Capítulo 1 - O Aviso
Indicação de música para esse capítulo: End of an Era – Niall Horan.
Eu sempre achei estranho como alguns dias conseguem se disfarçar tão bem.
Não havia nada naquela tarde que denunciasse o fim de qualquer coisa. O céu da Pensilvânia estava limpo o suficiente para que eu me sentisse culpada por não admirá-lo com mais atenção, mas claro o bastante para me lembrar de que eu não estava em casa. O azul daqui tinha uma profundidade diferente do azul do Brasil; não sei explicar sem soar como alguém tentando transformar saudade em poesia, mas era como se o céu estrangeiro tivesse uma camada a mais entre mim e tudo o que eu conhecia. Talvez fosse apenas a distância. Talvez tudo parecesse mais fundo quando a gente estava longe demais de onde deveria estar.
Eu estava sentada em um banco do parque havia quase quarenta minutos. Tinha comprado um café ruim em um copo de papel, desses que prometem baunilha no nome e entregam apenas açúcar com gosto de arrependimento. Ainda assim, eu o segurava com as duas mãos, não porque estivesse frio o bastante para aquecê-las, mas porque segurar alguma coisa sempre me dava a impressão de estar ocupada. Eu gostava dessa impressão. Pessoas sozinhas em lugares públicos precisam parecer ocupadas para não parecerem abandonadas. Um livro aberto no colo, fones de ouvido, um café, uma tela iluminada; pequenos acessórios de quem deseja convencer desconhecidos de que não está esperando ninguém.
Eu não estava esperando ninguém. Esse era o problema.
Havia três meses que eu estava ali. Três meses desde que atravessei aeroportos com uma mala grande demais, uma mochila pesada demais e uma coragem que, vista de perto, era apenas teimosia. Eu vim para um intercâmbio curto na Universidade da Pensilvânia; curto o bastante para não parecer uma mudança definitiva e longo o bastante para que minha família chorasse no aeroporto como se eu estivesse indo embora para sempre. Na época, achei exagero. Sorri, abracei todos, prometi ligar, prometi mandar fotos, prometi comer direito, prometi não andar sozinha à noite, prometi tomar cuidado, prometi tantas coisas que, no fim, a despedida pareceu menos uma despedida e mais uma lista de instruções de sobrevivência.
E, de certa forma, era.
Eu passava boa parte dos meus dias tentando aproveitar a experiência como se aproveitar fosse uma tarefa com prazo de entrega. Caminhava por lugares que diziam que eu deveria conhecer, tirava fotos de prédios bonitos, fingia naturalidade ao pedir comida em inglês, aceitava convites de colegas que eu ainda não sabia se eram amigos e respondia mensagens da minha irmã com emojis suficientes para esconder o quanto eu sentia falta de ouvir a voz dela sem atraso de áudio. Às vezes, eu me pegava pensando que viajar sozinha não era exatamente liberdade. Era mais parecido com colocar a própria vida dentro de uma vitrine e observar, do lado de fora, se você combinava com ela.
Naquela tarde, eu tinha decidido ir ao parque porque precisava provar a mim mesma que não estava apenas sobrevivendo aos dias até voltar. Era ridículo, agora penso, como eu usava a palavra sobreviver antes. Sobreviver a uma apresentação em sala. Sobreviver a uma conversa constrangedora. Sobreviver a um inverno que nem era tão rigoroso assim. Sobreviver à saudade. Nós usamos palavras grandes para dores pequenas porque ainda não sabemos que um dia as palavras grandes podem se tornar literais.
O som veio primeiro do celular de uma mulher sentada na grama. Não era um toque comum de mensagem. Era aquele tipo de som que parece feito para atravessar a pele antes de chegar ao ouvido. Eu ergui os olhos por instinto. A mulher também ergueu os dela, franzindo a testa para a tela. Dois segundos depois, outro celular tocou. Depois outro. Depois vários. O parque, que até então era preenchido por conversas dispersas, latidos, rodas de bicicleta e o ruído distante dos carros, começou a vibrar com uma sequência desordenada de alertas. Era como se todos os aparelhos tivessem lembrado, ao mesmo tempo, de avisar que alguma coisa estava errada.
Olhei para o meu. A tela acendeu sobre o meu colo com uma mensagem em letras maiúsculas. Eu encarei a notificação como quem encara uma porta que acabou de se abrir sozinha em uma casa vazia.
EMERGENCY ALERT. PROCEED IMMEDIATELY TO TEMPORARY SHELTER.
Abaixo, havia um endereço. Li uma vez. Depois outra. Depois uma terceira, como se a repetição pudesse transformar aquilo em algo menos absurdo. O copo de café, ainda meio cheio, escorregou um pouco entre meus dedos, e só percebi quando uma gota caiu sobre a minha calça. Baixei os olhos para a mancha escura no tecido jeans, pequena e irregular, e me prendi nela por tempo demais. É curioso como o corpo faz isso. Diante de algo impossível, escolhe uma coisa mínima para entender. Uma mancha. Um cadarço desamarrado. Uma folha presa na sola do tênis. Qualquer coisa que ainda obedeça a uma lógica conhecida.
Ao meu redor, as pessoas começaram a se levantar.
Primeiro devagar, com aquela hesitação típica de quem ainda espera que alguém ria e diga que foi um erro. Um homem de boné olhava para o celular e para a esposa, alternando entre os dois como se um deles pudesse traduzir o que estava acontecendo. Uma mãe segurou a mão de uma criança com força demais; a menina reclamou, mas a mãe não ouviu. Dois rapazes próximos à trilha discutiam se aquilo era algum tipo de teste do governo. Uma senhora tentou ligar para alguém e repetiu “hello?” várias vezes, embora fosse óbvio, pela expressão dela, que ninguém havia atendido.
Então vieram os alto-falantes. Não sei de onde exatamente. Talvez postes. Talvez carros oficiais. Talvez a cidade sempre tivesse uma forma de falar por cima de nós e eu nunca tivesse notado. A voz surgiu alta, distorcida, impessoal, atravessando o parque e batendo nas árvores antes de chegar até mim.
— Atenção. Dirijam-se imediatamente ao abrigo temporário mais próximo. Mantenham a calma. Sigam as instruções das autoridades locais. Evitem deslocamentos individuais. Repito: dirijam-se imediatamente ao abrigo temporário mais próximo.
A mensagem se repetia em inglês. Depois, novamente. Sempre com a mesma entonação, como se a voz não soubesse que, a cada repetição, as pessoas ficavam menos calmas.
Foi nesse momento que eu tentei ligar para o meu pai.
Não pensei em correr. Não pensei em perguntar a alguém o que estava acontecendo. Não pensei em procurar o endereço no mapa. Meu primeiro movimento foi abrir os contatos e tocar no nome dele, como se toda emergência mundial precisasse passar, antes, pela autorização da minha família. O celular ficou em silêncio por alguns segundos, depois exibiu a frase que viria a se tornar uma das coisas mais cruéis que eu já li.
Call failed.
Tentei de novo. A mesma coisa.
Tentei minha irmã, Lenora. Nada.
Uma amiga do intercâmbio. Nada.
O grupo da família não carregava. As mensagens ficavam presas em um pequeno relógio cinza, aquele símbolo ridículo de espera que, em dias normais, significava apenas internet ruim. Naquele dia, significava que a distância entre mim e as pessoas que eu amava havia deixado de ser medida em horas de voo. Era outra coisa. Um buraco. Uma parede. Um vidro grosso demais. Eu podia ver os nomes na tela, podia tocar neles, podia escrever “vocês estão bem?”, mas não podia alcançar ninguém.
É difícil explicar a solidão de estar em outro país durante uma emergência. Quando algo terrível acontece perto de casa, a gente pelo menos conhece o caminho até a porta de alguém. Sabe que ônibus pegar, que rua atravessar, para qual hospital ir, quem provavelmente atenderá uma ligação, quem tem cópia da chave, quem mora perto o suficiente para bater no portão. Longe, tudo vira teoria. Minha família existia, mas existia do outro lado de um oceano e de uma rede que havia parado de funcionar. Meu pai talvez estivesse sentado no sofá, vendo televisão, sem saber de nada. Minha irmã talvez estivesse colocando minha sobrinha para comer. Meu irmão talvez estivesse trabalhando. Ou talvez todos já soubessem. Talvez estivessem tentando falar comigo também. Talvez, naquele exato momento, alguma mensagem deles estivesse presa em algum lugar invisível entre o Brasil e a Pensilvânia, condenada a nunca chegar.
A multidão começou a se mover. Uma mulher chorava sem som. Um homem falava alto demais ao telefone, embora o telefone não parecesse conectado a ninguém. Crianças eram erguidas no colo. Mochilas eram puxadas dos bancos. Alguém derrubou uma garrafa de água perto de mim e ela rolou pelo caminho de pedras até bater no meu tênis. Eu a encarei por um segundo, ignorei, absorta em pensamentos e me levantei.
Segui o fluxo de pessoas enquanto ainda tentava fazer o celular funcionar. Andava olhando para a tela, e por isso quase esbarrei em um homem parado no meio da calçada. Ele pedia informações para um policial, ou talvez guarda, não sei. O uniforme me pareceu oficial demais para que eu questionasse e insuficiente demais para que eu me sentisse segura. O homem perguntava se era terrorismo. O policial dizia que não podia confirmar nada naquele momento. Uma adolescente perguntava se as escolas tinham sido avisadas. Uma senhora queria saber se podia ir buscar o cachorro. Ninguém respondia de verdade. As respostas eram todas feitas de verbos no imperativo: sigam, mantenham, dirijam-se, aguardem.
Aguardem era a pior delas.
A palavra parecia pequena, civilizada. Uma palavra de consultório médico, de fila de banco, de sala de espera. Aguardem. Como se o medo pudesse se sentar com as pernas cruzadas e uma senha na mão.
Eu digitei para meu pai: Pai, você recebeu alguma notícia? Estou indo para um abrigo. Não consigo ligar. Me responde quando puder.
A mensagem não foi.
Digitei para minha irmã: Me manda qualquer coisa. Só pra eu saber que vocês estão bem.
Também não foi.
O parque ficava a alguns quarteirões do endereço indicado. Eu sabia porque já tinha passado perto dali uma vez, embora não lembrasse exatamente do prédio. Talvez fosse um centro comunitário. Talvez algum espaço público adaptado. Na mensagem, o nome do lugar parecia simples demais para carregar a quantidade de pessoas que caminhava em direção a ele. Abrigo temporário. Temporário era uma palavra bonita naquele momento, quase gentil. Temporário significava que haveria depois. Temporário significava que alguém sabia a duração do problema. Temporário significava que o mundo podia ser suspenso por alguns dias e retomado na segunda-feira, com pedidos de desculpas pelo transtorno... Certo?
Eu me agarrei a essa palavra por quase dois quarteirões.
Temporário.
Uma pane. Um ataque isolado. Um vazamento químico. Uma ameaça que as autoridades já estavam controlando. Qualquer coisa com começo, meio e fim. Qualquer coisa que coubesse em uma notícia de jornal, em uma coletiva de imprensa, em uma explicação posterior. Eu precisava que fosse algo explicável porque minha cabeça, naquela hora, ainda não aceitava a possibilidade de estar vivendo um evento que não pediria licença para se encaixar na minha rotina.
Ao atravessar a rua, vi uma bicicleta abandonada na calçada, uma das rodas ainda girando. Não havia sangue, nem grito, nem imagem de filme. Apenas uma bicicleta caída e uma roda girando cada vez mais devagar. Foi a primeira coisa que me deu medo de verdade.
Não sei por quê. Talvez porque objetos abandonados contem histórias pela metade. Uma bicicleta caída diz que alguém estava ali e, de repente, precisou deixar de estar. Uma mochila esquecida, um sapato perdido, um carrinho de bebê vazio, uma porta aberta. O terror, às vezes, não está no que aparece, mas no que foi interrompido. E aquela roda, diminuindo a velocidade com uma calma ofensiva, parecia dizer que algo havia começado antes que eu entendesse.
O celular vibrou na minha mão.
Meu coração saltou com tanta força que senti a pulsação na garganta. Por um segundo, tive certeza de que era meu pai. Ou minha irmã. Ou qualquer pessoa do Brasil me dizendo que estava tudo bem, que também estavam assustados, mas juntos, que eu devia seguir as orientações e avisar quando chegasse ao abrigo.
Era outro alerta.
O mesmo endereço. A mesma ordem. A mesma ausência de explicação.
Algumas pessoas começaram a correr depois disso. Não muitas. O suficiente para contaminar as outras com urgência. É assim que o pânico se espalha no começo: não pelo conhecimento, mas pela imitação. Alguém corre, então talvez você deva correr também. Alguém chora, então talvez haja motivo para chorar. Alguém olha para trás, então todos olham. Eu olhei também. Não vi nada além do parque ficando para trás, árvores muito verdes, bancos ocupados por copos esquecidos, uma tarde bonita demais para ser confiável.
Continuei andando.
O mundo podia estar acabando, mas meu corpo continuava preso a uma lógica antiga: se alguém atendesse, eu conseguiria respirar. Mas a resposta era a mesma: Call fail.
Em algum momento, percebi que estava chorando. Limpei o rosto com a manga da blusa e fiquei irritada comigo mesma, como se chorar fosse uma falta de educação com as pessoas ao redor, que também tinham seus próprios medos. Havia um homem carregando duas sacolas enormes, uma criança perguntando pela avó, uma mulher grávida andando devagar com uma mão apoiada nas costas. Todo mundo tinha alguém. Todo mundo estava tentando alcançar alguém. O fim do mundo, se é que era isso, começava como uma cidade inteira tentando fazer uma ligação.
Perto do abrigo, o trânsito já não obedecia a nada. Carros paravam em lugares errados, portas ficavam abertas, buzinas se misturavam aos alto-falantes e às vozes dos agentes tentando organizar uma fila que se desfazia a cada nova instrução. Um ônibus havia parado atravessado na rua, e as pessoas desciam dele sem olhar para o motorista. Vi um rapaz empurrar o portão de um prédio, tentando entrar, e outro gritar que o abrigo era mais adiante. Uma mulher deixou uma mala cair; roupas se espalharam no asfalto, peças íntimas, uma blusa de frio, um par de meias infantis. Ela se ajoelhou para recolher tudo e, por um instante, ninguém ajudou. Depois uma menina se abaixou ao lado dela. Depois mais alguém. Pequenas gentilezas ainda existiam. Isso me deu vontade de chorar de novo.
Eu não ajudei.
Essa é uma das coisas que odeio lembrar. Eu vi, senti pena, pensei em ajudar, e continuei andando. Não porque fosse má. Pelo menos espero que não. Mas porque meu medo já havia diminuído meu mundo até caber em uma tela sem sinal e no endereço de um abrigo. Há momentos em que a sobrevivência começa antes do perigo real. Começa quando você percebe que sua compaixão tem limite físico, que suas mãos tremem, que seus pensamentos se repetem, que sua prioridade se torna chegar a algum lugar fechado, iluminado, com autoridades, paredes e talvez uma tomada onde seu celular possa carregar inutilmente.
O prédio indicado surgiu no fim da rua. Havia pessoas demais na entrada. Um cordão improvisado, funcionários com coletes, soldados com armas que pareciam grandes demais para aquele cenário, mesas dobráveis, caixas, listas, detectores, lanternas. A fachada tinha janelas largas, algumas cobertas por placas internas. Não parecia um abrigo. Parecia um lugar comum tentando, às pressas, se tornar importante. E talvez todo abrigo seja isso: um espaço qualquer que, diante do desastre, recebe a responsabilidade absurda de continuar em pé.
Parei antes de atravessar o último trecho da rua. Meu corpo simplesmente parou. A multidão continuava ao meu redor, passando pelos meus ombros, me empurrando de leve, me incluindo mesmo sem pedir permissão. Eu olhei para a entrada, para os soldados, para as pessoas chorando, para os celulares erguidos em busca de sinal, e senti uma coisa infantil subir pelo meu peito. Uma vontade ridícula de estar em casa. Não no alojamento do intercâmbio. Não na Pensilvânia. Casa. A cozinha da minha família. O som da minha irmã falando alto. Meu pai perguntando se eu já tinha comido. Minha sobrinha me mostrando um desenho. Tudo isso me pareceu tão distante que, por um segundo, tive a sensação física de ter sido esquecida em outro planeta.
O celular continuava na minha mão.
Apertei o botão lateral para acender a tela mais uma vez. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum sinal. Apenas minha própria imagem refletida no vidro escuro por trás das notificações: olhos vermelhos, boca entreaberta, cabelo um pouco bagunçado pelo vento, a expressão de alguém que ainda não sabia qual parte da vida tinha acabado.
A voz dos alto-falantes se repetiu acima da rua:
— Dirijam-se imediatamente ao abrigo temporário. Mantenham a calma. Sigam as instruções.
Respirei fundo.
Depois segui com a multidão.
Capítulo 2 - O Abrigo
Indicação de música para esse capítulo: Blame the moon - Hazlett.
Não estava chovendo. Pelo menos não naquele momento. Ainda assim, havia aquele odor úmido grudado no ar, como se o prédio tivesse absorvido água em alguma época distante e nunca tivesse aprendido a secar por completo. Talvez fosse o excesso de corpos entrando ao mesmo tempo, casacos, mochilas, cabelos suados, respirações curtas, sapatos trazendo poeira e sujeira da rua. Talvez fosse apenas medo. Algumas emoções têm cheiro próprio. O desespero, por exemplo, cheira a pele quente, saliva, plástico de garrafa amassada, tecido molhado nas axilas, mãos que esfregam o rosto vezes demais.
Eu parei no fim da fila antes mesmo de entender onde ela começava. Havia grades móveis organizando o caminho até a porta principal, como aquelas usadas em shows, eventos esportivos ou filas de aeroporto. Foi a primeira coisa que me incomodou. Não as grades em si, mas o fato de serem tão reconhecíveis. Em outro dia, em outro contexto, eu poderia estar ali esperando para entrar em uma exposição, em um festival, em algum evento universitário que eu teria aceitado ir por educação e do qual sairia mais cedo fingindo dor de cabeça. O mundo ainda usava os mesmos objetos, e isso tornava tudo mais cruel. O fim não vinha com cenários inéditos. Vinha com cones laranja, mesas dobráveis, formulários, coletes fluorescentes e pessoas dizendo “próximo” com a voz cansada.
Um soldado estava parado junto à porta, segurando uma arma com as duas mãos. Ele parecia jovem demais para carregar aquilo. Ou talvez eu estivesse tentando encontrar juventude nele para não pensar no motivo da arma. Seu rosto não tinha barba, apenas uma sombra rala no maxilar, e os olhos se moviam de uma pessoa para outra com uma rapidez treinada. Não era exatamente medo o que havia nele. Era atenção. Essa atenção fria de quem já recebeu ordens suficientes para saber que olhar para baixo por dois segundos pode ser um erro.
Atrás dele, funcionários com luvas descartáveis faziam perguntas rápidas:
— Nome?
— Idade?
— Algum sintoma?
— Febre?
— Contato com alguém doente?
— Mordidas, arranhões, ferimentos recentes?
Essa última pergunta fazia algumas pessoas levantarem a cabeça.
Até então, as respostas vinham em murmúrios automáticos. Nome, idade, não, não, não. Mas mordidas e arranhões eram palavras muito específicas para uma emergência genérica. Uma mulher à minha frente virou para o marido, e os dois se encararam como se tivessem recebido a mesma pergunta sem precisar ouvi-la de novo. Um homem algumas posições adiante começou a discutir, dizendo que havia se cortado fazendo a barba, que aquilo não tinha nada a ver, que era ridículo perder tempo com aquilo. Um funcionário pediu que ele mostrasse o ferimento. O homem recusou. Dois soldados se aproximaram. Ele mostrou.
Eu olhei para o meu próprio corpo como se pudesse ter me esquecido de algum machucado. As mãos estavam inteiras, embora vermelhas pela força com que eu segurava o celular. Os braços, cobertos pela manga do casaco, pareciam normais. Não havia nada. Ainda assim, senti vontade de provar isso a alguém antes que me perguntassem. O medo tem dessas coisas: nos faz querer nos defender de acusações que ninguém fez.
Quando chegou minha vez, uma funcionária de cabelo preso em um coque apertado olhou para mim sem realmente me ver. Era o olhar de quem já havia olhado para cem pessoas e ainda precisava olhar para mais cem. Ela segurava uma prancheta e uma caneta azul. A ponta da caneta estava mastigada.
— Nome?
— .
Minha voz saiu menor do que eu esperava. Eu quase disse , por hábito, mas havia algo naquela situação que me fez escolher o nome inteiro, como se ele oferecesse uma versão mais séria de mim. parecia alguém que poderia responder a perguntas de emergência. parecia alguém que ainda queria ligar para o pai.
— Sobrenome?
Respondi. Ela anotou sem levantar os olhos.
— Idade?
— Vinte e seis.
— Mora sozinha?
— Temporariamente. Estou fazendo intercâmbio.
A caneta parou por meio segundo.
— Nacionalidade?
— Brasileira.
Só então ela me olhou. Não com pena, exatamente. Mais como quem havia encontrado uma dificuldade adicional em um sistema já lotado de dificuldades. Eu reconheci aquele olhar e odiei reconhecê-lo. Era o olhar que dizia: você está longe de casa. Como se eu não soubesse. Como se a distância fosse uma informação nova e não uma coisa latejando dentro do meu peito desde o primeiro alerta.
— Você conseguiu contato com alguém da família?
Balancei a cabeça. A funcionária respirou fundo. Não foi um suspiro dramático. Foi apenas uma pequena expiração, rápida, quase imperceptível, mas eu a vi. E por vê-la, entendi que ela não tinha nada para me oferecer além de uma pulseira de identificação e uma instrução.
— As redes estão instáveis. Pode ser temporário. Entre, siga a faixa amarela até a área de cadastro secundário e aguarde novas orientações.
Temporário de novo.
Ela pegou uma pulseira branca de uma caixa de plástico e prendeu no meu pulso. Havia um código impresso, meu primeiro nome e um número. Eu encarei aquilo por alguns segundos depois que ela me liberou. Era ridículo, mas a pulseira me fez sentir menos pessoa e mais item catalogado. Um corpo admitido. Uma unidade saudável. Uma estrangeira sem contato com familiares, registrada e encaminhada para a faixa amarela.
Passei pela porta.
O interior do abrigo era maior do que parecia por fora. Talvez fosse um centro comunitário, talvez uma escola adaptada, talvez algum tipo de complexo municipal que antes recebia reuniões, jogos infantis, campanhas de vacinação, festas de bairro. Era difícil saber. Os espaços perdem a identidade quando são tomados por colchões dobráveis, caixas de suprimentos e pessoas sentadas no chão com o rosto entre as mãos. Havia uma quadra ou salão principal ao fundo, com divisórias improvisadas, mesas compridas, fileiras de cadeiras e áreas marcadas por fitas coloridas. Setas feitas com papel sulfite indicavam banheiro, triagem, água, informações, dormitórios. As palavras eram simples, quase domésticas. Banheiro. Água. Dormitórios. Como se nomear as necessidades básicas fosse suficiente para organizá-las.
Não era. Havia pessoas chorando perto das paredes. Gente ajoelhada diante de tomadas, tentando carregar celulares. Crianças segurando brinquedos pequenos demais para aquele lugar; um dinossauro de plástico, uma boneca sem sapato, um carrinho vermelho. Um homem idoso dormia sentado, com a boca entreaberta e as mãos cruzadas sobre uma bengala. Um casal discutia baixo, mas com raiva, sobre terem ou não tempo de voltar para buscar documentos. Uma adolescente repetia para alguém no telefone — talvez uma mensagem de voz que não enviaria — que estava bem, que tinha entrado, que não sabia onde a mãe estava.
O som era insuportável não por ser alto, mas por não ter centro. Ninguém falava com todos, mas todos falavam ao mesmo tempo. Vozes, passos, comunicados, choro, tosse, sacolas sendo arrastadas, cadeiras raspando o chão, rádios chiando nas cinturas dos soldados. Em algum lugar, um bebê gritava como se tivesse entendido antes dos adultos que não havia conforto suficiente naquele prédio.
Segui a faixa amarela no chão. Ela me levou até outra mesa, onde confirmaram meu nome, minha pulseira, minha ausência de sintomas e me perguntaram, novamente, se eu havia tido contato com alguém doente. Respondi que não. A palavra doente saiu da boca da funcionária com cuidado, como se ainda não tivesse permissão para ser substituída por outra.
Recebi um cobertor cinza, uma garrafa pequena de álcool em gel e um papel com regras impressas: Não correr; Não circular por áreas restritas; Não tentar sair sem autorização; Não compartilhar objetos pessoais; Informar imediatamente febre, confusão mental, sangramentos, agressividade repentina, desorientação, convulsões, mordidas ou ferimentos de origem desconhecida.
Agressividade repentina.
Li essa parte duas vezes.
Depois dobrei o papel e coloquei no bolso porque meu cérebro, muito gentilmente, decidiu que aquilo não podia ser pensado ainda.
Fui encaminhada para uma área lateral do salão, onde algumas pessoas estavam sentadas em colchonetes azuis. Não havia privacidade. Cada espaço era separado do outro por distâncias mínimas, como se o abrigo tivesse tentado respeitar a individualidade humana com uma régua cansada e desistido no meio. Escolhi um lugar perto de uma parede porque paredes dão a falsa sensação de proteção. Sentei no colchonete, coloquei a mochila ao lado e olhei para o celular.
Sem sinal.
Tentei enviar a mesma mensagem para meu pai.
Nada.
Tentei para minha irmã.
Nada.
Atualizei a tela. Desliguei e liguei os dados móveis. Ativei e desativei o modo avião. Procurei Wi-Fi. Havia três redes, todas protegidas por senha, e uma chamada EMERGENCY-SHELTER que não conectava. Tentei mesmo assim. O pequeno círculo girou, girou, girou, e falhou.
Não chorei dessa vez. Senti apenas uma pressão atrás dos olhos, como se o choro tivesse se sentado ali, esperando a próxima oportunidade.
— A internet não está funcionando para ninguém.
A voz veio do meu lado esquerdo. Virei o rosto.
Uma mulher estava sentada dois colchonetes adiante, com uma menina dormindo no colo. A menina tinha o rosto pressionado contra o peito dela e segurava uma mecha do cabelo da mãe com a mão fechada. Devia ter uns cinco anos. Talvez menos. Os sapatos pequenos estavam sujos de terra, e uma das meias havia escorregado para dentro do tênis.
A mulher parecia cansada de um jeito antigo, não apenas daquela tarde. Tinha olheiras suaves, cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão de quem havia aprendido a falar baixo para não assustar a criança. Ainda assim, havia firmeza nela. Algo no modo como segurava a menina, uma mão nas costas e outra protegendo a cabeça, me fez pensar que algumas pessoas se tornam abrigo antes mesmo de entrarem em um.
— Eu imaginei — respondi, olhando para o celular, porque encará-la parecia tornar minha vulnerabilidade mais visível. — Só estou insistindo porque sou idiota.
Ela sorriu de leve.
— Acho que todo mundo está sendo idiota do mesmo jeito.
Eu também sorri. Foi pequeno, quase automático, mas aconteceu.
— Você conseguiu falar com alguém? — perguntei.
Ela olhou para a menina no colo antes de responder.
— Com minha mãe, por uns vinte segundos. Ela está em outro abrigo. Ou estava indo para um. A ligação caiu antes que eu entendesse direito. Depois disso, nada.
— Sinto muito. — falei.
— Eu também.
Houve um silêncio breve. Não o silêncio confortável entre pessoas íntimas, mas aquele silêncio cuidadoso entre desconhecidas que ainda não sabem se têm direito de perguntar mais.
— Eu sou — ela disse.
— . Mas pode me chamar de .
— Essa é a Clair.
A menina se mexeu ao ouvir o próprio nome, mas não acordou. passou a mão pelos cabelos dela com uma delicadeza quase dolorosa.
— Ela tem cinco anos. Fez questão de trazer uma mochila com três lápis de cor e nenhum casaco.
Olhei para a mochila infantil encostada no colchonete. Era rosa, com uma estampa de unicórnio. Uma das alças estava torcida. Ao lado, havia outra mochila rosa, maior, um tom mais escuro, deduzi que pertencia a .
— Prioridades bem definidas — eu disse.
riu pelo nariz, sem fazer barulho.
— Ela disse que, se ficássemos entediadas, poderíamos desenhar.
A frase deveria ter sido engraçada. Talvez fosse. Mas, naquele lugar, a ideia de uma criança preocupada com tédio me atingiu em um ponto mole demais. Tédio ainda pertencia ao mundo de antes. Tédio era esperar comida no restaurante, ficar sem internet por algumas horas, assistir a uma aula ruim, passar domingo à tarde sem planos. Clair ainda acreditava que o pior que poderia acontecer dentro de um abrigo era não ter o que fazer. Eu quis que ela estivesse certa. Com uma força que me surpreendeu, quis que o mundo fosse gentil o bastante para que aquela menina tivesse apenas tédio.
— Você sabe o que está acontecendo? — perguntei.
desviou os olhos para o movimento do salão. Demorou alguns segundos para responder, e a demora disse mais do que a resposta.
— Não tudo. Ninguém sabe tudo. Ou, se sabe, não está contando. — Ela ajeitou Clair no colo, baixando ainda mais a voz. — Mas ouvi dois funcionários conversando perto da entrada. Disseram que é uma infecção. Alguma coisa que começou em alguns pontos e se espalhou rápido demais. Estão mandando as pessoas para abrigos para tentar conter.
— Infecção?
A palavra saiu seca. Eu a conhecia bem. Todos conhecemos. Infecção urinária. Infecção de garganta. Infecção no ouvido. Infecção era antibiótico, repouso, febre, farmácia vinte e quatro horas, alguém colocando a mão na sua testa e dizendo que você estava quente. Infecção não era soldado armado na porta. Infecção não era alerta no celular. Infecção não era uma cidade inteira sendo empurrada para dentro de prédios improvisados.
— Foi o que ouvi — disse. — Mas também ouvi gente falando outras coisas. Ataques. Pessoas violentas. Hospitais lotados. Um cara ali disse que viu alguém mordendo outro na rua.
Ela apontou discretamente com o queixo para um grupo mais distante. Eu não olhei. Não queria dar corpo à frase.
— Mordendo? — indaguei, surpresa.
— Eu sei. — ela arqueou as sobrancelhas.
Nenhuma de nós disse mais nada por alguns segundos.
Morder era uma palavra animal. Infantil, também. Crianças mordem quando ainda não sabem explicar a raiva. Cachorros mordem por medo. Pessoas adultas, em ruas comuns, não deveriam morder outras pessoas. Meu cérebro tentou encaixar aquilo em alguma notícia sobre drogas, surto psicótico, histeria coletiva, qualquer explicação que mantivesse o mundo dentro do mundo. Mas havia o papel no meu bolso. Mordidas ou ferimentos de origem desconhecida. Havia a pergunta repetida na triagem. Havia os soldados na porta.
— Eles acham que alguns dias bastam? — perguntei.
deu de ombros com cuidado para não acordar Clair.
— Acho que querem que a gente acredite nisso.
Essa resposta me pareceu honesta demais. Olhei para o celular de novo, como se ele pudesse me proteger daquela honestidade. Sem sinal. Nenhuma mensagem. O vazio da tela começava a ganhar personalidade, quase uma crueldade própria. Eu podia suportar o barulho do abrigo, as filas, a incerteza, a palavra infecção. O que eu não conseguia suportar era o Brasil inteiro reduzido a nomes que não respondiam.
Meu pai, minha irmã, meus amigos. Minha sobrinha. Helena era a criança mais adorável que eu já conheci. Fazíamos chamadas de vídeo todos os dias e agora... bem, agora eu espero que ela esteja bem. Imaginei seu cabelinho loiro bagunçado, suas mãos pequenas, a forma como ela falava meu nome quando queria me convencer de alguma coisa. Ela estava longe. Todos estavam longe. E pela primeira vez desde que eu tinha chegado aos Estados Unidos, a distância não parecia uma aventura, nem uma conquista, nem uma fase da vida sobre a qual eu escreveria depois com orgulho. Parecia uma punição.
observou meu rosto.
— Sua família está aqui?
Balancei a cabeça.
— No Brasil.
A expressão dela mudou. Foi sutil, mas mudou. A pena, quando tenta ser educada, vira cuidado.
— Merda.
Sorri sem humor.
— É.
— Você veio sozinha?
— Intercâmbio. Era para ser só por algumas semanas.
A palavra era ficou entre nós como uma coisa quebrada.
— E você? — perguntei.
— Somos daqui. — sorriu, educada. — Se a internet voltar, talvez eles liberem uma área para chamadas — ela disse. — Ou algum tipo de contato internacional. Não sei. Mas eles vão precisar fazer isso. Tem gente de todo lugar aqui.
Assenti porque queria acreditar. Era pouco, quase nada, mas eu me agarrei ao quase. Às vezes, esperança não é uma luz no fim do túnel. Às vezes é só uma frase improvável dita por uma mulher com uma criança dormindo no colo.
Fiquei com por mais alguns minutos. Ela me contou que morava a alguns quarteirões dali, que saiu de casa com pressa, que esqueceu documentos importantes, que Clair chorou porque queria levar uma boneca grande demais e precisou escolher entre a boneca e uma troca de roupa. Escolheu a roupa. Clair ficou brava por dois quarteirões, depois adormeceu de exaustão no colo dela ainda na fila da entrada.
Eu contei pouco sobre mim. O básico. Brasil. Intercâmbio. Três meses na Pensilvânia. Família sem contato. Não falei do medo com todos os detalhes, porque descrever uma coisa às vezes a torna mais real, e eu já tinha realidade suficiente ao meu redor. Depois de algum tempo, Clair acordou. Primeiro abriu um olho, depois o outro, como se o abrigo fosse uma manhã ruim. Olhou para mim com desconfiança infantil e apertou a blusa da mãe.
— Quem é ela?
beijou o topo da cabeça da filha.
— É a .
Clair me analisou com a seriedade de quem decide se um adulto merece ou não confiança.
— Você tem lápis?
— Não — respondi. — Mas tenho uma caneta.
Tirei uma caneta preta da mochila e mostrei. Ela estendeu a mão, mas segurou seu pulso.
— Você precisa pedir de forma educada, como combinamos. — disse soltando o pulso da filha. Clair assentiu e voltou a me olhar.
— Posso usar, por favor?
Entreguei a caneta. Clair a recebeu como quem recebe um instrumento de grande importância e abriu a mochila de unicórnio para procurar papel. Tirou de dentro um caderno pequeno, duas folhas amassadas, uma meia que provavelmente não deveria estar ali e, finalmente, sentou-se no colchonete para desenhar. observou a filha por alguns segundos com os olhos cheios de uma ternura exausta.
— Ela vai desenhar casas por horas, se deixar.
— Casas?
— Sempre. Casas com janelas enormes e chaminé. A gente nem tem chaminé.
Olhei para Clair inclinada sobre o caderno. A língua aparecia um pouco entre os lábios, concentrada. No papel, as primeiras linhas formavam um quadrado torto. Uma casa. Claro. Diante do caos, uma criança desenhava abrigo melhor do que todos nós.
Levantei algum tempo depois, mais por inquietação do que por necessidade. Meu corpo estava cansado, mas minha cabeça não suportava ficar parada. A imobilidade fazia o medo crescer. Quando eu andava, pelo menos podia fingir que estava procurando alguma coisa.
— Vou dar uma volta — avisei.
assentiu.
— Não vai muito longe. Eles estão restringindo algumas áreas.
— Eu volto.
Clair ergueu a caneta sem olhar para mim.
— Depois eu devolvo.
— Pode ficar por enquanto.
Ela não respondeu, já ocupada demais desenhando uma janela.
Caminhei pelo salão com a mochila pendurada em um ombro e o celular na mão. O abrigo parecia maior agora que eu estava dentro dele, e também menor. Maior pela quantidade de corredores, portas, áreas marcadas, salas improvisadas; menor porque todas as pessoas ali dividiam o mesmo ar, a mesma dúvida, a mesma tentativa de não entrar em pânico. Passei por uma parede onde alguém havia colado avisos impressos. Horário de distribuição de água. Horário de refeições. Área médica. Informações atualizadas a cada seis horas. Proibida a saída sem autorização.
Informações atualizadas a cada seis horas era uma promessa cruel. Seis horas, naquele momento, pareciam uma vida inteira. Em seis horas, minha família podia conseguir falar comigo. Em seis horas, a infecção podia ser controlada. Em seis horas, o prédio podia ser evacuado. Em seis horas, o mundo podia mudar de novo e fingir que sempre foi daquele jeito.
Perto dos banheiros, reconheci uma mulher que eu via quase todas as manhãs em uma cafeteria próxima ao alojamento. Eu não sabia seu nome. Sabia apenas que ela pedia chá, usava fones grandes e sempre lia alguma coisa no celular enquanto esperava. Ali, sem os fones, segurando uma sacola de mercado contra o peito, ela parecia indevidamente íntima. Nossos olhos se encontraram por um segundo, e ela fez um aceno mínimo com a cabeça, como se também tivesse me reconhecido e como se esse reconhecimento fosse constrangedor demais para virar cumprimento.
Mais adiante, vi um casal de vizinhos do prédio onde eu estava hospedada. Não vizinhos de porta; vizinhos de elevador. Gente com quem eu dividia segundos de silêncio e o reflexo no espelho. Ele usava a mesma jaqueta verde que eu já tinha visto algumas vezes. Ela chorava enquanto tentava abrir um pacote de lenços. A normalidade deles me deu medo. Não eram personagens de notícia. Não eram rostos distantes em uma tela. Eram pessoas que, até ontem, talvez tivessem reclamado do aluguel, da entrega atrasada, do barulho no apartamento de cima. Agora estavam ali, reduzidos à mesma pulseira branca que eu usava.
Também reconheci dois influenciadores locais. Eu não seguia nenhum deles com devoção, mas o algoritmo havia decidido, nos últimos meses, que por morar na Pensilvânia eu precisava ver recomendações de restaurantes, lojas, eventos universitários e pessoas bonitas filmando cafés caros. Um deles estava sentado no chão, com o boné abaixado e o rosto escondido nas mãos. A outra, uma mulher que costumava aparecer sorrindo em vídeos sobre “lugares imperdíveis para conhecer no fim de semana”, discutia com um funcionário porque queria saber se podia gravar dentro do abrigo. O funcionário disse que não. Ela insistiu. Depois parou, como se de repente tivesse percebido a obscenidade da própria pergunta.
Foi isso que mais me estranhou: a quantidade de rostos conhecidos sem intimidade. Pessoas que, até aquele dia, pertenciam ao cenário da minha vida temporária. O senhor da farmácia. A moça do café. O vizinho do elevador. A mulher dos vídeos. Todos agora dividindo o mesmo fim provisório. Havia algo humilhante nisso, não para eles, mas para a ideia que eu fazia do desastre. Eu imaginava que catástrofes tinham alguma grandeza visual, alguma distância. Prédios famosos, discursos presidenciais, imagens aéreas, números na tela. Mas ali, o desastre usava tênis sujo, sacola reutilizável, moletom universitário, maquiagem borrada, carrinho de bebê, garrafa térmica. O fim do mundo, ou o começo dele, tinha escolhido pessoas comuns demais para parecer real.
Passei pela área médica. Havia macas, biombos e profissionais usando máscaras. Algumas pessoas tossiam. Cada tosse fazia alguém virar o rosto. Antes, tossir era apenas tossir. Agora, era uma acusação pública. Uma mulher espirrou perto de uma mesa de cadastro, e três pessoas se afastaram ao mesmo tempo. Ela pediu desculpas, constrangida, como se tivesse cometido um crime. Talvez, dali em diante, o corpo inteiro se tornasse suspeito. Febre, suor, tremor, fome, enjoo, raiva, dor de cabeça. Tudo poderia significar algo. Tudo poderia ser usado contra você.
Meu celular vibrou. Parei tão rápido que uma pessoa atrás de mim quase bateu nas minhas costas. Olhei para a tela com a respiração presa.
Bateria fraca.
Foi uma decepção tão pequena e tão grande que tive vontade de arremessar o aparelho no chão. Em vez disso, apertei o botão lateral e apaguei a tela para economizar energia.
Procurei uma tomada disponível. Todas estavam ocupadas. Havia pessoas sentadas em círculos em torno delas, celulares conectados como pacientes recebendo soro. Algumas vigiavam os aparelhos com a agressividade de quem protegeria aquele fio com o corpo se fosse preciso. Não julguei. Eu teria feito o mesmo.
Continuei andando. Em uma das extremidades do salão, havia uma fila organizada perto de uma mesa com caixas empilhadas. A fila não era muito longa, mas tinha uma estabilidade que as outras não tinham. As pessoas esperavam em silêncio, cada uma segurando uma senha improvisada ou apenas seguindo a ordem pela memória coletiva. Sobre a mesa, vi pacotes de garrafas pequenas de água sendo abertos por um funcionário. Ele distribuía uma por pessoa, anotando alguma coisa em uma prancheta. Era uma fila para pegar água.
A palavra pareceu acender uma necessidade que eu não tinha percebido. Minha boca estava seca havia muito tempo. A língua parecia áspera, e havia um gosto metálico no fundo da garganta, talvez pelo medo, talvez por eu ter deixado o café pela metade no banco do parque. Eu não tinha trazido garrafa. Não tinha trazido nada útil. Minha mochila continha coisas absurdas: um livro, um carregador, um estojo, recibos amassados, uma blusa fina, documentos, um pacote de chiclete, a falta completa de preparo de alguém que saiu para aproveitar a tarde e encontrou o mundo se desmontando no caminho.
Olhei para a fila por alguns segundos antes de entrar nela.
Havia algo de reconfortante em filas. Sei que parece idiota. Mas filas, mesmo quando irritantes, sugerem que ainda existe uma ordem mínima. Primeiro uma pessoa, depois outra. Esperar, receber, sair. Um acordo silencioso de que ninguém vai tomar à força o que todos precisam. Ficar em uma fila era quase um ato de fé na civilidade. Talvez por isso tantas pessoas parecessem mais calmas ali do que em outros pontos do abrigo. Água era urgente, mas compreensível. Água não exigia interpretação. Água não era infecção, governo, mordida, sinal perdido. Água era água. O corpo entendia antes da mente.
Entrei no fim da fila e guardei o celular no bolso, embora continuasse sentindo sua ausência na mão como se tivesse soltado algo importante demais.
À minha frente, uma mulher contava nos dedos quantas pessoas ainda havia antes dela. Mais adiante, um garoto de moletom apoiava a testa nas costas do pai. Perto da mesa, o funcionário abriu o que parecia ser o último pacote disponível naquele momento. As garrafas plásticas fizeram um estalo seco ao serem separadas umas das outras.
Respirei fundo.
Por alguns minutos, decidi pensar apenas nisso: andar quando a fila andasse, receber uma garrafa, beber devagar, voltar para perto de e Clair, tentar o celular de novo depois. Um passo. Depois outro. Coisas pequenas. O mundo talvez estivesse grande demais, então eu o diminuí até caber em uma fila de água.
Capítulo 3 - A Última Garrafa
Indicação de música para esse capítulo: Cinnamon - Jome.
A fila andou três passos, parou, andou mais dois e parou de novo.
Nunca pensei que pudesse existir uma forma tão específica de ansiedade quanto esperar por uma garrafa de água dentro de um abrigo temporário. Não era apenas sede. A sede, em si, era suportável. O que incomodava era a ideia de que, se eu não conseguisse uma garrafa naquele momento, talvez precisasse esperar horas pela próxima distribuição; e se a próxima distribuição não viesse, talvez precisasse depender de alguém; e se precisasse depender de alguém, então a realidade já teria mudado mais do que eu estava disposta a admitir. Até poucas horas antes, água era uma coisa que saía da torneira sem pedir nada em troca. Uma coisa tão disponível que eu desperdiçava sem culpa enquanto escovava os dentes, lavava uma xícara, esperava o chuveiro esquentar. Agora, estava em uma fila, olhando para embalagens plásticas como se fossem pequenos objetos de salvação.
Eu ainda sentia o celular no bolso. Mesmo guardado, ele continuava ali como um órgão extra e, agora, inútil. De tempos em tempos, minha mão descia para tocá-lo por cima do tecido da calça, conferindo se não havia vibrado sem que eu percebesse. Era uma mania recente, nascida naquela tarde, e já parecia antiga. Eu não precisava olhar para saber que não havia sinal. A ausência de sinal tinha se tornado uma presença física. Ela morava na minha mão, no centro do peito, no espaço entre uma inspiração e outra.
À minha frente, a fila se reorganizou quando uma mulher saiu carregando duas garrafas. Alguém reclamou que era uma por pessoa. Ela respondeu que a segunda era para o filho, apontando para um menino sentado no chão alguns metros adiante. A reclamação morreu antes de virar discussão. Crianças ainda tinham esse poder: interrompiam a mesquinhez dos adultos por alguns segundos. Não sempre. Não por bondade garantida. Mas por vergonha. A vergonha, percebi, ainda funcionava em algumas partes do abrigo.
Inclinei o corpo para o lado, tentando ver quantas garrafas restavam. Não contei muitas. O funcionário atrás da mesa abria pacotes com pressa controlada, destacando as garrafas umas das outras e repetindo instruções que ninguém parecia ouvir por completo. Uma por pessoa. Não empurrem. Haverá nova distribuição. Mantenham a pulseira visível. Não formem segunda fila. Haverá nova distribuição. Essa última frase era repetida com mais frequência, talvez porque ele mesmo precisasse acreditar nela.
A pessoa à minha frente estava de capuz.
Foi a primeira coisa que notei. Um moletom escuro, capuz puxado sobre a cabeça, postura levemente curvada, mãos nos bolsos. Ele não parecia tentar se esconder de maneira óbvia, mas havia uma intenção na forma como mantinha o rosto afastado das luzes mais fortes do salão. Eu reparei porque, em filas, quando não temos nada para fazer, analisamos as costas das pessoas como se elas fossem paisagens. A costura do moletom. A barra da calça. O tênis sujo. A maneira como o peso do corpo passa de uma perna para a outra. Pequenos detalhes se tornam companhia.
Então ele virou um pouco o rosto.
Não foi o suficiente para me encarar. Foi apenas um movimento breve, talvez para olhar a lateral da fila ou o funcionário na mesa. Ainda assim, eu vi o perfil. A linha do nariz. A barba por fazer. Os cílios baixos. A boca. E, antes que minha razão pudesse agir, alguma parte muito antiga de mim o reconheceu.
.
Meu primeiro pensamento foi: não é possível.
Não no sentido de negar a possibilidade, mas no sentido de recusar o absurdo. Não, claro que não. Não . Não aqui. Não naquela fila. Não em um abrigo improvisado, usando moletom escuro, esperando uma garrafa de água enquanto o mundo lá fora começava a perder a forma. Pessoas famosas não deveriam aparecer assim, sem trilha sonora, sem iluminação favorável, sem distância segura entre a imagem pública e a vida real. Era quase uma falta de educação da realidade colocá-lo a menos de um metro de mim enquanto eu estava com os olhos inchados, a boca seca e uma pulseira branca identificando meu corpo como admissível.
Eu sabia, por algumas entrevistas, que ele morava aqui, mas ao longo de três meses não esperei encontrá-lo, quem dirá agora. Olhei para baixo imediatamente. Foi instinto. Como se, ao não olhar, eu pudesse devolver aquela informação para onde ela pertencia: telas, pôsteres antigos, capas de álbum, entrevistas, clipes vistos na adolescência com fones de ouvido e uma intensidade que hoje me dava vergonha e ternura em medidas parecidas.
Eu tinha sido fã. Não uma fã casual. Fã no sentido completo e quase religioso que só uma adolescente consegue ser. Eu sabia letras, datas, entrevistas, rumores, fases de cabelo, músicas favoritas, teorias inventadas por outras meninas igualmente dedicadas a transformar cinco garotos em um idioma próprio. Havia uma época em que meu dia podia ser salvo por uma foto nova, uma apresentação ao vivo, uma frase dita em uma entrevista. Uma época em que não era apenas uma banda, mas uma espécie de lugar.
E, agora, um pedaço daquele lugar estava na fila da água.
Não falei com ele. Essa foi minha decisão mais rápida e talvez a mais correta daquela tarde. Não havia nada a dizer que não soasse ridículo. “Eu era muito sua fã” parecia uma frase obscena naquele contexto, quase cruel. Como se eu o empurrasse de volta para um papel que ele, claramente, não estava ocupando ali. Ele não era , o cantor, o ex-integrante de uma das maiores bandas do mundo, a voz que eu reconheceria em qualquer rádio. Era um homem assustado em uma fila. Um homem que, provavelmente, também havia tentado ligar para alguém e visto a chamada falhar. Um homem que também precisava de água. O fim do mundo tinha uma habilidade terrível para igualar as pessoas sem pedir permissão. Ele não o tornava menos famoso; apenas tornava a fama inútil por alguns minutos.
A fila andou. Eu andei atrás dele. Tentei olhar para qualquer outra coisa. Para o chão riscado do salão, para as setas de papel coladas na parede, para as mãos da mulher ao lado segurando uma sacola de remédios, para uma criança dormindo em cima de duas mochilas. Não adiantava. Minha atenção voltava para a nuca dele, para o capuz, para a curva dos ombros. A versão adolescente de mim tinha achado isso engraçado, quase simbólico, como se o universo tivesse uma piada interna. A versão adulta não esperava que a coincidência se manifestasse em uma fila de suprimentos durante uma catástrofe.
Ele passou a mão pelo rosto. O gesto foi rápido, cansado. Não havia pose. Não havia preocupação com ser visto. O polegar deslizou pela sobrancelha, os dedos apertaram os olhos por um segundo, depois a mão voltou para o bolso. Aquilo, mais do que o rosto, me convenceu de que era real. Pessoas em imagens públicas têm gestos editados. Pessoas reais esfregam os olhos quando estão exaustas.
A mesa estava perto. O funcionário pegou uma garrafa e entregou para uma mulher. Pegou outra, entregou para um rapaz. Outra. Outra. O pacote ficou vazio. Ele se abaixou, procurou atrás da mesa, abriu uma caixa parcialmente rasgada e tirou as últimas garrafas soltas. Comecei a contá-las sem querer. Uma para o senhor de jaqueta marrom. Uma para a mulher de trança. Uma para o garoto de moletom. Uma para .
E nenhuma para mim.
Eu soube antes que o funcionário dissesse. Há uma pequena preparação no rosto das pessoas quando precisam negar algo básico. Ele olhou para a mesa vazia, depois para mim, depois para a prancheta, como se talvez o papel pudesse produzir uma garrafa esquecida.
— Acabou por enquanto — disse.
A frase me atravessou com menos força do que deveria. Talvez eu já estivesse anestesiada. Talvez a sede ainda não fosse grande o suficiente. Talvez, depois de não conseguir falar com a minha família, ficar sem água parecesse apenas mais uma confirmação de que o dia havia decidido me retirar coisas em ordem de importância.
— Tudo bem — respondi.
Minha voz saiu educada demais. O tipo de educação que ensinamos ao corpo para situações em que gostaríamos de gritar. O funcionário pareceu aliviado por eu não discutir.
— Vamos trazer mais em breve. Fica por perto, tá? Não deve demorar.
Assenti.
Era uma mentira gentil ou uma promessa possível. Eu não tinha energia para diferenciar.
Saí da frente da mesa para não atrapalhar a fila que já começava a se desfazer em murmúrios irritados. Algumas pessoas atrás de mim reclamaram, outras perguntaram quando viria mais, outras foram embora com o mesmo olhar vazio que eu provavelmente carregava. Dei dois passos para o lado, sem saber exatamente para onde ir. Voltar para e Clair sem água parecia uma pequena derrota. Ficar ali esperando parecia admitir que eu não tinha mais nada além de espera. O celular, no bolso, continuava mudo.
— Ei.
Não pensei que fosse comigo.
A voz veio baixa, próxima, um pouco rouca. Virei o rosto por reflexo, e ele estava olhando para mim.
Foi estranho encará-lo de perto. Não por ele ser mais bonito ou menos bonito do que eu imaginava, embora fosse bonito de uma maneira desconcertantemente humana, com cansaço sob os olhos e a barba desalinhada. Foi estranho porque meu cérebro tentou sobrepor duas imagens incompatíveis: o garoto de vídeos antigos, cercado por gritos, luzes e palcos, e o homem diante de mim, segurando uma garrafa de água pequena demais para salvar qualquer coisa. As duas imagens não se encaixaram. Talvez pessoas nunca se encaixem nas versões que fazemos delas.
— Você pode ficar com metade — ele disse.
Olhei para a garrafa na mão dele. Depois para o rosto dele. Depois de volta para a garrafa.
— Não, tudo bem. Eles disseram que vão trazer mais.
— Eles também disseram para manter todo mundo calmo. — Ele ergueu um pouco as sobrancelhas. — Não sei se estão acertando muito.
Eu quase sorri. Quase.
— É sua água.
— E eu não preciso de uma garrafa inteira agora.
— Obrigada — eu disse, ainda sem pegar.
Ele pareceu entender minha hesitação. Desrosqueou a tampa, inclinou a garrafa e bebeu sem encostar os lábios no gargalo. O cuidado foi tão discreto que me atingiu de um jeito inesperado. Em um mundo que começava a fazer perguntas sobre mordidas, ferimentos e infecções, ele pensou em não encostar a boca na garrafa antes de me entregar. Era uma delicadeza pequena, prática, quase clínica. Talvez por isso tenha parecido tão íntima.
Ele bebeu metade, fechou a tampa e estendeu para mim. Peguei. O plástico estava levemente amassado pelo toque dele. A água balançou no interior transparente, pouca, preciosa. Por um segundo, me senti ridícula por reparar nos dedos dele soltando a garrafa, por notar as tatuagens, por lembrar de uma versão minha que teria perdido a capacidade de respirar diante daquele gesto. Mas a versão atual também perdeu um pouco. Só que por outros motivos.
— Obrigada — repeti.
— De nada.
Bebi devagar. Não porque quisesse parecer educada, mas porque meu corpo entendeu antes de mim que aquela água precisava durar alguns segundos a mais. O líquido desceu frio, quase doloroso, limpando o gosto metálico da boca. Foi só água. E, ao mesmo tempo, foi a primeira coisa boa que aconteceu desde o alerta.
Quando terminei, ainda havia um pouco no fundo. Instintivamente, ofereci de volta.
Ele balançou a cabeça.
— Pode ficar.
— Tem certeza?
— Tenho.
Segurei a garrafa com as duas mãos, como se fosse algo maior do que era.
Houve um silêncio. Não constrangedor exatamente, mas cheio de coisas que não podiam ser ditas. Eu sabia quem ele era. Ele provavelmente sabia que eu sabia. Havia poucas formas de fingir o contrário sem tornar tudo ainda mais estranho. Mesmo assim, nenhum de nós tocou no assunto de imediato. O abrigo ao redor continuava funcionando em seu caos organizado: pessoas passando, funcionários carregando caixas, crianças chorando, rádios chiando, comunicados pedindo calma a cada intervalo. E nós dois parados ao lado da mesa vazia, segurando uma conversa que ainda não existia direito.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
A pergunta me deu vontade de rir, não por graça, mas pela absurda inversão da cena. Ele, perguntando meu nome. Eu, sabendo o dele desde a adolescência. O mundo, acabando em algum lugar do lado de fora.
— — respondi. — Mas algumas pessoas me chamam de .
Ele assentiu.
— .
— Prazer — eu disse.
— Prazer, .
Meu nome, na boca dele, pareceu deslocado. Apenas deslocado da mesma forma que todo o resto. O abrigo, a pulseira, a água, a ausência de sinal, dizendo como se estivéssemos em uma situação normal, em uma cafeteria, em uma fila comum, em um mundo que ainda soubesse o que fazer com encontros improváveis.
— Você está sozinha? — ele perguntou.
A pergunta era simples, mas algo em mim se fechou por um segundo.
— Estou. Quer dizer, conheci uma mulher ali. . Ela está com a filha. Mas vim sozinha para cá. — Apertei a garrafa. — Minha família está no Brasil.
Ele não respondeu imediatamente. O rosto dele mudou pouco, mas mudou. A mesma coisa que havia acontecido com . A distância internacional, dita em voz alta, parecia sempre aumentar a tragédia aos olhos dos outros.
— Você conseguiu falar com eles?
Balancei a cabeça.
— Não. Tentei meu pai, minha irmã, amigos... nada. Nenhuma ligação completa. Nenhuma mensagem enviada.
— Sinto muito.
A frase foi baixa. Sem excesso. Agradeci com um aceno porque sabia que, se falasse muito sobre aquilo, minha voz quebraria.
— E você? — perguntei. — Conseguiu falar com alguém?
Ele olhou para algum ponto atrás de mim. Por um instante, pareceu mais cansado.
— Não. Tentei ligar para minha mãe, minhas irmãs, alguns amigos. Nada. — Passou a língua pelos lábios, pensativo. — Sei que existem outros abrigos. Só vim para o mais próximo porque... bom, não consegui falar com ninguém. Não fazia sentido atravessar a cidade sem saber para onde ir.
— Foi o que eu fiz também.
— Seguiu a multidão?
— Basicamente. — respondi.
Eu acompanhei o olhar dele. Funcionários apontavam direções. Pessoas formavam filas. Soldados controlavam portas. Mães mandavam filhos ficarem perto. Desconhecidos perguntavam horários, regras, possibilidades. Era verdade. Ninguém sabia de nada, mas todos já obedeciam a alguma coisa.
— Acho que obedecer dá menos medo do que decidir — complementei.
Ele voltou a olhar para mim, como se a frase tivesse encontrado nele um lugar específico. Desviei. Era estranho olhá-lo, um pouco constrangedor.
— É. Talvez seja isso.
Houve outro silêncio.
Dessa vez, menos pesado.
Não sei se foi a água, a conversa ou o simples fato de alguém famoso também não ter conseguido falar com a mãe. Mas alguma coisa dentro de mim relaxou um milímetro, e esse milímetro pareceu enorme. Desde o alerta, eu vinha me sentindo separada do mundo por uma camada de vidro. As pessoas se moviam, gritavam, choravam, organizavam filas, e eu estava junto, mas não exatamente dentro. Com , por alguns minutos, a camada ficou mais fina. Não porque ele fosse ele. Talvez um pouco por isso, não vou mentir. Mas principalmente porque seu medo era reconhecível. Ele não sabia mais do que eu. Não tinha acesso a uma porta secreta, a uma explicação privilegiada, a um plano. A fama dele não havia impedido a falha nas ligações. Não havia produzido água extra. Não havia trazido ninguém amado para perto.
Era terrível e, de alguma forma, reconfortante.
— Você está aqui há muito tempo? — ele perguntou.
— Nos Estados Unidos?
— É.
— Três meses.
— Intercâmbio?
Assenti.
— Universidade da Pensilvânia. Era para ser uma experiência curta. Daquelas que a gente faz para voltar diferente, mas não tão diferente assim.
Ele sorriu de leve.
— Acho que deu errado.
Soltei uma risada pequena. Veio antes que eu decidisse se era apropriado. E talvez tenha sido justamente por isso que pareceu boa. havia me feito sorrir antes, Clair também, mas aquela foi a primeira vez que ri de alguma coisa desde que deixei o café no banco do parque.
— Bastante — respondi.
Ele pareceu satisfeito por ter me feito rir, embora não demonstrasse isso de forma óbvia. Apenas baixou os olhos por um segundo, com um sorriso contido.
— Você tem onde ficar aqui dentro? — perguntou.
— Um colchonete perto da parede. Acho que isso conta.
— Parede é bom.
— Também acho.
— Dá a falsa sensação de que pelo menos um lado está protegido.
Olhei para ele.
— Exatamente.
Aquilo me surpreendeu. Não a frase em si, mas a precisão. Eu tinha pensado a mesma coisa mais cedo, quase com as mesmas palavras. Talvez o medo deixasse todo mundo parecido. Talvez, em situações extremas, nossas preferências se tornassem primitivas: parede, água, luz, silêncio, alguém conhecido, mesmo que conhecido apenas pela memória.
— Eu ainda não escolhi um lugar — ele disse. — Só entrei, passei pela triagem e vim tentar pegar água.
— Então você está melhor do que eu. Eu entrei, sentei, falhei em falar com todo mundo, conheci uma criança que desenha casas e vim tentar pegar água. — disse. Ele sorriu.
Eu olhei para o fundo da garrafa. Ainda havia um gole. Não bebi. Guardar aquele resto me parecia sensato, embora provavelmente fosse apenas ansiedade transformada em administração de recursos. percebeu, mas não comentou.
— Você acha que vamos ficar aqui por quanto tempo? — perguntei.
Ele respirou fundo.
— Não sei. Ouvi um cara dizendo alguns dias. Ouvi outro dizendo que a cidade inteira vai fechar. Ouvi alguém falar que os hospitais já estavam lotados antes do alerta. — Deu de ombros, mas o gesto não chegou aos olhos. — Então, basicamente, não sei.
Alguns dias.
A expressão ainda parecia possível. Alguns dias em um abrigo, depois notícias melhores, redes restabelecidas, ligações completadas, explicações oficiais, retorno gradual. Alguns dias era uma prisão suportável. O problema é que, ali dentro, alguns dias já começavam a se comportar como outra coisa. A luz artificial, as filas, as pulseiras, a falta de janelas suficientes, os soldados impedindo certas passagens. Tudo conspirava para fazer o tempo perder sua forma comum.
— Eu não consigo parar de pensar na minha família — falei.
— Eu também não — disse apenas.
Uma funcionária passou carregando uma caixa de cobertores e pediu licença para atravessar. Nós nos afastamos ao mesmo tempo. Meu ombro quase encostou no braço dele, e esse quase me fez lembrar, com uma violência idiota, de quem ele era. O nome que um dia ocupou espaços demais na minha adolescência. Fiquei irritada comigo mesma por notar. Havia tanta coisa maior acontecendo, mas o corpo nem sempre respeita a hierarquia das tragédias. Às vezes ele registra um quase toque no meio do colapso e guarda aquilo como se tivesse importância.
— Você quer sentar? — ele perguntou, apontando para uma área menos cheia perto de uma divisória.
Eu pensei em e Clair. Pensei em voltar. Pensei no celular. Pensei na água. Pensei que ficar mais alguns minutos ali não me tornaria uma pessoa pior.
— Só um pouco — respondi.
Sentamos próximos, não exatamente juntos. Havia uma distância cuidadosa entre nós, espaço suficiente para que nenhum gesto parecesse íntimo demais e pouco o bastante para que a conversa continuasse possível. Ele se sentou com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos soltas entre as pernas. Eu segurei a garrafa no colo. O plástico fazia pequenos estalos quando meus dedos apertavam sem perceber.
À nossa frente, o abrigo continuava tentando parecer funcional. Uma fila se formava para informações. Outra, para tomadas. Um soldado conversava com um homem exaltado perto de uma porta restrita. Uma criança chorava porque queria ir embora. A mãe dizia “eu sei” repetidas vezes, como se essas duas palavras fossem o único cobertor disponível.
O último gole de água continuava na garrafa entre as minhas mãos. Não bebi. Ele também não pediu. A garrafa vazia — quase vazia — ficou ali, suspensa entre nós como um pequeno acordo. Não era amizade, não era confiança, não era nada que pudesse ser nomeado sem exagero. Era apenas o início de uma coisa mínima: duas pessoas que não tinham conseguido falar com quem amavam dividindo água em um abrigo onde todos fingiam que esperar era um plano.
Olhei para a tela apagada do meu celular refletindo a luz branca do salão. Por um instante, vi meu rosto deformado no vidro escuro, e ao lado, muito próximo, o contorno dele.
Lá fora, a cidade devia continuar existindo de alguma forma. Ruas, carros abandonados, apartamentos com luzes acesas, cafés com copos sobre mesas, parques com bancos vazios. Meu café talvez ainda estivesse lá, frio, no mesmo lugar. A ideia me pareceu absurda e dolorosa. Algumas horas antes, eu tinha deixado uma bebida pela metade porque acreditava, sem saber que acreditava, que sempre haveria outra. Agora eu guardava um gole de água como quem guardava uma prova de que ainda era possível receber alguma coisa.
não disse nada.
Eu também não.
Ficamos sentados perto da divisória, com a garrafa entre nós e o medo em volta, e, pela primeira vez desde o alerta, estar em silêncio ao lado de alguém pareceu um pouco menos solitário do que estar em silêncio sozinha.
Capítulo 4 - Dias subterrâneos
Indicação de música para esse capítulo: Wolves Without Teeth – Of Monsters and Men.
*Alguns dias depois*
No décimo nono dia, eu parei de contar.
Não foi uma decisão dramática. Não acordei, olhei para o teto alto do abrigo e pensei: hoje deixarei de medir o tempo. Foi mais simples e mais triste do que isso. Eu apenas esqueci. Durante as primeiras duas semanas, fiz pequenos riscos no verso do papel de regras que recebi na entrada, escondida como uma prisioneira em filmes antigos, marcando cada dia com uma linha trêmula de caneta. Um, dois, três, quatro. Depois cinco, seis, sete. Era ridículo, mas me dava a impressão de que alguma coisa ainda caminhava para frente. O tempo, quando marcado, parece obediente. Parece aceitar que existe um antes, um durante e um depois. Mas, em algum momento entre a terceira refeição de mingau aguado e uma fila de banheiro que durou quarenta minutos, olhei para o papel e não soube se havia esquecido um risco ou colocado um a mais. Aquela dúvida me irritou tanto que dobrei o papel, guardei no fundo da mochila e nunca mais o peguei.
Ainda assim, o corpo continuava contando de outras formas.
Eu sabia que estávamos ali havia tempo suficiente porque o cheiro do abrigo havia mudado. Nos primeiros dias, ele cheirava a emergência: suor recente, borracha de sapato, café derramado, casacos úmidos, medo fresco. Depois passou a cheirar a permanência. Cobertores usados demais. Banheiros lavados com produtos fortes, mas nunca limpos o bastante. Cabelo oleoso. Roupas repetidas. Sopa rala. Papelão. Desinfetante. Respirações dormidas em um espaço fechado. Aprendi que o cheiro de um lugar muda quando as pessoas começam a aceitar, ainda que contra a vontade, que talvez não saiam dali tão cedo.
Também sabia porque ninguém mais perguntava as horas com a mesma frequência. Nos primeiros dias, todos queriam saber quando viriam novas informações, quando a internet voltaria, quando poderíamos ligar, quando a próxima refeição seria servida, quando abririam os portões, quando o governo explicaria o que estava acontecendo. Quando, quando, quando. Depois as perguntas diminuíram. Não porque as respostas tivessem chegado, mas porque a falta delas cansou as pessoas. A esperança, quando precisa se repetir demais, fica exausta.
A rotina se formou como mofo: devagar, silenciosa, ocupando os cantos.
Acordávamos com as luzes artificiais clareando um pouco mais, embora elas nunca se apagassem por completo. Dormir no abrigo era aprender que escuridão também era um privilégio. As lâmpadas permaneciam sempre acesas em alguma intensidade, como se a claridade pudesse vigiar melhor nossos corpos. Havia gente que dormia com o rosto coberto pelo cobertor, gente que usava mochila como travesseiro, gente que permanecia sentada mesmo durante a madrugada, olhando para lugar nenhum. Eu dormia mal. dormia pior. Clair dormia como as crianças dormem quando o corpo vence o medo: profundamente, em posições tortas, segurando algo com força. Às vezes era a blusa da mãe. Às vezes a minha caneta.
Ela nunca devolveu a caneta. Eu nunca pedi de volta.
Clair desenhava casas todos os dias. Casas com telhados triangulares, janelas grandes, portas vermelhas, chaminés, árvores ao lado, sol no canto da página. O sol dela sempre tinha cílios. Quando acabaram as folhas do caderno, ela começou a desenhar no verso de avisos antigos que encontrava pelo chão. Quando dizia que papel era importante e que não deveríamos desperdiçar, Clair respondia que casas também eram importantes. Eu não sabia como discordar. Aos poucos, algumas pessoas começaram a guardar folhas usadas para ela. Uma senhora trouxe um panfleto de instruções sanitárias com o verso em branco. Um rapaz entregou uma etiqueta rasgada de caixa de suprimentos. Um funcionário, fingindo não fazer aquilo, deixou um bloco de formulários inutilizados perto do nosso colchonete. Era assim que a generosidade sobrevivia ali dentro: disfarçada de descuido.
e eu nos aproximamos sem cerimônia.
Não houve um momento em que decidimos ser amigas. Foi mais parecido com dividir frio. Primeiro ela me avisou que a fila do banheiro feminino ficava menor depois da segunda distribuição de comida. Depois eu guardei o lugar dela enquanto levava Clair à área médica por causa de uma tosse que, no fim, era apenas ar seco. Depois ela me deu metade de um pacote de bolachas que havia conseguido com uma mulher da triagem. Depois eu comecei a esperar por elas nas refeições. Em três semanas, passou de desconhecida com uma criança no colo a uma das poucas coisas que meu olhar procurava automaticamente no salão. Tínhamos a mesma idade e ela era mãe solteira. O pai de Clair e ela se separaram dois depois do nascimento de Clair, ele morava em Nova Iorque.
Ela tinha um jeito prático de existir que me dava segurança. Não era otimista, o que eu apreciava. Pessoas otimistas demais, naquele lugar, me pareciam perigosas. não dizia que tudo ficaria bem. Ela dizia: coma agora, porque depois pode esfriar; vai ao banheiro antes da troca de turno; não deixa seu celular descarregar completamente. Ela transformava o medo em instruções pequenas, e eu a admirava por isso. Às vezes, quando Clair dormia, o rosto de desmoronava de uma vez. As sobrancelhas caíam, a boca perdia firmeza, os ombros pareciam menores. Eu fingia não notar, porque algumas formas de sofrimento precisam de privacidade mesmo em lugares sem paredes.
Sobre a infecção, sabíamos quase nada.
E quase nada era pior do que nada.
Nos alto-falantes, os comunicados continuavam usando palavras escolhidas com cuidado: situação sanitária, contenção, indivíduos sintomáticos, risco de exposição, medidas temporárias. Temporárias. Eles ainda insistiam nisso. A cada seis horas, alguém anunciava que as autoridades trabalhavam para controlar a disseminação e que todos deveriam permanecer calmos, hidratados e atentos a sintomas. Era uma sequência de verbos corretos e inúteis. Permanecer. Aguardar. Informar. Cooperar. Não havia números. Não havia mapas. Não havia notícias reais. Quando perguntavam diretamente se era seguro sair, os funcionários diziam que não tinham autorização para responder. Quando perguntavam se havia mortos lá fora, diziam que boatos prejudicavam a estabilidade do abrigo. Quando alguém usou a palavra zumbi pela primeira vez em voz alta, um soldado mandou que ele se afastasse da fila e parasse de causar pânico.
Mas palavras proibidas crescem mais rápido.
Zumbi começou como sussurro. Depois virou piada nervosa. Depois virou hipótese. Depois, em algum ponto das três semanas, virou uma coisa que todos pensavam e ninguém queria confirmar. Havia quem dissesse que os infectados ainda estavam vivos, só violentos. Havia quem dissesse que morriam e voltavam. Havia quem dissesse que não era morte, era febre cerebral, fungo, vírus, arma biológica, castigo divino, experimento militar, mentira política, histeria em massa. Cada pessoa escolhia a explicação que combinava melhor com seus medos anteriores. Os religiosos falavam em fim dos tempos. Os desconfiados falavam em governo. Eu não escolhi nenhuma explicação. Eu não tinha energia para teorias. Meu medo tinha nome próprio: pai, irmã, sobrinha, Brasil.
O sinal não voltou. Às vezes, os celulares captavam uma barra fraca perto das portas laterais, e isso bastava para criar tumulto. Pessoas corriam para o mesmo ponto, erguiam aparelhos no ar, gritavam mensagens de voz para telas congeladas, tentavam chamadas que não completavam. Eu fiz isso muitas vezes. Havia uma área perto de uma janela alta, bloqueada por grades, onde meu celular parecia acreditar por alguns segundos que ainda pertencia ao mundo. Uma barra aparecia. Meu coração reagia. Eu tentava enviar qualquer coisa. Estou viva. Estou em um abrigo. Me respondam. A barra sumia. A mensagem ficava presa. Depois falhava. Eu apagava e escrevia de novo, como se talvez uma frase diferente fosse mais leve e conseguisse atravessar.
me encontrou ali uma vez. Eu estava em pé, com o braço erguido e o celular inclinado em direção à janela, uma posição ridícula que, em qualquer outro contexto, me faria rir. Naquele, eu só sentia dor no ombro. Ele parou ao meu lado sem dizer nada. Vestia o mesmo moletom escuro dos primeiros dias, agora com a barra mais amarrotada, e segurava um copo de papel com alguma coisa quente. O cabelo dele estava bagunçado, e havia uma sombra mais profunda sob os olhos. A fama continuava existindo nele, de alguma forma, mas mais como um eco do que como presença. As pessoas ainda o reconheciam. Algumas olhavam demais. Outras cochichavam. Uma menina pediu uma foto no quinto dia, e ele aceitou com uma gentileza tão exausta que me deu vergonha por ela e pena dele. Depois disso, os funcionários começaram a desencorajar pedidos assim, dizendo que todos ali eram civis sob proteção, não atrações.
Civis sob proteção. Mais uma frase que fingia organizar o absurdo.
— Alguma sorte? — ele perguntou.
— Uma barra apareceu por sete segundos. Foi um relacionamento intenso, mas instável.
Ele sorriu, cansado.
— Sinto muito pelo término.
— Obrigada. Acho que vou superar.
Ele me ofereceu o copo.
— Chá.
— Você está me subornando com líquido de novo?
— Parece ser o único recurso que tenho.
Aceitei o copo com as duas mãos. O chá era fraco, quase água quente com memória de ervas, mas aquecia os dedos.
— Conseguiu falar com alguém? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Nada. Uma mensagem para minha irmã apareceu como enviada ontem, mas não recebi resposta. Não sei se foi mesmo.
— Talvez tenha ido.
— Talvez.
Essa palavra havia virado uma forma de caridade entre nós. Talvez. Talvez sua mensagem tenha ido. Talvez minha família esteja em algum abrigo. Talvez seja temporário. Talvez haja planos. Talvez os mortos não sejam mortos. Talvez amanhã. Talvez era uma mentira pequena o bastante para ser permitida. Como temporário foi nos primeiros dias.
Não conversávamos todos os dias, mas nos encontrávamos com frequência. Às vezes na fila da comida, às vezes perto dos pontos fracos de sinal, às vezes quando eu acompanhava Clair em suas caminhadas pequenas pelo salão para gastar energia. Ele sempre falava com ela de um jeito gentil, sem exagerar. Clair, que não sabia quem ele era e portanto não devia nada à história dele, decidiu que gostava dele porque ele sabia desenhar olhos melhores do que eu. Um dia, sentou-se no chão perto de nós e pediu que ele desenhasse uma pessoa dentro de uma das casas. Ele desenhou uma figura simples, quase infantil, mas colocou cílios longos, como se os olhos estivessem fechados. Clair olhou séria para o papel e disse:
— Essa pessoa está triste.
demorou um segundo.
— Talvez ela esteja só cansada.
— Minha mãe fica assim quando está triste.
, que estava sentada ao lado, fingiu organizar a mochila para esconder o rosto. Eu vi. também viu. Ele não tentou corrigir Clair. Apenas pegou a caneta e desenhou uma segunda pessoa ao lado da primeira.
— Agora ela não está sozinha — disse.
Clair aceitou aquilo como solução. Crianças têm uma fé perigosa na proximidade física. Para elas, colocar alguém ao lado de alguém no papel ainda resolve alguma coisa. Eu quis acreditar como ela.
A relação entre mim e era isso: proximidade no papel.
Não havia romance, embora eu não fosse hipócrita a ponto de negar que, às vezes, meu corpo se lembrava de quem ele era antes da minha cabeça autorizar. Quando ele aparecia ao meu lado na fila, quando ria baixo de alguma coisa, quando passava a mão pelo cabelo ou quando dizia meu nome, a adolescente escondida em mim batia na porta. Eu mandava que ela ficasse quieta. Não era hora. Ele não era uma fantasia disponível. Eu não era uma fã vivendo uma coincidência bonita. Nós éramos duas pessoas presas no mesmo abrigo, sem notícias de quem amavam, bebendo chá ralo e fingindo que conversar sobre qualquer coisa banal era o mesmo que descansar.
Ainda assim, havia conforto.
Ele me contou, em pedaços, sobre a filha. Não muitos detalhes, apenas o bastante para que se tornasse um nome real na minha cabeça. Disse que ela provavelmente estava com a mãe, em outro lugar, talvez em outro abrigo. Ao dizer “provavelmente”, a voz dele falhou quase nada. Mas eu ouvi. Havia palavras que carregavam pânico dentro. Provavelmente era uma delas.
Eu contei sobre minha irmã e minha sobrinha. Sobre como minha sobrinha gostava de pedir vídeo chamada e depois largava o celular virado para o teto enquanto brincava. Sobre meu pai fingir que não se emocionava quando eu mandava foto de comida, mas responder com áudios longos recomendando que eu me alimentasse melhor.
— Eles devem estar bem — disse uma vez.
Eu o encarei, não com raiva, mas com uma honestidade que talvez tenha sido agressiva.
— Você não sabe.
Ele assentiu devagar.
— Não. Não sei.
— Desculpa.
— Não precisa pedir desculpa por querer a verdade.
Essa frase ficou comigo. No Brasil as coisas são complicadas. Não temos abrigos preparados para surtos mundiais e, mesmo que tivéssemos, não seria bem-organizado; não temos estrutura. Eu não queria entrar em detalhes políticos, então decidi não continuar a conversa.
No abrigo, as pessoas começaram a mudar. Algumas para melhor, o que me comovia mais do que eu gostaria. Um senhor chamado Harold passou a consertar coisas pequenas sem que ninguém pedisse: uma dobradiça frouxa em uma divisória, a alça quebrada de uma mochila. Uma estudante de enfermagem organizou uma lista de pessoas com remédios de uso contínuo e tentou ajudar a equipe médica a evitar que alguém ficasse sem insulina, antidepressivo, anticonvulsivante. Duas adolescentes começaram a distrair as crianças contando histórias à noite, sentadas em círculo, usando lanternas apagadas como microfones imaginários. Havia bondade, sim. Mas a bondade ali não era luminosa. Era cansada, irritada, às vezes mal-humorada. Uma bondade que reclamava enquanto fazia. Talvez a mais verdadeira.
Outras pessoas pioraram.
O homem que havia discutido na entrada por causa do corte agora discutia por qualquer coisa. Por comida, por espaço, por barulho, por regras, por tosses alheias. Uma mulher empurrou outra na fila do banheiro no décimo segundo dia, e as duas acabaram chorando depois, não de arrependimento, mas de esgotamento. Um rapaz tentou roubar três barras de cereal da área de suprimentos e foi levado por soldados para uma sala lateral. Quando voltou, horas depois, estava pálido e silencioso. Ninguém perguntou o que aconteceu. Talvez por medo de saber, talvez por já sabermos o suficiente.
Os silenciosos eram os que mais me assustavam. Havia pessoas que simplesmente pararam de tentar. Não brigavam, não perguntavam, não choravam. Sentavam em seus colchonetes e olhavam para frente como se assistissem a uma televisão desligada. Uma delas era a mulher da cafeteria que eu reconheci no primeiro dia. Eu a via sempre perto de uma pilastra, com os fones no pescoço, mas nunca nos ouvidos. Talvez a bateria tivesse acabado. Talvez ela não quisesse desperdiçar música em um lugar daqueles. Uma manhã, passei por ela e pensei em perguntar se estava bem. Não perguntei. A omissão se tornou mais fácil com o tempo. Isso também me assustava.
O abrigo tinha regras, mas as regras mudavam.
No início, podíamos circular por quase todos os corredores. Depois algumas áreas foram bloqueadas. Primeiro disseram que era para organização de suprimentos. Depois, para controle sanitário. Depois não disseram mais nada. A entrada da área médica ganhou mais soldados. Os dormitórios foram divididos em setores, e algumas pessoas foram transferidas sem explicação. À noite, ouvíamos portas metálicas sendo abertas e fechadas em partes do prédio que eu nunca tinha visto. Às vezes havia gritos. Não muitos. O suficiente.
Quando alguém perguntava, os funcionários diziam que eram crises de ansiedade, discussões, febres isoladas.
Febres isoladas. Essa expressão passou a circular entre nós com um terror particular. Febre já não era apenas febre. Vi uma mãe colocar a mão na testa do filho e empalidecer antes de perceber que ele estava apenas quente por causa do cobertor. Vi um homem negar estar suando enquanto a camiseta colava nas costas. Vi acordar no meio da noite e tocar a testa de Clair com tanta delicadeza que parecia pedir desculpas por desconfiar do corpo da própria filha.
Eu também verificava minha temperatura com a palma da mão quando ninguém olhava.
As refeições vinham em horários fixos, ou quase. Mingau, sopa, arroz mole com legumes enlatados, barras de cereal, maçãs quando havia sorte. A comida não era pouca o bastante para provocar revolta, nem suficiente o bastante para trazer conforto. Era comida de manutenção. Comíamos porque corpos vivos exigem tarefas. Mastigar virou uma delas. Clair reclamava de quase tudo, depois comia. guardava metade do que podia para a filha. Eu fingia não perceber quando ela fazia isso e, às vezes, deixava parte da minha porção perto delas com alguma desculpa ruim. fazia o mesmo comigo, de formas igualmente ruins. Um pacote de bolachas “encontrado”. Uma maçã “a mais”. Um copo de chá que ele “não queria terminar”.
— Você sabe que eu percebo, né? — falei uma vez.
Ele estava sentado no chão ao meu lado, encostado na parede, com os joelhos dobrados. Tinha acabado de deixar uma barra de cereal sobre minha mochila como se ela tivesse se materializado ali.
— Percebe o quê?
— Você é péssimo em fingir que não está me dando comida.
— E você é péssima em aceitar ajuda.
— Eu aceito ajuda.
— Você aceita água pela metade sob circunstâncias extremas.
— É uma categoria válida de ajuda.
Ele sorriu, e eu também. Um sorriso que, em outro mundo, poderia crescer. Naquele, ficava ali, contido entre a parede fria e a preocupação.
Às vezes, conversávamos sobre coisas que não importavam porque exatamente por isso importavam. Ele me perguntou qual era a pior comida que eu havia provado nos Estados Unidos. Eu disse que não confiava em nenhum pão doce que parecia salgado e nenhum salgado que parecia doce. Ele riu. Perguntei se ele sentia falta de comida britânica, e ele disse que sentia falta de comida feita por alguém que sabia o que ele gostava sem perguntar. Entendi o que queria dizer. Comida, no fundo, era uma forma de ser conhecido.
Também falamos sobre música, mas pouco. Eu evitava, por medo de soar como a menina que ainda morava em mim. Ele percebeu, eu acho. Um dia, perguntou diretamente:
— Você conhecia meu trabalho antes disso tudo?
A pergunta me pegou enquanto eu ajudava Clair a pintar uma pilha de casas desenhadas. levantou os olhos, interessada demais.
— Eu... sim. — respondi sem tirar os olhos do desenho. girava um lápis na mão.
— Sim como?
— Como uma pessoa normal que viveu na Terra entre 2011 e 2015.
soltou uma risada. estreitou os olhos, divertido.
— Isso foi uma resposta evasiva.
— Foi suficiente. Considerando que estamos em um abrigo e que eu gostaria de manter alguma reputação. — Disse, ainda sem encará-lo.
Ele riu, mas não insistiu. Fiquei grata. Uma parte de mim queria contar que havia sido fã, que sabia músicas demais, que provavelmente ainda saberia cantar versos inteiros se o mundo exigisse de mim esse tipo específico de sobrevivência. Outra parte queria preservar a imagem adulta que eu tinha conseguido construir a duras penas ali dentro: , vinte e seis anos, brasileira, sozinha, tentando não desmoronar. Não , quinze anos, assistindo entrevistas escondida de madrugada.
Era estranho gostar da companhia dele sem poder esquecer o peso do nome dele.
Mais estranho ainda era perceber que, aos poucos, o nome importava menos. Não desaparecia, mas se deslocava. deixou de ser apenas e começou a ser o homem que dividiu água sem encostar a boca na garrafa. O homem que desenhou uma pessoa ao lado da outra para Clair. O homem que dizia “talvez” como quem oferecia um cobertor pequeno. O homem que, como eu, olhava para o celular sem sinal com uma expressão de ódio silencioso e esperança humilhada.
Na terceira semana, os boatos pioraram. Alguém disse que um dos abrigos do norte havia sido evacuado. Alguém disse que não, que havia sido contaminado. Alguém disse que o exército tinha bombardeado uma parte da cidade. Alguém disse que os infectados corriam. Alguém disse que não corriam, mas não paravam. Alguém disse que a mordida matava em horas. Alguém disse que havia pessoas infectadas sem mordida nenhuma. A cada versão, o abrigo mudava de temperatura. As filas ficavam mais tensas. As pessoas dormiam mais próximas de suas bolsas. Discussões surgiam por espaço, por cobertor, por olhar.
Vi um homem ser empurrado contra a parede porque tossiu na fila da comida. Ele tentou explicar que engasgou com saliva. Ninguém queria ouvir. Um soldado interveio antes que virasse algo pior, mas a vergonha no rosto do homem ficou lá mesmo depois que todos fingiram retomar suas posições. Naquele dia, entendi que a infecção não precisava entrar no abrigo para começar a nos modificar. A suspeita já fazia parte do trabalho.
À noite, me perguntou se eu achava que sairíamos dali.
Clair dormia entre nós, enrolada no cobertor cinza. Eu estava deitada de lado, olhando para as luzes altas do salão. Havia manchas no teto, pequenas infiltrações antigas, e eu vinha tentando transformá-las em formas reconhecíveis. Uma parecia um pássaro. Outra parecia o mapa do Brasil, mas talvez fosse só saudade.
— Acho — respondi.
— De verdade?
Demorei.
— Não sei. Mas acho que precisamos achar.
Ela assentiu, embora eu não estivesse olhando para ela.
— A Clair perguntou hoje quando a gente volta para casa.
Fechei os olhos.
— O que você disse?
— Que logo.
A palavra ficou entre nós.
Logo era irmã de talvez.
Virei o rosto. olhava para a filha com uma expressão que eu não soube suportar por muito tempo. Era amor e culpa. Como se ela já se responsabilizasse por tudo que pudesse acontecer a Clair dali em diante. Talvez mães vivam assim o tempo todo, pensei. Talvez o apocalipse só deixasse isso mais explícito.
— Você vai levar ela para casa — eu disse.
engoliu em seco.
— Não promete coisa que você não controla.
Sorri, triste.
— Então retiro dez por cento da promessa.
Ela soltou uma risada quase inaudível. Clair se mexeu no sono, e nós duas ficamos imóveis até ela se acomodar novamente.
Depois disso, não consegui dormir.
Pensei na minha família. Pensei em como, em três semanas, a imagem deles começava a ficar perigosa. Não menos nítida, mas mais dolorida. Meu pai na cozinha, minha irmã rindo, meu irmão respondendo mensagens com poucas palavras, minha sobrinha perguntando quando eu voltaria. Eu tinha medo de esquecer detalhes pequenos. O som exato da voz deles. O cheiro da casa. A forma como minha irmã dizia meu nome quando estava impaciente. A memória, quando vira a única forma de contato, se torna um lugar sagrado e torturante. Você quer entrar e não quer sair; quer ficar longe porque dói; volta porque é tudo que resta.
No dia seguinte, me encontrou perto das divisórias, onde Clair desenhava uma fileira de casas grudadas umas nas outras.
— Condomínio? — ele perguntou, apontando para o papel.
Clair franziu a testa.
— É uma rua.
— Desculpa. Rua.
— Você não entende de casas.
— Claramente não.
Ela voltou a desenhar, satisfeita por tê-lo colocado em seu lugar.
sentou-se ao meu lado, a uma distância que já havia se tornado habitual. Não perto demais. Não longe. O suficiente para que eu sentisse sua presença sem precisar reagir a ela.
— Ouvi que vão dar um comunicado grande hoje — ele disse.
— Quem disse?
— Um cara que ouviu de uma mulher que ouviu de um funcionário que talvez tenha inventado tudo.
— Fonte confiável.
— Muito.
Olhei para ele. Ele parecia mais pálido naquele dia, ou talvez fosse a luz ruim.
— Você está bem?
Ele passou a mão pela nuca.
— Dormi pouco.
— Por causa dos boatos?
— Por causa de tudo.
Assenti. Tudo era uma resposta completa.
— Sonhei que meu celular tocava — eu disse.
Ele virou o rosto para mim.
— Eu também.
— Sério?
— Acordei procurando no bolso.
— O meu era minha irmã.
— O meu tinha notícias da .
Ficamos em silêncio. Clair cantarolava alguma música inventada enquanto desenhava janelas. Em algum lugar, uma discussão começava e terminava rápido. Um bebê chorou. Um rádio chiou.
— Você acha que existe um ponto em que a gente para de esperar? — perguntei.
olhou para frente.
— Não sei.
— Eu tenho medo disso. — disse.
— De parar?
— De achar normal.
Ele não respondeu de imediato. Depois disse:
— Acho que achar normal é uma forma de continuar vivo.
— Isso é triste.
— É.
— Mas talvez seja verdade.
Ele pegou a caneta que Clair havia deixado cair perto do meu pé e entregou para a menina. Ela agradeceu sem olhar. A naturalidade desse gesto me comoveu de novo. Era perigoso como a companhia de alguém podia começar a se enraizar em situações pequenas.
O dia seguiu com sua crueldade mansa.
Fila para água. Fila para comida. Fila para banheiro. Uma mulher chorando perto da área médica. Um funcionário trocando papéis de aviso na parede. Rumores de que as portas seriam abertas em breve. Rumores de que ninguém sairia por tempo indeterminado. Rumores de que os abrigos eram seguros. Rumores de que os abrigos eram armadilhas. Vi tentar convencer Clair a comer sopa. Vi ajudar um senhor a carregar um colchão mais para perto da parede. Vi a influencer local sentada sem maquiagem, olhando para as próprias mãos como se não soubesse o que fazer com elas sem um celular apontado para o rosto.
Ao fim da tarde — se é que ainda era tarde; ali dentro a luz não sabia envelhecer — comecei a sentir uma inquietação diferente no abrigo.
Não era barulho. Barulho sempre havia. Era mais como uma falha no ritmo. Funcionários andando rápido demais. Soldados falando baixo entre si. Uma porta lateral abrindo e fechando repetidas vezes. A área médica recebendo mais movimento do que o comum. Algumas pessoas perceberam também. Outras não. O confinamento nos ensinou a detectar mudanças mínimas, como animais em cativeiro reconhecendo o passo do tratador antes da comida.
estava tentando fazer Clair dormir um pouco. A menina reclamava que não estava cansada, embora esfregasse os olhos com os punhos fechados.
— Vou buscar água antes da fila piorar — eu disse.
assentiu.
— Se tiver fruta, pega para a Clair?
— Deixa comigo.
Levantei, ajeitei o cobertor dobrado sobre o colchonete e procurei meu celular por hábito. A tela acendeu. Sem sinal. Bateria em doze por cento. Guardei de novo.
No caminho até a área de distribuição, vi perto de uma pilastra, conversando com um funcionário. Não consegui ouvir o que diziam, mas ele parecia sério. Quando me viu, fez um pequeno gesto com a cabeça, como quem diz “depois”, Respondi da mesma forma. Depois. Outra palavra pequena demais.
Eu estava a poucos metros da fila quando o primeiro aviso começou. Foi um som brusco, alto, que cortou o abrigo inteiro. Todas as conversas diminuíram no mesmo instante, como se alguém tivesse colocado uma mão invisível sobre a boca da multidão.
Um alarme.
Depois a voz.
— Atenção. Pedimos que todos mantenham a calma. Permaneçam em suas áreas designadas. A equipe de segurança está conduzindo uma verificação interna. Repito: mantenham a calma e permaneçam em suas áreas designadas.
As luzes piscaram uma vez.
Duas.
Então ficaram vermelhas.
O abrigo inteiro mudou de cor.
Foi impressionante como a luz vermelha tornou tudo imediatamente pior. Os rostos pareceram mais fundos, os olhos mais assustados, as sombras mais compridas. O chão, as paredes, os cobertores cinza, as pulseiras brancas, as mãos segurando crianças — tudo foi coberto por aquela tonalidade de emergência que o corpo entende antes da razão. Ninguém precisava explicar. Luzes vermelhas não pertencem a situações controladas.
Ouvi alguém perguntar o que estava acontecendo.
Ouvi outra pessoa começar a chorar.
Ouvi um soldado gritar para que todos voltassem aos seus lugares.
E, no mesmo segundo, pensei em .
Pensei em Clair.
Pensei na área médica, nas portas bloqueadas, nas febres isoladas, nas mordidas perguntadas na triagem, nos corredores restritos, nos gritos noturnos que fingimos não escutar.
Meu corpo ficou frio.
O aviso se repetiu acima de nós, cada palavra mais inútil que a anterior:
— Mantenham a calma. Permaneçam em suas áreas designadas.
Eu não permaneci.
Capítulo 5 - Luz vermelha
Indicação de música para esse capítulo: Young and Beautiful – Lana Del Rey.
Na hora, meu pensamento não tinha beleza nenhuma. Era uma sequência bruta e inútil de comandos quebrados: . Clair. Dormitórios. Corre. Não corre. Olha em volta. Não chama atenção. Respira. Não respira tanto. O corpo costuma ser mais inteligente que a mente em situações assim, mas também é mais desesperado. Enquanto a voz nos alto-falantes insistia para que todos permanecessem em suas áreas designadas, minhas pernas já tinham decidido o contrário.
Pessoas sentadas ergueram o rosto ao mesmo tempo. Quem estava deitado se apoiou nos cotovelos. Crianças pararam de reclamar. Funcionários se entreolharam com uma urgência que tentaram esconder tarde demais. O alarme continuava tocando por baixo do comunicado, um som repetitivo, metálico, sem emoção, feito para manter o pânico sob uma camada de instrução. Não funcionava. Talvez nunca tivesse funcionado. O pânico não precisa de permissão para se espalhar; ele só precisa de uma cor.
E agora tudo era vermelho.
Os cobertores, as paredes, as pulseiras nos pulsos, as mãos erguidas, os rostos. Até a pele das pessoas parecia errada. O senhor que consertava mochilas perto da pilastra tinha o rosto manchado por aquela luz, e por alguns segundos parecia sangrar sem sangue. Uma criança começou a chorar, depois outra. Um homem perguntou alto se era simulação, mas ninguém respondeu. A palavra simulação morreu no ar como uma coisa infantil demais. Ninguém acende luzes vermelhas depois de três semanas de confinamento para testar obediência.
A voz voltou:
— Atenção. Pedimos que todos mantenham a calma. Permaneçam em suas áreas designadas. A equipe de segurança está conduzindo uma verificação interna.
Verificação interna.
Era assim que chamavam, então. Verificação interna. Eu quase ri, e talvez fosse histeria. Havia algo obsceno em como as palavras oficiais continuavam tentando vestir o horror com roupa limpa. Verificação interna parecia coisa de prédio comercial, de auditoria, de manutenção elétrica. Não parecia o som que vinha de algum corredor distante: primeiro um grito humano, curto e agudo; depois uma sequência de vozes sobrepostas; depois um ruído mais baixo, mais grosso, algo que eu não consegui reconhecer e que, por isso mesmo, reconheci.
Eu não sabia o que era. Mas sabia o que não era. Não era uma pessoa brigando por comida. Não era uma criança assustada. Não era uma crise de ansiedade, nem uma febre isolada, nem um funcionário derrubando caixas de suprimentos. Era um som de garganta sem linguagem. Um som que passava pelo corpo antes de chegar ao ouvido. Senti minha nuca arrepiar. O medo, quando encontra algo que não sabe nomear, ocupa todos os nomes disponíveis.
.
Olhei para o colchonete onde elas deveriam estar.
Não estavam.
A ausência delas foi uma pancada mais forte que o alarme. O cobertor cinza estava embolado no chão, a mochila de unicórnio de Clair aberta, algumas folhas espalhadas ao lado. Uma casa desenhada pela metade aparecia no papel mais próximo: telhado triangular, duas janelas, nenhuma porta ainda. O lápis — na verdade minha caneta preta — estava jogado perto da folha, sem tampa. Aquilo me feriu de uma forma absurda. Uma criança interrompida no meio de uma casa parecia uma profecia cruel demais.
Passei pelo nosso espaço e peguei a mochila de Clair sem pensar. Depois percebi que não fazia sentido carregá-la. Continuei carregando mesmo assim.
— ? — chamei.
Minha voz desapareceu no barulho.
Havia pessoas levantando, pessoas sentando de volta porque soldados mandavam, pessoas tentando juntar bolsas, pessoas perguntando se podiam ir ao banheiro, se podiam buscar filhos, se podiam sair, se podiam fazer qualquer coisa além de esperar. A resposta era sempre a mesma, vinda de bocas diferentes: permaneçam onde estão. Permaneçam. Permaneçam. Eu comecei a odiar essa palavra.
Andei primeiro, depois comecei a andar rápido. O espaço não permitia correr. Eu me esgueirava entre colchonetes, desviava de pernas, de bolsas, de crianças agarradas a adultos. Uma mulher segurou meu braço por engano, achando talvez que eu fosse alguém dela, e quando percebeu que não era, me soltou com um pedido de desculpas quase inaudível. Um homem carregava um cobertor cheio de latas, como se já tivesse entendido que, quando as regras quebram, quem segura comida segura chance. Uma adolescente tentava acalmar um menino pequeno dizendo que era só falta de energia. Mas as luzes não tinham faltado. Tinham mudado de intenção.
— Você viu a ? — perguntei à senhora que guardava papéis para Clair.
Ela me encarou sem entender.
— A . Com uma menina pequena. Clair.
O reconhecimento veio devagar, prejudicado pelo medo.
— Acho que foram para os banheiros. Ou... não sei. Talvez para os dormitórios. A menina estava com sono.
Dormitórios.
Meu estômago afundou.
Os dormitórios ficavam em uma ala lateral, parcialmente separada do salão principal. Nas últimas semanas, as regras para circular ali tinham ficado mais rígidas. Algumas famílias com crianças pequenas recebiam permissão para usar áreas menos iluminadas durante certos períodos, em teoria para descansarem melhor. tinha conseguido algumas vezes porque Clair passou a acordar assustada à noite e chorar quando as luzes não diminuíam. Eu deveria ter ido com elas. Esse pensamento veio pronto, imediato, injusto e inevitável. Eu deveria ter ficado. Eu deveria ter perguntado. Eu deveria ter visto. O medo adora transformar o desconhecido em culpa.
Segui em direção ao corredor dos dormitórios. Perto da área de distribuição, a fila da água havia se desfeito completamente. Garrafas caídas rolavam pelo chão, algumas cheias, algumas vazias, uma delas estourada sob o pé de alguém. Água escorria em uma pequena poça brilhante, tingida de vermelho pela luz. Vi aquilo e pensei na primeira garrafa dividida com . Pensei em como, três semanas antes, metade de uma garrafa parecia uma intimidade estranha. Agora uma garrafa inteira no chão não era nada. O valor das coisas mudava rápido demais para que a mente acompanhasse.
— Voltem para suas áreas! — um soldado gritou. — Agora!
Ninguém obedecia completamente. Obedecer exige confiança, e a confiança já estava rachando havia dias. As pessoas ainda hesitavam, mas não retornavam aos colchonetes com a mesma docilidade de antes. Um homem exigia ver a esposa. Uma mãe gritava pelo filho. Um funcionário tentava explicar que a verificação era temporária, palavra que já não convencia ninguém. Aparentemente, haviam deixado um contaminado entrar. Mas por que só agora isso virou caos? Estavam tentando esconder a pessoa e outras se infectaram no processo, é minha teoria.
Vi dois soldados correndo em direção oposta à minha, armas apontadas para baixo, passos pesados. Um deles esbarrou no meu ombro e nem olhou para trás.
A mochila de Clair batia na minha perna.
— ! — chamei de novo.
Nada.
Em alguns momentos, minha visão ficava estreita. Eu via apenas pedaços: uma mão tremendo ao segurar uma pulseira branca; a sola suja de um tênis infantil; o rosto de uma mulher colado ao peito de alguém; um funcionário deixando cair uma prancheta; o código impresso no meu próprio pulso; a palavra deformada pela luz vermelha. Meu corpo estava quente e frio ao mesmo tempo. A palma das mãos pinicava. A garganta fechava. Eu queria chorar, mas não havia espaço para choro. O pânico, quando precisa agir, fica seco.
Na entrada do corredor lateral, duas pessoas discutiam com um funcionário. Passei por elas tentando não chamar atenção, mas ele colocou o braço na minha frente.
— Senhorita, você precisa voltar para a área designada.
— Minha amiga está lá dentro.
— Ninguém pode entrar agora.
— Ela está com uma criança.
— A equipe está verificando todos os setores.
— Eu preciso encontrar uma menina de cinco anos.
Ele hesitou. Foi pouco, mas vi. Talvez porque cinco anos ainda fosse uma medida de horror até para quem recebia ordens. Antes que pudesse responder, um grito veio do corredor. Não de perto. De dentro. Um grito que começou humano e terminou cortado. O funcionário virou o rosto. O braço dele abaixou um pouco. Eu aproveitei.
Passei. Ele me chamou, mas não me seguiu. Talvez não pudesse abandonar o posto. Talvez também estivesse com medo de olhar de perto.
O corredor era mais estreito e mais escuro, apesar da luz vermelha. As paredes, antes bege, agora pareciam cobertas por uma sombra de sangue. Havia portas dos dois lados, algumas fechadas, outras entreabertas. Em uma delas, vi cobertores empilhados. Em outra, camas dobráveis. Mais adiante, uma cadeira caída bloqueava parte do caminho. O som do alarme ficava diferente ali, ecoando, mais metálico, como se o prédio tivesse ossos.
Parei por um segundo. A vontade de voltar veio com força. É importante dizer isso. Coragem, se é que existe, nem sempre aparece como impulso bonito. Às vezes, ela vem depois de uma vontade muito clara de fazer o contrário. Eu quis voltar. Quis ir para meu colchonete, sentar com a mochila no colo, fechar os olhos e esperar que alguém autorizado resolvesse aquilo. Quis ser obediente. Quis ser pequena o bastante para não ter responsabilidade sobre ninguém. Mas então olhei para a mochila de unicórnio na minha mão e pensei na casa sem porta.
Continuei.
— ? — sussurrei, porque agora gritar parecia perigoso.
Um homem surgiu de uma porta à esquerda, cambaleando. Meu corpo travou. Ele não estava infectado — ou pelo menos não parecia. Tinha sangue na testa e segurava o braço contra o peito.
— Não vai por aí — disse.
— Você viu uma mulher com uma criança?
Ele piscou, tentando me focar.
— Tem gente presa... os soldados fecharam... não sei.
— Onde?
Ele apontou para o fim do corredor, ou talvez para lugar nenhum. O sangue escorria pela lateral do rosto e pingava no colarinho. Eu não queria saber o que tinha acontecido. Queria achar e dar o fora dali o mais rápido possível.
— Tem alguma coisa errada com eles.
Eles.
A palavra me atravessou.
— Eles quem?
O homem abriu a boca, mas um barulho veio de trás dele. Um arranhado contra metal. Um impacto. Depois outro. Ele empalideceu e saiu andando rápido, quase tropeçando em mim.
Eu fiquei.
É estranho como a mente procura explicações mesmo quando o corpo já sabe. Talvez alguém estivesse preso em uma sala. Talvez estivessem batendo para sair. Talvez fosse uma pessoa em crise. Talvez fosse a febre. Talvez fosse a infecção. Talvez.
Alguém tocou meu pulso.
Virei tão rápido que quase bati nele.
.
Ele estava com o cabelo amassado de sono, o rosto confuso e os olhos mais abertos do que o normal. Vestia uma camiseta escura e o moletom jogado por cima de um ombro, como se tivesse levantado às pressas. A luz vermelha fazia o rosto dele parecer mais pálido, os cílios ainda mais escuros. E foi absurdo, completamente absurdo, que uma parte de mim registrasse isso: ele estava lindo. Lindo de um jeito cansado, assustado, humano. Lindo como sempre, pensei, e imediatamente me odiei.
Não era hora para isso.
Nunca seria hora para isso.
— O que está acontecendo? — ele perguntou.
A mão dele ainda segurava meu pulso, não com força, mas com presença suficiente para me ancorar por um segundo. Olhei para os dedos dele, depois para o rosto.
— Eu não sei.
— .
Ele disse meu nome como quem pedia a verdade, não calma.
Respirei fundo. O ar parecia quente demais.
— Tem doentes aqui dentro.
não perguntou do que eu estava falando. Isso me assustou mais do que se tivesse perguntado.
— Você viu algum?
— Não. Mas o alarme, os soldados, os gritos... — Olhei para o corredor atrás de mim. — e Clair não estão no nosso setor. Acho que podem estar nos dormitórios.
A expressão dele mudou. Algo endureceu e amoleceu ao mesmo tempo. Talvez ele tenha pensado na própria filha. Talvez eu só tenha imaginado porque, desde que ele me contou sobre , eu via o nome dela em qualquer preocupação dele com uma criança.
— Tá. Vamos procurar.
Foi simples. Sem heroísmo. Sem discurso. Ele apenas soltou meu pulso, ajeitou o moletom no corpo e olhou para o fim do corredor. Aquilo me comoveu por meio segundo, e meio segundo era mais do que eu podia gastar.
Seguimos juntos.
O corredor se estreitava mais adiante, formando uma espécie de acesso para a ala dos dormitórios. No caminho, passamos por uma mulher sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos, murmurando alguma coisa que não entendi. se abaixou rapidamente.
— Você está machucada?
Ela balançou a cabeça, sem olhar para ele.
— Tem alguém com você?
Nada.
Ele olhou para mim, dividido. Eu sabia o que aquele olhar dizia: não podemos ajudar todo mundo. O horror do abrigo era esse. Ele nos obrigava a escolher antes de nos dar tempo para sermos bons. deixou um cobertor caído perto dela, embora isso não resolvesse nada, e continuamos.
Mais perto dos dormitórios, os sons ficaram piores.
Não mais altos o tempo todo, mas mais claros. Gritos. Passos correndo. Um impacto contra alguma superfície metálica. Vozes de soldados dando ordens. E, por baixo, aquele som de garganta novamente. Úmido. Irregular. Sem palavra. Senti minhas pernas perderem firmeza.
— ! — chamei, esquecendo o cuidado.
segurou meu braço.
— Baixo.
— Ela pode estar lá.
— Eu sei. Mas se tem alguém infectado...
— Eu sei.
Não sabíamos de fato, mas sabíamos o bastante.
A entrada da ala estava bloqueada por três soldados. Dois mantinham armas erguidas; o terceiro discutia com um grupo de pessoas que tentava passar. Havia uma fita plástica amarela atravessando o acesso, ridícula diante das armas, ridícula diante dos gritos, ridícula como uma linha desenhada por alguém que ainda acreditava em separações simples. Atrás deles, o corredor fazia uma curva. Não dava para ver tudo, mas dava para ver movimento: sombras atravessando a luz vermelha, alguém sendo puxado, uma maca batendo na parede, um corpo no chão ou talvez apenas uma pilha de cobertores — não consegui distinguir.
— Eu preciso entrar — disse a um dos soldados.
Ele nem olhou para mim.
— Voltem para o salão principal.
— Minha amiga está lá dentro. Ela está com uma criança.
— Voltem para o salão principal.
— Você não está ouvindo? Uma menina de cinco anos pode estar lá.
Dessa vez, ele olhou. O rosto dele estava suado. Havia uma gota descendo da têmpora até a mandíbula. Ele era mais velho que o soldado da entrada, mas naquele momento parecia igualmente jovem.
— Ninguém entra.
— Então vocês tiram ela de lá.
— Senhora, afaste-se.
Senhora. A palavra me deu uma raiva desproporcional. Eu queria dizer que não era senhora, que meu nome era , que Clair desenhava casas, que não podia perder a filha dentro de um corredor enquanto um homem com arma me chamava de senhora. Mas nada disso sairia útil.
deu um passo à frente.
— Há famílias lá dentro?
O soldado reconheceu ele. Vi o reconhecimento passar pelo rosto, rápido, inconveniente. Em outro contexto, talvez importasse. Ali, durou menos que uma piscada.
— Não posso passar informações.
— Só diz se tem crianças.
— Afaste-se.
Um grito interrompeu tudo.
Veio de dentro da ala. Um grito masculino, desesperado, seguido por um barulho que não consigo escrever sem mentir. Não era apenas dor. Dor humana tem variações que reconhecemos. Aquilo tinha dor, sim, mas também tinha rasgo, impacto, uma espécie de engasgo molhado. Uma mulher ao meu lado começou a rezar em voz alta. Alguém atrás de nós vomitou. Os soldados se viraram para dentro ao mesmo tempo.
Por uma abertura breve entre dois deles, eu vi.
Não tudo. Talvez minha memória tenha completado depois. Talvez tenha inventado partes para tornar a imagem compreensível. Mas vi uma figura se mover de maneira errada no fim do corredor. Não era como nos filmes, pensei, e esse pensamento foi absurdo. Não havia teatralidade. Havia um corpo humano usando mal o próprio corpo. Ombros tortos, cabeça inclinada, braços tensos, movimento rápido demais para alguém ferido e descoordenado demais para alguém saudável. Um funcionário tentou segurá-lo. Caiu. A figura desceu com ele.
Fechei os olhos com força.
Foi uma reação infantil. Se eu não visse, talvez não acontecesse. Se eu fechasse os olhos, talvez voltasse ao parque, ao café ruim, ao copo de papel esquecido no banco. Talvez minha irmã atendesse o telefone. Talvez estivesse no colchonete, Clair desenhando a porta da casa. Talvez o mundo tivesse apenas tropeçado e ainda pudesse se levantar.
Quando abri os olhos, estava olhando para mim. Finalmente senti suas mãos segurando firme meus braços. O rosto dele havia mudado. Não era mais sono, nem confusão. Era entendimento. Um entendimento horrível, sem detalhes, mas suficiente.
— — ele disse.
Minha mão apertava a mochila de Clair com tanta força que os dedos doíam.
— Ela está lá.
— A gente não sabe.
— Ela está lá, .
Ele não respondeu. Porque não podia prometer. Porque tinha aprendido, talvez antes de mim, que promessas naquele lugar quebravam rápido demais.
Atrás dos soldados, houve outro disparo.
O som da arma dentro do corredor foi ensurdecedor. As pessoas gritaram e recuaram. Um soldado começou a empurrar o grupo para trás, mandando todos retornarem ao salão. Alguém caiu, alguém pisou em alguma coisa, uma criança chamava pela mãe. A fita amarela arrebentou de um lado e ficou pendurada, inútil.
Eu dei um passo para frente.
me segurou pela cintura dessa vez, puxando-me para trás antes que eu atravessasse o bloqueio por impulso.
— Me solta.
— Não.
— , me solta.
— Você não vai entrar aí.
— Ela está com a Clair!
— E você vai morrer antes de chegar nelas.
A frase me atingiu como uma bofetada. Talvez por ser cruel. Talvez por ser verdadeira. Empurrei o braço dele, mas ele não soltou de imediato.
— Você não sabe disso.
— Eu sei o suficiente.
— Ela me ajudou.
— Eu sei.
— Eu não posso deixar ela.
A voz falhou na última palavra. Deixar. Eu não sabia se falava de , de Clair, da minha família no Brasil, de mim mesma. O abrigo inteiro parecia construído sobre pessoas deixando outras pessoas sem escolha.
soltou minha cintura devagar, mas ficou entre mim e o corredor.
— A gente precisa pensar.
— Não tem tempo.
— Exatamente.
O alarme continuava. O comunicado se repetia, agora quase inaudível sob o barulho da multidão. Mantenham a calma. Permaneçam em suas áreas designadas. Ninguém permanecia. O pânico havia enfim encontrado forma. Pessoas corriam em direção ao salão principal, outras tentavam ir para as saídas, outras gritavam por nomes. Os soldados bloqueavam a ala dos dormitórios, mas não pareciam controlar mais nada. Um funcionário atravessou o corredor com o rosto pálido e as mãos cobertas de sangue. Não parou. Não explicou. Apenas passou por nós como se tivesse esquecido como olhar para outros seres humanos.
Foi então que ouvi um som atrás de nós. Virei o rosto. Uma movimentação estranha perto da área de suprimentos. Pessoas recuando. Uma mesa virando. Alguém gritando para fechar uma porta. Outro som de garganta, mais distante, mas igual. O frio que subiu pela minha espinha foi quase limpo, quase organizado. Não era apenas nos dormitórios. viu também.
Por alguns segundos, ficamos parados no meio do corredor, entre dois horrores: e Clair possivelmente presas adiante; o salão principal começando a se romper atrás. Meu cérebro tentou escolher e falhou. Toda direção parecia traição.
Um soldado gritou que o corredor seria isolado.
Outro disparo.
Depois as luzes piscaram, e a vermelhidão pareceu mais escura.
Olhei para . Ele estava perto o bastante para que eu visse a respiração dele acelerada, o maxilar tenso, os olhos procurando saída. Não era o ídolo adolescente. Não era o homem que dividiu água comigo. Era alguém vivo tentando continuar vivo, e talvez isso fosse mais íntimo do que qualquer outra coisa.
Pensei em . Pensei em Clair. Pensei na casa sem porta.
Pensei no meu pai, na minha irmã, na minha sobrinha. Pensei que eu não tinha conseguido alcançá-los, e que talvez morrer ali, em um abrigo estrangeiro, significasse virar mais uma mensagem que nunca seria entregue. Pensei que a culpa podia esperar, mas os dentes — de quem quer que estivesse fazendo aqueles sons — não esperariam.
Peguei o braço de .
A frase saiu baixa, mas firme. Talvez a primeira coisa firme que eu disse desde que as luzes ficaram vermelhas.
— A gente precisa sair daqui.
Capítulo 6 - A primeira saída
Indicação de música para esse capítulo: Can’t Catch Me Now – Olivia Rodrigo.
Eu sempre imaginei que, se um dia precisasse fugir de algum lugar, meu corpo saberia como fazer.
Não saberia.
Essa foi uma das primeiras descobertas daquela noite: o instinto de sobrevivência não nos transforma em pessoas ágeis, inteligentes e decididas. Pelo menos não de imediato. Antes disso, ele nos torna desorganizados. Eu queria correr e, ao mesmo tempo, voltar. Queria procurar e Clair, mas também queria me afastar dos sons que vinham dos dormitórios. Queria obedecer aos soldados, mas eles pareciam tão perdidos quanto nós. Queria perguntar a o que deveríamos fazer, mas ele também olhava ao redor como quem tentava montar um mapa dentro de um prédio que havia mudado de forma em poucos minutos.
O abrigo, que durante três semanas tinha sido insuportável justamente por sua rotina, desmoronou com uma rapidez ofensiva.
As filas deixaram de existir primeiro. Não as pessoas, apenas a lógica delas. O que antes era uma sequência de corpos esperando comida, água, banheiro ou informação se transformou em um acúmulo de gente sem direção única. Alguns tentavam chegar à saída principal. Outros voltavam para buscar bolsas, remédios, filhos, pais, documentos. Havia quem se ajoelhasse no chão para catar objetos caídos, como se ainda houvesse tempo para escolher o que levar. Uma mulher tentava fechar uma mala pequena enquanto gritava o nome de alguém. Um homem segurava três garrafas de água contra o peito como se segurasse um bebê. Crianças choravam em sons diferentes: algumas com raiva, algumas com medo, outras apenas porque o choro dos adultos as autorizava.
O alarme continuava. Depois de um tempo, ele deixou de parecer som e virou uma parte do corpo. Vibrava atrás dos dentes, nas têmporas, na garganta. A voz dos alto-falantes ainda pedia calma, mas já não havia ninguém dentro da palavra calma. Era uma casca vazia sendo repetida para um salão que não acreditava mais nela.
— A saída principal — disse.
Eu ainda segurava a mochila de Clair.
A alça rosa estava enrolada nos meus dedos, apertada demais. Só percebi quando ele olhou para a minha mão, depois para o corredor dos dormitórios, depois para mim. Não disse para eu largar. Fiquei grata por isso. Havia coisas que não serviam para nada e, mesmo assim, eram impossíveis de abandonar no instante em que deveriam ser abandonadas. A mochila não protegeria Clair. Não me ajudaria a encontrá-la. Não faria aparecer. Mas soltá-la parecia aceitar uma coisa que eu ainda não conseguia sequer pensar.
— E ? — perguntei.
Minha voz saiu fina. Quase infantil.
não respondeu rápido. E eu odiei a demora porque entendi a resposta antes dela existir.
— ...
— Não.
— A gente não consegue entrar lá.
— Não fala isso.
— Eu não estou dizendo que... — Não o deixei terminar:
— Não fala como se já tivesse acabado.
Ele fechou a boca.
Atrás de nós, outro disparo ecoou. Depois um segundo. Depois gritos. Não era mais apenas na ala dos dormitórios. O caos havia encontrado outras portas. Pessoas corriam do salão principal em direção aos corredores laterais, depois voltavam ao perceber que os corredores também não eram seguros. Um soldado caiu perto da área médica e se levantou com dificuldade, empurrando alguém para trás. Vi sangue na manga dele. Não sei se era dele. Não sei se isso importa.
segurou meu braço, não com violência, mas com uma firmeza que me trouxe de volta ao meu próprio corpo.
— Olha pra mim.
Eu olhei.
A luz vermelha deixava os olhos dele mais escuros. Havia medo ali. Não o medo bonito que eu talvez teria imaginado anos antes se escrevesse alguma fantasia adolescente sobre ser salva por alguém famoso. Era medo real, feio, urgente. O medo de alguém que sabia que podia morrer de um jeito sem significado algum se escolhesse a direção errada.
— Se a gente ficar aqui, a gente morre — ele disse.
A frase foi simples. Baixa. Sem dramatização. Talvez por isso tenha funcionado.
Morrer.
Até então, a morte era uma possibilidade espalhada pelo lugar, mas eu tentava mantê-la sem sujeito. Pessoas podiam morrer. Alguém podia morrer. Infectados, soldados, desconhecidos, gente atrás de portas. colocou a palavra perto de nós. A gente morre. Eu e ele. Meu corpo entendeu.
Assenti, embora não soubesse exatamente com o quê concordava. Seguimos em direção à saída principal, ou ao que restava da tentativa de saída principal. O caminho parecia maior do que antes. O salão tinha se transformado em um labirinto de colchonetes revirados, caixas derrubadas, cadeiras caídas, cobertores arrastados. Vi a prancheta da mulher que me cadastrou no primeiro dia partida ao meio no chão. Vi uma pulseira branca sem pulso, arrebentada perto de uma garrafa amassada. Vi a influencer local sentada junto à parede, chorando com as mãos sobre os ouvidos, sem gravar nada, sem pedir nada, apenas existindo de um jeito tão cru que eu não consegui associá-la à pessoa que discutia sobre filmar dias antes.
Um homem passou correndo por nós e bateu no meu ombro. A mochila de Clair caiu. Eu me abaixei para pegar, e me puxou antes que outro corpo me atropelasse.
— Deixa.
— Não.
— , deixa.
Não deixei. Peguei a mochila, puxando-a pelo chão nos primeiros passos, e só depois consegui colocá-la contra o peito. respirou forte pelo nariz, irritado, mas não discutiu. Talvez entendesse. Talvez soubesse que, se tentasse arrancá-la de mim, eu voltaria a desmoronar ali mesmo.
Perto da saída, havia um bloqueio humano. Não dos infectados. Dos vivos.
Dezenas de pessoas pressionavam a área das portas, gritando para que abrissem. Os funcionários tentavam formar algum tipo de contenção, mas já não tinham autoridade suficiente para isso. Dois soldados mantinham as portas fechadas por dentro, enquanto outro falava no rádio com uma urgência que eu não conseguia decifrar. A cada grito vindo de trás, a multidão empurrava mais. A porta de vidro tremia. Alguém batia com os punhos. Alguém gritava que preferia morrer lá fora. Alguém respondia que lá fora era pior. Ninguém sabia de nada, mas todos estavam prontos para defender suas certezas com o corpo.
— Abrir essa porta é protocolo de evacuação? — um funcionário perguntava a um soldado.
— Não temos autorização.
— Tem gente infectada no setor sul!
— Não temos autorização! — exclamou o soldado.
— Então pede autorização de novo!
A palavra autorização me deu vontade de rir. Ainda havia alguém, em algum lugar da cadeia de comando, que precisava permitir que pessoas fugissem de dentes. Era absurdo e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Mesmo no colapso, queríamos um carimbo, uma ordem, uma voz superior dizendo que sim, agora vocês podem tentar viver.
Um grito atravessou o salão.
Dessa vez veio de perto da área médica. A multidão virou em ondas, e por uma abertura breve entre os corpos eu vi uma maca tombada. Vi um profissional de máscara recuando. Vi uma pessoa no chão sendo arrastada por outra — não, não arrastada; atacada. O movimento foi rápido demais. As mãos, a boca, a inclinação da cabeça. Não havia filme suficiente no mundo para preparar alguém para ver um corpo humano sendo tratado como alimento.
Meu estômago contraiu.
empurrou meu rosto contra o peito dele antes que eu olhasse mais.
— Não olha.
Eu senti o tecido da camiseta dele, o cheiro de suor, chá fraco e medo. Senti a respiração dele bater no topo da minha cabeça. Por um segundo, o abrigo desapareceu em uma escuridão pequena contra o corpo dele. Depois ele me soltou.
As portas começaram a tremer com mais força.
— Abram! — alguém gritava. — Abram a porra da porta!
— Para trás! — um soldado ordenou.
Ninguém foi para trás.
Houve um disparo para o alto.
O som explodiu no salão. Gente se abaixou, gritou, chorou. Eu também me abaixei por reflexo, ainda segurando a mochila de Clair. Meu ouvido ficou zunindo. colocou uma mão nas minhas costas, empurrando-me para baixo e para perto dele. Quando levantei o rosto, vi que o tiro não tinha acalmado ninguém. Pelo contrário. O disparo apenas confirmou que estávamos cercados por perigos de todos os lados.
Um funcionário mais velho, com o rosto encharcado de suor, tomou o rádio da mão de outro.
— Temos contaminação interna em múltiplos setores — ele dizia, quase gritando. — Múltiplos setores! Se não evacuarmos agora, vai virar confinamento letal.
Não ouvi a resposta do rádio.
Talvez ninguém tenha ouvido.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se decidisse desobedecer a alguém invisível. Depois apontou para as portas.
— Abre.
O soldado ao lado dele hesitou.
— Senhor, nós não... — Ele tentou responder, mas não conseguiu completar.
— Abre!
Foi nesse instante que entendi que a hierarquia também podia sangrar. Alguém manda até o momento em que outro alguém decide que continuar obedecendo é pior. Os soldados puxaram as travas. O som metálico dos ferrolhos se soltando foi pequeno comparado ao alarme, mas eu o ouvi como se estivesse dentro do meu crânio.
As portas abriram.
A multidão avançou.
Não havia organização. Não havia evacuação. Havia um rompimento. Pessoas empurrando pessoas, corpos comprimidos, gritos de dor quando alguém era pisado, braços estendidos para não cair. segurou minha mão. Eu nem percebi quando nossos dedos se entrelaçaram; apenas senti, de repente, que havia uma força me puxando para frente e impedindo que eu fosse levada para o lado. A mão dele era quente e firme. A minha estava úmida.
— Não solta — ele disse.
Não soltei.
A saída parecia próxima e impossível. O ar mudava conforme nos aproximávamos das portas. O abrigo tinha ar usado, pesado, cheio de respirações repetidas. Lá fora havia frio. Havia fumaça. Havia alguma coisa que entrava no prédio e não combinava com sobrevivência. Mesmo antes de ver, eu senti que o mundo não estava nos esperando intacto.
Passamos pela porta quase espremidos.
E então eu vi.
Pela primeira vez em três semanas, vi o céu.
Não deveria ter sido doloroso. Céu é uma das coisas que mais associamos à liberdade, mas aquele céu parecia baixo, sujo, cortado por colunas de fumaça. O azul — se ainda havia azul — estava coberto por uma camada cinza e amarelada, como se a cidade tivesse sido queimada por dentro. O ar tinha cheiro de plástico derretido, gasolina, poeira e alguma coisa doce demais, enjoativa, que eu não quis identificar.
A rua diante do abrigo não era mais a rua pela qual eu tinha chegado.
Ou era, mas havia sido insultada.
Carros abandonados ocupavam faixas inteiras, alguns com portas abertas, outros batidos uns contra os outros, um deles com o para-brisa rachado em forma de teia. Um ônibus estava atravessado perto da esquina, escuro por dentro, as janelas quebradas. Havia papéis espalhados pelo asfalto, roupas, malas abertas, sapatos sem par. A bicicleta que eu tinha visto no primeiro dia talvez ainda estivesse em algum lugar, mas agora haveria tantas bicicletas caídas que uma só já não significaria nada.
Prédios próximos tinham janelas estouradas. Um deles, mais adiante, soltava fumaça por dois andares. A fachada de uma farmácia estava destruída, com a placa pendurada de um lado e prateleiras visíveis pela abertura. O semáforo piscava amarelo para ninguém. Esse detalhe me partiu de uma forma estranha. O semáforo continuava trabalhando. Amarelo, amarelo, amarelo. Como se ainda houvesse motoristas a alertar, como se a cidade ainda obedecesse à possibilidade de atenção.
Havia corpos.
Não muitos no primeiro olhar. Depois muitos, quando meus olhos começaram a aceitar o que viam. Alguns cobertos parcialmente por casacos, outros não. Um perto da calçada. Dois ao lado de um carro. Um corpo menor — pequeno demais — perto de uma mala azul. Eu virei o rosto antes de confirmar se era uma criança. Talvez fosse apenas perspectiva. Talvez fosse uma mochila. Talvez eu tenha escolhido não saber e isso também seja uma forma de covardia.
O pior não foi o barulho.
Foi o silêncio entre os barulhos.
A cidade deveria ser cheia de sons: motores, conversas, músicas vazando de lojas, passos, buzinas impacientes, gente reclamando do trânsito, portas abrindo, cachorros latindo. Havia ruídos, sim — gritos do abrigo atrás de nós, alarmes distantes, estalos de fogo, algum impacto em ruas próximas —, mas, por baixo de tudo, existia um vazio. Um silêncio grande demais, como se a cidade tivesse prendido a respiração e esquecido de soltar.
Alguém vomitou perto da entrada.
Outra pessoa caiu de joelhos e começou a rezar.
Algumas correram sem direção. Outras pararam, incapazes de entender para onde ir quando todas as direções eram mundo. Os soldados tentavam organizar a saída, mas já era tarde. Uma massa de sobreviventes se espalhava pela rua, cada um escolhendo uma promessa particular: carro, casa, estrada, outro abrigo, parente, qualquer coisa. Vi uma mulher tentando destravar um veículo com as mãos tremendo tanto que deixava a chave cair. Vi um homem abrir a porta de um carro que não era dele e ser empurrado por outro. Vi duas pessoas brigando por uma mochila no asfalto enquanto, atrás delas, o abrigo gritava.
puxou minha mão.
— A gente precisa sair da frente.
Eu não me movi.
Meus olhos voltaram para a porta do abrigo. Pessoas ainda saíam. Algumas ensanguentadas. Algumas sem sapatos. Uma criança sem adulto. Um soldado com a arma erguida, recuando de costas. A luz vermelha vazava de dentro do prédio como se ele estivesse em chamas por dentro. Pensei em . Pensei em Clair. Pensei que talvez, se eu esperasse mais alguns segundos, elas apareceriam. segurando Clair no colo, a mochila de unicórnio faltando e eu erguendo-a como prova de que não as havia abandonado por completo.
Esperei.
esperou comigo.
Não sei por quanto tempo. Talvez dez segundos. Talvez um minuto. Em situações assim, o tempo deixa de ser medida e vira ferida.
— — ele disse, baixo.
— Só mais um pouco.
Ele olhou para a entrada, depois para a rua, depois para mim. Havia uma urgência no rosto dele que não era impaciência. Era cálculo. Atrás de nós, mais pessoas se espalhavam. À frente, a rua não oferecia proteção. Do lado de dentro, os sons ficavam piores. Um grupo de soldados começou a recuar pela porta, empurrando sobreviventes para fora. Um deles gritou para fecharem uma contenção interna. Outro gritava que havia rompimento no setor médico. A palavra rompimento me deu náusea.
Então um infectado apareceu na entrada.
Não sei se era homem ou mulher. Havia sangue demais, movimento demais. Saiu tropeçando, mas rápido, agarrado a um funcionário que tentava se livrar. Alguém atirou. O corpo caiu perto das portas. A multidão explodiu outra vez, agora para longe do abrigo.
me puxou com força.
Dessa vez, eu fui.
Não porque tinha escolhido deixar e Clair. Não houve escolha limpa. Apenas um ponto em que meu corpo aceitou o que minha mente não suportava: se eu continuasse parada, morreria ali com a mochila de uma criança que talvez já estivesse morta. Escrever isso, mesmo dentro da minha cabeça, era doloroso.
Corremos pela lateral da rua, desviando de carros abandonados e pessoas. mantinha minha mão presa à dele. Em algum momento, quase escorreguei em alguma coisa no asfalto e ele me segurou pela cintura antes que eu caísse. A mochila de Clair batia contra meu corpo. Meu pulmão queimava. O ar frio entrava com fumaça. Cada inspiração parecia arranhar.
— Pra onde? — perguntei.
Minha voz mal saiu.
— Meu carro ficou a algumas ruas daqui — ele disse.
— Você acha que ainda está lá?
— Acho que sim.
— E se não estiver?
— A gente pensa depois.
A gente pensa depois. Aquilo parecia o novo funcionamento do mundo. Nada podia ser resolvido em sequência longa. Só o próximo passo. A próxima esquina. O próximo obstáculo.
Seguimos por uma rua lateral. Havia menos pessoas ali, o que deveria ser bom, mas não era. A ausência de gente tornava tudo mais exposto. Passamos por uma vitrine quebrada de uma loja de roupas. Manequins tombados no chão pareciam corpos limpos demais. Um rádio tocava dentro de algum carro abandonado, chiando entre estática e uma voz distante. Não consegui entender as palavras. Talvez fosse um comunicado. Talvez música. Talvez o aparelho estivesse repetindo sozinho o fim de alguma estação.
No meio do quarteirão, paramos atrás de uma caminhonete batida para respirar.
Eu encostei as costas na lataria e deslizei um pouco, mas segurou meu braço, impedindo que eu sentasse.
— Não senta.
— Eu não consigo respirar.
— Eu sei. Mas não senta.
Ele também estava ofegante. O moletom escorregava de um ombro, o cabelo grudado na testa, os olhos varrendo a rua. Era estranho como ele parecia mais real a cada camada de desastre. A fama, que nos primeiros dias ainda pairava em volta dele como uma luz antiga, agora não tinha lugar algum. Ele era apenas . Um homem suado, assustado, tentando lembrar onde deixou o carro antes que o mundo quebrasse.
Eu olhei para a mochila nas minhas mãos. Unicórnio rosa. Zíper sujo. Uma das alças rasgada. Abri sem saber por quê. Dentro havia folhas dobradas, dois lápis de cor, uma meia, um pacote pequeno de biscoito esmagado e a caneta preta sem tampa. Peguei uma das folhas. Era outra casa. Dessa vez com porta. Clair havia desenhado uma maçaneta redonda no centro.
Meu rosto desmoronou.
— Eu deixei elas — sussurrei.
— ...
— Eu estava com ela há três semanas. A Clair desenhava casas. Ela... — A frase quebrou. — Ela ia devolver minha caneta.
fechou os olhos por um segundo, como se aquilo o ferisse de um jeito que ele não tinha previsto. Segurou meu rosto, entre as mãos, me obrigando a olhá-lo:
— Eu sinto muito. — Sinto muito era uma frase que pressupunha fim. Eu não podia aceitar fim. Não ali, não sem corpo, não sem resposta, não com uma mochila nas mãos. Neguei com a cabeça, tentando me desvencilhar. Ele segurou com firmeza. — Precisamos ir, ok?
Antes que eu pudesse sequer concordar, um som veio da esquina.
Nós dois viramos.
Uma figura apareceu no fim da rua, cambaleante. Depois outra. Não corriam, mas vinham. Uma delas arrastava um pé. A outra se movia com o pescoço inclinado de forma não-humana. Estavam longe o suficiente para que ainda parecessem pessoas. Perto o suficiente para que eu soubesse que não devia esperar descobrir.
pegou minha mão de novo.
— Vamos.
Corremos.
Duas ruas depois, encontramos o carro.
Era um veículo escuro, sujo de poeira, imprensado entre uma calçada e outro carro abandonado. Uma janela lateral estava trincada, mas inteira. soltou minha mão para procurar as chaves nos bolsos, e por alguns segundos pensei que ele não as encontraria. A ideia me deu uma calma absurda, daquelas que aparecem quando o cérebro passa do limite e decide parar de reagir. Mas ele as encontrou. O alarme do carro piscou duas vezes, discreto demais para aquele mundo.
Entramos.
O interior cheirava a couro frio, poeira e algo dele — um perfume quase apagado, misturado ao medo. O som da porta fechando foi um alívio tão grande que quase pareceu indecente. Uma camada de metal e vidro entre nós e a rua. Tão pouco. Naquele momento, suficiente.
ligou o carro. O motor hesitou. Meu coração parou junto.
— Por favor — ele murmurou.
O motor pegou.
Fechei os olhos.
Ele manobrou com cuidado, batendo de leve no carro à frente para abrir espaço. O som do impacto me fez encolher, mas ele continuou, dentes cerrados, até conseguir sair. Na rua, algumas pessoas batiam nas janelas de veículos, tentando entrar, tentando pedir carona, tentando ser escolhidas. Uma mulher correu ao nosso lado por alguns metros, gritando algo que não entendi. manteve os olhos à frente, mas vi a mandíbula dele tremer.
Saímos da rua principal por uma via menor, desviando de carros, destroços e corpos. A cidade continuava passando pela janela como uma versão destruída de si mesma. Reconheci um mercado onde havia comprado frutas na primeira semana do intercâmbio. A porta estava arrebentada, carrinhos virados no estacionamento, sacolas espalhadas. Reconheci uma cafeteria em que estudei uma tarde inteira fingindo entender um texto acadêmico. As mesas externas estavam tombadas. Um copo ainda estava sobre uma delas, incrivelmente em pé. Aquilo me deu vontade de rir e vomitar ao mesmo tempo.
O mundo não acabava destruindo tudo de uma vez. Ele deixava objetos intactos no meio do horror, só para que a comparação doesse mais.
dirigia em silêncio.
Eu segurava a mochila de Clair no colo.
Por algum tempo, nenhum de nós disse nada. Talvez porque qualquer frase parecesse pequena. Talvez porque, se falássemos, teríamos que admitir o que tínhamos acabado de fazer: fugimos. Sobrevivemos. Deixamos pessoas para trás. Entramos em um carro enquanto outros batiam nas janelas. Atravessamos uma cidade onde corpos no chão já começavam a se tornar parte da paisagem.
Meu celular estava sem sinal, mas eu o peguei mesmo assim.
A tela acendeu com três por cento de bateria.
Nenhuma mensagem.
Meu pai não tinha respondido. Minha irmã não tinha respondido. O mundo inteiro permanecia mudo no retângulo da minha mão. Pensei em escrever de novo, mas não escrevi. Não havia frase possível. Estou viva parecia mentira, porque alguma parte de mim tinha ficado no abrigo. Estou indo para algum lugar era inútil, porque eu não sabia onde. Me desculpa era para quem? Minha família? ? Clair? A mulher que correu ao lado do carro? Eu mesma?
Apaguei a tela.
— Eu tenho uma casa — disse de repente.
Virei o rosto para ele.
Ele continuava olhando para a estrada. As mãos no volante estavam firmes demais.
— Uma fazenda. Fica afastada. Não é tão perto daqui. Tem comida, água por enquanto, muros, espaço. Pelo menos... acho que está segura.
A palavra segura saiu com cuidado. Nós dois tínhamos acabado de ver o que acontecia com lugares chamados seguros.
— Você quer ir para lá? — perguntei.
— Quero ficar vivo. — Ele engoliu em seco. — E preciso tentar contato com minha família, com... — Parou por um segundo. — Com minha filha. Talvez de lá eu consiga pensar melhor.
Filha.
. O nome apareceu na minha cabeça sem que ele precisasse dizê-lo. Pensei em Clair. Pensei que crianças pequenas estavam espalhadas pelo mundo naquele momento, sendo procuradas por adultos desesperados que talvez nunca chegassem a tempo. O pensamento quase me fez quebrar de novo.
— Você pode vir comigo — ele disse.
Não olhou para mim ao dizer. Talvez por delicadeza. Talvez porque também tivesse medo de parecer que oferecia mais do que podia.
Eu olhei pela janela.
A cidade estava vazia demais e cheia demais ao mesmo tempo. Cheia de fumaça, carros, destroços, ausências. Vazia de orientação. Eu não tinha para onde ir. Meu alojamento universitário poderia estar destruído, ocupado, trancado, contaminado. Meus documentos estavam comigo, mas documentos não abrem caminho em apocalipses. Minha família estava em outro país, inacessível como uma lembrança. tinha desaparecido. Clair também. O abrigo, que deveria ter sido uma resposta, virou uma boca vermelha atrás de nós.
, naquele momento, era a única coisa concreta. Isso não significava confiança plena. Significava apenas que ele estava ali, vivo, dirigindo, oferecendo um endereço quando todo o resto era ruína. Às vezes, a sobrevivência se disfarça de escolha, mas é apenas a opção menos impossível.
— Eu vou com você.
O silêncio que veio depois não foi confortável, mas foi decidido.
Deixamos a área do abrigo para trás. A fumaça ficou mais distante no retrovisor, embora eu ainda pudesse vê-la subindo entre prédios quebrados. Não olhei por muito tempo. Tive medo de reconhecer alguém correndo. Tive medo de ver . Tive medo de não ver.
A mochila de Clair permaneceu no meu colo. Segurei a alça rosa durante todo o trajeto, como se fosse uma mão pequena. Como se, enquanto eu não a soltasse, ainda existisse alguma forma de voltar. Mas a estrada se abria à frente, e o abrigo diminuía atrás de nós, levando , Clair, a mulher da cafeteria, o senhor das mochilas, a criança sem adulto, a funcionária da prancheta, as casas desenhadas, as filas, as luzes vermelhas e uma parte de mim que, até então, ainda acreditava que obedecer instruções podia salvar alguém.
dirigiu.
Eu fiquei olhando para a cidade morta pela janela, tentando entender o formato exato da culpa.
Não consegui.
Capítulo 7 - A casa de alguém famoso
Indicação de música para esse capítulo: Meet you at the Graveyard - Cleffy.
A estrada para fora da cidade parecia mais longa do que deveria.
Não sei quanto tempo dirigimos. O relógio do carro marcava uma hora qualquer, mas eu já não confiava em relógios desde o abrigo. O tempo, depois das luzes vermelhas, tinha se tornado uma coisa elástica e sem compromisso. Às vezes, um minuto durava o suficiente para caber uma vida inteira; outras vezes, ruas, prédios, fumaça e corpos passavam pela janela sem que eu conseguisse separar um acontecimento do outro. Eu lembrava de estar no carro. Lembrava da mão de no volante. Lembrava da mochila de Clair no meu colo. Lembrava de ter visto o mundo lá fora pela primeira vez em três semanas e de ter pensado, com uma clareza horrível, que talvez o abrigo tivesse sido uma caixa fechada não para nos proteger do fim, mas para atrasar nosso encontro com ele.
não falava.
Eu também não.
O silêncio entre nós era diferente daquele da fila da água. Naquela primeira vez, o silêncio ainda tinha espaço para constrangimento, para reconhecimento, para a estranheza quase absurda de eu estar sentada ao lado de alguém que um dia coube nos meus fones de ouvido e nos meus pôsteres mentais de adolescência. Agora, o silêncio era pesado demais para ser preenchido por qualquer coisa pequena. Ele tinha cheiro de fumaça e sangue, tinha o peso de pessoas deixadas para trás, tinha o formato da mochila rosa que eu segurava com as duas mãos.
De vez em quando, olhava pelo retrovisor. Não sei se procurava carros nos seguindo, infectados, sobreviventes, soldados, ou se apenas tentava confirmar que a cidade estava mesmo ficando para trás. Eu evitava olhar para trás. Toda vez que pensava no abrigo, via a luz vermelha escorrendo pela porta como se o prédio estivesse sangrando por dentro. Via a casa sem porta desenhada por Clair. Via me dizendo para não prometer o que eu não controlava. E eu tinha prometido um pouco, sim. Mesmo que tivesse retirado dez por cento da promessa, como brinquei naquela noite, os outros noventa continuavam comigo, agora esmagados entre o peito e a mochila da filha dela.
Aos poucos, os prédios ficaram mais baixos. As ruas se abriram. Os carros abandonados diminuíram. A fumaça ficou distante o bastante para parecer névoa, e isso me deu raiva, porque névoa era uma palavra bonita demais para o que tínhamos visto. Passamos por casas isoladas, postos fechados, placas tortas, trechos de estrada vazios demais. Em alguns pontos, havia marcas de batida, vidros no asfalto, malas abertas, mas nada comparado ao centro da cidade. Quanto mais nos afastávamos, mais o mundo fingia que ainda podia ser paisagem.
— Está longe? — perguntei, e minha voz saiu áspera por falta de uso.
piscou, como se tivesse esquecido que eu estava ali ou como se estivesse concentrado demais em continuar existindo.
— Mais um pouco.
Assenti.
— Desculpa.
— Pelo quê?
— Não sei. Por perguntar.
Ele olhou para mim de relance.
— Você não precisa pedir desculpa por tudo.
Eu quase disse que não pedia desculpa por tudo. Mas pedi desculpa antes que a frase se formasse inteira, então fiquei quieta.
A estrada entrou em uma área mais afastada, cercada por árvores e campos abertos. O céu começava a escurecer de um jeito que não combinava com o relógio. Talvez fosse fumaça ainda. Talvez fosse o fim do dia. Talvez eu não soubesse mais interpretar luz natural depois de três semanas sob lâmpadas de emergência. Havia cercas compridas, caixas de correio, entradas de propriedades, celeiros ao longe. Era bonito. Essa foi outra coisa que me incomodou. O mundo não deveria continuar bonito depois de certas cenas. Árvores não deveriam balançar com delicadeza quando há corpos nas ruas. Campos não deveriam abrir espaço para o horizonte quando uma criança talvez estivesse presa em um corredor vermelho. Mas a natureza não participa da nossa moral. Ela continua.
A fazenda surgiu depois de uma curva longa. Primeiro, vi a cerca. Depois um portão grande, fechado. Depois a casa, afastada da estrada, parcialmente escondida por árvores e por uma extensão de gramado que parecia absurda depois do abrigo. Era grande. Não de um jeito exagerado de mansão de filme, mas grande o suficiente para que qualquer pessoa comum entendesse, imediatamente, que ali havia dinheiro, privacidade e uma vida que eu só conhecia por distância. A construção tinha linhas bonitas, janelas amplas, madeira, pedra, uma varanda que em outro mundo poderia receber café de manhã e conversas sem urgência. Ao lado, havia outras estruturas menores — talvez celeiro, garagem, depósito — e mais para trás, campos que se perdiam no começo da noite.
A casa de alguém famoso. Foi esse pensamento que veio, idiota e inevitável.
Porque, por mais que três semanas de abrigo tivessem desgastado a aura dele, havia algo naquele portão, naquele terreno, naquele isolamento cuidadosamente possível, que devolvia ao nome dele parte do tamanho que eu vinha tentando ignorar. Aquela não era apenas uma casa segura. Era o tipo de lugar que uma adolescente imaginaria sem saber imaginar direito: afastado, bonito, inacessível. E eu estava chegando ali não como convidada, não como fã sortuda, não como alguém escolhida por qualquer fantasia. Eu estava chegando com a roupa suja, a garganta arranhada, os olhos ardendo, segurando a mochila de uma criança desaparecida porque o mundo havia deixado de funcionar.
A distância entre o sonho antigo e a realidade atual era tão grande que quase virava crueldade.
parou diante do portão e pegou um controle no compartimento do carro. Apertou uma vez. Nada aconteceu. Apertou de novo. O portão rangeu antes de começar a abrir lentamente.
Esse som — o rangido mecânico, o motor funcionando, a obediência de um objeto — me pareceu luxuoso. Portões automáticos ainda abrindo. Chaves ainda destravando portas. Carros ainda respondendo a botões. Depois de tudo que vi, qualquer coisa que cumprisse sua função parecia um milagre doméstico.
— Energia? — perguntei.
— Gerador. Pelo menos espero que ainda esteja funcionando.
Ele entrou com o carro e esperou o portão fechar atrás de nós. Só quando ouviu o encaixe metálico, seus ombros baixaram um pouco. Não era alívio completo. Talvez não existisse mais. Mas era alguma coisa.
Aproximamo-nos da casa devagar. desligou o motor perto da garagem e ficou alguns segundos imóvel, com as mãos ainda no volante.
Eu esperei.
Havia algo íntimo demais em vê-lo voltar para casa depois do fim do mundo. Eu não sabia se ele temia encontrar alguém, ou não encontrar ninguém, ou encontrar a casa diferente. Talvez tudo isso. Ele respirou fundo, pegou as chaves e olhou para mim.
— Fica perto de mim até eu verificar tudo.
Assenti. Saímos do carro. O ar fora da cidade era mais frio e limpo, mas não completamente. Ainda havia um resto de fumaça distante, como uma lembrança grudada no vento. Segurei a mochila de Clair com uma mão e a alça da minha própria mochila com a outra. abriu a garagem primeiro, pegou uma lanterna e algo que, por um segundo, não reconheci como arma porque minha mente ainda resistia a encaixar armas em casas bonitas. Depois reconheci.
Ele percebeu meu olhar.
— Só por precaução.
Eu assenti de novo. Tinha assentido tantas vezes desde que deixamos o abrigo que comecei a achar que talvez meu corpo tivesse esquecido outras respostas.
Entramos pela porta lateral.
A casa estava escura e silenciosa.
Silêncio, aprendi naquele dia, não era sempre a mesma coisa. O silêncio do abrigo antes do alarme era cheio de respiração coletiva. O silêncio da cidade era oco, quebrado por ruídos distantes e pela ausência de coisas que deveriam estar lá. O silêncio da casa de era diferente: doméstico, fechado, atento. Um silêncio que parecia ter esperado sozinho. Havia cheiro de madeira, tecido limpo, algum perfume antigo, talvez vela apagada. Nada de sangue. Nada de mofo. Nada de gente demais. Meu corpo, acostumado ao abrigo, não soube o que fazer com tanto espaço.
acendeu uma luz baixa perto da entrada. Ela piscou antes de firmar.
— Fica aqui — disse.
Eu fiquei. Ele verificou primeiro a cozinha, depois a sala, depois um corredor. Eu o ouvia abrir portas, mover alguma coisa, subir e descer alguns degraus. Cada som da casa parecia enorme. O estalo da madeira sob os pés dele. Uma maçaneta girando. O fechamento de uma janela. Do lado de fora, o vento mexia nas árvores, e por algumas vezes meu coração interpretou aquilo como passos.
Enquanto esperava, olhei ao redor. A sala era bonita de um jeito que tentava não se exibir. Sofás grandes, tapete claro, estantes, quadros, objetos espalhados com aquele tipo de casualidade que provavelmente alguém pensou bastante para parecer casual. Havia uma manta dobrada sobre o encosto de uma poltrona. Uma xícara esquecida em uma mesa lateral, limpa, sem poeira. Livros. Um violão em um canto. Algumas fotos viradas para a parede lateral, não escondidas, apenas dispostas em um móvel baixo. Não me aproximei. Havia limites que o apocalipse não devia me autorizar a atravessar.
Mesmo assim, uma parte de mim reparava em tudo. A casa dele tem cheiro de madeira. O violão fica perto da janela. Ele deixa mantas dobradas no sofá. Eu senti vergonha dessa curiosidade antes mesmo que ela se completasse. Como eu podia notar a estética de uma sala depois de ter deixado para trás? Como eu podia reconhecer o privilégio de estar ali e, ao mesmo tempo, achar surreal estar na casa dele? O luto não apagava as camadas ridículas da pessoa que eu era. Ele apenas as tornava mais difíceis de aceitar.
voltou alguns minutos depois.
— Parece limpa.
— Você tem certeza?
— Não absoluta. Mas portas e janelas estavam trancadas. Nenhum sinal de arrombamento. Nada fora do lugar.
Eu olhei para as janelas grandes da sala. A escuridão do lado de fora parecia se apoiar nelas.
— A gente precisa cobrir isso.
Ele acompanhou meu olhar e assentiu.
— Sim.
Foi assim que começamos: não com descanso, mas com tarefas.
Talvez fosse melhor assim. Tarefas impedem a mente de se afogar. me mostrou onde ficavam trancas extras, tábuas, ferramentas, lanternas, pilhas. Havia um depósito muito mais organizado do que eu esperava, com caixas etiquetadas, equipamento de manutenção, galões de água, alimentos não perecíveis, rações — talvez para animais que eu não vi — e prateleiras cheias o suficiente para que meu estômago reagisse antes da minha cabeça. Comida. De verdade. Latas, arroz, massas, molhos, cereais, barras, garrafas, temperos. Depois de semanas de sopa rala e porções medidas, aquilo parecia indecente.
percebeu.
Não falamos sobre. O reconhecimento ficou em nossas mentes.
Verificamos portas. Ele me ensinou como reforçar a entrada lateral. Eu segurei uma lanterna enquanto ele prendia uma madeira em uma janela menor da lavanderia. Depois revezamos, porque ele disse que eu precisava saber fazer também. A frase me deu um pouco de medo e um pouco de respeito. Ele não estava apenas me protegendo naquele momento; estava me incluindo na lógica da sobrevivência dali. Se algo acontecesse com ele, eu precisaria saber. Se precisássemos sair, eu precisaria entender. A casa não era um refúgio mágico. Era um lugar com pontos fracos, regras e recursos que acabariam.
Anotamos mentalmente as entradas. Porta principal. Lateral. Fundos. Garagem. Janelas grandes. Janelas pequenas. Depósito. Porão. Ele mostrou o quadro de energia, o gerador, o rádio antigo que ainda não tentamos ligar naquela noite, os galões de gasolina guardados com cuidado. Eu ouvi tudo como se estivesse em uma aula para uma vida que eu nunca quis cursar.
— Durante a noite, nada de luz forte perto das janelas — ele disse. — Pelo menos até a gente entender como estão as coisas por aqui.
— E barulho? — perguntei.
— O mínimo possível.
— Você acha que eles chegam até aqui?
Ele não fingiu segurança.
— Não sei.
Agradeci, por dentro, pela falta de mentira.
Quando terminamos o básico, minhas mãos tremiam. Não de esforço físico apenas. O corpo demora a descarregar o medo quando finalmente encontra parede. Às vezes, a segurança provisória é o que permite o colapso. Enquanto estávamos correndo, eu conseguia agir. Dentro daquela casa trancada, com portas reforçadas, luz baixa e comida nas prateleiras, a imagem do abrigo voltou inteira.
.
Clair.
A mochila rosa estava sobre uma cadeira da cozinha. Eu a tinha colocado ali com cuidado, como se fosse um animal dormindo. olhou para ela, depois para mim, mas não disse nada.
— Você quer tomar banho? — ele perguntou.
A pergunta me desarmou. Não “você está bem?”, porque seria uma pergunta impossível. Não “quer falar sobre isso?”, porque talvez eu desmoronasse. Banho. Água quente, se ainda houvesse. Roupa limpa. Um gesto humano simples, quase ofensivo em sua delicadeza.
— Tem água?
— Por enquanto. O sistema ainda está funcionando. Não sei por quanto tempo.
— Então sim.
Ele me levou até um corredor no andar de cima e parou diante de um quarto.
— Você pode ficar aqui.
O quarto era enorme. Não apenas grande. Enorme de um jeito que me fez parar na porta. Havia uma cama larga, lençóis claros, janelas com cortinas pesadas, uma poltrona perto de uma estante, um tapete macio demais para a minha realidade recente. Tudo estava arrumado. Não impecável como hotel, mas cuidado. Um quarto que não sabia que o mundo tinha acabado. Um quarto que ainda acreditava em sono profundo, em roupa dobrada, em manhãs lentas.
— Desculpa, eu... — comecei.
— O quê?
— Nada. É só grande.
olhou para o quarto como se o visse pela primeira vez.
— É. Acho que sim.
Havia uma distância estranha entre a forma como eu enxergava a casa e a forma como ele parecia enxergá-la. Para mim, tudo era sinal de uma vida inalcançável. Para ele, talvez fosse apenas casa. Ou talvez, naquele momento, também fosse um lugar estranho, porque casas mudam quando não sabemos se as pessoas que amamos ainda existem.
— O banheiro fica ali — ele apontou. — Vou pegar roupas limpas. Devem ficar grandes, mas melhor do que isso.
Olhei para minha roupa suja, amarrotada, marcada por poeira, suor e algo que eu esperava não ser sangue. Não sabia mais de quem era cada mancha. Talvez não quisesse saber. Ri, sem graça. Não era minha culpa, mas me senti levemente envergonhada. Se minha mãe fosse viva, mesmo durante o apocalipse, ela ainda diria: isso lá é roupa de se usar quando visita alguém?
— Obrigada.
Ele assentiu e saiu.
Fiquei sozinha no quarto.
Por alguns segundos, não me movi. O silêncio ali era tão completo que meus ouvidos procuraram o alarme. Não havia. Procurei o chiado dos rádios dos soldados. Nada. Procurei o choro de Clair, a voz de , o som de centenas de pessoas dormindo mal. Nada. Apenas a casa respirando em madeira, vento nas janelas, meu próprio coração.
Entrei no banheiro e fechei a porta.
O espelho me devolveu alguém que eu não reconheci de imediato. Olhos vermelhos, pele pálida sob a sujeira, cabelo embaraçado, lábios rachados. A pulseira branca do abrigo ainda estava no meu pulso. .
Peguei a borda da pulseira e tentei puxar. Não rasgou. Tentei de novo, com mais força. A pele ardeu. Procurei uma tesoura, não encontrei. Acabei deixando ali. Talvez ainda não fosse hora de tirar. Talvez eu merecesse carregá-la por mais tempo.
O chuveiro demorou a esquentar. Quando a água quente caiu sobre meus ombros, eu chorei. Chorei por , por Clair, pela mochila na cozinha, pelo café abandonado no parque, pela minha família sem resposta, pela mulher que correu ao lado do carro, por todas as pessoas que eu não ajudei, por mim. Chorei também por estar aliviada, e essa talvez tenha sido a parte mais difícil de perdoar. Eu estava em um banheiro limpo, com água quente, em uma casa segura, enquanto outros ficaram para trás. O alívio parecia uma traição, mas estava lá, morno e vergonhoso, misturado ao vapor.
Lavei o cabelo duas vezes. Esfreguei a pele até ficar vermelha. Tentei tirar o cheiro do abrigo, mas descobri que parte dele estava dentro de mim.
Quando saí, encontrei roupas dobradas sobre a cama: uma camiseta grande, um moletom, uma calça confortável, meias. Tudo cheirava a sabão e armário fechado. Vesti devagar. As roupas ficaram largas, como ele havia avisado. A manga cobria parte das minhas mãos. Por algum motivo, isso me fez sentir menor. Não fraca exatamente. Apenas emprestada. Prendi a lateral do quadril da calça com um elástico de cabelo que vinha usando. Eu estava dentro da casa de outra pessoa, vestindo roupas de outra pessoa, viva por causa de uma decisão tomada no meio do pânico. Nada em mim parecia pertencer a mim, exceto a culpa.
Desci algum tempo depois. estava na cozinha, também com roupa limpa, cabelo úmido, preparando alguma coisa no fogão. A cena era tão doméstica que tive vontade de parar na escada e observar de longe, como se estivesse invadindo um momento que não me dizia respeito. Ele virou ao ouvir meus passos.
— Fiz massa.
Eu quase ri.
— Você fala isso como se massa fosse uma coisa simples agora.
Ele olhou para a panela, depois para mim.
— É. Acho que perdi a noção.
Pegou dois pratos, colocou comida e indicou a mesa.
Sentamos um de frente para o outro. A cozinha era ampla, com uma janela grande coberta parcialmente por uma cortina escura. A luz vinha de um pendente baixo sobre a mesa, amarelada, suave. Havia uma beleza quase cruel naquela refeição: pratos de verdade, talheres de metal, massa quente, molho, queijo. Depois de três semanas comendo em recipientes descartáveis, sentar à mesa parecia uma encenação de humanidade.
Eu dei a primeira garfada e precisei parar.
O gosto era bom demais.
Não excelente no sentido gastronômico. Apenas comida quente, temperada, com textura, com cheiro de casa. Meu corpo recebeu aquilo com tanta gratidão que meus olhos arderam de novo.
fingiu não notar. Comeu devagar, olhando para o próprio prato.
— Você disse que veio para intercâmbio — ele comentou depois de alguns minutos.
Assenti.
— Universidade da Pensilvânia. Três semanas, inicialmente. Depois eu consegui estender um pouco. Era para eu estar vivendo a experiência mais interessante da minha vida.
— Ainda é.
Olhei para ele.
Ele ergueu uma sobrancelha, como se percebesse o absurdo da própria frase.
— Desculpa. Péssima tentativa.
Dessa vez, eu ri. Pouco, mas ri.
— Horrível.
— Estou sem prática.
— Em consolar pessoas durante apocalipses?
— Entre outras coisas.
O riso morreu suavemente, sem virar tristeza de imediato. Foi um intervalo. Um pequeno espaço entre uma dor e outra.
— Eu era muito fã da sua banda — falei.
A frase saiu antes que eu decidisse dizê-la. Talvez porque a comida quente tivesse afrouxado alguma defesa. Talvez porque, depois de tudo, esconder aquilo parecia mais cansativo do que admitir. levantou os olhos do prato.
Por um segundo, vi o constrangimento atravessar o rosto dele. Não incômodo. Mais uma timidez rápida, quase jovem, que não combinava com a imagem pública nem com o homem segurando arma horas antes.
— É?
— Sim.
— Muito?
A pergunta veio com cuidado, mas havia uma curiosidade real ali.
Suspirei, rendida.
— Muito.
Ele sorriu, desviando o olhar para o prato.
— Certo.
— Não faz essa cara.
— Que cara?
— Essa cara!
— Eu não disse nada.
— Você pensou.
— Talvez.
Revirei os olhos, mas havia algo bom naquela troca. Não bom o suficiente para apagar nada. Apenas bom como uma vela acesa em uma casa sem energia principal.
— Eu era adolescente — expliquei, como se isso fosse defesa suficiente. — E brasileira. E tinha internet. Era impossível escapar.
— Entendi. Culpa geográfica e tecnológica.
— Exatamente. Nenhuma responsabilidade pessoal.
Ele riu baixo.
— Qual era sua música favorita?
A pergunta me pegou desprevenida. Não por ser difícil, mas por ser íntima de um jeito estranho. Falar de músicas favoritas era abrir gavetas antigas. Eu apoiei o garfo no prato e pensei, embora a resposta estivesse pronta.
— Sua? Solo? — E então reparei que acabei me entregando. Ele pareceu ignorar. Eu disse que era fã da banda. Agora deixei claro que também o acompanhava.
— Pode ser. — Ponderou com a cabeça.
— “It’s You”.
O sorriso dele mudou. Ficou menor, mais surpreso.
— Sério?
— Sério.
— Por quê?
Pensei em mentir. Dizer que era pela melodia, pela voz, pela produção. Tudo isso seria verdade, mas incompleto.
— Porque ela parecia... honesta. Dolorida sem tentar explicar demais. Eu gostava disso. Ainda gosto.
Ele assentiu devagar, olhando para a mesa. Por um instante, pareceu longe.
— Gosto dessa também.
— E eu amo Icarus Falls. O álbum todo.
Ele levantou os olhos de novo, agora com uma expressão quase divertida.
— O álbum todo?
— Sim.
— Ele é longo.
— Eu tinha compromisso com a causa.
riu de verdade dessa vez. O som entrou na cozinha e ficou ali por alguns segundos, estranho e bonito. Eu percebi que ainda não o tinha ouvido rir assim. No abrigo, os sorrisos dele eram contidos, cansados, pequenos. Ali, por um instante, ele pareceu menos esmagado.
— E ? — ele perguntou.
Eu fiz uma careta.
— Aí é injusto. Tem muitas.
— Escolhe um álbum.
— Take Me Home.
Ele levou a mão ao peito, dramático.
— Não julga. — disse, com sorriso no canto dos lábios apontando para ele com o garfo. Dei mais uma garfada no macarrão.
— Não estou julgando. Estou avaliando.
— Pior ainda.
Ele sorriu.
— Você foi a algum show?
A pergunta atravessou uma parte antiga de mim.
— Não. Nunca tive chance. Era caro, longe, complicado. Eu assistia vídeos e fingia que era suficiente.
— E era?
— Não.
Ele ficou em silêncio por um segundo. Depois disse, com uma leveza ensaiada para não doer:
— Bom, pelo menos está conhecendo um dos ex-integrantes agora. Não é a melhor circunstância, mas acho que vale alguma coisa.
Olhei para ele.
A frase era absurda. Tão absurda que o riso veio antes da culpa. Ri com a mão na boca, como se rir alto demais pudesse chamar alguma coisa pelas janelas. Ele sorriu, satisfeito por ter conseguido.
— Você é ridículo — eu disse.
— Mas tecnicamente estou certo.
— Tecnicamente esse é a pior meet and greet da história.
— Pelo menos não tem fila. — Argumentou.
— Teve fila. A fila da água.
— Verdade. E eu ainda forneci bebida. — Fingiu estar ofendido.
— Meia garrafa, se formos honestos.
— Foi exclusivo.
Nós dois rimos, e por alguns segundos a cozinha quase pareceu existir fora do fim do mundo.
Quase.
Porque a mochila de Clair continuava na cadeira perto da porta. Porque meu celular estava morto no bolso. Porque , ao mencionar família mais tarde, ficou mais quieto. Porque a casa era segura apenas enquanto não fosse descoberta. Porque havia comida, sim, mas não infinita. Porque rir daquela forma parecia algo emprestado, e coisas emprestadas sempre precisam ser devolvidas.
Depois do jantar, lavamos os pratos em silêncio. Ele me mostrou onde havia mais água, lanternas, remédios básicos. Falou que no dia seguinte verificaríamos melhor o perímetro, a despensa, os rádios. “No dia seguinte” soou como uma audácia. Ainda assim, agarrei-me a ela.
Quando subimos, ele parou no corredor diante do quarto que havia me dado. Cruzou os braços e apoiou o ombro no batente da porta. Disse:
— Tenta dormir.
— Você também.
— Vou verificar mais algumas coisas primeiro.
— Claro.
Houve um instante em que nenhum de nós se moveu. Eu queria agradecer de novo, mas “obrigada” já parecia pequena demais para tudo: água, carro, casa, comida, banho, roupa, teto. Ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que odiava precisar de tanto.
— . — ele esperou. — Obrigada.
Ele assentiu, mas não sorriu.
— De nada, .
Meu nome inteiro outra vez. No abrigo, ele soava estranho. Ali, no corredor escuro da casa dele, soou como uma tentativa de manter alguma formalidade entre duas pessoas que tinham fugido juntas de um inferno e dividido massa em uma cozinha bonita demais. Era quase um tom familiar. Ele dizia com quase naturalidade. Parecia sintético ainda, mas me era suficiente. Eu sentia falta de ouvir meu nome sendo dito por alguém que me conhecia. Que realmente me conhecia.
Entrei no quarto e fechei a porta.
A cama parecia grande demais para uma pessoa só. O quarto parecia grande demais para o corpo que eu tinha naquele momento. Tudo ali era macio, limpo, silencioso. Deitei sem apagar totalmente a luz. Não consegui. A escuridão completa, depois do abrigo, parecia uma confiança que eu ainda não possuía. Fiquei olhando para o teto, usando roupas que não eram minhas, em uma casa que eu jamais deveria conhecer, enquanto lá fora o mundo, talvez, continuava queimando.
A adolescente que fui teria inventado mil versões daquela cena.
Teria imaginado chegar à casa de como quem entra em uma história impossível. Teria reparado em cada detalhe com euforia, teria transformado o quarto em cenário, o jantar em destino, o sorriso dele em sinal. A adolescente que fui jamais acreditaria que um dia eu dormiria sob o teto dele, usando um moletom dele, depois de conversar sobre minhas músicas favoritas com ele em uma cozinha iluminada por uma luz amarela.
A adulta que eu era não conseguia sentir alegria por isso.
Não de verdade.
Porque, para chegar ali, eu tinha atravessado uma cidade morta. Tinha deixado e Clair em um abrigo vermelho. Tinha visto corpos no chão. Tinha aceitado a casa de alguém famoso não como sonho, mas como abrigo. E talvez fosse essa a violência mais silenciosa do fim do mundo: ele não apenas tirava coisas. Ele também contaminava as coisas que, em outra vida, teriam sido bonitas.
Virei de lado, puxando o cobertor até o queixo.
Antes de fechar os olhos, pensei na casa desenhada por Clair, com porta e maçaneta. Pensei que, se ela estivesse viva, talvez ainda pudesse desenhar outra. Pensei que, se minha família estivesse viva, talvez um dia uma mensagem chegasse. Pensei que, se eu continuasse viva, talvez pudesse descobrir.
Talvez.
A palavra veio se deitar comigo.
Capítulo 8 - O rádio
Indicação de música para esse capítulo: Disappear – Jovanni Cardenas.
Nos primeiros dias na fazenda, eu aprendi que silêncio também podia fazer barulho. Não o silêncio bonito que as pessoas procuram quando dizem que precisam descansar. Não aquele silêncio de manhã cedo, com café quente, janela aberta e uma casa ainda sonolenta. O silêncio da fazenda era grande demais. Ele vinha dos campos vazios, das árvores atrás da casa, das janelas cobertas, das portas trancadas, do portão fechado ao longe. Entrava por frestas que não existiam e se sentava conosco à mesa. Às vezes, quando eu acordava no quarto enorme que havia me dado, demorava alguns segundos para lembrar onde estava; nesses segundos, o silêncio parecia paz. Depois eu lembrava, e ele virava outra coisa.
A fazenda era segura. Ou parecia.
E essa diferença, pequena na gramática, era imensa no corpo.
Passamos os primeiros dias fazendo listas. tinha cadernos, canetas, pranchetas, coisas que, antes, eu teria associado a composições, compromissos, administração de casa, qualquer coisa doméstica e normal. Agora eram instrumentos de sobrevivência. Anotamos alimentos, água, pilhas, velas, remédios, ferramentas, roupas, produtos de limpeza, gasolina, rotas, portas, janelas, pontos cegos, pontos altos, cercas frágeis. Ele conhecia a casa, mas não a conhecia daquele jeito. Ninguém conhece a própria casa pensando em invasão de mortos. Uma janela bonita vira risco. Uma porta lateral vira vulnerabilidade. Uma árvore próxima demais do muro vira pergunta. A arquitetura da vida anterior se transforma em mapa de medo.
fazia isso com uma concentração quase silenciosa. Andava pelos cômodos, testava trancas, verificava fechaduras, contava latas, observava o perímetro. Às vezes, parecia saber exatamente o que fazer. Outras, parava no meio de uma tarefa com a mão apoiada em uma prateleira e os olhos fixos em nada. Eu não perguntava. Aprendi rápido que algumas pausas não pedem conversa. Ele devia estar pensando na família. Na mãe. Nas irmãs. Nos amigos. Na filha. era uma palavra que não aparecia o tempo todo, mas habitava a casa como uma presença invisível. Eu a via quando ele olhava para o celular sem sinal. Quando verificava a estrada do andar de cima. Quando ficava tempo demais diante do rádio que ainda não tínhamos conseguido usar direito. Quando dizia “amanhã” como se a palavra precisasse de permissão.
Eu também tinha meus fantasmas.
Eu estava preocupada com minha família. Mas estando em outro país, sinto que o meu foco acabou sendo outro: A mochila de Clair continuava na cozinha durante o primeiro dia. Depois, levei para o meu quarto. Depois me arrependi e trouxe de volta. Não havia lugar certo para ela. No quarto, parecia um altar. Na cozinha, parecia uma acusação. No sofá, parecia que Clair voltaria para buscá-la e reclamaria por eu ter mexido. Por fim, deixei-a em uma cadeira perto da entrada lateral, onde eu a via sempre que passava. Dentro, mantive os desenhos, a meia, os lápis, a caneta sem tampa. Eu dizia a mim mesma que era porque, se encontrássemos e Clair, eu poderia devolver. Mas havia outra verdade, mais feia: enquanto a mochila estivesse comigo, o desaparecimento delas continuava incompleto. Uma perda sem objeto é abstrata demais. A mochila me dava algo para carregar, e carregar algo era menos horrível do que carregar apenas culpa.
A rotina na fazenda começou pequena e prática.
Acordávamos cedo, embora nenhum de nós dormisse bem. Primeiro verificávamos as janelas. Depois as portas. Depois o portão, com cuidado para não nos expor demais. me ensinou a usar uma arma. Eu odiava o peso dela. Não no sentido moral bonito, embora isso também existisse, mas no sentido físico: o metal frio, a ideia de que um objeto tão pequeno podia mudar o estado de um corpo no mundo. Minhas mãos tremiam. Ele não riu. Corrigiu minha postura, minha respiração, a posição dos dedos. Falava baixo, paciente, com uma seriedade que me deixava mais nervosa do que se estivesse impaciente.
À tarde, fazíamos comida, normalmente algo simples, ainda que simples ali continuasse parecendo luxo. Arroz, massa, sopa mais grossa do que a do abrigo, ovos enquanto ainda havia, latas abertas com cuidado para que nada fosse desperdiçado. insistia em organizar as porções. Eu insistia em não parecer impressionada com a despensa. Nenhum de nós dizia em voz alta que, mesmo ali, com tanta coisa em comparação ao abrigo, tudo acabaria. Era óbvio demais para ser dito e pesado demais para virar conversa diária.
À noite, mantínhamos pouca luz.
A casa, vista de fora, precisava parecer abandonada. Era uma decisão lógica e melancólica. Casas foram feitas para anunciar vida: luz nas janelas, cheiro de comida, sons, movimento, cortinas abertas. Nós fazíamos o oposto. Cobríamos frestas, apagávamos cômodos, andávamos sem barulho, falávamos baixo. Existir havia se tornado algo que precisávamos esconder.
Sem internet, sem televisão, sem sinal, a casa ficava fora do tempo.
Nos primeiros dias, tentamos os celulares por hábito. subiu em um ponto mais alto do terreno, perto de uma árvore grande, segurando o aparelho acima da cabeça como eu havia feito no abrigo. Eu o observei da varanda, lembrando de como ele brincou comigo sobre meu relacionamento intenso com uma barra de sinal. Dessa vez não fiz piada. Ele ficou lá por quase quinze minutos, parado, braço erguido, o vento mexendo na camiseta, a esperança diminuindo centímetro por centímetro até ele baixar a mão. Quando voltou, apenas balançou a cabeça. Eu tentei depois. Nada.
As mensagens para minha família continuavam presas em algum limbo. Algumas falhavam. Outras ficavam com o pequeno relógio cinza por horas, cruéis em sua promessa. Eu passei a economizar bateria e esperança ao mesmo tempo. Olhava uma vez de manhã, uma vez à tarde, uma vez antes de dormir. Como quem visita uma janela que dá para uma parede.
encontrou uma televisão pequena em um dos cômodos e tentou conectá-la. Estática. Canais mudos. Imagens quebradas que não formavam nada. Por alguns segundos, uma tela azul apareceu com uma tarja de emergência, mas o sinal caiu antes de qualquer frase. Ficamos sentados no chão diante dela como crianças esperando um adulto explicar o barulho no andar de baixo. Nada veio.
Foi depois disso que começamos a falar do rádio.
Não imediatamente. A ideia ficou entre nós por um tempo, como uma porta que sabíamos que precisaríamos abrir. O carro tinha rádio. Havia também um aparelho antigo no escritório da casa, mas ele precisava de ajustes e pilhas específicas. dizia que talvez o carro captasse alguma coisa se fôssemos para um ponto mais aberto da propriedade. Eu dizia que deveríamos tentar. Nenhum de nós se mexia. Acho que o rádio nos assustava porque, ao contrário do silêncio, ele poderia responder. E respostas, naquele mundo, raramente eram gentis.
No quarto dia, acordei com o som de algo caindo.
Sentei na cama com o coração disparado, tateando o criado-mudo até encontrar a lanterna. Durante alguns segundos, fiquei imóvel, ouvindo. Nada. Depois, outro som, mais baixo. Vinha do andar de baixo. Peguei a lanterna com uma mão e a faca que havia deixado para mim com a outra. O gesto ainda parecia teatro, mas um teatro necessário.
Desci devagar.
A cozinha estava escura, iluminada apenas por uma faixa azulada da madrugada entrando por uma fresta mal coberta. estava agachado perto de um armário, recolhendo latas que tinham caído. O cabelo bagunçado, camiseta velha, pés descalços. Ele virou ao me ver e ergueu as mãos de leve.
— Sou eu.
Soltei o ar.
— Eu percebi.
— Depois de quase me matar?
— Eu estava avaliando. — Ele olhou para a faca na minha mão. — O que aconteceu?
— Fui pegar uma coisa e derrubei metade do armário.
— Às três da manhã?
— Não consegui dormir.
Isso encerrou a parte engraçada da conversa.
Guardei a faca sobre a mesa e o ajudei a recolher as latas. Feijão, milho, tomate, sopa pronta. Latas fazem um som específico quando rolam no chão de uma casa silenciosa. Um som de abundância ameaçada. Coloquei uma delas de volta na prateleira com cuidado excessivo.
— Você estava procurando comida? — perguntei.
Ele demorou.
— Chá.
Olhei para ele.
— Chá?
— Sei que parece idiota.
— Não parece.
Parecia humano. Era pior.
Ele encontrou a caixa no fundo do armário. Fizemos chá fraco porque ambos fingimos que queríamos dormir depois. Sentamos à mesa da cozinha, com as mãos em volta das canecas, sem acender a luz principal. O escuro nos deixava mais honestos ou talvez apenas menos capazes de fingir bem.
— Sonhei com ela — ele disse.
Eu não perguntei quem.
— Ela estava no abrigo?
Ele assentiu.
— Eu chegava lá, mas sempre no segundo depois. A porta fechava. Ou ela entrava em um corredor. Ou alguém dizia que ela tinha acabado de sair. Era sempre quase.
Quase era uma palavra cruel.
— Eu sonho com ligações — falei. — O celular toca, eu vejo o nome da minha irmã, atendo e a voz não sai. Ou sai, mas não é ela. Ou é ela, mas eu acordo antes de entender.
Ele ficou olhando para a caneca.
— Eu odeio acordar desses sonhos. Por um segundo parece que ainda dá tempo.
— É. — Concordei, cruzando os braços. Estavamos apoiados em bancadas opostas, de frente para o outro. Ele tinha as palmas da mão apoiadas na bancada. — Às vezes eu acordo achando que tudo isso é sonho, por um momento eu acho que vou encontrar meu pai na cozinha fazendo o café e me dar o abraço de bom dia que ele sempre dava. — Sorri, ao lembrar dele. Era sempre bem-humorado. Imagino que mesmo com o mundo acabando ele ainda daria um jeito de fazer Lenora sorrir. Queria abraçá-lo novamente.
Senti me encarar. Ele não disse nada, mas sei que prestava atenção.
Bebemos em silêncio.
Foi naquela madrugada que decidimos tentar o rádio de manhã. Em breve o combustível do gerador acabaria, duraria mais algumas semanas e teríamos que partir de qualquer jeito.
A manhã veio clara demais.
O céu estava limpo, sem a fumaça visível da cidade, e isso tornava tudo mais estranho. Saímos depois de verificar a área pela janela do andar superior. dirigiu o carro até uma parte mais aberta da propriedade, perto de um campo onde a casa ainda podia ser vista, mas ficava distante o suficiente para talvez captar melhor. Ele levou uma arma. Eu também.
O carro estava parado sob o sol, motor ligado apenas o bastante para alimentar o rádio. Sentamos nos bancos da frente, portas fechadas, janelas quase todas erguidas. Do lado de fora, o campo se movia com o vento. Era uma cena bonita se alguém apagasse o contexto. Dois sobreviventes em um carro, cercados por silêncio, procurando uma voz no fim do mundo.
girou o botão.
Estática.
Chiado.
Uma música quebrada por meio segundo, tão distorcida que não consegui reconhecer.
Mais estática.
Ele ajustou devagar, com a concentração de quem tenta abrir um cofre. Eu segurava o caderno no colo, pronta para anotar qualquer informação. Era ridículo como eu precisava de papel diante do desconhecido. Como se transformar medo em frases o tornasse obediente.
— Nada — ele murmurou.
— Continua.
Ele continuou.
Por quase dez minutos, tudo que conseguimos foi ruído. O chiado do rádio parecia zombar de nós. Cada vez que uma voz surgia por um fragmento de segundo, meu corpo inteiro reagia. Depois vinha estática de novo. Senti raiva. Do rádio, do governo, da distância, da física, da minha própria esperança.
Então uma voz apareceu.
Primeiro baixa, engolida por interferência. Depois mais clara.
— ...transmissão emergencial... repito... transmissão emergencial para civis não contaminados na região da Pensilvânia...
congelou com a mão no botão.
— Não mexe — eu sussurrei, como se a voz pudesse se assustar.
A transmissão falhava, mas continuava.
— ...dos cinco abrigos temporários designados inicialmente, três registraram contaminação interna e foram considerados comprometidos. Civis saudáveis devem evitar essas instalações. Repito: três abrigos comprometidos...
Meu estômago afundou.
Três.
O nosso era um deles. Claro que era. Eu já sabia. Tinha visto. Mesmo assim, ouvir aquilo dito por uma voz oficial, com a frieza de quem reduz corredores, crianças, cobertores e luz vermelha à palavra comprometidos, me deu vontade de gritar.
olhou para mim. Eu continuei olhando para o rádio.
A voz prosseguiu:
— ...dois centros de recepção permanecem ativos. Instalação subterrânea B-17, setor oeste, capacidade limitada. Acampamento de contenção e triagem sob supervisão militar, zona rural ao norte, perímetro murado, capacidade em expansão. Civis sem sintomas devem dirigir-se ao centro ativo mais próximo, evitando áreas urbanas densas. Todos os indivíduos serão submetidos a avaliação médica antes da entrada...
Peguei a caneta, mas minha mão tremia.
— B-17 — repeti, escrevendo torto. — Setor oeste. Acampamento militar ao norte. Perímetro murado.
A transmissão chiou.
— ...não se aproximem caso apresentem febre alta, confusão, agressividade, ferimentos de mordida ou exposição direta a fluidos contaminados...
A voz falhou novamente. Depois voltou com uma gravação repetida, desde o início. diminuiu o volume, mas não desligou.
Ficamos parados.
O campo lá fora continuava se movendo. O sol continuava nas folhas. Uma nuvem passava devagar sobre a linha das árvores. Tudo aquilo parecia ofensivamente calmo para uma informação que acabava de reorganizar nossas vidas.
— Três abrigos — eu disse.
Minha voz estava distante.
— Sim.
— Três de cinco.
— ...
— e Clair podem ter ido para um dos outros.
não respondeu.
Eu virei para ele.
— Podiam. — Ele disse com cuidado. Não como quem acreditava, exatamente. Como quem se recusava a tirar isso de mim. — Se evacuaram, talvez tenham sido levadas para outro centro. Talvez o B-17. Ou o acampamento.
Talvez. De novo. A palavra apareceu entre nós com seu rosto miserável e necessário.
passou a mão pelo rosto. Ele estava pálido.
— O acampamento ao norte pode ter listas. Se for militar, pode ter registro de quem entrou.
— O bunker também.
— Sim.
— Então a gente precisa ir.
A frase saiu imediata. Sem cálculo. O rádio tinha transformado a espera em indecência. Havia dois lugares ativos. Dois pontos no mapa onde talvez houvesse respostas. Ficar na fazenda, de repente, parecia menos prudência e mais covardia.
desligou o rádio.
O silêncio que veio depois foi enorme.
— Eu preciso encontrar a — ele disse.
Não foi uma declaração dramática. Foi uma coisa que ele já vinha dizendo sem dizer desde o primeiro dia. Agora ganhou forma inteira. . A filha. A possibilidade de ela estar em algum abrigo, com a mãe, registrada em alguma lista, respirando em algum lugar que ainda não havia sido comprometido.
— Eu sei — respondi.
E eu sabia. Não apenas entendia racionalmente. Eu sabia com o corpo. O nome da família dele tinha o mesmo peso que os nomes da minha. , para ele, era Brasil para mim. Era e Clair também, de outra forma. Era o lugar para onde todo pensamento voltava quando não havia distração suficiente.
Ele olhou para o para-brisa.
— Se elas estão em algum lugar, é mais provável que seja no acampamento militar. Mia... — Ele parou ao dizer o nome, talvez por achar estranho me trazer uma pessoa tão íntima dele para dentro do carro. — A mãe dela saberia procurar um lugar com mais estrutura. E se houve evacuação, militares talvez tenham levado famílias para lá.
Mia.
Eu conhecia o nome, claro. Era impossível não conhecer. Em outro mundo, esse nome pertencia a notícias, fotos, comentários, timelines. Uma modelo. Ali, dentro do carro, virou apenas uma mulher com uma criança tentando sobreviver. A normalidade das celebridades também tinha morrido. Ou talvez nunca tivesse sido normal de verdade.
— iria para onde mandassem — eu disse. — Ela estava com uma criança. Se alguém oferecesse proteção, ela iria.
— Então o acampamento também faz sentido.
— Mas o bunker pode ter recebido gente evacuada do nosso abrigo.
— Pode.
— E se escolhermos errado?
Ele ficou em silêncio.
Essa era a pergunta central. Não qual lugar era melhor. Não qual era mais seguro. Mas qual erro conseguiríamos suportar. Se fôssemos ao bunker e estivesse no acampamento, cada hora perdida poderia pesar sobre ele pelo resto da vida. Se fôssemos ao acampamento e estivesse no bunker, eu teria abandonado-a duas vezes. O mapa não era geográfico. Era moral.
— A transmissão disse que o bunker tem capacidade limitada — falou depois de algum tempo. — O acampamento está em expansão.
— Isso não significa que não esteja lá.
— Eu sei.
— E capacidade limitada pode significar que eles fecham as portas antes da gente chegar.
— Sim.
A franqueza dele me irritou e me acalmou ao mesmo tempo.
— Você quer ir para o acampamento — eu disse.
Ele respirou fundo.
— Quero.
Assenti.
Olhei para o caderno no meu colo. Minha letra estava torta, quase irreconhecível. B-17. Oeste. Acampamento militar. Norte. Perímetro murado. Três abrigos comprometidos. Eram apenas informações, mas pareciam acusações.
Eu queria dizer que precisávamos ir primeiro ao bunker. Queria defender com a mesma certeza que ele defendia . Queria ser a pessoa que não cedia. Mas uma parte de mim, a parte que ainda conseguia pensar apesar da culpa, entendia que o acampamento talvez fosse a melhor chance para ambos. Mais estrutura. Mais registros. Mais pessoas. Talvez comunicação com outros centros. Talvez listas. Talvez alguém soubesse sobre o bunker. Talvez, se estivesse viva, tivesse sido levada para lá. Talvez.
Sempre talvez.
— Eu quero encontrar e Clair — falei.
— Eu sei.
Virei o rosto para a janela. O campo ondulava sob o vento. Pensei em Clair desenhando casas, em dizendo que a filha aceitava melhor quando a culpa era do mundo. Talvez eu precisasse acreditar nisso. Que a culpa era do mundo. Mas o mundo era grande demais para carregar sozinho, então eu continuava pegando uma parte para mim.
— A gente não pode ficar aqui para sempre — disse.
A frase pairou entre nós.
A fazenda parecia segura. Tinha comida, água, silêncio, paredes, espaço, portão. Mas também tinha isolamento, falta de informação, recursos que acabariam e uma solidão que talvez, com o tempo, nos transformasse em pessoas incapazes de sair. Segurança demais, no começo do apocalipse, podia virar armadilha. Um lugar confortável o suficiente para adiar decisões até que elas deixassem de existir.
— Eu sei — respondi.
— Ainda temos combustível. Se organizarmos direito, conseguimos chegar.
— E se a estrada estiver bloqueada?
— Procuramos outra.
— E se o acampamento não aceitar mais pessoas?
— Pensamos depois.
— Você gosta muito dessa estratégia.
Ele olhou para mim.
— Qual?
— Pensar depois.
Um sorriso pequeno apareceu, cansado.
— Tem funcionado de forma questionável.
— Bem questionável.
O sorriso morreu, mas deixou alguma coisa menos dura no ar.
Voltamos para a casa com o rádio desligado e a transmissão repetindo dentro da minha cabeça. Três dos cinco abrigos comprometidos. Civis saudáveis devem dirigir-se. Avaliação médica antes da entrada. Eu me perguntava se “saudável” ainda significava algo além de não ter sido mordido. Eu não me sentia saudável. também não parecia. Nós estávamos vivos, limpos por fora, sem febre, sem feridas. Mas havia corredores vermelhos dentro de nós. Havia vozes que não respondiam. Havia pessoas que talvez ainda estivéssemos perdendo em tempo real.
Na cozinha, espalhamos tudo sobre a mesa.
Mapa da região. Caderno. Canetas. Garrafas de água. Barras de cereal. Uma caixa de munição que eu tentei não olhar demais. Lanternas. Pilhas. Medicamentos básicos. marcava rotas possíveis com a ponta da caneta. Eu anotava suprimentos como se isso me impedisse de imaginar dentes nas estradas.
— Saímos amanhã cedo — ele disse.
A decisão me assustou mesmo depois de eu mesma ter dito que precisávamos ir.
— Amanhã?
— Quanto mais cedo, menos chance de encontrar gente desesperada nas estradas. E menos tempo para a situação piorar.
— Você fala como se a situação ainda tivesse margem.
— Sempre tem.
Aquilo não era pessimismo. Era experiência recém-adquirida.
Passei a mão pela testa.
— Eu não sei se consigo dormir sabendo disso.
Ele me olhou, eu encarei de volta, buscando entender o que ele pensava. Ponderou um pouco e concordou com a cabeça, cruzando os braços. Finalmente disse:
— Então esperamos mais uma noite.
— O quê? — Indaguei, surpresa. Ele tinha pressa. Eu sabia. Por que esperar?
— A gente pode sair depois de amanhã. Amanhã organizamos tudo, testamos o carro, verificamos combustível, separamos roupas e comida. Uma noite a mais não vai mudar tanto.
— Pode mudar tudo. — Disse, contrariando.
— Pode. Mas quero que você esteja bem.
Ele se apoiou na mesa, cansado. Só então notei o quanto ele parecia exausto. Não apenas fisicamente. Havia uma tensão constante nos ombros, no maxilar, na forma como os dedos apertavam a caneta. Ele queria correr para a filha. Eu queria correr para uma resposta. Mas nossos corpos ainda pertenciam ao colapso do abrigo. Talvez ele estivesse certo. Talvez partir no impulso fosse apenas uma forma diferente de morrer.
— Uma noite — eu disse.
Ele assentiu.
— Uma noite.
— Amanhã organizamos tudo.
— Tudo.
— E depois vamos ao acampamento.
Ele hesitou, quase nada.
— Ao acampamento.
A escolha estava feita.
Senti culpa imediatamente.
O bunker B-17 pareceu se afastar do papel, levando com ele. Tentei me convencer de que o acampamento era racional. Mais estrutura. Perímetro murado. Capacidade em expansão. Possível registro de evacuações. Talvez conexão com outros centros. Talvez . Talvez Clair. Mas a culpa não respeita argumentos logísticos. Ela apenas pergunta: e se?
E se elas estiverem no bunker?
E se Clair estiver esperando com a mochila perdida?
E se pensar que eu não procurei?
Fechei o caderno com força.
percebeu.
— A gente vai perguntar por elas assim que chegar.
— Se deixarem a gente entrar.
— Quando deixarem.
A correção foi pequena, mas intencional. Quando. Não se. Pela primeira vez em dias, ele me ofereceu uma palavra que não era talvez.
Eu aceitei porque precisava.
Passamos o restante do dia organizando suprimentos. A casa se tornou um ponto de partida. Mochilas no chão. Roupas dobradas sem capricho. Garrafas enchidas. Facas limpas. Lanterna testada. Comida separada em porções. me deu uma mochila mais resistente e, sem dizer nada, colocou a mochila de Clair dentro dela, protegida entre roupas. Olhei para ele quando percebi.
— Achei que você fosse querer levar — disse.
Minha garganta apertou.
— Obrigada. — disse. Ele sorriu, gentil.
À noite, jantamos algo simples. Não falamos muito. A decisão entre nós ocupava espaço demais. O rádio, agora desligado, parecia continuar transmitindo de algum cômodo invisível. Eu pensava no acampamento militar, em muros, soldados, exames, listas. Pensava em encontrar viva. Pensava em encontrar sem Clair. Pensava em não encontrar ninguém. Pensava em vendo correr até ele. Pensava em não vendo.
Depois de lavar os pratos, ficamos na sala com pouca luz. Ele sentado em uma poltrona, eu no sofá, a mochila já preparada perto da escada. A distância entre nós era maior do que a dos últimos dias, mas a solidão parecia menor. Era estranho. Às vezes, duas pessoas podem estar em lados opostos de uma sala e ainda assim dividir a mesma beira de precipício.
— Você acha que ela vai me reconhecer? — ele perguntou.
Eu sabia de quem falava.
— Sua filha?
Ele assentiu, olhando para as próprias mãos.
— Criança muda rápido. E eu... não sei quanto tempo vai parecer para ela.
A pergunta era tão delicada que tive medo de tocá-la errado.
— Acho que filhos reconhecem os pais de formas que a gente não entende.
Ele sorriu de leve, triste.
— Resposta honesta.
— Estou tentando praticar.
O silêncio voltou.
— E você? — ele perguntou. — O que quer que aconteça quando conseguir falar com sua família?
A pergunta abriu um buraco.
Eu poderia dizer que queria ouvir que estavam bem. Que queria uma chamada completa, a voz da minha irmã, meu pai perguntando se eu estava comendo, meu irmão fingindo calma, minha sobrinha falando qualquer coisa sem sentido. Mas havia algo por baixo disso, algo mais egoísta e mais simples.
— Quero que alguém saiba que eu estou viva — respondi. ficou quieto. — E quero poder falar em português um pouco. — Brinquei, ele sorriu.
— Nisso não consigo te ajudar, sinto muito.
— Mas acho que é isso. Eu quero existir para alguém que me conhecia antes. — Passei os dedos pela manga do moletom dele, que eu ainda usava. — Aqui, eu sou... não sei. Uma pessoa sobrevivendo. No abrigo eu era uma pulseira. Na estrada, era um corpo correndo. Eu quero que alguém diga meu nome como se eu ainda fosse eu.
Ele me olhou por um tempo.
— Quero poder ser essa pessoa para você enquanto estiver aqui, — um segundo. Eu contei. — .
Meu peito apertou.
Não foi uma solução. Não era minha família. Não era meu país. Não era a voz da minha irmã ou o abraço do meu pai. Mas foi meu nome, dito com cuidado, naquela sala escura de uma casa isolada, por alguém que também queria ser reconhecido por uma criança talvez distante demais.
Eu desviei o olhar primeiro.
— Obrigada.
Ele apenas assentiu.
Naquela noite, antes de dormir, deixei a mochila preparada ao lado da cama. A de Clair estava dentro. O caderno com as informações do rádio, no bolso da frente. A arma, onde havia dito para deixar. O celular morto, carregando em uma tomada que talvez não servisse para nada se o mundo lá fora já não tivesse torres funcionando. Deitei sem apagar completamente a luz, como na primeira noite.
A fazenda estava silenciosa.
Mas, agora, o silêncio não parecia apenas proteção. Parecia espera.
Ficaríamos mais uma noite. Só uma. Depois sairíamos em direção ao acampamento militar, ao norte, deixando para trás a casa bonita, a comida organizada, o banho quente, os quartos grandes, a breve ilusão de que paredes e portões bastavam. Eu sabia que, quando partíssemos, talvez nunca mais voltássemos. Ou talvez voltássemos diferentes demais para reconhecer o lugar.
Fechei os olhos.
Pensei em . Pensei em Clair. Pensei em . Pensei no Brasil.
E, pela primeira vez desde o abrigo, não pedi que o mundo voltasse ao normal. Pedi apenas que, quando a próxima porta se abrisse, houvesse alguém vivo do outro lado.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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