Última atualização: 07/08/2020

Capítulo 1

1


Acordei com a minha cabeça estourando depois de dormir o dia inteiro. Podia sentir meus olhos inchados e meu corpo dolorido, reclamando da falta de movimentação. Não saia de casa há duas semanas, mal tinha forças pra levantar da cama, tomar banho ou mesmo comer qualquer coisa. A tristeza estava me matando aos poucos, e eu não sabia o que fazer pra esse sentimento começar a passar. Eu nem tinha certeza se queria que passasse, a vontade de desistir era avassaladora. Liguei pro trabalho avisando que estava muito doente e não sabia quando conseguiria voltar. Não era mentira, o aperto no peito me fazia acreditar que eu estava realmente morrendo por dentro.
Eu sou brasileira e me mudei pros Estados Unidos com 5 anos. Meu pai trabalhava com uma empresa de segurança privada e quando surgiu uma oportunidade de ser promovido, ele a agarrou com todas as forças, só que pra isso ele foi transferido pra Fort Lauderdale na Flórida, e eu e a minha mãe fomos também. A minha mãe era gerente geral de um hotel famoso no Rio de Janeiro, então não foi difícil pra ela conseguir ser realocada, mas ao contrário do meu pai que recebeu uma promoção, ela perdeu o cargo da gerência, e passou a trabalhar como supervisora de staff. A troca não foi boa, e o casamento deles que já não era perfeito, foi descendo ladeira à baixo.
As brigas se emendavam uma na outra. Se não era por questões financeiras, era por que cada hora um chegava muito tarde em casa, ou reclamavam que o outro não me dava atenção ou me dava atenção demais e me deixava mimada. A verdade é que eles só não queriam admitir que o casamento tinha acabado, e usavam as brigas pra disfarçar.
Mesmo assim eu sempre fui uma romântica incansável. Não importava o que a minha mãe falasse, ou as tantas vezes que o meu pai reclamou das suas namoradas, eu sempre acreditei que o amor era tão real quanto aparecia nos filmes, que todas as pessoas têm a sua metade, e em algum lugar do mundo, entre as mais de sete bilhões espalhadas por aí, eu encontraria a minha. Nunca fui louca de acreditar no homem perfeito, ou amor à primeira vista, mas nunca duvidei que existe alguém certo pra cada um, e que essas duas almas podem viver uma vida inteira de felicidade.
Foi essa outra alma que me trouxe ao estado deprimente que estou hoje. Conheci o Derek com 19 anos, tinha acabado de alugar meu apartamento em Los Angeles e estava começando a trabalhar como tradutora, em uma nova editora. Ele era estagiário na firma de advocacia que trabalhava pra gente, e entre livros de romance e legislação, fomos nos conhecendo e nos apaixonamos. Eu já tinha namorado antes, mas nunca senti uma identificação e reciprocidade tão fortes. Por mais cafona que pareça, ele realmente me completava, me protegia e zelava por mim. Namoramos por três anos, até que no ano retrasado ele me pediu em casamento, e nada me pareceu tão certeiro quanto o "sim". Não tínhamos dinheiro pra casar de imediato, então ele se mudou pro meu apartamente, e enquanto isso começamos a nos organizar financeiramente e planejar a cerimônia, que seria em seis meses. Pra mim estava tudo certo, incrivelmente perfeito, tudo caminhava para o sucesso do nosso "felizes para sempre". Aparentemente, ele não se sentia dessa forma.
Há 20 dias ele foi para uma conferência em São Francisco e uma semana depois, no dia que ele deveria voltar pra casa, eu recebi um e-mail que dizia o contrário. Meu noivado acabou, meu casamento foi cancelado e o relacionamento que eu tinha construído com tanto carinho, foi terminado por um e-mail de menos de dez linhas, e assim, eu perdi toda aquela certeza de que o amor existe. Pelo menos o que dura pra sempre.
A cada lembrança, ficava mais difícil de respirar e parecia que eu estava sendo sufocada, mas não tinha jeito, tudo ali me lembrava ele. A cor da parede do meu quarto, foi ele quem escolheu, a roupa de cama foi ele quem comprou, até o abajur que era meu, ele jogou fora e trocou por um que ele gostava mais. Não tinha pra onde fugir.
Mas o toque da campainha me lembrou que eu não estava sozinha, e por pior que fosse me levantar pra atender à porta, ficar no escuro com os meus pensamento, era ainda pior.
- Você não atende nossas ligações e nem responde as mensagens, então viemos ver se você está viva – Julia entrou gritando, seguida de Helena, as duas penduradas de compras de mercado.
- Como você está, meu amor? – Helena parou pra me dar um abraço. A pergunta era facilmente respondida pelo meu estado deplorável, e espero que isso tenha sido suficiente, por que as palavras não saíram. Se saíssem seriam seguidas por lágrimas, então o silencia era minha melhor opção agora.
- Amiga, eu sei que você está mal, e eu te entendo – Julia falou guardando na minha geladeira o que compraram – mas não dá pra desistir de você mesma dessa forma. Você é muito maior do que um relacionamento que não deu certo. Tem o seu emprego que você gosta tanto, o seu livro que você prometeu que começaria a escrever esse ano, tem seus amigos, tem a galera do bar do seu Osmar.
- É verdade ! – Helena tentou – você tem todo o direito do mundo de ficar triste e chorar e querer queimar tudo que veio dele – ela disse rindo, pegando um porta-retratos na mesinha de centro – mas isso vai ter que passar.
- Eu sei gente, mas não é fácil assim! – era tão difícil de entender o que eu estava passando? – Foram cinco anos com uma pessoa que eu amava mais que tudo, eu planejei um futuro, me dediquei à isso e ele terminou comigo por um e-mail! – Eu não tinha conversado com ninguém sobre isso, não tinha extravasado, guardei tudo pra mim, mas agora vinha à tona juntamente ao choro que estava engasgado – Ele disse que não queria mais casar, que vai ficar em São Francisco e é isso! Foi toda informação que ele achou que eu merecia. Eu não sei o que aconteceu! Não sei se ele se sentia assim a meses e nunca teve coragem de falar nada, ou se bastou uma semana viajando pra perceber que não me amava. Não sei se ele conheceu alguém na viagem, ou se descobriu que a vida de solteiro é muito melhor. Eu não sei de nada e nem vou saber! Ele não atende as minhas ligações, nem responde as mensagens, e me bloqueou no facebook e instagram. Caralho, ele pode ter morrido, e eu vou ser a última a descobrir, porque em questão de horas, ele me apagou da vida dele e me deixou aqui sem porra de resposta nenhuma! – era esse o maior problema... não saber de absolutamente nada. O peso disso me fez cair no chão e soluçar de tanto chorar. Como eu pude ter me enganado tanto?!
- Calma amiga, vai ficar tudo bem – Helena me abraçou – nós estamos aqui com você, sempre.
- , você não quer sair com a gente? – Julia sentou no chão do meu lado – de repente o que você ta precisando agora é só tomar um porre... – só essa garota pra conseguir me fazer rir no meio de todo o chororô.
- Vamos amiga! A gente pode ir no pub, você encontra o seu Osmar, toma umas tequilas – Helena falou enquanto fazia cafuné na minha cabeça
- Você falando pra eu beber tequila? Eu devo estar realmente à beira da morte né? Só falta falar que vai beber com a gente.
- Se você topar sair, eu bebo! – falou, e eu até a encarei. A Helena era a centrada do trio. Adorava uma taça de vinho, ou no máximo uma cervejinha no happy hour, mas destilados, jamais! – Aproveita hein, não é todo dia que você pode me ver bêbada.
- Uma proposta indecente dessas, nem tem como eu recusar.


Acordei com a minha cabeça estourando, um zumbido alto ainda ecoava nos meus ouvidos por causa do show de ontem, e a fresta de luz que passava pelas cortinas, dificultava que eu conseguisse abrir os olhos. A noite foi incrível, tive uma das melhores apresentações da minha vida, completamente lotada de fãs ensurdecedores, a banda foi perfeita, os produtores estavam orgulhosos, nosso empresário estava com um sorriso de orelha a orelha. Foi tudo perfeito e pra fechar a noite com chave de ouro rolou uma puta festa no terraço da produtora. Eu não estava muito animado, estava morto de cansaço, mas a animação dos caras me contagiou e o combo de álcool com mulheres gatas também ajudou bastante. É uma pena que eu não lembre de muita coisa. Mais um motivo pra eu achar que a festa foi ótima.
Eu sempre achei horrível as pessoas que dormem com alguém e esquecem, não lembram nem do nome da pessoa, mas a garota deitada do meu lado na cama, me diz que era exatamente isso que tinha acontecido comigo. Eu não fazia ideia de quem era, como nos conhecemos, ou como chegamos na minha casa. O máximo que lembrava era estar sentado no bar da festa com o Ashton e ele comentar de um grupo de mulheres que estavam vindo falar com a gente... depois disso, nada. Ao menos, ver um pacote de camisinha aberto, jogado no chão, me permitiu respirar aliviado por não ter feito merda maior.
Coloquei uma calça de algodão que estava jogada na poltrona do quarto, e saí tentando fazer o mínimo de barulho. Seria bom evitar de ser o escroto que come e pergunta o nome no dia seguinte.
- Bom dia criança! A noite deve ter sido boa... – Deu pra ouvir o julgamento na voz de Jane. Ela trabalhava na casa dos meus pais desde a minha adolescência e era como uma segunda mãe para mim; e agora me encarava com um baita ar de reprovação. O sonho dela era que eu me casasse, e não gostava nem um pouco que eu dormisse com alguém sem conhecer antes, leva-la para jantar, e seguir todo o protocolo do século XIX, que ela acha extremamente necessário.
- Bom dia, amor da minha vida! – Falei enquanto a abraçava e tirava seus pés do chão, para rodopia-la. Eu sabia o quanto ela odiava isso, o que tornava ainda mais divertido – A noite foi ótima mesmo... Dona ngela mandou você vir me vigiar?
- Não senhor, eu mesma quis garantir que tinha alguma coisa além de água e cerveja na sua geladeira. – falou apontando pra bancada da cozinha – Mas sim, a sua mãe fica muito preocupada com você, e com razão!
- Razão por que Jane? Eu sou grandinho, e ao contrário do que vocês pensam, sou muito responsável – afirmei. Talvez, pros parâmetros das duas, eu não fosse esse mar de responsabilidade que elas queriam, mas comparado à outros músicos da minha idade e que viviam para o show bis, eu merecia ser canonizado.
- Bom dia! – Uma voz fina vinda do corredor falou enquanto sua dona andava em minha direção vestindo apenas uma calcinha minúscula e uma blusinha de alça.
- Bom dia, dormiu bem? – Falei sem graça por Jane presenciar esse momento.
- Divinamente – respondeu me dando um selinho - Queridinha, você pode fazer umas torradas com ovos mexidos pra gente? E um café bem forte também! – olhou pra Jane como se fosse íntima da casa, e a conhecesse há anos.
- Desculpa, queridinha, mas eu só vim buscar umas assadeiras e já estava de saída. – ela não tinha muita paciência pra qualquer mulher que entrasse na minha vida, que ela não julgasse digna de ter minha atenção, mesmo que fosse por uma noite só. Ela fazia o papel da mãe ciumenta, enquanto a Dona ngela estava longe pra conseguir fazer.
- Nossa, quanta grosseria – me encarou como se esperasse que eu fosse repreender Jane, ou exigir um pedido de desculpas. Ficaria só esperando, por que eu não faria isso, e ela já estava indo embora.
- Gata – essa era sempre uma boa saída pra questão do nome – eu vou ter que me arrumar pra sair agora. Gostaria muito de poder ficar de bobeira por aqui, mas eu tenho um compromisso inadiável.
A garota ficou me olhando, esperando que eu fosse pedir o seu número, ou desse qualquer sinal de que iríamos nos ver de novo. Não ia acontecer.
- Eu vou tomar um banho. Pode tomar um café se quiser, depois é só bater a porta. Precisa de dinheiro pro Uber? – a cara de esperança se transformou em decepção e rapidamente em raiva. Saiu marchando em direção ao quarto e em menos de dois minutos cruzou a sala, saindo pela porta me xingando baixinho.
Eu realmente não tinha nenhuma intenção de ser babaca, mas não fazia ideia de quem era, não lembrava de merda nenhuma. Não iria dar chance para depois descobrir que ela era insuportável, e aí sim ter que ser escroto, e dar um perdido nela. Assim era bem melhor, chato, mas não dava tempo de criar grandes expectativas.


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- Você está atrasado – Samuel, reclamou antes mesmo de eu fechar a porta da sala de reuniões. Ele era o empresário da banda desde o início, foi quem nos ajudou a assinar o nosso primeiro contrato de gravação, e era muito tranquilo sobre como levávamos a nossa vida pessoal, nunca reclamou das festas, da bebedeira, ou de dormirmos com fãs, mas nada disso podia atrapalhar o trabalho, então atrasos não eram bem aceitos. Então assumi meu erro sem tentar me justificar, e fui me juntar à Ashton, Calum e Michael, que estavam sentados à mesa com cara de sono. Além de nós, tinham outras pessoas, muito bem arrumadas por sinal, que eu não fazia ideia de quem eram, mas provavelmente trabalhavam na gravadora.
Quando começamos a fazer sucesso, a equipe designada a trabalhar com a gente aumentou pra garantir que todas as áreas que envolvem a banda fossem bem trabalhadas, como redes sociais, tabloides, agenda de eventos, shows, encontro com os fãs, marketing, etc. Hoje, por exemplo, têm quase vinte pessoas na sala, pra uma reunião que, até alguns minutos atrás, eu achava que era de rotina, nada demais.
- Primeiramente eu queria parabenizar vocês pelo show de ontem. Lotação total, cinco mil fãs, nenhuma confusão ou reclamação, as mídias de você estão bombando... enfim, estão de parabéns, aliás, não apenas a banda, mas toda a equipe – falou virando-se para olhar para todos que estavam ali.
- Que bom Samuca, então da próxima vez, vocês podiam marcar a reunião um pouquinho mais tarde né? Tipo no fim do dia. – O Ashton era o cara de pau da banda, acho que por ser o baterista e ficar sempre mais no fundo, fora dos palcos ele era o palhaço e nunca passava despercebido. – A gente ta morto... As horinhas a mais de sono seriam um brinde pelo bom trabalho.
- Muito engraçado Ash – falou em tom bem-humorado - Eu dei os parabéns, mas vocês não fizeram mais do que a obrigação. Ninguém mandou ficar até de madrugada na farra.
- Falei que era pra ficar quieto – Michael o cutucou com um sorriso de canto.
- Eu chamei vocês hoje, por que precisamos nos preparar pro que vai acontecer nas próximas semanas – Falou mexendo em alguns papéis e abrindo na televisão da sala um slide com a nossa agenda dos próximos meses. Estávamos trabalhando em um novo álbum, tudo ainda nos estágios iniciais, mas antes de dar continuidade a isso, lançamos um single que estava disparado nas vendas de todas as plataformas. Duas semanas seguidas nas 10 mais ouvidas do spotify, e nem teve videoclipe de lançamento! Foi música pura, e fez o maior sucesso.. e agora teríamos a divulgação ao vivo dele. – Semana que vem, vocês começam as entrevistas em programas de rádio. Serão seis no total. Enquanto isso, estaremos ensaiando diariamente, para que na semana seguinte comecem as entrevistas e apresentações nos programas ao vivo, incluindo Live with Kelly and Ryan, Good Morning America, The Tonight Show do Jimmy Fallon, Watch What Happens, Jimmy Kimmel Live, e pra fechar, o programa da Ellen DeGerenes – falou como se não fosse nada demais. Já tínhamos participado da maioria deles, estávamos minimamente acostumados com essa pressão, mas não deixava de ser assustador entrar ao vivo nos programas de maior audiência do país.
A reunião se seguiu por mais tempo do que esperávamos. Pedimos comida duas vezes enquanto estávamos ali. Fomos orientados novamente sobre as perguntas que nos fariam, o que podíamos responder sobre a turnê que faríamos, sobre o álbum que estava em andamento, se existiam inimizades dentro da banda, relacionamentos inventados por sites de fofoca, etc. Tínhamos que estar preparados pra tudo, e era pra isso que aquela equipe enorme estava ali. Ainda tínhamos que coordenar tudo com provas de figurino, maquiagem, campanhas publicitárias, tempo de estúdio, e de vez em quando, seria legal conseguir comer alguma coisa e dormir um pouco.
- Quase esqueci de uma coisa. – falou se virando para nós com um sorriso meio assustador – Vocês vão ser a atração musical do Saturday Night Live na primeira semana de junho!
- Puta que pariu, você ta brincando?! – Ashton gritou se levantando com as mãos na cabeça
- Caralho, não to acreditando! – Falei, me levantando em seguida. Palavrões faziam parte do nosso dia a dia, segundo Samuel era uma das suas maiores dores de cabeça. Mas cacete, não dava pra evitar agora.
- Por que você deixou isso pro final? – Michael disse numa mistura de gargalhada com um choro emocionado.
- Por que eu precisava que vocês prestassem atenção em tudo que eu falei hoje... e não ia acontecer se eu começasse com essa notícia. – E ele estava certo. SNL caralho! Acho que nunca nem sonhei que faria parte disso! São mais de 30 anos de programa, 40 temporadas, centenas de músicos fodas... isso era incrível!
- A gente precisa comemorar isso né? – Michael, nosso guitarrista, deu a ideia.
- Óbvio! – Ashton falou ainda gritando.
- Partiu... – respondi já mais calmo, mas com a adrenalina lá em cima.
- Acho que vou passar essa, galera. Eu to morto... já fomos pra festa ontem, e eu quase não dormi - Calum era o mais quieto, e sempre preferia ficar em casa, tocando seu baixo, ensaiando e compondo. Ele também era o único que namorava, mas até a Stella era mais animada que ele.
- Fala sério cara, SNL! Não vai ter de novo – tentei...
- Pode ser só uma cerveja cara, mas não da pra passar em branco – Mike falou.
- Chama a Stella – falei botando pilha.
- Ela está na casa dos pais dela – falou desanimado – Mas o programa vai ser em junho! Faltam dois meses ainda... dá para comemorar mais pra frente.
- Por favor cara, ou vai a banda toda ou não faz sentido... – Michael falou fazendo drama.
- Ok ok... – falou bufando e revirando os olhos - vamos logo tomar mais um porre! Vou mandar pra você minha conta de engov.
- Nesse caso, esquece a cerveja, e bora de tequila! – Ashton falou saindo da sala. Eu tinha certeza que ele ia sair carregado do bar, e muito provavelmente por mim ainda por cima.


Eu ainda não acreditava que tinha aceitado sair com as meninas. Estava tão desanimada que iria acabar estragando a noite delas, além disso, ficar em casa seria tão mais confortável, podia ficar de pijama, esparramada no sofá, sem competir pela atenção dos garçons, ou ter que ficar gritando pra poder conversar com quem está sentado à menos de um metro de distância. Eu sabia o quanto elas queriam que eu quisesse estar ali, e me divertindo, mas estava difícil...
Eu amo essas meninas com todo o meu coração, e faria tudo por elas, assim como sei que fariam por mim. Então mínimo que eu podia fazer, era um esforço pra me distrair. Sentamos no balcão mesmo, onde era menos cheio e mais próximo do álcool. Era disso que eu precisava. Como tinha trabalhado lá por um bom tempo, conhecia todos, então não demorou muito para sermos atendidas.
Começamos com um Moscow Mulle.
- Lena, como estão as coisas na clínica nova?
- Ainda uma bagunça. Só estou conseguindo atender em poucos horários. – Helena é pediatra e acabou de começar a trabalhar em uma clínica nova. A antiga era muito pequena e desorganizada demais, só dava dor de cabeça. – Eles estão fazendo uma reforma na ala de internação, então é complicado atender as crianças com aquela barulheira.
- Nossa, que merda. Saiu de uma bagunça e entrou em outra?
- Tipo isso. Só que dessa vez eu espero que seja passageiro, e já já eu consigo ficar em paz.
- E você dona Julia. Como tá o escritório? Conseguiu se acertar com aquele sócio problemático?
- O Rogério? Já desisti. Ele é maluco! Sou arquiteta formada, trabalho lá há quase dois anos e ele ainda me trata como se fosse uma estagiária recém contratada. Fica querendo dar pitaco em cada fase dos meus projetos, quer que eu peça autorização pra colocar cada tomada. Todo dia é uma luta pra não manda-lo à merda.
Depois de um tempo fui me soltando e me permiti aproveitar aquele momento que não tinha a tanto tempo. Apesar de ser ou ter sido apaixonada por Derek, o relacionamento tinha suas complicações. Ele não gostava que eu saísse sem ele, ou que eu bebesse, então acabei passando muito tempo sem sair com as meninas, e sem vir ao bar onde trabalhava. Mas naquele momento eu nem lembrava mais disso, as risadas corriam soltas. Era uma gargalhada mais escandalosa que a outra, e se eu estivesse sóbria estaria morrendo de vergonha da atenção que estávamos chamando. Ainda bem que não era o caso. Não lembro da última vez que saí e me diverti tanto. Era isso que estava faltando, uma noite só nossa, contando histórias e falando besteiras.
- ! – ouvi meu nome do outro lado do balcão.
- Marcondes! – falei abrindo um sorrisão – Que saudade cara!
- Você sumiu, garota!
- Sumi, mas não sumo mais, prometo.
- Eu sinto sua falta por aqui! O seu Osmar sempre pergunta de você.
- Nossa, eu estou morrendo de saudades dele! Aconteceram algumas coisas nos últimos tempos, e não deu pra eu aparecer mais – falei tentando disfarçar. Eu sabia o quão absurdo era deixar de sair por que o meu namorado, noivo, sei lá, não deixava, mas na época eu, por algum motivo, não o questionava.
- Ele já viu que você ta aqui? Ele vai ficar muito feliz!
- Ainda não! Onde ele ta?
- Está lá trás, na sala dele. Pode ir lá.
- Gente, eu vou cumprimenta-lo rapidinho e já volto. – Falei me dirigindo às meninas.
A sala do seu Osmar era um ovinho no final do bar. Ele já podia ter reformado aquilo há anos, mas dizia que não precisava. "Vai perder o aconchego". Ele era uma figura, e foi o pai que eu pedi a Deus, num momento que eu não tinha mais ninguém. Ele me acolheu quando eu cheguei em Los Angeles e ainda não tinha conseguido o emprego na editora, fazia alguns bicos como tradutora, e conseguia juntar uma graninha, mas nada que desse pra pagar um aluguel. O seu Osmar me deixou ficar dormindo na salinha dele até que conseguisse um lugar pra morar. Em troca, eu trabalhava no turno da noite. Eu não tinha nenhuma experiência com bares e restaurantes, mas ele nem ligou. Dizia que o importante era eu querer aprender, e quem precisava de dinheiro sempre aprendia mais rápido. E foi isso que aconteceu. Eu trabalhei ali por um ano. Fui garçonete, estoquista, trabalhei no caixa, e aprendi a fazer os drinks do bar. Ele e o Marcondes viraram meus cães de guarda, e não deixavam nenhum cliente abusado mexer comigo. Eu sempre soube tomar conta de mim mesma, nunca precisei de homem pra isso, mas era bom saber que tinha gente me apoiando, e dispostos a comprar as minhas brigas.
Depois de um tempo, eu fui conhecendo pessoas da minha área, fazendo contatos, e fui contratada pela World Castle, uma editora que ainda estava se firmando no mercado. Começei fazendo a tradução de livros em língua portuguesa e espanhola que queriam republicar e lançar nos Estados Unidos, e depois assumi a vistoria e revisão dos conteúdos dos autores da própria editora. Com o passar do tempo, consegui juntar dinheiro pra alugar o meu apartamento, e foi ficando cada vez mais cansativo trabalhar até de madrugada no bar. Então achei melhor parar. Mas continuei frequentando o pub e quando seu Osmar precisava de uma ajudinha eu entrava em ação. Isso também diminuiu por causa do meu namoro. Ele não achava que aquele era o ambiente pra uma mulher comprometida...
- É aqui que fica o cara mais lindo de Los Angeles? – ele estava quientinho, escrevendo em seu caderninho das contas, e levantou a cabeça em um susto.
- Ooh minha filha, como é bom te ver aqui de novo. Achei que você já tinha esquecido desse velho senil aqui. - falou abrindo um sorrisão de orelha a orelha e me apertando num abraço.
- Eu nunca esqueceria do senhor. Nem que eu quisesse, – eu não sabia o quanto sentia falta desse abraço - e de senil, o senhor não tem nada – falei me afastando para encara-lo séria.
- Ainda né! Por que o tempo ta passando e a idade já chegou.
- Chegou nada seu Osmar, para de drama! Ainda ta inteirão, comandando esse bar aqui.
- Aaah, mas isso eu vou fazer pra sempre. Acho que quando bater as botas, vai ser nessa sala mesmo.
- Que mórbido seu Osmar. Não vim aqui pra isso não!
- Querida, a hora vai chegar pra todo mundo. Pra alguns antes do que pra outros – falou rindo.
- Nisso eu não tenho como discordar. – Seu Osmar era um dos homens mais inteligentes que eu conhecia, estava nos meados dos seus setenta anos e cuidava daquele bar como ninguém, nunca ficou no vermelho, sempre pagou seus funcionários em dia, e mantinha um clientela que não o trocava de forma nenhuma. Além disso, sabia dar conselhos melhor que qualquer um, dizia que poderia colocar no currículo o trabalho de psicólogo, pelo tanto de gente que ele escutava e ajudava. De alguma forma, ele tinha um jeitinho de falar, que fazia todo mundo se sentir especial. Era incrível – Bom, eu vim aqui só pra te dar um abraço, por que eu estava morrendo de saudade. Sei que fiquei um tempo sem aparecer, mas não vai mais acontecer, juro.
- Espero mesmo, se não, vou ter que mandar o Marcondes ir bater na sua porta.
- Não vai precisar. – Falei rindo e o abraçei novamente – Vou voltar pro bar pra encontrar as minhas amigas que estão me esperando.
- Vai lá minha filha, se cuida. – Voltou a se sentar em sua cadeira surrada, e eu deixei sua sala.
Esse reencontro foi tudo que eu precisava. Mesmo que rápido, era bom rever gente que me fazia tão bem, e de quem eu infelizmente me afastei.
Mas agora tinha acabado, eu estava solteira e aos poucos percebia como fui privada de coisas e pessoas que me queriam tão bem. Parecia que aquele abraço, depois de duas semanas turbulentas e que me fizeram tão mal, tinha começado a curar aquela ferida, e transformar aquilo que eu achava ser um buraco vazio no peito, em um espaço livre, que poderia ser preenchido com carinho pelo o que eu quisesse. Olha o que um gesto sincero pode fazer. Teria que agradecer as meninas por terem me arrast...
- Puta que pariu!


Já eram quase nove da noite, e o bar estava cheio apesar de ainda ser quinta feira. Será que ninguém ali trabalharia no dia seguinte?
- Com licença, eu posso tirar uma foto com vocês? Por favor! – Uma garota loira, bem magrinha perguntou tímida.
- Claro! – Ashton respondeu animado.
Nos juntamos e um cara veio tirar a foto pra ela. Devia ser seu namorado, não sei, mas ele não fez questão de aparecer na foto. Esse tipo de situação ainda é engraçada pra mim. Não me surpreende mais como fazia no início, mas continua sendo estranho tirar foto com desconhecidos, principalmente quando não estamos trabalhando. Ás vezes as pessoas chegam pedindo fotos e autógrafos quando estamos almoçando, ou correndo na rua. A primeira vez que me reconheceram eu estava na fila do mercado, cheio de compras na mão. Eu fiquei surpreso, não sabia como agir, e aceitei, é claro. Mas deu o maior problema. Acharam que a garota queria furar a fila, começaram a reclamar e gritar, e eu acabei perdendo o meu lugar. Tudo pelos fãs...
Depois da loira, vieram outras pessoas falar com a gente. Tiramos foto, demos autógrafos, alguns pediam pra mandar áudio no whatsapp pra alguém, ou gravar um vídeo. Era sempre assim... bastava uma pessoa pedir, pra outras várias quererem também. Provavelmente nem todos realmente sabiam quem a gente era, mas viram que somos famosos e pediam uma foto só pra não perder a oportunidade. Não julgo, faria o mesmo no lugar deles. Mas nessa brincadeira, perdemos uns quinze minutos.
Depois disso vida que segue, sentamos em uma mesa mais no canto e começamos a comemorar nossas últimas conquistas. Como dizia Michael, bebemorar.
Foi uma cerveja atrás da outra. O idiota do Ashton não conseguia se controlar, então de vez em quando, ele ficava mais animado e pedia um shot de tequila. E é aquela história, né? Mistura fora e mistura dentro, uma hora o corpo reclama e devolve tudo.
- Fala aí, , como foi com a gata de ontem? Levou pra casa? – Michael, quando bebia ficava curioso. Queria sempre saber da vida de todo mundo, fazia perguntas até não poder mais.
- Se eu te disser que eu não lembro de porra nenhuma, vocês vão me achar muito babaca?
- Fala sério cara! Ficou um tempão desenrolando a garota pra na hora H, dormir?! – caíram na gargalhada
- Dormir nada. Nós dois acordamos do jeitinho que viemos ao mundo, então alguma coisa rolou, eu só não lembro o que.
- Porra, ela deve ter ficado muito puta – Calum questionou
- Eu sou muito discreto com a minha falta de memória... Sempre dá pra dar uma enrolada.
- E você Ashton? Chegou na festa falando que ia fazer acontecer, ia pegar todo mundo, não ia ter espaço no seu quarto pra tanta mulher bonita, bla bla bla e nada né? Saiu no zero a zero.
- Quem disse que eu saí no zero a zero?
- Ah não? – Michael perguntou – Então conta aí, quem foi a sortuda?
- Um cavalheiro não se gaba de suas conquistas – respondeu com um sorriso torto.
- Sei, – falei debochando da sua autoestima inabalável – e desde quando você é um cavalheiro? – Completei
- Vai se fuder – falou rindo e empurrou meu ombro. Foi fraco..., mas suficiente pra fazer um estrago.
- Puta que pariu! – Uma garota que estava passando na hora levou um banho de cerveja.
- Puta que pariu!! Me desculpa, foi sem querer! – eu não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha. Ela tentou se limpar, mas o vestido era branco, não tinha muito o que fazer. Passava a mão no tecido ensopado e olhava incrédula pra lambança sem saber como limpar.
- Garota, me desculpa. A gente estava aqui brincando, ele me empurrou... – tentei me explicar, sem sucesso.
- Me desculpa – Ashton me interrompeu, se aproximando. – É que eu sou muito forte, qualquer empurrãozinho já derruba tudo – Ele estava claramente bêbado, mas ela não estava achando a menor graça.
- Eu sinto muito, mesmo.
- Você já disse isso. – foi curta e grossa.
- Ta tudo bem por aqui? – Um homem, enorme por sinal, apareceu com cara de poucos amigos – Esses caras estão te incomodando ? – se direcionou à ela. Era isso que faltava, um namorado ciumento achando que eu tava dando em cima da mulher dele.
- Ta tudo bem Marcondes... só caiu cerveja em mim, mas foi um acidente.
- Tem certeza? – Falou dando um passo em minha direção, e eu tenho que confessar que fiquei um pouco intimidado. Eu não ia fugir da briga, mas o cara parecia um armário!
- Para com isso! – ela se colocou entre a gente, impedindo que ele desse mais um passo. – Já falei que tá tudo certo. Pega um pano úmido pra mim, por favor? – Relutante em sair do seu lado, ele nem se mexeu. – Marcondes! Agora, por favor.
Deu para perceber quem mandava naquele relacionamento. O tal de Marcondes baixou a cabeça, e saiu andando, provavelmente pra pegar o pano que ela queria.
- Me desculpa – repeti pela milésima vez.
- Ta tudo bem, foi um acidente. Acontece... – até agora, ela estava com uma postura forte, provavelmente de raiva. Mas agora, parecia murchar - Isso é um sinal de que eu devia ter ficado em casa – murmurou encostando no início do balcão.
- Que isso gatinha?! – falei tentando aliviar a tensão – A noite é uma criança... – tirei o cabelo do seu rosto. O armário tinha se afastado, essa era a minha oportunidade de virar o jogo a meu favor. Quem sabe ela não aceitava trocar de roupa lá em casa?
- Nossa, que graça! Derrubou cerveja em mim, acabou com o meu vestido, e agora tá me cantando?! Muito esperto.
- Ei! Você disse que tinha me desculpado, que estava tudo bem.
- Eu desculpei! Mas não quer dizer que eu tenha gostado do banho fora de hora.
- Aqui – o cara entregou um pano molhado pra ela. Dessa vez pelo menos, ele estava do outro lado do balcão, devia trabalhar ali – Qualquer coisa me chama – falou me encarando, e recebeu um sorriso dela como agradecimento.
Do jeito que ela passava o pano na roupa tentando se limpar, só ia conseguir rasgar o vestido. Claramente não estava fazendo nenhuma diferença.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer pra ajudar? – Eu sabia que não, mas também não custava perguntar. Recebi uma revirada de olho como resposta e silêncio. Ela me olhou de cima à baixo por alguns segundos, mas não falou nada. Será que era uma fã?
- Quer saber? – se virou pra mim – Você tem razão... a noite é só uma criança - aarancou a camisa jeans que estava amarrada na minha cintura e saiu andando.
- Uououou – Saí correndo na direção dela e segurei seu pulso. – Essa camisa é minha, tá pensando que vai onde?
- Estou pensando que vou no banheiro trocar de roupa já que você destruiu a que eu estou usando.
- Essa é uma das minhas camisas preferidas.
- Nesse caso, nós dois perdemos uma roupa que gostamos muito. Por que eu não pretendo ir embora agora, e não vou continuar aqui toda molhada e manchada. – Puxou o pulso e conseguiu se soltar, entrando rapidamente na cabine feminina.
Essa o Ashton ia ter que me pagar. Não tinha muito o que fazer, ela tinha motivo pra ficar puta e querer um roupa pra trocar... então perdi a discussão e a camisa.


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Como previsto, meu baterista já estava trocando as pernas e jogando os neurônios na lixeira.
- Caralho Ashton, você colocou no Twitter onde a gente tá?! – Michael levantou o olho do celular, e o encarou incrédulo.
- Qual o problema? – Perguntou com a voz tremula.
- O problema são essas porras de paparazzi aqui na frente com você encharcado de tequila.
- Não exagera! Eu to tranquilo. – Foi tudo o que conseguiu dizer antes de correr para enfiar a cabeça em um balde e colocar tudo pra fora.
Isso ia dar um problemão...
Acabamos de sair de uma reunião em que fomos super elogiados. Sempre fomos disciplinados, fugimos de qualquer fofoca, dificilmente somos alvos dos tabloides. Mas dessa vez seria foda... O bar estava cheio, os paparazzis chegaram em tempo recorde e nos esperavam lá fora, como que a gente ia sair daqui carregando o Ashton sem que isso virasse notícia?! Nossa sorte é que o balde onde ele estava ficava em um cantinho no fim do bar, do lado do caixa, ninguém estava vendo.
Viemos de carro com o Calum, mas ele já tinha ido embora há tempos. Já devia estar no décimo sono.
- A gente vai ter que dar um jeito de sair daqui sem esses caras virem atrás. – falei tentando pensar em qualquer solução.
- Licença – Michael se virou para o senhor que fazia contas atrás do caixa – Tem alguma forma de sair daqui sem ser pela porta principal? – O senhor olhou pra ele desconfiado, sem entender o porquê da pergunta.
- Tem um bando de fotógrafos lá na frente esperando a gente sair, – falei começando a me explicar – e seria muito ruim se eles tirassem fotos do nosso amigo nesse estado – completei apontando pro idiota com a cabeça no balde.
- Vocês são famosos? Fazem algum filme conhecido?
- Filme, não. Nós somos músicos. Temos uma banda, Jungle Roots, já ouviu falar? – tentei parecer o mais calmo possível pra não me mostrar tão desesperado, e talvez assim ele confiasse na gente pra nos ajudar.
- Não, desculpa garoto. Eu sou velho, não estou por dentro dessas novidades. – deu uma risada envergonhada.
- Tudo bem – Era obvio que ele não conhecia. Podemos ser conhecidos, mas nem tanto. Ele devia ter uns 70 anos, spotify, youtube e twitter não deviam fazer parte do dia a dia dele.
- Rapaz, eu vou te confessar uma coisa, até tem outra saída, ela é pelo terraço do prédio.
- Que ótimo! Como eu chego lá?
- O problema é que tem uma porta lá em cima que precisa ficar trancada e, por mais que eu acredite que vocês são gente honesta, eu não posso entregar a minha chave assim.
- Senhor, eu juro que te entrego essa chave amanhã de manhã, bem cedo, ou eu posso passar na sua casa e deixar lá. O que o senhor preferir. Eu posso até voltar aqui mais tarde. – Michael implorou enquanto dava água pra Ashton. Eu também estava ficando nervoso. Aparecer em site de fofoca agora, na véspera de começar as entrevistas, não era uma boa opção. O Samuel ia comer nosso fígado, um por um.
- Faz o seguinte. Ta vendo aquelas meninas ali? – Apontou pra um trio de garotas que se levantavam pra ir embora. Uma delas, inclusive, era a que estava com a minha blusa.
- Aham – falei já desanimado.
- Uma delas trabalhava aqui e pode ficar com a chave. é o nome dela. Se você quiser, vai lá e pede pra ela acompanhar vocês.
Mais uma pra conta do Ashton. Além de me fazer derrubar bebida na garota e dar minha camisa pra ela, agora eu teria que ir atrás dela, pra pedir um favor. Que ótimo, né?
- Mike, vai lá! – falei olhando pra ele, que estava agachado ajudando Ash a se recompor.
- Vai lá você cara. Eu to dando água pra esse idiota.
- Se eu fosse você, ia correndo. Elas estão saindo – o senhor falou sinalizando pra entrada, de onde elas se aproximavam.
Não deu nem tempo de pensar. Enfiei o orgulho no cu e sai correndo, tentando atravessar o bar esbarrando no mínimo de pessoas. Tomara que ela seja uma pessoa razoável. Era uma emergência e ela teria que entender!
- Eieieiei – falei a segurando pelo braço. Ela já estava com a porta aberta, saindo do bar, quando parou pra se livrar de mim.
- Me solta! – Reclamou sacudindo o braço, e abrindo a boca quando percebeu quem eu era. – Ah não é possível! Eu já disse que não vou te devolver a camisa!
- Eu não quero a camisa de volta. – falei já recebendo alguns flashes na cara. Era só o que me faltava... tirar o Ashton dos tabloides e me colocar com um falso novo affair! – Pode entrar, por favor? É coisa séria, juro. – ela me olhou desconfiada mas deu um passo pra dentro e fechou as portas. As amigas estavam em seu encalço querendo entender o que estava acontecendo.
- Espera ai! Você é daquela banda Jungle Roots, né? – Uma de suas amigas falou surpresa.
- Sou – falei forçando o máximo de simpatia – É por isso que eu preciso da sua ajuda – me virei pra , acho que esse era o nome dela – O baterista da minha banda bebeu todas e ta passando muito mal.
- O que te empurrou, e fez cair cerveja no meu vestido?
- Esse mesmo – queria que ela tivesse esquecido dessa parte – Seria ótimo se a gente pudesse sair daqui sem passar por esses fotógrafos, e senhor do caixa disse que tem uma saída pelo terraço, mas não pode me dar a chave.
- E você quer que eu leve vocês...
- Tipo uma missão secreta pra salva-los dos tabloides?
- Menos Julia, bem menos.
- Seria ótimo se você pudesse ajudar, por favor – juntei as mãos em sinal de súplica, dizem que ajuda no convencimento.
- O problema é que a gente já estava de saída.
- Deixa de ser chata . Não vai custar nada.
- Helena, – falou reprovando o comentário da amiga – vai custar tempo, e uma baita subida de escada.
- A gente vai com você – gostei dessas meninas. A garota da cerveja claramente não estava muito feliz de estar naquela situação, mas estava ponderando.
- Eu posso te pagar! Quanto você quer? – falei já cedendo ao desespero. Se ela não nos ajudasse, estaríamos fodidos.
- Eu não quero o seu dinheiro – falou revirando os olhos. Aparentemente ela fazia isso com frequência. Saiu andando em direção ao caixa, seguida pelas amigas, e me deixou pra trás – você vem ou não? – Perguntou, e eu acelerei o passo em sua direção.
A observei tentando abrir caminho para chegar ao senhor do caixa, onde também estavam meus amigos. A minha camisa até que ficou bem nela. Em mim, passava pouco do quadril, mas nela serviu como um vestido, chegando até a metade de suas coxas. E que coxas hein...
- Aah ele conseguiu te alcançar! Que bom – o senhor falou quando nos avistou – Esses rapazes estão precisando da sua ajuda. Parece que eles são famosos...
- Percebi – falou olhando pros paparazzis esperando do lado de fora. Não eram tantos, talvez uns quatro ou cinco. Mas chamavam atenção, e podiam fazer um estrago.
- Você se importa de leva-los lá por cima?
- Claro que não! Vai ser uma honra acompanhar esses astros da música – falou forçando a ironia. Muito engraçada ha ha.
- Obrigado minha filha. O bar tá cheio, não tenho como pedir pra outra pessoa acompanha-los.
- A saída é pelo terraço, vamos subir sete andares de escada... alguém vai levar ele no colo? – falou apontando pra Ashton, que ainda estava ajoelhado na frente do balde.
- Não precisa, – ele respondeu se levantando – eu to melhor, consigo ir sozinho.
- Ótimo. Vamos logo então, por favor? – pedi e ela foi andando pro fundo do bar acompanhada por nós três e suas amigas. Por precaução, Ashton levou o balde junto.
Fomos caminhando pra um canto no final do bar e depois do que parecia ser o depósito, entramos por uma porta metálica com uma placa de "apenas pessoal autorizado", estava escuro e bem empoeirado. Será que ninguém nunca ouviu falar em faxina por aqui? Cadê a vigilância sanitária?
Subimos uma escada em espiral que parecia interminável. Eu faço musculação regularmente, mas aquilo já estava me matando, poderiam ter instalado um elevador ali há séculos. E como se já não fosse difícil o suficiente, Ashton foi se escorando em mim durante toda a subida pra não cair e derrubar todo mundo que vinha atrás dele. Poeira, escuro, escadaria, e um idiota com cheiro de vômito caindo em cima de mim. Melhor impossível.
Chegamos lá em cima e ela abriu a porta que dava pro lado de fora nos permitindo respirar ar puro. Era um terraço grande e quase totalmente vazio, com exceção de dois banquinhos de madeira e umas plantas que ficavam concentrados em um canto. Mas a vista era de outro mundo! Poucas vezes vi algo tão bonito assim. A cidade era uma grande escuridão com pequenas luzes espalhadas por toda ela, parecia um céu estrelado refletido em todo aquele concreto.
- Cacete! Que vista é essa? – Michael parecia tão surpreso quanto eu.
- A saída é por aqui. – já andava em direção aos fundos do prédio, onde tinha mais uma escada. Naturalmente teríamos que descer tudo o que tínhamos acabado de subir.
- Será que podemos dar um tempinho por aqui? – Ashton pediu já se sentando em um dos banquinhos. Ele estava transparente, fiquei surpreso de ter conseguido subir tudo.
Paramos pra deixa-lo respirar e aproveitar o vento fresco que estava passando. Enquanto isso, alguns se sentaram junto a ele, outros se apoiaram no parapeito, e ficamos em silêncio apreciando aquela vista.
- Eu sei que já falei vinte vezes, mas me desculpa, de novo, pelo vestido. – falei pra que estava apoiada na mureta do meu lado.
- Tudo bem, mesmo – e me lançou um sorriso sincero, que me deu até um frio na barriga. – É só uma roupa... ou era, né?
- Eu posso comprar outro vestido, não tem problema.
- Você tem que parar de querer sempre gastar o seu dinheiro, – falou achando graça – não precisa comprar nada.
- Eu achei que o seu namorado ia me bater lá dentro...
- Quem? O Marcondes? – deu uma gargalhada alta – Ele não é meu namorado, é tipo meu irmão mais velho aqui. Ele se acostumou com uns caras sem noção passando dos limites, e sempre acha que precisa me defender. Mas ele é do bem.
- Pode ser, mas é enorme né... não ia ter musculação que me salvasse numa briga com ele – falei arrancando mais uma gargalhada dela.
- Vocês são daqui? – Michael perguntou pras amigas dela e nos viramos pra participar.
- Nós duas, sim, a é de Fort Lauderdale – a morena respondeu... Helena, eu acho.
- Na verdade, eu sou brasileira, mas me mudei pra Flórida com cinco anos, e depois pra Los Angeles há seis anos.
Elas se apresentaram, falaram mais sobre a vida delas, e a gente contou sobre a nossa. As histórias eram bem diferente, e por mais ridículo que pareça, eu não lembrava como era conversar com pessoas que não eram do meio artístico.
A Julia era a mais doidinha, trabalhava em um escritório de arquitetura no centro e tinha umas histórias hilárias dela com o chefe maluco, ela garantia que ele dava dor de cabeça pra ela, mas algo me dizia que era ao contrário. A Helena já era mais discreta e contida; era médica pediatra e tinha acabado de começar em uma clínica nova em Silver Lake. Já era tradutora em uma editora grande, em Studio City. Eu admito que nunca tive muito o hábito de ler, então não fazia ideia se a editora era realmente conhecida, mas segundo ela, sim.
E contra todas as expectativas a noite terminou sendo ótima. Ficamos ali conversando por um tempão, rimos muito e nem vimos a hora passar. O Ashton melhorou depois de um tempo, voltou a fazer graça e parece que até trocou contato com a Julia... esse cara não dava uma trégua. Mas tomara que, seja lá o que for, dê certo... seria bom encontrar com elas de novo.

Capítulo 2

2


Eu amo escrever, acho que não tem nada na vida que eu goste mais de fazer do que isso. Sempre disse que gostaria de escrever o meu próprio livro, talvez algo de ficção científica, ou um romance, mas nunca consegui começar. Toda vez que eu pensava em sentar pra escrever, acontecia algo que me fazia adiar esse início. Já tinha até conversado com as minhas chefes sobre, e elas me deram a maior força, falaram inclusive que leriam e, se possível, tentaria publicar. Seria mesmo um sonho, mas no meio dele, ainda tinham todas as traduções, resenhas e críticas do site pra fazer e comentar, o que era ótimo também, eu amava o meu trabalho, não tinha do que reclamar.
Mesmo assim, eu estava há quase duas semanas sem aparecer na editora. Por causa do meu luto pós pé na bunda, fiquei trabalhando de casa, o que não funcionou muito já que eu estava mais ocupada sofrendo. Sendo assim, eu tinha muito trabalho pra colocar em dia, não podia nem de parar para almoçar.
Além disso, no início desse ano contratamos dois estagiários que trabalhavam principalmente com revisão de crônicas, e eu era a responsável por supervisionar o trabalho deles. Não era um trabalho árduo, eles eram muito bons e empenhados, e eu gostava de trabalhar com quem estava começando, mesmo assim, era mais uma coisa que eu tinha para fazer.
- , eu vou deixar esse manuscrito impresso na sua mesa, para você revisar quando puder, tudo bem? – Cris era uma das estagiárias, tinha uns dezoito anos, eu acho, mas nos dávamos muito bem, ela era muito esforçada, provavelmente seria efetivada daqui a um tempo.
- É aquele que você já tinha me mostrado e eu marquei as correções que precisavam ser feitas?
- Ele mesmo.
- Então não precisa me mostrar de novo. Eu estou enrolada, botando outro trabalhos em dia, não vai dar tempo de ler novamente. Se você corrigiu tudo que eu apontei e está segura, pode enviar direto para gráfica. – falei voltando minha atenção para o computador na minha mesa. Quando estagiária, é muito comum duvidar do seu trabalho, e pode ser assustador alguém confiar que ele não precisa ser revisado, mas eventualmente teria que acontecer, e se houvesse erros, ela sabia que seriam de sua responsabilidade. Apesar disso, ela não parecia nervosa, mesmo assim, ficou parada na minha frente, como se ainda esperasse algo de mim – Precisa de mais alguma coisa?
- Não – falou sem graça, dando um passo pra trás, mas logo se arrependeu voltando a se aproximar – na verdade... eu queria te fazer uma pergunta.
- Pode perguntar – larguei o mouse e o teclado para dar a atenção que ela parecia precisar.
- É meio idiota e eu não tenho nada a ver com isso, a vida é sua, obviamente, e se você não quiser responder, tudo bem – parecia tão nervosa que já estava me deixando agoniada. Nunca tive uma relação de chefe e subordinado com os estagiários, muito pelo contrário, tirando a diferença de idade que os impedia de irem à bares depois do expediente, tínhamos uma relação de amizade, conversávamos sobre tudo, inclusive, a Cris sabia que, o real motivo de eu ter sumido por duas semanas, não era uma doença. Então para que esse suspense todo?
- Fala logo Cris! O que aconteceu?
- É verdade que você está saindo com o Ammel? – soltou de uma vez só
- Como é?!
- O Ammel – repetiu – da Jungle Roots.
- Eu entendi... de onde você tirou isso?
- Do Twitter – falou pegando o celular para me mostrar as "notícias" que inundavam suas redes sociais.
- Puta que pariu... não acredito! – Tinha uma foto nossa na porta do pub! Ficamos ali por menos de um minuto e já foi suficiente para tirarem várias fotos e eu virar "o novo contatinho de Ammel". Eu não estou nem brincando, era exatamente assim que as matérias que circulavam se referiam a mim, "o novo contatinho de Ammel"?! Até parece... eu mal conhecia o cara! Pelo menos a maioria das fotos estavam tremidas e eu estava atrás de um vidro com os reflexos de flashes, isso dificultava que me reconhecessem. Por causa disso começaram até uma hashtag de #garotadopub. Puta que pariu vinte vezes!
- Então é verdade? – Jonny, meu outro estagiário, se juntou a nós enfatizando a pergunta.
- Não! Não tem nada de verdade nisso. – falei nervosa – Eu mal o conheço, ele só queria a minha ajuda pra resolver um problema.
- Aah que pena... – ele falou e eu franzi o rosto sem entender – Seria muito legal se vocês estivessem saindo mesmo, a Jungle Roots é muito maneira e ele é um gato – completou se abanando.
- A gente não tem nada a ver, eu só o ajudei com uma coisa, mas a gente nem se conhece direito... eu realmente não esperava que fosse dar esse problema... – falei apoiando o rosto nas mão sobre a mesa.
- Relaxa , nem dá para te reconhecer direito – Jonny fez uma tentativa de me tranquilizar.
- Vocês reconheceram!
- Mas a gente te vê quase todo dia, e mesmo assim não tínhamos certeza
- Obrigada – forcei um sorriso – Por favor, não comentem isso com ninguém... ninguém mesmo, pode ser?
- Pode deixar... – Cris falou se afastando pra voltar a sua mesa, e Jonny fechou um zíper imaginário na boca.
A minha vontade era de pegar logo as minhas coisas e ir embora, mas considerando a minha ausência ali, isso não era uma opção. Contei os minutos até o final do meu expediente, e fui direto pra casa. Ainda estava difícil de acreditar naquilo. Será que muita gente já tinha visto? Será que também me reconheceram? Pelo amor de Deus, a última coisa que eu queria era virar fofoca e ainda ter que lidar com várias pessoas pesquisando sobre a minha vida. Sempre achei horrível que personalidades públicas não conseguiam ter uma vida privada, não podiam sair sem ter alguém os seguindo e postando nas redes sociais onde estavam, com quem e o que estavam fazendo a cada segundo, e as pessoas de quem elas se aproximam, acabam sendo arrastadas para essa confusão. Nunca imaginei que seria eu ali.
Cheguei no meu prédio e fui direto para o apartamento das meninas. Ser vizinha das minhas melhores amigas podia ter suas dificuldades e momentos de excessos, mas nessas situações não tinha nada melhor. Toquei a campainha e Julia logo abriu com o celular na mão.
- Acabei de ver, já ia te mandar mensagem.
- Eu não estou crendo... cacete, eu abri a porta do pub por meio minuto! Meio minuto!
- Eu sei amiga, calma – falou me entregando uma cerveja.
- Calma é o caralho, isso é um saco, – me joguei no sofá – já até me arrependi de ter ajudado.
- O não tem culpa, aliás, ele só estava querendo ajudar o amigo.
- Eu sei..., mas é uma merda! – Falei pegando um pote de melancia na sua geladeira – Cadê a Helena?
- Ela me ligou há vinte minutos dizendo que estava saindo do consultório, deve estar chegando.
- Nunca achei que eu seria "a garota do pub" de alguém... ninguém merece – falei olhando pra ela, mas parecia nem ter ouvido já que continuou olhando pro celular.
- Ooh garota, eu vim pra cá para me lamentar com uma amiga, pode parar de me ignorar? Eu estou falando sozinha.
- Desculpa amiga, eu to falando com o Ashton. Eles já viram o que está acontecendo, e parece que o está puto da vida.
- Ué, já devia estar acostumado com essas coisas... quem tem que estar puta sou eu – falei da boca pra fora, sabia que não era simples assim.
- Opaa, e por que você estaria puta? – Helena chegou pegando a conversa pela metade.
- Vocês me convenceram a ajudar os garotos da Jungle Roots e agora eu virei falso contatinho de astro pop... – expliquei irritada – "Missão secreta para salvar a banda dos tabloides" "Vai lá , a gente te ajuda" – generalizei uma voz finíssima como se imitasse as duas.
- As fotos foram tiradas antes da gente te convencer de qualquer coisa, então a culpa não é nossa. E o ta pedindo desculpas... falou que não queria ter te metido nisso – Julia tentou defender o novo amiguinho
- Do que vocês estão falando?
Mostramos as matérias pra Lena e ela ficou tão surpresa quanto nós. Tentava me acalmar dizendo que não tinha nada demais, as fotos não estavam nítidas, nem dava pra ver direito quem era ali. E talvez não desse mesmo, mas não tinha como ter certeza. E se alguém me reconhecesse ali?
E se o Derek me reconhecesse?
Pra ser sincera, isso era o que mais me preocupava, que ele pensasse que eu já estava com outro. Eu sabia que não devia nada a ele, nem satisfação, muito menos ficar esperando que ele percebesse a burrada que fez e viesse correndo de volta pra mim, mas era exatamente isso que eu estava fazendo. Por mais difícil que fosse admitir, eu ainda sentia sua falta, e alimentava uma esperança, mesmo que mínima, de que à qualquer momento ele bateria na minha porta pedindo perdão, e poderíamos voltar de onde paramos. Mas isso não iria acontecer, muito menos se ele visse aquelas merdas de matérias caluniosas e começasse a acreditar que eu já o esqueci.
Parecia ser um grande pesadelo.


Nos preparamos bastante para essa semana, para todas as entrevistas, e pra garantir que a divulgação do nosso novo single seria a melhor possível. Abstraímos as fofocas da última semana e estávamos contando que não seriam mencionadas por ninguém.
Há alguns dias começamos nossas aparições em programas de rádio e tudo têm se encaixado e fluído muito naturalmente. Os entrevistadores mantiveram o mesmo parâmetro de perguntas, se atentando às curiosidades sobre o álbum em andamento, e uma possível turnê, também sempre tentavam fazer diferentes jogos, que eles apresentavam como se fossem inéditos, mas normalmente era a nossa milésima vez participando daquela mesma brincadeira, "eu nunca", "quem é o mais provável", "o que você prefere", era quase um jogo da memória pra conseguir variar nas respostas.
Hoje passamos o dia ensaiando. Como seriam várias aparições seguidas em diferentes programas, não dava para cantar sempre as mesmas músicas. Tínhamos que focar no novo single, que era o motivo de toda a divulgação, mas em alguns talk shows, teríamos tempo para mais de uma performance, então tínhamos que preparar um repertório variado, que não entediasse os fãs que assistiriam à tudo.
Consequentemente, tivemos que voltar a ensaiar músicas mais antigas, que faziam sucesso, mas que não tocávamos constantemente e, ao contrário do que muitos pensam, esses ensaios demoram, além de relembrar a música, fazemos infinitos ajustem nos arranjos e nas vozes, sem contar que em programas televisivos, não apresentávamos as músicas inteiras, então precisávamos corta-las de uma forma harmoniosa e que não a estragasse. Era cansativo, mas necessário.
No fim do dia fomos para o estúdio da KIIS-FM, gravar com o Ryan Seacrest. Fizemos pela primeira vez uma apresentação ao vivo da versão acústica da nova música, e tudo corria da melhor forma possível. Ryan e sua equipe eram sempre muito gentis, e o clima das suas entrevistas era muito leve, ótimo para encerrar o nosso dia. Tinha apenas um detalhe que preferíamos que fosse evitado: ele adorava deixar o lado profissional de lado e perguntar sobre nossa vida privada, e não era nada sutil com isso.
- Me contem meninos, como andam os corações?
- Batendo, graças a Deus – Ashton respondeu sarcástico.
- Que bom, isso é importante... – riu do bom humor de Ash – e os relacionamentos? O Calum namora, certo? Já tem bastante tempo até, né?
- Isso mesmo, cinco anos – ele respondeu orgulhoso
- Mas e os outros? Todos solteiros? – silêncio. Talvez fosse mais fácil se logo falássemos que sim, mas não víamos muita necessidade de falar disso, sempre escalava pra uma conversa desnecessária e meio constrangedora – Fala sério gente, vocês são todos jovens, bonitões, e com certeza cheios de mulheres querendo ficar com vocês.
- Disso eu não sei – Ashton começou – Mas agora preferimos focar na nossa música. O Calum começou a namorar a Stella antes da banda estourar, ela acompanhou tudo do início e é nossa companheira, mas acho que hoje não temos espaço, nem tempo para começar uma história séria.
- Então alguém tem que avisar isso para os fotógrafos que andam atrás de vocês de um lado para o outro – riu alto e forçamos uma risada tentando não criar um clima constrangedor – Inclusive, sempre circulam fotos de vocês com várias garotas diferentes... não é possível que não tenha nenhuma especial.
Aí ficava o ponto chave da conversa, porque ou seríamos os babacas que achavam as mulheres descartáveis e nada especiais, ou os babacas que fingiam acreditar ter um futuro na relação, apenas para leva-las pra cama.
- "Especial" é uma péssima palavra para essa situação. – Falei querendo acabar logo com aquilo – Acho que é normal a gente conhecer muita gente e, em algumas situações, acabamos nos envolvendo com alguém, mas a nossa vida é muito corrida, não dá para evoluir muito e todo mundo sabe. Ninguém aqui engana ninguém – ri tentando descontrair.
- Então essa garota do pub que as pessoas falaram tanto nesses últimos dias, é um desses casos? Eu pergunto, por que suas fãs levantaram uma força tarefa para tentar descobrir quem é e se vocês estão namorando, ou qualquer coisa do tipo. – A vontade que eu tive nessa hora era de levantar e ir embora.
- Eu não estou namorando, nem pretendo. A conheci naquele dia mesmo e ela é muito legal, conversamos um pouco, mas não temos nada. Tiraram uma foto que foi publicada completamente fora de contexto, e criaram várias teorias em volta disso, mas realmente não existe nada demais ali. – Ela inclusive deve estar me odiando, pensei.
- Não dava para ver direito, mas ela parecia ser bem bonita – Cacete, ele ia continuar insistindo nisso?
- Ela é mesmo mas, como já falei, eu mal a conheço. Conversamos muito pouco e só isso. O problema aqui, é que parece que não temos o direito de ter amigas, sair e conversar sem que no dia seguinte estejam insinuando uma lua de mel – eu já estava demonstrando uma irritação maior do que deveria.
- São situação complicadas – Michael interrompeu percebendo meu desconforto – Acho normal que as pessoas que nos acompanham queiram saber das nossas vidas e se estamos namorando, mas temos que tomar cuidado em não expor demais pessoas que não tem nada a ver com isso. Se tornar figuras públicas foi uma decisão nossa, não podemos impor isso sobre os outros. - Foi uma ótima saída, muito mais articulada do que eu seria capaz de fazer.
Depois disso a entrevista não durou muito mais. Improvisamos um pedaço de uma música antiga só com violão e cajon, que ficou horrível, mas era o que dava pra fazer sem um aviso prévio, e fomos embora.


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Saímos da rádio tinham menos de duas horas, mal tive tempo de tomar um banho e sentar no sofá, e Ashton já estava lá de novo... Eu tinha acabado de chegar em casa, passamos a semana inteira grudados, então por que caralhos ele estava tocando a minha campainha?
- Cara, o que você está fazendo aqui? – Perguntei abrindo a porta
- Eu mandei mensagem, mas acho que você não viu – foi logo entrando e abrindo a minha geladeira – As meninas chamaram a gente pra ir pra casa delas comer uma pizza e tomar um vinho.
- Do que você está falando? Que meninas? – era um termo extremamente vago, eram infinitas as opções que poderiam ser contempladas.
- Do pub – falou como se fosse óbvio. Eu nem sabia que eles ainda estavam se falando – Na verdade, a Helena chamou o Mike, então eu mandei mensagem pra Julia falando que eu iria também, e ela falou que você e o Ca podiam ir junto.
- Você ta brincando né?
- Claro que não. Por que?
- Você mal conhece a garota, e já se convidou para ir pra casa dela e ainda quer arrastar a banda toda?
- Ela que convidou a banda. O Calum e a Stella estão indo encontrar o Michael, e eu vim te buscar.
- Eu não vou, cara. Sem chance
- Porque não? Achei que você tinha gostado delas. Elas me pareceram bem tranquilas... não tem nada demais.
- Eu sei disso, mas ao contrário da Julia e da Helena que, aparentemente, gostaram de vocês, a deve estar me odiando depois daquele lance dos fotógrafos.
- Fala sério! Essa história já passou, ninguém nem lembra mais disso.
- Você por acaso não estava na mesma entrevista que eu hoje à tarde? Acabaram de me perguntar dela em uma entrevista de rádio! – Ele estava se fazendo de sonso, não é possível – Se ela já estava puta antes por causa do twitter, imagina agora que falaram dela na porra do rádio!
- Eu acho que você está exagerando, nem citaram nomes... e elas não te chamariam se a melhor amiga delas te odiasse.
- Então a sabe que me chamaram?
- Deve saber né... – falou sem muita certeza – Você sabia que elas são vizinhas? A Julia e a Helena moram no apartamento da frente do da ... a gente podia fazer isso também, né?
- Como assim? – Perguntei franzindo o rosto.
- Você podia comprar uma casa lá no meu condomínio, seríamos vizinhos...
- Deus me livre!


Compensar os dias que eu fiquei em casa estava sendo muito cansativo, eu chegava na editora antes das oito da manhã e só voltava pra casa depois das oito da noite, exausta. Mesmo assim, eu preferia estar atolada de trabalho, do que em casa, onde eu tinha que lidar com os meus pensamentos e tudo que me fazia lembrar meu ex-noivo. Eu também não queria ser a pessoa que vive enchendo a cabeça das amigas de problema, que só toca a campainha para reclamar e chorar. Elas já tinham me aguentado tempo o suficiente, agora eu teria que aprender a lidar com isso sozinha.
O maior problema era que o apartamento parecia ser todo revestido pelas coisas dele e, por mais que eu quisesse muito acreditar que ele voltaria atrás e ficaríamos bem de novo, eu não conseguiria continuar naquele lugar sendo lembrada constantemente de que fui abandonada. Então, por mais difícil que fosse, eu resolvi tirar o sábado para fazer uma faxina e deixar apenas as minhas coisas, sem resquícios de ex. Deixaria guardado em algum armário, pra caso ele resolvesse voltar, nem que fosse só pra pegar suas coisas de volta.
Para criar o clima perfeito para essa mudança de cenário, abri um vinho, botei uma playlist clichê de pós-termino, e comecei a tirar os porta-retratos que estavam espalhados por toda a sala ao som de Fighter da Christina Aguilera... hino. Eu nunca tinha percebido a quantidade de coisas dele que ficavam na minha sala, tinha uma montagem com fotos nossas em uma das paredes, fotografias de cabine de shopping, outras de férias e eventos que fomos juntos. Aquilo era um exagero, mas no fim das contas, tudo foi parar em uma caixa de papelão. Inevitavelmente, as lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto enquanto eu analisava e empacotava cada item. Pegava, chorava, devolvia para o lugar onde estava, bebia mais um gole de vinho, pegava de novo e botava na caixa. Parecia dramático demais, mas foi um processo doloroso que reavivou várias memórias que eu preferia esquecer.
Aproveitei e tirei as capas das almofadas que ele gostava tanto, um abajur de chão que me deu de aniversário, e decidi me livrar também de uma poltrona que eu adorava, mas ele que tinha comprado e estava sempre sentado nela, então não era um bom móvel para ter por perto. Talvez eu devesse tirar alguns utensílios de cozinha que ele tinha me dado, mas não dava pra substituir na hora, então por enquanto, iriam continuar ali.
Depois de muitas horas limpando e esvaziando a minha casa, eu estava exausta, e o cansaço me fez parar de chorar em algum momento. Acho que meu corpo percebeu que eu estava perdendo muito líquido e, entre o suor e as lágrimas, deu um jeito de acabar com um dos dois antes que eu morresse de desidratação.
Não tive ânimo para fazer tudo em um único dia. Limpar a cozinha e a sala, que na verdade eram um cômodo só, estava de bom tamanho pra começar. Guardei as caixas no quarto de hóspedes, que servia como o depósito onde eu entulhava tudo o que não cabia no meu quarto, e abri a porta pra deixar a poltrona e o abajur na rua, pra caso alguém quisesse pegar. Afinal, se ele não teve a decência de terminar comigo cara a cara, eu não tinha nenhuma obrigação em continuar com aquela tralha toda dentro da minha casa. Eu só não estava contando que encontraria uma metade da Jungle Roots no meu corredor.
- O que vocês estão fazendo aqui?! – Perguntei completamente surpresa com a dupla que saia do elevador.
- Oi, ! – Ashton veio me abraçar.
- Eu estou toda suada! – tentei impedir o abraço. Aliás, suada, descabelada, com a cara inchada de choro, usando um short minúsculo e uma blusa toda rasgada. Antes que eu pudesse cavar um buraco no chão pra me enfiar, a porta do outro lado se abriu.
- Oi gente! – Julia falou animada olhando pra Ashton e , e arregalou os olhos quando percebeu que eu também estava ali, não tão feliz assim.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
- Amiga, eu esqueci de te avisar... a gente chamou os meninos para tomar um vinho com a gente.
- Esqueceu né? – Sinônimo pra: deixou para me avisar quando fosse tarde demais.
- Eu juro que achei que você soubesse – falou levantando as mãos em rendição – a última coisa que eu queria era te deixar desconfortável de novo, ainda mais na sua casa... – falou sem graça, dando alguns passos pra trás em direção ao elevador.
- Também não é pra tanto – falei me dando por vencida – não precisa ir embora, está tudo bem. – Ele já tinha ido até ali, seria muita grosseria faze-lo sair.
- Tem certeza?
- Aham...
- Ótimo, os outros já chegaram – Julia falou
- Oi gente – uma mulher morena e muito gata, por sinal, apareceu na porta – Vocês demoraram! – falou se dirigindo aos meninos.
- Esse daí ficou enrolando pra se arrumar. – Ashton respondeu apontando pro amigo, que ainda me encarava.
- Oi... Stella, – estendeu a mão esperando meu aperto – namorada do Calum – acho que esse era o baixista da banda, ele já tinha ido embora quando tudo aconteceu no pub.
- – respondi, ainda meio confusa com aquelas pessoas na minha porta.
- Eu sei, o Mike estava contando que você foi a salvadora da pátria na quinta-feira, principalmente pra esse idiota aqui, né? – falou dando um tapinha na cabeça de Ashton.
- Eei, acontece com os melhores – falou se defendendo.
- Verdade – respondi sorrindo.
- Gente, acho que podemos entrar e sair do corredor, né? – Julia falou apontando pra dentro do apartamento e eles foram passando – O que você está fazendo ?
- Faxina, estava precisando me livrar de umas coisas – falei empurrando a poltrona e o abajur, e ela deu um sorriso orgulhoso de quem entendeu que, aos poucos, eu estava saindo do luto.
- Quer ajuda? – perguntou apontando pros móveis comigo.
- Não precisa.
- Tem certeza? Não tem problema, fica como pagamento pela ajuda do bar – falou já segurando a poltrona
- Nesse caso eu tinha que fazer você descer com a cama e o sofá também... – brinquei enquanto esperávamos o elevador – aquela ajuda me saiu muito cara.
- Eu sinto muito, de verdade, – baixou o olhar envergonhado – eu quis ajudar o idiota do Ashton e acabei te colocando na bagunça.
- Pra ser sincera, eu fiquei bem puta quando vi o que estavam falando no Twitter, mas não tem jeito, eu sei que a culpa não foi sua, e nem dá pra ver direito que sou eu ali – falei sabendo que não era tão verdade... eu ganhei quase três mil seguidores em menos de 24 horas, não podia ser coincidência.
- Mesmo assim, me desculpa.
- Tudo bem... – falei e descemos pra deixar as coisas na rua. Ele levou a poltrona com facilidade, o que agilizou bastante o processo. Confesso que estava com medo de surgir um maluco com uma câmera do nada, e inventar que agora estávamos casados, ou algo do tipo.
- Eu ouvi a entrevista de vocês pro Ryan Seacrest.
- Teve isso também – falou rindo de nervoso.
- Foi legal o que você respondeu. Obrigada – sorri entrando novamente no prédio. Eu sabia que se era difícil pra mim ser exposta dessa forma, pra ele devia ser muito pior, tendo que lidar com isso constantemente.
- Nesse caso, você podia topar sair comigo...
- Você sabe aproveitar um momento de trégua pra investir, hein?
- Não aproveitar seria um desperdício – levantou uma das sobrancelhas querendo se justificar – Seria sem a banda inteira à tiracolo – completou sorrindo e eu tinha que confessar que era um puto sorriso. A combinação toda era incrível, o sorriso, os olhos verde-água, e também não tinha o que reclamar no corpo, mas o que vinha com tudo isso, era o problema.
- Sem a banda à tiracolo, mas com os paparazzi. – Rebati cruzando os braços.
- Eh, essa parte já é mais complicada – falou passando a mão na nuca.
- Não vai rolar – respondi direta, mas sorrindo. – Você parece ser um cara maneiro, mas eu realmente não me encaixo nesse papel de contatinho de popstar.
- E quem disse que você seria só um contatinho? – Indagou parando no corredor.
- Você mesmo, – falei rindo – na entrevista de hoje.
- Estava esperando que, de repente, você não teria prestado atenção nessa parte.
- Atenção aos detalhes é uma das minhas maiores qualidades. Eu sou escritora, esqueceu? Nada passa despercebido.
- Vou lembrar disso na próxima vez que me perguntarem de você.
- Idiota – falei empurrando seu braço.
- Fala sério... eu sou um cara legal, e vamos combinar que não sou nada feio...
- Muito modesto também.
- Pois é, essa é uma das minhas maiores qualidades – respondeu rindo – e você também. Muito legal e, definitivamente, nada feia... essa relação só tem como dar certo – falou se aproximando.
- Não tem "relação" nenhuma – enfatizei as aspas com as mãos – e se tivesse, teria tudo pra dar errado – conclui, e ele jogou a cabeça pra trás em desistência. – Por isso, a amizade aqui vai ser muito melhor, mais fácil, certeira e sem confusão.
- Amizade entre homem e mulher é chato – falou fazendo bico, parecia uma criança mimada.
- Isso por que você nunca foi meu amigo – respondi abrindo a porta do meu apartamento – Agora vai pra casa das meninas, já devem estar achando que eu te sequestrei.
- Eu não teria problema nenhum com isso... só pra constar – falou e eu revirei os olhos como resposta – Você não vem?
- Eu estou um lixo, preciso pelo menos de um banho, mas daqui a pouco eu vou – falei fechando a porta.
Eu tinha acabado de sair de um relacionamento longo e que estava longe de estar superado. Ainda estava frágil e tentando me reconstruir e redescobrir como mulher solteira. Não tinha espaço pra um outro cara na minha vida, ainda mais um que era imã de confusão. Mas de uma coisa já dava pra ter certeza, esse ainda me daria muito trabalho.

Capítulo 3

3


A vida é muito doida. Dá cada volta repentina e nos surpreende de formas tão absurdas que se tentássemos contar pra algum desconhecido, com certeza achariam que estamos mentindo.
Nas últimas semanas eu havia passado de uma mulher que vivia em casa, chorando pelo pé na bunda que tinha levado do ex noivo, para alguém que tinha reaprendido a se divertir e apreciar bons momentos da vida. A minha repentina aproximação com os membros da Jungle Roots deu uma reviravolta na minha rotina. Desde que minhas amigas os chamaram pra comer pizza na casa delas, a gente se aproximou muito e estranhamente rápido. Eles estavam em um momento bastante agitado da carreira, com muitos ensaios e entrevistas, então não era sempre que conseguíamos nos ver, mas nos falávamos com frequência, e basicamente todo tempo livre que eles tinham, estavam com a gente. O que também era um prato cheio para as colunas de fofoca. De acordo com "fontes confiáveis" estávamos todos casados, vivendo em uma constante suruba.
Obviamente, o fato do Michael e da Helena estarem caminhando para um namoro, e da Julia e do Ashton estarem caminhando pra alguma outra coisa que ninguém saberia explicar, fazia deles quase moradores honorários do nosso corredor. Acabamos ficando muito próximas da Stella também, namorada do Calum. Ela era designer de joias e tinha uma boutique em Beverly Hills. Aparentemente ela estava começando a ficar famosa no mundo da moda, já havia montado algumas celebridades, estava para lançar uma nova coleção, e tinha sido convidada pela Calvin Klein para fazerem uma colaboração. Além disso, como ela já estava acostumada a lidar com o assédio da imprensa, e o amor e ódio das fãs da banda, estava nos ajudando, principalmente a Julia e a Helena, a lidar com isso também. Elas não estavam namorando oficialmente os meninos, e segundo a Ju, isso não aconteceria nunca, mas sempre apareciam aos beijos na rua, e acabavam sendo fotografados.
O meu caso era diferente. Tinham alguns rumores que diziam que eu e estávamos nos "conhecendo melhor" ou namorando, e as fãs sempre queria saber mais da minha vida, algumas até davam a entender que queriam que a gente namorasse, mas não tinha a parte dos beijos, então os fotógrafos não caiam em cima da mesma maneira. De qualquer forma, eu evitava dar corda pra esse tipo coisa me mantendo longe das fofocas do Twitter.
Ao mesmo tempo, eu estava me acostumando com tudo isso e já tinha decidido que não deixaria de ser amiga deles por causa de paparazzi ou tabloide. Além disso, de alguma forma, a amizade deles estava me ajudado muito. Eu não ficava mais chorando pelos cantos, e o até me ajudou a separar o restante das coisas do Derek para colocar em caixas, e respeitou quando eu não quis entrar em detalhes sobre o que tinha acontecido. Ele era bem diferente do que eu esperava de um vocalista de banda, ainda mais por ser gato pra caralho e solteiro. Trocávamos mensagem todo dia, e surpreendentemente os assuntos não acabavam facilmente. Descobrimos que tínhamos bastante coisa em comum, como a falta de habilidades culinárias e o amor por basquete, apesar dele não compartilhar do meu bom gosto e preferir o Los Angeles Lakers, enquanto eu obviamente torcia pro Golden States Warriors. Não tinha como assistir ao Stephen Curry e torcer pra qualquer outro time.
Outra coisa curiosa que eu descobri, é que não dava para ser próxima apenas de um membro da banda, principalmente quando as suas melhores amigas estão ficando com os outros, eles funcionavam como um combo. Amiga de um, amiga de todos. Por isso, eu não estranhei tanto quando Ashton e Michael tocaram a minha campainha numa quarta-feira à tarde.
- Acho que vocês tocaram a campainha errada – falei depois de abrir a porta.
- Não senhora, – Ash respondeu me abraçando – o bobão aqui quer conversar com você.
- Vai se foder! – Michael respondeu enquanto me cumprimentava – Não era nem para você estar aqui.
- Eu que dei a ideia de você vir falar com ela.
- "Ela" está aqui – interrompi – do que vocês estão falando?
- É sobre a Lena...
- Lá vem... Aviso logo que se você estiver de palhaçada, só brincando com os sentimentos dela, eu acabo com você hein, foda-se o que vai sair na impressa.
- Eitaa, calma ai! Não é nada disso – falou se defendendo, e foi se sentar no banco em baixo da janela – Muito pelo contrário.
- Você não vai pedi-la em casamento, né? – Perguntei com medo da resposta e recebi uma gargalhada estridente de Ash – Fala logo Mike!
- Ele quer pedir a Helena em namoro – Ashton falou já impaciente
- Caralho moleque, fica quieto!
- Está brincando, né? – falei me jogando no sofá.
- Por que? Você acha que ela não vai aceitar?
- Eu achei que já estavam namorando, vocês estão juntos quase todo dia.
- Eu sei, mas não tem nada oficial. Ninguém nunca falou em namoro.
- E você acha que ela vai dizer "não"? – Perguntei achando meio fofo o nervosismo dele. Era óbvio que ela aceiraria, a bichinha estava toda apaixonada.
- Sei lá, foi tudo meio rápido né? A gente se conhece a menos de um mês... vai que ela me acha maluco.
- Você é maluco, já falei mil vezes que é uma péssima ideia desperdiçar a vida de solteiro agora – Ashton se intrometeu para falar merda, como sempre.
- Cala a boca! – falei jogando uma almofada nele – Se vocês se gostam de verdade, acho válido fazer esse pedido aí. Apesar de eu achar pedido de namoro uma coisa meio ultrapassada.
- Ela também acha ultrapassado?! – Michael voltou a ficar nervoso. O que estava acontecendo com esse homem?
- Fica calmo, pelo amor de Deus! Vai acabar enfartando aqui na minha sala.
- Relaxa cara – Ashton levantou indo até a cozinha – você está pensando demais, claro que ela vai aceitar – falou e parou olhando pra mim – Mas e você , qual é a desse seu ex-namorado? – Perguntou e eu o olhei fixamente sem saber o que responder. Não estava esperando por aquela pergunta, não era algo que eu estava prepara pra conversar, muito menos com o Ashton que arranjaria uma forma de fazer alguma piadinha idiota.
- Ashton, fica quieto, por favor. – Michael falou envergonhado, tentando fazer o amigo se tocar da inconveniência.
- Ué, não falei nada demais. Só perguntei por que eu sei que ela está solteira e, como não quis nada com o , achei estranho, só isso.
- Se você acha o tão irresistível assim, fica você com ele. Eu juro que não vou me importar.
- Muito engraçada. Mas falando sério, você é a maior gata, pode pegar o cara que quiser, não estou falando que precisa ser o , mas acho um desperdício uma mulher dessas dormir sozinha.
- Ashton! – ele não tinha absolutamente nenhum filtro, isso me assustava ás vezes.
- Com todo respeito do mundo, claro.
- Sei...
- Eu só estou falando que talvez sair com outras pessoas seria uma ótima forma de remendar um coração partido e, pelo amor de Deus, não arranje um namorado pelos próximos cinco anos...
- Por que isso? Quer se candidatar? – perguntei brincando.
- Deixa a Julia ouvir isso... – Michael falou nos observando.
- Não, você não está pronta pra um cara como eu.
- Nisso podemos concordar.
- Mas você pode muito bem começar a aproveitar a vida um pouco mais, conhecer uns caras, dar pra outros... – eu ainda não estava acreditando no que estava ouvindo – Nem toda transa vai ser boa, mas pelo menos você vai ter história pra contar.
- É isso que você fala paras mulheres quando brocha? – Mike perguntou e eu cai na gargalhada.
- Vocês não têm maturidade pros meus conselhos – respondeu revirando os olhos – Só queria ajudar... mas falando em possíveis transas pra , vocês sabem onde está o ?
- Você é ridículo, já disse que não vai rolar. – Falei segundos antes do meu celular tocar com o nome do dito cujo aparecendo na tela, e recebi um sorriso safado de Ashton. – Não morre tão cedo – atendi a ligação.
- Hmm, estava pensando em mim? Em como eu sou gostoso e você não aguenta mais resistir ao meu charme? – falou do outro lado.
- Quase isso... o Ash estava perguntando onde você está.
- Ele te ligou só para perguntar onde eu estou? Por que ele não ligou para mim?
- Ele está aqui em casa – falei colocando no viva-voz
- Na sua casa? Por que?
- Isso é ciúmes que eu estou escutando?
- Claro! Cada um com uma amiga e ele já está pegando a Julia...
- Ela não se importa de dividir – respondi brincando
- Nem eu! – Ashton falou com um sorriso malicioso, aff...
- Ashton, mais tarde vamos ter uma conversinha muito séria – completou em tom dramático.
- Fala logo o que você quer?
- Eu queria saber se o amor da minha vida não quer sair comigo.
- Não sei, pergunta pra ela.
- Só pra comer, meu amor! Sem segundas intenções, a não ser que você queira, é claro.
- Ha-ha-ha muito engraçado. – falei sorrindo – Depois alguém te escuta falando essas merdas e eu viro matéria de fofoca de novo.
- É sério, eu não queria ficar em casa. O Ashton pode ir.
- O Michael também está aqui.
- Aah que ótimo, ta rolando um ménage à trois na sua casa e eu nem fui convidado.
- Quem me dera – Ash falou brincando, ou não.
- Idiota – não entendia como eles pensavam nessas coisas tão rápido. Será que a mente masculina é sempre assim, poluída?
- Encontro com vocês no pub do seu Osmar em vinte minutos.


Liguei pro Calum assim que cheguei no pub e ele disse que iria buscar a Stella e chegariam em alguns minutos. Provavelmente a também já devia estar chegando com o Ashton e o Michael, então escolhi uma mesa e pedi uma cerveja. O problema é que quando está tudo tranquilo demais, o destino sempre arranja um jeito de dar uma complicada, e a minha complicação tinha nome e sobrenome, Natalie Fox.
- ! – ela falou acenando e andando na minha direção.
- Natalie, quanto tempo! – falei me levantando para cumprimenta-la.
- Você está sozinho?
- Cheguei cedo, mas meus amigos estão chegando.
- A banda né? – falou com um sorriso torto.
- Também – respondi sem fazer questão de dar continuidade a conversa. A Natalie era minha ex-namorada. Ficamos juntos por quase um ano, pouco depois de eu me mudar pra Los Angeles. A nossa relação sempre foi um pouco torta, ela era modelo e gostava demais dos paparazzi e isso constantemente acabava se tornando um problema para mim. Ao mesmo tempo, eu estava começando a minha carreira, a fama ainda era uma novidade, e o amor das minhas fãs também, então fidelidade não era o meu forte. Terminamos por uma questão de falta de praticidade, afinal, ela adorava a atenção que recebia junto com os chifres. Mesmo assim, nunca nos afastamos completamente e eu acho que desenvolvi uma paixonite. Ela era gata demais, então eu tinha uma certa dificuldade de manter a distância e dizer não para os seus convites.
- Sabe, eu tenho pensando muito em você. – falou se sentando ao meu lado – Tem tanto tempo que não nos encontramos, eu fico chateada quando a gente se afasta assim.
- Eu tenho trabalhado muito.
- Eu entendo, também tenho trabalhado horrores, estou exausta, mas para os velhos amigos tínhamos que arranjar um tempo, você não acha? – falou segurando minha mão.
- Com certeza, só tem sido difícil. Ultimamente não tenho tido tempo nem pra respirar direito.
- Não é o que eu tenho visto...
- Como assim?
- Você e a sua nova amiguinha estão lotando o feed das páginas de fofoca. Parece que não se desgrudam nunca. Cada semana é uma foto diferente de vocês juntos. Aliás, a banda toda, né? Fundaram um fã clube com a plebe? – perguntou debochada. Natalie tinha um complexo de estrelato e não gostava da ideia de conviver com pessoas que não tinham o mesmo status que ela. Parecia achar que todos a sua volta eram interesseiros.
- Para de besteira.
- Você ta namorando aquela garota?
- A ?! Não! Ela é só minha amiga mesmo, nos conhecemos há pouco tempo.
- Sei... mas pra ela você tem tempo, né?
- Deixa de ser boba. Eu realmente tenho estado muito ocupado. Acontece que os caras da banda também se aproximaram dela e das amigas dela, então fica mais fácil da gente se encontrar.
- Você sabe o que eu penso sobre esse tipo de amizade, então boa sorte – falou com desdém e eu fiquei quieto sem ter o que responder pra um comentário desse tipo - Vamos aproveitar agora que não estamos trabalhando, e vamos dar uma volta.
- Agora eu não posso, combinei de encontrar outras pessoas aqui.
- Os caras da banda. Você encontra com eles todo dia – reclamou fazendo bico – por favor, tem tanto tempo que a gente não se encontra – por um momento eu cheguei a cogitar dar um bolo neles, mas antes que eu pudesse responder a parou do meu lado, enquanto Ashton e Michael ficaram atrás da Natalie fazendo cara de vômito. Eles não gostavam muito dela.
- Oi linda – falei sem pensar e instantaneamente me arrependi ao ver a expressão da Natalie.
- Oii – ela responder me dando um rápido abraço e sorrindo na direção da minha ex com cara de poucos amigos que levantou irritada
- Você tem certeza disso, ?
- Depois eu te ligo, prometo.
- Ou não, né... estamos trabalhando muito – Ashton falou para provocar
- Pois é, acho que essa ligação pode demorar – Michael acrescentou querendo colocar lenha na fogueira.
- Você não quer sentar com a gente? – tentou ser simpática, mas não deu muito certo.
- Não queridinha, eu sei escolher as minhas companhias. Não perco meu tempo com qualquer um, ou uma – respondeu virando as costas e esbarrando com o Calum e a Stella que acabavam de chegar.
- Que porra foi essa? – perguntou impressionada com a resposta
- Essa é a ex-demônia, opss, ex-namorada do – Michael falou.
- Ela é meio sem noção, mas é boa pessoa – tentei defender, mas nem eu acreditei completamente no que disse. A Natalie conseguia ser bem má quando queria.
- Não é não – Ashton rebateu
- Percebi.
- Não precisa ficar com ciúmes, você é especial – brinquei fazendo um carinho no rosto dela.
- Até parece – respondeu batendo na minha mão – Só fiquei surpresa de você ter namorado uma mulher arrogante dessas.
- Quando você a conhece, percebe que ela não é assim.
- Claro que é! – Stella falou quase gritando – O desenvolveu uma Síndrome de Estocolmo por essa maluca, mas ela não é flor que se cheire...
- Ok ok, podemos mudar de assunto? – pedi. O meu contato com a Natalie era complicado, eu sabia que não era a coisa mais saudável do mundo, mas também não queria dividir isso com todos daquela maneira.
- Por favor, daqui a pouco vou ter uma indigestão.
- Tudo bem, então o que vamos comer? Estou faminto – Calum falou mudando de assunto.
- Eu também – Stella completou olhando o cardápio – Cadê a Julia e a Helena? Elas não vêm?
- A Ju vem direto do trabalho e a Lena não sei se vai conseguir sair da clínica a tempo. Eles terminaram a reforma e ela está toda enrolada reajustando os horários dela – respondeu, e se levantou pra ir cumprimentar o amigo armário dela que estava no bar.
- O que que está rolando entre você e a ? – Stella perguntou assim que viu que ela já tinha se afastado.
- Como assim? Não tá rolando nada.
- Nada? – Michael refez a pergunta, e todos ficaram me encarando.
- Para de besteira gente, não tem nada não. A garota acabou de terminar um namoro que a deixou tão traumatizada, que ela nem gosta de falar sobre. E eu já falei que não tenho nenhuma intenção em ter nada sério.
- Mas quem disse que precisa ser sério? – Ashton falou – Eu e a Julia estamos só com a parte boa. Vocês podiam tentar.
- Você e a Julia são doidos né... daqui a pouco começa a dar problema.
- Para de rogar praga!
- Não estou rogando nada. Espero que dê certo, mas nós somos diferentes. É melhor deixar do jeito que está.
- E essas brincadeiras de "amor da minha vida", "você é especial"...? – Ash perguntou
- São só brincadeiras mesmo, parem de ver coisa onde não tem!
- Sei... acho que isso ainda vai dar em namoro – Stella falou sem tirar o olho do cardápio.
- O que vai dar em namoro? – voltou, e eu fiquei tenso sem saber o que responder.
- O lance do Michael com a Helena – Ashton intercedeu para o meu resgate – eu estava aqui contando do nervosismo dele.
Eu não era cego, nem idiota. Era óbvio que eu já tinha pensado em ter alguma coisa com a , inclusive já tinha falado isso para ela, mas logo recebi um "não". Depois acabamos nos aproximamos e, contra tudo que eu acreditava, eu gostava de ter ela como amiga, não ia estragar isso por causa de uma transa.


Era meio estranho ser amiga de gente famosa. Estávamos sentados no pub à menos de uma hora e várias pessoas já tinham se aproximado pedindo para tirar fotos. Para eles devia ser normal, levantavam, conversavam com as fãs, e voltavam a comer como se nada tivesse acontecido. Eu achava engraçado por que, algumas vezes, elas me olhavam de um jeito meio estranho, não sei se queriam me matar ou pedir um autógrafo, mas eu dava um sorriso sem graça e voltava minha atenção pra comida.
- Eu vi a apresentação de vocês no Good Morning America hoje de manhã – Julia falou quando eles se sentaram de novo – Não sei como vocês conseguem ter toda aquela animação tão cedo.
- Nem me fale, – começou – eu adoro participar, mas estava quase dormindo em pé antes de subir no palco.
- Porra, eu também – Michael falou depois – ainda bem que não tivemos ensaio hoje... dormi quase que o dia todo.
- Eu não entendo como as pessoas conseguem acordar tão cedo assim pra assistir – eu falei impressionada. O show no GMA começava às 8h da manhã, e ficava lotado!
- Eu sempre fico impressionado também. Tinha gente que veio de outras cidades – Calum falou.
- Eu pensei que a gravação era em Nova Iorque – Julia falou e eu concordei.
- Nem sempre, – Ash respondeu – os shows fora do estúdio deles às vezes são aqui em Los Angeles. Só que não tem nenhuma entrevista, só a apresentação mesmo.
- E como está o álbum? – Stella perguntou – pronto?
- Nem perto – falou jogando a cabeça pra trás – acho que nunca demoramos tanto pra escrever.
- Cara, eu adoro o processo de estúdio, escrever, gravar as músicas novas e depois ajudar na produção, mas eu já estou ficando de saco cheio – Calum falou esfregando os olhos e apoiando os cotovelos na mesa.
- Eu pensei que demorava tipo um ano pra fazer um álbum – falei – parece ser muito demorado mesmo.
- Sim, mas em um ano você deveria ter tudo pronto né… – respondeu – tem gente que escreve um álbum inteiro em menos de dois meses, a gente tá fazendo isso há cinco, e se temos seis músicas que prestam, é muito.
- O pior é que a gente compõe muita coisa, mas quando chegam no final e pensamos em gravar, não estão tão boas e não vale a pena. – Calum completou, apoiando a cabeça no ombro da namorada
- Parece que vocês estão muito exigentes com vocês mesmos – Julia ponderou.
- Não é isso. – Ash falou – Nosso último álbum tem quase dois anos. Os fãs estão esperando o próximo, perguntam sempre. A gente não pode entregar algo medíocre depois de tanto tempo. Tem que ser realmente bom.
- E vocês escrevem tudo sozinhos? Não compram de outros compositores? – Perguntei
- Fazemos colaborações, mas participamos de todas. Não pegamos nenhuma pronta – Michael falou, também desanimado.
- Vocês podem fazer uma colaboração com a . – Julia falou olhando pra mim e eu só arregalei os olhos... ela estava maluca?
- Você compõe? – perguntou me encarando
- Não!
- Claro que sim – minha amiga queria me jogar na frente de um ônibus – ela tem um caderno cheio de letras.
- Eu quero ver! – falou – Ver não, ouvir.
- Esquece, não vai acontecer.
- Por que não?
- Por que a Julia é uma exagerada. – falei me segurando pra não pular no pescoço dela – Eu não componho... eu brincava de escrever música quando era mais nova. Eu não entendo nada dessas coisas, são ridículas.
- Se você não entende nada, como sabe que são ridículas? – Ashton perguntou do meu outro lado.
- O idiota do Derek falou isso pra ela – Julia falou, mas logo se arrependeu quando olhou pra mim. As músicas realmente não eram boas, mas eu gostava de escrever, só parei por que ele falou que eram uma perda de tempo. Mas eu não queria falar disso agora.
- Se esse cara não for músico ou alguém que entenda muito do assunto, eu vou respeitosamente mandar ele enfiar a opinião dele no cu – falou olhando pra mim – Mas pra isso eu preciso ouvir essas obras primas.
- Pode desistir, eu não vou te mostrar. Eu nunca mostrei nem pra elas – falei apontando a cabeça pra Julia.
- Você canta também? – Michael perguntou.
- Não...
- Canta sim, e muito bem, por sinal. – Julia falou e eu só queria cavar um buraco no chão pra me enfiar. Estavam todos me encarando.
- Por que você está mentindo? – falou sorrindo
- Eu não estou mentindo, não sou nenhuma cantora. Meus pais me deram um violão quando eu era adolescente, e eu cantava com ele... não tem nada demais.
- E você não vai cantar pra mim? – perguntou com cara de cachorro pidão
- Não – falei rindo
- E pra mim? – Ashton perguntou dessa vez.
- Gente, não acreditem em tudo que a Julia fala, ela é meio maluca.
- Eu não vou insistir agora, – falou bebendo um gole da sua cerveja – mas não vou esquecer assim.
Era só o que me faltava...


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Há umas duas semanas, quando eu estava triste e tentando achar ânimo para terminar de fazer faxina no meu apartamento e empacotar o restante das coisas do meu ex, o se prontificou a me ajudar, então quando ele me mandou mensagem falando que precisava arrumar o closet dele para poder separar algumas roupas para doação, eu acabei me voluntariando para dar uma forcinha.
- Puta que pariu! Há quanto tempo você não arruma isso? – Falei assustada com a quantidade de coisa que tinha ali.
- Não faço ideia. – ele respondeu sentando no chão sem saber por onde começar – A Jane que arrumava pra mim.
- Você já está grandinho o suficiente pra sua babá arrumar o seu armário – abriu várias portas observando a bagunça que estava. – Você não tem vergonha de deixar isso assim, não?
- Realmente, organização não é uma das minhas maiores qualidades.
- E qual é?
- Eu sou bem talentoso, mas eu acho que o que mais destaca é que eu sou bonito pra caralho, vamos ser sinceros – brincou e eu não consegui conter o riso.
- Ok bonito, isso não vai te ajudar agora.
- Então por onde começamos, coisa linda? – respondeu sarcástico.
- Coisa linda? Sério?
- Você me chamou de Bonito, eu te chamo de coisa linda. Achei adequado – falou rindo.
- Acho que temos que começar pela parte de cima, o que tem ali? – perguntei ignorando a provocação e apontando pra portas mais altas.
- São os casacos de moletom.
- Mais o que?
- Nada... só casaco de moletom mesmo – falou e eu só conseguir deixar o meu queixo cair. Ele tinha muita roupa, acho que nunca vi um homem com um armário desses – Eu não compro tudo! A gente acaba ganhando muita coisa.
- Sorte de vocês.– falei encaixando uma escada de poucos degraus ali - Pode subir.
- Eu?
- Você não achou que iria ficar aí sentado enquanto eu faço tudo, né? As roupas são suas! Eu vim só ajudar, mas quem vai fazer o trabalho pesado é você.
E foi realmente pesado, passamos o sábado inteiro fazendo aquilo e eu estava destruída. A ideia era separar coisas para doar, mas ele tinha um sério problema para desapegar. Muitas coisas ainda tinham etiqueta, outras ele nem lembrava que existiam, tinham roupas manchadas e rasgadas de tão velhas, mas nada foi fácil para ele abrir mão. Mas no fim conseguimos... tiramos tudo, passamos aspirador de pó e pano por todo o closet, e aos poucos fui o convencendo de que outras pessoas iriam fazer um uso muito melhor daquelas roupas.
Separamos 19 calças, 27 bermudas, quase 60 blusas, 11 jaquetas, 23 moletons, vários bonés que ele não usava e sapatos que já nem cabiam mais nele, sem contar os acessórios que ficavam perdidos por todos os cantos. E eu, que não sou nada boba, aproveitei pra pegar uns presentes pra mim também. Depois de todo trabalho que eu tive ali, eram mimos muito merecidos.
Quando acabamos pedimos uma pizza e ficamos jogados na sala assistindo Modern Family pelo resto da noite. Era a série favorita do , ele gargalhava sem parar, e eu acabava rindo mais dele do que da série em si.
- Esse cara me lembra muito o meu pai, – falou apontando pra um dos personagens – fica tentando se enturmar na vida dos filhos, ser o pai descolado e sempre acaba fazendo uma burrada – concluiu dando mais uma gargalhada quando o episódio acabou, e levantou pra deixar a caixa de pizza vazia e os pratos na pia da cozinha. Estranhei o tempo que isso levou, mas entendi quando voltou segurando um violão.
- Hmm, vai fazer uma serenata pra mim, bonito? – brinquei.
- Eu até faria se achasse que surtiria algum efeito – respondeu e eu revirei os olhos – É pra você.
- Eu já tenho um violão – falei e ele bufou me entregando o instrumento.
- Pra que isso?
- Não se faça de boba coisa linda, é pra você tocar.
- Eu não toco violão há uns três anos, nem lembro como é – falei o devolvendo. Era mentira, eu ainda tocava de vez em quando.
- Tudo bem... então eu toco e você canta.
- Ooou... você toca e você canta.
- Deixa de ser chata, a Julia falou que você canta super bem.
- E eu já falei que vocês não podem acreditar em tudo que ela fala.
- Por favor! – Falou em um tom de súplica.
- Por que isso? Eu não sou cantora, cantava só como passatempo.
- Tudo bem, mas eu amo cantar e já que você não quer me beijar, seria bom arranjarmos outras coisas pra fazer – falou me encarando pensativo – a não ser, é claro, que você tenha mudado de ideia – e se inclinou um pouco na minha direção.
- De jeito nenhum – falei empurrando seu rosto.
- Azar o seu. O que vamos cantar então?
- Aviso logo que eu não sei quase nenhuma música da Jungle Roots de cor ainda – falei me dando por vencida.
- Gostei do "ainda". – falou arrumando o violão – Mas não precisa ser da banda, pode ser qualquer uma.
- Qualquer uma é muito vago, deixa eu ver aqui – peguei meu celular pra ver as mais tocadas do meu Spotify e escolher uma que não me faria passar tanta vergonha.
- She will be loved, do Maroon 5?
- Não... eu gosto, mas já cansei.
- Qualquer música , você não vai fazer nenhuma audição pro The Voice.
- Tá bom, você sabe "Best Part" da H.E.R?
- Óbvio, eu adoro essa... vamos ver – dedilhou um pouco pelo violão pra garantir que lembrava como tocar.
- Sem julgamentos, por favor – falei respirando fundo, apoiei a cabeça no sofá e fechei os olhos pra tentar fingir que estava sozinha ali. Então ele começou...
[https://www.youtube.com/watch?v=vBy7FaapGRo]

"You don't know, babe
Você não sabe, amor
When you hold me
Quando você me abraça
And kiss me slowly
E me beija lentamente
It's the sweetest thing
É a coisa mais doce
And it don't change
E não muda
If I had it my way
Se dependesse de mim
You would know that you are
Você saberia que você é

You're the coffee that I need in the morning
Você é o café que eu preciso de manhã
You're my sunshine in the rain when it's pouring
Você é meu raio de Sol na chuva, quando ela está caindo
Won't you give yourself to me
Você não vai se entregar para mim?
Give it all, oh
Se entregue completamente, oh

I just wanna see
Eu só quero ver
I just wanna see how beautiful you are
Eu só quero ver o quão bonito você é
You know that I see it
Você sabe que eu vejo
I know you're a star
Eu sei que você é uma estrela
Where you go I follow
Onde você for, eu sigo
No matter how far
Não importa a distância
If life is a movie
Se a vida é um filme
Oh you're the best part, oh oh oh
Oh, você é a melhor parte, oh
You're the best part, oh oh oh
Você é a melhor parte, oh
Best part
Melhor parte

It's the Sunrise
É o nascer do Sol
And those brown eyes, yes
E esses olhos castanhos, sim
You're the one that I desire
Você é a única que eu desejo
When we wake up
Quando nós acordamos
And then we make love
E então fazemos amor
It makes me feel so nice
Isso me faz sentir tão bem

You're my water when I'm stuck in the desert
Você é minha água quando estou preso no deserto
You're the Tylenol I take when my head hurts
Você é o Tylenol que eu tomo quando minha cabeça dói
You're the sunshine on my life
Você é a luz do Sol na minha vida

I just wanna see how beautiful you are
Eu só quero ver o quão bonita você é
You know that I see it
Você sabe que eu vejo
I know you're a star
Eu sei que você é uma estrela
Where you go I follow
Onde você for, eu sigo
No matter how far
Não importa a distância
If life is a movie
Se a vida é um filme
Then you're the best part, oh oh oh
Então você é a melhor parte, oh
You're the best part, oh oh oh
Você é a melhor parte, oh
Best part
Melhor parte

If you love me won't you say something?
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you, won't you
Se você me ama, não vai, não vai
If you love me won't you say something?
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you
Se você me ama, não vai, não vai
Love me, won't you
Me ama, não vai
If you love me won't you say something
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you
Se você me ama, não vai
If you love me won't you say something
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you
Se você me ama, não vai
Love me, won't you
Me ama, não vai
If you love me won't you say something
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you
Se você me ama, não vai
If you love me won't you say something
Se você me ama, não vai dizer alguma coisa?
If you love me won't you
Se você me ama, não vai
Love me, won't you
Me ama, não vai

No meio da música, quando ele começou a cantar, eu já estava mais confortável então abri os olhos e, apesar de ainda estar com o coração acelerado, aquilo me fez conseguir aproveitar ainda mais o momento. Foi perfeito. Não a música em si, ou a minha voz, mas até aquela hora, eu nem lembrava o quanto cantar me fazia bem... Era como se aquele ditado "quem canta, seus males espantam", tivesse sido feito pra mim, e eu só consegui perceber ali.
- Eu não sei nem o que dizer – ele falou me olhando com um sorriso bobo – de onde você tirou que não sabe cantar?
- Eu nunca falei que não sabia, só que não sou cantora, e é verdade.
- Você é incrível! Por que não queria que ninguém te ouvisse?
"Por que um dia me disseram que era uma perda de tempo" pensei
- Não sei, acho besteira – falei olhando para o chão.
- Seria besteira se você não gostasse, mas tá na cara que você gosta.
- Eu adoro, só que não tenho tempo pra essas coisas.
- Impossível... todo mundo tem que ter tempo pra cantar. Não estou falando que você precisa organizar um show e se apresentar na frente de várias pessoas, mas se é uma coisa que você gosta tanto, deveria fazer mais vezes.
- Pode ser...
Essa situação toda era muito estranha. Eu nunca parei pra pensar que tinha abandonado a música e parado de cantar, para mim parecia ter sido uma coisa muito natural. Eu cantava no chuveiro, ou no carro, mas era isso, não tirava mais um tempo para tocar violão ou até tentar compor alguma coisa, mesmo que só por diversão.
O meu ex sempre falou que eu deveria focar no meu trabalho, que era o que eu amava fazer, e eu nunca questionei ou parei pra pensar que eu podia fazer os dois. A editora, fazer traduções e escrever, continuavam sendo as minhas paixões, mas a música também fazia parte da minha vida e me ajudava muito.
ficou me encarando, acho que tentando desvendar no que eu estava pensando, mas não me importei. Ficamos naquele silêncio que, felizmente não estava desconfortável. Ás vezes, um dos dois ria de alguma coisa que lhe vinha a mente, ou fazia pequenos comentários sobre letras de música, e ficamos naquela realidade paralela por alguns minutos até eu perceber que estava tarde e na hora de voltar pra casa.
- Você pode dormir aqui.
- Passo...
- Tem quarto de hóspedes coisa linda. Sou sem noção, mas nem tanto – falou erguendo as mãos em rendição.
- Eu prefiro dormir em casa – falei me levantando. Era melhor evitar esse tipo de mal-entendido. Depois podiam me ver saindo da casa dele de manhã, e seria um prato cheio para os comentários que eu queria tanto evitar.
- Então eu te levo – falou pegando as chaves – Nem adianta dizer que não precisa.
Quem diria... Ammel, um cavalheiro. Acho que eu estava ficando mal-acostumada, e isso era uma coisa que, definitivamente, eu já tinha aprendido que não era bom acontecer. A essa altura do campeonato, eu já esperava que a qualquer momento alguém podia jogar um balde de água fria na minha cabeça.

Capítulo 4

4


Cantar com a no fim de semana foi a injeção de adrenalina que me faltava. Acho que no meio de turnês, entrevistas, gravação e tudo mais que temos que fazer repetidas vezes, entramos num modo automático de lidar com a demanda da indústria e eu esqueci como era tocar por diversão. Parar durante aqueles minutos, e cantar sem nenhuma pretensão de estar perfeito, sem qualquer objetivo maior por trás, me fez relembrar como era antes da banda realmente fazer sucesso, quando a música era só um amor e não tínhamos nenhuma obrigação com ela. Eu só tinha que fundir essas duas energias, e colocar aquele frescor do início no som que estávamos criando.
- Garoto, você passou a noite toda aí? – Jane perguntou olhando pra mim jogado no chão da sala com o meu violão, papéis de rascunho espalhados por todos os cantos e uma cara toda amassada.
- Eu acabei me empolgando com umas ideias e fiquei por aqui.
- Eu pensei que vocês estavam com problemas pra escrever coisas novas... esse problema acabou então?
- Graças a Deus... quer dizer, graças a – corrigi – Ela canta, sabia? E muito bem, por sinal.
- Sei... – falou me lançando um sorrisinho de lado e um olhar que entregava tudo que ela estava pensando.
- Nem começa com isso – cortei logo o seu barato
- Eu não falei nada!
- Mas eu te conheço e é melhor já acabar logo com as suas esperanças.
- Eu também te conheço, muito mais do que você pensa... – falou me ajudando a juntar as novas partituras que eu tinha rabiscado – Quero saber é quando eu vou conhecer essa tal de .
- Ela veio aqui no sábado. Passou o dia me ajudando a arrumar o closet
- Não acredito! Agora sim eu preciso conhecer essa santa milagreira – falou jogando as mãos pro alto.
- Pra sua informação, eu já estava me planejando pra arrumar, ela só veio me dar uma forcinha – Jane já andava em direção ao armário, para avaliar o resultado da arrumação, e eu fui atrás – Eu a ajudei com uma faxina na casa dela, então ela veio retribuir, só isso.
- Parece que você achou sua musa inspiradora – falou debochando – na música, na faxina... essa garota te faz bem mesmo.
- Faz sim. Por que ela é uma ótima amiga... amiga, ouviu?
- Eu ainda não sou surda, meu amor, mas também não sou burra. Sei ler nas entrelinhas.
- Aham. Só que você e as minhas mães estão tão desesperadas pra me verem esperando alguém no altar, que estão criando entrelinhas onde não tem. Elas se referem à como "nora"! – Eram duas malucas querendo que eu arranjasse uma namorada de qualquer forma.
- Somos as pessoas que mais te conhecem na vida – completou e eu revirei os olhos indo em direção ao banheiro pra tomar uma chuveirada. Eram 8h da manhã ainda e eu não tinha nenhum compromisso durante a manhã, mas estava sem sono.
Fiquei mexendo no celular por alguns minutos, fuxicando os feeds de fofoca, - quando a notícia não era sobre mim, era um bom passatempo - assistindo uns tutoriais de comida no Instagram, mas fiquei entediado rapidamente e me joguei na cama pra assistir alguma série. Como sempre, escolhi Modern Family e maratonei a sexta temporada, e entre risadas e pequenos cochilos, nem vi o tempo passar.
Já era pouco mais de meio-dia quando Jane deu duas batidinhas na porta do meu quarto antes de entrar.
- Criança, você tem visita.
- Visita? Quem?
- Sua musa inspiradora - falou dando um suspiro exagerado, e eu logo me levantei seguindo-a em direção a sala.
- Essa produção toda é pra mim, coisa linda? - Perguntei abraçando uma toda arrumada. Ela sempre disse que uma das melhores partes do seu escritório era que não exigiam uma vestimenta muito formal, então ela ia sempre de jeans e tênis, mas agora estava de vestido e salto alto. Linda como sempre, mas bem diferente do seu habitual.
- Bobo. Eu estava em uma reunião aqui perto e precisava estar mais emperequetada. Mas resolvi dar uma passada aqui pra saber se você não topa almoçar comigo.
- Com você? Sempre.
- Eu estou fazendo um almoço - Jane falou de trás do balcão da cozinha - se quiserem, podem almoçar aqui mesmo.
- Oba! Comida caseira, melhor ainda.
- Ótimo… , me deixa te apresentar oficialmente a Jane - falei me aproximando da cozinha - Jane, essa é a que você queria tanto conhecer.
- Muito prazer. O fala bastante de você.
- O prazer é todo meu, querida. Ele fala bastante de você também, . Inclusive, eu queria te agradecer por fazer esse moleque arrumar o closet dele, eu estava insistindo nisso há meses, mas ele não me escuta mais, então obrigada.
- Não precisa agradecer não – respondeu rindo – Ele só arrumou porque você pediu mesmo, eu só dei uma forcinha.
- Eu falei isso, eu ia arrumar de um jeito ou de outro.
- Só precisava de uma inspiração, né? - Jane falou dando uma piscadela pra mim. Ela ia insistir nessas "entrelinhas" pra sempre.
- Me conta, coisa linda, com quem era essa reunião que você precisava estar toda arrumada assim? - falei mudando de assunto.
- Com um youtuber que quer escrever um livro. Stuart Davill, conhece?
- Nunca ouvi falar.
- Eu conheço! - Jane respondeu animada - minhas sobrinhas são apaixonadas por ele.
- Eu não conhecia muita coisa dele, para ser sincera.
- E vocês vão publicar o livro dele?
- Publicar e escrever, né? Vai ser aquela "autobiografia" que na verdade quem escreve sou eu - respondeu dando de ombros.
- Como você vai fazer isso?
- A gente vai ter mais algumas reuniões, para eu conhecê-lo melhor e ele vai me passar o material que quer que esteja no livro.
- Não parece muito simples.
- Não é - falou rindo - é um trabalho em conjunto. Pelo menos ele é divertido.
- E um gato - Jane afirmou - pelo menos é isso que as minhas sobrinhas falam.
- Ele é bem bonito mesmo.
- Sei… não dá muita abertura pra esse cara não - Esses marmanjos da internet acham que podem tudo, era bom ela impor os limites para ele - Se ele ficar de gracinha pra cima de você, me avisa.
- Relaxa. Ele é gente boa.
- No início todos são, aí de repente você perceber que são uns tarados.
- Tá doido, ?
- Só estou falando pra você não marcar bobeira.
- Pode deixar que eu sei me cuidar. Mas falando nisso, o Ashton me deu uma ideia.
- Ai meu Deus, lá vem…
- Não é nada demais - ela falou isso, mas deu uma pausa como se pensasse em como me contar. Isso não era bom sinal.
- Fala logo, que ideia o Ashton te deu.
- Não foi ele que deu a ideia na verdade. Eu já tinha pensado nisso, mas ele trouxe o assunto à tona e eu acho que vou colocar em prática.
- Colocar o que em prática?
- Sair com uns caras aleatórios. - OK, isso eu não estava esperando.
- Como é?! Você ficou maluca? – nem a deixei completar – O Ashton eu sempre soube que é, mas você…
- Qual o problema? Eu estou solteira, não fico com ninguém há meses, passei pelo meu período de luto pós pé na bunda, é normal que eu queira conhecer outros homens agora, né?
- Você acha normal querer sair com caras que você nem conhece?!
- Você faz isso o tempo inteiro, e se disser que é diferente porque você é homem, eu vou embora.
- Ele não é maluco de falar uma coisa dessas – Jane falou me encarando, parando de mexer nas panelas para oficialmente prestar atenção na nossa conversa.
- Não vou dizer nada! – me rendi antes que alguém me batesse – Só falei porque achava que esse não era o tipo de coisa que você fazia.
- Não era. Até dois meses atrás eu estava noiva, não tinha muito como fazer. - Noiva? – Jane perguntou impressionada – Isso você não me contou – reclamou olhando pra mim.
- Eu não sabia! – estava tão surpreso quando ela.
- Não é o tipo de história que eu fico ansiosa pra contar. – falou abaixando o olhar e respirando fundo – Eu namorei por anos com um cara que eu conheci logo que eu me mudei pra Los Angeles. O nome dele é Derek, ele era advogado da editora onde eu trabalho. Eu sou escritora – falou se dirigindo à Jane.
- Eu sei – ela respondeu sorrindo. Eu realmente tinha contado bastante coisa da pra ela.
- Nós ficamos juntos por cinco anos. Ele me pediu em casamento no ano retrasado e ficamos morando no meu apartamento enquanto juntamos dinheiro para fazer a cerimônia que queríamos – falou enquanto começava a correr uma lágrima, e meu peito estava apertando com aquilo – Estávamos preparando tudo e o casamento ia acontecer em alguns meses. – Parou por um momento e limpou o rosto – Mas ele desistiu e terminou tudo – concluiu rapidamente, sem entrar em detalhes.
- Assim, do nada? Falou que não queria mais e acabou? – Jane perguntou.
- Exatamente assim. Na verdade, ele nem falou. Estava viajando e mandou um e-mail dizendo que não ia mais voltar e que eu deveria cancelar tudo.
- Tá brincando?! – perguntei indignado - Caralho, que babaca! Como alguém faz uma coisa dessas?!
- Querida, vem aqui. – Jane falou se aproximando dela e lhe dando um abraço – Esse cara não te merece, aliás, não merece nenhuma lágrima sua. Você tem que seguir em frente, azar o dele. A fila anda! – completou e eu entendi tudo.
- É por isso que você acha que tem que sair com qualquer cara? – perguntei.
- Não com qualquer cara – falou se recompondo – mas alguém. O Ash tá certo. Eu tenho que aproveitar minha vida de solteira, e o quanto mais rápido eu fizer isso, mais rápido eu esqueço o Derek de uma vez por todas – concluiu e eu não fazia ideia do que responder.
- Eu achei que você não queria se envolver com ninguém.
- Não quero! Pelo menos, não de forma séria.
- Então você quer só uma transa.
- Não só uma. Eu quero curtir a vida de solteira, como qualquer um faz. Sem romance, sem compromisso, sem complicação.
- Tem certeza de que essa é a melhor ideia? – Jane perguntou – De repente você pode achar um cara legal, que valha a pena ter algo além de apenas sexo. Talvez você já até conheça essa pessoa, um amigo que você gosta – completou me olhando, muito sutil, como sempre.
- A última coisa que eu preciso agora é de alguma coisa sentimental. Eu nem tenho cabeça pra isso.
- , acho ótimo você querer aproveitar a vida. Mas isso de sair com estranhos pode ser perigoso. Tem muito maluco por aí.
- Eu sei me cuidar.
- Eu sei, mas mesmo assim.
- Qual a outra alternativa? - não conseguia pensar em nada além de "fica sozinha", mas isso não iria servir.
- Eu vou te ajudar.
- Me ajudar? Em que?
- Eu estou acostumado com essas coisas, sei reconhecer um babaca de longe. Posso tentar escolher alguém decente pra você.
- De jeito nenhum, é pra minha cama que o cara vai, quem vai escolher sou eu!
- Você vai escolher um rostinho bonito e vai acabar com um doido que vai roubar a sua televisão enquanto você dorme - eu já estava ficando irritado com essa ideia. O Ashton só pode ter merda na cabeça.
- Deixa de ser exagerado. Eu não sou nenhuma pré-adolescente inocente, eu sei avaliar minimamente a índole das pessoas.
- Por favor, confia em mim.
- Bonito, eu sei que você quer me ajudar, mas…
- Eu vou estar por perto então. Não vou escolher, mas se eu sentir uma vibe estranha do dito cujo, eu me meto. Pode ser? - Eu sabia que estava pedindo demais, onde já se viu alguém escolher com quem o outro pode ou não ficar. Mas isso era precaução, zelo. Não queria que ela ficasse com nenhum maníaco.
- Tudo bem - concordou revirando os olhos - mas só se o cara der sinais de psicopatia e por algum motivo louco eu não perceber.
- Combinado. Podemos começar na festa de lançamento da Stella, no sábado.
- Perfeito!
- Só pra constar, eu não acho isso uma boa ideia - Jane opinou enquanto arrumávamos a mesa - Não gosto dessa ideia de fazer amor com uma pessoa que você mal conhece, é muita intimidade.
- Mas quem falou em amor aqui? - respondi e recebi uma expressão de decepção como resposta.
- Fica tranquila Jane, eu sei me comportar e ainda arranjei um guarda-costas - falou passando o braço em volta do meu pescoço - Não tem como dar errado.


♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥♡♥


- Eu não acredito que você aceitou aquilo! – Jane reclamou puta da vida quando foi embora depois do almoço.
- Aceitei o quê?
- Que ela fique com outros homens! Ainda se ofereceu para ajudar, era só o que me faltava.
- O que você queria que eu fizesse? Deixasse que ela acabasse com um maluco qualquer?
- Eu queria que você tomasse vergonha nessa sua cara e parasse com essa palhaçada de "somos só amigos"
- Calma Jane - falei segurando o riso - realmente não rola nada entre nós dois. E ela também não quer que isso mude.
- Eu vi que você também não gostou da ideia.
- Eu só achei estranho.
- Você tem que acordar pra vida! Essa menina é linda, divertida e está disponível, precisando que alguém cuide dela.
- A sabe se cuidar muito bem sozinha, e você não escutou o que ela falou? A última coisa que precisa é de um relacionamento sério, e eu também.
- Por enquanto, mas as coisas mudam.
- Esquece isso. Ela não quer nada comigo e qualquer coisa a mais só iria estragar tudo. Vou ajudá-la a conseguir essas transas.
- Credo! Falando desse jeito parece que é um negócio de aliciamento para prostituição – falou e eu caí na gargalhada.
- Você é uma figura.
Era estranho pensar na dormindo com outros caras. Não que tivesse qualquer problema, decidimos que seríamos apenas amigos e eu gostava disso, mas daí ajudar outros caras a levar ela pra cama... isso não soava tão tranquilo assim.


Eu não conseguia parar de pensar nessa ideia de transar com homens que eu não conhecia. Podia parecer neurose, mas o estava certo, a quantidade de coisas que podiam dar errado eram infinitas. O cara podia ser um babaca, escroto, agressivo, podia ser um ladrão que roubaria minha televisão e os meus discos do Coldplay, sei lá, as possibilidades eram infinitas. Tudo isso passava pela minha cabeça, mas por outro lado podia resultar em uma ótima transa, divertida, que talvez virasse até um contatinho para um futuro de carência, mas zero pegajoso, que estaria feliz em ser usado e poder se aproveitar do meu corpinho maravilhoso. Era tudo que eu queria... a reciprocidade que faltou no meu noivado, eu agora precisava por uma noite apenas.
- Amiga, eu tenho que confessar que não estou gostando tanto dessa ideia – Helena falou quando nos encontramos para almoçar na quinta-feira.
- Eu estou amando! – ao contrário de Lena, Julia estava mais empolgada que eu.
- Eu só quero parar de ficar em casa, remoendo um passado que não vai voltar – falei tentando me explicar.
- Eu sei, mas tem tantas formas de você fazer isso. Pode encontrar um cara legal de verdade, que te valorize.
- Péssima ideia! O negócio agora é a putaria mesmo.
- Julia! Menos, por favor – falei morrendo de vergonha de alguém no restaurante ter escutado.
- Mas é verdade! A precisa aproveitar o lado bom da vida, sem comprometimentos e expectativas. Transa com um, salva o contato, e de preferência, nunca mais o veja de novo. A não ser que o cara seja avassalador e abale suas estruturas em uma noite.
- Você é louca. , não dê ouvidos a ela, por favor, não é assim que você vai superar nada.
- Como você pode ter tanta certeza? De repente, é exatamente disso que eu preciso, e eu só vou saber se tentar.
- Eu só não acredito que o quis entrar nessa. – Julia falou rindo.
- Por que não?
- Fala sério amiga... tudo bem que vocês ainda estão apertando essa tecla de "apenas amizade", mas daí ele querer te ajudar a arranjar suas transas… isso já é demais.
- "Querer" não é a palavra. Ele é meu amigo e se importa comigo. Ficou preocupado de eu acabar com um maluco.
- Sei… tô achando que isso é uma desculpa pra ele empatar suas fodas.
- Claro que não! Ele vai ser só uma "rede de segurança" para caso dê merda.
- Pode ser – Helena aceitou sem muita convicção - Mas eu também acho que ele preferiria ser o cara que vai pra cama com você, ao invés de alguém que vai ficar olhando a magia acontecer.
- Vocês viajam com essas coisas – falei revirando os olhos – Pela milésima vez, nós somos só amigos. Não rola nada.
- Não rola, mas poderia rolar – Helena falou.
- Não poderia não... eu adoro o , de verdade. Ele foi uma surpresa boa que a vida me trouxe, e que eu estava precisando, mas a gente é muito diferente.
- Deixa de ser dramática , você tem dois exemplos na sua frente de que isso poderia dar certo. Eu e o Ash com a parte boa e divertida, e a Helena e o Michael, com a parte chata e monótona, mas que os fazem felizes.
- Cala a boca! Não tem nada de chato e monótono no nosso namoro.
- Não é disso que eu estou falando – tentei continuar – Pelo menos não só disso. Ele tem esse lado famoso, com várias pessoas se metendo na vida dele e as fãs malucas apaixonadas.
- Você sabe que as fãs da banda te adoram, né? – Julia falou pegando o celular.
- Elas nem me conhecem.
- Não são amigas íntimas, mas conhecem algumas coisas – Helena falou olhando também o celular. - Os meninos postam stories e vídeos no Instagram e no Twitter.
- Tá brincando, né?
- Te acham uma gata, divertida, pedem até para você aparecer mais vezes e interagir com elas – Julia continuou me mostrando alguns comentários e eu estava de queixo caído vendo aquilo - , não tem nada demais. Inclusive, a maioria quer que você e o fiquem juntos, acham que vocês combinam.
- Somos só...
- Amigos. A gente sabe. Já falou duzentas vezes. – Julia já estava sem paciência – mas pra alguém que parece tão convencida de que o sexo casual é a solução dos seus problemas e de que não vai se envolver romanticamente com ninguém, você está relutante demais em dar uma chance pro . Por que será?
Eu não soube responder. Quer dizer, eu sabia que a questão dos tabloides e das fofocas era um fator importante, mas eu já estava me acostumando com isso. Vez ou outra tiravam fotos nossas em bares ou restaurantes ou até de mim sozinha. Falaram uma vez que queriam postar o meu "look do dia"... eu estava de short jeans e chinelo. A questão maior era que, em muito pouco tempo, o tinha se tornado uma pessoa muito importante pra mim, que eu não estava disposta a perder. O porquê de eu achar que o perderia se alguma coisa rolasse entre a gente, aí já era outra questão e, pra isso, eu não fazia a ideia da resposta.


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O ramo da moda, com novas tendências e lançamentos era definitivamente mais complicado e estressante do que eu pensava. Nunca me liguei muito nessas coisas, o máximo que fazia era ver alguém usando alguma roupa ou um estilo com que eu me identificasse, e tentava aplicar isso na minha vida, incrementar minhas roupas de trabalho e sair com acessórios ou qualquer coisa que colocasse a minha personalidade nelas, mas a indústria da moda era infinitamente maior do que isso. Às vezes parece ser só glamour, modelos lindas, muito arrumadas e coleções incríveis, mas por trás dos panos era muito diferente, incluindo o ramo de joias.
Stella estava completamente desesperada pro lançamento da sua nova coleção. Esse era o último passo pra ela começar a desenvolver o trabalho que tinha sido chamada pra fazer com a Calvin Klein, e tinha finalmente chegado o dia, mas o estresse estava tomando conta de tudo. Eu não conseguia nem entender direito, mas ela pediu para mim, Julia e Helena, irmos para o salão onde aconteceria o lançamento.
- Obrigada por virem – ela estava destruída, claramente com os nervos à flor da pele. – Seguinte, eu não queria me estressar com os detalhes, contratei uma pessoa pra cuidar das modelos e já deu tudo errado. O infeliz chamou menos pessoas do que eu precisava, e agora está muito em cima da hora e eu não tenho mais um centavo pra pagar de cachê. – falou respirando fundo para não pirar – Então, vocês topam?
- Topamos o quê?
- Serem minhas modelos - falou como se fosse óbvio.
- O que?!
- Você está doida? – Julia perguntou expressando o que nós três estávamos pensando.
- Gente, por favor...
- Stella, olha bem pra mim – Julia parou na sua frente - eu não sou como essas modelos magrelas.
- Nenhuma de nós é... – Helena completou
- Eu não preciso de modelos magras, preciso de mulheres maravilhosas e que queiram me ajudar para eu não infartar antes de lançar minha primeira coleção.
- Amiga, eu até gostaria, mas não sou modelo, não sei desfilar – sem contar que eu morria de vergonha de ser o centro das atenções. Subir em uma passarela para várias pessoas ficarem me olhando, estava fora de cogitação.
- Não, calma, eu não expliquei direito – pegou um copo d'água em cima de um balcão e continuou. – Eu só preciso que vocês usem algumas peças durante a festa. Algumas vão ficar expostas nesses altares, mas a ideia era que outras fossem usadas pra ser uma forma mais dinâmica de integrar a coleção à festa.
- É só usar as joias? - perguntei
- As joias e as roupas que escolhemos para cada uma. Vocês vão ser fotografadas, e vão poder dizer que usaram uma original Stella Valença.
- Muito chique – falei sorrindo
- Nesse caso, eu aceito – Helena respondeu – Vai ser uma honra.
- Eu topo também, estava com problemas de arranjar o que vestir, é a solução perfeita – Julia não ia dispensar a oportunidade de chamar mais essa atenção.
- Eu aceito também – quem era eu pra negar ajuda a uma amiga.
- Só uma pergunta... – Julia começou – se durante a festa alguém encontrar um cara gostoso e depois acabar rasgando a roupa, tem problema? – ela estava de sacanagem com a minha cara fazendo as outras rirem.
- Nenhum problema, inclusive, eu apoio. Só não pode estragar as minhas peças – respondeu dando uma piscadinha pra mim, como aprovação. – O Calum me contou, da ideia que o Ashton te deu.
- Ah que incrível! Está todo mundo sabendo... será que eu deveria criar um evento no Facebook?
- Não seria uma má ideia – Julia falou sarcástica – vai que você dá sorte.
- Não tem graça. Era pra ser uma coisa normal, mas vai virar um show. Vou acabar desistindo.
- Não mesmo!
- Ju, eu não quero pagar esse mico com todo mundo me olhando.
- Que mico, ? – Stella perguntou – Você está solteira, tem todo o direito de sair com quem quiser. Experimentar é bom, faz bem pro nosso ego.
- Não se eu levar toco atrás de toco.
- Até parece... – Helena revirou os olhos. Acho que eu peguei essa mania dela.
- , você é gata pra caralho e está atrás de sexo. Que homem vai te dar um toco? – Stella perguntou – Mais provável você sair distribuindo toco.
- Ela ou o , né? Só quero ver quem ele vai aprovar.


A Stella estava uma pilha de nervos. Mandou uma mala de roupas pra casa do Ashton pra gente escolher e garantir que iríamos bem vestidos, e olha que ela sempre elogiou o nosso estilo, mas dessa vez não estava confiando tanto no nosso bom gosto.
- Sério que a gente precisa ir com essas? – Ashton já tinha experimentado umas cinco combinações diferentes, mas nada parecia agradar o gosto sofisticado do meu baterista.
- Eu gostei! – Michael ainda estava indeciso, mas no caso dele era por gostar demais de tudo.
- Não reclama, as peças são maneiras.
- E você não é a estrela da festa – Calum também estava nervoso, acho que acabou contraindo o estresse da namorada.
- Eu sempre sou a estrela da festa – falou vestindo um blazer preto com botões estampados.
- Esse ficou maneiro – falei tentando agilizar a situação. Ainda tínhamos tempo, mas Ash era sempre o último a ficar pronto, então era melhor começar a se arrumar logo.
- Você vai como? – Perguntou e foi mexer nas roupas que eu tinha separado – Ah, eu quero essa camisa!
- Quer porra nenhuma! Eu escolhi antes, já casou com todo o resto, não vou mexer só pra você ficar mais duas horas sem saber com o que vai usar.
- Foda-se. Vai essa mesma – escolheu uma blusa estampada de seda com uma calça preta de couro, mas não estava completamente satisfeito – Não, acho que essa calça é melhor. É isso... vou entrar no banho. Vocês sabem onde tem toalhas, então se virem.
Cada um entrou em um quarto de hóspedes para começar a se arrumar. Eu nunca entendi por que Ashton tinha comprado uma casa tão grande. Eram cinco quartos, uma sala gigantesca, uma área externa digna de filme, e ele morava sozinho e passava a maior parte do tempo fora. Tudo bem que as festas ali eram sensacionais, cada cantinho da casa era sempre muito bem utilizado. Eu achava ótimo, mas manter isso arrumado devia ser um inferno, o que era óbvio, já que ele optava por deixar tudo uma bagunça.
Usei bem o meu tempo pra me arrumar. Os eventos que nós íamos, apesar de serem importantes, normalmente eram mais casuais e descontraídos. Não era todo dia que íamos a lugares chiques que demandavam traje passeio completo, com pessoas finas, champanhe original e uísques de mil anos. Então, pra honrar a dor de cabeça da Stella e consequentemente a do Calum, me esforcei. Fiz a barba com todo o cuidado, passei perfume, escolhi acessórios que complementassem bem a minha roupa, penteei o cabelo, e me vesti tomando cuidado para não amassar nada.
- Olha ele! – Michael gritou quando me viu descendo as escadas.
- Você também não está nada mal, meu caro. Nenhum de vocês dois, aliás. – falei chamando a atenção do Calum que não desgrudava do celular, provavelmente para garantir que a namorada ainda não tinha surtado.
- Está bonitão mesmo – falou e eu dei uma voltinha debochando da situação – Demorou tanto que achei que o Ashton desceria primeiro.
- Eu não poderia fazer isso e tirar a glória dele de ser o último a ficar pronto.
- Ashton! Desce logo, já está todo mundo aqui – Calum gritou da base da escada, mas não recebeu resposta.
- Como ela tá, Calum?
- Muito nervosa. Nem dormiu de ontem pra hoje.
- Imagino... isso é tipo o lançamento do primeiro álbum dela né, mas vai dar tudo certo.
- Tomara. Pelo menos as meninas estão com ela, impedindo que ela passe mal.
- As meninas... , Julia e Helena?
- Pois é, ela contratou uma maquiadora e um cabeleireiro, e eles iam aproveitar pra arrumar as três também.
- Ótimo – Ashton falou, descendo – Assim a gente garante que o não vai ter nenhum problema pra conseguir uma transa pra – ele sabia que eu não estava feliz com aquele plano idiota, e ficava repetindo só pra implicar.
- Cala a boca cara, por favor.
- Ué, você que falou que não rolava nada entre vocês.
- E por isso você foi dar essa ideia genial dela ficar com estranhos?!
- Eu nunca falei estranhos… só disse que ela precisava aproveitar a vida de solteira. É um desperdício uma gata daquelas não ficar com ninguém.
- Não é porque você fica com várias pessoas aleatórias, que ela tem que ficar também!
- Acho que você está se irritando mais do que deveria com essa história – Michael colocou a mão no meu ombro.
- Eu não estou irritado.
- Não? Por um segundo achei que você ia me dar um soco – Ashton riu e eu só me afastei.
- Eu nunca faria uma coisa dessas... imagina se eu machucasse a mão, como iria tocar nos shows?
- Você garantiu que não rolava nada além de amizade.
- Não rola mesmo!
- Então qual é o problema dela sair com outros caras? A ideia é ser só por uma noite, mas vai que ela conhece alguém legal... – Calum voltou a atenção para conversa, quando achou que o clima tinha pesado.
- Vai que ela conhece alguém legal e o cara faz a mesma coisa que o ex dela fez?
- Se isso acontecer, não tem nada que você possa fazer – Calum me entregou um copo que eu achei que era água... era vodca.
- Puta que pariu! Pra que isso? – quase cuspi com aquilo rasgando a minha garganta sem aviso prévio.
- Parece que você também vai precisar de alguma coisa pra te ajudar a se manter calmo essa noite.


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Mesmo com toda a ansiedade e pressa de Calum para que fossemos os primeiros a chegar na festa, acabamos enrolando para sair de casa. Ele estava uma pilha de nervos querendo chegar o mais rápido possível para apoiar a Stella. Não chegamos exatamente atrasados, a festa havia começado há menos de uma hora, mas para ele o fim do mundo. O lugar já estava cheio e Stella já estava rodeada de fotógrafos e pessoas que queriam falar com a dona da coleção.
O salão era lindo. Muito bem decorado, com efeitos de iluminação, música boa e bebidas aos montes. Isso sem falar na coleção de joias. Eu não entendia absolutamente nada sobre pedras preciosas ou bijuterias, mas tudo parecia muito impressionante. As peças eram lindas e dava para perceber o cuidado com os detalhes que ela tinha tomado.
- Vocês demoraram – Helena falou se aproximou de Michael para lhe dar um beijo.
- Eu falei! – Calum respondeu mal-humorado
- Relaxa, ainda tem muito tempo de festa. - Ashton disse querendo acalmar nosso amigo,
- Cadê a Stella? - perguntou afobado sem se importar com Ash.
- Já a perdi, está todo mundo atrás dela. - Helena responder e Calum logo saiu à procura da namorada.
- Você está linda, amor - Michael falou dando um beijo no rosto de Lena. Ela estava mesmo, com um vestido azul marinho e um coque que permitia mostrar bem os brincos da coleção. Todas as modelos que usavam as joias estavam com cabelo preso e roupas escuras, devia ser uma estratégia para destacá-las.
- Está uma gata mesmo, Helena. - Ashton também a elogiou - E cadê as suas amigas? – perguntou me olhando de lado. Se continuasse com essas coisas, até o final da noite ele iria levar um soco.
- A Julia está posando de modelo ali – apontou para um canto cheio de gente, mas não dava para vê-la direito – A foi pegar alguma coisa pra beber e acabou ficando conversando com um carinha – falou e virou pro bar, pra ver se ela ainda estava ali. Estava. Ela e o carinha, mas estava tão linda que nem consegui prestar atenção em com quem ela conversava. Fizeram uma escolha muito feliz em lhe dar um terninho feminino e um colar que enfatizava o decote... e que decote.
Demorou um tempo até ela perceber que eu estava a olhando, mas o sorriso que eu recebi quando isso aconteceu, foi de aquecer o coração e revirar o estômago. Ela logo pediu licença para quem estava falando com ela e veio andando em minha direção com aquele sorriso que estava me deixando tão nervoso. Aquele momento parecia acontecer em câmera lenta, e eu sabia que aquilo estava errado. Amigos, lembra? Apenas amigos, óbvio, e não queria nada além. Mesmo assim, ali estava eu, quase babando.
- Até que enfim, vocês chegaram! – veio me dar um abraço – achei que tinham desistido.
- O Ashton queria fazer uma entrada triunfal.
- Não posso desperdiçar tudo isso sendo o primeiro a chegar.
- Claro que não! Você está lindo, Ash – falou.
- Pelo menos alguém com bom gosto e que consegue me apreciar.
- Da próxima vez, pedimos para a Stella colocar umas esmeraldas em uma melancia, pra você usar no pescoço - Michael brincou fazendo-o revirar os olhos - assim você garante que não vai passar despercebido.
- Coisa linda, você se superou dessa vez – sussurrei pra – gata para caralho.
- Você também se arrumou direitinho – respondeu enlaçando o braço ao meu.
- Pois é... nem eu tô me reconhecendo. – As roupas eram muito bonitas e até que confortáveis, mas bem diferentes de qualquer coisa que eu costumava usar.
- A Ju ainda está em exposição?
- Parece que sim, mas ela está adorando – Helena olhou pro grupo que já estava com um pouco menos de gente, e dava pra ver a alegria da Julia em estar ali, sendo o centro das atenções.
- Nós duas também deveríamos estar andando pela festa né?
- Por quê? – Michael perguntou decepcionado em ter que se afastar dela tão rápido.
- A ideia é que as pessoas vejam as peças, e isso não vai acontecer se ficarmos paradas aqui – Helena deu um selinho em Michael e pegou a mão de para tirá-la da roda onde estávamos, mas logo foram paradas.
- Que linda – um homem se colocou na frente da , impedindo sua passagem –, a joia.
- Obrigada – ela sorriu sem graça e tentou dar um passo para o lado para passar, mas novamente foi impedida.
- A modelo também – completou lhe entregando uma taça de espumante – Sam – falou pegando em sua mão livre e pousando um beijo ali. Ele parou no século XVIII? Quem fazia isso atualmente?
- – respondeu com um sorriso discreto.
- Amiga, eu vou ali e já volto – Helena voltou a se juntar a nós claramente para deixá-los sozinhos.
- Eu falei para chamar a sua atenção, mas é verdade – se aproximou ainda mais dela – Você é linda. A joia também é, mas nem se compara a você.
- Nossa, obri...
- Com licença – interrompi e pude ouvir os meus amigos tentando segurar a risada, eu devia estar fazendo um papel muito ridículo mesmo – Coisa linda, eu preciso falar com você.
- Agora?
- Exatamente.
- Desculpa, você é namorado dela? – ele perguntou confuso.
- Não! – respondeu rapidamente, trocando o olhar de mim para ele.
- Vem aqui rapidinho, por favor – pedi de novo.
- Cara, se você não é nada dela, dá licença pra gente, por favor. Estamos conversando.
- Eu sou amigo dela e já disse que agora sou eu quem precisa conversar com ela.
- Tudo bem – ela falou se colocando na minha frente, e me puxando pela mão – O que aconteceu? – perguntou nervosa quando já estávamos afastados dele.
- Nada...
- Como assim "nada"? Você acabou de me tirar de um cara gato pra caralho dizendo que precisava conversar comigo.
- Nem achei ele tão bonito assim.
- !
- Eu não gostei dele… senti uma vibe estranha.
- Você tá brincando, né?
- Você falou que se eu sentisse que o cara não presta, e você não percebesse, eu poderia interceder. Aquele cara não presta.
- A gente mal conversou. Como você conseguiu concluir isso tão rápido?!
- Não gostei da energia dele.
- Energia?
- Exatamente. Tá cheio de opção aqui, você com certeza consegue coisa melhor.
- , é para ser uma coisa simples. Não complica, por favor. Deixa pelo menos eu conseguir conversar com o cara, antes de você tirar qualquer conclusão.
- Não vou, juro. Só quero ter certeza de que você vai ficar com alguém bom - justifiquei e ele revirou os olhos.
- To vendo que vai ser uma noite longa…
Ela não estava errada, e se pra ela estava ruim, pra mim estava pior. Os caras não deram uma trégua, pareciam que nunca tinham visto uma mulher na vida. O decote e a esmeralda pendurada entre seus seios não estavam me ajudando em nada. Mas caralho, tinham várias ali, será que não dava pra se interessar por outra? Qualquer uma.
Eu fiz o que a me pediu, esperei mais tempo pra ver se o cara era realmente bom o suficiente, mas nenhum era, e já que ela me deu a missão de arranjar alguém que valesse a pena ela levar pra casa, eu não iria deixar que ela se contentasse com qualquer um. Depois da quinta ou sexta vez que eu a afastei de uma conversa, dava para perceber que ela já estava puta e nem se dava mais ao trabalho de resistir e me convencer de deixá-la escolher sozinha. Mas claramente isso não era um problema, em menos de vinte minutos já tinha outro a cercando, e eu já estava ficando sem respostas para explicar por que eles não eram adequados.
- Você sabe que uma hora vai ter que parar com isso né? – Ashton se aproximou de mim enquanto eu observava sendo parada pelo milésimo homem de terno.
- Como assim?
- Você falou que ia ajudar, mas só está a atrapalhando – Julia apareceu para pegar uma água no canto do bar onde estávamos apoiados – Se você gosta dela, fala, mas para de se fazer de sonso – falou se afastando novamente.
- Ela está certa – Ash falou a observando desfilar pelo salão.
- Não é nada disso, é só que...
- É que você não quer ver a saindo daqui com outro cara. – falou olhando na direção dela – Só que você tem que se decidir. Ou você assume seu papel de amigo e para de tirar ela de perto de cada cara por quem ela se interessa, ou você aceita logo que essa história de "só amizade" não está funcionando e diz a verdade pra ela.
- Quem disse que ela se interessa por todos os caras que falam com ela?
- Ninguém disse – revirou os olhos sem paciência – mas você também não deixa que isso aconteça, e se ela não estivesse interessada, sairia de perto sozinha, não precisaria esperar o seu resgate.
- Eu só não quero que ela quebre a cara.
- Tem certeza de que é só isso? – Perguntou me encarando. A essa altura eu já não tinha certeza de nada. Várias mulheres bonitas na festa, e eu passei a noite inteira garantindo que a não ficaria com ninguém. Que merda eu estava fazendo da minha vida?!
- Não faço ideia.
- Então pensa bem cara. Eu não tenho como te dizer nada além disso. Só você sabe o tamanho do que está sentindo, e se é mais importante do que a sua amizade com ela – falou se levantando e me deixando sozinho com um nó de pensamentos.
Eu podia não saber o que estava sentindo, mas nada era mais importante do que a nossa amizade. Eu estava desconfortável com toda aquela situação de passar a noite inteira vendo caras diferentes correndo atrás da . Fiquei irritado de perceber como ela gostava da atenção deles. Me senti traído quando vi que ela preferia conversar com homens aleatórios, a ficar comigo. E então percebi que estava sendo ridículo e, no fim das contas, ela estava no direito dela, e eu virei o próprio babaca que disse a noite inteira que queria afastar dela.
- Oi – se sentou na minha frente, fazendo uma careta quando bebeu um gole do líquido que tinha no meu copo, e percebeu que era uísque.
- Esse era muito chato?
- Não..., mas resolvi te poupar de ir lá e dizer que ele é um idiota – ela estava claramente cansada, só não sabia dizer se era de mim ou de passar a noite andando de um lado pro outro pra expor as joias da Stella.
- Ele pareceu legal – falei sem nem saber se era verdade, mal tinha olhado pra cara dele – você devia dar uma chance.
- Sério? – se endireitou no banco alto e se virou para olhar o rapaz com quem estava conversando.
- Aham.
- Você acha que eu deveria voltar lá? – perguntou se virando pra mim.
- A não ser que você tenha mudado de ideia sobre dormir comigo – falei forçando uma risada.
- Bobo... – ela então se levantou e começou a se afastar.
- !
- Oi? – ela se virou pra mim e estava com um sorriso no rosto que eu não teria coragem de estragar de novo.
- Nada não... – pensei por uns segundos - eu acho que vou pra casa.
- Mas já?
- Estou cansado, só quero dormir.
- Aah, tudo bem – falou me dando um beijo no rosto e um abraço apertado – Obrigada por tudo, você é incrível.
- Boa sorte – falei sorrindo mais uma vez – Qualquer coisa me liga.
Meus amigos estavam certos, eu não tinha o direito de ficar a atrapalhando. Não podia cobrar nada dela, muito menos arriscar nossa amizade por causa de uma dúvida. O álcool estava misturando tudo, eu estava misturando tudo. Era melhor enterrar seja lá o que fosse que eu estava sentindo, e fingir que nunca nem percebi que estava ali. Mas para isso, eu tinha que ir embora o mais rápido possível.
A última coisa que eu precisava era vê-la saindo da festa acompanhada.

Capítulo 5

5


Eu já tinha me arrependido de aceitar que Luke me ajudasse a arranjar alguém para passar a noite comigo. Não sabia dizer qual eram os critérios que ele estava usando para decidir qualquer coisa, mas ninguém nunca era bom o suficiente. Chegou um momento que eu comecei a pensar que talvez ele não quisesse que eu transasse com outro cara, talvez a Helena estivesse certa quando falou que ele preferiria ser o cara a dormir comigo. Apesar de não ser nenhuma tragédia pensar que um cara legal, divertido e gostoso pra caralho, quer dormir com você, não era o ideal considerando as possíveis complicações que viriam junto ao corpinho bonito de Luke. Cheguei a ir me sentar com ele para ver se talvez ele falaria alguma coisa à respeito, mas contra todas as minhas expectativas, ele achou que o cara com quem eu estava conversando antes, era uma boa pessoa e disse que eu deveria investir. Foi um misto de frustração e alívio, mas decidi que era melhor assim e apostei que aquele me daria o orgasmo que eu tanto procurava.
O nome dele era Thomas e trabalhava em uma grande empresa de engenharia civil da Califórnia. Conversamos um pouco no final da festa, e o resto aconteceu sem que eu precisasse me esforçar muito.
Eu podia não ser a personificação da experiência quando se tratava de sexo casual, mas sabia aproveitar tanto quanto qualquer uma. Achei melhor irmos para o apartamento dele para garantir que não precisaria expulsá-lo do meu pela manhã, caso ele resolvesse que devíamos nos conhecer melhor.
Confesso que no início foi um pouco estranho toda a situação de entrar na casa de um cara que eu tinha acabado de conhecer. Não sabia se eu já chegava tirando a roupa e partindo pra um beijão, ou se ainda iríamos ficar conversando e beber alguma coisa pra quebrar o gelo. Ele não teve essa dúvida e antes mesmo de conseguir acender as luzes, já estava beijando o meu pescoço, mordiscando minha orelha, e explorando cada pedaço do meu corpo. Não me importei nem um pouco, retribui cada gesto, e nos entendemos muito bem sem precisar usar as palavras.
Fazia um tempo que eu não dava pra alguém, talvez uns três meses, mas acredito que me saí muito bem, e ele também não deixou a desejar em nenhum aspecto. No final eu estava exausta, toda suada, descabelada mas pude dormir saciada.
Acordei, não tão feliz assim, com um apito repetitivo de um despertador que não era meu, mas quando abri os olhos, seu dono não estava ali, então tomei a liberdade de desligá-lo. Suas janelas eram cobertas por cortinas "blackout", então o quarto ainda estava bastante escuro, mas dava pra ter uma noção de como era pelas pequenas frestas de luz que conseguiam entrar. Nada muito diferente do que o senso-comum espera de um quarto de homem solteiro de quase trinta anos. Coloquei logo a minha roupa que agora, à luz do dia, parecia bem menos apropriada, e saí para procurar e me despedir do meu anfitrião. O encontrei na cozinha, de cueca boxer, preparando o meu café da manhã.
- Bom dia – se virou pra mim, colocando ovos mexidos em um prato, e eu respondi apenas com um sorriso. Aquilo não estava nos meus planos.
- Obrigada por tudo, mas acho que já vou indo – deu até pena de negar o bolo e os sucos que tinha preparado, mas ele claramente estava querendo ser romântico e isso era exatamente o que eu queria evitar
- Mas já? Eu fiz tudo isso pra você!
- Que amor..., mas não precisava, mesmo, eu tenho várias coisas pra fazer, não posso me atrasar.
- Mas hoje é domingo – primeira bola fora.
- Sim, claro. É que é o único dia que eu tenho pra arrumar a minha casa e preciso colocar alguns trabalhos em dia – tentei inventar a melhor desculpa, pra não precisar falar a verdade.
- Então me passa o seu número, podemos combinar de sair depois – se aproximou me envolvendo pela cintura. Aparentemente o Luke só vetou os babacas, os românticos, que desejavam mais do que uma foda, ele deixou passar.
- Thomas, eu vou ser bem sincera com você – me afastei dos seus braços musculosos e respirei fundo – Eu não estou nem um pouco interessada em ter qualquer tipo de relacionamento, com ninguém. Foi uma noite ótima e tal, mas é melhor deixar as coisas como estão, sem o romantismo todo, ou trocar contatos e ficar esperando uma ligação no dia seguinte.
- Nossa, você é bem direta – sorriu sem graça
- Me desculpe, de verdade, a minha intenção nunca foi criar qualquer expectativa, achei que você tinha a mesma ideia que eu... apenas uma transa.
- Claro, por que o cara nunca pode querer um relacionamento sério, né? Tem que ser só uma trepada e depois parte pra próxima...
- Claro que não! Não foi isso que eu quis dizer – tentei me justificar – Olha, eu acho ótimo você querer encontrar alguém especial, se comprometer e namorar, casar, sei lá mais o que, mas não é pra mim. Eu acabei de sair desse relacionamento com o meu "alguém especial" e não estou mais nessa fase, entende?
- Entendo. Fico decepcionado por que você parece ser uma pessoa muito incrível, mas se você não quer, não posso fazer nada.
- Eu sinto muito, mesmo – me aproximei lhe dando um abraço, depois um selinho de despedida, e fui embora.
Quem diria que eu seria a pessoa a quebrar um coração? Não quebrar exatamente, mas talvez deixar um arranhão, um leve amassado... Só sei que eu fiz o que tinha que fazer e não iria me martirizar por isso; fui honesta e o deixei livre pra montar no seu cavalo branco e fazer ovos mexidos para a pessoa que muito provavelmente, um dia realmente destruiria seu coração em mil e um pedacinhos.
Eu passei por isso, não curti, e agora estava decidida a não passar de novo. Para isso, noites como essa eram ideais e se dependesse de mim aconteceriam mais vezes, mas provavelmente seria melhor dispensar o Luke da sua função de cupido.
Falando nele, Thomas morava perto do apartamento dele, acho que uns quinze minutos caminhando, talvez vinte considerando o tamanho do salto que eu estava usando, mas achei que seria uma boa ideia passar lá. Já eram quase onze da manhã e ele não foi embora tão tarde da festa, então já deveria estar acordado. Fui andando devagar, liguei pra saber se tinha problema, mas ele não me atendeu.
O porteiro já me conhecia e me deixou entrar sem fazer perguntas. Subi, toquei a campainha e fiquei esperando um tempo. Talvez ele estivesse dormindo mesmo, mas quando estava quase indo embora, abriram a porta.
Não foi ele.
Esse é o grande problema da surpresa, é uma via de mão dupla.
- Bom dia – uma morena de cabelos compridos bocejou da porta. Ela vestia a camisa que estava em Luke ontem.
- Oi – não sabia o que fazer, definitivamente não era quem eu estava esperando encontrar – desculpa, eu não devia ter vindo sem avisar.
- Quem é? – ouvi a voz de Luke se aproximando quando eu já estava indo embora – , o que você está fazendo aqui?
- Nada, estava por perto e resolvi passar aqui, mas já me arrependi.
- Da licença, só um minutinho – ele falou pra "amiga" dele, e saiu para o corredor onde eu estava – Coisa linda, está tudo bem?
- Tudo ótimo... melhor impossível.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada – apertei o botão do elevador de novo, só pra garantir que ele chegaria.
- Você está chateada comigo? – minha carona finalmente chegou, mas ele segurou a porta impedindo que fechasse.
- Tenho algum motivo pra isso?
- Não que eu saiba...
- Então pronto.
- Isso é por causa da Siena? Você está com ciúmes? – perguntou e um sorrisinho ridículo surgiu no seu rosto, e consequentemente surgiu em mim uma vontade de dar um soco nele.
- Deixa de ser idiota, por favor, eu não tenho motivo pra isso.
- Não mesmo! Você não passou a noite na casa de sei lá quem? – a roupa de ontem me entregava.
- Passei sim, e foi incrível, caso você esteja curioso.
- Não estou, mas bom pra você...
- Obrigada – falei contorcendo a língua dentro da boca, pra não continuar aquela discussão sem fundamento – Dá pra largar a porta agora?
- Sim senhora. – ai que ódio!


A festa tinha sido longa e cansativa. Passei a noite inteira descartando cada homem que se aproximava da e, no final, não adiantou de nada. Acabei desistindo de ser empata foda e falei pra ela ficar com o último cara com quem estava conversando, mas quando eu estava quase na porta, parei pra pensar no desperdício que era estar em uma festa cheia de mulheres maravilhosas e sair de mãos abanando por causa de uma que, até aquela hora, eu tinha certeza que não queria nada comigo.
Dei mais uma volta pelo salão e encontrei Siena, uma modelo de vinte e dois anos que estava passando a semana na cidade para a inauguração de uma loja, de nada mais nada menos, do que da Victoria's Secret. Pareciam forças divinas me recompensando pela noite de merda que eu tive.
Obviamente eu não imaginava que acordaria no dia seguinte com a na minha porta, dando de cara com uma Siena usando minha camisa do dia anterior, mas aparentemente não foi tão ruim assim. Pelo menos, não pra mim.
- Me desculpa por isso – falei entrando de novo no apartamento.
- Relaxa... ex-namorada?
- Quem me dera, – brinquei – quer dizer, é uma amiga.
- Linda, – sentou no balcão da cozinha e mordeu uma maçã que estava dando sopa por ali – e não pareceu ter ficado muito feliz quando me viu.
- É, né? – não fui só eu que percebi – mas não importa, é só amizade mesmo.
- Sei... – falou pulando do balcão e foi em direção ao quarto – Bonito, obrigada por tudo, mas eu tenho que ir. – Foi bem estranho ouvir outra pessoa me chamando daquele jeito. "Gato" tudo bem, mas "bonito" virou quase uma exclusividade da . Mas ignorei a estranheza, adorava quando elas eram tão práticas quanto eu e iam embora rápido.
O resto do meu dia se resumiu a ficar jogado no sofá, pulando de canal em canal até achar algo que eu quisesse assistir. Também tentei continuar compondo alguma coisa, mas não deu muito certo. Na última epifania de criatividade que tive, parece que gastei todas as minhas ideias e agora demorava pra elas voltarem.
Mandei uma mensagem pra pra saber se estava tudo bem, e se já tinha mudado de ideia sobre conversar comigo, mas ela não respondeu. Eu estava achando graça na situação, ela jurava de pé junto que nada rolaria entre a gente, eu mesmo já tinha decorado e aceitado, mas bastou me ver com outra pessoa que ficou toda irritada. Não pode ter sido coincidência, mas eu não queria viajar sem falar com ela antes.
No dia seguinte a banda teria que ir pra Nova York gravar o programa do Jimmy Kimmel. Aproveitando a viagem, tínhamos agendado uma sessão de fotos para divulgação do novo single com um fotógrafo foda, além de encontros com produtores e uma galera da música que iria nos ajudar a fazer o álbum andar e terminá-lo, mas pra isso teríamos que ficar lá até sexta-feira.
Meu celular tocou e por alguns segundos eu tive a esperança que fosse ela, mas era o Ashton... como sempre
Fala
Tá fazendo o que?
To em casa e quero continuar aqui...
Ah tranquilo, eu to com a Julia, estamos indo pra casa dela. Ia perguntar se você queria ir, mas tudo bem...
Eu vou!
Você acabou de falar que...
Esquece, eu vou
Ta bom
– falou rindo – quer carona? Passo aí em dez minutos
Pode ser

Chegamos no apartamento das meninas e Michael já estava lá, provavelmente tinha dormido com Helena, já que a Julia foi dormir na casa do Ashton. Mas não estava.
- Ela falou que não vem – Helena percebeu que eu esperava vê-la ali –, tá trabalhando.
- Eu vou falar com ela e já volto.
- Volta sim, com certeza – Ashton debochou. Talvez ele estivesse certo, o que eu ficaria fazendo ali com os dois casais? Atravessei o corredor e nem deu tempo de tocar a campainha.
- O que você está fazendo aqui? – me olhou surpresa, mas não mais do que eu vendo um homem deixando seu apartamento.
- Eu vim falar com você, mas parece que cheguei em péssima hora.
- Imagina, eu já estava de saída – ele deu um tapinha no meu ombro e um beijo no rosto dela e saiu descendo as escadas.
- Você é rápida, né? – entrei sem esperar o convite.
- Do que você está falando?
- Ontem saiu com um, hoje já está com outro...
- Oi?!
- Ele não é novo demais pra você, não? Você pediu a identidade? Essas coisas dão cadeia. – conclui e ela teve uma crise de riso.
- Quem está sentindo ciúmes agora, hein?
- Então você admite que sentiu ciúmes mais cedo?
- Claro que não, mas você nem precisa admitir nada.
- É muito convencida mesmo...
- Ele é o Jonny, meu estagiário – respondeu tentando conter a risada, sem muito sucesso.
- Estagiário?! Ele é uma criança! Suas chefes sabem disso?
- Deixa de ser bobo, ele só veio trazer umas pastas que eu tinha esquecido no escritório, e que preciso revisar para amanhã – segurou as pastas como prova e eu me senti bem ridículo quando me dei conta do papelão que estava fazendo.
- Aah, foi mal.
- Você precisa aprender a se controlar – falou pegando água na geladeira e bebendo direto da garrafa.
- Só eu, né? – tomei a garrafa da sua mão e dei um gole – Coisa linda, pensa que eu já esqueci do showzinho que você deu hoje?
- Que showzinho garoto, tá maluco?
- Não senhora, ficou se mordendo toda quando viu a Siena na minha porta
- Óbvio que não – riu tentando disfarçar o desconforto – eu só não sabia que você estava acompanhado, e resolvi ir embora pra não atrapalhar.
- Para de besteira , - me aproximei, fechando-a entre meus braços e o balcão da sua cozinha – Admite que você ficou com ciúmes, eu admito também... não gostei de pensar que você estava com esse garoto, da mesma forma que não queria que você tivesse saído da festa com ninguém ontem.
- Sabia! – gritou me empurrando para se afastar – Eu sabia que você não estava me ajudando coisíssima nenhuma, só estava tentando evitar que eu ficasse com alguém.
- Sabia, mas não fez nada. Podia muito bem ter ligado o "foda-se" pra minha opinião e ter saído de lá com o primeiro que passou, mas não fez.
- Não fiz por respeito à você que disse que queria me ajudar.
- Fala sério , conta outra. Você queria que eu vetasse todos os caras mesmo e no final, eu seria sua única opção.
- Depois eu é que sou convencida... olha o que você está falando.
- Por que é tão difícil pra você admitir que também já cansou dessa história de "somos só amigos".
- Nós somos só amigos!
- Eu sei disso, mas podia muito bem ser diferente...
- Luke, presta atenção, – falou sério e cheguei a ficar tenso – eu não vou pra cama com você, só por que você não aguenta ouvir um "não", acha sempre que estão fazendo charme.
- Não tem nada a ver, não é essa a questão
- Ah não? Então qual é a questão? – perguntou cruzando os braços me desafiando.
- A questão, amor da minha vida – debochei tentando aliviar a tensão – é que você está procurando caras pra fazerem sexo casual, e eu estou aqui sempre à disposição, mas você sempre acha que alguma coisa vai dar errado.
- Você é muito cara de pau.
- Acompanha comigo... você não pode dizer que eu sou feio, pode me chamar de convencido, mas de feio não.
- Feio realmente não dá.
- E nem de chato, por que você já está me aguentando há muito tempo.
- To acompanhando – colocou o queixo na mão, fazendo cara de pensativa.
- E eu tenho um pinto.
- Não duvido – levantou as sobrancelhas, sem esperar que aquele seria o terceiro ponto.
- Então... esses são os pré-requisitos fundamentais para você transar com um cara.
- Quase, faltou um.
- Qual?
- Ele precisa ser dispensável... por que se tudo der errado e eu não quiser nunca mais olhar na cara dele, eu preciso saber que vou ficar bem – ela sabia bem como me deixar sem fala.
- Não tem nada pra dar errado aqui, coisa linda – falei passando minhas mãos pela sua cintura.
- Não tem como a gente saber, até dar errado – ela não se afastou.
- O Ashton e a Julia estão fazendo dar certo – apoiei minha testa na dela, e ficamos assim por alguns minutos.
- É diferente...
- Por que?
- A gente já sente ciúmes e nem temos nada, como você quer me convencer de que vai ser só sexo, sem compromisso ou sentimento?
- E se não for só sexo – perguntei e ela se afastou me encarando – Quer dizer... eu sei que você não quer nada sério, nem eu, mas se acontecer vai ser tão ruim assim?
- Você só pode estar brincando.
- Nem um pouco.
- Você está disposto a apostar o que temos hoje nisso?
- Por que a gente tem que escolher ou um ou outro? Por que as coisas não podem simplesmente dar certo, e a gente ficar bem?!
- Porque não! – ela gritou e eu me assustei – Essas coisas não existem! Não existe felizes para sempre, não dá certo.
- Que isso ?!
- Exatamente isso! Mais cedo ou mais tarde tudo implode.
- Nem sempre é assim, , às vezes dura...
- As pessoas se enganam, se acomodam, mas não existe isso de ser feliz pra sempre.
- E por isso você acha que tem que ser infeliz pra sempre? Não vale tentar ser feliz por um tempo?
- Feliz como Luke? Você não conseguiria levar um relacionamento a sério, nem que quisesse.
- Como você sabe? Eu nunca tentei pra valer.
- E de repente você está a fim de tentar? – Ela não conseguia baixar a guarda, estava com cinco pedras na mão.
- Eu não falei isso – ela me encarou esperando que eu continuasse –, mas por quê não?
- Porque eu não quero! – respondeu alto e claro e, mesmo assim, foi difícil de ouvir. Não era o que eu estava esperando quando decidi conversar com ela. Eu sempre soube que nossa amizade era preto no branco, mas ouvi-la falando daquela forma foi um soco no estômago.


Eu estava completamente atolada com as coisas do trabalho. Parecia que, de repente, as minhas chefes resolveram que seria uma boa ideia editar um milhão de livros de autores brasileiros, consequentemente, eu não tinha tempo nem de respirar. Cada vez que levantava da minha mesa pra ir ao banheiro ou pegar um café, sentia que estava perdendo minutos valiosos de trabalho. Ao mesmo tempo, não conseguia me concentrar direito em nada. A cada página traduzida que revisava, eu achava mil erros e tinha que basicamente refazer tudo, cheguei a confundir "arma"(gun) com "chiclete"(gum) em um texto e, obviamente, não fez nenhum sentido.
A conversa que tive com Luke no domingo ainda passava em looping na minha cabeça e estava me deixando zonza. Para mim nunca foi uma dúvida se deveríamos sair da amizade e tentar algo a mais, por mais tentador que fosse, sempre soube que estávamos em uma zona segura. Logo que nos conhecemos e começamos a nos aproximar, ele sugeriu que podíamos sair em um encontro e eu logo disse que não ia rolar, seria só amizade e na hora ele pareceu ter entendido e aceitado muito bem. Mas antes de ontem, quando ele apareceu na minha porta e soltou tudo aquilo em cima de mim, eu mal sabia como responder. Eu não estava procurando me envolver com ninguém, na verdade, era precisamente o que eu estava evitando.
Eu já tinha perdido qualquer esperança no amor dos contos de fadas, onde a paixão dura, os casais não brigam nem se separam. Não podia dar oportunidade pra ser magoada e ficar devastada mais uma vez.
Eu não iria aguentar.
Como se a quantidade de trabalho e a confusão que estava na minha cabeça não fossem suficientes, Stella queria que tivéssemos umas "noite das mulheres" em sua casa, aproveitando que a banda estava em Nova Iorque. A minha cabeça não estava boa pra isso, mas não tinha como recusar o convite.
A Stella veio morar em Los Angeles há quatro anos por causa da carreira da Jungle Roots; ela e o Calum já estavam juntos há dois anos e ela não quis apostar em um relacionamento a distância. Por causa disso, se mudou para longe da família e dos amigos e, chegando aqui, não foi fácil fazer novas amizades. Mesmo depois de tanto tempo nos Estados Unidos, nós fomos o primeiro grupo de amigas com quem ela realmente conseguiu se identificar, e a identificação era mútua, não tinha como não gostar dela.
- Desculpa pelo atraso, eu já estava achando que não iria conseguir sair da editora nunca. – Stella abriu a porta da sua, nada simples, residência.
- Tudo bem, eu estou tentando convencê-las a parar de procurar as matérias sobre os meninos e ler os comentários do Twitter e do Instagram – Era esse tipo de coisa que eu queria evitar.
- Achei que você não viria mais – Ju tirou o olho do celular pra me cumprimentar.
- Foi mal, não deu pra sair antes.
- Tá tudo bem, amiga? – Lena perguntou vindo me dar um abraço – Você está com uma carinha...
- Tudo bem, só com muita coisa pra fazer.
- O Luke contou pro Ashton sobre a conversa de vocês – Julia me encarou esperando que eu dissesse alguma coisa – Por que você não me contou nada?
- Não tem nada pra contar – me sentei em um poltrona enorme que tinha ali. Parecia que tudo naquela casa era maior do que o normal. – A gente só colocou alguns pingos nos "i"s, mas não quero falar disso.
- O Mike falou que o Luke ficou meio mal depois da conversa – Helena me olhou com pena.
- Não adianta me olhar com essa cara, eu não fiz nada. Podemos mudar de assunto? O que você estão fazendo?
- Vendo o que eles estão aprontando em Nova York – Julia respondeu e eu revirei os olhos sem vontade de dar força pra isso – Eles foram pra uma festa hoje.
- O Calum me falou – Stella voltou da cozinha com uns aperitivos
- Puta merda!
- Que susto Ju! O que houve? – Lena perguntou e Julia me encarou.
- Nada, deve ser mentira.
- Lá vem... o que é?
- Com certeza é falso – tentou mas eu peguei o seu celular logo.
"Luke Ammel e Natalie Fox são flagrados saindo juntos de boate"
"Convidados da festa afirmam que vocalista da Jungle Roots e modelo passaram a noite grudados, e o clima era de romance"
"Fontes próximas ao casal confirmam que Luke Ammel e Natalie Fox retomaram o namoro"
Eu não sabia como reagir àquilo. Eu falei mil vezes que éramos só amigos, ele tinha todo o direito do mundo de ficar com quem quisesse, mas tinha que ser logo ela? A mulher era insuportável!
- Quem são "fontes próximas ao casal"?! Não dá pra confiar – Stella pegou o celular da minha mão e tentou justificar.
- Ele não faria isso, amiga – Lena falou querendo me consolar.
- Por que não? Ele pode fazer o que quiser. – tomei um gole da bebida que estava na mesinha de centro... rum.
- A Natalie é uma idiota... não faz nenhum sentido. – Julia continuou mexendo no celular
- Ele claramente ainda é apaixonado por ela, eles só não voltaram antes por que ela não queria, pode muito bem ter mudado de ideia agora.
- O Luke não é apaixonado por ela, ele só tem uma dificuldade de desapegar. Mas duvido que ele queira voltar a namorar. – Stella falou revoltada
- Eles não devem ter voltado – Julia deixou o celular na mesinha se aproximou de mim, se ajoelhando na minha frente
- Com certeza não! – Helena apoiou a mão no meu ombro.
- Gente, para com isso! – me levantei em um impulso – eu não preciso que ninguém me console... ele é solteiro, faz o que quiser.
- Amiga, você pode ficar chateada, não precisa achar lindo.
- Eu não acho lindo, acho ridículo! Ela é uma imbecil que eu mal conheço e já percebi que é uma pessoa escrota pra caralho, mas se ele acha ela incrível e quer dar uma segunda chance para isso, o problema é dele.
- – Helena tentou se aproximar, mas eu a impedi.
- Se for pra gente ficar falando disso, eu vou embora agora.
- Não! Tudo bem, vamos fazer outra coisa... – Julia me apoiou – chega de falar de homem.
- Eu postei no twitter que estamos juntas e várias pessoas pediram pra fazermos uma live, o que acham? – Helena sugeriu e eu não me animei muito
- "Várias pessoas" são as fãs da banda? – perguntei
- A maioria...
- Será que é a melhor ideia pra agora? – Julia questionou
- A gente pode abrir a live e jogar um jogo.
- Verdade ou desafio – Stella falou animada.
- O que você acha ? Se você topar, eu topo – Julia se colocou do meu lado como quem se prepara pra batalha, e eu ri. Pelo menos eu sabia que teria sempre o apoio delas.
- Tudo bem..., mas aviso logo que se começarem a encher o saco com as perguntas eu vou parar.
- A gente escolhe as perguntas! Não vamos responder tudo... – Lena falou e logo abriu a live no Instagram.
Boa noite, gente! Vocês pediram uma live com todas nós, então aqui estamos.
A gente teve a ideia de jogar verdade ou desafio
– Stella começou, mas foi interrompida por Julia
Com álcool pra dar uma animada!
Isso! Então vocês podem ir fazendo umas perguntas e sugerindo uns desafios pra gente.
Olha quem está aqui também!
– Stella virou o celular para eu entrar no enquadramento da câmera, mas eu mal sabia como agir. Elas pareciam tão a vontade ali e o máximo que eu conseguia fazer, era dar um sorriso forçado.
Tem uma galera entrando olha, quase mil pessoas já! – Helena alertou e eu bebi mais um gole de rum pra ver se aquilo aliviava a tensão.
Vamos começar logo – Julia se empolgou – , você que está com mais vergonha... verdade ou desafio? – eu nem sabia o que seria pior.
Verdade…
Vamos ver aqui alguma coisa que queiram saber da
– Helena se aproximou da tela pra ler as perguntas – Nossa, quem imaginava que perguntariam isso? Vai ser um choque aqui hein – começou sarcástica e todas já sabíamos o que era – Você e o Luke estão namorando?
Eu nem aguento mais responder isso
– seria trágico se não fosse não engraçado – Não! Eu e o Luke somos somente amigos, nada além disso. Inclusive, ele está em Nova York, curtindo bastante a vida – talvez essa parte eu poderia ter deixado de fora, mas já estava começando a sofrer os efeitos do álcool.
Antes que me perguntem – Julia se meteu – eu e o Ashton também não estamos namorando. Ele está solteiro de verdade, ele não mente nas entrevistas, eu não estou o chantageando, torturando ou fazendo nada pra ele mentir.
Stella! Olha, estão falando pra você passar um trote pro Calum!
– Helena gritou animada.
Iiish que tipo de trote? Eu sou péssima com essas coisas.
Fala que você não quer mais namorar com ele
– Julia sugeriu
Ele não acreditar… terminar por telefone é muito cruel. - ela tinha razão, telefone, e-mail...
Fala que você acabou de descobrir que está grávida! – falei trocando o rum pela cerveja, pra tentar não acordar tão destruída no dia seguinte
As fãs adoraram a ideia.
A partir daí as coisas escalaram muito rápido. A Stella ligou pro Michael, mas só conseguiu enganá-lo por poucos minutos, quando ele começou a se animar e comemorar ela perdeu a coragem e contou do trote pra ele. Depois vieram mais perguntas, principalmente sobre a banda, e muita coisa sobre sexo
"Com que frequência você transa?", "Qual dos meninos tem o maior pinto?", "Já fez sexo à três?", "Qual a sua posição favorita?"
Foi bastante constrangedor mas respondemos tudo, sempre da forma menos explícita possível e enrolando bastante.
Sem falar nos desafios que mandaram... viramos shots, bebemos misturas nojentas que as pessoas sugeriram, tentamos aprender o hino nacional da Rússia, ranqueamos as músicas da banda e gravamos um vídeo dublando e dançando ao som de Good Girls Go Bad do Cobra Starship pagando o mico de nossas vidas.
Foi melhor do que eu imaginava. Quando paramos de beber e fechamos a live, já eram quase 2h da manhã, e eu mal conseguia andar em linha reta, então decidimos que seria melhor ficarmos por lá mesmo, fazendo nossa festa do pijama de última hora.
Graças a Deus, ressacas não faziam parte das minhas pós-bebedeiras, mas a dor de cabeça veio de outra forma, afinal, nada é tão ruim que não posso ficar ainda pior.

Capítulo 6

6


Eu ainda estava muito puto com a minha última conversa com . Eu sabia que não devia nem tinha direito de sentir raiva por ela deixar suas intenções, ou falta delas, bem claras, mas eu sou humano e ego ferido também machuca. Mais do que isso, quebra de expectativa machuca. Não é a toa que dizem que a expectativa é a mãe da merda.
Por isso, quando encontrei Natalie na festa, foi como um curativo em cima do machucado. Ela podia não ter uma personalidade muito simples, mas me fazia rir e me sentir querido, o que era mais do que eu podia dizer de outras pessoas ultimamente. Então, sem me importar com as pessoas que nos encaravam na festa, ou com os fotógrafos que esperavam do lado de fora da festa, saímos direto para o hotel.
Com o passar do tempo, depois que terminamos, eu e Natalie perdemos um pouco da nossa afinidade, as nossas conversas não eram tão fluídas e nem tão íntimas, o que era perfeitamente natural, em compensação, na cama continuávamos implacáveis, e era só dessa parte que eu estava precisando naquela noite. Não querendo parecer um animal, mas essa história de tentar se envolver emocionalmente e criar laços já tinha mostrado que não dava certo e estava me cansando.
- Bom dia – Natalie me olhou enquanto comia uns morangos que provavelmente ela tinha pedido para café da manhã paro meu quarto. Eu não ouvi ninguém bater na porta, da mesma forma que não ouvi meu despertador tocar, e já estava em cima da hora pra descer e encontrar a banda.
- Bom dia – rolei da cama e me sentei pra comer alguma coisa rápida. Normalmente eu não tinha tempo para fazer refeições demoradas, então aprendi a aproveitar cada minuto disponível e nunca desperdiçar um café da manhã de hotel.
- Vocês têm compromisso hoje? – perguntou enquanto mexia no celular
- Vamos encontrar o Eric Burton – falei tomando um gole de café – é um produtor e compositor. Ele vai nos ajudar com umas coisas.
- Eu volto pra L.A hoje, a gente podia se encontrar mais tarde, antes do meu voo.
- Não sei se vai dar, o dia vai ser apertado.
- Você nunca tem tempo para mim.
- Como não? Eu estou aqui com você agora.
- Isso não conta.
- Você é bem indecisa, né? Não quer mais namorar comigo, mas reclama que eu não te dou atenção.
- Você é muito cafajeste, não conseguiria ser fiel nem se tentasse
- Por que todo mundo fala isso? - perguntou tirando o olho do celular para me encarar.
- Ninguém, deixa pra lá.
- O fato da gente não namorar mais, não significa que não podemos nos divertir - ela levantou de onde estava e sentou no meu colo, me dando um beijo molhado que se encaminhou pra minha orelha e causou formigamento em outras extremidades do meu corpo.
- Eu tô atrasado... – falei apertando minha mão em sua coxa – preciso descer para encontrar os caras.
- É só sair – prolongou o beijo descendo sua mão do meu peito até o cós da minha boxer, mexendo em seu elástico.
- Uououo, agora não dá – segurei sua mão antes que chegasse ao destino final e levantei, entrando direto no banheiro. Tomei uma chuveirada de menos de cinco minutos e saí com a toalha enrolada na cintura, e Natalie já estava de roupa, sentada na cama rindo de alguma coisa que estava lendo no celular. – O que foi? – perguntei curioso.
- Nada... – guardou o celular – as pessoas são muito criativas, só isso. – Falou se colocando na frente do espelho para pentear o cabelo.
Se eu pudesse escolher, preferiria evitar que qualquer um visse que eu estava com a Natalie. Eu sabia muito bem os olhares de reprovação e julgamento que me aguardavam no hall, mas eu quando chegamos no térreo, Natalie fez questão de me dar um beijo, sem se importar com quem estava vendo, o que garantia que eu teria que ouvir um sermão conjunto da minha banda, que não se dava ao trabalho de esconder o descontentamento no meu relacionamento pós término.
- Você está de sacanagem, né? – Calum foi o primeiro a externar sua insatisfação comigo enquanto eu ainda caminhava em direção ao grupo sentado em poltronas em um dos salões da recepção.
- Não começa...
- Tanta mulher gata na festa e você tinha que sair logo com essa demônia? – Ashton sacaneou.
- Pega leve, cara.
- , não é possível! Você não aprendeu nada com a última vez? – Calum estava indignado.
- A gente não voltou, galera. Relaxa aí! – me sentei no sofá do lado de um Calum bastante mal humorado.
- Amém! Pelo menos isso – Ashton respirou aliviado.
- Eu não entendo porque você insiste nisso. - Michael falou.
- A gente se dá bem - respondi
- Isso que eu não entendo. - Ashton voltou a reclamar - Não me entenda mal, eu sou super a favor de qualquer mulher gata e, com todo respeito, a Natalie não falha nesse quesito, mas tirando isso, a mulher é um filhote de cruz credo com Deus me livre.
- Ashton, menos, por favor.
- A Natalie é um problema ambulante , só você não vê isso. - Calum falou sem paciência.
- É por isso que eu não insisto mais pra vocês se darem bem. Cada um no seu canto e todo mundo feliz.
- Todo mundo, mais ou menos. - Michael me corrigiu.
- Como assim?
- A .
- O que tem? Ela não tem nenhum direito de ficar chateada depois do toco que me deu.
- Ela tem qualquer direito, quando as suas palhaçadas a arrastam para confusão e ela vira protagonista de site de fofoca… mais uma vez.
- Do que você tá falando?
- Ele não viu ainda – Calum me passou o tablete que segurava, e começou a tentar me explicar a confusão que estava tomando conta da internet – Ontem à noite a Stella, a Helena, a Julia e a fizeram uma live no Instagram.
- A Helena tinha postado que iria encontrar as outras e pediram para ela fazer uma live. – Michael completou.
- E subiram a tag #namoradasJungleRoots, então enquanto a estava lá com as meninas, você estava saindo da festa com a Natalie. Obviamente, isso não soou nada bem.
O Twitter estava enlouquecido com as fofocas de que eu estaria traindo a . Fizeram montagens e vídeos que ironizavam como ela estava em casa enquanto eu aproveitava a "farra". O vídeo dela revirando os olhos dizendo que eu estava "curtindo a vida em Nova York" tinha mais dez mil retwittes e os comentários não paravam de aumentar com pessoas rindo dela ou falando um bando de merda. O pior é que estavam perdendo a noção nos xingamentos, tanto nos pra mim quanto pra ela, variavam entre eu ser um escroto, babaca, e ela ser uma aproveitadora que só queria chamar atenção. Eu acho que nem quando eu namorei e depois terminei com a Natalie as fãs fizeram todo esse estardalhaço, e se eu não sabia lidar com aquilo, não conseguia nem imaginar como estava a cabeça dela.
- Por que estão fazendo essa porra toda?! Eu já falei mil vezes que a não é minha namorada.
- Vocês vivem grudados – Michael justificou – é normal que as pessoas não acreditem... eu não acreditaria.
- Como eu ia saber que daria nisso?
- Como você não sabia que daria nisso, caralho?! – Ashton aumentou o tom de voz chamando atenção de várias pessoas que passavam pelo saguão do hotel – Era óbvio que todo mundo ficaria sabendo que você e a Natalie dormiram juntos.
- Mas a não tem nada a ver com isso!
- Cacete , todo mundo torce pra vocês ficarem juntos, as fãs da banda criam shipp, fanfiction e o caralho a quatro em cima disso, e você quer me convencer que nem imaginou que trariam ela pro meio dessa bagunça? – Era óbvio que eu sabia que ela ficaria sabendo e que ia causar revolta em algumas pessoas, só não pensei que seria assim. Achei que seria bom pra testar se ela realmente não se importaria de eu ficar com outras pessoas. Já percebi que foi uma péssima ideia.
O celular de Calum tocou interrompendo a conversa.
Oi amor... é, já vimos – ele falou me encarando.
Eles não voltaram.
Essa parte é verdade
– a Stella devia estar querendo me matar.
A ainda está aí? – minha atenção se virou completamente para chamada do casal e Calum afastou o celular pra me explicar – As meninas dormiram lá em casa ontem e ainda não foram embora – colocou o telefone de volta na orelha pra continuar a conversa, e ficou ouvindo por um tempo antes de comentar de novo.
Cacete, amor! Quer que eu mande uma equipe de segurança aí?
- Equipe de segurança?! O que aconteceu? – perguntei nervoso, mas ele virou o rosto e continuou prestando atenção na namorada sem me responder.
Fala pra elas ficarem aí por um tempo.
- Bota no viva-voz! – pedi e novamente fui ignorado.
Tudo bem, se precisar me liga.
Também te amo.

- O que aconteceu? Pra que equipe de segurança? – Michael perguntou também preocupado.
- Calma, tá tudo bem. As meninas acabaram dormindo lá em casa depois da live, só que agora está cheio de paparazzi no portão e elas não conseguem sair.
- Puta que pariu – Michael pegou o celular pra ligar para Helena
- Pelo menos estão em casa e seguras – Ashton falou, mas isso não seria suficiente pra mim. Peguei o meu celular também e liguei pra , precisava pedir desculpas por mais uma confusão, e ouvir da boca dela que estava tudo bem. Tocou, tocou, tocou e nada. Tentei novamente e mais uma vez, mas ela não atendeu.
- Ela não está atendendo – me voltei pros caras.
- Surpreendendo um total de zero pessoas – Ashton debochou.
- O que você esperava, cara? – Calum perguntou se virando pra mim. Eu não sabia, talvez qualquer coisa, menos ser ignorado.
- Gente, – Samuel apareceu do nosso lado – eu já estou sabendo do que está acontecendo, mas infelizmente vocês não podem ficar nessa novela o dia inteiro. Vamos encontrar o Eric e o Ammir agora, depois temos sessão de fotos a tarde e vocês têm a festa da Zendaya hoje à noite – deu uma pausa me encarando – se eu fosse você, dispensaria a festa e viria direto para o hotel... sozinho!
Eu sabia que a culpa daquilo não era minha. Quer dizer, seria melhor sem a confusão, sem as pessoas acharem que eu voltei com a Natalie e sem a ser arrastada pro meio da bagunça, de novo. Mas essas coisas estavam fora do meu controle, não tinha nada que eu pudesse fazer. Pelo menos era disso que eu estava tentando me convencer enquanto tinha todas as minhas ligações ignoradas.


Helena e Julia conseguiram ir embora da casa de Stella logo cedo. Pegaram o carro e abriram espaço entre os paparazzi. Eu fiquei com medo de me seguirem e se aglomerarem na porta da editora, então acabei passando o dia lá mesmo. Liguei pro escritório, expliquei a situação e avisei que ficaria trabalhando de casa.
O certo seria eu ter focado todas as minhas energias nas minhas tarefas, mas não consegui me desligar completamente de tudo que estava acontecendo. Não era nada que conseguia me magoar profundamente, mas me deixava bastante irritada. Tentei manter sempre em mente que aquelas pessoas que tanto comentavam e especulavam sobre a minha vida, não me conheciam e se dedicavam aos rumores sem fundamento por falta de coisa melhor pra fazer, mas isso não tornava mais fácil ler os comentários. Algumas coisas eram tão absurdas que me faziam rir, como uma teoria que afirmava que havia me contratado para ser sua namorada, mas que o amor dele por Natalie fazia o seu plano falhar; ou que eu era uma fã maluca da banda e comecei a persegui-los diariamente até conseguir que eles me dessem atenção. Mas outros me faziam questionar tudo o que estava acontecendo e o quanto eu estava disposta a continuar com uma amizade que me deixava tão exposta. Afirmavam que eu fazia mal pra , que as nossas fofocas estavam se sobressaindo em relação à música da banda e que uma mulher que ficava bêbada como eu, só poderia ser prejudicial à imagem deles; alguns questionavam se realmente gostava de mim ou se eu era apenas sua "cota" de amizade não famosa, ou se a nossa amizade servia apenas para massagear o nosso ego, cada um à sua maneira.
Não posso ignorar que a maioria das pessoas eram muito amáveis com frases de apoio, pedindo que os outros me deixassem em paz, reconhecendo que eu e éramos apenas amigos e me incentivando a ignorar os haters, apesar disso, as ofensas e postagens negativas, infelizmente, tinham um peso muito maior.
Quando já eram quase oito da noite e eu já tinha abusado de toda a boa vontade da Stella, avisei às minhas chefes que estava encerrando o meu dia de trabalho, e juntei as minhas coisas pra voltar pra casa. Eu pediria um carro de aplicativo, mas Helena estava saindo da clínica e se ofereceu pra me buscar, então aceitei.
Olhei pela janela e pude ver que apesar da maioria dos fotógrafos já terem ido embora, por incrível que pareça, ainda havia alguns no portão, mas não tinha muito jeito, não dava pra ficar morando ali até eles desistirem. Considerando o tempo que eles ficaram ali, mal devem ter conseguido ir ao banheiro e comer, então o meu lado de otária falou mais alto e eu acabei pedindo comida eles. Eu estava faminta também, então não me custava nada aumentar o pedido - nada além de uns quarenta dólares, como eu disse, muito otária.
A comida chegou em pouco tempo e eu fui até o portão para entregá-la aos fotógrafos e, apesar de estar nervosa, foi bem engraçado. Eles não sabiam se me fotografavam ou se aceitavam a comida. Chegaram a perguntar se podiam aceitar a comida mesmo que tirassem fotos, e apesar de querer dizer não, não iria condicionar uma coisa à outra. Tentaram fazer perguntas, mas eu apenas sorri e ignorei fingindo estar distraída demais enfiando uma esfirra quase inteira na boca.
- Eei, entra aí - Lena buzinou parando o carro do outro lado da rua - Maluca, o que você estava fazendo ali no meio desses abutres?
- Eles só estão fazendo o trabalho deles, e passaram o dia inteiro sem comer direito...
- Aí você resolveu comprar comida pros caras que passaram o dia te stalkeando?
- Eu fiquei com pena
- Só você mesmo... – revirou os olhos rindo – e o ?
- O que tem ele? – foi a minha vez de revirar os olhos. Ele já tinha me ligado umas dez vezes, e mandou um monte de mensagens, mas eu não respondi nada. Não estava com ânimo para fingir que eu não me importava com as últimas notícias.
- O Ashton já ligou pra Ju perguntando de você, e o Calum ligou pra Stella umas vinte vezes... você não falou com ele ainda? – perguntou, mas não teve resposta. Meu celular tocou mais uma vez, era o próprio e eu continuei sem atender – Atende, garota!
- Agora não...
- Por que não?!
- Por que eu tô aqui com você – menti – nada a ver ficar falando no celular com outra pessoa.
- Deixa de fazer drama! – reclamou percebendo minha mentira - Desistiu da amizade de vocês? Vai fugir dele pra sempre?
- Não, claro que não! – respondi e pensei por alguns minutos. - Só estou me dando um tempo, um intervalo dessa fanfic. - Eu estava de saco cheio de tudo aquilo, mas não abriria mão de por causa disso, ele não tinha como controlar as fofocas, e era solteiro, podia ficar com quem quisesse, mesmo que quisesse a Cruella.
Enquanto eu me perdia nos meus pensamentos, tentando decidir se ligava de volta ou se me permitia adiar isso um pouco mais, foi a vez do celular de Helena tocar com o nome de Michael piscando na tela e ela atendeu no viva-voz do carro.
- Oi, gatinho.
Oi amor, tudo bem? Tá no trabalho?
-
Tudo bem... não, estou no carro, indo pra casa
Ah legal
– parou alguns segundos como se pensasse no que falar – Como foi o seu dia?
- Foi bom, amor, tranquilo.
Ah que bom
– mais uma pausa – E... como está a ? – franzi a testa surpresa com o interesse.
- Depende... quem está perguntando? Você ou o ? – ela perguntou e eu olhei pro painel do carro esperando a resposta.
Helena, eu só quero saber se ela está bem – a voz de surgiu nas caixas de som do carro e eu prendi a respiração por alguns segundos - eu já liguei duzentas vezes, mas ela não me atende – Lena me encarou esperando que eu respondesse.
- Eu tô aqui – respirei fundo, mas ele não falou nada – eu estava trabalhando, não consegui atender.
Eu só queria saber como você está.

- Bem, estou bem – Helena arregalou os olhos na minha direção. Aquela conversa não estava indo como ela esperava
Eu sinto muito por mais essa confusão, de verdade – ele parecia nervoso e meio sem graça, não sabia o que dizer... eu também não.
- Não é sua culpa – falei e, novamente, se instaurou um silêncio, dessa vez mais longo e mais constrangedor.
Sobre as notícias, é mentira, eu não voltei com a…
- Você realmente não tem que me explicar nada
Mas eu quero...
- Mas eu não quero ouvir – falei nervosa e soltei o ar com calma para me acalmar antes de continuar – você está solteiro, pode ficar com quem quiser, mesmo que queira alguém que não vale nada, você não tem que me dar satisfação.
Eu sei, mas isso criou uma confusão pra você.
- Eu já falei que a culpa não é sua, está tudo bem.
Então, por que você passou o dia me evitando?
- Não estava te evitando, eu falei, estava trabalhando e não podia parar só pra te atender – menti mais uma vez.
...
- , a gente está chegando no prédio, vamos entrar na garagem e o sinal vai cair. Vou desligar, tchau – dei fim à chamada sem esperar que ele respondesse
- Por que você mentiu? – Helena parecia irritada
- Eu não menti – estávamos mesmo na porta da pequena garagem do nosso prédio, ficava um pouco abaixo do nível da rua, então em menos de cinco minutos o sinal poderia cair.
- Você disse que está tudo bem e que a culpa não é dele, isso não é mentira?!
- Não...
- Você acha que a culpa é sua, então?!
- Não tem isso de culpa...
- Claro que tem, foi ele quem te arrastou pra essa confusão!
- Claro que não, Lena!
- Como não?!
- Amiga, fui eu que aceitei essa amizade sabendo de tudo que viria no pacote, eu decidi que seríamos apenas amigos, eu falei que ele podia pegar quem quisesse, eu aceitei participar da live com vocês, eu quis beber durante a live, foram escolhas minhas, só minhas e eu não posso jogar a culpa nele só por que não gostei das consequências – falei enquanto esperávamos o elevador chegar no nosso andar. Eu não tinha tanta certeza do que eu estava falando, mas pareceu fazer sentido, e ela aceitou.
- Como você consegue ser tão prática?
- Assim é mais fácil, – dei de ombros sorrindo – não dá tempo de se lamentar nem ficar triste – falei abrindo a porta do meu apartamento e ela do dela. Ao tempo que fiquei sozinha, o sorriso, que estava no meu rosto segundos antes, sumiu.
Era mentira. Ser prática e racional naquela situação podia ser mais fácil, mas não impedia a tristeza. Por mais que eu quisesse acreditar que estava tudo bem, essa era a minha maior mentira, e eu fazia um esforço enorme para conseguir convencer a mim mesma de que era verdade. Mais do que qualquer coisa, ficar repetindo que e eu éramos apenas amigos, estava me deixando exausta. Eu não acreditava mais naquilo e estava cansada de tanto fingir, mas as notícias de que ele havia passado a noite com a Natalie, foram como uma balde de água fria na minha cabeça que começava a considerar qualquer mudança. Então, em casa e sozinha, me joguei no sofá de uma vez e chorei. Chorei mais do que eu esperava. Chorei pelo dia inteiro que eu quis chorar, mas me contive para não preocupar ninguém, nem ter que me explicar. Chorei lágrimas de tristeza, mas também de frustração e agonia. Chorei lágrimas de decepção e solidão, e lágrimas que eu nem sabia do que eram, mas estavam guardadas dentro de mim e precisavam sair. Chorei até cansar e cair no sono por não ter mais forças para continuar a chorar.
Acordei no dia seguinte com uma dor de cabeça daquelas que fazem você questionar se realmente precisa sair da cama pra trabalhar. Meus olhos estavam inchados e eu sentia que tinha sido atropelada por uma manada, tanto física quanto emocionalmente. Tomei dois comprimidos que eram meus melhores amigos nessas horas e entrei em um banho tão quente que chegou a sair fumaça e deixou minha pele avermelhada. Não era o recomendado por médicos, vulgo Helena, mas era o que me ajudaria naquele momento. Depois foi um café bem forte, duas torradas com mel, uma maçã na bolsa e rua. Não tinha problema ficar triste, mas minha vida não podia parar. Não mais uma vez.
Cheguei antes das oito na editora, então fui uma das primeiras. Nem minhas chefes, nem os estagiários estavam ali, o que significava que eu podia começar a trabalhar tranquila, sem ter que fazer favor ou ajudar ninguém, podendo focar nas minhas tarefas. Abri o meu computador e me concentrei em tudo o que tinha pela frente. Revisei os últimos trabalhos dos estagiários, entrei em contato com a gráfica que trabalhava com a gente, me dediquei ao site e às resenhas dos livros mais recentes que editamos, e os outros funcionários foram chegando aos poucos. Minhas chefes pararam na minha mesa pra conferir os meus prazos de entrega, ajudei o Jonny com um trabalho da faculdade e a Cris com as crônicas mexicanas. Mal deu tempo de almoçar, esquentei uma marmita que tinha levado de casa e comi ali mesmo, na mesa de trabalho.
Como sempre, os dias mais cansativos eram os melhores. Era quando eu focava cem por cento no trabalho e nada conseguia me tirar dali. Não tinham problemas externos me atrapalhando, eu nem lembrava da existência do meu celular e, assim, chegava no fim do dia sem perceber que o tempo tinha passado.
Já eram pouco mais de cinco da tarde, e eu tinha feito o meu dia render mais do que qualquer outro, mais alguns minutos ali, apenas pra encerrar o meu expediente, e eu poderia voltar para casa pra assistir um filme e me manter longe de qualquer coisa ou qualquer um que me desse a dor de cabeça dessa manhã. Uma pena que ele não me deu essa opção.
- O que você tá fazendo aqui?! – me levantei da minha cadeira vendo o dono dos olhos esverdeados mais bonitos que eu já tinha visto, porém exatamente os que eu estava tentando evitar.
- Eu precisava falar com você... – se aproximou até chegar à minha mesa.
- Não podia esperar eu chegar em casa? – Olhei em volta percebendo a atenção que ele já tinha atraído. Sentei novamente na minha cadeira, em uma tentativa de deixar aquela cena o mais natural possível. Não funcionou.
- Você desligou na minha cara ontem, eu te mandei várias mensagens e você não respondeu nenhuma, e te liguei umas cinco vezes hoje e você também não me atendeu...
- Isso não foi o suficiente pra você perceber que eu não queria falar com você?
- Ah, pelo menos você admite que não queria falar comigo, achei que ia inventar de novo que não teve tempo de ver o celular – deu uma risada sarcástica e sentou na beirada da minha mesa.
- Em primeiro lugar, você está agindo como um namorado possessivo e mimado, que tem que ter tudo na mão na hora que quer, o que é loucura, já que você não é possessivo, muito menos meu namorado – pausei e ele olhou pro chão envergonhado – em segundo lugar, isso aqui é o meu local de trabalho, então, a não ser que alguém esteja morrendo, você não tem nenhum direito de vir até aqui, muito menos pra me cobrar atenção.
- Eu sei... me desculpa – olhou novamente pra mim e se levantou – será que a gente pode conversar?
- Eu estou trabalhando – dava pra perceber o arrependimento no seu rosto, mas eu não iria ceder.
- Tudo bem, eu posso esperar – eu já queria conversar com ele antes, talvez fizesse isso no fim de semana, mas essa pirraça dele me fez mudar de ideia.
- Tudo bem por aqui? – Sara, minha chefe, se aproximou.
- Eu já estava de saída – falou se afastando.
- Você deve ser Ammel, não é? – ela perguntou impedindo que ele fosse embora tão rápido.
- Isso, sou eu – respondeu me encarando sem entender
- Eu achei bastante curioso como, de repente, as vendas dos meus livros subiram e, quando fui procurar o motivo, descobri que era , ou melhor, você. – me olhou de relance – Parece que as suas fãs são bastante curiosas, e resolveram conferir o trabalho da sua namorada.
- Ela não é minha namorada – ele corrigiu sem graça.
- Eu não gosto de me meter na vida pessoal dos meus funcionários, e devo confessar que o aumento das minhas vendas me deixou feliz, – ela falou e ele logo sorriu – mas quando a minha funcionária não consegue nem chegar no trabalho por causa de paparazzi, eu já não fico tão feliz assim.
- Sara, não é culpa dele – tentei ajudar.
- Eu sei que não, ninguém tem culpa, mas pra isso não se tornar rotina e esses paparazzi não fecharem a porta de entrada da minha editora, que tal evitar esses encontros por aqui? – terminou olhando pra mim e pra ele, e recebeu acenos de ambos.
- Me desculpa, mesmo. Eu não devia ter vindo – olhou pra mim arrependido e eu até senti pena.
- Não precisa se desculpar, só vamos evitar que isso vire um hábito e, se você precisar vir novamente, pode esperar na portaria.
- Sim senhora – falou dando meia volta e saindo do escritório.
- Me desculpa por isso Sara, não vai mais acontecer – me virei pra ela, morrendo de vergonha. Eu tinha uma boa relação com as minhas chefes, mas Sara não era, exatamente, "fofa". Não podia abusar da sua boa vontade e, considerando o meu último mês aqui, era bom eu andar na linha.
- Não tem problema , é normal o namorado querer buscar a namorada no trabalho, mas é bom evitar tumultos.
- Ele não é meu namorado.
- Ainda... – sorriu e começou a se afastar – termina logo as suas coisas, não vai querer deixar aquele gato dando sopa na portaria.
Eu sabia que poderia encerrar o meu expediente em poucos minutos, mas toda aquela situação me fez querer testar a paciência dele, então me voltei para o meu computador e comecei uma nova resenha de um livro brasileiro. O meu português estava um pouco enferrujado, então esses sempre demoravam mais. Quase duas horas, na verdade. As minhas chefes já tinham ido embora e Cris já tinha chamado a minha atenção várias vezes pra "crueldade" que era deixar Ammel me esperando por tanto tempo, mas a essa altura eu nem acreditava mais que ele estaria ali, provavelmente já devia ter desistido. Errado.
- Achei que você tinha decidido dormir aqui – falou se levantando de uma das poltronas na recepção e andou em minha direção.
- Trabalho é trabalho, não tem jeito.
- Mentirosa... sua chefe passou aqui há mais de uma hora e falou que você já estava acabando – empurrou o meu braço e eu quase desequilibrei – você que quis me dar um chá de cadeira.
- Talvez... não nego nem confirmo – sorri enquanto saímos do prédio da editora.
- Desculpa ter vindo aqui, foi sem noção mesmo.
- Foi, mas tudo bem – começamos a caminhar. Eu morava a cerca de trinta minutos do meu trabalho, normalmente eu ia de carro para evitar chegar suada e cansada, mas hoje achei que valia uma caminhada de manhã.
- Não queria que você pensasse que eu desvalorizo o seu trabalho, ou acho que posso aparecer assim sem avisar, ou...
- Eei, calma – ri do nervosismo dele. Tentava se explicar e acabava parecendo um adolescente se desculpando por alguma burrada – Eu entendi.
- Desculpa.
- Eu vou começar a carregar uma "jarra das desculpas" comigo, e toda vez que você pisar na bola e vir se desculpar vai ter que me pagar dez dólares.
- Dez?! Essas coisas funcionam com um dólar.
- Essas coisas funcionam para crianças, e os problemas que elas arranjam pros pais são bem menores do que os que você tem me arranjado.
- Justo – concordou olhando pro chão rindo. Continuamos andando tentando evitar a conversa que tinha o levado até ali. Alternamos momentos de silêncio com algumas conversas despretensiosas e sem muito fundamento.
Quanto tempo se leva pra cobrir uma calçada com pedras portuguesas?
Como surgiram os diferentes idiomas?
Como que decidiram os nomes das coisas? Tipo garfo, ou almofada, ou cerebelo...
Será que várias pessoas passaram mal provando queijos estragados até descobrirem que tudo bem comer gorgonzola?
Se você percebe que não quer casar minutos antes da cerimônia, você conta pro noivo(a) ou você se casa e pede o divórcio depois?
- Eu conto – falei rapidamente, sem qualquer dúvida.
- Você desiste minutos antes?! Como assim? Vai deixar todo mundo esperando e obriga o seu ex futuro marido à contar pra todos os convidados? – Ele ficou muito surpreso com a minha resposta.
- Óbvio! Melhor do que casar com uma pessoa que você não ama, e pedir o divórcio uma semana depois.
- Mas você ficou tanto tempo com a pessoa... como sabe que não é nervosismo? De repente as coisas melhoram.
- Minha mãe sempre me disse que se começa ruim, depois só piora. É melhor desistir logo, arrancar o curativo dói, mas cura mais rápido.
- Acho que a Helena discordaria de você.
- Com certeza.
- Mas então você concorda com o que o seu ex-noivo fez? – eu não estava esperando por aquilo, mas me fez pensar. – Desculpa, não devia ter perguntado isso.
- Mais dez dólares – sorri tentando descontrair – Se ele não acreditava mais na gente, acho que ele fez certo em desistir, o problema foi como ele escolheu fazer isso. Mas com certeza eu prefiro isso à casar, passar por toda experiência e nervosismo do casório, reunir família, amigos, receber presentes, e uma semana depois ter que falar pra todo mundo que acabou. E imagina... toda vez que você fosse preencher um formulário, teria que marcar seu estado civil como "divorciado" e lembraria de tudo de novo...
- Pode ser... mas casamento é tão caro, podia pelo menos aproveitar a festa – esse era um bom ponto, mas não compensaria.


Uma semana sem conversar com e sentia que o meu estômago estava se contorcendo dentro de mim. Parecia ridículo, mas ela fazia muita falta na minha rotina, e ficar sem receber nenhuma mensagem dela por muito tempo era muito estranho, quase como se ficasse faltando uma parte do meu dia.
Eu sei que errei em invadir o trabalho dela daquela maneira, mas eu sabia que se não fosse assim ela continuaria arranjando outras maneiras de me evitar, mesmo dizendo que não estava brava. Então resolvi correr o risco e parece ter funcionado porque fomos conversando até o apartamento dela, falando sobre as coisas mais aleatórias possíveis e demos as risadas que eu sentia tanta a falta. Mas parecia que ela estava apenas preparando o terreno para o motivo que nos levou até ali.
Alguns minutos depois de entrarmos em sua casa o assunto acabou e ela me encarou séria. Aquele olhar me cortava por inteiro, e me fazia sentir completamente nu. Engoli à seco e lutei contra a vontade de dar meia volta e ir embora.
- O que? – perguntei disfarçando a tensão que estava tomando conta de mim
- Eu que pergunto... – se sentou nas almofadas da janela cruzando as pernas – Você não foi até o meu trabalho pra pedir conselhos matrimoniais, muito menos pra discutir o processo de criação do queijo gorgonzola, então o que é?
- Você sabe mesmo como fazer o clima pesar... – sorri sem graça e me sentei na mesinha de centro na sua frente, e ela retribuiu o sorriso ainda esperando que eu começasse a conversa – Primeiro eu queria pedir desculpa, mais uma vez, pelas coisas do twitter – falei sério, abaixando o olhar.
- Eu já disse que não precisa...
- Preciso sim, - interrompi sabendo o que ela diria – pode não ser minha culpa exatamente, mas é por minha causa que você está no meio dessa confusão – era difícil admitir aquilo, mas eu sabia que estar comigo era difícil e vinha em um combo de complicações, principalmente com a torcida que criaram pra ficarmos juntos.
- Eu aceitei entrar nessa confusão no dia em que subi sete andares de escada só pra ajudar vocês – ela riu lembrando da situação. Que bom que pelo menos um de nós conseguia ver graça naquela bagunça.
- Eu sabia que sair com a Natalie seria um prato cheio pros tabloides, e sabia que poderiam te arrastar pro meio disso, mas não me importei – falei olhando pra , esperando alguma reação, mas ela não moveu um músculo sequer – Eu não esperava que as fãs reagiriam daquela forma, nunca tinha passado por uma coisa assim, não nesse nível, e eu não tomei o cuidado pra te preservar – mais silêncio – Eu sinto muito, mesmo, prometo que vou tomar mais cuidado, e vou pedir pras fãs pegarem leve.
- É melhor não mexer mais nisso... – falou respirando fundo – se você tentar me defender pedindo pra pegarem leve, aí mesmo que vão vir atrás de mim achando que eu estou te manipulando.
- Isso é ridículo!
- Mas é verdade... – a cara dela murchou um pouco. Eram pouquíssimos os comentários negativos, mas pareciam ser sempre os que faziam mais barulho.
- Mais uma coisa... – a parte fácil tinha passado, agora sim era a conversa que estava me deixando tenso – a Natalie...
- Eu não preciso saber dessa parte – me interrompeu e se levantou indo em direção à ilha da cozinha.
- Eu só queria deixar as coisas claras – me levantei também e ela me encarou com uma sobrancelha levantada como se me desafiasse a continuar – Eu não voltei a namorar com ela...
- Bom pra você.
- Mas a gente dormiu junto.
- Sinto muito pelo seu mau gosto – já tinha percebido que o deboche era a forma com que ela lidava com o descontentamento, e eu teria que aceitar isso.
- E não foi coisa de uma noite só...
- Quer uma medalha?
- Não... – revirei os olhos quase desistindo de me explicar.
- Ótimo, eu não daria. Você deveria saber que essa garota não presta, saber melhor do que eu inclusive, mas mesmo assim quer continuar com ela...
- Não exagera... – falei e ela revirou os olhos, como sempre – ela pode não ser nenhuma santa, mas não é esse monstro que todo mundo acha.
- Pelo menos não sou só eu que acho, né?
- A questão é, que a gente tem uma história, e não é fácil mudar isso.
- Você é apaixonado por ela, eu sei disso - ela falou e eu não pude deixar de ficar surpreso com a minha vontade de contestá-la. Eu não era apaixonado pela Natalie, não mais.
- Não é isso. É complicado, nós somos muito ligados. Eu não sei explicar o que é, as coisas mudaram… estão mudando, mas não quero que isso atrapalhe a nossa amizade, então se isso for uma coisa que vai deixar um clima estranho aqui...
- Eu não vou frequentar os mesmos lugares que ela, a rejeição é recíproca, então tenho certeza que isso não vai ser um problema. Mas eu não vou fazer você escolher, nem vou me afastar de você por causa dela, até por que é isso que ela gostaria, e esse gostinho eu não dou a ela – concluiu e eu só conseguia rir. A conseguia me surpreender a cada segundo, definitivamente não era a resposta que eu estava esperando.
- Bom saber... – sem deixar ela me impedir, a abracei forte e ela não se afastou. Estávamos nos evitando desde o último fim de semana e esse abraço parecia o colo que tanto queríamos, pelo menos eu queria. Eu podia não saber explicar o que aquela garota tinha feito pra ocupar um lugar tão grande e importante dentro de mim, mas eu sabia que eu ocupava o mesmo lugar pra ela, e era disso que eu precisava. Depois de alguns segundos, talvez minutos ali, começamos a nos soltar do abraço e nossos rostos estavam tão próximos que tudo me tentava e me empurrava pra beija-la. Meu coração parecia bater em cada pedaço do meu corpo, e eu podia jurar que eu conseguia ouvir o dela também. Nenhum dos dois parecia querer afastar o rosto, e ficamos naquela preliminar de um beijo por segundos que pareciam uma eternidade, e mereciam até uma trilha sonora. Os lábios quase se encostaram, as piscadas duravam mais do que o normal, e nossos braços continuavam segurando um ao outro.
Mesmo assim, eu não podia dar continuidade àquilo. Ela foi bem clara sobre seus sentimentos, e as suas intenções comigo eram de amizade, e apenas amizade. Se ela quisesse um beijo, teria que tomar iniciativa. Então dei um passo pra trás me afastando do seu corpo, e ficamos nos olhando tentando desvendar no olhar do outro o que tinha acontecido ali, se a vontade que eu senti era recíproca e se eu havia perdido uma oportunidade de fazer tudo diferente.
- Você tem razão – falei ainda mirando no fundo dos seus olhos – A nossa amizade é mais importante do que qualquer outra coisa. – O olhar que recebi foi uma mistura de confusão e decepção, mas ela acenou com a cabeça como se concordasse comigo. – Misturar as coisas só estragaria tudo, então vamos esquecer do que eu falei antes de viajar, e vamos continuar só como amigos... pode ser? – falei sem nenhuma certeza daquilo mas alguma coisa no seu olhar mudou radicalmente e ela abriu um sorriso, vindo em minha direção e envolvendo meu pescoço.
- Não.

Capítulo 7

7


Nem que quisesse eu saberia explicar o que passou pela minha cabeça para ignorar todo o plano que eu havia meticulosamente traçado para manter meu relacionamento com o estritamente fraterno, e longe de qualquer coisa física. Desde que nos conhecemos e surgiu a possibilidade dessa relação evoluir para qualquer coisa além da amizade, sempre neguei e deixei claro que, por mil motivos muito bem fundamentados na minha cabeça, isso não aconteceria. Mesmo assim, vê-lo concordando comigo e tirando de mim qualquer chance de mudar de ideia, foi um choque de realidade e um alerta de que aquilo era o meu aviso, minha última chance, então não me contive.
Sem pensar duas vezes, me joguei em sua direção e colei nossos lábios puxando-o para um beijo. Beijo esse que começou um tanto sem jeito e desesperado, com susto de ambas as partes, mas que logo cedeu à vontade e naturalmente criou seu ritmo. Variávamos entre momentos de maior delicadeza e calmaria, e momentos de quase selvageria, com intensidade, paixão e curiosidade, como se explorássemos territórios ainda desconhecidos. Era óbvio que aquele era um momento que os dois ansiavam, e não iríamos deixá-lo passar sem tirar o máximo de proveito. O espaço entre nós era nulo e mesmo assim não parecia ser o suficiente, a cada segundo aprofundávamos o contato e nos apertávamos para preencher qualquer vazio que viesse a existir entre nós. Suas mãos calejadas da guitarra passeavam pelo meu corpo e ao entrarem em contato com a minha pele por debaixo da roupa, arrepiavam cada pelo existente. Era um toque bruto ao mesmo tempo que suave e encorajador.
Em alguns momentos ele diminuía a velocidade e me olhava com cautela como quem pede autorização para continuar, mas, àquela altura, eu não tinha mais condições de avaliar e recusar nada. Seus lábios completavam os meus, e todo o seu corpo exalava o calor que me trazia o conforto que eu não sabia que tanto precisava e do qual não queria me afastar tão cedo. Sem muito decoro ou qualquer restrição, nossas peças de roupas foram caindo, traçando um caminho da sala até meu quarto.
As palavras foram dispensadas e nossos corpos concordaram que já havíamos perdido tempo demais e não estávamos dispostos a perder mais.
- Tá pensando em que, coisa linda? – depois de algumas rodadas, camisinhas e muito suor, fazia massagem nos meus pés enquanto eu, deitada com a cabeça na base da cama, me perdia em meus pensamentos.
- Nada... – tentei desconversar, mas, não satisfeito, ele puxou minhas pernas, me fazendo sentar em seu colo com uma perna de cada lado do seu corpo.
- Arrependida? – perguntou deixando transparecer a preocupação.
- Não, arrependida não.
- Mas...
- Mas... o que acontece a partir de agora? – o meu plano já tinha sido desfeito, agora eu não tinha mais ideia do que aconteceria. Seria útil se, pelo menos ele tivesse alguma opinião sobre isso.
- O que você quer que aconteça?
- Não sei... só sei que não quero que as coisas mudem – respondi e ele jogou a cabeça para trás batendo na cabeceira impaciente.
- Vai voltar com aquela história de "apenas amigos"? – Nós tínhamos passado as últimas horas na minha cama e agora eu estava seminua sentada em seu colo, querer me convencer de que aquilo era só uma amizade seria o cúmulo da ingenuidade.
- Não, mas eu falei sério sobre não querer nenhum relacionamento sério.
- Eu também não quero.
- Então...
- Então, podemos continuar amigos. Amigos que podem contar um com o outro para tudo e, agora o nosso "tudo" abrange umas coisinhas a mais – concluiu me dando um selinho com um sorriso safado.
- Não sei se isso vai dar certo.
- Não tem como saber sem tentar. Confia em mim.
- Tudo bem, mas acho que podemos deixar isso só entre a gente.
- "Entre a gente": sem mídia, ou "entre a gente": sem ninguém?
- Acho que sem ninguém.
- Você não contaria nem para as suas amigas?
- Acho que, por enquanto, é melhor não. Quando todo mundo fica sabendo, fica mais complicado. Vamos descobrir primeiro como isso vai funcionar, depois a gente conta.
- Tudo bem, você quem sabe...
- Em segundo, esse negócio de ciúmes vai ter que ser controlado. Eu posso ficar com quem eu quiser e você também.
- Essa eu quero ver…
- Eu to falando sério. A gente não está namorando, continuamos como antes, então sem cobrança e sem ciúmes.
- Concordo, pelo menos na teoria, né?
- E temos que ser muito sinceros sobre tudo. Se um achar que não está mais dando certo, ou começar a confundir as coisas, a gente para. A amizade continua em primeiro lugar.
- Confundir as coisas?
- Vai que você se apaixona por mim... eu não quero ter que te decepcionar e ser responsável por quebrar o seu coraçãozinho – falei o fazendo rir.
- Coisa linda, eu acho mais fácil você se apaixonar por mim e eu acabar quebrando o seu coraçãozinho – ele rebateu e foi a minha vez de gargalhar.
- Com isso você pode ficar tranquilo Bonito, o meu coraçãozinho está vacinado contra qualquer paixonite.
As nossas intenções sempre estiveram muito claras e parecíamos concordar em tudo, então não tinha muito o que dar errado, e isso me acalmava.

RODRIGO
Eu ainda estava com dificuldade de acreditar que aquilo estava acontecendo. Depois de tantos "nãos", as coisas pareciam começar a dar certo, e nem partiu de mim.
Confesso que mesmo depois da transa, quando a observei olhando para o teto e viajando nos seus pensamentos, achei que voltaríamos à estaca zero, onde ela ainda tentaria me convencer, e a si mesma, de que aquilo não poderia se repetir e teríamos que voltar ao que éramos antes mas, para minha surpresa, ela concordou que isso seria difícil. Nós estávamos na mesma página no que se tratava ao que era a nossa relação e até onde queríamos ou não ir. Isso era incrível!
Eu tinha ali uma mulher incrível, que me divertia, era gata pra caralho, queria transar comigo, e ainda enfatizava que não queria sentimentos românticos envolvidos, apenas sexo... dava pra ser mais perfeito?!
A melhor parte em ter uma amizade colorida, é que não existe aquele momento desconcertante pós-foda, em que eu precisaria deixar claro as minhas intenções ou pedir para pessoa ir embora. Acabava a transa e continuava a amiga, e eu não tinha nenhuma vontade de sair dali. Ficamos conversando por horas. Passamos por todos os assuntos possíveis e imagináveis e antes da duas da manhã já tínhamos acabado com três garrafas de vinho.
Contei à ela sobre toda a história da banda, como nos conhecemos e viemos morar em Los Angeles. Ela me falou do relacionamento dos pais dela, e como tudo começou a dar errado. Eu contei sobre o meu namoro com a Natalie e como era a nossa relação atualmente, e ela me contou sobre o relacionamento dela com o tal do Derek. Eu acho que ela ainda não tinha percebido como aquele relacionamento era ruim pra ela. O cara era meio babaca, estabeleceu várias regras pra ela. Eu não sou nenhum especialista, mas ouvindo aquilo, eu diria se tratar de um relacionamento abusivo, e um tão bem feito, que ela nem se tocava do quão absurdo era. Choramos um pouco até um achar graça no drama do outro e começarmos a rir. Era aquela típica história de "seria engraçado se não fosse trágico" ou ao contrário.
Fizemos listas de filmes clássicos que não tínhamos assistido ainda, mas deveríamos ver em breve; falamos sobre basquete e sua péssima escolha de torcer para o Golden States quando poderia vibrar pelos Lakers. Quem era Stephen Curry perto de um LeBron James?!
Ela me fez ouvir toda a discografia do Leon Bridges, e eu a obriguei a ouvir todas as músicas da Jungle Roots e quando eu queria pular alguma, ela mesma fazia questão de voltar. Ouviu nossos orgulhos e nossas vergonhas, e o álcool nos fez dançar ao som das mais variadas trilhas sonoras em plenas quatro horas da manhã. Cantamos a plenos pulmões e dançamos desde Beyonce e Lady Gaga, até The Killers e Lynyrd Skynyrd.
O cansaço chegou e lutando contra a vontade de fechar os olhos, vimos o dia clarear enquanto os raios do sol entravam pelas janelas do apartamento, e caímos no sono jogados no chão da sala, sem forças pra voltar para o quarto.
Algumas horas depois, provavelmente perto de meio dia, eu acordei ainda um pouco zonzo e sem saber o que fazer, o que eu podia fazer. A ainda estava dormindo e eu não quis correr o risco de acordá-la em uma tentativa de a levar para cama, então apenas joguei uma coberta por cima dela. Será que eu deveria ir embora? Deixar um bilhete? Eu não queria ir. Preparar um café da manhã? Talvez um brunch? Sentar no sofá e esperar que ela não demorasse muito a despertar?
Olhando em volta e procurando uma ideia pra me ocupar, achei um violão em cima de uma pilha de revistas e papéis, apoiado em uma parede. Como eu não tinha nada melhor pra fazer, achei que ela não se importaria de me emprestar o instrumento... dedilhar um pouco e tentar compor sempre eram uma boa distração, escrever conseguia me entreter por horas e inspirações não me faltariam depois daquela noite. Quando levantei o violão percebi o caderno que estava embaixo dele. "Músicas e Pensamentos". O caderno de músicas dela, que eu tanto queria que ela me mostrasse. Era uma decisão dela. Obviamente eu não deveria abrir, muito menos ler, era uma invasão de privacidade e eu sabia disso, mas não consegui evitar. Desde que descobri que a Ali compunha, eu pedia pra ela me mostrar as suas músicas mas ela tinha vergonha, achava que não eram boas o suficiente, e aquele caderno ali, exposto, quase que posando pra mim, parecia coisa do destino, me implorando pra ser aberto. Tomei todo o cuidado pra tirá-lo dali sem fazer nenhum barulho, me concentrei para não deixar escapar nenhum tipo de ruído, mas até o som da minha respiração parecia ser alto demais.
- Se você abrir isso, eu juro que arranco a sua mão – o susto que eu levei fez o meu coração ir parar no saco.
- Puta que pariu, , que susto! Achei que você estava dormindo.
- E aproveitou para mexer nas minhas coisas?
- Eu só ia pegar o vilão... achei que você não ia se importar.
- O violão você pode pegar, o caderno não – ela levantou do chão, pegando o objeto da minha mão.
- Coisa linda, eu só queria ver as suas músicas...
- Eu já te falei que não vai rolar, esquece – eu claramente tinha entrado em um território sensível e não queria abusar, então levantei as mãos em rendição.
- Tudo bem, não insisto mais – me sentei no sofá, posicionando o violão no colo e começando a dedilhar, tirando alguns acordes. – Você podia cantar alguma coisa sua pra mim.
- Eu já falei que não.
- Qualquer uma, você que escolhe, só um pedacinho.
- Cacete, que cara chato. Você é muito teimoso.
- Quando eu acho que vale à pena, sou sim.
- Mas eu sou mais. Não vai rolar.
- Então me ajuda a compor uma nova pra banda.
- Bonito, eu já falei que as minhas músicas são amadoras, não servem pra vocês. A Julia te falou que eu componho e você tá achando que eu sou profissional. Eu fazia isso de brincadeira, não é nada demais.
- Tudo bem coisa linda, se ficar ruim a gente joga fora. Eu escrevo música quase todo dia, e muito raramente ficam boas, a grande maioria é descartada e não tem problema – falei tentando a convencer. Pelo menos essa seria uma forma de eu conhecer esse lado compositora dela, e ela ponderou por um tempo até se dar por vencida.
- Ok, ok – falou se jogando no sofá do meu lado – mas eu não prometo nada, então sem muitas expectativas, por favor.
O processo de escrever música é muito singular, cada pessoa faz de uma forma, têm suas táticas e demora um tempo diferente. Tentamos dividir por letra e melodia, não deu certo, pensar em temas também não funcionou, nem revezar no violão. Ficamos muito tempo tentando fazer alguma coisa surgir do nada, mas o sol se pôs, a noite chegou e ainda nem sabíamos sobre o que iríamos falar. Não queríamos cair no clichê de músicas românticas ultra melosas, nem escrever algo sobre amizade que já fosse batida, e ficaria brega.
Em algum momento da noite, cercados de embalagens de comida japonesa, desistimos de quebrar a cabeça com aquilo. Eu já estava mexendo no meu Instagram, descendo o meu feed e vendo os vídeos de comida, e ela se olhava em um espelho apoiado em um móvel, tentando fazer um penteado, com uma trança meio doida que eu não conseguia nem entender como funcionava. Depois de um tempo ela largou o cabelo e pegou o violão em uma tentativa de lembrar como se tocava, e a memória muscular não falhou. Deitou no chão e alguns minutos dedilhando, acorde vai, acorde vem, e as ideias chegaram juntas. Alguma coisa naquelas notas funcionou como um interruptor pra mim. Ela tocou, eu escrevi, eu toquei e ela escreveu e em menos de vinte minutos, tínhamos a nossa música. Simples assim, horas quebrando a cabeça, e bastaram alguns minutos despretensiosos para tudo vir à tona.
E não ficou nada ruim, muito pelo contrário, a música implorava por uma gravação.
A me deu carta branca pra gravar e lançar com a Jungle Roots, mas aquilo não parecia certo, não parecia completo. Faltava um pedaço.
Eu acabei passando também o domingo na casa dela, e não quis enviar a música por mensagem ou áudio pros caras, então esperei terça-feira chegar e a gente se encontrar na gravadora pra mostrar ao vivo. Eles ficaram um tanto curiosos sobre o processo de criação e por que não chamamos todos para participar, mas a verdade exigiria que eu contasse do nosso novo arranjo de amizade, então eu dei uma enrolada e mudei de assunto pra focar no resultado final.
Eles ficaram muito surpresos e empolgados com o que fizemos, mas concordaram que o ideal seria se tivesse uma parceria, alguém pra colaborar na gravação. O único problema é que a nunca toparia gravar. Já foi um parto só para convencê-la a escrever a música, seria impossível colocá-la dentro de um estúdio.
- Então vamos chamar outra pessoa – Michael sugeriu.
- Não, de jeito nenhum. Eu escrevi com a , não vou colocar outra pessoa pra cantar no lugar dela.
- Mas ela não quer fazer...
- Então a gente faz sem colaboração, só a Jungle Roots – Ashton falou.
- Não, – Calum retrucou – nem faz sentido. Essa música foi claramente escrita para duas pessoas.
- Então convence a a cantar, – Ashton falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Você sabe que a gente está falando da , né? Como que você espera que eu a convença a entrar em um estúdio e grave uma música com a banda para ser divulgada em todas as plataformas digitais e escutada por milhões de pessoas, se ela não gosta nem de cantar na frente dos amigos dela?
- Ainda mais uma música dessas, né? – Calum falou em tom provocativo.
- Como assim?
- Vai se fazer de bobo agora? A música é a definição desse relacionamento quase romântico de vocês!
- Óbvio que não!
- Óbvio que sim!
- Eu não sei como vocês ainda não se pegaram – Ashton se intrometeu e eu quase engasguei com o comentário – Ficam nessa palhaçada de amiguinhos.
- Para de besteira, é só uma música!
- Aham... você quer me convencer de que enquanto vocês estavam juntos e sozinhos compondo, um do ladinho do outro, nem passou pela sua cabeça tascar um beijão na ? – Michael se aproximou querendo exemplificar a nossa falta de distância. Era óbvio que eu quis beijar a , inclusive foi o que eu fiz muitas vezes, mas eles não podiam saber disso.
- Eu desisto de explicar nossa amizade pra vocês.
- Ok, já que não tem nada demais, dá um jeito de convencê-la.
- Como?!
- Sei lá cara, pede com jeitinho – Michael levantou nervoso. – Essa música é boa, a gente não pode jogar fora, e como precisamos de uma colaboração e você não quer outra pessoa, a única opção é a convencer.
- Que bom que é simples assim, né? – falei carregado na ironia – Quer saber? Tudo bem, mas vocês vão me ajudar. Eu vou mandar uma mensagem pedindo pra ela encontrar com a gente na casa do Ash mais tarde, e vocês vão tentar convencer a fera.
Eu sabia que não seria fácil, na verdade eu já estava convencido de que aquilo tudo seria inútil. No fim das contas, eu teria que dar o braço a torcer e aceitar uma outra cantora como colaboração, mas, antes disso, tínhamos que esgotar todas as nossas opções e fazer o impossível para aquela música ser lançada da melhor forma possível.
Nos últimos dias começamos a ensaiar as sketchs e a apresentação do SNL que aconteceria em três semanas, estávamos muito empolgados então o tempo costumava correr, mas naquele dia especificamente estava sendo diferente, cada minuto parecia levar um ano pra passar. Provavelmente por que queríamos que o fim do dia chegasse logo, parecia que o relógio tinha parado.
Eu realmente não acreditava que a aceitaria cantar, então joguei a responsabilidade para cima dos outros. Ao mesmo tempo, eu ainda queria ter esperança de que daria certo, e isso estava me deixando ainda mais ansioso.
Depois de um século, o fim do dia chegou e fomos pra casa do Ashton esperar pela . Era dia de semana, e ela estava super atolada com o trabalho, então não tínhamos como saber a hora que ela chegaria exatamente, e isso ia aquecendo os nossos ânimos. Antes dela chegar, tocamos a música uma vez, só com violão e cajon pra ver como soava, e até que ficou boa, mas claramente faltava alguma coisa, ou melhor, alguém.
- Você tem certeza que falou que queríamos falar com ela hoje? – Michael perguntou quase caindo no sono.
- Tenho – respondi – ela já me mandou mensagem falando que estava vindo – Estávamos todos cansados e, se não fosse uma coisa importante, que chegava a nos angustiar, teríamos deixado para outro dia, pra podermos dormir.
Ela não demorou muito mais, poucos minutos depois a campainha tocou soando como um choque de adrenalina. Todos ficamos em pé, como adolescentes que esperam levar uma bronca dos pais, enquanto Ashton foi abrir a porta.
- Boa noite gente, desculpem a demora – entrou na sala cumprimentando todos com um beijo na bochecha. – As meninas não chegaram?
- Não, na verdade, somos só nós mesmo – Calum respondeu – O nosso assunto é profissional – concluiu recebendo um olhar confuso de .
- Eu mostrei a nossa música e eles queriam conversar com você – falei rapidamente tirando o meu da reta.
- Covarde – Ashton cochichou sem ela perceber.
- Ah legal. O que acharam? – perguntou insegura.
- Ficou incrível!
- Muito boa mesmo – Michael elogiou
- Mandaram muito bem – Calum completou.
- Que bom! – falou me olhando com um sorriso largo de orgulho e alívio no rosto – Eu estava bem nervosa, na verdade. Fiquei com medo de vocês não curtirem.
- Eu falei que eles iam adorar, ficou realmente boa – falei a abraçando de lado. Era um pouco estranho depois do fim de semana que passamos, voltar ao papel de "amigo", mas era só questão de tempo até eu me acostumar.
- Então qual é o problema?
- Não tem nenhum problema – Calum começou – É que, ouvindo a música, dá para perceber que ela foi feita para duas pessoas cantarem.
- Até demos uma passada nela e ficou legal, mas o ideal seria ter uma parceria – Michael tentou embasar o que Calum estava falando.
- Ok, acho que faz sentido.
- Faz todo sentido! – tentei demonstrar entusiasmo. Estávamos nervosos, então todo esforço parecia pouco.
- E vocês pensaram em alguém?
- Pensamos sim – Calum falou, mas parou por aí. Estávamos esperando um grande "não", então ninguém queria fazer a pergunta.
- Seria a pessoa perfeita, na verdade – Ashton endossou a oferta.
- Acho que ninguém se encaixaria melhor – Michael continuou.
- Que ótimo então – ficou nos olhando esperando que alguém concluísse aquela enrolação – Vocês vão me dizer quem é ou vamos ficar nesse mistério todo?
- Você! – Ashton gritou animado, e depois de alguns segundos de silêncio recebeu uma gargalhada como resposta. Ela não estava esperando por aquilo.
- Essa foi boa Ash – falou se recuperando – mas sem brincadeira, quem seria a cantora? – perguntou de novo, mas ninguém falou nada, mudando para uma expressão de choque – Calma aí, vocês estão falando sério?
- A música é sua, quem melhor do que você pra gravar? – Michael falou nos despertando de volta pra nossa missão ali.
- Vocês só podem estar malucos.
- Malucos por quê?! Você canta bem pra caramba, o mostrou pra gente o áudio de vocês.
- Eu não sou cantora!
- Mas podia ser, a sua voz é ótima – Ashton falou. Às vezes, bajulação é um ótimo método de convencimento. Não dessa vez.
- Esquece, não vai rolar – respondeu como um ponto final deixando a sala com o clima de decepção. Eu já esperava por aquilo, mas ainda tinha um fiozinho de esperança, e ela acabara de o cortar.
- , vem cá – Ashton se aproximou dela, a puxando pela mão e a guiando para o sofá – Senta aí – falou se sentando na mesinha de centro em frente a ela – A música é boa, sua voz também, você estaria com a gente te dando todo o apoio do mundo, então qual é o problema? Por que você não quer fazer?
- Sei lá... – falou dando uma pausa e soltando o ar de uma respiração profunda – A minha voz é boa, mas eu não sou cantora, nem quero ser. Tem gente que passa a vida toda esperando por uma oportunidade de conseguir entrar em um estúdio e gravar alguma coisa, aí eu, que nunca nem pensei nisso, vou chegar lá e fazer?
- Você sente que estaria furando a fila...
- Tipo isso, não me parece justo. Eu gosto de cantar, mas não sou profissional. Pode ser bobeira, mas eu não me sentiria bem.
- Não é bobeira – me aproximei para sentar ao seu lado no sofá – muito pelo contrário. Seria mais fácil se você dissesse qualquer outra coisa, aí a gente poderia tentar te convencer.
- Eu tenho a solução! – Ashton gritou na nossa frente – E se a gente não fosse pro estúdio?
- Você quer descartar a música?! – perguntei sem entender nada. A faixa era boa, não queria desistir dela assim.
- Não, claro que não! Só que a gente não precisa gravar em um estúdio para lançá-la.
- Desenvolve, por favor – Calum falou já sem muita paciência.
- Se a ideia é só liberar a música pro público por que ela é boa e não vale a pena colocar na gaveta, a gente pode gravar aqui.
- Você tem um estúdio aqui? – perguntei surpreso.
- Não, caralho! Quer dizer, tenho, mas não é disso que estou falando. A gente ensaia, grava um vídeo e posta, simples assim. Não precisa de nada muito profissional. Quando montamos a banda, era a Stella que gravava nossos vídeos, podemos pedir pra ela nos ajudar a gravar essa também, alguém dá uma editada básica, sem muita frescura, e postamos no canal da banda ou no nosso Instagram.
- É uma boa – Michael falou se animando com a alternativa.
- É mesmo... qualquer um pode escrever uma música e publicar, não seria nada muito elaborado. – Calum completou.
- O que você acha? – continuava quieta do meu lado.
- Vocês têm certeza que não preferem chamar alguma cantora de verdade?
- Absoluta - confirmei segurando sua mão. - E aí, topa?
- Seja o que Deus quiser... eu topo!
A animação foi grande, mas a preocupação em ela desistir era maior ainda. Em algumas horas ligamos pra Stella, arrumamos todos os instrumentos, posicionamos câmeras e uns equipamentos de som e iluminação que o Ashton tinha guardados e ensaiamos algumas vezes. Já estava bem tarde, devia ser quase meia noite e a ainda fez questão de chamar a Julia e a Helena para garantir que elas não iriam surtar quando descobrissem o que estávamos fazendo sem avisá-las.
Estávamos uma pilha de nervos. No caso, eu e a só, por que os caras estavam bem tranquilos, seria só mais uma música. Para mim era um pouco diferente por ser com ela, uma música que tínhamos escrito juntos, e por mais que eu tenha gostado, não dava pra prever a reação dos fãs. Se detonassem o vídeo e o inundassem com comentários negativos, ela ficaria arrasada e eu me sentiria um lixo. Não queria colocá-la nessa situação, mas já não tinha como voltar à trás.
Tomamos alguns shots de gengibre para aquecer as cordas vocais, ela me obrigou a fazer quinze mil exercícios de voz e os caras a checar a afinação dos instrumentos umas vinte vezes. As meninas fizeram alguns discursos inspiracionais, a fazendo morrer de rir e conseguiram descontrair um pouco aquele clima. Todos queriam apoia-la e queríamos que desse tudo certo.
Mas não tinha mais o que fazer pra enrolar. Estava tudo pronto. Ela não queria acreditar, mas estávamos todos prontos. Então, sem mais delongas, a Stella começou a gravar e o Ash bateu as baquetas.
- 5, 6, 7, 8

[https://www.youtube.com/watch?v=gu4Fkyv7TA8]

You touch me and it's almost like we knew
Você me toca e é quase como se soubéssemos
That there will be history between us two
Que haveria história entre nós dois
We knew someday that we would have regrets
Sabíamos um dia que teríamos arrependimentos
But we just ignored them the night we met
Mas nós apenas os ignoramos na noite em que nos conhecemos
We just dance backwards into each other
Nós apenas dançamos de costas um para o outro
Trying to keep our feelings secretly covered
Tentando manter nossos sentimentos secretamente cobertos
You touch me and it's almost like we knew
Você me toca e é quase como se soubéssemos
That there will be history
Que haveria história

There's no way that it's not going there
Mas não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro
There's no way that it's not going there
Não tem como não chegarmos lá
Every second with you I want another
Cada segundo com você, eu quero outro
But maybe we can hold off one sec
Mas talvez possamos esperar por um segundo
So we can keep this tension in check
Então poderíamos manter essa tensão sob controle
But there's no way that it's not going there
Não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro

I wish I could make the time stop
Eu queria poder fazer o tempo parar
So we could forget everything and everyone
Então poderíamos esquecer tudo e todos
I wish that the time would line up
Eu queria que o tempo se alinhasse
So we could just give in to what we want
Então poderíamos apenas ceder ao que queremos
'Cause when I got somebody, you don't
Porque quando eu estou com alguém, você não está
And when you got somebody, I don't
E quando você está com alguém, eu não estou
I wish that the time would line up
Eu queria que o tempo se alinhasse
So we could just give in
Então nós poderíamos simplesmente ceder

But there's no way that it's not going there
Mas não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro
There's no way that it's not going there
Não tem como não chegarmos lá
Every second with you I want another
Cada segundo com você, eu quero outro
But maybe we can hold off one sec
Mas talvez possamos esperar por um segundo
So we can keep this tension in check
Então poderíamos manter essa tensão sob controle
But there's no way that it's not going there
Mas não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro

We just dance backwards into each other
Nós apenas dançamos de costas um para o outro
Trying to keep our feelings secretly covered
Tentando manter nossos sentimentos secretamente cobertos
We just dance backwards into each other
Nós apenas dançamos de costas um para o outro
Trying to keep our feelings secretly covered
Tentando manter nossos sentimentos secretamente

You touched me and it's almost like we knew
Você me toca e é quase como se soubéssemos
That there would be history
Que haveria história
There's no way that it's not going there
Mas não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro
There's no way that it's not going there
Não tem como não chegarmos lá
Every second with you I want another
Cada segundo com você, eu quero outro
But maybe we can hold off one sec
Mas talvez possamos esperar por um segundo
So we can keep this tension in check
Então poderíamos manter essa tensão sob controle
But there's no way that it's not going there
Não tem como não chegarmos lá
With the way that we're looking at each other
Com o jeito que estamos olhando um para o outro

We just keep on dancing
Nós apenas continuamos dançando
Right into each other
Direto um para o outro
We just keep on dancing
Nós apenas continuamos dançando
Right into each other
Direto um para o outro


Eu realmente estava muito mudada... quando, em milhões de anos, eu pensaria em postar um vídeo cantando com a Jungle Roots? Nunca na minha vida, de jeito nenhum. Mesmo assim, ali estava eu, sentada no meu sofá com os nervos à flor da pele, sem conseguir dormir por que tínhamos acabado de gravar a música que eu tinha feito com , e agora tínhamos que esperar que fosse editado. A Stella garantiu que seria rápido, tentaria terminar até o fim do dia seguinte, mas a ansiedade era enorme. Mais do que isso, eu estava morrendo de medo de dar errado, dos fãs não gostarem, eu decepcionar a banda, e acabar os prejudicando.
- Eu não acredito que você ainda está acordada – chegou na sala com cara de sono e sentou do meu lado. Quando terminamos de gravar, eu entrei em um misto de excitação e desespero, querendo publicar logo ou apagar o vídeo e desistir daquela ideia maluca, então, em uma tentativa de me acalmar, ele voltou para o meu apartamento comigo. Tivemos que dar uma disfarçada, e ele fingiu que foi pra casa dele, esperou que a Julia e a Helena entrassem em casa, e subiu. Dava um pouquinho de trabalho esconder nossa nova dinâmica, principalmente por causa das minhas vizinhas, mas valia a pena. Meio ombro amigo, meio pinto amigo, e assim eu tinha a pessoa perfeita pra aliviar meu estresse. Ter ele por perto me acalmava.
- Eu que não sei como você consegue dormir tão fácil. Você tem noção que eu posso acabar com a carreira de vocês? Os seus fãs podem não gostar de terem me chamado pra cantar, podem não gostar da música, podem simplesmente não gostar que eu estou na música e descontar em vocês!
- Deixa de ser exagerada! – falou rindo do meu nervosismo – Isso não vai acontecer, coisa linda. Eles gostam de você e mesmo os que não gostam, vão ter que admitir que a música é boa. Sempre vai ter gente criticando, não tem jeito, mas temos que focar em quem nos apoia. Eu tenho certeza que a maioria vai curtir.
- Como? Como tem tanta certeza?
- Por que eu confio no meu gosto musical, e nos meus fãs também.
- São seus fãs, não meus.
- Tudo bem. Mas se eles gostam de mim como falam, eles vão perceber como você me faz bem, e vão gostar de você também – concluiu dando um beijo na minha testa.
- Tomara...
- Vem, vamos dormir – levantou segurando a minha mão pra me tirar do sofá – já são três da manhã, e eu não quero levar mais uma bronca da sua chefe por fazer você faltar ao trabalho.
Ele tinha razão, eu sabia disso, mas era difícil desligar a cabeça e parar de pensar que, em algumas horas, milhões de pessoas teriam acesso a um vídeo meu cantando uma música que eu escrevi, e poderiam julgar e comentar da forma que quisessem. Sem contar que a letra da música era bem particular, então as pessoas interpretariam como bem entendessem e provavelmente iriam jorrar comentários sobre e eu sermos um casal, estarmos mentindo sobre a nossa relação, ou qualquer coisa do tipo. E, dessa vez, nem seria completamente mentira, e eu não estava preparada para lidar com isso.


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Em pouco tempo a equipe da Jungle Roots fez uma divulgação pesada da música. Onde quer que olhasse teria uma publicação de "8pm ATENTOS". As fãs ficaram loucas, ninguém sabia do que se tratava, muita gente apostou que seria o álbum novo, e eu só conseguia pensar na decepção que teriam quando vissem o que realmente era.
Como sempre, tentei me afogar em trabalho pra ocupar a cabeça e não passar o dia aflita. Dessa vez não deu tão certo. De dez em dez minutos eu olhava para o relógio do escritório esperando dar oito da noite. Não adiantava, o tempo não estava ao meu favor. passou o dia inteiro me mandando mensagens com memes e figurinhas engraçadas pra tentar aliviar o meu estresse, mas nada adiantava.
Quando o relógio marcou sete horas eu fechei tudo e fui pra casa. A Julia já estava lá me esperando, no meu apartamento inclusive, e a Helena não demorou muito a chegar também.
Os meninos da banda estavam em uma reunião em Santa Bárbara então combinamos de nos falar por vídeo chamada quando desse a hora.
- , você está acabando com as suas unhas – Julia reclamou batendo na minha mão – Para com isso!
- Eu não consigo, amiga.
- Toma isso aqui – Helena falou me entregando um copo com um líquido amarelado dentro. Antes de beber eu cheirei o conteúdo e minhas narinas queimaram com o odor do álcool.
- Que isso Lena? Tá maluca?
- Um shot de vodka de laranja... só pra acalmar os nervos – ela explicou. Eu não estava a fim de beber, até por que o nervosismo era suficiente pra eu vomitar. Mas sem pensar muito virei o copo na boca e senti a bebida descer aquecendo todo o meu corpo.
- Achei muito vacilo eles viajarem e te deixarem aqui sozinha – Julia reclamou enquanto mexia no celular.
- Eles estão trabalhando Ju, não foram passear.
- E não a deixaram sozinha, por acaso, nós duas estamos aqui também - Lena falou os defendendo.
- Não é a mesma coisa. A música é deles, eles insistiram pra ela gravar... deveriam estar aqui pra dar apoio.
- Obrigada pela preocupação, amiga, mas eu estou muito bem só com vocês duas. Não faria sentido eles cancelarem um compromisso de trabalho só pra ficar aqui segurando a minha mão.
Já eram sete e cinquenta quando o meu celular tocou com a solicitação de Ashton para a vídeo chamada.
Oi gatinha!
- Oi Ash, tudo bem por aí?
Por aqui tudo certo, e aí? Nervosa?
- Nervosa é pouco, estou quase infartando.
Oi coisa linda! apareceu do lado de Ashton – Fica tranquila, vai dar certo.
- A gente já falou isso pra ela umas duzentas vezes , não adianta. – Helena entrou no enquadramento no celular pra participar também – Ela tem certeza que vai estragar a carreira de vocês.
Quanto drama – Calum falou se aproximando junto de Michael – Se você fosse ruim, ou qualquer coisa não estivesse boa, a gente não teria topado liberar a música.
Muito menos estaríamos divulgando como estamos
falou
- Pois é, vocês falaram que não seria nada profissional, só um vídeo simples... Já estão fazendo o maior auê. O meu Twitter tá abarrotado com as suas fãs me perguntando se eu sei qual é a surpresa.
Que bom que elas estão falando com você então, mais um motivo para elas curtirem – Ashton falou
- Vocês estão muito confiantes.
Você devia estar também disse para me encorajar.
Estão me ligando aqui – Calum falou pegando o celular – Vão postar agora.
- Puta que pariu! Gente ainda dá tempo de desistir... cancela isso
De jeito nenhum – Ashton disse rindo.
chamou minha atenção – Respira fundo e confia que vai dar certo. E se não der, se ninguém gostar, tudo bem também. A gente está com você, estamos juntos nessa, fica calma.
Mas vai dar certo... vai ser sucesso
– Ashton disse atualizando o canal da banda no Youtube.
- E aí? Já publicaram? – Julia perguntou atrás de mim.
- Acho que não – respondi
Publicaram! Já entrou – Michael gritou do outro lado.
Eu nem consegui me mexer, as meninas logo abriram pra assistir, e as visualizações aumentavam exponencialmente, mas eu me sentia anestesiada. Afundei a cabeça na almofada do sofá, e ouvi enquanto elas tocavam a música na caixa de som.
Eu estava em pânico... mas, por enquanto, era um pânico bom.


Continua...


Nota da autora: Coisas Lindas, espero que estejam gostando de ler assim como eu estou gostando de escrever. Compartilhem com suas amigas, e comentem o que estão achando. Adoraria saber quais teorias vocês têm sobre o futuro do nosso casal.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Quer saber quando esta fic irá atualizar? Acompanhe aqui.


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