Capítulo 1 - Temperamental
O olhar inquieto da aluna do primeiro ano revezava constantemente entre os ponteiros do relógio e a porta da sala do diretor. Já estava entediada por aguardar tanto tempo sentada naquela saleta de espera, sem ter a opção de se levantar e ir embora. Como isso a indignava!
A garota inclinou a cabeça para trás, no encosto da cadeira, e fechou os olhos na tentativa falha de suprimir cada sensação fundida em seu peito. Não entendia o porquê de tamanha demora, afinal sua infração nem fora tão grave assim... Bem, pelo menos não em sua concepção.
Tardou mais alguns segundos naquela mesma posição, até que sua atenção fora capturada por um sutil barulho vindo da sala ao lado, fazendo-a enrijecer levemente os músculos ao olhar fixamente em direção a porta.
“Muito bem, Sr. null, espero que tenhamos nos entendido” – ouviu, antes que a porta fosse aberta por completo, revelando um rapaz de aparência jovial e tranquila.
– Sim, Sr. Diretor. Tomarei os devidos cuidados de agora em diante. Obrigado por sua atenção.
null, o jovem tutor responsável pela pequena infratora acusada de cabular as aulas, curvou-se num ato de respeito para com o mais velho, despedindo-se por fim. Não tendo mais a atenção do diretor para si, o rapaz, sem mais delongas, voltou-se para encarar o semblante fingido de null.
A garota, estando sob o olhar julgador do mais velho, sentiu-se razoavelmente intimidada, porém, não demonstrando aparentemente. Apenas levantou-se daquela cadeira desconfortável e ajeitou a mochila nos ombros.
– Tsc, tsc, tsc. – null estalava a língua enquanto aproximava-se da garota, com os braços cruzados em frente ao corpo. – Quantas vezes ainda serei chamado pela direção da sua escola, hein, mocinha?
Com indiferença, ela apenas deu de ombros.
– Eu falei para eles que não precisava que alguém viesse até aqui... – murmurou, mas o suficiente para que null escutasse.
– Oras, como não precisaria? Você ainda é menor de idade, null, não pode lidar com esse tipo de assunto sozinha. – objetou. – Além do mais, sou eu quem está responsável pelos seus atos inconsequentes.
– Ótimo, eu não ligo. Nunca pedi que você se responsabilizasse por mim. Eu sei me cuidar. – null surpreendeu-se com a atitude ousada da mais nova, ficando momentaneamente mudo. – Eu poderia muito bem ter resolvido isso. Aish...
Estático, passou a observa-la por mais alguns segundos, falando em seguida:
– Ok. Tudo bem. – assentiu com o que ela falara. – Mas eu estou aqui para cuidar de você. Entretanto, não é algo que eu faça por você, mas pela sua mãe. Eu prometi a ela que enquanto você estivesse morando aqui em Busan, eu seria seu guardião. E é exatamente isso o que eu estou fazendo.
null encarou os olhos escuros da garota, convencido de suas palavras. Um sorriso lateral surgiu nos seus lábios volumosos, causando involuntariamente uma sensação de nervosismo na estudante. Não estando acostumada com tal sentimento, a ansiedade causava-lhe certo reboliço no estômago, coisa essa que raramente a atingia. Mas todas as vezes que null estava diante dele, do seu sorriso, essa sensação se tornava sua maior fraqueza.
Percebendo-se estar tempo demais olhando para o rapaz, null rapidamente volta aos seus reais sentidos, tomando sua postura anterior; a da indiferença.
– Ótimo! – falou, sarcástica. Então saiu andando, sem esperar por qualquer outra objeção de null.
– Hei, null! Aonde você está indo? – foi logo atrás, tendo que apressar seus passos. – Nós ainda precisamos conversar sobre certos assuntos.
– Obrigada, mas eu tenho dever de casa – rebateu, falando sobre o ombro.
A desculpa da estudante soou um pouco sádica para o rapaz, que sorriu anasalado.
– Jura? Eu pensei que você tivesse bastante tempo livre já que fica cabulando aula – finalmente conseguiu alcançá-la e a acompanhou lado a lado. – Qual é, vai. Eu pago um sorvete pra você.
Degustando do seu delicioso sundae de baunilha, a garota mal percebia que estava sendo observada já alguns minutos pelo olhar terno do rapaz. Ele admitia, apenas para si mesmo, que ela era uma das criaturinhas mais fofas que já vira. Mesmo tendo um temperamento forte, sabia como conquistar a simpatia das pessoas.
null compreendia que ela estivesse passando por momentos difíceis estando tão longe da família, deduzindo até mesmo que isso seja a causa de suas atitudes. Por esta razão, tentava recompensá-la sendo o mais gentil que pudesse. Queria que ela sentisse confiança nele, ao ponto de poder ajudá-la. Não seria problema nenhum para ele ouvir seus desabafos.
– Deixe-me provar o seu! – enfiou sua colher no pote de sorvete da garota, retirando uma quantidade considerável da sobremesa.
– Yah! – exclamou ela, nitidamente indignada – Coma apenas o seu. É nojento ficar enfiando a colher no sorvete dos outros.
– É mesmo? – o rapaz tentava segurar a enorme vontade de gargalhar com a cena que se passava bem em sua frente. Uma adolescente de 15 anos emburrada por algo tão bobo. – Quem disse isso?
– Eu estou dizendo – arrastou o pote de sorvete mais para si, na intenção de não ser “roubada” novamente. Ela revirou os olhos, vendo o rapaz rir de sua desconfiança. – Você realmente tem 25 anos?
– Pode acreditar que sim, apesar dessa carinha jovem aparentar o contrário – apontou para o rosto, fazendo seu eye-smile tão adorável.
null agradeceu aos céus por naquele momento não estar com sorvete na boca, do contrário, tinha altas chances de se engasgar.
Indutivamente, a garota sorriu junto. O sorriso caloroso do rapaz possuía uma atração inexplicável, era impossível permanecer séria diante dele. Mas assim que notou o olhar admirado de null sobre si, logo tratou de desviar os olhos. Era muito tímida para encará-lo.
Por que diabos ele tinha que ser tão lindo? – questionou-se internamente. Sem necessariamente ter o que dizer, a estudante voltou sua atenção para o pote no qual derretia a sobremesa. No fundo, sentia-se feliz por tê-lo ali.
Por mais que tivesse sido por poucos segundos, null alegrou-se em ver finalmente um sorriso verdadeiro estampando o rosto jovial da garota. Era simples, mas reconfortante. E sem dúvidas que isso o instigou a querer vê-lo mais vezes. E faria de tudo para conseguir esta façanha.
Convencido disto, null traçou em sua vida uma nova meta. A partir de hoje, ele tentaria trazer alegria ao coração daquela garota birrenta.
Capítulo 2 – null Bobão
Com o queixo apoiado sobre a mão, null batucava a ponta do lápis numa folha branca de seu diário. Passara o intervalo inteiro desta forma, não conseguindo se concentrar em nada além dele.
Era enlouquecedor para a jovem garota não saber lidar com seus sentimentos, principalmente agora, que estava disposta a esquecer o seu passado. E, bom, null estava incluso nessa.
– O que está acontecendo? – Umji perguntou-lhe cautelosamente, preocupando-se com o semblante tristonho da amiga.
null observou a coreana sentar à sua frente, suspirando com pesar.
– Aquilo...
Não era preciso mais nem uma palavra para que Umji entendesse o recado. E por alguns segundos, tomou o sofrimento da amiga para si.
– Pensei que você já tivesse superado esse sentimento platônico pelo null – comentou, suspirando também.
– É, eu também pensava isso.
– E o que você vai fazer agora? Estava tão decidida em esquecer tudo e voltar para o Brasil... – calou-se ao notar os olhos escuros da amiga marejarem. – Desculpa, null. Não era minha intenção...
– Tudo bem, Ji, você não fez nada de errado – tentou tranquiliza-la. – Só está falando a verdade. – deu de ombros.
A coreana assentiu levemente com a cabeça.
– Mas essa verdade está te matando, não é? – suspirou. – Olha só para você, está se afundando cada dia mais. – Umji segurou a mão da amiga, cautelosa, num ato de compreensão. – Você sabe mais do que qualquer outro o quanto eu quero que você continue morando aqui. Mas se isso for pra te ver depressiva sempre, então eu renuncio meus desejos apenas para vê-la melhor.
As duas trocaram olhares cúmplices, onde, sem palavras verbais, diziam o quanto uma estaria ali para apoiar a outra, independente de qual situação.
– Sei que você estará aqui quando eu precisar. Obrigada, Umji-ya... – enxugou com o dorso da mão algumas lágrimas que furtivamente rolavam por suas bochechas. Fungou mais uma vez, antes de voltar a dizer – Sabe, eu acredito que o destino esteja me provando. Passei os últimos dois anos da minha vida apaixonada por alguém que está longe do meu alcance e, quando decido seguir em frente, ele aparece de novo e percebo que nunca conseguirei deixá-lo pra trás. Sinto que estou num jogo onde é impossível passar de nível.
– Talvez a solução para conseguir passar de nível, seja você parar de ir contra seus sentimentos e aceitá-lo. Por acaso, o null sabe sobre o que você sente?
null negou veemente.
– Eu não tenho coragem – lembrou-se das vezes em que teve a oportunidade em dizê-lo, mas não fizera. Agora estava muito mais difícil, pois a intimidade de ambos se tornou mais distante devido ele ter se mudado para um apartamento mais próximo da universidade. – Sem dizer que o null não aceitaria uma garota como eu. Olhe só para mim – apontou para o próprio peito –, parece que tudo que sei fazer é causar problemas! Estou totalmente fora do padrão coreano e não sei ser meiga igual a você, muito menos agir adequadamente. Além do mais, ele deve me achar uma criança.
Umji franziu o cenho, descontente.
– Aish, null! Você não deve intitular a beleza – rebateu. – Primeiro que você é linda! Uma beleza diferente de qualquer garota aqui. Segundo que não se pode dizer o que ele iria achar. E se no fundo ele também sinta o mesmo por você? Isso tem muita possibilidade de acontecer já que vocês eram tão próximos.
– Éramos próximos – enfatizou.
– Que seja. – Umji endireitou-se na cadeira, sem desviar os olhos da outra. – Você, mais do que nunca, deveria tentar recuperar o tempo perdido. Se a vida não te dá a oportunidade, então faça você mesma a oportunidade surgir.
null ponderou nas palavras da amiga, lembrando-se de algo que ocorreu no dia anterior.
– Talvez ele esteja se esforçando para isso – pronunciou-se, contando sua lembrança.
"– Eu espero que você me desculpe. – null falou assim que saíram da sorveteria. O vento forte lhe bagunçava os fios escuros do cabelo, assim como aquela imagem bagunçava as emoções da mais nova.
Virando-se para encará-lo, null o questionou.
– Desculpá-lo pelo o quê? – realmente não sabia onde null queria chegar com isso.
– Por estar distante – essas palavras tiveram grande impacto sobre a garota que não soube o que dizer. Vendo-a pensativa, null prosseguiu. – Estou tão focado nos meus estudos que acabo esquecendo das outras prioridades. Por isso eu sei que não estou sendo um Oppa legal com você. Até mesmo quando a mamãe me liga, fica dizendo que eu deveria voltar para casa nos finais de semana e passar mais tempo com você. – riu da figura que era sua mãe. Depois de um suspiro longo ele voltou a encará-la. – Não quero que você tenha ressentimentos por mim.
A estudante comprimiu os lábios, desejando que sua insegurança não fosse notada pelo rapaz.
– E por que acha que eu tenho ressentimento?
null encarou profundamente os olhos confusos de null, para que ela compreendesse exatamente o que ele queria transmitir.
– Porque agora, você mal chama pelo meu nome.”
07h09 da manhã. Acordara de seu sono tranquilo com algo lhe perturbando os tímpanos.
O despertador – pensou, desorientada pelas vertigens de sonolência.
Escondida por entre os lençóis, a garota resmungava palavras destorcidas enquanto buscava disposição para calar aquele barulho que tanto a perturbava em plena manhã de domingo. Não se lembrava de ter colocado o alarme para disparar tão cedo assim.
Bufando irritada, afastou o lençol apenas o suficiente para visualizar o pequeno despertador em cima de criado-mudo. O que lhe era estranho, no entanto, era o fato do mesmo estar desligado. Estando nitidamente confusa com isso, null procurou em volta o causador daquele barulho inconveniente que a fez acordar contra sua vontade.
Passou os olhos pelo quarto, não encontrando nada. Sentiu então uma leve vibração seguida do mesmo barulho anterior; uma nova mensagem chegara em seu celular. Com o aparelho em mãos pôde ver através das notificações que sua caixa de mensagem no Kakao Talk havia recebido cerca de trinta mensagens consecutivas de “Hei! Acorde, dorminhoca!” de uma única pessoa.
Somente null null para lhe perturbar o juízo logo no início da manhã.
null Bobão:
Você vai continuar dormindo?
Você:
Aish! Como posso dormir com você perturbando?!
null Bobão:
Ainda bem. Meu método super criativo deu certo então.
Você:
Sério, fera? Merecia ganhar um
prêmio por isso.
null Bobão:
Você também acha?! Hahaha
Você:
Não.
Agora sem enrolação, null.
Só me dá uma desculpa bem convincente pra que eu não te esgane na primeira oportunidade.
null Bobão:
Nossa... Mente doentia a sua, viu.
Você:
Já ouvi isso antes.
Agora desembucha.
null Bobão:
Tudo bem, tudo bem. Vou direto para o assunto.
Mas saiba você que existem milhares de garotas que dariam qualquer coisa para serem acordadas com as minhas mensagens.
Isso já deveria ser uma ótima justificativa.
Você:
Tu se acha, né? Aish...
E continua enrolando!
null Bobão:
Não tô enrolando, apenas esclarecendo fatos.
E você também fica me atrapalhando.
Você:
ENTÃO FALA LOGO!
null Bobão:
...
null Bobão:
Okay, estressadinha, irei falar.
Esteja na frente do World null às 10h.
Sem desculpas esfarrapadas. Ah, e não esqueça de usar roupas quentes.
null engoliu seco, os olhos vidrados na tela.
Lendo mais uma vez a mensagem que acabara de receber, não pôde conter um sorriso abobado. Realmente estava vendo certo aquilo? Parecia tão inacreditável.
A garota sentindo o rosto corar levemente, jogou-se de costas no colchão de molas começando a espernear o ar enquanto segurava a enorme vontade de gritar. Não se importava mais com o fato de ter sido acordada exageradamente cedo, pelo contrário, sentia que agora as coisas poderiam começar a dar certo.
Capítulo 3 – Prazer, sou o fabuloso e irresistível irmão mais velho, null null!
A manhã estava excepcionalmente fria, com leves rajadas de vento e nuvens cinzentas. Clima típico nesse período do ano. O sol mostrava-se timidamente atrás das nuvens onde pouco se via seus raios e, quando dava o ar de sua graça, todos corriam para se banhar na agradável quentura que proporcionava.
Esperando pacientemente por sua companhia, null esfregava as mãos próximo à boca, assoprando-as na tentativa de se aquecer; já começava a sentir os músculos do rosto congelarem. Deveria ter escutado o conselho do mais velho ao dizer-lhe para usar roupas mais quentes – claro, ela tinha que ser teimosa até mesmo nessas horas. Seria tarde demais para se arrepender disto? Constatou que sim.
Entretanto, apesar da temperatura desfavorável, o World null ganhava cada vez mais visitantes que buscavam diversão nas suas mais diversas opções de entretenimento. Via-se de tudo ali, de grupos pequenos de amigos até famílias em passeio. Para a jovem, era deslumbrante ver tamanha alegria nas expressões verdadeiras das crianças, que corriam e brincavam de pique-esconde por entre os adultos.
Ela observava, acuada e atentamente, as pessoas que por ali passavam, as barraquinhas de comida e os brinquedos radicais – de onde se ouvia gritos empolgantes –, cujo o medo a advertia para que passasse por bem longe. Estava entretida, de fato, com tudo aquilo, mas isso não a fez deixar de notar o atraso de null. Suspirou outra vez, cansando-se de tanto esperar.
E se alguma coisa tiver acontecido...? – questionou-se em pensamento – Será que ele não vem mais?
Procurou em seu celular alguma mensagem que null poderia ter lhe mandado, avisando que não iria mais ao seu encontro. No entanto, fora surpreendida com um pacote de algodão-doce que subitamente surgiu em sua frente.
– Perdoe este oppa, ele está muito arrependido de tê-la feito esperar tanto! – virou-se para a garota, se deparando com null. Ele juntou as mãos em súplica, os lábios formando um biquinho enquanto aguardava por alguma reação da mais nova.
null analisou, de braços cruzados, a figura fofa do outro. No fundo, ela continuava assustada pela aparição repentina do rapaz, mas logo sua expressão se suavizou, dizendo em seguida:
– Quem disse que estou esperando há tanto tempo? – pegou o algodão-doce das mãos pequenas de null e começou a mordiscá-lo. O rapaz sorriu, aliviado.
– Não seja boba. Seu nariz de rena Rudolph te denunciou. – apertou levemente o nariz avermelhado da menina, que torceu o mesmo. – Você devia ter entrado e não ficar esperando aqui fora.
Preocupando-se para que a menina não pegasse um resfriado, null retirou de si o cachecol que lhe aquecia e cuidadosamente o envolveu no pescoço da mais nova. Envergonhada, null colocou uma mão sobre o nariz, impedindo que null continuasse vendo sua pele corar.
– Você está enganado, eu não esperei por muito tempo... – falou, convicta. Em resposta a risadinha desdenhosa do rapaz, a estudante deu uma cotovelada no mesmo depois de ouvi-lo soltar um “ah, tá” sarcástico. – Sério, null, você só sabe enrolar. Vamos logo entrar...
Saiu na frente, deixando para trás o rapaz e suas piadinhas sem graça.
❄❄❄
Depois daquele domingo que os dois passaram juntos, outros dias parecidos com aquele repetiram-se, trazendo novamente a intimidade e confiança que ambos haviam perdido com a distância. null sentia-se jovem novamente quando estava com null, experimentando de novas aventuras que nunca imaginou passar e sensações boas que há anos não sentia. Era inovador para si ter alguém que não fosse seu companheiro de apartamento para compartilhar de suas histórias.
Às vezes, estando sozinho com seus pensamentos, null relembrava-se dos momentos mais triviais que passaram juntos; situações levianas que, no entanto, conseguiam lhe encher o peito de nostalgia. E reparando no seu modo de agir, null percebeu que vinha sentindo algo diferente, algo que não poderia colocar em palavras. Estranhamente, sentia-se ansioso para que a semana terminasse e pudesse passar o final de semana na casa de seus pais, com null ao seu lado no sofá enquanto faziam longas maratonas de filmes. Ou para que juntos, pudessem levar Bob – o mascote da família – para passear na pracinha do bairro.
Ele também passou a reparar mais detalhadamente na sua dongsaeng, revelando-lhe fatos que outrora nunca lhe apercebeu. Os mínimos detalhes da menina lhe capturavam a atenção, chegando ao ponto de afirmar: “Gosto do seu cabelo quando está solto, deixa os cachinhos parecendo molinhas. Você fica linda assim.”
Gravara em sua memória a forma como as bochechas da garota coravam quando ele a olhava diretamente nos olhos, até mesmo memorizou sua risada. Ah, sim, null adorava ouvi-la rir. Era suave e encantadoramente belo.
Era irrefutável dizer que o rapaz não havia mudado. Estava mais disposto e, principalmente, mais avoado de sua realidade.
– null...? – escutou longe alguém lhe chamar.
Saindo do transe que mal percebera estar, o rapaz focalizou somente agora a figura confusa de seu companheiro, que lhe observava da soleira da porta.
– Você tá bem, cara? – perguntou ao moreno, nitidamente interessado no pensamento que havia deixado o rapaz fora de si.
– Sim. Estou, sim. – respondeu rapidamente, pigarreando em seguida. – Você irá sair para algum lugar, Hyung? – utilizando-se da técnica de desconversa, null mudou o foco do assunto, pois, no fundo, tinha certo receio de onde aquilo poderia chegar. E para evitar que seu amigo tirasse conclusões precipitadas, manteve-se indiferente.
null, entretanto, deixou de lado sua curiosidade ao perceber a hesitação no mais novo, não queria forçá-lo a dizer nada que null não estivesse pronto para dizer. Mudando sua postura, null deu de ombros, indo até a mesa de estudos.
– Não sei ainda, estou esperando uma resposta da Sora. – null assentiu, observando o moreno deixar um livro escolar em cima da mesa. – Isto estava entre as almofadas do sofá, acredito que você saiba de quem seja.
null olhou a capa do mesmo ao tê-lo em suas mãos.
– Ah, isto pertence à null. Ela deve ter esquecido aqui na última vez que veio.
– Então talvez ela esteja precisando dele para estudar – supôs o mais velho, sem desviar sua atenção da feição jovial do outro.
null apenas concordou com um movimento de cabeça.
– Irei entregá-lo agora – olhou as horas na tela do celular; 15h02, se fosse rápido, chegaria a tempo de encontrá-la na saída da escola.
❄❄❄
Analisando melhor os arredores da escola que null frequentava, null concluiu que aquela era sua primeira vez visitando o lugar sem ser pelas circunstâncias problemáticas nas quais a garota constantemente se envolvia. Aliviado por não precisar se encontrar com algum supervisor, o rapaz pôde andar mais despreocupadamente pela entrada do colégio Noori.
Devido ao horário que encerravam as aulas, muitos alunos saíam do prédio principal quando null encontrou um rosto levemente familiar. A estudante do primeiro ano descia as escadas do hall de entrada quando ele a reconheceu.
– Com licença – aproximando-se gentilmente, null interceptou Umji. Ela estava acompanhada por mais duas amigas, que sorriram constrangidas com a aparência notável do rapaz –, não é você a amiga da null?
A estudante assentiu.
– Sim, sunbae-nim. Estudamos na mesma classe – falou formalmente.
– Ah, isso é ótimo – seus lábios rosados alargaram-se num sorriso. Ele passou rapidamente os olhos em volta, procurando pela estrangeira. – Você saberia me dizer onde ela está?
No mesmo instante, a feição de Umji tomou um semblante mais sério, como se aquela pergunta a deixasse num estado de alerta.
– Ah, sobre isso... – começou falando, parecia hesitar, os olhos oscilando entre o chão e um ponto atrás de null. O rapaz estranhou tal comportamento, porém, antes que Umji prosseguisse com o quê que tivesse para dizer, fora interrompida por uma voz feminina.
– null...? O que você está fazendo aqui? – a voz da garota vacilou por um segundo, transmitindo certa insegurança em sua pergunta.
O rapaz então virou-se, se deparando com a imagem de uma null momentaneamente confusa, segurando um pequeno envelope azul. Ela, ao notar que os olhos de null detiveram-se no envelope preso em suas mãos, buscou discretamente escondê-lo atrás do corpo, pois acreditava que assim seria menos constrangedor para si. No entanto, obviamente null percebera sua intenção, resultando um certo desconforto no rapaz. Em seguida, os olhos de null vagaram para algo que lhe incomodou ainda mais, algo que fez seu interior aos poucos arder em ciúmes. Um garoto esguio e de cabelos escuros, segurava null carinhosamente pelos ombros enquanto analisava meticulosamente a reação do veterano.
Por alguns segundos, todos mantiveram-se em silêncio.
– Aconteceu alguma coisa que possa te ter trazido até aqui? – null quebrou o silêncio, mantendo uma postura tranquila. Mas esta tranquilidade era apenas por fora porque, dentro de si, suas células pareciam entrar em combustão ao ponto de explodirem a qualquer instante.
null apenas conseguiu desviar o olhar daquela cena quando o garoto retirou sua mão do ombro da estudante.
– N-não! Na verdade, sim – coçou a região da nuca, confuso com suas próprias palavras. – Eu só passei pra te entregar isso aqui.. – estendeu o livro. – Achei que fosse precisar.
– Ah! Meu livro de língua coreana. Pensei que o tivesse perdido. – falou de forma aliviada, pegando para si o livro. – Obrigada, oppa.
A garota sorriu depois da frase, um sorriso que demonstrava gratidão. E como um balão enchido com gás hélio, a confiança de “sou melhor que esse cara” inflou dentro do rapaz, ocasionando um diminuto sorriso também em sua face.
Entretanto, seu sorriso logo esmoreceu.
– A-ah, então... null, esse é o null – timidamente, null apresentou o garoto que continuava parado ao seu lado. – Nós estamos trabalhando juntos na preparação do baile de inverno, que acontecerá daqui uma semana. – deu uma pausa, apertando minimamente o envelope atrás de si. – Ele também faz parte do time de basquete e está me ensinando a jogar. E, null, este é o null.
... O quê? Vai ser só isso?! Este é o null? – pensou sarcástico – Cadê a parte do “ele é o melhor irmão mais velho do mundo, que sempre me livra dos problemas que causo e me compra sundae. Ah, ele é lindo também?” – indignação era pouco para descrever o estado de espírito de null. Ele esperava mais de sua dongsaeng.
null falou um breve “olá” seguido de uma reverência, ato que fora reproduzido por null, mas de maneira mais sutil e nitidamente descontente. Aquela sensação estranha de inquietude continuava lhe assolar o interior.
– Hum... Basquete, é? – perguntou desconfiado – E desde quando você se interessa por esportes? Achei que fosse sedentária demais para correr atrás de uma bola.
As grandes orbes escuras da garota miraram a feição ressentida de null, causando-lhe certo desconforto. Não sabia o porquê de tal sensação; talvez fosse por estar envergonhada, ou, somente, por ser null ali parado à sua frente, questionando-a da maneira que só ele sabia fazer. E acredite, isso bastava para que seus sentimentos ficassem odiosamente confusos.
– Ah, isso... – coçou a região da nuca, meio desconcertada.
– Ela está se esforçando bastante, na verdade. – o garoto a interrompeu, sorrindo amigável demais para o gosto do mais velho, que via tudo aquilo com um biquinho de lado. – A nossa null tem evoluído rapidamente. Eu diria até mais rápido do que muitos jogadores do time.
As bochechas da garota coraram.
– Aigoo... – soltou uma risadinha – Ainda preciso melhorar muito.
Aquilo foi demais para null. Sua boca se abriu levemente formando um discreto “o”, que não fora notado pelos outros dois. Porém, quem os assistia de fora da conversa – vulgo Umji e suas amigas – sentiu a tensão quase palpável.
Nossa null...? Omo! Quem esse cara pensa que é?! – cruzou os braços, assassinando mentalmente o tal de null. Mesmo não estando totalmente ciente disto, null exalava ciúmes da garota, mal dando-se conta do quão infantil estava soando.
Umji, percebendo o clima ligeiramente tempestuoso entre null e null, achou melhor interferir, mudando o foco da conversa.
– My mochi... – usou o apelido carinhosamente escolhido para chamar a atenção da amiga que, instantaneamente, a olhou – Talvez eu não possa ir na sua casa hoje, estamos finalizando as aulas no curso e acredito que sairei tarde demais. Me desculpe.
Os lábios da coreana formaram um biquinho, demonstrando sua decepção.
– Tudo bem, Umji-ya – null sorriu compreensiva –, podemos deixar para outro dia.
– Okay – fez “legal” com os dedos. – Nos vemos amanhã!
Reverenciou novamente para se despedir formalmente de null, levando – mesmo que à força – as outras duas garotas consigo.
O pequeno tempo de descontração causado por Umji dissipou no exato instante que as garotas passaram pelo portão da escola, trazendo à tona o clima anterior.
null pigarreou baixo, chamando atenção.
– Já são quinze para às quatro. – olhou no relógio. – Vamos, eu te levo até em casa.
Deu as costas para ir em direção ao seu carro estacionado no acostamento, e esperava que null o seguisse, porém:
– Ainda não vou pra casa.
null parou na mesma hora, virando-se vagarosamente.
– V-você não vai? – ela assentiu, deixando o rapaz ainda mais enciumado. – Posso saber o porquê?
– Eu e o null precisamos comprar alguns materiais que estão faltando para a decoração – deu de ombros. – Eu já falei pra sua mãe que iria demorar e está tudo bem por ela...
Pasmo, nada fora dito de imediato. Inicialmente ouviu-se o suspiro profundo de null e, antes que colocasse objeções, null se antecipou em dizer:
– Não se preocupe, sunbae, eu terei cuidado com ela. – a mão do garoto foi institivamente parar no ombro da menor, que se encolheu minimamente. Seria uma visão fofa, se não fosse null presenciando aquilo.
null apenas assentiu com um balançar de cabeça, fingindo indiferença.
– Tudo bem, então. Divirtam-se.
Definitivamente o seu “divirtam-se” soou mais como um aviso prévio. Ele não tentou esconder seu tom desdenhoso. Apesar de estar relutante por dentro, null forçou-se a girar por cima do calcanhar e dar as costas, rumando cegamente enciumado para o carro.
– Você acha que isso combinaria comigo? – divertidamente, null colocou um chapéu de bobo da corte na cabeça, chacoalhando os pequenos sininhos que haviam na ponta. O rapaz que lhe fazia companhia naquela tarde, vendo-a totalmente descontraída e bem-humorada, não conseguira segurar o riso, fazendo ambos caírem na gargalhada.
Finalmente, null conseguiu – depois de muito persistir – fazer com que null se sentisse à vontade consigo, dando abertura para que ela mostrasse quem realmente era ela; uma garota risonha que adorava comer doces, principalmente sobremesas geladas.
– Hum... – o garoto olhou-a estreito, a mão no queixo, fingindo estar pensativo – Vejamos, se você não fosse tão ranzinza, talvez daria para ser uma pequena boba da corte, afinal você nem precisa dessa fantasia para ser cômica.
As bochechas da estudante coraram levemente, quando seus lábios formaram um biquinho em discordância.
– Yah! – ela tirou o chapéu. null apenas manteve um risinho sádico no rosto enquanto acompanhava os movimentos da garota, que agora deixava a fantasia onde havia encontrado anteriormente. – Posso até ter meus momentos cômicos, pois realmente tenho um ímã para passar vergonha, mas não sou ranzinza!
null lançou um olhar provocativo, como se a estivesse desafiando. A garota, por sua vez, sustentou aquele olhar de modo que ambos não desfizessem o contato intrínseco existente.
– Então vá ao baile de inverno comigo. – a voz de null soou suave, mas séria.
A fala inesperada do estudante pegou null desprevenida e, como se fosse possível, ela sentiu o convite – sim, aquele envelope azul que escondera de null – pesar dentro da mochila.
Seus lábios se contraíram, formando uma linha fina.
– Eu já disse que não poderei ir, null... – buscou ser gentil em cada palavra, pois não gostaria de magoá-lo. – Você sabe bem os meus motivos e, além disso, não estou empolgada como todos os outros alunos. Sinto muito por isso...
Suspirando pesarosamente, null assentiu com a cabeça. Ficaram alguns segundos em silêncio, até que o próprio desfizesse, ao dizer:
– Tudo bem, eu entendo e respeito sua decisão. Mas se até lá você mudar de ideia, pode me ligar.
null consentiu, sem olhá-lo diretamente. Contudo, era visível para ela que null tinha muito mais o que falar, ele estava inquieto, lutando internamente para manter seus pensamentos apenas para si. Isso a despertou certa curiosidade, mas achou melhor não estender aquele assunto.
– Acho que podemos ir. Já temos tudo o que precisamos. – ela ergueu uma cesta grande de compras, com vários materiais decorativos dentro.
Diferente de como null achou que null agiria, ele apenas estampou um largo sorriso nos lábios e concordou com as palavras da mesma, voltando ao seu humor divertido.
Quando os dois estudantes saíram da loja de decorações com as sacolas em mãos, null achou ter visto um Honda Civic cinza segui-los vagarosamente, estando um pouco atrás. Algo lhe advertia sobre isso, no entanto, não dera tanta bola para sua intuição; poderia apenas ser coisa da sua cabeça.
Ela e null entretinham um ao outro com uma conversa animada e cheia de brincadeiras bobas vindas por parte do rapaz, que facilmente conseguia arrancar uma gargalhada da mais nova. Quando, porém, eles pararam na beirada da calçada aguardando o sinal fechar para que pudessem atravessar a avenida, a garota olhou avulsa para o movimento do trânsito, notando mais especificamente, um carro parado no acostamento.
Era o mesmo carro de antes.
Desconfiada, esforçou-se para ver além dos vidros do automóvel – que, infelizmente, possuíam películas escuras –, tentativa esta que não fora suficiente para ver quem estava ao volante.
– null? – olhou em direção à voz de null, que a chamara com certa curiosidade – O sinal já fechou. O que você está vendo ali? – esticou o pescoço para também tentar enxergar o que a fez ficar tão concentrada.
– Ah, não é nada. – ela sorriu, descendo a calçada e caminhando pela faixa de pedestre.
O garoto seguiu-a logo depois, apressando seus passos para acompanhá-la.
Capítulo 4 – O que fazer quando sua dongsaeng estiver num encontro.
Assim que a luz verde do semáforo acendeu, liberando para que os carros prosseguissem à diante, null pôde finalmente respirar aliviado. Sem dúvidas de que ele estaria bem enrascado se null o tivesse visto dentro do carro.
Respirou fundo, perguntando-se o porquê de estar fazendo aquilo.
Seguir os dois estudantes para se certificar que nada demais acontecesse, era algo que iria totalmente contra os princípios de null. Para ele, todos tinham liberdade de fazer o que bem entenderem. Mas null é nova demais para tanta liberdade assim, pensou ele, com as mãos firmes no volante.
Livrando sua mente do peso de que “eu não estou seguindo eles, apenas sendo cauteloso”, null continuou observando os dois estudantes de longe, ambos aguardavam sentados no ponto de ônibus.
Min null, que estava confortavelmente sentado na poltrona e com os pés elevados no descanso do móvel, deu uma breve espiada em direção à entrada do apartamento ao ouvir a porta ser fechada com força. Logo em seguida, depara-se com um null, aparentemente emburrado, adentrando a sala de estar.
O moreno jogou o corpo de qualquer jeito sobre o sofá, fechando os olhos com força.
– Não achava que devolver um livro demorasse tanto tempo. Por acaso a escola da garota fica em outra cidade, é? – null não olhava para o rapaz estirado ao lado, ele apenas mudava de canal enquanto tentava satisfazer sua curiosidade. Ele sabia muito bem que null estudava no centro de Seoul, mas para que null demorasse horas para voltar, algum motivo havia ocorrido. E null desconfiava que motivo era este.
– Tive alguns contratempos. – null resmungou sua resposta, não notando o tom sarcástico do mais velho. Ergueu malmente o corpo para se deparar com a bagunça em cima da mesa de centro, feita por seu hyung. Havia uma caixa grande de pizza com duas fatias restantes, batatas chips e algumas latas de cerveja. – Você tomou todas as cervejas da geladeira?
– Sim.
null suspirou, de olhos fechados, enquanto passava a mão pelo rosto. Estava começando a sentir umas pontadas na cabeça e, quando pensava no que fizera mais cedo, a dor parecia incomodá-lo ainda mais.
– Hyung... – a voz baixa de null fizera null olhá-lo de relance, notando o semblante cansado do mais novo – Como você reagiu quando sua irmã começou a namorar...?
Mantendo sua postura relaxada, null não demonstrou surpresa ao ouvir tal questionamento, mesmo que internamente estivesse curioso.
– Como reagi? – viu null assentir. Suspirou antes de desligar a TV e voltar-se para o moreno, que aguardava por sua resposta. Um sorriso ladino surgiu, então, nos lábios do maior – Huh... – colocou a mão no queixo, pensativo – Fiquei bastante surpreso na época, e, como todo irmão, não aceitei de imediato. Fui atrás de descobrir quem era o desgraçado que estava com a minha irmãzinha, e quando o encontrei, dei uma lição nele.
Os pequenos olhos de null arregalaram-se, surpreso.
– E o que você fez com ele?
null flexionou consecutivamente o dedo indicador, gesticulando para que null se aproximasse. E fora o que ele fez.
– Você será a primeira pessoa a quem eu contarei esse segredo, por isso, não deve falar para ninguém. – o tom usado por Suga, quase um sussurro, deixou o clima tenso. – Eu, assim que encontrei aquele desgraçado flertando com a minha dongsaeng, não pude conter minha raiva e fiz algo que nunca imaginei... Eu pequei o pirralho pela gola da camisa e...
Sussurrou o restante da história no ouvido de null, que ficou ainda mais espantado com o que ouvira de seu hyung.
– VOCÊ FEZ O QUÊ?! – null sabia que seu hyung-nim poderia ser assustador às vezes, mas nunca pensara que ele chegaria à tal ponto.
Para confirmar o que sussurrara anteriormente, null passou o dedão de um lado ao outro do pescoço, gesticulando exatamente o que null havia entendido.
Incrédulo, o rapaz somente conseguia deixar a boca escancarada num perfeito “o”. Entretanto, depois de alguns segundos extasiado com a descoberta, sentiu-se confuso quando null deslanchou em gargalhadas.
– O-o que... – tentava falar qualquer coisa que fosse coerente, mas a imagem do loiro chorando de tanto rir, o impedia disso. – Você não matou realmente o cara, não é? – perguntou depois de um tempo, desconfiado.
A inocência de null era tão pura que se tornava fácil enganá-lo. Diante daquela situação, null comprovou que tudo que ele dissesse ao mais novo, null acreditaria, mesmo sendo as coisas mais improváveis do mundo.
– Claro que não, mané! – jogou uma almofada em direção ao rosto de null que, com seu reflexo rápido, conseguiu agarrar antes que o atingisse. – Nem irmã eu tenho, para o seu esclarecimento. Muito menos iria me importar com esses garotos.
Continuou a rir – menos intenso, desta vez – observando a feição de null mudar.
– Obrigado, hyung, você é um ótimo conselheiro – disse null, sarcástico.
– Aê, você não me pediu nenhum conselho, mas perguntou a minha reação...
– É, mas era para você ter entendido o que eu queria dizer com isso. – fechou novamente a cara, emburrado. – E mentiu, ainda por cima.
Como de praxe, null colocou ambas as mãos atrás da cabeça, voltando a deitar na poltrona, confortavelmente.
– Não fale assim, null-ah. Não é como se você nunca houvesse mentido antes. Além disso, foi só uma brincadeirinha. – deixou seu sorriso frouxo à mostra, irritando o moreno.
– Deixa isso pra lá, sei que não sairá nada relevante vindo de você – levantou-se do sofá e já se encaminhava para seu quarto quando, descontraído, null falou:
– Não é errado se preocupar com as pessoas que você ama, null. – o mesmo parou no meio do caminho, virando apenas o suficiente para enxerga-lo. – Não sei pelo que realmente você está passando, e mesmo que eu soubesse, sinto que não seria capaz de dizer alguma coisa inteligente. – soltou um riso nasalado. – Então, talvez, você me ache um hyung irresponsável que só sabe dormir... Está até certo sobre isso, mas o que posso te afirmar é: fazer o que você acha certo não deve ser um peso para si. Não seja covarde. Seja diferente de mim. Eu perdi muitas coisas por me acovardar.
A garganta de null subitamente ficou seca, deixando-o sem palavras.
– Hyung...
Ciente de que aquilo traria muitos questionamentos, logo null o interrompeu.
– Esta é uma história que talvez eu te conte mais tarde, mas, por ora, faça o que seu coração diz que deve fazer.
Compartilhando do mesmo sentimento, null concordou com a cabeça, sorrindo em seguida.
– Sabe que isso foi muito brega, não sabe?
O mais velho revirou os olhos.
– Sei. E é por isso que você deve ir antes que eu me arrependa.
Naquela noite, null dormiu pensando em tudo aquilo que não deveria se acovardar e, automaticamente, null surgiu em sua mente.
Umji chegou bastante entusiasmada para as aulas, diferente de muitos alunos ali presentes. Um destes, era null. Assim que a coreana viu sua amiga sentada no lugar de sempre, correu para lhe cumprimentar.
– Bom dia, my mochi! – seu sorriso contagiou a brasileira, que retribuiu o gesto. – Então, como foi passear com o capitão do time de basquete, hein? – seu tom de voz carregava uma pequena dose de malícia, fazendo null rir.
– Foi tudo como imaginei que seria. – piscou para a amiga.
– Ah, sem essa, vai. Quero detalhes! – Umji sentou-se na carteira da frente, deixando sua mochila em cima da mesa e dando total atenção para a garota. Estivera ansiosa desde ontem à noite para saber sobre o “encontro”, quando conversaram por mensagem.
Não se aguentando também de ansiedade, null contou-lhe toda a história desde o momento em que se despediram, na escola. E por nenhum momento se viu o sorriso bobo deixar a face da estudante.
– ... então ele disse que respeitava a minha decisão, e, se eu mudasse de ideia, poderia ligar... – a coreana colocou as mãos sobre a boca, abafando o grito que tanto gostaria de soltar. Estava estupidamente feliz pela amiga.
– E sem dúvida que você vai ligar, certo? – perguntou, já esperando uma confirmação.
– Hum... Não sei. Eu estava falando a verdade quando disse que não iria ao baile – sua expressão se tornou mais tristonha. – Não posso deixar a Sra. null sozinha. Como você sabe, sua saúde não está muito boa o que a deixa constantemente cansada. E depois dos exames que ela fez, acredito que o médico irá recomendar que ela repouse por algumas semanas.
Umji concordou, compreensiva.
– Puxa, eu realmente queria que você fosse. – inflou as bochechas redondinhas, pensativa sobre encontrar uma solução. – Como posso me divertir nesse baile sabendo que você estará sozinha em casa?
null balançou levemente a cabeça, negando.
– Não pense muito nisso. Além do mais, você estará muito ocupada dando atenção para o seu namorado. – a estrangeira não assumiria, de fato, o real motivo de não querer ir ao baile. – Quero que você se divirta, okay? Me certificarei disso com o San Ha.
A coreana revirou os olhos, divertida. Sabia que se esse pedido fosse feito ao seu namorado, ele o faria a todo custo. Umji, então, pensou em algo.
– Ah! E quanto ao null sunbae? – somente o nome do rapaz conseguiu deixar o coração da garota mais agitado. – Ele não poderia passar o tempo que você estivesse no baile com sua própria mãe?
Contrariada, null pensou em algo rápido para fazê-la mudar de ideia.
– Não se trata disso, Umji – desviou os olhos. – null está ocupado com o estágio e a faculdade exige muito dele.
– São só por algumas horas, null! – falou manhosa – Tenho certeza que ele faria isso por você.
A estudante torceu o nariz.
– Não tenho tanta certeza assim. – sentiu o olhar desdenhoso da amiga sobre si. – O que foi?
– Depois daquilo que presenciei ontem, posso dizer que ele faria, sim, qualquer coisa. – lembrou-se da tarde tensa, os olhares conflituosos dos dois rapazes. – Se bem que, sendo o null seu acompanhante, talvez ele não aceite muito bem...
As sobrancelhas de null juntaram-se, demonstrando desentendimento.
– O que o null tem a ver com null aceitar ou não?
Os pequeninos olhos da coreana estreitaram-se.
– Não me diz que você não notou o clima sombrio entre aqueles dois? – perguntou, quase cética. Tendo o silêncio como resposta, Umji balançou a cabeça em negativo. – Vejo que você só não está com quem gosta por pura lerdeza.
– Do que você tá falando, amiga?
Umji suspirou fundo, desacreditada.
– Estou dizendo que o null morre de ciúmes de você com o null!
Capítulo 5 – Não seja idiota, null. Você está apaixonado!
“– null morre de ciúmes de você com o nullgguk!”
A fala de Umji continuava a rondar e lhe perturbar a mente. Isso já fazia dois dias e nada lhe fazia se distrair. Tentara de tudo para ocupar os pensamentos e não mais ficar martelando essa loucura.
Já chegara a perder o sono por causa disso!
Maldito coração que não sabe se controlar! Para null, não há nada pior do que estar apaixonada.
– Aigoo! Saia da minha cabeça, null null! – gritou, bagunçando os fios cacheados.
TRÊS DIAS PARA O BAILE
O pé inquieto da estudante balançava impassível enquanto esperava sentada em um dos estofados macios da loja de vestidos, e parou somente quando Umji saiu do provador dentro do décimo vestido que provava naquela tarde.
– O que achou desse? – perguntou, ansiosa, esperando uma resposta positiva, uma vez que, de todos os outros que vestira, esse fora o que mais lhe agradou.
Os olhos de null abriram-se levemente, fazendo-a se ajeitar sobre o banco. O vestido chiffon de tonalidade esverdeada era simples, porém, destacou-se em Umji. O busto acentuava-se com pequenos detalhes dourados e a saia era levemente rodada, dando um caimento perfeito no corpo da coreana. Ela estava digna de ser uma princesa.
– Este é maravilhoso, Umji! – disse ela, admirada. A garota que se olhava no espelho, deu uma giradinha, totalmente contente com sua escolha. – San Ha irá se apaixonar novamente quando te ver.
– Não seja tão exagerada... – as bochechas da garota coraram. null riu da timidez da amiga, sendo surpreendida quando a mesma lhe estendeu um vestido longo, também de baile. – Sua vez de experimentar.
Confusa, a estrangeira pegou a vestimenta.
– Eu não vou ao baile, Umji, não há necessidade de vesti-lo.
– Você não precisa comprar se não quiser. Mas experimente, null, por favor. – juntou as mãos em súplica. – Quero muito ver como ficaria em você.
Os lábios de null contraíram-se, formando uma linha fina enquanto ponderava sobre o pedido da amiga. Olhou para Umji, que continuava a implorar com uma expressão fofa. Derrotada, ela suspirou fundo e decidiu ceder à vontade da outra. Afinal, não lhe custaria nada.
“– Yah! – a voz um pouco mais elevada de null assustara a garota que, concentrada, não percebia as investidas do maior para ter sua atenção. – Até mesmo aqui você vai continuar confinada nesse celular?
Para ele, nada tirava-o mais do sério do que ser ignorado descaradamente. Estava se esforçando para permanecer quieto enquanto comia seu sorvete e não se importar tanto com o sentimento de solidão, mas depois de um tempo falando com o “nada” – pois a mudez da garota se igualava a isso –, desistiu da luta, entregando-se ao estopim de sua impaciência.
Já null, deu de ombros como resposta.
– Só estou tratando de alguns assuntos sobre o baile de inverno, nada demais.
Ela viu o maior soltar uma risada nasal, umedecendo os lábios com a língua.
– Nada demais? Estou me sentindo substituído por esse baile, sabia? – null sorriu, satisfeita por vê-lo tão afetado. E isso foi motivo suficiente para null fechar a cara, emburrado. – Não ria assim, me faz sentir como se eu estivesse desesperado por atenção...
– Ah, null... – debruçou-se sobre a mesa, ficando mais perto do rapaz – Desculpa não perceber sua carência!
Ele revirou os olhos, empurrando-a de volta para o lugar ao flexionar seu dedo contra a testa da mesma.
– Hahaha – debochou. Logo, não conseguindo ver a expressão pretenciosa da garota de maneira séria. Ao perceberem-se, os dois riam um do outro, com as bocas cheias de sorvete.
Aos poucos a harmonia substituía os risos incessantes dos dois, deixando o clima ameno e reconfortante. A face de null que outrora estivera emburrada, agora sustentava um olhar atencioso, o qual discretamente contemplava a adolescente.
Ele enxergava o melhor dela, e, o melhor dela para ele, era toda a sua conjuntura. O todo. Era tudo o que ela era.
Os cachinhos bem definidos; igual molinhas que caiam suavemente sobre seu rosto.
Os olhos negros e lustrosos; tão vívidos e sonhadores.
A pele levemente bronzeada e delicada; parecia-lhe tão macia.
Enfim, seus lábios... Vermelhinhos como morango.
E...
– Espere um segundo – impulsivo, null levantou-se o suficiente para chegar mais próximo de null, que, sem compreender exatamente, apenas observou os movimentos do rapaz. Com a ponta do polegar, null passou suavemente sobre o canto da boca da garota, limpando o pouco de sorvete que ali estava.
Oh, sim, seus lábios também eram macios.
Erguendo vagarosamente os olhos, null encontrou o olhar trêmulo de null. Ambos petrificaram ali mesmo, presos no imenso e profundo mar de emoções.
Seus corações sincronizaram a batida. A respiração ficou presa na garganta.
– ... você – ele piscou rapidamente, saindo daquele transe e situando-se no presente real. – Ayoo! – null recostou-se na cadeira, desviando os olhos. E, pela primeira vez, ele corou. – Você parece uma criança ao se lambuzar de sorvete.
Definitivamente as bochechas redondinhas de null ficaram rosadas. Ele coçou a região da nuca, desconcertado. Ouviu-se o silêncio e nada além disso. null ainda estava atônita, mal processando as palavras enquanto seu coração bombeava freneticamente.
Naquele momento null questionou-se de várias coisas, e uma delas era sobre o que estava sentindo ali.
Como seus sentimentos poderiam ir de um extremo ao outro num espaço tão curto de tempo? Não havia resposta para isso, ele apenas sentia...”
Essas lembranças invadiam a mente de null enquanto ele observava, de uma certa distância, null sair de um dos provadores da loja, trajada maravilhosamente num vestido azul celeste. Deslumbrado, os lábios rosados do rapaz alargaram-se num sorriso, não conseguindo desviar os olhos para além da imagem que, em sua percepção, era a mais bela de todas.
O DIA DO BAILE.
“Como está indo nosso plano? Você conseguiu fazer aquilo que te pedi?” – então a mensagem foi enviada, deixando uma centelha de ansiedade penetrar, aos poucos, o interior de null. E enquanto aguardava por uma resposta, sua consciência o fez relembrar de pensamentos que por muitas noites o fizeram perder o sono. E presumidamente, não era qualquer pensamento que conseguia tirar a tranquilidade do jovem.
Tardando mais alguns segundos aprisionado em sua própria bolha de pensamentos, o celular por fim vibrou em sua mão. A resposta havia acabado de chegar. – “Sim, sunbae-nim. Não foi nada fácil, mas consegui completar a minha parte.”
null sorriu contente, guardando o aparelho no bolso da calça. Voltou a analisar seu reflexo no enorme espelho preso à parede logo após, ajeitando simetricamente a gola do smoking no qual lhe vestia perfeitamente bem.
Recostado no batente da porta do quarto, null sentia-se estupidamente orgulhoso por null estar sendo aquilo que ele não conseguiu ser no passado. Observava-o quieto enquanto o mais novo arrumava seus fios lisos e agora alaranjados.
Sem querer assustá-lo, null limpou a garganta para avisar sobre sua presença.
– Ah, hyung, você está aí – disse null, virando-se de frente e sorrindo largamente ao passar as mãos sobre o tecido da roupa. – O que achou da minha aparência? Estou bonito?
O loiro torceu o nariz, analisando-o de cima à baixo.
– Não está nada mal, mas tenho certeza que ficaria melhor em mim... – deu de ombros, cínico e com um sorriso de lado.
null também sorriu, assentindo em seguida.
– Tenho certeza disso. – declarou de maneira debochada.
– Vejo que você está seguindo o meu conselho. – Suga descruzou os braços e enfiou as mãos no bolso da frente da calça, claramente satisfeito. – Bem, fico feliz em ter sido útil.
As bochechas de null esquentaram ligeiramente, não queria deixar tão visível que as palavras do mais velho lhe fizera cair na real. Ele passou a mão na nuca, meio envergonhado.
– Sim, hyung, eu pensei bastante sobre o que você me disse antes.
“E obrigado por ter sido verdadeiro comigo” – quis acrescentar, mas essas palavras não passaram de pensamentos.
null fez um sinal positivo com a cabeça.
– É um alívio. – confessou ele, desviando seu olhar para o chão. – Não estava a fim de ter que te dizer o óbvio...
O cenho do ruivo franziu-se.
– Dizer o óbvio? – null realmente não compreendia o significado disto.
Sem pressa, null ergueu os olhos e fitou o mais novo, fazendo o olhar dos dois rapazes se encontrarem. Naquele momento, null deixou escapar algo que há tempos já havia compreendido.
– Sim – ele sorriu sagaz. – Não seja idiota, null null, você está apaixonado! – deu as costas para o mesmo, na intenção de ir embora. – Irei guardar essas palavras para o futuro, se for preciso.
null sorriu, balançando a cabeça negativamente. Ele se perguntava como null poderia saber sobre seus sentimentos antes mesmo dele ter certeza do que sentia. Ele não precisou pensar muito, pois a resposta veio logo em seguida. Tudo se trata de Min null, o albino mais astuto que conhecera e, além disso, seu verdadeiro amigo.
– Hyung... – ao ouvir ser chamado, o loiro estagnou seus passos e esperou que null prosseguisse. – Obrigado... Por tudo.
17h30.
TRÊS HORAS PARA O BAILE.
– Você poderia, por favor, deixar de ser cabeça dura por pelo menos um minuto? – Umji exasperou, puxando null pelos ombros para que ela voltasse a se sentar na cadeira de frente para a penteadeira. – Eu só quero testar antes a minha maquiagem em você. Somente isso!
Contrariada, null negou, cruzando os braços em X próximo ao rosto.
– Yah! Eu não quero servir de cobaia pra você. – a brasileira replicou, sem tirar os olhos das mãos ágeis de Umji, que já estavam ocupadas com os produtos de cosméticos.
Já sem paciência, a asiática bufou em desalento. Só persistia naquilo pois fizera uma promessa e, de acordo com seus princípios, ela nunca quebrava uma promessa. Frente a frente, as duas garotas trocavam olhares compenetrados, onde, teimosamente, diziam através daquela afronta que nenhuma delas iria ceder à vontade da outra. Entretanto, as duas amigas não permanecem assim por muito mais tempo, pois, quando a senhora null adentrou o quarto segurando uma bandeja com lanche, as duas rapidamente deram um pulo.
– Ahjumma! – null continuava com os olhos arregalados. – A senhora deveria estar descansando. – ela levantou-se rapidamente e pegou a bandeja das mãos trêmulas da mulher, dando o objeto para que Umji segurasse enquanto ela ajudava a Sra. null a se sentar na cama. – Aigoo... O Doutor não lhe avisou que deve repousar? Agora sei de quem o null herdou a teimosia.
A mulher riu, abanando a mão para que null fosse menos dramática.
– Eu sei, eu sei, querida, mas não aguento mais ficar presa naquele quarto. – disse ela, com a voz tranquila. – Precisava me ocupar de alguma forma, então preparei esses lanchinhos caso vocês duas sentissem fome.
Umji olhou os sanduíches apetitosos na bandeja, lambendo os lábios só de imaginar o sabor.
– Wua, e parecem estar deliciosos, Sra. null! Ai! – a coreana fez uma careta ao sentir a cotovelada que null havia desferido em seu braço, como forma de a repreender. Ao atentar-se a isso, Umji logo mudou sua expressão. – Quero dizer, obrigada pela sua preocupação, Sra. null, mas a senhora não deve fazer nenhum tipo de esforço.
A mãe de null sinalizou com um breve balançar positivo de cabeça, sorrindo ternamente para as garotas e sentindo-se tocada pela preocupação que ambas demonstravam naquele instante.
– Certo. Eu devo ter extrapolado um pouquinho. – confessou ela, batendo levemente a mão em punho sobre o peito esquerdo, regularizando sua respiração debilitada. – Mas, antes de voltar para o meu quarto, gostaria de lhe pedir algo, null.
A atenção da estrangeira redobrou, fazendo-a se sentar na cama ao lado da Sra. null.
– Pode me pedir qualquer coisa, Ahjumma – segurou as mãos da mulher, mirando a face cansada, mas tão semelhante à de seu filho –, e prometo tentar cumpri-lo.
Gentilmente, a mulher afagou a mão da garota que estava sobre a sua. null havia se tornado uma excelente menina, mesmo conseguindo ser assustadora às vezes. Sra. null sorriu com esse pensamento. Ela sempre desejou ter uma filha para que pudesse mimá-la e ensiná-la sobre os prazeres da vida, mas, apesar deste seu sonho, ela somente deu à luz a dois rapazes, que agora estavam um pouco longe de si. Por isso, ela sentia-se tão grata por ter null ali consigo, e, mesmo a garota se envolvendo algumas vezes em confusão, já a considerava como uma filha.
Os olhos amendoados da senhora desviaram-se por alguns segundos, fitando Umji, que observava tudo quieta.
– Umji-ya, você poderia buscar algo que está em meu quarto, por favor? – ela piscou, esclarecendo sua intenção para a coreana que assentiu em seguida, sorrindo cúmplice ao deixar o cômodo. Voltou rapidamente com um embrulho grande em mãos, entregando para a mais velha. – Obrigada, querida. – virou-se para null, que analisava tudo aquilo com um semblante perdido. – Você está na fase mais bela da vida, null, e é quando descobrimos coisas mágicas. Por isso, quero que você saiba aproveitá-la intensamente. Pegue, isto é para você.
Estendeu o presente, vendo a expressão da menor estampar surpresa.
– Para mim? – perguntou ainda abismada, recebendo um sinal positivo da outra. Fora impossível não evitar um largo sorriso. Pegou cuidadosamente a caixa e colocou-a sobre suas pernas, desfazendo o laço que a impedia de ver o conteúdo lá dentro. Retirou a tampa da caixa bege e, embrulhado num papel fino de seda, estava o vestido azul celeste de baile; o mesmo que ela havia provado na loja junto à Umji. – Minha nossa!
Seus olhos escuros adquiriram um brilho irradiante, mal conseguindo falar alguma coisa ao tentar compreender tudo aquilo que estava acontecendo.
– Eu... Eu não estou entendendo...
Umji maravilhava-se com o contentamento de sua amiga.
– Meu pedido, então – entre sorrisos, a Sra. null falou –, é que você se divirta no baile de hoje.
Assim que ouviu as palavras da mulher, o olhar contemplativo de null foi guiado até se encontrarem com os da maior.
– Mas... Eu não liguei para o null... Não posso avisá-lo tão em cima da hora.
– Aigoo! – Umji finalmente se intrometeu na conversa, fazendo pouco caso da preocupação da amiga. – Nós já resolvemos isso para você, null. Agora apresse-se e vá, temos poucas horas para transformá-la na garota mais linda do baile.
Levantou-a pelos braços e a sentou novamente na cadeira de frente à penteadeira.
– Espera, você já sabia sobre isso? – questionou surpresa, sentindo-se, também, minimamente traída por sua amiga ter escondido algo assim de si.
– Podemos dizer que sim. – Umji deu de ombros, pegando uma enorme maleta de maquiagem. – Por onde devo começar?
Soltou mais um longo suspiro. null estava receosa em prosseguir adiante com aquela ideia. “Ainda dá tempo de voltar atrás”, pensou ela, “basta dar as costas e voltar para casa”. O que tinha demais nisso, não é mesmo? Era uma tarefa simples de executar. Porém, ela não conseguia. Algo a impedia de fazer isso. Bem lá no fundo, null sentia a necessidade de descobrir o que lhe aguardava por trás daquela porta dubla, a única que dava acesso ao ginásio onde estava acontecendo o baile.
Tocou a maçaneta e num suspiro único, empurrou as portas que desvelaram um ambiente totalmente alegre e repleto de alunos do colégio, todos muito bem vestidos para a ocasião. A decoração que tanto trabalhou para finalizar havia ficado impecável em conjunto ao jogo de luzes e mais a música pop remixada com os clássicos dos anos oitenta.
Mas, como se tudo já estivesse planejado, ao dar o primeiro passo para descer a pequena escadaria, null presenciou quando a música de ritmo agitado parou de tocar para dar lugar a uma melodia suave e lenta. A luz forte do holofote, então, focou bem no centro da pista de dança improvisada. Ali, parado, ele sorria para ela. Entorno, muitos casais aproveitavam o momento para terem um contato mais próximo, não se dando ao trabalho de notar o clima ligeiramente intrínseco que acontecia bem ali.
O olhar ágio de null capturou a figura excepcionalmente bela de um rapaz esguio e de cabelos alaranjados, que aparentemente a aguardava. Ele parecia reluzir com tamanha beleza – apesar da luz lhe atribuir uns pontos a mais. null surpreendeu-se ao reconhecê-lo. null null era, definitivamente, a arte mais bela que ela poderia contemplar em toda sua existência. Seu coração explodiu juntamente com suas emoções, em fração de segundos. null achava que era impossível se apaixonar ainda mais por null, mas essa sua tese caiu por terra no mesmo instante em que o viu. Desceu degrau por degrau tomando muito cuidado para não pisar na barra do vestido longo e acabar terminando sua noite mágica em uma tragédia cômica.
null se adiantou e foi de encontro com a estrangeira, ajudando-a a descer os dois últimos degraus da pequena escadaria. Ele não conseguia desviar o olhar da garota. Ela estava simplesmente linda. A mais linda dali, em sua humilde opinião. Os dias que null passara remoendo suas dúvidas, agora não existiam mais, pois agora ele tinha certeza de seus sentimentos por null. Bons e doces sentimentos.
O olhar contemplativo de null analisava meticulosamente a face do rapaz.
– Você pintou o cabelo... – foi a primeira coisa que disse ao ficar frente a frente com ele. Maravilhada, lembrou-se do dia em que dissera a null que ele ficaria incrível com esse tom de cabelo. No início ele debochou, entretanto, agora, está exatamente como ela havia imaginado; estava perfeito.
– Sabe como são as coisas, não é? Estava na hora de mudar um pouco. – sorriu largo, nitidamente envergonhado, pois também se lembrava de como havia recusado quando a garota o sugeriu tal mudança. – E você está linda, null.
null já esperava que as bochechas dela corassem ao elogiá-la, e, vendo-a baixar minimamente o rosto, sorriu ao constatar a pele rosada da garota. Aquele momento era apenas deles dois e não ligavam nem um pouco se ali próximo havia outras centenas de pessoas que testemunhavam suas ações. Delicadamente, null pegou a mão de null e deslizou uma linda pulseira de flores em seu pulso. As rosas combinavam com a cor do vestido.
– Vi isso em um filme e achei que seria legal te dar também. – disse ele, tímido.
– É linda, null. – tocou nas pétalas, ainda admirada. – Mas como você sabia sobre que cor escolher? Por acaso estava junto quando... – parou repentinamente, arregalando os olhos ao surpreender-se – Espera... Foi você quem escolheu esse vestido pra mim?
Ele sinalizou positivamente com a cabeça.
– Vi quando você o vestiu na loja. Você ficou tão bela nele que eu não poderia deixar de comprá-lo.
Por Deus, o que era aquilo que null estava sentindo, exatamente? Tantas emoções, tantos pensamentos que inundavam sua mente. Sentia-se arrebatada de amor, ao ponto de não conseguir enxergar nada além de null. Aos poucos, seus olhos enchiam-se de lágrimas.
– A cada dia você me surpreende, null null... – sorriu, virando o rosto para o lado a fim de esconder seus olhos lustrosos.
Mas null queria admirá-la por inteira, queria capturar todas as suas reações. Sua mão tocou de leve a bochecha da estudante, sentindo a espessura macia da pele. Ela fechou os olhos ao ter o rosto aquecido pelo toque de null, o que o encorajou a prosseguir. Seus dedos partiram de encontro com alguns cachos que caíam sobre a face de null, os colocando para o lado.
– Na verdade, foi você quem me surpreendeu primeiro. – olhou bem no fundo dos olhos escuros da garota, não sendo capaz de desviá-los. null agora mantinha as mãos nos braços desnudos da jovem. – Foi você a me capturar. A primeira que me mostrou faces que nunca imaginei possuir. E por mais que eu pense que isso seja loucura, acredito que cheguei à minha sanidade. Preste atenção, null. Eu não quero assustá-la com palavras precipitadas, mas... Eu sinto a sua falta.
– Mas eu estou aqui, null. – falou avulsa, perdida naquele olhar puro.
O rapaz balançou levemente a cabeça.
– Eu sinto a sua falta, null. – seu coração palpitava mais rapidamente ao passo que quebrava qualquer distância que o separava da garota. Os lábios rosados dela estavam cada vez mais próximos. – Porque mesmo você estando diante de mim, ainda sinto como se estivesse longe. Quero ter a segurança de que nunca irei perdê-la. Quero que saiba aquilo que estou sentindo.
Pegando a mão de null, null a colocou sobre seu peito esquerdo, fazendo-a sentir as batidas fortes de seu coração.
– Eu não te vejo mais como a mesma garotinha que conheci há três anos atrás. Agora só consigo enxerga a mulher incrível e birrenta na qual se transformou – os dois sorriram. – E dito isto, assumo a responsabilidade dos meus sentimentos. Eu... eu gosto de você, null... talvez eu até a ame.
Já não suportando reprimir suas emoções, null se entregou por completo no embalo de tudo o que sentia. Expôs sua alegria em ouvi-lo dizer tais palavras e, em êxtase, balbuciou.
– Isso é muito surreal... Não posso acreditar que você está realmente aqui, na minha frente, dizendo que... – seus lábios tremeram, não completando a frase por receio de estar insanamente fora de si.
– Que te amo? – null sorriu, passando sua mão pela cintura delineada da garota. Ela sentiu os pelos do corpo arrepiarem-se com o toque quente. Engolindo em seco, a estrangeira também sorriu, consentindo em resposta. – Olhe em meus olhos e veja, não há nada mais verdadeiro do que nós dois aqui. – aproximou-se mais um pouco, deixando seus fartos lábios tocarem levemente contra os lábios da menor. – E, por favor, deixe-me beijá-la para que meu sonho se concretize, pois eu já não suporto mais apenas imaginar o sabor dele.
Como em seus sonhos, null provou do sabor doce que eram os lábios rosados da garota. Tão suaves e delicados. Cada toque expressava o sentimento recíproco daqueles dois amantes, cujo a partir daquele momento solene, passaram apenas a enxergar um futuro onde um estivesse ao lado do outro. E até que o destino se mostre insatisfeito, eles permanecerão juntos, interligados por um amor puro.
E fora deste jeito que o baile de inverno se tornou inesquecível para a memória dos dois.
Fim.
Nota da autora: E é com esta gostosura de shortfic que oficializo minha entrada (debut) como autora no site. Espero poder receber o apoio e amor de vocês! E, como sou nova por aqui, então que possamos crescer juntos. Obrigada por chegar até o final, isso já é muito significativo pra mim! Nos vemos novamente em breve?
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