aperta a alavancazinha, e a água sai.


Capítulo 8


A manhã estava cinzenta e nebulosa, no telhado do prédio, e pulavam e desviavam, ambas usando roupas de ginástica e um par de espadas de madeira, golpeando e desviando da outra.

— Equilíbrio, mana — lembrou-se a morena, girando as espadas nas mãos. — Sempre se esquece do seu próprio equilíbrio.

riu, enxugando o suor que escorria em seus olhos. Treino matinal sempre deixava de bom humor, se é que se chamava cinco e meia da manhã de matinal, já que, na opinião da ruiva, só ficava manhã quando o sol nascia, como era para todo mundo.

— E você sempre é um doce, querida. — Brincou ela, firmando o aperto nas espadas.
— Sabe que te amo.
puxou mais um tanto de ar, investindo contra a irmã e atingindo-a no braço com a espada de madeira. gemeu, segurando na região em que era para ter uma lâmina.

— A garota Argent gosta de você — comentou a ruiva quando a irmã puxou de volta a espada.
— Não vai gostar tanto assim, até Christopher contar sua ladainha a ela. — A morena desviou de outro golpe com um rodopio. — Salvamos a vida do infeliz, e ele ainda acredita em Gerard. Aquele moleque Hale não é muito meu fã.
— Lógico! Você quase o matou com três balas de prata! — argumentou a mais nova, usando uma mureta como apoio para acertar um chute na mais velha. — Não foi só uma, mas três! Deve doer para caralho esse negócio.
— Ele quis pagar de macho comigo. — respondeu, contrariada, massageando o local do chute. — Achei falta de respeito. Continue me enchendo o saco, e eu te faço me pagar o café.

riu, manejando as espadas com habilidade, sem abandonar a postura rija e, ao mesmo tempo, relaxada de espadachim. Daniel subiu a escada, que dava para telhado, aos bocejos, quase derrubando o café de sua caneca incontáveis vezes.

— Dá para as madames pararem de berrar na janela da porra do quarto? — grasnou ele, assim que abriu a porta, parecendo um velho ranzinza. — Pessoas normais, normalmente, dormem às cinco da manhã.
— Vou ignorar seu acesso de raiva e o fato de que só o quarto da é deste lado do prédio. — atacou a irmã outra vez, o top verde ensopado de suor. — Você parece um velho. Deus que me perdoe, Daniel. Vamos melhorar esse humor.

saltou, girando o corpo num pé só, em 360 graus e puxando a espada de madeira da irmã, o cabelo negro voando para todo lado. riu, jogando a segunda espada da mão esquerda para a direita. Daniel bufou contrariado, irritado por nenhuma das duas ter lhe dado atenção.

— Ai, Danny, desfaz essa cara. Ou isso é ressaca da festa? — Brincou , fazendo um movimento digno de Neo do Matrix para desviar da espada da irmã. — Bebeu demais, ou a saliva da Martin tinha muito álcool?
— Vá ferrar, Blackburn! — rosnou Daniel, protegendo os olhos do sol com uma mão. — Psicopatas.

E voltou para dentro do prédio, deixando as duas tentando se matar no telhado.

— Vocês deveriam ser mais discretos — pediu , chutando a espada da irmã para desarmá-la. — Dão muito na cara.

soltou a segunda espada, erguendo os braços em rendição, visto que estava cansada ao ponto de sentir todos os músculos do corpo ameaçarem a ter cãibras.

— Venceu. Minha garganta está mais seca que a merda do Saara! — Riu ela, deitando no chão com uma garrafinha com água na mão.

riu e ajudou a irmã a se levantar, pegando as espadas de madeira do chão.

— Estou pensando em ficar loira... — comentou enquanto colocava uma colherada de pó de café no coador da cafeteira.
— Tá me zoando, né? — perguntou , rindo alto, mas controlou-se ao ver a face a la Kristen Stewart da irmã (n/a: desculpe às fãs da moça, mas não tem definição melhor). — Ah, você está falando sério?
— Palhaça! — resmungou a outra, abaixando a tampa da cafeteira, que começou a trabalhar. — Qual é o problema comigo loira?
— Você ficaria parecendo a Cara Delevigne, sua louca! — Gesticulou , segurando a faca suja de manteiga de amendoim como se fosse uma arma.
— Se você jogar isso em mim, eu te socarei. — se contorceu. Sua alta alergia a amendoim já estava quase atacando. — Abaixa essa merda, !

sorriu maligna, chacoalhando a faca para lá e para cá.

— Você mata pessoas para viver e tem medinha de pasta de amendoim! — A ruiva riu, abaixando a faca. — Essas coisas da vida, viu...

Olivia ergueu o dedo do meio para a irmã, fuçando outra caixa, para achar outra xícara.

— Eu falei que era melhor guardar as coisas nos lugares certos. — cutucou seu sanduíche de pasta de amendoim com geleia. — Não iria ter que ficar fuçando tudo quando for usar.
— Você vai ajudar a guardar quando a gente for embora?
— Não.
— Então. Não vou guardar porra nenhuma para eu ter que guardar tudo sozinha depois. — A outra sentou na bancada com sua inseparável xícara de café. — Sua folgada. Tem que parar de ser preguiçosa desse jeito, fofurinha.
— Nossa, mãe, desculpa aí. — Daniel apareceu no arco da cozinha. — Seu temperamento de velha rabugenta de 60 anos tá atacando de novo?

Myra engasgou, ainda rindo.

— Falou a pessoa que levantou da cama às 5h30 da manhã para reclamar — retrucou a morena, revirando os olhos. — E o que você tá fazendo aqui? Vai dormir, vai...
— Ai, quanto amor rolando no ar nesta manhã, viu? — provocou a ruiva, dando outra dentada em seu sanduíche. — Beijem-se logo. Não! Mentira, eu tô comendo, façam depois.
— Mudando de assunto agora — cortou , pegando uma maçã de uma das sacolas de compras. — Você acha mesmo que essa trégua de ajuda com a molecada vai ajudar em alguma coisa?
— Ele é a porra do alfa da cidade! E um genuíno ainda! , significa que ele tem um bom caráter. Significa que dá para confiar. — deu de ombros, limpando na roupa os farelos de pão. — Sem contar que não sabemos se podemos com essa coisa. Cinco lobos, uma banshee e uma caçadora no time seria extremamente útil.
— Imaginei que você fosse recorrer ao Hale...
— Peter é uma cobra, só pensa em si próprio — a outra retrucou, bebendo uma golada de café. — Nos ajudaria apenas se fosse de seu próprio interesse.
— Descrição perfeita — ironizou Daniel.
— Não precisa ter ciúme, Levi.

Blackburn POV.

Coloquei a caneca de café na pia e fui ao meu quarto, começando a catar as roupas do chão carpado, algumas delas sendo de Daniel. Ah, como eu adorava uma baguncinha. Joguei algumas peças sujas no cesto de vime, tirando alguns pares de sapatos do caminho.
Joguei uma bolsa de couro castanho ao lado do espelho e parei, por um minuto, para olhar o meu reflexo, que, no momento, não era dos melhores. Meu cabelo estava todo desgrenhado, um hematoma estava se formando em volta do meu pescoço e a camiseta de pano fino colada ao corpo, por conta do suor, não deixava minha situação muito confortável. Soltei o par de botas e peguei uma toalha em cima da cômoda, me enfiando embaixo do chuveiro logo em seguida.
Enfiei a cabeça debaixo da água quente, fechando os olhos com força e sentindo o efeito dos advils começarem a passar, e minha cabeça voltar a latejar violentamente. As imagens começaram a rodar lentamente e aquele maldito triskelion se repetia várias e várias vezes, a maioria das imagens eram borrões, mas o triskelion aparecia claramente. Como se alguma coisa quisesse me dizer alguma merda, e sempre tinha que ter a porra de um Hale envolvido!
Terminei meu banho, me enrolei na toalha e encarei outra vez meu reflexo no espelho, agora, com a cara limpa e com o cabelo parecendo uma vassoura com dreads. Minha aparência não era lá das melhores. Peguei a sacola da farmácia em uma das gavetas e enfiei a mão dentro, apanhando uma cartela de advil e enfiando os quatro na boca, junto de mais cinco aspirinas, e engoli tudo, e puxei mais um tanto de ar. Pisquei com força, sentindo a dor começar a diminuir.
Toquei a bandagem enrolada em meu antebraço, molhada e suja de sangue, descolei o esparadrapo e desenrolei, vendo o talho feito pelo oni fechado por dez pontos que começavam a verter sangue. Peguei mais um tanto de gaze e virei metade do vidro de iodo em cima, pressionando sobre os pontos e contendo um gemido de dor. Refiz o curativo e prendi com um pedaço de esparadrapo outra vez.

Allison me deu um cutucão com o lápis, me fazendo bufar pela não sei qual vez no dia. Virei, tentando não chamar atenção do professor Yukimura.

— O quê? — cochichei.
— O que houve com seu braço? — Ela apontou para meu braço enfaixado.
— O oni me feriu com a espada — respondi, indicando o óbvio.

Voltei minha atenção ao professor, mas a infeliz me cutucou outra vez.

— Que foi? — cochichei irritada.
— Obrigado por tentar me ajudar — ela sorriu minimamente, ainda cochichando.
— Eu e meu instinto heroico imbecil.

Virei-me para frente, no mesmo segundo em que senhor Yukimura olhou em minha direção com aquele olhar de reprovação que todo professor tinha para seu aluno arteiro. Dei a ele meu melhor sorriso de desculpas.

A aula se seguiu com a mesma chatice de sempre, a mesma explicação que já ouvi incontáveis vezes de uma perspectiva diferente do habitual. Dei graças a Deus quando a sineta tocou, indicando o intervalo no meio das aulas, juntei os cadernos em cima da mesa e quase voei para fora da sala, correndo, até sentir aquela maldita sensação sufocante passar, que me faz parar no jardim. Sentei-me no gramado, com as costas apoiadas num banco.

— Você está bem? — a voz da garota Martin veio detrás de mim.
— Minha cabeça que dói para o inferno. — Afastei os punhos dos olhos, e ela sentou-se ao meu lado. — E não para.
— Desculpe — pediu ela, sincera.
— Tenho certeza que minha dor de cabeça não é sua culpa, Lydia. — Brinquei, rindo fraco.
— Não por sua dor. Mas por ter feito a coisa do grito com você — ela explicou. — Deve ter doído pra caramba.
— Eu estava quase matando seu amigo. — Dei uma leve ombrada nela. — Teve seus motivos.
— Foi assustador. Digo, você segurando a gente no ar e sufocando o Scott só com as mãos mexendo.
— Truque maneiro, né? — ri, enrolando o cabelo e deixando só de um lado do pescoço. — Prometo que, na próxima, não uso em um de vocês.
— Agradeço.

Um silêncio leve se instalou entre nós. Agora, sabia que Lydia Martin não era o poço de futilidade como eu imaginava que fosse. Ela me olhou assustada.

— O que houve?
— Seu nariz está sangrando! — Ela apontou para o meu rosto.

Toquei meu nariz, sentindo o líquido viscoso e quente molhar meus dedos. Minha visão começou a se embaralhar, perdendo a cor, e meu corpo parecia leve... Tão leve quanto uma pena.

? — chamou a Martin, sua voz soou oca, parecendo distante demais de mim. — Lydia?

A última coisa que vi, antes da escuridão tomar conta, foi o rosto desesperado de Lydia.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Eu estava em minha aula de cálculo avançado, sentada em dupla com Danny. Bocejei, olhando para o nada, enquanto a professora divagava sobre o Diagrama de Ishikawa, e estava divagando mesmo, já que, metade dos alunos que enchiam a sala estavam mandando sms escondido, cochichando com sua dupla, dormindo ou pensando na morte da bezerra.

— E então, é por sua forma que foi apelidado de Diagrama Escama de Peixe. — Miss Vennp explicou, apontando para seu desenho a la Picasso com o giz.
— Você entendeu alguma coisa? — Danny cochichou para mim.
— Não, só prestei atenção na parte que diz “Diagrama de Nagazaki” — respondi em tom de brincadeira.
— Ishikawa, , Ishikawa — ele me corrigiu, rindo baixo.
— Ah, você entendeu.

A professora olhou, irritada, na nossa direção, me fazendo calar a boca na hora. Continuei a desenhar algumas imitações de Salvador Dali nas bordas da folha do meu caderno, que eram, na maioria, flores retorcidas e abstratas. Quando miss Vennp iria começar a divagar sobre o criador do Diagrama, a sineta do intervalo entre as aulas berrou.

Saí da sala lentamente, conversando sobre lacrosse com Danny, coisa que ele achou estranho de primeira, alegando que nenhuma menina nunca conversara com ele sobre lacrosse entendendo do assunto como eu. Fiquei lisonjeada, agradeci o elogio e continuei perguntando se era legal fazer parte de um time e quando era o próximo jogo. Entramos na fila da cantina, com certa relutância da minha parte, mas Danny jurou de pé junto que iria me ajudar a escolher um prato que não fosse me dar uma intoxicação alimentar mais fodida que a Sasha Grey (n/a: outra piadinha que não deu pra segurar, desculpem-me).

— Se eu morrer por comer isso aqui, não quero você no meu velório. — Brinquei, enquanto a senhora da cantina servia um sanduiche natural embalado com papel filme no prato da minha bandeja.
— Juro que será a melhor coisa que vai comer — ele sorriu, enquanto a mulher servia o mesmo para ele. — Pálida desse jeito deve estar com fome.
— Eu sou branca, é para combinar com o cabelo. — Pisquei. Pedi uma maçã à senhora e me afastei da fila.
— Isso é natural? — ele riu, me seguindo até uma mesa.
— Claro que é. — Fiz cara de ofendida, deixando minha bandeja sobre a mesa e indo à máquina de refrigerantes, que ficava quase colada à mesa. — Parece tintura?

Olhei para o painel da máquina, e tudo pareceu brilhar além do que deveria. Pisquei com força, sentindo o ar ameaçar me faltar, e a nota de cinco dólares escorregou por entre meus dedos. Apoiei-me na máquina. Tudo à minha volta pareceu rodar, ficando fora de seu eixo natural.

? — Danny chamou, sua voz ecoou distante.

Virei-me precariamente, mal conseguindo me equilibrar no salto curto das botas. Meu nariz ficou quente e começou a arder. Senti toda a força do meu corpo se esvair e minhas pernas bambearem.

— Me aju...

Antes que eu pudesse terminar o pedido, meu corpo ficou leve feito uma pena, como se eu estivesse flutuando no ar, e, lentamente, fui tombando para o lado, até meu corpo cair na grama curta, com a escuridão tomando conta de tudo.

POV OFF.

Os alunos montaram um círculo ao redor de Danny, que segurava uma apagada nos braços.

— Alguém chame a droga da ambulância! — berrou o rapaz, tentando acordar a mais nova amiga.

Greenberg, que, até pouco tempo, tinha saído correndo aos tropeços para fora da cafeteria, voltou acompanhado de Natalie Martin e Georgina Vennp.

— O que foi que aconteceu? — indagou a Martin, acotovelando alguns alunos para abrir caminho até a ruiva. — Georgina, chame uma ambulância! Agora!

Georgina Vennp puxou o celular do bolso do blazer e discou o número da emergência.

— Ela estava indo pegar um refrigerante na máquina e caiu com sangue saindo do nariz! — um tom de desespero tomava conta da voz de Danny. — Ela vai ficar bem?

Natalie ajoelhou-se ao lado do corpo inerte de , que ainda tinha sangue escorrendo do nariz. Amais velha checou o pulso de Blackburn e olhou para Danny.

— A irmã dela está onde?
? Eu não sei — respondeu o rapaz, gaguejando. — Ela não estava na última aula com a gente.
— Alguém ache Jamesson e a traga aqui agora! — mandou Martin.

O som estridente das sirenes da ambulância sendo ouvidos distantes.

? ? Acorde! — Lydia chacoalhava assustada o corpo de . — Por favor, acorde!

O braço enfaixado, que estava coberto pela manga lilás da blusa, tinha sangue negro pingando dos dedos. Lydia tocou o braço, puxando a manga para cima. A bandagem estava totalmente enegrecida, deixando parte dos pontos estourados à mostra.

— Alguém me ajude! Minha amiga não está bem! — chamou ela.

Ninguém apareceu no jardim deserto. Maldita hora do almoço! Lydia deitou com cuidado a cabeça de na grama, saindo numa corrida ao máximo que podia com aquele par de saltos. A maioria dos alunos estavam na cafeteria, aproveitando seu santo horário de almoço. E uma inquietante sirene berrava não muito longe da entrada da escola.

— Alguém ajude! — Tentou de novo.

Georgina Vennp corria pelo corredor, seguindo a ordem de Natalie de ir guiar os paramédicos.

— Lydia! O que foi que houve?
! Jamesson desmaiou no jardim! — explicou a ruiva, ofegando. — Tem sangue saindo do nariz dela!
— Oh, droga, a irmã dela está desmaiada na cafeteria — contou a professora, discando o número da emergência outra vez, e foi atendida logo em seguida. — Preciso de outra ambulância na escola, outra menina desmaiou!

As ambulâncias chegaram com um estardalhaço, subindo sobre as calçadas. Dois paramédicos desceram de cada uma. Professora Vennp e a diretora guiando cada dupla para um lado.


— Vamos, Lydia! Elas são nossas amigas! — argumentou Allison, parada com a mão na maçaneta do motorista.
— São? Tem certeza disso? é legalzinha, mas ainda tem uma pontinha homicida! — Allison a repreendeu com uma careta.
— Você que estava tentando virar amiga dela! — argumentou a outra. — Entra na merda do carro, Lydia!

Martin bateu o pé, literalmente parecendo uma criança.

— Lydia Martin, agora! — mandou a morena, batendo com a mão no capô do carro.
— Tá, tá!

A outra entrou no carro, a contra gosto, prendendo o cinto.

O hospital era extremamente branco e limpo, tão branco que as luzes fluorescentes faziam os olhos de qualquer um doerem. As duas ambulâncias chegaram com uma sonora barulheira, as duplas de paramédicos puxaram as macas de dentro das ambulâncias, correndo pela porta dupla de vidro. Melissa McCall e mais três enfermeiras se aproximaram assim que viram o sangue negro escorrendo pelo braço, que pendia para fora da maca, da moça morena. McCall, prontamente, puxou a maca para a área de primeiros socorros.

— Deixem essa comigo. Juliard? Pode cuidar da outra? — pediu Melissa. Juliard Owens fez que “sim” com a cabeça, acompanhando a colega com a segunda maca. McCall desatou os farrapos que haviam se tornado o curativo improvisado. O corte quase dava a volta no antebraço todo e era profundo, muito mais que qualquer corte comum. Algumas pontas de linha para pontos estavam presas nas extremidades da pele que vertia o sangue negro. Sobrenatural. As veias do braço todo estavam enegrecidas.
— Não sei o que, nem quem você é... Mas sei que isso vai doer mais que o toque do Satan. — A outra morena ensopou um tanto de gaze com água oxigenada e apertou contra o ferimento, que causou tamanha ardência que, se estivesse acordada, teria berrado mais que uma banshee.
— Ela não aparenta danos externos. O nariz dela está sangrando por dano interno, Melissa. — Juliard olhou alarmada para Melissa. — Pode até ser um caso avançado de aneurisma. Essa garota pode estar morrendo sem nem saber!
— Alguém da escola informou nomes?
— Os paramédicos disseram que são e Jamesson. Agora, qual é qual, eu não faço ideia. — Owens olhou de uma a outra.
— Eu quero saber como minha amiga está! Elas não têm família! — uma voz feminina berrou no corredor da recepção. — Não tente me acalmar, não, minha filha! Eu quero saber de e Jamesson!
— Senhorita, por favor, acalme-se... — Tentou uma das enfermeiras.
— Então fala como a minha amiga está! Senão, eu quebro este hospital inteiro!

Melissa enfiou a cabeça para fora da sala.

— Ei, vocês duas!

Lydia e Allison viraram num pulo. A enfermeira encarregada da recepção quase agradeceu a colega de trabalho por afastar a ruiva dela.

— Elas são amigas de vocês? — A mais velha apontou para as duas macas.
— Sim, elas estão bem? — perguntou Allison.
— Estarão, se vocês pararem de fazer escândalo no corredor — repreendeu Melissa. — Parem de berrar e esperem. Vou tratar a amiga de vocês e, assim que puder dar um aval, falo com vocês.
— Sim, senhora — responderam as duas em uníssono.

Melissa voltou para dentro da sala, colocando um par de luvas de látex e começando a preparar uma agulha para refazer os pontos do braço da menina, e, em pouco tempo, o talho sangrento estava fechado e coberto por uma grossa bandagem.

Allison sentou-se ao lado da amiga, impaciente.

— Odeio hospitais. — A Argent se remexeu inquieta. Desde a morte de sua mãe, Victoria, ela sempre se sentia desconfortável quando entrava no hospital da cidade. — Será que elas vão ficar bem?
— Espero que sim. — Lydia olhava fixamente para um ponto qualquer no chão de linóleo branco.
— Tenho certeza que aquela enfermeira nunca vai esquecer seu rosto. — Allison conteve uma risada, olhando para a amiga. — Vou te chamar quando tiver um problema para resolver.
— Não tem graça, boba. Algumas delas só te fornecem informações quando você faz um escândalo pequeno. — Brincou a ruiva.
— Chama aquilo de pequeno?

Lydia riu baixo e tornou a olhar para o ponto no chão. Se Allison não gostava de hospitais, ela gostava menos ainda. Sempre que passava perto de algum leito, sentia aquela sombra segui-la, como se uma mão invisível segurasse seu coração e o apertasse, fazendo-a ter uma ligeira falta de ar. Depois de descobrir que, ao invés de vidente, era uma banshee, para ela, aquela sombra deveria ser a morte, que espreitava pelos corredores dos hospitais. Esperando para que algum doente terminal desistisse de lutar.

Juliard Owens passou pelas duas, empurrando a maca a qual estava deitada. Uma agulha aplicava soro em sua veia e uma cânula estava encaixada em seu nariz. Melissa veio logo atrás, tirando as luvas.

— Vão levar a ruiva para a tomografia primeiro — explicou ela, olhando Owens afastar-se rapidamente com a maca. — Acham que é algum tipo de dano interno que causou o sangramento no nariz. Juliard acha até que possa ser um aneurisma. Mas a outra tinha sangue negro vertendo do ferimento... O que me leva a crer que elas não precisam de exames nenhum.
— Elas são bruxas... — começou Lydia, cochichando.
— Mas não sabemos como o processo de cura delas funciona — completou Argent, no mesmo tom de voz. — Elas podem se curar como um lobisomem assim como também podem não ter poder nenhum de cura.
— Isso não ajuda em muita coisa... — Melissa suspirou, olhando pensativa para o corredor.

Antes que McCall ou as outras duas pudesse falar muita coisa, um estrondo alto veio de dentro da sala dos primeiros socorros. As três correram para a sala.

estava escorada na parede. A maca a qual estava deitada foi tombada de lado. Ela puxava as agulhas de seus braços e os plugs de seu peito. O braço não vertia mais sangue, mas as veias ainda estavam escuras. Assim como o sangue ainda escorria de seu nariz, seus olhos estavam azuis por completo, com sua forma sobrenatural para todos verem. Blackburn tentou andar, mas suas pernas ainda pareciam serem feitas de gelatina. Allison foi mais rápida e a amparou, antes que a morena se estatelasse no chão.

— Ache Daniel... — sussurrou ela com a voz fraca e apagou novamente.

Capítulo 9 - parte I


Blackburn POV ON.

Tudo à minha volta era trevas, uma escuridão sem tamanho e fim. Minha cabeça doía com uma força descomunal e meu nariz não parava um segundo sequer de escorrer aquele filete de sangue negro.

— Mas que droga, ! — praguejei, dando um leve murro na minha própria testa. — O que raios está acontecendo?

Olhei à minha volta de novo, dando um pulo para recuar da figura deformada que se materializara uns dois metros longe de mim. A face era ocultada por bandagens sujas e esfarrapadas. No lugar dos dentes, havia apenas presas amarelas e afiadas, a criatura usava uma calça caqui e uma jaqueta de aviador de couro castanho. Nunca havia visto aquilo na vida. Afastei-me. Meu instinto me dizia que aquilo era mais que perigoso.

— Não se acanhe, . Aqui não te farei mal... — A voz não era humana, rouca e grave.
— “Aqui”? — Arqueei uma sobrancelha, sentindo cada nervo do meu corpo tremer. — Quem é você?
— Eu deixei de ser “quem” há muito tempo, criança — ele me corrigiu. Toquei o lado esquerdo das minhas costelas, não achando o costumeiro coldre ali. Merda. — Estou aqui para te alertar.
— Alertar-me para o que?
— Para que você e sua irmã não se metam nos meus planos — ele respondeu, quase num rosnado. — Vocês são peças fora do tabuleiro...
— Por quê? Tem medo de que possamos te mandar de volta ao buraco de onde você saiu? — provoquei. — Já devo presumir que você é o nogitsune?
— A única coisa que você precisa saber é que não deve ficar no caminho, Valerious — ele retrucou em tom de deboche, se é que há tom de deboche para aquela voz demoníaca. — Sim, eu sei do passado que tentam tanto enterrar.
— O que você quer aqui? Há mil e uma cidades nas quais você pode tocar o terror — comentei, quase que para mim.
— Mas é em Beacon Hills que está quem me chamou... — Ele arreganhou a boca descarnada num tipo macabro de sorriso desumano. — E, agora, não há nada que possam fazer. Vocês eram uma ameaça, por sua experiência, mas já confinei-as ao hospital. Verbena tem um efeito certeiro como veneno...

A criatura começou a se afastar lentamente, ainda me encarando com aquele ar de deboche.

— Eu vou descobrir a quem você possuiu! — gritei, antes que a criatura fosse totalmente consumida pelas trevas. — E vou te mandar ao buraco infernal do qual saiu!

POV OFF.

Já passava das quatro da tarde quando Allison olhou para o relógio do celular. Estava há tanto tempo sentada naquela cadeira, que já sentia as pernas dormentes. As Blackburn estavam lado a lado, deitadas em macas, com soros nas veias e cânulas presas aos narizes. Lydia havia saído a menos de uma hora, para achar Daniel, que Allison descobrira ser o cara que estava com as duas na “Neon Rave” do loft. Dito cujo que Lydia havia dado uns beijos na mesma festa.

Melissa medicou com um calmante mais forte, que, segundo a enfermeira, serviria até para apagar um cavalo, visto que outro episódio da moça acordando e quase jorrando sangue do furinho do soro (sim, jorrando, o chão do quarto tinha ficado parcialmente vermelho) havia assustado os enfermeiros, e o médico que estava “tratando-as” ficou com medo de ela acabar se ferindo mais ainda. E Allison quase tinha armado um belo barraco, bem do estilo Lydia, para a enfermeira deixá-la ficar no quarto. Era realmente estranho. Mal conhecia as duas, mas também sabia que, lá no fundo, se importava. Talvez, fosse porque uma delas não pensou duas vezes, antes de tentar ajudá-la numa briga contra algo que nunca tinha visto na vida. Seria aquilo uma nova amizade crescendo?

Hey, querida, trouxe isto. — Melissa apareceu na porta do quarto com um copo de café nas mãos e o entregou a Allison. — Não quer ir para casa?
— Oh, obrigada, senhora McCall — ela sorriu de canto, ajeitando-se na poltrona.
— Oh, garota, pare de me chamar de senhora! — McCall riu, apoiando-se na parede. — Não é porque eu já fui sua sogra, que tem que me chamar de senhora.

Allison remexeu-se, desconfortável, na cadeira, bebericando o café.

— Bom, eu vou à UTI agora. Caso precise de alguma coisa, pode chamar Juliard, ela vai cuidar de suas amigas muito bem. Garanto! — a mais velha sorriu, ajeitando o cobertor de .

E saiu. Não demorou muito para que Lydia aparecesse na porta, acompanhada de Daniel, que carregava, em uma das mãos, uma maleta de couro castanho.

— Elas estão desacordadas há quantas horas? — perguntou ele, puxando a pálpebra inferior e dando uma olhada na pupila de .
— Uma hora. Talvez, duas — respondeu Allison, um tanto confusa. — Não sei ao certo...
— Daniel Levi Jamesson. — Daniel estendeu a mão à Argent, apresentando-se. — Alquimista à seu dispor.
— Allison Argent — respondeu ela, apertando a mão do rapaz.
— Uma Argent? Isso, sim, é peculiar — murmurou ele para si, voltando sua atenção para as duas desacordadas. — Hummm, posso tentar o sangue de Lycan outra vez...
— Lycan? — Lydia franziu o cenho, confusa.
— Sim, é o último estágio de transformação dos lobisomens — explicou ele, ainda deixando no ar o porquê daquilo vir a ajudá-las. Allison e Lydia afastaram-se, deixando Daniel trabalhar. Jamesson estava com um óculos de armação fina, com várias lentes de aumento. Ele abriu a maleta e seus vários compartimentos, cheio de frascos, ramos de ervas, pedrinhas e mais uma infinidade de coisas.
— Por que não me contou desse corte, hein, idiota? — sussurrou ele para a mais velha, moendo com as mãos algumas florzinhas de Mistletoe. O aspecto pálido de ambas as irmãs não era boa, menos ainda eram as veias negras e pulsantes destacadas na pele.

Lydia seguiu para a máquina de café do fim do corredor, com Allison em seu encalço.

— Estão fazendo testes no Stiles, para ver se encontram algum motivo para o surto de ontem. Scott saiu mais cedo da escola para vir vê-lo — contou a ruiva, enchendo um copo grande com café. — Ninguém fala, mas sei que eles acham que é a mesma doença que matou a mãe dele.
— Ainda não acredito que meu celular estava desligado ontem — praguejou Allison. — Ele e o Sheriff devem estar arrasados.
— Não posso nem imaginar o quanto...

As duas sentaram-se lado a lado, encarando o nada, enquanto Lydia bebia curtos goles se seu café.

Scott apareceu no fim do corredor. Allison e Lydia viraram para olhar. Ele deu uma longa olhada dentro do quarto das Blackburn, provavelmente, trocou algumas palavras com Daniel e virou-se para olhar para a outra extremidade do corredor onde estavam suas amigas, e foi até elas.

Hey — cumprimentou Allison, tentando sorrir solidariamente. — Como ele está?
— Está bem. Estão fazendo uma tomografia. Só permitiram o Sheriff com o médico — ele explicou. — Vai levar alguns minutos.
— Stiles é forte — disse Lydia, mais a si que aos amigos. — Vai ficar bem, no final.
— E o que aconteceu com as outras duas? — perguntou ele, apontando para trás de si.
— Desmaiaram, até, então, por motivos desconhecidos — contou Allison, e Lydia confirmou com a cabeça. — Esperamos que o Daniel possa nos dizer que merda foi que aconteceu.

Derek apareceu no mesmo arco do qual Scott havia vindo.

— O qu... — Ele apontou para as duas, confuso.
— As Blackburn estão no fim do corredor. Estamos como acompanhante — explicou Lydia.
— Ela está bem? — perguntou o Hale.
— “Ela”?
— É, a morena quase me matou. — Ele deu de ombros. — Não gosto dela.

Scott tentou engolir a risada que lhe escapara pelos lábios. Os quatro sentaram-se em algumas das poltronas, que ficavam espalhadas pelo corredor, e ficaram, por alguns longos minutos, em silêncio, sem saber o que falar.

— Ouviu isso? — perguntou Hale, concentrando-se em sua audição.
— O que é? — perguntou McCall.
— Não sei, parece um zunido... — contou Derek, ainda ouvindo o curto e repetido chiado. Scott concentrou-se no som e seu rosto pareceu se iluminar quando finalmente conseguiu preencher uma das lacunas relacionadas ao surto do amigo na noite anterior (n/a: é o episódio 18, no qual o Stiles tem a primeira “alucinação” com o nogitsune, em que ele tem o surto de sonambulismo e vai parar na toca da Malia na forma de coiote. Sendo também e, automaticamente, o episódio no qual ele é totalmente possuído, e isso não é contado aqui, porque as Blackburn ainda não se integraram “oficialmente” na pack do Scott para estarem inclusas no acontecido, já que os mais envolvidos são os amigos próximos do Stilinski).

Os dois se olharam, fazendo ser quase possível ver as engrenagens em suas cabeças rodando. Os dois levantaram e correram para o fim do corredor. Argent e Martin nem se deram ao trabalho de perguntar.

— Lembra-se de que me disse ontem que Stiles estava lutando consigo aqui, que deixou rastro pelo cheiro? — perguntou McCall. Hale concordou com a cabeça, ainda correndo. — Acho que ele estava nos protegendo! Ele estava lutando com si próprio, para não fazer algo!

Conforme mais próximos chegavam ao telhado, mais alto e audível ficava o ruído estalado, que parecia algum tipo de chiado de energia. Hale empurrou a porta de ferro do telhado e entrou, seguido de Scott. Agora, o chiado estava claramente audível, até mesmo para quem não tinha a super audição de um lobo como eles. Ambos seguiram o ruído até o gabinete de controle de energia. McCall tateou o superior do armário, e uma mala com várias ferramentas e cabos se espatifou no chão. E o cabo de energia, que estava produzindo o chiado que Derek ouvira, ficava acima do gabinete e soltava faísca prateadas. De súbito, todo o gerador de energia principal do hospital explodiu, mandando todo o lugar para o escuro.

O fio arrebentou, ainda conduzindo energia e ricocheteando por todo o telhado. A claridade incomum capturou a atenção do motorista de uma ambulância, que, por um descuido estúpido, bateu no hidrante que ficava na porta do espaço, e a água começou a formar uma enorme poça no asfalto. Uma mulher, assustada com o incidente, desceu de seu carro, tomando uma descarga de energia pela água.

— Fiquem dentro dos carros! — berrou a mais nova Yukimura, pisando na poça de água.

O fio ricocheteou mais uma vez e bateu na água, e quem foi atingido, desta vez, foi o recém-chegado Isaac Lahey, que não havia visto que a agua já havia o alcançado. Derek, que mal havia chegado ao estacionamento com Scott, correu para socorrer seu beta, checando seu pulso e respiração.

— Scott! — chamou ele, olhando para o mais novo. — Ele não está respirando!

E foi a, até então, normal Kira Yukimura, que recebeu toda a descarga de energia do fio, antes que o mesmo matasse mais alguém.

Capítulo 9 - parte II


despertou num pulo, quase caindo no chão do quarto. Allison jogou o cobertor para o lado e levantou-se num outro pulo, da poltrona, e, no mesmo tempo em que ficou em pé, as luzes de todos os hospitais se apagaram e foram substituídas pelas luzes de emergência. No corredor afora, havia médicos e enfermeiros andando para todo lado.

— O que aconteceu? — sussurrou , a voz mais rouca e grave que o normal. — Onde estou? ?
— Você está no hospital. Alguma coisa aconteceu. Vocês duas desmaiaram na escola e não acordavam — explicou Allison, ajudando-a a sentar. — está bem. Bem, eu acho que está...

focou o olhar na parede atrás de Allison, lembrando-se da visão que tivera em seu estado de inconsciência, o que era estranho, já que a vidente da dupla era Olivia e não ela.

— Ele nos envenenou... — A Blackburn se apoiou na Argent para descer da maca. — Aquela merda de espirito japonês nos envenenou!
— O que? Mas como? — Allison franziu o cenho.

afastou-se brevemente de Allison, erguendo a palma esquerda aberta para cima e de olhos fechados. Ela estava tentando fazer algo. Uma febril chama roxa se acendeu em sua palma. grunhiu de dor, chacoalhando a mão para apagar a chama, que deixou uma queimadura superficial na pele branca.

— Por isso, ele bloqueou nossos poderes. Não consigo nem manter uma chama espectral! — praguejou a ruiva, segurando-se no gaveteiro para não cair. — foi ferida pelo Oni, a verbena, ou seja lá o que for. Entrou no sistema dela pelo corte.

Agora, tudo realmente fazia sentido, excluindo a hipótese besta de que os desmaios haviam sido sem motivo.

— Precisamos sair daqui agora, Allison. Algo ruim vai acontecer. — ofegou, sentindo a cabeça rodar.
— Sua irmã tomou uma dose alta de sedativo. Ela vai demorar muito tempo para acordar, . — Allison respondeu.
— Por favor, Allison. é sempre quem me livra dos problemas. Ela está indefesa. Só me ajude a retribuir o favor.

Allison bufou, dando-se por vencida com o pedido da ruiva e indo passar pela porta do quarto, mas se deteve quando a chamou de novo.

— Algo muito ruim vai acontecer, Argent. Eu só quero sair daqui! — murmurou . — Quero que todos nos saiamos daqui.

Blackburn POV.

Allison me entregou as roupas que eu estava usando antes de ir ao hospital; a camiseta estava com um enorme rastro de sangue negro na frente, mas, como não havia muita opção, vesti-a. Minha cabeça estava doendo, e eu ainda estava lutando para permanecer em pé, o que eu estava ainda conseguindo fazer.

— Eu vou tentar conseguir ajuda de um dos rapazes — disse ela, parada no arco da porta —, porque nem eu e, muito menos, você, vai conseguir levantar da cama.

Eu fiz que “sim” com a cabeça, subindo o zíper das botas.

— Allison? Eu sei que já estou pedindo demais, mas... — Puxei o ar, que estava começando a me faltar. — Precisamos de um lugar seguro para ficar, até nos recuperarmos...
— Fique tranquila, vamos resolver isso também.

E ela se foi. Eu me levantei lentamente da cadeira, com medo de cair sentada de novo. O que quer que esse nogitsune tenha usado para nos envenenar, não era verbena, mas, ainda assim, tinha um forte efeito. Verbena é como se fosse a wolfsbane das bruxas. Enfraquece-nos e queima mais que o inferno, e, se for usada em grande quantidade e do jeito certo, pode nos deixar enfraquecidas por meses.

Ao que parece, o nogitsune descobriu como usar.

Não demorou muito para a última pessoa que eu esperava vir nos ajudar, atravessar a porta: Derek Hale.

— Onde está a Allison? — Franzi o cenho.
— Isaac não está bem, e ela foi ficar com ele. Scott ficou junto — explicou ele. Eu joguei os cobertores de para o lado. — Precisa que eu a leve para fora?
— Sim, como está visível, eu não estou no cem por cento da minha força — respondi.

Ele fez que “sim” com a cabeça, passando o braço por debaixo dos joelhos de e apoiando as costas de minha irmã no braço livre. Ele a levantou da cama, sem fazer muito esforço. A força sobre-humana dos lobisomens sempre vem a calhar.

— Fique alerta, porque nenhuma enfermeira ou médico nos deixará sair fácil assim — ele disse. Eu enfiei minha cabeça para fora do quarto e olhei para ambos os lados. Aquele corredor, provavelmente, não era usado para pacientes de risco, então estava basicamente deserto. — Podemos ir?
— Sim, podemos ir. Rápido.

Derek saiu do quarto, apressado, e eu me forcei a acompanhá-lo. Jesus! Eu estava me sentindo presa num corpo de uma velha de 90 anos. Não existia agonia maior que não poder se mexer com total liberdade. Vou me lembrar disso quando me recuperar. Ah, se vou!

— Você está bem, ? — Ele me olhou, enquanto eu chamava o elevador.
— Sim, só está difícil ficar em pé — expliquei, enrolando o cabelo todo junto. Meus bolsos estavam ocupados pelo meu celular e o de . — Vou ficar bem.

Ele fez que “sim” com a cabeça. A cabeça de estava apoiada em seu ombro. Como alguns fios de cabelo caiam sobre seu rosto, parecia até estar dormindo. E Hale parecia incrivelmente desconfortável com ela nos braços, mesmo considerando o fato de que minha irmã era linda. Ah, é verdade, ela meteu três balas de prata nele.

As portas prateadas do elevador se abriram. Derek entrou primeiro, e eu, em seguida. Minha cabeça ainda estava doendo e eu ainda estava zonza, e ainda me pergunto o porquê o nogitsune apareceu para mim, já que duvido que eu tenha sonhado com aquele monstro. Havia detalhes demais para eu ter apenas sonhado. E isso me assustava mais ainda!

O andar térreo do hospital estava apinhado de gente correndo em todas as direções. Vi, de relance, uma enfermeira empurrar uma maca para dentro de uma sala e Allison segui-la. Provavelmente, era Isaac.

Passamos o mais rápido que consegui acompanhar. Os enfermeiros estavam ocupados demais com humanos doentes para prestar sua atenção em nós. Derek me guiou para um jeep cinza envelopado*, abri a porta do banco de trás, e ele deitou no banco, e, agora, eu pude ver o quão ruim seu ferimento estava. A gaze, que estava recém-posta, já estava ficando manchada de sangue negro. As veias salientes na pele pálida estavam completamente negras, o que começou a me assustar.

— Vai demorar muito pra entrar? — ironizou Derek, do motorista. Voltei a mim e bati a porta, dando a volta no carro e entrando no passageiro. Ele deu partida e saiu do estacionamento do hospital.

Eu soltei o ar, que estava congelado nos meus pulmões, finalmente sentindo certa segurança. Esses pressentimentos de bruxas eram, com certeza, a pior parte de nossos poderes.

— Onde deixo vocês? — perguntou ele, os olhos verdes enegrecidos pela falta de luz.
— Temos um probleminha quanto a isso. Digamos que eu não estou nem em 5 por cento da minha força total — expliquei, ainda meio zonza com as luzes dos postes passando rápido demais por nós. — É, depois de eu ser envenenada, sem nem saber como, estou apavorada em ficar sozinha em um lugar totalmente desprotegido. Allison disse que ajudaria com isso.

Derek suspirou, limpando a garganta.

— Não acredito que vou fazer isso... Que merda... — ele murmurou para si mesmo.

Hale enfiou o pé no freio, e o carro deu um solavanco violento. Enfiei o braço entre os bancos e segurei no banco, olhando assustada para Derek, que estava com o olhar fixo na rua. Ele manobrou o jeep e entrou na rua contraria a qual iria seguir, tomando um caminho totalmente diferente.

— Aonde estamos indo?
— Ao meu loft. Eu moro sozinho. Tem espaço o suficiente para nós três lá, por mais que não me agrade a ideia de ficar sob o mesmo teto que a psicopata da sua irmã. — Ele deu de ombros.
— Se serve de alguma coisa, sinto muito por ela ter atirado em você. é pavio curto. Tudo, pra ela, se resolve na força e, agora que está nos ajudando, sinto muito mesmo. — Olhei para ele, sendo sincera pela primeira vez em semanas.

Ele me olhou por um breve momento e fez que “sim” com a cabeça, em agradecimento.

— Mas isso não muda o fato de ela ser meio doida — ele murmurou, e eu soltei uma risada.

Derek Hale não era tão babaca quanto imaginei, ou, provavelmente, eu tinha essa imagem apenas porque Peter era um puta de um babaca arrogante. Essa, sim, deveria ser a verdade.

Derek estacionou o jeep em frente a um prédio cinzento. A porta era de ferro, pintada de azul descascado. Saí na frente e abri, enquanto ele tirou do carro. Subimos uns três lances de escada, até chegarmos ao loft, o mesmo caminho o qual eu me lembrava. Derek me entregou suas chaves, e eu abri a porta. O loft era bem diferente, com uma mobília. De um lado havia dois sofás e, no outro, uma mesa de ferro com seis cadeiras, e as janelas ficavam ao fundo, e, ao seu lado, uma escada em espiral, que dava para o segundo andar.

— Tem um quarto vago no andar de cima. Podem ficar lá, até conseguirem se defender sozinhas — explicou ele, subindo a escada e tomando cuidado para não bater nenhum membro de . — Feche a porta, por favor.

Segurei com as duas mãos na alça do portão, que servia como porta de entrada, puxei-o e garanti que estava trancado. Desci os curtos degraus e deixei as chaves sobre a mesa. Segui o mesmo caminho que Derek havia tomado. No segundo andar havia uma cozinha grande e bem equipada, uma bancada dividia com a sala, que tinha dois sofás e uma tevê de tela plana. Um curto corredor dava acesso a ambos os quartos e um banheiro. Tudo muito limpo, organizado e com design bem moderno. Bem a cara da casa de um homem.

Entrei no quarto que tinha a porta aberta. Derek estava ajeitando na cama de casal no centro do cômodo, cobrindo-a até a altura da cintura com os cobertores.

— Eu ainda devo ter algumas roupas da minha irmã por aqui. Posso conseguir alguma coisa limpa, se quiser — ele ofereceu, afastando-se da cama.
— Eu agradeço, se puder.

Derek não tardou a voltar com um conjunto de moletom feminino, um pouco menor que eu, mas serviu. Tomei um banho e me livrei de todo o sangue seco, que manchava a minha pele. Tirei o cordão da toca do capuz e prendi o cabelo molhado num “rabo de cavalo”.

Derek estava na cozinha, usando pijamas, desta vez.

— Posso fazer uma pergunta? — Parei, encostada no arco do corredor.
— Já está fazendo, — ele respondeu, colocando água num bule.
— Por que está nos ajudando? — Sentei-me em uma das banquetas. — Digo, você não nos deve nada...

Ele parou por um segundo, então ergueu o rosto para me olhar.

— De certo modo, você lembra minha irmã mais nova — ele explicou. Franzi o cenho, sem entender. — Muita coragem pra pouco tamanho.
— Qual era o nome dela? Se não se importa de eu perguntar.
— Cora. — Ele manteve-se calado por alguns segundos e, depois, um curto sorriso se formou em seu rosto. Pela primeira vez em semanas, eu vi Derek sorrir. — Vocês duas realmente não se parecem, mas a personalidade é quase a mesma. Ela quase se matou uma vez, para tentar me ajudar...
— Não deve ter sido nada bonito — comentei.

Cora me parecia uma garota legal.

— Tem tudo o que precisa? — Ele mudou o rumo da conversa.
— Sim, obrigada. De novo, não tinha que fazer isso por nós e está fazendo, então, obrigada — respondi, descendo da banqueta.
— Já falei que não tem problema. — Ele deu de ombros, servindo-se de uma xicara com chá feita da água recém-fervida e indo ao corredor. — Tenha uma boa noite.

Usei os 25% restantes de bateria do meu celular e liguei para Daniel, que, provavelmente, estava no apartamento. Ele se surpreendeu ao ouvir minha voz. Disse que o meu estado e o de estava bem ruim no hospital.

— Prometa-me uma coisa, Danny — pedi, olhando o céu nublado pela janela. — Vá para bem longe daqui. O que está habitando este lugar é perigoso. Eu acordei, mas o que esse nogitsune fez foi forte, e eu não tenho força em meus poderes. Não posso proteger ninguém. Então, por favor, entre em um carro e não olhe para trás.
— Você está me assustando, Ferrugem... — ele respondeu.
— É sério, Dan. Não quero você na linha de fogo também. Essa coisa mexeu com as pessoas erradas, e eu vou ter revanche. — Suspirei, começando a sentir o cansaço se espreitando; se é que isso era possível, já que passei um bom tempo apagada. — Vá a Saint Barths. Já nos basta Gabrielle. Mantenha-se em segurança. Por mim...
— Certo. Tá. Esta cidade é parada, de qualquer jeito. Despeça-se da ruiva Martin por mim — ele respondeu, voltando a ser o Daniel de sempre. — E, por favor, , me avise quando acordar.
— É a primeira coisa que farei, Dan. — Cocei a nuca. — E, de novo, tome cuidado.
— Você também, Ferrugem. Você também...

Desliguei a chamada e me sentei na beirada da cama. Daniel era humano e nos conhecíamos por quase toda sua vida, então isso me garantia que ele sabia se cuidar, se não, não estaria vivo até hoje. Desatei o laço do cabelo e respirei fundo, controlando a tontura, que estava me atacando de novo. O banho havia ajudado, mas minha cabeça ainda estava doendo.

— No final, somos apenas nós. Certo, mana? — Suspirei e me ajeitei na cama, que era mais confortável do que aparentava.

Fechei os olhos e deixei a escuridão consumir tudo.


Eu acordei com o que me pareceu a maior ressaca da história. A luz do sol, que estava passando pelas janelas, me cegou, fazendo meus olhos arderem mais do que já estavam. Tinha que me lembrar de fechar as cortinas. Joguei-me para fora da cama, até que o detalhe que estava faltando chamou minha atenção: o outro lado da cama estava vago.

?! — chamei, me apoiando na cama para ficar em pé. — ? Inferno! Por favor, não esteja apagada na sala do Derek...

Havia gotas de sangue negro fazendo uma trilha para fora do quarto. O corredor estava iluminado pelo sol, sem sinal de Olivia.

— Cacete! ! Cadê você? — praguejei, empurrando a porta do banheiro.

estava sentada no vaso sanitário, segurando uma toalha de rosto contra o talho, que quase dava uma volta em seu antebraço.

— Não para de sangrar... — Sua voz soou baixa e fanha.
— Jesus! Você me assustou, ! — praguejei e me abaixei ao lado dela. — Aqui, deixe-me te ajudar...

Soltei a gaze que estava pendendo em seu braço. A linha dos pontos estava pingando sangue, mas não havia arrebentado outra vez, o que era bom. Joguei a toalha ensopada de sangue na pia e peguei uma limpa, limpando o sangue de sua mão.

— Como está se sentindo? — Limpei a garganta, pressionando levemente a toalha contra os pontos. — O efeito do sedativo deve ter passado, pra você acordar antes de mim...
— Meu braço está doendo tanto que eu mal consigo movê-lo e, se eu me mexo muito bruscamente, meu corpo todo arde e dói... — ela sussurrou. — Onde estamos? O que aconteceu, ?
— O nogitsune, essa coisa maldita, nos envenenou. Bloqueou nossos poderes... — expliquei, limpando o corte por completo. — Com você, deve ter sido por este corte... E estamos na casa de Derek Hale. Não podemos ficar sozinhas, fracas desse jeito.
— Eu meti três balas de prata no cara, e ele ainda nos ajuda? — Ela uniu as sobrancelhas.
— É, a maioria das pessoas têm almas mais caridosas que a sua, — resmunguei, fuçando o gabinete debaixo da pia, à procura de gaze. — E me faça o favor de pedir desculpa. Porque... Porra, hein! Não poderia ter atirado no Peter? Digo, essa é até uma versão mais nova e mais bonita! Você é uma especialista em dedo podre. Cruzes...

Ela riu, mas parou no meio da gargalhada e grunhiu de dor, massageando a têmpora.

— Tá, eu peço desculpas a ele — ela murmurou.

Peguei o pacotinho de gaze no gabinete e enrolei sobre os pontos; nem muito solto, nem muito preso, e prendi com esparadrapo.

— Vai aguentar. Faça-me o favor de não forçar este braço. Se os pontos estouram, você está definitivamente ferrada — falei, fechando o gabinete. — Consegue ficar em pé?

fez que “sim” com a cabeça, apoiando-se à parede atrás de si para ficar em pé. Ela parecia mais pálida ainda com a camisola de hospital, e olha que a infeliz já era pálida por natureza.

Saí do banheiro com ela logo atrás. Não sei se era a falta de comida no estômago, ou o que, mas a tontura estava três vezes pior. Um pedaço de papel estava preso na geladeira. A caligrafia era terrível de bagunçada, mas, com dificuldade, consegui ler: “Sinta-se em casa! Tem comida na geladeira e nos armários!”. Eu estava literalmente começando a sentir que os tiros estavam pesando na minha consciência, por mais que não tivesse sido.

precisava urgentemente começar a controlar esse temperamento.

— Eu sei no que está pensando, Ferrugem. Eu vou me desculpar, só não imaginava que o garoto era tão diferente do Peter. — Ela tossiu, parecendo um gato engasgado. Essa era a melhor descrição, acredite. — E você foi esperta. Digo, não estamos nem conseguindo parar em pé. Estar sob o teto de um lobo passa certa segurança.

Servi um copo com água e lhe entreguei, que bebeu em dois goles.

— Agora, eu consigo falar direito. — Ela tossiu, e eu revirei os olhos.
— E eu agradeço se continuar de boca fechada.
— Sempre carinhosa.
— Eu vou sair, aproveitar o sol e ir ao apartamento para buscar roupas e nossas coisas — avisei. — Você, me faça o favor e não toque em nada que não deve.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Se falasse que esse trabalho não era pessoal, eu estaria mentindo. A dor que irradiava do meu braço era tão forte que minhas pernas estavam parecendo gelatina, e isso estava me fazendo ficar cada vez mais com raiva. não demorou a sair, e eu me sentei no sofá da sala de estar de Derek. Sentindo minha cabeça rodar, tentei forçar meus olhos a assumirem sua verdadeira forma e, quando os olhos assumiram a forma azulada, pareciam estar em chamas, o que me fez voltar à forma humana na mesma hora.

— Jesus Cristo! Que merda! — praguejei, dando um leve murro na coxa, que doeu também.
— Manhã ruim? — Dei um pulo ao ouvir a voz de Derek vir detrás de mim. Não sabia de onde ele havia saído. — Ôpa! Foi mal! Nah! Foi nada! Foi mesmo é engraçado te ver assustada.

Ele riu, não de uma maneira verdadeira. Não me pergunte como, mas eu notei apenas pelo som, pois ele feliz seria totalmente diferente.

— Bom saber que a minha dor te diverte. — Sorri cínica. Ele sentou-se ao meu lado, com uma caneca de chá na mão, que eu também não o havia visto fazer. — Engraçado... Pensei que fosse uma pessoa do café.
— Oh, não é para mim, é para você. — Ele ainda tinha um sorriso cínico. — Vai ajudar com a dor. Não entendo muito sobre bruxas, mas minha mãe me ensinou algumas coisas. Beba. Talvez, até ajude com o veneno.

Agora, eu entendia o porquê de querer tanto que eu me desculpasse.

— Derek? — chamei, pegando a caneca.
— Hum?
— Sinto muito pelos tiros que te dei. — Beberiquei o chá. — De verdade. — Percebi, pelo canto do olho, a forte encarada que ele me deu.
— Está tudo bem. Querendo ou não, você acabou me salvando depois. — Ele deu de ombros. Não me parecia uma pessoa rancorosa. — E a dor que você deve estar sentindo com esse braço deve estar nos deixando quites.
— E obrigada pelo chá. — O gosto era almiscarado, adocicado e também meio amargo, mas não era ruim. E também já estava na hora de eu começar a ser mais simpática com as pessoas. — De verdade, obrigada. Você nem tem motivos, mas está nos ajudando.
— Não há de.. — Ele parou no meio da sentença, erguendo a cabeça como um cão farejador.

Pela minha rasa experiência com lobos, pude dizer que ele estava concentrado na audição e baixei o copo.

— O que foi? — Franzi o cenho.
— Um emissor. O som está alto. — Ele se dirigiu cauteloso à escada, e eu o segui.
— Um Argent?

Transmissores são como estacas de prender tendas, feitos de prata pura. No topo há um núcleo que funciona como um transmissor de ondas sonoras que apenas lobisomens podem ouvir. É como um apito de cachorro gigante.

Derek chegou ao primeiro andar. Não havia ninguém no loft, apenas o transmissor cravado no chão de concreto.

— O que isso está fazendo aqui? — perguntei, parada ao pé da escada, enquanto Derek puxava o aparelho do chão.
— Não sei, mas acho que está na hora de fazer uma visita a Chris Argent.

*Termo usado quando a pintura de um carro é fosca.

Capítulo 10


Blackburn POV ON.

Eu desci os lances de escadas do prédio lentamente, com medo de tropeçar nos próprios pés e cair não sei quantos metros de escada abaixo. Ouvi, ao longe, o ronco de uma moto, não muito alto, mas, ainda assim, audível, e quando cheguei ao fim das escadas, Scott estava passando pela porta de entrada do prédio.

— Oi! — saudou ele, tirando o capacete da cabeça. — Como vocês estão?
— Ainda estamos vivas... — Sorri minimamente e dei de ombros. — Estou indo ao apartamento, pegar nossas roupas. Derek será nosso anfitrião, até estarmos bem para lutar, caso necessário.
— Quer uma carona? — ele ofereceu, apontando para trás de si. — Vai chegar mais rápido de moto que andando, e eu vim aqui para ver como vocês estão...
— Ah, não vejo por que não — respondi.
— Conseguiram descobrir como o Stiles envenenou vocês?

Passamos pelo arco da porta. O clima estava ameno; nem frio, nem calor.

— Apenas . No dia da festa, quando ela foi ajudar Allison com o Oni, acabou ferindo o braço. Como o nogitsune envenenou o ferimento, eu não sei. — Peguei o capacete na mão dele.
— É estranho chamá-lo assim... — Scott subiu na moto. — É estranho saber que não é mais o meu melhor amigo e, sim, um espirito japonês do mal.
— Nós vamos dar um jeito. — Subi na garupa.
— De matá-lo ou salvá-lo?
— Nós matamos apenas quem merece, Scott. — Estava começando a me irritar com todo mundo achando que somos uma dupla de vadias sem coração que sai matando sem piedade. — Stiles é uma vítima.

McCall assentiu com a cabeça e deu partida na moto. O caminho do loft de Derek até o apartamento onde havíamos nos instalado era relativamente longo. Passei as direções, e Scott seguiu. O prédio vermelho não demorou a ficar à nossa vista. Scott estacionou, e eu desci da moto e lhe entreguei o capacete, e pedi que me esperasse ali. Usei o elevador e subi ao nosso andar. O apartamento estava empoeirado e escuro. Juntei uma quantidade considerável de roupas e armas, e enfiei tudo na “mala da Hermione”, peguei as chaves do jeep (dito cujo que eu não faço a mínima ideia de como veio da escola até aqui) e tranquei todo o apartamento de novo. A mala cinza batia na minha cintura e não estava nada leve. Não estava nada fácil puxá-la.
Joguei a mala no elevador e apertei o botão da portaria, e, assim que a porta se abriu, Scott apareceu para ajudar.

— Aquele jeep de vocês, com certeza, parece uma versão melhorada do Roscoe — começou ele.
— Quem é Roscoe?
— O jeep azul do Stiles... — Ele riu de canto, parecendo se lembrar de algo engraçado.
— Eu falei sério. Àquela hora, eu e a daremos um jeito de salvar o garoto — murmurei em resposta, tentando me convencer de que aquilo era realmente possível. — Sempre tem um jeito.
— Eu realmente espero que, desta vez, tenha.

Destranquei o porta-malas do jeep e puxei a porta, dando espaço para que ele jogasse a mala lá dentro. Minha cabeça estava a ponto de explodir.

— Obrigada pela carona, Scott. Acho que, daqui, eu me viro. — Tentei sorrir, mas até os músculos do meu rosto doíam. — Vou voltar para o Derek. deve estar louca por umas roupas limpas.
— Até depois, . — Ele sorriu.
— Até depois, McCall.

Entrei no jeep e saí da vaga, seguindo pela rua quase deserta.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Olhei pela enorme janela do loft de Derek, vendo o sol brilhar alto no céu azul turquesa, a caneca de chá quente aquecendo minha palma. Meu braço doía tanto que acabei por imobilizá-lo com uma tipóia improvisada. A pior parte do veneno é a dor e o fato de que ele não te mata, só põe você em sofrimento. O chá de ervas medicinais de Derek veio mesmo a calhar. Não faz nem meia hora que o Hale saiu para ir atrás de Christopher.
O porquê diabos ele deixou um emissor aqui, eu não sei. Os argents sempre têm um jeito sorrateiro e elaborado de trabalhar, de uma maneira que você só vê o que te atingiu quando já tomou a porrada.

Não me parece o modo de um caçador agir.

De qualquer modo, a porta de aço maciço fez um estrondo ao se abrir, e passou pela porta, puxando uma mala enorme.

— Jesus! Trouxe o guarda-roupa inteiro? — Brinquei, tossindo em seguida.
— E peguei a mala da Hermione. — Ela riu, jogando as malas pelos poucos degraus na entrada. — E algumas armas.
— Uh! Isso é uma boa notícia! Não vejo a hora de arrancar esta camisola horrorosa! — Bocejei, sentindo o formigamento no braço. — Nós sabemos o antídoto para verbena?
— Arrancar seu braço fora, talvez? — ironizou ela, puxando a mala escada a cima. — Quer me dá uma ajuda aqui?
— Acho que eu não conseguiria erguer uma mala com um braço só. — Segui-a pela escada.
— Mas pegar a mala da Hermione foi esperto, admite.

Eu até riria do comentário, se isso não fosse me causar falta de ar e dor nas têmporas. colocou com dificuldade sobre a cama. “Mala da Hermione” tem um nome bem autoexplicativo, com um feitiço de extensão que funciona mais como um portal.

Útil, muito útil.

— Tudo bem, ? — virou-se para mim. — Você está mais pálida que o comum, não o comum, comum, mas o comum.
— Comum envenenada por verbena? Não consigo comer, tá todo mundo atrás do garoto possuído, e odeio me sentir impotente. — Dei de ombros, e ela me jogou uma troca de roupa limpa. — Valeu.
— Trouxe seus coturnos também. As armas estão no fundo falso. — sinalizou com a cabeça para a mala. — Tome um banho e tire essa camisola horrorosa. Vou ver se consigo arranjar um vicodin forte o suficiente para nos ajudar com a dor.
— Sim, senhora.

desapareceu pelo corredor, e eu entrei no banheiro, doida para tirar a trilha machada de sangue negro que cobria quase todo o meu braço. Soltei a tipóia e me despi, e quando girei o registro do banheiro, ouvi a porta da entrada se fechar. Enfiei-me embaixo da água e parei por um momento, sentindo cada nervo do meu corpo entorpecido pelo veneno; cada sentido que o meu poder deixava mais aguçado reduzido ao mínimo. Havia uma possibilidade bem arriscada para nos ajudar, mas incluía facas, gargantas cortadas e muito, muito sangue. Sem contar o tempo de recuperação estendido. Terminei meu banho e me vesti, e também prendi uma 9mm no coldre, que uso na altura das costelas.

! — Ouvi uma voz berrar no primeiro andar. A voz de Peter Hale. — Sei que está aqui!

Porra.

Enrolei meu braço em gaze e dobrei as mangas da blusa até a altura dos cotovelos, e desci a escada.

— O que você quer, Hale? — Bufei em desinteresse.
— Preciso da sua ajuda. — O mesmo sorriso petulante de sempre se formou no canto de seus lábios, e ele ergueu uma caixa, que, com a visão precária, vi ter o triskelion dos Hale esculpido na tampa. Porra mais uma vez. — Sei que bruxas são telepáticas.
— Eu não vou te ajudar a recuperar memória nenhuma, Peter. — Revirei os olhos. — Não sei nem como você conseguiu as garras de Talia, mas não vou te ajudar.
— Não preciso te lembrar do quão incapacitada você está e que posso muito bem te fazer me ajudar. — O sorriso se esticou um pouco mais. — Vamos lá! Em nome dos velhos tempos!
— Eu ensinei a Talia a roubar memórias, idiota. E, se ela usou isso em você, pode crer que não é algo que você vai querer lembrar — retruquei. — E, pentelho, nem comigo entrevada numa cama, você vai estar em posição de me ameaçar. Eu não posso usar meus poderes, mas ainda atiro muito bem e soco o cacete em você com um braço nas costas.
— Eu quero saber o que ela me roubou, . Sinto que é importante. — O olhar petulante em seu rosto suavizou, parecendo o menino inexperiente que eu havia conhecido há quase 15 anos. — Eu sei que não sou o exemplo de amigo, mas estou pedindo. Quero saber o que ela me roubou.

Droga.

— Porra. Tá, eu faço. Mas vou ter que canalizar sua força e não me responsabilizo pelo que vou ver, e como isso vai influenciar. — Bufei em derrota e estendi a mão esquerda na direção dele. — Dê-me a caixa.

Peter me entregou a caixinha, e eu me sentei na cadeira da mesa, me preparando para o quanto aquela merda iria doer.

— Transforme-se e, droga, crave as garras no meu pescoço. Não tente acessar minhas memórias. Falo sério! Eu meto uma bala na sua testa, se você tentar acessar minhas memórias. — Olhei para ele séria. Não estava mentindo na ameaça. — De qualquer modo, foque em compartilhar sua força comigo.
— Tá, deixa comigo. — Seus olhos foram dos azuis humanos aos azuis sobrenaturais. — E qual é? O que de tão sombrio há nas suas memórias que eu não posso ver?
— Uh, Peter, você não imagina o tanto de merda que há aqui. — Abri a caixinha e peguei as garras de Talia, e fechei a mão em punho. — Só espero que você não tenha estuprado e matado uma namorada do colégio, Hale. Isso seria realmente perturbador.

Arfei de dor quando senti as garras perfurando a pele, mas foi o mesmo que uma dose bem reforçada de adrenalina. Funcionou. Minha cabeça não doeu tanto quando eu usei a telepatia. Fechei a mão com força o suficiente para as pontas das garras furarem a pele da minha palma. As imagens começaram a se formar na escuridão, e eu não acreditei no que vi, ou que Talia Hale teve coragem de tirar isso de alguém. Peter puxou as garras e me segurou pelos ombros, enquanto abri a mão e as garras escorregaram para o chão.

? ! Jesus Cristo! Não me diga que eu te dei a porra de um aneurisma. — Ele me chacoalhou, enquanto eu recuperava a consciência. — Que merda você viu? O que foi que ela me roubou?

Peter me soltou quando eu tentei me levantar, e minha cabeça rodou com a imagem de Talia com o bebê nos braços. Minhas pernas bambearam e eu me apoiei à parede para ficar em pé.

— Peter... — Tossi, piscando com força. — Você tem um filho.
— O quê? — O olhar costumeiro de arrogância foi substituído por um de desespero. — Ela me escondeu que eu tenho um filho?! Quem é a mãe?

Minha cabeça rodou e eu me apoiei nele para parar em pé, e, como sempre, a gaze, que há cinco minutos estava limpinha, estava mais preta que o meu delineador de sangue.

— Eu não sei. O que eu vi foi Talia e um bebê nos braços, dizendo que a criança era sua. — Respirei fundo, controlando a dor de cabeça crescente. — Não deu para deduzir se era menino ou menina. Era tão pequenino, enrolado numa mantinha branca.

Peter caiu, sentado na cadeira de aço, olhando perdido para o nada.

— Não se lembra de ninguém que possa ser a mãe, Pete? — Apoiei-me à parede.
— Não faça isso...
— Além de quase ter me matado, não que isso seja realmente possível, para ajudar você? — Bufei na maior parte de dor. — Um ‘obrigado’ serviria.
— Não me chame de Pete, depois da merda que aconteceu, ! — ele quase berrou, e eu quase soquei a mão na cara dele.
— Jesus Cristo! Peter! Não esse drama. Foque no detalhe que a sociopata contida da sua irmã morta te escondeu o fato que você tem um filho, sim? — Quase levantei o dedo do meio para ele. — Sem essa história de novo. Eu não vou pedir desculpa. Você ainda está vivo. Pelo amor de Deus!
— Meu... Dane-se. — Ele bufou. — Tem certeza que ela não falou mais nada?

“Corinne não sabe. Vou dá-la aos Tate. Terá uma vida boa”.

— Sim, Talia não disse mais nada — menti. Sei muito bem que onde quer que essa menina esteja, está muito melhor sem ter Peter Hale como seu pai. Levantei-me da cadeira e pressionei a gaze contra os pontos para tentar evitar que o sangue pingasse no chão. — E, da próxima vez que você precisar da minha ajuda, vá ao inferno.

Subi a escada, tentando não tropeçar nos meus próprios pés; a descarga de força que Peter me dera passou tão rápido quanto chegou e também tem o fato de que não sinto o meu braço. Estou completamente bem, tirando o fato de que ainda sou idiota por ajudar um babaca feito o Peter. É como adora dizer: sou mesmo uma babaca.

Joguei o trapo, que a gaze virou, no lixo, lavei o sangue com água e quase agradeci pelo momento em que não sentia o membro, porque o quanto esta merda ardeu fez eu me arrepender de reclamar. Refiz o curativo a tempo de sentir o celular no bolso vibrar.

— Conseguiu o Vicodin? — Atei a gaze com esparadrapo. — ?
— Puta que pariu! Não. Preciso de ajuda. — A voz de soou oca do outro lado da linha. — Estamos com Stiles e...
— Vocês estão com a merda do possuído? Prenda o Stiles agora! — interrompi o meio da frase.
— É o Stiles que está no controle, ! Os Onis estão vindo para matá-lo! — ela retrucou. A chuva quase soando mais alta que ela. — Stiles não merece morrer, ! Nós concordamos que iríamos tirar o nogitsune dele!
— Scott pediu sua ajuda? — Ajeitei a manga da blusa.

Mais previsível que ele, não existe.

— Também, mas quem deles sabe lidar tão bem com uma arma quanto nós?
— A merda dos Argents? As Blackburn não são as únicas que sabem lidar com uma arma por aqui, . — Bufei, começando a pensar nas possibilidades. — Droga! Diga onde você está, e eu vou te ajudar. Não acredito que você vai me fazer sair na merda de uma tempestade!
— Apenas venha! E traga minha espada! — pediu ela. — Estamos indo falar com Deaton.

Meu Jesus Cristo. O que a gente não faz pelo sangue? Fechei a porta do banheiro e segui para o quarto. Abri a tampa da mala e joguei as roupas na cama; o fundo estendido ficou visível, então enfiei a mão e comecei a tatear todo o tanto de armas que enfiou nesta coisa. O fundo engoliu quase todo meu braço bom, até o ombro, para que eu sentisse o cabo da espada de . Puxei a espada pelo cabo e também alcei uma 9mm. Vesti uma jaqueta com gorro e saí do loft. A chuva já caia tão forte que, até lá dentro do prédio, eu já ouvia a barulheira dos pingos caindo feito pedras.

A minha sorte era que a clínica veterinária de Deaton não era nem um pouco longe do loft de Derek, o que me rendeu apenas quinze minutos de caminhada numa rua deserta, com uma espada na mão, debaixo de uma tempestade. Se alguém tivesse me visto, teria chamado a polícia, com toda certeza.

Quando virei a esquina e vi a clínica, Stiles estacionou o jeep na entrada e saiu correndo, junto de Scott. e uma garota asiática, que eu nunca tinha visto na vida, na hora em que fui dar um passo para me tornar visível à minha irmã, alguém me agarrou pela barra da jaqueta e me puxou para trás; quase berrei de susto, até ver o rosto de Allan Deaton.

— Puta que pariu! Se eu pudesse morrer, juro que teria morrido de ataque cardíaco! — sussurrei, vendo o vulto dos Onis dando o cacete em Scott e na desconhecida.
— Não é Stiles quem está no controle, . — Deaton murmurou em resposta.
— Como diabo eu vou saber? Nunca vi a merda de um nogitsune antes! — Tentei manter meu tom baixo.

Deaton revirou o bolso da jaqueta e tirou uma seringa de metal com um líquido verde fluorescente dentro, que eu reconheci no momento em que vi, o que me surpreendeu mais ainda.

— Onde você arranjou isso? — Olhei abismada para a seringa. — Faz uns 400 anos que eu não vejo Letharia Vulpina!
— Preciso que entre lá e injete isto no Stiles. Eu sei sobre a verbena, mas, ainda assim, você está armada. — Allan me estendeu a seringa, e eu o olhei desconfiada. — Ele vai matar Scott e sua irmã, se você não fizer.
Fuck...

Peguei a seringa e escutei a barulheira passar e a porta bater. Eles entraram. Destravei a arma e coloquei a seringa no bolso da calça. Nenhum Oni levantou. Puxei com todo o cuidado a porta da clínica para não fazer barulho algum e entrei. Ouvi praguejar alguma coisa, seguido de um estrondo oco e alto, acompanhado do som de algo batendo em metal. Escondi-me na sombra da parede de um dos arcos que dava acesso à sala em que estavam, tendo clara visibilidade das pernas caídas de alguém.

— Você está bem? — Ouvi a voz de Stiles.
— Por favor, não — respondeu Scott. — Pare.
— Está tudo bem — foi a resposta do nogitsune. O que veio em seguida foi um gemido esquálido de dor de Scott. — Isso dói? Ei! Olhe para mim! Você deveria ter terminado sua leitura, Scott. Veja, um nogitsune se alimenta de caos, conflito e dor. — Eu quase sentia a energia de alfa de Scott desfalecendo no ar e vi claramente a espada de Oni atravessada no abdômen do garoto, que a versão pálida 2000 do Stiles tinha em mão. Ainda não. — Esta manhã, você a tirou do Isaac e, então, tirou do Treinador. E de um policial que estava morrendo. Toda a dor. Você a tirou por inteiro. — A raposa segurou com firmeza o rosto molhado de McCall, ainda girando a espada. — Agora, dê-me!

A expressão de Scott foi de dor para extrema dor e, depois, ele recuperou os sentidos, e Stiles parecia ter bebido uma garrafa inteira de energético. Não ainda.

— Você realmente tem que aprender a não confiar em uma raposa... — começou Stiles, em tom de deboche. — Sabe por quê? Porque elas são trapaceiras. — Scott olhou para ele, um misto de emoções que nem eu pude decifrar. — Elas enganarão todo mundo.

Agora, sim.

O aperto de Stiles na empunhadura da katana negra soltou-se, e eu saí da sombra. Scott fingiu não me ver, e eu peguei a seringa do bolso, passando a arma para o braço ruim.

— Uh! Não todo mundo. — Stiles rapidamente virou a cabeça para mim, e eu enfiei a agulha da seringa no seu pescoço e injetei todo o veneno. O rapaz segurou-se na minha jaqueta com o mínimo de consciência que lhe restava, me olhando nos olhos. — Não poderia desperdiçar a chance de retribuir o favor que me fez.

E caiu, desacordado, no chão.

Deixei a arma e a seringa em cima da maca e olhei para Scott, que grunhiu de dor. Peguei o cabo da espada e puxei de uma vez só.

— Ahhh! — ele teria gritado se não estivesse rouco.
— Tem que ser como um band-aid: puxar de uma vez só.
— O que foi isso? — Ele olhou para o amigo caído no chão. — Foi uma cura? Ele vai ficar bem?
— Pfff! A raposa está envenenada, mas não morta — assegurei e olhei para a figura de Stiles branca feito papel e com fundas olheiras. — Pelo menos, não ainda.

Capítulo 11


Blackburn POV ON.

— Você poderia ter entrado em coma, sua doida! — praguejou pela décima vez enquanto costurava a facada no meu abdômen.

— Eu estou bem. Melhor que ele, pelo menos... — Sinalizei com a cabeça para Scott.

— Nosso amiguinho tem poder de cura, cura de um alfa. — Minha irmã deu outro ponto no talho que a espada fizera. — E, caso você não tenha lembrado, não podemos performar feitiços de cura desde os anos trinta.

— Uh! Uns pontos a mais, uns a menos, que diferença faz? — Acho que estava tão acostumada em ser remendada que nem doía mais. — E eu estou curiosa. Onde foi que conseguiu Letharia Vulpina?

— Não foi eu. A druida conseguiu... — respondeu ela, um fio do cabelo escuro caindo sobre a testa. — Ao que parece, Letharia Vulpina tem efeito no monstro.

— Ele é útil, então? — ironizei. — Eu imaginei. Deatons nunca falham em suas posições.

— Isso não muda o fato de que é deles que sai algo mais nojento ainda. — deu de ombros e limpou os pontos recém-dados com antisséptico, e pegou um tanto de gaze e esparadrapo. — De qualquer modo, não force muito a barriga e não carregue muito peso. Dane-se! Você vai estourar isso, antes de dar 24 horas, mesmo.

Isso não era de todo mentira, mesmo.

— E como você sai para comprar Vicodin e acaba junto do nosso alvo? — perguntou ela, enquanto colava o curativo.

— Fui passar na escola, para sumir com os nossos rastros, e acabei trombando com eles. O nogitsune plantou uma bomba falsa num ônibus da escola... — respondi, descendo minha blusa. — Tinha que ajudar, , e os Onis estão mais fortes, muito mais fortes. Acho que está na hora de batermos um papinho com o Mr. M.

— Não me diga — ela retrucou de forma cínica. — Esse contrato está perigoso demais para continuar.

— E, agora, não tem mais volta, .

— Não sei se você não entendeu o que eu quis dizer, mana, mas não sei se notou... — ergueu o braço ferido no ar, a veia no meio de sua testa começou a pulsar loucamente. Não era só a minha dor que estava incrivelmente forte, ao que parece. — Não podemos lutar contra essa coisa. Só há um jeito de tirar a verbena do sistema pra valer, e você sabe o quão perigoso é.

— Não seria a primeira vez, . — Dei de ombros. — Estamos bem acostumadas com sangue.

— Ah, claro que estamos.

O método que citou era o que eu mais detestava. Usamos apenas uma vez, e isso bastou para uma eternidade, mas, se teríamos que fazer para acabar de uma vez por todas com essa coisa, era isso que eu faria.

— Eu tive uma visão — falei baixo o suficiente para que apenas ela me ouvisse.

— O quê?

— Não como as suas — expliquei, me forçando a ficar de pé. — O nogitsune me visitou como em uma projeção astral mental no hospital. Ele sabe sobre Valerious.

nunca expressa pelas feições quando está com medo. O que muda são seus olhos, que ficam sem brilho e atentos a tudo à sua volta.

Ela estava assim agora.

— Eu vou fazer uma ligação. Você tome a garantia de que Stiles acordará bem impossibilitado! — disse ela, puxando o celular do bolso e saindo da sala.

— Ela está bem? — perguntei a Scott, olhando para Kira desacordada sobre a maca.

— Ficará. A pancada na cabeça foi forte. Daqui a pouco, ela acorda — respondeu ele. — E você?

— Ah, eu estou acostumada. Na maioria das vezes, eu tenho força para revidar. — Brinquei, me arrependendo de dar risada. — Devo presumir que você não está muito acostumado em ser esfaqueado por katanas?

Olhei em volta, vendo Deaton prendendo Stiles com quase o rolo todo de silver tape. O rosto de Stiles estava em uma tonalidade que quase se assemelhava ao branco do papel, com escuras e fundas olheiras em volta dos olhos. O pobre não merecia o que estava acontecendo, mas, se há algo que aprendi, depois de tanto tempo, é que os maus raramente se dão mal. Peguei um bisturi, que estava por cima na bancada de aço inoxidável, e me abaixei ao lado da druída, abrindo um fino corte na palma da minha mão.

— O que está fazendo? — Allan me olhou com o cenho franzido.

— Um feitiço de ocultamento, fraco, mas nos dará, no mínimo, uma noite com ele, antes que os Onis apareçam. — Subi a camiseta na barriga do garoto e comecei a desenhar as runas na pele pálida demais, já esperando a dor que viria quando o feitiço fosse feito. As runas brilharam, como se queimassem, quando murmurei o encantamento em latim, e as escrituras desapareceram logo em seguida. — Eles são habituados com este lugar. Há outro lugar que nos dê vantagem? Que também seja protegido?

— Minha casa... É circundada por Mountain Ash — respondeu Scott.

Agora, o ferimento em sua barriga estava quase curado totalmente.

— Então devem levá-lo até lá. O feitiço atrasará os Oni, mas os acharão, depois que a magia se desfizer, então é melhor estarem protegidos. — Usei a parede atrás de mim como apoio e fiquei em pé.

— Você não vem? — perguntou McCall.

— Não ainda. e eu temos alguns assuntos a resolver com nosso empregador — respondi, sentindo apenas, agora, a dor aguda que irradiava dos pontos na lateral da minha barriga —, mas nos encontramos com vocês depois, ok?

Como consegui performar um feitiço de ocultamento com o veneno ainda na corrente sanguínea? Não faço a mínima ideia, mas fiz e, talvez, a sorte estivesse finalmente virando ao nosso favor.

Antes que eu pudesse passar pelo arco de saída da sala, Scott me segurou pelo punho, me impedindo.

— Tome cuidado. — Sua voz ainda estava rouca, mas suas palavras, ainda assim, foram suaves. — Por favor.

— Eu vou, prometo. — Um curto sorriso se formou em meus lábios. — E não seja esfaqueado por nenhuma outra espada, enquanto eu não voltar, certo?

Ele riu fracamente.

— Pode deixar.

Apertei levemente sua mão, tentando tranquilizá-lo de que estaria inteira, até nos vermos de novo. Do jeito que as coisas andavam, nem eu sabia mais se, daqui a uma hora, ainda estaria em pé.

estava sentada no meio-fio do estacionamento, segurando o celular perto do ouvido, enquanto resmungava algo para a pessoa do outro lado da linha, e eu me juntei a ela.

— Ah, porque é melhor, mesmo, você ter uma boa explicação, ou nem os meus outros 70 mil te salvarão do que eu farei! — ameaçou ela, a raiva transbordando em seu tom. — Porque essa merda foi longe demais, e eu não aceitei isso. Eu e minha irmã concordamos em exorcizar o hospedeiro, não matar, nem debilitar, apenas exorcizar! E quem está debilitada agora sou eu!

Alguns minutos se seguiram em silêncio, com ela ouvindo o que Mr. M dizia, e a despedida muitíssimo educada dela foi “obrigado e vá se ferrar!”. Sério.

— E então?

— Vamos nos encontrar com ele ou ela em... — Ela parou um minuto para checar as horas. — Uma hora.

Uma pontada de dor irradiou dos pontos na minha barriga. Por mais perigoso e incerto que fosse, tínhamos que fazer. Não podíamos lutar com tanta verbena no sangue.

— Vamos fazer! — afirmei, me apoiando no carro.

— O quê?

— Deaton sutura as feridas e é só esperar. Poderemos matar Onis num estalar de dedos... É o certo a se fazer, e você sabe.

bufou, passando as mãos nervosamente pelo cabelo escuro, os olhos azuis encararam o pavimento do estacionamento, ponderando sobre a opção.

— Droga... — se pôs de pé e olhou seriamente em minha direção. — Tá, mas, se faremos, faremos direito e, para isso, precisamos do druída.

— Você se encontrará com o M, e eu apronto tudo aqui. Ficaremos bem, até o fim da noite. — Olhei para a porta da clínica. — E, quando voltar, esteja pronta.

— Tome cuidado, Ferrugem.

Concordei com a cabeça e lhe dei um beijo na testa, e voltei para dentro da clínica a tempo de ouvir o motor do jeep roncar. Estavam todos se aprontando para mover Stiles para a casa de Scott e, agora, até os gêmeos haviam surgido de não sei que bueiro.

— Hum, Deaton? — O homem ergueu a cabeça para me olhar. — Posso falar com você um segundo?

— Sim, claro.

Fui ao ponto mais longe da sala, para que ninguém ouvisse que eu planejava cortar minha jugular e surtar.

— Eu e precisamos da sua ajuda — sussurrei. — Há um modo de tirar o nosso veneno, mas envolve sangue... Tipo, muuito sangue e algumas artérias cortadas.

— E você quer que eu faça o que? — Ele uniu as sobrancelhas em confusão.

— Eu tenho que cortar todas as artérias principais do corpo e sangrar todo o veneno. Por favor, não surte. e eu não morreremos... Não pela mão de druídas, pelo menos — expliquei. — Preciso que suture tudo e garanta que ficaremos estáveis. E, sim, eu sei que é altamente arriscado, mas funciona.

Allan parou por um momento, esfregando o curto cavanhaque.

— Tá, eu faço. — Olhei, surpresa, para ele. Não imaginei que ele realmente fosse aceitar. — Melhor que deixar alguém fazer e fazer errado.

— Muitíssimo obrigada! Sério! — Sorri em agradecimento. Agora, precisava de um guarda. — Encontro você aqui em duas horas. E obrigada de novo!

Scott estava bem, por agora, e ajudava Kira com a concussão que a coitada conseguira ao tomar uma porrada do Oni na cabeça. Parei ao lado dos dois e apertei levemente o ombro de McCall.

— Tenho que fazer uma coisa com . Deaton vai me ajudar e espero que Derek também — contei, uma mão ainda nos pontos. — Ocultei o Stiles do radar sobrenatural... O feitiço deve durar umas 15 horas. Espero ter ganhado tempo o suficiente para que consigam alguma coisa...

— Obrigado, , de verdade. — Ele sorriu suavemente, apertando levemente minha mão. Ainda estava pálido. — Tenha cuidado.

— Você também.

Segui para a saída da clínica e tirei o celular do bolso, vendo a tela toda ferrada. Maravilha! Stiles, agora, me devia também um celular novo. O loft de Derek não era tão longe da clínica, e a chuva havia parado, o que me rendia uma caminhada bem curta, que seria mais curta ainda se não fossem os malditos pontos que doíam na lateral do meu abdômen.

E, em menos de 30 minutos, eu já estava entrando no loft. Joguei as roupas molhadas em um canto do quarto em que estávamos ficando e vesti top de ginástica, e um short de lycra, e roupas secas por cima, peguei a faca mais afiada que achei e uma magnum; mais por precaução e paranoia que por achar que realmente usaria. Usei a lista de contatos e liguei para Derek.

Agora, eu conseguiria meu guarda.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

A rua era larga e deserta, e a noite estava se estendendo lentamente. Mr. M era esperto, escolheu um lugar onde todo mundo veria, se eu perdesse a paciência e decidisse usar a arma que sempre levava comigo. Bom, isso se houvesse alguém, além de mim, na rua.

— Você está pálida. — A voz quase feminina veio detrás de mim, e não me dei ao trabalho de me virar. — O que o nogitsune fez com você?

— Algo que acrescenta mais cinco milhões em meu pagamento — respondi. — Não gosto de surpresas, não mesmo. E você deveria ficar contente que eu não quero matar você para provar meu ponto. Isso não importa, de qualquer modo, o demônio está envenenado.

— Não por feito seu, certo? E não me ameace, Blackburn. Você pode ser uma mercenária lendária, mas não quer comprar briga comigo! — retrucou Mr. M. — Acabe com a criatura, e o restante será depositado na conta, juntamente com os 5 milhões.

— Mas é melhor, mesmo, senão, a história será outra.

Duas horas depois...

Olhei para as duas banheiras de alumínio no meio da sala de Deaton. Não estava muito confortável por estar quase de lingerie ao lado de Hale, mas guardei isso para mim.

— O quê? Está com medo de uma adaga, ? — O tom que Derek mandou em minha direção foi de deboche.

— Só... Seja rápido. — estava em pé dentro da outra banheira. — Sabemos algo sobre Stiles?

— Ele está contido — respondeu Deaton — por hora.

— Focaremos só na tarefa atual, por favor — pedi, sentando-me na banheira e apoiando as costas no latão.

Hale estava abaixado logo atrás.

— Qual eu corto primeiro? — Ele olhou em minha direção.

Respirei fundo.

— Sério, Derek, demoraremos a acordar, então mantenha qualquer coisa indesejada longe... — sussurrei, segurando firme nas bordas da banheira. — Por favor.

Sua expressão se suavizou e o aperto na adaga aumentou.

— Não gosto de você, mas não vou deixar você morrer — respondeu. — Leve isso como um quase elogio.

Soltei um leve sorriso e ouvi engasgar com o sangue quando Deaton cortou sua garganta.

Não me atrevi a olhar.

— Fermural. — Enfiei os braços para dentro da banheira e fechei os olhos, sentindo o toque tímido das mãos ásperas em minha coxa. O corte foi limpo e preciso. Assim que senti a pele se partindo, o sangue quente se espalhou pela banheira.

Derek cortou a outra e abriu dois talhos na diagonal em meus braços.

— Isso, sim, que é muito sangue... — resmungou ele, dando dois passos para se aproximar do meu rosto. — E eu acho que isso nos deixará quites pelos tiros que você me deu.

Eu quase sorri e encarei os olhos verdes, enquanto a lâmina da adaga corria pela pele lisa do meu pescoço. O sangue lavou meu tronco, e eu não lutei para respirar, vagando entre o estado de inconsciente para acordada. O calor começou a deixar meu corpo, junto com o líquido escarlate.

— Fazemos o que agora? — A voz de Derek soou oca.

disse para suturar as artérias só depois de parar de sangrar. Não conheço o poder de bruxas, mas espero que dê certo! — respondeu Deaton.

Senti meus olhos pesarem, fazendo ficar difícil piscar. A maldição que nos acompanhava era de que nossos corações nunca parariam de bater, até que a pessoa que nos amaldiçoou nos pegasse e nos matasse pelas próprias mãos. Então Derek e Allan não nos matariam por algumas artérias abertas...

Minha cabeça pendeu para o lado, e a última coisa que vi foram os olhos verdes de Derek Hale me encarando preocupados.

A escuridão não era amedontradora, não mais. Depois de um ferimento grave, a consciência vaga para um plano diferente, onde só os feiticeiros alcançam. Não demorou a surgir.

— Espero que dê certo como da outra vez. — O cabelo cor de cobre flutuou em torno de seu rosto. — Não me lembrava de que doía tanto...

— Hale não seguiu minhas cicatrizes. Terei duas de lembranças. — Brinquei.

— Verbena fora do sistema e nós ficamos boas para lutar de novo — comentou ela. — Da última vez que isso aconteceu...

Yeah, Chicago, Stef estava com a gente — completei, me lembrando da pessoa em questão.

Fuck. Sinto falta dele, até hoje.

— Algumas pessoas nós temos que deixar para trás, Ferrugem. Stefan Salvatore foi uma delas.

Ela assentiu com pesar. Lembro-me de como ela se dera com o vampiro na nossa curta estadia em Chicago. Era uma boa pessoa, para um vampiro, e devia estar morto agora.

— Você gosta do garoto, não gosta? — perguntei, quebrando o silêncio entre nós. — O alfa...

— Eu não sei, . O último homem que eu amei acabou corrompido até a alma... — Ela olhou para um ponto na escuridão interminável à nossa volta. — Parece outra maldita maldição. Não quero que nada de ruim aconteça com ele por minha causa.

— Para de ser fresca. Scott McCall sabe bem se cuidar sozinho. — Quase gargalhei. — Sou eu quem vive para autopunição e tenho motivo para isso. Você merece ser feliz, mais que ninguém, .

— Em qualquer lugar em que estamos felizes, ela nos acha e destrói tudo, . — Ela me olhou, os olhos verdes repletos de tristeza. — Da última vez que passamos tempo demais em um lugar, ela quase matou o Danny! Imagine o que faria com um bando de lobisomens... Ela é uma anciã. Nós, com o poder em cem por cento, somos poderosas. Gabrielle é o dobro disso.

— Só... Focaremos em não entrar em coma — pedi. — Pensamos nela depois.

Na projeção, os nossos corpos não apresentam os antigos ferimentos, então, sem cicatrizes, é até estranho ver minha pele limpa de marcas.

— É estranho, né? — sorriu.

— Pode apostar! Sinto falta da minha cicatriz na coxa. Cara, aquele trabalho foi doido! — Quase gargalhei.

— Louco? Você fraturou o fêmur, !

— Mas você se lembra da cara de pavor do Danny quando os ghoul nos atacaram?! — Ri alto. — Aquilo, sim, foi demais.

— Coitado! Fora sua primeira vez em campo... Dê um desconto. — Olhei para ela com uma sobrancelha arqueada. — Tá, foi engraçado, mesmo.

Logo, o riso morreu em minha garganta. A situação era ruim, e isso eu não podia negar, e era assustador pensar que não teríamos força o suficiente para voltar.

— Outch! — gemeu, e eu me virei para vê-la. — Ele começou a me costurar.

— Pare de falar e concentre o poder — mandei. — Foque em acordar, , e, se eu não acordar, termine o trabalho e me leve até Daniel, ouviu? Você termina o trabalho e vai à segurança.

— Você vai voltar! — ela murmurou. — Você vai, !

— Processo de Sangue é arriscado, e você sabe. — Apertei levemente suas mãos. — Tome cuidado, Ferrugem.

— Eu vou — respondeu ela, beijando-me na testa.

fechou os olhos e deitou-se, os fios de cabelo cor de cobre tocando o rosto pálido e, em menos de 5 segundos, ela estava imersa em voltar.

— Por favor, , seja forte e volte... — murmurei para mim, sentando-me ao lado de . — Não só por ela, por todos eles.

Não demorou a eu começar a sentir as fisgadas de Deaton me costurando, como uma picada de um mosquito que foi funda demais; começou pelos braços, depois meu pescoço e, então, as artérias femorais, e eu não conseguia clarear minha cabeça, não conseguia parar de pensar no meu corpo ensanguentado jogado dentro da banheira, sem sinal de consciência. E a imagem me apavorava até a morte.

Capítulo 12


Os olhos de se abriram lentamente, adaptando-se à forte luz. O líquido quente manchava sua pele de vermelho. Ela tentou erguer o braço, mas seus músculos pareciam feitos de gelatina, sem força alguma.

? — a voz de Deaton soou distante e baixa. Seu corpo estava focado em reproduzir o sangue perdido no processo. Allan tocou seu queixo e ergueu seu rosto, checando a dilatação de suas pupilas. — Consegue me ouvir?

A ruiva puxou um pouco de ar e piscou firmemente, forçando sua garganta a funcionar.

— Eu estou... Estou bem... — gaguejou ela, olhando, desnorteada, para os lados. A pele com os pontos repuxou de uma maneira desconfortável, com o esforço para falar: — ?! acordou? Ela está bem?

O corpo de jazia imóvel dentro da banheira de aço, o cabelo escuro e desgrenhado ocultava o rosto desacordado. Derek estava em pé, ao lado da banheira, com os dedos sobre o punho da bruxa, garantindo que ainda havia pulso.

— Hum... Deaton? Eu não acho que ela está respirando... — comentou o lobisomem.

desesperou-se, apoiando os braços nas laterais da banheira para tentar se levantar, mas ainda não tinha forças o suficiente para conseguir.

— Ela tem que estar completamente funcional para conseguir voltar... — explicou ela, deslizando de volta para dentro da banheira. — Ela tem que estar respirando, Derek.

O Hale praguejou algo em voz baixa e abaixou-se ao lado da banheira, carregando a Blackburn desacordada, no “estilo noiva”, e a deitou no chão. Seu corpo entrou no piloto automático. Não sabia ao certo o porquê da ideia da morena permanecer desacordada o perturbava tanto.

— Use seus olhos, seus verdadeiros olhos. — instruiu, a voz rouca e baixa. — Seu corpo saberá o que fazer...

Os olhos de Derek passaram do verde humano para o azul sobrenatural. Ele abaixou-se e começou o processo de respiração boca a boca em , enquanto Deaton checava os sinais vitais de .

O peito de subiu suavemente com o estímulo externo, e Derek sentiu que uma pequena parte de sua força estava sendo passada para ela, mas não houve sinal nenhum de que a consciência estava voltando ao seu corpo.

! , foque em mim! Derek trará sua irmã de volta! — Deaton pediu, fazendo a ruiva olhar para ele. — Está sentindo alguma coisa?

— Apenas a minha pele presa por pontos. Eu estou bem, Deaton. — respondeu. — Apenas mais algumas horas, e estarei novinha em folha. Não se preocupe.

De súbito, despertou, puxando o ar desesperadamente, enquanto Derek a amparava para que não caísse. Um suspiro de alívio deixou os lábios da ruiva, e o único som que correu o ambiente foi o das suaves risadas de .

— Do que está rindo, maluca?

— Se queria tanto me beijar, bonitão, deveria ter me pagado uma bebida antes! — Brincou ela.

— Você não toma jeito, nervosinha! — respondeu o Hale, com um breve sorriso em seu rosto. — Então funcionou?

ergueu a mão direita, a chama espectral arroxeada se acendeu em sua mão e o fogo tocando a pele pálida sem causar dano algum. Não havia mais verbena em seu sistema.

— Maravilhosamente bem. — respondeu, olhando para a irmã, enquanto as chamas dançavam por sua palma. Depois, tornou a olhar para Derek. — Então, acho que estamos quites, agora, não? Eu atirei em você, e você cortou minha garganta.

— É, bem quites, para mim! — Ele riu, ajudando-a a se levantar, sem escorregar com o sangue coagulado que ainda sujava seu corpo.

Blackburn POV ON.

Algumas horas depois...

— Stiles está se internando na Eichen House. O líquen ainda não parou de fazer efeito. — contou, desligando a chamada em seu celular. — Talvez, lá, ele fique seguro do Nogitsune.

— Não sei. Não há como ter certeza de nada quanto a essa criatura — respondi, checando o corte quase curado que o Oni fizera em meu braço —, mas espero que sim, porque será difícil prendê-lo novamente.

— Eu realmente espero que ele fique. Aquele garoto não merece isso.

— Sim, na maioria das vezes, eles nunca merecem — concordei, umedecendo os lábios. — Está pronta? Já está tudo arrumado? Não quero abusar muito da hospitalidade do nosso anfitrião.

— Sim, vou levar a mala ao carro, e veja se esqueci de alguma coisa! — ela disse, e eu concordei com a cabeça. — Vejo você lá embaixo.

saiu, puxando a mala. Eu chequei para garantir que não havia mais nada deixado para trás. Apenas um cartucho extra de balas havia sido esquecido na mesinha de cabeceira; peguei-o e enfiei no bolso da jaqueta, e saí do quarto, fechando a porta atrás de mim. Caminhei pelo corredor dos quartos, até alcançar a cozinha, onde Derek estava.

— Que bom que estão melhores! — comentou ele.

— Só uma dorzinha de cabeça, mas nada que um Advil não resolva. — Cocei a nuca, em desconforto com a situação. Não sei o porquê diabos! — Nós estamos voltando para casa... Queria agradecer por ter nos ajudado...

— Não tem problema! — ele me interrompeu.

— Por ter nos ajudado, mesmo não tendo obrigação alguma... — continuei, ignorando suas palavras. — Você não tinha o porquê nos ajudar, mas ajudou, mesmo assim. Obrigada. De verdade.

— Não há de quê, ! — ele respondeu, com um sorriso suave em seus lábios.

Derek Hale acabou por não ser o poço de amargura que imaginei.

— Bom, eu tenho que ir — completei. — Sabe como me encontrar, caso precise de alguma coisa. Até!

Não obtive resposta e desci a escada em espiral para o primeiro andar do loft. A lua minguante banhava o cômodo escuro com sua luz perolada, dando um ar macabro às sombras dos poucos móveis que Derek mantinha naquela área do lugar. Usei o elevador e, em menos de cinco minutos, já estava na entrada do prédio.

estava sentada no capô do Jeep, digitando algo em seu celular.

— Papeando com seu novo namorado? — provoquei.

— Não, engraçadinha, estou conversando com o Danny. — Ela rolou os olhos, guardando o celular e descendo de cima do carro. — Ele chegou bem onde quer que tenha ido.

— O engraçado é que você não negou...

— Neguei o que?

— Que ele seja seu novo namoradinho — expliquei o óbvio. Ela jogou as chaves na minha direção, e eu as peguei. — Você gosta dele?

— Scott é um cara legal, mas ele me parece ainda estar ligado a Allison — ela respondeu, enquanto eu dava partida no carro —, e não quero drama na minha vida.

— Levarei isso como um sim.

Ela permaneceu calada, depois disso. Manobrei o carro para fora da vaga e segui pela extensa rua do loft. Havia uma expressão indecifrável no rosto de sobre a qual eu não comentei, nem insisti para conversar sobre.

O lobisomem realmente havia mexido com ela.


Chegamos ao que era nossa casa durante o caso. foi dormir, e fiquei sentada na varanda, lendo as páginas do grimório que Daniel havia escaneado e mandado para mim, e não consegui pregar os olhos a noite inteira. Minha cabeça estava cheia demais para se desligar num momento como aquele.

A dor do veneno não existia mais. Agora, eu sentia que, aos poucos, estava voltando ao normal; voltando a sentir as coisas normalmente, e isso inclui recuperar a sensibilidade do braço ferido. O corte não sangrava, nem incomodava mais, já que a aura de poder reestabelecida estava me curando lentamente — uma das vantagens de ser uma bruxa milenar. Desde que não era mais necessário comparecermos à escola, não me importei em acordar quando o relógio marcou oito horas.

Olhei para o céu azul. O sol brilhava alto no céu, e minha cabeça estava doendo outra vez desde quando voltamos para casa, com aquelas mesmas agulhadas nas têmporas de antes, e também havia aquela sensação aflita de que algo ruim aconteceria.

E me apavorava pensar com quem seria.

POV OFF.

Blackburn POV ON.

Pisquei lentamente, sentindo os raios de sol, que escapavam pela cortina, aquecerem meu rosto. O relógio do celular indicava que era perto das nove e meia da manhã. Passei a mão pelo rosto, sentindo os resquícios de sono me abandonarem por completo, mas o cansaço ainda estava lá. Era o preço pelo processo de sangue.

Levantei-me e fui até a cozinha, à procura de comida.

?! Está acordada? — chamei, abrindo a geladeira.

— Estou na varanda. Tem café novo na cafeteira! — ela respondeu.

— Você passou a noite inteira em claro? — Servi-me com uma caneca com café e parei na porta, ao seu lado. — Deveria descansar, depois de ontem.

— Vou descansar quando o Nogitsune estiver fora do Stiles! — ela respondeu, me olhando com um curto sorriso. — Estava estudando umas partes do grimório que Danny me mandou.

— Alguma sorte?

— Nada. Há explicações sobre kitsunes, mas nada que a gente já não saiba — respondeu ela.

— Nunca me senti tão frustrada na vida! — resmunguei, sentando-me na cadeira vaga.

— Nós acharemos um jeito de salvá-lo... Nós sempre achamos.

O celular dela vibrou, e abaixou a caneca para ler a mensagem.

— É a Allison. Parece que Christopher tem um contato na Yakuza que pode ter informações sobre a criatura... — contou. — Deaton vai checar, e ela nos avisará depois.

— Isso é bom! Alguém está conseguindo alguma coisa! — Bebi um gole de café e olhei para os carros que passavam na rua.

— Deus! Eu ainda detesto esta cidade! — ela resmungou, coçando os olhos.

Fiquei calada, deixando que a cafeína começasse a fazer efeito. Eu estava cansada e frustrada. Já havia vivido o suficiente para ver várias pessoas ruins merecerem e também para ver pessoas boas terem fins que não mereciam. Stiles não merece morrer. Não mesmo!

— Vou tomar um banho. Depois, a gente sai atrás de algo para comer! — levantou-se.

Havia olheiras roxas sob seus olhos e estava mais pálida que o normal. Eu concordei com a cabeça e olhei para o café dentro da minha caneca, pensando sobre o que havia insinuado na noite anterior...

Eu estaria mesmo deixando a afeição que sentia por Scott crescer?

Algumas horas depois...

Sentei-me junto com à mesa de um café qualquer na cidade. Nenhuma das duas estava com muito ânimo para papo. Eu sabia o que ela estava sentindo: aquela leve agulhada na parte de trás do crânio e a sensação de que havia lava correndo pelas veias. Do mesmo jeito que era horrível, era maravilhoso, ao mesmo tempo, como se fosse puro poder correndo pelo corpo. Pedimos nossas comidas, e os hambúrgueres não demoraram a chegar, e, enquanto nos deliciávamos, o celular de começou a vibrar loucamente.

— Alô?! — ela grunhiu com a boca cheia ao atender a chamada. — Oh! Oi, Lydia.

Eu olhei para ela com o cenho franzido. Desde quando ela recebia ligações da Lydia?

— Okay! Tudo bem! — ela disse, depois de um tempo em silêncio, ouvindo o que a banshee dizia. — Nós estamos almoçando, mas já chegaremos aí...

Mais alguns segundos de silêncio se seguiram.

— Sim, espero o seu sms! — ela completou e desligou a chamada, enquanto eu ainda a encarava, confusa. — Ela disse que a Allison descobriu alguma coisa. Temos que encontrá-las na casa dela.

Eu fiz que “sim” com a cabeça e enfiei outra batata na boca. Por mais que eu estivesse adorando aqueles minutos de paz e sossego para poder comer sem tentar impedir que alguém morresse, eu também estava curiosa e torcendo internamente para que Christopher tivesse conseguido algo com seu contato na Yakuza.

Terminamos de comer e pagou pelas refeições, enquanto eu pesquisava no GPS o endereço de Allison, e acabou que não demoramos para achar o prédio e chegar ao andar.

respirou fundo e apertou a campainha.

— Ah, que bom que chegaram! — Lydia saudou, ao abrir a porta, nos dando espaço para entrar. Scott e os gêmeos também estavam lá. — Podemos começar, Allison.

— Agora que sabemos que Katashi tinha o pergaminho durante esse tempo todo, meu pai conseguiu descobrir o que farão com as evidências que seu pai achou junto ao cadáver. — Imagino que ela esteja se referindo ao pai de Scott. — Alguns oficiais disseram que transferirão as evidências hoje.

— E como ele ficou sabendo? — questionou, apoiando-se à escrivaninha do escritório.

— Ah, esqueci que vocês não sabem. — Allison resmungou. — Ele e Derek foram presos como suspeitos da morte de Katashi.

Mas só podia ser brincadeira!

Continua...



Nota da autora: (28/09/2017) Por conta do email com a última atualização ter se perdido com a beta a atualização está entrando muito mais atrasada que o esperado. E peço minhas mais sinceras desculpas à todas as leitoras que ficaram esperando.

Nota da beta: Invadindo aqui pra dizer que a culpa da demora não é da linda autora, mas da atrasada beta. Desculpa, galera! #paz




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