FFOBS - O Irreversível, por Maraíza Santos

Última atualização: 04/01/2020

"Love will find a way through paths where wolves fear to prey."
BYRON, Lorde. 1788-1824.
1851, Inglaterra

I.

一 Papai iria sentir orgulho de você, .
Levantei os olhos em direção à Julia, minha irmã mais velha. Aquela era a primeira vez que alguém abria a boca para comentar alguma coisa desde que entramos na propriedade de Berkshire Hall. Sua fala, embora cheia de boas intenções, foi como saber que eu teria que atravessar um lago congelado no auge do inverno. Eu odiava inverno.
Dei um sorriso discreto para ela e acariciei o cabelo de Polly, que dormia calmamente no colo para Julia. Já Lilian estava mais perto da janela e tentava controlar os seus enjôos. Na última parada, ela mal conseguiu ingerir qualquer comida tamanho mal estar que sentia. Seu rosto estava mais pálido do que o normal e o cabelo bagunçado grudava no pescoço suado; mantinha-se em silêncio espreito, como se a qualquer momento fosse dizer alguma coisa.
Quatro irmãs de um mesmo pai, mas de mães diferentes 一 papai, um galanteador, teve três esposas durante sua longa vida. Apenas uma sobreviveu o suficiente para ter mais de uma filha. Ainda assim, ela morreu antes de chegar a velhice, sendo substituída depois por uma mulher mais nova.
一 Estamos quase chegando 一 disse a Sra. Bridgestone ensaiando um tom animado, mas eu a conhecia. Havia um pequeno tremor na sua voz de quem não tinha certeza do futuro. Eu compartilhava de seu medo, mas tentava ao máximo não externá-lo.
Julia olhou para mim com atenção.
, é isso que você quer? 一 indagou insegura. 一 Podemos voltar para casa e esquecer essa história. Sei que acharemos outra saída.
一 Nós não temos casa, Julia. 一 respondi sem esconder meu tom amargo.
Demorou apenas dois meses da morte do meu pai para que perdêssemos nosso lar. Mesmo com a casa penhorada, ainda havia uma soma de libras que nem mesmo se todas nós trabalhássemos a vida toda seria paga.
Recebi a carta de Lorde Byron perguntando sobre a saúde de Sr. , meu pai, quando já morávamos na pequena igreja de Southwark. Na missiva, ele falava de um possível cortejo com uma de nós, as quais acreditava serem educadas o suficiente para serem baronesas; Byron explicitou que era a forma de finalmente recompensá-lo pela amabilidade do passado. Não mostrei a carta a ninguém, muito menos a réplica que lhe enviei. Antes que percebessem, eu estava comprometendo-me com um desconhecido pelo correio em troca de proteção para minha família.
Lorde Byron estava a caminho das Américas quando enviou-me a última carta contando os detalhes do nosso enlace. Embora eu insistisse que seria importante que nos encontrassemos antes, ele parecia realmente interessado no matrimônio por procuração. Ele não queria festa, tão pouco comemorações. Além disso, eu e minhas irmãs não podíamos passar mais tempo vivendo de favores. Não havia porque fingir que era algo além de um negócio que beneficiaria nós dois; eu mais do que ele.
Era por isso que estávamos indo a Berkshire Hall para assinar os papéis. Sr. Oliver seria o representante legal de meu noivo e era quem conduzia a carruagem bonita e moderna que levava-nos para nosso novo lar. Ao explicar a proposta, Julia foi a única a apoiar-me de início. Ela entendia meu desespero mais do que todo mundo. Nós duas ouviamos o choro de Lilian todos os dias ao anoitecer desde que passamos a dormir nos bancos da igreja do vilarejo.
Sra. Bridgestone, minha amiga e madrinha, não gostara nada do negócio, mas não conseguiu convencer-me a desistir; tão pouco tinha uma solução imediata para nossa situação. Ela tinha bons contatos que poderiam acolher a mim ou uma das minhas irmãs 一 não todas, o que eu não aceitaria. Estávamos juntas e continuaremos juntas. Ainda assim, a consideração e respeito que alimentei com Sra. Bridgestone através do tempo era tamanha que ela decidira acompanhar-nos até Berkshire. Suas palavras, porém, ressoavam em minha cabeça. Quem seria aquele homem que eu estava enlaçando-me pelo resto da vida? Quão terrível seria a ponto de desejar com tanta pressa uma esposa desconhecida e de nível desigual?
A carruagem parou de repente e meu estômago embrulhou de ansiedade. Sr. abriu a porta em um solavanco e logo vi seu rosto magro e bronzeado pelo sol fitando-me.
一 Estamos um pouco atrasados, então não vai dar tempo de conhecer a casa antes. Há algum problema?
Neguei com a cabeça e aceitei a sua ajuda para descer. O primo de Lorde Byron tinha um sotaque irlandês arrastado e desde que fora buscar-me em Southwark Village mostrava-se sempre ansioso com tudo; para ir, para chegar, para comer, para dormir. Era agonizante. Abri a boca para comentar sobre isso a Julia, mas, ao encarar a mansão de meu noivo, as palavras morreram na minha língua.
Era eufemismo chamar Berkshire Hall de casa. Ela tinha grandes janelas e parecia ter sofrido algumas reformas para a criação de novos quartos. Por dentro era ainda mais espetacular, o que deixava-me apreensiva. Como se administrava uma casa como aquela? Era Lorde Byron mais rico do que eu imaginara? Eu e minhas irmãs entramos de queixo caído, a Sra. Bridgestone, porém, não parecia muito impressionada. Sendo filha adotiva de um casal de condes, ela passou a maior parte da vida em lugares luxuosos como aquele.
No entanto, o que assustou-me de verdade foi a presença da família de Lorde Byron. Estavam no salão a Sra. Berkshire, avó do milorde, e o casal Kline, tios do meu noivo; acompanhando estavam os três filhos deles. O momento não passava de formalidades, por isso, surpreendi-me com a presença deles.
Não esconderam a rigidez ao ver-me sendo apresentada como noiva de Lorde Byron. Eu conhecia aquela observância. Conhecia o receio, o medo e o desprezo. Ainda assim, fingi não perceber a opinião sobre mim formando-se a minha frente. Sorri, assenti e não fiz qualquer comentário inoportuno até que meu nome estivesse assinado na papelada.
Meu casamento foi assim: técnico, sem grandes emoções ou amor. Eu sequer sabia da face de quem eu possuía o sobrenome. À noite, ao invés de dividir a cama com meu marido, dormi com Polly, minha irmãzinha mais nova, que estava assustada demais para descansar no berçário.
Ainda assim era ali meu primeiro vislumbre de esperança.



II. Berkshire, Lorde Byron

Os dias de verão americano eram um pouco diferentes dos londrinos: apesar de ser igualmente seco, os de casa tinham como garantia chuvas perenes durante várias vezes ao dia. Já na América a sensação desértica era deveras maior e cortava a garganta a cada respirada. Mesmo sendo uma terra fértil para novos empreendimentos, o país não comparava-se com o mundo civilizado europeu. Se fosse de minha escolha, nem mesmo havia pisado nele. Para não dizer que foi todo mal, a viagem emergencial deu-me uma grata surpresa. Conheci Sr. Moore, o estaleiro, um homem muito competente que se tornara um bom amigo em terras estranhas. Eu passava a maior parte do dia resolvendo meus próprios problemas, mas no final da tarde ficávamos sentados lado a lado compartilhando uma cerveja vagabunda. Naquele dia em especial eu sentia-me sem muita expectativa para o futuro.
ー Conte-me mais sobre essa história, milorde. ー pediu Sr. Moore.
Suspirei melancólico.
ー O que há a se dizer? Estamos perto de perder todo o investimento feito anos atrás por caprichos de meu primo. Confiei-lhe meu negócio para essas bandas a fim de que conseguisse seguir sua vida. Seria um arranjo perfeito, se Oliver não estivesse pior do que eu imaginava.
Não gostava de expor-me daquele jeito, no entanto sentia-me sobrecarregado há muito tempo. Naquela terra estrangeira, com pessoas desconfiadas e arredias, meu humor estava declinando-se a cada dia.
ー Trabalhar com família é a pior coisa ー afirmou ele.
Balancei a cabeça em afirmação. Era por essas e outras que não mandava subordinados resolverem coisas importantes para mim.
Depois de três meses trabalhando nos Estados Unidos, meu primo começou a faltar suas obrigações. As obras para a construção da fábrica de enlatados começaram a desacelerar o ritmo; aparentemente, Oliver esqueceu-se de contratar novos trabalhadores. No entanto, o que culminou minha vinda foi uma carta do supervisor da obra cobrando os salários não pagos.
Intimei Oliver a encontrar-me no cais londrino há mais ou menos dois meses. Parecia que eu estava encarando um homem diferente, visto que estava em uma situação muito decadente. Chorou em demasia quando eu confrontei-o sobre os prejuízos que ele estava dando-me; parecia uma criança melequenta com fome ao se agarrar aos meus pés. Amoleci, pois parecia que aquela conversa não tinha futuro e decidi, então, mandá-lo de volta para casa com uma promessa de uma pequena pensão todo mês desde que não a gastasse com jogos e bebidas. Antes disso, eu tinha uma missão para ele.
ー Acha que consegue recuperar o dinheiro? ー perguntou Sr. Moore enquanto se servia. Balancei a cabeça de leve para voltar ao presente.
ー Talvez ー respondi incerto.
ー Vai precisar contatar a polícia?
Neguei com a cabeça.
ー Oliver possuí muitos defeitos, mas desonestidade não é um desses.
Esse era um dos motivos pela qual o escolhi para ser o meu representante no meu casamento. Sua indiferença ao pedido estranho feito por mim era um alívio diante das grandes críticas que eu recebia cada vez que comentava sobre o assunto. Não confiava nem mesmo nos meus amigos para tal, afinal, eu havia ouvido seus comentários do absurdo que era casar-se com alguém por procuração. Por que não esperar um pouco e fazer um evento para celebrar a união?
Eu não tinha nada contra casamentos. Aliás, era um dos poucos eventos que eu dificilmente declinava o convite e sempre encontrei espaço em minha agenda para prestigiar recém-casados. O que incomodava-me de verdade era o fazer sem significado. A minha ideia de matrimônio era diferente da maioria da aristocracia: devia vir de um sentimento mútuo, não necessariamente amor, mas algo parecido. Deveria haver respeito e parceria. Casar por motivos mesquinhos como dinheiro e status apenas empobrecia a alma. Como, então, fazer um acordo como aquele e celebrar como uma verdadeira união de almas? Como prometer proteger ao seu cônjuge diante de Deus e dos homens se o matrimônio era movido por ideais tão egoístas?
Eu não conseguiria. Por isso, decidi fugir através da lei.
Escolher uma noiva por motivos práticos era tão dificultoso quanto apaixonar-se de verdade. Intentei de noiva-me com duas moças, todas elas filhas da aristocracia, mas o flerte púdico e o fingimento próprio deste tirou minha paciência; além do mais, os murmúrios sobre os escandalosos Lordes Byron do passado ainda corriam pelos salões londrinos. Planejei procurar pretendentes de classes mais modestas, até ouvir relatos de um médico que estava doente e endividado chamado Sr. , o qual morava em Southwark Village. Como se tivesse voltado no tempo, lembrei-me da generosidade e amabilidade que o homem tivera para com minha mãe quando estávamos em uma das nossas piores épocas. Eu, uma criança, quase perdi-a cedo demais. Ele a salvou da morte e não pediu nada em troca; nós éramos ninguém durante aqueles dias, mas isso não o impediu de ser bondoso para conosco. Era a hora de retribuir-lhe o favor.
Eu tinha encontrado Sr. em Londres quando era mais novo e anônimo. Ainda não havia herdado o título e estava negociando a compra da minha fábrica, embora já tivesse ganhado bastante dinheiro desde que comecei o comércio de pêssegos enlatados. Ofereci uma gorda quantia em gratidão pelos seus serviços prestados, a qual ele declinou de imediato. Embora eu tenha insistido, Sr. brincou que eu deveria guardar o dinheiro para minha futura esposa, porque "ela, sim, receberá o dinheiro sem pestanejar". Que engraçado seria se ele soubesse que no futuro a minha esposa seria uma de suas filhas.
ー Talvez seja um momento de focar em outras coisas. Está casado, não está? Tem filhos?
Dei um pequeno sorriso para meu novo amigo. Ele era um homem de idade, careca e muito curioso.
ー Ainda não sei se sou um homem casado, senhor.
Demorou meses para responder a carta que enviei para seu pai perguntando-o sobre sua saúde. Logo em suas primeiras frases foi possível perceber sua natureza prática; disse sem muita cerimônia que seu pai havia morrido há quase quatro meses e que deixara ela e suas irmãs em um estado lamentável. Havia acabado de perder a casa e escrevia a mim sua resposta na igreja de Southwark, onde estavam abrigadas. Ela pediu desculpas por ter meus planos de combinar um casamento diretamente com o seu pai cancelados, no entanto, ela aceitaria a proposta caso eu a mantivesse. Não contive o susto quando eu li isso, é claro. A Srta. era ousada, não mediu suas palavras a sugerir algo arriscado e até absurdo. Que conveniente era ela estar disposta a casar comigo! A réplica certa era dizer não, mas eu estava cansado de procurar uma esposa. Àquela altura já pouco importava-se se ela tinha todos os dentes da boca. Na mesma semana que recebi sua carta estive muito perto de ter mais uma crise de gota. Pela primeira vez comecei a imaginar para quem tudo que eu tinha lutado e conquistado ficaria. A resposta não me agradou muito. Isso e uma gama de fatores fez-me tomar a decisão de casar-me logo, mesmo que fosse com uma mulher desconhecida e sem grandes ascendentes.
Rendi-me a impulsividade e expliquei-a meu plano. Não haveria noivado, tão pouco casamento. Nem mesmo nos encontramos antes de estarmos casados. Qualquer mulher em uma situação normal negaria expor-se daquela maneira. Ora, eu poderia muito bem ser uma fraude. Porém, estando a Srta. mais desesperada do que eu, aprovou minha ideia, muito embora nunca tenha ouvido falar do procedimento. Passei semanas sem ter qualquer notícia da Inglaterra desde que Oliver confirmou ter recebido a licença especial solicitada por mim.
Como se tivesse sido invocado, o carteiro apareceu enquanto eu tomava o último gole de meu copo. Queria beber mais, porém deveria cuidar da minha saúde. Até ter um herdeiro, eu precisava ficar vivo.
Recebi três cartas de diferentes remetentes, todos eles advindos de Berkshire Hall: minha avó, a Srta. e Oliver . Não precisei abrir os envelopes para saber o conteúdo das cartas.
Eu, Lorde Byron, estava oficialmente casado. Era a hora de voltar para casa.


III.

Três meses depois do casamento.

Ainda estava escuro quando desci as escadas. Enrolada no meu desgastado xale, caminhei pelos corredores de Berkshire Hall como um gato. Faltava pouco para amanhecer, porém negava-me ficar insistindo no sono que não viria mais. Com os pés descalços e uma vela na mão, atravessei os corredores da mansão como um fantasma. Não encarei os temíveis auto retratos dos antepassados de meu marido, os quais carregavam em seus olhos azuis algo de loucura e maldade que ficavam mais acentuados a luz de velas. Horripilantes! Por vezes eu torcia para que os olhos de Lorde Byron fossem diferentes, embora a genética nunca tenha sido minha aliada.
Empurrei a porta do escritório devagar, mas ela rangeu ainda assim. Havia passado semanas desde que solicitara a um dos empregados para consertar-lhe a dobradiça; nada havia sido feito. Suspeitava que era uma das tentativas de sabotagem da Sra. Berkshire ou do casal Kline, embora não pudesse acusá-los sem provas.
Os últimos três meses estavam sendo difíceis. Como eu suspeitava, a família de milorde não gostava de mim e pouco tentava disfarçar sua insatisfação de ter alguém de tão baixa classe e de origem duvidosa como parente. Eu pouco me importava desde que ele escrevera-me “a casa é sua, administre-a como achar melhor. Você é Lady Byron, afinal”. Era meu passe livre para fazer o que deveria ser feito. Não importava o que diziam de mim.
Depositei a vela com cuidado em cima da mesa, que estava devidamente arrumada, do mesmo jeito que deixei no dia anterior. Por enquanto aquele era o lugar da casa que eu mais gostava, perdendo apenas para a varanda de meu quarto. A cadeira de Lorde Byron era grande e forrada com camurça vermelha; sentia-me poderosa quando sentava ali. Boa parte dos livros da estante eram novos e quase intocáveis. Era comum ouvir comentários de Lilian de que era um absurdo eles não serem devidamente usados. Como forma de resolver tal problema, minha irmã sempre aparecia lá para pegar um ou outro para ler. Foram tantos que já perdi até mesmo a conta.
O escritório de Berkshire Hall poderia também ser confundido como uma sala privativa do dono da casa. Para mim, era muito mais confortável até do que a sala de visitas que tinha coisas demais e espaço de menos.
Desde que recebi a última carta do credor confirmando que estávamos sem dívidas de novo decidi que seria a esposa de Lorde Byron merecia e precisava. Nas últimas semanas, por exemplo, atualizei um dos seus livros de despesas e surpreendi-me no tanto que gastamos com coisas supérfluas para o casal Kline, um peso na vida de Berkshire Hall. Convenci ao Sr. Woodhouse fazer algumas alterações, já que agora minhas irmãs faziam parte da família, no entanto, de todos, ele era o mais irredutível a mudanças. O tempo todo ele mandava mensagens a milorde pedindo autorizações, embora não recebesse resposta de nenhuma delas.
A chegada de milorde era um evento que se prolongava em demasia. Estávamos todos da casa ansiosos para tê-lo de volta, da Sra. Berkshire aos empregados, embora fosse por motivos diferentes. Eu estava entre a vontade de ter uma imagem real de meu marido e a felicidade de ter tido bastante tempo para acostumar-me com a rotina antes de lidar diretamente com ele.
A primeira pessoa a aparecer no escritório de manhã foi Lucy, uma das empregadas de milorde. Ela era mais jovem do que eu e tinha uma pequena cicatriz no canto esquerdo da boca. Era nova na casa, no entanto, aprendeu rápido os meus desejos e manias. Todas as manhãs ela aparecia segurando uma bandeja com salsichas, ovos, queijo e chá com leite. Eu não costumava comer junto com a família, já que eles acordavam mais tarde. Como sempre vestia-me sozinha de manhã, a missão principal de Lucy era ter certeza de que eu estava me alimentando.
ㅡ Bom dia, milady.
ㅡ Bom dia, Lucy. Pode me informar se minha irmã acordou? ㅡ indaguei indo sentar no sofá do escritório.
ㅡ Ainda não, milady.
ㅡ Avise-a que daremos um passeio ainda essa manhã quando ela acordar, tudo bem? Peço que traga minhas botas também, por favor. Precisarei delas.
Ela concordou antes de retirar-se. Lucy era uma mulher muito calada; nunca dava sua opinião se não solicitada. Era bastante diferente de Cassie, a empregada que cuidava de Julia. Eu preferia assim.
Após comer e limpar a pequena bagunça que fiz, resolvi voltar às anotações que eu cuidava nas últimas semanas. Estava calculando alguns presentes que queria entregar a minhas irmãs, mas não queria gastar mais do que devia. Embora tinha consciência de que meu marido era rico, não poderia agir como uma traça. De parentes assim já lhe bastava os que tinha.
Foi uma manhã calma e sem grandes agitações. Eu sabia que o tempo estava passando apenas por causa do sol que atravessava a janela do escritório. Às vezes murmurava alguns números, imersa nas contas que fazia. Lorde Byron possuía diversas fontes de renda e gastos igualmente diferentes. Imaginava o quanto que os seus administradores sofriam.
Sr. Woodhouse apareceu quase no final da manhã acompanhado pela minha irmã, Julia. Ele a adorava, dizia que lembrava uma das suas filhas que era professora em uma escola para moças da região. Trabalhava em Berkshire desde que milorde era uma criança. Sendo um homem quase idoso, ele tinha dificuldade para ler sem seus óculos, mas era um grande profissional.
ㅡ Mexendo em minhas coisas de novo, milady?
ㅡ Claro que não, Sr. Woodhouse. ㅡ Respondi, embora eu estivesse fazendo exatamente o que ele disse.
Fechei seus livros e guardei o meu caderno de anotações. Woodhouse implicava comigo, mas ele preferia a mim mexendo no que não devia do que o Sr. Kline. Ele detestava o Sr. Kline. Eu também não gostava muito dele.
ㅡ O dia está ótimo para um passeio. ㅡ comentei levantando-me da cadeira.
Aquele era o nosso pequeno sinal para dizer que queria um momento a sós com minha irmã. As paredes de Berkshire Hall tinha ouvidos, todo cuidado era pouco.
Julia apenas assentiu, indicando que entendeu o que estava acontecendo.
Sr. Woodhouse esticou as pernas e apoio-as em um banquinho como de costume. Ele tinha uma barriga proeminente e as pernas finas como uma garça. Foi então que vi o bolo de cartas que ele carregava.
ㅡ Chegou uma mensagem do Lorde Byron essa manhã, milady ㅡ disse Woodhouse. ㅡ Quer lê-lo? Acredito que ele tenha chegado em Londres.
Senti uma pequena excitação, o nervosismo que a espera criou. Em breve iria conhecer meu marido cara a cara e então, os dias longe da vida de casada estavam contados.
Com as cartas endereçadas a mim ainda não lidas nas mãos, saí pela cozinha evitando ao máximo os corredores onde os parentes de meu marido poderiam estar passeando. Nos meus dias de sorte, eu só encarava-os durante o jantar. Infelizmente eram dias raros.
Estávamos perto dos estábulos ainda em silêncio quando ouvi uma gritaria e o som de confusão. Vi um dos cavalos se soltar e homens saírem desesperados gritando:
ㅡ Cobra! Cobra!
Mais homens saíram em desespero do estábulo e o tumulto era generalizado.
ㅡ Olha para esse tanto de homem medroso, meu Deus! ㅡ comentou Julia sorridente. ㅡ Vamos embora, . Deixe eles se resolverem.
ㅡ E perder a oportunidade de matar uma provável víbora? ㅡ indaguei com as sobrancelhas arqueadas. ㅡ Nunca.


IV. Berkshire, Lorde Byron

ㅡ Bem vindo de volta, Lorde Byron.
A voz do Sr. Woodhouse denunciava a afobação que ele tivera para tentar abrir minha carruagem antes do meu mordomo, Sr. Strauss. Os dois viviam em disputa, uma forma bem peculiar de demonstrar afeto, já que consideravam-se melhores amigos.
ㅡ Imaginei que chegaria em alguns dias.
Franzi o cenho.
ㅡ Não recebeu minha mensagem? Enviei há quase uma semana. Avisei que estava voltando.
ㅡ Oh, não recebi nada. Chegou apenas o que o senhor enviou para Lady Byron. ㅡ replicou.
ㅡ Que estranho! Lembro de ter enviado para os dois na mesma tarde. ㅡ comentei. ㅡ Bem, pode acontecer. Às vezes os carteiros nos deixam na mão.
ㅡ Sim, milorde. É claro.
Olhei para os lados à procura de um rosto desconhecido, mas vi apenas alguns servos correndo para contar a novidade da minha chegada.
ㅡ Onde está minha esposa?
ㅡ Oh, sim, sim. A Lady Byron saiu para uma caminhada com sua irmã, Srta. . Estará em casa em breve. ㅡ informou.
Gritos de medo e relincho de cavalos se misturaram de repente. Olhei para o lado alarmado diante de uma tão grande agitação como aquela. Na última vez que acontecera isso, um dos meus empregados quase morreu pisoteado.
ㅡ Vem dos estábulos. ㅡ deduzi antes de sair correndo contornando a mansão até o local.
Com o coração batendo às pressas e uma leve dificuldade por meus músculos a esforçarem-se por conta dos últimos dias doente, vi de longe uma mulher desconhecida entre um grupo de homens que trabalhavam no estábulo. Inferi ser ela minha esposa diante da roupa de luto usada e os trajes formais.
ㅡ O que está acontecendo? ㅡ indaguei ao aproximar-me.
A mulher era muito mais bonita de perto; tinha os cabelos escuros em contraste com a pele branca. Era alta e possuía um corpo curvilíneo, ideal para a moda vitoriana. Quando fitou-me, vi que seus olhos eram escuros. Ela possuía uma beleza simples, comum.
Antes de responder-me, os homens que a acompanhavam fizeram uma pequena reverência em respeito a mim. Ao ouvir o pequeno murmurar de “Lorde Byron” advindo deles, a mulher empaleceu-se.
ㅡ Lo-lorde Byron? O Lorde Byron?
Peguei sua mão direita e beijei-a em cortesia.
ㅡ É um prazer finalmente conhecê-la, minha esposa.
Ela puxou a mão grosseiramente e começou a rir sem graça.
ㅡ Não sou a Lady Byron, meu senhor. Sou Julia , sua cunhada.
Meu rosto deve ter denunciado o constrangimento. Havia esquecido-me das irmãs , as quais acompanhavam minha esposa, estavam em Berkshire Hall também. Era de extrema indelicadeza a minha de não indagar quem era quem antes de apresentar-me daquela maneira. Senti-me ainda mais incomodado ao perceber que meus servos seguraram a risada de zombaria.
Pardon, Srta. , eu…
Um grito saiu dos estábulos, sendo esse feminino e prazenteiro. Fiz uma careta, perturbado e maquinando teorias sobre aquela agitação.
ㅡ Mas que diabos? O que é isso?
ㅡ Se me permite, ㅡ acrescentou Heaven, um dos cavalariços ㅡ deve ser sua esposa, milorde, ela...
O quê?!
Sem esperar sua resposta, andei a passos largos até o estábulo tentando não pensar o pior e falhando miseravelmente. Abri a porta sem muita delicadeza e então vi minha esposa. Minha esposa de verdade.
Seu vestido estava amarrado na barra, o que possibilitava ver suas botas e meias sujas de feno e lama. O cabelo estava alvoroçado, colado no pescoço e a respiração ofegante como de quem correrá muito. Em suas mãos carregava uma enxada com uma cobra esmagada pendurada, o verdadeiro motivo para o grande alarde.
ㅡ Matei a desgraçada! ㅡ ela gritou de um jeito que imaginava os soldados romanos faziam após ganhar uma guerra. Embora tivesse a pele mais escurecida, era possível ver que seu rosto ficara um tanto rubro por conta do esforço.
Os poucos homens que estavam ali tentando acalmar os cavalos também pareciam eufóricos, embora sucumbiram em silêncio ao me ver entrando no recinto.
ㅡ Lady Byron? ㅡ chamei-a, torcendo que no fundo não a fosse. Torcendo que no fundo ela fosse apenas uma das irmãs desconhecidas de minha esposa.
A mulher virou-se devagar e eu pude ver seu estado calamitoso mais de perto. Ela era muito bonita, apesar de não ter reparado nisso no momento. Apenas via minha mulher e a atual Lady Byron em uma situação constrangedora, segurando uma cobra como se ela fosse a reencarnação de São Patrick.
ㅡ Desculpe-me, senhor, nos conhecemos? ㅡ perguntou ela formalmente.
Seu sotaque era parecido com o de minha cunhada e logo entendi sem dúvidas que era ela minha mulher. Senti-me desanimado diante daquela cena; quando minha avó mandava cartas reclamando da falta de educação da nova Lady Byron, imaginei que fosse apenas sua forma de detestar mudanças. No entanto, eu tinha que começar a escutá-la. Talvez a Sra. Berkshire estava mais certa do que eu gostaria de admitir.
Se eu fosse um homem sensível talvez tivesse desmaiado ali. Fingiria uma tontura, embora fosse mais usual das mulheres tal atitude. De qualquer maneira, agiria apenas para evitar a vergonha que transpassou a nós dois quando eu disse:
ㅡ Não, milady. Sou Lorde Byron, seu esposo.


V.

Eu queria sumir.
Quanto mais eu pensava sobre isso, mais a ideia parecia atrativa aos meus olhos. Se dependesse de mim, nunca mais sairia do quarto e iria me afundar na cama até que o mundo esquecesse da minha existência.
Julia acompanhava minha andança pelo quarto como se fosse uma coisa muito divertida. Olhar para ela fazia-me lembrar de quão consternado Lorde Byron saíra dos estábulos e entrou no seu quarto alegando estar cansado de viagem. Duvidava muito que ele iria sair antes do jantar depois da cena presenciada.
, ficar andando pelo cômodo não vai fazer a vergonha desaparecer.
— Não era para ter sido assim! — reclamei. — Era para termos feito um jantar em comemoração, dar-lhe uma boa recepção com vinhos ou seja lá o que ele gosta de tomar. Não algo assim!
Minha irmã deu uma risadinha.
— Queria que você visse seu rosto! Foi imperdível.
— Julia! — ralhei batendo o pé. — Estamos com problemas aqui!
De repente a porta do meu quarto foi aberta. Lilian atravessou a entrada como se fugisse de uma assombração tamanho desespero. Atrapalhou-se a fechar a porta e tropeçou nos sapatos ao correr e abraçou Julia fortemente.
— Deus Santo, Lily! O que houve? Você está pálida — eu disse.
— Eu passei o maior constrangimento da minha vida inteira! Quero morrer. — minha irmã do meio choramingou enquanto afundava seu rosto por entre as saias de Julia.
— Bem, parece que hoje é o Dia do Constrangimento, então.— falei desgostosa. — O que aconteceu? Conte-me sua história.
Com um bico gigantesco, Lily retirou sua franja dos olhos dramaticamente.
— Mary avisou-me que Lorde Byron chegou e apressei-me em deixar os livros que esqueci no meu quarto no lugar certo. Só que ele chegou no escritório de repente e eu me atrapalhei toda! — seus olhos encheram-se de lágrimas — Derramei os livros no chão e fiz uma grande bagunça.
Troquei um olhar descrente com Julia antes de perguntar:
— Foi só isso?
— Só isso? Ele basicamente expulsou-me do escritório! Disse para não entrar lá sem a autorização dele.
Fiquei tensa. Lorde Byron não estava errado em exigir privacidade em seu escritório, mas mesmo assim…
Suspirei, cansada.
— Parece que não deixamos mesmo uma boa impressão no milorde, meninas. — comentei.
— Pergunto-me como vai ser a forma que ele conhecerá Polly… — disse Julia parecendo pouco abalada em ter sido confundida comigo por Lorde Byron.
Um grito, agora infantil, invadiu os corredores da casa. Meu coração batucou em desespero assim que reconheci sendo de minha irmã mais nova.
Nós três corremos de supetão para o corredor e encontramos uma cena bastante comum nos últimos meses. De um lado estava Michael, o filho do meio do casal Kline, agarrando os cabelos de minha irmã como se ela fosse uma boneca; do outro estava Polliana, a caçula das irmãs , tentando se livrar das garras do menino.
Embora os dois fossem crianças igualmente violentas, conseguimos separá-los aos berros. Acompanhada pela babá de seus filhos, a Sra. Kline, tia de milorde, apareceu logo em seguida esbravejando contra Polly.
— Essa menina parece que foi educada por cavalos! Merece levar umas palmadas. — ralhou Kline fazendo menção de tocar na minha irmã.
— Fique longe dela, sua bruxa! — gritou Lilian pronta para enfrentá-la, no entanto posicionei-me à sua frente. Rapidamente Julia puxou Polly para seu encalço, apartando-a do alvoroço.
— Controle-se, Sra. Kline. — falei entredentes. — Quem deve cuidar da educação de seus filhos é você, não nós. Se ele age como um animal, a culpa não é nossa.
— Ela quebrou o meu brinquedo, mamãe! — exclamou Michael, o pestinha, com lágrimas de mentira.
Virei-me para Polly que escondia-se nas saias da minha irmã.
— É verdade, Polly?
— Ele que começou!
— Polliana…
Ela abriu a boca em um choro falso que eu conhecia muito bem.
Engolindo o orgulho, voltei-me para a Sra. Kline e a babá que pairava como um fantasma na conversa.
— Que isso não se repita! — exclamou Kline antes de descer os degraus junto com sua trupe.
Foi então que vi Lorde Byron no final da escada observando a cena junto com a Sra. Berkshire e seu sorriso odioso. Embora meu marido tivesse uma expressão indecifrável no rosto, não acredito que tenha sentido-se satisfeito com uma confusão entre crianças antes da hora do chá. Quando encarei-o, ele não disse nada, apenas saiu do caminho da Sra. Kline como se nada tivesse acontecido.
Estressada e esgotada com todas as confusões daquele dia, peguei minha irmã mais nova e a coloquei nos meus ombros de cabeça para baixo. Ela começou a gritar pedindo misericórdia, um drama muito parecido com o que Lilian fazia. Ora, conhecendo-me bem nos últimos anos, Polliana sabia que quando eu a segurava daquele jeito era porque ela estava muito encrencada.


Foi minha irmã mais velha que teve a ideia de que preparámos um belo jantar no dia da chegada de Lorde Byron. Era a nossa última esperança de passar uma boa impressão e ele não se arrepender terrivelmente de ter casado comigo.
Conversando com a governanta, a Sra. Strauss, descobrimos quais eram seus pratos favoritos e eu fiz uma lista do que seria ideal para aquela noite baseado no que tinha na dispensa. Havia diferente tipos de assados e pratos, um verdadeiro banquete. Buscando ajudá-la, preparei a salada. Não era normal a dona da casa mexer diretamente na comida, mas eu estava disposta a deixar tudo perfeito.
Na hora do jantar, vesti-me da forma mais modesta e, ao mesmo tempo, arrumada, equilibrando-se no malabarismo do luto total que eu estava. Enquanto demorava-se no meu penteado, tentei respirar fundo e pensar que estava fazendo aquilo não só por mim, mas pelas as minhas irmãs e pelo meu pai, que Deus o tivesse.
Lorde Byron demorou a aparecer. Ao contrário das poucas impressões que tive nas nossas trocas de cartas, ele era um homem muito silencioso. Cumprimentou seus familiares com cortesia, embora parecesse estar ali por pura obrigação. Quando sentamos a mesa, reparei que estava bastante esgotado e respondia em monossílabos. Imaginei em quão cansado estava e que não era-lhe necessário comer junto conosco naquele dia. Ainda assim, Byron o fez.
— Heaven contou para mim o que aconteceu hoje mais cedo, Lady Byron. — comentou Sr. Kline enquanto se servia. — Até amanhã toda a região saberá a cor das suas meias.
Morei minha língua completamente mortificada. A Sra. Kline soltou um sorrisinho e eu quis retirar-me para o quarto imediatamente. Quando fui até o estábulo, estava pensando apenas em ajudar. Não imaginei que criaria tamanha confusão.
— Ao menos ninguém ficou ferido, não é? Essas víboras são venenosas. — disse Julia com um sorriso amarelo.
— Se ninguém foi ferido não foi por cuidado de Lady Byron. — falou a Sra. Berkshire como quem não quer nada.
Fitei-a com um olhar duro, mas ela pouco abalou-se com isso. Abri a boca para dar uma resposta mal-criada quando uma voz rouca e nova na casa disse:
— Você não deveria ter se arriscado daquele jeito, Lady Byron.
Pisquei aturdida para meu esposo. Eu estava duplamente abalada: com suas palavras e sua voz que tinha um tom muito mais grave e charmosa do que eu projetara.
— Além de poder se machucar, pôs-no ao ridículo por causa de uma cobra. — continuou ele.
Reparei pela primeira vez em seu olhos, os quais eram de um azul meio acinzentado, escurecido.
— Não é minha culpa se os homens de milorde são em grande maioria covardes. — respondi sem acovardar-me.
Julia engasgou-se com a água e começou a tossir. Sr. Woodhouse, o qual acompanhava o jantar naquele dia, tentou ajudar-lhe com algumas tapinhas nas costas.
Lorde Byron não fez qualquer comentário; pediu, apenas, ao Sr. Kline para passar a tigela de salada. Inabalado, era como se eu não tivesse dito nada.
— Irá comer apenas isso, querido? — indagou a Sra. Berkshire. — Você já voltou tão magrinho das Américas! Não quer um pouco de carne? Hoje a Sra. Strauss caprichou para recebê-te!
Com o garfo cheio de repolho no meio do caminho para a boca, milorde respondeu:
— Tive outra crise quando estava no navio. Não quero repeti-la.
— Crise? Que crise? — perguntei preocupada.
Byron não olhou para mim a responder.
— Gota. Eu tenho gota.
Apertei os lábios para não bufar em frustração e não esconder meu rosto entre mãos. Gota! Por que eu não sabia que ele tinha essa doença? Pedi para a Sra. Strauss preparar até mesmo ganso assado! O que eu estava querendo? Matá-lo?
O jantar decorreu sem muita conversa depois disso. Havia barulho, mas a maior parte do tempo parecia pequenos monólogos entre a família do lorde. Mantive-me quieta a maior parte do tempo; às vezes, encarava meu marido e desviava o olhar quando ele fazia o mesmo.
Milorde recolheu-se cedo e foi a desculpa perfeita para que eu e Julia também o fôssemos. Eu estava exausta e a última coisa que precisava era escutar os comentários não solicitados da Sra. Berkshire ao episódio desastroso de mais cedo.


VI. Berkshire, Lorde Byron

Às vezes nos pegamos imaginando como será nossa morte. Será rápida e indolor? Passarei por muito sofrimento antes de sucumbir à escuridão? Morrerei de repente? A morte era um estágio inevitável, misterioso e aterrorizador. Ela chegaria mais cedo ou mais tarde, não tinha preferência de classe e agia da forma que bem entendia.
Antes imaginava que viveria mais do que o bastardo do meu pai. Afinal, ao contrário dele, não tive a boêmia como prática e filosofia durante a maior parte da minha juventude e nem arriscava a minha vida flertando com esposas de poderosos. No entanto, no meu aniversário de 34 anos, recebi de presente uma dor insuportável nas juntas. Que surpresa descobrir que estava com gota, a maldita doença que me acompanharia até o fim da minha vida. Era ela que me mataria aos poucos.
Gota. Que nome estúpido para uma doença. Foi com ela que descobrir ser verdade que ninguém conseguia acostumar-se com a dor; nunca acostumei-me com a gota.
Meu humor piorava cada vez que eu tinha uma crise. Por causa disso, não fiquei alguns dias em Londres como de costume. Quase sem paradas, vim para Berkshire Hall desejando apenas calmaria até me recuperar por inteiro. As dores tinham até parado! Eu só precisava de um pouco de descanso e estaria pronto para encarar os poucos anos de vida que eu teria. Minha família, porém, desconhecia meu almejo e decidiu transformar a minha volta para casa um verdadeiro caos.
De todas as formas que imaginei encontrar minha esposa, vê-la pela primeira vez em um celeiro fedido, divertindo-se com o perigo como uma mulher interiorana não foi uma delas. Para piorar, sua falta de decoro nas vestimentas fez-me ser obrigado a escutar uma hora de insultos da minha avó sobre minha falta de responsabilidade ao escolher alguém de tão desnível. Seu discurso era repleto de "eu avisei" e conselhos não solicitados para um possível anulamento por falta de consumação, o que eu não cogitava de jeito nenhum. Além de gastar dinheiro desnecessariamente, traria meu nome para mais fofocas e ainda obrigaria-me a casar de novo. Sem contar na rejeição que minha esposa e suas irmãs receberiam.
Como se minha enxaqueca já não tivesse aumentado, Sr. Woodhouse comentou da falta de vontade de Sr. Kline de mudar-se junto com a família em uma das minhas propriedade. Dizia ser muito pequeno e não comportaria uma família de cinco. Para ele havia muito espaço em Berkshire Hall, embora eu estivesse começando uma família e minha esposa trazer junto consigo suas irmãs.
E como gran finale tive que encarar todos na mesa saborear meu prato favorito enquanto eu comia mato como um cavalo. Era como um lembrete, uma mensagem permanente de que ali não era meu lugar de descanso e sim um covil de confusão e desejos não realizados. Era por isso que de todas as minhas casas, àquela era a qual eu mais evitava visitar.
Não descansei o quanto eu pretendia. Levantei-me no mesmo horário dos criados e pedi um chá para amenizar a sensação de ter trabalhado no campo a semana inteira. Gostava do silêncio da manhã e os barulhos longínquos de pessoas trabalhando. Sentindo-me melhor e motivado, andei em passadas lentas até meu escritório. Ainda planejava visitar a fábrica naquele dia, ver como as coisas estavam indo enquanto eu estava fora.
Meu escritório estava impecável, o que fez-me ficar desconfiado logo de início. Lembrava de tê-lo deixado arrumado no dia anterior, no entanto, tudo estava tão bem posicionado que cheirava a armação.
Apenas quando sentei na cadeira encontrei um pequeno caderno de camurça vermelho. Tinha aparência nova e abri para ver o que era; na primeira página estava escrito “pertence a ”.
Fechei-o, acreditando que talvez fosse um diário. Fiquei curioso para lê-lo, mas não era o suficiente para que invadisse a privacidade da minha esposa. A última coisa que eu planejava era dar-lhe motivos para me detestar.
Um pequeno bater na porta interrompeu meus devaneios. Acreditando ser algum empregado com o chá que eu pedira, o mandei entrar.
empurrou a porta com o pé e adentrou segurando uma bandeja com chá e uma pequena porção de frutas. Surpreso, levantei-me de súbito e caminhei em passos largos em sua direção.
— Bom dia, milorde.
— Você não precisava trazê-lo. — adverti enquanto fazia menção de pegar o objeto que carregava.
— Não é necessário alarme, é apenas uma bandeja. — replicou desviando-se para que eu não a ajudasse.
Lady Byron sentou-se com pouca graça na cadeira, o que fez-me lembrar das constantes reprimendas da minha mãe quanto a isso. Aquela mania, no entanto, nunca pude tirar de mim.
Concentrada, a mulher colocou um pouco de chá para si e para mim.
— Pedi para preparar frutas, embora ache muito triste começar a manhã com tal refeição — discursou ela. Balancei a cabeça em concordância. — Como prefere o seu chá?
— Dois cubos de açúcar, por favor. — respondi intrigado com sua atitude.
Ao estender a xícara para mim, senti que pela primeira vez a vi de verdade. Sua ascendência era visível, mas era superficial focar-lhe para descrever sua beleza. Com olhos marcantes, minha esposa possuía traços grossos que suavizaram em pontos cruciais de seu rosto; o nariz, em especial, era meio pontiagudo, o que percebi ser uma característica de sua família paterna. Sem muita discrição, enquanto bebericava meu chá, fitei seus cabelos brilhosos e escuros enrolados em uma trança que ia até a cintura. Parecia usar menos saias de baixo do que a moda sugeria, ainda que a qualidade das roupas indicassem que foi a Sra. Dorcas que confeccionou seus trajes.
— Há algo errado? — indagou ela após meu longo silêncio.
— Você não tem sotaque urdu. — apontei enquanto pegava um pedaço de maçã do prato.
— Papai trouxe-me para Inglaterra ainda bebê. Só sei falar o bom e velho inglês — disse e soprou um pouco para afastar a fumaça de seu chá.
Seu olhos estavam atentos a mim, analisando com muito cuidado; eles eram difíceis de não serem notados, tendo um desenho curvilíneo e marcado. Sua ascendência era notável principalmente por causa deles.
— Confesso que lembro pouco da família de Sr. , mas todos o conhecia pelo número de esposas. E pelas filhas, é claro — comentei.
— Papai era um galanteador — disse ela prática. — Casou-se tantas vezes que admiro-me por lembrar o nome de cada uma das minhas madrastas. Era quase uma maldição: Case-se com o Sr. , tenha uma menina e morra de pneumonia.
Dei um pequeno sorriso surpreso pelo humor que ela escondia em sua face indiferente. Durante os meses que eu estava preso as minhas obrigações nos Estados Unidos, não pude deixar de reparar no quão impessoal era suas cartas; sua escrita assemelhava-se com meus funcionários, não alguém que compartilhava meu sobrenome.
— Peço perdão pela forma que recepcionei-o no dia anterior, — iniciou-se como uma boa diplomata. — mas quero que entenda…
— Deixe no passado — interrompi-a. — Suponho que pareceu o certo a ser feito na hora.
Ela ficou aturdida e sem palavras por dois segundos.
— Oh, obrigada, milorde — disse por fim.
Mais uma vez nos silenciamos. Comecei a bater o pé no chão ansioso para que aquela estranha conversa terminar-se. Agora que estávamos juntos, não sabia o que fazer para burlar o estranhamento inicial de um relacionamento que se iniciava.
— Milorde! — chamou-me de repente.
.
— Como?
— Chame-me de .
Ela franziu o cenho.
— Não sinto que eu o conheço o suficiente para tanto.
— Então sente-se ofendida se eu a chamar de ?
— Claro que não, — ela apertou os lábios, tentando conter-se de dizer algo. — mas reitero que os únicos que chamam-me desse jeito são meus padrinhos quando estão com raiva de mim.
Inclinei-me em sua direção perigosamente perto.
— Então a chamarei de milady.
Se ela se abalou, não demonstrou. Minha esposa aproximou-se na mesma medida; seu hálito do chá tocando meu rosto, os olhos inquisidores sem desviar-se de mim.
— E eu o chamarei de milorde.
Sorri satisfeito sem conseguir me conter. Eu tinha gostado dela, apesar do episódio escandaloso que passamos.
— Então me diga o que deseja, milady.
voltou para sua posição atual e colocou as mãos no colo recatadamente.
— Sei que estamos impossibilitados de participar de grandes eventos por conta do luto, mas também sei que terei que ser apresentada como sua esposa em breve. Como deve ter percebido, não sou a mulher mais refinada do mundo e receio trazer vergonha a sua casa. Isso também inclui minhas irmãs… — hesitou, pensativa. — Talvez não Julia, pois ela ainda chegou a ir a uma escola de meninas, mas Lilian não teve a oportunidade. Polly, além de ser muito criança, não teria como ir diante das nossas antigas condições financeiras.
Balancei a cabeça surpreso pela o reconhecimento de seus limites e a grande dose de realidade que seu tom trazia. Minha esposa crescia aos meus olhos conforme falava sem excesso de humildade e, ao mesmo tempo, sem desatino orgulho.
— Nunca fui educada para ser esposa de um par no reino e receio que demore um pouco para aprender sem ser instruída propriamente — explicou ela.
Eu a entendia, sobretudo porque eu também não tinha sido criado para ser um par do reino. Por muito tempo havia até mesmo ignorado a existência do meu pai e laços sanguíneos que ligam-me a aristocracia. Durante quase toda a minha vida adulta, os homens e as mulheres de sangue azul eram apenas um bom público para vender meus produtos.
— Por que não pede ensinamentos de minha avó? A Sra. Berkshire foi durante muito tempo esposa do herdeiro do baronato.
Testei-a com atenção. Embora imaginasse que haveria um certo receio entre as duas, não calculei que seria tão hostil como foi demonstrado por minha avó. Queria saber seu posicionamento quanto os últimos meses, levando em consideração que não sabia de verdade quem era que estava certa nas confusões relatadas.
Vi seus olhos varrer a mobília do escritório com delicadeza até que finalmente respondesse minha sugestão.
— A Sra. Berkshire é uma senhora de bastante idade e reclama constantemente de dores de cabeça. Lidar com três mulheres, duas delas já adultas, não parece ser uma missão confortável.
Apertei os lábios tentando não sorrir de aprovação. tivera ali uma oportunidade de falar das intrigas que protagonizou com minha avó, aquelas que foram temas das inúmeras cartas que recebi, no entanto, escolheu resguarda-se. Se continuasse assim iria dar-se melhor na alta roda do que imaginava.
— Tenho alguns amigos com esposas que adotariam-na com toda certeza. Hoje mesmo mandarei cartas e assim que receber uma resposta, a comunicarei — expliquei o que era meu plano inicial desde que a pedi em casamento.
Lady Byron pareceu relaxar os ombros diante do meu comunicado. Levantei-me em seguida e peguei o caderno que havia achado mais cedo.
— Acredito que tenha o esquecido.
— Oh, sim. Obrigada, milorde — agarrou-o sem cerimônia. — Escrevi aqui algumas sugestões de mudanças para a gestão de gastos de Berkshire Hall, mas explicarei quando...
— Como? — indaguei confuso.
— Há alguns gastos um tanto dispensáveis nas contas mensais que podem ser cortados — respondeu-me enquanto folheava seu caderno.
— Não precisa se preocupar com isso, eu já tenho um administrador.
Ela parou de repente, olhando-me contrariada.
— Se o senhor me escutar saberá que talvez pudesse ser mais econômico. Li no jornal que talvez entraremos em recessão no próximo ano.
— Milady, com todo respeito, deixe esse assunto para quem tem mais experiência — aconselhei tentando usar meu tom mais conciliador possível.
— Fala isso porque desconhece meu passado, milorde — replicou ela. — Nos últimos anos estive trabalhando na Paróquia de Southwark na parte financeira. Embora fosse um trabalho voluntário, sempre fui elogiada pelo reverendo.
— Uma pena que não usou seu talento para evitar que seu pai não caísse na desgraça, não é mesmo?
Em resposta, trincou o maxilar e manteve seus olhos frios, embora parecesse querer entrar em ebulição.
Não arrependi-me do que disse no calor do momento, afinal, havia poucas pessoas que eu aceitava críticas ao modo de administrar meu dinheiro e nenhuma delas era minha esposa.
— É o que dizem, milorde: o filho do sapateiro sempre anda descalço.
Ao se despedir, tinha menos cortesia do que o início. Eu pouco ajudei também com meu comentário impulsivo. Mesmo assim, quando Woodhouse entrou no escritório indagando sobre a conversa que eu tive, apenas comentei que minha esposa era o que deveria ser.


VII.

O leque em minha mão balançava ansiosamente. O calor repentino e as nuvens no céu avisavam que mais tarde a chuva chegaria. Enquanto ela não chegava, eu estava sentada à janela, em silêncio, na sala de visitas junto com minhas irmãs. Faziam dias desde que nos reunimos longe do olhar analisador da família de Berkshire Hall, que resolveu monopolizar a atenção do Lorde Byron naquele dia e nos deixar em paz.
Polly brincava sozinha no tapete e às vezes perguntava para Julia coisas que sua mente curiosa não sabia inventar. Ainda não tínhamos conseguido contratar uma babá para cuidar dela por tempo integral e nem sempre havia criadas disponíveis para supervisioná-la; o que não era realmente um problema, já que estávamos acostumadas a ficar de olho uma nas outras. Minha irmã mais velha era quem mais gostava de ter algo para fazer, pois muitas vezes sentia-se ociosa em Berkshire Hall.
Deitada de um jeito deselegante no sofá estava a minha outra irmã, Lilian. Em sua mão direita estava um livro escrito em francês que ela não devolveu a Lorde Byron. Ela dizia conhecer a língua, embora nunca tivesse tido aulas de verdade. Eu não duvidava, afinal, de todas nós, Lilian era a mais inteligente. De vez em quando, Lily franzia o cenho concentrada e murmurava uma palavra estranha, tentando lembrar seu significado.
Aquela era uma cena bem comum na nossa antiga casa. Eu passava muito tempo na paróquia junto com a Sra. Bridgestone e quando voltava para comer as encontrava reunidas em harmonia, mesmo no silêncio. Não importava o quão triste e estressante tivesse sido o dia, eu as encontraria tranquilas em seus mundos. Era aquela imagem que devia ser preservada a todo custo. Eu as queria felizes e plenas, impediria que os problemas que nos rodeava as atingissem.
Meu leque parou de supetão; Julia havia aproximado-se de mansinho e o segurou com firmeza.
— Se você continuar balançando desse jeito irei ter um ataque.
— Desculpe — murmurei colocando-o em meu colo.
Julia encarou-me por um tempo antes de perguntar:
— O que aconteceu? Você está tensa desde que saiu do escritório do Lorde Byron.
Apertei os lábios tentando não vomitar meu estresse direto na minha irmã.
— Só estou tentando acostumar-me com a vida de casada. Aparentemente tem mais a ver com ócio do que imaginei.
Ela virou-se para a janela.
— Seu marido é rico e bonito. Não há muita coisa a ser feita com tantos criados por aí. O ócio é uma atividade muito interessante para quem necessita de descanso.
— Você acha ele bonito? — perguntei estranhando seu comentário.
Ela apontou para fora.
— Veja, ele está saindo.
Ergui minha cabeça e o vi sair junto com Sr. Woodhouse. Era uma dupla peculiar, meu marido sendo muitos centímetros mais alto do que seu administrador e inclinava-se toda vez que dizia alguma coisa. Lorde Byron estava mais arrumado do que mais cedo e segurava uma bengala em sua mão esquerda, embora não parecia necessitar dela para andar.
— Você acha ele feio?— indagou July com descrença.
— Ele tem orelhas pontudas. Parece um elfo — argumentei. — Ou um cachorro.
Julia deu uma risadinha.
— Definitivamente ele não parece um cachorro — replicou enquanto fitavamos Byron ajudar Sr. Woodhouse subir na carruagem. — Está dizendo isso porque ficou chateada com ele, sabe Deus lá o motivo.
— Claro que não — neguei, embora ela estivesse certa.
Lorde Byron tinha uma beleza madura e bruta; poderia não ser uma aparência angelical, mas não o bastante para ser taxado de feio. Seu rosto era repleto de marcas de expressão que moldavam sua personalidade e eram moldadas por ela. Isso, porém, não significava muita coisa quando o homem abria a boca para falar grosserias.
Antes de entrar na carruagem, Byron virou-se para a casa e nos flagrou espionando. Ele acenou com simpatia, o que Julia respondeu de igual modo. Apenas dei um breve menear com a cabeça sem demonstrar que a sua atenção causou-me uma pequena ansiedade.
O bater da porta despertou-me do estupor que eu estava. Sr. Strauss, o mordomo da casa, avisou-me que os suprimentos que eu pedira para preparar estavam prontos, assim como o cabriolé. Periodicamente, eu levava para o centro da cidade perto de Berkshire Hall alguns suprimentos para famílias menos afortunadas, alguns eram até mesmo funcionários da fábrica de Lorde Byron, que ficava nas redondezas. Era um hábito de sr. e sra. Bridgestone que eu adquiri e trouxe para minha nova casa. Durante nossos piores momentos fomos sustentadas por amigos que estavam dispostos a alimentar a mim e as minhas irmãs; muito deles não estavam em uma situação razoável, mas mesmo assim estenderam a mão para ajudar-nos. Nunca esqueceria de sua amabilidade; eu era eternamente grata. Através daquele exemplo, eu queria ajudar quem precisava agora que tinha condição para tal.
Arrastei Lily para ir comigo, o que não se mostrou algo fácil. Há tempos minhas irmã não saia de casa, enfurnada nos cômodos vazios para ler todos os tipos de livros disponíveis na propriedade. Não tinha nada contra isso, no entanto, ela já estava começando a ter uma aparência doente de tão pálida. Lilian ficou emburrada, sobretudo quando descobriu que iríamos no cabriolé mais velho de Berkshire Hall e um pouco enferrujado, o único disponível. Um dos criados, Smith, nos conduzia até o destino.
— Queria tanto saber o que acontece no final do livro… — comentou ela enquanto remexia-se para achar uma posição mais confortável.
— Final? Pensei que tivesse começado o livro hoje.
— Não, comecei anteontem. Falta pouco para terminar.
Dei-lhe um olhar impressionado.
— Queria ler tão rápido assim. O máximo que eu consegui foi três semanas. — falei.
— É questão de hábito. — ela deu os ombros.
Escutando apenas o barulho das passadas dos cavalos, Lily manteve um silêncio hesitante.
— Sabe… Por muito tempo achei que isso não ia poder voltar a fazer isso depois que papai morreu — disse Lilian de repente.
Segurei com mais força o pacote que eu carregava no colo.
— Fico feliz que tenha casado com um homem rico que tenha vários livros. — continuou ela. — Claro que tirando o fato de que ele me odeia…
— Ele não te odeia, Lily. — a corrigi — Veja, milorde é um homem bastante ciumento com seus negócios, ele prefere que seja avisado. Você não gostava quando eu pegava seu chapéu de fita vermelha emprestado sem pedir, não era?
Ela riu.
— Eu detestava! Ainda bem que agora você tem um monte de roupa chique no seu baú e não precisa mais pegar minhas coisas. — rebateu.
— Se quiser, posso falar com ele para que libere a biblioteca para você. — sugeri, embora soubesse que daria uma grande dor de cabeça comprar aquela briga mais uma vez.
— Você faria isso de novo por mim? — indagou Lilian.
Seu rosto iluminou-se com a perspectiva e lembrei-me de quão jovem Lily era. Eu e Júlia já estávamos acostumados com a mudança e a perda, mas ela não. Ao contrário de nós duas, Lilian conheceu e conviveu com a mãe, sra. Virginia , até os dez anos de idade, quando a mulher teve Polly. Meses depois do nascimento da minha irmã caçula, Virginia pegou pneumonia enquanto meu pai estava fora, pouco ele pode fazer depois que voltou para casa. O resto era história.
Arrumei seu chapéu que estava folgado antes de responder:
— Claro que sim, querida.



Fui uma das últimas a entrar na sala de jantar naquele dia. Após saber que o sr. e sra. Kline iria visitar uma família das redondezas, senti-me menos pressionada a ser pontual. Minha cabeça estava ainda em um grupo de crianças que encontrei de tarde; elas estavam miúdas e não comiam bem há dias. Encaminhei-as ao vigário da cidade, mas ele não estava muito disposto a ajudá-las; disse que estava bastante ocupado e talvez demorasse para atendê-los. Eu teria que bolar uma estratégia para continuar a mandar comida, havia alguns…
— Milady!
Dei um pequeno salto de susto e virei-me para trás de supetão.
— Precisa ter mais cuidado. O chão está escorregadio — avisou Lorde Byron, o dono da voz que deu-me um susto.
— Obrigada — murmurei.
Byron analisou-me devagar, os olhos pequenos correndo pela minha face.
— Sei que não sou a sua pessoa favorita nesse momento, mas temos visita. Sr. Woodhouse trouxe o filho dele — informou. — Ele está sabendo do pequeno incidente do dia anterior e com certeza será a fonte de fofocas das famílias notáveis da redondeza.
Suas palavras fizeram-me sentir todos os músculos de meu corpo endurecerem. Vendo que algo mudou, Lorde Byron ofereceu o braço.
— Não se preocupe. Irei ajudá-la.
Olhei para ele com hesitação, mas segurei-o. Seu braço estava quente por cima do casaco — ele também era estranhamente forte para um nobre.
Byron aproximou-se do meu ouvido e meu coração pulsou no peito. Seu hálito tinha um pequeno frescor e um cheiro a longe de álcool, embora não aparentava estar bêbado.
— Eu te pediria desculpas pelo incidente de mais cedo, mas é do meu caráter ser impulsivo— a voz dele era grave, rouca. — Não adiantaria de nada mostrar-se arrependido se ainda há grande chance de que eu volte a fazer comentários ofensivos a minha senhora.
Virei meu rosto levemente para o lado. Aproximar-se de um homem daquele jeito era estranho para mim. Meu esposo mantinha um sorriso presunçoso, debochado. Ajudaria se ele fosse mais feio; ao invés disso, Byron era atraente e tinha lábios cheios. Então, eu falei:
— Tente.
— O quê? — perguntou ele confuso.
— Tente pedir perdão.
Byron deu uma risadinha desacreditado. Começamos a andar em direção à sala de jantar em passos lentos.
— Peço perdão, milady. Seu marido é um asno.
— Que bom que ele sabe.
Dessa vez milorde riu de verdade tentando conter-se ao desviar o olhar, divertindo-se. Quis rir também, mas segurei-me quando vi que um homem desconhecido estava nos esperando na porta da sala de jantar.
Sr. Liam Woodhouse devia estar entre os 25-27 anos e tinha poucas características físicas ligadas a seu pai. Era um homem falante e de gentil aparência; contou sobre sua viagem a uma das propriedades de Lorde Byron a mando de sr. Woodhouse, mas pouco deteu-se aos detalhes dos negócios. Ele falou das paisagens e das diversas pessoas interessantes que conheceu durante sua estadia. Foi uma refeição estranhamente calma. A Sra. Berkshire esqueceu-se um pouco da minha presença, o que foi um alívio para mim. Por alguns minutos alimentei a ideia de que éramos um grupo familiar normal que recebia um amigo de longa data.
Ao chegarem na sala de visitas, sugeri que Julia tocasse no piano uma das canções que ela aprendeu na igreja em Southwark. Minha irmã ficou muito tímida de repente, mas acatou o pedido que foi reforçado pela Sra. Berkshire. Byron sentou-se casualmente ao meu lado enquanto fitavamos Julia retirar as luvas devagarzinho.
— Sua irmã é uma boa musicista? — murmurou meu marido.
Hesitei por um momento.
— Ela é…
O barulho da nota errada rompeu pelo cômodo.
— Perdão — disse Julia. — Atrapalhei-me com a partitura.
— Irei ajudá-la, senhorita. — prontificou-se Sr. Liam Woodhouse e sentou-se ao seu lado para passar as folhas musicais.
Após mais duas tentativas, minha irmã começou a tocar a música sem interrupções. Era uma canção conhecida e interiorana. A letra possuía dezenas de versões e eram todas falando sobre um lar que encontraria além da vida. Eu já não tinha tanta certeza daquilo como um dia eu tive, mas no fundo alimentava a esperança que houvesse um lugar onde a paz era constante e ininterrupta.
— A Srta. é uma moça muito bonita e talentosa — elogiou Sr. Woodhouse. — Admira-me ela ainda não ter casado-se.
— Pergunto-me a mesma coisa, senhor. — replicou a Sra. Berkshire. Virando-se para mim, indagou: — Você toca algum instrumento?
Mordi a língua incomodada com a falta de formalidade que ela dirigia-se a mim.
— Não, minha senhora.
— Pinta?
Soltei o ar pelo nariz lentamente. Ela conhecia todas essas respostas, não havia qualquer necessidade de trazer o assunto à tona.
— Não, senhora. — respondi mais uma vez.
— Tricota?
Balancei a cabeça em negativa.
— Como? Não escutei.
— Não. — repliquei com o maxilar travado.
Satisfeita por deixar-me desconfortável, a Sra. Berkshire então disse para seu neto:
— Por que casou-se com a Srta. sem talento podendo casar-se com a mais velha e mais prendada?
A temperatura do cômodo caiu de repente. Escutei o som de uma nota errada, o que alertou-me que Julia não estava alheia a conversa. Em outra situações eu faria um escândalo. Porém, tínhamos visitas e havia o maldito decoro que desde que assumi o sobrenome Berkshire eu estava fadada a zelar.
Sr. Woodhouse falou que Julia entrou no tom errado, fingindo não ter escutado a conversa, já Lorde Byron não mexeu-se do lugar. Ele tinha um ar de sorriso de quem tinha uma piada muito boa para contar, mas não podia dizê-la no momento. Demorou um pouco até que respondeu, os olhos divertindo-se com a situação.
— Por que exije tais habilidades da minha esposa se tão pouco a senhora as tem, vovó?
Ela o encarou ficando vermelha de indignação e vergonha.
— Mas eu sei tricotar!
— Algo que aprendeu apenas depois do casamento. — complementou ele.
A Sra. Berkshire ficou muda, incapaz de argumentar qualquer coisa.
— Agradeço sua preocupação, minha avó, mas estou satisfeito com minha escolha. — disse por fim segurando a mão enluvada da matriarca e beijando-a com carinho.
Byron olhou para mim e deu um sorriso confortador, calmo. A suavidade de seu gesto era um contraste e tanto com a sua aparência que não indicava o poder de tom apaziguador.
Bateram palmas, a música havia finalizado. Meu marido teceu elogios a Julia enquanto meu coração batia depressa.
Quem era aquele homem?


VIII. Berkshire, Lorde Byron

Minha avó deu-me um olhar de aviso quando viu-me à frente da porta da baronesa. Eu sabia o que significava; se eu entrasse ali àquela hora da noite, qualquer tentativa futura de anulação do casamento seria descartada.
Bati a porta sem pressa.
— Sim? — respondeu Lady Byron do outro lado.
— Sou eu, Lorde Byron. Posso entrar?
Escutei um pequeno barulho de passos e esperei alguns segundos até que a porta fosse aberta. A mulher que abriu para eu passar era um tanto diferente da que eu vira no jantar mais cedo. parecia mais baixa e cansada; estava vestida em uma camisola bufante e pueril. Quase arrependi-me de atormentá-la àquela hora. Quase.
— É algo muito importante, milorde?
Dei um aceno positivo.
Entrei devagar no quarto escuro e observei pela luz da lua Lady Byron acender algumas velas. A janela fazia um barulho incômodo; ventava o bastante para acreditar que logo começaria a chover. A luz pouco ajudava para analisar um dos cômodos que menos conhecia em Berkshire Hall. O quarto da baronesa era propriedade de minha avó por muito tempo e, levando em consideração que eu não residia naquela casa a maior parte do ano, pouco quis mudar até os recentes acontecimentos.
— Está com frio? — perguntei enquanto a vi fechar as janelas.
— Sim. O inverno está perto, não é? Não gosto — respondeu enrolando-se com um xale cinza e velho. — Pode sentar-se no sofá se for de seu desejo.
Segui seu conselho e esperei até ela ir em direção à poltrona ao lado da pintura de um artista desconhecido, a qual disfarçava a porta de ligação para o meu quarto. Mais uma vez observei o jeito pouco lisonjeiro que minha esposa utilizou para sentar. Manteve as costas muito eretas e apertou o maxilar, adquirindo uma postura séria.
— Sabe o motivo pela qual vim falar-te a essa hora da noite? — perguntei encarando-a.
remexeu-se na cadeira nervosa.
— Acredito que seja para a consumação do casamento.
Ela tentou esconder o rubor das bochechas, porém sua pele escurecida revelava o tom roxo de constrangimento.
— Está ansiosa para nossa primeira noite, milady?
— Não tenho como evitá-la de qualquer maneira…
Pus a mão no peito dramaticamente.
— Ouch!
— Então, será isso? Sra. Bridgestone explicou-me os pormenores, mas eu tenho algumas dúvidas sobre…
— Fique tranquila, . — a interrompi. — Não vim aqui com o objetivo de consumar nosso casamento, embora seja uma ideia muito interessante para mim — dei um sorriso simpático. — Primeiro preciso conquistar sua confiança.
Vi o seu rosto aliviar-se aos poucos até que ela disse:
— Esse é um ato muito gentil do senhor, milorde.
— Não deveria ser um ato gentil, . — adverti. — Deveria ser o ato correto a ser feito.
Minha esposa piscou repetidas vezes, encarando-me com surpresa.
— Se me permite, o que o faz pensar de maneira tão não convencional?
Desviei o olhar sentindo o peso da resposta que sairia de minha boca.
— Minha concepção não foi fruto de amor, muito menos de confiança.
Não foi preciso que eu explicasse mais para que ela entendesse. Vi compaixão em seus olhos e remexi-me desconfortável em meu assento.
— Sinto muito, milorde.
— Certo. — repliquei em seguida, incapaz de deixar o clima decair de vez. Não estava ali para contar meu passado. — Meu desejo de conversar-lhe diz respeito à nossa conversa de mais cedo. Enviei as cartas para a Marquesa de Exeter e a Condessa de Dudley. São as esposas de meus amigos mais próximos, portanto, minhas amigas também. Dificilmente irão declinar meu pedido.
Observei sua reação, que não foi nada além de curiosidade reprimida pela tentativa de manter-se neutra.
— Estive pensando nas suas palavras e acredito que deveríamos ir a Londres antes do início da temporada. — expliquei — Os eventos são escassos, mas existem e é uma boa oportunidade para que você e sua irmã passem a adaptar-se ao ritmo da cidade.
— Por quanto tempo seria essa viagem?
Hesitei um pouco. Não sabia quão apegada estava com Berkshire Hall. Embora eu gostasse daquela casa, ela não era minha preferida. O ritmo das coisas era mais lento na cidade e dentro da propriedade costumava ser um inferno de visitas. O grupo de notáveis que vivia nas redondezas eram falantes e invasivos; embora eu gostasse de conversar, a maioria deles era extremamente enfadonha.
— Estava pensando em fazê-la nosso lar oficial.
Minha esposa mexeu os ombros para baixo, pensativa. Quase conseguia ver sua mente trabalhando com aquela nova informação; havia um leve franzir em sua testa e um pequeno bico em seus lábios cheios.
— Lilian e Polly ainda são muito crianças. Acha que elas terão problemas para acostumar-se com a agitação da cidade? — perguntou ela.
— Em Londres encontraremos pessoas mais habilitadas para cuidar da educação de suas irmãs. — argumentei. — Acredito que não seja do seu desejo enviá-las para uma escola de moças?
Ela negou com a cabeça.
— Está bem. Pode ser bom. — replicou, apesar de eu ter a impressão que estava falando mais consigo mesma do que comigo.
Observei-a soltar um pequeno suspiro e apoiar a cabeça com a mão. Não olhava para nenhum lugar em particular, sinalizando que mergulhava em seus pensamentos. Eu deveria despedir-me naquele momento, porém dormir não parecia muito convidativo. Queria conversar e esquecer os problemas que encontrei na fábrica, nas cargas de comida enlatada que estragaram e o prejuízo financeiro que a filial nos Estados Unidos deixou em minhas contas.
— Então… — comecei. — Há algo em especial que queria conhecer em Londres? Suponho que nunca tenha visitado a cidade.
— Eu queria ir ao teatro — respondeu com timidez. — Todas as peças que vi foram encenadas ao ar livre. Papai dizia que os teatros londrinos eram bonitos.
Senti uma leve vontade de indagá-la sobre sua relação com o pai, mas segurei a língua. Nas poucas vezes que conversamos, minha esposa não mostrava qualquer ressentimento em relação ao pai que a deixou na falência; em verdade, havia um carinho que seus olhos não mentiam a existência de um belo relacionamento.
Mesmo assim era cedo para perguntas intimistas.
— Então será essa nossa primeira visita em Londres. — sorri para ela. — Não sou muito de teatro, mas acho que valerá a pena mostrar-lhe. Será divertido.
Não sei exatamente o que das minhas palavras abalou-lhe, porém senti um pequeno derreter em seus olhos.
— Obrigada, milorde — ela sussurrou. — Por tudo o que você fez por mim e minha família. Serei eternamente grata.
Minha reação inicial diante de qualquer gratidão, sobretudo tão honesta quanto a dela, sempre foi a de constrangimento.
— Também tive vantagens nesse acordo, milady. — alertei com modéstia.
— Não é nada comparado com a minha.
— Como não? Agora tenho alguém para controlar minha dieta, uma pianista, uma leitora dos livros esquecidos na casa e uma criança com muita energia. — brinquei.
Foi a vez dela de ficar envergonhada.
— Não sabia que tinha percebido que eu mudara o cardápio…
— Nada passa despercebido diante de meus olhos, milady.
olhou-me debaixo para cima. Os olhos escuros continham desafio quando ela disse:
— Sei.
— Duvida?
— Claro que não, milorde. Quem sou eu para fazer tal coisa? — embora sua voz estivesse neutra, senti uma pontada de zombaria nas suas palavras.
— Que bom, pois preciso que minha senhora avise a sua irmã que eu preciso de meu livro de volta. Les Trois Mousquetaires foi um presente de um amigo.
— A biblioteca está interditada desde que chegamos — replicou orgulhosa. — Peço desculpas pela atitude de minha irmã, mas não há muito o que fazer na propriedade para uma menina de 14 anos.
— E mesmo sendo tão nova ela já conhece a língua francesa? — indaguei confuso. — Pensei que ela não havia ido a escola.
— Lilian é uma menina muito inteligente, milorde. Estudava uma gramática francesa que havia em nossa antiga casa e costumava tirar dúvidas com Sr. Bridgestone, que era um estudioso da língua. — comentou. — Ela não consegue pronunciar as palavras, porém. Apenas lê-las.
— Então, ela ficará encantada com a minha biblioteca em Londres — repliquei. — Mais da metade são livros que esse meu amigo deu-me de presente são em francês.
— Ela ficará muito feliz em saber disso, milorde! — disse animada.
Batuquei os dedos no braço do sofá. Estava ficando tarde e metade das velas que iluminavam o quarto tinham sido consumidas. A instalação de lâmpadas a gás em Berkshire Hall tinham sido adiadas por tempo indeterminado, já que os gastos seriam maiores do que eu esperava. Sempre que eu voltava para lá sentia que também voltava no tempo. A tecnologia da cidade londrina deixara-me mal acostumado. Passei a maior parte da vida passando as noite a luz de velas, no entanto, um ano de facilidades tecnológicas deixara-me mal acostumado.
Virei-me bruscamente para minha esposa.
, quantos anos você tem?
Ela piscou, aturdida.
— Vinte e sete. Por quê?
Soltei um suspiro aliviado. Cocei a cabeça antes de dizer-lhe:
— De repente deduzi que talvez você fosse uma mulher muito nova e sempre fui um crítico a relacionamentos com grande diferença de idade.
Ela fez uma careta confusa.
— Mas não há nada mais normal que tal coisa, principalmente na aristocracia, milorde.
— Isso não significa que seja justo homens que estão com o pé na cova casar-se com meninas que acabaram de entrar na vida adulta — afirmei.
Esticando-se para trás, minha esposa deu uma boa olhada para mim de cima para baixo, analisando-me como uma especialista em alguma coisa.
— Você não está com o pé na cova, milorde.
— Estou com meus trinta e seis anos e tenho gota. É questão de tempo para que eu caia duro no chão. — comentei e dei um sorriso. — Veja, se a agitação de ontem ser algo rotineiro, estarei morto no próximo verão.
riu. Foi a primeira vez que eu a vi fazer isso, a cabeça jogada para trás, a risada soando como um barulho ambiente de instrumentos de sopro. Seu rosto mudava completamente quando sorria: desenhava-se com sensualidade, os olhos tornando-se pequenos, a face iluminando-se como em um amanhecer. Ela estava a vontade, sentava-se com os pés em cima do sofá, o xale enrolado entre os ombros e o cabelo escuro e sedoso derramando-se no pescoço; enxerguei-a, então, como mulher.
— Milorde, se depender de mim, você será conhecido pela imortalidade. — garantiu-me.
Mordi um sorriso antes de dizer:
— Desafio aceito.
Conversamos por alguns minutos até que a vi bocejar e decidi que era melhor retirar-me e deixá-la dormir. Passamos, porém, mais algum tempo enrolando em uma conversa fiada sobre estar cedo, mecanismo que usamos toda vezes que a conversa está boa e não queremos deixá-la acabar.
Antes de deitar, revisando todos os acontecimentos daquele longo dia, percebi satisfeito que tinha iniciado uma amizade com minha esposa.


IX.

Apoiei-me discretamente na parede do corredor enquanto eu observava Kyle consertar a porta do escritório de milorde. O empregado era um homem muito jovem e dedicado, ele percebeu em alguns segundos o que fazia a porta ranger e foi muito solícito diante do meu pedido.
Naquela manhã em especial decidi deixar que Lucy ajudasse-me a vestir as diversas camadas de saia da moda. Era certo que os diversos laços e apertos escondidos pelos babados do vestido eram desconfortáveis para fazer longas caminhadas, contudo eu precisava começar a acostumar-me. Em breve Londres seria minha casa e lá haveria muitos olhos julgadores prontos para me ver tropeçar.
Não percebi quando Sr. Kline aproximou-se. O homem tinha um andar pomposo e sempre carregava um apertar desagradável dos lábios finos. Nas poucas vezes que se direcionava para mim foi com comentários completamente sem sentido.
— Finalmente alguém se dispôs a consertar a porta — comentou ele assim que se pôs ao meu lado. — Os servos de antigamente eram mais dedicados.
A palavra servo poderia ser comumente falada, mas na boca de Sr. Kline carregava um sentido tão baixo que me arrepiei diante de seu comentário.
— Às vezes os servos têm obrigações que são prioridades mais urgentes do que o rangido de uma porta, Sr. Kline. — repliquei sem direcionar meu olhar para ele.
Ignorando qualquer diálogo que eu estivesse trocando, Lilian apareceu no corredor amarrando o laço de seu chapéu.
, já está pronta? July está te esperando.
Demorei alguns segundos para situar-me no que ela dizia. Uma vez por semana saímos para passear juntas pela propriedade de Lorde Byron; naquele dia em especial iríamos fazer um piquenique.
— Senhor Kline, dou-te a missão de supervisionar o conserto da porta — disse enquanto eu batia levemente em minhas saias. — Como até agora Kyle estava indo muito bem, se algo der errado terei como maior culpado você, o supervisor.
Senhor Kline fez uma careta em desagrado.
— Isso não faz sentido!
Dei um sorriso breve.
— Para mim faz. Afinal, os servos sem líderes não fazem um bom serviço, não é?
...
Eu estava à procura de um dos meus chapéus novos no meu baú e Lilian esperava-me sentada na cama. Dava para escutar o pequeno barulho do balançar dos seus pés, indicando que estava ansiosa para me dizer alguma coisa, mas não tinha coragem de verdade para dizer nada.
, milorde demorará para voltar ao escritório? Preciso devolver o livro enquanto ele estiver fora — disse ela em um tom constrangido.
Um largo sorriso cruzou minha face, então virei-me para ela entusiasmada.
— Conversei com Lorde Byron ontem a noite e ele liberou para que você pegasse os livros desde que seja mediante a um aviso prévio — avisei. — Não precisa se preocupar quanto a clandestinidade.
— Está falando a sério? — indagou minha irmã com os olhos esbugalhados e brilhantes.
Balancei a cabeça em confirmação deixando-a eufórica. Lily abraçou-me com força e deu-me um estalado beijo na bochecha.
— A Senhora Berkshire disse-me que ele era muito ciumento com os livros! Pensei que nunca deixaria uma pessoa desconhecida mexer em suas coisas.
Suas palavras inquietaram-me de modo que o sorriso desfez-se em meu rosto.
— Mas, querida, você não é mais uma desconhecida para Lorde Byron. Você é cunhada dele.
— Grande coisa. — ela balançou os ombros em descaso. — Ainda sou a filha de um médico ferrado.
— Lilian...
— Meninas! — exclamou Julia abrindo a porta sem bater. — Estão fabricando o chapéu? Que demora!
Resmunguei uma resposta e apressei o passo para a nossa reunião.
O caminho até o local adequado para o piquenique foi silencioso. Apenas Polly cantarolava uma música inventada por ela mesma que falava de um esquilo que vivia Berkshire Hall. Estávamos bastante complentativas e melancólicas, sobretudo porque aquele seria o 59º aniversário do meu pai se ele estivesse vivo.
Sentamos abaixo de uma árvore de folhas amareladas. As comidas que escolhemos eram as preferidas do papai: a geléia adocicada com mel, as torradas, o chá de canela, bacon e ovos. Não era de se admirar que o café da manhã era sua refeição favorita.
Julia levantou-se primeiro. Ela estava usando um vestido cinza como um marco do abandono do luto total. Era costume das esposas fazerem isso, mas minha irmã mais velha decidiu que o faria por meu pai. Ela era a preterida dele, a primogênita e a filha do verdadeiro amor de sua vida. Nunca chegamos a conversar sobre aquilo, principalmente porque o Sr. era amoroso com todas nós; ainda assim, era perceptível que ele tinha um carinho diferente com July.
— Não sei como começar... — murmurou ela, melancólica.
— Fale do que ele gostava — incentivei.
Minha irmã ficou em silêncio. Um forte vento vindo do norte quase levou a toalha para longe. De Polly saiu um grito infantil de susto e uma risada quando o chapéu de Lilian voou e atingiu meu rosto.
Então, um fungar atravessou os sons do cenário. O nariz de Julia estava vermelho e as lágrimas pintavam seu rosto alvo e redondo.
— Papai devia estar junto com todas nós...— disse ela — Ele planejava aposentar-se logo e acompanhar-nos de verdade. Ele nunca se ressentiu por não ter um filho homem, amava cada uma de nós do jeito que éramos.
Meu coração apertou-se no peito.
— Ele adorava comprar livros para você, Lilian, mesmo quando eram antigos e com erros de gramática — discursou ela. — Amava brincar com Polly mesmo quando chegava cansado de suas visitas rotineiras. Ele gostava muito de ler poemas com você, .
Desviei o olhar tentando não chorar junto. Lilian deitou-se no meu ombro e a essa altura chorava também.
— Queria odiá-lo por ser tão descuidado com o dinheiro — comentou Lily em um sussurro. — Ele nos deixou sem nenhum tostão! Mas nunca vou esquecer de quão amoroso era conosco.
Abracei a tristeza e deixei que meu rosto fosse banhado com lágrimas. Angústia dilacerou em meu peito; se ela soubesse... Se ela soubesse...
— Por que todo mundo está chorando? — indagou Polly confusa, estava como não prestasse atenção na nossa pequena homenagem. — É por causa do dinheiro de novo? Pensei que nós éramos ricas agora!
Começamos a rir da sagacidade de minha irmã caçula. Inocente era quem pensava que crianças recebiam as informações ao redor passivamente; perdi as contas de quantas vezes Polliana falava como uma pequena adulta.
Julia limpou o rosto com um lencinho e abriu os braços.
— Venham, quero abraçar todas!
Levantamos sem jeito e demos um longo abraço em grupo. Polly correu com afobação e agarrou nossas saias fazendo um riso emergir em meio às lágrimas.
Era por momentos assim que eu não admitia que fôssemos separadas. Aquela era a nossa família e eu iria defendê-la até o fim. Papai nos manteve unidas e eu continuaria seu legado.
...
O sol estava em seu auge e o calor já incomodava em demasia. Toda a comida havia sido devorada e tínhamos acabado de ler um trecho de poemas do antigo Lorde Byron. Era ele um homem famoso e admirado, apesar de ter uma biografia um tanto escandalosa. Papai era fascinado pelas suas poesias.
Estávamos em silêncio quando finalmente tomei coragem de dizer:
— Não iremos morar em Berkshire Hall por muito tempo. Milorde disse-me que vamos nos mudar para Londres em algumas semanas.
Não sabia como minhas irmãs iriam agir diante daquela notícia. Embora fosse difícil estar rodeada de pessoas desagradáveis em Berkshire, na cidade londrina isso seria quadruplicado.
Lillian fitou-me surpresa, enquanto Julia começou a balançar o leque em sua mão com rapidez. Já Polly apenas olhou-me confusa:
— Londres! Que legal. É muito longe?
Dei um sorrisinho.
— Um pouco, querida. — repliquei bagunçando seus cabelos. Ela deu um resmungo irritado em resposta. — Lá iremos contratar uma babá fixa para você.
— Não quero uma babá. Prefiro a July!
— Tão depressa? — disse Julia ignorando o nosso diálogo. — Pensei que a temporada tinha acabado.
— Talvez ele ache melhor irmos agora que tem pouca gente na cidade — argumentei. — Teremos mais tempo para nos adaptar. Além do mais, ainda estamos de luto.
— Vocês não estão planejando me mandar para uma escola de meninas, não é? — indagou Lily com a voz quebradiça.
Balancei a cabeça negando.
— Você só vai sair da minha asa quando casar, mocinha — falei com os olhos cerrados em direção à minha irmã. — Vai ser bom para nós todas. Sinto que sim.
Julia deu um sorriso forçado claramente não gostando da ideia.
— As meninas irão estar como preceptoras, certo? E eu? O que vou fazer enquanto estivermos lá?
Encarei minha irmã mais velha com a cabeça inclinada para o lado.
— Você pode tentar aprimorar seus talentos com a música — sugeri. — Com certeza será um diferencial para conseguir um marido. Sei que você passou da idade, mas ainda é uma mulher agradável e bonita. Tenho certeza que encontraremos um bom partido.
— Não quero e não vou casar, muito menos com alguém que não gosto. — afirmou July com mau humor. — E não vou aprender música para seduzir homem algum, .
Segurei a língua para não fazer um comentário impróprio, pois no fundo eu sabia que minha irmã tinha razão. Se era eu e não ela que estava casada com Lorde Byron era porque aquele pensamento romântico sobre o casamento era bem mais prevalente em sua mente do que a minha. Julia casaria para salvar-nos da desgraça, isso eu não duvidava, mas a tornaria uma mulher muito infeliz. Eu, por outro lado, também queria amar e ser amada, no entanto, não era uma exigência; sempre o pensei como um golpe de sorte. Ter um homem que não escondesse-me de sua família já era um grande avanço.
Voltamos para casa um pouco depois da hora do chá. Polly dormia nos braços de Júlia, que reclamava dela estar se tornando cada vez mais pesada. Com ajuda de uma das empregadas, levamos minha irmã caçula até meu quarto, já que o berçário estava repleto de crianças que acompanharam suas mães para visitar a Sra. Berkshire.
Eu estava de tão bom humor que planejei ir beber chá junto com a avó de meu esposo, mas uma carta trazida pelo Sr. Strauss fez-me desejar privacidade. Escolhi o escritório de Lorde Byron e fiquei satisfeita ao ver que a porta havia sido finalmente consertada. Era uma besteira, mas sentia-me que aquilo era um sinal de que com o tempo as coisas iriam pôr-se no lugar.
Sentei-me na cadeira de milorde pensando no que ele diria quando percebesse a mudança. Será que ele iria comentar? Nos poucos dias de convivência já havia percebido sua personalidade meticulosa.
Suspirei quando li mais uma vez o nome de quem enviara-me a carta: Sra. Acsah Bridgestone. Eu sentia falta dela, apesar de receber cartas periodicamente falando de Southwark. Sra. Bridgestone foi o mais perto que tive que de uma mãe, seu cuidado e apreço por mim sempre foi notório. Não era uma informação divulgada aos berros, mas fui a primeira criança de Southwark que ela alfabetizou e a fez ter gosto por ensinar aos infantes do nosso vilarejo. O resto era história.
Querida Lady Byron,
Estou feliz que esteja começando a se adaptar a sua nova casa. Os primeiros meses de casada costumam ser bem difíceis, principalmente aqueles que não foram iniciados com amor e paixão. Garanto-te que em breve a rotina será menos conflituosa e às coisas se resolverão.
Na última semana, eu e o Sr. Bridgestone recebemos nossa cunhada, a duquesa. Ela continua sendo a mesma mulher fofoqueira de sempre e vou poupá-la de pormenores. O que quero dizer em especial é que ela carrega a informação de que Lorde Byron está de volta a Londres e que estará apresentando a esposa a sociedade em breve. Não contei a ela que a conhecia, mas é questão de tempo para ela descobrir sua identidade.
Querida, peço que se prepare porque não conhece esse homem. Conhecendo-o você saberá como agradá-lo e fazer com que suas vontades e não as da Sra. Berkshire sejam atendidas. Antes de mais nada lembre-se de ser sábia, pois, "uma mulher sábia edifica sua casa".
Revirei os olhos e ri. Sra. Bridgestone era acima de tudo a esposa de um reverendo, nunca deixaria de citar a Bíblia. Ah, se aquela carta tivesse chegado dias antes e eu soubesse que Lorde Byron estava chegando!
Também quero pedir-te desculpas, pois não me ative a explicá-la com mais detalhes o que era a consumação do casamento quando tive chances. Acredito que será desejo de seu marido fazê-la assim que chegar de viagem. Não tenho habilidade com as palavras o suficiente para escrever-te sobre isso, mas posso dizer que pode ser algo bom para você também. Leia as referências que te mando abaixo que talvez você entenda melhor do que digo. Afirmo que escrevo essa missiva em segredo, pois tenho certeza que o Sr. Bridgestone ficaria escandalizado se soubesse que uso a Bíblia para isso. Ele esquece que já foi jovem e passou por dúvidas neste tópico também antes de contrair matrimônio comigo.
Se há qualquer dúvida, pergunte ao seu marido. Mais do que ninguém, ele é quem tem mais que preocupar-se com isso.
Mando minhas lembranças a Julia, Lilian e a pequena Polly.
Sua,
Sra. Acsah Bridgestone.
Meu rosto deveria estar vermelho após a leitura daqueles últimos parágrafos. A conversa que tive com a Sra. Bridgestone foi mortificante. Eu sabia qual era o gosto dos beijos, mas nunca havia ido tão longe a ponto de cometer os atos descritos por ela.
Procurei na estante uma Bíblia e encontrei uma empoeirada e pesada. Curiosa, li as duas referências escritas no final da carta.
"Quão deliciosas são as tuas carícias, minha irmã, minha noiva amada! Teus amores são mais agradáveis que o melhor e mais puro dos vinhos. A fragrância do teu perfume supera a mais cara especiaria!" Cantares de Salomão 4. 10
Se eu sentia desconfortável quando li a carta, nada se comparava a quão mortificada fiquei ao ler aquelas palavras no livro sagrado.
Engoli o seco e li a outra destacada.
"Sua boca é a própria doçura. Ele é todo uma delícia! Assim é o meu amado, meu irmão e amigo, ó filhas de Jerusalém!" Cantares de Salomão 5.16
Balancei a mão no rosto tentando esfriar-me. Sra. Bridgestone explicitou que o que ocorria entre homens e mulheres dentro do casamento era santo e sagrado. Como algo poderia ser santo se a mulher do texto dava atributos de comida a seu marido?
Fechei o livro com força e guardei sem muita delicadeza na estante. Saí em passos rápidos do escritório de Lorde Byron lembrando-me da sua afirmação que esperaria minha confiança para consumarmos o casamento.
Pois bem, a resposta era nunca!


X. Berkshire, Lorde Byron

Observei alguns servos subirem com os baldes de água quente. Era um abuso eu estar exigindo que eles o fizessem quando a maioria já estava arrumando-se para dormir, mas eu me negava a deitar na cama para descansar com o corpo sujo de graxa. Àquela noite eu não parecia tão Lorde Byron, o aristocrata. Eu parecia o Sr. , quem eu fui um dia, o homem que vendia enlatados por um preço um pouco abaixo do mercado. Mas mesmo os burgueses em seu estado mais degradável, gostavam de sentir-se limpos.
Sugeri ajudar Sr. Collins e ele tratou como um completo absurdo um milorde fazer um trabalho tão esdrúxulo como levar baldes de água. Ainda assim, sentia-me um estúpido ficando apenas observando a movimentação de meu quarto.
— Milorde? — disse Lady Byron, chamando-me porta de seu quarto. Dei um pequeno aceno com a cabeça em resposta.
esticou-se um pouco para fora prestando atenção na agitação dos servos que carregavam baldes de água até o primeiro andar. Ela estava com o cabelo solto e vestia um roupão de seda por cima da camisola. Por certo estava pronta para dormir.
— Peço desculpas por não poder estar em casa para o jantar — falei cordialmente.
— Tudo bem — murmurou ainda curiosa com o que acontecia nos meus aposentos. — Já comeu? Posso preparar alguma coisa na cozinha.
Apertei os lábios temendo demonstrar o prazer de ouvi-la oferecer-se para cozinhar. Nenhuma das mulheres da aristocracia que intentei casar-me sugeriria algo como aquilo; claro, tínhamos servos até demais pagos para isso, não havia nada de errado em terceirizar o trabalho. No entanto, havia algo reconfortante em encontrar em parte de mim que não se perdeu no meio das décadas que vivi no luxo.
— Seria muito gentil da sua parte — repliquei.
— Não é gentileza, milorde — disse modestamente. — É meu dever.
Observei-a sair por inteiro de seu quarto silenciosamente. Minha esposa tinha passos pesados, firmes e longos. A seda de seu robe branco voava para trás com a delicadeza do vento que saia de uma das janelas abertas do andar.
Quando criança ouvi várias histórias sobre fadas e ninfas. Nunca consegui imaginá-las de forma concreta. Cresci e deixei as fábulas para trás. Porém, olhando para o contraste do cabelo escuro de minha esposa derramando-se pelas costas, percebi que ela podia muito bem ser um dos seres mágicos das histórias infantis.
— Milorde, já terminamos.
Meu olhar ainda recaia para o caminho feito por quando respondi.
— Certo. Obrigado.
...
Eu estava vestindo minhas calças após o banho quando ouvi o bater da porta.
— Sou eu — disse uma voz feminina abafada pela madeira.
Respondi-a para entrar e continuei vestindo-me atrás do biombo. Escutei o barulho violento e imaginei que tenha chutado a porta igual fez no dia em que conversamos no escritório. Não evitei sorrir, começando a ligar aquele ato grosseiro como algo dela.
Encontrei-a em pé segurando a bandeja assim que vesti a camisa. Embora não fosse o tipo de roupa que eu estava acostumado dormir, não desejava constrangê-la com roupas indiscretas.
— Não sabia quão faminto você estava, então trouxe tudo o que sobrou do jantar — explicou buscando com o olhar uma mesa vazia. — Onde coloco isso?
— Na cama, por favor — respondi observando-a atentamente. — Sabe, não precisava fazer isso. Poderia ter pedido para algum empregado.
— Por que pedi algo que eu poderia fazer eu mesma? — disse sem cerimônia. — Além do mais gosto de me sentir útil.
Encarei seu andar achando-a uma peça muito estranha no meu quarto. Eu não gostava de pessoas invadindo os meus espaços íntimos, no entanto era certo que eu deveria começar a acostumar-me com aquela mulher fazendo o que era preciso para não parecer um peso. Talvez, quando tivermos nossos primeiros filhos, sua atenção iria voltar-se para outra coisa.
— Diga-me, milorde: o que tanto trabalha para que não descanse pós-crise de gota?
Franzi o cenho achando sua pergunta engraçada.
— Pelo mesmo motivo que você está carregando uma bandeja para cima e para baixo da mansão.
Vi-a levantar levemente o queixo e passei mais uma vez a prestar atenção nos detalhes de seu rosto. Já havia visitado diversos países no mundo 一 entre eles a Índia. Os motivos não cabiam ser comentados, mas lembrava de não ter reparado na beleza singular das mulheres indianas. Agora que tinha uma esposa que não escondia seus traços orientais, não podia negar que eu era um homem de sorte.
— Acredito que nossas situações não são iguais, milorde. — argumentou. — Por exemplo: segurar uma bandeja não irá me matar. Pegar no pesado talvez o mate.
Olhei para as minhas mãos antes sujas de graxa e dei um pequeno sorriso.
— Não precisa preocupar-se, estou bem.
— Então tire um dia de folga amanhã e descanse.
Revirei os olhos, sorrindo. Que mulher mandona, Jesus!
— Está bem, desde que não venhamos a falar mais sobre isso.
Afirmei descansar um pouco por causa de seu pedido, embora já tivesse planejado fazer aquilo. , porém, não o sabia e deu um sorriso satisfeito.
— Ótimo. Boa noite, milorde.
Fiz uma careta estranhando sua atitude repentina.
, espere. Tenho um presente para você.
Ela parou subitamente desarmada.
— Presente? Eu não pedi nenhum presente.
— Não seja mal-educada, presentes não são entregues a pedidos — afirmei dela e andei até pegar uma das caixas que eu trouxe.
hesitou ao ver a caixa azul de tamanho médio em minhas mãos. Incentivei-a a abrir e observei seus olhos crescerem enquanto viam o tecido vermelho e pesado escorregar por entre as mãos.
— Percebi que seu xale estava bem desgastado — comentei.
Ela tentou conter o riso e mostrar-se menos eufórica; pude ver, porém, o pequeno brilho de felicidade nos olhos.
— Obrigada, milorde. Estou surpresa que tenha acertado a minha cor favorita.
Lambi os lábios temendo deixar que meu segredo se escorrega.
— Vermelho combina com você.
levantou o olhar com hesitação.
— Se não entendesse o contexto diria que está tentando me cortejar.
Um riso zombaria subiu pela garganta, embora não fosse algo muito educado de fazer.
— Cortejar uma mulher que já é sua esposa parece-me ineficaz.
Observei-a apertar os lábios para não responder.
— Também comprei um xale similar para minha avó — esclareci. — Ela é uma mulher que sente bastante frio.
— Deve ser a idade — disse em tom brando, mas senti o pequeno ar de quem pouco importava-se. — Está ficando tarde, milorde. Acredito que o senhor deseja descansar, sim?
Balancei a cabeça positivamente.
— Boa noite, .
— Boa noite — replicou antes de fechar a porta.



Estava ainda escuro no meu quarto quando acordei. Estranhei o ambiente, levando em consideração que sentia que tinha dormido mais do que deveria. Havia a pequena preguiça de quem descansou o suficiente estagnada em meus músculos. Passei a mão no rosto ainda pensando se iria ou não voltar para a fábrica. As palavras de pareciam ainda mais convidativas naquela manhã; seduziam-me no breu do quarto que era meu, mas que eu pouco reconhecia como algo de minha posse. Estar em Berkshire Hall era uma mistura de fuga da cidade com uma viagem transitória. Nunca admiti-la como minha casa, embora carregasse um dos meus sobrenomes. Talvez até fosse esse motivo de não me identificar com ela.
Escutei o leve barulho do bater da porta característico do meu valete antes de entrar. Estiquei os músculos enquanto observava Clement andar pelo quarto escuro. Meu valente era um homem magricela e alto que carregava uma aparência de tédio e desprezo a maior parte do tempo. De início imaginei que não daria-me bem com alguém aparentemente sempre mal humorado, porém Clement era muito bom no que fazia e eu era um admirador da competência dele.
— Boa tarde, milorde. — disse ele fazendo uma rápida reverência.
Olhei-o confuso.
— Tarde?
— Sim — replicou abrindo as cortinas. — Já se passam do meio-dia.
— O quê? — perguntei levantando-me de supetão. — Por que não me acordou mais cedo?
Ele piscou resoluto.
— Segui as orientações de Lady Byron, milorde. Ela disse-me que o senhor desejava dormir até mais tarde e que não deveria acordá-lo.
Eu ri, embora não achasse nenhuma graça. O riso era mais indignado pela intromissão da minha esposa, que achou por bem mexer em minha rotina ao bel prazer.
— Clement, na próxima vez que isso acontecer, fale comigo primeiro, sim?
Ele fez um aceno positivo e ajudou-me a me vestir e barbear-me. Pouco lembro de nossa conversa, pois estava concentrado em encontrar as palavras certas para alertar a minha esposa que o que ela fez irritava-me. Apesar de deixar a irritação me envolver e explodir-se em mim fosse a escolha mais fácil, não era a mais sensata.
Encontrei Julia enquanto descia as escadas. A irmã mais velha de tinha uma aparência jovial e a beleza de um arbusto florido na primavera. Tinha poucas características físicas parecidas com a irmã — ora, o que diferenciava Lady Byron das outras mulheres eram seus traços indianos. Com toda certeza minha esposa era uma mulher muito mais bonita, no entanto, sua intromissão incomodava-me em demasia. Talvez, se eu pudesse voltar atrás, haveria escolhido a Julia como esposa. Ela, por exemplo, já havia ultrapassado a barreira dos nomes próprios enquanto minha esposa ainda me chamava de Lorde Byron.
— Boa tarde! — cumprimentou-me com animação. — mostrou-me o presente que deu a ela! É lindo.
— Obrigado por ter me ajudado com a cor, Julia. — disse eu em tom baixo e conspiratório.
— Por nada — respondeu Julia com um sorriso que caracterizei ser típico dos . — Se quiser qualquer informação para agradar a pode falar comigo. Ela é muito humilde para dizer o que precisa.
— Falando nela, por onde anda minha esposa?
Ela piscou confusa.
— Não está com você? Pensei que ela tivesse… — Julia ficou vermelha e fechou a boca rapidamente. — Deve estar no quarto, sim. Não a vi desde cedo.
— Certo. Obrigado mais uma vez, Julia.
Prontifiquei-me a descer os outros degraus quando ouvi o leve coçar de garganta.
— Milorde?
Senti o tom mais recatado de Julia e logo entendi que dela sairia um pedido.
— Sim?
— Eu poderia ter aulas de música quando formos para Londres? Sei que já passei da idade, mas queria melhorar minha habilidade com o piano.
Olhei para ela por alguns segundos estudando o que seria a melhor resposta. Eu estava em situação de contenção de gastos e pagar um funcionário a mais não estava em meus planos. No entanto, lá estava eu pensando que poderia pagar por isso. Lembrei, então, de Liam Woodhouse, filho do meu administrador, quem foi professor de música durante bastante tempo para as famílias nobres das redondezas.
— Certo, providenciarei.
...
Decidi comer alguma coisa antes de procurar a minha esposa. Sr. Kline, a quem só via na hora do jantar, apareceu e começou a tagarelar como de costume. De todas de Berkshire Hall, ele era quem me deixava mais impaciente e despertava meu lado menos educado. Falou sobre seus negócios como advogado e comentou que as coisas não estavam indo bem. Era sempre a mesma ladainha. De início, indiquei alguns escritórios londrinos que aceitariam-no de bom grado, mas o homem usou a distância e a vontade de acompanhar o crescimento dos filhos como um empecilho grande o suficiente para fazê-lo continuar ganhando pouco dinheiro. O pior mesmo foi descobrir que a casa oferecida por mim de presente não era de seu agrado, negando um presente como se tivesse direito de escolha.
Era questão de tempo até que eu o expulsasse sem nenhuma cortesia.
— Você sabe, agora a moda é trabalhar com causas trabalhistas — justificou ele, atrapalhando meu momento de paz em que matava minha fome. — Eu não trabalho com isso.
Passei a mão no rosto temendo demonstrar o desagrado que aquela conversa me dava. Vê-lo mexer sem parar no seu cinto apertado também não era uma cena interessante a contemplar durante uma refeição. O incômodo crescia como uma bolha prestes a implodir.
Um barulho de um vaso caindo no chão atrapalhou o falar de Sr. Kline. Nós dois olhamos para os lados à procura do objeto quebrado, no entanto, não havia nada de diferente no cômodo. Então, três crianças entraram às pressas na sala de jantar: Michael e Spencer, filhos do Sr. e Sra. Kline, meus tios, e Polliana, a irmã caçula de minha esposa. A pontapés e a empurrões, ouvi uma voz estridente gritar:
— Que inferno! Que tipo de criança são essas? Bando de demônios! — praguejava a mulher entrando abrindo as portas da sala com brutalidade.
Ao ver-me sentado com os talheres ainda em mão, a mulher conhecida, cujo nome eu não lembrava, empalideceu. Era uma empregada antiga, que costumava ficar responsável pela limpeza das janelas.
— Que barulho é esse, Genevieve?! — Sr. Kline indagou com cólera. — Não vê que milorde está comendo e precisa de paz?
— Sinto muito pelo o que aconteceu, milorde — disse a mulher fazendo uma reverência exagerada. Percebi que sua mão tremia.
Sr. Kline, envolvido em seu protagonismo, levantou-se e bateu com força na mesa.
— Que isso não se repita!
Distraí-me da conversa ao ver uma mãozinha pequena sorrateiramente pegar um pedaço de presunto de meu prato; a dona da mão, Polliana, enfiou-o com tudo na boca. Ao perceber que foi flagrada, a criança pôs o dedo na boca e fez sinal de silêncio.
Soltei uma risada, daquela que saí do fundo da barriga e explode na garganta. Minha atitude assustou o Sr. Kline e Genevieve, que estavam em um momento de profunda tensão. Como se fosse um incentivo, os mãos de Spencer e Michael também atacaram meu prato com pouca educação e os dois fugiram da sala de jantar com a mesma rapidez que entraram. Polliana, porém, foi mais devagar na fuga, demorando-se para sumir pela porta dos fundos.
— Meu Deus, milorde! — exclamou Sr. Kline mortificado. — Isso não deveria ter acontecido! Genevieve, que educação tem dado a essas crianças?
Balancei a mão em descaso.
— Crianças são crianças, Kline, não interessa a classe. Deixe-os ir — adverti largando de vez os talheres. — Só peço que seja mais simpático com os servos, afinal, eles não são subordinados a você.
Com o rosto corado de vergonha, Sr. Kline desculpou-se e arrumou uma justificativa para ir embora. Já Genevieve fez uma pequena reverência antes de correr atrás das crianças.
Balancei o sino para que retirassem meus pratos e suspirei olhando pela janela o jardim de Berkshire Hall. Ao longe era possível ver Genevieve atrás dos três pequenos correndo com toda a energia que possuíam. Sorri com a cena. Embora eu gostasse de crianças, sobretudo meus primos, não conseguia me acostumar em viver na mesma casa que elas. Seria um problema quando eu tivesse herdeiros; o que provavelmente não demoraria muito.
Fui até meu escritório em passos precisos, acreditando ser lá o lugar que estava. O pouco que eu conhecia dela me fazia desconfiar de que estaria até tarde na cama.
A porta havia sido consertada, o que facilitou no meu modo sorrateiro de entrar. Ela estava sentada com os pés para cima exibindo as botas limpas, mas desgastadas. Seu cabelo estava milimetricamente amarrado para trás em um penteado fora de moda; olhava para o caderno em suas mãos com a concentração de um engenheiro.
— Posso entrar no seu escritório, milady?
Ao contrário do que imaginei, não assustou-se com minha chegada repentina. Na verdade, levantou a cabeça com ar solene e demorou-se um tanto para entender quem a dirigia palavra. De súbito, minha esposa arrumou-se da cadeira e fechou o caderno com firmeza em seu colo.
— Sua cadeira é muito confortável, milorde. — disse ela com um sorriso constrangido.
— Realmente gosta de meu escritório, não é? — indaguei pensando nas dezenas de confusões que teríamos em Londres se ela mantivesse aquele hábito.
— É o único lugar que ninguém se atreve a incomodar-me — justificou dando os ombros. — Até mesmo em meu quarto não tenho sossego.
— Por que precisa de sossego? — indaguei com displicência.
— Não precisamos todos? — replicou levantando-se de seu lugar. — Sinto muito não respeitar seu espaço, milorde. Prometo que essa será a última vez.
Apertei os lábios percebendo que minha irritação escorreu sem querer. Meu objetivo não era acumular brigas, mas o dia era atípico. Pedi, então, para que ela sentasse no sofá comigo.
Observei mais uma vez seu jeito pouco educado de sentar, mas não ative-me àquele detalhe. Na verdade, surpreendi-me com o sorriso largo que ela me deu.
— Dormiu bem essa noite? Ontem tinha a aparência de cansado.
— Sim, porém…
— Veja, é importante para recuperação de qualquer doença, seja ela qual for, o descanso. — continuou sem escutar-me — Papai sempre dizia que boa parte das doenças podem ser curadas com uma noite de sono.
Encarei-a em silêncio incapaz de definir o que sentia no momento. A irritação de ter a rotina mudada bruscamente se digladiava com a sensação boa de estar sendo cuidado, algo que não sentia a muito tempo. Ela mexia os braços explicando coisas sobre a medicina praticada por seu pai e quantas vezes sua generosidade a encantava. pôs-se a falar como nunca; tagarelava e ria como se eu fosse um amigo querido e muito antigo. Algo em meu peito doeu, então, a constatar que aquela característica boa dela seria cortada até a raiz pela Alta Sociedade; inclusive por mim.
?
— Sim — respondeu rapidamente. — Desculpe-me, estou falando demais, não é? É que lembrei de algumas coisas… Umas memórias…
Cocei a garganta.
— Queria pedir para não mexer na minha rotina sem minha autorização. Hoje não houve nada demais, mas eu poderia perder um negócio importante — falei sem pausa. — Sou grato pelo seu cuidado, mas estive cuidando de mim há tempos. Peço que respeite meu espaço e eu respeitarei o seu.
Ela abriu a boca algumas vezes, mas não disse sequer uma palavra. Eu pude ver um pequeno soa de dor em seus olhos; dor que ela não permitiu expor através de palavras.
— Tudo bem, milorde. — ela sorriu forçadamente. — Isso não irá se repetir. — levantou-se. — Tenho alguns negócios para resolver. Com sua licença.
Enquanto via sair do escritório arrependi-me de minhas palavras. Se eu tivesse sido mais esperto, teria pedido-lhe desculpas naquele momento. Não sabia que, ao ser tão meticuloso com meu individualismo, escolhi o caminho mais difícil para o coração de , o qual nem sabia que já trilhava.


XI.

Eram raros os dias em que deixava Lucy arrumar-me como se eu fosse uma boneca. Preferia fazer aquilo eu mesma: mexer em meus cabelos, apertar meu próprio corpete e encher meu rosto de pó branco como mandava a moda. Naquele dia, porém, deixei que a mulher fizesse seu trabalho, mesmo que fosse incômodo sentir os puxões da empregada ao fazer meu penteado. Usei pela primeira vez uma touca, que costumava cair em algum momento do meu dia. O vestido era o mais bonito que eu tinha — ao menos era o mais bem elaborado por Sra. Dorcas, a costureira da cidade. Era escuro, obviamente, pois eu ainda estava em luto. O roxo e o preto misturavam-se quase tornando-se um; conforme eu andava, as cores brilhavam a luz do sol.
Encarei meu reflexo no espelho. Eu realmente parecia uma mulher de um par no Reino. Constatar isso angustiou-me, a pressão de ser a mulher que eu não era pesava em meus ombros.
— Está linda, milady.
Agradeci a Lucy com um pequeno sorriso e a despedi.
Mais uma mudança. O quarto já parecia menos meu, os poucos pertences que eram de minha posse estavam entre os dois baús que eu levava a Londres. Na penteadeira havia o livro perdido de boas maneiras encontrado por Lilian em uma das suas buscas no escritório de milorde. Um lugar, aliás, que eu não pisava desde a fatídica conversa.
Pus a mão no rosto sentindo-me estúpida mais uma vez. Por que eu tive que agir daquela maneira? Por que fingir que eu tinha intimidade o suficiente com meu marido para mexer em sua rotina?
Tinham sido três semanas difíceis. Sobretudo porque comecei meus estudos de etiqueta sozinha. Eu tinha muita dificuldade em aprender coisas como aquelas sem instrução; Julia ajudava no que podia, mas a verdade era que sua memória dos dias de colégio eram limitadas às relações com as outras garotas, não às lições. Julia também era um tanto quanto atrapalhada, embora seu comportamento mostrava-se impecável quando comparado ao meu. Ainda assim, eu insistia. Cheguei a receber as amigas de Sra. Berkshire e Sra. Kline na hora do chá; planejei jantares para os moradores da casa com alguns conselhos que recebi da Sra. Strauss, a governanta. Eram momentos torturantes, porque o olhar crítico da família de meu marido não deixava passar qualquer detalhe. Lorde Byron vinha ao meu socorro, no entanto, comecei a encarar aquela característica como forma de lembrar que ele era quem estava no controle, não porque gostasse de mim.
Depois da noite em que recebi dele o xale acreditei que algo estava sendo formado. Talvez um carinho e cumplicidade que sempre desejei compartilhar com alguém, mas suprimi pela improbabilidade de possuí-la. Então, Byron colocou-me em meu lugar. Lembrou-me da situação contextual de nosso casamento.
Era muito bem feito para mim. Não devia alimentar sonhos da juventude; já tinha passado da época de nutrir esperanças românticas. Não foi o suficiente a decepção amorosa que sofri antes de completar meus vinte anos? Não aprendi nada com a experiência? Estaria eu tão cega a ponto de ver além do que estava diante de meus olhos?
Cobri meu rosto com as mãos mais uma vez. Passaram-se semanas e eu ainda sentia-me muito envergonhada. Não era à toa que evitava ao máximo estar à sós com meu marido, o qual vivia ocupado. Provavelmente em Londres seria a mesma coisa e eu teria apenas que me preocupar com as nossas conversas frívolas do jantar.
O bater da porta despertou meus pensamentos.
, vem me ajudar com Polly! — gritou Julia do outro lado. — Ela está impossível hoje.
Dei um sorriso zombeteiro. Polly estava impossível sempre; era da sua natureza infantil agir com afobação e rebeldia. Papai pouco ajudou para que seu caráter fosse diferente; a mimava quase como um dia fez com Julia.
Quando abri a porta, Polly passou como um raio em minha direção e agarrou minhas pernas — ou o máximo que conseguiu tocar abaixo dos babados do vestido.
— Está perturbando July de novo, Polliana? — indaguei cruzando os braços.
Ela fez um biquinho. Vi que estava descalça e seu cabelo tinha uma fita branca emaranhada.
— Não quero me arrumar!
July seguiu-a parecendo irritada.
— Vem aqui, sua…
Naturalmente, Polly fugiu da irmã mais velha rindo como se fosse uma grande piada. Eu também riria, mas era fato que essa atitude faria-a correr ainda mais e atrasar nossa viagem.
— Polliana Rowe , pare de correr!
— Mas… — tentou argumentar ao subir na cama.
Lancei-lhe um olhar sério e a vi murchar aos poucos, voltando a fazer um bico.
— Te odeio! Você é muito chata.
— Venha cá e calce os sapatos. — ela olhou-me contrariada. — Agora!
Batendo os pés com birra, minha irmã caçula começou a ensaiar um choro sem lágrimas.
— Te odeio! — repetiu andando entre pulinhos de malcriação.
— É assim que se anda? — indaguei cruzando os braços em direção a ela.
Julia estendeu a mão e deu um sorriso conciliador para Polly. Sabendo que eu seria muito mais pulso firme do que nossa irmã mais velha, a escolha mais inteligente era ficar longe de mim. Contive o sorriso enquanto observava-as saírem pela porta como mãe e filha — uma harmonia contrastante com o que acontecia cinco minutos antes.
Uma brisa saiu da janela semi-aberta e eu permiti-me respirar fundo. Eu havia escolhido aquele destino por causa delas. Minhas irmãs.
Estava saindo de meu quarto quando encontrei Sra. Strauss no meio do corredor.
— Está pronta, milady?
Eu não estava. Nunca estamos realmente prontos para mudanças não planejadas. Ainda assim, respondi-lhe com um pequeno sorriso.
— Sim, estou pronta.

Despedir-me dos servos foi muito mais difícil do que dos parentes de meu esposo. Havia algo maquiavélico no rosto deles; sobretudo na Sra. Kline que desejou com insinceridade que a viagem de um dia e meio fosse tranquila. Já a Sra. Berkshire, a quem não conseguia enganar ninguém, orientou-me não envergonhar muito o nome da família.
Eu deveria ter ficado calada. Era a coisa certa a se fazer; ignorar aquela matrona que nunca tinha me feito algo bom, que transformou meus primeiros dias em Berkshire Hall em um inferno.
Às vezes não escolhemos a coisa certa a ser feita.
Sra. Bridgestone ensinou-me a ganhar com o silêncio, porém o som da minha boca fechada tinia meus ouvidos. Dirigi-lhe com um sorriso, algo que fiz apenas uma vez desde que cheguei na casa.
— Senhora, se te incomoda tanto o meu jeito de apresentar-me, não deveria se preocupar em visitar-nos em Londres — apontei para sua bengala. — Será melhor para seus nervos.
Chocada com minha reação incomum, a Sra. Berkshire não replicou-me. Deixei-me ser ajudada pelo cocheiro para entrar na carruagem e sentei-me ao lado de Lorde Byron. Julia encarou-me em silêncio, denunciando que ouviu a conversa de lá fora. Alheia ao mundo ao redor, Polly brincava com uma boneca de pano no colo de Lucy, quem cuidaria de minha irmã até contratamos uma babá oficial. Demorou apenas alguns segundos até que milorde batesse no teto com a sua bengala e o veículo começasse a andar.
Ao contrário do que imaginei, meu marido não comentou nada sobre a cena. Talvez o fato de termos uma empregada no recinto o fez frear a língua. Ele não parecia o tipo que gostava de dar assunto para os criados. Até sairmos da propriedade, Byron não tirou os olhos da janela.
— Milorde — chamou Julia de repente. — Como é o clima em Londres? É bom para passeios?
Byron sorriu nostálgico para minha irmã . Parecia muito cansado — algo que era recorrente. Podia ver o pequeno relevo escuro abaixo dos olhos, embora estivesse impecável dos cabelos até os sapatos. Ele ainda cheirava a sabonete, revelando que banhara-se alguns minutos antes de entrarmos na estrada.
— Londres é um lugar cinza onde os dias de sol são raros — seu sorriso alargou-se, quase contemplativo. — É definitivamente um lugar perfeito.
July olhou-o com incredulidade.
— Isso é o que milorde considera perfeito? Deus me livre de saber o que é imperfeito…
Ele deu uma risadinha. Quando ria, as marcas do rosto de Lorde Byron apareciam com mais evidência.
— Apenas identifico-me bastante com a cidade, Julia.
Comecei a batucar os dedos no assento, fingindo não ouvir a conversa dos dois.
— Não gosta de Berkshire Hall?
— No fundo, sim — replicou ele. — Mas não é o meu lar, não realmente.
— Considera Londres o seu lar, então? Por causa do clima?
Byron voltou a olhar para a janela.
— Sim, digamos que sim.
Ele estava mentindo.
No meio daquelas infinitas conversas cheias de praxes que tivemos nas últimas semanas, passei a observá-lo com muito mais cuidado. Ele desviava o olhar casualmente toda vez que mentia — era mentiras menos sérias, no entanto, mentiras. Eram eufemismos e omissões voltadas a defender sua intimidade tão cercada de muros que poucos aventuravam-se em conhecer.
disse que levará-nos para o teatro, é verdade? — indagou ela curiosa.
Byron, então, olhou para mim de esguelha. Meu corpo endureceu, nervoso.
— Pensei que seria só nós dois — disse ele a mim.
Franzi o cenho.
— Não sabia que era um passeio a dois, milorde.
July olhou-nos meio desesperada.
— Ah, não precisa levar-me de primeira — replicou rapidamente. — Sempre terá outras peças para assistir…
— Não acredito que Julia irá atrapalhar qualquer plano nosso, não é, ? — indagou Byron um tanto desafiador.
Apertei os lábios antes de responder:
— Claro que não.
E voltei a ficar em silêncio, irritada com não-sei-o-quê.
A viagem teria o barulho das rodas na estrada como conversa, se minha irmã mais nova fosse uma criança controlável. Passou algumas horas até ela cansar da boneca e ficar pulando de colo em colo perguntando quando chegaríamos.
— Estou com fome, July — dizia ela fazendo um bico.
Logo depois de tirarmos algum lanche da cesta que Lucy trazia, minha irmã voltava reclamar da demora. Embora eu tentasse explicar que Londres era longe, o fato dela não conseguir dormir a deixava agitada e mau humorada.
— Polliana, venha cá. — chamou Byron de repente.
Troquei um olhar apreensivo com Julia. Eu não sabia o que meu marido achava de crianças e minha irmã caçula não era um grande exemplo de boa conduta. Aliás, seu comportamento tornou-se mais problemático desde que papai morreu.
Desconfiada, Polly deixou-se ser colocada no colo. Vi Byron tirar um cordão do bolso e começou a brincar com ele entre os dedos, transformando-o em imagens. Polliana envolveu-se rápido; quis fazer, no entanto, meu marido pediu que ela o observa-se antes de tentar. Conforme os minutos passaram, permiti acalmar-me. Rimos quando ouvimos ela chamá-lo de milorde como se esse fosse o nome real de Byron, “sr. Milorde”.
Era final da tarde quando chegamos na pousada para passarmos a noite. Os candelabros estavam começando a serem acesos e havia uma boa quantidade de clientes pela movimentação das carruagens. Estávamos todos cansados — sobretudo Lillian que, embora não tivesse vomitado em momento nenhum da viagem, reclamava de ter passado horas viajando com a Srta. Anderson, sua mais nova preceptora, quem não sabia o momento certo para falar. Prometi, então, acompanhá-la no dia seguinte. Polly e Julia também dormiram; a mais nova nos braços de Lorde Byron e a outra no ombro de Lucy. Ao descermos, ofereci-me a segurá-la, o que foi rejeitado. Embora a saliva da menina tivesse sujado seu terno, meu marido não ficou perturbado com aquilo.
Ele ainda estava com Polliana no braço quando foi até a recepção. Lilian também dispôs-se a carregá-la, mas Byron negou mais uma vez. Cuidadoso, ele disse que não queria que ela acordasse.
— Tenho reservas para essa noite pelo nome de Lorde Byron. Acredito que são cinco quartos — avisou após cumprimentar o estaleiro.
— Sim, milorde — disse o homem com amabilidade. — Deixe que a babá leve sua filha para o quarto, sim? Não há porque carregá-la — ele direcionou-me a ordem. — Não vê que a menina o atrapalha?
Meu corpo travou no chão, assustado. Do que ele estava falando?
— Senhora — murmurou o homem para mim. — Faça alguma coisa.
— Mas eu… — tentei argumentar lembrando-se da minha voz.
Byron ficou muito sério. O seu cenho acentuou-se, as três linhas formando-se acima das sobrancelhas com desagrado.
— Está falando com a Lady Byron, senhor. — sua voz soou como uma faca afiada. — Tenha modos.
O estaleiro ficou branco como papel. Olhei para o chão sentindo-me bem pequena, o desejo que correr para o quarto e esconder-me aumentando. Que diferença era do meu comportamento para o de mais cedo!
— Perdoe-me, Lorde e Lady Byron! — exclamou encabulado. — Não era do meu desejo…
— Leve-nos para os quartos — interrompeu sem paciência meu marido. — Estamos cansados.
— Sim, milorde, sim! — com afobação, o homem levou-nos até o segundo andar. Escutei mais alguns pedidos de desculpa e havia honestidade no que ele dizia; era um homem que estava apenas querendo ganhar seu pão, afinal de contas. Eu também não sabia como reagir. Tudo que pude fazer era deixar a tristeza e a insegurança invadir meu coração mais uma vez.

Embora meu plano fosse sair do quarto apenas quando voltássemos para a estrada, Julia apareceu na minha porta como uma moça de recados.
— Seu marido está chamando você para jantar.
Levantei a sobrancelha em desafio.
— Por que ele mandou você e não um empregado?
— Porque ele te conhece o suficiente para deduzir que iria inventar uma dor de cabeça — argumentou ela puxando-me para fora da cama.
— Estou sem fome — repliquei manhosa.
, não seja criança. quer conversar com você à sós. Provavelmente por causa da cena de mais cedo. — ela sorriu com segundas intenções. — Viu como ele te defendeu? Pensei que ele ia pular em cima do estaleiro!
Olhei-a com zombaria.
— Não seja exagerada, July. Aliás, quando você passou a chamá-lo pelo nome de batismo?
— Ora, ele é da família agora. — justificou dando os ombros. — Só você que tem esse decoro de ficar milorde para cá, milorde para lá até mesmo quando estamos entre pessoas íntimas.
A essa altura também achava aquilo uma completa besteira, mas não daria para trás tão fácil. Peguei o xale que ganhei — aquele que significava tudo e nada ao mesmo tempo.
— Certo, irei falar com ele.

Encontrei Lorde Byron sentado em uma das mesas perto da janela. Ele estava enrolado em sua casaca, as mãos escondidas nos bolsos e os ombros encostados na parede. Era uma posição reflexiva — seu olhar corria pelo cômodo ansioso, embora o corpo dele não se mexia. Quando viu-me aproximar, levantou-se e afastou a cadeira para que eu sentasse. Sua atitude foi um tanto automática, o cavaleiro em si refletindo em suas maneiras.
— Está com fome, milady? — disse ele.
— Só quero chá, obrigada — respondi e o vi pedir para uma empregada fazê-lo. — Por que queria conversar comigo?
Ele deu um sorriso ladino.
— Não posso querer conversar com minha esposa?
— O senhor não pareceu interessado em uma conversa íntima nas últimas semanas.
Byron deu um leve arquear de sobrancelhas.
— A senhora muito menos.
Fiquei calada, assumindo parte da culpa que me era devida.
Observei a empregada aproximar-se de mim e por a mesa. Ficamos em um silêncio denso, o barulho da conversa de um casal ao lado tornando-se mais audível do que meus próprios pensamentos.
— Como és bonita, minha linda… — dizia o homem.
— É a felicidade no meu rosto, meu amor… — respondia ela sonhadora.
Apertei os lábios contendo um sorriso desdenhoso.
— Apaixonar-se pode deixar os humanos um tanto estúpidos, não? — comentou Byron aparentemente compartilhando do mesmo pensamento que eu.
— Já apaixonou-se, milorde?
Ele hesitou por alguns segundos, mas, por fim, balançou a cabeça negando. Arregalei os olhos.
— Que nada! Está tentando parecer intocado pelo amor para mim? Não acredito nisso — argumentei de repente muito interessada na conversa. — Prometo que não julgarei seu passado.
— Não há o que contar, — disse Byron pegando sua xícara e levando aos lábios.
— Como não? Um homem tão vivido como você deveria ter várias histórias de amor para contar.
Homem tão vivido? — zombou ele, sua voz grave tinindo. — É o novo jeito de me dizer que sou velho?
Dei os ombros e ele soltou uma pequena risada. Acompanhei, sentindo mais uma vez uma familiaridade que apenas Byron oferecia. No entanto, eu sabia que era passageira — era questão de tempo para que ele empurrasse-me para longe. Tomei um gole de meu chá e fiz uma careta ao perceber que era de má qualidade. Provavelmente a planta não estava fresca.
?
— Sim? — respondi deixando a bebida de lado.
— Já indagou-se porque em todos esses anos eu nunca me casei?
Murmurei uma negativa. Quando recebi a primeira carta de Byron acreditava que ele era viúvo e estava desesperado por um herdeiro, no entanto, mais tarde descobri que ele nunca esteve ligado a alguém através do matrimônio. Eu não gostava de pensar muito nisso, minha mente sempre foi maquiavélica para aquelas coisas….
Byron soltou um longo suspiro.
— Esse chá está terrível — comentou fugindo do assunto.
— Concordo, parece água — repliquei casualmente, embora meus olhos dissessem outra coisa. E os olhos de um azul nublado de Byron também contava outra coisa.
Ele encarou-me e eu o encarei de volta. Éramos dois pares de olhos calculando o que o outro iria dizer. Silêncio ensurdecedor, como diria um poeta. E no ambiente as vozes do casal ao lado.
— Te amo tanto, minha querida…
Então disse Byron:
— Eu conheço todos os tipos de casamento e o por amor era o que eu mais almejava. No entanto, nunca encantei-me por alguém o suficiente para viver um — falou ele e eu senti o quanto custava-o dizer algo como aquilo quando ele continuou. — Mas não é disso que quis conversar; o que quero, na verdade, é pedir desculpas por não ter me direcionado a outra estalagem depois do episódio na recepção.
Pisquei duas vezes surpreendida.
— Nunca encantou-se? Como pode? — falei embasbacada.
Ele não respondeu e tentou tomar mais uma vez o chá.
Esperei-o responder, mas Lorde Byron não disse nada. Entendi aquilo como uma mensagem para recuar.
Olhei para meu chá quase intacto. Respirei fundo antes de dizer.
— Obrigada por me defender.
— Não estarei ao seu lado todo tempo, — alfinetou ele sem cerimônia. — Estou curioso. Como alguém que enfrentou uma senhora da Alta Roda sem pestanejar ficou sem reação diante de um simples estaleiro?
Eu não tinha resposta para aquela provocação, mas eu ainda disse:
— Não o pedi para defender.
— Veja, a sociedade londrina vai comê-la viva…
Levantei-me da cadeira com o coração aos pulos. A réplica estava na ponta da língua pronta para escorregar e fazer confusão.
— Irei me retirar.
— Espere, por favor — disse ele levantando-se em seguida. — Não estou querendo brigar.
Encarei-o por alguns segundos. Eu fervia por dentro; estava exausta e sem paciência para ouvir coisas que me deixavam desconfortável. Ainda assim era Lorde Byron, o homem que resgatou-me da falência.
Voltei a sentar-me e ele o fez também. Mantive o rosto sério e cruzei os braços.
Então vi um sorriso apaziguador domou sua face.
— Sei que as minhas palavras não são as mais leves, porém estou preocupado com você, — afirmou em tom brando. — Foi-me duro adaptar-me, também. Sei o que é receber olhares ruins e ser mal interpretado.
Eu duvidava do que ele dizia, mas mantive-me em silêncio.
— Até os quinze anos fui um filho rejeitado. Entrei para ser educado tarde e porque minha avó resolveu lembrar da existência do neto — revelou Byron. — Devo muito a ela e, no entanto, nunca a deixei dominar-me. Sei que suas intenções não eram completamente boas. Os mesmos comentários desagradáveis que recebeste sobre os meus diferentes comportamentos escutei; minha falta de educação sempre me foi apontado.
Apertei os lábios sentindo-me desarmar. Não havia qualquer vantagem ser inimiga do meu marido. Ele conhecia aqueles que de longe murmuravam em meus pesadelos; ele os vencera e era um deles. Byron era o meu melhor aliado, embora fosse um homem de personalidade difícil.
Um barulho de cadeiras arrastando-se dominou o recinto. O casal apaixonado saiu do recinto com risinhos escandalosos. Meus olhos os seguiram até desaparecer na porta.
— Não sei se sou capaz de fazer isso sozinha.
— Você não estará sozinha — afirmou ele. — E mesmo se tivesse, sei que será capaz para ser a mulher dessa manhã quando necessário.
Suspirei temendo apoiar minha confiança em bases de areia.
Falei, então, com insegurança.
— Então, vamos passar por isso.
Meu estômago congelou quando recebi um sorriso em resposta. Parte era por sua beleza inevitável; parte pela verdade que ele ainda não conhecia. Eu sempre seria um peixe exótico no mar de pálidos britânicos. Era questão de tempo até ele entender que peixes como eu, ao entrar naquele novo aquário, nunca eram bem-vindos.


Continua...



Nota da autora: Olá, gente! Como está o começo de ano de vocês? Espero que 2020 tenha iniciado com ótimas notícias para vocês!
Chego aqui com uma att dupla e com meu capítulo favorito até agora, o onze. Acho que agora engrena, não é? O que estão achando de O Irreversível? Comentem! Sua opinião é super importante.
Quero agradecer todo mundo que tem comentado e me mandado mensagem. Isso me dá muito gás pra continuar escrevendo a história. Sério mesmo! Tbm agradeço a Giih que fez essa capa lindona. Valeu, Gihh <3
Querem ler spoiler e ter algumas infos privilegiadas? Me sigam no IG /ficcoesdemaraiza, tenho também o grupo do FB e do WhatsApp.
Até mais.


NOTA PERMANENTE DA AUTORA: O capítulo 8 há um erro histórico ao falar das tecnologias londrinas. Na década retratada a eletricidade era ainda um sonho. Prometo que estarei mais atenta aos aspectos históricos para que erros como esse não sejam repetidos.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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