Última atualização: 29/01/2020

1

Quarta Feira, 1:19pm

“Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso um grande coração para incluir os espinhos.”

O tempo frio daquela quarta feira, contrariava os amantes do verão. Mas era uma eterna apaixonada pelo inverno. Combinava com uma parte fria que habitava seu ser. Mas ela também sabia florescer e mostrar todo seu calor. Porém como todo bom soldado, ela sabia recuar. Guardar suas armas, suas flores, seu calor. Ela também sabia ser outono.
Acabara de estacionar para atender o celular que já tocava havia um tempo. Quando foi atender, a chamada caiu. Olhou no registro de chamadas e era um número novo, desconhecido. Pensou em ligar de volta, mas um carro de repente, estacionou bem na sua frente, arranhando a lateral de seu carro, bem perto do farol. Irritada desceu do carro, batendo a porta com força. Olhou a lataria de seu Passat branco. E só confirmou o prejuízo.
Escutou a porta do carro da frente bater e encarou uma mulher loira, com roupas vulgares vir em sua direção.
- Ei, você arranhou meu carro! - a mulher, que mais parecia estar vestida para um baile funk, falou, deixando uma incrédula. Respirou fundo e, segurando a arma que estava em seu coldre na cintura, sentiu toda a coragem e confiança para dar os próximos passos.
- Meu carro estava estacionado. - falou na maior calma.
- Você arranhou meu carro. - repetiu com a voz pegajosa.
- Meu anjo, acho que você não está entendendo, mas vou te explicar. - chegou a ficar cara-a-cara com a loira. - Você é uma puta que deu uma puta barbeiragem, estragou meu carro e eu nunca fico no prejuízo, entendeu?!
A loira a olhou um pouco assustada e logo deu lugar a um olhar desafiador.
- Eu vou chamar a polícia. - riu bastante e tirou seu distintivo.
- Me chamou? - ela sorriu, vitoriosa. - Pois não, senhorita!
- Fala sério. - a outra suspirou fundo em derrota. - Eu conserto.
- Quero sua identidade. - a loira a olhou, sem entender. - Para garantir.
E, então, pegou o número da loira e tirou foto da identidade dela, que foi embora fumegando.
olhou em volta e viu um café do outro lado da rua. Atravessou a rua, escutando seus saltos baterem firmes no asfalto. Muitos olhares se voltavam pra ela, mas quando não a olhavam? Escutou passos apressados andarem até ela.
- Você sempre costuma fazer isso? - o homem, de pele bronzeada, alto (muito alto) e forte, andava do seu lado.
- Ser linda e maravilhosa? Claro. - ela disse, sem nem olhá-lo.
- Eu iria dizer do abuso de poder. - ele falou, olhando-a de cima a baixo. - Mas já que você fez uma boa propaganda de você, devo concordar. Muito gostosa.
o olhou pela primeira vez e sorriu confiante. E o homem na mesma hora percebeu, ela era encrenca. E ele adorava uma confusão.

- O café aqui é muito bom. - disse descontraída, enquanto dava mais dois goles da bebida.
- Você precisa experimentar do meu. - o homem disse maliciosamente e piscou pra ela. - É muito gostoso.
O homem deixou a mulher sem graça, coisa muito incomum. Mas logo ela deu lugar ao seu olhar determinado de sempre e varreu o local com os olhos. Nada de estranho, tudo parecia tranquilo.
- Qual seu nome? - perguntou, o homem não conseguiu evitar que seus olhos encarassem os lábios da moça, enquanto sua língua os molhava.
- . - o encarou séria, pensando em qual era a do cara. - E o seu?
- Por que tanta pressa, gata?! - ele falou, rindo. - Um nome não é nada.
Ela passou a língua pelo lábio superior, num movimento sexy, e arqueou a sobrancelha. O homem riu.
- Está querendo me seduzir, ? - ele perguntou, a voz rouca saiu sedutoramente.
- Não quero. - se levantou, e o homem viu o coldre quando sua jaqueta balançou em seu corpo.
- Pra que andar armada assim? - indagou.
- Porque eu posso. - ainda em pé, encarava o homem quando esse se levantou.
- Não falo do que tem em seu coldre. - ele disse por fim, sério. - Eu digo essa armadura que você veste.
Apontou para o peito da mulher, e ela não soube o que responder. Um sorriso fraco foi o que ela deu antes de sair pelo café, deixando a conta para o homem pagar.

Quinta feira, 9:24am

A Delegacia nunca seria um lugar acolhedor. Bom, pelo menos para os acusados e injustiçados. Para quem trabalhava ali e amava a profissão, ali era um segundo lar. E foi assim que se sentiu quando saiu da sala do Capitão Andres Truglio. Ele lhe informara que ela teria como parceira a Detetive para um caso de um traficante renomado da região. Deu uma olhada em todos da delegacia e cada um realizava uma função. Estavam entretidos. Pensou em como acharia a . Pensou mais um pouco e viu seu irmão entrar na delegacia rindo com um rapaz que ela nem se deu o trabalho de observar melhor. Como tinha mudado!
Andou apressada até ele e se jogou em seus braços, o apertando muito enquanto ria. O irmão não teve tempo nem de ver quem era e confusão era o que estampava o seu rosto.
- Que saudade. - limpou uma lágrima que teimou em escorrer por sua bochecha.
- Caralho! ? - o irmão, então, a puxou para um outro abraço, rindo. - O que está fazendo aqui?
- Fui transferida. - falou, sorrindo satisfeita, e, então, seu olhar cruzou com o do rapaz que acompanhava o irmão.
- Você?! - riu, não acreditando. O rapaz riu nervoso, coçando a cabeça. Eles eram namorados?
- Acho que me lembro de você, é , não?! - deu uma de esquecido, o que fez ela gargalhar.
- Claro que lembra, te falei meu nome ontem. - ela olhou pro irmão que até então os olhava interrogativo.
- Você conhece a de onde? - perguntou sem rodeios, fazendo o amigo quase (eu disse quase) vacilar.
- Tomamos um café ontem, mas sem segundas intenções, falo sério. - abanou as mãos nos ares como se falasse que não havia nada de segunda intenções. Talvez terceiras e quartas ou até quintas…
- Foi só isso? - perguntou, cerrando os olhos o que fez a moça revirar os olhos e dar um tapa no braço do irmão.
- Pare com isso. Ele é meu irmão. - falou pro rapaz, que mudou drasticamente sua expressão. Se antes ele estava sem graça, agora ele tinha perdido o molejo. Irmã do seu melhor amigo? A olhou descrente. - E se não tivesse sido apenas um café, isso não te diz respeito, .
Falou firme com o irmão, que apenas a olhou meio nervoso. Embora fosse mais nova que ele, ele sempre soube se impor quando queria. Mesmo que para fazê-la mudar de ideia não bastava muito, pois a irmã tinha um coração de manteiga.
- Quem é detetive ? - perguntou para os homens a sua frente. Demoraram um pouco para raciocinar.
- Tá interessada? - perguntou o homem que ela ainda não sabia o nome.
- Sim. - ela riu, desafiando-o.
- A moça de camisa azul. - apontou o irmão. Ela, então, deu um beijo na bochecha do irmão e foi de encontro a sua nova companheira em casos diversos.
e o amigo olharam se afastar rapidamente. Os dois estavam mexidos. por encarar que não tinha mais seus 17 anos e que em 5 anos muita coisa muda. Ela era uma mulher feita.
Já o amigo pensava em como ela era uma mulher muito bem feita.

- Fica tranquila, ele é doido, mas é inofensivo. - falou e apenas confiou.
- Desde que ele não me ofereça mais café coado na cueca dele. - falou e juntou os papéis. a olhou incrédula.
- Você viu ele fazendo isso? - perguntou fazendo cara de nojo.
- Ele me falou. - e enfim tinham pegado intimidade em poucos minutos. Teriam um caso para resolver e elas se sentiam confortáveis na presença uma da outra. Estavam falando de Marlon, um senhor que tinha costumes estranhos e muito incomuns.
- Quem é a mulher mais chata dessa delegacia, quem, quem? - o amigo de se aproximou abrindo os braços na frente de , o que fez a mulher apenas revirar os olhos.
- Você nunca vai crescer, não é ? - a mulher disse fazendo com que percebesse qual era o seu nome. - Essa é , minha parceira agora.
- Nós já nos conhecemos. - ele disse sem a graça de antes.
- Então já que não preciso fazer as honras, vou falar com o capitão. - saiu carregando um punhado de papéis. Tinha dúvidas quanto ao endereço dos traficantes que estava na papelada.
- . - falou o encarando de cima a baixo, divertida.
- . - ele fingiu uma voz sedutora que levou a moça a dar altas risadas. - O homem mais sexy dessa delegacia.
- Sem dúvidas. - ela falou pegando sua bolsa e a jaqueta que estavam numa cadeira. - Tenho que ir antes que eu não resista.
Piscou os olhos para que apenas ficou rindo.
- Ei, Carlos. - chamou um colega. - Vamos ver quem come mais coxinhas?
Gritou de onde estava, fazendo com que todos o olhassem em repreensão.

- Olha só, ela sabe brincar de polícia e ladrão. - se levantou e foi até , que segurava um homem algemado.
- Cai fora, . - falou, séria, o que fez apenas levantar as mãos em sinal de rendição.
- Sorte de principiante. - ele sussurrou perto do pescoço da , o que fez com que ela se arrepiasse.
- Por eu ter chegado aqui hoje, até que você fez uma observação bem tendenciosa. - ela falou, dando um tranco no homem, que ainda estava algemado, pra ele andar. - Mas não é a minha primeira vez.
Ela sorriu e piscou. E ? Ah, esse não sabia mais nem onde estava.

Sexta feira, 8:01pm

A cozinha era algo que gostava. Passaria horas ali sem perceber. Porém aquele dia ela estava acabada. Tinha passado o dia na rua, fazendo escolta, o que era algo que ela odiava. Estava esperando chegar, tinham marcado de beber e relaxar assistindo séries, o que descobriram ter em comum.
A campainha tocou.
- E aí? - disse e a colega entrou, trazendo consigo várias sacolas. - O que tem aí?
- Vinho, cerveja e vodka. - piscou e ficou surpresa. Quando combinaram de beber, ela não tinha pensado em se embebedar.
- Você leva esse lance de bebida bem a sério. - disse rindo ao abrir o congelador.
- Álcool é sagrado, . - disse, séria, e abriu uma cerveja no dente. tinha certeza que ela tinha quebrado pelo menos um. - Que comecem os trabalhos.
Virou a garrafa de uma só vez, o que fez a dona do apartamento olhar assustada pra amiga. Ela não parecia ser normal.
A campainha tocou.
- Pediu alguma coisa? - perguntou.
- Não. - ela respondeu, abrindo a porta e dando de cara com e .
- Irmãzinha. - a abraçou, com um braço cheio de sacolas, enquanto o outro segurava uma garrafa de cerveja. - Que saudade!
- A gente se viu a menos de 2 horas, . - deu passagem para os dois homens.
- Policial de folga passando. - entrou e, sem cerimônias, se jogou no sofá, avistou . - Vejam se não é a mulher mais chata da delegacia.
- Se você me encher o saco mais uma vez, , eu te dou um tiro na barriga. - ela disse, séria, se sentando, tirando os pés dele de cima da mesa e colocando os seus.
- Tão linda essa amizade. - comentou com a irmã que apenas riu, se passou bons minutos em silêncio. - Por que não me procurou assim que chegou na cidade?
- Eu estava arrumando minhas coisas, me estabilizando. Eu sabia que iria te encontrar na Delegacia.
- Estava realmente com saudade. - ele falou por fim, e ela se lembrou dos anos em que ficaram sem se ver.
- Eu não acredito. - ela disse, fazendo o irmão ficar estupefato. - Aqui não é tão longe de casa, você poderia ter ido lá quando quisesse, ver a gente.
- Eu… - o irmão se emocionou. - Não estava preparado pra ver a mamãe.
- Ela também não estava preparada pra não ter o único filho homem a evitando. - disse um pouco mais alto e, por fim, falou, baixinho: - Ela não estava preparada para essa doença, .
A bochecha de ficou molhada, mas ela tratou de secá-la na hora.
- Ela está aqui na cidade, veio comigo está se tratando aqui. - o que a irmã falou, fez apavorar. E dentro de si virou um misto de confusões sentimentais, tristeza, ódio, saudade, pesar, arrependimento, ansiedade, e, enfim, se tocou do que fez durante esses 5 anos.
- Eu vou vê-la e acompanhá-la no que ela precisar. - abraçou a irmã. - Me desculpe.
- Peça desculpas a ela. - ela disse, fria. - Você decepcionou foi ela, não eu. Eu meio que já esperava essa atitude de você.
-
- Rapaz, não tá queimando nada não? - apareceu e ficou fingindo cheirar algo.
- A LASANHA. - saiu correndo para pegar panos de prato para retirar a fôrma do forno. A lasanha era apenas pedaços queimados amargos. Ela encarou o irmão com raiva, e ele levantou os ombros como se falasse “não tive culpa”. Ela cerrou os olhos, querendo dizer “teve sim!”.
- Pessoal, quem quer pizza? - gritou, percebendo a tensão na cozinha.
- Pepperoni. - gritou da sala.
- Pepperoni. - concordou.
- Quatro queijos. - falou para como se eles estivessem numa disputa. Coisas de irmãos.
- Quatro queijos, gata. - bateu a bunda na lateral da de , o que a desequilibrou e quase a fez cair. a segurou. - Minha bunda desequilibra qualquer uma.
Disse se fingindo de sexy para , o que fez sair dali rindo e balançando a cabeça, pensando no quanto aquele cara era um maluco. Pegou uma bebida e se jogou ao lado de .
- Problemas na família? - perguntou gentilmente.
- Família nos problemas. - respondeu, ingerindo uma boa quantidade álcool.
- Xiii. - foi o que escutou da amiga.
- 40 minutos. - falou, entrando na sala seguido de .


2

Segunda-feira, 11:59pm

- Poderia ser Bond. Bond. - tagarelava no ouvido de , enquanto essa não tirava os olhos da porta da casa que vigiavam. Estavam apenas esperando a senhora sair. - James nem é um nome forte, é um puta nome forte.
- Prefiro James. - disse sem prestar atenção no que o parceiro falava. - Desisto, essa velha não vai sair pra dar um rolê tão cedo.
- Velhas não dão rolê, . - disse sério. - Elas saem pra zoar. - Falou rindo, o que irritou mais ainda . O parceiro não levava nada a sério.
- E você também não ajuda. - disse desanimada. Já estavam ali a o quê? 2 horas?
- Não seria melhor bater na porta? - perguntou o que pareceu ser o óbvio para .
- Claro, e falamos o quê? Se ela quer comprar produtos Jequiti? - falou sarcástica.
- Produtos o quê? - falou um pouco mais alto, recebendo uma careta de repreensão. - Vamos apenas fazer algumas perguntas, enquanto um a distrai, o outro investiga.
se deu por vencida e caminharam juntos até a porta marrom. Esperaram paciente até uma senhora franzina abrir a porta apenas o suficiente para ver quem era.
- Detetive , polícia de Los Angeles. - mostraram os distintivos e ela logo fechou a porta para tirar as correntes que impediam a porta de se abrir.
- Pois não?! - disse com uma voz que pensou de imediato “típico de velha”. Mas era muito desconfiada e não se deixava levar.
- Precisamos fazer algumas perguntas. - disse. - Você autoriza a nossa entrada?
- É sobre o quê? - ela fez questão de perguntar, deixando a mulher a sua frente impaciente.
- Sobre o seu filho, Mike Hall, você não é a senhora Hall? - perguntou impaciente.
- Ah, claro, entrem! - ela parecia muito frágil, mas nem imaginavam que na cintura da velha havia uma glock. - Sentem-se, filhos.
- Vamos logo ao assunto. - se sentou, enquanto varria o local com os olhos e se mantia em pé. - Qual foi a última vez que a senhora viu seu filho?
- Ah, faz muitos meses. - uma das melhores sensações que existe é quando alguém te conta uma mentira e você sabe a verdade.
- Eu vou no banheiro. - disse e começou a andar como se conhecesse a casa. - Onde é que fica?
A velha ficou em silêncio por um bom tempo, o que chamou atenção dos policiais. tinha todos seus sentidos aguçados no momento.
- Eu o acompanho. - ela disse se levantando, guiando para o corredor. A velha levou a mão a glock em sua cintura, mas não sabia que estava bem atrás de si.
- Parada, senhora Hall. - gritou o que fez sacar sua arma e girar 180º em seus calcanhares. A velha estava encurralada. - Coloque a arma no chão e levante as mãos.
A velha se deitou e logo foi algemando-a.
- Você está presa. Tem o direito de ficar calada ou tudo o que disser pode ser usado contra você.
Terminou a frase e escutaram um baque surdo vindo de um dos quartos. saiu correndo armado, enquanto levantava a senhora sem a menor delicadeza.
- Eu sou uma senhora, seja mais gentil! - a velha exigiu.
- Você quer que eu seja mais gentil? - destravou a viatura e soltou uma risada que fez os pelos da senhora se arrepiarem.

- , , na minha sala. - Capitão Truglio apareceu muito sério, chamando-os. Os dois se olharam e estranharam.
- Não acredito que você já fez minha irmã fazer algo. - falou para , que apenas fez cara de injustiçado.
- Não fizemos nada. - falou cínico.
Bateram duas vezes na porta e entraram.
- , a senhora Hall em seu depoimento disse que antes de vocês descerem eles da viatura, você teve uma ideia.
Depois que colocaram a velha na viatura, apareceu com o tal Mike Hall algemado. O maldito traficante estava escondido na casa da mãe.
- Devo ressaltar que foi uma ideia genial. - disse rindo.
- Eu começo a pensar que a senhorita é o de saia. - fez cara de ofendida. - Enfim, só quero ouvir você confirmar que teve a ideia do peidar no camburão e deixá-los fechados enquanto tomavam um cafézinho. É verdade?
- Sim, senhor.
- , me surpreende que essa ideia não tenha saído da sua boca. - o capitão disse como um pai.
- Prometo que vou ser mais rápido na próxima vez, Capitão. - Truglio se levantou muito sério.
- Isso não é brincadeira. - os detetives concordaram. - Terão que se redimir com os Hall.
- Sim, capitão. - falaram juntos e saíram.
- Fala sério. - disse e ria muito. Aquela parceria daria muito certo.

- Cara, odeio ter que admitir, mas você é muito parecida com o . - disse com a boca cheia de rosca. fazia um relatório de uma prisão que tinham efetuado naquela tarde.
- Não queria te dizer isso, mas a verdade é que… - fez um grande drama e falou baixinho: - Somos irmãos.
- De alma. - falou se sentando em cima da mesa da .
- Não é muito difícil de acreditar nisso. - lambia os dedos sujos de açúcar.
- Aí, , vai fazer o que hoje a noite? - perguntou fingindo desinteresse.
- Hmmm. - caçoou.
- O quê? Pergunto isso como amigo.
- O quê? Eu só estava saboreando meu doce. - disse rindo e logo se aproximou.
- O que estão falando? - abraçou a irmã meio de lado, ela ainda estava preenchendo as folhas.
- Sobre como o não perde uma chamando sua irmã pra sair. - encarava divertida. Esse já não sabia mais onde colocar a cara.
- É mentira, não a chamei para sair. - levantou os olhos rapidamente das folhas e encarou que também a olhou, e então ela voltou seus olhos ao relatório. - Só perguntei o que ela ia fazer hoje a noite.
- E respondendo sua pergunta, - encarou . - não vou fazer nada.
- Legal. - tinha os olhos inquietos.
- Vamos sair pra beber. - disse por fim. - O que acham?
- Bebida por conta do ? Opa. - foi a primeira a se pronunciar. - Sempre soube que era uma boa pessoa.
Ela deu dois tapinhas nas costas de e saiu sem esperar resposta.
- Vocês pagam os de vocês. - ele falou rapidamente e riu. às vezes era meio pirada.
- Vamos no Paul’s. - disse e os dois presentes apenas assentiram. Então ele se foi, deixando e sozinhos.
ficou encarando de cima a baixo. Ela ergueu seu corpo, juntando os papéis. Encarou .
- Tem algo pra me falar, ? - perguntou sorrindo.
- Ér, não. - falou coçando a cabeça e rindo. Olhou para os lados. - Por que eu teria? Que loucura! Samuel seu danadinho, eu vi você pegando meu salgado na geladeira.
Saiu gritando pela delegacia, deixando pensativa. era um moleque.

Os três amigos já estavam no Paul’s, havia se atrasado um pouco mais do que o esperado. Ela entra no bar e logo vê os três em uma mesa mais afastada. Ao passar, escuta algumas cantadas de homens que estão sentados bebendo algo.
- Casa comigo, delícia. - quando estava quase chegando em sua mesa, um homem ali gritou alto. Ela parou e se virou para ele. Andou até o cara.
- Claro. - ela sorriu e jogou os cabelos. e assistiam a tudo sem entender nada, enquanto se divertia.
- Ãn, sério? - o cara ficou desconcertado.
- Por que não? Nos casamos amanhã e então você banca toda a viagem de lua de mel. Eu deixo minha profissão, cuidarei da casa, você sustenta meus 4 dias de spa por semana. E no segundo ano teremos gêmeos. Podemos passar as férias no Rio de Janeiro, vou logo avisando que meu custo de vida é alto, gato. - ela falava cínica, enquanto gargalhava em seu interior. O rapaz tinha os olhos arregalados. - Venha cá, vou te apresentar meu irmão.
Ela apontou para e o cara ficou mudo por 10 segundos.
- Me desculpe. - ele levantou as mãos.
- Oh! Você não aguenta o tranco? - os caras da mesa dele gritaram ato zombando o colega. - É, parece que não, olha que lixo você é. - O olhou com desprezo e logo chegou à sua mesa.
- Boa noite, amores. - ela disse pegando um cardápio que estava jogado na mesa.
- Coitado do cara. - falou.
- Ai cara, quero ser como você quando eu crescer. - fez um coração para a amiga.
- E se ele tivesse aceitado tudo aquilo, iria se casar com ele? - perguntou incrédulo.
- Ai, ! Desencana, eu sou bem grandinha. - ela fez um sinal para que ele parasse. - E aí, pediram algo pra comer?
- Por enquanto só bebidas mesmo. - falou.
- Quero batatas fritas. - falou e todos concordaram.

- Rapaz, essa foi da boa. - virou seu terceiro shot de tequila.
- Puta merda. - virou o segundo e sentiu sua boca pegando fogo. Os olhos dela se encheram d’agua.
- Parece que alguém aqui é fraca pra bebida. - caçoou.
- Aposto que você não consegue tomar mais que 4. - desafiou e eles começaram uma discussão de quem era o mais forte para bebida.
, que estava sentado em frente à , se levantou e se sentou ao seu lado.
- E eu aposto que você não passa da terceira. - falou no ouvido dela, causando arrepios na mulher.
- E se eu passar da terceira, eu ganho o que? - , que não estava tão sóbria e por conta disso não deixou de dar uma lambida da orelha de .
- Você que escolhe. - sussurrou no ouvido dela, não deixando passar a oportunidade de dar uma longa fungada no pescoço da .
Ela o olhou maliciosa, passando a língua no canto dos lábios. Então os dois voltaram ao mundo real, as vozes que estavam distantes, voltaram a se fazer presente.
- Eu ganhei! Chupaaaaa. - gritava para que apenas revirava os olhos.
- Um brinde a vitória do meu irmão! - gritou, virando o shot. Sua boca estava começando a se acostumar com a bebida forte. Seu corpo relaxou e a visão ficou levemente turva.
- Ele pediu um shot que era uma mistura de algum suco em pó com mais alguma coisa lá. - falava séria. - Não valeu. Tem que ser shot raiz, caralho!
Deu um pedala Robinho em .
- está tão calado. - falou e então percebeu que o amigo tinha mudado de lugar. - Por que está tão longe de mim?
- Vocês estavam gritando muito e eu não conseguia conversar com . - sua mão por baixo da mesa deslizou até as coxas de e ele deu uma apertadinha marota.
- Um brinde ao silêncio do . - virou mais um shot.
- Wow, alguém realmente gosta de brindes. - disse rindo.
- Um brinde ao meu brinde. - virou mais um e , que também não estava sóbrio, nem se importou de ser chato com a irmã.
- Um brinde à dos shots. - gritou, enchendo os copos dos amigos e todos viraram o shot. olhou de cara feia.
- Eu acho que chega de shots por hoje. - , o mais sóbrio de todos falou, era resistente à bebida.
- Ah, eu não quero ir embora. - fez bico e apoiou o cotovelo na mesa e o queixo nas mãos.
- Eu acho melhor você levar ele e eu levo a . - disse e logo pensou em algo.
- Acho melhor eu levar a porque tenho que passar em um lugar perto da casa dela. - ele disse tranquilo e desconfiou levemente, mas ele não parecia estar mentindo.
- Tudo bem. - Ela puxou consigo e os dois saíram pelo bar.
- Eu acho que ganhei uma aposta. - cantarolou .
- É, eu também acho. - pegou ela pela cintura e passou o braço dela por seu pescoço. Andaram assim até o carro.
- E o meu carro? - ela perguntou quando abriu a porta e a colocou sentada no banco. Puxou o cinto e, quando foi travá-lo, ela deu vários beijos molhados no pescoço dele.
- Amanhã a gente arruma um jeito. - respondeu a pergunta dela.
Ele deu a volta no carro. Durante todo o caminho, ficaram calados. ora ou outra ria de algo e apontava para alguma coisa que estava fora do carro. Então parou em frente ao prédio dela.
ajudou ela a descer do carro e passaram pela portaria do prédio. O porteiro apenas assentiu e quando entraram no elevador, soltou todo seu peso. a segurou firme e a trouxe para mais perto. Com os corpos colados, a mantinha firme pela cintura. Seus olhares estavam conectados. riu.
pegou a chave que estava dentro de uma bolsa de mão que estava com a .
- , . - ela cantarolou e ele a olhou. Ela sorriu e entrou no apartamento com a ajuda dele. Ele a colocou no sofá e ela o puxou pela camisa.
- Venha cá. - ela disse e ele se aproximou, encurvando-se por cima dela, se mantendo em pé.
O que foi ? - ele perguntou não se sentindo tão confortável com a situação, pois ele tinha certeza que ela não estava nem um pouco sóbria.
- Eu já sei o que quero sobre a aposta.


3

Eu quero muito saber o que você quer, mas não hoje. - se afastou, mas logo sentiu um toque suave em suas costas, o que o fez parar e virar seu corpo. pegou na gola da camisa preta de e a puxou de leve. E ele foi. Ela o puxava sem muito esforço e ele ia sem esforço algum. Ela entrou em um corredor e passou por duas portas antes de abrir a de seu quarto.
- … - sussurrou.
- Venha cá. - ela se deitou e bateu com uma mão ao seu lado.
“Não tem nada de errado em deitar ali”, ele pensou. E ele se sentou, não muito a vontade mas ela logo o empurrou, fazendo com que ele se deitasse. Ele assim o fez.
- Vamos dormir. - ela se deitou em seu peito e ele respirou fundo sentindo o cheiro de seu cabelo. Era bom. “Muito bom”.
Terça Feira, 02:13pm

- , aconteceu um assassinato nesse endereço aqui. - Truglio entregou um papel para o rapaz que ficou lendo as letras em garranchadas do Capitão. - Amanheceu só agora na sua casa, ?
sentiu o coração bater um pouco mais forte. E se irritou por isso. O que poucos dias de convivência com alguém não faz? Encarou a mulher que andava devagar e séria, usava uns óculos escuros. Respondeu o Capitão com uma continência. , por dentro, sorriu com aquilo.
- Vá com o . - disse sério. Mas ele sempre estava. - Pegue uma aspirina na minha sala antes de sair.
E saiu sem esperar resposta. tirou os óculos e se sentou na cadeira de frente para a mesa de .
- Me sinto um lixo. - ela disse.
- É um lixo cheirosinho. -ele se levantou e vestiu sua jaqueta. Conferiu se sua arma estava no coldre e fez um sinal para que a mulher te acompanhasse. - E ronca um pouco.
- Ah é? E como sabe disso? - forçou a mente em busca de lembranças enquanto eles saiam da delegacia. iSeu carro havia ficado no bar. As mãos de em sua coxa por debaixo da mesa. Ele abrindo a porta de seu apartamento. Muitos brindes de tequila. As lembranças vieram sem ordem. E ela estava confusa.
- Não se lembra da noite anterior? - ele perguntou rindo enquanto acenava pro senhor da banca de jornal do outro lado da rua.
- Você dormiu lá em casa? - ela perguntou enquanto sua mente trazia uma cena em que ela puxava ele pela camisa.
- Dormi. - entraram no carro e a mulher no passageiro sentiu uma pontada em sua cabeça.
- Dormiu onde?
- Quer saber se dormimos juntos? - manobrava o carro quando a encarou. Ela confirmou. - Não se lembra mesmo?
- Se eu lembrasse, não estaria perguntando, . - falou irritada e o homem caiu na risada.
- Você gemeu meu nome a noite inteira. - mentiu pra ela. Sentiu um calor subir seu ventre. Seu rosto ficara vermelho com o comentário de . Como que não se lembrava?
- É mesmo? - a mulher num movimento rápido, apertou as partes íntimas no homem que se assustou e jogou o carro para o acostamento. Ainda segurando com força aquela parte tão sensível do homem, se aproximou dele, ficando alhada no banco. gemeu. De dor.
- Eu tô brincando, porra. - falou sussurrando. Os olhos estavam apertados. Ela então o soltou.
- Eu que te faria gemer a tarde inteira agora, .
- Não seja por isso, tem um motel aqui pertinho. - ele disse com a cabeça deitada no volante do carro.
- Como se eu quisesse. - mantinha a voz firme. Mas era firme só por fora. Por dentro, aquela mulher era um turbilhão de emoções.
- Ontem a noite você implorou. - disse sarcástico, rindo dela. O que só fazia ela ficar cada vez mais irritada.

Quarta feira, 08:51am

- Eu gosto com recheio de doce de leite. - disse para .
- Eca. . - fingiu ânsia de vômito. - Odeio sonhos.
- Parece que não é só os de padaria, não é mesmo? - cutucou. A atendente da padaria esperava pacientemente.
- Sou bem pé no chão, gatinha.
- E aí, meninas. - disse chegando com .
- Você está vendo alguma menina aqui? - disse perguntando para a que fez beicinho e negou.
- Só dois mulherão da porra. - respondeu.
- Tem mulher de porra nenhuma aqui. - o irmão de disse perdendo todo seu bom humor.
Enquanto eles conversavam, pediu com café bem forte. Pegou seu copo e afastou dos amigos.
- Não vai comer nada, ? - disse alto para que o homem que estava cada vez mais longe escutasse.
- Não. - foi tudo que ele respondeu.
- Ele é assim. - explicou a colega. - Altos e baixos.
- Podemos dizer uns bem altos. - brincou.
- O que acontece? - a irmã perguntou curiosa.
- Ninguém sabe.
E aquilo foi o suficiente para passar a tarde curiosa e pensativa.

Quarta feira, 20:13pm

- Aí, eu e o pessoal vamos lá no Paul’s, quer ir? - andava até que estava mexendo em seu celular na porta da delegacia. Ele nem se quer olhou na cara de .
- Hoje não vai rolar. - continuou mexendo em seu celular.
- Você tá be… - foi interrompida.
- , to meio ocupado, depois a gente se fala. - deu uma piscadinha e atendeu o celular que tava tocando. - Fala gata, agorinha chego aí.
demorou alguns segundos para entender o que tinha acabado de acontecer. Quem era aquele babaca? Respirou fundo e seguiu até o seu carro que estava estacionado bem atrás do carro de que estava parado conversando no telefone em frente a porta do motorista dele. Entrou no carro e acelerou, tirando fino de .

Quinta feira, 10:59am

- E ai, qual é a nova? - chega na mesa de que estava conversando com .
- tirou o atraso. - caçoa o amigo.
- Posso garantir que a única parte da minha vida que não tem atraso, é no sexo, minha filha.
- Nós acreditamos. - fala rindo. - Alguém viu minha irmã?
- Chegou cedo e logo saiu. - respondeu.
- Falando no diabo… - gritou para que escutasse enquanto atravessava o saguão da delegacia.
A mulher seguiu reto, com um homem algemado e todos ali se perguntaram se ela não tinha escutado realmente.
- Quero que todos vejam isso e tomem como exemplo. Parabéns ! - o Capitão fala chamando a atenção de todos. - conseguiu prender Ethan Hunter. Sei que todos vocês tentaram, mas não conseguiram. Busquem melhorar.

se aproxima dos amigos e seu irmão a abraça de lado.
- Como conseguiu? - ele pergunta e ela dá de ombros.
- Era só um cara.
- Um cara pica, podemos dizer né?! - bate palmas, contente pela amiga.
- Chega a ser engraçado uma mulher prender o Ethan. - é infeliz em suas palavras.
- Obrigado e . - abre os braços e sorri. Se vira para . - Uma mulher que faz o serviço melhor que um homem? Ah, desculpa, você não chega nem a ser um homem de verdade.
- Apelou? - ele pergunta cínico.
- Você não me viu apelar ainda. - ela se aproxima dele, séria. - Não basta ter um pinto no meio das pernas, . Tem que ter culhões. Você tem?
Ela se afasta e o clima ali fica tenso. Todos olham que em suas raras vezes, se encontra estressado.


4

Quinta feira, 8:59pm

A delegacia estava sem movimento. Apenas as pessoas que trabalhavam ali, se encontravam no ambiente. Os funcionários conversavam, alguns estavam chegando para o novo turno. Outros estavam saindo, assim como . O dia tinha sido longo, após aquela prisão que havia feito de um dos criminosos mais difíceis de se prender.
Se aproximou de uma mesa afastada que tinha ali, onde colocou sua bolsa. Estava estressada o dia inteiro. Bebeu água e procurou seu celular. Sentiu um corpo - quente, rígido e vale dizer, cheiroso - se aproximar de si por trás. Seu coração acelerou um pouco pela aproximação que nem esperava. Mesmo sem ver, sabia quem estava ali. A pessoa cheirou seu pescoço suavemente o que a fez suspirar.
- Preciso dessa caneta. - disse baixinho. Um dos braços do homem se esticou por cima de seu ombro e pegou uma caneta. Por mais que estavam muito próximos, não se encostavam. Se fosse qualquer homem ali, com certeza teria deixado o homem com muita dor, no chão. Mas ela estava gostando daquilo. Queria que estivessem se tocando. Quando pensou em se inclinar um pouco para trás, se afastou. Mas ficou desnorteado. Ver naquela posição, apoiada na mesa, inclinada para ele, mexeu muito com algumas partes de seu corpo. Suspirou e balançou a cabeça, tentando se livrar daquelas sensações. ao sentir que ele tinha se afastado, apenas abaixou a cabeça frustrada. Escutou o homem saindo dali. O que diabos ele quer de mim?!

Sexta feira, 9:50am

- Acho que hoje vou almoçar um caldo. - falou.
- Quem almoça sopa? - perguntou.
- Sopa é bem diferente de caldo. - disse já irritada.
- Eu me contentaria com um caldo. - deu de ombros. Estavam reunidos na mesa de .
- É super diferente. - ironizou.
- O que não é diferente? - se aproximou dos amigos.
- Sopa e caldo. - respondeu.
- Eu tenho um caso agora cedo, mas onde você vai tomar esse caldo? - perguntou à amiga.
- Vou no Altacorine, aqui pertinho.
- Ouvi dizer que lá os cozinheiros vão no banheiro e não lavam a mão. - falou balançando a cabeça.
- Igual você? - perguntou.
- Eu lavo a mão sim. - respondeu, com uma falsa voz ofendida.
- Eu vou lá. - se afastou do grupo e logo escutou uma voz bem próxima de seu ouvido.
- Se quiser ver o que sei fazer no banheiro. - Ele logo se afastou, andando em sua frente. Ao se virar viu a mulher meio perdida e sorriu de lado, bem safado.
- Não , não quero ver você cagando. - gritou alto o suficiente para a delegacia escutar. Ao ver a cara de confuso que o homem lhe lançou, sorriu. Ela levantou as sobrancelhas em divertimento. Saiu da delegacia enquanto os colegas brincavam com a cara de .

- Vamos num restaurante. - falava pelo telefone, na porta da delegacia. - Depois? Depois podemos ir lá pra casa. - já era quase noite e era sexta. Conhecera um homem pelo facebook e estava conversando com ele durante aquela semana, Por que não um encontro? - Você que sabe. Okay, beijos.
Entrou no whatsapp para responder algumas mensagens e ficou distraída.
- Só avisando, hoje vou pra sua casa. - falou, assustando a mulher que não percebera sua aproximação.
- Não vai não.
- Eu vou. - ele disse rindo. - É melhor desmarcar qualquer encontro.
- Aparece lá, que eu te queimo. - entrou na delegacia, acompanhada do homem.
- Aí , , bora beber na casa da . - gritou para eles, que logo riram e deram um joinha. se virou para .
- Porque acha tão bom me irritar? - perguntou irritada. - Tá na hora de crescer, . Isso aqui não é maternal.
Se afastou a passos firmes. não estava tão animado quanto antes.

Sexta, 9:01pm

- Você acha que coloca no freezer? - segurava duas garrafas de cerveja.
- Ta muito quente? - perguntou pegando mais duas garrafas que se encontravam no balcão. - Coloca só um pouco no turbo, só não esquece.
Começou a mexer numa frigideira, onde fritava o bacon enquanto a amiga cortava alguns aperitivos.
A campainha toca.
- , vai lá? - a mulher pergunta e logo a amiga destranca a porta.
- Wow, que cheiro. - grita da sala. Carrega duas sacolas com bebidas. - Onde eu coloco?
- Na minha cabeça. - responde irritada com o homem.
- O que acham de assistir um filme? - o irmão pergunta. Todos parecem gostar da ideia.
- Desde que seja ação. - fala.
- Mercenários? - o irmão pergunta.
- Mas é tão passado já, todo mundo aqui já assistiu, certeza. - fala enquanto abre um cerveja.
- Mas eu gosto. - responde o óbvio.
- Eu também. - fala e então vai para a TV, colocar o filme. - Mas não vai esperar a gente mesmo?

O filme já estava na metade. Mas havia aparecido com uma garrafa de vodka a muitos minutos atrás. Todos beberam, menos , que só ficou na cerveja. havia dormido no tapete da sala, o irmão e a amiga estavam cochilando já.
terminou o filme sozinha. Resolveu tomar um banho.

acordou, queria ir ao banheiro. Tinha bebido demais. Foi em direção ao corredor. Viu a porta do quarto de aberta. A luz do banheiro estava acesa, o que facilitava ver o corpo da mulher na cama. Estava deitada de lado, descoberta. Vestida um conjuntinho para dormir. Um shorts curto. A posição que a mulher se encontrava, modelava seu corpo perfeitamente. Entrou no quarto e foi ao banheiro ali mesmo.
Ao sair, ficou parado uns minutos observando , que exalava um cheiro bom de sabonete e hidratante. Se sentia tão atraído por ela, o que o irritava. Já havia sentido atração antes. Mas como aquela, nunca. Alguma coisa nela, o puxava. Ele queria estar perto. Queria a conhecer melhor. Ele queria ser alguém melhor. Mas como tudo isso, se eles nem chegaram a ter nada?
- To sentindo minhas costas queimar, para com isso. - A mulher falou baixo, assustando .
- Pensei que estava dormindo. - ele respondeu no mesmo tom de voz.
- Acabei de deitar. - ela se vira para ele. As pernas dobradas em um V de cabeça para baixo. Os olhos de viajam por seu corpo. Ele suspira. Queria ter tudo aquilo. Mas não podia. - Venha cá.
- A última vez que pediu isso, estava bêbada. - ele observou. - Hoje parece estar sóbria.
Ela apenas respirou fundo. Seu coração batia descompassado. Aquele homem sabia mexer com ela. Ela voltou a ficar de costas para ele. Então resolveu se aproximar. Se deitou ali ao seu lado, o que a fez se virar para ele.
Ficaram se encarando por longos minutos. não sabia ler o rosto de . E ele por sua vez, estava perdido no rosto dela. Em pensamentos. Em barreiras emocionais.
Ela levou as costas de seu dedo indicador até o queixo do homem, subindo por sua bochecha. O mínimo toque nele, para ela, era bom. se aproximou um pouco mais. Sempre suspirando. Sempre tentando se livrar de sentimentos.
Ela se aproximou um pouco mais. a beijou. De início, os lábios só se tocaram, mas logo se abriram. As mãos de foram para sua cintura, a puxando para ele. O corpo da mulher estava quente. Diferente do dele.
As mãos dela passeavam por seu tronco e sua nuca. O cabelo dele era tão macio. Seus corpos estavam colados. deu uma mordida nos lábios de , o que fez a mulher soltar um grunhido.
- … - sussurrou. E ele gostou tanto do seu nome na boca dela, daquela forma. A mão de segurava com força o braço de agora. Ela o queria.
- O que você quer de mim? - ele pergunta. Ela o abraça. Aquele contato só fazia bem aos dois.
- Eu que pergunto, o que você quer de mim, ? - ela se afasta o suficiente para olhar em seus olhos.


5

- Eu quero estar dentro de você desde o dia em que te vi discutindo com aquela mulher. - ele disse, com um sorriso de lado. O coração da mulher bateu um pouco mais forte.
- Eu gostaria de ter isso. - ela fechou os olhos, encostando seu nariz do dele.
- Mas isso é o que eu quero de você. - ele falou, olhando-a nos olhos. - O que você quer de mim?
- Quero a mesma coisa que você. - riu e colocou uma mecha de cabelo dela, atrás da orelha.
- Eu sei que sim. - olhava seus olhos muito de perto. Estavam muito próximos. - Mas isso seria a única coisa que poderia querer de mim.
- O que quer dizer? - perguntou, o coração se afundou um pouco.
- Seria apenas isso. - fez um carinho na bochecha da mulher, com seu polegar.
- Acho que entendi. - soltou um suspiro.
- Então…?
- Acho melhor ir embora, . - essa com certeza não era a resposta que esperava dela, mas não o abalou nem um pouco.
- Eu vou. - se levantou e caminhou até a porta. Parou e se virou com o seu olhar mais safado. - Se mudar de ideia...
atirou um travesseiro em sua direção. Ela sabia que seria melhor assim. seria melhor para ela como amigo. Seria um problema a menos na delegacia. Ela não era mulher de uma noite só e foi bom que tinha sido sincero com ela. Ela só não entendia o porquê de seu coração bater tão pesado.

Batia a caneta numa pilha de papéis. Como ninguém nunca havia resolvido aquele caso? Um homem havia sido assassinado. A única que poderia ser suspeita, seria sua mulher. Mas o álibi dela batia. Realmente a mulher estava no restaurante citado. Na cena do crime, nenhum sinal de arrombamento. Nenhuma digital a não ser a do casal. O caso prescreveria em apenas 2 meses. E esse era apenas um dos cinco casos que estavam para prescrever. O capitão havia pedido para cada detetive investigar mais uma vez cada crime que não havia sido resolvido. Ela iria tentar se encontrar mais uma vez com a mulher do homem morto.
Seus olhos estavam secos de tanto ler, era quase hora do almoço e precisava de café para despertar. O tempo estava curto, não teria tempo para almoçar. Foi até a cantina e o café havia acabado. Pediu então um suco de cranberry. Ao voltar para sua mesa, pensava no caso. A mulher havia encontrado o corpo do marido, ela mesma que havia ligado para a polícia. Ela havia acabado de chegar do tal restaurante e fez a ligação. Mas as horas não batiam. Fechou os olhos e suspirou, resolveria esse caso.
Bateu em algo, sentiu o suco gelado escorrendo por sua camisa branca, o que a fez suspirar de frio. O homem a sua frente estava assustado.
- Me desculpa. - pegou o copo amassado da mão dela, observava seu estado.
- Não tem nada, eu que não olhei por onde andava. - tentou desprender a roupa que havia grudado em seu corpo. Estava transparente. Precisava se trocar.
- Deixe que te ajudo. - o homem insistia. o olhou irritada. Mas ao ver a feição do homem, se sentiu culpada duas vezes. A culpa era somente dela e ela não deveria ter raiva do homem, que inclusive havia sujado sua roupa também. O líquido vermelho escuro lembrava uma cena de crime.
- Não sabia que viriam fantasiados para o Halloween. - falou rindo.
- Me desc… - o homem começou mais uma vez.
- Eu que peço perdão. - sorriu, o que fez o homem sorrir também. Era bonito e percebeu que nunca tinha o visto por ali antes. A camisa social azul clara, ressaltava seus músculos. Uma mancha vermelha lhe cobria o braço direito. Como se tivesse levado um tiro no local.
- Eca, que nojo. - chegou e observou a roupa dos dois. - Sutiã da hora, .
- Te devo uma camisa. - ignorou o comentário do recém chegado e falou olhando para o homem.
- Eu não me impor… - de repente parou sua fala e balançou a cabeça. - Se aceitasse um jantar comigo, estaríamos quites.
A mulher perdeu a fala. A boca ficou ligeiramente aberta por alguns segundos. Logo se tocou que estava calada.
- . - estendeu a mão e o homem a segurou. - Eu não sei qual a vantagem para você nisso tudo, mas aceito sim.
- Bruce Cooper e levar uma mulher bonita como você para um jantar não é vantagem, é um privilégio.
- Eu acho que vou vomitar. - falou de braços cruzados.
- Até mais tarde. - o homem saiu e deixou com e .
- O que foi isso? - perguntou, e cutucou a amiga.
- Eu não sei. - riu um pouco e novamente tentou desgrudar a camisa do corpo.
- Você tá falando sério? Bruce é um bananão. - disse, por mais que continuasse a falar besteiras, a voz estava grossa. A mandíbula estava apertada.
- Se isso for o que estou pensando, melhor pra mim, não?! - saiu e deixou o homem irritado para trás.

havia acabado de desligar o computador. Umas horas mais tarde do incidente do suco, Bruce havia passado em sua mesa e pedido seu número. Tinham combinado de jantar no dia seguinte, às 8 da noite.
Iria para casa, estava exausta. Antes de sair da delegacia, viu a encarando, sentado em sua mesa. Ele não havia feito mais piadas durante a tarde, embora também tenha passado parte dela na rua. Deu um meio sorriso e acenou para a mulher, que apenas comprimiu os lábios numa linha fina, acenando com a cabeça em resposta.
O ar gelado a pegou desprevenida, fazendo os pelos de seu corpo se arrepiarem. Estava cansada e foi direto para casa.
Ao se deitar, o celular apitou. O brilho da tela fez seus olhos arderem. Odiou que o coração tenha batido um pouco mais forte quando leu a mensagem.

: Quero muito fechar os olhos e dormir, mas tenho uma pergunta para você e preciso de uma resposta.

A ansiedade a comeu por dentro, esperando a próxima mensagem que embora tenha chegado em segundos, a fez sentir como se fossem minutos.

: O sutiã era realmente vermelho?

Quis não rir, mas já havia soltado uma risadinha. Mesmo sem humor. Esperava que fosse outra pergunta, mas não poderia esperar nada de . Sabia disso. Mas por que estava tão decepcionada?

: Eu odiaria que não conseguisse dormir.

Desligou o celular e se virou para dormir. Não responderia. Respirou fundo tentando se sentir mais leve. O sono tardou a vir.

Deu uma mordida enorme no muffin com gotas de chocolate. lhe roubava ora ou outra alguma gota para si.
- Quer parar? - disse de boca cheia.
- Estou tentando evitar que você engorde, por nada. - pegou mais uma gota.
- Quem é vivo, sempre aparece. - falou olhando para o irmão, que tinha acabado de se juntar a elas na mesa.
- Passei o dia inteiro de tocaia num galpão ontem. E adivinhem?
- Não aconteceu porra nenhuma. - falou bebericando seu café.
- Prendi um traficante do cartel de Sinaloa.
- E o que esse cara estava fazendo por aqui? - perguntou logo atrás dele. Trazia consigo uma rosca.
- Cara, isso vou descobrir hoje.
- Rosquinha? Tem como ser mais óbvio? - perguntou.
- Eu não sou óbvio. - respondeu dando uma mordida.
- E aí, quem diria que Bruce Cooper seria homem de jantares, hein? - alfinetou.
- Quem é a vítima? - perguntou bebendo seu frappuccino.
- A . - mastigava sorridente.
- Ah não. - começou. - Não, não, não.
- Eu também acho uma má ideia, inclusive tentei dar uns conselhos amigo a ela, mas não me escuta. - falava cínico.
- Vá a merda, . - falou séria.
- Chega! - se levantou e pegou sua bolsa. - Não vem dar uma de pai pra mim, sendo que por anos nem mesmo um irmão você foi para mim.
- Calm… - o olhar da mulher agora focava .
- E você, não dê uma de bom moço, quando na verdade você só quer me comer.
- É o quê? - se virou para o amigo que agora estava sério. Nem um resquício de brincadeira. não ficaria para ver o que viria a seguir.
- Meninos. - se levantou da mesa da cafeteria sorridente. - Vocês merecem um parabéns. Dois tapados.
- Foi você que colocou fogo. - falou para a mulher. - Vive dedurando a .
- Dedurando? - se exaltou. - é uma mulher crescida. Comento sim sobre ela, mas os únicos culpados são vocês. Ela está certíssima e acho que merece um pedido de desculpas.
- Eu não fiz nada. - se levantou.
- Um pedido duplo. - encarava os dois.
- Você tá querendo comer minha irmã? - o irmão de se virou totalmente para o homem que estava sentado ainda.
- Eu n…
- Fique longe, . - o amigo raras vezes o chamava pelo sobrenome.
- Não quero comer sua irmã porra nenhuma. - Se levantou e encarou o amigo de perto. - Deve ser as minhas brincadeiras, você sabe como eu sou.
- Eu sei. - concordou , encarou a mesa e voltou o olhar. - E por isso mesmo que eu peço para ficar longe.
- E a parte de que é uma mulher crescida? - ainda estava ali e falava incrédula.
- Eu entendi, tá legal? - disse. - Realmente, cresceu e vou tentar não me importar se ela quiser sair com quem bem entender. - se virou para . - Mas vou me importar quantas vezes necessário for se eu ver que ela pode se machucar.
- Está melhorando. - falou.
- E eu poderia machucá-la? - estava irritado. A paciência já tinha deixado seu corpo a muito tempo.
- Eu te conheço, não é nem o fato de você não ser homem pra ela. - balançava a cabeça em negação. - É ela que é muito mulher pra você.
O amigo se virou e se retirou. sorriu divertida e deu tapinhas nas costas do homem antes de o deixá-lo sozinho. Ele não discordava nem um pouco das últimas palavras do amigo. era um mulherão. Era mulher de ser levada a sério. E seriedade não era com ele.
Com esse pensamento ele decidiu que deveria se afastar de .


6

relia o caso, mais uma vez. Seria talvez a vigésima vez que seus olhos passavam por aquelas folhas. Precisava ir até o restaurante em que a mulher estava antes de encontrar o corpo do marido. Talvez alguma coisa por lá, te desse a resposta que precisava para resolver o caso. Intuição? Ela tinha dessas.
Estava entrando no carro quando sentiu um aperto em seu braço. Olhou para o homem à sua frente e sem que percebesse, seu semblante mudou completamente.
- Eu quero só me desculpar. Não precisa me olhar assim. - soltou o braço dela que se endireitou, olhou para os papéis em sua mão.
- Se desculpar? - olhou nos olhos do homem, mas aquilo era demais. Ele desviou o olhar. - Por querer me comer?
- Não! Quer dizer, sim, peço desculpas por isso e por ser sempre um babaca com você. - o olhar do homem parecia tão preocupado. Agoniante. Ela sentiu vontade de rir, mas manteve a expressão séria.
- Isso quer dizer que não quer mais? - perguntou segurando o riso. O homem balançou a cabeça, não entendendo o rumo da conversa. Até que olhou para o rosto de e riu aliviado.
- Isso quer dizer que me desculpa? - ela assentiu e ele lhe deu um abraço num gesto de inocência, talvez. O seu cheiro invadiu as narinas da mulher que fechou os olhos por breves segundos.
- Eu… preciso ir, vou resolver um caso. - se endireitou assim que o homem a soltou e respirou fundo. Arrumou os óculos, não usava as lentes naquele dia.
- Quer companhia? - “não! Não quero! Quero distância, apenas para não te querer por perto sempre”. A mente dela gritou. Mas por algum motivo ela quis sim, sua companhia. - Eu não vou falar uma asneira, prometo.
O olhar de menino do homem a fez aceitar.
- E qual é o caso? - perguntou colocando o cinto.
- Giovanni Enrico. Ele foi…
- Assassinado pela esposa. - completou e a mulher arregalou os olhos para ele.
- Sim! É o que eu acredito.
- Nunca consegui fazer nenhuma ligação dela ao crime. Ela realmente estava no tal restaurante. As câmeras batem, as horas…
- As horas não batem. - disse convicta.
- Batem sim.
- Quem chega em casa, numa distância de 4km, em horário de pico, em 15 minutos? - parados em um semáforo, a mulher o encarou.
- Eu chego. - disse animado. - O que? Eu dirijo bem.
- Pode até ser, mas algo aí não bate mesmo.

Continuaram pensativos até o restaurante. Desceram do carro e a mulher deu uma última olhada nos papéis.
- Pretende chegar lá e perguntar ao Simon…
- Não. - respondeu séria. - Quero apenas observar o lugar primeiro.
- Sinto que isso é um pretexto pra ter um encontro comigo, . - deu uma piscadela e a mulher revirou os olhos.
- Eu pensei ter escutado, sem asneira. - disse entrando no restaurante.
- Sabe que eu tive um dejavu de você andando pela rua, me dizendo obviedades e entrando num restaurante?! - comentou rindo e se lembrou da primeira vez que se viram.
- Era um café. - se sentaram um de frente ao outro e a sensação de que já viveram aquilo vieram aos dois. - Mas que obviedades eu estava te falando?
- De que “sou linda e maravilhosa”. - fez uma voz afetada. A mulher estava com as bochechas coradas. - E eu lógico que concordei. Não sou cego e nem mentiroso.
- Você é um safado que está me distraindo.
- Safado eu sou mesmo. - fez um beicinho pensativo observando tudo à sua volta. - Faz parte do que sou. Mas quando você está por perto preciso sempre me perguntar: ser ou não ser?
riu pensando naquela loucura que tinha e lhe caía tão bem. E ela gostava tanto. Balançou a cabeça, o sorriso morrendo. Se perguntou o por quê de gostar de alguém assim. nem fazia seu tipo.
- E você acaba sendo. Porque isso é você. - levantou os ombros e fez um gesto com as mãos voltadas para cima, como se dissesse “fazer o quê?!”.
- E você gosta. - o comentário do homem fez seu coração acelerar. Se sentiu traída pelo seu coração. Mais uma vez.
- Eu não quero nem imaginar como você estaria sendo nesse exato momento falando muitas besteiras, já que prometeu que não faria. - uma garçonete foi até a mesa deles, levando um cardápio.
- Vamos querer uma pizza quatro queijos. - dispensou o cardápio.
- Pizza?
- Pizza não é um dos nossos pratos mais românticos, devo confessar. - a garçonete comentou e logo percebeu que estavam achando que eram um casal.
- Pode ser pizza mesmo, não é, mi amore?! - a olhou confuso.
- Eu sei dos seus gostos, baby. - respondeu convencido para a moça que apenas assentiu. Então ela se afastou. - Mi amore?
- Não sabia que isso te afetaria tanto. - passou os olhos pelo lugar. Viu um homem robusto, realmente alto. Mandava nos funcionários sem parar. Era o dono, sem dúvidas.
- Você sempre me afeta, pode apostar. - seus olhos seguiram para onde olhava.
- Você com certeza não conhece a expressão “ou caga ou desocupa a moita”. - o homem riu de verdade dessa vez. Seu riso aqueceu o coração traidor de . cessou o riso ao avistar a mulher que interrogou a anos atrás. Ela chegou e deu um beijo no dono do restaurante.
- Aquela é Mary Enrico. - olhou atenta a tudo que acontecia.
- Acho que isso explica um álibi perfeito.
- Sem dúvidas. - estava sério. Talvez irritado. Aquele foi um caso do começo de sua carreira que tinha lhe tirado várias noites de sono.
- Agora temos uma luz.
- Eu quero fazer essa vadia encontrar a luz. - o homem falou tão sério que não conseguiu achar seu humor ali.
- Uh, acho que é pessoal. - agora encarava o homem à sua frente.
- Me fazer passar a noite em claro, é com certeza pessoal.
- Eu creio que tenha feito o mesmo na noite anterior, será que devo me preocupar? - o homem a encarou ainda sério. Porém a sua expressão suavizou ao olhar para a mulher na sua frente. Riu levemente.
- Eu não guardo rancor de você, . - ele se inclinou sobre a mesa e sussurrou. - Você me deu tudo o que eu queria nos meus sonhos.
- Você é um cretino. - sentiu as bochechas arderem e logo a garçonete trouxe a pizza. agradeceu a mulher internamente.
- Eu sei, mi amore. - o homem copiou a sua fala de minutos atrás.
- Vocês também são italianos? - a garçonete perguntou.
- Também? - perguntaram juntos.
- Sim, Simon, nosso patrão, é um autêntico italiano.
- Ah, entendemos. - segurou a mão de sobre a mesa, a apertando. - Não somos. Só gostamos de nos chamar assim.
Deu um sorriso falso e a garçonete, Vic, se afastou. a encarou, querendo respostas.
- Simon é italiano assim como Giovanni. Ou Mary tem uma tara por italianos, ou isso não é mera coincidência. - tirou as mãos de cima das de , porém o homem as segurou de volta.
- Vamos continuar o disfarce. - piscou para .
- Será que são parentes? - ficou pensativo com essa pergunta.
- Os sobrenomes são diferentes, a menos que…
- Um deles seja adotado? - tentou pegar seu raciocínio. Ajeitou os óculos com a outra mão.
- Pode ser… - agora tinha o olhar fixo no rosto da mulher. - Você fica muito bem de óculos.
- Eu fico bem de qualquer jeito. - a mulher lhe piscou, desconcertando-o.
- Você sabe que o fato de ter me desculpado, não reduz nem um porcento do meu desejo por você. - ele foi tão direto que não sabia onde olhava.
- Também sei que seria apenas isso e posso parecer careta, mas não sou de casos casuais. - dessa vez ela soltou suas mãos e ele não a conteve.
- Se mudar de ideia…
- Eu tenho um encontro, ! - passou as mãos pelos cabelos, exasperada. - E pode acreditar que não mudarei de ideia quanto a isso.
- Por que não?
- Porque eu sou uma antiquada, . Eu gosto de me apaixonar, eu gosto de surpresas, se ver todo dia, demonstração de carinho, cafuné, domingo, filmes... - sentiu o rosto queimar ao olhar para cima. Desceu o olhar para o homem, que a olhava curioso. - Eu gosto de morrer de amor e continuar vivendo.
estava sem fala. Assentiu e engoliu em seco. Ele definitivamente não era homem para ela. Porque não conseguia evitá-la? Combinou consigo mesmo que afastaria e ali estava ele mais uma vez, se contradizendo. o tornava um contradizente.
- Eu sinto muito…
- Eu sei como você é e apenas estou dizendo como sou. Tem uma diferença enorme que nos separa.
- Como amigos, acho que seremos muito bons.
- Vamos manter assim.
- Certo. - ficou sério e se endireitou na mesa, desconfortável.
comeu um pedaço da pizza que estava começando a esfriar.

não podia negar que estava ansiosa para o encontro com Cooper. Mas algo em seu coração falava que aquilo era errado. Estava começando a gostar de outra pessoa. Começando? Riu tristemente. De que adiantaria gostar de alguém que não te levaria a sério? Tinham necessidades diferentes. Ela era intensa, mergulhava de cabeça nas suas relações e era raso. Sem chances daquilo dar certo. Precisava abrir os olhos para novas oportunidades. Bruce. Parecia ser um cara legal, além de charmoso. Tinha uma seriedade que faltava em . Onde isso poderia dar?
Mais uma vez, bateu a ansiedade de primeiro encontro. Estavam todos saindo da delegacia, a troca de turno estava sendo feita. estava calado o dia todo. O clima quando ele estava por perto, era horrível. percebeu que nem mesmo com ele estava falando.
- E aí, é hoje né? - perguntou baixo para . Essa assentiu e sorriu de leve.
- Vamos nos encontrar agorinha. - estralou os dedos e percebeu.
- Está nervosa? - perguntou estranhando as atitudes da moça. Estavam agora os três parados na porta da delegacia.
- Sim? - arrumou os óculos. Passou as mãos no cabelo. Estava inquieta.
- Por que? - perguntou ainda mais curioso. bufou ao seu lado.
- Porque é um primeiro encontro? - seu tom de obviedade deixou desconcertado. Estava sem graça.
- Eu não entendo. - sua cara de desentendido tirou um riso de .
- Você nunca teve um primeiro encontro, não é? - falou enquanto tirava as chaves do carro da bolsa. - São sempre encontros únicos, estou errada?
- Tenho primeiros encontros toda semana. - falou como um menino pensativo.
- Por que será que não passa disso? - deu um tapinha na cabeça do amigo e saiu se despedindo deles.
levantou os ombros, concordando com a amiga.
- Até amanhã, . - falou já de costas para o homem.
- Se cuida. - não pôde deixar de falar a amiga.


7

- Está linda. - Bruce falou, lhe dando um beijo na bochecha. Puxou a cadeira para que ela se sentasse.
- Obrigado. - estava corada.
- Eu ainda estou surpreso de não ter te visto antes na delegacia.
- Eu cheguei tem pouco tempo, mas também não tinha te visto por lá. - o garçom chegou e entregou o cardápio aos dois.
- Nunca fiquei tão feliz em ter minha camiseta manchada de suco. - a mulher riu de suas palavras.
- Bom, acho que sou capaz de te deixar feliz mais vezes. - o homem ficou sem graça.
- Você é uma mulher… - ele pareceu pensar, o que deixou a moça inquieta.
- Sou...? - perguntou divertida, dando um gole em seu vinho que o garçom acabara de servir.
- Você tem uma personalidade muito forte. - ele sorriu e retribuiu. - E não posso deixar de dizer, que é linda.
- Eu fico grata pelos elogios. - Bruce observou os lábios da mulher receber a taça de vinho e ficou hipnotizado em cada movimento dela. - E o que vamos comer?
- Gosta de carpaccio?
- Eu adoro.

- Conte-me tudo e não esconda-me nada. - se sentou na mesa de , sacudindo os pés. Era raro ver aquela mulher animada daquele jeito.
- Bom dia para você também. - deu um gole em seu café e observou a amiga lhe encarar ansiosa. - Sobre o que quer saber?
- Tudo, quero saber de tudo. - abanou as mãos no ar.
- Resumidamente: foi muito bom. - disse se levantando e se sentando na borda da mesa, ao lado da amiga.
- Muito bom? Muito bom não é incrível. E odeio resumos, desembucha. - nesse momento, chegou e resolveu não continuar aquela conversa.
- É isso mesmo que falei. - disse sem graça.
- Sobre o que estão falando? - perguntou curioso, vendo entrar na delegacia e não ir até eles, como de costume. Isso o incomodou.
- Sobre o encontro e você está atrapalhando, dá pra sair? - falou.
- Eu? Pode contar, eu quero saber também. - se virou para , que o olhou confusa.
- Quer saber?
- Quero, somos amigos. Um bom amigo, é um bom ouvinte. - Fingiu arrumar uma gravata imaginária.
- Foi muito bom.
- Mas isso você já falou. - a amiga estava impaciente. estava realmente sem graça. - Quero saber das indecências.
- E teve? - perguntou rapidamente. Recebeu olhares das duas e disfarçou. - Porque se teve, você tem que contar pra gente, amiga.
Fez uma voz afeminada e tocou o braço de . Essa segurou o riso, mas por pouco tempo.
- ? - Capitão Truglio a chamou. - Tenho algo pra você. Na minha sala.
- Você não me escapa. - disse a amiga e se afastou.
ficou a encarando e sentiu seu rosto queimar.
- O que foi?
- Tô esperando, quero saber de verdade como foi o encontro.
- E por que quer saber?
- Por que se seremos amigos de verdade, quero saber da sua vida. - olhou para o chão, mordendo os lábios. O encontro tinha sido perfeito. Bruce Cooper fez seu coração acelerar algumas vezes. Principalmente quando se despediram na porta de seu prédio. Mas a presença de ali, lhe davas sensações mais intensas. E eles nem estavam em um encontro.
- Foi bom, fomos a um italiano, pedimos carpaccio, bebemos um bom vinho. - ela olhou a cara do homem que queria dizer “não é sobre isso que eu perguntei.”. - Ah, não rolou nada.
- Como não? - ignorou seus ombros que pareciam mais leves. Como estava ignorando a sensação esquisita em seu estômago, desde que viu pela primeira vez aquele dia.
- Ele é muito educado, foi muito gentil e eu gostei disso. - começou a revirar os dedos em seu colo. pegou o gesto.
- Ser um bananão que não consegue chegar em uma mulher? - perguntou confuso. Por mais que a pergunta era idiota, seu tom era sério.
- Gostei dele saber respeitar uma mulher e não levá-la pra cama no primeiro encontro. - olhava incrédula para o homem à sua frente. - E ele não é um bananão! Quer dizer… isso eu não sei ainda.
riu no final, provocando-o.
- Ainda? - perguntou, comprimindo os lábios no final da frase.
- , onde quer chegar com esse papo? - irritada ela se pôs de pé.
- Com esse papo não sei, mas gostaria de chegar ao meio de suas pernas. - ele se aproximou dela e sussurrou em seu ouvido. - E o meio da perna que digo, não é o joelho.
- Você é ridículo. - ela falou calma, mas seu corpo estava um turbilhão de emoções. Fechou os olhos e respirou fundo. Sentiu o seu perfume. Então sentiu o homem afastando o rosto e a encarando. Bruce é um homem incrível. é um cafajeste. Foco, . Bruce, Bruce, Bruce…
- Sua lista de codinomes para mim só está aumentando, gostei. - abriu os olhos. - Quando é que vai me chamar de docinho, amor, meu bem?
- , eu não estou entendendo, não estou te entendendo. - abanou as mãos no ar, irritada. - Você primeiro cai matando em cima de mim, depois me faz o favor de avisar que quer apenas me comer e só. Agora que conheci alguém legal, você vem com essas pra cima de mim? Me explica o capítulo que eu perdi, por favor.
- Conheceu alguém legal? Bruce? - de tudo que ela falou, essa era a frase que grudou em sua mente.
- Jura? Jura ? - estava muito nervosa. percebeu. Para a delegacia, aquilo parecia uma conversa qualquer.
- Me desculpa, eu acho que passei dos limites…
- Você acha?
- Como acho que ele não é cara pra você.
- E quem é cara pra mim? Você?
percebeu que os lábios de tremiam. Sabia que tinha cagado mais uma vez na sua relação com ela. Como poderiam ser amigos assim? Porém não queria se afastar. Segurou no braço de e a levou até a parte externa da delegacia. Os dois andaram até lá sob olhares curiosos de quem reparou a cena.
- Que porra você está fazendo? - agora no estacionamento, gritou para .
- Quero pedir desculpas, tá legal? - o homem puxou os cabelos de uma forma exasperada. Os cabelos que sempre estavam ligeiramente bagunçados, agora estavam bagunçados por completo.
- E você espera que eu o desculpe quantas vezes?
- Quantas for preciso. - ela esperou em algum momento em que ele falasse que estava brincando.
- Você não pode estar falando sério. - balançou a cabeça negando, estava escutando direito? Será mesmo?
- , eu não… - a mulher se virou para deixá-lo falando sozinho, mas ele a impediu. - Me escuta por favor.
- Tá bom. - passou as mãos no jeans, em um ato de estresse. Estava em seu limite para não explodir com . - Última chance para sair alguma coisa que preste da sua boca. É a última.
- Tá bom, obrigado. - olhou para o chão, colocou a mão na testa. Pensou bem nas palavras. - Eu não sei como ser seu amigo, sem me sentir atraído, sem foder com tudo e sem querer te foder.
respirou fundo e continuou.
- Eu não quero me afastar e eu não consigo também. - o homem olhou para o céu, inspirando fundo. - Eu quero te pedir uma coisa.
- Diga. - falou baixo, estava confusa. Talvez tonta.
- Quero que tenha paciência comigo.
- Tudo bem. - ela assentiu, olhando para o chão. pensou não ter escutado certo. - E eu quero te pedir uma coisa também.
- Qualquer coisa. - ele disse.
- Não sei como estarei com Bruce daqui pra frente. - fez uma careta ao ouvir o nome do homem. - Ele parece ser um cara legal e por mais que eu também me sinta atraída por você, eu quero algo sério. E você não quer isso, não é?
- … - o homem começou, mas ela mesmo o interrompeu.
- Apenas responda.
- Não quero. - balançou a cabeça e fitou o chão. Sentiu seu coração se afundar com suas próprias palavras. - Não quero nada sério.
- Ótimo. - ele levantou a cabeça imediatamente e olhou para o rosto da mulher que fitava algo na entrada da delegacia. Ela acenou e sorriu. - Porque o que vou te pedir, é para que seja um bom amigo. Apenas isso.
- Eu tentarei. - ela assentiu e se afastou. avistou Cooper na entrada da delegacia. Era pra ele que ela tinha acenado. Sentiu o coração se afundar mais uma vez. - Eu juro!
Gritou e viu ela virar o rosto, lhe dando um sorriso. Amigos. Amigo. Eu seria seu amigo. Seu melhor amigo. Que merda eu estava fazendo comigo mesmo?

- Droga. - gritou do lado de fora da delegacia. Já era noite e todos estavam saindo para a troca de turno. Viu o encarar e fazer um gesto com a boca, como se estivesse se lamentando pelo o que for que aconteceu para ele estar gritando no meio da noite.
- Ei, ei, ei. - chegou ao seu lado e ainda mexia em seu celular. Havia acabado de desligar de uma ligação com o síndico de seu prédio. Ele havia dito a exatamente 29 dias atrás que precisava desocupar o apartamento que estava, pois a família que o alugara, estava passando por uma fase ruim e iriam ocupar o lugar. - O que foi?
perguntou séria, o que era raro. Ela nunca se importava com .
- Problemas, pra variar. - desligou a tela do celular e olhou o céu pela segunda vez aquele dia, inspirando fundo. Aquilo o acalmava.
- Isso me é familiar. - chegou ao seu lado. - O que foi?
- Preciso de um apartamento novo para alugar. - soltou o ar pela boca. Sentia uma veia em sua testa pulsar.
- Por que para ela você responde? - perguntou e recebeu uma encarada de . Ele não estava nem um pouco para brincadeiras aquela noite.
- Eu posso ajudar. - falou.
- Virou corretora agora?
- Só pela grosseria gratuita, eu não ajudo. - falou irada. - Eu tenho um para alugar que é inclusive a 5 quadras daqui, mas não alugo nem que a vaca tussa. Nem que a vaca voe, babaca.
Se afastou e ficou com os olhos ligeiramente arregalados para que jogou o celular no chão. soltou um gritinho assustada, dando um passo para trás. passou a mão pelo rosto, estava desesperado.
- Você mereceu. - falou e a encarou, incrédulo.
- Parece que sim. - falou derrotado.
- Não sou corretora também, mas posso ter uma solução.


8



Eu apertava a toalha em meus cabelos, tirando todo o excesso de água. Escutei um estrondo do lado de fora de meu apartamento. Larguei a toalha numa poltrona na sala e abri a porta da frente, tentando entender que barulho foi aquele. O hall estava um desastre. Caixas por todo lado ali. A porta do apartamento vizinho (de frente ao meu), estava escancarada. Havia dois ou três homens lá dentro, carregando móveis.
apareceu para pegar uma das caixas e colocá-la pra dentro de seu novo apartamento. Eu ainda não sabia dizer se a ideia de que fosse meu vizinho seria tão boa assim. Quando eu comentei na noite anterior que a minha vizinha havia se mudado e havia colocado o lugar para alugar, me deu o sorriso mais sincero desde que eu o conheci. Então ele tirou um dia de folga para fazer a mudança. Eram cerca de 11 horas da noite e ele ainda não tinha terminado. Apareceu novamente e pegou mais uma caixa.
- O que caiu? - olhei em volta, não encontrando nada quebrado.
- Foi uma cadeira que estava em cima da mesa. - os músculos de seus braços estavam flexionados, com o peso que segurava. A camiseta que usava, era um azul piscina, mas o tecido já havia escurecido por estar molhado com o seu suor.
- Quer ajuda? - perguntei sinceramente por educação. Estava muito cansada.
- Já que estou vendo pela sua cara que está louca para me ajudar, eu vou ter que aceitar. - o cretino sorriu e entrou por sua sala. Fui atrás, desgostosa. - Você poderia tirar os itens de cozinha e guardá-los no armário.
- Tudo bem. - segui até onde ele sugeriu e por mais que a planta do apê era igual a minha, a decoração ali era o inverso. Eu gostava de cores neutras e aquele cômodo era recheado de cores. Era alegre. Talvez até infantil.
- Eu tô pensando em pintar aqui, é tudo tão…
- Colorido? - perguntei rindo, tirando alguns copos de uma caixa.
- Extravagante, isso sim. - tirou sua camiseta e não consegui desviar os olhos. Mas não queria ser pega no flagra. Seu peito estava com uns pelos curtos, uma correntinha dava um contraste perfeito com o tom bronzeado de sua pele. Percebi uma cicatriz na lateral de sua barriga.
- Eu queria muito tirar uma com essa cara que você está, mas eu tô muito cansado. - riu de leve, balançando a cabeça. Senti meu rosto ficar vermelho.
- Você já levou um tiro? - me virei, terminando de retirar alguns talheres e pratos que restavam naquela caixa.
- Sim, foi ano passado. - então me lembrei de quando deu mais uma de suas desculpas para não ir visitar a nossa família no natal. Mamãe ficara arrasada, mas fingia acreditar que realmente um amigo de tinha sido baleado.
- Foi no natal? - engoli em seco. Me lembrando de mamãe e de como ela estava pálida no dia anterior. Estava internada em um hospital especializado. ainda não tinha criado culhões para visitá-la.
- Foi, como sabe? - perguntou curioso.
- tinha comentado. - de repente, senti uma enorme tristeza, que sempre me acometia quando lembrava de mamãe. E da doença. E todas as dificuldades que a acompanhavam. O medo de perdê-la era o pior de tudo. Uma lágrima escorreu de meu rosto. Enxuguei-a e abaixei a cabeça, passando por , pegando mais uns itens de cozinha para guardar.
- Está tudo bem? - aquele tom de voz saindo daquele homem, era muito raro. Meus olhos com certeza estavam vermelhos e tratei de não fazer contato visual com ele.
- Está. - por que quando alguém fazia aquela pergunta, ficava muito pior de disfarçar os sentimentos? A vulnerabilidade nos deixa incapazes de mentir? Lágrimas molharam meu rosto com vontade.
- Ei, o que foi? - veio até mim, que estava apoiada na bancada. Mantive a cabeça baixa. Precisava me acalmar. Sua mão foi até meu rosto e ergueu para olhá-lo. - Conversa comigo.
Seu olhar era tão intenso sobre mim. A expressão era preocupada, também pudera, uma mulher estava chorando do nada em sua cozinha.
- Me lembrei da minha mãe. - solucei e fechei os olhos com força. Senti uma dor enorme no peito. Eu a perderia em breve. - E-ela está doente. Câ-câncer.
Ainda de olhos fechados, senti os dedos de enxugar minhas lágrimas. Me envolveu em um abraço e meus braços fizeram o mesmo. Afagou meus cabelos. Eu não sabia o tanto que precisava daquilo. Meu choro ficou fora de controle. Desabei em seu peito. E aos poucos consegui me tranquilizar. A respiração voltou ao normal. Me afastei de seu corpo, olhando em seus olhos.
- Obrigado. - sorri de leve e ele continuou sério, me encarado.
- Eu não sei o estado dela, mas se precisar de algo, eu estou aqui. - ele olhou para a direção do meu apartamento. - Pertinho de você.
- Não sei nem como agradecer. - comecei a guardar algumas vasilhas, porém ele retirou-as de minhas mãos.
- Nada disso, eu termino. - com as mãos em meus ombros, me guiou até a porta.
- Está disfarçadamente me expulsando? - sua expressão ainda era séria.
- Se for preciso para que você descanse, sim, estou. - me guiou até o meu apartamento. Abriu a porta que estava destrancada.
- Quanta gentileza. - falei revirando os olhos.
- Durma bem. - beijou minha testa, de um jeito perdido. Sem sorrir, foi embora.
Fiquei sozinha com meu rosto inchado. Meu coração traidor, acelerado. E a sensação de seus lábios ainda em minha pele.

Eu tinha simplesmente empacado no caso de Giovanni Enrico. Eu precisava juntar peças, conseguir provas. Eu tinha um prazo que estava diminuindo. Eu fracassaria? Jamais. Gostaria de resolver o caso sozinha, mas confesso que a ajuda de era bem vinda. Apenas pelo fato do caso ter sido dele a anos atrás. Mas também, ele tinha fracassado.
- Bom dia. - Bruce chegou em minha mesa e tomei um susto com o copo de café que depositou em minha mesa. - Desculpe, não queria te assustar.
- Não! Que isso, eu… estava viajando. - ri sem graça, por com certeza estar com uma cara de panaca. Peguei o copo e o levei até a boca. - Obrigado, não precisava.
- Não precisa agradecer. - Observei o homem parado à minha frente. Pele alva, tinha um corpo magro, que combinava muito com ele. Era alto. Cabelos escuros, olhos da mesma cor. Tinha a barba sempre bem feita. Uma educação sem igual. O papo era bom. Sempre falava coisas legais, mostrando-se inteligente. Sempre me elogiava quando nos encontrávamos.
Era um homem perfeito, até o momento. Sem dúvidas. Mas eu ainda não entendia o por quê, de não sentir aquele calor. Aquela vontade de pular em seus braços. Ou o por quê de não imaginar como seria seu beijo. Ou o tipo de homem que ele era na cama. Céus. Chega, chega, chega, ! Por Deus.
- Que tal um filme hoje a noite? - perguntou esperançoso. Sorri educada, mas por dentro nervosa com a situação. Não assistiríamos filme, com certeza. Bebi um longo gole de meu café, queimando a porra da língua. Minhas mãos estavam suadas.
- Acho que seria bom. - seu rosto se iluminou e ele veio até mim. Me deu um beijo na bochecha.
- Te vejo mais tarde em seu apartamento então. - olhei em volta, apenas para verificar se não tinha ninguém nos encarando. Felizmente, não.
Deitei a cabeça na mesa, impossibilitada de pensar em Giovanni e a vadia de sua esposa. Nada disso poderia afetar minha vida profissional. Talvez seja que eu estava sensível. Emocionalmente desequilibrada por conta de mamãe. Mas em meu âmago, tinha algo a mais. Algo que gritava, mas eu me fazia de surda. Eu não queria me deixar entrar em profunda reflexão nesses sentimentos, mas um nome gritava em minha mente. Um par de olhos pequenos e um sorriso safado. Safado!
Bufei, querendo gritar. Sair correndo. Distrair a mente. Gastar energia. Eu realmente precisava sair do sedentarismo.

- Que cara é essa? - me perguntou, almoçávamos num restaurante ali em frente a delegacia.
- Cara nenhuma. - suspirei, sem fome.
- Menina, se algo está te fazendo comer menos, tem caroço nesse angu.
- Caroço onde? - perguntei confusa. riu, balançando a cabeça.
- Vai, me conta. - larguei meu garfo no prato. Eu estava inquieta. Comecei a estralar meus dedos, fazendo minha amiga erguer uma sobrancelha. Conhecia ela em tão pouco tempo e ela parecia me entender sempre.
- É o Bruce. Ele é perfeito…
- Já começou bem errado. - abanou as mãos no ar, para que eu parasse. - Não existe homem perfeito, desencana. Ele pode ser bem legal até agora, ter muitas qualidades. Mas ele não é perfeito, ninguém é. Então tire isso de sua cabeça.
Fez um sinal para que eu prosseguisse. A repreendi com o olhar por seu jeito autoritário.
- Bom, Bruce, que não é perfeito, mas está sendo maravilhoso comigo.
- E como isso pode tirar sua fome?
- Eu sei que é cedo para isso, mas de certa forma, eu não sinto… - me aproximei dela e sussurrei. - Coisas por ele.
- Que tipo de coisas? - riu, enfiando três batatas em sua boca.
- Atração. Lógico que tenho um pouco, mas não é aquela atração. - olhei para o rumo da delegacia e avistei saindo de lá e correndo até ele. Começaram a conversar e estava com uma cara muito feia.
- Já entendi. - minha amiga pareceu terminar de comer e começou a bebericar seu suco.
- Entendeu o quê? - abanou o ar, como se gesticulasse que tinha terminado algo. apoiou a mão em seu ombro, enquanto a outra se movia, como daquela forma, meu irmão entendesse melhor o que ele estava falando.
- Que a sua vontade de dar pro é muito maior que a vontade de dar pro Bruce. - se eu estivesse bebendo algo no momento, tinha cuspido tudo em sua cara.
- Ficou doida, ? - olhei para ela e voltei o meu olhar para o outro lado da rua. É lógico que eles não ouviram, sua tonta. De repente e se abraçaram e deram batidinhas nas costas um do outro. Aquilo aqueceu meu coração.
- Ué, é verdade, talvez tenho sido grossa, mas resumidamente é isso. - neguei com a cabeça como uma louca. era uma bocuda, isso sim.
- A questão não é pra quem eu quero dar mais, . - ela abaixou o olhar e colocou uma mão na testa. - É cada uma que você me vem.
- Não queríamos atrapalhar a conversa, mas podemos nos sentar aqui? - escutei a voz de e dei um sobressalto na mesa. Meu coração bateu tão forte com o susto.
Encarei meu irmão e , que me olhava como se eu fosse uma estranha. A maior esquisita de todas. E agora sim, . Eles escutaram tudo! A bocuda, na real, é você. Tonta!
- Podem sim, se sentar, embora apenas você seja bem vindo. - deu um sorriso mega falso a que deu de ombros e ele se jogou na cadeira. A mesa era quadrada e se sentava à minha frente.
- E o Quico? - a minha esquerda, pegou uma batata do prato de minha amiga.
- Você não me provoca. - eles pareciam dois irmãos brigando. Olhei para que tinha a aparência abatida. Fazia dia que não nos falávamos direito.
- Está chegando o natal… - joguei no ar. Todos me encararam.
- Pra mim não faz diferença. - falou rabugento.
- Eu não comemoro. - minha amiga falou. Como uma flor, ela tinha murchado.
- Eu não… - começou pesaroso e eu o interrompi.
- Natal pra mim é muito importante. Eu sempre passei com mamãe e esse ano… - olhei pra cima, evitando as lágrimas. Não tardariam vir, quando o assunto era esse.
- Me desculpe, . - me puxou para um abraço e cedi ao choro. Os outros dois na mesa continuaram calados. Me afastei, secando o rosto.
- Se não tiverem outro compromisso, gostaria que jantassem lá em casa. - me encarou surpresa. do mesmo modo. E meu irmão coçou a cabeça.
- Tem certeza que quer passar o natal com esse bando de retardado? - perguntou, recebendo um beliscão de . Deu um grito, atraindo alguns olhares.
- Eu tenho absoluta certeza. - tentei arrumar meu cabelo, nervosa com a resposta de todos. - É importante pra mim.
- Sim, vamos. - assentiu. Todos concordaram. Eu sorri.

Coloquei um shorts de sarja branco e uma blusinha solta. Ficaríamos em casa e queria me sentir confortável, porém arrumada. Bruce estava para chegar. Fui até a cozinha, pegar os pacotinhos de pipoca de microondas que eu tinha guardado. Deixaria ele escolher o sabor. Fui até a sala e me sentei ali, ligando a TV e colocando na Netflix. Não estava ansiosa, mas mesmo assim, tentava me manter distraída. Escutei vozes no hall do andar. Abri a porta me deparando com e Bruce.
carregava algumas sacolas enquanto destrancava sua porta. Riu de alguma coisa que Bruce disse.
- ! - Cooper veio até mim, me dando um beijo no rosto. Senti meu rosto queimar e tinha o mesmo olhar de mais cedo. Novamente me senti uma estranha. - Não sabia que era vizinha de .
- Na verdade, ele que é meu vizinho. - sorri fraco, encarando os dois.
- implorou para que eu fosse seu vizinho. - riu, depositando as sacolas no chão. Pegou uma cerveja e abriu, dando um gole. De repente, eu senti muita sede.
- Eu não consigo te ver com mais sorte. - Bruce se virou para , que fechou a cara no mesmo instante.
- Vamos escolher o filme? - mudei de assunto, não suportando ficar perto dos dois ao mesmo tempo.
Os homens se despediram e logo Cooper estava escolhendo o filme enquanto fui estourar a pipoca amanteigada. Alguns minutos mais tarde, estávamos sentados, assistindo a TV e comendo. Escolhemos um filme de comédia romântica. Na verdade, ele escolheu. Eu gostaria de um filme de ação, mas Bruce insistiu para que víssemos aquele filme.
Em certo momento, a mão de Bruce veio parar em minha coxa, como quem não quer nada. Eu tentei ignorar aquilo como pude. Comecei a sentir sua mão apertar o lugar algumas vezes. O encarei e ele fez o mesmo, dando um sorriso de lado. Seu rosto se aproximou do meu e sua boca tocou a minha. Tentei não ficar com a boca dura e me entregar àquele beijo.
Cedi passagem a sua língua, que era mais macia que o comum. O beijo era calmo, diria até delicado e me lembrei do beijo que me dera; suas mãos me puxando pra si; a necessidade, a intensidade. As mãos de Bruce estavam em meus ombros. Quem diabos beija com as mãos nos ombros? Quebrei o beijo com um selinho e me afastei.
- Preciso de água. - me levantei, meio perdida. Não queria que ele me levasse a mal. - Sede.
Ele se levantou e segurou minha cabeça, me dando mais um selinho. Saí da sala e fui em direção ao banheiro, percebendo que eu tinha falado que ia beber água. Fechei a porta e me olhei no espelho, parecia desesperada. Bufei e me sentei na tampa da privada. Precisava esquecer , ele tinha deixado claro que não queria nada sério. Cooper era um rapaz legal, inteligente e bonito, poderia me fazer muito bem. Não que eu esteja desesperada por um relacionamento. Mas seria a oportunidade de algo bom acontecer. Poderia dar certo.
Dei um pulo ao sentir meu celular vibrar em meu bolso.

: Estou assistindo Os Mercenários.



Fui até a pia e passei água em meu pescoço. Meu corpo tinha aquecido com uma simples mensagem deste homem. Por Deus, se controle, !

: Pensei que não gostasse.



- , está tudo bem? - olhei pra minha própria imagem de olhos arregalados.
- É que… - meu celular vibrou novamente e engoli em seco. - Minha menstruação…
- Oh, desculpe… - escutei-o se afastar da porta do banheiro. O que eu estava fazendo?!

: E não gosto… O filme aí está bom?



: Sim, preciso voltar pra sala.



: Boa noite, .



9

Entrei na delegacia com um maldito torcicolo. Não conseguia mover meu pescoço, que estava duro. Olhava apenas para frente e andava como se fosse um robô. Me sentei em minha mesa e soltei o ar, pensando em como aquele dia seria uma merda.
Primeiro eu teria que me desculpar com Cooper. Eu usei a desculpa de que estava menstruada e em algum momento do filme, eu adormeci. Acordei hoje, jogada no sofá. O coitado foi embora e eu nem vi.
- Parece que a noite foi boa. - colocou uma pasta em minha mesa. - Truglio quer falar com você.
- Eu vou. - o encarei, sem virar meu pescoço.
- Por que está me olhando assim?
- Assim como? - eu com certeza estava ridícula. Estava dura.
- Me olhando de lado assim, vou logo falando eu não fiz nada. - colocou as mãos no ar e eu ri, mas logo gemi de dor. - O que foi?
- Torcicolo. - bufei. Peguei os papéis quase cega de dor.
- Eu me achava bom de cama, mas Cooper…
- Não aconteceu nada. - disse irritada. Girei minha cadeira e me coloquei de pé. Um robô. Um maldito robô.
- Então o quê? - ele parou em minha frente.
- Eu adormeci no sofá, odeio almofadas altas, aqui está o resultado. - desenfreou a rir. Curvou-se e gargalhou.
- Você está incrível. - sua mão estava em sua barriga e o cretino ainda ria. - Posso te chamar de Chappie¹?
- Eu gosto mais desse torcicolo do que de você. - rosnei pra ele que apenas estava sem ar de tanto se divertir comigo.
- Ele deixa apenas o seu pescoço imóvel. - ele se referiu a minha dor. Tinha aquele sorriso que não valia nada. - Eu te deixaria sem andar por dias.
Fiquei estupefata com suas palavras. Senti meu rosto queimar de vergonha e raiva.
- Saia da minha frente, seu safado - dei dois passos e ele me impediu com seu corpo.
- Não quero que fique com raiva de mim. - fez um olhar pidão e meu rosto suavizou um pouco. - Chappie.
- Cretino de uma figa. - estapeei-o enquanto ele ria de mim.
- Não, eu me rendo, me desculpa. - ele fez uma grande força para segurar o riso, seu rosto chegou a ficar vermelho com isso. Arqueei uma sobrancelha esperando a próxima idiotice que ele falaria. - O Chappie na verdade tem mais ginga que você.
Se curvou de rir e eu bufei. Pior que um torcicolo era me irritando.

¹ Chappie é um robô, em um filme méxico-sul-africano-estadunidense de 2015.



Café poderia me dar coragem? Talvez poderia. Bebi mais um gole. Olhei para onde Bruce estava, apoiado na parte de fora da delegacia, estava de costas. Eu apenas tinha que ir lá e me desculpar. Por ter sido uma tapada. O cara vai lá em casa para assistir um filme e eu simplesmente durmo. Claro que não era só um filme. Mas eu não estava pronta. Era isso. Eu queria que criássemos uma conexão primeiro. Nunca fui de transar com caras em primeiro encontro ou apenas fazer isso por fazer. Claro, que uma vez ou outra acabava acontecendo. Mas de toda forma, eu ainda não me sentia preparada para Bruce.
- Com essa cafeína toda, imagino que a senhorita vai embora para casa correndo. - Capitão Truglio disse ao meu lado se servindo de uma xícara.
- Bem que eu gostaria de sair correndo agora mesmo. - eu ri e ele me encarou sério.
- Problemas no trabalho? - arregalei os olhos levemente.
- Não, é apenas sono. - ele me olhou como se eu tivesse falado que eu era um Cacique. - Sabe como é, correr para acordar.
- Você faz isso todos os dias? - perguntou parecendo espantado. Eu queria me dar uma cotovelada. Como eu fui parar nessa conversa estranha com o Capitão?
- Sim, claro, é bom para a circulação. - bebi o restante de café que tinha em minha caneca.
- Bem pensado, talvez eu faça o mesmo. - ele saiu e eu suspirei alto, escutando risadas ao meu lado.
- Correr para acordar? - perguntou.
- Desde quando você se preocupa com suas articulações? - meu irmão perguntou e me abraçou de lado. Eu sentira sua falta.
- Desde que as tenho?! - afagou meus cabelos, riu e beijou minha testa.
- É muita fofura para as duas da tarde. - bufou a mulher a minha frente. - O que pretende fazer hoje, estava pensando em irmos naquele bar daquele dia.
- Hoje não vai dar, desculpe.
- Vai sair com Cooper? - perguntou no topo de minha cabeça.
- Eu vou visitar a mamãe, amanhã é véspera de natal e acredito que será corrido. - senti o corpo de meu irmão ficar tenso. - Você poderia ir com no bar.
- Não, eu… - escutei engolir em seco. - Eu vou com você.
Meus olhos marejaram ao pensar em mamãe e em sua felicidade ao ver depois de anos.
- Seria o melhor presente que você pode dar a ela, ela vai explodir de felicidade. - falei mexendo os braços.
- Reunião e ninguém me chama? - perguntou. Seus olhos encontraram os meus e ele ficou sério. - Aconteceu alguma coisa?
- Nada que te interesse, é assunto de família. - foi curta e grossa.
- E desde quando você é da família? - ficou a encarando, irritado. Então olhou para e voltou o olhar para . - Está com ?
- Não estou com . - observei a cena e uma parte de mim ficou cismada. Os dois se implicavam tanto. Será que já tiveram alguma coisa no passado?
- Está com ciúmes, ? - as palavras saltaram pela minha boca. Me arrependi no mesmo instante. Isso só deixava claro que quem poderia estar com ciúmes ali, era eu mesma. Os três agora me olhavam.
- Ciúmes de ? - perguntou espantado.
- Esperava mais de você, . - a mulher disse visivelmente incomodada.
- É apenas o que parece, retiro o que disse. - levantei minhas mãos e se afastou.
- Pela primeira vez na vida, concordo com ela. - falou e também se retirou.
Olhei para meu irmão que tinha uma expressão de pena.
- O que é? - sai debaixo de seu braço.
- É melhor você deixar de lado esse assunto. É uma história antiga.
Meu coração se afundou. Se rachou, na verdade. e ? Tem uma história antiga. Meu peito se afogou em uma enorme angústia. Eu não poderia nem achar ruim tudo isso, pois quem chegou agora, foi eu. Peguei o ônibus andando e já queria sentar na janelinha. Bufei irritada, precisava de ar fresco. Mas quando o dia está para ser uma merda, nada poderia mudá-lo.
Estaquei assim que vi as costas de Cooper. Tinha até me esquecido de que precisava falar com ele. Talvez por estar com ódio, a coragem tinha surgido. Me aproximei dele e senti o cheiro de cigarro. Então uma fumaça passou sobre sua cabeça.
- Oi. - toquei seus ombros e ele se virou. Ele fuma? - Não sabia que fumava.
Dei voz aos meus pensamentos. Ele riu sem graça e jogou o cigarro no chão, apagando-o.
- Oi e sim, eu fumo. - ficamos alguns segundos calados, nos encarando.
- Queria me desculpar por ontem. - falei e ele assentiu com a cabeça. - Eu estava muito cansada, o que não justifica eu ter dormido e te deixado…
- Eu já entendi, . - ele me cortou.
- Entendeu? - eu estava confusa. Não sabia o que ele queria dizer com aquilo.
- Sim, e tudo bem.
- Tudo bem? - eu repetia tudo o que falava como um gravador. Estava perdida.
- Você quer ir devagar, não é? - meus olhos com certeza se arregalaram. Uma voz em minha cabeça gritava, “sim, sim, sim, tudo que eu quero é ir devagar”.
- É exatamente isso, mas quero que saiba que não é nada com você. - eu poderia ser mais clichê?
- Por mim tudo bem. Vamos devagar então. - ele sorriu e estendeu os braços. Eu o abracei e pela primeira vez, me senti confortável nos braços de Bruce.
- Obrigado. - recebi um selinho em resposta e fiquei desconcertada. Eu gostaria de ter uma real conexão com Bruce. - Amanhã farei um jantar para a ceia, eu gostaria que fosse.
- Claro, eu irei. - ele sorriu e seu celular tocou. Atendeu e se afastou, não deixando de tocar nossos lábios antes de caminhar para longe.

- Você não vai sumir de novo assim, não é? - mamãe perguntou, enquanto segurava o rosto de . Estávamos ali fazia 30 minutos e ela não o soltava. Ficou tão feliz que estava emocionada. não poderia fazer algo melhor. Era a primeira vez que ele a via desde que ela descobriu a doença.
- Não vou mãe, eu juro. - a beijou ternamente e eu quis tirar uma foto da cena.
- Se ele o fizer, mãe, eu deixarei ele aleijado. - eu falei séria e mesmo assim, mamãe sorriu.
- Eu senti falta até das implicâncias de vocês dois. - ela deu um soluço e a envolveu mais em seus braços. - Senti falta dos dois juntos.
- Não vamos nos separar mais, mãe. - meu irmão disse, visivelmente emocionado. Era uma cena rara de se ver.
- Nós prometemos, mãe. - olhei nos olhos de e arquei uma sobrancelha. Ele precisava fazer essa promessa e o mais importante, cumpri-la.
- Nós prometemos. - ele sussurrou e eu pude me acalmar. Tudo que eu queria era a felicidade de mamãe e para isso acontecer, tinha que estar presente e ter coragem.
Pois quando alguém que amamos adoece, o que nos resta é ter coragem para enfrentar cada dificuldade que pode vir acontecer.


10

Tirei a lasanha do forno e percebi que o peru também já estava pronto. E por ser enorme eu não conseguiria tirá-lo, a forma estava muito quente. Fiquei feliz por ter três homens bebendo na minha sala.
estava terminando de temperar uma farinha, que cheirava muito bem. O clima entre nós estava normal, mas ainda sim eu me sentia desconfortável em relação a ontem, quando ficou com ciúmes dela. Respirei fundo e a cozinha em si, estava um cheiro de louco. Peguei uma taça me servindo do vinho.
- Essa janta será para o natal mesmo ou ficou para o ano novo? - chegou e me assustou, fazendo com que derrubasse vinho em minha blusa branca.
- Você me assustou. - gritei com ele e ele riu. Pegou o restante de queijo que tinha em um potinho ali e seguiu até a geladeira. - Você come a cada cinco minutos, deixe de ser esfomeado.
- Estou em fase de crescimento. - tinha uma expressão de criança levada.
- Está crescendo só se for para os lados. - alfinetou e virei o vinho todo em minha boca. Eu odiava me sentir assim em relação aos dois. se tornara uma grande amiga. E tinha concordado em ser um bom amigo. Talvez quem estava falhando nessa missão, era apenas eu. Suspirei frustrada.
Abri o forno e decidi que iria tirar o peru do forno eu mesma. Bati meu braço na tampa do forno e grunhi com a ardência.
- Inferno. - falei baixo e surgiu ao meu lado.
- Deixe que eu tiro. - eu me afastei e fui até a pia jogar água em meu antebraço. Foi um alívio imediato. Escutei o barulho da forma sendo colocada na bancada. - Tudo bem?
- Não foi nada. - desliguei a torneira e puxou meu braço para analisar.
- É, foi quase nada. - ele concordou. arranhou a garganta. Nos afastamos e Bruce apareceu na porta.
- Oi, linda. - me deu um selinho.
- Oi. - fiquei desconcertada. Peguei a forma e fui em direção a sala de jantar. - Está demorando, não é?
- Não, eu que fiquei com saudade e vim te ver. - ele disse me seguindo.
- Está demorando sim. - gritou da cozinha, o que me fez rir.
- Está pronto. - gritei para que escutasse.
Os rapazes se sentaram à mesa, menos que estava ajudando eu e .
- Não sabia que era tão educado. - riu com meu comentário.
- Eu estou é agilizando as coisas, quero comer logo. - falou na maior inocência enquanto distribuía os pratos.
- Está amarrado a quantos dias, ? - meu irmão perguntou o que fez todos rirem.
- A cinco minutos. - falei e o homem à minha frente apenas balançou a cabeça. Nos sentamos e já foi logo se servir. Dei um tapa em sua mão e ele me olhou desgostoso.
- O que é agora? - perguntou impaciente. Eu me perguntei para onde tinha ido toda a comida que ele havia ingerido desde que chegou.
- Céus, , vamos rezar primeiro. - e todos fecharam os olhos e demos as mãos.

Estávamos todos jogados no sofá. Minha barriga poderia explodir a qualquer momento pela quantidade de comida que eu havia ingerido. que estava com o controle, estava zapeando os canais. Por fim, deixou em algum filme natalino que estava passando.
- Tenho algo para você. - Bruce sussurrou e eu que estava jogada em seu corpo, resolvi me sentar. Eu não tinha comprado nenhum presente pra ele. Me senti mal por isso.
- Bruce, eu não… tive tempo… - abaixei a cabeça envergonhada. De repente ele estendeu em minha direção uma caixinha de veludo. Meus olhos se arregalaram e eu olhei para os outros que tinham a mesma expressão.
- Não quero nada em troca, só aceite, linda. - eu peguei a caixinha de veludo, que era azul por sinal, o que me tranquilizou levemente.
Abri e vi um colar. Era de ouro - ou parecia pelo menos - e tinha um pingente com uma pedra avermelhada, em formato de coração. Peguei a jóia em minhas mãos.
- É um rubi. - ele falou sorridente e eu retribui.
- É lindo, mas não era necessário. - balancei a cabeça.
- Passei em uma loja e achei a sua cara. - ele pegou o colar da minha mão. - Posso?
Eu assenti e me virei para que ele colocasse em meu pescoço. Ao me virar para os outros, tive a visão de três expressões diferentes. tinha os lábios em uma linha fina e balançava a cabeça, como se gostasse do que via. estava sorridente. E , que estava sério, se virou para a TV, negando algo com a cabeça. Eu tomei ar.
- Obrigado. - agradeci e encostei nossos lábios.
- Por nada, linda. - ele se levantou e guardou o celular e a carteira, que estavam na mesinha de centro, no bolso. - Eu vou ter que ir, vou passar na casa da minha mãe um pouquinho.
- Ah, tudo bem. - de certa forma, eu não queria que ele fosse. - Eu te levo até a porta.
Ao chegarmos do lado de fora do apartamento, fechei a porta. Bruce me agarrou e me deu um longo beijo. Minhas costas bateram na parede com força e suas mãos foram até minha bunda. Eu retribui como pude, totalmente desconfortável.
O beijo era desgovernado, possessivo. Sua língua chegou a incomodar minha boca. Suas mãos estavam me apertando tanto, que senti dor. Senti gosto de sangue em meus lábios e o empurrei para trás e muito relutante, ele se afastou.
- Ficou maluco? - quase gritei com ele, mas me contive. Minhas mãos estavam trêmulas.
- Não resisti, linda, até amanhã. - ele disse e ao se aproximar de meu rosto, eu o virei.
Fechei a porta no mesmo instante e sentia meus lábios dormentes. Escutei batidas na porta antes mesmo de me afastar.
- Ninguém abre. - gritei para que todos ouvissem da sala.
Fui direto ao banheiro. Ao me olhar no espelho, minha boca e ao redor dela estavam vermelhos. Ainda sentia suas mãos em mim e não era uma sensação nada boa. Eu ainda sentia o gosto de ferro.

Fui até a cozinha beber algo, antes de voltar para a sala. Eu estava tão cheia, optei por água. Fiquei parada olhando o líquido transparente em meu copo, enquanto minha mente estava inquieta. Meu coração estava apertado. E o que diabos Bruce tinha feito minutos atrás?
Uma lágrima escorreu em meu rosto e em seguida vieram outras. Eu era ótima em me meter em situações que não me deixavam bem. E quando se tratava de homem, era sempre alguma cilada. Minha cabeça doeu com tamanha confusão. Senti um ódio por Bruce. Agarrei o pingente de coração em meu pescoço e o puxei, arrebentando-o.
- Eu ia perguntar se estava tudo bem, mas parece que nem… - me virei assustada para . Ele parou de falar assim que olhou em meu rosto. - O que aconteceu?
- Aconteceu nada, , volte para a sala. - peguei meu copo com água e o virei.
- Eu pensei que tivesse gostado do colar. - fez uma expressão confusa. - E por que está chorando?
- Eu não estou chorando. - falei um pouco mais alto. Apoiei minha mão na testa, sentindo uma fisgada em minha cabeça. Eu precisava me deitar.
- Eu vou quebrar a cara de Bruce... - falou nervoso.
- Eu preciso descansar um pouco. - disse baixo. - Me deixe em paz e diga pra eles que minha cabeça está explodindo de dor.
- Como quiser. - falou sério e se encaminhou para a sala. Que merda de natal foi esse?

Fazia alguns minutos que eu tinha me levantado da cama. O sol da manhã, parecia mais um sol das duas da tarde. Hoje seria com certeza um dia extremamente quente. E era feriado. O que me fez relaxar.
Peguei uma caneca e me servi de leite e achocolatado. Era o que eu precisava. Me sentei no sofá e fiquei encarando onde todos estavam ontem. Ainda tinha copos na mesinha da noite anterior.
Em algum lugar dentro de mim, me sentia arrependida pela forma que eu tratara . Ele não merecia grosseria gratuita, apenas porque eu estava com raiva de Cooper. E Bruce com certeza, era alguém que eu não gostaria de ver tão cedo.
Encarei minha porta e olhei para o sol lá fora. Talvez seria uma boa caminhar. Fui para o meu quarto.

Enchi uma garrafa com água e alguns minutos depois estava trancando a porta de meu apartamento para correr. Olhei para o apartamento de frente e parei em sua porta. Senti vontade de chamá-lo. Mas talvez ele nem quisesse olhar em minha cara. Ou quisesse mas não aceitaria correr. Até porque era apenas 9 da manhã. Todos estavam dormindo ou comendo as sobras das gordices da noite anterior. Mas ele não tinha sobras porque tudo que comemos ontem, estava em meu apartamento.
- Eu daria 20 pratas por seus pensamentos. - abriu a porta de uma vez, o que me fez gritar e pular para trás. Coloquei a mão em meu peito e eu senti meu coração bater forte. Seria apenas pelo susto?
- Não estava pensando em nada. - engoli em seco, pensando nos meus devaneios de segundos atrás.
- Eu estava te olhando pelo olho mágico, estava parada aqui a uns dois minutos no mínimo. - com certeza meus olhos quase pularam pra fora. Senti meu rosto queimar e o cobri com minhas mãos. O maldito estava me observando? Escutei sua risada e ri junto.
- Eu vou correr e… - cocei a cabeça, desconcertada. Com certeza ele não iria querer. - Você quer ir?
- Correr para acordar? - eu ri e assenti.
- Espere, como sabe disso? - perguntei me lembrando que ele não estava lá.
- Aquela delegacia tem ouvidos. - ele falou baixinho.
- Aqui também tem? - sussurrei de volta.
- Não, não sei nem porque eu fiz isso. - ele riu e abriu mais a porta para que eu entrasse.
Seu apê já estava muito mudado. As paredes estavam em outros tons. Havia algumas fotos numa parede e uns quadros de pintura com algumas mulheres nuas. Eu balancei a cabeça.
- Eu gosto dessa pegada renascentista. - falou com aquela cara de menino que era típica dele. - Eu vou me trocar e já vamos.
Ele me deixou sozinha em sua sala e eu suspirei por reparar tanto nele. Me aproximei de suas fotos e não consegui deixar de sorrir. Tinha uma em que ele estava de sunga em alguma praia, as mãos no ar, fazendo o número dois com os dedos. Mostrava a língua e seus olhos sorriam.
Em uma outra fotografia, ele estava sentado em uma gôndola, em um lugar que chutaria que fosse Veneza. fazia um enorme bico e tinha as mãos em formato de coxinha. Percebi que tinha algo escrito no canto da foto. “Mamma mia!” Eu ri com isso.
Eu estava prestes a olhar uma outra foto quando apareceu. Jogou os tênis no chão e foi colocar as meias.
- Bisbilhotando minhas fotos? Que coisa feia. - disse e calçou o tênis. Enfiou os cadarços para dentro, sem amarrá-los. Olhei para meus tênis com os cadarços amarrados.
- Você viaja muito. - comentei e ele assentiu.
- Não diria muito, mas sempre que posso, eu estou indo. - ele seguiu até a cozinha e escutei barulho de algum liquido enchendo um copo. Segundos depois ele apareceu. - Vamos?
- Não vai levar água? - perguntei levantando minha garrafinha.
- Eu bebo da sua. - ele deu um tapa na minha bunda e eu o olhei feio. Ele sibilou um “desculpa”.

O parque ficava a duas quadras de nosso prédio. Andamos até lá em silêncio. Estávamos nos alongando.
- All the commotion, the kiddie-like play has people talking, talking (Toda a comoção, as brincadeiras bobas faz as pessoas falarem, falarem)... - cantou desafinado. Eu ri e olhei em volta para ver se alguém nos olhava.
- Como cantor, você é um ótimo policial. - dei um gole em minha água.
- Yoooooou… - ele gritou e eu fiquei envergonhada. Eu sabia o que viria a seguir.
- Não continue. - eu falei com meu dedo em riste. gargalhava enquanto as pessoas que caminhavam por ali, nos encaravam.
- Your sex is on... (Seu sexo está em…) - eu tapei a sua boca, morrendo de vergonha.
- Eu juro que te mato. - disse antes de afastar minha mão. não conseguia parar de rir.
- Nem me deixou terminar.
- Fire (chamas), cretino. - falei a continuação da letra e lhe entreguei minha garrafinha. Abaixei para amarrar meu cadarço ao ver que estava desamarrado.
- Oh, está? - ele provocou.
- Não está.
- Foi você quem disse. - ele levantou as mãos. Eu neguei com a cabeça.
- Vamos logo. - eu disse e dei um tapa em sua cabeça.
Começamos a correr lado a lado. ora ou outra cantarolava alguma música. O que me fazia rir. Era um péssimo cantor. Alguns minutos depois, eu já estava ofegante. Diminuí os passos até entrar em ritmo de caminhada. correu até mais na frente e retornou para meu lado.
- Você corre mal, hein? - perguntou e eu lhe dei um tapa no braço. - Dê outro, antes não estava flexionado.
Ele estendeu o braço para que eu lhe desse mais um tapa. Eu ri e o fiz.
- Não mudou muita coisa. - provoquei e recebi um olhar indignado.
- Como não? - cutucou o bíceps. Não segurei o riso quando ele cutucou o outro lado.
- Desencana, deu diferença sim. - eu disse por fim.
- Você precisa ver quando faço flexão. - comentou rindo de lado.
- Faz aí. - apontei pro chão enquanto andávamos.
- Aqui não dá. - ele negou com a cabeça.
- E por que não? O chão é muito duro para suas mãozinhas? - perguntei debochada.
- Porque eu preciso de você deitada debaixo de mim, sem roupa. - eu virei o rosto para que não visse meu rosto corado.
- Você é um cretino. - eu falei sem encará-lo.
- Eu sei. - escutei-o rindo baixo. Olhei para os céus.
Deus, eu o queria. Eu o queria muito. E precisava de forças para não querer tanto.


11

Devíamos ter dado uma seis voltas no parque, que era enorme. Minhas pernas já estavam pedindo arrego. O peito queimava, minha respiração estava ofegante. Em cada volta que dávamos, arrumava um flerte diferente, o que me fazia bufar em todas as vezes. O safado era lindo e sabia disso. Como os homens e as mulheres do parque também tinham reparado. Eram sempre cochichos, troca de olhares. O homem era uma máquina. E ficar pensando nisso tudo só me deixava irritada.
Olhei de esguelha para e ele cantava baixinho alguma música. Como diabos mantinha sua respiração totalmente controlada? Reparei quando começou a mexer os braços, como se fosse aquecer. Mas aquecer o quê? Como se não bastasse o homem já estar todo suado, era quente por natureza. Só de olhá-lo, você poderia sentir a temperatura de seu corpo subir.
Cheguei ao meu limite e parei, me agachando. Respirei fundo, estava cansada. Minhas pernas queimavam de dor. Fiquei vendo o homem continuar correndo. As pernas grossas, tinha uma bunda malhada. Os bíceps eram agarrados pelas mangas curtas da camiseta. Os ombros eram largos, fortes; respirei fundo. Na verdade, suspirei. Ele não podia mexer daquele jeito comigo. Vi quando ele olhou para onde eu deveria estar ao seu lado e parar abruptamente, olhando para os lados. Até que me viu acocorada. Em primeiro momento, fez uma expressão de garoto confuso; então veio até mim sorrindo.
Me levantei e sentei em um banco desocupado. Abri a garrafa e bebi um longo gole. Ele se aproximou e estendeu a mão, querendo água. Lhe entreguei a garrafa e ele se sentou ao meu lado.
- Cansou? - lancei apenas aquele olhar que já dizia tudo. - Está vermelha como um pimentão.
- Quando pratico exercícios, meu rosto fica assim. - falei ofegante ainda. Olhei para um lago que tinha bem no meio do parque. Ali em volta tinham árvores e em suas sombras tinham pessoas deitadas na grama. Casais, famílias, amigos.
- Deveria praticar mais. - falou e pela minha visão periférica, vi que estava me olhando.
- Estou precisando, huh?! - peguei em minha barriga que havia dado uma dobra por estar sentada.
- Você está ótima, a propósito. - comentou bebendo mais água. - Mas é que você fica bem com o rosto corado assim.
- Ah. - ri envergonhada.
- O natal foi como esperava? - me lembrei da noite anterior, quando fui grossa com ele. O encarei.
- Devia ter te agradecido por ter ido e me desculpado pela forma como agi com você. - fitei o chão.
- Desculpo se me contar o que aconteceu. - lembrar de um Bruce indelicado, sem qualquer sutileza, fez meus ombros caírem. Molhei os lábios com a língua e senti o pequeno cortezinho que me fizera.
- Não foi nada demais, acho que o cansaço por ter preparado tudo. - desamarrei meu rabo de cavalo e o fiz de novo.
- Tá bom. - ele apoiou os cotovelos nos lhos e olhou para longe. - Não desculpo.
- !
- Somos amigos, quero sinceridade. - na mesma posição, ele me encarou. E não podia ter ficado mais bonito.
- Bruce me aborreceu, foi apenas isso. - estiquei minhas pernas e encarei meus tênis.
- Disso eu sei. - falou com obviedade. Nos olhamos e eu soltei o ar pela boca.
- Ele foi meio brusco comigo. - seus olhos eram tão intensos em mim que tive que olhar para minhas mãos. - Não gostei da forma como agiu.
- Brusco? - perguntou, como se alguém se materializasse em sua frente e respondesse. - Ele foi grosso com você?
- Ah, . - me senti tão mal por estar falando sobre isso com . Senti vontade sair correndo por mais que estivesse cansada. - Vamos mudar de assunto.
- . - e como se seu olhar expressasse que estava impaciente já, desatei a falar:
- Com certeza não foi intencional, mas ele me agarrou de uma maneira meio rude. - fitando o lago, continuei a falar. - As vezes ele pensou que eu gostasse de uma pegada mais… - engoli em seco. - Agressiva? Não sei.
- Ele te machucou? - perguntou se mostrando nervoso. Para mim sempre seria estranho não ver aquele homem sendo brincalhão.
- Não, não machucou. - passei as mãos nos cabelos, arrumando-os, mas eu havia acabado de prendê-los.
- Ah é? - ele desviou o rosto do meu e balançou a cabeça, negando algo. - Vou acreditar nisso, mas se aquele filho da puta quebrar uma unha sua, eu acabo com ele.
Observando o seu perfil, vi que estava apertando os dentes com força. Fitou o lago e tinha um vinco entre suas sobrancelhas.
- Vamos? - se levantou e estendeu a mão para que eu pegasse. Aceitei. - Tô morrendo de fome.
- Obrigado. - agradeci e recebi um olhar confuso. Logo ele entendeu, que eu estava agradecendo por estar sendo protetor comigo. Deu um sorrisinho de lado e seguimos para casa.

- Vai que é uma bomba? - ele perguntou e eu ri. Me agachei em frente a pequena caixa de papelão e fez o mesmo ao meu lado.
- Claro, uma bomba no meio da rua. - em cima da caixa, havia um laço vermelho. Ela estava lacrada. Comecei a puxar a fita que a fechava.
- , eu estou com medo. - eu encarei o homem à minha frente, segurando o riso. Ele estava realmente preocupado.
Estávamos quase chegando em casa quando avistei uma caixa com um laço, como se fosse um presente, na lixeira. Fiquei curiosa e quis saber o que tinha dentro. me chamou de louca por mexer no lixo, mas mesmo assim estava ao meu lado.
- Está com medo mas ainda está aqui. - eu sorri e ele me lançou aquele olhar como se eu fosse uma estranha. Eu ainda não sabia o que aquele olhar realmente queria dizer, mas descobriria em outra oportunidade.
Tirei todas as fitas que haviam ali e quando fui abri a caixa, me interrompeu.
- Não! - segurou minha mão, o que me assustou. Desequilibrei em meus calcanhares e caí de bunda no chão. Olhei feio em sua direção. De repente escutei um gritinho. Arregalei os olhos assim como o homem na minha frente.
Abri de uma vez a caixa e sorri imediatamente. Havia dois filhotes de cachorro. Um macho e uma fêmea. A pelagem dele era branco e a dela era preta.
- Meu Deus!. - peguei os dois, um em cada braço. Os levei até meu rosto e eles me lamberam. Eu ri. - Olha isso!
- É, eu estou vendo. - sorriu. Estendeu uma mão e lhe entreguei o branquinho.
- Eu quero eles pra mim! - a filhotinha deu um latidinho. A linguinha para fora, o rabinho balançando de um lado para o outro.
- É permitido lá no prédio? - ele perguntou, e afastou o cachorrinho de seu rosto quando este quis o lamber.
- Sim, porém apenas um por apartamento. - meu coração se apertou um pouco.
- E o que vai fazer? - eu realmente não sabia.
- Vou pensar. - me levantei com a filhotinha em meus braços. Meus olhos se encheram de lágrimas. - Eu não queria os separar.
ficou de pé e coçou a nuca. Olhou para o céu, como quando estava nervoso. Seus olhos encontraram os meus e desceram até o filhote em suas mãos.
- Eu fico com um. - praticamente pulei em seus braços, tomando cuidado para não esmagar os bichinhos. O apertei forte e lhe dei um beijo na bochecha. Eu não saberia dizer o quanto fiquei feliz com isso. - Porém, eu quero a fêmea.
Olhei para o bolinha de pêlos preto em meu colo e a trouxe até meu rosto.
- Olha pequena, agora esse será seu papai. - lhe entreguei e fizemos a troca. Peguei o branquinho e falei com ele também. - E eu serei sua mamãe.
- Por favor, , até parece que eles nos entende. - disse, desacreditado. Voltamos a andar para casa.
- Você acha que não? - acreditava que realmente os cachorros nos entendiam. Sentiam quando estávamos bem ou não.
- Quer saber o que eu acho? - ele me fitou e eu fiz o mesmo, já rindo de sua resposta. - Que você é louca.
- Só eu? - rimos e entramos no prédio.
O senhor Wilmer, que era porteiro de nosso prédio destrancou o portão eletrônico assim que nos avistou. Veio em nossa direção com um buquê. estava terminando de trancar o portão.
- Senhori… - lhe lancei um olhar repreendendo-o. Não gostava que me chamasse de senhorita . O senhor voltou a falar sorrindo: - , deixaram isso aqui na portaria.
- Sério? - peguei o buquê, que era extremamente lindo e cheirei. Aquele típico cheiro de rosas, eu apreciava muito.
estendeu a mão desocupada e pegou as flores, as cheirando.
- Como tem gente que gosta desse cheiro? - e espirrou logo em seguida.
Procurei algum cartão entre os galhos. Achei o pequeno envelope vermelho. Em letras redondinhas, bem legíveis, estava escrito: Te espero aqui em casa, hoje à noite. Bruce. Não, eu não iria. Voltei o papel para o envelopinho vermelho e o joguei numa lixeira que havia ali no gramado.
- Wilmer, tive uma ideia. - sorri, lhe entregando o “presente”.
- Sobre? - perguntou curioso.
- Acho que Dona Adele iria adorar isso. - falei me lembrando quando o senhor me contara que o casamento já não era o mesmo.
- Mas as rosas são suas. - o porteiro falou sem graça.
- Sim e eu estou lhe dando. Aposto que ela irá adorar. - o cachorrinho em meu colo deu um gritinho de fome. - Viu? Até Chico concordou.
Sem pensar muito, acho que seria um bom nome para o filhote. Senti o olhar de em mim e quando conferi, o encontrei com uma sobrancelha arqueada.
- Tenho que entrar e não esquece de lhe comprar um cartão.
Seguimos até o elevador e assim que estávamos lá dentro, o homem ao meu lado começou a falar:
- Deixa eu entender: você recebeu flores e as deu. - eu assenti, fazendo um carinho na bola de pêlos em meus braços. - Por quê?
- Porque eu não as queria. - continuou a me olhar, esperando que eu continuasse: - E dar rosas para mim é um gesto de amor. Eu não amo Bruce e ele não me ama. Me mandou isso achando que tudo iria ficar bem.
- Certo, mas se isso não deu certo pra você, porque daria para a mulher do Wilmer? - as portas de aço se abriram e saímos. Paramos no meio do Hall. A quatro passos de minha porta ou da dele.
- Eu não sei se dará, mas não custa tentar. - peguei minhas chaves do bolso da calça. - Precisamos comprar ração.
- E um dogão. - falou pensativo. Entrei no meu apartamento e ele veio até mim. Colocou a cadelinha no chão e eu o olhei, esperando uma explicação. - Vamos sair pra comer um cachorro quente e depois vamos no mercado comprar ração.
Continuei o encarando.
- Ela é minha, só vou deixá-la aí até ter o que alimentá-la. - coçou a cabeça e se dirigiu para sua porta.
- Vou tomar banho. - disse a ele.
- Isso foi um convite? - ele se virou, sorrindo. Não consegui evitar de fazer o mesmo.
- Claro. - tirei minha blusa, ficando apenas com o top e os olhos de se arregalaram levemente. - Eu aqui e você aí.
Ainda rindo, fechei a porta e duas bolinhas fofas veio correndo até o meu pé.


Continua...



Nota da autora: Olá, espero que goste. Me deixe saber o que está achando pelos comentários. :D



Outras Fanfics:
Russian Mafia (Restritas/Originais - Em Andamento)


Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


comments powered by Disqus