Última atualização: 16/11/2018

Prólogo

Maio de 2002

Ela odiava aquilo. Considerava seu inferno particular. Já era a terceira vez que precisava trocar de colégio e adivinhem só? Ainda detestava ter que passar por aquilo. Os olhares curiosos seguidos por sussurros nada discretos lhe tiravam do sério. 
Como era de se esperar, as únicas carteiras vagas ficavam no fundo da sala. Estava entre os bagunceiros, mais uma vez. Colocou seu caderno sobre a mesa e tentou ignorar a sensação de que estava sendo observada. Ser a novata era um saco!
Assim que a aula começou a garota percebeu que cometeu um erro ao escolher seu lugar. Havia ficado entre dois garotos, que pelas tentativas de comunicação, deviam ser amigos. Sua paciência se esgotou quando uma bolinha de papel lhe atingiu a cabeça.
— Podemos trocar de lugar, está bem?! — murmurou para o garoto sentado em seu lado direito, justamente aquele que havia lhe atingido.
— Não se dê ao trabalho. — ele inclinou-se em direção a ela, a fim de ser ouvido. — Não acho que você vá consegui se enturmar tão fácil, então eu e meu amigo provavelmente seremos sua salvação.
— Seu grande idiota! — xingou-o, mas antes que pudesse ter tempo de despejar todos os outros insultos que lhe vieram em mente, a professora os interrompeu pedindo silêncio.
Tentou ignorar seus colegas pelas horas seguintes, mas não conseguia esconder sua irritação. O garoto não a conhecia, portanto não tinha o direito de fazer qualquer insinuação a seu respeito. Tudo bem que talvez ele estivesse certo. Mas ela realmente não se importava em ficar sozinha, por vezes, até preferia.
— Ei, não ligue para o que diz. Ele é meio excêntrico. — o outro garoto lhe disse, assim que foram liberados para o intervalo.
— Meio intrometido, você quis dizer. — corrigiu, lançando um olhar discreto em direção ao tal , que conversava, ou melhor, dava em cima de uma garota da turma.
— Talvez. — ele sorriu, simpático. — Aliás, meu nome é Igor.
. — apresentou-se, já que o colega parecia esperar que ela fizesse.
— Espero que goste da cidade, .
As palavras de Igor pareciam sinceras e acima de tudo gentis. Observou ele se afastar e ir em direção a . Um parecia tão diferente do outro, mais ainda assim os dois eram terrivelmente bonitos. A diferença era que sabia disso enquanto Igor parecia alheio ao fato. Por via das dúvidas, decidiu manter-se distante de ambos.
Buscou por um lugar afastado do pandemônio chamado adolescentes no ensino médio. Apesar de ter seus 15 anos, não gostava de toda aquela agitação, por isso, procurou por um recanto onde pudesse ter alguns instantes de paz e se deliciar com a leitura de mais um dos seus romances. Os livros sempre foram seus melhores companheiros.
Por três dias conseguiu fugir de todos durante os intervalos, no entanto, ela sabia que seu sossego estava com os segundos contados quando viu dois rapazes se aproximando. Seu esconderijo havia sido descoberto.
— Parece que eu estava certo, não é? — lhe encarou com um sorriso mordaz, tirando-a do sério logo de cara.
— Que tal me deixar em paz? — retrucou, afastando-se dos dois.
— Estou partindo do pressuposto que você precisará de amigos, . — era a primeira vez que pronunciava seu nome e por mais que odiasse admitir, soava bem.
— Só queremos lhe ajudar. — Igor se pronunciou por fim, indicando que eles não desistiriam.
— Então por que diabos aquela garota está me fuzilando com os olhos? — indagou, já que haviam chegado ao refeitório e o olhar intimidador de uma de suas colegas de turma lhe chamou a atenção.
tem um caso mal resolvido com ela. — Igor comentou, dando de ombros como se aquilo fosse absolutamente normal.
— Na verdade tenho um caso encerrado com ela, no entanto, algumas pessoas não conseguem assimilar quando levam um fora. — o outro se defendeu, apesar de não parecer dar muito importância ao assunto.
— Então um é o mulherengo e o outro o responsável. — ela concluiu de imediato.
— Na verdade eu sou o divertido e ele o careta. — corrigiu, fazendo com que ela revirasse os olhos.
— Eu prefiro a sua definição. — o amigo sussurrou para que só ela ouvisse. — Somos dois extremos.
— Tenho a impressão de que você é o equilíbrio. — lhe fitou e pela primeira vez, não havia qualquer resquício de malícia em seu olhar.
— Bem-vinda ao time! — Igor exclamou e por mais que a garota não entendesse o que eles queriam dizer naquele momento, ela não demorou muito para perceber.
Eles eram um trio agora...



Parte um
Não há como fugir do inevitável.

Capítulo 01

Junho de 2007

Ela encarou sua mãe certa de que as palavras ditas pela mulher possuíam outro significado, qualquer um que não representasse mais uma maldita reviravolta em sua vida.
— Goiânia? — a jovem repetiu, sem conseguir esconder seu estado de choque. — São o quê? Pelo menos 500 km de distância!
— Eu sei, . Mas não posso recusar a proposta. — suspirou, o almoço completamente esquecido sobre a mesa.
— Pensei que você tinha dito que não haveria mais mudanças. — murmurou, sentindo a frustração se instalar em seu corpo.
— Não precisa haver para você. — afirmou e então se pôs a explicar que o salário que ganharia em seu novo emprego seria suficiente para que a filha continuasse na cidade, pelo menos até terminar sua graduação.
Havia um porém, no entanto. precisaria encontrar um novo lugar para morar, já que não parecia viável manter-se em um apartamento tão grande, agora que moraria sozinha. Além disso, sua mãe precisava do dinheiro que ganharia com a venda do imóvel para conseguir se estabelecer na cidade nova.
— É uma condição razoável. — a menina concordou levemente aliviada após receber a notícia de que não precisaria ir embora. — Mas vai ser estranho ficar longe de você.
— Eu já estou com o coração apertado apenas com a ideia. — concordou a matriarca, já tentando se preparar psicologicamente para a nova fase que estava por vir.
Desde o acidente que tirou a vida do pai de , as duas só tinham uma a outra. Flávia precisou trabalhar dobrado para conseguir arcar com as despesas mensais e percebeu que precisava encontrar modos de ajudar sua mãe. Anos tinham se passado e graças aos esforços mútuos, levavam uma vida bem mais tranquila e estável do que antigamente.
sentia-se grata por não ter aula naquela tarde. Necessitava de tempo para organizar seus planos e assim que concluiu sua lista de afazeres, notou que precisava encontrar outro meio de manter a cabeça ocupada, caso contrário, os pensamentos inoportunos a respeito do futuro não lhe abandonariam. Então, tentou estudar. E céus, como tentou!
Fracassou miseravelmente, no entanto.
Nunca pensou que ficaria tão feliz ao ouvir o som do interfone ecoar. Autorizou imediatamente a entrada do seu melhor amigo. Era como se ele soubesse que algo estava acontecendo.
— Tenho uma baita novidade para lhe contar. — a garota começou a falar, puxando-o em direção ao sofá.
— Enlouqueceu, ? — Igor riu, frente à atitude eufórica da amiga.
— Minha mãe vai ser transferida. — despejou de uma única vez.
— Como é?
— Não enlouqueci, afinal. — zombou ela ao observar a expressão de pavor de Igor e só então explicou o que estava acontecendo.
— Posso lhe ajudar a encontrar um novo apartamento. — ele se dispôs, por fim.
— Vai ser ótimo! Mas queria encontrar alguém disposto a dividir o aluguel comigo.
— Estamos no meio do ano... Talvez seja um pouco difícil.
— Eu sei. Mas não custa nada tentar, certo? Não quero dar muitas despesas para minha mãe.
O garoto concordou, afinal conhecia muito bem aquele lado de , que sempre se preocupava mais com os outros do que consigo mesma.
— Acho que também tenho uma novidade. — ele ergueu as sobrancelhas de forma sugestiva. — Lembra-se do ?
O nome veio acompanhado de uma série de lembranças das quais ao menos recordava que tinha. Seu coração pareceu dar um salto, por mais ridículo que isso pudesse ser.
? — perguntou, ainda tentando se acostumar com as sensações que aquelas duas palavras lhe traziam.
— O seu melhor amigo. — respondeu, mal escondendo o tom de deboche.
— Não seja dramático, bonitão. Éramos um time.
— Um time fadado ao fracasso.
— Talvez. — ela sorriu de canto. — Mas não vejo desde a formatura.
— Pelo que ouvi dizer, ele estava estudando nos EUA.
— Uau! O garoto é realmente surpreendente.
— Exibido, eu diria. — Igor deu de ombros, sem a mínima vontade de dirigir um elogio ao imbecil que um dia foi seu amigo. — De qualquer modo, parece que ele está voltando para a cidade.
Seu coração deu mais um salto. Que diabos estava acontecendo com ela? Mal conseguia controlar suas próprias emoções e tudo isso por conta de alguém que não via há anos.
— Interessante. — foi o que disse, apesar de toda a expectativa que a notícia trouxera.
— Apenas me prometa uma coisa: não tente me obrigar a conviver com ele, está bem?
— Céus! Quem garante que vamos encontrá-lo novamente? — indagou crente que o amigo estava exagerando.
— Apenas prometa!
— Só depois que você me contar porque o detesta tanto. — ela decidiu jogar baixo, já que não lhe entrava na cabeça como a relação de duas pessoas poderia passar da lealdade extrema para o ódio velado.
— Isso se chama maturidade. Você cresce e percebe que aquele cara que parecia legal não passava de um grande idiota.
Garotos! — ela sussurrou para ninguém em especial, convencida de que aquilo era apenas baboseira de Igor.
Decidiu mudar de assunto porque não queria se indispor com o amigo. Já tinha problemas demais para pensar, não precisava de mais um. Conversaram sobre alguns assuntos aleatórios e por fim, ele se despediu afirmando que precisava terminar um trabalho.
Igor Müller era exemplar. Suas notas nas disciplinas do curso de medicina eram invejáveis. Não bastasse a inteligência, era doce e incrivelmente bonito. Surpreendia-lhe o fato de ele ainda estar solteiro.
por outro lado... O rapaz era a personificação da palavra errado. Durante o ensino médio se envolveu com todas as garotas e em todas as brigas possíveis. E apesar disso, havia algo inquestionavelmente especial nele.
Cansada de pensar em questões que não fossem relacionadas exclusivamente ao presente decidiu ir até a cozinha. Colocou "Thinking Out Loud" para tocar e se concentrou na preparação do jantar. Cozinhar era um dos seus afazeres prediletos, então não reclamava em ter que se ocupar com aquilo.
— Não sei o que será de mim sem minha cozinheira preferida. — sua mãe se lamentou assim que sentou junto à mesa.
— Agora imagine quão motivada vou estar para cozinhar apenas para mim. — a jovem fez uma careta, mal conseguindo pensar no assunto.
— Estamos ferradas! — exclamou e acabou rindo ao ouvir a expressão usada pela mãe. — E como foi sua tarde?
— Igor passou aqui. Disse que vai me ajudar a encontrar um apartamento novo. — contou, servindo porções generosas do risoto no prato de ambas.
— Muito gentil da parte dele. — comentou, despretensiosamente. — Aliás, sempre achei que vocês formariam um belo casal.
— Ele é apenas meu amigo. — garantiu, levando a boca uma garfada de comida.
— Você não acha que talvez, apenas talvez. — reafirmou, assim que notou que a filha tinha a intenção de interrompê-la. — ele sinta algo a mais.
— Definitivamente não. — afirmou com segurança. — Ele nunca tocou no assunto.
— Talvez por que tenha medo.
— Eu vou ficar bem sozinha aqui, mãe. Não precisa tentar arrumar um pretendente para mim. — deu uma piscadela, tentando fingir que o assunto não lhe deixava desconfortável.
— Ainda não consigo acreditar que estou permitindo que você fique aqui sozinha. — a mulher alegou, demonstrando sua preocupação.
— Não é como se eu fosse aprontar loucamente. — sorriu, tentando amenizar o clima tenso.
— Acha mesmo que eu te deixaria caso não tivesse plena certeza que você tem juízo suficiente nessa cabecinha?!
— Certamente não!
— E falando nisso, não teremos muito tempo para agilizar as coisas. Em no máximo dez dias já devo estar trabalhando em Goiânia. — contou, parecendo cansada apenas de imaginar a correria que precisariam enfrentar.
— Toda essa pressa é mesmo necessária? — indagou sorvendo logo em seguida um gole de suco. A comida já não parecia tão apetitosa quanto antes.
— Parece que a agência bancária de lá está com vários problemas. Estão precisando de um gerente para ontem.
— Pelo visto você terá muito trabalho pela frente.
— Deus que me ajude! — suspirou, sabendo que teria que lidar com grandes desafios dali em diante.
— Você acha que vai conseguir vender o apartamento até lá?
— Bem, eu espero que sim. Estou contando que a boa localização atraia alguns compradores.
Sua mãe tinha razão. O apartamento era consideravelmente espaçoso e o melhor de tudo, ficava próximo ao campus universitário da cidade. Era uma oportunidade daquelas difíceis de deixar passar, caso você tivesse uma conta bancária gorda o suficiente para isso.
Enquanto ensaboava os pratos utilizados no jantar, a garota se pegou pensando no que sua mãe disse a respeito de Igor. Apesar de não ter admitindo durante a conversa, ela já havia pensando no assunto. A hipótese não era tão absurda como deixou a entender. A grande questão era que não sabia como lidar com aquilo, por isso, preferia apenas ignorar o fato. 
Com a cozinha devidamente limpa, as duas se dirigiram até a sala a fim de assistir a novela favorita de Flávia. A mais nova bem que tentou se concentrar na trama, mas uma insistente dor de cabeça não lhe deu alternativa a não ser a de ir se deitar antes mesmo que o último capítulo fosse exibido.
Já na cama, seus pensamentos seguiram um rumo inesperado. Ao invés de se preocupar com os problemas futuros, se viu pensando no passado, mais especificamente no ex-namorado. O rapaz, também calouro na época, parecia-lhe absolutamente perfeito. Garota ingênua! Poderia esperar qualquer coisa das pessoas, exceto perfeição. Pena que teve que descobrir isso da pior forma possível.
Apertou os olhos, um tanto confusa. Por que mesmo estava lembrando daquilo? A resposta não demorou muito para aparecer. Lembrou-se de Igor e notou então que aí estava o grande empecilho responsável pela relação dos dois continuar no nível da amizade. Não estava pronta para se envolver, ao menos não completamente. Por mais que tivesse plena certeza que o amigo não seria capaz de ter atitudes tão traiçoeiras quanto seu ex, sentia-se insegura.
Os pensamentos acelerados levaram-na diretamente para o mundo dos sonhos. Um mundo paralelo onde lhe dirigia um sorriso cúmplice e envolvia sua cintura com um dos braços. O perfume que lhe chegou às narinas era familiar, assim como a segurança que sentiu apenas de estar ali, aninhada junto ao corpo do rapaz.
Minha doce . — ele sussurrou, fazendo com que a garota lembrasse quão sedutor era ouvir seu nome sendo pronunciado por aquela boca.
O despertador tocou no momento em que os lábios dos dois se tocaram. Já com os olhos abertos ela sentiu o coração saltitando no peito. Não bastasse isso, suas veias pareciam estar transportando fogo ao invés de sangue. Não hesitou ao virar a torneira do chuveiro totalmente para o lado gelado. Apesar de tudo, a sensação que sentiu era estranhamente boa.
Não demorou em se arrumar e ficou grata por ter acordado a tempo de conseguir uma carona com sua mãe até a faculdade. Chegou mais cedo do que o necessário, mas aproveitou o tempo extra para conversar com sua melhor amiga, Letícia Ferreira, a respeito da mudança de sua mãe.
— Ainda bem que você poderá ficar. — a colega comentou, depois de ouvir todos os detalhes. — Não sei o que seria da minha vida acadêmica sem você!
— Nem eu o que seria da minha sem seu senso de humor. — sorriu, no exato momento em que o professor apareceu na sala.
dedicou sua total atenção à aula que estava sendo ministrada. Era bolsista em uma faculdade particular, portanto, não podia ao menos cogitar a ideia de ir com uma nota baixa. Dedicava-se aos estudos sem reclamar e ter escolhido a profissão que tanto amava tornava as coisas minimamente mais fáceis. A vida acadêmica tinha suas complicações, certamente.
Assim que foram dispensados para o intervalo, a futura médica veterinária se dirigiu até o mural de recados próximo a secretária para fixar um aviso com o objetivo de encontrar outra universitária disposta a dividir o aluguel. Depois de cumprir sua missão, virou-se para voltar até a sala. Só não esperava que alguém estivesse tão próximo a ponto de se esbarrarem. Caso a outra pessoa não tivesse sido ágil o suficiente para segurá-la certamente teria caído.
— Desculpe. — ela murmurou, constrangida.
— Tudo bem.
Céus, aquela voz! Reconheceu o dono dela antes mesmo de erguer o rosto para encará-lo. Os lábios do rapaz estavam levemente erguidos em um canto, formando um sorriso discreto. Mas seus olhos, ah os seus olhos... refletiam nada menos do que luxúria.
. — ela sussurrou por fim e por instinto deu um passo para trás a fim de ganhar espaço. Seu corpo protestou quando a mão dele, que estava espalmada em sua cintura, se afastou.
. — o breve cumprimento fez com que pequenos arrepios se espalhassem pela pele da garota. 
— Não esperava vê-lo por aqui. — gaguejou, obrigando seu olhar a se dirigir para qualquer outro lugar que não fosse a boca dele.
— Vou começar a estudar aqui no próximo semestre. Vim trazer a papelada da transferência. — respondeu, analisando atentamente a antiga amiga.
— Bacana! É uma ótima faculdade... você vai gostar daqui.
— Estou certo que sim.
O tom de voz empregado pelo rapaz deixou claro que ele continuava o mesmo sedutor de antigamente. sorriu ao constatar o fato. Ao que parecia cretinos continuavam cretinos independente de quanto tempo se passasse.
— Bem, eu preciso voltar para a aula. — ela disse depois de alguns instantes em que os dois ficaram apenas se encarando. — Foi bom revê-lo.
— Espero encontrá-la novamente. — afirmou e em seguida pendeu a cabeça levemente para um lado, assumindo uma postura avaliativa. — Aliás, gostei do novo corte de cabelo. Você ficou mais sexy com ele.
Não era a primeira vez que lhe deixava sem palavras. Então a garota ficou ali, imóvel, chocada demais para tomar alguma atitude que não se baseasse simplesmente em observá-lo ir embora.
— Ei, quem era aquele? — foi a voz da sua amiga que lhe tirou do transe.
— Um amigo. — contou, recuperando a compostura.
— Tremendamente bonito ele.
— E tremendamente complicado. Ele sabe como quebrar o coração de uma garota como ninguém.
— Irresistível e cafajeste. — a colega observou, pensativa. — É uma combinação e tanto.
Não havia como discordar daquilo. Era por isso que parecia um imã que atraia mulheres. A maior parte delas acreditava que conseguiria colocá-lo na linha. Era mais fácil acreditar que com você as coisas seriam diferentes do que aceitar que seu lindo nome só seria mais um na longa lista de casos do rapaz. Mas no final das contas o resultado sempre era o mesmo: desilusão.
Sentimento parecido sentiu quando chegou em casa e ouviu sua mãe dizendo que não passaria o final de semana na cidade, porque precisava ir até Goiânia resolver algumas questões importantes relacionadas a compra do novo imóvel.
Apesar de ter sido convidada para fazer companhia à mãe, a garota preferiu ficar e acabou usando boa parte do sábado para procurar anúncios de apartamentos disponíveis para locação. Para sua frustração, os únicos que cabiam no seu orçamento ficavam absolutamente distantes da faculdade.
No domingo à tarde recebeu uma mensagem do amigo convidando-a para tomarem sorvete. A proposta acabou se tornando irrecusável por conta de dois fatores: era uma ótima maneira de aliviar o calor infernal que estava fazendo e também uma solução eficiente para que deixasse seus problemas de lado por um instante.
— Tenho algo para lhe contar. — a jovem disse, sorvendo um gole do seu milk-shake de morango.
— Não me diga que já encontrou um apartamento novo?
— Na verdade reencontrei uma pessoa. — fez uma careta, sabendo que Igor provavelmente saberia de quem estavam falando.
, aposto.
— Parece que ele vai estudar na minha faculdade no próximo semestre.
— Nunca pensei que diria isso, mas estou imensamente feliz por estudarmos em faculdades diferentes. — afirmou, sem conseguir esconder o tom de sarcasmo.
— Sabe o que eu acho engraçado? — indagou ela, mexendo distraidamente no canudinho do seu copo. — Eu deveria ter sido o equilíbrio, mas às vezes tenho a sensação que causei um efeito completamente contrário na amizade de vocês.
— Isso não tem nada a ver com você. — o rapaz fungou, depois de alguns instantes de silêncio.
Ela não insistiu no assunto, porque sabia que não valia a pena. O amigo não daria o braço a torcer por mais forte que fossem os argumentos contrários ao seu. Apesar disso, ainda acreditava que conseguiria tirar aquela história toda a limpo em algum momento.
Quando voltou para o apartamento, sua mãe já estava a sua espera, cheia de novidades.
— Consegui o imóvel em Goiânia. É ótimo! Você vai amar! — contou, animada.
— É uma excelente notícia! — a garota tentou parecer tão disposta quanto a mulher.
— E amanhã um comprador vai vir visitar nosso apartamento.
— Rápido, não?! — foi o que conseguiu dizer, já que a notícia lhe pegou de surpresa.
— Sim. — concordou. — E por acaso você terá aula o dia todo?
— As notas de algumas matérias já estão fechadas, então acredito que terei à tarde livre.
— Será que você poderia receber o pessoal da imobiliária? Acho que não vou conseguir sair do trabalho.
— Posso cuidar disso, fique tranquila.
Era uma missão bastante simples na verdade, mas que tinha um significado terrível para a garota. Mal conseguiu dormir naquela noite pensando no assunto. A ideia de deixar o quarto em que viveu nos últimos anos era quase sufocante. Não conseguia imaginar como seria sua vida dali em diante.
A manhã se arrastou de forma quase dolorosa. Segundas já eram entediantes por si só, quando as aulas eram chatas então, parecia ainda pior. O almoço acabou caindo como uma pedra em seu estômago e quando pensou que seu dia não podia piorar, foi informada pelo porteiro que a corretora de imóveis já tinha chegado. Abriu a porta do apartamento e seu queixo caiu.
— Entrem. — ela gaguejou para os visitantes.
Uma mulher vestida com trajes bastante formal sorriu para a garota e pediu licença para mostrar o lugar para seu cliente. Era quase trágico passar por aquilo, principalmente porque o dito cliente não passava de ninguém menos que .
Os olhos do rapaz continham um brilho indecifrável e a forma como um dos músculos do seu rosto se sobressaia em relação aos demais indicava que ele não estava contente com a situação. Ainda assim, a corretora fez um tour pelo apartamento enquanto se manteve empertigada em um canto do sofá.
— Desculpe pela intromissão. — a profissional estendeu a mão para a jovem, assim que terminariam com a visita. — Já podemos ir, .
— Na verdade vou ficar mais um pouco. — respondeu ele, segurando um porta retrato que até então estava disposto em um nicho do painel da tv. — Se não se importar, é claro. — completou dirigindo um olhar demorado a garota.
— Tudo bem. — ela concordou e em seguida levou a corretora até a saída.
— Não sabia que você iria se mudar. — o peão disse, assim que ficaram sozinhos.
— Na verdade não vou. — esclareceu, sentando-se novamente no sofá. — Apenas minha mãe.
— Então por que estão vendendo o apartamento? — quis saber, apoiando-se no braço de uma poltrona.
— É a melhor opção para nós. — disse-lhe sem entrar em muitos detalhes. — Vou encontrar um lugar menor para morar.
— Eu provavelmente vou ficar com o apartamento, mas isso não significa que você terá que ir embora.
— Desculpe, mas acho que não entendi o que você quis dizer. — ela deu um sorriso forçado, tentando ser educada. Tinha a leve sensação de havia perdido o juízo de vez.
— Você pode continuar morando aqui, . — reafirmou, sendo mais específico.
— Isso não faz o menor sentido.
— Você precisa de um lugar para morar, não? — perguntou, encarando-a com atenção.
— Sim, mas essa aqui vai ser a sua casa.
— Vou me sentir desconfortável com a ideia de que tirei de você o seu próprio teto.
— Não preciso da sua piedade. — retrucou, sem conseguir conter o tom ríspido.
— Deus! Só quero ajudar.
— E para isso convida uma estranha para morar com você.
— Você está longe de ser uma estranha. — garantiu com convicção.
— De todo o modo não posso aceitar, mas, ainda assim, obrigada pela preocupação. — sorriu, desejando que isso fosse suficiente para encerrar aquela conversa.
— Tudo bem. — ele concordou de forma surpreendente. — Será que você pode me emprestar seu celular um instante?
A garota estranhou o pedido, mas, ainda assim pegou o aparelho e depois de desbloqueá-lo o estendeu para . Observou o rapaz inserir um novo número em sua lista de contatos.
— Se mudar de ideia, sabe como me encontrar. — falou, devolvendo o smartphone. — Preciso ir agora.
Ela o acompanhou até a porta e por mais inesperado que pudesse ser, sentiu os braços do rapaz envolver seu corpo. Acabou cedendo ao gesto e aproveitou o momento para inalar o perfume oriundo dele. Para sua surpresa, era absolutamente igual ao que sentiu em seu sonho.
— Cuide-se! — pediu, pouco antes de ir embora.
definitivamente sabia como desestruturar uma garota. A conversa que tiveram ficou martelando na cabeça de pelo resto do dia. Por mais absurdo que fosse, começou considerar a proposta como um plano B, caso o plano A fosse um fracasso como parecia estar se encaminhando para ser.
Por fim, ela decidiu que precisava compartilhar a informação com alguém e por mais irritado que Igor pudesse ficar, precisava contar para o amigo.

[Igor]: E você está cogitando aceitar essa idiotice?

A resposta do rapaz para suas mensagens não demorou a chegar. Soltou um longo suspiro e voltou a digitar.

[]: Por enquanto não tenho muitas outras opções. 
Igor está digitando...
[Igor]: Você pode ficar lá em casa.

O argumento fez com que ela revirasse os olhos. Tinha poucas certezas a respeito do que faria depois que sua mãe se mudasse, mas ir morar na casa dos amigos, invadindo a privacidade de uma família inteira, estava absolutamente fora de questão.
Quando Flávia chegou do trabalho quis saber de todos os detalhes da visita e a garota se viu contando a respeito da conversa que teve com .
— Não sei se gosto da ideia de você morando com um menino. — a mais velha comentou um tanto receosa.
— Eu sei, mas, pelo menos eu o conheço. Sei que não ele não é um serial killer nem nada do tipo. 
— Deus, ! — ela repreendeu a garota, apesar de não conseguir esconder o sorriso.
— É só um plano de emergência, mãe. Ainda estou procurando outro lugar.
— Eu sei, querida. E vou te apoiar independente do que acontecer. Confio em você!
Era disso que precisava. De alguém que não duvidasse das suas escolhas e que lhe apoiasse incondicionalmente, mesmo se acabasse tomando as decisões erradas. Céus! O que seria dela depois que sua mãe se mudasse?





Continua...



Nota da autora: E então, crianças, o que acharam desse primeiro capítulo? E a capa maravilhosa da história? Não poderia deixar de agradecer a Naty por estar comigo novamente, dando-me todo o suporte que preciso. Você arrasa, menina! E preciso me desculpar com a Carol, a capista, por ter lhe dado tanto trabalho. Estou apaixonada pela capa, era exatamente o que eu esperava. Muito obrigada <3
Enfim, vou ficar muito feliz em receber os comentários de vocês e em vê-las no meu grupo do facebook, onde sempre avisarei a respeito das novidades e atualizações. Beijos e até logo :*




Nota da beta: Primeiro de tudo, a capa ficou maravilhosa, parabéns à capista! Agora com relação a atualização, senti que a foi a causa da discórdia entre os amigos, hein? Eita, será? E eles morando juntinhos? Vai dar problema rsrs
Rê, me dá um orgulhinho de saber que você me escolheu novamente como beta, amo sua escrita, e não é de hoje, rs! Continue <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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