Capítulo único
Já me falaram que na vida só se ama uma vez, verdadeiramente e profundamente, ou que é impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Isso é mentira. Eu vivi muitos amores, tão profundos e verdadeiros quanto o outro, intensos e reais. E posso dizer que amei ela com a mesma força e dedicação que amei as outras pessoas que passaram pela minha vida.
Se, por um segundo, eu fechar meus olhos, ainda consigo ver ela com extrema perfeição. Seus cabelos castanhos compridos, os óculos que pousavam sobre o seu nariz, lhe dando a confirmação de que aquele acessório era um charme a mais na sua beleza. O sorriso tímido e fechadinho que ela dava, e o brilho da inteligência que pairava em seus olhos castanhos escuros.
Eu sabia que com a idade em que me encontrava, eu já não deveria me lembrar tão bem assim dela, mas, sim, eu ainda me lembrava de como era. Até mesmo do som suave e doce que era a sua voz.
E me lembrar do dia em que nos conhecemos, era uma memória que visitei muito nesses últimos quarenta anos, como se fosse a minha melhor memória, mesmo eu sabendo que tinha muitas outras. Contudo, às vezes, revivê-las me trás algumas lágrimas nos olhos, porque, mesmo que nunca tenhamos ficado juntas, o que vivemos foi lindo.
Lembro como se fosse agora — a sala branca demais, o cheiro forte de antisséptico, e o praguejando por ter tropeçado feito um idiota na saída da festa. Eu ainda sentia o calor da bebida queimando levemente na garganta, o sorriso que saia natural em meus lábios, a leveza do meu corpo, e talvez por isso, tudo tenha ficado gravado com tanta nitidez.
Foi ali, na sala de pré consulta, que eu vi pela primeira vez.
Ela entrou na sala com o jaleco levemente amarrotado, o cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão que misturava cansaço com gentileza. Eu deveria estar preocupada com o corte na testa do , mas, sinceramente, todo o resto saiu de foco naquele instante.
Meus olhos desceram por ela, e antes mesmo que eu falasse qualquer coisa, senti cutucar meu braço, e com esforço, olhei para ele.
Meu sorriso se ampliou ao ver nos olhos do meu amigo, tudo aquilo que eu estava pensando. Aquela médica tinha tudo que eu achava de mais lindo em mulheres.
Segurei na mão de quando voltei a olhar para ela, arrumando minha postura e tentando passar sobriedade para ela, embora não me importasse de fato que ela visse que eu estava “alegrinha”.
Ela era mais baixa que eu, cabelos castanhos e, mesmo preso, conseguia saber que eram compridos. Olhos focados, que carregavam mistérios por trás das lentes do seu óculos de armação preta, e um corpo real, com curvas e beleza natural.
— Se comporte — sussurrei para meu amigo, enquanto ainda sorria.
— Ou o quê? — ele me desafiou.
Apertei a mão dele em repreensão, porque ele sabia que não deveria me desafiar.
Eu sempre tive a fama de impulsiva, maluca, intensa e brincalhona, mas principalmente, que eu nunca negava um desafio, e não importava qual fosse. Porém, antes que eu desse uma resposta a altura ao meu amigo, ouvi a voz quase angelical da doutora.
— Boa noite, senhor — ela manteve seus olhos no prontuário que estava em suas mãos, e com isso, ela não viu minha cara de boba por ter gostado demais da voz dela. — Vejo aqui que você caiu e bateu a cabeça. Está sentindo mais alguma outra coisa, além da dor na região do corte?
Com uma graça de encantar, ela ergueu seus olhos para encarar , e então os desviou para mim, me dando um pequeno sorriso fechado.
— Estou bem, doutora… Só caí mesmo. — respondeu com um sorrisinho de canto, tentando parecer mais digno do que estava na hora do tombo. — Mas minha amiga aqui fez questão de me trazer como se eu tivesse perdido um braço.
— Um corte na cabeça sempre merece atenção. — ela disse com serenidade, enquanto colocava o prontuário de lado e calçava as luvas. — Teve algum apagão? Náusea? Tontura?
— Só o ego ferido, mas isso é normal quando se tropeça nos degraus de uma escada na frente de cinquenta pessoas. — ele resmungou, e eu tentei segurar a risada, porém ela escapou um pouco abafada, mas audível.
A doutora esboçou um sorrisinho de canto, que não passou despercebido por mim.
— Bom, então vamos cuidar disso. É um corte superficial, vai precisar de alguns pontos.
Ela começou a organizar o material para a sutura, com movimentos ágeis e firmes. Meus olhos estavam presos nela, presos em cada gesto, desde o modo como ela segurava a pinça até como franzia levemente a testa ao se concentrar. , é claro, percebeu.
— Você pretende parar de babar pela médica ainda hoje? — murmurou, baixinho, virando o rosto na minha direção.
— ! — murmurei de volta, entre dentes, olhando rápido para ver se a doutora havia escutado.
Ela ergueu os olhos por um instante, como se tivesse ouvido algo, mas não disse nada. Então, soltei a mão do meu amigo, deixando que esperasse sozinho, enquanto eu dava alguns passos até a médica.
Eu queria saber mais dela, mas de um jeito que não assustasse ela, então tentei parecer casual.
— Faz plantão a noite toda? — perguntei, parando próximo a ela, e no instante que puxei meu ar para aguardar sua resposta, soube que talvez não teria mais volta.
Ela tinha um cheiro doce. Era um cheiro familiar, mas ao mesmo tempo, era novo, porque havia um toque de baunilha junto ao cheiro dela, tornando único para mim.
Eu puxei o ar mais uma vez, apenas para ter a certeza que eu me lembraria do perfume dela para sempre.
Após ouvir minha pergunta, ela me olhou rapidamente e assentiu, mantendo a concentração nos materiais que organizava.
— Até às seis da manhã. — respondeu com naturalidade, depois acrescentou, sem olhar para mim: — E você? Também costuma cuidar de amigos bêbados que tropeçam em escadas?
deu uma risadinha debochada, e eu me virei pra ele, revirando meus olhos com um sorriso.
— Só quando eles merecem... ou quando eu tô bêbada o suficiente pra achar que sou uma ótima enfermeira — falei em tom de brincadeira, mas com verdade por trás das palavras.
— Ela tentou fazer um curativo com guardanapo de bar. — completou, me entregando sem dó. — Claro, isso quando ela conseguiu parar de rir da minha desgraça.
A médica pareceu gostar da nossa interação, e me pegando de surpresa, soltou uma risada contida, e pela primeira vez, seus olhos pousaram mais demoradamente em mim.
Dei de ombros para a fala do meu amigo, sabendo que era verdade as suas palavras, e meu sorriso só aumentou em diversão.
— É... definitivamente foi melhor ter trazido ele para o hospital — ela comentou, pegando a bandeja com as coisas que iria usar e foi até .
Parecendo um ímã, eu fui atrás dela, parando do outro lado da maca, onde meu amigo estava, voltando a segurar sua mão.
— Viu, eu sempre estou certa — estufei o peito para falar para ele, claramente, falhando no quesito modéstia.
— Claro. Você sempre está certa — ele devolveu, mas com deboche no seu tom.
Eu poderia continuar provocando o — nossa especialidade —, mas fiz uma escolha melhor. Fiquei em silêncio, observando-a.
Ela estava calma. Precisa. E havia uma doçura serena em cada gesto seu, como se não fosse só uma médica, mas alguém que amava profundamente estar ali. Em seu olhar havia o brilho de paixão pela profissão, o que me dava a certeza que ela amava o que estava fazendo, quase como se cuidar de pessoas tivesse sido o sonho dela a vida inteira. Tinha um tipo de paixão que não se aprende, mas, sim, que se nasce, e isso transbordava dela. E aquilo me atingiu em cheio, porque ela conseguia ficar ainda mais linda.
Talvez tenha sido o álcool, talvez a exaustão pós-festa... ou talvez fosse ela mesma. Mas, por um instante, tudo pareceu desacelerar. falava algo, mas eu só via o brilho da luz da sala refletido nos óculos dela, o movimento cuidadoso das mãos, a concentração firme em seu rosto.
Ela terminou os pontos, deu orientações a com a mesma delicadeza de sempre, e logo depois, uma enfermeira veio avisar que podíamos ser liberados.
agradeceu com educação, pegando o papel do seu atendimento e se virou para mim.
— Vamos?
Assenti, mas por dentro, alguma coisa hesitou. A gente saiu do consultório, passou pela recepção, e nos sentamos do lado de fora para esperar o Uber. falava qualquer coisa sobre comida, e eu…
Eu só pensava nela.
Peguei o papel das mãos dele, vendo ali o nome da médica. .
O nome combinava com ela.
Quando o relógio marcou 5h56, me levantei em um pulo.
— Vou pegar uma água — disse, mentindo descaradamente, e me olhou de lado.
— Claro que vai.
Ignorei o tom debochado e voltei discretamente para o corredor dos consultórios, tentando parecer natural enquanto fingia examinar os quadros na parede.
Às 6h02, a porta se abriu, e ela apareceu.
Sem jaleco, de mochila no ombro, cabelo um pouco mais solto. Parecia exausta. E linda.
— ? — chamei, antes que meu bom senso me impedisse.
Ela se virou, levemente surpresa.
— Você é a amiga do… , não é?
Sorri, meio sem graça, com as mãos nos bolsos.
— … eu sou a , e, sim, a amiga do — falei com um sorriso meio nervoso nos lábios. — Bom... eu pensei que talvez fosse bom ter o seu número, sabe? Para o caso do sentir alguma coisa diferente. Náusea, visão turva... ou alguma daquelas coisas todas que você falou para ele antes de nos liberar — encolhi os ombros, consciente do quão ridícula minha desculpa soava e provavelmente falando tão afobada, que seria um milagre ela ter me entendido.
Ela arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo.
— E vocês são daqui?
— Não. Estamos passando uns dias em São Paulo. Férias. Viemos do sul de Minas — completei, como se isso justificasse tudo.
Ela pareceu digerir a informação por um segundo, e então desbloqueou o celular que estava em sua mão.
— Então tá. Me passa seu número que eu te mando uma mensagem. Então, se o tiver qualquer “sintoma preocupante”, você pode me avisar.
O sorriso no rosto dela era sutil, fechado, mas não deixava dúvida: ela sabia que não era pelo .
E eu sabia que ela sabia.
Passei meu número para ela, com um sorriso maior que o do gato da Alice no país das maravilhas, e antes que eu falasse qualquer merda que estivesse passando pela minha cabeça, agradeci e saí, usando todas minhas forças pra andar em linha reta.
E foi depois disso que tudo começou.
Quando ela me mandou a mensagem para que eu salvasse o seu número, vi a oportunidade de iniciar uma conversa, e posso dizer com clareza que ter iniciado uma conversa com ela foi a melhor coisa da minha vida.
Quanto mais os dias se passavam, mais eu me via encantada, ansiosa pela notificação de uma nova mensagem dela. Eu já sabia muitas coisas dela, e isso me empurrava cada vez mais para um sentimento que, de alguma forma, eu já sabia que sentia, mas ainda me negava um pouco a aceitar. Talvez fosse a distância. Talvez fosse o fato de que eu vim embora após meus dias de férias terem acabado, sem conseguir encontrar com ela novamente. Talvez fosse pelo fato de que ela tinha sentimentos por um médico que trabalhava com ela no hospital. Ou pudesse ser o medo.
O fato de nunca dar certo nossos encontros, contribuia gratuitamente para esse medo. nunca podia vir até mim, porque sempre tinha um plantão ou alguma emergência médica que a fazia dobrar seus turnos. Eu facilmente iria até ela, mas não adiantaria de nada se ela estivesse dentro do hospital o tempo inteiro.
Eu conhecia muito bem as minhas inseguranças, e por mais que eu tentasse controlar elas, no fim eu acabava sendo controlada. E com isso, conheci as inseguranças dela também, entre vários assuntos aleatórios.
Eu tinha notado nas primeiras mensagens que eu e ela trocamos, que as pessoas a volta dela haviam quebrado tão profundamente sua autoestima, que tudo que eu falava com sinceridade e verdade, não conseguia absorver. Não conseguia ver a mulher incrível que era, ou como era dona de uma beleza que… nossa, me deixava suspirando atrás de uma tela de celular.
E com isso, saber que ela ouvia de pessoas que deveriam amar ela por quem era, e não por sua aparência, me despertava a raiva. Uma vontade, quase louca, de proteger ela de todos. Mas ao invés disso, por estar longe, me dediquei a lhe falar, tentar mostrar a distância mesmo, o quão linda e perfeita ela era.
Cheguei a acreditar que nem mesmo todas as palavras gentis ou verdadeiras do mundo pudessem fazê-la entender e ver o que eu via nela, que desejei, fortemente, atravessar aquela tela, pegar seu rosto entre as mãos e fazê-la olhar para si mesma com os meus olhos. Queria que ela soubesse — de verdade, do fundo da alma — que era amável, linda e única.
Queria que ela soubesse que existia alguém, mesmo de longe, que enxergava nela tudo o que ela passou anos ouvindo o contrário. Que ela não precisava tentar mudar para ser amada, que o peso e qualquer outra bobeira que ela ouviu, não definiram quem a era de verdade, e se as pessoas a sua volta não viam isso, ela apenas estava cercada pelas pessoas erradas.
Mas às vezes o amor esbarra em silêncio. Em medos. Em histórias que vieram antes da nossa. E eu? Eu continuei ali, tentando ser presença mesmo na ausência, tentando mostrar com palavras tudo aquilo que o toque negado não me deixava entregar.
Um mês virou dois e de dois, virou três.
e eu nos falávamos todos os dias, e quando isso não acontecia, me sentia perdida, como se faltasse uma parte de mim.
Do desejo transgrediu a paixão, e da paixão para o amor. Sem esforço. E eu me vi louca com isso.
Era possível amar alguém tão forte assim? Era possível ser tão intenso mesmo a distância? Talvez… ou talvez eu estivesse mesmo enlouquecido, porque não era normal querer uma pessoa 24h do meu dia, como eu queria ela.
Mas era isso. Eu queria ela nas pequenas coisas: quando ouvia uma música nova, quando via alguma besteira na rua, quando não conseguia dormir. Pensava nela quando abria os olhos. E seguia pensando até o último minuto antes de fechá-los.
E por mais que tudo parecesse um absurdo — amar assim, sem encostar —, nada soava mais real do que o que eu sentia por ela.
Às vezes eu tinha medo de sufocar. De sufocar ela com o que eu sentia. Outras vezes, morria de medo de não demonstrar o suficiente. De que ela duvidasse, por um segundo que fosse, de que era especial para mim.
Mas o problema é que amar também é se arriscar. E eu sabia que em algum momento, por menor que fosse a chance, eu ia acabar me machucando.
Mesmo assim... continuei.
Foi incontável as vezes que tive ciúmes dela. Ela sempre tão linda, trabalhando todos os dias ao lado de um homem que eu havia apelidado de bonitão idiota, sem ela saber, é claro.
E por mais que eu confiasse nela, meu peito apertava cada vez que ela mencionava ele, mesmo que fosse só sobre um plantão puxado ou alguma emergência que atenderam juntos.
Talvez, porque no fundo eu sabia que ele estava perto. Perto o bastante para ouvir sua risada ao vivo, para ver seus olhos brilhando depois de um elogio sincero, para tocar o braço dela em um gesto qualquer.
E eu estava a quilômetros, tentando marcar presença entre uma notificação e outra, enquanto ele tinha o privilégio de vê-la todos os dias.
E era aí que vinha o medo. Medo de não bastar para ela.
Como um raio de sol após um dia chuvoso, meu celular acendeu a tela, mostrando que me ligava, e só de ver a foto dele, tive vontade de chorar.
— Preciso de você — falei assim que atendi, nem dando a chance de ouvir seu comprimento costumeiro. —, do seu abraço e de ouvir você me falando que tudo vai ficar bem.
Minha voz saiu chorosa, e eu não precisei falar mais nada para saber sobre o que e quem eu falava.
— O que ela fez dessa vez? — perguntou todo protetor. — Vem aqui, vamos ficar juntinhos e você me conta tudo.
Suspirei com o convite dele, totalmente grata por ter ele em minha vida, por ter alguém que me ouvia e que sabia da minha vida, talvez mais que eu mesma.
Não prolonguei a conversa, desligando rápido e me arrumando para ficar com meu amigo.
Quando eu não podia estar com ele e dividir tudo o que estava acontecendo, eu passei a procurar distrações nos finais de semana. Usava a bebida e as risadas fáceis, para esconder o caos que eu estava, ou a falta que eu sentia dela. Às vezes ela parava de falar comigo na sexta, e então eu já deixava alguma coisa programada para começar na sexta e terminar só no domingo. Quanto mais pessoas à minha volta, quanto mais shots de vodka eu virasse em uma noite, mais distante minha mente ficava da ausência dela.
Mas algumas vezes eu falhei e procurei por ela no meio das festas, mandando mensagens bêbadas que eu nunca lembrava no dia seguinte. O pior — ou melhor, não sei — é que ela sempre conversou comigo, não importava o quão bêbada eu estivesse, ela ainda me respondia. E eu sabia disso, porque ela me contava no dia seguinte.
Quando parei na frente da casa do , ele já estava me esperando com os braços abertos, e eu corri para ele, me sentindo segura por um segundo, como se meu coração não tivesse sido roubado pela médica que morava a quilômetros de mim.
Entrei na casa do com o rosto ainda úmido, envolta ao abraço quente dele, com meus olhos ardidamente cansados e o coração ainda mais. Larguei minha bolsa num canto qualquer e fui direto pro sofá, onde me joguei como se o mundo tivesse terminado.
Ele veio atrás de mim com uma coberta fina, uma garrafa de vinho e dois copos. Sentou do meu lado, me cobriu e me entregou um copo sem dizer nada.
— Obrigada — murmurei, tomando um gole pequeno.
— Vai querer chorar primeiro, beber ou falar mal dela?
Soltei uma risada baixa, meio engasgada por causa das lágrimas.
— Não quero falar mal dela e você sabe disso — ele rolou seus olhos, falsamente entediado e sorriu pequeno pra mim. — Mas podemos falar mal do bonitão idiota — sugeri, imitando o gesto do e bebendo mais um gole do vinho.
— Você que manda. Aqui é o seu spa do coração partido: temos ranço personalizado, playlist triste, álcool e até brigadeiro de micro-ondas.
— Você me ama mesmo, né?
— Às vezes. Quando você não me liga bêbada às três da manhã dizendo que vai casar com uma médica que mal viu duas vezes na vida.
— Foram mais de duas vezes — rebati, emburrada. —, se você contar videochamadas.
Ele me olhou de canto, um sorrisinho no rosto.
— Ah, perdão. Três, então.
Suspirei, me encostando no ombro dele.
— Eu estou cansada, . De sentir tanto por alguém que parece fora da minha realidade. Às vezes ela parece tão dentro disso quanto eu… e no dia seguinte, ela some. Fica fria. Me responde com uma frase seca, como se a gente tivesse voltado pro primeiro “oi” — desabafei, virando o resto do vinho. — E aí, quando voltamos a nós falar, entre uma conversa e outra, o médico surge no meio.
— Talvez ela só esteja confusa também. — falou compreensível com a situação, enchendo meu copo novamente. — O que ela falou dele, dessa vez?
— Eu sei. E é por isso que eu fico. Porque eu entendo. Só que eu tô começando a não saber mais se ela sente mesmo o que diz sentir — fechei meus olhos e suspirei, sentindo uma lágrima teimosa cair. — Ela não está muito bem, sabe?! Ainda gripada e se recusando a tirar uns dias do hospital para se cuidar. Mas dessa vez foi eu quem mencionou ele, dizendo que ela deveria ir falar com ele sobre essa gripe que já está durando muito mais do que deveria. Na hora foi espontâneo falar isso, mas depois, me arrependi, porque estava mandando ela direto para ele.
ficou em silêncio por alguns segundos, o braço envolvendo meus ombros como quem me mantinha colada ao mundo.
— Talvez ela só não saiba ainda o teor dos próprios sentimentos. E isso nenhum de nós tem como saber, só ela mesma — respondeu. — Mas o que eu sei é que você merece alguém que te olhe como você olha pra ela. Que te escolha. Que não suma, não confunda, não te faça duvidar do que sentem — eu sorri, com lágrimas que tentava segurar, mas que caiam sem a minha permissão. — E se ela escolher o idiota bonitão, eu mesmo vou atrás dela, e dou um fim nela.
— Você não vai dar fim em ninguém — repreendi sua fala, secando meu rosto com a mão disponível, bebendo mais do vinho em seguida. — e pela última vez, é bonitão idiota e não o contrário.
— Tem razão — ele concordou comigo, bebendo mais também. — Mas a ordem não muda o fato de que ele é idiota e bonito. E mais inteligente que você.
Soltei uma risada curta, com lágrimas nos olhos. me abraçou mais forte.
— Isso é pra me animar ou me fazer chorar mais? Porque eu sei que ele é muito mais coisas que eu.
— Pra te animar, óbvio — seu tom era de brincadeira, mas no fundo eu sabia que aquele médico era melhor do que eu. — Eu tô aqui, tá? Quando o amor pesar demais pra carregar sozinha, me chama. Eu trago brigadeiro e tequila.
— Isso é uma péssima combinação.
— Eu nunca disse que era um bom terapeuta.
— Eu não preciso de terapia, preciso encher a cara.
— Já falei, amiga, é você quem manda — sorriu, se levantando e me estendendo a mão, me ajudando a levantar. — Vamos festejar!
E foi ali, entre copos de vinhos, sorrisos, brincadeiras e danças bobas com , que eu consegui aliviar um pouco do peso que estava em meu peito.
No entanto, foi nesse dia que percebi que se afastava de mim quando se sentia insegura, confusa e talvez até com medo do que sentia. Ela parecia dividida entre mim e o bonitão idiota, então, como uma forma de se proteger dos seus próprios sentimentos, ela se fechava. Se calava e sumia. Mas isso não diminuía nem um pouco o que eu sentia por ela.
E cheguei, algumas vezes, quase a implorar para ela não sumir. Mesmo que doesse como um inferno ela ter sentimentos por outro, eu estava disposta a aceitar, porque para mim, ter um pouco dela era melhor do que não ter nada.
Já havia um bom tempo que eu não olhava para outras pessoas. Ninguém parecia interessante o bastante para me atrair. Não conseguia ver beleza, ou sentir desejo em outros, porque ter em minha vida, era o bastante. Ela era dona do meu desejo, o motivo do meu tesão, a razão pela qual eu ficava excitada. Então não havia espaço para nenhuma outra pessoa na minha vida. Eu queria, apenas, continuar sonhando com ela um futuro juntas, e isso era o suficiente para mim. As brincadeiras e sorrisos que ela conseguia arrancar de mim, era o combustível, a força que eu tinha para continuar sonhando, esperando e desejando o dia em que ficaríamos juntas.
E tudo estava indo bem, depois que desabafei com . Claro, havíamos ficado uns dias sem nos falarmos novamente, porque estava confusa, falando que não tinha certeza das coisas, que sua cabeça estava uma bagunça e que ela precisava de tempo. Cogitei me afastar dela, porque eu não queria que ela ficasse assim, mas ela me pediu pra ficar… e eu fiquei. Depois de muita insistência da minha parte, consegui fazer ela me contar o que estava acontecendo. E minha vontade de deixar ela ir só aumentou. Mas, ao mesmo tempo, eu era uma filha da puta egoísta — e não consegui fazer isso.
O clima entre nós estava bom. Conversamos sobre o futuro dela no hospital, eu declarei meu total apoio aos seus planos, incentivando ela de todo o meu coração. Ela estava feliz, animada, falando de um sonho, que mesmo não vendo, sabia que fazia seus olhos castanhos brilharem, e eu sonhei com ela. Fiquei feliz pelas conquistas dela e dei meu ombro quando ela se sentiu presa, sufocada e diminuída por pessoas à sua volta. Eu queria ter feito mais do que só ouvir, ou apoiar a distância… mas não havia como.
E então, como um vento traiçoeiro cheio de propósito de destruição, ela sumiu.
Tudo parecia se encaminhar para ser um dia divertido. Um encontro com amigos, em um bar legal. Muitas pessoas que eu conhecia, e muitos rostos novos. Quando passei pela porta, avistei de primeira o meu grupo de amigos, todos sentados em uma mesa redonda. Garrafas de cerveja, vodka e água, estavam espalhados pela superfície plana, em meio a copos usados e meio cheios.
O lugar estava mesmo movimentado, e a cada passo que dava em direção a todos, fui tomando mais atenção a quem estava ali. Todos conhecidos, amigos de anos, mas havia um casal diferente ao lado de uma das minhas amigas.
A princípio, achei ela parecida com a , e foi automático mandar uma uma mensagem a ela.
“Tem uma garota aqui que se parece com você”
E quando cheguei na mesa e cumprimentei todo mundo, descobri que o casal eram amigos novos da minha amiga Júlia.
Me acomodei entre meus amigos, recebendo abraços apertados, risadas barulhentas e perguntas demais de uma vez só. Júlia já empurrou um copo na minha direção, e eu aceitei sem pensar muito. Hoje, eu não queria pensar. Só sentir.
A música era boa, animada, e pela primeira vez em dias, senti meu corpo mais leve, mesmo que uma certa médica ainda ocupasse espaço em minha mente. Estava rodeada de pessoas que me amavam, que me conheciam, que não esperavam nada de mim além de um sorriso sincero e uma boa companhia.
— Vamos virar uns shots? — Júlia gritou no meu ouvido, tentando sobressair o barulho do ambiente.
— Vamos! — respondi, dando uma golada no drink que ela tinha me entregado. Era forte. E doce. Como uma tentativa de esquecer.
Olhei ela chamando mais pessoas para participar, e como sempre, olhei meu celular, vendo uma mensagem de . Era uma única palavra, fria e sem emoção: “onde?”
Senti algo errado assim que li, mas respondi o que ela queria saber, guardando o celular quando Júlia voltou com a galera e mais uma garrafa de vodka.
— Precisamos registrar esse momento — eu falei, erguendo meu shot e virando rápido, sentindo a familiaridade do álcool queimar a minha garganta. — Deixa que eu gravo com meu celular — continuei, ao encher meu copinho novamente.
— Você sempre querendo registrar. O que as pessoas não pensam de você, Pam?! — Marcos riu, chegando do meu lado e passando seu braço por cima do meu ombro.
— Deixa eles pensarem o que quiserem de mim. Eu até gosto que cada pessoa me imagine de um jeito — confessei, já arrumando a câmera. — Mas a verdade é que ninguém jamais vai me conhecer… saber quem realmente eu sou.
Marcos riu e concordou comigo, se arrumando para o nosso vídeo. E foi algo rápido. Todos brindamos e bebemos, e a garota nova estava ao meu lado e fez um comentário bobo sobre já estar bêbada demais para uma próxima rodada. Eu ri e concordei com ela.
Dançamos. Rimos. Gritamos a letra de músicas antigas. Tive vontade de postar alguma coisa, mostrar que eu também estava bem, que eu também seguia, mesmo que fosse só fachada. E postei. O nosso vídeo. Não me importaria se mais uma vez fossem me chamar de bêbada.
“Meus amores.” — escrevi na legenda, sem pensar.
Virei o resto de bebida que estava em meu copo e segui para o banheiro, precisava esvaziar minha bexiga e foi quando cheguei lá que vi mais uma mensagem dela.
Uni minhas sobrancelhas no mesmo segundo em que li. Eu conhecia todos os tons das mensagens dela, e entendi de imediato o ciúmes naquelas poucas palavras.
Eu não conseguia entender como ela não via o quanto eu a amava, o quanto eu queria apenas ela na minha vida. Eu não tinha olhos para mais ninguém. Ninguém além dela importava. Então não havia motivos para ciúmes, e falei isso a ela, mandando mais uma mensagem.
Mas isso já era tarde demais. Eu olhei algumas vezes para o celular esperando ela responder, e mesmo sem ter uma resposta dela, eu soube.
Ela viu.
Antes que eu saísse do banheiro, eu me olhei no espelho.
Eu estava ali, pronta para viver o momento, sorrir e beber… ser feliz sabendo quem eu era de verdade.
Saí toda decidida daquele banheiro. Cada passo certo em direção aos meus amigos. Eu enchi meu copo com vodka e gelo, e bebi… bebi, brinquei, sorri e aproveitei. Mas como um ciclo vicioso, meus dedos digitaram uma mensagem para ela, mesmo sendo contraditória a minhas próprias palavras, eu sentia que precisava fazer isso.
“Você não vai mais me responder?”
Mas quando enviei e um tempo depois não tive resposta alguma, eu soube que dessa vez não teria volta, e tudo que eu fiz foi desistir, me entregar para a sensação da perda. Me entreguei para o abismo que me engolia de dentro para fora, como se estivesse me corroendo sem dó. Isso doía. E muito.
Minha cabeça não parou um segundo, revivendo todas as mensagens trocadas, todas as nossas conversas, quase como se eu estivesse me despedindo contra a minha própria vontade. Eu só queria ir embora e parar de sorrir. Parar de ser aquela mulher boa que sempre tinha palavras positivas para ajudar, parar de fazer brincadeiras, parar de existir. Eu não queria mais ser eu. Não nesse momento.
— O que eu fiz de errado? — Minha voz falhou na pequena frase, e segurei as lágrimas com extrema força. — Estávamos bem… porra. Eu não sou boa o bastante pra ela… eu não sou…
Quando finalmente cheguei em casa, caminhei em passos tortos até minha cama e me joguei nela, finalmente deixando as lágrimas cair.
E eu chorei. Chorei até pegar no sono.
Era normal amar alguém assim, ao ponto de sentir a sua ausência como se ela tivesse partido de verdade? Por que o ato simples de respirar doía tanto? O que eu poderia fazer para ser o suficiente para ela? Quando foi que se tornou o meu mundo e eu não vi?
Nos dias seguintes que se passaram com o sumiço dela, essas eram as perguntas que me fazia todos os dias antes de me levantar, ato que eu era obrigada a fazer, já que o mundo não havia parado de girar, do mesmo jeito que meu coração havia parado de bater. Então me perguntava qual era o sentido de ainda estar viva.
Eu vestia a casca da mulher alegre e seguia minha rotina. Seguia sorrindo, como se não estivesse despedaçada por dentro, mas enquanto eu sorria e brincava, por dentro eu gritava e chorava, querendo arrancar com minhas próprias mãos a dor que me corroía. Era quase como se eu desejasse me machucar, apenas para ter uma explicação para aquela dor que havia se tornado física.
Eu não tive nenhum sinal dela. Lutei a cada segundo para não ficar entrando no perfil dela nas redes sociais, e falhei em todos. Meu dedo ia sozinho até o nome dela, como se meu corpo recusasse aceitar o fim.
Perdi as contas de quantas vezes abri a minha galeria e olhei as fotos dela. Eu tinha todas que ela já havia me mandado nesses três meses, alguns prints de elogios dela para mim, que eram raros, por isso eu guardava eles. O fato dela quase não demonstrar seus sentimentos, não me incomodava, porque eu respeitava o seu jeitinho e ficava ainda mais apaixonada quando os momentos raros aconteciam.
Levei um susto quando estava vendo a foto da e meu celular começou a tocar, mudando a foto para a do .
Eu não queria atender ele. Não queria ter que falar o que estava acontecendo comigo, mas também sabia que não adiantaria fugir dele.
— O que está acontecendo? E não adianta mentir, porque você me liga todos os dias, TODOS OS DIAS, e a última vez que nós falamos foi quando te respondi seu vídeo bêbada que me mandou do banheiro do bar.
Ele nem se quer me chamou de “vida” e já foi me encurralando atrás de respostas. Fiz uma careta com o restante da sua fala.
Eu precisava parar de mandar mensagem para as pessoas quando bebia.
— E o que eu falei no vídeo? — perguntei, e mesmo que eu tentasse, não conseguia me lembrar.
Havia vezes que eu me lembrava de quase tudo, mas sempre ficava umas lacunas em branco e conversas pelo celular eram uma delas.
bufou e rolou seus olhos, mas suavizou sua expressão me dando um sorriso.
— Você só falou bobeira como sempre, e que a Júlia havia trazido uma amiga que fodeu com sua vida — revelou, e eu quis morrer ainda mais ao saber disso. — E que a não te respondia por horas. Vocês brigaram de novo para ela não ter te respondido mais?
—- Primeiro, a garota não fez nada — deixei claro, antes que ele fosse procurar a garota nas redes sociais e atacar ela. —, e segundo, eu também não fiz nada, mas pelo visto devo ter fama e aparência de uma bêbada infiel, porque tenho certeza que ela pensou que rolou alguma coisa entre a garota e eu.
— E é por isso que você anda tão triste — ele não perguntou. — Esquece ela, vida. Lembra que você é aquela que segue em frente sem olhar para trás? Lembra da Ana, da Paula, do Thiago? O que você fez?
— Quando eles demonstraram não ter mais interesse em mim, eu apenas fui embora, seguindo com a minha vida — falei a verdade, sabendo que era isso mesmo que eu sempre fazia. — Mas porque eu não consigo fazer isso com ela, amigo? Todas as vezes que brigamos, eu fui a idiota a ir atrás dela. O que ela tem de diferente das outras que me faz ser contraditória comigo mesma?
— Eu não sei, vida. Juro que não sei, mas estou cansado de ver você triste por causa das atitudes dela.
— Isso não é culpa dela…
— Para de defender ela, por favor. Ela precisa ter coragem de falar com você quando algo está errado e não te deixar sofrendo assim, ao ponto de nem querer me ligar — sua última frase foi em tom de brincadeira, para aliviar o rumo da conversa. — Quer que eu mande uma mensagem pra ela?
— Não! Isso é comigo, então não tem porque outra pessoa falar por mim. E eu não estou defendendo ela — menti descaradamente, porque eu sempre defendia ela em qualquer conversa que eu tivesse com o . — Eu queria mandar mensagem pra ela, uma última vez…
— Não! — foi a vez dele falar firme. — Você só vai se arrepender e ficar ainda mais mal se descobrir que ela já não quer mais nada com você, porque sinceramente, ela deve estar mais afim do… como vamos chamar ele dessa vez?
— Seboso de jaleco — murmurei emburrada, com um biquinho nos lábios.
— Então, ela deve estar afim do seboso de jaleco lá, já que ela vê ele todo dia e trabalha ao lado dele… só esquece ela, amiga.
— Mas se for diferente, e eu nunca saber por não ter mandado nada pra ela? Eu prefiro correr o risco, do que viver no achismo.
— Você não é burra, mas se torna uma quando o assunto é a — ele reclamou de brincadeira, e eu sorri verdadeiramente em dias.
O assunto da conversa mudou e enquanto eu ouvia o falar de coisas aleatórias, eu estava planejando meu próximo passo, e dessa vez não seria uma mensagem. Se havia mesmo escolhido o homem por quem ela tinha sentimentos, ela iria ter que falar isso olhando nos meus olhos.
Eu não contei a ninguém o que pretendia fazer, apenas pedi dois dias de folga no trabalho, trocando pelo próximo final de semana. Então eu teria quatro dias para me resolver com a mulher que dominava cem por cento da minha vida.
Tudo aconteceu muito rápido. Comprei as passagens para São Paulo, ida e volta, enquanto arrumava minha mala.
Meu coração batia tão rápido no meu peito, que eu estava com medo de ter um treco e nem conseguir ver ela. Eu desejei todos os dias poder rever ela, e agora eu estava a algumas horas dela. Isso era uma loucura? Sim, e das grandes. Mas uma parte minha estava esperançosa, acreditando que teríamos um final feliz.
As horas dentro do ônibus pareceram dias. Eu estava com o celular preso nas mãos, rolando a tela sem parar. Vi as últimas fotos da , cada uma como uma facada leve, mas certeira. Seu rosto sempre tão sério, mas tão lindo, me fazia suspirar de saudades… tudo nela me fazia querer correr até ela.
Ensaiei mil formas de começar essa conversa."Oi, me desculpe." Não, por quê pedir desculpa? Eu não tinha feito nada. "Eu vim porque te amo." Dramático demais. "A gente precisa conversar." Muito genérico. Droga, nenhuma frase parecia certa.
Abri nossa conversa, reli tudo, de novo. E então fui para as fotos. As capturas de tela, os prints dos elogios dela. Tudo ali ainda me fazia sorrir. Ainda me fazia chorar.
Foi aí que percebi um detalhe que me acertou como um tapa na cara: eu não sabia o endereço dela. Como eu vim até São Paulo sem saber onde ela morava?
A única certeza era o hospital. Era onde tudo começou. Onde ela se tornou real.
Peguei um Uber com o coração descompassado, repetindo mentalmente o nome inteiro que eu sabia de cor, como se fosse uma prece.
— Boa tarde — falei na recepção, forçando um sorriso. — Eu queria saber se a doutora está de plantão hoje.
A mulher me olhou, digitou algo no computador e depois ergueu os olhos.
— Está sim, mas ainda não bateu o ponto de saída. Você quer deixar um recado?
— Não, obrigada. Eu… posso esperar?
Ela me analisou com um olhar entre o julgamento e a curiosidade, mas deu de ombros.
— A saída dos médicos é pela lateral. Você pode esperar ali fora.
Agradeci com um aceno, e caminhei até onde ela tinha indicado. Me sentei num banco próximo à entrada lateral. O sol já começava a se esconder atrás dos prédios, e um vento gelado atravessava minha jaqueta fina. Mas eu não me mexi.
Segurei o celular com força, como se ele pudesse me proteger do que eu estava prestes a enfrentar. O coração batia tão alto que eu mal conseguia ouvir os passos das pessoas saindo. Cada rosto que surgia me fazia prender a respiração. Mas não era ela. Não ainda.
Abri nossa última conversa e reli minha última mensagem:
“Você não vai mais me responder?”
E mesmo depois de tanto tempo, ainda não tinha resposta. Mas agora… agora eu queria uma resposta olhando nos olhos dela. Nem que isso custasse o pouco que restava do meu orgulho.
Fechei os olhos por um segundo e sussurrei para mim mesma:
— Por favor, só aparece…
O céu já tingia os prédios de laranja e roxo quando ouvi o som abafado de passos pela lateral. Levantei em um sobressalto, mas havia mais de uma pessoa saindo, e meu coração apertou na dúvida.
Até que eu a vi.
surgiu entre dois médicos, a mochila caída em um ombro, os cabelos soltos e os olhos baixos. Ela andava devagar, com uma expressão que eu conhecia bem: cansaço. Mas não era só físico. Era um cansaço que eu também carregava no peito. Um cansaço de ausência.
Quando ela me viu, parou.
Literalmente parou. Os colegas continuaram caminhando, sem perceber que ela havia congelado no lugar.
Seus olhos encontraram os meus, e, por um segundo, tudo ficou em silêncio. Não havia outras vozes, não havia vento frio. Havia só ela. E eu.
— ? — a voz dela saiu fraca, quase num sussurro descrente.
Eu sorri, mesmo sentindo minha garganta queimar.
— Oi, doutora.
Ela piscou algumas vezes, como se tentasse entender se aquilo era real. Depois deu alguns passos hesitantes em minha direção.
— O que você está fazendo aqui?
— Esperando você — respondi, com simplicidade, como se fosse o ato mais natural do mundo ter cruzado um estado inteiro para estar aqui, diante dela.
Ela desviou o olhar por um segundo, os lábios entreabertos, e pude ver o tremor sutil em suas mãos.
— Achei que… achei que você não quisesse mais falar comigo.
— , fui eu quem te mandou a última mensagem — falei com calma, mesmo sentindo o meu coração bater loucamente dentro do peito. — E você não respondeu.
Ela pareceu engolir seco, os olhos marejando quase imperceptivelmente. Mesmo abatida, era linda. E mesmo triste, ela ainda era o motivo da minha vinda.
— Eu sei — disse por fim. — Mas... eu não sabia o que dizer. Eu pensei que você tinha ficado com alguém naquela noite… e me senti ridícula por ter ciúmes, por me importar tanto. E quando percebi, já tinham se passado quatro dias.
— E mesmo se tivesse acontecido algo naquela noite — falei com cuidado —, você não achou que eu merecia uma conversa?
Ela baixou os olhos, e eu me aproximei mais, devagar.
— Eu deveria ter conversado com você? Sim, deveria. Mas eu fiz tudo errado.
— E além disso, você sabe que eu prezo muito a sinceridade entre nós duas. Eu teria te falado a verdade, provavelmente através de muitos vídeos — dei de ombros, porque seria bem isso que eu teria feito.
Mas agora isso já havia passado. Eu lidei com as consequências do silêncio dela, e ela com o meu… até agora.
— Mas, saiba que não aconteceu. Não aconteceu nada. Eu não olhei para mais ninguém, Isa. Você é a única pessoa que eu vejo desde que a conheci. E mesmo com esse abismo entre a gente… eu vim aqui. Eu vim porque... eu precisava te ver.
mordeu o lábio inferior, como quem segurava tudo o que estava prestes a transbordar.
— Eu não sei o que fazer com o que eu sinto por você, .
— Então não faz nada agora — falei, estendendo minha mão. — Só vem comigo. Hoje. Me dá essa noite. E amanhã a gente conversa. Tudo bem?
Ela hesitou, mas, devagar, entrelaçou os dedos nos meus. Foi como respirar depois de muito tempo debaixo d’água.
E, naquele instante, nenhuma explicação era mais importante do que aquele toque.
Mas talvez eu estivesse adiando o inevitável. Eu sabia, bem lá no fundo eu sabia que isso soava muito mais como uma despedida do que com uma reconciliação. Mas por ora, decidi silenciar tudo à minha volta, e principalmente, tudo dentro de mim.
Eu não tinha um grande plano. Minha única vontade era ficar com ela pelo tempo que eu tivesse, mesmo que depois, eu tivesse que ver ela partir.
O caminho até o hotel onde eu havia feito a minha reserva, foi feito com um propósito simples: deixar relaxada e a vontade com minha presença.
Perguntei coisas simples para ela, me esforçando em manter uma conversa contínua no banco de trás daquele carro por aplicativo. Perguntas que eu sabia que a deixavam animada, e é claro, todas voltadas aos seus pacientes, ao seu trabalho, ao diagnóstico novo que ela descobriu de uma pessoa.
O brilho nos olhos dela, enquanto ela me explicava os detalhes, me faziam sorrir. Às vezes eu não entendia nada, mas só pelo fato de tê-la dividindo comigo algo do dia a dia dela, me deixava ainda mais apaixonada.
Me sentia embriagada em cada pequeno detalhe dela, em como tudo que vinha de me encantava. Não era um amor superficial, não era algo momentâneo ou passageiro. Era profundo, intenso e real. Era um amor que eu não conseguia controlar, e mesmo que eu pudesse, não queria ter controle algum.
Quando finalmente chegamos, vi a hesitação nós olhos dela, por trás das lentes dos seus óculos. Meu peito apertou, mas eu só queria ter ela para mim, como uma filha da puta egoísta, e por isso, ignorei qualquer coisa que não fosse ela ali.
O quarto do hotel era simples, mas tinha tudo que eu precisava: uma cama arrumada com lençois brancos e macios, uma luz suave vinda da luminária no canto, e uma janela entreaberta deixando entrar o som abafado da cidade. Eu caminhei até o criado-mudo, liguei o bluetooth do meu celular e coloquei uma música baixinha para tocar. Escolhi uma que sempre me acalmava, que parecia embalar tudo que eu não conseguia dizer.
entrou com passos silenciosos, olhando tudo como se estivesse atravessando uma lembrança. Ela parecia cansada — não só fisicamente, mas daquele cansaço que a gente sente na alma, sabe? Tirou os sapatos e foi até a poltrona perto da janela, se sentou e abraçou os joelhos, olhando para fora como se estivesse tentando se encontrar em meio às luzes da cidade.
Eu não queria pressionar. Não queria perguntar nada. Só queria ela ali. Só queria um pouco mais dela.
Me aproximei devagar, me agachei ao lado da poltrona e apoiei o queixo na perna dela, como se fosse algo costumeiro entre nós duas. Mas agora, tudo era silêncio e cuidado.
— Se essa for mesmo nossa única noite — minha voz saiu baixa, arrastada pela coragem que juntei no caminho até São Paulo — eu quero que você lembre de mim com carinho. Que mesmo quando tudo ficou confuso, eu ainda quis te amar com calma.
Ela baixou os olhos e me olhou de um jeito que apertou meu peito. Não havia resposta nos lábios dela, mas no toque leve que fez na minha bochecha, eu entendi tudo. Ela sabia. Ela sentia. Talvez só não soubesse o que fazer com tudo aquilo.
Me levantei, puxei a mão dela com delicadeza e ela veio comigo. Fomos até a cama. Sentamos lado a lado, sem pressa, sem planos.
Me encostei na cabeceira e ela deitou a cabeça no meu peito, como quem ainda buscava algum abrigo no meio da confusão. Entrelaçamos os dedos, e senti meu coração desacelerar um pouco.
A música continuava ali, baixinha. E por um instante, foi como se o mundo inteiro tivesse parado só pra que a gente pudesse respirar juntas. Em silêncio. Em paz.
E mesmo que, lá no fundo, uma parte de mim soubesse que isso tinha gosto de despedida... eu só queria aproveitar cada segundo com ela.
Enquanto a noite caía lá fora, banhando São Paulo com o seu brilho, dentro daquele quarto eu era banhada pelo calor e brilho que só tinha. Tudo foi feito com calmaria, registrando e gravando para mim cada detalhe do corpo dela, cada contorno, cada curva perfeita e linda. Os beijos também foram calmos, mãos que exploravam e conheciam pela primeira e última vez algo único, toques que não tinham pressa. A noite inteira foi uma despedida sem nome. Um pedido mudo para que aquele momento ficasse mais um pouco. Uma súplica para que o nosso destino fosse diferente.
Eu amei de todas as formas possíveis, e ter ela para mim por uma noite, foi uma benção e uma maldição, porque isso tornaria as chances de esquecê-la, em nenhuma.
Quando o primeiro raio de luz do dia entrou pelas frestas da cortina, foi quando senti ela se mexer. já estava sentada na beira da cama, vestida e com os olhos fixos na sua mochila.
— Vai embora hoje? — perguntou, sem me olhar.
Assenti, mesmo que ela não visse.
— Acho que sim…
Ela virou o rosto e me encarou, os olhos cansados. Não de sono. De decisão.
— Eu queria te pedir para ficar — ela disse, num sussurro.
Fiquei em silêncio. Parte de mim queria ouvir isso. A outra já sabia a resposta.
— Mas não vai pedir.
— Não. Porque sei que seria egoísmo. E covardia. Eu… não tô pronta pra viver tudo que você sente. E você não merece menos do que tudo.
O nó na garganta subiu com força, mas eu apenas me aproximei. Encostei minha testa nas costas dela.
— Você sabe porque eu vim.
Abracei ela por trás, tentando segurá-la só mais um pouco.
— Porque você não sabe lidar com o meu silêncio, não é?
Eu não respondi. Não precisava. Era isso mesmo.
— , eu não consigo te amar do jeito que você merece. E eu nem sei se quero isso…
E foi nessa fala que meu coração partiu. Meu mundo, que por um momento se ajeitou ao redor dela, desmoronou sem aviso.
Eu vivi sonhos onde somente uma de nós desejou ser real. Apenas uma de nós quis que todos os planos que dividimos para um futuro, dessem certo. E essa pessoa não era ela. Eu amei sozinha. Eu quis tudo com ela, mas ela jamais quis ter algo comigo.
Eu queria chorar, queria gritar e pedir o porquê dela não conseguir me amar. Eu queria saber, queria mesmo, mas também eu sabia que isso me destruiria mais. A resposta era simples: eu não fui o suficiente para ela. Não fui boa o bastante para ser amada por ela, e tudo bem, era muito para mim.
E foi depois de três meses querendo ter uma chance com ela, uma chance de vida ao lado dela, que tudo chegou ao fim antes mesmo de ter começado.
Foi naquele quarto de hotel, onde eu tive a melhor noite da minha vida, eu também tive a pior manhã que um dia sonhei em ter…
— Vó?
A vozinha doce me chamou da porta, e eu virei o rosto devagar — deixando minhas lembranças de lado, por um segundo — vendo o pequeno Miguel, com seus cabelos bagunçados e o olhar curioso.
— Por que a senhora ainda tá aqui fora? Já escureceu…
Forcei um sorriso, me virando mais para ele.
— Só estava pensando na vida, meu amor. Mas já tô entrando — respondi, abrindo os braços. Ele correu e me abraçou apertado.
— Papai falou que vai fazer pipoca. E a gente vai assistir filme!
— Que delícia… vou já já. Só vou ficar mais um pouquinho, tá?
Ele assentiu e voltou correndo pra dentro, gritando animado. A casa se encheu com a risada dos meus netos, a conversa do meu filho na cozinha, e um cheirinho de vida simples e boa. Uma vida que me abraçou com o tempo.
Mas, ainda assim, quando fiquei sozinha de novo, voltei a caminhar até o parapeito da varanda.
A noite estava calma. A lua, cheia e imensa, tomava conta do céu. E, diante dela, eu sussurrei — como fazia tantas vezes antes, em silêncio — as palavras que nunca saíram completamente da minha boca.
— Mesmo nunca tendo sido minha, você sempre será a melhor parte da minha vida, . O sorriso mais fechadinho, que me fez ficar ainda mais apaixonada, a risada mais tímida, os olhos mais lindos e intensos, a voz mais doce e gentil que já conheci…
Fechei os olhos por um instante, sentindo o vento bater no rosto, como um afago suave da lembrança.
— E talvez, quem sabe, em outra vida, o destino seja mais generoso. Talvez, nela, eu tenha a sorte de tê-la pra mim, como desejei tanto nesta.
A lua seguiu brilhando. Silenciosa. Cúmplice.
E eu entrei. Com a alma leve, ainda que cheia dela.