Finalizada em: 10/11/2019

Capítulo Único

Havia uma áurea quente dentro da casa, luzes laranjas e amarelas crepitando no fogo aceso na lareira, pintando as paredes e os móveis, fazendo a sala mais confortável e convidativa do que já era. Havia também um cheiro presente no ar, dominando toda a casa, infestando cada quarto do jeito mais delicioso possível. Era uma mistura de sabores, doce, azedo, salgado, cada um deles adicionando algo no ambiente que o dono da casa queria criar. Pequenas luzes de fada decoravam a sala de estar, piscando a cada segundo na árvore grande e verde no suposto canto mais escuro, iluminando toda a área intensamente, faces de anjinhos e quebra-nozes decorando os galhos, dando vida à sala agora vazia.
Um cantarolar baixo vindo da cozinha mal podia ser ouvido e era necessário ouvidos treinados para entender a melodia, mas não importava para a garota que estava lá, indo de um lugar para o outro no amplo espaço com os olhos fechados, sentindo a energia do ar de verão e agradável em comparação com o lado de fora, tão sombrio e frio. Suas mãos habilmente alcançavam os pratos e panelas que precisava, os quadris se movendo no ritmo da música que vinha do notebook aperto em cima da pia, um sorriso preso em seu rosto enquanto as memórias invadiam seus pensamentos, imagens do que ela tinha passado nos anos anteriores, imagens da pessoa com quem ela estava, todas calmas e vibrantes.
Amar era assim. Era como uma tarde de um domingo de verão, ar fresco para pulmões que estavam sufocados. Era fácil, era viver, era olhar para o futuro e vê-los juntos, de mãos dadas. Não era complicado, era paciente e, acima de tudo, era recíproco. Ela sabia que para todos os dias que havia amado e querido estar com ele, ele se sentia do mesmo jeito, batalhando para vencer as dificuldades para manter a chama acesa, para manter seu relacionamento tão puro quanto sempre foi, sem interferência do mundo exterior, não importava o que viesse. Rumores e fofocas sempre seriam uma constante na vida dele, consequentemente algo que também estaria presente na vida dela, mas a confiança que tinham um no outro prevalecia a tudo.
Era por isso que uma noite de inverno não parecia estragar sua noite, era por isso que ela estava felizmente cantarolando qualquer música que surgisse a seguir, era por isso que ela tinha um sorriso no rosto mesmo sozinha na casa o dia todo, mesmo quando ela sabia que ele poderia entrar a qualquer momento e vê-la sendo boba. Ela não ligava. Ela iria alegremente continuar fazendo isso, celebrando sua felicidade, seu relacionamento, a razão constante de fazê-la dançar as músicas mais românticas possíveis.
E foi no meio de todos esses pensamentos, tão perdida em seu próprio mundo, que não ouviu quando a porta da frente se abriu, uma lufada de ar gelado infiltrando na casa quente que eles haviam feito para eles mesmos, passo pesados ecoando pelo corredor, entrando na sala de estar e parando sobre o batente, inclinando-se na moldura da porta, braços cruzados sobre o peito enquanto assistia à sua garota usando uma colher de pau como microfone, alheia à todo o resto ao seu redor, os olhos fechados, de costas para ele, os cabelos caindo em longas ondas por seus ombros.
ficou parado ali, contemplando , imaginando o que ele teria feito para merecer tal garota em sua vida, uma que nunca falhava em surpreendê-lo, uma que conseguia fazê-lo sorrir mesmo quando não tinha intenção, uma que cabia perfeitamente em seus braços, uma que dividia com ele mais do que momentos; segredos, sentimentos, decisões, casa... A garota que ele faria o que quer que fosse preciso para manter ao lado, a garota por quem ele esperaria mil anos e mais.
O rapaz manteve seus olhos treinados na garota dançando, o movimento de seus quadris na música lenta naquela cozinha quente. Os pés dela se moviam de uma posição para outra, brincando com o piso, nunca pisando nas linhas, as mãos contornando seu próprio corpo enquanto ela fingia dançar com alguém - ele só podia esperar que fosse ele mesmo - a cabeça tombando para trás numa gargalhada de vez em quando. Ela parecia tão pura e sem preocupações que não tinha coragem de ir até ela e interrompê-la num momento de pura alegria, mesmo quando tudo o que queria era se juntar à ela. Então ele apenas assistiu. Assistiu enquanto ela dançava e preparava o que estava cozinhando, as costas sempre voltadas para ele, completamente negligenciando o fato de que estava sendo observada, perdida em seu próprio mundo que consistia de e nada mais.
Começou uma nova música, o tipo nunca realmente mudando, a mesma batida calma e suave saindo do alto falante, mas dessa vez a escolha chamou sua atenção, os ouvidos dele se aprumando quando a ouviu cantar, levemente desafinada, sem se importar com nada. E ele amava isso. Amava que ela não tinha a voz perfeita, amava que ela tentaria cantar a música num tom que desse para ela e amava que ela não ligava quando atingia uma nota muito alta ou quando sua voz não saía. Ela apenas daria de ombros dizendo que cantava mal, mas cantava com emoção. E isso ela realmente fazia. Colocava um pouco de emoção demais às vezes, causando um sorriso no rosto dele todas as vezes.
E por mais que ele tentasse se controlar e não anunciar sua presença, ele não conseguiu evitar os passos que o levaram à cozinha quando notou o refrão voltando, seus braços se esticando e entrando em contato com os dela lentamente, mãos pousando em sua cintura ao senti-la pular, surpresa com o toque, o coração acalmando um pouco ao perceber que era ele, o nariz do rapaz acariciando o pescoço dela, inalando o perfume, os lábios roçando a pele e depositando um beijo macio no ponto em que se conectava com os ombros.
sorriu, os olhos se fechando e a cabeça voltando-se para trás, inclinando suas costas contra o peito de numa doce rendição, os movimentos dela nunca parando, fazendo-o dançar com ela. Seus passos não vacilaram, nem mesmo quando ela sentiu as mãos dele deslizando por seu corpo, segurando-a mais firmemente e a girando em seus braços, as palmas das mãos dela contra o peito dele que sorria, um beijo terno sendo depositado em sua testa enquanto ele, também, cantava junto com a música, ambos olhando um nos olhos do outro, perdidos num mar de emoções e palavras não ditas, espelhando seus movimentos inconscientes, vozes cada vez mais baixas contrastando com a que vinha que computador, que só crescia, o tom da cantora embalando-os num transe profundo.
Não era nada novo, aquela cumplicidade entre eles, mas havia algo no ar naquela noite. Talvez era a época do ano que fazia todo mundo sentir coisas com mais intensidade, talvez fosse o silêncio da casa, todo o ambiente que eles tinham criado mesmo sem intenção. O que quer que fosse, podia sentir seu coração batendo mais rápido, as mãos suando contra a cintura dela e cem mil borboletas dançando em seu estômago. Ele podia sentir sua respiração ficar um pouco mais pesada cada vez que ele olhava para seus reflexos na janela da cozinha, o jeito que pareciam ser feitos um para o outro, o jeito que ela tinha a cabeça contra o peito dele. E ela estava linda na luz fraca enquanto a neve caía do lado de fora, pontinhos brancos de neve cobrindo o peitoril da janela.
Como se notasse as mãos trêmulas, levantou a cabeça, seus olhos encontrando-se com os de mais uma vez, um sorriso genuíno adornando seus rostos quando o refrão se repetiu mais uma vez.
- I know… I’ll never… love this way again, - os dois murmuraram um para o outro, seus sorrisos crescendo enquanto continuavam dançando de um lado para o outro com a música desaparecendo, os deixando no mais completo silêncio.
Na atmosfera confortável da cozinha, com um pouco de luz ainda vindo do lado de fora através da janela quase toda coberta de neve, suas respirações se misturaram, seus corpos ainda pressionados um contra o outro, uma nova música tocando no fundo sendo completamente ignorada por eles. Só havia os dois e as batidas de seus corações. , como sempre fazia quando esses momentos se tornavam possíveis, levou seu tempo admirando mais uma vez, mais de perto agora. O modo como os olhos dela brilhavam sob a luz, como a cabeça dela alcançava a base dos ombros dele, fazendo-o pairar sobre ela da forma mais protetora possível, o cabelo dela fazendo cócegas em seu queixo levemente, algo que ele sempre gostava, algo que ele sempre sentia falta quando não estava por perto. Ele podia sentir as mãos dela agarrando a parte de trás da camisa dele com firmeza, amassando o tecido sem preocupações, puxando-o para ela, um sentimento de quentura se espalhando por eles.
- Você chegou mais cedo - foi a primeira a falar, sua voz nada mais do que um sussurro para não quebrar o clima que eles haviam criado o despertando de seus pensamentos, um sorriso se formando em seu rosto ao ouvir o tom suave.
- Eu não te falei? - ele sussurrou de volta, as mãos correndo da cintura dela para as costas em uma carícia, sua respiração contra a cabeça dela. - Eu tenho um jantar de véspera de Natal que eu não posso perder.
A garota riu baixinho, esticando-se nas pontas dos pés para plantar um beijo curto nos lábios dele, o rapaz querendo que durasse mais, lábios fazendo um bico quando ela se afastou, as costas voltadas para ele novamente ao fazer o caminho de volta ao fogão e verificar a comida que estava preparando antes de ser interrompida.
E foi naquele momento que ele percebeu que não queria que esses momentos se acabassem. Se ele pudesse, voltaria para casa para vê-la todas as noites. O bolso direito de sua calça parecia mais pesado, a mão apalpando sobre o tecido para ter certeza de que o volume que tinha guardado ali ainda estava fora do campo de visão da garota. Ele queria esperar até mais tarde, esperar até que já tivessem jantado com os pais dela, mas seu coração dizia para fazer isso agora, apenas colocar a mão no bolso, puxar a caixa de veludo e pedir.
Mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, antes que pudesse se mexer, ela caminhou de volta para ele, os olhos brilhando de um jeito levado, as mãos atrás das costas enquanto ela balançava para frente e para trás nos calcanhares, os lábios fechados numa linha fina como se a prevenindo de dizer qualquer coisa.
- O que? - Ele franziu o cenho tentando conter o próprio sorriso ao ver a garota em frente a ele. Podia notar que ela tentava, com muito afinco, não contar algo para ele, tentando não arruinar e dizer muito rápido.
- Eu tenho uma surpresa pra você - Ela soltou, o sorriso se alargando enquanto encarava a confusão que se fez presente no rosto dele, os olhos vagando entre o rosto dela e os braços escondidos. O coração de estava agitado, batendo selvagemente esperando por uma reação dele, dizendo que podia continuar. Era difícil. Ela havia praticado tantas vezes e mesmo assim não conseguia falar. Era sempre mais difícil quando a situação real se fazia presente.
- Meu Deus, amor, você está me deixando muito curioso - riu, os cabelos caindo sobre os olhos enquanto balançava a cabeça para ela.
respirou fundo, os olhos estudando cada emoção presente no rosto dele, prestando atenção em qualquer mudança que poderia ter quando ela finalmente sorriu, os olhos voltando-se para suas mãos enquanto ela lentamente levantava um pequeno pedaço de papel aos olhos dele, uma imagem preta e branca granulada tomando conta de seu campo de visão de uma vez por todas, as mãos dela tremendo um pouco esperando por alguma reação dele, o entendimento para o que ela acabara de anunciar.
Não veio em uma explosão como ela achou que seria. Demorou um tempo até que percebesse o que estava acontecendo. Ele olhou para o pedaço de papel nas mãos dela, os olhos escaneando a imagem tentando dar significado ao que estava acontecendo, o cérebro trabalhando num ritmo acelerado sem entender o que era aquilo. Tudo o que ele podia ver era o olhar de expectativa no rosto da namorada, os olhos dela dançando dos dele para o pedaço de papel que segurava, ficando cada vez mais ansiosa enquanto os segundos corriam.
Os olhos de finalmente se fixaram na imagem, as mãos segurando o papel para examiná-lo mais de perto, pequenas letras ao lado, algo que ele não conseguia ler direito, mas seu cérebro não prestou atenção nisso, mais concentrado no que estava circulado no centro da imagem preta e cinza, tentando finalmente ver o que estava sendo mostrado à ele.
E então foi como se um tijolo o atingisse no peito, tirando todo o ar de seus pulmões, arquejando e piscando furiosamente, as mãos tremendo um pouco, os pés vacilando fazendo-o cambalear para trás até que a parte de trás de seus joelhos batessem em uma cadeira e ele caísse sentado, olhos se arregalando para a imagem escaneada em suas mãos, boca aberta.
De seu lugar, assistia a compreensão aparecer no rosto dele, choque tomando conta de toda sua expressão e foi então que ela começou a duvidar de tudo o que havia esperado. Talvez ele não quisesse isso, talvez fosse muito cedo, ela não deveria ter feito isso, ela não deveria... Seus pensamentos negativos foram interrompidos pelo som da cadeira arrastando contra o piso do chão, o rapaz caminhando até ela em passos largos, segurando o rosto dela entre suas mãos com o maior sorriso que ela já tinha visto dele, os olhos brilhando com algumas lágrimas que teimavam em cair, algo que ela não pensou que veria ao dar a notícia.
- Você não está brincando comigo, está? - o toque dele é carinhoso, as palavras implorando para que ela lhe dissesse a verdade, confirmar que era real e não algum sonho ou brincadeira. Ele queria que fosse verdade, ele queria que isso acontecesse e podia ver pelo jeito que ele a segurava, firme e ainda assim com carinho, despejando toda emoção que ele sentia, deixando-a saber que ele estava nessa com ela.
balançou a cabeça, de repente muito sobrecarregada com a reação dele para dizer qualquer coisa, sentindo as lágrimas começaram a se acumular em seus olhos enquanto ele se ajoelhava e a abraçava pela cintura do jeito mais amável, beijando sua inexistente barriga algumas vezes, sussurrando palavras ao vento enquanto ela brincava com o cabelo dele, correndo a mão por ele, uma risada baixa escapando de vez em quando. Ele olhou para ela, umas poucas lágrimas agora escorrendo pelo rosto dela.
- Meu Deus, amor, você vai me fazer chorar - ele riu entre um pequeno soluço, uma de suas mãos finalmente se afastando dela e entrando em seu bolso. - Isso totalmente estraga os meus planos para mais tarde, mas acho que combina. - Ele começou, a mão livre pegando a dela enquanto a outra lutava para soltar a pequena caixa quadrada confinada. - Não ache que isso tenha a ver com o que você acabou de me dizer, porque você me pegou de surpresa, - riu. - Mas é algo que eu estou pensando tem um bom tempo e o momento é muito perfeito para deixar passar. Eu sei que nunca planejamos para que isso acontecesse, mas você não tem ideia de como eu estou feliz agora. E não tem outro jeito de dizer o quanto eu amo você, o quanto você significa para mim e o que eu quero ter uma família e envelhecer com você.
Não precisava de muito para entender o que estava tentando dizer naquele momento e como se a notícia de que ela estava grávida e a reação dele não tivessem sido o bastante para causar uma onda de emoções sobre , a visão de ajoelhado, com uma de suas mãos na dele enquanto a outra abria a caixa de veludo preto que continha o anel mais lindo que ela já tinha visto aumentou em 100% o redemoinho de emoções e empolgação que havia dentro dela, sua mão livre repousando sobre a boca tentando conter o suspiro que ameaçava sair, novas lágrimas rolando de seus olhos, achando seu caminho pelo rosto da garota apenas para morrer em seu queixo trêmulo.
- Você quer casar comigo? - perguntou, seu tom vacilante no estado emocional em que se encontrava, de joelhos, no meio da cozinha, embalado por uma música aleatória que ele nunca tinha prestado atenção. Mas nada disso importava, o coração martelando contra as costelas, esperando pela resposta dela.
- Sim - ela murmurou, a voz trêmula, concordando com a cabeça sem parar. - Sim - ela conseguiu dizer com um pouco mais de clareza. - É claro que eu quero me casar com você, !
E foi sob a luz amarela do teto da cozinha, com o ar cheirando à natal e, no fundo o barulho do vento açoitando as paredes de sua casa que deslizou o anel pelo dedo de graciosamente, se levantando e puxando para ele, as mãos dela mais uma vez caindo em seu peito, como sempre faziam, brincando com os botões de sua camisa.
Era simples, era perfeito, como tudo o que eles tinham vivido nos últimos anos, como tudo o que eles queriam para o resto de suas vidas.


Fim



Nota da autora: Quando eu me lembrei dessa fic e que ela caberia em All About You, eu nem pensei duas vezes. Entrei no Word pra traduzir loucamente, apenas pra descobrir que eu já tinha feito isso. Mas aqui está e é isso que importa! Aproveitando o embalo pro Natal, quis deixar esse climinha aqui. Espero que tenham gostado!





Eu não sou capaz de explicar como o casal dessa história é importante pra mim. O quanto eu amo esses lindos e a pequena família que eles se formaram. Só consigo falar "meu casal", é isso! ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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