Última atualização: 16/04/2019

Capítulo 1

Uma nova gota cai à minha frente e o ruído em meu estômago ultrapassa as barreiras do som da chuva. Respiro fundo e engulo em seco. Minha boca tem um gosto ruim e às vezes sinto náuseas por causa dele. Aperto o meu cobertor em minha volta e encaro o estabelecimento do outro lado da rua. Há um homem sentado perto da janela saboreando algo, não sei o que é e nem mesmo o seu cheiro, porém teria de ser daquilo que iria me alimentar pela próxima semana.
O homem está sentado com um moça e eles conversam, às vezes há risadas que não posso ouvir, contudo, isso não me importava. O meu foco era apenas na comida em seu prato, na qual ficará furioso quando eu a pegar, no entanto, estou apostando que ele não sairá atrás de mim devido à chuva. Estava apostando nisso.
Atravesso a rua lentamente, cobrindo-me com o meu cobertor para não receber as gotas de chuva fria. Paro embaixo da janela, analiso as formas de subir e as formas mais rápidas de escapar. Quando me dou por satisfeita, começo a subir e rápida como uma flecha, pego o alimento, dou um salto e início a minha corrida pelos paralelepípedos da cidade. Posso ouvir um homem gritando comigo e passos me seguindo. Não estava esperando por isso. Levo a comida à boca enquanto corro, se ele iria tentar tirá-la de mim, tinha que aproveitar o máximo.
Após duas mordidas, o meu corpo parece mais energizado. Entretanto, creio que acabei diminuindo o passo durante o momento que me alimentava. O homem consegue me alcançar e segura o meu braço, impedindo-me de continuar. Talvez se tivesse terminado de comer teria forças para me desfazer de seu aperto, todavia, a corrida havia drenado o último resquício de força que me restava.
Encolho-me antes mesmo de olhar para o homem.
— Calma, não vou fazer nada com a senhorita — o homem falou, a voz era rouca e não era o que imaginava sair dos lábios de quem acabei de roubar.
Roubar. Odiava essa palavra, porém, não existia nada mais delicado para descrever o que fazia nos últimos anos.
Ergo os olhos para encarar o homem e arquejo quando noto que não é o mesmo que roubei. Este possui os cabelos acinzentados, um bigode da mesma cor, pele branca enrugada e olhos azuis acinzentados.
— Deveria comer, parece com fome — ele afirma ao soltar o meu braço e indicar o pedaço molhado com algum recheio desconhecido. — Mas se desejar, poderia levá-la para minha casa, terá muito mais do que um pão com geleia.
Era pão. Não me incomodei em conferir se o que ele estava falando era correto. No momento, estava mais preocupada com o convite que havia acabado de fazer.
Tinha aprendido muitas coisas nos anos que vivia na rua, uma delas era não confiar nos homens. A única coisa que desejam é usar as mulheres, mamãe disse uma vez. Ela também me informou que havia exceções, mas não para nós mulheres que viviam à deriva.
Não sei como demonstrei, contudo, ele notou o meu olhar assustado e temeroso.
— Não farei nada a senhorita, tenho uma filha que aparenta ser da mesma idade que a sua. — Ele estende a mão e não sei como agir. — Meu nome é Walter . Não precisa ter medo, só quero ajudá-la.
Balanço a cabeça e me afasto andando de costas para que não perca nenhuma reação dele.
— Onde costuma dormir?
Engulo em seco.
Fazia anos que não dormia em algum lugar específico. Quando mamãe teve que sair do último emprego, acabamos na rua. Apesar de sofrer com o frio, pelo menos na época a possuía ao meu lado, era mais fácil ter que lidar com as dificuldades que apareciam para nós.
— Qualquer lugar — murmuro com a voz rouca. Não costumava falar com as pessoas, até porque ninguém falaria com uma mendiga, por isso minha voz acabava se tornando mais rouca e frágil a cada dia. Quando as coisas não estavam muito difíceis ou quando conseguia comida, acabava treinando algumas músicas que mamãe me ensinou, apenas para não perder o hábito de falar.
— Se voltar com a minha filha, irá conosco?
Franzo o cenho e continuo encarando-o, em busca de algo que me fale que há uma armação por trás de toda essa conversa. No entanto, ele parece tão sincero que a única resposta que me resta é dar de ombros.
O Sr. acena para mim, me dá as costas e segue até uma carruagem, na qual ele entra. Assim que começa a se locomover, me apercebo do quanto desejo que ele seja um homem bom, que ele volte e me dê um abrigo, porque não sei quanto tempo irei suportar tudo isso. Lágrimas começam a rolar pelos meus olhos e uma dor absurda rasga o meu peito. Sentia falta da minha mãe, especialmente das suas palavras carinhosas e seus abraços, contudo, o que me restava dela era apenas uma manta velha e suja.
— Mamãe, que ele seja um homem bom — sussurro.



Já anoiteceu e ainda não encontrei um bom local para dormir. Detestava ter de ficar andando pela cidade no escuro, tinha medo do que poderia encontrar. Os melhores lugares para se ficar era nos becos de confeitarias, como a maioria das pessoas que frequentavam esses locais eram mulheres, costumava ser seguro para mim. Contudo, quando cheguei na que tinha costume de ficar, já estava ocupado. Talvez precise me aventurar em alguma rua principal, não era tão seguro, porém, melhor que o subúrbio.
Uma carruagem para ao meu lado, mas, ignoro-a e continuo caminhando. O ruído de sapatos de salto em minhas costas me faz unir as sobrancelhas em confusão. Mulheres não caminhavam durante a noite.
— Pare de fugir! — Uma voz meiga exclama, o que me faz estancar no lugar. — Obrigada, não gosto de correr de sapatos.
Giro o meu corpo para encontrar um menina, provavelmente cinco anos mais nova que eu. Apesar da escuridão da noite, posso ver que os cabelos são castanhos, mas não sei definir se claros ou escuros. As suas feições são delicadas e pequenas, tudo parece se encaixar no corpo diminuto, apenas os olhos grandes que se destacam.
Ela para à minha frente e sorri docemente.
— Olá, sou Micaella . — Une as mãos à frente do corpo nervosamente. — Não costumo andar na rua à noite, mas papai disse que apenas eu conseguiria persuadi-la. — Ergo a sobrancelha. — Sei que somos desconhecidas, no entanto, apenas quero garantir comida, roupa limpa e uma cama macia. E não posso esquecer do calor do fogo. Essa noite está muito fria.
Minha barriga ronca com a simples possibilidade de comer. Abaixo minha cabeça e fecho os olhos. O que mamãe faria? Lembro de dormir em um quarto aquecido até os meus doze anos e sentia tanta falta. Era bom comer mais de uma refeição por dia e muito mais durante uma semana. A possibilidade de não dormir no chão frio das ruas parecia me corroer por dentro. Podia confiar nessa menina?
— Por favor, não vou conseguir dormir imaginando você dormindo nesse frio — murmura apertando o casaco contra o corpo.
Aceno e ela sorri. A menina pega a minha mão, não parece se importar com a minha falta de banho e o mau cheiro, me arrasta até uma carruagem e me empurra aos tropeços. O banco macio é bem vindo, assim como o calor no espaço minúsculo. Aperto meu cobertor em volta do corpo e respiro aliviada.
— Qual é o seu nome? — a menina questiona. Observo sua pele limpa e rosto meigo, ela havia dito que seu nome era Micaella. Nunca tinha ouvido esse nome, era diferente. Será que conseguiria pronunciar?
— murmuro roucamente.
Ela bate as mãos uma na outra, fazendo-me piscar assustada.
— Que nome lindo! — Micaella toca o queixo, parece pensativa. — Contudo, é muito longo. Já que vamos viver como irmãs a partir de agora, acho adequado chamá-la de . Você gosta?
Confirmo apenas com um aceno. Ela não se pronuncia mais, apenas observa a janela da carruagem. Está muito escuro lá fora, não sei se Micaella consegue ver algo ou só está tentando se distrair com o fato de eu nunca falar. Gostaria de dizer a ela que minha voz é frágil e que tenho dificuldades, porém não consigo. Conversar não é algo que costumo fazer.
Assim que a carruagem para descemos dela. A casa a minha frente é enorme, suas paredes são escuras e seguem para os lados e para cima, há um jardim na entrada do lugar, porém, não há flores devido ao início do inverno.
— Você precisará de um banho, em seguida o seu jantar será levado até o quarto em que ficará — Micaella anuncia ao me guiar para dentro da casa. — Mandarei uma criada para cuidar de você, sempre que precisar de algo basta dizer a ela.
Ela vira-se para mim, em busca de uma confirmação de que a escutei, por isso aceno. Micaella para na sala de estar e pega as minhas mãos.
— Ninguém irá importuná-la. Não mais. — Ela sorri. — Aqui terá tudo que quiser.
Aceno mais uma vez. Minha garganta dói por já ter falado tanto. Talvez um pouco de água possa aliviar a sequidão em minha boca.
Espera… Essa menina falou que irei jantar? Não esperava por tamanha bondade. Recordo-me que quando mamãe e eu tínhamos um lugar para viver, sempre estávamos comendo algo em algum momento. Ela chamava de almoço, lanche e jantar. No entanto, quando tivemos que sair, tive que esquecer a existência dessas duas refeições. Estando com a minha mãe era mais fácil lidar com a dor na barriga e os ruídos que ela fazia quando passávamos muito tempo sem comer, contudo, quando ela se foi, tornou-se mais difícil suportar.
Uma moça que foi chamada por Micaella pega minha mão e caminhamos pelos corredores da casa. A menina que me resgatou falou sobre um quarto, será que é onde dormirei? Pela primeira vez na vida me vejo desejando algo.
— Senhorita, meu nome é Jaclyn. Como a Srta. Micaella deve ter lhe informado, estarei a sua disposição — a moça murmura assim que paramos a porta de um cômodo. Reparo que os cabelos dela, preso em um coque apertado, são da cor de aveia, bonitos e luminosos, porém não contrastam em sua pele branca. Quando ergue os olhos em busca de uma confirmação minha, noto que eles são de um tom de castanho tão claros que poderiam ser confundidos com amarelo.
— Obrigada — sussurro.
Entramos em um quarto grande, onde há uma cama larga e macia – não preciso me deitar para saber –, há vários móveis dos quais não me recordo o nome. Um deles serve para guardar as roupas, assim como o baú que fica à frente da cama, o seguinte tem um espelho em cima e uma cadeira acolchoada a sua frente. Não posso esquecer de mencionar a mesa com cadeiras que está disposta próxima a uma janela alta. E há uma lareira acesa que fica ao lado da cama.
É tudo tão grande aqui, penso.
Jaclyn abre uma porta entre a mesa e o móvel com espelho, há uma banheira lá dentro junto com um armário.
— Vou preparar o seu banho, pode remover as roupas e deixá-las sobre o baú.
Só então percebo o que está para acontecer.
Era início do inverno e água fria machucava a pele, demorava horas para o frio passar, mesmo completamente coberta. Sempre odiei banhos no inverno e não queria ter de passar por isso nesse momento, estava contente de ter alguma comida e um lugar confortável para ficar, mas não com um banho gelado.
— Frio — balbucio, enquanto abraço-me.
Jaclyn olha para mim com sua testa franzida, entretanto, algo faz o seu rosto se iluminar e o franzir se vai, dando lugar a um sorriso.
— Não se preocupe, vou esquentar a água. Estará quentinha durante todo o banho.
Pisco confusa.
Quentinha o tempo todo?
Não penso duas vezes, começo a remover minhas roupas, no momento que Jaclyn volta ao trabalho.



A água permaneceu quente por tempo suficiente para Jaclyn esfregar a minha pele, não demorou muito para que a água ficasse escura. Havia um bom tempo que não conseguia tomar um banho, era agradável tê-lo em meio ao inverno. Após ser esfregada, saí da água e o frio me arrebatou, no entanto, Jaclyn pegou um robe grosso, no qual me aqueceu no mesmo instante. Assim que retornamos para o quarto, encontramos roupas de baixo limpas sobre a cama e a moça que me ajudou, Micaella, sentada em uma das cadeiras que estão postas junto a mesa. — Trouxe apenas as roupas de dormir, pela manhã Jaclyn trará um vestido de mamãe ajustado para você. — Ela me observa de cima a baixo. — Já que é claro que os meus ficariam curtos. Também pedi que preparassem algo para comer, em breve alguém virá entregar.
Aceno em resposta.
Micaella levanta-se da cadeira e se aproxima de mim, pega minhas e sorri docemente.
— Quis vir para ter certeza que está bem acomodada. Gostaria de fazer muitas perguntas, no entanto, creio de demorará um tempo para que sua voz volte ao normal. Então, não quero desgastá-la. — Ela faz uma pausa e solta minhas mãos. Começa caminhar para porta e observo seu andar delicado e lento. Antes de chegar a entrada do cômoda, Micaella para e vira-se para me encarar. — Assim que acordar, mandarei um criado chamar o médico para que possa dar um proceder sobre sua voz. Boa noite, .
Em seguida, abre a porta e se vai. Fico encarando o lugar que ela desapareceu e me permito perguntar o motivo de tanto cuidado comigo. Mamãe havia partido há tanto tempo que tinha perdido o jeito com os cuidados de outra pessoa. Parecia algo irreal.
Jaclyn ajuda-me a vestir a camisola. O seu tecido delicado desliza pelo meu corpo e sinto como se estivesse sendo coberta por nuvens fofas e macias. Fico tentada a me deitar na cama, experimentar para ter certeza de que é tão macia quanto espero. Contudo, Jaclyn pega uma toalha e começa a secar os meus cabelos úmidos. Ela ficou em um impasse na hora do banho, se deveria ou não lavar os cabelos, entretanto, não tinha como escapar, pois a sujeira era tamanha que não havia alternativas. Agora, cheirava a ervas dos pés a cabeça. Não era correto dormir com os cabelos úmidos, no entanto, não houve opção.
Queria lhe dizer que não teria problema dormir com a cabeça molhada, até porque passei muitas noites debaixo da chuva, quando não encontrava um abrigo decente.
Quando passamos a morar na rua, mamãe e eu, fiquei doente muitas vezes até me acostumar com a nova vida. Hoje em dia, era difícil que fosse acometida por uma enfermidade. Não seria agora que ficaria doente.
Uma batida na porta me desperta. Jaclyn se afasta para abrir e uma moça roliça entra carregando uma bandeja enorme, cheia de comida. Ela se encaminha para a mesa, coloca a bandeja e sai do quarto. Assim que a porta se fecha, corro até a mesa e começo a experimentar tudo que há nela. Pães, chá, bolo de melaço, geleia de morango, dentre outras coisas que não sabia como nomear. Era um verdadeiro banquete.
— Srta. , deixarei que faça sua refeição e lhe vejo amanhã no café. Estarei aqui para ajudá-la.
Aceno para Jaclyn, que faz um cumprimento e sai do quarto.
Volto-me para a comida e não perco tempo. Quando percebo, estou a ponto de explodir. Consegui comer quase tudo, no entanto, ainda há sobras. Sem espaço para mais nada, levanto-me da mesa e sigo para a cama macia. Ela parece tão convidativa que nem ao tenho tempo de me embrulhar com o cobertor. Desvaneço em um sonhos.



O ruído de passos e ordens sussurradas me desperta. No entanto, o colchão confortável e os lençóis macios me fazem navegar entre a volta aos sonhos e a realidade.
Ouvi o som da porta se abrir e o cheiro de comida se alastrar pelo ambiente. Apesar de ter me alimentado muito bem na noite anterior, meu estômago não estava acostumado a ter comida sempre à disposição. Por esse motivo, não me surpreendi quando minha barriga soltou um lamento.
? Está acordada ou é só o seu estômago?
Uma risada meiga e doce preenche o quarto e não preciso abrir os olhos para constatar que a Srta. está espreitando meu falso sono.
— Quase — murmuro fracamente.
— Ora! Levante-se! Temos muito o que fazer hoje. — Os lençóis feitos de nuvens são tirados de mim, fazendo-me grunhir. — Nem adianta me ameaçar com grunhidos. Cresci com dois irmãos, sei lidar muito bem com mal humor.
Abro os olhos e encaro círculos azuis acinzentados. Micaella me observa com a cabeça inclinada e um sorriso de orelha a orelha. Se não estivesse ouvindo o barulho da chuva, acreditaria que um lindo dia havia se formado lá fora. Seus olhos brilham com tamanha intensidade que me dão forças para sair do meu mais novo paraíso.
— Ótimo! — Ela bate palmas animada e logo em seguida pega um vestido rosa, estendendo-o sobre a cama. — O doutor virá vê-la para entender sua dificuldade em falar, em seguida teremos aulas de etiqueta e leitura. Você sabe ler?
Balanço a cabeça.
Mamãe tentou me ensinar algumas vezes, porém, como nunca tínhamos aulas contínuas, devido à sua falta de tempo, acabei esquecendo o pouco que aprendi.
— Tudo bem. Lhe ensinarei tudo. — Ela vira-se para a bandeja que foi disposta na mesa. — Agora saia da cama! Precisa comer para fazer tudo que temos para hoje.



Como Micaella afirmou, tínhamos muitas tarefas durante todo o dia. O médico chegou assim que terminei de me arrumar e ele atestou que a falha em minha voz foi ocasionada pela falta de exercício vocal. Passei tanto tempo sem falar que minha voz ficou frágil, perdendo a prática de algo tão normal. Ele me ensinou alguns ruídos que deveria fazer, nos quais ele chamava de exercícios vocais, pelo menos duas vezes ao dia. Além disso, beber água era fundamental para hidratar a garganta.
Após a consulta, fui levada para a biblioteca, onde minha benfeitora começou a me ensinar sobre a arte das letras. Consegui me lembrar de algumas regras que mamãe havia me explicado quando era menor, isso me ajudou bastante a progredir logo na primeira aula.
Quando chegou a hora do almoço, fomos para o meu quarto e Micaella começou a explicar como deveria comer a mesa. Essa era a parte que mais me desagradava.
— Hoje treinaremos como se portar à mesa, no entanto, amanhã vamos nos concentrar em como agir em sociedade — afirmou, cortando a carne e os legumes.
— Para quê isso? — murmuro.
— Porque quando estiver pronta, papai irá apresentá-la como uma parente distante que perdeu os pais recentemente. E para acreditarem, você precisa saber o mínimo de etiqueta social. — Ela leva uma garfada à boca, mastiga e logo continua. — Sei como essas regras podem ser chatas no início, mas elas podem nos salvar algum dia.
— Por exemplo?
Ela pega uma taça com água e bebe um gole.
— Não me vem nada à mente no momento.
Dou uma risadinha.
— Esse é o tipo de risada que devemos dar, porém, você pode colocar a mão na frente da boca para parecer mais gracioso.
Micaella tinha razão. Apesar de haver muitas regras chatas, ela tornava tudo mais divertido e leve. E isso me ajudava. A solidão que vivi nos últimos anos parecia cada vez mais distante, trazendo alegria para cada simples gesto.


Capítulo 2

Eu não saia do quarto.
Não porque era mantida presa, mas porque não achava necessário me deslocar pela casa. Quando Micaella percebeu como gostava de ficar no cômodo, começou a fazer nossas tarefas de leitura e escrita no quarto. Contudo, ela chegou hoje afirmando que jantaria com a família. Fazia semanas que estava na casa, mas só havia tido contato com Micaella, Jaclyn e a Senhora que trazia minha comida. Para mim estava ótimo, nunca precisei de muitas pessoas ao meu redor, no entanto, Micaella colocou na cabeça que para poder ter uma vida social precisaria socializar com outros indivíduos.
— Será seu primeiro contato com a minha família. Mesmo que ela não esteja toda aqui — afirma. — Já conhece papai, porém, tenho mais dois irmãos e um sobrinho. Apenas Matthew está em casa no momento.
— Há apenas você de mulher?
— Sim, mamãe faleceu há muitos anos.
Engulo em seco.
— Deve ter sido doloroso.
Micaella para e a imito. Quando vira-se para mim noto a saudade em seus olhos, uma melancolia preenche suas feições e sinto o aperto no peito de quando perdi mamãe.
— Não me lembro muito bem dela, tinha apenas cinco anos quando ela se foi — ela suspira. — Papai não gosta de falar sobre ela. Na verdade, ele não gosta de falar de nenhuma das duas esposas que teve.
Franzo o cenho.
— Duas?
A mudança de assunto espanta a dor de seus olhos.
— A mãe de não é a mesma que a minha e de Matthew.
Não esperava por essa informação. É triste saber como um homem acabou perdendo as duas esposas e ficou sozinho para criar os filhos. Nunca conheci o meu pai, porém, todas as vezes que via uma criança com seus pais nas ruas de Londres me imaginava em seu lugar. Tornava tudo mais difícil, por esse motivo comecei a evitar encontrar famílias, apesar de ser complicado tal feito.
— Sinto muito — murmuro.
— Obrigada, — sussurra com a voz embargada, ela respira fundo. — Lembra-se de todas as regras que lhe ensinei desde que chegou? — Aceno. — Ótimo! Não precisa ficar apreensiva. Esse é apenas um jantar em família, no entanto, é bom que coloque em prática tudo que aprendeu.
— Não estou nervosa, você que está — murmuro.
Micaella solta uma risadinha e retorna a caminhada.
Assim que chegamos a sala de jantar, na qual há uma mesa grande, há talheres dispostos apenas para quatro pessoas. O senhor que havia me abordado semanas atrás está sentado à cabeceira da mesa e no instante que nos vê, levanta-se juntamente com um homem de cabelos escuros. Quando vira-se para nos cumprimentar, olhos azuis como o céu de verão me fazem prender a respiração.
— Matthew, está é a Srta. , na qual viverá conosco.
Os olhos de verão voltam-se para mim e um sorriso de canto é dirigido a mim. Ele ergue a mão e de acordo com as minhas lições estendo a minha, quando seus lábios tocam a pele nua um formigamento perpassa pelo meu corpo. No momento que se afasta, a sensação se vai e meu corpo parece vazio.
— Encantado.
Nos sentamos para iniciarmos a refeição.
Micaella inicia uma conversa com o pai enquanto tento me concentrar em todas as regras que devo ter a mesa. Porém, sinto o meu rosto queimar como se estivesse sendo observada. Quando ergo os olhos, encontro o olhar penetrante do irmã de Micaella. No mesmo instante, volto minha atenção para a comida.
Estávamos comendo cordeiro com legumes. Não havia comido algo tão extraordinário em toda a minha vida, não era um prato que era servido para mim e mamãe quando tínhamos um teto e quando fomos morar nas ruas, nada parecido chegava em nossas bocas.
Apesar de manter-me completamente focada na refeição, não deixei de sentir o olhar quente de Matthew Walter sobre mim. Era desconfortável e tudo que mais ansiava era levantar-me e correr para o meu quarto. Contudo, seria uma desfeita para Micaella que se preocupou tanto em me trazer para jantar.
— Recebi um telegrama de essa tarde — Sr. informou.
— O que dizia? — Micaella questiona.
— Que chegarão dentro de duas semanas.
A jovem bate palmas com a notícia e noto um brilho diferente em seu olhar, tornando suas feições mais belas que o comum. Era perceptível sua preferência pelo mais velho, apesar de ainda não compreender, poucas eram as vezes em que mencionava o irmão que estava presente à mesa esta noite.
Matthew. Ainda sentia os seus olhos sobre mim, no entanto continuei observando sua irmã quase saltitando com a informação recebida.
, você amará Barret. É um doce de criança — Micaella murmura com um sorriso nos lábios.
— Já conviveu com crianças?
Movo minha cabeça para encarar o mais novo. O sorriso de canto continua em seu rosto e se acentua quando foco minha visão em sua face. Ele parece gostar de ter minha atenção.
— Não — resmungo fracamente.
Já havia visto crianças pelas ruas de Londres, mas nunca tinha falado com nenhuma delas, os pais não permitiam que elas se aproximassem de moradores de rua. Compreendia suas preocupações, eu mesma não confiava naqueles que viviam na mesma situação, especialmente os homens.
— Então, como sabe que a Srta. — ele pronuncia meu nome vagarosamente —, se dará bem com nosso sobrinho?
— Tenho uma intuição! Além do mais passei as últimas semanas com , a conheço mais do que você.
O seu sorriso se expande e agora posso ver seus dentes bem delineados.
— Tem razão, minha irmã, não a conheço. Ainda!
Ao fim do jantar, Micaella foi comigo até meu quarto, ainda muito animada com o retorno do irmão. Ela sentia muitas saudades do sobrinho e não parava de afirmar que iria adorar a criança. Depois de contar inúmeras travessuras do pequeno, bocejou e afirmou que deveria ir dormir.
Estava prestes a me trocar para dormir, quando uma batida na porta me interrompeu. Não poderia ser Micaella, pois costumava bater e abrir a porta logo em seguida.
Direcionei-me até a porta e quando a abri foi impossível segurar meu espanto.
— Perdão, sei que é muito tarde, contudo, não tive a chance de me despedir da senhorita — Matthew afirmou com um sorriso tímido nos lábios. Ele ergue a mão e estendo a minha, quando os seus lábios são pressionados contra a minha pele o formigamento de mais cedo retornou e não pude controlar o calor que subiu para as minhas bochechas. — Espero encontrá-la amanhã, no desjejum.
Aceno. O sorriso de canto se forma em seus lábios e logo me dá as costas. Mesmo quando some do corredor, ainda estou sentindo o formigamento e meu coração está duas vezes mais acelerado que o normal. Posso sentir o calor que parece permanente em minha face, mesmo o dia estando frio.
Não sei o motivo de todas essas reações, porém, parte de mim afirma que devo sentir mais disto e a outra grita que devo correr na direção contrária. Mas, tudo que quero é compreender o que está se passando, antes de tomar qualquer decisão, e espero que quando acontecer não seja tarde demais.



Matthew cravou os olhos em mim durante os últimos dois dias. Estava surpresa por sua irmã não comentar nada comigo, estava óbvio sua atenção constante em meus movimentos. O que deveria ser desconfortável, acabou se tornando algo agradável, para o meu espanto. Peguei-me sorrindo devido a sua atenção, sentia-me admirada a cada instante e nunca havia passado por tal coisa.
Estávamos em mais uma aula de leitura, Micaella e eu, e minha cabeça doía ao me esforçar para ler tantas palavras. Apesar de afirmar que estava cansada, minha professora não desanimou e afirmou que precisávamos continuar, pois o esforço ao extremo iria me ajudar. Não sabia como se aplicava de forma real, até porque só desejava estar na minha cama de olhos fechados, sem tentar descobrir o que cada letra significa.
Essa manhã, havíamos iniciado um livro. Era a primeira vez que saíamos da escrita e partíamos para a ação. Eu mesma tinha escolhido o volume, um dos menores que havia nas prateleiras da biblioteca, uma capa vermelha com desenhos dourados. O título era Nem tudo é ganância, não compreendia muito bem o que significava, porém, Micaella afirmou que explicaria no decorrer da leitura.
Volto a cavalgar... Pelo caminho... A-arenoso para... adenta-trar o cento-tro... Comercial da vila — paro de ler e pressiono os dedos contra minha tempora. Micaella ergue os olhos e suspira.
— Talvez seja melhor que continuemos amanhã. Já exigi bastante de você por hoje.
Sorrio timidamente.
— Acha que estou melhor?
— Sim. — Um sorriso se forma em seus lábios, posso ver o orgulho emanar de suas feições. — Na verdade, seu progresso é impressionante. E agora que começamos as leituras em breve não precisará mais de mim e poderá ler sozinha.
Fecho o livro e descanso-o na mesa, aliso as palavras do título.
— O que significa ganância?
Micaella morde o lábio inferior, um hábito que ela possuía quando precisava pensar em algo.
— É o desejo de ter mais que os outros ou obter ganhos exorbitantes — ela dá uma pausa e torna a morder o lábio. — Como as pessoas ricas que só querem mais, mesmo que isso prejudique outras pessoas. Claro, esse é apenas um exemplo. Não sei lhe dizer se a ganância poderia ser algo bom, não consigo vê-la como simples ambição, pois muitos tem a ambição de ter algo na vida. Penso que ambição está ligada mais ao desejo.
— Então, a ganância é algo ruim.
— Para mim sim, talvez outras pessoas discordem. — Micaella levanta-se da cadeira e segue para as estantes. — Mas podemos conferir o significado em um dicionário, para uma melhor compreensão.
Uma batida na porta chama nossa atenção, quando é aberta nos deparamos com o Matthew. Meu coração parece inchar.
— Já terminaram? — questiona.
— Quase — Micaella afirma. — Por quê? Ele adentra a biblioteca carregando uma cesta.
— Queria convidá-las para um piquenique.
— Ah! Não poderei, terei que ir até a cidade fazer algumas encomendas, ia chamar para ir comigo. No entanto, acho que um piquenique é muito mais atrativo. — Ela se volta para mim com um sorriso. — Sua dor de cabeça deve passar com uma distração.
— Tudo bem.
Olho para Matthew, o sorriso de canto se forma e algo mais que não posso identificar. Talvez ambição, desejar algo, se os significados de Micaella estivessem certo.
— Sabe cavalgar? — Matthew questiona e balanço a cabeça em negação. — Não tem problema, podemos ir a pé.
— Vão caminhar muito — Micaella afirma e começa a guardar os livros.
— Não há problema algum em caminhar um pouco. — Ele se vira para mim. — A não ser que prefira que preparem a carruagem.
— Gosto de caminhar — murmuro.



O vento frio de primavera balança os fios soltos do meu cabelo e um arrepio se espalha pela minha pele. Noto pela visão lateral quando Matthew começa a tirar seu paletó e que logo em seguida é colocado sobre os meus ombros. Meu peito se enche de um sentimento que poderia ser chamado de gratidão.
— Obrigada — murmuro.
— Não há de quê.
Estou carregando a cesta de piquenique, apesar de Matthew ter tentado me impedir alegando que estaria pesada. Não poderia negar este fato, no entanto a boa alimentação que estava recebendo nas últimas semanas me tornava uma pessoa muito mais forte do que já fui um dia. Se podia correr pelas ruas de Londres com apenas um pedaço de pão na barriga, não haveria problema de carregar uma cesta com uma toalha e alguns alimentos.
Após uma boa caminhada, paramos próximo a uma árvore com flores amarelas. Matthew pega a cesta das minhas mãos e começa a montar o nosso piquenique. Micaella não gostou da ideia de nos deixar sozinhos, contudo, o irmão acabou convencendo-a.
— Não acho uma boa ideia, Matthew. precisa zelar por sua reputação, insisto que levem Jaclyn — Micaella afirmou encarando duramente o irmão.
— Não seja boba, Ella. Estaremos na propriedade, não há ninguém aqui para iniciar um falatório. Além do mais, creio que confia em mim de que não farei mal algum a nossa hóspede, certo?
— Espero que não me arrependa disso — concluiu.
Em seguida, ela saiu da biblioteca e não apareceu mais desde então, sem dúvidas seguindo para os seus compromissos.
— O que quer comer primeiro?
Matthew me desperta de meus pensamentos, estendendo a mão em minha direção, pego-a e ele me ajuda a sentar sobre a toalha quadriculada. Olho para os alimento dispostos e minha boca se enche de água quando me deparo com biscoitos amanteigados. Saboreio um e não consigo controlar o gemido de prazer que escapa por meus lábios.
— Experimente com geleia de amora. — Ele ergue um recipiente de vidro e molho um biscoito na substância roxa, quando experimento arregalo os olhos ao constatar que fica ainda melhor. Matthew sorri ao perceber que gostei da combinação. — Chá?
— Por favor. — Experimento o chá e fico surpresa por ainda estar quente.
— Se não for incomodo, gostaria de fazer algumas perguntas, apenas para conhecê-la.
— Tudo bem.
— Por que vivia na rua?
Franzo o cenho.
— Porque não tinha onde viver — respondo.
Ele solta uma risada, come um pedaço de pão e volto a olhar para mim.Mbr< — Imagino que não, mas como acabou morando na rua?
— Ah, isso. — Inclino a cabeça, voltando-me para as comidas a minha frente. Nada disso fazia parte da minha vida, nem mesmo quando eu e mamãe morávamos em um quarto pequeno, tinha o que comer, mas nada tão farto assim. — Não sei onde vivíamos, era muito pequena na época…
— Viviam? — questiona.
— Mamãe e eu. — Sua boca se abre como se fosse dizer algo, porém, quando nada é dito, continuo. — Posso dizer que todas as noites mamãe me deixava no quarto que tínhamos e só voltava pela manhã. Eu nunca saia do quarto, a não ser quando íamos andar pela cidade. — Sorrio ao lembrar. — Sempre levávamos pedaços de pão para dar de comer as aves que tem no parque. E quando ficávamos no quarto ela me ajudava a ler. — Paro para tomar um pouco de chá. — Mas quando fiquei maior, tivemos que sair de lá, então passamos a viver na rua. Alguns anos depois… — Uma lágrima rola pela minha face e não consigo terminar a sentença.
Matthew se aproxima, pega minhas mãos e planta um beijo em cada uma delas. O formigamento que costumo sentir com o seu toque está presente, contudo, o meu pesar de lembrar de mamãe é muito maior do que qualquer outra sensação.
— Eu também perdi minha mãe, sei como é doloroso perder alguém tão amado. — Ergo o olhar para seu rosto. — Todavia, quero que saiba que jamais ficará sozinha, a senhorita tem a nós agora.
Minha visão fica turva devido a mais lágrimas que se formam e não consigo controlar o soluço que escapa. Matthew me puxa para os seus braços e me permito deleitar de seu afago. Há tanto tempo alguém não me consola que parece ser algo fora do comum. Sua mão acaricia os meus cabelos de modo gentil, ainda que soluçando posso sentir o seu consolo em cada poro meu.
Quando as lágrimas começam a cessar, Matthew me entrega um lenço e às seco. No momento que ergo a cabeça para agradecê-lo a gentileza, percebo quanto está próximo a mim.
— meu nome sai em sussurro quase inaudível.
Olhos castanhos encontram azuis e no mesmo instante me vejo paralisada. Seus olhos me remetem um mistério no qual anseio investigar. Quando ele desvia o olhar para os meus lábios, antes que possa reagir, a sua boca cola na minha.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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