My Only Angel

Última atualização: 30/05/2019

Prólogo

Depois de gastar o fim de semana inteiro apresentando e finalizando uma pilha de trabalhos, os professores da faculdade decidiram dar a manhã da segunda-feira de folga para minha turma. O coordenador enviara um e-mail na noite passada avisando do descanso, e eu suspirei aliviada por poder dormir um pouco mais.
Acordei naquela manhã com o brilho do sol incomodando meus olhos. Droga, pensei. Por que você sempre esquece de fechar a janela, ?
Assim como os outros intercambistas, eu dormia em um quarto pequeno. Mesmo assim, era bem aconchegante e não muito maior do que meu quarto no Brasil.
Pulei para fora da cama e fui direto para o banheiro tomar banho. Ao terminar, voltei para o quarto escolher minha roupa. O dia estava radiante, os melhores vinte e três graus célsius que o auge do verão britânico poderiam me proporcionar. Por isso, coloquei um tricô amarelo de mangas curtas, uma calça de alfaiataria cinza e um tênis slip on preto.
Não passei nada de maquiagem e nem pus nenhum acessório (com exceção de pequenos brincos que nunca tirava, parecidos com os que vendem em farmácias no Brasil e são usados em crianças).
Pronta, peguei meu dinheiro e um livro e saí.

-

Quando entrei no café, dei graças a Deus por estar praticamente vazio. Depois de um estressante e barulhento fim de semana, tudo que eu queria era relaxar no silêncio e no conforto de um café.
- Olá Will! – Cumprimentei o atendente, que já conhecia desde que começara a faculdade. – O de sempre por favor. – Pedi, sorrindo. Will era alto, usava óculos que sempre escorregavam para a ponta de seu nariz, e sorria de volta para mim todas as vezes.
Quando me virei para as poltronas já procurando o lugar que sempre gostava de ficar, vi que já tinha alguém ali. Tenho que admitir, eu sempre fui muito teimosa.
Não fique emburrada, . É só sentar ali perto, não vai morrer só um dia no sofá de frente, disse para mim mesma.
O café era pequeno, e não tinha muito movimento naquele horário, principalmente numa segunda-feira. As poltronas eram numa cor marrom escura, e o chão em carpete de madeira era da mesma cor. Tinha grandes janelas e mesas para duas ou quatro pessoas, dois sofás grandes que ficavam um de frente para o outro e uma extensa bancada perto da cozinha. Duas grandes estantes verde-musgo ficavam ao fundo, perto dos banheiros, e muitos livros a ocupavam além de grãos de café para a venda.
No sofá em que eu sempre ficava estava o estranho. Gostava dele porque tinha vista para a rua e para a porta, batia a luz do sol e enfim, um pouco de implicância minha também. Mas tive de ficar no outro.
Me sentei de frente para o estranho, mas não prestei muita atenção nele pois Will já se aproximava com meu café.
- Obrigada, Will! Você fez rápido. – Comentei, colocando meu livro na pequena mesa próxima que ficava no meio dos sofás. Will me entregou o café e voltou para a cozinha.
Fui dar um gole na bebida, mas estava muito quente.
- Merda! – Exclamei em Português quando senti minha língua arder, e acabei derrubando um pouco de café na minha própria blusa.
Pensei ter ouvido uma risada, mas estava tão indignada por ser desastrada que deixei para lá. Troquei o café pelo livro e iniciei a leitura, me aconchegando no sofá marrom.
Quando estava prestes a virar a página, senti o olhar de alguém sobre mim. Levantei os olhos para o homem a minha frente, e não enxerguei direito por ele estar fora do campo de visão de meus óculos. Tirei a mão da página e arrumei meus óculos, focando no estranho.
No primeiro segundo, não o reconheci. Os olhos verdes, as sobrancelhas quase retas, o cabelo cacheado na altura dos ombros e um sorriso divertido implantado nos lábios. Quando me toquei de que era Harry Styles, ele começou a falar.
- Acho que sua calça manchou de café. – Ele disse, sorrindo um pouco mais e deixando as covinhas aparentes. Por Deus, ele sempre faz isso? Pensei.
- Ah! – Exclamei, afastando o livro de mim e vendo a tal mancha. – Obrigada por avisar, isso sempre acontece! Já ia limpar mesmo. Só queria terminar esse capítulo logo, está muito bom.
Ele arqueou as sobrancelhas, pousando o jornal que lia na mesa próximo ao meu café.
- Está lendo em espanhol? – Perguntou, encostando as costas no sofá. – Não consegui traduzir o título.
- Hm... Não. É português. – E então, traduzi para ele o título do livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
- Você é brasileira? – Perguntou, e eu respondi automaticamente.
Tudo bem, eu não podia negar que era fã do One Direction e do próprio Harry. A questão é que estar ali ao vivo era um pouco estranho, diferente. Ele era lindo, isso sim. Mas não tinha nada do glamour dos palcos, e eu quis rir lembrando de todas as fanfics que tinha lido anos antes, me sentindo dentro delas.
- Sim, estou aqui fazendo intercâmbio.
- Estou aqui visitando um amigo. – Harry comentou, sem que eu precisasse perguntar o famigerado “e você?” – A propósito, sou Harry.
Eu quis gargalhar, honestamente. Ele sabia que eu o tinha reconhecido, mesmo assim quis “se apresentar”, fazendo brincadeira. Me contentei em dar uma risada e respondi:
- Sou .
- Perdão por ter atrapalhado sua leitura, . – Ele disse, mantendo o sorriso do início da conversa.
- Não, tudo bem. – Sorri, colocando o livro na mesa e pegando novamente o café. – Faz tempo que não continuava essa leitura, tudo bem adiar um pouco. Meu Deus, isso aqui realmente está quente! – comentei ao tomar mais um gole da bebida.
Olhei para Harry e ele riu alto.
- Que foi? Vai dizer que nunca manchou uma roupa com café?
- Prefiro chá! – Harry respondeu, cruzando os braços.
- Tudo bem, com chá? – Questionei, rindo também.
- Você é engraçada. – Ele comentou, e aí eu corei. Mas corei de um jeito patético, e ele percebeu. Naquele momento eu só queria ser bem pequenininha para poder pular debaixo do sofá e me esconder do sorriso travesso e o olhar curioso de Harry. Ele falava fácil assim com estranhos? Acordava na intenção de sair por aí exalando charme e fazendo as pessoas corarem? - Sobre o que é esse livro? – Perguntou.
Eu o encarei antes de dar qualquer resposta. O que ele queria, afinal? Ele estava ali sozinho, sem seguranças, tomando um chá, simples assim? Por que fazia perguntas e flertava comigo?
Não vou mentir, continuei a conversa porque (1) tinha curiosidade em saber o motivo de tanto interesse, e porque (2) ele me atraía. Usava um simples moletom preto, sem estampa alguma, calça jeans apertada também preta e um all star branco. Só.
- O livro é sobre o Brás Cubas. Memórias póstumas porque, bem, Brás está morto quando escreve o livro. Ele conta sobre futilidades, narra o desprezo que tinha pelos outros.
- É só isso? – Harry ergueu uma sobrancelha, e fez sinal para Will.
- Não é isso. O livro é incrível, já o li tantas vezes! O jeito com que Brás conta as coisas, ele é tão debochado. Quando leio, parece que ele está realmente ao meu lado me contando a história do jeito mais irônico possível.
- Então você gosta de um pouco ironia? – Perguntou Harry depois de pedir um chá para Will, que parecia finalmente o ter reconhecido. Ainda bem que não tem mais ninguém aqui, pensei. E outra coisa logo veio à minha mente: e se alguém chegasse? E se alguém me visse com ele? Eu tinha ficado sabendo que em muitas vezes que fora reconhecido por fãs, Harry pedira para não tirar fotos e tudo mais. Mas esse momento parecia mesmo um encontro: só nós dois conversando numa cafeteria, e se alguém nos fotografasse?
- ?
- Ah sim, desculpe. Então... – Fiquei poucos segundos tentando lembrar. Ah sim, ironia. – Gosto! É diferente quando você lê algo assim, porque dá a sensação de realidade mesmo. E ele não só conta a vida dele, mas apresenta uma análise da sociedade da época. É incrível.
- Então você estuda letras? – Ele perguntou, e realmente parecia querer saber.
Tudo bem , ele está interessado. Aja naturalmente. Você é boa em flertar, você consegue, vamos!
E aí entrei no jogo dele.
- Na verdade, estudo física. – Tomei um longo gole de café. – E você, planejando álbum novo?
E ele não conseguiu disfarçar a surpresa com minha pergunta repentina.
- Não poderia responder isso, mas sim. Vim visitar esse amigo e já estou voltando para Londres, onde fica a gravadora.
- E não pediu um chá para a viagem por que...? – Questionei o encarando e desta vez também com um sorriso.
- Ah, gosto de pausas assim.
Assenti com a cabeça, murmurando um “eu também”. Harry tinha o sotaque britânico que eu já conhecia pelas suas inúmeras entrevistas, e passava a mão no cabelo sempre.
- Física? Deve ser puxado...
- E é! – Respondi, suspirando. – Pouquíssimas vezes posso parar assim, mas é preciso.
- Sei como é...
E foi aí que um longo silêncio se instalou entre nós. Bem, eu não podia simplesmente voltar a ler já que meu livro estava em cima da mesa, e não queria corar novamente com ele me encarando – coisa que já estava fazendo. Foi aí que arrisquei.
- Por que está tentando me deixar com vergonha?
Ele gargalhou inevitavelmente mostrando as covinhas e passou a mão nos cabelos.
- Está funcionando.
- Não está mais. – Tentei não rir, mas não funcionou. Estava desconfortável naquele irritante sofá, enquanto ele parecia relaxado e à vontade. Encarei-o, incentivando-o a me responder.
- Você é linda.
Droga, está funcionando. Responde rápido, !
- Você também é.
Nos encaramos por poucos segundos. Os olhos verdes dele nos meus; meus olhos verdes nos dele. Foi quando escutei o relógio da Igreja do vilarejo tocar. Que horas eram? Repentinamente tateei meus bolsos a procura do meu celular, quando lembrei não o tinha trazido.
- Você sabe que horas são? – Perguntei a Harry, e ele me olhou curioso mais uma vez. Pegou seu celular e a tela de bloqueio acendeu.
- Meio-dia.
- Espere, o quê? – Arregalei os olhos, surpresa com o horário. A conversa tinha sido tão rápida, como poderia ser meio-dia? Talvez eu realmente tivesse acordado tarde naquele dia, mas não tinha tempo para pensar nisso. Ainda precisava voltar para o campus da faculdade, me trocar por causa das manchas de café e almoçar. Tudo isso antes das aulas do período da tarde. – Preciso ir! Antes vou ver se consigo tirar isso da minha blusa, já volto.
Levantei e olhei para Harry. Ele sorriu e murmurou um tudo bem carregado de sotaque. Seus olhos brilhavam com a luz que batia diretamente em seu rosto. Suspirei e retribui o sorriso, indo direto para o banheiro.
Fechei a porta atrás de mim e suspirei alto. Puxei algumas toalhas de papel e tentei tirar as manchas de café, mas foi em vão. Irritada, joguei os papéis no lixo, pus os óculos na bancada de pedra e lancei uma boa quantidade de água no rosto. Levantei a cabeça, encarando meu reflexo no pequeno espelho do café.
Nenhuma maquiagem; sobrancelhas escuras e bem preenchidas, mas bagunçadas; cabelos crespos também escuros num corte perfeitamente redondo; boca que insistia em ficar ressecada por causa do clima da Inglaterra.
Era exatamente a como em todos os dias normais.
Suspirei umas mil vezes e sequei meu rosto.
Vamos lá, é hora de dar tchau.
Mas quando abri a porta e olhei para o sofá, não era Harry que estava lá, mas um grupo de estudantes da mesma faculdade que eu, os reconheci.
- Ei, , não é? – Perguntou um menino ruivo cheio de sardas. – Isso aqui é seu? – E apontou para meu livro.
- Sim, muito obrigada. – Respondi me aproximando e vendo Will se aproximar também, já com bebidas nas mãos.
- Ei, aquele cara não me era estranho. Você o viu, ?
- Não vi ninguém. – Respondi simplesmente, e peguei o livro e minha xícara antes cheia de café. – Tchau gente.
- Tchau, . – Responderam todos em uníssono e eu sorri simpática. Will e eu saímos dali e fomos em direção a cozinha. Virei de costas para o grupo e entreguei a caneca a Will, fazendo sinal de silêncio. Ele assentiu em resposta.
Fui rapidamente para o campus e entrei no quarto já tirando a roupa. Joguei o livro em cima da cama e quando me abaixei para vestir outra calça vi que um papel – que não era o marcador de páginas – tinha caído de dentro do livro.
Ah não, não pode ser, pensei.
Deixei a calça de lado e li o que estava escrito no papel.
“Seu sorriso é lindo. H”
E ao final, um número de telefone.


Capítulo 1

A sala de aula do professor Wilson era pequena. O chão era de madeira, e avançava na parede até o início da grande lousa verde. As carteiras – também de madeira – eram duplas e tinham duas gavetas. Alguns modelos atômicos estavam pendurados no teto, assim como representações da eletrosfera. No final da sala, havia uma pequena estante com diversos livros e mais modelos. Ao lado, quadros com fotos dos principais físicos que estudaram mecânica quântica.
Levei poucos segundos para observar tudo, pois todos os alunos olhavam para mim.
Professor Wilson, também.
- Senhorita...? – Ele perguntou, alternando o olhar entre mim e a lista com o nome de todos os alunos.
- ! – Respondi, arfando. Tinha percorrido todo o campus o mais rápido que pude, mas não o suficiente para chegar no horário.
- , a senhorita quis dizer? – Ele perguntou, com um olhar curioso.
Tinha me esquecido de que na Inglaterra as pessoas se dirigiam, muitas vezes, pelo sobrenome.
- Isso! – Respondi, e todos ali deram risadas baixas. Pude ouvir o aluno da primeira carteira comentar com o colega ao lado “Ela não sabe o próprio sobrenome?”
- Muito bem, senhorita . Espero que tenha sido a primeira e a última vez que se atrasa para minha aula. Pode ocupar seu lugar.
Fiz que sim com a cabeça.
- Me desculpe, professor. – Respondi, e fui me sentar ao lado de ao fundo da sala.
- Bem, aproveitando que estão todos aqui – ele começou, e piscou para mim. Os outros alunos riram, mas não achei graça. Só queria me enfiar dentro da gaveta e sumir. – Já vou passar o dever de casa.
E o tom brincalhão de todos sumiu. Dever de casa? Na primeira aula?
- Como já devem saber, em 1911 Rutherford apresentou um modelo atômico importantíssimo. Esta aula será introdutória e nas próximas aulas vamos começar a aprender detalhadamente sobre todos os modelos atômicos.
O professor Wilson já era de idade. Deveria ter por volta de sessenta anos, era baixinho e a barba branca por fazer o deixava parecido com o professor Dumbledore (de Harry Potter). Naquela manhã, ele usava óculos redondos e um suéter xadrez marrom, como um clássico professor de física. E pelo jeito, era tão exigente quanto.
- Para os deixarem familiarizados com a matéria, quero para a próxima aula dez páginas detalhadas sobre o modelo atômico de Rutherford e suas falhas, além de resumos detalhados sobre os modelos anteriores.
Percebi todos apreensivos. Quando era a próxima aula?
- Mas professor. – Vi uma garota da segunda fileira levantar a mão. Wilson se virou para escutá-la. E ela, como se representasse todos, perguntou. – Quando é a próxima aula?
Ele ajeitou os óculos no rosto e pegou a grade de horários.
- Bem, deixe-me ver. – E por um segundo, ninguém respirou. – Quinta-feira, daqui a três dias.

-


- Isso só pode ser alguma brincadeira de mau gosto. – resmungou pela terceira vez naquele dia. A última aula tinha acabado há poucos minutos, e estávamos andando pelo campus. – Dez páginas? Dez? Se o curso fosse de física quântica seria maravilhoso, mas não. Temos dez páginas dele, mais dez de Cálculo II, e... ? Está me ouvindo?
- Hã?
parou e eu parei também.
- Você está muito avoada, . O que está acontecendo? Aliás, por que você chegou atrasada?
- Bem... sobre isso...
- , você nunca chega atrasada. Nunca. Me diz, quem é o cara?
- Espera, o quê? – Perguntei, torcendo o nariz. Senti calafrios e quis xingar por ter esquecido meu cardigã no quarto já que estava com pressa naquela tarde.
- Vamos, desembucha!
era minha amiga desde o início do curso de Física. Era nativa da Inglaterra e linda como uma Barbie. Era alta, tinha longos cabelos loiros e olhos azuis – tudo que eu não era. Depois de muito tempo, entendi que tinha minha própria beleza e que tudo bem. Mas no início bateu uma insegurança sim, tenho que confessar. As vezes alguns alunos olhavam feio para meu cabelo e mais feio ainda quando descobriam que eu era brasileira. Passar por situações desse tipo me fez ter orgulho de ser latina e de ser diferente, mas demorou um pouco.
- Olha, você tem que jurar pela sua mãe que não vai contar a ninguém.
Ela me lançou um sorriso divertido.
- Quem é esse cara que te fez atrasar na sua aula preferida?
- , me prometa! – Pedi, falando baixo.
- Ok, ok. Eu prometo. – Ela respondeu batendo palminhas. – Diga logo!
Esperei alguns segundos pois um grupo de estudantes passava por nós, e aí disse de uma vez.
- Harry Styles.
- QUÊ? O DO ONE DIRECTION? – Ela gritou, arregalando os olhos e levando as duas mãos a boca.
- ! Xiu!!! – A puxei pelo braço para trás de uma árvore, me escondendo dos estudantes que se viraram curiosos. – Não fala alto pelo amor de Deus. Sim, ele mesmo. Olhos verdes lindos, o cabelo lindo, todo lindo.
- Mas, como...? – Ela perguntou baixinho, ainda estupefata.
- Eu estava no café hoje pela manhã, e ele estava lá também.
- Só os dois? Ninguém o reconheceu?
- Nem eu o reconheci! Mas ele debochou de mim porque derrubei café na minha roupa e...
- Ele puxou assunto? – Ela me interrompeu apreensiva.
- Sim, quis saber muito até. O que eu fazia, tudo. E quando fui ao banheiro ele sumiu.
- Como assim sumiu? Ele quis brincar de Cinderela? – brincou, e voltamos a andar até o prédio do refeitório.
- E como se fosse a Cinderela, ele deixou um bilhete no meu livro, acredita?
- Não!
- Sim! E no final do bilhete, um número de telefone.
- NÃO!
- Amiga se eu estou falando é porque ele deixou!
- E você já o chamou? – Ela questionou, enquanto passávamos pelas portas de vidro para entrar no grande refeitório da Universidade.
- Quê? Eu não vou chamar ele de jeito nenhum!
- Como não vai chamar? Vai perder esse cara lindo interessado em você?
- Ele não está...
- , por favor! – Ela comentou rindo. – Ele não te passaria o número dele se não estivesse interessado. Não estou dizendo para vocês namorarem, beijar não tem problema nenhum, né?
E deixei a pergunta dela no ar. Naquele momento, muitas possibilidades passavam pela minha cabeça. -
Depois de jantar, tudo que eu mais queria era dormir por uma semana. Estava cansada principalmente por causa das longas e densas quatro aulas de física daquela tarde. Sabia que teria que me organizar para dar conta de tantos trabalhos e conteúdos para estudar, mas decidi que faria tudo na minha seguinte.
Me despedi de e cada uma foi para seu dormitório.
Larguei minhas sapatilhas perto da porta do quarto e os livros em cima da escrivaninha. Troquei de roupa, escovei os dentes e me joguei debaixo das cobertas.
Decidi que pensaria em Harry só no dia seguinte. Por ora, só queria descansar.


Capítulo 2

Eu quis esquecer que aquilo era proibido. Por mais que houvesse um sinal de alarme tocando no meu cérebro me avisando de que aquilo iria dar merda, eu ignorei. No momento só queria prestar atenção em Henry e em como ele tirava meu sutiã habilidosamente. Seus dedos gelados massageavam minhas costas enquanto eu o beijava.
Era manhã de sexta-feira, pós entrega do trabalho de mecânica quântica. Tinha recebido a nota máxima, mas o preço foi horas e horas sem dormir. Estava exausta e só queria descansar, tinha até planejado fazer isso a tarde toda.
Entretanto, 9h da manhã bateram à porta. Uma, duas, três, quatro vezes. Na quinta vez, levantei resmungando e xingando baixinho. Será que uma universitária não pode ter uma noite de sono tranquila? Pensei. Deve ser a , tenho certeza. Juro que se for por causa dos exercícios de cálculo…
Mas quando abri a porta, era Henry. Ele entrou no quarto rapidamente, já que meninos não podiam de forma alguma frequentar o prédio dos dormitórios femininos.
- O que você...? – Perguntei, ainda sonolenta. Encostei no batente da porta e me virei para ele.
- Vim buscar, hum...
- Hum... – Imitei Henry e ele deu risada.
- Aquele livro de astronomia que você me recomendou, do Neil deGrasse.
- Ah sim! – Exclamei, arqueando as sobrancelhas. – Você veio ao meu quarto nove horas da manhã para buscar um livro que pode facilmente baixar no seu Kindle?
Henry deu risada, corando. Suas covinhas apareceram e eu desviei o olhar, com vergonha da forma que ele me olhava. Henry era do tipo lindo, do tipo que te encara e que sabe que é bonito e charmoso.
Ele se aproximou de mim e empurrou a porta até bater, depois me prensou contra a parede.
- Você sabe que me provocou da última vez, . Fez de propósito porque eu não podia te beijar. – Ele disse, roçando os lábios no meu ouvido. Apertava minha cintura com firmeza, mas delicadamente. Eu podia sentir seu corpo contra o meu e sua voz no meu ouvido, me fazendo arrepiar. – Mas agora eu posso. – Completou, segurando meu pescoço e me puxando para um beijo profundo.
Nos conhecíamos há algum tempo, Henry era um ano mais velho que eu. Foi uma das primeiras pessoas da faculdade a conversar comigo, entendia um pouco sobre ser estrangeiro. Por mais que fosse europeu – francês, para ser mais precisa -, Henry era negro. Isso o fazia entender muito do que eu passava por também ser diferente.
Nos aproximamos conversando sobre nacionalidade, mas descobrimos muitas outras semelhanças. Henry amava astronomia, assim como eu. Curtia ciência política, me ajudava nas provas de bioquímica e me beijava de vez em quando.
No início éramos bons amigos, até o dia que ele me beijou no pub enquanto eu não parava de tagarelar sobre ondas gravitacionais. Depois daquele beijo, ficamos mais íntimos e naquela noite mesmo transamos.
Era tudo muito casual. Sem cobranças, sem ciúmes, mas com muita provocação. Naquela manhã, Henry respondia a um dos tantos desafios que eu lhe fazia.
Eu sabia que era errado ele estar ali, mas meu corpo queria mais e mais Henry. Estava por cima dele na cama, e podia sentir seu corpo embaixo de mim tão sedento por aquilo quanto eu. Nossos beijos se intensificavam mais, e os gemidos se misturavam com as respirações ofegantes dos dois.
- Um mês, . Um mês e cinco dias. – Henry sussurrou, enquanto apertava meu corpo contra o seu, paulatinamente distribuindo beijos em meu pescoço.
- Eu aguento mais... – Sussurrei de volta, segurando no queixo de Henry e fazendo-o olhar para mim. – Eu aguento muito mais que você, você só ganhou em três dias.
Ele riu baixinho, enquanto me virava e ficava por cima de mim. Henry puxou minha calça do pijama enquanto eu encarava sua íris cor de mel.
- Amiga você sabe que não pode deixar a porta destrancada, não sab... OLÍVIA!
Henry e eu pulamos da cama. Virei de costas, procurando minha camiseta em meio às cobertas bagunçadas.
- E aí, ? Tudo certo? – Henry perguntou, arrumando a camiseta branca que fazia um lindo contraste com sua pele.
- Vocês são dois irresponsáveis. Já imaginaram se ao invés da linda , fosse alguma inspetora abrindo a porta e encontrando vocês dois se... se... se engolindo?
Depois de achar a camiseta, vesti-a e me virei para . Seus longos cabelos loiros estavam presos em uma trança lateral, e seu olhar era da mais genuína fúria.
- Desculpe, ele veio só pegar um livro e...
não me deixou terminar a frase, deu uma gargalhada alta e comentou:
- Vejo bem que estavam preocupados com livros... - Ela se voltou para o corredor. – Henry, você agradeça por hoje as inspetoras estarem em reunião. Ou então... – E fez sinal de corte no pescoço. Henry deu risada e deu um beijo no topo da minha cabeça.
- Terminamos isso depois, Angel. – Ele me disse, sorriu para e passou pela porta do quarto.
Enquanto Henry andava pelo corredor, me encarava calada. Só quando ele sumiu de vista que ela começou a falar.
- Você sabe que pode perder a bolsa, não sabe?
Suspirei, sentando na cama e passando a mão pelo cabelo.
- Sei, você está certa. Vou conversar com ele.
Ela assentiu e sentou ao meu lado.
- E com o Harry, já conversou?
Revirei os olhos.
- Ah não, ... Já te disse, não vou chamar ele.
- Henry, Harry... – Ela comentou ignorando o que eu tinha dito. – Você tem problemas com nomes com H, né?
Encarei-a.
- Ah, . Pare de se menosprezar. Se ele te deu o número é porque gostou de você. Qual é, não é um casamento. É só. Uma. Conversa.
Assenti com a cabeça e ela bateu palminhas. Usava uma calça flare preta, botas marrons e uma camiseta na cor vinho. Ficava bonita de qualquer jeito, com qualquer roupa. Eu ficava me perguntando o que Harry tinha visto em mim para me dar o número. Não tinha os números de telefone de modelos lindas como a Kendall Jenner? Quem era na fila das Angels da Victoria’s Secret?
Por mais que não achasse que Harry fosse responder, estava cansada de me enchendo com o assunto. Por isso peguei meu celular que ela me estendeu e abri as mensagens.
- O que você vai dizer? – Minha amiga perguntou apreensiva.

: “Parece que alguém andou mexendo nos meus livros” – rascunho salvo com sucesso.

- Está bom? – Perguntei para , e ela assentiu sorrindo.

Mensagem enviada.


- Tudo bem então! – Disse de repente me levantando da cama. – Vou tomar banho. Provavelmente ele me deu o número errado para me zoar, então vamos torcer para que ele nunca responda.
- Pare com isso! – disse dando risada. – Vai lá tomar banho, eu espero.
- Essa é minha amiga! – Brinquei, apertando suas bochechas. Peguei uma troca de roupa qualquer e entrei no banheiro.
Quando estava prestes a ligar o chuveiro, meu celular apitou. Senti aquele calafrio de surpresa percorrendo desde meu pescoço até os dedos dos pés.
- ?
E minha amiga não respondeu. Pude ouvir o som da tela do celular sendo desbloqueada e chamei-a novamente.
- ?
Dessa vez ela respondeu.
- Oi amiga, estou aqui na porta.
Continuei com a mão no registro do chuveiro.
- Diz para mim que é uma mensagem da operadora. – Supliquei olhando para o teto.
- Você quer que eu minta?
- Ai meu Deus! – Exclamei em português e riu. – Tudo bem, vou tomar meu banho e depois resolvo isso.
Liguei o chuveiro, tomei um banho rápido e me sequei. Coloquei uma camiseta preta justa ao corpo, uma calça pantacourt da mesma cor e minhas sapatilhas amarelas.
- Credo! – Comentou assim que saí do banheiro. – Está indo para um velório? AI MEU DEUS, ELE ESTÁ TE LIGANDO!
- O QUÊ?
Virei de costas buscando meu celular, e vi o “H” piscando na tela.
- Atende! – disse, me encorajando.
- Mas estamos atrasadas e preciso arrumar meu material...
- ATENDE LOGO!
- Alô? – Perguntei, desacreditada de que era mesmo Harry. Mas em seguida ouvi a mesma voz rouca do café de segunda-feira, e tive certeza de que realmente era ele.
- ?
- Sou eu. – Respondi. se virou e perguntou baixinho “É ele mesmo?” e eu fiz que sim com a cabeça.
- Pensei que nunca fosse me ligar. – Ele comentou dando uma risada rouca do outro lado da linha. Não sabia o que responder e estava em choque, olhava para que segurava o riso. – ? Ainda está aí?
Então me toquei que tinha parado de responde-lo.
- Ah, oi! Desculpe, estou arrumando algumas coisas para a aula.
- Estou te atrapalhando? Podemos conversar depois...
- Não, está tudo bem. Podemos conversar agora sim.
- Você está bem? – Ele quis saber. Seu tom de voz era baixo e eu não ouvia outras vozes ou barulhos ao fundo.
- Estou sim Harry, e você?
- Eu também... estou dando uma pausa aqui no estúdio, aí resolvi te ligar.
Mais silêncio.
- Me desculpe mexer no seu livro, .
- Não se preocupe. – Respondi rindo. me olhava curiosa enquanto arrumava minha bolsa. Fiz sinal de positivo com a mão e ela sorriu. – Foi por um bom motivo.
- Estudando muito? – Harry perguntou, mudando de assunto.
- Sim! Tenho incontáveis trabalhos e relatórios para fazer e... Sim amiga, esse livro mesmo! Não, não esse. Aquele cheio de estrelas, esqueceu que hoje tem astronomia?
- Você está livre amanhã? – Harry perguntou e eu não prestei atenção no primeiro momento.
- Perdoe-me pela pressa, é porque tenho que arrumar as coisas para a aula e... Espere, quê?
Pude ouvir a risada gostosa de Harry e quase desmanchei como açúcar na chuva. Imaginei suas covinhas se formando.
- Perguntei se tem algo para fazer amanhã.
- Bem, meu plano era estudar durante o fim de semana. Mas se seu plano for me levar em algum lugar legal...
- Que tal um jantar? Mas você tem que me prometer que não vai fugir, Cinderela.
- Ei! – Exclamei e involuntariamente coloquei a mão livre na cintura. – Eu fui ao banheiro, você que fugiu.
abriu a porta do quarto e deu passagem para eu sair.
- E Harry, tem mais uma coisa.
- O que?
- Eu sou vegetariana.
- Sério? Também sou. – Ele comentou, e eu me senti aliviada. - Me passa seu endereço por mensagem, vou aí te buscar. Pode ser?
conseguia ouvir tudo pois o corredor estava silencioso. Ela fez um “oh” com a boca e sussurrou “diz que sim”.
- Pode... Já te mando. Estou indo para a aula, tenho que desligar.
- Também tenho que voltar para as gravações, .
- Um beijo, Harry.
E finalizei a ligação.


Continua...



Nota da autora: Olá novamente! Sejam todas bem-vindas a essa história que escrevo com todo amor do mundo. Espero que tenham gostado do capítulo, me contem tudo que acharam.
Provavelmente na próxima att já teremos capa da fic, yeeeeeeey <3 fico muito feliz de mostrar um pouco da alma da história para vocês, espero que se sintam parte dela tanto quanto eu.
Um beijo e até a próxima, Americae.



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