Nunca Fui Beijada

Finalizada em: 16/12/2017

Prólogo

Vídeo #1: O Apocalipse

Câmera: on


— Olá, terráqueos, eu sou a e você está no canal Garota Literária. Pessoal, sei que sempre faço aqui no canal resenhas sobre livros, mas hoje o papo da gente vai ser diferente. Há três dias aconteceu uma situação horripilante comigo e eu comecei a pensar em algumas coisas. Primeiro vou contar o que aconteceu, intitulei o caso como O Apocalipse…

3 dias atrás

Domingos são dias de ficar em casa curtindo a preguiça existencial. Eu tinha uma certa teoria, não faça nada em dia de domingo, além de reclamar da vida e assistir Domingão do Faustão ou esperar Game Of Thrones começar, quando se está na época da temporada. Se você deixa de fazer isso e tenta fazer algo legal em um domingo, algo de ruim vai acontecer. É sério! Tenho uma grande lista de acidentes que ocorreram neste dia por tentar animá-lo.
Claro que essa teoria foi uma grande desculpa que eu inventei para tentar ficar em casa ao invés de ir à festa de aniversário de um amigo da , minha melhor amiga. E claro, ela não acreditou e lá estava eu, me arrumando para uma festa que eu não conhecia ninguém.
— Ainda não está pronta, ? - pergunta ao entrar no meu quarto e me ver com o cabelo enrolado em uma toalha, usando um vestido preto e o rosto sem nenhuma maquiagem.
— Estou com preguiça de me arrumar. Vai, , me deixa ficar em casa.
— Nem pensar, mocinha. Você precisa se divertir, , conhecer pessoas…
— Não começa - disse a cortando, já sabendo onde aquele papo pararia.
— Vamos, senta, eu arrumo o seu cabelo, preguiçosa.
Fiz o que ela mandou e enquanto meu cabelo cacheado era penteado e modelado com o creme, tentava me dizer como a festa seria divertida, mas algo em mim me dizia para ficar em casa, ficando enrolada em minhas cobertas. Como ela não me deixou fazer isso, ao terminar de arrumar meu cabelo, fiz uma leve maquiagem, e nós saímos.
Eu moro no interior da Bahia, uma pequena ilha chamada Paulo Afonso. Provavelmente você nunca ouviu falar, mas sim, nossa terrinha existe. Uma cidade bem arborizada, com poucos barzinhos, sem shopping, com quatro usinas hidrelétricas e muito potencial para crescer cada vez mais. Como dizemos por aqui, somos um povo arretado de bom e a nossa calmaria faz qualquer pessoa se apaixonar e não querer ir embora.
A festa que estávamos indo era na casa de uma das famílias riquinhas da cidade, então a grande mansão já estava cheia e bastante animada quando chegamos. E tudo que eu conseguia pensar era porque raios eu estava ali.
— Toma, tenho certeza que uma boa dose de álcool vai mudar essa sua carinha de quem comeu e não gostou - falou.
Revirei os olhos para ela, mas peguei o copo, só uma boa dose de álcool me ajudaria a ficar ali.

*

Acho que posso adiantar alguns acontecimentos para você não se cansar, não é?
Até as três horas da matina tudo estava bem, eu estava dançando, me divertindo e um pouco zonza. Mas acho que nem mesmo se eu estivesse super bêbada a minha mente apagaria o que aconteceu dali em diante. Sabem a minha querida melhor amiga? Ela sim estava super bêbada e teve uma brilhante ideia, subiu no palco e roubou o microfone do DJ.
— O-o-lá, meu povo-o - ela gaguejou — Que festa maravilhosa, Giovani. Aquelas bebidinhas coloridas são maravilhosas - ela riu. — Mas, meu pessoal, o que eu vim falar aqui é importante, especialmente para os meninos. Vocês querem diversão para essa noite?
Eu estava perto do palco, quase subindo para arrancar ela dali e foi nesse exato momento que o Apocalipse aconteceu.
— Vocês querem diversão, meninos? - ela continuou - Então formem uma fila porque essa amiga minha aqui - ela apontou para mim - é BV, acreditam? Minha amiga linda de 22 anos é Boca Virgem, nunca beijou ninguém. Mas vocês podem acabar com isso.
Eu gelei, a luz do holofote estava concentrada em mim, assim como o olhar de todos os presentes. A minha melhor amiga havia acabado de falar no microfone que eu nunca havia beijado.

Dias Atuais, gravação

— Mas vocês acham que eu vou ficar trancada em casa por isso? Claro que não, já que eu estou na merda, vamos aproveitar e fazer um estrume para ver se alguma flor nasce. O que eu quero dizer é que sim, eu nunca fui beijada. E isso não é problema nenhum, amiga. Mas esse vídeo já ficou grande demais, podemos continuar essa conversa no próximo? Espero vocês por aqui na próxima semana, nesse mesmo Batcanal. Mil beijos, .

Câmera: off.



Capítulo 01: O Problema

O que você faz quando está na sua última semana de férias?
A) Sai com os amigos para se divertir
B) Faz maratona das suas séries preferidas
C) Chama sua melhor amiga para uma festa do pijama
Normalmente eu fazia todas as opções acima. Mas no momento eu estava largada na minha cama ouvindo Taylor Swift e tendo uma ressaca existencial. A minha mente não conseguia parar de pensar no Apocalipse, principalmente na . Depois que ela soltou a grande frase de impacto: “Minha amiga nunca foi beijada”, eu tive vontade de subir no palco e bater com a cabeça dela no chão até ela ficar sóbria e ver a burrada que fez.
Mas eu nunca fui muito agressiva, então eu apenas encarei todos os jovens que me olhavam de forma surpresa e com pena, e sai correndo dali. Tive que ligar para a minha mãe e depois de falar mil vezes que eu não tinha sofrido nenhum acidente e nem estava ligando da cadeia, ela veio me buscar. Eu poderia ter entrado no carro e ter ido embora sem olhar para trás, entretanto, eu ainda me importava com a , mesmo estando com raiva dela.
Voltei e me certifiquei que uma das meninas do seu curso a levaria para casa. Pois, se uma mulher já sofre com tantos assédios, imagine uma mulher bêbada. Depois que fiz isso, entrei no carro e encostei minha testa no vidro da janela, querendo que aquela noite se apagasse da minha memória.
Infelizmente o meu desejo não se tornou realidade e os acontecimentos daquela noite não saíam da minha cabeça. Quando cheguei em casa naquele dia, minha mãe só me deixou em paz depois que contei o que havia acontecido e tive que ouvir o discurso de que a nunca foi uma boa companhia. Em outras ocasiões eu defenderia a minha amiga, mas, no atual momento, eu até concordava com mainha.
Assim, com minha mãe na minha defesa, a não conseguiu adentrar o meu reino e meu celular estava desligado para não ver as ligações dela. Talvez eu estivesse sendo dramática e Bad Blood tocando no meu fone não ajudava nenhum pouco. Tudo bem que a letra dessa música se encaixava direitinho com o que eu estava vivendo. Mas se a minha história com a fosse uma música da Taylor seria I Knew You Were Trouble.
Não, eu não estou apaixonada pela minha melhor amiga, mas se estivesse não seria nenhum problema, pois todas as formas de amar são válidas. Acontece que eu sabia que a era um problema quando a conheci no primeiro ano do ensino médio.
Ela gosta de ser o centro das atenções.
De beber enlouquecidamente.
Ama festas.
Odeia estudar.
E já experimentou a maioria das drogas ilícitas.
Mesmo eu sendo completamente diferente a ela, eu e criamos uma ligação extremamente forte. E sim, eu sabia que ela era problema. Mas eu sempre tive um senso crítico apurado e fortes opiniões, então, não ia pela cabeça de ninguém. Uma coisa é você ser amiga de alguém, outra bem diferente é ser um seguidor dela, copiando suas atitudes.
Assim, eu e a vivíamos uma amizade plena e maravilhosa, estando juntas em todos os momentos da nossa adolescência. Mas se tinha algo que gerava briga entre nós era a questão da minha virgindade bucal. Ainda lembro claramente quando contei para ela o fato.
— Espera. Você está falando que nunca beijou? – ela perguntou, espantada.
— É, , o que você acha que estou falando quando digo que sou BV? Que eu sou uma Bela Vadia? – reviro os olhos.
— Ai, meu Deus, . Você tem 16 anos ou o quê? Isso é hilário. – ela começou a rir.
— Em primeiro lugar, eu estou muito bem mesmo nunca tendo beijado alguém. É ridículo como as pessoas impõem que devemos ser ativamente sexuais cedo, é uma escolha minha não querer sair por ai enfiando minha boca em estranhos. Estou imune a muitos germes.
— Você é maluca. Mas não se preocupe, vou arranjar algum cara legal para você beijar.
Desde esse dia a tentou de todas as formas me fazer beijar alguém. Até a maldita brincadeira da garrafa ela fez em uma festa. Me irritava ela não aceitar o fato que eu estava bem assim, que eu não queria beijar ninguém no momento. Quando eu sentisse atração por alguém eu logicamente tentaria ficar com ele, mas as opções de meninos dessa cidade não faziam nem cócegas em mim. Preferia morrer sem beijar a ficar com garotos machistas que viam as mulheres como pedaços de carne e sendo submissas a eles. Não querido, obrigada, pode ir embora.

*


A minha última semana de férias passou mais rápido que o Flash e eu não estava preparada para voltar às aulas. Eu amava cursar Psicologia, mas voltar a estudar e esbarrar com a , que fazia Direito na mesma faculdade, estava fazendo meu estômago revirar.
— Você está bem? – mainha perguntou ao me ver pronta para ir pra faculdade.
— Claro.
— Se quiser faltar eu entendo, as pessoas vão ficar comentando e...
— Mãe, eu não me importo com o que esses idiotas pensam. Eu tenho a minha vida, eles têm a deles e o universo continua seguindo.
, eu sei que você é durona e aguenta as coisas numa boa, mas não é problema algum ser frágil um momento.
— Eu sei, mas eu estou bem, sério. Só não quero ver a .
— Espero que você fique longe dela também.
Com isto eu me despedi da minha mãe e fui enfrentar meu problema de cabeça erguida. Cheguei à faculdade e, assim que tirei o capacete, as pessoas começaram a me olhar. Ignorei isso e passei na catraca, queria subir as escadas rápido para não encontrar a .
Mas no segundo andar, lá estava ela. Loira, alta e maquiada.
...
— Não comece, eu não quero falar com você.
, me desculpa, por favor... – ela bloqueava minha passagem — Eu estava bêbada, não estava pensando quando falei aquelas coisas.
— Por favor, digo eu.
Aumentei o tom de voz e se eu já era assunto das rodinhas de fofoca, agora eu seria mais comentada que celebridade. Mas é aquele ditado, vamos fazer o quê?
— Não seja hipócrita, . Estar bêbada só foi um fator a mais para você fazer o que fez.
— Isso não é verdade.
— É sim, eu que não faria nada contra você. Eu que nunca te julgaria por algo que você escolhesse. E sabe por quê? Porque eu sou uma maldita trouxa que sempre está ao seu lado, ouvindo seus dramas e te tirando do fundo do poço. Mas eu cansei, cansei de ser seu capacho. Eu não quero ser mais a sua amiga.
Doeu-me falar isso tudo e mais ainda ao ver a tristeza no olhar da , mas o que ela fez não dava para perdoar. Ela expôs minha vida e me fez ser motivo de chacota.
, por favor, me desculpa...
Eu a afastei e passei por ela, a deixando para trás e seguindo para a aula. Ainda consegui ouvir quando ela falou:
— O show acabou, idiotas, não perceberam?
Ela estava errada, o show estava apenas começando. Mas dessa vez eu não seria a coadjuvante, estando a sua sombra. Eu seria a principal.



Capítulo 02: Caminhando Sozinha

A rainha Beyoncé já disse em sua música Me, Myself and I: “Eu, eu mesma e eu, tudo que eu tive no final, isso é o que eu descobri. E não é preciso chorar, eu fiz um voto que a partir de agora eu vou ser minha melhor amiga”. E se a rainha Bey diz, a gente assina embaixo.
Sem a na minha vida eu comecei a ver as coisas diferentes e percebi como ela interferia em alguns detalhes dela. Como exemplo, eu amava uma camiseta com estampa de quadrinhos, a dizia que ela era infantil e horrível. Um dia a camiseta apareceu com uma mancha horrível. Naquela época eu não queria acusá-la sem provas, hoje eu percebo como fui idiota e devia ter pedido uma camiseta nova.
Porém, não adianta ficar remoendo o passado. Era verdade que a tinha feito muitas coisas ruins para mim, mas também tinha as boas. E eu também não sou uma pessoa perfeita, ninguém é. Por isso, agora que estou nessa caminhada sozinha, devo sacudir a poeira e lutar contra meus demônios, um dia após o outro. Começando pela aula de Genética.
Entrei na sala e me sentei em uma cadeira, rezando para todos os santos que a hora passasse mais rápido. O professor fez a chamada e depois começou a ler o slide, juro que estava tentando prestar atenção, mas a aula era tão chata que eu estava quase dormindo. E para melhorar, ele pediu para fazermos uma atividade em dupla. Encarei a Patrícia, uma garota muito legal da minha sala e nós nos juntamos.
— Eu sei que você não deve querer falar sobre isso – ela falou depois de um tempo. — Mas o meu irmão estava na festa e me disse o que aconteceu.
— Você tem um irmão? – desconversei.
, você é muito lesada – ela riu. — Você trabalha com o meu irmão na livraria.
— O é seu irmão? Como assim?
— Você sabe, meu pai e minha mãe tiveram uma relação...
Nós duas rimos e o professor deu uma bronca na gente.
— Ele é meu irmão mais novo, tem a sua idade, 22, e eu quase 25 – ela completou.
— Eu sempre me esqueço que você é mais velha que eu.
— Me sinto grata por isso. Mas voltando ao assunto, só quero dizer que você pode contar comigo. A gente não se fala muito, mas te acho uma garota muito especial.
— Obrigada, Pati.
— Deve estar sendo uma barra passar por isso.
— Bom, eu estou recebendo várias cantadas, até que algumas são divertidas.
— Você deve conhecer aquela frase, há males que vem para o bem. Coisas boas devem estar por vir para você.
— Como um príncipe encantado em um cavalo branco para me salvar? – arqueei minhas sobrancelhas.
— Não, só o cavalo para você montar nele e sair galopando por aí, se salvando sozinha. – ela sorriu e depois dessa frase a coloquei na minha listinha de pessoas maravilhosas.

*


Saí da faculdade e almocei rápido em casa para ir à livraria. Eu trabalhava meio período atendendo aos pedidos da cafeteria. Era um trabalho leve e divertido, o principal é que o salário me ajudava a pagar os gastos extras da faculdade, como xerox e eventos, já que eu não pagava mensalidade por conta da bolsa que tinha conseguido.
Entrei na livraria e fui para sala dos funcionários, deixando minha bolsa lá e pegando o avental. Estava arrumando a touca na cabeça quando o chegou. Ele é um garoto muito bonito, não era bombado, mas era perceptível os seus músculos definidos. Seus olhos e cabelo eram castanhos escuros e seu sorriso era seu charme, além do sinal que tinha no lado direito do queixo. Infelizmente ele é gay e eu só posso apreciar de longe.
— Olá, senhorita Donut – ele sempre me cumprimenta assim por conta do meu trabalho servindo donuts.
— Olá, senhor dinheiro – retribuo, já que ele fica no caixa da livraria. — Descobri uma coisa sobre você hoje.
— O quê? – ele arqueou as sobrancelhas.
— Você é irmão da Patrícia.
— Meu Deus, , já vai fazer quase um ano que trabalhamos juntos e você descobre hoje que estuda com minha irmã?
— Em minha defesa, vocês não são nada parecidos.
— Eu sei, é difícil associar um cara lindo como eu com a Pati. Mas sim, nós somos irmãos, eu puxei a minha mãe, os olhos e tudo mais, já ela o meu pai.
Somos interrompidos por uma turma de adolescentes que entra no local.
— Ei, você é a garota que nunca foi beijada – diz um dos garotos do grupo, ele aparentava ter uns 15 anos. — Você é bem mais bonita que a foto que mandaram no grupo do Whatsapp.
— Oi? Como assim foto? – pergunto surpresa.
— Estão mandando em todos os grupos – diz outro garoto.
— Eu posso ver? – falo quase sem voz, não entendendo o que estava acontecendo.
Os garotos se olham e percebo que eles estão quase indo embora.
— Dê o celular para ela ver, Hugo. Ou você quer que a sua mãe descubra os sites que você fica vendo na internet? – fala.
— Cara, você prometeu – o garoto que se chama Hugo reclama, mas pega o celular e me dá.
Na tela há uma foto minha de uns cinco anos atrás, na época que eu ainda usava aparelho. Na legenda da foto tinha: “agora sabemos por que ela ainda não beijou ninguém. Estamos fazendo uma aposta para ver quem consegue ser o vitorioso que vai tirar o BV da . E aí? Você se arrisca?”. Eu fiquei encarando a tela do aparelho até ela se apagar. Não conseguia me mexer.
tirou o celular da minha mão e entregou ao garoto, os mandando irem embora. Depois ele me puxou e me fez sentar em um banquinho.
— Não fica assim, , o pessoal é muito babaca.
— Eles estão fazendo uma aposta, . Uma maldita aposta sobre mim – o encarei. — Isso é tão idiota, porque eu não posso seguir a minha vida em paz?
— As pessoas sempre querem interferir na vida dos outros para não lidar com as próprias. Você não merece isso, . Mas, olha, eu vou descobrir quem foi que começou com isso, tudo bem?
Ele me abraçou e ali eu me senti protegida, como há muito tempo não acontecia. A minha mãe tinha razão, eu me fazia de durona, mas no fundo, tudo isso estava mexendo comigo.
— Obrigada – agradeci quando me afastei dele.
— Não deixe que eles te afetem, você é forte, linda e inteligente. E olha, se eu pudesse voltar no tempo, teria esperado mais para ter o meu primeiro beijo – ele sorriu e colocou uma mecha do meu cabelo que tinha escapado da touca. — Você é autêntica, , e nesse mundo de pessoas que se enquadram em papéis por conta dos outros, essa característica é muito importante.
Um casal entrou na livraria e nós voltamos a nossos postos de trabalho. Enquanto eu ficava ali fazendo as minhas coisas, as palavras do não saiam da minha mente, olhei para ele em alguns momentos e sorri. Era acolhedor saber que ele pensava aquilo de mim, mas eu já não sabia se era tão forte assim. Parte de mim queria correr para casa e me esconder no colo da minha mãe, a outra queria sair gritando algumas verdades pelas ruas da cidade.
Quando estava me arrumando para ir para casa o apareceu com o celular na mão.
— Descobri quem está por trás da aposta – ele falou.
— Como?
— Eu arrumo alguns computadores, você sabe, eu amo essas coisas, fiz curso técnico em informática e agora estou cursando Sistema de Informação, enfim.
— Concluindo, você é nerd.
— Isso – ele sorriu. — Têm esses garotos que eu descubro coisas nos computadores dele, tipo o Hugo, se as mães deles descobrem é terceira guerra mundial. Então eu fico de bico calado e eles ficam me devendo favores.
— Você fica chantageando os garotos, ?! Que coisa feia. Será que dá pra eles fazerem algumas coisas pra mim? Tipo lavar minha moto – falo brincando.
— Talvez – ele ri. — Mas voltando à aposta, através desses garotos eu descobri quem começou a espalhar a foto. Não me surpreendi, é a realeza babaca da cidade.
Ele me mostra a mensagem no celular onde está três nomes, o que também não me surpreende. Os três garotos mais idiotas da cidade e que se achavam reis por conta do dinheiro que os pais têm.
— O que você vai fazer? – pergunta. — Acho que você deveria, sei lá, falar para os seus pais, deve entrar como algum crime virtual, apesar de que o delegado cagão daqui da cidade não vai querer fazer nada contra eles.
— Eu vou fazer algo mais divertido – abro um sorriso diabólico.
— Esse sorriso está me dando medo, gosto.
— Eu vou expor eles.
Eu havia prometido a mim mesma que iria lutar contra os demônios, então, era hora de pegar a espada ou, no caso, a câmera e mostrar que nessa caminhada árdua eu não iria me esconder. Amiga Kim Kardashian, você se orgulharia de mim nesse momento, porque o mundo vai saber como esses garotos são idiotas. Amigos do Facebook, o próximo vídeo do canal Garota Literária é para vocês.



Vídeo #2: A Aposta

Câmera: on


— Olá, eu sou a e você está no canal Garota Literária.

* abertura fofinha do canal *

— Primeiro, quero agradecer a todos os comentários no último vídeo, vocês foram muito fofos e me fizeram sentir muito melhor pelo Apocalipse. Eu tinha um cronograma para seguir, mas um novo fato na minha vida mudou tudo e o vídeo de hoje é sobre A Aposta. Acontece, caros amigos, que alguns garotos acharam legal fazer uma aposta para ver quem conseguiria me beijar primeiro. Não vou mentir para vocês, isso me chateou muito. É horrível saber que as pessoas acham errado o modo como sua vida é e querem impor algo para você. Use isso, Beba isso, faça sexo – me aproximo da câmera. — Ei amigo, eu não quero fazer isso. Você ouviu? – coloco as mãos na boca para imitar um megafone. — Eu não quero fazer isso! Eu não quero fazer algo para me enquadrar no grupinho de vocês ou me tornar uma garota “normal”. Aliás, ninguém é normal.
Paro de falar e pego o celular com uma pequena lista que Dani me enviou mais cedo. Três nomes masculinos estavam ali.
— Eu tenho um amigo maravilhoso que conseguiu o nome dos garotos descolados que começaram com essa aposta. Então resolvi ligar para eles e ter uma conversinha. O primeiro se chama Fernando.

* barulho de chamada de celular *

— Alô – o garoto fala.
— Oi, eu sou a . Você deve me conhecer como a garota que nunca foi beijada.
— Ei, eu ia te ligar, peguei seu número com uma garota da sua sala. Olha, eu te acho muito bonita e...
— Eu também me acho muito bonita. Soube que você tem participado de uma aposta, fiquei intrigada, por que você acha que eu te beijaria?
— Bom, eu sou bonito...
— Eu olhei seu Facebook e cara, você não sabe tirar fotos. Você acha que eu sairia com um homem que fica postando fotos sem camisa? Isso é vulgar eu nunca sairia com alguém assim.
— Você está brincando – ele ri.
— Não.

* Ligação encerrada *

— Vamos para o número dois, pessoal.
— Alô...
— Oi, Paulo, aqui é a , a garota que nunca foi beijada. Soube que você fez uma aposta dizendo que iria me beijar em uma semana. Eu poderia até fazer o sacrifício, mas a última vez que te vi você tinha mau hálito. Aliás, várias meninas não ficam com você por isso, então, amigo, você está muito pior que eu. Tchauzinho.

* Ligação terminada *

— E o grande final, pessoal. O filho do prefeito, Giovani Ferreira.
— Alô... – voz feminina.
, que surpresa, você pode passar o telefone para o seu amiguinho.
, o quê? – barulho ao fundo da ligação, sendo interrompida.
— Ora, ora, a nova celebridade da cidade querendo falar comigo. O que você quer, ? - Giovani fala.
— Todo dinheiro que você arrecadou com essa aposta idiota. Você tem até amanhã para me trazer ou eu abro um processo contra você e seus amiguinhos. Seu pai não iria gostar disso, não é?

* Ligação encerrada*

— A lição desse vídeo de hoje, pessoal, é que nós mulheres cansamos de ser brinquedinho de vocês. Não vamos baixar a cabeça por conta dessas idiotices. Se vocês vão me humilhar? Bom, eu também sei fazer isso. Se vocês acharam que eu seria a garotinha indefesa que ficaria chorando pelos cantos a espera do príncipe encantado, estão muito enganados. Vocês têm que entender que existem dezenas de motivos para que alguém não faça algo, mas o maior de todos é porque ela simplesmente não quer fazer isso agora. E já somos grandes o suficiente para parar de fazer as coisas só porque A, B e C estão fazendo. Nossa vida não é um filme em que o cara que fez a aposta para ficar com a gente vai se apaixonar perdidamente. Não fique esperando ele bater em sua porta para te transformar na garota popular. Não precisamos deles. Você, eu e todo mundo não precisamos mudar por alguém. Faça isso apenas se for para você mesmo. Vamos apostar uma coisa? Eu e você vamos ligar o botãozinho do dane-se para quem acha que precisamos mudar nossa vida por não se encaixar no maravilhoso padrão da sociedade. Vejo vocês no próximo vídeo, beijos.

Câmera: off



Capítulo 03: Amigos?

O prazo para Giovani me dar o dinheiro estava acabando. Contudo, quando meu turno na livraria já estava acabando tive uma surpresa. Parei de limpar as mesas e a encarei, estava passando pela porta, o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, os olhos azuis marcados com o delineador preto. Estava vestida com calça jeans e regata branca, tão comum para ela, mas o seu toque estava ali, seus pés estavam calçados em um salto alto preto. Ela tirou do bolso de trás um envelope e estendeu para mim, entendi o que era.
— Então agora você é a nova empregadinha do Giovani? – falei, era assim que todo mundo chamava as namoradas dele, já que ele as fazia de capacho, pior que um dono de escravos.
— Eu quis fazer um favor para você, ele não gostou nada do vídeo que você compartilhou no facebook, é melhor você apagar.
— Eu também não gostei do que ele fez comigo, então estamos quites.
... – ela viu minha careta e mudou. – , você não sabe com quem está mexendo. Você já deu seu recado e ele mandou o dinheiro, agora apague isso.
— Obrigada pelo aviso, mas eu não tenho medo do seu namoradinho. Se era só isso que você veio fazer aqui, pode ir.
Ela abre a boca mais uma vez, entretanto, não diz nada. Olha para trás de mim, vendo arrumando alguns livros.
— Avise ao seu amiguinho que o Giovani também está procurando quem descobriu que foram eles, o mande tomar cuidado – depois disso ela saiu.
Pela porta de vidro a vejo entrar no carro de Giovani e fico apreensiva por ela.
Ah, , você se preocupa comigo, mas e você, o que você está fazendo ao lado desse garoto?
Afasto esses pensamentos e abro o envelope, contando as cédulas, trezentos reais estavam ali. Dividido o dinheiro, colocando uma parte no bolso da minha calça e vou até , estendendo para ele os cento e cinquenta.
— Toma, você que conseguiu descobrir que eram eles, então mais que justo ganhar metade – falo.
— Não, é seu.
, por favor, aceita.
Ele sorri e arqueia as sobrancelhas grossas. E, poxa vida, que sorriso.
— Você nunca me chamou de .
— Não acho legal chamar as pessoas pelo apelido se não sou íntima delas.
— Então agora nós somos íntimos?
— Pelo amor de Deus, , cala a boca e pega esse dinheiro.
Ele ri e pega o dinheiro, colocando no bolso. Ainda solta umas piadinhas que estou muito estressada e deveria gastar a minha quantidade da grana em aulas de yoga.
Às sete horas o senhor Gilberto fecha a livraria, como minha moto estava na oficina, tinha que ir a pé para casa, que não era tão longe dali. Estava fechando a bolsa quando apareceu com sua bicicleta.
— A motoqueira está a pé hoje? – ele pergunta.
— Infelizmente.
— Te acompanho.
— Não precisa, ainda está movimentado, não tem perigo.
— Eu faço questão, .
Ele desce da bicicleta e vai empurrando ela, caminhando ao meu lado. Um vento bagunça meu cabelo e eu bufo por isso, me irritando, o que o faz rir.
— A ... – faço uma careta. — A falou que o Giovani está procurando quem descobriu sobre os mentores da aposta para mim, então é melhor você tomar cuidado.
— Não tenho medo deles, sei me virar.
— O quê? Você tem uma identidade secreta e eu não sabia? Porque só assim para você não ter medo da gangue do Giovani.
— Sou o Flash, mas não conta para ninguém.
Eu sorrio, pois o Flash é meu herói preferido da D.C.
— Bom, Flash, faça de tudo para se proteger, mas, por favor, não volte no tempo. Muitas merdas acontecem quando você faz isso.
— Com certeza. Saindo do personagem, amo como você tem referências legais.
— Eu sou uma garota de mil e um talentos - pisco e jogo o cabelo.
Ele ri e depois ficamos em silêncio, percebo que devo agradecê-lo por tudo que tem feito.
— Obrigada, você não precisava se meter nisso, mas mesmo assim o fez.
— Não tem problema – ele arqueia os ombros. — Eu me preocupo com você, , mesmo você só me considerando agora como alguém íntimo. Então, - ele para e me estende a mão – podemos ser amigos?
— Amigos? – sorrio.
— Você sabe, eu não te deixo morrer na solidão e você, bom, você de alguma forma me faz bem.
— Tudo bem, amigos – aperto a sua mão, me sentindo um pouco desconfortável com o ato e a soltando logo após.
— Seu primeiro compromisso como minha amiga é aparecer na festa do meu aniversário no sábado, lá na minha casa – ele diz depois que voltamos a andar.
— Ah, entendi todo o papo de amizade, você não queria que sua festa fosse só você e seus pais – falei rindo.
— Engraçadinha. Fique sabendo que eu tenho bastantes amigos.
— Está tudo bem ter amigos imaginários, , eu não te julgo.
Rimos juntos. Pela primeira vez eu estava me sentindo mais leve, era divertido e eu sabia que essa amizade seria boa para mim. Paramos em frente ao portão da minha casa, ele termina de contar sobre a festa e me olha.
— Eu sei que eu não deveria dizer isso, mas, eu acho que mesmo que soe estranho, você precisa ouvir. Fico feliz que você e a tenham se afastado, você e ela sempre estavam juntas e a é intimidadora, nunca consegui falar contigo ao lado dela. Eu te achava a sombra da , . Agora, fora do escuro, a gente consegue ver teu brilho.
Ele termina de falar e me dá um beijo na bochecha, montando na bicicleta e indo embora. Entro em casa e vou para o banheiro, para tomar um banho. Enquanto a água caia em mim, eu pensava no que ele havia falado. tinha razão, eu precisava ouvir aquilo e o entendia. Eu era mesmo uma sombra dela, era minha única amiga, com o título de “a melhor”. Mas como eu podia falar isso? Como eu podia dizer com todas as letras que a era minha melhor amiga se eu só a tinha? Eu vivia dentro do seu casulo e agora finalmente havia ganhado as asas, me libertando e pronta para contemplar a natureza.
O mundo tem tantos tons e eu via apenas o que ela me proporcionava, mas a mudança iria começar, primeiro pelo . Amigos, ele disse. Amigos, o primeiro de tantos outros que estava pronta para formar.



Capítulo 04: Feliz aniversário,

A semana havia passado rapidamente. Minha amizade com crescia, tanto que eu me acostumei a ir a pé para o trabalho, só para voltarmos juntos, conversando. Ele me fazia rir de coisas idiotas e desabafar sobre como estavam sendo meus dias. era a típica pessoa que você manda a frase “queria te colocar em um potinho”.
O dia do seu aniversário chegou, um sábado extremamente quente. Por aqui nós dizemos que as quatro estações são: mormaço, calor, verão e inferno. Na última se você colocar um ovo no asfalto na parte da tarde, ele com certeza vai tostar. O Nordeste é lindo e maravilhoso, mas o calor é insuportável. Os 38º que o termômetro marcava me fazia querer ficar em casa jogada na cama com um ventilador em cima de mim. Mas, pelo , eu coloquei um vestido soltinho, prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e coloquei um óculos escuro, indo para a avenida principal em busca de um presente para ele.
O chato é que presentes masculinos são muito limitados, sempre ficava entre cuecas, perfume ou camiseta. Optei por uma camiseta, então comecei a entrar em diversas lojas atrás de uma. É claro que nessa busca eu acabei achando mais coisas pra mim do que a bendita camiseta. Já estava com três sacolas de roupas para mim quando entrei na quinta loja, indo para a sessão masculina. Vasculhei tudo e achei uma camiseta com estampa do jogo Pacman, então sorri, por finalmente ter encontrado o presente.
— O seu namorado vai amar - a vendedora disse no caixa.
Sorri sem jeito e nem a respondi. Não adiantaria se dissesse “ele não é meu namorado”, pois depois ela com certeza falaria “ah, mas uma garota linda como você não deveria estar sozinha” ou, em casos mais graves “cuidado para não ficar pra titia”.
Insira o emoji revirando os olhos aqui.
Sai da loja e fui direto para casa, cansada de bater perna.
— Alguém encontrou o Papai Noel antes da hora, hein?! - minha mãe falou quando eu entrei em casa cheia de sacolas.
— Tudo fruto do meu trabalho, dona Lú.
E de uma aposta que fizeram sobre mim, mas isso a senhora não precisa saber.
— Para quem é o presente? - ela pergunta depois de fuçar as compras.
— Ah, esqueci-me de falar, hoje vou para uma festa de aniversário, é do garoto que trabalha comigo.
— Garoto?
Minha mãe sempre surtava quando eu mencionava a palavra garoto. Ela estava tão desesperada que eu arrumasse um namorado que já até colocou o Santo Antônio de cabeça para baixo. Ela ficava indignada que a sua única filha não tivesse puxado a ela, curtindo a juventude adoidada.
— Nem comece - a corto.
— Tudo bem - ela contém o sorriso. - Escuta, você não me falou mais, o que aconteceu com a depois da festa.
— Cortamos relações.
— Sei que deve está sendo difícil, , mas acredite em mim, ela não era boa companhia. Quando eu tinha sua idade eu andava com pessoas como ela, me afastei quando pude. Essas pessoas são bombas relógios programadas para destruir.
— Eu estou tentando superar isso tudo, mãe, mas eu sinto tanto a falta dela.
— Eu sei, meu amor, mas logo você se acostuma.
Ela me puxou e me abraçou, fazendo um cafuné na minha cabeça, tão agradável que eu poderia passar horas ali. Mas me afastei, indo para meu quarto estudar um pouco antes da festa do .

*


Acordei de supetão, havia dormido em cima dos livros. Amava psicologia, mas era cansativo o tanto de livros que tenho que ler toda semana. Levanto-me e olho a hora no celular, já era 19h30min, então corri para o banheiro, para um banho rápido.
Arrumei-me rapidamente, vestindo uma calça preta justa, uma blusa de listra preta e branca, além de um salto alto. Na maquiagem deixei o olho leve e realcei a boca com o clássico batom vermelho. Passei o perfume e peguei a bolsa com meus pertences, o presente e a chave do carro, saindo de casa.
havia me passado o seu endereço via mensagem, e como as ruas eram conhecidas, não demorei a chegar. Parei em frente o portão e apertei a campainha, ouvi risadas e gritinhos, logo após a porta abriu-se. abriu um sorriso, estava vestido com uma calça jeans e uma blusa xadrez escuro.
— Feliz aniversário, senhor dinheiro - falei, me referindo ao apelido que usávamos associando nossos trabalhos na livraria.
— Obrigado, senhorita Donut - ele agradeceu, me puxando para um abraço.
O cheiro do seu perfume amadeirado impregnou em mim, além do calor do seu corpo.
— Seu presente - entreguei-lhe, quando nos soltamos.
— Não precisava se preocupar com isso.
— É só uma lembrancinha.
— Bom, obrigado. Vem, vamos entrar.
Passamos por um jardim e fomos até a parte de trás da residência, onde mesas estavam espalhadas e várias pessoas conversavam. Uma música pop famosa tocava e o cheiro de churrasco estava forte. me apresentou aos seus convidados, a maioria primos dele, além de seus pais, um casal educado e divertido que me conquistaram logo de cara.
— Seus pais são uns amores – digo para ele quando nos afastamos.
— Agora, antes eles só viviam brigando, ficaram separados por um tempo, mas acabaram fazendo as pazes e agora vivem assim, como se fossem dois adolescentes, ou melhor, dois coelhos que não se preocupam com os filhos dormindo no quarto ao lado.
— Se soubesse, tinha te dado tampões de ouvido de presente – faço piada.
Fomos até onde Patrícia estava, sentando junto dela e do melhor amigo do , Rafael, que é um garoto com sorriso encantador e beleza era casual, se ele vestisse com as roupas certas, diria que saiu dos anos 70, com aquele cabelo desgrenhado.
— Nós temos um ritual para novatos no grupo - disse Rafa depois de um tempo.
— Temos? - perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Sim, primeiro, para entrar no grupo você tem que responder uma pergunta muito importante – ele fica sério e me encara, depois continua. — Biscoito ou bolacha?
— Não me importo com o nome, tendo para eu comer é o que é válido.
Rafa escancara a boca e me olha, penso em responder a pergunta, mas um segundo depois ele se joga em mim, me abraçando, o que me deixa surpresa.
— Eu estou emocionado, ela é das nossas, se importa mais com a gordice – ele fala.
— Mas sério, é bolacha, não é? – pergunta.
— Não vamos começar uma guerra por aqui. – desconverso.
— Gostei dessa garota, gostei muito. Pela primeira vez na vida você fez algo que preste, . Agora para completar sua iniciação no grupo, você deve saber os momentos mais vergonhosos da vida do . Por exemplo, quando ele tinha sete anos e fez xixi nas calças no meio da aula porque achava a professora muito bonita e não conseguia falar nada com ela.
— Aí, meu Deus - falei rindo.
— Cala a boca, Rafael, ou você quer que eu jogue na roda o seu mico com a Mônica.
— Tudo bem, já parei, cara.
— Agora você entende por que faço psicologia? - Pati me questiona - Lido com esses dois todo dia, queria entender se a idiotice deles é algo mental.
— Falou à garota que ficava esfregando giz de cera no cabelo para ver se ficava colorido.
, eu sou sua irmã mais velha, não me faz subir as escadas e mostrar seu álbum de infância para a .
— No aniversário da pessoa vocês não têm que ser legais com ela? Porque até agora vocês só denegriram minha imagem aqui.
— Eles nem precisam se dar ao trabalho, . Fico com você há um ano naquela livraria, sei o quanto você não bate bem da cabeça.
— Repito, gostei dessa garota - Rafa diz e fecha a mão em punho, fazendo com que eu bata nela.

*


Já passava da uma hora da manhã, só estávamos eu, , Rafa e Pati sentados no quintal, o resto dos convidados já haviam ido embora e os pais dele tinham ido dormir. O clima estava tão bom e divertido que eu me recusava a ir para casa, onde a solidão me deixasse para baixo.
— Pega o violão, - Pati sugeriu.
— Você toca?
— Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, .
Não sabia o que tinha acontecido, mas a voz grave de e a forma como ele disse meu nome fez com que eu me arrepiasse.
Droga de hormônios.
Ele se levantou e voltou minutos depois com o violão, se sentou e começou a dedilhar uma melodia que eu reconheci, era Ela Só Quer Paz do Projota.
era um cantor e tanto e, mesmo sabendo que aquela música não era para mim, naquele momento eu me perdi na canção sentindo que de alguma forma ele estivesse a dedicando para mim. Afinal, paz era a única coisa que eu queria no momento.
No refrão todos nós cantamos alto, uma mistura de desafinados, nos sentindo livres e jovens, desfrutando de boas risadas. tocou diversas músicas, inclusive Pelados em Santos dos Mamonas Assassinas. Depois que ele terminou, cortamos mais pedaço de bolo e ficamos comendo e conversando mais ainda.
— Estava vendo os vídeos do seu canal, não acredito que você fez aquilo com o Giovani. Posso dizer com todas as letras que te admiro demais, garota – Pati comenta.
— Eu não podia ficar calada.
— Só espero que ele não descubra que foi o que descobriu que eram eles, aqueles meninos são perigosos.
— Eu ainda não me conformo pelas pessoas ficarem tão incomodadas por você apenas não ter beijado alguém. Mano, estamos no século 21 e ainda ficamos incomodados com o que o outro faz com sua própria vida. – diz.
— E como gostam de rotular as coisas, não é? – Rafa complementa. — Isso é tão ridículo, como se apenas uma palavra me representasse. Nós, seres humanos, somos uns completos caos, não podemos nos limitar em apenas uma coisa.
— Caramba, vivi para ver Rafael Oliveira sendo filósofo. Por favor, uma palma para ele.
Nós rimos de e ficamos zoando o Rafa. Olho a hora no relógio e decido ir embora, me despedindo do pessoal. me acompanhou até o carro e eu percebi como deveria agradecê-lo por tudo que estava fazendo.
— Obrigada por tudo, . Você tem me ajudado com tanta coisa, me apresentou seus amigos, descobriu quem estava por trás da aposta, você fez com que eu não ficasse sozinha no meio desse Apocalipse.
— Não precisa agradecer, já te falei como te acho incrível.
— Incrível? Eu? Só que não, né?! Você que é, muito incrível na verdade, imagino como deve ter sido difícil lidar com esse mundo homofóbico e mesmo assim...
— Mundo homofóbico? Quê?
— Sim, sei como é difícil ser gay nessa sociedade preconceituosa, machista e violenta…
, eu não sou gay. Do que você tá falando?
Abri a boca espantada, ah não.
— A , ela, ela me disse quando você começou a trabalhar na livraria que você era.. Que ela tentou ficar com você e você disse que não, que era gay - a minha cabeça estava uma confusão.
— Não, ela tentou ficar comigo e eu disse apenas que “não”, educadamente, ela não faz o meu tipo.
— O QUÊ? Ela é linda, tipo, muito linda, acho que ninguém nunca deu um fora nela…
— Bom, eu dei. Ainda não consigo acreditar que você achava que eu era gay. Não que isso seja horrível, se eu fosse gay estaria muito feliz com a minha vida do mesmo modo que estou agora. Mas, , no começo eu flertava com você de forma explícita.
Tinha certeza que minhas bochechas haviam ficado vermelhas com o seu comentário. Naquela época eu achava que ele estava apenas brincando.
— Desculpa te dizer, mas você não é bom nisso – tento fazer piada.
Ele ri e eu só estou com vontade de fugir dali e me enfiar em um buraco, que mico!
— Bom, agora acho que colocamos os pingos nos is - ele fala.
— É, aprendi que ex-melhores amigas enganam.
— Não se preocupa, eu como seu novo melhor amigo não vou mentir pra você.
— Querido, para você conseguir esse posto terá que suar muito.
Abraço ele apertado e quando me afasto dou um beijo na sua bochecha.
— Feliz aniversário, .
Depois entro no carro, indo para casa e pensando porque a fez isso, mas logo compreendo. Assim que eu vi falei para ela como havia o achado legal e bonito. Ele não fazia o tipo dela, mas de alguma forma ela tentou ficar com ele, recebendo sua primeira rejeição, o que a fez ficar irritada e espalhar essa mentira. Era idiota fazer isso e eu me sentia babaca por acreditar tão fielmente nela. Entretanto, isso não me preocupava no momento, mas saber que não era gay. E a loucura de sentimentos que eu sinto quando ele sorri.
Mas ele era importante demais para eu tentar estragar tudo com um possível (quase nulo) romance.
Vamos continuar com o título de Não Beijada.

Vídeo 03: Sem Julgamentos!

Câmera: on


— Olá, amorecos, como você estão? Eu tentei responder todos os comentários de vocês no último vídeo, mas foram tantos que eu ainda estou respondendo aos poucos, um dia consigo. O tema de hoje é: - pego um livro que havia colado um papel escrito “não julgue um livro pela capa” - Isso mesmo, nada de julgamentos!
Coloco o livro de volta na estante e lembro do momento que descobri que não era gay.
— É engraçado como gostamos de rotular as pessoas e a partir disso só a vemos desse jeito. Montamos os estereótipos em nossas mentes e os colocamos como verdades absolutas. A “loira burra, a negra empregada, o gay afeminado cheio de brilho”. Isso nos cega e deixamos de ver o que realmente importa, que são pessoas! Pessoas que são totalmente diferentes do que pensamos e ditamos. As aparências não são tudo e isso não nos mostra como as pessoas realmente são. Provavelmente você já falou “ah, não gosto daquela ali” e aí te perguntam “Por quê?” E você apenas responde “meu santo não bateu com o dela”. Isso não existe, para você não gostar de alguém devem existir motivos e para isso existir você tem que falar com o outro, o conhecer, o ouvir. Não o julgar pelo que uma amiguinha sua disse. Antes de começar esse vídeo eu comecei a pensar no tanto de gente que deixei de ser amiga por dar ouvidos as fofoquinhas que espalham por aí. Foram muitos, mas eu tive a chance de ver como estava sendo idiota e me aproximar de alguns, especialmente um garoto muito legal. Acho que não deveria falar isso porque ele já se acha muito, mas tudo bem. O convidei para participar do vídeo de hoje, então senhoras e senhores, conheçam .
O saiu de trás da câmera e se sentou ao meu lado, estava com um sorriso enorme e todo perfumado.
— Olá, eu sou o e vou deixar o vídeo da mais bonito.
— Idiota - o empurro com o ombro. - Nós vamos fazer um jogo em que falaremos qualquer coisa e o outro tem que responder com “Eu não concordo com você, mas não te julgo, respeito sua opinião”. Vamos começar, você primeiro.
— Me deixe pensar - ele morde os lábios e coloca a mão no queixo - Já sei, sabe coxinha, eu sou do grupo que como pela “bunda”, o fundo no caso, nossa, isso tem um grande duplo sentido - nós rimos.
— Você sabe que está quebrando o ritual, não é?! Só falta dizer que não faz o ritual da Tortuguita.
— Shii, shiu, qual a regra do jogo?
— Eu não concordo com você, mas não te julgo, respeito sua opinião, - sorrio. - Minha vez, eu acho videogames entediantes, principalmente de corrida, são chatos!
— Eu não concordo com você, mas não te julgo, respeito sua opinião. Eu amo azeitona.
— Aí, não, , não acredito nisso, vamos cortar relações agora, aquele troço é muito ruim, o cheiro, a textura, o gosto. Nossa, que horror.
— Não é nada, é muito bom, você que é toda fresca.
— Eu não acredito que você me chamou de fresca!
— EU NÃO CONCORDO COM VOCÊ, MAS NÃO TE JULGO, RESPEITO SUA OPINIÃO - ele grita.
— EU NÃO CONCORDO COM VOCÊ, MAS NÃO TE JULGO, RESPEITO SUA OPINIÃO - o imito.
Nós repetimos mais uma vez e rimos depois.
— A gente sabe que dizemos coisas bem idiotas que não concordamos, mas o que queremos propor é usar essa frase: Eu não concordo com você, mas não te julgo, respeito sua opinião. Use-a sempre que falarem algo que você não concorda, quando expõem argumentos diferentes dos seus. É importante que nós respeitemos os outros com suas peculiaridades, suas diferenças e jeitos. Bom, é isso, vejo vocês no próximo canal sem o .
— Isso é uma pena para você, querida, tenho certeza que esse vídeo aqui vai bater seu recorde de visualizações e comentários. Todo mundo me ama, não é pessoal? - ele dá uma piscada para a câmera.
Coloco a mão na sua boca o calando.
— Tchau, pessoal - falo, rindo.

Câmera: off



Capítulo 05: Junte os pedaços

A minha vida está uma bagunça.
Na verdade, ela sempre foi.
E, provavelmente, sempre será.
Estava na escuridão do meu quarto, deitada na cama e refletindo sobre tudo. Já que a insônia, minha amiga de longa data, resolveu que hoje era um bom dia para me visitar. Se você não é amiga dela, me ensina a receita, porque não está sendo fácil.
É bem engraçado como viramos filósofos brilhantes ao encostarmos a cabeça no travesseiro. Pensamos desde as tarefas que devemos cumprir no próximo dia até problemas muito importantes do mundo, como porque os cinco patinhos foram passear além da lagoa para brincar. Qual é, amiguinhos, nesse calor dos infernos e vocês saindo de perto da lagoa?
Virei-me na cama e fechei os olhos, tentando contar carneirinhos para conseguir dormir e anotando mentalmente que deveria ir visitar minha avó no outro dia.
35, 36, 37… Puff, escuridão.

*


Acordei tarde, mas como era domingo, estava tudo bem. Levantei da cama e fiz minha higiene matinal, depois fui pra cozinha procurar algo para comer.
— Finalmente acordou, bela adormecida – mainha fala ao me ver.
— Não tive uma noite muito boa, se eu ganhasse um real por cada carneirinho que eu contei, estava rica.
Mainha ri e eu ligo a panela para assar o pão com manteiga. Quando pronto, o coloco no prato e pego um copo com leite, já que estava proibida de tomar café por conta da ansiedade. Saudade gostinho de café, saudade.
— Sua avó ligou, pediu para você ir lá hoje.
— Já tinha me programado para ir. Só vou terminar de tomar café.

*


Depois de comer e tomar banho, ficando cheirosa, saio de casa e vou até a casa da minha avó que é duas ruas depois da minha. Paulo Afonso é uma cidade minúscula, uma ilha, literalmente. Se você subir no prédio mais alto da cidade, que tem apenas sete andares, você consegue ver toda a cidade. O que é legal, mas chato ao mesmo tempo, porque lugares pequenos fazem com que as fofocas acabem chegando aos ouvidos de todos.
Principalmente de velhinhas fofas que ficam na praça jogando conversa fora como a minha avó. Por isso eu havia antecipado a ida a sua casa, aposto toda a pequena quantia que tenho que ela sabia o que estava acontecendo na minha vida nos últimos tempos.
Chego a sua casa e entro, já que o portão estava aberto, encontrando-a na cozinha, mexendo algo no fogão. Vou até ela e a abraço apertado, sentindo o seu cheiro característico de rosas.
— Bença, vó?
— Deus a abençoe. Pensei que já tinha me esquecido, nunca mais apareceu por aqui. Sente aí e coma um pedaço de bolo de milho.
— Estava ocupada com a faculdade e o trabalho, vozinha, desculpa. E eu já comi antes de vir para cá.
— Comer mais um pouquinho não faz mal, ainda mais estando magra desse jeito.
Como sabia que ela não ia se aquietar até que eu comesse, corto um pedaço do bolo. Ela puxa uma cadeira e se senta na minha frente, cruzando os braços e me encarando. Conhecia bem aquela postura, era a de quem estava procurando as palavras certas para dizer algo.
— A senhora está lindona – digo, o que a faz sorrir.
Dona Estelita tem oitenta anos, mas nem parecia, seu cabelo ainda estava pretinho, o rosto marcado pelo sol da roça e enrugado pelas vivências da vida. As mãos calejadas pelo trabalho, mostrando ali o quanto sofreu, tendo um dedo cortado quando se acidentou cortando as palmas para dar de comida ao gado. Eu admirava muito ela, mais do que eu podia explicar. Ela já tinha sofrido muito, abandonou a roça para vir criar os filhos na cidade, vendendo comida na feira, não tinha estudo, mas era uma das pessoas mais inteligentes que eu conhecia. Às vezes não damos valor aos idosos, não temos paciência, mas é só a gente perder eles que entendemos como eles são diamantes que fizeram toda a diferença para nós. Fazia pouco tempo que eu havia perdido o meu avô, então eu dava mais valor ainda a minha vozinha.
— A filha da Tereza me falou umas coisas sobre você – ela diz baixinho, com a fala mansa.
— O quê? – Levanto e pego um copo de água, esperando ela despejar o que já sabe.
— Que aquela sua amiga fez você passar vergonha em uma festa e que você está postando uns vídeos nessa internet aí que vocês tanto usam. Um deles falando do filho do prefeito, aquele menino que vive aprontando. O que está acontecendo, ?
Sorri e respirei fundo, contando tudo que havia acontecido nos últimos tempos.
— E por que é ruim não ter beijado alguém? – pergunta depois de ouvir tudo.
— Não é ruim, vozinha. Mas esse povo acha que eu sou estranha por nunca ter beijado.
— Mas a primeira vez que eu beijei foi no meu casamento com seu avô. Vocês hoje em dia gostam de complicar as coisas, ficam aí se pegando com qualquer um e não dão valor ao amor de verdade.
— Os tempos são outros, vozinha.
Ela pega a minha mão, colocando-a entre as dela e fazendo carinho.
— Dá pra ver no seu rostinho que você não está bem com tudo isso.
— Eu tento ser forte, vó. Eu tento. Mas está sendo difícil ver todo mundo ficar falando sobre a minha vida. Às vezes, como ontem, eu deito na cama e fico me perguntando se eles não estão certos, se eu sou estranha mesmo e é por isso que eu sou tão solitária.
— Querida, olhe para si mesma, você é linda e não estou dizendo apenas desse cabelo todo cheio de ondinhas ou esse sorriso branquinho, todo encantador, eu estou dizendo do teu jeito. Você ajuda os outros em tudo, . Os coloca em primeiro lugar, é inteligente, humilde, meiga, um pouco nervosinha, mas tudo bem. O que quero dizer é que não tem nada de errado contigo. Mas você precisa colocar em primeiro lugar, tem que gostar de si mesma. A gente só entende e consegue amar alguém quando amamos a nós mesmos.
Ela acaricia meu rosto, enxugando uma lágrima solitária que escorreu.
— Junte os pedaços – ela continuou. — Está na hora de pegar cada pedacinho que você deixou cair nesses últimos anos. Pois sei como as coisas foram difíceis, seu pai indo embora, a faculdade, o medo do futuro. Pegue cada pedacinho e os arrume dentro de si. É isso que você está precisando fazer, assim como a sua amiga. Sei que você está com raiva dela, mas se lembre de que a gente erra muito nessa vida. Eu já errei, você também. Não a julgue tanto, se permita sentir essa raiva e angústia, tome o tempo que precisar. Mas no final, você e eu sabemos que uma amizade como a de vocês não morre assim.
— A senhora não acha que ela faz mal para mim? Porque tantas pessoas vêm me falando e me fazendo ver como a amizade da era abusiva, talvez seja melhor nós nunca mais voltarmos a ser amigas.
— Abusiva? Será que você está analisando tudo isso da perspectiva certa? Além do mais, essa é a sua visão e a das outras pessoas. Como será a visão da sobre isso tudo?
Respiro fundo, eu nunca tinha me perguntado isso, o que será que a pensa de tudo isso? Como foi nossa amizade para ela? Será que ela me imaginava como a vilã da história também?
Minha avó bate na minha testa, fazendo com que eu pare de enrugá-la.
— Não se preocupe, na hora certa você e ela vão se sentar e conversar, desamarrar esse tanto de nó que vocês têm. Agora me conte, ouvi falar que você foi à festa de aniversário do neto da Manoela.
— A senhora têm amigas em tudo que é parte, não é?! Sim eu fui, ele trabalha comigo e estudo com a sua irmã.
— Bom garoto ele.
— É – falo simplesmente e minha avó começa a rir e vai até o fogão novamente. — Por que a senhora está rindo tanto?
— Nada não, nada não.
Balanço a cabeça sem entender e vou para sala, me jogando no sofá e ligando a televisão. Minutos depois o meu celular toca com uma notificação, era uma mensagem do .

Flash: Você viu o tanto de comentário falando sobre mim no seu último vídeo? Estou me sentindo o Justin Bieber nordestino.
Eu: As meninas de hoje em dia se tornam fã de qualquer um mesmo.
Flash: Você diz isso porque está com inveja de mim. Ou seria ciúmes? ;)
Eu: Só nos seus sonhos.
Flash: Vou fingir que acredito. Está ocupada mais tarde? Vamos ver alguns filmes aqui em casa.
Eu: Vou só almoçar com a minha avó e desço para aí.
Flash: Fechou, te vejo mais tarde, agora vou dar atenção as minhas fãs.

*


Às cinco horas da tarde eu bato na porta da casa do , ele abre a porta sorridente, vestindo uma regata que deixa seus braços branquelos a mostra e uma bermuda preta.
— Entra, a Pati está fazendo brigadeiro – ele diz, me guiando para a sala, onde Rafael está jogado no sofá.
— Oi, Rafa.
— Não fale comigo, estou com raiva de você.
— De mim? O que eu fiz?
— Ele está assim porque você não o chamou para gravar o vídeo – explica.
— Desculpa, prometo que vamos gravar um vídeo muito legal.
— Promete?
— De dedo mindinho.
— É por isso que eu gosto de você.
Depois disso a Pati aparece com uma travessa de brigadeiro, nos acomodamos no chão, cheios de travesseiros.
— Você escolhe o filme, , temos Esquadrão Suicida, Batman versus Superman e Zootopia – diz.
— Zootopia, sem dúvidas.
Ele coloca o DVD e se senta ao meu lado, sorri e coloca uma almoçada no seu colo e bate a mão ali.
— Pode deitar a cabeça aqui – sussurra no meu ouvido.
— Não quero incomodar.
— Não incomoda, vamos logo, .
Então faço o que ele diz, me deito com a cabeça no seu colo e ele começa a fazer cafuné no meu cabelo.
Mordo meus lábios e tento me concentrar no filme.
Vamos lá, cérebro, não ative aqueles hormônios adormecidos, penso.
Droga, estou lendo muito Fisiologia do Amor.
O que a Cecilia pensaria?

Fecho os olhos e balanço a cabeça, tentando apagar esses pensamentos. O que eu estava precisando no momento era de amigos, amigos somente. Nada mais.
Que a força esteja comigo e eu aguente e não caia na tentação.
Ou muita bagunça iria acontecer e eu teria que juntar pedacinhos de um órgão que até então não tinha sido quebrado.



Capítulo 06: Treta

Era uma quinta-feira calorenta, estava em casa com a Pati fazendo um trabalho da faculdade. Tivemos que escolher um livro em que um personagem tinha algum problema psicológico e escrever sobre como poderíamos o ajudar e fazer uma resenha sobre o livro, dizendo como a autora abordou o assunto. Escolhemos Por Lugares Incríveis, por tratar do transtorno bipolar e do suicídio. Já tínhamos lido e o livro estava supercolorido, cheio de post-its com anotações e indicando nossos trechos preferidos.
— Caramba, esse livro acabou comigo – Pati depois de um tempo.
— Sim, comigo também, é muito intenso, tive que parar um pouco para conseguir ler o final. Teve uma hora que pensei que ia vomitar, de tão mal que estava.
— Às vezes eu me pergunto se eu vou conseguir ajudar as pessoas que passam por essas situações e até piores. Não sei se vou ser uma boa psicóloga.
— Claro que vai, Pati. Relaxa, nós temos muito que aprender ainda, sei que no final estaremos prontas.
— Espero. Mas mudando de assunto... – ela fecha o notebook e cruza os braços, me olhando. — Está rolando algo entre você e o meu irmão, não é?
Se eu estivesse bebendo algo, o liquido sairia voando depois de ouvir isso.
— Claro que não – respondo rapidamente.
, não precisa ficar com essa cara. Qual seria o problema de estar rolando algo entre vocês?
— Nós somos amigos!
— Bom, os melhores relacionamentos começam assim.
— E se acontecer algo e depois terminar de um jeito ruim? Nossa amizade vai ser destruída e eu não quero isso, Pati. O é muito importante para mim, não quero arriscar o que temos.
— Olha, você tem razão, existem infinitas possibilidades, mas ficar impedindo algo de acontecer, algo que pode ser maravilhoso, pode acabar mal também. Vocês deviam conversar, mas pelo que eu conheço dos dois, vão ficar afundando esses sentimentos, até que algo aconteça e eles explodam.
Ela arruma as coisas dela e as coloca na bolsa, depois se levanta e me dá um beijo na bochecha.
— Eu iria amar te ter como cunhada.
E depois disso vai embora, me deixando a ponto de surtar, imaginando coisas, como eu e , juntos, como um casal. Suspiro e apoio minha cabeça na mesa. Será que daria certo? Balanço a cabeça, parando de pensar nisso e olho para o notebook, onde a página do word está aberta com a minha frase preferida do livro.
“O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.”
Esse livro tinha me feito refletir sobre tanta coisa, acima de tudo, sobre a coragem. E era isso que eu pensava todo dia, que eu preciso de mais coragem para enfrentar o mundo. Mais especificamente, coragem para ir até a e conversar com ela. Mas toda vez que eu pensava em ligar, ou ir à sua casa, eu travava. Suspirei e fechei o notebook, peguei meu celular e abri o Spotify , dando play na minha playlist preferida.
Por enquanto vamos focar na música, os problemas eu penso mais tarde.

*


Eu e Pati estávamos descendo as escadas da faculdade, as aulas haviam terminado mais cedo para todos, por conta de um evento que ocorreria no outro dia. Estávamos quase no primeiro andar quando um garoto transtornado veio em nossa direção, quase nos derrubando.
— Pati, o está lá fora brigando com o Giovani - ele disse de forma apressada.
— O quê? - Pati gritou. — Mais que merda.
Nós duas saímos correndo, empurrando as pessoas e quase quebramos a catraca ao tentar passar de forma apressada. Quando chegamos à rua, um grupo de pessoas estava fazendo um círculo, estávamos tentando passar por elas, entretanto estava difícil. É só acontecer um acidente ou briga que as pessoas aparecem como formigas envoltas do doce. Parece que a desgraça dos outros sempre é um bom entretenimento.
— Vamos lá, nerdizinho, você não ficou estufando o peito por aí dizendo que não tinha medo de mim. - ouvi a voz de Giovani e empurrei mais algumas pessoas, quase caindo por isso, era como se eu tivesse tentando ultrapassar um muro.
— E eu não tenho, eu não sou você que me escondo atrás dos meus amiguinhos ou de uma tela de celular - revidou.
E foi quando eu finalmente consegui passar as pessoas, os dois estavam se encarando de punhos cerrados.
— Olha só, se não é a celebridade da cidade - Giovani soltou ao me ver.
, vamos embora, por favor.
— Isso, , ouça a garota, quem sabe assim você não consiga beijar ela, se já não tiver beijado, vocês fazem um par perfeito. Dois esquisitos que provavelmente…
Giovani não conseguiu terminar a fala, o punho de bateu forte na sua boca e todos que estavam ali gritaram. Giovani balançou a cabeça e cuspiu sangue, depois deu um sorriso diabólico, os dentes sujos de sangue e correu até , o jogando no chão.
A briga estava intensa, os dois revidavam os socos e chutes, as pessoas gritavam seus nomes e eu não sabia o que fazer. Era como ver dois animais enjaulados disputando pelo último pedaço de alimento.
— Pelo amor de Deus, façam algo! - implorei, mas ninguém se mexeu.
Estava quase indo eu mesma tentar separar os garotos quando Pati apareceu com Rafael e mais três meninos, que conseguiram acabar com a arruaça.
— Isso não acabou, você vai pagar por interferir nas minhas coisas, .
— Eu estou pouco ligando para você, babaca. Ser filho do prefeito não te faz nada especial. Bom, a não ser ter um monte de irmãos dos casos do seu pai.
, cale a boca - Pati interveio.
— Eu vou acabar com você - Giovani falou e antes de dar meia volta e sair dali, me encarou. — Acho melhor você aconselhar melhor seus amigos, porque isso pode não acabar bem.
Eu senti meu corpo gelar, sabia que o recado dele era para , mas também em relação a , eu precisava falar com ela.
As pessoas começaram a deixar o local e eu fui até .
— Você é um idiota, por que entrou em uma briga com ele? - perguntei com raiva.
— Ótimo, eu apanho e você fica com raiva? Ou está preocupada com o bonitão da cidade.
Eu fiquei atordoada com o que ele falou. Se ele não estivesse tão acabado com sangue descendo pelo canto da boca e nariz, eu mesma iria dar um soco nele.
— Eu estou preocupada com você, idiota.
Eu estava com tanta raiva e nem sabia o motivo, sai dali, batendo o pé forte.
, espere! !
Eu queria correr, mas ele me alcançou.
— Me desculpe por ter falado aquilo.
Ele segurava meus braços e seus olhos castanhos estavam suplicantes, seu rosto estava tão próximo do meu que se não fosse à camada nojenta de sangue eu até acharia a cena bem romântica.
— Você precisa cuidar desses machucados - falei.
— Prefiro cuidar de você primeiro - ele sussurrou.
— Por quê? Acha que fazemos um belo casal de esquisitos?
Ele engoliu em seco, levou a mão a uma mecha do meu cabelo e puxou um cachinho, brincando com ele como se fosse uma mola.
— O seu cabelo é lindo - disse. — E…
— Você é um babaca – Pati falou, nos interrompendo. — Sério, se meter em briga? Nem quero estar perto quando a mãe te ver, capaz de ela te dar mais uns tabefes.
— O que você queria que eu fizesse? Ficasse parado e sendo saco de pancadas? É óbvio que eu ia revidar, ainda mais, ele desrespeitou a , não deixaria isso passar.
— Isso não é um conto de fadas, . Você não é um herói e a não é uma donzela em perigo. Ela sabe se cuidar sozinha, está fazendo isso muito bem. Controle essa testosterona e esse lado de macho alfa. Violência não leva a lugar algum.
Se eu já amava a Pati, depois desse discurso eu só sabia enaltecer mais ainda essa garota.
— Tudo bem – concordou. — Essa briga foi idiota. Agora me deixem falar com a ...
— Não, você fala com ela depois, quando estiver sem sangue escorrendo e com a cabeça fria. Agora vamos para casa limpar esses machucados.
— Pati...
— Nada de Pati, sou sua irmã mais velha e você vai me obedecer.
— Vá com ela, amanhã conversamos – disse.
— Tudo bem, vamos.
Eles se afastaram e eu fiquei ali, os observando. Respirei fundo, o dia tinha sido muito intenso, já sentia minha cabeça começando a doer. Virei-me e percebi parada perto de uma árvore, com os braços cruzados.
Ficamos nos encarando, sabia que nossos olhares diziam muitas coisas, como:
O que está acontecendo com a gente?
Você está bem?

E o mais dolorido:
Sinto sua falta.
Queria correr até ela e lhe abraçar. Contudo, também queria gritar com ela e perguntar por que ela fez isso tudo com nossa amizade.
Fechei os olhos, ainda não estava preparada para lidar com a , eu precisava de mais espaço, mais tempo. Precisava entender que eu era forte, quando nós conversássemos de novo, queria estar bem comigo mesma para expor tudo que pensava. Talvez eu e ela nunca mais fôssemos amigas, mas precisávamos colocar todas as cartas na mesa e entender bem o lado uma da outra, para que no futuro, não passássemos por isso novamente com outras pessoas.
Dei um pequeno sorriso para ela, sabia que ela entendia que isso queria dizer que em breve conversaríamos. Ela também sorriu e depois disso nos viramos, seguindo caminhos diferentes.

Vídeo #4: Liberdade

Câmera: on

*abertura fofinha do canal*


— Olá, pessoal, tudo bem com vocês? Preciso começar esse vídeo agradecendo aos 2 mil inscritos no canal. Não consigo acreditar que tanta gente gosta de me ver falando, mas você que está aqui, obrigada. Minha vida está sendo bem melhor por esse apoio. Dito isso, vamos para a pauta do dia.
Pego um quadrinho em branco onde escrevi a palavra liberdade com piloto preto.
— Liberdade - leio. — Não sei pra vocês, mas para mim, essa palavrinha me dava um friozinho na barriga no passado. A de antigamente almejava ser livre acima de tudo. Para mim, ser livre era ser independente, ser dona do meu próprio nariz, sem ligar para o que os outros pensam, pensar apenas no que eu queria no momento.
Pego o apagador que estava perto e apago a última sílaba da palavra liberdade.
— Entretanto, fui crescendo, passei por muitas coisas e ao estar sentada na sala na aula de Fundamentos Sócio-Antropológicos e ouvir a pergunta “você é livre?” do professor, me fez refletir muito. O que é ser livre, afinal? E será que alguém consegue ser livre mesmo?
Apago mais uma sílaba do quadro.
— A verdade é que idealizamos muito a liberdade. E caramba, não é nada disso. Isso pode chocar um pouco, mas a liberdade nunca vai ser alcançada.
Apago mais um pouco.
— A gente tem o livre arbítrio de fazer escolhas, mas essas escolhas têm que estar dentro do que é aceito pela sociedade que vivemos e a cultura que pertencemos. Ou seja, somos presos em um mundo que fala o que é certo e o que é errado. E quando não seguimos o certo, existem dezenas de punições.
Apago a última sílaba, deixando o quadro em branco.
— A ideia desse vídeo é dizer que às vezes nós pensamos muito em ser livres. Entretanto, precisamos entender que as coisas que estamos “presas” são necessárias e as raízes que geramos é o que nos constrói. Só que estamos sempre em transição, estamos vivendo instâncias que mudam e nos mudam.
Lembro o que aconteceu ontem, a briga do Giovani e do .
— Para o pessoal que vivem a vida achando que é livre e que nada pode os impedir, vou dar um recado. A vida sempre dá murros na hora certa. Não no sentido figurado, pois violência é algo horrível e nunca é a solução para algo. Só que uma hora acontecem baques que se você for esperto, vai entender que não pode viver assim. Pois nem o papai poderá os salvar.
Olho para o quadro em branco e sorrio.
— Nós temos um quadro branquinho para construir nossa vida. Olhando para ele eu consigo imaginar dezenas de coisas que eu gostaria de escrever, pintar. Para hoje, minha palavra é…
Pego o piloto e escrevo “Determinação”.
— Determinação amigos, para lutar contra os idiotas que se acham superiores, para ir em busca dos sonhos e para viver nesse mundo louco. E vocês, o que fariam nesse quadro? Comentem aí. Não esqueçam de curtir e se inscrever no canal. Vejo vocês no próximo vídeo aqui nesse mesmo bat-canal.

Câmera: off



Capítulo 07: , me faz um favor, se joga

Desde o dia da briga eu vinha tentando falar com , mas todas as minhas mensagens tinham sido ignoradas. Fiquei tentando trazer à memória o que havia feito de errado, mas não achava nada. Esperava que o vácuo acabasse no trabalho, mas ele faltou e o garoto que ficava na parte da manhã estava o substituindo.
Não sei se era apenas isso ou a TPM em conjunto, mas eu estava com um mau humor enorme e quase pensei em faltar à aula. Conseguia ouvir o meu id sussurrando “fique em casa, ”. Entretanto, meu superego conteve isso, me lembrando de que não poderia perder conteúdo, pois isso poderia diminuir meu rendimento acadêmico e como bolsista isso era inadmissível.
Por isso, cheguei em casa com uma tromba maior que um elefante, tomei um banho rápido e fui para a faculdade. Nem preciso dizer que cheguei atrasada, não é? Algumas coisas não mudam.
Subi os três andares correndo e cheguei à sala quase colocando meus órgãos para fora. Isso tudo para ter a incrível surpresa, o professor havia tido um imprevisto e não teria as primeiras aulas. Minha vontade era me jogar da janela ou bater minha cabeça na parede. Nesse momento conseguia ouvir o id rindo feito uma hiena e dizendo “bem feito, quem mandou não me ouvir”.
Sentei-me ao lado da Pati e ela logo percebeu meu estado.
— O que aconteceu para você estar com essa cara? - ela perguntou.
— A vida aconteceu ou como ela gosta de me fazer de trouxa.
Ela riu e pegou a bolsa, vasculhando-a, e depois jogou uma bala em mim.
— Para ver se te adoça um pouco.
— Você não tem nenhum defeito? É sempre tão legal e ainda tem bala na bolsa pra fazer as pessoas melhorarem.
— É claro que eu tenho defeitos, milhares para ser mais precisa. O diz que eu sou bem irritante.
Na hora que ela disse o nome do irmão, meu rosto se contraiu em uma careta involuntária, o que não passou despercebido pela Pati.
— Ih, acho que meu maninho tem dedo nesse mau humor, conta o que ele fez.
— Eu mandei um monte de mensagens pra ele e fiquei no vácuo. E olha que foi ele que ficou dizendo que queria conversar.
— O foi pra roça dos nossos avós, lá não tem sinal de celular, meus pais sempre mandam ele para lá quando ele apronta algo. Meu avô sempre faz ele trabalhar feito uma mula e sempre tem uns conselhos maravilhosos que fazem você querer cavar um buraco por ter feito merda.
— Ah - disse apenas.
— Nunca que o te deixaria no vácuo, amiga. Quando eu saí de casa ele ainda não tinha chegado, mas tenho certeza que assim que ele chegar vai dar algum sinal de vida para você.
Peguei a bala e tentei conter o sorriso.

*


Era perto da meia noite quando o ressurgiu e eu não consegui segurar o meu suspiro de alívio.

Flash: Ei, desculpa ter sumido, meus pais me largaram na roça do meu avô.
Eu: Tudo bem.
Flash: Está a fim de uma aventura?
Eu: Que tipo de aventura?
Flash: Esteja acordada às 07h, passo aí para te buscar, você não vai se arrepender, seu feriado vai ser incrível.


E depois disso ele não falou mais nada.

*


Meu despertador tocou às seis horas da matina e eu quase o joguei na parede. Depois de muita força eu consegui levantar da cama e tomei um banho gelado, já que apesar de ser cedo, o calor já estava presente.
havia dito que era uma aventura, então vesti uma calça legging e uma blusa grande, calcei um tênis e fiz tranças no cabelo.
Às sete em ponto me mandou uma mensagem dizendo que já estava na frente de casa. Coloquei meus óculos escuros e saí de casa, entrando no carro dele. Quando sentei no banco do carona recebi um bom dia animado do e do Rafael que estava no banco de trás.
— Então, agora pode me dizer o que vamos fazer hoje?
— Primeiro, você tomou café? - Rafael perguntou.
— Não deu tempo. Por quê?
— Porque você pode vomitar tudo, é sempre melhor comer depois.
Isso me assustou e eu abri a boca sem entender.
— Nós vamos pular de bungee jump - falou sorrindo.
Com isso ele ligou o carro e seguiu o caminho, nisso eu tentava processar a informação e tentar desesperadamente pular do carro e voltar pra minha cama.
Minutos depois havíamos chegado à ponte metálica da cidade, construída sobre o rio São Francisco.
— Eu não vou sair do carro, de jeito nenhum eu vou fazer isso – falei, cruzando os braços.
— Vai ser legal, . - Rafael tentou me convencer. — Estamos na ponte que a melhor vilã da telenovela brasileira teve seu fim. Nazaré Tedesco pulou aqui, . Mano, Paulo Afonso não tem muita coisa legal, mas somos a única cidade que pode dizer que a maravilhosa Nazaré pulou da nossa ponte.
— Pois é, você tem que fazer isso, - completou. — Vamos pelo menos dar uma olhada, se você não quiser, não precisa pular. Mas eu e o Rafa já fizemos isso várias vezes, você vai amar.
Suspirei e sai do carro, fomos até a grade da ponte, onde várias pessoas estavam, uma menina até já estava pronta para pular. Vi a garota se jogar e só conseguia pensar como ela era louca por fazer isso. O cara que parecia ser o responsável pelo esporte deu um abraço em e Rafael e eles falaram sobre ser minha primeira vez.
— Meu nome é Fernando, sou o responsável pela atividade, sei que está com medo, mas é muito seguro e é uma experiência incrível, parece que você está voando, como se fosse uma super-heróina com coragem para fazer o que quisesse.
Respiro fundo e olho novamente para baixo da ponte onde o rio São Francisco passava com sua força indescritível. Era muito alto e as pedras lá embaixo me apavoravam. Mas o que Fernando havia dito me deixou mexida, eu estava procurando tanta coragem para encarar e demais problemas.
— Tudo bem, eu vou.
e Rafa soltam gritinhos animados e o Fernando começa a me ajudar a colocar os equipamentos de segurança e prendendo a corda elástica nos meus pés. A adrenalina começa a fazer efeito, meu coração fica acelerado e começo a suar frio.
Passo as pernas pela grade da ponte e me seguro, olhando para baixo. Não conseguiria fazer isso.
, você vai amar, tenho certeza, crie coragem - falou.
, me faz um favor, se joga - Rafa diz, o que me faz rir.
Fecho os olhos e solto a grade, me jogando.
Grito de forma louca e abro os olhos, sinto como se estivesse voando e como se fosse tocar o rio em poucos segundos. Foi uma sensação indescritível.
Quando tudo acabou e eu voltei para cima da ponte, sentia que a vida era mais leve.
— Eu amei, posso fazer de novo?
Os meninos riram e a gente ficou ali conversando, rindo e nos sentindo heróis ou como é citado em As Vantagens de Ser Invisível, estamos nos sentindo infinitos. Perto das dez horas, depois de um piquenique, nós saímos dali.
— Não acredito que fiz isso, meu corpo está tremendo da adrenalina ainda - comento.
— Eu e o Rafa achamos que você precisava de uma forcinha pra você perceber como a coragem está dentro da gente, só precisamos nos jogar.
— Na verdade eu não tenho nada a ver com isso, só achei que você era muito maneira e iria amar a experiência. Agora se calem e vamos aproveitar o momento. Aumenta o som aí, .
Nós rimos, o volume estava no máximo e Every Teardrop is a Waterfall, do Coldplay estava tocando. As janelas abertas e o vento forte batendo em nossos rostos. Cantando a música nós curtimos o momento, se jogando no presente, na adrenalina, na diversão, na amizade.
Percebi ali que eu precisava deixar o medo de lado, desafios e quedas sempre vão existir, mas quando a gente respira fundo e tem coragem, coisas surpreendentes podem acontecer. Era hora de fazer coisas que eu estava adiando há um tempo. Sorri e continuei cantando.
deixou primeiro Rafa em casa e depois seguiu para a minha. Quando ele parou, deu um daqueles sorrisos lindos.
— Fico feliz que tenha gostado da manhã de hoje - ele disse.
— Amei, obrigada.
Ele me encarou e nós ficamos incontáveis segundos olhando um para o outro. Até que o olhar dele desceu para minha boca e eu senti os mesmos sintomas de quando estava prestes a pular da ponte.
Coração acelerado, mãos suando.
Pisquei e ele se aproximou, o que me fez fechar os olhos e esperar que seus lábios tocassem os meus.
Mas isso não aconteceu.
Ele beijou minha bochecha, o que fez eu abrir meus olhos e o olhar como se fosse uma tonta.
— Até mais tarde, .
Apenas balancei a cabeça e sai do carro, sem entender o que havia acontecido.



Capítulo 08: Hipoteticamente falando

Dizer que o que aconteceu com o não me incomodou é mentira. Pensava que ele me beijaria, que pela primeira vez meus lábios seriam tocados. Entretanto, ele não fez isso e eu me perguntava o porquê. Já conseguia sentir o bichinho da insegurança tentando me dominar.
Não tinha como não me sentir insegura, ainda mais quando se tinha zero experiência no assunto. Quando eu era mais nova, me perguntava se tinha algo de errado comigo, porque nenhum menino mostrava interesse. Eu odiava meu corpo e meu cabelo. Foi um caminho difícil para finalmente conseguir me amar do jeitinho que eu sou e se alguém contribuiu para isso foi a .
Sei que agora muita gente a odeia, principalmente pelos vídeos e tudo que aconteceu, mas a foi incrível em diversos momentos e me ajudou a passar por muita coisa, assim como também já estive em momentos difíceis da sua vida também.
Suspiro exausta, talvez pela adrenalina estar diminuindo. Entro em casa e fico feliz por estar de folga da livraria hoje e já começo a pensar em tomar um banho e dormir mais um pouco. Sinto o cheiro dos temperos da minha mãe, sabendo que ela está preparando o almoço. Vou até a cozinha e abro a geladeira para pegar água.
— Uau, você levantou cedo em uma folga - mainha diz.
— Fui fazer uma aventura, pulei de bungee jumped.
Mainha derruba a panela que estava pegando e me encara chocada, acabo rindo da sua expressão.
— Você é louca? Isso é muito perigoso, .
— É seguro, mãe, e foi muito legal.
Ela suspira e pega a panela do chão, sei que ela quer me dar um sermão, mas reprimi isso, sabendo que eu não daria muita importância.
— Se foi legal, por que você está com essa cara de quem comeu e não gostou?
Puxo uma cadeira e sento, coloco meus braços em cima da mesa, apoiando meu rosto nas mãos. Minha mãe entende que algo está me incomodando, por isso abaixa o fogo e se senta ao meu lado.
— Não foi nada de mais - digo.
— Sério?
— Bom, hipoteticamente falando…
— Hipoteticamente? - mainha ri e balança a cabeça. — Tudo bem, continue.
— Se você, hum, estivesse começando a gostar de alguém e pensasse que ele está gostando também, mas aí, quando você pensa que ele vai te beijar ele não faz isso. É porque você entendeu tudo errado e ele não gosta de você?
Minha mãe pensa um pouco e solta o que eu menos esperava ouvir.
— Ele pode ser um vampiro e está atraído pelo sangue, então beijar não é uma boa ideia.
— Mãe!
— Ou ele é da Sonserina e não quer misturar a casa de vocês.
— Mãe, por favor, fala sério.
— Ou ele é algum príncipe de um país distante, prometido a alguma princesa e não pode ficar com plebeias.
Gemo de raiva e abaixo minha cabeça na mesa. O que faz a minha mãe soltar uma gargalhada.
— Desculpe, mas você disse hipoteticamente, assim essas coisas podem acontecer.
Levanto a cabeça e a encaro, sabendo que ela quer ouvir a história verdadeira e como não tenho para falar sobre, acho que era melhor falar com minha mãe.
— Já te falei do , bom eu achava que ele era gay, mas ele não é. Então ficamos muito próximos, ele é divertido e me faz sentir bem. Pensei que estava rolando algo entre nós, hoje ele me chamou pra sair, fomos eu, ele e o Rafa. Quando ele me trouxe pra casa eu pensei que ele me beijaria, bom, ele me beijou, mas na testa.
Minha mãe fica calada, depois se levanta e mexe algo na panela, desligando-a logo após. Depois se senta novamente.
, não te beijar faz dele um menino muito especial.
— Quê? Não entendo.
, pense bem, todo mundo nessa cidade sabe que você nunca beijou. Algumas pessoas podem achar que você é uma garota que idealiza muito esse momento, esperando um príncipe encantado. Mas quem te conhece bem, como eu e talvez esse , sabe que na verdade você não espera um momento todo especial com rosas e velas. Você só quer que quando aconteça, você saiba que foi com alguém que te vê do jeitinho que é, única. Você não quer apenas partilhar um beijo, mas quer também partilhar uma lembrança boa.
Pisco abobalhada, absorvendo tudo que minha mãe disse. E era verdade, se eu me sentisse bem com um garoto, eu o beijaria, mas eu não queria apenas beijar para dizer por aí que não tinha mais uma boca virgem.
— O te respeita e talvez ele não te beije por medo de estar extrapolando um limite. Ele só vai fazer isso quando souber que você quer algo. E se eu te conheço bem, , você não deixa claro o que sente. Leva tempo para você baixar as barreiras.
Suspiro, eu realmente não sabia como expor sentimentos, flertar pior ainda, eu era terrível nesse quesito. Um dia tinha ido a um encontro duplo com a e dois garotos, eu sempre fazia piadas idiotas ou falava coisas desnecessárias. Balanço a cabeça tentando apagar essa memória.
— Como foi o seu primeiro beijo, mãe?
Ela abre um sorrisinho e seus olhos brilham, percebo como ela vai se perdendo em lembranças.
— Meu primeiro beijo foi com um garoto que trabalhava na roça do seu avô, ele às vezes ficava para a janta, quando o pessoal pegava o violão para tocar umas músicas. Um dia desses, quando ele ia saindo, eu o acompanhei até o portão, ele disse como eu era linda e pediu permissão para me beijar…
— Aí que fofinho.
— Namoramos por um tempo, até eu vir para a cidade estudar e aí eu conheci o seu pai…
Ah meu pai, um caso complicado nas nossas vidas, só de lembrar dele um mix de sentimentos surgia em mim.
— Eu sinto falta dele - soltei, tão baixinho que pensei que minha mãe não havia ouvido.
— Eu também, querida. Mas ele está melhor longe daqui, você sabe disso.
E eu sabia, mais do que ninguém. Meu pai se tornou alcoólatra depois de ficar desempregado, se endividando muito. Foi uma época muito difícil para nós, mas depois de muita conversa conseguimos resolver. Bom, eu consegui. Chorei, gritei, bati o pé e assim consegui com que ele fosse internado. Nesse tempo eu o visitei por diversas vezes, na última ele me disse que não poderia voltar para casa quando fosse liberado. Ele disse que não conseguiria encarar as pessoas depois do ocorrido. Isso doeu, mas eu e minha mãe conseguimos superar.
— Vá tomar um banho e depois arrume o seu quarto, está uma bagunça horrível aquele lugar - mainha disse, me tirando dos meus pensamentos.
Revirei os olhos, pensava em dormir um pouco, mas isso não iria acontecer. Levantei-me e quando já estava saindo, mainha falou:
— Espero que você e esse garoto se resolvam, seus olhos brilham quando fala dele.
Fiquei espantada e saí correndo dali. Depois de 22 anos será que finalmente eu estava me apaixonando por alguém? Meu coração acelerou com esse pensamento, isso me deixava amedrontada. Apesar de já ter lido milhões de livros e visto milhões de séries, nada se compara ao viver isso. E eu sei o quanto se apaixonar é um troço complicado.
Suspiro e olho para a bagunça do meu quarto, essa era mais fácil de ser arrumada do que a da minha mente.
Que feriado maravilhoso estamos tendo, só que não.

*


No outro dia, fico com vontade de me esconder de baixo das cobertas, mas obrigo o meu corpo a se levantar. Depois de me arrumar e comer, vou até a livraria, tentando ignorar os pensamentos sobre .
Eu tinha dois planos: esquecer o quase ocorrido e entender que somos apenas amigos. Ou mostrar que estou interessada, mostrar atitude e falar algo do tipo “oi lindo, a sua boca só fala ou também beija?”.
Por enquanto eu estava optando pela primeira opção.
— Oi, senhorita donut. - me cumprimentou assim que cheguei.
Ele estava com um sorriso enorme, tão lindinho que me fazia querer jogar a frase do segundo plano.
— Oi - respondi.
— Está tudo bem?
— Claro. Então, o que está fazendo? - Ele estava cortando uns papéis de propaganda.
— Cortando os papéis para o pessoal distribuir. Ficou legal? Eu que fiz.
Olho o papel e fico chocada.
— Me belisca - digo.
— Quê?
— Me belisca para ver se estou sonhando.
Ele faz e eu solto um gritinho de dor, o olhando feio.
— Eu não acredito, não acredito que a minha autora preferida vai vir fazer um evento aqui. , eu estou surtando. Aí meu Deus, eu vou conhecer a Amélia Rodrigues.
Ele ficou rindo da minha cara e até gravou alguns vídeos no celular. Mas não me importei, no momento eu só conseguia pensar que em poucos dias eu conheceria minha autora preferida. Já havia lido tanto Nossos Versos que sabia todos os diálogos. Acompanhava a Amie em todas as redes sociais e havia surtado com o seu casamento com o Benjamin.
— Como seu melhor amigo, vou ficar de olho para você não passar vergonha na frente dela.
— Aposto que internamente você também está surtando. Será que o Benjamin também vai vir? Nossa, sou apaixonada por ele.
Ele revirou os olhos e resmungou algo que não consegui ouvir. Depois ele me deu um esbarrão para passar por mim, rindo. Foi nesse momento que eu tentei o segundo plano, mexi nos meus cachinhos e tomei coragem.
— Ei, você se lembra que depois da briga tinha algo pra me falar? - soltei sem pensar duas vezes.
Ele estava de costa para mim, mas podia ver como ficou tenso.
— Não era nada demais, deixa para lá.
Concordei e fui fazer meu trabalho, é vamos seguir o plano de apenas amizade, parece que não está na minha.

Vídeo #5: Primeiros Beijos

Câmera: on
*abertura fofinha do canal*


— Olá, amigos internautas, tudo leve na nave? Por aqui está tudo ótimo e eu estou surtando porque minha autora preferida, a linda e maravilhosa Amélia Rodrigues vai estar na minha cidade em alguns dias. Quem sabe não rola um vídeo meu com ela? Sonhar não paga, não é mesmo? Bom, mas vamos ao que interessa, o vídeo de hoje é muito legal porque tem a participação de vocês. Isso mesmo, desde o vídeo do Apocalipse venho recebido inúmeras histórias sobre primeiros beijos, pedi a permissão e as meninas deixaram eu compartilhar. Então vamos lá.
Pego meu celular onde estão as histórias que eu selecionei.
— O primeiro é da Nicole, ela pediu para eu mandar beijo, então, beijos linda. A história dela é a seguinte:
— Dei meu primeiro beijo com 11 anos e foi à coisa mais desastrosa da minha vida. O guri era um tantinho mais alto do que eu, então a gente teve a genial ideia de colocar uma pedra pra servir de degrau. Eu não sei o que diabos aconteceu na hora de ir beijar ele, só sei que tropecei naquela porcaria de pedra e fui pra cima do guri com muita força e quase quebrei o meu nariz no queixo dele. Depois de todo o fiasco, a gente foi lá e se beijou e saiu cada barulho estranho. Não foi uma experiência traumática, mas foi à experiência mais vergonhosa com certeza.
— Ainda bem que você não quebrou o nariz, imagina. A próxima é da Sallie e é a história mais fofa de todas, escutem só:
— O meu foi com 14. Foi num ponto de ônibus da minha escola e foi muito fofinho. No final ele disse que me amava.
— Quero o contato desse menino, alguém me dá? Agora é a da Caroles. Pausa para eu dizer o quanto a acho maravilhosa. Agora vamos seguir:
— Eu tava em um evento de anime com uma amiga minha, ela já tinha ficado com uns três meninos e eu nunca tinha ficado com ninguém. A gente resolveu comprar uma plaquinha e pedir abraços de graça. Um menino chegou em mim, eu disse que não e fomos andando, mas a amiga não parava de falar "se fosse eu ficaria com ele" "tu vai se arrepender de não ter ficado com ele", enfim, eu fiquei irritada com ela e dei meia volta pra ficar com o menino. Ele não sabia que eu não tinha ficado com ninguém né, então eu tava me esforçando pra fazer bonito e acabei pisando no pé dele não sei quantas vezes.
— A próxima é da Dora, tenho que confessar que tenho um crush por ela. A história é o seguinte:
— Eu tinha 13 anos e fui a uma matinê bem bobinha. Ai apareceu esse menino que era muito parecido com um amigo da minha amiga. Ele disse que não, e eu pensei "aaah, todas as minhas amigas já beijaram, vou beijar já" (pior pensamento). Acabamos ficando. Esse amigo da minha amiga namorava, mas enfim. Depois disso ele comentou em uma foto minha do insta e eu percebi que era ele mesmo!!! Ai fiquei puta, porque ele namorava e pedi para a minha amiga passar o contato dela. Contei pra ela o que aconteceu, ela terminou com ele e viramos amigas.
— Por último, duas histórias que não foram nada divertidas e que são o ponto desse vídeo, para entendermos como a pressão das pessoas é ridícula. A primeira é a da Clary e depois da Aldrey:
— Eu tinha nove anos e estava na quinta série, minhas amigas me pressionavam porque eu era a única que não tinha beijado ninguém (já que era a mais nova) e me colocaram pra ficar com um menino que eu era até afim. Resultado: não sabia aonde enfiar a língua, era muita baba e logo depois eu saí correndo pro banheiro pra vomitar.
— Eu tinha 11 anos, meu vizinho queria que eu ficasse com o amigo dele e eu não queria. Passei o dia todo fugindo dele até que eles apareceram lá em casa e tiraram no pedra papel e tesoura quem ia me beijar (sério) e simplesmente os dois me beijaram e eu fiquei ali sem saber o que fazer.
— Aldrey, eu quero te abraçar bem apertado, o que aconteceu com você foi claramente um abuso. Algo inaceitável. Sei que você superou isso, mas foi uma situação horrível, que espero que não aconteça com mais ninguém. Todas essas histórias foram para mostrar como existe a pressão de amigas para o primeiro beijo acontecer. Vocês percebem como isso é ridículo? E um ciclo, você é manipulado e depois manipula alguém. Sério gente, vamos parar com isso. Se você beijou, ótimo. Se a sua amiga beijou, ótimo. Se sua amiga não beijou, ótimo também. Parem de querer impor essa crença de que as pessoas precisam beijar cedo. Nós vamos beijar quando quisermos, na idade que quisermos. E isso não diminui em nada as nossas vidas. Desde o Apocalipse eu venho recebido mensagens de garotas com histórias horríveis dizendo que preferiam ter esperado mais. E acho que é isso o que precisamos, fazer algo quando entendemos que é a nossa hora. Nesses 22 anos eu nunca senti essa vontade, tinha outras coisas que eram mais divertidas que beijar alguém. Hoje eu vejo as coisas diferentes, me sinto mais independente, então se eu achar um cara legal, vou beijar ele, sem sonhos idealizados, flores ou velas. Apenas um beijo. E se eu não beijar, tudo bem, não ser beijada não é algo ruim, é só algo que você não fez ainda. Simples assim!
Respiro fundo e penso no , nessa situação que estamos.
— Nada de pressão, amigas. Isso só acaba com a gente. Vamos respirar fundo e seguir nossas vidas do jeitinho que quisermos. Combinado? Vejo vocês no próximo vídeo se não enfartar ao conhecer a Amélia. Não se esqueçam de comentar, curtir e se inscrever no canal. Beijos e tchau.

Câmera: off



Capítulo Bônus: A Maldição de

Por

Eu sou amaldiçoado.
Definitivamente alguma bruxa no passado ficou muito irritada com meu nascimento e me jogou algum feitiço. Mas não fui agraciado com algo como dormir eternamente.
Eu, , com meus vinte e dois anos, fui amaldiçoado com um coração de gelo. Talvez tenha haver por ser capricorniano. Não que entenda muito de signos, mas ouvi a Patrícia, minha irmã mais velha, conversar sobre isso com a sua amiga.
Bom, era isso o que eu pensava.
Realmente achava que eu tinha sido amaldiçoado e que nunca me apaixonaria. Estava crente que seguiria sozinho nesse mundo, já que tinha beijado inúmeras garotas e nunca tinha sentindo nada demais, nenhum sentimento.
Até ela aparecer.
.
A primeira coisa que eu percebi foram seus cachinhos, algo que não é muito comum. Mas poxa vida, como cachos são lindos! Depois o seu sorriso, seu jeito. Quis falar com ela urgentemente, mas veio até mim e apesar de ser uma menina linda, não fazia meu tipo. E isso fez com que a pensasse que eu era gay.
Eu não sou bom de flerte, mas pensei que estava visível que estava tentando algo com ela. Entretanto, se eu era ruim de flerte, a era bem pior. E olha que naquele tempo eu não sentia nem metade do que eu sinto por ela hoje.
Sim, eu , estou apaixonado pela .
E eu não sabia o que fazer após perceber essa constatação.
Eu deveria expor para ela ou guardar esses sentimentos para mim? E se isso estragasse nossa amizade? E se ela não sentir o mesmo? Suspiro irritado, estar apaixonado é uma droga. Ei, bruxas, tragam minha maldição de volta!
Pego o celular tentando me distrair, mas a primeira coisa que recebo é uma notificação de vídeo novo da e mesmo tentando tirar ela da minha cabeça, começo a ver.

"...então se eu achar um cara legal, vou beijar ele, sem sonhos idealizados, flores ou velas. Apenas um beijo..."


Escutar a dizer isso faz meu coração acelerar e me faz imaginar como seria beijar ela, ser seu primeiro. Fecho os olhos e bagunço o cabelo, enraivecido. Precisava me distrair, por isso levanto da cama, calço meus tênis e resolvo ir à casa do Rafa.
— Vai para onde? - Pati pergunta quando passo por ela pela sala.
— Casa do Rafa.
— Ah, pensei que ia se encontrar com a .
— Porque eu me encontraria com a ? - Será que todo mundo precisava falar dela? Estou tentando tirar ela da minha cabeça e ninguém ajuda.
— Porque vocês são amigos. Você está estranho, .
— Estou normal, vou indo.
Saio de casa apressado e pego minha bicicleta, indo para a casa de Rafa, que não era tão longe da minha. Chego lá e já vou entrando, sem formalidades. Encontro Rafa na sala, jogando e me sento ao seu lado.
Eu e Rafa somos amigos desde que tenho três anos de idade, somos inseparáveis, sua casa sendo meu segundo refúgio, tanto que conhecia toda a decoração. As paredes amareladas, a estante com fotos da sua família e da nossa infância, já que ele era filho único e a tia Márcia me considerava como um segundo filho, e a mancha no sofá do café que derramamos há alguns meses. Conhecia tudo naquele local como a palma da minha mão.
— O que aconteceu? Você está olhando para a parede como se fosse uma obra do Picasso - Rafa diz.
Penso em alguma desculpa, mas eu precisava falar com alguém sobre o que estava sentindo.
— Acho que estou apaixonado pela .
Rafa dá pausa no jogo e se vira para mim.
— Você acha? - ele arqueia uma sobrancelha.
— Tudo bem, eu estou apaixonado pela . - levo as mãos ao rosto.
— E qual é a novidade nisso? Todo mundo já sabia.
Encaro-o e fico com vontade de lhe dar um peteleco.
— Bom, eu não sabia.
— Você é muito tapado, . E por que está tão preocupado?
— Somos amigos, isso pode acabar mal, fora que ela não deve sentir nada por mim.
— Você não vai saber até falar com ela e, sinceramente, vocês dois já são muito um casal, só faltam consumar o fato - ele ri.
— No dia que pulamos da ponte, quando a deixei em casa, eu quase a beijei. Imagina a merda que ia ser se eu fizesse isso. Garotas como a não ficam comigo.
— Por favor, não fique com essas coisinhas de "eu não sou o homem perfeito para ela e blá blá blá". A gente sabe que você não é um Leonardo DiCaprio ou tem a minha beleza, mas você até que é bonitinho.
Jogo uma almofada nele, o que o faz rir mais ainda.
— Fale com ela, . Tenho certeza que vocês vão se acertar.
— É, vou tentar. Pelo menos agora sabemos que eu não sou amaldiçoado.
— A quebrou seu feitiço, princesa, mas acho melhor esperarmos pelo beijo de um amor verdadeiro para a maldição ser totalmente aniquilada.
— Cala a boca, Rafa. E coloca o jogo.
Ele ri e solta um "você ficaria lindo de vestido", depois começamos uma competição para ver quem ganha à corrida.

***

Chego à livraria, passei o tempo todo pensando e tomei uma decisão, falaria tudo para a , se ela não sentisse o mesmo, daria um jeito de acabar com esses sentimentos e continuaríamos amigos.
Simples assim.
Entro determinado, mas isso vai por água abaixo quando vejo com quem está conversando.
Giovani Albuquerque.
Meu sangue esquenta e sinto uma vontade louca de ir até lá e tirar ele de perto dela. Engulo minha raiva e passo por eles para ir pro caixa.
— Ora, se não é o nerdizinho - Giovani diz.
— Você já falou tudo que queria, Giovani, vá embora - o repreende.
— Tudo bem, mas pense no que te falei.
E com isso ele sai.
— Seu novo amigo? - pergunto.
— Ele veio me convidar para uma festa.
— E você vai?
Ela demorou a responder, percebi que estava ponderando o convite. Ótimo, que ela fique com ele.
— Eu estou com medo pela , todo mundo sabe que ele é um estúpido machista que trata mal as garotas.
— Ela escolheu o caminho dela, , não tem nada que você possa fazer.
— Não vou o deixar machucar ela. E ele deu a entender que se eu não fosse à festa...
Ela abaixa a cabeça, vejo como está preocupada.
— Então vamos para essa festa.
Ela me olha sorrindo.
— Você iria comigo?
— É claro, quer dizer, se você quiser que eu vá.
— Seria ótimo.
Vou até o balcão, afastando-me dela.
Eu iria a uma festa, uma festa do Giovani, isso não soa nada bem. Mas não poderia deixar sozinha na toca dos leões.
E talvez, quem sabe, lá eu tomasse coragem de admitir o que sinto e beijá-la.



Capítulo 09: Vocês pensaram que eu não fosse rebolar minha bunda hoje?

Acordei com o barulho de chuva, o que me deixa um pouco enraivecida, pois logo quando eu concordo em ir a uma festa o céu começa a desabar.
Talvez seja um sinal para ficar em casa.
Mas eu não podia, precisava ir até a casa do Giovani e ver a , lhe perguntar porque diabos ela resolveu ir morar com ele. Suspiro e saio do meu quarto, encontrando minha mãe olhando a chuva na janela e falando sozinha.
— Manda mais, São Pedro - ela diz, o que me faz rir.
Apreciamos muito a chuva por aqui, já que ela cai esporadicamente e isso faz com que muita gente ache que o Nordeste é pura seca, com animais mortos e pessoas pobres. Mas isso não é bem assim, está é uma visão muito antiga que a mídia ainda gosta de repetir. Claro que aqui faz calor quase 90% do ano, e claro que em algumas regiões do interior a seca destrói muitas vidas, mas o Nordeste não é só isso! É um local lindo, com suas praias exuberantes, seu povo acolhedor e com uma cultura tão bonita. Afinal, a melhor época do ano é o São João, não é mesmo? Junta comida boa, forró, fogueira e um friozinho. Tem coisa melhor?
Afasto os meus pensamentos e mordo o lábio, pois sei que mainha não vai gostar do que vou dizer.
— Mãe, hoje vai ter uma festa que eu gostaria de ir.
Ela se vira para mim, surpresa.
— Você querendo ir à festa? Uau! Agora entendi porque está chovendo. Onde vai ser?
— Na casa do Giovani.
Ela pensa por alguns segundos, posso imaginar as engrenagens do seu cérebro se movendo.
— Não acho bom você ir para essa festa, .
— Vai ficar tudo bem, mãe, é só uma festa. Além do mais, eu já sou maior de idade e trabalho...
— Minha casa, minhas regras, fofa.
Cruzo os braço e olho feio para ela, não gostava muito dessa frase.
— Sabe, o vai comigo - jogo tentando manipular ela.
Ela me encara por alguns segundos, como se estivesse avaliando se estou mentindo.
— Tudo bem, se meu futuro genro vai, eu deixo.
— Mãe!
— Foi só uma piada - ela diz rindo.
— A senhora não é Ave Maria, mas é cheia de graça.
— E você está parecendo a sua avó falando assim.
Ela se vira e olha novamente para a janela, depois diz:
— Só tome cuidado, , todos nós sabemos que o filho do prefeito não é boa pessoa, ele vive aprontando com as garotas que ficam com ele.
Mordo o lábio e me seguro, sabendo que mainha não poderia saber que a estava com o Giovani ou ela me trancaria em casa e não me deixaria fugir. Ainda mais se soubesse que o Giovani estava tão interessado em mim.
Falo para ela que vou ficar bem e vou para sala, onde me jogo no sofá e mando uma mensagem para o .
Eu: Tudo certo para a festa hoje?
Flash: Sim, só espero que consiga entrar, o Giovani não vai muito com a minha cara.
Eu: Está tudo bem, se você estiver comigo consegue entrar. Aliás, chama o Rafa e a Pati, quanto mais gente melhor e tenho a impressão que vamos precisar de reforço.
Flash: Pode deixar, não se preocupe, ele não vai machucar a . Somos a Liga da Justiça.
Eu: hahahahahaha. Sim, eu sou a Mulher Maravilha.
Flash: Você não combina com o Batman.
Eu: Combino com quem então?
Flash: Você é maravilhosa demais para qualquer um.
Encaro a mensagem com o coração saltitando. O que deveria responder? Será que isso é um flerte?
Não, é coisa da minha cabeça.
Se fosse um flerte ele diria "combina com o Flash".
Isso me irrita, porque as pessoas não podem ser claras com o que querem falar? Penso em deixar ele no vácuo, mas acabo digitando uma nova mensagem.
Eu: Acho que não sou tão maravilhosa assim, acho que o Batman seria um bom partido, você não acha?
Flash: Muito sombrio para você. E ele é um morcego, nada atraente.
Eu: Com certeza você não viu o filme, o Batman é muito gato! Ei, nos falamos mais tarde, vou me atualizar nas séries antes de me arrumar pra festa.
Flash: Certo, até mais tarde.
Ligo a televisão, coloco na Netflix e dou play em mais um episódio do Revival de Gilmore Girls, deixando de lado a bagunça que o me faz sentir e até mesmo o medo do que possa acontecer na festa.

***

Passei o dia todo vendo séries e filmes, além de ler alguns capítulos de um livro, já que o clima chuvoso proporcionava isso. Entretanto, a chuva não durou muito, assim que anoiteceu o céu abriu e as nuvens se dissiparam.
Perto das oito horas da noite eu jantei e fui me arrumar para a festa, lavando o cabelo e fazendo a finalização para os cachos ficarem bem definidos. Escolhi um vestido um pouco justo e calcei um par de tênis brancos. A pior parte foi fazer a maquiagem, já que eu tinha poucas habilidades com pincéis, então fiz apenas o básico para tentar ficar apresentável.
Às nove mandou mensagem dizendo que já estava na frente de casa com o Rafa e a Pati, assim, peguei minha bolsa e fui ao encontro deles.
— Uau, você está linda - Pati falou quando entrei no carro.
— Obrigada, você também está arrasando com esse vestido vermelho, pronta para matar.
— Então, qual o plano? - Rafa fala, virando-se para mim.
— Plano?
— O falou sobre a . O que vamos fazer, achar ela, depois jogá-la no carro e ir embora? Estou me sentindo em um filme de ação. Já pensou fazermos isso e o Giovani e os capangas dele atrás de nós. Ser amigo da é só aventura.
Fico pensando um pouco, eu realmente não havia pensando no que fazer. Mas sabia que não podia simplesmente fazer o que Rafa havia dito. Eu precisava falar com a e depois ver no que isso daria.
— Sem planos por enquanto, eu só preciso falar com ela.
Alguns minutos depois já estávamos na frente da casa do Giovani e isso fez com que eu me arrepiasse, a última vez que estive ali a minha vida tinha sido exposta para todos e minha amizade com a acabou indo pro ralo. Estava amedrontada que algo ruim acontecesse novamente naquela casa.
estacionou e todos nós saímos, Rafa e Pati foram andando na frente e eu e mais atrás.
— Você está tremendo - ele disse, me puxando e colocando os braços envolta dos meus.
A ação dele fez com que todo meu corpo se esquentasse e eu olhei em seus olhos, tentando imaginar o que aquilo tudo significava.
Ele sorriu e naquele momento meu mundo parou por alguns minutos.
Balancei a cabeça tentando me controlar e olhei para frente, onde Rafa e Pati nos observavam, o que fez minhas bochechas ficarem vermelhas.
Graças a Deus eles não falaram nada e nós entramos na casa. A festa já estava rolando há muito tempo, o som alto, as pessoas dançando e os copos de bebidas alcoólicas sendo virados.
— Precisamos achar ela - falei alto para que o pessoal me ouvisse.
Eles concordaram e no meio daquela algazarra nós tentávamos achar . Achei umas seis garotas loiras, mas nenhuma delas era ela. Já estávamos cansados de procurar, então pegamos algumas bebidas, apenas não tomava algo com álcool, já que estava dirigindo. Acordando o Prédio do Luan Santana começou a tocar e Pati me puxou para a pista de dança, os meninos nos acompanhando. Estávamos todos dançando, a música mudou para um funk e Rafa nos fazia rir, ao tentar fazer um quadradinho.
chegou mais perto de mim e nós ficamos dançando junto, seu corpo perto do meu. Ele encostou a testa na minha, então resolvi colocar as mãos em seu pescoço. Meu coração estava a mil, nos encaramos e eu consegui sentir que finalmente iria acontecer.
Nossos lábios estavam quase se tocando.
Até que o som abaixou um pouco e uma garota falou no microfone.
— O-l-a-a-a-a pessoal - falou no palco.
Separei-me dele e olhei para o palco, estava completamente bêbada, mal conseguindo ficar em pé.
— Essa garota não cansa de fazer merda em festas? - Rafa perguntou.
— Eu tenho vergonha alheia por ela - Pati falou.
— Que festo-o-o-o-o-ona, hein? - falou. — DJ, coloca aí um funk. Vocês pensaram que eu não fosse rebolar minha bunda hoje? - ela riu, mas a música não começou, foi quando ela me viu. — ! A maior celebridade da cidade está-a-a aqui, vem dançar comigo, .
Eu estava quase subindo no palco, mas Giovani apareceu e puxou ela, o que foi forte e quase a fez cair.
— Não posso deixar ela com ele - falei, já indo até eles.
, espera...
Não ouvi, subi no pequeno palco, indo para trás dele, onde Giovani havia levado .
— Na próxima vez que você fazer esse papelão na minha festa vai aprender uma lição, você me entendeu? - ele falou, segurando o braço dela com força.
— Solta ela.
Eles olharam para mim e Giovani fez o que eu pedi.
— Sua salvadora. Olá, . Você viu que precisa cuidar da sua amiga, não é? Então acho bom você não falar mal de mim nesses vídeos, na verdade, acho até que você poderia estar apaixonada por mim.
— Não!
Ele veio até mim e um frio percorreu meu corpo, podia ver mais apavorada que eu.
— Já disse, você que começou a mexer com quem não devia, . Você não quer que o seu amiguinho ou a se machuquem, não é?
— Eu apago os outros vídeos, não falo mais de você, é o máximo que vai conseguir de mim.
— Por enquanto, mas guarde seu primeiro beijo para mim, quero ganhar uma aposta.
Ele passou a mão pelos meus lábios e eu recuei.
— Saia de perto dela - chegou e falou.
— Não se preocupe, nerdizinho, nós já terminamos por hoje.
E com isso ele saiu dali. Eu respirei fundo e olhei para , lágrimas escorriam em seu rosto. Consegui sair do meu torpor e ir até ela.
— É minha culpa - ela sussurrou.
— Não vamos falar sobre isso agora.
Olhei para o seu pulso que estava vermelho.
— O que está acontecendo com você, ?
— Não se preocupe comigo e também não tente me salvar, , eu não tenho salvação.
— É claro que tem, vamos sair daqui, eu te levo para casa.
Ela olhou para o chão, levou uma mão ao pulso vermelho, mais lágrimas escorreram. E ali eu vi que aquela garota na minha frente não era nada parecida com a minha melhor amiga, não a que sempre andava com a maquiagem, cabelo e roupa impecáveis. Aquela menina na minha frente estava totalmente destruída.
...
— Eu não tenho mais casa - ela sussurrou.
— Como assim?
— Meus pais - ela inspirou forte. — Meus pais estão falindo, .
— Impossível, seus pais têm dezenas de lojas, eles...
— Eles tentaram abrir um novo negócio em Aracaju, investiram muito dinheiro, não deu certo, tiveram que cortar gastos e preferiram fazer isso comigo do que com eles, já que eles nunca param em um local só, por conta das dezenas lojas na região. Já fecharam algumas, só temos a daqui e mais duas. Eles souberam que eu estava saindo com o Giovani, como só eu ficava na casa daqui, venderam e acharam que o Giovani poderia me abrigar - ela riu. — Eles acham que isso vai fazer com que ele se case comigo.
... - passei a mão pelo rosto dela.
Ela se jogou em mim, me abraçando e chorando.
— Me perdoa, , me perdoa. Eu não queria te fazer mal, mas eu só faço as coisas erradas, eu afasto todo mundo, por favor, por favor, me perdoa...
Viro o rosto e vejo , sei que ele achava que a só me fazia mal, como muitas pessoas, mas ali, com ela me abraçando, eu percebi algo novo, eu sempre coloquei ela em um pedestal, uma rainha, alguém que eu no fundo desejava ser, por isso não via que assim como eu, ela era uma pessoa que tinha problemas e defeitos, ela não era perfeita, ninguém é.
— Vamos sair daqui - disse.
— Eu não tenho casa...
— Eu sei de um lugar que você pode ficar.
Coloquei o braço envolta dela para que se apoiasse.
...
Ele veio até mim e levamos para fora, indo até o carro, onde a coloquei lá dentro, fechei a porta e sai para falar com .
— Estou mandando mensagem para a Pati e o Rafa, eles já estão vindo - ele disse.
— Eles estavam gostando tanto da festa.
— Nós sabíamos que o plano era falar com a , não se preocupa.
Rafa e Pati chegaram, estavam alegres por conta da bebida, mas ficaram surpresos ao ver dentro do carro.
— Acho que você seguiu meu plano - Rafa disse. — Mas acho que bebi demais para aventuras com capangas. Posso dizer agora que não gosto dela?
— Ninguém gosta - Pati respondeu. — Mas não é porque não gostamos que não vamos ajudar a garota.
— Entrem logo, Liga da Justiça - falou.
Todos entramos no carro, eu no banco do passageiro da frente. Vi que estava toda encolhida atrás, com vergonha, apreensão e sem saber o que estava acontecendo.
— Para onde, ?
— Casa da minha avó.
ligou o carro e eu fechei os olhos, o mundo estava uma bagunça e eu não fazia ideia de como ajeitar. Eu precisava dar um jeito no Giovani, acabar com suas ameaças, mas não sabia como.
Olhei para e ele sussurrou um "vai ficar tudo bem". Tirou a mão do volante e apertou a minha mão.
Senti uma vontade de chorar, porque se tudo estivesse bem, eu e ele poderíamos estar nos beijando, mas a vida sempre tem um jeito de complicar as coisas.
Agora não era a hora de beijar, não por enquanto, era hora de lutar, afinal, eu sou a Mulher Maravilha, não é?!

***


Paramos na casa da minha avó e eu fiquei grata por ter uma cópia da chave da sua casa em meu chaveiro. Abri a porta devagar e entrei, todas as luzes estavam apagadas, liguei a da sala e fui até o quarto da minha avó, me ajoelhando ao seu lado da cama e tentando acordar ela.
— Vó...
Ela acordou atordoada e pegou os óculos da cabeceira.
? Aconteceu alguma coisa?
— A precisa de um lugar para ficar, amanhã eu explico, mas ela pode ficar no quarto de visitas?
— Claro que pode, vou pegar uns lençóis.
— Pode voltar a dormir, eu arrumo tudo.
Ela não aceitou e se levantou indo ajeitar o outro quarto, enquanto eu sai para mandar a entrar. Ela estava sonolenta, por isso os meninos a trouxeram. Minha vó ficou surpresa ao ver o estado dela, mas não disse nada, apenas ajeitou tudo e voltou ao seu quarto.
Os meninos deitaram na cama e eu tirei os seus sapatos, liguei um ventilador e a cobri. Saímos do quarto e fomos lá para fora.
— Você vai ficar aqui? - perguntou.
— Sim, vou mandar uma mensagem para a minha mãe falando que vou dormir aqui. Obrigada por me ajudarem hoje, pessoal, e me desculpem por colocar vocês nessa confusão.
— Relaxa, , nós nos divertimos muito com você - Pati falou. — Cuida dela e nos avise depois.
Despedi-me deles e me lembrou que mesmo amanhã sendo domingo iríamos trabalhar, já que seria o evento com a autora Amélia Rodrigues.
— Pode deixar, vou ser a primeira a chegar lá.
Ele me deu um beijo na bochecha e depois foi embora. Entrei em casa e fechei as portas, suspirando, tirei os sapatos e me deitei ao lado da , estava tão cansada que pouco tempo depois também já havia adormecido.



Capítulo 10: Conselhos

Acordei cedo e já encontrei a minha avó na cozinha fazendo café. Peguei um pão e comecei a fazer um sanduíche, sabendo que teria que contar os motivos de estar ali, mas tendo que omitir algumas partes.
— Então, o que aconteceu ontem? - perguntou.
— Ela bebeu demais e acabei descobrindo que seus pais estão falindo, venderam a casa daqui, você sabe como eles são, nunca ligaram para a .
Os pais de são comerciantes, possuíam lojas de calçados em quase todas as cidades do interior baiano e aqui em Paulo Afonso eram responsáveis por 70% das vendas comerciais. Eles quase nunca estavam em casa, sempre viajando e administrando as lojas. Assim, a , que é filha única, ficava em casa só.
Em todos os anos de amizade, eu só havia visto seus pais duas vezes e não foram boas situações. Por ser negra e ter uma condição financeira mais baixa, eles não gostavam da minha amizade com a sua filha, mas bateu o martelo, disse que se eles me desrespeitarem ela iria arrumar alguém e ir embora, construindo uma família longe dali. Esse era o maior medo deles, já que viam na filha uma segunda forma de chegar ao topo da pirâmide econômica.
— Pobre garota, aqueles dois desmiolados sempre deixaram a menina jogada. Ela pode ficar aqui o tempo que quiser. Mas acho que os pais dela não vão gostar nada disso. Vocês fizeram as pazes?
— Digamos que estamos nos falando, mas não totalmente bem. Vó, eu tenho que ir para casa, hoje vai ter um evento na livraria e precisamos arrumar tudo lá, de noite eu volto aqui, tudo bem?
— Claro, querida, a garota vai ficar bem comigo.
Como meu sanduíche, depois dou um beijo no rosto da minha avó e vou no quarto, me certificando que a está dormindo ainda, coloco um bilhete ao lado da cama pedindo para ela me ligar quando acordar e depois disso vou para casa, para me arrumar e ir para a livraria.

***


Em casa, eu sei que minha mãe estava me esperando para perguntar por que tinha ido dormir na minha avó. Mães têm um sexto sentido apurado e sempre sabem quando a gente está fazendo algo de errado. Mas como estava sem tempo, ela entendeu isso, porém me encarou por muitos minutos com aquele olhar “você sabe que eu vou descobrir o que você está aprontando”.
Tomei um banho rápido, vestindo uma calça jeans e a blusa do uniforme da livraria, prendendo o cabelo em um coque. Calcei os sapatos e peguei a chave do carro, indo para o trabalho. Quando cheguei, o pessoal já estava a todo vapor, as mesas haviam sido colocadas no depósito, para o local ficar amplo. estava ocupado com o outro rapaz, colocando um banner com uma foto da capa do livro Nosso Tempo, da Amie. Fui até a cozinha, colocando o avental e organizando as coisas por ali.
Na hora do almoço, em que ganhamos quentinhas para ficar por ali mesmo, foi o momento que eu e conseguimos conversar.
— Como ela está? - ele perguntou, referindo-se a .
— Quando eu saí ela estava dormindo, mas já me mandou mensagem, está com uma ressaca horrível, principalmente moral, mas fora isso está bem. Quando eu sair daqui mais tarde, vou lá falar com ela.
— Eu estou realmente preocupado com ela e toda a situação com o Geovani.
— Eu também.
Mais do que poderia admitir, as ameaças de Geovani ecoavam na minha mente, eu não fazia ideia de como lidar com isso. Tentei me concentrar no agora, olhando pela janela que já tinha uma fila de garotas para a sessão de autógrafos.
— Hoje vai ser uma loucura aqui - disse.
— Sim e eu estou morto de cansado - ele se levantou, jogando o copo plástico no lixo. — Ei, não conheça a Amélia sem mim, quero ver você surtando quando conhecê-la.
— Pode deixar.
Depois disso nós voltamos ao trabalho.

***


Faltava meia hora para o evento acontecer, estava colocando pó de café na máquina quando o me chamou e eu surtei. Ao lado dele estava Amélia Rodrigues, minha autora preferida. Acabei derrubando o pó no chão, o que fez todo mundo rir, principalmente o . Limpo as mãos no avental e vou até eles.
— Oi, eu sou sua fã, amo seus livros, amo você. AI, MEU DEUS, EU TE CONHECI.
Ela ri, toda fofa e posso dizer com toda certeza que é muito mais bonita de perto, parecendo uma boneca de porcelana, toda branquinha e delicada.
— Eu te disse que ela ia surtar - diz.
, o que você disse para ela? Eu vou te matar.
— Não se preocupa, ele só disse que você era minha fã. Eu ainda acho muito louco alguém dizer que é minha fã, mas tudo bem. Obrigada pelo carinho.
— Eu sei todas as frases de Nossos Versos do início ao fim, de tanto que li, eu amo tanto aqueles poemas, menina, você arrasa.
— Não me deixa sem graça, eu não sei lidar com elogios.
Eu ia falar algo, mas nesse momento Benjamim Goulart aparece e eu perco a fala, que homem, que homem. Aime apresenta ele para mim e , como se eu não soubesse quem ele era. Ben tinha uma das editoras mais incríveis desse país, ajudando novos autores a realizarem seus sonhos. Foi assim que ele e Aime se conheceram, quando ele publicou seu livro, os dois acabaram se apaixonando e já são casados há quase um ano.
— Vocês estão gostando da cidade? - pergunta.
— Sim, é muito linda, é muito legal como ela é bem arborizada, achei bem acolhedora - Ben responde.
— Eu moraria aqui com certeza, muito melhor que todo o caos de cidade grande - Aime complementa.
Ben e saem, para resolver uns últimos detalhes para o evento e eu e Aime ficamos ali. Eu e minha autora preferida, gente que loucura.
— Vocês formam um lindo casal - digo.
Amie olha para o esposo e sorri, dá para ver como eles se amam.
— Você e o também.
— Nós somos apenas amigos…
Ela ri e se senta em um banquinho, me encarando, o que me deixa envergonhada.
— Quando eu conheci o Ben, a última coisa que eu queria era me apaixonar, por conta do meu último relacionamento, então ficamos amigos e aos poucos fomos ficando cada vez mais próximos. Amizade é sempre o começo de tudo, .
Encaro o e mordo meu lábio, eu gostava dele, mas não sabia como expressar isso.
— Eu não sei se ele sente o mesmo - admito.
— Você só vai saber se admitir o que sente também. Mas, já que deu pra perceber como isso é um assunto delicado, que tal você pegar seu celular para tirarmos uma foto juntas?
Eu sorrio e faço o que ela disse, agradecendo a Deus por ela ser uma mulher tão incrível. Tiramos algumas fotos e ela autografa o meu livro, depois disso ficamos conversando e eu conto sobre meu canal no youtube.
— Eu queria fazer um canal também, mas não sei fazer edições e tudo mais - ela comenta.
— É super fácil e acho que você deveria fazer, imagina vídeo da sua pessoa toda semana, todo mundo iria amar.
— Vou pensar no assunto - ela pisca.
Depois disso, o pessoal a chama e as portas da livraria são abertas, os leitores entrando, todos emocionados e isso me enche o coração. Saber que aquelas pessoas partilham do mesmo sentimento que eu, que amam um livro e a forma como uma garota se expressa nele.
— Oi, você pode me dar um copo de água - Ben pergunta, fazendo eu até me assustar, de tão concentrada que estava vendo a cena.
— Claro - respondo e vou pegar.
Ele agradece e se senta ali, vendo a movimentação.
— Eu não me canso de ver isso, o pessoal todo feliz por conhecer a Aime - ele comenta. — Acredita que no começo ela nem queria publicar o livro?
— Sério?
— Sim, eu dei duro pra essa garota entender o quanto a história dela era incrível.
— Em nome de todos os leitores dela, agradeço por ter feito isso.
— Se tem algo que aprendi durante esses anos é como é difícil para nós mesmos percebermos o quanto somos bons em algo, sempre achamos que o outro é melhor, mas não percebemos que só é olhar no espelho para ver alguém que brilha e arrasa em muitas coisas.
— Eu sei bem o que você está falando, sou do tipo que sempre vê algo de melhor nos outros.
— Bom, então vou te dar um conselho, você é incrível.
— Você sabe que é casado e não é legal fazer outras garotas se apaixonarem por você.
Ele ri e bebe a água.
— Conselho número dois, você tem uma cara bem legal aqui que deveria se apaixonar - ele arqueia as sobrancelhas e aponta com a cabeça para o .
Eu fico envergonhada e penso no que responder, mas não preciso porque umas garotas chegam e pedem para tirar fotos com o Ben.

***


Já eram oito horas da noite quando fechamos a porta da livraria e eu me sinto acabada, com minhas pernas doendo por ficar tanto tempo em pé.
Estamos todos reunidos, os funcionários, a Aime e o Ben, sentados e descansando.
— Eu quero agradecer o convite e por terem feito um evento tão lindo - ela diz. — Gosto de conhecer cidades assim no interior, que incentivam a leitura para os jovens, sei como é difícil acontecerem eventos como estes. Então, obrigada.
Todo mundo bate palmas e fala o quanto ela é legal e eu fico calada, me tornando mais fã ainda dessa garota.
— Ei, sabe o que seria legal? - fala. — Um vídeo da com a Aime.
— Sim, por favor, vocês duas são incríveis - Marcela, uma garota que trabalha com a gente falou.
— Gente, para disso, a Aime está cansada…
— Eu acho que seria incrível, vamos, - Aime diz.
E eu não iria contradizer ela, por isso colocamos duas cadeiras em frente aos livros e o banner, conversamos sobre o tema que iriamos falar, a câmera é ligada e eu realizo um dos meus maiores sonhos, fazer um vídeo com Amélia Rodrigues.

Vídeo #6: Relacionamentos abusivos na literatura

Câmera: on
*abertura fofinha do canal*

— Oi, gente, esse é um vídeo muito, mais muito especial para mim, pois estou ao lado da minha autora preferida, Amélia Rodrigues, autora de Nossos Versos, que veio divulgar seu novo livro, Nosso Tempo, aqui na minha cidade. Muito obrigada por aceitar fazer esse vídeo, Aime.
— Oi, pessoal. , a honra é minha, pelo que vi, você é a rainha do youtube.
— Acho que você está vendo um pouquinho errado - eu rio. — Bom, o tema do vídeo de hoje é sobre como romantizam relacionamentos abusivos em alguns livros, parem com isso, galerinha. Você vê muito isso nos livros, Aime?
— Sim, muitos livros estão abordando isso de forma errada. Se você quer escrever sobre isso, tem que analisar muito o enredo, para que seja uma história que seja para conscientizar as pessoas, não reforçar esse tipo de violência.
— É bom você falar isso, porque tem muita gente que continua achando que violência é apenas física, mas não é apenas isso, tem violência verbal e psicológica também.
— E eu acho que a psicológica é uma das que é mais frequente em livros, pelo que leio, pois o cara faz muita merda, mas a personagem está tão manipulada, que acha que está tudo bem, que é normal fazer isso.
— Que o cara sofreu tanto no passado que devemos aceitar as merdas que ele faz ou que ele vai mudar - dizemos juntas.
— Provavelmente vamos receber uma chuva de hate, porque tem muita gente que ama esses livros - digo. — Mas nós precisamos fazer essa comparação. Em After, nós temos um relacionamento totalmente abusivo, em que é colocado que o Hardin faz aquelas merdas todas porque sofreu muito e a vida o deixou assim, um bad boy que não se importa com os sentimentos dos outros.
— Em contrapartida, temos Easy - Aime complementa. — Em que o Lucas sofreu muito no passado, aliás, sempre fico com vontade de chorar quando me lembro do que ele passou. E em partes ele até um bad boy - ela faz aspas com as mãos. — Mas isso não o faz um cara que pode fazer o que quiser sem se importar se está magoando o outro.
— Na verdade ele utiliza o seu passado para ajudar outras garotas a não passarem por aquilo.
— ENTÃO PAREM DE ROMANTIZAR RELACIONAMENTOS ABUSIVOS - dizemos juntas.
— Porque não importa o que você passou - digo.
— Não importa se você tem dezenas de problemas.
— ISSO NÃO TE DÁ O DIREITO DE ABUSAR DE OUTRA PESSOA - falamos juntas.
— Se o cara te isola, te humilha e te persegue, isso é violência psicológica - digo.
— Se o cara se nega a usar o preservativo, te pressiona a fazer sexo, isso é violência sexual.
— Se o cara controla teu dinheiro, não te deixa trabalhar, destrói seus objetos, isso é violência patrimonial e econômica.
— Se o cara te bate, te empurra, te chuta, te violenta, isso é violência física.
— E TUDO ISSO É RELACIONAMENTO ABUSIVO - dizemos juntas.
— Então não podemos admitir que isso seja romantizado em livros ou em qualquer lugar - digo. — Porque vão ter garotas que vão ler isso e achar que está tudo bem passar por isso, pois a personagem de tal livro também passa e no final ela e o casal ficam bem.
— Mas nem todas as garotas têm essa sorte, no final elas acabam mortas. Então vamos ser responsáveis por aquilo que escrevemos, para que seja um exemplo legal para os outros — Aime diz.
— Vão ler It Ends With Us da Collen Hoover - indico.
— Sim, esse livro é sensacional.
— E o livro da Aime é claro, que está à venda nas melhores lojas do país - nós rimos. — Obrigada por ter participado desse vídeo, Aime, você é maravilhosa.
— Eu amei e você falou tanto que é minha fã, mas olha, eu que sou sua fã.
Nós nos abraçamos e naquele momento, depois de falar sobre tudo isso, eu percebo que preciso conversar com a .
— Nós vemos no próximo vídeo, não se esqueçam de comentar, curtir e se inscrever no canal.
— Tchau - dizemos.
Câmera: off



Capítulo 11: O Outro Lado da História

Sai da livraria muito tarde, então não consegui falar com a naquele dia. Entretanto, assim que acordei no outro dia, fui até a casa da minha avó. Encontrei ela e sentadas no sofá, com minha avó ensinando ela a fazer ponto cruz.
— Nunca pensei que veria essa cena - comento. — fazendo bordado, quem diria.
— Eu estou amando, olha só, já fiz meu nome nesta toalhinha.
— Ela é uma boa aluna - minha avó diz e se levanta, sabendo que nós precisávamos conversar. — Vou à casa da vizinha, ela ficou de me mostrar uns perfumes que está vendendo.
Com isso, ela me dá um beijo e sai da casa. Então ficamos eu e , sem saber como começar aquela conversa.
Sento-me ao seu lado e vejo o que ela está fazendo, me lembrando dos tempos que era eu a aluna, passando horas com a minha avó.
— Eu amava passar horas bordando, principalmente porque minha avó sempre contava histórias do passado. Era uma das melhores horas da minha infância.
— Ela me contou algumas histórias também, uma mulher incrível.
— Sim e sabe, foi ela que me fez perceber como nós precisamos conversar, expor os dois lados.
Ela piscou e conseguia ver lágrimas se formando nos seus olhos. engoliu em seco e sorriu.
— Eu sinto sua falta, muita. Me desculpa, , por favor, eu sou uma idiota, não deveria ter feito aquilo - ela colocou as mãos no rosto, as lágrimas descendo. — Eu sou um monstro.
— Você não é um monstro, só errou.
A abraço e nós ficamos ali, chorando juntas. Depois ela me solta e começa a falar.
— Você tem razão em não querer mais ser minha amiga e vou entender se nunca mais quiser me ver.
— Todo mundo diz que eu não devo ser sua amiga, que você não me faz bem, que nossa relação é tóxica, abusiva.
Ela franze as sobrancelhas e percebo como essa informação a choca.
— Você concorda com isso? Que eu sou tão horrível assim?
— Você esteve ao meu lado nos meus piores dias, me ajudou a ser forte e a me levantar. Mas teve momentos que você não foi mesmo a melhor para mim, . Sua opinião sempre era a que estava certa, se você não gostava de algo, fazia o possível para acabar com isso e sempre impôs que eu deveria ficar com alguém. Você sempre queria ser o centro de tudo. Era como se você fosse o Sol e eu a Terra, girando em torno de você.
Ela se levantou de repente andou de um lado para outro na sala e suas mãos ficaram puxando seu cabelo.
— Caramba, , não acredito que era assim que você me via. Que droga.
— Respira, .
— Como eu vou respirar se a minha melhor amiga acabou de me dizer que eu sou uma naja?
— Mas e a sua percepção com nossa amizade? Qual a sua visão?
— Eu nunca pensei que era ruim assim, eu errei muito fazendo aquilo na festa, mas não pensei que eu fosse tão ruim assim. Ser o centro das atenções? , quem é o centro das atenções em todos os locais é você. Não tem uma pessoa que não te ame, você é inteligente, divertida, linda, única. As pessoas te amam pela mulher incrível que você é, enquanto eu, bom, as pessoas gostam de mim por dois motivos, por conta dos meus pais ricos e essa visão de que eu sou uma garota bonita, magra e loira. Eu sou bonita para as fotos nas redes sociais, mas é só isso que veem em mim, uma imagem. Ninguém me procura para conversar sobre livros, músicas ou qualquer outra coisa.
, você também é incrível...
— Se eu fosse tão incrível não seria tão solitária, não é? Talvez meu pai tenha razão, é bom eu arrumar um marido enquanto tenho um rostinho bonito, porque quem vai me querer depois…
— Não fala isso.
— Eu tenho mil defeitos, , eu sei, mas se tem alguém que eu sempre amei e quis o melhor, foi você. Não queria te impor pra ficar com alguém, eu só pensava que você se prendia muito por conta do que aconteceu com seu pai, ele ter se tornado alcoólatra, fazendo um monte de merda. Eu sei que você tem um medo enorme de se apaixonar e acontecer o mesmo que ocorreu com a sua mãe. Eu só queria que você saísse da sua zona de conforto. Mas olha o que eu fiz! Eu te humilhei e trouxe o Giovani para sua vida. Meu Deus, o que eu fiz - ela levou as mãos ao rosto, chorando. — Todo mundo vem me odiando, desde que... Desde que eu fiz aquilo com você. E eles estão certos em me odiar, eu machuquei a única pessoa que esteve ao meu lado todo esse tempo.

— Eu sou um monstro, - lágrimas corriam pelos seus olhos. — Eu sou um monstro!
— Você não é! Você errou, mas todos nós erramos, ninguém é perfeito.
— Você é, sempre foi e sempre será.
— Não sou.
— Sabe, quando eu ti vi pela primeira vez, eu estava tão apavorada, meu primeiro dia de aula em uma escola nova. E lá estava você, com esse sorriso enorme e um jeito único. Você foi à única que me estendeu a mão naquele dia e me acolheu. Todo mundo que te conhece percebe a mulher incrível que você é, . Mas eu, eu as pessoas só veem um rostinho bonito.
— Isso não é verdade, você é amada por todos, você é o centro das atenções, .
— Porque eu sou uma boa atriz, eu sei fingir, eu reforço essa ideia de beleza impecável. É minha única opção, tenho que fazer isso.
— Você tem muitas opções…
— EU NÃO TENHO - ela gritou. — Eu não tenho casa, nem pais que se preocupam comigo ou uma faculdade, eles cancelaram a minha matrícula. Eles estão me empurrando para... Para fazer algo com o Giovani, eles acham que assim posso tirar eles da falência. Eu sou apenas um rostinho bonito, , um rostinho que logo vai envelhecer e não ter mais nada. Você não vê? Eu apresento uma casca brilhante, mas depois que você tira isso encontra apenas o vazio.
— Você não é vazia! Você faz coisas incríveis também. Entende de moda como ninguém, tem conselhos maravilhosos, os melhores abraços. Você tem tanta coisa boa. Uma vez eu li em um livro algo que me marcou, dizia que não existem pessoas totalmente más ou boas, existem pessoas que erram e aprendem com isso. Você errou, mas pode melhorar.

— Olha, eu errei também nessa relação, te coloquei em um pedestal, te achava perfeita e alguém que eu admirava, acima de tudo e todos. Alguém que eu queria ser… E isso também prejudicou nossa amizade, pois ninguém é superior que ninguém, precisamos ter uma relação de trocas dos dois lados. Vamos voltar a nos conhecer, tudo bem? Por tudo que passamos juntas, vamos dar mais uma chance, mais um capítulo para nossa história.
— Sim, acho que esse é um bom começo - ela me dá a mão. — Sou , no momento estou sem casa, sem faculdade, mas aprendendo a fazer bordados, quem sabe o que a vida pode dar.
— Sou , tenho um canal no YouTube, amo café e meu cabelo é bagunçado assim como a minha vida.
— As melhores coisas da vida têm um pouco de bagunça.
Nós rimos e nos abraçamos. Estávamos nos sentindo mais leves, perdoando os erros passados. Não era uma amizade como antes, mas quem sabe poderia ser o começo de uma amizade mais saudável? Era o que esperávamos. Como diz minha vó, todos os pratos agora estavam limpos, só restava a nós usá-los para um bom banquete ou deixá-los quebrar.
— Então, você e o Giovani? - Perguntei, tentando compreender mais sobre aquilo.
— Ele era legal no começo, claro que era só para me levar para cama, depois se mostrou o cara mais escroto que já conheci.
— Qual é, ? Você sabe os boatos das meninas que já ficaram com ele, todo mundo sabe!
— Você sempre acha que o cara pode mudar por você, especialmente se você está totalmente carente de atenção.
— E depois? Por que você não terminou com ele?
— Você não termina com Giovani Albuquerque, , ele termina com você. E ele me mantém junto a ele porque quer te afetar. Ele viu como você fez sucesso com os vídeos, colocou na cabeça que te quer, aquele garoto é louco.
— Precisamos arranjar um jeito de nos livrar dele. O que ele fez com você na festa, ele foi violento, abusivo.
— Eu sei, foi horrível, mas eu não senti medo por mim e sim por você. Se ele fizer algo contigo, eu nunca vou me perdoar.
— Ele não vai, vamos parar ele.
— Como? Não consigo pensar em nada…
— Também não, mas sei alguém que pode nos ajudar - disse, pegando o celular.
Mandei uma mensagem para a Pati e uns vinte minutos ela estava ali. Apresentei ela a e ficamos ali, conversando, contei tudo sobre o Giovani e a noite da festa para a Pati.
— Temos que expor ele, só assim ele vai te deixar em paz - Pati falou.
— Expor? Você está louca? - perguntou. — O pai dele manda nessa cidade, nada vai afetar aquele garoto.
— Nós vamos montar um plano, tem que ser algo grande. Depois disso ele não vai poder fazer nada, nem o delegado pateta daqui vai poder livrar a cara dele - Pati explica.
— Isso vai ser muito difícil, ele sempre está rodeado de pessoas.
— Precisamos pensar em tudo, nos mínimos detalhes - digo.
As meninas concordam e começamos a montar um plano para pegar o Giovani no flagra. Minha vó voltou e preparou um lanche para nós, comemos tudo conversando sobre séries e bandas que gostávamos. Pati e acabaram percebendo que gostavam de muitas coisas em comum.
Depois disso, nos sentamos na cama do quarto de visitas, ligando a televisão.
— Você deve pensar que a é louca por me perdoar por tudo que fiz…
— Não, a acho mais incrível, por não guardar rancor e todo mundo erra nessa vida.
— Pensei que você não iria querer nos ajudar, quer dizer, me ajudar, todo mundo me odeia.
— Aí, menina, você errou, mas não fica se vitimando, sério! A gente sempre faz merda, mas isso nos faz crescer, você parece ter aprendido uma boa lição com isso. Além do mais, nós garotas temos que nos unir, sororidade, mana - Pati diz.
fica sem jeito e eu me jogo em Pati, que grita para eu sair de cima dela.
— Quando eu crescer, quero ser igual a você - digo a ela. — Você é rainha demais, Pati.
— Somos todas rainhas, agora chega para lá e coloca algum filme legal para vermos.
E ficamos ali, vendo filmes e tendo uma tarde divertida de garotas.



Capítulo 12: Três Espiãs Demais

Minha ansiedade estava em alta, não conseguia dormir pensando em todo o plano que havíamos montado. Tinha que dar certo, se não, não sabia o que poderia acontecer.
Pego o celular para ver a hora, ficando irritada por ver que era apenas seis horas da manhã. Desisto de tentar dormir e saio da cama, indo para a cozinha e encontrando minha mãe , já que ela acorda todo dia às cinco da matina para fazer caminhada.
Admiro essas pessoas que fazem exercícios físicos, porque de jeito nenhum eu saio da minha caminha às cinco horas para correr.
— Sem conseguir dormir? - ela pergunta.
— Sim, crise de ansiedade.
— Você ainda está fazendo o acompanhamento com a psicóloga?
— Estou, vai ficar tudo bem, mãe.
Eu fazia acompanhamento psicológico desde a situação com meu pai, pois eu acabei tendo alguns ataques de pânico. Foi bem difícil para mainha me ver desse jeito, então, sempre que tenho alguma crise, ela fica muito preocupada.
, o que está acontecendo?
— Não fique chateada, mas eu voltei a falar com a , os pais dela estão falindo, ela não tinha onde ficar, mãe. Por enquanto, ela está na casa da vó.

— Eu sei que ela errou, isso me magoou muito, mas todo mundo erra, mãe. Não estamos 100% bem, só que reconhecemos que nós duas contribuímos para nossa amizade ter chegado àquele ponto. Por favor, entenda isso.
— Ah, , claro que eu entendo. Você tem um coração puro, não guarda rancor e isso é lindo. Mas cuidado para não se machucar novamente.
— Pode deixar.
— Olha, sei que sempre falei que não gostava da , talvez porque ela sempre gostou de coisas diferentes de você e eu fico com medo dela te levar para caminhos sombrios, o que nós passamos com o seu pai… , eu tenho muito medo de te perder.
Aquilo me deixa surpresa, nunca pensei que minha mãe poderia achar que eu cairia no mundo do álcool como meu pai.
— Mãe, eu não sou ele, posso ter a carga genética dele, mas você deveria saber que eu me controlo, eu nem bebo muito.
— Eu sei, querida, me desculpe - ela me puxa para um abraço. — Bom, se você acha que a merece uma segunda chance, também darei um voto para ela.
Com isso, ela sai da cozinha, para tomar um banho e eu pego uma xícara de café para me dar energia para enfrentar o dia longo que terei.


***


Era minha folga da livraria, então estava eu, Pati e sentadas e dividindo a mesa da cozinha da minha avó. Eu e Pati estávamos no notebook e no celular, checando todas as redes sociais do Giovani. Nossa missão era encontrar todas as garotas que já tiveram um relacionamento com ele.
— Achei uma - Pati diz. — Débora Novaes. Estou adicionando no facebook.
Ela começa a digitar e depois de uns três minutos vira para nós, lendo:
— Oi, Débora, você não me conhece, sou a Patrícia e gostaria de conversar com você, é sobre o Giovani. Sei que pode soar estranho, mas, por favor, é importante.
— Está ótimo, acha que ela vai topar? - questiona.
— Não faço ideia.
O que estávamos fazendo era muito arriscado, ainda mais por estarmos colocando outras pessoas nisso, mas se o Giovani faz jus aos boatos que correm, essas garotas iriam nos ajudar.
— Achei outra, Luana, mas ela não tem redes sociais. Mas tem essa outra garota que está com ela na foto com o Giovani e a gangue no Instagram dele, achei as redes sociais dela e tem várias fotos com a menina. Ah, olha aqui, elas são irmãs. Mando uma mensagem para ela? - diz.
A Pati olha a foto, duas garotas parecidas, sorriam, uma mais baixa, as duas com cabelo castanho.
— Essa é a Luana - aponta para a menina mais baixa. — Essa é a Nicole - ela apontou para a mais alta, achei ela bonita, com as bochechas um pouco avantajadas e um sorriso acolhedor.
— Eu já vi essa Nicole na faculdade - Pati diz. — Acho que até falei com ela, manda.
faz isso e continuamos ali, procurando garotas.
Já havia passado umas três horas e nós tínhamos uma pequena lista com nomes, esperando algum sinal de resposta das meninas.
— ELA RESPONDEU! - gritou de repente, apontando o celular.
— O que ela disse?
— A Nicole falou que o Giovani foi a pior coisa que aconteceu para a irmã dela e que se estamos fazendo algo contra ele, ela está dentro. Que no momento a irmã está morando fora, mas que ela ajuda. Isso é ótimo. Já temos nossa primeira aliada, o que fazemos agora?
— Temos que esperar mais algumas responderem, só depois disso damos o próximo passo - Pati fala.
— Sabe o que isso me lembra? - digo. — As três espiãs demais, juntas vamos colocar esse crápula no lugar que merece.
— Só para ficar claro, eu sou a Sam - Pati diz, o que nos faz rir.

***


Eu não estava conseguindo me concentrar em nada, muito menos na aula de Teoria Cognitiva Comportamental. Minha cabeça estava uma zona, pensando no que podia acontecer ou não.
E ainda mais com a situação entre eu e o . Os conselhos da Aime e do Ben voltavam na minha cabeça, além dos quase beijos que tinham acontecido entre nós.
Eu achava ele incrível, fofo e inteligente. Ele me fazia sentir as mãos formigando e as borboletas no estômago. Mas eu tinha medo, medo disso não ser retribuído, medo de me magoar.
Estava tão pensativa que tomo um susto quando o professor estala os dedos na minha frente, chamando minha atenção e fazendo a turma toda rir. Fico envergonhada e tento focar na aula.
Quando estávamos saindo da sala, para irmos embora, a Pati veio até mim toda saltitante.
— Todas as meninas responderam e aceitaram.
— Uau.
— Você sabe o que isso quer dizer, não é? - ela pergunta.
— Precisamos nos reunir e depois...
O depois era o que mais me preocupava, não sabia se conseguiria ser uma boa atriz e enganar o Giovani. Pati percebe minha cara de desespero e me dá um abraço.
— Nós estamos fazendo isso juntas, . Vamos conseguir.
Respiro fundo e balanço a cabeça, precisava ser forte como todas as meninas estavam sendo.
Descemos as escadas e Pati vai para a biblioteca, para entregar um livro, saio da faculdade e sento em um banquinho que tinha ali, a esperando. Rafael aparece e se senta comigo.
— Hey, cadê o ? - pergunto.
— Oi para você também, . Eu estou ótimo obrigado por perguntar.
— Desculpa - digo, rindo.
— Tudo bem e para a sua pergunta, ele ficou conversando com o professor sobre um projeto que vai participar. Essas coisas nerds.
Iria falar algo, mas fomos interrompidos por uma garota.
— Você é a , não é? A amiga da - ela diz.
— Sim, sou eu.
— Sou a Nicole, vocês me mandaram uma mensagem sobre o… - ela olha para o Rafa, sem saber se poderia revelar.
— O clube - complemento. — Obrigada por ter concordado em participar, estamos vendo um dia bom para nos reunirmos.
— Claro, bom, só me falar que vou.
Com isso ela sai e Rafa me encara com olhos curiosos.
— Quem é ela?
— Uma amiga da .
— Você está com cara de quem está aprontando, . Posso saber por que não estou no meio disso?
— É complicado, não posso explicar.
— Pensei que confiasse em mim…
— Eu confio, Rafa, mas isso vai muito além de mim.
— Te perdoo se você me apresentar a essa garota depois.
— Você não presta.
— Claro que presto, sou lindo, fofo, livre, leve e solto.
— Ei, sabe daquela promessa que te fiz? Estou precisando espairecer a mente, então acho que é uma ótima hora para gravarmos um vídeo.
— Você está falando sério?
— Claro que sim, aparece em casa amanhã.
— Alô internet, se preparem que eu vou aparecer no canal da e vai ser o maior lacre de todos os tempos. Preparem os memes.
Eu fico rindo e juntos pensamos em um tema para um vídeo. Seria legal gravar com o Rafa e esquecer dos problemas por um tempo.

Vídeo #7: A Vida Tem Mais Cores Do Que Rosa e Azul

Câmera: on

*Bastidores: imagem branco e preto*

— Pasito a pasito, suave suavecito, nos vamos pegando, poquito a poquito y es que esa belleza es un rompecabezas, pero pa montarlo aquí tengo la pieza… - Rafa canta e me olha.
— DESPACITO - cantamos junto. — Quiero respirar tu cuello despacito, deja que te diga cosas al oido, para que te acuerdes si no estás conmigo.

*abertura fofinha do canal*

— Olá, pessoinhas lindas, eu sou a e vocês estão no canal Garota Literária. Como vocês podem ver, hoje teremos uma participação super especial. O lindo e maravilhoso, Rafael Oliveira.
— Oláaaaa. Estou muito feliz por estar aqui hoje, podem anotar que esse vai ser o vídeo mais lacrador da história do YouTube - nós rimos.
— Como vocês podem ver, o Rafa está vestindo uma camiseta rosa e eu uma azul e essas cores são passadas com nossas culturas como específicas para os gêneros feminino e masculino. E o tema do nosso vídeo é justamente esse.
— Você esqueceu de falar desse brilho no meu rosto - o Rafa chega mais próximo da câmera.
— Você está arrasando.
— Eu sempre arraso.
— Você postou uma foto no Insta um tempo atrás com brilho no rosto não foi? Eu amei aquela foto.
— Sim e a maioria dos comentários eram “Rafa, não sabia que você era gay”. Achei tão idiota, porque é só usar algo que as pessoas rotulam.
— Isso é muito chato, porque o mundo é dividido em coisas para meninos e coisas para meninas. E se você usa algo que é “pertencente” do outro gênero, já vão começar a rotular.
— ROSA É PARA MENINA E AZUL PARA MENINO. NADA DISSO - dizemos juntos.
— Uma amiga me disse que o filhinho dela ama coisas de cozinha, que ela estava querendo comprar brinquedos como panelinhas para ele, mas que as pessoas ficavam dizendo que ela não deveria fazer isso, que é coisa para menina - digo.
— A Pati uma vez estava brincando comigo e o , estávamos com carrinhos e aí uma tia deles chegou e deu uma boneca para ela, que carrinho é só para meninos.
— Eu amo ir no shopping e ir na sessão masculina, onde tem camisetas com estampas de histórias em quadrinhos ou com frases engraçadas, enquanto na feminina só tem estampas florais ou fofinhas.
— Já eu, amo usar camisetas com estampas fofinhas e em cores pastéis, como rosa claro.
— E ISSO NÃO NOS FAZ SER MENOS MULHER OU HOMEM - dizemos juntos.
— É difícil compreender isso e se desconstruir, porque desde pequenos somos ensinados a viver desta forma, enxergando tudo em duas categorias: para meninas e outra para meninos. Mas, pouco a pouco podemos entender que o mundo não é assim, existem pessoas e elas vão comprar, usar, fazer o que bem entenderem com os objetos que encontram. Porque os objetos não tem gênero - digo.
— SÃO APENAS OBJETOS - dizemos juntos.
— Então, meu camarada, se você quer usar um vestido ou saia, vista. Se você quer passar batom, passa. Se você quer ser cabeleireiro, maquiador, cursar moda. Vai fundo. Você não vai estar sendo diferente, vai estar sendo apenas você - Rafa diz.
— A vida tem mais cores que rosa e azul. Temos aí um arco-íris para explorar, então, vamos parar de focar apenas nessas duas. Vamos parar de dividir o mundo. Vamos viver.
— Usando o arco-íris, você ainda pode encontrar um pote de ouro no final - Rafa pisca.
— E como vocês amaram as indicações de livros no último vídeo, aqui vai mais um para a listinha de indicações: Para Educar Crianças Feministas da Chimamanda. E não, você não precisa ter filhos para ler esse livro, ele é incrível para entendermos como nossa sociedade impregna essa cultura machista e sexista em nossas veias desde que nascemos. Em uma parte ela diz que quando colocamos que existem coisas para meninas e outras para meninos, estamos limitando nossas crianças a só ficarem dentro dessa caixinha. Quando não fazemos isso, mostramos que o mundo é enorme e que podemos ser o que quisermos, sem nos limitar.
— É por isso que amamos a Chimamanda - Rafa complementa.
— Definitivamente. Bom, é isso, pessoal, se você gostou desse vídeo, não esqueça de curtir e comentar...
— Ah, lembrei de uma coisa - Rafa interrompe. — Eu e o fizemos uma aposta, ele disse que esse vídeo não teria mais comentários que o que ele fez com a , então encham esse vídeo de comentários dizendo como sou bonito, gente boa e que estão apaixonadas por a minha pessoa. Se eu tiver mais comentários, o vai gravar um vídeo fazendo o quadradinho e eu vou postar no meu Insta.
— Vocês são muito idiotas.
— Mas você nos ama - ele diz.
— Tchau, pessoal - dizemos.

*Corte, tela em preto e branco*

— Você me ensina a fazer o quadradinho? - pergunto.

Câmera: off



Capítulo 13: Precisamos Falar Sobre Giovani

Eu estava me divertindo com todos os comentários no vídeo com o Rafa, era engraçado como as meninas morriam de amores por ele. Meu celular não parava de apitar com mensagens dele dizendo como estava se sentindo famoso.
Isso foi ótimo porque eu consegui parar de pensar um pouco sobre todo o projeto contra o Giovani. Entretanto, a felicidade não dura muito. Em meio às mensagens do Rafa, uma de número desconhecido me fez ficar preocupada e pensando em como devia focar em todos os meus problemas.

Número Desconhecido: Fico feliz que tenha cumprido a promessa de apagar o vídeo que fala da aposta, mas sabe que quero mais que isso, não é? Ou preciso fazer algo com seus amiguinhos? Rafa, Pati, , , muitas pessoas para escolher. xxG.

Encarei por tanto tempo a mensagem que tomei um susto quando ouvi mainha me chamando. Não minto, estou amedrontada, sabia do que Giovani era capaz de fazer e não era só eu que estava em risco. Respirei fundo e bloqueei o celular, não era a hora para responde-lo.

***


Era um sábado à tarde e havíamos marcado com todas as meninas na casa da minha avó, ali havia se tornado nosso quartel general e vovó estava amando ter tanta gente em casa, tentava fazer com que ela não entendesse o real significado de tudo, mas algo me dizia que Dona Estelita sabia o que estávamos fazendo.
Pouco a pouco as meninas chegaram e no final nosso grupo estava reunido, eu, Pati e com mais cinco meninas. Estávamos sentadas na sala e todas me encaravam para eu começar a falar, acabei travando e levei uma cotovelada da Pati para me soltar.
— Precisamos falar sobre o Giovani — começo. — Bom, vocês sabem que estão aqui por conta dele. Ele é um babaca e vem me ameaçando e tentando me chantagear para eu ficar com ele. Precisamos de vocês para mostrar para todos o quão perigoso ele é e assim, com a atenção de todos, tentaremos fazer com que ele pare com isso.
A menina que havia conhecido na faculdade outro dia, Nicole, levantou a mão.
— A minha tia é delegada — ela falou. — Já tem uma ficha do Giovani por conta da minha irmã, ele… ele tentou matá-la.
Um silêncio pairou no local e todas ficamos tensas, sabia o que elas estavam pensando, pois era o mesmo que eu. E se no final disso o Giovani tentasse algo contra nós? Todas estamos em perigo por mexer com ele.
— A minha irmã foi morar em outra cidade e meus pais acharam melhor deixar tudo para lá — Nic continuou. — Eu nunca concordei com isso, ele precisa pagar pelo que fez ou vai acabar tentando fazer o mesmo com outra pessoa.
— Ele vende drogas — Débora falou. — Foi assim que nos conhecemos, ele é traficante. Já tem dois anos que estou limpa, mas se continuasse perto dele, não estaria aqui hoje.
Cada uma foi falando sobre como o Giovani as fez mal, eram histórias tão tristes que no final estávamos todas chorando.
— Ele acha que pode fazer tudo, se acha o rei dessa cidade, eu não me importo de estar em perigo se for pra acabar com ele — Pati disse.
— Eu quero fazer algo contra ele, mas eu estou com medo — comentou, sua voz embargada.
— Então você prefere se calar? — Nic perguntou. — Eu sei o que você está pensando, , minha irmã também não queria fazer algo contra ele, mas você e todas nós precisamos entender que isso vai muito além de nós mesmas. Muitas garotas continuam vendo ele como um ótimo partido, ouço isso direto na faculdade, mesmo que existam esses boatos de como ele trata as garotas, elas o veem como um bad boy encantador. Precisamos mostrar que não é assim, que ele é um perigo.
— Ela tem razão — digo. — Precisamos fazer isso, por nós e por todas as outras garotas dessa cidade. E eu poderia dizer que vai ficar tudo bem, mas eu não sei, alguém pode sair machucado ou podemos não conseguir nada com isso tudo. Mas precisamos tentar, pois é o único caminho que temos.
— E vamos fazer isso do jeito certo e bem planejado. É hora do segundo passo — Pati comenta. — Primeiro, você precisa responder ele, .
Pego o celular, leio a mensagem e todas nós ajudamos na construção da resposta, assim, mando para ele:

Eu: Você não precisa fazer nada contra eles, vou fazer o que você quer. Podemos no encontrar na segunda, 14h no Belvedere?
Giovani: Claro, o que você desejar, princesa ;)
Eu: Nos encontramos lá.

— Ele me dá nojo — Débora diz.
— E agora? — Nic pergunta.
— Agora é a minha vez de entrar em cena — responde. — Tem uma garota que o Giovani saia quando estava comigo, tenho que convencer ela a entrar pro nosso lado.
— E como você vai fazer isso? — outra menina perguntou.
— Meu charme — deu um sorrisinho e piscou. — Ela já tentou ficar comigo algumas vezes.
Com isso ela pega o celular e começa a mandar várias mensagens para a Carolina, a tal garota.
— Ela vai me encontrar mais tarde — diz, depois de um tempo.
— Se essa garota concordar com o que pediremos, já é uma grande vitória para nós. Caso contrário, estaremos perdidas — digo.
— Confio no taco da , ela vai conseguir fazer a menina realizar o que pedimos — Pati fala. — Enquanto isso, é bom você pedir a ficha do Giovani para sua tia, Nic, e ver se ela pode nos ajudar em algo, já que o delegado daqui é comprado pela família do Giovani.
— Pode deixar, tenho certeza que ela vai ajudar.
Meu celular apita com uma nova mensagem e todas as meninas olham para mim apreensivas, achando que poderia ser outra mensagem do Giovani.
— É do , me convidando para ver algum filme — digo.
— Você deveria ir — Pati responde.
— Eu sinto muito, Pati, mas não estou com cabeça para isso agora, ainda mais com o Giovani ameaçando ele e o Rafa. Preciso ficar longe deles para protegê-los.
— O iria entender se você contasse o que está acontecendo… — comenta.
— Iria, mas também iria tentar ir na casa do Giovani e resolver as coisas por conta própria e isso não iria acabar bem. Além do mais, isso não é problema dele, quando tudo se resolver eu converso com ele. Tem muita coisa acontecendo, pensar no que está acontecendo entre mim e o é minha última preocupação no momento.
— Então você admite que sente algo pelo meu irmão?
— Sim, eu gosto dele — sussurro.
— Gosta? Só gosta? — pergunta.
— Tudo bem, eu estou apaixonada por ele, satisfeitas?
— Estão ouvindo os sinos da igreja tocando por essa graça alcançada? — fala, o que faz todo mundo rir.
— Finalmente você admitiu e vai ser uma honra te ter como cunhada.
— Você nem sabe se ele sente o mesmo por mim…
— Ai, , até eu que te conheço há pouco tempo sei que o é apaixonadinho por você. Ele está muito na sua, relaxa, amiga — Nic diz.
As meninas concordam e eu fico vermelha de vergonha. Queria que nada desses problemas estivessem acontecendo para poder confrontar o e saber se ele sentia, realmente, algo por mim. Mas tudo que estava acontecendo complicou tudo.
Sei que se nossa história fosse um livro, os leitores já estariam irritados com essa demora em acontecer algo entre nós, mas a vida real era difícil e caótica. Apesar de querer muito tascar um beijo no , não era a hora certa.
Eu teria que esperar um pouco mais e se ele gostasse realmente de mim, iria entender essa espera.
Seria doloroso ficar longe dele e do Rafa, mas era preciso. Só rezava que no final eles me entendessem. Balanço a cabeça, saindo dos meus devaneios e vejo que as meninas estão vendo o meu vídeo com o Rafa.
— O vídeo está bombando, — Nic diz. — Não estou comentando só para o ter que pagar a aposta, mas tenho que confessar que o Rafa é um gato.
Com isso me lembro, do dia que nos encontramos na faculdade, como o Rafa se interessou por ela. No momento eu não podia pensar em questões amorosas, mas não queria dizer que as meninas não pudessem e a Nic era uma garota incrível.
— Ele gostou de você. Pediu para te apresentar a ele, naquele dia que você falou comigo na faculdade.
— Sério? — ela pergunta, com os olhinhos brilhando.
— Sim! Vou mandar uma mensagem para ele, dizendo que você falou comigo sobre o vídeo e passar tuas redes sociais. O Rafa é um fofo e acho que vocês combinam muito.
— A tem razão, vocês combinam muito, já imagino vocês juntinhos — Pati fala. — Ai, gente, todo mundo arrumando um amorzinho e eu nada, preciso mudar isso.
— Você deve estar cheia de contatinhos e sem querer ficar com nenhum. Porque você é muito linda e maravilhosa para não ter pessoas querendo ficar contigo — diz.
— Quem me dera.
— Então temos duas coisas para fazer assim que as coisas se resolverem — fala. — Fazer a e o finalmente ficarem e encontrar um amor para Pati.
— Eu odeio o Giovani, mas tenho que admitir uma coisa — Débora diz. — Ele proporcionou que eu conhecesse vocês e poxa, como fazer parte desse grupo é maravilhoso.
— Girl power — Pati grita colocando a mão estendida.
Juntamos nossas mãos em cima da dela e gritamos também.
— GIRL POWER.
Nós rimos e ficamos conversando sobre banalidades, relaxando depois de uma tarde tão tensa falando sobre o Giovani.



Capítulo 14: Expectativa x Realidade

Algumas pessoas acham que ter ansiedade é ficar impaciente com a demora de algo acontecer, como ficar olhando a hora a cada um minuto em uma aula chata.
Mas na verdade é muito mais que isso, de uma forma muito mais dolorosa.
Todos nós temos ansiedade já que é um processo que nos mantém vivos, proporcionando que lidemos com momentos inesperados e é acionado quando precisamos “lutar ou fugir” em acontecimentos que nossa vida está em risco.
Mas quando isso se torna algo cotidiano e sem controle, é um problema.
Dos grandes.
Quando tenho crises de ansiedade parece que todo meu corpo está entrando em ebulição, como se fosse uma panela com água fervendo. No começo são pequenas bolhas e depois elas entram em colapso, parecendo um vulcão em erupção.
É assim que me sinto no momento, com meu coração acelerado como se fosse sair pela boca, a respiração irregular, os pensamentos como uma máquina sem parar.
É como se eu não tivesse controle sob meu corpo e que, em algum momento, tudo fosse explodir dentro de mim.
Estou deitada na cama, já passou da meia noite, o que significa que já é segunda feira, dia do meu encontro com Giovani. Por isso estou em crise, com medo do que possa acontecer.
A maioria das pessoas vem me dizendo o quanto sou forte, por isso é difícil de admitir o quão fraca e vulnerável me sinto nesse momento. Não sabia se iria conseguir fazer tudo que esperavam.
Peguei o celular, precisava falar com alguém, por isso mandei uma mensagem para a pessoa que mais conseguia me distrair.

Eu: Está acordado?
Flash: Sim, acabei uma maratona de série agora.
Eu: Você já se sentiu como se não fosse capaz de lidar com algo ou ter apenas pensamentos negativos sobre isso?
Flash: Sim, muitas vezes. É uma merda, mas eu aprendi que precisamos respirar fundo nesses momentos e entender que algumas coisas não estão no nosso controle.
Flash: O que aconteceu para você estar assim?
Eu: Bobagem, não se preocupe.
Flash: É claro que eu me preocupo, mas entendo que você não queira falar sobre.
Flash: Vamos tomar sorvete amanhã/hoje? O Rafa me chamou, ele vai com uma garota, não quero ficar de vela.
Eu: Desculpa, tenho um compromisso.
Flash: :(
Flash: Tudo bem.
Eu: Vou tentar dormir, beijos, .
Flash: Durma bem, Mulher Maravilha.

Bloqueio o celular e fecho os olhos, fazendo a técnica que a psicóloga havia me ensinado.
Puxo a respiração pelo nariz, seguro durante três segundos e solto devagar pela boca. Faço incontáveis vezes até meu coração se acalmar e eu conseguir dormir.

***


Meu dia passou de forma rápida, estava tão preocupada que qualquer barulho me assustava, como se algo ruim fosse acontecer.
Perto do meio dia a Pati e a apareceram em casa, para tentarem me acalmar.
— Nós vamos estar lá, . Não vamos deixar ele fazer algo contra você — fala.
Tento colocar isso na minha cabeça, mas os pensamentos negativos estavam se multiplicando cada vez mais.
— E se gravarmos um vídeo agora? Para você se acalmar — Pati sugere.
— Sobre o quê? — pergunto.
— Pode ser sobre problemas psicológicos, o que acha? Para você colocar para fora essa ansiedade. Vocês não sabem, mas já tive depressão.
Isso me surpreende, pois, a Pati parece tão bem consigo que nunca imaginaria que ela poderia ter passado por isso.
— Vamos falar sobre isso — digo e vou pegar a câmera.
Depois que gravamos, me sinto um pouco melhor, como um pouco e ficamos ali, conversando, até que chega o horário próximo ao encontro. Digo para minha mãe que vou sair com as meninas e nós seguimos para o Belvedere, um parque da cidade, o local é bem arborizado, próximo do rio, fazendo o clima bem agradável. Por isso, nos fins de semana, ficava lotado de famílias que iam para o local fazer piquenique.
Além das árvores, existiam as ruínas de uma pequena construção. Era apenas um círculo de tijolos que normalmente as pessoas iam para fazer coisas impróprias, mas hoje, serviria de esconderijo para a e a Pati, a câmera foi colocada ali em cima e elas podiam ver tudo que aconteceria.
— Vai dar tudo certo — elas dizem juntas, antes de se afastarem de mim.
Sorrio para elas e penso como as expectativas estavam altas sobre hoje, todas as meninas estavam ansiosas para que nosso plano desse certo. Mas como boa pessimista, algo me dizia que nessa luta entre expectativa versus realidade, a expectativa seria massacrada por uma realidade desprezível.
Respiro fundo, tentando ficar calma, me encosto em uma árvore e fecho os olhos. Não sei quanto tempo essa meditação durou, mas quando menos espero, sinto braços me agarrando.
Solto um gritinho, o que faz Giovani rir.
— Não queria te assustar, linda.
Saio de perto dele e engulo em seco, isso não daria certo, não mesmo.
— Então, podemos partir para a parte que você me beija? — ele pergunta.
— Eu não vou te beijar.
— Então o que você quer, ? Quer que eu procure seus amiguinhos? O nerdizinho já me fez muita raiva aliás.
— Não, por favor, não faça nada contra ele…
— Então faça o que eu mando!
— As coisas não precisam ser assim, Giovani. Eu parei com os vídeos sobre você no canal, prometo não tocar no seu nome, me deixa em paz.
— Você sabe que não é só isso que quero.
— É só isso que posso te dar.
Ele então avança para cima de mim, me imprensando na árvore e segurando meus braços. Viro meu rosto e ele encosta a boca no meu pescoço, sinto a ânsia de vômito surgindo.
— Tenho certeza que você pode me dar muito mais,
— Tudo bem — sussurro. — Vou fazer o que você quer... Mas preciso de tempo.
— Estou cansado de te dar tempo.
— Uma semana é o que peço, uma semana e eu e você…
— Vamos nos divertir — ele completa. — Fique feliz porque estou bondoso, vou te dar esse tempo, mas nada mais que isso.
Ele dá outro beijo no meu pescoço, e desliza a mão pelo meu corpo, apertando minha cintura.
— Se você não fizer isso, muita gente vai se machucar, não se esqueça disso, linda. Não queremos que o e seus outros amiguinhos sofram algo, não é? — ele me encara e seu olhar me dá muito mais medo. — Ou a sua avó, soube que ela tem uma saúde frágil.
Sinto minha pressão baixar e me encosto mais na árvore, como pude me meter nisso?
— E acho bom você não comentar sobre isso com ninguém. Temos um acordo?
— Sim — digo tão baixo que nem sei se ele foi capaz de ouvir.
Depois disso, Giovani se aproxima de novo. Sinto meu corpo todo paralisar, sua boca vai ficando mais perto da minha.
Mas consigo virar o rosto, assim, sua boca encosta na minha bochecha.
— Pode se fazer de difícil, . Me faz te querer mais — ele sussurra contra o meu ouvido, passando a mão pelo meu rosto.
Ele me dá outro beijo na bochecha e vai embora.
Tenho certeza que meu coração está batendo tão forte e alto que é possível ser ouvido. Depois de uns minutos, Pati e saem do esconderijo e me abraçam, é quando percebo como estou tremendo. As meninas ficam esfregando meus braços e só assim, pouco a pouco, consigo me sentir segura novamente.
— Eu sinto muito, diz, com lágrimas nos olhos.
Fico mais triste, pois sei que ela e as outras meninas já passaram por situações parecidas e até piores com ele e eu não estava lá para abraçá-las.
— Nós gravamos tudo, vai dar tudo certo — Pati fala. — Vamos acabar com ele e nada de mal vai acontecer.
Fecho os olhos e algumas lágrimas escorrem, eu estava com tanto medo que não tinha como explicar. No momento só queria ir para o meu quarto e ter o colo da minha mãe.
— Vamos embora — digo baixinho.
Saímos do parque e caminhamos para onde o carro estava estacionando, quando encontramos Rafa e Nic.
— Você está bem? — ela pergunta.
Não tenho forças para responder, por isso, apenas balanço a cabeça de maneira afirmativa.
, o que você estava fazendo com o Giovani? — Rafa questiona.
Fico surpresa, sem entender como ele sabia que estava com Giovani, olho para Nicole e me pergunto se ela contou tudo.
— Depois nós explicamos, Rafa — Pati responde.
… — Nic começa, mas é interrompida por Rafa.
— O estava aqui — ele diz e eu sinto meu coração acelerar novamente. — Então acho bom vocês me explicarem agora, porque de onde estávamos parecia que o Giovani e a estavam se beijando.
O Rafa me fuzila com o olhar e eu me sinto muito pior.
— Eu nunca vi o daquele jeito, ele saiu correndo.
Congelo e sei que o pessoal está falando algo, mas não consigo entender. Minha mente só consegue ficar repetindo a última frase do Rafa.
Ai meu Deus, o pensou que eu tinha beijado o Giovani.
Isso não podia ter acontecido.
Todas as emoções do dia voltam de forma mais forte e eu acabo vomitando ali.
A realidade sempre pode piorar.


Vídeo #8: Você Precisa Cuidar da sua Saúde Mental


Câmera: on

*Bastidores: imagem branco e preto*

Quando eu dei o meu primeiro beijo, cheguei em casa e queria contar para alguém, então fui até o quarto do , ele estava dormindo, mas o acordei, então falei “, eu beijei”. Pensei que ele iria voltar a dormir, mas ele levantou e saiu correndo gritando pela casa “a Pati beijou, a Pati beijou”, acabou tropeçando e caiu da escada, quebrando o braço.
— Isso é sério? Socorro — digo rindo.
— O pior foi a gente no hospital e meu pai dizendo “por favor, Pati, quando for beijar de novo, não diga para ninguém”.

*abertura fofinha do canal*

— Olá, pessoal, hoje o vídeo com uma das garotas mais divertidas e incríveis que tive o prazer de conhecer: Patrícia .
— Oie, ficou claro que a não conhece muitas garotas.
— O vídeo de hoje é sobre um tema que vem me acompanhando a um bom tempo: problemas psicológicos — mordo o lábio e respiro fundo, tentando me acalmar para falar. — Eu estava passando por momentos difíceis há dois anos atrás e acabei surtando, eu não conseguia dormir ou prestar atenção em alguma coisa, mas eu achei que estava tudo bem. Até que eu tive uma crise muito forte, meu coração batia tão forte e minha mente fazia tanto barulho. Foi aí que eu percebi que algo estava errado, procurei ajuda e descobri que eu tinha transtorno de ansiedade.
— No meu caso, — diz Pati — surgiu quando eu tinha dezoito anos, eu queria muito passar no vestibular para medicina, estudava como uma louca e nunca conseguia passar, no final, acabei entrando em depressão.
— E muitas pessoas não conseguem entender que problemas psicológicos são doenças. Doenças que devem ser tratadas com toda seriedade como as demais.
— NÃO É DRAMA, NÃO É MIMIMI, NÃO É BOBAGEM. É UMA DOENÇA — dizemos juntas.
— Na época que eu estava no começo do tratamento, eu tive que ouvir de uma pessoa que meu problema era falta de homem, que quando arrumasse um namorado tudo ficaria bem — digo.
— Quando eu entrei em depressão, acabei me afastando de algumas pessoas, tive que escutar, “mas você não sai de casa, por isso está assim” — Pati diz.
— Quando você quebra um braço, você não consegue usá-lo por um tempo.
— Quando você faz uma cirurgia, precisa de descanso.
— O mesmo acontece quando você está com a mente doente. Você precisa cuidar dela, para que consiga utilizá-la novamente — digo.
— E você precisa entender que não há nada de errado em se sentir assim, precisa entender que você tem grandes chances de sair dessa escuridão.
— VOCÊ PRECISA CUIDAR DA SUA SAÚDE MENTAL — dizemos juntas.
— Você precisa conhecer sua mente assim como seu corpo. Entender como as coisas acontecem dentro dela, entender seus limites. É aterrorizante no começo e dói, dói muito, mas é preciso passar por isso para se autoconhecer e poder se tornar alguém mais forte — sorrio.
— E que está tudo bem se você precisar de alguns remédios no começo, porque alguns problemas são tão graves que só eles vão fazer tudo se acalmar para que a terapia consiga ter efeito. Se eu consegui sair dessa você também consegue — Pati fala.
— Você terá dias bons…
— E dias ruins.
— Mas cuidando da mente, tudo fica mais leve.
— Então cuida da sua, ok? Procure ajuda psicológica porque, mesmo que aquele amigo seja legal e te diga coisas boas nos momentos de crise, só um profissional pode fazer você compreender como sair dessa — Pati orienta.
— Eu estava em um dia ruim quando resolvi fazer esse vídeo com a Pati. Foi uma forma de desabafar e fazer a ansiedade diminuir. Por isso, espero que tenha ajudado alguém do mesmo modo, se você está se sentindo mal, pode desabafar aí nos comentários que a gente promete te mandar muito amor, mas não tenta carregar esse peso sozinha, procure ajuda.
— Sintam-se abraçados por mim.
— É isso, obrigada por gravar comigo, Pati — a abraço. — Se você gostou desse vídeo, não esquece de dar um like e compartilhar para todo mundo.
— SEGUIMOS LUTANDO — gritamos.

Câmera: off



Capítulo 15: Perdoa Meu Drama E Não Desiste De Mim

Eu não me lembro do que aconteceu depois de ter vomitado no parque. Era como se tudo tivesse acontecido em flashes. Borrões de estrada e vozes preocupadas.
Acordei de repente, me assustando por estar no meu quarto e de pijama. Minha cabeça doía como se tivesse bebido todas e estivesse de ressaca. Abraço meu corpo e tento me acalmar, depois de um tempo levanto e saio da cama, indo para cozinha e fico muito surpresa por encontrar e minha mãe ali.
— Ei, você acordou — falou.
Mainha correu até mim e me abraçou forte, fiquei ali, em seus braços, me sentindo segura.
— Quanto tempo dormi? — pergunto e me sento na cadeira, colocando a mão no rosto, tentando entender o que havia acontecido.
— Umas 18 horas — respondeu, enquanto mainha me deu um copo de água e foi fazer um sanduíche para eu comer.
— O que aconteceu, ?
— Você teve um ataque de pânico. Foi tão horrível, , a gente não sabia bem o que fazer, você não respondia e ficava vomitando e repetindo “não, não, não”. Te trouxemos para cá, sua mãe ligou para a sua psiquiatra, ela veio aqui e te medicou, depois disso você dormiu.
— Ela veio aqui? Eu não lembro disso.
— Veio — mainha respondeu. — E você tem consulta com a psicóloga amanhã.
— Foi muita coisa para um dia. Primeiro com o Giovani e aí veio o como a cereja do bolo. Você surtou.
Mainha colocou o sanduíche na minha frente e eu senti meu estômago embrulhar. Olhei para ela e sabia que ouviria um bom sermão.
— Como você pode fazer isso, ? — ela começou. — Isso é perigoso, o que você estava com a cabeça? Você está proibida de sair de casa até que…
— ELE NÃO VAI ME DEIXAR EM PAZ! — grito. — Ele não vai parar, mãe! Você não tem ideia do que ele já fez com outras garotas, sei que está preocupada, mas eu não vou me esconder. Está na hora do Giovani pagar por tudo isso.

— Não! Você me ensinou a lutar e a não deixar nenhum homem pisar em mim, estou fazendo isso. Eu admito que foi difícil e que eu surtei, mas qual pessoa no meu lugar não ficaria do mesmo jeito? Eu não posso desistir, mãe. Não posso fazer isso comigo mesma e com as meninas.
Ela respira fundo e sabe que não conseguiria mudar minha opinião, por isso sai dali, me deixando a sós com .
— Você tem notícia do ? — pergunto.
— Nós ficamos muito tempo cuidando de você, quando a Pati chegou em casa, a mãe deles falou que ele chegou nervoso em casa, pegou uma mochila com algumas roupas e foi para a roça do avô deles. Lá não tem celular, então…
— Então ele ainda acha que eu beijei o Giovani.
— É, mas tudo vai se resolver, assim que ele voltar vocês conversam.
— E se ele não acreditar em mim?
— Se ele não acreditar vai ser um babaca que não te merece. Agora coma.
Não estava com fome, mas a obedeço, depois disso tomo um banho para limpar meu corpo e, quem sabe também, a minha alma.

***


Já haviam passados três dias do meu encontro com o Giovani e eu estava sendo mantida em casa pela minha mãe. Havia ido à psicóloga e estava bem melhor, apesar de não ter contado completamente tudo sobre o que estava acontecendo.
Estava na cozinha tomando o remédio quando mainha apareceu.
— Vai trabalhar hoje? — ela perguntou.
— O show tem que continuar, não é?
— Você tem certeza que está bem para isso?
— Vai ficar tudo bem, mãe.
— Você sabe o que penso sobre isso, … — ela respira e vejo lágrimas se formando em seus olhos. — Às vezes eu gostaria que seu pai estivesse aqui…
— Mesmo que ele estivesse aqui não mudaria nada. E temos que lidar com a realidade, infelizmente. É doloroso, mas vamos conseguir passar por isso — repito a mesma frase que ela me disse quando passamos tudo com meu pai.
Abraço ela e pego minha bolsa. Estava um pouco nervosa, pois Pati havia me dito que já tinha voltado, então iríamos nos encontrar.
Chego à livraria e respiro fundo. Hoje era quinta, então as coisas eram tranquilas, provavelmente teríamos um cliente e olhe lá.
Coloco o avental e a touca, ligo a máquina e depois de uns cinco minutos aparece. Ele me encara e depois volta para o seu lugar no caixa.
Termino de fazer as coisas e então vou até ele, preparada para o confronto.
… — começo.
— Eu estou ocupado.
— Ocupado com os clientes fantasmas? — bufo, já estava começando a ficar com raiva.
— Tudo bem, o que é?
— Sobre o que você viu no parque, não é nada daquilo… Eu não... — droga, isso era difícil de falar e agora eu reconhecia que não tinha para que isso tudo, afinal, nós não éramos nada um do outro. — Bom, eu não beijei o Giovani, não que isso tenha alguma importância para você, mas...
— A Pati me contou. Na verdade, assim que eu cheguei da roça ela começou a me estapear de todas as formas possíveis e gritou comigo feito uma louca dizendo que não veio ao mundo para ter um irmão babaca. Quando nossos pais conseguiram nos separar, ela finalmente se acalmou e me contou tudo.
— Então por que você está assim comigo?
Ele fecha o caixa com força e aquilo me assusta um pouco.
— Porque você o beijaria. Você beijaria aquele babaca para tentar salvar o mundo, sendo que você sabe muito bem que ele não pararia nisso!
— Eu não vou beijar ele! Temos tudo sobre controle e…
— Você acha mesmo que o que vocês estão fazendo vai deter o Giovani? O pai dele tem influência por toda a região, pelo amor de Deus, não seja idiota, . Você não é uma super-heroína de verdade.
— E o que você quer que eu faça? Eu tenho que tentar pelo menos. Eu não vou ser mais uma garota que foge da cidade com medo dele, .
— Ótimo, faça o que quiser — ele se vira e eu tenho uma vontade enorme de jogar um livro na cabeça dele. Mais especificamente um exemplar do livro três de As Crônicas de Gelo e Fogo, já que era um dos maiores da livraria.
— Por que você não confiou em mim? — ele sussurra.
— O quê?
— Por que você não confiou em mim para contar o que estava acontecendo.
— Você poderia querer fazer algo e isso não é para você se meter, , é algo que eu e as meninas devemos fazer.
— Mas você podia confiar em mim, pelo menos para desabafar ou qualquer coisa do tipo — ele volta a me encarar. — Eu estou aqui por você. É isso que me irritou porque eu pensei que tinha mostrado que podia confiar em mim, mas pelo visto não importa o que eu faça, você nunca entende totalmente o que digo.
, me desculpa…
Ele sai de trás do balcão e fica na minha frente, estávamos tão próximos que conseguia sentir o cheiro do seu perfume amadeirado.
— O que eu preciso fazer para você entender que pode confiar em mim, ? Foi horrível te ver ali tão perto dele, pensar que ele estava te beijando.
Senti meu coração acelerar, mas não por conta da ansiedade, agora era por conta de algo que eu jamais havia sentido.
Paixão.
Ficamos nos encarando e era como se tudo ao redor parasse; aquilo não podia ser explicado pelas leis da física, era uma disciplina muito mais complicada de se entender e que mesmo os maiores gênios às vezes reprovavam.
— Sabe, eu sou bem idiota às vezes e você é tão incrível, . Eu simplesmente não consigo entender como não tem uma fila de caras atrás de você.
— Também não é para tanto,
— É sim! Você é linda, divertida, inteligente, poderia passar o dia todo aqui falando todos os elogios que enquadram para você... Mas o que eu quero dizer é que eu sou talvez um pouco diferente dos garotos que têm por aí, não vou mentir, sou bastante inseguro comigo mesmo e um pouco dramático…
— Um pouco? — arqueio a sobrancelha.
Perdoa meu drama e não desiste de mim — ele fala com um sorriso e chega mais perto. — Você é incrível, , e eu não sou um cara que te merece. Talvez se a Pati não tivesse batido tanto em mim e explicado mil vezes tudo, eu ainda estaria pensando que você teria beijado ele, porque se ele não fosse babaca, ele seria perfeito para você. O típico cara dos seus livros preferidos, que faz você suspirar pelos cantos e te faz perder a fala…
, para de falar besteira, pelo amor de Deus. O Giovani é um babaca e nunca na galáxia que eu gostaria dele. Mesmo que ele não fosse um babaca. Ele não faz meu tipo, não procuro um príncipe ou um cara super perfeito ou bonitão. E você é incrível, , com todas as imperfeições, medos, inseguranças e conversas nerds. Você é um dos caras mais incríveis que eu já conheci, só não conta para o Rafa ou ele vai me odiar.
Ele acaricia minha bochecha e encosta a testa na minha. Fecho os olhos e não sei bem quantos segundos ou minutos se passaram. Quando abro os olhos, e encaro , ali a milímetros de mim, eu percebo realmente o que é gostar de alguém.
— Eu sou apaixonado por você, - ele solta e eu paraliso pensando que talvez esse momento não fosse real.
Abro a boca para dizer algo, mas ele balança a cabeça, para eu não fazer isso e passa a ponta dos dedos no meu lábio inferior.
— Eu sou apaixonado por você e não me importo de ser o primeiro, segundo ou décimo primeiro cara que vai te beijar. Mas eu gostaria muito que você confiasse em mim, eu estou aqui para passar qualquer coisa ao seu lado.

— A Pati me falou como você passou mal e eu me senti tão babaca, . Eu não estava aqui para te abraçar, eu estava longe e ainda por cima com tanta raiva pensando que você tinha beijado ele. O que foi bem estúpido de se pensar, mas eu não consegui ser racional naquele momento, eu só senti um ciúme idiota.
Então ele me abraça, seus braços ao meu redor e sua cabeça apoiada na minha. Aperto meus braços em volta dele e percebo como ali é um lugar quentinho e bom de se ficar, o qual eu queria permanecer para sempre.
— Eu não quero que você se preocupe comigo — ele sussurra e se afasta, o que faz meu coração se apertar um pouco. — Não é uma boa hora para romance — ele sorri. — Vamos cuidar do idiota do Giovani primeiro, sei que você e as meninas querem resolver tudo sozinhas, mas eu e o Rafa estamos nesse barco com vocês. Não somos os principais nesse jogo, mas podemos ajudar.
— Tudo bem.
— E quando tudo estiver nos eixos e se você me quiser, talvez eu possa ganhar a aposta...
— Aposta? , do que você está falando?
— O Rafa, , Pati e Nic fizeram uma aposta que a gente se beijaria antes do São João e eu apostei que não, então, quero ganhar aquela grana.
Ele e eu rimos e ele me abraça de novo.
— Não falta muito para o São João, .
— Não mesmo, então vê se não fica me seduzindo.
Ele me solta e me dá um beijo na bochecha, depois disso voltamos ao trabalho e eu me sinto melhor. Não queria passar nunca novamente pelo o que aconteceu com o Giovani, mas eu me sentia mais forte, por ter as meninas ao meu lado, pelo Rafa e pelo .
Ele tinha razão em dizer que não era o protagonista ali, era uma luta minha e das meninas, mas ter o apoio dele e do Rafa nos deixava mais confiantes. Quanto mais integrantes no grupo para lutar, mais forte ele ficava.
Além disso, o achava lindo por respeitar o momento, não era hora para o romance. Era hora de acabar com um babaca machista que se achava o rei da cidade. Depois disso o romance poderia acontecer sem problemas.
E no final quem ganharia aquela aposta seria eu.
Só era preciso mais um pouquinho de tempo.
Depois tudo ficaria bem.
Ou pelo menos era esse o mantra que eu iria repetir.



Capítulo 16: Festa Do Pijama

Giovani havia me dado um prazo de uma semana para ficar com ele e faltava apenas vinte e quatro horas para isso terminar.
Por isso, estávamos todos reunidos na casa da minha avó, nosso grupo Girl Power e os meninos. As meninas aceitaram eles numa boa, principalmente porque o Rafa sempre fazia alguém rir, o que era ótimo por conta da tensão do momento.
O plano era todo mundo dormir ali para terminar os últimos detalhes da nossa missão contra Giovani. Estávamos na sala, sentados no chão, com caixas de pizza ao nosso redor, quando aparece com uma garota que eu acho que já vi em algum lugar. A menina é magra e alta, vestia calça e blusa preta, com um camisão xadrez por cima. O cabelo é liso e avermelhado e no rosto tinha uma maquiagem tão perfeita que eu sabia que nem nos meus melhores sonhos de princesa conseguiria reproduzir uma igual.
— Pessoal, essa é a Carolina, podem chamar ela de Caroles, é a garota que falei para vocês.
— Olá — a garota diz acanhada, mas quando me vê abre um sorriso. — Amo o seu canal, aliás, você falou sobre o meu primeiro beijo em um vídeo.
— Ah, lembrei, você sempre comenta nos vídeos! Por isso achei que já te conhecia.
— Sim, quando a falou que precisava de ajuda e que você estava envolvida, não pensei duas vezes, te admiro demais.
— Muito obrigada, você está ajudando muito.
Ela se senta no chão e todo mundo se apresenta, depois a Pati entrega uma fatia de pizza para ela.
— Você é bonita — Rafa comenta e recebe uma cotovelada de Nic. — Ei, eu não disse que ela era mais bonita que você.
Nic fica envergonhada e todo mundo faz um “awn, que casalzinho fofo”.
— De onde você conhece o Giovani? — pergunta para Caroles depois de um tempo.
— Trabalho em uma empresa que o Giovani sempre contrata quando dá as festas dele e a gente sempre acaba se pegando em algum momento, para falar a verdade, eu nem trabalho quando ele contrata, só fico curtindo a festa. Não é como se eu tivesse apaixonada por ele ou qualquer coisa, só estava pela diversão — ela dá de ombros. — O Lorenzo, um garoto que trabalha comigo, é que fica com raiva, sempre fica mais trabalho para ele, mas não posso fazer nada se esse corpinho bonito foi feito para dançar e não servir drinks.
— Essa garota é das minhas, sabe se divertir — Pati fala e Caroles dá um sorrisinho para ela.
— Bom, algo que vocês não sabem é que o Giovani realiza as festas para servir como disfarce para os esquemas dele — fala. — É onde ele repassa as drogas para os clientes e tudo mais.
— E ele, digamos, que confia em mim — Caroles continua. — Ele sabe que só quero me divertir, tanto que nem ligou quando eu fiquei flertando com a . Acho que já me tem como uma integrante da gangue. Por isso inventei para os seguranças que o Giovani estava pedindo uma cópia das imagens das últimas festas para verificar algo, tem várias câmeras naquela casa. Eles me passaram tudo sem dizer nada.
Ela pega a bolsa e tira de lá um pen drive, me dando.
— As imagens estão aí. E — Caroles se vira para ela. — O Giovani colocava drogas nas suas bebidas, ele fez isso na festa que você falou que a nunca beijou ninguém.
abre a boca e me encara, sinto como se a última peça do quebra-cabeça havia se encaixado. Ela estava drogada, não que isso mudasse o fato que ela errou, mas nos fazia entender que ela não estava totalmente bem naquele dia.
— Tem isso nas imagens? — Pati pergunta.
— Sim, vi tudo, foi onde descobri. Tem ele passando drogas também, não tem som, mas as imagens são bem claras — Caroles responde.
Sinto meu corpo se arrepiar, está do meu lado e percebe que tremo um pouco e por isso passa os braços ao meu redor, me aconchegando em seu peito. Sinto-me confortável e lembro-me da nossa conversa na livraria, sua declaração e como eu me apaixono cada vez mais por ele. Ele me encara e depois dá um beijo na minha testa, mesmo estando mais calma, percebo como todos estão tensos e como conversam entre si sobre as imagens. Além de Pati e Caroles que tentam acalmar depois da sua descoberta.
— Eu fui tão burra — sussurra. — Via o casamento dos meus pais, como é tóxico e gritava que nunca passaria por aquilo e olha o que aconteceu.
— Você não é burra, só estava quebrada e se apegou a primeira ilusão de felicidade — Pati fala.
— Eu tentei te avisar, , quando você gravou aquele vídeo de aposta, pedi para você apagar e não tocar mais em assuntos do Giovani, mas você não me ouviu — diz e leva as mãos ao rosto.
— Eu não conseguia ver dessa forma, está tudo bem,
— Eu estou com tanto medo.
— Eu também — Marcela, uma das meninas fala.
— Gente, eu sei que isso é uma causa séria, mas acho que podemos dar uma pausa por pelo menos uma hora — Rafa fala.
— Para fazer o quê? — Nic pergunta.
— Festa do pijama, amorzinho. Seguinte, vamos afastar os móveis, vou dar play na minha playlist maravilhosa e vamos dançar um pouco. Liberar essa energia e tensão.
— O Rafa tem as melhores ideias. Vamos lá, pessoal. Depois terminamos tudo, vocês não vão conseguir fazer o vídeo desse jeito, precisam se acalmar — diz.
Concordamos e os meninos afastam o sofá e depois colocamos a música. E, por algumas horas, toda a confusão foi esquecida e ficamos ali, dançando, cantando e rindo.
Pati e Caroles dançavam de forma engraçada, Rafa e Nic mais se beijavam do que dançavam, as outras meninas riam de tudo e estava mais no canto parado. havia saído da sala, imagino que ela deveria estar no banheiro e apesar de querer ir confortá-la, sei que ela precisava de um tempo sozinha, por isso vou até .
— Sem dançar hoje? Pensei que o Rafa tinha te ensinando o quadradinho — digo.
— Não sou um bom dançarino.
Uma música mais lenta começa e eu arqueio a sobrancelha para ele, puxando sua mão. Ele encaixa meu corpo no seu e começamos a balançar no ritmo da música.
— Você está melhor? — pergunta.
— Sim, estou tomando os remédios e indo para a psicóloga, tudo vai voltar ao normal.
— Vai ficar tudo bem — ele sussurra.
— Espero.
Ele me afasta e faz com que eu dê um pequeno giro, depois me puxa para perto de si novamente.
— Você é mentiroso, dança muito bem.
Ele ri e eu viro meu rosto, percebo que todo mundo tinha parado e estavam nos encarando, por isso escondo meu rosto no pescoço do , com vergonha.
— Vocês são tão fofos juntos — Débora diz.
— Se beijem logo, pelo amor de Deus — Nic comenta.
— Querem fazer o jogo da garrafa? Todo mundo se ajeita e se beija — Rafa diz, fazendo todo mundo rir.
— Nic, beija o Rafa que caladinho ele é mais legal — responde.
— Não me provoca, não que eu jogo na roda como você fica suspirando pelos cantos por conta da .
— Amorzinho, fica calado, por favor — Nic tenta controlar o Rafa.
— Aqui não tem nenhuma bebida alcoólica? Podíamos brincar de eu nunca — Caroles diz.
— Infelizmente não, minha avó não tem nada aqui.
— Que chato, seria divertido — Stefany Maria, uma das meninas do grupo, comenta.
— Tem toddynho? Se tiver já serve — Débora fala.
— Gente, é a casa da minha avó, uma senhora de 80 anos, não tem essas coisas aqui.
Nesse momento aparece, com os olhos um pouco avermelhados, Pati é mais rápida que eu e vai até ela, dando lhe um abraço. Sorrio, pois era muito bom saber que as duas estavam tão amigas, sabia que a aprenderia muito com a Pati.
— Que chato, já tinha até umas frases prontas, como “eu nunca fui a um motel” — Caroles fala, retomando o assunto.
— Eu falaria “eu nunca beijei alguma garota” — Débora diz.
— Essa eu beberia — Pati responde.
— Também. — Caroles comenta e elas se encaram — No final a gente estaria falando coisas para maiores de idade, amo. E você, Rafa, o que falaria?
— Eu nunca brinquei de eu nunca — ele responde.
— Que sem graça, amorzinho — Nic faz piada.
— A podia falar “eu nunca beijei ninguém” aí invés de beber a dose, o tascaria um beijo nela, acho válido — Stefany fala, recebendo gritinhos das meninas em concordância.
Abro a boca para revidar a zoação, mas somos interrompidos pelo barulho do portão abrindo. Neste momento mainha e minha vó chegam, e é quando percebemos o quanto de tempo já havia passado.
— Está tudo muito lindo, mas acho que está na hora de fazermos o combinado — digo.
Todos concordam, arrumamos a sala e dividimos as tarefas, precisávamos gravar um vídeo, editar e fazer com que ele fosse visto pela maior quantidade de pessoas possíveis.
— Pessoal — chamo para prestarem atenção — eu não vou conseguir editar o vídeo. Hum… não vou conseguir ver as imagens do meu encontro com ele.
— Eu e o Rafa podemos fazer isso — fala. — Enquanto vocês gravam o vídeo nós já começamos a ir editando.
— Eu também posso ajudar depois, eu te ajudava no começo do canal, não se lembra? — pergunta.
— Você consegue fazer isso? Ver tudo, até as imagens da festa?
— São apenas gravações, a realidade foi bem pior.
Vou até ela e abraço bem apertado, sabia que depois precisaríamos conversar sobre a descoberta do Giovani.
— Estamos juntas nessa — digo para a , depois a solto e me viro para a Nic. — Você já enviou tudo para a sua tia delegada? — pergunto.
— Sim, ela disse que já viu uma boa parte e disse que as provas estão claras, acha que vai ser o suficiente para prender ele.
As meninas soltam um gritinho em comemoração, mas eu ainda não conseguia ficar feliz, sentia que algo ruim pudesse acontecer ainda.
— Não entendo — Rafa comenta. — Se vocês já enviaram para a delegada porque ainda querem fazer esse vídeo?
— Porque precisamos de muitas pessoas ao nosso lado, precisamos fazer com que elas se revoltem e isso faça com que as autoridades tenham uma motivação maior para prender o Giovani, assim estaremos fazendo uma manifestação enorme que eles não vão conseguir lidar — Nic responde.
— Vamos ter a mídia ao nosso favor — completa.
— Acho que está na hora de vocês se aprontarem — Pati diz.
Concordamos e vamos para o quarto de hóspedes e trocamos de blusa, vestindo uma preta com a frase “Juntas somos mais fortes”, pintada de vermelho, feitas especialmente para esse vídeo.
Quando todas estamos vestidas, e Rafa entram trazendo a câmera e o tripé, colocando os objetos em frente à parede branca do quarto, servindo como cenário para o vídeo.
— Sei que vai ser difícil fazer isso, mas saibam que estamos juntas — Pati fala. — Vamos acabar com aquele cretino — Ela estende a mão e uma por uma, cada menina coloca sua mão em cima da dela.
— Girl Power — gritamos.
Respiramos fundo, estava na hora de começar.
Mainha e minha avó aparecem no quarto, exatamente no momento que vou para frente da câmera. Vejo a preocupação nos olhares delas, medo de eu ter um surto novamente.
Mas isso não iria acontecer agora.
Fecho os olhos por alguns segundos e quando os abro digo que estou pronta.
A câmera é ligada e abro a boca para começar, era hora de acabar com aquele garoto.
Era hora de lutar.

Vídeo #9: Juntas Somos Mais Fortes

Câmera: on

— Esse não vai ser um vídeo fácil de assistir, como não foi fácil de gravar, mas nós esperamos que ele abra os olhos de como o machismo machuca; de como relacionamentos abusivos existem e destroem, como isso não pode ser romantizado, pois é algo doentio, algo que deixa marcas para sempre. As mulheres não são objetos ou coisas para serem possuídos, dominadas e se tornarem posses — respiro fundo e conto mentalmente até três para me acalmar. — Esperamos que quando você terminar de assistir a esse vídeo, sinta raiva e vontade de lutar porque, mesmo que você não nos conheça, são situações que milhares de garotas passam. Então que sirva para você lutar daí, como estamos lutando daqui. Porque juntas somos fortes.

Corte: mudança para Débora falando

— Quando ele apareceu eu pensei que mudaria minha vida, só que não sabia que era para pior. As festas eram incontáveis e chegou ao ponto das drogas, eu não queria, mas ele dizia que para ficar com ele tinha que gostar das mesmas coisas, precisávamos nos divertir juntos. Nós usávamos muitas drogas diferentes e por um momento eu pensei que minha vida chegaria ao fim. Quando falei que não podia continuar assim, ele me tratou como lixo e disse que era só ir embora, mas que se falasse que foi ele que forneceu as drogas, minha vida estaria em risco.
Corte: imagens de festas na mansão Albuquerque
Cena 1:
Giovani bebendo com outros garotos, repassando um pacote de drogas.
Cena 2: Giovani com no parque da cidade.
“— Então, podemos partir para a parte que você me beija? — ele pergunta.
— Eu não vou te beijar.
— Então o que você quer, ? Quer que eu procure seus amiguinhos? O nerdzinho já me fez muita raiva, aliás.
— Não, por favor, não faça nada contra ele…
— Então faça o que eu mando! ”
Cena 3: Giovani imprensando na árvore

Corte: mudança para Nicole falando

— A minha irmã tinha acabado de completar dezoito anos, começou a ir a festas e conheceu esse garoto. Ela o achava incrível com aquela pitada de bad boy, lhe dei incontáveis conselhos, mas ela não me ouviu, estava completamente apaixonada e achava que ele poderia mudar por ela. Mas ele não mudou. Começou a mostrar sua verdadeira personalidade, a minha irmã começou a aparecer com manchas no corpo. Consegui a fazer desabafar, ela contou que foi ele e que iria terminar tudo, mas quando ela foi terminar, ele estava transtornado e quase a matou. Minha irmã conseguiu sair viva, contudo, fugiu da cidade, achava melhor fazer isso do que denunciá-lo, afinal, ele é rico e sua família é influenciável na região.
Cena 4: fotos de Giovani e Luana, irmã de Nicole

Corte: mudança para Stefany falando

— Nos meus antigos livros preferidos o personagem principal sempre tinha aquele ar de mistério, que era malvado, mas que mudava pelo amor. Quando meu pai começou a trabalhar para essa família, começamos a ir a festas e foi ali que o conheci, achando que ele era a personificação do meu personagem preferido. Começamos a sair e depois a namorar, mas eu só podia ir para locais se fosse com ele e com seus amigos, achava aquilo normal, ele me amava. Acabei me afastando dos meus amigos e da minha família, mas achava que isso valia a pena... Até encontrar ele na cama com outra. O pior foi ele olhar para mim e dizer que era minha culpa, que era isso que garotas que engordavam ganhavam.
Cena 5: imagens de Stefany em uma festa com Giovani

Corte: mudança para Marcela falando

— Bastou uma noite para esse garoto me machucar. Era uma festa, era para ser divertido, era para ser algo bom. Nós nos conhecemos e começamos a dançar, o clima rolou e resolvemos ir para um canto mais reservado, como era sua casa, fomos para o seu quarto e fizemos sexo. Era para acabar ali, não queria relacionamento e nada demais. O que eu não sabia era que naquele quarto tinha uma câmera que gravou todo o ato. Ele passou esse vídeo para seus amigos que passaram para outras pessoas e, em poucas horas, quase toda cidade já havia visto; cidade pequena as coisas se multiplicam. Comecei a receber xingamentos em redes sociais e em casa o caos estourou, meu pai me expulsou, dizendo que não iria ter filha puta. Fui culpabilizada por todos, mas não fui eu que fiz nada de errado, eu era e sou uma vítima. Já faz um ano que tudo aconteceu e eu continuo recebendo comentários negativos, trabalho em uma loja e os garotos me reconhecem do vídeo e já acham que podem me tocar, me ter. Eu fiquei marcada da pior forma possível.
Cena 6: imagens de Giovani e Marcela se beijando

Corte: mudança para Júlia falando

— Você pensa que conhece seu melhor amigo como a palma da sua mão. Que ele vai te proteger e que vai te ajudar nos piores momentos. Eu conhecia esse garoto desde os oito anos de idade, o conhecia quando ele era uma criança fofa, ingênua e pura. E você tenta entender a mudança, mas dói, dói muito ver alguém que você ama se tornando algo horrível. Principalmente quando você era apaixonada por esse melhor amigo. Aquela vontade de colocar ele no colo e tentar mudá-lo cresce, fazê-lo perceber que está indo para o caminho errado, se tornando uma cópia do pai que no início da infância ele tinha tanto medo. E por amor aquele menino que eu conheci eu tentei, tentei muito, mas ele me machucou — lágrimas descem de seus olhos. — Ele que sempre me protegeu. Eu iria viajar, visitar umas amigas e ele pediu para entregar umas caixas para um conhecido. Eu fiz aquilo, o que eu não sabia é que eram drogas, acabei sendo presa. E ele negou que estava envolvido nisso, virou as costas. E aqueles dias na prisão foram os piores da minha vida, e vão estar para sempre na minha memória.

Cena 7: fotos de Giovani e Júlia crianças. Depois adolescentes.
Cena 8: recorte de jornal falando sobre a prisão de Júlia

Corte: mudança para falando

— Quando você está quebrada, acaba aceitando qualquer migalha de atenção que consegue. Sempre ouvi que a única coisa boa que tenho em mim é a minha beleza, que preciso arranjar um casamento antes que as rugas apareçam, que os peitos caiam. E quando você tem pais que nunca se importaram com você, acaba tentando fazer algo para agradar eles. Esse garoto era tudo que meus pais sonhavam para mim. E no começo, ele me deu a atenção que nunca tive. Por isso, eu aceitei as ofensas, as marcas dos apertos nos braços, a humilhação. Aquela migalha de atenção era tudo que eu tinha e eu não podia a deixar desaparecer. No final, eu fiquei mais no fundo do poço ainda. E coloquei a minha melhor amiga nesse meio, fazendo com que ela fosse alvo desse maníaco. E eu nunca vou me perdoar por isso, por colocar em perigo a única pessoa que esteve do meu lado.
Cena 9: Giovani imprensando na parede e apertando seu braço na segunda festa.
Cena 10: Giovani abrindo uma cápsula e colocando em um copo, misturando e dando para .

Corte: mudança para falando

— Eu não passei por um terço do que essas meninas passaram, mas foi horrível. Ele me perseguiu, me ameaçou, me pressionou e tudo isso para eu beijá-lo, ficar com ele. Se acha tão poderoso que quer comandar nossas vidas, fazer com elas o que quiser para seu prazer. Mas dessa vez vai ser diferente, nós não vamos nos calar, vamos expor, gritar, tentar arrancar esse mal pela raiz. Se você sentiu raiva, nojo, medo, nos ajude a colocar esse cara na cadeia, ele e tantos outros, denuncie! Ligue 180, não contribua para essa violência, briga de marido ou homem e mulher a gente mete a colher sim! Segundo o Data Folha, uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de agressão no último ano. 503 mulheres brasileiras são vítimas de violência a cada hora. 22% das brasileiras sofreram ofensa verbal no ano passado, 10% das mulheres sofreram ameaça de violência física, 8% sofreram ofensa sexual, 4% receberam ameaça com faca ou arma de fogo. E ainda: 3% de mulheres sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento e 1% levou pelo menos um tiro. Então, por favor, quando você presenciar qualquer tipo de violência, não se cale, interfira! Denuncie! Vamos começar uma revolução, estamos aqui para nos apoiar, porque seja hoje ou amanhã, juntas somos fortes!

Câmera: off




Capítulo 17: Chama a Samu

Acordo às onze da manhã e percebo que sou a única acordada. Havíamos ido dormir muito tarde editando o vídeo, selecionando partes e colocando ele no YouTube e, depois disso, nos acalmamos com tocando algumas músicas no violão. Mas a verdade é que todos estavam tensos, cansados e rezando que tudo desse certo.
Levanto da cama devagar, para não acordar as meninas que estão dormindo e vou para o banheiro, tomo um banho e depois vou para a cozinha tomar um café. Encontro ali, conversando com a minha avó.
— Ah, eu conheço seu avô sim. Na época que o Flávio era vivo, a gente tinha uma roça perto da de vocês, mas depois que ele morreu não dava para eu ficar ali sozinha, então vendemos — minha avó fala. — Aliás, tem um monte de milho e feijão aqui que comprei com seus avós.
— Bom dia — digo, interrompendo.
— Parece que só vocês pularam da cama cedo, mas já estou preparando um almoço reforçado para quando o resto acordar.
— Nós não queremos incomodar a senhora, tenho certeza que todo mundo vai para casa quando acordar — responde.
— Não é incomodo nenhum, amo minha casa cheia! O que é bem difícil porque só tenho a de neta, mas agora a mora aqui e aquela menina virou quase uma filha para mim, ela precisa de muito amor... Os pais não deram isso para ela. E vocês trazem mais alegria, já aviso que se vocês todos não me chamarem de vó eu dou umas boas palmadas.
Rimos disso e eu pego uma xícara para tomar café, só bebendo isso eu consigo acordar totalmente e o café da minha avó, coado no pano, é um dos melhores do mundo.
— Dormiu bem? — pergunta.
— Na medida do possível e você?
— Bom, o Rafa não é das melhores pessoas para se dividir um colchão, recebi muitas cotoveladas, fora que ele ronca. Tenho pena da Nic que tem que aguentar aquele cabeça de vento.
— O que o amor faz, né?! — sorrimos e nos encaramos.
Termino de tomar meu café e pego o celular para ver como anda a repercussão do vídeo. Abro o aplicativo do YouTube e tomo um susto.
— Ai meu Deus — falo.
— O que foi? Algo errado?
— Temos quinze mil de visualizações e uns cinco mil de comentários.
— Uau — solta.
Ele vem até mim e começamos a ler alguns comentários, havia alguns negativos nos xingando, mas a grande maioria eram mensagens de apoio e garotas contando o que passaram também.
— Olha esse "Eu estou tremendo com esse vídeo, obrigada por serem corajosas e se exporem assim e com isto começaram uma revolução! É doloroso de ver como ainda existe isso, mas só assim para as pessoas conseguirem entender que existe sim e precisamos fazer algo para mudar. Obrigada, em nome de todas garotas que podem ser salvas por isso, muito obrigada" — leio o comentário e não sei o momento que comecei a chorar, mas me abraça apertado.
— Lembra quando disse que você não era uma super-heroína? — ele pergunta.
Balanço a cabeça, pois não tinha forças para falar algo naquele momento.
— Eu estava mentindo, pois você é! O que você e as meninas estão fazendo... Isso é tão incrível e poderoso! Vocês estão abrindo os olhos de tanta gente, salvando vidas. Vocês todas são mulheres maravilhas. E eu tenho muito orgulho de ter vocês em minha vida.
Encaro ele, ainda chorando, mas sorrio.
— Você não cansa de ser tão fofo?
— É o meu charme.
Somos interrompidos pelo pessoal que acordou. Rafa fazendo piadinhas por eu e já que estamos abraçados e recebendo uns tapas de Nic.
— Tenho uma tarefa para vocês — minha avó fala.
— A senhora pede e a gente obedece, vó — Rafa bate continência.
É engraçado ver tanta gente chamando minha avó de vó, mas o sorriso que ela abria quando ouvia isso enchia meu coração de felicidade. Além do mais, ver como ela e haviam se aproximado era muito lindo, já que minha avó ficava muito sozinha e eu via o quanto isso a deixava triste e com saudade do meu avô. Por isso, sabia que com morando com ela a deixava melhor, ainda mais com as aulas de costura e bordado que as duas faziam toda tarde. Aliás, estava arrasando nisso, fazendo roupas lindas.
— Tem essa bolsa aqui cheia de milho, vocês podem tirar a palha deles? Quero fazer canjica para vender na festa da Igreja. — minha vó pede.
Puxamos a bolsa para a sala e cada um pega uma espiga. Era até uma cena engraçada de se ver, tantos jovens esparramados no chão e falando sem parar, debulhando milho.
— Eu amo o São João, é a melhor época do ano — Caroles fala.
— Comida boa, música melhor ainda — Pati completa.
— A gente podia fazer um casamento matuto. Podíamos ser os noivos — Rafa diz olhando para Nic.
— Nem sonhando — ela responde.
O telefone da Nic toca e ela atende, colocando no viva voz para ouvirmos o que sua tia falava.
— Querida, analisamos todo o material que você me mandou sobre o Giovani. Está tudo muito claro, entramos com o pedido para a prisão dele, mas preciso que todas vocês venham dar um depoimento. Estou indo para a delegacia daí daqui a pouco, o delegado vai ser demitido, pois descobrimos que foram feitas várias denúncias contra a família Albuquerque que foram arquivadas sem nenhuma justificativa.
— Uau, essa história só piora — Nic comenta. — Assim que você chegar me avisa, ok? Que aí todas vamos para a delegacia.
— Estamos quase chegando, mas não tenham pressa, vai ser um dia turbulento.
Quando Nic está se despedindo da tia um baque no portão nos assusta.
— Eu sei que você está aí dentro, ...
— Ai, meu Deus, é o Giovani — uma das meninas fala, mas não consigo identificar qual delas por conta do pânico que começa a crescer em mim.
E então tudo acontece muito rápido. Jogam algo na janela da casa da minha avó e cacos de vidro voam para todo lado, corremos nos afastando dali e o caos causado pelos gritos é enorme, mas o pior é que Giovani e mais três garotos passam pela enorme janela quebrada.
— Olha só, todas reunidas aqui — ele fala. — Ótimo, porque eu quero vocês pagarem pela merda daquele vídeo.
Estávamos todas encolhidas perto da porta da cozinha, podia sentir alguma das meninas tremendo.
— Vai embora, Giovani, antes que as coisas piorem para você — fala.
— O nerdzinho está muito corajoso hoje.
— Anda, menino, saia daqui antes que a polícia apareça — minha avó fala e eu sinto um aperto maior no coração por ela estar presenciando isso.
Giovani não dá ouvidos a ninguém. Seu olhar brilha e ele o passa por todas nós, vendo cada uma se encolher e abrindo um sorrisinho com isso. Era como se ele fosse um predador, faminto por alimento, e nós fossemos suas presas. Respiro fundo e tento pensar em algo para sairmos ilesas disso, mas meus pensamentos são interrompidos quando Giovani puxa o e dá um soco nele, fazendo que todas nós gritássemos.
E aí tudo fica uma confusão.
Pati é a primeira a reagir, pegando uma cadeira que estava perto dela e indo para cima do Giovani. As outras meninas se sentem encorajadas e tentam repetir o ato dela, faço o mesmo e tento pensar que somos nove contra quatro e que isso vai ser o suficiente.
Estava no meio das meninas quando sinto mãos me puxarem e é quando tudo paralisa. Giovani estava me fazendo de refém, com uma arma na mão. Todo mundo nos encara e eu fecho os olhos, pensando que talvez esse fosse o momento do fim.
— Solte ela, agora — sussurra.
— Não, tudo foi culpa dessa garota irritante — Giovani fala com uma voz tão gélida que sinto meu corpo tremer. — Tudo sua culpa e essa vontade de salvar o mundo, como se vocês, garotas, fossem capazes de fazerem isso! Vocês não são capazes de nada.
— Por favor, Giovani, não faça isso — Júlia, que foi sua amiga por tanto tempo, pede.
Sinto minha respiração acelerar quando vejo o medo nos olhos da minha avó. Se eu pudesse fazer algo, só pediria desculpas para ela, pôr a fazer passar por isso, por toda essa bagunça e medo.
— Por favor, mostre que o garoto que eu amava brincar ainda existe, por favor — Júlia tenta mais uma vez. — Se você fizer isso eu te perdoo, mas não machuque a .
— Cale a boca... — ele diz.
Ele é interrompido quando ouvimos o barulho de viaturas da polícia, Giovani se assusta e seus capangas começam a xingar e tentar fugir.
Ele se distrai e vai para cima dele, me soltando. Os dois começam uma briga e não sei quanto tempo passou, mas é como se tudo tivesse acontecendo em câmera lenta, o tentando tirar a arma da mão de Giovani e eu saindo de perto.
Dou três passos e então o som.
Pow.
E depois um grito.
!
Sinto todo meu corpo paralisar e olho para a minha frente, minha avó caída no chão.
As meninas gritando e chorando ao redor dela.
A polícia entra e prendem o Giovani e eu paralisada, sem conseguir me mover.
Então sinto como se meu ouvido fosse destampado e todos os sons ao meu redor voltam e eu consigo correr até vovó.
Ela está com uma pequena mancha de sangue no braço e eu não sei o que falar, era como se tudo fosse um grande pesadelo.
— Alguém chama o SAMU — alguém fala, imagino que seja Rafa.
— Por favor, vovó, por favor tenha força, por favor não vá agora, eu ainda preciso muito de você — sussurro.
se senta ao meu lado e ficamos ali, alisando os cabelos da pessoa que tanto nos protegeu do mundo e nos amou, que foi a única que acreditou em nós, esperando que ela tenha forças mais uma vez.
A ambulância chega e pegam ela e eu fico ali no chão nos braços de , chorando tanto que meu corpo tremia.
— Pessoal, eu sei que vocês todos estão abalados, mas preciso que me acompanhem até a delegacia — diz uma mulher que concluo ser a tia de Nic, já que está abraçando ela.
— Como você sabia que precisávamos de ajuda? — Pati pergunta.
— A Nic ainda estava falando comigo quando tudo aconteceu, então ouvi e viemos para cá o mais rápido possível — ela responde.
— Eu preciso ir para o hospital — digo quase sem voz.
— Eu sei que vai ser difícil, mas você precisa me acompanhar, . O quanto antes fazermos isso é melhor. Vamos ligar para sua mãe, tudo bem? Ela vai para o hospital e assim que terminarmos levamos você lá.
— Você acha que... que minha avó vai ficar bem?
— Pelo pouco que conheço, sei que você é uma lutadora e isso só pode ter vindo dela, tenho certeza que vão fazer de tudo para ela ficar bem.
Dou um pequeno sorriso, balanço a cabeça e me ajuda a levantar.
, me desculpa — ele sussurra e eu encaro seu rosto que está manchado de sangue. — Se eu não tivesse ido para cima do Giovani nada disso teria acontecido...
— Não é sua culpa, não se responsabilize por algo que só aconteceu por conta daquele garoto. A culpa é somente dele.
— Ele vai pagar por isso. E ei, a vó vai ficar bem, não vou sair do seu lado. Vai dar tudo certo.
Ele me abraça e saímos para ir para a delegacia.
Fecho os olhos e, dentro do carro, eu rezo com todas as minhas forças e esperanças para que não aconteça o pior.



Capítulo 18: Hora de limpar a bagunça

Não sei quantos minutos levam da casa da minha avó até a delegacia, mas me ajuda a sair do carro quando estacionamos em frente à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher. Ao entrar no lugar, sinto como se todos os olhos dos presentes estivessem em nós, um grupo tão grande. Sentamos nas cadeiras da sala de espera e uma atendente nos encara no balcão, a televisão ligada em algum programa que não consigo identificar qual é tamanha é minha preocupação.
Só consigo pensar na minha avó, será que ela estava bem?
Queria poder estar ao lado da minha mãe nesse momento e pedir desculpa por ter entrado nessa bagunça.
Pati aparece na minha frente e vejo como seu rosto está vermelho, todas nós estávamos assim, por conta do choro.
— Vá limpar o rosto, — ela diz. — Tem uma enfermeira naquela sala, vá lá.
— Vou ficar ao lado da — ele responde.
— Eu vou ficar com ela, não vou sair do lado dela, prometo, mas você precisa limpar esse rosto.
Ele me encara por alguns segundos e eu lhe dou um pequeno sorriso para que perceba que vou ficar bem. Assim, relutante, ele vai e Pati se senta ao meu lado. Pouco tempo depois aparece e senta na cadeira à minha esquerda, vejo a preocupação e o medo em seus olhos, por isso puxo sua mão e entrelaço na minha.
— Ela ama você como se fosse uma filha, você sabe, não é? — digo para ela, me referindo a minha avó.
— E eu a amo como se fosse a mãe que sempre quis ter. O que ela fez por mim, , eu nunca vou esquecer. Ela me estendeu a mão, me deu um teto, me ensinou a costurar e me mudou tanto. Ensinou-me tantas lições de vida que a sem limites do passado percebeu que não podia viver assim. Eu abaixei minhas barreiras e estou tentando ser alguém melhor por ela — ela diz, com lágrimas descendo sem parar.
— Ela sempre gostou de você, lembra quando íamos fazer bolo com ela, na época do ensino médio?
— Eu voltava para casa com o cabelo cheio de farinha, já que amávamos jogar uma na outra. Quando minha mãe estava em casa, gritava muito por estar daquela forma — ela relembra, rindo. — Teve a vez que fizemos aquela mecha colorida no seu cabelo...
— Ai, meu Deus, aquilo ficou horrível! Só a vovó para deixar eu fazer aquilo.
Rimos relembrando as memórias e eu encaro , havíamos passado por tanta coisa, deixado de ser amigas, mas agora estávamos aqui, sentadas, de mãos dadas, relembrando os melhores momentos do passado e apoiando uma a outra. Afinal, isso é amizade, mesmo que às vezes brigas aconteçam e erros sejam cometidos, no fim, estamos do lado uma da outra ajudando a passar por algum momento difícil.
respira fundo, depois de um tempo e me olha, vejo tanta tristeza e dor em seus olhos que fico mal. Sabia desde o começo que ela estava quebrada, mas agora, tão perto de mim, conseguia ver as olheiras e o semblante cansado. Meu coração doeu, ela precisava tanto de ajuda.
, eu me odeio tanto por ter provocado isso — ela sussurra. — Se eu tivesse mantido minha boca fechada naquela festa tudo isso não teria acontecido. Se a vó não... Se acontecer o pior com ela, nunca vou conseguir me perdoar.
— Ei, não é sua culpa, ninguém poderia adivinhar isso tudo e como o Giovani é tão psicopata. Por favor, não se culpe.
— Não foi culpa de drogas, bebida ou o Giovani me forçando a dizer aquilo, foi apenas eu, . Eu querendo um pouco de atenção por não ter isso em casa. Naquele dia meus pais tinham brigado tanto, eu estava com a cabeça quente e tudo se juntou. Foi ridículo...
— Shiu, não precisa falar mais disso.
Ela chora e eu a abraço. A abraço tão apertado, por todos os momentos que ela precisou de mim e eu não estava lá para fazer isso, porque mesmo que muitos odiassem a , eu conseguia ver como ela se agarrou ao Giovani para ter um pouco de amor, mesmo que doentio. E ela estava tão mal, no fundo do poço e eu não fazia ideia de como tirá-la dali.
Um tempo depois, reaparece com o rosto limpo e um curativo no supercílio, ele percebe como eu e estamos juntas e me dá um sorriso, indo se sentar ao lado do Rafa. Estávamos todos quietos quando Pati solta um grito que assusta todos nós.
— O vídeo, gente — ela diz com o celular em mãos. — O vídeo está com cem mil visualizações e não para de crescer!
— Ai, meu Deus.
— Tem muito comentário, muito compartilhamento, dezenas de sites e jornais falando sobre — Pati nos encara, com lágrimas nos olhos. — Os comentários que tem aqui... A gente conseguiu, conseguimos mostrar ao mundo.
Meu coração se enche de orgulho, pois apesar de toda confusão, conseguimos mostrar para tantas mulheres que passamos por coisas parecidas, que elas não estão sozinhas. A tia de Nic surge e nos interrompe, começando a falar com a gente.
— Bom, pessoal, é hora de limpar a bagunça. Vou chamar uma por uma para conversarmos. Você primeiro, , já que precisa ir ao hospital, por favor, me acompanhe.
Levanto e a sigo por um corredor, entrando em uma sala branca com uma mesa e duas cadeiras no centro. No canto, uma mulher jovem, com roupa social e o cabelo preso em um coque, está de frente para um computador.
, meu nome é Cássia — a tia de Nic fala, sentando. — Aquela é Poliana, ela é escrivã e vai digitar o que falarmos aqui, tudo bem?
— Tudo — digo e me sento.
— Você pode começar me dizendo seu nome e sua idade.
— Sou , vinte e dois anos.
, qual a sua relação com Giovani Albuquerque?
— Nunca tive nenhuma relação com ele. Minha amiga já o conhecia, então íamos em algumas festas que ele dava em sua casa.
— Então vocês nunca tiveram uma relação amorosa?
— Não.
— E como vocês começaram a ter contato?
— Na festa uma semana antes do início das aulas, eu e a ... , minha amiga, fomos, ela bebeu muito e no final acabou subindo no palco e dizendo que eu nunca beijei alguém. Foi ai que tudo começou — fecho os olhos e imagens da festa voltam na minha mente, era louco saber como esse simples fato da minha vida, de nunca ter beijado, foi o que desencadeou toda essa bagunça.
— Depois disso — continuo — o Giovani e dois outros garotos, amigos dele, fizeram uma aposta para verem quem conseguiria me beijar primeiro. Eles conseguiram dinheiro com isso e espalharam nas redes sociais. O que o surpreendeu foi que eu revidei, acho que ele pensava que quando visse isso iria surtar e chorar, essas coisas, mas eu acabei gravando um vídeo sobre isso e publicando no meu canal do YouTube. Acho que mostrar que não abaixei a cabeça para ele foi o que fez ele criar essa obsessão por mim.
— Ele começou a te perseguir?
— Sim, brigou com o ... , meu amigo e começou a ir no meu trabalho, dizendo que se eu não fosse em sua festa, ele iria machucar a ; eles estavam namorando. Fui nessa festa e ele me ameaçou, disse que queria me beijar, pressionou a e apertou o pulso dela. Depois disso as ameaças aumentaram, precisava fazer algo para ele parar e foi quando fizemos o grupo, juntando todas as ex dele e elas contaram as terríveis coisas que ele fez.
— Você sabe que isso poderia acabar pior, não sabe?
— Sei! Mas as meninas já tinham tentado com o delegado daqui e ele não resolveu nada. Não podíamos ficar caladas e deixar ele fazer outra garota de vítima. Então ele marcou um encontro comigo, você tem o vídeo, foi horrível, ele me pressionava, ameaçou a mim e minha família, meus amigos. Ele não tem limites.
— Vimos que você postou um vídeo ontem no seu canal do YouTube, tenho que pedir que apague. Os advogados dele podem usar isso contra você e as meninas, dizer que vocês usaram da imagem dele e que incentivaram uma revolta popular.
— Mas...
— É o melhor, .
Ela me faz outras perguntas sobre o que aconteceu na casa da minha avó e eu conto tudo, depois disso ela pede para eu assinar meu depoimento e me libera, pedindo para eu chamar . Saio da sala e percebo como meu corpo está tremendo, estava me esperando em pé no fim do corredor e me abraça.
— Está tudo bem? — pergunta, se aproximando de mim.
— Mais ou menos, tenho que apagar o vídeo de ontem. A delegada acha que é o melhor, podem usar contra a gente.
— Você quer que eu apague?
— Por favor, preciso ir para o hospital.
Ele me abraça mais apertado e ouvimos gritos vindo da rua e vários policiais saindo apressados da delegacia, o que me amedronta um pouco.
— Gente — Caroles fala, perto da janela — vocês precisam ver isso.
Vamos até ela e ficamos perplexas. Do lado de fora, inúmeras pessoas, a maioria mulheres, estão ali, algumas com cartazes em mãos com dezenas de frases de apoio para nós. Elas gritavam "juntas somos mais fortes" ou "abusadores não passarão" e pediam que Giovani fosse punido.
— Isso... isso é para a gente — sussurro, sem acreditar. — Nós conseguimos.
Era louco olhar para isso e ver que cada vez chegavam mais manifestantes que estavam ali por nós, por nossa causa e para nos apoiar. A delegada Cássia aparece com o rosto franzido e pede que prestemos atenção nela.
— Meninas, vocês podem ver a loucura que está lá fora, pela segurança de vocês, não deixem a delegacia sem algum policial acompanhando. Sei que o vídeo já alcançou inúmeras visualizações e que nesse momento muitas pessoas já baixaram e estão compartilhando com outras, mas é melhor apagarem. Vamos tratar disso na justiça agora, tudo bem? , esses dois policiais vão te acompanhar até o hospital; é hora de você dar seu depoimento.
a segue e eu encaro as meninas, o vídeo realmente precisaria ser apagado.
— Ela está certa, temos que apagar, mas posso escrever uma nota falando sobre isso e publicar na página do seu canal, falando que estamos fazendo isso por decisão da justiça e que agradecemos todo o apoio e ainda precisamos disso — Pati diz.
Concordo e lhe passo os dados para entrar na página do canal, depois acompanho os policiais para fora da delegacia e quando me veem, todas as pessoas que estavam manifestando batem palmas para mim, o que me faz sorrir.
Entro no carro e minutos depois os policiais me deixam no hospital, dizendo que ficariam ali para o que precisar.
Corro até a entrada e dou os dados da minha avó. O atendente é muito lento e demora séculos para digitar, já estava ficando irritada quando minha mãe surge, seu semblante cansado como nunca vi.
— ela sussurra e me abraça.
Em seus braços começo a chorar de novo, deixando que toda exaustão do dia deixe meu corpo.
— Como ela está, mainha? Ela vai ficar bem? — encaro seus olhos esperando o pior.
— Ela está em cirurgia, querida, ainda não sabemos, mas vamos rezar.
Sentamos em uma das cadeiras, coloco minha cabeça em seu ombro e de mãos dadas rezamos.
Não sei se pelo cansaço, pelos remédios que estava tomando ou tudo junto, mas acabo dormindo. Acordo horas depois e percebo está sentada do meu lado e que minha mãe não está com a gente.
— Ei, tem muito tempo que está aqui? — pergunto.
— Um pouco, os médicos chamaram sua mãe para conversar.
Mordo o lábio apreensiva e minutos depois mainha reaparece.
— A cirurgia acabou — ela diz.
— E então?
— Ela está bem, — mainha fala chorando com um sorriso no rosto. — A bala não pegou nenhuma veia, retiraram e ela passa bem, vai ter que ficar alguns dias aqui sob monitoração, mas logo irá para casa.
Abraço ela e ela me solta só para puxar para o abraço também, algo que jamais pensei que aconteceria. Mas ficamos ali, as três, agradecendo por tudo terminar bem. Contudo, somos interrompidas por uma voz que há muito tempo não ouvia.
...
Viro-me e encaro a última pessoa que esperaria nesse momento.
— Pai? O que você está fazendo aqui?


VÍDEO #9: PERFEIÇÃO NÃO EXISTE


Câmera: on

— Olá terráqueos, estavam com saudades de mim? Já faz mais de uma semana que não posto nada aqui, mas eu realmente precisava desse tempinho para arrumar a bagunça que aconteceu na minha vida. Vocês sabem que o último vídeo foi apagado aqui do canal por ordem da justiça, mas quero dizer que eu só tenho a agradecer todas as mensagens de carinho que veem chegando em todas as minhas redes sociais, tanto para mim quanto para o resto das meninas e em nome delas e por mim, agradeço de coração. Não posso falar mais sobre aquele caso aqui no canal, mas saibam que tudo está ocorrendo bem, por isso, vamos seguir com a velha e boa rotina. Então, roda a vinheta.

*abertura fofinha do canal*
— Para o vídeo de hoje chamei uma pessoa que vocês já ouviram falar muito nesse canal e que muitos não gostam nem um pouco. Mas ela mudou e acho que para começar esse novo ciclo de postagens, ela deveria estar aqui comigo. Por isso, senhoras e senhores, .
sai de trás da câmera e vai para o meu lado dando um aceno.
— Estou um pouco nervosa — ela confessa.
— Daqui a pouco você fica confortável, relaxa. Bom, pessoal, o tema do vídeo de hoje é perfeição. Esse tão inalcançável molde que nos expõem dia após dia. Vocês podem ver esses cachinhos — passo a mão pelo cabelo — e pensar que sempre tive eles ou que sempre os amei. Mas a verdade é que boa parte da minha adolescência eu alisei meu cabelo, porque ouvi muito que ele era "ruim" ou que sempre estava desarrumado. Foi uma luta muito difícil me aceitar e decidir entrar na transição capilar e voltar a ter esse cabelo, mas isso me mudou tanto, por dentro quanto por fora, amadureci e aprendi muitas coisas. A de hoje não seria nem metade do que é se não tivesse passado por isso e ter se aceitado do jeitinho que é — olho para , para ela falar.
— As pessoas me acham o estereótipo de perfeição: magra e loira. Mas, sinceramente, não gosto da imagem que vejo no espelho. A autoestima não existe por ter exatamente tudo que a sociedade diz que é perfeito, mas gostar de si mesmo sem ligar para o que os outros pensam e, diferente da , não me amo do jeitinho que sou. Acho que preciso mudar muita coisa, mais especificamente, dentro de mim. Porque posso ter esse corpo que é o sonho de muitas garotas, mas eu não gosto da imagem dele, principalmente porque toda a minha vida eu fui ensinada a ser perfeita, a ter um corpo perfeito, que a beleza era a minha única qualidade. Então é muito difícil desconstruir esse discurso da minha mente e parar de odiar o espelho achando que se eu não for perfeita nada mais adiantará.
— A perfeição não existe, muitas das garotas que admiramos em capas de revista passam por distúrbios alimentares e odeiam a si mesmas. E mesmo que façamos inúmeras dietas não vamos conseguir ser iguais a elas. Porque somos diferentes — digo. — Padrões de beleza são enfiados em nossa goela a baixo e a ideia que precisamos sempre estar lindas, com o peso ideal ou outras garotas melhores que nós vão roubar nosso lugar, nosso namorado.
— Mas não precisa ser assim. O que eu mais aprendi nos últimos tempos é como o apoio feminino é importante, o quanto ficamos mais fortes e que essa amiga aqui do meu lado, — aponta para mim — apesar de ser uma rainha, linda e tão maravilhosa, não é minha rival. Tenho aprendido muito com ela e com outras garotas e apesar de ainda estar me sentindo tão mal comigo mesma, estou tentando melhorar. Estou tentando entender que perfeição não existe, que eu nunca fui e nunca serei perfeita, que ninguém é melhor que ninguém.
— O que nós queremos dizer é que é muito difícil entender que perfeição não existe e se aceitar do jeito que é. É um caminho turbulento e cheio de pedras e, mesmo que você comece a se aceitar em algum momento, vão ter dias que você vai acordar e se sentir uma merda.
— Dias que você não vai querer sair da cama porque acha que nada fica bom, que seu cabelo está horrível e que o mundo não merece presenciar isso.
— Eu recebo inúmeras mensagens nas minhas redes sociais dizendo o quanto eu sou linda e perfeita, mas não é assim, pessoal, eu não sou apenas esses vídeos. Eu cometo erros, tenho medos e inseguranças. Exatamente como você.
— Inclusive tira dezenas fotos e não gosta de nenhuma como qualquer outra garota — complementa. — Algo que me incomoda também é isso, quando posto uma foto em uma rede social e alguém comenta "uau, que magra, que linda", como se isso fosse elogio. Gente, parem, isso não é saudável, não existe perfeição nisso.
— Fora que, sempre existiram comentários negativos, se você emagrece muito falam, se engorda muito também, se afina o nariz, se coloca silicone... As pessoas sempre vão criticar e dizer que falta algo mais para você ser perfeito.
Mas perfeição não existe — dizemos juntas.
— E não podemos nos matar para tentar alcançá-la — digo. — Afinal, se somos perfeitos demais, podemos acabar como Narciso, nos apaixonarmos por nós mesmos e morrermos adorando essa imagem.
— Não vale a pena — conclui.
— Não. Bom, é isso, seguimos errando, mudando, amadurecendo e não sendo perfeitas.
— Beijos.
— Até a próxima — digo.
Câmera: off



Capítulo 19: Fechando Ciclos

Tinha acabado de postar o vídeo com a e era louco como já apareciam comentários, tanta gente estava acompanhando o canal que era difícil de acreditar. Fecho o notebook com um sorriso no rosto e faço uma nota mental para responder alguns comentários mais tarde.
Já havia passado mais de uma semana de toda a confusão com o Giovani. Graças a Deus vovó já estava em casa, aliás, ela estava morrendo de tédio e sem paciência de ficar em repouso. Enquanto ela estava se recuperando, estava ficando em casa comigo e mainha. também estava conosco, apesar de ela insistir que acharia outro canto para morar, foi calada por Dona Estelita que disse que se ela a abandonasse iria sair da cama e a buscaria onde quer que fosse. E, bem, ninguém vai contra a vovó.
— Ei, — aparece na porta do meu quarto — Seu pai está aqui.
Suspiro, ainda era estranho ter ele por perto. Trocamos poucas palavras quando ele apareceu no hospital, pois ainda estava muito cansada e atordoada com tudo que havia acontecido. Ele apenas me disse que minha mãe vinha lhe dizendo o que estava acontecendo e pedido para ele ajudar, por isso ele estava aqui.
Vou para a sala e o encontro sentado no sofá, ele me encara e fico constrangida. Meu pai não tinha mudado tanto, só estava mais rechonchudo e os cabelos mais grisalhos. Fora isso, continuava o mesmo Pedro de sempre, contudo, sem o cheiro de álcool.
— Aceita tomar um sorvete comigo? — ele pergunta.
Faço que sim com a cabeça e pego minha bolsa, depois saímos de casa. Caminhamos em silêncio até a sorveteria e ele só fala quando já estamos sentados com os nossos pedidos em mãos.
— Você está tão linda, — ele diz. — Não digo só pela aparência, mas a mulher que se tornou, tão forte e inteligente... Tenho muito orgulho de você.
— Obrigada — digo sem jeito.
— Sinto muito por não estar presente nesses momentos difíceis e por ter simplesmente abandonado vocês, mas não é fácil para mim voltar aqui onde posso encontrar em cada esquina um velho conhecido da época dos vícios.
— Não vou mentir e dizer que não doeu quando você disse que não iria voltar porque doeu, doeu muito. Mas eu entendo e prefiro você saudável e longe a perto e doente.
— Sempre tão sábia, minha .
Terminamos nossos sorvetes e eu percebo o quanto sentia falta do meu pai para conversar. Ele me conta algumas piadas e sobre sua vida na outra cidade, como lá é um lugar bom.
— Você iria gostar de lá, , é muito bom para os estudos. E, bem, eu e sua mãe achamos que se você quiser se mudar, depois de tudo que aconteceu com o filho do prefeito...
— O quê? É por isso que está aqui, para tentar me levar com você? Eu não vou, pai, não mesmo.
...
— Nada de "", eu tenho uma vida aqui, amigos... Não vou abandonar tudo e o Giovani está preso, acabou.
Ele suspira e vejo a preocupação em seus olhos, mas não iria morar com ele, isso está fora de cogitação.
— Tudo bem, mas só não caia em buracos e vá atrás de coelhos — ele sorri, sempre falava isso quando eu era criança.
— Não, esse país não é maravilhoso, mas eu gosto muito dele.
— Mas saiba que pode contar comigo, hoje e sempre, posso estar longe, mas ainda sou o seu pai e venha me visitar algumas vezes, vai ser divertido.
— Pode deixar, prometo que nas férias vou passar uns dias com você.
Com isso levantamos e vamos andando de volta para casa. Qualquer pessoa que passava por nós me compartimentava e dizia como eu e as meninas fomos corajosas.
— Então, sua mãe me contou sobre um garoto... — meu pai diz, sem jeito.
— Garoto?
— Um tal de — ele arqueia a sobrancelha.
— Ai não, o que mainha te disse? Que vergonha, não vamos ter essa conversa.
— Claro que vamos ter essa conversa, aliás, quero conhecer ele antes de ir embora, saber quais são as reais intenções dele com você.
— Meu Deus, não, de jeito nenhum! Não estamos no tempo das cavernas.
— Você ainda é minha filhinha — ele me abraça, rindo.
— E não temos nada, nem nos beijamos nem nada. Você e mainha que tratam ele como se fosse meu namorado já.
— Oras, pra quem tem uma cabeça tão aberta, você pensa muito em rótulos para relacionamentos. Você e esse menino podem não ter se beijado ou estarem namorando com todas as letras, mas possuem uma relação linda, se apoiam nos momentos difíceis e esperam o tempo certo para darem início a história de vocês. Já gosto desse menino por isso.
— Desde quando você é filósofo assim? O tempo fora está te fazendo bem mesmo.
Ele bagunça meu cabelo e ri, isso me faz sentir criança de novo, quando meu pai ainda não bebia tanto e nossa relação era leve e divertida. Seria bom me aproximar dele de novo, tinha que admitir, apesar de toda confusão, o que aconteceu me trouxe muitas coisas boas também, como às novas amizades, um grupo de apoio feminino e muita sabedoria.
Chegamos em casa e me despeço do meu pai, já que ele voltaria ao hotel que está hospedado. Entro e encontro Pati no sofá com .
— Olá, lindezas — digo, me jogando nelas.
— Como foi o encontro com o seu pai? — pergunta.
— Legal, mas acredita que ele e mainha acham que deveria me mudar e ficar com ele? Nunca que faria isso, me mudar, que coisa louca. Apesar de que aqui não tem cinema, o que é horrível, mas amo essa cidade.
— E ama a gente também — Pati diz.
— E não ficaria longe do .
— Por que todo mundo hoje tirou o dia para falar sobre eu e o ?
— Porque vocês são maravilhosos juntos e eu não vejo a hora de poder te chamar de cunhadinha — Pati responde.
— Mas conta pra ela a novidade, Pati — diz, com um sorrisinho no rosto. — O amor está no ar.
Viro-me para Pati e a encaro. O que será que ela estava me escondendo?
— Bom, sabe, a Caroles é uma garota bem legal, não é? — ela fica vermelha e brinca com uma mecha do cabelo. — A gente começou a conversar depois que tudo aconteceu, saímos e acabamos ficando.
— Você e a Caroles? Olha só, a tem razão, o amor está no ar. Fico muito feliz por vocês e espero que dê certo, sei que serão o casal mais incrível de todos porque vocês duas são maravilhosas demais.
— Também tenho novidades — fala.
— Quê? Também está namorando? — pergunto.
— Aí, não, não quero namorar por um tempo, tenho os dez dedos podres. A novidade é que consegui um emprego como costureira em um ateliê e consegui passar no vestibular para estudar administração. Quero juntar um dinheiro e quem sabe, um dia, abrir minha própria loja.
— Que legal, , fico muito feliz por você! É ótimo ver como você mudou e está estabelecendo novos objetivos para a sua vida — digo e Pati concorda comigo.
— Eu acho que ainda preciso mudar muito, sabe, mas é difícil recomeçar e deixar de lado tanta coisa. Tem dias que eu me sinto tão mal comigo, mas estou tentando.
— Você não está sozinha, estamos aqui para te ajudar — Pati fala.
— E seus pais, não deram nenhuma notícia?
— Eles ligaram quando souberam da confusão com o Giovani, brigaram por eu fazer algo contra ele, disseram que estão em São Paulo e depois de eu fazer isso não querem saber mais de mim, como se antes eles quisessem. Acho que cortamos relação de vez.
— Que horror, .
— Pois é, mas não esperava algo diferente deles.
— Você tem uma família muito melhor agora, eu, vovó, todas as meninas, muita gente que quer o seu bem — digo e a abraço.
— Falando em meninas, foi por isso que vim aqui, temos recebido muitos depoimentos de algumas garotas e fiquei pensando que poderíamos estender nosso grupo girl power.
— Como assim, Pati? — pergunto sem entender.
— Podemos tentar achar um local para nos reunirmos toda semana e acolher mais mulheres. Assim ouviremos histórias, daríamos apoio, podíamos ver se alguma professora nossa, psicóloga, poderia participar... Poderíamos até tentar fazer projetos para conscientizar mais pessoas sobre relacionamentos abusivos e violência contra a mulher.
— Acho uma ótima ideia, não podemos parar de falar sobre esse assunto só porque o Giovani foi preso, precisamos continuar lutando por essa causa — digo.
— Sim, já estou vendo alguns locais para isso, temos que falar com o resto das meninas, nos organizar e tudo mais.
— Pati sempre tendo ótimos planos — comenta.
— Só não quero que o nosso grupo acabe, ele é muito importante.
— Não vai.
Meu celular toca com uma nova notificação e vejo que é uma mensagem de Nic, chamando a gente para ir para a sua casa. Não pensamos duas vezes e vamos para lá e vinte minutos depois, chegamos, encontrando Nic, Rafa, e Caroles ali.
— Sentem aqui — Nic diz. — Minha tia me ligou, o Giovani vai ser levado para um presídio em Salvador. Ele deve ser julgado daqui alguns meses, mas minha tia disse que não precisamos nos preocupar, que ele não vai conseguir se safar. Tem muitas provas contra ele e acharam outras coisas feitas pela família Albuquerque, aliás, o pai dele foi preso também e foi tirado do cargo de prefeito.
— A família toda é suja — Caroles comenta.
— Quem diria que seríamos nós que faríamos a poderosa família Albuquerque cair — Pati diz.
— Vocês perceberam como estamos fechando ciclos? — questiono. — É louco, mas olha o tanto que vivemos nesses meses e agora é como se estivéssemos colocando um ponto final em várias coisas, como as confusões com o Giovani. Sinto como se fosse fim do ano, uma sensação de recomeço.
— Mas estamos recomeçando mesmo, pelo menos é como vejo também — responde. — Estamos colocando alguns pontos finais, só que vamos escrever novos capítulos, cheios de parágrafos e com muitos pontos e vírgulas de continuação.
— Nossa, como vocês estão emotivas, animação, pessoal! Semana que vem é São João — Rafa diz.
— Já? Acho que me perdi no tempo e com a vovó de cama nem sei se vou sair...
— Nem pensar, mocinha — Nic me repreende. — Tenho certeza que a vó odiaria se você ficasse em casa por conta dela. Além disso, precisamos comemorar por tudo que passamos e como tudo está bem. Por isso vamos para a festinha, beber quentão, comer muita comida e dançar forró.
— Estou muito ansioso para essa festa — Rafa fala.
— Você sempre está ansioso para festas, Rafa. Ama balançar a bunda — diz, o que nos faz rir.
— E tem coisa melhor que balançar a bunda? — Caroles pergunta. — A diversão está nisso.
Rafa e ela batem as mãos rindo e falando que ninguém ganharia deles dançando.
— Pensando bem, acho que vou mesmo para essa festa, acho que vai ser divertido — digo.
Olho para o e sorrio. Ciclos estavam sendo finalizados e outros deveriam começar e se tinha algo que queria dar início era algo com esse garoto fofo que fazia meu coração saltitar e minhas mãos suarem.
Uma semana só e no clima friozinho do São João tudo poderia acontecer.



Capítulo 20: Olha Pro Céu, Meu Amor

A época do São João é uma das mais lindas do ano. O clima é agradável, um friozinho que faz tirar os casacos do fundo do armário, mesmo que seja temperaturas ditas como calorentas para o pessoal do Sul. Acontece que no Nordeste passamos quase o ano todo perto dos 40º, então quando acontece do termômetro marcar 19º, já é frio demais, não somos acostumados, não mesmo.
Mas junho chega e traz o frio, a chuva, as bandeirolas, a fogueira, o milho e as blusas xadrez. Não tem como não amar o São João, é lindo demais ver toda a tradição e a reunião familiar que isso proporciona.
É claro que a de meses atrás provavelmente só iria ficar na casa de algum tio chato, comendo muito e depois indo dormir. Só que agora, depois de tantas coisas vividas, de tantos aprendizados e tantas mudanças, estava no meu quarto e ao invés de ter apenas comigo, tinha Pati, Nic e Caroles. Estávamos nos arrumando para ir curtir a festa na praça da cidade e isso era o mais chocante para mim: eu a amante da Netflix e a odiadora de festas, agora ficava ansiosa para me divertir com meus amigos.
A vida tem disso, não é mesmo?
Uma hora, querendo ou não, algumas coisas mudam. O quarto que era todo roxo fica branco, as bandas preferidas deixam de ser as mesmas, os livros acabam e outros são iniciados.
E isso é uma das coisas mais lindas, ter o poder de se transformar, de sair do casulo e ser uma borboleta. São muitas paisagens lindas para voarmos apenas no mesmo jardim, o mundo é grande demais e gira rápido demais para sempre ficarmos no mesmo ponto.
Paro com os meus devaneios e desligo o chuveiro, afinal, apesar de lavar o cabelo ser um momento maravilhoso para filosofarmos sobre a vida, precisamos parar antes que os dedos enruguem demais. Enrolo uma toalha na cabeça e pego outra para enxugar o corpo, depois visto minhas peças intimas e saio do banheiro, encontrando quatro garotas em estágios diferentes de arrumação. E, claro, eu sou a mais atrasada no processo.
Algumas coisas não mudam.
— Pensei que tinha morrido dentro do banheiro — Nic fala ao me ver.
— Só pensando na vida, é muito louco já ser meio do ano, passou tão rápido.
— Nem me fale — Pati diz. — Mas graças a Deus, estou precisando muito dessas férias, que semestre horrível foi esse.
, veste logo essa roupa e ajeita o cabelo, se não nunca sairemos daqui — aconselha.
Faço o que ela pede e visto minha saia de cintura alta preta com a blusa xadrez, roupa típica do São João. Depois penteio o cabelo e faço todo o processo de definir os cachinhos. Cabelo cacheado é lindo, mas dá um trabalho. Contudo, olhar no espelho e ver esse emaranhado de fios me faz sentir mais eu, uma garota que é tão complexa, tão cheia de curvas, mas que tem sua beleza peculiar.
— Hora da maquiagem — Caroles diz e começa a passar produtos no meu rosto.
Vinte minutos depois estamos todas prontas.
— Estamos gatas demais, devíamos ficar por aqui e nos pegar — Pati comenta e faz todo mundo rir.
— Vamos logo, estou morrendo de fome e desejando aquelas deliciosas comidas de milho.
, sinceramente, não sei pra onde vai tanta comida porque você come feito uma ogra e é magrinha assim — digo.
— Também não sei, amiga, mas bem que eu queria que fosse pra algum lugar. Mas, por favor, vamos logo.
Com isso saímos do quarto, encontrando minha mãe e minha avó na sala.
— Estão lindas, muito lindas — vovó fala, dando um beijo em cada uma de nós. — Aproveitem a festa, no meu tempo eu dançava forró pra me acabar.
— Mas com cuidado, por favor! Nada de beberem muito, ouviram? — mainha diz, depois ela me dá um beijo e abraça . As duas estavam tendo uma relação muito fofa ultimamente. — Até depois, crianças.
Elas estavam indo para a casa de uma tia da minha mãe e pela primeira vez eu não iria junto já que iria sair com o pessoal. E, olha, família é uma coisa linda, mas às vezes nessas reuniões sempre tinha um com comentários machistas e preconceituosos que fazem a gente embrulhar o estômago.
Fecho a porta da casa e nós cinco vamos caminhando para o centro; o bom de cidade pequena é isso, sempre dá para ir a pé. Encontrámos e Rafa na entrada da festa e acabo rindo de Rafa, ele estava com um chapéu de palha na cabeça e usava um macacão com blusa xadrez, mais caipira impossível. estava simples, de calça jeans e blusa xadrez, mas sua beleza estava no sorriso que tinha no rosto.
— Olha para isso, , somos os homens mais sortudos do mundo! Olha como essas mulheres estão lindas — Rafa diz.
Damos uma pequena rodadinha para eles, o que faz todo mundo rir e as pessoas ao nosso redor nos encarar.
— Como diz minha mãe: nascemos com a bunda virada para a lua — responde.
— Vamos, senhoritas, vamos apreciar essa festa arretada de boa — Rafa finaliza.
O local da festa é uma grande praça que era enfeitada com balões e bandeirolas, diversas barraquinhas eram colocadas, vendendo comidas e bebidas, além de brincadeiras para a criançada. No final havia um palco em que diversas bandas locais animam a noite tocando desde o sertanejo da atualidade quanto os forrós mais antigos, afinal, São João sem músicas do Gonzaga não é São João.
— Vamos comprar canjica — diz animada, nos puxando para uma barraquinha.
— Vocês sabiam que nos outros estados o povo chama mugunzá de canjica? — pergunto.
Oxe, que coisa louca.
— É sério, tipo, não entra no meu cérebro... Canjica é só assim, amarela e como mingau, só que mais durinha.
— Esse povo precisa vir pro Nordeste e experimentar o que é São João de verdade e nossas comidas — fala, já comendo.
Saímos das barraquinhas de comidas abastecidos depois de uma rodada de pamonha, milho cozido e bolo, os meninos tinham ido comprar bebida e voltam com copos de cachaça.
— Vamos brindar — diz, entregando um copo para cada um.
— À nossa amizade — Pati fala.
Repetimos e brindamos, bebendo tudo em um bolo e fazendo o corpo esquentar.
— Ei, vocês são as meninas do vídeo — alguém fala.
Algumas garotas se aproximam de nós e pedem para tirar fotos. Acho isso muito estranho, pois não me acho tão especial para isso, mas não recuso o pedido.
— Nós amamos o que vocês fizeram, foram tão corajosas — uma diz.
, eu amo o seu canal, os assuntos que você fala são tão importantes, largo tudo e vou ver o seu vídeo quando aparece notificação.
— Nossa, obrigada pelo carinho, isso me faz querer postar cada vez mais, me deixa muito feliz.
— Já te vejo como a youtuber mais famosa do Brasil.
— Podia até lançar um livro!
— Ah, não, vamos ficar só com os vídeos mesmo, a escrita não é um dos meus talentos… Mas conheço uma pessoa que escreve muito bem. Ainda não entendo como ela não mostra o seu talento para o mundo.
— Quem? — as meninas perguntam juntas.
— Isso é assunto para outra história — pisco.
Elas se despedem e eu me viro para as meninas, percebendo que Rafa e não estavam ali.
— Cheia de fãs, hein? Muito famosinha essa minha amiga — Nic diz.
— Como se essas fãs não fossem de vocês também, né? O sucesso aqui é compartilhado, nada disso aconteceria sem vocês — respondo. — Mudando de assunto, cadê os meninos?
— O Rafa queria ir à barraca da pescaria, acredita? Viu um chapéu lá que quer, parece que tem cinco anos aquele menino.
— E foi isso que te atraiu nele, Nic — Pati comenta.
— Preciso da ajuda de vocês — solto.
— Com o quê? — questiona.
— Para dar meu primeiro beijo — digo, mordendo o lábio.
Elas dão gritinhos de comemoração e eu fico vermelha de vergonha, todos olham para nós e eu quase me arrependo de pedir ajuda.
— Gente, foco — peço. — Preciso de ajuda.
— Certo, o que você precisa? Olha, é fácil beijar, sabe, é só ficar calma. Como o tem genes parecidos com o da Pati, aposto que ele beija bem também, pensando bem, esses meninos nerds sempre tem umas pegadas maravilhosas…
— Carolina! — Pati repreende a namorada.
— Desculpa, tudo bem, foco. O que você precisa, ?
— Precisamos encontrar o correio elegante — respondo sorrindo.
Nossa missão não era fácil, as pessoas responsáveis pelo correio elegante ficam andando por toda a praça com cestas cheias de cartõezinhos para a pessoa escrever algo, anonimamente ou não, para alguém. Levamos uns vinte minutos para achar uma menina que abre um sorriso quando digo que quero um correio e então ela me entrega o cartão e a caneta.
Fico apreensiva, nunca tinha feito isso antes, mas achava que era uma ótima forma de fazer tudo acontecer. Mordo o lábio e usando as costas de como apoio escrevo:
“Fiz uma aposta, pode me ajudar a ganhar? Estou te esperando atrás do palco”.
Entrego para a menina e digo que está na barraca de pescaria ao lado do garoto mais caipira da festa. Ela entende as características que dizemos e segue para entregar o correio.
— Bom, vou indo — digo.
As meninas me dão cada uma um abraço e dizem para eu não ficar nervosa, que tudo vai ficar bem. Quando já estou quase indo me chama novamente.
— Acabe com esse título de não beijada.
Sorrio para ela, esse título tinha me acompanhado por tanto tempo e tinha mudado minha vida, mas agora era hora de deixar isso para trás.
— Pode deixar! — respondo.
Depois disso sigo para o local marcado, passo pelo meio das pessoas e chego atrás do palco, onde a movimentação era pouca. Respiro fundo tentando me acalmar, mas não adianta, começo a entrar em pânico.
E se eu não beijar bem?
E se eu babar o rosto do todo?
Ai, meu Deus, não dava, era melhor eu sair correndo, não iria conseguir.
Beijar é muito complexo, não importava se Sandy & Júnior falava que beijar era bom, preferia ficar sem isso. Imagina se o odeia e nunca mais olha na minha cara? E ele ainda já havia beijado outras pessoas... Definitivamente não iria acontecer.
Viro determinada para ir embora, mas ele estava chegando, parecia que vinha de uma maratona, com o rosto vermelho e suado de correr, o que me fez rir e esquecer um pouco do meu desespero.
— Mostrando sua identidade secreta, Flash? — pergunto.
— Preciso… preciso de um minuto para recuperar o fôlego.
— Você está ficando velho — balanço a cabeça. — Sempre soube que isso de homem mais rápido do mundo era mentira.
— Muito engraçadinha você, mas em minha defesa, tenta ser rápido no meio dessa multidão, quase fui esmagado.
Acabo soltando uma gargalhada, era isso que me atraia no . Ele podia não ser um homem extremamente bonito, cheio de músculos, ele tem uma beleza singular que até pode passar despercebida por alguns, mas era só você parar e olhar para ele por um segundo, ver o jeito como ele ri e fala das coisas que gosta, o modo como diz coisas nerds sobre o curso dele e como faz piada do Rafa e da Pati.
E é isso que me atrai nele, a forma como ele faz meu mundo ficar mais leve e divertido, como ele me faz sorrir e como me conforta quando preciso.
— Então, o que você andou apostando? — ele pergunta.
— Sabe como é, eu sou bem famosa por aqui.
— Sério? Não fazia ideia, estou diante de uma celebridade?
— Sim, não te falaram? Sou a incrível garota nunca beijada, parece que esse título me dá muitos holofotes, tenho certeza que vão fazer uma calçada da fama só para minha estrela.
— Uau, estou quase cego com o seu brilho — ele entra na brincadeira, me fazendo rir.
— Fizeram umas apostas por aí sobre quando eu beijaria, achei bem idiota, mas sabe, acabei entrando no bolão também.
— E que data você apostou? — ele chega mais perto, ficando na minha frente.
— Hoje — sussurro.
Ele se aproxima mais, encostando sua testa na minha.
— E eu preciso da sua ajuda para ganhar — termino de falar.
Ele me olha e por alguns segundos ficamos assim, apenas nos encarando, ele leva as mãos ao meu rosto e acaricia minhas bochechas.
— Você tem certeza? — ele pergunta, seu rosto tão próximo do meu que sinto seu hálito.
— Absoluta.
Assim, ele vai aproximando seu rosto como se fosse em câmera lenta, até que acontece.
Seus lábios encostam nos meus e eu fecho os olhos.
Ficamos alguns segundos assim, apenas sentindo a maciez dos nossos lábios, até que a boca de pede passagem, que eu concedo com muito prazer.
Sei que a maioria das pessoas dizem que os primeiros beijos foram desastrosos, mas não consigo sentir isso nesse momento.
Beijar era como experimentar do melhor doce do mundo: você não quer parar de ter esse gosto em sua boca.
Levo minhas mãos ao seu cabelo e nosso beijo que até então era lento, fica urgente, nossas bocas se misturando, se conhecendo, se amando.
Só interrompemos o momento porque nos assustamos com o barulho dos fogos de artifício que são soltos no céu, fazendo aquele show lindo de luzes. Acabamos rindo e ficamos ali, abraçados, olhando o colorido no céu.
— Olha pro céu, meu amor — começa a cantar a música junto com a banda.
— Vê como ele está lindo. Olha praquele balão multicor, que lá no céu vai sumindo — também canto.
— Foi numa noite, igual a esta, que tu me deste o teu coração…
Nós rimos e nos beijamos novamente e era como se tudo parasse naquele momento e só tivéssemos nós dois.
Havia demorado 22 anos para eu ter beijado, mas eu não me arrependia nem um pouco de ter esperado porque foi no meu tempo, com um garoto que me respeita e que me faz sentir a mulher mais maravilhosa do mundo.
Por isso, tudo valeu a pena.
Depois disso nós fomos de mãos dadas procurar nossos amigos e curtir o resto da festa, com mais danças, bebidas, comidas e beijos.
Muitos beijos.



Vídeo #11: Ao Infinito E Além


Câmera: on

*Bastidores: imagem branco e preto*

— Tenho uma música perfeita para esse momento — Nic diz, pegando o celular e colocando uma música para tocar. — Era uma vez, um lugarzinho no meio do nada… — ela começa a cantar.
— Com sabor de chocolate e cheiro de terra molhada… — Rafa continua.
— Era uma vez, a riqueza contra a simplicidade… — Pati continua.
— Uma mostrando pra outra, quem dava mais felicidade — Caroles continua.
— Pra gente ser feliz, tem que cultivar as nossas amizades, os amigos de verdade, pra gente ser feliz… — canta.
— Tem que mergulhar na própria fantasia, na nossa liberdade – continua.
— Uma história de amor de aventura e de magia, só tem a ver, quem já foi criança um dia — finalizo.

*abertura fofinha do canal*

— Olá, terráqueos, já viram que o vídeo de hoje tem muita gente linda, não é? Não podia fazer esse vídeo sem esse bonde maravilhoso, pois foi por conta deles que esse canal se tornou esse lugar de amor e carinho. Sem o apoio deles e suas participações isso aqui não seria nada e, bom, não teríamos chegado a marca de um milhão de inscritos.
O pessoal grita e bate palmas comemorando.
— É isso aí — continuo. — Chegamos a um milhão e eu não tenho palavras para agradecer a todos esse amor que vocês vêm me dando, seja por aqui ou nas redes sociais e até mesmo na rua quando me encontram. É surreal, gente, muito surreal. E eu só tenho a agradecer e dizer que a minha vida ficou muito melhor com a participação de vocês. Mas eu pensei que sozinha não poderia agradecer por isso, então como essas pessoas lindas fizeram parte dessa história, precisam fazer isso também.
Olho para eles, meus amigos, as pessoas que mudaram minha vida e tornam tudo melhor.
— Eu quero agradecer a cada fã lindo meu que vem deixando mensagens fofas nas minhas redes sociais dizendo como sou lindo e maravilhoso e pedindo para eu ensinar a dançar o quadradinho — Rafa diz, mandando um beijo para a câmera.
— Eu quero agradecer as mensagens de apoio e de empoderamento que venho recebido. Vocês dizem que sou forte, mas isso só acontece porque estamos juntos — Nic fala.
— Vocês mal me conhecem, mas já me mandaram tanto carinho, obrigada por isso e me aceitarem junto com esse grupo maravilhoso — Caroles diz.
— Eu quero agradecer por todos vocês que me chamam de rainha e que me acham tão incrível, não me acho tudo isso, mas fico muito feliz por inspirar tantas pessoas — Pati agradece.
— Eu quero agradecer por cada pessoa que diz que sou fofo, lindo e tudo de bom, eu sei disso. Brincando, mas obrigada por cada comentário legal e por torcerem para eu e a ficarmos juntos, finalmente aconteceu, pessoal — diz, sorrindo.
— Bom, acho que a única coisa que posso agradecer é por vocês terem me dado uma segunda chance, por terem me perdoado. Sei que no começo eu não fui uma boa pessoa, que cometi erros, mas obrigada por ter me permitido mudar e poder estar aqui junto de vocês. Tem sido momentos difíceis, mas ajuda ter o apoio de tantas pessoas. Obrigada de coração e eu juro que estou tentando ser uma pessoa melhor, ainda tenho que perdoar a mim mesma, mas esse é um caminho longo — termina.
— E eu só tenho a agradecer por vocês estarem ao meu lado por tanto tempo, por verem minha mudança, meus novos amigos, as confusões que vivi, as lutas que participei e os momentos engraçados que foram muitos. Nada disso seria do mesmo jeito sem os comentários de vocês em cada vídeo. É louco o quanto vivemos juntos nesses meses, tenho certeza que se você voltar aí, naquele primeiro vídeo sobre o apocalipse vai ver o quanto tudo mudou — digo, tentando segurar as lágrimas.
Lembro como tudo começou: da festa, da briga com a , das caminhadas ao lado do , de conhecer o Rafa, de me aproximar de Pati, do grupo com as meninas. Os últimos meses tinham sido uma loucura, com muito altos e baixos.
— Nosso apocalipse terminou. – continuo. — O monstro está bem preso e a gente agora tem que desbravar esse mundo lindo, conhecendo novas histórias, tendo novos sonhos. Espero que vocês continuem nos acompanhando, deixando muito amor e lutando, seja qual for à causa que você defende. Espero de coração que todos esses vídeos tenham trazido mais conhecimento para vocês e tocado seus corações de alguma forma. Seguimos lutando daqui e esperamos que vocês sigam lutando daí, amamos vocês.
— AO INFINITO E ALÉM! — falamos todos juntos.

Corte: imagem preto e branco

— Esse momento merece uma comemoração à altura – Rafa diz.
Ele e se viram de costa e balançam a bunda, fazendo um quadradinho. Todas nós gritamos rindo, sem acreditar nisso.
Eles terminam, se viram e batem os punhos. Não consigo parar de rir.
E esses eram meus amigos.
Esse é meu bonde.

Câmera: off





Fim!



Nota da autora: NFB chegou ao fim e eu só tenho que agradecer por todas vocês que leram, amaram e comentaram. Todas vocês que me fizeram chorar com textos falando de como a história foi importante, de como a pp as representou, de como começaram a ver as coisas de forma diferente. Obrigada por tudo, pessoal, nada disso seria possível sem vocês. E oh, NFB tá chegando ao fim, mas logo NFA entra por aqui, contando a história da melhor amiga da pp, espero ver vocês por lá também. Muitos beijos.




Nota da beta: Laris, meus parabéns pela finalização desse trabalho maravilhoso e empoderador! Que final incrível, eu não imaginei melhor momento para acontecer esse primeiro beijo do que na festa de São João, fico muito feliz com o desfecho da história, mas triste porque não vou ver um aviso seu no meu Messenger me falando que mandou capítulo novo hahaha! Coisa mais lindinha da Naty hahaha, te adoro muitão e muito sucesso com suas história, és merecedora! <3
Ps: Ah, aguardo NFA logo rs.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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