Última atualização: 03/04/2019

Prólogo

Maio de 2002

Ela odiava aquilo. Considerava seu inferno particular. Já era a terceira vez que precisava trocar de colégio e adivinhem só? Ainda detestava ter que passar por aquilo. Os olhares curiosos seguidos por sussurros nada discretos lhe tiravam do sério. 
Como era de se esperar, as únicas carteiras vagas ficavam no fundo da sala. Estava entre os bagunceiros, mais uma vez. Colocou seu caderno sobre a mesa e tentou ignorar a sensação de que estava sendo observada. Ser a novata era um saco!
Assim que a aula começou a garota percebeu que cometeu um erro ao escolher seu lugar. Havia ficado entre dois garotos, que pelas tentativas de comunicação, deviam ser amigos. Sua paciência se esgotou quando uma bolinha de papel lhe atingiu a cabeça.
— Podemos trocar de lugar, está bem?! — murmurou para o garoto sentado em seu lado direito, justamente aquele que havia lhe atingido.
— Não se dê ao trabalho. — ele inclinou-se em direção a ela, a fim de ser ouvido. — Não acho que você vá consegui se enturmar tão fácil, então eu e meu amigo provavelmente seremos sua salvação.
— Seu grande idiota! — xingou-o, mas antes que pudesse ter tempo de despejar todos os outros insultos que lhe vieram em mente, a professora os interrompeu pedindo silêncio.
Tentou ignorar seus colegas pelas horas seguintes, mas não conseguia esconder sua irritação. O garoto não a conhecia, portanto não tinha o direito de fazer qualquer insinuação a seu respeito. Tudo bem que talvez ele estivesse certo. Mas ela realmente não se importava em ficar sozinha, por vezes, até preferia.
— Ei, não ligue para o que diz. Ele é meio excêntrico. — o outro garoto lhe disse, assim que foram liberados para o intervalo.
— Meio intrometido, você quis dizer. — corrigiu, lançando um olhar discreto em direção ao tal , que conversava, ou melhor, dava em cima de uma garota da turma.
— Talvez. — ele sorriu, simpático. — Aliás, meu nome é Igor.
. — apresentou-se, já que o colega parecia esperar que ela fizesse.
— Espero que goste da cidade, .
As palavras de Igor pareciam sinceras e acima de tudo gentis. Observou ele se afastar e ir em direção a . Um parecia tão diferente do outro, mais ainda assim os dois eram terrivelmente bonitos. A diferença era que sabia disso enquanto Igor parecia alheio ao fato. Por via das dúvidas, decidiu manter-se distante de ambos.
Buscou por um lugar afastado do pandemônio chamado adolescentes no ensino médio. Apesar de ter seus 15 anos, não gostava de toda aquela agitação, por isso, procurou por um recanto onde pudesse ter alguns instantes de paz e se deliciar com a leitura de mais um dos seus romances. Os livros sempre foram seus melhores companheiros.
Por três dias conseguiu fugir de todos durante os intervalos, no entanto, ela sabia que seu sossego estava com os segundos contados quando viu dois rapazes se aproximando. Seu esconderijo havia sido descoberto.
— Parece que eu estava certo, não é? — lhe encarou com um sorriso mordaz, tirando-a do sério logo de cara.
— Que tal me deixar em paz? — retrucou, afastando-se dos dois.
— Estou partindo do pressuposto que você precisará de amigos, . — era a primeira vez que pronunciava seu nome e por mais que odiasse admitir, soava bem.
— Só queremos lhe ajudar. — Igor se pronunciou por fim, indicando que eles não desistiriam.
— Então por que diabos aquela garota está me fuzilando com os olhos? — indagou, já que haviam chegado ao refeitório e o olhar intimidador de uma de suas colegas de turma lhe chamou a atenção.
tem um caso mal resolvido com ela. — Igor comentou, dando de ombros como se aquilo fosse absolutamente normal.
— Na verdade tenho um caso encerrado com ela, no entanto, algumas pessoas não conseguem assimilar quando levam um fora. — o outro se defendeu, apesar de não parecer dar muito importância ao assunto.
— Então um é o mulherengo e o outro o responsável. — ela concluiu de imediato.
— Na verdade eu sou o divertido e ele o careta. — corrigiu, fazendo com que ela revirasse os olhos.
— Eu prefiro a sua definição. — o amigo sussurrou para que só ela ouvisse. — Somos dois extremos.
— Tenho a impressão de que você é o equilíbrio. — lhe fitou e pela primeira vez, não havia qualquer resquício de malícia em seu olhar.
— Bem-vinda ao time! — Igor exclamou e por mais que a garota não entendesse o que eles queriam dizer naquele momento, ela não demorou muito para perceber.
Eles eram um trio agora...



Parte um
Não há como fugir do inevitável.

Capítulo 01

Junho de 2007

Ela encarou sua mãe certa de que as palavras ditas pela mulher possuíam outro significado, qualquer um que não representasse mais uma maldita reviravolta em sua vida.
— Goiânia? — a jovem repetiu, sem conseguir esconder seu estado de choque. — São o quê? Pelo menos 500 km de distância!
— Eu sei, . Mas não posso recusar a proposta. — suspirou, o almoço completamente esquecido sobre a mesa.
— Pensei que você tinha dito que não haveria mais mudanças. — murmurou, sentindo a frustração se instalar em seu corpo.
— Não precisa haver para você. — afirmou e então se pôs a explicar que o salário que ganharia em seu novo emprego seria suficiente para que a filha continuasse na cidade, pelo menos até terminar sua graduação.
Havia um porém, no entanto. precisaria encontrar um novo lugar para morar, já que não parecia viável manter-se em um apartamento tão grande, agora que moraria sozinha. Além disso, sua mãe precisava do dinheiro que ganharia com a venda do imóvel para conseguir se estabelecer na cidade nova.
— É uma condição razoável. — a menina concordou levemente aliviada após receber a notícia de que não precisaria ir embora. — Mas vai ser estranho ficar longe de você.
— Eu já estou com o coração apertado apenas com a ideia. — concordou a matriarca, já tentando se preparar psicologicamente para a nova fase que estava por vir.
Desde o acidente que tirou a vida do pai de , as duas só tinham uma a outra. Flávia precisou trabalhar dobrado para conseguir arcar com as despesas mensais e percebeu que precisava encontrar modos de ajudar sua mãe. Anos tinham se passado e graças aos esforços mútuos, levavam uma vida bem mais tranquila e estável do que antigamente.
sentia-se grata por não ter aula naquela tarde. Necessitava de tempo para organizar seus planos e assim que concluiu sua lista de afazeres, notou que precisava encontrar outro meio de manter a cabeça ocupada, caso contrário, os pensamentos inoportunos a respeito do futuro não lhe abandonariam. Então, tentou estudar. E céus, como tentou!
Fracassou miseravelmente, no entanto.
Nunca pensou que ficaria tão feliz ao ouvir o som do interfone ecoar. Autorizou imediatamente a entrada do seu melhor amigo. Era como se ele soubesse que algo estava acontecendo.
— Tenho uma baita novidade para lhe contar. — a garota começou a falar, puxando-o em direção ao sofá.
— Enlouqueceu, ? — Igor riu, frente à atitude eufórica da amiga.
— Minha mãe vai ser transferida. — despejou de uma única vez.
— Como é?
— Não enlouqueci, afinal. — zombou ela ao observar a expressão de pavor de Igor e só então explicou o que estava acontecendo.
— Posso lhe ajudar a encontrar um novo apartamento. — ele se dispôs, por fim.
— Vai ser ótimo! Mas queria encontrar alguém disposto a dividir o aluguel comigo.
— Estamos no meio do ano... Talvez seja um pouco difícil.
— Eu sei. Mas não custa nada tentar, certo? Não quero dar muitas despesas para minha mãe.
O garoto concordou, afinal conhecia muito bem aquele lado de , que sempre se preocupava mais com os outros do que consigo mesma.
— Acho que também tenho uma novidade. — ele ergueu as sobrancelhas de forma sugestiva. — Lembra-se do ?
O nome veio acompanhado de uma série de lembranças das quais ao menos recordava que tinha. Seu coração pareceu dar um salto, por mais ridículo que isso pudesse ser.
? — perguntou, ainda tentando se acostumar com as sensações que aquelas duas palavras lhe traziam.
— O seu melhor amigo. — respondeu, mal escondendo o tom de deboche.
— Não seja dramático, bonitão. Éramos um time.
— Um time fadado ao fracasso.
— Talvez. — ela sorriu de canto. — Mas não vejo desde a formatura.
— Pelo que ouvi dizer, ele estava estudando nos EUA.
— Uau! O garoto é realmente surpreendente.
— Exibido, eu diria. — Igor deu de ombros, sem a mínima vontade de dirigir um elogio ao imbecil que um dia foi seu amigo. — De qualquer modo, parece que ele está voltando para a cidade.
Seu coração deu mais um salto. Que diabos estava acontecendo com ela? Mal conseguia controlar suas próprias emoções e tudo isso por conta de alguém que não via há anos.
— Interessante. — foi o que disse, apesar de toda a expectativa que a notícia trouxera.
— Apenas me prometa uma coisa: não tente me obrigar a conviver com ele, está bem?
— Céus! Quem garante que vamos encontrá-lo novamente? — indagou crente que o amigo estava exagerando.
— Apenas prometa!
— Só depois que você me contar porque o detesta tanto. — ela decidiu jogar baixo, já que não lhe entrava na cabeça como a relação de duas pessoas poderia passar da lealdade extrema para o ódio velado.
— Isso se chama maturidade. Você cresce e percebe que aquele cara que parecia legal não passava de um grande idiota.
Garotos! — ela sussurrou para ninguém em especial, convencida de que aquilo era apenas baboseira de Igor.
Decidiu mudar de assunto porque não queria se indispor com o amigo. Já tinha problemas demais para pensar, não precisava de mais um. Conversaram sobre alguns assuntos aleatórios e por fim, ele se despediu afirmando que precisava terminar um trabalho.
Igor Müller era exemplar. Suas notas nas disciplinas do curso de medicina eram invejáveis. Não bastasse a inteligência, era doce e incrivelmente bonito. Surpreendia-lhe o fato de ele ainda estar solteiro.
por outro lado... O rapaz era a personificação da palavra errado. Durante o ensino médio se envolveu com todas as garotas e em todas as brigas possíveis. E apesar disso, havia algo inquestionavelmente especial nele.
Cansada de pensar em questões que não fossem relacionadas exclusivamente ao presente decidiu ir até a cozinha. Colocou "Thinking Out Loud" para tocar e se concentrou na preparação do jantar. Cozinhar era um dos seus afazeres prediletos, então não reclamava em ter que se ocupar com aquilo.
— Não sei o que será de mim sem minha cozinheira preferida. — sua mãe se lamentou assim que sentou junto à mesa.
— Agora imagine quão motivada vou estar para cozinhar apenas para mim. — a jovem fez uma careta, mal conseguindo pensar no assunto.
— Estamos ferradas! — exclamou e acabou rindo ao ouvir a expressão usada pela mãe. — E como foi sua tarde?
— Igor passou aqui. Disse que vai me ajudar a encontrar um apartamento novo. — contou, servindo porções generosas do risoto no prato de ambas.
— Muito gentil da parte dele. — comentou, despretensiosamente. — Aliás, sempre achei que vocês formariam um belo casal.
— Ele é apenas meu amigo. — garantiu, levando a boca uma garfada de comida.
— Você não acha que talvez, apenas talvez. — reafirmou, assim que notou que a filha tinha a intenção de interrompê-la. — ele sinta algo a mais.
— Definitivamente não. — afirmou com segurança. — Ele nunca tocou no assunto.
— Talvez por que tenha medo.
— Eu vou ficar bem sozinha aqui, mãe. Não precisa tentar arrumar um pretendente para mim. — deu uma piscadela, tentando fingir que o assunto não lhe deixava desconfortável.
— Ainda não consigo acreditar que estou permitindo que você fique aqui sozinha. — a mulher alegou, demonstrando sua preocupação.
— Não é como se eu fosse aprontar loucamente. — sorriu, tentando amenizar o clima tenso.
— Acha mesmo que eu te deixaria caso não tivesse plena certeza que você tem juízo suficiente nessa cabecinha?!
— Certamente não!
— E falando nisso, não teremos muito tempo para agilizar as coisas. Em no máximo dez dias já devo estar trabalhando em Goiânia. — contou, parecendo cansada apenas de imaginar a correria que precisariam enfrentar.
— Toda essa pressa é mesmo necessária? — indagou sorvendo logo em seguida um gole de suco. A comida já não parecia tão apetitosa quanto antes.
— Parece que a agência bancária de lá está com vários problemas. Estão precisando de um gerente para ontem.
— Pelo visto você terá muito trabalho pela frente.
— Deus que me ajude! — suspirou, sabendo que teria que lidar com grandes desafios dali em diante.
— Você acha que vai conseguir vender o apartamento até lá?
— Bem, eu espero que sim. Estou contando que a boa localização atraia alguns compradores.
Sua mãe tinha razão. O apartamento era consideravelmente espaçoso e o melhor de tudo, ficava próximo ao campus universitário da cidade. Era uma oportunidade daquelas difíceis de deixar passar, caso você tivesse uma conta bancária gorda o suficiente para isso.
Enquanto ensaboava os pratos utilizados no jantar, a garota se pegou pensando no que sua mãe disse a respeito de Igor. Apesar de não ter admitindo durante a conversa, ela já havia pensando no assunto. A hipótese não era tão absurda como deixou a entender. A grande questão era que não sabia como lidar com aquilo, por isso, preferia apenas ignorar o fato. 
Com a cozinha devidamente limpa, as duas se dirigiram até a sala a fim de assistir a novela favorita de Flávia. A mais nova bem que tentou se concentrar na trama, mas uma insistente dor de cabeça não lhe deu alternativa a não ser a de ir se deitar antes mesmo que o último capítulo fosse exibido.
Já na cama, seus pensamentos seguiram um rumo inesperado. Ao invés de se preocupar com os problemas futuros, se viu pensando no passado, mais especificamente no ex-namorado. O rapaz, também calouro na época, parecia-lhe absolutamente perfeito. Garota ingênua! Poderia esperar qualquer coisa das pessoas, exceto perfeição. Pena que teve que descobrir isso da pior forma possível.
Apertou os olhos, um tanto confusa. Por que mesmo estava lembrando daquilo? A resposta não demorou muito para aparecer. Lembrou-se de Igor e notou então que aí estava o grande empecilho responsável pela relação dos dois continuar no nível da amizade. Não estava pronta para se envolver, ao menos não completamente. Por mais que tivesse plena certeza que o amigo não seria capaz de ter atitudes tão traiçoeiras quanto seu ex, sentia-se insegura.
Os pensamentos acelerados levaram-na diretamente para o mundo dos sonhos. Um mundo paralelo onde lhe dirigia um sorriso cúmplice e envolvia sua cintura com um dos braços. O perfume que lhe chegou às narinas era familiar, assim como a segurança que sentiu apenas de estar ali, aninhada junto ao corpo do rapaz.
Minha doce . — ele sussurrou, fazendo com que a garota lembrasse quão sedutor era ouvir seu nome sendo pronunciado por aquela boca.
O despertador tocou no momento em que os lábios dos dois se tocaram. Já com os olhos abertos ela sentiu o coração saltitando no peito. Não bastasse isso, suas veias pareciam estar transportando fogo ao invés de sangue. Não hesitou ao virar a torneira do chuveiro totalmente para o lado gelado. Apesar de tudo, a sensação que sentiu era estranhamente boa.
Não demorou em se arrumar e ficou grata por ter acordado a tempo de conseguir uma carona com sua mãe até a faculdade. Chegou mais cedo do que o necessário, mas aproveitou o tempo extra para conversar com sua melhor amiga, Letícia Ferreira, a respeito da mudança de sua mãe.
— Ainda bem que você poderá ficar. — a colega comentou, depois de ouvir todos os detalhes. — Não sei o que seria da minha vida acadêmica sem você!
— Nem eu o que seria da minha sem seu senso de humor. — sorriu, no exato momento em que o professor apareceu na sala.
dedicou sua total atenção à aula que estava sendo ministrada. Era bolsista em uma faculdade particular, portanto, não podia ao menos cogitar a ideia de ir com uma nota baixa. Dedicava-se aos estudos sem reclamar e ter escolhido a profissão que tanto amava tornava as coisas minimamente mais fáceis. A vida acadêmica tinha suas complicações, certamente.
Assim que foram dispensados para o intervalo, a futura médica veterinária se dirigiu até o mural de recados próximo a secretária para fixar um aviso com o objetivo de encontrar outra universitária disposta a dividir o aluguel. Depois de cumprir sua missão, virou-se para voltar até a sala. Só não esperava que alguém estivesse tão próximo a ponto de se esbarrarem. Caso a outra pessoa não tivesse sido ágil o suficiente para segurá-la certamente teria caído.
— Desculpe. — ela murmurou, constrangida.
— Tudo bem.
Céus, aquela voz! Reconheceu o dono dela antes mesmo de erguer o rosto para encará-lo. Os lábios do rapaz estavam levemente erguidos em um canto, formando um sorriso discreto. Mas seus olhos, ah os seus olhos... refletiam nada menos do que luxúria.
. — ela sussurrou por fim e por instinto deu um passo para trás a fim de ganhar espaço. Seu corpo protestou quando a mão dele, que estava espalmada em sua cintura, se afastou.
. — o breve cumprimento fez com que pequenos arrepios se espalhassem pela pele da garota. 
— Não esperava vê-lo por aqui. — gaguejou, obrigando seu olhar a se dirigir para qualquer outro lugar que não fosse a boca dele.
— Vou começar a estudar aqui no próximo semestre. Vim trazer a papelada da transferência. — respondeu, analisando atentamente a antiga amiga.
— Bacana! É uma ótima faculdade... você vai gostar daqui.
— Estou certo que sim.
O tom de voz empregado pelo rapaz deixou claro que ele continuava o mesmo sedutor de antigamente. sorriu ao constatar o fato. Ao que parecia cretinos continuavam cretinos independente de quanto tempo se passasse.
— Bem, eu preciso voltar para a aula. — ela disse depois de alguns instantes em que os dois ficaram apenas se encarando. — Foi bom revê-lo.
— Espero encontrá-la novamente. — afirmou e em seguida pendeu a cabeça levemente para um lado, assumindo uma postura avaliativa. — Aliás, gostei do novo corte de cabelo. Você ficou mais sexy com ele.
Não era a primeira vez que lhe deixava sem palavras. Então a garota ficou ali, imóvel, chocada demais para tomar alguma atitude que não se baseasse simplesmente em observá-lo ir embora.
— Ei, quem era aquele? — foi a voz da sua amiga que lhe tirou do transe.
— Um amigo. — contou, recuperando a compostura.
— Tremendamente bonito ele.
— E tremendamente complicado. Ele sabe como quebrar o coração de uma garota como ninguém.
— Irresistível e cafajeste. — a colega observou, pensativa. — É uma combinação e tanto.
Não havia como discordar daquilo. Era por isso que parecia um imã que atraia mulheres. A maior parte delas acreditava que conseguiria colocá-lo na linha. Era mais fácil acreditar que com você as coisas seriam diferentes do que aceitar que seu lindo nome só seria mais um na longa lista de casos do rapaz. Mas no final das contas o resultado sempre era o mesmo: desilusão.
Sentimento parecido sentiu quando chegou em casa e ouviu sua mãe dizendo que não passaria o final de semana na cidade, porque precisava ir até Goiânia resolver algumas questões importantes relacionadas a compra do novo imóvel.
Apesar de ter sido convidada para fazer companhia à mãe, a garota preferiu ficar e acabou usando boa parte do sábado para procurar anúncios de apartamentos disponíveis para locação. Para sua frustração, os únicos que cabiam no seu orçamento ficavam absolutamente distantes da faculdade.
No domingo à tarde recebeu uma mensagem do amigo convidando-a para tomarem sorvete. A proposta acabou se tornando irrecusável por conta de dois fatores: era uma ótima maneira de aliviar o calor infernal que estava fazendo e também uma solução eficiente para que deixasse seus problemas de lado por um instante.
— Tenho algo para lhe contar. — a jovem disse, sorvendo um gole do seu milk-shake de morango.
— Não me diga que já encontrou um apartamento novo?
— Na verdade reencontrei uma pessoa. — fez uma careta, sabendo que Igor provavelmente saberia de quem estavam falando.
, aposto.
— Parece que ele vai estudar na minha faculdade no próximo semestre.
— Nunca pensei que diria isso, mas estou imensamente feliz por estudarmos em faculdades diferentes. — afirmou, sem conseguir esconder o tom de sarcasmo.
— Sabe o que eu acho engraçado? — indagou ela, mexendo distraidamente no canudinho do seu copo. — Eu deveria ter sido o equilíbrio, mas às vezes tenho a sensação que causei um efeito completamente contrário na amizade de vocês.
— Isso não tem nada a ver com você. — o rapaz fungou, depois de alguns instantes de silêncio.
Ela não insistiu no assunto, porque sabia que não valia a pena. O amigo não daria o braço a torcer por mais forte que fossem os argumentos contrários ao seu. Apesar disso, ainda acreditava que conseguiria tirar aquela história toda a limpo em algum momento.
Quando voltou para o apartamento, sua mãe já estava a sua espera, cheia de novidades.
— Consegui o imóvel em Goiânia. É ótimo! Você vai amar! — contou, animada.
— É uma excelente notícia! — a garota tentou parecer tão disposta quanto a mulher.
— E amanhã um comprador vai vir visitar nosso apartamento.
— Rápido, não?! — foi o que conseguiu dizer, já que a notícia lhe pegou de surpresa.
— Sim. — concordou. — E por acaso você terá aula o dia todo?
— As notas de algumas matérias já estão fechadas, então acredito que terei à tarde livre.
— Será que você poderia receber o pessoal da imobiliária? Acho que não vou conseguir sair do trabalho.
— Posso cuidar disso, fique tranquila.
Era uma missão bastante simples na verdade, mas que tinha um significado terrível para a garota. Mal conseguiu dormir naquela noite pensando no assunto. A ideia de deixar o quarto em que viveu nos últimos anos era quase sufocante. Não conseguia imaginar como seria sua vida dali em diante.
A manhã se arrastou de forma quase dolorosa. Segundas já eram entediantes por si só, quando as aulas eram chatas então, parecia ainda pior. O almoço acabou caindo como uma pedra em seu estômago e quando pensou que seu dia não podia piorar, foi informada pelo porteiro que a corretora de imóveis já tinha chegado. Abriu a porta do apartamento e seu queixo caiu.
— Entrem. — ela gaguejou para os visitantes.
Uma mulher vestida com trajes bastante formal sorriu para a garota e pediu licença para mostrar o lugar para seu cliente. Era quase trágico passar por aquilo, principalmente porque o dito cliente não passava de ninguém menos que .
Os olhos do rapaz continham um brilho indecifrável e a forma como um dos músculos do seu rosto se sobressaia em relação aos demais indicava que ele não estava contente com a situação. Ainda assim, a corretora fez um tour pelo apartamento enquanto se manteve empertigada em um canto do sofá.
— Desculpe pela intromissão. — a profissional estendeu a mão para a jovem, assim que terminariam com a visita. — Já podemos ir, .
— Na verdade vou ficar mais um pouco. — respondeu ele, segurando um porta retrato que até então estava disposto em um nicho do painel da tv. — Se não se importar, é claro. — completou dirigindo um olhar demorado a garota.
— Tudo bem. — ela concordou e em seguida levou a corretora até a saída.
— Não sabia que você iria se mudar. — o peão disse, assim que ficaram sozinhos.
— Na verdade não vou. — esclareceu, sentando-se novamente no sofá. — Apenas minha mãe.
— Então por que estão vendendo o apartamento? — quis saber, apoiando-se no braço de uma poltrona.
— É a melhor opção para nós. — disse-lhe sem entrar em muitos detalhes. — Vou encontrar um lugar menor para morar.
— Eu provavelmente vou ficar com o apartamento, mas isso não significa que você terá que ir embora.
— Desculpe, mas acho que não entendi o que você quis dizer. — ela deu um sorriso forçado, tentando ser educada. Tinha a leve sensação de havia perdido o juízo de vez.
— Você pode continuar morando aqui, . — reafirmou, sendo mais específico.
— Isso não faz o menor sentido.
— Você precisa de um lugar para morar, não? — perguntou, encarando-a com atenção.
— Sim, mas essa aqui vai ser a sua casa.
— Vou me sentir desconfortável com a ideia de que tirei de você o seu próprio teto.
— Não preciso da sua piedade. — retrucou, sem conseguir conter o tom ríspido.
— Deus! Só quero ajudar.
— E para isso convida uma estranha para morar com você.
— Você está longe de ser uma estranha. — garantiu com convicção.
— De todo o modo não posso aceitar, mas, ainda assim, obrigada pela preocupação. — sorriu, desejando que isso fosse suficiente para encerrar aquela conversa.
— Tudo bem. — ele concordou de forma surpreendente. — Será que você pode me emprestar seu celular um instante?
A garota estranhou o pedido, mas, ainda assim pegou o aparelho e depois de desbloqueá-lo o estendeu para . Observou o rapaz inserir um novo número em sua lista de contatos.
— Se mudar de ideia, sabe como me encontrar. — falou, devolvendo o smartphone. — Preciso ir agora.
Ela o acompanhou até a porta e por mais inesperado que pudesse ser, sentiu os braços do rapaz envolver seu corpo. Acabou cedendo ao gesto e aproveitou o momento para inalar o perfume oriundo dele. Para sua surpresa, era absolutamente igual ao que sentiu em seu sonho.
— Cuide-se! — pediu, pouco antes de ir embora.
definitivamente sabia como desestruturar uma garota. A conversa que tiveram ficou martelando na cabeça de pelo resto do dia. Por mais absurdo que fosse, começou considerar a proposta como um plano B, caso o plano A fosse um fracasso como parecia estar se encaminhando para ser.
Por fim, ela decidiu que precisava compartilhar a informação com alguém e por mais irritado que Igor pudesse ficar, precisava contar para o amigo.

[Igor]: E você está cogitando aceitar essa idiotice?

A resposta do rapaz para suas mensagens não demorou a chegar. Soltou um longo suspiro e voltou a digitar.

[]: Por enquanto não tenho muitas outras opções. 
Igor está digitando...
[Igor]: Você pode ficar lá em casa.

O argumento fez com que ela revirasse os olhos. Tinha poucas certezas a respeito do que faria depois que sua mãe se mudasse, mas ir morar na casa dos amigos, invadindo a privacidade de uma família inteira, estava absolutamente fora de questão.
Quando Flávia chegou do trabalho quis saber de todos os detalhes da visita e a garota se viu contando a respeito da conversa que teve com .
— Não sei se gosto da ideia de você morando com um menino. — a mais velha comentou um tanto receosa.
— Eu sei, mas, pelo menos eu o conheço. Sei que não ele não é um serial killer nem nada do tipo. 
— Deus, ! — ela repreendeu a garota, apesar de não conseguir esconder o sorriso.
— É só um plano de emergência, mãe. Ainda estou procurando outro lugar.
— Eu sei, querida. E vou te apoiar independente do que acontecer. Confio em você!
Era disso que precisava. De alguém que não duvidasse das suas escolhas e que lhe apoiasse incondicionalmente, mesmo se acabasse tomando as decisões erradas. Céus! O que seria dela depois que sua mãe se mudasse?



Capítulo 02

— Encontramos outro imóvel que atende as descrições iniciais passadas por você. — a voz melosa vinda do outro lado da linha, quase tirou o rapaz do sério.
— Vou ficar com o que vi na semana passada.
— Não gostaria ao menos de fazer uma visita para conhecer a nova opção? — insistiu e ele precisou controlar a língua para não dizer que o traje profissional não encobria a falta de profissionalismo da mulher.
Ter que passar mais um segundo na companhia desagradável dela, estava totalmente fora de questão. Só não trocava de imobiliária, porque não perderia a oportunidade de comprar aquele apartamento.
— Já tomei minha decisão.
— Tudo bem. — ela suspirou, deixando claro sua frustração. — Aviso assim que o imóvel for desocupado.
— Obrigado! — encerrou a ligação antes que a mulher tivesse tempo de levar aquela conversa para um rumo que sabia que ela faria. Dar em cima dos clientes? Era patético!
O rapaz voltou à atenção para aquilo que estava fazendo antes de ser interrompido pela ligação inoportuna. As competições de tiro de laço não eram frequentes naquela região, mas ainda assim ele fazia questão de treinar, já que era uma habilidade bastante útil quando se precisava lidar com os animais.
Cerrou os dentes ao perceber que não conseguia se concentrar. Das cinco tentativas, não havia acertado nenhuma e tudo por conta de um bendito pensamento que não lhe saía da cabeça.
— Por onde anda seu espírito competitivo? — a voz que chegou até ele era carregada de um deboche já conhecido.
Samuel Moraes era filho de um dos funcionários mais antigos da fazenda. A família toda do rapaz trabalhava no lugar e em consequência disso, os dois cresceram juntos, tornando-se melhores amigos.
— Vá se lascar! — o outro retrucou, dispensando os bons modos.
— Posso apostar que sua distração está relacionada a alguma mulher.
— Você não deveria me subestimar desse jeito. — alertou, apesar de o amigo estar coberto de razão. — Amanhã vou treinar montaria, se quiser ver o espetáculo é só aparecer.
— Se você montar tão bem como laçou hoje, vai ser no mínimo divertido.
— Se eu fosse você, não apostaria nisso.
Deixou o amigo e suas piadas sem graça para trás e caminhou em direção à sede da fazenda. Já estava anoitecendo, então provavelmente já estavam esperando por ele na casa. Assim que colocou os pés na sala, ouviu a voz do seu pai lhe chamando do escritório.
— Sim? — respondeu, apoiando-se no batente da porta que dava acesso ao cômodo ocupado pelo homem.
— Resolveu a questão do apartamento? — indagou, sem se dar ao trabalho de levantar os olhos dos documentos que estava analisando.
— Resolvi.
— Ótimo! — murmurou apenas e como não fez menção de continuar com a conversa, o rapaz decidiu se retirar.
Seguiu até a cozinha em busca de um pouco de água e acabou se deparando com três pessoas. Dora, quem cuidava da casa, Mirela, sua mãe e Mel, sua irmã caçula.
! — a menor exclamou ao vê-lo e saiu correndo em sua direção, jogando-se em seu colo.
— Olá, pirralha.
— Onde você estava? — a matriarca quis saber, quando a criança finalmente deu sossego a ele.
— Treinando um pouco.
— E quanto ao apartamento?
— Já fechei negócio. Pode ficar tranquila, mãe. — afirmou enquanto se servia do líquido gelado que havia vindo buscar.
— Você deveria ficar morando aqui! — a caçula protestou, emburrada. Para uma criança de sete anos, ela era bem decidida.
— Já tivemos essa conversa, Mel. — ele voltou a explicar, com toda a paciência do mundo. — Virei para casa sempre que puder, prometo.
— Agora. mocinha, venha comigo e deixe seu irmão ir tornar banho. — a matriarca interveio.
Seguindo as ordens dadas o rapaz se dirigiu até seu quarto e somente quando sentiu a água gelada atingindo sua pele é que teve noção de quão cansado estava. Parecia haver um grande peso em seus ombros e para sua infelicidade, ele sabia que seria difícil se livrar daquilo. E tudo por conta de uma maldita coincidência.
Apesar de estar faminto, antes de ir jantar, decidiu fazer uma ligação de vídeo. Talvez aquilo o ajudasse a se livrar da tensão que estava sentindo.
— Olá, baby. — Sarah Steward apareceu na tela do MacBook.
— Como você está?
— Ótima! E pelo que vejo, ao menos fisicamente, você também está. — sorriu, fazendo referência ao fato do rapaz estar com o tronco despido.
— Como andam as coisas por aí? — pediu, retribuindo o sorriso da garota.
— Não se preocupe, . Já encontrei outro para colocar no seu lugar. — bateu os cílios artisticamente.
— Me surpreenderia se não tivesse. — deu de ombros, a fim de provocá-la.
— Chega de falar de mim. Qual o seu problema? — perguntou, provavelmente percebendo a inquietude do outro.
— Nada com que precise se preocupar.
— Mulheres, aposto. — arriscou, ainda assim.
— Uma mulher, para ser mais específico.
— Me surpreenderia se não tivesse. — rebateu a provocação na mesma moeda.
— Vou dar um jeito nisso.
— Ah, mas eu tenho certeza que sim. — ela sorriu, sabendo quão insistente ele poderia ser quando queria. — Tenho que ir agora. Mantenha-me informada a respeito da sua garota.
— Tudo bem.
— Se cuide, baby. — despediu-se e segundos depois sua imagem desapareceu da tela do aparelho.
Passou a mão entre os cabelos, sentindo-se frustrado. Nem mesmo Sarah foi capaz de apaziguar seus sentimentos. Apertou os olhos e quando finalmente se levantou para deixar o quarto, seu celular avisou que uma nova mensagem havia chegado. O peão parou onde estava. Apesar de o número do remetente não fazer parte da sua lista de contatos, reconheceu a foto do perfil instantaneamente.

[]: Oi, é a
[]: Tudo bem.

Ele respondeu de imediato e quase conseguiu sentir a tensão deixando seus músculos. Achou que nunca mais falaria com depois da proposta absurda que tinha feito e apesar de aliviado pela garota estar entrando em contato, sabia que ela estava fazendo aquilo apenas porque precisava de alguma coisa.
Consciente disso, perguntou se havia algo que poderia fazer por ela.

[]: Na verdade sim.
[]: Minha mãe está indo embora amanhã e como o semestre já está  terminando vou ir com ela para ajudá-la organizar suas coisas.
[]: Vou ficar apenas alguns dias em Goiânia e depois vou voltar. Então, não tem porque levar todas as minhas coisas e depois trazê-las de volta.

Quando terminou de ler as mensagens já sabia exatamente onde ela pretendia chegar.

[]: Pode deixar suas coisas no apartamento. 
[]: Não vejo problema algum nisso. 

Ele se adiantou ao pedido, sabendo o quanto detestava ter que pedir favores a outras pessoas.

[]: Tem certeza? 
[]: Prometo que assim que eu encontrar um lugar para ficar, tiro  tudo de lá. 

O rapaz sorriu ao notar que ela continuava tão teimosa quanto antigamente.

[]: Você sabe que não precisa continuar procurando. 
está digitando... 
[]: Não quero incomodar, .

Talvez demorasse um pouco, mas ainda acreditava que conseguiria convencer a jovem de que ela não era um problema.

[]: Eu diria se estivesse.

Ela acabou desconversando e no final das contas se despediu, agradecendo pela ajuda. Uma coisa era certa: se já estava se preparando para ir embora, logo o apartamento ficaria livre para que a mudança pudesse ser feita.
E talvez mudança fosse a palavra certa para descrever os dias seguintes. O imóvel ficou livre e decidiu fazer algumas alterações para que o lugar ganhasse um pouco mais de personalidade. E reformas normalmente eram sinônimos de problemas. Ao menos a correria mantinha sua cabeça ocupada.
— Você realmente conseguiu organizar tudo? — a mãe do rapaz perguntou naquela que deveria ser a quinta ligação do dia.
— Consegui sim.
— E quanto suas aulas? Tem certeza que está tudo certo com sua matrícula?
— Fique tranquila, mãe. Providenciei tudo. — reafirmou, já que a mulher parecia preocupada com o fato de o filho estar morando sozinho na cidade. Como se ele já não tivesse feito aquilo antes... Mas quem é que pode questionar as razões de uma mãe?
— Juízo, está bem? — recomendou por fim, despedindo-se logo em seguida.
O jovem até tentou seguir o conselho da mulher, mas ficar trancado em um apartamento em pleno sábado à noite não parecia uma ideia interessante. Já passar na choperia que ficava a poucos quarteirões dali...
Assim que entrou no lugar, percebeu que havia tomado a decisão certa. estava sentada em uma mesa, acompanhada por outra jovem, provavelmente sua amiga. Não hesitou um instante se quer antes de se dirigir até o lugar.
— Olá! — cumprimentou as garotas e não deixou de notar a surpresa estampada na expressão de .
... Oi. — balbuciou ela em resposta. — Essa é Letícia, minha melhor amiga.
— Oi. — a outra sorriu, depois de ter sido apresentada. — Quer se sentar conosco?
O peão acabou aceitando, depois de garantir que não estaria atrapalhando. Letícia, percebeu ele, além de bonita era inquestionavelmente simpática e divertida. Uma companhia fácil e que rapidamente percebeu que os dois tinham assuntos pendentes a tratar, por isso, acabou deixando-os a vontade.
— Eu não sabia que você já estava na cidade. — ele comentou, enquanto analisava a garota com atenção.
— Cheguei ontem à noite. Acabei indo para a casa da Letícia, por isso ainda não passei no seu apartamento pegar minhas coisas. — respondeu, encarando furtivamente seu copo de bebida.
— Então você encontrou um lugar para morar? — perguntou, sentindo-se completamente desapontado com a notícia.
— Na verdade não. — respondeu, visivelmente sem jeito.
— Desculpe, mas então por que vai tirar suas coisas do apartamento? — quis saber, confuso.
— É tão... complicado. — suspirou como se tivesse dificuldade de explicar o que estava acontecendo. — Não quero envolver você nisso tudo.
— Eu já estou envolvido, .
— Tudo bem. — ela o encarou parecendo decidida. — Se eu realmente for morar com você, vou pagar aluguel.
— Sem chance!
— Está vendo! — retrucou rapidamente. — O que você está propondo é loucura.
— Eu só estou tentando ajudar. — argumentou, detestando a teimosia da garota. — Você já me ajudou tanto, por que não posso fazer isso por você agora?
— Minha ajuda consistia em sentar ao seu lado e te ouvir. Completamente diferente do que você está tentando fazer agora.
— Você é terrível, ! — afirmou deixando com que o sorriso chegasse aos seus lábios.
— Enfim concordamos em algo. — ela levantou seu copo, fazendo menção de um brinde.
, no entanto, não era do tipo que desistia facilmente do que queria. Não sabia explicar por que, mas gostava de quem era quando estava ao lado de e não estava disposto a abrir mão disso. Deste modo, colocou a chave extra do seu apartamento sobre a mesa, deixando que ela servisse como um lembrete de que a garota já tinha encontrado o que procurava.
— E Igor? — perguntou ele, disposto a dar uma pausa no assunto.
— Continua na cidade. Está cursando medicina, como sempre disse que faria.
— Acabamos nos tornando tão previsíveis, não?!
— Existem vários termos que podem definir você, mas acho que previsível não é um deles. — ela comentou, sorvendo um gole de sua bebida logo em seguida.
— E por que não?
— Eu até conhecia sua aptidão por agronomia, mas EUA?... Eu nunca teria previsto.
— Foi algo improvável que acabou acontecendo. — deu de ombros, como se realmente não importasse.
— E por que nunca me disse nada?
— Porque não achei que daria certo.
— Você odeia que os outros te subestimem, mas costuma fazer isso consigo próprio. — pontuou, perspicaz.
— Por que não falamos um pouco sobre você, só para variar, huh? — perguntou, já que o tema principal das conversas entre os dois parecia sempre se concentrar nele.
— Minha vida não é tão interessante quanto a sua.
— Essa é uma péssima desculpa, .
— O que você gostaria de saber? — indagou, parecendo disposta a abrir uma concessão.
— Seu pai, por exemplo. — disse, quase sem tomar consciência do que estava fazendo. — Sempre falamos tanto do meu, mas não sei nada a respeito do seu.
— Essa definitivamente não é uma boa ocasião para falarmos sobre isso. Quem sabe em outro momento...
— Tudo bem. — concordou, sentindo a relutância da garota a respeito da questão. — E quanto a Igor?
— Já não falamos sobre ele?
— Sobre ele sim, mas não sobre vocês. — explicou, erguendo as sobrancelhas de forma sugestiva.
— Talvez isso não tenha acontecido porque o "vocês" não exista.
— Então vocês não estão juntos? — questionou, e não achou que ficaria tão aliviado ao constatar o fato.
— Por que todo mundo precisa pedir isso? — retrucou realmente irritada.
— Provavelmente porque ele é apaixonado por você.
— Não seja ridículo! — revirou os olhos e o rapaz percebeu uma coisa: ou a garota ainda não havia notado as verdadeiras intenções de Igor ou preferia fingir que não sabia. — Bem, preciso achar Letícia. Já está na nossa hora.
— Tudo bem.
— Nos vemos por aí. — ela sorriu, levantando-se.
? — com a cabeça ele indicou a chave que ainda continuava no mesmo lugar de antes.
... — ela tentou relutar, mas acabou sendo interrompida.
— Já está decidido.
— Obrigada. — ela acabou pegando o pequeno objeto e guardando em sua bolsa. — Amanhã eu apareço.
— Vou ficar te esperando.
Era difícil acreditar que a garota realmente estava disposta a ceder. Mas talvez as circunstâncias acabassem interferindo a ponto de não haver outra opção se não essa. mal conseguia conter a ansiedade, no entanto. Tentava se manter esperançoso, mas a cada volta que o ponteiro dos segundos do relógio dava, sentia-se ainda mais estúpido.
A tortura terminou quando ele ouviu a campainha do apartamento soar. Só uma pessoa tinha permissão de subir sem ser anunciada. Sorrindo dirigiu-se até a entrada.
— Pelo que me lembro, a finalidade do objeto que lhe dei ontem é exatamente a de abrir essa porta. — ironizou, deixando a garota ainda mais sem graça.
— Eu sei, seu idiota! Só não queria parecer intrometida logo de cara.
— E acha que chegar me xingando é um bom começo? — provocou, fazendo que com que ela revirasse os olhos. — Venha, entre!
teve o bom senso de ajudá-la com a mala. Não sabia exatamente o que esperar dela em relação às mudanças que havia feito no lugar, mas pela expressão que viu em seu rosto, teve a sensação de que seria algo positivo.
— Uau! — ela exclamou, enquanto seus olhos percorriam cada canto. — Nem parece o mesmo lugar.
— Só troquei alguns móveis e refiz a pintura.
— É por isso que você prefere comprar um imóvel ao invés de alugar?
— Basicamente. — concordou enquanto sentava-se no sofá. — Alguns locadores são chatos quando se trata de reformas.
— Bem, o apartamento ficou realmente bonito. — afirmou, acomodando-se também.
— Acabei não mudando seu quarto, porque não sabia se você gostaria.
— O apartamento é seu. Pode fazer as alterações que bem entender.
— Sou a favor da política da boa convivência. — piscou, animado. — Por exemplo, você pode comer tudo o que estiver na geladeira. Realmente não me importo com isso. Mas se houver algo que você não esteja disposta a dividir, me avise.
— Tudo bem. — concordou prontamente.
— Providencie também uma diarista para vir às quartas. Acho que vai ser suficiente se conseguirmos manter tudo meio organizado nos outros dias.
— Você já morou com outra pessoa? — ela indagou, parecendo surpresa pelo fato do rapaz ter pensado em tantos detalhes relacionados ao mundo doméstico.
— Não. Mas não sou do tipo de pessoa que gosta de viver no meio da bagunça.
— Fico aliviada em saber. — sorriu, afinal sempre fora um tanto metódica. — Mas quanto à diarista, vamos dividir o pagamento.
— Pensamos nisso depois. — afirmou, apesar de não estar de acordo com a condição. — Realmente prefiro que você me ajude em outras coisas.
— Como no quê?
— Se você tiver alguma peça de roupa cuja lavagem não consista em colocar na máquina junto com todas as outras, talvez seja melhor me manter longe da lavandaria. — avisou em meio a uma careta.
— Certo, é melhor eu me responsabilizar por essa parte. — se dispôs, sem qualquer reclamação. — E posso preparar as refeições quando estivermos em casa.
— Você cozinha e eu lavo a louça, o que me diz?
— É perfeito!
— Tem mais alguma regra que deseja adicionar a nossa lista? — perguntou ele, gentilmente.
A garota precisou de alguns instantes para analisar a situação. Por fim soltou um longo suspiro e de maneira visivelmente insegura, sussurrou:
— Meu quarto, é meu espaço. Gostaria que você respeitasse isso.
— Eu respeito seu espaço e você respeita o meu. É uma ótima condição. — concordou, já que também não gostava da ideia de ter alguém invadindo sua privacidade de maneira desmedida. — Aliás, não vamos precisar dividir o banheiro. Eu uso o da suíte e você o social, assim não vamos ter que dividir gavetas e coisas do tipo.
— Excelente!
— Não vai ser tão difícil de morar comigo, afinal. — ele concluiu, egocêntrico como de costume.
— Conversaremos a respeito disso daqui a alguns dias. — rebateu de maneira sagaz. — Se é só isso, acho que vou ir desfazer minhas malas.
— Se precisar de ajuda basta chamar.
E talvez até fosse algo a se esperar, mas a garota passou a maior parte do tempo em seu quarto, como se sua presença de algum modo pudesse atrapalhar . Mal sabia ela que causava justamente um efeito contrário. Ainda assim o rapaz decidiu não questionar seu comportamento, acreditando que ainda precisava de um tempo para se adaptar.
Quando as aulas finalmente retornaram os dois jovens criaram uma rotina agradável. Pela manhã, depois de tomarem café, iam juntos para a faculdade e a noite usufruíam da companhia um do outro durante o jantar, sempre preparado pela garota. Cozinhar, aliás, parecia uma terapia para ela. Aparentemente a garota tinha uma playlist especial para ocasião e se contentava em ficar observando os movimentos da companheira pela cozinha, interferindo apenas quando lhe era pedido.
Os momentos de tranquilidade duraram pouco mais de dois meses, no entanto. O problema era grande demais para ser encarado justamente em uma sexta-feira, mas como estava parado em pé, no meio da sala de estar, não viu outra opção se não a de enfrentá-lo.
— Pai?! — o rapaz fechou a porta da frente, esforçando-se para manter o bom senso.
! — uma criança, acompanhada por , saiu da cozinha e correu em sua direção, abraçando-o. — Adorei seu apartamento!
— Finalmente veio me visitar, pirralha. — sorriu para a irmã, realmente feliz em vê-la.
— Precisamos conversar, . — o homem decidiu interromper os filhos, já que estava com pressa.
— Mel, o que acha de conhecer meu quarto? — que até então se mantinha neutra na situação, acabou sugerindo e não era necessário muito para perceber quão nervosa ela estava.
A garotinha, no entanto, estava alheia ao fato e para o alívio dos adultos concordou com a ideia, sem ao menos hesitar. Foi somente quando ela deixou o cômodo, acompanhada da mais velha, é que a situação realmente começou a complicar.
— Pode me explicar o que está acontecendo aqui? — Marcelo exigiu, fuzilando o filho com os olhos.
— Nada. — o outro retrucou, tentado não entrar no jogo ridículo que seu pai estava tramando.
— Quem é essa garota?
.
— E que diabos ela está fazendo aqui? — elevou o tom de sua voz, irritado com as respostas evasivas que estava recebendo.
— Faz alguma diferença? — devolveu a pergunta, começando a se zangar com a postura do pai.
— Ela está morando aqui, ?! — como a frase parecia mais uma afirmação do que um questionamento, o rapaz decidiu manter-se calado. — Você enlouqueceu!
— Provavelmente.
— Eu tenho relevado grande parte das suas idiotices. Já não me importo se você fode com uma mulher diferente a cada noite, mas isso... — ele fez um gesto com a mão indicando a sua volta. — é ir longe demais.
— Meu Deus! — o rapaz exclamou, mal acreditando no que tinha acabado de ouvir. — São belas palavras vindas de um pai.
— Não se faça de vítima. — o outro rosnou, impaciente. — Eu diria que ela está se aproveitando de você, mas como conheço o filho que tenho, é provável que você é quem esteja se aproveitando dela.
— O pai de é Jorge . — revelou, cansado de ouvir tantos insultos daquele que deveria ser seu porto seguro e não seu maior inimigo.
— O que foi que você disse? — indagou, o tom de surpresa nítido em cada palavra.
— Esqueça. — suspirou, arrependendo-se de ter contado a verdade. — Não faz a menor diferença para mim.
Ele ainda escutou alguns resmungos vindos de Marcelo, mas já havia perdido a paciência para aquela conversa. Deu as costas para o homem e se dirigiu até o quarto de a fim de buscar a irmã. Apesar de querer que a pequena ficasse mais um pouco, não sabia se seria capaz de suportar seu pai por mais um minuto que fosse.
Deu leves batidas na porta e em seguida a abriu, inclinando apenas parte do corpo para dentro do cômodo.
— Olá, meninas. — ele sorriu, fingindo que a discussão que acabara de ter nunca aconteceu. — Já está na hora de ir, Mel.
A garotinha lhe lançou um olhar de descontentamento. Era nítido como estava à vontade na companhia de . O rapaz gostou de vê-las juntas e no fundo de sua mente, desejou que cenas como aquela que estava presenciando se repetissem mais vezes.
— Eu queria ficar mais um pouco. — Mel fez um biquinho, característico de crianças que desejam convencer adultos sobre alguma coisa.
— O que você acha de voltar outro dia para dormir aqui? — a mais velha sugeriu, com um sorriso doce nos lábios.
— Posso mesmo? — perguntou, lançando um olhar cheio de expectativa para o irmão.
— É claro que sim. — restou a ele dizer, incapaz de negar o pedido que lhe foi feito.
Surpreso, o peão viu acompanhar seu pai e sua irmã até a porta. Percebeu quão corajosa a garota era. Mesmo sentindo-se pouco a vontade na presença de Marcelo, havia sido forte o suficiente para encará-lo novamente. Por um momento, ele invejou tamanha obstinação. 
— Parece que finalmente você conheceu minha irmã. — comentou, assim que ficaram sozinhos novamente.
— Agora sei que você não exagerava quando falava sobre ela. — sorriu, fazendo menção às diversas conversas que tiveram durante o ensino médio sobre a caçula. — Ela é um amor de menina.
— Meu pai por outro lado... — suspirou, sentando-se em um canto do sofá. — Espero que ele não tenha sido grosseiro com você.
— Ele só estava surpreso. — comentou, sentando-se ao lado dele, provavelmente o mais próximo que se permitiu ficar até agora. — Sua relação com ele ainda é complicada, não é?
— Ainda temos dificuldades para concordar com algumas coisas. — confessou, afinal era a única pessoa com quem se sentia a vontade para falar sobre o assunto.
— Não queria ter sido o motivo de mais um desentendimento entre vocês.
— Não foi, .
— Acho que ele não gostou muito de mim. — fez uma careta, encarando as próprias mãos.
— Quem tem que gostar de você sou eu e não ele.
— Posso ser franca? — perguntou subitamente, com um brilho nos olhos que indicava que estava prestes a seguir por um caminho tortuoso.
— Por favor.
— Me enganei em relação a você. — revelou, surpreendendo o rapaz novamente. — Achei que você continuava o mesmo, mas agora vejo que está diferente em alguns sentidos.
— E isso é algo bom? — quis saber, pouco se importando com a repentina mudança de assunto.
— Acho que sim. — respondeu, depois de pensar por alguns instantes. — Apesar de você ainda continuar sendo o mesmo cretino de antigamente.
— E quem disse que eu não possa ter mudado em relação a isso também? — retrucou, achando divertido o momento sinceridade da garota.
— Sua chegada causou um grande alvoroço no público feminino da faculdade. — pontuou, parecendo certa em relação ao que estava afirmando.
— Isso não é culpa minha.
— Talvez.
— O problema é que algumas mulheres simplesmente não conhecem o significado da palavra limite. — sentiu a necessidade de se defender, apesar de nenhuma acusação ter sido feita.
— Não é como se você fizesse questão de explicar, aposto.
— Às vezes simplesmente não adianta.
— Percebe? — ergueu as sobrancelhas de maneira sugestiva. — Você é um caso perdido.
— Não me julgue dessa forma, sunshine.
— Não me leve a mal, mas você é fisicamente atraente, cafajeste a ponto de saber exatamente o que uma mulher quer e um cowboy esperto o bastante para não se apaixonar. — elencou, erguendo um dedo a cada característica dita. — Você é basicamente o tipo mais cobiçado pela maioria das mulheres.
— Considerando que você nunca demonstrou interesse por mim devo concluir que não faço seu tipo? — perguntou, aproveitando-se da brecha.
— É difícil explicar. — murmurou, parecendo constrangida. — Nós sempre fomos próximos, mas nossa proximidade parecia diferente da que você tinha com as outras pessoas. Você confiava seus problemas a mim e eu me contentava com isso. Eu vi você se envolver com inúmeras garotas e entre ser sua amiga ou mais uma da sua lista, eu escolhi a primeira opção. E francamente, eu não me arrependo disso.
— Em minha defesa, eu era um idiota na época.
— Sua vida era complicada, . Você precisava de válvula de escape.
— Se olhar para trás, o que eu percebo agora é que enchia você com meus problemas, mas não lhe dava a oportunidade para falar dos seus. — comentou, refletindo a respeito do passado.
— Seus problemas tinham solução, já os meus...
— Seu pai, não é?! — acabou perguntando, porque teve a impressão de que era disso que ela estava falando. — Desculpe, mas quando estive aqui pela primeira vez, acabei vendo uma foto sua ainda criança, junto com um homem. Deduzi que era seu pai. — justificou-se, frente ao olhar confuso da garota.
— Não é de hoje que lhe devo essa história.
— Não precisa contar caso não se sinta à vontade.
— É uma história um pouco longa, mas se estiver disposto a ouvir...
— Claro. — concordou, satisfeito ao perceber que ela confiava nele a ponto de lhe confidenciar algo tão importante.
— Os cinco anos que antecederam minha chegada a essa cidade se basearam em mudanças. Foram três no total, já que minha mãe precisava nos sustentar. Então, as transferências dela significavam um aumento das nossas economias. — explicou fitando a tv, apesar de ela estar desligada.
— E o que ocasionou o início das mudanças? — indagou, torcendo para não estar cruzando nenhum limite.
— A perda do meu pai. — respondeu e de maneira automática as lágrimas se acumularam em seus olhos. — Coincidentemente morávamos em uma cidade relativamente próxima a essa. Meu pai era veterinário e precisou atender a uma emergência. Era um dia chuvoso, ele acabou perdendo o controle do carro e capotou. Fiquei esperando por ele naquele dia... — a frase se perdeu enquanto as lágrimas percorriam o rosto da frágil garota.
— Ah, ! — o rapaz lamentou e sem saber o que mais poderia fazer a abraçou. Seu gesto acabou valendo muito mais do que qualquer palavra de consolo.
O fato era que não estava preparado para ouvir tudo aquilo. Não fazia a menor ideia de como lidar com a culpa que começou a sentir desde então. E para seu desapontamento ao invés de encontrar formas de aliviá-la parecia encontrar apenas indícios de que estava cometendo um terrível erro.
— Procurando pela ? — perguntou a Igor assim que o encontrou no estacionamento da faculdade.
— Vim conversar com você. — respondeu e era nítido que as diferenças entre os dois ainda continuavam vivas.
— Estou com um pouco de pressa. — retrucou, sabendo que o que estava por vir não podia ser nada bom.
— Por que você voltou? — indagou, ignorando a falta de disposição do outro para uma conversa. 
— Não vejo como isso possa ser do seu interesse.
é do meu interesse. — afirmou, agora que tinha a atenção que tanto desejava. — E eu realmente não gosto dessa proximidade de vocês dois.
— Isso não é um problema meu, Igor. — deu as costas para ele, mal contendo a impaciência.
— De um jeito ou de outro, você vai acabar magoando-a. — ainda foi capaz de ouvir o antigo amigo dizer, antes de entrar em sua picape e sair cantando pneus em direção à rua.
E lá estava o grande defeito de . Quando estava com raiva, tornava-se imprudente. Suas atitudes desmedidas tomadas em momentos que a ira o cegava, acabavam ocasionando consequências não só para ele, mas também para as pessoas que estavam em sua volta. E agora, era uma delas.
No final das contas, Igor estava certo.



Capítulo 03

É engraçado como a convivência torna as pessoas previsíveis. Três meses compartilhando o mesmo teto e a garota já sabia que quando chegava em casa a primeira coisa que fazia era tirar a camisa. No começo até desconfiou de que o gesto não passasse de uma provocação, mas com o tempo, notou que era algo praticamente automático.
Além disso, sabia como os músculos do rosto do peão se contraiam de forma inconfundível quando ele estava preocupado. Já quando estava devidamente concentrado era natural buscar por uma superfície plana para tamborilar os dedos de maneira sincronizada.
E mesmo que tentasse não demostrar, vê-la cozinhar havia se tornado um hábito seu. Bem como as constantes tentativas de fazê-la se sentir mais à vontade em sua presença. Ele encontrava assuntos para conversar, mesmo quando a garota acreditava ser impossível de fazê-lo.
Não bastasse isso, sabia que a repentina mudança de comportamento do rapaz nos últimos dias não era normal. Que a forma distante com que passou a tratá-la se deu por algum motivo, apesar de ela ainda não saber qual era.
Buscando esquecer a injustificável mudança de conduta de , ela decidiu organizar seu quarto. Estava sozinha no apartamento já que o rapaz costumava passar os finais de semana na fazenda de sua família. Os momentos de solidão sempre foram bem-vindos, exceto agora, que ela sabia que existia algo de errado entre os dois. 
No final da tarde, ela recebeu uma mensagem do seu melhor amigo e por algum motivo, pegou-se pensando na súbita aparição dele em sua faculdade na semana que passou, justamente quando os primeiros sinais de mudança em começaram a ser notados.
Bingo!
Irritada com a possibilidade que havia surgido, ela ligou para Igor, certa de que detectaria algo em sua voz, caso ele decidisse não colaborar.
— Ora, ora! me ligando. A que devo a honra? — ele brincou, afinal costumavam se comunicar apenas por mensagens instantâneas. Ligações haviam se tornado absolutamente raras.
— Preciso que você me esclareça algo.
— Claro. — se prontificou de imediato.
— Você se encontrou com no dia em que foi me ver no campus? — indagou e o repentino silêncio feito do outro lado da linha foi suficiente para ela.
— Sim. — ele acabou respondendo por fim.
— Vocês discutiram, não foi?
não lhe contou? — quis saber, ignorando a pergunta feita.
— Estou pedindo para você e não para ele. — retrucou, mal contendo o tom de irritação.
— Sinto muito, . — murmurou apenas, desligando em seguida.
A garota encarrou o celular, incrédula. Ele havia desligado na sua cara! Idiota!Xingou-o mentalmente e só depois de alguns segundos raciocinando percebeu quão ferrada estava: seu melhor amigo estava se negando a conversar sobre um assunto que ela considerava importante e seu companheiro de apartamento havia resolvido lhe dar um gelo. Por um momento, se deu ao luxo de odiá-los na mesma intensidade.
Cansada da incomoda companhia de seus pensamentos, no domingo convidou sua amiga para o jantar. A única que ainda parecia normal no meio daquela confusão toda.
— Você parece inquieta. — Letícia comentou, enquanto colocava a mesa. — Alguma coisa acontecendo?
botou-se a falar. Contou sobre a suspeita de que e Igor tinham discutido e como isso refletiu negativamente no comportamento do peão. Quando terminou, sentia-se absolutamente mais leve. Quase havia se esquecido de como era boa a sensação de ter alguém confiável ao lado para desabafar.
— Está bastante claro para mim que os dois discutiram por sua causa. — a constatação, no entanto, não foi aquela que ela esperava. 
— Sem chances! — exclamou, começando a desconfiar que o vírus da esquisitice tivesse contagiado a Letícia também. — nunca sairia por aí discutindo por conta de uma mulher, quando pode ter quantas quiser.
— Sempre há uma exceção. — a outra sentenciou e quando foi embora depois do jantar, deixou para trás uma garota com pensamentos muito mais incômodos do que antes de sua chegada.
gostaria de poder resolver a situação de forma madura, acreditava que muitas coisas poderiam se resolver por meio do diálogo, mas parecia fazer um esforço extra para evitá-la. E quando ambos os ponteiros do relógio se posicionaram em cima do número 12, ela desistiu de esperar.
Em uma situação normal ele já teria retornado da fazenda naquela altura da noite e mesmo que uma parte dela estivesse preocupada, não foi audaz o suficiente para mandar uma mensagem a fim de verificar se estava tudo bem. Não era como se o rapaz estivesse muito receptivo ultimamente.
Deitou-se em sua cama e mesmo com os pensamentos agitados, o cansaço acabou vencendo e ela não demorou muito para adormecer. Quando despertou, entretanto, precisou direcionar toda a sua concentração para tentar acalmar sua respiração. Tinha a terrível sensação de que seu coração poderia sair pela boca a qualquer instante.
Malditos pesadelos!
Somente depois de alguns instantes finalmente conseguiu se acalmar. Pegou seu celular a fim de ver a hora e descobriu, satisfeita, que ainda era madrugada. Ao menos ainda possuía algumas horas a mais para descansar, antes de ter que encarar um novo dia de fato.
E ela realmente se esforçou para voltar a dormir, mas sentia sua boca tão seca que não teve alternativa se não a de levantar e ir até a cozinha em busca de um pouco de água fresca.
A primeira coisa que notou quando passou pela sala foi as chaves jogadas sobre o sofá, indicando que havia retornado. Já na cozinha, pegou sua garrafinha na geladeira e deixou que o líquido amenizasse a ardência da sua garganta. Sentia-se consideravelmente melhor quando decidiu voltar para seu quarto, só não esperava ser surpreendida da maneira que foi.
Ainda no corredor, viu a porta da suíte se abrir e uma mulher sair de lá. Balançou discretamente a cabeça esperando que a imagem se dissolvesse, afinal, aquilo só poderia ser um delírio de seu subconsciente ainda sonolento. Nada aconteceu, entretanto.
Droga, droga, droga... repetiu inconscientemente para si mesma, sem acreditar que estava mesmo passando por aquilo.
— Boa noite! — a ruiva ainda sorriu, tentando parecer educada, apesar de estar tão confusa quanto a outra. — Eu já estava de saída.
não conseguiu respondê-la. As palavras haviam fugido e suas pernas pareciam não querer obedecer a suas ordens. Ela sabia que precisava sair dali. A qualquer momento poderia irromper pela porta ainda entreaberta e a cena certamente não seria nada bonita. Mas o estado de choque não permitia que a garota se movesse.
. — a figura surgiu em sua frente, exatamente como ela havia previsto. Estava sem camisa, vestindo apenas uma calça escura, provavelmente parte de um pijama e descalço, essa última, mais uma de suas manias. — Tudo bem?
Hipocrisia. Foi essa a palavra que lhe veio em mente, assim que ouviu a pergunta feita pelo rapaz. Como poderia estar bem depois do que havia acabado de acontecer?
— Na verdade, eu estava preocupada com sua demora. Mas percebo agora que você esteve bastante ocupado e por isso se atrasou. — despejou, sem conseguir se conter. Aparentemente havia redescoberto as maravilhas da comunicação.
— Eu deveria ter avisado. — respondeu, sua expressão completamente indecifrável.
— É, deveria! — retrucou se dirigindo a passos pesados em direção ao seu quarto, logo em seguida.
Teve medo de continuar com aquela conversa e acabar piorando ainda mais as coisas. Estava com raiva e quando ficava assim, quase se esquecia de ser racional. Por isso, quando se deitou novamente tentou controlar sua impulsividade. Notou que talvez trazer mulher para casa fosse apenas mais um dos costumes de . Deveria ter imposto alguma regra sobre o assunto, se repreendeu mentalmente.
Queria poder sair dali, mas a única coisa que tinha efetivamente para realizar o plano, era vontade. Não possuía um lugar novo em vista, faltava-lhe coragem para dizer à mãe que precisaria do dinheiro do aluguel depois de todo esse tempo, principalmente porque sabia quão feliz ela havia ficado com a notícia de que a garota teria uma despesa a menos e por fim, se negava a ouvir Igor dizendo "eu lhe avisei, não?" quando soubesse do ocorrido.
Sem ter outra opção a não ser engolir o erro cometido por seu companheiro, ela levantou-se mais cedo do que de costume. Havia perdido o sono e já não aguentava mais ficar rolando de um lado para o outro na cama. Foi até a cozinha, mas aquele parecia um daqueles dias que tinha tudo para dar errado. Nem o café estava pronto ainda. Na noite anterior, ela mesma havia programado a cafeteira, mas como estava adiantada, a bebida ainda não havia sido passada.
Suspirou, sentindo uma leve pontada na cabeça. Conhecia tão bem, que ao menos sabia por que diabos estava se importando tanto com o que tinha acontecido, já que aquilo era absolutamente previsível se tratando do rapaz.
— Bom dia. — a voz causou-lhe um arrepio nas costelas.
— Bom dia. — sussurrou em resposta, virando-se para ver em pé, logo na entrada do cômodo, tão longe quanto possível.
— Precisamos conversar. — avisou e a garota acabou amaldiçoando a cafeteira por demorar tanto para fazer o café.
— Não tenho muito a dizer. — rebateu, desejando poder fugir dali o mais rápido possível.
— Mas eu lhe devo um pedido de desculpas. — disse encarando-a com determinação. — Isso não vai mais se repetir.
— Não consigo acreditar em você. — as palavras escaparam de sua boca sem querer.
— Por que não? — inquiriu, franzindo as sobrancelhas.
— Porque conheço você, .
— Será que conhece mesmo? — retrucou, sem perder sua pose confiante.
Ela bem que queria poder responder à pergunta, mas repentinamente teve a sensação de que todas as afirmações que havia construído em relação ao rapaz, talvez estivessem equivocadas. Ele era uma caixinha de surpresas, afinal.
— Você e Igor se encontraram na faculdade, não é? — fugiu do assunto, porque não era idiota a ponto de admitir aquilo. — Sobre o que conversaram?
— Não importa, .
— Considerando que isso fez você mudar completamente, tem importância sim.
— Basicamente, ele quer que eu me afaste de você, porque acha que vou magoá-la. — revelou e a garota foi capaz de notar resquícios de vergonha em sua voz.
— Tenho uma novidade, bonitão. Você já magoou. — falou, aparentemente o filtro entre seu cérebro e a boca havia parado de funcionar.
Finalmente ela havia conseguido atingir . E por mais que uma parte sua odiasse a ideia, sabia que não havia nada que pudesse fazer para remediar a situação, pelo menos não momentaneamente. Por isso, desistiu do café e decidiu sair da cozinha. Só não contava com o fato de que o peão ainda não havia se dado por vencido.
Ele impediu sua passagem segurando-a pelo pulso. Seu toque não era forte, mas a sensação crua de pele contra pele fez com que a mulher parasse instantemente. Os ombros dos dois se esbarraram sutilmente, fazendo com que ela finalmente virasse a cabeça para o lado, a fim de encontrar um que lhe fitava com determinação.
— Você tem medo de mim? — a pergunta lhe parecia tão absurda que sua primeira reação foi a de revirar os olhos.
— Me poupe! — retrucou depois de perceber que ele realmente falava sério.
— Posso enumerar às vezes em que você ficou no mesmo espaço que eu por mais de cinco minutos, . Se não é medo, o que é? — disparou o outro, fazendo com que ela se perguntasse como a conversa havia chegado aquele ponto.
— Isso se chama "morar de favor na casa de alguém e não querer atrapalhar". Não quero que você ache que estou me intrometendo na sua vida, . Estava fazendo o que acreditava que era o melhor para você, sinto muito se me enganei sobre isso.
O aperto em seu pulso cessou. Sentiu sua pele pinicando, como se estivesse reclamando pela interrupção do contato físico que antes os dois trocavam. parecia atônico demais para dizer algo e a garota também não sabia o que fazer, por isso, acabou pegando sua bolsa que estava sobre o sofá e saindo para a rua.
Conseguiu relaxar minimamente quando sentiu a brisa soprando em seu rosto. Não tinha notado antes, mas o ar dentro do apartamento parecia estar carregado demais para que alguém conseguisse respirar decentemente. Talvez o clima tenso entre os moradores tivesse causado aquilo. A única certeza que tinha era a de em poucas horas, muitas coisas estranhas haviam acontecido.
Seu humor taciturno denunciou rapidamente o fato de que tinha algo errado acontecendo. Letícia a questionou a respeito e ela se viu relatando boa parte da história, ocultando apenas as questões relacionadas à maneira idiota que seu corpo reagiu ao toque de . Não queria que a amiga tivesse conclusões precipitadas a respeito do assunto.
— Cretino! — a outra exclamou, assim que terminou de ouvir a colega.
— E sabe o que é pior? Tenho quase certeza que a ruiva também estuda aqui.
Havia concluído aquilo enquanto caminhava em direção à faculdade naquela manhã. Quando reviveu mentalmente a cena ocorrida na madrugada, teve a sensação de que a acompanhante de não era tão estranha quanto ela acreditou que fosse. Depois de pensar um pouco sobre o assunto, lembrou-se de já tê-la visto andando pelos corredores do campus. E aquilo definitivamente não era nada bom.
— Isso está ficando cada fez pior. — a amiga constatou o óbvio.
— Pois é. — concordou, sentindo-se repentinamente cansada demais para continuar falando sobre aquilo.
— Apenas por curiosidade, você e nunca ficaram? — perguntou um tanto cautelosa.
— Não, Leti. — respondeu, soltando um longo suspiro. — A forma com que ele levava a vida não era compatível com a minha.
— Quer minha opinião? Acho que se sente rejeitado por você.
Não! Ela não queria nenhuma opinião. Estava cansada de suposições. Das pessoas dando palpites sobre sua vida e sobre . Ninguém conhecia o rapaz como ela. Ninguém sabia quão amável e quão cretino ele conseguia ser ao mesmo tempo. Muitos corações já haviam sido quebrados, o dela não encabeçaria a lista, de jeito algum.
Obrigou a amiga e a si mesma a esquecer do assunto. Tinham uma lista enorme de exercícios para responder e as aulas seguintes, tinham um grande potencial para sugar todas as energias que ainda restavam.
Merda de dia!
A única boa surpresa foi a aparição inesperada de Igor no final da tarde.
— Vim a pé. — comunicou ele, assim que encontrou a garota na saída da faculdade. — Assim temos mais tempo para conversar.
— Perfeito. — sorriu, entrelaçando seu braço no dele. — Como você está?
— Estaria melhor se você não tivesse me substituído. — disse, esforçando-se para parecer dramático.
— Estava com saudade dos seus exageros.
— Não é exagero. — afirmou, fazendo-se de ofendido. — Depois que voltou, você praticamente desapareceu.
— Não dê a todo o mérito. — esbarrou seu ombro no dele, propositalmente. — Esse semestre está bastante puxado.
— O meu também está.
— Mas devo dizer que estou um pouco desapontada com você.
— E por que estaria?
— Você não me contou sobre sua conversa com .
— Eu realmente não quero falar sobre isso.
— Vocês eram melhores amigos! — insistiu, apesar da falta de disposição do outro. — Não entendo porque vocês se afastaram tanto.
— Nós dois tínhamos o péssimo hábito de desejar as mesmas coisas. Era previsível que isso não acabaria bem.
Ela podia sentir a tensão emanando do rapaz ao seu lado. Era nítido seu desconforto ao ter que falar sobre o passado, principalmente se esse envolvesse . Havia algo oculto ali. Algo que estava disposta a descobrir, mesmo que tivesse que esperar mais algum tempo para isso, afinal, não era tão insensível a ponto de pressionar Igor ainda mais.
— Eu lhe convidaria para entrar, mas não sei se é uma boa ideia. — ela fez uma careta, assim que chegaram à entrada do prédio onde morava.
— Não se preocupe. Já estou indo para casa. — abriu um sorriso, parecendo mais à vontade.
— Se cuide.
— Você também. — respondeu, depositando um beijo em sua testa.
Como não havia nenhuma outra chave sobre o aparador que ficava ao lado da porta de entrada, deduziu que não havia chegado. Estava sozinha. E não esperava ficar tão satisfeita com isso. Precisava de um pouco de tempo para pensar, principalmente depois que uma hipótese terrível se formou em sua mente.
Ela aproveitou o tempo disponível para terminar um trabalho e depois ligou para sua mãe. A troca de mensagens com a mulher era absolutamente frequente, mas por vezes a garota sentia a necessidade de ouvir a voz reconfortante de alguém familiar.
Ainda assistiu um pouco de tv antes de ir se deitar, mas a ausência do rapaz com quem dividia o teto, fez com que ela associasse cada pequeno barulho com a possível chegada dele. Por mais que quisesse, não conseguia se livrar do medo de que os acontecimentos da madrugada anterior se repetissem.
A noite se arrastou e se viu aliviada quando o despertador do celular finalmente tocou. Apesar de saber que provavelmente passaria o dia todo bocejando, não aguentava mais ficar deitada em sua cama imaginando coisas. Levantou-se e caminhou em direção ao banheiro. Mas algo lhe chamou a atenção no meio do caminho.
A porta da suíte estava entreaberta.
As pernas da moça pareceram ganhar vida própria e a levaram direto para o quarto de . Espiou pela fresta e viu a cama ainda desarrumada, mas não encontrou qualquer sinal que indicasse a presença de alguém no cômodo. Ela acabou entrando e foi arrebatada por uma fragrância fresca, uma combinação de algo cítrico com um toque amadeirado. Lembro-a tanto a , que a fez perder o fôlego.
Saiu do cômodo tentando ignorar o calafrio que percorria sua coluna. Irritada, a garota percebeu que continuaria adotando a postura "não estou nem aí para você", o que significava que ela dificilmente o veria em casa pelos próximos dias.
A situação se tornou insustentável, no entanto. Não parecia justo que o dono do apartamento chegasse somente quando ela já estivesse dormindo e saísse antes mesmo de ela acordar. só o via ocasionalmente, de longe, na faculdade. A solidão que antes parecia bem-vinda começou a incomodá-la.
Despertou depois de ter tido mais um sonho com . Era como se seu subconsciente se negasse a esquecê-lo. Aborrecida consigo mesmo, pegou o celular e para sua surpresa encontrou três ligações perdidas de sua mãe. Notou que havia se esquecido de tirar o aparelho do modo silencioso depois que saiu da aula.
Retornou a chamada rapidamente.
— Falei com ontem à noite. — Flávia comentou durante a ligação.
— Como é? — indagou um tanto apavorada.
— Como você não atendia o celular acabei ligando para o telefone fixo. — explicou o motivo que a levou conversar com o rapaz. — Ele foi muito gentil. Parece ser um bom menino.
se viu obrigada a concordar, afinal, não queria compartilhar com sua mãe seu pequeno problema de convivência. Não era justo preocupá-la com algo que fugia totalmente do seu controle. Precisava se acostumar com aquilo e ponto final.
No meio da tarde recebeu uma mensagem de Igor a convidando para sair à noite. Apesar de ainda ser quarta-feira, se viu aceitando. Estava farta de ficar sozinha.
A choperia era um dos espaços mais agradáveis da cidade e o lugar preferido da futura médica veterinária. O espaço contava com um fluxo constante de universitários e as mesas costumavam estar sempre cheias de grupos de amigos em busca de um pouco de distração.
— Você anda estranha ultimamente. — seu amigo mencionou, parecendo preocupado. — Algum problema?
— Não. — respondeu, já havia mentindo tanto a respeito disso que parecia algo automático. — Só um pouco estressada com as aulas.
Igor foi sensível o bastante para mudar de assunto, mas ela estava distraída demais para prestar muita atenção no que ele falava. Seus olhos percorreram o ambiente em busca de algum rosto conhecido, mas o que encontrou não lhe agradou em nada. O homem sentando ao lado de Letícia estava de costas para ela e se não o conhecesse tão bem, talvez não o tivesse reconhecido. Seu estômago embrulhou ao constatar que sua melhor amiga e seu companheiro de apartamento estavam absortos em uma conversa amistosa.
— Quão cretino alguém consegue ser? — resmungou em voz alta, sem acreditar no que seus próprios olhos viam.
— O que foi? — o rapaz que a acompanhava indagou, sem entender sua repentina mudança de humor.
— Nada. — forçou um sorriso, disposta a não envolvê-lo no assunto. — Como estão seus pais? — perguntou para mantê-lo distraído.
Ele desatou a falar sobre a família, mas por mais que quisesse, não conseguia se concentrar totalmente na conversa. Tentava, o mais discretamente possível, observar os dois novos amigos. Decidiu que precisava dar jeito de conversar com o cowboy idiota. Estava disposta a ficar acordada até de madrugada se fosse preciso para fazê-lo.
A oportunidade surgiu antes do previsto, no entanto. Quando viu caminhando em direção ao banheiro deu uma desculpa para Igor e foi atrás dele sem se importar com o fato de que estava prestes a invadir um espaço exclusivamente masculino.
Ouviu uma série de xingamento e protestos, mas ignorou cada um deles. Encarava com fúria, deixando claro todo seu descontentamento.
— Você vai mesmo dar em cima da minha melhor amiga? — disparou assim que deduziu que estavam sozinhos.
— Invadir o banheiro masculino não é muito sua cara. — observou de sobrancelhas arcadas.
Os dois foram interrompidos por um homem que saiu de um dos reservados. Ele fitou a garota, confuso.
— É só uma crise de ciúmes. — explicou como se o que estivesse acontecendo ali não fosse nada importante.
— Sei como é, cara. — o outro afirmou, lançando um olhar de pena para o futuro agrônomo.
— Não se trata de ciúmes. — ela vociferou, mas os dois já estavam sozinhos novamente.
— Então qual é o problema?
— O problema é que você magoa a todos que tentam se aproximar. Não vou deixar que faça isso com Letícia também.
— Percebe que foi por isso que me afastei de você? — questionou, mantendo sua postura decidida. — Não queria magoá-la ainda mais.
— Deveria ter perguntado se era isso que eu queria. — retrucou ela, agora com a voz mais estável.
— E não é?
— Eu odeio ficar sozinha, . E odeio você por estar fazendo isso comigo.
— Eu sinto muito. — sussurrou quase conseguindo convencê-la de seu arrependimento.
— Não sinta. Apenas deixe Letícia em paz. — exigiu, sem conseguir sentir um pingo de compaixão por ele.
— Você sabe que ela é apaixonada por Igor, não sabe?
A convicção das palavras ditas pelo peão fez com que a garota desistisse de deixá-lo falando com as paredes. Havia firmeza em seu olhar e foi isso que a fez acreditar que a suposição não era uma brincadeira de mau gosto.
— Vamos sair daqui. — ele resmungou quando a porta do banheiro foi aberta por outro homem.
Segurando-a pelo cotovelo a guiou em direção à porta de emergência da choperia. Os dois saíram para uma rua lateral, praticamente deserta.
— O que você disse lá dentro... — a garota começou, mas a frase acabou se perdendo.
— Não precisei de muito tempo para perceber.
— Letícia nunca tocou no assunto. — apertou os olhos, repreendendo-se por nunca ter notado.
— Tenho certeza que você sabe o motivo.
— Ela também acha que Igor é apaixonado por mim. — concluiu, sem ao menos precisar de tempo para pensar.
— Exatamente.
Apesar de desejar conversar com a amiga sobre aquilo, não achava que seria capaz de fazê-lo naquele instante. Ela deu as costas para o rapaz, grata por ter trazido apenas o cartão e o celular que estavam em seu bolso. Encarar Igor novamente também estava fora de cogitação.
— Aonde você vai? — quis saber.
— Para casa.
— Quer uma carona? — ofereceu em tom conciliador.
— Seria ótimo!
Enquanto ele dirigia rumo ao apartamento a garota aproveitou para mandar uma mensagem para Igor, a fim de se desculpar pelo sumiço. Sabia que o amigo ficaria chateado, mas tratou de inventar uma desculpa com o intuito de minimizar os estragos.
— Se decidir sumir mais uma vez, vou atrás de você nem que seja no quinto dos infernos. — ela ameaçou assim que chegaram em casa.
— Vou te esperar para o café. — abriu um sorriso tímido, parecendo disposto a iniciar um período de trégua.
Tratando-se de ansiedade, era uma verdadeira negação. Assim que se viu sozinha em seu quarto, acabou cedendo à curiosidade e mandou uma mensagem para Letícia comentando que a viu na choperia com .

[Letícia]: Adivinha qual foi o assunto principal da nossa conversa?
[Letícia]: Agora é oficial: ele gosta mesmo de você!

Ela revirou os olhos ao ler a resposta. Definitivamente não queria falar sobre aquilo.

[]: E quanto a você?
[]: Gosta de alguém?

Sabia que a pergunta soava estúpida, mas não se conformava com o fato de que sua melhor amiga nunca tinha se sentido a vontade para falar sobre seus sentimentos com ela.

[Letícia]: Eu vou matar aquele cretino!
[Letícia]: Não acredito que ele abriu o bico.

Acabou sorrindo frente a reação exagerada da outra.

[]: E eu não acredito que você tenha me escondido isso!
Letícia está digitando...
[Letícia]: É uma espécie de paixão platônica.
[Letícia]: E não acredito que eu tenha chances. 

detestava o fato de que a única coisa que impedia a amiga de arriscar uma relação com futuro médico era ela.

[]: Pois eu acho que você deveria investir.
[]: Igor é como um irmão para mim.
[]: Ficarei satisfeita vendo vocês dois juntos.

Deixou claro seu ponto de vista, desejando que isso fosse um bom incentivo. Realmente ficaria feliz em ver os dois juntos.
Letícia garantiu que pensaria no assunto e ela se sentiu um pouco mais leve por saber que havia resolvido uma de suas questões pendentes. No entanto, ainda existia algo que martelava insistentemente em sua cabeça. Algo que ela estava disposta a esclarecer na manhã seguinte, enquanto compartilhava uma xícara de café forte com .





Continua...



Nota da autora: Olá crianças! Finalmente está começando a abrir os olhos em relação ao que pode causar na vida dos que estão a sua volta. Espero que estejam curtindo esse comecinho de história e vou esperar ansiosa pelos comentários de vocês. E fiquem a vontade para interagir lá pelo grupo do Facebook também. Beijinhos e até logo <3




Nota da beta: Gente, a Leticia gosta do Igor, estou chocada igual a pp hahahahah! E por falar na pp, finalmente ela está começando a enxergar o porquê a amizade daqueles dois acabou! Ansiosa por mais! <3 <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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