Prólogo
QUEM É A PORRA DE ?
Se ganhasse uma moeda para cada vez que ouvi essa pergunta, estaria agora deitada em um montante de dinheiro tão grande que facilmente poderia me afogar - talvez eu gostasse disso. Mais fascinante que isso, era apenas as perguntas nada discretas de esquisitões e fofoqueiros para saber quem era o novo filho da puta que estaria enfiando a língua, dedos ou o pau na minha boceta - essa era uma resposta fácil, nunca a mesma pessoa por muito tempo. E preciso admitir que já a ouvi tantas vezes que tenho decorado vividamente quem muito provavelmente irá fazê-la: apresentadores sem carisma algum tentando, entrar em assuntos desconfortáveis para engajar alguma revelação que irá fazer seus números crescerem, ou, apenas alguma criatura aleatória querendo expressar algum falso intelectualismo ao deixar-me sem palavras; não faz, mas é divertido vê-los tentar. A resposta, todavia, varia dependendo do meu humor. Às vezes, quando desejo manter a discrição e escapar da pergunta o mais elegantemente que consigo, digo simplesmente: “Ainda estou descobrindo”; quando estou querendo ser doce, encaro a câmera com um sorriso meigo e digo, até mesmo quase timidamente: “uma garota com sonhos muitos grandes, e um temperamento bem ruim”; quando quero ser sarcástica, apenas murmuro: “Não tenho ideia, deixo para que os outros digam”; mas a minha resposta preferida? Quando realmente estou querendo escandalizá-los ou apenas roubar-lhe as palavras, compartilhando do desconforto imposto a mim, simplesmente digo a mais pura verdade, o mais cínica e doce possível que consigo:
é uma vadia sem coração.
Agora, veja só, essa descrição não foi uma conclusão pessoal minha. Na verdade, viera de um ator de cinema estrangeiro, do qual o nome sequer posso dizer que me lembro de fato. Alegava que havia se apaixonado por mim durante alguma gravação de um filme de ação em Lyon, na França. O filme, lembro-me do nome, era Copenhagen, ou algo do tipo. Lembro-me que ele era o protagonista ao lado de uma atriz genérica, mas graciosa e até mesmo divertida. Lembro-me de ter visto o rosto dele em algum lugar, talvez uma cafeteria em Marselha, ou em meio ao Mercado de Pulgas em Paris, nas ruas, disfarçada e a salvo de olhares alheios. Conversamos, mas acho que devo ter flertado com ele também, porque ele ficava facilmente corado com algo que dizia, mas se havíamos tido um caso ou não, isso, eu não saberia dizer ao certo. Não era como se eu estivesse preocupada em lembrar-me de algo daquele dia, muito menos dele. Até onde sabia, ele poderia estar apenas mentindo para ganhar visibilidade - e é claro, ganhou. No fim das contas, todo mundo adora vilanizar uma mulher sem motivação alguma, apenas pelo prazer de dizer “eu sempre soube que ela era ruim”. Ou ele poderia estar dizendo a verdade - conheço-me bem o suficiente para não duvidar da possibilidade. Uma noite qualquer, em um quarto de hotel qualquer, entediada? A resposta não era muito mais do que “quando no inferno, se entregue ao diabo”, e acredite, eu o faria apenas pelo despeito de tudo. Acontece que o ator em questão, na verdade estava bem certo em descrever-me assim.
No fim das contas, eu sou uma vadia sem coração; mas uma puta vadia rica e gostosa. Sendo assim, qual seria a necessidade de possuir um coração? Aonde isso iria me levar?
Sei que devo ter destruído o ego dele de alguma forma, ainda ouço pelos corredores e até mesmo de amigos em comum de que o dito cujo me detesta. Não perde a chance de me xingar sempre que pode, mas também sei que se lhe desse mais uma chance, ele igualmente não hesitaria em pular na minha cama o mais rápido que pudesse. Acho que sua maior frustração, é que, ao menos para mim, tenho muitas opções melhores do que alguém tão medíocre, que a coisa mais impactante que poderia ter, era justamente um personagem que contrastava com sua personalidade real. Mas se você quiser realmente entender quem é, preciso entrar em um tópico desconfortável.
Quando as pessoas me questionam quem diabos eu sou? Ou ao menos, quem é, eles querem ouvir algo que lhes agrade: a confirmação de um preconceito relacionado ao meu nome, apenas para poder enfatizar como eles “sabiam” disso, ou a pura e inerente motivação de me constranger da melhor forma possível. Às vezes, oferecia a dádiva da dúvida, apenas pelo prazer pessoal de fazê-los andar em círculos. Mas qualquer pessoa realmente interessada em compreender-me, vai perceber, muito rápido, que não há como saber quem é sem entender quem, primeiro, foi a porra de Patrick Rooney.
Um ex? Amante? Stalker? Ah, não, não, Patrick Rooney, ou como os amigos de bar dele o chamavam: Paddy, era algo bem pior do que um ex relacionamento. Ele é meu pai. Patrick Rooney era um homem de classe social média alta, o pai era um neurologista, trabalhava em um hospital público, mas ficou bem conhecido na indústria pelo caso extraconjugal que havia tido com uma das estagiárias de enfermagem, na época com 20 anos; anos depois a mesma enfermeira o processou e venceu um caso de aliciamento contra ele - quer dizer, bom para ela - e depois casou-se com o bastardo - vai entender?. A mãe, uma professora de ensinos religiosos do ensino médio, curiosamente, devota ferrenha da religião católica romana, que acreditava piamente que até mesmo o ato de respirar poderia ser considerado pecado - não há nada mais sadomasoquista do que um católico desesperado por punição. Apesar de seus problemas internos, construíram uma imagem sólida de uma família perfeita, com um filho perfeito - veja só, o erro que cometeram: deixaram Patrick acreditar que era alguma coisa. Patrick cresceu assim, um garoto cercado do bom e do melhor, com a certeza de que todos ao seu redor o amavam; enganado pelos pais e amigos, quando na realidade não passava de um garoto medíocre, com uma personalidade narcisista, terrivelmente inseguro e com aspirações de grandeza que nunca condizem com seus “talentos” pessoais. Cresceu no interior de Galway, mas teve que se mudar com seu pai e sua nova família para Dublin quando tinha 12 anos, após o escândalo do caso empestear a cidade. É claro que Patrick escolheu seguir o pai, e não ficar com a mãe, afinal, quem diabos poderia oferecer a ele a vida que desejava se não o pai neurologista? Aos 15 anos, Patrick achava que era o cara mais gostoso da escola - não era, de acordo com fotografias, na verdade era Cormac Murphy, com olhos intensos e sorriso torto cativante, o cara que Patrick achava que era, mas na verdade era só um zero à esquerda tão fácil que bastava soprar em seu ouvido da maneira certa que mancharia suas calças em segundos.
Para a sorte de Patrick, e completo azar dela, ele conheceu Siobhan - se pronuncia Shivawn - O’Hara, a garota que se sentava na frente de sua mesa durante as aulas de biologia e história. Opinada, destemida, com um olhar intenso como fogo e um riso capaz de iluminar uma sala inteira, Siobhan tinha suas prioridades bem estabelecidas: iria se formar com honra no ensino médio em Dublin, de lá partiria então para Londres, com o único propósito de se tornar a melhor no curso de Psicologia, e então iniciaria sua carreira como uma terapeuta de casal. Em pouco tempo conseguiria estabelecer seu nome com esforço, suor e sagacidade se tornaria um exemplo para a comunidade terapêutica e voltaria para Oxford, é claro, mas desta vez como Mestre. Aos 30 anos teria se tornado finalmente Doutora, e com 35, seria PhD, aos 40 anos? Tinha certeza de que o prêmio Nobel lhe era garantido. Siobhan O’Hara possuía toda sua vida roteirizada e estava determinada a conquistá-la, custe o que custasse, mas então, ela derrubou sua caneta preferida no chão. E esse foi seu erro.
Quando se levantou para pegá-la, Patrick Rooney já havia a encontrado, com seu sorriso característico e uma piada ensaiada na ponta da língua. Pode dizer o que quiser sobre Patrick, mas uma coisa era inegável sobre ele: além de ser uma figura patética, miserável em seu cerne e com a profundidade de um pires, o cara sempre havia sido carismático ao menos. É algo comum, se quer saber, as piores pessoas que você irá encontrar, muito provavelmente vão tentar compensar com charme e carisma para agradar-lhe, afinal, quem gostaria de ter por perto alguém ruim, se não há nenhum retorno positivo? De qualquer forma, foi naquele momento que tudo deu errado para Siobhan, mas muito certo para Patrick. Em menos de três meses, começaram a namorar, e os planos de Siobhan passaram a ser “nossos planos”, Patrick, como uma doença contagiosa, se infiltrou na vida de Siobhan, contaminando tudo ao seu redor. De repente, ela não era mais a estudante modelo, a melhor da turma, mas a namorada do incrível Patrick Rooney, o garoto de ouro do colégio.
Siobhan descobriu que estava grávida no dia de envio para as aplicações para as universidade do país. O choque foi tamanho, que a jovem só conseguiu curvar-se em posição fetal no banheiro de seu quarto. Patrick, por sua vez, estava recebendo o boquete de sua vida na casa da árvore de uma das melhores amigas de Siobhan - não sabia naquela época, mas essa amiga na verdade só queria ter certeza de sua sexualidade; descobriu rapidamente que era apaixonada mesmo por Siobhan. A notícia foi recebida com um choque, mas uma vez que a merda já estava feita, o prospecto de uma família tradicional, e o sonho “americano” havia se tornado muito mais forte do que a percepção óbvia da realidade que lhes cabia. Não demorou muito para que Patrick fosse morar com Siobhan, arrumou um emprego que pagava um montante decente com a ajuda do pai e alugou um apartamento bem ruim no centro da cidade. Já Siobhan trabalhava meio período de casa, como revisora de textos para uma editora de livros didáticos na área de tanatopraxia e atendente.
O nascimento do bebê estava marcado para o final de Maio, mas por uma tentativa de intervenção do destino, talvez por Siobhan ser melhor do que Patrick jamais mereceria, acabou perdendo-o em uma noite chuvosa de Setembro. Estava sozinha quando aconteceu, e levou uma semana inteira para conseguir ter a coragem necessária para dizer a Patrick o ocorrido. Patrick, é claro, fez a situação toda ser sobre ele, mas ao fim de tudo, percebendo que Siobhan poderia abandoná-lo, fez o que jamais seria capaz: comprometer-se, a pediu em casamento.
Agora, veja, Siobhan não é a minha mãe biológica, mas foi, de certa forma, a única que tive em minha vida. Não é culpa dela, todavia, que eu seja do jeito que sou. Siobhan havia tentado seu melhor comigo, o problema é que, talvez, eu seja muito filha dos meus pais para valorizar algo assim tão bom - para variar; mas funcionou com Niamh, minha meia-irmã. Quando Siobhan engravidou novamente, alguns anos depois, deu à luz a uma garotinha adorável, uma mistura perfeita de tudo o que havia de bom em Siobhan, sua inteligência, aparência e até mesmo docilidade, e o nariz de Patrick. O que Siobhan não sabia era que, enquanto chegava aos estágios finais de sua gravidez, Patrick havia ouvido um de seus colegas no trabalho dizer que ele possuía uma voz muito boa e que deveria tornar-se cantor - era uma piada, mas Patrick nunca foi assim tão inteligente para entender sarcasmo direcionado a si mesmo, e sem pensar duas vezes, havia deixado o emprego estável para cantar em pubs e alguns bares da cidade, onde conheceu a Cherry.
Isso aí! Minha mãe biológica? É a porra de uma stripper de uma boate de luxo que se chamava Cherry. Como ela ganhou o apelido? Passava cereja nos lábios toda vez antes de subir ao palco, e então dizia aos homens, e às vezes, algumas mulheres, que era apenas o gosto que ela tinha - alguns idiotas acreditam, e sim, estou totalmente falando de Patrick aqui. De qualquer forma, os dois acabaram se envolvendo quando ele se apresentou na boate que ela dançava, o caso acabou tornando-se algo frequente. Patrick, sendo a criatura patética que era, gostava da sensação de aventura, do poder e do segredo que um relacionamento extraconjugal lhe dava. Sua insegurança - bem fundamentada, na verdade - era tão grande que a validação de uma stripper se tornou, para ele, um vício. E quanto a Cherry? Bem, dinheiro era dinheiro, ela estava ali a trabalho, e nada mais - não dá para julgá-la só por fazer seu trabalho. Acontece que Patrick tinha um modus operandi, e sempre que encontrava alguém que considerava “bom o suficiente” tratava de dar um jeito de furar a camisinha. Precoce como era, ele já teria terminado antes que a mulher em questão sequer pudesse pensar em sentir algum prazer - já disse que era patético, não?, e com Cherry não foi diferente.
Acontece que ter um filho acabaria com a carreira de Cherry, e ela não estava nem um pouco disposta a continuar a gravidez - as vezes imagino que ela deveria ter prosseguido com sua decisão, teria sido mais fácil para todos, mas novamente, a escolha não era de ninguém senão dela, a ser feita, mas desesperado para não perder seu depósito de endorfina, Patrick conseguiu convencer sua mãe a conversar com Cherry. No fim, Cherry deu à luz em um curto espaço de meses em relação a Siobhan, que não demorou muito a receber a conta em sua porta. Eu, enrolada em um manto, nos braços de uma mulher desconhecida, a perfeita imagem feminina de Patrick. Dizer que o mundo de Siobhan foi destruído em questões de segundos seria amenizar sua dor, e algo que não desejo sob hipótese alguma é falar por ela, mas quando Cherry se apresentou e explicou sua situação, Siobhan percebeu o que nunca havia tido, o que havia sacrificado em troca de uma fantasia medíocre de uma desculpa patética de homem. A dor foi tão intensa que a despertou.
Patrick, sendo o covarde que era, apenas escolheu desaparecer de sua vida. Fez as malas às pressas, entrou na primeira balsa que encontrou e desapareceu em algum lugar da Escócia. Fui abandonada aos 3 meses, na porta de uma desconhecida que havia acabado de descobrir que o marido, não só havia mantido um caso extraconjugal por quase um ano inteiro, como igualmente, a abandonado com todas as consequências de suas ações para lidar. Cherry não queria uma filha, e Patrick, bem, deste não preciso dizer nada, coube a Siobhan decidir o que fazer com a intrusa em sua vida perfeita e a memória fixa da traição que sofrera. Suponho que a maioria das pessoas teria apenas entregado a criança para os avós paternos e deixado para estes lidarem com a situação, mas Siobhan, não. Siobhan sempre foi a melhor pessoa que poderia respirar nesse mundo, e, com uma expressão determinada, e um desejo por evidenciar a todos que a conheciam que Patrick não era nada se não uma barata, arrumou suas malas e as de Niamh, e com nós duas nos braços, mudou-se para Londres, sem desperdiçar um olhar para trás.
Nos estabelecemos em SoHo, o lar dos artistas, boêmios e forasteiros. Embora meu registro ainda estivesse conectado a Patrick, legalmente, sempre fui filha de Siobhan, e puta merda, ela foi a melhor mãe do mundo. Criou a mim e Niamh em pé de igualdade, sem jamais favorecer uma das duas, era justa - mesmo quando eu acreditava que ela estivesse sendo injusta, e apenas se envolvia em nossas vidas quando era necessário um conselho ou um ultimato para melhorar nossas atitudes questionáveis. Quando tínhamos 10, Siobhan se casou novamente, com um colega de área professor, chamado Liam, um pai divorciado, com riso fácil e olhar carinhoso que nos chamavam por apelidos com a facilidade que respirava - Niamh era docinho, e eu, amendoim. Seu filho, Virgil, passava apenas os finais de semanas e férias de verão conosco, no restante do tempo morava com sua mãe e o padrasto em São Francisco, na Califórnia.
Agora, as coisas mudam um pouco. Não, eu não tive nada com Virgil, na verdade sempre o achei meio esquisito, até mesmo nojento, cheirava a perfume caro e bala de café - odeio café. Além disso, foi eu que ensinou ele como chupar um pau, e o cara era mais braços do que qualquer outra coisa. Acontece que enquanto Niamh seguia os passos de sua mãe, focando em seu futuro e esforçando-se para ter uma carreira escolar impecável que lhe rendesse a carta perfeita de aceitação por uma das grandes elites, Virgil e eu não éramos assim tão ambiciosos, tínhamos uma aposta pessoal de ver o quanto de maconha poderíamos fumar no porão sem que nossos pais percebessem que estávamos chapados para porra, e na maioria das vezes, ele acabava envolvido em uma briga e sobrava para mim vingá-lo. Formamos uma boa dupla; o que não era bom para ninguém.
No segundo ano, ele foi expulso do colégio. Para não ficar atrás, tive a brilhante ideia de vandalizar o carro do diretor do colégio, em protesto, o que me rendeu três dias em uma prisão e um aviso de que, em uma próxima vez, haveria consequências mais severas. Meus privilégios de sair e me divertir com coisas estúpidas foram revogados imediatamente por Liam, e tive que passar por pelo menos seis meses de terapia, porque Siobhan sabia que havia algo de errado comigo. Virgil conseguiu para mim uma carta falsa de Siobhan dispensando-me da necessidade de terapia, então, por uns bons quatro meses, apenas fingia que a frequentava enquanto, na verdade, vagava pelas ruas sem rumo com Virgil, buscando alguma coisa que fosse me oferecer alguma sensação de pertencimento, ainda que momentaneamente - nunca encontrei.
Acabamos em um centro comunitário, do conhecido de um conhecido de um ex-namorado de Virgil. Lá, percebi, não era um porto seguro, mas talvez servisse de algo; foi assim que aprendi a tocar instrumentos. A professora de música, Senhora Martinez, era severa, mas do tipo que era capaz de inspirar qualquer um a tentar ser o melhor que podia. Foi ela que havia despertado aquele desejo em mim. O desejo de ser algo; para o bem ou mal, posteriormente, nunca soube dizer se ela foi um anjo em minha vida, ou o demônio que a condenou, mas é inegável seu impacto irreversível em minha vida. Entre bandas de quintal adolescentes e apenas passatempos, comecei a entender a atração inegável ao palco, pude compreender porque Patrick gostava daquele lugar, e talvez por isso eu o odiasse mais ainda; eu também havia gostado.
Tocar covers de músicas antigas, fazer piadas e encantar a plateia havia se tornado um vício delicioso injetado por minha pele. Toda a atenção, os olhares, os sorrisos, as cabeças e corpos se movendo, faz com que você se sinta uma deusa entre meros mortais - mal sabia eu o que viria. Você não precisava ser extremamente talentoso para conseguir a atenção dos outros, você só precisa ser seguro o suficiente, e um pouco de um bastardo charmoso, e isso, eu havia herdado de Patrick como uma doença crônica. Ajuda também que minha aparência fosse muito próxima da de Patrick, tinha os mesmos cabelos que ele, o mesmo tom, e cachos grossos e desalinhados, a diferença era que os meus eram maiores e mais bagunçados, tinha o mesmo tom de pele, os mesmos olhos e nariz, mas a fisionomia, o corpo e os lábios eram de Cherry - uma fedelha com um corpo de stripper e atitude petulante? Faça as contas do porque eu recebia tanta atenção assim.
Seja como for, quando Niamh terminou o colégio, e Liam ofereceu-se para nos acompanhar com uma viagem para as universidades, mas a única que sempre havia tido um futuro entre nós três, era Niamh, então, quando a oportunidade surgiu, Virgil foi obrigado a me arrastar com ele para a São Francisco passar um tempo com sua mãe e seu padrasto. Foi durante um desses finais de semana, sem propósito além do desejo de apenas perder-se nas exceções que, ao subir no karaokê para cantar minha pior versão de alguma música, Virgil e eu, percebemos que não estávamos sozinhos. Joel Massaro estava ali, e havia visto tudo - havia gostado.
Agora, quem diabos é Joel Massaro, você deve se questionar? Um filho da puta desgraçado, podre por dentro que não possuí nenhum resquício de humanidade dentro de si; e também a porra do melhor empresário que já havia andado por Los Angeles. O apelido entre os shareholders e investidores para ele é Midas, porque através de sua orientação, ele é capaz de esculpir e moldar em ouro qualquer um que ele desejar. Joel Massaro é o cara. Sabe exatamente o que funciona para o público, como atraí-lo, como criar controvérsias, como jogar aquele jogo e faturar milhões. Então mesmo que ele seja um desgraçado, desumano e depravado do caralho, tê-lo do seu lado é bom o suficiente para que você tenha o mundo em suas mãos. E foi o que ele nos entregou: o mundo, aos nossos pés, a adoração, os estádios lotados e a porra da endorfina de estar em cima de um palco ouvindo uma multidão gritar por seu nome.
Agora, quem é ? Eu lhe digo: tudo o que Patrick Rooney jamais foi, e mais.
E a melhor parte? É que eu não faço ideia de quem ele seja, de como ele seja, ou tenho o menor interesse por saber. A única coisa que sei é que ele pode me ver, que ele me acompanha, querendo ou não, que não pode fugir do meu rosto, não importa para onde tente desviar o olhar, não importa o que tente fazer. Eu sou o que ele queria ser, e que jamais irá conseguir. Mas é Siobhan quem mora em um casarão confortável no interior de Killarney, é Niamh quem desfila ao meu lado em carpetes vermelhos e premiações. É Virgil quem berra comigo, até a voz ficar rouca, banhando-se na adoração cega de uma multidão de rostos maravilhados e desesperados por nossa atenção. Não Cherry. Não ele. Então, sim, eu sou uma vadia sem coração, e tão rancorosa quanto. Acredite em mim quando digo, não me contento com a mediocridade, se farei algo, então serei a melhor a fazer, independentemente do que seja.
Agora que você sabe exatamente quem sou, permita-me levar você para o maldito problema em mãos. Tudo nos leva para a maldita after party da gravadora Altas Entertainment. Este era o momento em que, após longas horas de sorrisos endurecidos e plásticos, elogios disfarçados de ameaças veladas, olhares sugestivos e maneirismos calculados para impressionar os lobos em terno e gravada, disfarçados sob a pele de cordeiros, falsamente preocupados com seus artistas, observando-nos como pedaços de carne a disposição, nos era oferecido como “recompensa”; uma forma enviesada de render mais algumas histórias para impulsionar ou destruir uma carreira. Para mim, sempre foram uma forma de exposição indireta para continuar o trabalho, uma vitrine para os produtores, empresários e até mesmo interessados. Mais do que o dinheiro que ganhava, Joel Massaro gostava de exibir seus troféus como o garotinho mimado que era. E na maioria das noites, seu troféu era eu.
Não nesta noite, todavia. Esta noite todas as atenções estavam voltadas para os malditos novatos. Embora fossem estrangeiros, já se destacavam a um tempo nas listas de mais ouvidos mundiais, eram experientes com o showbiz, sabiam como se portar e encantar, mas somente agora havia conseguido uma parceria deturpada com uma grande gravadora americana - era quase notório que, para se conquistar o nível internacional de artista, era necessário conquistar o público americano completamente, e quando digo americano, digo o continente americano. Movem-se por entre as pessoas com familiaridade, trocam olhares divertidos, curiosos e até mesmo flertam com alguns para manter o encanto. Alguns julgam disfarçadamente, não parecem estar acostumados com a “promiscuidade ocidental” e sem dúvidas, isso me faz quase rir. Eles já eram um fenômeno fazia um ano inteiro - eles já deveriam ter se envolvido em muita merda oculta das câmeras e atenções públicas; era apenas teatro. Quase todo mundo havia ouvido falar neles a essa altura: os BEATBOIZ, ou coisa do tipo, mesmo a pequena Grace, filha de 2 anos de Niamh, estava obcecada pelas músicas grudentas e irritantes deles. Não era como se fossem composições elaboradas, liricamente complexas e até mesmo dramáticas, tampouco protestos acalorados, ou inovadoras, eram fabricadas para serem grudentas, repetitivas e viciarem. Isso, com a aparência impecável, devastadoramente atraente, era exatamente o que Joel Massaro gostava. Vendia.
E é por isso que estou aqui. Sou a puta dessa noite. Joel quer exibir suas melhores criações para os novatos, apresentar a eles o que eles podem se tornar: lendas, realmente alguém naquela indústria; e quer lembrar-me quem estava no controle de tudo, quem havia sido o responsável por entregar o mundo em uma bandeja para minhas mãos sujas e quem poderia retirá-lo facilmente. Então, se quero ficar no lado bom de Joel, o que, para ser sincera, é um esforço demasiado, pelo bem do contrato e dos outros membros da banda, pelo bem do que está em risco, preciso entregar a ele exatamente o que deseja: a putinha obediente que lhe rende dinheiro.
Posso fazer isso, mas isso não significa que preciso aceitar calada. Se Joel espera que eu interprete aquele papel, irei o fazer da melhor forma que sei. Serei a melhor; darei a Joel motivo para se lembrar quem ele havia criado, e porque aquilo sempre voltaria a morder seu rabo murcho e branquelo. E começaria pelo novo brinquedinho de Joel.
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Tenho que admitir, o líder do grupo - embora suponho que não seja o cantor principal - era realmente bonito. Os cabelos escuros como a noite estão desalinhados a essa altura, talvez pelas tantas vezes que ele havia os ajeitado durante a noite, ainda assim, permanecem no slideback elegante, algumas mechas pendem por seus olhos, algo que faria com que qualquer um parecesse cansado, mas nele, estranhamente, apenas faz parecer relaxado, confortável, até demais em sua própria pele. Os olhos intensos, percorrem as pessoas com um desinteresse aparente, quase palpável, o rosto proporcional e harmonioso é quase inexpressivo, uma postura falsa de desinteresse que se misturava com uma neutralidade programada. Agia como se fosse superior a tudo aquilo. A máscara, bem óbvia, fácil de quebrar, o protegia e assegurava sua carreira, é claro, mas era treinada para ocultar suas reais intenções e reações diante de situações desconfortáveis. A curva do sorriso torto, charmoso, era calculada para desviar a atenção de si para outra pessoa, o flerte, planejado para distrair do tópico de interesse e dar margem para uma fuga estratégica. Fazemos isso o tempo todo em entrevistas ou interações desconfortáveis. Questiono-me se o príncipe encantado está tão desesperado para rastejar de sua própria pele e sair dali quanto eu me sinto. Mas há algo na postura dele que me faz ter certeza de que ele, na verdade, gosta da atenção. Gosta de receber os olhares interessados, admirando-o, até mesmo desejando-o, gosta do poder que lhe dá, ao dizer não. Gosta de ser inalcançável, impenetrável.
Vou quebrá-lo. E vou o fazer se arrepender de cada segundo dessa noite.
Capítulo 1 - Solo
ESTOU ME AFOGANDO OUTRA VEZ, TODAVIA NÃO HÁ NINGUÉM PARA RESGATAR-ME AGORA. ESTOU SOZINHO E ISSO ASSUSTA. QUANTO TEMPO ATÉ QUE TUDO DÊ ERRADO?
Há um gosto amargo pungente em minha língua, se espalha como bile por minha boca, revira o estômago; não sei se veio dos resquícios da bebida que havia acabado de ingerir, a mistura de sabores - algo entre pimenta e chocolate misturava-se ao sabor puro do whisky, ou se era a nauseante certeza de que, após quase cinco anos limpos, havia acabado de jogar tudo pelo ralo com um maldito copo. A culpa é imediata, sufocante, espalha-se por meu peito, corrosiva, congela-me no lugar, prende-me apenas naquele único ponto focal em minhas mãos. O copo de cristal vazio, reluzindo suavemente conforme as luzes estroboscópicas se espalhavam pelo espaço, fazendo projetar pequenos losangos e figuras abstratas contra o dorso pálido, ressalta discretamente os calos que agora se formam pelas falanges dos meus dedos, marcando o esforço e disfarçando as cicatrizes que haviam ali. A maioria havia desaparecido com o tempo, deixando para trás apenas uma pequena linha, uma imperfeição minúscula facilmente disfarçada com maquiagem. A superfície irregular do vidro exibia uma arte intrínseca, com padrões em losangos cuidadosamente modelados, que lembram vagamente a uma composição Art Deco. Opulência pura em seu cerne. O gosto amargo do whisky ainda parece pulsar em minha língua, enviando-me uma mistura de culpa e satisfação que a muito havia conseguido me livrar de sentir; ignoro a culpa, concentro-me no sabor, e impossível desligar a parte de meu corpo que implora por mais. Mais um copo não faria mal, posso ouvir ao fundo da minha mente, tentando ignorar como isso muito provavelmente faria. Mas é o calor que se espalha por minha corrente sanguínea que sinto falta, como os músculos tensos de meu corpo relaxam, como sinto-me mais leve, como o peso de meus próprios pensamentos se dissipa para apenas uma névoa distorcida de satisfação e quase desorientação com a música e luzes pulsando ao meu redor. A sensação de finalmente conseguir distanciar-me da minha própria mente.
Ironicamente, é um erro comum que costumo cometer: beber para esquecer-me de todo o resto: das acusações de meu pai, dos olhares de soslaios desgostosos de minha mãe e da voz baixa de Suho na parte de trás de minha cabeça, questionando sempre “porque ele, não eu” - também gostaria de saber; e, surpreendentemente, esquecer era a única coisa que não fazia. Pelo contrário, quanto mais desesperado pelo álcool ficava, quanto mais tomava, mais voltava para a superfície. Um mar obscurecido pela desorientação de sorrisos falsos, de olhares divertidos e até mesmo flerte sem intenção alguma, permeado por corpos putrefatos que havia deixado para trás. Não demorava muito para que estes voltassem à superfície para assombrar-me, tampouco para suas garras ficassem em minha carne, puxando-me para mais fundo naquele oceano obscuro e terrivelmente silencioso que há anos tornara-me naufrago.
A voz suave da atendente desperta minha atenção, e forço um sorriso despreocupado, ignorando como ela se inclina para frente para que seus seios avantajados capturem minha atenção. Talvez, em um outro momento, até mesmo o tivessem feito, mas naquele momento tudo o que eu conseguia ouvir, ao fundo de minha mente, era o contínuo “porque eu, não você?” de Suho. Meu irmão mais velho teria dado tudo para estar em um lugar como esse, eu consigo facilmente imaginá-lo na pista de dança agora, encantando ou até mesmo permitindo-se uma noite de liberdade completa, sem donos, sem regras, apenas bebida o suficiente para mantê-lo desperto e um corpo quente para envolvê-lo. Suho era esse tipo de pessoa, encaixava-se em qualquer lugar como uma peça de quebra-cabeça que faltava, era sempre a vida na sala, o riso solto que contagiava, o olhar preocupado que o fazia sentir-se visto, o rosto meigo que encantava. Em um mundo justo, seria ele a estar aqui, cercado de celebridades e estrelas que, por muito tempo, acreditamos que só existia dentro de um vídeo de celular, dentro da televisão ou de uma fotografia. Deuses tão intocáveis que jamais se poderia imaginar como seria ser reconhecido brevemente em uma multidão, quiçá conhecê-los em pessoa. E era eu que deveria estar em uma urna agora.
Peço por mais um copo de whisky, sentindo o peso da desistência afundar-me mais no abismo que havia me atirado. Era sempre assim, o primeiro copo sempre era o problema, se eu não cedesse de imediato, se eu conseguisse resistir mais um dia, então estaria seguro. Mas se eu o tomasse… então amanhã eu poderia tentar ficar sóbrio, então amanhã eu poderia lidar com o arrependimento e a culpa. Amanhã.
A atendente abre um sorriso encantador, seus dedos acariciam o dorso de minha mão quando retira o copo de cristal para enchê-lo de novo, e me lança um sorriso travesso. Tento suprir um bufar baixo, forçando um sorriso divertido na direção dela, antes de batucar distraidamente contra o balcão. Giro impaciente os anéis em meus dedos, desconfortável com as roupas, com a minha própria pele. Preciso sair daqui, antes que faça alguma merda pior, antes que…
— Olha, se quer saber, em todos os meus anos frequentando este lugar, essa é a primeira vez que vejo Eleanor Reeds sendo legal com alguém, tenho que admitir, estou morrendo de inveja - uma voz feminina se projeta a minha direita, baixa, arrastada com um sotaque pesado, lembra um pouco o britânico, pela maneira com que pronuncia as palavras, como se as palavras se enrolassem em sua língua, não de um jeito ruim. Percebo que é irlandês, quando volto meu olhar na direção da mulher e me deparo com ninguém mais e ninguém menos que , escorada preguiçosamente contra o balcão de madeira, como se fosse uma pintura personificada ao meu lado. Sou tomado por seu perfume, uma mistura intensa de flores com algo mais ácido, disfarçado mas presente; pimenta, percebo. Os lábios cheios, tingidos por um tom profundo de vermelho escuro se curvam em um sorriso torto, convidativo e traiçoeiro. Seus olhos cintilam, e entendo agora porque quase todo mundo que a conhece a assimila com uma gata. - Comigo? Ela sempre ameaça cuspir no copo, acho que já fez algumas vezes, não que me importe - observo-a dar de ombros com indiferença, mas o duplo sentido em suas palavras não passa despercebido. - Mas com você, ela fica manhosa como uma gatinha, só posso imaginar o porquê - abre um sorriso perigoso, dentes brancos expostos, parecendo achar divertido observar minha interação com a atendente, a tal Eleanor. Tenho vontade de revirar os olhos, mas não consigo desviar meu olhar. Ela se inclina para trás, um pouco mais, interceptando meu copo da mão da atendente com um sorriso largo, quase infantil. Só consigo encará-la, as palavras desaparecem de minha mente como um mal funcionamento, mesmo que tente forçá-las para fora. - Então, ela tem chance?
Agradeço mentalmente por não ter recebido a bebida antes, porque certamente teria me afogado. Acho que realmente me afogo com a minha própria saliva porque por um momento quase começo a tossir. Obrigo-me a inspirar fundo e cometo o erro mais estúpido que poderia ter feito, o perfume dela invade minhas narinas, obstruindo tudo pelo caminho, e percebo o quão bom é. Sinto meu corpo se aquecer, enquanto forço-me a voltar em sua direção, determinado a encará-la de frente, no fundo de seus olhos, e este é meu maior erro.
é de tirar o fôlego.
Sempre havia sido. Quer dizer, lembro-me dos posters espalhados pelo quarto de Suho, ou dos clipes que assistia às escondidas no fundo de casa - era meu pai quem não acreditava que era apropriado assistir os vídeos. Mas estar assim tão perto dela… parece que torna tudo pior.
Porque finalmente compreendo o que Suho via; e se não é mil vezes melhor do que uma câmera seria capaz de capturar. Seja os olhos profundos, as íris tonalizadas em uma cor difícil de definir, parece alterar-se conforme as luzes estroboscópicas espalhadas pelo espaço se moviam, mais claras quando o vermelho e amarelo tocavam seu rosto, mais escuras quando o azul e verde o tocavam, intensos, vibrantes, envoltos por uma longa camadas de cílios curvados, destacados por um rímel que borra nas laterais dos olhos, imperfeito. Os cabelos longos, densos e desalinhados, emolduram seu rosto delicado, falsamente passando a imagem de uma fragilidade produzida inexistente, pendendo em cachos grossos, volumosos e bem definidos. A pele perfeita, uniforme e de aparência terrivelmente macia, sempre parecia perfeita demais nos videoclipes, ou até mesmo nas fotografias postadas dela em redes sociais, mas agora de perto, posso ver as pequenas imperfeições que se espalham, e roubam meu fôlego. Há uma pequena camada de cicatrizes em seu rosto, tão imperceptíveis que passariam facilmente despercebidas, mas estando perto dela, agora, posso observar com uma ponta de surpresa. Uma no supercílio que deveria ter deixado sua sobrancelha falhada, mas que a maquiagem aparentemente havia consertado, outra no canto direito de seu lábio inferior. Evidências silenciosas de sua personalidade problemática, é claro, se não as cicatrizes, certamente as inúmeras tatuagens espalhadas por seu corpo, provam o ponto; padrões e desenhos que não pareciam ter significado algum se não os literais que se apresentava de imediato. Haviam tantas que uma parte de minha mente se desvirtua para um caminho perigoso, tentando imaginar até onde elas iam, até onde cobriam sua pele. Minha garganta subitamente está mais seca do que deveria. Controlo minha respiração, tentando mantê-la uniforme e baixa. Sou obrigado a tencionar minha mandíbula, tensionando os músculos de meu corpo outra vez, em busca de algo que eu possa me agarrar, que me mantenha centrado, mas estou em queda livre, e a culpa é inteiramente dela.
E ela parece perceber isso.
Seus lábios carnudos, cobertos por um batom vermelho escuro, quase preto, se torcem por alguns segundos antes de se curvar em um sorriso torto, entretido, quase desdenhoso; um pequeno desafio velado, um incentivo silencioso para algo que rastejou por minha pele, quente, arrepiante e frustrante. Fincou suas garras em minha pele e fez-me refém de seu olhar. Uma de suas sobrancelhas angulosas se curva para cima, suavemente, em uma pergunta silenciosa. O riso suave, depreciativo e afiado escapa por sua garganta, discretamente, mas ainda assim audível para meus ouvidos, retorce meu estômago, inflama minhas veias com um incômodo inconveniente e desproporcional para a situação; é a maneira com que soa, é o desafio, o desaforo, o olhar de desprezo por baixo do tom aveludado, do convite doce com fundo amargo, irrecusável. Não é apenas uma criatura com corpo escultural, provocante em suas roupas que mal esforçam-se para cobri-la de fato, era a eloquência arrebatadora.
pulsava a palavra “problema”. Grande, vermelho, sem nenhum tipo de problema. Era inegável o perigo que parecia esvair-se com cada subir e descer de seu peito acompanhando o ritmo de sua respiração. E se não a tornava ainda mais convidativa.
— O que? O gato já comeu sua língua, Encantado - ela provoca, e algo em meu peito se aquece. Não é bom. Queima, frio e remexe-se desconfortavelmente, o gosto amargo em minha língua torna-se mais intenso, a pulsação aumenta, reverberando por meus ouvidos suavemente, como um fundo musical marcado, fazendo com que o restante da festa desaparecesse. Fazendo com que até mesmo Suho sumisse de minha mente, ainda que por um breve segundo.
Está provocando, quer minha reação, mas seja lá qual o interesse dela ali, não sou do tipo que aceita algo calado, não mais. Estreito meus olhos, apoiando meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de mogno, observando seu rosto por um longo e deliberado momento. É o meu silêncio que a deixa desconfortável? Ou a minha falta de reação? Estou entrando por baixo de sua pele como está tentando fazer comigo, ? Que jogo era aquele? Movi minha mandíbula, frustrado, não com ela, mas comigo mesmo. Não tenho resposta para a provocação dela, porque ela atinge no ponto certo.
— Costuma roubar a bebida dos outros também, ou sou o privilegiado da noite? Com tanto dinheiro que você faz, em pessoa, não deveria pagar pela sua própria bebida? - Obrigo-me a cuspir as palavras, forçando-me a usar todo meu charme com ela, embora minhas palavras sejam enviesadas. Observo aqueles olhos marcantes, cintilarem com algo que não consigo entender, não de imediato ao menos, mas não é ruim. Há uma ponta de frustração naquele rosto estupidamente atraente, e percebo, com mais divertimento do que deveria, que é algo que gosto de ver. Seja lá qual é o jogo que ela pretende iniciar aqui, concluo que, com o silêncio do mundo ao redor, estou inclinado a ver aonde isso pode dar, consequências que se danem. Dou um passo na direção dela, e tomo de suas mãos o copo de volta. Ela não se afasta, pelo contrário, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um ar petulante. Assim de perto, ela parece tangível. A culpa não demora para ressurgir ao fundo de minha mente, rastejando por minha espinha, gélida, cortante, apoderando-se de minha mente aos poucos, tentando corroê-la. Suho deveria estar ali, aquela conversa era de Suho, não minha. Roubei isso de meu irmão, e muito mais. - Não me chame assim, não temos essa intimidade.
A sobrancelha angulosa dela se curva um pouco mais, e ela inclina a cabeça para o lado, tencionando a mandíbula. Seus olhos se perdem em meu rosto por um momento, e sinto algo se aquecer ao centro de meu peito; detesto. Há algo nela que desperta alguma coisa, um anseio por ter sua atenção, ainda que por um breve momento, e isso lhe dá controle. Trinco meus dedos, fuzilando seu rosto, questionando-me outra vez: o que diabos poderia querer comigo? Eu não era estúpido. Embora fosse deslumbrante, não é qualquer pessoa, e seu interesse em mim, súbito, expõe mais do que está dizendo.
— Nossa - resmunga com um bufar suave, estupefata. Desvio meu olhar de seu rosto e observei por uma fração de segundos o copo com o whisky. Posso sentir como os músculos de meu corpo se tencionam ainda mais; estão começando a doer, o impulso é mais forte, aquela pequena coceira ao fundo da minha mente se torna um incômodo real. Apoio o copo sobre o balcão de mogno impecável, trincando os dentes com força, obrigando-me a soltá-lo. Inspiro fundo e arrependo-me imediatamente do gesto; o cheiro do perfume de me consome novamente. É tudo o que sinto, tudo o que me envolve. Obrigo-me a sustentar seu olhar, observando-a com intensidade. Preciso sair daqui antes que faça algo que possa arrepender-me amargamente. - Não é que você tem garras afinal? Achei que vocês, bem… - passou com um sorriso sarcástico, afiado, sugestiva, lançou um olhar na direção de onde, percebo agora, estavam Min-Hyuk e Eun-Ho conversando baixo e rindo, já um pouco alterados, de alguma coisa que não posso estar ouvindo, mas tenho quase certeza que é de alguma comida, ignorando os olhares interessados de outras pessoas ao redor. O gosto amargo pungente em minha língua parece aumentar com a sensação afiada de irritação que começa a florescer por meu peito. - eram programados para serem assim, não são? Dóceis, adestrados, não achei que tinham força o suficiente para atacar alguém.
era tão bela quanto irritante. Suponho que faça sentido; após tanto tempo tendo todos lhe dizendo como o mundo lhe pertence, você acabava se tornando uma pessoa desagradável. Solto um bufar baixo, um riso sarcástico quase escapa por meus lábios enquanto permito-me perder-se em seu rosto. Não a respondi de imediato, apenas observo-a com atenção. Como os cabelos desalinhados emolduram seu rosto marcante, como o batom destaca os lábios convidativos, como as roupas a envolviam, o sutiã de renda com transparência apenas nos lugares certos envolviam seus seios, puxando-os para cima, criando um desenho atraente e quase impossível de não perceber, a forma com que a meia calça preta grossa de cintura alta, gruda em seu copo como uma segunda pele, evidenciando uma transparência onde suas coxas começavam, e como a bota de cano alto de couro envolvia as pernas longas e elegantes dela. É uma visão e tanto para se ter, não apenas da pele que está exposta, mas pela confiança que ela usa. sabe que é atraente, ela sabe que pode roubar o fôlego de alguém com as palavras certas, aquele olhar sugestivo e o sorriso torto, em qualquer outra noite, eu até poderia entreter o pensamento de ver a onde aquilo iria, mas não nessa. Não quando já estava no meu limite, e, todavia, não consigo conter o impulso…
— É como dizem: aparência não é tudo, certo? - pronuncio-me deliberadamente, observando os olhos dela se acendem com algo, e fico feliz quando percebo que não é algo positivo. Não sinto o sorriso que começa a surgir nos cantos dos meus lábios.
— Esperto - ela murmura lentamente, a palavra ondulando por sua língua de uma maneira obscena; ela sequer parece estar completamente ciente de todo o efeito que causava, mas posso ver as engrenagens de sua mente funcionando. Obrigo-me a desviar meus olhos do rosto dela, voltando minha atenção para onde Min-Hyuk e Eun-Ho estavam, tentando pedir para que viessem para me tirar dali, mas os dois haviam desaparecido. Os encontro conversando baixo com Taehoon, que, surpreendentemente, estava com o braço direito repousado sobre os ombros de uma modelo famosa conhecida por fazer parte de um reality show que não acabava nunca. Merda, isso não iria acabar bem. Busco com o olhar por Jun-Woo, nosso empresário e vejo-o perdido no patamar superior do segundo andar, com um charuto em sua boca, cumprimentando alguns figurões engravatados e estilosos que só poderiam compor o alto escalão Hollywoodiano. — Tão esperto que veio parar nas mãos de Joel Massaro, huh? Se a piada não escreve por si mesma - resmungou à minha esquerda, mas algo em seu tom explícita alguma coisa diferente naquelas palavras, algo amargo, afiado escorre por seus lábios convidativos como veneno. Transforma as palavras doces e os quase elogios em um ataque enviesado quase indetectável. Pisco, com o comentário inesperado. Raiva borbulha por meu peito, mas há algo mais perigoso começando a surgir, amortecendo minha mente para o que quer que me atormentava anteriormente, fosse a voz acusatória de Suho ou de meu pai, para apenas focar nela. Não é bom, mas não é algo ruim, pela primeira vez naquela noite, poder ouvir meus próprios pensamentos.
— Corajoso dizer isso, especialmente quando você continua trabalhando com ele, - respondo com um sorriso sarcástico, tentando agarrar-me a ironia da situação, mas há algo muito mais divertido ali do que apenas o não dito em suas palavras. Tensiono a mandíbula com força, um pequeno músculo movendo-se, enquanto passo meus dedos por entre meus cabelos, afastando-o de meu rosto, sentindo o suor que umedecia algumas mechas enroscar-se contra as falanges digitais. Apoio meus cotovelos sobre a superfície lisa e fria do balcão, unindo as sobrancelhas enquanto gesticulo para uma das atendentes para que pudesse pegar o dinheiro. Se pelo serviço ou apenas compensação, pouco me importo no momento. Mas é que consegue a atenção de Eleanor, e com um sorriso discreto, ela pede por vodca, pura, e sinto minha boca salivar, não pelo gosto da bebida, porque era horrível, mas pela sensação que proporciona. Preciso sair daqui, agora… - Não acabou de dizer que ela cospe no seu copo?
lança-me um olhar divertido, estreitando os olhos. Parece considerar minhas palavras por um momento, e então, ela ri. O som que ecoa por meus ouvidos, pega-me desprevenido, porque não era aquele estranho ronronar desdenhoso, baixo, quase imperceptível que soava como uma faca afiada, mas sim, uma risada genuína, rouca e que soava como a de um velho marinheiro fumante, é ridícula a risada dela, falhada; soa estranhamente melhor do que qualquer outra coisa que já ouvi. Envia uma onda de calor por meu corpo, inesperado e desconfortável.
— Também disse que não me importava, não disse? - Observo-a pegar o copo das mãos da tal Eleanor, e virá-lo de uma vez. Trinco meus dentes com força, minhas mãos se fecham em punhos firmes, quase trêmulos, músculo tão tensos que parecem à beira de se romper ao observá-la engolir a bebida; o movimento suave que sua garganta faz, como o músculo se moveu, como sua língua se projeta para fora lentamente para limpar o canto de seu lábio inferior. Não sei o que é pior, se é o desejo de afundar-me na sensação que provavelmente tomava seu corpo, ou se se é o estranho impulso, mais perigoso e começando a tornar-se mais forte, de apenas beijá-la. Abaixo meu olhar para a porra do meu copo, prendendo a respiração. Isso é tortura…
— O que você quer de mim, ? - Não consigo conter a pergunta, obrigando-me a manter meus olhos fixos em minhas mãos, girando distraidamente os anéis que envolvem meus dedos. Uso o polegar para traçar o anel de cobra que envolve meu indicador direito, traçando as pequenas escamadas delicadamente feitas de forma manual com o canto da minha unha. Aperto meus lábios, tencionando minha mandíbula com força, um músculo projetando-se em minha mandíbula.
— O que o faz pensar que eu quero algo?
Lanço lhe um olhar de soslaio, cético.
apertou os cantos dos lábios, um pequeno tique em sua sobrancelha diz-me que ela havia sido pega desprevenida, o que até teria me satisfeito se não fosse pela maneira com que ela se projeta para frente, contra o balcão. Alça meu copo antes que eu possa fazê-lo, girando o cristal distraidamente por entre os dedos elegantes e delicados, suas mãos parecem cobertas por luvas de tatuagens, algumas forma padrões geométricos, outras, parecem com rendas delicadas gravadas na pele macia. As unhas, longas, vermelhas como sangue, batem distraidamente contra o vidro, ritmado, acelerado demais para não ser algo ansioso.
— Fiquei curiosa, queria saber porque todos não paravam de falar sobre você - Volto-me em direção dela, sorrindo, desacreditado. Agora isso eu não consigo acreditar nenhum pouco. Observo-a beber outra vez, tão rápido que sinto o espasmo fantasma em mim, quase posso sentir o calor se espalhar por meu corpo, o álcool rasgando de forma gostosa minha garganta enquanto a sensação de leveza começava a se espalhar
— Por que não acredito nisso?
deu de ombros, voltando a me encarar, parecendo espelhar meu sorriso cínico.
— Porque - ela suspira, um tanto melodramática, e não consigo conter o sorriso que ameaça surgir por meus lábios. Ela para a minha frente, estendendo o copo de cristal vazio em minha direção. Não movi um músculo para tomá-lo de suas mãos. Ela está perto, perto demais, posso sentir o calor de seu corpo, ainda que coberto por aquele vago montante de tecido questionável, contra o meu. - Você provavelmente é mais esperto do que eu quero admitir que é, - obrigo-me a manter minha expressão neutra, mas a maneira sugestiva com que ela pronuncia meu nome, conjura imagens que eu não quero me perder no momento. E todavia, é inevitável. - E ainda estou esperando por sua resposta.
Esqueço-me do que diabos ela estava falando com a maneira com que ela me encara. O monstro que vivia abaixo do oceano de culpa que ameaçava afogar-me diariamente ainda está ali, posso senti-lo rastejando-se para cima, tentáculos envolvendo meus tornozelos e pernas, tentando submergir-me naquela escuridão sufocante e silenciosa, tentando obrigar-me a confrontar o que não faria; e então havia o estranho silêncio que ela causava. Aquele olhar traiçoeiro que prometia muito mais problemas do que eu estaria disposto a ter que lidar, mas então, também nunca fui o tipo de pessoa que aceitava passivamente avisos para “não fazer” algo. Meu pai chama de fraqueza,; minha mãe, teimosia; para mim, era só um pequeno desvio. O calor que se espalha por meu corpo parece mais intenso dessa vez, mais convidativo, umedeço os lábios com minha língua, tentando não sorrir com o comentário dela, erguendo apenas uma sobrancelha. Percebo, tardiamente, porque era tão difícil manter o controle com .
Ela era desejo puro.
Uma doença facilmente contraída e assoladora que oferecia nada mais do que amargos resultados acompanhados por cicatrizes crônicas. Um veneno, doce, delirante e viciante. Talvez até mesmo uma maldição, alguma interpretação ridícula de carma que o universo havia colocado em meu caminho para punir-me, para vingar Suho - sei que este estaria rindo se me visse aqui, agora. Até onde eu sabia, desde que havíamos chegado em Los Angeles, nada de bom vinha de alguém como ela. Não havia inocência em alguém que se parecia com ela, era o que todos pareciam dizer. teria na palma de sua mão, voluntariamente, quantos corações desejasse, se sequer ousasse desejá-los. Os colecionava tal qual uma criança o fazia com adesivos, aparentemente. E a pior parte? Não era nenhum pouco melhor do que Suho com suas fantasias de grandeza envolvendo a mulher à minha frente.
Sei que deveria apenas tê-la ignorado, inventar uma desculpa e buscar pelo olhar de Jun-Woo para deixar claro que a noite havia acabado para mim. Sei que o melhor que posso fazer é apenas ignorar o tom dúbio em sua voz, e seguir meu caminho antes que possa fazer uma merda maior - antes que possa não apenas arriscar mais um lapso, pior, antes que possa arriscar meu contrato. Mas não quero. Porque tem algo na maneira com que ela me encara, calculada, traiçoeira e com uma promessa silenciosa, tem algo na maneira com que ela está esperando uma reação minha que inflama meu sangue e faz com que o crepitar de raiva que se acende ao centro de meu peito se misture com algo mais intenso, algo mais pesado e avassalador, espalha-se pelo resto do meu corpo corrosivo, consumindo tudo o que encontra pelo caminho. Estou febril, errático, e determinado, e isso é uma péssima combinação.
Ela dá mais uma passo em minha direção, está tão perto que posso sentir o toque fantasmagórico de seu corpo contra o meu. O ar escapa baixo, vagaroso por entre meus lábios, minha respiração começa a tornar-se mais lenta, irregular, e não consigo desviar meus olhos do rosto dela, da forma com que me encara, da maneira com que os cantos dos lábios dela se curvam naquele maldito sorriso. As palmas das minhas mãos coçam para tocá-la, mas obrigo a mantê-las para mim.
— Então - ela ergue uma sobrancelha, observando-me como uma gata - ela passou a noite te encarando, tratou com um príncipe, ela tem chance?
Não sigo o olhar dela na direção de quem quer que seja, apenas continuo a encará-la. Tudo em meu corpo grita que isso é uma péssima ideia, como se estivesse aproximando-me mais e mais de um precipício do qual o resultado eu conhecia vividamente; aquilo iria virar um problema. Mas ela soava como uma armadilha perfeita. Uma a que suas presas estavam dispostas a cair. Conscientes de seus destinos desafortunados, apegando-se ao anseio da captura com alívio, não com um medo subconsciente ao potencial ferimento mortal que receberia. Uma, da qual, mesmo em sua destruição, parecia oferecer os mais doces sonhos, as mais aprazíveis presunções. Uma pura e lancinante obsessão. Irrevogável. E um desespero, é claro, por mais uma dose, mesmo que fosse apenas uma mentira; posso entender porque tantos caem tão facilmente na conversa dela.
é uma sereia - e estranhamente eu não me importo nem um pouco de ser o próximo afogado.
— Não. - Algo brilhou nos olhos de , algo perigoso e terrivelmente convidativo, algo que faz-me perder em seus olhos e aproximar-me mais dela. Ela não se afasta, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um desafio silencioso. —— Vá em frente, faz a pergunta o que eu sei que você quer fazer - provoco, tão perto dela agora que posso sentir o cheiro de seu hálito, uma mistura suave de menta e bebida alcoólica, questiono-me se a beijar agora, que sabor sentirei em seus lábios?
— Eu tenho alguma chance essa noite? - ela abriu um sorriso preguiçoso, traiçoeiro e meus olhos escurecem. O sorriso dela aumenta, os olhos cintilando como os de um gato, inclinando a cabeça suavemente para o lado, um olhar silencioso como se quisesse convir: “te peguei”.
Abro meus lábios para respondê-la, erguendo meu queixo desafiadoramente, sem conseguir conter um sorriso quando um pigarro e uma figura familiar se aproxima de nós. Não me afastado, esperando que o faça, mas a maldita mulher fica plantada no lugar, sem mover um centímetro sequer que pudesse colocar distância entre nós dois. Ela apenas inclina a cabeça um pouco mais para trás, expondo a pele macia e delicada de seu pescoço, revelando uma pequena tatuagem que ela possuía entre a parte de trás de sua orelha à linha de sua mandíbula. É pequena, discreta, mas captura minha atenção no mesmo segundo, o formato de um beijo, o trabalho delicado e cuidadoso é intrínseco e repleto de detalhes, a paleta cromática da tatuagem sendo apenas uma variação entre cinza e preto, monocromática. Um sorriso quase escapa por meus lábios enquanto meus pensamentos se desviam para as possibilidades, especialmente qual seria a reação dela se eu beijasse aquele ponto em específico.
— Ótimo! To vendo que vocês dois já se conheceram e estão se dando bem - a voz de Joel Massaro se projeta a minha direita, soando falsamente animado, e obrigo-me a dar um passo para trás, colocando distância entre mim e . Umedeci meus lábios secos com minha língua, voltando meu olhar na direção do empresário americano. Meus olhos repousam no segundo no copo de cristal cheio que ele me estende. - Whisky é sua preferida, não é? Pensei que como a noite é de comemoração, deveria ao menos oferecer-lhe o melhor.
Forço um sorriso mecânico, fingindo estar impressionado e agradado com o gesto, aceitando, tenso, o copo. Parece pesar toneladas, e todavia, não posso deixar de pensar em como tenho ansiado por mais a noite inteira. A tinha em minhas mãos agora, e isso era a pior parte de tudo. Merda. Por uma fração de segundos meus olhos focam em , mesmo que não faça ideia do que procuro ali. Apenas a encaro em silêncio, sem saber o que desejava, e todavia, implorando para que ela fizesse algo: que ela tomasse meu copo outra vez, que pudesse experimentar os efeitos da embriaguez apenas ao observá-la, sem preocupar-me com o que significava tomar mais um copo, ou se estou verificando se ela irá tomar outra vez meu copo de minhas mãos - o afastaria antes. Mas está encarando Joel Massaro, uma expressão impossível de ser lida. Então aproveito a distração e viro o copo de uma vez, como um sedento por meses, finalmente encontrando água de verdade.
O álcool desce queimando pela minha garganta; nunca havia tido um gosto tão ruim e tão bom ao mesmo tempo. Preciso de mais. Meu corpo já febril, agora parece insuportavelmente em chamas, obrigando-me a agarrar o colarinho de minha roupa, tentando abri-la como se minha vida dependesse disso. Desfaço os primeiros botões, massageando meu pescoço, voltando minha atenção para Massaro. Joel Massaro é uma figura no mínimo interessante. Não parece extraordinário, como muitos o fazem parecer. Ele não é alto, nem mesmo bonito, sequer tem uma personalidade marcante, mas ele era bom no que fazia. Observá-lo caminhar pelo império que ele havia construído era, na verdade, no mínimo intrigante. Fazia com que você quisesse seguir os mesmos passos que ele, fazia com que uma parte de você desejasse seguir exatamente suas palavras, para que pudesse ter exatamente o que ele possuía - não só os montantes infindáveis de dinheiros, não só o poder que ele tinha de construir e destruir alguém com um estalar de seus dedos, mas a aclamação, o respeito que possuía por todos naquela indústria. Chame-o do que quiser, era inegável o trabalho dele ali. Era um homem pequeno em comparação aos outros, todavia, já com os cabelos grisalhos nas laterais, de olhos proeminentes azuis profundos e um rosto quadrado. Cabelos perfeitamente aparados, penteados e ordenados, uma barba cuidadosamente aparada que envolvia sua mandíbula bem pronunciada, rosto com ângulos marcantes e afiados, e lábios finos, completavam o rosto conhecido, mas eram as roupas que ele usava que sempre chamavam atenção; os ternos coloridos que haviam criado uma marca para si. Aquela noite usava um vinho escuro, quase parecido com o batom de , mas mais vivo e mais decorado. Era uma figura de carisma e poder enviesado; assustava e encantava, talvez por isso estivesse a tanto tempo assim naquela indústria.
— Que consideração de sua parte, Joel - murmura provocativa, o sorriso, deliberado e afiado, de volta com aquela nota de perigo pairando por seus olhos. - E para mim? Não trouxe nada? - Ela questiona, e quase posso comprar a “inocência” de suas palavras se não fosse a maneira com que ela encara Joel. Massaro, todavia, parece continuar imperturbável, encarando-a com uma expressão difícil de interpretar.
— A noite é dos BEATBOIZ, - Joel responde com um tom de voz aveludado, quase amigável demais. Apoio meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de novo, inclinando-me um pouco para trás, sem conseguir conter um sorriso divertido com a cena que ocorre a minha frente. Eu não faço ideia do que está acontecendo, mas nem fodendo que irei perder um segundo disso. - Por que diabos você iria querer roubar a atenção para si, querida? Já não tem demais?
faz um maldito beicinho, provocativo, que não tem efeito algum em Massaro, mas que tem em mim. Tento aliviar a descarga de adrenalina que percorre meu corpo, ajustando-me discretamente, enquanto afasto a ideia vivida e quase tangível de fincar meus dentes naquela pele macia e convidativa de seu lábio inferior. Agora, tenho certeza, de que é o efeito do álcool.
— Continua me tratando assim, e vou virar a sininho, enciumada e uma vadia à beira de um colapso - deu de ombros, ajeitando o sutiã que envolve seus seios aperto, antes de puxar os cabelos volumosos e cacheados para trás, dando de ombros. O movimento não escapa de meus olhos, tampouco de Massaro. Ela faz de propósito. - Você odiaria que eu me sentisse assim, não odiaria, Joel? Fica impossível de trabalhar assim.
— Cuidado, , os tempos estão mudando - é tudo o que Massaro diz. Algo surge nos olhos de em resposta, algo que não sabia que era possível que ela pudesse expressar, mas que por algum motivo, apenas agita-me um pouco mais. É raiva, pura e genuína raiva, e a ideia de vê-la frustrada soa bem mais palatável do que ser o alvo de suas palavras afiadas. Então também poderia ter sua pele penetrada por outros, e de repente, pego-me desesperado para atormentá-la; se por despeito ou apenas para ter sua atenção fixa em mim outra vez, pouco posso dizer. - O mainstream parece estar se cansando de rockstars, e prefdo muito mais Idols.
Dou de ombros, desdenhosamente, sem desviar meus olhos do rosto de .
— O que podemos fazer? Somos adestrados para a profissão. Perfeição é objetivo, mediocridade o pecado - murmuro, sem conseguir conter o sorriso petulante que começa a surgir por meus lábios quando me lança um olhar afiado, irritado. Puta merda, ela é deslumbrante, mas ainda mais com raiva.
— Vou esperar ansiosamente para quando você tiver um desses à disposição, Massaro. Estou louca para conhecê-los - responde meu comentário com aquele tom aveludado, enviesado, que transforma meu sangue em puro fogo, rouba meu fôlego e prende-me no lugar. E talvez seja o álcool começando a falar mais alto, mas amo cada minuto disso. Mais do que deveria.
Joel estalou os lábios, em uma advertência que nem mesmo ou eu escutamos, presos naquela maldita competição de quem encara o outro mais. Não vou perder, não para .
— Que seja - revira os olhos, voltando seu rosto na direção do palco, a luz estroboscópica do lugar projetando sombras suaves em seu rosto marcante. Busco por imperfeições, tento criar uma lista e manter-me preso ao chão; não funciona. Não é apenas a óbvia beleza que ela possui, é algo inteiramente nela. Sua essência. É a porra de um farol em meio ao oceano obscurecido que me empurra para baixo, e de repente, não sou mais o naufrago, mas uma mera mariposa. A autodestruição nunca havia soado tão convidativa, nem tão gostosa. - Tudo bem, , só me responda uma coisa - comanda ela, imperiosa, e meu primeiro impulso é simplesmente ignorá-la, é apenas murmurar um “me obriga” sarcástico, mas contenho minha língua com uma mordida que arranca um pouco de sangue. O gosto ferroso misturando-se com os resquícios de álcool em minha língua é inebriante. Sua presença é mais forte do que meu controle. - Qual sua música preferida?
A pergunta pega-me desprevenido, mas lanço um olhar descrente em sua direção. A princípio, pode-se cair na falácia que a pergunta era inocente, uma maneira de agradar, mas algo me dizia que não era o tipo de pessoa que agradava outras, pelo contrário, tudo o que ela parecia interessada em fazer era irritar, era quebrar. Posso ver exposto como uma parede de vidro que ela não está nem um pouco afim de saber qual era minha música preferida. De uma forma bem deturpada e quase pessoal, percebo exatamente o que ela quer fazer. Quer arruinar a minha música preferida para mim, o que quer que eu disser para ela agora, ela irá encontrar uma maneira de deturpá-la e tomar para si; a próxima vez que a ouvir, será em que irei pensar e não no simples fato de gostar do ritmo ou da letra. É uma armadilha sofisticada, posso ver, como as palavras aveludadas dela ocultam suas próprias intenções.
Ergo uma sobrancelha, desafiando-a silenciosamente, meus olhos focam novamente naquela pequena tatuagem entre sua orelha e mandíbula, antes de dar de ombros, fingindo um desinteresse maior do que de fato sentia.
— Kiss - Digo por fim, lentamente, vendo-a estreitar os olhos levemente, sem comprar minhas palavras. - Do Prince & The Revolution. - Abro um sorriso petulante, largo, encarando-a com uma inocência fingida. A música não é minha preferida, é, na verdade, favorita de Taehoon, que por algum motivo é viciado na batida marcada dos clássicos dos anos 80. É muito alta para que cante confortavelmente, especialmente com a voz baixa e rouca que ela tinha, na maioria das músicas, o que a deixava apenas com duas opções: ou tentava e falhava miseravelmente na frente de tantas pessoas ali, ou ela escolhia outra música aleatória para cantar. Há uma sensação profunda de satisfação ao observar os cantos dos lábios dela se retorcerem um pouco para baixo, em um sorriso irritado, antes de vê-la afastar-se, caminhando elegantemente por entre as pessoas em direção ao palco.
Tento manter meus olhos fixos nas costas dela, mas é impossível não admirar a bela bunda que ela tinha, as coxas torneadas e as pernas longas. Inspiro fundo, obrigando-me a desviar meus olhos, acenando com a cabeça em agradecimento a uma das atendentes, sequestrando a primeira bebida que encontro pelo caminho. Viro o copo de coquetel de uma vez, fazendo uma careta, não é álcool o suficiente. Peço então para Eleanor por uma garrafa de Soju, ouvindo Massaro estalar os lábios, impaciente ao meu lado.
— Não é uma boa ideia desafiar, assim - Joel murmura a minha direita, puxando um dos bancos do balcão e então sentando-se ali desinteressado. Apoiou os dois cotovelos sobre o balcão atrás de si, mantendo os olhos fixos no palco, com um sorriso torto, difícil de compreender. Ergo uma sobrancelha, desconfiado, e até mesmo entretido. - Ela não é conhecida por ser um furacão a toa, garoto. Vai acabar voltando para morder seu rabo, isso sim.
Ofereço um sorriso cúmplice para Eleanor, observando-a corar suavemente, antes de pegar a garrafa de soju, abrindo-a sem muita cerimônia. Dou de ombros, desdenhosamente as palavras de Massaro.
— Não é a primeira mulher bonita que conheço, Joel, nem vai ser a última - aponto com um sorriso forçado para Joel, voltando-me igualmente na direção ao palco, onde a banda de parecia já estar esperando-a. Observo-a caminhar em direção ao cara alto de cabelos desalinhados, de um preto escuro envolto por dreads com pequenas contas de ouro puro, ajustando a guitarra em seu corpo musculoso e coberto por tatuagens, e vejo-o abrir um sorriso endiabrado, lançando-me um olhar de soslaio antes de acenar em concordância com , e se aproximar da baterista, uma mulher baixinha, com cabelo colorido, dividido em duas tranças, uma rosa e a outra de um preto azulado, para acertar alguma coisa, antes de voltar para a posição inicial. Aquela deveria ser Danny Storm, e o cara que havia acabado de falar com ela, só poderia ser V. O problema da banda de era que, estranhamente, todos eram únicos em seus próprios estilos, e terrivelmente atraentes, mesmo sob a penumbra oscilante das luzes em neon. O tipo de pessoa que você veria em seus pesadelos, antes de acordar com um alívio gritante por não ter passado de apenas um sonho. - Além disso, foi ela quem perguntou sobre a música, eu só respondi, nada demais.
Joel soltou um riso baixo, nasalado, desdenhoso.
— Você não faz ideia de onde está se metendo, garoto. Acha que é o primeiro que acredita que tem chance sobre ela? - Massaro diz com um tom de voz divertido, mas há uma nota visível de aviso ali, algo que me faz dar uma pausa breve e encará-lo de soslaio, meus olhos se estreitam e apenas tomo um longo gole do Soju, sentindo o alívio e o álcool inebriar meus próprios pensamentos. - Até Logan Doherty achou que tinha chance - Franzi meu cenho com a menção do astro Hollywood conhecido por interpretar ícones de filmes de ação. - Faz um favor para todo mundo, garoto, fica longe de , ok? Especialmente com o contrato que você tem. A última coisa que você quer, é que seu nome esteja envolvido com o de na mídia, quando ela te descartar como lixo. - Tenciono minha mandíbula, esforçando-me para não fazer uma careta quando Joel Massaro refere-se ao meu contrato com Ju-Woo e a Pulse. Ainda assim, sua ameaça não parece velada de tudo, apenas um aviso amigável. - Ela é gostosa, sim, mas tem modelos bem melhores por aqui, escolha uma, se divirta pela noite, e só. Ninguém contém , é por isso que ela é quem é, entendeu?
Solto um bufar baixo, meio risonho, sentindo a pequena pontada de amargura pairar por minha voz, mas a contenho. A noite foi interessante o suficiente, com álcool o suficiente para que eu realmente me preocupe com o que quer que Joel Massaro estava falando. Verdade seja dita, por aquela noite, a Pulse e aquele maldito contrato poderiam ir para o completo inferno, não me importava.
— Fala como se fosse uma alegoria para Frankenstein - digo com um sorriso difícil de esconder de meu rosto. Joel me lança um olhar difícil de compreender mas não é ameaçador, é apenas cauteloso. Sustento seu olhar em mim com interesse gritante. - O monstro que você criou não pode mais ser contido nem mesmo por você? - Provoco, mais para conseguir a informação do que de fato por algum interesse em perturbar Massaro. parecia o suficiente para tomar este posto na vida de Massaro, a última coisa que eu desejava, era atrair aquele tipo de atenção de Joel.
— Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood já a teria esquecido - Joel responde, com um olhar significativo. Forço um bufar baixo, desdenhoso, como se não tivesse levado a sério suas palavras, mas volto meu olhar na direção da sereia deslumbrante ao centro do palco. Quando as luzes do grande salão todas se apagam, posso sentir um arrepio de antecipação percorrer por meu corpo, o ar parece ficar um pouco mais eletrizado do que antes, o burburinho se dispersa para alguns gritos animados e algumas palmas que se espalham como uma onda em quebra a uma praia. Merda. - Sua escolha, garoto, só não diz que eu não te avisei. - Massaro diz com um sorriso torto, como se soubesse mais do que desejava compartilhar, mas seu desincentivo apenas aumenta mais minha curiosidade. O empresário dá umas batidinhas quase paternalistas em meu ombro, sorrindo como o diabo quando as luzes se acendem outra vez, agora só as vermelhas, e ouço gemer suavemente contra o microfone, seguido pela introdução da música Kiss do Prince.
Minha garganta fica seca no mesmo segundo, quero sorrir com descrença, mas estou mais irritado por ela não ter se acovardado do que intrigado por sua performance. Que desgraçada… ela sabia exatamente o que estava fazendo! E a pior parte? Eu queria mais, pelo menos, só por essa noite.
— Relaxa, eu não tenho a mínima intenção de ficar perto de - a mentira que escapa de minha boca nunca havia sido mais fácil de ser contada.
Há um gosto amargo pungente em minha língua, se espalha como bile por minha boca, revira o estômago; não sei se veio dos resquícios da bebida que havia acabado de ingerir, a mistura de sabores - algo entre pimenta e chocolate misturava-se ao sabor puro do whisky, ou se era a nauseante certeza de que, após quase cinco anos limpos, havia acabado de jogar tudo pelo ralo com um maldito copo. A culpa é imediata, sufocante, espalha-se por meu peito, corrosiva, congela-me no lugar, prende-me apenas naquele único ponto focal em minhas mãos. O copo de cristal vazio, reluzindo suavemente conforme as luzes estroboscópicas se espalhavam pelo espaço, fazendo projetar pequenos losangos e figuras abstratas contra o dorso pálido, ressalta discretamente os calos que agora se formam pelas falanges dos meus dedos, marcando o esforço e disfarçando as cicatrizes que haviam ali. A maioria havia desaparecido com o tempo, deixando para trás apenas uma pequena linha, uma imperfeição minúscula facilmente disfarçada com maquiagem. A superfície irregular do vidro exibia uma arte intrínseca, com padrões em losangos cuidadosamente modelados, que lembram vagamente a uma composição Art Deco. Opulência pura em seu cerne. O gosto amargo do whisky ainda parece pulsar em minha língua, enviando-me uma mistura de culpa e satisfação que a muito havia conseguido me livrar de sentir; ignoro a culpa, concentro-me no sabor, e impossível desligar a parte de meu corpo que implora por mais. Mais um copo não faria mal, posso ouvir ao fundo da minha mente, tentando ignorar como isso muito provavelmente faria. Mas é o calor que se espalha por minha corrente sanguínea que sinto falta, como os músculos tensos de meu corpo relaxam, como sinto-me mais leve, como o peso de meus próprios pensamentos se dissipa para apenas uma névoa distorcida de satisfação e quase desorientação com a música e luzes pulsando ao meu redor. A sensação de finalmente conseguir distanciar-me da minha própria mente.
Ironicamente, é um erro comum que costumo cometer: beber para esquecer-me de todo o resto: das acusações de meu pai, dos olhares de soslaios desgostosos de minha mãe e da voz baixa de Suho na parte de trás de minha cabeça, questionando sempre “porque ele, não eu” - também gostaria de saber; e, surpreendentemente, esquecer era a única coisa que não fazia. Pelo contrário, quanto mais desesperado pelo álcool ficava, quanto mais tomava, mais voltava para a superfície. Um mar obscurecido pela desorientação de sorrisos falsos, de olhares divertidos e até mesmo flerte sem intenção alguma, permeado por corpos putrefatos que havia deixado para trás. Não demorava muito para que estes voltassem à superfície para assombrar-me, tampouco para suas garras ficassem em minha carne, puxando-me para mais fundo naquele oceano obscuro e terrivelmente silencioso que há anos tornara-me naufrago.
A voz suave da atendente desperta minha atenção, e forço um sorriso despreocupado, ignorando como ela se inclina para frente para que seus seios avantajados capturem minha atenção. Talvez, em um outro momento, até mesmo o tivessem feito, mas naquele momento tudo o que eu conseguia ouvir, ao fundo de minha mente, era o contínuo “porque eu, não você?” de Suho. Meu irmão mais velho teria dado tudo para estar em um lugar como esse, eu consigo facilmente imaginá-lo na pista de dança agora, encantando ou até mesmo permitindo-se uma noite de liberdade completa, sem donos, sem regras, apenas bebida o suficiente para mantê-lo desperto e um corpo quente para envolvê-lo. Suho era esse tipo de pessoa, encaixava-se em qualquer lugar como uma peça de quebra-cabeça que faltava, era sempre a vida na sala, o riso solto que contagiava, o olhar preocupado que o fazia sentir-se visto, o rosto meigo que encantava. Em um mundo justo, seria ele a estar aqui, cercado de celebridades e estrelas que, por muito tempo, acreditamos que só existia dentro de um vídeo de celular, dentro da televisão ou de uma fotografia. Deuses tão intocáveis que jamais se poderia imaginar como seria ser reconhecido brevemente em uma multidão, quiçá conhecê-los em pessoa. E era eu que deveria estar em uma urna agora.
Peço por mais um copo de whisky, sentindo o peso da desistência afundar-me mais no abismo que havia me atirado. Era sempre assim, o primeiro copo sempre era o problema, se eu não cedesse de imediato, se eu conseguisse resistir mais um dia, então estaria seguro. Mas se eu o tomasse… então amanhã eu poderia tentar ficar sóbrio, então amanhã eu poderia lidar com o arrependimento e a culpa. Amanhã.
A atendente abre um sorriso encantador, seus dedos acariciam o dorso de minha mão quando retira o copo de cristal para enchê-lo de novo, e me lança um sorriso travesso. Tento suprir um bufar baixo, forçando um sorriso divertido na direção dela, antes de batucar distraidamente contra o balcão. Giro impaciente os anéis em meus dedos, desconfortável com as roupas, com a minha própria pele. Preciso sair daqui, antes que faça alguma merda pior, antes que…
— Olha, se quer saber, em todos os meus anos frequentando este lugar, essa é a primeira vez que vejo Eleanor Reeds sendo legal com alguém, tenho que admitir, estou morrendo de inveja - uma voz feminina se projeta a minha direita, baixa, arrastada com um sotaque pesado, lembra um pouco o britânico, pela maneira com que pronuncia as palavras, como se as palavras se enrolassem em sua língua, não de um jeito ruim. Percebo que é irlandês, quando volto meu olhar na direção da mulher e me deparo com ninguém mais e ninguém menos que , escorada preguiçosamente contra o balcão de madeira, como se fosse uma pintura personificada ao meu lado. Sou tomado por seu perfume, uma mistura intensa de flores com algo mais ácido, disfarçado mas presente; pimenta, percebo. Os lábios cheios, tingidos por um tom profundo de vermelho escuro se curvam em um sorriso torto, convidativo e traiçoeiro. Seus olhos cintilam, e entendo agora porque quase todo mundo que a conhece a assimila com uma gata. - Comigo? Ela sempre ameaça cuspir no copo, acho que já fez algumas vezes, não que me importe - observo-a dar de ombros com indiferença, mas o duplo sentido em suas palavras não passa despercebido. - Mas com você, ela fica manhosa como uma gatinha, só posso imaginar o porquê - abre um sorriso perigoso, dentes brancos expostos, parecendo achar divertido observar minha interação com a atendente, a tal Eleanor. Tenho vontade de revirar os olhos, mas não consigo desviar meu olhar. Ela se inclina para trás, um pouco mais, interceptando meu copo da mão da atendente com um sorriso largo, quase infantil. Só consigo encará-la, as palavras desaparecem de minha mente como um mal funcionamento, mesmo que tente forçá-las para fora. - Então, ela tem chance?
Agradeço mentalmente por não ter recebido a bebida antes, porque certamente teria me afogado. Acho que realmente me afogo com a minha própria saliva porque por um momento quase começo a tossir. Obrigo-me a inspirar fundo e cometo o erro mais estúpido que poderia ter feito, o perfume dela invade minhas narinas, obstruindo tudo pelo caminho, e percebo o quão bom é. Sinto meu corpo se aquecer, enquanto forço-me a voltar em sua direção, determinado a encará-la de frente, no fundo de seus olhos, e este é meu maior erro.
é de tirar o fôlego.
Sempre havia sido. Quer dizer, lembro-me dos posters espalhados pelo quarto de Suho, ou dos clipes que assistia às escondidas no fundo de casa - era meu pai quem não acreditava que era apropriado assistir os vídeos. Mas estar assim tão perto dela… parece que torna tudo pior.
Porque finalmente compreendo o que Suho via; e se não é mil vezes melhor do que uma câmera seria capaz de capturar. Seja os olhos profundos, as íris tonalizadas em uma cor difícil de definir, parece alterar-se conforme as luzes estroboscópicas espalhadas pelo espaço se moviam, mais claras quando o vermelho e amarelo tocavam seu rosto, mais escuras quando o azul e verde o tocavam, intensos, vibrantes, envoltos por uma longa camadas de cílios curvados, destacados por um rímel que borra nas laterais dos olhos, imperfeito. Os cabelos longos, densos e desalinhados, emolduram seu rosto delicado, falsamente passando a imagem de uma fragilidade produzida inexistente, pendendo em cachos grossos, volumosos e bem definidos. A pele perfeita, uniforme e de aparência terrivelmente macia, sempre parecia perfeita demais nos videoclipes, ou até mesmo nas fotografias postadas dela em redes sociais, mas agora de perto, posso ver as pequenas imperfeições que se espalham, e roubam meu fôlego. Há uma pequena camada de cicatrizes em seu rosto, tão imperceptíveis que passariam facilmente despercebidas, mas estando perto dela, agora, posso observar com uma ponta de surpresa. Uma no supercílio que deveria ter deixado sua sobrancelha falhada, mas que a maquiagem aparentemente havia consertado, outra no canto direito de seu lábio inferior. Evidências silenciosas de sua personalidade problemática, é claro, se não as cicatrizes, certamente as inúmeras tatuagens espalhadas por seu corpo, provam o ponto; padrões e desenhos que não pareciam ter significado algum se não os literais que se apresentava de imediato. Haviam tantas que uma parte de minha mente se desvirtua para um caminho perigoso, tentando imaginar até onde elas iam, até onde cobriam sua pele. Minha garganta subitamente está mais seca do que deveria. Controlo minha respiração, tentando mantê-la uniforme e baixa. Sou obrigado a tencionar minha mandíbula, tensionando os músculos de meu corpo outra vez, em busca de algo que eu possa me agarrar, que me mantenha centrado, mas estou em queda livre, e a culpa é inteiramente dela.
E ela parece perceber isso.
Seus lábios carnudos, cobertos por um batom vermelho escuro, quase preto, se torcem por alguns segundos antes de se curvar em um sorriso torto, entretido, quase desdenhoso; um pequeno desafio velado, um incentivo silencioso para algo que rastejou por minha pele, quente, arrepiante e frustrante. Fincou suas garras em minha pele e fez-me refém de seu olhar. Uma de suas sobrancelhas angulosas se curva para cima, suavemente, em uma pergunta silenciosa. O riso suave, depreciativo e afiado escapa por sua garganta, discretamente, mas ainda assim audível para meus ouvidos, retorce meu estômago, inflama minhas veias com um incômodo inconveniente e desproporcional para a situação; é a maneira com que soa, é o desafio, o desaforo, o olhar de desprezo por baixo do tom aveludado, do convite doce com fundo amargo, irrecusável. Não é apenas uma criatura com corpo escultural, provocante em suas roupas que mal esforçam-se para cobri-la de fato, era a eloquência arrebatadora.
pulsava a palavra “problema”. Grande, vermelho, sem nenhum tipo de problema. Era inegável o perigo que parecia esvair-se com cada subir e descer de seu peito acompanhando o ritmo de sua respiração. E se não a tornava ainda mais convidativa.
— O que? O gato já comeu sua língua, Encantado - ela provoca, e algo em meu peito se aquece. Não é bom. Queima, frio e remexe-se desconfortavelmente, o gosto amargo em minha língua torna-se mais intenso, a pulsação aumenta, reverberando por meus ouvidos suavemente, como um fundo musical marcado, fazendo com que o restante da festa desaparecesse. Fazendo com que até mesmo Suho sumisse de minha mente, ainda que por um breve segundo.
Está provocando, quer minha reação, mas seja lá qual o interesse dela ali, não sou do tipo que aceita algo calado, não mais. Estreito meus olhos, apoiando meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de mogno, observando seu rosto por um longo e deliberado momento. É o meu silêncio que a deixa desconfortável? Ou a minha falta de reação? Estou entrando por baixo de sua pele como está tentando fazer comigo, ? Que jogo era aquele? Movi minha mandíbula, frustrado, não com ela, mas comigo mesmo. Não tenho resposta para a provocação dela, porque ela atinge no ponto certo.
— Costuma roubar a bebida dos outros também, ou sou o privilegiado da noite? Com tanto dinheiro que você faz, em pessoa, não deveria pagar pela sua própria bebida? - Obrigo-me a cuspir as palavras, forçando-me a usar todo meu charme com ela, embora minhas palavras sejam enviesadas. Observo aqueles olhos marcantes, cintilarem com algo que não consigo entender, não de imediato ao menos, mas não é ruim. Há uma ponta de frustração naquele rosto estupidamente atraente, e percebo, com mais divertimento do que deveria, que é algo que gosto de ver. Seja lá qual é o jogo que ela pretende iniciar aqui, concluo que, com o silêncio do mundo ao redor, estou inclinado a ver aonde isso pode dar, consequências que se danem. Dou um passo na direção dela, e tomo de suas mãos o copo de volta. Ela não se afasta, pelo contrário, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um ar petulante. Assim de perto, ela parece tangível. A culpa não demora para ressurgir ao fundo de minha mente, rastejando por minha espinha, gélida, cortante, apoderando-se de minha mente aos poucos, tentando corroê-la. Suho deveria estar ali, aquela conversa era de Suho, não minha. Roubei isso de meu irmão, e muito mais. - Não me chame assim, não temos essa intimidade.
A sobrancelha angulosa dela se curva um pouco mais, e ela inclina a cabeça para o lado, tencionando a mandíbula. Seus olhos se perdem em meu rosto por um momento, e sinto algo se aquecer ao centro de meu peito; detesto. Há algo nela que desperta alguma coisa, um anseio por ter sua atenção, ainda que por um breve momento, e isso lhe dá controle. Trinco meus dedos, fuzilando seu rosto, questionando-me outra vez: o que diabos poderia querer comigo? Eu não era estúpido. Embora fosse deslumbrante, não é qualquer pessoa, e seu interesse em mim, súbito, expõe mais do que está dizendo.
— Nossa - resmunga com um bufar suave, estupefata. Desvio meu olhar de seu rosto e observei por uma fração de segundos o copo com o whisky. Posso sentir como os músculos de meu corpo se tencionam ainda mais; estão começando a doer, o impulso é mais forte, aquela pequena coceira ao fundo da minha mente se torna um incômodo real. Apoio o copo sobre o balcão de mogno impecável, trincando os dentes com força, obrigando-me a soltá-lo. Inspiro fundo e arrependo-me imediatamente do gesto; o cheiro do perfume de me consome novamente. É tudo o que sinto, tudo o que me envolve. Obrigo-me a sustentar seu olhar, observando-a com intensidade. Preciso sair daqui antes que faça algo que possa arrepender-me amargamente. - Não é que você tem garras afinal? Achei que vocês, bem… - passou com um sorriso sarcástico, afiado, sugestiva, lançou um olhar na direção de onde, percebo agora, estavam Min-Hyuk e Eun-Ho conversando baixo e rindo, já um pouco alterados, de alguma coisa que não posso estar ouvindo, mas tenho quase certeza que é de alguma comida, ignorando os olhares interessados de outras pessoas ao redor. O gosto amargo pungente em minha língua parece aumentar com a sensação afiada de irritação que começa a florescer por meu peito. - eram programados para serem assim, não são? Dóceis, adestrados, não achei que tinham força o suficiente para atacar alguém.
era tão bela quanto irritante. Suponho que faça sentido; após tanto tempo tendo todos lhe dizendo como o mundo lhe pertence, você acabava se tornando uma pessoa desagradável. Solto um bufar baixo, um riso sarcástico quase escapa por meus lábios enquanto permito-me perder-se em seu rosto. Não a respondi de imediato, apenas observo-a com atenção. Como os cabelos desalinhados emolduram seu rosto marcante, como o batom destaca os lábios convidativos, como as roupas a envolviam, o sutiã de renda com transparência apenas nos lugares certos envolviam seus seios, puxando-os para cima, criando um desenho atraente e quase impossível de não perceber, a forma com que a meia calça preta grossa de cintura alta, gruda em seu copo como uma segunda pele, evidenciando uma transparência onde suas coxas começavam, e como a bota de cano alto de couro envolvia as pernas longas e elegantes dela. É uma visão e tanto para se ter, não apenas da pele que está exposta, mas pela confiança que ela usa. sabe que é atraente, ela sabe que pode roubar o fôlego de alguém com as palavras certas, aquele olhar sugestivo e o sorriso torto, em qualquer outra noite, eu até poderia entreter o pensamento de ver a onde aquilo iria, mas não nessa. Não quando já estava no meu limite, e, todavia, não consigo conter o impulso…
— É como dizem: aparência não é tudo, certo? - pronuncio-me deliberadamente, observando os olhos dela se acendem com algo, e fico feliz quando percebo que não é algo positivo. Não sinto o sorriso que começa a surgir nos cantos dos meus lábios.
— Esperto - ela murmura lentamente, a palavra ondulando por sua língua de uma maneira obscena; ela sequer parece estar completamente ciente de todo o efeito que causava, mas posso ver as engrenagens de sua mente funcionando. Obrigo-me a desviar meus olhos do rosto dela, voltando minha atenção para onde Min-Hyuk e Eun-Ho estavam, tentando pedir para que viessem para me tirar dali, mas os dois haviam desaparecido. Os encontro conversando baixo com Taehoon, que, surpreendentemente, estava com o braço direito repousado sobre os ombros de uma modelo famosa conhecida por fazer parte de um reality show que não acabava nunca. Merda, isso não iria acabar bem. Busco com o olhar por Jun-Woo, nosso empresário e vejo-o perdido no patamar superior do segundo andar, com um charuto em sua boca, cumprimentando alguns figurões engravatados e estilosos que só poderiam compor o alto escalão Hollywoodiano. — Tão esperto que veio parar nas mãos de Joel Massaro, huh? Se a piada não escreve por si mesma - resmungou à minha esquerda, mas algo em seu tom explícita alguma coisa diferente naquelas palavras, algo amargo, afiado escorre por seus lábios convidativos como veneno. Transforma as palavras doces e os quase elogios em um ataque enviesado quase indetectável. Pisco, com o comentário inesperado. Raiva borbulha por meu peito, mas há algo mais perigoso começando a surgir, amortecendo minha mente para o que quer que me atormentava anteriormente, fosse a voz acusatória de Suho ou de meu pai, para apenas focar nela. Não é bom, mas não é algo ruim, pela primeira vez naquela noite, poder ouvir meus próprios pensamentos.
— Corajoso dizer isso, especialmente quando você continua trabalhando com ele, - respondo com um sorriso sarcástico, tentando agarrar-me a ironia da situação, mas há algo muito mais divertido ali do que apenas o não dito em suas palavras. Tensiono a mandíbula com força, um pequeno músculo movendo-se, enquanto passo meus dedos por entre meus cabelos, afastando-o de meu rosto, sentindo o suor que umedecia algumas mechas enroscar-se contra as falanges digitais. Apoio meus cotovelos sobre a superfície lisa e fria do balcão, unindo as sobrancelhas enquanto gesticulo para uma das atendentes para que pudesse pegar o dinheiro. Se pelo serviço ou apenas compensação, pouco me importo no momento. Mas é que consegue a atenção de Eleanor, e com um sorriso discreto, ela pede por vodca, pura, e sinto minha boca salivar, não pelo gosto da bebida, porque era horrível, mas pela sensação que proporciona. Preciso sair daqui, agora… - Não acabou de dizer que ela cospe no seu copo?
lança-me um olhar divertido, estreitando os olhos. Parece considerar minhas palavras por um momento, e então, ela ri. O som que ecoa por meus ouvidos, pega-me desprevenido, porque não era aquele estranho ronronar desdenhoso, baixo, quase imperceptível que soava como uma faca afiada, mas sim, uma risada genuína, rouca e que soava como a de um velho marinheiro fumante, é ridícula a risada dela, falhada; soa estranhamente melhor do que qualquer outra coisa que já ouvi. Envia uma onda de calor por meu corpo, inesperado e desconfortável.
— Também disse que não me importava, não disse? - Observo-a pegar o copo das mãos da tal Eleanor, e virá-lo de uma vez. Trinco meus dentes com força, minhas mãos se fecham em punhos firmes, quase trêmulos, músculo tão tensos que parecem à beira de se romper ao observá-la engolir a bebida; o movimento suave que sua garganta faz, como o músculo se moveu, como sua língua se projeta para fora lentamente para limpar o canto de seu lábio inferior. Não sei o que é pior, se é o desejo de afundar-me na sensação que provavelmente tomava seu corpo, ou se se é o estranho impulso, mais perigoso e começando a tornar-se mais forte, de apenas beijá-la. Abaixo meu olhar para a porra do meu copo, prendendo a respiração. Isso é tortura…
— O que você quer de mim, ? - Não consigo conter a pergunta, obrigando-me a manter meus olhos fixos em minhas mãos, girando distraidamente os anéis que envolvem meus dedos. Uso o polegar para traçar o anel de cobra que envolve meu indicador direito, traçando as pequenas escamadas delicadamente feitas de forma manual com o canto da minha unha. Aperto meus lábios, tencionando minha mandíbula com força, um músculo projetando-se em minha mandíbula.
— O que o faz pensar que eu quero algo?
Lanço lhe um olhar de soslaio, cético.
apertou os cantos dos lábios, um pequeno tique em sua sobrancelha diz-me que ela havia sido pega desprevenida, o que até teria me satisfeito se não fosse pela maneira com que ela se projeta para frente, contra o balcão. Alça meu copo antes que eu possa fazê-lo, girando o cristal distraidamente por entre os dedos elegantes e delicados, suas mãos parecem cobertas por luvas de tatuagens, algumas forma padrões geométricos, outras, parecem com rendas delicadas gravadas na pele macia. As unhas, longas, vermelhas como sangue, batem distraidamente contra o vidro, ritmado, acelerado demais para não ser algo ansioso.
— Fiquei curiosa, queria saber porque todos não paravam de falar sobre você - Volto-me em direção dela, sorrindo, desacreditado. Agora isso eu não consigo acreditar nenhum pouco. Observo-a beber outra vez, tão rápido que sinto o espasmo fantasma em mim, quase posso sentir o calor se espalhar por meu corpo, o álcool rasgando de forma gostosa minha garganta enquanto a sensação de leveza começava a se espalhar
— Por que não acredito nisso?
deu de ombros, voltando a me encarar, parecendo espelhar meu sorriso cínico.
— Porque - ela suspira, um tanto melodramática, e não consigo conter o sorriso que ameaça surgir por meus lábios. Ela para a minha frente, estendendo o copo de cristal vazio em minha direção. Não movi um músculo para tomá-lo de suas mãos. Ela está perto, perto demais, posso sentir o calor de seu corpo, ainda que coberto por aquele vago montante de tecido questionável, contra o meu. - Você provavelmente é mais esperto do que eu quero admitir que é, - obrigo-me a manter minha expressão neutra, mas a maneira sugestiva com que ela pronuncia meu nome, conjura imagens que eu não quero me perder no momento. E todavia, é inevitável. - E ainda estou esperando por sua resposta.
Esqueço-me do que diabos ela estava falando com a maneira com que ela me encara. O monstro que vivia abaixo do oceano de culpa que ameaçava afogar-me diariamente ainda está ali, posso senti-lo rastejando-se para cima, tentáculos envolvendo meus tornozelos e pernas, tentando submergir-me naquela escuridão sufocante e silenciosa, tentando obrigar-me a confrontar o que não faria; e então havia o estranho silêncio que ela causava. Aquele olhar traiçoeiro que prometia muito mais problemas do que eu estaria disposto a ter que lidar, mas então, também nunca fui o tipo de pessoa que aceitava passivamente avisos para “não fazer” algo. Meu pai chama de fraqueza,; minha mãe, teimosia; para mim, era só um pequeno desvio. O calor que se espalha por meu corpo parece mais intenso dessa vez, mais convidativo, umedeço os lábios com minha língua, tentando não sorrir com o comentário dela, erguendo apenas uma sobrancelha. Percebo, tardiamente, porque era tão difícil manter o controle com .
Ela era desejo puro.
Uma doença facilmente contraída e assoladora que oferecia nada mais do que amargos resultados acompanhados por cicatrizes crônicas. Um veneno, doce, delirante e viciante. Talvez até mesmo uma maldição, alguma interpretação ridícula de carma que o universo havia colocado em meu caminho para punir-me, para vingar Suho - sei que este estaria rindo se me visse aqui, agora. Até onde eu sabia, desde que havíamos chegado em Los Angeles, nada de bom vinha de alguém como ela. Não havia inocência em alguém que se parecia com ela, era o que todos pareciam dizer. teria na palma de sua mão, voluntariamente, quantos corações desejasse, se sequer ousasse desejá-los. Os colecionava tal qual uma criança o fazia com adesivos, aparentemente. E a pior parte? Não era nenhum pouco melhor do que Suho com suas fantasias de grandeza envolvendo a mulher à minha frente.
Sei que deveria apenas tê-la ignorado, inventar uma desculpa e buscar pelo olhar de Jun-Woo para deixar claro que a noite havia acabado para mim. Sei que o melhor que posso fazer é apenas ignorar o tom dúbio em sua voz, e seguir meu caminho antes que possa fazer uma merda maior - antes que possa não apenas arriscar mais um lapso, pior, antes que possa arriscar meu contrato. Mas não quero. Porque tem algo na maneira com que ela me encara, calculada, traiçoeira e com uma promessa silenciosa, tem algo na maneira com que ela está esperando uma reação minha que inflama meu sangue e faz com que o crepitar de raiva que se acende ao centro de meu peito se misture com algo mais intenso, algo mais pesado e avassalador, espalha-se pelo resto do meu corpo corrosivo, consumindo tudo o que encontra pelo caminho. Estou febril, errático, e determinado, e isso é uma péssima combinação.
Ela dá mais uma passo em minha direção, está tão perto que posso sentir o toque fantasmagórico de seu corpo contra o meu. O ar escapa baixo, vagaroso por entre meus lábios, minha respiração começa a tornar-se mais lenta, irregular, e não consigo desviar meus olhos do rosto dela, da forma com que me encara, da maneira com que os cantos dos lábios dela se curvam naquele maldito sorriso. As palmas das minhas mãos coçam para tocá-la, mas obrigo a mantê-las para mim.
— Então - ela ergue uma sobrancelha, observando-me como uma gata - ela passou a noite te encarando, tratou com um príncipe, ela tem chance?
Não sigo o olhar dela na direção de quem quer que seja, apenas continuo a encará-la. Tudo em meu corpo grita que isso é uma péssima ideia, como se estivesse aproximando-me mais e mais de um precipício do qual o resultado eu conhecia vividamente; aquilo iria virar um problema. Mas ela soava como uma armadilha perfeita. Uma a que suas presas estavam dispostas a cair. Conscientes de seus destinos desafortunados, apegando-se ao anseio da captura com alívio, não com um medo subconsciente ao potencial ferimento mortal que receberia. Uma, da qual, mesmo em sua destruição, parecia oferecer os mais doces sonhos, as mais aprazíveis presunções. Uma pura e lancinante obsessão. Irrevogável. E um desespero, é claro, por mais uma dose, mesmo que fosse apenas uma mentira; posso entender porque tantos caem tão facilmente na conversa dela.
é uma sereia - e estranhamente eu não me importo nem um pouco de ser o próximo afogado.
— Não. - Algo brilhou nos olhos de , algo perigoso e terrivelmente convidativo, algo que faz-me perder em seus olhos e aproximar-me mais dela. Ela não se afasta, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um desafio silencioso. —— Vá em frente, faz a pergunta o que eu sei que você quer fazer - provoco, tão perto dela agora que posso sentir o cheiro de seu hálito, uma mistura suave de menta e bebida alcoólica, questiono-me se a beijar agora, que sabor sentirei em seus lábios?
— Eu tenho alguma chance essa noite? - ela abriu um sorriso preguiçoso, traiçoeiro e meus olhos escurecem. O sorriso dela aumenta, os olhos cintilando como os de um gato, inclinando a cabeça suavemente para o lado, um olhar silencioso como se quisesse convir: “te peguei”.
Abro meus lábios para respondê-la, erguendo meu queixo desafiadoramente, sem conseguir conter um sorriso quando um pigarro e uma figura familiar se aproxima de nós. Não me afastado, esperando que o faça, mas a maldita mulher fica plantada no lugar, sem mover um centímetro sequer que pudesse colocar distância entre nós dois. Ela apenas inclina a cabeça um pouco mais para trás, expondo a pele macia e delicada de seu pescoço, revelando uma pequena tatuagem que ela possuía entre a parte de trás de sua orelha à linha de sua mandíbula. É pequena, discreta, mas captura minha atenção no mesmo segundo, o formato de um beijo, o trabalho delicado e cuidadoso é intrínseco e repleto de detalhes, a paleta cromática da tatuagem sendo apenas uma variação entre cinza e preto, monocromática. Um sorriso quase escapa por meus lábios enquanto meus pensamentos se desviam para as possibilidades, especialmente qual seria a reação dela se eu beijasse aquele ponto em específico.
— Ótimo! To vendo que vocês dois já se conheceram e estão se dando bem - a voz de Joel Massaro se projeta a minha direita, soando falsamente animado, e obrigo-me a dar um passo para trás, colocando distância entre mim e . Umedeci meus lábios secos com minha língua, voltando meu olhar na direção do empresário americano. Meus olhos repousam no segundo no copo de cristal cheio que ele me estende. - Whisky é sua preferida, não é? Pensei que como a noite é de comemoração, deveria ao menos oferecer-lhe o melhor.
Forço um sorriso mecânico, fingindo estar impressionado e agradado com o gesto, aceitando, tenso, o copo. Parece pesar toneladas, e todavia, não posso deixar de pensar em como tenho ansiado por mais a noite inteira. A tinha em minhas mãos agora, e isso era a pior parte de tudo. Merda. Por uma fração de segundos meus olhos focam em , mesmo que não faça ideia do que procuro ali. Apenas a encaro em silêncio, sem saber o que desejava, e todavia, implorando para que ela fizesse algo: que ela tomasse meu copo outra vez, que pudesse experimentar os efeitos da embriaguez apenas ao observá-la, sem preocupar-me com o que significava tomar mais um copo, ou se estou verificando se ela irá tomar outra vez meu copo de minhas mãos - o afastaria antes. Mas está encarando Joel Massaro, uma expressão impossível de ser lida. Então aproveito a distração e viro o copo de uma vez, como um sedento por meses, finalmente encontrando água de verdade.
O álcool desce queimando pela minha garganta; nunca havia tido um gosto tão ruim e tão bom ao mesmo tempo. Preciso de mais. Meu corpo já febril, agora parece insuportavelmente em chamas, obrigando-me a agarrar o colarinho de minha roupa, tentando abri-la como se minha vida dependesse disso. Desfaço os primeiros botões, massageando meu pescoço, voltando minha atenção para Massaro. Joel Massaro é uma figura no mínimo interessante. Não parece extraordinário, como muitos o fazem parecer. Ele não é alto, nem mesmo bonito, sequer tem uma personalidade marcante, mas ele era bom no que fazia. Observá-lo caminhar pelo império que ele havia construído era, na verdade, no mínimo intrigante. Fazia com que você quisesse seguir os mesmos passos que ele, fazia com que uma parte de você desejasse seguir exatamente suas palavras, para que pudesse ter exatamente o que ele possuía - não só os montantes infindáveis de dinheiros, não só o poder que ele tinha de construir e destruir alguém com um estalar de seus dedos, mas a aclamação, o respeito que possuía por todos naquela indústria. Chame-o do que quiser, era inegável o trabalho dele ali. Era um homem pequeno em comparação aos outros, todavia, já com os cabelos grisalhos nas laterais, de olhos proeminentes azuis profundos e um rosto quadrado. Cabelos perfeitamente aparados, penteados e ordenados, uma barba cuidadosamente aparada que envolvia sua mandíbula bem pronunciada, rosto com ângulos marcantes e afiados, e lábios finos, completavam o rosto conhecido, mas eram as roupas que ele usava que sempre chamavam atenção; os ternos coloridos que haviam criado uma marca para si. Aquela noite usava um vinho escuro, quase parecido com o batom de , mas mais vivo e mais decorado. Era uma figura de carisma e poder enviesado; assustava e encantava, talvez por isso estivesse a tanto tempo assim naquela indústria.
— Que consideração de sua parte, Joel - murmura provocativa, o sorriso, deliberado e afiado, de volta com aquela nota de perigo pairando por seus olhos. - E para mim? Não trouxe nada? - Ela questiona, e quase posso comprar a “inocência” de suas palavras se não fosse a maneira com que ela encara Joel. Massaro, todavia, parece continuar imperturbável, encarando-a com uma expressão difícil de interpretar.
— A noite é dos BEATBOIZ, - Joel responde com um tom de voz aveludado, quase amigável demais. Apoio meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de novo, inclinando-me um pouco para trás, sem conseguir conter um sorriso divertido com a cena que ocorre a minha frente. Eu não faço ideia do que está acontecendo, mas nem fodendo que irei perder um segundo disso. - Por que diabos você iria querer roubar a atenção para si, querida? Já não tem demais?
faz um maldito beicinho, provocativo, que não tem efeito algum em Massaro, mas que tem em mim. Tento aliviar a descarga de adrenalina que percorre meu corpo, ajustando-me discretamente, enquanto afasto a ideia vivida e quase tangível de fincar meus dentes naquela pele macia e convidativa de seu lábio inferior. Agora, tenho certeza, de que é o efeito do álcool.
— Continua me tratando assim, e vou virar a sininho, enciumada e uma vadia à beira de um colapso - deu de ombros, ajeitando o sutiã que envolve seus seios aperto, antes de puxar os cabelos volumosos e cacheados para trás, dando de ombros. O movimento não escapa de meus olhos, tampouco de Massaro. Ela faz de propósito. - Você odiaria que eu me sentisse assim, não odiaria, Joel? Fica impossível de trabalhar assim.
— Cuidado, , os tempos estão mudando - é tudo o que Massaro diz. Algo surge nos olhos de em resposta, algo que não sabia que era possível que ela pudesse expressar, mas que por algum motivo, apenas agita-me um pouco mais. É raiva, pura e genuína raiva, e a ideia de vê-la frustrada soa bem mais palatável do que ser o alvo de suas palavras afiadas. Então também poderia ter sua pele penetrada por outros, e de repente, pego-me desesperado para atormentá-la; se por despeito ou apenas para ter sua atenção fixa em mim outra vez, pouco posso dizer. - O mainstream parece estar se cansando de rockstars, e prefdo muito mais Idols.
Dou de ombros, desdenhosamente, sem desviar meus olhos do rosto de .
— O que podemos fazer? Somos adestrados para a profissão. Perfeição é objetivo, mediocridade o pecado - murmuro, sem conseguir conter o sorriso petulante que começa a surgir por meus lábios quando me lança um olhar afiado, irritado. Puta merda, ela é deslumbrante, mas ainda mais com raiva.
— Vou esperar ansiosamente para quando você tiver um desses à disposição, Massaro. Estou louca para conhecê-los - responde meu comentário com aquele tom aveludado, enviesado, que transforma meu sangue em puro fogo, rouba meu fôlego e prende-me no lugar. E talvez seja o álcool começando a falar mais alto, mas amo cada minuto disso. Mais do que deveria.
Joel estalou os lábios, em uma advertência que nem mesmo ou eu escutamos, presos naquela maldita competição de quem encara o outro mais. Não vou perder, não para .
— Que seja - revira os olhos, voltando seu rosto na direção do palco, a luz estroboscópica do lugar projetando sombras suaves em seu rosto marcante. Busco por imperfeições, tento criar uma lista e manter-me preso ao chão; não funciona. Não é apenas a óbvia beleza que ela possui, é algo inteiramente nela. Sua essência. É a porra de um farol em meio ao oceano obscurecido que me empurra para baixo, e de repente, não sou mais o naufrago, mas uma mera mariposa. A autodestruição nunca havia soado tão convidativa, nem tão gostosa. - Tudo bem, , só me responda uma coisa - comanda ela, imperiosa, e meu primeiro impulso é simplesmente ignorá-la, é apenas murmurar um “me obriga” sarcástico, mas contenho minha língua com uma mordida que arranca um pouco de sangue. O gosto ferroso misturando-se com os resquícios de álcool em minha língua é inebriante. Sua presença é mais forte do que meu controle. - Qual sua música preferida?
A pergunta pega-me desprevenido, mas lanço um olhar descrente em sua direção. A princípio, pode-se cair na falácia que a pergunta era inocente, uma maneira de agradar, mas algo me dizia que não era o tipo de pessoa que agradava outras, pelo contrário, tudo o que ela parecia interessada em fazer era irritar, era quebrar. Posso ver exposto como uma parede de vidro que ela não está nem um pouco afim de saber qual era minha música preferida. De uma forma bem deturpada e quase pessoal, percebo exatamente o que ela quer fazer. Quer arruinar a minha música preferida para mim, o que quer que eu disser para ela agora, ela irá encontrar uma maneira de deturpá-la e tomar para si; a próxima vez que a ouvir, será em que irei pensar e não no simples fato de gostar do ritmo ou da letra. É uma armadilha sofisticada, posso ver, como as palavras aveludadas dela ocultam suas próprias intenções.
Ergo uma sobrancelha, desafiando-a silenciosamente, meus olhos focam novamente naquela pequena tatuagem entre sua orelha e mandíbula, antes de dar de ombros, fingindo um desinteresse maior do que de fato sentia.
— Kiss - Digo por fim, lentamente, vendo-a estreitar os olhos levemente, sem comprar minhas palavras. - Do Prince & The Revolution. - Abro um sorriso petulante, largo, encarando-a com uma inocência fingida. A música não é minha preferida, é, na verdade, favorita de Taehoon, que por algum motivo é viciado na batida marcada dos clássicos dos anos 80. É muito alta para que cante confortavelmente, especialmente com a voz baixa e rouca que ela tinha, na maioria das músicas, o que a deixava apenas com duas opções: ou tentava e falhava miseravelmente na frente de tantas pessoas ali, ou ela escolhia outra música aleatória para cantar. Há uma sensação profunda de satisfação ao observar os cantos dos lábios dela se retorcerem um pouco para baixo, em um sorriso irritado, antes de vê-la afastar-se, caminhando elegantemente por entre as pessoas em direção ao palco.
Tento manter meus olhos fixos nas costas dela, mas é impossível não admirar a bela bunda que ela tinha, as coxas torneadas e as pernas longas. Inspiro fundo, obrigando-me a desviar meus olhos, acenando com a cabeça em agradecimento a uma das atendentes, sequestrando a primeira bebida que encontro pelo caminho. Viro o copo de coquetel de uma vez, fazendo uma careta, não é álcool o suficiente. Peço então para Eleanor por uma garrafa de Soju, ouvindo Massaro estalar os lábios, impaciente ao meu lado.
— Não é uma boa ideia desafiar, assim - Joel murmura a minha direita, puxando um dos bancos do balcão e então sentando-se ali desinteressado. Apoiou os dois cotovelos sobre o balcão atrás de si, mantendo os olhos fixos no palco, com um sorriso torto, difícil de compreender. Ergo uma sobrancelha, desconfiado, e até mesmo entretido. - Ela não é conhecida por ser um furacão a toa, garoto. Vai acabar voltando para morder seu rabo, isso sim.
Ofereço um sorriso cúmplice para Eleanor, observando-a corar suavemente, antes de pegar a garrafa de soju, abrindo-a sem muita cerimônia. Dou de ombros, desdenhosamente as palavras de Massaro.
— Não é a primeira mulher bonita que conheço, Joel, nem vai ser a última - aponto com um sorriso forçado para Joel, voltando-me igualmente na direção ao palco, onde a banda de parecia já estar esperando-a. Observo-a caminhar em direção ao cara alto de cabelos desalinhados, de um preto escuro envolto por dreads com pequenas contas de ouro puro, ajustando a guitarra em seu corpo musculoso e coberto por tatuagens, e vejo-o abrir um sorriso endiabrado, lançando-me um olhar de soslaio antes de acenar em concordância com , e se aproximar da baterista, uma mulher baixinha, com cabelo colorido, dividido em duas tranças, uma rosa e a outra de um preto azulado, para acertar alguma coisa, antes de voltar para a posição inicial. Aquela deveria ser Danny Storm, e o cara que havia acabado de falar com ela, só poderia ser V. O problema da banda de era que, estranhamente, todos eram únicos em seus próprios estilos, e terrivelmente atraentes, mesmo sob a penumbra oscilante das luzes em neon. O tipo de pessoa que você veria em seus pesadelos, antes de acordar com um alívio gritante por não ter passado de apenas um sonho. - Além disso, foi ela quem perguntou sobre a música, eu só respondi, nada demais.
Joel soltou um riso baixo, nasalado, desdenhoso.
— Você não faz ideia de onde está se metendo, garoto. Acha que é o primeiro que acredita que tem chance sobre ela? - Massaro diz com um tom de voz divertido, mas há uma nota visível de aviso ali, algo que me faz dar uma pausa breve e encará-lo de soslaio, meus olhos se estreitam e apenas tomo um longo gole do Soju, sentindo o alívio e o álcool inebriar meus próprios pensamentos. - Até Logan Doherty achou que tinha chance - Franzi meu cenho com a menção do astro Hollywood conhecido por interpretar ícones de filmes de ação. - Faz um favor para todo mundo, garoto, fica longe de , ok? Especialmente com o contrato que você tem. A última coisa que você quer, é que seu nome esteja envolvido com o de na mídia, quando ela te descartar como lixo. - Tenciono minha mandíbula, esforçando-me para não fazer uma careta quando Joel Massaro refere-se ao meu contrato com Ju-Woo e a Pulse. Ainda assim, sua ameaça não parece velada de tudo, apenas um aviso amigável. - Ela é gostosa, sim, mas tem modelos bem melhores por aqui, escolha uma, se divirta pela noite, e só. Ninguém contém , é por isso que ela é quem é, entendeu?
Solto um bufar baixo, meio risonho, sentindo a pequena pontada de amargura pairar por minha voz, mas a contenho. A noite foi interessante o suficiente, com álcool o suficiente para que eu realmente me preocupe com o que quer que Joel Massaro estava falando. Verdade seja dita, por aquela noite, a Pulse e aquele maldito contrato poderiam ir para o completo inferno, não me importava.
— Fala como se fosse uma alegoria para Frankenstein - digo com um sorriso difícil de esconder de meu rosto. Joel me lança um olhar difícil de compreender mas não é ameaçador, é apenas cauteloso. Sustento seu olhar em mim com interesse gritante. - O monstro que você criou não pode mais ser contido nem mesmo por você? - Provoco, mais para conseguir a informação do que de fato por algum interesse em perturbar Massaro. parecia o suficiente para tomar este posto na vida de Massaro, a última coisa que eu desejava, era atrair aquele tipo de atenção de Joel.
— Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood já a teria esquecido - Joel responde, com um olhar significativo. Forço um bufar baixo, desdenhoso, como se não tivesse levado a sério suas palavras, mas volto meu olhar na direção da sereia deslumbrante ao centro do palco. Quando as luzes do grande salão todas se apagam, posso sentir um arrepio de antecipação percorrer por meu corpo, o ar parece ficar um pouco mais eletrizado do que antes, o burburinho se dispersa para alguns gritos animados e algumas palmas que se espalham como uma onda em quebra a uma praia. Merda. - Sua escolha, garoto, só não diz que eu não te avisei. - Massaro diz com um sorriso torto, como se soubesse mais do que desejava compartilhar, mas seu desincentivo apenas aumenta mais minha curiosidade. O empresário dá umas batidinhas quase paternalistas em meu ombro, sorrindo como o diabo quando as luzes se acendem outra vez, agora só as vermelhas, e ouço gemer suavemente contra o microfone, seguido pela introdução da música Kiss do Prince.
Minha garganta fica seca no mesmo segundo, quero sorrir com descrença, mas estou mais irritado por ela não ter se acovardado do que intrigado por sua performance. Que desgraçada… ela sabia exatamente o que estava fazendo! E a pior parte? Eu queria mais, pelo menos, só por essa noite.
— Relaxa, eu não tenho a mínima intenção de ficar perto de - a mentira que escapa de minha boca nunca havia sido mais fácil de ser contada.
Capítulo 2 - Crawling Under Your Skin
NÃO SEI DIZER O QUE É MELHOR: PROVAR QUE ELE ESTAVA ERRADO, OU ASSISTIR EM TEMPO REAL A BEIRA DE IMPLODIR.
Danny acompanha o ritmo marcado da música com mais intensidade do que deveria, uma vez que a intenção da performance era justamente projetar aquela sensação de estar sem fôlego e sussurrando, propositalmente projetado para criar uma atmosfera íntima, convidativa; não o que quer que Danny estivesse querendo transformar aquilo. Seja para externar apenas seu próprio desprazer por ter que estar ali aquela noite também, ou talvez - muito provavelmente - estivesse apenas exasperada por ter que estar no mesmo palco que eu, para variar. Ainda assim, posso sempre contar com Jex e V para manter o ritmo de Storm sob controle - no máximo que isso significasse para ela. Aquilo estava saindo fora de controle, eu teria que eventualmente falar com ela, mas, sinceramente, o problema era inteiramente de Danika, por ter expectativas onde não havia absolutamente nada. Se estava sendo corroída por si mesma agora, era problema dela. Pouco me importo de fato, ela pode lidar com isso sozinha; meu foco está fixo em outra pessoa, para variar, e puta merda, se eu não estou tendo o momento da minha vida vendo como ele se contorce discretamente, parcialmente sentado no banco alto do balcão.
Faço questão de cantar diretamente para ele.
Sustento seu olhar, em desafio silencioso, provocando-o sem dizer uma palavra. Quero que ele acredite que cada palavra pronunciada da letra da música é dita para ele, quero infiltrar-me em suas fantasias e acabar com aquela música para ele. Se essa era sua música preferida ou não, pouco importava, estou colocando um show completo, para ter a certeza de que ele não conseguirá mais ouvi-la sem pensar em mim; e pela expressão dele, consigo o que quero. Quero ver até onde seu autocontrole consegue chegar, quero ver quando ele vai quebrar. Foco, então, em modular minha voz para soar como um ronronar áspero, tentando manter a música em um tom mais baixo e lento, sensual, diferente da original - que ele sabia que era mais alta do que minha voz. Foi deliberada a escolha, e, se era assim, então faria com prazer ele se arrepender. A letra explícita, o convite velado por trás das palavras, soam mais intensas; como dos vários sussurros perdidos em meio a uma noite de prazer, e sei que ele está pensando a mesma coisa. Sabia que poderia deixá-lo arrepiado, se ele estivesse prestando atenção em mim, e da forma que ele me encara de onde está parcialmente sentado no balcão próximo ao bar, sei que ele está fixo em mim sem sequer piscar direito; não tenho dúvidas que estou tendo o efeito que desejo.
Mantenho minha atenção fixa nele. Sem importar-me se isso irá gerar alguma especulação externa - sei que vai, se irá gerar burburinhos e blind itens na internet, se serei alvo de perguntas e debates em redes sociais que sequer entro, a única coisa que me interessa é atormentá-lo; quero fazê-lo se arrepender por cada segundo que ele havia gastado aquela noite. Se para provar um ponto para Joel Massaro, ou fazê-lo pagar por sua própria petulância, já não sou mais capaz de dizer, a única coisa que me importa, todavia, é vê-lo perder a cabeça. Bem devagar, assistir seu controle começar a escapar de suas mãos como nada, se não apenas areia por entre seus dedos. É destruir aquela máscara de superioridade que ele exibe com tanta facilidade, observar as rachaduras que sou capaz de criar, e assistir de perto quando entrasse por baixo de sua pele - porque eu iria. Mal consigo conter um sorriso, satisfeita, quando o observo se ajustar discretamente, trincando um pouco mais a mandíbula perfeita e proporcional, um pequeno músculo bem pronunciado em sua mandíbula acentuando-a ainda mais, revelando uma força demasiada que me entretém.
Retiro o microfone do apoio, liberando meu caminho ao chutar os fios para trás, tentando não revirar meus olhos com o fato de que a escolha havia sido deliberada, por Massaro. Não era porque o equipamento era ruim, era porque ele queria mandar uma mensagem: “eu mando, você obedece”, posso sentir seu aperto em minhas cordas tornar-se cada vez mais sufocante; está rasgando-me de dentro para fora e não há montante de dinheiro, ou glória, ou fama, ou muito menos drogas que consiga apagar a sensação de ter mãos coordenando meus movimentos. Uma perfeita marionete que teve seus cinco minutos de rebeldia, mas que voltaria a fazer seu trabalho como lhe era comandado: animar a plateia, prepará-los para oferecer tudo o que tinham: seu dinheiro, sua devoção, tudo, aos pés de Massaro, como uma oferenda voluntária a um deus egocêntrico e narcisista. Há um gosto amargo em minha boca, mas, bem, o que posso fazer? Usar o que tenho em mãos e fazer a merda do jeito que quero.
Uso a música sugestiva que ele havia escolhido para provocá-lo, ignorando o riso nasalado de V, familiar com meu próprio jogo. Tenho a atenção de fixa em mim, e tudo o que preciso é fazê-lo é desejar trocar de lugar com Jex ou V, quando um deles me puxa em suas direções ou me toca. Posso sentir a energia da plateia aumentar. Crepita como fagulhas por minha pele, a atenção é sufocante, mas, igualmente, se distorce com a adoração, a certeza de que não estou afetando apenas , mas qualquer filho da puta que está se esfregando em outro no momento, movidos pelo som de minha voz, pela carícias, pelos gemidos e notas mais longas sem fôlego. Não é difícil ter a atenção de um público voltado para si, faça apenas algo estranho, e terá olhares sobre você, mas há algo de sublime em conseguir dominar uma audiência, de fazê-los desejar um local que jamais estarão, de sentir aquele transe crescente percorrer por sua pele, arrepiando-a, como pura estática. Ouço a risada nasalada, baixa de V ao pé de minha orelha, mantendo-me concentrada no tempo e na letra - faço uma nota mental de acertá-lo na virilha mais tarde - e ignoro o arrepio inconveniente que percorre aquele ponto sensível de meu corpo. Já conhece meu jogo, então não tem muita cerimônia de sua parte quando ele me puxa em sua direção, seu braço serpenteando por meu tronco, até repousar em minha coxa - um movimento que para os fãs, normalmente, os levavam a loucura, fazia-os a questionar qual era nossa relação, e criava uma expectativa do caralho; para nós era só o que era, um ato performático. Os dedos ásperos dele ficando-se em minha pele, as unhas rasgando a fina camada da meia-calça que usava, criando linhas paralelas e desfiadas, expondo a pele por baixo, enquanto acompanho o movimento dos quadris de V atrás de mim, sem desviar os olhos de .
Observo-o perder seu fôlego, a bebida esquecida em sua mão esquerda. O movimento de seu pomo de adão torna-se visível, quase espasmódico, revelando sua dificuldade para engolir sua própria saliva, ou a bebida que outrora tomava. Os lábios estavam entreabertos, enquanto os olhos dele escureceram. Uma sensação de triunfo percorre por meu corpo ao ver seu olhar acompanhar não minhas expressões, mas o movimento da mão de V em meu corpo, fixo, vidrado, como se não desejasse perder um segundo do espetáculo, perdido demais em seus próprios pensamentos para que eu tenha certeza do que ele provavelmente está pensando. Seus olhos acompanham, em transe, a mão de V percorrer por meu corpo, deslizando por meu abdômen, e brincando com a linha inferior de meu sutiã, provocando a plateia com o acesso que ele poderia ter ali se quisesse. Antes de sentir a mão de V envolver, sugestivamente, meu pescoço, jogo minha cabeça para trás, em ritmo com o tempo da música, antes de empurrar V para trás, sorrindo, quando a música retorna para o refrão . Tenho-o onde o quero.
A música está quase no final, a plateia pulando, alguns cantando conosco, um pouco mais desafinados mas não menos animados, quando tenho o prazer de ver, se levantar abruptamente de onde estava, saindo em disparada em direção às escadas, empurrando pessoas cegamente para fora de seu caminho, provavelmente em busca de ar. Abro um sorriso largo que faz minhas bochechas doerem, mas não consigo evitar. Volto meu olhar deliberadamente na direção de Joel Massaro, jogando o microfone por meus ombros, quando a música termina e a plateia explode em excitação e antecipação. Palmas ecoam pelo espaço, pessoas, até mesmo algumas conhecidas, pulam, animadas, e ouço Jex murmurar que “agora a festa havia começado”, com um sorriso idiota no rosto; que espelha o meu, mas pouco me importo. Sustento o olhar de Joel, com um desafio silencioso. Posso ver em seu rosto decrépito e envelhecido pelo tempo o incômodo, há sim, uma ponta de satisfação ali, há aquele olhar de superioridade que fazia minhas entranhas se contorcerem e tudo em mim querer gritar até que minhas cordas vocais estejam permanentemente machucadas, mas há também, raiva. Pura e imprevisível raiva.
Seu novo brinquedinho vinha com uma surpresa. Era estupidez de Joel achar que eu não iria tentar descobrir mais sobre a pessoa que ele estava usando para me ameaçar. Como uma boa parte de grupos do mesmo gênero dos BEATBOIZ, ou seja lá qual o nome deles fossem - não dá para chamar todo mundo de BTS sem ser uma completa cuzona, era comum que seus empresários gostassem de ganhar em cima de fãs desesperadas; relacionamentos parassociais eram doentes, até mesmo perigosos - se você quiser começar a considerar stalkers, mas rendiam muito dinheiro sobre. Uma pessoa disposta a vender sua casa inteira apenas por cinco minutos de atenção de seu ídolo? Não é qualquer um que está disposto a fazê-lo, mas a necessidade primordial a se manter é: a fantasia de que existe chance de uma fã, qualquer, conquistar os astros que eles estão vendendo. É por isso que, teoricamente, nos contratos que Joel Massaro recebeu da companhia que havia criado o grupo, enfatizava a cláusula de que eles não eram liberados para “relacionar-se” publicamente ou criar-se boatos de que estavam envolvidos com alguém, seja homem ou mulher, por pelo menos quatro anos, tempo este que seria necessário para se estabelecerem mais firmemente na indústria mundial - não apenas a coreana. Ou caía na minha conversa, ou tornava-se impossível para ele ficar no mesmo espaço que eu, e considerando que eu estava sempre na Altas Records, bem, touché, Massaro.
Dois poderiam jogar aquela porra de jogo - e eu só entrava quando sabia que ganharia, ele deveria saber disso a essa altura.
•••
Suor cobre meu corpo como uma segunda pele, grudando fios de cabelos em meu pescoço, têmporas, obrigando-me a roubar a primeira coisa que encontro - um canudo de metal do bar, fedendo a cereja e licor - e usá-lo para prender meus cabelos no alto. Alguns fios ainda pendem pelo meu rosto, mas a sensação de ar gélido noturno, ainda que breve, é um alívio para minha pele em chamas. A água ajuda a diminuir o incômodo na garganta, mas ainda há um gosto metálico em minha boca, e minha voz ainda parece mais rouca do que antes. Meu ouvido esquerdo está parcialmente zunindo, e sei que irei tomar alguma bronca de Jeff amanhã, quando aquela dor se tornar mais forte e ele me relembrar porque usar proteção auditiva era necessária. Algum DJ havia subido no palco, enquanto tudo se desfaz aos poucos em borrões e cores distorcidas. Vejo todos os rostos que empurro para fora do meu caminho, e pior, vejo mais, do que só os rostos. Vejo o passado. “Conte sempre com Danny para lhe dar algo estragado e de procedência duvidosa”, praguejei baixo, irritadiça,. Merda, talvez a LSD apenas tenha batido do jeito errado dessa vez.
Localizado em uma região mais afastada do centro de Hollywood Hills, o clube privado The Lótus, que curiosamente havia recebido o apelido popular de Boca do Inferno - adivinha o porquê, ficava afastado, perdido em meio a um pequeno deserto e algumas colinas mais próximas das montanhas. Era propositalmente projetado para dar a privacidade às pessoas que o frequentavam, um espaço que permitia que essas figuras públicas, de grande poder, pudessem permitir-se aproveitar em seus próprios desejos e fetiches. A estrutura era discreta, composta por metal, madeira e vidro, não havia, todavia, transparência ali se não fosse em espaços internos. As festas ali eram comuns por oferecerem a privacidade necessária para manter os assuntos que aconteciam ali, enterrados ali. A maioria dos convidados precisavam assinar Acordo de Não Divulgação, antes de entrar ali; e quem já era da casa ganhava um espaço para si em algum dos andares. Era um espaço gigante, uma mistura entre boate, strip club e clube de swing. A calefação sempre estava ligada mais alto do que deveria, e havia sempre o desejo de aproveitar com o que quer que estivesse a disposição, para não lembrar da porra da noite. Acordar ao lado de um desconhecido não era o problema, o problema eram as conversas, em lugares privados, os avisos, e os olhares. Céus, posso sentir o desconforto se espalhar por meu peito como veneno.
O arrepio que se espalha por meu corpo é conduzido pela adrenalina. Tenciono minha mandíbula, levando por instinto minha mão em direção ao meu pescoço; não é só a performance que havia cansado minha garganta, era a maldita sensação de estar sendo prensada por duas paredes contrárias até serão fixos em mim. Posso fechar os olhos, posso fingir que não estou ali, posso fingir que nada disso está acontecendo, mas estaria apenas mentindo para mim. Finco as unhas stilettos em meu pescoço, arranhando-o como se isso pudesse me oferecer algum conforto, mas tudo o que deixa é a maldita linha paralela de vergões avermelhados sob minha pele.
Empurro quase cegamente as portas que se formam em meu caminho. A Boca do Inferno era gigante. Havia espaços específicos para tudo, mas não havia camarins; ironicamente, às strippers que possuíam contrato com a casa havia improvisado uma coxia precária próxima do banheiro feminino. Poderia ter seguido para lá com Virgil e Danika, mas a verdade é que conheço Virgil, ele está contando os minutos para sair dali e ir encontrar-se com um de seus amantes aquela noite - não para transar ou qualquer outra baixaria que aproveitamos, Virgil provavelmente queria apenas encontrar Johnny, ter um jantar calmo e tranquilo e o que quer que um romântico como ele poderia fazer sem atrair a atenção da mídia para si. Tínhamos um acordo muito seguro de nunca mencionar a sexualidade de Virgil, mesmo que ele fosse corajoso e decidido o suficiente para enfrentar o que quer que lhe fosse jogado, o público que nos cercava, por vezes, não seriam assim tão receptivos com a revelação.
Alguns fãs mais sensíveis percebiam, alguns idiotas já faziam piadas o suficiente para que ele temesse por sua vida. Se era na obscuridade que lhe proporcionava segurança e o direito de viver como desejava? Poderia culpá-lo? Ao menos ele não mentia para si mesmo. Questiono-me até quando ele conseguirá fazer tal coisa, até quando conseguirá viver naquela escuridão sem poder se libertar das correntes que o prendiam e o sufocavam. Sei que eu não consigo por muito tempo, mas então, novamente, não foi uma escolha minha. Era dele. Tudo o que eu poderia fazer era apoiá-lo com o que desejasse fazer, da forma que desejasse fazer e estar pronta para roubar os holofotes quando ele finalmente estivesse pronto para atacá-lo.
Virgil, todavia, era um completo filho da puta maldito, porque sabia que a última pessoa que desejava conversar naquele momento era Danika, e isso significava que sem sombra de dúvidas, ele me deixaria sozinha com ela. Tenho vontade de revirar os olhos, mas apenas faço uma careta de novo ao deparar-me com Jex, já esparramado em um divã, com uma groupie a tiracolo. Quem era aquela garota mesmo? Era Genny? Alisson? Alice? Porra, não, Alice era a bonitinha de bob cut e cheiro de cigarro impregnado em sua pele. Quem era aquela? Reviro os olhos, tentar descobrir com quem Jex se envolvia dessa vez era apenas perda de tempo, e não é como se a garota quisesse muito mais do que a memória sexual de ter dormido com um rockstar. Bem anos 70, mas pelo menos ela poderia validar-se com o pensamento de “cara, Jex Spade me comeu uma vez!” como se isso fosse significar alguma coisa. Talvez significasse, mas sinceramente, com os olhos vermelhos e o cheiro pungente de maconha vindo dele, eu duvido muito que Jex se lembre disso amanhã. Quase quero a sensação que ele tem, mas a ideia de ficar completamente fora de mim é mais assustadora do que o prospecto de me drogar. Usar algo para tentar diminuir minha ansiedade ou me auxiliar a desassociar por algumas horas? Tudo bem, eu poderia fazer isso, mas a ideia de estar completamente vulnerável naquela porra de lugar? Em qualquer lugar? Era assustadora demais para sequer considerar fazê-lo.
Não de novo. Nunca mais.
Tenciono minha mandíbula atravessando o espaço elegante reservado para nós. A Boca do Inferno sempre oferecia espaços privados para seus clientes mais “tímidos” ou que apenas presavam pela discrição. Era suficientemente espaçoso para lembrar um quarto de hotel cinco estrelas, mas com objetos sexuais o suficiente para que não fosse um. Eram sempre limpos, com pisos de mármore escuro, impecável e lustrados ao ponto de conseguir ver meu próprio reflexo contra o material. O estalo de minhas botas ecoam em unensíssimo com as risadinhas irritantes da groupie de Jex, e o que quer que ele diz a ela. Uma janela panorâmica dava uma visão precisa do centro de Los Angeles a distância, as luzes cintilando como pequenas estrelas vinda dos prédios e estabelecimentos do centro das cidade dos anjos. Faço uma careta quando observo a marca de um corpo curvilíneo contra o vidro. Lanço um olhar, entre a profunda exasperação e o crescente horror com a imagem mental que tenho, para Jex, e vejo-o apenas piscar em minha direção, como se compartilhássemos um segredo - um bem nojento. Reviro meus olhos, parando na cabine com os licores de Joel, e alço o primeiro, servindo-me um pouco. As luzes amareladas contra o espaço, contrastam com as estruturas de mármore e espelhos, e metal. Um pouco mais a frente do divã em que Jex está, há um sofá largo e macio, que pode servir como cama, em frente a pole dance e um espelho que cobre a parede inteira. A um banheiro a minha direita, mais aos fundos, e um pouco mais a nordeste há uma cama kingsize confortável com cobertas limpas, intocadas. Alguns quartos possuíam piscinas, outros possuíam balanços ou o que quer que seu fetiche necessitava. Havia uma mesa com bebidas e comidas afrodisíacas, e algumas gavetas com brinquedos sexuais.
Para um hedonista, o paraíso. V riu alto quando disse que minha meta era convencer algum líder religioso a participar daquela porcaria de lugar; acontece que já participava, só ficava do outro lado do prédio, onde havia os “Glory holes”. Cada um com seus fetiches, para ser sincera, não era da minha personalidade criticar alguém assim. Levo o copo de cristal em direção aos meus lábios, quase desesperada pela sensação de amortecimento que o álcool oferece. Arrependo-me imediatamente.
— Tá parecendo que vai vomitar, - ouço a voz arrastada e carregada com aquele sotaque irritante, britânico polido, enquanto a groupie deitada sobre ele, mordiscando seu mamilo solta uma risadinha abafada. Lanço um olhar cético na direção de Jex. Fantasio acertá-lo com um tijolo, e estranhamente, a imagem mental me acalma mais do que deveria. Não seria divertido fazê-lo? Certamente - a coragem eu tinha, mas, em vez disso, apenas forço um sorriso sarcástico para ele.
— Você tem esse efeito em mim. - Devo ter dito algo hilário porque Jex se desfaz em gargalhadas altas, gostosas. Quase me faz rir, quase. Paro à frente da mesa de mogno com a variedade composta de bebidas que Joel gostava de manter em estoque para impressionar algum convidado, alçando um copo de cristal - Vai passar a noite aqui?
— Talvez, a Lily aqui me pediu por uma demonstração dos meus talentos, e você sabe que detesto recusar pedidos - Jex lança-me uma piscadela travessa, e eu o encaro, sem preocupar-me de fingir o falso interesse pelo tópico com ele. Sei o que ele está fazendo, é por isso que entre os quatro, e todos os outros que já haviam passado por aquela banda, é justamente Jex com que me dou melhor. Talvez, sejamos apenas muito parecidos: ambos não temos um pingo de caráter, nossa moralidade é, para dizer o mínimo, questionável e temos a tendência de apenas aceitar a situação como é. Não há subterfúgios, nem expectativas, isso às vezes se torna até divertido, mas não deixa de ser um golpe em meu ego. De todas as pessoas do mundo a com que me dou melhor, é a porra de um lixo radioativo. Que fantástico; igual reconhece igual. - Se quiser, pode participar também.
Encaro-o, estupefata, já ele, o faz com um sorriso animado.
— Prefiro morrer.
— Eu duvido muito disso - Jex rebate, colocando-se sentado e ignorando o muxoxo que Lily havia soltado. Observo a groupie se deitar languidamente contra o divã, atrás de Jex, e me encarar com um par de olhos com maquiagem borrada em um sorrisinho que estava parecendo tentar decidir se eu era alguma ameaça a sua “conquista” ou se tornara-me parte de sua noite de depravação e baixaria. Fico mais ofendida com o prospecto de Lily assumir que Jex era algum tipo de conquista do que qualquer outra coisa. Quem entrava no lixo e pegava papel higiênico usado como se fosse a porra de ouro? Mas então, eu o conhecia, Lily, não. Faço uma careta, levando o copo em direção aos meus lábios, e bebendo de uma vez o licor. Que merda, tinha que ser de cereja. Tenho vontade de cuspir aquela merda, mas obrigo-me a engolir. - Além disso, é uma boa maneira de passar o tempo, sabe? Se está fugindo de Danny, no mínimo poderia estar se divertindo. Te dizer, se chamar o galãzinho estrangeiro lá tenho, certeza que a gente consegue fazer um acordo interessante, hein?
Lanço um olhar em forma de aviso para Jex, e isso apenas o faz sorrir mais, como a porra de um gato. Ah, que merda, é como olhar para a porra de um espelho… se eu tivesse um pau, fosse loiro, britânico, fedesse a maconha e plástico queimado, e minha pele tivesse a resistência de um camarão em pleno sol.
— Não estou fugindo de ninguém, e você… - aponto o indicador na direção de Jex, imperiosa. Se ele estivesse perto de mim, tenho certeza que teria mordido a porra do meu dedo. Como está sentado no divã, ele apenas alarga seu sorriso, revelando o piercing em sua língua, brincando com objeto metálico, empurrando-o com os dentes para frente e para trás, fazendo a parte inferior do piercing, abaixo de sua língua, se mover irritantemente. Considero o peso do copo em minhas mãos, e quanto tempo levaria para estraçalhar na cabeça dele. - Já tem distração o suficiente para a noite. Foca primeiro no que você tem em mãos antes de achar que consegue engolir mais do que pode.
Jex não responde de imediato, mas seu olhar está preso ao meu rosto. Detesto que ele me encare por tanto tempo, detesto a possibilidade de que aquele maldito homem possa ter visto algo que eu ainda não percebi, ou não consegui ocultar a tempo o suficiente. Exalo por entre meus dentes cerrados, fechando os olhos e massageando minhas têmporas, praguejando baixo; meus sentidos estão erráticos, graças ao efeito letárgico que a maldita bala de Danika havia usado. Tenho a sensação de estar sendo observada mesmo dentro daquela sala, e por algum motivo, mesmo que esteja apenas com a meia-calça e sutiã, ainda parece que meu corpo está em chamas. Talvez estivesse começando a ficar febril, talvez fosse começar a gripar em breve, levando que minha garganta parece mais sensível, ou pode ser apenas uma das reações que o lugar entupido de afrodisíacos e algo que ainda não faço ideia do que seja fundido com a máquina de fumaça, deixava. Eu odiava aquele lugar, mas tampouco poderia escapar dele.
— Você tá bem, …? - Arremesso o copo na direção dele antes que ele pronuncie a porra do nome. O grito assustado de Lily, desabando para trás quando o copo se conecta com a parede a alguns metros de distância de onde os dois estavam, desfazendo-se em pequenos fragmentos de vidro, acompanhado do barulho alto do impacto. Lily grita alguma coisa, está me xingando, talvez sobressaltada demais com a reação agressiva de minha parte do que qualquer outra coisa. Jex permanece imperturbável, ainda me encarando. — Você tá bem, ?
Abro minha boca para respondê-lo, mas percebo naquele momento que não estou com a menor disposição de conversar, e muito menos com Jex. De todos da banda, conversar com Jex era como entregar a porra da faca que seria fincada em suas costas - exceto por mim, eu costumava fazer pior que ele.
— Cai fora, Jex - solto um pigarro, tentando clarear minha voz, mas, porra, sai falhada, rouca demais. Ah, que merda, era só o que me faltava. - Por favor, Jex… - obrigo-me a pedir, e por um segundo, vejo-o franzir o cenho, parecendo surpreso. Sei que está surpreso com o pedido e não o comando; porra, mas que idiota de merda! Está surpreso porque pedi por favor, e não porque estou tentando chutá-lo para fora dali. Mas então o segundo passa e os olhos dele voltam aquele desdenho característico, quase divertido por me ouvir pedir por algo; nunca fazia isso. Tenciono minha mandíbula, sustentando o olhar dele.
Jex não se move, apenas me encarando agora com um sorriso idiota no rosto. Merda. Sou poupada de respondê-lo, ou de ouvir sua resposta, porque uma Danika furiosa se projeta para frente, ao abrir a porta abruptamente - como se em sua fantasia estivesse prestes a flagrar algo. Já estava vestida com suas roupas comuns, o couro abandonado por uma calça baggy jeans, de lavagem clara e cintura baixa, revelando os ossos dos quadris acentuados e a barriga chapada, o cropped preto era duas vezes maior que ela, e ficava caindo por seu ombro direito. Os cabelos, agora, estavam soltos, as mechas pretas azuladas e rosa pink se misturando enquanto a maquiagem borrada revelava o quão sóbria ela deveria estar - não muito, mas então, nenhum de nós estava realmente sóbrio.
Leva alguns segundos para que ela registre a situação em mãos. Lily semi nua atrás de Jex com uma expressão irritada que apenas azeda ainda mais com sua presença. O sorriso largo de Jex esparramado no divã, como a porra de um deus preguiçoso, e eu, parada do outro lado da sala, com as mãos na cintura, considerando se deveria me jogar da janela ou da porra da primeira sacada que encontrasse em meu caminho. Danny congela no lugar, engolindo em seco, e lançando um olhar confuso, quase decepcionado, ao observar o que diabos estava acontecendo ali, antes de fuzilar-me com o olhar. Tenho vontade de rir, porque aquilo era puro absurdo, mas engoli o riso, e o gosto havia sido amargo o suficiente para fazer com que minhas entranhas se revirassem.
— Oh, não, me pegou, Danny, em flagrante, e agora? - provoco antes que possa conter-me, fazendo um beicinho decepcionado, sarcasmo escorre por meus lábios como veneno, e não sinto nada, se não raiva quando ela encara-me ofendida, como se tivesse acabado de tocar em uma ferida. Aperto meus lábios, assentindo, mais para eu mesma do que qualquer outra pessoa, e então me despeço de Lily, a groupie, com um aceno de cabeça. Aquela ali iria ter algumas histórias bem interessantes para compartilhar na internet, se Jex quisesse expor seu caráter real para a mídia, algo que eu duvidava muito, mas para todo acordo sempre havia uma brecha. Se Danny fazia questão de ficar ali, então, eu me retiraria. Maldito seja Virgil e sua vida perfeita e equilibrada, maldito seja Jex e Lily, a groupie da noite, maldito seja Joel Massaro e a porra de seus esquemas, mas acima de tudo, maldita seja Danika por não conseguir simplesmente aceitar a realidade como era. Preciso sair daqui antes que enlouqueça.
Tento forçar meu caminho para fora do quarto privado, inspirando fundo, mas minha respiração está escapando mais rápido do que consigo controlar. Tenho a sensação de estar submersa, de ouvir a pulsação do meu sangue, martelar por meus ouvidos. Não é mais só o zunido em meu ouvido esquerdo, é o composto de tudo. Segue o ritmo do meu coração, que assola, como um pássaro selvagem recentemente capturado, contra minha caixa torácica; faz-me considerar se irei vomitar - quando o fizer, vomitarei o órgão inteiro? Passo por Danny, puxando meu braço do aperto de sua mão, e de como suas unhas fincam-se em minha pele; resulta em um arranhado bem mais fundo do que gostaria, antes de conseguir soltar meu braço.
De volta para o corredor iluminado apenas pelas luzes em neon vermelho, por um segundo, sinto tudo girar ao meu redor. Aquela maldita fumaça que se espalhava pelo espaço apenas para ser efeito dramático - se antes era uma suposição, agora tenho quase certeza que há alguma droga nessa merda. Tento livrar-me da sensação, focando em meus passos enquanto caminho mais para dentro do corredor, ouvindo Danika chiar atrás de mim. Procuro por algum quarto disponível, aberto, qualquer um, mesmo que não seja no meu nome, seria meu essa noite. Qualquer lugar que estivesse aberto.
— Não! Você não vai! - Grita Danny atrás de mim, apertando o passo e tentando segurar meus ombros. Consigo empurrar a primeira porta aberta que encontro, adentrando sem muita cerimônia no espaço, e giro o mais rápido que consigo para fechá-la, mas Danny já havia projetado parte de seu corpo para dentro e bloqueia a porta. Tento forçar, obrigá-la a sair daquele entremeio, mas Danny apenas chutou minha canela, e eu cambaleei para trás. Acabo caindo sentada contra o estofado macio próximo da entrada do quarto privado. Fuzilo o rosto de Danny com frustração, mas não digo nada. - Não se atreva a tentar sair daqui - ela rosna, e eu tenho vontade de gritar com ela, apenas chegar perto de seu rosto e gritar até que minha voz desaparecesse, mas, em vez disso, ergo minhas duas mãos para o alto, em um gesto de redenção. No máximo que essa palavra poderia ser aplicada a mim.
Danny fecha a porta atrás de si, com um clique suave, e por um segundo parece estar tentando decidir o que diabos queria fazer. Vejo-a hesitar e isso apenas me irrita. Todo esse show, essa perseguição para ela hesitar agora? Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inspirando fundo, e trincando meus dentes com força, sem desviar meus olhos de Danika, esperando pelo sermão, pelas acusações e dedos apontados para meu rosto, para variar.
— Que porra foi aquela, ? - a voz de Danny escapa mais baixa que o normal, estranha para os meus próprios ouvidos, quase… trêmula, mas isso era impossível, porque Danika não era o tipo de pessoa que se magoa facilmente. Tenciono a minha mandíbula um pouco mais, unindo minhas sobrancelhas e então focando na porra das minhas unhas. O sotaque esquisito, aquela mistura entre sotaque do brooklyn e agora aquele característico alongar de Valley Girl normalmente pede para que se faça piada, mas agora soa estranho, quase afiado como faca. Ótimo, tudo o que eu precisava.
Arranco uma pele no canto de minhas unhas, dando de ombros, indiferente.
— Uma apresentação, o que mais seria? - Tento dizer o mais indiferente que consigo, mas soa como se eu tivesse cuspido as palavras. Arranco mais uma pele ao redor da minha unha, fazendo uma careta quando a dor aguda atinge-me, mas ignoro totalmente, ao voltar minha atenção para Storm. Merda, quando pensava que mais cedo ou mais tarde teria que me resolver com ela, a minha decisão sempre era mais tarde, nunca mais cedo. Especialmente, não agora. Não hoje. Tenciono minha mandíbula um pouco mais, a pressão é o suficiente para fazer com que minhas têmporas fiquem doloridas, ainda assim, não digo nada, desvio meu olhar para o chão, observando os coturnos dela se aproximarem. O desenho idiota de tubarão feito à mão nas pontas dos sapatos com spikes de caneta permanente, me faz revirar os olhos. Quero odiar aquilo, mas bem, é puramente ela, no fim das contas, e por mais que tente, não consigo odiá-la ainda, não que ela não esteja conseguindo me dar motivos o suficiente.
— Ah, certo, todo mundo sabe que foi só a porra de uma apresentação - Danny cospe de volta e ergo a linha de meu olhar para a encarar com descrença. Sério? É sério isso? Estreito meus olhos, silenciosamente tentando desafiá-la a dizer o que realmente queria, a expor as garras de uma vez, quando minha paciência já havia sido extinguida. A adrenalina não baixa em minha corrente sanguínea, e isso apenas piora tudo. Estou cada vez no meu limite e não faço ideia do que vai acontecer: se eu irei quebrar, ou se irei explodir. Danny não desvia o olhar, as sobrancelhas grossas unidas, os cantos dos lábios repuxados para baixo, fuzilando-me com o olhar. Então, ela vê algo em meu rosto, e joga os braços para o alto, chutando a parede com a ponta de seu coturno, antes de enterrar suas mãos em seu rosto. — Porra, você é uma puta do caralho, .
Atinge-me em cheio - exatamente como ela queria. Levanto-me antes que possa me controlar, sem conseguir conter uma risada amarga. Lanço um olhar depreciativo e desdenhoso na direção dela.
— Uau - é só o que consigo dizer. Danny trinca a mandíbula, encarando-me com olhos verdes, brilhantes e furiosos, mas ela ao menos tem a decência de perceber o peso de suas palavras, especialmente sendo quem era. Se ela as compreende, todavia, não sou capaz de dizer. São olhos bonitos, é claro, mas percebo, pela primeira vez desde que a conheço que não estou admirando-os, apenas parecem distantes, desconhecidos. - Terminou o discurso? Já estou liberada do sermão?
— Porra qual é a merda do seu problema ?! - Explode Danny. Algo perigoso corrói meus pensamentos. Prendi minha respiração, instintivamente, voltando-me na direção da outra mulher, dando um passo na direção dela e agarrando seu rosto, minhas unhas fincam em seu rosto, mas ela não está assustada, está apenas com mais raiva. Ela me empurrou para trás, e acerta meu rosto com um tapa alto o suficiente para ecoar pelo quarto vazio.
Dor explode por trás dos meus olhos, a lateral do meu rosto esquenta com o contato, e sinto o pequeno incomodo no interior de minha bochecha; que porra meus dentes devem ter batido contra a pele e a cortado, porque posso sentir a ardência familiar e o gosto salgado, ferroso, do sangue escorrer por minha língua. Cuspo no chão, fazendo uma careta, antes de me endireitar e voltar na direção de Danny. Não estou com raiva dela ter me empurrado, ela estava no direito dela, eu não deveria ter avançado ou cedido a tamanha reação visceral, mas estou com raiva dela ter usado meu nome. A única coisa que tenho que repetir para que não façam, e a única coisa que continua a acontecer. Aponto o indicador na direção dela, aproximando-me até que estivesse perto o suficiente para sentir o cheiro de seu suor e perfume misturados. Não desvio meu olhar, encarando-a agora, realmente irritada.
— Não me chame assim, entendeu?
Danny move a mandíbula, engolindo em seco, e por um segundo tenho as esperanças de que ela tenha compreendido meu aviso velado, mas é claro, essas esperanças morrem rapidamente quando ela bufa, desdenhosa.
— Agora eu tenho sua atenção, ? - Danny cospe em meu rosto, e fecho meus olhos, instintivamente. Não mexe um músculo para limpar a merda do cuspe dela do meu rosto, mesmo que seja nojenta a sensação de tê-lo escorrendo por meu rosto. Obrigo-me a ficar parada. Conheço-a há tempo o suficiente para saber quais eram suas táticas para tirar uma reação de mim, e puta merda, eu a odeio por isso. Sei que vou me arrepender amanhã, mas agora? Não poderia me importar menos. - Ah, que merda! Porra! - Dou um passo para trás quando o rosto dela se contorce em uma careta, e vejo as lágrimas se projetarem nos cantos de seus olhos. Ainda estou com meu sangue quente, mas a última coisa que eu queria era que ela chorasse. Sei como lidar com algum desgraçado gritando em meu rosto, mas eu não sei como consolar alguém. Em nossa casa, sempre havia sido Niamh a responsável por consolar e oferecer palavras gentis; eu sempre fui, e sempre serei, só o problema. A causa do choro. - Por que você tem que ser assim? Por que tem que me tratar assim? Por que tem que fazer isso com a gente…
— A gente? - Ecoei desacreditada.
É por muito pouco que não começo a rir. Lanço um olhar ao meu redor, quase esperando a pegadinha em ação, mas estamos sozinhas ali, ou é o que acredito quando minhas reações e sentidos estão amortecidos, distorcidos pela maldita bala dela que havia usado naquela noite. De todas as ideias que eu poderia ter tido, aquela havia sido a mais idiota.
— Porra, Danika, não pode estar falando sério, né? - A encaro desacreditada, e fico ainda mais estupefata quando vejo o rosto dela se tornar mais magoado do que irritado. Vejo-a apertar os lábios, os ombros se encolhendo um pouco, quase imperceptível, mas não escapa de meu olhar. - Sério mesmo? Você realmente quis dizer isso? A gente? - Imito, por despeito, a voz dela, vendo-a se encolher quando digo “a gente”, trincando os dentes com força.
— , eu não…
— Para de me chamar assim! - As palavras escapam antes que eu possa me controlar. Danny pisca, prendendo a respiração, com força, os olhos fixos nos meus, sem desviar os olhos do meu rosto. - Não tem “a gente”, Danika. Nem agora, nem nunca. Caralho, quantas vezes vou ter que dizer isso? - Merda a culpa vai me matar amanhã de manhã, mas agora? Agora eu não poderia me importar menos. Solto um riso baixo, descrente, mas soa afiado demais, cortante demais. - A gente não tem um relacionamento, Danika! Nem amigas a gente é! Só trabalhamos juntas porque alguém tinha que assumir a porra do lugar que ficou vago! A gente transou algumas vezes, e daí? Não é como se você também cobrasse Holly ou qualquer outra idiota com quem você já se envolveu, e nem por isso te chamo de puta!
Danny estala os lábios, parecendo no limite das lágrimas ou de uma explosão, mas ela força um sorriso afiado, que parece quase com uma careta e não um sorriso.
— Ah, é verdade, eu esqueci, ‘cê tá falando do Nolan, não é? - Ela cospe as palavras dessa vez com uma raiva visceral, e não percebo que dou um passo para trás, instintiva, até que acerto o canto da mesa atrás dos sofás. Prendo minha respiração, tentando obrigar-me a manter minha expressão neutra. Não importa que ela havia conseguido atingir-me exatamente onde doía, o que me importa é não dar a ela a satisfação. Seja lá o que faço, devo ter falhado miseravelmente, porque a risada que se segue, faz meu estômago revirar, e tenho vontade apenas de tampar meus ouvidos. - O quê? Não era para eu ter descoberto isso? Você sabe, enquanto você tá se divertindo por aí com o primeiro filho da puta que aparece como a cadela fácil que é, eu tive bons momentos de conexão com a Holly, sua assistente, sabe? —— Danny abre um sorriso irônico e sinto algo se romper ao fundo da minha mente, não sou capaz de dizer, mas vejo vermelho. A raiva que se apossa de meu peito é visceral, e por um segundo quero apenas jogar-me contra ela e arranhar seu rosto até que não passe de fatias ensanguentadas, mas o nome que ela conjura me congela. Joga-me em espiral antes que perceba onde estou caindo. Não a respondo, porque não consigo, não porque não quero. - Ela me contou algumas coisas bem interessantes sobre você, , realmente interessantes.
Que Holly faria alguma merda, isso eu já esperava, mas que Danny usaria isso contra mim, aí, eram outros quinhentos. Ainda assim, obrigo-me a manter minha expressão gélida, no máximo que consigo. Minha mandíbula aperta, o suficiente para que uma dor de cabeça nas minhas têmporas comece a se instalar.
— É mesmo? - digo com um tom de voz baixo, surpreendentemente mais calmo do que eu esperaria que estivesse. Isso quase faz Danny hesitar, mas não é o suficiente. - Se casem, então. - Forço um sorriso falso de animação, antes de deixar meu rosto retornar aquela máscara de raiva controlada. Danny parece mais ofendida com meu comentário, congratulando-a pelo relacionamento do que pelo meu tom, e eu a encaro descrente. Que merda ela estava tentando provar ali?
— Me responde, , você fez isso com o Nolan também, ou com ele foi diferente? - Danny dá um passo em minha direção, mas dessa vez, eu não me movi. Agarro seu pulso antes que ela possa pensar em me acertar de novo, minhas unhas pressionadas contra o interior de seu pulso. Ela até tenta puxar o braço de volta, mas não consegue, ou simplesmente desiste. - Você também usou ele e quando cansou, o chutou? Esse é seu modus operandi, não é? Puta merda, todo mundo sempre diz que você tem problemas, mas eu não sabia o quanto era! Tem algo que seja especial para você, , ou tudo é só uma ferramenta temporária?!
— Oh, então isso que você quer saber? Se você é especial, Danny? - O riso que escapa de meus lábios é amargo, e Danny percebe isso. Não fica muito feliz com minha reação, percebo, ou talvez é só a percepção da mentira que ela havia contado para si mesma sobre mim se partindo. Não posso dizer que me sinto culpada por isso. - Não é. Nunca foi. - Encaro-a com desdém, talvez mais do que realmente sinta de fato. - Que porra fez você achar que eu poderia amar alguém como você, Danny? - Não consigo terminar a frase antes de levar outro tapa de Danika, merecido e dolorido. Cambaleio um pouco para trás, perdendo o equilíbrio, percebendo tardiamente que ela havia conseguido acertar meu ouvido esquerdo no gesto, e por um segundo tudo o que consigo fazer encolher-me, segurando minha cabeça com a desorientação inesperada.
Tá, eu totalmente mereci o tapa, mas a dor ainda não diminui o peso das acusações, e tampouco minha consciência - se é que ainda a tenho. Inspiro fundo, com a sensação estranha de que algo em meu nariz não estava certo, com a vaga impressão de que posso sentir o cheiro pungente de ferrugem e ferro em minha narina esquerda, imaginando se estava sangrando, apenas para limpá-lo com as costas de minha mão e descobrir que não havia nada ali. Deixo-me cair novamente no estofado macio que há na entrada do quarto, balançando minha cabeça, tentando livrar-me do pulsar enlouquecedor em meu ouvido esquerdo. Posso ouvir um fungar baixinho de Danny, mas estou com raiva dela demais para me dar ao trabalho de pedir desculpas. Não porque eu não devesse, mas porque minhas palavras, no fim das contas, são verdadeiras.
Chame-me do que for, mas eu nunca fui uma mentirosa.
— Se falar outra vez sobre… - Odeio que não consigo pronunciar o nome dele, odeio como as emoções me sufocam, e como toda aquela merda de situação me coloca naquela posição exposta a inquisições. Inspiro fundo, passando as mãos por meus cabelos, coçando com mais força meu couro cabelo do que deveria, antes de tencionar minha mandíbula, ainda sem encará-la. Não consigo. - Se falar mais uma vez sobre esse assunto, eu acabo com você, entendeu, Danika? Não estou dizendo isso apenas por dizer, eu vou acabar contigo: carreira, reputação, o que restar - ameaço, ignorando como minha voz soa falha, ou como Danny se encolhe, ignorando o nó que se forma em minha garganta, e como estou presa naquele precipício entre o desejo de avançar no pescoço de Danny, e apenas trancar-me no banheiro do quarto. Se rastejar para de baixo de uma das camas, ainda serei percebida?
Danny não responde a princípio, fungando. Não a encaro, foco em minhas unhas outra vez, arrancando as peles que se formam ao redor da tinta vermelha escura, com mais força do que deveria. A sensação de dor aguda que se espalha pelas pontas dos meus dedos é um consolo amargo.
— Como você fez com o Nolan? - Danny provoca, e a fuzilo com o olhar.
— Exatamente - meu tom é amargo, mas direto, e pela primeira vez em toda minha vida, ela finalmente escuta. Prendo minha respiração, vendo-a soltar aquele riso quebrado, realmente magoada. Não vou conseguir consertar isso, tenho plena consciência, mas isso é o que faço. É a única coisa que sou boa em fazer; eu quebro as pessoas, as faço sentir-se insignificantes, doentes. Vejo os olhos dela marejaram com lágrimas que será orgulhosa demais para deixar cair em minha frente, mas não diminui o peso de minhas próprias ações. Sinto meu queixo se contrair, e obrigo-me a inspirar fundo algumas vezes, tentando controlar as minhas emoções.
Sinto o gosto pungente e amargo do desprezo, mas não é voltado para Danny.
— Então, o rapper coreano, do grupo… - Danny parece se esforçar a falar e eu tenho vontade de apenas tapar meus ouvidos, tentar emudecê-la pelo resto da noite, ou pedir para alguém me nocautear. Não faço ou digo nada, deixo que ela tome seu tempo, e formule as frases da forma que se sentir mais confortável, escondendo a voz de choro. Ela funga, soltando um riso baixo e sem humor algum, e endireito os ombros, negando com a minha cabeça, frustrada. Danika era incrível, a melhor baterista que já tivemos, e uma puta mente criativa quando se dava ao trabalho de fazer alguma coisa, é uma artista, mas o maior problema dela? Nunca sabia quando parar. - Tudo aquilo mais cedo? É só porque você quer usar ele?
Dou de ombros, desdenhosa.
— Por hora - Apoio minhas duas mãos atrás de mim, deixando-me inclinar para trás um pouco. Sinto algumas mechas rebeldes de meus cabelos deslizarem por meus ombros quando ergo meu queixo, desafiador, sustentando o olhar de Danny em silêncio. Puta merda, eu magoei ela feio.
Danny pisca, incrédula, muito provavelmente com a facilidade com que digo tal coisa, com que admito meus pecados. Ela desvia os olhos de meu rosto, encarando algum ponto invisível atrás de mim, antes de mover a cabeça em um sim lento; não o faz para mim, está fazendo para si mesma, obrigando-se a chegar a um acordo consigo mesma.
— O que… - a voz dela falha, e obrigo-me a manter-me inexpressiva, obrigo-me a não perceber a forma com que ela clareia a garganta com um pigarro, como inspira fundo, se esforçando para manter a voz firme, indiferente. - O que você ganha com isso, ? O que…?
— Não é nada que ele possa me oferecer - digo por fim, exasperada, se a verdade encerra essa conversa, então que pelo menos ela esteja ciente. - É o que faz com Joel que estou interessada. Eles são os novos queridinhos de Joel, a nova fonte de dinheiro, se quiser chamar assim. Se acerto em , acerto diretamente em Massaro. É isso que me importo.
Danny parece estupefata demais com minhas palavras, para sequer ficar assim tão surpresa. Ou talvez seja a maneira com que cruza os braços sobre o peito, encolhendo-se um pouco, como se estivesse tentando se proteger de minha presença. Ela vai me odiar ainda mais amanhã, mas agora, que as emoções estão à flor da pele; puta merda eu sou um monstro, huh? Mas então, de novo, quem diabos havia colocado alguma expectativa em mim assim?
— E qual é o plano? - Danny tenta questionar, mas lanço um olhar irritado na direção dela, mordendo minha língua. Já havia quebrado-a o suficiente essa noite, não preciso sambar em cima também. Inimigos, eu possuía inúmeros, mas não homicidas até o momento, embora uma parte de mim não descarte a possibilidade em um futuro próximo.
— Pergunta para Holly - É tudo o que respondo, talvez mais amarga e ressentida do que gostaria de expressar, mas ao menos dá uma falsa sensação de vitória para Danika, a percepção de que ela havia me machucado, ainda que de forma pequena. Se é isso que irá a fazer deixar-me em paz, então, que acredite que conseguiu.
Observo-a em completo silêncio ao deixar o quarto, surpreendentemente sem bater à porta dessa vez. Ela só encosta, o que acho esquisito, afinal, desde quando Danika não fechava a porta com violência na minha cara? Descarto o pensamento no segundo que sou deixada sozinha naquele quarto espaçoso e cheirando a algum tipo de perfume amadeirado. Inspiro fundo, apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e então enterrando meu rosto em minhas mãos, fechando meus olhos. Tenho vontade de gritar, tenho vontade de chorar, mas como todas as vezes que o tentava fazer, nada saía. A culpa é sufocante, a auto aversão me corrói de dentro para fora, tenho vontade de usar minhas unhas para rasgar minha pele, de esfregá-la até que estivesse em carne viva, sentindo-me nojenta, pegajosa, estranha. Deixo, por fim, minhas mãos caírem de meu rosto, e escuto apenas o barulho distante da música eletrônica por um longo momento, tencionando minha mandíbula.
Não consigo chorar, por mais que tente. Não consigo livrar-me daquela maldita apatia enlouquecedora mesmo que desejasse fazê-lo, é como se estivesse agarrada a minha pele tal qual um plástico. Enrosca-se por meus membros, prendendo-me no lugar, e então há apenas aquele vazio. Um grande e insuportável vazio que cresce a cada dia mais, que faz com que tudo se torne cinzento e insuportável. E a pior parte? Sei que a culpa é minha. Siobhan sempre dizia: “você busca sua destruição como um viciado busca a próxima dose”, não dá para dizer que ela está errada, mas sinceramente, o que mais eu tenho a oferecer senão isso? É inevitável. Sempre que alguém se aproxima, consigo encontrar uma forma de machucá-los o suficiente para irem embora. Que merda! Mas de novo, colocar alguma expectativa em mim é estupidez pura, todo mundo sabe que não tenho nada a oferecer senão dores e irritações, para que tentar?
O estofado ao meu lado afunda. Teria saltando para longe no segundo que o invasor se fez presente, mas minhas reações nunca foram de luta, mas sim congelar diante de algum ataque inesperado. Então mesmo que queira gritar e pedir ajuda, congelei no lugar, meus olhos arregalados fixos na pessoa que havia se jogado preguiçosamente no sofá ao meu lado. Meu coração massacra minha caixa torácica, o suficiente para fazer com meu peito doer, a pulsação, ensurdecer meus ouvidos, e minha respiração escapa baixa e irregular, rápida o suficiente para me deixar um pouco zonza. Minhas mãos tremem, fechadas em punhos, as unhas fincam-se em minhas palmas com mais força que o necessário, provavelmente as cortando, e levo alguns minutos para compreender quem havia se jogado ao meu lado. Meu estômago se retorce quando o fiz.
Merda…
, com os cabelos desalinhados, um sorriso petulante e afiado como navalha preso no rosto, os olhos intensos obscurecidos por uma raiva contida e algo a mais, algo sombrio, difícil de compreender à primeira vista. Está completamente encharcado de alguma forma, a blusa social elegante agora gruda em seus músculos como uma segunda pele - surpreendentemente ele está mais em forma do que a figura magricela que eu havia imaginado. As calças soltam pequenos estalidos com a movimentação do tecido sobre suas coxas, os cabelos parecem mais escuros, pendem por seu rosto proporcional e atraente, desalinhado. Percebo, com um ponta de divertimento distante, que ele fica mais atraente assim, desalinhado, relaxado. Ou talvez seja apenas a falsa sensação de acessibilidade que ele oferece que chama minha atenção. Está fedendo a álcool e questiono-me o quanto ele deveria ter bebido naquela noite.
Não o suficiente para não ter ouvido minha conversa com Danny, percebo.
— Então - abre um sorriso largo, encarando-me com olhos impossíveis de desvendar, e um tom sarcástico afiado como navalha. - Me conta mais sobre seu plano de me usar, eu vou adorar saber.
Ah, nem foden…
Danny acompanha o ritmo marcado da música com mais intensidade do que deveria, uma vez que a intenção da performance era justamente projetar aquela sensação de estar sem fôlego e sussurrando, propositalmente projetado para criar uma atmosfera íntima, convidativa; não o que quer que Danny estivesse querendo transformar aquilo. Seja para externar apenas seu próprio desprazer por ter que estar ali aquela noite também, ou talvez - muito provavelmente - estivesse apenas exasperada por ter que estar no mesmo palco que eu, para variar. Ainda assim, posso sempre contar com Jex e V para manter o ritmo de Storm sob controle - no máximo que isso significasse para ela. Aquilo estava saindo fora de controle, eu teria que eventualmente falar com ela, mas, sinceramente, o problema era inteiramente de Danika, por ter expectativas onde não havia absolutamente nada. Se estava sendo corroída por si mesma agora, era problema dela. Pouco me importo de fato, ela pode lidar com isso sozinha; meu foco está fixo em outra pessoa, para variar, e puta merda, se eu não estou tendo o momento da minha vida vendo como ele se contorce discretamente, parcialmente sentado no banco alto do balcão.
Faço questão de cantar diretamente para ele.
Sustento seu olhar, em desafio silencioso, provocando-o sem dizer uma palavra. Quero que ele acredite que cada palavra pronunciada da letra da música é dita para ele, quero infiltrar-me em suas fantasias e acabar com aquela música para ele. Se essa era sua música preferida ou não, pouco importava, estou colocando um show completo, para ter a certeza de que ele não conseguirá mais ouvi-la sem pensar em mim; e pela expressão dele, consigo o que quero. Quero ver até onde seu autocontrole consegue chegar, quero ver quando ele vai quebrar. Foco, então, em modular minha voz para soar como um ronronar áspero, tentando manter a música em um tom mais baixo e lento, sensual, diferente da original - que ele sabia que era mais alta do que minha voz. Foi deliberada a escolha, e, se era assim, então faria com prazer ele se arrepender. A letra explícita, o convite velado por trás das palavras, soam mais intensas; como dos vários sussurros perdidos em meio a uma noite de prazer, e sei que ele está pensando a mesma coisa. Sabia que poderia deixá-lo arrepiado, se ele estivesse prestando atenção em mim, e da forma que ele me encara de onde está parcialmente sentado no balcão próximo ao bar, sei que ele está fixo em mim sem sequer piscar direito; não tenho dúvidas que estou tendo o efeito que desejo.
Mantenho minha atenção fixa nele. Sem importar-me se isso irá gerar alguma especulação externa - sei que vai, se irá gerar burburinhos e blind itens na internet, se serei alvo de perguntas e debates em redes sociais que sequer entro, a única coisa que me interessa é atormentá-lo; quero fazê-lo se arrepender por cada segundo que ele havia gastado aquela noite. Se para provar um ponto para Joel Massaro, ou fazê-lo pagar por sua própria petulância, já não sou mais capaz de dizer, a única coisa que me importa, todavia, é vê-lo perder a cabeça. Bem devagar, assistir seu controle começar a escapar de suas mãos como nada, se não apenas areia por entre seus dedos. É destruir aquela máscara de superioridade que ele exibe com tanta facilidade, observar as rachaduras que sou capaz de criar, e assistir de perto quando entrasse por baixo de sua pele - porque eu iria. Mal consigo conter um sorriso, satisfeita, quando o observo se ajustar discretamente, trincando um pouco mais a mandíbula perfeita e proporcional, um pequeno músculo bem pronunciado em sua mandíbula acentuando-a ainda mais, revelando uma força demasiada que me entretém.
Retiro o microfone do apoio, liberando meu caminho ao chutar os fios para trás, tentando não revirar meus olhos com o fato de que a escolha havia sido deliberada, por Massaro. Não era porque o equipamento era ruim, era porque ele queria mandar uma mensagem: “eu mando, você obedece”, posso sentir seu aperto em minhas cordas tornar-se cada vez mais sufocante; está rasgando-me de dentro para fora e não há montante de dinheiro, ou glória, ou fama, ou muito menos drogas que consiga apagar a sensação de ter mãos coordenando meus movimentos. Uma perfeita marionete que teve seus cinco minutos de rebeldia, mas que voltaria a fazer seu trabalho como lhe era comandado: animar a plateia, prepará-los para oferecer tudo o que tinham: seu dinheiro, sua devoção, tudo, aos pés de Massaro, como uma oferenda voluntária a um deus egocêntrico e narcisista. Há um gosto amargo em minha boca, mas, bem, o que posso fazer? Usar o que tenho em mãos e fazer a merda do jeito que quero.
Uso a música sugestiva que ele havia escolhido para provocá-lo, ignorando o riso nasalado de V, familiar com meu próprio jogo. Tenho a atenção de fixa em mim, e tudo o que preciso é fazê-lo é desejar trocar de lugar com Jex ou V, quando um deles me puxa em suas direções ou me toca. Posso sentir a energia da plateia aumentar. Crepita como fagulhas por minha pele, a atenção é sufocante, mas, igualmente, se distorce com a adoração, a certeza de que não estou afetando apenas , mas qualquer filho da puta que está se esfregando em outro no momento, movidos pelo som de minha voz, pela carícias, pelos gemidos e notas mais longas sem fôlego. Não é difícil ter a atenção de um público voltado para si, faça apenas algo estranho, e terá olhares sobre você, mas há algo de sublime em conseguir dominar uma audiência, de fazê-los desejar um local que jamais estarão, de sentir aquele transe crescente percorrer por sua pele, arrepiando-a, como pura estática. Ouço a risada nasalada, baixa de V ao pé de minha orelha, mantendo-me concentrada no tempo e na letra - faço uma nota mental de acertá-lo na virilha mais tarde - e ignoro o arrepio inconveniente que percorre aquele ponto sensível de meu corpo. Já conhece meu jogo, então não tem muita cerimônia de sua parte quando ele me puxa em sua direção, seu braço serpenteando por meu tronco, até repousar em minha coxa - um movimento que para os fãs, normalmente, os levavam a loucura, fazia-os a questionar qual era nossa relação, e criava uma expectativa do caralho; para nós era só o que era, um ato performático. Os dedos ásperos dele ficando-se em minha pele, as unhas rasgando a fina camada da meia-calça que usava, criando linhas paralelas e desfiadas, expondo a pele por baixo, enquanto acompanho o movimento dos quadris de V atrás de mim, sem desviar os olhos de .
Observo-o perder seu fôlego, a bebida esquecida em sua mão esquerda. O movimento de seu pomo de adão torna-se visível, quase espasmódico, revelando sua dificuldade para engolir sua própria saliva, ou a bebida que outrora tomava. Os lábios estavam entreabertos, enquanto os olhos dele escureceram. Uma sensação de triunfo percorre por meu corpo ao ver seu olhar acompanhar não minhas expressões, mas o movimento da mão de V em meu corpo, fixo, vidrado, como se não desejasse perder um segundo do espetáculo, perdido demais em seus próprios pensamentos para que eu tenha certeza do que ele provavelmente está pensando. Seus olhos acompanham, em transe, a mão de V percorrer por meu corpo, deslizando por meu abdômen, e brincando com a linha inferior de meu sutiã, provocando a plateia com o acesso que ele poderia ter ali se quisesse. Antes de sentir a mão de V envolver, sugestivamente, meu pescoço, jogo minha cabeça para trás, em ritmo com o tempo da música, antes de empurrar V para trás, sorrindo, quando a música retorna para o refrão . Tenho-o onde o quero.
A música está quase no final, a plateia pulando, alguns cantando conosco, um pouco mais desafinados mas não menos animados, quando tenho o prazer de ver, se levantar abruptamente de onde estava, saindo em disparada em direção às escadas, empurrando pessoas cegamente para fora de seu caminho, provavelmente em busca de ar. Abro um sorriso largo que faz minhas bochechas doerem, mas não consigo evitar. Volto meu olhar deliberadamente na direção de Joel Massaro, jogando o microfone por meus ombros, quando a música termina e a plateia explode em excitação e antecipação. Palmas ecoam pelo espaço, pessoas, até mesmo algumas conhecidas, pulam, animadas, e ouço Jex murmurar que “agora a festa havia começado”, com um sorriso idiota no rosto; que espelha o meu, mas pouco me importo. Sustento o olhar de Joel, com um desafio silencioso. Posso ver em seu rosto decrépito e envelhecido pelo tempo o incômodo, há sim, uma ponta de satisfação ali, há aquele olhar de superioridade que fazia minhas entranhas se contorcerem e tudo em mim querer gritar até que minhas cordas vocais estejam permanentemente machucadas, mas há também, raiva. Pura e imprevisível raiva.
Seu novo brinquedinho vinha com uma surpresa. Era estupidez de Joel achar que eu não iria tentar descobrir mais sobre a pessoa que ele estava usando para me ameaçar. Como uma boa parte de grupos do mesmo gênero dos BEATBOIZ, ou seja lá qual o nome deles fossem - não dá para chamar todo mundo de BTS sem ser uma completa cuzona, era comum que seus empresários gostassem de ganhar em cima de fãs desesperadas; relacionamentos parassociais eram doentes, até mesmo perigosos - se você quiser começar a considerar stalkers, mas rendiam muito dinheiro sobre. Uma pessoa disposta a vender sua casa inteira apenas por cinco minutos de atenção de seu ídolo? Não é qualquer um que está disposto a fazê-lo, mas a necessidade primordial a se manter é: a fantasia de que existe chance de uma fã, qualquer, conquistar os astros que eles estão vendendo. É por isso que, teoricamente, nos contratos que Joel Massaro recebeu da companhia que havia criado o grupo, enfatizava a cláusula de que eles não eram liberados para “relacionar-se” publicamente ou criar-se boatos de que estavam envolvidos com alguém, seja homem ou mulher, por pelo menos quatro anos, tempo este que seria necessário para se estabelecerem mais firmemente na indústria mundial - não apenas a coreana. Ou caía na minha conversa, ou tornava-se impossível para ele ficar no mesmo espaço que eu, e considerando que eu estava sempre na Altas Records, bem, touché, Massaro.
Dois poderiam jogar aquela porra de jogo - e eu só entrava quando sabia que ganharia, ele deveria saber disso a essa altura.
Suor cobre meu corpo como uma segunda pele, grudando fios de cabelos em meu pescoço, têmporas, obrigando-me a roubar a primeira coisa que encontro - um canudo de metal do bar, fedendo a cereja e licor - e usá-lo para prender meus cabelos no alto. Alguns fios ainda pendem pelo meu rosto, mas a sensação de ar gélido noturno, ainda que breve, é um alívio para minha pele em chamas. A água ajuda a diminuir o incômodo na garganta, mas ainda há um gosto metálico em minha boca, e minha voz ainda parece mais rouca do que antes. Meu ouvido esquerdo está parcialmente zunindo, e sei que irei tomar alguma bronca de Jeff amanhã, quando aquela dor se tornar mais forte e ele me relembrar porque usar proteção auditiva era necessária. Algum DJ havia subido no palco, enquanto tudo se desfaz aos poucos em borrões e cores distorcidas. Vejo todos os rostos que empurro para fora do meu caminho, e pior, vejo mais, do que só os rostos. Vejo o passado. “Conte sempre com Danny para lhe dar algo estragado e de procedência duvidosa”, praguejei baixo, irritadiça,. Merda, talvez a LSD apenas tenha batido do jeito errado dessa vez.
Localizado em uma região mais afastada do centro de Hollywood Hills, o clube privado The Lótus, que curiosamente havia recebido o apelido popular de Boca do Inferno - adivinha o porquê, ficava afastado, perdido em meio a um pequeno deserto e algumas colinas mais próximas das montanhas. Era propositalmente projetado para dar a privacidade às pessoas que o frequentavam, um espaço que permitia que essas figuras públicas, de grande poder, pudessem permitir-se aproveitar em seus próprios desejos e fetiches. A estrutura era discreta, composta por metal, madeira e vidro, não havia, todavia, transparência ali se não fosse em espaços internos. As festas ali eram comuns por oferecerem a privacidade necessária para manter os assuntos que aconteciam ali, enterrados ali. A maioria dos convidados precisavam assinar Acordo de Não Divulgação, antes de entrar ali; e quem já era da casa ganhava um espaço para si em algum dos andares. Era um espaço gigante, uma mistura entre boate, strip club e clube de swing. A calefação sempre estava ligada mais alto do que deveria, e havia sempre o desejo de aproveitar com o que quer que estivesse a disposição, para não lembrar da porra da noite. Acordar ao lado de um desconhecido não era o problema, o problema eram as conversas, em lugares privados, os avisos, e os olhares. Céus, posso sentir o desconforto se espalhar por meu peito como veneno.
O arrepio que se espalha por meu corpo é conduzido pela adrenalina. Tenciono minha mandíbula, levando por instinto minha mão em direção ao meu pescoço; não é só a performance que havia cansado minha garganta, era a maldita sensação de estar sendo prensada por duas paredes contrárias até serão fixos em mim. Posso fechar os olhos, posso fingir que não estou ali, posso fingir que nada disso está acontecendo, mas estaria apenas mentindo para mim. Finco as unhas stilettos em meu pescoço, arranhando-o como se isso pudesse me oferecer algum conforto, mas tudo o que deixa é a maldita linha paralela de vergões avermelhados sob minha pele.
Empurro quase cegamente as portas que se formam em meu caminho. A Boca do Inferno era gigante. Havia espaços específicos para tudo, mas não havia camarins; ironicamente, às strippers que possuíam contrato com a casa havia improvisado uma coxia precária próxima do banheiro feminino. Poderia ter seguido para lá com Virgil e Danika, mas a verdade é que conheço Virgil, ele está contando os minutos para sair dali e ir encontrar-se com um de seus amantes aquela noite - não para transar ou qualquer outra baixaria que aproveitamos, Virgil provavelmente queria apenas encontrar Johnny, ter um jantar calmo e tranquilo e o que quer que um romântico como ele poderia fazer sem atrair a atenção da mídia para si. Tínhamos um acordo muito seguro de nunca mencionar a sexualidade de Virgil, mesmo que ele fosse corajoso e decidido o suficiente para enfrentar o que quer que lhe fosse jogado, o público que nos cercava, por vezes, não seriam assim tão receptivos com a revelação.
Alguns fãs mais sensíveis percebiam, alguns idiotas já faziam piadas o suficiente para que ele temesse por sua vida. Se era na obscuridade que lhe proporcionava segurança e o direito de viver como desejava? Poderia culpá-lo? Ao menos ele não mentia para si mesmo. Questiono-me até quando ele conseguirá fazer tal coisa, até quando conseguirá viver naquela escuridão sem poder se libertar das correntes que o prendiam e o sufocavam. Sei que eu não consigo por muito tempo, mas então, novamente, não foi uma escolha minha. Era dele. Tudo o que eu poderia fazer era apoiá-lo com o que desejasse fazer, da forma que desejasse fazer e estar pronta para roubar os holofotes quando ele finalmente estivesse pronto para atacá-lo.
Virgil, todavia, era um completo filho da puta maldito, porque sabia que a última pessoa que desejava conversar naquele momento era Danika, e isso significava que sem sombra de dúvidas, ele me deixaria sozinha com ela. Tenho vontade de revirar os olhos, mas apenas faço uma careta de novo ao deparar-me com Jex, já esparramado em um divã, com uma groupie a tiracolo. Quem era aquela garota mesmo? Era Genny? Alisson? Alice? Porra, não, Alice era a bonitinha de bob cut e cheiro de cigarro impregnado em sua pele. Quem era aquela? Reviro os olhos, tentar descobrir com quem Jex se envolvia dessa vez era apenas perda de tempo, e não é como se a garota quisesse muito mais do que a memória sexual de ter dormido com um rockstar. Bem anos 70, mas pelo menos ela poderia validar-se com o pensamento de “cara, Jex Spade me comeu uma vez!” como se isso fosse significar alguma coisa. Talvez significasse, mas sinceramente, com os olhos vermelhos e o cheiro pungente de maconha vindo dele, eu duvido muito que Jex se lembre disso amanhã. Quase quero a sensação que ele tem, mas a ideia de ficar completamente fora de mim é mais assustadora do que o prospecto de me drogar. Usar algo para tentar diminuir minha ansiedade ou me auxiliar a desassociar por algumas horas? Tudo bem, eu poderia fazer isso, mas a ideia de estar completamente vulnerável naquela porra de lugar? Em qualquer lugar? Era assustadora demais para sequer considerar fazê-lo.
Não de novo. Nunca mais.
Tenciono minha mandíbula atravessando o espaço elegante reservado para nós. A Boca do Inferno sempre oferecia espaços privados para seus clientes mais “tímidos” ou que apenas presavam pela discrição. Era suficientemente espaçoso para lembrar um quarto de hotel cinco estrelas, mas com objetos sexuais o suficiente para que não fosse um. Eram sempre limpos, com pisos de mármore escuro, impecável e lustrados ao ponto de conseguir ver meu próprio reflexo contra o material. O estalo de minhas botas ecoam em unensíssimo com as risadinhas irritantes da groupie de Jex, e o que quer que ele diz a ela. Uma janela panorâmica dava uma visão precisa do centro de Los Angeles a distância, as luzes cintilando como pequenas estrelas vinda dos prédios e estabelecimentos do centro das cidade dos anjos. Faço uma careta quando observo a marca de um corpo curvilíneo contra o vidro. Lanço um olhar, entre a profunda exasperação e o crescente horror com a imagem mental que tenho, para Jex, e vejo-o apenas piscar em minha direção, como se compartilhássemos um segredo - um bem nojento. Reviro meus olhos, parando na cabine com os licores de Joel, e alço o primeiro, servindo-me um pouco. As luzes amareladas contra o espaço, contrastam com as estruturas de mármore e espelhos, e metal. Um pouco mais a frente do divã em que Jex está, há um sofá largo e macio, que pode servir como cama, em frente a pole dance e um espelho que cobre a parede inteira. A um banheiro a minha direita, mais aos fundos, e um pouco mais a nordeste há uma cama kingsize confortável com cobertas limpas, intocadas. Alguns quartos possuíam piscinas, outros possuíam balanços ou o que quer que seu fetiche necessitava. Havia uma mesa com bebidas e comidas afrodisíacas, e algumas gavetas com brinquedos sexuais.
Para um hedonista, o paraíso. V riu alto quando disse que minha meta era convencer algum líder religioso a participar daquela porcaria de lugar; acontece que já participava, só ficava do outro lado do prédio, onde havia os “Glory holes”. Cada um com seus fetiches, para ser sincera, não era da minha personalidade criticar alguém assim. Levo o copo de cristal em direção aos meus lábios, quase desesperada pela sensação de amortecimento que o álcool oferece. Arrependo-me imediatamente.
— Tá parecendo que vai vomitar, - ouço a voz arrastada e carregada com aquele sotaque irritante, britânico polido, enquanto a groupie deitada sobre ele, mordiscando seu mamilo solta uma risadinha abafada. Lanço um olhar cético na direção de Jex. Fantasio acertá-lo com um tijolo, e estranhamente, a imagem mental me acalma mais do que deveria. Não seria divertido fazê-lo? Certamente - a coragem eu tinha, mas, em vez disso, apenas forço um sorriso sarcástico para ele.
— Você tem esse efeito em mim. - Devo ter dito algo hilário porque Jex se desfaz em gargalhadas altas, gostosas. Quase me faz rir, quase. Paro à frente da mesa de mogno com a variedade composta de bebidas que Joel gostava de manter em estoque para impressionar algum convidado, alçando um copo de cristal - Vai passar a noite aqui?
— Talvez, a Lily aqui me pediu por uma demonstração dos meus talentos, e você sabe que detesto recusar pedidos - Jex lança-me uma piscadela travessa, e eu o encaro, sem preocupar-me de fingir o falso interesse pelo tópico com ele. Sei o que ele está fazendo, é por isso que entre os quatro, e todos os outros que já haviam passado por aquela banda, é justamente Jex com que me dou melhor. Talvez, sejamos apenas muito parecidos: ambos não temos um pingo de caráter, nossa moralidade é, para dizer o mínimo, questionável e temos a tendência de apenas aceitar a situação como é. Não há subterfúgios, nem expectativas, isso às vezes se torna até divertido, mas não deixa de ser um golpe em meu ego. De todas as pessoas do mundo a com que me dou melhor, é a porra de um lixo radioativo. Que fantástico; igual reconhece igual. - Se quiser, pode participar também.
Encaro-o, estupefata, já ele, o faz com um sorriso animado.
— Prefiro morrer.
— Eu duvido muito disso - Jex rebate, colocando-se sentado e ignorando o muxoxo que Lily havia soltado. Observo a groupie se deitar languidamente contra o divã, atrás de Jex, e me encarar com um par de olhos com maquiagem borrada em um sorrisinho que estava parecendo tentar decidir se eu era alguma ameaça a sua “conquista” ou se tornara-me parte de sua noite de depravação e baixaria. Fico mais ofendida com o prospecto de Lily assumir que Jex era algum tipo de conquista do que qualquer outra coisa. Quem entrava no lixo e pegava papel higiênico usado como se fosse a porra de ouro? Mas então, eu o conhecia, Lily, não. Faço uma careta, levando o copo em direção aos meus lábios, e bebendo de uma vez o licor. Que merda, tinha que ser de cereja. Tenho vontade de cuspir aquela merda, mas obrigo-me a engolir. - Além disso, é uma boa maneira de passar o tempo, sabe? Se está fugindo de Danny, no mínimo poderia estar se divertindo. Te dizer, se chamar o galãzinho estrangeiro lá tenho, certeza que a gente consegue fazer um acordo interessante, hein?
Lanço um olhar em forma de aviso para Jex, e isso apenas o faz sorrir mais, como a porra de um gato. Ah, que merda, é como olhar para a porra de um espelho… se eu tivesse um pau, fosse loiro, britânico, fedesse a maconha e plástico queimado, e minha pele tivesse a resistência de um camarão em pleno sol.
— Não estou fugindo de ninguém, e você… - aponto o indicador na direção de Jex, imperiosa. Se ele estivesse perto de mim, tenho certeza que teria mordido a porra do meu dedo. Como está sentado no divã, ele apenas alarga seu sorriso, revelando o piercing em sua língua, brincando com objeto metálico, empurrando-o com os dentes para frente e para trás, fazendo a parte inferior do piercing, abaixo de sua língua, se mover irritantemente. Considero o peso do copo em minhas mãos, e quanto tempo levaria para estraçalhar na cabeça dele. - Já tem distração o suficiente para a noite. Foca primeiro no que você tem em mãos antes de achar que consegue engolir mais do que pode.
Jex não responde de imediato, mas seu olhar está preso ao meu rosto. Detesto que ele me encare por tanto tempo, detesto a possibilidade de que aquele maldito homem possa ter visto algo que eu ainda não percebi, ou não consegui ocultar a tempo o suficiente. Exalo por entre meus dentes cerrados, fechando os olhos e massageando minhas têmporas, praguejando baixo; meus sentidos estão erráticos, graças ao efeito letárgico que a maldita bala de Danika havia usado. Tenho a sensação de estar sendo observada mesmo dentro daquela sala, e por algum motivo, mesmo que esteja apenas com a meia-calça e sutiã, ainda parece que meu corpo está em chamas. Talvez estivesse começando a ficar febril, talvez fosse começar a gripar em breve, levando que minha garganta parece mais sensível, ou pode ser apenas uma das reações que o lugar entupido de afrodisíacos e algo que ainda não faço ideia do que seja fundido com a máquina de fumaça, deixava. Eu odiava aquele lugar, mas tampouco poderia escapar dele.
— Você tá bem, …? - Arremesso o copo na direção dele antes que ele pronuncie a porra do nome. O grito assustado de Lily, desabando para trás quando o copo se conecta com a parede a alguns metros de distância de onde os dois estavam, desfazendo-se em pequenos fragmentos de vidro, acompanhado do barulho alto do impacto. Lily grita alguma coisa, está me xingando, talvez sobressaltada demais com a reação agressiva de minha parte do que qualquer outra coisa. Jex permanece imperturbável, ainda me encarando. — Você tá bem, ?
Abro minha boca para respondê-lo, mas percebo naquele momento que não estou com a menor disposição de conversar, e muito menos com Jex. De todos da banda, conversar com Jex era como entregar a porra da faca que seria fincada em suas costas - exceto por mim, eu costumava fazer pior que ele.
— Cai fora, Jex - solto um pigarro, tentando clarear minha voz, mas, porra, sai falhada, rouca demais. Ah, que merda, era só o que me faltava. - Por favor, Jex… - obrigo-me a pedir, e por um segundo, vejo-o franzir o cenho, parecendo surpreso. Sei que está surpreso com o pedido e não o comando; porra, mas que idiota de merda! Está surpreso porque pedi por favor, e não porque estou tentando chutá-lo para fora dali. Mas então o segundo passa e os olhos dele voltam aquele desdenho característico, quase divertido por me ouvir pedir por algo; nunca fazia isso. Tenciono minha mandíbula, sustentando o olhar dele.
Jex não se move, apenas me encarando agora com um sorriso idiota no rosto. Merda. Sou poupada de respondê-lo, ou de ouvir sua resposta, porque uma Danika furiosa se projeta para frente, ao abrir a porta abruptamente - como se em sua fantasia estivesse prestes a flagrar algo. Já estava vestida com suas roupas comuns, o couro abandonado por uma calça baggy jeans, de lavagem clara e cintura baixa, revelando os ossos dos quadris acentuados e a barriga chapada, o cropped preto era duas vezes maior que ela, e ficava caindo por seu ombro direito. Os cabelos, agora, estavam soltos, as mechas pretas azuladas e rosa pink se misturando enquanto a maquiagem borrada revelava o quão sóbria ela deveria estar - não muito, mas então, nenhum de nós estava realmente sóbrio.
Leva alguns segundos para que ela registre a situação em mãos. Lily semi nua atrás de Jex com uma expressão irritada que apenas azeda ainda mais com sua presença. O sorriso largo de Jex esparramado no divã, como a porra de um deus preguiçoso, e eu, parada do outro lado da sala, com as mãos na cintura, considerando se deveria me jogar da janela ou da porra da primeira sacada que encontrasse em meu caminho. Danny congela no lugar, engolindo em seco, e lançando um olhar confuso, quase decepcionado, ao observar o que diabos estava acontecendo ali, antes de fuzilar-me com o olhar. Tenho vontade de rir, porque aquilo era puro absurdo, mas engoli o riso, e o gosto havia sido amargo o suficiente para fazer com que minhas entranhas se revirassem.
— Oh, não, me pegou, Danny, em flagrante, e agora? - provoco antes que possa conter-me, fazendo um beicinho decepcionado, sarcasmo escorre por meus lábios como veneno, e não sinto nada, se não raiva quando ela encara-me ofendida, como se tivesse acabado de tocar em uma ferida. Aperto meus lábios, assentindo, mais para eu mesma do que qualquer outra pessoa, e então me despeço de Lily, a groupie, com um aceno de cabeça. Aquela ali iria ter algumas histórias bem interessantes para compartilhar na internet, se Jex quisesse expor seu caráter real para a mídia, algo que eu duvidava muito, mas para todo acordo sempre havia uma brecha. Se Danny fazia questão de ficar ali, então, eu me retiraria. Maldito seja Virgil e sua vida perfeita e equilibrada, maldito seja Jex e Lily, a groupie da noite, maldito seja Joel Massaro e a porra de seus esquemas, mas acima de tudo, maldita seja Danika por não conseguir simplesmente aceitar a realidade como era. Preciso sair daqui antes que enlouqueça.
Tento forçar meu caminho para fora do quarto privado, inspirando fundo, mas minha respiração está escapando mais rápido do que consigo controlar. Tenho a sensação de estar submersa, de ouvir a pulsação do meu sangue, martelar por meus ouvidos. Não é mais só o zunido em meu ouvido esquerdo, é o composto de tudo. Segue o ritmo do meu coração, que assola, como um pássaro selvagem recentemente capturado, contra minha caixa torácica; faz-me considerar se irei vomitar - quando o fizer, vomitarei o órgão inteiro? Passo por Danny, puxando meu braço do aperto de sua mão, e de como suas unhas fincam-se em minha pele; resulta em um arranhado bem mais fundo do que gostaria, antes de conseguir soltar meu braço.
De volta para o corredor iluminado apenas pelas luzes em neon vermelho, por um segundo, sinto tudo girar ao meu redor. Aquela maldita fumaça que se espalhava pelo espaço apenas para ser efeito dramático - se antes era uma suposição, agora tenho quase certeza que há alguma droga nessa merda. Tento livrar-me da sensação, focando em meus passos enquanto caminho mais para dentro do corredor, ouvindo Danika chiar atrás de mim. Procuro por algum quarto disponível, aberto, qualquer um, mesmo que não seja no meu nome, seria meu essa noite. Qualquer lugar que estivesse aberto.
— Não! Você não vai! - Grita Danny atrás de mim, apertando o passo e tentando segurar meus ombros. Consigo empurrar a primeira porta aberta que encontro, adentrando sem muita cerimônia no espaço, e giro o mais rápido que consigo para fechá-la, mas Danny já havia projetado parte de seu corpo para dentro e bloqueia a porta. Tento forçar, obrigá-la a sair daquele entremeio, mas Danny apenas chutou minha canela, e eu cambaleei para trás. Acabo caindo sentada contra o estofado macio próximo da entrada do quarto privado. Fuzilo o rosto de Danny com frustração, mas não digo nada. - Não se atreva a tentar sair daqui - ela rosna, e eu tenho vontade de gritar com ela, apenas chegar perto de seu rosto e gritar até que minha voz desaparecesse, mas, em vez disso, ergo minhas duas mãos para o alto, em um gesto de redenção. No máximo que essa palavra poderia ser aplicada a mim.
Danny fecha a porta atrás de si, com um clique suave, e por um segundo parece estar tentando decidir o que diabos queria fazer. Vejo-a hesitar e isso apenas me irrita. Todo esse show, essa perseguição para ela hesitar agora? Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inspirando fundo, e trincando meus dentes com força, sem desviar meus olhos de Danika, esperando pelo sermão, pelas acusações e dedos apontados para meu rosto, para variar.
— Que porra foi aquela, ? - a voz de Danny escapa mais baixa que o normal, estranha para os meus próprios ouvidos, quase… trêmula, mas isso era impossível, porque Danika não era o tipo de pessoa que se magoa facilmente. Tenciono a minha mandíbula um pouco mais, unindo minhas sobrancelhas e então focando na porra das minhas unhas. O sotaque esquisito, aquela mistura entre sotaque do brooklyn e agora aquele característico alongar de Valley Girl normalmente pede para que se faça piada, mas agora soa estranho, quase afiado como faca. Ótimo, tudo o que eu precisava.
Arranco uma pele no canto de minhas unhas, dando de ombros, indiferente.
— Uma apresentação, o que mais seria? - Tento dizer o mais indiferente que consigo, mas soa como se eu tivesse cuspido as palavras. Arranco mais uma pele ao redor da minha unha, fazendo uma careta quando a dor aguda atinge-me, mas ignoro totalmente, ao voltar minha atenção para Storm. Merda, quando pensava que mais cedo ou mais tarde teria que me resolver com ela, a minha decisão sempre era mais tarde, nunca mais cedo. Especialmente, não agora. Não hoje. Tenciono minha mandíbula um pouco mais, a pressão é o suficiente para fazer com que minhas têmporas fiquem doloridas, ainda assim, não digo nada, desvio meu olhar para o chão, observando os coturnos dela se aproximarem. O desenho idiota de tubarão feito à mão nas pontas dos sapatos com spikes de caneta permanente, me faz revirar os olhos. Quero odiar aquilo, mas bem, é puramente ela, no fim das contas, e por mais que tente, não consigo odiá-la ainda, não que ela não esteja conseguindo me dar motivos o suficiente.
— Ah, certo, todo mundo sabe que foi só a porra de uma apresentação - Danny cospe de volta e ergo a linha de meu olhar para a encarar com descrença. Sério? É sério isso? Estreito meus olhos, silenciosamente tentando desafiá-la a dizer o que realmente queria, a expor as garras de uma vez, quando minha paciência já havia sido extinguida. A adrenalina não baixa em minha corrente sanguínea, e isso apenas piora tudo. Estou cada vez no meu limite e não faço ideia do que vai acontecer: se eu irei quebrar, ou se irei explodir. Danny não desvia o olhar, as sobrancelhas grossas unidas, os cantos dos lábios repuxados para baixo, fuzilando-me com o olhar. Então, ela vê algo em meu rosto, e joga os braços para o alto, chutando a parede com a ponta de seu coturno, antes de enterrar suas mãos em seu rosto. — Porra, você é uma puta do caralho, .
Atinge-me em cheio - exatamente como ela queria. Levanto-me antes que possa me controlar, sem conseguir conter uma risada amarga. Lanço um olhar depreciativo e desdenhoso na direção dela.
— Uau - é só o que consigo dizer. Danny trinca a mandíbula, encarando-me com olhos verdes, brilhantes e furiosos, mas ela ao menos tem a decência de perceber o peso de suas palavras, especialmente sendo quem era. Se ela as compreende, todavia, não sou capaz de dizer. São olhos bonitos, é claro, mas percebo, pela primeira vez desde que a conheço que não estou admirando-os, apenas parecem distantes, desconhecidos. - Terminou o discurso? Já estou liberada do sermão?
— Porra qual é a merda do seu problema ?! - Explode Danny. Algo perigoso corrói meus pensamentos. Prendi minha respiração, instintivamente, voltando-me na direção da outra mulher, dando um passo na direção dela e agarrando seu rosto, minhas unhas fincam em seu rosto, mas ela não está assustada, está apenas com mais raiva. Ela me empurrou para trás, e acerta meu rosto com um tapa alto o suficiente para ecoar pelo quarto vazio.
Dor explode por trás dos meus olhos, a lateral do meu rosto esquenta com o contato, e sinto o pequeno incomodo no interior de minha bochecha; que porra meus dentes devem ter batido contra a pele e a cortado, porque posso sentir a ardência familiar e o gosto salgado, ferroso, do sangue escorrer por minha língua. Cuspo no chão, fazendo uma careta, antes de me endireitar e voltar na direção de Danny. Não estou com raiva dela ter me empurrado, ela estava no direito dela, eu não deveria ter avançado ou cedido a tamanha reação visceral, mas estou com raiva dela ter usado meu nome. A única coisa que tenho que repetir para que não façam, e a única coisa que continua a acontecer. Aponto o indicador na direção dela, aproximando-me até que estivesse perto o suficiente para sentir o cheiro de seu suor e perfume misturados. Não desvio meu olhar, encarando-a agora, realmente irritada.
— Não me chame assim, entendeu?
Danny move a mandíbula, engolindo em seco, e por um segundo tenho as esperanças de que ela tenha compreendido meu aviso velado, mas é claro, essas esperanças morrem rapidamente quando ela bufa, desdenhosa.
— Agora eu tenho sua atenção, ? - Danny cospe em meu rosto, e fecho meus olhos, instintivamente. Não mexe um músculo para limpar a merda do cuspe dela do meu rosto, mesmo que seja nojenta a sensação de tê-lo escorrendo por meu rosto. Obrigo-me a ficar parada. Conheço-a há tempo o suficiente para saber quais eram suas táticas para tirar uma reação de mim, e puta merda, eu a odeio por isso. Sei que vou me arrepender amanhã, mas agora? Não poderia me importar menos. - Ah, que merda! Porra! - Dou um passo para trás quando o rosto dela se contorce em uma careta, e vejo as lágrimas se projetarem nos cantos de seus olhos. Ainda estou com meu sangue quente, mas a última coisa que eu queria era que ela chorasse. Sei como lidar com algum desgraçado gritando em meu rosto, mas eu não sei como consolar alguém. Em nossa casa, sempre havia sido Niamh a responsável por consolar e oferecer palavras gentis; eu sempre fui, e sempre serei, só o problema. A causa do choro. - Por que você tem que ser assim? Por que tem que me tratar assim? Por que tem que fazer isso com a gente…
— A gente? - Ecoei desacreditada.
É por muito pouco que não começo a rir. Lanço um olhar ao meu redor, quase esperando a pegadinha em ação, mas estamos sozinhas ali, ou é o que acredito quando minhas reações e sentidos estão amortecidos, distorcidos pela maldita bala dela que havia usado naquela noite. De todas as ideias que eu poderia ter tido, aquela havia sido a mais idiota.
— Porra, Danika, não pode estar falando sério, né? - A encaro desacreditada, e fico ainda mais estupefata quando vejo o rosto dela se tornar mais magoado do que irritado. Vejo-a apertar os lábios, os ombros se encolhendo um pouco, quase imperceptível, mas não escapa de meu olhar. - Sério mesmo? Você realmente quis dizer isso? A gente? - Imito, por despeito, a voz dela, vendo-a se encolher quando digo “a gente”, trincando os dentes com força.
— , eu não…
— Para de me chamar assim! - As palavras escapam antes que eu possa me controlar. Danny pisca, prendendo a respiração, com força, os olhos fixos nos meus, sem desviar os olhos do meu rosto. - Não tem “a gente”, Danika. Nem agora, nem nunca. Caralho, quantas vezes vou ter que dizer isso? - Merda a culpa vai me matar amanhã de manhã, mas agora? Agora eu não poderia me importar menos. Solto um riso baixo, descrente, mas soa afiado demais, cortante demais. - A gente não tem um relacionamento, Danika! Nem amigas a gente é! Só trabalhamos juntas porque alguém tinha que assumir a porra do lugar que ficou vago! A gente transou algumas vezes, e daí? Não é como se você também cobrasse Holly ou qualquer outra idiota com quem você já se envolveu, e nem por isso te chamo de puta!
Danny estala os lábios, parecendo no limite das lágrimas ou de uma explosão, mas ela força um sorriso afiado, que parece quase com uma careta e não um sorriso.
— Ah, é verdade, eu esqueci, ‘cê tá falando do Nolan, não é? - Ela cospe as palavras dessa vez com uma raiva visceral, e não percebo que dou um passo para trás, instintiva, até que acerto o canto da mesa atrás dos sofás. Prendo minha respiração, tentando obrigar-me a manter minha expressão neutra. Não importa que ela havia conseguido atingir-me exatamente onde doía, o que me importa é não dar a ela a satisfação. Seja lá o que faço, devo ter falhado miseravelmente, porque a risada que se segue, faz meu estômago revirar, e tenho vontade apenas de tampar meus ouvidos. - O quê? Não era para eu ter descoberto isso? Você sabe, enquanto você tá se divertindo por aí com o primeiro filho da puta que aparece como a cadela fácil que é, eu tive bons momentos de conexão com a Holly, sua assistente, sabe? —— Danny abre um sorriso irônico e sinto algo se romper ao fundo da minha mente, não sou capaz de dizer, mas vejo vermelho. A raiva que se apossa de meu peito é visceral, e por um segundo quero apenas jogar-me contra ela e arranhar seu rosto até que não passe de fatias ensanguentadas, mas o nome que ela conjura me congela. Joga-me em espiral antes que perceba onde estou caindo. Não a respondo, porque não consigo, não porque não quero. - Ela me contou algumas coisas bem interessantes sobre você, , realmente interessantes.
Que Holly faria alguma merda, isso eu já esperava, mas que Danny usaria isso contra mim, aí, eram outros quinhentos. Ainda assim, obrigo-me a manter minha expressão gélida, no máximo que consigo. Minha mandíbula aperta, o suficiente para que uma dor de cabeça nas minhas têmporas comece a se instalar.
— É mesmo? - digo com um tom de voz baixo, surpreendentemente mais calmo do que eu esperaria que estivesse. Isso quase faz Danny hesitar, mas não é o suficiente. - Se casem, então. - Forço um sorriso falso de animação, antes de deixar meu rosto retornar aquela máscara de raiva controlada. Danny parece mais ofendida com meu comentário, congratulando-a pelo relacionamento do que pelo meu tom, e eu a encaro descrente. Que merda ela estava tentando provar ali?
— Me responde, , você fez isso com o Nolan também, ou com ele foi diferente? - Danny dá um passo em minha direção, mas dessa vez, eu não me movi. Agarro seu pulso antes que ela possa pensar em me acertar de novo, minhas unhas pressionadas contra o interior de seu pulso. Ela até tenta puxar o braço de volta, mas não consegue, ou simplesmente desiste. - Você também usou ele e quando cansou, o chutou? Esse é seu modus operandi, não é? Puta merda, todo mundo sempre diz que você tem problemas, mas eu não sabia o quanto era! Tem algo que seja especial para você, , ou tudo é só uma ferramenta temporária?!
— Oh, então isso que você quer saber? Se você é especial, Danny? - O riso que escapa de meus lábios é amargo, e Danny percebe isso. Não fica muito feliz com minha reação, percebo, ou talvez é só a percepção da mentira que ela havia contado para si mesma sobre mim se partindo. Não posso dizer que me sinto culpada por isso. - Não é. Nunca foi. - Encaro-a com desdém, talvez mais do que realmente sinta de fato. - Que porra fez você achar que eu poderia amar alguém como você, Danny? - Não consigo terminar a frase antes de levar outro tapa de Danika, merecido e dolorido. Cambaleio um pouco para trás, perdendo o equilíbrio, percebendo tardiamente que ela havia conseguido acertar meu ouvido esquerdo no gesto, e por um segundo tudo o que consigo fazer encolher-me, segurando minha cabeça com a desorientação inesperada.
Tá, eu totalmente mereci o tapa, mas a dor ainda não diminui o peso das acusações, e tampouco minha consciência - se é que ainda a tenho. Inspiro fundo, com a sensação estranha de que algo em meu nariz não estava certo, com a vaga impressão de que posso sentir o cheiro pungente de ferrugem e ferro em minha narina esquerda, imaginando se estava sangrando, apenas para limpá-lo com as costas de minha mão e descobrir que não havia nada ali. Deixo-me cair novamente no estofado macio que há na entrada do quarto, balançando minha cabeça, tentando livrar-me do pulsar enlouquecedor em meu ouvido esquerdo. Posso ouvir um fungar baixinho de Danny, mas estou com raiva dela demais para me dar ao trabalho de pedir desculpas. Não porque eu não devesse, mas porque minhas palavras, no fim das contas, são verdadeiras.
Chame-me do que for, mas eu nunca fui uma mentirosa.
— Se falar outra vez sobre… - Odeio que não consigo pronunciar o nome dele, odeio como as emoções me sufocam, e como toda aquela merda de situação me coloca naquela posição exposta a inquisições. Inspiro fundo, passando as mãos por meus cabelos, coçando com mais força meu couro cabelo do que deveria, antes de tencionar minha mandíbula, ainda sem encará-la. Não consigo. - Se falar mais uma vez sobre esse assunto, eu acabo com você, entendeu, Danika? Não estou dizendo isso apenas por dizer, eu vou acabar contigo: carreira, reputação, o que restar - ameaço, ignorando como minha voz soa falha, ou como Danny se encolhe, ignorando o nó que se forma em minha garganta, e como estou presa naquele precipício entre o desejo de avançar no pescoço de Danny, e apenas trancar-me no banheiro do quarto. Se rastejar para de baixo de uma das camas, ainda serei percebida?
Danny não responde a princípio, fungando. Não a encaro, foco em minhas unhas outra vez, arrancando as peles que se formam ao redor da tinta vermelha escura, com mais força do que deveria. A sensação de dor aguda que se espalha pelas pontas dos meus dedos é um consolo amargo.
— Como você fez com o Nolan? - Danny provoca, e a fuzilo com o olhar.
— Exatamente - meu tom é amargo, mas direto, e pela primeira vez em toda minha vida, ela finalmente escuta. Prendo minha respiração, vendo-a soltar aquele riso quebrado, realmente magoada. Não vou conseguir consertar isso, tenho plena consciência, mas isso é o que faço. É a única coisa que sou boa em fazer; eu quebro as pessoas, as faço sentir-se insignificantes, doentes. Vejo os olhos dela marejaram com lágrimas que será orgulhosa demais para deixar cair em minha frente, mas não diminui o peso de minhas próprias ações. Sinto meu queixo se contrair, e obrigo-me a inspirar fundo algumas vezes, tentando controlar as minhas emoções.
Sinto o gosto pungente e amargo do desprezo, mas não é voltado para Danny.
— Então, o rapper coreano, do grupo… - Danny parece se esforçar a falar e eu tenho vontade de apenas tapar meus ouvidos, tentar emudecê-la pelo resto da noite, ou pedir para alguém me nocautear. Não faço ou digo nada, deixo que ela tome seu tempo, e formule as frases da forma que se sentir mais confortável, escondendo a voz de choro. Ela funga, soltando um riso baixo e sem humor algum, e endireito os ombros, negando com a minha cabeça, frustrada. Danika era incrível, a melhor baterista que já tivemos, e uma puta mente criativa quando se dava ao trabalho de fazer alguma coisa, é uma artista, mas o maior problema dela? Nunca sabia quando parar. - Tudo aquilo mais cedo? É só porque você quer usar ele?
Dou de ombros, desdenhosa.
— Por hora - Apoio minhas duas mãos atrás de mim, deixando-me inclinar para trás um pouco. Sinto algumas mechas rebeldes de meus cabelos deslizarem por meus ombros quando ergo meu queixo, desafiador, sustentando o olhar de Danny em silêncio. Puta merda, eu magoei ela feio.
Danny pisca, incrédula, muito provavelmente com a facilidade com que digo tal coisa, com que admito meus pecados. Ela desvia os olhos de meu rosto, encarando algum ponto invisível atrás de mim, antes de mover a cabeça em um sim lento; não o faz para mim, está fazendo para si mesma, obrigando-se a chegar a um acordo consigo mesma.
— O que… - a voz dela falha, e obrigo-me a manter-me inexpressiva, obrigo-me a não perceber a forma com que ela clareia a garganta com um pigarro, como inspira fundo, se esforçando para manter a voz firme, indiferente. - O que você ganha com isso, ? O que…?
— Não é nada que ele possa me oferecer - digo por fim, exasperada, se a verdade encerra essa conversa, então que pelo menos ela esteja ciente. - É o que faz com Joel que estou interessada. Eles são os novos queridinhos de Joel, a nova fonte de dinheiro, se quiser chamar assim. Se acerto em , acerto diretamente em Massaro. É isso que me importo.
Danny parece estupefata demais com minhas palavras, para sequer ficar assim tão surpresa. Ou talvez seja a maneira com que cruza os braços sobre o peito, encolhendo-se um pouco, como se estivesse tentando se proteger de minha presença. Ela vai me odiar ainda mais amanhã, mas agora, que as emoções estão à flor da pele; puta merda eu sou um monstro, huh? Mas então, de novo, quem diabos havia colocado alguma expectativa em mim assim?
— E qual é o plano? - Danny tenta questionar, mas lanço um olhar irritado na direção dela, mordendo minha língua. Já havia quebrado-a o suficiente essa noite, não preciso sambar em cima também. Inimigos, eu possuía inúmeros, mas não homicidas até o momento, embora uma parte de mim não descarte a possibilidade em um futuro próximo.
— Pergunta para Holly - É tudo o que respondo, talvez mais amarga e ressentida do que gostaria de expressar, mas ao menos dá uma falsa sensação de vitória para Danika, a percepção de que ela havia me machucado, ainda que de forma pequena. Se é isso que irá a fazer deixar-me em paz, então, que acredite que conseguiu.
Observo-a em completo silêncio ao deixar o quarto, surpreendentemente sem bater à porta dessa vez. Ela só encosta, o que acho esquisito, afinal, desde quando Danika não fechava a porta com violência na minha cara? Descarto o pensamento no segundo que sou deixada sozinha naquele quarto espaçoso e cheirando a algum tipo de perfume amadeirado. Inspiro fundo, apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e então enterrando meu rosto em minhas mãos, fechando meus olhos. Tenho vontade de gritar, tenho vontade de chorar, mas como todas as vezes que o tentava fazer, nada saía. A culpa é sufocante, a auto aversão me corrói de dentro para fora, tenho vontade de usar minhas unhas para rasgar minha pele, de esfregá-la até que estivesse em carne viva, sentindo-me nojenta, pegajosa, estranha. Deixo, por fim, minhas mãos caírem de meu rosto, e escuto apenas o barulho distante da música eletrônica por um longo momento, tencionando minha mandíbula.
Não consigo chorar, por mais que tente. Não consigo livrar-me daquela maldita apatia enlouquecedora mesmo que desejasse fazê-lo, é como se estivesse agarrada a minha pele tal qual um plástico. Enrosca-se por meus membros, prendendo-me no lugar, e então há apenas aquele vazio. Um grande e insuportável vazio que cresce a cada dia mais, que faz com que tudo se torne cinzento e insuportável. E a pior parte? Sei que a culpa é minha. Siobhan sempre dizia: “você busca sua destruição como um viciado busca a próxima dose”, não dá para dizer que ela está errada, mas sinceramente, o que mais eu tenho a oferecer senão isso? É inevitável. Sempre que alguém se aproxima, consigo encontrar uma forma de machucá-los o suficiente para irem embora. Que merda! Mas de novo, colocar alguma expectativa em mim é estupidez pura, todo mundo sabe que não tenho nada a oferecer senão dores e irritações, para que tentar?
O estofado ao meu lado afunda. Teria saltando para longe no segundo que o invasor se fez presente, mas minhas reações nunca foram de luta, mas sim congelar diante de algum ataque inesperado. Então mesmo que queira gritar e pedir ajuda, congelei no lugar, meus olhos arregalados fixos na pessoa que havia se jogado preguiçosamente no sofá ao meu lado. Meu coração massacra minha caixa torácica, o suficiente para fazer com meu peito doer, a pulsação, ensurdecer meus ouvidos, e minha respiração escapa baixa e irregular, rápida o suficiente para me deixar um pouco zonza. Minhas mãos tremem, fechadas em punhos, as unhas fincam-se em minhas palmas com mais força que o necessário, provavelmente as cortando, e levo alguns minutos para compreender quem havia se jogado ao meu lado. Meu estômago se retorce quando o fiz.
Merda…
, com os cabelos desalinhados, um sorriso petulante e afiado como navalha preso no rosto, os olhos intensos obscurecidos por uma raiva contida e algo a mais, algo sombrio, difícil de compreender à primeira vista. Está completamente encharcado de alguma forma, a blusa social elegante agora gruda em seus músculos como uma segunda pele - surpreendentemente ele está mais em forma do que a figura magricela que eu havia imaginado. As calças soltam pequenos estalidos com a movimentação do tecido sobre suas coxas, os cabelos parecem mais escuros, pendem por seu rosto proporcional e atraente, desalinhado. Percebo, com um ponta de divertimento distante, que ele fica mais atraente assim, desalinhado, relaxado. Ou talvez seja apenas a falsa sensação de acessibilidade que ele oferece que chama minha atenção. Está fedendo a álcool e questiono-me o quanto ele deveria ter bebido naquela noite.
Não o suficiente para não ter ouvido minha conversa com Danny, percebo.
— Então - abre um sorriso largo, encarando-me com olhos impossíveis de desvendar, e um tom sarcástico afiado como navalha. - Me conta mais sobre seu plano de me usar, eu vou adorar saber.
Ah, nem foden…
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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