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Última atualização: 29/03/2018

Capítulo 1

6 anos antes 
- Parabéns para você, nessa data querida... - todos da minha família – que puderam  comparecer –, cantavam desafinadamente a música tradicional de aniversários. Eu não estava feliz, nunca estive, apenas fingia estar só por aquela noite. Minha vida não era divertida, eu sofria bullying na escola, não tinha amigos, minha mãe foi a única que se lembrou da data do meu aniversário, e logo saiu avisando a todos para que viessem comemorar comigo. Para os outros, comemorar = comida. É claro que viriam. Todos os meus tios, tias e primos me deram a  mesma desculpa de todos os outros anos: "Só ficamos sabendo que era seu aniversário hoje, por isso não trouxemos presentes, mas prometemos que iremos comprar." Se eu contasse quantas vezes eu já ouvi isso... Mas naquela noite algo especial aconteceu, minha avó – talvez a única pessoa do mundo que se importava comigo naquele tempo –, me deu de presente o meu melhor amigo, meu diário.

Dias atuais
Imagine aquela típica cena de filme colegial, onde três garotas gostosonas vão andando lado a lado em direção a entrada do colégio chamando a atenção de todos. A garota da direita tem pele escura cabelos grandes e lisos, e, bem, essa não sou eu. A garota da esquerda tem pele mais clara do que a primeira, os cabelos são marrons, grandes e bem lisos. E essa também não sou eu. A garota do meio, é loira tem uma pele tão branca que chega a reluzir. E os cabelos, grandes e lisos. Essa sim, definitivamente não sou eu. Eu sou aquela que as observava enquanto descia do ônibus escolar, rindo, porque elas se achavam um máximo, mas não passavam três pessoas comuns pra mim.
Calça jeans, blusa regata, boné de beisebol e os inseparáveis óculos de grau. Esse era o tipo de roupa que eu sempre vestia. Eu olhava para as meninas ao meu redor, shorts curtos, saias curtas, vestidos curtos... De jeito nenhum! Lá estava eu, na metade do meu último ano do ensino médio, todos estavam abraçando uns aos outros e falando aquelas típicas frases "como senti sua falta" e "pensei em você todo esse tempo meu amor", foram só duas semanas afastados, não precisava de tanta falsidade. Avistei ao longe uma de minhas amigas – eu só tenho duas, na verdade – mexendo no celular, próximo as grandes escadas que iam em direção à porta principal da escola. Com um dos braços apoiados em um dos corrimãos, ela olhava do celular para estrada, e da estrada para o celular, eu fui até ela.

- Oi, ! - eu falei ao me aproximar.
- ! - ela falou do jeito eufórico dela me abraçando. era o tipo de amiga que adorava conversar sobre os famosos comigo. Nada melhor a fazer do que conversar sobre caras lindos e ricos que nunca poderemos ter um relacionamento, nós não conseguíamos namorar ninguém mesmo.
Correção, eu não conseguia. tinha ficado com um garoto da escola durante do recesso, talvez estivesse o esperando chegar enquanto conversava com ele pelo celular.

- Então... Você e o Jared? Huh? - eu comentei, provocando-a.
- Ah, para. - ela disse. - Não estamos namorando, foram só uns beijinhos. - ela revirou os olhos, mas estava feliz, muito feliz.
- Sei. - fingi acreditar. - Mas você não disse que... - fui interrompida por alguém que esbarrou em mim. - Ai! - exclamei.
- Olha por onde anda, ! - disse a  garota de longos cabelos lisos e loiros escuros.
- Mas, eu estava parada. - eu disse. Ela revirou os olhos e voltou a mexer no celular enquanto subia as escadas para longe de mim. O'Connell era o tipo de garota que era o oposto de mim, como eu já disse, tem os cabelos lisos, usa roupas curtas, principalmente vestidos e saias. Capricha na maquiagem, anda com patricinhas, se veste como patricinha, fala como uma patricinha, resumindo: é uma patricinha.

Eu costumo dizer que meu subconsciente é como a versão verdadeira de mim, o imagino como uma personagem em desenho com minhas características, e devo dizer que quando penso em , minha bonequinha interior não para de vomitar. e eu temos um histórico muito antigo. Ela sempre fazia tudo que podia para me colocar para baixo, e olha, ela fazia isso muito bem. Ela sempre falava mal do meu cabelo, do meu corpo – que não era muito diferente do dela –, do quanto eu perdia tempo estudando, etc. Desde que eu comecei a me interessar pelos meninos, ela sempre estraga meus planos. Todos os meninos por quem eu ficava interessada, ou se interessavam por ela, ou ela por eles, e no quesito de beleza eu sempre perdia. Foi assim com o Nathy, o Joseph, o Albert, o Jhonny, o Thomas, o Isaac, o Logan... Enfim. Mas nós duas tínhamos uma coisa em comum: o endereço, ah, e o sobrenome também. Sim, e eu, somos irmãs. Quão irônica era minha vida? era minha irmã mais velha, mas durante a minha infância, meus pais acharam que seria melhor se nós estudássemos na mesma turma, então me fizeram avançar uma série. Portanto, eu deveria estar no segundo ano do ensino médio e não no terceiro, tendo que ficar próximo a a maior parte do tempo. Péssima decisão hein pais?
- Vaca. - falei baixinho me referindo a . E riu enquanto mexia nas pontas roxas de seu cabelo. Depois de um tempo um carro preto parou próximo a nós, e de lá de dentro saiu outra ridícula, mas essa era minha amiga ridícula, a .
- Oi, meninas! - ela falou sorrindo.
- Oi, ! - falamos juntas e nos abraçamos.
- Bom dia, meninas! - o pai de falou acenando do carro.
- Bom dia, senhor Vega. - e eu respondemos em uníssono, e ele logo saiu se despedindo com uma buzina.
- Nossa, eu pegaria ele de jeito. - falei me referindo ao pai de . Eu tinha uma quedinha por ele. Quando eu o via, minha bonequinha interior sempre me fazia dizer coisas que não devia.
- Que nojo. - disse .
- Doida. - afirmou . também sofria bullying quando era mais nova por ser assim... Como posso dizer... Mais moreninha? Pois é, xingavam ela por ela ser negra. E por pura coincidência ela também havia avançado uma série quando era mais nova. Depois que nos conhecemos passamos a compartilhar nossas experiências de vida – não todas, porque eu não confiava em ninguém para quem eu pudesse contar tudo –, e logo nos tornamos amigas. Nos conhecemos desde os 10 anos de idade. Ela era sempre muito alegre, mas de uns dias para cá ela estava meio triste, por que tinha quase certeza que seus pais iriam se separar. Ponto para mim.
- Ah, qual é, , você iria adorar me ter como madrasta. - eu disse.
- Nunca quero ter uma madrasta! - disse. - Ela iria me mandar trabalhar dentro de casa.
- Mas no final você encontraria um príncipe encantado. - disse .
- Acontece que eu já tenho um príncipe encantado. - disse .
- Ah, é mesmo, as vezes eu me esqueço do seu precioso . - disse.

era o namorado de , eu até posso dizer que ele era meu amigo também, e logo Jared também seria porque ele com certeza vai começar a namorar com . E eu? Bem, preciso arrumar novas amigas que não tenham namorados. Eu já tinha sim ficado com alguns garotos, nada sério, mas como eu disse anteriormente sempre roubava eles de mim, isso me fez prometer para mim mesma que só iria namorar quando terminasse o colégio, porque eu viveria longe de tudo e de todos que me faziam sofrer. Infelizmente, essa promessa foi quebrada rapidamente porque dois dias depois de tê-la feito eu conheci .

6 meses antes
, e eu conversávamos animadamente sobre algum famoso que tinha feito alguma coisa. Eu nem faço questão de lembrar disse detalhe. Afinal, não era dessa parte do dia que eu gostaria de recordar. Esse foi o dia em que eu conheci , nada mais importa. Enquanto conversávamos se dispersou um pouco olhando para a entrada da escola e fazendo uma expressão de surpresa ao ver alguém. Eu não estava nem aí para quem fosse, afinal falar daquele famoso – seja lá quem ele for, porque realmente não me lembro. –, era melhor do que reencontrar um velho amigo que nem era meu.

- ? - perguntou chamando a atenção do garoto de olhos verdes com um semblante confuso no rosto. - ? Ele continuou a encarando confuso e se aproximou mais de nós.
- ? - ele disse. - É você? 
- É! - ela exclamou feliz por revê-lo. Eles se abraçaram. e eu nos entreolhamos e continuamos lá sem nos pronunciar e nos sentindo excluídas da conversa animada que eles dois estavam tendo. Pelo o que eu entendi eles eram amigos de infância, se separaram somente no 9° ano, quando tiveram que mudar de escola. Nós não sabíamos sobre essa parte da vida de , afinal só nos conhecemos no ensino médio. Eu pigarreei para ver se eles percebiam que estávamos de fora do assunto e pareceu se tocar.

- Ah, gente, este é , meu velho amigo. - disse . - , estas são e . Minhas melhores amigas.
- Oi. - disse sorrindo. Ainda me lembro dos meus primeiros pensamentos a respeito dele. "Meu Deus, ele é lindo! Eu estava sem ter o que escrever no meu diário, por que minha vida estava sempre a mesma coisa. Mas meu diário vai ter que me aguentar escrevendo sobre ele pelo resto do ano agora."


Dias atuais
Daquele dia em diante não teve um dia se quer que eu não escrevesse sobre ele.
- Oi, meninas.
E falando nele... Senhoras e senhores, eu lhes apresento o menino mais fofo do mundo! Sim, era ele, . O único menino daquele colégio – talvez do mundo inteiro – que não era metido, nem machista, nem safado, nem se aproveitava das meninas, e muito menos partia o coração delas. Ele não era o capitão do time – nem ao menos fazia parte dele –, não era um nerd, não era rebelde, e muito menos uma pessoa normal. Ele era simplesmente .
O garoto por quem eu era apaixonada. A bonequinha falou na minha cabeça. O quê? Não!
Corrigindo: o tipo de garoto por quem eu me apaixonaria.

- Oi, ! - as meninas responderam olhando em sua direção com sorrisos que foram prontamente correspondidos por ele. Eu ainda estava paralisada olhando para toda aquela beleza junta, e tentando normalizar os meus batimentos cardíacos, e a tremedeira involuntária das minhas pernas, por tanto não o respondi.
- ? - ele chamou minha atenção passando a mão na frente do meu rosto, ele nem se quer estalara os dedos, talvez com medo de me assustar demais.
- Hum? - respondi meio sem nexo ainda observando ele.
- ! - chamou, me tirando totalmente dos meus pensamentos profundos. - falou com você. 
- Ah. - eu disse. - Desculpa, eu... Não te vi. - falei sorrindo. Não te vi? Sério? Não tinha uma desculpa melhor ? Você fica secando o garoto por meia hora e diz que não o viu? Tudo bem, admito, eu o amo! E me odeio por isso! Arrg!
- Tudo bem. - ele sorriu. Céus! Como ele é fofo! - Gostei do seu boné de beisebol. Ele disse apontando pra mim.
- Não tinha reparado que estava usando um boné de beisebol. - disse me observando.
- Você gosta de beisebol? - perguntou .
- Eu nem sei o que é beisebol! - exclamei. Na verdade eu sabia, bem, mais ou menos. Beisebol não é aquele esporte que eles jogam com um disquinho no gelo? Pude sentir que a bonequinha pôs a mão na testa, decepcionada.
Anyway, o que eu disse fez rir.
- Eu já volto. - Ele disse e passou ao meu lado pegando meu boné e colocando sobre a sua cabeça e subindo as escadas para falar com alguns amigos – homens, por amigas ele só podia ter a gente. E só a gente! –, diferente de mim ele ainda tinha uma vida social. Observei seus passos até vê-lo parar na metade da escada e fazer um toque de mãos com alguns rapazes.
- Tem alguém apaixonada. - cantou ao meu ouvido, como ela gostava de fazer. Sempre falava as coisas cantando.
- Quem? Eu? - me fiz de desentendida.
- Não, a tia da merenda. - falou com ironia apontando para a tia da merenda que subia as escadas com uma caixa na mão – provavelmente com comidas dentro. - Claro que é você!
- Eu não a culpo. - disse. - Ele é mesmo um gato.
- E um fofo. - completou .
- Só porque ele é gato e fofo não significa que iria querer algo comigo, além do mais, eu nem quero tentar nada, não estou afim de ver a tirar ele de nós. - eu disse.
Elas se entreolharam e deram de ombros, elas sabiam que era verdade. Como eu queria enfiar uma bala em ! Ouvimos o sinal tocar indicando que as aulas iriam começar, subi as escadas contra a minha vontade passando por e pegando meu boné de volta, ele se despediu dos garotos e logo me seguiu.
- Minha primeira aula é de física e a sua? - ele perguntou.
- A minha também. - falei suspirando cansada. Ânimo! Só faltam seis meses para essa vidinha acabar.
- Te vejo lá. - ele disse sorrindo e saiu em direção ao seu armário. Ao menos eu poderia observa-lo a aula toda.

[•••] 

Querido diário...
Minhas aulas retornaram hoje e... Arrg! Eu não aguento mais estudar. Mas na verdade eu vim falar sobre (de novo). Eu andei olhando as páginas anteriores referentes aos últimos 6 meses e não têm uma única folha em que o nome dele não seja mencionado. E essa não será diferente não é? Eu o amo? Eu confessei isso pra mim mesma hoje, mas será que eu falei a verdade? Quer dizer, como eu posso amar alguém que nunca me deu um beijo? Será que um verdadeiro amor só pode ser demonstrado através de um beijo? Será que ele sente o mesmo por mim? Eu sou uma idiota diário? Provavelmente, .


Minhas sagradas escrituras foram interrompidas pela campainha tocando. Eu estava sozinha em casa aquela tarde – como sempre. Meus pais estavam trabalhando e deveria estar por aí  dando para alguém. Dando seu amor e carinho, claro. Eu fechei o meu diário com a tranca especial, não tão especial assim já que qualquer chave que se encaixasse naquelas fechaduras tradicionais de portas o abriria. E coloquei o papel com a dica para abri-lo por entre as suas folhas, como eu sempre fazia quando não estava escrevendo nele. Eu sabia que ninguém jamais iria querer ler o que tem nele, e queria mesmo esconder meus segredos. Mas no fundo, queria que alguém os lesse, e soubesse como eu me sinto. Talvez as coisas seriam diferentes assim.
"Meu conselho é não observar o que têm além da fechadura de uma porta". Era o que dizia no papel que eu deixava preso em meio aos outros. Quem fosse esperto o bastante perceberia que a fechadura de uma porta é igual a fechadura do diário. Andei até a porta principal abrindo-a, e me deparando apenas com a rua pouco movimentada. Pus a cabeça para fora e olhei para os dois lados, não havia ninguém ali. Estranho. Dei ombros. Devia ser só alguma criança, também fiz muito isso quando era pequena. Ouvi um barulho no telhado e logo tratei de ir até o meu quarto me certificar que eu havia trancado a janela do mesmo, assim como havia feito na casa toda horas antes. Quando cheguei lá a janela estava escancarada. Eu passei meus olhos sobre a cama a procura do meu diário.
Mas ele não estava lá.


Capítulo 2

- Não! Não, não, não, não, não, não! - eu exclamava atraindo olhares de algumas pessoas que passavam pelo corredor da escola. Eu estava em frente ao meu armário, jogando tudo que tinha dentro dele pra fora. Esvaziei também a minha bolsa fazendo a maior bagunça de papéis e livros pelo chão. Ele tinha que estar ali, tinha que estar. - Droga.
- Nossa, o que houve aqui, ? - ouvi a voz de atrás de mim.
- Ah, eu... Estava procurando o meu diário. - respondi.
- Quando você o perdeu?
- Ah, ontem. - eu disse começando a juntar os livros novamente, ele me ajudou.
- E tem de ideia de onde ele possa estar? - ele perguntou, colocando uma pilha de livros dentro do armário.
- Na verdade não. - eu disse. - Eu não o perdi, fui roubada.
- Roubada? Mas como? - ele fechou a porta do meu armário, eu desfiz a combinação e comecei a andar junto com ele.
- Eu estava sozinha em casa ontem, escrevendo nele e alguém tocou a campainha, fui atender e quando voltei meu diário não estava lá. - expliquei rapidamente.
- Mas você o trancou? - ele perguntou aparentemente preocupado. Eu admirava muito esse lado prestativo e preocupado de , e achava incrível que ele não me falasse que isso era uma besteira, ou que eu era grandinha demais para ter um diário. Sinceramente eu tinha que dizer que era o pacote completo. Casa comigo seu lindo!
- Tranquei. - respondi.
- Menos mal, essa pessoa só perdeu seu tempo, já que não vai conseguir abrir. - disse certo de que isso era realmente verdade, mas existia aquele lance com a fechadura e tudo mais. Entretando eu não podia falar isso pra ele no momento, afinal, todos eram suspeitos até que se provasse o contrário, correto? Como se tivesse interesse em saber meus segredos... Mas em todo o caso, eu não posso confiar em ninguém por enquanto.
- Mesmo assim, eu preciso encontrá-lo. - falei. - E se a pessoa der um jeito de quebrar a fechadura ou sei lá?
- Tudo bem, olha - ele falou -, se eu fosse você, começaria fazendo uma lista com os nomes dos suspeitos, todas as pessoas que não gostam de você, ou que você pensa que talvez tenham vontade saber seus segredos, e depois iria investigar cada uma delas, até chegar ao criminoso.
- Você tá vendo muita série policial. - eu ri  e ele me acompanhou. - Mas é uma boa ideia. Vou fazer isso.


Conversamos mais algumas coisas e fomos para aula. Durante a maioria das aulas comecei a pensar em todas as pessoas que me odiavam. E no final do dia a lista era maior do que eu imaginava. Eu até poderia ir atrás dessas pessoas e observá-las, só que tinha um probleminha: uma parte delas morava fora de Seattle. Eu já tinha ido a muitas cidades longe daqui e sozinha, mas fui de ônibus, e demorava dias para chegar ao meu destino. Tinha que achar o diário o mais depressa possível, então fui até a minha última e única opção, e a única pessoa que eu conhecia que tinha um carro e que me ajudaria: .

- ! - eu falei chamando a sua atenção no meio daquele aglomerado de pessoas que iam em direção à saída. Ele parou de andar e olhou para trás pra ver quem era a dona da voz que o chamava.
Eu me aproximei dele.
- Era você que estava me chamando? - ele perguntou.
- Era. - respondi.
- O que houve?
- Então, eu fiz a lista que você me instruiu, só que alguns suspeitos moram fora da cidade. - falei. - Eu poderia ir até lá de ônibus, como eu já fui várias vezes, mas ia demorar muito entende? Então eu cheguei à conclusão de que precisaria de um carro e pensei "sabe quem tem um carro? !" - sorri amarelo e ele me olhou prendendo o riso.
- Quer meu carro emprestado? Tudo bem então. - ele falou.
- Não! Você não entendeu. - falei. - Não posso dirigir, não tenho carteira.
- Você já tem 17 anos, porque não tirou sua carteira? - ele perguntou.
- Eu fiz o teste, não passei porque atropelei uma velhinha de cadeira de rodas. - ele arregalou os olhos. - Mas eu sinalizei... Depois que atropelei.
Ele riu.
- Acontecem coisas engraçadas na sua vida. - ele disse.
- Viu? Por isso quero meu diário de volta. - falei. - Se um dia eu ficar com amnésia vou saber de tudo que aconteceu na minha vida. - Ele riu novamente. - Por favor, , me ajuda, eu posso te pagar. - Sugeri. - O que você quer? Quer que eu faça faxina na sua casa? Posso arrumar o seu quarto, que sua mãe deve te mandar arrumar todos os dias. Ou quem sabe fazer o seu dever de casa pelo resto do ano, huh?
Dessa vez ele gargalhou.
- Não se preocupe, , vou te ajudar. - ele sorriu. - Só preciso do dinheiro pra pôr gasolina e te levo para onde quiser.
- Sério? - perguntei. Foi mais fácil do que eu pensei. - Muito obrigada!
Eu falei o abraçando. Melhor sensação que já experimentei na vida. Obrigada Senhor! Então nos separamos. Pude ouvir minha bonequinha fazer um sonoro e triste "aaaah".
- Vai pra minha casa mais tarde pra darmos uma olhada na lista, ok? - ele disse. - De repente jogamos videogame...
Ele propôs e piscou um de seus olhos, e logo andou em direção à saída.

Quando ele falou "jogamos videogame", olha só o que eu pensei:
e eu, sentados no sofá do seu quarto, nos beijando ferozmente, parávamos para respirar rapidamente e retomávamos tudo de novo, com direito a sua mão boba em meus seios, e uma de minhas mãos em um lugar que o sofá não permitia ver do ângulo que eu imaginei. E logo caímos deitados no sofá, e as roupas começavam a ir pelos ares.
Comecei a rir sozinha. Melhor eu ir pra casa.
[•••]


Querido pedacinho de papel... 

Sim, vou escrever em pedaços de papeis enquanto não tenho meu diário de volta. Mas como eu ia dizendo, melhor, escrevendo...

Sinto que problemas estão por vir.
1. e eu estamos prestes a participar da maior aventura de nossas vidas.
2. A maior aventura de nossas vidas inclui matar aula, desobedecer nossos pais, fazer identidades falsas, e cometer alguns outros pequenos crimes.
3. mal sabe disso.
4. me chamou para ir até casa dele jogar videogame.
5. Eu não sei jogar videogame.

Suspirei. Peguei a lista de suspeitos e sai do quarto. Melhor eu ir logo até a casa dele, antes que escureça. Por sorte morava em frente a minha casa. Mas infelizmente o quarto dele não ficava pro lado da rua, por isso eu nunca conseguia vê-lo sem camisa pela janela. Passei pela sala e por um milagre de Deus meus pais e a senhora simpatia estavam em casa. Meus pais estavam discutindo – como sempre –, e estava na cozinha.
Tentei passar despercebida, mas não deu muito certo.
- Onde vai? - minha mãe perguntou, parando de brigar com meu pai por um segundo.  
- Vou sair. - respondi me aproximando da porta.
- Isso eu sei, mas pra onde? - ela insistiu.
- Ah fala sério, até parece que você se importa. Volta a brigar aí, é só o que vocês sabem fazer. - eu disse abrindo a porta e saindo.
- ! Volte já aqui! - pude ouvi-la gritar antes de fechar a porta. - Viu só? Ela é assim por sua causa! 

Ela gritou com o meu pai. Não viria atrás de mim. Segui até o outro lado da rua e logo estava em frente à porta da casa de . Toquei a campainha, na esperança de que ele que atendesse.
Imagina a minha cara se um de seus pais viesse abri-la. A porta se abriu, mas não havia ninguém na minha frente, então eu abaixei meu olhar e vi uma garotinha. Uns nove anos, eu diria.
- Ah, oi. - eu disse e ela sorriu. - Posso falar com o ?
- ! A sua namorada chegou! - ela gritou e eu corei envergonhada. - Entra.
Ela deu passagem e eu entrei, logo a porta se fechou atrás de mim.
- Olívia, eu disse pra você que não era pra atender a porta. - saiu de uma abertura na parede que eu não sabia onde dava.
- Desculpa. - ela disse sorrindo amarelo e correu em direção as escadas.
- Então, trouxe a lista? - ele me perguntou.
- Uhum. - concordei.
- Vem, vamos pro meu quarto. - ele disse segurando levemente no meu pulso e me guiando pelo mesmo lugar de onde ele tinha surgido, cruzamos pela abertura da parede e percebi que ia dar na pequena cozinha, e que não estávamos sozinhos. Os pais de estavam lavando os pratos, quer dizer sua mãe lavava e seu pai enxugava, eles riam animadamente, e nem nos viram.

- Mãe, pai. - chamou. Eles pararam de rir e nos olharam. Ou melhor, me olharam. - Essa é . , estes são minha mãe e meu pai. - disse. - Não sei o nome deles, chamo de mãe e pai.
Ele deu de ombros e sua mãe balançou a cabeça negativamente.
- Oi mãe e pai do . - eu disse sorrindo sem graça.
- Olá querida. - sua mãe disse sorrindo.
- Oh! - exclamou o pai de . - Então essa é a garota bonita que você tanto fala? - arregalou os olhos e balançou seu braço esquerdo no ar, como se estivesse mandando seu pai parar de falar. Mas ele o ignorou. - Finalmente trouxe uma menina pra casa. Estava começando a duvidar da sua masculinidade filho.
- Pai! - disse entredentes. Então quer dizer que ele me acha bonita? Muito obrigado por essa preciosa informação senhor . – Vem, .
Ele abriu uma porta no canto da parede que eu diria que dava para o porão, já que tinha uma escada logo depois da porta. Me fez passar na sua frente e eu fiquei no segundo degrau da escada esperando que ele terminasse sua briga muda com seu pai, que agora estava mais próximo dele. o olhou com a boca aberta e as sobrancelhas erguidas como se dissesse "o que foi isso?". Mas seu pai lhe respondeu normalmente.
- Estou te ajudando filho. - ele disse baixo, mas eu consegui ouvir. - Ela é gostosa, vá em frente.
mostrou seu dedo do meio pra ele, que riu. Se eu mostrasse meu dedo pra minha mãe, ela o cortaria fora. fechou a porta atrás de si e descemos as escadas.
- Olha desculpa pelo meu pai, ele não pensa às vezes. - Ele disse assim que chegamos ao andar de baixo e eu vi seu quarto. Era pequeno e apertado. Tinha uma televisão enorme em cima de um móvel,  um sofá vermelho bem no meio, uma estante com troféus, uma janela bem pequena que encostava no teto e na parede oposta a que a televisão estava, tinham duas portas, uma em cada canto da parede, a estante ficava entre as portas. Eu não pude deixar de reparar que tinham algumas roupas e livros da escola espalhados pelo chão.
- Tudo bem. - eu disse.
- Mesmo? - ele perguntou e eu assenti. - Você já deve estar acostumada não é?
- Com o que? - perguntei.
- Com os caras... Te chamando de gostosa.
- Na verdade não. - eu disse observando os troféus. - Eles sabem que quando me chamam de gostosa levam uma surra.
- Lembrete: nunca chamar de gostosa. - ele falou me fazendo rir.
- Sabe, eu percebi uma coisa. - falei mudando de assunto. - Não tem cama no seu quarto.
- Na verdade, tem sim. - ele falou e caminhou até o sofá e mexeu em alguma coisa embaixo dele, e logo pude ver que era um sofá cama.
- Ah. - eu disse e ele fez o sofá voltar a ser sofá. - E mais uma coisa. - ele se aproximou. - De onde vieram esses troféus? Achei que não jogasse no time da escola.
- E não jogo. - ele disse. - Jogo pela minha antiga escola. Mesmo depois que eu saí de lá os caras pediram para que eu continuasse no time. Falei com o treinador e ele aceitou numa boa.
- Ah. - eu disse e dei mais uma olhada em volta.
- Então, quem é o primeiro suspeito da sua lista? - ele perguntou.
- Você. - afirmei.
- Huh? - ele perguntou incrédulo.
- Ah, , não pense que conseguiria me enganar. - eu me aproximei dele. - Todo fofo e preocupado, se oferecendo para me ajudar... Achou mesmo que conseguiria me fazer acreditar que não foi você?
- O quê? - ele perguntou meio alterado. - Como pode suspeitar de mim? Eu me ofereci para te ajudar por que você é minha amiga, e achei que merecia ter seu diário de volta. Eu tenho vontade sim de desvendar a misteriosa O'Connell, mas não o roubei.
Misteriosa O'Connell... Eu não sabia que era misteriosa, e muito menos sabia sobre essa vontade de . Eu tinha dito que suspeitava dele apenas por brincadeira. E resolvi permanecer nela.
- Ou então...  - comecei. - Você achou que eu sacaria que você fez tudo isso para eu não suspeitar de você, e quando você viu que mesmo assim eu suspeitei, você disse isso para que eu deixasse de suspeitar... Eu quero meu diário de volta, . O caso está encerrado.

Ele me olhava com uma cara de interrogação e logo depois começou a rir.
- Não estou com seu diário. - ele disse. - Eu preferia pegar em outras coisas suas.
Se liguem, ele disse "pegar em outras coisas".
- Eu sei. Desculpa. - eu ri. - Estava só brincando.
- Tá. - ele revirou os olhos enquanto sorria. - Me deixa ver a lista. - Eu a tirei do bolso e o entreguei. Ele desdobrou o papel e pareceu surpreso. - Toda essa gente te odeia?
- Ou têm vontade de saber meus segredos. - dei de ombros.
- E meu nome está mesmo aqui! - ele falou e eu ri. Ele pegou uma caneta no chão – sim, no chão –  tirou a tampa com a boca e passou um traço no seu nome.



Ele analisou bem a folha.


Aaron Jones
Richard Hemilton
Shelby Duncan
Lizzy Hobbs
Dana Stehling
Jacob Adler
James Harden
Faun Licobits
Gertrudes Stein
Brian Shackleford


- Jones?! - ele disse alterado enquanto ainda olhava para a folha. - Aaron Jones?! Não acredito que você já falou com esse cara, !

Ah, não foi apenas falar.
- E qual o problema? - perguntei. estava com ciúmes?
- Qual é o problema?! - ele repetiu. Ele odiava Jones. Eu sabia que eles haviam estudado juntos no fundamental, e Jones implicava muito com ele, até que um dia não aguentou seus insultos e enfiou um lápis na barriga de Jones. Ou foi na mão dele? Isso foi o que me contou – já que estudava junto com eles –, mas eu não sei ao certo, melhor saber isso por . - O problema é que ele é um idiota. Ele me xingava, ria de mim sem motivos aparentes, me agredia e me obrigava a fazer o dever de casa dele, sem contar que ele ficava com todas as meninas que eu gostava.
Ele falou enquanto caminhava até o sofá e se sentava nele.
- É verdade que você enfiou um lápis na mão dele? - perguntei sentando ao seu lado.
- Barriga. - ele corrigiu. - Foi na barriga. Eu fiz isso no intuito de perfurar o intestino dele para que ele tivesse que defecar pela boca. - ele falou entredentes quase amassando a lista em suas mãos. - Mas acabei perfurando o apêndice dele, ele teve que fazer uma cirurgia para retirá-lo, não podia viver com o apêndice furado. Mas é um órgão que não serve para nada mesmo, acho que acabei fazendo um favor. - ele suspirou. - Até quando tento ser mal, eu faço uma coisa boa. E tem mais, depois que o Jones voltou do hospital ele levou uma faca para a escola e enfiou na minha barriga. - ele levantou um pouco a blusa – Jesus! – e eu pude ver uma cicatriz pequena, mas profunda. - Acabou perfurando o meu intestino.
- E você teve que defecar pela boca? - perguntei assustada, mas por brincadeira mesmo, acho que isso era meio que impossível.
- Não! - ele falou. - Os médicos puseram uma mangueirinha no meu... Ah, você não tem que saber disso. - ele fez uma careta desconfortável. – Só, por favor, por favor, me diga que você nunca transou com Aaron Jones.

Ops. Até a minha bonequinha correu com vergonha.
- Você ficaria mais feliz se eu dissesse que não? - sorri falso.
- Ah não, ! Você já transou com ele?! - ele se remexeu um pouco no sofá virando-se para mim.
- Olha, foi só uma vez. - eu menti. Ele me encarou e entortou a boca. - Tá legal, tá. Não foi só uma vez. Mas olha, é passado. O foco aqui é que ele é suspeito de roubar o meu diário.
- Ok... - ele falou voltando para lista e passando seus dedos pelo queixo. – Por que roubaria seu diário?
Ele voltou seu olhar para mim.

- Porque ela é uma vaca. - eu disse. Ele riu. - Mas é assunto meu. Depois me resolvo com ela.
- E por que acha que Jones roubaria? - ele demonstrou certo nojo ao pronunciar o nome dele.
- Porque... Quando eu conheci o Jones, ele tinha acabado de terminar com a namorada, estávamos em uma festa de Halloween, bebemos um pouco e... Você sabe. - falei. - Eu achei que tinha sido algo só de uma noite, mas na semana seguinte Jones me procurou, estranhamente começou a se aproximar de mim e quando eu vi já estava na cama com ele de novo. Eu não o amava. Mas ele dizia estar se apaixonando por mim, e então eu caí na dele e depois ele me largou, do nada. Simplesmente "se cansou de mim". - eu ri  irônica controlando minhas lágrimas. - Eu jurei me vingar e, ele sabe que eu não planejo nada sem que o meu diário fique sabendo.
- Ah... - disse olhando para baixo. - Jones é um idiota.
- E a propósito, eu acho que ele defeca pela boca porque só sai merda de lá. - Eu disse e riu.
- E quanto a Richard? - ele novamente olhou para lista, pensativo.
- Richard e eu ficamos no ano passado, eu admito que me apaixonei por ele. Mas assim como Aaron, ele me largou sem motivos. Quer dizer, ele nem ao menos teve a coragem de me dizer que queria pular fora. Fiquei umas duas semanas sem saber ao certo se ele ainda queria algo comigo. Depois disso ele mandou uma amiga dele vir conversar comigo e dizer que ele estava se sentindo "incomodado" por eu ficar encarando-o na hora do intervalo. - franziu a testa. - E ela também disse que ele estava namorando há quase um mês, acredita nisso? Ele estava enganando a nós duas. - eu suspirei. - Enfim, também jurei me vingar, e ele deve querer saber sobre o meu plano.
- Ou saber se ainda tem chances com você. - disse.
- Como é? - perguntei.
- Ah, , eu percebo o quanto ele olha pra você. Na sala de aula, no intervalo, na educação física. Principalmente na educação física, por que né? - ele disse e eu lhe dei um tapa no ombro. Ele riu. – Sério, , tenho certeza que ele se arrependeu de ter te deixado.

Eu sorri. fazia tudo melhorar.
- Tudo bem, próximo da lista. - ele disse voltando a olhar pro papel. - Shelby Duncan.
Ele me olhou esperando uma explicação.
- Shelby e Aaron namoravam, na festa de Halloween eles brigaram e terminaram. Foi então que eu transei com ele. - falei. - Ela deve ter ficado com raiva de mim, afinal ainda gostava dele. Não sei se você sabe, mas parece ser mais irmã de Shelby do que minha. Com certeza deve ter contado a ela que eu tenho diário e ela o pegou para achar algum segredo meu e expor na frente de todo mundo. E esse é o motivo que mais me dá medo. - disse já pensando no pior e olhando para longe.
- Ah, então é por isso que você está apertando meu braço desse jeito. - disse.
- Huh? - falei e olhei para baixo, e só então notei que estava mesmo segurando seu braço direito com as duas mãos. - Ah, desculpe. - falei soltando seu braço e ele riu.
- Lizzy Hobbs? - ele perguntou referindo-se a próxima da lista.
- Então, a história com Lizzy é até meio parecida com a de Shelby. - eu comecei. - Lembra que eu disse que Richard mandou a amiga dizer que ele estava namorando a mais de um mês? - ele concordou. - Então, ele namorava com Lizzy.
- Meu Deus! - ele disse. - Mas que monte de merda que você se meteu hein? - ele riu. - Onde suas amigas estavam nessas horas? 
- Sei lá, dormindo. - eu disse e ele riu novamente.
- Então acha que Lizzy roubaria seu diário para expor um segredo seu por ciúmes,  assim como Shelby?
- Isso. - respondi.
- Certo, essa próxima eu não conheço. - ele disse com uma expressão que parecia tentar lembrar. - Quem é Dana Stehling?
- Então, lembra da amiga do Richard? - ele concordou. - É ela.
- Mas por que ela roubaria seu diário afinal de contas? - ele perguntou.
- Bem, eu tenho minhas dúvidas de que ela gosta do Richard. - falei. - Eu não queria falar nada, mas também acho que ele quer ter outra chance comigo. E como você mesmo falou, ele fica me secando. Toda vez que passo perto de Dana, ela faz cara feia e vira as costas, tenho a leve impressão que ela me odeia.
- Espera, Dana é aquela loira baixinha que está sempre abraçada com o Richard? - ele perguntou com um semblante desconfiado. - É. - eu disse.
- Me disseram que ela gostava de mulher. - ele disse. QUÊ?!
- QUÊ?! - Eu exclamei assustada levantando um pouco do sofá. Ele gargalhou.
- Calma, , senta aí. Senta. - ele falou ainda rindo. - Acho que o motivo de ela supostamente ter roubado seu diário não foi por que ela gosta do Richard, foi porque ela gosta de v...
- Nem se atreva. - eu o impedi de falar, o fazendo gargalhar mais uma vez. Era só o que me faltava.
- Grande ! Arrasando corações até das mulheres. - ele disse brincalhão.
- Para com isso! - falei rindo e dando mais um tapa no ombro dele. Logo começamos a rir juntos. - Mereço. - rolei os olhos.
- Tá legal... - ele disse soltando uma última risada e olhou novamente para o papel. - Jacob Adler?
- Olha... Podemos deixar os próximos pra depois? - eu falei. - Afinal, ainda nem investigamos os outros. O diário pode estar com algum deles. Caso não esteja, partimos para os outros.
- Se você prefere assim. - ele deu de ombros e me entregou a lista.
- Quando eu chegar em casa vou dar uma olhada nas coisas da . - eu disse. - Bem, acho que já vou indo.
Falei me levantando do sofá. Ele me levou até a porta de entrada da casa.
- Mas uma vez muito obrigada por me ajudar. - eu disse, já do lado de fora da casa dele.
- Não precisa agradecer de novo. - ele sorriu e tocou seu dedo indicador na ponta do meu nariz.
- Até amanhã. - eu disse.
- Até. - eu dei as costas ele e entrou em casa novamente.

Eu caminhei até a minha casa. Estiquei meu braço para girar a maçaneta, mas alguém abriu a porta lá de dentro.
Era , e não estava com cara de bons amigos. Ela nunca estava. Eu lhe lancei um sorriso cínico enquanto passava ao seu lado. Ela continuou com a mesma cara.
- Eu fiz alguma coisa? - perguntei. Como se eu me importasse.
- O que estava fazendo na casa do ? - ela perguntou.
- Por acaso é da sua conta? - perguntei.
- Para o seu bem, é melhor que você não tenha nada com ele. - ela disse.
Eu ri irônica.
- Tchau, . - eu disse e fui para o meu quarto. Vi que ela entrou no banheiro lá de baixo. Era a minha deixa para entrar no quarto dela.

Perfume. Calcinhas. Sutiãs. Camisinhas. Canetas. Ursinho de pelúcia. Chocolate. Metade de um sanduíche. Papel com coisas escritas. Céus como é bagunceira. Papel com coisas escritas? Eu peguei o papel que tinha como título "Meninos com quem eu quero transar:"
Eu revirei os olhos.
Como conseguia ser tão repugnante?

Alex Franco, Charlis Becker, Aaron Jones
Uh, ponto pra mim.
.
O QUÊ?! 
Ouvi um barulho no andar de baixo, guardei o papel de volta e corri pro meu quarto.
Ah, eu vou matar , eu vou matar! Vaca! VAACAA! Ela tinha que tirar de mim! TINHA QUE TIRAR! Calma, ! Respira fundo. Ela ainda não fez nada com ele. NEM VAI FAZER!

Ouvi meu celular apitar. Antes responder quem quer que fosse procurei por uma caneta e risquei o nome de da lista.


Joguei-me na cama e olhei o visor do celular que dizia "mensagem de ".
Ha! não recebe mensagens dele. Ponto pra mim de novo.

"Achou seu diário nas coisas da ?"

" Não. Aquela nojenta fez bem em não ter pego. Eu acabaria com ela"  respondi.

"Disso eu não tenho dúvidas. Haha!" 


Antes que eu pudesse responder alguma coisa, ele mandou outra mensagem.


"Próxima parada: Casa do Jones?"

"Elementar, meu caro Sherlock"
respondi. Ele mandou alguns emojis rindo.

“É Watson”  ele corrigiu.

“Quê?” perguntei sem entender. Ele riu novamente.

“A frase é ‘Elementar, meu caro Watson’ ”

“Tanto faz”
respondi.

"Pretende por sua vingança em prática no mesmo dia que for até a casa dele?"  Ele perguntou. Eu pensei um pouco antes de responder. É, é uma boa ideia.

"Agora que você falou, eu acabo de ter uma ideia..."
Ei, só agora que eu percebi... A gente nem jogou vídeo game, poxa!

Capítulo betado por Ana Lizi


Capítulo 3

Sextaaaaaa woo hoo!
Eu escrevi em dos meus queridos pedacinhos de papel. A vida sem o meu diário está ficando difícil. Mas eu estava animada.


Hoje é dia de me vingar de Aaron Jones! E talvez de ter meu diário de volta.



Sim, era isso. Haha! Não vejo a hora de invadir a casa dele e por meu plano em prática. Já tinha tudo pronto em minha cabeça. Só precisava convencer a me ajudar. Pode chamar isso de missão impossível, porque ele é um cueca furada. Eu já estava pronta para a escola. Saí do meu quarto e fui em direção a cozinha peguei uma maçã e saí logo de casa ou perderia o ônibus escolar. não viria comigo. Os amiguinhos dela sempre passavam por lá para buscá-la de carro. Infelizmente não me dava carona para a escola por que seu pai não o deixava ir de carro pra lá. Em alguns dias seu pai o levava para escola, em outros ele ia de ônibus comigo. E eu torcia para que hoje fosse um dia "outro". Eu caminhei até a uma árvore que ficava próximo a minha casa e comecei a comer a maçã. Logo vi saindo de casa e caminhando até onde eu me encontrava. Parece que dei sorte.

- Oi, . - ele disse se aproximando e beijando minha bochecha.
- Oi. - eu falei. - Maçã?
Disse levantando um pouco a maçã em minha mão. Ele concordou e deu uma mordida.
- Hum. - ele falou dando um ar de que ia continuar a falar, ao mesmo tempo que limpava a boca. - Já sabe como vai se vingar do Jones?
Ele perguntou depois de ter engolido.
- Por que está tão interessado? - eu perguntei dando uma última mordida na maça. E jogando os restos numa lata de lixo próximo dali. Logo voltei e encarei-o.
- Ah, você sabe. - ele começou. - Eu o odeio. Quero que ele sofra. Por favor, diga que vai dar uma facada nele. - eu abri a boca para falar, mas ele me impediu. - Melhor, dê uma facada na garganta dele, assim ele morre de vez.
- ! - eu ri. - Assim eu serei presa.
- Mas terá sido por uma boa causa. - ele disse.
- É, dá pra ver o quanto você gosta de mim. - eu disse fingindo estar triste.
- Ah, vem cá. - ele me puxou para um abraço. Minha bonequinha interior ainda não tido reação alguma, deveria estar dormindo, porque eu estava mesmo dormindo por dentro. - Sabe que é só brincadeira. Mas não seria má ideia.
Ele falou a última parte meio pensativo. Eu rolei os olhos. Vimos o ônibus se aproximar e nos separamos para entrar.

- Não se preocupe. - eu disse assim que o ônibus estacionou a nossa frente. A porta se abriu e eu entrei. Ele veio logo atrás. - Sei exatamente o que nós vamos fazer.
- Me desculpa - ele começou -, você disse "nós"?
Eu não disse? ME-DRO-SO.
- É, nós. - eu falei caminhando até um lugar com duas cadeiras vagas. Eu sentei perto da janela e ele sentou ao meu lado.
- Eu vou passar na sua casa perto das 11 horas. E você vai me levar até lá. Não que você tenha obrigação, mas isso também vai te beneficiar, por isso precisa ir.
- Mas... - ele começou. - As 11? - ele perguntou. - Vai ter jogo dos Redskins.
- Ah, então tudo bem. - eu disse, fingindo não me importar. - Quando chegar a notícia de que eu fui estuprada e assassinada, a culpa vai ser sua.
Fingi estar com raiva, cruzei minhas pernas e virei para a janela.
- Tá parecendo a . - ele falou.
- Credo. - eu disse e nós rimos. - Olha, está tudo bem se não quiser ir, sério. Só queria que você se divertisse um pouco.
- Não é divertido cometer crimes. - ele falou baixo.
- É claro que é. - falei normalmente. - Você vai adorar.
- Acho que vou me arrepender. - ele disse.
- Então quer dizer que vai? - sorri.
- Vou. - ele revirou os olhos.
- Ei, ! - Abel, um garoto da minha turma chamou. Ele estava no banco atrás de mim. Ao lado do seu irmão gêmeo  babaca como ele , David. Eles eram mais conhecidos como Abe e Dave, mas eu não chamava assim. Eu sei a diferença entre os dois porque Abel sempre está com o cabelo mais curto que o de David. Eu virei meu rosto para encará-lo, ele estava com um pacote de salgadinho nas mãos. Seus dedos estavam laranja por conta da comida. Ele esticou sua mão pra perto de mim e limpou-a rapidamente em meus cabelos. 
- Seu merda! - eu gritei ficando de joelhos no banco. - Porque não limpou isso nos pelos do seu saco?! Idiota! - eu me estiquei por cima do banco para estapeá-lo. Enquanto sentia me puxar pela cintura e ouvia os gritos assustados/animados dos outros por conta de uma briga. 
- O que está acontecendo aí? - Ron, o motorista foi até onde estávamos com um taco de baseball na mão. Eu nem sequer havia percebido que ônibus havia parado. Eu parei de bater em Abel. Ele, eu e todo mundo começamos a falar de uma vez atropelando o pobre Ron. 
- Já chega! - disse o motorista. - Você garoto, pra fora do meu ônibus. - apontou para Abel com o taco. 
- Mas eu... - Abel começou dizendo. 
- Fora. - disse Ron. 
- Valeu, . - Abel disse se levantando. Algumas pessoas me chamavam assim no nono ano, mas ele nunca perdeu a mania. E eu odeio isso. Quando Abel desceu do ônibus, Ron voltou para o seu lugar e continuou dirigindo normalmente.  
- . - David chamou. - Tá sujinho aqui. - ele apontou para o próprio cabelo.  
- Vou sujar sua cara de sangue se não calar a boca! - eu falei já indo pra cima dele, mas me segurou. Eu me arrumei no banco.
- , tudo bem. Não tem porque dar bola pra esses caras. É isso que eles querem. - disse.
- Eu sei. Mas olha o que eles fazem comigo, olha o meu cabelo. - falei choromingando. tentou limpar, mas foi sem sucesso.
- Deixa pra lá. - eu falei pegando o meu boné de baseball na minha mochila e pondo na cabeça.

Quando o ônibus parou em frente a escola, todos começaram a descer apressados, e no meio do aglomerado de pessoas, alguém me empurrou propositalmente e eu caí em cima de uma garota que ainda estava sentada. Mas precisamente caí em cima de alguma coisa que ela tinha no colo.
- Ah! - a garota gritou. - Sua desastrada, caiu bem em cima do meu projeto de ciências. - ela me empurrou com muita força e fui direto pro chão, ouvindo a risada de todos. David estava bem perto de mim, se desmanchando em risos, tinha que ser ele.
- Foi ele quem me empurrou. Me desculpa! - ainda do chão, eu falei para a garota enquanto apontava para David.
- Dane-se! - a garota disse e se levantou passando por mim. Eu conhecia ela, éramos das mesmas turmas de ciências, biologia e álgebra 2. Elga, se não me engano. Ela era bem acima do peso e muito, muito inteligente e forte também como deu pra ver. David passou por mim e roubou o meu boné, correndo em seguida. Eu me levantei correndo atrás dele. Quando o alcancei, ele ficou me fazendo de boba, sem me deixar pegar o boné. 
- Ai! Você é ridículo! - eu disse com raiva. 
- Qual é cara? Devolve o boné da menina. - chegou dizendo. Antes que David dissesse algo, continuou. - Ou te encho de porrada. 
David riu. era bem mais forte que ele, não sei por que ele teve essa reação. 
- Tá. Pega aqui, . - ele jogou o boné em uma pequena poça de lama que tinha ali e saiu.  
se abaixou pra pegar.
  - Ficou todo sujo. - ele falou me entregando.
  - É besteira. - coloquei o boné na cabeça e fui andando para a porta da escola.  
- Eu queria que você não tivesse que passar por isso. - ele falou triste.  
- É, eu que o diga.



[•••]


11:25 P.M


Eu caminhei até o lado da casa de e me abaixei até ficar da altura da janela de seu quarto – já que lá era um porão antigamente.

- ! - eu dei algumas batidas na janela. - ! - bati mais uma vez. Ele estava sentado no sofá assistindo ao tal  jogo de futebol, ele estava de calça jeans e um tênis preto. Só de calça jeans e tênis preto. Sua camisa estava pendurada no braço do sofá.
- ! - eu gritei e bati mais forte dessa vez, ele finalmente me notou. Desligou a televisão e vestiu a camisa. Ele arrastou uma escrivaninha – que eu não havia visto no meio de toda aquela bagunça – e pôs debaixo da janela. Foi até o sofá e pegou algo que eu não vi. Subiu na escrivaninha e saiu pela janela com a minha ajuda. Quando ele estava de pé, vi que em sua mão direita tinha uma touca preta, ele logo a colocou na cabeça.
- Marginais não usam gorros pretos? - ele perguntou. Eu apontei para a minha cabeça que também tinha um. Ele sorriu.
- Vamos. - eu disse sussurrando. Caminhamos até a garagem da casa dele  e entramos em seu carro. Logo já estávamos a caminho da casa de Aaron Jones.


- É aqui! - eu falei apontando. estacionou. Andamos até o lado da casa, subimos segurando no cano que leva a água da chuva que acumula no teto para o chão. Ficamos de pé no parapeito, eu estava pronta para entrar pela janela, quando segurou meu braço.
- Como sabe que ele está dormindo? - ele perguntou sussurrando.
- Eu chequei o thatgabble1 antes de sair. - eu disse. - Ele não estava online.
- Tá, mas e se a internet dele tiver caído, huh? -  sugeriu
- Então ele deve ter ido dormir. - eu dei de ombros e fui em direção a janela.
- Espera. - ele me puxou novamente. - E se ele estiver assistindo o jogo?
- Se ele estivesse assistindo nós estaríamos ouvindo daqui. E têm mais, Redskins não é o time dele.
- É, mas o Redskins não vai jogar sozinho, não é? - ele disse e eu o olhei.
- Qual é o outro time? - perguntei. - Houston Texans.
- Ah, então fica tranquilo. - eu disse. - Ele torce pelo Seattle Seahawks.
- Mas...  - ele começou, mas eu tratei de interrompê-lo.
- Relaxa, tá? - eu disse. Ele balançou a cabeça e respirou fundo.
Levantei a janela devagar e entrei. me seguiu. E lá estava Aaron Jones, dormindo. Quem o vê dormindo pode até pensar que ele é inofensivo, mas muita gente não sabe que o demônio também descansa. Eu tirei minha mochila das costas e peguei uma lanterna.
- Vigia ele para me avisar se ele acordar. - eu sussurrei. assentiu e chegou mais perto de Jones. Eu abri uma gaveta de sua cômoda lentamente, e procurei meu diário, e assim fiz em todas as outras gavetas, mas não o achei. Fui até o seu guarda-roupa tentando fazer o mínimo de barulho ao abrir a porta do mesmo. Roupas, roupas, roupas, sapatos e uma sacola de camisinhas. Nada do meu diário. Me abaixei próximo da cama e apontei a lanterna pra lá. Também não estava lá.
- Olha na mochila dele. - falou apontando para a mochila de Aaron do outro lado do quarto.
Eu caminhei até lá. Comecei a mexer na mochila. Livro da escola, livro da escola, outro livro da escola, uh, um livro de mistério – que eu já havia lido, era muito bom por sinal –, lápis, canetas, camisinha – credo, ao menos ele gosta de se prevenir –, uniforme de educação física, prova de matemática – com nota 0,0, aliás –, desodorante, dinheiro, mais nada de diário. Suspirei.
- Não encontrou? - perguntou.
- Não. - respondi indo até a minha mochila. - Mas eu ainda posso me vingar. - falei tirando um tubo de supercola de dentro da minha mochila.
- O que vai fazer? Colar a mão dele na cara? - perguntou curioso.
- Olha até que não seria má ideia. - eu afirmei me aproximando da cama. - Mas acho que ele pode me entregar pra polícia. - Eu disse duvidando. - Por isso vou fazer algo menos grave. Você sabe o quanto ele ama o cabelo dele, não sabe?
concordou sorrindo malicioso.
Aaron tinha os cabelos lisos e na altura do pescoço, quando ele ia dormir sempre os jogava para cima, o que ia facilitar muito o meu trabalho. Separei o cabelo dele em cinco mechas. Na cabeceira da cama dele havia cinco ferrinhos, mais para enfeite mesmo. E eles iam ficar ainda mais enfeitados. Abri a cola e passei um pouco ao redor de um dos ferros, peguei uma de suas mechas e a enrolei com cuidado para não colar o meu dedo também, pus mais cola por cima do cabelo, só pra garantir. Fiz isso em mais duas mechas.
- Posso terminar? - perguntou.
- Claro. - eu sorri e lhe entreguei a cola.
- E se ele acordar? - ele perguntou inseguro.
- Não se preocupa, ele tem sono pesado. - eu disse. assumiu meu lugar enquanto eu voltava para minha mochila, peguei papel e caneta e comecei a escrever meu recadinho.
- Acabei. - disse.
- Ótimo. - eu sorri. - Eu também.

Peguei o papel e colei no cabelo dele.


"Seu cabelo vai crescer de novo. Mas você vai ter que ficar preso nesse corpo de babaca pra sempre. Ah, e a propósito, quem matou o CJ foi a dançarina da boate.
                        
     Xx "



Eu novamente li o que estava escrito e sorri. A última parte fazia referência, ao livro de mistério que ele estava lendo.
deu uma olhada no papel.
- Vem, vamos embora. - eu falei. Ele colocou a cola de volta na minha mochila e a fechou, coloquei-a nas costas e nós descemos. Ficamos rindo no caminho até o carro.
- Que história foi aquela de dançarina de boate? - perguntou quando já estávamos dentro do carro, voltando pra casa.
- Ah, eu achei um livro na mochila dele. Eu já havia lido, tinha que estragar o final. - eu falei. Ele riu concordando. - Aí, como sabia qual era o time que ele torcia? Achei que as meninas não se ligavam nessas paradas.
- Regra número 1 da vingança: - eu comecei - estude seu inimigo.
Depois de alguns minutos estacionou na frente de sua casa. Nós descemos do carro. Ficamos na calçada, um de frente pro outro.
- Bem, obrigada. - eu disse. - Espero que tenha se divertido.
- Tá brincando? - ele falou. - Eu que agradeço, essa foi uma das melhores noites da minha vida, .
Eu sorri.
- Fico feliz de ter feito parte dela. - eu disse. Sorriso infeliz! Some de mim! Ele também sorriu. - Bem, aah... Acho que vou indo. - apontei com o dedo polegar para a casa atrás de mim. - Não quero que os meus achem que eu fugi de novo. - falei já me afastando. De costas mesmo.
- Espera. - ele disse e segurou minha mão levemente me puxando mais para perto. - Fica aqui um pouco. Vamos curtir a noite.
Ele pegou em minha outra mão e fez um carinho nas duas.
- Curtir a noite. - eu repeti ainda com aquele sorriso nos lábios.
- É. - ele respondeu mesmo sabendo que eu não tinha feito uma pergunta.
- Adorei isso. - eu sorri. Ops, eu disse.
Ele pôs sua mão esquerda no meu rosto. Eu ainda sorria. Boba! Pare já com isso! Essa é a hora de um beijo! Ele aproximou seu rosto do meu. Com muita dificuldade eu deixei de sorrir. É por que era meio de difícil não sorrir diante de uma situação daquelas. Ia
acontecer! Ia acontecer mesmo! e eu íamos finalmente sentir o gosto um do outro. Faltava tão pouco.
- WOO HOO! OS REDSKINS VENCERAM! - nós ouvimos um coro alto de gritos acompanhados por uma buzina estrondosa. O que nos fez levar um susto e nos separar imediatamente. Um carro passou em alta velocidade na nossa rua tão tranquila, haviam quatro homens dentro, com as cabeças e corpos atravessando a janela. Idiotas! Gritando por causa da merda de um jogo! Argg! Atrapalharam o meu momento!
e eu nos encaramos de novo. É tão chato  quando o clima é cortado, parece que você está olhando para um estranho.
- Ah... Eu... Já vou. - eu disse. Então fui andando em direção a minha casa, de costas mesmo, aí um ônibus passou por cima de mim, e eu morri.
Não, brincadeira, mas eu bem queria que tivesse acontecido.  Eu ainda estava parada ali, no mesmo lugar, toda aquela ceninha do ônibus foi coisa da minha cabeça. 
- Tá... Ér... - ele coçou a nuca. - Eu também. Ele virou as costas e entrou em casa. O desespero foi tão grande que ele esqueceu de guardar o carro.
Eu caminhei frustrada até a minha casa. Abri a porta, aqueles bocós passaram gritando novamente. Antes de fechar a porta eu tive que gritar:
- VÃO SE FUDER!

Eles riram e buzinaram. Imbecis, idiotas! Argg! Fechei a porta com força. Mas logo me arrependi, por que devo ter acordado alguém. Fui para o meu quarto tentando ser silenciosa. E parece que tinha dado certo. Acendi a luz, peguei um papel e uma caneta.


Querido pedacinho de papel...

Conseguiiii hahaha! Não tudo que eu queria, mas... Vingança contra Aaron Jones - feito ✔ Ah pedacinho de papel, eu daria tudo para ser uma mosquinha só pra ver a reação do Aaron quando perceber que seu cabelo foi colado. Mas eu ainda posso me divertir imaginando a cena. Haha!


E falando nele... Peguei a lista de suspeitos em cima da minha cômoda.
  Aaron Jones


1Rede social fictícia. A palavra “thatgabble” significa algo como "que tagarelice".


Capítulo 4

- ! - ouvi alguém me chamar. Tinha acabado de chegar à escola e estava tirando alguns livros do meu armário. - !

A pessoa separou as sílabas do meu nome, acho que já imagino quem é. Senhoras e senhores, conheçam Aaron Jones e a sua ira.

- Aaron! - eu exclamei me virando na sua direção com uma falsa felicidade em vê-lo. - Sentiu saudades?
Falei irônica e sorri. Percebi que ele estava usando um boné. O cabelo dele deve estar um desastre. Ha, ha!
- Você é uma pessoa terrível. - ele deu ênfase na primeira palavra. - Acabou com o meu cabelo.
- Como pode provar que fui eu? - me fingi de desentendida.
- Você deixou um bilhete assinado com a sua inicial, que a propósito ainda não descolou do meu cabelo. Ou do que sobrou dele. - eu tive que segurar minha risada. - E você é a única "" que eu conheço que teria coragem suficiente para fazer uma coisa dessas. Sei que foi você . Quem mais seria tão má quanto você?
- Você. - eu respondi. - Devia ter pensado nisso antes de partir meu coração. Eu avisei o que acontecia com quem me machucava, não avisei? - eu disse fechando a cara. - Eu espero que, para o seu bem, você não fale mais comigo e que não tente fazer algo parecido com o que aconteceu sexta à noite. Ou vai ter muito mais de onde veio esse. - e dizendo isso eu notei que os amigos de Aaron estavam passando pela porta de entrada conversando tranquilamente. - Até mais. - eu disse sorrindo e tirei o seu boné da cabeça correndo pra saída logo em seguida.
- ! - pude ouvi-lo gritar tentando me seguir, mas os seus amigos o pararam. Eram sete garotos – sem contar com Aaron –, e três deles estavam na minha lista.
- Ei, cara. Que porra foi essa no seu cabelo?
- Uh, parece que ele decidiu deixar de ser boiola e cortou aquele cabelo de mulherzinha.
- É, mas ele cortou bem doido, não acha não?
- Aí, se liga só nessa parada aqui. - um deles falou apontando para o bilhete, ou pro que restou dele. Foi tudo que consegui ver e ouvir antes de me afastar de lá. Eu estava correndo olhando para trás, tenho que admitir que estava com um medinho de Aaron vir atrás de mim. Apesar de parecer durona eu tinha medo de levar uma surra. Parei de correr porque esbarrei em alguém. Foi tão forte que eu teria caído no chão se a pessoa não tivesse me segurado.

- Pra onde vai com tanta pressa? - era . - Fugindo da polícia?
- Não. - eu ri. - Fugindo do Aaron. Olha - eu mostrei o boné -, peguei o boné dele.
encarou o boné. Provavelmente seu cérebro não trabalhou rapidamente no quesito de porque eu segurava o boné dele nesse momento.
- Ah meu Deus! - ele exclamou. - Preciso ver o cabelo dele. Ele me abraçou de lado e correu comigo pra dentro da escola. Os amigos de Aaron ainda estavam rindo dele, mas pararam subitamente quando me viram.
- Cabelo maneiro, cara. - disse rindo. Aaron arfou e fingiu avançar na direção dele, que logo passou para o meu outro lado. - Tá pensando o que, ? Acha que pode rir de mim quando bem entender? - Aaron perguntou.
- Se você estiver engraçado, eu acho que posso. - dessa vez que foi na direção de Aaron. E seus amigos começaram a agitar o começo da briga. É aquele velho ditado: quem começa a briga nunca está no meio dela.
- Qual foi? Quer que eu enfie outra faca em você? - Aaron perguntou e seus amigos fizeram um grande coro de "wooow". - Eu já não tenho mais nove anos de idade, Jones. - disse e eles se aproximaram mais ainda um do outro. Aaron já estava pronto para retrucar quando eu o impedi.
- Aí! - eu gritei colocando minhas duas mãos nas barrigas deles, para separá-los. Ah, espera um minuto, eu preciso parar o tempo pra sentir melhor essas barriguinhas em forma. Minha bonequinha acabou de desmaiar extasiada.  - Já chega, tá? - eu disse com minhas mãos ainda nas barrigas deles, foi só pra enrolar e prolongar a sensação, admito. - Olha só - falei tirando minhas mãos de onde estavam. Juro que ouvi elas dizerem "aaah". Me virei pra Aaron. - Se encostar um dedo nele, você tá frito. Ouviu? - ele concordou. - Pega.
Lhe entreguei o boné. Ele logo o pôs na cabeça. Dei uma olhada fuzilante pros seus amigos bocós e eles logo desviaram com medo. Ah... Eu adoro causar medo nas pessoas. As vezes nem é tão ruim ser eu. Encarei Richard que estava no meio deles. E sussurrei um "você é o próximo". Ele arregalou os olhos. Eu sorri.
- Vem, . - eu disse e o puxei pra longe.
- Deveria ter me deixado bater nele. - disse.
- Sabe, eu acho que aconteceria exatamente o contrário. - eu falei. Nós entramos na sala de aula, já havia algumas pessoas ali, embora o sinal ainda não tivesse tocado.
- Há, há, há. - riu sem humor. Coloquei minha bolsa em uma cadeira e sentei sobre a banca, pra continuar conversando com ele. Antes que pudesse falar qualquer coisa, fomos interrompidos pelos dois amigos bobões do . e . Devo mencionar que esse é o mesmo que namora .
- Olá, amigos. - falou passando os braços ao redor do meu pescoço e do pescoço de . - O dia não está maravilhosamente lindo hoje?
Ele perguntou olhando pro teto com um sorriso enorme. - Desculpem o - disse empurrando e o fazendo tirar os braços de cima de nós -, caiu da cama quando nasceu. Ele explicou. e eu rimos.
- Olha só, eu não caí da cama, ta bom? - disse. - Simplesmente estou feliz, é proibido?
Ele continuou com aquele sorriso no rosto. Ele sempre fazia um topetinho no cabelo que era meio loiro, puxado para um laranja, era difícil de explicar. Já tinha o cabelo escuro cacheado e volumoso, e sempre usava um chapeuzinho, quando não, o cabelo estava preso.
- E o que te deixou assim? - perguntou.
- O mané aqui está super feliz porque a menina que ele está afim falou com ele hoje. - respondeu.
- E o que ela disse? - eu perguntei.
- "Licença aqui, por favor." - respondeu. Eu, e começamos a rir.
- Só isso? - eu perguntei depois que os risos cessaram.
- É. - deu de ombros. O seu sorriso já tinha sumido.
- E você acha que ela disse isso por quê? - perguntou. - Porque está caidinha por mim. - disse voltando a olhar para o teto, dessa vez com a boca aberta ao mesmo tempo em que sorria.
- Ou porque ela só queria passar e você estava a impedindo. - deduziu. e eu balançamos a cabeça concordando com ele.
- Que seja. - disse. - Mas, ela está caidinha por mim.
Ele falou sem mudar suas expressões anteriores.
- Mas a gente acabou de dizer que ela não está. - disse olhando para , que riu.
- Acho que é totalmente o contrário, .  - disse olhando para . Ouvimos tocar o sinal que indicava o começo das aulas. - Vem logo, para de babar aí. Vai acabar criando uma poça.
falou puxando , que pareceu acordar do transe. Nós sentamos pelo meio da sala, do meu lado direito estava sentado e do esquerdo estava. sentou na cadeira atrás da minha.
Antes de o professor entrar na sala, o gêmeo do gêmeo chegou. Era Abel. 
- Nossa, , o que houve com o seu cabelo hoje? - disse ele. - Tentei deixar parecido com o seu. - eu respondi e ele riu, nem um pouco ofendido.  

Depois de quarenta longos minutos de aula de química, senti alguém me cutucar com a caneta. Era .

- Pode passar isso pro ? - ele perguntou sussurrando para que o professor não ouvisse e me entregou um papel dobrado. Eu concordei e me virei para <. - <. - eu sussurrei. Ele me olhou. Joguei o papel para cima da banca dele. Ele pegou e o olhou. Logo depois olhou para cima procurando alguma coisa e franziu a testa.




[•••]


Durante o intervalo eu fui ao banheiro. O banheiro da escola era grande e tinha vários compartimentos, assim que eu entrei em um deles ouvi a voz de , Shelby e outras garotas. Resolvi me esconder ali para ouvir o que elas iriam falar.

- Então, convidou ele? - perguntou.
- Sim. - Shelby disse. Elas deram gritinhos animados.
- E ele aceitou? - perguntou novamente. Eu não conseguia ver, mas ela parecia estar saltitando. Shelby pegou um pouco de ar antes de responder.
- Não. - ela disse. gemeu frustrada. - Ele falou que ia pensar, tinha outra coisa para fazer essa noite, mas faria o possível para ir.
- Tomara que ele consiga ir, quero muito beijá-lo no jogo da garrafa. E quem sabe fazer mais algumas coisas... - disse e as outras riram.
- Então, Shelby, continua no mesmo horário de antes? - Ouvi a voz de Lizzy perguntar.
- Sim, às 20 horas, todos na minha casa. - Shelby respondeu. Elas conversaram mais algumas coisas e saíram.
Terminei de usar o banheiro e saí de lá bolando um plano baseado nas informações que eu havia recebido.

- Ah, estava te procurando. - < disse assim que virei no corredor para ir até o refeitório, quase tombando com ele. De novo. Antes que ele falasse alguma coisa, uma garota nerd segurando vários livros passou me encarando feio. Caroline era o nome dela, mas eu e minhas amigas a chamávamos de Carrie, porque é um ótimo apelido pra Caroline, e bem, por ela ser... Estranha. - É só eu, ou você também tem medo dessa garota? 
 - Muito. - eu respondi olhando-a indo embora.
- Enfim, você vai na casa de alguém fazer o mal hoje?
Eu ri.
- Sim. - respondi sorrindo.
- Na casa do Richard? - ele perguntou. - Porque se for eu tenho uma ótima ideia pra...
Eu o interrompi.
- Bem, eu estou sempre apta para ouvir planos de vingança, mas quero que guarde a sua ideia, porque hoje nós não vamos para a casa do Richard. - eu mantive o meu sorriso.
- Olha só esse "nós" de novo. - ele falou. - Eu ofereci minha ideia, mas não ofereci minha ajuda.
- Ta bom, seu frouxo. Mas nós temos um novo cronograma para essa noite. - eu falei dando ênfase na parte que dizia que ele e eu participaríamos da brincadeira.
- Cronograma? Que cronograma? - ele perguntou.
- Jogo da garrafa, 20 horas, casa de Shelby.


Capítulo 5

- Te convidaram também? - ele perguntou.
- Não. - eu falei. - Ouvi as meninas falando. - eu o olhei - Convidaram você?
- Sim. - ele disse olhando pro chão. - Aquele papel que você me entregou na aula era o "convite". - ele fez aspas com os dedos. - Shelby que mandou entregar para mim.

Eu não havia notado que Shelby estava na sala. Mas agora que parei pra pensar ela estava mesmo lá. No canto da parede. Próximo a mesa do professor. Quieta, calada, traiçoeira, agindo de baixo do meu nariz.

- Ah. - eu disse simplesmente.
- Mas eu não vou. - disse . - Jogo da garrafa. - ele entortou a boca e revirou os olhos.
- Não, , você vai. - falei e começamos a andar em direção ao refeitório.
- Mas eu não quero ser seu cúmplice no crime. - ele falou.
- E você vai ser... Participando do jogo da garrafa. - falei com o meu melhor sorriso e saí andando na frente.
- O quê? - ele correu um pouco para me acompanhar. - Você ouviu o que eu disse? -   eu continuei andando sem respondê-lo. Estava bolando meu plano.
- Ouvi, você disse que iria me ajudar né? - eu perguntei, mesmo sabendo que era mentira.
- O que? Não! Eu não disse isso. - ele falou. Eu andei mais rápido, deixando-o pra trás. Mas ainda pude ouvi-lo gritar enquanto me acompanhava no andar. - ! !


[•••]


Calçada da casa de Shelby, 8:02 P.M

- Ta legal, deixa eu ver se eu entendi. - falou enquanto saíamos do carro. - Está me obrigando a ficar no mesmo ambiente que Aaron Jones?
- Não estou te obrigando. - falei. - Você que disse queria ser meu parceiro no crime.
- É, mas ficar beijando pessoas não é crime. - ele disse quando paramos na calçada. - Quero invadir as casas, pichar as paredes, quebrar os vidros...
- Você vai ter muitas oportunidades para fazer isso. - eu disse. - E desde quando rejeita uns beijos? Hum?

Eu podia parecer normal por fora, mas por dentro estava queimando de ciúmes. E minha bonequinha acaba de ter a cabeça explodida.

- Desde que Aaron Jones esteja no mesmo local onde os beijos acontecem. - ele cruzou os braços. - Não vou entrar.
- Por favor. - eu disse. - Serão só por alguns minutos, você só precisa entrar e ficar de olho em tudo pra me avisar caso alguém esteja indo para o quarto dela, para que não acabem me vendo. - Ta legal, acho que posso fazer isso. - ele disse.
- Yay! - eu o abracei. - Você é demais.
Eu falei e caminhei até a lateral da casa para poder subir até a janela.
- Yay! - ele falou tentando imitar a minha voz. Eu ri. Ele tocou a campainha.
- ! - ouvi a voz de logo depois que a porta se abriu. - Achei que não iria vir.
A porta se fechou.
- . - eu falei imitando a voz dela e logo comecei a subir pelo cano, como tinha feito na casa de Aaron. Quando cheguei lá em cima tentei empurrar a janela, mas estava trancada. Fui para a janela ao lado, que pelo o que pude ver era o quarto dos pais de Shelby mas também estava trancada. - Droga!
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para o pelo thatgabble.

"" enviei.

"Oi" ele respondeu depois de alguns segundos.

"Preciso de ajuda. Pede a Shelby para usar o banheiro e vem abrir a janela pra mim"

"Beleza, espera um pouco" ele disse por fim e voltou a ficar off-line.

Pelo o que eu tinha contado dois minutos haviam se passado, e nada de . Depois de cinco minutos, eu resolvi me sentar no parapeito. Sete minutos depois parecia que iria amanhecer a qualquer momento. Mas se eu parasse para pensar direito ainda eram 8h10 da noite.
Ouvi um barulho de ferrolho sendo aberto e me levantei com cuidado.
- Porque demorou tanto? - perguntei para que estava do outro lado.
- Desculpe, quando você me mandou a mensagem já era hora de eu girar a garrafa. - ele falou me ajudando a entrar. - E eu precisei usar o banheiro de verdade.

Eu rolei os olhos.

- Tudo bem pode ir. Prometo que não vou demorar.
- Obrigado? - me perguntou como um lembrete.
- Obrigada, . - eu disse e sorri - Agora vai.
Ele concordou e saiu. Eu tirei a mochila das costas e a coloquei no chão.
Olhei em baixo da cama, em baixo do colchão, em cima dos móveis, dentro das gavetas, dentro do guarda-roupa, dentro da mochila dela, e nada.
Senti meu celular vibrar e o peguei.

             "Mensagem de "

Eu cliquei pra ver.

"Alerta vermelho: Shelby tem um cachorro (grande). Cuidado."

"OK " respondi e continuei procurando.

Dei uma olhada ao redor do quarto e vi quanta bagunça eu tinha feito. Havia roupas, papeis, lençóis, travesseiros, e enfeites pelo chão. Certamente o meu diário não estava lá. E apesar de me odiar, Shelby não havia feito nada de ruim comigo. Eu precisava arrumar aquilo. Juntei tudo e fui colocando cada coisa no seu devido lugar. Até que percebi que a porta do quarto estava aberta, caminhei até ela para fechá-la, mas antes que pudesse concluir o ato, alguma coisa passou correndo próximo as minhas pernas. Era o cachorro de Shelby.
Com um latido baixo ele subiu na cama dela, e se acomodou. Dei de ombros, fechei a porta e voltei a arrumar a bagunça. Acabei encontrando um chocolate no meio de tudo aquilo. Coloquei-o em cima da cômoda de Shelby para comê-lo depois. Vez ou outra dava uma olhada naquele enorme cachorro para não correr o risco de ele me atacar ou me denunciar. Quando tudo estava no seu devido lugar – ou quase isso –, eu peguei um papel e uma caneta na minha mochila. Nunca perderia o costume de deixar um bilhete.


" Desculpe pela invasão, foi preciso. Ainda inimigas? Haha! Belo cachorro.

                                               
   Xx




Guardei a caneta na minha mochila e a coloquei nas costas, peguei o chocolate na cômoda. Desembrulhei-o ouvindo aquele típico barulhinho de plástico desamassando. O cachorro levantou-se na cama procurando de onde o barulho vinha, e começou a latir.
- Cala a boca! - eu disse sussurrando com a boca cheia de chocolate. Ele continuou a latir sem parar. - Xiu!
Eu me aproximei dele, ele começou a latir mais alto e começou a avançar em minha direção. Eu dei um grito e comecei a correr pelo quarto, com ele me seguindo. Abri a porta e fui pra fora correndo pelo corredor, cheguei em frente a escada, não tinha mais para onde correr. Eu pensei em voltar para o quarto mas no instante que eu me virei, o cachorro já tinha pulado na minha direção, foi pra cima de mim com as duas patas, como se fosse me abraçar, mas ao invés disso, me empurrou escada abaixo.

- Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai! - eu falava enquanto rolava, quando finalmente cheguei ao chão, todos da mesa já estavam de pé olhando pra mim. Eu levantei minha cabeça.
- ?! - todos exclamaram/perguntaram ao mesmo tempo. Uns surpresos, outros com raiva e outros preocupados – na verdade a última reação era só de mesmo.
- O que estava fazendo lá em cima? - Shelby perguntou. - Nem aqui você me deixa em paz, ? - falou. Estou bem pessoal, obrigada por perguntar.
Ouvi a bonequinha falar na minha cabeça.
Eu me levantei e percebi que o bilhete ainda estava na minha mão. - Shelby! - falei com um falso contentamento. - Mandaram entregar isso pra você.
Eu lhe mostrei o bilhete, ela o pegou.
- Corre, ! Corre! - eu gritei e começamos a correr em direção a porta, ouvindo alguns gritos de lá de dentro. Entramos no carro. Ainda conseguimos ver um pequeno grupo de pessoas se formar na frente da casa, e Shelby estava a frente delas, segurando o bilhete com uma cara de interrogação. deu a partida e saímos de lá o mais rápido possível, antes que jogassem pedras em nós.

- O que foi aquilo? - perguntou depois de já termos pegado distância da casa.
- O cachorro me empurrou. Eu não tive culpa. - falei. - Eu tentei fugir, juro que tentei. Acho que ele ficou com raiva por que eu não ofereci chocolate a ele.
- Chocolate? - perguntou. - Roubou um chocolate? - ele tirou os olhos da estrada para me encarar por momento. Eu concordei com a cabeça. - Como você teve coragem de roubar um chocolate e não trazer nem um pedacinho pra mim? 
Eu ri.
- É. Você bem que merecia ao menos um chocolatinho por ter que passar tanto tempo com aquela gente. - eu falei. - A propósito... Beijou alguém?
Essa última frase saiu sem querer. Eu nem percebi que ela havia sido formulada na minha cabeça. Sem dúvida isso era coisa da minha bonequinha interior. Acho que deveria dar um nome para ela. Mas pensarei nisso depois.
- Beijei. - ele disse. Eu levantei as sobrancelhas, indiferente. Mas por dentro, minha bonequinha arrancava os cabelos. - Não que venha fazer alguma diferença na minha vida. - ele disse, prestei bem atenção no que viria a seguir. - Não acha que é meio sem sentido... Sei lá, sair beijando qualquer um assim? Quer dizer, eu mal conhecia aquelas meninas... Pra mim, beijo bom não é quando se sabe beijar, é quando têm sentimentos. Entende o que eu digo?

Fiquei o encarando por alguns segundos. Era difícil não amar alguém como . Até a sua linha de raciocínio era apaixonante. Tudo que eu queria era ter coragem para dizer: Não quer me beijar agora? Teria muitos sentimentos, eu garanto.
- ? - ele chamou.
- Ah, oi. - respondi saindo do transe. - Claro que eu entendo e acho que está totalmente certo.
- Mas então... Achou seu diário? - ele falou quando paramos no sinal.
Eu suspirei.
- Não. Estou começando a achar que meu diário está mais longe do que eu imagino.
- Ou pode estar mais perto do que você imagina. - ele sorriu apoiando a mão no meu joelho. Eu sei que essa foi só uma desculpa para tocar a minha perna, negue o quanto quiser , a mim você não engana. - Você vai achá-lo.
- Promete? - perguntei, eu realmente estava bem triste e preocupada. Afinal era minha reputação que estava em jogo. Aliás, minha vida estava em jogo. Já pensou se alguém descobre que eu amo secretamente, e espalha para Deus e mundo? É o meu fim.
- Prometo. - ele sorriu de novo e deu a partida no carro. Depois de alguns minutos de silêncio, eu resolvi quebrar aquele clima chato. - Pode ligar o rádio? - perguntei desviando o meu olhar da janela pra ele. Ele não disse nada, apenas fez o que eu pedi. - Obrigada. - eu sorri. Uma rádio qualquer foi sintonizada, e minha música favorita começou tocar. Don't you forget about me do Simple Minds. - Ai, eu adoro essa música.
Falei e comecei a cantar baixinho.
- Não é antiga demais pra você? - perguntou.
- Na verdade não... - eu disse. - As músicas antigas é que são boas pra mim. Não sei por que, mas eu nunca curto essas que são modinha. Cada uma que vai surgindo tem um ritmo diferente da outra, a letra também, mas todas elas falam sobre sexo, traição ou alguém que deu a volta por cima. E claro, tem as exceções que são aquelas músicas sem pé nem cabeça, que não fazem sentido nenhum. No final, é tudo a mesma porcaria.

parou para analisar o meu ponto de vista, olhando para estrada e franzindo a testa.

- Você tem razão. - ele disse sem me olhar. Sério, era impossível eu não me apaixonar por esse garoto. Juro que ele é a única pessoa do mundo que me dá razão. Para os outros eu sou a estranha, pra ele, eu sou... Sei lá... Eu.   - Qual é mesmo o nome dessa música?


[•••]

- Bem, obrigada mais uma vez. - eu disse quando ele parou o carro na frente da casa dele.
- Por nada... - ele falou. - Olha, só por curiosidade, o que vai dizer para quando ela perguntar o que você estava fazendo lá?
- Eu vou inventar alguma coisa. Amanhã falo pra você.
- Beleza. - ele riu baixo. - Já estou rindo só de imaginar a cara dela quando vir você.
Eu acompanhei sua risada.
- Bem, eu já vou indo. - falei e desci do carro. Fechei a porta e me apoiei na janela. - Boa noite.  
- Boa noite, . - ele sorriu.

Eu caminhei até a minha casa e entrei com calma. Tudo que eu menos queria era levar uma bronca.

- ? - ouvi a voz do meu pai próximo à escada.
- Oi, pai. - eu sorri.
- Onde você estava? - ele falou parando na minha frente.
- Eu... Estava na casa do . - respondi rapidamente.
- Então, passou a noite com um garoto. - ele disse com desdém. - Não desse jeito! - eu falei pausadamente e um pouco alterada. - Nós estávamos fazendo um trabalho da escola.
- E não podiam fazer a tarde?
- Qual era diferença de fazer a tarde ou a noite? - minha mãe interrompeu a conversa. Eu balancei a cabeça concordando. - As pessoas não transam somente à noite. - ela continuou. O meu pai olhou-a com os olhos arregalados e ela riu.
- Bem, eu já vou indo pro meu quarto. - eu falei já me afastando.
- Espera... - meu pai falou. - Onde está a sua irmã?
- Eu não sei. - menti e corri dali o mais rápido possível. Cheguei ao meu quarto e me joguei na cama. Não pude ter nem cinco minutos de sossego pois entrou no meu quarto, como furacão.
- ! - ela disse, soltando fumaça pelas narinas. - Quem você pensa que é? - ela fechou a porta com força. - Estragou minha noite!
- Olha, eu sinto muito. - Não sinto não. Me levantei da cama. - É que... - eu olhei para os lados, como se pudesse ter alguém ali perto para nos ouvir. Estava prestes a contar uma mentira. Eu a puxei pelo braço, e abri a porta, olhei se havia alguém ali. Tudo limpo. Voltei a fechar a porta. - Papai pediu para que eu te vigiasse. - eu sussurrei.
- O quê?! - ela também sussurrou histérica.  
- Pois é. Ele disse que você estava saindo muito. Queria saber o que você fazia. - falei um pouco mais alto dessa vez. 
- E por que fugiu com você? - ela perguntou. Merda! Pensa , pensa! Minha bonequinha agora roía as unhas de nervosismo. - Eu soube que ia pra lá e pedi uma carona, mas fiz ele prometer que se algo desse errado ele sairia dali comigo. - eu falei, ela pareceu pensar por um segundo, mas não questionou. Apenas sentou-se na minha cama.
- Você vai contar? - ela perguntou, depois de longos segundos de silêncio.
- Contar o quê?
- O que eu fiz. O que eu faço.
- Não. - eu abanei o ar. Ela pareceu ficar mais confortável. - Se você me der dinheiro.
Ela bufou.
- Bajuladora. - ela levantou da cama. - Quanto você quer?
- 50 pratas.
- Quê? Ficou doida? Isso é uma terça parte da minha mesada. - ela mexeu nos cabelos, nervosa.
- Tudo bem, então... Pai! - falei me aproximando da porta.
- Espera, . - ela puxou meu cabelo, me fazendo quase cair pra trás.
- Ai! - eu reclamei colocando a mão na minha cabeça. Minha bonequinha já tinha virado um monstro, pronta pra atacar . - Não podemos negociar?
- Poderíamos, se você não tivesse puxado meu cabelo. - eu disse ainda passando a mão na minha cabeça, que latejava.
- , por favor. - ela fez uma cara de choro. - E se eu te der 30?
- 40. - eu disse.
- 35. - ela disse. Eu entortei a boca e revirei meus olhos. - Fechado. - falei e fizemos um toque de mãos. 
- Bem, já que está sendo legal comigo, também vou ser legal com você. - ela disse.
- Pelo menos uma vez na vida. - falei caminhando até a cama e finalmente tirando a mão da minha cabeça. Ela revirou os olhos.
- Sabe o Richard?
- Hamilton? - perguntei.
- Isso. - ela bufou. - Pediu o número do seu celular pra mim hoje.
- E você deu?!
- Dei.
- Por que?
- Porque se não ele ia achar que eu tô afim dele e eu não tô. - ela disse mexendo os braços e levantando as sobrancelhas, como se quisesse expressar algo óbvio.
- Você chama isso de ser legal? - eu disse irônica. - Sabe que eu não gosto dele.
- Ai, relaxa, ele não quer transar com você, não. Quer te convidar para uma festa, sei lá.
- Você vai? - eu perguntei.
- Pra onde?
- Pra festa.
- Claro. - ela disse. - Sabe que não perco nada.
- Então está decidido. Se você e Richard estarão lá, eu não estarei.
Ela riu.
- Eu sei que no fundo você me ama. - ela disse se aproximando da porta e abrindo-a. Eu rolei os olhos. Ela passou pela porta, depois voltou colocando só a cabeça pra dentro. - E ama o Richard também.
Ela falou num tom provocativo. Eu taquei meu travesseiro nela. - Cai fora! - eu disse. Ela riu fechando a porta. - Tráz o meu dinheiro hein?
- Tá! - ela gritou de fora.
Levantei da cama e fui até a minha cômoda, pegando a lista, já meio amassada. Procurei uma caneta e voltei a me sentar.


Shelby Duncan


Capítulo 6

Havia acabado de chegar na escola. não veio no ônibus comigo, infelizmente. Comecei a subir as muitas escadas em direção a entrada. Parei perto das portas, quando já não pisava mais na escada. Fiquei procurando uma das minhas amigas, mas não havia sinal delas. Entrei na escola e avistei Shelby com o uniforme de líder de torcida, conversando com algumas outras meninas. Eu tirei da minha bolsa um chocolate igual ao que eu havia roubado da casa dela ontem. Sim, eu pretendia devolver.


- Shelby. - eu falei quando me aproximei, interrompendo a conversa.
- Arr... - Shelby revirou os olhos enquanto sua boca estava aberta, como se estivesse com nojo. Nojo senti eu, quando vi o chiclete mascado na boca dela. - O que você quer?
Ela voltou a mastigar.
- Roubei um chocolate na sua casa ontem a noite. - eu falei, ela franziu a testa. - Era do meu favorito, então eu tinha muitos em casa, trouxe um pra você, pra compensar o que eu peguei.
Falei entregando o chocolate a ela. Ela o pegou, ainda com a testa franzida.
- Tá. - ela disse abrindo demais a boca, quase fazendo seu chiclete voar. Percebi que enquanto batíamos esse papo super normal, Lizzy nos observava atentamente.
- Não está envenenado, ok? - eu disse.
- Tá. - ela falou da mesma maneira de antes. Eu saí de lá sem dizer mais nada. Ouvi alguém falar algo como "eu hein", mas não me importei. E enquanto eu saía de lá Lizzy me acompanhou com o olhar. Essa garota esta me parecendo muito suspeita, é melhor fazer uma investigação mais a fundo sobre ela...
- . - Ouvi uma voz masculina me chamar, me virei para ver quem era. Richard Hamilton. Provavelmente pra falar sobre a tal festa.
- Oi. - eu disse sem muita paciência.
- Então, este sábado é meu aniversário e vou dar uma festa, queria que fosse. - ele sorriu.
- Tá, tudo bem. - eu concordei. Seria uma ótima oportunidade para procurar meu diário, que aliás já estava sumido a nove dias. Deus meu!
Ele tirou do bolso um pequeno papel e me entregou. Nele estava escrito "senha individual".
- Olha ern... Será que pode me dar outra senha?
Ele me olhou, esperando uma explicação.
- É que, você sabe como é. - falei. - Eu não tenho muita intimidade com as pessoas que vão estar na sua festa, e você não vai poder me dar atenção o tempo todo. - Não que eu quisesse isso. - Queria poder levar uma amiga. - eu disse da forma mais fofa que consegui. Na verdade, eu não queria levar amiga nenhuma, queria levar . Mas não podia falar para Richard, ou era capaz de ele retirar até o meu convite. Não que ele não goste de , mas ele e Aaron são muito amigos, e Richard estava presente na insinuação de briga que aconteceu ontem entre e Aaron.
- Qual o nome da amiga que você quer levar? - ele perguntou desconfiado.
- Hm... Err.. Olivia. - eu sorri.
- Tá... - ele falou tirando do bolso mais uma senha. - Um convidado a mais, ou a menos, não vai fazer diferença.
- Obrigada. - eu peguei a senha da mão dele, ainda sorrindo. - Era só isso?
- Era. - ele sorriu e saiu de lá.
Eu me virei para seguir o meu caminho, mas dei de cara com um peitoral musculoso.
- Não sabia que tinha uma amiga chamada Olivia. - era .
- E não tenho. - respondi. - Olivia, é você.
Falei e fui andando até o meu armário, ele me seguiu.
- Ah, que ótimo. - Ele disse irônico. - Sempre temi que isso fosse acontecer. Quanto tempo vai demorar até você me emprestar seus batons e me obrigar a usar essas presilhas de cabelo?
Ele apontou pro meu cabelo. Eu ri.
- Não se preocupe não vou te fazer virar gay. - falei, parando em frente ao meu armário. - Você ouviu a conversa, não foi? - ele assentiu. - Queria que você fosse comigo na festa. Preciso da sua ajuda para procurar o diário, eu não iria se ele não tivesse sumido, odeio festas. E os garotos sempre ficam mexendo comigo e tirando gracinhas, preciso de alguém para bater neles por mim.
- Nesse caso, pode contar comigo. - ele sorriu e fizemos um toque de mãos. - Só espero que eu não precise me vestir de mulher para ir nessa festa.
- Não vai. - eu falei abrindo meu armário. - Ninguém nem vai te notar.
- E vai se vingar dele lá mesmo? - perguntou, ajeitando a mochila em suas costas.
- Eu creio que sim. - falei pensativa. - Posso pensar em algo daqui pra lá. Ele vai pagar bem caro por ter brincado com meus sentimentos.


[•••]

Na hora do almoço, fomos para a nossa mesa de costume, que ficava no pátio, ao ar livre. E também porque era a mesa mais próxima a barraquinha de lanche. , , , , e eu sempre sentamos na mesma mesa, desde que chegou na escola, e e começaram a namorar. Eu sentei em um dos bancos, e dividiu ele comigo, sentou ao lado de , no outro banco, só que mais afastada, e ficaram no banco oposto ao meu. chegou um pouco mais atrasado, e sentou ao lado de , passando um braço pelos ombros dela e lhe lançando um sorriso. Ela revirou os olhos tirando o braço dele dali.

- Por que você tá tão felizinho, pateta? - perguntou para .
- Tá falando comigo? - perguntou desviando sua atenção do seu hambúrguer para ela.
- Tá vendo outro pateta por aqui? - mordeu uma batata frita.
- Tem um bem ali. - apontou para , que estava aos beijos com .
- Ei, vocês dois! - eu gritei para e , interrompendo a conversa entre e . O casal meloso continuou me ignorando. Taquei uma batatinha frita neles. Que me olharam com raiva. - Se quiserem transar o banheiro fica por ali. - eu apontei. - Parem com isso por favor, é hora do almoço e vocês estão tirando meu apetite.


revirou os olhos.

- Nada tira seu apetite, . - ela disse, finalmente esquecendo , e dando atenção a sua comida. Eu balancei a cabeça, não havia como discordar.
- Então, por que você está feliz? - retomou sua conversa com .
- Porque, já é a segunda vez hoje, que você dirige a palavra a mim, sem eu ter falado nada antes. - respondeu sorrindo e piscando os olhos como uma menininha apaixonada.
- Segunda? - perguntou. - Mas e a primeira? Quando foi?
- Hoje mais cedo, quando você me pediu licença para abrir o seu armário. - falou e logo em seguida mordeu seu hambúrguer.
- O que? - falou.
- Aaah. - eu disse. - Então era essa a garota por quem você estava suspirando...
riu, de boca cheia.
- Suspirando? Mas do que você tá falando? - me olhou.
- O mané aí ficou falando de você o dia todo. - disse .
- , o que você tem na cabeça? - olhou para ele, indignada. - Se acha que algum dia eu vou ter coragem de...


Ela foi interrompida por alguém que largou sua bandeja com comida em cima da nossa mesa, bem ao meu lado, fazendo um barulho alto. Olhei para cima e vi a pele e os cabelos negros de Lizzy Hobbs. O-ou.
- O'connel... - disse ela. - Precisamos bater um papo.
E sentou-se ao meu lado. Lançou um olhar relativo, para todos os presentes na mesa – tirando eu.
- Sem eles. - Lizzy voltou a olhar para mim.
Eu suspirei.
- Tá legal galera, reunião particular. - eu disse para os meus amigos.
- O que quer dizer com isso? - perguntou.
- Em termos mais informais, ela quis dizer "caiam fora". - falou.
- Exatamente. - eu confirmei. Todos começaram se levantar resmungando.
- Palhaçada. - falou.
- Ela que deveria sair da mesa, não a gente. - reclamou pegando sua bolsa no chão e sua bandeja com um pouco de dificuldade.
- Quer ajuda? - perguntou segurando na mão de .
- Me larga, seu mané. - disse, saindo de lá, sendo seguida por , que ria abobalhado.
- Pode falar. - eu me virei para Lizzy.
- Eu ouvi você conversando com o Richard. - ela encarou as unhas. - E com aquele seu amigo também.
Ela estava falando de . Ouviu sobre a minha vingança? Merda.
- O-o que você ouviu? Não vai contar pra ele que...
- Quero te ajudar, . - ela disse, parecia não estar com muita paciência.
- Quer me... An?! - eu disse incrédula, não estava nem conseguindo controlar o que saía da minha boca.
- Olha só, você sabe muito bem que o Richard enganou nós duas. Ele estava namorando comigo, na mesma época em que estava ficando com você. Depois que fiquei sabendo disso terminei com ele. Mas não aconteceu nada de ruim com ele, só eu que sofri nessa história. - ela fez uma pausa, eu levantei as sobrancelhas a encarando. - Bem, e você, é claro. - ela pigarreou - Eu vi o que você fez com o Aaron e sei que foi por causa do rolo que tiveram há alguns meses. Pensei que com o Richard não iria ser diferente.
Eu parei para pensar por um instante, não conseguia acreditar nisso. Acho que tenho mais uma suspeita para riscar da minha lista.
- Então, posso te ajudar? - ela voltou a perguntar.
- Pode. - eu sorri.
- Então, quando colocamos nosso plano em prática?
- Você vai a festa dele? - perguntei.
- Sim, ele me convidou. Apesar de odiá-lo, eu gosto de festas.
- Como ele é cara de pau, convidou nós duas... - eu disse, mais para mim mesma do que para ela. Ela concordou. - Podemos fazer algo com ele lá. Vamos estar dentro da casa dele, teremos acesso a vários pertences, sem contar que ele vai estar bem distraído.
- Você tem razão. - ela colocou a mão no queixo. - Mas... Me diz, preciso levar alguma coisa?
- Hum... Será que você pode comprar uma tinta spray?


[•••] 4 dias depois

- Epa! Onde vão, mocinhas? - meu pai perguntou para mim e Chloe enquanto descíamos as escadas. Era noite, estávamos prontas para a festa do Richard. Foi por mera coincidência que descemos as escadas juntas, eu não a ajudei em nada no figurino, nem ela me ajudou, ela não iria a festa junto comigo, nem eu iria junto com ela. Não tínhamos esse tipo de intimidade.
- Festa do Richard. - Chloe respondeu. Passando ao meu lado rapidamente, me permitindo ver seu vestido que era muito mais curto e apertado do que o meu. Ela estava no último degrau da escada, pronta para descer, mas meu pai a impediu.
- Quem é Richard? - ele perguntou.
- Dâa. O namorado da ... Se liga. - Chloe falou tentando passar por ele, mas ele não deixou.
- É mentira. - eu falei enquanto andava até o mesmo lugar que Chloe estava, também tentei passar pelo meu pai, mas ele colocou os dois braços sobre os corrimões da escada nos deixando presas. - Pai, ele não é meu namorado, só nos convidou para festa. Será uma festa de aniversário normal, com bolo e refrigerante.
Meu pai levantou as sobrancelhas.
- Anda logo pai, libera. Nós já fomos a várias festas e você nunca reclamou. - Chloe falou de braços cruzados.
- Quero uma foto de vocês a cada vinte minutos. - ele falou. - Mandem foto do local, e do que estão fazendo. Entenderam?
Meu pai sempre pedia para que fizéssemos isso, depois que ele adaptou-se as novas tecnologias, não importava aonde fôssemos – tirando a escola –, se não fôssemos com ele, deveríamos mandar uma foto. Uma não, várias.
- Entendemos. - falamos juntas.
- Hum... - meu pai olhou a hora no seu relógio de pulso rapidamente, logo colocando o braço no local de volta. - Quer saber, está muito tarde. Vão pra cama.
- Como é que é? - Chloe perguntou, com uma voz enjoada.
- É isso mesmo, e digam para o tal do Richards para fazer uma festa na parte da tarde na próxima vez. - ele falou alternando o olhar entre mim e Chloe.
- Deixe logo elas saírem, Robert. - minha mãe apareceu no local. Ela havia saído da cozinha, e andou até próximo do meu pai. - Elas nunca saem de casa, nós vivemos trabalhando, mal temos tempo para fazer alguma coisa juntos, elas precisam se divertir.
- Mas elas não têm idade para sair por aí essas horas. - meu pai virou seu corpo para encarar minha mãe, ficando de costas para nós, e liberando a nossa passagem. - E se elas quisessem sair conosco para algum lugar, era só me pedir que eu as levaria.
- Elas não pedem porque sabem que você não gosta de levar ninguém para nenhum lugar no seu carro. - a minha mãe falou num tom provocativo. Nós só tínhamos um carro, e só meu pai sabia dirigir. Por tanto, ele tinha que nos levar para todos os lugares.
Recentemente ele e minha mãe tiveram uma briga por conta disso, pois ela pediu que ele a levasse a uma loja, e ficasse a esperando, mas ele se recusou, porque sabia que ela demorava demais. Motivo bobo, mas a briga foi feia e eles passaram dias sem se falar, e minha mãe passou dias andando de ônibus. Mas é que a minha mãe era meio sensível mesmo, até um pouquinho exagerada.

- Ah, por favor, não vamos voltar nesse assunto de novo. - meu pai falou, e logo mais uma das incansáveis brigas começou. Enquanto eles gritavam um com o outro, Chloe e eu nos olhamos erguendo nossas sobrancelhas, demos de ombros e fomos caminhando até a porta, Chloe passou por ela primeiro, e eu depois, coloquei minha cabeça pra dentro só para ver se eles tinham notado algo, mas ainda estavam ali, brigando.
Pois é, mãe e pai, tchau pra vocês.
Eu fechei a porta. Assim que me virei para rua um carro estacionou em frente a minha casa. Eram os amiguinhos de Chloe. Era um carro conversível vermelho. E advinha quem estava dirigindo? Aaron Jones. Ao seu lado estava sua agora atual namorada Shelby Duncan, com a qual ele já havia terminado e voltado quinhentas vezes e no banco de trás havia mais algum garoto do Clube dos Idiotas que eu não conhecia. Chloe sentou-se ao lado do garoto e eu só fiquei ali, observando tudo.
- Ela também vai? - Shelby perguntou – do seu jeito bem discreto – para Chloe.
- Vai. - Chloe deu de ombros. Shelby me encarou.
- Foi mal, tá cheio. - ela falou me lançando um sorriso – falso – sem mostrar os dentes.
- Ah qual é, tem espaço para ela aí. - Aaron falou olhando levemente para trás, sem tirar as mãos do volante.
- Aaron! - Shelby o repreendeu. - Se esqueceu do que ela fez com o seu cabelo?
Até eu tinha me esquecido. Então era por isso que ele estava usando aquele boné, mas até que combinou.
- Não se preocupem seus bocós, não quero andar nessa lata velha. - eu falei dando duas batidinhas na lataria do carro e andei até a traseira dele, pronta para atravessar a rua.
- Ouviu isso, Aaron? - Shelby perguntou. - Ela chamou seu carro de lata velha.
Eu ainda podia ouvir a conversa, pois estava parada atrás do carro, esperando os outros carros passarem, para que eu pudesse atravessar.
- Mas ele já está meio velho mesmo. - Aaron falou. Depois disso não ouvi mais nada, porque atravessei a rua, rindo da conversa dos dois. Aaron deu partida no carro, e eu toquei a campainha da casa de .
Alguns segundos depois, a mãe dele me atendeu. Ela estava segurando um bebê no braço, eu não sabia dizer se era menino ou menina, pois ele estava enrolado com uma manta branca que lhe cobria quase todo.
- Oi. - eu disse. Não era muito boa em cumprimentar as pessoas, principalmente quando essas pessoas são meus sogros. Bem, no meu mundo, claro.
- Oi, querida. - a mãe dele sorriu. - Entra.
Eu passei pela porta e ela a fechou. Notei que a sala estava um pouco escura. A irmã de – que me atendeu da outra vez – estava sentada no sofá encarando a televisão que exibia Bob Esponja.
- falou que vão a uma festa. - a mãe dele disse.
- Ah, isso. - eu concordei.
- Você está linda. - ela disse sorrindo.
- Obrigada. - sorri.
- ! A.. - ela começou gritando, mas parou como se tivesse esquecido alguma coisa. - Qual é mesmo o seu nome?
- . - respondi.
- A chegou! - ela continuou.
- Manda ela vir aqui! - gritou em resposta.
- Já sabe o caminho. - ela sorriu de novo, sorri de volta e caminhei até o quarto-porão de . Desci as escadas e parei no último degrau, antes da entrada para o quarto, receosa em acabar pegando ele sem roupa. O que não seria nada mal, mas...
- , posso entrar? - perguntei.
- Pode. - ele falou. Eu segui o caminho parando na entrada do quarto, vendo ele sentado no sofá vermelho terminando de calçar o tênis. - Eu só estou terminado de calçar o meu... - ele levantou a cabeça para me encarar, e parou de mexer no seu cadarço. Parecia ter sido congelado com aquela expressão perplexa no rosto. - Tênis.
Ele completou, finalmente. Levantou-se do sofá sem tirar os olhos de mim.
- Então, o que acha? - perguntei dando uma voltinha.
- Eu acho que é melhor a gente sair logo daqui antes que a apareça e queira me arrastar para a festa do idiota do Hamilton. - ele se aproximou me abraçando pela cintura. Eu ri, lhe dando um tapa no ombro. Ah, mas eu estava gostando daquele contato, estava gostando muito. E minha bonequinha estava pulando como uma louca.
- Pode me emprestar aquele taco de beisebol? - perguntei, quando avistei o objeto do outro lado do quarto. Ele se separou de mim para olhar na mesma direção que eu.
Minha bonequinha enfim parou de pular, e suspirou, mas não de cansaço, de tristeza.
- Claro, para que precisa? - ele falou já caminhando até o taco para pegá-lo.
- Você logo vai saber. - sorri. Ele pegou o taco, e logo em seguida o celular em cima do sofá. – O bebê que a sua mãe estava segurando é seu irmão?
- Irmã.
- Ah. - eu disse. – Qual o nome dela?
- Olive. – ele disse mexendo na gola da camisa enquanto subíamos.
- Então, o seu nome é , o da sua irmã é Olívia e da sua outra irmã é Olive.
- É.
- Que original. – eu concluí.
- Não é? – ele disse e nós rimos.
Chegamos a sala, e dessa vez o pai de também estava lá, todos estavam sentados no sofá, e o canal da televisão havia sido trocado, e agora exibia um filme qualquer.
- Mãe, pai, estamos saindo. - anunciou, se aproximando da porta.
- Achei que fossem a uma festa. - o pai de disse.
- E vamos. - confirmou.
- E o que vão fazer com esse taco de beisebol? - o pai dele voltou a perguntar.
- Nada de mais, pai. - falou me empurrando devagar pela abertura da porta.
- Olha lá... Não vai matar ninguém em, filho? - ele advertiu.
- Tchau, pai. - > falou e fechou a porta.


Caminhamos até a garagem e saímos de lá rumo a casa de Richard.


Capítulo 7

Chegando no local da festa, a música alta podia ser ouvida de longe. A casa de Richard estava bem iluminada por dentro e por fora. e eu descemos do carro, deixando lá o taco de basebol. 
Caminhamos até próximo da porta, seguindo dois garotos que estavam passando pela mesma, sendo recepcionados por outro garoto. Mas antes que eu pudesse passar, alguém puxou meu braço, o mesmo tempo que sussurrava um "". Quase caí para o lado, mas consegui me recompor. Quando encarei a pessoa que havia me puxado, não a reconheci. Era uma garota, tinha cabelos longos e lisos, e usava óculos escuros apesar de estar de noite. Não consegui ver mais detalhe algum, pois o lugar para onde ela havia me puxado estava desprovido de luz.
- Quem é você? - perguntei, também sussurrando. Ela baixou os óculos ao mesmo tempo que rolava os olhos, e pude ver que era Lizzy. 
- Eu trouxe o que você pediu. - ela sussurrou levantando uma sacola. - O que vamos fazer com isso? 
- Porque está de óculos escuro? Está de noite. - eu desconversei. 
- Argg! - ela resmungou. Eu não pude ver, mas tinha certeza de que ela rolou os olhos. - Porque as pessoas não podem nos ver juntas! - ela falou olhando ao redor, para ver se havia alguém por perto. - Não pelo fato de você ser você, mas porque nunca nos falamos antes, e as pessoas podem acabar desconfiando. 
Concordei.  
- Quando vamos colocar nosso plano em ação?  - ela perguntou. 
- Logo. - respondi. - O que devemos fazer agora é entrar na festa, nos misturar, encontrar a chave do carro do Richard, e dar um jeito de esconder isso. - falei apontando para a sacola na mão de Lizzy, que continha tintas spray dentro. 
- Certo. - ela disse. - Mas pra quê vamos precisar da chave do carro dele? 
- Pra ele não alarmar. - eu disse simples, dando as costas para ela. 
- Nós vamos pichar o carro dele? - ela puxou meu braço novamente, fazendo-me olhá-la e vê-la boquiaberta. 
- Não. Nós vamos fazer melhor do que isso. - eu sorri. - Ou pior. Depende do ponto de vista. 
Caminhei até a porta da casa, enquanto Lizzy foi guardar as coisas em seu carro. Eu já havia me perdido de , provavelmente ele já deveria estar lá dentro recebendo cantadas de alguma garota. Entreguei minha senha pra o garoto que estava na porta e sorri entrando. A festa estava barulhenta, entupida de pessoas dançando e de bebidas alcoólicas, eu não dava a mínima para a música que tocava estrondosamente e pro aniversariante também não. Andei tentando desviar das pessoas que se encontravam na pequena sala, cheguei a cozinha, procurando por , mas nem sinal dele. 
- ! - ouvi a voz de Richard e me virei, contendo a vontade de rolar os olhos. - Você veio! 
- É. - dei um sorriso falso. Ele me abraçou rapidamente, quase quebrando os meus ossos. Ele deu uma olhada discreta para as minhas mãos, provavelmente procurando algum presente. Como se eu fosse gastar meu precioso dinheirinho com ele. 
- Bem... E onde está a amiga que você disse que traria? - ele perguntou. Ops! 
- A... ah... ah... - E agora? E agora? - Ela foi... - comecei a falar mas fui interrompida por alguém. Salva pelo gongo!
- Oi, Richard. - era Lizzy, dessa vez sem os óculos escuros e com uma sacola na mão diferente da antiga. 
- Lizzy! - ele sorriu, mas logo pareceu sem graça quando olhou pra mim de novo. Duas ex no mesmo ambiente. Que palavra ele diria agora, mesmo? F... - Já conhece a ?  
Ele me apontou com a mão. 
- Ah, claro. A garota que vai para escola uma semana sim, e outra não e mesmo assim tira notas melhores do que eu. - Lizzy disse sorrindo para mim, fingindo não me conhecer, e claro, fingindo que não sabia sobre a traição de Richard e do nosso papel de trouxa. Logo ela estendeu a mão para mim, e eu a apertei sorrindo, e sentindo que ela tinha encostado um papel na minha mão. Tentei ser o mais discreta possível ao pegá-lo. - Richard, que tal dançarmos um pouco, huh? 
- Claro. - ele sorriu pegando a sacola da mão de Lizzy – que provavelmente era o presente dele –, e saíram de lá. E eu pude ler o bilhete.



Vou mantê-lo ocupado, faça o que tiver de fazer e depois me procure.



OK então. Saí da cozinha com um copo de vinho, e fui procurar pela minha amiga Olívia.
Aquele bando de gente, a fumaça e o fato de eu não estar com os meus óculos grau dificultavam muito a minha procura por ele. Subi as escadas e vi no andar de cima próximo a porta de um quarto. Ele estava com um copo na mão, haviam quatro meninas o rodeando, e ele tentava se livrar delas. 
Minha bonequinha ficou vermelha dos pés a cabeça, e fumaça saiu dela por todos os lugares possíveis. 
- ! - ele chamou saindo de perto daquelas loucas que não têm amor a vida e se aproximou. - Onde estava?
- Encontrei com Lizzy antes de entrar. Ela me atrasou com um papinho desnecessário. - respondi. - Vem comigo, preciso da sua ajuda. 
- O quer que eu faça? - ele perguntou arrumando a camisa. 
- Vamos entrar no quarto do Richard. Você procura a chave do carro dele, e eu procuro meu Diário. OK? - falei andando até encontrar uma porta com as iniciais "RH" gravadas nela. Era o quarto de Richard, o qual eu já havia visitado algumas vezes. Por sorte nunca aconteceu nada mais que beijos lá dentro. Girei a maçaneta dando de cara com e um garoto deitados na cama de Richard, totalmente nus e fazendo o que as pessoas costumam fazer nus – tirando o banho, claro.
- Uh-ah. ! - ela me chamou entre um gemido. Quem passasse ali poderia ter certeza de que eu estava transando com ela, não o garoto. Tive vontade de rir, muita vontade, aliás. passou pela porta, arregalando os olhos para a situação. 
- Vão emboraaaa! - ela emendou a fala a um gemido. O garoto que estava com ela parecia não se importar com a nossa presença ali, já que continuava investindo como se nada estivesse acontecendo ao redor dele. disparamos a rir, e eu tranquei a porta. 
- Relaxa, maninha, não sou estraga prazeres, pode continuar aí. - eu falei e ri de novo. - Só precisamos de alguns minutos. 
Olhei para e entramos em ação. Ele foi para a cômoda, e eu fui olhar de baixo da cama. Levantei o forro da mesma jogando-o por cima de e seu parceiro sexual. Ouvindo o grito de raiva, reclamação e prazer de . Puxei uma caixa de papelão de debaixo da cama, mas não havia nada de interessante ali, e nada meu também. Fui para o guarda-roupa, procurei feito uma louca e fiz a maior bagunça. Mas nada do meu diário, aquela sensação deprimente tem se tornado frequente para mim. Procurei no último lugar que me restava: a mochila dele. Nada.
- Achei! - gritou, assustando a mim e ao filme pornô ao vivo.
- O meu diário?! - perguntei me aproximando.  
- Não, a chave. -  respondeu. 
- Ah. Então vamos. - caminhei até próximo da porta. - Tchau pra vocês. - falei pra e o garoto. 
- Bom sexo. - disse passando pela porta. Eu ri e o segui. - Beleza, agora só precisamos... - comecei a falar, mas me interrompeu. 
- Espera, espera, espera. - disse ele. - Pegamos a chave do carro dele, um taco de basebol... Você vai quebrar o carro dele?! - ele falou um pouco alto demais. 
- Cala a boca. - eu sussurrei. - Sim, vou quebrar o carro dele.
  - , isso dá cadeia! - ele falou me seguindo enquanto eu andava por entre as pessoas. 
- Relaxa, , ninguém vai ser preso. - eu disse. - Agora me ajuda a achar a Lizzy. 
Eu já havia contado tudo sobre Lizzy para , ele sabia que ela iria me ajudar, e vice-versa. 
- Ali. - ele disse apontando para ela, que estava próximo a televisão quase se beijando com Richard. Ela o abraçou, deixando Richard de costas para mim e , e me encarou. Peguei a chave da mão de e a balancei no ar. Quando ela percebeu, se livrou de Richard com qualquer desculpa esfarrapada e caminhou em nossa direção. 
- Vamos lá para fora. - eu disse. Saímos de lá observando ao redor para ver se ninguém tinha percebido nossos movimentos.
O carro de Richard estava estacionado em frente a garagem da casa dele. Eu já estava com o taco de basebol na mão e Lizzy com duas tintas spray. Eu desativei o alarme do carro, e entrei nele em seguida, procurando meu diário, talvez pudesse estar por ali, mas não estava. Suspirei derrotada e desci do carro. Fechei a porta com força e logo desferi um golpe contra a mesma com o taco, que foi seguido de vários outros. Lizzy começou a fazer riscos aleatórios com a tinta branca. 
- Ei. - falou, nós duas o olhamos. - Você amassa - ele apontou para mim -, você pinta - ele apontou para Lizzy -, e eu? O que eu faço? 
- Você... - eu pensei por uma segundo. - Fica de vigia. - dei ombros voltando para o que estava fazendo. 
- De vigia... - repetiu. - Mas isso me faz um acessório antes, durante e depois do crime.
Eu ri. 
- Assistiu Todo Mundo Odeia o Chris direitinho não foi? - perguntei, Lizzy e riram. Depois de já ter amassado bastante e quebrado alguns vidros, o carro estava do jeito que eu imaginei, e os rabiscos de Lizzy só ajudavam. Eu peguei a tinta spray vermelha e desenhei um coração partido no capô, que eu havia deixado quase intacto, de propósito. Peguei meu bilhetinho – que havia escrito antes da festa – dentro do sutiã, e tirei a parte não adesiva da fita, para que ela pudesse ficar colada no carro. Coloquei-o bem próximo ao coração, pra que não restasse dúvidas do porque que eu fiz aquilo. 

- Nossa, isso ficou demais! - Lizzy disse parada na frente do carro depois de ter lido o bilhete que dizia:  

"Um coração partido te lembra alguma coisa? A nós sim. Tome mais cuidado quando quiser trair alguém, você é mesmo um babaca.
   



Xx e L" 



- É... - eu comecei. - Vingança contra Richard Hamilton, feito. - eu falei sorrindo e fiz um toque de mãos com Lizzy. Tô começando a gostar dessa garota.  
- Se alguém perguntar, eu nunca falei com você. - ela apontou o dedo indicador no meu rosto. Retiro o que eu disse sobre gostar dela. Eu concordei com a cabeça lentamente e ela se afastou indo em direção ao seu carro. 
- Então... - eu disse olhando para . - Ta a fim de ficar bêbado? 


Capítulo 8

- Ei! , acorda! - ouvi me chamar pelo apelido que haviam inventado para mim na oitava série. Eu resmunguei me virando na cama e colocando o travesseiro no rosto. - , é sério, a mamãe tá te chamando, é importante. - eu abri meus para encará-la. Ela também estava com cara de sono. Olhei para o relógio que ficava na minha cômoda. 9:35. O que há de tão importante para que minha mãe viesse me importunar essa hora da madrugada de um domingo? 
- Mas o que aconteceu? - eu perguntei para enquanto me sentava na cama esfregando os olhos.
- Eu não sei, só desci para beber água, tinha algumas pessoas lá na sala e ela me mandou te chamar. Não prestei muita atenção. - ela falou revirando os olhos e saiu do quarto. Eu me levantei, lavei o rosto, escovei os dentes, e troquei de roupa bem rápido para descer. Quando cheguei lá em baixo minha mãe servia chá para dois policiais que estavam sentados no sofá.
Policiais?
- O... que houve por aqui? - perguntei me aproximando.  
- O'Connell? - um dos policiais perguntou levantando. Ele era gordo e tinha um bigode parecido com um filhote de esquilo.
- Sim...? - eu disse, assustada (com o bigode, é claro).
- Recebemos uma denúncia esta manhã de que você havia pichado e amassado a lataria de um carro na festa de ontem a noite. - Ops. - Isso é dano á patrimônio de outra pessoa, consequentemente, um crime.  
Eu arregalei os olhos. Merda! Richard leva as coisas muito a sério. Minha mãe deve ter percebido minha cara de espanto, pois logo se pronunciou: 
- , isso é verdade? 
- Ah... Ah... - merda! Merda! Merda! - E como podem provar que fui eu? 
Me voltei para os policiais. 
- Bem, o dono carro me falou que você já vinha invadindo casas de pessoas há um tempo... - ele olhou suas anotações no seu bloquinho de notas - Ligou para os amigos e eles confirmaram que há duas semanas você invadiu a casa de um garoto, aparentemente jogou cola no cabelo dele, deixou o quarto dele revirado e um bilhetinho assinado com a letra . Alguns dias depois invadiu a casa de uma garota, roubou um... Chocolate? - ele franziu a testa.
- Mas eu devolvi! - falei rapidamente.
Ele continuou:
- Irritou o cachorro dela, e foi vista por mais ou menos dez pessoas depois de cair da escada... - o outro policial tentou segurar a risada ao ver a cara de confusão do amigo. - Inclusive foi vista pelo garoto da cola no cabelo. E entregou na mão da garota, mais um bilhete assinado com a letra . 
- E o carro do garoto de ontem também tinha um bilhete assinado com a letra . - disse o outro policial que aparentava ser um pouco mais novo que o bigodudo. - E algumas pessoas da festa disseram que viram você saindo da casa de forma muito suspeita e sem contar que ainda era muito cedo também, e depois disso você voltou e saiu de lá em seguida com várias bebidas nas mãos. 
Ah, é, e eu roubamos algumas cervejas, nada de mais.
Incrível como esses linguarudos só prestam atenção na estranha, mas a popular – Lizzy – entra e sai sem levantar suspeitas. 
- Mas existem muitas 's no mundo, não podem provar que fui eu. - eu tentei inutilmente me defender, mas não havia jeito, eu estava ferrada. 
- Acho que já temos provas e testemunhas suficientes. Sinto muito mas terá que nos acompanhar até o reformatório. - disse o bigodudo tirando as algemas do bolso. Minha bonequinha interior estava tremendo de medo, meu coração batia tão forte que chegava a balançar a blusa que eu usava. 
Fudeu? 
- Antes de levá-la, preciso ter uma conversa com ela, é bem rápido. - minha mãe disse. Oh sim! A luz no fim do túnel. Eu amo a minha mãe! 
O policial concordou e minha mãe pegou delicadamente na minha mão me conduzindo ao andar de cima. Nós entramos no quarto dela e ela foi procurar algo no seu guarda-roupa.
- Ótimo, mãe, você fez muito bem em ter me chamado aqui pra cima. Vou pular pela janela. - falei andando até a janela e abrindo-a. 
- A-ah. Paradinha aí, . - ela falou ainda procurando algo em seu guarda-roupa. Virou a cabeça pra mim. - Tire o shorts. - ela disse simples. 
- O quê? Por que? - perguntei sem entender nada. 
- Sem perguntas, , me obedeça! - ela falou e voltou sua atenção para o guarda-roupas, provavelmente ela me daria alguma roupa sua para que eu vestisse no lugar do shorts. Sem mais pestanejar eu fiz o que ela mandou. 
- Achei! - ela falou virando-se para mim com um cinto de couro extremamente grosso. Essa não. 
- Não! Não, mãe! Por favor, mãe, não faz isso! - eu falei enquanto ela me fazia ficar de bruços na cama. Então ouvi o estalo, e logo depois senti a dor. - AAAAAHHH! Mãe, por que você faz isso comigo?! - ela bateu outra vez. - AAAAHHHH! Para, mãe, por favor! - então ela bateu outra vez e outra e outra. O escândalo que eu fazia poderia ser ouvido na vizinhança inteira. E eu cada vez gritava mais alto para que os policiais escutassem e subissem até lá em cima para ver minha mãe me agredindo. Eu comecei a pedir a Deus para que ela torcesse o braço como a mãe do Chris, mas isso não aconteceu. Depois que o braço dela começou a doer ela parou de me bater. 
- Veste logo esse shorts! - ela berrou jogando o cinto no chão. Eu levantei da cama gemendo e fazendo um esforço enorme para vestir minha roupa. - Agora vamos! - ela gritou mais uma vez, me segurando pela orelha e me levando lá pra baixo.

Os policiais encararam de olhos arregalados aquela cena. - Levem essa delinquente daqui! - ela me jogou na direção dos policiais. O mais magro veio me algemar, enquanto o de bigode foi falar com a minha mãe. 
- Ela só passará alguns dias por lá, para aprender a lição. Nada que precise se preocupar. - o policial disse e minha mãe concordou me olhando com desprezo.
- Não! Vocês não podem fazer isso comigo! - gritei enquanto era arrastada pra fora de casa pelo policial que algemou. - Eu tive meus motivos! Vocês nem sequer se preocuparam em ouvi-los! Eu me recuso a sair de casa! - eu me segurei na lateral porta – já que tinha sido algemada com as mãos para frente –, os policiais tentaram me puxar, mas eu continuei me segurando e gritando. O policial de bigode começou a me puxar pela cintura, e outro pelas pernas, depois de tantas tentativas, eles acabaram me tirando do chão, mas eu continuei segurando na porta. Conforme eles tentavam me puxar, a porta ia fechando. Eu tirei minhas mãos de lá só por um segundo enquanto a porta se fechava totalmente. Mas logo voltei a me segurar, com uma das mãos no trinco. Ainda nos braços dos policiais, eu não parava de gritar: 
- Por favor, não me levem! Aquele garoto fez coisas horríveis comigo! Eu só dei o troco! Vocês têm é que prender a pessoa que roubou o meu diário! Ela sim é delinquente! - eu acabei desistindo de me segurar no trinco, mas não parei de me debater nos braços dos policiais. Eles me jogaram de qualquer jeito no banco de trás da viatura e eu me arrastei até a janela do outro lado. O policial de bigode fechou a porta de trás e tomou o lugar do motorista, logo o outro sentou ao seu lado, no banco do carona. Com muita dificuldade – por conta das algemas – eu abri a janela, que dava visão pra casa de e gritei o mais alto que pude:
- ! NÃO DEIXE QUE ME LEVEM! 

Então o Senhor Bigode arrancou com o carro. Alguns minutos depois, eu comecei a assoviar, entediada. Depois comecei a cantarolar, passar as mãos no cabelo nervosamente, suspirar alto. Logo depois comecei a cantarolar e batucar no banco da frente. Os dois policiais me encararam pelo retrovisor, repreendendo-me com o olhar. Bufei e encostei no banco com força, tentando inutilmente cruzar os braços. 
- Aí, gente, vocês podem ligar o rádio? - eu perguntei, e os dois homens me ignoraram. Eu bufei novamente. Comecei a cantarolar uma música do Bruno Mars. Não resisti e comecei a cantar normalmente. - Today I don't feel like doing anything... - parei para assobiar. - I just wanna lay in my bed. - o policial mais magro me acompanhou no assobio, e recebeu um olhar raivoso do outro.
- Não dá corda para essa garota. - o policial de bigode falou entre dentes. O mais magro riu.
- Desculpe. - ele falou, deixando um sorriso no canto dos lábios.
- Ah, qual é, policial... - eu parei para ler o nome dele no uniforme. - Carl. Eu sei que você gosta dessa música. Quem não gosta do Bruninho, não é mesmo? Vamos, galera, vamos cantar! Today I don't feel like doing anything... - o policial mais magro assobiou novamente, enquanto Carl revirava os olhos. 
- Como as pessoas conseguem conviver com você? - Carl perguntou parando o carro, e olhando para mim. - Sério, você é insuportável. Ainda bem que já chegamos. - ele revirou os olhos. O outro policial abriu a porta e me ajudou a descer do carro.
Entramos no reformatório. Não fiz questão de prestar muita atenção nos detalhes. Eles tiraram minhas algemas e me revistaram, pra ver se eu estava com armas, nem com nenhum aparelho eletrônico. Me deram o típico macacão laranja, me encaminhado ao banheiro para que eu pudesse vesti-lo. Depois de tudo pronto eles me jogaram em uma cela qualquer.
Suspirei, enquanto via a enorme grade se fechar a minha frente. Me segurei nela com as duas mãos e me lamentei: 
- Eu e minha mania ridícula de deixar minha marca nas coisas. 


☆☆☆


Segunda, 7:45 A.M, Colégio Seattle Edgar Allan Poe. Também conhecido como Escola da . 

estava pegando seus livros no armário, pronto para ir para aula. Ainda não tinha visto desde que chegou. Estava preocupado com a amiga, não parou de pensar no crime que ela (ou eles) cometeram um minuto sequer durante o dia anterior. Teria acontecido alguma coisa com ?  Será que a mãe dela havia descoberto seu ato de vandalismo e lhe dado uma surra tão grande a ponto de ela não conseguir vir para a escola? Varias perguntas rondavam a sua cabeça. Onde estaria aquela garota? 
- ? - o garoto ouviu uma voz feminina lhe chamar. Mas não era , disso ele sabia. Virou-se para trás, para encará-la. 
- Ah, oi, Lizzy. - cumprimentou. - Achei que não gostasse de ser vista perto dos losers. 
Lizzy revirou os olhos ignorando o comentário de . 
- Sabe da ? - Lizzy perguntou. 
- Não, não a vejo desde a festa. Por que? 
- Essa manhã eu ouvi uma notícia no rádio, que uma adolescente de 17 anos foi presa na manhã de ontem por pichar um carro. - Lizzy falou baixo enquanto olhava para todos os lados, como se estivesse fazendo algo errado. - Quantas garotas de 17 anos que picham carros você conhece?
  - Está dizendo que... 
- Sim, , acho que foi presa. E nós participamos daquilo e estamos aqui, livres. Acha isso justo? 
- Bom, não mas... Quem pichou o carro foi você. -  acusou. E Lizzy arregalou os olhos.
- Não vê que isso é ainda pior? - ela disse. - Eu que deveria estar presa.
coçou a nuca. 
- Veja, é a . - ele apontou para trás de Lizzy, que vinha chegando com sua mochila somente em um ombro e sorrindo como uma boba. - Vamos perguntar para ela. 
Lizzy concordou, e eles caminharam na direção da irmã de .
- . - Lizzy disse. - Onde está a ? 
- É, sabe dizer se ela foi presa, ou algo assim? - foi direto e recebeu uma cotovelada de Lizzy. revirou os olhos. 
- Não acredito que até você - apontou para Lizzy -, justo você, quer saber dessa barata descascada. - ela revirou os olhos novamente. - Sim, a  foi presa ontem de manhã. - e Lizzy se encararam de olhos arregalados, mas não percebeu nada, pois continuou falando. - Ela fez sei lá o que com o carro de quem. Não sei quando ela volta. Espero que fique lá por mais uns 17 anos, pra compensar todo o estrago que ela fez desde que nasceu. - sorriu maldosa. - Tchauzinho. 
Ela saiu em direção as salas, deixando Lizzy e sozinhos novamente. franziu a testa ao ouvir aquilo sair da boca de . Agora sabia porque era tão louca e despreocupada com a vida. Ela era maltratada demais dentro de casa, ele tinha certeza. 
- E agora o que faremos? - perguntou, nervoso. - Não me sinto bem sabendo que sou culpado e só ela está presa. 
- É, eu também não. - Lizzy falou, pensativa.- Tive uma ideia. Nós vamos até o reformatório, falar que não foi a que fez nada disso. Estávamos com ela na festa o tempo todo e que em momento algum ela saiu de dentro da casa, senão para ir embora. 
- Quer dizer mentir para a polícia? - perguntou, como se fosse algo óbvio. 
- Tem alguma ideia melhor? - Lizzy perguntou. 
- Não. 
- Então, topa? 
- Sim. - suspirou. - E quando nós vamos? 
- Agora. 


☆☆☆


- O'Connell. - um policial chamou me chamou pelo sobrenome, enquanto eu estava sentada no chão no canto da parede da cela, filosofando. Apenas virei minha cabeça na direção dele. - Tem visita pra você. 
Ele falou abrindo a o portão, eu me levantei ignorando os comentários das outras 38376 pessoas que dividiam a sela comigo. Eles falavam algo como "chegou ontem e a mamãe já sentiu falta" ou "filhinha do papai". 
- Por que tem visita pra mim? - eu perguntei ao policial, que era Carl, o mesmo de ontem, só pra deixar claro. - Ninguém me visita quando eu estou em casa, por que viriam me visitar na prisão, se é um lugar muito menos agradável? 
- Não pergunte a mim. Pergunte a eles quando chegar lá. - ele disse me guiando até a sala com os telefones. Do lado onde eu estava, haviam vários presos sentados em cadeiras, falando com seus parentes através do telefone e olhando para eles pelo vidro. - Sente-se naquela. 
Carl apontou e saiu do local logo em seguida. Eu caminhei até a cadeira indicada e me sentei nela. Esperava ver a minha mãe do outro lado ou meu pai, até mesmo um tio, menos as pessoas que eu vi.
e Lizzy. e Lizzy! até que era aceitável... Mas Lizzy? Lizzy?!    
Peguei o telefone, ainda assustada por vê-los ali e o levei ao ouvido, vendo fazer o mesmo do outro lado. 
- O que estão fazendo aqui? - eu perguntei. - O que Lizzy está fazendo aqui? 
Vi que do outro lado Lizzy tentava ouvir o que eu falava pelo telefone. 
- Viemos tirar você daqui. - disse . 
- Como? Vocês são loucos? - eu perguntei. 
- Vamos dizer para os policiais que você não fez nada disso. Que esteve conosco na festa o tempo todo, e que não saiu de dentro da casa em momento algum, senão para ir pra casa. - explicou.
- Tá... - eu respirei fundo. - Eu vou perguntar de novo: VOCÊS SÃO LOUCOS???! 
Eu gritei atraindo alguns olhares dos outros presos que também estavam se comunicando com os parentes, mas ignorei. 
- Foi ideia da Lizzy - falou apontando para ela -, fala com ela. 
Ele entregou o telefone para Lizzy.
  - Oi, . - ela disse dando um sorriso fraco. 
- Lizzy! - eu falei entredentes. - Vão embora, vocês dois! Não quero que se compliquem por minha causa! Mentir para a polícia é crime. Não podem fazer isso. Meus pais estão acostumados com as coisas erradas que eu faço, mas os de vocês não. Vão embora, por favor. O policial falou para a minha mãe que só vou ficar aqui por uns dias, vou sobreviver. 
- Não podemos ir embora, ! - ela disse. - Não quando também somos culpados! Sem contar que a ideia de me vingar dele foi minha! - ela falou mais alto dessa vez. 
- É, mas eu dei a ideia de destruirmos o carro. - eu falei calmamente. 
- Mas as tintas eram minhas! - Lizzy falou alterada. 
- E o taco de beisebol era meu! - pegou o telefone das mãos de Lizzy para gritar comigo também. - Nós vamos te tirar daqui, ! Só precisamos contar uma mentirinha de nada. Vai dar certo. 
- Não, não vai não. - eu falei de olhos arregalados, observando o que estava parado bem atrás deles. Ou melhor, quem estava parado.
- Por que não ? Confia em mim! - disse e Lizzy concordou com a cabeça. 
- Tarde demais, . - eu apontei para trás, onde Carl estava de braços cruzados ouvindo as confissões indiretas de Lizzy e . Eles olharam para trás e encararam Carl com seu sorriso sádico. O policial colocou uma mão no ombro de cada um e os arrastou para trás. Eu me aproximei do vidro para ver para onde eles estavam sendo levados, mas logo eles sumiram da minha vista. Eu encostei minha cabeça no vidro e bati-a lentamente contra o mesmo. 
- Merda. - eu sussurrei, parando de bater.
Isso vai ficar bem pior do que eu imaginei. 
Logo um outro policial veio para me levar de volta a cela. Eu voltei a me sentar em meu lugar de origem e comecei filosofar – não tinha nada mais interessante para fazer por aqui, mesmo. Mas logo os meus pensamentos foram interrompidos por gritos que ecoaram pelo local. 
- Não podem fazer isso comigo! - era Lizzy. - Eu sou uma dama, me recuso a ficar perto dessas pessoas imundas! 
Ela gritava enquanto era arrastada por dois policiais, estava algemada, mas ainda assim lutava. Logo atrás dela estava , algemado também, mas não estava sendo arrastado por ninguém caminhava tranquilamente. Os dois estavam trajando os macacões laranja ridículos. 
- Fica quieta, Lizzy. - falou próximo ao ouvido dela, mas em um tom quase normal. 
- Não me manda ficar quieta! - ela gritou. - Minha mãe! Eu quero falar com a minha mãe! - ela berrou para os policiais. - Eu tenho direito a um telefonema! Eu já vi isso nos filmes! 
- Ela tem razão. Eu também quero falar com a minha mãe. - disse. Um dos policiais que estava segurando Lizzy revirou os olhos. 
- O telefone fica pra lá. - o policial indicou e logo todos foram pra lá, sumindo da minha vista novamente. Alguns minutos se passaram e os gritos de Lizzy foram ouvidos novamente, cada vez se aproximando mais da cela onde eu estava. Logo eles pararam em frente da minha cela e um dos policiais soltou Lizzy para abrir a grade. Tiraram a algema dos meus dois amigos – acho que posso chamar Lizzy assim –, e os jogaram lá para dentro de qualquer jeito. Lizzy caiu no chão – de propósito, tenho certeza. Mas ela logo se levantou e gritou novamente. 
- A sorte de vocês é que essa semana eu resolvi pintar a minha unha de laranja e vai combinar com esse macacão ridículo! - ao ouvir isso eu revirei os olhos e me levantei.
e Lizzy e eu ficamos um ao lado outro enquanto encarávamos a grade se fechar a nossa frente – novamente, pra mim –, e ouvíamos aquele típico barulho de um portão sendo trancado. Automaticamente nós três colocamos nossas mãos em volta das grades e encostamos nossas cabeças nas mesmas, suspirando. Tentei me segurar, mas não resisti a falar: - Eu avisei para irem embora. 


[•••] 


Depois de passar tanto tempo juntos naquela cela, eu acabei contando tudo pra Lizzy. Sobre o meu diário, sobre as invasões nas casas das pessoas e o motivo de eu me vingar de cada pessoa. contou da briga que tivera com Aaron quando eram pequenos e disse que somente por esse motivo começou a me ajudar.
- E você suspeitava de mim? - Lizzy perguntou, depois de termos contado também sobre a lista de suspeitos. 
- Sim, eu sinto muito - suspirei. - Acho que te devo desculpas. Você se mostrou uma amiga e tanto esses dias.
Lizzy sorriu. 
- Eu desculpo você. Mas sabe, eu no seu lugar também suspeitaria de mim. - nós rimos. 
- Fico muito feliz que vocês duas estejam se dando bem, mas temos que dar um jeito de sair daqui. - disse. - Estou ficando paranoico. Fazem ideia de quanto tempo nós estamos aqui? Fazem?! - ele falou nervoso puxando os próprios cabelos. 
- Ann... Duas horas e meia? - eu respondi rindo. 
- Ei, garota! - ouvi um cara falar. Mas não dei muita atenção. - É você mesma, de faixa no cabelo. 
Ele continuou, sem dúvida estava falando comigo. 
- Quê? - perguntei o encarando. 
- Você e seus amigos não querem jogar? - ele perguntou apontando para a rodinha de pessoas que havia se formado ali. Somente , Lizzy e eu estávamos fora dela. Nós três nos encaramos e demos de ombros nos aproximando dos demais. Haviam dez pessoas ali – treze, contando comigo e meus amigos –, homens e mulheres. No reformatório as pessoas não eram separadas por gênero, porque todos cometeram crimes pequenos, e só passariam alguns dias ali, como era o meu caso.
- Beleza. Primeiro vamos bater um papo. - o mesmo cara que havia me chamado antes falou. - Que tal nos apresentarmos e contarmos uns aos outros porque estamos aqui? - todos concordaram, então ele começou. - Sou Anthony. Meus pais me viram pichando um muro e me trouxeram pra cá. 
- Seus pais? - uma garota perguntou. 
- É. - Anthony deu de ombros. - Eles nunca foram os melhores pais. Sua vez garota da faixa. - ele me tocou com o cotovelo, já que estava do meu lado. 
- Ah, tá... Eu me chamo . Estou aqui porque colei o cabelo de um garoto na cama dele, invadi a casa da namorada dele e roubei um chocolate e amassei o carro do meu ex com um taco de beisebol.- Ao final da minha fala todos estavam de olhos arregalados. E isso não é nem metade das maldades que eu fiz a minha vida toda.
- E você? - Anthony perguntou para Lizzy. 
- Meu nome é Elizabeth, mas todo mundo me chama de Lizzy. E, bem, sabem o carro que a disse que amassou? - todos balançaram a cabeça em concordância. - Eu pichei ele. 
- Eu sou o . - ele se meteu na conversa com um sorrisinho. - Estou aqui porque emprestei a arma do crime pra . Isto é, o taco de basebol e também fiquei de vigia enquanto as duas faziam aquela loucura. 
- Você ficou de vigia? - um garoto que aparentava der uns 14 anos perguntou. concordou com a cabeça. - Sabia que isso faz de você um acessório antes, durante e depois do fato? 
- É, eu sabia. - disse . - Obrigado por avisar agora que eu estou preso. 
Todos riram. 
- Ei. - Anthony chamou. - Mas por que fizeram isso com o carro do cara? 
Contei a eles toda história, do início. Do mesmo jeito que fiz com Lizzy. Falei do diário roubado, da lista de suspeitos e contei o motivo pelo qual nós nos unimos para acabar o carro de Richard. Mas todos ficaram sem entender qual era o papel de nessa história. Ele explicou que queria se vingar de Aaron, tanto quanto eu, e que gostou de ser um fora da lei – mesmo que por uma noite –, e depois disso vem me ajudando em tudo. Alguns até perguntaram se éramos namorados, mas negamos. Falamos que éramos muito amigos, e só isso. Mas todo mundo acusou o pobre de estar apaixonado por mim. Pelo menos não foi o contrário. 
No decorrer daquele dia nós conversamos bastante, ouvimos histórias bem loucas – assim como a minha –, brincamos de stop e até de adoleta. Eu sinceramente ainda não entendi onde aquelas pessoas conseguiram arrumar papel e caneta para brincarmos, mas garanto que não faltou nada pra ninguém. E foi super divertido, arrisco dizer que as pessoas da cadeia são mais legais do que as que estão fora dela. 
- Gente! Gente! - Lizzy chamou. - Vamos tirar uma selfie. - ela falou pegando o celular. - Afinal, essa é primeira e a última vez que eu serei presa. 
Ela posicionou o celular para a foto.
- Onde você conseguiu esse celular? - eu perguntei.  - Ué. - ela abaixou um pouco o braço. E me encarou. - É o meu celular. O policial não me revistou. - ela deu de ombros e levantou o celular novamente. Eu fiquei ao seu lado direito, ao lado esquerdo, e os outros de qualquer jeito lá atrás. - Ficou ótima. - ela sorriu. 

[•••] 

- O'Connell, e Elizabeth Hobbs. - ouvimos um policial chamar nossos nomes próximo da grade e o encaramos. - Pagaram a fiança de vocês. - Ele falou já abrindo o portão para sairmos. 
- Quem pagou? - perguntou.  
- Eu não sei. - Ele revirou os olhos. - Saiam logo daí antes que eu mude de ideia. 
- Adeus, amigos! - eu falei, me despedindo dos meus companheiros de cela. - Vou sentir falta de vocês. 
- Vai lá, ! 
- Tô torcendo pelo seu romance com o dar certo!
- Você vai achar o seu diário, gata! 
Esses e outros "incentivos" foram ouvidos. Eu ri, é claro. Saímos de lá em direção aos banheiros para tirarmos aqueles macacões. Pegamos nossos pertences e fomos até a saída pra descobrir quem tinha nos tirado de lá. E sentados nas cadeiras que haviam espalhadas na sala de recepção estavam: , ,  , , e Shelby (?). E de quebra o bonitinho Aaron Jones. 
- !  - e vieram me abraçar. e foram pra cima de , perguntar como era ficar preso. E os de mais foram pra perto de Lizzy, menos Aaron, que continuou sentado. 
- Como fizeram para arranjar dinheiro para nos tirar daqui? - Lizzy perguntou, para ninguém em especial. 
- Juntamos nossas mesadas. -  respondeu. - Não foi tão difícil já que o policial disse que vocês iriam ficar aqui somente até o domingo e a fiança era somente 50 dólares de cada. 
- Me deve 25 pratas, . - falou. 
- E como sabiam que todos nós estávamos presos? - perguntou. 
- Vimos a foto que a Lizzy postou no Instagram. - disse. 
- Bem, obrigada. - eu disse. - A todos vocês. 
- Não agradeça a todos, . - disse. - Somente eu e pagamos pra você. Sua irmã só pagou pra Lizzy. 
- É sério? - eu perguntei pra . 
- É. - ela deu de ombros. - Eu já deixei bem claro que pra mim você poderia passar mais 17 anos aí. - Ela riu. - Até mais. 
Ela saiu andando junto com Lizzy, Shelby e Aaron. 
Eu não sei porque, mas eu fiquei triste. Boba! Vê se não chora na frente de seus amigos! Isso é bobeira, é uma vaca. 
- Você ta legal? - perguntou se aproximando. - Parece ter ficado bolada de repente. 
- Tá tudo bem. - eu revirei os olhos. - Por um momento até me esqueci que fiz ela me pagar 35 dólares por nada. - eu ri. - Quem quer sorvete?
- EEEEEUU. - todos gritaram. 
- Legal, então comprem. Acabei de sair da cadeia, tô dura. - eu disse e saí andando na frente ouvindo reclamações deles.




Continua...



Nota da autora: (29/03/2018)
Gostaram?:D Comente e me faça feliz, ok? S2 Qualquer dúvida:



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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