Última atualização: 08/11/2018

Prólogo


“Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer. ”
Bob Marley.


E mais uma vez naquele dia eu me peguei olhando a tela daquele celular. Olhei as rachaduras no display e lembrei das várias vezes que joguei aquele pequeno e maligno objeto na parede, e sempre pelo mesmo motivo. Sempre caio no pecado de achar que superei tudo aquilo, mas não é tão fácil como parece. Eu realmente me entreguei àquele amor, ele realmente fez eu me sentir amada.
Não, eu não sou como aquelas garotas bobinhas que ficam culpando o cara pelo fim do relacionamento. Eu sei que a culpa foi minha, eu simplesmente me deixei levar pela minha insegurança e acabei fazendo o que eu mais temia, destruí tudo o que um dia me manteve forte. Eu vivi o amor de forma intensa por vários anos da minha vida e por puro egoísmo perdi aquilo que mudou minha vida.
Ele me entendia, era a única pessoa que sabia pelo que eu estava passando, apesar da situação dele ser bem pior do que a minha. O jeito que me olhava me passava tanta segurança, e eu sabia que por trás daqueles tubos e tanques de oxigênio ele não se sentia tão confiante quanto me fazia sentir.
Às vezes me pego mandando-o mensagens, mesmo sabendo que nunca vou obter resposta, afinal... Ele se foi e eu não pude ao menos dar adeus. Como eu queria poder voltar atrás e dizer o quanto eu o amava. Não, ele não havia morrido, eu apenas deixei com que se fosse. Desisti de lutar. Pensei que estava fazendo tudo para o meu bem.
Cada manhã que passa eu imagino como tudo teria acontecido se minha escolha tivesse sido diferente. Será que é possível voltar atrás? Eu deveria realmente procurá-lo? Dentro de mim ainda existe um sentimento que me motiva. Eu posso tentar por uma última vez. Mostrá-lo que eu não sou fraca a esse ponto. Meu amor por ele pode superar qualquer perda ou falha. Assim se inicia minha vida com .


Capítulo 1: Você já fez sua escolha.


Hover City – 03/05/2034 – 8:00a.m

Fazia tempo que eu não acordava tão cedo. Hoje faz um ano que me mudei da casa dos meus pais. Um ano desde que me libertei daquele inferno que eu não sabia se poderia chamar de lar. Tive que esperar completar 21 anos para morar sozinha, já que em Hover City era quando se atingia a maioridade. Não entendia como uma cidade daquele tamanho poderia ser tão burocrática. Nunca irei esquecer o dia que saí daquele lugar.

Hover City – 03/05/2033

As malas já estavam na porta. Uma parte das caixas com pequenas lembranças que guardei durante minha adolescência, algumas das poucas que realmente valeram a pena, levando em consideração o que tinha sido a minha vida, já se encontravam no porta-malas do carro. Peguei meu casaco jogado no sofá de couro marrom, já desgastado pelo tempo, que ainda decorava a sala sem vida da minha, agora, antiga casa e fui arrastando minhas coisas para fora. Não fiz questão de olhar para trás, afinal, para que olhar para um lugar de onde só levarei lembranças ruins? Eu sabia o que veria se olhasse, uma casa mal cuidada, com a pintura descascada e algumas manchas escuras devido às inúmeras infiltrações. Pude ouvir alguns sussurros atrás de mim, posso jurar que ouvi minha mãe soltar um “Que menina mal-agradecida”. Me controlei para não responder, mas no fundo, eu tinha pena dela, pena de tudo o que ela passou com aquele homem horrível com o qual ela tinha casado. Não adiantaria de nada tentar argumentar, eu sempre tentei manter uma relação boa pelo menos com ela, infelizmente não consegui. Por pior que ela tenha sido comigo, eu não poderia ser hipócrita ao ponto de não reconhecer a força que vinha de dentro daquela pequena mulher. Não importa o quanto eu tentasse, ela não reconhecia que tinha um monstro ao seu lado e tudo o que importava naquele momento é que eu estava me livrando daquela vida. Me livrando daquele monstro.


Hover City – 03/05/2034 – 8:09a.m

Peguei a xícara com café em cima da grande bancada de mármore escuro, que harmonizava perfeitamente com os armários modulados em cor creme, e hesitei um pouco antes de levar aquela bebida fervorosa até minha boca. Eu iria visitá-lo hoje. Todas as vezes acontecia a mesma coisa, eu me sentia uma criança apaixonada com borboletas no estômago, mas ao mesmo tempo sentia meu corpo estremecer. Nada tiraria da minha cabeça a ideia de que todo dia poderia ser seu último. Aquela poderia ser a última vez que eu olharia nos olhos do amor da minha vida.
Desde que descobri o atual estágio do câncer de , decidi que seria melhor diminuir a quantidade de visitas que eu o fazia. Era uma forma de me proteger. Pode parecer egoísta, mas não queria me abalar mais do já tinha sido abalada minha vida inteira. Às vezes, quando deitava minha cabeça no travesseiro à noite, meu peito se enchia de um sentimento de culpa, eu sabia que estava sendo egoísta e tinha medo de que um dia , resolvesse parar de me compreender e simplesmente me mandasse embora. Olhei pela janela da cozinha e pude ver a neve cair, começando a encobrir os poucos carros que ainda estavam estacionados na rua. Estávamos no inverno, mas isso nunca impediu que o povo de Hover City parasse de trabalhar ou simplesmente deixasse a sua rotina de lado. Apesar do clima do lado de fora, minha casa não deixava de ser aconchegante o suficiente para manter qualquer um que estivesse dentro aquecido nessa época do ano. Desde que me mudei, dediquei cada centavo que ganhava na minha casa, aquele era meu porto seguro, minha fortaleza, meu refúgio e por mais que não fosse, para mim, deveria ser indestrutível.
Coloquei a xícara já vazia dentro da pia e subi vagarosamente as escadas até meu quarto. Eu precisava de um banho, a noite passada havia sido cansativa. Demorei a pegar no sono. Depois de duas taças cheias de um vinho barato que eu havia comprado em um mercado na rua de casa, comecei a ler uma revista com artigos científicos sobre leucemia, nada que me fizesse entender o que , tinha. Entrei no box e deixei com que a água quente tocasse meu corpo, completamente tenso. Podia sentir cada músculo do corpo contraindo. Eu queria gritar, liberar toda a minha dor e toda a minha angústia até que não restasse mais ar em meus pulmões, mas eu não podia. Precisava manter minha mente a mais sã possível, eu não teria um dia fácil pela frente. Aos poucos, os vidros do pequeno banheiro eram tomados pelo vapor da ducha. Eu não conseguia parar de pensar em como , havia mudado minha vida e em como eu poderia perdê-lo a qualquer momento.

Hover City – 23/09/2033

- Você não tem medo de morrer? – Olhei em seus olhos, e por um momento senti seu olhar vago. Ele estava escolhendo as palavras certas para responder, eu podia sentir.
- Não gosto de pensar na morte, apenas no que posso fazer enquanto vivo, quero aproveitar cada instante com as pessoas que estão ao meu lado – Ele esboçou um sorriso tímido, o sorriso que só ele sabia dar, mesmo naquele estado, sabia me passar segurança e era impossível não retribuir.
- Você não imagina como isso me deixa mais tranquila- sorri de lado e segurei sua mão.
- Ei, você fala como se eu estivesse à beira da morte – Ele soltou uma risada gostosa e se esticou um pouco para beijar o canto da minha boca – Vai ficar tudo bem, gatinha.
- Eu odeio quando você me chama de gatinha – Revirei os olhos.
- Eu sei – Ele dá uma pausa – Gatinha – Não aguentamos e demos uma gargalhada que fez com que as enfermeiras nos dessem uma bronca. Controlamos um pouco mais o riso e ele me puxou para um beijo que misturava o sentimento mais puro de amor e carinho, o sentimento carnal existia sim, mas devido nossas condições, ele sempre era suprimido por outro turbilhão de sentimentos que sempre fazia com que eu me perdesse em seus lábios, àquela altura, quase sem cor. Conversamos até a hora de eu ir para casa.

Hover City – 03/05/2034 – 9:37a.m

Vesti uma roupa bem quente, já que a neve ainda caia, nada muito arrumado, uma blusa de manga comprida branca, justa ao corpo, de gola alta, um sobretudo caramelo, um cachecol alguns tons mais claros, um jeans e minhas botas. Peguei alguns biscoitos amanteigados para e não pude conter o sorriso que se formou no canto dos meus lábios ao ver os biscoitos em formato de animais, ele era fascinado pelo mundo animal. Fui até o carro com muito cuidado para não acabar escorregando na pequena camada de gelo que tinha se formado no pequeno caminho que separa o jardim da garagem. O caminho até a clínica era um pouco longo, ao contrário de quando eu morava com meus pais. Me limitei a conectar o celular via bluetooth no som do carro e deixar tocar alguma playlist em modo aleatório. Estacionei o carro na área de funcionários. Mesmo não sendo mais voluntária, com o passar dos anos as pessoas da clínica já me conheciam o suficiente para que eu pudesse deixar meu carro lá, afinal, eu era a única namorada apaixonada que visitava o namorado todas as semanas há quase exatos 4 anos, sem nenhum tipo de intervalo.
Passei pelo saguão da clínica, cumprimentei Martha, a enfermeira chefe, e fui em direção ao quarto de , não pude conter o breve tremor das minhas mãos. A porta estava aberta e ele não estava lá. Sentei na grande poltrona bege que tinha ao lado do leito e fiquei esperando. Ele provavelmente havia saído para fazer um exame de rotina. Estava perdida em meus pensamentos quando ele chegou.
- Oi, amor – Ele sorriu, enquanto os enfermeiros o colocavam na cama.
- Oi – Sorri e depositei um beijo em sua testa – Como estão, rapazes?
- Bem, – Max e Carter responderam quase ao mesmo, tempo sorrindo como sempre.
- Ele se comportou bem hoje? – falei dando uma piscadela para a dupla.
- Dando trabalho como sempre, – Max entrou na brincadeira segurando o riso.
- Esse não tem jeito mesmo – Carter não pôde ficar de fora.
- O que é isso, uma espécie de complô contra mim? – perguntou, fingindo indignação.
Todos nos olhamos por alguns segundos, até não aguentarmos mais e cairmos na gargalhada. Depois de uma breve despedida, os rapazes saíram do quarto alegando que tinham outros pacientes para ajudar e que nos dariam um pouco de “privacidade” hoje.
- Você trouxe? – me olhou como uma criança quando espera um presente de aniversário.
- Eu sempre trago – Sorri e lhe entreguei os biscoitos.
- Eu amo você, gatinha – Ele disse com a boca entupida de biscoitos
- Ei, vai com calma, esses biscoitos não vão fugir de você!
- Desculpa, é que eles são muito bons – eu nem tentava segurar minha risada, ele estava tão lindo com a boca cheia de biscoitos.
Sorrisos. A maioria dos sorrisos que eu esbocei na vida foram ao lado de . É meio irônico pensar que aquela era a parte feliz da minha vida. Sair duas vezes na semana para ver meu namorado internado em um hospital, com leucemia. Minha vida pode ser estranha como for, qualquer momento que eu viva é melhor do que o inferno que eu tive que sobreviver na minha infância/adolescência.
- Meus parabéns, amor – ele esboçou um sorriso largo, que fez com que suas covinhas aparecessem, enquanto abria os braços para que eu o abraçasse.
- Parabéns pelo que? – fiz uma careta para mostrar minha confusão mental naquele momento, mas me aproximei e o abracei quase me enrolando por completo naquele emaranhado de fios e tubos.
- Como assim “pelo que?”? Hoje faz um ano que você saiu da casa dos seus pais – falou, se afastando um pouco para que ele pudesse olhar em meus olhos e fizesse uma careta para que eu entendesse que era algo óbvio.
- Nossa, verdade, já tinha me esquecido desse pequeno detalhe – falei dando ênfase.
- Pequeno? Por Deus, só eu sei o que foi todos aqueles anos te ouvindo reclamar de casa – soltou uma gargalhada breve e continuou – mas com muitos motivos, claro.
- Pois é, às vezes nem consigo acreditar que eu realmente consegui sair de lá. – fiz um gesto para que ele desse um espaço e deitei na cama ao seu lado, encostando minha cabeça no seu peito, logo após depositar um rápido, porém apaixonado beijo em seus lábios e suspirar fraco. Nossa, como eu conseguia me perder completamente nos braços de .
- Como passou a noite? – perguntou, alisando meus cabelos.
- Demorei para dormir como sempre, me distraí lendo algumas revistas e bebendo um vinho horrível que comprei em um mercado perto de casa – Suspirei, me aninhando ainda mais perto dele, como se fosse possível que nossos corpos se fundissem em um só – mal consigo acreditar que existem pessoas dispostas a gastar seu dinheiro com aquela porcaria.
- Eu já disse para você parar de ler revistas sobre câncer, isso só faz você pensar que eu vou morrer – Ele soltou um suspiro cansado e voltou a comer os biscoitos.
- Como você sabe que eram sobre câncer? – Olhei para ele desconfiada.
- Você odeia revistas, . – Ele me olhou como se fosse uma resposta óbvia, o que realmente era.
- É inevitável, você sabe que estou tentando entender e me atualizar – Dei de ombros enquanto colocava uma pequena mecha do meu cabelo atrás da orelha e acabei me distraindo enquanto olhava para a janela.
- Você já se decidiu? – Sua voz saiu um pouco trêmula, pelo que conheço , ele falou um pouco nervoso e eu o olhei, eu não sabia o que responder - , você precisa me responder.
Nós tínhamos começado tão bem aquele dia, sabia que teria que vir algo para estragar. “Aquela conversa”. A conversa da qual tenho me esquivado há meses. A conversa que definiria, novamente, o meu futuro e de . Por mais que eu tivesse passado noites em claro, pensando em qual seria minha resposta, eu ainda não tinha me decidido. Faziam apenas alguns meses que eu havia me formado em moda em uma pequena universidade de Hover City. Logo que me formei, consegui um emprego de estilista em um ateliê de noivas no centro da cidade que importava diversos vestidos para os quatro cantos do país, o que me dava uma grande vantagem profissionalmente e como consequência, economicamente. Mas antes disso, me esforçava para sobreviver com o pouco que recebia do estágio e dos bicos como garçonete em lanchonetes e bares espalhados pela cidade. Tinha conquistado minha independência tão recentemente, como largar tudo de uma hora para outra? Minha cabeça parecia girar, não podia simplesmente fingir que não tinha ouvido a pergunta.
- , eu não posso largar tudo o que eu tenho aqui – Tentei falar da forma mais pacífica possível, mas minha voz saiu vacilante, fiz uma pausa e esperei que ele falasse algo, mas isso não aconteceu – Agora que eu completei um ano na minha casa nova, acabei de conseguir um emprego fixo que me paga bem e estou começando a resolver minha vida.
- Mas em Minsoan eu tenho chances melhores de cura com o novo tratamento – Ele já estava falando com um tom de derrota – Você, mais do que ninguém, sabe o quanto isso é importante para mim.
- Eu sei, mas eu tenho muita coisa aqui, , você sabe como foi difícil chegar até aqui – suspirei enquanto alguns flashes passavam pela minha cabeça - agora não podemos pensar só em você – O silêncio tomou conta do quarto e eu percebi o que tinha falado – Não foi isso que eu quis dizer! – virei rapidamente para olhá-lo, mas nossos olhares não se encontraram.
- Foi sim, . – Ele soltou um suspiro forte e pousou a cabeça no travesseiro, virando completamente para que eu não pudesse ver seus olhos – Acho que você já tomou sua decisão... – Acho que ele falou aquilo mais para si mesmo do que para mim.
Não disse mais nenhuma palavra, precisava respirar um pouco, tinha muita coisa na minha cabeça. Levantei da cama e peguei minha bolsa, saindo rapidamente do local. Acabei não me despedindo de ninguém. Martha me olhou confusa assim que me viu saindo do quarto, mas por tudo o que ela já tinha visto acontecer naquele pequeno quarto, já imaginava que eu queria ficar sozinha. Eu realmente não queria falar com ninguém, só queria fugir daquilo. Eu não podia simplesmente deixar tudo o que tinha conquistado longe dos meus pais, pelo mínimo que fosse, para reconstruir uma vida totalmente diferente em outra cidade. Eu poderia estar sendo egoísta, claro, eu não pensei nele, estavam precisando de novos pacientes em Minsoan para efetuarem o novo tratamento para leucêmicos, mas não tínhamos certeza que o tratamento funcionaria, era apenas uma fase experimental, e se morresse? Eu teria desistido de tudo em Hover City para viver com ele e simplesmente veria tudo desmoronar.
Nunca havia me sentido tão pressionada como hoje. Não consegui me despedir dele, na verdade de ninguém. Peguei meu carro e saí por aí sem rumo. Eu não iria conseguir me decidir a tempo, o helicóptero iria buscar em dois dias e como ele mesmo disse, eu já tinha feito minha escolha. Eu o deixaria ir.


Capítulo 2: Desde quando você se importa?



Hover City – 03/05/2034 – 12:48p.m

Já fazia mais de 2 horas que eu estava dirigindo, totalmente sem rumo. Eu não pensava em nada. Minha mente estava vazia. Apesar do frio que fazia, minhas mãos suavam. Tocava uma música qualquer na rádio, uma melodia suave que logo foi interrompida pela música de abertura do jornal local. Hover City, apesar de bem desenvolvida e gerar uma boa renda para seus moradores, era uma cidade pequena, qualquer coisa virava notícia urgente, já que a maioria das pessoas se conheciam. Recordo-me de uma vez que noticiaram que a confeitaria da dona Isobel, minha vizinha, uma senhorinha muito simpática, com cabelos brancos como a neve e olhos azuis encantadores, acabara de “lançar” novos doces. Logo a voz rouca do âncora do jornal tomou conta do meu carro.
“Boa tarde ouvintes e cidadãos de Hover City, interrompemos a sua programação para uma notícia urgente – ele fez uma pausa dramática – Alertamos que devido uma frente fria vinda do norte, teremos uma nevasca a partir de amanhã e que possivelmente durará 2 semanas – “Ótimo, mais neve”, pensei rolando os olhos, teria que comprar comida para deixar guardada. Nevascas para esses cantos do país eram rigorosas e acabavam quebrando completamente as rotinas de sua população, pois ficava impossível se locomover com tanta neve – Como todos sabem, o tratamento do Doutor Klaus Erlanger começaria sua 4ª fase em 2 dias ao receber o paciente Aigner – estremeci e um arrepio subiu por minha espinha, ele falava de , o “meu” porém, devido a nevasca, o paciente pegará o helicóptero dentro de algumas horas rumo a capital Minsoan para dar início aos procedimentos ambulatoriais e começar a se preparar para o seu tratamento de oito longos meses.”
Eu não ouvi mais nada. Minha única reação foi frear bruscamente. Com certeza havia ficado marcas dos pneus no asfalto. Senti o carro perder um pouco de estabilidade e dar uma pequena “patinada” na pista. Por sorte não haviam carros na estrada naquela hora por causa da neve. Meu coração quase saiu pela boca. Estacionei o carro no acostamento e suspirei com força dando um soco no volante em seguida. Ele iria embora hoje, depois de ouvir que “não podíamos pensar apenas nele”. Eu me senti horrível ao lembrar de seu semblante quando havia falado aquilo. Apesar de sua situação, foram raras as vezes que eu tinha visto triste. Na minha concepção, ele era inabalável.

Hover City – 17/09/2030 – 8:34 a.m

Minhas mãos suavam e minhas pernas estavam trêmulas. Olhei para e seu semblante era tranquilo, seus cabelos negros estavam perfeitamente alinhados em um topete e sua pele estava pálida como sempre. Seu olhar estava vago, parecia meio perdido em toda aquela situação. Eu era apaixonada por desde que o conheci no ensino médio. Nossa história seguiu rigorosamente um clichê hollywoodiano. A garotinha indefesa em uma escola nova, em uma cidadezinha esquecida do interior.
Fazia algumas semanas que andava muito mal de saúde. Sempre estava cansado, não queria comer, estava cada vez mais pálido, sempre sentia dores no corpo e mal conseguia fazer coisas normais do dia a dia por falta de força. E o que mais nos preocupava, andava tendo sangramentos nasais repentinos. Os pais dele raramente estavam em Hover City, eram empresários e sempre viajavam para a capital. Já haviam pensado em se mudar, mas nunca deixariam os avós de para trás. Mas eles eram pais extremamente preocupados, por ser filho único, o tratavam com muito amor e faziam de tudo para estar com ele quando estavam passando algum tempo em casa. Sempre que os Aigner precisavam de ajuda, eu me prontificava a ajudar, afinal, tudo para não estar em casa e para ficar mais tempo com ao meu lado.
Voltei dos meus pensamentos quando vi o nome “ Aigner” aparecer na pequena televisão da recepção avisando que ele estava sendo chamado para a consulta. Ele continuava com o semblante tranquilo, mas pelo que eu o conhecia, estava nervoso. Juntamos todos os papéis dos exames, nos demos uma última olhada e pude ver no fundo dos seus olhos um sentimento que nunca pensei que veria, medo. Andamos de mãos dadas, em passos largos, pelo enorme corredor branco e bem iluminado do hospital. Alternávamos alguns apertos nas mãos tentando passar segurança um para o outro. Alguns enfermeiros corriam de um lado para o outro, enquanto era possível se ouvir alguns breves e baixos choros. Continuamos o nosso caminho até avistar uma porta com uma placa pequena com letras em um cinza escuro “Dr. Thorsten Hoyer – Cirurgião geral e Oncologista”, entramos na sala e o médico já nos esperava.
Os minutos pareciam horas, o tempo não passava, eu já estava com o estômago embrulhado, sentia que a qualquer momento eu poderia surtar ali mesmo, odiava cheiro de hospital, sempre me faziam lembrar dos meus problemas em casa. Minha perna direita se movia involuntariamente. Ansiedade. Aquilo estava me remoendo por dentro, minha boca estava seca e minhas mãos estavam frias, estava quase entrando em colapso. Finalmente o médico bateu todas as folhas de papel juntas na mesa e olhou para . Ele nem precisava falar, seus olhos transpareciam a pena que ele estava sentindo. Eu demorei para digerir tudo o que o médico falou, eu simplesmente congelei. apenas permitiu que uma lágrima solitária caísse pelo seu rosto, mas rapidamente a secou. Ele tinha um certo receio de parecer fraco.
- Infelizmente é o que eu suspeitei, – o doutor tentava manter-se o mais profissional possível, mas posso entender como se sentia, devia ser horrível contar más notícias todos os dias, principalmente para alguém que ele viu crescer.
- O que eu tenho, Thor? – sua voz saiu falhada, ele estava extremamente tenso, apenas passei a mão em sua perna em um gesto de compreensão.
- Os exames de sangue e a mielografia não negam, você tem Leucemia Mielóide Aguda – ele suspirou esperando a nossa reação.
Na mesma hora meus movimentos na perna de cessaram e apenas uma palavra ecoava na minha cabeça. Leucemia. A única pessoa que esteve no meu lado nesses anos que me mudei para Hover City estava com câncer. Entrei em estado de choque e minha mente entrou em uma espécie de “pane mecânica”, eu não conseguia falar, me mexer ou simplesmente esboçar algum sentimento. Parecia que um buraco negro havia sido aberto logo abaixo dos meus pés e eu estava, aos poucos, sendo sucumbida por ele. Depois de alguns minutos “fora de órbita” voltei a minha sanidade sentindo minha vista embaçar pelo acúmulo de lágrimas que se formavam rente aos meus cílios, eu precisava ao máximo me segurar, não poderia desabar agora, não era certo. Passei a ponta da manga da blusa que eu usava em meus olhos rapidamente, antes que as lágrimas rolassem pelos meus olhos.
- E o que isso significa? – me arrisquei em perguntar mesmo sabendo que minha voz sairia chorosa. Meu mundo aos poucos desmoronava, senti a mão de passar pela minhas costas descendo até minha cintura apertando um pouco contra si, ele estava me dando força, quando eu deveria dar força a ele.
- A forma mais simples que vejo de explicar isso de um jeito que ambos entendam é: algumas células do seu corpo não estão agindo como deveriam, foram produzidas com anomalias e em quantidade exacerbada e por elas serem produzidas na medula óssea, acabam se espalhando rapidamente pelo corpo através do sangue, o que é extremamente perigoso.
- E quanto ao tratamento, doutor? – Foi a vez dele perguntar, estava preocupado, com medo do que viria depois.
- É um tipo raro de câncer, existem diversos tratamentos, mas dependemos do seu corpo para saber se vai ou não funcionar como deve – ele voltou seus olhos para os papéis, passou os olhos rapidamente e continuou a falar – Não vou mentir para você dizendo que seu câncer está em estágio inicial porque, realmente, não está. Não consigo entender como não enxergamos isso antes, o que eu posso lhe garantir é que vai ser uma jornada difícil, mas começaremos os mais rápido possível. – terminou esboçando um breve sorriso na tentativa de animar . Não aconteceu.

- Preciso ligar para os meus pais – pegou o celular no bolso, mas eu o impedi, pousando minha mão sobre a dele.
- Acho que ainda não é a hora – suspirei – eles estão em uma reunião importante, não podemos deixá-los preocupados, acho que conseguimos terminar por aqui. – falei, fazendo um carinho leve em sua mão para tranquilizá-lo. Eu podia sentir que ele estava extremamente abalado com a notícia, suas mãos estavam trêmulas e suavam. – O plano de saúde dele cobre estes custos iniciais, doutor? – voltei a olhar para o médico de meia idade na minha frente.
- É muito provável, os pais dele fizeram o melhor plano que temos, acredito que cubra completamente o tratamento que temos alcance aqui em Hover City, começaremos o mais breve possível. – ele continuava com o sorriso otimista no rosto.
- Eu posso ir para casa agora? – A voz dele saiu quase como um sussurro, quase não escutei, mesmo estando ao seu lado
- Pode sim, mas volte amanhã, iniciaremos com os primeiros medicamentos – nos levantamos devagar, ainda tentando nos recuperar do baque e o Dr. Hoyer nos chamou novamente. – Eu sei que é algo difícil de se lidar nesse momento, mas tentem evitar grandes emoções, podem ter efeitos ruins no seu corpo, . – assentiu e saímos da sala.
Não trocamos uma palavra sequer até entrarmos no táxi. Estávamos extasiados com a notícia ainda, não conseguíamos falar, chorar, gritar, nada, apenas o silêncio. Assim que o primeiro taxista livre apareceu, resolvemos iniciar a corrida. Preferi ficar o percurso inteiro em silêncio para que ele pudesse digerir todos os acontecimentos. Chegamos na casa de alguns minutos após o fim da consulta. O taxista parou em frente à fachada da residência em tons bordô e creme, com a bela escadaria em uma perfeita mistura de granito, no condomínio mais cobiçado de Hover City. Abri a porta e dei a volta para ajudá-lo a descer, já que ele ainda estava bastante fraco. Andamos lentamente pela casa até chegarmos ao quarto dele e ajudei-o a sentar-se na cama, ainda estávamos em silêncio e aquilo estava me matando.
- Acho que eu já vou. – arrisquei falar algo pela primeira vez, eu definitivamente não queria ir embora, sabia o que aconteceria quando chegasse em casa. Ele ainda estava com a cabeça baixa, mas quando ouviu minha voz levantou o rosto e percebi que suas bochechas estavam extremamente vermelhas. Um milagre, já que essa cor não era mais frequente em sua pele, e lágrimas grossas não paravam de cair por elas.
- Por favor, não vai, fica aqui comigo. – ele falou entre soluços, joguei minha bolsa no chão e fui rapidamente em sua direção me sentando ao seu lado e o abraçando.
- Eu não vou a lugar nenhum, – eu ainda podia sentir suas lágrimas molharem minha blusa perto do meu pescoço e alguns pequenos soluços silenciosos balançarem o corpo magro dele perto do meu.
Fazia pouco mais de seis meses que eu e estávamos oficialmente juntos, antes disso passamos alguns anos apenas nos conhecendo até virarmos melhores amigos, e em todos esses anos eu nunca tinha visto ele daquela maneira, completamente esgotado. Era como se todas as mágoas e dores que ele havia guardado ao longo da vida estivessem sendo totalmente despejadas junto com as lágrimas que inundavam seu rosto naquele momento.
Ficamos em silêncio por cerca de dez minutos até que ele conseguisse se recompor novamente, coloquei meu dedo na ponta do queixo dele para que pudesse me olhar. A cena era realmente de cortar o coração, seus olhos estavam inchados e muito vermelhos. Eu nunca fui boa em expressar sentimentos ou em falar alguma palavra de conforto, então passei as costas da mão em seu rosto, enxugando as poucas lágrimas que ainda estavam terminando de escorrer, passei a outra mão em sua nuca puxando-o para perto até que nossas testas se tocassem e então acabei com a distância entre nossos lábios. Aquele beijo foi com certeza uma explosão de sentimentos, pude sentir a dor, o medo, o amor, o carinho e a cumplicidade, todos juntos em um único beijo. Ele passou as mãos pelas minhas costas e parou quando chegou em minha cintura, colando ainda mais os nossos corpos, o beijo acabou ficando mais intenso e pude sentir o corpo dele esquentar junto ao meu e então coloquei as mãos em seu peito o afastando levemente. Colei novamente nossas testas e pude ouvir seu suspiro de frustração.
- Não podemos. – falei, ainda com os olhos fechados e com a testa ainda junto à dele.
- Sem fortes emoções, já entendi. – ele riu fraco e selou nossos lábios – promete que não vai desistir de mim? – agora ele olhava diretamente nos meus olhos, eu ficava hipnotizada com aquele olhar.
- Eu jamais desistiria de você. – retribuí o sorriso e estalei um beijo em sua bochecha.
Passamos o resto do dia curtindo a presença um do outro, por algumas horas simplesmente esquecemos os problemas, esquecemos o câncer, esquecemos meus pais. Só existia nós dois, duas almas que se encontraram no meio do caos.

Hover City 03/05/2034 – 18:47p.m


Eu já havia voltado para casa há algumas horas. Como a bela covarde que sou, não consegui ir ao hospital. Passei por lá antes de vir para casa, no exato momento em que o helicóptero estava levantando vôo. Muito irônico o fato de eu ter prometido que jamais, repito, jamais desistiria de e agora eu havia deixado com que ele partisse. Por um lado, sim, eu me sentia horrível, mas eu me sentia pior ainda pelo fato de não estar arrependida por tê-lo deixado ir. Eu só conseguia pensar em mim, a vida fez com que eu criasse uma barreira ao meu redor, para me “prevenir” de que fosse atingida.
Tomei um banho demorado, só queria que meu corpo relaxasse, uma tarefa meio impossível naquele momento, mas não custava tentar. O vapor da água tomou o banheiro, parecia que eu tinha entrado em uma nuvem. Me sentei no chão do box e fiquei apenas sentindo a água escorrer pelos meus cabelos. Um turbilhão de lembranças começou a se formar na minha cabeça. Eu não consegui mais segurar, abracei meus joelhos junto ao meu corpo e permiti que toda aquela dor se esvaísse através das minhas lágrimas. Depois de tantos anos, novamente eu estava sozinha.
Cerca de uma hora depois, quando eu achava que meu estoque de lágrimas havia finalmente acabado, resolvi sair do banho, me levantei pegando a toalha e me enrolando na mesma. Parei em frente ao espelho e me assustei com a imagem que vi, uma completamente diferente, com olheiras fundas, cabelo bagunçados e claramente muito cansada. Voltei para o quarto em passos lentos, vesti um pijama confortável e deitei em minha cama. Tudo o que eu queria era que aquele dia acabasse. Queria acordar no dia seguinte e descobrir que os últimos seis anos da minha vida foram somente um grande pesadelo. Encostei-me na cabeceira da cama e peguei o celular, passei os olhos brevemente pelas redes sociais, abri a caixa de mensagens e fui direto na conversa fixada no topo dela.
[] “Você está aí?”
[] “Estou...”
[] “Como foi a viagem?”
[] “Você não precisa fazer isso,
[] “Como assim? Não entendi.”
[] “Ah qual é? Não precisa fingir que se importa comigo.”
[] “Ahn? Eu não estou fingindo, , eu realmente me importo com você”
[] “Se você está falando né? Por enquanto estou vivo, se é isso que você realmente quer saber.”
[] “Por favor, não me trata assim... Sempre estive ao seu lado quando você precisou.”
[] “Menos quando apareceu a primeira oportunidade de sermos realmente felizes. Você acha o que? Que me mandaria uma mensagem e tudo se resolveria?”
[] “Eu não mandei mensagem na intenção de brigarmos, não pense que eu não quis ir pelo menos me despedir, eu quis, mas você sabe como as coisas são difíceis para mim.”
[] “Eu sei , eu sei. Tudo na sua vida é difícil. Minha vida também não é nenhum mar de rosas. Mas pelo menos hoje, eu pensei que você ponderaria o que era melhor para os dois e não só para você.”
[] “Não me faça sentir pior do que eu já estou, você fala como se eu só pensasse em mim mesma e não me importasse com você...”
[] “Você precisa admitir que sim, , às vezes você só pensa em si mesma!
[] “Não temos mais o que conversar hoje, . Boa noite, preciso descansar, amanhã o tratamento novo começa, preciso estar disposto.”
[] “Espera, não vai ainda...
[] “???’
[] “????”
[] “Eu te amo.”
Visto hoje às 20:06
Arremessei o celular longe. Mais uma rachadura para a coleção. Como eu pude ser tão idiota? tinha razão, eu não ponderei, fui movida pela insegurança. Minha escolha foi feita. Suspirei fortemente, peguei o travesseiro que ficava ao meu lado e coloquei-o em frente ao meu rosto abafando o grito que dei. Tinha que trabalhar no dia seguinte, o atelier precisaria de mim, afinal, eu fiquei por causa dele, não é? Levantei da cama para buscar o aparelho que estava caído a uma certa distância da cama, confirmei que realmente havia mais uma rachadura, dei de ombros e programei o alarme para o dia seguinte e quando estava prestes a me deitar, ouvi o som da campainha ecoar pela casa. Bufei, calçando minhas pantufas. Quem poderia ser àquela hora da noite? Segui lentamente o caminho que levava a porta e assim que a abri, milhares de lembranças começaram a reaparecer na minha cabeça, eu mal conseguia crer no que estava vendo, minha boca se abriu e um perfeito “O”. Depois de um ano, lá estava ela, bem na minha frente.
- O que faz aqui? – minha voz saiu até um pouco grosseira demais, mas minhas pernas estavam bambas. Meu coração estava acelerado como nunca, não estava acreditando que aquela cena era real. Ela tinha voltado. Finalmente tinha voltado, na hora que eu precisava.


Capítulo 3.


- Uau, não pensei que seria tratada assim, obrigada pela ótima recepção, falou revirando os olhos e entrando em casa com duas malas consideravelmente grandes logo atrás.
- Me desculpa, mas eu não estou conseguindo acreditar que você voltou. – Fechei a porta logo atrás de mim e a encarei, ainda tentando assimilar o que estava acontecendo.
- Bom, cá estou eu, Rech, em carne e osso, se quiser pode até me beliscar para ver se é verdade. Agora vem aqui me dar um abraço. – Ela abriu os braços com o mesmo sorriso encantador de sempre, o mesmo que ela dava quando me via triste e que me confortava em qualquer situação. Fui em sua direção e a abracei forte.
Rech, havia sido, depois de , a pessoa mais importante da minha vida. Ela tinha se mudado para Hover City alguns meses antes de mim. Nos conhecemos através de , fazia dupla com ele nas aulas de química avançada quando estávamos no colégio e desde que nos conhecemos, éramos um trio inseparável. Nossa amizade havia continuado a mesma depois de sairmos do colegial, mas como nada na vida é perfeito, ela precisou ir embora de Hover City para cursar química em Adarca, um estado distante, justo na pior fase na minha casa antiga. Com o caos que era o tratamento de , nosso contato ficou menos frequente e tudo o que conversávamos se resumia a “Como ele está hoje?”. Admito que minha “barreira de proteção” também prejudicou nossa amizade, por muito tempo culpei por me “abandonar” em uma das piores fases da minha vida, mesmo sabendo que ela não poderia desistir do seu sonho por minha causa. Ela lutara muito para chegar onde chegou. Mas ela estava ali na minha frente, na hora que eu mais precisava, finalmente algo bom acontecendo nesse dia.
- Porque você voltou? – Falei, me desfazendo do abraço de para que eu pudesse olhar seu rosto. – Pelos meus cálculos, ainda falta um ano para você se formar.
- Bem que você nunca foi boa com cálculos mesmo. – Ela riu e eu a acompanhei – O curso em Adarca é mais rápido, um ano a menos que o normal. – Continuou, tirando o seu enorme sobretudo preto e em seguida o belo cachecol de lã branca do pescoço, estirando-os sobre o sofá. – Consegui um emprego em uma fábrica de cosméticos que fica a 10km daqui, você nem imagina como o salário é de matar – falou sorridente e aparentemente animada, uma animação que me contagiou e me fez sorrir junto.
Um fato muito importante sobre , quando ela começa a falar, ninguém mais consegue controlá-la. sempre foi uma pessoa otimista, ativa e de bem com a vida. Veio do famoso “berço de ouro”, tinha pais extremamente bem-sucedidos e com uma fortuna “de matar”, como ela mesma diria. era uma mulher linda, sempre foi, na verdade. Tinha cabelos castanhos que vinham até a cintura, levemente ondulados, a pele muito bem cuidada e pálida, assim como a de e olhos cor de mel que sempre tinham um brilho acolhedor e pacificador. Qualquer homem do mundo daria tudo para ter ao seu lado, mas ela sempre fora independente e decidida sobre si mesma, dificilmente se prendia em um relacionamento, preferia “curtir a vida” e isso nunca tinha sido um problema para ela.
- Mas porque você veio para cá? Tem uma nevasca prevista para essa semana, você não vai conseguir sair de Hover City tão cedo. – Me sentei no sofá e fiz um sinal com a cabeça para que ela sentasse também e assim o fez.
- Realmente, a fábrica vai ficar fechada durante a nevasca, eles me entregaram alguns relatórios para que eu pudesse trabalhar durante esse tempo. – Ela apontou para uma pilha de papéis que até o momento eu nem tinha percebido que estavam em cima da mesa de centro. – E eu vim parar na sua casa porque eu ainda não tenho um lugar para ficar por aqui e resolvi te fazer companhia. – Falou pegando uma de minhas mãos e soltou um breve suspiro – E, bom, eu fiquei sabendo do . – Suspirou olhando no fundo dos meus olhos como se tentasse ler o que estava escondido nos meus pensamentos.
- Ficou, foi? – Me afastei um pouco passando a mão pelos cabelos na tentativa de esconder meu incômodo com a lembrança. – Ele viajou hoje mais cedo, adiantaram o processo antes que a nevasca chegasse, o tratamento já vai começar amanhã. – Falei, enquanto mexia as mãos freneticamente, evitando qualquer tipo de contato visual com a .
- Ele me mandou uma mensagem hoje de manhã, aparentemente depois que vocês se viram no hospital. – Inclinou um pouco a cabeça na tentativa de encontrar meus olhos, que estavam perdidos. – Não queria tocar no assunto, mas, porque você não foi? - Falou colocando as mão sobre as minhas para que eu parasse de mexe-las e assim eu fiz.
Porque eu não fui? Está aí uma pergunta que nem eu mesma sabia responder. Sim, tinha relação com o meu trabalho e todas as coisas que envolviam a casa nova e tudo mais, mas ainda não justificava nada. A única pessoa que eu tinha na vida precisava de um tratamento para sobreviver e quando o tratamento realmente apareceu, eu simplesmente não o apoiei.
- Sinceramente? Eu não faço ideia. – Soltei um suspiro longo e cansado, um nó estava se formando na minha garganta e eu precisei de um segundo em silêncio para poder me recuperar. – Ele deve me odiar agora. – Esbocei um sorriso irônico e finalmente olhei nos olhos. Ela mantinha o semblante compreensivo e apenas esboçou um sorriso de lado antes de passar seu braços em meus ombros e me abraçar com força. Ela sabia que eu queria chorar e eu me permiti desabar, precisava, mais uma vez, pôr toda aquela dor para fora.
Eu não sei por quanto tempo eu fiquei no colo do , mas foi o suficiente para que eu adormecesse. Aquela dor parecia não me deixar, cada segundo que se passava parecia que meu coração diminuía drasticamente de tamanho a ponto de quase ser esmagado.

Hover City - 04/05/2034 – 13:24


Fazia algumas horas que eu estava no trabalho. Já tinha adiantado alguns designs para noivas de todo o país. Quando fui contratada, nem podia mensurar o quanto o atelier era realmente requisitado. A quantidade de trabalho que eu tinha me ajudou a esquecer um pouco dos meus problemas, principalmente porque eu estava fazendo algo que amava e isso mantinha minha mente tranquila.
Quando acordei pela manhã, já havia saído, deixando um post-it cor de rosa fluorescente e com uma caligrafia invejável preso na geladeira dizendo que passaria a manhã inteira na fábrica, organizando alguns relatórios no laboratório, mas chegaria em casa antes de mim. Provavelmente ela não queria que eu ficasse sozinha. Ainda bem, porque nem eu mesma queria isso. Minha chefe pediu para que eu fosse em busca de algumas amostras de tecidos para que pudéssemos enviar para as noivas antes que a nevasca chegasse.
Alcancei minha bolsa em cima da minha pequena mesa no atelier, recolhi alguns papéis que levaria para casa e me despedi de Anelise. Era incrível como aquela mulher conseguia cuidar de um negócio como aquele com pouquíssimas funcionárias e mesmo assim, mantinha uma reputação invejável e com uma linha de vestidos almejada por qualquer uma que quisesse se casar. Anelise, às vezes, lembrava minha mãe, ou pelo menos a mãe que eu tinha antes de toda a tragédia com meu pai biológico, e antes de ela se casar com o ogro do meu padrasto. Ela era uma mulher forte, decidida e acima de tudo, apaixonada pela vida.

Hover City – 14/08/2025


Era sábado de manhã, e como sempre, eu e meus pais estávamos no parque no centro da cidade fazendo nosso piquenique em família. Eu estava um pouco mais afastada, encostada em uma árvore com um livro no meu colo, apenas olhando o casal à minha frente conversando com um sorriso que mal cabia no rosto. Gostava de ficar um pouco distante, apenas observando meus pais. Eu nunca poderia reclamar da minha vida, eles eram o meu modelo de “casal perfeito”. Claro que eles tinham lá suas diferenças, mas essas, com certeza, eram suprimidas pelas suas características em comum. Era perceptível o sentimento que tinham um pelo outro. Todas as juras de amor que eles trocavam eram acompanhadas por olhos que transbordavam um amor ardente um pelo outro.
Estávamos na primavera em Minsoan, o que deixava aquele parque simplesmente deslumbrante. Tínhamos nos acomodado perto do jardim de tulipas, os mais variados tipos de flores coloriam o parque e deixavam tudo mais divertido naquela paisagem. Vi meu pai fazendo um gesto com a mão para que eu me aproximasse deles, juntei meu livro e fui caminhando até eles. A medida que eu me aproximava, seus sorrisos pareciam cada vez maiores, mesmo sem saber o motivo de tudo aquilo eu já sorria involuntariamente.
- Porque esses sorrisos que parecem que vão rasgar o rosto de vocês? - Falei rindo e me sentando no colo do meu pai e o abraçando pelo pescoço. Mesmo com 13 anos, eu me sentia uma criancinha indefesa quando estava em seu colo.
- Sua mãe tem uma novidade para te contar. – Um sorriso bobo se formou em seu rosto assim que mencionou minha mãe.
- Isso. – Minha mãe correspondeu o sorriso e colocou uma mexa do cabelo para trás demonstrando nervosismo, eu havia pegado essa mania dela. – Mas não sei se você vai gostar.
- Se deixa vocês dois tão felizes quanto parecem, não têm motivos para eu não gostar. – Troquei olhares cúmplices com os dois dando um sorriso encorajador para minha mãe logo em seguida – Vai, mãe, desembucha, qual é a novidade?
- Bom... – Ela chegou mais perto de nós e colocou a mão sobre a minha coxa coberta pelo vestido e passou a outra mão pelos meus cabelos. – Eu estou grávida. – Ela finalmente esboçou o mesmo sorriso de antes, quase como se pudesse rasgar o próprio rosto.
- Eu vou ter um irmão? – Falei meio incrédula, mas abrindo um sorriso logo em seguida. – EU VOU TER UM IRMÃO! – Gritei atraindo alguns olhares curiosos de pessoas que passeavam pelo parque.
- Sim filha, você vai ter um irmão. – Meu pai falou me tirando carinhosamente de seu colo e fazendo cócegas na minha barriga. – Ou uma irmã. – Gargalhei, ainda sentindo a onda de cócegas. - Gostou da novidade? – Ele perguntou, parando seus movimentos para que eu pudesse finalmente respirar.
- SIM! Demais! – Falei, ainda recuperando o fôlego e puxando os dois pelo pescoço para um abraço em grupo. – Vocês são os melhores pais do mundo.


Hover City - 04/05/2034 – 17:24


Aquele dia poderia ter se tornado o melhor da minha vida, se nada tivesse acontecido três meses depois, justo no dia do meu aniversário de 14 anos. O pior dia da minha vida se concretizou, o dia que eu entrei no eterno buraco negro que era a minha vida. O dia que até hoje me causava pesadelos e arrepios, o dia que se fosse possível, eu apagaria da minha memória para sempre.
Não queria pensar nisso agora. Saì pelas ruas da cidade em busca dos tecidos que Anelise tinha me pedido, fiquei algumas horas curtindo minha própria presença enquanto estava envolta em meus pensamentos. Andava calmamente pelas ruas, apenas observando algumas vitrines e distribuía alguns acenos com a cabeça para alguns conhecidos, coisas típicas de cidade pequena. Não tinha mais o que fazer depois disso e meus braços já me pediam socorro, então decidi ir para casa mais cedo, talvez pudesse continuar aproveitando minha própria companhia antes que chegasse. Entrei no carro, coloquei a chave na ignição e dei a partida rumando para casa, minhas cabeça parecia girar, estava lutando para me manter focada no trânsito. Alguns minutos depois, avistei minha casa ao longe e um carro de luxo estacionado na frente. É claro que a vida tinha me pregado mais uma de suas peças, eu conheceria aquele carro a quilômetros de distância. Os Aigner me esperavam e agora era tarde demais para fugir. Segui meu caminho, estacionei o carro na garagem e só então percebi que o carro de também estava na frente de casa, peguei todos os meus pertences no carro e segui para a porta de entrada. Respirei fundo três vezes e então girei a maçaneta, já ouvindo aquelas vozes tão conhecidas vindo da sala de estar. Entrei, fechando a porta com o pé logo em seguida e segui em silêncio rumo as escadas na esperança de me tornar invisível, mas é claro que toda essa manobra foi em vão.
- Oi, , que bom que você chegou! – Elise Aigner foi a primeira a se levantar, logo balançando suas madeixas negras como carvão em minha direção com os braços abertos me pedindo um abraço.
- Oi, Lise! – sorri fraco e coloquei a caixa de tecidos em um canto indo abraçá-la desajeitadamente em seguida. – Não estava esperando a visita de vocês, pensei que ... – engoli em seco – estivessem em Minsoan. – Me soltei dela e coloquei uma mexa do cabelo atrás da orelha.
- E nós estamos indo. – Foi a vez de Charles falar e estender a mão para me cumprimentar e apertei gentilmente a mesma – Viemos apenas buscar algumas coisas para o .– Ele sorriu.
Os Aigner sabiam poucas coisas sobre mim, nunca conheceram minha família e mesmo se quisessem, eu não permitiria tal coisa. Por incrível que pareça, eles aceitaram bem isso, sempre me diziam que o que importava era que e eu estávamos felizes e que independentemente de qualquer coisa, fariam de tudo para serem como pais para mim, e eles foram, mesmo sem saber quase nada da minha história. Só sabiam o que haviam visto e mesmo assim sempre respeitaram meu espaço e nunca fizeram perguntas que eles sabiam que eu não responderia, apenas me acolheram de braços abertos.
- Precisam da minha ajuda para algo? – Disse sem intenção nenhuma, apenas por educação, mas me arrependi assim que ouvi a resposta.
- Bem... – Charles começou. – Na verdade, queríamos que você viesse conosco até Minsoan, .
- Bom...eu...eu... – Eu não conseguia formular uma frase para respondê-lo, apenas suspirei. – Eu não posso, Sr. Aigner, me perdoe. – Já podia sentir as lágrimas se formarem no canto dos meus olhos e então subi rapidamente as escadas e entrei em meu quarto, permitindo, assim, que as lágrimas realmente escorressem.
Eu queria entender o porquê de não conseguir ir à Minsoan, queria entender o motivo de simplesmente não ter capacidade de largar tudo e ir atrás da pessoa que me deu sentido para continuar vivendo. Eu tentava de todas as formas encaixar as peças do quebra-cabeça, mas nada realmente se fundia, nenhuma imagem clareava meus pensamentos. Uma parte de mim queria jogar tudo para o alto e ir atrás do abraço de , mas a outra parte queria ser mais racional, ficar com minha vida em Hover City. Sentei à beira da janela do quarto em que tinha um pequeno espaço para observar o céu, junto a um amontoado de travesseiros e abracei meus joelhos ainda tentando controlar as lágrimas que teimavam em continuar caindo. Alguns minutos depois ouvi a porta ser aberta, pensei que fosse , então não me preocupei em limpar meu rosto borrado com o resto de maquiagem que havia ficado em meu rosto, mas para a minha surpresa não era ela.
- Dia difícil, querida? – Elise falou, sentando em minha frente e afagando meus cabelos.
- Põe difícil nisso. – Funguei, levantando meu rosto para olhá-la.
- O que se passa nessa cabecinha aí? – ela falou sorrindo e encostando suavemente o indicador em minha testa.
- Não sei por onde começar... – Enxuguei uma lágrima que escorria e sorri cansada.
- Se não quiser falar, eu entendo completamen.. – a interrompi.
- Eu já escondi coisas o suficiente de vocês, Lise. – Me recompus, assumindo uma postura séria. – Não faz nem uma semana que o foi embora e eu já estou sofrendo muito. Eu quero ir, de verdade, mas eu não sei se aguentaria vê-lo naquele lugar, servindo de rato de laboratório para um tratamento que nem temos certeza se realmente vai funcionar. Fora tudo o que eu tenho em Hover City, minha casa, meu emprego, eu estou começando minha carreira e... – foi a vez de Elise me interromper.
- Eu entendo perfeitamente, . – Ela sorriu e segurou minhas mãos junto às suas. – Acho que eu e Charles nos precipitamos em querer te levar a Minsoan conosco, mas quero que saiba que se decidir ir depois, faremos o possível para te levar. – Afagou meus cabelos. – Você não tem noção do quão bem você faz ao nosso filho, , sem você não sabemos se ele teria resistido a tudo, sabe? – Ela fungou, estava prestes a chorar.
E nesse momento me veio uma das milhares de péssimas lembranças que eu tinha do turbulento tratamento de , o momento em que eu pensei que perderia ele, que realmente vi ele a beira da morte pela primeira vez, justamente no dia mais temido do ano, meu aniversário.

Hover City – 14/11/2032 – 20:29


Pela primeira vez parecia que meu aniversário não seria um dia triste, o doutor de , havia permitido que ele saísse da internação para que pudesse comemorar meu aniversário de 20 anos em casa. Por questões de segurança, fizemos minha “festinha” na casa dos Aigner, eles sempre estavam preparados para se algo acontecesse, mas não queríamos pensar nisso, ele finalmente havia saído um pouco do hospital.
- Você está linda, meu amor. – Ele sorriu timidamente e selou meus lábios.
Eu vestia uma roupa simples. O clima em Hover City essa época do ano era mais amena e destoava um pouco do frio que nos assolava durante boa parte do ano. Vestia um jeans de lavagem azul escura, uma blusa branca com ombros caídos, tênis da mesma cor e uma bandana vermelha ornando meu coque bagunçado. também havia apostado no jeans e na camiseta branca, nada combinado, seus cabelos estavam perfeitamente bagunçados, o que o deixava mais charmoso que o normal.
- Nem acredito que finalmente podemos comemorar algo fora daquele lugar. – sorri e estalei um beijo em sua bochecha
- Nem me fale, tive que tomar banho umas quatro vezes para tirar aquele cheiro de hospital. – Riu, depositando as mãos em minha cintura e me puxando carinhosamente para perto.
- Da para ver. – Ri. – Acho que consigo sentir o cheiro desse perfume a quilômetros daqui. – Passei uma das mãos pelo seu pescoço e depositei um carinho em sua nuca o fazendo sorrir instantaneamente. – Eu estou tão feliz por te ter aqui
- Eu também, gatinha. – Ele riu, me puxando para um beijo, começou como um selinho demorado, mas logo senti sua língua próxima aos meus lábios pedindo passagem para aprofundar o beijo e assim o fiz. Estávamos perdidos um no outro quando ouvimos alguém pigarrear.
- Me desculpa atrapalhar os pombinhos, mas podemos cantar os parabéns para a ? – Elise disse sorrindo, enquanto segurava o bolo coberto com glacê rosa, decorado com algumas figuras que remetiam ao meu curso de moda.
- Que estraga prazeres, mãe. – falou rindo enquanto se afastava de mim. – Vamos logo com isso.
- Deixa de ser mimado. – Ambos riram e eu os acompanhei enquanto caminhavam até a mesa.
Alguns passos à minha frente, vi se apoiando em um sofá qualquer da sala e parando subitamente de andar, apressei o passo em sua direção e coloquei minha mão na base das suas costas, lhe dando apoio para ficar em pé, fechou os olhos com força fazendo com que algumas rugas se formassem nos cantos deles e soltou um suspiro alto e longo.
- Ei, ei, tá tudo bem? – falei com um tom de voz claramente preocupado.
- Tá, tá sim, só foi um incômodo, fica tranquila. – Ele falou enquanto diminuía a força com a qual fechava os olhos e os abria vagarosamente, seus olhar estava sem brilho, mas mesmo assim, esboçou um sorriso e seguiu seu caminho até a mesa onde estava o bolo
O resto da noite se seguiu normal, não pareceu sentir mais nada e como sabíamos que ele não gostava quando ficavam preocupados demais com ele, resolvemos apenas continuar as comemorações. Nada poderia estragar meu dia, todos que eu mais amava estavam ao meu lado comemorando mais um ano da minha vida e me fazendo esquecer de todos os problemas que me perseguiam durante os anos. Tudo caminhava para ser a noite perfeita e finalmente a “maldição do meu aniversário”, como eu carinhosamente chamava, finalmente seria quebrada.
Naquele dia eu decidi que dormiria na casa dos Aigner, já estava tarde e eu queria aproveitar ao máximo o dia que poderia ficar fora do hospital. Subimos para o quarto de para nos organizarmos para dormir. Pedi para tomar banho primeiro e assim o fiz depois de ver assentir, se sentando na cama. Tomei um banho relaxante sem poder conter o sorriso enorme que eu tinha estampado no rosto. Meu dia tinha sido muito feliz e eu não poderia estar mais grata por isso, finalmente depois de tanta luta todos nós poderíamos ter a tão sonhada noite de tranquilidade. Me sequei enquanto murmurava alguma música chiclete da época, vesti um pijama que eu deixava guardado na casa de e segui para o quarto. estava sentado na cama e aparentava estar extremamente cansado, e após selar meus lábios, ele seguiu até o banheiro. Comecei a sentir um aperto no peito, estava com um pressentimento ruim, de uma hora para outra toda aquela felicidade que eu estava sentindo se esvaiu e eu ouvi um estrondo vindo do banheiro


Continua...



Nota da autora: Mais um capítulo disponível e eu nem consigo descrever o que eu estou sentindo, estou muito feliz com o apoio que estou recebendo e mesmo com poucos comentários, já me sinto realizada!
Vi algumas pessoas falando sobre as atitudes da pp: pois é gente, a pp realmente é bem complicada, mas com o decorrer da história entenderemos melhor tudo o que ela sente, e é isso, espero que gostem e já sabem, qualquer sugestão pode deixar aì nos comentários ou vir falar diretamente comigo nas minhas redes sociais, estarei sempre disposta a ouvir vocês!
Me digam o que estão achando até agora, se acharem que vale dar essa chance, indiquem a fic para amigos, ajuda muito ter esse apoio, beijos e até o próximo capítulo!!





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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