Muse

Última atualização: 07/01/2019

Prólogo

O barulho da chuva e dos relâmpagos não parecia mais assustar a menininha de suéter rosa que coloria um livro de receitas da avó, fazia apenas alguns minutos que ela havia parado de chorar pelo barulho. Os pais de trabalhavam durante o dia e ela revezava suas atividades em ir para a escola e assistir televisão na casa da avó, mas, durante os dias de chuva, nada conseguia distraí-la, e os barulhos e clarões causado por relâmpagos e trovões chamavam sua atenção, porém a enchiam de lágrimas enormes que rolavam em seu rostinho infantil durante muito tempo.
Entretanto, naquela tarde, a avó de precisava fazer docinhos para a reunião do livro que teria mais tarde em sua casa, e a menina estava comprometida em ajudá-la com os bolinhos coloridos que eram uma receita de família que a avó guardava.
Grand-mère, será que podemos fazer mais uma fornada de macarons para eu levar na escola amanhã? — disse a garotinha enquanto balançava os pés na cadeira que estava sentada terminando seu crepe.
— Claro que sim, , podemos fazê-los vermelhinhos e com morango no recheio, o que acha? — respondeu a avó da menina, que retirava uma forma cheia de macarons verdes.
— Grand-mère, por que não fazemos eles amarelinhos? Aí, se chover de novo, eu posso contar para os meus amiguinhos que peguei o Sol emprestado um pouquinho e coloquei ele nos macarons! — a menininha estava eufórica com a história que havia acabado de criar sobre a cor dos macarons e a chuva. — Vovó, como os macarons ficam coloridos?
— Bom, quando as pessoas vão fazer os macarons, elas precisam achar algo bem bonito, colorido e gostoso, aí elas colocam na receita e fica tudo colorido. — respondeu a avó. — Todos os doces do mundo têm a cor de algo bem gostoso que escolheram para colocar lá.
— Puxa, vovó, será que as comidas também são coloridas por causa disso? — questionou, olhando para a avó, que apenas assentiu. — Deve ser por isso que o meu prato sempre tem um rostinho feliz!
A avó de riu com a dedução que a garotinha havia tirado sobre os sorrisos que a mãe desenhava em suas refeições para induzir a garota a se alimentar bem e lembrou-se das histórias que o marido contava à neta sobre as cores e as frutas quando queria que a neta experimentasse uma fruta diferente.
— Grand-marè? — chamou a avó, que havia se perdido em pensamentos enquanto olhava a neta.
— Sim?
— Será que um dia eu vou poder fazer muitos doces e comidas coloridas sozinha? — perguntou.
— Claro que sim, querida! E com que cor você vai colorir eles? — a avó perguntou para a menina, que parou um pouco pra pensar e olhou para os lápis coloridos que estavam em cima da mesa.
— Acho que vou fazer eles todos coloridos e vermelho! — exclamou e pegou um lápis vermelho para voltar a pintar.
— E por que você vai pintar de colorido e vermelho?
— Porque tem muitas coisas coloridas que eu acho gostoso, e eu quero dar um pouquinho do meu coração para todo mundo!

Com aquela idade, ainda não sabia, mas conseguiu prever que, anos mais tarde, ela entregaria seus pratos a seus sentimentos e assim deixaria um pouco de seu coração em cada prato que cozinharia.


Capítulo 1


A temperatura acabava de abaixar mais dois graus e as folhas já haviam começado a despencar dos galhos que as prendiam, e sabia que logo seria a entrega do novo cardápio e que ela deveria começar a ter novas ideias. Mas a garota só conseguia pensar em como Zach poderia ter pegado um voo e sumido do mapa sem avisá-la, sem dar pelo menos um tchau e ainda ter levado consigo toda a vontade da garota de recriar e criar receitas em finais de tarde enquanto o pôr do sol os saudava, e o namorado ria enquanto a assistia cozinhar e falar sobre um seriado qualquer que passava na TV.
— Droga, Zach, por que você não volta logo, hein? — exclamou a garota para si enquanto jogava fora mais uma receita malsucedida de torta de mirtilos.
retirou-se da cozinha e arrumou-se para estar em uma outra cozinha em breve, lá pelo menos ela havia certeza que as coisas sairiam bem no final da noite, apesar de toda a pressão e especulação feita sobre o novo cardápio.
O Le Carpentier era um restaurante de comida francesa idealizado pela avó de para a neta que logo na infância demonstrava grande interesse pelas origens da família. A família era de maioria inglesa, menos a avó Agnes, que havia nascido em um vilarejo em Alsácia e se mudado quando conheceu o marido em uma viagem de férias pelo país de Gales.
levava doces para uma festa de encerramento de aulas quando era mais nova, e todo ano a avó a convencia que deveriam mudar alguma coisa da receita original para que ela fosse a original de , e a menina voltava da aula só sorrisos pelas pessoas a elogiarem e perguntarem para a mãe da garotinha qual era a receita ou onde haviam comprado os maravilhosos doces. Por isso, quando a avó a presenteou com o primeiro cardápio de seu restaurante feito apenas por comidas típicas da França, a prometeu que manteria a tradição de mudá-lo a cada outono.
Mas nesse ano ela sentia que iria quebrar sua promessa.
A moça chegou ao restaurante às exatas 4:00 p.m. e já foi colocando seu avental e touca enquanto se dirigia até o lavabo para fazer a higiene das mãos e pulsos, até encontrar com Debbie, que é maitre do restaurante.
— Olá, , tudo certo para hoje à noite, a maioria das reservas já foram confirmadas e vamos ter uma noite agitada pelo jeito. — disse Debbie.
— Veio algum pré-pedido? — a questionou e viu a maitre negar com a cabeça — passou por aqui?
— Ainda não, mas ligou aqui procurando por você e disse que irá amanhã de manhã na sua casa para decidirem coisas sobre o dia do lançamento do novo cardápio. — Debbie falou enquanto via a chef fazendo caretas ao ouvir sobre o assunto.
— Será que você consegue dar uma segurada nela e falar que amanhã pela manhã eu irei comprar algumas iguarias para testar pratos novos com a minha avó e não estarei em casa? — pediu a chef com as mãos juntas como se implorasse.
— Acho que posso tentar.
a abraçou, agradecida, e foi até a dispensa pegar alguns legumes para cortá-los, tentando se distrair e fazer a hora passar mais rápido até a chegada dos primeiros clientes.
O fim da noite já estava próximo e suspirava aliviada por não ter problemas com nenhum dos pratos servidos. Conversava com o chef Eduard sobre possíveis ervas finas e temperos que ela deveria testar e incrementar no novo cardápio, quando a mãe da jovem a telefonou dizendo que estava esperando pela chegada da amiga em seu apartamento.
tentou convencer a mãe para pedir que esperasse pelo dia seguinte, mas a mesma se negou, já que o assunto também lhe trazia muita curiosidade. Percebendo que já não havia escolhas, pegou seu carro e dirigiu calmamente até o prédio onde estava morando com a mãe após o ‘término’ de seu relacionamento, tentando demorar o máximo que pode no trajeto.

Chegando ao prédio, estacionou o carro e foi até o elevador, apertando o botão do quinto andar, e aguardou pela cena da mãe e a melhor amiga paradas na porta a esperando com os braços cruzados. E foi exatamente isso que ela encontrou assim que o elevador parou em seu andar.
— Eu estava imaginando exatamente essa cena enquanto subia, sabiam? — a garota questionou com um ar risonho.
, eu preciso saber sobre o novo cardápio para preparar a cerimônia de apresentação e você já está me enrolando faz dias! — disse, se sentando no sofá da sala.
— Eu não tenho o cardápio base ainda, e tudo o que eu mudo fica ruim demais para incluir. — desabafou a garota.
— Por que você não pede ajuda para a sua avó? — questionou .
— Porque eu consigo fazer, eu fiz isso por seis anos seguidos. — disse, frustrada. — Acho que estou tendo uma crise de inspiração.
— O que você costumava fazer nos meses de elaboração do novo cardápio? — observava a amiga, procurando por sinais que a levariam à solução do problema.
— Nada, ele era criado ao longo do ano, Zach e eu experimentávamos receitas novas e íamos mudando as coisas até que ficassem legais e gostosas. — deu de ombros, apoiando o queixo em suas mãos em seguida.
! É isso, os momentos que você passava com Zach a inspiravam a criar coisas novas para te proporcionar novos momentos felizes, e, agora que ele se foi, você perdeu a vontade por não ter com quem dividir esses momentos. — a loira estalou os dedos como se o problema tivesse sido descoberto.
— Tá, pode até ser, , mas e agora?
— Eu não sei. — respondeu, dando de ombros.
— Vocês eram tão viciadas em filmes e não viram “Comer, Rezar e Amar”? — a mãe de apareceu na sala com uma caneca com achocolatado. — precisa se encontrar para encontrar sua verdadeira inspiração, .
— Eu vou preparar sua viagem agora mesmo. — saiu saltitante da sala e retornou segundos depois com o notebook vermelho da amiga. — Por onde a moça do filme passa?
— Índia! — a mãe de se juntou à melhor amiga da moça, mais empolgada do que a própria mais nova turista da Índia.
— Pelo menos coloca uns lugares legais e que eu sempre tive vontade de ir, por favor? — suplicou.
— Vão ser vinte dias e você vai conhecer o máximo de lugares que pudermos colocar aqui. — disse .
— O que você acha de colocar a cidade da nana? — Aimee perguntou à filha.
— Faz sentido, os docinhos vieram de lá. — disse, assentindo. — Vai ser uma turnê pela Europa, é isso?
— Talvez seja, ou talvez possamos ajustar e colocar algum lugar mais longe. — a olhou, esperando que desse uma opinião importante, mas a morena só deu de ombros. — Bordeaux, Lille, Paris e Marseille, na França, depois Roma e Florence, na Itália, depois você passa em uma escala em Dublin e volta pra casa!
— Eu só vou dar uma passeada de três dias em cada lugar e vou me encontrar? Ah, qual é, vocês querem enganar quem dizendo que isso vai dar certo?
— Eu acho que essa rota está muito boa, . — Aimee disse, ignorando o que a filha havia dito.
— São só três dias, e eu poderia fazer isso qualquer dia desses. — disse, mantendo suas sobrancelhas arqueadas enquanto esperava por uma aprovação. — Posso sugerir algo? Ainda tenho dois meses para o fim do outono, que é quando o cardápio muda, eu poderia pegar um mês desse tempo e ir viajar pelo mundo.
, isso não é uma viagem a passeio. — advertiu.
— A moça do Comer, Rezar e Amar não levou a viagem como algo a trabalho e se encontrou, por que não posso tentar o mesmo? — a moça argumentou e foi até o quadro com o desenho do mundo que havia na sala. — Olha, vou começar pela África, vou escolher algum lugar de lá e passar uma semana lá, depois vou pra América do Sul, Ásia, Europa, América do Norte e por último a Oceania.
— E pra que cidades você pretende ir? — a amiga questionou-a enquanto digitava um possível roteiro no notebook.
— Não sei, posso tentar pesquisar isso amanhã depois de voltar do mercado.
— O que acha de visitarmos alguns possíveis apartamentos para você amanhã? — disse, já pegando sua bolsa e celular e indo em direção à porta.
— Pode ser, preciso dar um jeito em tudo mesmo — a moça deu de ombros, pensando em quantos pepinos teria que resolver para pôr sua vida em ordem.
foi embora e finalmente pode ir tomar um banho e colocar os pensamentos em ordem, poderia e sua mãe estarem certas sobre essa viagem? Claro que sim, mas uma viagem não faria com que ela esquecesse Zach e restaurasse tudo o que ela era antes dele, e nem garantiria que a inspiração para o novo cardápio viesse.
foi até a cozinha fazer seu chá de canela com mel, que costumava tomar antes de se deitar. Enquanto a água aquecia, ela observava a cidade pela janela do quinto andar. Estava tudo tão calmo. Ela pensava se as pessoas daquele bairro teriam insônia, ou se levantavam para tomar água durante a noite, ou se as crianças tinham medo do escuro, ainda havia uma grande quantidade de luzes acesas. Perguntou-se como e onde estaria Zach, se havia pensado nela antes de dormir, se estava acordado.
Zach não havia sido o primeiro namorado de , mas sem dúvidas havia sido o mais importante até aquele momento de sua vida. Era Zach quem esteve com durante todos os cardápios que ela criou. Para a garota, se desfazer do último cardápio que fizeram juntos seria como retirar uma parte do rapaz de sua rotina, seria como se ela conseguisse se desfazer de uma parte dele, e que assim terminaria de vez a história de ambos, jogando no baú todos os momentos que passaram até ali e começasse uma nova história e um novo trajeto sem o cara que a fez se sentir amada e a encheu de doces momentos por mais de seis anos.
A moça bebericou lentamente seu chá enquanto ainda se perdia em seus pensamentos, e foi até o quarto de hóspedes que havia no apartamento da mãe quando acabou sua bebida. Deitou-se em sua cama provisória e dormiu.

apareceu na manhã seguinte no horário combinado, pressionou a campainha continuamente, pensando se a amiga havia se recordado do combinado que haviam feito no início da madrugada, e foi surpreendida pela mesma, que abriu a porta aparentando estar arrumada para o compromisso e com uma xícara com algo que parecia ser achocolatado com leite.
— Pensei que estivesse dormindo ainda. — declarou, sorrindo e dando de ombros.
— Eu coloquei o celular para despertar. — disse, bebericando sua bebida em seguida. — Então, por onde começamos?
— Fiz uma lista de apartamentos para visitarmos. — disse e vasculhou a bolsa em busca de um papel. — Mas achei que preferiria morar em uma casa...
— É, acho que vou preferir mesmo...
— Olha, , eu sei que você ainda não se sente confortável em ter que voltar a sua vida ao normal, mas eu só tô querendo te ajudar a dar um start de novo... — a amiga segurou a mão da moça, que olhava a folha com os endereços.
— Está tudo bem, , eu não posso parar e esperar que ele volte e reconsidere, não é? Vai ser legal e eu ainda posso escolher todas as coisas de decoração de novo, e posso adotar um gatinho para me fazer companhia. — sorriu, sincera, mas só conseguia pensar na teoria de que quanto mais vezes você conta uma mentira ela acaba se tornando verdade, e esperava que a mesma valesse para qualquer tipo de mentira.
A jovem de cabelos castanhos e curtos foi até o porta-casaco retirar uma jaqueta de couro sintético que ainda poderia usar com a temperatura que fazia no momento, além de sua inseparável bolsa rosa bebê.
— Lá vamos nós... — riu fraco e abriu a porta, dando passagem para que passasse, e saiu em seguida, fechando a porta e indo até o elevador, onde a mesma a esperava.

guiava a amiga por um aplicativo de GPS que possuía no celular, às vezes cantarolava ou contava algo que havia acontecido em algum dos eventos que ela havia produzido recentemente. Enquanto contava sobre algo que havia lido recentemente, e sobre as coisas novas que pretendia comprar para a casa nova e as coisas que pretendia comprar durante a viagem.
analisou cada mínimo detalhe de todos os endereços que havia coletado e, depois de três horas visitando casas e apartamentos à venda que ficavam entre o endereço da mãe e do restaurante, começou a cogitar procurar por outros bairros, até chegarem no penúltimo imóvel, já descrente.
, você tem certeza que essa casa está à venda? — perguntou à amiga assim que estacionou o carro no meio fio na frente da casa de número 78 do endereço que havia colocado no GPS.
— Pelo que me parece, não está mais. — disse, analisando a casa colorida. — Mas o corretor que eu marquei está lá.
— Mas está tudo arejado e parece novo, eu acho que uma família dos comerciais de margarina anda morando aí. — as garotas riram com a suposição de sobre a casa. — Podemos entrar se isso não for me levar presa por invasão de propriedade.
As moças saíram do carro e caminharam até a porta da casa, ainda desconfiadas da residência. tocou a campainha e logo após a porta foi aberta por um rapaz de aparência muito simpática e que parecia conhecer a amiga da garota.
— Olá, , estava esperando pela sua visita. — o tal corretor de imóveis saudou , que apenas sorriu e o cumprimentou com um beijo em seu rosto. — Essa é sua amiga que precisa de uma casa nova, certo?
— Me chamo . — estendeu sua mão em direção ao rapaz, que a apertou em cumprimento. — Essa é a sua casa?
— Ah, não, essa é a casa disponível no catálogo que eu vim apresentá-las. — informou. — Ela pertencia a um casal que mudou de país recentemente, a moça era florista e o rapaz era professor, ele recebeu uma proposta de emprego melhor em uma universidade dos Estados Unidos e resolveram largar tudo por aqui. Foram embora há uma semana apenas, por isso parece que ainda mora alguém aqui, deixaram tudo como costumavam cuidar.
— É muito fofinha e parece ser bem arejada, Dave. — elogiou o imóvel e recebeu uma cotovelada de leve da amiga ao entender que e o corretor realmente se conheciam.
— Ela tem uma divisão de cômodos bem legal e acho que vai gostar de ver a cozinha, Srta. . — Dave abriu caminho para que e pudessem entrar no cômodo.
A avó de possuía uma filosofia sobre a cozinha ser o ponto mais importante da casa, pois era o cômodo na qual se passavam os melhores momentos de união com a família e amigos, entretanto, a moça via isso como besteira e que a única cozinha que importava a ela a princípio era a cozinha de seu bistrô, que era a sua maior preocupação e ocupação.
estava atenta até aos mínimos indícios de felicidade e contentamento que demonstrava, seria uma conquista digna de uma medalha convencer que aquela poderia ser a casa que ela procurava até o momento. Enquanto isso, Dave, o corretor, estava do outro lado da cozinha observando mais a amiga da possível cliente do que a própria, que se ocupava com abrir e fechar os armários coloridos que haviam embutidos nas paredes da cozinha procurando algo que a desagradasse e a fizesse optar por outro lugar menor. O grupo seguiu pelos outros cômodos da casa com o mesmo ritual de , olhando cada mínimo detalhe, e tentando a persuadir exaltando qualquer qualidade que poderia enxergar naquele lugar.
— Obrigada por nos acompanhar durante a visita, Dave, qualquer coisa eu entro em contato ainda hoje. — sorriu ao rapaz, que concordou com a cabeça e olhou para , que sorria também.
O rapaz agradeceu a visita das duas, que saíram porta afora com um destino inteiro para planejar.

— Filha, você pegou tudo? Documentos, remédios, roupas de frio, protetor solar... — Aimeé ia citando a lista de itens para viagem enquanto a filha se dirigia ao guichê de embarque.
— Sim, mãe, está tudo na mala de mão, do jeito que você pediu. — afirmou enquanto pegava o último lugar da fila do guichê.
— Você prometeu me mandar fotos e me deixar a par das notícias. — resmungou.
— Eu vou te ligar, , fiquem tranquilas, eu vou me sair bem e vai ficar tudo bem. — tentava acalmar a mãe, que já chorava, e a amiga, que permanecia emburrada com todo o mistério que havia deixado sobre os destinos da viagem. — Marsella me espera e eu já to indo, se cuidem, eu amo vocês, até daqui algumas semanas!
sorriu quando terminou o processo de verificação de seus documentos, indo logo em direção aos portões de embarque, onde se virou para sorrir e acenar para a mãe e para a melhor amiga, que observavam ela ir em busca do desconhecido.


Capítulo 2


Destino 01: Marsella, sul da França


mexia os pés sem parar em um sinal típico de impaciência que tomava conta de si com a demora da chegada de um taxista local. A moça achava que seria a forma mais rápida de chegar ao hotel, poder tomar um banho e dormir até o dia seguinte. Entretanto esse deveria também ser o pensamento das outras inúmeras pessoas que pegaram o mesmo voo que ela e estavam ali esperando um táxi também. A enorme espera fez com que ela conectasse seu celular à internet, pesquisasse a rota do hotel mais próximo e começasse a caminhar, mesmo que demorasse cerca de vinte minutos a pé.

“Se eu tivesse essa ideia desde quando cheguei, já poderia estar dormindo!” pensou enquanto caminhava, irritada com o tempo que havia perdido.

Ao chegar ao pequeno hotel, deixou-se encantar pela decoração, que parecia ser antiga porém muito bonita, e aparentava ser bem confortável também, além de o local possuir um clima familiar e confortável para se passar até meses ali. Fez a reserva de um quarto do segundo andar do pequeno prédio de quatro andares e foi em direção às escadas que a levariam até o quarto. sacou o celular do bolso assim que chegou ao quarto de número 8 e enviou uma foto à mãe, dizendo que já havia chegado e estava bem. A moça acomodou suas malas ao lado de uma mesa de cabeceira após retirar um conjunto de pijamas e ir tomar seu tão merecido banho quente e ir dormir após isso.


Na manhã seguinte, a jovem acordou cedo e animada, pronta para se aventurar nas ruas de Marsella e descobrir algumas receitas novas, ela teria apenas três dias na cidade portuária e depois seguiria para a região que a avó morava quando era mais nova, por isso enquanto se arrumava procurou em alguns sites workshops ou aulas de preparo de peixes, encontrando uma em um restaurante que ficava no calçadão do porto. Inscreveu-se, pegou sua inseparável bolsa rosa bebê que a acompanharia para um café da manhã e desceu os três lances de escadas saltitante, rumando pelas ruas que seu GPS indicava. 


A escola de gastronomia da cidade era bastante clara e muito cheirosa para um lugar com quase 90% das aulas focadas em peixes e frutos do mar, o que impressionou a inglesa, que odiava cozinhar qualquer tipo de animal aquático devido ao cheiro. se sentou em um dos lugares vagos próximos à bancada do chef que iria conduzir o workshop.

— Um bom corte na carne pode trazer uma certa leveza ao prato se bem harmonizado com algumas ervas finas ou acompanhamentos leves... — ia dizendo o chef que conduzia o workshop com o sotaque carregado francês. A inglesa, vestida com sua doma, ia anotando tudo em um caderno que havia comprado em uma papelaria que encontrou durante o caminho até ali. 

O chef, que se chamava Roussel, já havia contado toda sua trajetória pela gastronomia e como, curiosamente, ele havia se apaixonado por peixes depois de começar a frequentar muitos restaurantes praieiros que serviam peixes de forma simplificada, porém com um bom sabor, e decidiu trazer a simplicidade de restaurantes praieiros para a sofisticação de um bistrô.

já estava entediada, seu caderno estava cheio de anotações sobre corte, estrutura de peixes, e era sempre os mesmos peixes! Por Deus, quem havia inventado que salmão seria o melhor peixe que se poderia degustar? A jovem chef tinha como filosofia gastronômica que qualquer alimento poderia ser bom e gostoso se quem preparasse soubesse o que fazer para isso acontecer, no entanto, assim como em Londres, aparentemente todos os restaurantes de renome tinham como objetivo principal a criação de um cardápio que apenas alimentos considerados nobres seriam usados.


Era próximo de três da tarde quando saiu do workshop de peixes e foi passear pela cidade, entrando em algumas lojas de souvenires procurando presentes para a mãe e , além de um chaveiro tradicional com o nome da cidade. Retornou ao hotel antes das seis, onde tomou um banho e finalmente pode trocar suas roupas, que ainda cheiravam a peixe com um pouquinho de suor e perfume. Se vestiu e pegou sua bolsa, saindo do hotel cerca de 30 minutos após ter chegado, pronta para conhecer o ilustre porto de Marsellas.


caminhava pelas ruas movimentada da cidade, que, apesar de ser bem velha, era muito bonita com seu típico charme francês, e a maresia do mediterrâneo tornava a visita à cidade ainda mais gostosa. A garota chamou um táxi que passava na rua por onde caminhava e pediu para o motorista levá-la até o Vieux Port e a recomendasse um restaurante. O moço prontamente engatou uma conversa sobre seu gosto gastronômico, a indicando uma pizzaria famosa pela influência de italianos que migraram para Marsella no começo do século XIX, e um restaurante de comida francesa muito frequentado por turistas que preferiam não arriscar ao experimentar pratos com moluscos ou frutos do mar, que eram muito explorados pela maioria dos restaurantes próximos ao porto, e, apesar de a moça ser dona de um restaurante onde eram preparados inúmeros pratos elaborados, ela pediu para o motorista deixá-la na pizzaria assim que tentou puxar em sua memória qual foi a última vez em que havia comido uma pizza em paz e não se recordou do exato dia mas parecia fazer alguns anos.

Assim como solicitado, o taxista parou em frente à pizzaria, que tinha as paredes de fora como uma construção do século passado, porém pelas janelas transparentes era possível ver toda a modernidade que existia no lado de dentro. pagou pela corrida e adentrou a pizzaria, rezando para que não precisasse ter feito algum tipo de reserva prévia. A maître, que era uma garota mais nova que porém muito sorridente, indicou uma pequena mesa com apenas dois lugares próxima a uma janela, acompanhou até a mais velha se acomodar e entregou-a o cardápio, a alertando que o garçom viria em breve anotar seu pedido.


se sentou, abriu sua bolsa e retirou o celular para tirar uma foto do cardápio e enviar a , que já havia enviado inúmeras mensagens sobre a falta de notícias da amiga. A foto, acompanhada com um emoji piscando, foi respondida com um emoji bravo e vermelho acompanhado por “Pizza é na Itália!”. Deu um sorriso pensando que ainda poderia passar pela Itália e comer sua pizza favorita de todo o mundo, que era vendida em uma pizzaria nas proximidades do Coliseu. Um rapaz se aproximou e prontamente focou em escolher uma pizza, já que não queria deixar o garçom esperando e ainda havia muito a se conhecer naquela região.

— Eu gostaria de uma marguerita e um suco de pêssego. — a moça olhou para o rapaz, que sorriu e deu de ombros.

— Eu também, pelo que me parece seu convidado ainda não apareceu e eu acabei de levar um chá de banco, então porque não me convida para sentar e dividimos uma marguerita e um suco de uva, que fique claro. — o rapaz, que era muito mais alto que , disse, ainda sorrindo. A pobre moça franziu toda a sua testa e, se aquela cena fosse narrada em histórias em quadrinhos, provavelmente teria explícito o ponto de interrogação que cercava sua cabeça.

— Eu deveria dizer que sinto muito ou algo do tipo? — disse e viu o rapaz dar de ombros em um típico gesto que pouco o afetava. — Eu não o conheço, mas, de qualquer forma, pode se sentar se quiser.

— Muito obrigado pelo convite, senhorita, me chamo Ralph. — disse, estendeu a mão em um cumprimento e estendeu a sua para um aperto de mão, a qual foi surpreendida por um beijo depositado no dorso de sua mão.

— Muito prazer, Ralph, me chamo . 

— Noite difícil? — a garota o questionou e pode observar que Ralph havia dado de ombros pela segunda vez em menos de meia hora.

— Nem tanto, havia marcado de jantar com uma garota da faculdade, mas pelo visto ela não vem. — sorriu fraco. — Mas está tudo bem, era a primeira vez que sairíamos, mas e você?

— Eu só vim comer uma pizza mesmo, na minha companhia. — sorriu e os dois viram finalmente o que parecia ser o garçom real se aproximar. 

— Boa noite, senhores, será que posso anotar seus pedidos? — o verdadeiro garçom os questionou.

— Por favor, queremos uma pizza de marguerita e um suco de pêssego pra senhorita e outro de uva para mim. — Ralph disse ao garçom, que prontamente anotou os pedidos e saiu em direção à cozinha da pizzaria.

O rapaz voltou sua atenção à mulher parada à sua frente, que olhava discretamente as notificações do celular que estava ao seu lado na mesa. O rapaz pigarreou a fim de chamar sua atenção, o que foi notado pela moça, que bloqueou a tela do celular e voltou sua atenção ao rapaz.

— Mas então, , de onde você é? — questionou-a e arqueou as sobrancelhas. — Digo, você pareceu surpresa quando te cumprimentei e deixa o celular na mesa, parece ser ocupada então naturalmente me faz achar que não é da região, apesar de se parecer com as moças daqui...

— Você é algum tipo de psicanalista? — disse e os dois riram, e Ralph fez um sinal negativo com a cabeça. — Eu sou da Inglaterra, mas minha família tem origem francesa.

— Ah, entendo, todo mundo tem um parente francês, parece que estamos no mundo todo! — disse o rapaz.

— É que na verdade minha avó nasceu aqui, e foi embora quando conheceu o meu avô, então eu sou metade da França e metade da Inglaterra, mas daí também posso ser metade viking e metade camponesa... — disse a garota. — Mas e você? Já sei que é daqui e faz faculdade.

— Na verdade, eu sou de Alsácia e faço faculdade em Paris, estou aqui pra visitar alguns amigos e pro encontro que levei um "fora". — Ralph fez sinal de aspas com as mãos, dando um ar hipotético, o que fez a inglesa rir.

— Acho que não é um "fora", é um fora fora mesmo. — repetiu o gesto que o rapaz havia feito anteriormente, e o mesmo riu, percebendo como havia falado.

— Acho que você tem razão, mas está tudo bem, qualquer um pode encontrar um novo amor na cidade luz! — o rapaz parecia convicto com esse fato e se limitou a apenas bebericar seu suco, que havia acabado de chegar junto com a pizza de marguerita.


A dupla permaneceu conversando durante a refeição, Ralph tentava enumerar as dezenas de lugares que deveria visitar durante sua estadia naquela região e contava um pouco sobre o país onde havia nascido e o que fazia para viver. Logo descobriu que Ralph era estudante de direito na Faculdade de Paris e que sonhava em ser uma espécie de Mike Ross do direito civil, era muito religioso e ainda ia com os pais para as missas dominicais, mesmo que estivesse de ressaca da noite anterior. Ralph era descendente de suíços e a família possuía uma pequena loja de chocolates artesanais à meia hora de distância da Champs Élysées, e se surpreendeu em saber que era chef de cozinha e dona de um bistrô em Londres mas que não sabia fazer qualquer doce que envolvesse um chocolate derretido, logo o rapaz também descobriu que ela havia saído de um relacionamento que já era quase um casamento quando decidiu que deveria descobrir sua essência no sentido mais puro e reinventar todo um cardápio que havia uma simbologia para ela.


era muito estranha para Ralph, mas, depois de ouvir suas teorias sobre o que ela acreditava que era o certo em relação à paz interior, família, amor e amizade, o rapaz cruzou os dedos mentalmente, pedindo aos deuses de sua crença que tenham cruzado seus caminhos para que ela fosse a garota certa pra ele, a qual ele tanto esperava.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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