CAPÍTULOS: [1]





O Diário de Uma Trouxa



Última atualização: 03.10.2017

Capítulo 1


6 anos antes 
- Parabéns para você, nessa data querida... - todos da minha família – que puderam  comparecer –, cantavam desafinadamente a música tradicional de aniversários. Eu não estava feliz, nunca estive, apenas fingia estar só por aquela noite. Minha vida não era divertida, eu sofria bullying na escola, não tinha amigos, minha mãe foi a única que se lembrou da data do meu aniversário, e logo saiu avisando a todos para que viessem comemorar comigo. Para os outros, comemorar = comida. É claro que viriam. Todos os meus tios, tias e primos me deram a  mesma desculpa de todos os outros anos: "Só ficamos sabendo que era seu aniversário hoje, por isso não trouxemos presentes, mas prometemos que iremos comprar." Se eu contasse quantas vezes eu já ouvi isso... Mas naquela noite algo especial aconteceu, minha avó – talvez a única pessoa do mundo que se importava comigo naquele tempo –, me deu de presente o meu melhor amigo, meu diário.

Dias atuais
Imagine aquela típica cena de filme colegial, onde três garotas gostosonas vão andando lado a lado em direção a entrada do colégio chamando a atenção de todos. A garota da direita tem pele escura cabelos grandes e lisos, e, bem, essa não sou eu. A garota da esquerda tem pele mais clara do que a primeira, os cabelos são marrons, grandes e bem lisos. E essa também não sou eu. A garota do meio, é loira tem uma pele tão branca que chega a reluzir. E os cabelos, grandes e lisos. Essa sim, definitivamente não sou eu. Eu sou aquela que as observava enquanto descia do ônibus escolar, rindo, porque elas se achavam um máximo, mas não passavam três pessoas comuns pra mim.
Calça jeans, blusa regata, boné de beisebol e os inseparáveis óculos de grau. Esse era o tipo de roupa que eu sempre vestia. Eu olhava para as meninas ao meu redor, shorts curtos, saias curtas, vestidos curtos... De jeito nenhum! Lá estava eu, na metade do meu último ano do ensino médio, todos estavam abraçando uns aos outros e falando aquelas típicas frases "como senti sua falta" e "pensei em você todo esse tempo meu amor", foram só duas semanas afastados, não precisava de tanta falsidade. Avistei ao longe uma de minhas amigas – eu só tenho duas, na verdade – mexendo no celular, próximo as grandes escadas que iam em direção à porta principal da escola. Com um dos braços apoiados em um dos corrimãos, ela olhava do celular para estrada, e da estrada para o celular, eu fui até ela.

- Oi, ! - eu falei ao me aproximar.
- ! - ela falou do jeito eufórico dela me abraçando. era o tipo de amiga que adorava conversar sobre os famosos comigo. Nada melhor a fazer do que conversar sobre caras lindos e ricos que nunca poderemos ter um relacionamento, nós não conseguíamos namorar ninguém mesmo.
Correção, eu não conseguia. tinha ficado com um garoto da escola durante do recesso, talvez estivesse o esperando chegar enquanto conversava com ele pelo celular.

- Então... Você e o Jared? Huh? - eu comentei, provocando-a.
- Ah, para. - ela disse. - Não estamos namorando, foram só uns beijinhos. - ela revirou os olhos, mas estava feliz, muito feliz.
- Sei. - fingi acreditar. - Mas você não disse que... - fui interrompida por alguém que esbarrou em mim. - Ai! - exclamei.
- Olha por onde anda, ! - disse a  garota de longos cabelos lisos e loiros escuros.
- Mas, eu estava parada. - eu disse. Ela revirou os olhos e voltou a mexer no celular enquanto subia as escadas para longe de mim. O'Connell era o tipo de garota que era o oposto de mim, como eu já disse, tem os cabelos lisos, usa roupas curtas, principalmente vestidos e saias. Capricha na maquiagem, anda com patricinhas, se veste como patricinha, fala como uma patricinha, resumindo: é uma patricinha.

Eu costumo dizer que meu subconsciente é como a versão verdadeira de mim, o imagino como uma personagem em desenho com minhas características, e devo dizer que quando penso em , minha bonequinha interior não para de vomitar. e eu temos um histórico muito antigo. Ela sempre fazia tudo que podia para me colocar para baixo, e olha, ela fazia isso muito bem. Ela sempre falava mal do meu cabelo, do meu corpo – que não era muito diferente do dela –, do quanto eu perdia tempo estudando, etc. Desde que eu comecei a me interessar pelos meninos, ela sempre estraga meus planos. Todos os meninos por quem eu ficava interessada, ou se interessavam por ela, ou ela por eles, e no quesito de beleza eu sempre perdia. Foi assim com o Nathy, o Joseph, o Albert, o Jhonny, o Thomas, o Isaac, o Logan... Enfim. Mas nós duas tínhamos uma coisa em comum: o endereço, ah, e o sobrenome também. Sim, e eu, somos irmãs. Quão irônica era minha vida? era minha irmã mais velha, mas durante a minha infância, meus pais acharam que seria melhor se nós estudássemos na mesma turma, então me fizeram avançar uma série. Portanto, eu deveria estar no segundo ano do ensino médio e não no terceiro, tendo que ficar próximo a a maior parte do tempo. Péssima decisão hein pais?
- Vaca. - falei baixinho me referindo a . E riu enquanto mexia nas pontas roxas de seu cabelo. Depois de um tempo um carro preto parou próximo a nós, e de lá de dentro saiu outra ridícula, mas essa era minha amiga ridícula, a .
- Oi, meninas! - ela falou sorrindo.
- Oi, ! - falamos juntas e nos abraçamos.
- Bom dia, meninas! - o pai de falou acenando do carro.
- Bom dia, senhor Vega. - e eu respondemos em uníssono, e ele logo saiu se despedindo com uma buzina.
- Nossa, eu pegaria ele de jeito. - falei me referindo ao pai de . Eu tinha uma quedinha por ele. Quando eu o via, minha bonequinha interior sempre me fazia dizer coisas que não devia.
- Que nojo. - disse .
- Doida. - afirmou . também sofria bullying quando era mais nova por ser assim... Como posso dizer... Mais moreninha? Pois é, xingavam ela por ela ser negra. E por pura coincidência ela também havia avançado uma série quando era mais nova. Depois que nos conhecemos passamos a compartilhar nossas experiências de vida – não todas, porque eu não confiava em ninguém para quem eu pudesse contar tudo –, e logo nos tornamos amigas. Nos conhecemos desde os 10 anos de idade. Ela era sempre muito alegre, mas de uns dias para cá ela estava meio triste, por que tinha quase certeza que seus pais iriam se separar. Ponto para mim.
- Ah, qual é, , você iria adorar me ter como madrasta. - eu disse.
- Nunca quero ter uma madrasta! - disse. - Ela iria me mandar trabalhar dentro de casa.
- Mas no final você encontraria um príncipe encantado. - disse .
- Acontece que eu já tenho um príncipe encantado. - disse .
- Ah, é mesmo, as vezes eu me esqueço do seu precioso . - disse.

era o namorado de , eu até posso dizer que ele era meu amigo também, e logo Jared também seria porque ele com certeza vai começar a namorar com . E eu? Bem, preciso arrumar novas amigas que não tenham namorados. Eu já tinha sim ficado com alguns garotos, nada sério, mas como eu disse anteriormente sempre roubava eles de mim, isso me fez prometer para mim mesma que só iria namorar quando terminasse o colégio, porque eu viveria longe de tudo e de todos que me faziam sofrer. Infelizmente, essa promessa foi quebrada rapidamente porque dois dias depois de tê-la feito eu conheci .

6 meses antes
, e eu conversávamos animadamente sobre algum famoso que tinha feito alguma coisa. Eu nem faço questão de lembrar disse detalhe. Afinal, não era dessa parte do dia que eu gostaria de recordar. Esse foi o dia em que eu conheci , nada mais importa. Enquanto conversávamos se dispersou um pouco olhando para a entrada da escola e fazendo uma expressão de surpresa ao ver alguém. Eu não estava nem aí para quem fosse, afinal falar daquele famoso – seja lá quem ele for, porque realmente não me lembro. –, era melhor do que reencontrar um velho amigo que nem era meu.

- ? - perguntou chamando a atenção do garoto de olhos verdes com um semblante confuso no rosto. - ? Ele continuou a encarando confuso e se aproximou mais de nós.
- ? - ele disse. - É você? 
- É! - ela exclamou feliz por revê-lo. Eles se abraçaram. e eu nos entreolhamos e continuamos lá sem nos pronunciar e nos sentindo excluídas da conversa animada que eles dois estavam tendo. Pelo o que eu entendi eles eram amigos de infância, se separaram somente no 9° ano, quando tiveram que mudar de escola. Nós não sabíamos sobre essa parte da vida de , afinal só nos conhecemos no ensino médio. Eu pigarreei para ver se eles percebiam que estávamos de fora do assunto e pareceu se tocar.

- Ah, gente, este é , meu velho amigo. - disse . - , estas são e . Minhas melhores amigas.
- Oi. - disse sorrindo. Ainda me lembro dos meus primeiros pensamentos a respeito dele. "Meu Deus, ele é lindo! Eu estava sem ter o que escrever no meu diário, por que minha vida estava sempre a mesma coisa. Mas meu diário vai ter que me aguentar escrevendo sobre ele pelo resto do ano agora."


Dias atuais
Daquele dia em diante não teve um dia se quer que eu não escrevesse sobre ele.
- Oi, meninas.
E falando nele... Senhoras e senhores, eu lhes apresento o menino mais fofo do mundo! Sim, era ele, . O único menino daquele colégio – talvez do mundo inteiro – que não era metido, nem machista, nem safado, nem se aproveitava das meninas, e muito menos partia o coração delas. Ele não era o capitão do time – nem ao menos fazia parte dele –, não era um nerd, não era rebelde, e muito menos uma pessoa normal. Ele era simplesmente .
O garoto por quem eu era apaixonada. A bonequinha falou na minha cabeça. O quê? Não!
Corrigindo: o tipo de garoto por quem eu me apaixonaria.

- Oi, ! - as meninas responderam olhando em sua direção com sorrisos que foram prontamente correspondidos por ele. Eu ainda estava paralisada olhando para toda aquela beleza junta, e tentando normalizar os meus batimentos cardíacos, e a tremedeira involuntária das minhas pernas, por tanto não o respondi.
- ? - ele chamou minha atenção passando a mão na frente do meu rosto, ele nem se quer estalara os dedos, talvez com medo de me assustar demais.
- Hum? - respondi meio sem nexo ainda observando ele.
- ! - chamou, me tirando totalmente dos meus pensamentos profundos. - falou com você. 
- Ah. - eu disse. - Desculpa, eu... Não te vi. - falei sorrindo. Não te vi? Sério? Não tinha uma desculpa melhor ? Você fica secando o garoto por meia hora e diz que não o viu? Tudo bem, admito, eu o amo! E me odeio por isso! Arrg!
- Tudo bem. - ele sorriu. Céus! Como ele é fofo! - Gostei do seu boné de beisebol. Ele disse apontando pra mim.
- Não tinha reparado que estava usando um boné de beisebol. - disse me observando.
- Você gosta de beisebol? - perguntou .
- Eu nem sei o que é beisebol! - exclamei. Na verdade eu sabia, bem, mais ou menos. Beisebol não é aquele esporte que eles jogam com um disquinho no gelo? Pude sentir que a bonequinha pôs a mão na testa, decepcionada.
Anyway, o que eu disse fez rir.
- Eu já volto. - Ele disse e passou ao meu lado pegando meu boné e colocando sobre a sua cabeça e subindo as escadas para falar com alguns amigos – homens, por amigas ele só podia ter a gente. E só a gente! –, diferente de mim ele ainda tinha uma vida social. Observei seus passos até vê-lo parar na metade da escada e fazer um toque de mãos com alguns rapazes.
- Tem alguém apaixonada. - cantou ao meu ouvido, como ela gostava de fazer. Sempre falava as coisas cantando.
- Quem? Eu? - me fiz de desentendida.
- Não, a tia da merenda. - falou com ironia apontando para a tia da merenda que subia as escadas com uma caixa na mão – provavelmente com comidas dentro. - Claro que é você!
- Eu não a culpo. - disse. - Ele é mesmo um gato.
- E um fofo. - completou .
- Só porque ele é gato e fofo não significa que iria querer algo comigo, além do mais, eu nem quero tentar nada, não estou afim de ver a tirar ele de nós. - eu disse.
Elas se entreolharam e deram de ombros, elas sabiam que era verdade. Como eu queria enfiar uma bala em ! Ouvimos o sinal tocar indicando que as aulas iriam começar, subi as escadas contra a minha vontade passando por e pegando meu boné de volta, ele se despediu dos garotos e logo me seguiu.
- Minha primeira aula é de física e a sua? - ele perguntou.
- A minha também. - falei suspirando cansada. Ânimo! Só faltam seis meses para essa vidinha acabar.
- Te vejo lá. - ele disse sorrindo e saiu em direção ao seu armário. Ao menos eu poderia observa-lo a aula toda.

[•••] 

Querido diário...
Minhas aulas retornaram hoje e... Arrg! Eu não aguento mais estudar. Mas na verdade eu vim falar sobre (de novo). Eu andei olhando as páginas anteriores referentes aos últimos 6 meses e não têm uma única folha em que o nome dele não seja mencionado. E essa não será diferente não é? Eu o amo? Eu confessei isso pra mim mesma hoje, mas será que eu falei a verdade? Quer dizer, como eu posso amar alguém que nunca me deu um beijo? Será que um verdadeiro amor só pode ser demonstrado através de um beijo? Será que ele sente o mesmo por mim? Eu sou uma idiota diário? Provavelmente, .


Minhas sagradas escrituras foram interrompidas pela campainha tocando. Eu estava sozinha em casa aquela tarde – como sempre. Meus pais estavam trabalhando e deveria estar por aí  dando para alguém. Dando seu amor e carinho, claro. Eu fechei o meu diário com a tranca especial, não tão especial assim já que qualquer chave que se encaixasse naquelas fechaduras tradicionais de portas o abriria. E coloquei o papel com a dica para abri-lo por entre as suas folhas, como eu sempre fazia quando não estava escrevendo nele. Eu sabia que ninguém jamais iria querer ler o que tem nele, e queria mesmo esconder meus segredos. Mas no fundo, queria que alguém os lesse, e soubesse como eu me sinto. Talvez as coisas seriam diferentes assim.
"Meu conselho é não observar o que têm além da fechadura de uma porta". Era o que dizia no papel que eu deixava preso em meio aos outros. Quem fosse esperto o bastante perceberia que a fechadura de uma porta é igual a fechadura do diário. Andei até a porta principal abrindo-a, e me deparando apenas com a rua pouco movimentada. Pus a cabeça para fora e olhei para os dois lados, não havia ninguém ali. Estranho. Dei ombros. Devia ser só alguma criança, também fiz muito isso quando era pequena. Ouvi um barulho no telhado e logo tratei de ir até o meu quarto me certificar que eu havia trancado a janela do mesmo, assim como havia feito na casa toda horas antes. Quando cheguei lá a janela estava escancarada. Eu passei meus olhos sobre a cama a procura do meu diário.
Mas ele não estava lá.


Continua



Nota da autora: (03.10.2017)
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