FFOBS - O Irreversível, por Maraíza Santos


Última atualização: 19/04/2020

"Love will find a way through paths where wolves fear to prey."
BYRON, Lorde. 1788-1824.
1851, Inglaterra

I.

一 Papai iria sentir orgulho de você, .
Levantei os olhos em direção à Julia, minha irmã mais velha. Aquela era a primeira vez que alguém abria a boca para comentar alguma coisa desde que entramos na propriedade de Berkshire Hall. Sua fala, embora cheia de boas intenções, foi como saber que eu teria que atravessar um lago congelado no auge do inverno. Eu odiava inverno.
Dei um sorriso discreto para ela e acariciei o cabelo de Polly, que dormia calmamente no colo para Julia. Já Lilian estava mais perto da janela e tentava controlar os seus enjôos. Na última parada, ela mal conseguiu ingerir qualquer comida tamanho mal estar que sentia. Seu rosto estava mais pálido do que o normal e o cabelo bagunçado grudava no pescoço suado; mantinha-se em silêncio espreito, como se a qualquer momento fosse dizer alguma coisa.
Quatro irmãs de um mesmo pai, mas de mães diferentes 一 papai, um galanteador, teve três esposas durante sua longa vida. Apenas uma sobreviveu o suficiente para ter mais de uma filha. Ainda assim, ela morreu antes de chegar a velhice, sendo substituída depois por uma mulher mais nova.
一 Estamos quase chegando 一 disse a Sra. Bridgestone ensaiando um tom animado, mas eu a conhecia. Havia um pequeno tremor na sua voz de quem não tinha certeza do futuro. Eu compartilhava de seu medo, mas tentava ao máximo não externá-lo.
Julia olhou para mim com atenção.
, é isso que você quer? 一 indagou insegura. 一 Podemos voltar para casa e esquecer essa história. Sei que acharemos outra saída.
一 Nós não temos casa, Julia. 一 respondi sem esconder meu tom amargo.
Demorou apenas dois meses da morte do meu pai para que perdêssemos nosso lar. Mesmo com a casa penhorada, ainda havia uma soma de libras que nem mesmo se todas nós trabalhássemos a vida toda seria paga.
Recebi a carta de Lorde Byron perguntando sobre a saúde de Sr. , meu pai, quando já morávamos na pequena igreja de Southwark. Na missiva, ele falava de um possível cortejo com uma de nós, as quais acreditava serem educadas o suficiente para serem baronesas; Byron explicitou que era a forma de finalmente recompensá-lo pela amabilidade do passado. Não mostrei a carta a ninguém, muito menos a réplica que lhe enviei. Antes que percebessem, eu estava comprometendo-me com um desconhecido pelo correio em troca de proteção para minha família.
Lorde Byron estava a caminho das Américas quando enviou-me a última carta contando os detalhes do nosso enlace. Embora eu insistisse que seria importante que nos encontrassemos antes, ele parecia realmente interessado no matrimônio por procuração. Ele não queria festa, tão pouco comemorações. Além disso, eu e minhas irmãs não podíamos passar mais tempo vivendo de favores. Não havia porque fingir que era algo além de um negócio que beneficiaria nós dois; eu mais do que ele.
Era por isso que estávamos indo a Berkshire Hall para assinar os papéis. Sr. Oliver seria o representante legal de meu noivo e era quem conduzia a carruagem bonita e moderna que levava-nos para nosso novo lar. Ao explicar a proposta, Julia foi a única a apoiar-me de início. Ela entendia meu desespero mais do que todo mundo. Nós duas ouviamos o choro de Lilian todos os dias ao anoitecer desde que passamos a dormir nos bancos da igreja do vilarejo.
Sra. Bridgestone, minha amiga e madrinha, não gostara nada do negócio, mas não conseguiu convencer-me a desistir; tão pouco tinha uma solução imediata para nossa situação. Ela tinha bons contatos que poderiam acolher a mim ou uma das minhas irmãs 一 não todas, o que eu não aceitaria. Estávamos juntas e continuaremos juntas. Ainda assim, a consideração e respeito que alimentei com Sra. Bridgestone através do tempo era tamanha que ela decidira acompanhar-nos até Berkshire. Suas palavras, porém, ressoavam em minha cabeça. Quem seria aquele homem que eu estava enlaçando-me pelo resto da vida? Quão terrível seria a ponto de desejar com tanta pressa uma esposa desconhecida e de nível desigual?
A carruagem parou de repente e meu estômago embrulhou de ansiedade. Sr. abriu a porta em um solavanco e logo vi seu rosto magro e bronzeado pelo sol fitando-me.
一 Estamos um pouco atrasados, então não vai dar tempo de conhecer a casa antes. Há algum problema?
Neguei com a cabeça e aceitei a sua ajuda para descer. O primo de Lorde Byron tinha um sotaque irlandês arrastado e desde que fora buscar-me em Southwark Village mostrava-se sempre ansioso com tudo; para ir, para chegar, para comer, para dormir. Era agonizante. Abri a boca para comentar sobre isso a Julia, mas, ao encarar a mansão de meu noivo, as palavras morreram na minha língua.
Era eufemismo chamar Berkshire Hall de casa. Ela tinha grandes janelas e parecia ter sofrido algumas reformas para a criação de novos quartos. Por dentro era ainda mais espetacular, o que deixava-me apreensiva. Como se administrava uma casa como aquela? Era Lorde Byron mais rico do que eu imaginara? Eu e minhas irmãs entramos de queixo caído, a Sra. Bridgestone, porém, não parecia muito impressionada. Sendo filha adotiva de um casal de condes, ela passou a maior parte da vida em lugares luxuosos como aquele.
No entanto, o que assustou-me de verdade foi a presença da família de Lorde Byron. Estavam no salão a Sra. Berkshire, avó do milorde, e o casal Kline, tios do meu noivo; acompanhando estavam os três filhos deles. O momento não passava de formalidades, por isso, surpreendi-me com a presença deles.
Não esconderam a rigidez ao ver-me sendo apresentada como noiva de Lorde Byron. Eu conhecia aquela observância. Conhecia o receio, o medo e o desprezo. Ainda assim, fingi não perceber a opinião sobre mim formando-se a minha frente. Sorri, assenti e não fiz qualquer comentário inoportuno até que meu nome estivesse assinado na papelada.
Meu casamento foi assim: técnico, sem grandes emoções ou amor. Eu sequer sabia da face de quem eu possuía o sobrenome. À noite, ao invés de dividir a cama com meu marido, dormi com Polly, minha irmãzinha mais nova, que estava assustada demais para descansar no berçário.
Ainda assim era ali meu primeiro vislumbre de esperança.



II. Berkshire, Lorde Byron

Os dias de verão americano eram um pouco diferentes dos londrinos: apesar de ser igualmente seco, os de casa tinham como garantia chuvas perenes durante várias vezes ao dia. Já na América a sensação desértica era deveras maior e cortava a garganta a cada respirada. Mesmo sendo uma terra fértil para novos empreendimentos, o país não comparava-se com o mundo civilizado europeu. Se fosse de minha escolha, nem mesmo havia pisado nele. Para não dizer que foi todo mal, a viagem emergencial deu-me uma grata surpresa. Conheci Sr. Moore, o estaleiro, um homem muito competente que se tornara um bom amigo em terras estranhas. Eu passava a maior parte do dia resolvendo meus próprios problemas, mas no final da tarde ficávamos sentados lado a lado compartilhando uma cerveja vagabunda. Naquele dia em especial eu sentia-me sem muita expectativa para o futuro.
ー Conte-me mais sobre essa história, milorde. ー pediu Sr. Moore.
Suspirei melancólico.
ー O que há a se dizer? Estamos perto de perder todo o investimento feito anos atrás por caprichos de meu primo. Confiei-lhe meu negócio para essas bandas a fim de que conseguisse seguir sua vida. Seria um arranjo perfeito, se Oliver não estivesse pior do que eu imaginava.
Não gostava de expor-me daquele jeito, no entanto sentia-me sobrecarregado há muito tempo. Naquela terra estrangeira, com pessoas desconfiadas e arredias, meu humor estava declinando-se a cada dia.
ー Trabalhar com família é a pior coisa ー afirmou ele.
Balancei a cabeça em afirmação. Era por essas e outras que não mandava subordinados resolverem coisas importantes para mim.
Depois de três meses trabalhando nos Estados Unidos, meu primo começou a faltar suas obrigações. As obras para a construção da fábrica de enlatados começaram a desacelerar o ritmo; aparentemente, Oliver esqueceu-se de contratar novos trabalhadores. No entanto, o que culminou minha vinda foi uma carta do supervisor da obra cobrando os salários não pagos.
Intimei Oliver a encontrar-me no cais londrino há mais ou menos dois meses. Parecia que eu estava encarando um homem diferente, visto que estava em uma situação muito decadente. Chorou em demasia quando eu confrontei-o sobre os prejuízos que ele estava dando-me; parecia uma criança melequenta com fome ao se agarrar aos meus pés. Amoleci, pois parecia que aquela conversa não tinha futuro e decidi, então, mandá-lo de volta para casa com uma promessa de uma pequena pensão todo mês desde que não a gastasse com jogos e bebidas. Antes disso, eu tinha uma missão para ele.
ー Acha que consegue recuperar o dinheiro? ー perguntou Sr. Moore enquanto se servia. Balancei a cabeça de leve para voltar ao presente.
ー Talvez ー respondi incerto.
ー Vai precisar contatar a polícia?
Neguei com a cabeça.
ー Oliver possuí muitos defeitos, mas desonestidade não é um desses.
Esse era um dos motivos pela qual o escolhi para ser o meu representante no meu casamento. Sua indiferença ao pedido estranho feito por mim era um alívio diante das grandes críticas que eu recebia cada vez que comentava sobre o assunto. Não confiava nem mesmo nos meus amigos para tal, afinal, eu havia ouvido seus comentários do absurdo que era casar-se com alguém por procuração. Por que não esperar um pouco e fazer um evento para celebrar a união?
Eu não tinha nada contra casamentos. Aliás, era um dos poucos eventos que eu dificilmente declinava o convite e sempre encontrei espaço em minha agenda para prestigiar recém-casados. O que incomodava-me de verdade era o fazer sem significado. A minha ideia de matrimônio era diferente da maioria da aristocracia: devia vir de um sentimento mútuo, não necessariamente amor, mas algo parecido. Deveria haver respeito e parceria. Casar por motivos mesquinhos como dinheiro e status apenas empobrecia a alma. Como, então, fazer um acordo como aquele e celebrar como uma verdadeira união de almas? Como prometer proteger ao seu cônjuge diante de Deus e dos homens se o matrimônio era movido por ideais tão egoístas?
Eu não conseguiria. Por isso, decidi fugir através da lei.
Escolher uma noiva por motivos práticos era tão dificultoso quanto apaixonar-se de verdade. Intentei de noiva-me com duas moças, todas elas filhas da aristocracia, mas o flerte púdico e o fingimento próprio deste tirou minha paciência; além do mais, os murmúrios sobre os escandalosos Lordes Byron do passado ainda corriam pelos salões londrinos. Planejei procurar pretendentes de classes mais modestas, até ouvir relatos de um médico que estava doente e endividado chamado Sr. , o qual morava em Southwark Village. Como se tivesse voltado no tempo, lembrei-me da generosidade e amabilidade que o homem tivera para com minha mãe quando estávamos em uma das nossas piores épocas. Eu, uma criança, quase perdi-a cedo demais. Ele a salvou da morte e não pediu nada em troca; nós éramos ninguém durante aqueles dias, mas isso não o impediu de ser bondoso para conosco. Era a hora de retribuir-lhe o favor.
Eu tinha encontrado Sr. em Londres quando era mais novo e anônimo. Ainda não havia herdado o título e estava negociando a compra da minha fábrica, embora já tivesse ganhado bastante dinheiro desde que comecei o comércio de pêssegos enlatados. Ofereci uma gorda quantia em gratidão pelos seus serviços prestados, a qual ele declinou de imediato. Embora eu tenha insistido, Sr. brincou que eu deveria guardar o dinheiro para minha futura esposa, porque "ela, sim, receberá o dinheiro sem pestanejar". Que engraçado seria se ele soubesse que no futuro a minha esposa seria uma de suas filhas.
ー Talvez seja um momento de focar em outras coisas. Está casado, não está? Tem filhos?
Dei um pequeno sorriso para meu novo amigo. Ele era um homem de idade, careca e muito curioso.
ー Ainda não sei se sou um homem casado, senhor.
Demorou meses para responder a carta que enviei para seu pai perguntando-o sobre sua saúde. Logo em suas primeiras frases foi possível perceber sua natureza prática; disse sem muita cerimônia que seu pai havia morrido há quase quatro meses e que deixara ela e suas irmãs em um estado lamentável. Havia acabado de perder a casa e escrevia a mim sua resposta na igreja de Southwark, onde estavam abrigadas. Ela pediu desculpas por ter meus planos de combinar um casamento diretamente com o seu pai cancelados, no entanto, ela aceitaria a proposta caso eu a mantivesse. Não contive o susto quando eu li isso, é claro. A Srta. era ousada, não mediu suas palavras a sugerir algo arriscado e até absurdo. Que conveniente era ela estar disposta a casar comigo! A réplica certa era dizer não, mas eu estava cansado de procurar uma esposa. Àquela altura já pouco importava-se se ela tinha todos os dentes da boca. Na mesma semana que recebi sua carta estive muito perto de ter mais uma crise de gota. Pela primeira vez comecei a imaginar para quem tudo que eu tinha lutado e conquistado ficaria. A resposta não me agradou muito. Isso e uma gama de fatores fez-me tomar a decisão de casar-me logo, mesmo que fosse com uma mulher desconhecida e sem grandes ascendentes.
Rendi-me a impulsividade e expliquei-a meu plano. Não haveria noivado, tão pouco casamento. Nem mesmo nos encontramos antes de estarmos casados. Qualquer mulher em uma situação normal negaria expor-se daquela maneira. Ora, eu poderia muito bem ser uma fraude. Porém, estando a Srta. mais desesperada do que eu, aprovou minha ideia, muito embora nunca tenha ouvido falar do procedimento. Passei semanas sem ter qualquer notícia da Inglaterra desde que Oliver confirmou ter recebido a licença especial solicitada por mim.
Como se tivesse sido invocado, o carteiro apareceu enquanto eu tomava o último gole de meu copo. Queria beber mais, porém deveria cuidar da minha saúde. Até ter um herdeiro, eu precisava ficar vivo.
Recebi três cartas de diferentes remetentes, todos eles advindos de Berkshire Hall: minha avó, a Srta. e Oliver . Não precisei abrir os envelopes para saber o conteúdo das cartas.
Eu, Lorde Byron, estava oficialmente casado. Era a hora de voltar para casa.


III.

Três meses depois do casamento.

Ainda estava escuro quando desci as escadas. Enrolada no meu desgastado xale, caminhei pelos corredores de Berkshire Hall como um gato. Faltava pouco para amanhecer, porém negava-me ficar insistindo no sono que não viria mais. Com os pés descalços e uma vela na mão, atravessei os corredores da mansão como um fantasma. Não encarei os temíveis auto retratos dos antepassados de meu marido, os quais carregavam em seus olhos azuis algo de loucura e maldade que ficavam mais acentuados a luz de velas. Horripilantes! Por vezes eu torcia para que os olhos de Lorde Byron fossem diferentes, embora a genética nunca tenha sido minha aliada.
Empurrei a porta do escritório devagar, mas ela rangeu ainda assim. Havia passado semanas desde que solicitara a um dos empregados para consertar-lhe a dobradiça; nada havia sido feito. Suspeitava que era uma das tentativas de sabotagem da Sra. Berkshire ou do casal Kline, embora não pudesse acusá-los sem provas.
Os últimos três meses estavam sendo difíceis. Como eu suspeitava, a família de milorde não gostava de mim e pouco tentava disfarçar sua insatisfação de ter alguém de tão baixa classe e de origem duvidosa como parente. Eu pouco me importava desde que ele escrevera-me “a casa é sua, administre-a como achar melhor. Você é Lady Byron, afinal”. Era meu passe livre para fazer o que deveria ser feito. Não importava o que diziam de mim.
Depositei a vela com cuidado em cima da mesa, que estava devidamente arrumada, do mesmo jeito que deixei no dia anterior. Por enquanto aquele era o lugar da casa que eu mais gostava, perdendo apenas para a varanda de meu quarto. A cadeira de Lorde Byron era grande e forrada com camurça vermelha; sentia-me poderosa quando sentava ali. Boa parte dos livros da estante eram novos e quase intocáveis. Era comum ouvir comentários de Lilian de que era um absurdo eles não serem devidamente usados. Como forma de resolver tal problema, minha irmã sempre aparecia lá para pegar um ou outro para ler. Foram tantos que já perdi até mesmo a conta.
O escritório de Berkshire Hall poderia também ser confundido como uma sala privativa do dono da casa. Para mim, era muito mais confortável até do que a sala de visitas que tinha coisas demais e espaço de menos.
Desde que recebi a última carta do credor confirmando que estávamos sem dívidas de novo decidi que seria a esposa de Lorde Byron merecia e precisava. Nas últimas semanas, por exemplo, atualizei um dos seus livros de despesas e surpreendi-me no tanto que gastamos com coisas supérfluas para o casal Kline, um peso na vida de Berkshire Hall. Convenci ao Sr. Woodhouse fazer algumas alterações, já que agora minhas irmãs faziam parte da família, no entanto, de todos, ele era o mais irredutível a mudanças. O tempo todo ele mandava mensagens a milorde pedindo autorizações, embora não recebesse resposta de nenhuma delas.
A chegada de milorde era um evento que se prolongava em demasia. Estávamos todos da casa ansiosos para tê-lo de volta, da Sra. Berkshire aos empregados, embora fosse por motivos diferentes. Eu estava entre a vontade de ter uma imagem real de meu marido e a felicidade de ter tido bastante tempo para acostumar-me com a rotina antes de lidar diretamente com ele.
A primeira pessoa a aparecer no escritório de manhã foi Lucy, uma das empregadas de milorde. Ela era mais jovem do que eu e tinha uma pequena cicatriz no canto esquerdo da boca. Era nova na casa, no entanto, aprendeu rápido os meus desejos e manias. Todas as manhãs ela aparecia segurando uma bandeja com salsichas, ovos, queijo e chá com leite. Eu não costumava comer junto com a família, já que eles acordavam mais tarde. Como sempre vestia-me sozinha de manhã, a missão principal de Lucy era ter certeza de que eu estava me alimentando.
ㅡ Bom dia, milady.
ㅡ Bom dia, Lucy. Pode me informar se minha irmã acordou? ㅡ indaguei indo sentar no sofá do escritório.
ㅡ Ainda não, milady.
ㅡ Avise-a que daremos um passeio ainda essa manhã quando ela acordar, tudo bem? Peço que traga minhas botas também, por favor. Precisarei delas.
Ela concordou antes de retirar-se. Lucy era uma mulher muito calada; nunca dava sua opinião se não solicitada. Era bastante diferente de Cassie, a empregada que cuidava de Julia. Eu preferia assim.
Após comer e limpar a pequena bagunça que fiz, resolvi voltar às anotações que eu cuidava nas últimas semanas. Estava calculando alguns presentes que queria entregar a minhas irmãs, mas não queria gastar mais do que devia. Embora tinha consciência de que meu marido era rico, não poderia agir como uma traça. De parentes assim já lhe bastava os que tinha.
Foi uma manhã calma e sem grandes agitações. Eu sabia que o tempo estava passando apenas por causa do sol que atravessava a janela do escritório. Às vezes murmurava alguns números, imersa nas contas que fazia. Lorde Byron possuía diversas fontes de renda e gastos igualmente diferentes. Imaginava o quanto que os seus administradores sofriam.
Sr. Woodhouse apareceu quase no final da manhã acompanhado pela minha irmã, Julia. Ele a adorava, dizia que lembrava uma das suas filhas que era professora em uma escola para moças da região. Trabalhava em Berkshire desde que milorde era uma criança. Sendo um homem quase idoso, ele tinha dificuldade para ler sem seus óculos, mas era um grande profissional.
ㅡ Mexendo em minhas coisas de novo, milady?
ㅡ Claro que não, Sr. Woodhouse. ㅡ Respondi, embora eu estivesse fazendo exatamente o que ele disse.
Fechei seus livros e guardei o meu caderno de anotações. Woodhouse implicava comigo, mas ele preferia a mim mexendo no que não devia do que o Sr. Kline. Ele detestava o Sr. Kline. Eu também não gostava muito dele.
ㅡ O dia está ótimo para um passeio. ㅡ comentei levantando-me da cadeira.
Aquele era o nosso pequeno sinal para dizer que queria um momento a sós com minha irmã. As paredes de Berkshire Hall tinha ouvidos, todo cuidado era pouco.
Julia apenas assentiu, indicando que entendeu o que estava acontecendo.
Sr. Woodhouse esticou as pernas e apoio-as em um banquinho como de costume. Ele tinha uma barriga proeminente e as pernas finas como uma garça. Foi então que vi o bolo de cartas que ele carregava.
ㅡ Chegou uma mensagem do Lorde Byron essa manhã, milady ㅡ disse Woodhouse. ㅡ Quer lê-lo? Acredito que ele tenha chegado em Londres.
Senti uma pequena excitação, o nervosismo que a espera criou. Em breve iria conhecer meu marido cara a cara e então, os dias longe da vida de casada estavam contados.
Com as cartas endereçadas a mim ainda não lidas nas mãos, saí pela cozinha evitando ao máximo os corredores onde os parentes de meu marido poderiam estar passeando. Nos meus dias de sorte, eu só encarava-os durante o jantar. Infelizmente eram dias raros.
Estávamos perto dos estábulos ainda em silêncio quando ouvi uma gritaria e o som de confusão. Vi um dos cavalos se soltar e homens saírem desesperados gritando:
ㅡ Cobra! Cobra!
Mais homens saíram em desespero do estábulo e o tumulto era generalizado.
ㅡ Olha para esse tanto de homem medroso, meu Deus! ㅡ comentou Julia sorridente. ㅡ Vamos embora, . Deixe eles se resolverem.
ㅡ E perder a oportunidade de matar uma provável víbora? ㅡ indaguei com as sobrancelhas arqueadas. ㅡ Nunca.


IV. Berkshire, Lorde Byron

ㅡ Bem vindo de volta, Lorde Byron.
A voz do Sr. Woodhouse denunciava a afobação que ele tivera para tentar abrir minha carruagem antes do meu mordomo, Sr. Strauss. Os dois viviam em disputa, uma forma bem peculiar de demonstrar afeto, já que consideravam-se melhores amigos.
ㅡ Imaginei que chegaria em alguns dias.
Franzi o cenho.
ㅡ Não recebeu minha mensagem? Enviei há quase uma semana. Avisei que estava voltando.
ㅡ Oh, não recebi nada. Chegou apenas o que o senhor enviou para Lady Byron. ㅡ replicou.
ㅡ Que estranho! Lembro de ter enviado para os dois na mesma tarde. ㅡ comentei. ㅡ Bem, pode acontecer. Às vezes os carteiros nos deixam na mão.
ㅡ Sim, milorde. É claro.
Olhei para os lados à procura de um rosto desconhecido, mas vi apenas alguns servos correndo para contar a novidade da minha chegada.
ㅡ Onde está minha esposa?
ㅡ Oh, sim, sim. A Lady Byron saiu para uma caminhada com sua irmã, Srta. . Estará em casa em breve. ㅡ informou.
Gritos de medo e relincho de cavalos se misturaram de repente. Olhei para o lado alarmado diante de uma tão grande agitação como aquela. Na última vez que acontecera isso, um dos meus empregados quase morreu pisoteado.
ㅡ Vem dos estábulos. ㅡ deduzi antes de sair correndo contornando a mansão até o local.
Com o coração batendo às pressas e uma leve dificuldade por meus músculos a esforçarem-se por conta dos últimos dias doente, vi de longe uma mulher desconhecida entre um grupo de homens que trabalhavam no estábulo. Inferi ser ela minha esposa diante da roupa de luto usada e os trajes formais.
ㅡ O que está acontecendo? ㅡ indaguei ao aproximar-me.
A mulher era muito mais bonita de perto; tinha os cabelos escuros em contraste com a pele branca. Era alta e possuía um corpo curvilíneo, ideal para a moda vitoriana. Quando fitou-me, vi que seus olhos eram escuros. Ela possuía uma beleza simples, comum.
Antes de responder-me, os homens que a acompanhavam fizeram uma pequena reverência em respeito a mim. Ao ouvir o pequeno murmurar de “Lorde Byron” advindo deles, a mulher empaleceu-se.
ㅡ Lo-lorde Byron? O Lorde Byron?
Peguei sua mão direita e beijei-a em cortesia.
ㅡ É um prazer finalmente conhecê-la, minha esposa.
Ela puxou a mão grosseiramente e começou a rir sem graça.
ㅡ Não sou a Lady Byron, meu senhor. Sou Julia , sua cunhada.
Meu rosto deve ter denunciado o constrangimento. Havia esquecido-me das irmãs , as quais acompanhavam minha esposa, estavam em Berkshire Hall também. Era de extrema indelicadeza a minha de não indagar quem era quem antes de apresentar-me daquela maneira. Senti-me ainda mais incomodado ao perceber que meus servos seguraram a risada de zombaria.
Pardon, Srta. , eu…
Um grito saiu dos estábulos, sendo esse feminino e prazenteiro. Fiz uma careta, perturbado e maquinando teorias sobre aquela agitação.
ㅡ Mas que diabos? O que é isso?
ㅡ Se me permite, ㅡ acrescentou Heaven, um dos cavalariços ㅡ deve ser sua esposa, milorde, ela...
O quê?!
Sem esperar sua resposta, andei a passos largos até o estábulo tentando não pensar o pior e falhando miseravelmente. Abri a porta sem muita delicadeza e então vi minha esposa. Minha esposa de verdade.
Seu vestido estava amarrado na barra, o que possibilitava ver suas botas e meias sujas de feno e lama. O cabelo estava alvoroçado, colado no pescoço e a respiração ofegante como de quem correrá muito. Em suas mãos carregava uma enxada com uma cobra esmagada pendurada, o verdadeiro motivo para o grande alarde.
ㅡ Matei a desgraçada! ㅡ ela gritou de um jeito que imaginava os soldados romanos faziam após ganhar uma guerra. Embora tivesse a pele mais escurecida, era possível ver que seu rosto ficara um tanto rubro por conta do esforço.
Os poucos homens que estavam ali tentando acalmar os cavalos também pareciam eufóricos, embora sucumbiram em silêncio ao me ver entrando no recinto.
ㅡ Lady Byron? ㅡ chamei-a, torcendo que no fundo não a fosse. Torcendo que no fundo ela fosse apenas uma das irmãs desconhecidas de minha esposa.
A mulher virou-se devagar e eu pude ver seu estado calamitoso mais de perto. Ela era muito bonita, apesar de não ter reparado nisso no momento. Apenas via minha mulher e a atual Lady Byron em uma situação constrangedora, segurando uma cobra como se ela fosse a reencarnação de São Patrick.
ㅡ Desculpe-me, senhor, nos conhecemos? ㅡ perguntou ela formalmente.
Seu sotaque era parecido com o de minha cunhada e logo entendi sem dúvidas que era ela minha mulher. Senti-me desanimado diante daquela cena; quando minha avó mandava cartas reclamando da falta de educação da nova Lady Byron, imaginei que fosse apenas sua forma de detestar mudanças. No entanto, eu tinha que começar a escutá-la. Talvez a Sra. Berkshire estava mais certa do que eu gostaria de admitir.
Se eu fosse um homem sensível talvez tivesse desmaiado ali. Fingiria uma tontura, embora fosse mais usual das mulheres tal atitude. De qualquer maneira, agiria apenas para evitar a vergonha que transpassou a nós dois quando eu disse:
ㅡ Não, milady. Sou Lorde Byron, seu esposo.


V.

Eu queria sumir.
Quanto mais eu pensava sobre isso, mais a ideia parecia atrativa aos meus olhos. Se dependesse de mim, nunca mais sairia do quarto e iria me afundar na cama até que o mundo esquecesse da minha existência.
Julia acompanhava minha andança pelo quarto como se fosse uma coisa muito divertida. Olhar para ela fazia-me lembrar de quão consternado Lorde Byron saíra dos estábulos e entrou no seu quarto alegando estar cansado de viagem. Duvidava muito que ele iria sair antes do jantar depois da cena presenciada.
, ficar andando pelo cômodo não vai fazer a vergonha desaparecer.
— Não era para ter sido assim! — reclamei. — Era para termos feito um jantar em comemoração, dar-lhe uma boa recepção com vinhos ou seja lá o que ele gosta de tomar. Não algo assim!
Minha irmã deu uma risadinha.
— Queria que você visse seu rosto! Foi imperdível.
— Julia! — ralhei batendo o pé. — Estamos com problemas aqui!
De repente a porta do meu quarto foi aberta. Lilian atravessou a entrada como se fugisse de uma assombração tamanho desespero. Atrapalhou-se a fechar a porta e tropeçou nos sapatos ao correr e abraçou Julia fortemente.
— Deus Santo, Lily! O que houve? Você está pálida — eu disse.
— Eu passei o maior constrangimento da minha vida inteira! Quero morrer. — minha irmã do meio choramingou enquanto afundava seu rosto por entre as saias de Julia.
— Bem, parece que hoje é o Dia do Constrangimento, então.— falei desgostosa. — O que aconteceu? Conte-me sua história.
Com um bico gigantesco, Lily retirou sua franja dos olhos dramaticamente.
— Mary avisou-me que Lorde Byron chegou e apressei-me em deixar os livros que esqueci no meu quarto no lugar certo. Só que ele chegou no escritório de repente e eu me atrapalhei toda! — seus olhos encheram-se de lágrimas — Derramei os livros no chão e fiz uma grande bagunça.
Troquei um olhar descrente com Julia antes de perguntar:
— Foi só isso?
— Só isso? Ele basicamente expulsou-me do escritório! Disse para não entrar lá sem a autorização dele.
Fiquei tensa. Lorde Byron não estava errado em exigir privacidade em seu escritório, mas mesmo assim…
Suspirei, cansada.
— Parece que não deixamos mesmo uma boa impressão no milorde, meninas. — comentei.
— Pergunto-me como vai ser a forma que ele conhecerá Polly… — disse Julia parecendo pouco abalada em ter sido confundida comigo por Lorde Byron.
Um grito, agora infantil, invadiu os corredores da casa. Meu coração batucou em desespero assim que reconheci sendo de minha irmã mais nova.
Nós três corremos de supetão para o corredor e encontramos uma cena bastante comum nos últimos meses. De um lado estava Michael, o filho do meio do casal Kline, agarrando os cabelos de minha irmã como se ela fosse uma boneca; do outro estava Polliana, a caçula das irmãs , tentando se livrar das garras do menino.
Embora os dois fossem crianças igualmente violentas, conseguimos separá-los aos berros. Acompanhada pela babá de seus filhos, a Sra. Kline, tia de milorde, apareceu logo em seguida esbravejando contra Polly.
— Essa menina parece que foi educada por cavalos! Merece levar umas palmadas. — ralhou Kline fazendo menção de tocar na minha irmã.
— Fique longe dela, sua bruxa! — gritou Lilian pronta para enfrentá-la, no entanto posicionei-me à sua frente. Rapidamente Julia puxou Polly para seu encalço, apartando-a do alvoroço.
— Controle-se, Sra. Kline. — falei entredentes. — Quem deve cuidar da educação de seus filhos é você, não nós. Se ele age como um animal, a culpa não é nossa.
— Ela quebrou o meu brinquedo, mamãe! — exclamou Michael, o pestinha, com lágrimas de mentira.
Virei-me para Polly que escondia-se nas saias da minha irmã.
— É verdade, Polly?
— Ele que começou!
— Polliana…
Ela abriu a boca em um choro falso que eu conhecia muito bem.
Engolindo o orgulho, voltei-me para a Sra. Kline e a babá que pairava como um fantasma na conversa.
— Que isso não se repita! — exclamou Kline antes de descer os degraus junto com sua trupe.
Foi então que vi Lorde Byron no final da escada observando a cena junto com a Sra. Berkshire e seu sorriso odioso. Embora meu marido tivesse uma expressão indecifrável no rosto, não acredito que tenha sentido-se satisfeito com uma confusão entre crianças antes da hora do chá. Quando encarei-o, ele não disse nada, apenas saiu do caminho da Sra. Kline como se nada tivesse acontecido.
Estressada e esgotada com todas as confusões daquele dia, peguei minha irmã mais nova e a coloquei nos meus ombros de cabeça para baixo. Ela começou a gritar pedindo misericórdia, um drama muito parecido com o que Lilian fazia. Ora, conhecendo-me bem nos últimos anos, Polliana sabia que quando eu a segurava daquele jeito era porque ela estava muito encrencada.


Foi minha irmã mais velha que teve a ideia de que preparámos um belo jantar no dia da chegada de Lorde Byron. Era a nossa última esperança de passar uma boa impressão e ele não se arrepender terrivelmente de ter casado comigo.
Conversando com a governanta, a Sra. Strauss, descobrimos quais eram seus pratos favoritos e eu fiz uma lista do que seria ideal para aquela noite baseado no que tinha na dispensa. Havia diferente tipos de assados e pratos, um verdadeiro banquete. Buscando ajudá-la, preparei a salada. Não era normal a dona da casa mexer diretamente na comida, mas eu estava disposta a deixar tudo perfeito.
Na hora do jantar, vesti-me da forma mais modesta e, ao mesmo tempo, arrumada, equilibrando-se no malabarismo do luto total que eu estava. Enquanto demorava-se no meu penteado, tentei respirar fundo e pensar que estava fazendo aquilo não só por mim, mas pelas as minhas irmãs e pelo meu pai, que Deus o tivesse.
Lorde Byron demorou a aparecer. Ao contrário das poucas impressões que tive nas nossas trocas de cartas, ele era um homem muito silencioso. Cumprimentou seus familiares com cortesia, embora parecesse estar ali por pura obrigação. Quando sentamos a mesa, reparei que estava bastante esgotado e respondia em monossílabos. Imaginei em quão cansado estava e que não era-lhe necessário comer junto conosco naquele dia. Ainda assim, Byron o fez.
— Heaven contou para mim o que aconteceu hoje mais cedo, Lady Byron. — comentou Sr. Kline enquanto se servia. — Até amanhã toda a região saberá a cor das suas meias.
Morei minha língua completamente mortificada. A Sra. Kline soltou um sorrisinho e eu quis retirar-me para o quarto imediatamente. Quando fui até o estábulo, estava pensando apenas em ajudar. Não imaginei que criaria tamanha confusão.
— Ao menos ninguém ficou ferido, não é? Essas víboras são venenosas. — disse Julia com um sorriso amarelo.
— Se ninguém foi ferido não foi por cuidado de Lady Byron. — falou a Sra. Berkshire como quem não quer nada.
Fitei-a com um olhar duro, mas ela pouco abalou-se com isso. Abri a boca para dar uma resposta mal-criada quando uma voz rouca e nova na casa disse:
— Você não deveria ter se arriscado daquele jeito, Lady Byron.
Pisquei aturdida para meu esposo. Eu estava duplamente abalada: com suas palavras e sua voz que tinha um tom muito mais grave e charmosa do que eu projetara.
— Além de poder se machucar, pôs-no ao ridículo por causa de uma cobra. — continuou ele.
Reparei pela primeira vez em seu olhos, os quais eram de um azul meio acinzentado, escurecido.
— Não é minha culpa se os homens de milorde são em grande maioria covardes. — respondi sem acovardar-me.
Julia engasgou-se com a água e começou a tossir. Sr. Woodhouse, o qual acompanhava o jantar naquele dia, tentou ajudar-lhe com algumas tapinhas nas costas.
Lorde Byron não fez qualquer comentário; pediu, apenas, ao Sr. Kline para passar a tigela de salada. Inabalado, era como se eu não tivesse dito nada.
— Irá comer apenas isso, querido? — indagou a Sra. Berkshire. — Você já voltou tão magrinho das Américas! Não quer um pouco de carne? Hoje a Sra. Strauss caprichou para recebê-te!
Com o garfo cheio de repolho no meio do caminho para a boca, milorde respondeu:
— Tive outra crise quando estava no navio. Não quero repeti-la.
— Crise? Que crise? — perguntei preocupada.
Byron não olhou para mim a responder.
— Gota. Eu tenho gota.
Apertei os lábios para não bufar em frustração e não esconder meu rosto entre mãos. Gota! Por que eu não sabia que ele tinha essa doença? Pedi para a Sra. Strauss preparar até mesmo ganso assado! O que eu estava querendo? Matá-lo?
O jantar decorreu sem muita conversa depois disso. Havia barulho, mas a maior parte do tempo parecia pequenos monólogos entre a família do lorde. Mantive-me quieta a maior parte do tempo; às vezes, encarava meu marido e desviava o olhar quando ele fazia o mesmo.
Milorde recolheu-se cedo e foi a desculpa perfeita para que eu e Julia também o fôssemos. Eu estava exausta e a última coisa que precisava era escutar os comentários não solicitados da Sra. Berkshire ao episódio desastroso de mais cedo.


VI. Berkshire, Lorde Byron

Às vezes nos pegamos imaginando como será nossa morte. Será rápida e indolor? Passarei por muito sofrimento antes de sucumbir à escuridão? Morrerei de repente? A morte era um estágio inevitável, misterioso e aterrorizador. Ela chegaria mais cedo ou mais tarde, não tinha preferência de classe e agia da forma que bem entendia.
Antes imaginava que viveria mais do que o bastardo do meu pai. Afinal, ao contrário dele, não tive a boêmia como prática e filosofia durante a maior parte da minha juventude e nem arriscava a minha vida flertando com esposas de poderosos. No entanto, no meu aniversário de 34 anos, recebi de presente uma dor insuportável nas juntas. Que surpresa descobrir que estava com gota, a maldita doença que me acompanharia até o fim da minha vida. Era ela que me mataria aos poucos.
Gota. Que nome estúpido para uma doença. Foi com ela que descobrir ser verdade que ninguém conseguia acostumar-se com a dor; nunca acostumei-me com a gota.
Meu humor piorava cada vez que eu tinha uma crise. Por causa disso, não fiquei alguns dias em Londres como de costume. Quase sem paradas, vim para Berkshire Hall desejando apenas calmaria até me recuperar por inteiro. As dores tinham até parado! Eu só precisava de um pouco de descanso e estaria pronto para encarar os poucos anos de vida que eu teria. Minha família, porém, desconhecia meu almejo e decidiu transformar a minha volta para casa um verdadeiro caos.
De todas as formas que imaginei encontrar minha esposa, vê-la pela primeira vez em um celeiro fedido, divertindo-se com o perigo como uma mulher interiorana não foi uma delas. Para piorar, sua falta de decoro nas vestimentas fez-me ser obrigado a escutar uma hora de insultos da minha avó sobre minha falta de responsabilidade ao escolher alguém de tão desnível. Seu discurso era repleto de "eu avisei" e conselhos não solicitados para um possível anulamento por falta de consumação, o que eu não cogitava de jeito nenhum. Além de gastar dinheiro desnecessariamente, traria meu nome para mais fofocas e ainda obrigaria-me a casar de novo. Sem contar na rejeição que minha esposa e suas irmãs receberiam.
Como se minha enxaqueca já não tivesse aumentado, Sr. Woodhouse comentou da falta de vontade de Sr. Kline de mudar-se junto com a família em uma das minhas propriedade. Dizia ser muito pequeno e não comportaria uma família de cinco. Para ele havia muito espaço em Berkshire Hall, embora eu estivesse começando uma família e minha esposa trazer junto consigo suas irmãs.
E como gran finale tive que encarar todos na mesa saborear meu prato favorito enquanto eu comia mato como um cavalo. Era como um lembrete, uma mensagem permanente de que ali não era meu lugar de descanso e sim um covil de confusão e desejos não realizados. Era por isso que de todas as minhas casas, àquela era a qual eu mais evitava visitar.
Não descansei o quanto eu pretendia. Levantei-me no mesmo horário dos criados e pedi um chá para amenizar a sensação de ter trabalhado no campo a semana inteira. Gostava do silêncio da manhã e os barulhos longínquos de pessoas trabalhando. Sentindo-me melhor e motivado, andei em passadas lentas até meu escritório. Ainda planejava visitar a fábrica naquele dia, ver como as coisas estavam indo enquanto eu estava fora.
Meu escritório estava impecável, o que fez-me ficar desconfiado logo de início. Lembrava de tê-lo deixado arrumado no dia anterior, no entanto, tudo estava tão bem posicionado que cheirava a armação.
Apenas quando sentei na cadeira encontrei um pequeno caderno de camurça vermelho. Tinha aparência nova e abri para ver o que era; na primeira página estava escrito “pertence a ”.
Fechei-o, acreditando que talvez fosse um diário. Fiquei curioso para lê-lo, mas não era o suficiente para que invadisse a privacidade da minha esposa. A última coisa que eu planejava era dar-lhe motivos para me detestar.
Um pequeno bater na porta interrompeu meus devaneios. Acreditando ser algum empregado com o chá que eu pedira, o mandei entrar.
empurrou a porta com o pé e adentrou segurando uma bandeja com chá e uma pequena porção de frutas. Surpreso, levantei-me de súbito e caminhei em passos largos em sua direção.
— Bom dia, milorde.
— Você não precisava trazê-lo. — adverti enquanto fazia menção de pegar o objeto que carregava.
— Não é necessário alarme, é apenas uma bandeja. — replicou desviando-se para que eu não a ajudasse.
Lady Byron sentou-se com pouca graça na cadeira, o que fez-me lembrar das constantes reprimendas da minha mãe quanto a isso. Aquela mania, no entanto, nunca pude tirar de mim.
Concentrada, a mulher colocou um pouco de chá para si e para mim.
— Pedi para preparar frutas, embora ache muito triste começar a manhã com tal refeição — discursou ela. Balancei a cabeça em concordância. — Como prefere o seu chá?
— Dois cubos de açúcar, por favor. — respondi intrigado com sua atitude.
Ao estender a xícara para mim, senti que pela primeira vez a vi de verdade. Sua ascendência era visível, mas era superficial focar-lhe para descrever sua beleza. Com olhos marcantes, minha esposa possuía traços grossos que suavizaram em pontos cruciais de seu rosto; o nariz, em especial, era meio pontiagudo, o que percebi ser uma característica de sua família paterna. Sem muita discrição, enquanto bebericava meu chá, fitei seus cabelos brilhosos e escuros enrolados em uma trança que ia até a cintura. Parecia usar menos saias de baixo do que a moda sugeria, ainda que a qualidade das roupas indicassem que foi a Sra. Dorcas que confeccionou seus trajes.
— Há algo errado? — indagou ela após meu longo silêncio.
— Você não tem sotaque urdu. — apontei enquanto pegava um pedaço de maçã do prato.
— Papai trouxe-me para Inglaterra ainda bebê. Só sei falar o bom e velho inglês — disse e soprou um pouco para afastar a fumaça de seu chá.
Seu olhos estavam atentos a mim, analisando com muito cuidado; eles eram difíceis de não serem notados, tendo um desenho curvilíneo e marcado. Sua ascendência era notável principalmente por causa deles.
— Confesso que lembro pouco da família de Sr. , mas todos o conhecia pelo número de esposas. E pelas filhas, é claro — comentei.
— Papai era um galanteador — disse ela prática. — Casou-se tantas vezes que admiro-me por lembrar o nome de cada uma das minhas madrastas. Era quase uma maldição: Case-se com o Sr. , tenha uma menina e morra de pneumonia.
Dei um pequeno sorriso surpreso pelo humor que ela escondia em sua face indiferente. Durante os meses que eu estava preso as minhas obrigações nos Estados Unidos, não pude deixar de reparar no quão impessoal era suas cartas; sua escrita assemelhava-se com meus funcionários, não alguém que compartilhava meu sobrenome.
— Peço perdão pela forma que recepcionei-o no dia anterior, — iniciou-se como uma boa diplomata. — mas quero que entenda…
— Deixe no passado — interrompi-a. — Suponho que pareceu o certo a ser feito na hora.
Ela ficou aturdida e sem palavras por dois segundos.
— Oh, obrigada, milorde — disse por fim.
Mais uma vez nos silenciamos. Comecei a bater o pé no chão ansioso para que aquela estranha conversa terminar-se. Agora que estávamos juntos, não sabia o que fazer para burlar o estranhamento inicial de um relacionamento que se iniciava.
— Milorde! — chamou-me de repente.
.
— Como?
— Chame-me de .
Ela franziu o cenho.
— Não sinto que eu o conheço o suficiente para tanto.
— Então sente-se ofendida se eu a chamar de ?
— Claro que não, — ela apertou os lábios, tentando conter-se de dizer algo. — mas reitero que os únicos que chamam-me desse jeito são meus padrinhos quando estão com raiva de mim.
Inclinei-me em sua direção perigosamente perto.
— Então a chamarei de milady.
Se ela se abalou, não demonstrou. Minha esposa aproximou-se na mesma medida; seu hálito do chá tocando meu rosto, os olhos inquisidores sem desviar-se de mim.
— E eu o chamarei de milorde.
Sorri satisfeito sem conseguir me conter. Eu tinha gostado dela, apesar do episódio escandaloso que passamos.
— Então me diga o que deseja, milady.
voltou para sua posição atual e colocou as mãos no colo recatadamente.
— Sei que estamos impossibilitados de participar de grandes eventos por conta do luto, mas também sei que terei que ser apresentada como sua esposa em breve. Como deve ter percebido, não sou a mulher mais refinada do mundo e receio trazer vergonha a sua casa. Isso também inclui minhas irmãs… — hesitou, pensativa. — Talvez não Julia, pois ela ainda chegou a ir a uma escola de meninas, mas Lilian não teve a oportunidade. Polly, além de ser muito criança, não teria como ir diante das nossas antigas condições financeiras.
Balancei a cabeça surpreso pela o reconhecimento de seus limites e a grande dose de realidade que seu tom trazia. Minha esposa crescia aos meus olhos conforme falava sem excesso de humildade e, ao mesmo tempo, sem desatino orgulho.
— Nunca fui educada para ser esposa de um par no reino e receio que demore um pouco para aprender sem ser instruída propriamente — explicou ela.
Eu a entendia, sobretudo porque eu também não tinha sido criado para ser um par do reino. Por muito tempo havia até mesmo ignorado a existência do meu pai e laços sanguíneos que ligam-me a aristocracia. Durante quase toda a minha vida adulta, os homens e as mulheres de sangue azul eram apenas um bom público para vender meus produtos.
— Por que não pede ensinamentos de minha avó? A Sra. Berkshire foi durante muito tempo esposa do herdeiro do baronato.
Testei-a com atenção. Embora imaginasse que haveria um certo receio entre as duas, não calculei que seria tão hostil como foi demonstrado por minha avó. Queria saber seu posicionamento quanto os últimos meses, levando em consideração que não sabia de verdade quem era que estava certa nas confusões relatadas.
Vi seus olhos varrer a mobília do escritório com delicadeza até que finalmente respondesse minha sugestão.
— A Sra. Berkshire é uma senhora de bastante idade e reclama constantemente de dores de cabeça. Lidar com três mulheres, duas delas já adultas, não parece ser uma missão confortável.
Apertei os lábios tentando não sorrir de aprovação. tivera ali uma oportunidade de falar das intrigas que protagonizou com minha avó, aquelas que foram temas das inúmeras cartas que recebi, no entanto, escolheu resguarda-se. Se continuasse assim iria dar-se melhor na alta roda do que imaginava.
— Tenho alguns amigos com esposas que adotariam-na com toda certeza. Hoje mesmo mandarei cartas e assim que receber uma resposta, a comunicarei — expliquei o que era meu plano inicial desde que a pedi em casamento.
Lady Byron pareceu relaxar os ombros diante do meu comunicado. Levantei-me em seguida e peguei o caderno que havia achado mais cedo.
— Acredito que tenha o esquecido.
— Oh, sim. Obrigada, milorde — agarrou-o sem cerimônia. — Escrevi aqui algumas sugestões de mudanças para a gestão de gastos de Berkshire Hall, mas explicarei quando...
— Como? — indaguei confuso.
— Há alguns gastos um tanto dispensáveis nas contas mensais que podem ser cortados — respondeu-me enquanto folheava seu caderno.
— Não precisa se preocupar com isso, eu já tenho um administrador.
Ela parou de repente, olhando-me contrariada.
— Se o senhor me escutar saberá que talvez pudesse ser mais econômico. Li no jornal que talvez entraremos em recessão no próximo ano.
— Milady, com todo respeito, deixe esse assunto para quem tem mais experiência — aconselhei tentando usar meu tom mais conciliador possível.
— Fala isso porque desconhece meu passado, milorde — replicou ela. — Nos últimos anos estive trabalhando na Paróquia de Southwark na parte financeira. Embora fosse um trabalho voluntário, sempre fui elogiada pelo reverendo.
— Uma pena que não usou seu talento para evitar que seu pai não caísse na desgraça, não é mesmo?
Em resposta, trincou o maxilar e manteve seus olhos frios, embora parecesse querer entrar em ebulição.
Não arrependi-me do que disse no calor do momento, afinal, havia poucas pessoas que eu aceitava críticas ao modo de administrar meu dinheiro e nenhuma delas era minha esposa.
— É o que dizem, milorde: o filho do sapateiro sempre anda descalço.
Ao se despedir, tinha menos cortesia do que o início. Eu pouco ajudei também com meu comentário impulsivo. Mesmo assim, quando Woodhouse entrou no escritório indagando sobre a conversa que eu tive, apenas comentei que minha esposa era o que deveria ser.


VII.

O leque em minha mão balançava ansiosamente. O calor repentino e as nuvens no céu avisavam que mais tarde a chuva chegaria. Enquanto ela não chegava, eu estava sentada à janela, em silêncio, na sala de visitas junto com minhas irmãs. Faziam dias desde que nos reunimos longe do olhar analisador da família de Berkshire Hall, que resolveu monopolizar a atenção do Lorde Byron naquele dia e nos deixar em paz.
Polly brincava sozinha no tapete e às vezes perguntava para Julia coisas que sua mente curiosa não sabia inventar. Ainda não tínhamos conseguido contratar uma babá para cuidar dela por tempo integral e nem sempre havia criadas disponíveis para supervisioná-la; o que não era realmente um problema, já que estávamos acostumadas a ficar de olho uma nas outras. Minha irmã mais velha era quem mais gostava de ter algo para fazer, pois muitas vezes sentia-se ociosa em Berkshire Hall.
Deitada de um jeito deselegante no sofá estava a minha outra irmã, Lilian. Em sua mão direita estava um livro escrito em francês que ela não devolveu a Lorde Byron. Ela dizia conhecer a língua, embora nunca tivesse tido aulas de verdade. Eu não duvidava, afinal, de todas nós, Lilian era a mais inteligente. De vez em quando, Lily franzia o cenho concentrada e murmurava uma palavra estranha, tentando lembrar seu significado.
Aquela era uma cena bem comum na nossa antiga casa. Eu passava muito tempo na paróquia junto com a Sra. Bridgestone e quando voltava para comer as encontrava reunidas em harmonia, mesmo no silêncio. Não importava o quão triste e estressante tivesse sido o dia, eu as encontraria tranquilas em seus mundos. Era aquela imagem que devia ser preservada a todo custo. Eu as queria felizes e plenas, impediria que os problemas que nos rodeava as atingissem.
Meu leque parou de supetão; Julia havia aproximado-se de mansinho e o segurou com firmeza.
— Se você continuar balançando desse jeito irei ter um ataque.
— Desculpe — murmurei colocando-o em meu colo.
Julia encarou-me por um tempo antes de perguntar:
— O que aconteceu? Você está tensa desde que saiu do escritório do Lorde Byron.
Apertei os lábios tentando não vomitar meu estresse direto na minha irmã.
— Só estou tentando acostumar-me com a vida de casada. Aparentemente tem mais a ver com ócio do que imaginei.
Ela virou-se para a janela.
— Seu marido é rico e bonito. Não há muita coisa a ser feita com tantos criados por aí. O ócio é uma atividade muito interessante para quem necessita de descanso.
— Você acha ele bonito? — perguntei estranhando seu comentário.
Ela apontou para fora.
— Veja, ele está saindo.
Ergui minha cabeça e o vi sair junto com Sr. Woodhouse. Era uma dupla peculiar, meu marido sendo muitos centímetros mais alto do que seu administrador e inclinava-se toda vez que dizia alguma coisa. Lorde Byron estava mais arrumado do que mais cedo e segurava uma bengala em sua mão esquerda, embora não parecia necessitar dela para andar.
— Você acha ele feio?— indagou July com descrença.
— Ele tem orelhas pontudas. Parece um elfo — argumentei. — Ou um cachorro.
Julia deu uma risadinha.
— Definitivamente ele não parece um cachorro — replicou enquanto fitavamos Byron ajudar Sr. Woodhouse subir na carruagem. — Está dizendo isso porque ficou chateada com ele, sabe Deus lá o motivo.
— Claro que não — neguei, embora ela estivesse certa.
Lorde Byron tinha uma beleza madura e bruta; poderia não ser uma aparência angelical, mas não o bastante para ser taxado de feio. Seu rosto era repleto de marcas de expressão que moldavam sua personalidade e eram moldadas por ela. Isso, porém, não significava muita coisa quando o homem abria a boca para falar grosserias.
Antes de entrar na carruagem, Byron virou-se para a casa e nos flagrou espionando. Ele acenou com simpatia, o que Julia respondeu de igual modo. Apenas dei um breve menear com a cabeça sem demonstrar que a sua atenção causou-me uma pequena ansiedade.
O bater da porta despertou-me do estupor que eu estava. Sr. Strauss, o mordomo da casa, avisou-me que os suprimentos que eu pedira para preparar estavam prontos, assim como o cabriolé. Periodicamente, eu levava para o centro da cidade perto de Berkshire Hall alguns suprimentos para famílias menos afortunadas, alguns eram até mesmo funcionários da fábrica de Lorde Byron, que ficava nas redondezas. Era um hábito de sr. e sra. Bridgestone que eu adquiri e trouxe para minha nova casa. Durante nossos piores momentos fomos sustentadas por amigos que estavam dispostos a alimentar a mim e as minhas irmãs; muito deles não estavam em uma situação razoável, mas mesmo assim estenderam a mão para ajudar-nos. Nunca esqueceria de sua amabilidade; eu era eternamente grata. Através daquele exemplo, eu queria ajudar quem precisava agora que tinha condição para tal.
Arrastei Lily para ir comigo, o que não se mostrou algo fácil. Há tempos minhas irmã não saia de casa, enfurnada nos cômodos vazios para ler todos os tipos de livros disponíveis na propriedade. Não tinha nada contra isso, no entanto, ela já estava começando a ter uma aparência doente de tão pálida. Lilian ficou emburrada, sobretudo quando descobriu que iríamos no cabriolé mais velho de Berkshire Hall e um pouco enferrujado, o único disponível. Um dos criados, Smith, nos conduzia até o destino.
— Queria tanto saber o que acontece no final do livro… — comentou ela enquanto remexia-se para achar uma posição mais confortável.
— Final? Pensei que tivesse começado o livro hoje.
— Não, comecei anteontem. Falta pouco para terminar.
Dei-lhe um olhar impressionado.
— Queria ler tão rápido assim. O máximo que eu consegui foi três semanas. — falei.
— É questão de hábito. — ela deu os ombros.
Escutando apenas o barulho das passadas dos cavalos, Lily manteve um silêncio hesitante.
— Sabe… Por muito tempo achei que isso não ia poder voltar a fazer isso depois que papai morreu — disse Lilian de repente.
Segurei com mais força o pacote que eu carregava no colo.
— Fico feliz que tenha casado com um homem rico que tenha vários livros. — continuou ela. — Claro que tirando o fato de que ele me odeia…
— Ele não te odeia, Lily. — a corrigi — Veja, milorde é um homem bastante ciumento com seus negócios, ele prefere que seja avisado. Você não gostava quando eu pegava seu chapéu de fita vermelha emprestado sem pedir, não era?
Ela riu.
— Eu detestava! Ainda bem que agora você tem um monte de roupa chique no seu baú e não precisa mais pegar minhas coisas. — rebateu.
— Se quiser, posso falar com ele para que libere a biblioteca para você. — sugeri, embora soubesse que daria uma grande dor de cabeça comprar aquela briga mais uma vez.
— Você faria isso de novo por mim? — indagou Lilian.
Seu rosto iluminou-se com a perspectiva e lembrei-me de quão jovem Lily era. Eu e Júlia já estávamos acostumados com a mudança e a perda, mas ela não. Ao contrário de nós duas, Lilian conheceu e conviveu com a mãe, sra. Virginia , até os dez anos de idade, quando a mulher teve Polly. Meses depois do nascimento da minha irmã caçula, Virginia pegou pneumonia enquanto meu pai estava fora, pouco ele pode fazer depois que voltou para casa. O resto era história.
Arrumei seu chapéu que estava folgado antes de responder:
— Claro que sim, querida.



Fui uma das últimas a entrar na sala de jantar naquele dia. Após saber que o sr. e sra. Kline iria visitar uma família das redondezas, senti-me menos pressionada a ser pontual. Minha cabeça estava ainda em um grupo de crianças que encontrei de tarde; elas estavam miúdas e não comiam bem há dias. Encaminhei-as ao vigário da cidade, mas ele não estava muito disposto a ajudá-las; disse que estava bastante ocupado e talvez demorasse para atendê-los. Eu teria que bolar uma estratégia para continuar a mandar comida, havia alguns…
— Milady!
Dei um pequeno salto de susto e virei-me para trás de supetão.
— Precisa ter mais cuidado. O chão está escorregadio — avisou Lorde Byron, o dono da voz que deu-me um susto.
— Obrigada — murmurei.
Byron analisou-me devagar, os olhos pequenos correndo pela minha face.
— Sei que não sou a sua pessoa favorita nesse momento, mas temos visita. Sr. Woodhouse trouxe o filho dele — informou. — Ele está sabendo do pequeno incidente do dia anterior e com certeza será a fonte de fofocas das famílias notáveis da redondeza.
Suas palavras fizeram-me sentir todos os músculos de meu corpo endurecerem. Vendo que algo mudou, Lorde Byron ofereceu o braço.
— Não se preocupe. Irei ajudá-la.
Olhei para ele com hesitação, mas segurei-o. Seu braço estava quente por cima do casaco — ele também era estranhamente forte para um nobre.
Byron aproximou-se do meu ouvido e meu coração pulsou no peito. Seu hálito tinha um pequeno frescor e um cheiro a longe de álcool, embora não aparentava estar bêbado.
— Eu te pediria desculpas pelo incidente de mais cedo, mas é do meu caráter ser impulsivo— a voz dele era grave, rouca. — Não adiantaria de nada mostrar-se arrependido se ainda há grande chance de que eu volte a fazer comentários ofensivos a minha senhora.
Virei meu rosto levemente para o lado. Aproximar-se de um homem daquele jeito era estranho para mim. Meu esposo mantinha um sorriso presunçoso, debochado. Ajudaria se ele fosse mais feio; ao invés disso, Byron era atraente e tinha lábios cheios. Então, eu falei:
— Tente.
— O quê? — perguntou ele confuso.
— Tente pedir perdão.
Byron deu uma risadinha desacreditado. Começamos a andar em direção à sala de jantar em passos lentos.
— Peço perdão, milady. Seu marido é um asno.
— Que bom que ele sabe.
Dessa vez milorde riu de verdade tentando conter-se ao desviar o olhar, divertindo-se. Quis rir também, mas segurei-me quando vi que um homem desconhecido estava nos esperando na porta da sala de jantar.
Sr. Liam Woodhouse devia estar entre os 25-27 anos e tinha poucas características físicas ligadas a seu pai. Era um homem falante e de gentil aparência; contou sobre sua viagem a uma das propriedades de Lorde Byron a mando de sr. Woodhouse, mas pouco deteu-se aos detalhes dos negócios. Ele falou das paisagens e das diversas pessoas interessantes que conheceu durante sua estadia. Foi uma refeição estranhamente calma. A Sra. Berkshire esqueceu-se um pouco da minha presença, o que foi um alívio para mim. Por alguns minutos alimentei a ideia de que éramos um grupo familiar normal que recebia um amigo de longa data.
Ao chegarem na sala de visitas, sugeri que Julia tocasse no piano uma das canções que ela aprendeu na igreja em Southwark. Minha irmã ficou muito tímida de repente, mas acatou o pedido que foi reforçado pela Sra. Berkshire. Byron sentou-se casualmente ao meu lado enquanto fitavamos Julia retirar as luvas devagarzinho.
— Sua irmã é uma boa musicista? — murmurou meu marido.
Hesitei por um momento.
— Ela é…
O barulho da nota errada rompeu pelo cômodo.
— Perdão — disse Julia. — Atrapalhei-me com a partitura.
— Irei ajudá-la, senhorita. — prontificou-se Sr. Liam Woodhouse e sentou-se ao seu lado para passar as folhas musicais.
Após mais duas tentativas, minha irmã começou a tocar a música sem interrupções. Era uma canção conhecida e interiorana. A letra possuía dezenas de versões e eram todas falando sobre um lar que encontraria além da vida. Eu já não tinha tanta certeza daquilo como um dia eu tive, mas no fundo alimentava a esperança que houvesse um lugar onde a paz era constante e ininterrupta.
— A Srta. é uma moça muito bonita e talentosa — elogiou Sr. Woodhouse. — Admira-me ela ainda não ter casado-se.
— Pergunto-me a mesma coisa, senhor. — replicou a Sra. Berkshire. Virando-se para mim, indagou: — Você toca algum instrumento?
Mordi a língua incomodada com a falta de formalidade que ela dirigia-se a mim.
— Não, minha senhora.
— Pinta?
Soltei o ar pelo nariz lentamente. Ela conhecia todas essas respostas, não havia qualquer necessidade de trazer o assunto à tona.
— Não, senhora. — respondi mais uma vez.
— Tricota?
Balancei a cabeça em negativa.
— Como? Não escutei.
— Não. — repliquei com o maxilar travado.
Satisfeita por deixar-me desconfortável, a Sra. Berkshire então disse para seu neto:
— Por que casou-se com a Srta. sem talento podendo casar-se com a mais velha e mais prendada?
A temperatura do cômodo caiu de repente. Escutei o som de uma nota errada, o que alertou-me que Julia não estava alheia a conversa. Em outra situações eu faria um escândalo. Porém, tínhamos visitas e havia o maldito decoro que desde que assumi o sobrenome Berkshire eu estava fadada a zelar.
Sr. Woodhouse falou que Julia entrou no tom errado, fingindo não ter escutado a conversa, já Lorde Byron não mexeu-se do lugar. Ele tinha um ar de sorriso de quem tinha uma piada muito boa para contar, mas não podia dizê-la no momento. Demorou um pouco até que respondeu, os olhos divertindo-se com a situação.
— Por que exije tais habilidades da minha esposa se tão pouco a senhora as tem, vovó?
Ela o encarou ficando vermelha de indignação e vergonha.
— Mas eu sei tricotar!
— Algo que aprendeu apenas depois do casamento. — complementou ele.
A Sra. Berkshire ficou muda, incapaz de argumentar qualquer coisa.
— Agradeço sua preocupação, minha avó, mas estou satisfeito com minha escolha. — disse por fim segurando a mão enluvada da matriarca e beijando-a com carinho.
Byron olhou para mim e deu um sorriso confortador, calmo. A suavidade de seu gesto era um contraste e tanto com a sua aparência que não indicava o poder de tom apaziguador.
Bateram palmas, a música havia finalizado. Meu marido teceu elogios a Julia enquanto meu coração batia depressa.
Quem era aquele homem?


VIII. Berkshire, Lorde Byron

Minha avó deu-me um olhar de aviso quando viu-me à frente da porta da baronesa. Eu sabia o que significava; se eu entrasse ali àquela hora da noite, qualquer tentativa futura de anulação do casamento seria descartada.
Bati a porta sem pressa.
— Sim? — respondeu Lady Byron do outro lado.
— Sou eu, Lorde Byron. Posso entrar?
Escutei um pequeno barulho de passos e esperei alguns segundos até que a porta fosse aberta. A mulher que abriu para eu passar era um tanto diferente da que eu vira no jantar mais cedo. parecia mais baixa e cansada; estava vestida em uma camisola bufante e pueril. Quase arrependi-me de atormentá-la àquela hora. Quase.
— É algo muito importante, milorde?
Dei um aceno positivo.
Entrei devagar no quarto escuro e observei pela luz da lua Lady Byron acender algumas velas. A janela fazia um barulho incômodo; ventava o bastante para acreditar que logo começaria a chover. A luz pouco ajudava para analisar um dos cômodos que menos conhecia em Berkshire Hall. O quarto da baronesa era propriedade de minha avó por muito tempo e, levando em consideração que eu não residia naquela casa a maior parte do ano, pouco quis mudar até os recentes acontecimentos.
— Está com frio? — perguntei enquanto a vi fechar as janelas.
— Sim. O inverno está perto, não é? Não gosto — respondeu enrolando-se com um xale cinza e velho. — Pode sentar-se no sofá se for de seu desejo.
Segui seu conselho e esperei até ela ir em direção à poltrona ao lado da pintura de um artista desconhecido, a qual disfarçava a porta de ligação para o meu quarto. Mais uma vez observei o jeito pouco lisonjeiro que minha esposa utilizou para sentar. Manteve as costas muito eretas e apertou o maxilar, adquirindo uma postura séria.
— Sabe o motivo pela qual vim falar-te a essa hora da noite? — perguntei encarando-a.
remexeu-se na cadeira nervosa.
— Acredito que seja para a consumação do casamento.
Ela tentou esconder o rubor das bochechas, porém sua pele escurecida revelava o tom roxo de constrangimento.
— Está ansiosa para nossa primeira noite, milady?
— Não tenho como evitá-la de qualquer maneira…
Pus a mão no peito dramaticamente.
— Ouch!
— Então, será isso? Sra. Bridgestone explicou-me os pormenores, mas eu tenho algumas dúvidas sobre…
— Fique tranquila, . — a interrompi. — Não vim aqui com o objetivo de consumar nosso casamento, embora seja uma ideia muito interessante para mim — dei um sorriso simpático. — Primeiro preciso conquistar sua confiança.
Vi o seu rosto aliviar-se aos poucos até que ela disse:
— Esse é um ato muito gentil do senhor, milorde.
— Não deveria ser um ato gentil, . — adverti. — Deveria ser o ato correto a ser feito.
Minha esposa piscou repetidas vezes, encarando-me com surpresa.
— Se me permite, o que o faz pensar de maneira tão não convencional?
Desviei o olhar sentindo o peso da resposta que sairia de minha boca.
— Minha concepção não foi fruto de amor, muito menos de confiança.
Não foi preciso que eu explicasse mais para que ela entendesse. Vi compaixão em seus olhos e remexi-me desconfortável em meu assento.
— Sinto muito, milorde.
— Certo. — repliquei em seguida, incapaz de deixar o clima decair de vez. Não estava ali para contar meu passado. — Meu desejo de conversar-lhe diz respeito à nossa conversa de mais cedo. Enviei as cartas para a Marquesa de Exeter e a Condessa de Dudley. São as esposas de meus amigos mais próximos, portanto, minhas amigas também. Dificilmente irão declinar meu pedido.
Observei sua reação, que não foi nada além de curiosidade reprimida pela tentativa de manter-se neutra.
— Estive pensando nas suas palavras e acredito que deveríamos ir a Londres antes do início da temporada. — expliquei — Os eventos são escassos, mas existem e é uma boa oportunidade para que você e sua irmã passem a adaptar-se ao ritmo da cidade.
— Por quanto tempo seria essa viagem?
Hesitei um pouco. Não sabia quão apegada estava com Berkshire Hall. Embora eu gostasse daquela casa, ela não era minha preferida. O ritmo das coisas era mais lento na cidade e dentro da propriedade costumava ser um inferno de visitas. O grupo de notáveis que vivia nas redondezas eram falantes e invasivos; embora eu gostasse de conversar, a maioria deles era extremamente enfadonha.
— Estava pensando em fazê-la nosso lar oficial.
Minha esposa mexeu os ombros para baixo, pensativa. Quase conseguia ver sua mente trabalhando com aquela nova informação; havia um leve franzir em sua testa e um pequeno bico em seus lábios cheios.
— Lilian e Polly ainda são muito crianças. Acha que elas terão problemas para acostumar-se com a agitação da cidade? — perguntou ela.
— Em Londres encontraremos pessoas mais habilitadas para cuidar da educação de suas irmãs. — argumentei. — Acredito que não seja do seu desejo enviá-las para uma escola de moças?
Ela negou com a cabeça.
— Está bem. Pode ser bom. — replicou, apesar de eu ter a impressão que estava falando mais consigo mesma do que comigo.
Observei-a soltar um pequeno suspiro e apoiar a cabeça com a mão. Não olhava para nenhum lugar em particular, sinalizando que mergulhava em seus pensamentos. Eu deveria despedir-me naquele momento, porém dormir não parecia muito convidativo. Queria conversar e esquecer os problemas que encontrei na fábrica, nas cargas de comida enlatada que estragaram e o prejuízo financeiro que a filial nos Estados Unidos deixou em minhas contas.
— Então… — comecei. — Há algo em especial que queria conhecer em Londres? Suponho que nunca tenha visitado a cidade.
— Eu queria ir ao teatro — respondeu com timidez. — Todas as peças que vi foram encenadas ao ar livre. Papai dizia que os teatros londrinos eram bonitos.
Senti uma leve vontade de indagá-la sobre sua relação com o pai, mas segurei a língua. Nas poucas vezes que conversamos, minha esposa não mostrava qualquer ressentimento em relação ao pai que a deixou na falência; em verdade, havia um carinho que seus olhos não mentiam a existência de um belo relacionamento.
Mesmo assim era cedo para perguntas intimistas.
— Então será essa nossa primeira visita em Londres. — sorri para ela. — Não sou muito de teatro, mas acho que valerá a pena mostrar-lhe. Será divertido.
Não sei exatamente o que das minhas palavras abalou-lhe, porém senti um pequeno derreter em seus olhos.
— Obrigada, milorde — ela sussurrou. — Por tudo o que você fez por mim e minha família. Serei eternamente grata.
Minha reação inicial diante de qualquer gratidão, sobretudo tão honesta quanto a dela, sempre foi a de constrangimento.
— Também tive vantagens nesse acordo, milady. — alertei com modéstia.
— Não é nada comparado com a minha.
— Como não? Agora tenho alguém para controlar minha dieta, uma pianista, uma leitora dos livros esquecidos na casa e uma criança com muita energia. — brinquei.
Foi a vez dela de ficar envergonhada.
— Não sabia que tinha percebido que eu mudara o cardápio…
— Nada passa despercebido diante de meus olhos, milady.
olhou-me debaixo para cima. Os olhos escuros continham desafio quando ela disse:
— Sei.
— Duvida?
— Claro que não, milorde. Quem sou eu para fazer tal coisa? — embora sua voz estivesse neutra, senti uma pontada de zombaria nas suas palavras.
— Que bom, pois preciso que minha senhora avise a sua irmã que eu preciso de meu livro de volta. Les Trois Mousquetaires foi um presente de um amigo.
— A biblioteca está interditada desde que chegamos — replicou orgulhosa. — Peço desculpas pela atitude de minha irmã, mas não há muito o que fazer na propriedade para uma menina de 14 anos.
— E mesmo sendo tão nova ela já conhece a língua francesa? — indaguei confuso. — Pensei que ela não havia ido a escola.
— Lilian é uma menina muito inteligente, milorde. Estudava uma gramática francesa que havia em nossa antiga casa e costumava tirar dúvidas com Sr. Bridgestone, que era um estudioso da língua. — comentou. — Ela não consegue pronunciar as palavras, porém. Apenas lê-las.
— Então, ela ficará encantada com a minha biblioteca em Londres — repliquei. — Mais da metade são livros que esse meu amigo deu-me de presente são em francês.
— Ela ficará muito feliz em saber disso, milorde! — disse animada.
Batuquei os dedos no braço do sofá. Estava ficando tarde e metade das velas que iluminavam o quarto tinham sido consumidas. A instalação de lâmpadas a gás em Berkshire Hall tinham sido adiadas por tempo indeterminado, já que os gastos seriam maiores do que eu esperava. Sempre que eu voltava para lá sentia que também voltava no tempo. A tecnologia da cidade londrina deixara-me mal acostumado. Passei a maior parte da vida passando as noite a luz de velas, no entanto, um ano de facilidades tecnológicas deixara-me mal acostumado.
Virei-me bruscamente para minha esposa.
, quantos anos você tem?
Ela piscou, aturdida.
— Vinte e sete. Por quê?
Soltei um suspiro aliviado. Cocei a cabeça antes de dizer-lhe:
— De repente deduzi que talvez você fosse uma mulher muito nova e sempre fui um crítico a relacionamentos com grande diferença de idade.
Ela fez uma careta confusa.
— Mas não há nada mais normal que tal coisa, principalmente na aristocracia, milorde.
— Isso não significa que seja justo homens que estão com o pé na cova casar-se com meninas que acabaram de entrar na vida adulta — afirmei.
Esticando-se para trás, minha esposa deu uma boa olhada para mim de cima para baixo, analisando-me como uma especialista em alguma coisa.
— Você não está com o pé na cova, milorde.
— Estou com meus trinta e seis anos e tenho gota. É questão de tempo para que eu caia duro no chão. — comentei e dei um sorriso. — Veja, se a agitação de ontem ser algo rotineiro, estarei morto no próximo verão.
riu. Foi a primeira vez que eu a vi fazer isso, a cabeça jogada para trás, a risada soando como um barulho ambiente de instrumentos de sopro. Seu rosto mudava completamente quando sorria: desenhava-se com sensualidade, os olhos tornando-se pequenos, a face iluminando-se como em um amanhecer. Ela estava a vontade, sentava-se com os pés em cima do sofá, o xale enrolado entre os ombros e o cabelo escuro e sedoso derramando-se no pescoço; enxerguei-a, então, como mulher.
— Milorde, se depender de mim, você será conhecido pela imortalidade. — garantiu-me.
Mordi um sorriso antes de dizer:
— Desafio aceito.
Conversamos por alguns minutos até que a vi bocejar e decidi que era melhor retirar-me e deixá-la dormir. Passamos, porém, mais algum tempo enrolando em uma conversa fiada sobre estar cedo, mecanismo que usamos toda vezes que a conversa está boa e não queremos deixá-la acabar.
Antes de deitar, revisando todos os acontecimentos daquele longo dia, percebi satisfeito que tinha iniciado uma amizade com minha esposa.


IX.

Apoiei-me discretamente na parede do corredor enquanto eu observava Kyle consertar a porta do escritório de milorde. O empregado era um homem muito jovem e dedicado, ele percebeu em alguns segundos o que fazia a porta ranger e foi muito solícito diante do meu pedido.
Naquela manhã em especial decidi deixar que Lucy ajudasse-me a vestir as diversas camadas de saia da moda. Era certo que os diversos laços e apertos escondidos pelos babados do vestido eram desconfortáveis para fazer longas caminhadas, contudo eu precisava começar a acostumar-me. Em breve Londres seria minha casa e lá haveria muitos olhos julgadores prontos para me ver tropeçar.
Não percebi quando Sr. Kline aproximou-se. O homem tinha um andar pomposo e sempre carregava um apertar desagradável dos lábios finos. Nas poucas vezes que se direcionava para mim foi com comentários completamente sem sentido.
— Finalmente alguém se dispôs a consertar a porta — comentou ele assim que se pôs ao meu lado. — Os servos de antigamente eram mais dedicados.
A palavra servo poderia ser comumente falada, mas na boca de Sr. Kline carregava um sentido tão baixo que me arrepiei diante de seu comentário.
— Às vezes os servos têm obrigações que são prioridades mais urgentes do que o rangido de uma porta, Sr. Kline. — repliquei sem direcionar meu olhar para ele.
Ignorando qualquer diálogo que eu estivesse trocando, Lilian apareceu no corredor amarrando o laço de seu chapéu.
, já está pronta? July está te esperando.
Demorei alguns segundos para situar-me no que ela dizia. Uma vez por semana saímos para passear juntas pela propriedade de Lorde Byron; naquele dia em especial iríamos fazer um piquenique.
— Senhor Kline, dou-te a missão de supervisionar o conserto da porta — disse enquanto eu batia levemente em minhas saias. — Como até agora Kyle estava indo muito bem, se algo der errado terei como maior culpado você, o supervisor.
Senhor Kline fez uma careta em desagrado.
— Isso não faz sentido!
Dei um sorriso breve.
— Para mim faz. Afinal, os servos sem líderes não fazem um bom serviço, não é?
...
Eu estava à procura de um dos meus chapéus novos no meu baú e Lilian esperava-me sentada na cama. Dava para escutar o pequeno barulho do balançar dos seus pés, indicando que estava ansiosa para me dizer alguma coisa, mas não tinha coragem de verdade para dizer nada.
, milorde demorará para voltar ao escritório? Preciso devolver o livro enquanto ele estiver fora — disse ela em um tom constrangido.
Um largo sorriso cruzou minha face, então virei-me para ela entusiasmada.
— Conversei com Lorde Byron ontem a noite e ele liberou para que você pegasse os livros desde que seja mediante a um aviso prévio — avisei. — Não precisa se preocupar quanto a clandestinidade.
— Está falando a sério? — indagou minha irmã com os olhos esbugalhados e brilhantes.
Balancei a cabeça em confirmação deixando-a eufórica. Lily abraçou-me com força e deu-me um estalado beijo na bochecha.
— A Senhora Berkshire disse-me que ele era muito ciumento com os livros! Pensei que nunca deixaria uma pessoa desconhecida mexer em suas coisas.
Suas palavras inquietaram-me de modo que o sorriso desfez-se em meu rosto.
— Mas, querida, você não é mais uma desconhecida para Lorde Byron. Você é cunhada dele.
— Grande coisa. — ela balançou os ombros em descaso. — Ainda sou a filha de um médico ferrado.
— Lilian...
— Meninas! — exclamou Julia abrindo a porta sem bater. — Estão fabricando o chapéu? Que demora!
Resmunguei uma resposta e apressei o passo para a nossa reunião.
O caminho até o local adequado para o piquenique foi silencioso. Apenas Polly cantarolava uma música inventada por ela mesma que falava de um esquilo que vivia Berkshire Hall. Estávamos bastante complentativas e melancólicas, sobretudo porque aquele seria o 59º aniversário do meu pai se ele estivesse vivo.
Sentamos abaixo de uma árvore de folhas amareladas. As comidas que escolhemos eram as preferidas do papai: a geléia adocicada com mel, as torradas, o chá de canela, bacon e ovos. Não era de se admirar que o café da manhã era sua refeição favorita.
Julia levantou-se primeiro. Ela estava usando um vestido cinza como um marco do abandono do luto total. Era costume das esposas fazerem isso, mas minha irmã mais velha decidiu que o faria por meu pai. Ela era a preterida dele, a primogênita e a filha do verdadeiro amor de sua vida. Nunca chegamos a conversar sobre aquilo, principalmente porque o Sr. era amoroso com todas nós; ainda assim, era perceptível que ele tinha um carinho diferente com July.
— Não sei como começar... — murmurou ela, melancólica.
— Fale do que ele gostava — incentivei.
Minha irmã ficou em silêncio. Um forte vento vindo do norte quase levou a toalha para longe. De Polly saiu um grito infantil de susto e uma risada quando o chapéu de Lilian voou e atingiu meu rosto.
Então, um fungar atravessou os sons do cenário. O nariz de Julia estava vermelho e as lágrimas pintavam seu rosto alvo e redondo.
— Papai devia estar junto com todas nós...— disse ela — Ele planejava aposentar-se logo e acompanhar-nos de verdade. Ele nunca se ressentiu por não ter um filho homem, amava cada uma de nós do jeito que éramos.
Meu coração apertou-se no peito.
— Ele adorava comprar livros para você, Lilian, mesmo quando eram antigos e com erros de gramática — discursou ela. — Amava brincar com Polly mesmo quando chegava cansado de suas visitas rotineiras. Ele gostava muito de ler poemas com você, .
Desviei o olhar tentando não chorar junto. Lilian deitou-se no meu ombro e a essa altura chorava também.
— Queria odiá-lo por ser tão descuidado com o dinheiro — comentou Lily em um sussurro. — Ele nos deixou sem nenhum tostão! Mas nunca vou esquecer de quão amoroso era conosco.
Abracei a tristeza e deixei que meu rosto fosse banhado com lágrimas. Angústia dilacerou em meu peito; se ela soubesse... Se ela soubesse...
— Por que todo mundo está chorando? — indagou Polly confusa, estava como não prestasse atenção na nossa pequena homenagem. — É por causa do dinheiro de novo? Pensei que nós éramos ricas agora!
Começamos a rir da sagacidade de minha irmã caçula. Inocente era quem pensava que crianças recebiam as informações ao redor passivamente; perdi as contas de quantas vezes Polliana falava como uma pequena adulta.
Julia limpou o rosto com um lencinho e abriu os braços.
— Venham, quero abraçar todas!
Levantamos sem jeito e demos um longo abraço em grupo. Polly correu com afobação e agarrou nossas saias fazendo um riso emergir em meio às lágrimas.
Era por momentos assim que eu não admitia que fôssemos separadas. Aquela era a nossa família e eu iria defendê-la até o fim. Papai nos manteve unidas e eu continuaria seu legado.
...
O sol estava em seu auge e o calor já incomodava em demasia. Toda a comida havia sido devorada e tínhamos acabado de ler um trecho de poemas do antigo Lorde Byron. Era ele um homem famoso e admirado, apesar de ter uma biografia um tanto escandalosa. Papai era fascinado pelas suas poesias.
Estávamos em silêncio quando finalmente tomei coragem de dizer:
— Não iremos morar em Berkshire Hall por muito tempo. Milorde disse-me que vamos nos mudar para Londres em algumas semanas.
Não sabia como minhas irmãs iriam agir diante daquela notícia. Embora fosse difícil estar rodeada de pessoas desagradáveis em Berkshire, na cidade londrina isso seria quadruplicado.
Lillian fitou-me surpresa, enquanto Julia começou a balançar o leque em sua mão com rapidez. Já Polly apenas olhou-me confusa:
— Londres! Que legal. É muito longe?
Dei um sorrisinho.
— Um pouco, querida. — repliquei bagunçando seus cabelos. Ela deu um resmungo irritado em resposta. — Lá iremos contratar uma babá fixa para você.
— Não quero uma babá. Prefiro a July!
— Tão depressa? — disse Julia ignorando o nosso diálogo. — Pensei que a temporada tinha acabado.
— Talvez ele ache melhor irmos agora que tem pouca gente na cidade — argumentei. — Teremos mais tempo para nos adaptar. Além do mais, ainda estamos de luto.
— Vocês não estão planejando me mandar para uma escola de meninas, não é? — indagou Lily com a voz quebradiça.
Balancei a cabeça negando.
— Você só vai sair da minha asa quando casar, mocinha — falei com os olhos cerrados em direção à minha irmã. — Vai ser bom para nós todas. Sinto que sim.
Julia deu um sorriso forçado claramente não gostando da ideia.
— As meninas irão estar como preceptoras, certo? E eu? O que vou fazer enquanto estivermos lá?
Encarei minha irmã mais velha com a cabeça inclinada para o lado.
— Você pode tentar aprimorar seus talentos com a música — sugeri. — Com certeza será um diferencial para conseguir um marido. Sei que você passou da idade, mas ainda é uma mulher agradável e bonita. Tenho certeza que encontraremos um bom partido.
— Não quero e não vou casar, muito menos com alguém que não gosto. — afirmou July com mau humor. — E não vou aprender música para seduzir homem algum, .
Segurei a língua para não fazer um comentário impróprio, pois no fundo eu sabia que minha irmã tinha razão. Se era eu e não ela que estava casada com Lorde Byron era porque aquele pensamento romântico sobre o casamento era bem mais prevalente em sua mente do que a minha. Julia casaria para salvar-nos da desgraça, isso eu não duvidava, mas a tornaria uma mulher muito infeliz. Eu, por outro lado, também queria amar e ser amada, no entanto, não era uma exigência; sempre o pensei como um golpe de sorte. Ter um homem que não escondesse-me de sua família já era um grande avanço.
Voltamos para casa um pouco depois da hora do chá. Polly dormia nos braços de Júlia, que reclamava dela estar se tornando cada vez mais pesada. Com ajuda de uma das empregadas, levamos minha irmã caçula até meu quarto, já que o berçário estava repleto de crianças que acompanharam suas mães para visitar a Sra. Berkshire.
Eu estava de tão bom humor que planejei ir beber chá junto com a avó de meu esposo, mas uma carta trazida pelo Sr. Strauss fez-me desejar privacidade. Escolhi o escritório de Lorde Byron e fiquei satisfeita ao ver que a porta havia sido finalmente consertada. Era uma besteira, mas sentia-me que aquilo era um sinal de que com o tempo as coisas iriam pôr-se no lugar.
Sentei-me na cadeira de milorde pensando no que ele diria quando percebesse a mudança. Será que ele iria comentar? Nos poucos dias de convivência já havia percebido sua personalidade meticulosa.
Suspirei quando li mais uma vez o nome de quem enviara-me a carta: Sra. Acsah Bridgestone. Eu sentia falta dela, apesar de receber cartas periodicamente falando de Southwark. Sra. Bridgestone foi o mais perto que tive que de uma mãe, seu cuidado e apreço por mim sempre foi notório. Não era uma informação divulgada aos berros, mas fui a primeira criança de Southwark que ela alfabetizou e a fez ter gosto por ensinar aos infantes do nosso vilarejo. O resto era história.
Querida Lady Byron,
Estou feliz que esteja começando a se adaptar a sua nova casa. Os primeiros meses de casada costumam ser bem difíceis, principalmente aqueles que não foram iniciados com amor e paixão. Garanto-te que em breve a rotina será menos conflituosa e às coisas se resolverão.
Na última semana, eu e o Sr. Bridgestone recebemos nossa cunhada, a duquesa. Ela continua sendo a mesma mulher fofoqueira de sempre e vou poupá-la de pormenores. O que quero dizer em especial é que ela carrega a informação de que Lorde Byron está de volta a Londres e que estará apresentando a esposa a sociedade em breve. Não contei a ela que a conhecia, mas é questão de tempo para ela descobrir sua identidade.
Querida, peço que se prepare porque não conhece esse homem. Conhecendo-o você saberá como agradá-lo e fazer com que suas vontades e não as da Sra. Berkshire sejam atendidas. Antes de mais nada lembre-se de ser sábia, pois, "uma mulher sábia edifica sua casa".
Revirei os olhos e ri. Sra. Bridgestone era acima de tudo a esposa de um reverendo, nunca deixaria de citar a Bíblia. Ah, se aquela carta tivesse chegado dias antes e eu soubesse que Lorde Byron estava chegando!
Também quero pedir-te desculpas, pois não me ative a explicá-la com mais detalhes o que era a consumação do casamento quando tive chances. Acredito que será desejo de seu marido fazê-la assim que chegar de viagem. Não tenho habilidade com as palavras o suficiente para escrever-te sobre isso, mas posso dizer que pode ser algo bom para você também. Leia as referências que te mando abaixo que talvez você entenda melhor do que digo. Afirmo que escrevo essa missiva em segredo, pois tenho certeza que o Sr. Bridgestone ficaria escandalizado se soubesse que uso a Bíblia para isso. Ele esquece que já foi jovem e passou por dúvidas neste tópico também antes de contrair matrimônio comigo.
Se há qualquer dúvida, pergunte ao seu marido. Mais do que ninguém, ele é quem tem mais que preocupar-se com isso.
Mando minhas lembranças a Julia, Lilian e a pequena Polly.
Sua,
Sra. Acsah Bridgestone.
Meu rosto deveria estar vermelho após a leitura daqueles últimos parágrafos. A conversa que tive com a Sra. Bridgestone foi mortificante. Eu sabia qual era o gosto dos beijos, mas nunca havia ido tão longe a ponto de cometer os atos descritos por ela.
Procurei na estante uma Bíblia e encontrei uma empoeirada e pesada. Curiosa, li as duas referências escritas no final da carta.
"Quão deliciosas são as tuas carícias, minha irmã, minha noiva amada! Teus amores são mais agradáveis que o melhor e mais puro dos vinhos. A fragrância do teu perfume supera a mais cara especiaria!" Cantares de Salomão 4. 10
Se eu sentia desconfortável quando li a carta, nada se comparava a quão mortificada fiquei ao ler aquelas palavras no livro sagrado.
Engoli o seco e li a outra destacada.
"Sua boca é a própria doçura. Ele é todo uma delícia! Assim é o meu amado, meu irmão e amigo, ó filhas de Jerusalém!" Cantares de Salomão 5.16
Balancei a mão no rosto tentando esfriar-me. Sra. Bridgestone explicitou que o que ocorria entre homens e mulheres dentro do casamento era santo e sagrado. Como algo poderia ser santo se a mulher do texto dava atributos de comida a seu marido?
Fechei o livro com força e guardei sem muita delicadeza na estante. Saí em passos rápidos do escritório de Lorde Byron lembrando-me da sua afirmação que esperaria minha confiança para consumarmos o casamento.
Pois bem, a resposta era nunca!


X. Berkshire, Lorde Byron

Observei alguns servos subirem com os baldes de água quente. Era um abuso eu estar exigindo que eles o fizessem quando a maioria já estava arrumando-se para dormir, mas eu me negava a deitar na cama para descansar com o corpo sujo de graxa. Àquela noite eu não parecia tão Lorde Byron, o aristocrata. Eu parecia o Sr. , quem eu fui um dia, o homem que vendia enlatados por um preço um pouco abaixo do mercado. Mas mesmo os burgueses em seu estado mais degradável, gostavam de sentir-se limpos.
Sugeri ajudar Sr. Collins e ele tratou como um completo absurdo um milorde fazer um trabalho tão esdrúxulo como levar baldes de água. Ainda assim, sentia-me um estúpido ficando apenas observando a movimentação de meu quarto.
— Milorde? — disse Lady Byron, chamando-me porta de seu quarto. Dei um pequeno aceno com a cabeça em resposta.
esticou-se um pouco para fora prestando atenção na agitação dos servos que carregavam baldes de água até o primeiro andar. Ela estava com o cabelo solto e vestia um roupão de seda por cima da camisola. Por certo estava pronta para dormir.
— Peço desculpas por não poder estar em casa para o jantar — falei cordialmente.
— Tudo bem — murmurou ainda curiosa com o que acontecia nos meus aposentos. — Já comeu? Posso preparar alguma coisa na cozinha.
Apertei os lábios temendo demonstrar o prazer de ouvi-la oferecer-se para cozinhar. Nenhuma das mulheres da aristocracia que intentei casar-me sugeriria algo como aquilo; claro, tínhamos servos até demais pagos para isso, não havia nada de errado em terceirizar o trabalho. No entanto, havia algo reconfortante em encontrar em parte de mim que não se perdeu no meio das décadas que vivi no luxo.
— Seria muito gentil da sua parte — repliquei.
— Não é gentileza, milorde — disse modestamente. — É meu dever.
Observei-a sair por inteiro de seu quarto silenciosamente. Minha esposa tinha passos pesados, firmes e longos. A seda de seu robe branco voava para trás com a delicadeza do vento que saia de uma das janelas abertas do andar.
Quando criança ouvi várias histórias sobre fadas e ninfas. Nunca consegui imaginá-las de forma concreta. Cresci e deixei as fábulas para trás. Porém, olhando para o contraste do cabelo escuro de minha esposa derramando-se pelas costas, percebi que ela podia muito bem ser um dos seres mágicos das histórias infantis.
— Milorde, já terminamos.
Meu olhar ainda recaia para o caminho feito por quando respondi.
— Certo. Obrigado.
...
Eu estava vestindo minhas calças após o banho quando ouvi o bater da porta.
— Sou eu — disse uma voz feminina abafada pela madeira.
Respondi-a para entrar e continuei vestindo-me atrás do biombo. Escutei o barulho violento e imaginei que tenha chutado a porta igual fez no dia em que conversamos no escritório. Não evitei sorrir, começando a ligar aquele ato grosseiro como algo dela.
Encontrei-a em pé segurando a bandeja assim que vesti a camisa. Embora não fosse o tipo de roupa que eu estava acostumado dormir, não desejava constrangê-la com roupas indiscretas.
— Não sabia quão faminto você estava, então trouxe tudo o que sobrou do jantar — explicou buscando com o olhar uma mesa vazia. — Onde coloco isso?
— Na cama, por favor — respondi observando-a atentamente. — Sabe, não precisava fazer isso. Poderia ter pedido para algum empregado.
— Por que pedi algo que eu poderia fazer eu mesma? — disse sem cerimônia. — Além do mais gosto de me sentir útil.
Encarei seu andar achando-a uma peça muito estranha no meu quarto. Eu não gostava de pessoas invadindo os meus espaços íntimos, no entanto era certo que eu deveria começar a acostumar-me com aquela mulher fazendo o que era preciso para não parecer um peso. Talvez, quando tivermos nossos primeiros filhos, sua atenção iria voltar-se para outra coisa.
— Diga-me, milorde: o que tanto trabalha para que não descanse pós-crise de gota?
Franzi o cenho achando sua pergunta engraçada.
— Pelo mesmo motivo que você está carregando uma bandeja para cima e para baixo da mansão.
Vi-a levantar levemente o queixo e passei mais uma vez a prestar atenção nos detalhes de seu rosto. Já havia visitado diversos países no mundo 一 entre eles a Índia. Os motivos não cabiam ser comentados, mas lembrava de não ter reparado na beleza singular das mulheres indianas. Agora que tinha uma esposa que não escondia seus traços orientais, não podia negar que eu era um homem de sorte.
— Acredito que nossas situações não são iguais, milorde. — argumentou. — Por exemplo: segurar uma bandeja não irá me matar. Pegar no pesado talvez o mate.
Olhei para as minhas mãos antes sujas de graxa e dei um pequeno sorriso.
— Não precisa preocupar-se, estou bem.
— Então tire um dia de folga amanhã e descanse.
Revirei os olhos, sorrindo. Que mulher mandona, Jesus!
— Está bem, desde que não venhamos a falar mais sobre isso.
Afirmei descansar um pouco por causa de seu pedido, embora já tivesse planejado fazer aquilo. , porém, não o sabia e deu um sorriso satisfeito.
— Ótimo. Boa noite, milorde.
Fiz uma careta estranhando sua atitude repentina.
, espere. Tenho um presente para você.
Ela parou subitamente desarmada.
— Presente? Eu não pedi nenhum presente.
— Não seja mal-educada, presentes não são entregues a pedidos — afirmei dela e andei até pegar uma das caixas que eu trouxe.
hesitou ao ver a caixa azul de tamanho médio em minhas mãos. Incentivei-a a abrir e observei seus olhos crescerem enquanto viam o tecido vermelho e pesado escorregar por entre as mãos.
— Percebi que seu xale estava bem desgastado — comentei.
Ela tentou conter o riso e mostrar-se menos eufórica; pude ver, porém, o pequeno brilho de felicidade nos olhos.
— Obrigada, milorde. Estou surpresa que tenha acertado a minha cor favorita.
Lambi os lábios temendo deixar que meu segredo se escorrega.
— Vermelho combina com você.
levantou o olhar com hesitação.
— Se não entendesse o contexto diria que está tentando me cortejar.
Um riso zombaria subiu pela garganta, embora não fosse algo muito educado de fazer.
— Cortejar uma mulher que já é sua esposa parece-me ineficaz.
Observei-a apertar os lábios para não responder.
— Também comprei um xale similar para minha avó — esclareci. — Ela é uma mulher que sente bastante frio.
— Deve ser a idade — disse em tom brando, mas senti o pequeno ar de quem pouco importava-se. — Está ficando tarde, milorde. Acredito que o senhor deseja descansar, sim?
Balancei a cabeça positivamente.
— Boa noite, .
— Boa noite — replicou antes de fechar a porta.



Estava ainda escuro no meu quarto quando acordei. Estranhei o ambiente, levando em consideração que sentia que tinha dormido mais do que deveria. Havia a pequena preguiça de quem descansou o suficiente estagnada em meus músculos. Passei a mão no rosto ainda pensando se iria ou não voltar para a fábrica. As palavras de pareciam ainda mais convidativas naquela manhã; seduziam-me no breu do quarto que era meu, mas que eu pouco reconhecia como algo de minha posse. Estar em Berkshire Hall era uma mistura de fuga da cidade com uma viagem transitória. Nunca admiti-la como minha casa, embora carregasse um dos meus sobrenomes. Talvez até fosse esse motivo de não me identificar com ela.
Escutei o leve barulho do bater da porta característico do meu valete antes de entrar. Estiquei os músculos enquanto observava Clement andar pelo quarto escuro. Meu valente era um homem magricela e alto que carregava uma aparência de tédio e desprezo a maior parte do tempo. De início imaginei que não daria-me bem com alguém aparentemente sempre mal humorado, porém Clement era muito bom no que fazia e eu era um admirador da competência dele.
— Boa tarde, milorde. — disse ele fazendo uma rápida reverência.
Olhei-o confuso.
— Tarde?
— Sim — replicou abrindo as cortinas. — Já se passam do meio-dia.
— O quê? — perguntei levantando-me de supetão. — Por que não me acordou mais cedo?
Ele piscou resoluto.
— Segui as orientações de Lady Byron, milorde. Ela disse-me que o senhor desejava dormir até mais tarde e que não deveria acordá-lo.
Eu ri, embora não achasse nenhuma graça. O riso era mais indignado pela intromissão da minha esposa, que achou por bem mexer em minha rotina ao bel prazer.
— Clement, na próxima vez que isso acontecer, fale comigo primeiro, sim?
Ele fez um aceno positivo e ajudou-me a me vestir e barbear-me. Pouco lembro de nossa conversa, pois estava concentrado em encontrar as palavras certas para alertar a minha esposa que o que ela fez irritava-me. Apesar de deixar a irritação me envolver e explodir-se em mim fosse a escolha mais fácil, não era a mais sensata.
Encontrei Julia enquanto descia as escadas. A irmã mais velha de tinha uma aparência jovial e a beleza de um arbusto florido na primavera. Tinha poucas características físicas parecidas com a irmã — ora, o que diferenciava Lady Byron das outras mulheres eram seus traços indianos. Com toda certeza minha esposa era uma mulher muito mais bonita, no entanto, sua intromissão incomodava-me em demasia. Talvez, se eu pudesse voltar atrás, haveria escolhido a Julia como esposa. Ela, por exemplo, já havia ultrapassado a barreira dos nomes próprios enquanto minha esposa ainda me chamava de Lorde Byron.
— Boa tarde! — cumprimentou-me com animação. — mostrou-me o presente que deu a ela! É lindo.
— Obrigado por ter me ajudado com a cor, Julia. — disse eu em tom baixo e conspiratório.
— Por nada — respondeu Julia com um sorriso que caracterizei ser típico dos . — Se quiser qualquer informação para agradar a pode falar comigo. Ela é muito humilde para dizer o que precisa.
— Falando nela, por onde anda minha esposa?
Ela piscou confusa.
— Não está com você? Pensei que ela tivesse… — Julia ficou vermelha e fechou a boca rapidamente. — Deve estar no quarto, sim. Não a vi desde cedo.
— Certo. Obrigado mais uma vez, Julia.
Prontifiquei-me a descer os outros degraus quando ouvi o leve coçar de garganta.
— Milorde?
Senti o tom mais recatado de Julia e logo entendi que dela sairia um pedido.
— Sim?
— Eu poderia ter aulas de música quando formos para Londres? Sei que já passei da idade, mas queria melhorar minha habilidade com o piano.
Olhei para ela por alguns segundos estudando o que seria a melhor resposta. Eu estava em situação de contenção de gastos e pagar um funcionário a mais não estava em meus planos. No entanto, lá estava eu pensando que poderia pagar por isso. Lembrei, então, de Liam Woodhouse, filho do meu administrador, quem foi professor de música durante bastante tempo para as famílias nobres das redondezas.
— Certo, providenciarei.
...
Decidi comer alguma coisa antes de procurar a minha esposa. Sr. Kline, a quem só via na hora do jantar, apareceu e começou a tagarelar como de costume. De todas de Berkshire Hall, ele era quem me deixava mais impaciente e despertava meu lado menos educado. Falou sobre seus negócios como advogado e comentou que as coisas não estavam indo bem. Era sempre a mesma ladainha. De início, indiquei alguns escritórios londrinos que aceitariam-no de bom grado, mas o homem usou a distância e a vontade de acompanhar o crescimento dos filhos como um empecilho grande o suficiente para fazê-lo continuar ganhando pouco dinheiro. O pior mesmo foi descobrir que a casa oferecida por mim de presente não era de seu agrado, negando um presente como se tivesse direito de escolha.
Era questão de tempo até que eu o expulsasse sem nenhuma cortesia.
— Você sabe, agora a moda é trabalhar com causas trabalhistas — justificou ele, atrapalhando meu momento de paz em que matava minha fome. — Eu não trabalho com isso.
Passei a mão no rosto temendo demonstrar o desagrado que aquela conversa me dava. Vê-lo mexer sem parar no seu cinto apertado também não era uma cena interessante a contemplar durante uma refeição. O incômodo crescia como uma bolha prestes a implodir.
Um barulho de um vaso caindo no chão atrapalhou o falar de Sr. Kline. Nós dois olhamos para os lados à procura do objeto quebrado, no entanto, não havia nada de diferente no cômodo. Então, três crianças entraram às pressas na sala de jantar: Michael e Spencer, filhos do Sr. e Sra. Kline, meus tios, e Polliana, a irmã caçula de minha esposa. A pontapés e a empurrões, ouvi uma voz estridente gritar:
— Que inferno! Que tipo de criança são essas? Bando de demônios! — praguejava a mulher entrando abrindo as portas da sala com brutalidade.
Ao ver-me sentado com os talheres ainda em mão, a mulher conhecida, cujo nome eu não lembrava, empalideceu. Era uma empregada antiga, que costumava ficar responsável pela limpeza das janelas.
— Que barulho é esse, Genevieve?! — Sr. Kline indagou com cólera. — Não vê que milorde está comendo e precisa de paz?
— Sinto muito pelo o que aconteceu, milorde — disse a mulher fazendo uma reverência exagerada. Percebi que sua mão tremia.
Sr. Kline, envolvido em seu protagonismo, levantou-se e bateu com força na mesa.
— Que isso não se repita!
Distraí-me da conversa ao ver uma mãozinha pequena sorrateiramente pegar um pedaço de presunto de meu prato; a dona da mão, Polliana, enfiou-o com tudo na boca. Ao perceber que foi flagrada, a criança pôs o dedo na boca e fez sinal de silêncio.
Soltei uma risada, daquela que saí do fundo da barriga e explode na garganta. Minha atitude assustou o Sr. Kline e Genevieve, que estavam em um momento de profunda tensão. Como se fosse um incentivo, os mãos de Spencer e Michael também atacaram meu prato com pouca educação e os dois fugiram da sala de jantar com a mesma rapidez que entraram. Polliana, porém, foi mais devagar na fuga, demorando-se para sumir pela porta dos fundos.
— Meu Deus, milorde! — exclamou Sr. Kline mortificado. — Isso não deveria ter acontecido! Genevieve, que educação tem dado a essas crianças?
Balancei a mão em descaso.
— Crianças são crianças, Kline, não interessa a classe. Deixe-os ir — adverti largando de vez os talheres. — Só peço que seja mais simpático com os servos, afinal, eles não são subordinados a você.
Com o rosto corado de vergonha, Sr. Kline desculpou-se e arrumou uma justificativa para ir embora. Já Genevieve fez uma pequena reverência antes de correr atrás das crianças.
Balancei o sino para que retirassem meus pratos e suspirei olhando pela janela o jardim de Berkshire Hall. Ao longe era possível ver Genevieve atrás dos três pequenos correndo com toda a energia que possuíam. Sorri com a cena. Embora eu gostasse de crianças, sobretudo meus primos, não conseguia me acostumar em viver na mesma casa que elas. Seria um problema quando eu tivesse herdeiros; o que provavelmente não demoraria muito.
Fui até meu escritório em passos precisos, acreditando ser lá o lugar que estava. O pouco que eu conhecia dela me fazia desconfiar de que estaria até tarde na cama.
A porta havia sido consertada, o que facilitou no meu modo sorrateiro de entrar. Ela estava sentada com os pés para cima exibindo as botas limpas, mas desgastadas. Seu cabelo estava milimetricamente amarrado para trás em um penteado fora de moda; olhava para o caderno em suas mãos com a concentração de um engenheiro.
— Posso entrar no seu escritório, milady?
Ao contrário do que imaginei, não assustou-se com minha chegada repentina. Na verdade, levantou a cabeça com ar solene e demorou-se um tanto para entender quem a dirigia palavra. De súbito, minha esposa arrumou-se da cadeira e fechou o caderno com firmeza em seu colo.
— Sua cadeira é muito confortável, milorde. — disse ela com um sorriso constrangido.
— Realmente gosta de meu escritório, não é? — indaguei pensando nas dezenas de confusões que teríamos em Londres se ela mantivesse aquele hábito.
— É o único lugar que ninguém se atreve a incomodar-me — justificou dando os ombros. — Até mesmo em meu quarto não tenho sossego.
— Por que precisa de sossego? — indaguei com displicência.
— Não precisamos todos? — replicou levantando-se de seu lugar. — Sinto muito não respeitar seu espaço, milorde. Prometo que essa será a última vez.
Apertei os lábios percebendo que minha irritação escorreu sem querer. Meu objetivo não era acumular brigas, mas o dia era atípico. Pedi, então, para que ela sentasse no sofá comigo.
Observei mais uma vez seu jeito pouco educado de sentar, mas não ative-me àquele detalhe. Na verdade, surpreendi-me com o sorriso largo que ela me deu.
— Dormiu bem essa noite? Ontem tinha a aparência de cansado.
— Sim, porém…
— Veja, é importante para recuperação de qualquer doença, seja ela qual for, o descanso. — continuou sem escutar-me — Papai sempre dizia que boa parte das doenças podem ser curadas com uma noite de sono.
Encarei-a em silêncio incapaz de definir o que sentia no momento. A irritação de ter a rotina mudada bruscamente se digladiava com a sensação boa de estar sendo cuidado, algo que não sentia a muito tempo. Ela mexia os braços explicando coisas sobre a medicina praticada por seu pai e quantas vezes sua generosidade a encantava. pôs-se a falar como nunca; tagarelava e ria como se eu fosse um amigo querido e muito antigo. Algo em meu peito doeu, então, a constatar que aquela característica boa dela seria cortada até a raiz pela Alta Sociedade; inclusive por mim.
?
— Sim — respondeu rapidamente. — Desculpe-me, estou falando demais, não é? É que lembrei de algumas coisas… Umas memórias…
Cocei a garganta.
— Queria pedir para não mexer na minha rotina sem minha autorização. Hoje não houve nada demais, mas eu poderia perder um negócio importante — falei sem pausa. — Sou grato pelo seu cuidado, mas estive cuidando de mim há tempos. Peço que respeite meu espaço e eu respeitarei o seu.
Ela abriu a boca algumas vezes, mas não disse sequer uma palavra. Eu pude ver um pequeno soa de dor em seus olhos; dor que ela não permitiu expor através de palavras.
— Tudo bem, milorde. — ela sorriu forçadamente. — Isso não irá se repetir. — levantou-se. — Tenho alguns negócios para resolver. Com sua licença.
Enquanto via sair do escritório arrependi-me de minhas palavras. Se eu tivesse sido mais esperto, teria pedido-lhe desculpas naquele momento. Não sabia que, ao ser tão meticuloso com meu individualismo, escolhi o caminho mais difícil para o coração de , o qual nem sabia que já trilhava.


XI.

Eram raros os dias em que deixava Lucy arrumar-me como se eu fosse uma boneca. Preferia fazer aquilo eu mesma: mexer em meus cabelos, apertar meu próprio corpete e encher meu rosto de pó branco como mandava a moda. Naquele dia, porém, deixei que a mulher fizesse seu trabalho, mesmo que fosse incômodo sentir os puxões da empregada ao fazer meu penteado. Usei pela primeira vez uma touca, que costumava cair em algum momento do meu dia. O vestido era o mais bonito que eu tinha — ao menos era o mais bem elaborado por Sra. Dorcas, a costureira da cidade. Era escuro, obviamente, pois eu ainda estava em luto. O roxo e o preto misturavam-se quase tornando-se um; conforme eu andava, as cores brilhavam a luz do sol.
Encarei meu reflexo no espelho. Eu realmente parecia uma mulher de um par no Reino. Constatar isso angustiou-me, a pressão de ser a mulher que eu não era pesava em meus ombros.
— Está linda, milady.
Agradeci a Lucy com um pequeno sorriso e a despedi.
Mais uma mudança. O quarto já parecia menos meu, os poucos pertences que eram de minha posse estavam entre os dois baús que eu levava a Londres. Na penteadeira havia o livro perdido de boas maneiras encontrado por Lilian em uma das suas buscas no escritório de milorde. Um lugar, aliás, que eu não pisava desde a fatídica conversa.
Pus a mão no rosto sentindo-me estúpida mais uma vez. Por que eu tive que agir daquela maneira? Por que fingir que eu tinha intimidade o suficiente com meu marido para mexer em sua rotina?
Tinham sido três semanas difíceis. Sobretudo porque comecei meus estudos de etiqueta sozinha. Eu tinha muita dificuldade em aprender coisas como aquelas sem instrução; Julia ajudava no que podia, mas a verdade era que sua memória dos dias de colégio eram limitadas às relações com as outras garotas, não às lições. Julia também era um tanto quanto atrapalhada, embora seu comportamento mostrava-se impecável quando comparado ao meu. Ainda assim, eu insistia. Cheguei a receber as amigas de Sra. Berkshire e Sra. Kline na hora do chá; planejei jantares para os moradores da casa com alguns conselhos que recebi da Sra. Strauss, a governanta. Eram momentos torturantes, porque o olhar crítico da família de meu marido não deixava passar qualquer detalhe. Lorde Byron vinha ao meu socorro, no entanto, comecei a encarar aquela característica como forma de lembrar que ele era quem estava no controle, não porque gostasse de mim.
Depois da noite em que recebi dele o xale acreditei que algo estava sendo formado. Talvez um carinho e cumplicidade que sempre desejei compartilhar com alguém, mas suprimi pela improbabilidade de possuí-la. Então, Byron colocou-me em meu lugar. Lembrou-me da situação contextual de nosso casamento.
Era muito bem feito para mim. Não devia alimentar sonhos da juventude; já tinha passado da época de nutrir esperanças românticas. Não foi o suficiente a decepção amorosa que sofri antes de completar meus vinte anos? Não aprendi nada com a experiência? Estaria eu tão cega a ponto de ver além do que estava diante de meus olhos?
Cobri meu rosto com as mãos mais uma vez. Passaram-se semanas e eu ainda sentia-me muito envergonhada. Não era à toa que evitava ao máximo estar à sós com meu marido, o qual vivia ocupado. Provavelmente em Londres seria a mesma coisa e eu teria apenas que me preocupar com as nossas conversas frívolas do jantar.
O bater da porta despertou meus pensamentos.
, vem me ajudar com Polly! — gritou Julia do outro lado. — Ela está impossível hoje.
Dei um sorriso zombeteiro. Polly estava impossível sempre; era da sua natureza infantil agir com afobação e rebeldia. Papai pouco ajudou para que seu caráter fosse diferente; a mimava quase como um dia fez com Julia.
Quando abri a porta, Polly passou como um raio em minha direção e agarrou minhas pernas — ou o máximo que conseguiu tocar abaixo dos babados do vestido.
— Está perturbando July de novo, Polliana? — indaguei cruzando os braços.
Ela fez um biquinho. Vi que estava descalça e seu cabelo tinha uma fita branca emaranhada.
— Não quero me arrumar!
July seguiu-a parecendo irritada.
— Vem aqui, sua…
Naturalmente, Polly fugiu da irmã mais velha rindo como se fosse uma grande piada. Eu também riria, mas era fato que essa atitude faria-a correr ainda mais e atrasar nossa viagem.
— Polliana Rowe , pare de correr!
— Mas… — tentou argumentar ao subir na cama.
Lancei-lhe um olhar sério e a vi murchar aos poucos, voltando a fazer um bico.
— Te odeio! Você é muito chata.
— Venha cá e calce os sapatos. — ela olhou-me contrariada. — Agora!
Batendo os pés com birra, minha irmã caçula começou a ensaiar um choro sem lágrimas.
— Te odeio! — repetiu andando entre pulinhos de malcriação.
— É assim que se anda? — indaguei cruzando os braços em direção a ela.
Julia estendeu a mão e deu um sorriso conciliador para Polly. Sabendo que eu seria muito mais pulso firme do que nossa irmã mais velha, a escolha mais inteligente era ficar longe de mim. Contive o sorriso enquanto observava-as saírem pela porta como mãe e filha — uma harmonia contrastante com o que acontecia cinco minutos antes.
Uma brisa saiu da janela semi-aberta e eu permiti-me respirar fundo. Eu havia escolhido aquele destino por causa delas. Minhas irmãs.
Estava saindo de meu quarto quando encontrei Sra. Strauss no meio do corredor.
— Está pronta, milady?
Eu não estava. Nunca estamos realmente prontos para mudanças não planejadas. Ainda assim, respondi-lhe com um pequeno sorriso.
— Sim, estou pronta.

Despedir-me dos servos foi muito mais difícil do que dos parentes de meu esposo. Havia algo maquiavélico no rosto deles; sobretudo na Sra. Kline que desejou com insinceridade que a viagem de um dia e meio fosse tranquila. Já a Sra. Berkshire, a quem não conseguia enganar ninguém, orientou-me não envergonhar muito o nome da família.
Eu deveria ter ficado calada. Era a coisa certa a se fazer; ignorar aquela matrona que nunca tinha me feito algo bom, que transformou meus primeiros dias em Berkshire Hall em um inferno.
Às vezes não escolhemos a coisa certa a ser feita.
Sra. Bridgestone ensinou-me a ganhar com o silêncio, porém o som da minha boca fechada tinia meus ouvidos. Dirigi-lhe com um sorriso, algo que fiz apenas uma vez desde que cheguei na casa.
— Senhora, se te incomoda tanto o meu jeito de apresentar-me, não deveria se preocupar em visitar-nos em Londres — apontei para sua bengala. — Será melhor para seus nervos.
Chocada com minha reação incomum, a Sra. Berkshire não replicou-me. Deixei-me ser ajudada pelo cocheiro para entrar na carruagem e sentei-me ao lado de Lorde Byron. Julia encarou-me em silêncio, denunciando que ouviu a conversa de lá fora. Alheia ao mundo ao redor, Polly brincava com uma boneca de pano no colo de Lucy, quem cuidaria de minha irmã até contratamos uma babá oficial. Demorou apenas alguns segundos até que milorde batesse no teto com a sua bengala e o veículo começasse a andar.
Ao contrário do que imaginei, meu marido não comentou nada sobre a cena. Talvez o fato de termos uma empregada no recinto o fez frear a língua. Ele não parecia o tipo que gostava de dar assunto para os criados. Até sairmos da propriedade, Byron não tirou os olhos da janela.
— Milorde — chamou Julia de repente. — Como é o clima em Londres? É bom para passeios?
Byron sorriu nostálgico para minha irmã . Parecia muito cansado — algo que era recorrente. Podia ver o pequeno relevo escuro abaixo dos olhos, embora estivesse impecável dos cabelos até os sapatos. Ele ainda cheirava a sabonete, revelando que banhara-se alguns minutos antes de entrarmos na estrada.
— Londres é um lugar cinza onde os dias de sol são raros — seu sorriso alargou-se, quase contemplativo. — É definitivamente um lugar perfeito.
July olhou-o com incredulidade.
— Isso é o que milorde considera perfeito? Deus me livre de saber o que é imperfeito…
Ele deu uma risadinha. Quando ria, as marcas do rosto de Lorde Byron apareciam com mais evidência.
— Apenas identifico-me bastante com a cidade, Julia.
Comecei a batucar os dedos no assento, fingindo não ouvir a conversa dos dois.
— Não gosta de Berkshire Hall?
— No fundo, sim — replicou ele. — Mas não é o meu lar, não realmente.
— Considera Londres o seu lar, então? Por causa do clima?
Byron voltou a olhar para a janela.
— Sim, digamos que sim.
Ele estava mentindo.
No meio daquelas infinitas conversas cheias de praxes que tivemos nas últimas semanas, passei a observá-lo com muito mais cuidado. Ele desviava o olhar casualmente toda vez que mentia — era mentiras menos sérias, no entanto, mentiras. Eram eufemismos e omissões voltadas a defender sua intimidade tão cercada de muros que poucos aventuravam-se em conhecer.
disse que levará-nos para o teatro, é verdade? — indagou ela curiosa.
Byron, então, olhou para mim de esguelha. Meu corpo endureceu, nervoso.
— Pensei que seria só nós dois — disse ele a mim.
Franzi o cenho.
— Não sabia que era um passeio a dois, milorde.
July olhou-nos meio desesperada.
— Ah, não precisa levar-me de primeira — replicou rapidamente. — Sempre terá outras peças para assistir…
— Não acredito que Julia irá atrapalhar qualquer plano nosso, não é, ? — indagou Byron um tanto desafiador.
Apertei os lábios antes de responder:
— Claro que não.
E voltei a ficar em silêncio, irritada com não-sei-o-quê.
A viagem teria o barulho das rodas na estrada como conversa, se minha irmã mais nova fosse uma criança controlável. Passou algumas horas até ela cansar da boneca e ficar pulando de colo em colo perguntando quando chegaríamos.
— Estou com fome, July — dizia ela fazendo um bico.
Logo depois de tirarmos algum lanche da cesta que Lucy trazia, minha irmã voltava reclamar da demora. Embora eu tentasse explicar que Londres era longe, o fato dela não conseguir dormir a deixava agitada e mau humorada.
— Polliana, venha cá. — chamou Byron de repente.
Troquei um olhar apreensivo com Julia. Eu não sabia o que meu marido achava de crianças e minha irmã caçula não era um grande exemplo de boa conduta. Aliás, seu comportamento tornou-se mais problemático desde que papai morreu.
Desconfiada, Polly deixou-se ser colocada no colo. Vi Byron tirar um cordão do bolso e começou a brincar com ele entre os dedos, transformando-o em imagens. Polliana envolveu-se rápido; quis fazer, no entanto, meu marido pediu que ela o observa-se antes de tentar. Conforme os minutos passaram, permiti acalmar-me. Rimos quando ouvimos ela chamá-lo de milorde como se esse fosse o nome real de Byron, “sr. Milorde”.
Era final da tarde quando chegamos na pousada para passarmos a noite. Os candelabros estavam começando a serem acesos e havia uma boa quantidade de clientes pela movimentação das carruagens. Estávamos todos cansados — sobretudo Lillian que, embora não tivesse vomitado em momento nenhum da viagem, reclamava de ter passado horas viajando com a Srta. Anderson, sua mais nova preceptora, quem não sabia o momento certo para falar. Prometi, então, acompanhá-la no dia seguinte. Polly e Julia também dormiram; a mais nova nos braços de Lorde Byron e a outra no ombro de Lucy. Ao descermos, ofereci-me a segurá-la, o que foi rejeitado. Embora a saliva da menina tivesse sujado seu terno, meu marido não ficou perturbado com aquilo.
Ele ainda estava com Polliana no braço quando foi até a recepção. Lilian também dispôs-se a carregá-la, mas Byron negou mais uma vez. Cuidadoso, ele disse que não queria que ela acordasse.
— Tenho reservas para essa noite pelo nome de Lorde Byron. Acredito que são cinco quartos — avisou após cumprimentar o estaleiro.
— Sim, milorde — disse o homem com amabilidade. — Deixe que a babá leve sua filha para o quarto, sim? Não há porque carregá-la — ele direcionou-me a ordem. — Não vê que a menina o atrapalha?
Meu corpo travou no chão, assustado. Do que ele estava falando?
— Senhora — murmurou o homem para mim. — Faça alguma coisa.
— Mas eu… — tentei argumentar lembrando-se da minha voz.
Byron ficou muito sério. O seu cenho acentuou-se, as três linhas formando-se acima das sobrancelhas com desagrado.
— Está falando com a Lady Byron, senhor. — sua voz soou como uma faca afiada. — Tenha modos.
O estaleiro ficou branco como papel. Olhei para o chão sentindo-me bem pequena, o desejo que correr para o quarto e esconder-me aumentando. Que diferença era do meu comportamento para o de mais cedo!
— Perdoe-me, Lorde e Lady Byron! — exclamou encabulado. — Não era do meu desejo…
— Leve-nos para os quartos — interrompeu sem paciência meu marido. — Estamos cansados.
— Sim, milorde, sim! — com afobação, o homem levou-nos até o segundo andar. Escutei mais alguns pedidos de desculpa e havia honestidade no que ele dizia; era um homem que estava apenas querendo ganhar seu pão, afinal de contas. Eu também não sabia como reagir. Tudo que pude fazer era deixar a tristeza e a insegurança invadir meu coração mais uma vez.

Embora meu plano fosse sair do quarto apenas quando voltássemos para a estrada, Julia apareceu na minha porta como uma moça de recados.
— Seu marido está chamando você para jantar.
Levantei a sobrancelha em desafio.
— Por que ele mandou você e não um empregado?
— Porque ele te conhece o suficiente para deduzir que iria inventar uma dor de cabeça — argumentou ela puxando-me para fora da cama.
— Estou sem fome — repliquei manhosa.
, não seja criança. quer conversar com você à sós. Provavelmente por causa da cena de mais cedo. — ela sorriu com segundas intenções. — Viu como ele te defendeu? Pensei que ele ia pular em cima do estaleiro!
Olhei-a com zombaria.
— Não seja exagerada, July. Aliás, quando você passou a chamá-lo pelo nome de batismo?
— Ora, ele é da família agora. — justificou dando os ombros. — Só você que tem esse decoro de ficar milorde para cá, milorde para lá até mesmo quando estamos entre pessoas íntimas.
A essa altura também achava aquilo uma completa besteira, mas não daria para trás tão fácil. Peguei o xale que ganhei — aquele que significava tudo e nada ao mesmo tempo.
— Certo, irei falar com ele.

Encontrei Lorde Byron sentado em uma das mesas perto da janela. Ele estava enrolado em sua casaca, as mãos escondidas nos bolsos e os ombros encostados na parede. Era uma posição reflexiva — seu olhar corria pelo cômodo ansioso, embora o corpo dele não se mexia. Quando viu-me aproximar, levantou-se e afastou a cadeira para que eu sentasse. Sua atitude foi um tanto automática, o cavaleiro em si refletindo em suas maneiras.
— Está com fome, milady? — disse ele.
— Só quero chá, obrigada — respondi e o vi pedir para uma empregada fazê-lo. — Por que queria conversar comigo?
Ele deu um sorriso ladino.
— Não posso querer conversar com minha esposa?
— O senhor não pareceu interessado em uma conversa íntima nas últimas semanas.
Byron deu um leve arquear de sobrancelhas.
— A senhora muito menos.
Fiquei calada, assumindo parte da culpa que me era devida.
Observei a empregada aproximar-se de mim e por a mesa. Ficamos em um silêncio denso, o barulho da conversa de um casal ao lado tornando-se mais audível do que meus próprios pensamentos.
— Como és bonita, minha linda… — dizia o homem.
— É a felicidade no meu rosto, meu amor… — respondia ela sonhadora.
Apertei os lábios contendo um sorriso desdenhoso.
— Apaixonar-se pode deixar os humanos um tanto estúpidos, não? — comentou Byron aparentemente compartilhando do mesmo pensamento que eu.
— Já apaixonou-se, milorde?
Ele hesitou por alguns segundos, mas, por fim, balançou a cabeça negando. Arregalei os olhos.
— Que nada! Está tentando parecer intocado pelo amor para mim? Não acredito nisso — argumentei de repente muito interessada na conversa. — Prometo que não julgarei seu passado.
— Não há o que contar, — disse Byron pegando sua xícara e levando aos lábios.
— Como não? Um homem tão vivido como você deveria ter várias histórias de amor para contar.
Homem tão vivido? — zombou ele, sua voz grave tinindo. — É o novo jeito de me dizer que sou velho?
Dei os ombros e ele soltou uma pequena risada. Acompanhei, sentindo mais uma vez uma familiaridade que apenas Byron oferecia. No entanto, eu sabia que era passageira — era questão de tempo para que ele empurrasse-me para longe. Tomei um gole de meu chá e fiz uma careta ao perceber que era de má qualidade. Provavelmente a planta não estava fresca.
?
— Sim? — respondi deixando a bebida de lado.
— Já indagou-se porque em todos esses anos eu nunca me casei?
Murmurei uma negativa. Quando recebi a primeira carta de Byron acreditava que ele era viúvo e estava desesperado por um herdeiro, no entanto, mais tarde descobri que ele nunca esteve ligado a alguém através do matrimônio. Eu não gostava de pensar muito nisso, minha mente sempre foi maquiavélica para aquelas coisas….
Byron soltou um longo suspiro.
— Esse chá está terrível — comentou fugindo do assunto.
— Concordo, parece água — repliquei casualmente, embora meus olhos dissessem outra coisa. E os olhos de um azul nublado de Byron também contava outra coisa.
Ele encarou-me e eu o encarei de volta. Éramos dois pares de olhos calculando o que o outro iria dizer. Silêncio ensurdecedor, como diria um poeta. E no ambiente as vozes do casal ao lado.
— Te amo tanto, minha querida…
Então disse Byron:
— Eu conheço todos os tipos de casamento e o por amor era o que eu mais almejava. No entanto, nunca encantei-me por alguém o suficiente para viver um — falou ele e eu senti o quanto custava-o dizer algo como aquilo quando ele continuou. — Mas não é disso que quis conversar; o que quero, na verdade, é pedir desculpas por não ter me direcionado a outra estalagem depois do episódio na recepção.
Pisquei duas vezes surpreendida.
— Nunca encantou-se? Como pode? — falei embasbacada.
Ele não respondeu e tentou tomar mais uma vez o chá.
Esperei-o responder, mas Lorde Byron não disse nada. Entendi aquilo como uma mensagem para recuar.
Olhei para meu chá quase intacto. Respirei fundo antes de dizer.
— Obrigada por me defender.
— Não estarei ao seu lado todo tempo, — alfinetou ele sem cerimônia. — Estou curioso. Como alguém que enfrentou uma senhora da Alta Roda sem pestanejar ficou sem reação diante de um simples estaleiro?
Eu não tinha resposta para aquela provocação, mas eu ainda disse:
— Não o pedi para defender.
— Veja, a sociedade londrina vai comê-la viva…
Levantei-me da cadeira com o coração aos pulos. A réplica estava na ponta da língua pronta para escorregar e fazer confusão.
— Irei me retirar.
— Espere, por favor — disse ele levantando-se em seguida. — Não estou querendo brigar.
Encarei-o por alguns segundos. Eu fervia por dentro; estava exausta e sem paciência para ouvir coisas que me deixavam desconfortável. Ainda assim era Lorde Byron, o homem que resgatou-me da falência.
Voltei a sentar-me e ele o fez também. Mantive o rosto sério e cruzei os braços.
Então vi um sorriso apaziguador domou sua face.
— Sei que as minhas palavras não são as mais leves, porém estou preocupado com você, — afirmou em tom brando. — Foi-me duro adaptar-me, também. Sei o que é receber olhares ruins e ser mal interpretado.
Eu duvidava do que ele dizia, mas mantive-me em silêncio.
— Até os quinze anos fui um filho rejeitado. Entrei para ser educado tarde e porque minha avó resolveu lembrar da existência do neto — revelou Byron. — Devo muito a ela e, no entanto, nunca a deixei dominar-me. Sei que suas intenções não eram completamente boas. Os mesmos comentários desagradáveis que recebeste sobre os meus diferentes comportamentos escutei; minha falta de educação sempre me foi apontado.
Apertei os lábios sentindo-me desarmar. Não havia qualquer vantagem ser inimiga do meu marido. Ele conhecia aqueles que de longe murmuravam em meus pesadelos; ele os vencera e era um deles. Byron era o meu melhor aliado, embora fosse um homem de personalidade difícil.
Um barulho de cadeiras arrastando-se dominou o recinto. O casal apaixonado saiu do recinto com risinhos escandalosos. Meus olhos os seguiram até desaparecer na porta.
— Não sei se sou capaz de fazer isso sozinha.
— Você não estará sozinha — afirmou ele. — E mesmo se tivesse, sei que será capaz para ser a mulher dessa manhã quando necessário.
Suspirei temendo apoiar minha confiança em bases de areia.
Falei, então, com insegurança.
— Então, vamos passar por isso.
Meu estômago congelou quando recebi um sorriso em resposta. Parte era por sua beleza inevitável; parte pela verdade que ele ainda não conhecia. Eu sempre seria um peixe exótico no mar de pálidos britânicos. Era questão de tempo até ele entender que peixes como eu, ao entrar naquele novo aquário, nunca eram bem-vindos.


XII. Berkshire, Lorde Byron

Tinha escurecido lá fora há duas horas quando sugeri a que fôssemos para o primeiro andar. Ela aceitou o meu braço de bom grado, os dedos finos e leves enlaçaram-me e observei-a olhar para os corredores desertos com desconfiança.
— O lugar está vazio. Não sabia que estava tão tarde — comentou com um sorriso meio constrangido.
— Parece que perdemos o tempo conversando mais uma vez… — comentei em um sussurro temendo acordar alguém com sono leve àquela hora da noite.
— Bem, disso eu não posso reclamar. Nossas conversas são sempre das mais… Como direi? — ela batucou dedo no queixo. Um sorriso arteiro desenhou-se em sua face. — Interessantes. Nossas conversas são interessantes. Mesmo quando no final não sinto a menor vontade de vê-lo novamente.
— Desculpe-me se sou uma pessoa desagradável — balancei os ombros com desdém. — É de família.
deu uma risadinha e então paramos de frente ao quarto dela. Estávamos de novo naquele estágio de simpatia e amizade que parecia de minha especialidade estragá-la. Daquela vez, porém, eu me esforçaria para ser o menos aborrecedor possível. Era um desafio — não era à toa que eu tinha mais sócios do que amigos.
— Então, é isso— disse eu despedindo-me — Vejo você na manhã seguinte, milady. Saíremos antes do sol nascer, Lucy irá acordá-la.
— Espere — pediu ela segurando ainda meu braço. Olhou para os lados e tomou um ar apologético, diminuindo o tom da voz. — Agradeço por tentar entender-me, mas também lembro que estou aqui para adaptar-me a você também, milorde.
Levantei a sobrancelha com o ar curioso.
— Certo. Por que isso agora?
— Ora, preciso de um motivo para ser grata?
Encarei na penumbra os lábios apertados de quem queria rir, as maçãs do rosto salientes…
— Por que tenho sempre a impressão que está me escondendo algo?
Ela piscou. Os olhos escuros, misteriosos, esforçaram-se para parecer inocentes.
— Não sei do que se trata, Lorde Byron.
O título incomodou-me mais uma vez. insistia em chamar-me assim e crescia cada vez mais uma antipatia pelo nome.
— Certo. Poderia, então, chamar-me pelo meu nome? Ou Berkshire, talvez?
Minha esposa cruzou os braços e franziu a sobrancelha.
— Por que é tão difícil ser chamado pelo título? Tinha plena certeza que é do desejo dos aristocratas ser tratado como nobres o tempo todo.
Olhei para as portas dos quartos calculando se diante daquele falatório que tivemos havia espaço para mais uma particularidade minha ser revelada. Por fim suspirei antes de dizê-lhe:
— “Lorde Byron” é sempre acompanhado pelos elogios ao antigo barão, que veio muito antes de meu pai. Lorde Byron era o grande poeta, sei que conhece. — expliquei. — O título é quase uma cortesia, levando em consideração que não carrego o nome dele. Cansei também de ouvir perguntas sobre o meu fazer poético; ele é sempre carregado pelo tom jocoso de quem quer fazer uma piada.
demorou para responder-me após o desabafo. Quase podia ver as engrenagens de sua mente encaixando-se.
— Nossa — disse finalmente. — Eu não sabia disso.
— Poucos sabem. — repliquei.
— Desculpe-me.
— Tudo bem, . — dei um pequeno sorriso para ela. — Vamos já dormir. Boa noite.
— Boa noite… — ele hesitou. — Boa noite, .
Então, de ponta de pés, minha esposa beijou-me a face e sumiu em passos apressados em seu quarto. Eu já havia sido beijado por uma mulher diversas vezes e de jeitos que um homem deveria guardar em segredo, no entanto, o casto encostar dos lábios de meu rosto foi o único capaz de perturbar meu sono como naquela noite.



Naquele dia atípico, Londres estava ensolarada. Um ensolarado nível Londres, o que significava que ainda havia muitas nuvens no céu. A temperatura estava bastante agradável, porém a umidade sinalizava que em breve o inverno chegaria em nossas portas.
Já tinha passado da hora da tarde quando ouvi o murmurar de Julia:
— Iremos chegar nunca? Polly está reclamando de fome.
— Calma, querida. Já estamos em Londres, é questão de tempo até chegarmos no nosso destino — respondeu . — E pare de usar Polly de desculpa. Nós duas sabemos que é você que está com fome.
— Não venha com falsas…
A carruagem parou de supetão e eu disse em voz alta:
— Chegamos.

Minha casa era uma das mais novas de Mayfair e se estabelecia no limite com o próximo bairro. Ela tinha paredes brancas e decorações em prata na fachada e nas janelas de cima. Escolhi aquelas cores porque minha mãe adorava — preferia sempre prata a dourado. Embora ela nunca tenha tido a oportunidade de morar comigo naquela casa, pensei com muito carinho ao escolhê-la.
Ajudei as mulheres descerem do veículo enquanto observava o mordomo da casa apresentar-se, Sr. Harris.
escorregou ao meu lado e eu ofereci meu braço para que ela apoia-se. Com um sorriso contido, ela sussurrou para mim:
— É uma belíssima casa, .
— Espere para ver por dentro.
Minha esposa e suas irmãs pareceram bastante impressionadas ao entrarem na casa. Era um contraste imenso com Berkshire Hall em tamanho e luxo, no entanto, era muito mais fácil encontrar minha personalidade ali: os quadros modernos, os objetos decorativos pequenos, porém bem lustrados, os móveis desenhados e os sofás de veludo.
Não consegui evitar estufar o peito de orgulho com a expressão maravilhada de . No entanto, disfarcei ao apresentar os poucos e eficientes empregados da casa. Morando sozinho na casa não exigia a necessidade de muitos funcionários; era uma realidade que seria mudada em breve.
— É bom tê-lo de volta, milorde. — cumprimentou Sra. Hammel, minha governanta.
— É bom estar de volta, Sra. Hammel. — repliquei com amabilidade. — Gostaria que levasse as jovens senhoritas para comer alguma coisa. Sei que estão muito cansadas e famintas, pois não pararam para tomar chá ainda.
Julia ficou pálida de vergonha. Tentou falar alguma coisa, mas apenas soltou sons inteligíveis. Seu rosto tornou-se vermelho quando
— É mesmo! July está doida para comer biscoito de gengibre!
Ignorando a tentativa de Julia de dissimular o que a caçula falou, virei-me para minha esposa.
— Está com fome, milady? Se não, gostaria de apresentar os seus aposentos eu mesmo.
— Milorde, creio que não será possível — interrompeu Sra. Hammel com o tom grave de sua voz. — O quarto da milady não está preparado para ela, pois Sr. Woodhouse enviou-me um recado relatando que ela cuidaria das próprias acomodações quando chegasse.
Franzi o cenho confuso.
一 Não lembro de tê-lo orientado…
一 Oh, não se preocupe, . Sr. Woodhouse conversou comigo semanas atrás e eu o pedi que o fosse assim 一 justificou . 一 Posso ficar em uma das acomodações de hóspedes nas próximas semanas, creio que não demorará para…
一 Milady, com todo respeito, sei que deseja privacidade, mas não acredito que seja viável que a dona da casa esteja em quartos minúsculos como o de hóspedes 一 replicou a Sra. Hammel.
Meio inconformado, dou uma pausa antes de dizer:
一 Posso oferecer meus aposentos para ela enquanto o quarto é preparado.
一 Não, de jeito nenhum 一 replicou seriamente. 一 Posso muito bem ficar com um quarto menor por algumas semanas. Não irei morrer por causa disso.
一 Porque vocês não dividem o quarto, oras? 一 indagou Julia parecendo apressada para a mudança de tópico. 一 São apenas algumas semanas. O que precisa ser feito no quarto?
一 Apenas a compra dos móveis e a decoração, senhorita 一 respondeu Sra. Hammel. 一 Lorde Byron sempre mostrou-se desejoso de que sua própria esposa o fizesse, por isso o quarto sempre foi deixado como era desde o antigo proprietário.
Apertei os lábios arrependido pelo meu eu jovem que achou que era um ato muito romântico e gentil esperar minha esposa decorar seu próprio quarto. Agora só me dava dor de cabeça.
Olhei para e ela sentia tanto desconforto quanto eu. Seus olhos escuros iam e vinham em minha direção, desconfiados. Ainda não tínhamos conversado sobre a noite anterior, embora eu parecesse o único abalado com o pequeno gesto de carinho de minha esposa.
Suspirei já tendo a resposta na ponta da língua.
一 Certo. Dividiremos o quarto.


XIII.

O quarto estava cheio de pessoas, porém o barulho que se ouvia era apenas de passos e murmúrios de perguntas dos empregados que nos atendia. Em um canto do cômodo havia eu sentada com o cabelo sendo despenteado por Lucy; no outro lado estava e Clement, seu valete, que tirava os diversos casacos e ornamentos que usava desde que saiu para visitar o Marquês de Exeter.
O quarto de era muito masculino. As paredes e os móveis misturavam-se entre o tom azul, preto e vermelho. Havia candelabros por toda a parte, deixando-o iluminados como se fosse ainda de manhã.
Eu sentia os olhares ladinos de Lorde Byron e o pequeno desconforto de seus lábios. era muito transparente para mim 一 seus pequenos tiques denunciavam seus pensamentos. Por causa disso não hesitei em começar a conversar com a Sra. Hammel e o mordomo no dia da nossa chegada, explicando como eu queria o meu quarto. Quanto mais rápido aquilo se resolvesse, mais rápido meu marido estaria confortável em seus aposentos sem eu o importunar.
Eu entendia seu dilema. Ora, apesar de sempre viver em uma casa cheia, estar sozinha em minha intimidade era um ideal que por muito tempo imaginei ser impossível. Era bom relaxar sem que ninguém invadisse sua privacidade.
O silêncio ficou ainda mais oco quando os empregados deixaram o cômodo. Continuei dedilhando meu cabelo como uma harpa, fingindo que não me sentia constrangida diante de meu marido.
一 Falei com a Sra. Hammel e em breve a reforma do quarto irá começar 一 comentei. 一 Não irei atrapalhá-lo por muito tempo.
一 Fique o tempo que precisar 一 disse ele sem hesitação.
Parei meus dedos e virei-me para encará-lo de perto.
一 Não precisa falar as coisas apenas por cortesia. Pode ser sincero comigo.
coçou a nuca e então repousou seus olhos azuis pálidos sobre os meus.
一 Terei que acostumar-me com isso de qualquer maneira, . Não sou mais um homem solteiro.
A sua autoconsciência me chocou um pouco e eu não respondi-lhe nada. Observei-o deitar na cama espaçosa e cobri-se com uma grosa cocha creme.
一 Antes de dormir apague as velas, por favor. Há espaço o suficiente para nós dois na cama, então não se incomode em deitar-se aqui.
Olhei para o sofá, que também parecia muito confortável, e engoli o seco. E se…
… 一 ele murmurou.
一 Sim?
一 Venha aqui.
Levantei-me devagar e fui em passos de tartaruga até a cama. reclamou:
一 Não precisa ter medo, mulher.
一 Eu não tenho medo 一 repliquei irritada e deitei ao seu lado para provar o meu argumento.
riu e virou-se de lado para encarar-me. Ele mostrava-se muito maior daquele jeito, cheio de músculos e marcas. Dali dava para vê as rugas no rosto, os cabelos espetados e o olhar cansado.
一 Você não apagou as velas. 一 apontou ele com as sobrancelhas arqueadas.
一 Apaga você 一 respondi como uma menina emburrada. 一 Não saio daqui a não ser que seja uma emergência.
Um tanto inconformado, meu marido levantou-se e saiu soprando e balançando a mão acimas das velas para apagá-las. Aos poucos a noite invadiu por completo o cômodo e eu mal pude vê-lo caminhar pelo quarto. Senti, então, o pequeno balançar da cama indicando que ele voltou a deitar-se.
Fiquei estática como uma pedra. Senti o corpo quente ao meu lado, mas não me tocou ou encostou em mim. Havia realmente muito espaço na cama para nós dois.
一 Se está com tanto medo posso dormir no sofá 一 disse ele.
一 Eu não estou com medo.
, desde que eu deitei você não moveu um músculo.
Relaxei os ombros.
一 Não quero que durma no sofá por minha causa. Eu que estou como intrusa no quarto, sou eu que deveria…
一 Não a deixarei dormir desconfortável quando podemos dividir a cama. Isso está fora de discussão 一 disse ele irredutível. 一Ou dormimos nós dois aqui ou eu irei para o sofá.
Mordi a língua para evitar soltar um grunhido frustrado. Que homem complicado, Jesus!
一 Então, converse comigo 一 sugeri. 一 Talvez assim me sinta mais à vontade.
Ele soltou um suspiro. O lençol foi puxado na medida em que ele mexeu-se na cama.
一 Acho que irá chover essa noite 一 comentou e eu olhei para onde deveria estar a janela.
一 Chove muito por aqui? 一 perguntei tentando continuar a conversa.
一 Sim.
Ficamos em silêncio mais uma vez. Mexi-me na cama procurando uma posição mais confortável.
一 Lily tem medo de tempestade 一 eu falei depois de um tempo. 一 Ela nunca admite, mas em dias chuvosos sempre vinha dormir comigo ou com o papai.
一 Então, o problema de dormir com alguém é só comigo? 一 brincou ele.
Sorri.
一 Precisamente.
deu uma risada. O som era meio abafado, grave como sua voz. Quase podia ver o pequeno sorriso, o balançar da cabeça que ele fazia quando sorria.
Fiquei calada esperando ele dizer mais alguma coisa.
一 Eu admiro a forma com que você fala de seu pai 一 falou Byron de repente. 一 Gostaria de ter uma lembrança boa do meu igual você tem do seu.
Por reflexo virei-me para o lado, encarando-o sem realmente vê-lo.
一 Por que diz isso? A relação de vocês dois era complicada?
一 Complicada é eufemismo 一 replicou ele. 一 Meu pai era um… Não tenho uma palavra educada para dizer.
一 Não diga, então. 一 repliquei. 一 Sou uma dama, não posso estar ouvindo essas coisas.
Ele riu mais uma vez.
一 O que seu pai fez? 一 indaguei curiosa. 一 Responda só se quiser, claro.
silenciou e eu entendi aquilo como um não. Quando abri a boca para mudar de assunto, ele disse:
一 Meu pai me expulsou de casa e minha mãe quando eu era ainda um bebê.
Arregalei os olhos, a sensação de enjôo dominando-me. Que tipo de pai seria tão cruel a ponto de pôr para fora seu filho junto com a esposa?
, você está aí?
一 Sim 一 consegui dizer. Estendi a mão à procura de seu braço e o agarrei, buscando forças ou lhe dando forças para continuar. Não sei ao certo. Senti seus dedos acariciarem-me até encontrar os meus. apertou devagar sua mão em volta da minha e eu o segurei com firmeza.
一 Como vocês sobreviveram? 一 perguntei-lhe.
一 Mamãe passou a viver na casa de conhecidos de favor. Não tínhamos muito dinheiro e a fama dela não era muito boa entre os parentes. Todos diziam que ela tinha criado uma emboscada para meu pai 一 sua voz ficou mais distante, nostálgica. 一 Eu ouvi muita coisa que uma criança não devia.
parecia mais perto 一 tanto metaforicamente quanto fisicamente. Ele aproximou-se enquanto a voz diminuía o tom aos poucos.
一 Eu sinto muito, 一 falei abalada com aquela conversa.
一 Eu também sinto, . Também sinto.
Continuei segurando sua mão. Ela era pesada e possuía algumas marcas antigas de quem um dia usou-as para trabalhar no pesado.
一 Por que está me contando isso? 一 perguntei finalmente.
一 Porque eu quero que você confie em mim. Qual é o jeito melhor de fazer isso do que contando-lhe um segredo?
Algo em meu âmago tremeu. Estava sensível o suficiente para segurar as lágrimas repentinas. Nas últimas semanas eu estava muito machucada por causa da briga. Parecia que apenas eu tentava que o casamento desse certo. Eu não estava pedindo-o para apaixonar-se por mim. Nem mesmo eu sentia tal sentimento 一 ele era precioso o suficiente para não vir pressionado. O que eu queria era… Alguma coisa entre confiança e intimidade. E , naquele momento, mostrou que também tentava.
一 Quero contar um segredo para você também 一 murmurei.
一 Um segredo por outro? Soa como um acordo para mim.
Um sorriso nasceu e morreu em minha face rapidamente. O que eu iria contá-lo apenas eu e o antigo contador de meu pai sabia. Até mesmo Julia não soubera da história inteira.
一 Papai endividou-se por minha culpa 一 fale antes de arrepender-me. 一 Ele queria colocar-me em uma escola de meninas igual a July, mas… Era complicado. Não é fácil esconder a ascendência indiana e eu… 一 hesitei, incapaz de prever o que ele pensaria do que eu ia dizer.
apertou minha mão. Seu corpo era quente ao meu lado; quente e reconfortante. Então eu disse:
一 Papai não tinha o registro de que casou-se formalmente. Pela lei sou uma bastarda. Duvidaram até que eu seja filha dele. Muitos nobres colocam filhas bastardas em internatos, mas meu pai não tinha um nome influente. Até que meu pai encontrou alguém capaz de convencer uma escola católica a me receber. Esse alguém era um mentiroso e roubou boa parte das economias que tínhamos. Ele nunca conseguiu se recuperar.
Esperei ele dizer alguma coisa sobre a minha falta de registro oficial. Pior do que casar com alguém sem nome e de ascendência estrangeira era que essa pessoa fosse bastarda. Como um nobre conseguira cair em tamanha cilada ao casar-se comigo? Senti, então, o arrependimento de não ter conversado com Julia antes de decidir responder positivamente às cartas de Byron. Eu deveria ter convencido-a a casar-se; seria mais fácil e muito mais cômodo para ele estar casado com minha irmã mais velha que, embora ainda fosse pobre e sem nome, era de filha de um casal respeitável.
? 一 sussurrou ele. 一 Não é sua culpa. Seu pai ter se endividado é uma lástima, mas não é sua culpa, tudo bem?
Fiquei muda. Meus olhos mais uma vez encheram-se de lágrimas.
一 Obrigada, . 一 agradeci com a voz embargada.
Arrepiei-me quando ele fez um pequeno carinho com o polegar em minha mão para logo depois soltá-la.
一 Agora você se sente mais segura para dormir na mesma cama que eu? 一 ele bocejou. 一 Estou caindo de sono.
一 Sim, milorde. 一 falei virando-me de costas e procurando uma posição mais confortável para dormir. Naquela noite, porém, demorei bastante para pegar no sono. Só dormi quando a mente parou de pensar em quão vulnerável eu podia ver meu marido e vice-versa.


XIV. Berkshire, Lorde Byron

Estar vulnerável é fácil. Na vulnerabilidade mora a verdade que existe em nós; nela emerge quem somos. Não há porque mentir, logo, não há porque não ser transparente. O verdadeiro em nós é o personagem mais fácil de atuar.
Tornar-se vulnerável que é complicado. O caminho até o estar transparente requer a sensibilidade de retirar aos poucos as máscaras que no dia-a-dia usamos como acessórios imprescindíveis; além de sentir-se liberto em relação aos outros.
Eu sentia-me vulnerável quando acordei. Sem a escuridão da noite como escudo, a consciência irritava-me indagando o porquê de ter deixado mais próxima, dando passos rumo a alguém que eu mesmo não conhecia.
Não tinha mais volta.
Tive bastante tempo para pensar naquilo de manhã. Clement tinha o dia de folga e eu teria que me virar sozinho.
Deitada na cama estava ; o cabelo escuro em todo o seu esplendor derramado no travesseiro, os braços finos largados pelo lençol claro. Pela brandura do rosto deveria estar em um sono bom, acalentador.
Respirei fundo e voltei-me ao espelho, inconformado porque não lembrava como fazer um nó decente na gravata. A lembrança de ser ensinado a fazê-lo ainda estava na mente, mas a falta de prática a deixava nebulosa e de difícil acesso. Era do ínicio da juventude, quando a perspectiva de um título era ridícula. Naquela época ainda estava aprendendo a ler com o Sr. Dowling, meu mentor e o mais perto de um pai que um dia tive, e tinha como desejo parar de vender enlatados nas portas e virar um valete.
一 Posso ajudá-lo com isso.
Levantei a cabeça surpreso ao ouvir a voz rouca de minha esposa. Seu rosto estava inchado e ela ainda apertava os olhos para acostumar-se com a claridade.
一 Sabe amarrar uma gravata? 一 indaguei com a sobrancelha erguida.
一 Papai não tinha valete 一 justificou . 一 Alguém tinha que fazer por ele.
Ela espreguiçou-se antes de levantar e ir em minha direção. Estava toda desgrenhada, mas fez o nó na gravata com habilidade de quem fizera aquilo mais de uma vez. Deu-me leves tapinhas no peito quando finalizou.
一 Vejo você mais tarde? 一 indagou escovando o cabelo com os dedos, dando-lhe um aspecto melhor.
一 Quero levá-la ao teatro essa noite, mas a Marquesa de Exeter e a Condessa de Dudley irá visitá-la. Se estiver muito cansada podemos deixar para a próxima semana…
一 Hoje será bom 一 disse ela com o rosto resplandecendo de felicidade. Sorri igualmente.
一 Está bem, então.
...
Passei boa parte do caminho até o local da reunião com a nossa estranha conversa na cabeça. A única coisa que eu poderia afirmar com certeza era que também estava animado para revê-la mais tarde, embora o teatro nunca fora meu passeio preferido.
Cory, o Marquês de Exeter, já havia chegado quando entrei no restaurante do hotel. O homem fumava um charuto com diligência, as pequenas baforadas saíam sem pressa de sua boca.
一 Vejo que chegou cedo 一 disse eu antes de sentar-me.
一 Atraso é uma característica de George, não minha 一 justificou chamando um atendente com a mão.
一 Se bem que ele era bastante pontual 一 complementei. 一 Mudou apenas depois que casou-se.
Cory deu um sorriso ladino e cheio de segundas intenções.
一 Deve estar aproveitando a vida de casado melhor do que nós dois, então. 一 virou-se para mim 一 Você tem aproveitado os primeiros meses de casado? São os melhores.
Pensei nas constantes desavenças que tive com e a forma instável que nosso relacionamento mantia-se antes de dizer:
一 Fale por você.
Exeter riu.
一 Quer dizer então que não há tantas vantagens assim casar-se com alguém pela praticidade? Aliás, 一 ele arrumou-se na cadeira 一 não vejo nada de praticidade na sua escolha. Ever contou-me dos desafios que os dois irão enfrentar. Tem certeza que não nutre um sentimento íntimo e avassalador pela sua esposa, Byron?
Dei uma risada.
一 De todas as asneiras…
一 Não fale como se fosse um absurdo. 一 insistiu ele. 一 Nós dois sabemos que não o é. A Sra. Dowling está dizendo para todos que conversou com sua avó e as fofocas correm como vento, Byron. Os boatos apontam que sua esposa criou um emboscada e engravidou de você.
Trinquei o maxilar tentando conter a ira contra a minha avó. Ao mesmo tempo que a Sra. Berkshire foi importante para os meus estudos, ela era a minha maior pedra no sapato depois de adulto. Aqueles boatos não ajudariam em nada para a aceitação de pela Alta roda.
一 Estamos casados a quase seis meses e minha esposa continua sendo pequena e raquítica, Exeter. Não tem nenhuma possibilidade dela estar grávida.
一 Meus fofoqueiros favoritos! 一 Dudley cumprimentou-nos sorrindo de orelha a orelha.
Cory lançou-me um olhar sugestivo.
一 Eu não digo?
一 Do que estão conversando? 一 indagou George, completamente alheio ao tópico da conversa.
一 Estou dizendo que Byron está apaixonado pela esposa encomendada dele 一 afirmou Exeter dando mais uma baforada em seu charuto.
一 Não é um absurdo, George? 一 falei tentando trazê-lo para o meu lado da discussão.
não está apaixonado pela esposa, Cory 一 disse Dudley muito sério. 一 Mas ele vai ficar.
Um arrepio subiu na minha espinha. Eu odiava quando George afirmava aquele tipo de coisa, porque ele sempre costumava estar certo; era como se ele fosse um maldito vidente.
一 Como pode ter tanta certeza?
一 Como um homem apaixonado, sei reconhecer um homem prestes a se apaixonar.
Cory deu uma gargalhada.
一 Essa foi a desculpa mais ridícula que já ouvi em toda a minha vida.
一 Ria, ria mesmo 一 replicou Dudley. 一 Na última vez que eu disse algo assim, a Sra. Carden era uma viúva imaculada.
Batuquei os dedos na mesa.
一 Vamos deixar de conversa. Em breve os outros chegaram e então falaremos de negócios 一 disse eu.
一 Está certo de vender a empresa, ? 一 perguntou George calmamente.
一 Há outra maneira mais fácil? 一 repliquei tentando não parecer tão frustrado quanto eu estava.
Ele deu os ombros.
一 De qualquer maneira sei que iremos dar certo.
Olhei para ele com cuidado.
一 Sabe é?
George segurou meu ombro e sorriu.
一 Eu sei, meu amigo. Eu sei.



O relógio em meu bolso apontava que era a hora do chá quando passei pela frente da rua repleta de teatros. Olhei as peças em exibição e escolhi Hamlet de Shakespeare, um clássico, para apresentar a minha esposa às instalações do teatro. Comprei um ingresso para Julia, embora eu estivesse muito tentado a convencê-la a ficar em casa àquela noite para receber Liam Woodhouse, o professor de piano. Ele avisara-me que chegaria em Londres no começo da noite e prontamente aceitou meu acordo. Faltavam apenas a escolha de uma boa dama de companhia para minha esposa, uma babá para Polliana e uma preceptora para Lilian. Em breve estariam todos bem alojados na cidade.
一 Milorde, para onde agora? 一 indagou o cocheiro ao abrir a porta da carruagem para mim.
一 À casa do Marquês de Exeter, por favor.

Kelly e Ever estavam tão animadas com a nova amiga que esqueceram da minha presença logo depois que entrei. Alheio ao que aconteceu durante o dia, não imaginei encontrar na sala dos Exeters uma mulher diferente de quem eu deixara em casa. Vestida como uma verdadeira aristocrata, estava parecia outra pessoa. A cintura de parecia esmagada dentro do vestido escuro; os sapatos que ela usava claramente a deixava desconfortável. No entanto, tinha a natural simpatia ao conversar com as mulheres de meus amigos, ria, comentava e elogiava; ainda assim, não era em toda a sua simplicidade e honestidade. Sentada no sofá dos Exeters estava, na verdade, a nova Lady Byron. Era motivo de orgulho, mas eu não conseguia parar de pensar no quanto a face artificialmente pálida de minha esposa incomodava.
一 Com licença, senhoras 一 disse eu em súbito, chamando atenção das três mulheres para mim. 一 Gostaria de uma conversa a parte com minha esposa.
Muda, levantou-se educadamente e acompanhou-me até o corredor. Sozinhos, pude então reparar melhor na dificuldade que ela tinha com os novos sapatos e o decote atípico que sufocava seus seios; por fim vi seu rosto branco de pó de maquiagem que ela usava. Analisei-a em silêncio, a deixando apreensiva.
一 Fiz algo ruim? 一 perguntou insegura.
Dei-lhe um sorriso calmo e gentil. Busquei em meus bolsos um lenço.
一 Você não fez nada de errado, 一 repliquei. Inclinei o pedaço de pano em sua direção. 一 Posso?
Ela acenou positivamente e com o lenço limpei a maquiagem que deixava sua pele superficial e estranha. Sem dificuldade, sua pele começou a voltar a ser escura e natural.
一 Por que não usaram algo parecido com sua pele?
一 Porque não tem 一 respondeu . 一 Maquiagem é para nobres senhoras britânicas. Nenhuma delas são de pele escura.
Parei a mão no ar, o choque da verdade daquela afirmação passando por minha cabeça. A maquiagem não era pensada para mulheres como .
一 Então não use 一 falei finalmente. Retirei o resto de pó em sua bochecha; a pele era macia e escorregadia entre meus dedos. Se eu me inclinasse para mais perto poderia arrebatar seus lábios com a rapidez de uma piscada. Se...
一 Acho melhor voltarmos, .
一 Certo 一 falei antes de afastar-me completamente.


XV.

一 O chá está uma delícia! 一 comentei saboreando com cuidado. 一 O que é isso que tem no final?
一 Canela 一 respondeu Ever animadamente. 一 É um pouco luxuoso, mas adoro colocar um pouco em dias especiais como esse. O chá não fica magnífico?
Sorri para a anfitriã com suavidade. Ever era uma mulher muito extrovertida, falava pelos cotovelos e era muito ativa. De longe dava para ver que era uma pérola da sociedade: tinha o quadril muito largo, o rosto redondo e alvo como porcelana dava-lhe uma aparência jovial e pura.
一 Divino! 一 falei com honestidade.
一 Byron, querido, o que acha do chá? 一 indagou Kelly pronta para envolvê-lo na conversa.
Desde que meu marido voltara junto comigo para a sala de visitas, ele mantivera-se calado. Se sua presença não fosse tão inquisidora poderia jurar que ele não estava ali.
一 Agradeço por ter lembrado de que não tomo com açúcar. Porém, não gosto muito de canela… 一 disse ele. 一 Está bom de qualquer maneira.
A sala ficou um silêncio estranho, desconfortável.
一 Há quanto tempo você conhece Byron, Marquesa? 一 indaguei.
一 Oh… Nós nos conhecemos assim que voltei para Londres, logo após a morte do meu primeiro marido 一 respondeu ela feliz que alguém tenha mudado de assunto. 一 Acredita que ele pediu minha mão? Quase perdeu a amizade com Exeter por causa disso.
Arregalei os olhos, surpresa.
一 Como assim?! 一 exclamou Kelly, inclinando-se na direção dela. 一 Nunca me contou essa história!
一 Ever… 一 murmurou Byron com os olhos assustadores, uma mensagem muda para que ela se calasse.
A Marquesa de Exeter, porém, pouco abalou-se. Parecia muito mais animada com o fato de que eu e Kelly estávamos curiosas com sua história.
一 Não é nenhum segredo para todas que Byron sempre quis casar-se…
一 Lá vem… 一 comentou impaciente.
一 Eu tinha ficado viúva jovem e ele era amigo de George. Era natural que…
一 Ever… 一 murmurou ele mais uma vez.
一 O que é? 一 disse ela com um sorriso contido.
一 Não acho que seja uma conversa ética para dizer a minha esposa.
Olhei para ele contrariada.
一 Mas eu quero ouvir!
Ever deu dois tapinhas no meu joelho.
一 Não se preocupe, querida. 一 tranquilizou a marquesa. 一 Quando ele for embora contarei todos os detalhes.
Byron semicerrou os olhos para ela.
一 Você é traiçoeira.
Sem abala-se, a anfitriã voltou a se servir de mais chá.
一 Obrigada pelo elogio, milorde.
Kelly, a Condessa de Dudley, ria timidamente. Ao contrário de sua cunhada, a condessa era muito mais introvertida e silenciosa. No entanto, não deveria ser subestimada. Durante as compras que fizemos mais cedo ela se mostrou muito sagaz e compreensiva. Eram como um equilíbrio uma da outra.
一 Mudando de assunto 一 disse Byron limpando a poeira inexistente de sua roupa. 一 Esta noite levarei para o teatro, porém não estou familiarizado com as etiquetas de luto. Haverá algum problema?
一 Há quanto tempo está de luto, Milicent? 一 perguntou Kelly curiosa.
一 Irá completar-se um ano 一 respondeu ela.
一 Então a fase do luto fechado já se passou. 10 meses é o suficiente. Acho que não há qualquer problema que apareça no teatro essa noite 一 orientou a marquesa pensativa. 一 Use o vestido de noite que compramos hoje, sim? Ficou lindo em você.
Olhei para as minhas mãos, de repente sentindo-me muito tímida.
一 Obrigada pela assistência hoje, miladies. Sua ajuda tem grande importância para mim.
一 Não se preocupe, Lady Byron 一 falou Kelly com um sorriso. 一 Estamos aqui para isso.
Senti-me acalentada por aquelas mulheres tão diferentes, porém de corações gigantes. Talvez a estadia em Londres fosse algo positivo, afinal.
一 Sinto-me sobrando aqui 一 comentou . 一 Preferem que eu saia ou..?
一 Deus Santo, Byron! 一 ralhou Ever. 一 Por que você assim, hein?
Ele riu e por consequência todas nós rimos também.



Quando Lucy apertou o meu corpete, eu quis gritar de dor. Sentia que aquele pedaço de pano esmagava todos os órgãos do meu abdômem. Pior mesmo era o sapato que martirizava os dedos do pé e meu calcanhar. Sentia falta das minhas botas, as quais estavam sempre escondidas pelos vestidos de tricoline. Meu cabelo também não foi poupado: puxado para um lado e para outro tornou-se um penteado bem elaborado e difícil de ser desfeito. Dessa vez, porém, pedi para que não colocasse o pó branco em meu rosto, lembrando da conversa que tive com meu marido àquela tarde.
No entanto, todo aquele esforço pareceu valer a pena quando encarei meu reflexo no espelho. Não via mais , filha de um médico e uma estrangeira; ali estava Berkshire, Lady Byron, esposa de um par do reino. O vestido era de um veludo marrom escuro que parecia brilhar a cada mexida; sentia-me uma princesa, uma nobre de verdade. Embora usasse um tom sóbrio, a elegância da roupa deixava-me igual as mulheres da Alta sociedade.
, eu conversei com… 一 a voz de Julia parou abruptamente. 一 Meu Deus!
一 Eu sei 一 repliquei tão embasbacada. 一 Eu sei.
Ela olhou-me de cima a baixo orgulhosa.
一 Está tão linda!
Dei-lhe um sorriso oblíquo.
一 Eu me sinto linda.
一 Convencida! 一 disse ela entre risos 一 Não poderei acompanhar vocês. Byron disse que Sr. Woodhouse chegará essa noite e eu e as meninas iremos recepcioná-lo.
一 Oh, sério? Pensei que estivesse animada para ir ao teatro…
July balançou a mão em desdém.
一 Posso ir qualquer outro dia. Agora que sei quem será meu instrutor estou mais ansiosa para começar as aulas.
Era possível ver a honestidade em suas palavras apenas no jeito que ela falava: os olhos brilhando de excitação, o balançar ansioso dos ombros e os passos rápidos para fora do quarto. Devia ser a primeira vez que a via feliz de verdade desde a morte do papai. Uma onda de esperança ocorreu-me mais uma vez. Iríamos ser felizes de novo.
Lorde Byron esperava-me no andar de baixo quando comecei a descer as escadas. Cada degrau era um martírio 一 o medo de cair enrolando como uma bola de lã impedia-me de fazê-lo naturalmente. De longe dava para ver que meu marido segurava o riso; eu o repreenderia se não fosse cômica a cena. Apesar disso, quando finalmente pus-me ao meu lado, disse:
一 Está deslumbrante essa noite, milady.
Ele também estava elegantíssimo com a casaca azul escura sob medida. O cabelo rasteiro estava bem arrumado, dando-o um ar sério.
一 Está muito bonito também, milorde.
Ele ofereceu o braço direito e aceitei-o de bom grado. Fui agraciada por um cheiro novo de perfume, um bom aroma de um bosque pós-chuva. Aquilo deixou meu marido mais charmoso do que naturalmente era. Pouco consegui dar respostas completas para ; sentar-me ao seu lado na carruagem, sozinhos, fez-me lembrar da intimidade compartilhada na noite anterior.
一 Conhece Hamlet, ? 一 perguntou ele no meio do caminho.
一 Sim, mas faz um bom tempo desde que o li por completo.
一 Então tenho certeza que será uma noite agradável.
Balancei a cabeça afirmando.
一 A temporada acabou há pouco, o que nos indica que haverá algumas famílias importante por lá. Encarregarei-me de apresentá-la nos intervalos, não se preocupe em decorar nomes. 一 orientou Byron.
一 Os Exeters ou os Dudleys estarão lá?
一 Não, não esta noite. 一 respondeu-me. 一 Será apenas nós dois de conhecidos.
一 Confesso que fiquei surpresa em saber que cortejou a Marquesa 一 falei incapaz de segurar minha curiosidade.
一 Eu não a cortejei, eu a pedi em casamento. São coisas diferentes.
一 Ela não aceitou?

一 Ora, não seja pudico. Ontem me contou de um segredo muito pior do que esse.
soltou um suspiro e o imaginei coçando as têmporas de cansaço.
一 Você é muito intrometida, sabia?
一 Desculpe 一 falei inconformada. 一 Não direi mais nada sobre o assunto.
Ficamos em silêncio. Olhei para a janela tentando ignorar aquela quebra de diálogo tão repentina.
As ruas de Londres eram bastante iluminadas, diferentes da de Southwark Village ou mesmo das ruas da cidade de Berkshire Hall. Pude ver alguns grupos andando sem pressa pelas calçadas em um passeio noturno, algo que para mim era uma novidade. Em cidades pequenas os passeios a noite só eram comuns durantes bailes públicos, pois as ruas eram bastante movimentadas.
一 Pedi Ever em casamento porque estava tentando descobrir o que ela sentia por Cory, o marquês 一 disse Byron de repente. 一 Ela quase aceitou meu pedido, o que por pouco rendeu-me um nariz quebrado.
Arregalei os olhos.
一 Estive muito tentado a casar-me de verdade com a Marquesa na época, mas soube logo quando fiz o pedido que ela estava apaixonada por Cory 一 continuou explicando. 一 A última coisa que eu faria seria estar entre duas pessoas apaixonadas, então, decidi procurar uma esposa em outro lugar.
一 Uau! Que história impressionante!
Ele deu um sorriso zombeteiro.
一 Ah, , você não sabe metade da história do casal Exeter…
一 Então me conte!
Contrariando minhas expectativas, a carruagem parou de frente ao teatro. prometeu contar-me depois e eu deixei aquela assunto para lá, pois estava boquiaberta na rua repleta de diferentes casas de teatro.
一 A que iremos hoje costuma ser a casa das óperas 一 disse quando entramos. 一 Mas durante a baixa temporada há algumas exceções como hoje.
Subimos algumas escadas e Lorde Byron levou-me até uma cabine mais acima e longe do palco. Ouvi os burburios dos homens e mulheres que conversavam no local, mas eles eram um barulho distante diante ao meu deslumbramento: as luzes eram ligadas à gás, não à velas!
entregou-me um binóculo; curiosa, dei uma boa olhada nos detalhes arquitetônicos do teatro.
一 Por que ficamos em um assento tão longe do palco? 一 indaguei confusa. 一 Há várias cadeiras vazias lá embaixo, não é uma visão melhor para a peça?
一 Quanto mais longe estivermos mais pessoas nos verão nos assistindo. Os camarotes representam poder e dinheiro. 一 explicou apontando para as cabines acima de nós. 一 Quem assiste às peças na plateia são em maioria que não tem muito poder aquisitivo.
一 Mas eles têm uma visão muito mais privilegiada 一 argumentei confusa. 一 Qual é o sentido de ver uma peça de longe?
Ele deu os ombros.
一 Eu pouco consigo entender, . A aristocracia é, de modo geral, exibicionista. 一 ele deu um sorriso e murmurou. 一 E maluca.
Senti um leve estremecer de meu âmago. Ao meu lado, com a cabeça inclinada em minha direção, Lorde Byron poderia muito bem ser o homem mais belo do mundo.
As luzes se apagaram. O palco foi tomado por uma onda de cores e de pessoas desconhecidas 一 homens e mulheres com a face pintada de pó branco, vestidos com roupas da renascença falavam as linhas shakespearianas com sensibilidade, tornando texto vívido aos olhos de quem assistia. Eu estava encantada; de minha boca apenas saíam suspiros de deleite e de tristeza por saber o fim trágico dos personagens.
Quando o intervalo chegou mal pude conter-me na cadeira, completamente entusiasmada para falar do que estava vendo.
一 Vejo que está gostando, milady.
Virei-me para meu marido como se tivesse esquecido nas últimas horas que ele estava ali ao meu lado.
一 Sinto que irei chorar vergonhosamente no último ato, .
一 Enxugarei suas lágrimas como um bom cavaleiro então.
Ri alto, chamando a atenção de algumas pessoas que assistiam na mesma cabine que nós dois. Baixei a cabeça constrangida com os olhares ladinos e os cochichos que atravessaram a saleta. Percebendo minha mudança brusca de humor, convidou-me a estar ao seu lado enquanto apresentava-me aos seus conhecidos e amigos londrinos.
Então, a magia do teatro perdeu-se um pouco entre os olhares carregados de malícia e julgamentos. Mantive o tom de voz ameno e mordi a língua diante de perguntas inoportunas. Os minutos de intervalo eram eternos e cada vez que um desconhecido cumprimentava ao meu marido, um sorriso artificial desenhava-se em minha face.
Os comentários não eram de todos ofensivos, mas incomodavam mesmo assim. Reversavam entre olhares curiosos e maldosos. Havia, felizmente, pessoas de simpatia honesta, a quem engatei uma discussão sobre a peça. Foram os únicos que decorei os nomes: Capitão Lincolnshire e sua esposa Lady Alexandra Lincolnshire, Srta. Ceasar e seu irmão Sr. Ceasar, Lady Faith Rothchild, etc.
Faltavam apenas dois minutos para o próximo ato e eu estava feliz de que aquela tortura estava finalmente chegando ao fim. Byron chamou-me para voltar aos nossos assentos quando uma voz, que há mais de uma década não ouvia, chamou-me:

Virei-me para trás e senti o fôlego esvaindo de meus pulmões. O rosto jovem tinha sido substituído por traços mais maduros, no entanto, eu o reconheceria a uma milha. A aparência de anjo havia acentuado-se; era tão bonito quanto eu me recordava.
一 Richie… 一 sussurrei incapaz de acreditar que o encontraria ali. Fazia tanto tempo…
一 Lorde Stanton 一 o chamado de meu marido quebrou a bolha que formava-se ao redor de nós. Fiquei pálida de repente.
一 Lorde Stanton? Você é Lorde Stanton? 一 indaguei perplexa.
Richie colou a garganta e recompôs-se, parecendo muito com o aristocrata que era. O sobrenome dele nunca foi-me importante e não admirava que o tivesse esquecido.
一 É um prazer revê-lo, Lorde Byron 一 ele deu um sorriso gentil. 一 Digo o mesmo para você, .
一 Lady Byron. 一 corrigiu .
一 Éramos crianças brincando em Southwark Village, Byron. Acredito que posso chamá-la pelo primeiro nome.
Os dois homens encararam-se por longos segundos e eu quis cavar um buraco e colocar minha cabeça dentro. Não havia coisa mais ridícula do que uma briga por conta de nomes próprios, muito menos naquele momento.
Murmurando uma despedida, puxei meu marido até o assento com cuidado para não chamarmos muita atenção. As luzes se apagaram e pude finalmente respirar direito.
一 De onde conhece Lorde Stanton? 一 inquiriu Byron em sussurros.
Pus a mão em seu joelho estrategicamente. Senti seu corpo tremer-se e eu repliquei.
一 Depois conversamos.
E tentei, em vão, não pensar que depois de quase doze anos estava de no mesmo recinto que meu primeiro amor.


XVI. Berkshire

Algo estava errado comigo.
O que acontecia no palco não chamou a minha atenção 一 as luzes, as cores e as vozes não cativaram-me. Nem mesmo a imagem de Sra. Daigle, uma atriz de beleza ímpar a quem mantive um curto flerte, tirou os meus olhos de minha esposa. Ao invés de assistir a peça, eu assistia os efeitos que ela causava em . O sorriso escondido dominava seu rosto feliz; os olhos dela se arregalavam facilmente; às vezes, escondia a boca com os dedos e murmurava uma exclamação de deleite. Observá-la daquela maneira deixava-me deslumbrado 一 sua animação era sentida e expressada. Para mim, era a verdadeira estrela da noite.
Então veio o intervalo e a realidade mostrou-se ser tão hostil quanto me lembrava. A Alta Sociedade era exatamente a mesma: subjulgava, pisava e diminuía quem não era um dos seus. Os olhares para eram carregados de palavras duras que não foram proferidas em minha frente, no entanto, por trás dos leques das madames havia um cochichado sombrio de quem fofocava.
Eu os odiei naquele momento. Odiei, também, ser um deles. O sangue azul era uma maldição. Havia, porém, pessoas que pareciam genuinamente felizes em conhecer . Apresentei-as com um leve tom de orgulho, sobretudo depois dos momentos de tensão que ela foi obrigada a passar. Logo, eu esperava, a sociedade arrumaria uma outra novidade e esqueceria de qualquer defeito imaginário que criou para minha esposa.
Estava aliviado com o fim do intervalo. As pessoas estavam voltando aos seus respectivos lugares, causando uma leve agitação pelas cabines do teatro. Chamei a oferecendo-lhe a mão, no entanto ela hesitou ao ouvir uma voz masculina chamar-lhe pelo apelido.
Não foi difícil encontrar Lorde Stanton no meio da multidão. Ele era um homem relativamente alto e tinha uma expressão de angústia que direcionava para a minha esposa.
一 Richie… 一 sussurrou surpresa em vê-lo ali.
Ciúmes era um sentimento mesquinho, mas tem como pré-requisito algum tipo de amor forte o suficiente para incomodar. O que eu senti, na verdade, foi inveja. Inveja por aquele apreço e atenção que ofereceu para Stanton, embora ele fosse um dos últimos seres da Terra a merecer tal coisa.
一 Lorde Stanton. 一 cumprimentei-o a contra gosto.
一 Lorde Stanton? Você é Lorde Stanton? 一 indagou minha esposa, perplexa.
Cerrei os olhos para Stanton lembrando-me dos boatos que ele espalhou sobre a esposa de Dudley em troca de algumas libras de Sr. Kurtwood. Uma atitude típica de um cavalheiro corrupto, sem escrúpulos. Havia tantos outros casos e conversas que circulavam pelos salões londrinos. Ele era o pior tipo de cobra: aquela que nunca revela completamente o que é.
一 É um prazer revê-lo, Lorde Byron 一 ele deu um sorriso cínico. 一 Digo o mesmo para você, .
一 Lady Byron 一 corrigi, não me contendo.
一 Éramos crianças brincando em Southwark Village, Byron. Acredito que posso chamá-la pelo primeiro nome. 一 ele piscou para mim em zombaria e cogitei realmente dar-lhe um soco.
Os outros atos foram uma tortura. Embora tivesse perguntado sobre o passado de minha esposa e Stanton, ela disse-me que apenas depois iríamos conversar sobre isso. A fascinação pelo teatro de continuou, porém com muito menos expressão do que antes. Ao contrário do que minha esposa tinha comentado, ela não chorou no ato final.

Já era tarde quando voltamos para casa. As ruas estavam repletas de prostitutas, viciados, carruagens e cabriolés que faziam a última rota da noite. A carruagem que eu compartilhava com estava silenciosa; só escutava o seco barulho das pisadas dos cavalos.
Minha esposa passou boa parte do caminho olhando para a cidade pela janela. Seus pensamentos estavam longe e eu não parava de pensar naquele incômodo encontro com Stanton. Como um homem respeitoso, era meu dever esperar seu primeiro passo. Eu, porém, escolhi o lado mais intrometido.
一 Então… Quando você conheceu o Lorde Stanton?
virou-se para mim e soltou um pesado suspiro.
一 Não precisa ficar com ciúmes, milorde. Richie… Lorde Stanton… É meu passado.
一 Não falo por ciúmes 一 eu disse na defensiva. 一 Achei apenas estranho a forma íntima que você se referiu a ele.
Ela encarou-me por alguns segundos até sorrir como se tivesse lembrado de uma piada antiga. Eu quis entrar na cabeça dela e conhecer seus pensamentos, pois aquela expressão mostrou que minha atitude era mais patética ainda.
一 Conheci Lorde Stanton quando ele era apenas Richard Stanton. Eu tinha quinze anos. 一 pontuou. 一 Eu era jovem e ingênua, achava que títulos eram coisas facilmente superáveis. Apaixonei-me e por muito tempo encontrei-me com ele na igreja. Ele disse que ia voltar sendo um lorde e iria me pedir em casamento, mas nunca respondeu nenhuma das minhas cartas. Dois anos mais tarde descobri que ele havia me dado o endereço errado e que as cartas foram todas para um prédio público, sendo descartadas logo em seguida.
Embora tenha narrado com praticidade o passado que viveu, não pude deixar de imaginar o quanto sofreu naquela época. Stanton era o pior dos canalhas pelo simples fato de não assumir seu caráter diante da sociedade. Havia homens com fama de libertinos que não fingiam ser outra coisa; aliás, assumiram o papel com muito orgulho e entusiasmo. Lorde Stanton, porém, posava de bom moço e quem não o conhecia desejava ingenuamente tê-lo como parente. Se eu antes apenas o desprezava, passei a detestá-lo naquele momento.
一 Se sente medo de que o traía e crie um escândalo, deixo bem claro que essa atitude nunca irá me seduzir 一 afirmou diante do meu silêncio. 一 A aristocracia pode ter um caráter duvidoso, mas eu não tenho.
一 Eu não esperaria algo diferente de você, . 一 repliquei. 一 Estava apenas curioso com o seu passado. Isso é tudo.
Ela relaxou os ombros e soltou um suspiro.
一 Tudo bem. A noite foi agradável e a peça foi belíssima. Quero lembrar positivamente dessa noite.
Murmurei uma afirmação e deixei que a conversa morresse.
Ao chegarmos em casa, porém, avisei a que precisava passar no escritório antes de dormir e que não seria necessário esperar-me no quarto. Minha esposa não contra-argumentou, mas ela sabia que era apenas uma desculpa
A partir daquela noite, eu passei a dormir no quarto de hóspedes.



Quando eu saí do quarto de manhã passavam muitas coisas em minha cabeça. Aquele seria o dia em que a decisão de saída da presidência do FreshVergie seria finalmente revelada. Eu sabia que poderia passar pela crise que estava se aproximando 一 ora, passei por várias desde antes quando era apenas uma forma de vender os feijões que minha mãe plantava na horta. No entanto, eu sentia a necessidade de mudança. Não sabia para onde, porém deveria ser breve. Eu tinha, então, um encontro com um possível comprador naquela tarde.
Por outro lado, tinha uma perturbação bem pequena que não deixara-me dormir à noite. Era absurda e um tanto quanto ridícula, mas estava ali rodeando-me como um fantasma.
Eu não conseguia parar de pensar no que vira em Lorde Stanton a ponto de se apaixonar. Ora, eu havia tido uma lista modesta de mulheres e amantes em minha vida 一 eu não seria hipócrita. Ainda assim, nenhuma delas encantou-me o suficiente para considerar-me um homem apaixonado, mesmo quando tentei sentir o que os poetas descreveram com tamanha necessidade. Àquelas que deixavam um pequeno vazio no término eram suplantadas por novos flertes e uma viagem ao exterior. Sentia-me um homem destinado à solidão… Mas não o fora. Minha esposa era capaz de apaixonar-se 一 até mesmo Stanton, aquela cobra, a encantou! Será que eu seria um homem meticuloso demais para entregar-me a uma das paixões mais antigas da humanidade? Seria eu incapaz de ter sentimentos profundos por uma pessoa?
一 Milorde? Está tudo bem?
Pisquei aturdido e lembrei-me que estava na mesa. O garfo cheio de comida estava suspenso no ar e Sra. Hammel, minha governanta, encarava-me como se eu fosse um maluco.
Talvez eu o fosse, afinal.
Cocei a garganta e arrumei minha postura.
一 Está aí há muito tempo?
一 Não, senhor. 一 respondeu não escondendo o riso zombeteiro. 一 Nunca foi um homem de distrair-se fácil. O que se passa em sua cabeça?
Olhei para ela com os olhos cerrados.
一 Sei que foi amiga da minha mãe, mas ainda sou seu empregador.
Ela balançou a mão em desdém.
一 Sua mãe iria agarrar seu pé à noite se você me demitisse 一 ameaçou enquanto arrumava a gola do vestido. 一 Estou aqui para anunciar que a reforma do quarto da milady começará hoje e deve terminar já na próxima semana. Ela não exigiu muita coisa, então boa parte dele só será mobiliado.
Assenti com a cabeça.
一 Preciso que a convença adicionar um pouco de verde nas paredes. Está na moda e ela…
odeia verde 一 repliquei, lembrando da conversa que eu tivera um tempo atrás com Julia.
Sra. Hammel piscou.
一 Oh, por essa eu não esperava. Por que ela não me disse logo?
Limpei a boca com um lenço.
一 Porque ela é uma mulher muito gentil para dizer com todas as letras, senhora.
Ela apertou os lábios e olhou para os lados, balançando a cabeça em seguida para que o garçom da sala de jantar saísse.
Segurei-me para não revirar os olhos. Lá vinha um sermão…
一 Você brigou com sua esposa? 一 perguntou ela em sussurros.
一 Não, claro que não. Por que diz isso?
一 A casa toda está comentando que você dormiu no quarto de hóspedes, milorde. Você sabe o quantos servos amam falar dos patrões por trás das costas 一 alertou Sra. Hammel ainda com o tom de voz baixo. 一 Mas o que quero dizer é para segurar sua personalidade até que o bebê nasça.
一 Bebê? Que bebê? 一 indaguei com os olhos arregalados.
一 Ora, o seu bebê, Byron! 一 disse a Sra. Hammel com impaciência.
一 Mas não está grávida, do que está falando?
Ela olhou para os lados mais uma vez.
一 Como assim não há um bebê? A Sr. Dowling…
Olhei para ela duramente e sua fala morreu no meio do caminho. Sra. Hammel começou a ficar vermelha de constrangimento, a face cheia de rugas reluzindo vergonha.
一 Já disse para não dar ouvidos para fofocas, Sra. Hammel.
一 Sim, senhor. 一 replicou ela fazendo uma exagerada mensura. 一 Isso não ocorrerá de novo.
一 Espero 一 falei levantando-me da cadeira.一 Quando minha esposa acordar avise-a que fui até meu escritório no centro da cidade.
一 Ela já está acordada, milorde. Por que não o faz o senhor mesmo?
Um lapso de indignação passou por meu rosto e fiquei muito tentado a demitir a Sra. Hammel, embora fosse, de longe, uma das governantas mais competentes que eu conhecia. Ah se não fosse amiga da minha mãe...
一 Então, me diga: onde ela está agora?

estava na cozinha com Lilian e Polliana. Estavam devidamente vestidas como membros de uma casa nobre, porém andavam pelo lugar como empregadas dedicadas. Polliana era a mais engraçada: obedecia os comandos da irmã como se fosse uma pequena soldada. Foi ela, porém, que me viu primeiro.
一 Senhor Milorde, bom dia! 一 disse ela correndo em minha direção.
Abracei a criança surpreso com atitude espontânea dela. Seus bracinhos rodearam-me de súbito e logo ela voltou-se para sua tarefa.
一 Senhor Milorde pode fazer shampoo também, ? 一 indagou Polliana puxando-me em direção ao grande caldeirão que minha esposa girava. Daquele jeito ela parecia uma bruxa encantadora, uma quebra de expectativa que os mitos projetavam. Era só dar um chapéu e uma vassoura e então ela estaria fazendo feitiços para cabelo.
一 Bom dia, . 一 desejou ela.
Lilian fez uma pequena reverência e murmurou um cumprimento. Percebi, então, que os empregados olhavam-nos com desconforto, sobretudo porque aquele não era o lugar para os donos da casa.
一 Estou usando umas ameixas que estavam muito maduras. Não se preocupe. 一 justificou enquanto mexia, provavelmente achando que aquilo era o que incomodava.
Senti o cheiro bom da mistura e aproximei-me delas interessado.
一 Vocês sempre fizeram isso? É difícil?
Lilian balançou a cabeça afirmando.
一 Não é muito difícil 一 replicou . 一 Nós usamos sabão em pó, como o costume, mas o cabelo de Julia começou a cair. Foi terrível!
一 Falando nela, onde está Julia? 一 indaguei não a encontrando nos arredores.
一 Desde que o sol nasceu está junto do Sr. Liam Woodhouse na sala de música. Nem mesmo a vi no desjejum 一 comentou olhando satisfeita para o produto que fizera. 一 Acho que já está pronto, meninas. Cadê os jarros de vocês?
Lilian e Polly pegaram dois pequenos jarros feitos de argila que estavam no chão e começaram a dividir o líquido para cada uma. Peguei alguns empregados encarando aquela cena absurda e engraçada: os donos de uma casa cheia de luxo fazendo shampoo antes do meio-dia.
Tirei o relógio prata de meu bolso e vi que ainda daria 10 horas. Éramos, por certo, a casa aristocrata mais estranha de Londres.
, estava indo para meu escritório, porém lembrei-me de algo importante a ser discutido. Pode acompanhar-me?
Ela piscou aturdida.
一 Ah, tudo bem, deixe-me só limpar essa bagunça.
一 Não precisa, milady. Nós podemos fazer isso! 一 interviu uma jovem empregada e eu a agradeci por isso.
Estendi a mão em direção a ela.
一 Vamos?
Logo, após orientar às suas irmãs irem junto com algumas empregadas para se limpar, acompanhou-me para fora da cozinha. Embora tivesse a roupa relativamente molhada, andou com elegância pelos corredores da casa. As pisadas eram ainda fortes, barulhentas, porém eu as via de uma maneira diferente; eram elas marcas de alguém que tinha certeza de seus próprios passos. A caminhada até a biblioteca foi ambientada pelo barulho longínquo do piano forte que Julia tocava.
一 Você toca piano, ? 一 perguntou ao chegarmos de frente ao cômodo.
一 Não, nunca interessei-me muito por instrumentos.
一 Pois, então, por que há um aqui e outro em Berkshire Hall?
一 Minha tia, a Sra. Kline, pediu de presente uma vez, embora nunca tenha interessado-se o suficiente para aprender tocar. 一 expliquei abrindo a porta para que ela entrasse. 一 E o que temos aqui ganhei de presente de um amigo.
Ela levantou a sobrancelha.
一 É igual ao amigo dos livros em francês?
Sorri para ela, o que foi uma resposta aparentemente satisfatória, já que ela não fez mais nenhuma pergunta.
Minha esposa devia ter aprendido alguma coisa na tarde anterior, pois ela apenas se sentou quando eu apontei a poltrona. ainda sentava com pouca delicadeza, mas eu duvidava muito que suas saias molhadas ajudavam nesse quesito. Sua postura, porém, era correta como de uma nobre.
一 O que gostaria de falar-me? 一 indagou sem muita cerimônia. No seu rosto não havia o sorriso de quem divertia-se; havia, no entanto, a leveza de quem não seria abalada por nada.
一 Quero que prepare um classificado para que envie ao jornal ainda hoje. Nele, explique quais sãos os atributos que espera de uma babá para Polly e uma preceptora para Lilian 一 disse enquanto procurava papel e pena. 一 Preciso que resolva isso para mim.
一 Considere feito 一 replicou ela levantando-se. 一 Era apenas isso?
Hesitei, um monte de coisa perturbando minha mente. Deveria eu pedir desculpas por não ter voltado ao quarto à noite? Falar dos comentários horríveis que ouvi no teatro? Ao invés disso, eu disse:
一 Quero provar um pouco do seu shampoo.
Confusão traçou o rosto de . Ela olhava-me como se uma grande verruga tivesse crescido em meu nariz em segundos.
一 Para quê?!
一 Ora, não seja mesquinha. Eu vi o tanto de shampoo que sobrou para você.
一 Eu tenho que dividir com Julia ainda! 一 protestou ela. 一 Além do mais, você já viu a extensão do meu cabelo? Aquilo não durará duas semanas.
Arregalei os olhos.
一 Duas semanas? Graças a Deus então que não tomará banhos de shampoo fora de casa. Imagino quanto de dinheiro iríamos gastar!
Ela pôs as duas mãos na cintura como uma matrona prestes a dar uma bronca em uma criança.
一 Você é ridículo, .
Mas ela ria. Os ombros balançavam levemente; a mão escondia o sorriso aberto. Trazer assuntos impertinentes não era boa intenção, então. Era muito melhor manter o bom humor de minha esposa por mais tempo.
一 Estarei indo em uma reunião essa tarde e provavelmente não chegarei a tempo para o chá da tarde 一 avisei-a.
一 Tudo bem, estarei com Kelly e Ever de qualquer maneira.
Dois gritos enraivecidos cruzaram as grossas paredes da biblioteca, distraindo-nos na conversa. Trocamos um olhar estratégico quando o barulho enroscou-se com o de notas erradas de piano. Não demorou muito para que eu e fossemos em passos apressados até a sala de música.
As vozes eram de Julia e de Liam. Nunca vi Woodhouse de maneira tão descontrolada 一 ele era, no geral, um exemplo de paciência. Ao aparecermos na porta, Julia passou como um furacão, incapaz de falar qualquer coisa; Liam, porém, estava perto do piano e tinha o rosto vermelho de estresse.
Peguei meu relógio no bolso calculando quanto tempo eu teria de atrasar-me para resolver aquele problema. Antes de dizer alguma coisa, porém, tocou meu braço.
一 Eu resolvo isso para você. Vá, você tem um compromisso.
一 Está cedo, eu posso…
Ela levantou a sobrancelha e dei a guerra por vencida.
Enquanto ia cumprir minha agenda para o dia respirei aliviado por ter uma companheira 一 aquela que eu havia desejado há um tempo 一 ajudando-me a resolver conflito pela primeira vez em meses.


XVII.

Polliana balançava as perninhas na minha mais nova cama enquanto eu lia para ela um livro comprado recentemente por Lorde Byron. Era cheio de ilustrações de sapos, o novo animal favorito dela, e pequenos poemas-narrativas. Quem observava sua calmaria duvidaria que minutos atrás ela havia derramado caramelo no cabelo da Sra. Daniels, porque achou que a cor combinava com ela. Dei-lhe o resto dia de folga e Polly estava proibida de brincar lá fora por uma semana, o castigo que no momento pouco teve efeito sobre a menina.
Tinha se passado apenas duas semanas em Londres, mas eu sentia que tinha sido duas décadas. A rotina cansava-me, decorar as regras sociais também. Havia, também, boatos maldosos que apareciam no jornal que Byron tentava esconder de mim. Para boa parte dos tablóides londrinos, eu era um tipo de bruxa que seduziu um homem destinado a cair em tentação. Patético pensar que alguém como poderia ser controlado, mas a narrativa era a aliada dos jornais.
A última semana também havia sido marcada com o fim da reforma de meu quarto. poderia finalmente sair do quarto de hóspedes e voltar para seu antigo aposento. Poderia, então, ter mais privacidade.
Minhas irmãs estavam acomodando-se bem. Quando não apontava, Polly estava bastante feliz em estar naquela cidade grande que sempre está nublada; Lilian, por outro lado, não gostava só clima da cidade, mas estava muito feliz em usar a biblioteca de Byron. E Julia, bem… Ela...
? 一 a voz da minha irmã mais velha atravessou a porta antes que ela a abrisse.
一 Pode entrar, querida.
Com os ombros abatidos e o olhar murcho, July atravessou meu quarto em passos errantes até deitar-se com tudo na cama. Polly reclamou porque parei de ler e arrancou o livro de minhas mãos.
一 Eu odeio Liam Woodhouse.
Contive um sorriso. Aquela frase era repetida tantas vezes que virou uma piada entre mim e meu marido. Aparentemente ele era um professor terrível e Julia nunca soube lidar bem com pessoas assim. Nem gostava de imaginar como ela sobrevivera os anos da escola para garotas.
一 O que ele fez dessa vez, Lily?
一 Nasceu.
Puxei de volta o livro de Polliana e mandei ela pedir educadamente “Não pode agir de forma mal educada, querida”.
一 Está me escutando ao menos? 一 reclamou July. 一 Ele está lá embaixo ensinando uma nota para Lily, acredita? E ele disse que ela é boa, veja só! Ela só sabe tocar dó e ele a elogia!
Soltei um suspiro lembrando da primeira manhã turbulenta dos dois. Liam Woodhouse abrira a boca para dizer que Julia era uma péssima pianista. Claro que eu discordava dele, mas o homem era um profissional, como eu iria argumentar?
一 Talvez ele espera mais de você do que de Lilian.
一 Falácia! Ele é um pulha, isso sim!
Polly olhou para mim curiosa.
一 O que é um pulha?
一 Não repita essa palavra, Polly 一 alertou Julia. 一 É uma palavra muito feia!
一 Então, por que você disse?
Levantei a sobrancelha esperando minha irmã mais velha dar uma resposta satisfatória. Ela apenas deu de ombros.
一 Porque quis, oras. Você não deve dizer de qualquer jeito.
Ouvimos mais uma batida na porta, mas dessa vez era Lucy indicando que em breve seria a hora do chá e eu precisava me trocar. Respondi sem entusiasmo, sobretudo porque eram os momentos mais torturantes do dia.
Ever, a Marquesa de Exeter, a quem eu admirava e gostava muitíssimo, teve a brilhante ideia de trazer diferentes amigas para apresentar a mim nesse horário, já que a temporada ainda não havia iniciado e eu estava de meio-luto. No entanto, eu não gostava de conhecer novas pessoas, sobretudo mulheres aristocratas que estavam apenas à procura de uma fofoca nova. A pior parte de ser esposa do Lorde Byron era fingir que eu me importava com elas. Porém, não seria injusta com todas. Havia no mar de sangue azul hostil mulheres que tinham conversas tão interessantes quanto a Sra. Bridgestone 一 tirando, é claro, a parte em que ela falava de curiosidades de medicina que eu desconhecia.
Arrumei-me como de costume e caminhei até a sala de visitas como se eu estivesse a ponto de ser assassinada, quando avistei meu marido.
Berkshire, Lorde Byron. Meu marido.
Era sempre uma grata surpresa encontrá-lo nos últimos dias. estava decidido a deixar a crescer a barba, o que surpreendentemente deixava-o atraente.
Respirei fundo. As feições de Lorde Byron tornavam-se cada vez mais afáveis para mim; aquelas pequenas conversas que trocávamos eram pequenos alívios de dias agitados e problemáticos. Ainda assim, sentia-o afastar-se lentamente quando decidiu dormir no quarto de hóspedes. Estar sozinha em seus aposentos era de uma intromissão que eu não gostava e eu estava feliz de finalmente ter meu próprio quarto.
一 Já é a hora do chá? 一 perguntou ele buscando o relógio em seu bolso.
一 Não, temos vinte minutos ainda 一 repliquei tentando não sentir-me afetada com o perfume que ele usava.
ofereceu-me o braço e eu aceitei de bom grado. Havia algo familiar em andar ao seu lado pelo corredor, apoiando-me nele enquanto trilhava o caminho até a sala de visitas.
Desde a noite no teatro não tivemos qualquer tipo de confronto ou discussão estranha. Lorde Stanton tinha tornado-se um assunto acabado e enterrado entre nós dois; eu preferia assim. Embora tivesse abalado-me com sua repentina visão, Richie era um passado distante e ingênuo que eu não tinha nenhum objetivo de recuperar.
一 Eu soube da pequena confusão que Polliana criou hoje 一 comentou . 一 Ela é bastante arteira, não é?
Dei um pequeno sorriso. Ela era sim, mas não iria falar mal da minha irmã quando os fatos a defendiam.
Desci as escadas devagar com medo de pisar nas minhas próprias saias. Reconhecendo minha dificuldade, meu marido segurava-me com firmeza, causando uma miríade de emoções em mim. Momentos como aquele, quando Byron ficava muito perto, o meu corpo formigava e aproveitava os pequenos toques dele como um viciado em ópio.
一 Não realmente 一 repliquei. 一 Polly era uma criança agitada no nível normal até a morte do papai. 一 lambi os lábios lembrando do fatídico dia. 一 Foi um dia antes do aniversário dela e não pudemos comemorar nada. Além de não ser socialmente aceito, estávamos completamente perdidas.
Byron assentiu. Sua mão quente como um agasalho no inverno segurou minha cintura e eu disfarcei o tremor que correu por meu corpo. Os toques singelos e automáticos eram tão perigosos quantos os cheios de intenção; eles despertavam meu desejo para uma direção que eu tentava evitar o tempo todo.
Andamos mais um pouco até chegarmos de frente ao salão de visitas.
一 Como era Julia antes disso? E Lilian?
Abri a porta devagar.
一 Julia não parecia estar tão dedicada ao piano. Ela tocava órgão na igreja às vezes, mas nunca nem mesmo pediu algum instrumento de presente ao papai 一 respondi. July nunca pareceu uma mulher cheia de aspirações antes. Talvez estar tão perto da morte chamou-a para um recomeço pela música. 一 Lily sempre foi apaixonada por livros, mas ela era muito mais falante antigamente. Lembro que ela participava de um clube da livros com a Sra. Bridgestone e mais duas senhoras da cidade vizinha… Então, tornou-se reclusiva e lê para evitar pessoas, não para compartilhar histórias.
Fui até o sofá do meio e sentei-me do jeito que Ever orientou-me. Em breve ela chegaria, também. Duas vezes por semana nos encontrávamos ali, os outros dias alternavam entre a casa de Dudley e de Exeter.
, naturalmente, sentou-se ao meu lado. O leve bater do seu joelho em minhas saias era um lembrete contínuo de que ele estava ali.
一 E você? O que mudou?
Virei para ele meio aturdida. Eu não sentia qualquer mudança real em meu comportamento. Não havia qualquer alteração na minha personalidade ou como eu encarava as coisas. Será que eu me tornara mais rígida com Polliana? Mais prática em relação à July? Mais arredia com Lillian?
Havia, porém, uma coisa que eu não tinha reparado. Antes, quando éramos cinco, a minha família era algo que eu amava de longe; era a irmã afastada, que as pessoas demoravam para associar como uma ; era “a irmã indiana” ou a segunda . Nunca duvidei do carinho que meu pai e minhas irmãs sentiam por mim, entretanto não tinha total consciência de que eu também pertencia àquela família. Quando a ameaça de dividir-nos foi posta, percebi que não poderia sobreviver longe daquelas mulheres que eu compartilhava o sangue.
一 E então? Qual foi a sua mudança? 一 indagou mais uma vez meu marido.
Desviei o olhar e fingi arrumar seu colarinho perfeito. Ali, tão perto dele, eu pude ver os olhos azuis pálidos que ele possuía com mais nitidez.
一 Acho que hoje protejo mais minha família e a valorizo de verdade. Essa é a minha mudança.
Ensaiei um sorriso que não concretizou-se em meu rosto. Desfez-de quando percebi o pequeno inclinar para frente de Byron.
, você...
O barulho do relógio avisou que era cinco horas em ponto; ele deu nossa conversa como encerrada. afastou-se e sorriu, mas seus olhos denunciavam que sua mente não estava silenciosa.
Pus as mãos no colo e tentei regularizar minha respiração. O fato do que quase acontecera foi me um baque: eu quase beijei a . Mais do que isso: eu queria beijá-lo.
Sr. Harris, mordomo da casa, apareceu antes que chegássemos a cinco horas e um minuto.
一 Milordes, o Conde e a Condessa de Northampton estão à espera.
Eu e meu marido nos levantamos de supetão, surpresos com a visita. Eu ainda não havia sido apresentada ao casal, no entanto conhecia a sua fama. Os dois eram conhecidos por grandes doações à Universidade de Cambridge e por serem refinados. Sabiam tudo sobre arte, desde música até literatura. Diziam por aí que o Conde de Northans poderia ser muito bem um professor honorário de uma boa universidade. Ele também era irmão mais velho da Sra. Bridgestone.
一 Deixei-me ver o cartão 一 pediu Byron parecendo um tanto confuso. Sr. Harris entregou de bom grado.
一 Acompanhando-os estar a Sra. Bridgestone 一 continuou o mordomo.
Arregalei os olhos e com pressa pedi para que deixassem-os entrar. No dia anterior havia redigido uma carta para Sra. Bridgestone ansiando sua visita; ela, porém, viera sem avisar querendo fazer-me uma surpresa.
一 Minha querida! 一 exclamou ela ao me ver, correndo até meus braços com um sorriso de orelha a orelha.
Abracei seu corpo gorducho e baixinho sentindo o cheiro longínquo de alecrim. Eu recebia raros abraços na vida e os dela eram os melhores. Segurando meu rosto, a Sra. Bridgestone fitou-me com os olhos verdes cheios de júbilo.
一 Está mais gordinha, mais elegante! Nunca pensei que fosse vê-la mais bonita do que era! 一 encheu-me de elogios. 一 O casamento está fazendo muito bem a você, querida.
一 Se a senhora diz, então, concordarei. 一 eu disse com um sorriso rasgando a face. 一 Onde está o Sr. Bridgestone? E os meninos?
一 Ah, ele levou-os para visitar o avô. Passaram duas semanas por lá.
一 Quer que eu chame as meninas? Elas adorariam vê-la!
Alguém coçou a garganta chamando a atenção para si. Sentados no sofá, aparentemente recepcionados por meu marido, o Conde e a Condessa de Northampton fitavam-nos com olhares curiosos.
一 Incrível que você nunca pode evitar ser uma mal educada, não é, Acsah? 一 comentou o Conde de Northans, os olhos azuis repletos de malícia.
O Conde de Northans era um homem alto e esbelto. Tinha a elegância de uma garça e a beleza grega do que eu imaginava ser os deuses. Era um homem de mais de quarenta anos, mas exalava uma juventude que disfarçava os cabelos brancos no mar loiro de sua cabeça. Devia ser um homem estonteante quando mais novo.
Fiz uma pequena reverência.
一 Desculpe-me pela falta de modos, milorde. Eu…
一 Não posso cumprimentar uma amiga querida? Tenho que ficar com frescuras aristocratas para cima e para baixo? 一 replicou minha amiga, o rosto repleto de desdém.
一 Pare de implicar com sua irmã, Aaron 一 disse finalmente a condessa.
A mulher era tão elegante quanto marido, porém tinha uma beleza muito mais austera. Tinha grandes olhos marrons com os cílios espessos. Parecia ser da minha idade; porém, eu apostava que pintava o cabelo para disfarçar as cãs.
, 一 interviu Byron 一 deixe-me apresentá-los a você.
Como fiz nas últimas semanas, observei meu marido agir como um cavaleiro e cumprimentei as visitas formalmente. Sra. Bridgestone deixou-se ser apresentada ao meu marido como mandava a etiqueta 一 seus olhos, porém, estavam cheios de temor e perguntas.
O final da tarde foi muito mais agradável do que eu esperava. Quando Ever e Kelly chegaram, acompanhadas de seus respectivos maridos, chamei Liam Woodhouse, Julia e Lilian para beber um pouco de chá conosco. O Conde de Northans era, sim, um homem muito inteligente e orgulhoso, mas sua arrogância era atrativa. As pequenas farpas que trocava com a Sra. Bridgestone, que nunca segurava a língua, eram um véu para o amor que compartilhavam. Sempre admirei a relação que ela tinha com os irmãos, sobretudo porque não eram ligados por sangue. Sra. Bridgestone foi adotada quase no final da infância pela antiga Condessa de Northampton, assim como a irmã mais nova, que nascera na Itália. Mas, bem, isso era outra história.
Nunca vi a casa tão deliciosamente barulhenta. As conversas eram naturais e dignas de uma tarde com amigos. Com ajuda da Sra. Hammel, senti-me finalmente a dona da casa, capaz de conduzir uma pequena festa. Byron estava muito satisfeito em ter um dedo de prosa com os seus amigos e o Conde de Northans. Kelly era a que menos falava, porém continha a expressão de quem se divertia.
Convidei a todos para o jantar, mas apenas Sra. Bridgestone esteve disposta a ficar mais um pouco. Ever teceu-me elogios de como eu conduzir aquele pequeno imprevisto e senti-me muito satisfeita; a Condessa de Northampton avisou que enviaria um convite para um jantar em família e agradeci de antemão. Uma pequena vitória no mar de conflitos londrinos, dando-me uma pequena esperança de que eu poderia ser uma boa esposa de um nobre.
Conforme eles iam embora e eu me despedia, a casa ia ficando mais vazia e silenciosa. Eu, por outro lado, sentia a gostosa sensação de cansaço que o fim de um dia agitado dava aos anfitriões. Duvidava muito que iria entreter Sra. Bridgestone por toda a noite; provavelmente iria cair de sono em algum momento.
Então, percebi que durante a despedida Byron não estava comigo. Em passos lentos voltei a sala de visitas, apenas para encontrá-lo sentado no sofá com o rosto pálido.
, está tudo bem?
Ele apertou os lábios secos e negou com a cabeça.
一 Estou tonto 一 murmurou com muito esforço.
一 Pode ir para cama sozinho? 一 perguntei preocupada. 一 Vou chamar o Sr. Harris. 一 voltei para o corredor correndo. 一 Sr. Harris! Sr. Harris! Clement! Clement! Preciso da ajuda de vocês!
Os dois homens apareceram rapidamente e deixou-se ser levado sem reclamar. Meu coração batia em pressa, angustiado com a situação. Clement ajudou-o a tirar as botas, mas seus pés estavam normais, sem qualquer sinal de inchaço ou de vermelhidão.
一 Quer que eu chame um médico, milorde? 一 indagou Sr. Harris preocupado.
一 Não será necessário. 一 replicou enxugando a testa molhada de suor. 一 Só preciso de um bom descanso e água.
Troquei olhares com o mordomo, claramente demonstrando que o médico seria chamado.
Pedi para um dos empregados trazer água e fiquei mais um tempo com meu esposo. Ele dizia que estava vendo tudo girando e que a única dor que sentia era no estômago.
一 Sente algum enjoo?
Como resposta, meu marido inclinou-se para o lado oposto e vomitou tudo que tinha na barriga. Ver um homem que até horas atrás estava completamente bem torna-se debilitado deixou-me muito assustada. Sem mais delongas, fui até a porta do quarto de Byron e gritei:
一 Alguém chama um médico! Rápido!


XVIII. Berkshire

PARTE 1
Eu estava péssimo. A tontura e o enjoo fizeram-me de um homem saudável para um inválido, incapaz de andar sozinho. Eu já havia passado por coisas piores 一 as crises de gota eram um desespero inigualável 一, no entanto isso não significava que era menos terrível ficar doente de repente. E ouvir os passos de minha esposa e da Sra. Bridgestone pelo quarto não era realmente revigorador.
一 Acha que deve ser algo relacionado a gota? 一 perguntou .
一 Ele não sente dor nas articulações, então descartei essa ideia 一 respondeu sua amiga.
Os enormes olhos verdes da Sra. Bridgestone olhavam-me com a precisão de um cientista. Para mim eles giravam e giravam junto com o quarto.
一 Com todo respeito, 一 consegui falar 一 mas a senhora, por acaso, é médica, Sra. Bridgestone?
A minha provocação não a abalou.
一 Comeu algo diferente do que o resto da casa, milorde? Todos parecem bem, menos você.
Queria expulsá-la do meu quarto, mas era provável que ficasse chateada. Desde que gritou para que alguém trouxesse um médico, minha esposa confiou os meus cuidados nas mãos da amiga de longa data.
一 Não 一 murmurei.
一 Você não comeu essa tarde antes do chá, não foi? 一 indagou minha esposa.
一 Não 一 disse eu mais uma vez.
一 Acsah, ele não toma chá com açúcar e não o vi pegar nenhum quitute. Será que é isso?
Franzi o cenho, meio admirado e assustado por ter uma esposa tão atenta aos meus movimentos. Não percebi que seus olhos estivessem seguindo-me com tanta meticulosidade. Logo, passou uma toalha em meu rosto, enxugando o suor frio.
一 Então, receio que comer alguma coisa bem açucarada ajudará…一 disse Sra. Bridgestone, sendo interrompida pelo bater da porta.
一 Milady, é o médico 一 disse uma voz masculina abafada pela madeira.
一 Graças a Deus 一 murmurei aliviado.
Dr. Edgar Jenson era um homem magricela e ruivo; tinha uma aparência muito jovem, embora estivesse na casa dos quarenta. A visão de um profissional de verdade foi um leve sopro para minha agonia.
一 Boa noite, doutor 一 disse as duas mulheres em uníssono. Em resposta, o homem fez uma pequena reverência.
一 O que aconteceu?
explicou o episódio e eu decidi-me manter-me calado, pois outras ondas de vômito voltavam. Não havia mais nada no estômago e tinha medo de acabar pondo para fora todas as minhas tripas.
一 Deve ser falta de açúcar no sangue, doutor. 一 interviu Sra. Bridgestone. 一 Meu marido tem isso de vez em quando, porque é diabético e acha que deve cortar todo açúcar existente na Terra.
一 Vou examiná-lo de qualquer maneira 一 disse Sr. Edgar. 一 Gostaria de ficar à sós com o paciente, se me permitem, senhoras.
ficou contrariada, mas Sra. Bridgestone arrastou-a para o lado de fora. Foi uma alívio quando percebi que elas já não estavam no meu quarto.
Porém, ouvi mais uma vez as mesmas perguntas pela boca do médico. Bebi um pouco de água, como ele orientou, e a tontura diminuiu um pouco. A dedução também não foi muito novidade; assim como a Sra. Bridgestone, o médico entendeu que eu precisava alimentar me direito.
一 Você não é um jovenzinho, milorde 一 alertou-me. 一 Precisa alimentar-se bem. Sei que sua mãe tinha diabetes, mas cortar açúcar desse jeito e ingerir nada só piorará sua situação. Lembra do que conversamos na última vez que teve crise de gota?
Segurei-me para não revirar os olhos como uma criança mimada. Minha dieta estava sendo rigorosa há meses, receava não saber mais qual era o gosto de carne vermelha mais! Do que adiantava ser rico se tinha tantas restrições alimentares? Para que servia todo aquele dinheiro se eu não podia comer o que eu desejava na hora que desejava?
Tomei sem vontade um copo de suco e um pão recém-saído do forno. A ânsia de vômito e a tontura passaram parcialmente, mas ainda me sentia muito fraco. Embora tenham olhado-me de esguelha, pedi para os empregados prepararem um banho para mim e limparem a bagunça que fiz.
Já tinha algumas horas que anoitecera quando entrou junto com alguns servos trazendo uma bandeja de comida. Seu cuidado deixou-me constrangido da forma em que estava agindo mais cedo; ela e Sra. Bridgestone estavam apenas querendo ajudar 一 em contrapartida, eu agi como um babaca.
一 Onde está a Sra. Bridgestone? 一 indaguei arrumando-me na cama.
一 Já foi há alguns minutos. Desejou melhoras e disse que orará por você essa noite 一 explicou enquanto sentava em um dos cantos da cama.
Observei os empregados irem embora em silêncio. Prestativa, arrumou os pratos para que estivessem bem alinhados na bandeja farta de comida. Não disse nada, deixando-me apreensivo.
一 Desculpe-me por estragar o jantar 一 eu disse. 一 Sei que queria ter uma conversa mais à vontade com sua amiga.
一 Sabe o que eu queria de verdade, ?
Pisquei aturdido com a resposta brusca, mas não respondi-lhe nada.
一 Queria que não me desse um susto como esse outra vez 一 disse levantando-se.
一 Desculpe 一 eu disse mais uma vez.
一 E a Sra. Bridgestone só estava querendo ajudar, tudo bem? Ela é uma mulher inteligentíssima e sabe mais da medicina que muitos médicos por aí. Talvez até mais do que esse doutor aí.
一 Desculpe 一 repeti.
Ela soltou um suspiro. Os ombros tensos relaxaram e o rosto cansado pareceu mais abatido.
一 Sou muito jovem para ser viúva.
Dei um sorriso.
一 Já comeu, ? Quer dividir essa fartura comigo?
Minha esposa apertou os lábios de uma forma encantadora. Seus grandes olhos escuros me encararam com desconfiança.
一 Você tem que comer a maior parte.
一 Feito.
Então, tirou os sapatos, exibindo as meias escuras, antes de se enfiar no lençol, agora limpo, ao meu lado. Não pude conter o sorriso observando-a se remexer na cama e sentar-se. Ela olhou para mim e apontou para a bandeja.
一 Coma.
Obedeci achando muito engraçado sua maneira de agir. Em algum momento ela se juntou a mim no jantar, mas estava mais interessada em conferir se eu tinha ingerido toda a sopa do que realmente comer.
一 Não aguento mais comer mato 一 comentei quando vi que havia um pequeno pedaço de bife de porco no meio do mar de legumes. 一 Me sinto um cavalo.
Ela riu; aquela risada que enche o peito de quem está perto de uma sensação quente e reconfortante. Eu quis guardar o som em mim. Desejei experimentar seu beijo e fazê-la sorrir através de meu toque; desejei a .
Voltei a comer em silêncio, incapaz de dar qualquer passo após constatar mais aquilo. Nos quase cinco meses casados, ainda não sabia como ela reagiria se eu tentasse tocá-la com outras intenções. Ela inquietava-me de forma que eu nunca sentira antes, porque havia algo além de físico. Eu sabia demais sobre e ela sobre mim para que um eventual toque não fosse como cargas explosivas indo em encontro.
Além do mais, sentia-me com as forças esgotadas. Se eu a beijasse naquele momento era bem provável que tivesse um ataque cardíaco antes do fim do primeiro toque dos lábios.
Quando a comida acabou, minha esposa não hesitou em tirar a bandeja de prata de cima da cama. Com cuidado, deu leve batidas no lençol para retirar os farelos da comida.
一 Estou assustada que até agora não ouvimos gritos de briga nenhum da sala de jantar 一 comentou , alheia aos meus pensamentos. 一 Liam e Julia devem ter dado trégua finalmente.
一 Não acha que no fundo eles se gostam? 一 sugeri. 一 Digo, nunca vi duas pessoas implicarem-se tanto por coisas tão banais.
一 Eu até concordaria, mas conheço muito bem Julia. Ela é incapaz de dissimular os próprios sentimentos 一 respondeu ela. 一 Liam pode até está tentando conquistá-la, mas é de uma maneira bem burra.
Levantei a sobrancelha.
一 Eu duvido muito.
一 Vamos ver, então 一 disse ela em tom de desafio.
olhou para janela e deu dois passos em direção a ela.
一 A lua está linda hoje.
Seu rosto brilhou-se mais uma vez com um sorriso.
一 Está sim. 一 repliquei.
Ela virou-se para mim, mas não disse nada. Os lábios ficaram entre abertos como de quem estava pronto para falar alguma coisa, mas preferiu resguardar-se. À luz de velas, minha esposa parecia envolvida por um antro-mágico e hipnotizador; o desenho do rosto era de finas linhas de um artista detalhista e quis saber pintar apenas para eternizar a sua beleza.
… 一 sussurrou.
一 Sim?
Ela piscou repetidas vezes e coçou a garganta.
一 Está tarde e você teve um dia bem agitado. Tem que descansar.
一 Sim, milady.
Ela sorriu mais uma vez.
一 Pensei que não iríamos nos tratar dessa maneira quando sozinhos.
一 Gosta quando a chama pelo primeiro nome?
Seus olhos encararam o chão em timidez.
一 Acostumei-me com o seu sotaque. 一 disse ela tentando imitar-me. 一 Não é londrino, mas também não é do interior. É quase como neutro. Não sei ao certo. Isso existe?
Dei os ombros, incapaz de respondê-la.
一 Bem, irei agora 一 concluiu indo em direção a porta de ligação que separava nossos quartos. 一 Boa noite.
Murmurei a mesma coisa, embora parecesse errado deixá-la ir. Ensaiei um pedido para que ela ficasse, mas a frase soou ridícula na minha cabeça. Por que eu, quem sempre desejava ficar sozinho em meu quarto, pediria a presença dela?
Antes disso, porém, a porta foi fechada.

PARTE 2

Clement acordou-me no horário rotineiro de trabalho, mas pedi que enviasse recado para George que me encontra-se mais tarde na minha casa. Embora não tivesse feito o pedido formal, podia imaginar que minha esposa iria ficar muito mais confortável em saber que eu ficaria em casa no dia seguinte ao meu fatídico mal-estar.
Estava muito mais disposto quando levantei-me, quase esquecido do meu pequeno vexame do dia anterior. Estava indo para a cozinha como de costume quando encontrei Liam Woodhouse carregando uma partitura pelos corredores.
一 Woodhouse.
Ele fez uma leve reverência.
一 Milorde.
一 Como vãos as coisas com a minha cunhada?
Liam deu uma leve olhada para o lado, surpreso.
一 Ah… Tudo está nos conformes. Digo, ela ainda tem muito o que aprender…
一 Veja, estou pensando em dar um baile de debute para ela assim que o período de luto finalizar. Acha que ela estará pronta até lá?
Um careta de desagrado cruzou seu rosto, mas ele respondeu:
一 Acho que sim.
一 Eu preferia uma certeza, Woodhouse 一 provoquei. 一 Sabe, estamos à procura de um marido para Julia e um talento como o dela é um diferencial.
Ele ficou muito rígido.
一 Não duvide da minha capacidade, senhor. Se depender de mim, ela será a melhor musicista britânica de todos os tempos.
Sorri e dei leve tapinhas em seu ombro.
一 É isso que quero escutar.
Na sala de jantar, fui recebido com um sorriso primoroso de minha esposa; sentada de costas para a janela, o brilho do sol por trás das nuvens parecia pertencer a ela. Na mesa também estavam Julia e Lilian finalizando o desjejum.
一 Bom dia, milorde. 一 disseram em uníssono.
一 Bom dia, senhoritas. 一 sentei-me ao lado da minha esposa. 一 , acordou tarde hoje?
一 Demorei para pregar os olhos ontem… Está se sentindo melhor? 一 replicou com o cenho levemente franzido.
一 Estou como um homem novo!
一 Irá sair hoje?
Neguei com a cabeça e ela soltou um suspiro discreto.
一 Dudley irá vir aqui para resolvermos nossas pendências.
一 Ele trará a esposa?
Peguei o jornal que estava ao lado do prato e abri-lo.
一 Acho que sim.
Nossa conversa era de um casal antigo e de quem conhecia-se há muito tempo. Não demorou muito para as meninas saírem da sala e ficarmos sozinhos na mesa. Enquanto eu folheava as notícias, escutava o pequeno mastigar de minha esposa.
一 A geléia nova é deliciosa! Já experimentou?
Levantei o olhar até ela e encontrei-a segurando um pedaço de pão com geléia em minha direção.
一 Agora?
一 Claro 一 ela se inclinou quase enfiando a comida de vez em minha boca. 一 Experimenta, vai!
一 É de quê? 一 perguntei curioso.
一 Amora e ameixa. Nunca vi essa mistura!
ainda segurava a torrada perto da minha boca como se eu fosse uma criança incapaz de fazê-lo por mim mesmo. Ainda assim, dei uma leve mordida sentindo o bom gosto das duas frutas combinadas com o salgado do pão.
一 Pode comer o resto.
A cena foi tornando-se mais bizarra quando continuei comendo a torrada que oferecia em suas mãos até finalizá-la. Com os dedos sujos de geléia, minha esposa elevou-os até os próprios lábios, limpando-os devagar com a língua.
Levantei-me rapidamente, sentindo-me o mais canalha dos homens.
一 O que foi? 一 perguntou ela surpresa.
一 Preciso ir ao escritório. É algo urgente.
一 Mas você ainda não tomou o desjejum! Uma torrada não é suficiente!
一 Mande alguém levar mais tarde, por favor. 一 pedi saindo às pressas para fora do cômodo.

Não demorou muito para que eu começasse a andar em círculos pelo escritório. De todos os problemas reais que eu tinha, nenhum deles tomava a minha cabeça tanto quanto o que acontecia comigo e minha esposa. Para ser honesto, nada de mais estava acontecendo conosco 一 o diferencial era o crescia dentro de mim, distorcendo e criando novas leituras sobre o nosso relacionamento.
Passei a mão no rosto irritado. entrou em minha vida e invadiu-a; pensei que o casamento seria como mais um sócio que lembraria eventualmente de sua presença. Porém, escolhi a mulher errada para o papel. Minha esposa nunca passaria despercebida ou mesmo deixaria-se esconder. Mesmo se ela tentasse, meus olhos estariam à procura dela.
Para ir até meu escritório era necessário entrar na biblioteca. Ainda havia diversas prateleiras vazias, esperando o momento em que as preencheria de novos livros. Saí de lá ao sentir a fome apertar, encontrando Lilian pendurada na estante tentando buscar um livro no alto da prateleira.
一 Quer ajuda?
Assustada com minha chegada repentina, a menina pisou em falso, mas conseguiu agarrar-se em outra plataforma de madeira antes de estampar-se no chão. Era uma coisa boa, pois eu não chegaria a tempo de evitar a eventual queda.
一 Desculpe, não percebi que estava tão distraída. 一 falei ao me aproximar.
Estendi a mão para que ela segurasse e logo a pus no chão em segurança.
一 Obrigada, milorde.
Lilian era mais baixa que minha esposa, nunca olhava-me nos olhos e sempre tinha a cabeça inclinada para baixo. De todas as irmãs, era ela a mais difícil de agradar 一 ou mesmo de entender. Voltei-me para a estante que Lilian tentava alcançar, tentando adivinhar que livro ela procurava.
一 É o da Srta. Austen. 一 disse ela deduzindo o que eu estava pensando. 一 Orgulho e Preconceito.
Fiz uma careta lembrando-me de que havia lido-o anos atrás, mas não tinha me agradado tanto quanto as críticas dos jornais.
一 Já leu, milorde? Vale a pena?
Balancei a cabeça positivamente.
一 Tem uns momento enfadonhos, mas acho que uma moça como você irá gostar 一 provoquei-a. 一 É romance. Você gosta de romance, não é?
一 Gosto, mas Srta. Jane Austen é muito mais do que isso.
Dei um sorriso.
一 A melhor parte são as críticas dela. Que livros já leu da Jane Austen?
Ele batucou os dedos nos lábios pensando.
一 Acho que o nome era Persuasivo. Algo assim.
一 Persuasão 一 corrigi. 一 Também li esse. O começo é um martírio, mas depois a história engrena. A Srta. Austen, infelizmente, tinha problemas com capítulos longos falando de personagens que ninguém dá a mínima.
Ela apertou os lábios e eu soube que queria dizer mais alguma coisa; era igual a nesse quesito: escondia a verdadeira opinião para não dar a língua nos dentes.
一 Discorda de mim?
一 Os capítulos longos têm seus motivos, milorde.
Olhei para a porta e vi um dos empregados com uma bandeja com torradas e geleia. Soltei um riso amargo.
一 Leia o livro e conversaremos sobre ele, sim? 一 entreguei a ela em bom grado, em seguida indo até a comida que foi trazida para mim.
Lilian deu um honesto sorriso e balançou a cabeça com animação, saindo da biblioteca às pressas, pois fugira da preceptora para pegar o livro. Talvez aquele fosse o início de uma boa amizade.



Conheci George Rolland, Conde de Dudley, quando era um jovem recém descoberto pela Alta roda, em uma das primeiras vezes que fui visitar os White’s acompanhado do saudoso Sr. Dowling. Não lembro exatamente o que conversamos, mas eu tive um pequeno atrito com um Lorde Sei-lá-o-quê que resultou em uma briga violenta. Eu era jovem, impulsivo e ruim de soco; por pouco não perdi um dente naquele dia. George foi o único capaz de fazer o meu oponente parar e foi quem convenceu o administrador do White’s não me colocar na lista negra do clube. Lá também conheci ao Marquês de Exeter e construímos uma sólida amizade.
Dudley era um exímio diplomático e político. Se eu não era um completo imbecil na câmara dos notáveis era por conta dele e de seus comentários precisos. Uma pena que fora isolado no parlamento por causa da rixa com Sr. Kurtwood, um homem muito poderoso.
Chegou na minha casa cedo, disse que trouxe a esposa e que ela estava com na sala de visitas.
一 Sente-se melhor? Lady Byron contou-me que adoeceu de repente logo após nós saímos.
一 Estou bem. 一 repliquei. 一 Sente-se, tenho uma proposta para você.
Expliquei a Dudley que só poderia sustentar o contrato de venda e compra de ameixas com ele apenas por mais um ano, pois no próximo teríamos um novo dono e não sabia qual era a estratégia dele na venda de ameixas em conserva.
一 Estou pensando em mudar de ramo 一 falei enquanto eu procurava em minha gaveta uma folha com o orçamento inicial. 一 Penso em vender cosméticos. Para ser mais específico, shampoos.
George olhou para mim surpreso.
一 Shampoo? Não é algo comum.
一 Descobri há algumas semanas que minha esposa fazia um shampoo próprio e que é uma atitude comum nas classes baixas. Os costumes burgueses são copiados até a última instância. 一 expliquei apontando para o número de empregados que entrevistei nas últimas semanas. 一 Todos eles falaram que já ouviram sobre pessoas que fazem seus próprios shampoos, mas costuma ser danoso para os cabelos. A que minha esposa faz, porém, é diferente. Ainda não peguei a receita, mas tenho um pouco aqui para que experimente.
Entreguei-lhe um pequeno frasco que minha esposa me dera há dias atrás; o líquido era roxo e ralo, contendo quase nenhuma espuma. Eu havia separado um igual para Sir Garrett, um amigo da época de escola que trabalhava com pesquisas em Oxford.
一 Certo… 一 murmurou ele olhando intrigado para o frasco. 一 E onde eu entro nessa história?
一 As ameixas são o ingrediente principal e dar um bom cheiro aos cabelos, melhor do que o sabão em pó.
一 O cheiro é permanente?
Lembrei, então, dos lençóis da minha cama que foram destruídos pelo vômito do dia anterior. Antes dessa melequeira, eram os mesmos que minha esposa dormiu nos últimos dias, os quais sempre tinha um cheiro longínquo de ameixa. Eu não tive coragem de mudá-los antes.
一 Teste você mesmo e me diga. 一 dei um sorriso 一 É só uma ideia e ainda preciso fazer bastante pesquisa para iniciar o projeto. O diferencial é vender algo que possa ser usado no ambiente doméstico e qualquer mulher possa utilizar. Pensei em lançar uma linha de sabonetes também 一 balancei a cabeça temendo que a excitação das ideias me embebedassem. 一 Veja, é um bom negócio. Queria tê-lo como principal fornecedor. O que acha?
Dudley alternou seu olhar para o frasco de vidro nas mãos e a mim. Tentei passar o máximo de confiança em minha postura, embora fosse um dos mais arriscados negócios que um dia eu fizera.
一 Vou pensar no caso. 一 falou Dudley, embora eu o conhecesse o suficiente para dizer que ele tinha aceitado. 一 Deixe-me só experimentar esse tal shampoo.
Conversamos alguns minutos até finalmente decidimos saber o que nossas esposas estavam aprontando. Fora do escritório, o barulho do incansável piano tornava-se próprio da casa.
一 É a Srta. Julia que está tocando? 一 indagou George. 一 Ela é tão modesta, não sabia que era tão boa.
Concordei, também achando estranho o quanto ela tinha melhorado em tão pouco tempo. Liam Woodhouse deveria ser um instrutor melhor do que imaginei 一 era com certeza um exímio músico.
estava junto a Kelly na sala de visitas e dançavam a valsa que Julia tocava. Quando entramos, pedia desculpas por ter pisado no pé da condessa.
一 Não se martirize, querida 一 Kelly dizia. 一 É sua primeira vez dançando valsa e eu não sou uma boa condutora. Prefiro ser conduzida.
A Condessa de Dudley foi a primeira a reconhecer nossa presença e pareceu iluminada por uma ideia quando nos viu chegar.
一 Dance com sua esposa, Byron! É perfeito.
一 Sem chance 一 repliquei, sobretudo porque nosso último encontro terminou de forma constrangedora. ainda deveria estar confusa com minha atitude de mais cedo.
一 Vá, Byron 一 insistiu Dudley. 一 Nos bailes não terá chance de dançar com sua esposa. Sabe que é deselegante fazer isso em público.
Olhei para , que balançava ansiosamente, fingindo não ser também tópico da conversa. Não disse nada, porém, e a ideia, de repente, não pareceu tão ruim.
Então, o piano parou.
一 Você está perdendo o tempo na segunda parte, Julia. Do começo de novo 一 ordenou Woodhouse alheio a nossa conversa.
Vi as costas de Julia ficarem muito rígidas e o pequeno ranger de dentes dela antes de começar a tocar a valsa mais uma vez.
一 Concede-me essa dança, milady? 一 estendi a mão na direção da minha esposa.
Um tanto constrangida, deixou seus dedos escorregassem nos meus e nos posicionamos no salão improvisado. Lembrei da primeira noite em Londres, quando contei-lhe parte do meu passado e ela segurou minha mão na escuridão. Sua mão era incapaz de pesar, assim como o seu julgamento.
era assim. Ainda bem.
Deslizavámos pelo salão com o badalar da música. Os passos eram simples, mais fáceis do que a quadrilha.
Os olhos de estavam além, encaravam a parede atrás de mim.
Senti um leve aperto no pé.
一 Desculpe 一murmurou ela parando de repente.
一 Precisa olhar para mim, .
Ela encarou-me por alguns segundos para logo depois voltar a olhar a parede.
A música tornou-se menos agitada, os tons agudos guiando-se como gotas de água no começo da chuva.
Estiquei a mão no meio de suas costas e puxei-a por mais perto. Em resposta, ergueu o olhar para mim.
一 Se confiar em mim a guiarei.
Estávamos mais perto do que o orientado na dança; suas saias confundiam-se com as minhas pernas. Ela, uma nanica, pareceu do tamanho ideal, ali, nos meus braços.
Dois passos lentos.
O som do piano tornou-se mais forte. acariciou meu ombro com o polegar, o toque singelo de mãos frágeis.
一 É um ótimo dançarino, .
一 Obrigado.
Ela tropeçou e eu a agarrei para mais perto.
Paramos de dançar.
não encarava os pés ou ensaiava mais uma desculpa; ela encarava meus lábios. Meu pulso acelerou.

Um coçar de garganta fez-a dar um passo para trás.
Dudley me olhava como um pai que acabara de pegar o filho fazendo algo não devido; já a esposa dele estava vermelha até o cabelo com a cena.
一 Nós… Er… 一 iniciou Kelly.
一 Estamos indo 一 concluiu Dudley segurando o braço da esposa. 一 Temos muito compromissos essa tarde, não é, querida?
Ela balançou a cabeça veementemente, quase desmanchando o penteado do cabelo.
一 Acompanharei vocês até a saída 一 disse , fugindo do salão tanto quanto eles.
Despedi-me e tentei prestar atenção no resto da execução da música, manter a compostura. A balada era como de dois amantes que iam e voltavam, incapazes de estar em um lugar fixo; não pude evitar pensar em .
Julia parecia muito mais segura do que da primeira vez que a vi tocar; ela era uma ótima musicista. Era questão de tempo para que ela fosse extraordinária.
Bati palmas quando a música terminou. Julia agradeceu-me sorrindo e ignorou os comentários negativos feitos por Woodhouse. O tempo todo meu olhar corria para a porta, esperava que aparece-se a qualquer momento. Ela, porém, não voltou.
Decidi ir para meu quarto.
Eu não conseguia entender-me. Já havia me envolvido com outras mulheres, no entanto, nunca fui tão hesitante quanto como . Ela era a minha esposa, oras; ela sabia mais sobre mim do que até mesmo meus amigos. Por que o medo? Por que o temor? Não iremos consumar o casamento cedo ou tarde?
Lembrei, então, da minha mãe. Ela sofreu tanto por causa do casamento; por causa de mim; por causa da sociedade… Como eu evitaria o mesmo sofrimento a ?
Ao invés de ir ao meu quarto, fui até o de minha esposa. O peito batia em um compasso danoso e dolorido. O segredo que eu guardava estava estancado na garganta pronto para sair. Dependendo da resposta dela, eu saberia o que fazer.
Bati na porta.
一 Quem é?
一 Sou eu.
Demorou alguns segundos até que ela abrisse. apenas pôs a cabeça para fora e manteve o olhar além da parede.
一 É algo urgente?
一 Está ocupada? 一 perguntei.
Ela analisou-me por alguns segundos, mas deu espaço para que eu entrasse.
Ficamos nos encarando como se fosse uma competição que crianças fazem quando estão entediadas, “quem rir primeiro perde”. Observei o desenho de seu rosto e quis ser um pintor e registrar sua face em uma tela. Iria providenciar aquilo em breve.
一 Quer conversar sobre alguma coisa específica? 一 ela indagou, cansando daquele jogo sem propósito.
一 Você confia em mim, ?
Ela cruzou os braços.
一 Por que a pergunta?
Soltei um suspiro. Era como carregar um peso maior que as costas. Olhei para as paredes brancas do quarto da minha esposa e parei o olhar na única vermelha. Era a minha primeira vez em seus aposentos e eles eram reflexo de quem ela era; pouca decoração, mas móveis funcionais. Menos era mais. De extravagante havia apenas uma pequena tela de um desenho estranho.
一 Foi Lilian que pintou 一 comentou ela quando viu-me encarando a pintura.
一 Espero que ela continue com os livros. Arte plástica não é o melhor dela.
O ar mudou quando riu.
一 Você é muito malvado.
一 Mas, veja: parece que ela não tem qualquer coordenação motora. 一 apontei pelas linhas borradas.
Minha esposa não disse mais nada 一 continuou-me a encarar.
Era difícil contar aquilo. A ferida ainda latejava, doía. Falar tornava-a mais real. Engoli saliva. Não tinha porque esconder isso agora.
一 Mamãe foi violada pelo meu pai.
Engoli o seco e continuei a encarar a tela pintada por Lilian. Sentia que tinha pedra na garganta.
一 Todo mundo sabia, mas tinha vergonha de admitir. Ele era um homem de status, afinal. Minha mãe era só uma jovem ingênua que saiu para um baile público sozinha em uma cidade desconhecida.
Escutei os passos de . Senti-a perto. Um pequeno incentivo para que eu continuasse.
一 Meu avô obrigou meu pai casar-se com ela, obviamente. O meu pai era um homem muito influente para levar uma acusação como aquela nas costas. Minha mãe estava grávida. O escândalo foi terrível, ao menos foi isso o que me disseram 一 continuei. 一 Não é de imaginar o porquê de meu pai odiarnos. Querer ver nós dois na miséria.
As mãos de agarraram meu braço. Sua cabeça inclinou-se perto do meu ombro, acalentando-me.
一 Eu odeio pensar que eu posso ser igual a ele. Que posso ser capaz de...
一 Você não é.
Fitei ; os olhos dela estavam carregados de lágrimas. Teria eu feito a escolha certa em dizer-lhe? Seria melhor ter guardado aquilo até meu túmulo?
Ela esticou sua mão e passou por minha bochecha; eu havia chorado, embora não tenha percebido.
一 Nós não somos seus pais, . Sabe disso, não é? Você não é um monstro como ele.
Com dificuldade, balancei a cabeça positivamente.
abraçou-me de ponta de pés, a vontade de cobrir-me todo era maior do que a realidade do nosso tamanho. Seus lábios marcaram minha face, os dedos seguraram meu rosto com gentileza. Ela me deu um sorriso, um lindo sorriso.
一 Eu confio em você, . 一 Sussurrou.
Eu beijei em uma tarde de setembro.
Os lábios dela tinham gosto de recomeço. Ela deixou-me a abraçar e sentir o seu cheiro de perto; correspondeu-me na mesma proporção que eu a desejava. Deu-me seus beijos pelo meu rosto 一 enroscou-se em mim como se nós fossemos partes de um mesmo corpo. Confiou-me os lábios sob sua pele, deixou-se embebedar pelas minhas carícias. Eu senti de perto o cheiro dos seus cabelos de ninfa. temeu quando a despi, mas estava tão ansiosa quanto eu por aquele momento. Foi curiosa como sempre: desenhou com seus finos dedos as sardas das minhas costas, perguntou-me sobre a pequena cicatriz na perna... Em seus suspiros, meu nome foi a prece repetida. Deixou-me invadi-la do mesmo jeito que ela havia feito com minha alma. Tocou-me, beijou-me, amou-me.
E eu desejei nunca mais ser tocado por ninguém além dela.


XIX.

Balancei o relógio de em minhas mãos. Era de um designer simples e elegante 一 prata, sem arranhões, tinha o pequeno desenho de espiral do lado de fora. Marcava que faltavam cinco minutos para o jantar. O objeto não apenas pertencia a ele, mas também refletia quem ele era: um homem naturalmente sofisticado, sem a necessidade de grandes ostentações para demonstrar isso.
Lucy deu uma leve puxada em meu cabelo.
一 Desculpe, milady.
一 Tudo bem.
A empregada encarou o meu reflexo no espelho por alguns segundos, porém desviou o olhar assim que eu a flagrei. Engoli a saliva tentando esconder o constrangimento. Fora ela quem trocara os lençóis sujos; ela que achou o relógio jogado pelo carpete e entregou em minhas mãos.
No espelho era possível ver que ainda era eu, . Eu, porém, sentia-me diferente. Ao banhar-me minutos atrás, meu corpo revelou que estava marcado por ; pequenos espaços de pele queimavam com as lembranças tão vivas daquela tarde. Pele que até àquela manhã eu não estava consciente da existência. Não havia nenhuma parte do meu corpo que não foi marcada por .
Borrifei um pouco de perfume no pescoço.
Quis mandar uma mensagem para a Sra. Bridgestone e cancelar o jantar. Talvez comer na cama e esperar...
Passei um pouco de ruge no rosto; discreto, quase imperceptível, como Ever ensinara. Meus lábios estavam mais inchados, as consequências da eternidade de beijos que recebi de em poucas horas.
July e as meninas estranhariam minha ausência no jantar? Ficariam preocupadas?
一 Está pronta, milady.
Agradeci com um ace no e observei de solaio Lucy sair. Àquela altura os empregados deveriam estar comentando sobre o sumiço de mim e de durante a tarde. Será que estavam na surdina tentando escutar o que se passava pelo quarto? Que vergonha, meu Deus!
Balancei a cabeça, expulsando os pensamentos. Não havia nada errado no que fizemos 一 ora, éramos casados! Consumamos o casamento. Era isso. Esse era o significado. Nada além disso.
Estava sozinha, então, permiti-me sorrir de verdade. Pensei que desejava apenas um beijo, porém… A Sra. Bridgestone estava certa 一 podia ser bom, muito bom.
Calcei as luvas com paciência. O atrito da seda funcionou como uma carícia. Lembrei-me de tocar a com os dedos, explorando o corpo dele de uma forma que nunca fiz antes.
Segurei o relógio e virei-o de cabeça para baixo; estava escrito , 1835. Ele o tinha desde antes de tornar-se Lorde Byron. Estava muito bem cuidado apesar de antigo.
Com bem pouca coragem, levantei-me e sair do meu quarto. Bocejei, o sono acumulado da noite anterior começando a incomodar. Um pequeno incômodo no andar fez-me mais uma vez cogitar cancelar o jantar; tinha muitas coisas para pensar.
A noite antecedente foi uma perturbação, tanto para minha mente quanto para meu corpo. Estive entre a preocupação na saúde de e a sensação de que não conseguia mais ignorar que eu estava atraída por ele. Agora que experimentara seus beijos, seus cuidados e tinha entregado outra parte de mim a ele, imaginava que a perturbação era pequena comparada ao que ele era capaz de dar-me. Aquela tarde não sairia da minha mente nem tão cedo.
一 Ia descer sem mim?
Senti um leve arrepio na nuca e apertei os lábios para não entregar a felicidade que dominou-me ao ouvir sua voz. estava parado na parede do corredor, provavelmente esperando-me há algum tempo.
Respirei fundo, pedindo que meu coração agisse sapiência e parasse de se descontrolar diante de meu marido.
Mostrei o relógio para Byron.
一 Conhece esse tal de Sr. ?
Ele balançou a cabeça.
一 Nunca ouvi falar.
一 Sério? 一 arregalei os olhos. 一 Ele me fez uma visita essa tarde. Disse-me umas coisas bonitas… E outras perturbadoras…
一 Acho que devemos focar nas bonitas.
Concordei com ele e estendi a mão para que ele pegasse o relógio de volta. Ao invés disso, segurou meus dedos e deu um pequeno beijo onde a luva terminava. Estremeci, sentindo-me cada vez mais sensível aos toques de .
Ele levantou olhar e puxou-me para mais perto até abraçar-me por completo.
Não estava com frio, mas me senti muito feliz em sentir o calor do seu corpo. Abraçar era como enrolasse em um pão quentinho e recém saído do forno.
一 Está tudo bem? O desconforto passou?
一 Não totalmente 一 confessei em sussurros. 一 Mas estou bem. Não precisa se preocupar.
一 Qualquer coisa eu posso…
Estiquei-me um pouco para cima e surpreendi-o com um beijo. Os lábios de eram macios e carnudos, algo raro nos homens ingleses no geral. Busquei sua boca com uma sede difícil de ser saciada; ele, por outro lado, dava pequenas doses, tentando-me com habilidade.
Era possível sentir o pequeno sorriso em seu rosto 一 vibrei gloriosa em ser o foco de suas atenções e carinhos. perturbava-me e relaxada-me, tirava-me da zona de conforto e dizia "está segura comigo".
Afastou-se de repente, soltou o fôlego com força.
一 Temos que ir. Estão nos esperando.
Encarei seus olhos; eles diziam outra coisa. Se eu pedisse para que ele ficasse mais um pouco, abraçasse-me mais um pouco, beijasse-me mais uma vez, faria.
Controle-se, disse para mim mesma.
一 Vamos, então.
Foi de grande satisfação ouvir os elogios da Sra. Bridgestone sobre a organização do jantar; foi bom, também, ter notícias das pessoas de Southwark Village, embora eu tivesse um relacionamento superficial com a maioria deles. Sentia falta da antiga rotina, mas não o suficiente para querer viver a antiga vida. Ter minha própria casa e poder ter certos confortos era primoroso.
Após comermos, a Sra. Bridgestone chamou-me para jogar cartas como nos velhos tempos. Byron encarregou-se como juiz, pois Julia, sua dupla, alegou sentir dor de cabeça e precisou dormir mais cedo. Apesar de ter um horário certo para dormir, deixei com que Lilian e Polly ficasse por uma partida.
A noite foi divertida. A Sra. Bridgestone contou algumas histórias das vezes em que acompanhou meu pai em suas visitas como enfermeira.
一 Sr. era um homem muito paciente 一 dizia ela. 一 Não sei como aguentava os chiliques da Sra. Ferguson. Vivia falando “ai, meus nervos”, mas está até hoje viva.
一 Está desejando a morte dela, Sra. Bridgestone? 一 indagou Byron zombeteiro. 一 Não é muito cristão da sua parte.
一 Ah, milorde, Deus perdoa 一 disse ela balançando a mão em desdém.
Ele riu e senti-me satisfeita em ver que os dois estavam se dando bem. Nada mais agradável do que saber que pessoas que você gosta tem um bom relacionamento entre si.
Algumas horas depois, Sra. Bridgestone despediu-se. Insisti para que ela dormisse na casa, mas ela negou-se veementemente.
一 Tenho um compromisso amanhã cedo 一 explicou ela dando-me um abraço. Ela sussurrou: 一 Estou muito feliz em saber que você está tranquila com seu marido, . Vocês dois parecem gostarem um do outro, mas, não se esqueça que pode me relatar qualquer problema. Irei ajudá-la no que puder.
Agradeci e observei-a subir na carruagem do Conde de Northampton e ir embora. O céu estava parcialmente nublado, o que dava para ver algumas estrelas no céu. Suspirei, a sensação de sonho brotando no peito. Dias melhores estavam vindo.
! ! 一 gritou Polliana descendo as escadas de camisola.
A babá desesperada desceu atrás dela.
一 Desculpe, milady. Ela está impossível hoje.
一 Quando ela não está impossível? 一 perguntei olhando para minha irmã com uma carranca. 一 O que há, Polliana?
一 Lê para mim dormir?
一 Para eu, Polliana.
Ela bufou.
一 Para eu dormir 一 corrigiu.
一 A babá não pode ler para você? 一 perguntei com as mãos na cintura. Ela balançou a cabeça negando. 一 E Julia? Lilian?
一 Você prometeu brincar comigo hoje e não veio! 一 argumentou ela esperneando-se. 一 Passou a tarde toda brincando com Sr. Milorde e me esqueceu!
Fiquei roxa de constrangimento, sobretudo porque a babá escutava toda a conversa. A mulher ao menos teve a decência de desviar o olhar para as paredes, fingindo não escutar o que a menina dizia.
一 Como é? Quem te disse isso!? 一 reclamei mortificada.
一 Lily disse que você estava brincando com Milorde e por isso eu não podia ir até você. 一 ela cruzou os braços e fez um bico. 一 Esqueceu de mim.
E eu tinha esquecido mesmo. Não conseguia ter nenhuma lembrança de ter prometido brincar com ela naquela tarde. Busquei a babá com o olhar.
一 Ah… Acho que a promessa foi hoje de manhã, milady, na hora do desjejum.
一 Bem, vá até o berçário que daqui a pouco irei ler para você dormir.
一 Não, 一 disse Polly. 一 Eu quero dormir com você.
Revirei os olhos e a peguei pelas pernas com dificuldade até pôr-lá nos ombros.
一 Jesus Cristo, você está pesando toneladas! 一 exclamei sentindo o peso aumentar em minhas costas. 一 O que anda comendo?
一 Me larga! Me larga!
Com a babá em meu encalço, levei Polliana até meu quarto como se ela fosse uma ovelha desobediente, jogando-a na cama sem muito cuidado. Polly, por outro lado, riu da minha atitude.
Despedi a babá e tirei os sapatos. Pedi para que avisasse a Lucy que não precisava me ajudar a me despir, que eu faria por mim mesma. Não demorou muito para eu estar com Polliana dormindo em meus braços, antes mesmo de eu sair da página quatro do livro.
Ouvi duas batidas na porta de ligação, o que fez Polly acordar de súbito.
一 Posso entrar? 一 perguntou .
Apertei os lábios frustrada com a agitação de Polliana.
一 Não pode, Sr. Milorde! 一 replicou Polly abraçando-me com força. 一 vai brincar comigo agora!
Byron abriu a porta e eu não pude evitar rir com o rosto ultrajado que ele fez ao entrar no meu quarto.
一 Está dizendo que eu não posso brincar com a minha esposa? Quem é você para dizer isso?
一 A irmã dela!
Ri e dei-lhe um abraço bem forte, o coração enchendo de amor por aquela garotinha. Em resposta, pôs as mãos na cintura com ar de indignação.
一 Que criança mais folgada! Você não devia estar na sua cama?
Polliana revirou os olhos e começou a balançar com birra.
一 Pode ir embora 一 falou ela mexendo a mãozinha com desdém.
, porém, deitou-se ao lado dela.
一 Quero escutar a história também! 一 replicou ele piscando para mim.
Polly começou a empurrá-lo para fora da cama e Byron ria, pois não saia do lugar. Um tanto cansada do dia, agarrei o corpo de Polliana e pus no meu lado esquerdo, parando a brincadeira.
一 Estávamos na página quatro. Quer que eu comece de novo?
Ela balançou a cabeça positivamente e voltei a ler a história dos sapos que a essa altura já tinha decorado.
Polliana dormiu já na página sete, largada na cama entre mim e . Observamos por um tempo a menina descansar com a boca aberta; ela era a que mais parecia a minha madrasta, desde a aparência ao temperamento.
一 Vocês sempre foram assim? 一 perguntou em sussurros.
一 Não, ela nunca foi muito fã de mim, porque só me via na hora do jantar 一 respondi acariciando o rostinho dela. 一 Não posso afirmar que era muito próxima das minhas irmãs antes, apesar de morar na mesma casa que elas.
一 Estranho, você parece as conhecer tão bem..
一 Eu conheço 一 disse eu com um tanto de melancolia. 一 Mas talvez elas não me conheçam tão bem. Foi um alvoroço quando descobriram que eu estava noiva de um lorde-num-sei-das-quantas.
mexeu-se com cuidado para que Polliana não acordasse. Contornou a cama e foi até meu lado, dando um rápido beijo em meus lábios.
一 Deixarei que passe a noite com sua irmã, então. Boa noite, .
Deixarei? Quem pensa que é para deixar alguma coisa?
一 O lorde num-sei-das-quantas 一 respondeu ele beijando-me mais uma vez.
Dessa vez ele decidiu envolver-me com apenas os lábios, sugar-me como uma fruta madura. Meu corpo amoleceu com aquele simples toque de bocas. não negava a experiência passada, mas no fundo havia mais do que uma libertinagem entre casados; ele estava atento a mim assim como eu a ele. Beijava a mim não porque simplesmente podia, mas porque gostava disso.
Eu também gostava. Muito.
soltou um suspiro resignado ao se afastar e virou-se para uma Polly desacordada.
一 Você me deve uma, mocinha.
Ri e observei-o voltar para seu quarto depois de desejar boa noite.


XX. Berkshire

A chuva lá fora transformou o tráfego Londres em um inferno. Eu estava atrasado 一 parte por ter passado mais de dez minutos parado no mesmo lugar, parte por ter saído em cima da hora de casa. A chuva deixara tudo muito abafado; a carruagem estava parecendo um forno. Era uma das situações que eu explodiria de estresse, gritaria pela janela para os cocheiros serem mais cuidadosos e xingaria de um jeito não tão cavaleiro os malucos que dirigiam cabriolés. Porém, naquele dia em especial, eu estava com a calma de um santo. Sobretudo porque minha esposa estava junto comigo, acompanhando-me para o trabalho.
一 Esse calor está insuportável! 一 reclamou ela balançando o leque com agonia. 一 Estamos muito longe?
Balancei a cabeça positivamente e afrouxei o nó da gravata.
一 Estamos no horário de pico e é perigoso apressar-se numa chuva dessas 一 consolei-a.
Ela remexeu-se incomodada. estava envolta em um elegante vestido de seda verde escura e segurava uma bolsa da mesma cor; o cabelo, porém, havia se desmanchado com calor. Ela tentava deixar os fios negros presos em vão 一 eles se rebelavam e mechas escorriam por suas costas molhadas de suor. Lembrei-me então de quando a vi pela primeira vez e permiti-me sorrir nostálgico. Nunca imaginaria que estaria ali rendido àquela mulher que nunca tentara ser mais do que era.
一 Se quiser tirar as luvas… 一 aconselhei. 一 Só não esqueça-as. O escritório é frio na maior parte do tempo.
一 Estou mais ansiosa do que com calor 一 comentou ela, soltando um suspiro. 一 Por quanto tempo morou em Londres antes de tornar-se um lorde? Foi em alguma dessas ruas?
Olhei para a janela, mas a chuva havia deixado a paisagem escura. Estava um temporal lá fora. A carruagem andou um pouco em lentos polegares.
一 Eu morei em um bairro mais periférico por mais ou menos oito anos. Não sei ao certo…
一 Era muito difícil a vida naquela época?
Dei os ombros. Era difícil, claro, mas não queria ceder a lamúrias, pois também sabia que passou por maus lençóis antes de tornar-se minha esposa.
一 Eu conheci um rapaz que era natural de Londres uma vez 一 comentou ela balançando o leque mais lentamente. 一 Na época, ele tentou enrolar a mim e a Júlia. Foi horrível.
一 Então, era uma mulher muito cobiçada em Southwark Village? 一 perguntei zombeteiro.
fez uma pequena careta.
一 Não havia tantas mulheres solteiras por lá e eu não era exatamente uma mulher caseira. Conheci muitos viajantes e turistas.
一 Lorde Stanton… O senhor de Londres… Imagino se eu tivesse cortejado-a formalmente.... Será que estaria páreo para você? 一 indaguei com um sorriso.
一 Bem, seria o primeiro a admitir interesse em público. Os outros fingiam que não me conheciam.
Senti a melancolia em sua voz e a tentativa de dar uma risada que saiu mais constrangida do que qualquer coisa. Dei duas batidinhas ao meu lado.
一 Vem aqui, .
一 Por quê? 一 indagou ela, embora tenha vindo sem que eu insistisse mais.
Abracei-a, algo que eu estava fazendo com bastante frequência nos últimos dias. Ela aconchegou-se no meu peito e senti-me um homem muito especial por poder cuidar dela.
一 Não está muito quente para abraços? 一 perguntou ela com a voz abafada pela minha roupa.
Nunca está quente demais para abraços.
levantou a cabeça e encarou-me com um pequeno sorriso no rosto. Eu beijei-a, pois era o natural a se fazer; e nem a soma de todos os beijos que trocamos nos últimos dias poderia suprir minha necessidade dela. Não conseguia entender como consegui viver os últimos anos sem o cheiro de , o toque de ou mesmo a voz de . Como vivi por tanto tempo sem escutar sua risada que enchia-me de uma gostosa sensação de paz e tranquilidade? Sem a sua curiosidade, vontade e carinho?
Quando afastei meus lábios ela ainda estava com os olhos fechados, a boca entreaberta. A pele escura reluzia, as maçãs do rosto pintadas por um artista talentoso; ao abrir os olhos, porém, senti a pele do corpo todo formigar. A íris parecia café brasileiro moído na água quente. A cor derretia-se ao me encarar. Como qualquer homem poderia ter negado aquela mulher em público?
A carruagem começou a andar normalmente. A chuva havia parado um pouco e Londres tinha se tornando um pouco menos escura. , porém, não saiu dos meus braços.
Beijei-a mais uma vez, incapaz de transformar em palavras o que eu sentia. Luxúria, desejo e tantas outras palavras pareciam inadequadas, frágeis e até violentas para definir o que compartilhavamos. Era algo visceral, novo para mim, mas esperado por muito tempo. O sentimento preenchia-me e fazia falta ao mesmo tempo.
Então, eu entendi. Entendi porque George chegava atrasado nas nossas reuniões e sempre carregava um sorriso de orelha a orelha; entendi que, por mais que Cory reclamasse das loucuras de Ever, era em direção à ela que ele ia todo baile chamando-a para dançar. Entendi, também, porque senti que deveria abraçar e beijar minha esposa quando ela contou uma experiência ruim do passado.
Eu estava apaixonado. E, que sorte a minha, o sentimento era movido pela minha esposa.
Apresentei o prédio administrativo de FreshVerggies, alguns funcionários e a Lovren, meu assistente. Expliquei como ela começou e contei-lhe a respeito do Sr. Dowling, o principal motivo da existência do empreendimento. Na época, ele era um vendedor de frutas e verduras frescas e começou a vendê-los em conserva. Contratou-me pela falta de timidez; eu conversava com qualquer pessoa independente do que sua aparência me dizia. E eu não tinha nenhum dente podre, o que já era um avanço comparado a maioria dos garotos do meu bairro. Em algum momento o negócio tornou-se uma fábrica, então, virou história. Sr. Dowling não teve herdeiros e deixou todo o patrimônio para mim e sua esposa, a Sra. Dowling. Ela era uma pessoa amável e simpática antes do marido morrer; agora, parecia a sombra de quem um dia foi. Tornara-se, em algum momento, uma mulher como minha avó: mesquinha e fofoqueira. Não era à toa que eram tão amigas.
Ainda assim, a Sra. Dowling era alguém que eu prometi cuidar. FreshVerggies seria vendida, no entanto, sua parte dos ganhos iria continuar intacta.
一 Não lembro de termos sidos visitados pela Sr. Dowling… 一 comentou ela enquanto observava as prateleiras da minha sala.
Lambi os lábios. Eu não era capaz de dizer-lhe a verdade.
一 Acho que ela não está na cidade. 一 repliquei.
Sra. Dowling havia me enviado uma carta logo na primeira semana que me estabeleci em Londres. Ela reprovou totalmente minha atitude de casar-me com e negou-se a visitar-nos. Se não havia cortado nossas relações era porque ainda tinha muito respeito pelo que o Sr. Dowling fez por mim, contudo, não sentia-me compelido a manter contato com quem tratava menor do que ela era e merecia.
一 Trouxe seu caderno? 一 mudei de assunto.
一 Ah, sim. 一 disse buscando em uma bolsa que levava. 一 Por que pediu? Pensei que não precisasse da minha ajuda para entender de finanças…
Dei um sorriso amarelo.
一 Eu sou bastante ciumento com minhas coisas.
一 Percebi 一 replicou ela com uma careta.
Aproximei-me das prateleiras e tirei um caderno preto que resumi alguns escritos das finanças nos últimos meses. Aquele era um controle exclusivo meu e tinha detalhes de onde cada parte do meu dinheiro ia; desde a grandes compras a esmolas dadas na rua.
一 Aqui está todos os dados do meu dinheiro no último ano 一 expliquei. 一 Quero que observe e diga-me se com isso eu poderia abrir uma empresa de cosméticos.
Ela arregalou os olhos.
一 Empresa? Mas quanto você precisa para abrir uma?
Encarei-a com desafio. deu-me um olhar desconfiado.
一 Por que está me pedindo isso?
Dei um passo em sua direção.
一 Quero vender seus shampoos para uso doméstico. O que acha?
Minha esposa ficou aturdida. Abriu e fechou a boca, desistindo de dizer qualquer coisa que pensou em seguida.
一 Eles serão vendidos em um preço muito mais acessível e atingirá camadas mais baixas da sociedade 一 continuei minha fala. 一 Como o produto foi criado por você, obviamente a maior parte do lucro…
一 Eu criei? , as mulheres fazem isso em casa. Não fui eu que inventei. 一 justificou-se.
一 Bem… Você será uma das primeiras a comercializar, então. 一 complementei. 一 Enviei a amostra que me deu para um amigo…
deu uma risadinha.
一 Queria saber de onde você tira tantos amigos.
一 Minha vida foi ter contatos, milady 一 pisquei para ela.
Então, uma ideia me ocorreu de repente, como em uma epifania.
一 Milady. Esse será o nome da empresa. 一 falei vislumbrando o desenho da silhueta de uma mulher segurando uma cesta de frutas.
Balancei a cabeça para voltar para a minha realidade. fitava-me com curiosidade.
一 Eu a trouxe aqui porque quero que analise bem a proposta. E porque quero lê suas anotações.
A última frase fez o rosto da minha esposa iluminar-se como uma vela nova acesa. Era aquele sorriso sol que nasce e domina; muda a si e transforma ao redor.
一 Me sinto honrada, milorde 一 disse ela pegando de minhas mãos o caderno de finanças e trocando pelo dela. Ficou de ponta de pé e beijou minha bochecha. 一 Se importa de emprestar-me a cadeira?
Olhei para a cadeira de camurça vermelha do meu escritório. Era uma das minhas cadeiras favoritas; ninguém nunca havia sentado nela além de mim.
Então, voltei-me para a minha esposa e dei-lhe um aceno positivo.
Sentada naquela cadeira, poderia muito bem ser a rainha. Cruzou as pernas e inclinou as costas para frente, ignorando minha presença. Seu rosto tornou-se uma expressão séria e concentrada 一 os olhos negros correram pelo caderno como um animal curioso com um novo brinquedo.
一 Tenho uma hora marcada com um dos meus funcionários agora. Se precisar de alguma coisa peça a Lovren. Ele saberá o que fazer.
一 Certo, . Pode ir 一 replicou ela, não dando-se o trabalho de retirar os olhos do papel.
Perdi alguns segundos sorrindo para antes de ir embora.

Balancei o copo em minhas mãos; o rum estava pela metade ainda. Eu ouvia a conversa de meus amigos como um burbúrio ao longe. White’s estava movimentado, no entanto estava alheio a qualquer agitação. O dia havia tornado-se melancólico conforme a realidade fora batendo em minha porta.
Os funcionários da FreshVerggies estavam receosos com as mudanças que viriam. Muitos deles necessitavam daqueles empregos para sobreviver e sustentar suas famílias. Eu pouco podia fazer a não ser garantir que os contratos vigentes seriam mantido, mas não poderia fazer com que o novo dono os contratassem. Havia, também, a sensação de que em breve iria deixar para trás uma parte importante da minha história que incomodava-me em demasia.
一 Está calado hoje, Byron 一 comentou Cory de súbito. 一 Algo aconteceu?
Mudei de posição em minha cadeira e dei os ombros.
一 O de sempre. 一 repliquei, incapaz de tocar naquele assunto. 一 Sabe… Estive pensando… Como souberam que estavam apaixonados pelas suas esposas?
Cory levantou as sobrancelhas.
一 Que tipo de pergunta é essa? Finalmente rendeu-se a sua esposa?
一 Eu falei para você 一 comentou Dudley cutucando Exeter com o cotovelo. 一 Os dois estavam tão envolvidos em uma simples valsa que entendi porque tanta gente é contra a esse tipo de dança em público.
Fitei meu copo e mantive-me calado. Levei a bebida até os lábios, mas não evitei soltar um pequeno sorriso, denunciando meus pensamentos.
Exeter deu uma risada alta.
一 Finalmente!
一 Vamos, respondam minha pergunta 一 inquiri.
Em resposta, George deu os ombros.
一 Eu acho que foi quando conversamos uma vez no baile de Northampton… Ou foi antes? 一 disse Dudley incerto. 一 Parece que faz tanto tempo…
一 No meu caso, lembro muito bem quando eu percebi que estava apaixonado 一 replicou Cory colocando um pouco mais de bebida em seu copo. 一 Foi quando vi Ever vestida de noiva andando em direção a um homem que não era eu.
Exeter bebeu um pouco de rum. Fez uma pequena careta, estalando a língua.
一 Odeio pensar que passei os outros anos procurando Ever em outras mulheres. Foram dias sombrios.
一 Quando você percebeu que estava apaixonado por seu esposa, ? 一 perguntou George curioso.
一 Hoje de manhã, mais ou menos.
Cory inclinou-se para frente.
一 Então, dá tempo ainda de evitar que você faça alguma besteira.
Fitei-o confuso.
一 Por que diz isso?
一 Porque você é incapaz de manter-se íntimo como alguém sem isolar-se logo após. 一 diagnosticou Exeter, jurando ser ele um alienista. 一 Quando você estava bêbado e falou das suas origens, que não teve uma vida de luxo, no dia seguinte inventou uma viagem para França apenas para não nos encarar.
一 Vocês são muito exagerados. 一 comentei irritado com o fundo de verdade que havia nessa afirmação. 一 Eu realmente precisava ir a França.
一 Você foi pegar uns livros, pelo amor de Deus! Não existe correios na França? 一 reclamou Cory. 一 E você nos contou o real motivo por carta. Pensou que fossemos desistir da amizade por conta de atos que não foi você que cometeu.
一 E a desculpa de ter ido para América e não ter comparecido no próprio casamento? 一 argumentou Dudley. 一 Nós dois sabemos que você poderia ter adiado a viagem por uma ou duas semanas e tentado conhecer a sua esposa antes.
Apertei os lábios. Meus contra-argumentos pareceram sem nexo e muito inconsistentes diante da verdade dos fatos deles.
Bebi o resto de rum que estava no copo. Agora eu via a realidade com menos condescendência; via realidade do jeito que ela era.
Eu estava sendo um covarde há muito tempo. Todas as vezes que dava dois passos para entrar na minha vida, eu dava três para trás; e ficamos em uma dança que apenas machucou nossos pés.
一 Você está apaixonado, não é? 一 disse George com um sorriso. 一 A tendência é proteger ao outro, não a nós mesmos. Não deixe que seu casulo seja o motivo de afastar sua esposa, .
一 Ela já está apaixonada, certamente 一 complementou Exter. 一 Imagina se alguém é capaz de resistir ao encanto de algum Lorde Byron?
Ri-me sem que o sorriso chegasse aos olhos.
Eu não sabia se o sentimento era recíproco. estava atraída por mim; desejava-me e estávamos vivendo como duas pessoas que redescobriram o namorico sem que houvesse o perigo de sermos pegos juntos. Porém, minha esposa nunca expôs um sentimento claro como a paixão ou o amor. Estávamos vivendo um dia de cada vez.

Voltei para casa bastante arrependido de não ter bebido até que minha mente tornasse uma grande névoa de pensamentos desconexos. O rum consumido foi apenas o suficiente para me deixar consciente de que eu tinha vários problemas para resolver e nenhuma solução.
A cada degrau pensava naquelas famílias que iriam perder seu sustento com a mudança de direção da FreshVerggies. Eu havia sido uma criança pobre uma vez 一já necessitei de um emprego para sobreviver. Como garantir que eles não estariam sem rumo após a demissão? Como fazer para que aquilo não atingisse em cheio as rendas das pequenas família de Berkshire Hall que dependiam daquele dinheiro?
Caminhei em direção ao meu quarto com passos pesados e débeis. Iria tentar dormir e fechar a fonte de pensamentos que enlouquecia-me.
, finalmente chegou! Estava ficando preocupada 一 disse saindo de um dos quartos das suas irmãs.
Franzi o cenho.
一 Demorei muito? Pensei que havia avisado que não chegaria para o jantar.
一 Ah.. Eu… Na verdade... 一 gaguejou constrangida. 一 Como foi com Dudley e Exeter? Eles estão bem?
一 Estão bem sim 一 repliquei pronto para me despedir.
Parei de repente.
一 Pode fazer um favor para mim, ?
Ela assentiu. Aproximei-me de minha esposa; ela prendeu a respiração por um momento e inclinou a cabeça para cima, encarando-me com curiosidade.
一 Peça para os empregados preparar um banho para mim.
一 Com esse cheiro também acredito que seja melhor se lavar mesmo.
Dei uma risada que foi acompanhada por ela.
一 Mais alguma coisa, milorde?
一 Sim. 一 aproximei de seu ouvido, o cheiro de rum e de seu perfume criando um intoxicante aroma. A boca encheu-se de saliva, desejosa de explorar aquele cantinho de sua pele escura e bonita. 一 Quero que durma comigo.
O rosto de ficou roxo como de um pimentão. Soltei uma risada.
一 Estou falando de dormir, dormir de verdade, 一 toquei em sua testa com cuidado. 一 Sua mente é muito pervertida.
一 Você que perverteu minha mente, 一 replicou ela em murmúrios, temerosa que alguém escutasse nossa conversa no corredor.
一 Quem vê pensa que não veio até meu quarto tarde da noite ontem…
Ela olhou-me ultrajada e fez menção de afastar-se, mas eu a abracei de repente.
一 Está bêbado, ?
一 Talvez 一 respondi, a voz abafada pelo seu ombro. 一 Eu gosto de você. Sabe disso, não sabe?
acariciou os meus braços e com uma voz de quem sorria respondeu.
一 Sei sim, querido. Sei sim.


XXI.

Eu não tinha motivo para levantar-me cedo. A manhã estava estranhamente fria; quase não dava para ver o sol por trás das cortinas. Os lençóis quentes eram muito mais atrativos do que o piso congelado pelo pré-inverno.
repousava sua cabeça em meu tronco. Seus braços enlaçaram minha cintura como galhos de uma árvore incapazes de serem movidos. Quando dormia o rosto de meu marido ficava mais sereno, imperturbável. Com os dedos, acariciei as pequenas marcas da testa, cruzei os olhos inchados e a boca fechada. Observá-lo de tão perto era relaxante, embora estivesse desconfortável por ficar tanto tempo na mesma posição.
Levei minha mão aos seus cabelos rasteiros e dei uma risadinha ao perceber que havia uma pequena falha do corte por trás da cabeça. Eles estavam um pouco crespos, porque no dia anterior usara o shampoo de maçã que eu fizera 一 e que deu muito errado.
Suspirei. Não sabia como senti-me em relação àquelas últimas semanas 一 ou mesmo em relação a Byron. Era de praxe saber que a intimidade reveladora faria com que nos aproximamos, porém não imaginava ter aquela sensação de iminente quebra. Eu conhecia muito bem o estar em cima do penhasco 一 o sentimento de liberdade do vento e o frio na barriga; também conhecia a queda, a inevitável queda. Algo me dizia, porém, que o cair por traria feridas que eu não conseguiria curar.
Acariciei o rosto de Byron mais uma vez; a barba tinha crescido e era possível ver pequenos pêlos brancos na barba escura. Ele não era nenhum juvenil; nem eu era uma criança. No fim da queda, haveria seus braços para abraçar-me? Eu ia ser acalentada por ele?
abriu os olhos e mexeu a cabeça para beijar minha palma.
Seu beijo era quente como uma xícara de chá de lavanda em uma noite chuvosa.
一 Bom dia, .
A voz parecia ter saído do fundo de uma garrafa; grave, reverberou pelo meu corpo.
一 Bom dia, . Como está sua cabeça?
一 Doendo 一 respondeu simplesmente. Afagou minha barriga como se fosse um travesseiro e abraçou-me com firmeza. 一 Espero que não tenha nenhum plano para sair daqui hoje, pois eu não permitirei.
一 Isso é muito injusto! Estou morrendo de fome 一 repliquei cutucando sua bochecha.
Ele beijou o fino tecido da camisola que cobria minha barriga.
一 Saciarei-a com meus beijos.
Ri envergonhada.
一 Sua frase me lembra o casal da estalagem, aquele de antes de chegarmos em Londres. Quem diria que em pouco tempo você tornaria-se tão piegas, milorde?
一 A culpa é toda sua, .
fechou os olhos, mas sorria com a última frase. Cutuquei-o mais uma vez.
一 O que foi agora?
一 Preciso ir para a casinha. Estou apertada.
Contrariado, Byron libertou-me do abraço e deixou-me ir.
一 Durma bem, . 一 sussurrei antes de beija-lhe a face e sair de seu quarto.



Eu andava em direção ao hall da casa quando o piano parou de tocar repentinamente. Com passos de gato, apurei os ouvidos para tentar escutar a conversa de Julia e Liam Woodhouse.
一 …uma composição sua? 一 dizia Woodhouse.
一 Sim, eu escrevi há um tempo para…
一 Você não consegue tocar as músicas mais simples de Beethoven, como se acha apta para escrever sua própria canção?
A censura do professor deixou meu rosto quente de raiva. Sua prepotência era das grandes 一 quem o escutava dificilmente diria que era um empregado, não um lorde.
一 Por que você sempre tem que ser tão imbecil, Liam? 一 disse Julia entredentes. 一 Só estou pedindo para dar uma olhada, não disse que tornaria-se uma balada famosa.
Liam Woodhouse inclinou a cabeça para o lado, observando a Julia com curiosidade.
一 A verdade é tão dolorosa para você, Srta. ?
Segurei o impulso de entrar e colocar-lhe no seu devido lugar. Julia deveria travar as próprias batalhas, mas o meu coração batia forte no peito querendo calá-lo com um tabefe.
Revide, Julia, murmurei, Revide.
Como se tivesse me escutado, Julia segurou as partituras que tinha em mãos e bateu certeiramente no rosto do detestável Liam Woodhouse.
Ela ainda ensaiou uma frase de efeito, mas morreu em sua boca. Irritada, minha irmã mais velha saiu do cômodo com passos cheios de ira. Julia estava tão imersa na própria raiva que não percebeu-me na entrada do cômodo e correu em direção às escadas.
一 July, me espere! 一 pedi, mas não fui ouvida. Os pés reclamaram quando comecei a correr pelos degraus, porém não me detive para alcançar minha irmã. Segurei as saias até os joelhos e continuei subindo até encontrá-la no primeiro andar.
一 July, me espere! 一 repeti o pedido. Julia virou-se para mim e o rosto banhado de lágrimas apertou meu coração.
一 Não é uma boa hora, .
Abracei-a.
一 Vamos ao seu quarto. Temos que resolver isso hoje.
Ela aquiesceu e levei-a até seus aposentos.
O quarto de Julia era muito parecido com os outros da casa, embora fosse muito mais limpo e organizado do que qualquer outro. Ela deitou-se na cama, escondendo-se por baixo dos lençóis claros.
一 Eu compus uma música para o papai e a mamãe 一 disse ela. A voz abafada pelo choro e o tecido que cobria o rosto. 一 Era da história dos dois. Começava com leveza e romance e terminava triste, com a morte dela. Não tem nem dois minutos, é breve como foi a história deles. Queria… Queria mostrar para alguém que soubesse como melhorar, sabe?
一 Ah, July… Eu sinto tanto.
Ela tirou o lençol do rosto enxugou as lágrimas com violência.
一 Tudo bem, não é nada. Posso melhorar a música eu mesma.
一 July, sei que pode parecer que não me importo com o que tem acontecido com você e Woodhouse, mas eu me importo sim 一 consolei-a. 一 Se quiser posso falar com para buscar outro instrutor. Não deve ser muito difícil…
一 Liam é o melhor instrutor de Londres, . Ele é um asno, mas é um asno que não só sabe música, ele respira música.
Balancei a mão em desdém.
一 Nunca o ouvi tocar.
一 Mas eu já 一 argumentou. 一 E a Condessa de Northampton também. Naquele dia que ela nos visitou, a Condessa contou que os saraus dela perderam o brilho desde que ele parou de atender convites. Ele já até tocou na orquestra real!
Arregalei os olhos.
一 É por isso que ele se acha no direito de tratá-la assim? 一 Sentei-me na beira da cama. 一 Pense bem, Julia. Em breve iremos participar da temporada e as aulas serão reduzidas. Iremos conhecer a rainha! Terá chance para apresentar-se, realmente, mas estará muito mais envolvida com os bailes e não duvido que terá alguns pretendentes que…
Julia levantou-se num sopapo. Enganchou-se nos lençóis, quase caindo, mas manteve o orgulho ao dizer:
一 Eu quero ser musicista, ! Não quero que as pessoas me conheçam como a esposa de alguém. Quero que me conheçam por tocar excelentemente.
一 Mas nada a impede de ser os dois, Julia! 一 repliquei, levantando-me também.
一 Você sabe que sim! 一 ela exclamou. 一 Nós duas sabemos que sim! Que homem deixaria-me viajar para tocar em concertos? Que homem levaria a sério minha prática do piano?
Liam Woodhouse, quis responder, embora não desejasse ele como marido nem para meus piores inimigos. Um homem que desprezava alguém apenas por acreditar ser o único capaz de ser bom naquilo que faz teria que ser descartado de qualquer convívio social.
一 O que me garante que não morrerei igual a mamãe quando eu tiver meu primeiro filho? Ou como a vovó? Durante todos os últimos anos eu tentei casar-me, apaixonar-me facilmente como o papai… Como você sempre faz... 一 desabafou Julia. 一 Mas eu não sou você, !
一 Eu não me apaixono fácil, do que está falando?!
Ela balançou a cabeça, incapaz de manter o mesmo tópico.
一 Eu não quero me casar com alguém dessa classe, . Olhe ao redor: eles estão o tempo todo maltratando você, pisando em você como se fosse um inseto. Por que eles não fariam isso comigo também?
一 Não estou pedindo para que você se case com o primeiro homem rico que aparecer na porta, pelo amor de Deus! 一 repliquei irritada. 一 Não quer casar? Tudo bem. Quer ficar em casa sendo oprimida pelo seu professor de música ao invés de se divertir um pouco? Tudo bem também.
一 Ótimo! 一 ela disse entredentes.
一 Ótimo! 一 repeti com o sangue fervendo.
O ideal seria eu ter dado meia-volta e ido embora. No entanto, minha mente pipocou de frases não ditas que engoli durante as últimas semanas.
一 Eu só queria que todas nós estivéssemos satisfeitas e felizes, sabe? Foi nisso que eu pensei quando respondi a carta de Byron. Porém, desde que chegamos em Londres só vejo você nesse piano, até das meninas você se esqueceu!
… 一 murmurou ela massageando as têmporas. 一 Você não é nossa mãe. Nem mesmo é a irmã mais velha, eu sou a primogênita. Por que se incomoda tanto conosco? Por que se incomoda tanto com o que faço?
一 Vocês são minha família, July 一 senti o choro entalado na garganta. 一 São a única coisa que eu tenho. Não posso desejar a felicidade de vocês? Não posso querer cuidar de vocês?
一 E Byron? 一 ela murmurou. 一 Você não tem a Byron? Por que não cuida dele?
A pergunta chocou-me de maneira que não esperaria. Eu tinha a Byron?
Claro que sim, a resposta certa seria. Então, por que não passara na minha cabeça quando eu disse essa coisa para Julia? Aquele homem era encantador, era verdade. Ele gostava de mim, dissera isso no dia anterior. Então, por que me sentia tão insegura?
一 Estou falando dele também 一 menti.
Ficamos em silêncio. Olhei para a janela do quarto de Julia e fiquei pensando naquela maldita frase que ela dissera. Eu me apaixonava facilmente? Seria então o que eu sentia por real ou fruto de um coração inclinado para o romance? Seria eu menos prática e realista do que imaginava? Eu era igual ao papai?
一 Quero pedir perdão, .
Virei-me para minha irmã mais uma vez. Ela limpou o nariz com a manga do vestido escuro. Compadecida, abracei-a.
一 Por que está dizendo isso, July?
一 Peço perdão por não ser uma líder como você. Peço perdão por não querer me casar e livrar Byron da responsabilidade de cuidar da cunhada solteirona. Peço perdão por que tenho sonhos inalcançáveis. Peço perdão porque sei que isso será um problema para nossas irmãs no futuro. Peço perdão porque…
Enlacei meus braços sobre Julia com mais vigor.
一 Não peça perdão por ser quem você é, July 一 adverti beijando sua cabeça. 一 Aliás, esqueça tudo o que eu disse. Eu quero que seja a melhor musicista do mundo. Prove para Woodhouse que há espaço para mais um excelente pianista na Inglaterra. Mostre para eles para que veio a Londres.
Ela riu. Seu corpo vibrou sobre o meu e me sentir com um dever cumprido. A face cansada de Julia resplandeceu de alegria; eu, por consequência, sorri junto.



一 Você é realmente apreciadora de frutas vermelhas.
Sorri para enquanto comia um pedaço de torta do restaurante Wiltons. Ele havia decidido que queria jantar a sós comigo e de muito bom grado acompanhei-o àquela noite. Vesti-me da melhor maneira e busquei estar o mais agradável possível, no entanto, meus pensamentos voavam longe para a conversa que tive com Julia.
Apaixonar-se facilmente… Como você sempre faz.
一 E você é um grande apreciador de chocolate. 一 Apontei para o pedaço de bolo que tinha a aparência marrom tão embebecido que parecia enjoativo.
一 Culpado. 一 replicou com um breve sorriso. deu mais uma garfada na sobremesa.
À luz de velas, Byron parecia mais charmoso. A penumbra destacava os olhos pálidos, transformando-os em cinza escuro. Um bom calor invadiu o meu peito e eu suspirei.
一 O que tanto vê?
Peguei a taça com vinho, levando-o com paciência até a boca. Eu via um homem que sorria fácil, responsável e muito amoroso quando deixava que pulassem as barreiras do seu coração. Era inevitável apaixonar-se por , mas, então… Seria longânimo?
一 Tenho algo para você 一 disse ele antes que eu respondesse.
一 É um presente? Não trouxe nenhum para você… Se eu soubesse eu…
Ele balançou a mão em desdém.
一 É algo que eu deveria ter entregado há muito tempo.
mexeu no bolso do casaco e retirou uma pequena caixa escura.
Éramos casados. Tínhamos consumado o casamento; estávamos compartilhado a mesma cama e agindo como enamorados em lua de mel. No entanto, quando ele abriu e mostrou o anel de noivado e a aliança de casamento, era como se eu tivesse sido pedida em casamento de verdade, com todas as pompas que as mulheres recebiam. Não sabia o quanto eu desejava ter alguém ajudando-me a colocar as joias em meus dedos até tê-las ali. Parecia uma das fantasias de garota que escondi em um buraco no chão quando saí de Southwark Village.
Quando aceitei a proposta de Byron por correio, imaginei o pior dos casamentos possíveis; os meses sem a presença dele não foram os mais animadores… E, então, estávamos em um restaurante londrino com ele dizendo o quanto um rubi combinava comigo. Pouco importava, realmente; eu não sabia diferenciar um rubi verdadeiro de uma cópia. O que importava era o beijo em meus dedos que deu e o pequeno sorriso dele quando viu que eu chorava.
, já somos casados. Não há porque ficar emocionada.
一 Eu sei, eu sei… 一 limpei as lágrimas com um sorriso constrangido. 一 É que nunca imaginei… 一 respirei fundo. 一 Não sei se sou capaz de retribuir todo o carinho que você tem me dado, .
一 Shhh… Não há qualquer necessidade de pensar nisso. Estou sendo cuidado por você desde que cheguei na Inglaterra 一 justificou buscando minha mão mais uma vez. 一 Mesmo quando brigávamos com certa frequência, estive muito atento aos pequenos detalhes, desde a comida até mesmo o seu comportamento. Eu não preciso de nenhum presente que não seja o seu carinho e atenção.
Segurei os seus dedos. Eram grandes e um tanto ásperos de quem viveu muito. Eram também carinhosos e tentadores quando queriam.
一 Fico pensando… E se papai não tivesse morrido? E se tivesse aceitado a proposta? 一 olhei para os lados. 一 Você me escolheria ainda assim?
一 Não gosto de “e se”. É um exercício da mente que não tem resposta e ainda nos frustra com coisa que nem mesmo aconteceu 一 disse antes de soltar a mão e voltar-se para o bolo.
Lambi os lábios hesitante.
一 A situação seria outra… Certeza que a racionalidade seria sua principal conselheira.
Tomei mais um gole do vinho, sentindo mais chateada do que deveria.
一 Não vamos falar sobre isso, sim? 一 pediu Byron.
Assenti, embora eu quisesse fazer o contrário.
A volta para casa foi extremamente silenciosa. Envolvi-me facilmente com a penumbra da noite londrina, a pequena agitação entre as ruas que a primeira vigília proporcionava. Imaginava que durante a alta temporada elas ficavam mais cheias e muito barulhentas, como formigas indo em direção aos potes de açúcar.
, você está bem?
Acariciei seu joelho.
一 Estou sim, . Só um pouco cansada.
Ele passou os braços por entre meus ombros e abraçou-me de lado. Não percebi o quão fria estava à noite até sentir o calor de seu corpo cercando-me e acalentando-me. Ele beijou minha testa e estremeci no âmago. Como era bom tê-lo por perto! Como era bom saber que ele estava comigo!
A carruagem parou, mas ele não fez qualquer movimento de que ia sair. Ao invés disso, no escuro do veículo, Byron confessou-me:
一 Preciso ser honesto com você… Não respondi sua pergunta porque a resposta não é a que você espera.
Meu coração apertou-se e eu fechei os olhos, esperando a queda. Era ali, então, que eu me machucaria? Por que tão cedo? Por que não esperar um pouco? Por que não pude aproveitar mais?
一 Diga. 一 Incentivei.
一 Eu escolheria sua irmã. Você sabe disso 一 reiterou ele. 一 Ela tem um histórico muito melhor que o seu, além de ser a filha mais velha. Faria uma perfeita Lady Byron.
Afastei-me de seu abraço em silêncio. Não havia nenhuma mentira nas suas palavras 一 no entanto, era jogar sal em uma ferida não cicatrizada.
一 Não gosto de pensar nesse “e se” porque o final é sempre deprimente. 一 continuou 一 Em algum momento, sei que me apaixonaria por você. Seria insuportável ter uma mulher ao meu lado e desejar outra. Seria um inferno ter que lidar com seus sorrisos e não ser recebedor deles. Estar perto e distante de você. Porque em qualquer “e se”, seja ele qual for, meu coração seria cativo ao seu, . Essa é uma das poucas certezas que tenho na vida.
O coração pulsava desnorteado.
一 Você não tem esse direito... 一 reclamei após os soluços tornarem-se difíceis de esconder. 一 Eu não o mereço…
buscou meu rosto na escuridão e encheu-me de beijos pela face salgada pelas lágrimas. Enquanto fazia isso, meu marido dizia:
一 Eu que não a mereço, querida. Eu que não a mereço.


XXII. Berkshire

PARTE 1
一 O que está fazendo?
Estávamos no escritório da casa, eu e . Era manhã ainda, mas nós dois criamos a rotina de acordar mais cedo do que boa parte de Mayfair.
estava sentada na minha cadeira encarando o papel em suas mãos. Agia, costumeiramente, como dona do local. Ela não encarou-me ao dizer:
一 Estou apenas conferindo o horário do jantar dos Northamptons. Não quero chegar atrasada.
Era uma justificativa plausível, mas nós dois sabíamos que era superficial. No jantar de Northampton, oficialmente, seria apresentada à sociedade. Lá estariam os convidados mais notáveis de Londres e seria o evento que apagaria ou inflamaria as fofocas da Alta Sociedade.
Eu estava nervoso por ela, sim. Fofocas vão e vêm, espalham-se e desaparece; porém, quando se tratava de mulheres, mesmo aquelas que eram esposas de nobres, a reputação poderia ficar manchada para sempre. Além disso, poderia atingir diretamente à Lilian e Polliana 一 as duas que ainda não tinham debutado. A responsabilidade estava nos ombros de e por isso não hesitei em massageá-los.
Minha esposa deu um sorriso em agradecimento.
一 Eu disse a você que li seu caderno? 一 indaguei, mudando de assunto.
一 Disse, mas parou por aí 一 replicou ela pensativa. 一 Acho que estávamos muito ocupados tentando ganhar um do outro.
一 Ah, aquele jogo de cartas foi explêndido!
Os olhos dela cerraram-se.
一 Diz isso porque ganhou de mim.
一 Ora, , não seja uma má perdedora.
Em resposta, minha esposa revirou os olhos.
一 Voltando ao assunto do caderno… 一 pontuei. 一Devo elogiá-la pela organização. Há muita coisa que eu esquecera que desperdiçava meu dinheiro e concordo que há gastos que podem ser cortados. No entanto, há alguns que você apontou que são inegociáveis.
一 Quais? 一 perguntou curiosa.
一 Havia uma mesada, a de Lovelace. Essa vai para minha prima de segundo grau 一 expliquei. 一 Lady Lovelace é a única filha legítima do Lorde Byron, o poeta. Ficou sem um tostão desde que o pai morreu e o antigo lorde, que satanás o conserve no inferno, deixou-a à deriva por muito tempo, igual a mim e minha mãe. Hoje ela não necessita de ajuda financeira, mas ela é quem verdadeiramente deveria herdar Berkshire Hall.
apertou os lábios, pensativa.
一 E o seu primo, Oliver? Ele precisa mesmo de uma mesada? É um homem feito e saudável. Pode muito bem trabalhar para ter seu próprio sustento.
一 Oliver é um inútil 一 repliquei. 一 Ofereci-lhe um trabalho na América e ele me deu um prejuízo de milhares de libras. Se não fosse a venda da companhia, sabe Deus lá como eu me organizaria. Não posso deixá-lo sozinho, pois acolhera-me durante às… Digamos… Peregrinações da minha mãe.
Ela assentiu.
一 Pelo o que eu li dos livros de Sr. Woodhouse, Berkshire Hall é a casa que mais usa dinheiro sem retorno 一 comentou . 一 Casas como aquela não são mais rentáveis como antigamente, porém são atrações para novos ricos. Os campos de Berkshire são lindos e muito bem cuidados. Enquanto estive lá fiquei pensando no quanto seria mais lucrativo alugar por temporadas. A propriedade continuará nas suas mãos e poderá visitá-la quando quiser, desde que organize-se previamente. O que acha?
一 E os Klines? E minha avó?
一 Sr. Woodhouse comentou que há um chalé das redondezas que pertence a você. Não seria suficiente para ela? Ainda poderá visitar as amigas da cidade 一 respondeu sem hesitação. 一 Já os Klines, que me desculpe, , mas são uns sanguessugas. Podem muito bem ficar com a casa que você prometera; em breve, os meninos irão todos para a escola e ficará só o casal… Aliás, a mesada que dá a eles é igual a que dá a sua avó, como pode?! São tão importantes assim?!
一 Eles me acomodaram quando…
Minha esposa balançou a mão em desdém.
一 Se vai ajudar todos que um dia deu a mão a você, não sobrará nada para nossos filhos no futuro.
Levantei a sobrancelha.
一 Nossos filhos que ainda não existem, você quer dizer.
Ela voltou-se para o convite esquecido no colo, fingindo lê-lo mais uma vez.
一 No ritmo que nós estamos, não demorará muito para eles existirem 一 murmurou.
Ri da sua aparente timidez e beijei-lhe a bochecha.
一 Sua sugestão é genial, querida. Será muito divertido tê-la como sócia na Milady ano que vem.
O último mês tornou-se mais agradável quando sentávamos para discutir aquele novo empreendimento; eu estava começando a conhecer um lado meticuloso e até calculista de minha esposa. Se ela fosse um homem, com certeza seria um dos mais bem sucedidos da Inglaterra. Felizmente ela não o era e eu poderia roubar-lhe beijos de vez em quando.
一 Como você veio parar em Londres? Quando começou a ganhar tanto dinheiro? 一 perguntou . 一 Fiquei impressionada com o que vi.
一 Vim quando meu pai tornou-se Lorde Byron. 一 expliquei tentando resgatar aquelas memórias. Pareciam de outra vida de tão distantes que eram. 一 Minha avó passou a pagar uma escola para meninos que há por aqui. A educação era bem vagabunda, realmente, mas aprendi a ler e escrever e a fazer contas, o mínimo para sobreviver nessa selva. Mais ou menos aí passamos a receber algumas libras e ela pode pagar um aluguel pela cidade.
一 Você chegou a conversar com seu pai? 一 disse ela cuidadosa com a pergunta.
Todos tocavam no assunto com muitos dedos, mas a verdade é que minha relação com ele era um assunto encerrado desde a morte dele. O que sentia, de verdade, era rancor pelo que ele fez para minha mãe.
一 Devo ter o visto uma vez apenas, quando era criança. Ele me ignorou completamente. 一 Pensei um pouco. 一 E teve o funeral dele. Eu estava lá.
一 Nossa… Isso é um tanto triste.
Dei os ombros tentando fazer pouco disse.
一 O meu verdadeiro pai foi Sr. Dowling. Ele ensinou-me a ser um homem decente… E, claro, teve minha mãe…
Ficamos em silêncio. Ao contrário da morte do meu pai, o falecimento da Sra. 一 quem nunca aceitou ser chamada por Lady Byron 一 atingiu-me em cheio. Trabalhei duro para que ela tivesse conforto, porém, menos de um ano que comprei aquela casa, ela foi-se para a eternidade.
一 Amanhã fará um ano da morte de meu pai 一 disse depois de um grande silêncio. 一 Eu e as meninas vamos dar um passeio, já que não podemos ir até Southwark Village.
Balancei a cabeça em assentimento, lembrando de uma conversa que tivemos anteriormente.
一 Depois é o aniversário de Polliana? O que fará para ela?
deu os ombros.
一 Quero comprar-lhe uma boneca, apenas. Tem algo em mente?
Sentei no pequeno sofá perto da porta do escritório.
一 Pedirei para que a cozinheira prepare um bolo. Qual é o sabor favorito dela?
一 Chocolate, como toda criança. 一 ela sorriu. 一 Fará seis anos, acredita?
一 Às vezes ela age como se fosse uma adulta 一 comentei, lembrando do dia anterior quando ela resolveu dar uma bronca em Julia e Liam, os quais estavam discutindo por conta de espaço no sofá. 一 Confesso que não imaginei gostar tanto de suas irmãs.
一 Elas são ótimas, não é? 一 replicou com um sorriso orgulhoso.
Levantou-se e em alguns passos sentou ao meu lado, abraçando-me. Estávamos, então, nós dois sentados no sofá, os braços entrelaçados por nenhum motivo específico. Aquele tipo de carinho que dava sem muita cerimônia era uma gostosa novidade.
Contava nos dedos às vezes que recebia algum carinho espontâneo da minha mãe 一 dela, no entanto, eu não exigia. Não fui desejado e ter-me por perto deveria ser como cutucar uma ferida que nunca cicatrizaria. Era grato pela sua amabilidade e força de vontade para criar-me; e, apesar dos pesares, eu a amei.
一 Nunca pensei em ter irmãos, mas essa dinâmica de vocês me faz querer ter vários filhos 一 disse eu, deixando aqueles pensamentos de lado.
一 Eu também quero ter vários filhos com você.
Encarei-a por alguns segundos, as palavras digerindo-se como uma comida pesada que necessitava um pouco mais de energia do que costume. deu-me um dos seus sorrisos repleto de brilho e cor; imaginei vários desses em miniaturas iluminando a casa como vela acesas após o crepúsculo.
Suspirei igual ela fazia constantemente. Então, beijei a .



As duas carruagens esperavam lá fora. De última hora, os Exeters enviaram um recado dizendo que não poderiam ir, pois os dois filhos mais velhos pegaram gripe e necessitavam de cuidados. Estávamos, então, fora do horário estipulado.
Tirei o relógio do bolso ansioso. Ainda tínhamos tempo.
, você precisa mesmo desse leque? 一 perguntei irritado.
Fazia quase dez minutos que deveríamos ter saído, porém ela lembrou-se do acessório e estava disposta a não sair sem ele.
一 É o único que combina com a roupa! 一 gritou ela da sala de visitas. 一 Tem como você dar uma olhada no escritório? Talvez eu tenha deixado lá!
Balancei a cabeça para os lados sabendo que ela não foi para o escritório de manhã com o maldito leque. Ainda assim, respondi positivamente e em passos rápidos fui para o local.
A biblioteca estava escura, exceto por uma vela escondida entre as estantes onde ficavam os livros biográficos. Andei até lá, anotando mentalmente de lembrar a Sra. Hammel de não deixar vela alguma acesa em um lugar propício a um incêndio.
Então, vi algo que fez essa preocupação parecer pequena. Entre as prateleiras, envolvidos em um beijo acalorado de um reencontro de antigos amantes, estava Julia e Liam Woodhouse. Minha cunhada já tinha parte do vestido desabotoado, ignorando que poderia ser pega em qualquer momento.
一 O que diabos está acontecendo aqui?! 一 minha voz, ao invés de sair como um grito de reprimenda, soou como um sussurro ameaçador.
Os dois afastaram-se de repente, as faces constrangidas e vermelhas de culpa. As expressões denunciavam que faziam algo indevido e que eles tinham consciência disso.
一 Não é o que você está pensando 一 disse Julia inutilmente.
一 Não é?! Diga-me o que é, então!
A voz que respondeu-me, porém, vinha de longe, do lado de fora.
, já encontrei o leque. Vamos! Não quero me atrasar mais!
Apertei os lábios e olhei com desapontamento e zanga para a minha cunhada e o filho do Sr. Woodhouse, a quem eu tinha um grande carinho e sempre mostrou-se irrepreensível. Como a defende-se do meu olhar, Liam pôs-se na frente de Julia.
一 Estarei indo agora, mas quando voltar não o quero mais debaixo do meu teto 一 alertei para Woodhouse. 一 Amanhã venha fazer um pedido formal de casamento.
Ele baixou a cabeça, reconhecendo quão encurralado estava.
一 Sim, milorde.
一 Não irei casar com Liam por causa de uma escolha insensata de um momento! 一 Julia replicou com o tom desesperado.
, que demora! Vamos! 一 gritou e ouvi alguns passos longínquos vindo do corredor.
一 Você percebe que sua atitude poderia acabar com a reputação das suas irmãs? 一 indaguei em um murmúrio. A raiva e a frustração escorregando em minhas palavras. 一 Que isso pode reverberar negativamente em ? Percebe que sua atitude egoísta pode pôr a perder todo o trabalho que ela tem tido para ser aceita na aristocracia e, posteriormente, que vocês sejam aceitas? Que se tivesse sido um empregado que os flagrasse, ainda essa noite Londres inteira iria saber dessa fofoca?
Julia calou-se.
! Depressa! 一 chamou da porta da biblioteca.
Apaguei a vela apressadamente, ocultando o casal na escuridão. Com passos de quem conhecia muito bem a biblioteca, fui até minha esposa.
一 Desculpe, acabei me distraindo. 一 justifiquei.
franziu o cenho, porém não disse nada.
Olhei para trás, onde imaginava que estava os dois. Julia era a irmã mais velha, mas agiu como uma jovem ingênua e inconsequente. Liam, por outro lado, não soube honrar o seu compromisso como instrutor e agiu como um canalha libertino. Era bom que ele aparecesse no dia seguinte ou eu mesmo o buscaria.
Para minha esposa, porém, eu não contaria o que aconteceu. Iria guardar aquele segredo por uma noite apenas; tínhamos um jantar para ir.

PARTE 2

Como era de se esperar, o jantar na casa do Conde e da Condessa de Northans não era um simples jantar. Houve um pequeno congestionamento na rua, indicando não havia poucos convidados. engoliu o seco, mas sorriu para mim quando perguntei se estava tudo bem. Era só mais um pequeno sinal avisando-me para não contar, ao menos não ainda, o que aconteceu entre Julia e Liam.
Segurei firmemente a mão da minha esposa quando ajudei-a descer da carruagem.
一 Antes que perceba estaremos em casa 一 confortei-a com uma piscada.
一 Espero 一 murmurou enquanto arrumava as saias. 一 Como estou?
Observei ao vestido de veludo azul escuro que ela vestia. Na penumbra da noite, o tecido parecia preto; encaixava-se perfeitamente em seu corpo, destacando com modesta a curva da cintura e o decote escondia sem excesso de puritanismo. Olhar para envolta naquele tecido, encarar a face um pouco rosada e o cabelo em um bonito e discreto adorno fez-me admirá-la por segundos a mais.
一 Está perfeita, .
一 Byron, pare de enrolar. 一 reclamou Dudley enquanto subia as escadas. 一 Já não chegamos cedo…
Revirei os olhos, mas nada disse. Com ao meu lado, subi as escadas dos anfitriões com a paciência de uma lesma. Fomos recepcionados pelo mordomo e levados até a salão principal onde estavam cerca de trinta pessoas; eram, na maioria, homens e mulheres notáveis e de grande influência. Embora Londres estivesse quase vazia durante dias como aquele, muitos estavam de passagem para resolver seus negócios pessoais e não deixariam de atender um convite da Condessa de Northampton.
As cabeças nobres viraram-se para nós em unanimidade quando fomos anunciados. Os olhos, porém, estavam todos postos em .
Apertei os lábios quando vi o olhar de cima para baixo de algumas mulheres para a minha esposa. Os homens também não era muitos discretos e tive que manter a calma para não falar algo indevido.
一 Oh, queridos! Que bom que chegaram! 一 exclamou a Condessa, indo ao nosso encontro. 一 Estava apenas esperando por vocês.
一 Obrigada pelo convite, condessa. 一 agradeceu com um contido sorriso. 一 Infelizmente, nossa amiga marquesa não pode vir. Ela e seu marido ficaram em casa para cuidar dos filhos doentes.
Aos poucos, com a orientação da governanta, os casais foram posicionando-se conforme seus títulos. O Conde de Northans aproximou-se.
一 Gostaria de convidar a milady para acompanhar-me 一 ofereceu o braço para . Ela, em resposta, riu constrangida. 一 Só farei, é claro, se não for incômodo de seu marido.
Dei um aceno positivo e então acompanhei a Condessa de Northampton na fila para entrada do jantar. A cena foi acompanhada pelos convidados, que murmuravam e fofocavam entre si sem nenhum pudor. Aquela honraria 一 ser acompanhada pelo anfitrião 一 era uma pequena provocação para a sociedade que julgara sem relacionamentos importantes.
Como mandava a etiqueta, tinhamos como obrigação interagir com as mulheres ao seu lado, não as da frente. Quis sussurrar para que ela estava indo muito bem, mas eu não conseguiria ser discreto naquele momento. Sentei-me entre a esposa do Marechal Jeffrey Duncan, uma mulher de idade avançada e que costumava falar nada com nada, e Kelly. Ao lado de minha esposa estava George e, infelizmente, Lorde Stanton.
Seria uma noite torturante.
Fitei os diversos talheres na mesa. imitou-me, mordendo o lábio em indecisão. Quando os garçons começaram a pôr os primeiros pratos, discretamente, Kelly tocou na colher certa, indicando-a para minha esposa.
一 Obrigada 一 agradeceu ela em um pequeno murmúrio.
一 É bom revê-la, 一 disse Stanton, puxando assunto.
Contive a vontade de chutar-lhe o joelho. Que infeliz coincidência eles terem sentado lado a lado!
pegou a taça de água e bebeu devagar.
一 Está tudo bem, Lorde Stanton? 一 indagou ela formalmente.
Ele deu um sorriso incrédulo.
一 Chame-me pelo primeiro nome.
Ignorando o seu pedido, minha esposa virou-se para um George que já degustava o prato.
一 Como está a comida, George?
一 Deliciosa. 一 respondeu simpaticamente.
一 Está muito quente?
一 Talvez. Prefere morno?
E a conversa da noite entre os três foi a maior parte do tempo assim: Lorde Stanton tentava chamar a atenção da minha esposa e recebia apenas respostas educadas e frias. Eu, por outro lado, envolvi-me em uma conversa bem boba com a Sra. Jeffrey Duncan sobre esquilos em Hyde Park, divertindo bastante a Kelly.
Então, após dez deliciosos pratos, as mulheres juntaram-se para tomar chá e fofocar; nós, os homens, fomos fumar e fofocar igualmente. Claro, o verbo nunca seria admitido em voz alta; afinal, quem falava da vida alheia eram as mulheres, os homens apenas comentavam.

O cômodo escolhido para os homens socializarem fedia a fumaça. Os diferentes charutos davam um aroma sufocante para o lugar, o que fez-me sentar perto da janela para respirar ar puro. Odiava aquele costume masculino, embora tenha o feito em momentos que quis bajular um ou outro investidor.
一 Lorde Byron, muito bom revê-lo 一 comentou o Marechal Duncan sentando-se ao meu lado. 一 Desde que casou-se o vi pouco nas pequenas reuniões sociais.
一 Gosto de ser acompanhado pela minha esposa e desde que não tinha completado-se um ano de luto pelo pai…
一 Oh, sim! 一 comentou o homem. 一 Ouvi boatos de que ele era um médico, é verdade?
Arrumei os ombros na defensiva.
一 Sim, era um homem muito admirável e de caráter exemplar.
一 Claro, claro 一 replicou com pressa. 一 Nunca duvidaria disso.
一 É verdade que ela está grávida? Ela parece tão magrinha… 一 comentou um rapaz intrometido, a quem não conhecia.
一 Não 一 repliquei com o rosto sério. 一 Mas acredito que não demorará muito.
一 Ouvi dizer que as mulheres indianas são fogosas 一 continuou o rapaz. 一 Milorde deve se diver…
Levantei-me com o sangue apitando nas orelhas. Em um golpe, agarrei-lhe o colarinho e puxei-o em direção ao chão.
一 Casey, seu estúpido, pare de falar besteiras ou perderá os dentes. 一 advertiu o Conde de Northans com um tom jocoso. Levantou-se de onde estava sentado e deu um tapa estalado na cabeça do jovem. Soltei-o no chão, fazendo com que o rapaz caísse de vez. Alguns homens riram. 一 Desculpe meu sobrinho, milorde. Ele é um imbecil. Bateu a cabeça quando era ainda um bebê.
Os outros convidados riram mais uma vez, mas mantive minha pose de ataque. Olhei para o rapaz com os olhos semi-cerrados, a vontade de atingir seu nariz perfeito era muito maior do que a razão.
一 Sente-se, Byron 一 disse George com um sorriso conciliador. Pousou suas mãos em meus ombros, colocando-me na cadeira. 一 Vamos jogar cartas? Estou confiante essa noite.
一 Ótima ideia, Dudley! 一 replicou Northampton 一 Tenho certeza que Lorde Stanton também adorará jogar também. Onde está ele?
Jogar com Stanton não era uma perspectiva agradável, sobretudo depois daquele comentário do sobrinho de Northans que ainda não havia engolido… Fitei o rapaz mais uma vez, mas ele estava envergonhado e desviou os olhos.
一 Falando do diabo… 一 comentou George assim que Stanton entrou na sala.
一 Quer jogar conosco, Stanton? 一 indagou Northans, alheio a nossa intriga. 一 Será contra Dudley e Byron.
Stanton estava com um vermelhão atípico no rosto e encarou-me com os olhos inflamados. Abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido pela aparição súbita da minha esposa na porta.
Os homens da sala levantaram-se automaticamente, deixando-a constrangida. Ainda assim, minha esposa sorriu com graça.
一 Desculpe-me pela intromissão, senhores, mas preciso falar algo urgente com meu marido.
Os olhos, então, foram postos em mim. Fui em sua direção com passos largos, aliviado por sair daquela sala sufocante.
andou com pressa até achar um corredor vazio, longe dos cômodos onde os convidados estavam reunidos.
Quando respirou fundo, sua expressão tornou-se constrita.
一 Está tudo bem, querida? 一 indaguei com cuidado.
Ela balançou a cabeça negando.
一 Quero ir para casa, .
一 Diga-me o que aconteceu.
一 Lá eu conto 一 sua voz saiu sussurrada 一 Vamos, por favor.
Normalmente eu argumentaria para que ficássemos mais um pouco, porém eu estava preocupado e sem qualquer vontade de fingir estar se divertindo àquela noite. Então, antes da meia-noite, eu e minha mulher nos despedimos dos anfitriões e voltamos para casa.



O outono havia chegado e as noites voltaram a ser um pouco mais frias. estava abraçada ao meu corpo fazia minutos, horas talvez 一 não largava-me de maneira nenhuma e de vez em quando molhava meu torço com suas lágrimas.
Fora bom, sim, não termos ficado no jantar de Northans. Se ficássemos era bem capaz que eu assassina-se a Lorde Stanton.
一 Eu sei que ele não sabe nada sobre mim 一 murmurou ela depois de um tempo. 一 Mas estou… tão, tão cansada. Parece que o tempo todo estou sendo expulsa, vomitada como comida estragada.
Beijei-lhe a cabeça e abracei com mais força. Minha esposa parecia menor, frágil e desprotegida. Debaixo dos lençóis, envolvi-a com meu corpo.
一 Aqui em meus braços você será sempre acolhida, . Stanton apenas é um homem sem caráter que está tentando aproveitar-se de você.
一 Eu queria ter batido nele com mais força 一 disse ela e eu sorri.
一 E eu queria que duelos não fossem crimes. Ele estaria morto antes do desjejum.
Ela deu uma risada seca. Estava infeliz, eu sabia. Meu coração ficava apertado no peito ao ter consciência disso.
一 Deixe-me contar uma coisa boa… 一 comecei. 一 Conheci o seu pai quando eu tinha nove ou dez anos de idade. Não lembro muito bem. Estávamos esperando uma carta da mãe de Oliver que pagaria nossa passagem para Escócia na casa de uma prima de segundo grau, ela morreu há um tempo.
一 Por quanto tempo viveu na Escócia? 一 perguntou ela.
一 Três anos, mas… 一 balancei a cabeça. 一 Voltando para o assunto. Minha mãe e eu tivemos um bom relacionamento, apesar de eu saber no fundo que ela não me amava. Ela tolerava-me, era verdade, preocupava-se comigo, mas… Amar era difícil quando o objeto do amor era alguém que trouxe tanta dor e sofrimento.
Ela acariciou minhas costas, sem saber o que dizer quanto a isso.
一 Mas eu a amava, . Sempre a amei. E quando a vi quase falecer, entrei em desespero. 一 continuei 一 Não tínhamos dinheiro para pagar um médico e a saúde dela só piorava. Começou a ver embaçado, quase ficou cega… Então passava mal com o pouco que tínhamos para comer. Pensei que ela fosse morrer e eu não tinha ninguém além dela.
Minha esposa ficou em silêncio e manteve uma carícia contínua em minhas costas.
一 Estava chorando angustiado no centro do vilarejo quando o seu pai me encontrou. Contei a situação e ele disse que iria me ajudar e não cobraria nada. Minha mãe era diabética, mas não tinha sido diagnosticada ainda. A magreza não era só desnutrição e estresse. 一 completei. 一 O tratamento foi paliativo e tivemos ajuda de uma curandeira do bairro. Sempre achei interessante como seu pai tratava-a com respeito. Poucos médicos levam em consideração essas mulheres.
一 A Srta. Phoenix 一 disse com um sorriso. 一 Lembro-me dela.
一 Aos poucos ela voltou a ter forças e eu também, já que seu pai encarregou-se em ajudar-nos. Não tinha nenhuma obrigação de fazer isso, mas ele foi lá e nos apoiou quando mais precisamos. 一 conclui. 一 Só essa atitude mostra que ele é um homem muito mais nobre do que marqueses e duques que andam cheios de pompas pelas ruas. Ele é mais nobre do que eu. Por isso que, quando soube da situação financeira, decidi retribuir o favor casando-me com uma das filhas dele.
一 Estou feliz que eu tenha sido a agraciada. 一 ela disse e eu dei-lhe um beijo casto.
一 Eu também, querida. Eu também.



Joguei o jornal da lareira e risquei o fósforo. Junto com ele foi mais uma carta da minha avó, a quem decidi não responder até que pedisse desculpas formais a minha esposa. dormia lá em cima, embora não fosse acostumada a levantar tarde. Decidi prolongar mais uma vez o momento em que contaria sobre a sua irmã. Ela precisava descansar e fugir daquela sociedade mesquinha que eu participava; eu, então, a protegeria, porque era minha responsabilidade. Eu era o marido dela e a amava.
一 Milorde 一 chamou-me o mordomo. 一 Sir Oliver está aqui para falar-lhe. Diz que é urgente.
Franzi o cenho, estranhando aquela atitude. Se fez todo esse trajeto até aqui deveria ser algo importante.
一 Mande-o entrar.
Oliver estava muito mais magro do que antes, a barba por fazer mostrava ser mais desleixo do que tentativa de entrar na moda. A roupa abarrotada me fazia indagar que a mesada que eu lhe dava estava chegando inteira em seus cofres.
一 Oliver, o que aconteceu?
Os olhos deles encheram-se de lágrimas e humilhantemente ajoelhou-se. Com as mãos agarrou em meus pés, assustando-me.
一 Perdoe-me, primo. Perdoe-me. 一 dizia choroso. 一 O que eu fiz não tem perdão, não tem perdão.
一 Do que está falando, homem? 一 indaguei surpreso.
Teria ele envolvido-se com drogas? Com crimes? Emprestara dinheiro com agiotas?
O que ele respondeu, no entanto, foi como uma facada em minhas costas. Preferia mil vezes que ele fosse algum tipo de criminoso.
一 Quando perdoou-me pelo que aconteceu na América, pensei que estava mentindo…. Não acreditei quando falei que pagaria-me uma mesada… Então, eu fiz uma coisa terrível, .
一 Fale! 一 repliquei nervoso, mexendo o pé para que ele largasse-me.
一 Eu vendi a sua licença especial e forjei uma para o seu casamento… 一 ele pôs o rosto em chão e começou a tremer. 一 Você não está casado de verdade, meu primo.


XXIII.

A luz do sol transpassava a janela e iluminava o quarto, dando-o um ar celestial. Os lençóis enrolavam-se entre as minhas pernas como nuvens fofinhas. Fechei os olhos, imaginando-me em um lugar de paz e tranquilidade. O Paraíso que muitas vezes ouvi falar e desejei existir.
Naquele lugar ideal, eu esqueceria de tudo 一 teria a chance de começar do zero. Lá todos seriam iguais e, então, as palavras de Richie não reverberariam como verdades que eu tentava esconder.
Você fica brincando de ser uma lady, mas sabe que não é uma, .
A noite passada fora tão difícil. Em momento nenhum pude baixar a guarda; os trejeitos, as perguntas e as respostas eram calculadas cuidadosamente. Era como andar em uma corda bamba de olhos vendados, confiando apenas na sua memória posicional. As mulheres, sobretudo, eram piores do que a Sra. Berkshire e suas amigas, que sempre deixaram bem claro que não gostavam de mim; essas agiam como víboras sorrateiras, aproximando-se em silêncio e prontificando-se para dar o bote.
Gostaria de ir aquele Paraíso. Não odiaria a pele que herdei, os traços que revelavam que eu não era britânica, não importava se inglês era minha língua materna. Eu não era indiana também 一 a Índia, na verdade, era um longínquo país que esquecia da existência rotineiramente. Dela, só via em mim aquilo que o espelho dizia. Nem mesmo meu nome carregava a ancestralidade da minha mãe. Quem eu era? A quem eu pertencia? De onde eu vinha?
Em breve Byron vai cansar de você e verá que tudo que te interessa é a beleza, igual foi comigo. E logo você aceitará ser minha amante.
Apertei os dedos da mão, a raiva borbulhando no peito. Eu dei-lhe um tapa depois daquela ofensiva, mas agora parecia pouco. Eu deveria ter deixado-o aleijado, incapaz de se locomover. Como um dia eu estive apaixonada por alguém tão desprezível?
Pensei mais uma vez do Paraíso. Imaginei o céu azulado, os campos verdejantes e o bom cheiro de frutas maduras. Lá encontraria pela primeira vez a minha mãe. Lá encontraria pela meu pai mais uma vez.
Respirei fundo sentindo-me incapaz de levantar-se da cama.
Papai havia partido em definitivo há um ano. Um ano que nossas vidas haviam mudado para sempre.
Lembrava de seus cabelos brancos e da tez vermelha de quem passava muito tempo no sol. Ele era conversador 一 sabia o nome de todos do vilarejo e, embora fosse velho, ainda tinha tempo para paquerar por aí. Era sábio e um homem estudioso. Agora morto, não conseguia lembrar de nenhum de seus defeitos. Era melhor assim.
O que será que Julia havia preparado para hoje?
Ouvi, então, batidas frenéticas na porta.
! !
Ergui-me da cama atenta. A voz desesperada pertencia a Lilian.
一 Está aberta, Lily.
Quando a porta abriu-se, Lilian entrou acompanhada da Sra. Daniels, sua preceptora, Polliana e a babá. Todas estavam apreensivas, mas apenas Lily tinha o rosto vermelho e banhado de lágrimas; em sua mão, ela carregava uma carta.
一 July fugiu! Ela não está mais em casa.
一 O quê?!
Agarrei o papel com rudeza, as mãos tremendo de repente. Por que Julia fugiria? Com quem? Por que não nos disse nada?
As palavras de sua carta responderam minhas perguntas. A cada frase lida o coração transformar-se num pequeno bloco de gelo que doía conforme batia.

Querida ,
Escrevo essa carta com tristeza.
Há meses estou vivendo um conflito dentro de mim que não sei decifrar. Eu amo Liam Woodhouse. Eu odeio-o, também. Por isso, esta noite cometi um erro. Deixei-me levar pelo momento, não pensei nas consequências e agi mesquinhamente. Enquanto você se dedicava a nos abrir caminho para a aristocracia, eu fui pega por Lorde Byron em uma cena constrangedora.
Nunca agi como uma verdadeira primogênita. Fui egoísta em quase todos os meus atos, negando a casar-me antes por aspirar algo maior que nunca admiti. Hoje eu sei o que era: a música. Ela é meu guia e meu farol. É para ela que andarei.
Byron disse que Woodhouse deveria casar-se comigo e, como um homem responsável, ele fará isso. Mas, o pouco que conheço Liam, sei que um casamento com essas circunstâncias seria um erro. E, apesar de amá-lo, eu o odeio 一 ele me faz mal, machuca-me como nenhum outro homem conseguiu. Como eu viverei o resto da minha vida ao lado de alguém tão ambíguo? Como compartilhar a vida com alguém que despreza meu sonho?
Tive impressões erradas do Woodhouse na primeira vez que o conheci. Ele pareceu gentil e compreensivo. Encontrei-o algumas vezes antes de virmos para Londres e ele sempre tratou-me com tamanha amabilidade que fiquei encantada por ele. Eu o vi tocar piano e me apaixonei, . Então, quando ele chegou em Londres como meu instrutor, tive a impressão que trouxeram um homem diferente. O mesmo que despertou uma paixão que nunca antes senti foi aquele que despertou-me o ódio. Por isso, não posso casar-me com ele.
Estou indo embora, . Tenho sido um fardo pesado demais para você e Byron carregar. Sinto me envergonhada e com medo de que possa acontecer quando a temporada começar. Por isso, aconselho-a dizer que estou viajando com um parente distante. Em breve todo mundo terá esquecido da minha existência.
Não se preocupe comigo. Tenho algumas economias e posso arrumar um emprego usando o seu nome como referência. Desculpe-me por não ser a irmã que você e as meninas merecem, mas permita-me esse último ato egoísta.
Seja feliz, .
De sua querida irmã mais velha,
Julia .

Saí do quarto às pressas, ignorando os constantes chamados das mulheres que entraram no meu quarto. Embora eu estivesse ainda de camisola, descalça e com o cabelo emaranhado, andei a passo largos à procura de Lorde Byron.
一 Milady, o que aconteceu com a senhora? 一 indagou a Sra. Hammel ao interceptando-me no caminho.
一 Onde está ? 一 perguntei rapidamente. 一 Preciso falar com ele, é algo urgente!
一 Está no escritório junto com o Sir Oliver .
Franzi o cenho, achando estranho a visita repentina do primo de meu marido.
一 Certo, obrigada.
Encontrei Sr. no meio do caminho. A face denunciava uma série de lágrimas e um abatimento de quem tinha feito algo muito ruim.
一 Sr. McBair, está tudo bem?
Ele baixou a cabeça, não olhando-me diretamente. Estranhei sua atitude, mas não disse nada.
Passei a mão no cabelo, temerosa que estivesse pior do que imaginava, mas voltei o meu caminho para o escritório. Eu tinha assuntos mais importantes para tratar.
Byron estava sentado na sua cadeira pálido como mármore, os olhos distantes e introspectivos. Imaginei, então, que tinha recebido a mesma notícia que eu.
一 Poderia me explicar que cena constrangedora flagrou a minha irmã? 一 indaguei de início, incapaz de perder tempo com leviandades.
Ele balançou a cabeça, espantando os pensamentos.
一 Você parece que caiu da cama. 一 comentou alheiamente.
一 Não mude de assunto, . 一 repliquei nervosa 一 Minha irmã fugiu ontem à noite! Ela não está em lugar nenhum pela casa! Tudo porque você a encurralou para que casasse com Woodhouse.
一 Se você estivesse no meu lugar faria a mesma coisa 一 argumentou irritado. 一 Estou tentando proteger a reputação de suas irmãs e de você! Ela é uma mulher adulta, sabia o que estava fazendo.
Cruzei os braços.
一 Então, me diga o que diabos ela estava fazendo?
一 Estava beijando Liam com bastante vontade.
Pisquei, incapaz de realmente acreditar que Julia estivesse apaixonada por Liam Woodhouse; ou pior: que beijou Liam Woodhouse.
一 Por muito menos mulheres perderam a reputação 一 completou ele.
一 E você achou que foi suficiente para obrigá-los a se casarem? Por que não o demitiu e conversou comigo com o que iria fazer? 一 perguntei a voz subindo de tom conforme a raiva voltava. 一 Minha irmã tomou uma atitude precipitada porque tem medo de se casar! Tem medo de ter filhos! 一 desabafei. 一 O histórico da família materna de Julia é de morte ao ter filhos, você sabia disso? A mãe dela morreu depois que deu a luz a ela!
passou a mão no rosto.
一 Tudo bem, você está certa. Perdoe-me. Agi precipitadamente. 一 disse, incapaz de manter a discussão. 一 Mandarei um recado para um detetive conhecido e logo ele encontrará sua irmã. Ela não conhece bem Londres, conhece? Duvido estar muito longe. Em breve aquela criança vai estar de volta.
Abracei-me ainda me sentindo decepcionada com o rumo das coisas. Minha irritação voltou-se, então, para Julia, que agiu insensatamente. Por que agir como uma juvenil? Por que não encarar os problemas de frente? Por que não falar comigo? Por que todo mundo estava escondendo as coisas de mim?
Sentei-me em uma das cadeiras do escritório. Passei a mão na testa, sentindo os olhos encherem de lágrimas.
一 Estou tão preocupada. E se ela foi interceptada por ladrões? Essa cidade é perigosa demais para uma mulher! 一 pus a mão no rosto. 一 Que ideia péssima de Julia! Que imprudente! Irei matá-la quando ela voltar!
.
O tom de voz de era apático. Ele agia alheio ao meu atual desespero.
一 Sim? 一 eu disse.
Ele respirou fundo.
一 Nós não estamos casados.
Franzi o cenho.
一 O quê!?
一 Oliver veio aqui confessar que o documento que ele assinou por mim era forjado. Ele vendeu minha licença especial para outra pessoa 一 explicou , arrasado. 一 Nós não estamos casados.
Era como se o teto tivesse desabado sobre mim. Toda a estrutura da casa tornou-se pedras que feriram minhas costas 一 pesavam e puxavam-me para baixo. Não paravam por momento nenhum; apertavam com sua força, eram maiores que eu. Sufocavam e iriam me esmagar.
一 Não estamos casados?
Ele negou com a cabeça.
一 Estamos, então… 一 lambi os lábios. 一 Em pecado? Somos um casal de pervertidos, então?
一 Não fale uma coisa como essa, 一 repreendeu-me, levantando-se logo em seguida. 一 Não sabíamos até hoje que o documento era falso.
Pus a mão no pescoço. A tensão deixara minhas costas doendo do pescoço até a cintura. Não usava qualquer espartilho, mas era como se estivesse lá, cortando minhas respiração aos poucos. Byron segurou o meu rosto, os pálidos olhos azuis muito abertos.
, o papel é só uma formalidade. Meu coração está ligado a você, embora não compartilhamos o mesmo sobrenome.
, isso será nosso fim. 一 falei com os olhos marejados. 一 Ninguém irá querer fazer qualquer acordo conosco se descobrir que vivemos juntos por tanto tempo sem estarmos casados. Estou aqui pedindo para que encontre minha irmã quando você não tem qualquer responsabilidade por mim e por minhas irmãs!

Balancei a cabeça, desvencilhando dele.
一 July fugiu porque queria que nós não fôssemos atingidas negativamente pelas atitudes dela, mas foi eu quem realmente levará o nome delas para a lama. O que será de nós quando isso sair pela Alta sociedade? Não podemos sair agora e casar-nos, ! 一 falei em desespero. 一 Na cidade toda há olhos por todas as partes. Por todas as partes.
Levantei-me, andando pelo cômodo. O coração batia com tanta rapidez que quase tive a sensação de que toda a casa o ouvia.
一 Eu sei o que eles dizem sobre mim. Finjo que não, mas eu sei. Eu li os jornais, .
, escute-me…
A resposta maquinou-se em minha mente de súbito. Então, eu disse:
一 Voltarei para Southwark Village. Sozinha.
enrijeceu. O rosto tornou-se sério e frio como uma pedra maciça.
一 Não vai, não.
Encarei-o.
一 Não posso continuar aqui fingindo que sou sua esposa. Como se eu fosse Lady Byron, não uma fraude.
一 Deixe de falar besteira, ! 一 replicou sem paciência. 一 Você é Lady Byron, sim. Você é a minha esposa, sim. Resolveremos isso antes que essa informação saía daqui.
Suas palavras não entraram em meus ouvidos; a experiência da noite anterior crescia e deixava-me surda, cercando-me como uma pequena nuvem negra que ficava maior a cada segundo.
一 E Oliver? Por que escolheu-o para tomar conta disso? Ele tinha quase falido você! Qual é a lógica de confiar justamente nele?
一 Vai culpar-me agora?
Respirei fundo, percebendo o que eu fazia. Achar culpados não ajudaria em nada no momento
一 Desculpe-me.
Ficamos em silêncio. olhava para a pequena janela do escritório e mexia os dedos da mão como se pensasse.

Ele virou-se para mim. A verdade bateu-me como uma mãe raivosa que não perderia tempo para castigar-me. Então, eu confessei:
一 Não sei se quero ser nobre. Não quero enfrentar essas pessoas mais uma vez.
Byron deu um passo em minha direção com cuidado.
一 Isso não é sobre eles, . É sobre nós.
… 一 chamei-o, sentindo-me a ponto de explodir. Ele andou até se pôr diante de mim.
一 Olhe para mim nos olhos e diga que me despreza, que não sente que está apaixonada por mim 一 disse em sussurros. 一 Porque eu sinto, . Acho que minha vida começou neste exato momento. Que todos os anos que estive vivendo me levaram para você. Se não sente a mesma coisa, eu mesmo bancarei sua viagem para longe. Deixarei que saia da minha vida sem nenhuma objeção. O que quero, , é que você seja honesta comigo. Eu a amo. E o que você sente?
Eu era metade angústia e metade desespero. Eram, porém, frutos da ideia de que eu não pertencia a ele e não me pertencia, não como eu pensei. Ele não era verdadeiramente meu como eu imaginava; ir para longe era a escolha mais sensata, mas eu não queria. Eu queria a ele, afogar meus desesperos em seu peito e ouvi-lo dizer palavras bonitas como aquela.
Era essa a queda que eu esperava. Não imaginava que iria cair junto com . Respondi-lhe:
一 Eu o amo também. Não é essa a pior coisa que você já ouviu?
Na tarde seguinte, fui numa carruagem de Lorde Byron para Southwark Village. O pretexto era de encontrar a minha irmã mais velha, sem saber o que aguardava para mim no futuro.


XIV. Berkshire

Quando eu atravessei a porta da sala de visitas com o bolo de chocolate, Polliana pulou do colo de e derrubou a boneca que estava em seus braços. A mais nova das tinha os cabelos loiros, mas os olhos e as feições não negavam de que família vinha.
一 Calma, Polliana! 一 advertiu a babá.
Ela cruzou as perninhas e recolheu as mãos para o colo. Com os olhos pidões, ela virou-se para mim:
一 Posso comer, milorde?
Dei um sorriso. Era a primeira vez que ela não chamava milorde da forma certa, deveria estar aprendendo com a babá.
一 Claro que sim, Polly. É seu aniversário, pode comer o que quiser.
一 Sério?
一 Sério!
O sorriso da criança alargou-se, arrancando um pouco de felicidade das pessoas das salas de visitas. Até mesmo Lilian, que não tirara o rosto de quem iria chorar a qualquer momento, esboçou um discreto riso.
Polliana sentiu falta de Julia; dissemos que ela estava viajando e logo voltaria. Na sala também estava Liam Woodhouse, que estava muito disposto a sair em cada porta londrina perguntando se haviam visto Julia por aí. A essa altura, pouco importava-me se ela iria ou não estar casada com Liam.
Estava preocupado. Muito preocupado. Londres era perigosa para uma mulher solteira; e as economias dela não eram muitas, sobretudo porque se resumiam em alguns trocados que eu lhe dei durante as semanas anteriores a nossa vinda para capital, quando eu fui covarde e não quis pedir desculpas a . Não era muito dinheiro.
Como ela sobreviveria? Como usaria o nome de para conseguir um emprego se não tinha nem mesmo uma carta de recomendação? Sua atitude fora imprudente e parte era minha culpa. Agi de forma tão severa que Julia preferiu fugir a casar-se com Liam Woodhouse.
一 Milady, a carruagem já está pronta. 一 avisou o mordomo quando já tínhamos dividido o bolo para todos.
deu uma rápida olhada para mim, mas desviou-a para o mordomo.
一 Obrigada 一 virou-se para a irmã mais nova. 一 Vamos, Polly? Sra. Bridgestone está nos esperando.
Meu coração ficou muito pequeno no peito. Queria dizê-la para ficar, resolveríamos aquilo ali em Londres. Contudo, ela tinha razão. Seria difícil casar-nos discretamente em uma cidade como aquela. Depois do jantar de ontem, a Alta sociedade estava à espreita, esperando a nossa queda.
Polly tinha suas mãos limpas pela babá quando perguntou para mim:
一 Posso levar o resto do bolo pra comer no caminho, milorde?
Sorri para ela.
一 Claro, senhorita.
O pretexto da viagem era que iria esperar que Julia aparece-se em Southwark Village 一 lá era um dos poucos lugares que ela conhecia e teria acesso.
Minha esposa levantou-se e abraçou a irmã mais nova.
Minha esposa. Era estranho pensar naquelas palavras e saber que a veracidade delas estava comprometida. Porque, embora ela não fosse a legítima Lady Byron, ela era a única que poderia carregar tal título.
Acompanhei as duas até a carruagem, ajudando com amabilidade as mulheres subirem. estava apreensiva assim como eu; se nossa conversa atravessa-se as paredes da casa, em breve seríamos transformados em párias sociais. Milady, ou até mesmo FreshVerggies, seriam apenas sonhos.
Ela usava um bonito vestido de viagem. Uma pequena ventania passou pela rua e cruzou os braços. Arrumei o seu xale vermelho para ficar mais firme.
一 Mande-me mensagem assim que chegar, por favor. 一 sussurrei, evitando os seus olhos.
Ela aquiesceu. Deixei minhas mãos caírem ao lado do corpo, embora o desejo era tocá-la mais uma vez.
一 Cuide de Lilian, por favor. 一 pediu ela. 一 Ela pode ser muito sensível, mas isso é porque ela importa-se muito.
一 Lilian ficará bem. 一 garanti.
一 E você? Ficará bem? 一 perguntou .
Encarei os olhos que brilhavam em preocupação e eu quis pedir para que ela ficasse. Que explodisse a aristocracia, o que eles pensavam sobre mim; eu poderia reduzir meus gastos e viver como um burguês qualquer, criando filhos no interior do país. Tudo isso apenas para tê-la comigo.
一 Melhor seria se fosse com você.
Ela deu um sorriso tímido. Deu um passo em minha direção e murmurou:
一 Que ousadia do meu noivo.
Segurei seu rosto com as duas mãos e beijei-a longamente.
一 Eu te amo, .
As três palavras soaram como sinos de uma igreja em noite de Natal.
一 Também te amo, .
E ela foi embora levando consigo parte do meu coração.

Encontrei Lilian esperando-me no alto da escada quando voltei para a casa. As mãos remexiam papéis e a cabeça estava inclinada para o chão.
一 Milorde, eu preciso confessar uma coisa. Para você e Sr. Woodhouse.
Fechei os olhos e passei a mão no rosto. Mais um problema, meu Deus? Por que tudo acontece de uma vez? Por que as confusões não esperam para chegar a sua vez?
一 Venha para a biblioteca, então. Esperarei-os lá.
Ao chegar na biblioteca, Woodhouse já estava esperando-nos. Seu jeito despojado de sentar na cadeira incomodou-me um pouco, algo que nunca antes percebi. Talvez estivesse sendo influenciado por , que deixava claro o seu desgosto por ele.
Lilian apareceu pouco tempo depois com uma carta em mãos. A visão dos papéis deixou Woodhouse muito rígido na cadeira.
一 Quero primeiro pedir desculpas para o Sr. Woodhouse 一 disse Lily, fugando logo em seguida.
Deus santo, essa menina deveria aprender a controlar os sentimentos.
O instrutor de música encarou a carta e logo depois minha cunhada.
一 Do que está falando, Srta. ?
Ela engoliu o seco e pousou os olhos em seus sapatos.
一 Nosso mordomo costuma confundir a mim e a Julia. Ele ainda não conseguiu decorar nossos nomes 一 iniciou Lilian. 一 Na primeira semana em Londres foi pior. Ele se confundia o tempo todo e acabou por dar-me uma carta de Woodhouse que era para Julia.
Virei-me para Liam. Ele, porém, foi ficando pálido enquanto encarava a minha cunhada.
一 Continue, Lilian.
Ela respirou fundo, mas não evitou mais lágrimas molharem seu rosto.
一 Eu abri a carta. Sei que não devia 一 falou angustiada. 一 Mas fiquei curiosa.
一 Isso não é desculpa, Srta. ! 一 exclamou Woodhouse finalmente. 一 O que tinha na carta era confidencial e só diz a respeito eu e Julia!
一 O senhor a pediu para fugir! Fugir para um país católico e abrir mão de nós todas! 一 gritou ela em revolta. 一 Como pode planejar separar-nos?
Liam levantou-se irritado.
一 Foi você que escreveu aquela carta ultrajante? Se passou por Julia para me ofender e desonrar?
一 Foi sim! E eu faria de novo se fosse possível!
Massageei as têmporas. Uma pequena dor de cabeça dominou-me da nuca até aquele ponto tocado.
一 Calados, pelo amor de Deus! 一 vociferei.
Meu estresse repentino fez os dois ficarem em silêncio rapidamente. O que mais me deixava enraivecido era saber que aquela confusão poderia ser evitada se os dois não tivessem agido de forma precipitada e irracional. Era como estar rodeado de gente querendo pular de um precipício por pura emoção do momento.
Levantei-me, o rosto tornando-se sério e rígido.
一 Lilian, você agiu muito errado. As cartas da sua irmã pertencem a ela e apenas ela. Isso é invasão d eprivacidade. E ainda respondeu-a como se fosse Julia? Não percebe o que fez? 一 cruzei os braços. 一 Percebe que os dois ficaram os últimos meses brigando como gato e rato por causa disso? Sua atitude decepcionou-me. Nunca imaginei algo assim vindo de você.
Ela fez um bico a ponto de chorar mais uma vez.
一 Desculpe, milorde, eu pensei…
一 Não sou eu que você deve pedir desculpas 一 apontei com a cabeça para Woodhouse. 一 Esteja pronta para ter essa mesma conversa com Julia quando ela voltar.
Lilian virou-se para Woodhouse e, sem olhá-lo nos olhos, pediu perdão. Ela estava engolindo todo orgulho para dizer as mágicas palavrinhas, o que era um castigo suficiente.
Suavizei meu tom:
一 Suba para seu quarto, Lilian. Preciso conversar à sós com Woodhouse.
Minha cunhada não demorou muito para ir-se; estava mortificada, tanto pela confissão quanto por ter que humilhar-se diante de Woodhouse. A porta foi fechada em um estrondo, mas, do outro lado da madeira, ela disse “desculpe”.
Sentei mais uma vez na cadeira de antes. Completativo, encarei os livros da estante da frente.
一 Sabe, Liam, essa manhã estive muito tentado a fazer-te uma carta de recomendação por consideração a seu pai e o trabalho que um dia fez para mim. Como administrador, você é um ótimo músico, mas era competente 一 divaguei, as cores das capas dos livros misturando-se em minha visão. 一 Então, descubro que sugeriu para uma das minhas cunhadas fugir sem qualquer compromisso firmado antes. Que estava disposto a esgueirar-se pelos cantos da casa com ela, pensando que não seria pego 一 cocei o queixo coberto pela barba fora de moda que eu usava. 一 Pior ainda: descubro que tem agido como um completo imbecil e fazendo um inferno na casa apenas porque sentiu-se com o orgulho ferido.
一 Milorde, você percebe que…
一 Não terminei. 一 interrompi. 一 Dias atrás quis que casa-se com minha cunhada. Que fizesse parte da minha família. Você parece gostar de verdade de Julia, mas… Você não é um homem, Woodhouse. É um menino. Um menino inconsequente. Quando Julia voltar, e ela vai, se for do desejo dela, nunca mais o verá, ouviu-me bem?
Vi Liam apertar os punhos das mãos e o rosto ficar avermelhado. Estava a ponto de atingir-me com violência e eu estava pronto para revidar.
一 Eu a amo.
一 Muito bem. Ela sente o mesmo?
Isso o desarmou de maneira que o rosto tornou-se angustiado.
一 Volte para Berkshire Hall, Liam. Eu assumo à procura de Julia e, se ela quiser, mandará notícias.
一 Você não pode mandar em mim, não sou uma criança 一 replicou irritado. 一 Eu sou um homem, não importa o que diga. Eu amo Julia e farei qualquer coisa por ela.
Fingir um bocejo, exausto daquela conversa.
一 Está certo. Quer ficar por Londres procurando-a, tudo bem. Mas não volte para a minha casa sem um convite. Já me trouxe problemas o suficiente por um ano. 一 balancei a mão em direção para porta.
Sem mais delongas, Woodhouse deu as costas para mim. antes de sair, sem olhar-me nos olhos, Liam disse:
一 Você e Lady Byron agem como se Julia fosse uma criança a ser controlada. Uma jovem ingênua que agiu por impulso. Muito pelo contrário, milorde. Ela sabe o que fez quando foi embora. Ela é incapaz de ser controlada.
E foi embora antes que eu lhe desse uma tréplica.
Respirei fundo. Um problema a menos, por enquanto.



Eu detestava o silêncio da minha casa. Embora distraísse-me na hora do jantar com conversas sobre livros com Lilian, a saudade de ressoava nesses momentos. Também na hora do chá. E no desjejum. E quando eu andava nos corredores…
Por isso, mais do que nunca, enquanto cobrava informações do detetive particular que eu contratara e tentava trabalhar para aplacar meus pensamentos, eu ia para casa de meus amigos beber chá.
Minha vontade era, na verdade, beber algo mais forte e entrar na sensação de dormência que só um pouco de álcool poderia proporcionar, mas Ever iria achar ultrajante trocar o chá verde por cerveja.
一 Há quanto tempo está em Southwark Village? Um mês? 一 indagou Ever enquanto adoçava sua bebida.
一 Uma semana, Ever. 一 replicou Kelly enquanto servia seu marido. 一 Um pouco mais de creme, querido?
Ele negou e agradeceu a gentileza.
一 Sinto que faz décadas 一 comentou em um tom abatido.
Concordei com a cabeça e arriscando beber mais um pouco do líquido quente. Os piores momentos aconteciam à noite, quando eu não podia atravessar a porta e encontrá-la em seu quarto; ou mesmo dormir sabendo que a cama não estava sendo compartilhada. Ouvi-la falar de Milady e eu reclamar que pelo amor de Deus, não quero falar sobre trabalho… E ela dizia: problema seu, vamos falar de trabalho sim… E me beijava, fazendo-me esquecer de qualquer coisa que estávamos falando.
一 Byron, estou falando com você.
Pisquei atordoado e procurei com os olhos quem me chamava. Em pé, na porta da sala de visitas, estava Cory, quem acabara de chegar.
一 O que disse? 一 indaguei. 一 Estava distraído.
一 Perceptível 一 reclamou Exeter. 一 Quando voltará? Se tivesse encontrado a irmã lá com toda a certeza já saberíamos.
Dei os ombros, fingindo não saber a resposta para a pergunta. Estava à espera de uma licença especial de meu advogado e ela não era fácil de conseguir. Quando eu estivesse com aquele documento, o real, iria para Southwark Village resolver essa pendência.
Embora confiasse nos meus amigos, eu não confiava em nenhuma parede das casas londrinas. Elas tinham ouvidos e bocas, não hesitariam em criar um escândalo.
一 Está muito calmo para quem está distante da sua esposa, . 一 comentou Cory.
Um riso sem humor subiu em minha garganta.
一 Eu estou miserável, Cory. Desculpe-me se não pareço triste o suficiente para você.
Ele levantou as mãos na defensiva.
一 Se acalme, milorde 一 disse em tom zombeteiro. 一 Não precisa me atacar.
一 Vamos beber o chá, sim? 一 falou Dudley. 一 Ele já está esfriando.
Cory concordou e juntou-se a nós no sofá. Não demorou muito para que o mordomo dos Exeters aparecesse e me desse as agradáveis notícias através de uma pequena folha escrita:
Julia foi encontrada cais portuário pronta para pegar um navio. Estará em sua casa em breve. - Detetive Bane.
Respirei aliviado. Era hora de buscar a minha esposa.


XXV. Berkshire, Lady Byron

Sr. Bridgestone tinha o cabelo cinza, era alto e gostava muito de falar. A igreja estava cheia, um público médio que sempre visitava a congregação do reverendo todo final de semana. Sra. Bridgestone pôs a mão em meu braço e deu uma leve apertada, lembrando-me que devia prestar atenção no que o reverendo dizia.
Eu não queria sair naquela manhã. Na verdade, estava inclinada a continuar-me na cama igual fiz em todos os dias desde que cheguei em Southwark Village.
Perdi as contas das vezes em que a Sra. Bridgestone mentiu dizendo que eu estava doente, por isso não podia sair e receber visitas. O Sr. Bridgestone, por outro lado, dizia a verdade: Lady Byron precisa de um momento à sós, depois ela conversará com você.
Sentia-me doente, embora soubesse que parte disso era por minha morbidade nos últimos dias. Não caminhava, mas estava exausta. Não comia bem, mas o estômago estava cheio. Eu só dormia e dormia, a pressão dos últimos dias consumindo-me por inteira. Nos momentos, porém, que não entrei em uma autocomiseração, estive brincando com Polliana que, alheia a toda a situação, aproveitava a viagem para Southwark Village para brincar com seus antigos vizinhos.
Fechei os olhos quando o órgão da igreja começou a tocar. A última música do culto e não possuía letra, embora fosse composta por compositores anglicanos. Senti, então, algo dentro de mim crescer, esmagando a tristeza e enfiando-me em uma grande bolha. A música correu pela pele como água limpa, retirando aquilo que não pertencia a mim. Chorei sem saber de onde vinha aquilo, mas sentindo a saudade e a tristeza esvaísse aos poucos e o sossêgo dominando mais uma vez.
一 Fiquem na paz, meus irmãos 一 disse Sr. Bridgestone, sua voz escondida pelo som da música. 一 E que o Deus da esperança os acompanhe.
Sra. Bridgestone cutucou meu ombro.
, tudo bem?
Abri os olhos devagar e sorri para ela.
一 Estou sim.
Voltamos para casa a pé, os braços entrelaçados como antigamente. Southwark Village estava perdendo a coloração verde para o marrom e o amarelo do outono. Os dias de primavera eram os mais bonitos, quando o colorido disfarçava a cor sem graça das árvores.
Cada passo que distanciava-me da igreja era como um emergir da melancolia. Eu a controlava, porém. Apeguei-me a minha minúscula fé, a que eu esquecia da existência a maior parte do tempo, no Deus da esperança. Eu precisava dela para ser forte.
一 Estou muito preocupada com a sua saúde, 一 comentou minha amiga. 一 Como explicaremos a Lorde Byron que deixamos a sua noiva doente?
一 Shh 一 pedi, olhando para os lados.
一 Acsah tem razão, 一 defendeu Sr. Bridgestone. 一 Será que é o início de uma gripe?
A Sra. Bridgestone revirou os olhos.
一 Tudo para você é gripe, Nathan. Aind---
Uma carruagem apareceu na esquina. O caminho para a casa dos Bridgestones era contra-mão para boa parte da população do vilarejo, deixando-nos alerta. Meu coração bateu depressa no peito quando o símbolo dos Berkshire brilhou discretamente sob a luz do sol.
Quando os cavalos pararam por perto, Lorde Byron desceu sem muita cerimônia. Vê-lo fez-me sentir no fundo do estômago as duzentas e vinte sete horas que passei longe dele.
De frente para mim, parecia algum tipo de anjo, ser celestial com o casaco branco e calça bege. Ele havia retirado a barba e parecia mais jovem; despertava a vontade de tocar-lhe a pele com os dedos e reconhecer que ele era real.
Um sorriso de alívio tomou minha face. Ele era lindo, muito lindo.
...
Agarrei sua cintura e abracei-o com firmeza. Seu cheiro intensificou-se como um frescor pós-tarde quente de verão; o reconhecer dele deixou meus olhos úmidos.
一 Senti tanto a sua falta.. 一 Minha frase saiu abafada pela sua roupa, mas não consegui evitar continuar. 一 Tanto, tanto a sua falta.
一 Veja, querida 一 disse Sr. Bridgestone ao longe. 一 Ela curou!
Afastei-me constrangida pela atitude repentina e fingi arrumar meu vestido enquanto senti a face queimar de vergonha. , porém, estava sorrindo com os olhos, encarando-me como se eu fosse uma coisa muito preciosa.
一 Também senti a sua falta, meu amor 一 disse, tocando meu queixo com leveza.
一 Encontrou Julia, milorde? Ela veio com você? 一 indagou Sra. Bridgestone sem muita cerimônia.
一 Ela está em sua casa, Sra. Bridgestone, junto com Lilian e Polly. Todas sãs e salvas.
A notícia fez-me soltar o ar dos pulmões que eu não sabia que segurava. Então, as perguntas, a raiva e o ressentimento bateram na porta mais uma vez. Eu precisava ter uma conversa franca com Julia o quanto antes.
一 É um prazer conhecê-lo, milorde 一 disse Sr. Bridgestone apresentando-se, já que ninguém tomou iniciativa para fazê-lo. 一 É bom finalmente encontrá-lo. Não se sinta intimidado, mas é como uma filha para nós, que tivemos apenas homens.
Olhei para aquele casal e meu coração aqueceu no peito.
一 Não se preocupe com isso, Sr. Bridgestone. está em boas mãos.
一 Não oficialmente. 一 corrigiu ele. 一 Ela explicou-me que gostaria que eu fizesse a cerimônia de casamento. Trouxe a licença especial?
Foi a vez de Byron sorrir como um menino.
一 Sim, certifiquei-me de verdade dessa vez.
一 Então, vamos. 一 falou a Sra. Bridgestone voltando a andar em direção à sua casa. 一 Temos um casamento para realizar!
encostou os lábios na minha têmpora com um rápido beijo e eu suspirei, invadida mais uma vez pela sensação boa de estar ao seu lado.
一 Venha, .
E eu fui.

...

Julia encarava o movimentar das árvores pela janela do quarto do Chalé que alugou de última hora para que estivéssemos mais confortáveis. Enrolada com um grande cachecol, minha irmã mais velha não havia mudado nada naquelas últimas semanas: ainda tinha os cabelos escuros ondulados e volumosos, os olhos escuros e o nariz típico dos . Usava roupas escuras de luto ainda, algo que tornou-se característico dela.
一 Está bem, ? 一 indagou ela sem olhar-me. 一 A babá de Polly disse que você estava indisposta nos últimos dias.
Sentei-me na cama, minhas pernas doíam por ter desacostumado com a caminhada.
一 Lembra quando você entrou na escola para meninas? 一 comecei tirando os sapatos que apertavam meus dedos. 一 Nos víamos raramente, mas sempre passávamos a tarde conversando. Você contava as histórias malucas da escola, algumas eram até cruéis. Mesmo assim eu queria muito ir com você... Então, eu vivia contando histórias dos cortejos e romances que aconteciam em Southwark Village.
Minha irmã virou-se para mim, mas continuou escutando-me calada.
一 Eu devo ter contado para você todas as vezes que me apaixonei... Claro, boa parte dos rapazes não faziam ideia do que eu sentia, mas você era a primeira a saber... 一 divaguei, as lembranças da juventude frescas na mente. 一 Você me ajudou a não ser pega conversando à sós com Richie! Meu Deus, imagina o que poderia ter acontecido conosco naquela época! Eu era muito imprudente...
一 Por que está dizendo isso? 一 perguntou Julia de repente.
Encarei-a.
一 Você nunca julgou-me, July. Por que achou que eu faria isso com você?
Ela engoliu saliva e veio até minha cama, sentando-se ao meu lado.
一 Você não gosta de Woodhouse e o que fizemos... 一 ela pôs a mão no rosto. 一 Deus, que vergonha! Mal consigo olhar para Byron!
一 Para quem fugiu de casa, sua preocupação está apegada a coisas erradas... 一 murmurei. 一 Que escolha terrível foi aquela? Estava querendo se matar?
一 Eu sabia muito bem para onde eu estava indo.
Sua birra irritou-me. O fio de paciência que eu estava tentando manter escapo por minhas mãos.
一 Você estava indo para a Itália! 一 repliquei, lembrando da breve conversa que tive no caminho com . 一 Você ia sozinha para um país que nem sabe a língua? Onde não conhece ninguém? E onde estava esse tempo todo? Em uma pensão?
Ela levantou-se irritada.
一 Eu não tinha escolha, está bem? Byron ia casar-me com Woodhouse! O que você queria que eu fizesse?
一 Julia, ele estava bravo com você e disse aquelas coisas por causa do momento!一 defendi-o com o tom da voz elevando-se. 一 E mesmo se fosse o desejo dele casar-lhe a força, eu nunca permitiria se não fosse o seu desejo. Não tivemos essa conversa antes? Por que tem tão pouca fé em mim
一 Não sei! 一 ela gritou histérica. 一 Eu não sei!
O grito deve ter soado pelo lugar inteiro. Todos deveriam estar cientes do que acontecia no quarto naquele momento.
一 Londres toda está sabendo da sua fuga 一 comentei, mais uma vez lembrando-me da conversa que tive com Byron.
一 Desculpe-me por isso. Não quis atingir negativamente você, Byron... Ou as meninas.
Suspirei, uma breve dor de cabeça atingindo minha testa.
一 Não aguento mais agir como a irmã mais velha, Julia. 一 desabafei, a frase que evitava dizer em voz alta. 一 Não aguento mais tentar manter todas nós juntas, fazer todo mundo ficar feliz. Não aguento mais ter que ouvir suas desculpas.
一 Eu expliquei que...
一 Escute-me 一 interrompi seu falatório. 一 Nas últimas semanas ouvi mais de uma vez você falar que iria cometer um ato egoísta. Só que eles se sucederam, o que era para ser uma exceção tornou-se rotineiro.
一 Eu já pedi desculpas, !
一 Não é suficiente! 一 exclamei. 一 Você pôs a perder o futuro de Lilian e Polly, não percebe?
一 Sim, pois elas iriam ser aceitas com você sendo madrinha delas, não é, ? 一 disse com sarcasmo. 一 Esquece que aqueles diabos de sangue azul a detestam. Elas também serão atingidas, com ou sem minha fuga.
一 Isso não faz sua atitude menos errada, sua egoísta! 一 repliquei 一 Não pensou que elas também sentiriam sua falta?
一 O que quer que eu faça? Eu ia para longe, mas ia voltar para visitá-los. Não iria mais necessitar do dinheiro de Byron! Não seria mais responsabilidade de vocês! Você e ele que inventou de colocar aquele brutamontes atrás de mim!
一 Eu me preocupei com você! 一 gritei, os nervos à flor da pele. 一 Se queria ir embora, por que não fez com planejamento? Por que não falou conosco? Percebe o perigo que passou nesse tempo sozinha em Londres?
一 Eu não estava em perigo, . Você sabe disso. Nós duas fomos criadas para sobreviver quando o papai estivesse longe. 一 argumentou July. 一 Olha eu aqui! Estou viva e inteira. O que quer de mim?
一 Sinceramente? Agora, quero que saia. 一 apontei para a porta. 一 Se o seu desejo é ir embora, pois bem, vá, mas do jeito certo. Organize-se e despeça-se propriamente das meninas.
Ficamos em silêncio. Julia voltou a encarar a janela, mas estava mais apreensiva do que antes da nossa conversa.
一 Não ficarei no meio do seu caminho. 一 advertir, sentindo-me muito cansada.
Ter Julia de volta foi um lembrete de como sua atitude doeu-me. Julia, quem sempre foi um exemplo de mulher, agiu como uma jovem ingênua e impulsiva. O que tinha causado essa repentina mudança? Por que eu não conseguia amar essa nova versão da minha irmã como a antiga?
, você acha... 一 ela encarou-me. 一 Acha que algum dia poderá me perdoar?
Fiquei em silêncio, incapaz de respondê-la. Quando fugiu, Julia cortou um laço que a muito tempo havíamos construídos juntas. Reatá-lo seria um desafio que eu não conseguia lidar naquele momento.
O futuro era incerto. Iríamos ainda sofrer muito nas mãos dos arrogantes aristocratas e suas regras morais que julgavam muito e pouco perdoavam.
Que Deus nos ajudasse. Que Deus nos ajudasse.

...

A igreja foi fechada por dentro. Ninguém poderia entrar. O som dos sinos, que deveriam estar no pescoço de alguma vaca, veio das mãos do filho mais velho do Sr. Bridgestone, de 14 anos.
Eu usava um vestido branco de Lilian. Nos últimos meses só haviam roupas escuras e de tons sóbrios no meu baú, sinal de meio-luto. A Sra. Bridgestone desfez o embainhado para que cobrisse parte dos sapatos. O buquê em minhas mãos fora colhido por July naquela manhã, ainda na aurora.
também não estava tão arrumado, embora Clement tenha feito um ótimo trabalho com o que tinha. O rosto barbeado e o cabelo penteado para trás dava-lhe um ar de juventude que poucas vezes ele carregava.
Eu também sentia-me muito jovem. Jovem e feliz. Uma felicidade que uma festa gigantesca não poderia me proporcionar de maneira nenhuma. Dessa vez, ouvi cada palavra que saiu da boca do Sr. Bridgestone e guardei-as no coração. Cada promessa, lembrança e frase proferida cravou-se em minha mente.
A aliança de casamento voltou ao lugar certo e pude proferir as palavras "eu aceito" sem medo.
Byron, por outro lado, estava muito sério. Sua rigidez lembrava a de um soldado que acabara de voltar de uma guerra, mas eu entendia que era a forma dele expressar o quanto levava ao pé da letra cada pormenor que transformava um simples romance em casamento. Sorriu apenas quando o Sr. Bridgestone disse "pode beijar a noiva". E, então, tornei-me Lady Byron.
Não tivemos a chuva de arroz, pois a Sra. Bridgestone reclamou que varrer dentro da igreja era sempre um martírio. Almoçamos para a casa deles discretamente, fingindo que nosso agrupamento não era incomum e não estava sendo vigiado pelos olhos fofoqueiros de Southwark Village.
Foi um dia alegre e de muito festejo. Embora o casamento não fosse notícia nova, a memória da nossa união fria foi substituída por uma mais contente e significativa.
Era noite quando eu e Byron voltamos para o Chalé. Convenientemente, a Sra. Bridgestone ofereceu que minhas irmãs dormissem ali aquela noite.
一 O lugar é apertado, mas os meninos irão adorar ter companhia essa noite. 一 argumentou ela, referindo-se aos filhos mais novos que não tinham mais que onze anos.
Antes, porém, de subirmos na carruagem, ela abordou-me dizendo:
一 Irá contar a ele, não é?
Fiz uma careta de confusão.
一 Contar o quê?
Ela cerrou os olhos do jeito que fazia quando não acreditava em mim. Eu, como resposta, apenas desejei boa noite.
O pequeno balançar da carruagem fez-me relaxar; , igualmente.
一 Primeira crise juntos resolvida 一 disse ele segurando a minha mão direita e levando-a aos lábios.
一 Espero que a próxima demore bastante para acontecer 一 prolonguei a última vogal da palavra e ele riu sobre a minha pele. 一 Estou feliz que isso acabou.
Ele respirou fundo e sorriu.
一 Eu também, . Eu também.
Entende-se-ia que na nossa noite de núpcias oficial não haveria qualquer novidade. Tínhamos começado onde havia parado, então, não havia nada novo a ser conhecido. Eu, porém, beijei como da primeira vez: busquei aplacar sua dor com os lábios. Éramos duas almas deixando-se curar-se com as carícias de amantes.
Amantes, não. De casados.
Desfez-se, então, nós imaginários que impediram que eu o visse como meu esposo nos últimos dias. Para tanto, mostrou conhecer os vales inabitáveis de meu corpo, explorando terras que já conhecia.
Amei-o, toquei-o, cuidei-o.
Dono de meus suspiros, descansou-se em meus braços. Tornou-se meu marido também de corpo; repetiu as promessas que saíram de minha boca e ligaram nossa alma. Deixou que eu o reivindica-se como meu no escuro do quarto.
Não sabia o poder da sua presença até dormir ao seu lado depois de dias longe. Sussurrei na madrugada que o amava. Prometi-lhe estar ao seu lado até o último dia da minha vida.
Éramos um só; movíamos pelo outro, em direção a algo que naquele momento eu não sabia. Só sabia que eu queria encontrar junto com .


XXVI. Berkshire, Lorde Byron

As pilhas estavam organizadas na mesa.
Na primeira estava as cartas de Kline e Berkshire, revoltados por conta das mudanças que eu apresentei. Diziam, inclusive, que iam visitar-me para tirar “essa ideia estúpida que a indiana colocou na sua cabeça”. Contei 15 ofensas dirigidas a minha esposa nas linhas das cartas, cada uma valia quinhentas libras a menos que ele iriam receber.
Na segunda pilha estava os convites para bailes e saraus que foram negados. Meus amigos receberam cartas semelhantes por termos uma amizade, mas pouco importaram-se. Até mesmo Ever, que amava a temporada social, comentou que preferia criar os filhos em Exeter, onde o ar era menos poluído.
Na terceira pilha havia as cartas dos conhecidos que cancelaram compromissos porque minha cunhada havia fugido de casa. “Sinto muito que um homem tão bem afeiçoado tenha se associado a uma família problemática” era o que eu chamava de ofensa embrulhada em um pacote de elogio barato. Esqueceram-se, ou faziam-se esquecer, que também havia sido fruto de escândalos e tenha ganhado o respeito deles com meu dinheiro.
Na quarta pilha estava a sessão de fofocas dos jornais das últimas semanas.
A última e menor pilha tínhamos as cartas de meus amigos e pessoas próximas. Dudley e Exeter estavam em suas respectivas propriedades e mandaram cartas alienados de toda agitação da metrópole. George e Kelly descobriram estar esperando o primeiro filho e o mais novo de Cory e Ever tinha aprendido a engatinhar! Diante de notícias tão maravilhosas como essas, por que entristecer-se?
Em minha mão havia a carta que não se encaixava em nenhuma das pilhas. Era de Oliver, a quem não gostaria de encarar nos próximos anos. Ou décadas. Cobrei-lhe as mesadas que dei desde que fui para América e decidi que não gostaria de tê-lo presente nas próximas reuniões de família. Ao prejudicar-me e causar alvoroço em minha casa, Oliver mostrou-se não ser digno de nenhuma confiança. Eu poderia ser piedoso ao atingir minha empresa, mas não a minha esposa.
一 Nossa, por que você acendeu o fogo? 一 reclamou ao entrar no escritório. 一 Está querendo morrer sufocado? Com essa aberturazinha da janela?
Minha esposa. Aquelas duas palavras, tão simples, mostravam-se importantíssimas depois do casamento. Eu gostava de repetí-las, a verdade daquelas palavras era doce.
一 Pensei que tinha acordado indisposta.
Ela deu os ombros e andou até a janela.
一 A viagem de volta não me fez bem 一 justificou abrindo mais um pouco o vidro. 一 Por que fez uma fogueira? Não está tão frio.
Peguei um dos jornais da mesa e amassei o papel até fazer uma bola, jogando-a logo em seguida em direção ao fogo.
O rosto de acendeu em entendimento.
一 Posso fazer isso também? Por favor.
Apontei para pilha.
一 Só essa, está bem? 一 pus a mão em cima da que tinha o cancelamento de compromissos. 一 Essa aqui também pode.
Começamos, então, uma pequena competição de quem acertava de mais longe a lareira. Embora o fogo estivesse no tamanho médio, a mira de era ruim e divertia-me com suas tentativas frustradas. Ela não sabia colocar a força necessária para que fosse na direção certa, o que criou mais erros do que acertos.
一 Não quero jogar mais esse jogo. 一 reclamou de braços cruzados e eu a abracei entre risos.
一 Tudo bem, querida. Você tem outros talentos 一 comentei enquanto passava os dedos sobre a face dela.
fechou os olhos e deu um sorriso falso, caricato. Parecia muito feliz e livre desde que finalmente tornamos um casal reconhecido pela lei; cintilava como um vagalume em uma noite estrelada.
一 Preciso te dizer…
Fomos interrompidos por duas batidas da porta e a voz de Julia:
一 Sei que os dois estão aí. Posso entrar? Tenho algo importante para dizer.
Dei uma resposta positiva e encostei-me na mesa do escritório; em contrapartida, sentou-se no sofá.
Quando conheci Julia, naquele fatídico dia que tudo deu errado, ela parecia uma mulher ingênua, simpática e um tanto sem personalidade. Não conseguia vê-la desse jeito equivocado mais. Não depois das últimas semanas. Sei que a má impressão advinha de mim, também. Além de ter negligenciado os constantes sinais de que havia algo entre ela e o instrutor de música, poucas vezes estive levando a sério os desejos dela de viver seu o sonho. Era de se esperar que fosse implacável, levando em consideração a família que fazia parte…
一 Durante a semana que estive longe de casa, conheci um dos responsáveis da Guiscardo Schiano. Eu fiz um teste e ele talvez aceite-me na companhia… Estive pensando... 一 ela hesitou. Respirou fundo, ansiosa. 一 Eu reconheço o meu erro em ter fugido de casa. Foi insensato.
deu-lhe um longo olhar, mas nada disse.
一 Quero fazer do jeito certo dessa vez 一 continuou minha cunhada.
一 O que decidiu, então? 一 perguntou , embora nós dois soubéssemos da resposta.
Julia lambeu os lábios e arrumou a postura.
一 Irei lutar pelo meu lugar como pianista. Não quero mais ser um fardo para você e Byron, mas também a ideia de afastar-me de vez das meninas não me satisfaz.
Ficamos em silêncio. Julia encarava-nos buscando aprovação em seu plano. Era de muita consideração dela expor o que planejava saber, sobretudo depois de ter deixado bem claro em suas atitudes que faria o que bem entendia, pouco importava nossa opinião.
Sorri, então, para a minha cunhada.
一 Acho que é um bom plano, Julia.
Seus ombros relaxaram.
一 Obrigada, .
virou-se para a janela por alguns segundos.
一 Tem certeza que é isso que quer, July?
Ela balançou a cabeça positivamente. O rosto estava sério, determinado.
一 Tenho sim, .
Então, abriu um sorriso diplomático.
一 Então, vá. Sabe onde nos encontrar caso haja algum problema. Não esqueça disso.
A frase não era nem um pouco surpreendente de advir da minha esposa. No entanto, senti um orgulho imenso explodindo em meu peito. As ofensas que desclassificaram minha esposa nunca pareceram tão sem estúpidas: era madura, inteligente e sábia. Não havia mulher mais perfeita para meu coração escolher como dona.
Assim que a porta fechou-se e me vi sozinho com minha esposa, sentei-me ao seu lado apenas para abraçá-la mais uma vez. Ela aconchegou-se em meus braços sem muita cerimônia, embora suas saias eram sempre um empecilho para sentar-nos juntos naquele pequeno sofá.
一 Você sabe que não será fácil para ela, não é? 一 murmurei baixinho.
一 Acho que Julia precisa traçar o próprio caminho. Dessa vez é melhor deixá-la ir...
Assenti em silêncio.
一 Você tinha algo para contar-me… 一 incentivei, lembrando da nossa conversa inacabada.
começou a desenhar por cima de meu casaco, o indicador girando pelo tecido, transformando-se em círculos invisíveis.
一 Sempre senti que devia uma declaração de verdade para você. 一 respondeu. 一 Enquanto o excelentíssimo Lorde Byron é muito bom com as palavras, eu foco no que sinto. E eu sinto em demasia, . 一 ela agarrou os braços que a rodeavam a apertou sobre si. 一 Durante boa parte da vida estive em meio a uma crise de onde eu pertencia. Não sou britânica, mas também não sou indiana. Onde eu pertenço? Quando você está assim comigo eu me sinto protegida. Como se finalmente eu não estivesse sozinha.
Ela levantou a cabeça e encarou-me.
一 Hoje sei que pertenço aqui. Esse lugar aqui. 一 continuou beijando minha face.
Dei-lhe, então, um beijo casto e logâmido. Também sentia que pertencia ali, abraçado nela, embebecido por ela.
一 Podemos nos organizar para viajar à Índia. 一 sugeri 一 Já fui uma vez e é um lugar muito bonito… Poderíamos tentar saber algo da sua família materna…
Ao contrário do que eu imaginei, reagiu com uma careta desgostosa.
一 Não sei se uma viagem de barco longínqua como essa será boa para o bebê.
O coração gelou conforme as palavras passaram a serem entendidas por mim. Senti as pálpebras terem dificuldades para esconder os olhos, a face transformando-se em uma grande expressão de choque e surpresa.
一 Isso… Você quer dizer…
Escondendo o sorriso com a mão, minha esposa balançou a cabeça positivamente.
一 Acha que eu acordaria indisposta sem motivo nenhum, ? 一 provocou antes de levar minhas mãos até a sua barriga.
A perspectiva assustou-me e maravilhou-me em igual medida.
Eu iria ser pai.
Meu Deus.
Eu iria ser pai.
Inclinei o rosto de para o lado e beijei-o infimamente até que nenhum traço de pele tenha sobrevivido sem ter contato com meus lábios.
一 Eu te amo também, querido 一 disse ela.
Tive o privilégio de amar até o fim da minha vida. A ela pertenceu meus melhores anos e meus melhores dias. Meu coração foi guardado para ela e pude desfrutar as maravilhas do amor com alguém que completava. Quando enviei-lhe a contraproposta de casamento, entrei em um caminho sem volta.
Nossos filhos eram apenas os frutos concretos do amor que vivi até o meu último suspiro. Adelina foi a nossa primogênita. Parecia mais uma do que todas as irmãs . A segunda foi Phoebe, nossa pequena arteira. Logo depois veio Raj, a quem o nome homenageava o avô materno de que descobrimos a existência durante nossa segunda viagem à Índia. E então veio Perrie e Elijah, os dois carregando o nome do saudoso Sr. .
Esse amor, forjado por escolhas cegas de egoísmo e desprendimento, era irreversível.


FIM



Nota da autora: A ideia para história de Irreversível veio ao ler A Noiva Trocada de Catherine Coulter. O livro é bem mais ou menos, tenho muitas ressalvas, mas despertou a curiosidade sobre os casamentos por procuração.
Isso foi em 2017. Ainda tenho anotados algumas coisas da ideia inicial e é nada do que vocês leram aqui. Quer dizer, os nomes dos protagonistas são os mesmos ( e ), mas até mesmo o título do Byron foi mudado. Acontece.
Delicado não deveria ter uma continuação, mas a ideia voltou de um jeito que eu comecei a perceber que era a história dos dois. Irreversível tinha que acontecer.
Confesso que não foi uma das minhas escritas mais prazerosas. Passei a maior parte da minhas férias tentando escrever e enchendo o saco das minhas amigas, pois tive medo de estar tocando em assuntos delicados com irresponsabilidade.
Mas, vamos para os agradecimentos. Quero agradecer primeiro a Deus, porque é a principal razão da minha existência. Ele também sabe o porquê de eu estar dizendo isso.
Também agradeço a Ingrid Aline e Emilly Amaral. As duas foram minha leitoras-beta por um tempo e me ajudaram a não ficar paranoica. Também quero agradecer a linda e maravilhosa Liih Coelho, minha beta. Obrigada por ter feito um trabalho tão bom e sua dedicação!
Não citarei o nome das minhas leitoras, pois não quero deixar ninguém de fora, mas quero agradecer as meninas do grupo do Zaperson e do Facebook. Também a todo mundo que vem comentando por aqui e me mandando mensagens no Instagram. Não sabem quantas vezes as mensagens de vocês me fizeram sair da autoconsimeração e voltar a escrever.
Sim, teremos um spin-off de Irreversível. Julia teve um final incontínuo e acredito que ela deve ter a chance de contar o seu lado da história; as outras meninas, infelizmente, não terão esse privilégio.
Por enquanto, caso queiram acompanhar o que eu escrevo, lembro que Confidente está sendo atualizada com frequência e que Delicado está finalizada no site. É isso! Obrigada.
Obrigada, obrigada e obrigada!



Maraíza, foi um prazer acompanhar a história desse casal. Mal posso esperar para ter novidades suas no meu e-mail! Parabéns pela hitstória! ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus