Última atualização: 24/07/2018

Capítulo 1: Um começo confuso

O calor castigava Los Angeles naquele verão. não aguentava mais o ar quente da sala de aula, já que o ar-condicionado estava quebrado desde o começo do mês. As férias de verão já estavam praticamente na porta e a UCLA já preparava as festas que começariam naquela noite. A garota suspirou enquanto seu professor explicava algo sobre curtas-metragens que ela sabia que seria importante, mas naquele momento não conseguia prestar atenção em nada além do céu azul do lado de fora.

- Parece que tem alguém que não está prestando atenção – Kurt, seu amigo, disse e ela sorriu, amarrando seus cabelos em um rabo de cavalo alto.
- Quem consegue prestar atenção em alguma coisa nesse calor? – respondeu, encarando o amigo – É a ultima semana de aulas, ele poderia ter relaxado um pouco.
- Só em seus sonhos, querida – Kurt disse – Hoje nós vamos ter uma festa na praia, você vai, certo?
- Eu não sei – ela respondeu anotando a lista de filmes que o professor mostrou no slide – Eu ainda não estou me sentindo bem totalmente depois do que aconteceu. Ainda estou lutando contra a bad.
- Festas na praia sempre funcionam para curar a dor de um coração partido, minha querida – o garoto respondeu, rindo – Você tem que viver um pouco, precisa começar suas férias com o pé direito.
- Mas, Kurt, e se Kallum estiver lá? – ela perguntou, sentindo um nó na boca do estômago ao lembrar o recente ex-namorado. - Você vai para outra direção ou dança sensualmente enquanto beija alguém na pista – o amigo disse e eles riram – Vamos, ! Nós vamos passar em teu dormitório mais tarde.
- Tudo bem – ela respondeu, mas foi cortada pela voz do professor.
- Agora vamos a um ator que foi ícone para a cultura americana – ele disse – .
- Que homem, esse – uma aluna disse um pouco mais alto e o restante riu – Eu estou mentindo?
- Antes de focar nos atributos físicos – o professor disse –, vocês, como futuro cineastas, precisam perceber como esse ator foi o rosto de toda uma geração de rebeldes e por isso a breve cinegrafia dele está no programa de vocês. Como muitos de vocês sabem, ele morreu precocemente em um acidente de carro.
- Eu queria ter conhecido ele – falou divagando.
- O ? – Kurt perguntou surpreso – Quem não queria? Há boatos de que ele era bissexual, é justo com a humanidade.
- Sim – ela respondeu rindo e enquanto o professor se despedia, ela arrumava suas coisas – Eu não vejo à hora de ir para minha casa.
- Quer voltar para o papai, ? – ele perguntou enquanto os dois saiam da sala.
- Quero sim, não vou negar – ela respondeu dando um sorriso.
- Você foi aceita na UCLA, está em Los Angeles e quer voltar para casa? – Kurt disse em um tom jocoso – Eu jamais vou te entender.
- Você não precisa entender – ela disse, mas parou de falar quando se deparou com a situação em sua frente.

Kurt continuou falando, mas travou no lugar enquanto via Kallum, seu recente ex-namorado, beijando uma ruiva no meio do campus, sem se importar com os olhares. Ele sabia que o prédio de cinema era logo ali atrás, sempre ia encontrá-la naquele mesmo gramado. Era óbvio que ele havia feito aquilo para provocar, como um bom garoto de fraternidade que era. O que tinha na cabeça quando aceitou namorar aquele babaca? Ela não podia negar que começar as férias com aquela cena era de cortar o coração, e foi inevitável sentir os olhos cheios de lágrimas. Kurt segurou em seu braço e a puxou na direção oposta, enquanto Kallum continuava beijando a garota.

- , eu sinto muito – o amigo disse, mas foi cortado.
- Mierda! – gritou enquanto se apoiava na parede do prédio – Babaca, por que eu namorei aquele nojento, Kurt?
- Porque os seres humanos fazem coisas estúpidas – ele respondeu, dando um sorriso – Não deixe esse embuste acabar com suas férias que estão apenas começando, ouviu?
- Eu nem vou para essa festa mais, se isso acontecer, não quero ser patética e chorar mais uma vez – disse, dando um suspiro.
- Eu vou fingir que não ouvi isso – Kurt disse, abraçando a amiga – Meu bem, você sabe por tudo o que você passou com ele. Todas as traições, todas as mentiras e como isso te deixou para baixo.
- Eu sei.
- Você vai deixar aquele babaca te derrubar mais uma vez? – ele disse, encarando a melhor amiga – Já passou.
- Você está certo – ela disse, dando um sorriso mínimo – Eu vou para essa festa e esquecer esse hijo de puta.
- Essa é minha melhor amiga que eu amo! – Kurt disse, sorrindo, e eles foram andando para a direção oposta.

entrou no prédio do dormitório feminino e enquanto pegava o elevador para ir até seu quarto, ela notou o caos do salão principal. Muitas meninas bebiam e dançavam, comemorando o final das aulas, e outras já puxavam suas malas para irem embora. O elevador fechou e quando abriu encontrou algumas de suas amigas conversando no corredor.

- ! – Bella gritou, caminhando até ela já um pouco bêbada – Você vai à festa hoje, certo?
- Claro! – ela respondeu sorrindo – Não perderia por nada.
- Todas nós estamos te esperando lá – Amy gritou da outra ponta do corredor – A semana de festas vai ser maravilhosa!

continuou andando e abriu o dormitório que dividia com mais duas colegas, Joy e Chris, encontrando o ambiente vazio. Jogou a mochila em um canto qualquer e subiu as escadas de seu beliche, deitando e sentindo o ar fresco vindo do ar-condicionado. As aulas finalmente tinham acabado e ela finalmente voltaria para o norte de Cali, em sua querida San Jose, onde morava com o pai, Marcus. Seu celular tocou e era uma mensagem de Kurt:

Já prepare teu fígado, garota. Hoje nós vamos beber até esquecer o nome!

Ela deu risada, mas decidiu que responderia depois. Foi para a próxima mensagem e era de seu pai. Marcus, sempre prezando pela manutenção da cultura mexicana, mandou a mensagem em espanhol (n/a: apesar de dizer que pai e filha se comunicam em espanhol por causa de suas origens, hábito muito comum nas comunidades latinas nos Estados Unidos, deixarei em português para facilitar a leitura) :

Mi hija, papai sente saudades! Já preparei tudo para te receber, tua vovó está vindo do México para te ver nessas férias. Também já comprei as comidas que você mais gosta. Venha logo para casa. Te amamos!

sorriu feliz e respondeu que iria para San Jose no próximo dia, já até tinha comprado a passagem de ônibus. Ela era muito apegada ao seu pai, sua única família nos Estados Unidos. Seu coração doeu quando ela teve que mudar para LA, mas Marcus disse que estava tudo bem, que ele estava orgulhoso e que daria tudo certo. Contudo, uns meses antes ele tinha descoberto um câncer no pulmão e agora lutava contra a doença, deixando a decisão de cada vez mais difícil de ser cumprida. Marcus não deixou a filha abandonar a universidade, ele não permitiria que seu grande orgulho perdesse a vaga em uma das melhores universidades do país. Então, na primeira oportunidade, pegava o ônibus e depois de quase sete horas de viagem, ela voltava para a casa.
Como a festa só seria à noite, ela resolveu assistir um dos filmes de que o professor tinha falado na aula, pegou o notebook e deu play em um dos poucos filmes do ator. nem se deu conta quando foi que dormiu, mas apagou minutos depois e acordou quando já estava escuro, com Joy a cutucando.

- Acorda, mocinha – ela disse e > abriu os olhos – Nós temos uma festa para ir.
- Quanto tempo eu dormi? – perguntou confusa e olhou o celular, vendo que eram quase sete horas – Nossa, dormi demais.
- Vai logo se arrumar, que Kurt já está vindo – Joy disse descendo da escada e saindo andando pela porta aberta.
A noite estava quente naquele verão, então escolheu uma roupa confortável e fresca para aquela ocasião. Um short jeans claro de cintura alta e um top cropped florido, junto da sapatilha nos pés, deixou a garota se sentindo bonita, mas confortável. Guardou o celular no sutiã, junto com o dinheiro e um documento e ficou esperando na frente do prédio junto com as amigas. Como prometido, Kurt chegou fazendo barulho para buscar as meninas. Elas entraram no carro e foram para a praia mais próxima, onde seria a festa que já tinha começado. ficou com calor só de olhar o tanto de pessoas que dançavam na areia. Kurt estacionou o carro longe e todos foram andando até o local onde a música alta envolvia a todos. Joy foi para um canto, Chris para outro e somente e Kurt ficaram perambulando juntos pelo lugar. Toda a decoração era feita em azul, a cor da UCLA, haviam bolas de praia sendo chutadas para todo o lado, o DJ estava em um pequeno palco longe da areia e os alunos se divertiam como se aquela fosse a última festa de sua vida.

- Olha, eles tem tequila! – Kurt disse e os dois caminharam até um grupo de universitários que bebiam shots de tequila com sal e limão.
- Nós vamos ficar tão bêbados hoje! – disse dando risada, mas já preparando o sal e o limão na mão.

A festa continuou rolando e, cada vez mais, ficava bêbada. Ela já ria sem motivo nenhum, seus movimentos já estavam descoordenados e ela caiu na areia tantas vezes que mal conseguia se lembrar. Kurt já havia sumido, indo beijar um garoto qualquer nas pedras, então agora ela estava sozinha dançando na pista. Um rapaz se aproximou por trás, dançando com ela, e a virou para olhar seu rosto. Ele tinha a pele negra e grandes lábios que chamaram a atenção de rapidamente. Eles dançaram mais um pouco e logo estavam trocando beijos molhados no meio da praia. Rápido como veio, ele foi e estava sozinha novamente. Encontrou Amy, sua amiga do dormitório com uma garrafa de José Cuervo pela metade e roubou a garrafa da garota, indo sentar na frente do mar para apreciar o céu iluminado pela lua cheia.

- Eu queria conhecer o – ela disse sozinha – Ele era tão lindo, o . Ele seria meu, só meu – deu uma pausa para dar um gole na tequila – Ele não iria me magoar, não seria um BABACA IGUAL AO KALLUM! Ele seria meu amor e só meu. – começou a rir do quão patético estava sendo aquela cena de desejar um ator – Eu só queria ir para casa.

passou a festa toda sendo forte, mas naquele momento o álcool a fazia externar seus sentimentos mais profundos e ela se sentia sozinha. Nunca havia admitido para ninguém, mas ela tinha genuinamente amado Kallum. Tinha entregado seu coração para ele como nunca tinha feito antes e escolheu ignorar os avisos que sua cabeça e seus amigos davam sobre ele. No final, Kallum era apenas mais um garoto que não sabia lidar com os sentimentos de outras pessoas. Ele terminou com ela dizendo que o namoro tinha sido um “experimento social” e que finalmente ele entendia que não era alguém para namorar. As lágrimas de tristeza e de bebida caíram dos olhos da mulher e ela suspirou, tomando mais tequila enquanto observava o mar. A festa continuava atrás dela, mas já não importava mais. O calor aumentava e decidiu tomar um banho de mar na água quente do pacífico. Ela tirou os sapatos, deixou a garrafa de José Cuervo na areia junto com o celular e caminhou devagar até a beira da praia sentindo a água fresca molhar seus pés. Um vento bateu bagunçando seus cabelos escuros. Devagar, começou a entrar no mar sem ninguém ao menos perceber o que ela estava fazendo. A água esfriava seu corpo e sua visão turva por causa do álcool não ajudava na orientação, mas ela parou quando sentiu a água bater em seus seios. A mulher mergulhou e molhou os cabelos, ficando submersa por alguns segundos. A lua cheia iluminava tudo e quando levantou, ela conseguia enxergar perfeitamente o mar a sua volta.
Tudo aconteceu muito rápido, uma onda veio de repente e fez afundar. Seus sentidos estavam lentos por causa da bebida, então ela demorou em emergir, mas quando o fez, foi arrastada para mais longe por outra onda. O pânico começou a invadir o coração da garota, que batia desenfreado tentando sobreviver. Ela tentou voltar para a superfície, mas uma coisa chamou sua atenção: do lado de fora, o céu tinha mudado subitamente de cor, deixando a escuridão para um tom bem claro, como o nascer do sol, e não estava ali há tanto tempo ou já teria morrido. Bateu os pés o máximo que conseguia, já que a dormência estava vindo aos poucos, e conseguiu colocar a mão para fora, somente para ser encoberta de novo por mais uma onda. Ela iria morrer no mar. Seus olhos foram fechando e seus pulmões ardiam cada vez que ela engolia mais e mais água. O afogamento era eminente, então apenas fechou olhos e continuou tentando subir, mas o mar a empurrava cada vez mais para baixo. O silêncio das águas transmitiu uma paz que fez com que a mulher parasse de se debater tentando subir para a superfície. Pensou em seu pai e como seria triste deixá-lo sozinho, mas ali descendo cada vez mais para o fundo do mar, ela não sentia medo. Os braços do oceano a deixaram calma. Então, era isso. Morrer no mar parecia doce*, afinal.

A manhã vinha devagar para aquele rapaz que observava o amanhecer na praia. Ele fumava um cigarro calmamente, enquanto pensava nos acontecimentos da noite anterior em que o tinha deixado. Ela era uma garota religiosa e ficar com era ir contra tudo o que sua mãe católica a havia ensinado. Ela tinha chorado enquanto se despedia, mas ele não quis ouvir muito. Gritou para que ela fosse embora e jurou que nunca mais olharia na cara dela. A partida de tinha deixado o rapaz abalado e ele só queria correr sem ter hora para sair do carro. Ele suspirou e deu mais um trago, enchendo os pulmões de fumaça, quando percebeu uma movimentação estranha no mar. O rapaz era extremamente míope, então pegou seus óculos no porta-luvas do carro e esperou para ver se algo aparecia no meio das ondas mais uma vez. aguardou e rapidamente uma mão apareceu na superfície, afundando logo em seguida.

- Oh, Deus, tem alguém ali – ele disse, jogando os óculos no banco do carro, enquanto corria em direção à água o mais rápido que podia.

entrou no mar sem pensar duas vezes e nadou na direção onde ele tinha visto a mão misteriosa. O mar estava bravo e mandava ondas em sua direção, mas ele abaixava e voltava a procurar, até que viu longos cabelos escuros em volta do rosto de alguém. Ele mergulhou mais uma vez e puxou o ser humano para cima, só para perceber que era uma mulher. Foi difícil, mas ele conseguiu sair do mar com ela e a deitou na areia, fazendo respiração boca a boca logo depois. A garota cuspiu água e abriu os olhos, focando sua visão no céu acima deles. esperou pacientemente enquanto ela se acostumava com o ambiente, até que finalmente colocou seus olhos nele.

- Oi, eu sou – ele disse – Está tudo bem agora, eu tirei você da água.

Ela não disse nada nos minutos seguintes, somente sentou, olhando ao redor com uma expressão de confusão completa. notou que ela usava umas roupas estranhas e que mostravam muito seu corpo. Um short de banho feito de jeans, o que ele achou bem incomum, e uma blusa que nem cobria seu tronco completamente, deixava seus braços e seu busto a mostra, fazendo se perguntar de onde ela tinha vindo.

- Está tudo bem. – ele repetiu, dando um sorriso vacilante enquanto ela o encarava seriamente.
- Você é – ela disse compenetrada e ele deu um sorriso de lado.
- Sim, eu sou, e você é...? – ele perguntou.
- – ela respondeu – Mas pode me chamar de .
- , nós precisamos ir ao hospital ou achar a tua família – ele disse e levantou, a puxando pela mão para cima. Ela ainda estava confusa.
- Em que ano estamos? – ela perguntou observando o ambiente – Ontem, eu estava em uma festa da universidade bem aqui. Eu devo ter morrido e cheguei ao céu.
- Estamos em 1954 – respondeu, dando uma risada pelo que a garota havia dito – Você não morreu, olha, pega no meu braço.

percebeu a confusão no rosto da garota triplicar quando ela sentiu a pele fria de seu pulso. Ela estava à beira de um colapso, isso era evidente, e ele não tinha ideia do que fazer.

- Você tem família por aqui? – ele perguntou.
- Meu pai mora em San Jose – ela respondeu vagamente – Mas eu não vou conseguir achá-lo agora. Como eu vim parar aqui?
- Eu estou aqui desde as cinco da manhã e o mar estava calmo, mas se tornou violento de repente – ele explicou – Você deve ter sido trazida de outra praia para cá.
- Isso é loucura, não pode estar acontecendo – ela disse de repente – O que eu estou fazendo aqui? Eu devo ter morrido ou estou sonhando.
- , você não está – disse mais uma vez, mas já estava perdendo a paciência – Olha, vamos ao hospital aqui perto.
- Não, sem hospital – ela disse de repente e ele percebeu pânico em seu olhar – Quero dizer, eu não tenho documentos. Acho que o mar levou meus pertences, eles estavam no meu sutiã.
- Você é uma imigrante? – ele perguntou de repente, ignorando a resposta da garota que parecia muito confusa – Tudo bem, pode confiar em mim.
- Pode-se dizer que sim – ela respondeu vagamente – Eu não acredito nisso.
- Olha, você tem algum lugar para ir? – perguntou.
- Na verdade, não – ela disse – Eu só tenho minha roupa do corpo.
- Tá legal, eu estou gravando um filme aqui perto, posso te levar para o estúdio, com certeza tem roupas para você. – ele disse e começou a andar em direção ao carro. não podia fazer nada além de segui-lo.
- Esse é o Little Bastard? – ela perguntou maravilhada, enquanto encostava a mão no conversível, como se aquilo fosse uma relíquia.
- Você é alguma fã ou coisa assim? – perguntou surpreso.
- Eu estudo cinema – ela respondeu, abrindo a porta e sentando no banco do passageiro.
- Você também é atriz? – ele perguntou enquanto dava partida no carro.
- Não, eu quero ser diretora mesmo – ela respondeu, percebendo como realmente corria. A História não mentira em relação a isso.
- Você? Uma garota? – ele perguntou confuso.
- Por que a surpresa? Até parece que você nunca conheceu uma diretora – ela retrucou, mas percebeu a confusão aumentar. – Melhor eu não ser anacrônica.
- Você não é daqui, não é? – ele perguntou dando um sorriso enquanto acelerava mais.
- Não – ela respondeu com uma expressão chorosa – Eu realmente não sou daqui.

dirigia rapidamente e em pouco tempo chegou ao estúdio, entrando com o Little Bastard pela portaria. O local estava vazio, somente com funcionários da limpeza varrendo o lugar ou tirando o lixo. estacionou o carro e saiu, indo em direção à porta de , mas ao chegar, ela já estava saindo do carro. Ele estranhou, afinal, era conhecido de todos que a porta era sempre aberta pelo rapaz, mas resolveu não dizer nada. Olhou para ela, que continuava com o corpo quase totalmente descoberto e pegou a jaqueta do banco de trás, estendendo para .

- Tome, coloque isso aqui – ele disse e ela segurou a jaqueta, um pouco confusa – Você está sem sapatos.
- Eu não estou com frio. – respondeu.
- Eu sei, mas você está muito pelada – respondeu e ficou surpreso ao ver a garota revirando os olhos – O que foi?
- De onde eu vim você tomaria uma bela bronca de qualquer mulher se dissesse isso – ela respondeu, mas colocou a jaqueta que cobriu seus ombros e braços.
- Você é estranha, garota – ele disse, dando um sorriso de canto – Vamos, eu preciso de um banho também.

Eles caminharam rapidamente até um trailer que estava estacionado perto de um estúdio e empurrou a porta, dando passagem para entrar primeiro. Era um espaço pequeno que continha uma pequena sala/cozinha, um quarto e um banheiro minúsculo. olhou ao seu redor e só encontrou garrafas de bebidas, vários cinzeiros cheios e um cheiro de perfume masculino misturado com tudo isso. Havia um bongo jogado em um canto e uma vitrola com alguns discos.

- Eu uso isso aqui às vezes, mas tenho minha casa em São Fernando Valley – explicou – Eu vou deixar você tomar banho primeiro, enquanto isso eu vou buscar alguma roupa para você. Deve ter um figurino por aí.
- Tudo bem, obrigada. – ela respondeu tirando a jaqueta e colocando em cima de uma cadeira.

Assim que bateu a porta, perdeu as forças nas pernas e caiu no chão enquanto chorava. O que estava acontecendo? Como ela tinha ido parar ali? Ela estava morta, era a única explicação plausível. Ela tinha morrido e agora estava em seu paraíso pessoal como tinha visto em Supernatural uma vez. Ela não tinha conseguido falar com seu pai naquele dia e agora se sentia culpada por não ter dito que o amava uma última vez. Deveria ao menos ter ligado para ele, não mandado uma mensagem de texto idiota. Aquilo era loucura, não era? Ela sempre imaginou o paraíso de outro jeito, ela poderia ir em busca de sua mãe, não poderia? Contudo, antes de fazer isso ela precisava ter certeza de que tinha morrido. Havia um maço de cigarros em cima da mesa junto com um isqueiro e a ideia surgiu rapidamente em sua cabeça. Tinha ouvido a vida inteira de que no paraíso não havia dor, então acendeu o cigarro e o aproximou de sua pele do pulso e, para a sua surpresa, sua pele ardeu imediatamente.

- Eu não estou morta – ela disse apagando o cigarro e levantando para ir até a pia, deixar a água escorrer pelo ferimento – Puta Madre! O que está acontecendo? Se eu não estou morta, então como eu vim parar aqui?

Foi tirada dos seus pensamentos com entrando com um saco de roupas nas costas. Ele colocou em cima da mesa e deu um suspiro, rapidamente percebendo segurando o pulso.

- O que houve? – ele perguntou se aproximando e segurando o pulso da garota com delicadeza – Você fez isso?
- Precisava testar uma coisa – ela explicou vagamente e ele decidiu que não entraria em detalhes.
- Bem, o banheiro é pequeno, mas você pode tomar banho, eu espero do lado de fora – ele disse dando um sorriso enquanto pegava o maço e o isqueiro – Qualquer coisa me chame.
- Obrigada, – ela disse dando um sorriso.

A água quente bateu em suas costas e pôde relaxar um pouco. Seu corpo estava tenso e ela só queria voltar para a casa, mas como faria isso se ainda não tinha ideia de onde estava? Ela não tinha morrido no mar e ao chegar a essa constatação também se lembrou da mudança repentina na cor céu quando estava submersa. havia dito que estavam em 1954 e a única solução para aquilo era que havia voltado no tempo. Ela deu uma risada perplexa, achando loucura de tudo aquilo, mas ela sentia o piso debaixo dos seus pés, sentia a água quente batendo em suas costas e o cheiro de cigarro que invadia até mesmo o banheiro. Ela havia conversado com há poucos minutos, havia sentido sua pele, sua respiração quente e seu cheiro. Como aquilo poderia ser uma alucinação? Tudo aquilo era real e não tinha ideia do que fazer. Como voltar para 2015? Por que ela estava ali? Por que tinha conhecido logo o ? Por Deus, ela estava estudando sobre ele naquele mesmo dia!
Terminou seu banho e se enrolou em uma toalha que estava pendurada na porta, saindo do pequeno banheiro, indo dar uma olhada nas roupas que havia escolhido. Não havia calças naquele bolo de roupa, somente vestidos ou saias, além de anáguas para dar volume nas roupas, uma calcinha gigante, um sutiã estilo Marion Crane de Psicose e sapatos de salto médios. Ela suspirou e escolheu um vestido azul de botões na frente e que possuía uma gola parecida com aquelas de camisa polo. Deixou seus cabelos molhados soltos e saiu do trailer, encontrando sentado na escada com um cigarro na lateral dos lábios. Ele era realmente sexy. O rapaz levantou e observou por inteiro antes de dar um sorriso para ela.

- Você está bonita. – ele disse dando um trago no cigarro logo depois.
- Obrigada, – ela respondeu retribuindo o sorriso – Eu espero aqui fora.
- Tudo bem, se alguém te perguntar diz que você é minha namorada – ele a instruiu – Eles vão entender.
- Tudo bem – ela sorriu e deu passagem para ele.

O sol já tinha nascido completamente e sentou no mesmo lugar em que estava para esperar o rapaz. Ela suspirou e novamente se perguntou se aquilo tudo era real, mas o sol queimando sua pele de um jeito aconchegante deixava claro que aquilo não era um sonho. observava os estúdios ao redor, distraída, quando a porta do trailer foi aberta e apareceu com uma calça jeans azul e uma blusa branca.

- Lana Del Rey teria um treco agora – ela comentou.
- O quê?
- Nada. – ela respondeu, dando um sorriso.
- Você está com fome? – ele perguntou – Tem um café aqui perto, nós podemos comer alguma coisa.
- Eu iria adorar, bebi muito ontem e estava de estômago vazio – ela explicou e o acompanhou até o carro.
- O que você bebeu? – ele perguntou casualmente.
- Tequila – ela respondeu e ele riu – Desilusão amorosa, conhece?
- Como ninguém – ele respondeu e deu partida no carro – Acabei de ser deixado pela minha namorada porque eu não sou o cara que a mãe dela quer.
- Isso é triste – comentou – Muito triste.
- Agora não importa mais – ele respondeu enquanto dirigia – Eu espero que ela queime no inferno.
- Não deixe essa garota ouvir isso, caso contrário, você não terá outra chance – ela disse distraída enquanto encarava o rosto do ator.
- Eu realmente não me importo mais, – ele disse a encarando – deve ficar no passado.

percebeu que apesar de sua beleza, que jamais poderia ser ignorada, carregava uma melancolia em seu peito. Ele era triste, afinal de contas. Um coração partido era só o que ele carregava, além de um maço de cigarros e um isqueiro. Apesar de ter vindo de outra época – teoria que mais se encaixava em sua cabeça, já que aparentemente ela não havia morrido –, ela não era fã do artista, havia visto um dos seus filmes, mas nunca pesquisou sobre sua vida, só sabia que ele tinha morrido muito cedo. Ela sempre se interessou por filmes mais desconhecidos, como a boa estudante clichê de cinema que era. O que a mulher sabia do ator era a imagem que ele sempre passou, sexy e badboy, mas ali diante dela, a única coisa que enxergou foi a solidão. suspirou encarando o horizonte e encarou com o olhar mais triste que ela já tinha visto.


Morrer no mar parecia doce*, afinal: trecho inspirado na música É Doce Morrer no Mar de Dorival Caymmi.


Capítulo 2: Fame, liquor, love*

nunca tinha visto uma mulher comer tanto como estava fazendo naquele momento. Ele jamais iria comentar, mas quando ela disse que não tinha dinheiro e ele se ofereceu para pagar o café da manhã, não tinha ideia de que ela iria pedir tanta coisa. Ovos beneditinos, bacon, panquecas e um pedaço de torta de morango junto com um café puro foram somente o que ela tinha pedido. se contentou com panquecas e um café expresso e ficou observando comer. Ele deu um sorriso entretido que não passou despercebido pela mulher.

- O que foi? – ela perguntou depois de dar uma garfada nas panquecas.
- Você come bastante, as mulheres que eu conheço só ficariam nos ovos beneditinos – ele explicou e ela deu um sorriso.
- Bom, depois de ter bebido e quase morrido no mar, a fome bateu muito forte – ela disse e riu – Isso é quase uma larica.
- ! – disse a repreendendo – Não se fala esse tipo de coisa tão alto.
- Oh, desculpe – ela disse já fazendo uma nota mental para não esquecer que eles estavam em 1954 e não em 2015. – De onde eu venho, falar sobre isso é comum.
- Não sabia que San Jose era tão “pra frente” assim – ele comentou e ela riu.
- Pois é, menino – ela disse e deu um sorriso – Obrigada, .
- Pode me chamar de – ele disse – Você já sabe o que vai fazer depois daqui?
- Bom, não. – ela disse e sentiu medo – Eu não tenho para onde ir.
- Como você veio parar em LA? – ele perguntou interessado.
- Eu faço faculdade na UCLA, estava na praia em uma festa e...
- UCLA? Não sabia que eles tinham cinema lá – disse.
- Bem, é um curso novo – ela mentiu – Eu achei que seria uma boa ideia nadar estando bêbada e me afoguei.
- Você não tem ninguém em LA? – ele perguntou – Ninguém que você possa ligar?
- Não, eu estou sozinha – ela respondeu e sentiu uma vontade de chorar – O que eu vou fazer? Como eu vim parar aqui?
- Olha, eu posso te ajudar, posso te levar na UCLA, pelo menos você tem seu dormitório – sugeriu.
- Isso não vai ser possível – Denna disse rápido demais.
- Por que não?

Ela não sabia o que responder. Como dizer que provavelmente tinha vindo do futuro? acharia que ela era louca, e com razão. Teria que inventar uma desculpa ou dizer a verdade, mas assim, sob pressão, a mulher não conseguiu pensar em nada, então disse a primeira coisa que veio à mente:

- Eu vim do futuro, me afoguei em 2015 e vim parar em 1954. Não tenho documentos porque eu não existo aqui, eu sou do século XXI – ela respondeu e por alguns segundos não fez nada, mas depois arrebentou em uma gargalhada gostosa.
- Você é louca, menina – ele disse rindo – Todo mundo sabe que o mundo vai acabar quando chegar aos anos 2000. Se você não quer me contar, tudo bem. Cada um tem sua própria história.
- Obrigada por entender – disse e sorriu.

Eles ficaram em silêncio e ficou observando , que ainda comia. Seus cabelos já não estavam tão molhados e sem estar com a maquiagem toda borrada, ele pôde perceber algumas olheiras no rosto. Ele estava morrendo de curiosidade para saber quem ela era, de onde tinha vindo, o que estava fazendo ali. Contudo, sabia que deveria esperar o tempo da mulher, eles tinham acabado de se conhecer, ela não era como ele que depois de três doses de vodka já estava contando sua vida inteira para um estranho no bar. Ele sabia que deveria se afastar dela, poderia ser perigosa, suas histórias estavam confusas, ela poderia muito bem ser uma sequestradora, mas ele já tinha trazido a garota para seu trailer, se ela fosse perigosa tinha deixado passar vários momentos de roubá-lo ou machucá-lo. E sendo bem sincero, não era daqueles certinhos, “quadrados”, sempre foi fã do perigoso, do arriscado, vivia pelas suas corridas e não seria agora que iria dar para trás.

- Você pode ficar comigo, por enquanto – ele disse de repente e o encarou – Até você, sei lá, decidir o que vai fazer da sua vida.
- Isso é sério? Você não me conhece – ela disse para a surpresa dele.
- Eu posso dar conta de você se tentar me atacar – ele disse a olhando de cima a baixo e ela riu.
- Eu vou aceitar – ela disse e apontou para ele com o garfo – Mas somente porque se você não fizesse isso, eu viraria uma dos diversos mendigos que habitam LA.
- Fico feliz por ser teu único recurso – ele respondeu e eles riram juntos.
- Obrigada, – ela sorriu – Pra onde iremos agora?
- Bom, eu preciso de um cochilo antes de ir gravar – ele disse – Sabe como é, passei a noite toda acordado implorando para minha namorada não me deixar.
- O que não deu muito certo – ela disse e ele ficou surpreso, mas riu logo depois.
- Você é bem rápida nas respostas, não é? – ele comentou – Já terminou de comer? Eu vou te deixar no trailer.
- Sim, eu já terminei – ela respondeu e depois de jogar umas notas na mesa, os dois saíram do dinner, não sem antes dar uma boa olhada na garçonete, que ficou vermelha com o olhar do rapaz.

Os dois entraram no carro e, assim que deu partida, acelerou e começou a correr pelas avenidas de LA. se segurava no banco e fazia uma prece baixinha, não queria morrer no passado. olhou para a mulher ao seu lado e, ao ver o pânico em sua expressão, deu um sorriso de lado. Ele acelerou mais e percebeu que a mulher xingou baixinho.

- Está tudo bem, ? – ele perguntou, segurando a risada. - Claro, claro – ela respondeu – Seu carro, suas regras.
- Você não gosta de velocidade? – ele perguntou enquanto trocava de marcha. O Little Bastard parecia uma bala cortando pelos carros que buzinavam.
- Não é muito minha praia – ela respondeu e xingou mais uma vez quando desviou de um carro bem a tempo de evitar uma batida – Meu Deus, , você não tem medo de morrer, não?
- Se eu morrer correndo, saberei que estarei partindo feliz – ele respondeu, dando um sorriso para a mulher.

não respondeu, mas deu uma risada, achando a ideia louca. Tentou se lembrar de como tinha morrido, mas não vinha nada em sua mente. Sabia que o professor tinha dito alguma coisa sobre isso na última aula, mas a impressão que tinha era que a informação tinha sido apagada de sua mente. Ela encarou o jovem rapaz tentando se lembrar, mas não obteve sucesso.

- Eu espero que isso não aconteça agora – ela disse – Senão terei que ir para a rua.
- Obrigada por me considerar tanto, respondeu e eles riram – Você realmente sabe como valorizar as pessoas.
- Só estou dizendo a verdade – ela respondeu e sorriu para o rapaz.
- Chegamos.

estacionou o carro ao lado do trailer e saiu, batendo a porta em seguida. O rapaz caminhou até o trailer, acendendo um cigarro e dando um trago. Subiu as escadas e entrou no trailer, sendo seguido pela mulher. Pela primeira vez, ele notou que aquilo estava uma bagunça. Abriu as janelas e o ar circulou, levando o cheiro de cigarro embora.

- Isso está uma bagunça – ele disse e coçou a cabeça, envergonhado.
- Não, só explicita bem que você precisa ter mais hábitos saudáveis – ela brincou – Eu perdi a conta de quantos cigarros tem aqui.
- Ei, você não pode chegar aqui e acabar comigo desse jeito – retrucou e se sentou em frente a – Eu não tive muito tempo de arrumar aqui. Ou qualquer lugar. Minha mãe ficaria tão brava se visse minha vida agora.
- Eu sempre fui organizada. Perdi minha mãe muito cedo, então eu e meu pai tínhamos que dar conta das coisas sozinhos – explicou – Tive que aprender bem cedo a me virar.
- O que seu pai faz? – ele perguntou e apagou o cigarro no cinzeiro na frente deles.
- Ele é mecânico, tem três oficinas em San Jose – ela explicou.
- Isso é bem legal – comentou.
- É, mas agora, por conta do câncer, ele teve que desacelerar um pouco – disse – Muito tempo na quimioterapia.
- Eu perdi minha mãe para essa doença maldita também – disse – Fui morar com meus tios depois. Meu pai achou que eu precisava passar um tempo no meio do mato.
- E isso te ajudou?
- Sim, eu aprendi a dirigir, andar a cavalo e a não ter medo de trabalho pesado – ele explicou e deu um sorriso de lado – O que me ajudou quando eu fui para New York.
- Você foi?

Os dois continuaram a conversar, compartilhando aspectos da vida de cada um. tentava adaptar suas informações, omitindo fatos históricos para que não percebesse. Ela descobriu que, apesar de pouca idade, ele já tinha feito bastante coisa na vida e agora finalmente tinha conseguido um papel importante no cinema, depois de peças fracassadas e participações em filmes que não tiveram relevância. Ele era muito calmo quando falava, pôde notar e apostava que era aquele que se mantinha são em tempos de crise. Contudo, a tristeza ainda estava no fundo de seu olhar e aumentou ainda mais quando se lembrou de um episódio triste de sua carreira.

- Eu fui conhecer certo ator importante – ele começou a contar – Eu tinha o maior respeito por esse cara, era um dos meus maiores ídolos – parou o relato para ir até a pia e encher um copo com água. Deu um gole, limpou os lábios com as costas da mão e voltou a falar – Minha agente, Jane, tinha conseguido esse encontro e eu fui lá querendo dicas, iria contar que ele era minha grande inspiração. Só que ele assim que me viu, zombou de minhas roupas, fazendo todos ao redor rirem de mim por causa do meu jeans surrado e da minha camisa de botão. – ele parou de falar e sentou novamente – Isso pode parecer bobo, mas imagine-se só. Você vai conhecer seu maior ídolo e ele te menospreza, rindo de você.
- Eu entendo, isso pode acabar com qualquer pessoa – disse e deu um sorriso triste – Eu teria chorado.
- Bom, eu não chorei – ele disse – Mas saí de lá com a moral mais baixa. O problema dos atores é que eles se acham deuses quando alcançam um ponto da carreira.
- Você tem que tomar cuidado para não se tornar como eles. – ela advertiu, mas se limitou a dar um sorriso e dizer com a voz mais gentil:
- Eu jamais vou me tornar como ele.

O assunto continuou e cada vez mais descobria que embaixo de toda aquela solidão, havia um rapaz engraçado que adorava contar histórias. O tempo foi passando e, entre cigarros, descobria um pouco mais sobre aquela garota que tinha vindo do mar. Ele sorria toda vez que ela se empolgava com um assunto e não parava de falar. era diferente demais do resto do mundo e ele se sentia grato por ela ter aparecido logo quando ele estava na praia. Ter ido observar o mar chateado tinha dado resultados, afinal de contas. A conversa foi interrompida com batidas na porta do trailer.

- Ué, quem será que é? – ele disse e se levantou indo até a porta – Daisy?
- Senhor , você está atrasado para as gravações – a garota disse e arregalou os olhos.
- Que horas são? – ele perguntou e foi até onde estava – Droga, eu fico sem óculos e não consigo nem enxergar o relógio.
- Desculpa, falou – Se eu soubesse o horário que você precisava sair, eu teria te avisado.
- Não, você não tem culpa de nada – ele rebateu – Um minuto, Daisy!
- O senhor Elia me pediu para vir te buscar – a garota disse.
- Droga, droga! – resmungou enquanto colocava os sapatos – , você pode ficar – ele tirou um dinheiro do bolso e jogou na mesa – Se tiver fome, vai comprar comida, tem um restaurante aqui perto.
- Tudo bem, eu me viro – ela respondeu – Desculpa por te atrasar.
- Não precisa pedir desculpas – ele disse – Até mais tarde.

O rapaz saiu apressado, batendo a porta, e se viu sozinha ali. Conversando com , ela tinha se esquecido de sua situação indefinida. Ela deu um suspiro e pensou mais uma vez no que iria fazer, o motivo de ter ido parar em 1954. Sua cabeça fritava toda vez que ela tentava entender e piorava quando ela via que não tinha explicação nenhuma. Ela precisava voltar para casa, precisava voltar para seus amigos e, principalmente, precisava voltar para seu pai, que agora estava sozinho. Naquela hora em 2015, ela estaria em um ônibus para casa, mas agora estava ali em LA, sessenta e um anos antes, em um trailer de um ator em ascensão. Pensar em seu pai, tentando ligá-la, preocupado, só piorou as coisas e nem percebeu quando começou a chorar. sentia medo. Medo de não conseguir voltar para sua época, medo de nunca mais ver seus queridos, medo do que iria fazer nos próximos dias, afinal, não poderia ficar no trailer de para sempre. Porém, ela não podia ficar parada sentindo medo, precisava fazer alguma coisa, nem que fosse limpar o trailer todo para distrair sua cabeça. Ela olhou ao redor e começou a abrir os armários, procurando pelo menos um produto de limpeza que fosse e achou somente um desinfetante de uma marca que provavelmente tinha falido, já que não existia em 2015. Decidiu que faria uma boa ação para , que a tinha acolhido sem perguntar muita coisa. Aquele vestido estava incomodando, então achou uma camiseta de jogada em cima da cama e pegou seu short que estava usando quando se afogou e decidiu que daria um jeito naquele trailer. Faxina sempre era boa com música, então colocou um disco do Johnny Cash na vitrola e começou a limpeza. Todos os cinzeiros foram esvaziados, as garrafas foram para um saco de lixo e a louça foi lavada. O chão foi limpo também e a mesa foi quase lavada para tentar ficar sem as marcas de copo que tanto detestava. Trocou o lençol da cama e colocou o outro para lavar. Depois organizou as bebidas do rapaz e até limpou o fogão, que não parecia ser muito usado. Quando estava tirando o lençol da máquina e passando para a secadora, ouviu a porta batendo.

- O que aconteceu aqui? – disse e se virou para olhar o rapaz que encarava o ambiente surpreso.
- Bem, eu limpei tudo – ela disse o óbvio e ele riu.
- Eu sei, mas por quê? – ele perguntou – Você até trocou a roupa de cama!
- Eu não tinha nada para fazer e queria retribuir o que você está fazendo por mim – ela explicou, dando um sorriso – Eu coloquei o lençol para lavar.
- , uau! – ele disse dando o sorriso – Você não precisava fazer isso, eu iria mandar alguém aqui nos próximos dias.
- Eu não pude evitar, sou um pouco Monica Geller – ela disse.
- Quem? – perguntou, confuso, e mais uma vez percebeu a burrada.
- Uma amiga minha que ama limpeza – ela mentiu e ele sorriu, vindo até ela.
- Você ficou bem com minha camiseta – ele disse e abraçou apertado – Muito obrigada, .
- Não precisa agradecer – ela disse e o soltou – Gostou? – ela disse apontando para camiseta – Eu fico bem em camisetas masculinas.
- Você pode usar as minhas quando quiser – ele brincou e se sentou, olhando de cima a baixo e depois voltou seu olhar para a mesa – Olha, você tirou as marcas de copo.
- Sim, você precisa comprar descansa copos, URGENTE! – ela respondeu e ele riu – E mais cinzeiros.
- Anotado, senhorita – respondeu – Agora eu devo retribuir esse favor, certo?
- E como você vai fazer isso? – ela perguntou.
- Nós temos uma festa para ir – ele disse – Vai ser na casa de um produtor importante daqui, Gabe alguma coisa, e Jane acha que é importante que eu vá.
- Eu não posso ir, disse – Eu não tenho roupas, não sou ninguém.
- Para com isso, você está comigo – ele retrucou – Outra coisa, eu trouxe um saco de roupas para você, algo vai servir. Inclusive perguntaram sobre essas roupas no set, eu fingi que não sabia de nada.
- Você é louco! – disse e eles gargalharam juntos – Eu não posso dizer quem eu sou.
- Diga que você é minha namorada, isso vai deixar muito brava – ele comentou dando uma risada.
- Como você é evoluído, – ela disse e revirou os olhos – Vou dizer que sou sua amiga.
- De qualquer jeito, eles vão achar que nós temos alguma coisa – ele disse – Não importa, de qualquer maneira. Vamos para a minha casa, você não precisa ficar aqui o tempo todo. Vou pegar o saco de roupas pra você.
- Tudo bem, vou só colocar meus sapatos – ela disse e caminhou até o quarto.
- Você não se importa de sair usando minha camiseta? – ele perguntou, perplexo.
- Não, ué – ela riu – É só uma camiseta.
- Você não é mesmo daqui – ele disse – Vamos logo.

Los Angeles parecia totalmente diferente, mas ainda sim, a mesma. A aura de “cidade dos sonhos” continuava ali, o ar quente de junho esquentou a pele de , mas o vento proveniente da velocidade do carro de refrescava a mulher. O sol estava se pondo, deixando o céu numa mistura de azul e laranja que todos os dias ela apreciava quando estava na faculdade. LA era encantadora e, estando no passado, percebeu que essa fama tinha décadas. Ela deitou a cabeça na porta e apreciou a paisagem em silêncio. olhou para o lado e percebeu que contemplava Los Angeles como se nunca a tivesse visto. Ela se surpreendia com algumas coisas e sorria quando via uma loja qualquer. Assim que entraram em São Fernando Valley, olhou para ele.

- Já está chegando?
- Sim, minha casa é em Sherman Oaks – ele explicou – Por quê?
- Nada, eu vim em um parque por aqui certa vez – ela disse – Viemos fazer um piquenique.
- Qual parque? – ele perguntou.
- Esqueci o nome – ela mentiu – É bem longe de onde eu fico, a UCLA é na outra ponta de Los Angeles.
- Isso é verdade – ele disse – Estamos na minha rua.

notou que como bom ator hollywoodiano, ele não iria morar em qualquer lugar. As mansões imponentes variavam nos tons de branco, mas os muros altos eram os mesmos de 2015. Um casal caminhava calmamente e ela tinha certeza que já tinha visto a mulher em algum filme antigo. Contudo, contrastando com as mansões brancas, a casa de era um chalé de madeira. Não era muito grande como as outras casas, mas parecia sobrar bastante espaço para uma única pessoa. estacionou seu porsche em frente à garagem e desceu, já perdendo a surpresa quando notava que já tinha descido. Os dois caminharam até a porta e a abriu, dando passagem para , que vinha carregando o saco de roupas. A sala era simples, mas ela notou a quantidade de livros nas estantes. Um sofá no estilo capitonê estava em frente à janela principal. Uma vitrola estava em um canto e alguns instrumentos musicais estavam espalhados pela sala. O chão era de madeira e havia um tapete modesto no centro de tudo. Ela ouviu fechando a porta e ele parou ao seu lado.

- Essa casa eu uso quando estou em LA, mas meu lar é em New York – ele explicou – Vamos, eu vou te mostrar o quarto de hóspedes.

Eles caminharam pelo corredor estreito e a deixou em um quarto simples, com uma cama de casal simples, uma escrivaninha e o chão de carpete. Ela deixou o saco de roupas em cima da cama e olhou para .

- Tem um banheiro no corredor – ele explicou – Você pode ficar com esse, eu tenho um na suíte.
- Tudo bem.
- Você está com fome? – ele perguntou.
- Um pouco, na verdade – respondeu.
- Tem alguma comida na cozinha, eu só não me lembro o que é – ele disse, arrancando uma risada – Eu preciso dar uns telefonemas, você consegue se virar sozinha?
- Claro.
- Eu te levo até lá – ele disse e os dois foram até a cozinha juntos.

Depois que ele saiu, foi atrás de coisas para cozinhar. Achou uma massa de macarrão e enquanto a água esquentava, começou a fazer o molho. Estava distraída quando percebeu falando um pouco mais alto na sala. A curiosidade venceu e ela foi até a porta da cozinha para tentar ouvir a conversa.

- Eu sei, senhorita , mas eu só queria falar com ela – ele disse no telefone – Sim, eu sei que eu devo respeitar o espaço dela. É só uma ligação. – houve uma pausa e ele deu um suspiro – ? Sou eu, . Por que eu liguei? Só queria saber como você estava. – ele deu outro suspiro – Eu... Eu estou bem. – deu uma risada triste – Sim, eu percebi que sua mãe não quer que conversemos – ele ficou quieto por alguns instantes – Eu também sinto muito, . Eu sinto a sua falta, hoje eu fui gravar e só conseguia pensar em você. – a dor na voz do rapaz era eminente.

percebeu que aquela conversa era muito particular e voltou para o fogão. estava sofrendo por causa daquele término, provavelmente era alguém importante para ele. Ela voltou a cozinhar e sentiu pena de , pois ele era mais um no clube dos corações partidos. Ninguém merecia passar por isso, mas o amor era algo totalmente sem controle, então machucados eram inevitáveis. Ela suspirou e percebeu que até no passado Kallum poderia machucá-la. Ainda se lembrava de como foi o inferno passar pelo término. não quis sair do dormitório no dia após o término, mas a vida precisava continuar. Então ela evitou todos os lugares onde ele poderia estar, mas ele teve a mesma ideia e eles acabaram se cruzando em um dos corredores da UCLA. Porém Kallum não estava sozinho. nunca iria se esquecer de como ela chorou no banheiro do prédio de cinema, como o ar faltou e ela se sentiu um lixo. Contudo, aquilo serviu para que ela se tornasse mais forte, pois naquele dia, decidiu que não iria mais chorar por ele. E estava indo bem até o dia da festa em que a bebida fez todos os sentimentos, que ela tanto lutou para esconder, voltar como um trem bala, arrasando seu peito e a derrubando no chão. Saiu de seus pensamentos com a voz calma de . Ele estava parado na porta da cozinha, apoiado no batente. Descalço, ele estava sem os óculos e possuía uma expressão miserável.

- ? Está tudo bem? – ela perguntou, fazendo-se de desentendida.
- Eu cometi a besteira de ligar para – ele disse e foi até o armário, pegando um copo. Colocou um pouco de whisky que estava guardado no outro armário e se sentou na cadeira da mesa redonda que tinha na cozinha.
- E você não estava bêbado? Uau – ela brincou e ele riu – Eu estou fazendo macarrão.
- Eu sou um idiota – ele resmungou e deu um gole na bebida – Não deveria ter ligado. Achei que ela teria mudado de ideia.
- Você não foi idiota – disse – Você tinha esperanças, isso é normal. Você pode pegar os pratos? Eu estou quase terminando.
- Deixa eu provar o molho – disse e se aproximou, pegando uma colher na gaveta e provando um pouco – Está bom.
- Obrigada.
- Eu não esperava que a fosse tão... – ele disse enquanto pegava os pratos – Tão manipulada pela mãe.
- Eu sinto muito, meu bem – disse e deu um sorriso – Mas às vezes as pessoas não possuem a mesma coragem que a sua.
- Eu sei disso – ele respondeu enquanto arrumava a mesa – Mas eu esperava que ela lutasse por nós. Não é como se tivéssemos dezesseis anos, querendo casar ou esperando um bebê. Nós somos adultos, tem uma carreira, eu tenho uma carreira – deu uma pausa e se apoiou na pia – Nós nem tivemos uma chance real. Ficamos juntos por três meses apenas.
- Em três meses se acontece muita coisa – argumentou – Ainda que seja um tempo curto, é um tempo. Não é menos marcante só porque não durou tanto. Eu fiquei com um cara por seis meses e ele terminou comigo dizendo que nosso namoro foi um experimento social.
- Outch! – protestou – Isso foi pesado.
- Só eu sei o quão pesado foi – ela respondeu e colocou a comida na mesa. Eles se serviram e o assunto continuou – Eu era completamente apaixonada por ele, sofri bastante quando ele me deixou, mas isso já passou.
- Você me deu esperanças – o rapaz disse com um sorriso nos lábios – Porque me disse que isso passa.
- Minha mãe dizia que dor e paixão são duas coisas que dá e passa – ela disse e riu – Então fica tranquilo.
- Às vezes eu tenho vontade de mandar aquela mulher para o inferno, agora outras vezes... – comentou.
- Eu sei – ela riu – Isso é normal. Você nunca se apaixonou, ? Parece um adolescente.
- Não desse jeito – ele respondeu pensativo, mas depois riu – Eu preciso escrever um poema sobre isso depois.

Os dois terminaram de comer e depois de lavar a louça, eles foram se arrumar para a tal festa. tomou um banho e depois foi atrás de alguma roupa dentro daquele saco gigante. Repetiu o sutiã de Marion Crane, mas optou por um vestido preto com a barra florida, scarpins, os únicos sapatos que haviam naquela sacola, e copiando as garotas que ela viu na rua, colocou uma luva preta para cobrir as mãos. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto e assim que terminou foi para sala encontrar com , que já estava lá. Ele tinha escolhido uma calça jeans de lavagem escura, junto com uma camisa social preta que estava por fora da calça e uma jaqueta de couro preta esperava ao seu lado. Fumava um cigarro enquanto lia alguns papeis. perdeu a respiração por um milésimo quando botou seus olhos em . Ele estava mais lindo ainda. Seu coração deu uma pontada e naquele momento ela se sentiu como uma garotinha apreciando o bad boy da escola. ouviu os passos de e levantou a cabeça do roteiro que lia para olhar a mulher que estava parada no portal da sala que dava acesso ao corredor dos quartos. A roupa tinha caído muito bem nela, embora ele jamais imaginasse que ela também era fã do preto como ele. Ela estava bonita e, por um segundo, ele sentiu algo em seu coração que não parecia nada com o sentimento de amizade que ele estava desenvolvendo. deu um sorriso e levantou, pegando na mão de coberta pela luva. Ele a encarou profundamente e queria ficar ali, somente olhando para o rosto dela, mas quando a situação começou a ficar desconfortável, ele soltou a mão da mulher e deu um passo para trás. Coçou a garganta e disse:

- Você está muito bonita.
- Você também – ela retribuiu o elogio e olhou para a própria roupa – Normalmente eu usaria uma calça, mas eu achei esse vestido bonito.
- E é, te deixou ainda mais linda – disse e percebeu as bochechas de ficando vermelhas. Seu sorriso se alargou – Vamos?
- Sim. – foi só o que respondeu, pois tinha ficado sem graça com o elogio de . Não era todo dia que o sex symbol dos anos cinquenta te elogia, não é mesmo?

A festa era em Holywood. Claro. As mansões da região eram enormes e a única coisa que pensou foi no trabalho que daria para limpar uma casa daquele tamanho. entrou em uma rua que era ladeada por grandes árvores e subiu, indo até o topo de uma colina, onde uma mansão se erguia como se observasse todas as outras de cima, passando um ar de superioridade que podia apostar que se mostrava nos donos daquele lugar. A frente da casa estava repleta de carros e se Marcus estivesse ali, o pai de , estaria dando pulos de alegria ao ver tantos clássicos juntos. parou o carro no começo da rua e caminhou até a casa junto com . Eles estavam em silêncio e decidiu quebrar o gelo:

- Nervosa?
- Apreensiva – ela respondeu – Não sei o que dizer para as pessoas.
- Não diga nada, só saia andando – ele brincou – Relaxa, . Eles vão estar tão bêbados que se você responder que veio do espaço, eles vão concordar e dizer que vieram também.
- Eu espero que tenha bebida mesmo – ela retrucou – Estou precisando ter outro porre.

deu uma risada alta e eles chegaram na casa logo em seguida. não esperou e abriu a porta e, assim que passou pelo portal, segurou a mão de apertado. A mão dele estava gelada por conta do vento vindo do carro conversível, mas a mão de estava quente escondida dentro da luva. Algumas pessoas olharam para os dois e uma mulher veio rapidamente até eles. Ela ignorou completamente – para alívio da mulher, que não queria conversar com ninguém – e foi direto falando com :

- , ainda bem que você chegou! Eu tenho um diretor para te apresentar, vem logo!
- Tudo bem, Jane – ele disse e soltou a mão de e olhou para ela – Não saia daqui, eu já volto.

Ela não teve tempo de responder nada, já que Jane puxou o rapaz para longe. se sentiu deslocada e começou a andar pela sala, olhando ao redor enquanto procurava por alguma bebida. Achou um pequeno bar e se serviu de whisky, enquanto tentava ver se reconhecia alguém. As pessoas fumavam muito, deixando o ar do lugar com uma pequena névoa de fumaça pela sala e, antes que ela começasse a espirrar, foi para outra sala. Com janelas que iam do chão ao teto, as cortinas brancas eram levadas pelo vento. O sofá amarelo parecia confortável e a estante cheia de discos atraiu rapidamente. Ela olhava cada disco e se surpreendia ao perceber que eles eram novos, recém-feitos. Ela sorriu e pegou o disco de Ella Fitzgerald nas mãos, sentindo o plástico novo e sem nenhum pó. Foi tirada dos seus pensamentos com a voz de alguém:

- Gosta da senhorita Fitzgerald?

O rapaz se vestia totalmente diferente de , isso ela podia dizer com toda a certeza. O cabelo todo penteado para trás, a calça de alfaiataria cinza e um cardigã marrom, deixava o homem com a típica aparência de bom moço. Contudo, sua expressão era totalmente o oposto, deixando vazar segundas intenções. Ele era bonito, não podia negar, e de repente ela quis saber como os rapazes dos anos cinquenta flertavam.

- Sim, ela é realmente maravilhosa – respondeu dando um sorriso. Devolveu o disco ao lugar original e deu um gole em seu whisky. Ato que foi assistido atentamente pelo rapaz em sua frente.
- Whisky? – ele perguntou – Você é ousada, senhorita...
- Green – ela disse o primeiro nome que veio a sua cabeça, mais um personagem de Friends invadindo sua cabeça – Sou Rachel Green.
- É um prazer, senhorita Green – o rapaz disse – Eu sou Teddy Roland. Eu sou produtor musical. Você também é amiga do Gabe?
- Sim, nos conhecemos em um set – mais uma mentira.
- Você é atriz? – ele perguntou.
- Sabe como é, um papel aqui, outro ali... – ela disse e deu uma risada falsa que foi seguida pelo rapaz.
- Sim, está bem difícil conseguir algo realmente marcante nesses dias – ele disse – A tal de Marilyn Monroe pega os melhores papeis, não é mesmo?
- Nem me fale – ela respondeu – Teddy, posso te chamar assim?
- Claro, claro.
- Diga-me, a senhorita Monroe está aqui? – ela perguntou esperançosa.
- Marilyn não vem para essas festas, digamos que... Ela está muito ocupada reclamando da vida perfeita – Teddy disse e deu uma gargalhada, que não foi acompanhada.
- Eu vim com um amigo, vou procurá-lo – disse e deu um sorriso – Com licença.

se afastou rapidamente do machista babaca, que para conquistar garotas menospreza outras. Ela bufou incomodada e voltou para o bar, enchendo seu copo com whisky mais uma vez. E qual foi a surpresa ao ver Ava Gardner cantarolando algo, enquanto enchia sua taça de vinho. não conseguiu se mexer, somente ficou observando a atriz. Ava percebeu que estava sendo observada e olhou para , dando um sorriso depois.

- Diga-me, garota, por que me observa tanto?
- Eu, eu... Hã... Desculpe-me, senhorita Gardner, mas é que eu sou muito fã do seu trabalho – respondeu e deu um sorriso.
- Ora, querida, muito obrigada – ela respondeu sorrindo – Você é muito gentil. Está sozinha?
- Eu vim com um amigo, mas ele foi conversar com um diretor – respondeu.
- Então, junte-se a nós – a atriz disse – Nós estamos lá fora, está muito calor aqui dentro e, vamos combinar, o cheiro de cigarro não agrada a todos.
- Claro, claro!

Ava saiu andando e a seguiu rapidamente. Seu coração explodia de felicidade e ela esqueceu completamente do pedido de para esperar na sala. A piscina era algo monstruoso e na outra margem, um grupo de pessoas conversava. ficou mais feliz ao perceber outros atores como Gary Cooper, Ginger Rogers, e até Julie Harris estava ali. só a tinha visto com o rosto repleto de rugas, mostrando sua idade avançada. Mas ali Julie estava em seu auge, com os cabelos loiros e o olhar encantador.

- Gabe, querido, não é prudente deixar uma de suas convidadas sozinha por aí – Ava disse e se sentou ao lado do dono da casa. Ele colocou os olhos em e depois deu de ombros. - Eu não a conheço, mas tudo bem – Gabe disse – Essa casa é cheia de gente que eu não conheço mesmo. Qual é seu nome?
- Rachel Green – ela respondeu e se sentou em uma das poltronas do lugar.

Todos eram engraçados e bebiam demais, pôde notar. Ela também não decepcionou e continuou tomando seu whisky junto com os outros. Não encontrou mais e estava tudo bem, pois ela tinha feito amigos. Não sabia quantas mentiras tinha contado para eles, mas eles pareciam não perceber nada. Os assuntos eram sempre sobre a vida alheia e o veneno destilava ali, deixando incomodada no início, mas quando o álcool bateu, ela só ria. Era estranho poder ver todas aquelas pessoas ao vivo e em cores, coisa que ela nunca tinha feito antes. Se ela tivesse um celular, teria tirado muitas fotos daqueles momentos. À medida que o tempo passava, ela se soltava mais e até foi chamada de “Rach” por Julie.

- Julie – Ginger perguntou – Você está trabalhando com o , certo?
- Sim, estamos caminhando para o final das gravações – a atriz disse.
- É verdade o que dizem? – Cooper perguntou – Elia realmente encontrou no telhado no primeiro dia de gravação?
- Sim – eles caíram na gargalhada quando Julie respondeu – Ele é bem excêntrico.

Então foi ali que finalmente se deu conta de onde estava e de com quem ela tinha vindo. Onde estava , afinal?

deixou na sala e, enquanto caminhava com Jane, a única coisa que pensava era em como estava linda naquela noite. Parou no meio do caminho e encheu um copo com vodka – com protestos de Jane, sua agente – e depois continuou até a sala de jantar do tal Gabe. Lá, havia uma vitrola tocando The Platters como pano de fundo para as pessoas conversarem. Sentado na cabeceira da mesa, estava o tal diretor que Jane disse que poderia colocá-lo em seu próximo filme. O personagem era um rebelde sem causa, totalmente o tipo de personagem que tinha a ver com .

- Nick – Jane disse – Esse aqui é um dos atores que eu cuido, .
- É um prazer, Nick. – respondeu e apertou a mão do diretor.
- Olá, senhor . – o diretor disse e apontou para a cadeira ao seu lado – Jane me disse que você é a pessoa que eu estou procurando para o meu próximo filme.
- Conte-me sobre o que é e eu posso te dizer se me encaixo – disse e ouviu Jane tossir ao seu lado.
- Gostei desta atitude, rapaz – Nick disse – Encaixa com o que estou procurando, não quero alguém que implore, quero alguém que saiba seu valor.
- Você está conversando com a pessoa certa – disse e tirou o cigarro do bolso – Tudo bem se eu fumar?
- Fique à vontade – o mais velho respondeu – O filme é sobre um jovem que chega a uma cidade nova. Ele tem uma atitude parecida com a sua, não posso negar.
- Mais um motivo para me escalar, Nicholas. – respondeu e deu um sorriso.
- O roteiro está sendo finalizado, mas já temos algumas cenas roteirizadas – Nick explicou – O figurino ficará por conta de Moss Marby.

O diretor explicava mais e mais sobre o filme e ficava cada vez mais empolgado. O papel tinha sido escrito para ele! As filmagens de Vidas Amargas já estavam quase acabando e ele precisava de outro filme logo. Jane falava também, mas o diretor Nicholas Ray só queria ouvir . Ele observava os trejeitos de com olhos de águia e só queria impressioná-lo o bastante para conseguir aquele papel. Continuaram a conversar sobre o filme, o roteiro, a trilha sonora, os investimentos que a produtora estava fazendo e o tempo foi embora. Entre copos de bebidas, eles iam se soltando mais, até que Nick disse:

- Elia é muito meu amigo.
- Ah, ele é um ótimo diretor. – disse.
- Sim, eu sei, ele revelou Marlon Brando – Nicholas disse – E tem muito que dizer sobre você.
- Elia é excelente, ele nos dá bastante liberdade na hora de atuar, tem um olhar muito bom para captar as relações em cena – disse entre uma tragada e outra.
- Soube também que ele fez você assinar um contrato de que não iria correr enquanto estivesse gravando – o diretor disse e todos na mesa riram.
- O que eu posso dizer? Ele tem medo que eu morra no meio das gravações – respondeu – O que é um medo infundado, já que eu sou um excelente piloto, nunca me acidentei gravemente
- Ah, meu caro, qualquer mínimo acidente já é motivo para travar uma produção inteira.

O assunto continuou por mais tempo e não viu a hora passar. Jane era cheia de elogios para o ator e fazia parecer um cara responsável, não um bêbado sem limites como ele era. A bebida ia subindo e, a certa altura, o assunto tinha mudado e ator e diretor já compartilhavam experiências engraçadas. saiu para ir ao banheiro e se lembrou de que tinha vindo com e a tinha deixado sozinha. Lavou o rosto tentando afastar um pouco da embriaguez e saiu pela casa procurando pela acompanhante. Ela não estava em nenhuma das salas e quando já estava desistindo, ouviu sua risada alta vinda da parte de fora. atravessou pela porta da cozinha e viu no meio de vários atores dando risada. Ela parecia feliz, como se fosse amiga de todos aqueles desconhecidos. olhou para onde ele estava e sorriu feliz, falando alto logo em seguida:

- ! Olhem, meu amigo !

Ela levantou e notou que ela estava sem sapatos e sem luvas e correu até ele, o abraçando apertado. Ela tinha um cheiro de shampoo doce e sua pele estava quente por causa do álcool. apertou sua cintura e ela parecia se encaixar bem ao seu corpo. Ela sussurrou no ouvido do rapaz:

- Eu disse para eles que meu nome era Rachel.
- Por que fez isso? – ele perguntou, mas ela riu como uma criança sapeca e ele acabou rindo junto.
- Eu não sei – ela voltou a rir – Eles são engraçados. Será que Ava poderia ser minha amiga para sempre?
- Você vai ter que perguntar para ela, – ele respondeu e ela colocou um dedo nos lábios dele.
- Eu sou a Rachel, bobinho – respondeu e deu uma risada – Eu acho que bebi um pouco demais.
- O que acha de irmos embora? – ele perguntou – Já são quase quatro da manhã e eu tenho que gravar amanhã.
- Mas já? – ela perguntou e ele notou um biquinho se formando em seus lábios – Mas eu nem tenho meu celular pra anotar o número deles.
- Celular? Vamos, você está muito bêbada – disse e caminhou até o grupo de pessoas – Ei, pessoal, eu vou levar Rachel para casa.
- Por que, ? – Gary perguntou – Ela é muito engraçada, disse que é uma viajante do tempo.
- Justamente por causa disso, ela está muito bêbada – disse – Onde estão os sapatos e as luvas dela?
- Aqui – Ginger disse, tirando os dois itens do seu corpo – Ela me emprestou.
- Ginger, me liga depois, eu te empresto mais roupas, me deu um monte de roupas – disse.
- Tá legal, nós precisamos ir – disse e segurou na cintura de , a puxando para dentro da casa.
- Tchau, pessoal! – gritou e riu – Vocês são legais!

se despediu de Nick e Jane, que continuaram conversando e foi até , a segurando pela cintura mais uma vez, pois ela estava um pouco instável. Ela cantarolava alguma música desconhecida enquanto eles desciam a rua. estava de saltos, mas só se mantinha de pé porque a segurava. Ele também estava bêbado, mas era mais forte para bebida do que a mulher ao seu lado. O rapaz colocou gentilmente no banco do carona e passou o cinto por ela, deixando a garota parada enquanto dava a volta e sentava no banco do motorista. Ele deu partida e tentou ir mais devagar para não deixar enjoada.

- Blue jeans, white shirt/ Walked into the room/ You know, you made my eyes burn/ It was like , for sure/You so fresh to death /And sick as ca-cancer... cantou e a olhou sério.
- Você inventou uma música pra mim? – ele perguntou dando risada.
- Opa – foi só o que respondeu.
- Continue a cantar – ele pediu e ela negou.
- Não, não, chega – ela disse e o encarou – Eu estou com frio.
- Toma minha jaqueta – ele disse e tirou do seu corpo, jogando em cima da mulher. Ela cheirou a gola e sorriu.
- Você é cheiroso – ela confessou – Mas tem cheiro de cigarro.
- Obrigada pelo elogio, senhorita – ele respondeu e sorriu.
- Você é mesmo bonito como dizem – ela disse o encarando sério.
- Está tentando me conquistar, ? – ele perguntou brincando.
- Você nunca vai saber – ela respondeu e eles riram juntos – Eu acho que eu estou bêbada.
- Você acha? Eu tenho certeza – disse – Já estamos chegando em casa.
- Eu estou com sono – ela disse e bocejou – Será que a Ava me daria uma chance? Ela é tão linda.
- Você beija garotas? – ele perguntou perplexo.
- Você não? – ela rebateu – Garotas são melhores, homem não presta.
- Ei! – ele protestou, mas ela riu – Mais uma revelação para a noite. Qual é a próxima?
- Eu queria transar – ela soltou e gargalhou – Mas eu estou bêbada, não vou me lembrar de nada amanhã, então não posso transar agora.
- Tudo bem, senhorita sinceridade, chegamos.

parou o carro e quando chegou do outro lado, estava toda confusa tentando tirar o cinto. Ele riu e ajudou a mulher, segurando em sua mão para que ela não caísse. Deixou em seu quarto e tirou os sapatos da mulher enquanto ela cantarolava mais uma vez.

- Eu vou indo, tudo bem? – ele disse e ela levantou – Consegue se virar sozinha?
- Pff, claro – respondeu e começou a abrir o vestido sem se importar com ali. Ao se dar conta, ela deu uma risadinha – Opa, esqueci que você não é o Kurt, meu amigo gay.
- Tudo bem... Hã... Tchau. – ele disse sem graça e saiu rapidamente do quarto.

Ele fechou a porta atrás de si e suspirou, dando risada logo depois. já era engraçada normalmente, mas bêbada era ainda mais. Ele foi até a suíte e tirou as botas, sentando na cama logo depois e tirando a camisa. Encarou seu reflexo no espelho que tinha em cima de uma cômoda e suspirou mais uma vez, deitando na cama. Lembrou que acordaria com uma dor de cabeça absurda e foi até o banheiro, pegando um frasco de aspirinas - deixando algumas para ele, é claro – e foi até a cozinha, enchendo um copo com água. Bateu na porta de e ouviu um “entre!” bem baixinho. Assim que ele entrou, notou que ela já estava deitada e usava a camiseta dele do dia anterior.

- Você realmente gostou da minha camiseta, não é? – ele perguntou e ela riu, um pouco sonolenta.
- É meu pijama – ela respondeu – O que veio fazer aqui?
- Vim te trazer aspirinas, você vai precisar amanhã cedo – ele respondeu.
- Eu vou ficar aqui? – ela perguntou enquanto ele deixava o copo na mesinha de cabeceira, junto com os comprimidos.
- Pode ficar o tempo que quiser – ele respondeu e foi até a porta. Apagou a luz e olhou para o quarto escuro – Boa noite, .
- Boa noite, .

Ao fechar a porta e caminhar para o seu quarto, se deu conta de uma coisa: em nenhum momento naquela noite ele pensou em . A única pessoa que continuou em sua cabeça mesmo depois que ele foi dormir foi a amiga bêbada irreverente que dormia no quarto ao lado.


Fame, liquor, love*: trecho retirado da música “Gods And Monsters” da rainha Lana Del Rey.


Capítulo 3: Aquela tal da companhia

Os sonhos podem machucar. sempre soube disso, afinal, todos os sonhos que já tivera na vida se realizaram depois de muita dor. A vaga na UCLA tinha sido conquistada com muito sacrifício durante o ensino médio. Festas, jantares com a família, cinema e tantas outras formas de lazer foram sacrificadas em prol daquela vaga. Ela também teve que conviver com as dores nos pés quando decidiu seguir o sonho de ser bailarina, porém esse ela desistiu, a dor era demais. Ainda se lembrava dos calos nos pés e a dor nos dedos por usar sapatilha de ponta durante horas. Era algo que não queria mais passar. Naquele momento, ela não queria abrir os olhos, pois sabia que o sonho que tivera, conviver com e conhecer atores da era de ouro de Holywood seria mais um sonho que viria com uma carga de dor enorme. Assim que ela abrisse os olhos, veria o teto do dormitório da faculdade e ouviria a respiração de suas colegas de quarto. Uma dor de cabeça veio como uma bala no crânio e ela sentia o gosto amargo de bebida na boca. Então, tomou coragem e abriu os olhos somente para ver que o quarto estava na maior completa escuridão. O ar estava quente, como se não tivesse ar-condicionado e os cobertores estavam longe. Ela se sentou e a cabeça estourava de dor, não via motivo nenhum para aquilo, afinal, o porre que tinha tomado era somente em seu sonho. Colocou a mão na cama e não achou a grade do beliche de cima onde dormia. Ela ficou em alerta e em um ato de coragem, colocou os pés para fora e para sua surpresa o chão estava logo ali, o carpete felpudo fez um carinho em seus pés. levantou rapidamente e tateou em busca de alguma luz, achando uma arandela ao lado da cama. O quarto foi iluminado e não era o dormitório da faculdade, mas sim o quarto onde a tinha deixado em seu sonho, que agora a mulher constatou que era a mais pura realidade. Um alívio se apossou dela e voltou a sentar, notando que a camiseta de estava em seu corpo. O perfume dele estava ali e ela se viu cheirando a gola, imaginando como seria sentir aquele aroma direto no pescoço do amigo. Ela ainda estava em 1954, para seu alívio e completo desespero, afinal, continuava presa em outra época. Ela foi até o banheiro e lavou o rosto, sentindo a água refrescar sua pele. Voltou para o quarto e tomou um gole da água que tinha deixado na noite anterior e sorriu, se lembrando da gentileza do rapaz. Ela precisava sair do quarto, mas antes tomou as aspirinas que ele tinha deixado. Abriu a porta e a casa estava silenciosa. chegou à sala e, em cima da mesinha de centro, tinha um bilhete de dizendo que tinha ido gravar, mas voltaria para almoçar com ela. A mulher suspirou e foi até a cozinha para fazer algo para comer.

acordou e sentia dor de cabeça, mas já estava acostumado. Tomou um banho e colocou uma calça de sarja cinza e uma blusa preta de manga comprida. Tinha gravações o dia todo, mas iria vir para casa almoçar com , não queria deixá-la sozinha. Passou pelo corredor e parou na frente da porta de , mas o silêncio reinava ali. Foi até a cozinha e comeu o resto do macarrão da noite anterior, tomando uma cerveja. Deixou um bilhete para e saiu com sua moto, indo até o set. Quando chegou ao estúdio, os demais atores já estavam lá. Cumprimentou a todos e foi para o figurino. Enquanto estava fazendo a maquiagem, o diretor veio até ele.

- – ele disse – Fiquei sabendo que você teve uma ótima conversa com meu grande amigo Nicholas Ray.
- Sim, Elia – respondeu – Nós tivemos uma boa conversa na festa de ontem.
- Eu falei de você para o Nick – Elia disse – Ele está bem empolgado com a sua participação no filme dele.
- Eu também estou – respondeu com uma voz sem emoção – O filme parece ser bem promissor.
- Sim – Elia disse e encarou o jovem ator – Minha opinião é bem relevante para o Nicholas, .
- E o que isso tem a ver? – perguntou.
- Bom, isso quer dizer que qualquer coisa que eu diga, pode fazer Nicholas mudar de ideia – Elia disse com um sorriso – Tome cuidado para não mudar minha opinião sobre você, .
- Se Nicholas for tão influenciado como você diz, então alguém tem que alertá-lo – disse sem olhar para o diretor, o que arrancou uma risada da maquiadora. Elia saiu logo depois.
- Você é corajoso, – Lisa, a maquiadora, disse – Ninguém enfrenta o Elia.
- Eu não sou corajoso, Lisa – ele respondeu – Eu só não me importo.

Depois de ter se caracterizado, foi até o set e encontrou com Julie Harris. Ela parecia animada e conversava com alguém da produção. sentou em um dos sofás do cenário e repassava os diálogos, quando sentiu alguém sentar ao seu lado. Ele se virou e Julie sorria para ele, animada demais para os parâmetros do jovem ator.

- ! – ela disse – Eu adorei sua amiga Rachel! Onde você a encontrou?
- Na praia – ele respondeu, a olhando – Ela é demais, não é?
- Sim, você tem que trazê-la para mais festas – Julie sugeriu – Traga ela para o estúdio se quiser, garanto que Rachel vai encantar a todos.
- Eu não duvido também – ele respondeu e deu um sorriso – ... Quero dizer, Rachel é muito divertida. Nós voltamos para casa ontem e eu voltei rindo o caminho inteiro.
- Podemos nos reunir quando as gravações acabarem e você tem que levá-la! – Julie disse e se levantou.

continuou sentado, mas não conseguiu mais prestar atenção no roteiro em suas mãos. Quando ele trazia para os ensaios ou para as festas, ninguém nunca tinha falado com ele sobre ela, sobre como ela era divertida. Na maior parte do tempo, os dois ficavam sentados em um canto, longe dos outros. Eles ficavam muito ocupados dando prazer um ao outro para sequer conversar com outras pessoas. Agora na primeira festa que levou , ela fez amigos com atores que nem ele tinha amizade. era uma pessoa leve, diferente dele, que tinha um coração que pesava feito chumbo. As gravações começaram e quando o diretor gritou “ação!”, se foi e seu personagem apareceu.

já tinha arrumado o quarto onde estava, o quarto de , e estava lendo um dos vários livros que tinha na sala quando o telefone tocou. Ela encarou o aparelho sem saber se atendia ou não. Decidiu que iria atender e fingiria que era alguma assessora do ator.

- Residência do senhor , quem fala? – ela disse com uma voz séria.
- Quem é? – uma voz feminina disse, carregada de sotaque.
- Sou Rachel Green, assessora do ator, quem está falando? – perguntou.
- Sou – a mulher disse e ficou nervosa de repente. Aquela era a voz da mulher que tinha partido o coração de seu amigo – não está?
- Não, senhora – respondeu – Ele está em gravação. Quer deixar recado?
- Bem, não precisa dizer nada, só avisa que eu liguei – disse com uma voz desapontada.
- Tem certeza? – perguntou – Eu posso deixar recado, ele vem para o almoço.
- Eu pareço patética, não é? – disse com uma risada triste – Eu terminei com ele e agora estou atrás.
- Você parece alguém que tomou uma decisão sem ter certeza dela. – disse.
- Você sabe de alguma coisa? – a outra mulher perguntou.
- Eu sou assessora do senhor – estava cada vez mais fácil dizer isso – Ele acabou me contando o que aconteceu, eu sinto muito.
- Eu também sinto muito – disse – Mas eu tinha que obedecer à minha mãe, ela sabe o melhor pra mim.
- Se você acredita nisso, então fez o certo. – respondeu.
- Como assim “se eu acredito nisso”? Você acha que eu não levo a sério o que minha mãe fala pra mim? – perguntou e percebeu que aquela conversa estava indo longe demais. Não era certo dar palpites, ainda que pedidos, no relacionamento dos outros.
- Eu não acho nada, senhora – ela disse – Sou apenas a moça que anota recados.
- Não diga nada para o , não quero encher o coração dele de esperanças – disse e deu um suspiro – Obrigada pela conversa breve, senhorita Rachel.
- Não precisa agradecer, senhora. – respondeu.

Depois de desligar o telefone, a mulher respirou fundo e começou a rir. Quem diria que ela quase chegou a fazer desobedecer à mãe. Contudo, entendia a posição de . Os anos 50 eram extremamente conservadores, as pessoas tinham a mentalidade de que os pais sabiam mais e melhor, ainda que as decisões custassem a felicidade dos filhos. A obediência cega era o que ditava as regras e ela sabia que era uma exceção. Ficou ali sentada sem saber o que faria, se contaria para , se ocultaria a conversa ou se tentaria minimizar as coisas. Era claro como água limpa que e ainda tinham assuntos pendentes, muitos sentimentos ainda pairavam ao redor dos dois e ela não queria se meter. Se fosse para eles ficarem juntos, não iria atrapalhar. Contudo, ao ter esse pensamento, seu peito doeu um pouquinho e, por um segundo, ela se imaginou sendo e no que ela faria. E ela jamais deixaria ir, não teria desistido dele.

O horário de almoço chegou e pegou sua moto e voltou para casa. Ele ia muito rápido, sentindo o vento batendo em seu rosto. As praias estavam cheias e ele só pensava em aproveitar com um dia naquele lugar. Estava em LA há pouco tempo, mas ainda não tinha ido à praia. Ele acelerou mais um pouco e ouviu o motor roncar alto, a moto sendo forçada cada vez mais. sentia falta das corridas, mas sabia que teria que esperar só mais um pouco para voltar para aquilo que ele tanto gostava de fazer. Entrou em sua rua e quando chegou a frente ao chalé que morava, viu que as janelas estavam abertas e sorriu vendo que não iria ficar sem fazer nada mesmo. Estacionou a moto e olhando para seus carros fez uma nota mental para chamar os mecânicos para olhar cada um deles. Abriu a porta e ouviu cantando da cozinha alguma música em espanhol. Ele parou no batente da porta e observou cozinhando enquanto dançava lentamente. Ela usava um vestido curto florido e estava descalça. Seus cabelos escuros estavam presos em um coque e quando ele bateu na madeira do batente para chamar a atenção, ela se virou e sorriu quando viu o amigo parado ali.

- ! Ainda bem que você chegou agora – ela disse e foi até ele, deixando um beijo na bochecha do rapaz – Eu estou terminando de fazer tacos para a gente.
- Tacos? – ele perguntou e se se sentou à mesa, acendendo um cigarro.
- Papi, eu sou latina – ela disse enquanto mexia em uma panela – Estou com saudades de casa.
- Você vai me contar mais sobre você? – ele perguntou e deu um trago.
- O que você quer saber, senhor ? – ela perguntou –Você pode colocar a mesa?
- Claro – ele respondeu e começou a pegar os pratos – Você me disse que é de San Jose, que é aluna da UCLA, mas não pode ir pra lá. Tem alguma coisa que eu não estou entendendo aqui.
- O quê? – ela retrucou para ganhar tempo, pensando em mais alguma desculpa ou se inventaria uma mentira.
- Por que você não pode ir pra lá? – perguntou e tirou a tortilha da frigideira.
- Você não vai acreditar em mim, respondeu enquanto trazia as panelas para a mesa. – Eu não acreditaria.
- Tente – respondeu e encarou a mulher em sua frente de um jeito muito intenso.

Eles eram amigos há pouco tempo, não possuía um pacto de lealdade com como amigos de longa data possuem, mas ao olhar os olhos do ator que transbordavam seriedade, ela entendeu que não podia mentir. Não poderia ferir os sentimentos de como fizera. precisava ser sincera não apenas com , mas com si própria. Suspirou e devolveu o olhar intenso do amigo.

- Você é uma fugitiva da polícia? – ele perguntou – É por isso que mente seu nome para as demais pessoas?
- O quê? – retrucou e deu risada – Não, claro que não. Eu nem sequer existo nessa época.
- Como assim? – ele perguntou confuso.
- Eu... – ela o olhou de novo, mas se acovardou no último segundo – Eu não quero falar sobre isso agora.
- Por que, ? – perguntou – Você está fugindo de alguém? Precisa de dinheiro?
- Não, não – ela respondeu – Olha, é complicado demais. Não acho que você vai acreditar em mim e eu não quero falar sobre isso agora. Me desculpe.
- Tudo bem – respondeu contrariado e ficou em silêncio. O clima leve foi embora e se lembrou da ligação.
- ligou hoje – ela disse e percebeu ficando tenso.
- O que ela disse?
- Bom, não disse muita coisa – respondeu – Acho que ela não tinha certeza do que estava fazendo, deve ter ligado em um impulso.
- O que ela disse? – repetiu a pergunta com uma voz mais firme.
- Ela só pediu para eu avisar que ligou – respondeu depois de engolir a comida – E depois disse que eu estava achando ela patética.
- O que você disse pra ela? – perguntou. Assim que o assunto “” apareceu, ele parecia outra pessoa.
- Eu disse que não achava nada, que apenas atendia as suas ligações – respondeu – Relaxa, . Eu não vou me meter entre vocês.
- Eu sei que não. – ele retrucou. Ficou em silêncio enquanto comia, mas depois voltou a falar – Você acha que eu devo ligar de volta?
- Você quer ligar de volta? – ela perguntou encarando o rapaz – Você acha que consegue lidar se o resultado dessa ligação não for o que você espera?
- Por favor, , eu não sou um adolescente – ele brincou – Eu sei lidar com a rejeição muito bem.
- Então ligue. – disse, sendo sincera.

Os dois continuaram a comer, mas em silêncio. estava preso na informação de que tinha ligado e simplesmente não sabia o que dizer. Ela sentiu que aquela informação tinha afetado o rapaz e se sentia mal por isso. Ela não contou todo o conteúdo da conversa sobre como ficou claro para as duas que não tinha certeza da decisão que tinha tomado. De alguma forma, sentia que não queria que aquilo chegasse a e iria respeitar essa decisão. Também não queria dar falsas esperanças ao amigo, então se manteve quieta. percebeu que a amiga estava em silêncio e estranhou. Do pouco que conhecia , sabia que ela era muito falante. Tentou puxar assunto, mas não obteve muito sucesso.

- O que você fez nesse tempo que eu não estava aqui?
- Bom, as únicas coisas que eu posso fazer: limpar e cozinhar – ela respondeu – Gostou dos tacos?
- Sim, estão ótimos – ele respondeu – Você tem meus livros e se quiser, eu deixo um dinheiro pra você sair. Sabe dirigir?
- Sim, mas eu não tenho carteira – ela respondeu e encarou o rapaz - Está tudo bem, . Eu não ligo de ficar aqui.
- Quer ir comigo ao set? Julie disse que adorou você – ele comentou e conseguiu fazer sorrir.
- Hoje eu quero ficar aqui, mas talvez outro dia. – ela respondeu e voltou a ficar em silêncio.

terminou de comer e esperou terminar, indo lavar a louça logo depois. Ela ficou sentada na mesa, observando os movimentos do ator e percebendo como ele era bonito. Ele assobiava uma canção qualquer enquanto ensaboava os pratos e colocava no escorredor. Uma ideia pipocou em sua cabeça e ela se imaginou indo até ali e o abraçando por trás. Rápido como veio, essa cena foi embora e se envergonhou por ter pensado nisso. Era óbvio que ainda era apaixonado por e sabia que não teria chance nenhuma se tentasse. Ela suspirou um pouco alto e isso captou a atenção de , que olhou para trás e viu o observando.

- O que tanto você olha, ? – ele perguntou dando um sorriso.
- O jeito que você lava os pratos – ela respondeu e também sorriu – Até que você faz direitinho.
- Eu moro sozinho, garota – respondeu – Tenho que saber o básico.
- Muito bem – a amiga elogiou e quando ele terminou, virou-se para continuar a conversar com ela – É uma questão de sobrevivência, certo? Ninguém quer viver na sujeira.
- Isso foi muito profundo – ele disse – Eu tenho que ir.
- Tudo bem, eu vou ficar aqui. Lendo algum dos seus livros. – ela respondeu e se aproximou, abaixando e deixando um beijo demorado na bochecha da mulher.
- Até mais tarde, garota.

Ela ouviu o ronco do motor da moto e suspirou percebendo que estava sozinha mais uma vez. Ela se jogou no sofá e bufou irritada ao perceber que não tinha uma televisão. Pegou o livro que estava lendo de manhã e retomou a leitura, mas sem sucesso, já que não conseguia se concentrar. O bairro era silencioso, bem diferente da barulhenta UCLA e se perguntou o que estaria acontecendo em 2015. Se haviam buscas por ela, se estavam vasculhando o mar à procura de um corpo que eles jamais iriam achar. Lembrou-se de seu pai e seu coração deu uma pontada. Mais uma vez Marcus estaria velando um ente querido e não percebeu quando começou a chorar. Seu pai não merecia mais sofrimento naquela vida cheia de angústia. Deixou o livro de lado e decidiu que tentaria tirar um cochilo, já que dormindo o tempo passaria mais rápido e, assim, ela se aproximava mais da hora de voltar para a sua época.

estava parado em frente ao outro ator enquanto o diretor repassava mais uma vez a mesma cena porque não julgava que ela estava satisfeita. O rapaz suspirou e a única coisa em sua mente era a vontade de acender um cigarro. Observou o diretor coçando a cabeça, enquanto olhava as outras gravações e percebeu que não importasse a quantidade de cenas feitas, Elia nunca ficaria satisfeito o suficiente. não conseguia parar de pensar no fato de que tinha ligado. tinha sido muito vaga na explicação, mas só de saber que a ex-namorada tinha ligado, enchia o coração do rapaz de esperança. Ele não sabia se deveria ligar de volta, passar na casa dela depois das gravações ou simplesmente ignorar. De repente, ele quis ligar para perguntando o que fazer, pois mesmo sendo amigos há dois dias, ela parecia ser o tipo de pessoa que sempre tem algo a dizer. Percebeu a movimentação no set e logo o diretor já estava gritando ordens para os atores voltarem a gravar. Continuaram assim até o meio da noite e quando Elia liberou o pessoal, deu um suspiro aliviado.
A primeira coisa que fez foi acender um cigarro enquanto saía do set, mesmo sabendo que era proibido levar coisas para a gravação, seu isqueiro e o maço sempre ficavam no bolso da roupa do personagem. Aquela cena tinha sido muito intensa, uma briga entre os irmãos fez ficar um pouco pensativo enquanto ia até o figurino para tirar a roupa e colocar as suas. Depois de se despedir do pessoal, foi até sua moto e sentou no meio-fio, fumando mais um cigarro e observando o céu escuro de Los Angeles. Uma brisa fria foi de encontro ao seu corpo e ele estremeceu, mas não levantou dali, já estava acostumado com o vento frio em sua direção enquanto pilotava. Pensou em mais uma vez e na ligação. Como ele queria ter chegado mais cedo pra atender e ouvir a voz dela. A curiosidade comia seu coração, então depois de apagar o cigarro e jogar no lixo, ele decidiu que iria até a casa da atriz. Subiu na moto, colocou o capacete e os óculos e deu partida. O trajeto até a casa de foi mais rápido que o normal, já que ele tinha pressa. Queria vê-la o mais depressa possível e talvez fazê-la mudar de ideia. Ele tinha que tentar. Entrou na rua e depois de algumas casas, a mansão de apareceu em seu campo de visão. Ele suspirou e desceu da moto, batendo palma para chamar a atenção. Sentou para esperar e depois de alguns minutos, o portão abriu e o barulho chamou a atenção do rapaz, que levantou com pressa. estava linda com um vestido florido parecido com o que usava naquela manhã. Os cabelos estavam soltos e ela o encarou seriamente.

- ? O que faz aqui? – ela perguntou, um pouco confusa.
- Bom, disse que você tinha ligado. – ele explicou.
- Quem é ? Eu achava que sua assessora chamava Rachel – disse e riu.
- Sim, ela é nova, eu ainda não decorei o nome dela – ele mentiu – O que você queria falar?
- Só queria saber como você estava. – ela disse.
- Não podemos conversar lá dentro? – ele pediu e deu um sorriso de lado.
- Minha mãe está aqui – disse e soltou um suspiro – Ela...
- Eu sei – disse – Ela não gosta de mim.
- Eu poderia tentar amenizar, mas sim, ela não gosta de você – disse e deu um sorriso – Eu sinto muito.
- Eu também – disse com um sorriso triste – Então, eu vou indo.
- Tudo bem.

A situação estava um pouco embaraçosa, eles não sabiam como se comportar direito. O coração de estava pesado e ele evitou olhar para enquanto subia na moto e dava partida. Ele já estava pronto para sair quando a mulher correu até ele e segurou no guidão. a olhou, confuso, mas não deu tempo de falar nada, já que o beijou. Ele ficou surpreso, mas não demorou em corresponder, segurando no rosto delicado da mulher, aprofundando o beijo como conseguia, enquanto ainda estava na moto. O motor roncava embaixo dele, mas o rapaz não se importava. Puxou para mais perto e fez um carinho na nuca da mulher, que segurava em seus ombros com força. Romperam o beijo, mas ficaram juntos e segurou na mão dele com força.

- A moto está ligada – ele disse – Nós podemos ir para outro lugar.
- Eu não posso. – ela respondeu, mas não se afastava.
- Tem certeza, ? – disse e abriu os olhos, encarando a atriz – É só subir na garupa.
- Não podemos demorar – ela disse e sorriu tirando o capacete e entregando para ela. deu um sorriso e subiu na garupa, segurando forte na cintura do rapaz.
- Eu sei – ele respondeu e arrancou com a moto – Por isso vamos usar cada segundo que temos.

acordou do cochilo da tarde e percebeu que já estava escuro. Seu corpo estava suado e ela precisava de um banho. A casa estava silenciosa, então ainda não tinha chegado. Ela tomou um banho e colocou o mesmo vestido, já que estava limpo. Sentiu fome e foi para a cozinha comer o resto dos tacos do almoço. O relógio na parede marcava sete da noite e ela se perguntou onde estaria. Sentou para comer e imaginou que as gravações tinham ido mais longe naquele dia. Tudo dentro da normalidade para um set de filmagens, entendia sobre o assunto, já que estudava para ser uma diretora um dia. Se é que voltaria para 2015 a tempo de se formar. Se é que voltaria. Ela ainda estava se acostumando com a ideia de estar ali presa no século passado. A ideia era muito louca para ser verdade, mas lá estava ela comendo tacos em uma cozinha típica dos anos cinquenta. O medo de nunca voltar para casa continuava ali, mas tinha aprendido que esse sentimento não poderia paralisá-la. Não daquela vez. Quando perdeu a mãe ainda menina, o medo apareceu pela primeira vez. Ela ficou com medo de sair na rua, medo de existir no bairro onde morava e por dias não conseguiu sair de casa. Seu pai foi o único que conseguiu tirá-la do quarto e levou a filha para brincar no jardim pela primeira vez depois de um tempo. já tinha entendimento o suficiente para saber que sua mãe não iria voltar e que sua vida não podia parar. Então, ela levantou do chão e foi aprender a viver um pouquinho de cada vez, enquanto vencia o medo dia após dia.
Contudo, os tempos tinham mudado e naquele momento voltou a ter medo, porém não por algo que já tinha acontecido, como os fatores que levaram à morte de sua mãe, mas sim medo pelo desconhecido que estava em sua frente. Ela não sabia se acordaria mais uma vez na casa de ou se acordaria em seu dormitório na faculdade. Não sabia se iria voltar para casa ou se ficaria presa no século XX até envelhecer. Não sabia se veria seu pai de novo. E isso era o pior de tudo. Marcus tinha câncer e todos os dias sem poder se comunicar com ele era mais um dia que ela não sabia se o pai tinha superado a noite, já que o câncer no pulmão podia levá-lo facilmente enquanto dormia. Quando a mulher se deu conta, já estava chorando copiosamente na cozinha, no meio de toda aquela comida. Seus soluços ecoaram pelas paredes e a única coisa que desejava era voltar a ser criança, voltar para a época em que tinha mãe e pai, voltar para os dias em que ela não tinha que se preocupar com viagens malucas no tempo, que a levaram para longe de todos que importavam. Talvez se fosse até San Jose, encontraria os avós ainda vivos e poderia bater um papo, perguntar como eles estavam e ver o rosto deles sem as marcas do tempo. Terminou de comer e quando olhou no relógio já estava perto das oito e ainda não tinha chegado. Ela lavou a louça e depois foi para a sala, ligando a vitrola e ouvindo uma música qualquer. O bar de estava logo ali e ela pegou uma garrafa de tequila, enchendo um copinho e dando um gole. A embriaguez logo veio e a música embalava seu consciente e fazendo pensar em nada e tudo ao mesmo tempo. deitou no tapete da sala e observou o teto, que aos poucos começava a se mexer por conta da sua visão turva. Pegou a garrafa de tequila e foi até a cozinha preparar margarita. Ela dançava devagar e sensualmente, sentindo a música lenta penetrar em seus ouvidos. Distraiu-se fazendo suco de limão e não percebeu quando apareceu e ficou parado na porta, vendo a mulher dançar enquanto espremia limões. Ele tinha acabado de transar, mas ver dançar daquele jeito fez um calafrio percorrer seu corpo.

- ? – ele chamou, mas ela parecia não ouvir, estava muito concentrada chacoalhando uma coqueteleira que nem ele sabia que tinha. – ?
- ! – ela disse alegre quando percebeu que ele estava ali – Eu tomei a liberdade para fazer margarita para nós.
- Margarita? – ele disse e se aproximou da bancada – Isso é muito bom.
- Sim, tome – ela entregou uma taça para ele, que deu um gole – Está bom?
- Está forte – ele respondeu e ela sorriu.
- Ótimo – respondeu e pegou outra taça, passando limão nas bordas e esfregando no sal logo depois – Fiquei triste por um momento e precisava distrair a cabeça.
- Por que estava triste? – ele perguntou e seguiu a mulher até sala, que já estava jogada no tapete e passava a mão no tecido diversas vezes.
- Esse tapete é tão bom – ela disse e riu – Nada importante, agora já passou porque você está aqui para conversar comigo e eu tenho margaritas.
- Sobre o que você quer falar, então? – perguntou e sentou no chão ao lado da mulher.
- Qualquer coisa que me distraia – respondeu e deu um sorriso bobo – Eu preciso de distração.

trocou o disco duas vezes enquanto eles conversavam. A noite ia embora, mas ele não queria dormir, pelo contrário, estava mais acordado do que nunca conversando com . Eles falaram sobre o mundo, sobre política e a ameaça comunista que causava pânico nos Estados Unidos a cada dia, conversaram sobre as expectativas de vida de cada um e contou toda a sua experiência na fazenda para , que ouvia entretida e quase não piscou. acendeu um cigarro e observou jogada no sofá depois da terceira taça de margarita. Ela estava vermelha por causa do álcool e tinha um sorriso bobo nos lábios enquanto olhava para o teto, provavelmente pensando em alguma coisa. tinha acabado de encontrar com , mas isso parecia que tinha acontecido há muito tempo atrás e não horas antes.

- Eu fui me encontrar com a hoje – ele comentou e percebeu dando um sorriso.
- Eu imaginei – ela respondeu e o olhou sério – E então? Voltaram?
- As coisas estão indefinidas ainda – ele explicou e deu um trago no cigarro – Ela ainda não sabe o que fazer, mas eu tenho esperanças.
- É sempre bom ter esperanças – comentou – Fodeu pelo menos?
- , moças não falam esse tipo de coisa! – ralhou, mas depois deu um sorriso zombeteiro – Mas sim. – eles caíram na gargalhada logo depois.
- Eu senti que ela estava na dúvida se tinha feito a coisa certa quando conversamos – soltou, sabendo que tinha decidido guardar segredo, mas ela já estava bêbada, então não se importava mais – Mas só ela pode decidir. De qualquer jeito, você está de quatro por ela.
- Eu não estou de quatro por ela, ! – protestou, mas eles riram logo depois – Está tão óbvio assim?
- Eu preciso responder? – rebateu – Eu espero que dê certo, . Eu te conheço há pouco tempo, mas você é um cara legal, merece que coisas boas aconteçam.
- Isso é muito legal de se dizer – disse e deu um sorriso mínimo – Você é a primeira pessoa que enxerga coisas boas em mim.
- Eu sou tua amiga, disse – É meu dever dizer coisas boas sobre você quando necessário. E claro, é sempre bom bajular quem está te cedendo um teto.
- Sua idiota – ele retrucou, mas eles voltaram a gargalhar.

A noite continuou com risadas e bebedeiras, mas eles não viram o tempo passar. tinha gravações bem cedo no outro dia, mas ele não queria acabar com aquele momento divertido. estava em sua vida há dois dias e ele tinha alcançado a cota de diversão do mês. Ele tinha companhia agora, pois antes vivia sozinho. Tirando , que permaneceu ao seu lado por três meses, de resto ele não tinha mais ninguém. Seu pai vivia com a madrasta na Flórida e quase nunca ligava, também não tinha muitos amigos e os que possuía moravam em Nova York, o que deixava sua estadia em LA muito solitária. Porém, naquele momento ele tinha . Ele deu um sorriso feliz quando percebeu que ela dançava desengonçada no meio da sala e se sentiu grato por tê-la encontrado. Eles dormiram no chão na sala naquela noite e apesar da dureza do chão, eles não se importavam porque ali eles tinham um ao outro.


Capítulo 4: Maria que amava Joaquim que amava Lili/que não amava ninguém.*

- , ei, chamou baixinho e o rapaz abriu os olhos – Já são quase nove horas.
- Nove? – ele disse e sentou no chão – Eu tinha que estar no estúdio às nove.
- Então é melhor você correr – a mulher disse. Prestando atenção, ele percebeu que ela estava sentada no sofá ao lado dele e ainda usava o vestido do dia anterior. A jaqueta preta dele estava sobre os ombros dela – Você precisa comprar uma cafeteira.
- Não tem como comprar uma cafeteira, elas só ficam nas cafeterias, – ele disse – Mas eu posso comprar um passador de café.
- Isso também serve – ela respondeu – Você vai se atrasar.
- Por que acordou tão cedo? – perguntou enquanto levantava.
- A luz do sol me acordou – explicou e assoprou o chá que tomava – Então eu levantei, peguei sua jaqueta e fui assistir o resto do nascer do sol.
- Eu vou tomar um banho, faz um chá pra mim? – pediu e foi em direção ao corredor.
- Claro!

tomou um banho voando, escovou os dentes e colocou uma calça jeans e uma camisa verde escura. Caminhou rápido para a cozinha e estava sentada no balcão em silêncio. A luz do sol entrava pela janela atrás da mulher e deixava a visão ainda mais bonita. A jaqueta preta ainda estava com ela e fazia um contraste com o vestido delicado. Os cabelos estavam totalmente bagunçados, mas ela parecia não se importar. Assim que percebeu que estava na porta, ela deu um sorriso preguiçoso para ele, que correspondeu no mesmo instante.

- O seu chá vai esfriar – ela disse baixo e ele foi direto para a caneca, parando ao lado da garota – Eu queria entender por que bebemos tanto.
- Porque odiamos nossos fígados – ele respondeu, provocando a risada dela. Ele deu um gole no chá bem quente e foi até o armário pegar aspirinas para a dor de cabeça – Odiamos nossas cabeças também.
- Claro – respondeu – Você vai vir almoçar aqui?
- Vou te levar para almoçar fora hoje – ele respondeu, dando um sorriso – Você não precisa ficar o tempo todo aqui dentro.
- Isso é ótimo – ela respondeu, dando um sorriso – Eu adoro sua casa, mas é bom sair um pouquinho.
- Acho que você vai gostar do meu apartamento em Nova York – ele comentou.
- Eu nunca fui para New York – ela comentou – Nunca saí da Califórnia, pra falar a verdade.
- Isso é sério? – perguntou.
- Sim, ué, nunca tive dinheiro pra sair do estado, não sou uma atriz de sucesso – ela brincou e ele riu – Sempre fiquei por aqui.
- Temos mais uma tarefa para esse ano, então – disse e se aproximou – Levar você pra conhecer o mundo.
- Essa é fácil de cumprir. – ela respondeu irônica e ele sorriu.
- Eu tenho que ir – o rapaz disse, deixou um beijo na testa da mulher e foi em direção à sala.
- Até mais tarde!

se viu sozinha mais uma vez e depois de terminar o chá, ela foi para o quarto dormir o resto da manhã. Tirou o vestido e decidiu dormir só de calcinha e sutiã mesmo, afinal, estava sozinha. Aos poucos ela perdia o medo de dormir e acordar. Porque ainda estava lá: o medo de ao acordar não estar de volta em 2015. Fechou as cortinas e se jogou na cama, sentindo sua pele ser abraçada pelo lençol macio. O sono veio rápido, mas não foi calmo. Ela sonhou, e no sonho, se afogava de novo. A água ao seu redor estava gelada, congelando seus ossos e sua carne o mais rápido possível. Ela tentava nadar, mas suas pernas pareciam pesadas demais, seus braços não davam conta de puxá-la para cima e o pânico fazia seus pulmões entrarem em colapso. Começou a engolir muita água e afundava cada vez mais, o silêncio do mar era reconfortante e sentia que poderia descansar. Ela fechou os olhos e sentiu seu corpo afundar mais e mais...

- ? Já é horário de almoço. ? – alguém chamava e a mulher abriu os olhos. Era tudo um sonho horrível e ela respirou aliviada, agradecendo por ao menos respirar.
- , desculpe, eu dormi demais – ela respondeu – Eu já vou sair!
- Tudo bem.

levantou, tomou um banho rápido e colocou mais um vestido – ela já estava ficando cansada disso – dessa vez com mangas curtas e de coloração verde. Era algo simples, mas bonito. Prendeu os cabelos em um coque e colocou os saltos que estava usando desde o primeiro dia. Abriu a porta e encontrou sentado na sala olhando para o nada.

- Eu realmente preciso de calças – ela disse sorrindo – Desculpe o atraso, eu dormi demais, sonhei que estava me afogando.
- Nossa, que horror – ele comentou e se levantou – Nós temos que ir logo. Eu tenho que voltar para o estúdio daqui a pouco.
- Ah, me desculpe, – ela repetiu e o seguiu pela porta – Eu estou me sentindo um lixo.
- Para com isso, garota. – ele respondeu enquanto caminhava para um dos carros na garagem.
- Wow, você só tem carro clássico – ela soltou e a olhou confuso.
- Clássicos? Eles acabaram de sair – o jovem respondeu – Você é estranha.
- Eu sei – ela respondeu – Eles são bonitos.
- E foram caros, mas valeu à pena. Gastei todo o meu dinheiro das peças que eu fiz com eles – respondeu e abriu a porta de um deles que não tinha ideia qual era – Entra aí.

Os dois chegaram ao centro de LA em poucos minutos, já que corria demais. Mais uma vez ficou surpresa ao ver como a cidade sempre foi bonita. As pessoas passavam devagar, bem diferente da pressa existente no século XXI. entrou em uma rua repleta de restaurantes e estacionou em frente a uma cantina italiana. Eles desceram do veículo e sorriu, deixando a mão na cintura da mulher enquanto eles entravam. O ar estava quente e com cheiro de comida italiana. Provavelmente aquele restaurante tinha fechado, já que não ele não estava presente naquela rua no século XXI. Eles se sentaram e depois de fazerem os pedidos, duas taças de vinho foram servidas.

- Acho que estamos bebendo demais, não acha? – comentou, mas deu um pequeno gole na bebida mesmo assim. deu um sorriso tímido.
- Nah... – ele respondeu e ficou em silêncio – Está gostando daqui?
- Sim, é muito confortável e eu acho que a comida vai estar boa. – ela respondeu e deu outro sorriso.
- Por que você sorri tanto? – perguntou.
- Eu não sei, simplesmente acontece – explicou – Por quê? Te incomoda?
- Não, eu gosto – respondeu – Você fica ainda mais bonita quando sorri.

Ela sorriu envergonhada pelo elogio e riu, dando um gole no vinho e ficando em silêncio enquanto acendia um cigarro. observava os movimentos do rapaz – já tinha virado um hábito para ela – e notou que a postura rebelde não o abandonava. As pessoas ao redor torceram o nariz para ele quando o rapaz entrou, ela tinha notado. Com certeza ele era considerado “problema” para as pessoas daquela época, mas aparentemente não se importava nem um pouco. Ele deu uma tragada longa e soltou a fumaça, encarando na mesma intensidade que ela o olhava. Ele deu um sorriso de lado e apoiou os cotovelos na mesa, sustentando o olhar da mulher. sorriu para ele e permaneceu o olhando também, até que ele riu e desviou, dando outra tragada e soltando a fumaça para o lado.

- O que foi? – ela perguntou.
- Você não desvia o olhar – ele respondeu e agradeceu a garçonete que o encarou seriamente também. Ele somente olhou o corpo dela quando a mulher virou e voltou a encarar – As pessoas geralmente desviam quando as outras encaram.
- Eu sou corajosa – ela disse e cortou um pedaço da lasanha que tinha escolhido – É o que dizem: se alguém te encara por mais de seis segundos ou ela quer te matar ou fazer sexo com você.
- E qual das duas é a sua escolha? – perguntou com um tom de desafio.
- Bom, eu não vou matar quem está me dando abrigo, não é mesmo? – ela respondeu e ele gargalhou.
- Você é muito desbocada. – ele comentou e dessa vez ela riu.
- Eu sou apenas sincera, querido – ela respondeu – Quer um pedaço? Esta lasanha está maravilhosa.
- Quero.

Ela cortou um pedaço da comida e estendeu o garfo para , que a encarou intensamente antes de abocanhar o garfo e mastigar devagar. O que estava acontecendo ali? Seria o vinho que estava deixando tudo sexy ou estava realmente tentando seduzi-la? De qualquer jeito, não recuava, então sustentou o olhar e deu um sorriso de lado.

- Boa, não é? – ela comentou e continuou a comer.
- Sim, está divina. – ele respondeu.

Continuaram a comer em silêncio e continuou a observar e estudar o que fazia. Era estranho pensar que ela estava ali em circunstâncias estranhas, já que não sabia nada sobre ela, mas mesmo assim sentia que podia confiar em . Ela teve várias oportunidades para roubá-lo e sumir, mas lá estava ela com ele depois de três dias, que foram os mais divertidos desde o momento em que tinha chegado em LA. Ele deu um sorriso que não passou despercebido pela mulher.

- O que foi? – ela perguntou.
- Nada, só estava pensando que você está comigo há três dias – ele explicou – E já me divertiu como nunca.
- Obrigada, fico feliz em entreter o senhor – ela respondeu – Pois é, três dias. Eu estou te incomodando?
- Por que diz isso? – ele perguntou.
- Bom, até agora eu só gastei sua comida, sua água e até suas roupas. – ela respondeu.
- É claro que não, você pode ficar comigo o tempo que precisar – ele explicou.
- Eu acho que vou precisar arrumar um emprego – disse – Não posso ficar dependendo de você.
- Para com isso, é sério – pediu – Você não precisa fazer nada.

O almoço continuou com conversas triviais e quando a sobremesa acabou, estava rindo tanto que estava quase engasgando. era leve e fazia tudo ao seu redor ficar melhor, ela até tinha feito amizade com o dono da cantina, um italiano que quase não falava inglês direito, mas cozinhava maravilhosamente bem. pagou a conta e quando eles saíram do estabelecimento com uma taça de gelatto na mão, quase entrando no carro, alguém chamou:

- ?

Eles viraram para olhar e estava na mesma calçada que . A atriz estava com algumas sacolas de compras no braço e estava acompanhada da mãe, que encarava com um olhar feio. olhou para , que ainda tomava o sorvete e não estava com uma postura de assessora. olhou para e ele se aproximou, parando ao lado da amiga. Ele estava tenso, ela podia notar pelos ombros, mas ele não transpareceu:

- , como vai? – ele perguntou – Essa é a...
- Rachel Green – o cortou – Nós conversamos no telefone.
- Então você é a Rachel? – perguntou com um tom presunçoso – A assessora.
- É um prazer conhecê-la, senh... – começou a dizer, mas foi cortada.
- O que está fazendo aqui, ? – ela perguntou, ignorando a apresentação oficial de .
- Nós viemos almoçar. – ele respondeu.
- Claro que você tinha que trazê-la aqui – disse – Eu tenho que ir, vamos embora, mamãe. – A mulher passou apressada e não se despediu, deu alguns passos e chamou:
- , espera, não é isso que você está pensando! – ele disse um pouco mais alto e as pessoas ao redor começaram a olhar. o ignorou e andou com a mãe para o mais longe possível – Droga!

Os dois ficaram em silêncio e não teve opção, a não ser entrar no carro em silêncio quando fez isso. Ele deu partida e saiu arrancando, deixando um pouco assustada. O silêncio reinava dentro do veículo, ela não se atrevia a falar nada, já que percebeu como estava bravo. Ele segurava o volante com raiva e bufava irritado. A mulher o observou e percebeu que o ator não parecia o rapaz bem-humorado de minutos antes. sentiu que tinha atrapalhado o amigo de alguma forma e decidiu ignorá-lo pela viagem de carro. Ela deitou a cabeça na porta e suspirou. notou a respiração da mulher e mais uma vez bufou irritado, sabendo que o clima só estava estranho por causa dele. Porém não conseguia deixar de pensar que aquela situação com só tinha acontecido porque ele estava com . Eles chegaram em casa e saíram do carro ainda em silêncio. abriu a porta e se jogou no sofá, enquanto foi direto para a cozinha beber água. Assim que ela voltou, decidiu falar alguma coisa:

- Eu sinto muito.
- Está tudo bem, agora a merda já foi feita. – ele respondeu sem olhá-la.
- Eu vou procurar um emprego e assim que conseguir, eu saio daqui – ela respondeu – Não quero te trazer mais problemas.

não respondeu nada, nem sequer olhou para a mulher parada em sua frente. suspirou e voltou para a cozinha disposta a lavar a louça e assim ocupar a mente de outras coisas que não fossem aquela situação bizarra em que estava. Ela achava que estava com raiva dela e por isso decidiu manter distância. O rapaz não se despediu, somente saiu pela porta afora e ela só percebeu que ele tinha ido embora quando ouviu o ronco do motor da moto. Ela suspirou e foi para o quarto trocar de roupa. Colocou o já tão conhecido shorts – uma das únicas coisas que tinha vindo com ela – e outra camiseta do que ela achou jogada no quarto dele. Amarrou o cabelo em um coque alto e se concentrou em limpar tudo, já que não tinha mais nada para fazer naquele lugar.
Já tinha lavado toda a louça que tinham sujado na noite anterior, ela suspirou e se sentou, sentindo uma súbita vontade de chorar. Era óbvio que aquela parceria entre ela e não iria dar certo e agora não tinha mais para onde ir. tinha certeza de que ele iria mandá-la embora da casa e ela teria que ir para a rua. Talvez viajasse para San Jose e tentaria contato com os avós, quem sabe eles acreditariam nela? Não podia se desesperar, tinha que manter a calma e pensar em um plano. O chão precisava de uma limpeza e ela foi atrás de produtos de limpeza para limpar tudo. Era ridículo pensar que a única coisa que tinha para fazer era limpar a casa de outra pessoa, mas a mulher não tinha opção. Já que não tinha como pagar pelos dias que estava ficando ali, o mínimo que podia fazer era deixar tudo organizado.
Tirou pó da estante cheia de livros e arrumou a sala, abrindo as janelas e deixando o ar entrar no ambiente. Ela foi até os quartos e arrumou tudo, assim como os banheiros e quando terminou sentou no sofá, sentindo o corpo grudar de suor. Tomou um banho gelado para refrescar, colocou o vestido que usava de manhã e decidiu que iria até a banca de jornal mais perto, procurar alguma vaga nos classificados. Deixou a porta encostada para o caso de chegar e saiu pelas ruas do bairro. O vento era quente, mas não a ponto de ser desconfortável. Ela apreciava a vista do bairro e quando chegou a uma das avenidas principais, encontrou uma pequena caixa de vidro repleta de jornais. Colocou uma moeda que achou jogada na casa de e teve acesso ao jornal, dando uma olhada nas manchetes principais. Seu coração ficou apertado ao ver notícias sobre segregação racial e tratando Marthin Luther King como um terrorista. A bolha ao redor de estourou e ela se viu diante dos grandes problemas existentes naquela época. Seus olhos se abriram como num passe de mágica e ela passou a notar as diversas placas nos estabelecimentos com os dizeres: “Brancos apenas” ou “Coloridos por aqui”. A magia existente no cinema que a cercava acabou naquele momento, fazendo com que ficasse até difícil de respirar. deu uma olhada mais uma vez no jornal e se sentou em um banco para continuar a ler.

Sobe para 80.000 o número de desaparecidos na Guerra da Coréia. A guerra terminada no ano passado ainda mostra suas sequelas.

Brown vs. Board of Education of Topeka: algumas escolas ainda resistem em acabar com a segregação de negros e brancos. A medida que já completou um ano ainda gera polêmica nos estados sulistas.

O presidente Dwight D. Eisenhower do partido Republicano terá que trabalhar com um Congresso e um Senado repleto de Democratas.

suspirou e olhou ao seu redor, tentando entender o que aquelas pessoas pensavam. Como podiam ser tão omissas? Percebeu uma mãe e sua filha, ambas brancas, atravessando a rua com pressa quando um rapaz negro andava em sua direção. Ele parou alguns segundos, deu um suspiro e continuou andando de cabeça baixa. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela pôde testemunhar com os próprios olhos aquilo que ela somente tinha visto por fotos nos livros de História.

já não aguentava mais a demora no estúdio daquele dia. Só tinham mais uma semana de gravação e agora estavam refilmando algumas cenas que o diretor não tinha julgado como boas. Já tinham gravado a mesma cena umas duas vezes e cada vez mais Elia não ficava contente com o trabalho. Um problema na iluminação, alguma expressão errada e lá estava todo o elenco impaciente. Ele bufou irritado e sua mão coçou para acender um cigarro, mas naquele dia, tinha deixado o maço no trailer. Continuaram a gravar e só depois de mais uma hora e meia, Elia decidiu finalizar a gravação do dia.

- Pessoal, amanhã nós regravaremos uma cena noturna, então vocês tem o dia de folga, mas estejam aqui no estúdio às sete da noite – o diretor falou mais alto – Se precisar ficaremos noite adentro, então estejam descansados. Muito obrigada pelo dia de hoje.

já estava se preparando para ir embora quando Elia o chamou e eles caminharam até a sala do figurino.

- , apesar de nossas diferenças e eu te achar extremamente rebelde – Elia começou a dizer e riu – Eu acredito no potencial que você tem.
- Obrigada, Elia – respondeu – Eu acho.
- Eu descobri grandes nomes do nosso cinema – o diretor disse – Marlon Brando é um dos meus, um jovem que eu percebi que seria um talento e hoje nós sabemos que eu estava certo. – não respondeu, esperou o mais velho continuar a falar – Eu sinto que você pode alcançá-lo e é por isso que eu consegui um teste com meu amigo Nicholas para você.
- Você jura? – perguntou, abrindo um sorriso – Que horas?
- Eu mandei todos os detalhes para a sua agente, mas pedi sigilo, queria ser eu a pessoa que iria te dar essa notícia – Elia disse e estendeu a mão para , que apertou – Não me decepcione, .
- Eu não vou, Elia. – o rapaz respondeu.
- E, por favor, não chegue bêbado no primeiro dia de gravação. – o diretor recomendou e eles riram juntos.

O diretor saiu da sala de figurino e suspirou aliviado. Ele deu um sorriso e começou a fazer uma dancinha ridícula em comemoração. Chegando em casa, o rapaz ligaria para Jane pedindo os detalhes e poderia comemorar com . Pensando na mulher, ele parou de dançar e sentiu um nó na garganta, lembrando-se do jeito ridículo que ele tinha partido. Depois de pensar muito, percebeu que ela não tinha culpa de nada, não tinha como nenhum dos dois saber que iria passar por lá e tirar conclusões precipitadas. Ele tirou o figurino e colocou sua roupa, pegando seus óculos e o capacete, saindo do estúdio e indo em direção à sua moto. Ele se sentou e finalmente acendeu um cigarro, dando uma tragada longa e sentindo a nicotina acalmar seu corpo. precisava se desculpar com e dizer para ela que a mulher não precisava ir embora da casa dele, a companhia de já estava se tornando algo que estava se acostumando e, sendo sincero consigo mesmo, ele já gostava dela e da presença radiante que ela possuía. Era delicioso acordar e perceber que estava ali com um sorrisinho no rosto e dizendo alguma bobagem para ele rir. não queria que ela fosse embora. Contudo, ele não sabia o que fazer, pois a presença dela poderia passar a impressão errada para as mulheres, afinal, eles não estavam juntos, não eram um casal e era somente uma amiga que dormia na mesma casa que ele por necessidade. Contudo, não era um babaca e não iria expulsar de sua casa somente porque estava atrapalhando suas transas ocasionais. Pensaria em uma explicação, talvez diria para todos que ela era uma prima distante ou uma irmã perdida.
Além da situação com , ele também precisava resolver sua situação com , que tinha entendido tudo errado e merecia uma explicação. Dentro de si mesmo, sentia que estava sendo ridículo, afinal, ela tinha terminado com ele e como estavam separados, não tinham obrigação nenhuma de dar satisfações um ao outro. Porém ele sentia a necessidade de se explicar e deixar claro que ele estava solteiro, que não existia outra pessoa em sua vida além de , e foi por isso que o rapaz pilotou até a casa dela. Mais uma vez ele estava ali com o coração batendo rápido e as mãos suando. Ele bateu palmas e até que a atriz finalmente aparecesse, haviam se passado quase vinte minutos.

- Eu pensei que depois de cinco minutos você iria embora – ela disse enquanto abria o portão – Mas pelo jeito você é persistente.
- Nós precisamos conversar, disse, ignorando as palavras duras dela – Eu não tenho nada com Rachel. Eu juro.
- Você não precisava se dar o trabalho de vir até aqui contar uma mentira, – ela respondeu, para o desespero do rapaz.
- Não é uma mentira, Rachel não tem onde morar – ele disse – Ela foi despejada e está comigo por uns dias – mentiu.
- Você não paga seus funcionários, não? – ela reclamou e ele riu.
- Pago, mas ela gasta muito com roupas, o que eu posso fazer? – ele riu nervoso – Eu juro, . Nós não temos nada, ela é minha amiga.
- E por que você contratou essa mulherzinha logo após termos terminado? – ela perguntou brava.
- Eu não sei, foi coincidência – ele respondeu – Por favor, não pense nada de errado.
- Por que você a levou para o restaurante que você me levava? – perguntou.
- Ele é o meu preferido, oras – respondeu – Eu juro, eu não tenho nada com ela.

ficou em silêncio por alguns segundos e não encarava por nada. Ele já estava ficando apreensivo e não conseguia parar de mexer a perna. O vento já estava começando a ficar frio, mas ele esperaria o tempo que fosse para saber o que iria falar. A atriz olhou para trás e percebeu a mãe na janela observando toda a cena.

- Você já disse tudo o que queria – ela disse friamente – Pode ir embora.
- Você não vai falar nada? – ele perguntou perplexo – Eu vim até aqui para explicar tudo.
- Não faz diferença, nós não estamos mais juntos – ela respondeu e se virou para voltar a andar – Eu vou entrar.
- Mas eu pensei que... – começou a falar, mas foi cortado.
- Pensou errado. – ela disse e bateu o portão, correndo para dentro de casa.

sentiu os olhos arderem, mas não iria chorar. Ele subiu na moto e seu sangue fervia de raiva. Ele se sentia um completo idiota, deveria ter deixado a mulher pensar o que quisesse mesmo. Mas ele tinha que ser um desesperado por amor e foi lá fazer papel de besta. Chacoalhou a cabeça, empurrando as lágrimas para longe e decidiu que não iria mais atrás de . Aquela tinha sido a última vez. Eles não iriam voltar e não adiantava se apegar a nenhuma esperança, por menor que fosse. Acelerou mais ainda e começou a cortar os carros pela avenida, recebendo buzinadas em resposta. Ele não se importava, só queria esquecer a humilhação que tinha passado. Entrou em sua rua e quando estacionou, pôde perceber a luz do abajur da sala ligada. Ele se lembrou que ainda estava ali, mas ele não estava com cabeça para ter que lidar com mais um problema. Ele não queria saber de ninguém, queria ficar sozinho e quando estava ligando a moto de novo para ir para o trailer, a porta abriu e apareceu na entrada. Ela usava uma camiseta dele e aparentemente não tinha nada na parte de baixo. Estava descalça e tinha os olhos inchados. A mulher o encarou com o olhar dolorido e qualquer irritação foi embora do corpo dele ao ver o rosto de . Ele desceu e deixou o capacete na moto mesmo. Caminhou rapidamente até ela e a abraçou. Ela era mais baixa que ele e sem saltos parecia ainda menor. retribuiu o abraço, deitando sua cabeça no peito do rapaz e apertando suas costas por baixo da jaqueta. não queria soltá-la, pelo contrário, queria continuar ali e fazê-la entender que ela era importante e que ele se sentia um bosta por tê-la tratado mal de manhã. Ele beijou o topo da cabeça dela e sentiu o cheiro de shampoo emanando dos cabelos da mulher.

- Me desculpe, disse baixinho – Você não precisa ir embora nem agora e nem quando arrumar um emprego.

Ela somente assentiu e o abraçou mais apertado, ficando na ponta do pé e deixando um beijo em sua bochecha. sorriu, mas ao perceber o olhar de , franziu o cenho.

- Aconteceu alguma coisa. – ela disse.
- Não, está tudo bem – ele tentou sorrir.
- Isso não foi uma pergunta – retrucou – Vem, vamos entrar. Os vizinhos daqui a pouco vão começar a olhar.

Os dois entraram e percebeu que estava ouvindo um de seus discos. A música estava baixa e eles se sentaram no sofá um de frente para o outro. Ele tirou a jaqueta e jogou no braço do sofá, acendendo um cigarro logo depois. percebeu que realmente não usava nada por baixo da camiseta e isso o fez engolir em seco. Eles se encararam profundamente e deu um trago longo antes de começar a falar:

- Eu fui até a casa de hoje.
- Ah, jura? – ela disse – Isso foi uma péssima jogada.
- Agora eu percebi – ele retrucou – Eu não queria que ela pensasse que estávamos juntos e fui me explicar.
- Cara, você não sabe nada de relações com as outras pessoas? – ela brincou – Você tinha que deixa-la pensar que estávamos juntos, deixa-la com a pulga atrás da orelha. iria te procurar eventualmente.
- Eu sou um idiota – disse e apoiou a cabeça no sofá, dando um suspiro – Por que eu não conversei com você antes?
- Porque você tinha sido hostil antes. – respondeu dando uma cutucada com o pé na coxa de .
- Eu fui um moleque – ele respondeu e olhou para a mulher em sua frente – Eu nunca mais vou te tratar daquele jeito.
- Está tudo bem, você já me pediu desculpas – respondeu e sorriu – Já passou.
- Eu consegui um teste para o filme daquele diretor que eu conversei na festa que você ficou bêbada e fez amizade com metade de Hollywood. – comentou e ela sorriu para ele.
- , isso é ótimo! – ela respondeu – Já sabe que horas será?
- Não, ainda bem que você falou, eu vou ligar para Jane agora – ele respondeu – Que tal pedirmos uma pizza?
- Eu acho válido.

Naquela noite eles conversaram sentados no sofá da sala enquanto comiam pizza. mais uma vez se sentia feliz por estar ali, a situação com já tinha ido para o fundo de sua mente durante toda a conversa com a amiga. Ele se pegou observando a mulher e deu um sorriso mínimo ao perceber como ela comia de um jeito bonitinho, se é que isso era possível. Ela o pegou observando seus movimentos e deu um sorriso bobo para ele. Ao menos aquele aspecto da vida de estava indo bem e ele se sentia grato.


Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém.*: trecho do poema “Quadrilha” de 1930 do poeta Carlos Drummond de Andrade.




Continua...



Nota da autora: Olá, pessoas! Eu espero que vocês tenham gostado desse capítulo tão amorzinho. Escrever essa história está sendo um grande aprendizado, aprendo muito sobre como descrever pessoas. Lidar com personagens tão diferentes como os principais faz com que eu tenha que me esforçar mais para torná-los humanos. Essa história também faz com que meu coração fique quentinho e toda a leveza que existe nela acaba passando pra mim também.
Eu estou amando cada pedacinho dessa história e eu espero que vocês aprendem a amá-la assim como eu. Não se esqueçam de comentar aqui, indicar para uma pessoa querida e participar do nosso grupo no facebook.
Um beijo e até a próxima!





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Nota da beta: Socorro, não me deixem nadar nas ondas da ilusão com esse casal!! Quando eu acho que vai, não vai! E isso me deixa doidinha hahaha Faz acontecer, Vica, o quanto antes, eu te imploro! xx

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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