Capítulo Único
null tinha certeza de que parecia uma adolescente mimada e rabugenta, com um bico nos lábios e braços cruzados, sentada em cima da cama naquele quarto de hotel, enquanto via Mario, seu irmão mais velho, terminar de se arrumar.
— Não adianta fazer essa cara, já conversamos sobre isso. — ele disse enquanto terminava de dar o nó na gravata.
— Não, você falou o que queria e eu tive que obedecer. — null bufou. — Eu não sou mais uma criança, sabia? Estou no último ano da faculdade, inclusive, muitíssimo adulta.
Mario deu um sorriso de lado e virou-se para trás, onde sua irmã insistia em manter a cara fechada.
— null, não gosto de deixar você muito tempo sozinha em casa.
null e Mario moravam juntos há pouco mais de três anos. Desde que a garota fora morar nos Estados Unidos com o irmão mais velho, que trabalhava em uma grande firma de negócios jurídicos, o rapaz tem tentado manter a caçula o mais perto possível de si, sempre preocupado em não fazê-la se sentir sozinha em um país novo, longe da sua família e amigos.
Mas null não pensava assim, pelo contrário. Ela não se importava em ficar dias sozinha em casa, longe da supervisão do irmão careta que poderia ter trinta anos na identidade, mas agia como se tivesse setenta.
Além disso, a garota odiava ir para as viagens de negócios de Mario. Era sempre muito monótono e chato.
— Qual a diferença entre ficar dias sozinha em casa e ficar dias sozinha em um hotel?
Mario passou a mão pelo cabelo mais uma vez. Satisfeito com a aparência, e pronto para sair para a sua reunião, ele virou-se com um sorriso para null:
— A diferença é que aqui eu posso ficar de olho em você, e posso ter certeza de que você não vai fazer nenhuma besteira, como dar uma festa em casa, por exemplo.
Ela nem mesmo se mostrou minimamente culpada pela lembrança da bagunça que causara ano passado, quando deu uma festa não autorizada em casa, na ausência do irmão. Em vez disso, null apenas deu de ombros.
— Aproveite o que o hotel tem a oferecer. — ele disse pegando sua pasta de documentos. — Tem sauna e piscina, e até mesmo uma academia, caso queira gastar um pouco desse ódio fingido que você está sentindo.
— Não é fingido! Eu estou com muita raiva. — ela gritou para ele.
Mario apenas riu antes de fechar a porta.
Novamente, como uma criança mimada e insatisfeita por não ter suas vontades atendidas, null bateu as pernas na cama, soltando um gritinho.
Sim, ela já era uma adulta.
Não, ela não precisava de supervisão.
Sim, ela gostava de viajar com o irmão, porque ele sempre escolhia destinos legais e bancava a viagem toda.
Mas não, ela detestava viajar com ele quando o objetivo da viagem era o trabalho dele.
Isso porque a garota sempre ficava presa dentro do hotel, sem nada para fazer. A piscina não era divertida sem as amigas, e a sauna a deixava com dificuldades para respirar. Os canais da televisão do quarto não era tão legais assim, e a academia a garota preferia nem saber para que lado ficava.
Com os pés arrastando, ela foi até o próprio quarto, no final do corredor. Se fosse passar a noite toda sozinha, que fosse na companhia das suas coisas.
Ligou a televisão enquanto tirava as roupas para tomar banho. Ao longe, ouviu a jornalista falar em como a cidade era uma ótima opção para pessoas jovens, pois oferecia grande variedade de bares, restaurantes e boates, além dos shows de bandas e cantores que sempre atraiam centenas de milhares de pessoas.
null bufou de novo.
Sexta-feira à noite, e ela estava tomando banho para dormir cedo, enquanto seu irmão mais velho — que realmente parecia um velho — tinha se arrumado todo e usado o seu melhor terno para ir a uma reunião de negócios que, para ele, era o equivalente a uma noitada no bar com os amigos.
Mario estava se divertindo e null não.
Isso era tão injusto.
A não ser…
A ideia veio tão rápido que null se perguntou como nunca havia pensado nisso antes. Mario estava fora, e provavelmente chegaria tarde da noite, como sempre. Estavam em quartos separados, e ele não tinha acesso ao cômodo de null. Se a garota passasse a noite embaixo das cobertas ou em algum pub divertido, Mario nunca saberia.
E foi exatamente com esse pensamento, e com o desejo insano de se rebelar contra seu irmão controlador, que null colocou sua melhor calça jeans e camiseta — Deus, por que ela não pensara em levar ao menos uma roupa que não fosse do tipo que ela usaria no dia a dia na faculdade? — calçou a botinha e pegou a jaqueta.
Como sua escapada rebelde não tinha sido planejada, a garota não tinha levado maquiagem consigo, com exceção da base e do rímel e de um batom que encontrou perdido no fundo da bolsa. E em vinte minutos, ela estava pronta. Pronta para fugir da supervisão do seu irmão super sério e responsável, e que ficaria muitíssimo bravo com ela se soubesse que null deu uma escapadinha.
Bem, ele nunca saberia. Até porque a garota não planejava voltar muito tarde, apenas queria poder sentir o vento bater no rosto. Não era pedir muito, era?
E mesmo sabendo que Mario se encontrava em uma reunião muitíssimo importante, longe dali, null não pôde deixar de se comportar como uma fugitiva que se esconde de tudo e de todo. Por este motivo, a garota andou de cabeça baixa até o elevador, se esgueirando rente à parede, atenta a qualquer pessoa que pudesse delatá-la ao irmão.
Dentro do elevador, null evitou olhar para cima, para onde a câmera se encontrava, como se fosse uma criminosa que fugia da polícia.
— Meu Deus, eu preciso parar de ver filmes de perseguição.
null saiu do elevador e se escondeu atrás da parede que separava a recepção do hotel para o corredor de elevadores. Mesmo já sendo de noite, a recepção estava cheia de pessoas fazendo o check in, e ela precisou ficar ainda mais rente à parede para não atrapalhar a passagem das malas.
A garota espiou a recepção mais uma vez, apenas para garantir que seu irmão, nem nenhum conhecido dele, estavam ali. E por estar realmente concentrada em viver um filme de ação na sua cabeça, null não percebeu quando alguém parou atrás dela.
— Procurando alguém?
A garota pulou, e seu grito só não foi mais alto que o do estranho, que teve o pé pisado por ela na hora do susto.
— Ah, desculpe.
— Tudo bem, acho que a culpa foi minha. — ele riu, ainda massageando o pé machucado.
null estreitou os olhos e tombou a cabeça um pouco para o lado, analisando o estranho, que já não parecia tão estranho assim.
— Eu te conheço?
O garoto soltou o pé e ficou reto de novo, dando um sorriso presunçoso.
— Eu não sei. — ele deu de ombros. — Conhece?
null precisou segurar a vontade de revirar os olhos quando o garoto ergueu as sobrancelhas duas vezes, em um claro sinal de flerte.
— Ah, sim, sei quem você é. — e antes que ele pudesse aumentar ainda mais o sorriso e terminar de levar a mão ao cabelo, ela continuou. — Você é mais um desses caras que se acham bonitos demais e que por isso saem flertando com qualquer menina que encontram por aí.
A mudança de expressão no rosto dele foi imediata. E quase engraçada demais.
— Espera, você… Você não sabe quem eu sou?
null bufou.
— Não. E nem sei se quero saber. — a garota voltou sua atenção para a recepção do hotel. — Não sei se percebeu, mas eu estou um pouco ocupada agora, sabe como é, planejando a minha fuga e tal.
O estranho voltou a se aproximar dela e também passou a observar com curiosidade a recepção.
— E você está fugindo para onde? — ele perguntou num sussurro, como se realmente estivesse sendo observados por alguém e precisassem manter seus planos em segredo.
null deu de ombros.
— Para qualquer lugar que não seja aqui.
— Bom plano. Podemos decidir para onde ir depois que estivermos seguros do lado de fora.
null olhou para trás, com a testa franzida.
— Eu já disse que não conheço você.
O estranho voltou os olhos para ela, e então pareceu se lembrar de algo importante.
— Ah, sim. Prazer, meu nome é null. — ele estendeu a mão para ela. — Qual o seu nome?
A garota demorou alguns segundos para corresponder ao gesto. Procurou analisar as possibilidades de null ser um psicopata assassino procurado pela Interpol, mas ele apenas parecia ser um cara bacana, especialmente porque entrou bem rápido na brincadeira de fugir.
— null. — ela apertou a mão dele. — E então, qual é o plano?
null voltou a olhar para a recepção, e vendo que não tinha ninguém realmente prestando atenção neles, o garoto pegou na mão de null e passou a caminhar rapidamente para fora. E quando chegaram à calçada, eles estavam rindo, mas só até null ver as pessoas das quais ele estava fugindo.
— Droga!
O garoto imediatamente ficou de costas e puxou a aba do boné para baixo, tentando esconder o rosto. Colocou ambas as mãos nos bolsos da calça e passou a observar as plantas que ficavam do lado de fora, muitíssimo interessado em tentar descobrir qual espécie de orquídea era aquela.
Percebendo que null estava se escondendo de alguém, como ela, null ficou do lado dele, também de costas e puxou o celular, fingindo que mostrava alguma coisa para ele. E quando aquelas pessoas entraram, conversando entre si e rindo de alguma coisa, sem notar a presença de null do lado de fora, ambos relaxaram.
— Puxa, obrigado.
null estreitou os olhos de novo.
— Por que você estava fugindo daquelas pessoas? Quem são?
null comprimiu os lábios e olhou para baixo.
— E você? De quem está fugindo?
null deu de ombros, não tinha porque manter segredo daquilo.
— Do meu irmão mais velho. Ele está em uma reunião agora, mas pode voltar a qualquer momento.
— Então não temos tempo a perder! — ele disse, logo puxando o celular dela e abrindo o aplicativo de carona.
— Ei!
— Estou sem créditos no celular, então não tenho internet móvel. — ele se justificou. — Eu vou pagar a corrida, não se preocupe.
E sem esperar por uma resposta de null, o garoto confirmou o endereço em que estavam e foi para mais próximo da rua, tendo a garota ao lado dele.
— E para onde nós vamos? — ela perguntou.
— Para o centro da cidade. — ele respondeu. — Nova Iorque é grande demais. Tenho certeza que vamos encontrar algo interessante para fazermos no centro.
Assim que o carro parou, null conferiu a sua placa e fez sinal para que null o seguisse. Cumprimentaram o motorista e entraram no banco de trás. Uma música animada estava tocando no rádio, e o motorista parecia saber cantá-la do início ao fim. null também mexia o corpo levemente, no ritmo da música, e null reconheceu a letra ou, pelo menos, o refrão.
— Ei, você conhece essa música? — null perguntou interessado.
— Só uma parte. Minha amiga a escuta direto.
— Ah, é? Sua amiga tem um ótimo gosto musical. — ele comentou.
null riu daquilo, porque null parecia genuinamente sincero, quase orgulhoso, com o peito estufado.
— Ei, rapaz, eu te conheço de algum lugar? — o motorista perguntou olhando pelo retrovisor.
null imediatamente engoliu em seco, abaixou a aba do boné de novo e se encolheu perto da porta.
— Acho que não, senhor. É a primeira vez que venho para Nova Iorque.
— Hm, é mesmo? — o motorista comentou, dividindo sua atenção entre olhar pelo retrovisor e estacionar. — Eu podia jurar que…
— Bem, obrigado pela carona. — null interrompeu o motorista. Tirou uma nota de vinte dólares da carteira e jogou no banco da frente. — Pode ficar com o troco. Boa noite!
null não esperou o motorista responder para abrir a porta e pular para fora, tampouco deu atenção à null e à sua tentativa de dividir o valor da corrida. O garoto já estava na calçada quando pegou a mão dela de novo e a puxou para fora, como se tivesse desenvolvido uma alergia ao carro e ao motorista.
— Ok… O que foi aquilo?
— Ahn? — ele perguntou.
O rapaz olhava em volta com os olhos brilhantes de excitação, mas a postura dele não estava relaxada como no hotel. Novamente, null levou as mãos no boné que usava e o ajeitou melhor na cabeça, tentando fazer com que a aba escondesse mais do que poderia. Levantou a gola da jaqueta, para esconder o pescoço e então voltou a atenção para null.
— Você parece um fugitivo que está tentando se esconder da polícia. — ela comentou. null ficou tenso por um instante, mas então a garota soltou uma risadinha no final. — Sério, de quem você está fugindo? E eram aquelas pessoas no hotel?
Mas null não queria responder àquilo no momento. Isso porque ele queria aproveitar as horas que ele tinha livre, antes de voltar para as responsabilidades da vida real.
— E aí, o que você quer fazer? — ele perguntou abrindo os braços e mostrando a infinidade de opções de entretenimento que tinham por ali. — Foi uma boa ideia ter vindo para o centro, não foi?
null não podia acreditar naquilo. Novamente ele tinha ignorado a sua pergunta, e novamente null estava com aquele ar superior, como se estivesse muito satisfeito com alguma coisa que só ele sabia.
— Inacreditável. — ela falou baixinho, mas teve certeza de que ele ouviu. — Certo, o que temos para fazer por aqui, hm… Ali!
null olhou para onde null apontava. O pub que null mostrou interesse em ir já tinha uma pequena fila do lado de fora. Alguns grupos de amigos formavam rodinhas e tiravam fotos enquanto riam de alguma coisa.
Ficar em uma fila, do lado de fora, perto de jovens com celulares nas mãos não era a primeira opção de programa de null, mas ele se viu respondendo:
— Ok!
Ele foi até o final da fila, mas ao invés de ficar de frente, o garoto deu as costas para as pessoas na fila, ficando de frente para uma null confusa.
— O que você está fazendo?
— Ficando de frente para você, minha companheira fugitiva da noite.
O sorriso dele quase fez null se esquecer de que o rapaz era um completo desconhecido. Quase. Isso porque, na parede do pub, do lado de fora, havia um cartaz escrito:
PRESENTS
LOVE ON TOUR
JULY, 23
NEW YORK, US.
E logo abaixo dos dizeres, um segundo cartaz, este com a foto de null null.
null ficou em choque por alguns instantes. Olhava para a foto da parede e para o garoto à sua frente, o qual estava mexendo no celular despretensiosamente, enquanto mantinha os ombros baixos e a aba do boné cobrindo o rosto.
Não… Não podia ser… Podia?
A garota olhou para a foto de novo e voltou a encarar null, mas ele mantinha o rosto baixo. E percebendo que null o encarava quase sem piscar, ele levou sua atenção para ela.
— O quê? — ele perguntou meio rindo.
null precisava tirar a dúvida. E para isso, tirou o boné que ele usava, escondendo-o atrás de si quando ele tentou pegar de volta.
— Ei!
— Você! — ela falou, apontando o dedo para o rosto dele. — Você… — ela apontou para o pôster na parede. — Você é…
— Shiu!
null conseguiu puxar o boné de volta. Olhou em volta rapidamente, apenas para garantir que não haviam atraído a atenção de ninguém na fila, e se aproximou mais de null, falando baixinho para que só ela escutasse:
— Eu… Eu posso explicar.
A história de null era muito simples, na verdade. Estava em turnê, e estava viajando há três meses, sem pausas, entre países e continentes diferentes. Mais do que isso, há muito tempo ele não saia sozinho ou com seus amigos. O rapaz quase já não se lembrava de como era se divertir, curtir a noite sem se preocupar em ser reconhecido, e poder agir como qualquer outra pessoa da sua idade.
Então ele resolveu dar uma volta no hotel, longe da supervisão da sua equipe, para espairecer. E foi nesse momento que null encontrou null, que também estava fugindo de alguém. Por que não fugirem juntos? Ainda mais quando a garota não o reconheceu… Seria uma experiência interessante.
Mas não foi nada disso que ele falou. E não porque null não queria se explicar, nem porque null não deixou que ele falasse, mas porque as conversas atrás dele pararam, e todo mundo ficou em silêncio. E então, quando ele e null olharam para a fila na frente deles, para entender o que estava acontecendo, ambos quase foram jogados contra a parede pelos fãs alucinados que pularam na frente de null.
— Ah, meu deus! Você é null null?
— null, tira uma foto comigo?
— null, é você mesmo?
— Mas você não tem um show amanhã?
— Não pode ser o null null, li em um blog que ele só chega amanhã!
— null, assina o meu braço!
— Quem é null null, gente?!
null não costumava ignorar os fãs, mas tinha sido pego de surpresa. Além disso, se ele fosse visto curtindo a noite em Nova Iorque uma noite antes do show, não pegaria muito bem para ele. Mas o garoto mal teve tempo de reagir — até porque ele nem sabia como reagir diante de tudo aquilo. Isso porque null pegou a mão dele e o puxou para longe dali, correndo na calçada por entre as pessoas.
Esbarraram em uma velhinha que não deveria estar fora de casa àquela hora, e quase derrubaram os sorvetes que duas crianças carregaram, recebendo alguns xingamentos não muito bacanas dos pais. Mas a dupla não ficou para se desculpar, ainda corriam para longe, sem saber se estavam sendo seguidos ou não.
E quando viraram a esquina e pararam por um segundo para respirar, null voltou o olhar para a rua que tinham acabado de atravessar como dois fugitivos da polícia, apenas para confirmar o que ela esperava: que não tinham sido seguidos.
— Ufa. — ela respirou fundo. — Essa foi por pouco, hein? — bateu no braço de null de brincadeira.
Mas null ainda estava meio anestesiado pelos acontecimentos de, literalmente, um minuto atrás.
— Você é maluca.
null levou aquilo como um elogio. Ainda recuperando o fôlego, a garota encostou as costas e a cabeça na parede, rindo. E por mais assustado que null null ainda estivesse, ele também começou a rir com ela.
Quando pensou em dar uma escapadinha para tomar ar à noite, longe do seu quarto do hotel, e escondido da supervisão da sua equipe, null não imaginava que sua noite seria tão agitada. E a noite mal havia começado ainda, afinal, o pub que eles escolheram ir já não era mais uma opção, e agora precisavam pensar o que fazer.
— E agora, para onde vamos? — ele perguntou se desencostando da parede para ficar de frente à garota. Arrumou o boné sobre o rosto quando um grupo passou por eles, mas ninguém prestou atenção na dupla.
null tinha os olhos cerrados. Agora tudo fazia sentido, o fato dele fugir das suas perguntas, o motivo de null ter sempre um sorrisinho convencido nos lábios quando percebia que tinha uma informação a mais que ela, e especialmente…
— Agora eu entendo o motivo de você estar usando esse boné ridículo à noite.
null deixou o queixo cair, ofendido.
— Está brincando? Eu ganhei isso de uma fã!
— Não estou dizendo que o boné, em si, não é legal. Só que é realmente meio sem noção você estar usando isso à noite. — ela disse dando uma risadinha. — Mas é, acho que você tem um bom motivo. Não que tenha resolvido, né?
null fez uma careta, não gostando nadinha da zombaria dela.
— Para onde vamos agora? — ele insistiu. — Não podemos voltar ao pub. Sabe como é, tenho muitos fãs por lá.
E lá estava de volta, o tom de superioridade, acompanhado do sorrisinho de lado.
null revirou os olhos.
— Tenho quase certeza que alguma pessoa perguntou quem era null null, até porque você não é tão famoso quanto pensa. — e antes que responde àquilo (a resposta já estava na ponta da língua), null apontou para um lugar atrás dele. — Vamos ali.
null soltou uma risadinha irônica.
— Ah tá, claro. Como se eu fosse entrar em um karaokê.
Mas a garota não estava esperando pela aprovação dele, já que ela começou a andar na frente, e já estava quase na porta do lugar quando null apareceu do seu lado.
— Você está falando sério?!
— Claro! Além de estar bem mais vazio que os outros lugares, quem iria imaginar que o famoso null null passaria a noite em um bar de karaokê?
Ele ainda não estava completamente satisfeito, nem tinha concordado em passar as próximas horas ali dentro, mas null não esperou pela resposta dele.
De fato, o karaokê estava infinitamente mais vazio que o pub de antes, talvez porque não fosse a primeira opção de diversão para pessoas jovens e com amigos, mas null preferiu guardar o comentário para si mesmo.
Antes de escolherem uma sala para eles, o garoto conferiu o celular, apenas para ter certeza de que sua fuga não fora descoberta. E quanto checou as horas, viu que já havia passado das nove da noite.
— Não posso ir embora tarde. — ele disse a null, que já escolhia uma música para cantarem. — Acordo cedo amanhã.
— Meia noite, pode ser? No máximo.
Ele concordou. Meia noite não era tão tarde assim, além disso, o hotel que estava hospedado era realmente próximo, e a essa hora null tinha certeza de que toda a sua equipe já estaria dormindo para o dia agitado que teriam amanhã.
— Ok, eu começo cantando. Você, senhor cantor famoso, não pode me julgar, não pode fazer caretas e não pode dar risadas, estamos combinados?
null apenas balançou a cabeça concordando, já contendo a risada que ele sabia que daria em segundos. E não foi diferente do imaginado. Assim que null começou a cantar Crazy Love, acreditando realmente que estava em cima do palco e que era a própria Beyoncé, o garoto mal conseguiu manter o tom da risada baixo.
— Então, pelo nosso acordo, eu não posso fazer nenhum comentário do quão ridículo foi aquilo?
null respondeu jogando o microfone no peito dele. null conseguiu segurá-lo antes que caísse.
— Sua vez, então, sabichão.
Com um sorriso convencido, null foi até em frente a televisão e passou a escolher a música que cantaria.
— Ei, espera. Essa música é sua? — null não obteve uma resposta. — Isso não vale!
null, definitivamente, não sabia brincar. Escolher sua própria música para competir com null no karaokê — no qual ela realmente não era muito boa, mesmo tendo participado por anos de musicais da escola — era jogo sujo, e ele tinha plena consciência disso.
E por estar muitíssimo confortável cantando uma música cuja letra ele já conhecia muito bem — ele mesmo tinha a escrito, pelo amor de Deus — null passou a cantar de frente para null, sem se importar em ler as frases que apareciam na televisão. Mais do que isso, o rapaz passou até a performar para ela, dançando, de um lado para o outro, subindo em uma cadeira, e descendo logo em seguida quando o segurança o olhou com a cara pouco satisfeita.
Mas a melhor parte, com toda a certeza do mundo, foi o momento em que a música acabou e a pontuação dele apareceu na tela.
— Oitenta por cento?! Você está brincando comigo?!
null não fez o mínimo de esforço para conter as risadas, pelo contrário, se contorcia na cadeira em que ainda estava sentada, e correu para tirar uma foto da pontuação dele.
— Será que eu consigo ganhar um bom dinheiro vendendo isso para os sites de notícias? — ela perguntou rindo, enquanto null ia até o segurança de antes para perguntar se o aparelho de karaokê estava com defeito. — null, fique do lado da televisão, por favor. E tire o boné, precisamos provar que você não sabe cantar a sua própria música.
null não estava de bom humor como a garota e ainda insistia que aquele aparelho estava com problemas — porque não havia outra explicação para sua baixa pontuação — mas aceitou ficar ao lado da tela e tirar o boné.
— Ei, me manda essa foto.
— Me passa o seu número.
null hesitou por um instante. Ele não saía passando seu número pessoal para qualquer pessoa, e ele mal conhecia aquela garota. Por outro lado, ele também não tinha o hábito de pegar táxis com meninas desconhecidas e ir curtir a noite em Nova Iorque disfarçado para não ser reconhecido. E ele já tinha feito tudo isso com null, então… Por que não?
— Está bem, vou te passar. Mas olha só, você não pode passar para ninguém, ok? E nem vender essa informação para algum site na internet.
null riu.
— Me fala logo, caramba.
Depois de cantarem mais algumas músicas, e de null ter conseguido uma pontuação perfeita — momento em que null se recusou a fotografar, pois, segundo ela, não teria graça vender essa foto para site nenhum — eles foram até o bar do local para comer alguma coisa.
As horas passaram voando. O assunto nunca acabava, e as risadas também não. As fotos se multiplicaram, especialmente quando null derrubou cerveja na sua calça e reclamou de que teria que esconder bem a peça de roupa para que o cheiro não chamasse atenção do irmão.
— Mas obrigada por me acompanhar. Foi realmente muito divertido. — ela comentou.
null deu de ombros.
— Acho que sou o cara perfeito para você, pelo menos no quesito fuga. — ambos riram. — Também me diverti muito hoje, mesmo sendo um absurdo você não ter me reconhecido logo de cara.
null soltou outra risada.
— E eu nem teria descoberto se não fosse aquele pôster seu e os seus fãs pedindo por uma foto.
Em determinado ponto da noite, quando ambos já estavam satisfeitos e relaxados, e null acreditou já ser hora de irem embora, “Sabe como é, eu tenho um show para fazer amanhã. Responsabilidades e tal...”, eles foram até o caixa pagar a conta.
Eles não sabiam quando aconteceu, ou quando perceberam a mudança do clima. Mas em um momento eles conversavam e riam enquanto esperavam suas vezes de pagar a conta, e no outro, todos os olhares do recinto estavam sobre eles. Um grupo particular de garotas, uma delas, inclusive, usando uma camiseta com letras de uma das músicas de null, estava olhando para eles com curiosidade.
E null soube que null estava a ponto de ser descoberto, e que se isso ocorresse ele teria fotos suas publicadas em algum site de fofoca, ainda naquela noite. E pior, null não seria bem visto por estar se divertindo na noite anterior de um dos maiores shows da sua turnê, segundo a conversa que tiveram mais cedo.
Ela não soube de onde veio a ideia. E null nunca saberia se aquele era de fato, o melhor plano que poderia ter bolado, mas em um momento eles estavam conversando, com null de costas para o grupo de meninas que ainda não tinha confirmado sua suspeita, e no momento seguinte null segurou o braço dele, impedindo-o de se virar para o caixa quando chegou a vez deles.
Puxou-o para fora da fila, e sem responder ao questionando dele, “O que você está fazendo?”, ela o beijou.
null não poderia estar mais surpreso. De tudo o que tinha acontecido naquela noite, o beijo de null foi a parte mais inesperada. Mas não tão inesperado a ponto de null não retribuir, até porque, ele não poderia negar, já tinha se pegado pensando, algumas vezes, em como poderia fazer aquele momento acontecer.
E bem, estava acontecendo.
O beijo não durou mais que um minuto, mas foi o bastante para dispersar o grupo de meninas curiosas, que desistiu de tentar confirmar se aquele garoto estranho, com calça surrada e um boné questionável era, de fato, null null.
— De nada. — null disse com a respiração falha e os lábios formigando. Voltou para a fila do caixa, com um null confuso atrás de si.
— O quê?
— Aquelas meninas. — ela disse indicando com a cabeça. — Não olhe, mas elas estavam olhando para você como aquele pessoal mais cedo no pub. Pensei que uma distração viria a calhar para esconder a sua identidade.
Chegou a vez de null pagar, e a garota foi até o caixa.
null ainda repassava as palavras dela na cabeça. Não era possível que aquele beijão tinha sido simples distração, sem segundas intenções, sem um mínimo de interesse genuíno da parte dela. Mas então null deixou o caixa, e foi para o lado dele, e null viu as bochechas coradas da garota. E aquilo foi o bastante para deixá-lo muitíssimo satisfeito com o beijo. Afinal, não tinha sido apenas uma desculpa para escondê-lo.
E quando já estavam no carro, voltando para o hotel, null deixou ambas as janelas abertas, recebendo o vento do lado de fora com a desculpa de que estava com calor, mesmo que eles estivessem no início do outono e o clima já não estivesse mais quente como no verão. null olhou no relógio do celular: meia noite em ponto.
Ao chegarem no hotel, ambos se despediram, evitando se olhar nos olhos. Ainda assim, contudo, apertaram as mãos ao se darem boa noite no elevador quando faltavam apenas dois andares para que chegasse o de null.
— Você foi um ótimo parceiro de fuga, null null.
— Eu diria que você foi a parceira perfeita. Tenho certeza que não teria me divertido dessa forma sem você.
null olhou para baixo e arrastou o pé no chão por um segundo antes de fazer a pergunta que martelava na sua mente.
— E aí, para onde você vai depois daqui?
— Nova Iorque é o último destino da minha turnê, pelo menos dessa. Em seis meses vou começar uma nova.
— Legal. — ela disse, mas não era o que ela queria ter falado.
E quando o elevador parou no seu andar, ela viu a oportunidade de dizer:
— Ei, vê se não some. Me liga, ou me manda uma mensagem.
— Eu não sou bom em fazer promessas, mas vou me esforçar.
O sorriso dele foi a última coisa que null viu antes das portas se fecharem.
💙💙💙
Três meses após sua viagem para Nova Iorque, null ainda se esforçava para reclamar da chatice que foi ter ido na última viagem de negócios do irmão, afinal, ela tinha que manter as aparências.
— Nem pense em me arrastar atrás de você dessa vez. Mês que vem começam as provas na faculdade e eu preciso estudar. — e antes que Mario falasse qualquer coisa, ela completou depressa. — Estudar em casa. É sério, eu não vou dessa vez.
O irmão suspirou alto, sabendo que não adiantaria discutir com null. Ele não iria insistir.
null voltou para seu quarto e deitou na cama. Buscou o celular na cabeceira e passou o dedo na tela. Tinha algumas notificações não lidas, mas o que realmente chamou sua atenção foi a mensagem recebida de um certo alguém.
“Ei, ainda lembra de mim? Desculpe ficar quase uma semana sem te responder, as coisas estão meio intensas no trabalho”
null rolou na cama, ficando de barriga para baixo.
“Está falando isso para que eu fique com pena de você?”
E logo em seguida, mandou:
“Eu deveria ficar uma semana sem te responder também”
“HAHAHA você é muito vingativa”
“Você ainda não viu nada, null null. Ainda tenho a sua foto no karaokê. O que os sites de fofoca pensariam com o fato de você ter tirado oitenta por cento na sua própria música?”
A garota sempre o ameaçava de mandar a foto para todos os sites de notícias de famosos, mas ambos sabiam que não passavam de provocações. null gostava de ter aquela foto só para si, como um segredo, uma lembrança daquela noite.
“Que tal eu te retribuir de alguma forma?”
null demorou alguns segundos para responder, pensando no que aquela mensagem poderia significar.
“O que você tem em mente?”
“Estarei indo para Miami semana que vem gravar o meu novo vídeo. Vou ficar uma semana por lá”.
E como a garota não respondeu, null mandou logo abaixo:
“Conheço um restaurante realmente muito bom por lá. E a melhor parte? Eles têm mesas mais reservadas, longe de olhares curiosos. Basta me dar um ok que eu faço a reserva hoje mesmo”.
null leu e releu aquela mensagem várias vezes. Como é que ele esperava que ela fosse para Miami na próxima semana, sabendo que ela estaria tendo aula…? Mas então um pensamento a ocorreu.
Desceu da cama correndo e foi até o escritório do irmão. Ele estava com o telefone na mão, o que significava que estava ocupado, provavelmente trabalhando. Mas o rapaz olhou para cima e fez sinal para que null falasse.
— Para onde você vai semana que vem mesmo?
— Miami. Quatro dias.
null mal pôde acreditar naquilo. Se acreditasse em destino, diria que ele estava sorrindo para ela.
— Reserve um quarto para mim, vou com você.
Não esperou que o irmão fizesse a pergunta que estava estampada no rosto dele.
Ela correu de volta para o quarto, pegando os cadernos da faculdade para começar a estudar desde logo, já que não queria se prejudicar nas provas por ficar quatro dias sem ir à aula e sem estudar em casa.
“Faça a reserva. Nos encontramos em uma semana”
Enviou a mensagem para null e sorriu quando o garoto lhe mandou print da reserva feita no restaurante em que se encontrariam. Porque sim, null null e null viveriam uma nova aventura, fugindo da supervisão de quem quer que fosse, apenas para poderem passar a noite juntos de novo.
— Não adianta fazer essa cara, já conversamos sobre isso. — ele disse enquanto terminava de dar o nó na gravata.
— Não, você falou o que queria e eu tive que obedecer. — null bufou. — Eu não sou mais uma criança, sabia? Estou no último ano da faculdade, inclusive, muitíssimo adulta.
Mario deu um sorriso de lado e virou-se para trás, onde sua irmã insistia em manter a cara fechada.
— null, não gosto de deixar você muito tempo sozinha em casa.
null e Mario moravam juntos há pouco mais de três anos. Desde que a garota fora morar nos Estados Unidos com o irmão mais velho, que trabalhava em uma grande firma de negócios jurídicos, o rapaz tem tentado manter a caçula o mais perto possível de si, sempre preocupado em não fazê-la se sentir sozinha em um país novo, longe da sua família e amigos.
Mas null não pensava assim, pelo contrário. Ela não se importava em ficar dias sozinha em casa, longe da supervisão do irmão careta que poderia ter trinta anos na identidade, mas agia como se tivesse setenta.
Além disso, a garota odiava ir para as viagens de negócios de Mario. Era sempre muito monótono e chato.
— Qual a diferença entre ficar dias sozinha em casa e ficar dias sozinha em um hotel?
Mario passou a mão pelo cabelo mais uma vez. Satisfeito com a aparência, e pronto para sair para a sua reunião, ele virou-se com um sorriso para null:
— A diferença é que aqui eu posso ficar de olho em você, e posso ter certeza de que você não vai fazer nenhuma besteira, como dar uma festa em casa, por exemplo.
Ela nem mesmo se mostrou minimamente culpada pela lembrança da bagunça que causara ano passado, quando deu uma festa não autorizada em casa, na ausência do irmão. Em vez disso, null apenas deu de ombros.
— Aproveite o que o hotel tem a oferecer. — ele disse pegando sua pasta de documentos. — Tem sauna e piscina, e até mesmo uma academia, caso queira gastar um pouco desse ódio fingido que você está sentindo.
— Não é fingido! Eu estou com muita raiva. — ela gritou para ele.
Mario apenas riu antes de fechar a porta.
Novamente, como uma criança mimada e insatisfeita por não ter suas vontades atendidas, null bateu as pernas na cama, soltando um gritinho.
Sim, ela já era uma adulta.
Não, ela não precisava de supervisão.
Sim, ela gostava de viajar com o irmão, porque ele sempre escolhia destinos legais e bancava a viagem toda.
Mas não, ela detestava viajar com ele quando o objetivo da viagem era o trabalho dele.
Isso porque a garota sempre ficava presa dentro do hotel, sem nada para fazer. A piscina não era divertida sem as amigas, e a sauna a deixava com dificuldades para respirar. Os canais da televisão do quarto não era tão legais assim, e a academia a garota preferia nem saber para que lado ficava.
Com os pés arrastando, ela foi até o próprio quarto, no final do corredor. Se fosse passar a noite toda sozinha, que fosse na companhia das suas coisas.
Ligou a televisão enquanto tirava as roupas para tomar banho. Ao longe, ouviu a jornalista falar em como a cidade era uma ótima opção para pessoas jovens, pois oferecia grande variedade de bares, restaurantes e boates, além dos shows de bandas e cantores que sempre atraiam centenas de milhares de pessoas.
null bufou de novo.
Sexta-feira à noite, e ela estava tomando banho para dormir cedo, enquanto seu irmão mais velho — que realmente parecia um velho — tinha se arrumado todo e usado o seu melhor terno para ir a uma reunião de negócios que, para ele, era o equivalente a uma noitada no bar com os amigos.
Mario estava se divertindo e null não.
Isso era tão injusto.
A não ser…
A ideia veio tão rápido que null se perguntou como nunca havia pensado nisso antes. Mario estava fora, e provavelmente chegaria tarde da noite, como sempre. Estavam em quartos separados, e ele não tinha acesso ao cômodo de null. Se a garota passasse a noite embaixo das cobertas ou em algum pub divertido, Mario nunca saberia.
E foi exatamente com esse pensamento, e com o desejo insano de se rebelar contra seu irmão controlador, que null colocou sua melhor calça jeans e camiseta — Deus, por que ela não pensara em levar ao menos uma roupa que não fosse do tipo que ela usaria no dia a dia na faculdade? — calçou a botinha e pegou a jaqueta.
Como sua escapada rebelde não tinha sido planejada, a garota não tinha levado maquiagem consigo, com exceção da base e do rímel e de um batom que encontrou perdido no fundo da bolsa. E em vinte minutos, ela estava pronta. Pronta para fugir da supervisão do seu irmão super sério e responsável, e que ficaria muitíssimo bravo com ela se soubesse que null deu uma escapadinha.
Bem, ele nunca saberia. Até porque a garota não planejava voltar muito tarde, apenas queria poder sentir o vento bater no rosto. Não era pedir muito, era?
E mesmo sabendo que Mario se encontrava em uma reunião muitíssimo importante, longe dali, null não pôde deixar de se comportar como uma fugitiva que se esconde de tudo e de todo. Por este motivo, a garota andou de cabeça baixa até o elevador, se esgueirando rente à parede, atenta a qualquer pessoa que pudesse delatá-la ao irmão.
Dentro do elevador, null evitou olhar para cima, para onde a câmera se encontrava, como se fosse uma criminosa que fugia da polícia.
— Meu Deus, eu preciso parar de ver filmes de perseguição.
null saiu do elevador e se escondeu atrás da parede que separava a recepção do hotel para o corredor de elevadores. Mesmo já sendo de noite, a recepção estava cheia de pessoas fazendo o check in, e ela precisou ficar ainda mais rente à parede para não atrapalhar a passagem das malas.
A garota espiou a recepção mais uma vez, apenas para garantir que seu irmão, nem nenhum conhecido dele, estavam ali. E por estar realmente concentrada em viver um filme de ação na sua cabeça, null não percebeu quando alguém parou atrás dela.
— Procurando alguém?
A garota pulou, e seu grito só não foi mais alto que o do estranho, que teve o pé pisado por ela na hora do susto.
— Ah, desculpe.
— Tudo bem, acho que a culpa foi minha. — ele riu, ainda massageando o pé machucado.
null estreitou os olhos e tombou a cabeça um pouco para o lado, analisando o estranho, que já não parecia tão estranho assim.
— Eu te conheço?
O garoto soltou o pé e ficou reto de novo, dando um sorriso presunçoso.
— Eu não sei. — ele deu de ombros. — Conhece?
null precisou segurar a vontade de revirar os olhos quando o garoto ergueu as sobrancelhas duas vezes, em um claro sinal de flerte.
— Ah, sim, sei quem você é. — e antes que ele pudesse aumentar ainda mais o sorriso e terminar de levar a mão ao cabelo, ela continuou. — Você é mais um desses caras que se acham bonitos demais e que por isso saem flertando com qualquer menina que encontram por aí.
A mudança de expressão no rosto dele foi imediata. E quase engraçada demais.
— Espera, você… Você não sabe quem eu sou?
null bufou.
— Não. E nem sei se quero saber. — a garota voltou sua atenção para a recepção do hotel. — Não sei se percebeu, mas eu estou um pouco ocupada agora, sabe como é, planejando a minha fuga e tal.
O estranho voltou a se aproximar dela e também passou a observar com curiosidade a recepção.
— E você está fugindo para onde? — ele perguntou num sussurro, como se realmente estivesse sendo observados por alguém e precisassem manter seus planos em segredo.
null deu de ombros.
— Para qualquer lugar que não seja aqui.
— Bom plano. Podemos decidir para onde ir depois que estivermos seguros do lado de fora.
null olhou para trás, com a testa franzida.
— Eu já disse que não conheço você.
O estranho voltou os olhos para ela, e então pareceu se lembrar de algo importante.
— Ah, sim. Prazer, meu nome é null. — ele estendeu a mão para ela. — Qual o seu nome?
A garota demorou alguns segundos para corresponder ao gesto. Procurou analisar as possibilidades de null ser um psicopata assassino procurado pela Interpol, mas ele apenas parecia ser um cara bacana, especialmente porque entrou bem rápido na brincadeira de fugir.
— null. — ela apertou a mão dele. — E então, qual é o plano?
null voltou a olhar para a recepção, e vendo que não tinha ninguém realmente prestando atenção neles, o garoto pegou na mão de null e passou a caminhar rapidamente para fora. E quando chegaram à calçada, eles estavam rindo, mas só até null ver as pessoas das quais ele estava fugindo.
— Droga!
O garoto imediatamente ficou de costas e puxou a aba do boné para baixo, tentando esconder o rosto. Colocou ambas as mãos nos bolsos da calça e passou a observar as plantas que ficavam do lado de fora, muitíssimo interessado em tentar descobrir qual espécie de orquídea era aquela.
Percebendo que null estava se escondendo de alguém, como ela, null ficou do lado dele, também de costas e puxou o celular, fingindo que mostrava alguma coisa para ele. E quando aquelas pessoas entraram, conversando entre si e rindo de alguma coisa, sem notar a presença de null do lado de fora, ambos relaxaram.
— Puxa, obrigado.
null estreitou os olhos de novo.
— Por que você estava fugindo daquelas pessoas? Quem são?
null comprimiu os lábios e olhou para baixo.
— E você? De quem está fugindo?
null deu de ombros, não tinha porque manter segredo daquilo.
— Do meu irmão mais velho. Ele está em uma reunião agora, mas pode voltar a qualquer momento.
— Então não temos tempo a perder! — ele disse, logo puxando o celular dela e abrindo o aplicativo de carona.
— Ei!
— Estou sem créditos no celular, então não tenho internet móvel. — ele se justificou. — Eu vou pagar a corrida, não se preocupe.
E sem esperar por uma resposta de null, o garoto confirmou o endereço em que estavam e foi para mais próximo da rua, tendo a garota ao lado dele.
— E para onde nós vamos? — ela perguntou.
— Para o centro da cidade. — ele respondeu. — Nova Iorque é grande demais. Tenho certeza que vamos encontrar algo interessante para fazermos no centro.
Assim que o carro parou, null conferiu a sua placa e fez sinal para que null o seguisse. Cumprimentaram o motorista e entraram no banco de trás. Uma música animada estava tocando no rádio, e o motorista parecia saber cantá-la do início ao fim. null também mexia o corpo levemente, no ritmo da música, e null reconheceu a letra ou, pelo menos, o refrão.
— Ei, você conhece essa música? — null perguntou interessado.
— Só uma parte. Minha amiga a escuta direto.
— Ah, é? Sua amiga tem um ótimo gosto musical. — ele comentou.
null riu daquilo, porque null parecia genuinamente sincero, quase orgulhoso, com o peito estufado.
— Ei, rapaz, eu te conheço de algum lugar? — o motorista perguntou olhando pelo retrovisor.
null imediatamente engoliu em seco, abaixou a aba do boné de novo e se encolheu perto da porta.
— Acho que não, senhor. É a primeira vez que venho para Nova Iorque.
— Hm, é mesmo? — o motorista comentou, dividindo sua atenção entre olhar pelo retrovisor e estacionar. — Eu podia jurar que…
— Bem, obrigado pela carona. — null interrompeu o motorista. Tirou uma nota de vinte dólares da carteira e jogou no banco da frente. — Pode ficar com o troco. Boa noite!
null não esperou o motorista responder para abrir a porta e pular para fora, tampouco deu atenção à null e à sua tentativa de dividir o valor da corrida. O garoto já estava na calçada quando pegou a mão dela de novo e a puxou para fora, como se tivesse desenvolvido uma alergia ao carro e ao motorista.
— Ok… O que foi aquilo?
— Ahn? — ele perguntou.
O rapaz olhava em volta com os olhos brilhantes de excitação, mas a postura dele não estava relaxada como no hotel. Novamente, null levou as mãos no boné que usava e o ajeitou melhor na cabeça, tentando fazer com que a aba escondesse mais do que poderia. Levantou a gola da jaqueta, para esconder o pescoço e então voltou a atenção para null.
— Você parece um fugitivo que está tentando se esconder da polícia. — ela comentou. null ficou tenso por um instante, mas então a garota soltou uma risadinha no final. — Sério, de quem você está fugindo? E eram aquelas pessoas no hotel?
Mas null não queria responder àquilo no momento. Isso porque ele queria aproveitar as horas que ele tinha livre, antes de voltar para as responsabilidades da vida real.
— E aí, o que você quer fazer? — ele perguntou abrindo os braços e mostrando a infinidade de opções de entretenimento que tinham por ali. — Foi uma boa ideia ter vindo para o centro, não foi?
null não podia acreditar naquilo. Novamente ele tinha ignorado a sua pergunta, e novamente null estava com aquele ar superior, como se estivesse muito satisfeito com alguma coisa que só ele sabia.
— Inacreditável. — ela falou baixinho, mas teve certeza de que ele ouviu. — Certo, o que temos para fazer por aqui, hm… Ali!
null olhou para onde null apontava. O pub que null mostrou interesse em ir já tinha uma pequena fila do lado de fora. Alguns grupos de amigos formavam rodinhas e tiravam fotos enquanto riam de alguma coisa.
Ficar em uma fila, do lado de fora, perto de jovens com celulares nas mãos não era a primeira opção de programa de null, mas ele se viu respondendo:
— Ok!
Ele foi até o final da fila, mas ao invés de ficar de frente, o garoto deu as costas para as pessoas na fila, ficando de frente para uma null confusa.
— O que você está fazendo?
— Ficando de frente para você, minha companheira fugitiva da noite.
O sorriso dele quase fez null se esquecer de que o rapaz era um completo desconhecido. Quase. Isso porque, na parede do pub, do lado de fora, havia um cartaz escrito:
PRESENTS
LOVE ON TOUR
JULY, 23
NEW YORK, US.
E logo abaixo dos dizeres, um segundo cartaz, este com a foto de null null.
null ficou em choque por alguns instantes. Olhava para a foto da parede e para o garoto à sua frente, o qual estava mexendo no celular despretensiosamente, enquanto mantinha os ombros baixos e a aba do boné cobrindo o rosto.
Não… Não podia ser… Podia?
A garota olhou para a foto de novo e voltou a encarar null, mas ele mantinha o rosto baixo. E percebendo que null o encarava quase sem piscar, ele levou sua atenção para ela.
— O quê? — ele perguntou meio rindo.
null precisava tirar a dúvida. E para isso, tirou o boné que ele usava, escondendo-o atrás de si quando ele tentou pegar de volta.
— Ei!
— Você! — ela falou, apontando o dedo para o rosto dele. — Você… — ela apontou para o pôster na parede. — Você é…
— Shiu!
null conseguiu puxar o boné de volta. Olhou em volta rapidamente, apenas para garantir que não haviam atraído a atenção de ninguém na fila, e se aproximou mais de null, falando baixinho para que só ela escutasse:
— Eu… Eu posso explicar.
A história de null era muito simples, na verdade. Estava em turnê, e estava viajando há três meses, sem pausas, entre países e continentes diferentes. Mais do que isso, há muito tempo ele não saia sozinho ou com seus amigos. O rapaz quase já não se lembrava de como era se divertir, curtir a noite sem se preocupar em ser reconhecido, e poder agir como qualquer outra pessoa da sua idade.
Então ele resolveu dar uma volta no hotel, longe da supervisão da sua equipe, para espairecer. E foi nesse momento que null encontrou null, que também estava fugindo de alguém. Por que não fugirem juntos? Ainda mais quando a garota não o reconheceu… Seria uma experiência interessante.
Mas não foi nada disso que ele falou. E não porque null não queria se explicar, nem porque null não deixou que ele falasse, mas porque as conversas atrás dele pararam, e todo mundo ficou em silêncio. E então, quando ele e null olharam para a fila na frente deles, para entender o que estava acontecendo, ambos quase foram jogados contra a parede pelos fãs alucinados que pularam na frente de null.
— Ah, meu deus! Você é null null?
— null, tira uma foto comigo?
— null, é você mesmo?
— Mas você não tem um show amanhã?
— Não pode ser o null null, li em um blog que ele só chega amanhã!
— null, assina o meu braço!
— Quem é null null, gente?!
null não costumava ignorar os fãs, mas tinha sido pego de surpresa. Além disso, se ele fosse visto curtindo a noite em Nova Iorque uma noite antes do show, não pegaria muito bem para ele. Mas o garoto mal teve tempo de reagir — até porque ele nem sabia como reagir diante de tudo aquilo. Isso porque null pegou a mão dele e o puxou para longe dali, correndo na calçada por entre as pessoas.
Esbarraram em uma velhinha que não deveria estar fora de casa àquela hora, e quase derrubaram os sorvetes que duas crianças carregaram, recebendo alguns xingamentos não muito bacanas dos pais. Mas a dupla não ficou para se desculpar, ainda corriam para longe, sem saber se estavam sendo seguidos ou não.
E quando viraram a esquina e pararam por um segundo para respirar, null voltou o olhar para a rua que tinham acabado de atravessar como dois fugitivos da polícia, apenas para confirmar o que ela esperava: que não tinham sido seguidos.
— Ufa. — ela respirou fundo. — Essa foi por pouco, hein? — bateu no braço de null de brincadeira.
Mas null ainda estava meio anestesiado pelos acontecimentos de, literalmente, um minuto atrás.
— Você é maluca.
null levou aquilo como um elogio. Ainda recuperando o fôlego, a garota encostou as costas e a cabeça na parede, rindo. E por mais assustado que null null ainda estivesse, ele também começou a rir com ela.
Quando pensou em dar uma escapadinha para tomar ar à noite, longe do seu quarto do hotel, e escondido da supervisão da sua equipe, null não imaginava que sua noite seria tão agitada. E a noite mal havia começado ainda, afinal, o pub que eles escolheram ir já não era mais uma opção, e agora precisavam pensar o que fazer.
— E agora, para onde vamos? — ele perguntou se desencostando da parede para ficar de frente à garota. Arrumou o boné sobre o rosto quando um grupo passou por eles, mas ninguém prestou atenção na dupla.
null tinha os olhos cerrados. Agora tudo fazia sentido, o fato dele fugir das suas perguntas, o motivo de null ter sempre um sorrisinho convencido nos lábios quando percebia que tinha uma informação a mais que ela, e especialmente…
— Agora eu entendo o motivo de você estar usando esse boné ridículo à noite.
null deixou o queixo cair, ofendido.
— Está brincando? Eu ganhei isso de uma fã!
— Não estou dizendo que o boné, em si, não é legal. Só que é realmente meio sem noção você estar usando isso à noite. — ela disse dando uma risadinha. — Mas é, acho que você tem um bom motivo. Não que tenha resolvido, né?
null fez uma careta, não gostando nadinha da zombaria dela.
— Para onde vamos agora? — ele insistiu. — Não podemos voltar ao pub. Sabe como é, tenho muitos fãs por lá.
E lá estava de volta, o tom de superioridade, acompanhado do sorrisinho de lado.
null revirou os olhos.
— Tenho quase certeza que alguma pessoa perguntou quem era null null, até porque você não é tão famoso quanto pensa. — e antes que responde àquilo (a resposta já estava na ponta da língua), null apontou para um lugar atrás dele. — Vamos ali.
null soltou uma risadinha irônica.
— Ah tá, claro. Como se eu fosse entrar em um karaokê.
Mas a garota não estava esperando pela aprovação dele, já que ela começou a andar na frente, e já estava quase na porta do lugar quando null apareceu do seu lado.
— Você está falando sério?!
— Claro! Além de estar bem mais vazio que os outros lugares, quem iria imaginar que o famoso null null passaria a noite em um bar de karaokê?
Ele ainda não estava completamente satisfeito, nem tinha concordado em passar as próximas horas ali dentro, mas null não esperou pela resposta dele.
De fato, o karaokê estava infinitamente mais vazio que o pub de antes, talvez porque não fosse a primeira opção de diversão para pessoas jovens e com amigos, mas null preferiu guardar o comentário para si mesmo.
Antes de escolherem uma sala para eles, o garoto conferiu o celular, apenas para ter certeza de que sua fuga não fora descoberta. E quanto checou as horas, viu que já havia passado das nove da noite.
— Não posso ir embora tarde. — ele disse a null, que já escolhia uma música para cantarem. — Acordo cedo amanhã.
— Meia noite, pode ser? No máximo.
Ele concordou. Meia noite não era tão tarde assim, além disso, o hotel que estava hospedado era realmente próximo, e a essa hora null tinha certeza de que toda a sua equipe já estaria dormindo para o dia agitado que teriam amanhã.
— Ok, eu começo cantando. Você, senhor cantor famoso, não pode me julgar, não pode fazer caretas e não pode dar risadas, estamos combinados?
null apenas balançou a cabeça concordando, já contendo a risada que ele sabia que daria em segundos. E não foi diferente do imaginado. Assim que null começou a cantar Crazy Love, acreditando realmente que estava em cima do palco e que era a própria Beyoncé, o garoto mal conseguiu manter o tom da risada baixo.
— Então, pelo nosso acordo, eu não posso fazer nenhum comentário do quão ridículo foi aquilo?
null respondeu jogando o microfone no peito dele. null conseguiu segurá-lo antes que caísse.
— Sua vez, então, sabichão.
Com um sorriso convencido, null foi até em frente a televisão e passou a escolher a música que cantaria.
— Ei, espera. Essa música é sua? — null não obteve uma resposta. — Isso não vale!
null, definitivamente, não sabia brincar. Escolher sua própria música para competir com null no karaokê — no qual ela realmente não era muito boa, mesmo tendo participado por anos de musicais da escola — era jogo sujo, e ele tinha plena consciência disso.
E por estar muitíssimo confortável cantando uma música cuja letra ele já conhecia muito bem — ele mesmo tinha a escrito, pelo amor de Deus — null passou a cantar de frente para null, sem se importar em ler as frases que apareciam na televisão. Mais do que isso, o rapaz passou até a performar para ela, dançando, de um lado para o outro, subindo em uma cadeira, e descendo logo em seguida quando o segurança o olhou com a cara pouco satisfeita.
Mas a melhor parte, com toda a certeza do mundo, foi o momento em que a música acabou e a pontuação dele apareceu na tela.
— Oitenta por cento?! Você está brincando comigo?!
null não fez o mínimo de esforço para conter as risadas, pelo contrário, se contorcia na cadeira em que ainda estava sentada, e correu para tirar uma foto da pontuação dele.
— Será que eu consigo ganhar um bom dinheiro vendendo isso para os sites de notícias? — ela perguntou rindo, enquanto null ia até o segurança de antes para perguntar se o aparelho de karaokê estava com defeito. — null, fique do lado da televisão, por favor. E tire o boné, precisamos provar que você não sabe cantar a sua própria música.
null não estava de bom humor como a garota e ainda insistia que aquele aparelho estava com problemas — porque não havia outra explicação para sua baixa pontuação — mas aceitou ficar ao lado da tela e tirar o boné.
— Ei, me manda essa foto.
— Me passa o seu número.
null hesitou por um instante. Ele não saía passando seu número pessoal para qualquer pessoa, e ele mal conhecia aquela garota. Por outro lado, ele também não tinha o hábito de pegar táxis com meninas desconhecidas e ir curtir a noite em Nova Iorque disfarçado para não ser reconhecido. E ele já tinha feito tudo isso com null, então… Por que não?
— Está bem, vou te passar. Mas olha só, você não pode passar para ninguém, ok? E nem vender essa informação para algum site na internet.
null riu.
— Me fala logo, caramba.
Depois de cantarem mais algumas músicas, e de null ter conseguido uma pontuação perfeita — momento em que null se recusou a fotografar, pois, segundo ela, não teria graça vender essa foto para site nenhum — eles foram até o bar do local para comer alguma coisa.
As horas passaram voando. O assunto nunca acabava, e as risadas também não. As fotos se multiplicaram, especialmente quando null derrubou cerveja na sua calça e reclamou de que teria que esconder bem a peça de roupa para que o cheiro não chamasse atenção do irmão.
— Mas obrigada por me acompanhar. Foi realmente muito divertido. — ela comentou.
null deu de ombros.
— Acho que sou o cara perfeito para você, pelo menos no quesito fuga. — ambos riram. — Também me diverti muito hoje, mesmo sendo um absurdo você não ter me reconhecido logo de cara.
null soltou outra risada.
— E eu nem teria descoberto se não fosse aquele pôster seu e os seus fãs pedindo por uma foto.
Em determinado ponto da noite, quando ambos já estavam satisfeitos e relaxados, e null acreditou já ser hora de irem embora, “Sabe como é, eu tenho um show para fazer amanhã. Responsabilidades e tal...”, eles foram até o caixa pagar a conta.
Eles não sabiam quando aconteceu, ou quando perceberam a mudança do clima. Mas em um momento eles conversavam e riam enquanto esperavam suas vezes de pagar a conta, e no outro, todos os olhares do recinto estavam sobre eles. Um grupo particular de garotas, uma delas, inclusive, usando uma camiseta com letras de uma das músicas de null, estava olhando para eles com curiosidade.
E null soube que null estava a ponto de ser descoberto, e que se isso ocorresse ele teria fotos suas publicadas em algum site de fofoca, ainda naquela noite. E pior, null não seria bem visto por estar se divertindo na noite anterior de um dos maiores shows da sua turnê, segundo a conversa que tiveram mais cedo.
Ela não soube de onde veio a ideia. E null nunca saberia se aquele era de fato, o melhor plano que poderia ter bolado, mas em um momento eles estavam conversando, com null de costas para o grupo de meninas que ainda não tinha confirmado sua suspeita, e no momento seguinte null segurou o braço dele, impedindo-o de se virar para o caixa quando chegou a vez deles.
Puxou-o para fora da fila, e sem responder ao questionando dele, “O que você está fazendo?”, ela o beijou.
null não poderia estar mais surpreso. De tudo o que tinha acontecido naquela noite, o beijo de null foi a parte mais inesperada. Mas não tão inesperado a ponto de null não retribuir, até porque, ele não poderia negar, já tinha se pegado pensando, algumas vezes, em como poderia fazer aquele momento acontecer.
E bem, estava acontecendo.
O beijo não durou mais que um minuto, mas foi o bastante para dispersar o grupo de meninas curiosas, que desistiu de tentar confirmar se aquele garoto estranho, com calça surrada e um boné questionável era, de fato, null null.
— De nada. — null disse com a respiração falha e os lábios formigando. Voltou para a fila do caixa, com um null confuso atrás de si.
— O quê?
— Aquelas meninas. — ela disse indicando com a cabeça. — Não olhe, mas elas estavam olhando para você como aquele pessoal mais cedo no pub. Pensei que uma distração viria a calhar para esconder a sua identidade.
Chegou a vez de null pagar, e a garota foi até o caixa.
null ainda repassava as palavras dela na cabeça. Não era possível que aquele beijão tinha sido simples distração, sem segundas intenções, sem um mínimo de interesse genuíno da parte dela. Mas então null deixou o caixa, e foi para o lado dele, e null viu as bochechas coradas da garota. E aquilo foi o bastante para deixá-lo muitíssimo satisfeito com o beijo. Afinal, não tinha sido apenas uma desculpa para escondê-lo.
E quando já estavam no carro, voltando para o hotel, null deixou ambas as janelas abertas, recebendo o vento do lado de fora com a desculpa de que estava com calor, mesmo que eles estivessem no início do outono e o clima já não estivesse mais quente como no verão. null olhou no relógio do celular: meia noite em ponto.
Ao chegarem no hotel, ambos se despediram, evitando se olhar nos olhos. Ainda assim, contudo, apertaram as mãos ao se darem boa noite no elevador quando faltavam apenas dois andares para que chegasse o de null.
— Você foi um ótimo parceiro de fuga, null null.
— Eu diria que você foi a parceira perfeita. Tenho certeza que não teria me divertido dessa forma sem você.
null olhou para baixo e arrastou o pé no chão por um segundo antes de fazer a pergunta que martelava na sua mente.
— E aí, para onde você vai depois daqui?
— Nova Iorque é o último destino da minha turnê, pelo menos dessa. Em seis meses vou começar uma nova.
— Legal. — ela disse, mas não era o que ela queria ter falado.
E quando o elevador parou no seu andar, ela viu a oportunidade de dizer:
— Ei, vê se não some. Me liga, ou me manda uma mensagem.
— Eu não sou bom em fazer promessas, mas vou me esforçar.
O sorriso dele foi a última coisa que null viu antes das portas se fecharem.
Três meses após sua viagem para Nova Iorque, null ainda se esforçava para reclamar da chatice que foi ter ido na última viagem de negócios do irmão, afinal, ela tinha que manter as aparências.
— Nem pense em me arrastar atrás de você dessa vez. Mês que vem começam as provas na faculdade e eu preciso estudar. — e antes que Mario falasse qualquer coisa, ela completou depressa. — Estudar em casa. É sério, eu não vou dessa vez.
O irmão suspirou alto, sabendo que não adiantaria discutir com null. Ele não iria insistir.
null voltou para seu quarto e deitou na cama. Buscou o celular na cabeceira e passou o dedo na tela. Tinha algumas notificações não lidas, mas o que realmente chamou sua atenção foi a mensagem recebida de um certo alguém.
“Ei, ainda lembra de mim? Desculpe ficar quase uma semana sem te responder, as coisas estão meio intensas no trabalho”
null rolou na cama, ficando de barriga para baixo.
“Está falando isso para que eu fique com pena de você?”
E logo em seguida, mandou:
“Eu deveria ficar uma semana sem te responder também”
“HAHAHA você é muito vingativa”
“Você ainda não viu nada, null null. Ainda tenho a sua foto no karaokê. O que os sites de fofoca pensariam com o fato de você ter tirado oitenta por cento na sua própria música?”
A garota sempre o ameaçava de mandar a foto para todos os sites de notícias de famosos, mas ambos sabiam que não passavam de provocações. null gostava de ter aquela foto só para si, como um segredo, uma lembrança daquela noite.
“Que tal eu te retribuir de alguma forma?”
null demorou alguns segundos para responder, pensando no que aquela mensagem poderia significar.
“O que você tem em mente?”
“Estarei indo para Miami semana que vem gravar o meu novo vídeo. Vou ficar uma semana por lá”.
E como a garota não respondeu, null mandou logo abaixo:
“Conheço um restaurante realmente muito bom por lá. E a melhor parte? Eles têm mesas mais reservadas, longe de olhares curiosos. Basta me dar um ok que eu faço a reserva hoje mesmo”.
null leu e releu aquela mensagem várias vezes. Como é que ele esperava que ela fosse para Miami na próxima semana, sabendo que ela estaria tendo aula…? Mas então um pensamento a ocorreu.
Desceu da cama correndo e foi até o escritório do irmão. Ele estava com o telefone na mão, o que significava que estava ocupado, provavelmente trabalhando. Mas o rapaz olhou para cima e fez sinal para que null falasse.
— Para onde você vai semana que vem mesmo?
— Miami. Quatro dias.
null mal pôde acreditar naquilo. Se acreditasse em destino, diria que ele estava sorrindo para ela.
— Reserve um quarto para mim, vou com você.
Não esperou que o irmão fizesse a pergunta que estava estampada no rosto dele.
Ela correu de volta para o quarto, pegando os cadernos da faculdade para começar a estudar desde logo, já que não queria se prejudicar nas provas por ficar quatro dias sem ir à aula e sem estudar em casa.
“Faça a reserva. Nos encontramos em uma semana”
Enviou a mensagem para null e sorriu quando o garoto lhe mandou print da reserva feita no restaurante em que se encontrariam. Porque sim, null null e null viveriam uma nova aventura, fugindo da supervisão de quem quer que fosse, apenas para poderem passar a noite juntos de novo.
FIM
Nota da autora: Quem é que não ama um bom clichê, não é mesmo? A ideia veio de uma noite (as ideias sempre vêm na hora de dormir, impressionante), e dois dias depois a fanfic nasceu. Obrigada Milena por encontrar uma música que se encaixasse na ideia da fanfic e por não desistir de mim, hahaha.
Espero que vocês tenham gostado <3 Recomendem a fanfic para as amigas e deixem um comentário cheio de amor no final.
Leiam a outra fanfic que fiz para esse especial, Completely in Love.
Outras Fanfics:
Finalizada:
Ainda Lembro de Você
Em andamento:
It’s Always Been You
Shortfics:
21 Months ● Accidentally in Love I ● Accidentally in Love II ● Ainda Lembro de Nós ● Babá Temporária ● Beautifuly Delicious ● Because of the War ● Café com Chocolate ● Elemental ● Give Love a Try ● O Amor da Minha Vida ● O Conto da Sereia ● O Garoto do Metrô ● Reencontro de Natal ● Refrigerante de Cereja ● Rumor ● She Was Pretty ● Sorry Sorry ● Suddenly Love I ● Suddenly Love II ● Welcome to a new word ● When We Met
Ficstapes:
02. Cool ● 05. Paradise ● 05. The Man Who Never Lied ● 06. Every Road ● 06. Love Somebody ● 07. Face ● 10. Sol Que Faltava ● 10. What If I ● 11. Woke Up in Japan ● 12. Epilogue: Young Forever ● 15. Does Your Mother Know
MVs:
MV: Change ● MV: Run & Run ● MV: Hola Hola
Ai Angel. Logo eu que não acho nenhuma graça no Harry Styles, adorei sua história. Se bem que eu já falei, eu leria sua lista de compras. Ficou incrível, amiga! Parabéns! ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Espero que vocês tenham gostado <3 Recomendem a fanfic para as amigas e deixem um comentário cheio de amor no final.
Leiam a outra fanfic que fiz para esse especial, Completely in Love.


Outras Fanfics:
Finalizada:
Ainda Lembro de Você
Em andamento:
It’s Always Been You
Shortfics:
21 Months ● Accidentally in Love I ● Accidentally in Love II ● Ainda Lembro de Nós ● Babá Temporária ● Beautifuly Delicious ● Because of the War ● Café com Chocolate ● Elemental ● Give Love a Try ● O Amor da Minha Vida ● O Conto da Sereia ● O Garoto do Metrô ● Reencontro de Natal ● Refrigerante de Cereja ● Rumor ● She Was Pretty ● Sorry Sorry ● Suddenly Love I ● Suddenly Love II ● Welcome to a new word ● When We Met
Ficstapes:
02. Cool ● 05. Paradise ● 05. The Man Who Never Lied ● 06. Every Road ● 06. Love Somebody ● 07. Face ● 10. Sol Que Faltava ● 10. What If I ● 11. Woke Up in Japan ● 12. Epilogue: Young Forever ● 15. Does Your Mother Know
MVs:
MV: Change ● MV: Run & Run ● MV: Hola Hola
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